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R IHGB

a. 172
n. 452
jul./set.
2011
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO
DIRETORIA – (2010-2011)
Presidente: Arno Wehling
1º Vice-Presidente: Victorino Coutinho Chermont de Miranda
2º Vice-Presidente: Max Justo Guedes
3º Vice-Presidente: Affonso Arinos de Mello Franco
1ª Secretária: Cybelle Moreira de Ipanema
2ª Secretária: Maria de Lourdes Viana Lyra
Tesoureiro: Fernando Tasso Fragoso Pires
Orador: José Arthur Rios
CONSELHO FISCAL
Membros efetivos: Antônio Gomes da Costa, Marilda Corrêa Ciribelli e Jo-
nas de Morais Correia Neto.
Membros suplentes: Pedro Carlos da Silva Telles e Marcos Guimarães Sanches.

CONSELHO CONSULTIVO
Membros nomeados: Augusto Carlos da Silva Telles, Luiz de Castro Souza,
Lêda Boechat Rodrigues, Evaristo de Moraes Filho, Hé-
lio Leoncio Martins, João Hermes Pereira de Araujo, José
Pedro Pinto Esposel, Miridan Britto Falci e Vasco Mariz
DIRETORIAS ADJUNTAS
Arquivo: Jaime Antunes da Silva
Biblioteca: Claudio Aguiar
Museu: Vera Lucia Bottrel Tostes
Coordenadoria de Cursos: Antonio Celso Alves Pereira
Patrimônio: Guilherme de Andréa Frota
Projetos Especiais: Mary del Priore
Informática e Disseminação da Informação: Esther Caldas Bertoletti
Relações Externas: Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão
Relações Institucionais: João Maurício Ottoni Wanderley de Araújo Pinho
Iconografia: D. João de Orléans de Bragança e Pedro Karp Vasquez
Coordenação da CEPHAS: Maria de Lourdes Viana Lyra e Lucia Maria Paschoal
Guimarães.
Editoria do Noticiário: Victorino Coutinho Chermont de Miranda

COMISSÕES PERMANENTES
ADMISSÃO DE SÓCIOS: CIÊNCIAS SOCIAIS: ESTATUTO:
José Arthur Rios, Alberto Ve- Lêda Boechat Rodrigues, Maria Affonso Arinos de Mello Fran-
nancio Filho, Carlos Wehrs, Al- da Conceição de Moraes Couti- co, Alberto Venancio Filho,
berto da Costa e Silva e Fernan- nho Beltrão, Helio Jaguaribe de Victorino Coutinho Chermont
do Tasso Fragoso Pires. Mattos, Cândido Antônio Men- de Miranda, Célio Borja e João
des de Almeida e Antônio Celso Maurício A. Pinto.
Alves Pereira.

GEOGRAFIA: HISTÓRIA: PATRIMÔNIO:


Max Justo Guedes, Jonas de João Hermes Pereira de Araújo, Affonso Celso Villela de Car-
Morais Correia Neto, Ronaldo Maria de Lourdes Viana Lyra, valho, Claudio Moreira Bento,
Rogério de Freitas Mourão e Eduardo Silva e Guilherme de Victorino Coutinho Chermont
Miridan Britto Falci. Andréa Frota. de Miranda e Fernando Tasso
Fragoso Pires.
REVISTA
DO
INSTITUTO HISTÓRICO
E
GEOGRÁFICO BRASILEIRO
Hoc facit, ut longos durent bene gesta per annos.
Et possint sera posteritate frui.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172, n. 452, pp. 11-622, jul./set. 2011.


Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ano 172, n. 452, 2011

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Ulrich’s International Periodicals Directory – Handbook of Latin American Studies (HLAS) –
Sumários Correntes Brasileiros

Correspondência:
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Fone/fax. (21) 2509-5107 / 2252-4430 / 2224-7338
e-mail: presidencia@ihgb.org.br home page: www.ihgb.org.br
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Tiragem: 700 exemplares
Impresso no Brasil – Printed in Brazil
Revisora: Sandra Pássaro
Secretária da Revista: Tupiara Machareth

Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. - Tomo 1, n. 1 (1839) - . Rio de Janeiro: o


Instituto, 1839-
v. : il. ; 23 cm

Trimestral
ISSN 0101-4366
Ind.: T. 1 (1839) - n. 399 (1998) em ano 159, n. 400. – Ind.: n. 401 (1998) - 449 (2010) em n. 450
(2011)
N. 408: Anais do Simpósio Momentos Fundadores da Formação Nacional. – N. 427: Inventá-
rio analítico da documentação colonial portuguesa na África, Ásia e Oceania integrante do acervo
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro / coord. Regina Maria Martins Pereira Wanderley
– N. 432: Colóquio Luso-Brasileiro de História. O Rio de Janeiro Colonial. 22 a 26 de maio de 2006.
– N. 436: Curso - 1808 - Transformação do Brasil: de Colônia a Reino e Império.

1. Brasil – História. 2. História. 3. Geografia. I. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Ficha catalográfica preparada pela bibliotecária Celia da Costa


Conselho Editorial
Arno Wehling – UFRJ, UGF e UNIRIO – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Antonio Manuel Dias Farinha – U L – Lisboa – Portugal
Carlos Wehrs – IHGB – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Eduardo Silva – FCRB – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Humberto Carlos Baquero Moreno – UP, UPT, Porto, Portugal
João Hermes Pereira de Araújo – Ministério das Relações Exteriores e IHGB – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
José Murilo de Carvalho – UFRJ – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Vasco Mariz – Ministério das Relações Exteriores, CNC e IHGB – Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Comissão da Revista: Editores


Eduardo Silva – FCRB – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Esther Bertoletti – MinC – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Lucia Maria Paschoal Guimarães – UERJ – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Maria de Lourdes Viana Lyra – UFRJ – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Mary Del Priore – UNIVERSO – Niterói – RJ– Brasil

Conselho Consultivo
Amado Cervo – UnB – Brasília – DF – Brasil
Aniello Angelo Avella – Universidade de Roma Tor Vergata – Roma – Itália
Antonio Manuel Botelho Hespanha – UNL – Lisboa – Portugal
Edivaldo Machado Boaventura – UFBA e UNIFACS – Salvador – BA
Fernando Camargo – UPF – Passo Fundo – RS – Brasil
Geraldo Mártires Coelho – UFPA – Belém – PA
José Octavio Arruda Mello – UFPB – João Pessoa – PB
José Marques – UP – Porto – Portugal
Junia Ferreira Furtado – UFMG – Belo Horizonte – MG – Brasil
Leslie Bethell – Universidade Oxford – Oxford – Inglaterra
Márcia Elisa de Campos Graf – UFPR– Curitiba – PR
Marcus Joaquim Maciel de Carvalho – UFPE – Recife – PE
Maria Beatriz Nizza da Silva – USP – São Paulo – SP
Maria Luiza Marcilio – USP – São Paulo – SP
Nestor Goulart Reis Filho – USP – São Paulo – SP – Brasil
Renato Pinto Venâncio – UFOP – Ouro Preto – MG – Brasil
Stuart Schwartz – Universidade de Yale – Inglaterra
Victor Tau Anzoategui – UBA e CONICET – Buenos Aires – Argentina
SUMÁRIO
SUMMARY
Carta ao Leitor 11
Lucia Maria Paschoal Guimarães

I ARTIGOS E ENSAIOS
ARTICLES AND ESSAYS
Dossiê História do Direito –
Dossier on the History of Law
Apresentação 13
Presentation
Samuel Rodrigues Barbosa
Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas
pombalinas no campo jurídico 15
Pro King, with Good Reason: comments on the legal reforms
undertaken by the Marquis of Pombal
Álvaro de Araujo Antunes
Súditos del-rei na América Portuguesa. Monarquia Corporativa,
virtudes cristãs e ação judicial na Villa de Nossa Senhora
da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII 51
The King’s subjects in Portuguese America: Corporate
Monarchy, christian virtues and legal action in Vila de São José
dos Pinhais, Curitiba, during the eighteenth century
Luís Fernando Lopes Pereira
As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827):
alguns aspectos do discurso pró-absolutista na literatura
jurídica portuguesa do final do antigo regime 87
The lectures of Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827):
some aspects of the pro absolute power writings in the Portuguese
legal literature during the end of the ancient regime
Airton Cerqueira-Leite Seelaender
Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino
Pereira Cleto (1778-1794) 115
Native by adoption: Dr. Marcelino Pereira Cleto’s (1778-1794)
writings and route
Marco Antonio Silveira

Justiça ordinária e justiça administrativa no Antigo Regime –


O caso do brasileiro 177
Common justice and adminstrative justice in the Ancient
Regime: Brazilian Case Study
Arno Wehling e Maria José Wehling
¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución
Española de 1812 em terras brasileiras 201
VIVA LA PEPA! The untold history of the 1812 Spanish
Constitution in Brazil
Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira
A administração da justiça nas primeiras décadas do Império
do Brasil: instituições, conflitos de jurisdições e ordem pública
(c.1823-1850) 225
The administration of justice during the first decades
of Brazilian Empire: institutions, conflicts over jurisdiction
and public order(c. 1823-1850)
Andréa Slemian
Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830: o levante
de escravos como crime de insurreição 273
From the “Statutes” to the 1830 Brazilian Criminal Code:
The uprising of slaves as crime of insurrection slave uprising as a
Monica Duarte Dantas
O Império da Moderação: agentes da recepção do pensamento
político europeu e construção da hegemonia ideológica
do liberalismo moderado no Brasil imperial 311
The Empire of Moderation: receiving agents of the European
political thinking and the construction of ideological leadership
of moderate liberalism in Imperial Brazil
Christian Edward Cyril Lynch
Teixeira de Freitas: Um jurisconsulto “traidor”
na modernização jurídica brasileira. 341
Teixeira de Freitas, a “treacherous” legal counselor in the
juridical modernization of Brazil
Ricardo Marcelo Fonseca
“Somos da América e queremos ser americanos”: Relações
Brasil-Portugal e antilusitanismo na fundação da República 355
“We are from America and wish to be americans”:
Brazil-Portugal relations and anti-Portugal feelings in the
foundation of the Brazilian Republic
José Sacchetta Ramos Mendes
A “Questão Siderúrgica” e o papel do Estado na
industrialização brasileira 373
The “Steel Industry Issue” and the role of the State
in Brazilian industrialization
Gilberto Bercovici
Interés argentino en la cultura jurídica brasileña a mediados
del siglo XX. El caso de la revista La Ley durante
el quinquenio 1941-1945 415
Argentine interest in Brazilian juridical culture in the
mid-twentieth century: Case Study of the Journal
“La Ley” during the five-year period, 1941-1945
Ezequiel Abásolo

II COMUNICAÇÕES
NOTIFICATIONS
Pensamento jusfilosófico de Clóvis Beviláqua ao final
do século XIX 429
The jus-phisosophical thought of Clovis Bevilaqua
at the end of the nineteenth century
Maria Arair Pinto Paiva
O Imperador da língua portuguesa 461
The Emperor of the Portuguese language
Arnaldo Niskier
O padre Antônio Vieira, um diplomata desastrado 473
Father Antonio Vieira – A clumsy diplomat
Vasco Mariz

VIEIRA, político 499


VIEIRA, the politician
José Arthur Rios
Padre Antônio Vieira e a missão jesuítica
da Serra de Ibiapaba (1655-1759) 507
Father Antonio Vieira and the Jesuit mission
of Serra de Ibiapaba (1655-1759)
Cláudio Aguiar

V DOCUMENTOS
DOCUMENTS
Documentos sobre “Juízes Ordinários” nos territórios
brasileiros no século XVIII 547
Documents on “Common Judges” in Brazilian territories
in the seventeenth century
Joaquim Romero de Magalhães

IV RESENHAS
REVIEW ESSAYS
Geografias Pátrias: Portugal e Brasil 615
Luciene Carris Cardoso
• Normas de publicação 371
Guide for authors 373
Carta ao Leitor

Nos últimos anos, os dossiês temáticos passaram a ocupar espaço


cada vez maior na organização das revistas especializadas. Acompanhan-
do a tendência, mas sem perder a sua formatação original, este número
da R. IHGB publica na seção “Artigos e Ensaios” o dossiê História do
Direito. Preparado pelo Prof. Samuel Rodrigues Barbosa, da Universida-
de de São Paulo, reúne treze colaborações, assinadas por pesquisadores
de diversas instituições de ensino superior, inclusive da Argentina, que
foram convidados a se debruçar sobre temas e problemas relativos à cir-
culação das ideias e à prática do Direito, bem como a administração da
justiça, em diferentes períodos da nossa história. As contribuições, por
certo, constituem um momento de reflexão que irá potenciar o debate
sobre o campo da História do Direito.

Também no âmbito da História do Direito, porém no segmento des-


tinado às “Comunicações”, reservado à divulgação de trabalhos expostos
nos encontros da Comissão de Estudos e Pesquisas Históricas (CEPHAS),
há que se destacar a rigorosa análise da Profª Maria Arair Pinto Paiva, a
respeito do pensamento jusfilosófico de Clóvis Bevilaqua. Na sequência,
aparecem quatro intervenções apresentadas no Instituto, a propósito das
comemorações do “Ano Vieirino”, em 2008, quando se celebrou a pas-
sagem do quarto centenário de nascimento do padre Antônio Vieira. São
elas: “O Imperador da língua portuguesa”; “O padre Antônio Vieira, um
diplomata desastrado”; “Vieira, o político” e “Padre Antônio Vieira e a
missão jesuítica da Serra de Ibiapina (1655-1759)”. Redigidas, respec-
tivamente, pelos sócios Arnaldo Niskier, Vasco Mariz, José Arthur Rios
e Cláudio Aguiar, as achegas iluminam aspectos da vida e da obra do
notável religioso.

Mas a História do Direito volta se fazer presente. Desta feita, na


seção “Documentos”, com a edição de um conjunto de manuscritos do
Arquivo Histórico Ultramarino, que tratam da atuação dos “juízes ordi-
nários” nos terrítórios brasileiros no século XVIII. Vale salientar que a
transcrição das fontes vem precedida de um alentado estudo de autoria do
Prof. Joaqum Romero de Magalhães, da Universidade de Coimbra.

Arremata este número a resenha de Luciene Pereira Carris Cardoso,


sobre o livro Geografias Pátrias: Brasil e Portugal – 1875-1889, lançado
recentemente por Cristina Pessanha Mary. Centrada no estudo da história
da geografia no Brasil, a obra oferece também uma contribuição original
ao campo das relações luso-brasileiras, à medida que explora a efêmera
trajetória da Filial da Sociedade de Geografia de Lisboa, criada no Rio de
Janeiro, em 1875.

Boa leitura!

Lucia Maria Paschoal Guimarães


Diretora da Revista
Dossiê História do Direito: apresentação

I – ARTIGOS E ENSAIOS
ARTICLES AND ESSAYS

DOSSIÊ HISTÓRIA DO DIREITO

APRESENTAÇÃO
PRESENTATION
Samuel Rodrigues Barbosa 1

Gilberto Freyre, em 1942, escrevia sobre o primeiro professor de


História do Direito Nacional da Faculdade de Direito de Recife, cadeira
criada pela Reforma Benjamin Constant em 1891, “o esforço com que
Martins Júnior contribuiu para o esclarecimento do problema cultural
brasileiro através do estudo de um dos aspectos mais significativos da
nossa formação – a história do direito nacional – esse nos interessa”.
(“Martins Júnior, mestre esquecido”, Diário de Pernambuco, 30/8/1942).
Havia uma pontada de polêmica no artigo, Martins Júnior pertencia a sua
época, enquanto preocupado com o problema político, “no sentido mais
estreito da expressão”, mas enquanto intérprete da cultura, era “um de nós
desgarrado num tempo que não era ainda o seu”. No esforço de definir a
atualidade de Isidoro Martins Júnior, Gilberto Freyre anuncia um tipo de
historiografia do Direito que merecia ser escrita, ao passo que destacava
a importância do objeto, “um dos aspectos mais significativos da nossa
formação”.
A escrita da história do Direito, cultivada no espaço universitário, é,
no Brasil, um fenômeno recente. Não ganhou uma cadeira independente, à
diferença de Coimbra, na organização dos cursos jurídicos recém-criados
pela primeira legislatura do Império. A Reforma Benjamin Constant teve
um sucesso efêmero, entre 1891 e 1901. Tal circunstância não favoreceu

1 – Doutor em Teoria do Direito pela Universidade de São Paulo. Professor da Faculdade


de Direito da Universidade de São Paulo.

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Samuel Rodrigues Barbosa

a formação de uma historiografia do Direito no âmbito das faculdades de


Direito, não forneceu estímulo ao trabalho de erudição, cuja acumulação
permite iniciativas interpretativas mais ambiciosas. Muito desse trabalho
foi desempenhado, fora da universidade, pelo IHGB e por historiadores
políticos e das instituições, como documenta números anteriores desta
revista. No século XX, os cursos universitários de História, por sua vez,
privilegiaram desde o início, outros problemas, abordagens e objetos,
parafraseando o título da coleção editada por Jacques Le Goff e Pierre
Nora.
Fenômeno recente, historiadores das faculdades de Direito e de His-
tória têm demonstrado expressivo interesse pelo Direito. Este número
da revista do IHGB publica uma coleção de artigos inéditos de autores
especialmente convidados para este fim. Os artigos foram organizados
cronologicamente, seguindo a temporalidade dos recortes. Os problemas
e abordagens foram deixados à discreção dos autores, o que permite olhar
o conjunto e perceber algumas ênfases.
Uma primeira ênfase, de resto comum a outros campos da historio-
grafia, está colocada nos usos da linguagem e conceitos jurídico-políticos,
com atenção para a transação entre vocabulários pré-modernos e moder-
nos e a recepção e circulação de “ideias” e modelos. Outro destaque, que
dá continuidade a uma linhagem mais antiga, são os estudos dedicados
à administração da justiça, entre 1750 e 1850, com atenção para as tra-
jetórias das autoridades, a tensão entre projetos institucionais oficiais e a
dinâmica das práticas. Uma variedade de documentação de arquivos foi
mobilizada, lançando luz ao universo dos letrados e juristas-políticos (do-
cumentação diplomática, cursos universitários coimbrãos) e ao mundo
chão da prática judicial.
Se os artigos não seguem o programa mais restrito de Gilberto Freyre,
dão por certo, no entanto, a importância da empresa. Este número da re-
vista, confrontado com os anteriores, põe em relevo alguns dos traços da
fisionomia mais recente da área e, também, sua produtividade.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

Pelo rei, com razão: comentários sobre as


reformas pombalinas no campo jurídico
Pro King, with Good Reason: comments on the legal
reforms undertaken by the Marquis of Pombal
Álvaro de Araujo Antunes 1

Resumo: Abstract:
O artigo analisa a constituição do campo jurídi- This paper will analyze the establishment of the
co português, no reinado de D. José I, que teve Portuguese legal system during the kingdom of
como Secretário do Reino Sebastião José de D. Jose I, whose Secretary was Sebastiao Jose
Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. Por um de Carvalho e Melo, Marquis of Pombal. On the
lado, investiga as mútuas implicações das forças one hand it will investigate mutual implications
reguladoras, expressas na reforma da Universi- of regulatory forces, expressed by the reform of
dade de Coimbra e na fixação de novas diretri- the University of Coimbra and on the fixation of
zes legais pela Lei da Boa Razão. De outro lado, new legal guidelines by the Law of Good Rea-
trata da prática dos agentes da administração da son. On the other hand, it deals with the prac-
justiça, mais especificamente, os de Mariana e tice of legal administration agents, more specifi-
Vila Rica, importantes centros da Capitania de cally, those of Mariana and Vila Rica, important
Minas Gerais. centers of Colonial Minas Gerais.
Palavras-chave: Justiça, Reforma da Universi- Keywords: – Reform of the University of Coim-
dade de Coimbra, Lei da Boa Razão. bra – The Law of Good Reason.

A história do reinado de D. José I é indissociável da figura con-


troversa do seu primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo,
o Marquês de Pombal, título recebido em 1769. Historiadores atribuem
ao Marquês uma série de mudanças que buscaram a modernização de
Portugal e seus domínios. Era a época pombalina, conforme caracterizou
Francisco José Calazans Falcon e com ele outros historiadores tendem a
concordar.2 Porém, como quase tudo na história, o consenso é relativo e,
por vezes, mais exceção do que norma. Não faltam aqueles que minimi-
zam o protagonismo do Marquês, ressaltando o papel do seu gabinete, de
outros intelectuais e do próprio rei. Não faltam questionamentos sobre a
importância e o alcance das reformas empreendidas durante o ministério
pombalino.

1 – Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Profes-


sor Adjunto do DEHIS/Universidade Federal de Ouro Preto.
2 – FALCON, Francisco José Calazans. A época pombalina: política econômica e mo-
narquia ilustrada. São Paulo: Ática, 1982.

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Álvaro de Araujo Antunes

Sob o risco de dizer mais do mesmo, não cabe aqui uma revisão da
extensa historiografia que gira, invariavelmente, em torno do nome de
Pombal. Não há como ignorá-lo. Mesmo entre as críticas que tendem
a desmerecê-lo, ele está lá, como o centro dos ataques. Desse eixo de
transmissão a mover polêmicas estampadas em livros e artigos sem fim,
importa ao presente estudo destacar a centralidade de Sebastião José de
Carvalho e Melo e de algumas das suas reformas no campo jurídico.

Pombal serviu a D. José I, de quem recebeu títulos de nobreza e en-


cargos administrativos, atingindo o ápice da carreira como secretário do
reino. A tragédia causada pelo terremoto de Lisboa demandou do gover-
no ações contundentes e estruturantes comandadas por Pombal. Pode-se
argumentar que foram as contingências ou a mão do rei que trouxeram
ao centro do palco político o então Conde de Oeiras. Contudo, esse argu-
mento estaria incompleto se não se considerasse a própria ação do indiví-
duo capaz de marcar uma época.

Pombal deve ser entendido como um referencial para as mudanças


amplas que tiveram lugar no reinado de D. José I. Nos livros, sua “bio-
grafia” se confunde ao governo. Ao mesmo tempo, sua pessoa é reduzida,
destituída de dúvidas, angústias e anseios... tudo encoberto por projeções
de grandeza e de predestinação.3 Enredos heroicos são construídos em
torno dessa unidade (o nome Pombal), esquecendo-se de que sua ação
envolveu todo um gabinete, intelectuais e agentes, sem os quais seria im-
possível conceber e projetar políticas para as diversas realidades do Impé-
rio português. Nesses termos, as histórias do indivíduo e da administração
portuguesa se mesclam dando forma ao pombalismo.

No ministério pombalino se verifica a criação das bases do Estado


absolutista português. Externamente, Portugal buscava maior indepen-
dência da Inglaterra, fortalecendo parcela da sua burguesia e estimulando
a manufatura, ao mesmo tempo em que adotava estratégias mercantis mo-
nopolistas. Dentro da política regalista, a nobreza passa a ser enquadrada,
3 – Sobre a ilusão biográfica ver: BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica” In: FER-
REIRA, Marieta M.; AMADO, Janaina. Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro:
Fundação Getúlio Vargas, 1996.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

cerceada, em especial depois do atentado ao rei, em 1758, que identificou


como envolvidos o Duque de Aveiro, os marqueses de Távora e o Conde
de Atouguia. A mesma nobreza teria, por meio do Alvará de 1761, os gas-
tos com a ostentação limitados e, em 1770, a constituição de morgados
sujeitos à anuência régia.

A luta contra os poderes concorrentes se estendeu aos setores da


Igreja, fundamentalmente, a Companhia de Jesus, expulsos das terras
portuguesas, entre outras razões, pela alegada participação no atentado
contra D. José I. O banimento dos jesuítas trouxe graves consequências à
educação, dada a participação da ordem nos ensinos menores, contingên-
cia que não foi ignorada pelo governo que formulou um plano de secula-
rização da educação. Nas Cartas sobre a Educação da Mocidade, Ribeiro
Sanches concordava com a competência dos reis, e não dos bispos, em
regulamentar o ensino. Para este autor, só o ensino secularizado poderia
atender às finalidades da ordem civil.4

No âmbito administrativo, buscou-se um maior controle do rei so-


bre seus funcionários. Com demonstrações de força, formulou-se uma
reforma que envolvia a supressão de órgãos, uma maior normatização
dos proventos, a valorização da lei positiva e a formação de um corpo de
agentes afinados com a proposta pombalina de racionalização, ilustração
e centralização do governo.

No bojo dessas mudanças, a justiça, considerada a face mais visível


do poder régio, não passaria incólume. A transformação no campo da
Justiça se verificou, principalmente, na preocupação com a formação dos
bacharéis em cânones e leis na Universidade de Coimbra e no enquadra-
mento legal dos advogados às novas diretrizes, do qual merece destaque
a Lei da Boa Razão. O que este artigo pretende analisar é, justamente, a
constituição do campo jurídico no período pombalino, isto é, “as relações
objetivas entre os agentes e as instituições em concorrência pelo mono-
pólio do direito de dizer o direito”.5 Em boa medida, a história das mu-
4 – AVELAR, Hélio de Alcântara. História Administrativa do Brasil: administração
pombalina. 2ª ed. Brasília: Fundação Centro de Formação do Servidor Público/ Editora
UnB, 1983, p.166.
5 – BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernado Tomaz. 5ª ed. Rio de Janeiro:

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Álvaro de Araujo Antunes

danças no campo jurídico promovidas durante o reinado de D. José I foi


resultado da luta pela linguagem, pelo direito de estabelecer o direito. No
caso específico desse artigo, importa as mútuas implicações das forças re-
guladoras (a instrução e a norma), expressas pelas ideias de inovação e de
tradição, e a prática do “direito vivo”, as contingências e os agentes dos
auditórios, mais especificamente, os de Mariana e Vila Rica, importantes
centros administrativos da Capitania de Minas Gerais.

As Luzes nas águas do Mondego: considerações sobre a reforma


pombalina da Universidade de Coimbra e a Ilustração portuguesa
A difusão do Iluminismo fez parte da política pombalina de desen-
volvimento e modernização. Em Portugal, as Luzes foram propagadas,
atingiram a Universidade de Coimbra, às margens do Mondego, serviram
de inspiração à política econômica e às reformas jurídicas. Ao mesmo
tempo, as ideias ilustradas se viram controladas pela ação da Real Mesa
Censória, por exemplo. Este legado ambíguo imprimiu ao iluminismo
português contornos peculiares. Para alguns, tratava-se de um despotis-
mo ilustrado, enquanto que para outros figurava mais uma espécie de
ditadura.

Para Hélio de Alcântara Avelar, “o chamado despotismo esclarecido


pombalino foi um processo de restauração, de fortalecimento, de orga-
nização, de adequação à época [...]”.6 Este processo teria se confundido,
impropriamente, pelos “mais perspicazes analistas de Sebastião José de
Carvalho e Melo”, a uma ditadura. Em conformidade com Laerte Ra-
mos Carvalho, Avelar considerou o Iluminismo em Portugal como sendo,
essencialmente, reformista e pedagógico, sem o espírito revolucionário,
anti-histórico ou irreligioso que nutriria movimentos sociais e intelec-
tuais de outros países europeus. No campo da política, Kenneth Ma-
xwell considerou que havia algo de paradoxal em um regime absolutista
e autoritário que procurava se associar às ideias iluministas.7 Observou
Bertrand Brasil, 2002, p. 212.
6 – AVELAR, Hélio de Alcântara. História Administrativa do Brasil: administração
pombalina, p. 89.
7 – MAXWELL, Kenneth. Marquês de Pombal: paradoxo do Iluminismo.Trad. de An-
tônio de Pádua Danesi. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

Maxwell que o Iluminismo em Portugal deve ser entendido conforme


suas particularidades e as expectativas traçadas por Pombal, que visava,
sobretudo, à modernização da nação, ainda que não virasse as costas à
tradição, acrescente-se. À imagem de um passado de glória associava-se
um projeto de reforma, de aproximação às “nações polidas”. Para isso,
o Estado deveria cuidar mais diretamente da circulação dos livros e do
ensino, adequando-o às novas ideias que, desde o século XVII, embebiam
algumas nações ilustradas da Europa.8

Do que foi apresentado acerca do Iluminismo, há de se fazer algu-


mas ressalvas. Primeiro, as ideias ilustradas potencialmente perigosas,
como as difundidas pelo Abade Raynal, também circulariam entre os lei-
tores no Brasil, enquanto que Rousseau instigaria debates nas repúblicas
estudantis de Coimbra.9 As barreiras impostas às Luzes pelos órgãos de
polícia e censura português não eram intransponíveis.10

A segunda consideração diz respeito ao estigma do atraso lusitano,


cuja culpa era imputada aos eclesiásticos e escolásticos. O pensamento
especulativo, aberto pelo probabilismo escolástico, bem como o interesse
de alguns jesuítas em consumir novidades no campo das ideias, poderia

8 – Segundo Laerte Ramos, “a pedagogia pombalina foi a expressão de uma época, ex-
pressão tanto mais significativa quanto ainda hoje sugere fecundas lições proporcionadas
de perplexidades para uns e certezas para outros”. CARVALHO, Laerte Ramos. As refor-
mas pombalinas da instrução pública. São Paulo: Edusp/Saraiva, 1978, p. 191.
9 – Segundo Fernando Novais: “grosso modo, a face reformista das Luzes que incidirá
mais sobre a metrópole; na colônia, a face revolucionária. Esta a ambiguidade funda-
mental do pensar ilustrado, ao mesmo tempo reformista e revolucionário, dependendo da
situação em que se processe a sua leitura”. Os universitários de Coimbra, por exemplo,
leram e comentaram livros “anticatólicos”, entre os quais, Monstesquieu, Voltaire, Locke,
Mirabeau e a obra O Emílio, de Rousseau, “vendo nele a confissão de Fé, na qual protesta
o autor ser sectário da religião natural, como única, verdadeira e suficiente para a felici-
dade do homem”. NOVINSKY, Anita Waingort. Estudantes brasileiros ‘afrancesados’ da
Universidade de Coimbra: a perseguição de Antônio Morais e Silva: 1779-1806. In: CO-
GGIOLA, Oswaldo (org.). A revolução francesa e seu impacto na América Latina. São
Paulo: Edusp: Brasília: CNPq, 1990.” NOVAIS, Fernando Antonio. Portugal e Brasil na
crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). 2ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1983,
p.158.
10 – Sobre o assunto, ver: VILLALTA, Luiz Carlos. Reformismo ilustrado, censura e
práticas de leitura: usos do livro na América Latina. São Paulo, 1999. Tese (Doutorado
em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

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Álvaro de Araujo Antunes

relativizar a imagem negativa projetada sobre a ordem de Santo Inácio.


Esta questão será tratada mais adiante.

Outrossim, o Iluminismo, entendido, com frequência, como um con-


junto harmonioso de ideias era muito mais plural do que, normalmente,
se pressupõe.11 Hume era um conservador, enquanto Condorcet era um
democrata; Holbach criticava a religião, enquanto Lessing tentou inven-
tar uma. O potencial inconveniente dessa perspectiva é o nominalismo,
o estudo de uma espécie de Ilustração de cunho biográfico que não arti-
cularia posições comuns entre autores. Uma postura intermediária pode
ser encontrada no “jogo de escalas” ou no estabelecimento de conjuntos
menores de análises, nos quais se privilegiaria o estudo de gerações de
intelectuais ou de unidades de geográficas. 12 Nesse sentido, em se tratan-
do de ideias estimuladas e abarcadas pelo Estado, é possível caracterizar,
com alguma simplificação, o Iluminismo oficial português como sendo
eclético, cristão e católico, mais próximo do modelo italiano do que do
francês, considerado revolucionário, anti-histórico e irreligioso.13

Não se pode negar que as reformas promovidas na segunda metade


do século XVIII trouxeram a Portugal a promessa da modernização sob
os auspícios das Luzes. A ideia de modernidade que perpassava o projeto
ilustrado português remetia às nações polidas a imitar, mas não de for-
ma indiscriminada. Em Portugal, a ideia de reforma explicitava tanto a
ambição de modernidade quanto um resgate de tradições, em uma clara
tentativa de adequação. Nos termos de Francisco Falcon, a prática ilustra-
da do pombalismo movia-se “sempre entre hesitações e compromissos,
adotando em geral uma atitude eclética sempre que se defrontam o antigo

11 – Para perspectivas distintas de interpretação do evento, ver: CARVALHO, Flávio Rey


de. Um iluminismo português? A reforma da Universidade de Coimbra (1772). São Pau-
lo: Annablume, 2008. CASSIRER, Ernest. A filosofia do Iluminismo.Trad. Álvaro Cabral.
2ª ed. Campinas: Editora Unicamp, 1994, pp.65-134, e HAZARD, Paul. La pensée euro-
péenne au XVIIIe siècle: de Montesquieu à Lessing. Paris: Fayard, 1993. pp.133-147.
12 – GAY, Peter. The Enlightenment: the rise of modern paganism. New York: W. W.
Norton & Company, 1995.
13 – CARVALHO. As reformas pombalinas da instrução pública, p. 27.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

e o moderno”.14 Tal tentativa de conciliação se evidencia em diversas di-


retrizes fixadas durante o reinado de D. José I.

“desejando eu não só reparar os mesmos estudos para que não acabas-


sem de cair na total ruína a que estavam próximos, mas ainda retribuir-
lhes aquele antecedente lustre que fez os portugueses tão conhecidos
na república das letras antes dos ditos religiosos se intrometessem a
ensiná-los com sinistros intentos e infelizes sucessos.” 15

O Iluminismo que influenciou esse governo por intermédio dos pro-


jetos maquinados no gabinete e por intelectuais ligados ao Marquês de
Pombal, não deixaria de ser cristão e nem execraria a história de Portu-
gal, à exceção daquilo que o toque jesuítico fez “podre”, conforme era
alegado.16

Remontando ao período medieval, o sistema de ensino estabelecido


pelos inacianos, segundo Jacques Le Goff, constituía-se em uma forma de
pensar com leis bem definidas. Nas leis da demonstração e do pensamen-
to, destacava-se a dialética, “conjunto de operações que fazem do objeto
do saber um problema, que expõem e defendem contra os atacantes, que
solucionam e convencem o ouvinte ou o leitor”.17 De orientação escolás-
tico-perípatética, a dialética silogística de Aristóteles transpassava quase
todas as disciplinas. O silogismo aristotélico tinha o caráter de Organum,
instrumento, tópica, método-disciplina, que partia de premissas necessá-
rias para chegar a “verdades” dadas de antemão.18

Outra característica do pensamento escolástico era o valor deposi-


tado sobre a autoridade dos textos e seus autores, em especial da Bíblia,
dos padres da Igreja, de Tomás de Aquino, Platão e de Aristóteles. Valo-
14 – FALCON. A época pombalina: política econômica e monarquia ilustrada, p. 445.
15 – Alvará por que V. Majestade há por bem reparar os estudos das línguas latina, grega
e hebraica e da Arte da Retórica da Ruína a que estavam reduzidos. Instituto dos Arqui-
vos Nacionais da Torre do Tombo (ANTT) – Leis – Livro 9.
16 – CARVALHO. As reformas pombalinas da instrução pública, p. 27.
17 – LE GOFF, Jacques. Os intelectuais na Idade Média. São Paulo: Brasiliense, 1988,
p.75.
18 – BLANCHÉ, Robert. História da lógica de Aristóteles a Bertrand Russel. São Paulo:
Martins Fontes, 1985, p.150.

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Álvaro de Araujo Antunes

rizavam também autores modernos, especialmente em casos de opinião


“provável”.19 Esses textos e autores eram incorporados e decorados pelos
alunos num processo continuado de “repetições” e memorizações, ele-
mento importante da pedagogia jesuítica, que poderiam levar à constitui-
ção de tópicas cristalizadas. A valorização da autoridade trazia consigo,
quando não a redundância das repetições, o zelo para com a ortodoxia.
Ângela Barreto Xavier observou que esse procedimento de análise permi-
tiu a cristalização de repertórios acerca dos mais diversos assuntos. Esse
exercício dialético-analítico tenderia, portanto, a congelar verdades asse-
guradas pelo respeito humilde dos estudantes à opinião dos comentadores
e dos intérpretes autorizados.20

Ocorre que as opiniões dos comentadores e intérpretes autorizados


não eram tão conformes, o que trazia instabilidade ao pensamento peri-
patético. Não fosse isso, não haveria combustível para as disputas, parte
da didática escolástica, e nem para as divergências judiciais, comuns aos
auditórios. Tudo seria uma monotonia de argumentos concordes às orto-
doxias e à autoridade. Diante da incerteza, as preposições tinham como
resposta a solução mais provável (probabilismo), isto é, quando era incer-
ta a aplicação de regras morais e de autoridade, para não errar, optava-se
por seguir uma “opinião provável, ainda que não fosse a mais recomen-
dável em termos de estrita doutrina”.21 Para Richard Morse, a estratégia
probabilista expressava um “espírito pluralista e não concludente” em
relação aos fenômenos observados ou experimentados.22 Tal abertura per-
19 – “A máxima era de que a opinião provável é a que tem a seu favor uma autoridade
grave, ou autoridade de um homem hábil. A autoridade de um doutor, homem honrado e
hábil, sobretudo se é moderna, faz provável uma opinião, ainda quando contra ela esteja
a opinião de outros. COMPÊNDIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra
(1771). Coimbra: Universidade de Coimbra, 1972, p.11.
20 – VILLALTA, Luiz Carlos. El-rei, os vassalos e os impostos: concepção corporática de
poder e método tópico num parecer do Códice Costa Matoso. Vária História: Belo Hori-
zonte: Editora UFMG, n. 28, 1999, p. 224.; VILLALTA. Reformismo ilustrado, censura
e práticas de leitura: usos do livro na América Latina. p. 50. XAVIER, Ângela Barreto.
El rei aonde póde & não aonde quer; razões da política no Portugal setecentista. Lisboa:
Edição Colibri, 1998, p. 82.
21 – VILLALTA. Reformismo ilustrado, censura e práticas de leitura: usos do livro na
América Latina, p. 53.
22 – MORSE. O espelho de Próspero: cultura e ideias nas Américas, pp. 35 e 53.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

mitiria relativizar a associação da educação fomentada pelos jesuítas e do


panorama intelectual português como sendo atrasados.

De fato, havia espaço para um pensamento especulativo, aberto pelo


probabilismo ou pelo próprio interesse dos jesuítas na revolução científica
que se operava, ainda que mantivessem este saber restrito ao seu uso pri-
vado. Em meados do século XVIII, o jesuíta Inácio Monteiro descreveu
seu pensamento como “ora peripatético, ora atomista, cartesiano e newto-
niano”. Antônio Cordeiro, autor do Cursus Philosophicus Conimbricen-
sis, publicado em 1713-1714, buscou uma releitura do atomismo, teoria
objurgada pelos jesuítas.23 Havia tentativas de conjugar a emergência da
razão técnico-experimental com os pressupostos da segunda escolástica
dos jesuítas que, em alguns casos, chegaram a condescender, quando não
repreendiam duramente as “ideias dos atomistas”.24

Apesar das disposições contrárias à moderna ciência, alguns jesuí-


tas foram tocados por essas novas ideias. Mas era uma postura acanhada
perto de padres oratorianos como Luiz Antônio Verney, cujas proposi-
ções serviram de estímulo para as reformas do ensino público no reino
português, para se “formar homens que sejam úteis para a República e
religião”.25

“Se, de fato, não foi encarregado de se apropriar “das luzes do século”


foi ele próprio que tomou o encargo de as chamar a si sagrando-se
apóstolo delas e oferecendo a vida à tarefa de iluminar os portugueses.
Falamos de ‘luzes’ e de ‘iluminar’ utilizando exatamente os termos
que o século XVIII escolheu para dar vivacidade às suas expressões
sempre que pretendia caracterizar a posição racionalista do homem

23 – CARVALHO, Rômulo de. História do ensino em Portugal: desde a fundação da


nacionalidade até o fim do regime de Salazar-Caetano. Lisboa: Fundação Calouste Gul-
benkian, [s.d.], p. 392. GOUVEIA, Antônio Camões. Estratégias de interiorização da
disciplina. In: MATTOSO, José (org.). História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa:
Editorial Estampa, 1993, p. 426.
24 – Em seu livro, Rômulo Carvalho registra a lenta inserção das ideias e métodos da cha-
mada ciência moderna entre os inacianos. CARVALHO. História do ensino em Portugal:
desde a fundação da nacionalidade até o fim do regime de Salazar-Caetano, p. 389.
25 – VERNEY, Luís Antônio. Verdadeiro método de estudar. 3ª ed. Porto: Domingos Bar-
reira, s/d., p. 57.

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Álvaro de Araujo Antunes

novo que as grandes descobertas científicas do século anterior fizeram


nascer. Verney pertenceu a este tipo de combatentes, os iluministas
[... ].” 26

As reformas do ensino promovidas na segunda metade do século


XVIII trouxeram a marca dessas Luzes que, em terras lusas e na mão de
intelectuais como Verney, ganharam cores peculiares.

Assim como são controversas as opiniões sobre o pombalismo e o


caráter da Ilustração portuguesa, também o é o tema das reformas pomba-
linas na universidade coimbrã. No horizonte de possibilidades de interpre-
tações, alguns estudos consideram que a reforma não alterou os alicerces
do sistema de ensino que a precedeu.27 O argumento é de que a reforma
não foi profunda, não fez o que se convinha fazer e que, por conseguinte,
a estrutura da “nova” Universidade continuou velha e fradesca. Outros
consideram que as reformas instituíram, de fato, um marco na história do
ensino português, que separaria a tradição jesuítica da reformada.28

Ambos os argumentos, da ruptura e da persistência, consideraram


a importância das reformas pombalinas, seja para afirmar seu sucesso e
eficiência, seja para negá-los. Invariavelmente, tais opiniões, que tendem
aos extremos, lidam com o argumento polar estabelecido pela linha da
continuidade ou ruptura. Ocorre que muitas das providências tomadas
durante o reinado de D. José I teriam efetiva repercussão apenas no sécu-
lo seguinte, em parte, devido ao peso de práticas tradicionais que não se
dissolveram com facilidade. O que a análise da prática de governo pode
revelar é que, juntamente com a ruptura promovida por uma ação legal
26 – CARVALHO. História do ensino em Portugal, p. 407.
27 – TEÓFILO, Roque. Síntese Histórica Evolutiva do ensino no Brasil. Atualidades pe-
dagógicas, ano 5, n. 28, jul./ago., 1954.; VALADARES, Virginia Maria Trindade de. Eli-
tes Setecentistas mineiras: conjugação de dois mundos (1700-1800). Lisboa, 2002. Tese.
(Doutorado em História dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa) – Universidade
de Lisboa.
28 – Entre eles pode-se citar: AVELAR, Hélio de Alcântara. História Administrativa do
Brasil: administração pombalina, p. 161.; CARRATO, José Ferreira. Igrejas Iluministas
e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Editora Nacional, 1968, p.131. SILVA, Maria
Beatriz Nizza. A Cultura Luso-Brasileira da reforma da Universidade à independência
do Brasil. Lisboa: Editorial Estampa, 1999, p. 22.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

ou pela reforma estrutural, havia a resistência, a distensão, o lento afrou-


xamento das tradições assentadas.

No que tange à secularização do ensino, por exemplo, deve-se consi-


derar que não era uma proposta tão distante da realidade da Universidade
de Coimbra. Criada por Dom Diniz no século XIII, a referida universida-
de sempre foi uma instituição mais temporal do que espiritual.29 Ambos
os poderes, em graus distintos e variáveis na forma, sempre estiveram
à frente da instituição coimbrã e do sistema educativo como um todo.
Eram consortes num casamento de altos e baixos, às vezes em harmo-
nia, às vezes não, ao sabor das vagas da maré política. A instabilidade
dessa sociedade era evidente e não deixa de ficar explícita na política
de secularização do ensino promovida por Sebastião José de Carvalho e
Melo. Contudo, para além da secularização, o projeto de fortalecimento
do poder régio abrangia uma revalorização do jusnaturalismo e da razão,
impondo mudanças culturais mais profundas no sistema de ensino, como
forma de cimentar novos paradigmas científicos e jurídicos.30

Isso não implicava que a reforma do ensino de 1772 tivesse exilado


das margens do Mondego toda tradição escolástica do ensino jurídico,
fundamentada no direito canônico e romano, como era proposto por Ri-
beiro Sanches.31 Até a reforma de 1772, o direito romano consistia na
essência da formação do bacharel em leis. Nas oito cadeiras da faculdade
de leis estudavam-se, basicamente, o Digesto e o Código de Justiniano.32
Essas obras eram dissecadas com o auxílio dos comentários e glosas de
29 – CARNEIRO, Paulo E. de Berredo. L´Université de Coimbra et le Brésil. Arquivos do
Centro Cultural Português. Paris, v. 4, 1972, p. 319.
30 – GOUVEIA, Antônio Camões. Estratégias de interiorização da disciplina, p. 432.
31 – Observador perspicaz e partidário da secularização do ensino, Ribeiro Sanches con-
siderava que, com a expulsão dos jesuítas que dirigiam a Universidade de Coimbra (1759)
e com o rompimento das relações com a autoridade romana (1760), era “um absurdo ensi-
nar nas Universidades as Leis de soberano alheio”, no caso, o papa. SANCHES, Ribeiro.
Dificuldades de um reino velho para remendar-se e outros textos. 2ª ed.[S.l:]: Livros Ho-
rizonte, 1980, p. 68 e CARNEIRO. L´Université de Coimbra et le Brésil, p. 319.
32 – Segundo o Compêndio, essa profusão de cadeiras destinadas o ensino das Leis de
justiniano abria espaço para um ensino vagaroso e cansativo destinado a ensinar pela
“Instituta todo o direito civil”. COMPÊNDIO Histórico do estado da Universidade de
Coimbra (1771), p. 257.

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Álvaro de Araujo Antunes

inúmeras autoridades, dentre as quais se destacavam as figuras de Acúr-


cio e de Bártolo. No Estatuto da Universidade de Coimbra de 1598, ra-
tificado na reforma de 1653, ficava clara a influência dos glosadores no
ensino do direito civil, em especial a de Bártolo. Tais autores eram indi-
cados também pelo Regimento do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro,
de 1751, e pelo Repertório das Ordenações, que estipulava, para casos
omissos nas leis do reino ou nos cânones sagrados, o recurso às glosas e
à opinião comum dos doutores.

De “Bártolos” poderiam ser chamados os estudantes e futuros intér-


pretes do direito romano que se inspirariam nas obras do famoso glosa-
dor.33 Desde sua contribuição ao direito na Idade Média, as ideias de Bár-
tolo se expandiram impulsionadas pelas instituições de ensino da Europa
e por uma legião de doutores comentadores.34 Segundo Francisco Lemos,
a doutrina de Bártolo e Acúrcio era uma “constante de todos os livros e
tratados, apostilas, conclusões e mais papéis jurídicos que se escreveram
pelos nossos jurisconsultos ou teóricos ou práticos”.35 De fato, Francisco
Lemos considerava que nas escolas jurídicas não foi ensinada outra juris-
prudência que não a de Bártolo.

Em Portugal, a influência de Bártolo estava presente nos trabalhos


de praxistas, comentarias e causuístas. Foram representantes desses gru-
pos: Manoel Barbosa, comentador das ordenações e pai de Agostinho
Barbosa; Melquior Febo, casuísta; Manoel Lopes Ferreira, bacharel pela
Universidade de Coimbra, autor de Prática criminal na forma da praxe;
Manoel Mendes de Castro, professor da Universidade de Coimbra no sé-
culo XVI e autor de Prática lusitana; Antônio Mendes Arouca, reputado
como de “juízo profundo e coração reto”, que foi autor de livros jurídicos
33 – A arte de furtar evidencia essa denominação ao se referir aos juízes leigos que de
ignorante, “não sabem qual é a sua mão direita, mais para embolsarem com ela espórtulas
e ordenados com se foram Bártolos e Cova-Rubias,” apud. SCHWARTZ, Stuart. B. Bu-
rocracia e sociedade no Brasil colonial: a suprema corte e seus juízes: 1609-1751. São
Paulo: Perspectiva, 1979, p.62.
34 – SKINER, Quentin. Liberdade antes do Liberalismo. São Paulo: Editora da Unesp,
1990, pp. 31-33.
35 – LEMOS, Francisco. Relação geral do estado da Universidade (1777). Atlântida Edi-
tora, Coimbra, 1980, p. 41.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

e religiosos, tendo escrito Adnotationes praticae ad librum fere primum


pandectarum juris civilis e Desejos piedosos e suspiros da alma, obra que
legou aos jesuítas do Colégio de Ponta Delgada.36 Tais autores estariam
presentes em diversas bibliotecas de advogados em Minas Gerais e figu-
rariam nas ações judiciais analisadas na segunda metade do século XVIII,
mesmo depois de condenados os usos de Bártolo e Acúrcio pela Lei de 18
de agosto de 1769.37

O ataque à autoridade dos glosadores, em especial Bártolo, não foi,


propriamente, uma novidade das reformas jurídicas e educacionais do rei-
nado de Dom José I. Precedentes podem ser encontrados em pleno século
XVI, na escola jurídica francesa fundada por Cujácio, discípulo de Antô-
nio de Gouveia, árduo crítico dos glosadores. Enquanto João das Regras,
em Portugal, valorizava o trabalho dos comentadores, Gouveia conside-
rava o recurso aos textos dos glosadores como uma prática ociosa diante
do recurso direito às fontes históricas e a sua interpretação pelo uso da
lógica. Este espírito crítico, contudo, só parece ter atingido a Universida-
de de Coimbra, séculos depois, mas não sem um referencial precedente.

As críticas ao ensino da Universidade de Coimbra identificavam na


adoção dos glosadores a “manha e a confusão” dos jesuítas, protagonistas
dos infaustos da educação portuguesa. Várias leis e publicações expressa-
vam a aversão do governo ao método jesuítico e às diretrizes contidas nos
Estatutos da Universidade de Coimbra, de 1653. Os jesuítas eram acu-
sados de “vomitar [...] todo seu veneno com a maquinação e publicação
[...] do abominável Código dos Estatutos”.38 O “estrago” da Universidade
teria sido causado pelos “sinistros e façanhosos” jesuítas e seu método,
que só serviria para introduzir e excitar novas questões. Os jesuítas foram
ainda responsabilizados por tornar a jurisprudência “versátil, confusa,

36 – ALBUQUERQUE, Rui; ALBUQUERQUE, Martim. História do direito Português.


Lisboa: Faculdade de Direito, 1983, vol. 2, pp. 112-113; MACHADO, Diogo Barbosa.
Bibliotheca lusitana. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1998. CD-ROM, v.1, p. 327.
37 – ANTUNES, Álvaro de Araújo. Fiat Justitia: os advogados e a prática da justiça em
Minas Gerais (1750-1808).Campinas, SP: Pós-graduação do Departamento de História da
Unicamp, 2005 (Tese, Doutorado em História).
38 – COMPÊNDIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra( 1771), p. 55.

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Álvaro de Araujo Antunes

incerta, e toda dependente do arbítrio dos doutores”.39 Segundo o Com-


pendio, as faculdades de cânones e leis estavam entregues ao exame das
“sutilezas para sustentarem à força de sofismas as opiniões dos doutores”.
Em decorrência disso, as faculdades teriam formado advogados de uma
inteligência quimérica, baseada no direito romano, dados aos sofismas e
às dilapidações de qualquer “senhor e possuidor de bens”.40

As causas da falência do ensino de direito envolviam mais do que o


uso dos glosadores e comentadores. Os jesuítas eram criticados inclusive
pela formação de base dada aos estudantes, isto é, a instrução do latim, do
grego, da retórica etc. Não por menos, a reforma do ensino de línguas e da
retórica antecedeu à própria reformulação dos Estatutos da Universidade
de Coimbra. As críticas sobre a formação básica dos estudantes aponta-
vam ainda o desconhecimento das utilidades da história, “tocha luminosa
para a boa inteligência das leis”.41 Outrossim, lamentava-se a ignorância
ou desleixo com o direito natural, considerado a base das leis positivas e
das leis pátrias.42

Com as reformas, o direito natural ganhou destaque, ainda que lade-


ado por uma série de cadeiras dedicadas ao direito romano. No primeiro
ano letivo, por exemplo, ensinava-se: o “direito natural e das gentes”,
com o auxílio de um compêndio escrito por Martini, professor da Uni-
versidade de Viena; o “direito romano e direito português”, lecionado
pelo Dr. Francisco Xavier de Vasconcelos Coutinho; e as “Instituições
de Justiniano”. No segundo ano, as disciplinas previstas para os alunos
de cânones e leis eram as seguintes: “direito canônico, comum e pátrio”
e a “história da Igreja universal e portuguesa”, para qual se utilizava as
Instituições de Fleury.43 Pelo método sintético, estudava-se o pensamento

39 – LEMOS. Relação Geral do estado da Universidade, pp. 13 e 42.


40 – COMPÊNDIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra (1771), pp. 94 e 206.
41 – COMPÊNDIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra (1771), p. 146.
42 – CARVALHO. As Reformas pombalinas da Instrução pública, p. 176.
43 – CARVALHO. História do ensino em Portugal: desde a fundação da nacionalidade
até o fim do regime de Salazar-Caetano, p. 473. LEMOS. Relação geral do estado da
Universidade: 1777, pp. 56-57.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

de Justiniano, pois nele se acha os “princípios unidos em um corpo mais


completo e sistemático”.44

Importante observar que, não obstante a permanência da instrução


do direito comum e canônico, a forma como eles eram ensinados deveria
ser drasticamente alterada. Passou-se a valorizar a “interpretação justa
dos textos jurídicos”, evitando-se as falsas interpretações dos glosadores,
conforme o usus modernus pandectarum que pregava o uso do direito
romano “naquilo que tivesse de essencial à luz do direito natural”.45 De
acordo com Antonio Resende de Oliveira, o período pombalino foi um
marco no direito português, justamente pela tentativa de modernização
conjugada à valorização do jusnaturalismo.46

Desde a antiguidade grega e romana o direito natural era conhecido,


estando vinculado ao ius gentium, isto é, às regras que decorrem da pró-
pria natureza das coisas. O termo, em uma perspectiva cristã, reaparece
em Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. Por sua vez, Ulpianus, em
seu comentário ao Digesto, define do direito natural como “aquele que a
natureza ensinou aos animais”.47 Tratava-se de algo que não era próprio
do humano, embora lhe dissesse respeito, quando da procriação, da união
dos gêneros etc. Com o tempo, o direito natural teve suas competências
dilatadas. Indicativo dessa mudança, o Compêndio histórico do estado da
Universidade de Coimbra divide a história da escola do direito natural
em antes e depois de Hugo Grotius, autor que, no século XVII, escreveu
De iure belli ac pacis. Antes dele, o direito natural não seria reconhecido
como a “origem da justiça”, porém, a partir de Grotius, formou-se uma
escola de pensadores dedicados a estudar os princípios da justiça base-
ados na natureza humana.48 Outro grande expoente do jusnaturalismo,
44 – COMPÊNDIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra (1771), p. 379.
45 – ALBUQUERQUE e ALBUQUERQUE. História do direito Português, vol. II, p.
128.
46 – OLIVEIRA, Antonio Resende de. Poder e Sociedade. A legislação pombalina e a
antiga sociedade portuguesa. Revista de História das Ideias. Tomo I, volume IV, p. 51.
47 – GILISSEN, John. Introdução à História do Direito. 3 ed.. Trad. Antonio Manuel Hes-
panha e L.M. Macaísta Malheiros. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p.97.
48 – Entre eles, o Compêndio destacava Samuel Pufendorf, que reuniu uma série de estu-
dos referentes ao direito natural e das gentes. O Instituto de Pufendorf teria sido abraçado,

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Álvaro de Araujo Antunes

Pufendorf entendia a lei natural como aquela que era fundamentada nas
máximas da reta razão, no entendimento humano que “tem a faculdade
de descobrir clara e distintamente” uma ordem quando se debruça sobre
a natureza e a constituição dos homens.49 Neste sentido, o direito natural
passou a ser entendido como um conjunto de diretrizes morais e racionais
que se fundam na natureza do homem e são descortinadas pela razão.

A contribuição do direito natural à prática da justiça residia no reco-


nhecimento dos princípios sobre os quais se assentavam as leis positivas
e a própria ordem social. Nas palavras de Lemos, “os princípios do direito
civil se deduzem das fontes da razão natural e da constituição fundamental
das sociedades, do gênio, índole, caráter, costumes e usos dos povos”.50
Para os autores do referido Compêndio, o direito natural era a “disciplina
mais útil e mais necessária, com que os juristas devem dispor”, pois ela se
servia da razão, permitia a boa interpretação das leis positivas e era capaz
de promover a felicidade dos povos.51

A intenção de promover a felicidade dos povos não estava desasso-


ciada de uma dimensão ética, moral, divina e cristã. Isso pode ser eviden-
ciado na Lei de 18 de agosto de 1769, onde a “boa razão” era definida
como:

“os primitivos princípios, que contém verdades essenciais, intrínsecas


e inalteráveis, que a ética dos mesmos romanos havia estabelecido, e
que os direitos Divino e natural formalizaram para servirem de regras
morais e civis entre o cristianismo: ou aquela boa razão que se esta-
belece nas leis políticas, econômicas, mercantis e marítimas que as
mesmas nações cristãs tem promulgado com manifestas utilidades, do
sossego público, do estabelecimento da reputação [...].”

posteriormente, por autores como Cristiano Tomásio, Wolfio e João Barbeirac, autores
cujas obras circulariam pelo mundo português impulsionadas pela reforma. COMPÊN-
DIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra (1771), pp. 219-220.
49 – GILISSEN. Introdução a História do direito, p. 373.
50 – LEMOS. Relação geral do estado da Universidade: 1777, p. 48.
51 – COMPÊNDIO Histórico do Estado da Universidade de Coimbra (1771), p. 205.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

A Lei de 18 de agosto de 1769 serviu ao projeto regalista na me-


dida em que contribuiu para o processo de reforma jurídica, que previa
regulação do uso direito civil e costumeiro e a valorização da moral, da
razão, do jusnaturalismo e das leis positivas, a exemplo das nações poli-
das e cristãs. Entretanto, a proposta modernizadora da lei, fomentada em
discussões dos ministros do Conselho e do Desembargo do Paço, possuía
limites intrínsecos e/ou próprios do jogo de forças do campo jurídico,
conforme revelaram alguns dos seus comentadores.

Pelo rei a Boa Razão: comentários de José Homem Correia Telles


Pelo conjunto das suas proposições, a Lei da Boa Razão foi respon-
sabilizada pelas alterações profundas no campo jurídico português. En-
trementes, tal lei não foi a primeira e nem seria a última a enfrentar os
entraves diagnosticados na condução da justiça. Antes dela, para citar um
exemplo, D. Manuel I estipulava restrições ao uso do direito civil, con-
forme estabelecido no livro 5, título 58 das Ordenações, publicadas em
1602. Os limites impostos ao direito romano, condenados pela Lei de 18
de agosto de 1769, também foram objetos da Lei de 3 de novembro do
mesmo ano. O direito consuetudinário, regulamentado pela Lei da Boa
Razão, teve seu uso restrito no âmbito da justiça e da fazenda pela Lei de
23 de novembro de 1770.

Por um lado, a frequência dessas leis pode indicar a inobservância


das normas fixadas pela Lei de 18 de agosto. De outro lado, sugere um
reconhecimento de parâmetros por ela estabelecidos e que deveriam ser
resguardados ou esclarecidos pela legislação subsequente. A situação,
portanto, pode levar a questionamentos quanto à eficácia da referida lei,
total ou parcialmente, como será apresentado mais adiante. Mas há de se
considerar, em contrapartida, que a referência às determinações da Lei da
Boa Razão, direta ou indiretamente, pode ser entendida como o reconhe-
cimento da sua autoridade, em grande medida por aquilo que ela propõe
de condizente com o espírito dos novos tempos.

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Álvaro de Araujo Antunes

Como foi apresentado, a indicação do direito natural como princípio


da regulamentação da sociedade não era uma inovação da Lei da Boa Ra-
zão. A novidade consistia em tornar a boa razão como o fiel da balança,
no lugar das autoridades dos glosadores e do direito romano.

“Na jurisprudência (cujo o caráter formam a verdade e a simplicidade)


as quase inumeráveis questões metafísicas, com que depois daquela
Escola Bartholina se tem ilaqueado e confundido os direitos e domí-
nios dos litigantes intoleravelmente: mando que as glosas e opiniões
dos sobreditos Acúrcio e Bártolo não possam mais serem alegadas em
Juízo e nem seguidas nas práticas dos julgadores; e que antes muito
pelo contrário em um e outro caso sejam sempre as boas razões acima
declaradas se não as autoridades daqueles e ou de outros semelhantes
doutores de mesma Escola.” 52

Como foi visto, a expressa vontade de simplificar a jurisprudência


sempre foi alvo das reformas judiciárias. Na Lei de 18 de agosto de 1769,
a culpa pela confusão nos pleitos foi atribuída às questões metafísicas
instigadas pelas glosas de Bártolo e Acúrcio. Não obstante as mudanças,
manteve-se a autoridade subsidiária do direito romano, mas apenas quan-
do estivesse conforme à “boa razão”, isto é, aos “primeiros princípios,
que contém as verdades essenciais”.53 Para Francisco Falcon, as mudan-
ças no campo jurídico tomaram a forma de uma reorientação da doutri-
na.54 Passou-se do sistema “do romanismo justinianeu” para o sistema de
“direito natural e do individualismo crítico”. Com isso, a razão passou a
ser valorizada, em detrimento das glosas, tal qual estabelecido pela Lei
da Boa Razão.55

52 – ORDENAÇÕES Filipinas, livro terceiro. v. 2. p. 730.


53 – ORDENAÇÕES Filipinas, livro terceiro, v. 2, p. 728. GILISSEN. Introdução histó-
rica ao direito, p. 373.
54 – FALCON. A época pombalina: política econômica e monarquia ilustrada.
55 – Como já foi apresentado, o direito natural desenvolve sua vertente racional nos sécu-
los XVII e XVIII. Mas, foi com a reforma pombalina da legislação que o direito natural
passou a servir como um argumento sólido e conforme a nova doutrina. GILISSEN. Intro-
dução Histórica ao Direito, p. 364 e HESPANHA, Antonio Manuel. Panorama histórico
da cultura jurídica europeia. Portugal: Publicações Europa-América, 1997, p. 150.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

O direito canônico, por sua vez, tem o uso limitado ao tribunal ecle-
siástico, demarcando as áreas de competências do poderes.

“deixando-se os referidos textos de direito canônico para os Ministros


e Consistórios Eclesiásticos os observarem (nos seus devidos e com-
petentes termos) nas decisões da sua inspeção e seguindo somente
meus tribunais e magistrados seculares nas matérias temporais da sua
competência as leis pátrias e subsidiárias [...].” 56

Quanto ao costume – direito não escrito e reconhecido pelo uso do


povo –, para ser considerado válido, deveria ter mais de cem anos e não
contrariar as leis positivas. Carla Anastasia acreditou que a Lei da Boa
Razão serviu de empecilho aos usos circunstanciais e as interpretações
extravagantes das leis portuguesas e dos costumes57 Em resumo, a lei de
18 de agosto de 1769 buscou rever os sistemas de fontes do direito portu-
guês proscrevendo as autoridades dos glosadores, subordinando o direito
romano, delimitando a área de competência do direito canônico.58

Pela Lei da Boa Razão procurava-se assegurar a coerência do exercí-


cio jurídico ao projeto pombalino de fortalecimento da figura do rei, ori-
gem da lei e “justiça viva”. Em seu primeiro parágrafo ficava definido que
nenhuma decisão judicial deveria ferir o direito expresso, as ordenações
do reino. Vetava-se as interpretações abusivas que ofendiam a majestade
da legislação. Como é sabido, um dos princípios que norteava a confec-
ção das leis em geral era a clareza. A interpretação de uma lei, portanto,
seria desnecessária e mais serviria a confusão, do que ao seu entendi-
mento.59 Ademais, seria punido o advogado que, em suas interpretações,

56 – ORDENAÇÕES Filipinas. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, v. 2,


p.730.
57 – Para Carla Junho Anastasia, com a lei de 18 de agosto de 1769, houve uma restrição
significativa do uso do costume, com possíveis repercussões no repertório de ações cole-
tivas, “fundado na força dos costumes e na excepcionalidade dos costumes”. Tal hipótese,
contudo, tem como condição a confirmação de que a lei foi, de fato, eficaz. ANASTASIA,
Carla Maria Junho. A Lei da Boa Razão e o novo repertório da ação coletiva nas Minas
setecentista. Vária História, Belo Horizonte: Editora UFMG, n. 28, 2002.
58 – ALBUQUERQUE e ALBUQUERQUE. História do direito Português, p.57.
59 – ALMEIDA, Candido Mendes de. Auxiliar jurídico: apêndice às Ordenações Filipi-
nas. Rio de Janeiro, 1870. Edição fac-similada de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,

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Álvaro de Araujo Antunes

enredasse raciocínios frívolos e “ordenados mais a implicar com sofismas


as verdadeiras disposições da lei”.60 A interpretação de eventuais dúvidas
deveria ficar a cargo dos magistrados capacitados da Casa de Suplicação
que fixariam suas resoluções por meio de Assentos que teriam o valor de
lei. Os Estilos – a forma de praticar o que era estipulado por lei – também
deveriam ser determinados pela Casa de Suplicação.

Para Arno Wehling, o caráter despótico e inovador da legislação pom-


balina explicitava-se na primazia, defendida pela Lei da Boa Razão, das
decisões da Casa de Suplicação e das Ordenações.61 Este direito positivo
era, em última análise, o resultado do discernimento e da vontade régios,
condição que colocava D. José I em uma posição central no jogo de forças
do campo jurídico. Tais determinações buscavam confirmar, portanto, o
“monopólio do direito a favor da lei do soberano”.62 Um monopólio que
teria limitações bem palpáveis, conforme evidenciaram alguns autores
que analisaram a dita lei.

Arno Wehling fez um bom arrazoado de alguns pontos debatidos


pelos comentadores da Lei de 18 de agosto de 1769. Para o autor, no que
tange às intenções de Pombal, Coelho da Rocha considerou que houve,
de fato, uma nova dignificação das leis portuguesas; Paulo Merea desta-
cou a influência do pensamento estrangeiro; Cabral Moncada privilegiou
o ataque contra o direito português escolástico. Outros historiadores do
direito, como Martins Junior, Waldemar Ferreira e Bezerra Câmara, Nuno
Espinosa Gomes da Silva e Antonio Manuel Hespanha, destacaram o ca-
ráter antiaristocrático e antiteocrático da lei. No geral, tais autores tendem
a considerar a lei como responsável por uma modernização no direito
português.63
1985,v. 2, p. 446.
60 – ALMEIDA, Auxiliar Jurídico: apêndice às Ordenações Filipinas, p. 451.
61 – WEHLING, Arno. Cultura jurídica e julgados do Tribunal da Relação do Rio de
Janeiro: a invocação da Boa Razão e o uso da Doutrina: uma amostragem. In: SILVA,
Maria Beatriz Nizza. Cultura portuguesa na Terra de Santa Cruz. Lisboa: Estampa, 1995,
p. 237.
62 – HESPANHA. Panorama histórico da cultura jurídica europeia, p.166.
63 – WEHLING, Arno e WEHLING, Maria José. Direito e Justiça no Brasil colonial: o
Tribunal da Relação do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, p. 448.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

Para além desta concordância, o que se questiona são aspectos mais


pontuais. Embora grande parte dos autores que tratam da Lei da Boa Ra-
zão concorde com seu caráter antirromanista, Paulo Merêa relativiza o
poder da dita lei em desterrar o direito romano, que continuaria impe-
rando até, pelo menos, o Alvará de 16 de janeiro de 1805. De fato, como
observou Martins Júnior, proscrever Acúrcio e Bártolo não era o mesmo
que vetar o direito romano.64 Manoel Borges Carneiro, tratando do direito
civil português, em obra publicada em 1828, considerava que a Lei da
Boa Razão não buscava revogar as leis romanas, mas sim restringir e fixar
sua inteligência.65

Outra questão que suscita controvérsia é sobre a efetiva aplicação da


Lei de 18 de agosto de 1769. Um dos primeiros críticos da sua eficiência
e, segundo tudo indica, o responsável por nomeá-la de Lei da Boa Razão,
foi José Homem Correia Telles. Telles conhecia bem os trâmites legais.
Formou-se em cânones pela Universidade de Coimbra, foi Juiz de Fora
da Figueira e deputado nas Cortes Constituintes de 1821. Além disso, es-
creveu diversas obras de direito, entre elas: Theoria da interpretação das
leis e ensaio sobre a natureza do senso consignativo, de 1815; Doutrina
das ações acomodada ao foro de Portugal, de 1819; no mesmo ano o
Manual do tabelião, ou Ensaio de jurisprudência hermenêutica; Digesto
português ou Tratado dos direitos e obrigações civis acomodado às leis e
costumes da nação portuguesa, de 1835 entre outras obras. Seu currículo,
portanto, abaliza suas considerações apresentadas no Comentário crítico
à lei de 18 de agosto de 1769, publicado em 1824.

Os originais manuscritos do Comentário podem ser encontrados no


Arquivo da Torre do Tombo, no fundo da Real Mesa Censória. Tais ma-
nuscritos revelam um pouco do trâmite e ajustes que o autor fez antes da
sua publicação. No manuscrito, lê-se:

64 – WEHLING e WEHLING. Direito e Justiça no Brasil colonial: o tribunal da relação


do Rio de Janeiro, p. 449.
65 – AVELAR. História Administrativa do Brasil: administração pombalina, p.130.

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Álvaro de Araujo Antunes

“Este escrito teria sido estampado em 1821, se os produtos efêmeros


da assembleia constituinte (a que chamaram de Corte) não tivessem
empecido a sua publicação. Agora que os governos legítimos estão
felizmente mais seguros e os espíritos menos agitados, a lição dele
ainda pode ser útil, ao menos para convencer quanto é necessária a re-
forma da legislação civil. Desta reforma, a meu entender, pende mais
a segurança da honra e da propriedade, do que da melhor constituição
política.”

Não se sabe, ao certo, se as relatadas considerações sobre o ambiente


político são de autoria de Correia Telles ou se do responsável pela ava-
liação da obra. De qualquer maneira, estamos diante de um panorama da
época em que a obra foi escrita. Um ambiente de expectativas depositadas
sobre a reestruturação portuguesa depois das invasões napoleônicas, e
sobre as potencialidades do liberalismo e da crítica racional.

Esse espírito crítico perpassava a obra de Telles. Na introdução do


Comentário, a Lei de 18 de agosto de 1769 foi descrita como uma das
mais “notáveis do feliz reinado do Senhor D. José”. Escreveu Telles: “De-
nomino-a Lei da Boa Razão, porque refugou as leis romanas, que em boa
razão não forem fundadas.”66 Algo muito positivo à execução da justiça,
segundo julgava o autor. Mas todo o elogio não o exime de pronunciar
suas censuras à Lei da Boa Razão, parte delas voltadas à prática adminis-
trativa da justiça.

Com relação às dúvidas legais, Telles considerava que o “método da


interpretação autêntica que instaurou a nossa lei ainda não é o melhor”.67
Isto porque os desembargadores e o soberano, senhor da lei, não teriam
tempo necessário para desfazer todas as dúvidas dos advogados espalha-
dos pelos auditórios de primeira e segunda instâncias, ficando a dúvida,
no mais das vezes, resolvida pelo arbítrio do juiz ordinário. A solução
para o problema seria a constituição de um tribunal encarregado somente
da interpretação autêntica das leis, ponderou Telles.

66 – ALMEIDA, Auxiliar Jurídico: apêndice às ordenações Filipinas, v. 2, p. 444.


67 – TELLES, José Homem Correia. “Comentário Crítico à Lei da Boa Razão”. In: ALMEI-
DA, Candido Mendes de. Auxiliar jurídico: apêndice às Ordenações Filipinas. Rio de Janeiro,
1870. Edição fac-similada de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, v. 2, p. 449.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

Os estilos também deveriam ser confirmados por Assentos da Casa


da Suplicação para ter valor de lei. Ocorre que diversos estilos conhe-
cidos e difundidos nas obras de praxistas não eram confirmados, sendo,
portanto, “barbaridade condenar alguém pela inobservância deles, porque
pena sem lei é efeito sem causa”.68

Outro limite diretamente associado à atuação da Casa de Suplicação


foi apresentado por Telles quando tratava dos 58 Assentos que foram fir-
mados entre os anos de 1768 e 1800. Para o autor, o restrito número de
Assentos foi indicativo da pouca observância da Lei de 18 de agosto de
1768. Uma solução para este problema seria “estender a providência dela
[Lei da Boa Razão], concedendo a todos os julgadores o poderem reque-
rer Assentos”.69

As disposições da Lei da Boa Razão que subordinavam as leis ro-


manas ao direito natural também foram analisadas por Telles. Depois de
elencar diversos casos nos quais o direito romano contrariava o direito
natural, o autor ponderou sobre os limites do usus modernus pandecta-
rum. Considerando o papel dos professores de Direito em esclarecer sobre
os erros e averiguar sobre a inteligência das Novellas, Digesto e Código,
concluiu o autor que, por mais que se busque limitar as divergências de
interpretação por meio da razão, o uso moderno da legislação romana é
variado, “seguindo umas nações as decisões das Novellas e outras a do
Código e do Digesto”.70 Além disso,
“confrontando a nossa lei com os Estatutos [...], parece não ter sido
o mesmo legislador. A nossa lei exige precisamente que as leis roma-
nas subsidiárias das pátrias sejam fundadas naquelas boas razões, que
declarou: os Estatutos não exigem tanto, satisfazem-se que as leis ro-
manas não tenham oposição ou repugnância às leis naturais, divinas,
direito das gentes etc.”71
68 – TELLES, José Homem Correia. “Comentário Crítico à Lei da Boa Razão”, p. 450.
69 – Considerando o assunto, Arno Wehling pondera que o número de Assentos indicado
por Telles não era tão inferior ao do reinado de D. João V, com 63 ocorrências. WHELING
e WEHLING. Direito e Justiça no Brasil colonial: o tribunal da relação do Rio de Janei-
ro, p. 454.
70 – TELLES, José Homem Correia. “Comentário Crítico à Lei da Boa Razão”, p. 462.
71 – TELLES, José Homem Correia. “Comentário Crítico à Lei da Boa Razão”, p. 461.

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Álvaro de Araujo Antunes

Destarte, para Telles, o proposto na Lei da Boa Razão não era ob-
servado nos Estatutos da Universidade de Coimbra ou, o que poderia ser
mais aberrante, haveria um equívoco de interpretação da lei, ainda que o
suposto redator de ambos os documentos fosse a mesma pessoa! Outras
considerações são tecidas sobre a vacuidade da definição do que pode
ser entendido como “leis políticas e econômicas” ou até mesmo como
“nações polidas”, que, segundo o autor, bem poderia ser qualquer nação
cristã da Europa.

No somatório dos erros, apesar de considerar a Lei da Boa Razão


como uma das mais “notáveis do feliz reinado do Senhor D. José”, Telles
apresentava uma série de limitações internas e estruturais à lei. Nesse
sentido, o autor apontou para algumas contradições entre os mecanismos
da reforma jurídica e considerou alguns empecilhos práticos à execução
das determinações legais fixadas em 18 de agosto de 1769.

As práticas e os agentes no campo jurídico: os usos da Lei da Boa


Razão.
Avizinhar-se do “direito vivo” é uma tarefa que demanda uma extra-
polação da dimensão restrita da lei em direção à prática dos auditórios. É
possível encontrar vestígios dessa prática em alguns dos escritos jurídicos
enviados aos órgãos de censura portugueses pleiteando a concessões para
publicação. A Lei da Boa Razão, por exemplo, foi referenciada em obras
como as Alegações de João Henrique Martins, escrita em fins do século
XVIII, na qual é possível ler a seguinte nota:
“Não será necessário vestir o feio caráter de declamador, para notar o
quão pouca atenção deve merecer aos sábios Magistrados um número
infinito de causas, que inutilmente os fatigam, umas vezes por culpa
dos litigantes, outras por erro, ou por fraude dos patronos: Este é um
vício que grassava em toda a Europa, e a que quase todas as nações
iluminadas hoje se opõem. [...] Não é só a razão, quem faz evidente
a certeza e a maligna influência desses abusos: eis aqui os expressos
preceitos, com que indispensavelmente nos devemos conformar. Por-
quanto (Lei de 18 de agosto de 1769), depois de muitos anos, tem sido
um dos mais importantes objetos da atenção e cuidado de todas as

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

nações polidas da Europa o de precaverem com sábias providências as


interpretações abusivas, que ofendem a majestade das leis [...].” 72

No diagnóstico negativo da justiça, o autor das Alegações não se li-


mitava a apontar os benefícios das disposições da Lei da Boa Razão, mas
também professava a conformidade da sua postura profissional à dita lei:

“Estas razões me fizeram olhar com horror para o estilo ordinário, en-
tre nós, até aqui, praticado: eu me apartei do uso comum e segui nova
trilha. Tendo-me em primeiro lugar persuadido da intrínseca justiça da
causa que defendo procurei depois fazê-la evidente com razões sóli-
das. E para que fique manifesta, uma vez por todas, a causa de seguir
o estranho método, que me propus, eis aqui os importantes preceitos,
dos quais nunca me apartei [...].” 73

Os princípios aos quais se refere foram os mesmos apresentados pela


Lei da Boa Razão, citada pelo autor praticamente na íntegra. Se sua de-
claração é digna de crédito, é possível, então, considerar que a Lei da
Boa Razão encontrou espaço nos tribunais de justiça, servindo de norte à
conduta dos advogados e juízes.

Em outro manuscrito, localizado no Fundo da Real Mesa Censória, é


possível discernir a Lei da Boa Razão servindo aos argumentos jurídicos
que compunham o cerne do Manifesto de todos os artigos, documentos
principais e sentenças professas na célebre causa da Igreja de São Pedro
de Abacás, que denunciou no juízo da Coroa o padre José Borges de
Abreu contra a Mitra Primas e contra o pároco da mesma Igreja. A obra
foi escrita pelo padre Antônio Nunes de Figueiredo, inconformado com a
decisão da justiça sobre a causa em questão. Segundo Figueiredo,
“esta importante e desgraçada causa ensina a pouca segurança que se
pode pôr nos estabelecimentos humanos, por mais que sejam augustos
[...] Por outro lado, me parece que os governantes não deixavam de
revelar os erros da justiça, apontando-os como na Lei da Boa Razão
ou na Lei Cintra o direito consuetudinário. Ao contrário do que é feito

72 – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) – Fundo Real Mesa Censória, Caixa
508, documento 4703.
73 – ANTT – Fundo Real Mesa Censória, Caixa 508, documento 4703.

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Álvaro de Araujo Antunes

no ensino, em que os Jesuítas são diretamente atacados e acusados


como os senhores das mazelas, aqui nas leis não há menção direta aos
mesmos, todavia podemos encontrar indiretas que acusam os antigos
como causadores de problemas jurídicos, mas que são sanados e não
maculam a imagem da justiça.” 74

A perspicaz argumentação do padre Figueiredo expõe algo mais do


que a alegada culpa do ensino promovido pelos jesuítas. A Lei da Boa
Razão, sem mencionar os jesuítas, bota às claras os limites da própria jus-
tiça, os quais, se não fossem sanados, poriam a perdê-la, mal que parece
afligir o autor do manifesto.

Diante das considerações feitas, cabe a pergunta: do que valeria a


Lei da Boa Razão se não fosse respeitada? Serviria de mero indicativo
das mazelas da justiça? Ou, se lograsse influenciar a prática da justiça,
como indica o primeiro manuscrito apresentado, não seria possível supor
que houvesse alguma resistência ao seu cumprimento? Em que medida
a Lei da Boa Razão foi respeitada ou ao menos citada nos tribunais de
primeira instância? Não haveria um hiato entre as proposições das leis e
a prática jurídica? Ou ainda, haveria um descompasso entre a pretensão
centralizadora e regalista e as dimensões cotidianas metropolitanas e co-
loniais? Que fatores intervieram para firmar esse provável distanciamento
da norma?

Para auxiliar a responder a essas questões, vale analisar as ações


judiciais de Mariana e Vila Rica, Minas Gerais, buscando os rastros da
influência da Lei da Boa Razão, em especial quanto ao uso ou desuso do
direito romano e do direito natural. No limite, trata-se de levantar alguns
dados para pensar o alcance das reformas pombalinas na reconstituição
do campo jurídico, especialmente no âmbito da justiça praticada em Mi-
nas Gerais.

É possível distinguir a evocação do direto natural em certas ações ju-


diciais de Mariana e Vila Rica. Em alguns processos, fez-se referência às

74 – ANTT – Fundo Real Mesa Censória, Caixa 508, Códice 4703.

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Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

obras do jusnaturalismo. José Pereira Ribeiro, advogado em Mariana, em


uma das ações que patrocinou no ano de 1782, citou Jean Domat, em sua
obra “Lois civiles”. Muito possivelmente tratava-se de uma versão de Les
lois civiles dans leur ordre naturel, uma das muitas obras sobre direito
natural que compunham a biblioteca do advogado. O civilista Jean Do-
mat foi considerado “o restaurador da razão humana da jurisprudência”,
asserção que não procede para John Gilissen, pois o jurista francês tinha
princípios galgados mais na religião e na filosofia escolástica do que na
filosofia racionalista.75 De qualquer maneira, trata-se de uma referência
ao direito natural, muito à moda da tradição reformista portuguesa e com-
patível com a formação recebida por Ribeiro, que estudou na reformada
Universidade de Coimbra.76

Por vezes, a menção ao direito natural vinha na forma de uma evo-


cação às “leis naturais”.77 Em uma ação envolvendo litígios acerca de
terras minerais, localizadas no córrego do São Lourenço, na Freguesia de
Guarapiranga, é possível identificar o uso que o Dr. Cláudio Manuel da
Costa fez do direito natural na estruturação de seu argumento.

No ano de 1787, “em pública audiência [...] em casas de morada do


Dr.Ouvidor-Geral e Corregedor desta Vila e Comarca Tomás Antonino
Gonzaga”, João Duarte Pinto pedia o embargo do desmonte de uma ca-
choeira que se localizava na terra do réu, Carlos Pinto Brandão, porque a
operação estava entulhando sua mineração rio abaixo.78 Cláudio Manuel

75 – Em seu livro, Jean Domat observa que “as regras de direito são expressões curtas e
claras e que exige a Justiça nos diversos casos...”. A forma com que José Pereira Ribeiro
compunha suas argumentações mostrava-se afinada com essa perspectiva. DOMAT, Jean.
As leis civis na sua ordem natural, 1689, apud GILISSEN. Introdução histórica ao direi-
to, p. 365.
76 – Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC) - Actos e graus de estudantes da Uni-
versidade por Faculdade. Curso de Direito. José Pereira Ribeiro.
77 – Arquivo da Casa Setecentista de Mariana (ACSM)- 2 Ofício, Códice 211, Auto
5264.
78 – Era comum os agentes da Justiça darem audiência em suas residências, numa clara
mostra de confusão entre público e privado. Segundo Arno Wehling “a ideia de uma re-
partição pública distinta do local de residência somente se imporia no século XIX, com o
novo modelo de Estado e de administração. WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José.
“O funcionário Colonial entre a sociedade e o rei”. In: PRIORE, Mary del. Revisão do

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):15-50, jul./set. 2011 41


Álvaro de Araujo Antunes

da Costa, advogado do réu, concordou que o desmanche implicava algum


prejuízo às atividades mineradores do autor, mas ponderou que, “em di-
reito, deve o prédio inferior servidão ao superior”. Tal direito ganharia a
força da precedência do réu naquela localidade, uma vez que, por seus
antecessores, tinha a posse da data mineral há mais de 40 anos.79

José dos Santos Azevedo e Melo, advogado do autor, rebateu as con-


siderações apresentadas pelo advogado do réu, alegando que mais forte
do que a “natureza” e a “antiguidade” era a lei. Todavia, faltava uma
lei específica que regulamentasse a questão e, diante dessa falta, o ad-
vogado do autor voltou à opinião de uma série de doutores das leis e a
algumas cláusulas do “regimento mineral” e a determinações da justiça
legal quanto ao uso dos cursos de água. Cláudio Manuel da Costa, por sua
vez, considerou inadequado o recurso às leis apresentadas no arrazoado
do Dr. Azevedo Melo. Logo em seguida, apelou novamente para a anti-
guidade da posse do terreno e para a prática dos mineiros, que conhecia
bem, uma vez que possuía terras de mineração.80 E, para finalizar suas
considerações, argumentou que “seria absurdo ir contra uma regra fun-
dada no direito natural de ser cada um arbitro do que lhe é seu, enquanto
não se mostre princípio que pudesse combater esse [...] o embargo é uma
mera emulação”.81 Trata-se, portanto, de uma referência ao direito natural
paraíso: os brasileiros e o estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus, 2000,
p.157.
79 – Quarenta anos era considerado o tempo necessário para se figurar posse do terreno.
Esse prazo aparecia frequentemente nas ações judiciais em que se contestava posse de
alguma gleba. Conforme Moncada, ao longo da Idade Media, o antigo direito português
reconheceu quatro institutos possessórios diferentes: primeiro uma posse dada após um
ano e um dia; segundo outra dada após três anos; uma terceira dada após dez anos; e uma
quarta posse dada após trinta ou quarenta anos”. MONCADA, L. Cabral de. Estudos de
história do direito. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1949, v. 2, p. 50.
ACSM. 1 Ofício. Códice 383, Auto 8385.
80 – Cláudio Manuel da Costa parecia ser um especialista no assunto, sendo escolhido
em outras ações para defender causas que envolviam a posse, demarcação e extração em
terras minerais. Na causa apresentada, há de se considerar um conhecimento acumulado
do advogado sobre assunto que possuía terras minerais em Mariana. Tal aspecto ilustra os
saberes diversos que intervinham na prática da Justiça, para além das leis e das normas
escritas. Sobre os regimentos minerais, ver, entre outros: FERREIRA, Waldemar Martins.
História do direito brasileiro. São Paulo: Freitas Bastos, 1952, p.154.
81 – Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência Mineira – Casa Setecentista do Pilar

42 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):15-50, jul./set. 2011


Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

adequada às diretrizes da Lei da Boa Razão onde se lê que, na falta de lei


específica, a Razão natural servia de direito subsidiário.

