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CRISTIANISMO VERDADEIRO

Discernindo a fé verdadeira da falsa



Tradução
Jorge Camargo

Supervisão editorial
Marcos Simas

Capa
Oliverartelucas

Revisão
Carlos Buczynski

Diagramação
Clara Simas


CRISTIANISMO VERDADEIRO
Discernindo a fé verdadeira da falsa

William Wilberforce

Resumido e editado por


James M. Houston

Introdução à edição brasileira


Robinson Cavalcanti

Brasília
© 2006 Editora Palavra

© 2005, 1997, 1982 by James M. Houston


Cook Communications Ministries, 4050 Lee Vance View, Colorado Springs, Colorado 80918
U.S.A. Originally published 1982 by Multnomah Press, Portland, Oregon 92766

Título original
Real Christianity

Impressão
Imprensa da Fé, SP

1ª Edição brasileira
Setembro de 2006

Todas as citações bíblicas foram extraídas da NVI – Nova Versão Internacional,


da Sociedade Bíblica Internacional. Copyright © 2001, salvo indicação em contrário.

Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida sem o consentimento prévio,
por escrito, dos editores, exceto para breves citações, com indicação da fonte.

Publicado no Brasil com a devida autorização


e com todos os diretos reservados pela
Editora Palavra
CLN 201 Bloco “C” subsolo
Brasília - DF
CEP. 70832-530
www.editorapalavra.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação


CIP-Brasil. Catalogação na fonte

W664c Wilberforce, William


Cristianismo Verdadeiro: discernindo a fé verdadeira da falsa / William Wilberforce ;
resumido e editado por James M. Houston. – Brasília-DF : Palavra, 2006.

192 p.; 14 x 21cm.

Obra publicada originalmente em inglês sob o título: Real Christianity : discerning true
faith from false beliefs.

ISBN

1. Cristianismo e Fé. 2. Fé Cristã. 3. Cristianismo – História. I. Houston, James M.


II. Título.

CDD: 230
CDU: 274.1/07
Sumário

Prefácio ..................................................................................... 7

Nota do Editor ........................................................................ 11

Introdução .............................................................................. 13

Capítulo I ................................................................................ 19
Concepções inadequadas acerca da importância do cristianismo

Capítulo II .............................................................................. 27
Conceitos inadequados acerca da natureza humana

Capítulo III ............................................................................. 41


Conceitos inadequados de Deus e do comportamento cristão

Capítulo IV ............................................................................. 65
Conceitos inadequados acerca da natureza e da disciplina do
cristianismo prático

Capítulo V ............................................................................ 117


A excelência do verdadeiro cristianismo

Capítulo VI ........................................................................... 123


Uma breve averiguação sobre a situação atual do cristianismo
Capítulo VII .......................................................................... 139
Conclusão: sugestões práticas para um cristianismo verdadeiro

Apêndice ............................................................................... 161


Prefácio

Prefácio à série Clássicos


da Espiritualidade Cristã

C om a profusão de livros sendo agora publicados,


grande parte dos leitores cristãos necessita de algu-
ma orientação acerca de uma coleção básica de obras espiri-
tuais que permaneçam como companheiras para toda a vida.
Esta nova série de clássicos da espiritualidade cristã está sendo
editada para oferecer uma biblioteca básica para o lar. As obras
selecionadas podem não ser todas conhecidas na atualidade,
mas cada uma delas possui um interesse central de relevância
para o cristão contemporâneo.
Outro objetivo desta coletânea de livros é o de um des-
pertamento. Um despertamento para os pensamentos e medi-
tações espirituais dos séculos esquecidos. Muitos cristãos, hoje,
não têm noção do passado. Se a Reforma é importante para suas
convicções, eles saltam da Igreja apostólica para o século XVI,
esquecendo-se de catorze séculos da obra do Espírito Santo en-
tre muitos que se dedicaram a Cristo. Estes clássicos retirarão o
fosso, e enriquecerão seus leitores por meio da fé e da consagra-
ção de santos de Deus através de toda a história.
E assim, nos voltamos para os livros, e ao seu propósito.
Alguns deles mudaram a vida de seus leitores. Observe como
A Vida de Antônio, de Atanásio, afetou Agostinho ou Um Cha-
8 CRISTIANISMO VERDADEIRO

mado Sério para a Vida Santa, de William Law, influenciou John


Wesley. Outros, tais como as Confissões, de Agostinho, ou a Imi-
tação de Cristo, de Thomas à Kempis, têm permanecido como
fontes perenes de inspiração através dos séculos. Esperamos de
coração que as obras selecionadas nesta série tenham um efeito
semelhante sobre nossos leitores.
Cada um dos clássicos escolhidos para esta série é profun-
damente significativo para o leitor cristão contemporâneo. Em
alguns casos, os pensamentos e reflexões do escritor clássico se
espelham nas ambições e desejos genuínos do leitor atual, uma
identificação de corações e mentes incomum de se encontrar.
Assim, alguns indivíduos foram convidados a escrever a intro-
dução do livro que teve um significado tão importante para sua
própria vida.

Editando os clássicos

Alguns clássicos de espiritualidade tiveram seus obstácu-


los. Sua linguagem original, o estilo arcaico das edições mais
recentes, sua extensão, as digressões, as alusões a culturas ultra-
passadas – tudo isso torna seu uso desestimulante para o leitor
moderno. Reimprimi-los (como feito em larga escala no século
passado e ainda hoje) não supera estas deficiências de estilo,
extensão e linguagem. A fim de buscar pelo grão e remover a
casca, o trabalho desta série envolve resumir, reescrever e editar
cada um dos livros. Ao mesmo tempo, procuramos manter a
mensagem essencial da obra, e manter, tanto quanto possível, o
estilo original do autor.
Os princípios de edição são os seguintes: manter as sen-
tenças curtas. Também diminuir os parágrafos. O material é re-
sumido quando há digressões ou alusões a questões específicas
de seu tempo. As palavras arcaicas são atualizadas. As conexões
lógicas podem ser acrescentadas ao material resumido. A iden-
tidade do tema ou do argumento é mantida o tempo todo em
PREFÁCIO 9

mente. Alusões a outros autores recebem uma breve explicação.


E textos de rodapé são acrescentados a fim de fornecer resumos
concisos de cada seção principal.
Para o cristão, a Bíblia é o texto básico para a leitura es-
piritual. Todas as outras leituras devocionais são secundárias e
jamais deveriam substituí-la. Portanto, as alusões às Escrituras
nestes clássicos de espiritualidade e devoção são pesquisadas e
mencionadas no texto. É neste ponto que outras edições desses
livros ignoram as suas qualidades bíblicas, que são inspiradas e
conduzidas pela Bíblia. O foco nas Escrituras é sempre a marca
registrada da verdadeira espiritualidade cristã.

O propósito para os clássicos: leitura espiritual

Uma vez que nossa cultura impaciente e guiada pelos sen-


tidos torna a leitura espiritual algo estranho e difícil para nós, o
leitor deveria estar pronto a ler esses livros com vagar, estar dis-
posto a meditar e a refletir. Não se pode lê-los de maneira afoba-
da, como se lê uma história de detetive. Em lugar da novidade,
eles se concentram na recordação, em nos lembrar de valores de
conseqüências eternas. Podemos apreciar muitas coisas novas,
mas valores são tão antigos quanto a criação de Deus.
O alvo do leitor desses livros não é o de buscar informa-
ção. Ao contrário, esses volumes nos ensinam acerca de viver
sabiamente. Isso demanda obediência, submissão da vontade,
mudança de coração e um espírito dócil e terno. Quando João
Batista viu Jesus, reagiu, “Convém que ele cresça e que eu di-
minua”. Do mesmo modo, a leitura espiritual diminui nossos
instintos naturais para permitir que o Seu amor cresça dentro
de nós.
Esses livros também não são textos ou pacotes de “como
fazer” algo. Eles nos recebem como somos – ou seja, como pesso-
as, e não como funcionários. Eles nos guiam para que “sejamos”
autênticos, e não necessariamente nos ajudam a promover mais
10 CRISTIANISMO VERDADEIRO

atividades profissionais. Tais livros demandam tempo para sua


digestão vagarosa, espaço para que seus pensamentos entrem
em nossos corações e disciplina para deixar que novas percep-
ções “grudem” e tornem-se parte de nosso caráter cristão.

James M. Houston
Nota do Editor

Nota do editor a respeito de


Wilberforce e da relevância
deste clássico

O livro

T alvez seja apropriado, para um país chamado cris-


tão como o Brasil, hoje, iniciar a série de clássicos
com o manifesto de William Wilberforce; trata-se do que ele
denominou de seu tratado sobre “Cristianismo Prático”. O
título completo que ele deu à sua obra foi “Uma Visão Práti-
ca do Sistema Religioso Predominante de Cristãos Professos, nas
Classes Média e Alta neste País, Contrastado com o Verdadeiro
Cristianismo”. Esta reprodução foi baseada na edição Ame-
ricana de 1829 (reduzida de 450 páginas de letra miúda nas
edições anteriores para 317 páginas). A edição de 1829 foi
agora ainda mais reduzida, mas contém a mensagem central
do livro.
As primeiras cinco edições do livro foram feitas em
1797. Dez anos antes, um jovem político mundano, William
Wilberforce, havia sido persuadido por um amigo a ler Rise and
Progress of Religion in the Soul (O Surgimento e o Progresso da
Religião na Alma), de Philip Doddridge (1745). O livro, tendo
causado nele uma forte impressão, o inspirou a escrever Visão
Prática do Verdadeiro Cristianismo. Seu editor ficou tão em
12 CRISTIANISMO VERDADEIRO

dúvida quanto ao seu sucesso que imprimiu somente 500 cópias.


Mas, no mesmo ano das cinco edições, aproximadamente 7.500
cópias haviam sido vendidas. Mais tarde, ele foi traduzido para
o francês, o alemão, o italiano, o espanhol e o holandês.

O autor

O impacto deste livro na sociedade foi imenso, mas


sua maior influência foi exercida sobre o próprio autor, que
primeiro se tornou um cristão e depois um político. Entrando no
Parlamento aos vinte e um anos, Wilberforce se tornou amigo
próximo de William Pitt, o jovem Primeiro Ministro britânico.
Ele teria sido o sucessor natural de Pitt em sua liderança política
se tivesse “preferido festejar para a humanidade”. Mas aos vinte
e cinco anos de idade, ele se tornou um cristão comprometido
e, dali por diante, confessou que “Deus Todo-Poderoso colocou
diante de mim dois assuntos – a abolição do comércio de
escravos e a reforma dos costumes na Inglaterra”.
Foi com este propósito que Wilberforce escreveu este li-
vro. Entre aqueles que foram profundamente influenciados por
ele estavam as mais variadas pessoas, como o político Edmund
Burke e o especialista em agricultura Arthur Young. É preciso
também que se diga que a publicação deste livro marcou o co-
meço de uma preocupação séria em prol do cristianismo evan-
gélico entre as classes mais altas na Inglaterra do século XIX.
Ao final da vida de Wilberforce, não havia ninguém mais
universalmente honrado como cidadão inglês do que ele. Pois
o crédito principal pela abolição do comércio escravo pertence
a William Wilberforce. Por trás disso está sua determinação in-
cansável de manifestar o verdadeiro cristianismo.

James M. Houston
Introdução

Introdução à edição brasileira

A publicação do livro Cristianismo Verdadeiro, de


William Wilberforce, um clássico da espiritualidade
reformada contemporânea, preenche diversas lacunas do nosso
tempo. A primeira é a carência de heróis, de modelos, de refe-
rências, de homens e mulheres que tenham pensado e vivido o
Evangelho em suas épocas e contextos, e que possam servir de
inspiração para as gerações atuais. Conversando com um grupo
de seminaristas, ouvi o lamento: “Somos uma geração sem mo-
delos”. Essa lacuna concorre para a desorientação, porque sem
passado não há presente, e, muito menos, futuro.
A carência de heróis da fé se vincula a algo muito mais
abrangente e mais sério: a carência de história. Já se afirmou
que “Um povo sem história é um povo sem identidade”. O povo
judeu viveu – vive ainda hoje – pela anamnese, pela contínua
recordação dos fatos e dos feitos de Deus na história. Isso o tem
preservado e permitido que os princípios sejam atualizados. A
igreja contemporânea, particularmente em nosso país, ao con-
trário, parece viver pela amnésia, pelo esquecimento, pela perda
de referenciais, episódios, personagens, que, acumulados, for-
mam um “sagrado depósito”, uma tradição, como “a fé viva dos
14 CRISTIANISMO VERDADEIRO

que já morreram (em contraste com o tradicionalismo, como


“fé morta dos que ainda vivem”).
Além da carência de modelos e da carência de história,
vivemos uma carência do pensar, da reflexão, do estudo. A pós-
modernidade é, antes de tudo, sentimentalismo, sensações, ex-
periencialismo, subjetivismo. A fé é apenas “sentida” nos cul-
tos-espetáculos que exacerbam as emoções e embotam a razão.
Busca-se a ‘bênção” e não a cruz, que nos torna uma bênção.
Frui-se, consome-se a religiosidade como produto, de forma
individualista, egocentrada, egoísta. “Curte-se” o culto. O re-
sultado é, por um lado, não comprometimento, irrelevância, e,
por outro, o relativismo, a ausência de valores universais. Uma
geração de preguiçosos mentais, de indisciplinados intelectu-
ais, que não usufrui da sintonia com a mente de Cristo, nem
preenche sua mente com o positivo e o construtivo. É um ato
de imensa relevância colocar nas mãos dos leitores de hoje um
livro que leve a pensar, acerca de alguém que pensava.
Wilberforce era um representante típico de uma parcela
dos cristãos da sua geração (final do século XVIII e início do sé-
culo XIX), alguém que conciliava em uma síntese, que é, antes
de tudo, bíblica, a piedade, a sã doutrina, a reflexão e o enga-
jamento comprometido com os valores do reino de Deus. Um
convertido que buscava a presença de Deus, se comprometia
com a Sua verdade, que pesava sobre a fé, mas que não ficava na
alienação da adoração subjetiva e mística, nem no academicis-
mo de leituras como fim, mas que punha a sua piedade refletida
na ação conseqüente, o que é diferente de um ativismo febril
e árido. Somente esse tipo de cristão é quem faz história. O
crescimento de milhares de cristãos sem esse comprometimento
resulta em uma fé sem impacto.
Um outro aspecto a ser destacado nessa obra é a sistema-
tização da fé, a compreensão da doutrina, que nos permite en-
tender e expor os conselhos de Deus. O estudo sistemático vai
muito além do que se faz muito hoje que é o estudo meramente
INTRODUÇÃO 15

devocional ou existencial. Ir fundo na busca da compreensão


da Palavra de Deus, que nos permite ensinar adequadamente
a mesma Palavra, em um mundo marcado pelo antiintelectu-
alismo dos fundamentalistas e pela arrogância intelectual dos
liberais. Lutero estimulava o uso do intelecto, preso à Palavra e
dependente do Espírito Santo, caso contrário, a mente carnal
era tida pelo reformador como “meretriz de Satanás”.
A obra de Wilberforce é, assim, uma obra apologética.
Procura “dar a razão da fé que há em nós”, interage com a men-
talidade do seu tempo, expondo, contrastando, defendendo,
contra-atacando. Diante dos desafios do “espírito do século”,
em cada século, a relevância da igreja em sua missão integral
passa pela convicção, determinação e coragem de pessoas com
calibre intelectual para desmascarar o erro e argumentar em fa-
vor da verdade. A irrelevância vem, justamente, pelo medo,
pelo temor, pela insegurança, pela fuga, por não se saber ou por
se temer os riscos do martírio.
Na época de Wilberforce, vivia-se o desafio de se superar
os males da Idade Moderna, dentre eles o tráfico de escravos e
o uso da mão de obra escrava, e o surgimento da Idade Con-
temporânea, com sua revolução industrial e os males de uma
mão de obra explorada, vivendo em condições degradantes. A
reforma da legislação penal e das condições das prisões, o com-
bate à exploração do trabalho infantil, a ausência de uma legis-
lação trabalhista moveram toda uma geração de evangélicos,
primeiro anglicanos e, depois, também, metodistas (uma dissi-
dência do Anglicanismo), tendo como epicentro a Paróquia de
Claphan. Pastores, jornalistas, escritores, artistas, empresários,
militantes de movimentos sociais, parlamentares formavam o
que era pejorativamente denominada de “a seita de Claphan”.
Esse punhado de ingleses, que mudou o curso da história do seu
país, não era formado por humanistas agnósticos, materialistas
ou ateus, por liberais advogados de um “evangelho social”, mas
de evangélicos (ou, como alguns preferem, de evangelicais),
16 CRISTIANISMO VERDADEIRO

cristãos nascidos de novo, pessoas de oração e do estudo bíbli-


co, ortodoxos, integrados em suas igrejas, mas com uma visão
clara dos desafios do mundo, da realidade do pecado social e
estrutural, e do dever de se dar respostas de misericórdia às ne-
cessidades humanas, como sinal concreto do amor de Cristo e
de compromisso com a justiça como valor do reino.
Podemos dizer que a “seita de Claphan” e Wilberforce
foram, em sua época, exemplos de uma espiritualidade inte-
gral e de uma missão integral. As grandes reformas sociais do
seu tempo (de uma Inglaterra cheia de misérias e miseráveis)
surgiu em corações abrasados pelo Evangelho, em quem a
“Grande Comissão” se fazia acompanhar do “Grande Man-
damento”. Luta prolongada, árdua, cheia de adversidades, de
incompreensões, de calúnias, de tentativa de desmoralização
e de desmobilização, de reação dos poderosos e dos privile-
giados, como sempre. Mas, pelo Espírito, houve obediência,
perseverança e vitória.
William Wilberforce optou pela via parlamentar (depu-
tado de 1780 a 1825). Toda uma vida de militância legislativa
em favor das causas sociais, das reformas sociais, particularmen-
te uma teimosa, denodada, insistente luta contra o tráfego ne-
greiro e a mão de obra escrava no Império Britânico. O que,
somente no final da vida, foi capaz de sentir o gosto de vencer.
O Império Britânico e o mundo encerravam um capítulo peca-
minoso da história.
Wilberforce, a “seita de Claphan” ou, depois, o holan-
dês Abraham Kuyper, ou, ainda depois, o pastor Martin Luther
King Jr, ou o arcebispo Desmond Tutu, expressam essa “nuvem
de testemunhas” que, ao longo dos séculos, encarna o Encar-
nado. E que hoje, diante da alienação, da apatia, da irrespon-
sabilidade, da insensibilidade, do egoísmo, do carreirismo, da
desonestidade, do usufruir as benesses do poder, da manutenção
do status quo de concentração de propriedade, renda, poder e
saber, infelicitam tantos países e envergonham tantas igrejas,
INTRODUÇÃO 17

atesta que Cristo está vivo e que o seu povo diferente existe
para fazer diferença.
A já longa trajetória de militância na política estudantil,
sindical e partidária, ou envolvimento nos movimentos sociais
cristãos, minha e de muitos da minha geração, não teria sido
possível sem atentarmos para a vida e as idéias de homens como
William Wilberforce. Os leitores de hoje poderão dar novos ru-
mos às suas vidas sem rumos, ou com falsos rumos a partir da
leitura de Cristianismo Verdadeiro, com sua análise sobre a im-
portância do cristianismo e do estudo das Sagradas Escrituras,
e a percepção de conceitos inadequados da natureza humana e
do comportamento humano, sua condenação em relação à in-
diferença no que diz respeito à verdadeira doutrina, ou ao amor
desordenado às glórias deste mundo. Um texto que analisa o
contexto da história do seu país, as suas mazelas e aponta para
a excelência e o valor do verdadeiro cristianismo, não só para
as vidas dos indivíduos como para a vida das nações, e quais os
passos práticos para a compreensão e a vivência desse verdadei-
ro cristianismo.
Os clássicos nunca ficam ultrapassados, mas sempre atu-
ais. Alimentam as novas gerações, pois não são antiguidades,
mas expressões históricas do eterno.

Robinson Cavalcanti
Cientista político e escritor,
é Bispo anglicano.
Capítulo I

Concepções inadequadas acerca da


importância do cristianismo

S eria apropriado, a esta altura, destacar a concepção mui-


to inadequada que cristãos professos cultivam acerca
da importância, da natureza e da superioridade do cristianismo.
Se escutarmos suas conversas, a virtude é elogiada e o vício é
censurado. A piedade é talvez aplaudida, enquanto que a irre-
verência é condenada.
Até aqui está tudo bem. Mas deixe que alguém que não es-
teja enganado por essas generalidades infrutíferas examine essas
profissões de fé cristãs um pouco mais de perto. Essa pessoa desco-
brirá que elas não fazem jus ao cristianismo em particular. No má-
ximo, fazem jus à religião em geral – talvez à mera moralidade.
Com o cristianismo, cristãos professos estão muito pou-
co familiarizados. Suas visões do cristianismo têm sido tão ne-
gligentes e superficiais que eles mal conseguem perceber essas
circunstâncias exteriores que o distinguem de outras formas de
religião. Essas circunstâncias são alguns fatos novos, e talvez al-
gumas doutrinas e princípios norteadores, acerca dos quais eles
não podem ser totalmente ignorantes. Mas acerca das conseqüên-
cias, das relações e das utilizações práticas desses princípios, eles
têm poucas noções – ou nenhuma.
20 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Quão inconsistente é a nossa educação cristã comparada


com a educação no mundo.
A linguagem parece muito forte ao me referir a cristãos
professos? Observe o plano de vida deles e sua conduta diária.
Em que podemos discernir as diferenças entre eles e descrentes
confessos? Em uma época quando a infidelidade é abundante,
nós os observamos instruindo cuidadosamente seus filhos nos
princípios da fé que professam? Eles fornecem a seus filhos argu-
mentos para a defesa dessa fé?
Eles corariam de vergonha em pensar, quando do nasci-
mento de um filho, que ele seria inadequado em qualquer área
do conhecimento ou qualquer habilidade relacionada à sua po-
sição social. Ele cultiva essas habilidades com diligência exu-
berante. Mas é orientado a optar pela religião que lhe convier.
O estudo do cristianismo não fez parte de sua educação. Suas
ligações com ele – se é que há alguma – são quase nunca a opção
para uma racionalidade e uma convicção sóbrias. Ao contrário,
suas ligações com o cristianismo são o mero resultado de uma
predisposição inicial e infundada. Ele nasceu em um país cris-
tão, e então, é claro que é um cristão. Seu pai foi um membro da
igreja da Inglaterra, e é por isso que ele também o é.
Quando a religião entre nós é transmitida por sucessão
hereditária, não é surpresa observar jovens sensíveis começan-
do a questionar a verdade do sistema no qual foram educados.
E também não é surpresa vê-los abandonando uma posição que
foram incapazes de defender. Conhecendo o cristianismo prin-
cipalmente por meio de suas dificuldades e das impossibilidades
falsamente imputadas a ele, eles talvez caiam na companhia dos
incrédulos.
Tenhamos, portanto, consciência, antes que seja tarde.
Estejamos cientes de que, em escolas e faculdades, o cristianis-
mo está quase – se não totalmente – negligenciado. Não pode-
mos esperar que aqueles que respeitam tão pouco esse grande
objetivo da educação dos seus filhos estejam mais atentos a ele
CONCEPÇÕES INADEQUADAS ACERCA DA IMPORTÂNCIA
21
DO CRISTIANISMO