Entretanto, nas ações judiciais analisadas, a remissão ao direito cos-


tumeiro se mostrava mais frequente do que ao direito natural. Em várias
alegações, o direito costumeiro aparecia como uma referência ao “estilo
do país”. Como exemplo, pode-se citar a ação em que Pedro da Costa
Neto, em 1790, reivindicou na justiça um negro que havia vendido a João
Pereira de Queiroz. No arrazoado, alegava-se que o autor vendia os “ne-
gros novos” que trazia para Minas Gerais mediante pagamento à vista ou
“fiados, como dirão as testemunhas, o que é estilo do País”.82

Outro direito evocado nas ações, constantemente, era o romano. Tais


alegações podem ser vistas em algumas ações judiciais de Vila Rica e
Mariana que fazem referência ao Decreto de Graciano, à Lei das XII Tá-
buas e à Lei Áquila. Para citar um caso de utilização desse direito, em
1789, Antônio da Silva e Souza, advogado em Mariana, fez a seguinte
referência:
“Em uma palavra o direito que favorece ao Autor, na sua proposta
ação de reivindicação e como querem alguns Doutores, de força velha
[sic.], na praxe de se tratarem e julgarem semelhantes ações com ex-
professo, escreveu nas suas Dubitações página 20, tratado 4 de inter-
dict., é tão certo, claro e indubitável tanto pelas leis pátrias como dos
romanos que advertiu o dito Cordeiro, Pegas de Interdict., e os mais
reinícolas, até o velho Caminha de libelos [...] Costa, nas suas Res-
(AHMIM-CSP) 1 Ofício, Códice 235, Auto 3902.
82 – Remetendo a uma discussão dos Costumes em Comum, de Thompson, e da noção de
Habitus, de Bourdieu, Carla Maria Junho Anastasia afirma que o costume pode ser consi-
derado tanto como práxis como quanto uma lei. “A Lex Custumaria (1696) apresenta os
quatro pilares em que se sustenta o costume: antiguidade, perpetuação, segurança e razão.
Quando a adoção de um ato é razoável, é considerada reiteradamente e, por sua prática
contínua, o ato torna-se um costume e, sendo praticado sem interrupção, obtém força
de lei”. O costume surge da rotina, do dia a dia. Hespanha prefere falar de padrões de
conduta, ao invés de direito consuetudinário, pois “nem todas estas normas têm o caráter
explícito e externamente controlável das normas jurídicas”. ANASTASIA. Carla Maria
Junho. Vassalos rebeldes: motins em Minas Gerais no século XVIII. Vária História, Belo
Horizonte: Editora UFMG, n.13, jun. 1994. HESPANHA, Antonio Manuel. Justiça e Li-
tigiosidade: história e prospectiva. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 53.
AHMIM-CSP , 1 Ofício, Códice 249, Auto 4286.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):15-50, jul./set. 2011 43


Álvaro de Araujo Antunes

pectivas Cotas às Relativas ações; que julgo desnecessário amontoar


autoridades quando são previstas pelo sábio magistrado a quem se
pede justiça.” 83

Mesmo depois da promulgação da Lei da Boa Razão, os advogados


de Mariana continuariam a fazer referências ao direito romano, nem sem-
pre em harmonia com as diretrizes da referida lei. Apesar de fazer menção
às leis pátrias, sem citá-las com precisão, Silva e Souza as associa, senão
as submetia, às autoridades dos “doutores de força velha” e ao direito
romano, apontando para uma tradição jurídica que demandaria tempo
para mudar. A ação da Lei da Boa Razão penetraria no terreno jurídico
segundo ritmos variáveis, de região para região, conforme a disposição
dos agentes da justiça.84

Nesse sentido, analisada a documentação do Tribunal da Relação do


Rio de Janeiro, Arno Wehling identificou a presença do direito romano
nos processos judiciais. A utilização desse direito, todavia, estaria ade-
quada às limitações apresentadas pela Lei da Boa Razão. Assim sendo, as
mudanças na legislação promovidas por Pombal não teriam sido inócuas
e estariam presentes na instância superior do Rio de Janeiro. O autor res-
saltou, contudo, que essa influência seria implícita, sendo identificada,
expressamente, em apenas alguns casos com menção direta à lei.

Nas ações de Mariana e Vila Rica, também foram poucos os casos


em que houve referência explícita à Lei de 18 de agosto de 1769. Pelo
que foi possível apurar, apenas dois, entre as centenas de processos anali-
sados, fizeram menção à dita lei.85 Em ambos os casos, a citação era feita
por um advogado que auto denominava-se “velho e experimentado”: o
doutor Antônio da Silva e Souza. Em uma dessas ações, de 1798, movida
83 – ACSM. 1 Ofício, Códice 383. Auto 8385.
84 – Segundo Wehling, “o direito aplicado no tribunal manifestou um notável misto de
tradicional e moderno, de causuísmo jurídico tipicamente Antigo Regime e de sistematici-
dade racionalista, prenunciando um novo momento”. Um ambiente que poderia gerar con-
flitos entre concepções racionalistas e tradição estabelecida. WEHLING e WEHLING.
Direito e Justiça no Brasil Colonial: o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, p.2.
85 – ACSM – 2 Ofício, Códice 204, Auto 5102 e ACSM – 1 Ofício, Códice 460, Auto
10100.

44 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):15-50, jul./set. 2011


Pelo rei, com razão: comentários sobre as reformas pombalinas no campo jurídico

pelo sargento Manoel Caetano Lopes de Oliveira para apurar os autores


de uma sátira contra sua pessoa, Antônio da Silva e Souza citou: diversas
leis, dentre elas “a nova e providencial extravagante de 18 de agosto de
1769”. Sobre esta lei, considerou:

“Eu com ela escrevo [...] com quantas ordenações se podiam lembrar,
advertir, entender é bem parecer, e por isso mesmo para não ser ex-
tenso, a ela me reposto, afastando-me de toda antiqualha, opiniões de
D.D. suas questões de nome e pareceres indiscretos, com direitos ecle-
siásticos, pontifícios, constituições de certos bispados, menos polidos
sistemas, sustentados com as leis imperiais, porque neste reino se acha
autorizado e proibido pela citada lei de 18 de agosto de 1769.” 86

Ao expurgar de “toda antiqualha” e opiniões dos doutores de direi-


to, estaria o advogado se adequando às diretrizes estampadas na Lei da
Boa Razão editada há mais de 30 anos? Talvez sim, talvez não. Talvez o
advogado não se enquadrasse nas novas condições da prática judiciária,
mas adequasse a referida lei às necessidades prementes de se constituir
um argumento sólido que pudesse convencer o juiz.

Entretanto, na outra ação em que cita a Lei de 18 de agosto de 1769,


Silva e Souza demonstrava um claro esforço em se ajustar às novas di-
retrizes legais, sem se desvencilhar totalmente da instrução que recebera
antes da reforma universitária e do “ranço” de uma prática enraizada nos
auditórios de Mariana e Vila Rica. O letrado procurava recorrer mais às
Ordenações e, apesar de considerar “desnecessário amontoar autorida-
des”, acabava citando a legislação por meio das leituras dos doutores João
Rodrigues Cordeiro, Gregório Martins Caminha “e os mais reinícolas”.87
86 – Vale lembrar que na Lei da Boa Razão encontra-se expresso que: “se não se possa
fazer uso das ditas alegações e Decisões de textos, ou de autoridades de alguns escritores,
enquanto houver Ordenações do Reino, Leis Pátrias e os usos dos meus Reinos legitima-
mente aprovados [...]”. ACSM, 2 Ofício, Códice 204, Auto 5102. TELES. Comentário
crítico a Lei da Boa Razão, p. 454.
87 – Cordeiro era bacharel em direito Pontifício e, em princípios do XVIII, escreveu Du-
bitationes in foro frequentes more juridico disputatae, & secunum jus nostrum resolutae
ex ver, & imn multis fortasse nova illius intelligentia... Quanto a Caminha, que foi advoga-
do da Casa de Suplicação, diz-se que foi “perito em ciência prática especulativa e prática
da jurisprudência civil e Canônica”. Escreveu, dentre outras obras, Da forma dos libelos e
da forma das alegações judiciais e a forma de proceder no juízo secular e Eclesiástico...,.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):15-50, jul./set. 2011 45


Álvaro de Araujo Antunes

Antônio da Silva e Souza serve de exemplo para se entender como


os advogados “velhos e experimentados” procuravam adequar seu co-
nhecimento e formação às novas diretrizes pombalinas que visavam à
modernização de Portugal. Tais mudanças não tiveram apenas o impacto
imediato da lei e da reforma da Universidade de Coimbra. Elas ecoaram
pelo tempo, fazendo velha a promessa de inovação, embotadas por ideias
ainda mais novas, como as do liberalismo. As mudanças promovidas por
Pombal teriam resultados a médio e longo prazo. Repercussões que es-
tiveram sujeitas a um diálogo de forças constituintes do campo jurídico.
Da prática da justiça dependeu a valorização das leis pátrias e do direito
natural sobre o direito civil, canônico... Nas primeiras instâncias de Ma-
riana e Vila Rica, o ambiente do direito vivo revela como as políticas
modernizadoras atingiram extremos do Império português, obedecendo
ao ritmo particular da administração local, sem, contudo, excluir as forças
do regalismo, em favor do rei, com razão.

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Fundo Real Mesa Censória, Caixa 508, Documento 4703.

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Álvaro de Araujo Antunes

Leis – Livro 9. Alvará por que V. Majestade há por bem reparar os estudos das
línguas latina, grega e hebraica e da Arte da Retórica da Ruína a que estavam
reduzidos.
Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC)
Actos e graus de estudantes da Universidade por Faculdade. Curso de direito.
José Pereira Ribeiro.
Arquivo da Casa Setecentista de Mariana (ACSM)
2 Ofício, Códice 211, Auto 5264.
1 Ofício, Códice 383. Auto 8385.
2 Ofício, Códice 204, Auto 5102
1 Ofício, Códice 460, Auto 10100.
1 Ofício, Códice 383, Auto 8385.
Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência Mineira – Casa Setecentista do
Pilar (AHMIM-CSP)
1 Ofício, Códice 235, Auto 3902.
1 Ofício, Códice 249, Auto 4286.

Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

50 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):15-50, jul./set. 2011


Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

SÚDITOS DEL-REY NA AMÉRICA PORTUGUESA:


Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e ação
judicial na Villa de Nossa Senhora da Luz dos
Pinhais de Curitiba no século XVIII
The King’s subjects in Portuguese America:
Corporate Monarchy, christian virtues and legal
action in Vila de São José dos Pinhais, Curitiba,
during the eighteenth century
Luís Fernando Lopes Pereira1
Resumo: Abstract:
O objetivo do texto é apresentar uma nova visão The aim of this text is to present a new vi-
acerca da organização político-jurídica na Amé- sion of the political and legal organization of
rica Portuguesa, defendendo a ideia da exis- Portuguese America, to defend the idea of the
tência de um sentimento de pertencimento da existence of a feeling of belonging among the
população (elites administrativas) em relação ao population (administrative elites) in relation to
Reino, destacando a importância das Câmaras the Kingdom, focusing on the importance of the
Municipais para a Monarquia Corporativa Por- Municipal Chambers vis a vis the Portuguese
tuguesa, mergulhada ainda nos padrões medie- Corporative Monarchy, still plunged in medieval
vais e em suas virtudes cristãs que orientavam o patterns and in the Christian virtues that orient-
Rei em seu governo. Ao mesmo tempo demons- ed the King in his administration. At the same
tra a existência de uma rede de comunicação time, it demonstrates the existence of a quite so-
bastante sofisticada que determinava uma maior phisticated communications network that deter-
adaptação da Ação judicial por parte dos juízes mined that common judges should better adapt
ordinários às determinações presentes nas Orde- to legal actions present in D. Felipe’s corpus of
nações Filipinas, mesmo em uma região pobre laws, including the periphery and poor regions.
e periférica. A segunda parte do texto, que trata The second part of the text, dealing with legal
da Ação judicial, mergulhou nas fontes primá- actions, resulted from an extensive research in
rias acerca das práticas do juízo curitibano e sua primary sources regarding the practices of the
relação com a Ouvidoria de Paranaguá, com a Judiciary in Curitiba and its relationship with
Capitania de São Paulo e mesmo com o Reino. the Paranagua Ombudsman, with Colonial Sao
Paulo, as well as with the Kingdom.
Palavras-chave: cidadania, organização políti- Keywords: Citizenship – Political and Legal
co-jurídica, Câmara de Curitiba, Ouvidoria de Organization – Curitiba Chamber – Paranagua
Paranaguá, direito e justiça colonial. Ombudsman – Colonial Law and Justice.

MONARQUIA CORPORATIVA E VIRTUDES CRISTÃS


Para a melhor compreensão da América Portuguesa é preciso focar a
análise na montagem da estrutura político-jurídica do Antigo Regime e de
1 – Doutor em Historia Social pela Universidade de São Paulo. Professor de História do
Direito do Curso de Graduação e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universi-
dade Federal do Paraná.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011 51


Luís Fernando Lopes Pereira

sua sociedade corporativa, profundamente vinculada aos valores cristãos


medievais.

Os clássicos que se dedicaram ao tema têm sérios problemas de aná-


lise, como atribuir à estrutura portuguesa uma centralização exagerada,
caso de Raymundo Faoro2, para o qual o sistema administrativo português
teria sido transposto com sucesso para as colônias graças a sua precoce
centralização e cooptação das elites locais. Em Caio Prado Júnior3 por
sua vez, vemos uma administração portuguesa apresentada como caótica
(sem divisão de poderes), irracional (sem legalismo), contraditória e ro-
tineira, com uma monstruosa e ineficiente máquina burocrática. Em suas
palavras: “incoerência e instabilidade no povoamento; pobreza e miséria
na economia; dissolução nos costumes; inércia e corrupção nos dirigentes
leigos e eclesiásticos.” 4 Como marxista propunha uma explicação a partir
da base material da sociedade, fundamentado no latifúndio agroexporta-
dor. Portanto, para ele, os poucos laços eram os gerados pela relação de
produção: senhor x escravo. No restante a inorganização era a regra: a
população à margem, tendia para a desagregação social (caboclização e
vadiagem nos seus termos). A mesma perspectiva é seguida por Fernando
Novais5. Embora sob outros marcos teóricos, o mesmo desleixo é aponta-
do por Sérgio Buarque de Holanda:
“A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território,
dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas
à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato
dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distan-
tes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, tim-
brando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e
hostil, somos ainda hoje desterrados em nossa terra.” 6

2 – FAORO, Raymundo. Os donos do poder; formação do patronato político brasileiro.


São Paulo: Globo, 2000.
3 – PRADO, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. In: Intérpretes do Brasil. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 2002.
4 – Ibidem, idem. p. 1444.
5 – NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777
-1808). São Paulo: Hucitec, 1983.
6 – HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras,
1995, p. 31.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

As estruturas locais seriam soltas e desleixadas. Afinal, para ele “uma


digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobiliante,
a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de
cada dia”. 7

Gilberto Freyre, por sua vez, adepto da tese da descentralização e


criador da ideia da democracia racial,8 afirmava que “os interesses agrá-
rios dominavam ainda a presidência da maior parte das províncias, a jus-
tiça e a polícia”.9 Portanto, para parte significativa dos grandes clássicos
das ciências humanas do Brasil, a administração portuguesa na América
é vista a partir da dicotomia centro-periferia, intensificada pelo espírito
pós-independência. Destaca-se aqui, ao contrário, a construção na colônia
de ideias de pertencimento que montaram certa cidadania na América do
Antigo Regime Português, fundamentalmente presente nas cidades, base
da administração portuguesa colonial.

Em Portugal, e consequentemente no Brasil, o poder no Antigo Re-


gime era uma realidade compartilhada por diversos polos sociais, mar-
cando o confronto entre o modelo “honorário” e o modelo “burocrático”
de administração da justiça. Predominava uma concepção corporativa da
sociedade que possuía uma crença na ordem universal do cosmos, que
abrange homens e coisas orientados para o criador, com fim transcenden-
tal.

O Universo era visto ainda como na Idade Média, como um cosmos


ordenado, o que implica dizer que a parte, o elemento singular, não é
compreensível se não o referenciarmos a uma totalidade que o inclui e as-
sinala sua colocação e destinação. No Antigo Regime a ideia permanece,
afinal “a sociedade e a cultura do antigo regime continuam a reconhecer-
se na ideia de um cosmos harmonicamente ordenado, na ideia de uma
sociedade que, por graus, distinções e dignidades diversas se ordena re-

7 – Ibidem, idem. p.39.


8 – Ver: FREIRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o
regime da economia patriarcal. 23ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Olympio Editora, 1984.
9 – FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. In: Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 2002, p.766.

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petindo em si a mesma lógica desigual da criação”.10

A multidão é, portanto, ordenada sob o governo do detentor do po-


der em uma ordem de desigualdade e hierarquia, nervatura da sociedade
de Antigo Regime, onde a hierarquia corresponde à hierarquia do corpo
humano; “a cabeça, que rege e governa o corpo físico, corresponde ao
princeps, que preside a vida do corpo político; o coração ao senado; os
olhos e os ouvidos aos juristas”.11

O grupo social como tal é investido de poder, é titular no organo-


grama político da sociedade, possuindo iurisdictio, noção desenvolvida
principalmente pelos comentadores, entre eles Bartolo de Sassoferrato e
Baldo degli Ubaldi, a partir da ideia de que a cidade teria desde os tem-
pos imemoriais o merum et mixtum imperium. Classicamente iurisdictio
(ius dicere; dizer o direito) é tido como poder (em vários níveis e âmbi-
tos) introduzido por autoridade pública com a intenção de dizer o direito
e instituir a equidade. Tal iurisdictio é evidente nas câmaras constituintes
da administração portuguesa mesmo a partir do período tardo medieval
em que passa a dominar a concepção autoritária do poder político e juris-
dicional, segundo a qual o poder era atributo do príncipe, na realidade,

“Existiam poderes diversos e de diferentes hierarquias e âmbitos, dos


quais não se podia absolutamente dizer que descendiam de uma auto-
rização do imperador. A novidade introduzida pelos comentadores foi
de afirmar que os poderes existentes na sociedade tinham uma origem
natural, independente de qualquer concessão superior, uma vez que a
existência mesmo de corpos sociais implicava naturalmente em seu
ordenamento intimo e na faculdade de autorregulação.” 12

10 – Tradução livre do autor de: “La società e la cultura di antico regime continuano a
riconoscerci a lungo nell’idea di un cosmo armoniosamente ordinato, nell’idea di una
società che per gradi, distinzioni e dignità diverse si ordina ripetendo in se stessa la logica
diseguale della creazione.” In: COSTA, Pietro. Civitas: storia della citadinanza in Europa:
Dalla civiltà comunale al settecento. Roma/Bari: Laterza, 1999. p.66.
11 – Tradução livre do autor de: “La testa, che regge e governa il corpo físico, corrispon-
de al princeps, che presiede alla vita del corpo político; il cuore al senato; gli occhi e gli
orecchi ai giudici”. In: COSTA, Pietro. op. cit. p.9.
12 – Tradução livre do autor de: “esistevano poteri diversi e di differente gerarchia e am-
bito, dei quali non si poteva assolutamente dire che discendessero da una autorizzazione

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
ação judicial naVilla de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.

Isso demonstra que no contexto português há a permanência do plu-


ralismo, ou seja, de várias fontes do Direito. Todos os soberanos estavam
também sujeitos às leis de Deus (lei divina) e da Natureza (lei natural),
bem como às diversas leis humanas comuns todos os povos (lei das gen-
tes). Estavam também vinculados às normas que chamaríamos de cons-
titucionais por tratarem da estrutura do Reino, além de serem obrigados
também a respeitar os pactos que estabeleceram com os súditos, não ten-
do, portanto, poder arbitrário.

Claro que assistimos em Portugal a uma centralização do poder com


a formação do Estado, mas tal centralidade deve ser matizada, pois a re-
alidade portuguesa era marcada por fortes permanências medievais. Isso
fica evidente no exame da continuidade na metrópole de um pensamento
ainda vinculado à escolástica e de forte cunho artistotélico. Em relação
aos valores cristãos, percebemos pela leitura dos que deram conselhos
aos reis, que as ideias de Hobbes em seu Leviatã estavam distantes de
Portugal e de suas colônias. Ainda, maior influência é perceptível em Por-
tugal por parte das obras de Giovanni Botero13 e Tommaso Campanella14
que a de Maquiavel.

Frei António de Beja, membro da ordem de São Jerônimo, sob influ-


ência de Pico della Mirandola, em obra intitulada Breve Doutrina e En-
sinança de Príncipes, publicada em Lisboa em 1525, afirma que “todo o
Rei Lusitano que se nega Pai dos súbditos desmerece o soberano título de
rei natural”.15 Beja qualifica sua obra como lembrança ao casamento de D.
João III com D. Catarina de Áustria, invocando o fato do rei ser regedor
e governador de Deos em ha terra. A primeira parte do livro trata da sa-
bedoria e a segunda, da justiça. Entre os capítulos da Parte 1 destacam-se

dell’imperatore. La novità introdotta daí Commentatori fu di affermari che i poteri esis-


tenti nella società avevano um’origine naturale, indipendente da qualsivoglia concessione
superiore, poiché l’esistenza stessa di corpi sociali implicava naturalmente il loro ordina-
mento intimo e la facoltà di autoregolazione”. In: BENEDICTIS, Angela De. Politica,
governo e istituzione nell’Europa moderna. Bologna: Il Mulino, 2001, p. 265.
13 – BOTERO, Giovanni. La ragion di Stato. Roma: Donzelli, 2009.
14 – CAMPANELLA, Tommaso. De Política. Napoli: Alfredo Guida, 2001.
15 – BEJA, António de. Breve doutrina e ensinança de Príncipes. Lisboa, 1525, p. 4.

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os relativos às três virtudes necessárias aos príncipes: sabedoria, justiça


e prudência, o que deixa claro que no caso Português as virtudes morais
que vêm da tradição medieval cristã continuavam a orientar as ações.

Tal visão é complementada pela Parte 2, onde se destaca a discussão


da Justiça, ainda de cunho aristotélico-tomista, com forte influência es-
colástica, dividindo a justiça em comutativa e distributiva; justiça como
base da virtude real que deve ser feita a toda pessoa, favorecendo os po-
bres agravados e castigando os malfeitores, em busca de paz. No último
capítulo, observa-se: guarda-se a paz do povo com el-rei quando ele rege
e governa mais por amor do que por temor, dado que vale mais ao rei ser
amado que temido, contrariando aqui os conselhos de Maquiavel.

A influência aristotélica e sua permanência ficam ainda mais evi-


dentes no exame da obra de Jerônimo Osório, conhecido como o Cícero
português. Osório estudou em Paris (onde teve contato com Santo Inácio
de Loyola) e em Bologna (onde tomou contato com o Ius Commune a
partir das Glosas). Foi bispo de Silves e do Algarve; sua grande obra de
conselhos aos príncipes, Da Instituição Real e Sua Disciplina (dirigida a
D. Sebastião) foi publicada no mesmo ano da primeira edição de Os Lu-
síadas e teve sucessivas edições em Colônia (1572,1574 e 1614) e Paris
(1583) e destacava os males da ambição de reinar, afinal para ele

“só devemos ter como rei o mais digno e honesto de todos. Porquanto
a honestidade só brilha em todo o seu fulgor quando a razão, a parte
mais nobre de nosso espírito, conseguir a supremacia e administrar
acertadamente o reino que a natureza lhe confiou. Assim procederá
quando, dentro da devida medida, reprime desatinos, refreia paixões,
modera afectos e deles se faz obedecer”.16 Diferencia aqui Osório o
soberano virtuoso do tirano, “aquêle que não atender a Deus, enjeitar
os ditames da razão, der guarida à impureza e ao prazer; o que violar
as leis divinas e humanas e recorrer ao dolo e à simulacro”. 17

16 – OSÓRIO, D. Jerónimo. Da Instituição Real e Sua Disciplina. Lisboa: Edições Pro-


domo, 1944, p. 6.
17 – OSÓRIO, D. Jerónimo. Da Instituição Real e Sua Disciplina. Lisboa: Edições Pro-
domo, 1944, p. 10.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

Faz também um longo elogio aos monarcas lusos e sua vinculação


a uma ideia de ordem natural, centrada da natureza das coisas, de clara
inspiração aristotélica, vendo a virtude como a manutenção desta ordem
natural, afinal “é Rei o que governa e dirige ininterruptamente a repúbli-
ca, usando de justiça e equidade para com todos, e valendo-se da garantia
segura da virtude. Reger ou governar é orientar algo para o devido fim”.18
Para Osório quem não sabe governar-se a si, não saberá governar um
povo inteiro, logo é preciso que o príncipe conheça o direito e as leis para
dominar uma república usando a razão e controlando as paixões, outro
tema caro a Aristóteles.

As virtudes que os futuros soberanos devem cultivar: a magnanimi-


dade e a temperança. Deve evitar a adulação que vicia moralmente os so-
beranos, cultivando a temperança, a sabedoria e a fortaleza, afinal, “nin-
guém poderá fazer justiça se não for avisado, magnânimo e moderado”.19
Destaca também a importância da justiça e da lei:
“Nos regimes republicanos, o poder supremo está na lei, que a nin-
guém concede graças nem de ninguém recebe ofertas, não se tomando
de ira, inveja ou ódio, nem se volvendo misericordiosa. Neles geral-
mente faz-se justiça, atribuindo a cada coisa o seu valor. (…) Por fim,
uma vez que numa república livre se põe o máximo de empenho em
conservar as leis, e como é função da lei fazer justiça a todos, por
igual, não sera fácil haver um cidadão tao poderoso que despreze as
sanções legais ou pretenda extirpar os vínculos jurídicos que os ads-
tringem a todos.” 20

Assim, para Osório seria tirano e não rei o Monarca que tolhesse
a liberdade de todos. O Monarca deve ser dotado de sabedoria divina
para saber da natureza e cultivar as virtudes, ser casto, manso, modesto
e grave, afinal “se o Príncipe houver determinado dotar a república de
bons costumes, ser-lhe-á necessário não tanto fazê-lo com ameaças e san-
ções legais, como, sobretudo, com notáveis exemplos de continência e de

18 – Idem, ibidem, p. 21.


19 – Idem, ibidem, p. 176.
20 – Idem, ibidem, p. 204.

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moderação”.21 Entretanto, dentre as virtudes morais cultivadas, a princi-


pal deveria ser a justiça, pois

“não há sacrifício tanto ao agrado de Deus como a missão da justiça;


não há geração, bem cidade, nem multidao de homens, nem, por fim,
lar algum que possa salvar-se sem justiça. (…) É, pois, por força da
justiça que tão diversas coisas estão unidas entre si pelo vínculo de
uma só lei, que tão bem se harmonizam, constituindo o ornamento
tão admirável de todo o mundo, do qual tantas são as utilidades que
dimanam.” 22

O Rei justo deveria ser fiel, manso, liberal e zeloso, além de diligen-
te em seu governo. Em seu temperamento deveria ser discreto e come-
dido, corajoso e magnânimo. Para uma virtude perseverante, requer-se
morigeração e instrução adequada, incluindo Dialética, Retórica, Ma-
temática, História e Filosofia. E também o Soberano deverá sujeitar-se
às leis. Como diz Osório, ninguém pode ser bom timoneiro se não tiver
sido marinheiro durante muitos anos. Assim, destaca o império da Lei,
vista como dádiva da bondade divina, decretos de Sua sabedoria, pactos
sacrossantos da sociedade humana, às quais devem estar submetidos mes-
mo os reis, afinal,
“Elas reprimem a violência do mal; obstam a ciladas e fraudes; con-
têm as normas da honestidade; opõem-se ao mal e à torpeza e acabam
com os motivos de discórdias. Elas proporcionam os preparativos para
a guerra; constroem as bases da paz e da tranquilidade; servem de
apoio à estabilidade da república, e prendam-na com muitas riquezas
e enfeites. Portanto, quem se sujeitar às leis será escravo da sabedoria,
da honestidade, da imortalidade, do dever e da religião.” 23

Osório vê o mundo como um cosmos, um conjunto de homens uni-


dos pelo direito; onde é a lei que distingue o Rei do Tirano, pois “o poder
do Tirano é ilimitado e independente das leis; o do Rei, porém, é circuns-

21 – Idem, ibidem, p. 257.


22 – OSÓRIO, D. Jerónimo. Da Instituição Real e Sua Disciplina. Lisboa: Edições Pro-
domo, 1944.p.258.
23 – Idem ibidem. p. 371.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

crito pela justiça e pela lei”.24 Quando fala em leis, destaca não apenas as
escritas, mas também os costumes admitidos por todos.

Evidente que no caso português, com a montagem de uma estrutura


monárquica, assistimos à passagem descrita por Norbert Elias de uma
sociedade de guerreiros para uma sociedade de cortesãos25, onde ao redor
da Corte Real se desenvolvem as intrigas e jogadas políticas que substi-
tuem parte da violência direta, a partir do momento em que o soberano
submete os outros nobres a seu poder, passando a distribuir privilégios
em uma economia moral do dom. Assim, a novidade com o Príncipe é o
estabelecimento de uma rede que o liga aos súditos, acrescentando aos
mesmos uma nova dimensão da cidadania, antes apenas local.

CIDADANIA E ELITES CAMARÁRIAS


A ideia é demonstrar, ao contrário das teses tradicionais acerca do
período colonial brasileiro, que havia mesmo nos cantos mais pobres e
supostamente “desleixados” do Império português uma sensação de per-
tencimento, tanto ao Reino, com elos fortes simbólicos estabelecidos
com o Rei, como com a elite local, coesa e relativamente homogênea nas
Câmaras municipais. Ainda, demonstrar que o controle institucional era
feito de forma sofisticada e bem estruturada, embora as determinações
metropolitanas fossem sempre adequadas a uma realidade que exigia do
direito soluções novas e diversas daquelas presentes no ambiente portu-
guês.

A cidadania aqui é concebida, sob inspiração de Pietro Costa, como


pertencimento, transformando-se em um termo que toca alguns pontos
nevrálgicos da sensibilidade política. O período tratado é o século XVIII,
na América Portuguesa, tributária ainda de uma concepção corporativa da
sociedade e vinculada a elementos da cultura medieval, embora agora to-
dos os súditos passem a estar vinculados ao soberano que confere unidade
à diversidade do mundo corporativo do Antigo Regime.

24 – Idem, ibidem, p. 373.


25 – ELIAS, Norbert. O processo civilizacional. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

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Logo, aqui serão fortes os vínculos entre os súditos e o soberano, que


produzirão uma nova imagem do sujeito e de seus direitos, bem como uma
nova definição de ordem. Isto ficava evidente na vasta correspondência
gerada pelas unidades coloniais portuguesas. Temos um intenso contato
entre as Ouvidorias e as Câmaras e entre estas e o Governo da Capitania
e mesmo o Reino, em que pesem todas as dificuldades de transporte ex-
perimentadas na colônia. Destaque aqui para o espaço de construção de
tal cidadania, as câmaras, “instituições fundamentais na construção e na
manutenção do Império ultramarino. Elas se constituíram nos pilares da
sociedade colonial portuguesa desde o Maranhão até Macau, pois garan-
tiam uma continuidade que governadores, bispos e magistrados passagei-
ros não podiam assegurar”.26
Isso dava a Portugal uma uniformidade institucional, pois todos os
conselhos eram dirigidos por uma câmara, composta em geral por um
juiz-presidente, dois vereadores e um procurador. Apesar disso cada câ-
mara tinha uma configuração própria, respeitando as particularidades lo-
cais, possuindo em geral uma grande autonomia em relação ao governo
central,
“Com efeito, tal como no continente europeu, também no território
brasileiro se pode falar da municipalização do espaço político local.
As câmaras municipais e as respectivas elites locais cobriam a maior
parte do território povoado da colônia e eram o principal interlocutor
das diversas instâncias sul-americanas da Coroa. Mantinham, ainda,
tal como na Europa, por meio das petições, uma comunicação polí-
tica frequente com a administração central. No fundo, constituíam o
principal instrumento de integração política da colônia e das suas eli-
tes no espaço imperial, o que pressupunha, tal como foi recentemen-
te sugerido, uma apreciável margem de negociação. Em vez de um
modelo de centralização ineficaz, talvez seja mais adequado pensar o
espaço político colonial como uma constelação de poderes, com algu-
ma capacidade para mutuamente se limitarem, na qual as elites locais
brasileiras se exprimiam politicamente, sobretudo por intermédio das
câmaras municipais.” 27

26 – BICALHO, Maria Fernanda Baptista. As câmaras ultramarinas e o governo do Im-


pério. In: FRAGOSO, João (org.) O antigo regime nos trópicos; a dinâmica imperial
portuguesa (séculos XVI - XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 191.
27 – MONTEIRO, Nuno Gonçalves F. Trajetórias sociais e governo das conquistas: Notas

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
ação judicial naVilla de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.

Chega a se montar mesmo uma oligarquia camarária, grupo social


de gente nobre da governança, alargando os estratos terciários urbanos
e ampliando a nobreza. Criaram um estado intermédio ou privilegiado,
equidistante da antiga nobreza e do povo, que se sentia participante do
grupo aristocrático e assumia seus valores, seus padrões de conduta,
afinal “a ocupação de cargos na administração concelhia constituíra-se,
portanto, na principal via de exercício da cidadania no Antigo Regime
português”.28

Essa centralidade da cidade nos remete à análise de Costa sobre o


termo cidadania, afinal a palavra, em diversas línguas da Europa Oci-
dental, evoca a cidade. Logo, a matriz do nexo entre indivíduo e estado
é a cidade, que se dá a partir de experiências e cultura diversas, afinal “é
um nome coletivo, que pode indicar a síntese de muitos na unidade do
ordenamento, mas também a pluralidade dos sujeitos que a compõe”.29
Representa, portanto, os habitantes da cidade, de um lado, e sua condição
de membro da comunidade, de outro. A cidade portuguesa se caracteriza
exatamente assim.

Cidade que, para Costa é uma formação política onde o momento


associativo é fundamental (associação de cidadãos). Esse elo sagrado se
verifica na América Portuguesa, em particular no século XVIII, quando
ocorre um grande surto urbanístico e mantém no Brasil a característica
ainda medieval da cidade, qual seja, a autonomia como seu aspecto prin-
cipal da Communitas civium, “autonomia como capacidade de dar-se um
ordenamento, como expressão do impulso ‘constituinte’ de um sujeito
coletivo. O livre pulular de formas associativas, das quais a cidade co-

preliminares sobre os vice-reis e governadores-gerais do Brasil e da Índia nos séculos


XVII e XVIII. In: FRAGOSO, João (org.) O antigo regime nos trópicos; a dinâmica im-
perial portuguesa (séculos XVI - XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp.
282-283.
28 – BICALHO, Maria Fernanda Baptista. Op. cit., p. 2004.
29 – Tradução livre do autor de: “è un nome collectivo, che può indicar nela sin-
tesi dei molti nell’unità dell’ordinamento, ma anche la pluralità dei soggetti che
la compongono”. In: COSTA, Pietro. Civitas: storia della citadinanza in Europa:
1. Dalla civiltà comunale al settecento. Roma/Bari: Laterza, 1999, p. 4.

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munal é a expressão politicamente mais significativa”.30 Essa autonomia


legislativa é perceptível na América Portuguesa na análise das Posturas
Municipais que, se de um lado eram uma tentativa clara de realização do
sonho colonial português e da imposição de um mundo de ordem lido na
natureza das coisas, era ao mesmo tempo adaptado de tal maneira que
se caracterizava como algo particular. Desta forma, o nexo forte entre
sujeito e corpo político permanece no caso Português por sua base muni-
cipalista, afinal, ensina Costa,

“o nexo forte que a cultura medieval e pós-medieval instaura entre o


sujeito e o ‘corpo’ político, entre o indivíduo e a cidade não é desti-
nado a exaurir-se com diminuição das condições históricas que lhe
gerou: é um tema de fundo do discurso da cidadania, que não para de
recriar e reformular, entre coordenadas culturais sempre diversas, o
momento de ligação vital do sujeito com o corpo político.” 31

A cidade, apesar das transformações, mantém uma vitalidade e au-


tonomia político-institucional, mantendo certas continuidades, como o
nexo que liga o cidadão à comunidade política e mesmo uma autonomia
de autogoverno, afinal passa a ter em si mesma os fundamentos de sua
legitimidade, não necessitando buscá-los fora, experimentando uma nova
valorização da ação política dos cidadãos, com uma refiguração que faz
da participação política um valor republicano. Até porque na base de uma
antropologia política, pressupõe-se o Príncipe como capaz de se apoderar
do objeto Estado, mas a cidade não pode ser esse objeto. A virtude do
príncipe e dos cidadãos se mistura com a política (manutenção do Estado)
e afirma a capacidade do sujeito; desta forma a cidadania republicana exi-

30 – Tradução livre de: “autonomia come capacita di darsi un ordinamento, come es-
pressione delo slancio ‘costituente’ di um soggetto collettivo. Il libero pullulare di forme
associative, di cui la città comunale è l’espressione politicamente piu significativa.” In:
COSTA, Pietro, op. cit., p. 5.
31 – Tradução livre do autor de: “Il nesso forte che la cultura medievale e post-medievale
instaura fra soggetto e il ‘corpo’ político, fra l’individuo e la città non é destinato ad esau-
rirsi con il venir meno delle condizioni storiche che lo hanno generato: è un tema di fondo
del discorso della citadinanza, che non cessa di ricreare e riformulare, entro cordinate
culturali sempre diverse, il momento del legame vitale del soggetto con il corpo político.”
In: COSTA, Pietro, op. cit., p. XX.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
ação judicial naVilla de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.

ge uma virtude própria que coincide com a ação politicamente orientada


à salvaguarda da cidade, fazendo com que a relação se reforce.

A cidadania, percebida como ligação do cidadão com a comunidade


política, na América Portuguesa, intimamente relacionada com os conse-
lhos, busca a percepção da multiplicidade de posições subjetivas, onde a
questão central, inspirada por Costa, é verificar como isso constitui o per-
tencimento do sujeito à comunidade política, afinal, o sucesso do aparato
institucional português dependia de um forte envolvimento dos membros
da cidade na política colonial,
“Esse pertencimento não pode ser descrito simplesmente recorrendo
aos elementos de ordem e hierarquia. Na conexão da cidadania não
se confrontam apenas diferentes posições de poder: o ente hierarqui-
camente superior é uma grandeza coletiva cuja relação com o sujeito
obediente é uma conexão de comando e também de inclusão.” 32

Daí a relação entre pertencimento e inclusão. Por isso Bartolo definia


a cidade como patria singularis, distinta de uma possível patria commu-
nis. Esse zelo pela coletividade fica evidente nas funções atribuídas aos
que deveriam desempenhar os cargos públicos no Império Português, ca-
racterizando a política como arte do bom governo, como governo da coisa
pública visando ao bem comum. É da cidade que o indivíduo recebe o
dom de uma vida civil, a destinação e o alimento de seu ‘patriotismo’, a
fonte de suas obrigações e de seus privilégios. Nesse contexto histórico
“existe não o sujeito, mas uma multiplicidade de condições subjetivas
hierarquicamente conexas”33.

Entretanto, a questão do pertencimento passa a ser avaliada tam-


bém na relação que se estabelece com o soberano, em uma sociedade

32 – Tradução livre do autor de: “questa appartenenza non può essere descritta semplice-
mente ricorrendo agli elementi dell’ordine e della gerarchia. Nel rapporto di citadinanza
non si fronteggiano solo differenziate posizioni di potere: l’ente gerarchicamente supe-
riore è una grandezza collettiva il cui rapporto con il soggettto obbediente è un rapporto
di comando in quanto è anche um rapporto di inclusione.” In: COSTA, Pietro. op. cit., p.
20.
33 – Tradução livre do autor de: “Esiste non il soggetto, ma una molteplicità di condizioni
soggettive gerarchicamente connesse.” In: COSTA, Pietro, op. cit., p. 41.

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composta por corpos e poderes diversos que encontra exatamente nele


(soberano) a condição de sua unidade enquanto este em contrapartida res-
peita os limites, harmonizando as partes. Novamente em Costa,

“Todos os cidadãos são igualmente súditos do soberano, mas cada um


depende do soberano em razão do status ao qual pertence: o discurso
da cidadania e da soberania e a teoria das ordens se combinam perfei-
tamente (...) A relação direta com o soberano é aquela de um sujeito
que, na hierarquia do status, ocupa aquela posição de ‘governador da
casa’ à qual já todo o discurso medieval da cidadania se referia: status
familiae e status libertatis (o cidadão é um súdito livre) continuam a
delimitar ‘de baixo’ o âmbito da cidadania.” 34

É a lógica representativa e corporativista que a tradição medieval


reiteradamente exprimiu: os poucos representam os muitos, os poucos
são os muitos35. O corpo se realiza na hierarquia das ordens e dos Esta-
dos e vice-versa, logo a ideia corporativa prevalece. No Antigo Regime
Político não haveria, portanto, separação entre Estado e sociedade civil.
Entendia-se que a jurisdição dos órgãos periféricos (cidades, senhorios,
mas também oficiais) era sua própria (e não delegada) e inatacável pela
Coroa, mesmo através da lei. Havia uma representação do sistema po-
lítico como uma articulação (hierarquizada) de múltiplos círculos autô-
nomos de poder (corpora, communitates) – as famílias, as cidades, as
corporações (artesanais e culturais), os senhorios, os reinos, o Império. O
poder das estruturas superiores era destinado a manter o equilíbrio natu-
ral da sociedade. Tal centralização seria ainda mais irregular no Império
Ultramarino.

34 – Tradução livre do autor de: “Tutti i cittadini sono egualmente sudditi del sovrano, ma
ciascuno dipende dal sovrano in ragione dello status al quale appartiene: il discorso della
cittadinanza e della sovranità e la teorica degli ordini si combinano perfettamente (...) La
relazione diretta con il sovrano è quella di un soggetto che, nella gerarchia degli status,
occupa quella posizione di ‘governatore della casa’ cui già tutto il discorso medievale
della cittadinanza si riferiva: status familiae e status libertatis (il cittadino è un suddito
libero) continuano a delimitare ‘dal basso’ l’ambito della cittadinanza.” COSTA, Pietro,
op. cit., p.77.
35 – HESPANHA, António Manuel. A política perdida. Curitiba: Juruá, 2009.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

AÇÃO JUDICIAL NA VILLA DE NOSSA SENHORA DA LUZ DOS


PINHAIS
Curitiba teve suas origens nos meados do século XVII, como resul-
tado da expansão paulista em direção ao sul. O que atraiu a população
paulista foi a descoberta de ouro de aluvião, cuja decadência fez com que
o lugarejo retrocedesse. Foi elevada à condição de vila em 4 de novembro
de 1668, com a ereção do pelourinho pelo capitão-mor Gabriel de Lara,
que desempenhava a função também de capitão povoador, alcaide-mor e
ouvidor nomeado pelo Marquês de Cascais, responsável pela Capitania
de Paranaguá desde 1660. Apenas em 1711 a Capitania (40 léguas do sul
de Superagui a Laguna), conjuntamente com as demais terras de doação
feita em 1534 a Pero Lopes de Souza, foi vendida à Coroa por 40.000
cruzados.36 Ocorre aqui a progressiva eliminação do sistema de capita-
nias hereditárias por capitanias régias.37 Determinadas famílias garanti-
ram para si o controle e acesso a certas posições, bem como o conjunto de
privilégios. A partir do século XVIII o Brasil está no ápice do quadro da
administração portuguesa, acima de Angola, Goa e Macau. O documento
da instauração do Pelourinho afirma:

“Saibão quantos este publico instrumento de poce e levantamento de


Pelourinho virem em como aos quatro dias do mez de novembro de
mil seissentos e sessenta e oyto annos, nesta vila de Nossa Senhora
da Lux dos Pinhaes estando o Capp. tam mor Gabriel de Lara nesta
vila em presença de mim Tabeleão fizerão os moradores desta dita
vila requerimento perante elle, disendo todos a húa voz que estavão

36 BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-


tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VI. Fundação da Villa de
Curytiba (1693-1735). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927.
37 – A extinção da capitania de São Vicente em 1709 resultou no restabelecimento da ca-
pitania de São Paulo e Minas do Ouro, independente do Rio; em 1713, a Capitania do Rio
Grande de São Pedro e em 1720 o desmembramento da capitania de Minas. A capitania
de Santa Catarina foi desmembrada de São Paulo em 1738, sendo anexada à do Rio, bem
como todo o território do Rio Grande. 1748 capitanias de Goiás e Mato Grosso, desmem-
brada de São Paulo que foi anexada à do Rio. Ver: GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Po-
der político e administração na formação do complexo atlântico português (1645-1808)
In: FRAGOSO, João (org.) O antigo regime nos trópicos; a dinâmica imperial portuguesa
(séculos XVI - XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, pp. 285-316.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011 65


Luís Fernando Lopes Pereira

povoando estes Campos de Coritiba em terras e limites da demarcação


do Snr. Marquez de Cascais, e assim lhe requeirão como Capp. m mór
e Procurador bastante do dito Sn.r mandasse levantar Pelourinho em
seu nome por convir assim ao serviço de S. Magestade digo del-Rey
e acressentamento ao donatário e visto orrequerimento dos moradores
ser justo mandou logo levantar Pelourinho com todas as solemnidades
necessárias em paragê e lugar desente nesta praça de que mandou pa-
çar este termo por mim Tabeleão onde todos se asignarão com migo
Antonio Martins Leme que o escrevy.” 38

Entretanto a eleição do conselho da Câmara (da Justiça, vereadores,


procurador e almotacés) só se deu em 1693.39 O pedido havia sido feito a
Matheus Leme da seguinte forma:

“Os moradores todos assistentes nesta povoação de Nossa Senhora da


Lux e Bom Jesus dos Pinhaes que atendendo ao serviceo de Deos e o
de S. Magestade que Deos o guarde paz quietação e bem comum deste
povo e por ser já hoje muy crecido por pasarem de noventa homens
e quanto mais crece a gente levão fazendo mores desaforos, e bem se
vio esta festa andarmos todos com armas namão e apelourousse dous
outros mais, e outros insultos de roubos como he notorio, e constante
pelos cazos que tem sucedido e daqui em diante sera pior o que tudo
cauza o estar este dito povo tam desemparado de Governo e desiplina
da Justiça e atendendo nos que ao diante sera pior por não aver a dita
Justiça na dita Povoação, nos ocorremos a Vm. ce como Capp. m mor,
digo Capp. tam e cabeça della e por ser já decrepito e não lhe obedece-
rem seja servido premitir a que aja Justiça nesta dita Villa, pois nella
38 – Idem, ibidem, p.47.
39 – A primeira eleição das primeiras autoridades: Seis eleitores – Capitão-Mor Agosti-
nho de Figueiredo (ex-governador militar da Vila de Santos e Capitão-Mor de São Vicente
– enviado para Paranaguá em meados do XVII para administrar as minas do sul; ficou 40
anos em CWB), Luiz de Goiz (natural de São Paulo, onde se casou com Maria de Siquei-
ra Cortes; sua filha, Catharina casou em Curitiba com Antonio Fernandes de Siqueira),
Garcia Rodrigues Velho (principais famílias de São Paulo), Joam Leme da Sylva, Gaspar
Carrasco dos Reis (filho de Baltazar Carrasco dos Reis, protetor e instituidor do altar de
N.S. de Guadaloupe na matriz de Curitiba), Paulo da Costa Leme. Juramento dado pelo
padre Antonio de Alvarenga (nomeado pelo bispado do Rio para Paranaguá e depois de
Curitiba); Nomearam para juízes – Antonio da Costa Vellozo (casado com Ana Maria,
filha de Matheus Leme) e Manoel Soares (casado com Maria Paes, filha de Baltazar Car-
rasco dos Reis); Procurador do conselho – Cap. Aleixo Leme Cabral; Escrivão – João
Roiz Seyxas.

66 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011


Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

a g.t bastante para exercer os cargos da dita justiça que faz numero de
tres povos. F. pella ordenação ordena sua Magestade que avendo trinta
homens se eleja justiça e de mais de que conta que Vm. ce por duas
vezes procurou aos Cappitains mores das Cappitanias debayxo lhe
viessem criar justiça na dita povoação sendo que não era necessario
por ter avido ja justiça em algum tempo creada pello defunto Cappitão
mor Gabriel de Lara que levantou Pelourinho em nome do Donatário,
o Snr marquez de Cascaiz. Pelo que requeremos a Vm. ce da parte de
Deus e el-Rey que visto o que alegamos e o nosso pedir ser justo e
bem comum de todo este povo o mande ajuntar e fazer eleyção e criar
Justiça e Camara formada para que asim aja themor de Deus e del-Rey
e por as couzas em caminho.” 40

A cidade nasceu na atual Praça Tiradentes, entre os rios Ivo e Belém,


que determinavam uma fronteira natural ao crescimento da cidade. Com
o esgotamento das jazidas de ouro41, a agricultura precária de subsistên-
cia passou a ser a regra econômica no Planalto Curitibano42, ligado ao
litoral por três caminhos precários: Graciosa, Itupava e do Arraial. Esse
isolamento dificultou o desenvolvimento da cidade em todo o período
colonial,

“As comunicações com a villa de Curytiba se faziam naquella época


por um caminho aberto na garganta do Itupava (...) Curytiba, nos seus
primeiros dias, teve uma vida penosa, por cauza do isolamento em

40 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-


tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume V. Fundação da Villa de
Curytiba (1693-1735). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, pp. 35-6.
41 – Há uma série de dados de transcrição do livro de Registro de ouro e prata entregue
ao Juízo Ordinário de Curitiba a Manoel Roiz Motta para remessa a Caza de Fundição de
Paranaguá (1730) – nessas transcrições percebe-se que algumas centenas de oitavas de
ouro mal davam para os gastos dos mineradores e muito menos da Villa. In: BOLETIM
DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a História do Paraná.
Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume X. Resoluções, Ordens e Provizões e Termo
de Vereanças (1721-1736). Curitiba: Impressora Paranaense, 1924.
Há nesse volume também a transcrição do livro de Registro de ouro e prata entregue ao
Juizo Ordinário de Curitiba a Manoel Roiz Motta para remessa a Caza de Fundição de
Paranaguá (1730) – algumas centenas de oitavas de ouro mal davam para os gastos.
42 – Geograficamente a cidade de Curitiba se localiza em um planalto, chamado Primeiro
Planalto. Sua posição geográfica, há mais de 900 metros acima do nível do mar e cercada
de serras por todos os lados, dificultou seu contato com as outras localidades coloniais.

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Luís Fernando Lopes Pereira

que ficava e da dificuldade de comunicação com São Paulo, quer pelo


interior, quer por mar (...) O plateau de Curityba é uma zona quasi
toda de campos e de florestas de pinheiros, no meio da qual se acha a
cidade.” 43

A função de centro dessa cidade colonial era exercida pela Igreja


Matriz44, marcada pela precariedade em particular pelas instabilidades
do terreno, pela ação de um lençol freático e pela falta de forro45. A ne-
cessidade de abastecer de gado a região mineradora fez com que a vila
de Curitiba, “aparentemente destinada a situação preponderante, atraiu
pouca população, e medrou, precariamente, enquanto não lhe deu vida
o comércio de trânsito, principalmente de muares procedentes do sul”46.
Entretanto a questão da produção agrícola não se alterou e os problemas
de abastecimento eram frequentes.47

A sociedade que se forma nesse período inicial era escravocrata e


mesclada48. Em 1693 há o primeiro requerimento para a criação de Jus-
tiças que os habitantes da vila encaminharam ao capitão-povoador, pois
43 – POMBO, José I. da Rocha. O Paraná no Centenário. 1500-1900. Rio de Janeiro:
Typographia Leuzinger, 1900, pp. 64; 67-68; 71.
44 – Ermelino de Leão acreditava que a capela de Curitiba teve origem em 1654 e que
teria resistido até 1714, quando se projetou a nova matriz, concluída em 1720. Nessa ma-
triz, ainda precária e com defeitos de construção, realizavam-se tanto os ofícios religiosos
como a inumação de cadáveres, pois a cidade ainda não tinha um cemitério, construído
apenas no governo do Presidente Provincial Zacarias Góes de Vasconcelos, em 1854. Ver:
LEÃO, Ermelino Agostinho de. Curitiba. Boletim do IHGEP, V. XLVIII, 1993, p. 54.
45 – Em 1756 o Ouvidor-Geral autorizou o início dos reparos, mas as obras foram lentas
e ineficazes, pois quando se recuperava uma parte outras já estavam em ruínas, apesar
das somas gastas pois, “segundo alguns dados officiaes que encontramos nos Relatórios
da Presidência, a antiga e demolida matriz de Curytiba custara de 1853 a 1859 cerca de
25:445$890 rs.; e, posteriormente, até 1861, a verba de 17:680$620 rs; a fóra a quantia de
4:000$000 que foram doados”. ILLUSTRAÇÃO PARANAENSE, Curitiba, mar. 27, p.
21.
46 – ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial. Brasília: Editora da Univer-
sidade, 1963, p. 130.
47 – BURMESTER, Ana Maria de Oliveira. A população de Curitiba no século XVIII
(1751-1800) segundo os registros paroquiais. Curitiba, Dissertação, Mestrado, UFPR,
1974. Segundo Burmester, em 1800 os gêneros produzidos e utilizados incluíam o milho,
feijão, farinha de trigo, toucinho, congonha, bestas, bois, poldros.
48 – Em 1772 havia na vila 907 homens, 928 mulheres e 104 escravos (total de 1.939).
Ver: BURMESTER, op. cit.

68 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011


Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

os mesmos passavam do número de noventa.49 Cada câmara tinha uma


configuração própria, embora em geral fosse composta por um juiz-presi-
dente – ordinário, eleito localmente –, dois vereadores e um procurador.
Eleitos e confirmados pela administração central da Coroa ou pelo senhor
da terra, caso a vila ou cidade se localizasse no interior de um senhorio.

A partir do século XVIII, fruto da recuperação econômica trazida


pelo gado, Curitiba se insere no sistema colonial, passando inclusive a ter
escravos negros africanos em substituição à antiga escravidão indígena.
A câmara se estrutura e, embora o número de juízes ordinários fosse ir-
regular, não houve hiato e os processos aumentaram em número e valor.
As elites camarárias também se montam, recebendo sesmarias e casando
entre si.

49 – BOLETIM DO ARQUIVO MUNICIPAL DE CURITIBA. Documentos para a His-


tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume V. Curitiba: Impressora
Paranaense, 1906. Aos vinte e nove dias do mez de Março da era de 1693 annos, nesta
Igreja de Nossa Senhora da Lux e Bom Jesús dos Pinhais por despacho desta petissão se
ajuntou o povo todo desta villa e pellocapp.m della lhe foi perguntado o que todos res-
ponderam a voz alta lhe criasse justiça pera com isso ver si ivitavam os muitos desaforos
que nella se fazião, o que vendo o dito capitão hera justo o que pedião-lhe respondeu que
nomeassem seis omens de samconsiençia para fazerem ofiçiaes que aviam de servir, o que
logo nomearão para com o dito capitam povoador fazerem eleição, e como assim ouverão
todos por bem se asignaram com migo Antonio Rodrigues Seixas em falta do escrivão,
que o escrevi. Matheus Leme, Manoel Soares, Domingos Rodrigues Seixas, José Pereira
Quevedo, João Leme da Silva, João Pereira de Avellar, André Rodrigues da Silva, Miguel
Delgado, Diogo da Costa, Manoel Picam de Carvalho, Manoel da Silva Bayão, Agostinho
de Fiqueiredo, Gaspar Carrasco dos Reis, Nicolau de Miranda Franco, Antonio de Siquei-
ra Leme, João Álvares Martins, Miguel Fernandes de Siqueira, Braz Leme de Siqueira,
Francisco de Mello, Jerônimo Reis Side, Manoel Álvares Pedroso, Manoel Dias Cortes,
Antonio Rodrigues Cid, Salvador Rodrigues, Amador Nunes de Bulhões, Salvador Mar-
tins, Antonio Luiz Tigre Lamim, Paulo da Costa Leme, João Leme, Matheus Martins,
Luiz Rodrigues, Antonio do Couto, José Martins Leme, Pedro Gonçalves Martins, Mi-
guel Rodrigues, Caetano Leme Cabral, José Rodrigues Cid, Antonio dos Reis Cavalheiro,
Fructuoso da Costa, João de Siqueira, Gonçalo Pires, Lourenço Pinto, Pedro Moraes de
Monforte, Bartolomeu Nunes, Domingos André, Pedro Rodrigues, Balthazar Carrasco
dos Reis, Luiz Leme da Silva, Antonio da Costa, João Veloso da Costa, Garcia Rodrigues,
Innocencio de Medina, Roque Fernandes, Vicente de Góes, Plácido de Ramos, Luiz de
Siqueira, Antonio Garcia da Costa, Domingos Ribeiro de Abreu, José de Góes, Luiz de
Góes, João Félix Cavalgante.”

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011 69


Luís Fernando Lopes Pereira

Já em 1720, Rafael Pires Pardinho estimava a população do planalto


curitibano afirmando “haverá nas duas freguesias de Curitiba 200 cazaes,
mais de 1400 pessoas de confissão.”50 Ouvidor da Capitania de São Paulo,
Pardinho deixaria em Curitiba longos Provimentos que tiveram a inten-
ção de adequar os procedimentos jurídicos e administrativos da Câmara
aos intentos metropolitanos. Aqui vemos a montagem de uma rede de po-
der e de comunicação que demonstra uma coesão maior do que a suposta
pelas análises tradicionais. Os Provimentos do ouvidor são equiparados
à lei régia, a partir de uma consulta feita ao Conselho Ultramarino em
22 de maio de 1723, “Senhor, o Ouvidor geral que foi da Cappitania de
São Paulo, Raphael Pires Pardinho, em carta de 30 de agosto de 1721, e
Cappitulos que com Ella remeteo, que tudo com esta sob as reaes mãos
de Vossa Magestade, dá conta da Correição que fes na Villa de Pernagua,
cituação della, moradores de que compõem, cofre que fes para os bens
dos orphãos, devaças que tirou de Mortes atrozes que se havião feito, e
cadeya que deyxou ajustado se fizece.”51

Os provimentos foram dados aos juízes Francisco Teixeira e Balta-


zar Carrasco dos Reis, na casa do ouvidor Pardinho, e aconselhava como
visto acima, a construção de edifício para o Conselho da Câmara e para
a cadeia, já que as audiências dos juízes ordinários eram feitas em suas
residências e as reuniões da Câmara na Igreja, “Proveo que os juízes e
officiaes da Câmera disponhão fazerçe o mais breve que puder casas para
o conselho e cadea, pois não é decente que esteja esta Villa há tantos an-
nos e concervem outros mais sem as ter.”52 Para tal construção o ouvidor
deixara uma planta para os oficiais da Câmara e descreveu com precisão
como deveria ser a construção onde ficaria a arca com três chaves deixada
por ele para a guarda da documentação da Câmara e do Juízo Ordinário,
além do estandarte da mesma:

50 – MARCONDES, Moyses. Documento para a história do Paraná. Rio de Janeiro:


Typographia do Annuario do Brasil, 1923, pp. 20-23.
51 – Idem, ibidem, p. 17.
52 – Idem, ibidem, p. 17.

70 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011


Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

“Na forma da planta que ele deixa feita (sem passar para privados)
como não tem cal paredes de pedra e barro; faz uma descrição minu-
ciosa do edifício. Por fora ao menos 40 palmos de comprimento e 30
de largura; embaixo a cadeia com 20 por 13,5 (por conta da largura
das paredes) duas cadeias com duas janelas e acima dois cômodos
também: uma para as audiências e outra dentro para vereações. (...) A
casa do conselho se orne com cadeiras e bofete e a das audiências com
banca, e bancos para os officiaes e partes se sentarem: as enxovias
se proverão com troncos, grilhões, algemas e ferros necessários para
segurança dos presos.” 53

Deveria se fazer um termo de arrematação da obra da cadeia e casa


do conselho, oferecendo à população a obra, mas não houve interessados;
o alcaide Antonio da Motta de Oliveira, de acordo com as atas da Câma-
ra, cumpriu todas as formalidades para a arrematação da obra. Podemos
imaginar a figura do alcaide transitando pelo largo da Matriz com um
ramo verde em uma mão e a planta da Casa do Conselho (deixada pelo
ouvidor) na outra, oferecendo a arrematação do edifício. Isso demonstra
que mesmo os ritos mais formais e carregados de significado eram feitos
na retirada Vila de Curitiba, não havendo ali, portanto, nada de informal
ou improvisado. A obra acabou sendo arrematada para Diogo da Costa e
Joseph Palhano de Azevedo em troca de seis anos de subsídios de bebidas
por estanque e mais 150 mil-reis.54

O mesmo ouvidor Pardinho, em carta a Sua Majestade, explicava


o funcionamento da justiça e a ocupação nas Vilas do Sul da Capitania
de São Paulo, por onde passou, descrevendo ainda a vila de Curitiba em
carta de 30 de agosto de 1721,

“Senhor. Em 7 de Junho de 1720 dey conta à Vossa Majestade de


ter passado em Correyção às Villas do Rio de São Francisco, Ilha de
Santa Catherina, e a de Santo Antonio de Laguna penúltimas povoa-
ções de todo este Estado (...) Depões subi à Villa de Curithiba a fazer

53 – MARCONDES, Moyses, op. cit., pp.18-19.


54 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VI. Fundação da Villa de
Curytiba (1693-1735). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, pp. 98-99.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011 71


Luís Fernando Lopes Pereira

correyção, e voltey a fazella também nesta de Pernagua, em que tenho


consumido este anno. Fica a Villa de Curithiba nos campos por detrás
da Serra de Pernampiacaba, e desta dista 15 legoas (...) Esta povoação
se principiou haverá 80 annos por alguns moradores, que subirão des-
ta Villa, e levarão pella Serra acima alguas cabezas de gado vacum,
alguas egoas, que multiplicarão em forma (...) Ha no Termo 5 Legoas
para a parte do Sul da Villa hua freguecia de São Joseph, e Senhor
Bom Jesus do Perdão, e daqui vão correndo os campos (...) No anno
de 1693 se levantou esta povoação em Villa por aclamação dos mo-
radores: porque sendo do Termo desta Villa de Pernagua, ficando-lhe
tão distante, e com tanta difficuldade para lhe lá ir a Justiza, entre sy se
unirão, e fizerão elleyção de Juízes Ordinários, e Officiaes da Camara,
com que athe agora se governarão; mas com tantos abusos, como se
pode presumir de hua tão remota terra, e aonde não chegou Menistro
algum. Nella estive desde o mês de Settembro athe Fevereiro, que
todo este tempo foi necesario, para atrahir a mim aquelles homens, e
aos bons, que aparecerão, mostrar-lhes os erros, em que tinhão cahido,
e encaminhallos para o futuro procederem com mais acerto em utili-
dade, e bem dos maos. Fiz-lhe cofre para os bens dos Orphãos e arca
para archivo do Concelho, que ainda não tinhão. Ficou ajustada para
se fazer pelos bens do Concelho hua caza de pedra, e barro com duas
cadeias por baicho, e duas casas por cima para a Camara, que ainda
não tinhão. Deichey-lhes largos provimentos, que respeitão tanto ao
governo da Camara, como administração da Justiza Cível, e Crime, e
bens dos orphãos...” (21/22)

Pardinho destaca também que fez cinco devassas de mortes atro-


zes. Em seus Provimentos trata de temas os mais diversos, como a proi-
bição de religiosos fabricarem fazendas sem autorização expressa, ou a
necessidade de observação do regime de Ordenanças, fundamental para
a organização da população a ser controlada pela metrópole, “Seg. do a
elle devem os moradores d´esta Villa repartiremçe em comp. as e estas
em esquadras para promptamente poderem acudir, onde for necessário e
recomendandoce no d. to regim. to as cameras parte do regimen das ditas
ordenanças...”55
55 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VIII. Provimentos e Correi-
ções (1721-1812). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p. 9.

72 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011


Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
ação judicial naVilla de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.

Proveu o ouvidor também sobre a ação dos juízes ordinários, pro-


curando aproximar o funcionamento dos mesmos ao que estava disposto
nas Ordenações Filipinas em seu título 65. Percebe-se em Curitiba, que a
Justiça começa a tomar uma forma mais adequada aos padrões portugue-
ses no momento em que a Villa passa a se submeter à Capitania de São
Paulo, com a qual mantinha intenso contato epistolar.56 O destaque é para
a necessidade de eleição dos juízes ordinários e oficiais da Câmara que
tomavam posse das terras do Rocio, “Achou elle q’ os primeiros juises e
off. es da Câmera que ouve nesta Villa, logo tomarão posse do Rocio della
sem contradição de pessoa alguã.”57

Uma das principais preocupações do mesmo era com a demarcação


das terras do Rocio e com o lavradio das mesmas, demonstrando a perma-
nência de uma visão tardo medieval da propriedade da terra, presente no
sistema de sesmaria, que privilegia a questão da posse e do uso da terra,
proibindo a ocupação daqueles que não mantiverem o uso e a produção,
em particular em uma vila onde o desabastecimento era constante ame-
aça.

Outra preocupação constante da Ouvidoria era em diminuir o iso-


lamento de Curitiba e tentar fazer com que os caminhos para Paranaguá
fossem construídos e mantidos, o mesmo valendo para o caminho que
ligava a Vila à Freguesia de São José, para onde prevê a eleição de um

56 – Não por acaso, os processos sob a guarda do Arquivo Público do Paraná deste perí-
odo começam em 1711, quando da vinculação da Vila à Capitania de São Paulo. Embora
não existisse ainda um registro em ata das audiências dos juízes (o que também está
previsto nos Provimentos do ouvidor), os processos são instruídos e formalizados desde
a segunda década do século XVIII. Os registros começam a ser feitos a partir de um dos
Provimentos: “Proveo que os Juízes ordinários obriguem ao Tabalião tenha dous livros
encadernados igualmente, em hu dos cuais tomem os autos das querellas das pessoas que
se queixarem de alguns malefícios, e no outro livro se escreverão os ditos das testemunhas
que se perguntarem as taes querellas que ham de ser até quatro testemunhas, e que vulgar-
mente se chama somarios.” BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA.
Documentos para a História do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VIII.
Provimentos e Correições (1721-1812). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p. 29.
57 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VIII. Provimentos e Correi-
ções (1721-1812). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p. 14.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011 73


Luís Fernando Lopes Pereira

juiz de distrito, para a elaboração de devassas gerais anuais (janeirinha),


devassas para morte ou ferimentos com arma de fogo (mortes e casos es-
candalosos). Os Provimentos, assinados pelos oficiais da Câmara e pelas
pessoas de bem da comunidade58, tratavam, portanto, de uma tentativa de
adequação da ação judicial aos padrões metropolitanos.

Se em relação à questão das construções, da manutenção das mo-


radias e dos caminhos, a repetição é recorrente nos Provimentos poste-
riores, dos demais ouvidores, pouco se diz sobre as questões meramente
procedimentais da Câmara, o que permite concluir que em termos houve
uma adequação, o que fica visível nas comunicações entre a Vila e outros
níveis da administração e mesmo nos autos dos processos.

Existem Provimentos feitos em 1726, 1735, 1737, 1739, 1743, 1745,


1746, 1752, 1756, 1757, 1758, 1776, 1779, 1787, 1788, 1789, 1790, 1791,
1793, 1794, 1797, 1798 e 1799 e essas datas confirmam um aumento dos
registros e dos controles a partir da maior inserção de Curitiba no cami-
nho do Viamão e no transporte de muares; em todos os provimentos as
questões dos caminhos aparecem, desde o Provimento do capitão Manuel
de S. Payo, que “Proveo e mandou q’ os off.ais da Camara per curassem
58 – Pessoas da governança e povo assinam o documento: Francisco Teyxeyra, Balthazar
Carrasco dos Reis, João Cardoso, Manoel de Chaves de Almeida, João Martins Leme,
Manoel de Lima Pereira, Antonio Rodrigues Seixas, Joseph Palhano de Azavedo, Miguel
Rodrigues Ribas , Pedro Dias Cortes, Gracia Rodrigues Velho, Joseph Nicolau Lisboa,
Joseph de Paiva, Manoel Martins Valensa, Gaspar Carrasco dos Reis, Manoel de Macedo
Lobo, Lourenço de Andrade, Braz Domingues Velloso, João Ribeyro do Valle, Salvador
Pais, Antonio Ribeiro da Silva, Francisco de Siqueira Cortes, Manoel Gonçalves de Si-
queira, Antonio de Siqueira, João Baptista de Oliveira, Frutuoso de Lião, Bertholameu de
Souza, João Alvres Martins, Luiz Leme da Silva, Alexandre de Moraes Franco, Antonio
de Lara, Luiz Palhano de Azevedo, Manoel Picão de Carvalho, Quintiliano Leme da Syl-
va, Sebastião Ferreira, Francisco Rodrigues Ferreira, Fellix Fernandes Leite, Antonio Fer-
nandes de Siqueira, Francisco Nunes, Bithorino Fernandes Pais, Simão Borges, Miguel
Fernandes de Siqueira, Manoel Bonette, Gregório Martins, João de Chaves, Luiz Rosado,
Anastácio Alvres Pais, Pascoal Leite Fernandes, Joseph Leme, Luiz de Siqueira, João
Correa, Vericimo Pereira de Oliveira, Antonio Rodrigues Gracia, De Antonio Soares, Al-
berto Martins, Antonio Ribeiro Leme, De Gaspar Teyxeira, Amador Bueno da Roxa, João
Velloso da Costa, Francisco Hyeronimo, Domingos Gracia. In: BOLETIM DO ARCHI-
VO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a História do Paraná. Sob a direc-
ção de Francisco Negrão. Volume VIII. Provimentos e Correições (1721-1812). Curitiba:
Impressora Paranaense, 1927, p. 20.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

pessoa ou pessoas idôneas e sufficientes p.a q’ abrissem o Caminho da


Graciosa aos quaes será obrigada esta Camara a dar sem mil reis pello
abrir para se poder handar por elle com gado.”59 A precariedade das es-
tradas aparece também nos Provimentos de Gaspar da Rocha Pereira de
1743, 1745 e 1746, preocupado principalmente com o caminho para São
José, que também aparece nos Provimentos do ouvidor Francisco Lean-
dro de Toledo Rendon de 1786 e 1787 (detalhe curioso em relação a este
ouvidor reside no fato de o mesmo redigir de próprio punho seus Provi-
mentos). O mesmo tema dos caminhos para São José e Paranaguá apare-
cem com Manoel Lopes Branco e Silva em 1791, 1793, 1794 e 1796.

Passa a ser recorrente também a preocupação com a situação precá-


ria da Igreja Matriz de Curitiba, presente nos Provimentos de Manoel dos
Santos Lobatto, em 1735, 1737 e 1739, quando afirmou que deveriam
diminuir as festas para reforma da Igreja, pois “achou mais que as obras
da Igreja Matriz desta Villa em pouco mais de nada se tinhão adianta-
do por descuido ou negligencias das pessoas que ficarão nomeadas ...”60
Mandou também que se comprasse um sino pequeno no Rio e se cons-
truísse um campanário (para convocação para as reuniões da Câmara e
audiências dos juízes ordinários). O mesmo desleixo em relação a Matriz
é apontado pelo ouvidor Jerônimo Ribeiro de Magalhães em 1756, cha-
mando os paroquianos a contribuírem para a sua reforma, afinal destacou
o “pouco zelo e cuidado com que se trata da rehedificaçam da Igreja Ma-
triz desta Villa havendo esmollas promettidas com suficiência para se lhe
dar principio (...) todo o cuidado e vegilancia em que não fique interdicta
a Igreja do que resulta escandallo pela indevoçam e descuido de edificar
a casa de Deos nosso Senhor...”61

Um dos elementos que comprometia o orçamento da Câmara eram


as festas religiosas, como as solicitadas pelo ouvidor Pardinho, “Proveo
e mandou que fisessem as procições da ley que são Corpo de D.s, Sta
59 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VIII. Provimentos e Correi-
ções (1721-1812). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p. 53.
60 – Idem, ibidem, p. 67.
61 – Idem, ibidem, p. 88.

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Luís Fernando Lopes Pereira

Izabel, Anjo Custodio e S. Sebastião a custa do Conc.o...”62 Festas que


custavam caro aos cofres públicos. Em 1700 gastou-se 3$200 na festa
de S. Sebastião e não se fez a de Corpus Christi pela falta de vigário.
Esta foi realizada em 1705 custando 5$120. Ainda nos Provimentos en-
contramos a determinação do ouvidor para que “os Juizes e officiaes da
camera acistão em corpo de camera a porcisão de Corpus Christi, que o
Reverendo Vigario e fregueses devem fazer conforme o sagrado Conci-
lio Tridentino”63, sob pena de duas patacas, complementando que o juiz
mais velho levará o estandarte, que custara a Câmara em 1719 a quantia
de 21$460. Por onde passasse a procissão deveriam também carpir e lim-
par as testadas e enfeitá-las com palmas.

Em relação às festas religiosas, as mesmas seriam o ponto-chave


para a incorporação de elementos simbólicos que uniram os habitantes
da pequena vila meridional ao que acontecia na Metrópole, em particular
permitiam a adesão às tradicionais festas monárquicas, reforçando o poder
simbólico do rei e a unidade do local. Ainda, em relação a tais episódios,
toda uma rede epistolar se montava e Curitiba cumpria as determinações
centrais, como no caso das festas em comemoração aos casamentos da
família real. A primeira carta, datada de 19 de janeiro de 1786, destinada
a Sebastião José Ferreira Barroco, ouvidor da Comarca, solicitando os
festejos e comunicando os matrimônios fora enviada para a Capitania de
São Paulo e dizia:

“P.a q. Vm.ce haja de participar às Camaras das Villas da sua juris-


dição a feliz noticia dos despozorios do Sereníssimo S.r Infante de
Portugal D. João com a Sereníssima D. Carlota Joaquina, filha do
Príncipe de Astúrias; e o da Sereníssima senhora infanta de Portugal
D. Mariana Vitoria com o Sereníssimo S.r Infante de Espanha D. Ga-
briel, filho de S. Mag.e C.; e haverem as mesmas de fazerem aquellas

62 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-


tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VIII. Provimentos e Correi-
ções (1721-1812). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p. 53.
63 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume VI. Fundação da Villa de
Curytiba (1693-1735). Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p.7.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

demonstraçoens de alegria, q. se praticão em semelhantes ocazioens,


correspondentes a tão plauzivel objecto, remeto a Vm.ce a copia da
carta régia q. acabo de receber. Deos guarde a Vm.ce.” 64

A recepção na Vila de Curitiba desta carta se deu em 18 de abril do


mesmo ano, quando se determinaram os festejos a serem realizados, con-
forme relatos dos termos de Vereança,

“...e na mesma assim juntos e uniformes e encorporados forão asestir


na Igr.a Matriz desta v.a a festivid.e regia em aplauzo dos depositórios
feitos dos príncipes catholicos em que natal Igrj.a e Parochia houve
missa cantada Senhor esposto e Tedeum Laudamos, de que sendo as-
sim tudo feito findo se recolherão a esta Camr.a e nella despacharão
alguas Petissoes Depp.tas...” 65 (15)

Tal festividade reforçava o vínculo entre cidadãos e Rei, dando às


elites locais um peso simbólico mais reforçado por serem os representan-
tes de Sua Majestade na Vila, consolidando elos e encorpando as redes de
poder. Ainda nessa mesma perspectiva a Câmara recebera em 1767 um
ofício de D. Luiz Antonio de Souza, comunicando o nascimento de um
infante,
“Foi Sua Mag.e servido, por carta sua de 13 de mayo deste prezente
anno, firmado de Sua Real Mão, fazer-me a onra de participar a gos-
tosa noticia de ser Deus servido abençoar os seus Reynos, dando lhe
mais um infante, q’ nasceo no sobre d.o dia 13 de Mayo com bom su-
cesso da Sereníssima Snr.a Princeza do Brasil; e porq’ esta noticia de
tão plauzível nascim.to He de grande alegria p.a todos os fieis vassalos
do mesmo Snr, aparticipo a Vm.ce para q’ a festejem com todas aque-
las demonstrações de aplauzo, e contentam.to, que são de costume em
ocasiões similhantes, e tendo por certo q’ Vm.ces executarão, como
espero, Deus g.e a Vm.ces.” 66
64 – DEPARTAMENTO DO ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO, Secretaria da
Educação. Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo; Ofícios
do General Martim Lopes Lobo de Saldanha (Governador da Capitania). Volume 84; São
Paulo: Atena, 1961. p. 184.
65 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para aHis-
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume XXXIII. Termos de Verean-
ça. Curitiba: Impressora Paranaense, 1927, p. 15.
66 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-

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Luís Fernando Lopes Pereira

As determinações da Ouvidoria e da Capitania para a Câmara de


Curitiba tratavam de diversos assuntos. Algumas como as citadas festas
religiosas reforçavam o vínculo simbólico com a Monarquia, outras trata-
vam de temas mais jurídicos, como a proibição de circulação de pessoas
sem permissão (carta de 30 de agosto de 1775):
“Ordeno ao Dr Ouvidor-Geral da Comarca de Paranaguá faça invio-
lavelm.te observar a Ley de Policia e q. ninguém Saya da mesma Co-
marca Sem se legitimar perante o d.o Ministro, ou Justiças das Villas
donde Sahirem as quaes deve participar a formalidade da d.a Legiti-
maçam, ordenando-lhes q’ toda a pessoa que transitar sem o respec-
tivo Passaporte da legitimaçam, subpena de Ser preza pellas mesmas
Justiças ou por qualquer Auxiliar, ou Ordenança, e remetida p. a esta
Cidade: o q’ assim se executará por Serviços de S. Mag.e” 67

Ou questões relativas a práticas de polícia e controle populacional,


como neta carta de 20 de setembro de 1778, destinada a Joaquim do Ama-
ral Dias Ferraz, inspetor de registros de Curitiba,

“quando os reos tem tão abomináveis culpas, como a de Joaquim Gon-


çalves Fagundes, se não deve entrar no escrúpulo de ser mutor do
bem merecido castigo, que por aquelas se fazem dignos, antes se faz
grande serviço a Deos, ao Soberano, e ao Estado, serem ponidos para
emenda dos cumpleces, e exemplo dos mais; Pelo que Ordeno a vm.ce
mande formar lhe o sumario judicialmente dos latrocínios públicos, e
notórios e mo remeta.” 68

Tais correspondências demonstram a tentativa de padronização dos


comportamentos político-jurídicos na Vila de Curitiba, o que se intensifi-
cou a partir do momento em que a mesma foi incorporada à Capitania de
tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume XIII. Correspondências e
Actos Diversos (1721-1767). Curitiba: Impressora Paranaense, 1925, p. 27.
67 – DEPARTAMENTO DO ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO, Secretaria da
Educação. Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo; Ofícios
do General Martim Lopes Lobo de Saldanha (Governador da Capitania). Volume 84; São
Paulo: Atena, 1961, p. 71.
68 – DEPARTAMENTO DO ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO, Secretaria da
Educação. Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo; Ofícios
do General Martim Lopes Lobo de Saldanha (Governador da Capitania). Volume 81; São
Paulo: Atena, 1956, p. 37.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

São Paulo em 1711. Nas comunicações da Ouvidoria houve mesmo uma


série de despachos exigindo a alteração do juiz ordinário que havia já
ocupado o cargo em anos anteriores. Tal exclusão de nomes de juízes e a
substituição de alguns que foram para São Paulo era recorrente, demons-
trando que a intervenção da Ouvidoria na Vila era maior do que se imagi-
na. Mesmo o aumento da intensidade dos Provimentos da Ouvidoria para
Curitiba mostra o maior controle. Isso demonstra também a dificuldade
experimentada por uma vila periférica em encontrar pessoas qualificadas
para o exercício dos ofícios da Câmara. Registram-se vários pedidos de
dispensa de função de almotacé, juiz e mesmo de escrivão, por moti-
vos diversos. Alguns se declaravam impedidos por questões financeiras,
como Manoel dos Santos Cardoso,
“Nobelisimos Snr.s do Conselho
Diz Manoel dos Santos Cardozo que tem sido notificado pelo Escri-
vam deste Conselho, que o sup.te saira nos pellouros que se abrio para
officiaes da Camara que haviam servir o anno vendouro de 1751 em
cuja eleiçam sahio por procurador desta Camara (...) não pode fazer
porque he homem summam.te pobre, casado com mulher pobre, sem
ter bens alem disso, para sustentar sua família estava por feitor em a
fazenda de Lucas Francisco com redndas também limitadas...” 69

As intervenções chegavam ao ponto de sugerir a exclusão de algumas


pessoas de suas funções por terem tido problemas em outras Comarcas ou
vilas, como o caso de Manoel Vieira. Em carta de 12 de agosto de 1778
o governador da Capitania de São Paulo dizia ao ouvidor da Comarca de
Paranaguá, Antonio Barbosa de Mattos Cotinho, sobre o tal Dr. Vieira,
que exercia o cargo de juiz ordinário,
“que sahio banido da Villa de Santos, e se retirou desta cidade com
mais preça, por não padecer o castigo dos seus petulantes requeri-
mentos, haja vm. ce, sendo um Ministro tão famigerado de o concen-
tir, não só no auditório dessa Villa, mas ao mesmo tempo, que Pro-
motor Eclesiástico, Juiz Ordinário, e advogado; eu bem quizera, que

69 – BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para a His-


tória do Paraná. Sob a direcção de Francisco Negrão. Volume XIII. Correspondências e
Actos Diversos (1721-1767). Curitiba: Impressora Paranaense, 1925, p. 24.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011 79


Luís Fernando Lopes Pereira

vm. ce atendendo a sua própria concervação emendace aquela dezor-


dem, porque nada sentirei, como por ella, possa vm. ce de sofrer o
mais mínimo disgosto.” 70

Em resposta, a Ouvidoria suspendeu o referido juiz,

“Fez vm.ce muito bem em suspender de Juiz Ordinário ao Dr. Manoel


Vieyra em quem espero que com este castigo e a advertência que vm.ce
lhe deve fazer, para que regule sua conduta, faça esquecerme athé aqui
praticada, e me não encite ao que com violência sempre faço, que hé o
castigalo, não só como mandar exterminar desta Capitania, mas antes
della ahi purgar o que athé agora tem feito, que não hé pouco e bastava
para ser muito a falcicima conta q’ o anno passado, como Procurador
Ecleziastico deu ao Ex.mo R.mo Snr’ Bispo Deocezano, tão falta de
verdade, como consta da informação que vm.ce me deu, e com que
moderei o animo daquele Prelado, e evitei com bastante prudência a
quebra, a que só se dirigia hua tão pernicioza entriga.” 71 (34)

Outros pedidos feitos pela Capitania ao ouvidor de Paranaguá versa-


vam sobre elementos curiosos, como a solicitação feita a Antonio Barboza
de Mattos Coutinho para que entregasse à Capitania uma certa quantidade
de nós de pinho, afinal, “na Curitiba me consta que nos muitos pinheiraes
que ali há, se achão infinitos Nós de Pinho, q. já secos andão pelo chão e
porque tenho gosto de fazer algumas obras destes, por se achar aqui pre-
zentemente hum bom ofecial do Torneiro...”72 Ou a destinada a José dos
Santos Roza, Capitão de Cavalaria em Curitiba, solicitando onças vivas:
“Com a carta de Vm.ce de 4 de Março me forão entregues os cinco couros
de onças, q. devo agradecerlhe, sem embargo deq. todo meu empenho,
era q. se apanhassem algúas vivas p. a mandar a S. Mag. e pelo que dei-
xandome obrigado o cuidado, q. Vm.ce tem tido em apanhallas vivas,
seria o mayor favor...”73
70 – DEPARTAMENTO DO ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO, Secretaria da
Educação. Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo; Ofícios
do General Martim Lopes Lobo de Saldanha (Governador da Capitania). Volume 81; São
Paulo: Atena, 1956, pp. 16-17.
71 – Idem, ibidem, p. 34.
72 – Idem, ibidem, p. 59.
73 – Idem, ibidem, p. 169.