em outros aspectos da conduta de seus filhos. Se eles não têm


respeito pela posição ocupada pelo cristianismo, serão ainda
mais indiferentes quanto a comunicar a luz da verdade divina
às nações que “ainda estão assentadas nas trevas”.
Mas religião, alguém poderia dizer, não é barulhenta e
ostentadora. Ela é modesta e privada por natureza. Reside no
íntimo do homem, e evita a observação das multidões. Que seja
assim.
A partir da visão distante e transitória desses cristãos des-
pretensiosos, cheguemos um pouco mais perto, e escutemos a
conversa franca de suas horas confidenciais. Ali, como em ne-
nhum outro lugar, se vê exposto o íntimo do coração. E podemos
determinar os verdadeiros princípios de seus afetos e aversões; a
régua com a qual medem o bom e o ruim da vida.
Ali, no entanto, você descobrirá pouco ou nenhum tra-
ço de cristianismo. Ele mal encontra lugar no meio dos muitos
objetos de suas esperanças e temores, suas alegrias e tristezas.
Eles talvez sejam gratos, como também o são pela saúde e pelos
talentos, pela ascensão social e por outras possessões temporais.
No entanto, mal consideram esta grande e distinta marca da
generosa providência de Deus em meio às muitas bênçãos por
eles recebidas. Ou, se mencionam o cristianismo, o fazem fria e
formalmente. Poderíamos comparar este ato de menção a uma
daquelas afirmações obsoletas que estamos acostumados a ouvir
por conta do decoro familiar ou do uso popular.
E se a conversa deles acerca de religião for algo mais sé-
rio? Nela devemos supor que a religião deles, modesta e tímida
como estamos presumindo que seja, se mostre por inteira. Nela,
no entanto, procuraremos em vão pela religião de Jesus.
Seu padrão de certo e de errado não é o padrão do Evan-
gelho. Eles aprovam e condenam por uma regra diferente. Eles
alargam princípios e mantêm opiniões totalmente opostas à ín-
dole e ao caráter do cristianismo. Suas opiniões sobre o assunto
religião não são formadas a partir do exame da Palavra de Deus.
22 CRISTIANISMO VERDADEIRO

A Bíblia está esquecida em cima de alguma prateleira, fechada.


E eles seriam totalmente ignorantes acerca de seu conteúdo, a
não ser por conta daquilo que ouvem ocasionalmente na igreja.
Ou talvez retenham vagos trechos da verdade em suas memó-
rias, apreendidos nas lições da infância.
Quão diferentes, e, na verdade, quão contraditórios são
esses dois sistemas. Um, formado a partir das máximas comu-
mente recebidas do cristianismo, e o outro formado a partir do
estudo das Santas Escrituras. Seria curioso observar (em qual-
quer um que tenha até aqui se satisfeito com o primeiro sistema)
o assombro que uma pessoa mostraria em seu primeiro contato
com um sistema baseado nas Escrituras!
Quão criminosa, então, deve parecer aos olhos de Deus
essa ignorância voluntária ao cristianismo e à Palavra de Deus.
Quando Ele, em Sua bondade, nos concedeu tantos meios de
instrução, quão grande deve ser a culpa, e quão terrível a puni-
ção à ignorância voluntária!
Por que deveríamos esperar conhecimento sem questio-
namento e sucesso sem diligência? Embora generosa, a mão da
Providência não concede seus dons para seduzir-nos à pregui-
ça. Ela concede seus dons para nos despertar para o esforço.
Ninguém espera chegar às alturas do aprendizado, das artes, do
poder, da riqueza ou da glória militar sem resolução vigorosa,
diligência incansável e perseverança inabalável.
Ainda assim, esperamos ser cristãos sem trabalho, estu-
do, ou questionamento! Isto é o mais absurdo de tudo, por-
que o cristianismo, uma revelação de Deus e não uma inven-
ção do homem, nos mostra novas relações com suas tarefas
correspondentes. Ele também contém doutrinas, motivações
e preceitos que lhe são peculiares. Não podemos esperar de
modo razoável nos tornar competentes por acidente, assim
como se alguém possa aprender de maneira insensível as má-
ximas da política mundial ou um sistema de comportamento
simples.
CONCEPÇÕES INADEQUADAS ACERCA DA IMPORTÂNCIA
23
DO CRISTIANISMO

O exame diligente das Sagradas Escrituras nos mostraria


nossas ignorâncias passadas. Cessaríamos de ser enganados pe-
las aparências superficiais e de confundir o Evangelho de Cristo
com os sistemas dos filósofos. A verdade significativa hoje es-
quecida de que o cristianismo nos chama a crer nas doutrinas,
absorver os princípios e praticar os preceitos de Cristo nos im-
pressionaria.
As Escrituras, em toda a parte, representam o Evangelho
com números fortemente calculados para imprimir em nossas
mentes um sentido de seu valor. Elas falam do Evangelho como
luz a partir das trevas, como liberdade da prisão, libertação do
cativeiro, vida a partir da morte. Os primeiros convertidos o re-
ceberam com gratidão e alegria. Em um determinado momento, a
sua comunicação é prometida como uma recompensa. Em outro,
a sua perda é ameaçada como uma punição. E a extensão mais
genérica do reino de Cristo constitui um dos pedidos principais
da oração curta ensinada por nosso bendito Salvador.
Que conceitos sublimes acerca da importância do cris-
tianismo deveriam nos encher quando lemos essas descrições.
No entanto, em vão temos “regra sobre regra e preceito sobre
preceito” (Isaías 28.10 ARA). Embora o Evangelho tenha sido
predito, pedido e ansiado, anunciado, representado e celebrado,
nós quase nunca aceitamos este tesouro celestial mesmo quan-
do ele é derramado em nosso colo abundantemente. Damos as
costas a ele friamente, ou, na melhor das hipóteses, tomamos
posse dele negligentemente, como algo pelo qual não tivésse-
mos qualquer estima.
Mas ficaríamos impressionados por um sentimento de va-
lor do cristianismo através do estudo diligente da Palavra de
Deus, esse bendito armazém de verdade celestial e consolação.
Na Palavra aprendemos no que devemos crer e o que praticar.
A Razão dita. A Revelação ordena.
“A fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ou-
vida mediante a palavra de Cristo” (Romanos 10.17). “Estudem
24 CRISTIANISMO VERDADEIRO

cuidadosamente as Escrituras” (João 5.39). “Estejam sempre


preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a
razão da esperança que há em vocês” (I Pedro 3.15).
Estas são declarações e prescrições dos autores inspirados.
As recomendações dos que obedecem às admoestações con-
firmam essas prescrições. Ainda assim, não é indiscutível que,
com a Bíblia em nossas casas, sejamos ignorantes acerca de seu
conteúdo? Em grande medida, a massa do mundo cristão co-
nhece tão pouco e erra tanto quanto aos princípios básicos da
religião que professa!
A esta altura, não questionarei quanto ao motivo por que
aqueles que possuem o princípio de que a Bíblia é a Palavra
de Deus, e professam depositar suas esperanças na base cristã,
se acomodam de bom grado a uma ignorância tão lamentável.
Esta aquiescência, no entanto, parece receber um apoio muito
secreto de duas opiniões semelhantes. Uma é de que pouco im-
porta em que um homem crê. Olhe para o que ele pratica. A
outra (da mesma família) é a de que o que realmente importa é
a sinceridade. Deixem que a opinião e a conduta de um homem
sejam como forem, desde que ele esteja sinceramente conven-
cido de que elas estão certas. Quaisquer que sejam as exigências
da sociedade civil para com ele entre os homens, aos olhos de
Deus ele não pode ser incriminado.
Tomaria muito tempo estabelecer os muitos males ine-
rentes a essas visões populares. É óbvio que elas possuem apli-
cação eterna. A primeira dessas máximas procede da suposi-
ção monstruosa de que, embora sejamos criaturas que prestam
contas, não seremos chamados a prestar contas a Deus pelo
exercício de nossas capacidades intelectuais e emocionais.
Além disso, ela procede da hipótese grosseiramente falaciosa
de que as opiniões de um homem não influenciarão suas prá-
ticas.
Precisamos lembrar aos que advogam este princípio falacio-
so que um julgamento, na maioria das vezes, recebe uma pro-
CONCEPÇÕES INADEQUADAS ACERCA DA IMPORTÂNCIA
25
DO CRISTIANISMO

pensão corrupta do coração e das emoções. O vício é o pai fértil


do preconceito e do erro.
Esquecendo estas verdades e confundindo as mais impor-
tantes distinções morais, eles colocam em um mesmo nível dois
grupos de pessoas. O primeiro grupo é composto daqueles que
cuidadosamente extirpam de seus corações todo princípio falso
e se ocupam de uma busca sincera e calorosa da verdade. O
segundo grupo é composto daqueles que se entregam implicita-
mente às opiniões – quaisquer que sejam – que pressuposições
anteriores possam ter inspirado. Ele é também composto da-
queles que se entregam a qualquer paixão, interesse, ou mesmo
espírito consentido de preguiça que tenha sido imposto sobre
suas mentes.
A segunda das máximas precedentes, de que a sinceridade
é tudo, procede desta suposição infundada: O Ser Supremo não
nos disponibilizou meios suficientes para discernirmos a verdade
da falsidade, ou o certo do errado. Isto implica que não importa
o quão selvagem ou extravagante possam ser as opiniões e con-
dutas de um homem. Elas são o resultado de questionamento
imparcial e de convicção honesta, como se seus sentimentos e
ações tivessem sido estritamente moldados às regras da razão e
da sobriedade.
Nunca houve um princípio mais genérico em seu uso,
mais soberano em sua potencialidade. Exemplos podem ser en-
contrados na história secular de pessoas cometendo os maiores
crimes com uma convicção sincera da integridade de sua con-
duta. As Escrituras nos oferecem paralelos.
Foi a fim de guardar-nos do erro ao qual temos sido ex-
postos que nosso bendito Salvador advertiu Seus discípulos: “de
fato, virá o tempo quando quem os matar pensará que está pres-
tando culto a Deus” (João 16.2).
Devemos abandonar qualquer princípio assim. Devemos
compelir os defensores da sinceridade a restaurar este termo ao
seu significado genuíno. Eles devem reconhecer que ela impli-
26 CRISTIANISMO VERDADEIRO

ca honestidade de mente, um uso fiel dos recursos do conheci-


mento e do aperfeiçoamento, um desejo de ser instruído, ques-
tionamento humilde, consideração imparcial, julgamento sem
preconceitos.
A esses valores somos chamados com intensidade, acom-
panhados de oração fervorosa pela bênção divina. “Peçam, e
lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes
será aberta” (Lucas 11.9-10). “Venham todos vocês que estão
com sede, venham às águas” (Isaías 55.1).
Ao questionador verdadeiramente sincero estão reser-
vados a segurança confortável e os encorajamentos graciosos.
Quão profunda será a nossa culpa se desprezarmos estas ofertas
benevolentes! “Pois eu lhes digo que muitos profetas e reis dese-
jaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; e ouvir o que
vocês estão ouvindo, mas não ouviram” (Lucas 10.24).
Grandiosas de fato são as nossas oportunidades. Grande
também é a nossa responsabilidade. O tempo do juízo final che-
gará. E quando finalmente convocados a comparecer diante do
tribunal de Deus para prestarmos contas de nossa mordomia,
que argumento poderemos ter em nossa defesa? Qual será nossa
defesa se permanecermos deliberada e obstinadamente igno-
rantes acerca do caminho que leva à vida? Qual poderá ser a
nossa defesa quando temos tantos recursos transcendentes para
conhecer este caminho à vida, e tantas razões urgentes para per-
segui-lo?
Capítulo II