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Súditos Del-Rey na América Portuguesa: Monarquia Corporativa, virtudes cristãs e
Villa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba no século XVIII.
ação judicial na

Em relação ao conhecimento ou não das leis metropolitanas, per-


cebe-se que a Câmara de Curitiba possuía uma cópia das Ordenações
Filipinas, comprada no início do século XVIII pelo valor de 30$460. As-
sim, a elite da Câmara se fortalecia e se consolidava como elite local, ao
mesmo tempo em que realizava, na medida do possível e com adaptações
às particularidades locais, o sonho metropolitano. Como destaca Maria
Fernanda Bicalho, esses “nobres” ou cidadãos sentiam-se participantes
do grupo aristocrático e assumiam seus valores, seus padrões de conduta,
o viver ao estilo da nobreza: “a ocupação de cargos na administração
conselhia constituíra-se, portanto, na principal via de exercício da cida-
dania no Antigo Regime português.”74 Cidadãos eram aqueles que, por
eleição, desempenhavam cargos administrativos nas câmaras, bem como
seus descendentes. Muitos receberam honras, liberdades e privilégios por
atos régios.75

Às câmaras pertenciam também oficiais indicados pelos vereadores,


como os almotacés (responsáveis pela regularidade do abastecimento dos
gêneros, pela fixação dos pesos e medidas e pela vigilância sobre os pre-
ços) e os escrivães do judicial (providos pela Coroa ou pelo senhorio).

Havia também uma atividade legislativa das câmaras municipais, na


qual o juiz ordinário, em conjunto com os demais oficiais da Câmara (ve-
readores e procurador), elaborava a legislação local. Possuía também atri-
buições como as de representar a Câmara contra as ações particulares que
prejudicassem o interesse comum. Cada vila tinha também dois tabeliães
que se tornavam escrivães dos autos, cargos preenchidos em arrematação
trienal em praça pública.

74 – BICALHO, Maria Fernanda Baptista. As câmaras ultramarinas e o governo do Im-


pério. In: FRAGOSO, João (org.) O antigo regime nos trópicos; a dinâmica imperial
portuguesa (séculos XVI - XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001 (189-222),
p. 204.
75 – O que será chamado de economia moral do dom, ver: BICALHO, Maria Fernanda
Baptista. As câmaras ultramarinas e o governo do Império. In: FRAGOSO, João (org.) O
antigo regime nos trópicos; a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI - XVIII). Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, (189-222).

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Luís Fernando Lopes Pereira

A Câmara funcionava supletivamente à autoridade dos juízes ordiná-


rios e era simultaneamente judicial, legislativa e administrativa. Em épo-
cas de colonização incipiente, havia maior poder das Câmaras; quando a
colonização se consolida, há maior tendência à diferenciação de cargos:

“As posturas de interesse local realmente adotavam medidas especí-


ficas e às vezes o costume inspirava a decisão dos juízes ordinários.
Nem sempre, porém. Em 1750, Manuel Vaz Torres, comerciante de
Curitiba, alegando o costume, negou-se a pagar as licenças de aferi-
ções determinadas pela Almotaçaria. Condenado à multa máxima de
6 mil réis, pelos juízes ordinários da Câmara, agravou para o ouvidor-
geral. A Câmara recusou encaminhamento, sob a alegação de que as
Ordenações (tít. 65, parágrafo 25) determinavam a alçada dos juízes
até 6 mil réis sem recurso. Mais uma vez o comerciante agravou da
decisão, sendo o requerimento autuado e remetido à Ouvidoria.” 76

Essas ambiguidades estariam intimamente vinculadas à construção


das elites locais, que pendiam entre a fidelidade ao governo central para a
manutenção dos privilégios adquiridos e pela garantia da ordem e a busca
da realização das pretensões pessoais e dos grupos locais.

Apesar dos conflitos, a maior parte dos casos era decidida em comum
acordo e tendo em vista os interesses tanto locais quanto metropolitanos.
Embora rara seja a aplicação da lei portuguesa, em particular na primeira
instância do juiz ordinário, o sentido das decisões, mesmo com base nos
costumes ou em outras fontes, garantia as pretensões reinóis no local.

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BEJA, António de. Breve doutrina e ensinança de Príncipes. Lisboa, 1525.

76 – Ibidem, idem, p. 67.

82 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):51-86, jul./set. 2011


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Ordens e Provizões e Termo de Vereanças (1721-1736). Curitiba: Impressora
Paranaense, 1924.
BOLETIM DO ARCHIVO MUNICIPAL DE CURYTIBA. Documentos para
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Correspondências e Actos Diversos (1721-1767). Curitiba: Impressora
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Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

as Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira


(1746-1827): alguns aspectos do discurso
pró-absolutista na literatura jurídica
portuguesa do final do antigo regime
The “Prelecções” of Ricardo Raymundo Nogueira
(1746-1827): some aspects of the pro absolute power
writings in the Portuguese legal literature during
the end of the ancient regime
Airton Cerqueira-Leite Seelaender 1

Resumo: Abstract:
Indicando as opções políticas disponíveis para By indicating the political options available to
a elite dos letrados portugueses no final do sé- the elite of Portuguese scholars at the end of
culo XVIII, bem como o que podia ser dito e the Eighteenth century, as well as what could be
convinha ser dito no ensino coimbrão do “Di- said and how convenient that would be for the
reito Pátrio”, a linguagem e os posicionamentos studies of the country’s Law at the University of
das “Preleções” de R.R. Nogueira legitimavam Coimbra, the language and the postures of R. R.
a expansão da atividade legislativa real e a Nogueira’s “Prelecções” authenticated the ex-
submissão do meio jurídico às leis do Absolu- pansion of the monarchy’s legal activity and the
tismo Reformador. Os conceitos de “polícia” e submission of the legal area to the laws of the
“economia” tendiam a marcar esferas em que o Reformative Absolute Power. The concepts of
monarca, implicitamente equiparado ao pai de “police” and “economy” tended to determine
família no gerir da “grande casa” do reino, po- the fields in which the monarch – implicitly seen
deria regular, ordenar e impor condutas, sem os as the paternal figure reigning over the king-
bloqueios que a tradição jurídica havia, desde a dom’s “large house” – could rule, ordain and
Idade Média, imposto na prática aos reis. impose behaviors without the blockade that the
legal tradition had imposed to the Kings’ prac-
tices since the Middle Ages.

Palavras-chave: Absolutismo – Coimbra – Keywords: Absolute Power – Coimbra – Re-


Reforma Pombalina – Direito Pátrio – Direito forms by the Marquis of Pombal – Country’s
Público – Polícia – Afrancesados – Ricardo R. Law – Public Law – Police – French manner-
Nogueira. isms – Ricardo R. Nogueira.

1. Nos últimos anos, tem-se destacado o papel dos autores do fi-


nal do Antigo Regime e das primeiras décadas do Estado Liberal para a
refuncionalização dos conceitos do direito público e para a construção
de uma nova linguagem jurídico-política fenômenos, ambos, vitais para
a compreensão do discurso jurídico (e político) posterior. Avolumam-se
1 – Doutor em Direito pela J. W. Goethe-Universität (Frankfurt), Professor de História
do Direito e de Direito Constitucional da Universidade Federal de Santa Catarina, pesqui-
sador do CNPq.

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

na Alemanha e no mundo anglo-saxônico relevantes estudos sobre essa


temática, cujo exame no espaço luso-brasileiro ainda está apenas se ini-
ciando. Dentro desse quadro, reler a literatura jurídica portuguesa do rei-
nado de D. Maria I parece oportuno e recomendável – quanto mais para
resgatar obras e tradições literárias usualmente desprezadas como fontes
por historiadores mentalmente aprisionados pela “Siegergeschichte” libe-
ral ou por rígidos esquemas superestrutura/infraestrutura contestados até
por historiadores marxistas como E.P. Thompson.

Nossa proposta consiste em examinar as “Preleções” de Ricardo Ray-


mundo Nogueira (1746-1827), docente coimbrão que veio a desempenhar,
na crise da monarquia portuguesa, um papel de relevo, seja participando
do governo regencial, seja elaborando projetos de constitucionalização
do regime. Sua carreira, seu percurso político e seus posicionamentos
ideológicos refletem as tensões da transição do Antigo Regime para o
Liberalismo. Nossa análise se concentrará, aqui, nos escritos produzidos
no final do século XVIII, ou seja, antes da monarquia absolutista sofrer o
impacto das invasões francesas.

Beneficiário da intervenção de Pombal na Universidade de Coimbra,


Nogueira iniciou sua carreira acadêmica como “Oppositor” no mesmo
ano da reforma dos cursos jurídicos (1772)2. Vinculando-se ao Colégio
das Ordens Militares, assumiu posições na administração financeira da

2 – Na reforma universitária, os antigos professores da Faculdade de Leis perderam suas


cátedras, o que ali facilitou, evidentemente, a ascensão de juristas mais novos. Cf., e.g.,
Manuel Paulo Merêa, “Relação dos lentes das Faculdades Cânones e Leis desde 1730 até
a reforma pombalina”, Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, v.
34, 1958, pp. 216-21, p. 221. Segundo algumas fontes, teria sido, porém, ainda maior a
influência de Pombal sobre a carreira de Ricardo Raymundo. O secretário de Estado teria
mesmo forçado a Universidade a apressar o doutoramento deste, com o fim de produzir
um “espectaculo Literario” capaz de demonstrar o bom “estado das Artes, e das Scien-
cias em Portugal” e de assim impressionar favoravelmente um visitante da “mui culta
Alemanha”, o Conde de Schaumburg-Lippe. Ver “Prefacio do Editor”, in: Ricardo Ray-
mundo Nogueira, Prelecções de direito público interno de Portugal, Coimbra, Imprensa
da Universidade, 1858, p. III, embora Joaquim Agostinho de Macedo, Elogio historico do
illustrissimo e excellentissimo Ricardo Raymundo Nogueira, Lisboa, Impressão Regia,
1827, pp. 9-10, advirta sobre o caráter anedótico do relato. Quanto aos “Oppositores” e
sua posição nos cursos jurídicos, ver Coimbra, Estatutos..., p. 631 (II, XII, 7ss).

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

Universidade, na Inquisição de Coimbra e em diversas dioceses3. Le-


cionou na universidade, em períodos não coincidentes, direito romano
e direito pátrio, obtendo a cátedra desta nova matéria em 17954. Poste-
riormente, Nogueira tornou-se Reitor do Real Colégio dos Nobres (1802)
e membro da Regência (1810) que respondeu pelo governo interno do
reino, da fuga de D. João para o Brasil até a Revolução do Porto5.

A exemplo de tantos letrados ibéricos influenciados pelo Iluminis-


mo, Nogueira serviu lealmente a monarquia absolutista e defendeu-a em
seus escritos, antes das invasões napoleônicas. Ele pertencia, então, àque-
la corrente política que buscava um compromisso entre a inovação e a
preservação do existente, desejando viabilizar, através de um ativo Abso-
lutismo Reformador, a atualização da sociedade estamental e a superação
do atraso econômico e cultural português6. Como reitor do Real Collegio
de Nobres, Ricardo Raymundo envolveu-se pessoalmente nos esforços
para modernizar a educação da nobreza7. Como professor universitário e
autor de projetos de reforma dos cursos jurídicos, porém, ele ainda consi-
derava relevante, na década final do século XVIII, que se observassem as
diferenças estamentais dentro do sistema de ensino8.

3 – Cf., entre outros, Macedo, Elogio historico..., pp. 11-12, 14-15, 17 e 22; “Prefacio
do Editor” a Nogueira, Prelecções..., pp. III-IV; Innocencio Francisco da Silva, Dic-
cionario bibliographico portuguez, Lisboa, Imprensa Nacional, 1862, v. 7, p. 162;
Rodrigues, Memoria..., p. 213.
4 – Anteriormente fora Lente Substituto de Direito Pátrio em diversos períodos (1782-
1784, 1786 e 1789) e catedrático de Instituta (1790-1795). Cf. Merêa, “Notas sobre alguns
lentes...”, p. 323; e Rodrigues, Memoria..., p. 123.
5 – Cf., entre outros, Macedo, Elogio historico..., pp. 26, 28, 30 e 40-1; “Prefacio do
Editor” a Nogueira, Prelecções..., p. IV; Silva, Diccionario bibliographico..., p. 162.
6 – Para uma comparação com a análoga corrente que existia na Espanha, cf., entre
outros, Francisco Tomás y Valiente, Manual de Historia del Derecho Español, Madrid,
Tecnos, 1996, pp. 383-4 e Charles C. Noel, “Charles III of Spain”, in: H. M. Scott (org.),
Enlightened Absolutism, 4ª ed., Houndmills/London, Macmillan, 1994, pp. 119-143,
p.125, 128-130, 143, em especial.
7 – Cf. F. A. L. Vaz, “A difusão das idéias econômicas de Antonio Genovesi em Portu-
gal”, Cultura, v. 11, 1999, pp. 563-567, p. 567.
8 – Cf., por exemplo, Nogueira, Apontamentos..., f. 166, 174 e 177, assim como Noguei-
ra, Prelecções..., pp. 135 e 137.

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

Lidar com o “Direito Pátrio” implicava entrar em contato com temas


politicamente incômodos e potencialmente perigosos, como o significado
das chamadas “leis fundamentais”, as relações Coroa-súdito, as compe-
tências das assembleias estamentais (“Cortes”) e a situação jurídica dos
bens e privilégios da nobreza em face do poder real. Dentro desse con-
texto, um crítico do Absolutismo dificilmente teria acesso à cátedra da
disciplina na única universidade do país. Que Nogueira tenha se tornado
catedrático é um veemente indício, portanto, de sua lealdade à monarquia
absoluta. O mesmo se poderia dizer de sua nomeação como reitor do Real
Collegio de Nobres – i.e., como principal encarregado da educação da
nobreza do reino9.

À vista de escritos como “Apontamentos para a reforma do curso


de direito civil” (1787) e “Prelecções de Direito Pátrio” (1795/1796) se-
ria descabido ver Nogueira, na década de 1790, como um “liberal” ou
“protoliberal”10. Não trazendo indícios suficientes nesse sentido, tais obras
veiculam, pelo contrário, muitas ideias-condutoras da concepção absolu-
tista de Estado. As “Prelecções” proclamavam e legitimavam a suprema-
cia da Coroa em face da nobreza, da Igreja, das Cortes, dos tribunais e
dos governados em geral11. Os “Apontamentos” negavam ao “Jurista” e
ao “vassallo” mesmo o direito de questionar a justiça das leis régias: re-
9 – Sobre as “leis fundamentais” do Antigo Regime, cf. A. C. L. Seelaender, “Notas
sobre a constituição do direito público na idade moderna: a doutrina das leis fundamen-
tais”, Seqüência, v. 53, 2006, pp. 197-232, e sobretudo a precisa análise de Heinz Moh-
nhaupt, “Die Lehre von der Lex Fundamentalis und die Hausgesetzgebung europäischer
Dynastien”, in: Heinz Mohnhaupt (Hrsg.), Historische Vergleichung im Bereich von Staat
und Recht, Frankfurt am Main, V. Klostermann, 2000, pp. 1-33. Para a nomeação e ativi-
dade no colégio, cf. Macedo, Elogio historico..., pp. 26-8; Silva, Diccionario bibliogra-
phico..., v. 7, p. 162; Merêa, “Notas sobre alguns lentes...”, p. 325; Rodrigues, Memoria...,
p. 123; e Vaz, “A difusão das idéias...”, p. 567.
10 – Para o primeiro texto, utilizamos o manuscrito que se encontra na Biblioteca Nacio-
nal de Portugal entre os papéis deixados pelo canonista Ribeiro dos Santos. Mesmo des-
crevendo Nogueira como um dos primeiros liberais, Míriam H. Pereira tem de reconhecer
que as Prelecções de Direito Pátrio não veiculavam uma crítica do status quo inspirada
no ideário liberal (cf.“Estado e sociedade”, in: Míriam Halpern Pereira (org.), Mouzinho
da Silveira: Obras, Lisboa, 1989, v. 1, pp. 19-119, p. 99).
11 – Cf. Nogueira, Prelecções..., respectivamente: pp. 11, 12, 14, 50, 91 e 98-9; pp. 55
(confiram-se também pp. 96, 136-7 e 154); pp. 11-2, 14, 49-50, 90-1, 94-5, 97-99, 100-
102 e 102-104; pp. 91 e 117; e pp. 4-5, 91 e 98.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

conhecer que estas refletiam “sempre [...] motivos de justiça e utilidade”


seria pressuposto de toda correta interpretação das normas12.

Dentro desse quadro, seria evidente exagero ver no uso de termos


como “cidadão” um indício de liberalismo ou protoliberalismo nessa
fase do autor. Nas “Prelecções”, o conceito de “cidadão” não apresentava
função emancipatória nem conduzia à plena igualdade político-jurídica.
Aparecendo aqui ao lado de termos como “vassallo” e “subdito”, a pala-
vra “cidadão” surgia mesmo em passagens sobre privilégios e diferenças
estamentais13.

A posição política dessas obras também era condicionada – note-se


– pelas circunstâncias de seu surgimento, por suas finalidades específicas
e pelos destinatários visados pelo autor. Dependendo para sua execução
do apoio da Coroa, a reforma curricular proposta nos “Apontamentos”
naturalmente não podia ser exposta em texto recheado de inoportunas
críticas ao Absolutismo14.

As “Prelecções” tampouco podiam ser moldadas como um texto de


referência para aulas subversivas – estas seriam, aliás, praticamente invi-
áveis no ambiente coimbrão, mantido sob rígida vigilância15. Na verdade,

12 – Cf. Nogueira, Apontamentos..., f. 181 e 182; e f. 168.


13 – Cf., e.g., Nogueira, Prelecções..., pp. 99, 106, 135, 181, 197.
14 – O texto endereçava-se justamente àquele dirigente universitário que devia atuar como
vínculo institucional entre a faculdade e a Coroa: o reitor Francisco Rafael de Castro. Cf.
[Joaquim Fernando] Teophilo Braga, História da Universidade de Coimbra, Lisboa, Aca-
demia Real das Sciencias, 1898, v. 3, p. 723, como também Coimbra, Estatutos..., p. 640
(II, XIV, I, 10).
15 – A própria estrutura universitária servia ao propósito da vigilância. As duas faculdades
de direito não estavam livres dos mecanismos intrauniversitários de repressão a opiniões
incômodas à Coroa. O conteúdo dos livros, aulas e compêndios devia ser controlado pela
congregação e por censores. Impunha-se denunciar as doutrinas que contrariassem os
direitos e regalias da Coroa ou aquilo que ela própria visse como seu legítimo âmbito de
poder. Cf. Coimbra, Estatutos..., pp. 248 (I, VI, IV, 8-10), 638 (II, XVI, I, 2), 639 (II, XIV,
I, 6), 640 (II, XIV, I, 11). A Carta Régia de 3/6/1782 também reforçou o controle sobre o
corpo discente. As informações confidenciais sobre os estudantes, que a universidade de-
via disponibilizar para o governo, também podiam ser usadas como arma política contra
dissidentes. Ver Braga, História..., p. 666ss; Manuel Paulo Merêa, “Lance de olhos”, Bo-
letim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, v. 33, 1957, pp. 187-214,
pp. 208-9; e Luís Reis Torgal & Isabel N. Vargues, A Revolução de 1820 e a instrução

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

tanto o conteúdo das “Prelecções” como sua orientação política foram


consideravelmente condicionados pelas próprias finalidades principais da
matéria “Direito Pátrio” – a efetiva transmissão das leis régias e a con-
versão das novas gerações de juristas em instrumentos do Rei-Legislador
absolutista.

A despeito disso e do comportamento de Nogueira durante a primeira


invasão napoleônica (1807-1808), seria ir longe demais descrevê-lo como
um inimigo oculto do Absolutismo. Como reconheceu o próprio governo
fugitivo, a colaboração com os franceses, nos estratos superiores da so-
ciedade portuguesa, decorreu em parte da visão da queda dos Braganças
como um fait accompli, que implicava uma mudança definitiva de regi-
me16. Na Igreja, na Academia de Ciências, na maçonaria, na Universidade
de Coimbra, na nobreza e na alta burocracia não faltaram indivíduos de
destaque dispostos a se submeter rapidamente às forças de ocupação e a
colaborar com elas17. Nessa época até mesmo os bispos portugueses cha-
mavam Napoleão de “o Grande” e proclamavam publicamente a missão
que este “homem prodigioso” recebera de “Deus” de “amparar a religião
e fazer a felicidade dos povos”18.
pública, Porto, Paisagem, 1984, p. 193.
16 – Veja-se a “Carta do Príncipe Regente para o Bispo e Junta do Porto”, datada de 1808,
transcrita em José Viriato Capela (org.),  Política, administração, economia e finanças
públicas portuguesas (1750-1820), Braga, ICS, 1993, p. 59ss, em especial, p. 67. Ainda
indefinidas as consequências da esperada mudança, o fortalecimento de um partido aris-
tocrático francófilo e a manutenção da ordem estamental sob domínio napoleônico conti-
nuavam a representar uma das possíveis alternativas. Cf., e.g., Albert Silbert, Do Portugal
do Antigo Regime ao Portugal oitocentista, 3ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1981, pp.
65-67, 70 e 131-2; bem como Ana Cristina Bartolomeu de Araújo, “As invasões francesas
e a afirmação das ideias liberais”, in: José Mattoso (org.), História de Portugal, Lisboa,
Estampa, 1998, v. 5, pp. 21-40, pp. 30-1.
17 – Cf. Silbert, Do Portugal..., p. 64; Araújo, “As invasões francesas...”, p. 28ss; Raul
Brandão, El-Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1982, pp. 139ss e
154ss, sobretudo; Jean de Pins, “Afrancesados portugais”, in: Jean Tulard (org.), Dic-
tionnaire Napoléon, Paris, Fayard, 1999, v. 1, pp. 41-2; Jacome Ratton, Recordações de
Jacome Ratton [Londres, 1813], 3ª ed., Lisboa, Fenda, 1992, pp. 281-2. Nesse contexto,
o colaboracionismo envolvia até figuras influentes da Inquisição. D. José Maria de Melo,
que antes teria desejado a excomunhão de todos os franceses, vinha agora a descrevê-los,
em 1807, como “irmãos” que deviam ser bem recebidos em Portugal. Cf. Brandão, El-Rei
Junot..., p. 141.
18 – Cf. as manifestações do Patriarca de Lisboa e do Bispo do Algarve reproduzidas em

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Como outros integrantes da camada social representada pelos ser-


vidores mais ligados ao Iluminismo, Nogueira viu a ocupação francesa
como uma oportunidade para impor reformas que, sob as condições até
então existentes, tinham parecido quase irrealizáveis19. Integrou um pe-
queno grupo que defendia, à época, o uso da organização judicial e ad-
ministrativa francesa como modelo para a reforma do Estado português.
A plataforma política desse grupo também abrangia a igualdade jurídica
entre os “cidadãos”, a tolerância na esfera religiosa, a adoção do Code
Napoléon em Portugal e a consequente liberação de todas as terras para
o comércio20.

Em período no qual as constituições se espalhavam com os exércitos


franceses na Europa, tal grupo desejava que Bonaparte convertesse o país
em uma monarquia constitucional. Uma constituição outorgada devia ga-
rantir a liberdade de imprensa, a independência da Justiça e a existência
de um órgão representativo nacional, eleito indiretamente21. Outorgando
uma constituição e tornando rei de Portugal algum de seus familiares,
Napoleão acabaria, na prática, com a sujeição do país ao general Junot,
neutralizando politicamente, assim, também os círculos de aristocratas
colaboracionistas que compunham a entourage do comandante francês.
Tratava-se aqui, portanto, não só de defender reformas liberalizantes,
Brandão, El-Rei Junot..., pp. 141-2 (n. 3). Sobre o colaboracionismo da Igreja, cf. Silbert,
Do Portugal..., p. 64 e Araújo, “As invasões francesas...”, p. 29.
19 – Segundo uma fonte “napoleônica”, poucas casas nobres portuguesas sobreviveriam
à supressão do morgadio e dos conexos mecanismos de proteção contra credores. Cf. Sil-
bert, Do Portugal..., p. 174. Para uma análise mais precisa do “endividamento aristocráti-
co”, ver, porém, Fernando Taveira da Fonseca, “Elites e classes médias”, in: José Mattoso
(org.), História de Portugal, Lisboa, Estampa, 1998, v. 5, pp. 393-407, pp. 395-6.
20 – Sobre tal grupo e seu programa político, ver Silbert, Do Portugal..., p. 131-2 e 174;
Brandão, El-Rei Junot..., p. 158; Halpern Pereira, “Estado e...”, pp. 32-3; Araújo, “As in-
vasões francesas...”, pp. 31-2; J. Joaquim Gomes Canotilho, “As constituições”, in: Mat-
toso (org.), História de Portugal..., v. 5, pp. 125-139, pp. 125-6; Zília Osório de Castro,
“O pré-constitucionalismo em Portugal”, Cultura, v. 11, 1999, pp. 389-399, pp. 396 e
399.
21 – Cf. Dieter Grimm, Deutsche Verfassungsgeschichte 1776-1866, Frankfurt am Main,
Suhrkamp, 1988, p. 56; Silbert, Do Portugal..., pp. 66, 131-2, 174; Brandão, El-Rei Ju-
not..., pp. 157-8; Halpern Pereira, “Estado e...”, p. 32; Araújo, “As invasões francesas...”,
pp. 31-2; Canotilho, “As constituições”..., pp. 125-6; e Castro, “O pré-constitucionalismo
...”, p. 397.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):87-113, jul./set. 2011 93


Airton Cerqueira-Leite Seelaender

pois, em jogo, estavam, igualmente, o poder político e posições no apara-


to estatal22. Esse movimento constitucionalista lusitano, ainda que mode-
rado nas metas e nos seus canais de expressão, não teve, porém, êxito. A
resistência dos aliados de Junot, a falta de apoio do imperador francês e
a queda do governo de ocupação (agosto de 1808) selaram o seu destino.

No caso de Nogueira, suas ações durante a ocupação não o impedi-


ram de chegar, já em 1810, ao que seria o ápice de sua carreira política23.
Embora classificado por alguns como afrancesado, o jurista tornou-se
então membro de uma regência aliada à Inglaterra e como tal seguiu au-
xiliando até 1820 a mesma monarquia absoluta que tanto servira anterior-
mente24. A queda da regência e o triênio liberal (1820-1823) não puseram
termo, tampouco, à carreira desse adaptável jurisconsulto. Findo tal triê-
nio, ele ressurgiria como conselheiro de Estado, integrando a ala modera-
da do novo regime25. Foi nesse cenário que elaborou para uma comissão
especial do governo um projeto de constituição, cujo modelo foi a Charte
constitutionelle francesa de 181426.

Ainda que Nogueira invocasse reiteradamente o princípio tradicio-


nalista da representação estamental, os “usos primordiaes da Nação” e a
natureza supostamente “moderada” da “Monarquia Portugueza (...) desde

22 – Sobre o tema ver, em especial, Silbert, Do Portugal..., p. 132; e Brandão, El-Rei


Junot..., p. 157.
23 – Menções à posição política dúbia que assumiu durante a primeira invasão francesa
não cabiam em textos laudatórios como o Elogio Historico do Illustrissimo e Excellen-
tissimo Ricardo Raymundo Nogueira (1827). Nesta obra editada pela Impressão Regia, a
descrição de Nogueira como modelo ideal de servidor da Coroa, sempre fiel à dinastia e
ao absolutismo, servia manifestamente para finalidades propagandísticas. Não por acaso
seu autor era justamente uma das mais conhecidas vozes da Reação no debate político da
época: José Agostinho de Macedo.
24 – Para uma descrição do grupo de Nogueira como “grupo francês” [sic], cf. Canotilho,
“As constituições”..., p. 125. Sobre o conceito de afrancesado e sua identificação em
Portugal com as idéias de traição, ateísmo, jacobinismo ou filiação maçônica, cf. Pins,
“Afrancesados...”.
25 – Cf. Manuel Paulo Merêa (org.), Projecto de constituição de 1823, Coimbra, Coimbra
Editora, 1967, p. 7ss e Halpern Pereira, “Estado e...”, p. 64.
26 – Sobre a influência da Charte constitutionelle, cf., entre outros, Merêa, Projecto..., pp.
9 e 11, bem como Paulo Ferreira da Cunha, Para uma história constitucional do direito
português, Coimbra, Almedina, 1995, pp. 375 e 393, sobretudo.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

sua origem”, seu projeto de constituição era inovador para os padrões


lusitanos27. Disfarçada de restauração daquilo que teria sido a verdadeira
constituição histórica do reino, dar-se-ia aqui a introdução, no país, de
uma nova forma de governo. Sob o nome das velhas assembleias esta-
mentais – “Cortes” – devia surgir, a rigor, um parlamento bicameral28.

Essa reconstrução nada isenta da história portuguesa se destinava,


sem dúvida, a lastrear o projeto de constituição, tornando-o mais aceitá-
vel. Para atingir tal finalidade, Nogueira também se apropriou habilmente
tanto do aparato conceitual dos liberais quanto dos lugares-comuns do
discurso político da reação absolutista.

Essa estratégia de legitimar soluções moderadas misturando os dis-


cursos dos extremos se evidenciava de forma clara em um “rascunho in-
completo” de “Carta de lei fundamental”. Aqui não era só a expressão “lei
fundamental” que remetia à revalorização dos fundamentos da autoridade
monárquica no Antigo Regime – tal papel também era desempenhado
pelas invocações do “princípio sagrado da legitimidade”, da “providen-
cia” como base do governo e mesmo do “Braço do Omnipotente” como
protetor da ordem política.

Fechada a guarda à direita, Nogueira usava contra os vintistas o pró-


prio vocabulário liberal. Já ganhavam terreno, no “Rascunho”, a crítica
ao “Despotismo” e às ofensas aos “direitos dos Cidadãos” – mas tan-
to estas quanto aquele eram imputados à “facção perfida” triunfante na
Revolução do Porto. No fundo, o projeto de constituição procurava um
caminho intermediário entre o Liberalismo de 1820 e as tendências mais
radicais da Reação. Sua meta voltava-se para a harmonização do “prin-
cípio sagrado da legitimidade” com as “opiniões do século presente”, já
27 – Cf. Ricardo Raymundo Nogueira, “Projecto da lei fundamental da monarquia por-
tuguesa”, in: Merêa, Projecto..., p. 19-31; Idem, “Rascunho incompleto de uma carta de
lei fundamental”, in: Merêa, Projecto..., p. 34; e Idem, “Bases duma lei fundamental”, in:
Merêa, Projecto..., p. 34. Comparar com a concepção veiculada pelo mesmo autor nas
Prelecções..., pp. 5, 97 e 100, de que Portugal fora desde sempre uma monarquia ilimita-
da, bem como a correspondente leitura pró-absolutismo da história nas pp. 6-7, 11, 28, 66,
70, 94-5, 98 e 103-4.
28 – Cf. Nogueira, “Projecto...”, p. 24.

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

se proclamando ali a igualdade dos “Cidadãos (...) perante a Lei”29. Tal


igualdade não significava, porém, a eliminação da ordem estamental.

Prevista expressamente, a liberdade de imprensa sofria limitações


consideráveis, tendentes a esvaziá-la. O mesmo ocorria com a tolerância
em matéria religiosa. Dotada de competência legislativa limitada, uma
“2ª Camara” eleita “pelo Povo” deveria conviver com uma “1ª Camara”
de clérigos e nobres. Os membros desta e os ministros seriam nomeados
apenas pelo monarca, cujo primado na estrutura estatal também seria ali-
cerçado por um irrestrito direito de veto e pela condução, pelo Trono, das
Forças Armadas e da política externa30.

O projeto de Nogueira não pôde ser posto em prática. A instabilidade


do país, a oposição de potências estrangeiras e a crescente radicalização
das forças políticas tornaram-no inaplicável31. Seu êxito não interessava
aos adeptos do Absolutismo, cada vez menos dispostos a concessões32.
Produto da Reação, o projeto tampouco podia entusiasmar os herdeiros
da Revolução de 1820. Autores de inspiração liberal chegaram mesmo a
pôr em dúvida que Nogueira e os demais integrantes da comissão hou-
vessem realmente produzido algum esboço de constituição. Como resul-
tado, o projeto caiu em esquecimento já no século XIX. Redescoberto por
volta de 1931 por um destacado juspublicista lusitano, o texto só veio a
ser publicado em 1967, por iniciativa do historiador do direito M. Paulo
Merêa33.

29 – Esses aspectos se evidenciam sobretudo em Nogueira, “Rascunho...”, p. 32. Ver tam-


bém Nogueira, “Projecto...”, p. 29 e “Bases...”, p. 34.
30 – Cf. Nogueira, “Projecto...”, pp. 19, 20, 24, 23, 26-9, 31 (impressa esta, por engano,
como “13”); Nogueira, “Rascunho...”, pp. 32 e 33; e “Bases...”, p. 34.
31 – Cf., entre outros, Merêa, Projecto..., p. 12ss; Cunha, Para uma história constitu-
cional..., pp. 376-8; Luís Reis Torgal, “Tradicionalismo absolutista e contrarrevolução”.
in: F.M. Costa/F.C. Domingues/N.G. Monteiro (org.), Do Antigo Regime ao liberalismo.
Lisboa, Vega, s/d, pp.93-103, 96 e Torgal & Vargues, A Revolução de 1820..., p. 156.
32 – Ainda em 1845 deplorava um partidário do absolutismo miguelista a iniciativa do
governo, em 1823, de prometer a outorga de uma Carta Constitucional. Cf. Maria Teresa
Mónica, “Um programa político miguelista”, Separata da Revista da Biblioteca Nacional,
2ª série, v. 6/2, 1991, pp. 19-51, p. 37.
33 – Cf. Merêa, Projecto..., pp. 5-6, e Cunha, Para uma história constitucional..., p. 374.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

Isso não basta para esclarecer o interesse relativamente reduzido que


a obra de Nogueira tem despertado. Não por acaso, historiadores lusita-
nos registraram no passado, perplexos, a falta de trabalhos que examinas-
sem detidamente todo o percurso do pensamento político de Nogueira e
que considerassem a participação ativa e duradoura do jurista no governo
regencial (tema, aliás, ainda longe de esgotado). Afinal, como advertiu
Míriam Halpern Pereira, não se deu suficiente atenção ao fato de que o
Nogueira da época de Junot é o mesmo que ressurgiu em 1823-2434.

Ao menos comparadas à longa e coerente fidelidade de Mello Freire


ao Absolutismo, têm sido pouco estudadas a adaptabilidade de Nogueira
e sua trajetória do oficialismo absolutista ao “liberalismo colaboracio-
nista” de 1808 – e deste ao legitimismo regencial e ao constitucionalis-
mo moderado de 1823. Não tendo legado à posteridade tratados quase
enciclopédicos como as “Institutiones Juris Civilis Lusitani”, Nogueira
não obteve, entre os juristas, a popularidade de um Mello Freire. Classi-
ficados como “juspublicistas” no século XIX, seus escritos dos anos de
1790 logo se tornaram obsoletos em decorrência de sua vinculação ao
pensamento político absolutista. Não surpreende, portanto, o fato de que
já por volta de 1870 Nogueira não figurasse no catálogo em que Candido
Mendes elencava os mais relevantes “Jurisconsultos Portuguezes”.

Para a história do direito em Portugal, a importância dos escritos de


Nogueira é, no entanto, inquestionável35. Além disso, tais obras também

34 – Halpern Pereira, “Estado e...”, p. 33 (inclusive n. 24). Só recentemente Nogueira


recebeu um estudo monográfico mais aprofundado, em trabalho orientado por Barbas Ho-
mem. Ver também José Luís Cardoso, O pensamento económico em Portugal nos finais
do século XVIII, Lisboa, Estampa, 1989, p. 209, além de alguns trabalhos isolados, nos
quais Nogueira não era o assunto principal, como Seelaender, Polizei... e Vaz, “A difusão
das ideias...”.
35 – Confira-se, por exemplo, a “Relação dos Jurisconsultos Portuguezes que Florescerão
em Portugal” publicada em Candido Mendes de Almeida, Auxiliar jurídico, Lisboa, Gul-
benkian,, 1985, pp.771-3, p. 773. Para um levantamento recente das obras sobre Mello
Freire, cf. Seelaender, Polizei..., pp. 6 e 123ss. Sobre a delimitação mais nítida do “direito
público”, sua mudança de função e a crescente relevância da dicotomia ius publicum / ius
privatum na crise do “Ancien Régime”, cf. Michael Stolleis, Geschichte des öffentlichen
Rechts in Deutschland, München, Beck, 1992, v.2, pp. 51-53, e A. C. L. Seelaender, “O
contexto do texto: notas introdutórias à história do direito público na idade moderna”, Se-

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

se prestam para indicar em que medida o crescente interesse, em Por-


tugal, pela “Polícia” e pela “Economia Civil” influenciou, no reino, a
própria ciência do direito. Evidenciando como se estruturava o discurso
jurídico pró-absolutismo no final do século XVIII, as “Preleções” ainda
revelam, em muitos pontos, as tensões entre este discurso e os elementos
liberais ou protoliberais advindos de algumas vertentes do pensamento
iluminista.

2. Falamos aqui de um interesse de Nogueira pela “polícia” e pela


“economia” – termos-chave para a compreensão do pensamento político
do Antigo Regime.

Realmente, a análise do tratamento dado por ele a tais termos é tanto


mais necessária, pelo fato de que ambos desempenharam um papel muito
relevante no discurso legitimador do Absolutismo e de seu modelo de
Estado.

Corruptela do termo erudito “política”, o termo “polícia”


vinculava-se em várias línguas, no início da Idade Moderna, às ideias
de “governo” e “bom governo” dentro de um reino ou cidade – e daí às
de “boa ordem”, “ordem” e mesmo “civilidade”36. No meio urbano, a
palavra “polícia” era então frequentemente relacionada à gestão interna
quência, v. 55, 2007, pp. 253-86, pp. 254ss e a bibliografia ali indicada. Sobre a contri-
buição pessoal à história do direito dada por Nogueira como autor, bem como sobre o seu
papel e influência na formação de numerosos juristas e servidores da Coroa, ver Macedo,
Elogio historico..., pp. 20 e 51.
36 – Sobre a evolução do conceito de “polícia” no Antigo Regime, cf. o quadro geral des-
crito em A. C. L. Seelaender, “A ‘polícia’ e as funções do Estado”, Revista da Faculdade
de Direito UFPR, nº 49, 2009, pp. 73-87; bem como a recente síntese de Thomas Si-
mon, Gute Policey: Ordnungsleitbilder und Zielvorstellungen politischen Handelns in der
Frühen Neuzeit, Frankfurt am Main / M. V. Klostermann, 2004. Cf. também a bibliografia
ali citada, que inclui os dados e reflexões de Michael Stolleis, Geschichte des öffentlichen
Rechts in Deutschland, München, C. H. Beck, 1988, v.1; Michael Stolleis (org.), Policey
in Europa der frühen Neuzeit, Frankfurt / M. V. Klostermann, 1996; F. L. Knemeyer,
“Polizei”, in: O. Brunner, W. Conze, R. Koselleck, (org.), Geschichtliche Grundbegriffe,
Stuttgart, Klett-Cota, 1978, v. 4, pp. 875-97; e Hans Maier, Die ältere deutsche Staats-
und Verwaltungslehre, 2a. ed., München, C. H. Beck, 1980. Para a evolução do conceito
em Portugal, cf. A. C. L. Seelaender, Polizei, Ökonomie und Gesetzgebungslehre, Frank-
furt / M. V. Klostermann, 2003, e A. C. L. Seelaender, “A polícia e o rei-legislador”, in: E.
Bittar, História do direito brasileiro, São Paulo, Atlas, 2003, pp. 91-108.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

da cidade nos aspectos que mais afetavam seu dia a dia (conservação de
ruas, abastecimento de água, limpeza urbana, prevenção de incêndios,
controle de pesos e medidas no comércio, etc.).

Fazia-se comumente uma equiparação entre governo do reino (“po-


lícia”) e governo da casa (“economia”)37. Isso permitia estender ao pri-
meiro o que se via como atributo do segundo: um amplíssimo direito de
regular a convivência e de reprimir maus comportamentos, para que se
preservassem a paz doméstica e a “boa ordem”. Tal equiparação, natural-
mente, favorecia a expansão do poder do monarca, encarado como “pai”
que governava e mantinha em ordem a “grande casa do reino”. Dentro
desse quadro, os conceitos de “polícia” e “economia” tendiam a marcar
esferas em que o monarca, como “Hausvater”, poderia regular, ordenar
e impor condutas, contornando bloqueios que a tradição jurídica havia,
desde a Idade Média, imposto aos reis.

Com o tempo, à medida que se multiplicavam as guerras na Europa,


vários governos passaram não só a expandir seus exércitos e armadas,
mas também a dar maior atenção às bases econômicas e populacionais
do poderio militar. Visando ao crescimento populacional e ao aumento da
arrecadação, esforçaram-se então para desestimular o celibato, promover
a imigração, impor padrões de higiene, estimular as manufaturas, instituir
companhias coloniais, combater o ócio, dar maior segurança aos comer-
ciantes, facilitar a circulação de bens, etc. O termo “polícia” também foi
então adotado para designar o imenso leque de atividades e opções polí-
ticas assumidas pela Coroa, na tentativa desta de multiplicar e enriquecer
seus súditos e, assim, dar ao poderio estatal bases sólidas.

Grosso modo, fenômenos semelhantes se verificaram em Portugal,


ainda que com velocidade e intensidade distintas daquelas observáveis
na França e nos territórios de língua alemã. Nestes últimos, desde o sé-
culo XVII os riscos gerados pela crônica instabilidade regional e pelas
tentativas das grandes potências de ali aumentar suas áreas de influência

37 – Sobre o tema, além das obras acima indicadas e dos estudos de A. M. Hespanha, cf.
Daniela Frigo, “Disciplina rei familiariae”, Penélope, nº 6, 1991, pp. 47-62.

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

empurravam alguns governos para uma escalada armamentista sem pre-


cedentes, que demandava, para ser sustentável, a contínua expansão e
aperfeiçoamento das estruturas estatais relacionadas ao alistamento mili-
tar, à arrecadação tributária e ao fomento econômico. O interesse daí ge-
rado favoreceu o desenvolvimento de novas formas de gestão, de novos
órgãos estatais e de uma nova ciência – a Policeywissenschaft – voltada
para a reflexão sobre o funcionamento do Estado, seu governo interno e
sua atuação para promover o crescimento populacional e a prosperidade.
Dotada de cátedras próprias desde 1727 na Prússia e desde 1752 na Áus-
tria, tal ciência também vicejou através de uma literatura específica – nela
se destacando autores de língua francesa (Delamare) e sobretudo alemã
(Justi, Sonnenfels).

As singularidades do mundo ibérico – e em particular de Portugal –


ajudam a explicar, talvez, o relativo atraso com que surgiram, nesse país,
os primeiros espaços institucionais para a discussão sobre a “polícia”.
Teve aqui algum peso, sem dúvida, o intenso e duradouro impacto da
Contra-Reforma e de seu aparato institucional sobre a cultura lusitana,
sobretudo quando dificultou a recepção e a evolução local de uma re-
flexão mais moderna sobre a política em geral (combatendo mesmo as
versões heterodoxas da chamada “política católica”) e sobre as funções
do Estado. Algum papel há de ter desempenhado nisso, também, a relati-
va prosperidade do reinado de D. João V (1706-1750) – mesmo porque,
suavizadas as necessidades financeiras do Absolutismo, tendia a se arre-
fecer um pouco o estímulo real ao desenvolvimento e difusão das técnicas
“policiais” de fomento à atividade econômica interna. Seria só no regime
pombalino – diante da crise financeira e da instabilidade política, econô-
mica e social da época – que surgiria em Portugal uma Intendência Geral
da Polícia (1760). E só no reinado de D. Maria I, com a criação da Real
Academia das Ciências (1779/1780), passaria a existir no país uma ins-
tituição permanente destinada a importar, transmitir e produzir técnicas
“policiais” para expandir a população e a economia.

Nesse contexto, merece atenção a inserção, no currículo de Coimbra,


da disciplina “Direito Pátrio”, pela reforma pombalina da universidade

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

(1772). Ainda que as referências à “polícia” tendessem a se resumir, no


âmbito dessa nova matéria, a rápidas explanações sobre a legislação nes-
se campo, o fato é que ali se criava, pela primeira vez no ensino coimbrão,
um espaço para transmitir, aos futuros servidores da Coroa, alguma coisa
a respeito da “polícia” real e suas finalidades.

A um leitor apressado, isso até pode parecer insignificante e inócuo,


em comparação com a instituição das cátedras centro-europeias. Mas é
preciso perceber, no entanto, o desproporcional impacto dessa pequena
mudança no quadro específico português, sobretudo considerando a re-
levância dos jurisconsultos coimbrões na reflexão local sobre o Estado
– e, mais ainda, a enorme importância dos juristas egressos de Coimbra
dentro do limitado universo de quadros de que dispunha a monarquia
portuguesa para compor suas elites dirigentes38.

Registre-se, a par disso, que na recepção, em Portugal, dos tratados


setecentistas sobre a “polícia” tiveram destaque docentes coimbrões que
transitavam da universidade para as esferas governamentais. Se nestas o
Traité de la police de Delamare não era de todo desconhecido, nos escri-
tos do lente Paschoal de Mello Freire já aparecia mesmo uma reflexão
própria sobre os Grundsätze der Policeywissenschaft de J. H. Justi39. Um
outro professor – o canonista Ribeiro dos Santos, desafeto de Mello e

38 – A importância dessa “recepção elitista”, envolvendo homens de Estado e docentes


coimbrões, resta ainda mais clara quando a contrastamos com um quadro mais próximo da
prática: o da literatura ligada à prática profissional. Obras como o Repertorio das Ordena-
çoens de Mendez de Castro, o Liber utilissimus de Cardoso Amaral, o Index generalis de
Solano do Vale e o Repertorio das Ordenações, e Leys de Jeronymo Pereira não traziam
verbete algum específico sobre a “polícia” ou termos próximos. Em 1743, a Arte de ba-
chareis de Jeronymo da Cunha ainda silenciava sobre a teoria da polícia e sobre os trata-
distas desse campo, quando expunha os conhecimentos e os livros que um juiz devia ter
(cf. Cunha, J. da Arte de bacharéis, ou perfeito juiz, Lisboa, J.B. Lerzo, 1743, pp.103-6 e
156ss). Na área da “polícia”, não surgiu uma literatura local específica nem mesmo acerca
das funções dos Corregedores, ainda que algumas destas pudessem parecer, ao menos à
luz dos modernos tratadistas estrangeiros, tipicamente “policiais” – nessa esfera, a obra de
referência seguiu sendo, século XVIII adentro, a velha Politica para corregidores, escrita
pelo espanhol Castillo de Bobadilla no fim do século XVI.
39 – Para o acesso de Pombal e do secretário de D. João V, Alexandre de Gusmão, à pri-
meira obra, assim como para a análise das “Provas” do Novo Código de Mello Freire e as
traduções que este poderia ter conhecido – cf. Seelaender, Polizei..., pp. 72 e 121.

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

amigo de Ricardo Raymundo – teve também contato com o pensamento


de Sonnenfels, citando-lhe uma “Sciencia do bom governo” que decerto
correspondia aos (Grund)sätze der Polizey-, Handlungs- und Finanzwis-
senschaft40.

Analisar a reflexão sobre a “polícia” em Portugal do Antigo Regime


implica, como vemos, estudar também os cursos de Coimbra – e em espe-
cial a disciplina “Direito Pátrio” e seus respectivos lentes, como Ricardo
Raymundo Nogueira (1746-1827).

3. Refletir sobre a definição de “Leys Politicas” e de “Leys Eco-


nomicas” era praticamente inevitável no ensino de “Direito Pátrio” em
Coimbra. Ambos os conceitos constavam do texto da mais importante
“lei de interpretação” da era absolutista em Portugal41. Considerando-se,
além disso, o crescente interesse da Coroa por matérias então vistas como
“policiais” ou “econômicas” e o surgimento de novos órgãos especiais de
“polícia” – como a já citada Intendencia Geral da Policia (1760) –, fazia
também sentido que os encarregados dessa matéria abordassem, em sua
exposição, a “polícia” e suas relações com a atividade legislativa42.

As “Prelecções de Direito Pátrio” de Ricardo Raymundo Nogueira


não se limitavam, porém, de modo algum, a expor a teoria da legislação
através das palavras da “Lei da Boa Razão”. Além disso, indicavam a
tendência do autor para lidar sistematicamente com temas no âmbito da
“polícia” e “economia” – se necessário deixando de seguir, ali, a estrutura
das Ordenações43.

40 – Cf. Seelaender, Polizei..., p. 72. Embora o jurista lusitano faça referência a uma
edição vienense de 1777, é mais provável que tenha usado uma tradução italiana (Milão,
1784).
41 – Cf. a chamada “Lei da Boa Razão” de 18/8/1769, em especial o § 9º, conforme
transcrita em José H. Corrêa Telles, “Commentario crítico à Lei da Boa Razão”, in: Can-
dido Mendes de Almeida, Auxiliar jurídico [1870], reimpressão, Rio de Janeiro / Lisboa,
Gulbenkian, 1985, pp. 443-478, p. 454.
42 – Sobre a necessidade de integrar “em um sistema” tanto o direito vindo do passado
quanto as numerosas leis novas no âmbito da “Industria, Policia, [...] etc.”, cf. as observa-
ções do jurista e estadista Tomás Antônio Villanova Portugal em Almeida, Auxiliar..., v. 1,
p. XXIX.
43 – Concluída por volta de 1795/1796, a obra somente foi publicada em 1858 pela Uni-

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

O tratamento desses assuntos nas “Prelecções” não refletia apenas o


dever do professor de “Direito Patrio”, de descrever todos os âmbitos do
direito produzido pelo monarca. Como muitos integrantes da Academia
das Ciências – à qual também pertencia – Nogueira tinha um especial
interesse por esse campo temático44. Ele defendeu a introdução da “Eco-
nomia Civil” no currículo da Faculdade de Leis e recomendou que a nova
matéria fosse ensinada por um ano inteiro45. Além da literatura jurídica,
Nogueira lia também os “escriptores de economia”, apreciando sobretudo
o filósofo iluminista italiano Antonio Genovesi (m. 1769), cujas Lezioni
di commercio o sia di economia civile (1765/1767) ele parcialmente tra-
duziu46.
versidade de Coimbra, sob o título Prelecções de Direito Público Interno de Portugal.
Que a estrutura das Ordenações não correspondia, no ver de Nogueira, ao “methodo
scientifico” é algo que pode ser verificado em seus Apontamentos para a reforma do curso
de direito civil da universidade, 1787, Biblioteca Nacional de Portugal, Manuscrito, cod.
4676, f. 175.
44 – Para a participação na Academia das Ciências, cf. Macedo, Elogio historico..., p.
21 e Silva, Diccionario bibliographico..., p. 162. Segundo o primeiro, p. 14, grifo nosso,
Nogueira demonstrava pelo menos desde 1772 interesse por “aquella tão util Sciencia,
que se chama Economica, e Administrativa”.
45 – Cf. Nogueira, Apontamentos..., f. 168-80. Compare-se isso com Coimbra, Estatu-
tos..., p. 277 (II, II, I, 1).
46 – Ver Nogueira, Prelecções..., p. 152. Nos anos 1820, o autor, ao que parece, valorizava
muito os “conhecimentos das Sciencias políticas, e económicas”. Cf. Nogueira, “Ras-
cunho...”, p. 32. Aliás, na Biblioteca Nacional de Portugal encontra-se um manuscrito
intitulado “Lições de Economia Civil e Politica Traduzidas das que escreveo em Italiano
o Abbade Antonio Genovesi [...] por diligência do Doutor António Ribeiro dos Santos seu
amigo e colega”, códice 2168. Essa tradução de Nogueira, jamais publicada, mostra o seu
grande interesse por questões relacionadas à educação, à economia e à evolução demo-
gráfica. Também revela sua simpatia pelo filósofo italiano, autor eclético influenciado por
ideias fisiocráticas e mercantilistas. A difusão da Economia Civile genovesiana em Portu-
gal foi favorecida por diversos fatores. A Itália funcionou como uma importante ponte na
recepção do Iluminismo no país. Outros escritos de Genovesi já eram conhecidos em Por-
tugal, tendo alguns deles servido mesmo como manuais de metafísica e lógica em escolas
locais. Por fim, as preocupações de Genovesi e seu background cultural se assemelhavam
muito aos dos portugueses que mais se incomodavam com o relativo atraso de seu país no
contexto europeu. Sobre a influência de Genovesi em Portugal, cf., e.g., António A. Banha
de Andrade, Contributos para a história da mentalidade pedagógica portuguesa, Lisboa,
Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1982, p. 624 e 635-6, sobretudo; José Esteves Perei-
ra, O pensamento político em Portugal no século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional / Casa
da Moeda, 1983, pp. 91ss, 179, 207-8, 336 (n. 1); José Joaquim Lopes Praça, História da
filosofia em Portugal, 3ª ed., Lisboa, Guimarães Editora, 1988, pp. 276-8, 294-5 (n. 47);
Cardoso, O pensamento económico..., p. 305; Francisco José Calazans Falcon, A época

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Airton Cerqueira-Leite Seelaender

Segundo Nogueira, a Economia Civil era a “sciencia” que ensinava


“os meios de fazer huma Nação populosa, rica, poderosa, polida, e bem
costumada”. Ela mostrava, entre outras coisas, como “promover” – “para
levar a Nação ao mais alto ponto de opulencia, força e civilização de que
ella he capaz” – “a povoação, agricultura, industria e commercio”47. Iden-
tificada com a “economia do Estado”, a Economia não se ocupava com os
“motivos de justiça” que inspiravam as decisões do Legislador, mas sim
com a “utilidade” que este buscava para o Estado48. Em última análise,
ela fornecia uma técnica para fortalecer estados, na qual o crescimento
populacional e o enriquecimento dos governados eram vistos e tratados
sobretudo como meios, não como finalidades em si49.

A Economia não deveria, porém, apenas orientar, como um saber


técnico, a gestão estatal nos quadros do Absolutismo. Também tinha por
função legitimar as leis da monarquia absoluta.

Cabia à “Economia Civil”, como matéria universitária, revelar aos


futuros legistas a “utilidade” das leis reais e esclarecer quais eram os pro-
váveis motivos de “interesse publico” a elas subjacentes. Nesse contexto

pombalina, 2ª ed., São Paulo, Ática 1993, p. 78 (n. 218); Fernando A. Novais, Portugal e
Brasil na crise do antigo sistema colonial, 6ª ed., São Paulo, Hucitec, 1995, pp. 229-30; e
sobretudo Vaz, “A difusão das ideias...”, pp. 553-4 e 561ss. Quanto à maneira de Nogueira
lidar com as ideias de Genovesi, cf., além da tradução supracitada, Vaz, “A difusão das
ideias...”, p. 563ss.
47 – Nogueira, Apontamentos..., f. 168v, grifo nosso, e 174v. O mesmo ideal de maximi-
zação das bases do poderio estatal pode ser encontrado tanto em Genovesi quanto nos
tratados de polícia disponíveis na Biblioteca da Universidade de Coimbra. Ver Antonio
Genovesi, Lições de economia civil e politica traduzidas..., s/d, trad. de Ricardo Raymun-
do Nogueira, Biblioteca Nacional de Portugal, Manuscrito, códice 2168, f. 1 e Johann
Heinrich Gottlob von Justi, “Préface”, in: Élémens généraux de police [Grundsätze der
Policeywissenschaft, 1756], Paris, Benoît Rozet, 1769, p. 3: “aumenter ses forces & sa
puissance autant qu’il en est capable”.
48 – Nogueira, Prelecções..., p. 121. A Economia Civil ensinava, no ver do autor, “noço-
ens geraes do que he util, ou prejudicial ao bem do Estado”. Já o que era justo ou injusto,
isso competia ao Direito Natural definir. Ver Nogueira, Apontamentos..., f. 168v e 173v,
sobretudo.
49 – Cf. Nogueira, Apontamentos..., f. 174 e Prelecções..., p. 136. Essa ideia de instru-
mentalidade do econômico correspondia, aliás, a uma das principais tendências do discur-
so mercantilista. Cf. Eli F. Heckscher, La época mercantilista, México, Fondo de Cultura
Económica, 1983, pp. 9, 463ss, 466, em especial.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

ela devia ajudar na busca da real intenção do legislador, sem servir, no


entanto, como instrumento de crítica a este último. De acordo com os
“Apontamentos”, “o Jurista” não devia nunca declarar a lei do soberano
imprópria “para o fim a que se encaminha” – nem mesmo quando as ra-
zões de sua existência lhe parecessem insuficientes ou lhe continuassem
inapreensíveis.

Como ciência auxiliar da interpretação jurídica, a Economia devia


capacitar os juristas para identificar as prováveis razões políticas das leis,
fazendo-os observarem melhor, na aplicação do direito, a vontade do le-
gislador50. O objetivo de tal capacitação consistia, pois, no aumento da
efetividade do poder da Coroa quanto ao exercício da atividade legisla-
tiva.

Na segunda metade do século XVIII, ao acentuar-se a preocupação


da Coroa portuguesa com as bases do poderio estatal (como o número de
súditos e a situação dos diferentes ramos da economia), surgiu uma notá-
vel intensificação da atividade legislativa51. A lógica da nova legislação,
contudo, precisava ser apreendida pelas novas gerações de juristas. Nesse
contexto, a matéria “Economia” devia assumir a missão de tornar essa
lógica compreensível, impedindo o aplicar “errôneo” da nova legislação,
que podia sabotar os esforços governamentais.

Essa concepção da Economia Civil como um instrumento auxiliar da


interpretação das leis correspondia, em última análise, à tendência, então
verificada, para um influenciar recíproco, por parte dos discursos jurídico
e econômico. A mesma concepção justificava a proposta de Nogueira de
introduzir a matéria nos cursos jurídicos, e não na faculdade que devia
abarcá-la como objeto “filosófico”. Não era o lugar da Economia no sis-
tema vigente das ciências, mas sim a sua relevância como referência para

50 – v. Nogueira, Apontamentos..., f. 171. Cf. também pp. 168-9 e 181.


51 – Para uma análise do fenômeno, cf. Seelaender, Polizei..., p. 46ss. Já comprovando
sua ocorrência em comparação com o reinado de D. João V, António Manuel Hespanha,
“Nota do tradutor”, in: John Gilissen, Introdução histórica ao direito. Lisboa, Gulbenkian,
1988, pp. 321-3, que, no entanto, excluía de sua contagem um dos veículos preferenciais
da nova legislação: os alvarás.

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todos os ramos do Direito que devia determinar, aqui, a qual faculdade o


curso viria a se vincular52.

Como ciência e esfera específica da ação estatal, a Economia Ci-


vil se relacionava a todos os ramos da atividade econômica. Segundo as
“Prelecções”, ela se ocupava de assuntos como “educação”, “industria”,
“commercio”, “pureza dos costumes”, tamanho da população, cultivo
das “artes e profissões”, “segurança pública”, abastecimento de víveres e
“bom estado dos logares públicos”.

Os três últimos temas pertenciam, mais precisamente, à “policia”,


que Nogueira definia como “ramo da economia civil”. Ainda segundo
as “Prelecções”, a polícia se ocupava propriamente da “segurança dos
cidadãos”, da “bondade, abundancia, e justo preço” das mercadorias e
do “bom estado, e uso commodo das ruas, estradas e logares públicos”.
Ela competia aos “magistrados de policia” – também chamados de “ma-
gistrados politicos”. Estes seriam tanto os tradicionais representantes
da administração citadina – e.g., os almotacés, os vereadores e os juí-
zes ordinários – como também servidores da Coroa stricto sensu, como
o intendente-geral da Polícia e os intendentes “de obras públicas”, quer
dizer, por exemplo, das intendencias que se ocupavam das estradas ou
dos rios Douro e Mondego. Compreender-se-iam aqui também diversos
juízes reais (corregedores, juízes de fora, desembargadores da Casa da
Suplicação, chanceler da Relação do Porto, etc.), que, no normal exercí-
cio de seus ofícios ou com base em funções suplementares (“comissão”),
tivessem de tratar de matérias tidas por policiais (serviços de vigilância,
identificação de “clerigos travessos e revoltos”, controle de armas, obras
públicas, estalagens, inspeção de pontes, estradas e fontes, etc.)53.
52 – Traçando um paralelo entre o Direito Natural e a Economia Civil, o autor situa ambos
na Filosofia, mas defende seu ensino nas faculdades jurídicas. Ver Nogueira, Apontamen-
tos..., f. 173 (em especial, a n. ‘a’). Do ponto de vista formal, a despeito do anterior ensino
das “Artes” em Coimbra, somente em 1772 se fundou ali uma faculdade de filosofia. As
ciências naturais constituíam o núcleo do currículo, que não incluía matérias como “Polí-
tica”, “Economia” ou “Ciência da Polícia”. Cf. Coimbra, Estatutos..., p. 228f (III, III, II,
II, 1-4) e 230 (III, III, II, II, 7) e Rodrigues, Memoria..., p. 269.
53 – Ver Nogueira, Prelecções..., pp. 135-6, 143, 152-7. Segundo o autor, tal definição
correspondia ao conceito de polícia “em significação estricta”, que em regra seria aceito

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

Nogueira tentou classificar os “magistrados” em específicos “ramos


de jurisdicção”. Reconhecendo a existência de diferentes esferas de ativi-
dade estatal, ele não podia deixar de registrar que, em Portugal, o proces-
so de separação dessas mesmas esferas ainda não se havia completado.

Entre os “magistrados do nosso reino” – diziam as “Prelecções” –


“nenhum há, cuja jurisdicção se limite a um só gênero de negócios”. Por
não serem sempre observadas as diferenças que existiam entre os vários
“ramos de jurisdicção”, ainda competiam aos magistrados numerosas ta-
refas inapropriadas (“muitas cousas desvairadas”)54. Como percebia No-
gueira, no final do século XVIII os juízes ainda participavam da polícia e
do “governo econômico” local. O Chanceler da Relação do Porto detinha
a “comissão” de “inspector-geral das obras públicas”; juízes lisboetas
buscavam “pessoas de ruim viver” nas estalagens. Esse acúmulo de fun-
ções não era, de qualquer modo, o único obstáculo para o prosseguimento
do processo de separação das esferas de atividade estatal. Tendo diversas
finalidades ao mesmo tempo, algumas tarefas – como o combate à va-
diagem – podiam ser simultaneamente classificadas em vários “ramos de
jurisdicção”55.

Nas “Prelecções”, a análise das diferentes esferas da atividade estatal


não desembocava, contudo, em uma apologia explícita da separação de
poderes. Nogueira lera De l’esprit des lois e falava ocasionalmente de um
“poder judiciario”, mas sua imitação de Montesquieu não ia tão longe que
o levasse a contestar os próprios fundamentos da monarquia absoluta56.
Nada prenunciava, aqui, o posterior empenho de Nogueira pela indepen-

pelos “escriptores de economia”. Um conceito alternativo mais amplo, contudo, não chega
a ser mencionado nas Prelecções... (cf. p. 152). Ver também Nogueira, Apontamentos..., f.
174-174v. Também nesse ponto, não se deve excluir a possível influência de Genovesi.
54 – Nogueira, Prelecções..., pp. 121-2.
55 – Ao lado da finalidade policial da segurança – o combate à “vida livre e licenciosa”
geradora de “homens viciosos” tendentes ao crime – havia aqui uma outra finalidade,
esta meramente econômica: “fomentar a industria” das classes baixas procedendo “contra
os vadios e mendigos”. Cf. Nogueira, Prelecções..., p. 153. Ver ainda pp. 152 e 155 (em
exame conjunto), como também pp. 152-7, além de Genovesi, “Lições de Economia Civil
e Politica Traduzidas...”, f. 304.
56 – Cf., respectivamente, Nogueira, Prelecções..., p. 10 (n. 1) e p. 134.

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dência da Justiça. Segundo as “Prelecções”, a existência e autoridade dos


órgãos judiciais não se assentava nas prestigiosas “leis fundamentaes”,
decorrendo, na verdade, apenas de “leis (…) puramente civis”, passíveis
a todo momento de alteração pelo rei57.

Não faltavam nas obras de Nogueira pontos de apoio para sustentar a


superioridade do legislador em face da Justiça. Sua concepção do “direito
de legislar” real como cerne da soberania, seu conceito de lei radicalmen-
te voluntarista e sua defesa da vinculação do juiz às leis esvaziavam o
“poder judiciario”. Em caso de necessidade podia o rei-legislador neutra-
lizar este último por meio de dispensas, isenções e atos de graça58. Impor-
tante notar, aliás, que Nogueira via a concessão de dispensas e privilégios
como expressão do próprio poder de legislar: “só o legislador supremo”
podia “conceder privilegios, porque só elle” tinha “auctoridade de dis-
pensar nas leis” gerais por ele mesmo criadas59.

Por trás da concessão dos privilégios e da aplicação de sanções puni-


tivas e prêmios, Nogueira via um Legislador desejoso de dirigir “as acções
dos cidadãos” no sentido da “conservação e melhoramento do Estado”.
As “Leis Civis” editadas pelo rei visavam à prosperidade da “Nação”, ao
fortalecimento do “Corpo Politico” e à cura de suas “enfermidades”. Tais
leis refletiam, assim, não apenas a vontade do governante absoluto, mas
também nobres “motivos […] de utilidade”. Nesse contexto, a ideia de
uma resistência judicial às leis reais parecia, em última análise, destituída
de sentido. O monarca era o “primeiro motor” da “grande machina” do
57 – Veja-se, por exemplo, a proibição da demissão arbitrária de juízes no projeto de cons-
tituição de 1823 em Nogueira, “Projecto...”, p. 29, assim como Nogueira, Prelecções..., p.
91.
58 – Isso não constituía uma ideia original em Portugal do Antigo Regime. Ali já existiam,
inclusive, antigos órgãos específicos ligados à Coroa, competentes para o exame de maté-
rias inseridas no âmbito da “Graça”. Cf., por exemplo, Nogueira, Prelecções..., pp. 129 e
159ss. Segundo Nogueira, “a lei é a norma prescripta pelo soberano a seus subditos, para
por ella regularem suas acções”. Ela “recebe [...] toda a sua força da vontade do summo
imperante” (Nogueira, Prelecções..., p. 107). Ver ainda ibidem p. 106 e Nogueira, Apon-
tamentos..., f. 166.
59 – Cf. Nogueira, Prelecções..., p. 99. Sobre o tema, ver também Michael Stolleis,
“Grundzüge der Beamtenethik (1550-1650)”, in: Staat und Staatsräson in der frühen
Neuzeit, Frankfurt am Main, Suhrkamp, pp. 197-231, pp. 176-7.

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curso pró-absolutista na literatura jurídica portuguesa do final do antigo regime

Estado; dentro desta “machina” devia a Justiça, a rigor, exercer uma fun-
ção meramente instrumental60.

Todos os agentes estatais – inclusive os “magistrados economicos”


e os “magistrados de policia” – seriam instrumentos do legislador e exe-
cutores de sua vontade. Órgãos como a “Real Junta do Commercio, Agri-
cultura, Fábricas e Navegação” deviam “vigiar na execução das leis já
estabelecidas”, eventualmente propondo ao governo novas medidas mais
eficazes. Assegurar a “observância das leis” era, por sinal, um dever dos
“Deputados” das sociedades mercantis privilegiadas, da censura real,
do “fiscal dos diamantes” e de muitos outros agentes e órgãos coletivos.
Note-se, aliás, que as “Prelecções” tendiam mesmo a descrever a ação
“policial” ou “econômica” como uma simples realização da vontade do
legislador61.

Nogueira não ignorou o “governo economico” das cidades nem a


conexa atividade legislativa no âmbito local. As “Prelecções” tratavam,
por exemplo, da regulação municipal das relações de trabalho, inclusive
fixando valores máximos para este último. Abordavam o abastecimento
de víveres e assuntos próximos ou correlatos – tais como o controle e fi-
xação de preços, o combate aos monopólios e a fiscalização da qualidade
dos alimentos.
Segundo Nogueira, “sobre todos estes pontos devem as camaras fa-
zer posturas”. No entendimento do autor, as posturas eram “accordãos,
estatutos e regulamentos” do concelho como “corporação”. Elas se refe-

60 – Ver Nogueira, Prelecções..., p. 106; Nogueira, Apontamentos..., f. 168; e, no mesmo


sentido, Nogueira, Prelecções..., pp. 107, 140, 83 e 81; assim como Nogueira, Aponta-
mentos..., f. 169. No século XVIII, essa utilização concomitante das metáforas do corpo
e da máquina não parecia de modo algum contraditória. Nos textos políticos da época, o
corpo não era usualmente entendido “no sentido do moderno conceito de organismo”, mas
sim com base na “analogia do mecanismo”. Cf. Barbara Stollberg-Rillinger, Der Staat als
Maschine, Berlin, Duncker & Humblot, 1986, p.109 e 111, sobretudo.
61 – Nogueira, Prelecções..., p. 152. Para indícios do papel de magistrado como instru-
mento do monarca, cf., e.g., Nogueira, Prelecções..., p. 174. Citação na p. 143. Nas pp.
148-9, o autor salienta existir em “cada uma d’estas sociedades” um “fiscal” com o espe-
cífico dever de promover essa “observancia”. O comentário sobre a Real Mesa Censória e
o análogo órgão que a sucedeu encontra-se na pp.137-8. Ver ainda p. 145.

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riam ao “governo económico do concelho, preços de mantimentos e outras


cousas” da vida local, cabendo a servidores da administração concelhia
– como os almotacés – zelar por sua aplicação. De “tanta auctoridade”
gozariam as posturas, que somente o próprio rei poderia revogá-las, quan-
do feitas regularmente. Era, no entanto, possível que os corregedores exa-
minassem a origem das posturas, declarando-as “nullas” se verificassem
aqui a inobservância dos procedimentos legalmente exigidos. É interes-
sante registrar, aliás, que Nogueira sequer cogita de tal hipótese, quando
analisa paralelamente as leis reais sobre temas policiais e econômicos62.
Sobre o problema da eficácia das leis – aqui incluída a legislação
econômica e de polícia – não silenciam as obras de Nogueira. Ele salien-
tou a importância de rápidos processos decisórios no âmbito da polícia
e lamentou que velhas leis nessa área caíssem em esquecimento. Via na
dificuldade para aplicar certas leis uma “experiencia” digna de atenção. A
experiência também podia ser útil à hora de regular matérias então vistas
como tipicamente econômicas63.
De acordo com a legislação lusitana “magistrados politicos e eco-
nômicos”, como o Intendente Geral da Policia, podiam deixar de lado
muitas formalidades do procedimento judicial ordinário, quando se tra-
tasse de punir mendigos e vadios ou de forçá-los a trabalhar. Este proce-
dimento especial menos formalizado não se fundava apenas no direito do
“legislador” de obrigar os “cidadãos” a contribuírem “com as suas forças
e industria para a opulencia do Estado”. Nogueira também acreditava que
no âmbito da “economia” e da “polícia” deviam valer regras específicas
no campo processual. Por sua própria natureza, casos referentes a objetos

62 – Nogueira, Prelecções..., p. 155. Ver ainda pp. 146 e 155-8. Citações extraídas da
p. 156, onde também encontramos uma singela exposição do conteúdo das Ordenações
Filipinas [1603]..., v. 1, pp. 104-5 (I, LVIII, 17). Também descrevendo as posturas como
“Acórdãos”, cf. Correa da Silva, Prelecções..., v. 2, f. 71. Talvez possamos ver, nesses ter-
mos sobrepostos, uma marca da transição de Satzung para Gebot, na tipologia de Wilhelm
Ebel, Geschichte der Gesetzgebung in Deutschland, Göttingen, O. Schwartz, 1988. Para
a atitude dos corregedores quanto às posturas, cf., por exemplo, Nogueira, Prelecções...,
pp. 135ss e 152-158. Uma relativização dos aspectos formais de certos tipos de lei pode,
aliás, ser encontrada em Nogueira, Prelecções..., pp. 109-110 e 112-3.
63 – Ver, e.g., Nogueira, Prelecções..., p. 191; e Nogueira, Apontamentos..., f. 185, que
versa sobre a “cola” no âmbito da educação universitária.

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As Prelecções de Ricardo Raymundo Nogueira (1746-1827): alguns aspectos do dis-
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da polícia demandavam rápidas soluções por meio de rápidos processos64.


Como vemos, aqui importava mais a efetiva aplicação das leis policiais e
econômicas do que o aprofundamento da discussão sobre a justiça de sua
aplicação em cada caso concreto.
Nem ponderações de justiça nem concessões ao ideal jusracionalista
da sistematicidade distanciavam Nogueira de sua concepção básica de
que a vontade real era a verdadeira fonte da validade das leis. Por isso
mesmo, a fiel descrição destas últimas (como ordens do soberano) lhe pa-
recia mais importante do que a “exactidão” de sua organização sistemá-
tica segundo o “methodo Mathematico”. Nas “sciencias de authoridade”
como a “Jurisprudencia Civil”, não era necessário, no ver de Nogueira,
“demonstrar tudo mathematicamente”65.
Nogueira adotava um conceito voluntarista de lei que não favorecia
o uso crítico de princípios de direito natural na análise do “direito pátrio”.
Na sua opinião, o direito natural devia mostrar que as leis eram justas –
mas questionar essa justiça era algo que não cabia ao jurista. Tratava-se,
pois, de um direito natural preponderantemente legitimador, que não vi-
sava, em última análise, a limitar realmente o poder do legislador66.
Identificando incondicionalmente a lei com a vontade mutável do
monarca absoluto, Nogueira podia também justificar, implicitamente, dis-
tanciamentos do legislador em relação aos pontos de vista tradicionais
sobre os “bons costumes”, mesmo quando estes se vinculassem a dita-
mes religiosos. Nas “Prelecções” já era perfeitamente possível descrever

64 – Cf., e.g., o Decreto de 4/11/1755 e o Alvará de 25/6/1760 , in: Appendix das Leys Ex-
travagantes, Decretos e Avisos, Lisboa, Mosteiro de São Vicente de Fora, 1760, pp. 387 e
309 (n. 19), respectivamente; além do Alvará de 15/1/1780, in: António Delgado da Silva,
Collecção da legislação portugueza, Lisboa, Typ. Maigrense, 1828, pp. 255-6. Ver ainda
Nogueira, Prelecções..., p. 140. Sobre o “processo de polícia” no Antigo Regime, com
o registro de posições discordantes sobre a funcionalidade deste conceito, ver A. C. L.
Seelaender, “A Polícia e as funções do Estado”, Revista da Faculdade de Direito UFPR,
v. 49, 2009, pp. 73-88, p. 79, e T. Simon, Gute Policey....
65 – Cf. Nogueira, Apontamentos..., f. 175. Tal entendimento correspondia, também, à
crença do autor, de que os “textos” do direito vigente continham “decisoens e não princi-
pios” (ibidem).
66 – Cf. Nogueira, Apontamentos..., f. 171 e 181-2. Neutralizava-se, nesse contexto, o
potencial crítico da ideia de que o Direito Natural esclarecia o que o legislador “podia
fazer”. Ver Nogueira, Apontamentos..., f. 169.

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como uma simples curiosidade, sem observações moralizantes, a subs-


tituição da proibição legal dos jogos de cartas por privilégios régios de
comercialização de baralhos67. O autor, aliás, não tendia a contestar nem a
mutabilidade das leis nem a possibilidade de criação de direito novo68.
Dessa possibilidade dependia em parte a crescente intervenção do
legislador no âmbito da Economia Civil – inclusive nas atividades eco-
nômicas na acepção hoje predominante desse termo. Longe de questiona-
rem tal intervenção, as “Prelecções” lançavam mesmo críticas à irracio-
nalidade do mercado69. Em tal obra figuravam, lado a lado, manifestações
favoráveis ao princípio do “justo preço” e à “liberdade dos movimentos”
na esfera econômica; nela não se atacavam nem as corporações de ofício
nem a prática de fixar normativamente o preço dos produtos e da mão de
obra70. A intervenção estatal era apresentada aqui como um fator de ra-
cionalização da economia: “enganados pela cobiça indiscreta de levarem
muito, com pouca despesa”, os “commerciantes” acabavam por arriscar
irresponsavelmente o seu próprio patrimônio, se, por exemplo, o “gover-
no” não vigiasse com rigor o comércio marítimo71.
Essa tendência das “Prelecções” de aceitar implicitamente ou mes-
mo de apoiar a intervenção estatal correspondia, à época, à orientação
dominante no discurso “econômico” português. Ela também era, por si-
nal, totalmente compatível com a defesa de um papel ativo da Coroa, na
criação do direito72.

67 – Cf. Nogueira, Prelecções..., p. 179 (n. 2).


68 – A crença de Nogueira na mutabilidade do direito refletia também a sua tendência para
analisar as instituições sociais a partir de uma perspectiva evolucionista. A conexão das
leis com o “estado de civilisação” e com o correlato “systema de governo” implicava, na-
turalmente, a mutabilidade delas próprias. Cf. Nogueira, Prelecções..., pp. 7-9. Pensando
nessa mesma conexão, o autor podia até, em princípio, ter concebido limitações fáticas ao
poder do legislador. Nogueira, contudo, não desenvolveu essa linha de argumentação no
que tange ao rei-legislador de sua época.
69 – Cf. Nogueira, Prelecções..., p. 150.
70 – Cf. Nogueira, Prelecções..., pp. 135, 152, 174-5 e 145-6.
71 – Cf. Nogueira, Prelecções..., p. 150-1.
72 – Para um exame da correspondência entre o ideal do legislador ativo e a ampla con-
cepção que Nogueira tinha dos fins do Estado, ver, e.g. Nogueira, Prelecções..., pp. 106-
107, 140 e 141-2.

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4. Os escritos de Nogueira antes das invasões napoleônicas nos


mostram, em suma, o emprego de conceitos-chave do discurso absolutis-
ta, à hora de legitimar a expansão da atividade legislativa real e de recla-
mar a submissão do meio jurídico às leis do Absolutismo Reformador.
As ideias de “polícia”, “economia” e “governo econômico” tendiam
a marcar, nessa época, espaços abertos ao rei-legislador e a seus agentes;
a indicar esferas em que o monarca, implicitamente equiparado ao pai de
família no gerir da “grande casa” do reino, dispunha de um amplíssimo
poder de regular, ordenar e impor condutas. Esferas em que perdiam força
vários limites que a tradição jurídica havia, desde a Idade Média, imposto
na prática aos reis (“iura quaesita”, ideal do rei-juiz semi-inerte, privilé-
gios estamentais).
Na fase posterior a 1807, as características de pensador de transição
se acentuaram em Nogueira, tendo ocorrido, como vimos, uma parcial
assimilação do vocabulário liberal. A este deu o autor, contudo, um uso
estratégico conveniente para a sua corrente política. Por vezes, suavizou
os significados originais, reduzindo suas implicações potencialmente sub-
versivas. Outras vezes, alargou ou deturpou habilmente tais significados,
para estender às ações dos liberais termos de carga negativa, por estes
usados no ataque ao Absolutismo.
Em autores de transição como Nogueira, Cairu e José Bonifácio,
uma análise mais detida da linguagem pode indicar a necessidade de uma
relativização de antigas classificações que acentuam demasiadamente
contrastes e rupturas entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Aqui, seguir
a trilha dos conceitos – verificando, e.g., a adaptação de velhas palavras
a novas circunstâncias políticas – pode mostrar-se uma boa estratégia de
pesquisa.

Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Nativismo por adoção: letras e percurso do


doutor Marcelino Pereira Cleto (1778-1794)
Native by adoption: Dr. Marcelino Pereira Cleto’s
(1778-1794) writings and route
Marco Antonio Silveira1

Resumo: Abstract:
Este artigo tem por objetivo reconstituir a tra- The objective of this paper is to reconstitute the
jetória e o pensamento do doutor Marcelino trajectory and the thoughts of Dr. Marcelino
Pereira Cleto, magistrado régio que atuou como Pereira Cleto, royal magistrate who acted as
juiz de fora de Santos (1779-1787), ouvidor do itinerant judge in Santos (1779-1787), as om-
Rio de Janeiro (1787-1791), escrivão da devas- budsman in Rio de Janeiro (1778-1791), as
sa fluminense sobre a Inconfidência Mineira notary for the Rio de Janeiro inquiry on the In-
(1789-1790) e desembargador da Relação da confidencia Mineira2 (1789-1790) and as judge
Bahia (1791-1794). Através da concatenação of the Court of Appeals at the Relação da Bahia3
de sua atuação administrativa e dos escritos que (1791-1794). Through the linkage of his admin-
deixou – especialmente os atinentes à história istrative action and his writings – especially
de São Paulo e à jurisdição eclesiástica no Bra- those concerning the history of São Paulo and
sil –, busca-se sugerir que, embora nascido em the ecclesiastical jurisdiction in Brazil – this
Portugal, Pereira Cleto absorveu concepções paper suggests that, though born in Portugal,
nativistas emergentes no período em que viveu Pereira Cleto absorbed the native concepts that
na América. emerged during the period he lived in America.
Palavras-chave: Marcelino Pereira Cleto; Amé- Keywords: Marcelino Pereira Cleto – Portu-
rica portuguesa; administração; historiografia. guese America – Administration – History writ-
ings.

Papéis do Brasil
A renovação dos estudos relativos à história política da América por-
tuguesa, beneficiada pelo contato mais arraigado, nas últimas décadas,
com a historiografia e os arquivos lusos, resultou em abordagens varia-
das, dentre as quais pode ser destacada a que privilegia a reconstituição
de trajetórias individuais de autoridades. Tal perspectiva coaduna-se, cer-
1 – Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Adjunto
da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2
pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Agradeço
à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pelo financia-
mento de pesquisas decisivas para a confecção deste artigo. Agradeço às colegas Andréa
Lisly Gonçalves e Maria Eliza de Campos Souza por prestimosas informações, bem como
a Ronald Raminelli e seus orientandos por terem debatido este artigo e proposto sugestões
fundamentais.
2 –1Patriotic movement against the Portuguese domination in Brazil.
3 –1The Bahia Court of Law.

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Marco Antonio Silveira

tamente, com o impacto, no Brasil, de diferentes vertentes voltadas para


a micro-história e a prosopografia4. Nesse sentido, a investigação de ma-
gistrados como o ouvidor Caetano da Costa Matoso e o desembargador
José João Teixeira Coelho, ambos atuantes na Vila Rica setecentista, tem
permitido a melhor compreensão não apenas do funcionamento de instân-
cias locais de poder, mas também de sua inserção em estruturações mais
amplas que articulam, a um só tempo, complexas dimensões públicas e
privadas. É em tal perspectiva que se pretende avaliar aqui o percurso do
doutor Marcelino Pereira Cleto.

A trajetória de magistrados como Pereira Cleto oferece material


precioso para a realização de estudos que, partindo da renovação men-
cionada acima, desejam, contudo, superar abordagens excessivamente
localistas. Tendo-se formado em Coimbra e desenvolvido toda sua car-
reira de magistrado no Brasil, Marcelino Pereira Cleto é geralmente co-
nhecido – na verdade, pouco conhecido – por dois episódios tratados de
modo isolado: o primeiro é o discurso que escreveu, provavelmente em
1781, intitulado Dissertação a respeito da Capitania de São Paulo, sua
decadência e modo de restabelecê-la5; o segundo é sua atuação na Incon-

4 – Cf. Stuart Schwartz. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. Trad., São Paulo:
Perspectiva, 1979; Arno Wehling & Maria José Wehling. Direito e justiça no Brasil colo-
nial. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. José Subtil. O desembargo do Paço. Lisboa: UAL,
1996; Nuno Gonçalo Monteiro, Pedro Cardim & Mafalda Soares da Cunha (org.). Optma
pars. Elites ibero-americanas no Antigo Regime. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais,
Instituto de Ciências Sociais, 2005. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. “Rapsódia
para um bacharel”. In: Luciano Raposo de Almeida Figueiredo & Maria Verônica Campos
(coord.). Códice Costa Matoso. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1999, pp. 37-
154. Caio César Boschi. “Textos introdutórios”. In: José João Teixeira Coelho. Instrução
para o governo da Capitania de Minas Gerais (1782). Belo Horizonte: Arquivo Público
Mineiro, 2007, pp. 21-150.
5 – A Dissertação, datada de 25 de outubro de 1782, foi inicialmente publicada no núme-
ro XXI dos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 1899, pp. 193-254. Em
1977, foi novamente editada, compondo, com outros três trabalhos, o primeiro volume
da Coleção Paulística, sob o título Roteiros e notícias de São Paulo colonial (pp. 11-52).
Enquanto a primeira publicação procurou preservar a grafia original, a segunda, aparen-
temente retirada da anterior, efetuou uma atualização por vezes problemática e deixou
de inserir as notas feitas pelo próprio Pereira Cleto. Por isso, as citações da Dissertação
neste artigo tomarão como base a edição dos Anais. As atualizações das referências aqui
citadas, tanto de grafia quanto de pontuação, são responsabilidade do autor.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

fidência Mineira como escrivão da devassa do Rio de Janeiro. Quando,


no entanto, ambos os episódios são associados, surge a imagem de um
ministro perpassado pelo reformismo ilustrado, ambiguamente vinculado
a interesses locais e inserido nas redes administrativas de troca de papéis
e informações. No que se refere a este último ponto, confirma-o a extensa
documentação de sua autoria depositada na Torre do Tombo, no fundo
denominado Papéis do Brasil.

Avaliando a composição do referido conjunto documental, a pesqui-


sadora Marta Páscoa sugeriu recentemente que seu nome fosse alterado
para “Coleção Pereira Cleto”, dada a significativa participação dos docu-
mentos produzidos ou colecionados pelo magistrado no volume total que
compõe os Papéis do Brasil6. Ao material de Cleto foram acrescidos, no
fundo, os de Matias José Ribeiro e Francisco Nunes da Costa, que, assim
como ele, trabalharam na Relação da Bahia. Porém, segundo Páscoa,
“Em conjunto, observámos que a maior parte dos códices havia sido
escrita ou compilada por Marcelino Pereira Cleto. Este homem, bacha-
rel em Letras, fez um percurso que o levou, no final do século XVIII, a
desempenhar diversos cargos em Santos, Rio de Janeiro, Minas Gerais
e Bahia. Em cada um destes lugares fazia pesquisas nos arquivos e
tirava apontamentos. Também escreveu dissertações sobre história e
sobre questões jurídicas e compilou cópias valiosas de trabalhos de
contemporâneos seus, como Fr. Gaspar da Madre de Deus7.”

A esse respeito, merecem destaque as Memórias relativas a São Pau-


lo, distribuídas em três códices, os de número 9 a 11, e as três dissertações
copiadas no códice 12: a Dissertação a respeito da Capitania de S. Paulo,
sua decadência e modo de restabelecer-se, já mencionada; a Dissertação
sobre o direito do conde de Vimieiro à Capitania de S. Vicente, datada de
23 de abril de 1783; e a Dissertação sobre a abertura de novos caminhos
na Capitania de S. Paulo e suas consequências no pagamento de direitos
com prejuízo para a Vila de Santos, datada de 11 de fevereiro de 1785.
Há ainda, no códice 13, a cópia de uma carta de Pereira Cleto, “desem-
6 – Marta Páscoa. Papéis do Brasil. A reconstituição de um percurso. Boletim. Lisboa:
Direção Geral de Arquivos, n. 6, julho a setembro de 2008, p. 9.
7 – Idem.

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Marco Antonio Silveira

bargador, ouvidor e corregedor do Rio de Janeiro”, datada de 2 de maio


de 1791, sobre o pagamento de soldos às tropas; e, por fim, no códice 1,
uma outra missiva, de 20 de fevereiro de 1788, referente a problemas de
jurisdição eclesiástica no Brasil.

Uma vez que parte expressiva dessa documentação é autógrafa, é


possível formular a hipótese de que os papéis do fundo depositado na Tor-
re do Tombo constituem o registro guardado pelo próprio doutor Marceli-
no. Seria pertinente, nesse caso, dar crédito à sugestão indicada por Marta
Páscoa, para quem os fólios gerados por Matias José Ribeiro, Francisco
Nunes da Costa e Marcelino Pereira Cleto foram levados, por algum co-
lega desembargador, ao Porto, onde caíram nas mãos do doutor Antônio
Pereira de Almeida Silva e Siqueira, lente da Universidade de Coimbra,
que neles realizou diversas anotações. Uma outra observação relativa ao
conjunto documental dos Papéis do Brasil implica a cronologia de seus
escritos, a maioria dedicada à história e à situação político-econômica da
Capitania de São Paulo. Tendo assumido o posto de juiz de fora de Santos
em 1779, o grosso da produção de Cleto deu-se entre este ano e o de 1989,
quando, já como ouvidor do Rio de Janeiro, retirou-se para as Minas em
decorrência dos trabalhos demandados pela apuração da Inconfidência.

Juiz de fora em Santos


Marcelino Pereira Cleto, filho legítimo de Silvério Pereira e de dona
Francisca Joaquina do Nascimento e Vasconcelos, nasceu no lugar da
Barreiria, freguesia de Santa Catarina da Serra, termo da Cidade de Lei-
ria, em torno de 1745. Em 1778, quando de sua primeira nomeação para
os lugares de letras, morava na Corte, na Rua Direita do Arco da Graça,
e tinha, de acordo com as testemunhas de seu processo de habilitação na
Ordem de Cristo, de 30 a 35 anos8. Os vizinhos que, em Lisboa, juraram
sobre as partes pessoais, o exercício e a reputação do habilitando atestam
algo de seu universo relacional na ocasião. Entre os seis depoentes, três
eram clérigos professos na Ordem de Cristo: o frei João Evaristo da Silva,

8 – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT). Habilitações da Ordem de Cristo.


Marcelino Pereira Cleto. M – Maço 76, nº 3. Junho de 1778.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

oficial do assentamento da Real Fazenda, de 40 anos; o frei José Antônio


de Alvarenga Barros Freire, opositor aos lugares de letras, de 41 anos; e o
frei José da Silva Ribeiro, escrivão da Correição do Cível da Cidade, de
50 anos. Além deles, também depuseram Manuel Martins Seixas, oficial
da Chancelaria da Sereníssima Casa de Bragança, de 30 anos; Francisco
José de Carvalho, escrivão da Correição do Cível da Cidade, de 31 anos; e
Manuel Marques Ribeiro de Sousa, bacharel pela Universidade de Coim-
bra e opositor aos lugares de letras, de 50 anos – única testemunha que
afirmou conhecê-lo desde Leiria. O cavaleiro comissário responsável pela
inquirição, frei Caetano Escarlate, em seu relatório, ratificou o dito das
testemunhas, deixando a sensação de que Marcelino Pereira Cleto aguar-
dara durante anos a nomeação em Lisboa, sem dedicar-se regularmente a
outras atividades:
“Os seus princípios foram os estudos, seguindo os quais e formando-
se pela Universidade de Coimbra, presentemente está despachado
para juiz de fora da Vila de Santos, e por estar a partir logo que tiver
navio9.”

A família do doutor Marcelino, ao que tudo indica, compunha-se de


uma espécie de nobreza de freguesia ou termo, sem grande projeção. Pais
e avós haviam nascido no prórpio termo de Leiria, a avó materna sendo
natural da cidade. Segundo o secretário da Santa Casa da Misericórdia de
Leiria, esta última “era nobre por si e seus antepassados, e sempre se tra-
tou como pessoa nobre”. O avô materno, na qualidade de capitão, como
narrou um lavrador de 90 anos, “era nobre e como tal se tratou sempre à
lei da nobreza”. A avó paterna, segundo a informação de um velho traba-
lhador do lugar onde nascera, “era pessoa que vivia recolhida com criadas
e criados que cuidavam das suas fazendas, de que se governava”. O avô
paterno, por sua vez, de acordo com um fazendeiro, “era familiar do nú-
mero do Santo Ofício e vivia de suas fazendas, as quais cultivava com os
seus criados”. Os genitores de Pereira Cleto seguiram o mesmo caminho,
tornando-se proprietários de terras. Como contou um trabalhador de 77
anos, “sempre se trataram com criados e tendo bestas na estrebaria, e

9 – Idem.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 119


Marco Antonio Silveira

eram as pessoas principais desta freguesia”; o pai ocupava o posto de


alferes de Ordenança10. Durante os anos de sua formação no lugar da Bar-
reiria, o jovem Marcelino teria se ocupado apenas com estudos.

Tendo crescido no termo de Leiria, estudado em Coimbra e, por fim,


se instalado em Lisboa, no Arco da Graça, sempre almejando ingressar
no serviço régio, Pereira Cleto alcançou o intento através de uma consulta
efetuada em 14 de janeiro de 1778. Nela, concorreu com dois bacharéis de
sua geração, apesar de um pouco mais novos. Indicado em primeiro lugar,
embora, assim como os colegas, houvesse apenas lido bem na Mesa do
Desembargo do Paço, obteve a nomeação11. Marcelino realizara sua lei-
tura em 1765, com algo em torno de 20 anos. Chama a atenção que tenha
sido nomeado para um lugar de primeira instância apenas treze anos após
a leitura de bacharel, e justamente em janeiro de 1778, fase marcada pela
chamada Viradeira. O período de espera, relativamente dilatado para os
padrões da época, e o ano da nomeação sugerem a hipótese de que Pereira
Cleto, não gozando da simpatia do regime pombalino, teve de esperar sua
queda para iniciar a carreira. Destaque-se ainda que suas origens, embo-
ra implicassem riqueza e reconhecimento social, não pareciam ir muito
além dos limites do termo de Leiria, ancorando-se com certa modéstia,
como se viu acima, nos títulos de familiar do Santo Ofício, capitão e al-
feres de Ordenança, ostentados, respectivamente, pelo avô paterno, pelo
materno e pelo pai do magistrado. Nesse sentido, a inserção no serviço ré-
gio e a habilitação na Ordem de Cristo devem ter representado importante
conquista ascensional para a família de Silvério Pereira e dona Francisca
Joaquina do Nascimento e Vasconcelos.

De fato, foi a nomeação do doutor Marcelino que lhe garantiu o há-


bito de Cristo, e não o contrário. A obtenção de tal honraria por parte dos
magistrados tinha, pelo menos, dois sentidos: por um lado, representava
uma recompensa aos que se dispunham a exercer postos no Ultramar; por
outro, concedia certa força simbólica a ministros que, sendo muito jovens

10 – Idem.
11 – ANTT. Desembargo do Paço. Consultas sobre propostas de nomeações para lugares
de justiça. Maço 1913.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

e oriundos de famílias lusas interioranas e de nobreza ambígua, teriam de


enfrentar, nas colônias, autoridades truculentas e potentados arrogantes.
Seguindo a trilha de muitas outras nomeações do mesmo gênero, Cleto
foi indicado juiz de fora de Santos “para servir o tempo de três anos e o
mais que decorrer”. Preparou-se, então, para viajar ao Brasil, requerendo
e alcançando um conjunto de benefícios. No dia 16 de fevereiro, obteve
a mercê de ocupar o posto de provedor dos defuntos e ausentes, capelas
e resíduos da mesma localidade, com o ordenado respectivo. Através de
provisão régia de 2 de abril de 1778, a rainha confirmou sua indicação,
feita pelo contratador, para ser juiz conservador do contrato do sal na
Vila de Santos, recebendo o mesmo salário de seus antecessores. Em 21
de maio, nova provisão lhe concedeu 200 mil-réis de ajuda de custo para
organizar sua viagem e instalação. Em 3 de julho, para “ir servir mais
condecorado”, “cuja graça se praticava com os ministros que iam servir
no Ultramar”, obteve o hábito da Ordem de Cristo e 12 mil-réis de tença,
acrescidas de mais 8 mil. Quando já exercia as funções de juiz de fora, em
27 de agosto de 1779, por meio de consulta ao Conselho Ultramarino, foi
nomeado ainda juiz da Alfândega da Praça de Santos12.

É interessante constatar a exiguidade de documentos relativos a Mar-


celino Pereira Cleto entre os avulsos do Conselho Ultramarino. Se, para o
tempo em que serviu no Rio de Janeiro, se encontram algumas consultas
ou informações, os dados sobre seu exercício no posto de juiz de fora
são nulos. Esse fato surpreende ainda mais não só por Cleto ter estado
à frente da Câmara Municipal de Santos durante quase dez anos, entre
1779 e 1787, mas também pela existência de documentos concernentes a
seu antecessor e seu sucessor. Tal aspecto não inviabiliza, evidentemen-
te, uma investigação verticalizada de sua atuação no litoral paulista, mas
a torna dependente dos arquivos regionais. Seja como for, descontadas
possíveis perdas documentais, essa ausência poderia significar tanto um
certo descaso do doutor Marcelino com os assuntos sob sua alçada, quan-
to uma aversão a contendas jurisdicionais. Essa última sugestão é ratifica-

12 – ANTT. Registro Geral de Mercês de D. Maria I. Livro 2, folhas 248 e 248v. Chance-
laria de D. Maria I. Livro 11, folha 208; livro 83, folha 366; livro 80, folha 52v.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 121


Marco Antonio Silveira

da pelo próprio magistrado, que, em representação de 1789 ao Conselho


Ultramarino, já servindo no Rio de Janeiro, afirmaria ter obedecido a um
determinado acórdão da Relação, mesmo dele discordando, “para evitar
questões de jurisdição que sempre abominou”13. A primeira hipótese, por
sua vez, parece desmentir-se em função do próprio conjunto de papéis au-
tógrafos que, percorrendo esta ou aquela via, foram ter na Torre do Tom-
bo. Além disso, uma significativa ordem de Sua Majestade, patrocinada
pelo secretário de Estado Martinho de Melo e Castro, talvez explique o
desaparecimento dos documentos atinentes ao período em que o doutor
Marcelino serviu em Santos. Em 23 de maio de 1791, o conselheiro João
Batista Vaz Pereira dirigiu-se ao secretário nesses termos:
“Ilmo e Exmo Sr.
Em execução do real aviso de SMaj de 23 do corrente mês de maio,
remeto a VEx todos os papéis que existem na Secretaria deste Conse-
lho, dirigidos ao mesmo Conselho, pelo ouvidor da Comarca do Rio
de Janeiro Marcelino Pereira Cleto; e outrossim todas as patentes que
igualmente existem no sobredito Conselho para as suas confirmações
[...]14.”

Desse modo, é plausível aventar que a documentação gerada por Pe-


reira Cleto, sendo do interesse das autoridades da administração central, e
em particular de Martinho de Melo e Castro, acabou sendo extraviada dos
arquivos do Conselho Ultramarino. As dissertações escritas pelo doutor
Marcelino e mencionadas acima não compreendem um tipo de registro
desprezado pelos conselheiros – antes, pelo contrário. O juiz de fora de
Santos, durante o exercício de seu posto, trabalhou com afinco na recupe-
13 – Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) – Rio de Janeiro (RJ). Caixa 149, documentos
74 e 75. 22 de junho de 1791. “Consulta do Conselho Ultramarino à rainha [D. Maria I],
sobre o requerimento do ouvidor da Comarca do Rio de Janeiro, Marcelino Pereira Cleto,
solicitando provisão que declare que aos ouvidores da comarca toca a jurisdição de deli-
berarem como ação nova dentro das cinco léguas a que foram restritos pela carta régia de
10 de Dezembro de 1701”. Como dito acima, a petição de Cleto é de 1789.
14 – AHU – RJ. Caixa 149, documentos 45 e 54. 26 de maio de 1791. “Ofício do conse-
lheiro do Conselho Ultramarino, João Batista Vaz Pereira, ao [secretário de estado da Ma-
rinha e Ultramar], Martinho de Melo e Castro, enviando os papéis dirigidos ao Conselho
Ultramarino pelo ouvidor [do Crime] da [comarca] do Rio de Janeiro, Marcelino Pereira
Cleto; e relações das patentes dos postos criados pelo [vice-rei do Estado do Brasil, conde
Resende, D. José Luís de Castro]; e uma patente da capitania do Pará”.

122 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011


Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

ração de dados sobre a Capitania de São Paulo, suas dissertações e textos


congêneres podendo ter sido enviados ao Conselho como parte previsível
de sua atuação. Nesse sentido, nos Papéis do Brasil, são hoje encontradas
coleções, memórias e escritos de Pereira Cleto, alguns dos quais certa-
mente fundamentaram, por consulta ou por cópia, o material remetido a
Lisboa, inclusive para o secretário de Estado.

Se Marcelino Pereira Cleto era ou não criatura de Martinho de Melo


e Castro, a verdade é que sua carreira esteve intimamente ligada à ativida-
de letrada, cujos resultados circularam na Corte. Esse aspecto ajuda a ex-
plicar por que o magistrado permaneceu tantos anos à frente do lugar de
juiz de fora de Santos, bem como sua ascensão como ministro. O contexto
que o doutor Marcelino encontrou na Capitania de São Paulo era bastan-
te particular. Tendo atuado sob o governo dos capitães-generais Martim
Lopes Lobo de Saldanha (1775-1782) e Francisco da Cunha e Meneses
(1782-1786) – segundo e terceiro governadores após o período em que
a Capitania ficara subalterna ao Rio de Janeiro (1748-1765) –, Pereira
Cleto teve de lidar com duas questões espinhosas: a forte militarização de
São Paulo, decorrente do conflito com os espanhóis, tanto na Colônia de
Sacramento quanto na fronteira ocidental, e as consequências do declínio
da mineração em Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Os anos em que
Cleto esteve à frente da Câmara de Santos compuseram o interregno en-
tre a pujança mineratória e a forte expansão agrícola da década de 1790,
beneficiada pela alta do açúcar no mercado internacional15. Uma certa
tomada de posição favorável a Lobo de Saldanha na Dissertação – que,
de resto, revela-se crítica a respeito do governo anterior do Morgado de
Mateus (1765-1775) –, coaduna-se com a certidão que aquele lhe emitiu
já em 1780:
“Atesto e faço certo que o bacharel Marcelino Pereira Cleto Cortes da
Silva e Vasconcelos, juiz de fora da Vila de Santos, desde o dia em que
tomou posse do referido emprego, tem servido com satisfação minha
e de todo aquele povo, sendo notória a sua inteligência e atividade e
zelo do real serviço, e, além disto, consta-me de ciência certa que ser-
15 – Sobre a evolução da Capitania de São Paulo, cf. Maria Beatriz Nizza da Silva (org.).
História de São Paulo colonial. São Paulo: Editora Unesp, 2009.

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Marco Antonio Silveira

ve com muito desinteresse, não recebendo das partes donativo algum,


circunstâncias por que o considero merecedor da real atenção de Sua
Mejestade, o que, se necessário é, o juro pelo hábito de Cristo que
professo. São Paulo, 30 de fevereiro de 1780.16”

Da mesma forma, o doutor Marcelino retribuiu a gentileza do gover-


nador através de atestação passada pela Câmara Municipal de Santos, em
13 de julho de 178217.

Nativismo18
Se Cleto percebeu logo a necessidade de se formular um novo mo-
delo de desenvolvimento para a capitania vicentina, ancorado na redu-
ção dos gastos militares – aparentemente menos vitais após a assinatura
do Tratado de Santo Ildefonso, em 1777 – e no incentivo à agricultura,
também não lhe escapou a cristalização de um discurso nativista, expres-
so, por exemplo, na lembrança da Guerra dos Emboabas e nos trabalhos
16 – ANTT. Fundo Conde das Galveas / Condes de Povolide. Arquivo da Casa dos Condes
das Galveias. Maço 12 (pare 1 e 2). Atestações passadas pelo capitão-general. Minutas.
Uma vez que o fundo de onde foi extraída a certidão consiste de documentação privada de
Martim Lopes Lobo de Saldanha, ela se apresenta sob a forma de rascunho.
17 – ANTT. Fundo Conde das Galveas / Condes de Povolide. Arquivo da Casa dos Con-
des das Galveias. Maço 12 (pare 1 e 2). Correspondência das Câmaras dos Municípios.
Atestações passadas a favor de Martim Lopes Lobo de Saldanha.
18 – Infelizmente, não é possível, apesar de sua importância para os argumentos deste
artigo, desenvolver aqui uma discussão sobre o conceito de nativismo. Registre-se, con-
tudo, que ele não é concebido como forma pré-nacionalista, nem reduzido à expressão de
sentimentos, por parte dos colonos, contrários ao colonizador e em defesa de interesses e
costumes locais ameaçados. Este último sentido existiu durante a colonização da América
portuguesa, mas não esgota a discussão. É preciso, na verdade, pensar em nativismos,
cujos significados variam no tempo e no espaço. Sendo assim, o termo nativismo é en-
tendido neste artigo como sinônimo de valorização e reconhecimento da pequena pátria.
Na segunda metade do século XVIII, especialmente após as reformas pombalinas, era
possível pensar as relações entre os interesses de colonizadores e colonizados tanto em
termos de contradição como em termos de articulação. A apropriação nativista de Marce-
lino Pereira Cleto, nesse contexto, compõe os esforços de uma gama de magistrados lusos
no sentido de reconhecer e valorizar algumas dessas pátrias coloniais com o intuito de
inseri-las num modelo mais amplo de império. Nesse sentido, tais esforços fizeram parte
da tentativa de se elaborar um projeto de império luso-brasileiro, já gestado no pombalis-
mo e depois sistematizado com d. Rodrigo de Sousa Coutinho. Esse projeto, no entanto,
tem de ser compreendido pelo que foi: uma proposta política que, por fim, acabou arras-
tada pelas contradições do tempo.

124 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011


Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

historiográficos de Pedro Taques de Almeida Pais Leme e frei Gaspar da


Madre de Deus. Como assinalou Laura de Mello e Souza, ambos procura-
ram responder à altura o que consideravam detrações variadas à imagem
dos paulistas, elaboradas em parte por autores como André João Antonil
e Sebastião da Rocha Pitta19. Enquanto Pedro Taques dedicou-se exaus-
tivamente à preparação de sua Nobiliarquia e da Informação sobre as
minas de S. Paulo, com o intuito de defender a tese da origem nobre dos
colonizadores de São Vicente e dos prêmios que seus descendentes mere-
ceriam, frei Gaspar rechaçou com veemência os textos estrangeiros que
descreviam o surgimento de São Paulo como resultado da criação de uma
república desregrada no Planalto20. Não se sabe se o doutor Marcelino
teve a oportunidade de conhecer Pedro Taques, embora isso fosse, a prin-
cípio, possível. Afinal, nos anos de 1775 e 1776, pouco antes de falecer,
o linhagista estivera outra vez em Lisboa à procura de fontes e prêmios.
Ademais, o objetivo de sua História da Capitania de São Vicente, o de
declarar o direito do conde de Vimieiro à donataria, constituiu, como vis-
to acima, objeto de uma das dissertações de Pereira Cleto21.

Muito mais provável foi o contato com frei Gaspar, seja porque o
beneditino viveu na Vila de Santos boa parte dos dez anos em que o dou-
tor Marcelino nela serviu, seja por ter este compilado, conforme se disse
acima, trabalhos daquele. A esse respeito, não parece excessivo apontar a
19 – Laura de Mello e Souza. “São Paulo dos vícios e das virtudes”. In: O sol e a sombra.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 109-47.
20 – Cf. Pedro Taques de Almeida Pais Leme. Informação sobre as minas de S. Paulo. A
expulsão dos jesuítas do Colégio de S. Paulo. São Paulo: Cia. Melhoramentos de S. Paulo,
s.d.; História da Capitania de São Vicente. Brasília: Senado Federal, 2004. Frei Gaspar da
Madre de Deus. Memórias para a história da Capitania de S. Vicente, hoje chamada de
S. Paulo. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
21 – Mencione-se que o subtítulo da História da Capitania de São Vicente era precisa-
mente o seguinte: “Demonstração verídica e cronológica dos donatários da Capitania de
S. Vicente, concedida a Martim Afonso de Sousa, primeiro donatário dela, desde o ano de
1581 até o de 1624, em que sua neta, a exma condessa de Vimieiro d. Mariana de Sousa da
Guerra, foi repelida da Vila de S. Vicente, capital da dita Capitania, e das Vilas de Santos e
S. Paulo, pelo exmo conde de Monsanto d. Álvaro Pires de Castro”. Sobre a vida e a obra
de Pedro Taques, cf. Afonso de E. Taunay. “Pedro Taques e a sua obra”. In: Pedro Taques
de Almeida Pais Leme. Informação sobre as minas. Op. cit., pp. 5-64; e “Pedro Taques de
Almeida Pais Leme (1714-1777). Escorço biográfico”. In: Pedro Taques de Almeida Pais
Leme. História da Capitania de São Vicente. Op. cit., pp. 15-61.

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Marco Antonio Silveira

semelhança do recurso retórico utilizado por ambos nos primeiros pará-


grafos de seus escritos. Gaspar da Madre de Deus iniciou suas Memórias
para a história da Capitania de S. Vicente com o seguinte contraponto:

“A Capitania de S. Vicente, muito famigerada noutro tempo e agora


tão desconhecida que nem o nome primitivo conserva para memória
de sua antiga existência, foi a maior entre as dez grandes Províncias
em que El-Rei D. João III dividiu a Nova Lusitânia e também a pri-
meira que se povoou, não obstante se satisfazerem alguns historiado-
res com a porem na classe das três mais antigas22.”

Pereira Cleto, por sua vez, iniciou a Dissertação a respeito da Capi-


tania de São Paulo com estratégia semelhante:

“Sendo a Capitania de S. Paulo, denominada antes de S. Vicente, a


mais antiga da América, e o povo dela, o que melhor tem servido a
SMaj, porque, à custa da própria fazenda, descobriu, em grande utili-
dade da Coroa, as minas do Cuiabá, Mato Grosso, Vila Rica, Sabará e
Goiases - quando, tendo-se intentado diversos descobrimentos à custa
da Real Fazenda, em que esta, em diferentes tempos, fez grandes des-
pesas, nunca se concluíram -, é hoje a mais decadente da América23.”

O que ressalta da comparação dos dois parágrafos é o uso da histó-


ria como instrumento político. No último quartel do século XVIII, era
possível apropriar-se da narrativa historiográfica de diversas maneiras,
haja vista a trajetória da Academia Real da História Portuguesa (1721) e
da Academia Real de Ciências de Lisboa (1779), à qual, aliás, frei Gas-
par filiou-se. Para além da antiga concepção calcada na historia magis-
tra vitae, a historiografia, mantendo ou não o ensejo de descrever ações
a serem seguidas e emuladas, achava-se associada ora ao problema da
justificação, ora ao utilitarismo. No primeiro caso, aproximava-se do dis-
curso peticionário, que, listando feitos e realizações em prol do servi-

22 – Frei Gaspar da Madre de Deus. Memórias para a história da Capitania de S. Vicente,


hoje chamada de S. Paulo. Op. cit, p. 29.
23 – Marcelino Pereira Cleto. Dissertação a respeito da Capitania de São Paulo, sua de-
cadência e modo de restabelecê-la. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n. 21,
1899, p. 195. Como dito acima, a atualização da grafia e da pontuação é de responsabili-
dade do autor deste artigo.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

ço régio, demandava o exercício da justiça por meio da premiação e do


reconhecimento. No segundo caso, a historiografia se valia do passado
com o intuito de explicar e legitimar propostas reformistas no presente.
Esses três eixos constituintes da narrativa histórica do período, cada vez
mais amparados nas técnicas da erudição, desdobravam-se em resultados
variados, devendo-se salientar, nesse aspecto, as diferenças entre Pedro
Taques, Madre de Deus e Pereira Cleto. O linhagista, por exemplo, utili-
zou um conjunto de recursos estilísticos capazes de articular a narrativa
de ações gloriosas passíveis de emulação à necessidade de justificar a
premiação régia e o reconhecimento de seus antepassados.

O que, no entanto, aproximava os historiadores paulistas do dou-


tor Marcelino era, ademais do tributo pago à erudição, o reconhecimento
de um passado promissor, cujo declínio ou esquecimento careciam de
reparo. Esse ponto é fundamental porque, não obstante Cleto, diferente-
mente de Taques e frei Gaspar, tenha escrito um texto mais propriamente
administrativo que histórico, não deixou de nele incorporar amplamente
a perspectiva nativista e os interesses de proprietários paulistas, especial-
mente os da marinha. É curioso observar como o futuro escrivão de uma
das devassas sobre a Inconfidência de Minas Gerais mostrou-se bastante
simpático aos interesses e concepções identitárias da capitania vizinha. A
mágoa de Pedro Taques com a decadência de São Paulo e de seus descen-
dentes – expressa, para ele, na repugnante presença de homens de sangue
impuro na governança local – é mencionada por Pereira Cleto em sua
Dissertação:

“A Capitania de S. Paulo foi das primeiras que se descobriu e princi-


piou a povoar-se na América; dela se fizeram, como já se disse, todos
os descobrimentos que hoje formam diferentes capitanias, e por ela
se fazia o negócio para todas as Minas; foi este tempo de abundância
para a Capitania; porém, daqui lhe nasceu toda a decadência em que
se acha, porque os descobrimentos lhe levaram os povoadores; o ouro
das minas e o negócio, objetos interinamente mais lucrosos, os fez
[sic] esquecer da agricultura. Sirva-me de exemplo a Vila de Santos
e seu termo, em que havia mais de quatrocentos homens lavradores
hábeis para servirem na Câmara, e desta qualidade não há hoje meia

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Marco Antonio Silveira

dúzia; ainda presentemente se conhece que todo o termo era povoado


e cultivado, [e] agora quase tudo são nele ruínas e deserção; o ouro das
minas veio a diminuir, o negócio também diminuiu, porque para todas
elas se descobriram diferentes caminhos; pelo que, ao mesmo tempo,
ficaram sem minas, sem negócio e sem agricultura24.”

Assim, se o papel desempenhado pelos juízes de fora é definido pela


tarefa de ampliar o controle régio sobre as localidades, a postura de Cleto
parece, no mínimo, ambígua. A nota que acrescentou à frase terminada
com a expressão “meia dúzia” atesta sua cooptação pelo ponto de vista
das elites letradas e políticas locais:
“No livro 1º do Registro da Câmara da Vila de Santos, à f. 101v, se
acha uma carta de diligência passada em nome do sr. rei d. Pedro, na
qual, deferindo-se à representação que fez o povo da Vila de Santos
no ano de 1693, se manda que só dos homens lavradores possam ser
eleitos os oficiais da Câmara, por haver na dita vila e seu termo mais
de quatrocentos homens desta qualidade25.”

A Dissertação a respeito da Capitania de S. Paulo é, antes de tudo,


o que seu nome indica: uma disputa. Fernando Nicolazzi, analisando al-
guns escritos gerados no seio da Academia Brasílica dos Esquecidos –
fundada na Bahia em 1724 e composta pelo autor da História da América
portuguesa, tão rechaçado por Taques e Madre de Deus –, explica que a
dissertação histórica consistia numa espécie de meio do caminho entre a
organização de dados e a história propriamente dita. Era através dela que
se devia disputar de maneira erudita contra versões de outros autores,
tidas por infundadas. Dessa maneira, a dissertação, excluindo inverda-
des, implicava um passo decisivo para a escrita da história, entendida

24 – Marcelino Pereira Cleto. Dissertação. Op. cit., pp. 211-2. Como lembra Afonso de
Taunay, em “Pedro Taques e sua obra”, op. cit., p. 45, para o linhagista “viviam os seus
contemporâneos ‘amortecidos na ignorância de seus nobres progenitores e das suas hon-
rosas virtudes e ações’, muitos dos quais ‘já degenerados do mesmo esplendor dos seus
antigos ascendentes’”. Como consequência disso, “notava-se ‘nas assembléias de todas
as vilas e cidade capital de S. Paulo’ não mais se elegerem, como outrora, para oficiais
das câmaras ‘homens de maior honra, zelo e desinteresse, lamentando-se esta infeliz de-
cadência em todo o Estado do Brasil, onde já não se escolhiam os sujeitos da primeira
graduação para ornarem os corpos dos senados, à imitação dos séculos de 1500 a 1700”.
25 – Marcelino Pereira Cleto. Dissertação. Op. cit., pp. 211-2.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

como exposição cronológica de fatos verdadeiros26. Visto que coleções


e memórias significavam, como apontou Iris Kantor27, instrumentos de
pesquisa, dissertar envolvia já reflexão e cotejamento criterioso de fontes
e versões. Podiam, no entanto, essas três diferentes operações – memória,
dissertação e história – confundir-se, como demonstra o próprio título do
referido trabalho de frei Gaspar, que, sendo denominado “memórias para
a história”, compõe-se amplamente de reflexão dissertativa. O trabalho
do doutor Marcelino, embora não seja historiográfico, vale-se de memó-
ria e história com o intento de, em tom de disputa, defender um certo
modelo de reforma. Vê-se, pelos trechos citados acima, que um de seus
eixos cruciais estava na defesa da agricultura como cerne da retomada
do desenvolvimento na Capitania de São Paulo. Em que pese a possível
presença de doutrinas fisiocratas nessa argumentação, a perspectiva do
juiz de fora de Santos mais parece advir do queixume local. Que a tra-
dição oral marcou sua análise atestam as passageiras referências que faz
a informantes, como quando comenta sobre a antiga fábrica de ferro de
Afonso Sardinha, localizada nas cercanias de Sorocaba e Itu. Sobre isso,
diz o doutor Marcelino que seu dono “passou à Coroa este engenho, ou
pelo ceder nela o dito Afonso Sardinha, como dizem, ou por outro qual-
quer título”28.

O autor da Dissertação, recorrendo a informações arquivísticas, a


notas de coetâneos, à tradição oral e, especialmente, às planilhas da Al-
fândega de Santos – onde, conforme apontado acima, serviu como juiz
desde 1779 –, formulou uma tese bastante congruente com a situação
experimentada em São Paulo no início da década de 1780. Sua análise
se nutre, em boa medida, do que Fernando Novais classificou como um
mercantilismo eclético e heterodoxo29. Em linhas gerais, Pereira Cleto
26 – Fernando Nicolazzi. Entre “letras & armas”, a história como disputa. Considerações
sobre a historiografia luso brasileira no século XVIII. Almanack Braziliense. São Paulo,
n. 11, maio de 2010, pp. 40-51.
27 – Iris Kantor. Esquecidos e Renascidos. São Paulo: Hucitec, Salvador: Centro de Estu-
dos Baianos, Ufba, 2004, p. 193.
28 – Marcelino Pereira Cleto. Dissertação a respeito da Capitania de S. Paulo. Op. cit, p.
207. Grifo meu.
29 – Fernando A. Novais. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-
1808). 4ª ed., São Paulo: Hucitec, 1986, em especial o capítulo “Política colonial”. Na

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Marco Antonio Silveira

defende que a solução para a decadência paulistana achava-se no deslo-


camento do principal eixo da Capitania do “Sertão” para a “Marinha”,
devendo Santos retomar seu protagonismo, como ocorrera outrora, antes
que a mineração alterasse o rumo natural das coisas. Partindo da consta-
tação de que os dízimos pagos na costa estendida da Vila de Ubatuba à de
São Francisco do Sul superavam em muito, proporcionalmente, os arre-
cadados nas vastíssimas terras do Sertão, Cleto argumentou que o desen-
volvimento da Capitania dependia historicamente da inserção do porto
santista no mercado transatlântico. Nesse sentido, seguiu didaticamente o
receituário mercantilista, esboçando de modo analítico questões atinentes
à povoação, à agricultura, à mineração do aço e do ferro, ao comércio e
às condições dos caminhos. Considerou, acima de tudo, um equívoco de
perniciosas consequências a instalação da sede da recém-criada Capita-
nia de São Paulo no planalto, resultado das necessidades administrativas
e políticas criadas pela descoberta do ouro em áreas longínquas. Passa-
da a tormenta aurífera, desmembrados os seus territórios de São Paulo,
estabelecidas rotas diretas entre eles e o Rio de Janeiro, restara à antiga
capitania vicentina o despovoamento e a ruína dos negócios:

“Deste atual sistema tem-se seguido diminuição de agricultura na


Marinha, parte em que é mais útil, e aumento de muitas e grandes
despesas à Fazenda Real, como logo mostrarei; e tem-se animado a
povoação da Capitania por modo diametralmente oposto àquele por
que algum dia se regulava; logo no ano de 1535, em que SMaj fez
mercê a Martim Afonso de Sousa de cem léguas de costa na América,
nas quais entra a maior parte da Capitania, lhe permitiu que pudesse
fazer vilas todas as povoações que se fizessem na dita Capitania, com
declaração, porém, que esta liberdade se entenderia pelo que respei-
tava às povoações que estivessem ao longo da costa e dos rios que se
navegassem; porque, dentro da terra firme e Sertão, se não poderiam
fazer vilas sem que de uma a outra houvesse a distância de seis léguas;
nesta restrição que o sr. d. João 3º fez a respeito de criação de vilas no
Sertão, e ampla liberdade de se erigirem na Marinha, parece se deduz
bem que ele conheceu já a utilidade incomparavelmente maior de se
povoar antes a Marinha que o Sertão30.”
expressão do autor, tratava-se de um “abandono da ortodoxia mercantilista” (p. 228).
30 – Marcelino Pereira Cleto. Op. cit., pp. 201-2.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

O uso de informações históricas visando restituir o sentido mercan-


tilista dos laços entre Portugal e suas possessões na América assume, no
texto do doutor Marcelino, tons ainda mais nítidos quando propõe que os
agricultores da Marinha – e indiretamente os do Sertão – se beneficiariam
caso, em vez de carregarem sua produção em embarcações cujo destino
principal era o Rio de Janeiro, pudessem negociar com navios vindos em
direitura para Santos, somente a fim de, em seu porto, efetuar transações
comerciais. A mera condição de entreposto fluminense, sofrida pelo porto
santista, seria superada se os contratadores do estanco do sal e da pesca da
baleia, bem como os administradores da Companhia do Alto Douro, des-
pachassem diretamente para o litoral de São Paulo embarcações anuais,
que, deixando a mercadoria europeia, carregassem de volta os produtos
locais. Em outras palavras, o modelo proposto pelo doutor Marcelino ti-
nha como base conhecidas estratégias mercantilistas, tais como o aces-
so à navegação atlântica e o aproveitamento de estancos e companhias
monopolistas. Um questionamento fundamental, nesse sentido, consiste
em saber que tipo de articulação o magistrado poderia estabelecer entre,
de uma parte, sua adesão ao nativismo, por vezes ressentido, de homens
como Pedro Taques e frei Gaspar e, de outra, seu modelo de desenvolvi-
mento flagrantemente mercantilista.

Parte da resposta a essa dúvida está no fato de que, para muitos dos
homens e mulheres da época, não havia contradição entre os dois fenôme-
nos. Taques e Madre de Deus, aliás, sempre se declararam fiéis vassalos
de Sua Majestade. Ademais, a busca de inserção no mercado internacional
fora um problema crucial na história de São Paulo, dividida entre certa
autonomia e o risco da pobreza. Em poucas palavras, não era difícil para
letrados como Cleto pensarem num sistema imperial no qual as diversas
partes se articulassem e, em certa medida, se harmonizassem. Do vocabu-
lário do doutor Marcelino, como demonstra o trecho citado acima, fazia
parte o termo sistema, cujo significado implicava o conjunto de estraté-
gias políticas e econômicas voltadas ao desenvolvimento de uma região.
No caso, o sistema que privilegiou o povoamento do Sertão deveria ser
substituído pelo que privilegiava o da Marinha. Na concepção de Pereira

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 131


Marco Antonio Silveira

Cleto, a adoção de um sistema significava tanto a conexão mercantil entre


produtores e partes do Império, quanto à inserção das instâncias políticas
locais nas estruturas mais amplas da burocracia e da economia de prêmios
e mercês típicas do Antigo Regime.

Contudo, os ressentimentos de Pedro Taques e a oscilação de mode-


los administrativos adotados em São Paulo indicam que tais sistemas, na
qualidade de pressupostos doutrinários, nem sempre funcionavam efeti-
vamente. Em vez de sistemas fechados, havia práticas recorrentes, por
vezes instáveis e cambiantes. Havia mais tentativas de estruturação do
que estruturas propriamente fixas. Daí a recorrência do tema do declínio e
de sua contraparte restauradora, cuja linguagem, herdada da Antiguidade,
era amplamente utilizada para referir a dinâmica da história e das rela-
ções de força no interior do Império. A classificação utilizada pelo doutor
Marcelino para designar o vasto território da Capitania era claramente re-
dutora, pois, a despeito da ocorrência, na Dissertação, de informes sobre
vilas e caminhos, tendia a homogeneizar realidades complexas através
das palavras Marinha e Sertão. O sistema sugerido pelo autor fundava-se
na ideia de que, incrementados a vila e o porto de Santos, os habitantes
do planalto também se beneficiariam, pois teriam motivos mais sólidos
para baixar seus produtos pelo áspero caminho da Serra do Mar. Por outro
lado, a menção à necessidade de se consertar diversas vias que ligavam
áreas sertanejas, inclusive em Minas Gerais, ao porto santista tinha como
objetivo o de nele concentrar transações comerciais na ocasião captadas
pelo Rio de Janeiro. A verdade é que o modelo mercantilista proposto
por Pereira Cleto acarretaria também perdas e desequilíbrios, cabendo
dúvidas sobre possíveis consequências relativas ao despovoamento do
interior de São Paulo e à concorrência entre interesses mercantis sediados
em Santos e no Rio de Janeiro.

A heterodoxia do sistema de Pereira Cleto aparece principalmente


na crítica às taxações excessivas e no incentivo à fabricação de ferro nas
cercanias de Sorocaba. Já ao defender a vinda de navios em direitura ao
porto de Santos, o doutor Marcelino rechaçou formas mais estritamente
monopolistas, salientando que tal comércio deveria ser feito em prol dos

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

agricultores e seus gêneros, “sem nunca lhes tirarem a liberdade de os


vender a quem bem lhes parecesse”31. No que dizia respeito ao ferro e ao
aço, embora acatasse estratégia de fomento tipicamente mercantilista, viu
como positiva a instalação de fábrica na América:

“Estas minas, visto que estes gêneros nos vêm de fora, [quando] ad-
ministrados não pela Fazenda Real, mas dadas por determinado tempo
a particular, a quem a Fazenda Real emprestasse dinheiro, e ainda
escravos dos muitos que há na Capitania, que foram dos extintos jesu-
ítas, para o estabelecimento, também por tempo certo, seriam de uma
grandíssima utilidade à Fazenda Real, e concorriam para o aumen-
to das povoações que estivessem naquela vizinhança, não só porque
o trabalho de semelhantes minas havia de trazer àquele lugar muita
gente além dos que haviam de concorrer para a compra, mas também
porque os que estão estabelecidos em agricultura haviam de ter me-
lhor saída aos seus efeitos, e, por consequência, se animariam mais a
trabalhar32.”

Frente aos excessos de impostos, criticou a nova taxação represen-


tada pelo subsídio para a reedificação de Lisboa, criado em 1759, bem
como os abusos derivados da “rigorosa passagem” colocada, em 1778, no
rio que se atravessava para ir de Santos a São Paulo, e vice-versa. Tendo
sido seu primeiro contrato arrematado em 2 mil cruzados, o segundo teve
o preço majorado, pelo mesmo período de três anos, para 12 mil, visto
que novas cláusulas trocaram o pagamento por canoa por outro baseado
no peso da carga. Diante de tais circunstâncias, Cleto asseverou que essas
novas imposições

“não parecem ser das mais legítimas, e podiam cobrar-se em toda a


Capitania para a Fazenda Real direitos que tivessem razão mais sóli-
da, que produzissem tanto ou mais como o novo imposto e passagens,
e que não oprimissem tanto o povo33.”

Talvez o esforço de Marcelino Pereira Cleto em conciliar os interes-


ses locais com o serviço de Sua Majestade, garantindo, ao mesmo tempo,
31 – Marcelino Pereira Cleto, op. cit., p. 205.
32 – Marcelino Pereira Cleto, op. cit., p. 209.
33 – Marcelino Pereira Cleto, op. cit., p. 222.

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Marco Antonio Silveira

o incremento da Fazenda Real e a eliminação de vexações geradoras de


potenciais desordens, consistisse exatamente no dever de um juiz de fora
e de outros magistrados. Porém, chama de fato a atenção o empenho des-
se ministro na recopilação exaustiva de dados que permitissem a escrita
da história de São Paulo e sua boa administração. Nesse ponto, Cleto
parece bastante próximo dos intentos do ouvidor Caetano da Costa Ma-
toso e, principalmente, do desembargador José João Teixeira Coelho. As
Memórias elaboradas por Pereira Cleto lembram repertórios congêneres
como, para citar apenas três exemplos, o Catálogo de algumas determi-
nações reais que devem saber os governadores, de Teixeira Coelho; a
Coleção sumária, obra coletiva concernente à Capitania de Minas Gerais;
e a Coleção cronológica e analítica, escrita por um futuro conhecido do
doutor Marcelino, Baltazar da Silva Lisboa34.

Os três volumes das Memórias de Cleto abarcam a apresentação de


informações e documentos variados atinentes à Capitania de São Paulo
nos séculos XVI a XVIII. Os dados encontram-se distribuídos por as-
suntos alfabeticamente dispostos, cada entrada sendo acompanhada de
referência ao arquivo consultado e por descrição sumária do conteúdo –
ainda que, em alguns casos, documentos apareçam transcritos na íntegra.
São tantos e tão diversificados os assuntos citados pelo magistrado que se
torna difícil descrevê-los em termos gerais. Mencione-se, aleatoriamente,
a entrada que diz respeito à ordem que, em 1754, mandou compilar as
decisões régias enviadas ao Ultramar:

34 – Cf. José João Teixeira Coelho. “Catálogo de algumas determinações reais que devem
saber os governadores”. In: Instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais
(1782). Op. cit., pp. 207-13. Coleção sumária e as próprias leis, cartas régias, avisos e
ordens que se acharam nos livros da Secretaria do Governo desta Capitania de Minas
Gerais, reduzidas por ordem a títulos separados. Belo Horizonte: Arquivo Público Minei-
ro, 2010. A referência ao repertório de Baltazar da Silva Lisboa, assim como à sua autoria,
encontra-se no Catálogo da Exposição de História do Brasil. Brasília: Editora Universi-
dade de Brasília, 1981, tomo I, p. 525. O título completo do trabalho é o que segue: “Co-
leção cronológica e analítica em que se compreendem recapituladas todas as providências
administrativas, políticas e econômicas que se expediram ao vice-rei e capitão-general do
Estado do Brasil por especial mandado e ordem do príncipe regente nosso senhor, desde
14 de setembro de 1796 até 20 de maio de 1800”.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

“Coleção de todas as leis, regimentos e ordens que se têm expedido


para o Ultramar: intentou fazer-se e, por esta razão, se expediu uma
ordem ao governador da Praça de Santos, Inácio Elói de Madureira,
pelo Conselho de Ultramar, aos 9 de abril de 1754, para que mandasse
ao dito Conselho o treslado autêntico de todas as ditas ordens, leis,
regimentos e alvarás, que, desde o princípio do dito Governo, se ex-
pediram para ele, tanto para a boa administração da Fazenda, como da
Justiça, ou de conservarem na Secretaria de Governo, ou no Senado
da Câmara, ou em outras quaisquer partes, cuja ordem foi aos mais
governos. Consta do livro que serviu de registro na Câmara da Vila de
Santos desde o ano de 1753 até ao de 1759, à f. 3535.”

Como se vê, o doutor Marcelino tinha plena consciência de que suas


Memórias, além de poderem contribuir para a escrita da história paulis-
ta, se inseriam num esforço mais amplo de estruturação do Estado e da
administração lusa. Nesse sentido, inúmeras entradas referentes à jurisdi-
ção de autoridades, à conquista de territórios, à caracterização dos povos
indígenas, à abertura de caminhos etc. rechearam as centenas de páginas
que escreveu.

Tamanha reunião de informes certamente corroborou a visão sistê-


mica que Pereira Cleto tinha do Império português, base do modelo apre-
sentado na Dissertação, no qual os interesses locais se viam articulados a
redes mercantis mais amplas. É o que atesta um verbete sobre Angola:

“Cavalos para o Reino de Angola: mandou SMaj que fossem obriga-


dos a conduzir de dois para cima todas as embarcações que navegas-
sem do Brasil para o Reino de Angola, preferindo-se nos despachos os
que mais conduzissem, por provisão de 6 de novembro de 1664, sus-
citando-se nela, a este respeito, o que antigamente se praticava, por ser
assim necessário para a defesa, segurança e conquista do dito Reino, e

35 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 10, p. 187v. Nos comentários introdutórios à Co-
leção sumária, Caio C. Boschi explica que a ordem de 1754, a ser remetida aos diversos
governos das conquistas, tinha como desígnio que o desembargador da Relação do Porto
Inácio Barbosa Machado elaborasse uma “coleção das leis e ordens expedidas para os do-
mínios ultramarinos”. Caio C. Boschi. “Para conservar os povos em sossego”. In: Coleção
sumária. Op. cit., p. 27.

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Marco Antonio Silveira

assim o representarem os moradores dele. Consta do dito livro [2º que


serviu de registro da Provedoria da Real Fazenda], à f. 93v36.”

Todavia, as entradas sobre fatos históricos de São Paulo, relativas,


por exemplo, à doação da donataria ou a personagens como Brás Cubas e
Martim Afonso de Sousa, são recorrentes. Constata-se mesmo uma preo-
cupação do ministro em informar com certa precisão sobre as condições
locais, conforme a menção ao vocábulo estacada:
“Estacada: é uma espécie de reparo ou fortaleza que se fez na Vila de
Santos sobre os alicerces de uma fortaleza, que se principiou na Ilha
de S. Vicente, na praia que fica fronteira à Fortaleza de Santo Amaro.
Os alicerces desta fortaleza foram feitas por planta do brigadeiro João
Macé, consta de uma provisão do Conselho de Ultramar de 30 de ou-
tubro de 1733. Na mesma provisão, se trata a Fortaleza de Bertioga
com o nome de Santo Antônio; e, igualmente, como a consignação
da Praça de Santos era só de quatro mil cruzados, que se remetiam
do Rio de Janeiro, se mandava ordem ao juiz da Alfândega da dita
cidade que remetesse mais quatro mil cruzados em cada ano para as
fortificações da dita praça, além dos quatro mil cruzados que já tinha.
Consta de um livro de provisões originais que existe na Câmara da
Vila de Santos37.”

No caso das duas últimas citações, e em muitas outras, é patente a


presença da temática da guerra e da conquista, tão importantes para os
antigos modelos historiográficos quanto para a constituição das identi-
dades regionais no interior do Império lusitano. Desse modo, Marcelino
Pereira Cleto não se limitou, seja na Dissertação, seja nas Memórias, a
recolher documentos com o objetivo de contribuir para a racionalização
burocrática e o fortalecimento da administração estatal. O juiz de fora
de Santos foi além, incorporando o nativismo paulista como elemento
legítimo e necessário no exercício da história e da política. Agindo como
uma espécie de mediador cultural, entendeu o serviço régio como meio
através do qual as várias partes do sistema poderiam integrar-se numa
narrativa única. Destoou, nesse sentido, de muitas das autoridades colo-

36 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 9, p. 20v.


37 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 11, pp. 69v-70.

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(1778-1794)

niais, cujo envolvimento em renhidas lutas faccionais só fizeram expor


aos contemporâneos as profundas contradições em jogo. Pode-se mesmo
dizer que o percurso que seguiu mostrou ao doutor Marcelino o real peso
da violência resultante do choque de interesses na América do último
quartel do Setecentos.

Ouvidor do Rio de Janeiro


Em despacho de 1º de setembro de 1786, d. Maria I nomeou, de
uma só vez, um sem-número de magistrados para ocupar, na América, os
lugares de juiz de fora, ouvidor e desembargador. Nessa leva, na qual o
baiano Baltazar da Silva Lisboa foi indicado para presidir a Câmara da
Cidade do Rio de Janeiro, Marcelino Pereira Cleto recebeu a incumbên-
cia de assumir a Ouvidoria de Porto Seguro. Contudo, por razões que não
estão claras, menos de um ano depois, uma série de mudanças o conduziu
à Ouvidoria do Rio de Janeiro. A alteração, ao que parece, teve a ver com
a necessidade de transferir o doutor Francisco Luís Álvares da Rocha,
que, embora estivesse atuando como ouvidor na capital fluminense havia
quatro anos, não fora contemplado no despacho de 1786. Em 12 de julho
do ano seguinte, um decreto de d. Maria o nomeou para o Rio das Mortes,
deslocando, então, o doutor Marcelino para o Rio. Sabe-se, porém, que
Álvares da Rocha também não foi ocupar o posto em Minas Gerais, que
acabou nas mãos de Luís Antônio Branco Bernardes38. De uma forma ou
de outra, Cleto, após um longo período de aproximadamente dois triênios,
foi, em julho de 1787, nomeado para o Rio, devendo sua residência ser
julgada na Relação e seu juramento feito perante o chanceler. Na capital
do Brasil, exerceria não apenas o posto de ouvidor, mas também, como
ocorrera em Santos, o de provedor dos defuntos e ausentes, capelas e resí-

38 – Cf. Manuel Lopes de Almeida. Notícias históricas de Portugal e Brasil (1751-1800).


Coimbra: Coimbra Editora, 1964, pp. 166-8. “Decreto alterando a nomeação dos ouvido-
res Francisco Luíz Álvares da Rocha, Marcelino Pereira Cleto e Joaquim Antônio Gon-
zaga”. In: Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Brasília: Câmara dos Deputados,
v. 8, 1977, pp. 36-7. AHU – RJ. Caixa 140, documento 17: Decreto da rainha d. Maria I
em que ordena que a residência que se há de tirar ao bacharel Marcelino Pereira Cleto do
tempo que serviu como juiz de fora de Santos seja remetida à Relação do Rio de Janeiro,
onde servirá como ouvidor. 12 de julho de 1787.

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duos39. A alteração promovida entre 1786 e 1787 retirou Pereira Cleto de


um circuito relativamente secundário da administração colonial, expresso
pelos lugares em Santos e Porto Seguro, para fincá-lo na cidade mais
importante da América, onde, não bastassem os intrincados interesses en-
volvendo proprietários, negociantes e contratadores, os embates políticos
se complexificavam devido à presença concorrente de juiz de fora, ouvi-
dor, desembargadores da Relação, oficiais da Alfândega, funcionários da
Real Fazenda, agentes do Bispado e o próprio vice-rei do Estado. Nessas
condições, os conflitos jurisdicionais, de maneira muito especial, não sig-
nificavam tão somente a afirmação da honra ou a defesa de salários, mas
ainda a oportunidade de decidir sobre negócios os mais vantajosos.

Em 1º de abril, Pereira Cleto já desempenhava suas funções na Ou-


vidoria do Rio de Janeiro, porquanto, nesse dia, ordenou ao Senado da
Câmara a convocação de nobreza e povo para tratar de certo requerimen-
to apresentado pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier40. O requerente
havia escrito a Sua Majestade sobre a intenção de construir moinhos que
aproveitassem as águas de vários rios da cidade e do recôncavo, espe-
cialmente os do Catete e Maracanã. Recebendo provisão do Conselho
Ultramarino, na qual se demandava ao ouvidor informar sobre o intento
escutando os camaristas, Cleto assim despachou41. Diante da reação nega-
tiva do povo, que “tumultuosamente” vinha dizendo ser a proposta “pre-
judicial ao público e ao particular”, Silva Xavier apresentou nova petição,
mais uma vez encaminhada por Cleto à Câmara42. O projeto do alferes,
que nunca seria posto em prática, apontava para o interesse despertado
por uma cidade tão populosa e ancorada em importante praça comercial.
39 – ANTT. Chancelaria de D. Maria I. Livro 20, folha 255. Registro Geral de Mercês de
D. Maria I. Livro 22, folha 104.
40 – Segundo o monsenhor Pizarro. Pereira Cleto teria tomado posse “antes de 1788”. Cf.
José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo. Memórias históricas do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro: Tipografia de Silva Porto, 1822, tomo VII, p. 170.
41 – “Registro de uma carta do doutor ouvidor geral da Comarca ao doutor juiz de fora
presidente e demais oficiais do Senado da Câmara. Rio de Janeiro, 19 de junho de 1788”.
In: Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Op. cit., v. 11, 2001, pp. 47-9.
42 – “Requerimento do alferes Joaquim José da Silva Xavier ao doutor Marcelino Pereira
Cleto, ouvidor geral, para que informe sobre plano de construção de moinhos. Rio de
Janeiro, 19 de junho de 1788”. In: Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Op. cit., v.
8, 1977, pp. 109-10.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Em maio do mesmo ano, Pereira Cleto sentiu o peso da correlação


local de forças ao ser, surpreendentemente, excluído da prerrogativa de
conhecer ações novas – fato que, na prática, implicava marginalizá-lo no
jogo político. A relevância desse acontecimento é ainda mais acentuada
quando se constata que sua reversão pelo Conselho Ultramarino ocorreu
somente quando o doutor Marcelino já havia deixado o posto. O regimen-
to dos ouvidores de 1669 concedia-lhes o direito de conhecer ações novas
– isto é, receber e dar início a novos pleitos – dentro de quinze léguas.
Na primeira década do século XVIII, quando foram instalados juízes de
fora na comarca fluminense, como o da prória cidade do Rio de Janeiro
e o da Vila de Santo Antônio do Sá, o direito do ouvidor foi restringido
a cinco léguas. De fato, embora as Ordenações determinassem que os
ouvidores não deveriam conhecer ações novas em regiões onde houvesse
juízes de fora, limitando-se a receber apelações e agravos, os documentos
régios relativos à criação destes na comarca do Rio apenas limitaram,
nesse ponto, o direito daqueles. Da mesma forma, quando da instalação
do Tribunal da Relação na referida cidade, em 1751, os regimentos dos
novos ouvidores do cível e do crime, atuantes em suas dependências, não
eliminaram o direito que tinha o ouvidor da comarca de conhecer ações
novas. Caso isso tivesse acontecido, a existência da Ouvidoria fluminense
praticamente se tornaria inútil, pois, com o advento da mesma Relação, a
esta passou a caber o direito de receber apelações e agravos dos juízes de
fora. Todavia, a despeito dos cuidados adotados por aqueles que estabele-
ceram os regimentos da Relação, visando sempre garantir a jurisdição do
ouvidor comarcão, dúvidas e conflitos não tardaram a surgir. Da mesma
forma, sua jurisdição foi restringida em outros campos, como no direito
de receber apelações de decisões tomadas pelo juiz de sesmarias, que pas-
saram a ser encainhadas à Mesa da Coroa do Tribunal da Relação.

Não obstante os conflitos fossem anteriores, ganharam alento no


tempo de Pereira Cleto em função de uma contenda travada entre comer-
ciantes: Manuel Gomes da Cunha e outros moveram, na Ouvidoria da Co-
marca, um libelo cível contra Francisco José de Moraes Gonçalves, sob o
argumento de que este, através de escrituras falsas, vinha se apropriando

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dos bens de Antônio Ramalho Lisboa, importante retalhista da cidade.


Uma vez que, segundo os autores da ação, a fraqueza dos negócios de
Ramalho Lisboa os havia obrigado, anos antes, na condição de credores,
a assinar uma moratória, a interferência do réu lhes era sumamente lesiva.
Após a apresentação da contrariedade por parte de Moraes Gonçalves, os
autores, contudo, requereram a desistência da ação, talvez por temerem
que, mais cedo ou mais tarde, a jurisdição do ouvidor fosse legalmente
questionada. O doutor Marcelino, seguindo os trâmites de praxe, negou
a desistência, visto que, consultado o réu, este preferiu dar sequência à
disputa judicial. Agravando da decisão para a instância superior, os au-
tores, eles própios, se valeram da tese de que, conforme a lei, os ouvido-
res comarcãos não podiam conhecer de ações novas nos lugares em que
havia juiz de fora. O acórdão da Relação do Rio de Janeiro, inserido nos
autos do processo em 12 de agosto de 1788, ao dar razão aos agravantes,
eliminou, com uma só penada, parte expressiva da jurisdição do ouvidor
fluminense, reconhecida, como se viu, desde a elaboração de seu regi-
mento em 166943.

Cleto acatou o acórdão, mas enviou representação ao Conselho Ul-


tramarino, à qual anexou uma cópia dos autos e, consequentemente, dos
argumentos e papéis que utilizara para defender-se do agravo. Recebida
a documentação em julho de 1789, os conselheiros mostraram-se am-
plamente favoráveis ao doutor Marcelino, estranhando que a Relação se
desse o direito de prover ou desprover jurisdições por sua conta, e através
de acórdãos escritos em autos processuais. Em seu parecer, o procurador
da Coroa chegou a considerar desnecessário ouvir os desembargadores
da Relação, “por terem já dado bastantemente as suas razões, ou, para
falar mais propriamente, as suas sem razões, nos acórdãos”44. Na parte

43 – Sobre o regimento dos ouvidores do Rio de Janeiro, cf. Maria Eliza de Campos
Souza. Ouvidorias de comarcas, legislação e estrutura. Varia Historia. Belo Horizonte:
Departamento de História, UFMG, n. 21, 1999, pp. 206-19.
44 – AHU – RJ. Caixa 149, documento 74 e 75. 22 de julho de 1791. “Consulta do Con-
selho Ultramarino à rainha [D. Maria I], sobre o requerimento do ouvidor da Comarca do
Rio de Janeiro, Marcelino Pereira Cleto, solicitando provisão que declare que aos ouvido-
res da comarca toca a jurisdição de deliberarem como ação nova dentro das cinco léguas
a que foram restritos pela carta régia de 10 de Dezembro de 1701”.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

do referido acórdão em que se salientava que as decisões dos juízes de


sesmaria eram apeladas para a Relação, e não para os ouvidores, um dos
conselheiros anotou ao lado:

“Por violência, porque a provisão à f. 59v é de 7 de maio de 1763, e


posterior à criação da Relação do Rio de Janeiro; [e] manda que do
juiz das sesmarias se apele para o ouvidor, e deste para a Mesa da
Coroa da Relação; e não podia ignorar SMaj [que] havia Relação no
Rio de Janeiro quando a provisão foi requerida e remetida à Câmara
da dita cidade; informou o vice-rei dela e consultou o Conselho de
Ultramar; nem a ignorância se presume no príncipe.45”

A importância da contenda, atinente à criação ou eliminação de ju-


risdições régias, levou o Conselho Ultramarino a remeter sua consulta à
decisão da própria rainha, sustentando, porém, a argumentação favorável
a Pereira Cleto. O fato de o negócio não estar ainda decidido em maio
de 1791 pode talvez ajudar a explicar a ordem, descrita acima, em que
Martinho de Melo e Castro cobrou do conselheiro João Batista Vaz Pe-
reira o envio de “papéis” do doutor Marcelino. Que o atraso na decisão
vinha incomodando fica patente na representação do Senado da Câmara
do Rio de Janeiro concernente ao dito assunto, recebida pelo Conselho
em setembro do mesmo ano. O objetivo dos camaristas consistia em rati-
ficar o posicionamento de Pereira Cleto, salientando os prejuízos sofridos
pelo povo diante da impossibilidade de requerer, em cidade tão populosa,
ações novas na Ouvidoria. Dessa vez, repetindo os argumentos em prol
da manutenção da jurisdição do ouvidor, o Conselho Ultramarino man-
dou anexar a representação do Senado à consulta do doutor Marcelino,
concedendo, entretanto, que o ouvidor pudesse conhecer interinamente
de ações novas até que Sua Majestade decidisse afinal46.

O embate em torno da jurisdição do ouvidor fluminense, longe de


constituir mero desentendimento jurídico, permeava interesses bastante
45 – Idem.
46 – AHU – RJ. Caixa 150, documentos 47 e 72. 3 de novembro de 1791. “Consulta do
Conselho Ultramarino à rainha [D. Maria I], sobre a requerimento do Senado Câmara do
Rio de Janeiro, em que solicitava que o ouvidor da comarca continuasse na execução da
sua jurisdição naquela cidade apesar da dúvida dos desembargadores da Relação”.

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complexos dos moradores da cidade do Rio e de suas cercanias. Dois


pontos, pelo menos, envolviam o reconhecimento ou o esvaziamento da
Ouvidoria. O primeiro dizia respeito ao controle das rendas e da posse
do território citadino, alvo de disputas encarniçadas entre a Câmara, a
Relação, a Real Fazenda e o vice-rei, especialmente quando entravam
em jogo as áreas da marinha47. Pela mesma época, o juiz de fora Baltazar
da Silva Lisboa enredou-se em combates virulentos em torno de proble-
mas dessa natureza48. O segundo ponto concernia ao tratamento judicial
dos interesses dos grandes proprietários de terra da região, destacando-se
os dedicados à exploração do açúcar, gênero cuja aceitação no comércio
internacional, no final do Setecentos, havia estimulado lavradores e se-
nhores de engenho em várias partes da América. Por isso, não por acaso
a representação do Senado da Câmara em abono das razões do doutor
Marcelino ia assinada por José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho. O
futuro bispo de Pernambuco, conhecido pela apropriação seletiva que fa-
ria das ideias liberais em defesa dos interesses dos agricultores da Colô-
nia, nascera nos Campos de Goitacazes, em família enriquecida com a
produção açucareira49.

Sendo assim, mesmo que por via indireta, Marcelino Pereira Cleto
via-se novamente, agora no Rio de Janeiro, próximo do ponto de vista de
grupos dirigentes locais. Salvaguardadas as diferenças nos propósitos, as-
sim como o paulista frei Gaspar da Madre de Deus acabaria, em 1797, por
publicar suas Memórias para a história da Capitania de S. Vicente sob
os auspícios da Academia Real de Ciências de Lisboa, Azeredo Coutinho

47 – Cf. Afonso Carlos Marques dos Santos. No rascunho da nação. Rio de Janeiro: De-
partamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1992, em especial a seção
“Na Corte da América portuguesa”, pp. 119-.27. Maria Fernanda Bicalho. A cidade e o
Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003; e Nireu Cavalcanti. O Rio de Janei-
ro setecentista. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
48 – Sobre os conflitos do juiz de fora Baltazar da Silva Lisboa, cf. Afonso Carlos Mar-
ques dos Santos. No rascunho da nação. Op. cit., em especial a seção “O anonimato e o
medo”, pp. 31-51; e Ronald Raminelli. Viagens ultramarinas. São Paulo: Alameda, 2008,
em especial o capítulo “Naturalistas em apuros”, pp. 177-212.
49 – Sobre a trajetória de Azeredo Coutinho, cf. Sérgio Buarque de Holanda. “Apresenta-
ção”. In: Obras econômicas de J. J. da Cunha Azeredo Coutinho. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1966, pp. 13-53.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

editaria, em 1791, a Memória sobre o preço do açúcar e, três anos depois,


em 1794, o Ensaio econômico sobre o comércio de Portugal e suas co-
lônias. É interessante constatar que Azeredo Coutinho, nascido em 1742
– e tendo, portanto, quase a mesma idade de Pereira Cleto –, só tardia-
mente dirigiu-se ao Reino, onde, em 1775, matriculou-se em Coimbra. A
Dissertação do doutor Marcelino, anterior às publicações do proprietário
nascido em Campos, tocaria, no entanto, em questões importantes nelas
presentes, podendo-se chamar a atenção para a fidelidade de ambos ao
monarca, bem como para a defesa de um tipo de vinculação entre Me-
trópole e Colônia que privilegiava o desenvolvimento da agricultura. A
demanda formulada pelos lavradores da marinha paulista, bem captada
no texto de Cleto, reapareceria nas formulações de Coutinho – até porque,
a despeito das diferenças de escala, a expansão agrícola e açucareira das
décadas de 1780 e 1790 constituía um movimento comum a São Paulo e
Rio de Janeiro.

Mesmo que as relações entre Cleto e Coutinho, indiretamente esta-


belecidas pelas duas representações enviadas ao Conselho, não fossem
minimamente próximas – visto que o último esteve em Portugal no tempo
em que o primeiro serviu no Ultramar –, não se deve negligenciar, de
modo algum, a tendência do ouvidor da Comarca do Rio de Janeiro de
nela fixar-se. Um sinal nesse sentido é a autorização dada pela rainha, em
28 de julho de 1792, ao ajuste feito pelo doutor Marcelino, quando ainda
atuava na Ouvidoria, para desposar dona Humiliana Leocádia da Silva,
filha do sargento-mor Francisco Pereira da Silva50. O episódio, comum
a tantos magistrados lusos que, passando largos anos na América, esco-
lhiam-na como novo lar, sugere a possibilidade de um certo alinhamento
de Pereira Cleto na política local. Francisco Pereira da Silva, por ocasião
do ajuste, havia desenvolvido sólida carreira militar, iniciada quando sen-
tou praça em 1757. Seis anos mais tarde, por portaria do conde da Cunha,
tornou-se tenente da Primeira Companhia do Esquadrão de Cavalaria Au-
xiliar do Rio de Janeiro, que fazia a guarda dos vice-reis. Ainda nesse
posto, dirigiu-se para o Continente do Rio Grande de São Pedro, sendo

50 – ANTT. Chancelaria de D. Maria I. Livro 41, folha 136.

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nomeado, em 1776, por patente do maquês de Lavradio, capitão do Regi-


mento dos Dragões da mesma circunscrição. Em abril do dito ano, sendo
reconquistada a Vila de São Pedro aos espanhóis, recebeu a incumbência
de explorar o campo na retaguarda do Exército castelhano. Em outubro,
foi designado para conduzir 26 desertores espanhóis até a Ilha de Santa
Catarina e, de lá, para o Rio de Janeiro. Durante o percurso, alguns deles
organizaram um levante na embarcação que os conduzia. Em 1790, Perei-
ra da Silva foi promovido pelo conde de Resende sargento-mor do Terço
Auxiliar de Infantaria da Cidade do Cabo Frio, onde serviu durante sete
meses, passando, então, com o mesmo posto, para a freguesia de Santa
Rita, servindo aí até setembro de 179651.

É curioso notar que as correições realizadas por Pereira Cleto na


Câmara fluminense em 1788 e 1791 não foram muito além do exigido
pelo protocolo. Se, na última, demonstrou preocupação com o incêndio
sofrido recentemente pela Casa do Concelho e desgostou da indelicada
ausência de dois vereadores, na primeira, não proveu uma linha sequer52.
Conquanto tais correições dependessem de fatores vários para serem bem
executadas, entre eles o tempo devido, o trabalho do doutor Marcelino,
nesse aspecto, destoou do realizado por antecessores e sucessores. Fran-
cisco Luís Álvares da Rocha – que, anos depois, atuaria como escrivão
do Tribunal da Alçada criado para sentenciar os inconfidentes de Minas
Gerais –, em correições de 1782 a 1787, apoiou a execução de foreiros
recalcitrantes, confirmou a proibição de se edificar sem critério casas da
vala para o mar, combateu a falta de água nas fontes, questionou o salário
do aferidor, exigiu a reconstituição da estrada geral de São Domingos a
São Gonçalo e queixou-se do descaminho do subsídio literário53. José
Antônio Valente, em 1792, tendo ressalvado reconhecer a “grande lite-

51 – AHU – RJ. Caixa 166, documento 58. 29 de agosto de 1797. “Auto de justificação
dos serviços do sargento-mor Francisco Pereira da Silva, despachado pelo [juiz privativo
das justificações dos serviços militares], desembargador e chanceler da Relação do Rio de
Janeiro, Antônio Dinis da Cruz e Silva”.
52 – Autos de correições dos ouvidores do Rio de Janeiro (1748-1820). Rio de Janeiro:
Arquivo do Distrito Federal, 1931, pp. 83-85. Infelizmente, não foram encontradas refe-
rências a correições dos anos de 1789 e 1790.
53 – Idem, pp. 71-82.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

ratura, probidade, prudência e mais qualidades do juiz de fora”, o dito


Baltazar da Silva Lisboa, reclamou da compra indevida de livros – pois
não deviam os camaristas se tornar “devotos de livreiros” –, rechaçou
a displicência na cobrança dos aforamentos e alertou que se não podia
permitir edificação na Barreira de Santo Antônio, por ser seu domínio
controvertido54. Quando coube ao próprio Silva Lisboa, na ausência do
ouvidor, efetuar, em 1794, a correição, também não deu descanso aos
concelheiros. Denunciou irregularidades na cobrança da renda das car-
nes; exigiu que, através dos párocos, os oficiais da Câmara fizessem o
censo da população da cidade; ordenou, dada a importância da lavoura
do açúcar na região, que os camaristas examinassem pessoas aptas a fa-
bricar moendas; demandou que se fiscalizasse a obrigação que tinham os
lavradores de produzir mantimentos; cobrou a manutenção dos caminhos
indispensáveis para a comercialização de gêneros; ralhou contra seu atra-
vessamento; e questionou o não cumprimento das provisões relativas aos
foros e à Barreira de Santo Antônio55. Em 1797, o doutor José Antônio
Valente voltou à carga, irritando-se com o desprezo dos concelheiros pe-
rante suas anteriores determinações:
“Proveu e determinou ele ministro que, examinando o cumprimento
que tem tido o sábio provimento dos seus antecessores, não era outra
coisa mais do que um errado e escandaloso modo de proceder da parte
dos vereadores e procuradores que sucessivamente têm andado nas
vereanças, porque, devendo ou dar-lhe inteiro e pronto cumprimento
ou apelar, se tem usado do sistema de se não atenderem de forma
alguma, dando por este modo um testemunho autêntico das suas de-
sobediências [...]56.”

Ainda que seja difícil, na falta de mais investigações, afirmar ca-


tegoricamente que Pereira Cleto mostrou-se leniente diante da flagrante
disposição dos dirigentes locais em fazer vistas grossas à ocupação irre-
gular de terrenos e ao dever de cobrar impostos, não parece demasiado
sugerir que, por esta ou aquela razão, o magistrado evitava confrontos

54 – Idem, pp. 86-9.


55 – Idem, pp. 90-4.
56 – Idem, p. 95.

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mais diretos. Quando se pensa na exiguidade de documentos relativos a


Cleto no Conselho Ultramarino, na maneira com que contornou ardorosas
contendas jurisdicionais, na brevidade de suas correições e mesmo na
relativamente discreta passagem que teve pelo episódio da Inconfidência,
surge a figura de um ministro prudente e avesso a enfrentamentos abertos
em relação ao status quo. É possível que levasse a sério recomendações
como a que Martinho de Melo e Castro fez a Baltazar da Silva Lisboa,
mas que ele definitivamente não cumpriu: que lhe remetesse quanto en-
contrasse sobre História Natural, “e que na Secretaria de Estado não que-
ria ver outras contas”57. Embora o doutor Marcelino estivesse longe de ser
um naturalista, deixou, de sua parte, um extenso material memorialístico.
Não se estranha, por isso, que sua única provisão efetiva nas duas correi-
ções mecionadas tivesse relação com o registro de documentos:
“Proveu e mandou que, em razão do incêndio que houve na Casa da
Câmara, em que se queimou o arquivo dela, quase todo o Senado da
Câmara, cuidassem em reformar tudo que lhe[s] era possível, tirando
por certidão de qualquer cartório onde se acharem, à vista das rendas
do Senado da Câmara, e fazendo registrar essas mesmas ordens e cer-
tidões nos competentes livros que para isso há de haver58.”

Na verdade, após o incêndio de 1790, a sede do Senado da Câmara


passou a funcionar temporariamente na casa do próprio ouvidor59.

Com o mesmo zelo arquivístico, Cleto organizou seus requerimentos


administrativos. No parecer referente à representação da Câmara sobre o
direito de os ouvidores conhecerem de ações novas, o procurador da Co-
roa não deixou de ressaltar a qualidade de sua argumentação:

57 – AHU – RJ. Caixa 144, documento 17. 11 de agosto de 1789. “Ofício do [juiz de
Fora do Rio de Janeiro], Baltazar da Silva Lisboa, ao [secretário de estado da Marinha e
Ultramar, Martinho de Melo e Castro], sobre os trabalhos que tem feito na área de Histó-
ria Natural, sendo os resultados sempre remetidos para o Reino da forma já estabelecida;
queixando-se das descomposturas feitas pelos ministros da Relação do Rio de Janeiro à
sua pessoa no que diz respeito ao envio do material juntado nas suas viagens”.
58 – Autos de correições dos ouvidores do Rio de Janeiro (1748-1820). Op. cit., p. 85.
59 – Cf. Noronha Santos. Fontes e chafarizes do Rio de Janeiro. Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, n. 10, 1946, nota, 29, p. 27.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

“acho as razões que poderiam agora lembrar ao ouvidor da Comarca


do Rio de Janeiro, deduzidas e analisadas em sua difusíssima resposta,
dada no agravo que dele se interpôs, e confirmadas com bastantes e
bem atendíveis documentos extraídos dos públicos cartórios daquela
cidade60.”

Nesse sentido, o estilo do doutor Marcelino, ainda que devesse algo


à antiga concepção de prudência, cultivada, no Antigo Regime, como
fundamento do exercício da política e da justiça, revelava também uma
mudança. Exemplo dela é o apelo à moderação, feito, décadas antes, por
membros da Academia dos Esquecidos, quando se disputassem as dife-
rentes matérias, devendo-se, nos termos de Luís de Siqueira da Gama,
a “averiguação da verdade” suplantar qualquer “capricho” ou “vaida-
de”. Tal procedimento distinguiria, nas palavras de Caetano de Brito e
Figueiredo, os “termos escolásticos” do “estilo acadêmico”61. A percep-
ção de que legítmas contendas jurídicas, administrativas ou intelectuais
descambavam facilmente em conflitos narcísicos em torno da honra não
podia ser novidade no Império português, tão caraterizado por disputas
jurisdicionais e de precedência62. Na segunda metade do século XVIII,
porém, especialmente após a contundente oposição à dialética jesuítica,
os “termos escolásticos” começaram a ser vistos de modo mais crítico
e desolador por aqueles que falavam em nome da verdade histórica, do
desenvolvimento científico e da boa administração.

No próprio Rio de Janeiro, o problema foi claramente colocado pelos


participantes da Sociedade Literária fundada sob os auspícios do marquês
do Lavradio63. Na devassa iniciada contra alguns de seus membros em
1794, momento em que já não existia, formalmente, a preocupação com

60 – AHU – RJ. Caixa 150, documentos 47 e 72. 3 de novembro de 1791.


61 – Cf. Fernando Nicolazzi. Entre “letras & armas, a história como disputa. Op. cit., p.
43.
62 – Sobre a apropriação do conceito de narcisismo para a análise da sociedade de corte,
cf. Jean Starobinski. As máscaras da civilização. Trad. São Paulo: Companhia das Letras,
2001, em especial o capítulo “Sobre a adulação”, pp. 57-85.
63 – A respeito da Sociedade Literária, cf. Afonso Carlos Marques dos Santos. No ras-
cunho da nação. Op. cit.; e Nireu Cavalcanti. O Rio de Janeiro setecentista. Op. cit., pp.
228-36.

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Marco Antonio Silveira

as consequências funestas da vaidade rendeu maus resultados ao profes-


sor régio Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Isso porque, conquanto o
estatuto da Sociedade simplesmente fizesse “os maiores votos para que
de presente e para o futuro se conserve a mais perfeita harmonia nas as-
sembléias”, fora encontrado entre os papéis de Alvarenga um rascunho
propondo, como primeiro tópico, “a boa fé e o segredo, de forma que nin-
guém saiba do que se tratou na Sociedade”64. Questionado sobre as razões
que o teriam levado a sugerir tamanho sigilo, o professor respondeu que
“este não tinha por fim mais que o não derramar-se no público as dis-
putas que os sócios tivessem entre si, nas conferências, e que, por isso
mesmo, também recomendava junto com o segredo a boa fé; o qual era
tão necessário neste ponto, que a experiência lhes fez ver que, por ele
se não guardar, deixaram dois dos melhores sócios a Sociedade65.”

É certo que a devassa, para além de possíveis armadilhas do


vice-rei conde de Resende e de frades franciscanos incomodados com a
atuação dos professores régios, resultou de uma ambiguidade típica da-
queles anos. Na crise política vivenciada pelas autoridades imperiais em
relação à América, uma primeira inflexão certamente derivou da própria
governação pombalina. As polêmicas decisões de Pombal concernentes
à extinção do cativeiro na Metrópole, à liberdade dos índios, ao fim da
distinção entre cristãos velhos e novos, à racionalização administrativa, à
valorização dos magistrados, à expulsão dos jesuítas, à constituição das
aulas régias e à cooptação administrativa dos grupos dirigentes coloniais,
estabeleceram muitas das bases sólidas para a crítica reformista. Marce-
lino Pereira Cleto, gostasse ou não do marquês, desenvolveu parte de sua
carreira nesse novo contexto. O linhagista Pedro Taques, por exemplo,
tinha motivos de sobra para ressentir-se com Pombal, pois, além de abo-
minar o relaxamento dos critérios de pureza de sangue e de não obter a
premiação almejada, vira o contratador dos diamantes, João Fernades de
Oliveira, com o decisivo apoio do poderoso ministro, espoliar os bens de
sua benfeitora, dona Inês Pires Monteiro66.
64 – Autos da devassa. Prisão dos letrados do Rio de Janeiro – 1794. 2ª ed. Rio de Janeiro:
Ed. UERJ, 2002, pp. 323 e 208.
65 – Idem, p. 205.
66 – Cf. Afonso de Taunay. “Pedro Taques de Almeida Pais Leme (1714-1777). Escorço

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Uma segunda inflexão, contudo, ocorreu no ano de 1789, quando,


logo após a descoberta da Inconfidência Mineira, deu-se o susto da Re-
volução Francesa67. O caso dos inconfidentes fez notar a possibilidade de
apropriação da experiência das colônias inglesas na América lusa, ocor-
rendo, aliás, pouco depois da rebelião de Goa, na Índia. A Revolução,
por sua vez, seguida, em 1791, dos acontecimentos haitianos, colocou
na ordem do dia, e de modo especial, o antigo tema das qualidades e dos
defeitos das diversas formas de governo. Essa segunda inflexão criou as
condições para que algumas autoridades da última década do Setecentos,
borrando os limites entre a defesa da herança pombalina e a dos ideais
revolucionários, perseguissem e, por vezes, encarcerassem reformistas
militantes, acusando-os de jacobinos. O mesmo Silva Alvarenga, que,
com alguns colegas, permaneceu preso por muito tempo em decorrência
de uma devassa inconclusa, chegou a mencionar, em seu benefício, que
em vários de seus papéis havia “elogios não só aos vice-reis deste Estado,
mas aos nossos clementíssimos soberanos, nos quais respira o amor dos
príncipes, da pátria e da nação”68. Note-se, porém, que a própria histo-
riografia, nos séculos seguintes, reproduziu as artimanhas persecutórias
dos que se aproveitaram da ambiguidade do momento, classificando as
atividades dos acadêmicos devassados de “Conjuração Carioca”.

Uma terceira inflexão ocorreria, enfim, com a vinda da Corte para


o Brasil em 1808. Mas, àquela altura, Marcelino Pereira Cleto já havia
falecido. O cerne de sua trajetória esteve justamente no fato de ter vivido
de perto as doloridas mudanças ocorridas logo após 1789.

biográfico”. Op. cit., p. 55.


67 – Cf., acerca do período inaugurado pela Inconfidência Mineira, Kenneth Maxwell.
“The generation of the 1790s and the idea of the Luso-Brazilian Empire”. In: Dauril Al-
den. Colonial roots of modern Brazil. Los Angeles/California: University of California
Press, 1973, pp. 107-144.
68 – Autos da devassa. Op. cit., p. 199. Acerca da vinculação de Manuel Inácio da Silva
Alvarenga e outros letrados à política pombalina, cf. Ivan Teixeira. Mecenato pombalino
e poesia neoclássica. São Paulo: Fapesp, Edusp, 1999.

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Abusos eclesiásticos
Quando de sua posse como ouvidor do Rio de Janeiro, Cleto traba-
lhava num outro escrito, cujo tema envolvia os complexos embates sobre
a jurisdição eclesiástica no Brasil. O contexto em que escrevia sobre tal
assunto mostrava-se espinhoso na medida em que, aos recorrentes abusos
de clérigos na cobrança de seus serviços – cujas queixas haviam se acu-
mulado na América por todo o século XVIII –, somavam-se as críticas de
inspiração pombalina. Como indicou Afonso Carlos Marques dos San-
tos, os senhores Silva Alvarenga e João Marques Pinto, respectivamente
professores régios de Retórica e Grego na Cidade do Rio de Janeiro, re-
meteram a Martinho de Melo e Castro, pelo menos desde o ano de 1787,
algumas representações em que acusavam os frades de São Bento e de
Santo Antônio de lhes usurparem os estudantes e de reintroduzirem, em
prejuízo das determinações reais, o ensino praticado pelos jesuítas69. Na
devassa aberta em 1794, o jovem bacharel Mariano José Pereira atribuiu
sua prisão à vingança do franciscano Raimundo Penaforte, membro do
Colégio de Santo Antônio que, dois anos antes, havia assistido aos úl-
timos momentos dos inconfidentes. Por detrás do conflito, achava-se a
obra do padre Antônio Pereira de Figueiredo, Tentativa teológica, na qual
se propunham teses próximas ao regalismo e ao episcopalismo70. Tendo
Pombal expulsado os jesuítas em 1759, opondo-se ainda ao molinismo e
ao misticismo da Jacobéia – a ponto de, em 1768, levar o bispo de Coim-
bra ao cárcere –, restara, nas décadas seguintes, após a Viradeira, uma
virulenta disputa que não excluiu a América. A irritação de frei Raimundo
ocorrera porque Mariano José Pereira, não podendo suportar a crítica do
dito frade ao marquês de Pombal, inserida numa tradução que o religioso
69 – “Representação dos professores régios de Humanidades da Cidade do Rio de Janeiro
à rainha dona Maria I. Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 1787”; “Representação dos profes-
sores régios de Humanidades do Rio de Janeiro, dirigida à rainha dona Maria I, em 28 de
março de1793”. In: Afonso Carlos Marques dos Santos. No rascunho da nação. Op. cit.,
pp. 160-5 e 166-70.
70 – Antônio Pereira. Tentativa teológica em que se pretende mostrar que, impedido o
recurso à Sé Apostólica, se devolve aos senhores bispos a faculdade de dispensar nos
impedimentos públicos do matrimônio e de prover espiritualmente em todos os mais casos
reservados ao papa, todas as vezes que assim o pedir a pública e urgente necessidade dos
súditos. Lisboa: Oficina de Miguel Rodrigues, 1766.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

fizera da obra do italiano Giovanni Marchetti, acabara por proferir al-


gumas palavras contra ele71. O livro de Marchetti, intitulado Crítica da
história eclesiástica e dos discursos do sr. abade Cláudio Fleury, atacava
não apenas o mencionado historiador francês, como também o próprio
padre Antônio Pereira72. Assim, a questão eclesiástica envolvia, pelo me-
nos, três problemas cruciais: as queixas contra as cobranças excessivas
do clero, a posição frente ao regalismo e ao episcopalismo, e a discussão
doutrinária acerca de concepções religiosas que, de um lado, acatavam o
relaxamento costumeiro e, de outro, pregavam um misticismo rigorista,
tido por hipócrita e avesso às condições práticas do serviço régio73.