Conceitos inadequados acerca da


natureza humana

O bserve comigo o equívoco mais comum acerca da


natureza humana entre pessoas educadas que se inti-
tulam cristãs. Pouca atenção tem sido dispensada a este assunto,
embora seja de grande importância. Ele, na verdade, compõe a
essência da verdadeira religião. E é a base e o fundamento do
cristianismo.
Muitos cristãos professos e cultos desprezam ou negam a
corrupção e a fraqueza da natureza humana. Eles reconhecem que
há e sempre houve perversidade e vícios em quantidade conside-
rável. Reconhecem que a humanidade sempre esteve inclinada
à sensualidade e ao egoísmo, e que, portanto, é desobediente aos
princípios mais refinados e liberais de sua natureza.
Essas pessoas cultas podem citar, na história, inúmeros
exemplos de opressão, ganância, crueldade, fraude, inveja e
malícia; e citam essas ocorrências tanto na vida pública quanto
na privada. Elas reconhecem que é vão, na maioria das vezes,
informar os que assim pensam e agem, convencê-los acerca de
um julgamento. Elas admitem que você, portanto, não reforma
os corações dos homens.
Embora saibam de sua obrigação, eles não a praticarão.
Não, eles não praticarão, mesmo quando forem forçados a re-
28 CRISTIANISMO VERDADEIRO

conhecer que o caminho da virtude é também o caminho do


interesse verdadeiro e da alegria consistente.
Embora esses efeitos da depravação humana sejam, em
toda parte, reconhecidos e pranteados, não podemos esperar en-
contrá-los colocados em seus devidos lugares, a saber, em sua ver-
dadeira origem.
Ao contrário, iremos meramente ouvir sobre fraqueza e
debilidade, de transgressões triviais, de fracassos ocasionais e de
incidentes acidentais. Estes e outros termos definidores servem
somente para manter a verdadeira fonte do mal fora do campo
de visão. Pois eles não querem ter a sua compreensão abalada; na
verdade, querem dar consolo ao orgulho da natureza humana.
A maioria dos cristãos professos normalmente fala do
homem como um ser naturalmente puro. Ele está inclinado a
praticar todo tipo de virtude. Só de vez em quando é que algo o
atrai para fora do curso da justiça – quase que involuntariamen-
te – ou o vence através da violência da tentação. O vício, para
eles, é um evento acidental e temporário, ao invés de uma de-
sordem constitucional e habitual. Eles o vêem como uma planta
ou erva daninha venenosa, que vive e cresce na mente humana,
mas que não é parte da produção natural do solo.
Bem diferente é a linguagem humilhante do verdadeiro
cristianismo. A partir dele, aprendemos que o homem é uma
criatura apóstata. Ele caiu de seu estado original, que era eleva-
do. Ele é degradado em sua natureza e depravado em suas facul-
dades. Ele não tem disposição para o bem, e tem disposição para
o mal. Inclinado ao vício, para ele é natural e fácil pecar. Não
dado à virtude, é difícil e árduo para ele persegui-la.
Ele está corrompido pelo pecado, não leve e superficial-
mente, mas radicalmente, e no cerne de seu ser. Embora possa
ser humilhante reconhecer estas coisas, ainda assim esta é a des-
crição bíblica do homem. A verdade dela chega forçosamente
até nós, quando contrastamos os resquícios de nossa dignidade
primitiva com nossa condição presente de degradação moral.
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA HUMANA 29

“Dentro de que profundeza tu olhas,


a partir de qual elevação caída”.
John Milton, Paradise Lost (Paraíso Perdido), Livro 1

Examine, primeiramente, os poderes e faculdades naturais


do homem: suas invenções, razão, julgamento, memória. Veja
sua mente de “largo raciocínio” “olhando o antes e o depois”,
revisando o passado, determinando assim o presente, e anteci-
pando o futuro. Veja como ele discerne, assimila, relaciona e
compara. Observe que o homem pode apreender e admirar a
beleza da excelência moral.
Considere como ele exercita as emoções: com temor e
esperança; com calor e empolgação; com alegria e tristeza para o
consolo e a suavidade; com amor para unir e paciência para per-
severar. Reflita também no poder da consciência, aquele moni-
tor fiel dentro do peito humano, para reforçar as conclusões da
razão e dirigir e regular as paixões da alma.
E ainda com todas estas vantagens, devemos declarar
o homem “majestoso, embora em ruínas”. “Feliz, feliz mun-
do!” Seria a exclamação do habitante de algum outro planeta
quando informado de que um globo como o nosso é povoado
por criaturas como estas, e está repleto de situações e ocasiões
calculadas para anunciar as múltiplas excelências de sua na-
tureza.
Mas volte-se dos poderes naturais do homem para suas
práticas – veja como ele as usa e aplica. Teremos então uma
outra perspectiva. Tome a visão geral dos esforços do homem.
Observe-o em todas as idades, climas, nações, em cada condição
e período da sociedade. Onde agora descobrimos as característi-
cas de sua natureza exaltada? Como sua razão está nublada, seus
sentimentos pervertidos, sua consciência entorpecida! Como a
ira, a inveja, o ódio e a vingança brotam de seu peito infeliz!
Como ele é escravo de seus apetites mais mesquinhos! Quantas
inclinações fatais para o mal são descobertas por ele! Tamanha
é a sua inabilidade para o bem!
30 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Reflita no estado do mundo antigo. Não somente em sua


parte mais iletrada, onde todos morriam na ignorância brutal
e na barbárie. Mas pense também nos alicerces das nações refi-
nadas e civilizadas, nos impérios do bom gosto, do aprendizado
e da filosofia. Mesmo nessas regiões selecionadas, seja com que
lustre o sol do conhecimento lançasse seus raios, a escuridão
moral era tão densa, “que podia ser sentida”. Eis suas idolatrias
embriagadas, suas superstições absurdas, sua carência de senti-
mentos naturais, seus excessos brutais, sua opressão insensível,
sua crueldade selvagem!
Olhe não somente para os iletrados e vulgares, mas para
os instruídos e refinados. Forme suas idéias não a partir da con-
duta dos menos comedidos e mais libertinos. Você se afasta-
rá com nojo e vergonha dos hábitos permissivos e comuns dos
decentes e morais. Paulo descreve melhor os fatos, e fornece a
explicação: “Visto que desprezaram o conhecimento de Deus,
ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para prati-
carem o que não deviam” (Romanos 1.28).
Agora considere outra parte da terra, os habitantes nati-
vos do novo hemisfério, o continente americano. Para lá as prá-
ticas nocivas e o exemplo contagioso do velho mundo nunca
viajaram. Por certo, entre os filhos da natureza podemos esperar
encontrar as tendências virtuosas pelas quais procuramos em
vão em outras terras. Infelizmente, nossa busca ainda será infru-
tífera! Eles são representados pelos historiadores da América,
cujos relatos são mais favoráveis do que o de outras autoridades
de respeito. No entanto, eles falam dos índios americanos como
sendo uma composição de orgulho, indolência, egoísmo, astú-
cia e crueldade.
Um autor fala deles como cheios de uma vingança que
nada pode saciar, de uma ferocidade que nada pode suavizar,
e como estranhos às sensibilidades mais amáveis da natureza.
Seu tratamento horrendo dado aos prisioneiros de guerra, sobre
cujos corpos eles dançavam após levá-los à morte por meio das
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA HUMANA 31

torturas mais cruéis, é tão conhecido que podemos poupar sua


descrição nojenta. Nenhuma qualidade digna de elogio alivia
este quadro sombrio, exceto coragem, perseverança e zelo pelo
cumprimento de seus compromissos.
Se o comportamento dos povos pagãos é indefensável, o
que pode ser dito acerca das vidas daqueles influenciados pelo
cristianismo? Verdade seja dita, o cristianismo estabeleceu um
padrão geral de moral muito mais elevado do que o encontrado
no mundo pagão. Ele tem por toda a parte melhorado o caráter
do homem e multiplicado o bem-estar da sociedade. Tem be-
neficiado em particular os pobres e desamparados, aqueles por
quem, desde o princípio, professou ter atenção especial. No en-
tanto, mesmo nessa situação tão conveniente, descobriremos
muitas provas lamentáveis da depravação humana. Esta depra-
vação, na verdade, se torna mais aparente e menos desculpá-
vel. Pois as vantagens de que desfrutamos só fazem aumentar as
obrigações que nos são impostas.
Considere a excelência do nosso código moral, os novos
princípios de obediência fornecidos pelo Evangelho. Acima de
tudo, considere a terrível sanção estabelecida pelos ensinos do
cristianismo acerca de um futuro estado de retribuição. Pode-
mos então observar que a nossa responsabilidade é muito maior.
No entanto, a despeito de todo o nosso conhecimento, nosso
progresso na virtude tem sido muito pequeno.
A prosperidade endurece o coração. O poder ilimitado
é sempre prejudicial. Os hábitos viciados crescem por si mes-
mos. Os hábitos virtuosos têm uma formação vagarosa e difícil.
Aqueles que pintam os primeiros quadros que ilustram virtudes
e se apaixonam por seus encantos são, na maioria das vezes,
os últimos a serem influenciados por elas. Ninharias os atraem
para fora da linha de conduta que eles tão seriamente recomen-
dam a outros.
Há outras observações a serem feitas. Como explicarmos
as disposições perversas e teimosas das crianças? (A correção a
32 CRISTIANISMO VERDADEIRO

elas imposta freqüentemente frustra os esforços mais vigorosos


dos sábios e bons). O que dizer dos vários enganos que pratica-
mos contra nós mesmos? O próprio cristianismo tem sido de-
sonrado por esse tipo de corrupção. O Evangelho da paz tem se
tornado uma máquina de crueldade. Em meio à amargura e à
perseguição, todos os traços de um espírito compassivo e bene-
volente têm desaparecido da religião de Jesus.
Por certo, para aqueles que se autodenominam cristãos,
as declarações a seguir podem muito bem ser destacadas como
exemplos extraordinários de depravação humana. Nós desfru-
tamos da luz plena da revelação; professamos crer que “nele vi-
vemos, nos movemos e existimos” (Atos 17.28); desfrutamos
da oferta da glória eterna, pregada a nós por meio do sangue
remidor de Seu próprio Filho. E ainda assim, nos esquecemos
de Seus benefícios. Fazemos pouco caso de suas propostas gra-
ciosas, ou, na melhor das hipóteses, as recebemos com corações
frios e impassíveis.
Podemos testar o ensino acerca da depravação natural do
homem com maior rigidez ao pedirmos ao cristão vigilante e
abnegado que resolva a controvérsia. Isto não se dá por meio de
inferências, a partir da prática de um mundo imprudente e dis-
soluto; isto se dá por meio de um apelo à experiência pessoal de
um crente comprometido. Vá com ele ao seu aposento privado.
Peça sua opinião sobre a corrupção do coração. Ele lhe dirá que
está profundamente consciente de seu poder, tendo aprendido
acerca de sua força por meio de observação e da longa convi-
vência com as obras de sua própria mente. Ele lhe dirá que todo
o dia reitera esta convicção. Na verdade, de hora em hora, ele
enxerga evidências para deplorar sua falta de simplicidade de
intenções, sua fraqueza de propósito, suas idéias vis, seu egoís-
mo, desejos indignos, sua relutância em cumprir deveres, sua
frouxidão e frieza para executá-los.
O cristão vigilante sabe que é continuamente forçado a
confessar que sente dentro de si dois princípios opostos, e que
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA HUMANA 33