A esse delicado quadro, há de se acrescentar um elemento de matriz


local. Desde a década de 1720, alguns conventos fluminenses, especial-
mente o de Santo Antônio, viram-se estremecidos pelas contendas que
opuseram, em suas respectivas províncias, os “filhos do Brasil” aos “fi-
lhos do Reino”. Na prática, a tendência de que avultassem os clérigos nas-
cidos na América, acrescida do fato de que as casas religiosas, ao fim e ao
cabo, eram sustentadas pelos moradores das localidades onde existiam,
estimulou a resistência de frades reinóis temerosos de se verem alijados
da governação das ordens. A tentativa de contornar o dilema, patrocina-
da pela Coroa, consistiu na Lei da Alternativa, segundo a qual devia-se
repartir igualmente os diversos cargos, e mesmo o ingresso de noviços,
entre gente do Brasil e do Reino74. De fato, o nativismo na América lusa
consistia num fenômeno crucial, presente em situações as mais diver-
sas; sem ele, seria difícil compreender a política pombalina de cooptação
e, mais tarde, já no contexto aberto pela segunda inflexão apontada, a
71 – Autos da devassa. Op. cit., p. 236.
72 – Giovanni Marchetti. Critica della storia ecclesiastica e dei discorsi del sig. abate
Claudio Fleury, con un appendice sopra il di lui continuatore. 2ª ed. Roma, 1784.
73 – Sobre as disputas doutrinárias no campo da religião, em Portugal, cf. Cândido dos
Santos. O jansenismo em Portugal. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto,
2007; Ofélia M. Caldas Paiva Monteiro. D. Frei Alexandre da Sagrada Família. Coimbra:
Coimbra Editora, 1974.
74 – Frei Ildefonso Silveira. “Partidarismo nacionalista nos claustros franciscanos no sé-
culo XVIII”. Anais do Congresso Comemorativo do Bicentenário da Transferência da
Sede do Governo do Brasil da Cidade do Salvador para o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Departamento de Imprensa Nacional, 1967, pp. 123-46.

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concepção de Império luso-brasileiro formulada por d. Rodrigo de Sousa


Coutinho. Na mesma resposta em que referia o desgaste causado pela
tradução da obra de Giovanni Marchetti, o doutor Mariano José Pereira
também atribuiu sua prisão a contendas dessa natureza. O depoente

“suspeitava que a causa de sua prisão procedia de ódio ou raiva que


contra ele tivesse concebido um frade de Santo Antônio chamado frei
Raimundo, porquanto este era inimigo dos brasileiros; de sorte que
constava haver ele dito ao atual vice-rei deste Estado que se não rece-
asse dos franceses, mas sim dos filhos do Brasil [...]75.”

As tensões entre os franciscanos certamente permaneciam na década


de 1790, coexistindo, ao lado de frei Raimundo, o botanista José Maria-
no da Conceição Veloso – o autor da reconhecida Flora fluminense que
vinculou-se à Sociedade Literária, privando, portanto, de algum contato
com os sócios Silva Alvarenga, João Marques Pinto e Baltazar da Silva
Lisboa. Seja como for, em circunstâncias tão turbulentas, as críticas revo-
lucionárias apenas acresceram alguns ingredientes a mais nas atitudes de
anticlericalismo vigentes desde muito tempo.

O rechaço ao nativismo após os acontecimentos de 1789 gerou re-


comendações enderaçadas a Martinho de Melo e Castro. Em março de
1790, quando o doutor Marcelino ainda servia de ouvidor da Comarca,
um anônimo apelidado Amador Patrício de Portugal escreveu ao ministro
para adverti-lo sobre “algumas circunstâncias da América”. Aludindo ao
desprezo dos nacionais pelos reinóis, evocou, sem o saber, uma das razões
que justificavam a concessão de títulos aos magistrados encaminhados ao
Brasil, como Pereira Cleto:

“Padecendo todos a loucura de se terem em conta de fidalgos, ape-


nas seus pais ou avós fossem almotacés, ou vereadores, eles tratam
genericamente os filhos de Portugal por marotos, galegos, mochilas
e lacaios, sem exceção dos que o não são: basta que sejam filhos de
homem pobre de alguma vila, ou cidade, ou de algum lavrador para os
honrarem com tão esbeltos títulos76.”
75 – Autos da devassa. Op. cit., p. 236.
76 – “Carta de Amador Patrício de Portugal a Martinho de Melo e Castro. Rio de Janeiro,

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Um ano mais tarde, em maio de 1791, o chanceler da Relação Se-


bastião Xavier Vasconcelos Coutinho, informando Melo e Castro sobre a
Inconfidência em Minas, afirmou sempre ser prudente

“que SMaj use das cautelas e providências mais próprias para que,
nos empregos que podem ter influência nos povos, haja pessoas de
inteira fidelidade, porque geralmente o caráter dos brasileiros é terem
oposição aos vassalos de SMaj europeus, porque se persuadem que os
nacionais do país têm mais talento e são mais dignos de governarem,
e que os europeus lhe[s] levam a riqueza que são devidas aos filhos
deste continente, e que eles desejam insaciavelmente para sustentar o
luxo e vaidade que entre eles é sem limite77.”

Assim, enquanto os filhos do Brasil queixavam-se de perder as ri-


quezas geradas e de serem excluídos das justas premiações, os filhos do
Reino acusavam-nos de obsessão fidalga e aversão ao trabalho, caracte-
rísticas, aliás, bastante condizentes com uma sociedade fundada na mão
de obra escrava. Embora, como em qualquer debate acalorado, os este-
reótipos tendessem a escamotear nuanças que aproximariam ambos os
partidos, não seria excessivo dizer que havia uma cota de verdade em
cada lado.

Foi, enfim, nesse contexto que Marcelino Pereira Cleto elaborou seu
escrito sobre a jurisdição eclesiástica no Brasil e, algum tempo depois,
dirigiu-de às Minas com o intuito de apurar a Inconfidência. O texto en-
volvendo a atuação da Igreja na América certamente compôs um circuito
mais amplo. No caso da Capitania de Minas Gerais, desde o início da
ocupação do território, o problema dos valores a serem pagos aos cléri-
4 de março de 1790”. In; Afonso Carlos Marques dos Santos. Op. cit., p. 155. Em poema
intitulado “Obra feita aos senhores de Portugal”, atribuído ao coronel José Aires Gomes,
um dos implicados na Inconfidência Mineira, os xingamentos ao estilo dos citados pelo
missivista abundavam: “Marotos, cães, labregos, malcriados, porcos, / baixos, patifes,
presumidos, piratas no furtar / enfurecidos, piolhentos, sebosos, cusbriados. // Atende que
do Reino vens perdido / a chorar no Brasil os teus pecados. / E tanto que da sabugem o cu
cá limpam, / começam a largar com mãos largas, / sem se lembrar dos seus antigos estados
vis”. Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Op. cit., v. 3, 1977, p. 417.
77 – [Carta de Sebastião Xavier de Vasconcelos Coutinho a Martinho de Melo e Castro,
em 30 de maio de 1791]. In: Anuário do Museu da Inconfidência. Ouro Preto/MG: Dire-
toria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ano II, 1953, p. 210.

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gos pelos seus serviços causou estranheza entre os povos. A percepção


de que os preços eram escorchantes, principalmente o da conhecenças,
aumentou à medida que o ouro de aluvião escasseava, mas a taxas perma-
neciam as mesmas dos tempos de fácil extração78. O assunto interessou
ao magistrado Caetano da Costa Matoso, que, em sua extensa compilação
documental, inseriu diversos papéis sobre emolumentos e despesas do
Bispado de Mariana79. Segundo Luciano Figueiredo, o ouvidor de Vila
Rica, cuja atuação pautou-se pela defesa da jurisdição real, chegou a acu-
sar de venalidade o primeiro prelado marianense em função de uma re-
ceita que alcançava a quantia fabulosa de 21 contos de réis80. Apesar dos
regimentos efetuados na década de 1750 por ordem da Coroa, os abusos
e as queixas permaneceram, alcançando letrados e memorialistas do úl-
timo quartel do Setecentos. José João Teixeira Coelho, além de aludir à
proibição do estabelecimento de casas religiosas em Minas, bem como à
expulsão de clérigos simoníacos e escandalosos, deplorou o “abuso dos
párocos na cobrança das conhecenças excessivas e dos outros direitos
paroquiais”81. Ademais, para o desembargador,
“A extorsão de salários injustos que fazem os ministros eclesiásticos,
e o abuso de se passarem provisões anuais até para se dizer missa,
confessar e pregar, e também para casar, é um novo motivo de escân-
dalo82.”

Ainda em relação a dificuldades envolvendo a Igreja, anotou um bre-


ve “Discurso único sobre a usurpação que os bispos do Bispado de Ma-
riana fazem dos direitos pertencentes ao Mestrado da Ordem de Cristo”,

78 – Cf. Caio C. Boschi. Os leigos e o poder. São Paulo: Ática, 1986; Dom Oscar de Oli-
veira. Os dízimos eclesiásticos do Brasil. Belo Horizonte: Universidade de Minas Gerais,
1964.
79 – Luciano Raposo de Almeida Figueiredo & Maria Verônica Campos (coord.). Códice
Costa Matoso. Op. cit., pp. 660-764.
80 – Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. “Rapsódia para um bacharel”. Op. cit., p.
91.
81 – José João Teixeira Coelho. Instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais
(1782). Op. cit., p. 224.
82 – Idem, p. 224.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
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no qual sublinhava a jurisdição de Sua Majestade, como “grã-mestra e


prelada regular e ordinária”, sobre as “igrejas ultramarinas”83.

Como não podia deixar de ser, o tema apareceu com destaque na


famosa Instrução para o visconde de Barbacena, elaborada por Martinho
de Melo e Castro. Conquanto se diga que o secretário de Estado fora
míope em relação aos motivos da decadência aurífera em Minas Gerais,
não se pode negar que suas instruções resultavam do exercício crítico
fundado na recepção e análise sistemática de papéis recebidos por autori-
dades diversas do Ultramar. Visando implementar variadas reformas em
Minas Gerais através do combate a “abusos e relaxações”, indicou, como
primeiro tópico, “que os eclesiásticos e ministros da Igreja cumpram com
as obrigações que a mesma Igreja lhe[s] prescreve”84. E, adiante, com-
pletou:
“os párocos de Minas Gerais, porém, invertendo esta doutrina, a tem
apropriado em grande parte aos seus reprovados e particulares inte-
resses: dando ocasião a repetidas e multiplicadas queixas, que, desde
tempos anteriores até agora, têm sucessivamente chegado à real pre-
sença, de insuportáveis e forçadas contribuições, debaixo do pretexto
de direitos paroquiais, benesses e pés de altar, com que os mesmos
párocos obrigavam e obrigam aos seus fregueses a lhes contribuir85.”

A menção de Martinho de Melo e Castro é seguida de um longo con-


junto de quinze parágrafos, nos quais apresenta um histórico detalhado
dos acontecimentos atinentes à questão.

Quando o visconde de Barbacena, novo capitão-general das Minas,


desembarcou no Rio de Janeiro em 24 de maio de 1788, veio acompa-
nhado do também nomeado governador de São Paulo, Bernardo José de
Lorena86. Fosse ou não por sugestão do secretário de Estado, um dos dois,
ao que tudo indica, avistou-se com Marcelino Pereira Cleto, e com ele

83 – Idem, p. 225.
84 – Instrução para o visconde de Barbacena. Anuário do Museu da Inconfidência. Ouro
Preto/MG: Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ano II, 1953, p. 118.
85 – Idem, p. 118.
86 – Cf. Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Op. cit., v 8, 1977, nota 1, p. 107.

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discutiu o assunto da jurisdição eclesiástica. É o que se depreende da có-


pia de uma carta do ouvidor, escrita em 20 de setembro de 1788, da qual
não consta o nome do destinatário:

“Ainda agora me é possível cumprir com as recomendações que VEx


se dignou deixar-me passando por esta cidade; o mesmo desejo que
tive e permanece de bem as cumprir, apesar ma[i]s as demorou. Per-
suadi-me que o melhor meio de satisfazer a VEx era fazer copiar até
ao ponto em que estava o papel que VEx aqui se dignou a ver, e,
procurando um escrevente, tive a pouca fortuna de me inculcarem um
que era atacado de erisipela e dor de peito; uma só destas moléstias o
pretextaria bastantemente para me não concluir com brevidade a cópia
que eu desejava, quanto mais ambas juntas. Enfim ela se concluiu,
e eu a remeto a VEx, que, pela grandeza e honra, se dignará, pelas
sobreditas razões, desculpar-me e persuadir-se que só as mencionadas
razões influíram para a demora87.”

Que a carta endereçava-se a um governador, não há dúvida, pois,


ademais do uso das fórmulas “Ilustríssimo e Excelentíssimo” e “Vossa
Excelência”, fazia, em seu final, após circunspecta análise dos abusos
eclesiásticos, a seguinte advertência:
VEx e os mais senhores governadores e capitães-generais podem mui-
to, e não duvido que a este respeito possam melhorar muito a sorte dos
vassalos de SMaj neste Continente; porém, ainda assim, não hão de
reduzir este negócio ao que deve ser, e por modo que permita conser-
vação, sem as sobreditas providências de SMaj88.

Não causa espanto que Cleto se dedicasse à compreensão da ma-


neira pela qual eram administrados bispados e paróquias, porquanto esta
era uma das funções dos provedores dos defuntos e ausentes, capelas e
resíduos, posto ocupado pelo magistrado tanto em São Paulo como no
Rio de Janeiro. A longa carta do doutor Marcelino, disposta em doze fó-
87 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 52. Observe-se que a carta, sendo autógrafa,
encontra-se entre os papéis de Marcelino Pereira Cleto, constituindo, portanto, parte do
acervo de escritos que o próprio magistrado elaborou e guardou. Esse é o motivo por que
não se encontra nela o nome do remetente, informação que obviamente constou da versão
enviada – no caso, aliás, de ter sido de fato enviada.
88 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 63.

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lios, estendeu-se porque não apenas apresentava o “papel” de interesse


do destinatário, mas também acrescentava novos dados. A missiva talvez
ajude a compreender a economia do ouvidor na correição realizada em
novembro do mesmo ano, já que, considerando o dito papel inconcluso,
Cleto desejava utilizá-la para coletar “todos os documentos” de interesse
existentes nas câmaras de sua Comarca89.

Descrevendo a constituição dos bispados na América sob o domínio


do grão-mestre da Ordem de Cristo, Pereira Cleto não demorou a introdu-
zir a questão intrincada dos excessos cometidos pelos clérigos. Uma vez
que as côngruas praticadas nas Conquistas, segundo seu ponto de vista,
não eram exorbitantes, acabavam por alimentar abusos infinitos:

“Da diminuição com que se estabeleceram, e também da ambição,


nasceu procurar cada qual, no ministério que se lhe encarregou, avan-
çar, justa ou injustamente, as suas utilidades, principiando desde o
bispo até ao sacristão, e por meios injustos têm conseguido formarem,
pela maior parte, bispados e benefícios pingues na América, quando,
pelo contrário, segundo as suas côngruas estabelecidas, deviam todos
ser moderados90.”

Como havia denunciado, havia quase 40 anos, o ouvidor Costa Ma-


toso, Cleto referiu as quantias fabulosas acumuladas pelos bispados, lem-
brando que, embora cada prelado, segundo o fixado pela Coroa, devesse
receber em torno de 1,6 contos de réis, os valores subiam a mais de vinte
mil cruzados; e mesmo o de São Paulo, de menor rendimento, chegava
a doze. Para isso, os bispos efetuavam formas variadas de extorsão. Ex-
torquiam os cônegos ao perceberem certa quantia quando lhes passavam
cartas de confirmação ou, por ocasião de seu falecimento, cobravam dos
testamenteiros o direito de lutuosa. Usavam de ambos os meios para tam-
bém extorquir os párocos, que, ademais, viam sua jurisdição desrespeita-
da, tendo de pedir licenças desnecessárias para ministrar os sacramentos
em suas freguesias. Nos batismos, exigiam-se provisões caso a cerimônia
se realizasse fora da matriz, se fosse ministrada por um clérigo indicado
89 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 52.
90 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 53v.

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Marco Antonio Silveira

pelo próprio vigário, ou, ainda, se algum padrinho se apresentasse através


de procurador. Mas não só:

“No matrimônio, proclamados os contraentes, ainda que estes não te-


nham saído dos limites da própria freguesia, nem tenham impedimen-
to, não os recebe o pároco sem uma provisão do bispo, sejam brancos
ou índios ou escravos. Se não é o pároco quem os recebe, se não vão
celebrar o sacramento à igreja matriz, se algum dos contraentes, ou
ambos se recebe por procuração, se casa de tarde, se casando em tem-
po que não há bençãos, e ao depois as vão receber, como devem, em
tempo competente, para tudo isto são necessárias distintas provisões
do bispo, violando-se a conhecida jurisdição dos párocos a estes res-
peitos só para que, incompetente e indevidamente, rendam as chance-
larias do ordinário. E se são parentes e querem dispensa, aqui cai sobre
eles um raio que os abrasa e devora91.”

Os párocos que não eram colados sofriam ainda “maiores pensões”,


precisando tirar anualmente licenças de encomendação. Alguns deles,
sendo nomeados pelos próprios bispos, e não pela Mesa da Consciência
e Ordens, representavam uma agressão contra o Padroado, que sempre
conferira ao grão-mestre o privilégio exclusivo de edificar igrejas, ermi-
das e capelas. Nesse sentido, conforme o doutor Marcelino, seriam dois
os objetivos dos prelados: “escurecer a jurisdição ordinária e eclesiástica
do grão-mestre, no que trabalham e não têm conseguido pouco”; e “terem
sempre igrejas prontas para darem conforme a sua eleição e arbítrio” 92. A
existência de encomendados em parte das igrejas fazia com que os bispos
não dessem conta delas na Mesa de Consciência, o sustento integral de
seus párocos tendo de ser suportado pelos fregueses em função da falta
de côngruas. Atalhar tais abusos contra o Padroado caberia, segundo o
missivista, aos ouvidores, que, na qualidade de provedores de capelas e
resíduos, deviam obstar a fundação de novas igrejas, irmandades, con-
frarias e corpos semelhantes na falta da licença apropriada – concepção,
aliás, partilhada e posta em prática por Caetano da Costa Matoso na Vila

91 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 55.


92 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 56.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Rica de 175093. Pereira Cleto, porém, tinha plena consciência da virulên-


cia dos embates atinentes à jurisdição eclesiástica, mostrando-se, quanto
a isso, deveras prudente:

“Não pareça a VEx daqui que eu condeno à falta de luzes ou instrução


dos atuais ouvidores, e ainda dos seus próximos antecessores, o não
terem procedido conformemente ao que tenho dito; pois eu mesmo,
discorrendo na forma sobredita, e estando atualmente encarregado de
semelhante ministério, vacilo em reduzir à prática isto mesmo de que
estou capacitado; porque a novidade me havia acarretar inimigos e dú-
vidas, e nestas devia de ter decisões contrárias aos direitos do rei como
grão-mestre, dadas por aqueles mesmos que deveriam sustentá-los, e
ficar ultimamente com os créditos de inovador, e ainda piores94.”

Sua referência à posição duvidosa dos que deveriam defender os in-


teresses régios parece remeter ao acórdão por meio do qual a Relação
fluminense exterminou parte expressiva da jurisdição da Ouvidoria da
Comarca. O espítito acadêmico de Cleto, nesse sentido, e por razões bas-
tante concretas, realmente articulava busca da verdade e exercício da pru-
dência95. Afinal, como contou, um “sujeito” que, em caso de agravo, teria
o “direito de votar sobre os meus procedimentos”, chegara a dizer-lhe
que as usurpações deveriam ser suportadas porque Noé, feito eclesiástico,
recebera e transmitira a seus sucessores os bens temporais96. Sem querer

93 – Sobre esse ponto, afirma Luciano Figueiredo: “Assim, parece indiscutível que, à
custa de todo o desgaste que representou, Caetano da Costa Matoso foi o artífice que
concluiu a obra de conquista da jurisdição pelo Poder Real. A legislação produzida du-
rante sua atuação e nos anos imediatamente seguintes regulando a presença régia sobre a
jurisdição eclesiástica em inúmeras esferas é prova suficiente disto”. “Rapsódia para um
bacharel”. Op. cit., p. 88. A carta de Pereira Cleto, todavia, sugere que tal conclusão deve
ser relativizada.
94 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 56v.
95 – A substância dos receios de Pereira Cleto apareceu também em Costa Matoso, que,
no início de sua atuação em Vila Rica, em conta remetida ao Conselho Ultramarino, diz
ter decidido de início “não inovar em coisa alguma”, temendo a reedição dos conflitos
jurisdicionais experimentados por seu antecessor, “de que se seguiram tão perniciosas
consequências, e talvez a morte daquele reto ministro pela defesa da jurisdição de Sua
Majestade”. Apud. Luciano Figueiredo. Op. cit., p. 85. Como ocorreria com Baltazar da
Silva Lisboa no Rio de Janeiro dos anos de 1790, Matoso também não cumpriu a promes-
sa, pagando alto preço por isso.
96 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 56v.

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Marco Antonio Silveira

voltar a Adão, para lembrar ao interlocutor sua condição secular, o doutor


Marcelino apenas ratificou que os ouvidores da América não podiam “fa-
zer sem perigo certas coisas”, caso não alcançassem ordens expressas da
Coroa e o apoio dos governadores97.

A carta de Pereira Cleto desdobra-se ainda numa infinidade de pon-


tos que seria impossível aqui descrever. Trilhando as vertentes através
das quais os prelados sugavam recursos de clérigos, oficiais e povos –
“porque desde que nasce qualquer pessoa na América, até que morre,
sempre está tirando provisões do bispo”98 –, menciona também os abusos
cometidos na feitura de testamentos, na realização das visitas pastorais e
na cobrança das conhecenças. E, com desgosto, sintetiza:

“Isto tudo são desordens e extorções que se vêem há muitos anos e


todos os dias; o costume de as ver, e mesmo o respeito com que olham
para esta eclesiástica sede de haver dinheiro, e também a dependência
em que estão de seus prelados, os faz[em] insensíveis a estes con-
tínuos vexames, ainda quando os vêem crescer; e outros, ainda que
murmurem, não se atrevem a levantar a voz, ou porque têm filhos
e parentes clérigos, ou estão na dependência de os terem, ou temem
uma perseguição e guerra contínua dos seus prelados e párocos, o que
não poucas vezes tenho visto suceder, e assim compram com a sua
paciência o seu sossego99.”

O “remédio” proposto pelo doutor Marcelino, capaz de produzir uma


“cura radical”, dependeria de ação unívoca de Sua Majestade, e não ape-
nas do trabalho minudente das diversas autoridades100. Este mostrava-se
insuficiente frente à desunião dos ministros, à renitente desobediência dos
eclesiásticos e à inação dos povos, que sofriam “por dependência, ou por
indiscreta piedade, ou por superstição, ou por sustentarem o aparato de
uma vã grandeza e liberalidade de que não pouco se preocupam”101. Esse
remédio seria a elaboração de um regimento novo sobre o assunto, feito

97 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 57.


98 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 58v.
99 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 62v.
100 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 62v.
101 – ANTT. Papéis do Brasil. Códice 1, p. 63.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

com base nos costumes da América e no exame das ordens expedidas via
Mesa da Consiência e Conselho Ultramarino102.

Inconfidência
Em que pese a possível inocuidade da solução indicada por Mar-
celino Pereira Cleto na análise que fez sobre os excessos eclesiásticos,
sua carta, quando cotejada com a representação em defesa do direito dos
ouvidores de conhecerem ações novas, demonstra o grau de belicosidade
vivenciada no jogo de poder, no Rio de Janeiro. O desânimo de Cleto
com o desempenho de ministros da Relação era, de fato, acentuado, sen-
do pautado pelo medo de ver-se abatido. Sobre essa ameaça, teve e teria
à disposição o exemplo do colega Baltazar da Silva Lisboa, com quem
provavelmente manteve boas relações. Se, em 1791, o juiz de fora do
Rio de Janeiro requeria sua substituição, queixando-se que suas sentenças
não eram cumpridas por serem todos os negócios resolvidos na sala do
vice-rei, dois anos mais tarde, achou-se envolvido numa estranha devas-
sa, resultante de carta anônima que o conclamava a organizar uma re-
belião na cidade103. Para averiguar o incidente, o chanceler da Relação,
Sebastião Xavier Vasconcelos Coutinho, requereu ao vice-rei a participa-
ção dos escrivães já designados para o Tribunal da Alçada. A justificativa

102 – É importante ressaltar, a respeito das reflexões de Pereira Cleto sobre o tema da
jurisdição eclesiástica, que seu conjunto documental, compondo hoje o fundo Papéis do
Brasil da Torre do Tombo, passaram antes, conforme se disse, pelas mãos do doutor An-
tônio Pereira de Almeida Silva e Sequeira, lente da Universidade de Coimbra. Essa infor-
mação é relevante, dentre outros motivos, porque o códice 15 do referido fundo consiste
num texto intitulado Jurisdição eclesiástica no Brasil, cuja autoria é do prórprio Silva e
Sequeira. Assim, uma comparação cuidadosa entre a carta do doutor Marcelino e o texto
do docente de Coimbra poderá mostrar se os estudos do primeiro não constituíram a base
para a obra do último. Quanto ao “papel” enviado por Pereira Cleto junto da carta, não foi
possível, até o momento, identificá-lo.
103 – AHU – RJ. Caixa 148, documento 14. 16 de novembro de 1791. “Oficio do juiz de
Fora do Rio de Janeiro, Baltazar da Silva Lisboa, ao secretário de estado da Marinha e
Ultramar, Martinho de Melo e Castro, remetendo arbusto e cristais para o Real Gabinete
de História Natural; solicitando a sua substituição; informando que todos os negócios
são resolvidos na sala do [vice-rei do Estado do Brasil, conde Resende, D. José Luís de
Castro], desrespeitando-se as funções do lugar que ocupa”. Autos de exame e averiguação
sobre o autor de uma carta anônima escrita ao juiz de fora do Rio de Janeiro, dr. Baltazar
da Silva Lisboa. Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, n. 60, 1940, pp. 260-313.

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Marco Antonio Silveira

para convocar o desembargador Francisco Luís Álvares da Rocha e o


doutor José Antônio Valente advinha de sua suposição, sincera ou não, de
que “este negócio tem uma imediata conexão com a comissão da Alçada
sobre a conjuração da Capitania de Minas Gerais”104. Embora a investiga-
ção nada concluísse de efetivo e Silva Lisboa atribuísse o ocorrido a ma-
quinações de seus muitos inimigos, tanto o chanceler quanto o conde de
Resende acusaram-no, junto à Coroa, de ter arquitetado a história visando
obter algum dividendo. O acontecimento, de toda maneira, fornece uma
pista sobre os contatos mantidos entre o juiz de fora e o ouvidor, pois, no
depoimento dado na devassa, em janeiro de 1793, Silva Lisboa afirmou
que recebia cartas “vindas da Bahia, de meu país, e do desembargador
Marcelino Pereira Cleto, e isto depois que aquele desembargador chegou
à cidade da Bahia”105.

É difícil avaliar em que medida o corporativismo, o desempenho do


serviço régio e possíveis diferenças pessoais afastaram ou aproximaram
Rocha, Valente, Cleto e Lisboa. Todos atuaram como ouvidores do Rio
de Janeiro – embora o último de maneira interina –, responsabilizando-se
por correições nas quais tenderam a elogiar e defender as provisões uns
dos outros. Uma clivagem nada desprezível está no fato de que, enquanto
os três primeiros atuaram na Inconfidência Mineira, sempre no posto de
escrivão, o futuro autor dos Anais do Rio de Janeiro tornou-se alvo de
uma devassa e, como partícipe da Sociedade Literária, teve algum vín-
culo institucional com os perseguidos de 1794. De uma maneira ou de
outra, o cenário aberto pelos acontecimentos em Minas criou motivos
novos para desconfianças e atritos. Tendo recebido a denúncia relativa à
conjuração, o visconde de Barbacena não tardou a avisar o vice-rei Luís
de Vasconcelos e Sousa por carta de 25 de março de 1789, quando pediu-
lhe apoio militar. Na ocasião, o alferes Joaquim José da Silva Xavier,
implicado na denúncia, encontrava-se de licença no Rio, onde tratava do
andamento das petições sobre o projeto dos moinhos nos rios do Catete
e Maracanã. Depois de prendê-lo em fuga, o vice-rei decidiu abrir, em 7
104 – Autos de exame e averiguação sobre o autor de uma carta anônima escrita ao juiz
de fora do Rio de Janeiro, dr. Baltazar da Silva Lisboa. Op. cit., p. 269.
105 – Idem, p. 271.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

de maio, uma devassa para apurar o caso, indicando como juiz e escrivão
dela, respectivamente, o desembargador da Relação José Pedro Machado
Coelho Torres e Marcelino Pereira Cleto. A reunião de ambos em em-
preitada tão delicada demandaria, decerto, superação de possíveis rusgas,
porquanto Torres havia sido um dos responsáveis pelo acórdão da Rela-
ção que retirara de Cleto o direito de conhecer ações novas na Ouvidoria.
Em Minas, nos dias 20 e 21 do mesmo mês, o governador mandaria pren-
der alguns suspeitos de peso: o vigário de São José, Carlos Toledo, e os
antigos ouvidores do Rio das Mortes e de Vila Rica, Alvarenga Peixoto e
Tomás Antônio Gonzaga. Algumas semanas depois, em 12 de junho, ins-
tituiu o visconde uma segunda devassa, indicando o novo ouvidor de Vila
Rica, Pedro José de Araújo Saldanha, como juiz, e o ouvidor de Sabará,
José Caetano César Manitti, para escrivão.

Com o recebimento dos referidos presos no Rio, Vasconcelos e Sou-


sa despachou Torres e Cleto para as Gerais, incumbindo-lhes de juntarem
os dois processos. O doutor Marcelino, naquele momento, encontrava-se
a sete léguas da cidade, mais precisamente na sede da freguesia de Nossa
Senhora da Piedade de Magepe, onde erigia uma nova vila106. Ao lado do
colega, entretanto, partiu para Minas no dia 26, chegando a Vila Rica em
15 de julho, logo depois da morte de Cláudio Manuel da Costa na Casa
dos Contos. Porém, embora o visconde de Barbacena tivesse prometido
suspender a devassa aberta em Minas, seguiu-se, nos meses seguintes,
um efetivo conflito jurisdicional entre os dois pares de ministros, que
terminaram por realizar trabalhos paralelos. Tendo podido acompanhar
a inquirição de algumas testemunhas realizada por Saldanha e Manitti,
Torres e Cleto, todavia, não tiveram acesso aos autos. Durante sua es-

106 – Segundo o monsenhor Pizarro, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, “zelan-


do, portanto, a felicidade pública, e promovendo a civilidade nos povos do distrito, sem
pretender jamais o nome perpétuo de fundador, determinou o estabelecimento da vila
por ordem de 9 de junho de 1789, cometida ao ouvidor-geral e corregedor da Comarca
Marcelino Pereira Cleto, por quem foi executado no dia 12 seguinte, levantando-se o
pelourinho, criando-se a câmara, designando-se casa para o seu uso e para a cadeia, e
demarcando-se finalmente os limites de jurisdição”. Cf. José de Sousa Azevedo Pizarro e
Araújo. Memórias históricas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1820,
tomo III, p. 159.

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tada na capital mineira, estranharam ainda a leniência de Barbacena em


relação a alguns dos denunciados, recomendado-lhe a prisão do tenente-
coronel Francisco de Paula Freire de Andrada e do doutor José Álvares
Maciel, que, quando da chegada dos ministros fluminenses, achava-se
hospedado no próprio Palácio da Cachoeira. Em 12 de outubro, estavam
de volta à cidade do Rio de Janeiro, não sem antes procurarem realizar
inquirições pelo caminho107. Dois meses depois, o doutor José Pedro Ma-
chado Coelho Torres apresentou, através de ofício, um resumo de suas
atividades em Minas, destacando que o “atentado” se tinha de fato “pre-
meditado”, e que causaria “dano irreparável”, embora de curta duração108.
Queixou-se o ministro das resistências do visconde de Barbacena, con-
jecturando que “se buscavam modos de tirar sucintamente o progresso da
mesma diligência”109. Sobre tais resistências, enumerou três exemplos: o
desejo do visconde de torná-lo mero assessor dos procedimentos efetua-
dos em Minas por Saldanha e Manitti; seu intento em impedir a inquirição
do mestre de campo Inácio Correia Pamplona; e a recusa em entregar-
lhe a devassa aberta em Minas, conforme estabelecido pelo vice-rei110. O
visconde de Barbacena, por sua vez, em ofício endereçado a Martinho de
Melo e Castro que acompanhava a remessa dos autos mineiros, datado de
10 de fevereiro de 1790, acusou Coelho Torres e Pereira Cleto de realizar
apenas insignificantes diligências que em nada haviam contribuído para
o esclarecimento do caso. E vinculou sua ida a Minas Gerais à indevida
ingerência do vice-rei em sua jurisdição111.
107 – Duas sínteses dos acontecimentos relatados acima encontram-se na “Introdução
histórica” de Herculano Gomes Mathias e numa longa nota elaborada por Tarquínio de
Oliveira. Cf. Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Op. cit., v. 1, pp. 17-30, e v. 9,
pp. 32-3. Sobre a Inconfidência no geral, cf. Kenneth Maxwell. A devassa da devassa.
Trad. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985; e João Pinto Furtado. O manto de Penélope.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
108 – “Ofício do desembargador José Pedro Machado Coelho Torres ao vice-rei Luís de
Vasconcelos e Sousa, com certidão anexa. Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1789”. In:
Autos de devassa da Inconfidência Mineira. Op. cit., v. 7, 1977, p. 29.
109 – Idem, p. 32.
110 – Acerca da impossibilidade de se inquirir o mestre de Campo Pamplona, o ofício é
acompanhado de certidão emitida por Marcelino Pereira Cleto. Idem, p. 38.
111 – “Ofício do visconde de Barbacena a Martinho de Melo e Castro, secretário da Ma-
rinha e Ultramar, enviado por mão de Francisco Antônio Rebelo, com a cópia dos autos
de devassa de Minas Gerais. Vila Rica, 10 de fevereiro de 1790”. In: Autos de devassa da

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Em Lisboa, após receber a cópia dos autos de Minas, bem como a do


processo realizado por Torres e Cleto, remetido por Luís de Vasconcelos e
Sousa, o secretário Martinho de Melo e Castro decidiu, em julho de 1790,
enviar ao Rio um Tribunal de Alçada composto por Sebastião Xavier de
Vasconcelos Coutinho, designando-lhe chanceler da Relação, e pelos de-
sembargadores Antônio Dinis da Cruz e Silva e Antônio Gomes Ribeiro.
Pela mesma época, Vasconcelos e Sousa era substituído pelo conde de
Resende no posto de vice-rei. O desembargador Francisco Luís Álva-
res da Rocha seria indicado escrivão da Alçada, sendo Marcelino Pereira
Cleto o escrivão auxiliar. Sua promoção para a Bahia, contudo, ocorrida
em outubro do mesmo ano, faria com que fosse substituído por José Ca-
etano César Manitti, também agraciado com a Intendência de Vila Ri-
ca112. Mais precisamente, dispensando-o da residência, a rainha nomeou o
doutor Marcelino desembargador da Relação da Bahia com posse de um
lugar na Relação do Porto, que ele deveria assumir depois de seis anos113.
No mesmo mês de outubro, o bacharel José Antônio Valente foi indicado
para substituí-lo na Ouvidoria do Rio de Janeiro.

Depois dos trabalhos concernentes à devassa fluminense, por-


tanto, Pereira Cleto viu diante de si dois caminhos diferentes: seguir
a carreira da magistratura em Portugal ou fixar-se no Rio de Janeiro,
casando-se com dona Humiliana. Conforme se apontou acima, Cleto não
abriu mão do matrimônio, tendo, no entanto, falecido em 1794, dois anos
antes de poder tomar posse no Porto. O aspecto interessante nessa bifurca-
ção na vida do doutor Marcelino consiste em se poder ratificar que, entre
os bacharéis dirigidos às várias partes do Império, mesmo os nascidos no
Reino, seguir carreira não constituía necessariamente a única ou melhor

Inconfidência Mineira. Op. cit., v. 8, 1977, pp. 240-4.


112 – A promoção de Pereira Cleto acompanhou perfeitamente o calendário da premia-
ção dos que serviram no episódio. O “Ofício de Martinho de Melo e Castro ao conde de
Resende, vice-rei, encaminhando relação dos agraciados por sua atuação na repressão da
Inconfidência” é datado de 23 de outubro de 1790. Cf. Autos de devassa da Inconfidência
Mineira. Op. cit., v. 8, 1977, p. 325. A carta régia que nomeia Marcelino Pereira Cleto
desembargador da Bahia, por seu turno, é de três dias depois. ANTT. Chancelaria de D.
Maria I. Livro 36, folha 339.
113 – ANTT. Registro Geral de Mercês de D. Maria I. Livro 22, folha 104.

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Marco Antonio Silveira

alternativa. Apesar de suas ambiguidades, a inserção do portuense Tomás


Antônio Gonzaga na conjuração ocorrida em Minas Gerais, quando já
estava nomeado para o mesmo lugar que seria depois ocupado por Cleto,
é um exemplo disso. Seu primo, Joaquim Antônio Gonzaga, ouvidor do
Serro, na altura da repressão à Inconfidência, teria afirmado, segundo um
denunciante, que estava “timorato”, “tinha ímpetos de deixar o lugar e
se ir embora”, podendo apenas, nesse caso, “ficar riscado do serviço”114.
De toda maneira, as trilhas que conduziam ao Reino e à América não
eram sempre excludentes. Anos mais tarde, em 1802, o parceiro de Cleto
na Inconfidência, José Pedro Machado Coelho Torres, alegando, junto
ao Desembargo do Paço, não ter sido devidamente recompensado pelos
serviços prestados em Minas, requereu a nomeação para o posto de chan-
celer da Relação do Rio de Janeiro. Segundo o peticionário, conquanto
tivesse arriscado a “vida” e a “reputação” em “caso de tanta ponderação e
consequências”, não fora premiado como os demais ministros atuantes na
dita empreitada, pois, alcançando a Relação do Porto de modo ordinário
– para o que teve de esperar dois anos –, chegara à Casa de Suplicação
por antiguidade. O escrivão da Alçada Francisco Luís Álvares da Rocha,
que na ocasião era, assim como ele, desembargador no Rio, “chegando
agora da mesma Relação a esta Corte, fora despachado para a Casa da
Suplicação em atenção a este serviço, sem passar a servir na Relação do
Porto”115. Em suma, Coelho Torres, cuja carreira se iniciara, em 1772,
com o posto de juiz de órfãos da Cidade do Porto, passando depois pela
América, desejava, no final da trajetória, já instalado na confortável posi-
ção de desembargador da Casa da Suplicação de Lisboa, retornar ao Rio
de Janeiro como chanceler.

Encaminhada a consulta ao Palácio de Queluz, o despacho foi bas-


tante expressivo: “Como parece à Mesa, ainda que a diligência alegada

114 – “Memória do sargento-mor Roberto Mascarenhas de Vasconcelos Lobo ao viscon-


de de Barbacena. Vila do Príncipe, 8 de junho de 1790”. In: Autos de devassa da Inconfi-
dência Mineira. Op. cit., v. 3, 1977, p. 398.
115 – ANTT – Desembargo do Paço. Consultas sobre propostas para lugares de justiça.
Março 1912.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

não mereça tanta contemplação”116. Àquela altura, parecia consolidada


a versão segundo a qual a repressão à Inconfidência fora um excesso re-
sultante da ineficácia política do visconde de Barbacena e de seus incon-
venientes conflitos de jurisdição com o vice-rei Luís de Vasconcelos e
Sousa. Tal versão não se deveu unicamente à ascensão de d. Rodrigo de
Sousa Coutinho na Corte, já que, em sua avaliação dos fatos, o próprio
Martinho de Melo e Castro condenara a alienação do visconde no episó-
dio e diminuíra a possibilidade de sucesso da empreitada. Melo e Castro,
aliás, voltando à tese, exposta nas Instruções dadas a Barbacena, de que a
turbulência histórica das Minas se devia a excessos praticados por cléri-
gos, ministros e magnatas, procurou relacioná-la à Inconfidência:
“Enquanto os párocos e o clero procederem nessa Capitania na forma
que os representam diferentes queixas desses povos que têm chegado
à real presença, e que se declaram a VS nas referidas Instruções [...],
não é de admirar que dos mesmos párocos e clero saíssem monstros
tais como o vigário da Vila de São José, Carlos Correia de Toledo, o
cônego Luís Vieira e o padre José da Silva de Oliveira Rolim117.”

Na verdade, quando se analisa a viagem de Torres e Cleto a Minas


Gerais, tem-se a sensação de que o visconde de Barbacena vinha per-
dendo o controle da situação e tentava recuperá-lo avidamente. Distante
das queixas cotidianas da Capitania, instalado no Palácio da Cachoeira, o
novo governador deixou de efetuar a conversação política que lhe permi-
tiria tentar mediar, junto à Coroa, as insatisfações locais. A denúncia de
inconfidência assustou-lhe e exigiu que comunicasse os fatos ao vice-rei,
pedindo-lhe inclusive socorro militar. À medida que foi se inteirando dos
meandros e das ambiguidades do negócio, tentou concentrar os esforços
no sentido de conduzir a investigação e a punição dentro dos limites que
lhe pareciam mais adequados. A nomeação de Coelho Torres e Pereira
Cleto, todavia, ameaçou-lhe o intento, exigindo que, de sua parte, apro-

116 – Idem.
117 – Carta do ministro Martinho de Melo e Castro ao visconde de Barbacena, comu-
nicando o recebimento da devassa de Minas Gerais, que é estudada em vários pontos
e analisada a atuação dos principais implicados no movimento. Anuário do Museu da
Inconfidência. Op. cit., p. 104.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 167


Marco Antonio Silveira

fundasse e manipulasse mais de perto as investigações. Nessas circuns-


tâncias, destaque-se o fato de que a morte de Cláudio Manoel da Costa
tenha antecedido em poucos dias a chegada dos dois magistrados.

Intromissão
Tomando-se como parâmetro as reflexões do doutor Marcelino acer-
ca da decadência de São Paulo e dos abusos eclesiásticos na América,
bem como sua aversão aos conflitos jurisdicionais, não parece excessivo
sugerir que a Inconfidência consolidou alguns de seus pontos de vista.
A ideia de que uma profunda reforma nos domínios de Sua Majestade,
fundada em pressupostos regalistas, não se opunha à valorização do nati-
vismo e dos costumes locais talvez tenha, para Cleto, se reforçado com o
infortúnio dos inconfidentes punidos. Que tais reformas esbarravam nas
idiossincrasias de ministros, clérigos e governadores, eis um ponto de vis-
ta que, depois dos acontecimentos em Minas, devia continuar partilhando
com Martinho de Melo e Castro. Nesse sentido, era plausível que o com-
portamento do doutor Marcelino viesse a oscilar após as tensões deriva-
das do acúmulo de frustrante experiência no serviço régio, da tentativa
da Relação de escanteá-lo, das dificuldades no implemento da devassa
fluminense e, permeando tudo isso, do medo de ver-se abatido e desonra-
do. Sendo assim, um último conflito antes de deixar o Rio de Janeiro fez
Pereira Cleto subir o tom.

Em 28 de novembro de 1791, já nomeado desembargador, recebeu


um despacho do conde de Resende, que lhe ordenava acatar decisão sua
sobre certo assunto, a despeito de procedimentos jurídicos em andamen-
to. O episódio dizia respeito à ação desenvolvida não propriamente na
Ouvidoria da Comarca, mas na Provedoria dos Defuntos e Ausentes, ten-
do sido até então julgada por Baltazar da Silva Lisboa, como substituto
de Cleto no período de seu envolvimento nos negócios da Inconfidência.
Segundo o vice-rei, com a morte de João de Macedo Portugal, o provedor
interino, “de corrupção” e conluiado com Bento Antônio Moreira, um
“negociante rico”, arrematou-lhe os bens do inventário, desconhecendo
totalmente o direito à herança do sobrinho do defunto, João de Sousa

168 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011


Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Lobo. Este, sentindo-se lesado, subiu aos pés do conde de Resende, do


que resultou o despacho ao doutor Marcelino, já de volta à Provedoria, no
qual se exigia a entrega dos bens ao legítimo herdeiro118. Em decorrência
da discordância sobre a questão, ambos representaram a Sua Majestade.
De sua parte, Cleto argumentou que a posse do arrematante já havia sido
disputada na própria Provedoria, onde ele obtivera sentença favorável,
confirmada depois pelo Tribunal da Relação. A causa encontrava-se, na-
quele momento, na Casa de Suplicação de Lisboa, aguardando decisão
de agravo ordinário. Desse modo, a contestação do doutor Marcelino não
dizia respeito ao julgamento da causa em si, mas, sim, ao fato de que não
cabia ao vice-rei intrometer-se em tais assuntos de justiça119.

Mas esse não era o único entrevero entre o ouvidor e o vice-rei. De


acordo com Pereira Cleto, desde a chegada de Resende ao governo, os
problemas haviam começado:
“Entraram a aparecer-me logo despachos seus que, confundindo a or-
dem do juízo nos negócios cíveis, infringiam diretamente as leis de
VMaj; uns pude eu disfarçar com prudência, outros só me instavam
por providência na futura correição, e outros pediram de mim uma
resposta pronta com que fizesse patente as leis e ordens de VMaj que
obstavam a execução do que me mandava120.”

O caso da herança de João de Macedo Portugal seria exemplo desse


último tipo de conflito. Despachos da primeira espécie estariam repre-
118 – AHU – RJ. Caixa 148, documento 35; caixa 147, documentos 13, 14, 19, 20, 25 e
31. Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1791. “Carta do [vice-rei do Estado do Brasil], conde
de Resende, D. José Luís de Castro, à rainha [D. Maria I], sobre as injustiças que estavam
sendo cometidas contra João de Sousa Lobo, sobrinho e um dos herdeiros de João de
Macedo Portugal, pelo ouvidor da comarca do Rio de Janeiro e provedor dos Defuntos
e Ausentes, Marcelino Pereira Cleto, e pelo juiz de Fora, Baltazar da Silva Lisboa, que
permitiram a arrematação dos bens deixados pelo falecido, sem o consentimento de seus
herdeiros”.
119 – AHU – RJ. Caixa 148, documento 36; caixa 146, documento 35; caixa 149, do-
cumentos 48, 49 e 50. 24 de janeiro de 1791. “Carta do ouvidor da comarca do Rio de
Janeiro e provedor dos Defuntos e Ausentes, Marcelino Pereira Cleto, à rainha [D. Maria
I], sobre os conflitos com o [vice-rei do Estado do Brasil], conde de Resende, [D. José
Luís de Castro], acerca do processo de partilha da herança de João de Macedo Portugal e
de uma dívida da Câmara ao empresário da Casa da Ópera, Manoel Luís Ferreira”.
120 – Idem.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 169


Marco Antonio Silveira

sentados na intenção do conde de obrigar o doutor Marcelino a prover,


em correição na Câmara do Rio, acerca de uma partilha sentenciada havia
anos pelo juiz de fora Baltazar da Silva Lisboa. Do segundo tipo, enfim,
fora a exigência de que o ouvidor arrochasse o Senado da Câmara em
contenda mantida contra o empresário da Casa da Ópera, Manuel Luís
Ferreira. Os três exemplos referidos atingiam em cheio as virulentas dis-
putas por terrenos públicos e propriedades privadas – o principal bem da
herança de Macedo Portugal constituindo-se de um engenho de açúcar –,
além de perpassarem a luta encarniçada contra Silva Lisboa. Note-se, ali-
ás, que o posicionamento de Cleto, fosse ou não por razões estritamente
legais, não descuravam as decisões do juiz de fora. O evento atinente ao
empresário da Ópera era bastante sintomático do vínculo íntimo existente
entre as disputas de autoridades e os interesses particulares. Na versão do
ouvidor, ainda na época de Luís de Vasconcelos e Sousa, por ocasião dos
festejos dos desposórios dos príncipes de Portugal e Espanha, Manuel
Luís Ferreira desejara fazer praça e palanques cercados em terreno públi-
co da marinha, com o intuito de lucrar cobrando a entrada dos que qui-
sessem assistir aos divertimentos. Para isso, contrataria com o Senado da
Câmara¸ pelo uso do espaço e pela licença para tal, o pagamento de 700
mil-réis. Parte expressiva desse montante, contudo, não teria entrado nos
cofres do Concelho, já que os camaristas haviam preferido compensá-la
através de “três óperas públicas em que o povo entrasse gratuitamente”.121
Alegando depois que o dito terreno pertencia de fato à Fazenda Real, Fer-
reira obteve uma portaria do conde de Resende, que obrigou o Senado a
devolver ao empresário o que não devia122.
121 – Idem.
122 – Segundo Nireu Cavalcanti, Manuel Luís Ferreira, natural de Bragança, viveu na
Cidade do Porto, transferindo-se, em 1772, para o Rio de Janeiro, onde casou-se. Assumiu
a administração da nova Casa da Ópera em 1775. “Competente administrador e homem
de negócios, o novo empresário da Casa da Ópera soube relacionar-se com a elite do Rio
de Janeiro, onde passou a viver. Aí fez amigos e fortuna, acumulando um patrimônio
significativo de 21 imóveis, entre os quais o prédio do teatro. O casamento de sua filha
Bernarda Luíza de Lima com o comerciante Miguel da Silva Vieira, em 1802, teve como
um de seus padrinhos o próprio vice-rei d. Fernando José de Portugal, numa inequívoca
confirmação do prestígio que alcançara”. Ferreira obteria ainda a patente de brigadeiro do
Exército português, a comenda da Ordem de Cristo e o título de moço da Câmara Real.
Cf. O Rio de Janeiro setecentista. Op. cit., pp. 174-6.

170 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011


Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

Para além dos intrincados conflitos em torno dos interesses locais,


merece destaque, nas representações de Pereira Cleto e Resende, o tom
agressivo e acusatório. O ouvidor repetiu o hábito de cuidadosamente
fundamentar sua opinião num conjunto amplo de documentos. Em mis-
siva endereçada ao conde como resposta a seu despacho, Cleto citou di-
versas fontes legais, copiando algumas delas, sempre com o intento de
demonstrar ao vice-rei a impropriedade de sua intromissão em assuntos
judiciais. Além das Ordenações, referiu três documentos régios que de-
sautorizavam governadores: a provisão de 6 de agosto de 1715, dirigida
ao ouvidor-geral de Pernambuco, em que o rei lhe mandava não obedecer
aos capitães-generais nos casos envolvendo a administração da justiça de
civis; a provisão de 29 de março de 1723, na qual o monarca declarava
ao vice-rei da Bahia que “o suspender as causas é somente regalia do
príncipe”; e a carta de 30 de setembro de 1769, que advertiu o governador
dos Açores por revogar uma sentença do juiz de fora. Amparado em tal
legislação, Pereira Cleto desafiou o conde:

“Nestes termos, eu não digo a VEx que não obedeço. Conheço a supe-
rioridade do lugar de VEx; conheço a sua representação; conheço que
da minha absoluta resistência se não seguiria utilidade nem ao serviço
de Sua Majestade, nem ao bem e quietação dos vassalos, e que é ne-
cessário, em lugar tão distante do Trono, dar a todos exemplo de obe-
diência e reconhecimento aos superiores que Sua Majestade estabe-
lece; proponho só a VEx, para desempenho do juramento que prestei
de cumprir as leis e ordens de Sua Majestade, para desonerar a minha
consciência, para que se conheça a honra do meu comportamento, as
dúvidas que tem contra si a execução do respeitável despacho de VEx,
para que em tempo algum possam atribuir-se-me as consequências e
prejuízos que dela resultam123.”

E completou, dando a entender a ignorância do vice-rei sobre os as-


suntos em pauta:

“Se a resolução de VEx ainda assim for confirmando a execução que


manda fazer, eu necessito que VEx me declare como nela comportar
123 – Cf. AHU – RJ. Caixa 148, documento 35; caixa 147, documentos 13, 14, 19, 20, 25
e 31. 24 de janeiro de 1791.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 171


Marco Antonio Silveira

[?] a certos respeitos, se devo ou não ouvir a parte com embargos


daquela natureza que a lei manda atender; ou no próprio processo, ou
em separado; ou com suspensão, ou sem ela. Se os frutos pendentes
hão de ser entregues a João de Sousa Lobo, ou conservar-se em liber-
dade de os colher a quem os plantou. Se os bens semoventes tiverem
perecidos, por conta de quem deve ser esta mortandade, assim como
também se tiverem tido aumento, ou em lugar dos mortos, se tiverem
substituído outros, por conta de quem deve fazer-se isto tudo. Se os
escravos tiverem morrido ou fugido, ou se tiverem vendido e metido
outros de novo, como deverei comportar-me em todos estes casos, ou
em quaisquer outros de semelhante natureza que ocorram na execu-
ção124.”

O conde de Resende acusou o golpe dado pela arrogância de Pereira


Cleto, pedindo, em sua representação, que fosse punido:

“Tem o dito ouvidor a ousadia de juntar à sua representação os do-


cumentos nº 2 e 3, que não tendem a mais do que aniquilar a grande
autoridade que VMaj me confere pela minha patente e regimento, che-
gando ao excesso de dar a entender que sou inconsiderado nos meus
despachos e que transtorno a justiça das partes; sem embargo, porém,
de julgar que tinha toda a razão, à vista do exposto, de fazer executar
o meu despacho; contudo, a moderação com que sempre desejo pro-
ceder, fez com que o mandasse suspender enquanto fazia presente a
VMaj o referido para determinar o que for servida, não só ao referido
assunto, mas para que, achando VMaj justa a minha queixa do dito
ouvidor, que presentemente se acha despachado para a Relação da
Bahia, haja de ser repreendido em qualquer lugar onde estiver, como
merece o excesso que praticou contra a minha pessoa e lugar que
VMaj me confiou125.”

Não é possível saber se o conde recuou do despacho por medo ou se


o doutor Marcelino chegou a ser admoestado. Provavelmente não, pois,
mais uma vez, no Conselho Ultramarino, o parecer do procurador da Co-
roa lhe foi amplamente favorável:

124 – Idem.
125 – Idem.

172 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011


Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

“Esta conta do ouvidor está muito bem feita, e pelos documentos que
a acompanham mostra este ministro que obrou com a justiça que devia
em não cumprir a portaria que lhe dirigiu o vice-rei sobre a entrega
dos bens que se referem, por ser inteiramente oposta às leis e reais or-
dens de SMaj, como o dito ministro lhe expôs na resposta junta: pelo
que entendo se pode declarar a este ministro que fez bem em observar
as ordens de SMaj e não cumprir contra elas a referida portaria do
vice-rei 126.”

Mais do que apontar novamente o cuidado metódico de Pereira Cleto


com os documentos, assim como a relação entre seu espírito acadêmico
e o exercício da administração, tais embates revelam o ponto de conta-
to entre as orientações reformistas do magistrado luso e a difusa crítica
local que, estereotipada ou não, acusava as autoridades vindas do Reino,
especialmente naquele período, de incompetência, venalidade e falta de
caráter. Como fizera o colega Baltazar da Silva Lisboa, o doutor Mar-
celino chegou a informar ao Conselho de Ultramar que, se não estives-
se já despachado para a Bahia, pediria sucessor “para não arriscar por
mais tempo o meu crédito e reputação”127. As confusões resultantes das
atitudes despóticas dos governadores na América eram, contudo, assun-
to antigo. O desembargador Teixeira Coelho já o havia explicitado em
sua Instrução de 1782, nela arrolando quatro tipos principais de abusos,
acrescidos de um catálogo de 51 determinações régias que deviam conhe-
cer os capitães-generais128. Nesse ponto, o teor da carta de Pereira Cleto
ao vice-rei em nada destoava da perspectiva do antigo intendente do ouro
de Vila Rica.

Guerra contínua
Tendo, afinal, terminado seu período no Rio de Janeiro, o doutor
Marcelino tomou posse da Relação da Bahia em 21 de junho de 1791129.
126 – Cf. AHU – RJ. Caixa 148, documento 36; caixa 146, documento 35; caixa 149,
documentos 48, 49 e 50. 24 de janeiro de 1791.
127 – Idem.
128 – José João Teixeira Coelho. Instrução para o governo da Capitania de Minas Ge-
rais. Op. cit., pp. 201-12.
129 – Luís dos Santos Vilhena. A Bahia no século XVIII. Bahia: Itapoã, 1969, v. II, p. 311.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 173


Marco Antonio Silveira

Faltam, no entanto, as informações sobre os três anos em que serviu nesse


tribunal. Seu nome não poderia constar da longa apreciação feita pelo go-
vernador d. Fernando José de Portugal, em 1799, a respeito de duas quei-
xas sobre os ministros da Relação, que chegaram às mãos de d. Rodrigo
de Sousa Coutinho130. Nela, o capitão-general, ainda que reconhecesse
serem públicas várias das reclamações contra os ministros, em particular
por favorecimento e falta de limpeza de mãos, argumentou que nada po-
deria fazer tendo como base rumores e desconhecendo situações precisas.
Fez ainda questão de demonstrar consciência, afetada ou não, sobre os
limites de seu papel como regedor das justiças131:

“Algumas pessoas me representam continuamente, como acontece em


todos os governos, queixando-se desta ou daquela sentença, deste ou
daquele despacho, e em regra geral lhes defiro remetendo-os para os
meios competentes, que são os que as leis têm estabelecido para deci-
são dos negócios forenses, sendo este também, e não outro, o fim por
que as criaram os magistrados, os diversos tribunais e alçadas132.”

Talvez as palavras de d. Fernando, mais do que defender-lhe da


acusação de conivência com os desmandos praticados na Bahia, signi-
ficassem a expressão de um lento e longo aprendizado. Por outro lado,
manifestavam a prática renitente dos moradores da América, que, insatis-
feitos com a ineficácia dos trâmites judiciais ou desejosos de atropelá-los,
procuravam encontrar nos generais o acolhimento devido. Conquanto os
esforços voltados à tarefa de restringir o despostismo dos governadores
fossem indispensáveis na afirmação do modelo regalista, tenderiam a
tornar-se inócuos se não se encaminhassem também os excessos de ma-
gistrados, clérigos e magnatas, apontados com clareza por Martinho de
Melo e Castro.
130 – O importante documento foi publicado por Braz do Amaral nas páginas 362-72 de
A Bahia no século XVIII. Op. cit.
131 – Embora não pudessem violentar os trâmites judiciais, cabia aos governadores o
dever de administrar seu funcionamento, seguindo, nesse ponto, além de instruções espe-
cíficas de seu cargo, o título 1 do primeiro livro das Ordenações, denominado “Do regedor
da Casa de Suplicação”.
132 – [Carta de d. Fernando José de Portugal a d. Rodrigo de Sousa Coutinho. Bahia, 20
de janeiro de 1799]. In: Luís dos Santos Vilhena, A Bahia no século XVIII. Bahia: Itapoã,
1969, v. II, p. 370.

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Nativismo por adoção: letras e percurso do doutor Marcelino Pereira Cleto
(1778-1794)

O desembargador Marcelino Pereira Cleto faleceu na Bahia, em


1794. Nascido de uma família das redondezas de Leiria, cuja nobreza
estava longe de atingir as alturas, dedicou-se com afinco aos estudos para
poder iniciar-se numa carreira que o manteve 16 anos no Brasil e não o
devolveu mais ao Reino. Marcado fundamente pelo espírito acadêmico,
por ele norteou a produção literária e a atuação administrativa. Em certo
sentido, porém, permaneceu sempre conservador, buscando evitar con-
frontos diretos contra o status quo. Nada de relevante disse sobre a escra-
vidão, e seu modelo econômico apenas arranhava com certa heterodoxia
os princípios mercantilistas. Embora parte expressiva dos letrados de sua
geração tenha se dedicado às pesquisas no campo das ciências naturais,
movendo-se por uma orientação bastante pragmática, o doutor Marcelino
compôs um grupo distinto, mas não menos importante, voltado à erudição
e ao conhecimento crítico dos percalços administrativos do Império. No
final do século XVIII, historiadores e juristas também desempenhariam
papel decisivo no descobrimento das realidades americanas133. Defensor
da prova nos assuntos de história e política, abarcou um regalismo que,
almejando reformar instituições e extirpar abusos, deveria articular as vá-
rias partes do Império luso num sistema coerente. Nele, haveria espaço
para o reconhecimento de nativismos e costumes locais. Sua trajetória, no
entanto, parece ter indicado algo mais. A dedicação tão intensa à escrita
da história de São Paulo, o apego aos textos de frei Gaspar da Madre de
Deus, a atenção conferida às necessidades dos proprietários de terra, a
análise das vexações impostas aos povos pelos clérigos e o pedido de au-
torização para casar-se na América consistem num conjunto relativamen-
te encadeado de atitudes, cujo sentido remete à adoção deste ou daquele
lugar da América como nova pátria – um lugar, bem entendido, inserido
no Império reformado. Não deixa de causar espanto, de fato, que um dos
escrivães atuantes na Inconfidência Mineira desejasse enraizar-se no Bra-
sil – ou mesmo que seu parceiro, atingindo o topo da carreira, requerese
voltar ao Rio de Janeiro. Trajetórias desse tipo, por isso mesmo, foram
133 – Acerca do significado da atuação, nos séculos XVIII e XIX, de cientistas naturais
na descoberta das realidades do Brasil, cf. Maria Odila da Silva Dias. Aspectos da Ilus-
tração no Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, n.
278, jan./mar. 1968, pp. 105-170.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011 175


Marco Antonio Silveira

repletas de contradições. Atravessado pelo medo de ser abatido em meio à


“perseguição e guerra contínua”, ou de se perder na perigosa polarização
entre filhos do Brasil e filhos do Reino, o doutor Marcelino não poderia
passar incólume pelo pesado jogo das relações de poder experimentado
nas conquistas. A observação verticalizada de seu percurso ensina que, se
os modelos escolásticos ou regalistas eram capazes de mobilizar circuitos
letrados, tendo, portanto, impacto bastante concreto sobre a vida social,
eram também, por vezes, atropelados pela belicosidade que moía gente
bem ou mal intencionada.

Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

176 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):115-176, jul./set. 2011


Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

JUSTIÇA ORDINÁRIA E JUSTIÇA ADMINISTRATIVA NO


ANTIGO REGIME – O CASO DO BRASILEIRO
Common justice and adminstrative justice in the
Ancient Regime: Brazilian Case Study
Arno Wehling 1
Maria José Wehling 2

Resumo: Abstract:
O texto analisa as atividades extrajudiciais This paper will analyze the extra-judicial activi-
dos magistrados no Brasil colonial e, em sen- ties of Colonial Brazil magistrates as opposed
tido inverso, as atribuições judiciais de outros to the judicial obligations of other elements in
elementos da administração pública, como os public administration, such as those responsible
provedores da fazenda. Os autores trabalham for public finances. The authors’ hypothesis is
com a hipótese que, sobretudo em fins do século that - mostly at the end of the Eighteenth centu-
XVIII, a administração colonial brasileira era, ry – Brazilian colonial administration was, per
numa perspectiva weberiana, mistura de formas the Weberian perspective, a mix of bureaucratic
burocráticas e patrimoniais, que poder-se-ia de- and patrimonial forms that could be called
nominar “prismáticas”. “prismatic”.
Palavras-chave: Justiça colonial – justiça ad- Keywords: Colonial justice – Administrative
ministrativa – estado colonial – administração justice – Colonial state – Colonial Brazil.
colonial – Brasil colonial.

Observação conceitual preliminar


O conceito de “administração prismática” pode ser com proveito
aplicado ao Brasil do Antigo Regime, em particular no que se refere ao
século XVIII.

No livro “Administração colonial no Brasil, 1777-1808”, de 1986,


afirmou-se que o traço característico dessa administração era justamente o
seu caráter prismático, isto é, um misto de instituições, normas e práticas
e mentalidades “modernas” ou sistêmicas que conviviam, frequentemen-
te de forma harmoniosa, como o modelo “tradicional” ou empírico. 3

1 – Professor Titular de História do Direito da Universidade Federal do Estado do Rio de


Janeiro (UNIRIO) e da Universidade Gama Filho. Sócio do Instituto Histórico e Geográ-
fico Brasileiro.
2 – Professora Emérita de Teoria e Metodologia da História da Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Titular de História do Direito da Universidade
Gama Filho.
3 – Wehling, Arno, Administração portuguesa no Brasil, 1777-1808, Brasília, Fun-

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):177-200, jul./set. 2011 177


Arno Wehling e Maria José Wehling

Aplicou-se, assim, a matriz weberiana de análise das sociedades


estamentais/tradicionais e racionais/modernas a uma época – o século
XVIII – que, no mundo euro-atlântico, evidenciava a emergência do novo
(indústria, racionalismo, direitos humanos) no contexto do velho4 – “vi-
nho novo em odres velhos”.

Recurso metodológico semelhante foi empregado por alguns soció-


logos e formuladores de políticas administrativas a países em desenvolvi-
mento, constatando a simultaneidade de situações empíricas/tradicionais
e racionais/modernas nos diferentes escalões da administração pública e,
também, privada. 5

No estudo sobre o ofício de julgar no Antigo Regime, o procedimen-


to pode revelar-se fecundo.

A questão da justiça e do seu funcionamento é dos problemas histó-


ricos mais difíceis. Há muito tempo Marcel Marion dizia a este respeito
que “não há no estudo do Antigo Regime questão mais vasta e mais im-
portante que a da justiça, e também mais complicada” 6.

cep, 1986, p. 10 ss.


4 – Na tipologia weberiana, admite-se que no âmbito da “dominação tradicional”, à qual
pertence a sociedade estamental (quer na sua versão patrimonialista, quer na feudal), a
administração pública possui um caráter concentrado, com poucos órgãos executando um
grande número de funções, o que limita ou mesmo inviabiliza a existência de funcioná-
rios profissionais, regidos por normas e critérios técnicos. Ao contrário, na “dominação
legal”, a administração pública passa a ser burocratizada com especialização de funções,
carreiras e normas de acesso e atuação; adquire, assim, um caráter difratado. As situa-
ções típicas do Antigo Regime quer pela impossibilidade metodológica de um modelo
sociológico puro adequar-se plenamente a uma situação histórica concreta, quer por se
caracterizarem como um misto das duas dominações da matriz weberiana, configuram um
terceiro modelo. Elas não são, no que diz respeito ao governo e à administração, nem ple-
namente concentradas nem difratadas, mas obedecem a um outro tipo que possui traços de
ambos: o modelo prismático, no qual convivem o acúmulo e a especialização de funções,
às vezes, – como nos tribunais – na mesma instituição. Max Weber, Economia y sociedad,
México, FCE, 1944, v. IV, pp. 130 ss.
5 – Riggs, Fred, A administração nos países em desenvolvimento, Rio de Janeiro,
FGV, 1970, p. 5 ss.
6 – Marion, Marcel, Dictionnaire des institutions de la France, XVIIe.-XVIIIe. s.,
Paris, A. J. Picard, 1993, p. 314.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

A introdução da categoria “prismática” pode auxiliar no enfrenta-


mento da questão. Ela é deduzida, embora não reproduzida, de Weber,
que não a empregou. Admiti-la poderá dar mais flexibilidade à tipologia
das “dominações” legal, tradicional e carismática. Ela revelou-se fecunda
em diferentes análises, inclusive naquela feita a propósito da ambivalên-
cia dos elementos que compunham o estado metropolitano e colonial, em
particular no século XVIII. 7

Nessa aplicação, ficou muito evidente a coexistência de dois univer-


sos institucionais, sociais, culturais e normativos, o primeiro atendendo à
realidade de uma sociedade estamental, agrária, predominantemente anal-
fabeta, oscilando entre a magia e a religião; o segundo, correspondendo
ao desenvolvimento da “crise da consciência europeia”, desenhando a so-
ciedade de classes, a revolução industrial, o racionalismo filosófico. Sem
deixar de perceber nuanças que desaconselhem uma rígida bipolaridade,
o modelo descreve com certa verossimilhança, as situações, conflitos e
ações singulares que lemos nos documentos da época.

Será possível aplicar o procedimento com sucesso ao ofício de julgar


no Antigo Regime ibérico e em seu mundo Colonial?

Há dois aspectos a considerar.

O primeiro é o da sucessão cronológica. À medida que chegamos


ao século XVIII e nele avançamos, distingue-se no setor profissional da
justiça o dos magistrados, que fizeram um “cursus honorum”, passando
da Universidade de Coimbra ao serviço do rei por meio de exames orga-
nizados pelo Desembargo do Paço, as “leituras de bacharéis”. No serviço
real galgavam postos hierarquicamente estabelecidos. Esses magistrados,
acompanhando uma tendência que nesse século estender-se-ia a outras
áreas da administração, tornaram-se cada vez mais profissionais, obe-
dientes a estatutos específicos e inserindo-se em carreiras predefinidas.
Tal perfil da magistratura oficial, que já vinha de antes do século XVIII,
7 – Wehling, Arno, Administração…, op. cit., pp. 142 ss. Arno Wehling e Maria
José Wehling, Direito e justiça no Brasil Colonial – o Tribunal da Relação do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, Renovar, 2004, pp. 302 ss.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

só fez reforçar-se à luz dos argumentos iluministas a favor da racionali-


zação do estado.

A atuação desses magistrados, não obstante, completava-se pela de


outros oficiais da administração judicial que continuaram sendo selecio-
nados pelos critérios tradicionais – prebendas reais, compra dos ofícios,
inexistência de qualificação prévia.

Assim, tratava-se de um modelo prismático em funcionamento: a


elite profissional de magistrados exercia a justiça com funcionários pre-
bendariamente instituídos. Constatamos esse funcionamento no Tribunal
da Relação do Rio de Janeiro entre 1752 e 18088, mas ele se reproduzia
pelos tribunais, ouvidorias e juizados de fora do mundo português – e
também espanhol9.

Não devemos esquecer o fato primordial: o contexto em que esse


processo evolui é o de uma sociedade patrimonialista, em que os traços
inovadores vinculados ao racionalismo ilustrado caldeiam-se num movi-
mento geral (ou “estrutural”) predominantemente “tradicional”, na sua
versão patrimonialista. Este, aliás, ultrapassa o Antigo Regime e adentra,
vitoriosamente, no caso brasileiro e hispano-americano, a era constitu-
cional10.

O segundo aspecto é o que pretendemos desenvolver neste trabalho.


O caráter prismático de uma estrutura de poder não se revela, apenas, por
sua sucessão cronológica – no caso, a transição (na tipologia weberiana)

8 – Idem, Direito…, pp. 456 ss.


9 – Assinalando o fato mas sem trabalhar a categoria weberiana, Grandón, Javier
Barrientos, Guia prosopográfica de la judicatura letrada indiana (1503-1898), in
José Andrés-Gallego, “Nuevas aportaciones a la historia jurídica de Iberoameri-
ca”, Madri, FHT – FHL, 2000, CD-Rom; José Maria Mariluz Urquijo, El agente de la ad-
ministración publica em Índias, Buenos Aires, IIHDI-IIHD, 1998, pp. 151 ss. Bernardino
Bravo Lira, Oficio y oficina. Dos etapas em la historia del Estado indiano, Quito, Anuá-
rio Histórico Jurídico Equatoriano, tomo V, 1980; Michel Cassan (coord.), Lês officiers
“moyens”à l’époque moderne – France, Angleterre, Espagne, Limoges, Pulim, 1998, p.
V.
10 – VÉlEz RodrÍguez, Ricardo, Patrimonialismo e a realidade latino-america-
na, Rio de Janeiro, DHE, 2006, pp. 38 ss.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

entre uma sociedade e um estado “estamentais” ou de ordens e uma so-


ciedade de classes e um estado racionalmente ordenado.

Ele se revela, também, pela coexistência, nas estruturas de poder,


de uma transversalidade funcional: o ofício de julgar não era, no Antigo
Regime, exclusivo de magistrados (entendidos aqui no sentido de juízes),
mas podia ser exercido, conforme situações legalmente determinadas, por
outras autoridades, para o atendimento de situações específicas. A recí-
proca também era verdadeira: os juízes (e ouvidores, e desembargadores)
exerciam funções de administração e de governo que nada tinham a ver
com a judicatura.

A explicação dessa transversalidade funcional, prismática, da admi-


nistração do Antigo Regime estava no modelo concentrado de exercício
de poder pelo rei e sua administração ou, na terminologia da época, do
governo.

As funções executivas, judiciais e legislativas estavam concentradas


em quem exercia o poder. Na Idade Média, isso compreendia também
os senhorios leigos e eclesiásticos e as cidades, aos quais se sobrepuse-
ram – não sem conflitos e tensões – os esforços centralizadores reais11.
Essa concentração de funções, tão distante da tripartição de poderes de
Montesquieu e das concepções do racionalismo ilustrado, revelou-se cada
vez mais inadequada. Isso se evidenciou à medida que as transformações
materiais e intelectuais dos séculos XVI, XVII e XVIII foram mostrando
a necessidade de estruturas organizacionais, tanto públicas, quanto pri-
vadas, mais elaboradas e mesmo sofisticadas, especialmente nos terrenos
escorregadios e complexos da guerra e das finanças.

O caráter empírico e casuístico desse modelo de administração e


de exercício de poder gerou, sobretudo ao final do processo, no século
XVIII, tensões e conflitos de competência que enchem os arquivos.

11 – Brunner, Otto, Estrucutura interna de Occidente, Madri, Alianza, 1991, p. 102.


Emmanuel le Roy Ladurie, O estado monárquico, São Paulo, Companhia Das Letras,
1994, pp. 9 ss.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

O propósito desde trabalho é analisar como isso ocorreu no âmbito


da justiça colonial, e por quê.

O ato de julgar no Antigo Regime e a jurisdição real

O ato de julgar, no mundo ocidental, sempre foi um dos atributos


majestáticos, mesmo quando o conceito de soberania ainda não estava so-
lidamente estabelecido. O jurista francês La Roche Flavin, nos primeiros
anos do século XVII, o considerava um dos cinco atos de suprema sobe-
rania, ao lado da elaboração das leis, da criação de ofícios, da declaração
da paz e da guerra e da emissão de moeda12.

A justiça foi considerada, aliás, usualmente, o atributo mais impor-


tante, pois, nela atuando, o rei não apenas zelava pelo equilíbrio e harmo-
nia da sociedade como exercia, no plano humano, o mesmo papel atribu-
ído a Deus no Antigo e no Novo Testamento13.

No preâmbulo das Ordenações Afonsinas, o rei Afonso VI, em 1443


afirma ser “conhecida cousa.... que o principal bem, que se requer para
ministrar justiça, assim é sabedoria, porque... é por ela que reinam os reis
e são poderosos para ousadamente com louvor e exalçamento do seu Real
Estado reger e ministrar justiça” 14.

O discurso permanece o mesmo nas Ordenações Manuelinas, em


1521: “porque assim como a justiça é a causa mais principal, porque com
a graça de Deus por ela reinamos e a ela sobre todas as coisas deste mun-
do tenhamos por isso maior obrigação, para com equidade sempre a guar-
darmos a todos...” 15.

12 – Lapeire, Henri, Le XVIe. Siècle – les forces internationales, Paris, PUF, 1967, p.
232.
13 – Eram, alias, comuns as referências bíblicas na documentação coeva, especialmente
nas acepções de retribuição (dar a cada um o que lhe é devido), como em Sab. 5, 6-9; Is.
5, 16, 56; Dn. 9; retidão do julgador, Sl. 9,9; 95, 10; Is. 11, 3; At. 17, 31; Apoc. 19, 11; e
equidade, Rs 3,6; Prov. 2,8; 8; 20.
14 – Ordenações Afonsinas, FCG, Lisboa, , 1998, v. I, p. 4.
15 – Ordenações Manuelinas, FCG, Lisboa, , 1984, v. I, p. 2.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

Em 1595 repete-se na lei em que se determina a elevação das Orde-


nações Filipinas: “considerando nós quão necessária é em todo o tempo a
justiça, assim na paz como na guerra, para boa governança e conservação
da República e do Estado Real, a qual aos reis convém como virtude prin-
cipal e sobre todas mais excedente...” 16.

O exercício da justiça pelo soberano confere-lhe, com base na pree-


minência moral de ser o regulador da sociedade e o corretor de seus dese-
quilíbrios, um notável poder interventor, por intermédio de seus magistra-
dos. Não surpreende, portanto, o fortalecimento da centralização ter sido
acompanhado pelo espraiamento da justiça real para campos onde ante-
riormente não se exercia (na França, a partir da subtração de elementos
do direito material ou processual à justiça senhorial e eclesiástica, com os
“cas royaux”, desde o século XII; em Portugal, pela ação sistemática dos
corregedores, também na Idade Média). Ou, ainda, quando o poder real já
se consolidava, a caracterização de uma justiça real diretamente exercida
e uma justiça concedida17, que visava compreender as anteriormente au-
tônomas – ou mesmo independentes, no caso da ausência ou debilidade
extrema do poder central – justiças senhorial, eclesiástica e municipal.

Essa caracterização implica a adoção de uma tipologia na qual temos


trabalhado para o estudo do Brasil colonial.

A grande bipartição ocorria entre a justiça real diretamente exercida


pelos magistrados e outros delegados do poder real e a justiça concedida.
No caso da primeira, ela compreendia a justiça ordinária (tribunais da re-
lação, ouvidorias de comarca e juizados de fora) e a justiça especializada
(justiça militar, juízes especializados na área fiscal, de águas e matas, de
defuntos e ausentes). As nuanças da questão e as interações entre as duas
justiças foram estudadas em outro local18.
16 – Ordenações Filipinas, FCG, Lisboa, 1985, v. I, p. LXXVIII.
17 – Sueur, Philipe, Histoire du droit public français, XVe.-XVIIIe. Siècles, Paris,
PUF, 1989,v. II, pp. 163 ss. Arlette Lebrige, La justice du Roi – la vie judiciaire dans
l’ancienne France, Paris, Complexe, 1995, pp. 24 ss.
18 – Wehling, Arno e Wehling, Maria José, Atribuições e limites da justiça
colonial, in Maria Beatriz Nizza da Silva (coord.), De Cabral a Pedro I – aspectos da
colonização portuguesa no Brasil, Lisboa, Universidade Portucalense, 2001, p. 247. Re-

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Arno Wehling e Maria José Wehling

No caso da justiça concedida, ela compreendia a justiça eclesiástica,


a justiça municipal e os vestígios (no caso da Europa) da justiça senhorial;
desta última houve traços em algumas das atribuições dos donatários de
capitanias.

diretamente exercida (magistrados diversos)

Justiça real eclesiástica


Concedida municipal
senhorial (resíduos)19

19

Fica evidente que se considera aqui um processo adiantado de cen-


tralização, ainda que não de “absolutismo” 20. Somente este fato justifica
a categorização de “justiça concedida” para a eclesiástica, a municipal e
a senhorial, que na época plena do feudalismo / regime senhorial eram
efetivamente independentes, na ausência ou fragilidade extrema do poder
real.

Primeira situação prismática: funções extrajudiciais dos magistra-


dos da justiça real diretamente exercida

Os magistrados da justiça real diretamente exercida, no Brasil co-


lonial, eram os ouvidores-gerais dos estados do Brasil e do Maranhão
(aqueles, antes do estabelecimento do primeiro tribunal da Relação na

publicado com alterações em Direito e justiça..., op cit., p. 25.


19 –1Trabalhamos este tipologia em Direito e justiça...op cit, passim.
20 – Estamos considerando as profundas diferenças entre a “monarquia clássica” absoluta
dos séculos XVI e XVII e o “absolutismo”de fins do século XVII e século XVIII. Cf.
discussões em diferentes historiografias nacionais, por exemplo, F. Cosandey e R. Desci-
mon, L’absolutisme em France, Paris, Seuil, 2002; H. L. Root, La construction de l’état
moderne em Europe – La France et l’Angleterre, Paris, PUF, 1994, p. 239; R. Bonney, O
absolutismo, Lisboa, PEN, 1991, p. 37 ss.; R. Asch e H. Durchhardt (eds.), El absolutis-
mo: um mito ? , Barcelona, Idean, 2000, pp. 43 ss.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

Bahia), os ouvidores de capitanias da Coroa, os juízes de fora, os ouvido-


res de comarcas e os desembargadores dos tribunais da Bahia e do Rio de
Janeiro. Todos, sem exceção, exerciam atividades extrajudiciais, além das
funções típicas da magistratura.

Essas funções podem ser classificadas em funções de governo (su-


pervisão, assessoria, substituição eventual de governantes) e funções de
administração (fomento e supervisão de atividades econômicas, super-
visão da gestão de aldeamentos indígenas, ações policiais em relação a
contrabando e descaminhos) 21.

Alguns exemplos podem esclarecer melhor a questão, a começar pe-


las próprias Ordenações: o item 68 do Livro I, que trata dos corregedores
de comarcas, atribui um extenso papel judicial e extrajudicial (inclusive
quanto à redação dos forais e preservação dos interesses políticos e fiscais
do monarca) aos ouvidores, no que foi interpretado pela historiografia
desde o liberalismo como a pedra de toque da política centralizadora da
realeza22.

No Brasil o quadro não foi distinto.

Na ausência do regimento do primeiro ouvidor, Pero de Góis, a solu-


ção encontrada pelos pesquisadores, desde Varnhagen, foi trabalhar com
inferências, a partir dos regimentos dados em 1628 ao ouvidor-geral Pau-
lo Leitão de Abreu, antigo desembargador da relação do Porto e em 1630
ao bacharel Jorge da Silva Mascarenhas23.

Ao ouvidor-geral determinava-se, em 1628, entre outras atribuições


extrajudiciais, a supervisão dos capitães de capitania e das câmaras mu-
21 – Atribuições semelhantes ocorriam na América espanhola. Wehling, Arno e
Wehling, Maria José, Audiências e relações: atividades judiciais, políticas e admi-
nistrativas, in Direito e justiça, op cit, pp.343 ss. Ricardo Zorraquín Becu, La organizaci-
ón judicial argentina em el período hispânico, Buenos Aires, Perrot, 1959, pp. 24 ss.
22 – MerÊa, Paulo, Estudos de história do direito, Coimbra, CE, 1923, pp. 50 ss.
Américo Jacobina Lacombe, O estado português no Brasil, in Digesto Econômico, 1958,
sep., p. 5.
23 – Varnhagen, Francisco Adolfo de, História geral do Brasil, São Paulo,
CEN, 1975, v. II, p. 202.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

nicipais24. Em 1630 reiterava-se a supervisão aos governadores de capi-


tanias e acrescentava-se competência ao ouvidor para receber agravos
interpostos a decisões da justiça eclesiástica25.

No caso do ouvidor-geral do Rio de Janeiro, dava-se a ele a mesma


atribuição de corregedor de que dispunham os ouvidores portugueses,
mas estendida à supervisão dos titulares das capitanias privadas, a fim de
verificar “se os donatários usam de mais poder e jurisdição do que lhes
são concedidos por suas doações, provisões minhas e forma da Ordena-
ção” 26. Além dessa atribuição de supervisão do governo local, era tam-
bém incumbido de visitar as minas de São Paulo, “ordenando que delas
se tire ouro e se frequentem, e ponham em boa arrecadação os direitos de
minha fazenda” 27. No caso de defuntos, ausentes e órfãos, em algumas
circunstâncias, como a da ausência do respectivo provedor, era ele o en-
carregado não apenas das atuações de natureza judicial, como da própria
gestão dos bens.

A prevenção do conflito entre o ouvidor-geral e o provedor-mor da


fazenda, “querendo cada qual aumentar a sua jurisdição” 28 era fato bem
conhecido do governo. Para evitá-lo, recomendava-se no regimento do
ouvidor que as causas especificamente fazendárias seriam da compe-
tência do provedor e não da ouvidoria. Dava-se a solução, assim, para
resolver pragmaticamente conflitos frequentes e não em nome de uma
racionalização ou planejamento de natureza sistêmica.

Ao ouvidor de comarca e ao juiz de fora, quando foram sendo con-


solidados esses cargos ao longo da história colonial, coube atribuições de
natureza semelhante.

24 – Justino de Andrade e Silva, Collecção chronologica da legislação portugueza, Lis-


boa, F. X. Sousa, 1855, v. IV, pp. 124-127.
25 – Idem, v. IV, pp. 167-171.
26 – Regimento do ouvidor-geral João de Abreu e Silva, in Mendonça, Marcos
Carneiro de, Raízes da formação administrativa do Brasil, Rio de Janeiro, CFC-
IHGB, 1972, v. I, p. 83.
27 – Ibidem.
28 – Idem, v. I, p. 85.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

O ouvidor de comarca, sobretudo no século XVIII, foi um efetivo


governante, de direito e de fato, das extensas áreas sob sua jurisdição.
São diversos os exemplos de sua atuação, inclusive, nas atividades de
fomento econômico determinadas pelo governo português em diferentes
capitanias29.

Papel não menor coube ao juiz de fora, que frequentemente atuou


como administrador de bens de defuntos, ausentes e órfãos e como auto-
ridade civil em diferentes situações, presidindo a câmara municipal – sua
principal atribuição fora das judiciais – e atuando em ocasiões críticas,
como na ocupação francesa do Rio de Janeiro, em 1711.