“o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero
fazer, esse eu continuo fazendo” (Romanos 7.19). Na lingua-
gem do puritano Richard Hooker, “os pequenos frutos que obte-
mos com a santidade são, Deus sabe, corruptos e doentios. Não
colocamos jamais a confiança neles. Não desafiamos nada no
mundo por eles. Ousamos não clamar a Deus para ajuste de
contas, como se o tivéssemos em nossos livros contábeis. Nossa
demanda contínua para com Ele é, e deve ser, que carregue nos-
sas enfermidades e perdoe nossas ofensas”.
Esta é a história moral e estas são as condições do ho-
mem. Os contornos da pintura podem variar. A coloração
pode às vezes estar mais escura ou, às vezes, com um matiz mais
leve. Mas os princípios da composição e os contornos majes-
tosos são os mesmos em toda parte. Para onde quer que volte-
mos nossos olhos, descobrimos provas deprimentes de nossa
depravação. Quer olhemos para os tempos antigos quer para os
modernos, para as nações bárbaras ou civilizadas, para a con-
dução do mundo ao nosso redor ou para o monitor dentro do
peito, ou mesmo para aquilo que lemos, ouvimos, executamos,
pensamos ou sentimos, a mesma lição humilhante se impõe
sobre nós.
As circunstâncias podem variar de indivíduo para indiví-
duo. A servidão de uns é mais rigorosa que a de outros. Alguns,
também, por um tempo, parecem ter escapado de seu confina-
mento. Mas ninguém é completamente puro. Todos, sem exce-
ção, em um nível maior ou menor, carregam consigo as obras
vergonhosas de seu cativeiro.
Em uma investigação completa e justa, esta deve nos le-
var à constatação de que as coisas são realmente assim. Como
deve o pecado ser considerado em relação ao homem? Há al-
guma possibilidade de outra explicação que não essa de alguma
mácula original, algum princípio radical de corrupção? A causa
poderosa foi apontada, a qual pode completa e suficientemente
responder pelo efeito maléfico.
34 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Parece, portanto, que a corrupção da natureza humana


pode ser comprovada utilizando-se o mesmo modo de racio-
cínio que o que foi usado com sucesso no estabelecimento da
existência dos princípios gravitacionais e na compreensão de
suas leis. A doutrina possui a mesma base sólida sobre a qual
Isaac Newton erigiu a superestrutura de sua ciência sublime.
Não se trata de mera especulação; não é uma teoria incerta,
embora ingênua, que seria o resultado fiel de experimenta-
ção abrangente e verdadeira. Ela é, ao contrário, deduzida a
partir de fatos incontestáveis. E ela se harmoniza com várias
partes e responde por vários fenômenos do grande sistema
do universo, o que denota uma confirmação a mais de suas
verdades.
Aqui, no entanto, a revelação começa a guiar nossos
pensamentos e a sustentar as teorias falíveis de nossa razão de-
samparada. As Santas Escrituras falam de nós como criaturas
caídas. Em quase todas as páginas, encontraremos algo que está
calculado para pôr abaixo a imponência do homem e silenciar
suas pretensões.

“O seu coração é inteiramente inclinado para o mal des-


de a infância” (Gênesis 8.21). “Como o homem pode
ser puro? Como pode ser justo quem nasce de mulher?”
(Jó 15.14). “Quanto menos o homem, que é impuro e
corrupto, e que bebe iniqüidade como água” (Jó 15.16).
“Sua língua trama destruição; é como navalha afiada,
cheia de engano. Você prefere o mal ao bem, a falsidade,
em lugar da verdade” (Salmos 53.2-3).

“Quem poderá dizer: ‘purifiquei o coração; estou livre do


meu pecado?’” (Provérbios 20.9). Pois “sei que sou peca-
dor desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha
mãe” (Salmos 51.5). “Miserável homem que sou! Quem
me libertará do corpo sujeito a esta morte?” (Romanos
7.24).
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA HUMANA 35

Temos passagens e mais passagens que falam a mesma lin-


guagem. E estas novamente podem ser ilustradas e confirmadas
por várias outras considerações, oriundas da mesma fonte. Estas
passagens se referem à necessidade de uma mudança comple-
ta de coração – uma renovação de nossa natureza como sendo
necessária para nos tornarmos verdadeiros cristãos. Homens
santos relacionam suas disposições e sentimentos inclinados ao
bem à ação imediata do Ser Supremo.
Mas a Palavra de Deus nos instrui de que temos que lutar
não somente contra a nossa própria depravação natural, mas
também contra o poder das trevas, o Espírito Maligno, que do-
mina o coração dos ímpios. O seu domínio, segundo as Escritu-
ras, é tão abrangente que ele é intitulado de “o príncipe deste
mundo” (João 14.30). Não há diferença mais forte entre o siste-
ma religioso das Escrituras e o do cristianismo nominal do que
a prova fornecida pelo sujeito agora em questão.
A existência e a ação do Espírito Maligno, embora distin-
ta e repetidamente confirmada nas Escrituras, estão quase que
universalmente desacreditadas em um país que professa admitir
a autoridade da Bíblia. Outras doutrinas da revelação – cuja
força e significado são muitas vezes até certo ponto explicadas
– são ainda aceitas em termos gerais. Mas nós temos univer-
salmente abandonado o demônio como uma realidade. Nós o
consideramos como um preconceito quase que invisível, e uma
doutrina que é um descrédito para qualquer homem esclarecido
crer. Assim como fantasmas e feiticeiras, além de outros espíri-
tos que aterrorizavam a noite da superstição, ele não pode re-
sistir, em tempos iluministas, ao teste de nosso escrutínio mais
crítico.
O que há na doutrina de Satanás que em si mesmo seja
improvável? Ou que não possa ser confirmado por analogia?
Observamos que há homens perversos que são inimigos de Deus.
E enxergamos seus comportamentos malignos para com outras
criaturas, suas companheiras na criação; eles têm prazer e, na
36 CRISTIANISMO VERDADEIRO

maioria das vezes, conseguem seduzir outros ao compromisso com


o mal. Por que então não se crer que haja inteligências espirituais
de inclinações similares que, agindo do mesmo modo, tenham
permissão de tentar os homens para a prática do pecado?
Desse modo, o que observamos no mundo ao nosso redor
concorda com as representações bíblicas das terríveis conseqüên-
cias do vício. De fato, as representações bíblicas daquilo que
é comumente definido como desconsideração e imprudência
também fazem coro com nossas observações.
Se nossa condição é assim tão triste, o que deve ser feito?
Há alguma esperança?
Bendito seja Deus! Não estamos irrevogavelmente tran-
cados nesta triste condição. Aqueles que têm desenvolvido uma
noção verdadeira de seu estado de perdição e desamparo irão
com toda a alegria escutar as boas novas. E terão em alta estima
a noção do valor de tamanha libertação.
É, portanto, importante não passar apressadamente por
cima destes tópicos fundamentais acerca da corrupção e fraqueza
original e induzida do homem. Trata-se de uma discussão dolo-
rosa e humilhante para o orgulho da natureza humana. A mente
a escuta com dificuldade e, mais ainda, com uma mistura de rai-
va e repugnância. No entanto, é aí que nossa fundação deve ser
lançada. Caso contrário, nossa superestrutura, seja qual for que
pensemos ter, se mostrará, um dia, cambaleante e insegura.
Isto, portanto, não é uma especulação metafísica, mas
uma questão prática. Pois, não tendo noção da malignidade de
nossa doença e de seu resultado terrível, não trabalhamos dili-
gentemente para obter o remédio. Isto deveria ser lembrado: a
diligência não nos é imposta, e sim oferecida. Deus provê toda
a ajuda; ainda assim, devemos ter em mente que somos inca-
pazes, por nós mesmos, de desejar ou de agir corretamente. As
Escrituras claramente nos advertem, “desenvolvam a salvação
de vocês com temor e tremor” (Filipenses 2.12), e para que
vigiemos e vistamos “toda a armadura de Deus” (Efésios 6.11).
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA HUMANA 37

Mas não é suficiente aceitar a doutrina; devemos também


senti-la. Com este propósito, clamemos pela força do hábito.
Treinemos a nós mesmos para lidarmos com a nossa deprava-
ção natural. Ela é a causa de exemplos tristes de vícios e de-
satinos acerca dos quais lemos ou enxergamos ao nosso redor;
ela é a razão de termos tantas inclinações malignas em nossos
corações.
Sempre vigilantes e desconfiados de nós mesmos, olhe-
mos com olhos de bondade e piedade as faltas de outros, assim
como nos solidarizamos com os enfermos. Não deveríamos nos
arriscar a sermos reprovados – e por fim arruinados – termos
estas fontes abundantes de instrução e possuí-las em vão.
Há uma formidável objeção que quase sempre é levanta-
da. Pois o orgulho do homem resiste a ser humilhado. Força-
do a abandonar o apelo da inocência e incapaz de escapar da
conclusão à qual nós o levamos, algum discordante ousado se
posicionará, em apuros, com o seguinte argumento.
“Qualquer coisa que eu seja”, ele argumenta, “sou aquilo
que o meu Criador me fez. Eu herdo uma natureza, a qual você
reconheceu ser depravada e inclinada ao mal. Como posso en-
tão resistir às tentações para pecar, as quais me cercam por todos
os lados? Se este apelo não pode determinar minha inocência,
deve desculpar, ou ao menos atenuar, a minha culpa. Sou fraco
e frágil. Um Ser de infinita justiça e bondade nunca me julgará
por uma regra que seja imparcial no caso das criaturas de na-
tureza mais elevada, mas que seja totalmente desproporcional
para mim”.
Uma vez que a presente obra é endereçada àqueles que
reconhecem a autoridade das Santas Escrituras, leiamos a res-
posta bíblica para este discordante. “Quando alguém for ten-
tado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus. Pois
Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta” (Tiago
1.13). “Ele é paciente com vocês não querendo que ninguém
pereça” (II Pedro 3.9).
38 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Do mesmo modo, em outras passagens, a idéia de que


Ele deveria tentar-nos é repelida como ofensiva ao Seu ca-
ráter. “Teria eu algum prazer na morte do ímpio? Palavra do
Soberano, o Senhor. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo
desviar-se dos seus caminhos e viver?” (Ezequiel 18.23). “Pois
não me agrada a morte de ninguém. Palavra do Soberano, o
Senhor” (Ezequiel 18.32). Na verdade, quase todas as páginas
da Palavra de Deus contêm alguma advertência ou convite
aos pecadores. E todas essas declarações, comunicadas a uma
mente ponderada, devem ser provas irrefutáveis de nossa pre-
sente posição.
É de suma importância expor o falso otimismo concer-
nente à natureza humana, de modo que ela não tire do homem
a sua responsabilidade moral. Tal otimismo pode ser observado
com freqüência como que escapando de nossa percepção, es-
preitando em segredo e propagando uma nuvem geral de dúvida
e descrença. Ou rebaixando nossos padrões de certo e errado.
Ou até mesmo sussurrando um conforto falacioso e produzindo
uma tranqüilidade desastrosa.
Embora as Santas Escrituras declarem claramente a cor-
rupção e fraqueza naturais do homem, elas sempre se opõem, ao
contrário de tolerar (em qualquer nível), à visão de que a nossa
corrupção e fraqueza naturais diminuem as exigências da justiça
divina. Aqueles que são otimistas acerca da natureza humana
buscam de algum modo justificar nossas transgressões às leis de
Deus. Tal noção está em conflito com todo o plano da redenção
por meio do sacrifício de Cristo.
Volto-me para os cristãos cuja imaginação possa estar sen-
sível a tais sugestões. Certifiquem-se de que a melhor resposta
prática a estas questões seja tranqüilizadora. Conquanto nossa
condição natural seja depravada e fraca, nossas tentações sejam
numerosas e nosso Juiz Todo-Poderoso infinitamente santo, as
ofertas de perdão, graça e força aos pecadores penitentes são
universais e ilimitadas.
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA HUMANA 39

Em meio a tudo isto, pode haver dificuldades que aparen-


temente não serão compreendidas por completo. Ainda que ra-
ramente haja um objeto ao nosso redor que não possa se tornar o
sujeito de dúvidas e discussões infindáveis. Toda a natureza nos
conclama a sermos humildes. É possível então ser uma surpresa
que estejamos perdidos sobre esta questão, uma questão que não
respeita as propriedades da matéria ou dos números, mas somen-
te os conselhos e caminhos Dele, cujo entendimento é infinito,
“Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento
de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis
os seus caminhos!” (Romanos 11.33). Nesta nossa ignorância,
contudo, podemos, com toda a calma, repousar em Sua própria
declaração: embora “nuvens escuras e espessas o cercam; reti-
dão e justiça são a base do seu trono” (Salmos 97.2).
Lembremos também que se algumas coisas são difíceis no
cristianismo, essas coisas acerca das quais estamos mais preo-
cupados são simples e óbvias. Aí, então, está a verdadeira sa-
bedoria, à qual podemos nos apegar. Podemos aceitar o que é
revelado quando isso estiver acima de nossa compreensão (não
dizemos contrário à nossa razão). Nós cremos nisto confiantes
no que está claramente discernido e satisfatoriamente estabe-
lecido. Na verdade, estejamos todos muito prontos para mer-
gulhar nas profundezas que estão além de nosso poder de com-
preensão. “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso
Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para
sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei” (Deutero-
nômio 29.29).
Eu comunico estas palavras a qualquer que esteja seria-
mente impressionado por um sentimento acerca do estado crí-
tico no qual fomos colocados – um espaço curto e incerto onde
fazemos nossa paz com Deus; um pequeno vão de vida seguido
do último julgamento, e uma eternidade de indescritível felici-
dade ou penúria. É de fato um espetáculo terrível e comovente
enxergar homens se ocupando de vãs especulações. Ou vê-los
40 CRISTIANISMO VERDADEIRO

com arrogante curiosidade mesquinha barganhando por seus


mais preciosos e eternos interesses. Bem, talvez então adotemos
a linguagem do poeta.

“O que podemos fazer de melhor a não ser cairmos pros-


trados
Diante Dele reverentes; e ali confessarmos
Humildemente nossas faltas, e por perdão implorarmos;
com lágrimas
Encharcando o chão, e com nossos suspiros freqüentando
o ar,
Enviados de corações contritos, em sinal
De tristeza genuína, e submissa humilhação?”
John Milton, Paradise Lost (Paraíso Perdido), Livro 10
Capítulo III

Conceitos inadequados de Deus e


do comportamento cristão

A maioria dos cristãos professos menospreza as principais


doutrinas da fé cristã. As Santas Escrituras as ensinam
e igrejas estabelecidas crêem nelas. Elas podem ser resumidas no
seguinte:

•Que “Pois Deus tanto amou o mundo que deu o seu Fi-
lho Unigênito para que todo o que nele crer não pereça, mas
tenha a vida eterna” (João 3.16).
• Que o nosso bendito Senhor de livre e espontânea von-
tade deixou a glória do Pai, e se fez homem.
• Que “foi desprezado e rejeitado pelos homens, um ho-
mem de dores e experimentado no sofrimento” (Isaías 53.3).
• Que “foi traspassado por causa das nossas transgressões,
foi esmagado por causa das nossas iniqüidades” (Isaías 53.5).
• Que “o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos
nós” (Isaías 53.6).
• Que por fim “humilhou-se a si mesmo e foi obediente até
à morte, e morte de cruz...” com o propósito de que todos os que
realmente se arrependerem e tenham a verdadeira fé venham a
ele, não pereçam, mas tenham a vida eterna (Filipenses 2.8).
• Que Ele “está à direita de Deus, e também intercede por
nós” (Romanos 8.34).
42 CRISTIANISMO VERDADEIRO

• Que uma vez reconciliados com Deus por meio da morte


de seu Filho “aproximemo-nos do trono da graça com toda a con-
fiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça
que nos ajude no momento da necessidade” (Hebreus 4.16).
• Que nosso Pai Celestial “dará o Espírito Santo a quem o
pedir” (Lucas 11.13).
• Que o Espírito de Deus habite em nós, e que “se alguém
não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Romanos
8.9).
• Que por meio de sua influência divina sejamos “revesti-
dos do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à
imagem do seu Criador” (Colossenses 3.10), e “cheios do fruto
de justiça, o qual vem por meio de Jesus Cristo, para a glória e
louvor de Deus” (Filipenses 1.11).
• Que “dignos de participar da herança dos santos no rei-
no da luz” dormiremos no Senhor e, quando a última trombe-
ta soar, nossa corrupção se transformará em incorruptibilidade
(Colossenses 1.12).
• Que, estando por fim aperfeiçoados segundo a Sua ima-
gem, sejamos admitidos em Seu reino celestial.

Poucos freqüentadores de igreja podem estar tão desaten-


tos a ponto de ignorar essas verdades e os sentimentos vitais
que elas tencionam promover em nós, sentimentos de profunda
auto-humilhação e desprezo ao pecado. Tais emoções deveriam
também estimular uma humilde esperança, uma fé firme, uma
alegria celeste, um amor ardente e uma gratidão ativa e inces-
sante.
Mas é precisamente aí que se revela um grande defeito
na vida religiosa da maioria dos cristãos professos. Trata-se de
um defeito estreitamente conectado com o que foi descrito no
capítulo anterior.
“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas
sim os doentes” (Mateus 9.12). No entanto, se realmente sen-
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
43
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

tíssemos o peso de nossos pecados e percebêssemos com profun-


da convicção que o peso deles irá finalmente nos destruir, nosso
coração finalmente dançaria de alegria diante deste convite:
“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados,
e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28). Mas os que têm pou-
ca ou quase nenhuma tristeza diante do pecado fingem crer ou
experimentar essa oferta de ajuda. Ainda que, sem essa tristeza
pelo pecado, e, portanto sem qualquer sentimento de necessida-
de, a lógica da graça de Deus não tenha sentido.
Portanto, que o mais superficial observador compare os
sentimentos e visões do mundo cristão com os artigos de fé que
ainda aparecem em seu credo. Uma impressionante discrepân-
cia será notada! Assim, na mente da multidão, a religião parece
estar totalmente excluída dos negócios deste mundo e das vai-
dades da vida.
Mas e aqueles que são mais sérios e moralmente corre-
tos? Quais são os critérios para o viver? Seus corações estão
realmente cheios das coisas, e aquecidos pelos sentimentos de
compaixão que deveriam capacitá-los a inspirar outros? É certo
que suas mentes vagueiam ou estão ocupadas com os cuidados
e afazeres da vida. Ele foi um observador magistral da natureza
humana, que assim descreveu as características de uma pessoa
inconstante.

“Irrequieto e inconstante em todas as outras coisas,


guarde a imagem constante do objeto que é amado”.
William Shakespeare, Twelfth Night, Ato 2,
Cena IV [Fala de Orsino, Duque de Illyria]

“Mas como você sabe”, alguém pode perguntar, “que as


pessoas estão preocupadas assim?” Como foi dito, “pois a boca
fala do que está cheio o coração” (Mateus 12.34).
Coloque essas pessoas de lado em tempo oportuno e leve
a conversa para o assunto religião. O máximo que se pode fazer
44 CRISTIANISMO VERDADEIRO

é tê-las conversando em termos genéricos acerca desse tema.


Elas parecem perdidas em generalizações. Não há nada especí-
fico ou determinado. Não há nada que sugira uma mente que é
usada para contemplar realidades específicas.
Em vão você tenta que falem desse tópico. Seria de se
esperar que o assunto relacionado a Deus fosse prioritário no
coração de pecadores redimidos. Mas eles se esquivam de todas
as suas iniciativas. Se você mesmo fizer menção a ele, elas não
darão boas vindas cordiais ao tema; na verdade, elas o saudarão
com patente aversão. Na melhor das hipóteses, a discussão soa-
rá forçada e formal.

I. Concepção inadequada de cristianismo

1. Apreciação inadequada de Cristo


Na discussão, as pessoas podem admirar a excelência da
conduta moral de nosso Salvador. Falamos de Sua bondade,
da Sua simplicidade, da pureza irrepreensível e da abnegação
de Sua vida, mesmo de Sua paciência e humildade na hora da
morte. Na maioria das vezes, um louvor indesejado pode ser
arrancado até mesmo dos mais descrentes.
Mas nunca nos referimos a estas características como sen-
do atributos pessoais de Jesus Cristo. Deixamos estes traços no
terreno da abstração, como se fossem as qualidades de um pa-
trono, de um benfeitor, ou mesmo de um amigo. Falamos de Seu
amor, de Sua doação por nós, da morte por nossos pecados e de
que Ele está agora exaltado nos céus, à direita de Deus, inter-
cedendo por nós. Mas quem jamais pensaria que a bondade, a
humanidade, a abnegação e a paciência no sofrimento, as quais
tanto elogiamos de maneira tão abstrata, realmente significam
algo para nós pessoalmente?
Pelo fato de termos os livros de orações e outras fontes de
liturgia, não esquecemos as grandes verdades de Cristo. Graças
aos compiladores de tais obras, mais do que aos muitos ocupan-
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
45
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

tes de nossos púlpitos, essas verdades capturam nossa atenção


sempre que comparecemos aos cultos na igreja.
Embora mantidas com o decoro que condiz com o dia, o
lugar e a atividade religiosa, essas verdades cristãs são, na maio-
ria das vezes, ouvidas com pouco interesse. Como os contos le-
gendários da antiguidade, que podem ter sido importantes para
nossos ancestrais, não é de se esperar que as levemos a sério.
Assim sendo, nós as ouvimos com aparente indiferença. Nós as
repetimos mecanicamente, assumindo a linguagem da mais pro-
funda humildade e da gratidão mais calorosa, com uma postura
calma e inalterada.
Quando o culto termina, nós as apagamos completamen-
te de nossas mentes, até o próximo domingo, quando mais uma
vez renovamos nossa humildade e gratidão periódicas. Ao notar
essa mornidão, você perdoa o autor por expressar condenação
tão direta. Podemos permitir tal comportamento àqueles que,
como os Unitarianos, negam ou desvalorizam, por meio de ar-
gumentos, as verdades características do Evangelho. Mas para
os que professam uma crença sincera nelas, essa frieza é insu-
portável.
Se o amor de Cristo é tão débil entre os cristãos nomi-
nais, não é de se esperar que sua alegria e confiança Nele sejam
fortes.

2. Apreciação Inadequada do Espírito Santo


A doutrina da obra santificadora do Espírito Santo pare-
ce ter recebido tratamento pior. O meio cristão é muito pouco
consciente da inabilidade de seus próprios esforços para produ-
zir santidade de coração e de vida. Eles não estão acostumados a
usar humilde e diligentemente os meios providos por Deus para
o recebimento e o cultivo de Sua ajuda todos os dias. Não é um
exagero afirmar que, para a maioria, suas noções sobre o assunto
são tão confusas e inconsistentes que mal se poderia dizer que
crêem nesta doutrina.
46 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Quanto à atuação do Espírito Santo, não há um critério


definido por meio do qual se possa ter certeza da realidade das
obras do Espírito Santo. Simuladores dos auxílios sobrenaturais
de Deus nunca faltaram; eles abusam da credulidade dos tolos e
põem à prova a paciência dos sábios. Dos hipócritas fingidos e
fanáticos violentos do último século e de seus menos perigosos e
menos bem sucedidos herdeiros em nossos dias ouvimos as mes-
mas coisas: as mesmas alegações não comprovadas, as mesmas
histórias inúteis, a mesma conversa vulgar.
A doutrina do Espírito Santo, em se falando negativa-
mente dela, parece somente favorecer a indolência dos homens.
Alegando oferecer-lhes um método abrangente de capacitação
para a sabedoria e a bondade, ela sobrepuja a necessidade dos
esforços próprios de uma pessoa.
E, no entanto, ela representa o bom senso no trabalho
diligente, na restrição às desordens das emoções e na implan-
tação e no cultivo das virtudes do caráter moral. Este é o exer-
cício de compreensão que Deus requer de nós, o qual alguns,
racionalizando, definiriam como sendo uma mera questão de
temperamento de grupo e impulsos imaginários. Estes estão
lutando por isso, o que é totalmente indigno de nosso Divino
Mestre. É isso também o que faz com que pessoas sensatas ve-
jam a religião com desconfiança e descrédito, e não creiam na
causa de Cristo.