Os desembargadores dos tribunais da Relação da Bahia e do Rio de


Janeiro tiveram responsabilidades semelhantes e até mais amplas, quer
definidas expressamente nos regimentos das casas, quer implementadas
na prática institucional por meio de interpretações extensivas geralmente
dadas pelos governadores-gerais e vice-reis.

Na Relação da Bahia, o regimento de 1652 determinava que as re-


sidências trienais de funcionários coubessem a um desembargador “de
muita confiança”, não apenas dos ofícios de justiça, mas também nos da
fazenda30. O desembargador promotor da justiça era o mesmo procurador
dos feitos da Coroa, fazenda e fisco, cabendo-lhe assim funções de minis-
tério público e advogado dos interesses régios31.

Ao governador-geral ou vice-rei do estado, na sua condição de pre-


sidente da Relação caberia zelar pela proteção dos indígenas amigos e da
preservação das matas. A inserção desses dois quesitos nas atribuições do
governante na qualidade de dirigente máximo do tribunal faz supor que
caberia a este órgão, por seus membros, a responsabilidade executiva ou
governativa do assunto, pelo menos sempre que acionado pelo governan-
te.

29 – O assunto foi estudado em Wehling, Arno, Administração..., pp. 142 ss.


30 – Regimento do Tribunal da Relação da Bahia, tít. I, it. 17, in Almeida, Cândido
Mendes de, Auxiliar Jurídico, Lisboa, FCG, v. I, p. 15.
31 – Idem, tít. VI.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

Mais tarde, na Bahia e também nas Relações do Rio de Janeiro, cria-


da em 1751 e de São Luís, em 181232, além da reiteração daqueles aspec-
tos, determinou-se que a eleição dos membros das câmaras municipais
das capitais caberia aos tribunais, o mesmo ocorrendo nas cidades com
os juízes de fora, quando existissem. Esse fato foi interpretado na his-
toriografia, corretamente pelas evidências disponíveis, como meio para
acentuar a centralização política e o controle da burocracia real sobre os
“homens bons”, em algumas vilas notoriamente refratárias à ingerência
estatal nos assuntos municipais.

Ainda no âmbito expresso dos regimentos, determinava-se nos das


Relações do Rio de Janeiro e de São Luís que ao desembargador juiz
dos feitos da Coroa e Fazenda caberia, além das funções judiciais, a de
almotacel-mor das respectivas capitais “para fazer prover a cidade, ou
outro lugar sobredito, de mantimentos, expedindo por seus oficiais as di-
ligências precisas” 33. Embora não fosse atribuição do mesmo magistrado
pelo regimento da Bahia, é de supor-se que esta responsabilidade foi-lhe
acrescida em algum momento posterior, já que no regimento fluminense
basicamente repetiram-se estruturas e funções daquele.

Outros exemplos de atuação administrativa e política dos desem-


bargadores são as numerosas assessorias por eles dadas aos vice-reis e
governadores gerais, as ações diretas de natureza policial (por exemplo,
a repressão ao contrabando em navios surtos no porto) e os trabalhos de
demarcação de limites entre capitanias. Tudo isso, sem ignorar a sucessão
do próprio governador ou vice-rei em caso de vacância do cargo, em geral
em conjunto com o bispo e o militar mais graduado, como aconteceu no
Rio de Janeiro, em 1763.

Segunda situação prismática: funções judiciais exercidas por fun-


cionários administrativos

No regimento dado ao primeiro provedor-mor do estado do Brasil,


Antonio Cardoso de Barros, de 1548, determinava-se que a ele e não ao
32 – Títulos IV e IX dos respectivos regimentos.
33 – Regimento do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, op. cit., tít. VIII, it. 98.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

ouvidor-geral caberia o conhecimento de todas as apelações e agravos de


decisões dos provedores e mais oficiais de fazenda, tanto da Bahia quanto
das demais capitanias. Caberia, também, o conhecimento das ações novas
no lugar em que estivesse e num raio de cinco léguas. Em ambos os casos
sua alçada iria até dez mil-réis. Ultrapassando-os, deveria julgá-los na
Bahia, devendo para isso o governador Tomé de Sousa fornecer-lhe dois
letrados “e não os havendo será com duas pessoas quais lhe a ele bem
parecer” 34. Garantia-se, assim, para as causas de maior valor, o princípio
da colegialidade, não obstante a preeminência do provedor.

É de observar, também, que pelo mesmo regimento o juízo privativo


dos assuntos referentes às sesmarias e outras doações de terras e águas
cabia ao provedor-mor e não ao ouvidor-geral35.

No caso dos provedores de capitanias, que até 1548 ainda não ha-
viam recebido regimento, o princípio foi o mesmo. Cabia-lhes conhecer
por ação nova “todos os feitos, causas e dúvidas que se moverem sobre
coisas que toquem à minha fazenda” 36, quer entre os respectivos oficiais,
quer entre eles e os contribuintes. Mesmo nas situações em que não mais
estivessem em causa os rendimentos reais, os provedores constituíam-se
no juízo competente, de cujas decisões não caberiam mais apelação ou
agravo até a alçada de dez mil-réis. Nos casos excedentes, caberia recurso
ao provedor-mor37.

Como as provedorias de fazenda estenderam-se até o século XVIII,


pode-se considerar a existência, prolongada, de uma jurisdição fazendária
específica por um largo período, a maior parte da época colonial.

Esse princípio reproduzia-se38 em outros setores. No regimento das


terras minerais do Brasil, de 1603, determinou-se que havendo concor-
34 – Regimento do Provedor-Mor, in Mendonça, Marcos Carneiro de, op cit,
v. I, p. 93.
35 – Idem, v. I, p. 94.
36 – Regimento… in Mendonça, Marcos Carneiro de, op. cit., v. I, p. 102.
37 – Idem, v. I, p.103.
38 – 1. Regimento das Terras Minerais do Brasil, in Mendonça, Marcos Carnei-
ro de, op. cit., v. I, p. 300.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

rência de descobridores de betas de metal, receberia a concessão aquele


que primeiro chegasse ao provedor das minas ou, na ausência deste, ao
“juiz da terra”, atribuindo-se a este, portanto, função administrativa, ain-
da que supletiva. Inversamente, o item 58 do mesmo regimento atribuía
ao provedor decisão irrecorrível sobre causas até 60 mil-réis, com apela-
ção e agravo em valores superiores para o provedor-mor da fazenda. Se
a sentença do provedor das minas de alguma forma embaraçasse a extra-
ção, sendo as causas superiores a 60 mil-réis, deveria providenciar para
que não se interrompesse a produção, promovendo os ajustes pecuniários
quando da decisão final39.

Em 1618 o segundo regimento das minas brasileiras tornou mais ex-


plícita a função judicial do provedor. No item 9 do regimento definia-se
o provedor como “pessoa de muita confiança... e conhecerá somente das
causas tocantes às ditas minas, nas quais procederá breve e sumariamente;
e das sentenças que der, dará apelação e agravo para a Relação da Bahia,
passando a quantia de cem cruzados em bens móveis e de cinquenta nas
de raiz, que só terá alçada” 40.

Semestralmente, também lhe cabia instituir devassas para identificar


e punir descaminhos e contrabando procedendo “contra eles na forma das
minhas Ordenações e Regimentos”, vale dizer, administrativa e judicial-
mente41.

Na área militar houve igualmente um número significativo de atri-


buições judiciais, enquanto não se caracterizou expressamente um foro
ou justiça militar. Assim, o regimento das Ordenanças, de 1574, dava
jurisdição aos capitães de companhias para punir com multas aos solda-
dos faltosos, dando disso ciência ao juiz de fora (o que não se aplicava ao
Brasil até o início do século XVIII) 42. O chefe da bandeira tinha também

39 – Idem, v. I, p. 310.
40 – 2. Regimento das Terras Minerais do Brasil, in Mendonça, Marcos Carnei-
ro de, op. cit., v. I, p. 317.
41 – Idem, v. I, p. 320.
42 – Regimento de Ordenanças, in Mendonça, Marcos Carneiro de, op. cit., v.
I, p. 175.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

poder de julgar os componentes da expedição, inclusive até a pena capi-


tal, como se verificou no caso do filho de Fernão Dias Pais43. O parâmetro
para isso era o próprio livro V das Ordenações, embora sejam conhecidos
alguns regimentos em que expressamente se atribui esta jurisdição44.

Quando do estabelecimento do regimento dos governadores


das armas, de 1678, mais tarde modificado pela legislação de 1763,
definiram-se as funções de auditores de guerra e delineou-se uma jurisdi-
ção especificamente militar, retirando-lhe o caráter prismático ou misto.

Cabe também lembrar, no âmbito de funções administrativas e go-


vernativas com expressão jurisdicional, o papel dos capitães de aldeias
indígenas. Na lei de 1611 que reiterou o direito dos índios à liberdade,
sempre que não hostilizassem os portugueses, o item 5 determinava a
competência do capitão da aldeia para ser “o juiz das causas dos ditos
gentios, assim das que eles moverem uns contra os outros, como das
que moverem contra outras quaisquer pessoas, ou as tais pessoas contra
eles”45. Teria alçada nos casos cíveis até 10 cruzados e nos crimes até
trinta dias de prisão. Excedida esta alçada, daria apelação ou agravo para
o ouvidor da capitania; nos casos em que não fosse sua a competência,
declinaria para o provedor-mor dos defuntos da Relação da Bahia.

Finalmente, o tribunal da bula da cruzada teve bem definida sua com-


petência exclusiva para atuar administrativa e judicialmente no regimento
que lhe foi dado em 1621. Nele deveria ser tomado o conhecimento “de
todas as causas e negócios que diretamente ou por qualquer modo toca-
rem à expedição da bula”, sublinhando-se que “em nenhum outro juízo ou
tribunal se tomará conhecimento do sobredito” 46.

43 – Ferreira, Waldemar, História do direito brasileiro, São Paulo, Max Limo-


nad, 1956, v. IV, p. 63.
44 – Cidade, Hernani, O bandeirismo paulista na expansão territorial do Brasil,
Lisboa, ENP, s/d.
45 – Lei sobre a liberdade dos índios, de 1611, in Mendonça, Marcos Carneiro
de, op. cit., v. I, p. 327.
46 – Regimento do Tribunal da Bula da Cruzada, in Mendonça, Marcos Carnei-
ro de, op. cit., v. I, p. 528.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

Entidade meramente administrativa, com o objetivo de recolher con-


tribuições voluntárias, embora proporcionais ao patrimônio e rendimento
dos contribuintes, o tribunal da bula da Cruzada conseguiu, assim, um
espaço institucional que o isentava de qualquer supervisão jurisdicional.
Estruturado num comissariado geral e comissariados e juízos setoriais,
o tribunal admitia apelação e agravo dos interessados, porém das deci-
sões dos escalões inferiores para o comissário-geral e não para a justi-
ça comum, o que lhe dava um caráter de ente simultaneamente admi-
nistrativo e judicial, fechado sobre si próprio47. Como não dispunha de
grande máquina administrativa, o regimento de 1621 determinava que,
nas execuções e diligências, os comissários do tribunal pudessem acionar
meirinhos, alcaides, escrivães ou outros oficiais de justiça de quaisquer
órgãos, sem que estes pudessem escusar-se à convocação48. O simples
recolhimento das contribuições, após a publicação da bula, era feito nas
casas paroquiais, o que por sua vez implicava em acionar a administração
eclesiástica.

O exercício de funções judiciais por outros órgãos da administração


foi denominado, na historiografia francesa, “justiça de exceção”:

“Ao lado dos tribunais aplicando a justiça ordinária no cível e no cri-


me, o hábito constante de armar cada administração de poderes judi-
ciários, no que concernia aos objetos desta administração... levaram
ao estabelecimento de tribunais muito numerosos... A multiplicidade
extrema destes tribunais, muitas vezes inúteis, complicava singular-
mente a administração da justiça...”.49

A descrição do fenômeno certamente guarda notável semelhança


com o que ocorria no mundo ibérico e por extensão no Brasil. O conceito,
porém, que se buscou para caracterizá-lo, “justiça de exceção”, não pa-
rece feliz por pelo menos duas razões: considera “exceção” um processo
diuturno, sem interrupções e juridicamente institucionalizado; e se admite
“exceção” entende (ou subentende) que a regra é um modelo definido e

47 – Idem, v. I, pp. 528 e 531.


48 – Idem, v. I, p. 533.
49 – Marcel Marion, op. cit., pp. 318-319.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

perfeitamente circunscrito de justiça, quase (ou como) um poder à Mon-


tesquieu. Ora, o que se percebe é a atribuição de prerrogativas judiciais a
diferentes órgãos, fossem da justiça stricto sensu, fossem administrativos,
mas com potencial para gerar situações jurígenas em seu âmbito – e para
nele resolvê-las.

À exceção preferimos, portanto, considerar a transversalidade do


modelo prismático.

Poder-se-ia invocar, por fim, em boa lógica e num raciocínio “apo-


lítico”, que este procedimento visaria a uma economia processual, per-
mitindo decisões mais rápidas (sem o recurso à justiça comum) e mais
objetivas (decisões emanadas de conhecedores diretos do assunto).

No entanto, é preciso lembrar dois argumentos “políticos”, sempre


invocados quando se trata da existência de uma justiça administrativa,
argumentos que não ocorrem apenas no Antigo Regime, mas no sistema
constitucional, sobretudo na França.50

O primeiro é o de que uma jurisdição administrativa se justifica


como meio para proteger os demais ramos da administração de pretensas
ações monopolizadoras dos magistrados profissionais. No caso do Antigo
Regime, parece claro que, quando isso ocorria, os magistrados – juízes de
fora, ouvidores e desembargadores no caso luso-brasileiro – não estavam
defendendo um “poder” estatal distinto, como no modelo constitucional,
mas simplesmente buscando afirmar sua autoridade enquanto represen-
tantes do poder real – este, o efetivo poder. Pelo menos era o que ocorria
no plano do discurso. Na prática, foi frequente a extrapolação dessa auto-
ridade para muito além dos limites institucionais previstos.

Não foram poucos os exemplos de magistrados acusados desse tipo


de “despotismo” e mesmo de aspirarem a um poder “absoluto”, no que,
afinal, concorreriam com o próprio rei. São emblemáticas da situação as
referências, entre outras, do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, ele
50 – François Monnier, Justice administrative, in Denis Alland e Stéphane Rials, Diction-
naire de la culture juridique, Paris, PUF, 2003, pp. 896 ss.

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Arno Wehling e Maria José Wehling

próprio um desembargador, ao mencionar o “despotismo... quase geral


nos ministros que servem à América”51. Isso afirmava o vice-rei em 1780,
recém-empossado no governo. Dez anos depois, seu juízo não mudara,
antes se consolidou, estendendo-se ao próprio Tribunal da Relação do Rio
de Janeiro de que era Regedor:
“Mas tem chegado a tal ponto a temeridade de alguns [desembarga-
dores da relação], que infringindo as mesmas leis, tem entrado, com
grande escândalo de seu Chanceler, no presumido pensamento de se
persuadirem e inculcarem que os Vice –Reis, como Regedores das
Justiças, não tem jurisdição alguma de os repreender, quando o me-
recem, esquecendo-se, por efeito de uma crassa ignor6ancia, de que
esta é uma as providências estabelecidas no próprio Regimento dos
Regedores das Justiças e um poder inerente à superioridade.”52

Que essa percepção do Vice-Rei era largamente compartilhada por


outros funcionários do estado colonial, mormente após o período pomba-
lino, não resta a menor dúvida.

O segundo argumento é o de que a justiça administrativa existe para


defender os interesses do Estado ante aqueles dos particulares, como
ocorre em especial nos casos referentes à tributação e que o faz melhor
do que a justiça comum. Esse entendimento corresponde ao que ocorria
no Antigo Regime luso-brasileiro em esferas como a tributária e a militar,
sendo que no primeiro caso os conflitos de competência entre ouvidores e
provedores deixam bem claro o mal-estar causado por essa política.

De qualquer modo, quer se admita uma explicação funcional, quer as


explicações políticas para a existência dessa pluralidade de mecanismos
judiciais, parece justificada a pertinência de um “modelo prismático” para
dar conta dessas situações no âmbito do Antigo Regime, em contraposi-
ção ao “modelo difratado” do mundo constitucional.

51 – Ofício de 26 de agosto de 1780, do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa. Arquivo


Nacional, Correspondência dos Vice-Reis, Cód. 69, L. 5, fls. 38ss.
52 – Luís de Vasconcelos e Sousa, Relação instrutiva e circunstanciada, para ser entregue
ao seu sucessor, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. IV, 1842, p.
33.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

Terceira situação prismática: coexistência de elementos burocráti-


cos e prebendários no mesmo ente estatal

Ao longo do século XVIII, com as transformações na esfera estatal e


a gradativa afirmação de atitudes influenciadas pelo racionalismo filosó-
fico e científico, foi se delineando na administração pública um quadro de
funcionários profissionais, distinto do prebendário. Neste, o cargo, con-
seguido por arrematação ou pela benesse do soberano, deveria remunerar
seu ocupante. Naquele, predominava a remuneração direta dos proven-
tos pelo poder público. Embora desde muito cedo os cargos de natureza
judicial fossem “profissionalizados”, como forma de impedir qualquer
laivo de simonia, esse procedimento foi ampliado pelo decreto de 18 de
maio de 1722, de D. João V, pelo qual se estendia aos ofícios “de recebi-
mentos”, sobretudo fazendários, a prática, deixando os demais ofícios no
sistema de “donativos” ou arrematação.53 Isso não impediu, contudo, que
convivessem no mesmo ente administrativo funções das duas naturezas.

Para a administração da justiça, tal situação ficou patente. Ao lado


das funções da magistratura, decididamente burocráticas no sentido we-
beriano, existiam os ofícios preenchidos em caráter prebendário, por “do-
nativos” devidamente regulamentados.

Nos dois tribunais de apelação existentes na colônia na segunda me-


tade do século XVIII, os magistrados recebiam seus proventos da primeira
forma, enquanto os detentores dos ofícios eram remunerados pela segun-
da. Estes ofícios eram os de guarda-mor, segundo guarda-mor, capelão,
escrivães (de apelações e agravos, da chancelaria, do merinho, da ouvi-
doria geral do cível e do juízo da Coroa), inquiridor, solicitador, meirinho
da Relação, meirinho das Cadeias, contador, médico, cirurgião e barbeiro
sangrador. Havia pequena diferença de cargos e de remuneração entre os
dois tribunais, mas nas suas linhas gerais a estrutura era a mesma.54

53 – WEHLING, Arno, Administração... op. cit., pp. 32ss.


54 – Memórias públicas e econômicas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro para
uso do Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Sousa, in Revista do Instituto Histórico e Geográ-
fico Brasileiro, t. 47, 1884, pp. 17ss. VILHENA, Luís dos Santos, Cartas soteropolitanas
e brasílicas, Salvador, Imprensa Oficial, 1922, v. II, pp. 352ss. Comparação entre as duas

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):177-200, jul./set. 2011 195


Arno Wehling e Maria José Wehling

Como a acentuar a convivência dos dois modelos administrativos,


houve casos no Tribunal da Relação do Rio de Janeiro de desembargado-
res que se tornaram proprietários de ofícios no próprio órgão, sem preju-
ízo de suas funções primárias.55

Na estrutura das ouvidorias de comarca dava-se o mesmo. Em geral,


além do ouvidor, magistrado de carreira, havia quatro escrivães (da ou-
vidoria, de órfãos, de defuntos e ausentes e do meirinho), dois meirinhos
(da correição e da provedoria), tabelião, inquiridor, contador, tesoureiro e
carcereiro, todos no regime dos ofícios. Pelos indícios de que dispomos,
o ofício de tesoureiro, neste caso, também era arrematado, mas só uma
pesquisa tópica poderá confirmar ou não essa conjetura.

A estrutura dos juizados de fora, ademais do magistrado, tinha qua-


tro tabeliães do judicial e de notas, escrivães, meirinho, porteiro dos au-
ditórios, inquiridor, contador e distribuidor, com a mesma característica
de seus congêneres.56

Nas câmaras municipais, cuja situação também será considerada no


item subsequente, em geral se exercia a justiça de primeira instância. Aí,
os juízes ordinários – exceto nas cidades e vilas onde havia juízes de fora,
que presidiam a casa e absorviam as funções jurisdicionais – conviviam
com um restrito ou vasto funcionalismo, conforme a riqueza da povoação,
que era preenchido com os mesmos procedimentos já mencionados.57 A
diferença, em matéria judicial, decorria apenas do processo de indicação
dos juízes, por nomeação do desembargo do Paço, se juiz de fora, ou por
eleição pelos homens bons, se juízes ordinários.

estruturas em WEHLING, Arno, Administração..., op. cit., pp. 154ss.


55 – WEHLING, Arno e WEHLING, Maria José, Direito..., op. cit., pp. 412ss.
56 – Memórias públicas..., op. cit., p. 37.
57 – RUSSEL WOOD, A. J. R., O governo local na América portuguesa: um estudo de
divergência cultural, Revista de História, USP, n. 109, 1977, p. 28.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

Quarta situação prismática: o caso da justiça real concedida

No caso da justiça real concedida – a municipal e a eclesiástica –


existe uma diferença substancial em relação ao modelo misto que até aqui
temos examinado?

Parece-nos que não. O aspecto específico da justiça municipal e da


justiça eclesiástica não lhes retira o caráter tradicional, interna corporis.

A justiça municipal exercia-se nos quadros da câmara municipal,


quase sempre por dois juízes eleitos58, embora o número tenha variado na
prática do Brasil colonial. Eles administravam a vila ou cidade juntamente
com os demais oficiais eleitos da câmara, os vereadores e o procurador.

As funções desses cinco magistrados tinham características defini-


das pelas Ordenações do reino. Sem dúvida aos juízes ordinários cabia a
função precípua de julgar, mas também possuíam responsabilidades ad-
ministrativas, fiscais, de ministério público (quando representavam con-
tra alguém em nome do interesse comum) e de elaboração legislativa,
pois eram coautores das posturas e bandos municipais.

Inversamente, o conjunto da câmara poderia pronunciar-se em uma


sentença, quando funcionava como conselho ou junta, mas decidindo em
primeira instância e não como instância recursal à decisão do juiz ordi-
nário59.

Nas atividades administrativas das câmaras municipais, exercidas


por funcionários específicos, eleitos ou remunerados, a mistura de ele-
mentos judiciais e administrativos poderia ocorrer, sem maior dificulda-
de. Assim, quando o almotacel, encarregado, entre outras atividades, do
controle de pesos e medidas do comércio, impunha determinada multa,
de sua decisão previa-se recurso para o juiz ordinário. Não caberia, nesse
modelo jurídico-administrativo, perguntar se este o fazia como instância
58 – Wehling, Arno e Wehling, Maria José, Atividade judiciária das câmaras
municipais na colônia – nota prévia, in Anais do I Colóquio de Estudos Históricos Brasil-
Portugal, Belo Horizonte, PUC, 1994, p. 163.
59 – Idem, p. 172.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):177-200, jul./set. 2011 197


Arno Wehling e Maria José Wehling

administrativa ou como primeira instância judicial, já que se confundiam


as atribuições.

A justiça eclesiástica, por sua vez, fazia-se nos quadros de uma or-
ganização administrativa fortemente hierarquizada, que ia do arcebispado
à paróquia, passando pelos bispados. Às funções religiosas e administra-
tivas dos sacerdotes (fossem arcebispos, bispos ou vigários paroquiais)
acrescentavam-se as judiciais, exercidas quer individualmente, pelos vi-
gários que prolatavam suas sentenças, quer colegialmente, quando havia
câmaras em bispados ou tribunais de relação eclesiástica (neste caso, so-
mente em Salvador).

Ao contrário da justiça municipal, exercida por leigos, a justiça


eclesiástica em seu escalão superior normalmente era exercida por um
bacharel em Cânones, que não se isentava de outras funções religiosas
e administrativas. Conforme se determinava no Regimento do Auditó-
rio Eclesiástico, conjunto de normas processuais anexo às Constituições
primeiras do Arcebispado da Bahia, pertencia ao Vigário-Geral a admi-
nistração da justiça. Exigia-se do nomeado, além de excelente formação
moral, a condição de eclesiástico, preferencialmente sacerdote ou, nessa
impossibilidade, pelo menos a de detentor de ordens sacras ou ordens
menores. Era também condição sine qua non possuir título de bacharel
ou doutor em Cânones. Sua designação se dava pelo Arcebispo, tomando
posse com o Chanceler da Relação eclesiástica.60 No caso dos bispados,
o bispo deveria designar vigários da vara, com funções judiciais, sendo
que os designados seriam, preferencialmente, letrados. A escassez destes
explica a concessão. 61 Nos níveis inferiores, os vigários paroquiais sem
esta formação atuavam em todas as atribuições do governo paroquial,
inclusive a justiça. Em todas as situações, portanto, confundiam-se as
funções religiosas, administrativas e judiciais.

60 – Regimento do Auditório Eclesiástico, tít. II, par. 1, p. 13. Constituições primeiras do


Arcebispado da Bahia, Brasilia, Senado Federal, 2007 (edição fac similar da edição de
1853).
61 – Idem, tít. IX, par. 399ss., p. 90.

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Justiça Ordinária e Justiça Administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro

Que motivos explicariam a razão de ser desse processo prismático?

Em primeiro lugar, o caráter casuístico da administração, que fluía


de padrões gerais de governo e administração derivados dos princípios
cristãos, do direito romano e de alguns preceitos e máximas da Antiguida-
de clássica relativos à filosofia política e, sobretudo, à prática política.

Esses padrões atribuíam singular importância ao ato de julgar, pelo


seu caráter intrínseco de corrigir a injustiça e repor a comunidade em seu
equilíbrio natural. Toda uma sanção teológica, no Antigo Testamento, no
pensamento grego, no direito romano e no cristianismo contribuía para
isso e foi recolhida como tal pelos juristas reais desde a Idade Média.

Por esse motivo a função de julgar foi privativa do monarca e este,


quanto pôde, procurou drená-la das instituições concorrentes – senhores,
Igreja, cidades. A imagem de Luís IX distribuindo ele próprio a justiça
sob o carvalho de Vincennes é emblemática dessa perspectiva – que não
deve ser entendida ao pé da letra, pois desde cedo os monarcas delegaram
a seus magistrados a função julgadora, mas sempre em seu nome e, em
última análise, em nome de Deus, o supremo e último julgador. Não por
outro motivo as sessões dos tribunais, em Portugal como no Brasil, prin-
cipiavam pela invocação religiosa, com a celebração da missa.

Um ato tão nobre e tão digno, aliás, que no Ocidente cristão os car-
gos da magistratura em geral ficavam de fora da venalidade dos ofícios
públicos, pois a sua venda poderia ser associada à simonia. O mesmo não
se aplicava aos funcionários judiciais, dos tribunais e dos juízos monocrá-
ticos, que incorriam na regra geral da venalidade.

Entretanto, ademais do casuísmo, havia o caráter empírico da ad-


ministração. Um bom governante considerava-se o administrador ativo
e bem-intencionado, com ideias gerais e objetivos relativamente claros,
ou mesmo aquele apenas reativo, mas que reagisse positivamente aos es-
tímulos que lhe chegavam. Não se conhecia a figura do planejador, nem
havia a percepção de uma ação sistêmica, integrada e projetada no tem-
po por meio de metas, como no estado ou na empresa contemporâneos.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):177-200, jul./set. 2011 199


Arno Wehling e Maria José Wehling

Por extensão, as funções públicas – executivas, judiciais, legislativas –


emanavam do monarca, o que explica haver dois tipos/conceitos de ma-
gistratura: a judicial propriamente dita e a dos demais cargos. Resquício
longínquo desse procedimento empírico na arte de governar é o título de
“primeiro magistrado” que tem o presidente da República em vários paí-
ses, não obstante ser ele o titular de apenas um dos poderes do Estado.

Embutida no múnus desses magistrados lato sensu – administradores


fazendários e eclesiásticos, comandantes militares, governantes munici-
pais – estava normalmente, além de suas funções precípuas de governo e
administrativas (“executivas”), a atribuição de julgar. No modelo casuís-
tico e empírico do Antigo Regime, assim como o julgador (o magistrado
stricto sensu) julgava e executava as decisões de seu julgamento (exceto
no caso da justiça eclesiástica, em que se encaminhava a execução ao
“braço secular”), também o administrador exercia os atos de específicos
de suas funções de governo e julgava, sempre no âmbito de suas atribui-
ções governativas, caracterizando-se uma plena justiça administrativa.

Tais situações desenhavam-se no quadro da monarquia tradicional


“patrimonialista” do modelo weberiano. Mas quando falamos dos três
séculos “modernos”, particularmente do século XVIII, nesses patrimo-
nialismo, casuísmo e empirismo já se insinua a especialização de funções
em três frações importantes do Estado – a justiça, a guerra e a fazenda.
E, logo, a experiência política inglesa e a teoria constitucional francesa
darão a solução política mais ampla para o problema, criando os poderes
“independentes e harmônicos”.

Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

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¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

¡VIVA LA PEPA!: A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA


CONSTITUCIÓN ESPAÑOLA DE 1812 EM TERRAS
BRASILEIRAS1
VIVA LA PEPA! The untold History OF THE 1812 SPANISH
CONSTITUTION IN BRAZIL
Vicente de Paulo Barretto 2
Vítor Pimentel Pereira 3

Resumo: Abstract:
O texto refere-se à adoção da Constituição Es- This paper refers to the adoption by Brazil of the
panhola de 1812, alcunhada “La Pepa”, no Bra- 1812 Spanish Constitution, known as La Pepa,
sil, na segunda década do século XIX, episódio during the second decade of the Nineteenth cen-
pouco conhecido da história constitucional bra- tury. This is a rather unknown episode of the
sileira. Examina, por outro lado, a influência Brazilian Constitution history. On the other
ideológica da Constituição Espanhola na evo- hand, it will examine the ideological influence
lução constitucional brasileira, especificamente, of the Spanish Constitution on the constitutional
na primeira constituição brasileira, a Constitui- evolution in Brazil, specifically on the first Bra-
ção do Império Brasileiro de 1824. zilian Constitution, the 1824 Constitution of the
Brazilian Empire..
Palavras-chave: Liberalismo, Revolução e Es- Keywords: Liberalism, Revolution and the State
tado de Direito. of Law.

1. Introdução
¡Viva La Pepa!, exclamava o povo espanhol em Cádiz na Solenida-
de de São José do já quase bicentenário 19 de março de 1812. O brado,
saudação à promulgação da Constituição Política da Monarquia Espanho-
la (carinhosamente chamada “La Pepa”4), marcava o início de um novo
1 – Este texto foi originalmente redigido sob o título “Viva la Pepa: la historia no con-
tada de la Constitución Espãnola de 1812 en tierras brasileñas”, tendo sido apresentado
no V Simpósio Internacional, Cádiz, Hacia El Bicentenario/ Union Latina, em 2010, em
Cadiz..
2 – Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da UNESA e professor visitan-
te da UERJ e colaborador da UNISINOS.
3 – Graduado e Mestrando em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ). Vice-presidente Jurídico do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Perso-
nalista (CIEEP).
4 – Apenas uma curiosidade histórica: utiliza-se o apelido “pepe” (versão feminina:
“pepa”) para os homens chamados José em língua espanhola. A origem encontra-se na
abreviatura do título latino de São José, pai putativo de Jesus Cristo (pater putativus, ou,
simplesmente, P. P., “pepe”). Aí encontramos a justificativa para a alcunha da Constitui-

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011 201


Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira

modo de conceber as relações políticas na Espanha, forjado pelos ideais


liberais que campearam nas Revoluções Americana e Francesa do final
do século XVIII.

Alguns anos após e do outro lado do Atlântico, mais precisamente


na noite do dia 21 de abril de 1821, esta mesma Constituição viverá um
breve momento de glória – ou de infortúnio? –, no Rio de Janeiro, então
capital do reino português, numa página do constitucionalismo brasileiro
por quase todos olvidada.5 Seja-nos permitido iniciar esta reflexão pelo
relato a respeito da presença da Pepa no Brasil, o qual nos servirá de pre-
texto para a posterior análise dos fundamentos da Constituição Espanhola
de 1812 que também estiveram presentes na confecção da Constituição
Política do Império do Brasil de 1824.

Os registros históricos relatam que, por um curtíssimo período de


cerca de 24 horas, a Constituição de Cádiz de 1812 esteve vigente no Bra-
sil. Mas de que modo isto sucedeu? E por que forma os brasileiros chega-
ram a conhecer a existência da Constituição Espanhola? Para responder
a estas perguntas, é necessário regressar a Portugal e, depois, à cidade do
Rio de Janeiro, então capital do reino, nos anos de 1820 e 1821, pouco
antes do retorno da Corte portuguesa à Europa.

ção de Cádiz de 1812.


5 – Exceção feita, por exemplo, ao constitucionalista brasileiro Paulo Bonavides, que
atesta a ocorrência do evento. BONAVIDES, Paulo. A evolução constitucional do Brasil.
Estudos avançados, vol.14, nº. 40, set.-dez. 2000. p. 156. Contudo, muito antes dele,
Aurelino de Araújo Leal, jurista, político e jornalista baiano (ademais de sócio efetivo do
IHGB), relatara este acontecimento. Após o sucesso de sua comunicação no I Congresso
de História Nacional, realizado em 1914 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
o Conde de Affonso Celso, então Presidente Perpétuo do Instituto, convidou-o a minis-
trar, no mesmo ano, um curso de História Constitucional brasileira. Neste curso, o ilustre
baiano registrou a efêmera vigência da Constituição de Cádiz de 1812 entre nós, como se
vê em LEAL, Aurelino. Resumo das Cinco Conferências de História Constitucional do
Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Tomo LXXVII, 1914,
Parte 1. p. 296. O conteúdo do curso pode ser encontrado em LEAL, Aurelino. História
Constitucional do Brazil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1915. Uma reimpressão da
obra foi recentemente realizada pela Editora do Senado Federal (2002).

202 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011


¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

2. Os antecedentes portugueses imediatos


Em Portugal, rebentara, em 1820, a Revolução Constitucionalista do
Porto. Sua marcada influência liberal é inegável, patente no próprio do-
cumento de Manifesto da Nação Portugueza aos Soberanos e Povos da
Europa:
“Elles [o povo português] não eram felizes, e quizeram sêl-o. Póde
disputar-se a alguma nação este direito, e os meios de o exercitar e
pôr em prática? Póde algum povo, grande ou pequeno, alguma asso-
ciação de homens racionaes prescindir d’este direito inalienavel, para
sujeitar-se irrevogavelmente ao arbitrio de algum ou de alguns ho-
mens, para obedecer cegamente a um poder ilimitado, a uma vontade,
que póde ser injusta, caprichosa, desregrada? Foram estes os votos
de todos os portuguezes, quando proclamaram a necessidade de uma
constituição, de uma lei fundamental, que regulasse os limites do po-
der e da obediencia; que afiançasse para o futuro os direitos e a felici-
dade do povo; Se a moderna philosophia creou o systema scientifico
do direito publico das nações e dos povos, nem por isso inventou ou
creou os direitos sagrados, que a propria mão da natureza gravou com
caracteres indeleveis nos corações dos homens [...] O que hoje, pois,
querem e desejam, não é uma innovação, é a restituição de suas anti-
gas e saudaveis instituições, corrigidas e applicadas segundo as luzes
do século e as circumstancias políticas do mundo civilisado; é a resti-
tuição dos inalienaveis direitos que a natureza lhe concedeu [...]6”

O êxito da revolução liberal de Cádiz, alguns anos antes, certamen-


te impulsionara o liberalismo em terras portuguesas.7 A Espanha, após a
restauração do absolutismo monárquico de Fernando VII em 1814, con-
seguira fazer com que, em 1820, o monarca espanhol tornasse a jurar a
Constituição de 1812. As experiências vividas no país vizinho8 tornavam
6 – CÂMARA DOS SENHORES DEPUTADOS DA NAÇÃO PORTUGUESA. Docu-
mentos para a História das Cortes Geraes da Nação Portugueza. T. I. Lisboa: Imprensa
Nacional, 1883, pp. 122-124.
7 – Ibidem, p. 5.
8 – “Ora, quer em termos de ideário e de manifestações culturais, quer em termos de
atitudes dominantes, quer em termos de base social e assento geográfico, como em ma-
téria de formas repressivas, o que acontece nos Estados Peninsulares guarda evidentes
analogias, não obstante peculiaridades notórias resultantes da diversa amplitude espacial
e sociocultural de cada país. Para documentar este aspecto e tomando como paradigma a
temática sobre A Revolução francesa e a Espanha, observaremos, em primeiro lugar, que

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o exemplo da revolução liberal espanhola ainda mais eloquente na busca


de reformas político-institucionais. Mesmo a proximidade de datas mostra
como corria uma maré de influências liberais que tinha na Constituição de
Cádiz seu referencial. Assim, houve apenas uma diferença de pouco mais
de cinco meses entre a revolução restauradora da Constituição de Cádiz
na Espanha (7 de março de 1820) e a Revolução do Porto, em Portugal,
datada de 24 de agosto do mesmo ano.9 Essa irmandade ideológica dos
destinos políticos de Portugal e Espanha pode ser encontrada em um dos
documentos da Revolução do Porto:

“Em todas as epochas mais assignaladas da historia da Peninsula, Por-


tugal seguia sempre a sorte das Hespanhas. Como ellas, recebeu e
sacudiu o jugo dos romanos; como ellas, obedeceu aos godos e se
sujeitou depois aos arabes; como ellas, foi invadido pelos francezes
e se desfez dos francezes. Não queiraes portanto que elle deixe de
experimentar agora com ellas o effeito do vulcão que vae abalando os
eixos do mundo político.10”

Ademais, o intercâmbio de informações entre os movimentos revo-


lucionários de ambos os países, mormente pelo intermédio de socieda-
des secretas que pretendiam fazer valer, em ambas as nações, governos

os estudos, sobre a atitude do governo português frente à Revolução mostram a similitude


de posições entre os Executivos de Madrid e de Lisboa até à Guerra do Rossilhão. Em
segundo lugar, urge acentuar que é possível tratar, quase ponto por ponto, na perspectiva
da história portuguesa, os tópicos relativos à difusão da ideologia revolucionária e às
medidas adoptadas para impedir tal difusão na Espanha. São, com efeito, muito próximas,
quando não idênticas, as determinações perfilhadas pela Coroa portuguesa, por exemplo
em relação a livros e folhetos revolucionários, ao ensino, bem como as atinentes aos resi-
dentes, transeuntes e emigrados propagadores, às vezes involuntários, de notícias e ideias
sobre a Revolução. Semelhança notória existe na política a respeito do clero francês em
fuga, embora as precauções do governo espanhol atinentes aos eclesiásticos migrantes
sejam mais radicais do que as aplicadas em Portugal. Também no referente à apreensão
de escritos anónimos e pasquins subsistem analogias.” RAMOS, Luís A. de Oliveira. A
Espanha e o advento do liberalismo em Portugal: antes e depois de Cádiz. Península:
Revista de Estudos Ibéricos, nº. 0, 2003. p. 414.
9 – LIMA, Oliveira. O movimento da independência (1821-1822). São Paulo: Melhora-
mentos, 1922.
10 – Carta dos oficiais da guarnição do Porto, datada de 6 de setembro de 1820. In: CÂ-
MARA DOS SENHORES DEPUTADOS DA NAÇÃO PORTUGUESA, op. cit., p. 36.

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¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

representativos, certamente contribuiu para que os sucessos de Espanha


rapidamente fossem conhecidos em Portugal.11

Na ausência de uma Constituição, o movimento revolucionário


português estabelece uma Junta Provisional de Governo e a faz jurar a
Constituição Espanhola provisoriamente, até que seja elaborada uma lei
fundamental lusa. Signo emblemático da importância de tal diploma em
Portugal é a tradução feita pela Universidade de Coimbra, ainda em 1820,
em que o tradutor, em seu prefácio, louva a “Constituição sabia, em que
os nossos honrados visinhos, que vamos nesta parte imitar, fixarão os
verdadeiros limites do poder e da obediência, e recobrárão os legítimos
direitos que como homens, justamente lhes pertencião”.12

Quando da elaboração do decreto que estabelecia a forma de elei-


ção de deputados às Cortes Gerais responsáveis pela elaboração da fu-
tura Constituição portuguesa, exigiu-se a obediência ao método previsto
na Pepa, traduzido ao vernáculo e com pequenas adaptações à realidade
portuguesa.13

Todos esses fatos, em conjunto, indicam que, entre os revoltosos,


havia um conhecimento razoável dos termos da Constituição Espanhola.
E não se pode duvidar que as novas lusitanas chegassem, por meio de
navios, periódicos e pessoas, às terras brasileiras. Sendo o Rio de Janeiro
a sede provisória da monarquia portuguesa, era para lá que acorriam as
notícias mais prementes do velho Portugal.

11 – Recorde-se, por exemplo, da associação secreta portuguesa conhecida como Siné-


drio, fundada no Porto em 1818, com o objetivo de avançar as reformas liberais em Por-
tugal, fortemente influenciada pelo movimento gaditano de 1812. Alguns de seus mem-
bros lograram tomar parte na Junta Provisional do Governo Superior do Reino Português,
instalada por ocasião da Revolução Liberal do Porto. Também questionando sobre as
ligações entre maçons portugueses e espanhóis, cf. RAMOS, Luís A. de Oliveira, op. cit.,
p. 415.
12 – Constituição política da Monarquia Hespanhola promulgada em Cádiz em 19 de
Março de 1812. Coimbra: Real Imprensa da Universidade, 1820.
13 – CÂMARA DOS SENHORES DEPUTADOS DA NAÇÃO PORTUGUESA, op. cit.,
pp. 96 e 108.

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Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira

3. A longa Sexta-Feira da Paixão de 21 de abril de 182114


É nesse caldo político que se insere a incursão da Constituição Es-
panhola em plagas brasileiras. Apesar de inspirada por ideais liberais, a
Revolução do Porto tinha como um de seus programas políticos a volta
do Pacto Colonial e seu monopólio em relação ao reino americano como
método de soerguimento econômico do combalido Portugal.15 Os brasi-
leiros temiam pela perda da posição no quadro geral do reino de Portugal
que haviam adquirido por ocasião da vinda da família real portuguesa
desde 1808.

No Rio de Janeiro, um clima de tensão instalara-se desde a chegada


da notícia de que Portugal desejava reduzir o Brasil novamente ao status
colonial, tão logo D. João VI e a Corte tornassem a Europa. Os liberais
brasileiros exigiram a formação de um conselho sem cujo consentimento
o rei não poderia deliberar acerca de questões relevantes, temerosos de
que o rei voltasse a Portugal cedendo às pressões dos liberais lusos. So-
me-se a isso algumas prisões imotivadas de alguns dignitários brasileiros,
alguns dos quais tidos em alta reputação pelo povo da capital. Em matéria
econômica, o Brasil também vivia momentos de inquietude, em que o de-
saparecimento do ouro e a insolvência do Banco do Brasil, em virtude de
o governo e a aristocracia não saldarem seus débitos, depreciava a moeda
14 – Os fatos narrados nesta seção foram extraídos de CARVALHO, Manuel Emílio Go-
mes de. Os deputados brasileiros nas Cortes Geraes de 1821. Porto: Chardron, 1912.
Cap. III. No Brasil, a obra foi recentemente reimpressa por iniciativa da Editora do Sena-
do Federal (2003), com prefácio de Pedro Calmon.
15 – “Em quatro pontos resumiu o deputado Trigoso o seu programa para o Brasil: ‘vir o
Príncipe Real, primeira cousa; vir a tropa que lá está, segunda cousa; ir a tropa que renda
aquela que lá esta, terceira cousa; extinguir-se alguns tribunais, quarta cousa’. Fernandes
Tomaz: ‘que era bom que tornassem as cousas ao seu antigo estado’. Exterminando na Eu-
ropa o estado antigo, as Cortes queriam na América o antigo estado. ‘Desça do alto grau
de corte para o de província’, é o que pretendiam, protestou o deputado baiano José Lino
Coutinho. Sucedeu o inevitável. No dia em que decidiram abolir a regência de D. Pedro,
suprimir as Repartições que davam ao Rio a categoria de capital do Brasil, determinar às
juntas locais que se correspondessem diretamente com os ministros em Lisboa, descosen-
do a unidade nacional, perderam para os de cá a aura romântica; converteram-se num duro
conselho de governo. Ao ‘sistema constitucional’ – proclamado na Europa – contrapuse-
ram o ‘sistema colonial’ – devolvido à América.” CALMON, Pedro. Introdução ao Diário
da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil. Brasília: Senado
Federal, 2003. Tomo I.

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¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

e reduzia a fortuna particular. Por fim, o anúncio da iminente partida de D.


João para Portugal, sem que houvesse regras claras sobre as atribuições
da regência, a cargo de seu filho Pedro, a ser instituída no Brasil, sendo
mesmo desconhecidos os nomes dos ministros que auxiliariam o príncipe
nesta empreitada.

A agitação na cidade aumentava diante deste quadro e, como que


para aplacar os ânimos, Silvestre Pinheiro Ferreira, ministro do Reino,
propõe convocar os eleitores das comarcas para acorrerem ao Rio de Ja-
neiro, onde deveriam eleger os deputados brasileiros às Cortes Gerais em
Lisboa, bem como lhes seria apresentado o regulamento da regência do
Brasil, com os nomes dos respectivos ministros que nela atuariam.

Marcada a reunião para 21 de abril de 1821, uma Sexta-Feira da Pai-


xão, os eleitores reuniram-se na então Praça do Comércio.16 Inicialmente,
o objetivo de tal reunião era a escolha dos deputados brasileiros que re-
presentariam a nação perante as Cortes de Lisboa. Contudo, franqueada a
palavra aos chefes de partido, deliberaram pela imposição ao monarca de
um juramento à Constituição Espanhola sob condição resolutiva. Assim,
nos termos da decisão desta assembleia brasileira, deveria a Pepa ser a
Constituição do Brasil até o advento de uma nova constituição portugue-
sa, a ser votada em futuro breve pelas Cortes de Lisboa.

Foi composta imediatamente uma comissão, que se dirigiu ao Pa-


lácio Real da Quinta da Boa Vista, com a intenção de fazer o rei jurar a
Constituição Espanhola, uma vez que ainda não havia qualquer Constitui-
ção – brasileira ou portuguesa – a ser jurada. O rei, com a aparente con-
cordância de seus ministros, jurou a nova constituição, sendo publicado o
decreto de vigência da Constituição de Cádiz no dia seguinte.17
16 – Prédio em que hoje se situa a casa de cultura Casa França-Brasil, no centro da cidade
do Rio de Janeiro, próximo à região do porto.
17 – "Havendo tomado em consideração o termo de juramento, que os eleitores parochiaes
d’esta comarca, a instancias e declaração unanime do povo della, prestaram á constituição
hespanhola, e que fizeram subir á minha real presença, para ficar valendo interinamente a
dita constituição hespanhola desde a data do presente decreto até a installação da consti-
tuição, em que trabalham as côrtes actuaes de Lisboa, e que eu houve por bem jurar com
toda a minha côrte, povo e tropa, no dia 26 de fevereiro do anno corrente: sou servido

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Contudo, enquanto a Comissão reunia-se com o rei e arrancava-lhe


o assentimento à Constituição Espanhola, os eleitores que se haviam que-
dado na Praça do Comércio entenderam por bem, como salvaguarda de
que o monarca não deixaria o Brasil sem haver jurado a gaditana, enviar
uma comitiva de militares aos fortes para transmitir a resolução de que
não deixassem sair qualquer embarcação, nacional ou estrangeira, até que
fossem deferidos pelo rei os votos da assembleia.

Ocorre que, no Palácio da Quinta, membros da Corte – e, quem sabe,


o próprio D. João VI – quedavam-se descontentes com o juramento da
Constituição Espanhola. Na interpretação de Manuel Emilio Gomes de
Carvalho, a chegada ao Palácio da notícia de que qualquer navio estava
impedido de sair do território nacional teria sido a gota d’água, entendida
como insubordinação máxima por parte dos ministros da Corte. Estes,
por sua vez, com a honrosa divergência de Silvestre Pinheiro, delibera-
ram pela repressão imediata dos atos do eleitorado reunido na Praça do
Comércio.

Na madrugada do dia 22 de abril, tropas portuguesas cercaram a Pra-


ça do Comércio, adentrando a edificação a tiros e golpes de baioneta, num
episódio que foi denominado pela população com o sugestivo nome de “O
Açougue de Bragança”.18 Com um saldo de três mortos e diversos feridos,
a “revolta liberal carioca” fora sufocada e o rei português voltou atrás
em sua palavra, publicando um novo decreto que revogava a Pepa como
primeira Constituição do Brasil, cerca de 24 horas após sua aprovação.19
ordenar, que de hoje em diante se fique estricta e liberalmente observando n’este reino
do Brazil a mencionada constituição hespanhola, até o momento em que se ache inteira e
definitivamente estabelecida a constituição deliberada e decidida pelas côrtes de Lisboa.
Palacio da Boa Vista, aos 21 de abril de 1821.” CÂMARA DOS SENHORES DEPUTA-
DOS DA NAÇÃO PORTUGUESA, op. cit., p. 197.
18 – Segundo Manuel Emílio Gomes de Carvalho, a comoção na cidade do Rio de Janeiro
causada pelo episódio teria sido intensa, e os comerciantes teriam abandonado o edifício,
denominando-o, num cartaz afixado sobre a porta, “Açougue de Bragança”. CARVA-
LHO, Manuel Emílio Gomes de, op. cit., p. 73.
19 – “Subindo hontem á minha real presença uma representação, dizendo-se ser do povo,
por meio de uma deputação formada dos eleitores das parochias, a qual me assegurava
que o povo exigia, para minha felicidade e d’elle, que eu determinasse que de hontem em
diante este meu reino do Brazil fosse regido pela constituição hespanhola, houve então

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em terras brasileiras

Assim, de forma melancólica, terminou a brevíssima experiência consti-


tucional gaditana, com seu ideário liberal, em terras brasileiras.

4. As características da Constituição Espanhola de 1812 e sua


influência no Brasil
Mas qual a importância de tal evento histórico, brevemente relatado
acima, em uma reflexão sobre a influência do constitucionalismo espa-
nhol de 1812 na América portuguesa? De que modo indica, de forma
exemplar, que a Pepa influenciou o nascente país, a ponto de ser a primei-
ra Constituição – da perspectiva meramente formal – destas terras?

O ocorrido no dia 21 de abril de 1821 indica que não só o ideário


liberal, mas também o próprio texto da Constituição Espanhola era efeti-
vamente conhecido no Brasil. Embora essa influência não seja fartamente
documentada, não é de se pensar que os eleitores do Rio de Janeiro op-
tassem pelo juramento de uma Constituição que nem mesmo conheces-
sem. Se não era conhecida por muitos, pode-se especular que ao menos
travaram contato com ela aqueles que detinham alguma influência sobre
os destinos políticos da futura nação independente.

Ademais, deve-se recordar que tanto a elaboração do Projeto de


Constituição para o Brasil (1823) como a própria Constituição Imperial
(1824) foram precedidos no tempo pela Constituição Portuguesa de 1822,
a qual fora inspirada fortemente no texto espanhol, copiando-lhe em mui-
tos pontos a disposição de temas e mesmo o texto de alguns artigos. Tam-
bém se pode perceber que participaram nas Cortes Gerais de Lisboa, as

por bem decretar que essa constituição regesse até á chegada da constituição que sabia e
socegadamente estão fazendo as côrtes convocadas na minha muito nobre e leal cidade de
Lisboa; observando-se, porém, hoje que esta representação era mandada fazer por homens
mal intencionados e que queriam a anarchia, e vendo que o meu povo se conserva, como
eu lhe agradeço, fiel ao juramento que eu com elle, de commum accordo, prestámos na
praça do Rocio no dia 26 de fevereiro do presente anno; hei por bem determinar, decretar,
e declarar por nullo todo o acto feito hontem, e que o governo provisório, que fica até á
chegada da constituição portugueza, seja da fórma que determina o outro decreto e ins-
trucções que mando publicar com a mesma data d’este, e que meu filho o principe rea1
ha de cumprir e sustentar até chegar a mencionada constituição portugueza.”. CÂMARA
DOS SENHORES DEPUTADOS DA NAÇÃO PORTUGUESA, op. cit., pp. 197-198.

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quais elaboraram a Constituição Liberal Portuguesa de 1822, deputados


brasileiros, os quais certamente tomaram parte nos debates parlamenta-
res, tendo por pano de fundo a Constituição de Cádiz, então vigente até o
advento da nova Carta Portuguesa.20 Como exemplo, pode-se citar a figu-
ra de Antônio Carlos Andrada e Silva, relator do Projeto de Constituição
de 1823, o qual fora deputado às Cortes Gerais em Lisboa. Além disso,
em Portugal circulavam livros e escritos diversos que exaltavam as vir-
tudes da Constituição Espanhola, úteis para a reflexão portuguesa como
direcionamento político de um povo irmão, bem como traduções de obras
espanholas sobre a temática constitucional.21 Muitos destes homens, ao
regressarem ao Brasil, traziam consigo a influência dos ideais – e mesmo
do texto literal – da Constituição Espanhola.

Mas quais foram as características marcantes deste texto elaborado


em Cádiz que levaram à sua aceitação em terras portuguesas e brasilei-
ras como influência fundamental no constitucionalismo dos dois países?
Identificamos como características principais as seguintes: 1) soberania
nacional e representatividade; 2) separação de poderes; 3) monarquia
constitucional; 4) a religião oficial; 5) o direito natural racionalista.

Essas questões, presentes na Constituição de Cádiz, apareceram tam-


bém de alguma forma na Constituição Imperial brasileira. Não se quer
dizer com isto que a influência francesa não se fez sentir fortemente no
Brasil (especialmente da Charte constitutionnelle française de 1814) e na
própria Espanha: mas aqui se quer salientar o frequentemente olvidado
20 – Basta, para tanto, consultar o volume primeiro dos Documentos para a História das
Cortes Geraes da Nação Portugueza, a fim de se perceber como houve influência fortís-
sima do liberalismo espanhol na discussão da Constituição portuguesa de 1822. Ademais,
pode-se verificar que alguns deputados participantes da Constituinte brasileira de 1823
também tomaram parte nas Cortes Gerais de Lisboa, em que se desenrolaram os debates
com base na Constituição Espanhola: Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Sil-
va (relator do Projeto de Constituição brasileira de 1823) e José Ricardo da Costa Aguiar e
Andrada, ambos pela província de São Paulo; José Martiniano de Alencar, pela província
do Ceará; Francisco Moniz Tavares, pela província de Pernambuco.
21 – Tais como SALAS, Ramon (Doutor de Salamanca). Lições de Direito Público Cons-
titucional traduzidas e dedicadas por D. G. L. D’Andrade: com o mesmo objecto á Rege-
nerada Naçaõ Portugueza, e offerecidas a seus dignos representantes. Lisboa: Typogra-
phia Rollandiana, 1822.

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influxo do constitucionalismo espanhol. Poder-se-ia mesmo propor uma


hipótese: a de que certas ideias europeias – sobretudo francesas – podem
haver chegado até nós, ao menos em sua forma exterior jurídico-constitu-
cional, por intermédio da Pepa, como um meio mais acessível e pragma-
ticamente aplicado das abstratas conjecturas dos liberais europeus. Nesse
sentido, avançando ainda mais na tese, seria possível até mesmo falar na
existência de uma espécie de constitucionalismo de traços ibéricos, capaz
de digerir as ideias liberais de seu tempo e adaptá-las à realidade da pe-
nínsula ibérica, e, de certa forma, a suas colônias.

Passemos, então, a uma breve comparação destas características em


ambos os movimentos constitucionais, ressaltando suas similitudes e es-
pecificidades.

4.1 Soberania nacional e representatividade


A ideia da soberania nacional foi uma das características mais mar-
cantes e revolucionárias da Constituição de Cádiz. Esta teve o mérito de
inserir na península ibérica a experiência constitucional, de matriz fran-
cesa, especialmente como exposta na obra Qu’est-ce que le tiers état?
do Padre Sieyès, de uma soberania como poder originário, absoluto e
perpétuo, mas que agora recaía sobre a nação e não mais sobre a figura
do monarca.

O exercício primordial da soberania se dava por meio da elaboração


de uma Constituição que veiculasse a estrutura do Estado e a garantia de
direitos civis básicos. E este poder estava revestido na entidade nação.
Contudo, diferentemente da proposta de Rousseau, tornava-se virtual-
mente impraticável o exercício da soberania diretamente pelos cidadãos.
Daí surge a necessidade de se instaurar um sistema representativo: os
cidadãos elegem seus representantes, que detêm um mandato para agir
em nome dos representados. Nesta situação, pode-se realizar uma distin-
ção já clássica entre a titularidade do poder constituinte, que recaía sobre
a nação, e seu exercício, que se dava por meio de seus representantes.

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A nação era entendida como o conjunto dos cidadãos, mas entendidos


estes enquanto associação política ou corpo social e não mera reunião
física de homens.

Sendo essas as linhas-mestras do conceito de soberania assumido na


península, pode-se perceber como a influência da Constituição de 1812
espanhola foi marcante no texto brasileiro neste particular. O art. 1º da
espanhola definia que “la Nación española es la reunión de todos los es-
pañoles de ambos hemisférios”, enquanto o art. 2º expressa que “la Na-
ción española es libre e independiente, y no es ni puede ser patrimonio
de ninguna familia ni persona.” Seguindo-a de perto, o texto brasileiro
afirma que “O Imperio do Brazil é a associação Politica de todos os Ci-
dadãos Brazileiros. Elles formam uma Nação livre, e independente, que
não admitte com qualquer outra laço algum de união, ou federação, que
se opponha á sua Independencia”.

Do cotejo de ambas as redações, é interessante notar que a Constitui-


ção brasileira adota a expressão “livre e independente” da mesma forma
que no texto gaditano, o que nos leva a apontar uma influência direta não
só da ideia de soberania nacional, mas da própria literalidade do artigo da
Constituição de Cádiz no art. 1º da Constituição brasileira.

Quanto à titularidade da soberania, o art. 3 da Pepa estatui de for-


ma direta que “La soberanía reside esencialmente en la Nación, y por lo
mismo pertenece a ésta exclusivamente el derecho de establecer sus leyes
fundamentales.” Por sua vez, o texto brasileiro o faz de forma indireta,
ao dizer no art. 12 “que todos estes Poderes no Imperio do Brazil são de-
legações da Nação”. Em verdade, há uma comunhão de intentos, embora
expressos de modo distinto: a origem de ambos encontra-se no art. 3 da
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que sintetiza ambas as
ideias (Le principe de toute souveraineté réside essentiellement dans la
Nation. Nul corps, nul individu ne peut exercer d’autorité qui n’en émane
expressément.).

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Nesta nova proposta constitucional, a soberania é uma emanação da


nação, e não da figura do monarca. Os representantes da Nação somente
o são por haverem recebido desta a delegação, incluindo-se aí a própria
figural real, não mais legitimada em um direito divino originário, mas em
um direito derivado por delegação da nação.

As próprias Cortes, compostas de deputados com mandato conferido


pela Nação, deveriam ser instituídas não mais como mero conselho con-
sultivo e estamental, como no regime monárquico absolutista à moda do
Ancièn Regime, mas como verdadeira Assembleia Constituinte, assem-
bleia representativa do povo que se autoconcedia direitos e um governo.

As Cortes não representavam subservientemente o Rei, representa-


vam antes a Nação. Com esta proposta, ocorre uma ruptura com o modelo
tradicional absolutista de representação política da nação exclusivamente
na figura do monarca. Embora este pudesse continuar sendo símbolo da
unidade nacional, não era dele que derivavam os poderes de ordenação
das coisas e pessoas do reino, mas da própria Nação.

Contudo, embora consubstanciada esta ideia no texto da Constitui-


ção brasileira de 1824, boa parte de sua força fora extirpada pela consa-
gração, em outro artigo da Constituição, do Poder Moderador, em termos
que serão expostos abaixo. Nas palavras de Pedro Calmon, havia, desde
a convocação da Constituinte de 1823, uma tensão latente entre a Assem-
bleia que se considerava delegada do povo e o Imperador, que, no íntimo,
considerava-a produto de sua vontade soberana.22 Este conflito será resol-
vido com a dissolução da Constituinte em novembro de 1823, seguido da
outorga de uma Constituição em 1824 pelo Imperador.23

22 – CALMON, Pedro, op. cit.


23 – BERBEL, Márcia Regina. A Constituição Espanhola no mundo luso-americano
(1820-1823). Revista de Indias, vol. LXVIII, n. 242, 2008, p. 246.

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4.2 Separação de poderes


Outra característica saliente da Constituição de 1812, tomada das
ideias de Montesquieu e da Constituição francesa de 1791, foi a separa-
ção dos poderes. Segundo o modelo espanhol consagrado no texto cons-
titucional, o poder de fazer leis residia nas Cortes com o Rei (art. 15); o
poder de executá-las recaía sobre o Rei (art. 16); o poder de aplicá-las em
causas civis e criminais residia nos tribunais estabelecidos pela lei (art.
17). Esta separação era rígida, de modo que a Constituição Espanhola
estabelecia que o poder de executar as leis residia exclusivamente no mo-
narca (art. 170) e o poder de aplicar as leis nas causas civis e criminais
pertencia exclusivamente aos tribunais (art. 242).

No Brasil, a Constituição de 1824 também seguiu o modelo de decli-


nar cada um dos poderes que compunham o Estado, mas trilhando mais
de perto o caminho da parte inicial do art. 3024 da Constituição Portuguesa
de 1822: em vez de estabelecer as funções de cada poder, simplesmente
enumerava-os. Estabelecia, por extenso, que os poderes políticos eram o
Poder Legislativo, o Poder Executivo, o Poder Judicial e o Poder Mode-
rador (art. 10). Aqui a peculiaridade da separação de poderes brasileira:
enquanto o Projeto de Constituição de 1823 somente consagrava os três
poderes clássicos, o Poder Moderador fora incluído pelo Conselho de
Ministros que elaborara a Constituição de 1824.

Tratava-se de construção do publicista francês Benjamin Constant,


o qual sustentava a existência de um quarto poder, neutro, detido pelo
rei e de caráter supremo que pudesse estar fora da estrutura dos outros
três poderes, de forma a mediar os conflitos entre cada um dos demais,
fazendo-os tornar a seus devidos limites de atuação e assim equilibrando
o exercício do poder no interior do país.25 Contudo, nem mesmo a lição
do mestre francês fora seguida à risca no Brasil: em vez de um quarto
24 – Constituição Portuguesa de 1822 – art. 10: “Estes poderes são legislativo, executivo,
e judicial. O primeiro reside nas Cortes com dependência da sanção do Rei (art. 110, 111
e 112.). O segundo está no Rei e nos Secretários de Estado, que o exercitam debaixo da
autoridade do mesmo Rei. O terceiro está nos Juízes.”
25 – CONSTANT, Benjamin. Cours de politique constitutionnelle. 3. �����������������������
ed. Bruxelles: Soci-
étés Belges de Librairie, 1837, p. 1.

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em terras brasileiras

poder externo aos outros três, o Poder Neutro e Supremo (denominado,


no Brasil, Poder Moderador) fora fundido, na figura do Imperador, com a
chefia do Poder Executivo.26 Esta característica demonstra um elemento
mais conservador e centralizador de poderes nas mãos do monarca que
nas cortes liberais de Cádiz. A elevação do Poder Moderador à dignidade
constitucional foi, certamente, um apanágio do liberalismo conservador
brasileiro, não encontrado nem mesmo nas Constituições Francesas, país
de onde nos veio a doutrina de Benjamin Constant.

Deve-se salientar também que, tanto na Constituição espanhola como


na brasileira, procurou-se cercar de garantias o Poder Judiciário, a fim de
salvaguardar o cumprimento de suas funções sem interferência do Exe-
cutivo, como fora tão corriqueiro no Antigo Regime. Afiançava-se, por
exemplo, a inamovibilidade dos juízes (art. 252 da espanhola e art. 153
da brasileira), com possibilidade de queixa ao Rei ou ao Imperador con-
tra o proceder judicial, os quais deveriam ouvir seu Conselho de Estado
antes de suspender um determinado magistrado. É interessante notar que
o procedimento de queixa ao chefe do Executivo era muito similar em
ambas as Constituições, o que indica uma influência direta da Pepa sobre
a Constituição brasileira neste ponto.27 Também somente por sentença
poderiam ser depostos (art. 252 da espanhola e art. 155 da brasileira), e
nenhuma autoridade podia avocar as causas pendentes, nem reabrir os
processos já findos (art. 243 da espanhola e art. 179, XII da brasileira).

26 – Na lição do mesmo Benjamin Constant, tal configuração de acúmulo do poder mo-


derador (por ele chamado “poder real”) com o executivo, não poderia conduzir senão ao
despotismo. Ibidem, p. 2.
27 – Para a comparação, reproduzimos aqui os textos de ambas as Constituições:
Artículo 253.- Si al Rey llegaren quejas contra algún magistrado, y formado expediente,
parecieren fundadas, podrá, oído el consejo de Estado, suspenderle, haciendo pasar inme-
diatamente el expediente al Supremo Tribunal de Justicia, para que juzgue con arreglo a
las leyes.
Art. 154. O Imperador poderá suspendel-os por queixas contra elles feitas, precedendo
audiencia dos mesmos Juizes, informação necessaria, e ouvido o Conselho de Estado.
Os papeis, que lhes são concernentes, serão remettidos á Relação do respectivo Districto,
para proceder na fórma da Lei.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011 215


Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira

4.3 Monarquia constitucional


O movimento constitucionalista e liberal na península ibérica não
redundou na dispensa da monarquia para a assunção de uma Repúbli-
ca. O liberalismo que vingou, seja na Espanha, Portugal ou Brasil, foi
de cariz moderado ou conservador. A nação queria o rei: mas este deve-
ria jurar uma Constituição. Embora
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alguns grupos mais radicais e mi-
noritários pudessem pensar em uma República, as correntes majoritárias
mantinham-se em torno da monarquia (não só como decorrente da cultura
política ibérica, mas também da eventual retaliação que a implantação de
uma República poderia desencadear por parte dos demais países membros
da Santa Aliança). Mas certamente se objetivava reduzir as prerrogativas
da aristocracia e da casa reinante, afirmando que todo o poder, inclusive
o real, provinha da Nação.

Deve-se também perceber a tendência de realizar uma harmonização


entre a história das nações ibéricas e a novidade do constitucionalismo
monárquico que se afirma. Intenta-se, com isto, conferir uma roupagem
menos radical à proposta de um poder fundado na nação, a qual teria dele-
gado, desde as monarquias da Idade Média, poderes ao monarca para ser
seu representante. Tratava-se de uma tentativa, por parte dos liberais, de
justificar premissas estrangeiras como sendo enraizadas nas melhores tra-
dições constitucionais ibéricas, de forma que pudesse ser mais palatável
ao gosto dos conservadores presentes nas Cortes.28 Percebe-se esta ten-
tativa tanto em Espanha29 como em Portugal30, quando intentam recorrer

28 – SUÁNZES-CARPEGNA, Joaquín Varela. La Constitución de Cádiz y el Liberalis-


mo Español del Siglo XIX. Revista de las Cortes Generales, n. 10, 1987.
29 – Ver, para uma síntese da tentativa de interpretar a monarquia medieval espanhola
como uma escolha da soberania nacional, ou seja, uma delegação de poder da nação ao
monarca, MUÑOZ, Manuel Ferrer. La Constitución de Cádiz y su aplicación en la Nueva
España. México, D.F.: Instituto de Investigaciones Jurídicas, 1993, pp. 49-52.
30 – Perceba-se a ênfase que o Manifesto dos Revoltosos Portuenses coloca no fato de
que foram os portugueses que sempre deram o trono aos seus monarcas: “Os portuguezes
deram o throno em 1139 ao seu primeiro inclito monarcha e fizeram nas côrtes de La-
mego as primeiras leis fundamentais da monarchia. Os portuguezes deram o throno em
1385 a el-rei D. João I, e lhe impozeram algumas condições, que elle aceitou e guardou.
Os portuguezes deram o throno em 1640 ao senhor D. João IV, que também respeitou e
guardou religiosamente os fóros e liberdades da nação. Os portuguezes tiveram sempre

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¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

a situações políticas medievais, relendo-as à luz do liberalismo constitu-


cional vigente nos albores do século XIX. Segundo estas posturas, a for-
mação histórica do povo espanhol e português já consagraria uma espécie
de monarquia constitucional avant garde, a qual seria apenas restaurada
pelas Cortes constituintes do século XIX.

O rei e a religião católica, em união íntima de trono e altar, conti-


nuavam a ser símbolos da unidade nacional. Por isso, estas instituições
não foram rechaçadas, como se fez por ocasião da Revolução Francesa.
O liberalismo ibérico foi marcado por esta peculiaridade, em oposição ao
francês revolucionário: intentava ser liberal, mas com Deus e Rei.

4.4 A religião oficial


A manutenção da religião católico-romana era uma preocupação
constante do constitucionalismo ibérico, tanto na Espanha como em Por-
tugal e no Brasil. Desde os primórdios do movimento liberal do Porto, a
“sagrada religião catholica romana” figurava como programa de governo
a ser cumprido pelos revoltosos, sendo inclusive inserido no juramento da
Junta Provisional do Governo Supremo do Reino.31

A Pepa estabelecia o catolicismo romano como religião oficial do


Estado, proibindo o exercício de qualquer outra religião que não a católi-
ca (art. 12). Em terras brasileiras, parece ser que a semente da tolerância
religiosa caiu com mais vigor: a Constituição de 1824, embora estatuindo
que a religião católica continuaria a ser a religião do Império, permitia os
cultos de outras religiões, desde que domésticos ou particulares, em casas
para isso destinadas e sem aparência externa de templo. Assegurava-se

côrtes até 1698, nas quaes se tratavam os mais importantes negócios relativos á política,
legislação e fazenda; e n’este período, que abrange a mais de cinco seculos, os portugue-
zes se elevaram ao cume da gloria e da grandeza, e se fizeram acredores do distincto logar
que, a despeito da inveja e da parcialidade, hão de sempre occupar na historia dos povos
europeus. O que hoje, pois, querem e desejam não é uma innovação é a restituição de suas
antigas e saudaveis instituições, corrigidas e applicadas segundo as luzes do seculo e as
circumstancias politicas do mundo civilizado [...]” CÂMARA DOS SENHORES DEPU-
TADOS DA NAÇÃO PORTUGUESA, op. cit., p. 123.
31 – Ibidem, p. 8.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011 217


Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira

a hegemonia da religião da esmagadora maioria da população, mas sem


impedir de forma cabal a prática de outros cultos religiosos.

Deve-se salientar esta peculiaridade do constitucionalismo ibérico:


as hostes liberais avançaram um projeto que, em seu julgamento, repre-
sentava um processo de modernização da península. Contudo, neste cami-
nho, tiveram de fazer concessões aos conservadores. A questão religiosa
talvez seja a mais emblemática delas. Não se deve imaginar que os libe-
rais concordassem com tal restrição à liberdade religiosa (especialmente
os que participavam de círculos maçons, que aceitavam em suas fileiras
homens de tradições religiosas diferentes, desde que subscrevessem uma
crença difusa em um ente superior).

Cederam os liberais neste ponto para não verem suas posições der-
rotadas em outros temas, uma vez que não apenas as Cortes Constituintes
possuíam entre seus deputados grande numero de clérigos, mas também
o povo era majoritariamente católico, não raro de tendência mais conser-
vadora. Na Pepa, mais que na Constituição brasileira de 1824, observa-se
tal fato com maior clareza na proibição do exercício de outras religiões
que não o catolicismo romano.

É bem verdade que, mesmo na fórmula brasileira, não se está dian-


te do fenômeno a que hoje denominamos, nas democracias ocidentais,
direito fundamental de liberdade religiosa, em que a vivência do plura-
lismo religioso é vista como um valor democrático. No caso espanhol,
reafirma-se a religião católica como elemento de unidade nacional, mas
em detrimento do exercício de qualquer outra religião. No Brasil, ao re-
vés, está-se diante da aplicação do conceito de tolerância religiosa: há
uma única religião oficial, que participa das cerimônias públicas e rece-
be subvenção estatal, mas se tolera, como uma espécie de mal menor, o
exercício privado de outras religiões. O pluralismo não é desejado; é, tão
somente, tolerado.

Outro traço interessante em comum, quanto ao aspecto religioso,


refere-se ao fato de que, embora alguns liberais tenham pugnando por um

218 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011


¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

preâmbulo que se referisse a um Ser Supremo em termos mais genéricos


e não confessionais (como o próprio Projeto brasileiro de 1823, que fala
apenas em “Sabedoria Divina”), em ambas as Constituições o preâmbulo
faz menção à doutrina católica da Trindade: na Espanha, “Dios todopo-
deroso, Padre, Hijo y Espíritu Santo autor y supremo legislador de la
sociedad”; no Brasil e em Portugal, inicia-se a Constituição “Em nome
da Santíssima Trindade”.

4.5 Direito natural racionalista


Uma das características marcantes e idêntica a todos os movimentos
constitucionalistas europeus foi a consagração em textos constitucionais
de certos direitos civis e políticos básicos aos cidadãos, direitos estes que
seriam subtraídos aos caprichos do monarca reinante. Não à toa, a Decla-
ração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão afirma, em seu art.
15, que “toda sociedade em que a garantia dos direitos não é assegurada,
nem a separação dos poderes determinada, não tem Constituição”.

Neste particular, percebe-se que a Constituição brasileira seguiu


mais de perto o modelo português de 1822 de consagração de um rol de
direitos e garantias básicos que deveriam ser afiançados a todo cidadão. A
inspiração, seja em Portugal ou no Brasil, é inequívoca: a Declaração de
Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Na experiência gaditana, ao
contrário, esta solução não foi seguida. Uma possível explicação para isto
nos é fornecida por Joaquín Varela Suanzes-Carpegna: o momento políti-
co vivido pelos espanhóis quando da confecção da Constituição de Cádiz
de 1812 era de resistência à ocupação francesa. Assim, rechaçou-se a lista
de direitos garantida pela Declaração francesa para se evitar uma acusa-
ção de “francesismo”, não obstante os direitos civis e políticos hajam sido
garantidos de forma difusa ao longo do texto constitucional.32

Apesar dessa característica, a Constituição de Cádiz de 1812 trazia


uma espécie de cláusula geral de proteção, ao estabelecer em seu art.
4º que a nação estava “obligada a conservar y proteger por leyes sabias

32 – SUÁNZES-CARPEGNA, Joaquín Varela, op. cit.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011 219


Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira

y justas la libertad civil, la propiedad, y los demás derechos legítimos


de todos los individuos que la componen”. De modo esparso, podemos
encontrar garantias individuais, como o direito ao juiz natural predeter-
minado por lei (art. 247), o direito de habeas corpus (art. 287 combinado
com arts. 290, 293 e 300), o direito de ser preso somente mediante ordem
escrita judicial (art. 287), o direito à fiança (art. 296), à salubridade das
prisões (art. 297), a vedação aos tormentos y apremios e ao confisco de
bens (arts. 303 e 304), a intranscendentalidade da pena em relação à pes-
soa do condenado (art. 305), o direito à inviolabilidade domiciliar (art.
306), a liberdade de expressão e imprensa (art. 371) e a igualdade dos
espanhóis perante a lei (arts. 8, 248, 258 e 339).

No Brasil, o rol de garantias individuais estende-se pelos 35 inci-


sos do art. 179, o qual se insere no Título “Das Disposições Geraes, e
Garantias dos Direitos Civis e Politicos”. Aqui ressaltamos aqueles que
possuem redação muito similar àquela do texto espanhol: a necessidade
de contribuir, sem distinção alguma, para os gastos do Estado em pro-
porção a seus haveres (art. 8 da espanhola e art. 179, XV da brasileira); a
liberdade de expressão e imprensa (art. 371 da espanhola e art. 179, IV da
brasileira); a vedação aos juízos ad hoc, devendo os cidadãos ser julgados
pela autoridade competente estabelecida em lei anterior ao fato (art. 247
da espanhola e art. 179, XI da brasileira); a possibilidade de prestação de
fiança para soltura do acusado (arts. 295 e 296 da espanhola e art. 179,
IX da brasileira); direito à salubridade das prisões (art. 297 da espanhola
e art. 179, XXI da brasileira), direito a somente ser preso mediante de-
claração por escrito da autoridade competente, com indicação dos acusa-
dores e testemunhas (arts. 287, 300 e 301 da espanhola e art. 179, VIII
e X da brasileira); a abolição da tortura e tratamentos cruéis (art. 303 da
espanhola e art. 179, XIX da brasileira); intranscendentalidade da pena e
abolição dos confiscos de bens (arts. 304 e 305 da espanhola e art. 179,
XX da brasileira).

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¡VIVA LA PEPA!: A história não contada da Constitución Española de 1812
em terras brasileiras

5. Conclusão
Como conclusão deste artigo, pode-se dizer que a Constituição de
Cádiz de 1812 era conhecida no Brasil, chegando a neste ser aplicada
fugazmente. Uma série de fatos históricos documentados, dentre os quais
um aqui foi narrado, demonstra que a influência do texto da Pepa foi mais
direta do que uma mera comunhão de ideais. Deve-se reconhecer também
um influxo da Constituição Espanhola na Constituição brasileira de 1824
por via reflexa, ou seja, por meio da Constituição Portuguesa de 1822,
diretamente influenciada pelo texto gaditano e guardando ainda mais se-
melhanças com o texto espanhol.33

A comparação de certas características comuns, bem como de al-


guns textos muito similares, põe em relevo que, em alguns pontos, houve
aproveitamento no Brasil do próprio texto da Constituição Espanhola,
ou mesmo do modo compromissório de conjugar ideário liberal e con-
servador, como fica claro na questão sobre a manutenção da monarquia
e do catolicismo como religião oficial. Estas duas questões apontam uma
linha comum do constitucionalismo ibérico, mas é imprescindível indicar
que, se podemos falar de um constitucionalismo ibérico, esta experiência
iniciou sua maturação nas Cortes de Cádiz e mesmo na movimentação
liberal que as precederam. Portugal e Brasil seguiram a vaga liberal e per-
cebe-se, tanto na Constituição Portuguesa de 1822 como na Constituição
Brasileira de 1824, que os acontecimentos em Espanha estavam bastante
presentes nas mentes dos constituintes lusos e brasileiros.

33 – “Qual a ressonância, na época, das Cortes de Cádiz no Portugal peninsular, não só


entre liberais, como, por oposição, entre os conservadores? Este aspecto é tanto mais
importante quanto depois da revolução de 24 de Agosto de 1820 a Constituição de Cá-
diz (1912) [sic] parece familiar a figuras lusitanas influentes e ganha predominância na
mente dos legisladores portugueses filhos da revolução e logo depois deputados às Cons-
tituintes de 1821-22. [...] as primeiras eleições portuguesas em 1820 fizeram-se conforme
o modelo propugnado pela Constituição de Cádiz de 1812. Além disso, a Constituição
de 1822, elaborada pelos constituintes de Lisboa, é fortemente influenciada pelo mesmo
texto espanhol. Basta lembrar que as duas Leis Fundamentais proclamam a soberania da
nação, a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial, e outorgam um conjunto
de liberdades, entre as quais figura a liberdade de imprensa. Demais, cerceiam o poder do
monarca, concentram o grosso dos poderes numa assembleia, fomentando o parlamenta-
rismo”. RAMOS, Luís A. de Oliveira, op. cit., pp. 416-417.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011 221


Vicente de Paulo Barretto e Vítor Pimentel Pereira

Da perspectiva das ideias que inspiraram o movimento constitucio-


nalista brasileiro, inegável pensar que não somente as ideias francesas,
mas também a leitura feita destas ideias pelos deputados constituintes
em Cádiz, bem como os portugueses, diretamente influenciados pelo tex-
to gaditano, ajudaram a plasmar uma Constituição em parte liberal, em
parte conservadora. É importante perceber que o modelo constitucional
adotado no Brasil seguiu de perto as diretrizes fundamentais do projeto
espanhol: a elaboração de uma Constituição escrita e formal, garantia de
direitos civis e políticos, separação e limitação de poderes, mas tudo isto
devidamente acompanhado da mantença de características conservadoras
como a monarquia e a religião católica. Impossível, assim, negar que a
Constituição Espanhola, cuja influência é frequentemente olvidada nos
livros nacionais de História e Direito, assumiu um papel fundamental no
primeiro constitucionalismo brasileiro de 1820. Essa a história que pre-
tendemos tornar patente durante este artigo e que deve ser resgatada para
a compreensão de uma teoria de constitucionalismo ibérico com caracte-
res comuns não só entre Espanha e Portugal, mas que afetou fortemente
as ex-colônias espanholas e portuguesa deste lado do Atlântico.

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222 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):201-223, jul./set. 2011


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Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

A administração da justiça nas primeiras décadas


do Império do Brasil: instituições, conflitos
de jurisdições e ordem pública (c. 1823-1850)
The administration of justice during the first
decades of Brazilian Empire: institutions, conflicts
over jurisdiction and the public order (c. 1823-1850)
Andréa Slemian 1

Resumo: Abstract:
O artigo discute a administração da justiça na This paper discusses the administration of
primeira metade do século XIX no Império do justice in the Brazilian Empire during the first
Brasil a partir da análise da divisão entre os decade of the Nineteenth century, based on the
novos poderes políticos constitucionais, e dos analysis of the division between the new con-
problemas que envolveram a criação e funcio- stitutional, political powers and the problems
namento de cargos e instituições vinculados ao involving the creation and operation of offices
judiciário. Entre eles, os vários e recorrentes and institutions linked to the Judiciary. Among
conflitos de jurisdição, a amplitude de questões the latter, the various and recurring conflicts of
circunscritas na pasta da Justiça, o controle e jurisdiction, the wide range of issues circum-
manutenção da ordem pública – com a imbri- scribed within the Office of Justice, the control
cação entre as funções judiciárias e policiais, e and maintenance of public order – with the inti-
a utilização de força armada por parte de seus mate relationship between legal and police ac-
agentes. Defendemos que os impasses na imple- tions and the use of armed forces by their agents.
mentação de um modelo liberal de justiça – que In our view, the impasses on the implementation
previa, ao mesmo tempo, sua independência e of a liberal model of justice – that at the same
controle dos magistrados e tribunais –, devem time anticipated its independence and the con-
ser vistos à luz da manutenção do funcionamen- trol of magistrates and courts of law – would
to de uma cultura jurisdicional, bem como dian- demonstrate that operation of the legal culture
te da complexificação das ações para aplicação should be maintained, due to the complexity of
da lei pelos agentes da justiça. actions concerning the application of the law by
legal agents.
Palavras-chave: Império, Justiça, instituições, Keywords: Empire – Justice – Institutions -
Direito. Law.

1. Introdução
Desde meados do século XVIII é possível observar, em todo mundo
ocidental, a difusão de um programa ilustrado racionalizador das insti-
tuições e dos próprios indivíduos, aliado a uma política generalizada de
reforma nas ações dos governos (tanto no Velho como no Novo Mundo),
1 – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. Professora Adjunta da
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):225-272, jul./set. 2011 225


Andréa Slemian

fruto de uma profunda transformação nas estruturais culturais e mentais, e


igualmente base para uma série de movimentos políticos que pretendiam
instaurar uma nova ordem política2. Do ponto de vista do direito, a univer-
salidade dos seus princípios como um campo per si supranacional seria
valorizada pelos ilustrados e por suas reformas – como se vê na própria
Lei da Boa Razão, de 1769, em Portugal, que previa a incorporação das
leis das “nações cultas e polidas”3 –, ainda que ganhasse especial sistema-
tização o campo de “direito pátrio” no que se tratava do reconhecimento
da necessidade de uma maior pragmática na sua aplicação às realidades
locais4. Isso porque, o pomo da crítica ilustrada ao direito voltava-se à
predominância dos tradicionais intérpretes e glosadores do direito (cuja
origem remontava à Baixa Idade Média), bem como do direito romano,
em nome de uma racionalização e organização das fontes, simplificação
dos procedimentos da justiça e maior transparência nas ações dos seus
agentes. Nesse sentido, as leis e normas, que acabavam por desempenhar
um papel secundário numa tradição em que se valorizava a capacidade de
sua aplicação pelo jurista a depender do contexto, ganhariam a partir de
agora um papel central na projeção de um novo ordenamento social e dos
critérios de estabelecimento dos limites entre a legalidade/ilegalidade5.

Nesse caso, a ideia de projeção não é mera metáfora. Partimos da


concepção de que se viveu, no período analisado, uma ruptura na percep-
ção de tempo – ou se quisermos usar os termos de François Hartog, do seu

2 – Reinhardt Koselleck, Crítica e crise. Uma contribuição à patogênese do mundo bur-


guês, Rio de Janeiro: Eduerj/Contraponto, 1999.
3 – Ana Cristina de Araújo (coord.). O Marquês de Pombal e a Universidade, Coimbra,
Imprensa da Universidade, 2002.
4 – É fato que já era existente um campo de direito pátrio na Idade Moderna na tradição
do ius comune europeu, conforme analisa Italo Birocchi, “La formazione dei diritti patri
nell´Europa Moderna tra política dei sovrani e pensiero giuspolitico, prassi ed insegna-
mento”. Il Diritto Pátrio tra Diritto comune e codificazione (secoli XVI-XIX). Roma:
����������
Vie-
lla, 2006, pp. 17-71.
5 – Antonio Manuel Hespanha, Panorama histórico da cultura jurídica européia, Mem
Martins, Publicações Europa-América, 1998; sobre as formas anteriores do funcionamen-
to administrativo, ver: “Um autre paradigme d´administration: la Cour en Europe du Sud
à l´époque moderne”. Die Anfänge der Verwaltung der Europäischen Gemeinschaft (Les
débuts de l´administration de la Communauté européene), Baden Baden, Nomos Verlags-
gesellschaft, 1992, pp. 271-292.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

regime de historicidade6 – cujas repercussões podem ser também pen-


sadas ao nível das suas instituições. Tratando de estruturas mentais, sua
principal transformação implicou a crise da concepção de que o passado
poderia informar o porvir – ou seja, da dificuldade em se guiar apenas
pela Historia magistra est, a “história como mestra da vida” – à medida
que se gestava o futuro como um horizonte de possibilidades ainda não
vividas, base para construção de alternativas à ordem política vigente que
passou a ser comumente chamada de Antigo Regime7. As instituições de
direito então teriam um papel fundamental pois que se tratava de norma-
lizar, racionalizar e estabelecer, sobretudo por meio da valorização da
criação legislativa, um ordenamento a ser ainda realizado sobretudo pelos
novos regimes representativos8. Pode-se afirmar que aí assentou-se um
dos pilares de uma verdadeira crença, e mesmo utopia, liberal de que a
racionalização das formas de funcionamento dos governos poderia aten-
der aos interesses dos indivíduos na composição de uma sociedade que
igualasse os homens perante a lei, de acordo com as proposições de Pierre
Rosanvallon9.

No campo do direito, o que melhor expressaria essa mudança de


paradigma seria a importância que a criação de novas constituições ga-
nhariam a partir de fins do XVIII – como instrumento de projeção da ga-
rantia dos direitos dos cidadãos –, e a codificação como a mais completa

6 – François Hartog, “Tempo, história e a escrita da História: a ordem do tempo”. Revista


de História, USP, 148 (1o. sem. 2003), pp. 9-34.
7 – Que é o que define a modernidade em termos koselleckianos, a percepção da “ace-
leração do tempo” como experiência de ruptura em relação ao passado. Ver: R. Koselle-
ck, Futuro Passado. Para uma semántica de los tiempos históricos, Barcelona, Paidós,
1993.
8 – Uma das evidências mais contundentes desse processo está na própria mudança
de significado do termo Constituição, que, vinculado, até o século XVIII, ao sentido de
“domínio”, passava a significar uma projeção para um regime de governo. Ver: Dieter
Grimm, “Verfassung”. In: R. Koselleck (et. alii.) (orgs.). Geschichtliche Grundbegriffe.
Historisches Lexikon zur politisch-sozialen Sprache in Deutschland. Stuttgart,
���������������������
Klett-Cot-
ta, 1984, v.6, pp. 831-898.
9 – Pierre Rosanvallon, em O liberalismo econômico: história da ideia de mercado,
Bauru, EDUSC, 2002, discute como o liberalismo nasceu sem dissociação entre economia
e política, tendo como substrato filosófico (no caso de Adam Smith) uma utopia de que
todos os homens pudessem ser igualados na esfera do “mercado”.

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Andréa Slemian

síntese de positivação dos seus princípios. Se anteriormente os códigos


eram pensados como forma de organização da legislação sobre determi-
nada temática, eles assumiriam, sobretudo no Oitocentos, definitivamente
seu papel como fonte de direito10: a norma produzida por meio da ação
do legislador – imbuído de amplos poderes – passaria a determinar a le-
gitimidade do que seria direito, e não o contrário11. Sua implementação
previa um ataque à magistratura, o que foi especialmente contundente
nos casos das monarquias continentais e, em função da herança comum,
aos regimes ibero-americanos12: nessa concepção, deveriam os juízes e
magistrados aplicar a lei a partir da sistematização feita nos códigos e
não mais interpretá-la, função esta que ficava resguardada à supremacia
que se pretendia dar ao legislativo. Concepções que encontrariam terre-
no fértil no processo constitucional português e, consequentemente, no
brasileiro.

No entanto, é óbvio que o sentido de ruptura então vivido, a capaci-


dade de projeção de algo novo e o ideal de normalização das instituições e
seus indivíduos não se desdobrariam automaticamente para outros níveis
da realidade, já que entre norma e práxis existe sempre uma série de me-
diações que demandam análises as quais, no campo da história do direito,
devem ir além do estudo das leis. Nesse sentido, o que consideramos
ser especialmente relevante é que, sobretudo ao longo do século XIX, a
aparentemente simples mensagem iluminista da legalidade, ou seja, do
padrão de que o direito para ser válido deveria estar consolidado na lei,

10 – Bartolomé Clavero, Código como fuente de Derecho y desagüe de Constitution en


Europa. Revista Española de Derecho Constitucional, Madri, 2000, n.60, p. 11-43. Antó-
nio Manuel Hespanha, Panorama histórico da cultura jurídica européia, Mem Martins,
Publicações Europa-América, 1998.
11 – Matriz mimetizada sobretudo pela experiência revolucionária francesa a partir da
primazia adquirida pelas novas assembleias representativas que rompiam tanto com a
centralidade do monarca na produção das leis, perseguida pelas reformas ilustradas do
século XVIII, quanto com a tradição anglo-saxônica dos direitos concebidos como pré-
existentes. Maurizio Fioravanti, Los derechos fundamentales. Apuntes de Historia de las
constituciones, Madri, Trotta, 1998.
12 – José Reinaldo de Lima Lopes, Conferência de encerramento do Colóquio Internacio-
nal A experiência constitucional de Cádiz. Espanha, Portugal e Brasil, Universidade de
São Paulo, outubro/2010.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

complica-se na própria realização de sua sistemática13. Trata-se de uma


complexificação inerente ao próprio e novo paradigma constitucional, em
que a aplicação da justiça e funcionamento de suas instituições teriam
particularidades na circunscrição de sua jurisdição em relação a suas am-
plas e antigas atribuições.

Tradicionalmente a esfera da justiça era identificada, na Europa con-


tinental, com as próprias monarquias em função do padrão de organiza-
ção de poder em que o rei era entendido, numa acepção jurisdicionalista,
como seu grande provedor aos povos. O que se desdobrava institucional-
mente nas atribuições que o monarca concedia aos seus servidores – que
possuíam direito de resolução de conflitos, ou seja, ação contenciosa – e
na multiplicidade de agentes e jurisdições que se imbricavam como pode-
res superpostos e concorrenciais14. Os magistrados, em especial, tinham
um papel preponderante em questões que hoje consideraríamos como po-
líticas ou de Estado já que a distinção entre a administração e a justiça
era inexistente nessa lógica. Era sobretudo a ela que a agenda ilustrada
setecentista voltaria suas críticas, e que os regimes constitucionais dariam
continuidade ao tentarem estabelecer um novo padrão de controle para o
novo poder judiciário.

Aqui chegamos ao foco de nosso problema: o da construção da es-


fera da justiça no regime representativo brasileiro tendo em vista o pro-
cesso de ruptura geral nos paradigmas do direito e a complexificação no
padrão de aplicação da lei construído no século XIX, e consequentemente
na relação entre norma e prática, em todo mundo ocidental15. No Brasil,
13 – Massimo Meccarelli, Il diritto giurisprudenziale nelle strategie discorsive della
scienza giuridica in Europa tra Otto e Novecento, Texto apresentado no IV Congresso
Brasileiro de História do Direito, setembro/2009, Faculdade de Direito, Universidade de
São Paulo.
14 – Características gerais comumente invocadas para se identificar o Antigo Regime,
ver: Antonio Manuel Hespanha (coord.). O Antigo Regime. Lisboa, Lexi Cultural, 2002
(v. VII Coleção História de Portugal, dir. por José Mattoso).
15 – Nesse sentido, são extremamente eloquentes as proposições de Niklas Luhmann,
Observaciones de la modernidad. Racionalidad y contingência em la sociedad moderna,
Barcelona, Paidós, 1997. Ver a leitura de Giorgio Rebuffa, “Niklas Luhmann e il diritto
positivo”, Materiali per la storia della cultura giuridca, n.1, ano IX, giugno 1979, pp.
253-268, para utilização das proposições de Luhmann no direito.

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Andréa Slemian

seu início corresponde exatamente ao período da Independência, e sua


problemática remonta à própria tradição jurisdicional da monarquia por-
tuguesa que, a despeito de ter sido alvo de poderosas críticas desde fins do
século XVIII, além de negada pelos movimentos constitucionais que se
seguiram em Portugal e seus antigos domínios, ainda alimentaria práticas
cotidianas de suas instituições.

Nos seus primeiros anos, o Império do Brasil, antes mesmo de sua


consolidação como nova unidade política, promoveria uma série de cria-
ções institucionais no campo da administração da justiça, as quais foram
alimentadas pela crítica generalizada à magistratura, também identificada
com o passado português que se pretendia negar como “absolutista” e
“despótico”, e pelos ideais de separação de poderes nos regimes represen-
tativos16. É fato que foi a primeira instância, sobretudo, seu campo de maior
experimentação. Assim seriam criados os juízes de paz (1827), aprovados
os Códigos Criminal (1830) e o do Processo Criminal (1832) – este último
fortalecendo os juízes eletivos e também o júri, ou jurados –, bem como
um esforço ordenador de respeito à agenda liberal dos direitos dos indi-
víduos (no que tocava à propriedade e as garantias para prisão e acusação
apenas com culpa formada), mimetizado pela ação do recém-instituído
Supremo Tribunal de Justiça (1828) que seria, sobretudo, numa instância
recursal das contendas dos indivíduos entre si.

A própria pasta da Justiça, que se formaria após a Independência, tra-


ria fortes marcas de nascença: por um lado, pela tentativa de circunscri-
ção da esfera da justiça separada da administração, desde a alta cúpula; de
outro, pelas ações que estariam debaixo de sua jurisdição, as quais inclu-
íam, para além dos conflitos ordinários, a manutenção da ordem pública
em função do poder de policiamento das autoridades judiciárias (veja-se
que a Guarda Nacional seria criada sob sua jurisdição), incluindo também
16 – Andréa Slemian, “O Supremo Tribunal de Justiça nos primórdios do Império do
Brasil In: Lopes, J. R. O Supremo Tribunal de Justiça do Império, 1828-1889. São Paulo:
Saraiva, 2010, pp. 19-61; J. R. Lopes, “Governo misto e abolição de privilégios: criando o
Judiciário Imperial”. In: C. Oliveira/V. Bittencourt/ W. Costa. Soberania e conflito. Con-
figurações do Estado nacional no Brasil do século XIX. São Paulo: Hucitec/Fapesp, pp.
149-184.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

questões eclesiásticas, o que se relacionava com o amplo espectro das tra-


dicionais autoridades judiciárias até então17. Da mesma forma, o padrão
da cultura jurisdicional de matriz portuguesa se faria presente no funcio-
namento das novas instituições, em especial no que dizia respeito à ação
contenciosa das autoridades e na impossibilidade de se estabelecer uma
independência cotidiana de seus agentes, bem como pela manutenção de
um princípio de legalidade que pressupunha muito mais a confirmação da
ancestralidade das leis do que sua negação. Mas não se tratavam de meras
continuidades, pois que a necessidade de que as soluções atendessem ao
que fosse estabelecido por lei, tornavam ainda mais complicada a tarefa
de seu arbitramento, e portanto a relação entre norma e práxis.

Tendo em vista esse problema, nos centramos aqui nas primeiras e


difíceis décadas de consolidação da ordem imperial no Brasil. Do que
apresentaremos a seguir, fica evidente que, correspondente ao momento
de maior radicalização política dos últimos anos do Primeiro Reinado e
Regência, deu-se a criação de instituições de justiça mais afeitas a um
maior controle sobre a justiça e desconfiança em relação aos magistrados
de carreira, por meio da aposta nos juízes leigos e nos jurados, e na pró-
pria formação da Guarda Nacional. No entanto, mesmo que esse projeto
tenha perdido sua força desde meados dos anos 30, sendo em parte derro-
tado pela Reforma do Código do Processo em 1841, e pela própria Lei de
Interpretação do Ato Adicional (1840), ele já lançava a base do que seria
um dos maiores problemas em relação à consolidação da justiça e dos
seus agentes como independentes: a junção entre atribuições judiciais e
policiais, favorecendo o envolvimento dos mesmos nas lutas locais com a
delegação de uso de força armada aos mesmos poderes (o que incluía seus
interesses privados). Nesse ponto, as reformas previstas no funcionamen-
to da justiça feitas nos anos 40 dificultariam ainda mais a separação entre
17 – Ver, como exemplo, o amplo espectro de atividades desenvolvidas pela Intendência
Geral de Polícia, Andréa Slemian, Vida política em tempo de crise. Rio de Janeiro: 1808-
1824, São Paulo: Hucitec, 2006; também o funcionamento dos antigos tribunais, em Arno
e Maria José Wehling, Direito e justiça no Brasil colonial: o Tribunal da Relação do Rio
de Janeiro (1751-1808). Rio de Janeiro/São Paulo/Recife: Renovar, 2004; e Guilherme
Pereira das Neves, E receberá mercê. A Mesa de Consciência e Ordens e o clero secular
no Brasil 1808-1828, Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.

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Andréa Slemian

justiça e administração, reforçando o poder policial das suas autoridades,


por mais que previssem uma maior centralização das decisões das con-
tendas no próprio judiciário. A essa altura, a complexidade das ações que
envolviam a justiça e sua prática já havia demonstrado ser uma quimera a
crença iluminista de simplificação das formas de aplicação do direito.

2. A justiça e a aplicação da lei


Na década de 1860, o Supremo Tribunal de Justiça encaminhava
para a Assembleia Legislativa do Império do Brasil uma solicitação: para
que ela fornecesse a “interpretação autêntica” sobre algumas leis, entre
elas, uma dúvida acerca da validade de um artigo das antigas Ordenações
portuguesas do Código Criminal de 183018. Dizia que “várias foram as
opiniões e diversos os arbítrios que se apresentavam na discussão deste
ponto” e que, por fim, o Tribunal se reconhecera “duvidoso”, e seguia o
indicado na lei de sua criação que previa o envio, para a Casa legislativa,
das matérias que sua “experiência” tiver mostrado estarem insuficientes
ou com lacunas visando à resolução mais conveniente19. Apesar de ex-
trapolar o período aqui delimitado, e de não ser incomum que órgãos e
agentes da justiça recorressem a outros poderes, a peça é significativa.
Os próprios ministros do Supremo reconheciam formalmente que não
lhes cabia a interpretação, conforme previsto no arranjo constitucional
imperial que subscrevia, desde o início, ser o judiciário o campo por ex-
celência de aplicação da lei, como forma de controlar excessos de poder
identificados com os magistrados e os antigos tribunais. Referendavam
assim o funcionamento institucional do mesmo órgão que, por mais que
tivesse a preocupação em homogeneizar práticas judiciais, era um tribu-
nal de recursos e nem sequer a última instância durante todo o Império –
vale dizer que o direito à revisão das sentenças era concedido ou não pelo
órgão, mas a decisão final cabia à Relação (segunda instância) para onde
o caso fosse encaminhado – organização esta que seria alvo de críticas,
sobretudo, a partir de meados do século20.
18 – ARQUIVO NACIONAL (AN), Manuscritos, GIFI, 6J 108.
19 – Colleção das Leis do Império do Brasil (CL). Actos do Poder Legislativo. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, lei de 18 de setembro de 1828, artigo 19o.
20 – J. R. Lima Lopes (org.). O Supremo Tribunal de Justiça do Império.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

Mas existia uma outra questão fundamental na base da reivindica-


ção dos ministros do Supremo. Trata-se do problema colocado a partir
da ideia de que a lei poderia, e deveria, ser clara para sua aplicação, sem
maiores intermediários, ainda que fossem estes os representantes da na-
ção. Essa fora a base para a supremacia do novo ideal liberal de codifi-
cação no início do século XIX. No entanto, isso também implicou lidar
com o passado, com as normas e práticas já existentes, e assim estavam
os ministros do Supremo lidando com as antigas Ordenações não sem
dificuldade de clareza na sua aplicação. O fato é que mesmo tendo exis-
tido atitudes mais inovadoras por parte dos novos governos representati-
vos sobre o princípio da legalidade, que pressionavam para modificação
das fontes herdadas dos antigos governos e monarquias, outras tendiam
a confirmá-las21.

No caso do Brasil houve, logo após a Independência, um reconheci-


mento formal da validade da legislação portuguesa como base para fun-
cionamento do Império. O que até poderia ser caracterizado como anta-
gônico, diante da proposta de ruptura com o passado português e de cons-
trução de uma ordem jurídica nacional que caracterizaram esse momento;
mas que merece ser entendido diante da própria dinâmica de moderação
dos regimes de monarquia constitucional que, sobretudo na década de
20, investiriam na transformação política de maneira mais cautelosa, sem
grandes solavancos políticos sociais.

Uma das poucas leis aprovadas pela Assembleia Constituinte insta-


lada no Rio de Janeiro em maio de 1823, e fechada pelo Imperador seis
meses depois, declarava “em vigor a legislação pela qual se regia o Brasil
até 25 de abril de 1821 e bem assim as leis promulgadas pelo Senhor D.
Pedro, como Regente e imperador daquela data em diante”, especifican-
do inclusive quais decretos das Cortes Constituintes de Lisboa deveriam
21 – Esse é um tópico fundamental para Carlos Garriga e Marta Lorente, Cádiz 1812. La
Constitución jurisdicional, Madri: Centro de Estúdios políticos y constitucionales, 2007,
defenderem que o processo constitucional iniciado na Espanha, na década de 1810, teria
sido essencialmente historicista ao manter em funcionamento, não apenas a legislação
anterior, devido ao pouco efeito derrogador praticado, como de toda uma cultura que
mantinha as antigas práticas institucionais.

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continuar a ter validade22. A derrogação não recaía sobre a legislação mais


antiga, mas sobre aquela elaborada no espaço legislativo português, entre
1821 e 1822, contra o qual o projeto de Independência do Brasil se faria,
referendando o funcionamento do sistema jurídico herdado e a preserva-
ção do legitimismo monárquico como fonte de direito. É fato que logo na
primeira década do Brasil independente, em especial, a partir da instala-
ção da Câmara dos Deputados e do Senado a partir de 1826, uma série de
novas leis, instituições e órgãos seriam criados visando à implementação
de um novo arcabouço jurídico constitucional23; mas era exatamente a
partir da implementação de um paradigma legalista que os impasses sur-
giriam.

Um dos problemas que se colocava era de qual direito deveria preva-


lecer na prática dos conflitos. Um exemplo contundente é uma provisão
da Mesa do Desembargo do Paço de 1826, em que um juiz ordinário da
Vila de Paracatu, em Minas Gerias, suplicava a imperial decisão a seu
favor na contestação que fez à escolha do vereador mais velho em função
do critério de antiguidade (comumente usado na tradição portuguesa)24.
Alegava o mesmo juiz ter experiência no cumprimento de outros cargos,
e apesar da decisão reconhecer que por essa razão estava ele respaldado
na Constituição – o artigo 179, título XIV, marcava que todo o cidadão
fosse admitido em cargos públicos “sem outra diferença, que não seja a
dos talentos virtudes” –, ordenava o governo que continuasse valendo o
critério de antiguidade enquanto não se fizessem novos regulamentos para
as Câmaras, denegando a solicitação. Como essa, acabaria por ser comum
determinar-se que, enquanto não se fizesse lei nova, enquanto não se re-
gulasse sobre determinada matéria, continuaria subsistindo o que estava
estabelecido, inclusive, no reconhecido direito das “nações polidas”.

Como garantia de direitos, erros no procedimento dos processos


também passariam a invalidá-los, mesmo quando o caso pudesse ser con-
22 – CL, Actos do Poder Legislativo, lei de 20 de outubro de 1823.
23 – Andréa Slemian, Sob o império das leis. Constituição e unidade nacional na forma-
ção do Brasil (1822-1834), São Paulo: Hucitec, 2009.
24 – Colleção das Decisões do Governo (CDG). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, Ano
de 1826, 23/setembro, p. 104.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

siderado contundente e mesmo evidente. Em 1827, num caso contra o


ex-presidente da província do Pará, José de Araújo Roso, por meio “acu-
sações vagas, já públicas, já particulares, sem que tal agregado pudesse
merecer o nome de processo”, o ministro da Justiça não parecia ter dúvi-
da em invalidá-la como tal e ordenar que se procedesse a uma devassa,
diante de “crimes tão horrorosos” a ele atribuídos25. Mas a justificativa
era especialmente contundente ao defender uma “grande diferença que
mediava o caso em que não havia processo, e no caso em que ele era
errado”, já que neste último poderia ter lugar sua “abolição” e uma nova
feitura do mesmo (como se propunha), enquanto que no primeiro não.
Obviamente, pois que observar as normas da legalidade passava a ser
um princípio a ser perseguido, de início inegociável, mas que criaria suas
próprias contradições.

Uma delas apareceria no caso das revogações, em especial na década


de 40. Como é sabido, com o Ato Adicional e instalação das assembleias
legislativas provinciais em 1834, também era dada a elas a prerrogativa
da produção de leis que, a despeito de terem que ser aprovadas na Corte
do Rio de Janeiro, significava um padrão considerável de autonomia ad-
ministrativa para as mesmas províncias26. Como reação, a Lei de Interpre-
tação do mesmo Ato Adicional, de 12 de maio de 1840, procurava, entre
outras, equacionar quais matérias seriam de competência provincial numa
tentativa de evitar que a produção legislativa das províncias exorbitasse
sua esfera local. No entanto, também afirmava que as leis consideradas
infratoras pelo governo central não se entendiam automaticamente re-
vogadas sem que fossem expressamente extintas por ato do legislativo
geral (artigo 8o). O que gerava distintas aplicações, como se vê nos casos
a seguir que chegaram a ter parecer do Conselho de Estado, na Seção de
Justiça.

Um primeiro tratava de atos promulgados na Assembleia Legislativa


de Alagoas, em 1842, especificamente sobre a aprovação de uma lei, de

25 – Idem, ano de 1827, 30/junho, pp. 159-161.


26 – Miriam Dolnikhoff, O pacto imperial. Origens do federalismo no Brasil. São Paulo:
Globo, 2005.

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Andréa Slemian

18 de abril, em que autorizava o presidente da província a fazer o recruta-


mento para preencher a força de polícia27. Segundo parecer do procurador
da Coroa, a aprovação seria ilegal ao ir contra o Ato Adicional que fixava
serem as respectivas assembleias as responsáveis pela fixação das forças
policiais a partir das informações dos seus respectivos presidentes. O pa-
recer da Seção de Justiça do Conselho de Estado era diverso: argumenta
que nem a Constituição, nem o Ato Adicional teriam sido ofendidos, já
que competia às assembleias regular o corpo policial e “decretar, como
decretou, o respectivo recrutamento, ficando contudo a autorização dada
ao presidente subordinado às regras e procedimentos marcados” na pro-
víncia. Portanto, se o legislativo provincial havia autorizado o presidente
a fixar forças, o ato do presidente perdia, para o governo, seu caráter
ilegal. Olhando hoje, retrospectivamente, o caso parece simples, mas
coube consulta do Conselho de Estado – órgão consultivo e privado do
imperador, conforme já analisado por José Reinaldo Lopes28 – para sua
interpretação.

Num segundo, a Seção ao avaliar, no ano de 1844, os atos legislati-


vos da província de São Paulo, indicava que uma lei provincial, a de 23 de
fevereiro de 1836, seria contrária à da Guarda Nacional; no entanto, como
ela não teria sido ainda revogada, confirmava sua validade29. A Seção
aproveitava para indicar que fossem revogadas todas as leis provinciais
que alterassem a organização, disciplina e forma de nomeação da mesma
Guarda. Outras com o mesmo teor se seguiriam, na década de 40, basea-
das no princípio da legalidade.

No entanto, em uma consulta da mesma Seção de Justiça que viria


à tona anos depois, a complexidade que envolvia tanto a aplicação como
a interpretação da lei aparecia de forma clara. Tratava-se de um caso de

27 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de


Estado. Anos de 1842 a 1846. Bellarmino Braziliense Pessoa de Albuquerque (org.). Rio
de Janeiro: Typographia Nacional, 1877, v.1. Consulta de 21/novembro/1842.
28 – O oráculo de Delfos.O Conselho de Estado no Brasil-Império. São Paulo: Saraiva/
Direito GV, 2010.
29 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 28/novembro/1844, pp. 102-3.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

remoção de serventuários da justiça em que o presidente de província


do Ceará, baseado numa lei aprovada pela Assembleia de 3 de abril de
1835 e posteriormente revogada, os transferiu30. Dois dos conselheiros
votaram que o mesmo presidente teria agido por atos reconhecidamente
ilegais, em função da lei ter sido revogada. Mas o parecer dividiu a Seção.
Bernardo Pereira de Vasconcelos31 – um dos três conselheiros que olhou
o caso juntamente com Honório Hermeto Carneiro Leão32 e Caetano Ma-
ria Lopes Gama33 – teve um entendimento distinto para o caso. O ponto
principal de sua crítica recaía sobre o problema da revogação das leis:
afirmava que a extinção da supracitada lei de 1835, “longe de harmonizar
as leis provinciais com a da Interpretação, como imagina a maioria da Se-
ção, ofendera a lei interpretativa”, pois longe de “simplificar” a legislação
tendia a “emaranha-la mais” ao ser copiada pelas outras províncias34. Seu
argumento é longo e tem como um dos focos a defesa de que com a Lei de
Interpretação de 1840 não se entendiam revogadas todas as leis provin-
ciais – o que seria particular à idéia de uma “lei interpretativa” – as quais
continuariam em vigor até que pudessem ser revogadas por uma “geral”
que não caberia a nenhuma das províncias.

Diante das possíveis leituras da questão, o que é relevante notar para


nossa análise é que a chave ilustrada da lei como base para o direito e dos
juízes subordinados a ela como os aplicadores da lei configurava-se, por-
tanto, de uma complexidade especial. O que não foi um problema apenas
para o Brasil, e nem mesmo essa a única solução constitucional. Para
além dessa solução mimetizada pela experiência francesa, outra havia

30 – Idem. Consulta de 1/outubro/1846.


31 – Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850) ocupou vários cargos no governo im-
perial, entre eles o de deputado nas quatro primeiras legislaturas, o de ministro da Fazen-
da, do Império e da Justiça, o de senador a partir de 1838, e o de conselheiro de Estado.
32 – Honório Hermeto Carneiro Leão (1801-1856), futuro Visconde do Paraná, foi um
dos mais importantes estadistas do Império, tendo sido várias vezes deputado, presidente
de província, senador a partir de 1843, e de conselheiro de Estado.
33 – Caetano Maria Lopes Gama (1795-1864), posteriormente Visconde de Maranguape,
também ocupara diversos cargos no governo imperial, como deputado, ministro e, a partir
de 1839, senador.
34 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado. Anos de 1842 a 1846, p. 203.

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sido representada pela tradição do governo misto norte-americano que


pregara uma maior integração dos juízes no processo, valorizando seu
papel enquanto intérpretes da lei; e outra ainda, que tomou corpo ao lon-
go do XIX, da revalorização da interpretação e crítica aos códigos como
fonte de direito, na linhagem da obra de Savigny35. No caso do Brasil,
o que se vê é que, a despeito da adoção inicial de premissas revolucio-
nárias em relação à justiça, construir-se-ia uma forma igualmente mista
para sua administração, em que não apenas órgãos conservadores como
o Conselho de Estado teriam papel fundamental, como a distribuição de
ação contenciosa para vários outros agentes, selavam, em outros níveis, a
relação intrínseca entre justiça e os cargos executivos, conforme veremos
a seguir. Resta dizer, por hora, que o parecer elaborado por Bernardo Pe-
reira de Vasconcelos para que se evitasse uma ampla revogação das leis
provinciais, com o intuito de se evitar uma maior confusão legislativa e se
valorizar o papel interpretativo do direito vigente, seria aprovado.

3. O desenho da administração da justiça, da polícia e de seus


agentes
Uma das decisões do governo, divulgadas logo após a outorga da
Constituição de 1824, previa que todos os juízes deveriam declarar cir-
cunstanciadamente as razões das sentenças “conforme o liberal sistema
ora abraçado”36. Ou seja, deveriam eles prestar esclarecimentos de seus
atos pelos quais, na lógica do novo regime, poderiam ser responsabiliza-
dos37. Além disso, houve uma clara ação no sentido de declarar a neces-
35 – José Reinaldo de Lima Lopes, O oráculo de Delfos..., p. 66 seg., analisa, faz um
amplo histórico da prática da interpretação, detendo-se na análise do caso para o Império
do Brasil.
36 – CDG, ano de 1824, 31/março/1824, p. 57.
37 – A defesa de que todos os agentes do Estado deveriam ser responsáveis por seus atos
passaria a ser fundamental como ponto de legitimidade aos novos regimes constitucio-
nais. No Brasil, ela entraria na pauta dos trabalhos legislativos logo após a abertura da
Câmara dos Deputados, sendo que uma das propostas para sua efetivação era um projeto
de lei que inclui os delitos e penas para todos empregados em geral. No entanto, também
por razões que envolveram as disputas políticas no Primeiro Reinado, a lei de responsa-
bilidade, aprovada em 15 de outubro de 1827, previa a cobrança da mesma apenas aos
ministros e secretários de Estado. Para o caso dos agentes judiciários, ela estava inscrita
na Constituição (artigo 156) mas não haveria uma lei específica para a mesma, e sim pro-

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

sidade de publicidade das mesmas ações judiciais, sendo que as conside-


radas de “maior interesse” deveriam ser publicadas pelo periódico oficial
do governo, o então Diário Fluminense38. Todas essas ações seriam ali-
mentadas pela nova agenda de direitos invioláveis dos cidadãos, o que
deveria incluir a garantia de que ninguém fosse preso sem culpa formada
e que os procedimentos para a execução dos processos fossem estabeleci-
dos o mais rapidamente39 – o que se cumpriu, ao menos normativamente,
pela aprovação dos códigos que regulavam questões judiciais.

Mas as condições de desenvolvimento da justiça tiveram suas pecu-


liaridades no tocante às continuidades e rupturas. Comecemos pelos seus
agentes imediatos, os juízes. Como se viu acima, a despeito da Cons-
tituição pregar que todos os cidadãos deveriam ser admitidos em car-
gos públicos pelos seus “talentos e virtudes”, o critério de antiguidade
continuaria a valer para progressão na carreira dos juízes, bem como a
acomodação de magistrados à nova ordem. Quando da lei de extinção
dos tribunais das Mesas do Desembargo do Paço e da Consciência e Or-
dens, em 22 de setembro de 1828, previu-se que todos os seus membros
que não fossem empregados, seriam aposentados no Supremo Tribunal
de Justiça “com o tratamento, honras e prerrogativas concedidas aos seus
membros”40. Quanto ao próprio Supremo, a antiguidade seria assegurada
como critério de escolha para seus ministros41.

Além disso, a nomeação e a progressão na carreira dos juízes e ma-


gistrados seriam atribuições do executivo – que também nomeava, de
acordo com a Constituição no seu artigo 102, os demais empregos ci-
vis e políticos. O mesmo valia para remoções e substituições, permitindo
uma significativa ingerência do governo nessas questões. Uma consulta

cedimentos previstos no Código do Processo e em seus regulamentos.


38 – Colleção das decisões do governo. Anno de 1825, 25/novembro/1825, p. 191.
39 – Um decreto de 17 de abril de 1824 (Colleção das decisões do governo. Actos do
Poder Executivo) dava providências sobre como deveria ser o processo nas causas crimes,
subscrevendo que a ordem judicial só poderia ser modificada por um código; outro, de 30
de agosto de 1828, marcava os casos em que se poderia prender sem culpa formada.
40 – CDG, Anno de 1828.
41 – Idem, lei de 28/setembro/1828.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):225-272, jul./set. 2011 239


Andréa Slemian

ao Conselho de Estado, em 1846, sobre contagem de tempo para os juízes


municipais, mostrava os limites em que se chegava nessa dependência:
sendo reconhecidas as dificuldades na regulação de sua função, e mesmo
as condições “precárias” de sua prática, era recorrente aos mesmos juízes
irem à Corte solicitar novos lugares quando estava para findar seu período
no cargo42. É verdade que a vitaliciedade nos cargos de juízes de carreira,
confirmada pela Constituição, seria a princípio uma forma de compensar,
de garantir a liberdade de sua ação na chave liberal da independência da
justiça, diante do cotidiano de disputas políticas em que os mesmos juízes
estavam submetidos.

Uma das marcas da magistratura no Império português, até o movi-


mento constitucional, era a indistinção de funções administrativas e judi-
ciais, típica de uma cultura jurisdicional em que seus agentes possuíam
amplo poder de jurisdição43. E um dos impasses do novo regime seria
exatamente a distinção entre ambos, o que se complicava diante do fato
da carreira continuar a ser uma forma privilegiada de entrada na política
imperial44. Em geral, ela continuaria marcada pela passagem por diversos
cargos na administração e na judicatura, em que além de adquirir experi-
ência, dificilmente se poderia preservar o indivíduo das disputas partidá-
rias, desde as pequenas vilas até as mais altas esferas do governo. Além
disso, havia a compatibilidade entre ocupações exercidas sob a tutela de
poderes distintos, que não apenas o judiciário45.

42 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de


Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 25/06/1846, pp.168-9.
43 – Em pesquisa sobre a Relação no Rio de Janeiro, Arno e Maria José Wehling, op.cit.,
demonstram como era ampla a gama de atribuições dos magistrados no Tribunal que, para
além de sua atividade judicial constante, tratavam de questões políticas (em apoio aos
projetos do governo, e mesmo no sentido de equilibrar as várias autoridades), administra-
tivas, e mesmo de planejamento e execução de políticas públicas.
44 – Andrei Koerner (1998). Judiciário e cidadania na constituição da República brasi-
leira. São Paulo: Hucitec/ Depto. Ciência Política (USP), 1998; e
45 – Questões de (in)compatibilidades foram temas recorrentes nos atos do ministério da
Justiça devido a sua geral aceitação no regime imperial. Um dos pontos recorrentes de
dúvida, dava-se em função dos juízes de paz, função que, em geral, não era considerada
compatível com outros cargos locais. Veja-se como exemplo, Colleção das decisões do
governo. Anno de 1829, 11 e 22 de dezembro.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

Um elemento novo nesse cenário seria a criação dos juízes de paz e


também do júri (jurados), ambos eletivos. Já defendidos na Assembleia
Constituinte do Rio de Janeiro, em 1823, como garantia de direitos dos
cidadãos e antídoto contra a corrupção, parcialidade e arbitrariedades
atribuídas aos juízes e à tradição portuguesa – que se pretendia negar
após a Independência –, eles encontrariam terreno fértil nos primeiros
anos da administração da justiça imperial46. Ambos estariam previstos na
Carta Constitucional de 1824, e seriam implementados num momento
político de oposição ao novo Imperador e início de uma radicalização nas
soluções institucionais projetadas47. Os juízes de paz seriam aprovados
em 182748, quando na Câmara dos Deputados se decidiu privilegiar um
projeto para sua criação diante da apresentação de propostas de reformu-
lação na administração municipal49. Uma das polêmicas que norteou sua
criação foi a de suas atribuições, que acabariam concebidas como bem
amplas.
46 – O debate na Assembleia Constituiinte de 1823 foi pormenorizadamente discutido
por José Reinaldo de Lima Lopes, “Governo misto e abolição de privilégios: criando o
Judiciário Imperial”.
47 – Andréa Slemian, “Um Império entre repúblicas? Independência e construção de uma
legitimidade para a monarquia constitucional no Brasil, 1822-1834”. In: C. Oliveira/ V.
Bittencourt/ W. Costa, W. P., op.cit., pp. 121-148.
48 – CL, lei de 15/setembro/1827. Uma das poucas obras que se dedicou ao tema, e que
continua sendo referência sobre a questão dos juízes de paz e jurados, ainda que necessite
ser revista em vários pontos, é a de Thomas Flory, El juez de paz y el jurado en el Brasil
imperial. Control social y estabilidad política del nuevo Estado. México: Fondo de Cul-
tura Economica, 1986. Para este, ambas instituições, os juizes de paz e o júri, estavam
articuladas ao projeto dos “liberais” e teriam criado uma contradição insolúvel para os
mesmos: na prática, sua grande independência local teria debilitado os agentes potencial-
mente valiosos do Estado ao dividir com eles seus poderes tradicionais e seu prestígio,
como no caso dos magistrados e juizes de fora. A síntese de Flory é que os liberais, por
meio da ênfase excessiva que teriam dado a instituições como essas, enquanto suporte
dos poderes locais, não teriam sido capazes de assegurar a ordem interna que, só a partir
da década de 40 e com o chamado “Regresso conservador”, se concretizaria no Brasil.
Em si, tal interpretação induz a uma compreensão dos jurados e juízes de paz como um
empecilho na formação do novo Estado por não lhe permitir o controle da justiça.
49 – Um dos projetos era de Diogo Antônio Feijó para “administração e economia das
Províncias”, Anais do Parlamento Brasileiro – Câmara dos Deputados (APB-CD). Ano
de 1826, t.1, sessão de 11/julho, pp. 127-131, e outro de Nicolau Vergueiro sobre os mu-
nicípios, APB-CD, t.4, sessão de 30/agosto, pp. 312-7. Um capítulo deste último serviu de
base para o projeto sobre os juízes de paz. Ver: Andréa Slemian, Sob o império das leis,
cap. 2.

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Andréa Slemian

O projeto inicial previa que os juízes pudessem conciliar e julgar


pequenas contendas, prevenir e indagar a existência de delitos, aplicar
punições correcionais, prender os criminosos, dando parte de suas ações
às autoridades competentes50. Desde o início, houve debate entre aqueles
favoráveis a reduzi-los a meros agentes de conciliação entre as partes,
sem autoridade para julgar nenhuma contenda, e outros que defendiam
que, sem maiores atribuições, a instituição não seria proveitosa para sa-
nar a quase inexistência de “justiça” que imperava no Brasil51. Na sua
segunda discussão do projeto acrescentaram-se algumas atribuições: o
poder de usar força armada em caso de desordem, de fazer corpo de de-
lito, de impor penas à violação das posturas policiais das Câmaras, de
vigiar a conservação das matas e florestas, o direito de julgar circunscrito
a “pequenas demandas” que não ultrapassassem determinado valor52, as
quais seriam aprovadas. Definia-se também que haveria um juiz em cada
freguesia, elegível com os mesmos requisitos válidos para ser eleitor –
que pela Constituição, no artigo 94, significava ter renda anual acima de
duzentos mil-réis, com exceção dos libertos – , bem como a junção das
atividades judiciais e policiais num único agente.

Após a aprovação da lei, haveria um esforço por parte do governo


na implementação dos juízes de paz, bem como um reforço na sua ação
de policiamento. Uma ordem do governo, em 1830, declarava que eles
fossem logo eleitos em todas as capelas filiais curadas53; duas outras do
ano anterior, determinavam que fossem cessadas as funções dos comis-
sários de polícia e a existência dos comandantes-gerais quando os juízes
de paz entrassem em exercício54. Vale dizer que a função de comissário
de polícia havia sido criada poucos anos antes, em novembro de 1825,
na esteira da reformulação das ações da Intendência Geral da Polícia55 –

50 – APB-CD, 1826, t.4, sessão de 30/agosto, pp. 314.


51 – A discussão sobre esse item encontra-se nas sessões dos dias 19 e 21 de maio, e 28 e
30 de junho de 1827.
52 – APB-CD (1827), t.3, 9/julho.
53 – CDG, Ano de 1830, 11/setembro/1830, p.29.
54 – Idem, Ano de 1829, 12/janeiro e 29/abril/1829.
55 – Idem, a decisão de 04/novembro/1825 criava as funções dos comissários, e uma an-
terior, de 3/janeiro/1825, dava providência à Intendência de Polícia para manutenção da

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

órgão herdado da tradição ilustrada portuguesa, adotado no Brasil logo


após a chegada da Família Real, em que se concebia a polícia como uma
ação ampla que ia desde a manutenção da ordem pública, a “saúde” das
cidades e dos estabelecimentos, o controle social e também moral dos
habitantes, a abertura de devassas, entre outras. As atribuições dos co-
missários, por mais que representassem uma tentativa de circunscrição de
atividades policiais, mantinha um espectro amplo de ação na prevenção
de delitos, ordem pública, controle aos vadios, limpeza e saneamento das
ruas, etc. Parte de suas atribuições passariam agora para os juízes de paz,
cuja função também trazia consigo a marca de uma concepção antiga de
justiça, em que funções judiciais não deveriam ser pensadas dissociadas
do policiamento e da manutenção da ordem pública e moral da cidade e
seus indivíduos.

O momento é que era bem particular. Ao fim do Primeiro Reina-


do, observa-se uma série de desordens públicas alimentadas pela abertu-
ra de novas possibilidades políticas com a abdicação do trono por parte
do Imperador em nome de seu filho ainda criança. Intranquilidade esta
que se espalharia por várias províncias ao longo da Regência, como re-
voltas e movimentos contestatórios de grandes dimensões sociais, e que
exigiriam, por parte do governo, medidas mais urgentes56. Logo após os
motins e desordens que se seguiram à saída de D. Pedro I, aprovou-se
uma lei que fornecia providências para a pronta administração da justiça
e punição dos criminosos, a qual reforçava a autoridade policial dos juí-
zes de paz e recomendava que magistrados e ouvidores (do Crime e das
Relações) que a exercessem cumulativamente com os primeiros57. Dias
depois criava-se, em cada distrito, um corpo de Guarda Municipal, cuja
nomeação dos comandantes, divisão em esquadras e solução de dúvidas

tranquilidade pública.
56 – Referimo-nos aqui às conhecidas revoltas regenciais que, a despeito da particularida-
de de cada uma, foram recorrentes nos anos da Regência. Ver como Ilmar R. de Mattos,
“La experiencia del Imperio del Brasil”, Antonio Annino (et. alii), De los imperios a las
naciones: Iberoamerica, Ibercaja/Obra Cultural, 1994, analisa que, diante das alternativas
radicais que surgiram na esteira da abdicação de D. Pedro, a monarquia pode prevalecer
no Brasil sob a legitimidade da Constituição.
57 – CL, Actos do Poder Executivo, 6/junho/1831.

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Andréa Slemian

sobre sua administração, pertenceria aos mesmos juizes de paz58. O re-


gulamento da mesma Guarda, chamadas Municipais Permanentes, seria
aprovado meses depois59, já sob a chancela de Diogo Antônio Feijó60 na
pasta da Justiça61.

Fora no período do citado ministro que se aprovaria, em agosto de


1831, a Guarda Nacional62. Sua inspiração teria sido a guarda revolu-
cionária francesa, ou seja, uma corporação paramilitar que deveria atuar
como reforço ao poder civil, cujos oficiais seriam eleitos e seus membros
armados em nome da defesa da “Constituição, Liberdade, Independência
e Integridade do Império”63. Inicialmente, estavam elas subordinadas aos
juízes de paz e aos criminais, aos presidentes da província e ministro da
justiça, sua organização era de responsabilidade dos municípios, e aca-
bariam por exercer funções que iriam além de seu papel auxiliar – fosse
como “corpo destacado” para repressão dos movimentos de insubordina-
ção e revoltas, fosse como responsável pelo poder policial e nas rondas
promovidas nas cidades. É fato que sua criação está associada à tendência
que se convencionou chamar de liberal que, grosso modo, investiu na
permanência de forças de coerção nas mãos de poderes locais – ao apostar
na defesa que os cidadãos fariam da “causa pública”, ou seja, no papel
dos “privados”, como os próprios juízes de paz –, adequada à realidade
de uma sociedade escravista pós-colonial em que o Estado não detinha o

58 – Idem, Actos do Poder Executivo, 14/junho/1831.


59 – Idem, 22/outubro/1831.
60 – Diogo Antônio Feijó (1784-1843) teve formação religiosa e iniciou sua carreira po-
lítica em 1821 como deputado das Cortes de Lisboa. Posteriormente, seria deputado nas
duas primeiras legislaturas do Império do Brasil, estando à frente da pasta do Ministério
da Justiça entre os anos de 1831-32, senador pelo Rio de Janeiro, e regente entre os anos
de 1835-37.
61 – Ivan Vellasco, “Policiais, pedestres e inspetores de quarteirão: algumas questões so-
bre as vissicitudes do policiamento na província de Minas Gerais (1831-50)”. In: J. M. De
Carvalho, Nação e cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2007, pp.237-265.
62 – O trabalho de Jeanne B. de Castro, A milícia cidadã: a Guarda Nacional de 1831 a
1851. São Paulo/Brasília: Companhia Editora Nacional/INL, 1977, continua sendo uma
das referências mais importantes sobre o tema.
63 – Jeanne B. de Castro, op. cit..

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

monopólio da força armada64. A reforma pela qual a Guarda passaria em


1850 previa um aumento significativo do controle das autoridades cen-
trais sobre sua organização65, mas não tocava nessa questão de fundo que
continuaria a inviabilizar, inclusive, a dissociação entre poder judicial e
policial, uma questão central para nossa análise.

Nos mesmos conturbados anos do início da década de 30, aprova-


ram-se os dois primeiros códigos para o Império: o Criminal (1830) e o
do Processo Criminal de primeira instância (1832). A codificação, não
à toa, relacionava-se com questões judiciais diante da imperiosidade da
tarefa de controle da ordem pública por meio da prevenção e punição
dos crimes e delitos, o que era subentendido como função da justiça66. O
primeiro deles incorporava, do ponto de vista das reformas nos sistemas
criminais em todo o Ocidente desde o Setecentos, as novidades mais li-
berais da época quanto aos crimes e às formas de sua punição (notar que
havia uma parte inteira dedicada aos “crimes públicos”, onde se previa,
no seu título V, penas contra as “prevaricações, abusos e omissões dos
empregados públicos”).

Mas foi o de 1832 que tocou diretamente na administração da justiça


ao regulamentar todos os procedimentos e autoridades para execução da
primeira instância. Seguindo a tendência por uma normalização que privi-
legiava a ação das autoridades locais na resolução dos conflitos, o código
do Processo Civil delegou poderes ainda mais amplos aos juízes de paz,
reforçando suas funções judiciárias e policiais, e instituiu definitivamen-
te o júri, como todas suas regras, na primeira instância67. Aos primeiros
64 – Essa tese foi desenvolvida por Wilma Peres Costa, A Espada de Dâmocles. O Exér-
cito, a Guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo/Campinas: Hucitec/Ed. Uni-
camp, 1996; Jeanne B. de Castro, op. cit., apesar de já ter apontado para adaptação da
instituição em terras brasileiras, tende a vê-la muito mais como um produto “desvirtuado”
do que como recriação de acordo com as práticas presentes na sociedade da época.
65 – CL, Actos do Poder Legislativo, lei de 19/setembro/1850.
66 – A. Slemian, “À nação indepedente, um novo ordenamento jurídico: a criação dos
Códigos Criminal e do Processo Penal na primeira década do Império do Brasil”. In: Gla-
dys Sabina Ribeiro (org.). Brasileiros e cidadãos. Modernidade política 1822-1930. São
Paulo: Alameda, 2008, pp. 175-206.
67 – Lei de 20 de novembro de 1832. Sobre sua estrutura e impacto na ação judiciária ver
Thomas Flory, op.cit.; Jeanne B. de Castro, op.cit.; de Américo Jacobina Lacombe ver:

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):225-272, jul./set. 2011 245


Andréa Slemian

caberia, além de cuidar dos termos de bem viver, do conhecimento dos


habitantes e dos suspeitos com zelo pela segurança dos distritos, proceder
a corpo de delito, formar culpa, prender, julgar alguns pequenos crimes e
mesmo receber queixas contra juizes. Quanto aos jurados – eleitos a partir
de lista composta por junta presidida pelo juiz de paz, desde que fossem
eleitores de segundo grau, ou seja, maior de 25 anos e com renda superior
a 200 mil-réis –, cabia a eles realizar a acusação e a sentença em primeira
instância criminal, sendo os juízes de direito os responsáveis pela presi-
dência e regulação de suas sessões. O Código também determinava como
deveriam ser encaminhados os crimes de responsabilidade dos emprega-
dos públicos, cujas queixas poderiam ser feitas qualquer cidadão à assem-
bleia legislativa, ao governo, aos presidentes de província, e mesmos às
autoridades judiciárias competentes.

Nem bem o Código do Processo seria aprovado, já era comum en-


contrar queixas dos ministros da justiça contra ele. Os dois principais
pontos de crítica eram a ampla ação prevista aos juízes de paz e a inexis-
tência de uma força policial independente que pudesse ser “digna desse
nome”. Já no ano de 1833, o então ministro Honório Hermeto Carneiro
Leão, no seu relatório referente ao ano anterior, já se referia aos “defeitos
graves” do novo Código, em que:
“além da falta de ordem, método, e clareza, necessária em uma Lei,
que tem de ser executada por homens não versados em Jurisprudência
[juizes de paz], há no Código do Processo repetições, omissões gra-
ves, e até artigos inteiramente antinômicos. Em verdade, Senhores, as
melhores teorias de Jurisprudência Criminal de Inglaterra e dos Esta-
dos Unidos, eram conhecidas pelos Autores do Código, mas não posso
deixar de dizer, que a aplicação ao nosso País foi infeliz”68.

“A cultura jurídica”, Sérgio Buarque de Holanda (org.), História Geral da Civilização


Brasileira. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967, tomo II, 3º v., pp. 356-368, e
História administrativa do Brasil. Organização e administração do Ministério da Justiça
no Império, Brasília: Fundação Centro de Formação do Servidor Público, 1986 (v.12); As-
tolfo Rezende, “Polícia administrativa. Polícia judiciária. O Código do Processo de 1832.
A lei de 3 de dezembro de 1841. A lei de 20 de setembro de 1871”, RIGHB. I Congresso
de História Nacional (tomo especial), Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, parte III, 1916,
pp. 399-422.
68 – Relatório do Ministério da Justiça, Ano de 1832, p. 17.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

A mesma queixa se repetiria na boca de seus sucessores durante toda


a década de 30, a qual acabaria por justificar, juntamente com a mudança
do momento político em inícios da década de 1840, sua reforma.

A esperada reforma do Código do Processo seria aprovada em


184169. Uma das suas principais novidades consistiu, sem dúvida, na cria-
ção de “chefes de polícia” por província, escolhidos pelo Imperador entre
os desembargadores e os juízes de direito, e os seus auxiliares delegados
e subdelegados que seriam igualmente nomeados após indicação, e que
poderiam ser juízes ou “cidadãos”. Essas seriam, a partir de então, as
principais autoridades responsáveis pela primeira instância – juntamente
com o júri, os juízes municipais e os de direito – além de igualmente
fundamentais para manutenção do controle policial nas localidades. In-
clusive, no longo regulamento da parte policial e criminal da reforma do
código, aprovado no ano seguinte70, constava a divisão da polícia em duas
categorias: a “administrativa”, responsável sobretudo pelas funções “mo-
rais”, de cuidado com o “bem viver” nas cidades, das contravenções nas
posturas, arrolamento da população, entre outros; e a chamada “judiciá-
ria”, encarregada mais de perto pela prisão culpados, mandados de busca
e corpo de delito. Mais suas funções continuavam imbricadas em mais de
uma autoridade. A novidade, no entanto, se faria efetiva na diminuição e
maior controle das autoridades eletivas (juízes de paz e jurados), mesmo
que os delegados e mesmo subdelegados até pudessem ser escolhidos
entre cidadãos não formados, mas nunca eleitos.

Diversas interpretações historiográficas relacionaram o processo po-


lítico a esse de transformação das instituições da justiça. A questão é que,
se por um lado, têm-se discutido o grau em que o arranjo institucional
imperial era centralizador ou manteve uma ampla esfera de ação às pro-
víncias – cujas atribuições foram legalmente criadas pelo Ato Adicional
69 – CL, Actos do Poder Legislativo, lei de 3 de dezembro de 1841.
70 – CL, Actos do Poder Executivo, lei de 31 de janeiro de 1842. Dois meses depois,
aprovou-se um regulamento para a execução da parte civil do Código do Processo (de 15
de março) em que se marcava o funcionamento dos órgãos e cargos nessa esfera. É fato
que o Código, apesar de voltado à matérias criminais, acabava ditando igualmente parâ-
metros para a formação de processo na área civil (na inexistência de um específico).

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):225-272, jul./set. 2011 247


Andréa Slemian

de 183471–, por outro, é evidente que, do ponto de vista da justiça, a re-


forma de 1841 representou uma tentativa de se retirar o grande espectro
de poder conferido aos juízes eletivos e, nesse ponto, reforçar o poder dos
magistrados na primeira instância. O que nos interessa notar nesse con-
texto é que o texto da reforma do Código do Processo não apenas confir-
mou, mas consolidou, num formato ainda mais definitivo, a junção entre
as funções policiais e judiciais nas mãos dos juízes e magistrados. Se isso
se configurava como num problema na prática cotidiana dos agentes judi-
ciários – também em função do atrelamento da carreira de seus agentes ao
executivo –, a organização policial e a da própria Guarda Nacional, sujei-
tas à organização dos cidadãos comuns, pouco ajudaram na circunscrição
e independência de sua jurisdição.

O início dos anos 40 seria também o momento em que uma série


de medidas para organização de vários órgãos e secretarias do governo,
inclusive da justiça, aconteceria com intensidade. Momento de consoli-
dação de um projeto saquarema de Império, segundo interpretação de
Ilmar Mattos. Consolidação também de um projeto constitucional que,
iniciado a partir de bandeiras mais revolucionárias e radicais para a jus-
tiça, acabaria por adotar soluções um pouco mais conservadoras nesse
momento, quando os impasses para manutenção do paradigma legalista
exigiam também novas e mais complexas operações. Não à toa, voltaria o
Conselho de Estado com a Lei de Interpretação de 1841, órgão que teria
no regime brasileiro um importante papel na decodificação da lei.

4. As práticas institucionais e a justiça: poderes, jurisdições e


conflitos
Desde a Independência, não faltaram afirmações constantes de que o
poder judiciário, e consequentemente seus agentes, teriam que ser inde-
pendentes como constava na Carta Constitucional de 1824. Antes mesmo
da aprovação dessa, a questão já havia motivado polêmicas na Assembleia
71 – Ver as posições distintas de José Murilo de Carvalho, A construção da ordem. A elite
política imperial. Brasília: UnB, 1981; Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema. A
formação do Estado imperial, Rio de Janeiro: Access Editora, 1999; e Miriam Dolhnikoff,
op.cit.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

Constituinte no ano anterior, em particular na discussão acerca de um go-


verno provisório para as províncias, quando entrou em pauta os limites de
ação dos seus presidentes em relação aos magistrados72. Aprovaria-se ao
final que os mesmos presidentes, reunidos em Conselho e de acordo com
o Chanceler (onde houvesse Relação), poderia suspender o magistrado
depois que ele fosse ouvido e apenas no caso de que, em função de motins
e revoltas na província, não se pudesse esperar resolução do Imperador73.
Feita a suspensão, o caso deveria ser imediatamente encaminhado à se-
cretária da Justiça.

No entanto, a administração da questão não era fácil. Em decisão de


setembro de 1827, o ministro da Justiça assumia que aconteciam abusos
na suspensão dos magistrados pelos presidentes, pedia que se observasse
a supracitada medida, e que se evitasse “serem os juízes suspensos do
exercício de suas funções sem que se verificarem as circunstâncias” das
acusações74. Na sequência, em outra ordem emitida pelo mesmo ministro
dois meses depois, recomendava que o governo, logo que recebesse de-
núncias contra os magistrados, os mandasse rapidamente ouvir por escri-
to, encaminhando tudo ao Imperador75. Ambas medidas também falavam
na necessidade de se controlar as arbitrariedades, “vexames e falta de
justiça” que praticassem contra os mesmos agentes.

Mas no que toca à defesa da independência da justiça, vários foram


momentos de manifestação contundente do governo em seu favor; afinal,
era ela um dos pilares fundamentais de legitimidade do novo sistema. Um
caso recorrente era a tentativa de se impedir que outras autoridades in-
terferissem no andamento dos processos. Em novembro de 1824, fazia o
ministro Clemente França uma advertência ao presidente da província de
Sergipe d´El Rei de que se devia preservar a independência do judiciário,
diante de sua solicitação para revisão de uma sentença. Alegava o presi-
dente que a Relação da Bahia havia julgado nula “por falta de provas”

72 – Andréa Slemian, Sob o império da leis, cap. 1.


73 – CL, Actos do Poder Legislativo, lei de 20/outubro/1823, artigo 34.
74 – CDG, 17/setembro/1827, pp.181-2.
75 – Idem, 7/dezembro/1827, pp.208-9.

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Andréa Slemian

uma devassa a que se mandara proceder “acerca dos cúmplices da cons-


piração de 28 de abril”, e rogava por “providências necessárias contra os
males que se devem seguir da soltura dos réus”76. Por mais que existisse
uma evidente razão política, esses interesses não deveriam, a princípio,
justificar a falta de provas para o processo.

Era sintomática uma outra medida tomada em relação à ação da Câ-


mara da Vila de Valença pela suspensão do juiz de paz: os vereadores
justificavam seu “excesso de jurisdição” expondo os motivos da nulidade
da sua eleição77. O governo argumentava à câmara que “apesar de serem
legais os fundamentos que se oferecem para fazer nula a referida elei-
ção, nem por isso deixa de ter sido manifestamente legal e abusiva, e de
perniciosas consequências a ingerência que se arrogou na decisão de um
negócio que não era da sua competência”78. Assim, o fato das eleições dos
juízes de paz serem conduzidas pelas mesmas câmaras, não significava
que elas pudessem ir contra o princípio agora definitivamente estabeleci-
do de ingerência nos negócios dos mesmos juízes. Deveriam elas obede-
cer aos caminhos da legalidade, por mais complexas que essas soluções
apontassem ser.

Mas a implementação de um novo paradigma baseado na separa-


ção entre as instâncias da administração e da justiça mostraria esbarrar
em práticas típicas do funcionamento jurisdicional herdado. O que estava
relacionado com a jurisdição contenciosa que muitos órgãos e agentes
possuíam, ou seja, sua capacidade de resolver ou encaminhar conflitos,

76 – CDG, 23/novembro/1824, p.172. Veja-se também outra de 15/junho/1825, em que


diante da reivindicação do presidente da Bahia de que a ele caberiam todas as anteriores
atribuições dos governadores no que tocasse à Relação (com funções de regedor), o go-
verno declarava que as mesmas seriam dos chanceleres cuja independência deveria ser
preservada (p. 81). E também uma de 20/março/1828, em que se recomendava ao governo
provincial deixar o ouvidor seguir um processo de acusação de um vereador contra um
juiz de fora, evitando a intervenção do presidente e conselho na matéria (37-8).
77 – CDG, 17/julho/1828, pp.75-6.
78 – Idem. Da mesma forma, o governo não referendou os atos do presidente da província
de Sergipe que anulara atos da Relação (22/dezembro/1826); nem mesmo a ação do Con-
selho Geral da Província de Minas Gerais que exorbitara de suas atribuições ao dar por
acabado o tempo de exercício de um juiz (28/abril/1829).

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

configurando-se, muitas vezes, como poderes concorrenciais79. Em par-


te, essa prática seria reinventada pelas novas instituições que no próprio
arranjo constitucional previa certa interferência de alguns agentes sobre
outros. Interferência esta, queremos frisar, que tinha papel contencioso.

No caso dos presidentes de província, o problema em relação aos


agentes da justiça, conforme já citado, era evidente. Diante do fato da
Constituição marcar, no seu artigo 154, que o Imperador poderia suspen-
der os magistrados, depois que eles fossem ouvidos, a lei da Regência
– que atuou como autoridade máxima após a abdicação de D. Pedro I –,
também marcou suas atribuições sobre o assunto80. Declarava ela que a
atribuição de suspender os magistrados seria exercida por ela cumula-
tivamente com os presidentes das províncias em Conselho, ouvindo o
magistrado (artigo 17). Além disso, a inteligência do que caberia ao pre-
sidente era ainda mais incisiva: numa ordem emitida pelo ministério em
1832, defendia-se que ele nem exorbitava, nem ofendia o poder judiciá-
rio, se impusesse seu juízo sobre a criminalidade de um magistrado após
ouvi-lo81. Ou seja, seu arbítrio, ainda que não definitivo, era não só legí-
timo como esperado.

Nesse sentido, foi confirmado no regulamento para os presidentes de


província de 183482 de que caberia a eles suspender qualquer empregado
público por abuso, omissão ou erro, promovendo sua responsabilidade,
com a observação da citada lei da Regência para os magistrados (artigo
5o, parágrafo 8). Além disso, de que poderiam decidir, ainda que tempora-
riamente, sobre os conflitos de jurisdição (artigo 5o, parágrafo 11), o que
valia também para contendas entre autoridades judiciárias83. O primeiro
artigo era recorrentemente invocado pelo governo para o tema, como no
caso da dúvida do presidente de Minas Gerias de como deveriam seguir
os processos em que os magistrados foram suspensos, em que se declara
79 – Antonio Manuel Hespanha (coord.). O Antigo Regime.
80 – CL, Actos do Poder Legislativo, lei de 14/junho/1831.
81 – CDG, 20/setembro/1832, p. 287.
82 – CL, Actos do Poder Legislativo, 3/outubro/1834.
83 – Um exemplo é uma ordem do ministro da Justiça de que competia ao presidente de
província da Bahia decidir, ainda que temporariamente, sobre um conflito de jurisdição
entre um juiz de paz e um municipal. CDG, 26/janeiro/1836, p. 38.

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Andréa Slemian

tanto eles como as assembleias provinciais poderiam receber as queixas e


mesmo realizar suas suspensões, enviando à Corte84.
A questão dos conflitos de jurisdição seria, inclusive, confirmada em
1842, quando se regulamentaria a execução da reforma do Código do
Processo, afirmando que os mesmos presidentes resolveriam as dúvidas
que se suscitarem na sua execução85. Dessa forma era comum encontrar,
tanto nas decisões do governo como na Seção de Justiça do Conselho de
Estado, casos em que os presidentes resolviam previamente conflitos de
jurisdição entre autoridades judiciais. E mesmo aqueles em que se decidia
a quem caberia a competência de foro para determinadas matérias86.
A prática era tão recorrente que, em resposta a uma consulta feita à
Seção do Conselho de Estado sobre substituição do juiz de direito, em
1843, os conselheiros manifestam “apreensão” em relação ao “ânimo”
que teria produzido o supracitado regulamento de 1842, autorizando os
presidentes a resolver dúvidas na execução dos processos:
“Não é de se esperar que os presidentes de província, em quem se
não requer a qualidade de jurisconsulto, e a quem falecem muitos dos
recursos que dispõe o governo imperial, possam satisfatoriamente de-
ferir a tais representações sem perigo de emaranhar a administração
e o foro”.87
O argumento é sintomático: o problema não é somente a intervenção
do presidente nas questões de justiça, mas igualmente do “emaranhado”
de soluções que isso poderia vir a causar em função de seu posiciona-
mento.

84 – Idem, 24/setembro/1835.
85 – CL, Actos do Poder Executivo, regulamento de 2/fevereiro/1842, artigo 34 .
86 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 22/outubro/1844, em que Conselho apoia a
decisão do presidente da província do Maranhão que resolveu que um conflito entre um
capitão (comandante de armas) e o desembargador chefe de polícia seria de competência
militar. De que o mesmo presidente teria ouvido as partes, bem como consultado a Rela-
ção, decidindo que as ofensas atribuídas ao comandante de armas haviam sido realizadas
quando o mesmo capitão, na qualidade de ajudante, impediu o desembargador a entrar no
palácio do governo por ordem do presidente (p. 87).
87 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de dezembro, p. 54.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

No que tocava à ação de suspensão dos magistrados por parte dos


presidentes, nota-se igualmente uma maior cautela e tentativa de controle
dessa ação pelo governo na década de 1840. Numa consulta feita à Seção
de Justiça do Conselho, em setembro de 1843, diante da dúvida de alguns
presidentes sobre sua competência para realizar a citada ação (conforme
prevista na lei de 1834), resolveram os conselheiros que a inteligência da
citada lei havia cessado: com o fim da Regência e volta do Imperador em
1840, este assumiria a citada disposição de suspensão dos magistrados,
como poder Moderador88. Afirmavam eles que essa seria igualmente a
inteligência da Constituição.

O fato é que a intervenção, ainda que prevista como inicial, dos pre-
sidentes nos conflitos entre autoridades judiciárias, fazia parte da lógica
de sua criação como um instrumento constitucional conservador da or-
dem – afinal, eram eles escolhidos pelo Imperador –, além de referendar
antigas práticas à nova ordem legalista89. Atividade nem sempre tranqui-
la, haja vista um ofício do presidente do Pará, em 1849, em que pedia
esclarecimento sobre o que deveria fazer no caso do procedimento crimi-
noso do juiz de direito da Comarca de Santarém pela absolvição que fez
de um réu em termos visivelmente ilegais90. O presidente reconhecera ser
o caso uma questão de partidos, mas se esquivara fazer uma ação mais
contundente. Os conselheiros, no entanto, foram categóricos, da mesma
forma que o procurador da Corte, em dizer que o magistrado incorrera em
“grave prevaricação” e deveria ser suspenso91.

Da mesma forma, quando se tratava da manutenção da ordem públi-


ca, a tendência era valorizar a ação do presidente. Em 1837, em resposta
dada ao presidente de Alagoas que narrara as desordens que se sucederam
na Vila de Atalaia – onde “povo e força policial” se uniram com o pretex-
88 – Idem, 27/setembro/1843, p. 25.
89 – Vejamos o caso em que o governo arbitra sobre a reclamação do desembargador da
Relação da Bahia acerca de uma escolha feita pelo Chanceler. CDG, 24/setembro/1828,
pp. 119-120.
90 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado (de 1842 até hoje). José da Silva Caroatá (org.). Rio de Janeiro: Garnier, 1884
(parte I), 25/outubro/1849, pp.146-7.
91 – Ver outro exemplo das mesmas resoluções do Conselho de Estado, 25/janeiro/1850,
p. 205.

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Andréa Slemian

to de opor-se à sua entrada – e diante do temor de alguns criminosos com-


prometidos com os assassinatos de um reverendo, um juiz e um bacharel,
o ministro da Justiça não teve dúvida em aprovar sua medida de remo-
ção de magistrados para outros lugares92. Mesmo não sendo as remoções
de sua alçada, alegava o governo a imperiosidade da ação, “bem como
quaisquer outras medidas que possa vir a tomar em nome da tranquilidade
pública”93.

Mas era também sistemática a prática de condenar as ações dos pre-


sidentes quando se considerava alguma “usurpação do poder judiciário”,
bem como práticas não adequadas com um regime constitucional94. O que
significava, muitas vezes, tocar nos confrontos políticos que perpassavam
as ações dos agentes da justiça que, conforme já citado, acabavam por
estar envolvidos nesse jogo. Desse modo, uma ordem do governo de 1836
acusava o presidente do Sergipe de remover magistrados, “instado pelas
muitas representações e queixas que foram levadas a sua presença”, sem
averiguar até que ponto a acusação a eles imputada procedia95. Segundo a
mesma ordem, o perigo residia em:
“que não é conveniente, antes muito nocivo à tranqüilidade pública
habituar o povo a solicitar e ver satisfeitas as suas intenções quando
quer que julguem conveniente afastar um empregado com quem não
simpatizam. O Governo Imperial não desconhece que magistrados
pode haver que mereçam com justiça a desafeição dos seus comar-
cões, e a quem mesmo é arriscado, contra o bem público sustentar no
lugar”96.

92 – CDG, 1o/fevereiro/1837, pp.36-7.


93 – Vale dizer que, sobretudo ao longo da Regência, se aprovariam atos do presidente
em relação a remoção dos juízes, em função de serem eles “empregados provinciais”. Ver
também CDG, 2/maio/1836, p. 171.
94 – Vejam-se exemplos na CDG: uma de 8/novembro/1835, em que se critica a ação
do presidente do Rio Grande do Norte por haver reintegrado ao cargo um juiz municipal
suspenso daquele exercício (pp. 269-270); outras duas de 10 e 27/fevereiro/1837, em que
não se aprovam atos do presidente contrários ao Código do Processo e de “usurpação da
jurisdição do poder judiciário”; e uma de 30/janeiro/1829, em que se reprova o comandan-
te de armas pela não execução das ordens do desembargador da Bahia sob a justificativa
de não estar convencido da justiça de seus acordãos (pp. 19-20).
95 – CDG, 7/novembro/1836, pp. 359-360.
96 – Idem, p. 359.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

Diferentemente da medida citada acima para 1837, aqui era em


nome da necessidade de se resguardar os magistrados contra possíveis
ataques da população que se falava. Nestas condições, um equilíbrio entre
a defesa da circunscrição da justiça e o controle de seus agentes, também
tendo em vista a intervenção de uns sobre outros, mostrava ser irreali-
zável numa única síntese diante das soluções que possuíam um amplo e
controverso leque de decisões em nome da legalidade.

A dificuldade no resguardo institucional da atividade dos juízes fica


evidente na acusação feita ao presidente de província do Ceará, em 1845,
de que teria dado ordens para o juiz de direito de Sobral alterar uma lista
da junta de jurados eleita97. O fato é que o mesmo juiz, recém-chegado
à cidade, afirmava que já lhe havia escrito para tratar das arbitrariedades
ali encontradas, onde o “arbítrio, o rancor, a vingança e a perseguição a
mais atroz exerciam nela absoluto império”. Contra o juiz teriam sido
mobilizadas as autoridades policiais, atitude que o governo criticará ve-
ementemente por serem a ele inferiores. No ano seguinte, o caso voltaria
ao Conselho de Estado, quando se decidiu pela se cobrança de responsa-
bilidade das autoridades do subdelegado e do juiz municipal que teriam
realizado o processo contra o juiz de direito98.

Mas o discurso sobre os abusos praticados pelos magistrados tam-


bém teve realmente uma maior contundência nas práticas institucionais,
sobretudo nas duas primeiras décadas do Império do Brasil99. Nesses anos,

97 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de


Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 27/setembro/1845, pp. 149-154.
98 – Idem, 7/outubro/1846, pp. 207-8.
99 – Da CDG, ver: uma decisão de 22/julho/1828, que aprovava a ação do presidente da
província que declarava nulo o ato ilegal do ouvidor interino da Comarca de São João
das Duas Barras (p. 80); outra de 24/setembro/1828, em que o governo repreendeu o
juiz conservador por ter empossado ilegalmente um ouvidor (pp. 118-9); e outra de 4/
fevereiro/1835, ordenando que o juiz de direito de Goiás mandasse imediatamente pren-
der um réu mesmo sob sua justificativa de não concordava com a decisão (p.25). Ver
também: AN, Manuscritos, GIFI:
– 6 H 13, em que o governo autorizava que se procedesse contra um juiz após acusações
do promotor, em 1830;
– 5 C 484: em que o promotor atacava vários atos de parcialidade da Relação do Rio de
Janeiro, em 1834;

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Andréa Slemian

é possível perceber uma deliberada pressão do governo central sobre as


ações judiciais, a qual não se centrava apenas na primeira instância, mas
que procurava limitar a ação dos magistrados, numa perspectiva revolu-
cionária do papel da justiça, em nome dos interesses públicos. Um exem-
plo contundente é uma decisão do governo, de janeiro de 1832, em que se
mandava ouvir por escrito os juízes que impuseram penas excessivas aos
réus por uso de armas ofensivas100. O ministro é Diogo Antonio Feijó, o
qual se destacaria, no início da Regência, nesse tipo de ação.

É do mesmo Feijó a ação movida contra o Supremo Tribunal de


Justiça, no mesmo ano de 1832, diante de uma queixa feita por João da
Cruz Alves Romana ao procedimento de um juiz, que seus ministros jul-
garam improcedente101. Alegava o governo que, dessa forma, o Tribunal
faria “irresponsáveis os juízes pelas iníquas sentenças que proferirem”, e
os mandava responsabilizar:
“Querendo o Governo que os Magistrados conheçam que, posto que
sejam independentes no exercício do seu emprego, não são contudo
absolutos, mas estão sujeitos às Leis, como qualquer outro cidadão,
e que respondem por sua conduta, como tão expressamente declara a
Constituição no artigo 156, e no supracitado Código Criminal, e que
por isso mesmo são responsáveis os juizes que deixaram de fazer efe-
tiva a responsabilidade daqueles.”

Ou seja, o governo aqui se via no direito de interferir diretamente


numa decisão dos ministros do Supremo em nome de arbitrariedades que
teriam sido cometidas102.

Contra o mesmo Superior Tribunal, o governo acataria outras quei-


xas de particulares. Em resposta a um ofício de um juiz de paz que, em

E das Consultas ao Conselho de Estado, uma decisão de 28/9/1850, em que são conde-
nados os atos arbitrários de um juiz municipal, o qual deveria ser imediatamente respon-
sabilizado.
100 – CDG, 4/janeiro/1832.
101 – Idem, 15/março/1832.
102 – Veja-se como essa postura foi comum em relação ao Supremo Tribunal de Justiça,
em especial, na ação de Diogo Antonio Feijó. Ver: Andréa Slemian, “O Supremo Tribunal
de Justiça nos primórdios do Império do Brasil (1828-1841)”.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

1836, queixava-se da denegação de revista (recurso autorizado pelo Su-


premo para revisão de sentença), ordenava o governo sua concessão103.
A alegação do juiz era de que o caso era de visível injustiça diante da
fixação de sentença, em Junta de Paz, à revelia do artigo 221 do Código
do Processo (falta de comparecimento do réu sem escusa legítima). O
que bastara ao ministro para pressionar o órgão, criando uma tensão na
relação entre o executivo e o judiciário104.

É exatamente neste período da Regência, especificamente entre os


anos de 1833 e 1834, que se pode verificar uma pressão por parte do go-
verno para que se cobrasse responsabilidade de determinadas ações, jul-
gadas arbitrárias, dos agentes judiciários. Não à toa, como já se disse an-
teriormente, tratava-se do momento em que a possibilidade de radicaliza-
ção política do projeto institucional imperial atingira seu ponto alto, com
propostas inclusive de federalização e, segundo algumas análises, até de
transformação do regime105. No Código do Processo, estava previsto um
capítulo inteiro (o “V”) para denúncia e forma de processo dos crimes de
responsabilidade dos empregados públicos, sendo que as denúncias tanto
poderiam ser encaminhadas a órgãos executivos (governo e presidentes
de província) como às autoridades judiciárias a quem competia o fato.

No ano de 1833, várias foram as ordens do governo para que se pro-


cedesse à responsabilidade: uma que mandava fazer efetiva a sua cobran-
ça no caso de um juiz de paz que concedera licença arbitrária para reali-
zação de uma rifa106; outra aos membros da Câmara de Santo Antonio de
Sá que se recusaram a dar posse ao comandante de armas do município107;

103 – CDG, 5/novembro/1836, p. 357.


104 – Do mesmo teor, veja-se uma outra de 10/dezembro/1833 (Colleção das decisões do
governo), em que a Regência pedia ao Tribunal a reavaliação de um caso de denegação de
revista alegando que ele teria sido decidido apenas por dois de seus membros.
105 – Ver: Marcello Campos Basile, O Império em construção: projetos de Brasil e ação
política na Corte Regencial. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro/
IFCS, Tese de Doutorado, 2004; e Marco Morel, As transformações dos espaços públicos.
Imprensa, atores políticos e sociabilidades na Cidade Imperial (1820-1840), São Paulo,
Hucitec, 2005.
106 – CDG, Ano de 1833, 6/fevereiro/1833, p. 43.
107 – Idem, 13/agosto/1833, p. 298.

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Andréa Slemian

e outra a um juiz de direito de Mato Grosso, Joaquim de Almeida Falcão,


pelos seus atos arbitrários108. Algumas ordens também envolveram o Su-
premo Tribunal. A primeira lhe ordenava que informasse, nos casos de
concessão de revista, o que servira de fundamento para a questão, e se
tinham sido responsabilizados os juízes que deram causa às injustiças; em
caso contrário, o porquê de não se cumprir tal lei “providentíssima”109. A
razão era enunciada de maneira clara:
“Pois que só o remédio da concessão das revistas, que não suspende a
execução das sentenças, seria improfícuo se não fosse acompanhado
do da responsabilidade dos juizes que fizeram a injustiça, ou causaram
a nulidade”.

A fala era do ministro Aureliano Souza e Oliveira Coutinho110 que,


enquanto na pasta da Justiça, seria o responsável por essas ações, nota-
bilizando-se igualmente por medidas de maior controle à justiça111. Do
mesmo ano de 1833, era assinada uma outra ordem de Oliveira Coutinho,
em que se questionava o fato do Supremo não mandar proceder à respon-
sabilização dos juízes e escrivães: a razão também poderia estar no que
dizia ser um “defeito da legislação” em função do mesmo órgão não ser
a última instância e seus atos sempre estarem destinados ao encaminha-
mento das Relações112.

108 – Idem, 17/outubro/1833, p. 432.


109 – Idem, 11/outubro/1833, p. 424.
110 – Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho (1800-1855) ocupou por duas vezes a
cadeira de deputado na Assembleia Geral, entre 1830-33, e depois entre 1838-41. Foi se-
nador, presidente da Província, e entre 1833 e 1841, esteve à frente de vários ministérios,
entre eles o da Justiça entre junho/1833 a janeiro/1835. Obteve o título de Visconde de
Sepetiba.
111 – O mesmo ministro chegaria a propor, no ano de 1834, a formação de uma comissão
de sete membros, tirados da Câmara dos Deputados e por ela nomeados, para apurar as
queixas contra o Supremo Tribunal. A ideia era tornar “delinquente” o órgão e “responsá-
veis” seus ministros, mas não chegaria a ser levada adiante. Andréa Slemian, op.cit..
112 – Aureliano Coutinho faria a mesma crítica no seu relatório à frente da pasta da Jus-
tiça. Segundo ele, tal norma impedia a responsabilização dos atos dos seus ministros, pois
que suas decisões eram muitas vezes contrariadas pelas Relações revisoras, e enfraquecia
a autoridade do mesmo Tribunal, “destruindo a certeza dos julgados” e tornando “vacilan-
te, e incerto o direito das partes” (1834: p.24).

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conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

No ano seguinte, num caso comum de interferência do ministro na


seara do judiciário, também encontramos ordens para responsabilizar ou-
tros agentes judiciários. Um decreto de março, em que se pedia a suspen-
são de vários desembargadores do exercício de suas funções para serem
responsabilizados pelos tribunais competentes, o ministro os acusara de
abuso de jurisdição por prestarem fiança a um réu que não teria tal direi-
to113. E, em ordens de agosto e setembro, mandara responsabilizar juízes
de paz e de direito, afirmando inclusive que só assim se poderiam ser
suspensos114. Em todos os casos, era novamente Aureliano Coutinho o
protagonista.

Mas não se deve tomar a atitude do citado ministro como excentri-


cidade. É fato que nos anos que se seguem à Regência, e mesmo depois
no Segundo Reinado, os pedidos recorrentes de cobrança de responsabili-
dade dos membros do judiciário praticamente desapareceram das ordens
do governo. No entanto, a conjuntura também mudara. Com o Ato Adi-
cional, um arranjo institucional novo ganhara corpo e, por mais que se in-
corporassem demandas no sentido da transformação do regime, seria ele
fruto de um tom moderado que dominaria a cena política com a configu-
ração dos partidos a partir de 1834115. Com isso, deu-se igualmente o fim
da supremacia de bandeiras de mais revolucionárias para a justiça, pela
diminuição da interferência direta do executivo no judiciário, como se viu
que ocorrera aqui no caso das altas esferas da política. O que fica bastante
evidente no caso do Supremo Tribunal, cujos ministros não seriam mais
diretamente afrontados. É notório que, na década de 40, ganharia força a
crítica ao fato do mesmo Tribunal não ser a última instância; mas, distin-
tamente da ideia de que isso atrapalhava a cobrança da responsabilidade
dos seus agentes, o problema seria muito mais o da sua fraqueza institu-
cional e nulidade de ação face à segunda instância116. Ou seja, o discurso
113 – CL, Actos do poder executivo, 10/março/1834.
114 – Colleção das decisões do governo, 25/agosto e 24 e 30/setembro/1834, pp. 215,
246 e 248.
115 – Marco Morel, op.cit..
116 – Veja-se a crítica feita pelo magistrado Francisco Ignácio de Carvalho Moreira, Do
Supremo Tribunal de Justiça. Sua composição, organização e competência (Memória ofe-
recida ao Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros). Rio de Janeiro: Typographia

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do controle de seus ministros perdia espaço para o do seu fortalecimento


como terceira instância.

Mas a estrutura institucional que permitia uma permanente tensão


entre os agentes judiciários e os do executivo, seria uma das marcas do
regime que se consolidaria a partir da década de 40. Alguns exemplos
são contundentes. Um, em especial, tratava de um caso em que a Relação
de Pernambuco concedeu habeas corpus a um réu detido em um quartel,
cujo comandante das tropas (de 1a. linha) se recusava a cumprir por alegar
“não ser subordinado” a esse Tribunal117. Os desembargadores ordenaram
a prisão do comandante ao presidente da província que nem a executa
como leva o caso ao Imperador. Os conselheiros da Seção de Justiça dão
razão a ele: condenam a atitude do comandante que não poderia se recu-
sar a fornecer o habeas corpus – até porque o preso se encontrava sob
sua guarda apenas por falta de prisões civis –; mas também condenaram
e pediram esclarecimentos à Relação. Alegavam “ilegalidade” no fato do
habeas corpus ter sido pronunciado fora do prazo, bem como falta de
“veementes indícios” que justificassem a mesma medida. O Conselho vai
mais longe em também pedir que a mesma Relação se explicasse pela
“insistência com que ela se houve nas medidas para execução de suas
deliberações, sem que hesitasse sobre a ilegalidade delas”118. Ou seja, o
Conselho não apenas mediava a relação entre os envolvidos, como for-
necia as bases de como o caso deveria ser resolvido, em nome de uma
racionalidade legitimada pela complexidade no equacionamento das so-
luções.

Da mesma forma, revelava-se assas complicado o conflito entre o


presidente de província do Maranhão, João José de Moura Magalhães, e
o juiz municipal da 1a. vara de sua capital, Viriato Bandeira Duarte, em

Nacional, 1848.
117 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho
de Estado. Anos de 1842 a 1846. Bellarmino Braziliense Pessoa de Albuquerque (org.).
Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1877, v.1. Consulta de 24/novembro/1843, pp. 44
seg.
118 – Idem, p. 48.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

1846119. O dito presidente acusava o agente judiciário de não cumprir seus


deveres, bem como de “manifesta ofensa do respeito” a sua autoridade,
ameaçando-o de “responsabilidade”. O juiz defendeu-se, e alegava que,
sendo ele “inimigo” pessoal do réu envolvido no caso, não poderia proce-
der à acusação conforme estaria previsto no artigo 61 do regulamento de
31 de janeiro de 1842 (que fixava que os casos revestidos de circunstân-
cias extraordinárias deveriam ser tratados pelos chefes de polícia). Diante
do juízo do presidente de que ele se valeria de “pretextos privados” para
não proceder na “indagação dos deliquentes e na execução das ordens
superiores”, Viriato Duarte rebatia:

“Outrossim não tenho ao Chefe de Polícia nem ao Presidente da Pro-


víncia por pessoas competentes para conhecer das minhas suspeições
voluntárias, nem dos seus motivos, quando ditar um debaixo de ju-
ramento. Quererem forçar o Magistrado a continuar em um processo
em que se tem reconhecido suspeito, é além de ofender a Lei, e inde-
pendência do poder judicial, estabelecer um precedente danoso à boa
administração da justiça, e dando causa a julgamentos apaixonados”.

O mesmo juiz alegava que apenas continuaria no processo por or-


dens superiores, que não permitissem que, posteriormente, ele pudesse
vir a ser acusado por responsabilidade. O caso não parece ter sido solu-
cionado, mas demonstra bem o imbróglio institucional que se instaurava
com na jurisdição contenciosa de vários agentes.

Nesse imbróglio também tinham as Câmaras papel importante. A


despeito da tendência de valorização do poder das províncias desde o
início dos trabalhos legislativos do Império, com a transformação das
municipalidades em instâncias “meramente administrativas” nos termos
da lei que as reorganizou em 1828120, elas manteriam papel significativo
na administração da atividade judiciária e policial, até pelo menos 1841.
O Código do Processo de 1832 previa que elas seriam responsáveis pelas
nomeações dos escrivães de paz e inspetores de quarteirão (ambos a partir
de proposta dos juízes de paz), que teriam papel no estabelecimento dos

119 – AN, Manuscritos, GIFI, 5 B 535.


120 – CL, Actos do Poder Legislativo, lei de 1o. de outubro de 1828.

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jurados, e que fariam as listas para nomeação dos juízes municipais e dos
promotores públicos – este último tinha por função dar parte de denún-
cias, solicitação de prisão e de punição dos criminosos – encaminhadas
ao governo da província.