3. Concepção Inadequada do Comportamento Cristão


Desse modo, muitos têm, com freqüência, prostituído
o nome sagrado da verdadeira religião. É uma triste realidade
que fanáticos e perseguidores sanguinários, hipócritas egoístas
de todos os tipos, tenham falsamente chamado a si mesmos de
cristãos. Admitimos, sem dificuldade, que as pretensões falsas e
a conduta extravagante de fanáticos loucos e entusiastas dese-
quilibrados mentais injuriaram e desgraçaram o amor à religião
e à doutrina da ajuda divina através dos tempos.
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
47
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

O Criador tencionou usar os poderes e a propriedade da


matéria para o nosso conforto e bem-estar. Contudo, nós os
utilizamos de maneira inapropriada, e eles se tornam agentes
de miséria e de morte. Do mesmo modo, a eliminação da li-
berdade substituiu o patriotismo. Assim como não descarta-
mos a liberdade porque pessoas abusam dela, do patriotismo,
da coragem, da razão, do discurso, da memória não devemos
eliminar a verdadeira religião pelo fato de que interesseiros a
têm pervertido.
Ao mesmo tempo, temos de reconhecer que não há como
assegurar a validade do fervor religioso de ninguém. Nem sem-
pre estamos aptos a ler os corações dos homens e descobrir seu
verdadeiro caráter. Assim, estamos vulneráveis às simulações
hipócritas e falsas.
Mas sua falsidade e hipocrisia não quer dizer que tudo
é falso e hipócrita. Se fosse assim, não haveria algo como um
homem sábio e honesto. Por que então ficamos tão surpresos
e escandalizados quando esses impostores são identificados na
Igreja de Cristo? O próprio Cristo nos ensinou a esperar por isso
quando disse “O senhor não semeou boa semente em seu cam-
po? Então, de onde veio o joio?” Sua própria resposta apresenta
a melhor solução: “um inimigo fez isso” (Mateus 13.27-28).
A hipocrisia é, de fato, repugnante, e o entusiasmo su-
ficientemente danoso a ponto de justificar nossa mais cuida-
dosa desconfiança contra suas abordagens. Lembremo-nos, no
entanto, de que, de vez em quando, chegaremos a conclusões
desfavoráveis a partir de aparências desagradáveis. De fato, tira-
remos conclusões exageradas ou confusas.
O modo e a linguagem com as quais uma pessoa mal edu-
cada se expressará acerca da verdadeira religião serão provavel-
mente rudes. Assim, é difícil, para pessoas refinadas, não ficarem
chocadas com essas expressões. Em ocasiões assim devemos ao
menos nos empenhar por corrigir os julgamentos precipitados
que possamos estar dispostos a ter. Devemos também aprender
48 CRISTIANISMO VERDADEIRO

a reconhecer e a elogiar o pensamento correto e justo, embora


disfarçado por uma cobertura simples e rústica.
Foi um apóstolo quem declarou que havia ido aos gregos,
instruídos e talentosos, “não com palavras de sabedoria humana”
(I Coríntios 1.17). Dessas coisas ele havia se abstido cuidadosa-
mente. Caso contrário, seu sucesso teria parecido fruto das graças
da oratória, e não da efetividade de suas doutrinas e do poder
divino que as acompanhava.
Mesmo em nossa própria época – quando a extraordiná-
ria operação de dons miraculosos do Espírito Santo têm estado
cessado – é necessário aos homens que estudem, se preparem e
dêem atenção à forma, tanto quanto ao conteúdo. Essas prepa-
rações que qualificam os homens a se tornarem professores da
religião não foram suplantadas. [O autor aqui destaca o firme
testemunho dos mercadores morávios nas Índias Ocidentais
contra o tráfico de escravos. Um relatório ao Conselho Britâni-
co Secreto sobre o Tráfico de Escravos registra este exemplo].
Cristãos como eles deram à humanidade prova mais que su-
ficientes e inequívocas do amor de Cristo. Além disso, deram pro-
va mais que suficiente do zelo ardente, ativo e paciente no serviço
Dele. Trata-se de um zelo temperado por prudência e amaciado
com humildade. Com sobriedade, ele visa a um objetivo final por
meio da operação gradual dos meios bem ajustados, apoiados por
uma coragem que nenhum perigo pode intimidar e por uma cons-
tância silenciosa que nenhuma dificuldade pode desgastar.

II. A validade das emoções na religião

Alguns podem questionar isso, insistindo em que fazemos


de nosso bendito Salvador objeto de nossas emoções, que de-
gradamos nossos cultos religiosos, que, por meio dessa compre-
ensão, substituímos nossa adoração por um conjunto de meros
sentimentos. Essa é uma objeção que merece nossa mais séria
consideração.
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
49
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

Se for uma objeção justa, ela é então decisiva, pois nos-


sa religião deve ser inquestionavelmente um “culto racional”
(Romanos 12.1). O discordante deve estar querendo dizer que,
ou estas emoções são em si mesmas irracionais, ou que estão
sendo mal empregadas na verdadeira religião. Ele pode apenas
argumentar, no entanto, que as emoções sejam, por natureza,
irracionais.
Concluiremos, portanto, que esta não pode ser sua inten-
ção e presumiremos que o que ele quer dizer é que as emoções
são geralmente mal empregadas na religião. Ou que nosso ben-
dito Salvador não é o objeto devido delas.
A noção de que as emoções estão fora de lugar na verda-
deira religião é geralmente sustentada por pessoas que conside-
ram religião como a fortaleza do entusiasmo, embora os homens
tenham a tendência de se deixar enganar por termos inapro-
priados. Assim, assumimos que a religião deveria ser “racional”,
ao invés de ser considerada fervorosa e apaixonada. Não aceite
essa definição com tanta pressa. Pois, na verdade, observaremos
que ela é, na realidade, e se eu não estiver enganado, um erro
grosseiro e danoso.
Seria por certo muita presunção propor excluir da religião
cristã uma parte tão significativa da composição do homem. Ex-
cluir e condenar os princípios mais ativos de nossa natureza é na
verdade muita pretensão.
Mas, com certeza, nosso Criador todo sábio tinha um pro-
pósito muito precioso ao nos dar as qualidades elementares e
paixões originais da mente quando nos deu os órgãos do corpo.
Uma das tristes evidências de nossa condição caída é a de que
elas agora se rebelam perpetuamente contra o poder da razão e
da consciência. Na verdade, nossas paixões deveriam submeter-
se a esses poderes.
Mesmo se a revelação não houvesse se pronunciado, a
razão natural poderia até certo ponto crer que ela mesma é o
efeito de uma religião que veio de Deus. Seu papel seria o de re-
50 CRISTIANISMO VERDADEIRO

parar completamente as conseqüências de nossa depravação in-


duzida. Os planos da sabedoria meramente humana têm de fato
confessado que esta foi uma tarefa para além de suas forças.
Dos dois sistemas filosóficos mais celebrados, um tem con-
firmado de maneira expressa a usurpação das paixões. O outro
perdeu a esperança em suas regulamentações, não vendo nada
senão a sua extinção. O primeiro agiu como um governo enfra-
quecido que dá independência a uma província rebelde que não
pode subjugar. O segundo elaborou seu planejamento alardea-
dor, baseado no plano do estado bárbaro para seus habitantes
selvagens originais.
O homem não pode conduzir o cristianismo a expedien-
tes tão infelizes. Ele não é condescendente com tais artifícios.
Ele tem como glória peculiar e tarefa especial colocar todas as
faculdades de nossa natureza em seu devido lugar de submissão
e dependência. O cristianismo basicamente restaura o homem
todo, completo, em todas as suas funções, até as entranhas de
seu ser: ele é dedicado, inteira e harmoniosamente, ao serviço
e à glória de Deus.
“Meu filho, dê-me o seu coração” (Provérbios 23.26).
“Ame ao Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração” (Deutero-
nômio 6.5). Estas são declarações diretas e abrangentes que as
Santas Escrituras fazem sobre nós. Estas declarações são feitas
acerca do coração.
Na verdade, é difícil olhar para qualquer parte da Bíblia
sem encontrar provas abundantes de que é a religião das emo-
ções que Deus requer em particular. Amor, zelo, gratidão, ale-
gria, esperança, confiança; a Palavra especifica cada uma delas.
Elas não são consideradas fraquezas. Ao contrário, a Bíblia as
ordena como nossa tarefa e as recomenda a nós como nossa
adoração aceitável.
Referências bíblicas sobre este tema são tão numerosas
que não haveria fim para a lista de citações. O leitor observará
que, em geral, as Escrituras falam elogiosamente do exercício
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
51
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

intenso das paixões para com seu objeto legítimo. Por outro
lado, elas apresentam como altamente criminoso um coração
frio, duro e insensível. A Bíblia declara que a mornidão é objeto
da repulsa e da aversão divina. E que Deus abençoa e se deleita
no zelo e no amor. Ele promete, nas Escrituras, desfazer um co-
ração de pedra e implantar uma natureza mais calorosa e terna
em seu lugar, como resultado de Seu favor restituído; elas são a
obra de Sua graça renovadora.
É a oração de um mestre inspirado, em favor daqueles por
quem ele mais estava interessado, “que o amor deles”, já reco-
nhecido como sendo grande, “aumente cada vez mais” (Fili-
penses 1.9). As Escrituras prescrevem esses modos de adoração
como os que mais podem despertar as emoções adormecidas e
mantê-las em constante atividade. A soma expressa da música
e do canto aumenta seus resultados.
Se olharmos para os personagens de maior destaque nas Es-
crituras, nós os encontraremos calorosos, zelosos e apaixonados.
Quando envolvidas em sua atividade favorita de celebração da
bondade de seu supremo Benfeitor, suas almas parecem incendiar
e seus corações se iluminam em arrebatamento. Os poderes da
linguagem são inadequados para expressar seu nível de contenta-
mento. Eles convidam toda a natureza a juntar-se em coro, e a se
unir a eles nos aleluias de gratidão, alegria e louvor.
O homem segundo o coração de Deus está repleto des-
sas expressões ardentes mais do que qualquer outro escritor. Os
textos do salmista parecem nos ter sido concedidos a fim de
dar o tom dessas expressões, assim como deram a todas as ge-
rações anteriores. Em seu comentário sobre os Salmos, o bis-
po de Norwich, Dr. George Horne, parecia estar aquecido pela
mesma chama celestial quando disse: “na linguagem deste livro
divino, os louvores da igreja têm sido oferecidos diante do trono
de graça geração após geração”.
Quando aprouve a Deus fazer parar o futuro apóstolo dos
gentios em sua carreira extraordinária, e torná-lo um monu-
52 CRISTIANISMO VERDADEIRO

mento à graça transformadora, a força de suas emoções teria


sido diminuída? Ou será que somente a sua direção foi mudada?
Ele colocou suas paixões a serviço de seu bendito Mestre de
modo inteiro e inabalável. Seu zelo agora ardia ainda mais com
o aumento de seu brilho. Nem a intensidade, nem a continui-
dade dos sofrimentos poderiam apagar seu zelo, nem diminuir o
fervor de suas exultações triunfantes.
Finalmente, as Escrituras não descrevem a adoração e o
serviço dos espíritos glorificados no céu como uma investigação
fria e intelectual. A adoração e o serviço por elas descritos são
de gratidão e de amor. Eles, por certo, seriam então o empenho
humilde — dos que receberam a promessa de “participar da he-
rança dos santos no reino da luz” (Colossenses 1.12) — de uni-
rem seus corações nesses louvores eternos aqui sobre a terra.
É também necessário guardar-se da visão de que é possível
medir a qualidade das paixões religiosas por meio de qualquer ní-
vel de ardor, transporte, arrebatamento ou fervor animal ao qual
uma pessoa, por temperamento, esteja susceptível. Experiências
diárias atestam que as pessoas de imaginação e paixão férteis po-
dem, de bom grado, exercitá-las, e assim o fazerem sem realmente
tocar seus corações. Qualquer ator razoável é prova disto.
Homens maus podem também experimentar níveis tão
altos assim de paixão. Ao mesmo tempo, homens bons podem
carecer deles. Podemos produzir tais emoções ou elas podem ser
genuínas. Mas elas não formam o padrão verdadeiro que po-
demos usar para determinar a verdadeira natureza ou força das
paixões religiosas.
Aprendemos algo com os incidentes diários da vida con-
jugal e doméstica acerca das emoções. Onde o cerne da emoção
é superficial e transitório, podemos encontrar evidência de ne-
gligência e insensibilidade.
Mas a paixão que as Escrituras dignificam definindo-a
como sendo Amor é um sentimento profundo e não superfi-
cial. É fixa e permanente, e não uma emoção ocasional. Prova a
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
53
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