Em ordem do governo de 1834, afirmava-se que as Câmaras pode-


riam constranger os juízes de paz sempre que não julgarem lícitos os seus
impedimentos, exercendo, em parte, uma atribuição contenciosa121. Ao
mesmo tempo, em outro caso em que o promotor público de Cantagalo
acusava a municipalidade pela não realização da sessão do júri no tempo
marcado, o governo autorizava não só a suspensão do juiz de paz como
pedia que se procedesse imediatamente contra os vereadores responsá-
veis122. Caso idêntico ocorreria dois anos depois, em Pernambuco, quando
novamente se acusou a Câmara de impedir que o júri trabalhasse123. O que
demonstra que o órgão tinha um papel fundamental nessa administração.
Papel este que seria diminuído com a reforma do Código do Processo, em
1841, quando se definiu que a nomeação dos principais agentes da justiça
seriam do Imperador, bem como que o exame dos objetos de polícia sob
responsabilidade das Câmaras seria de atribuição dos chefes de polícia.

Nesse sentido, é fato que passados os primeiros anos da Regência,


a tentativa de se diminuir a ação das Câmaras esteve afinada com a en-
trada em cena de posicionamentos críticos em relação à figura dos juízes
de paz. Logo após a criação destes em 1827, a tendência fora contrária:
houve um esforço por parte das autoridades em implementá-los de forma
ativa, como se pode auferir de algumas decisões dos ministros da justiça
para o período. Assim, declarava-se que os oficiais de justiça deveriam fa-
zer todas as diligências ordenadas pelos juízes de paz124; que na resolução
de um conflito que envolvia um ouvidor e os mesmos juízes, o primeiro

121 – CDG, 12/junho/1834, p. 149.


122 – Idem, 15/dezembro/1834, p. 333. O ministro Diogo Antonio Feijó já havia afirma-
do, em decisão quando ministro em 1832, que a eleição dos jurados era um “ato munici-
pal” (13/fevereiro/1832).
123 – Idem, 26/maio/1836, pp. 194-5.
124 – Idem, 12/fevereiro/1830, p. 32.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

não tinha autoridade nenhuma sobre os segundos125; também que os juízes


de paz deveriam ser os executores de suas sentenças referente à infração
de posturas municipais, a despeito da reclamação feita pela Câmara de
Macaé126. Também como já se disse anteriormente, o próprio Código do
Processo significara um reforço bastante contundente da autoridade dos
mesmos juízes de paz.

No entanto, é notório como logo após a aprovação do citado Códi-


go os próprios ministros da Justiça passaram a criticar sistematicamente
os juízes eletivos nos seus relatórios anuais. Um deles foi Manoel Alves
Branco127, que quando esteve à frente da pasta, faria uma longa crítica à
falta de polícia, pedia limitações às atribuições dos juízes de paz e de-
fendia um “governo forte” na administração da justiça. Seria ele que, em
1835, e diante de uma dúvida do presidente de Minas Gerais, assinava
uma ordem para que os mesmos juízes, juntamente com os municipais
e o de órfãos, fossem entendidos como “magistrados” e assim pudessem
ser, como os outros agentes judiciários, não só suspensos como responsa-
bilizados por seus atos128. Argumentava que a medida era urgente diante
do fato de se acharem suspensos uma série de juízes de paz à espera de
resolução do governo na mesma província.

Sua ordem respondia a uma certa confusão existente sobre o enten-


dimento do papel dos juízes de paz. Dois anos antes da medida de Alves
Branco, um dos seus antecessores na pasta da Justiça, Honório Hermeto
Carneiro Leão, marcava que os mesmos juízes não deveriam ser com-
preendidos no artigo 17 da lei de 14 de junho de 1831 que marcava a
suspensão dos magistrados129. Entendia que sua suspensão, enquanto não
se colocasse totalmente em prática o Código do Processo – que marcava
as etapas de formação de culpa para os juízes – não poderia ocorrer sem

125 – Idem, 27/fevereiro/1830, p. 40.


126 – Idem, p. 41.
127 – Manoel Alves Branco (1797-1855) foi deputado, várias vezes ministro –
entre elas da Justiça entre janeiro a outubro/1835-, presidente do Conselho de
Ministros e senador. Receberia o título de 2º Visconde de Caravelas.
128 – CDG, 7/agosto/1833, p. 168.
129 – Idem, 3/janeiro/1833, pp. 3-4.

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pronúncia. Meses depois, seria marcado por Aureliano Souza e Oliveira


Coutinho – tendo em vista as ordens expedidas pelo presidente de Góias
depois das ofensas que lhe teriam sido dirigidas pelo juiz de paz de Santa
Luiza –, que os Conselhos de Província poderia suspender os mesmos juí-
zes130. Em 1832, já se havia marcado que os juízes de paz não tinham foro
privilegiado, como outras autoridades judiciárias, tendo que responder no
“foro comum” aos crimes que lhe fossem imputados131.

O fato é que essas ordens também espelhavam a série de conflitos


que envolviam os juízes de paz desde sua criação e subsequente forta-
lecimento de sua autoridade. Grande parte delas se davam em relação a
outras autoridades judiciais e revelam como elas acabavam produzindo
poderes concorrenciais, cujas contendas acabava sendo resolvidas pela
mediação de um agente da administração. Assim foi o caso de uma acu-
sação feita pelo juiz de paz de Fortaleza ao ouvidor da região, em 1830,
que o presidente irá considerar “sem fundamento” em função da defesa
do acusado e do “ótimo desempenho” que o mesmo ouvidor demonstrava
na província132. O ouvidor também atacara o mesmo juiz de paz, alegando
que o mesmo teria promovido o melhoramento e desvio de uma estrada
apenas em função de interesses pessoais. O governo central iria arbitrar, a
partir da posição do presidente, que a queixa realmente não procedia.

Em um outro caso, um juiz de paz da freguesia de Santana, Rio de


Janeiro, provava ser improcedente a denúncia contra ele feita pelo pro-
motor público, em 1833, pela qual ele fora injustamente suspenso133. Dois
anos haviam se passado depois que o ministro havia expedido, a partir da
acusação do promotor, sua suspensão, e só nesse momento se processava
na Corte ser “legal e justa” sua inocência. Na mesma época, um outro juiz
de paz, de Mangaratiba, acusa o comandante da Guarda Nacional de “se
mostrar negligente às suas requisições de força armada a bem do serviço
público”134. O que vale igualmente notar aqui é que o ministro da Justiça,

130 – Idem, 17/julho/1833, p. 267.


131 – Colleção das Decisões do Governo, 31/março/1832, p. 253.
132 – AN, Manuscritos, GIFI, 6 D 95.
133 – Idem, GIFI, 6 D 106.
134 – Idem, GIFI, 6 D 3.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

para decidir a questão, pedira o arbítrio da Câmara que defendeu o mes-


mo juiz. Vários foram os casos de conflitos entre os próprios juízes de
paz, o que sempre dificultava o posicionamento de outras autoridades135.

Mas fica evidente que, apesar do esforço por parte daqueles envol-
vidos com o projeto liberal de sua criação, a autoridade dos juízes de paz
não era muitas vezes reconhecida em pé de igualdade com outros agentes
da justiça. Um caso sintomático é o do ex-juiz de paz da Vila de Canta-
galo, Joaquim José Soares que, em 1834, foi suspenso por ordem do pró-
prio ministro da justiça, a partir de acusações feitas pela Câmara e pelo
promotor de que ele não cumprira com suas obrigações para formação do
Conselho de Jurados136. Ele, no entanto, recorrera, alegando tanto que a
falha teria sido do órgão municipal – que não teria feito em tempo compe-
tente o sorteio dos juízes –, como que ele não fora chamado a se defender
conforme estaria marcado no artigo 154 da Constituição, na citada lei de
14 de junho de 1831, e nas formalidades do Código do Processo. Arrema-
tava, por fim, que nem se remetera a questão ao poder judiciário, e pedia
sua reintegração ao cargo.

Era igualmente comum encontrar, nas ordens emanadas da secretaria


da justiça, a desaprovação de seus atos137, bem como a lembrança aos
presidentes de província de que eles poderiam suspender juízes de paz,
juízes municipais e promotores que tiverem faltado no cumprimento de
seus deveres, formando o competente processo de responsabilidade 138.
Além disso, o entendimento de que sua autoridade, tanto distinta como
passível de suspensão, se consolidaria sobretudo a partir da década de 40,
com a visível diminuição de sua importância e atribuições. Em uma con-
sulta ao Conselho de Estado, em 1844, novamente voltava à discussão a

135 – Veja-se dois casos em AN, GIFI, 5 C 484 e 6 D 12.


136 – AN, GIFI, 6 H 8.
137 – Como exemplo, nas CDG: a desaprovação que se faz dos atos do juiz de paz de
Santa Rita (10/janeiro/1836); acusação de que o juiz de paz indeferira um requerimento
do promotor (14/março/1837); ordem para que se responsabilizasse um promotor que não
queria acusar um juiz de paz desobediente (25/abril/1837).
138 – CDG, 8/agosto/1837, p. 278.

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inteligência do termo “magistrado”139. A decisão era que o termo deveria


enquadrar apenas os juizes de “direito e estas Relações e dos Tribunais
Superiores”, mas que “todos os outros magistrados, como juízes muni-
cipais, de órfãos, chefes de polícia, delegados, subdelegados, e juízes de
paz possam ser suspensos pelo Governo Imperial”, cabendo “igual au-
toridade aos presidentes de província, que a deve[ria]m exercer com a
moderação que, em atos de tanta gravidade, é indispensável”140. Ao final
da decisão, lembravam também os conselheiros que apenas os juízes de
direito, membros das Relações e tribunais superiores que deveriam ser
inclusive considerados perpétuos.

Ficava assim evidente, por um lado, que se os juízes de paz haviam


sido criados no âmbito de um projeto mais revolucionário para a justiça,
a crítica à sua atividade ganharia corpo quando esse mesmo projeto co-
meçara a perder forças já em meados da década de 30. Por outro, temos
indícios de que tanto eles como o sistema dos jurados tiveram um forte
impacto social141, e também colocaram novos problemas do ponto de vis-
ta da administração da justiça, bem expressos pela dificuldade perma-
nente de sua definição e da urgência desses parâmetros para decisão dos
casos. Como já se salientou, é fato que a partir da década de 40 ambas
as instituições perderiam força – bem como as câmaras municipais –,
numa clara tentativa de maior controle das ações pelo poder judiciário.
Mas o que vale destacar é que, com a mesma periodização, observava-se,
ao contrário, uma diminuição das tentativas de intervenção direta do
executivo na alta cúpula do judiciário, no caso, no Supremo Tribunal. O
que soa um aparente paradoxo era, na verdade, a perda da validade do
modelo mais radical de justiça de acordo com suas distintas instâncias:
aumenta-se o controle do governo na base, mas se apregoava um modelo
de maior independência do judiciário na cúpula.

139 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de


Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 24/janeiro/1844, p.68.
140 – Idem.
141 – Ivan Vellasco, As seduções da ordem. Violência, criminalidade e administração da
justiça. Minas Gerais, século XIX. Bauru/São Paulo: Edusc/Anpocs, 2004.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

Em relação ao controle sobre utilização de tropas armadas pelos


agentes da justiça, ou seja, da imbricação entre suas atividades judiciárias
com as policiais, ele não só se manteria após 1840, como seria igualmen-
te reforçado diante da dependência para manutenção de ordem pública
de organismos como o da Guarda Nacional. Analisando o tema para a
província de Minas Gerais, Ivan Vellasco argumenta como a organização
policial predominante era precária e desprofissionalizada, com imensas
dificuldades para contenção de conflitos interpessoais e manutenção da
ordem pública142. Isso porque, tanto a esfera da polícia não se constituiria
à época, nem sequer institucionalmente, como autônoma, como na sua
prática, na mesma lógica da Guarda Nacional, havia um amplo espaço
para interferência de interesses privados.

Vejamos um exemplo, de 1832, em que o ex-ouvidor da província de


Alagoas, José Emídio dos Santos Tourinho, narrava várias dos conflitos
que tivera com o presidente da mesma província, Manoel Lobo de Mi-
randa Henriques143. Dizia ele que, sendo o citado presidente seu desafeto,
vivera muitas dificuldades e desonras em Maceió, onde chegou a solicitar
ao juiz de paz uma patrulha para prender alguns indivíduos que foram a
sua própria casa para insultá-lo; o que lhe foi negado com o fundamento
de não haver rondas. De que seria inclusive condenado injustamente à
prisão e multa pelo júri, ao que decidiria enviar à Corte uma representa-
ção.

Uma outra dizia respeito à fraude nas eleições em função do contro-


le sobre as tropas armadas. O presidente da província do Espírito Santo
acusava, em 1843, dois juízes de direito da Comarca da Vitória e do Ita-
pemirim de terem empregado todos os meios a seu alcance, inclusive
violentos, para obterem triunfo nas eleições para a Assembleia provin-
cial144. Acusava o segundo de ter produzido arbitrariedades e difundido
“doutrinas anárquicas” a várias autoridades, além da pretensão de que
142 – Ivan Vellasco, “Policiais, pedestres e inspectores de quarteirão: algumas questões
sobre as vissicitudes do policiamento na província de Minas Gerais (1831-50)”, p. 254.
143 – AN, Manuscritos, GIFI, 6 H 10.
144 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 8/10/1843, pp. 26-29.

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o chefe de polícia reunisse forças sem o consentimento do presidente; e


que ambos a teriam empregado sem autoridade do mesmo. Com isso não
queremos dizer que as eleições não poderiam ocorrer de fato em muitos
outros momentos, mas que as condições institucionais dadas permitiam e
legitimavam, muitas vezes, essas práticas.

Isso porque a base da concepção de justiça era que ela possuía papel
fundamental na manutenção da ordem social, onde a imbricação entre as
distintas esferas e autoridades judiciais e policiais era um fato corriquei-
ro. O mesmo acabava sendo reiterado numa ordem do ministro da Justiça
que, em 1841, encarregava o recrutamento a oficiais do Exército e aos
comandantes da Guarda Nacional debaixo da direção dos juízes de direito
e do chefe de polícia, dando-lhes instruções145. No mesmo ano, a seção de
Justiça do Conselho de Estado aprovava que o governo poderia, na falta
de voluntários, preencher o número respectivo da Guarda Municipal Per-
manente, responsável sobretudo pelo policiamento, com praças escolhi-
dos pelo Exército146. Autorizava também que se fizessem as modificações
convenientes na organização do mesmo Corpo a fim de:

“apartar a idéia, que é repugnante à maior parte da população do Bra-


sil de que a Guarda Municipal é propriamente a 1ª. linha do exército, e
como tal sujeita ao rigor das leis militares; idéia que uma vez admitida
inutilizaria o pensamento de ter-se um corpo composto de homens
voluntários e da inteira confiança do governo”.

Ou seja, reforçava-se aqui a concepção que fora fundadora da Guar-


da Nacional que o policiamento, a manutenção da ordem pública estava
a cargo de cidadãos probos. A própria Guarda Municipal, quando criada
em junho de 1831 (conforme apontado acima), previa que enquanto o go-
verno não fornecesse “armamento e munição a todos os corpos”, seriam
“obrigados os cidadãos alistados a comparecer com as armas próprias que
tiverem”147.

145 – CL, Actos do Poder Executivo, 6/abril/1841, p. 29.


146 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado. Anos de 1842 a 1846. Consulta de 30/novembro/1841, p. 9.
147 – CL, Actos do Poder Executivo, lei de 14/junho/1831, artigo 6o.

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A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

Era o mesmo espírito que norteara a criação das Guardas Policiais em


cada um dos distritos (excetuando as capitais das províncias), em outubro
de 1833148. Estariam elas sob as ordens dos respectivos juízes de paz, os
quais poderiam substituir ou demitir seus componentes, dando partes às
Câmaras, sendo que apenas o ministro poderia dissolvê-las, substituí-las
ou reduzi-las. Sua despesa correria por conta dos moradores dos mesmos
distritos, pelo tempo e maneira que marcassem os vereadores. É sintomá-
tico que medidas postas em prática posteriormente repetiriam o mesmo
modelo. Em 1836, deram-se ordens ao chefe de polícia sobre como pro-
ceder com as despesas dos “Urbanos” – subscrição voluntária por distrito
para que se fizessem rondas e policiamento da Corte à noite –, as quais
previam a nomeação de uma comissão cujos membros que não contribu-
íssem seriam preferencialmente chamados à Guarda Nacional149. Ou seja,
o policiamento dependeria, em grande parte, da população. Por mais que
se possa afirmar que essas soluções foram as possíveis nos anos tão tu-
multuados como os da Regência, esse modelo de aposta na ação dos indi-
víduos para manutenção da ordem pública mostraria ter longevidade150.

Nessa mesma chave estava a Guarda Nacional, cuja lógica não seria
estruturalmente alterada com sua reforma em 1850. Desde sua criação em
1831, são frequentes as dúvidas na sua organização, em cujo processo as
Câmaras tinham um papel fundamental. Com o Ato Adicional em 1834,
também as províncias passariam a administrá-las localmente151, sob a co-
nivência do governo que, num período bastante conturbado politicamen-
te, seguia a mesma lógica de delegação aos particulares grande parte do
controle e manutenção da ordem pública. Em decreto aprovado em 1836,
fornecia o governo aos presidentes das províncias do Rio Grande do Sul,

148 – Cl, Actos do Poder Legislativo, 7/outubro/1933.


149 – CDG, 5/fevereiro/1836, p. 49.
150 – Segundo Wilma Peres Costa, op.cit., o domínio dos “privados” sobre as Forças
Armadas predominaria até a Guerra do Paraguai.
151 – Jeanne B. de Castro, op. cit., analisou como as leis aprovadas pelas assembleias
legislativas provinciais para a Guarda Nacional acabariam por exorbitar os seus limites
na administração da mesma, produzindo uma espécie de “provincialização” das suas de-
cisões durante a Regência. Segundo a autora, na década de 1840, haveria uma tendência
reversa de maior controle sobre a Guarda, que culminaria com sua reforma anos depois.

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de Santa Catarina e de São Paulo o direito de organizarem, da forma que


julgarem conveniente, as Guardas Nacionais, bem como a nomeação de
seus oficiais152. Como esta, outras se seguiriam, bem como aumentaria a
produção legislativa e atividade provincial para sua normalização e con-
trole.

Como é sabido, e já enunciado anteriormente, a Lei de Interpretação


do Ato Adicional tentaria reverter esse quadro tanto em função de um
maior controle sobre as tropas como diante dos problemas acarretados
na aplicação da legislação. Uma consulta resolvida pela Seção de Justiça
do Conselho de Estado, em 1849, permite que se veja seus impasses com
precisão153. Entre vários documentos encaminhados pelo presidente da
província de Minas Gerais, havia um exemplar de uma lei provincial que
marcava serem “perpétuos e vitalícios” os postos de oficiais da Guarda
Nacional. O mesmo presidente argumentava que sua aprovação infringia
uma outra, também provincial (n. 170, de 16/3/1840), que dizia serem
os citados postos de sua nomeação. A Seção não hesita em opinar que as
assembleias legislativas provinciais não teriam atribuição para legislar
sobre a matéria, pedia que se suspendesse a execução da mesma lei, e res-
ponsabilizava o presidente que a havia aprovado154. A matéria, no entanto,
não encontrara consenso entre os conselheiros numa outra questão: se o
Moderador (poder ao qual o Conselho de Estado era um órgão consulti-
vo) poderia suspender a mesma lei, ou se apenas o Legislativo poderia

152 – CL, Actos do poder executivo, 28/março/1836, p.18.


153 – Imperiais resoluções tomadas sobre consultas da Seção de Justiça do Conselho de
Estado (de 1842 até hoje), consulta de 24/01/1849, p. 128 seg.
154 – Como esta, vários outros casos que foram objeto de consulta do Conselho de Es-
tado podem ser citados como exemplos: uma de abril/1849, que defendia que a Guarda
Nacional tinha que ser objeto de uma “lei geral” (p. 139); outras de 27/maio e 6/outubro
de 1849, que tratam de problemas com as leis provinciais da Guarda Nacional; outra
que trata da extinção dos “prefeitos de comarca” criados como autoridades policiais nas
províncias, de 4/abril/1843. Uma de 31/março/1847, acusava a ação do vice-presidente
do Maranhão de decidir sobre os destinos dos oficiais “impossibilitados ou remissos”, ao
contrário da lei provincial que os tornara vitalícios. Os argumentos do presidente eram
pragmáticos: de que os Conselhos de Disciplina da Guarda Nacional não funcionavam de
maneira adequada para que os mesmos voltassem aos seus postos. O Conselho o reprovou
e pediu, inclusive, que ele fosse responsabilizado por não se tratar de matéria de sua com-
petência (pp.112-3).

270 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):225-272, jul./set. 2011


A administração da justiça nas primeiras décadas do Império do Brasil: instituições,
conflitos de jurisdições e ordem pública (c.1823-1850)

fazê-lo. O parecer, no entanto, é aprovado com a justificativa que a medi-


da seria ofensiva à Constituição, além de ser recorrente prática nos outros
ministérios a “doutrina” de suspensão de leis provinciais contrárias a ela.
Com isso resolvia-se, ao menos normativamente, um quadro complexo
dos limites da legalidade nessa nova ordem.

5. Considerações finais
Do quadro de instituições, agentes e conflitos que tiveram lugar no
processo de construção de uma justiça constitucional para o Império do
Brasil, e que se apresentou aqui de maneira multifacetada, vale à pena su-
blinhar algumas relações que dão significado e moldura ao seu desenho.
Em primeiro lugar, que a complexificação das soluções institucionais que
o paradigma legalista ilustrado portava consigo, e que não foi uma es-
pecificidade no caso brasileiro obviamente, marcaria profundamente o
funcionamento das novas instituições políticas e jurídicas que tentaram
dar conta da formação de novos regimes representativos e de garantia dos
direitos dos seus cidadãos. O que tocava diretamente na questão da justiça
já que seu campo, na lógica de separação de poderes, deveria ser circuns-
crito, bem como revisto seu papel na aplicação/interpretação da lei. No
Brasil, a solução monárquica projetada apresentava uma predominância
do Executivo no arbitramento de conflitos, a legitimidade do Legislativo
como evocação da representação da nação, e um discurso mais eloquente
acerca do controle da justiça à semelhante das bandeiras mais radicais que
ganharam corpo após os movimentos revolucionários de fins do Setecen-
tos, num primeiro momento. Esse arranjo, moderado por suposto, tentara
limitar institucionalmente o amplo campo de atuação do novo Judiciário
e seus agentes para a esfera das questões ordinárias, dos cidadãos entre
si, entendendo-os sobretudo como responsáveis pela aplicação da lei e
não mais sua interpretação, à luz de outras experiências das monarquias
constitucionais europeias. Mesmo com a tentativa de reforço do poder de
justiça e de sua independência a partir da década de 40, o desenho estru-
tural de sua esfera e arbítrio continuaria.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):225-272, jul./set. 2011 271


Andréa Slemian

No entanto, para além das questões ordinárias, ficara igualmente re-


servada à justiça a manutenção da ordem pública, conforme aqui discu-
timos. Controle da ordem esta que residia estruturalmente na mão dos
privados, o que remontava à colônia e à escravidão, mas cuja lógica seria
reinventada na nova realidade constitucional a partir da criação de outros
instrumentos e agentes. Era assim que a mesma reinvenção de várias es-
feras de decisões contenciosas no âmbito de funcionamento das institui-
ções, bem como a imbricação entre questões judiciais e policiais – que se
desdobrava na solução de que os cidadãos atuavam como força policial
nas guardas, inclusive, na Nacional – faz com que a lógica da adminis-
tração da justiça não possa ser vista fora dessa mesma moldura. Projeto
geral que seria reforçado em 1841, e que só fracassaria, juntamente com
o Império, a partir dos anos 70, quando a justiça e o poder judiciário se
consolidariam sob novas bases do paradigma legalista.

Texto apresentado em setembro /2010. Aprovado para publicação


em maio /2011.

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:


o levante de escravos como crime de insurreição
From the “Statutes” to the 1830 Brazilian
Criminal Code: The uprising of slaves as crime of
insurrection slave uprising as a
Monica Duarte Dantas 1

Resumo: Abstract:
O Código Criminal do Império do Brasil, de The Brazilian Empire’s 1830 Criminal Code
1830, previa em seus artigos 113, 114 e 115 o anticipated in its articles 113, 114 and 115,
crime de insurreição, que penalizava os escravos the crime of insurrection, that punished slaves
que tentassem obter sua liberdade por meio da who attempted to obtain their freedom through
força, bem como terceiros que os auxiliassem na force, and also third parties who helped them in
consecução de seus intentos. A partir de dicio- their attempt. Based on dictionaries and docu-
nários e documentos dos séculos XVII, XVIII ments dating from the Seventeenth, Eighteenth
e XIX (da Espanha, França, Inglaterra, Estados and Nineteenth centuries (from Spain, France,
Unidos e Brasil), e também da historiografia England, USA and Brazil), as well as pertinent
pertinente, o presente artigo visa recuperar de historical writings, this paper aims at identify-
que maneira esse tipo penal foi incoporado ao ing how that punishment was incorporated into
referido código, considerando-se que a palavra the referred Code since the word insurreição2 (in
insurreição (em português) não fora ainda dicio- Portuguese) had not yet been included in dic-
narizada até inícios do XIX, e que ela aparecia tionaries until the beginning of the Nineteenth
em documentos brasileiros da década de 1820 century and that it appeared in Brazilian docu-
com um sentido completamente distinto daquele ments in the 1820s with a totally different mean-
do código. ing than that in the Code.
Palavras-chave: Código Criminal – Insurreição Keywords: Criminal Code – Insurrection –
– escravidão – direito penal. Slavery – Penal Law.

“[...] E sendo necessario Provará que na noite do dia vinte e quatro do


mês de Janeiro proximo passado se denunciara, que numa madrugada
do dia seguinte rebentaria hua insurreição de Africanos; e pelo que,
Provará que dando-se as providencias, foi cercada hua caza a ladei-
ra da Praça, onde se achavão reunidos muitos dos Africanos os que
sentindo-se cercados, abrirão a porta, e de dentro fizerão logo fogo,
e immediatamente sahirão para a rua matando, e cutilando a quem
encontravão, e animando-se a atacar os corpos de guardas o que tudo
foi bem publico. Provará que do barbaro massacre rezultarão diversas
mortes, e ferimentos de cidadãos [...]. Provará que profligada a insur-
reiçaõ dos Africanos em aquella mesma noite muitos poderão fugir, e

1 – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. Professorea do Instituto


de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.
2 – Insurrection.

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Monica Duarte Dantas

acoitarem-se; porem sendo depois denunciados, forão prezos nos di-


versos lugares onde se achavão. [...] Provará que todos os Reos accu-
zados no prezente Libello tiverão parte na dita insurreição segundo as
suas proprias confissõens elles pertendião fazer hum assassino geral
em toda a gente branca [...]. Neste termos e conforme aos de Direito.
Devem ser punidos com o maximo da pena do artigo 113 do Codigo
penal, os quatro reos como cabeças de insurreição [...].
(“Devassa do levante de escravos ocorrido em Salvador em 1835”)3

Com este libelo pedia o promotor, João Alexandre de Andrade Silva


e Freitas, a punição de 21 acusados de participação na insurreição de
escravos que estourou na cidade da Bahia, na madrugada do dia 24 de
janeiro de 1835 (mais conhecida como Revolta dos Malês). Ao todo fo-
ram acusados de participarem do levante mais de 280 escravos e libertos,
incluindo os referidos pelo autor do libelo acima, sendo ao final dezesseis
condenados à pena capital, aplicada de fato a quatro deles.4

Conforme alegava o promotor, dos 21 arrolados no libelo, dezenove


deveriam ser penalizados, em grau médio ou máximo (neste caso a pena
era a morte), conforme o previsto no artigo 113 do Código Criminal do
Império do Brasil, de 1830; e outros dois como incursos no artigo 115.

O Código era bastante claro ao definir por que, dados os aconteci-


mentos de 24 de janeiro, aqueles libertos e escravos poderiam ser enqua-
drados nos referidos artigos:
“Cap. IV – Insurreição
Art. 113. Julgar-se-há commetido este crime, reunindo-se vinte ou
mais escravos para haverem a liberdade por meio da força. Penas –
Aos cabeças – de morte no gráo Maximo; de galés perpetuas no mé-
dio; e por quinze annos, no mínimo; – aos mais – açoutes.
Art. 114. Se os cabeças da insurreição forem pessoas livres incorre-
rão nas mesmas penas impostas, no artigo antecedente, aos cabeças,
quando são escravos.

3 – “Devassa do levante de escravos ocorrido em Salvador em 1835”, Anais do Arquivo


do Estado da Bahia, Salvador, vol. 38, jan.-dez., 1968, pp. 96-97.
4 – João José Reis, Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos Malês em 1835,
ed. revista e ampliada, São Paulo, Companhia das Letras, 2003, cap. 14.

274 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011


Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

Art. 115. Ajudar, excitar, ou aconselhar escravos a insurgir-se, for-


necendo-lhes armas, munições, ou outros meios para o mesmo fim.
Penas – de prisão com trabalho por vinte annos no gráo Maximo; por
doze no médio; e por oito no mínimo.5”
O capítulo IV – integrante do título 4º, sobre “Crimes contra a se-
gurança interna do Império e a pública tranqüilidade”, da segunda parte
do Código (“Dos crimes públicos”) – definia então claramente que só
era crime de insurreição a associação de escravos para conseguirem sua
liberdade por meio da força, sendo puníveis também os livres ou libertos
que os secundassem, aconselhassem ou auxiliassem na consecução de seu
intento. Diferenciava-se, portanto, essencialmente dos outros tipos penais
previstos no referido título 4º – conspiração, rebelião, sedição, resistên-
cia, tirada ou fugida de presos e arrombamento de cadeias, e, finalmente,
desobediência às autoridades – que não remetiam à condição jurídica dos
envolvidos para caracterização do ocorrido.6

Considerando-se a grande população escrava existente no país


recém-independente não parece, a priori, estranho que os legisladores
brasileiros – muitos deles proprietários de escravos – tenham se preocu-
pado em incluir no Código um instituto que visava diretamente à punição
de levantes. Contudo, ao se considerar outros documentos da época, essa
opção por definir tal crime como insurreição inspira um olhar mais aten-
to.7
5 – “Código criminal do Império do Brasil”, Colleção das Leis do Império do Brasil,
1830, parte primeira, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1876, pp. 141-190, p. 158
doravante CLIB) – as coleções de leis do Império do Brasil foram consultadas no site da
Câmara dos Deputados http://www2.camara.gov.br/legislacao/publicacoes/doimperio.
6 – Para uma discussão acerca desses tipos penais no referido Código, ver Monica Du-
arte Dantas, “Introdução: revoltas, motins, revoluções”, in idem, Revoltas, motins revo-
luções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX, São Paulo, Alameda, no
prelo.
7 – As ponderações aqui postas se valem dos questionamentos e resultados de uma pes-
quisa em andamento intitulada “Poderes e práticas: poder judiciário e arranjos políticos
no Império do Brasil (1826-1889)”, que visa ao entendimento das propostas e modelos
apresentados no Parlamento brasileiro – no que tange à organização do judiciário no Im-
pério –, bem como das implicações dos códigos e reformas na organização política e nos
modelos de governo no período em questão. Essa investigação se insere nos trabalhos do
Grupo de Pesquisa (CNPq) “O Império Negociado”, por mim coordenado juntamente

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011 275


Monica Duarte Dantas

O “Projecto do código criminal” apresentado à Câmara dos Deputa-


dos, em 1827, por Bernardo Pereira de Vasconcelos, e que as comissões
designadas pelo legislativo teriam tomado por base para a redação final
do Código, aprovado em 1830, não tipificava o crime de insurreição de
escravos, ou melhor, sequer mencionava a palavra insurreição.8 Tampou-
co havia verbetes para tal vocábulo nos dicionários de Raphael Bluteau,
no século XVIII, ou de Antonio Morais Silva, já no oitocentos.9 Ainda
que não dicionarizado no período do pós-independência e ausente das
Ordenações Filipinas ou mesmo da legislação esparsa portuguesa sete-
centista10, o termo era conhecido dos contemporâneos de Morais Silva.

Em seu Typhis Pernambucano, frei Caneca se utilizou da palavra


“insurreição”, por exemplo, em 8 de janeiro de 1824:
“Depois de se ter demonstrado nos números antecedentes a falsidade
do motivo que a perversa facção portuguesa teve a habilidade de em-
pregar para iludir e violentar a s. m. i. a acabar com a soberana Assem-
bléia Constituinte brasiliense, arriscando desta feição a integridade do
império com a desconfiança e a insurreição das províncias, e abrindo o
Brasil os abismos da anarquia e guerra civil, fazia-se frustrâneo dizer
uma palavra que fosse sobre o demais conteúdo nos decretos, procla-
mação e manifesto de 16 de novembro [...]11”
com a Profa. Miriam Dolhnikoff.
8 – O legislativo imperial tomou por base dois projetos, aquele entregue por Vasconce-
los, em 1827, e outro redigido por Clemente Pereira e apresentado ao plenário em 1826.
O documento de Clemente Pereira, contudo, se assemelhava pouco a um projeto de fato,
tratando-se, mais propriamente, como indicava o próprio título, de “bases”, ou princípios,
que deveriam guiar um futuro projeto. Annaes do Parlamento Brazileiro. Câmara Dos
Srs. Deputados. Sessão de 1826, tomo segundo, Rio de Janeiro, Typographia do Imperial
Instituto Artístico, 1874, pp. 15-16 (doravante APB-CD) – os anais da câmara dos depu-
tados estão disponíveis no site http://www2.camara.gov.br/documentos-e-pesquisa/publi-
cacoes; “Projecto do código Criminal apresentado em sessão de 4 de maio de 1827 pelo
deputado Bernardo Pereira de Vasconcellos”, APB-CD, 1829, tomo 3º, Rio de Janeiro,
Typographia de H. J. Pinto, 1877, pp. 95-109; Andréa Slemian, “À nação independente,
um novo ordenamento jurídico: a criação dos Códigos Criminal e do Processo Penal na
primeira década do Império do Brasil”, in Gladys Sabina Ribeiro (org.), Brasileiros e
cidadãos: modernidade política 1822-1930, São Paulo, Alameda, 2008, p. 187.
9 – Raphael Bluteau, Vocabulário portuguuez e latino, Coimbra, Colegio das Artes da
Companhia de Jesus, 1712 (disponível no site http://www.ieb.usp.br/online/index.asp);
Antonio de Morais Silva, Diccionario da Lingua Portugueza, Lisboa, Typographia La-
cerdina, 1813.
10 – Sobre isso ver Dantas, “Introdução”, op. cit.
11 – Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, organização, introdução e notas de Evaldo

276 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011


Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

A Comissão Militar encarregada de julgar os participantes da Confe-


deração do Equador, já na primeira página do “Processo verbal e sumarís-
simo dos réus”, também declarou que “aos 20 dias do mês de dezembro do
dito ano, reunida a comissão militar [...] para o fim de processar e julgar
muito sumária e verbalmente os chefes da insurreição e rebeldia, havida
na Província de Pernambuco”12, os julgaria “pelo crime de rebellião”13.

Na sentença, diziam as autoridades que “apresentando em horroroso


quadro o estado de todas as províncias, com o que se espalhou o alarma
pelas da parte do norte, que as fez estremecer, à vista do que lhes fazia
acreditar estarem todas as outras províncias a sacudir o laço da união
nacional; e isto causou o desvairamento de uma delas a ponto de arvorar
o estandarte da insurreição, levando-se pela sedutora ideia da Projetada
Confederação do Equador [...]”14

Tal uso, de insurreição das províncias, implicando quase uma seces-


são, ou guerra civil, lembra bastante o sentido do vocábulo “insurgente”,
tal como utilizado por d. Pedro I no “Manifesto – de 10 de dezembro de
1825 [...] que justifica o procedimento da côrte do Brazil a respeito do
Governo das províncias unidas do Rio da Prata; e dos motivos que a obri-
garam a declarar guerra ao referido Governo”.

“É bem nottorio que, quando rebentou a revolução das Provincias


Hespanholas do Rio da Prata, incluindo Buenos Ayres, a Côrte do Rio
de Janeiro manifestou constantemente a mais resctricta neutralidade,
apesar de todas as prudentes considerações, que faziam receiar o pe-
rigo do contágio revolucionário. Porém os insurgentes, sem a menor
provocação da nossa parte, como que para fazer-nos arrepender do
systema pacifico, que se procurou sempre adoptar, começaram desde
logo a infestar as fronteiras da Provincia do Rio Grande de S. Pedro.
Elles convocavam os Indios ao seu partido, reuniam tropas, para in-
vadirem a Provincia visinha, e espalhavam proclamações sediciosas
para excitarem os Povos das Sete Missões á rebellião. Sua Magestade

Cabral de Mello, São Paulo, Editora 34, 2001, p. 319 (grifo nosso).
12 – Ibidem, p. 609 (grifo nosso).
13 – Ibidem, p. 612.
14 – Ibidem, p. 638 (grifo nosso).

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Monica Duarte Dantas

Fidelissima bem Reconheceu que era inevitavel, para por os seus Es-
tados a coberto das perniciosas vistas dos insurgentes, levantar uma
barreira segura, justa e natural entre elles e o Brazil [...].”15

A palavra “insurgente” era utilizada, assim, juntamente com o mais


constante vocábulo rebelião, um tipo de crime em que havia o “perigo do
contágio revolucionário” e “proclamações sediciosas”. O uso de frei Ca-
neca, da Comissão Militar encarregada de julgar os envolvidos na Con-
federação, ou mesmo do próprio d. Pedro I assemelhava-se àquele do
Codigo Penal Español, aprovado pelas Cortes daquele país em 1822.
“Es rebellion el levantamineto ó insurreccion de uma porcion mas ó
menos numerosa de súbditos de la Monarquia, que se alzan contra la
patria y contra el Rey, o contra el Gobierno supremo constitucional y
legitimo de la Nacion, negándole la obediencia debida, ó procurando-
se sustraerse a ella, ó haciéndole la guerra com las armas.16”

Ainda que utilizado pelos espanhóis no começo da década de 1820,


o termo estava ausente de outros projetos ou Códigos penais anteriores,
como o projeto de código de Pascoal de Mello Freire de 1786, e os có-
digos da Toscana (1786), do imperador José II da Áustria (de 1787), da
lei francesa de 1791, e mesmo do Código Penal napoleônico de 181017.
Contudo, os franceses ao menos pareciam conhecer a palavra, afinal a As-
sembleia Nacional do país, em 1793, na “Segunda Declaração de Direitos
do Homem e do Cidadão”, determinara que “Quand le gouvernment viole
15 – CLIB, 1825, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1885, p. 95 (grifo nosso). A palavra
insurgente aparece de novo na página 101, utilizada juntamente com os vocábulos suble-
vação e rebeldes.
16 – Codigo Penal Español, decretado pelas Cortes em 8 de junio, sancionado por El
Rey, y mandado promulgar em 9 de julio de 1822, Madri, Imprenta Nacional, 1822, pp.
55-56.
17 – Pascoal José de Mello Freire, Código criminal intentado pela Rainha D. Maria
I, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1844 (disponível no site http://www.fd.unl.pt);
Nouveau Code Criminel pour le Grand Duché de Toscane, Lausanne, François Grasset
et Comp. Libraires & Imprimeurs, 1787; The Emperor’s New Code of Criminal Laws,
Dublin, Printed by John Rea, 1787; Loi. Code Pénal. Donnée à Paris, le 6 Octobre 1791,
Saint-Flour, G. Sardine Imprimieur du Département du Cantal, 1791; “Codes des delits
et des peines (décrété le 12 février 1810. Promulgué le 22 du même mois)”, Corps de
Droit Français, civil commercial et criminel, par L. Rondonneau, Paris, Garnery Libraire,
1810.

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

les droits Du peuple, l’insurrection est, pour le peuple et pour chaque


portion Du peuple, le plus sacré des droits et le plus indispensable des
devoirs”.18

Assim, entre finais do século XVIII e as primeiras décadas do oi-


tocentos, circulavam ao menos três acepções distintas para o vocábulo
insurreição: aquela dos documentos brasileiros relativos à Confederação
do Equador e à Guerra Cisplatina (semelhante à espanhola de 1822), que
identificava a palavra como rebelião e guerra civil (como um crime contra
o Estado e o soberano); um segundo, existente na declaração francesa, de
insurreição como um dever e direito do cidadão contra um governo que
violasse seus direitos; e, finalmente, a do Código brasileiro de 1830, em
que insurreição era o crime de levante de escravos.

No caso espanhol, a dicionarização do termo, “Insurrección. El le-


vantamiento, sublevacion ó rebelion de algun pueblo, nacion &e”, ocor-
rera poucos anos antes de sua incorporação ao Código, apenas em 1817,
estando ausente das edições anteriores do dicionário da Real Academia
espanhola.19

O caso francês já é um pouco diferente. O Dicionário da Academia


Francesa, de 1762, que não apresentava o verbete insurreição, já trazia
a palavra insurgents, mas com uma definição curiosa, um “nom qu’on
donne à certains Corps de troupes Hongroises levées extraordinairement
pour le service de l’État”.20 Em 1820, contudo, um novo dicionário já
apresentava verbete para a palavra insurreição, remetendo, de alguma ma-

18 – “Texte de la Déclaration des Droits de l’Homme et Du Citoyen, adoptée par la


convention Nationale le 23 Juin 1793”, apud Armand Depper, Education Civique. Com-
mentaire de la Declaration dês Droits de l’Homme et Du Citoyen de 1789 et de 1793,
Paris, Gedalge, Librairie-Éditeur, 1902, p. 140 (grifo nosso).
19 – Ver, por exemplo, as edições de 1783 e 1803. Diccionario de la lengua Castellana
compuesto por la Real Academia Española. 2ª ed. Madri, D. Joaquin Ibarra, Impressor
de Cámara de S. M. y de La Real Academia, 1783; Diccionario de la lengua Castellana
compuesto por la Real Academia Española. 4ª ed. Madri, D. Joaquin Ibarra, Impressor
de Cámara de S. M. y de La Real Academia, 1803; Diccionario de la lengua Castellana
compuesto por la Real Academia Española. 5ª ed. Madri, Imprensta Real, 1817.
20 – Dictionnaire de l’Académie Françoise. 4ª ed. Paris, Bernard Brunet, Imprimeur de
l’Académie Françoise, 1762, tomo I, p. 940.

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011 279


Monica Duarte Dantas

neira, ao sentido da Segunda Declaração, de 1793: “Soulevement contre


le gouvernment. Ceux qui emploient cette expression y attachent une idée
de droit et de justice. Dans le cas contraire, on dit revolte. L’insurrection
des Américains.”21 O dicionário distinguia então claramente um movi-
mento legítimo, chamado de insurreição, como aquele que ocorrera na
década de 1770 na antiga colônia britânica da América do Norte, dos
outros ilegítimos, denominados revoltas.

Não é de se estranhar, dada a referência francesa, que os ingleses não


atribuíssem ao vocábulo sentido semelhante. Para Samuel Johnson, insur-
reição era “A seditious rising, a rebellious commotion”, definição idêntica
à dada por Thomas Sheridan, em 1790.22 A despeito, contudo, da acepção
do dicionário francês de 1820, o norte-americano Noah Webster não deu
à palavra um sentido positivo, ao contrário.
“A rising against civil or political authority; the open and active op-
position of a number of persons to the execution of law in a city or
a state. It is equivalent to sedition, except that sedition expresses a
less extensive rising of citizens. It differs from rebellion, for the lat-
ter expresses a revolt, or an attempt to overthrow the government, to
establish a different one or to place the country under another juris-
diction.” 23

A definição dada por Webster, que na juventude serviu nas milícias


de Connecticut na luta pela Independência, remetia de alguma maneira ao
uso da palavra tanto na Declaração de Independência quanto na Consti-

21 – Nouveau Dictionnaire de la Langue Française. Par J.-Ch. Laveaux. Paris, Chez De-
terville, Libraire, 1820, p. 1049.
22 – Samuel Johnson, A Dictionary of the English Language, Londres, Printed for J.
Knapton; C. Hitch and L. Hawes; A. Millar; R and J. Dosley; and M. and T. Longman,
1756, vol. 1, p. (INS-INT); Thomas Sheridan, A Complete Dictionary of the English
Language. 3a. ed. Londres, Charles Dilly, 1790, vol. I, p. (INS-INT).
23 – E o verbete continua explicitando mais claramente as diferenças entre os distintos
tipos de movimentos. ����������������������������������������������������������������������
“It differs from mutiny, as it respects the civil or political govern-
ment; whereas a mutiny is an open opposition to law in the army or navy. Insurrection is
however used with such latitude as to comprehend either sedition or rebellion. [...] 2. A
rising in mass to oppose an enemy [little used.]” . Noah Webster, An American Dictionary
of the English Language, Nova Iorque, Published by S. Converse, 1828, vol. 1, p. (INS-
INT).

280 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011


Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

tuição americana, ou seja, com um sentido negativo, em tudo distinto do


uso francês de 1793 e do Nouveau Dictionnaire de la Langue Française,
de 1820.24

Considerando-se então os dicionários ingleses, franceses, espanhóis


e portugueses, fica claro que apenas a Inglaterra havia dicionarizado a
palavra no século XVIII, e com um sentido que em nada lembrava aquele
do Código brasileiro de 1830, com um sentido muito mais próximo do
atribuído no dicionário espanhol de 1817. Assim, se poderia pensar que,
dada a situação do novo Império no que tange à centralidade da escravi-
dão no país, o tipo penal insurreição como crime de levante de escravos
teria sido uma invenção pura e simples dos nossos legisladores. Porém,
mais uma vez a questão é mais complexa.

Em sua edição de 12 de outubro de 1791, a Pennsylvania Gazette,


um dos mais importantes jornais da Filadélfia, publicou um relato dos
acontecimentos em São Domingos, conforme descritos em uma carta en-
viada por um senhor então em Cape François a um amigo na capital do
estado americano. A publicação tratava dos acontecimentos ao longo de
vários dias, entre 24 de agosto e 13 de setembro de 1791.25

Em seu relato o autor se utilizava, repetidamente, da palavra insur-


reição para se referir à sublevação dos escravos na colônia francesa.

24 –������������������������������������������������������������������������������������
Logo na segunda página, ao arrolar as ações do rei britânico que justificavam a in-
dependência, os signatários culpavam-no por ter “excited domestic insurrection amongst
us, and has endeavoured to bring on the inhabitants of our frontiers the merciles Indian
savages, whose known rule of warfare is an undistinguished destruction of all ages, sexes,
and conditions”. Já na Constituição, entre os poderes do Congresso, determinava-se “To
provide for calling forth the militia to execute the laws of the Union, suppress insurrec-
tions, and repel invasions”. “The Declaration of Independence”, “The Constitution of the
United States”, in The Public Statutes at Large of the United States of America, Boston,
Charles C. Little and James Brown, 1845, disponível no site “A Century of Lawmaking
for a New Nation: U.S. Congressional Documents and Debates, 1774 - 1875”, http://me-
����������
mory.loc.gov/cgi-bin/ampage.
25 – Com a Revolução Francesa, a população livre de cor de São Domingos começara a
pleitear total igualdade jurídica com a população branca. Em agosto de 1791, em meio às
disputas entre esses grupos, os escravos da colônia se sublevaram, conseguindo o controle
de parte da ilha. Em 1804, São Domingos, doravante, Haiti, alcançaria finalmente sua
independência.

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Monica Duarte Dantas

“Several thousands of the Negroes had assembled, and committed


some ravages by burning several habitations, which they continued
doing all last night, in spite of the troops which went out to stop their
depredations. Many Negroes were yesterday killed, indeed all that
could be met with. This morning a respectable re-enforcement were
[sic] sent to the body which marched yesterday. I have not yet heard
whether the insurrection is quelled – but the damage already sustained
is immense. [...]
Since the commencement of the insurrection great numbers have been
brought prisoners to town, a few Mullatoes, and the rest Negroes.” 26

Em fins do século XVIII, portanto, ao menos nos Estados Unidos,


o movimento hoje conhecido como Revolução do Haiti era então refe-
rido como uma insurreição de escravos. No mesmo ano de 1791, em 30
de novembro, os deputados de São Domingos proferiram um discurso
perante a Assembleia Geral na França. Em seu longo discurso – impres-
so por ordem da mesma Assembleia – referiam-se aos acontecimentos
utilizando-se, quase sem variações, da palavra révolte, ou melhor, révolte
des noirs, sendo os participantes os nègres révoltés. Apenas uma única
vez lançaram mão do termo insurreição, “ils sont chargés de libelles & de
livres qui invitent les hommes de couleur & les esclaves à une insurrec-
tion générale, au massacre des blanc”.27

O Discours, juntamente com vários anexos documentais e um pos-


cript do tradutor, foi publicado em inglês, em Londres, em 1792, com o
título A Particular Account of the Commencement and Progress of the
Insurrection of the Negroes in St. Domingo. Ainda que as palavras revolt
e revolters sejam comuns ao longo do texto, o termo insurreição foi uti-
lizado algumas vezes como sinônimo do francês révolte. Mais significa-
tivo, contudo, parece ser o referido Poscript do tradutor, que, em pouco

26 – The Pennsylvania Gazette, 12 de outubro de 1791, American Slavery Debate in the


Context of Atlantic History, 1770-1865, disponível no site http://atlanticslaverydebate.
berkeley.edu/module3_library (consultado em 29/1/2011).
27 – As palavras revolte ou revoltés são mencionadas mais de 15 vezes ao longo de 30 pá-
ginas; o uso de insurreição aparece na página 22. Discours fait a l’Asssemblée Nationale,
le 30 Novembre 1791. Par MM. Les Comissaires de l’Assemblée Générale de la partie
Fraçoise de Saint-Domingue. Imprimé par ordre de l’Assemblé Nationale.

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

mais de uma página e meia, utilizou-se mais de sete vezes da palavra


insurrection para designar o que acontecia então na colônia francesa – o
que parece ter informado também sua seleção de palavras no título do
panfleto.28

É possível, portanto, que, frente à magnitude dos acontecimentos


em São Domingos, ingleses e americanos tenham lançado mão do termo
que, conforme descrito nos verbetes de Samuel Johnson e Thomas Sheri-
dan, remetia a um levante sedicioso ou uma comoção rebelde. O próprio
planfleto traduzido para o inglês pode ter sido responsável em parte pela
generalização do uso da palavra insurreição como qualificativo de movi-
mento escravo. O periódico The Montly Review, publicado em Londres
em 1792, em sua parte destinada a divulgar os catálogos de abril daquele
ano, arrolava em sua listagem de obras recém-lançadas o referido Ac-
count, trazendo ao final de sua breve resenha a seguinte ponderação:
“With the horrid outrages here related, we will not stain our pages, nor
distress the feelings of our readers with a recital of any part of them;
and we are farther induced to contract the article to this point, as the
pamphlet, at large, has been, since the preceding lines were written,
circulated gratis; so that, most probably, it is now in the hands of all
our readers.”29

Ainda que não se saiba quantas edições e cópias haviam de fato sido
feitas e distribuídas gratuitamente, o períodico inglês indicava sua larga
circulação.

Contudo, nos Estados Unidos ao menos, conforme referido na


Pennsylvania Gazette, o uso parecia anterior à divulgação do referido
Account. Em 24 de novembro de 1791, antes, portanto, do discurso dos
deputados de São Domingos na Assembleia Geral, Thomas Jefferson, en-
tão Secretário de Estado, escreveu a William Short, Charges d’Affaires
na França, acerca dos acontecimentos na colônia francesa, relatando-lhe

28 – A Particular Account of the Commencement and Progress of the Insurrection of the


Negroes in St. Domingo. London, J. Sewell, 1792.
29 – The Monthly Review; or, Literary Journal enlarged, Londres, R. Graffiths, 1792, v.
7, p. 455.

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Monica Duarte Dantas

que quando “the insurrection of their negroes assumed a very threatening


appearance the assembly sent a deputy here to ask assistance of military
stores & provisions”.30

O uso da palavra insurreição pelo virginiano Jefferson não era uma


invenção nova, muito ao contrário. Em 1690, a legislatura da colônia da
Virginia passara uma lei intitulada “An act for preventing Negroes Insur-
rections”. Ainda que o termo não aparecesse no texto da lei, a legislatura,
ainda no século XVII, determinava, entre outras coisas, que os negroe
slaves não poderiam portar armas, sair das propriedades de seus senho-
res sem autorização e, caso fossem encontrados em lugares distantes e
resistissem a qualquer tentativa de levá-los presos, aquele que os tentasse
prender estaria autorizado a matá-los. Dois anos depois, nova lei era apro-
vada “for the better preventing insurrections by Negroes”.31

Em 1723, a Virginia definiu mais claramente o crime que havia pre-


visto no século anterior:
“Be it enacted, by the Liutenant-Governor, Council, and Burgesses,
of this present General Assembly, and it is hereby enacted, by the au-
thority of the same. That if any number of negroes, or other slaves,
exceeding five, shall at any time hereafter consult, advise, or conspire,
to rebel or make insurrection, or shall plot or conspire the murder of
any person or persons whatsoever, every such consulting, plotting, or
conspiring, shall be adjudged and deemed felony; and the slave or
slaves convicted thereof, in manner herein after directed, shall suffer
30 – The Works of Thomas Jefferson, Federal Edition, Nova Iorque e Londres, G.P.
Putnam’s Sons, 1904-5, vol. 6, disponível no site http://oll.libertyfund.org/index.
php?option=com_frontpage&Itemid=149 (consultado em 30/11/2010).
31 –�������������������������������������������������������������������������������
Segundo Thomas Morris, no começo do século XVIII, dois escravos foram executa-
dos por high treason, o que fez com que o governador pedisse a adoção de leis mais duras,
“and as such Insurrection would be attended with Most Dreadful Consequences so I think
we Cannot be too Early in providing against it, both by putting our Selves in a better pos-
ture of Defence and by Making a Law to prevent The Consultations of Those Negroes”,
o que de fato ocorreu em 1723. Winthrop Jordan, White over Black: American Attitudes
toward the Negro, 1522-1812, Nova Iorque, W. W. Norton, 1968, p. 111, apud Thomas
D. Morris, Southern Slavery and the Law, 1619-1860. Chapel Hill/ Londres, The Univ.
of North Carolina Press, 1996, p. 267; Morris, op. cit, p. 66; The Statutes at Large being
a collection of all the Laws of Virginia, Nova Iorque, R. & W. & G. Bartow, 1823, vol. 2,
pp. 481-482.

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

death, and be utterly excluded the benefit of clergy, and of all laws
made concerning the same.”32

Ou seja, a mera conspiração para a realização de uma insurreição


ou rebelião escrava – palavras usadas conjuntamente no corpo do texto,
ainda que o título da lei mais uma vez mencionasse apenas insurreição
– deveria ser punida com a morte. Pouco mais de três décadas depois,
novamente o crime de insurreição escrava foi redefinido pela Assembleia
da colônia britânica; o texto era essencialmente o mesmo, a não ser pelo
fato de que doravante não havia número mínimo de escravos para quali-
ficar o crime.33

De acordo com o Revised Code of the Laws of Virginia, aprovado e


publicado em 1819, em algum momento, entre 1797 e o ano da publica-
ção, os representantes do estado haviam ampliado o crime de insurreição
de escravos de maneira a compreender também aqueles que porventura os
auxiliassem em seus intentos.
“If any free person shall advise or conspire with a slave, to rebel or make in-
surrection, or shall in any wise aid, assist or abet any slave or slaves making
rebellion or insurrection, or shall advise or assist such slave in the murder
of any person whatsoever, or shall consult, advise or conspire with any other
free person, or with any negro or other slave, to induce, entice or excite any

32 – Conforme Van Caenegem, o benefício do clero era um antigo privilegium fori que
“costumava ser um real privilégio do clero; estava enraizado no império romano cristão
e fora ocasião de ferozes lutas entre o Estado e a Igreja. Contudo, no início do século
XVIII, ele se transformara em um ‘privilégio’ que todo condenado por um crime doloso
da common law podia reivindicar e, assim, escapar à pena de morte (sendo, em vez disso,
deportado segundo a legislação de 1717)”. R. C. van Caenegem, Juízes, legisladores e
professores, Rio de Janeiro, Elsevier, 2010, p. 23; “An Act directing the trial of Slaves,
committing capital crimes; and for the more effectual punishing conspiracies and insur-
rections of them; and for the better government of Negros, Mulattos, and Indians, bond or
free”, The Statutes at Large being a collection of all the Laws of Virginia, Richmond (VA),
Franklin Press – W. W. Gray print, 1820, vol. 4, p. 126, disponível no site http://vagenweb.
org/hening/vol04-01.htm (grifos nossos).
33 – Morris destaca que essa alteração teria sido feita em decorrência de uma série de
levantes escravos e supostas conspirações no mundo colonial inglês (Antigua, 1736; Ca-
rolina do Sul, e Maryland, 1739; e Nova Iorque, 1741). The Statutes at Large being a
collection of all the Laws of Virginia, Richmond (VA), Franklin Press – W. W. Gray print,
1819, vol. 6, p. 105; Morris, Southern Slavery and the Law, op. cit., p. 267.

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slave or slaves to rebel or make insurrection, every such free person so coun-
selling, advising, plotting or conspiring, or so aiding, assisting, or abetting,
on conviction of any of the such offences, shall be held and deemed a felon,
and shall suffer death without benefit of clergy, by hanging by the neck.”34

Portanto, desde fins do século XVIII ou começo do oitocentos, os


livres que auxiliassem os escravos incorriam no crime descrito, ao qual
punia-se também com a morte.

Não foi só a colônia, e depois estado, da Virginia que, dentre as pos-


sessões inglesas na América do Norte, se preocupou em penalizar as in-
surreições escravas. Em 1690, a legislatura da Carolina do Sul aprovou
uma lei que determinava:
“[...] if any slave or slaves shall commit any murder, or make any in-
surrection, or raise rebellion against the master’s authority, or make
any preparations of arms, as powder, bullets, or offensive weapons, or
hold any conspiracies for raising mutinies or rebellions, the offender
shall be tried by two justices of the peace, and three able freeholders,
associated together as before expressed, who are hereby empowered
and required to try the said slaves so offending; and inflict death [...];
and if any person shall make away or conceal any slave or slaves
suspected to be guilty of the afore mentioned crime, and not upon
demand bring forth the suspected offender or offenders, such person
shall forfeit one hundred pounds.”35

Em 1712, mais uma vez a legislatura, em um “Act relating to Slaves”,


aprovava uma lei, agora mais claramente contra “slaves [who] shall make
mutiny or insurrection, or rise against the authority and government of

34 – Ao fim do transcrito artigo 24, do capítulo 111, “An act reducing into one, the several
acts concerning Slaves, Free Negroes and Mulattoes”, os autores remetiam aos Statutes
de 1797, 1803, 1814 e 1816. O artigo anterior do Revised Code remetia à lei passada em
1748, transcrita acima, e também a reenactements em 1769, 1794 e 1803. The Revised
Code of the Laws of Virginia, Richmond (VA), Printed by Thomas Ritchie, 1819, vol. 1,
p. 427.
35 – “Acts relating to slaves”, § 10, The Statutes at Large of South Carolina, Columbia
(SC), Printed at A. S. Johnston, 1840, vol. 7, p. 347.

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

this province”. Diploma legal que pouco mais de vinte anos depois foi
novamente reeditado pelos representantes da colônia.36

Contudo, ainda que em 1690 já se prescrevesse pena para as pessoas


que acoitassem escravos acusados de cometer o referido crime, somente
posteriomente, tal como ocorrera na Virginia, é que foi aprovada uma le-
gislação específica sobre livres que auxiliassem escravos em seu intento
insurrecional. No primeiro artigo de um “Act for the punishment of cer-
tain crimes against de State of South Carolina”, de 1805, determinava-se
que:
“Immediately after the passing of this Act, every person or persons
who shall or may be, either directly or indirectly, concerned or con-
nected with any slave or slaves in a state of actual insurrection within
this State, or who shall, in any manner or to any extent, excite, coun-
sel, advise, induce, aid, comfort, or assist any slave or slaves to raise,
or attempt to raise, an insurrection within this State, by furnishing
them with any written or other passport, with any arms or ammuni-
tion, or munition of war, or knowing of their assembling for any pur-
pose tending to treason or insurrection, shall afford to them shelter
or protection, or shall permit his, her or their house or houses to be
resorted to by any slave or slaves for any purpose tending to treason
or insurrection as aforesaid, shall, on conviction thereof in any court
having jurisdiction thereof by confession in open court, or by the testi-
mony of two witnesses, be adjudged guilty of treason against the State,
and suffer death.”37

Ou seja, para a Assembleia do estado da Carolina do Sul, os livres


que auxiliassem escravos a se insurgirem também seriam condenados à
morte, mas, no caso, pelo crime de traição.
36 – Segundo Morris, “[t]he statutory experimets at controlling servile insurrections were
more extensive in South Carolina than elsewhere”. Quanto ao statute de 1735, destaca que
ele trazia um elemento ausente de outros diplomas legais de conteúdo semelhante, uma
vez que ao governador ou ao council era dado escolher apenas um ou mais dos criminosos
para sofrer uma morte exemplar, sendo o restante devolvido aos seus senhores. Ainda que,
conforme a teoria retributiva, a condenação à morte de todos os escravos fosse justa, era
importante manter a produção. Cf. Morris, Southern Slavery and the Law, op. cit., pp. 267-
268; “Acts relating to slaves”, 1712; “Acts relating to slaves”, 1735, idem, pp. 356, 389.
37 – The Statutes at Large of South Carolina, Columbia (SC), Printed at A. S. Johnston,
1839, vol. 5, p. 503 (grifo nosso).

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Monica Duarte Dantas

No século XVIII, outras colônias, além da Virginia e da Carolina do


Sul, já haviam previsto o crime de insurreição escrava. Caso, por exem-
plo, de Maryland e Nova Iorque38.

Ou seja, ainda no período colonial a tipificação do crime de insur-


reição escrava era bastante comum nas colônias britânicas da América do
Norte, continuando uma constante no país independente ao menos nos
estados do sul. No oitocentos, segundo Morris, em parte por inspiração
dos statutes da Virginia, vários estados e territórios já tinham provisões
legais semelhantes, como Kentucky, Mississipi, Florida, Texas, Alabama,
e Georgia e mesmo a Carolina do Norte.39

Retornando então ao Código Criminal do Império de 1830, e con-


siderando o conteúdo, por exemplo, da legislação das colônias e depois
estados da Virginia e da Carolina do Sul, há que se atentar para o fato de
que os artigos 113, 114 e 115 do Código brasileiro lembravam bastante
não só a formulação dos crimes de insurreição escrava, mas também das
leis que penalizavam os livres que porventura se envolvessem nesse tipo
de movimento.
38 – Art. 2, “An act for the more effectual punishment of negroes and other slaves, and
for taking away the benefit of clergy from certain offenders, and a supplementary act to an
act, entitled, An act to prevent the tumultuous meeting and other irregularities of negroes
and other slaves, and directing the manner, of trying slaves”, 1751, The laws of Maryland,
Baltimore, Published Philip H. Nicklin & Co., 1811, vol. 1, p. 236; “An act preventing
Suppressing and punishing the Conspiracy and Insurrection of Negroes and other Slaves”,
1712, The Colonial Laws of New York, Albany (NY), James B. Lyon, State Printer, 1894,
vol. 1, p. 761; “An act for the more Effectual Preventing and Punishing the Conspiracy
and Insurrection of Negro and other Slaves, for the better regulating them and for repeal-
ing the Acts herein Mentioned Relating thereto”, 1730, The Colonial Laws of New York,
Albany (NY), James B. Lyon, State Printer, 1894, vol. 2, p. 679. Em 1755, em um “Act
for Regulating the MILITIA of the Colony of New York”, a legislatura determinava que
“in case of any Alarm or Invasion, the Captain or other officer commanding the Company
in each respective District, shall (unless it is otherwise provided by order of the Governor
or Commander in chief) appoint and leave such proper Detachment of his Company, as he
shall judge necessary to Guard against an Insurrection of the Negroes; always observing
to appoint for the said Detachment, such Persons who may be best spared for the Com-
pany”; The Colonial Laws of New York, Albany (NY), James B. Lyon, State Printer, 1894,
vol. 3, p. 1061.
39 – Como destaca Lawrence Friedman, “[o]n paper at least, the law of slavery grew
more severe between the Revolution and the Civil War”. O Statute da Carolina do Norte
é de 1802. Lawrence Friedman, A History of American Law, 3ª ed. revista, Nova Iorque,
Touchstone Book, 2005, p. 155; Morris, op. cit., pp. 271-272.

288 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011


Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

Contudo, como colocado anteriormente, o tipo penal e mesmo a pa-


lavra insurreição estavam ausentes do projeto de Vasconcelos. Curiosa-
mente, em 1830, o crime de insurreição escrava já parecia ter sido incor-
porado ou bem ao projeto de código então sob responsabilidade de uma
comissão mista de deputados e senadores, ou então a uma das emendas
apresentadas pelos legisladores.40

Em 31 de agosto de 1829, o parecer da comissão mista, com uma


proposta de disposição das matérias do código – já distinta do projeto
de Vasconcelos – e os princípios que haviam orientado o trabalho dos
legisladores, não mencionava o crime de insurreição, ou mesmo qualquer
outro crime. Os membros da comissão sugeriam então que o projeto por
eles redigido fosse impresso e distribuído aos deputados; que as emendas
e memoriais fossem remetidos a uma comissão ad hoc, composta de três
membros; e que, assim que a comissão apresentasse as emendas e estas
fossem impressas, fosse dado o projeto com elas à ordem do dia; pro-
pondo ainda que a discussão começasse “pela questão, se o projeto deve
ou não ser admitido? Vencendo-se que sim, serão discutidos os artigos
emendados, tendo-se os outros como aprovados.”41
40 – Em 14 de agosto de 1827 foi nomeada uma comissão de cinco deputados para estu-
dar os dois projetos de Código apresentados ao plenário. No ano seguinte, em 8 de maio
de 1828, por sugestão de Vasconcelos, foi nomeada uma comissão mista de deputados e
senadores para revisão dos projetos de código criminal oferecidos, sendo composta dos
antigos membros da comissão de 1827 e mais cinco senadores. Mais um ano se passou, e
a Câmara sugeriu ao Senado que a comissão mista fosse reduzida para seis membros, três
de cada casa. Finalmente, em 31 de agosto de 1829, chegava ao plenário das duas casas o
parecer da referida comissão, “encarregada de examinar os dois projetos do código crimi-
nal, que se aprovou para imprimir com as emendas que a comissão oferecesse”, assinado
por três deputados e dois senadores. APB-CD, 1827, tomo 4º, Rio de Janeiro, Typogra-
phia de Hypolito José Pinto & Cia, 1875, sessão de 14 de agosto de 1827, pp. 130-131;
APB-CD, 1828, tomo 1º, Rio de Janeiro, Typographia Parlamentar, 1876, sessão de 8 de
maio de 1828, pp. 24-26; Annaes do Senado do Império do Brazil, 1828, tomo 1º, Rio de
Janeiro, 1913, sessão de 12 de maio de 1828, p. 49 (doravante ASIB) – disponíveis no site
http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/; ASIB, 1829, v. 1, Rio de Janeiro, 1914, sessão
de 26 de maio de 1829, p. 236. APB-CD, 1829, tomo 5º, Rio de Janeiro, Typographia H.
J. Pinto, 1877, sessão de 31 de agosto de 1829, 84. Para uma discussão mais detida do
encaminhamento dos projetos e propostas de Código Criminal na Câmara dos Deputados,
ver Dantas, op. cit.
41 – Nos Anais foi impresso apenas o parecer da comissão, e não seu projeto. Idem, ibi-
dem.

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Monica Duarte Dantas

Em 6 de maio de 1830, dando-se início à discussão do projeto da co-


missão mista, votou-se a escolha da comissão ad hoc que deveria receber,
até 1º de junho daquele ano, todas as emendas substitutivas e memórias
sobre o referido projeto.42 Assim, apenas em 10 de setembro de 1830,
o presidente da Câmara colocou em discussão, conforme o parecer da
comissão mista, se o projeto deveria ou não ser admitido. No dia seguin-
te, foram aprovadas quatro emendas apresentadas pelo deputado Ernesto
Ferreira França, 1º, que se nomeasse por escrutínio absoluto uma nova
comissão de três membros; 2º, que a comissão ouvisse, mas não fosse
obrigada a aceitar os artigos propostos pelos deputados; 3º, que sua apro-
vação ou rejeição fosse global; 4º, que antes do trabalho da comissão se
decidisse se as penas de morte e galés seriam ou não conservadas.43

No mesmo dia tiveram então início as discussões sobre a manuten-


ção, ou não, das penas de morte e galés. Durante quatro dias a questão
foi debatida fervorosamente no plenário, com falas inflamadas tanto por
parte daqueles que pediam sua extinção, quanto de outros que advogavam
a necessidade de sua manutenção frente ao estado da população. Vale
destacar as opiniões de Rego Barros e Paula e Souza.

Segundo Rego Barros, em sessão de 15 de setembro de 1830,“A pena


de morte deve com efeito ser abolida nos casos políticos, porém não nos
casos de homicídio, e para se conter a escravatura, pois que esta é a única
pena que a pode conter”.44 O mesmo deputado propôs então uma emenda
com o seguinte teor: “Extinga-se a pena de morte nos erros políticos.”
Paula e Souza submeteu outra, diríamos complementar: “Que no código
só se conserve a pena de morte no grau máximo do crime de homicídio, e
de cabeças de insurreição.”45

42 – APB-CD, 1830, tomo 1º, Rio de Janeiro, Typographia de H. J. Pinto, 1878, sessão de
6 de maio de 1830, pp. 78-79; sessão de 7 de maio de 1830, p. 80.
43 – APB-CD, 1830, tomo 2º, op. cit., sessão de 10 de setembro de 1830, pp. 487-488;
sessão de 11 de setembro de 1830, p. 492.
44 – APB-CD, 1830, tomo 2º, op. cit., sessão de 15 de setembro de 1830, p. 512.
45 – APB-CD, 1830, tomo 2º, op. cit., sessão de 15 de setembro de 1830, p. 512.

290 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 172 (452):273-309, jul./set. 2011


Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

Ou seja, em algum momento nos trabalhos da comissão mista ou da


comissão ad hoc nomeada para receber as emendas e memórias, o crime
de insurreição, ausente do projeto de Vasconcelos, havia sido incoporado
na discussão sobre o Código Criminal.

O crime de insurreição escrava, portanto, já extremamente comum


na legislação dos estados norte-americanos, chegara ao Brasil. Mais uma
vez, na ausência de referências diretas na documentação, é necessário
repassar com cuidado os anais do parlamento.

Em de 21 de maio de 1829, mais de três meses antes da comissão


mista apresentar – a partir das bases de Clemente Pereira e do projeto de
Vasconcelos – sua proposta de Código Criminal, o taquígrafo anotara nos
anais da câmara a seguinte informação: “A oferta feita pelo cidadão João
Clemente Vieira Souto de um exemplar da tradução do projeto de código
penal para a Luisiana, foi recebida com agrado.”46 É provável que o texto
entregue fosse uma tradução do plano para o código penal da Luisia-
na que Edward Livingston apresentou – impresso tanto em inglês como
em francês – ao legislativo daquele estado norte-americano em março de
1822.47
46 – João Clemente Vieira Souto era o editor da Astréia que, segundo Sérgio Buarque
de Holanda, “ajudou a Aurora Fluminense de Evaristo da Veiga a formar o pensamento
liberal brasileiro vitorioso no 7 de abril e predominante durante boa parte da Regência”.
Vieira Souto foi eleito deputado para a segunda legislatura, 1830-1834, pela província do
Rio de Janeiro. Ou seja, chegou ele mesmo a testemunhar as discussões que precederam
a aprovação do Código de 1830; sendo, por exemplo, um dos representantes que votou
contra a admissão da pena de morte. Sérgio Buarque de Holanda, “Prefácio”, in Jeanne
Berrance de Castro, A milícia cidadã: a Guarda Nacional de 1831 a 1850, 2ª ed., São Pau-
lo, Editora Nacional, 1979, p. xiii; APB-CD, 1829, tomo 2º, Rio de Janeiro, Typogaphia
H. J. Pinto, 1877, sessão de 21 de maio de 1829, p. 115.
47 – O plano de Livingston, ou Report made to the General Assembly of the State of Lou-
siana of the Plan of a Penal Code for the said State, foi publicado em Nova Orleans, em
1822, em inglês e francês, e teve dois anos depois uma edição na Inglaterra (mas já com
um título diferente) e, em 1825, outra na França. Além disso, foi objeto de uma nota elo-
giosa na Revue Enciclopedique, logo após sua publicação nos Estados Unidos, bem como
de uma resenha na Westminster Review, em janeiro de 1825. Edward Livingston, Report
made to the General Assembly of the State of Louisiana of the Plan of a Penal Code for
the said State, Nova Orleans, Benjamin Levy & Co, 1822; Rapport fait à l’Asssemblée
Générale de l’Etat de la Louisiane sur Le projet d’um Code Pénal por ledit Etat, Nova
Orleans, Benjamin Levy & Co, 1822; Project of a new Penal Code for the State of Loui-

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Edward Livingston, um nova-iorquino que se mudou para Nova Or-


leans no começo do século XIX, foi, em 1821, incumbido pelo legislativo
da Luisiana de revisar as leis penais do estado, apresentando, no ano se-
guinte, o referido plano ou Report made to the General Assembly of the
State of Lousiana of the Plan of a Penal Code for the said State. Em 1825
terminou sua obra, publicando-a com o título de A System of Penal Law
for the State of Lousiana, que compreendia, além de um “Code of crimes
and punishments”, no caso o código penal propriamente dito, outros três
códigos – “Code of Procedure”, “Code of Evidence” e “Code of Reform
and Prison Discipline” – e um “Book of Definitions”.48
siana, Londres, Baldwin, Cradock and Joy, 1824; M. A. H. Taillandier (ed.), Rapport sur
le projet d’un Code penal fait a l’Assemblée générale de l’état de la Lousiane, par M.
Édouard Livingston, Paris, 1825; Charles Haven Hunt, Life of Edward Livingston, Nova
Iorque, D. Appelton Company, 1864, pp. 276-277.
48 – Edward Livingston nasceu no estado de Nova Iorque, em 1764, e lá faleceu em 1836.
Graduou-se, em 1781, no College of New Jersey (depois Universidade de Princeton),
dedicando-se então ao estudo do direito. De 1795 a 1801 representou seu estado natal no
Congresso Nacional; nos dois anos seguintes foi promotor e prefeito da cidade de Nova
Iorque (em razão de uma acusação de desfalque foi condenado a restituir o dinheiro e se
afastou da política em seu estado natal). Mudou-se então para Nova Orleans, onde se dedi-
cou à prática do direito (vale destacar que era irmão do chanceler Robert Livingston, que
havia negociado com Napoleão, no começo do século, a compra, pelos Estados Unidos,
do território de Orleans). Como presidente do comitê de defesa pública de Nova Orleans,
organizou a resistência à invasão inglesa em 1814. Se, em 1821, o legislativo da Luisiana
lhe encomendou uma revisão das leis penais, em 1822 foi incumbido, desta vez juntamen-
te com os jurisconsultos Louis Casimir Moureau-Lislet e Pierre Derbigny, da revisão do
Código Civil do estado, bem como da preparação de um Código Comercial e, finalmente,
da formulação de um tratado sobre as normas das ações civis e um sistema de processo
para ser utilizado pelos tribunais. Ainda que nem seu código penal (ou qualquer dos có-
digos compreendidos na obra A System of Penal Law), e tampouco seu Código Comer-
cial tenham sido adotados pelo legislativo do estado, o Código Civil foi promulgado em
1825, seguido poucos meses depois do Code of Practise. Entre 1823 e 1829 atuou como
deputado junto ao Congresso Nacional, desta vez pelo distrito de Nova Orleans; em 1829
elegeu-se senador. Em 1831 apresentou ao Senado americano seu projeto de Código Pe-
nal para os Estados Unidos (já publicado em 1828), mas que também nunca chegou a ser
adotado. Nesse mesmo ano foi escolhido secretário de Estado, encarregado das Relações
Exteriores dos Estados Unidos, cargo que exerceu até 1833. William B. Hatcher, Edward
Livingston. Jeffersonian Republican and Jacksonian Democrat, Louisiana State Univer-
sity Press, 1940; Charles Noble Gregory, “Bentham and the codifiers”, Harvard Law Re-
view, v. XIII, n. 5, 1900. Sobre o debate da codificação nos Estados Unidos ver Jennifer
Denise Henderson, “A Blaze of reputation and the echo of a name”: the legal career of
Peter Stephen Du Ponceau in post-revolutionary Philadelphia, dissertação de mestrado,
Florida State University – College of Arts and Sciences, 2004, op. cit.; e Charles M. Cook,

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

Um ano depois de Vieira Souto ter entregue a tradução do plano de


código penal de Livingston à câmara, foi a vez de outro cidadão presente-
ar o plenário com mais um trabalho do jurista norte-americano. Em 12 de
maio de 1830 – quando a comissão ad hoc que deveria receber as emendas
acabara de ser nomeada (em 7 de maio) –, José Silvestre Rebello (o pri-
meiro encarregado do Império brasileiro em Washington)49, ofertou “um

The American Codification Movement. A study of Antebellum Legal Reform, Westport/


Londres, Grenwood Press, 1981; Edward Livingston, A System of Penal Law for the State
of Louisiana, Pittsburgh, John L. Kay & Brother, 1833.
49 – Em janeiro de 1824, José Silvestre Rebello foi encarregado dos negócios de Wa-
shington, chegando aos Estados Unidos em abril do mesmo ano; cargo que exerceu até
agosto de 1829. Rebello levava instruções para “obter o reconhecimento formal do Im-
pério pelo governo norte-americano; sondar as possibilidades de um tratado de aliança
defensiva e ofensiva entre os Estados Unidos e o Brasil, receoso de um conflito com
Portugal; negociar a aquisição de navios para equipar a nascente armada nacional”. Em
maio de 1824, “ao apresentar suas credenciais ao presidente James Monroe”, garantiu
o reconhecimento norte-americano da independência do Brasil. Para Costa Franco, se,
por um lado, Rebello buscava ressaltar “aos olhos das cortes européias o mérito de man-
ter um regime monárquico no hemisfério ocidental, insinuando mesmo a possibilidade
de estímulo ao surgimento de outras monarquias no continente americano”, por outro,
“revelava aos olhos de Washington uma outra face, que condenava ‘a política tortuosa
e maquiavélica da Europa’”, como escreveu em ofício de fevereiro de 1829. Por fim,
a leitura dos despachos e ofícios redigidos ou recebidos pelo primeiro embaixador traz
informações interessantes quanto à difusão das ideias de Livingston. Em 26 de junho de
1824, Rebello enviou um ofício a Luís José de Carvalho e Melo (ministro dos Negócios
Estrangeiros) em que informava que três dias antes recebera “do deputado ao Congresso
pela Louisiana Edward Levingston, um exemplar limpamente encadernado de um plano
de um código criminal, com uma carta, oferecendo-o a S. M.”, e que iria remetê-lo no
primeiro barco seguro que houvesse. Em 10 de dezembro do mesmo ano, um despacho
do ministro informava ter levado “à presença de S. M. o Imperador o plano do código que
mr. Edward Livingston apresentou à Assembleia Geral da Louisiana como seu deputado
e o mesmo senhor recebeu com especial agrado aquela oferta, dignando-se de lhe mandar
escrever a carta inclusa de agradecimento, que V. Mce. lhe fará entregar com segurança”.
Finalmente, em ofício de 25 de junho de 1825, Rebello informava que estava de posse da
“carta que S. M. I. mandou escrever ao dr. Livingston, sobre o Código Criminal, que ele
lhe ofereceu; como o não encontrei, tenho a carta em meu poder para lhe entregar quando
ele aqui se recolher, o que não será antes de dezembro; segundo creio, foi, me disseram,
para a Louisiana”. Considerando a data em que Livingston teria encontrado com o embai-
xador brasileiro, a obra em questão era o já mencionado plano de código penal; ou Report
made to the General Assembly of the State of Lousina of the Plan of a Penal Code for the
said State. É provável que o código já pronto tenha sido trazido por Rebello quando de seu
regresso ao Brasil. Brasil – Estados Unidos, 1824-1829, Rio de Janeiro, Centro de Histó-
ria e Documentação Diplomática/ Brasília, Fundação Alexandre de Gusmão, 2009, v. 1,
pp. 52, 107-109, 251-254; Álvaro da Costa Franco, “Apresentação”, in idem, pp. 9-13.

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exemplar do código criminal da Luiziana” que “foi recebido com agrado


e remettido à comissão respectiva”.50 Desta vez, tratava-se provavelmente
do “Code of crimes and punishments”, ou mesmo da obra completa, A
system of penal Law for the State of Lousiana, que, além do código penal,
trazia também os outros três códigos e o livro de definições.

No mesmo dia em que Rebello fez sua oferta, o deputado Ernesto


Ferreira França encaminhou à mesa um requerimento em que pedia “que
se nomeie quanto antes uma comissão de fora presidida por um membro
desta câmara, a qual se encarregue o fazer com a possível brevidade a tra-
dução da legislação penal organizada para o estado da Luisiana por Livin-
gston”. Consta dos anais que após a leitura do requerimento, o deputado
pediu urgência, no que teria sido apoiado, porém, depois de rápida discus-
são, “que não apanhou o tachygrapho, foi posta à votação e não vencida:
ficando o requerimento para delle se tratar em occasião competente”.51

Dois dias depois, em 14 de maio de 1830, a questão da tradução


voltou à discussão no plenário; Ferreira França novamente leu seu reque-
rimento. Para o deputado Ferreira de Mello a tradução deveria ser feita,
mas não por uma comissão externa, e sim, como explicado na emenda que
apresentou, por uma comissão de membros da casa, “podendo a mesma
comissão propor outra de fora para coadjuvar”. Ferreira França ponderou,
contudo, que os deputados já se encontravam muito ocupados com a or-
dem do dia e diversas comissões e que, assim, seria melhor que fossem
escolhidas pessoas de fora da casa, “sendo porém o presidente um mem-
bro della, que una aos outros conhecimentos o da legislação e o da língua
inglesa”. Hollanda Cavalcanti rejeitou ambas as propostas, sugerindo que
o governo ficasse encarregado de mandar traduzir e imprimir o “codigo
penal organisado para o estado da Luisiana por Livingston, com a maior
brevidade possível, dividindo o trabalho por differentes emprehendedo-
res e provendo ao pagamento destes, segundo fôr mais conducente ao fim
da prompta execução da presente resolução”.

50 – APB-CD, op. cit., sessão de 12 de maio de 1830, pp. 117 e 123.


51 – APB-CD, op. cit., sessão de 12 de maio de 1830, p. 123.

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Dos Statutes ao Código brasileiro de 1830:
o levante de escravos como crime de insurreição

Vasconcelos, por sua vez – a quem parecia que dos códigos nada se
poderia tirar, pois, caso contrário “outro há de ser o resultado de todo este
trabalho” – declarou votar contra o requerimento, pois a câmara já havia
decidido “que o código vá à comissão especial sobre o mesmo, que taes
emendas sejam recebidas até o 1º de Julho [sic]” e que, portanto, caso o
trabalho de Livingston fosse encaminhado para tradução, uma tarefa de
três ou quatro meses, ficaria suspensa “a discussão sobre o código, do
que resultaria não termos um sofrível, indo atrás do optimo”. Hollanda
Cavalcanti secundou o colega mineiro, alegando desta vez que, caso fosse
para tradução, uma vez que havia um só exemplar, a comissão não pode-
ria consultá-lo; propunha então que, não existindo muitos deputados com
capacidade de traduzir o inglês, o código de Livingston fosse consultado
“naquellas cousas que forem mais precisas”. Julgando-se a matéria discu-
tida, ficou estabelecido o primeiro encaminhamento proposto, ou seja, o
envio da obra de Livingston à comissão.52

Alguns dias depois, em 26 de maio de 1830, Ernesto Ferreira França


mais uma vez apresentava um requerimento, desta vez aprovado:

“Requeiro que se encarregue a comissão criada para receber as emen-


das ao código criminal, de examinar o organizado por Eduardo Li-
vingston para a Luisiana, e interpor o seu parecer acerca do mérito
deste código comparativamente com o que serve atualmente de base
às emendas. Paço da camara dos deputados, 26 de maio de 1830 – E.
F. França.”53

Ou seja, antes de findo o prazo para entrega das emendas e memórias


ao Código à comissão ad hoc, seus três membros recebiam, para exami-
nar, o Código Penal de Edward Livingston para o estado da Luisiana.

A proposta de código de Livingston dividia-se em dois livros, um


primeiro “Containing General Provisions”, e o seguinte que tratava de
“Offences and Punishments”. Este, por sua vez, estava organizado em

52 – APB-CD, op. cit., sessão de 14 de maio de 1830, pp. 143-144.


53 – APB-CD, 1830, tomo 1º, Rio de Janeiro, Typographia de H. J. Pinto, 1878, sessão de
26 de maio de 1830, p. 234.

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quatorze títulos. O título dois, “Of offences against the sovereign Power
of the state”, dividido em três capítulos, previa os crimes de traição, se-
dição e, finalmente, “Of exciting insurrection”, definido da seguinte ma-
neira:

“Art. 115. Any free person who shall aid in any insurrection of slaves
against the free inhabitants of this state, who shall join in any secret
assembly of slaves, in which such insurrection shall be planned, with
design to promote it, or shall excite or persuade any sla