validade de seu título por meio de ações correspondentes à sua


natureza. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (João
14.23). “Porque nisto consiste o amor a Deus: em obedecer aos
seus mandamentos” (1 João 5.3). Este é, portanto, o melhor
padrão para se provar a qualidade das emoções religiosas: elas
estimulam o amor que guarda Seus mandamentos?
O uso das emoções na religião, portanto, é, em geral, coe-
rente com a razão. O uso dessas emoções não demandará mui-
tas palavras para provar que nosso bendito Salvador é o objeto
apropriado delas.
Sabemos que o amor, a gratidão, a alegria, a esperança e
a confiança possuem seus objetos apropriados. É irracional ter
amor por objeto que não possua excelência ou não seja dese-
jável; gratidão, onde não haja uma obrigação correspondente;
alegria, onde não haja razão justa para a auto felicitação; es-
perança, onde nada se é esperado; confiança, onde não haja
espaço para esperança.
Do mesmo modo, com nosso Salvador, em quem “habita
corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2.9),
estamos prontos para não amá-lo e adotar a linguagem e as atitudes
dos inimigos declarados de Cristo, inimigos que dizem que “ele não
tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em
sua aparência para que o desejássemos” (Isaías 53.2).
Seria obrigação dele que “não considerou que o ser igual a
Deus era algo a que devia apegar-se”, por nossa causa “esvaziar-
se a si mesmo, vindo a ser servo... e ser obediente até à morte, e
morte de cruz”? (Filipenses 2.6, 7, 8).
Não é motivo de alegria que “nos nasceu um Salvador”,
por meio de quem possamos ser “resgatados do domínio das tre-
vas” e sermos feitos “dignos de participar da herança dos santos
no reino da luz”? (Colossenses 1.13, 12).
Pode haver uma esperança comparável à “esperança
quando vocacionados”, que é “Cristo em vocês, a esperança da
glória”? (Efésios 4.4, Colossenses 1.27).
54 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Pode haver uma confiança maior que a confiança de que


“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre”? (Hebreus
13.8). Por certo, tais emoções religiosas para com o nosso Sal-
vador não são irracionais.
Alguns poderiam se opor, afirmando que, por meio da na-
tureza de nosso ser, não podemos expressar nossas emoções a
um Ser invisível. Nossa finitude nos priva de todos os meios
de comunicação e relacionamento que tecem e pavimentam a
união entre homem e homem.
As Escrituras poderiam hipoteticamente apoiar este ar-
gumento: “quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode
amar a Deus, a quem não vê” (I João 4.20). Ao mesmo tempo,
precisamos tão-somente observar de novo as Escrituras para ver
que as emoções religiosas nelas são incluídas e ensinadas como
uma questão de compromisso extremo e sério.
Notamos que a excelência é o objeto justo do amor. Bom
em expectativa é o objeto da esperança. O medo reside na per-
cepção do mal. Os infortúnios e sofrimentos de nossos compa-
nheiros, criaturas feitas à imagem de Deus, são o foco de nossa
compaixão. Alguém poderia pensar que observa cada uma des-
sas paixões expressas na proporção da magnitude e das conse-
qüentes reivindicações de seu objeto correspondente. Mas este
de modo algum é o caso.
Tome como exemplo o exercício da compaixão. Lemos
acerca dos milhares massacrados com menos emoção do que
ouvimos acerca dos detalhes de um acidente chocante que
aconteceu na rua ao lado. O mesmo ocorre no caso de outras
emoções. Nosso entusiasmo ao ler um romance demonstra que
um material meramente fictício pode nos afetar enormemen-
te. Também sabemos, por experiência própria, que os grandes
infortúnios públicos provavelmente afetarão menos os nossos
sentimentos do que o incidente mais trivial que nos acontece.
A despeito desta inconsistência entre as emoções e seu
objeto, e do argumento de que um Deus invisível não pode afe-
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
55
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

tar as emoções humanas, as Escrituras ensinam que é uma in-


tervenção maior do Espírito Santo que relaciona as emoções do
homem de modo apropriado para com Deus.
Desse modo, cristãos maduros exibem em seus corações
um amor ardente para com o seu Redentor, que não é superfi-
cial nem despropositado, mas constante e racional. Esse amor é
resultado de uma forte noção do valor de seu objeto, intensifica-
da por um senso constante de obrigações numerosas, merecidas
e que se acumulam continuamente. Esse amor é demonstrado
através de atos diligentes de obediência ou de um sofrimento
paciente.
Essa era a religião dos santos mártires do século XVI. Ob-
serve seus escritos e verá que seus pensamentos e emoções fo-
ram muito exercitados pelas visões constantes que tinham do
bendito Senhor Jesus. A perseguição, a angústia, a degradação e
o desprezo os assaltavam em vão. Todas essas desgraças serviam
somente para conduzir suas emoções a um contato ainda mais
próximo com o seu objeto. O amor deles não perdia força. Mas
isso não era tudo. Ele crescia diante de todas as situações críti-
cas da ocasião, e ardia com um zelo ainda maior.

III. Concepções inadequadas acerca das obras


do espírito santo

A forte tendência entre os cristãos nominais é de formar


um sistema religioso para eles mesmos, ao invés de extraí-lo da
Palavra de Deus. Observamos isso em sua negligência para com
a doutrina da influência do Espírito Santo.
Se buscarmos nas Escrituras por informações acerca desta
questão em particular, aprenderemos uma lição muito especial.
Através delas somos claramente ensinados que “sem mim, vocês
não podem fazer coisa alguma” (João 15.5). Somos lembrados
de que “éramos por natureza merecedores da ira” (Efésios 2.3)
e de que estamos sob o poder do inimigo. Nossas compreensões
56 CRISTIANISMO VERDADEIRO

são naturalmente obscurecidas, e nossos corações têm aversão


às coisas espirituais.
A Bíblia nos orienta a orarmos pela influência do Espírito
Santo a fim de iluminar o nosso entendimento, desfazer todos
os preconceitos, purificar nossas mentes corrompidas e nos re-
novar segundo a imagem do nosso Pai celestial. A Palavra de
Deus também ilustra esta influência como o despertar de um
sono; como o iluminar da escuridão; como “dar vida aos mor-
tos” (Romanos 4.17); como “nos resgatar do domínio das tre-
vas” (Colossenses 1.13); como o sermos atraídos a Deus; como
sermos transportados para o reino do Filho do Seu amor. Outras
linguagens metafóricas a descrevem como o fazer de nós “cria-
ção de Deus realizada em Cristo Jesus” (Efésios 2.10); como ha-
bitando em nós e caminhando conosco.
Devemos, portanto, “nos despir do velho homem com
suas práticas” e nos considerarmos como “revestidos do novo, o
qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu
Criador” (Colossenses 3.9, 10). Devemos ser como aqueles que
são “morada de Deus por seu Espírito” (Efésios 2.22).
Assim, de maneira expressa, particular e repetida, a Pala-
vra de Deus ensina essas lições, sem deixar espaço para diver-
gência de opinião entre aqueles que admitem a sua autoridade.
Alguns especialistas como o Dr. Philip Doddridge [1702-1751],
um pastor dissidente muito conhecido, atribuem à Divina Pre-
sença todo o arrependimento e toda a fé de um cristão. Outros
falam dessas experiências como ocorrências distintas, enquanto
também as atribuem ao mesmo Poder ilimitado.
Às vezes, as Escrituras relacionam graças variadas do caráter
cristão – graças que mostram consideração especial para com os
nossos semelhantes e para com o Ser Supremo – a esta fonte em
particular. Elas por vezes relacionam todas coletivamente a esta
raiz comum, como na frase “o fruto do Espírito” (Gálatas 5.22).
Coerente com essas representações, outras partes das Es-
crituras prometem ajuda para a produção desses efeitos. Lemos
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
57
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

acerca da ameaça ocasional de conter-se o Espírito Santo ou


acerca de Sua remoção, uma advertência de punição aos peca-
dos dos homens, com as mais fatais conseqüências do descon-
tentamento divino.

IV. Concepções errôneas dos termos de aceitação com Deus

Poderíamos, então, em contradição com os mais claros


ditames das Escrituras e com os rituais de nossa igreja estabe-
lecida, rejeitar a autoridade bíblica do verdadeiro cristianismo.
Mas não fechemos os olhos para perceber a nossa real condição
e enxergarmos que desvalorizamos as obras santificadoras do Es-
pírito Santo – as primícias de nossa reconciliação com Deus, o
ganho advindo da morte de nosso Redentor, Seu melhor pre-
sente a Seus verdadeiros discípulos. E vermos que nossos pensa-
mentos com relação ao nosso bendito Salvador são confusos e
vagos, que nossas emoções para com Ele são insípidas e mornas.
E vermos o quanto nossas emoções são desproporcionais quan-
do comparadas ao modo como outros reconheceram seu imere-
cido resgate da mesma ruína e se tornaram co-participantes da
mesma herança.
Assim, somos entusiasticamente convocados a examinar
bem nossos fundamentos. Se alguma coisa for defeituosa ou su-
perficial neles, sua base não pode ser segura. É por isso que é tão
importante perguntar ao cristão nominal acerca dos meios pelos
quais um pecador é aceito por Deus. Seria ou não verdade que,
neste assunto, que é o mais importante de todos, as pessoas quase
sempre possuem noções muito superficiais, confusas e perigosas?
Não haveria razão para temerem por suas esperanças fu-
turas quando elas dão pouco mais que uma referência nominal
e indistinta a Ele, que “levou em seu corpo os nossos pecados
sobre o madeiro” (I Pedro 2.24)? Não estariam elas colocando
suas esperanças eternas em uma convicção vaga e genérica so-
bre a misericórdia irrestrita do Supremo Ser?
58 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Ou, ainda mais erradamente, elas confiam, acima de tudo,


em seus próprios méritos, negativos ou positivos. Pensam que
podem olhar para suas vidas com olhos imparciais e dar a si
mesmas parabéns por sua inofensividade à sociedade. Elas se en-
xergam isentas de vícios grotescos. Ou se entregam à admissão
de que, acidentalmente, podem ser traídas por eles, mas susten-
tam que não se entregam a eles habitualmente. Mesmo que os
pratiquem freqüentemente, ainda assim o equilíbrio entre ações
boas e más permanece favorável – visto que Ele daria a devida
compensação à fraqueza humana.
Estas são as considerações julgadas suficientes para com-
por suas conclusões. Estas são as cordas nas quais se agarram nos
momentos de reflexão séria ou de rejeição ocasional. Às vezes,
talvez em tempos de autocomplacência menos comum, elas re-
correm à ajuda da persuasão genérica da ilimitada misericórdia
e compaixão de Deus.
No entanto, pessoas com esta descrição jamais rejeitam
um Salvador ou renunciam à sua participação nos benefícios de
Sua morte. Elas encerram seus pedidos com o nome de Cristo.
Isto poderia se dever principalmente ao efeito do hábito, ou
ser resultado da conformidade conveniente à fé estabelecida.
Elas por certo o fazem com a mesma ambigüidade de princípios
que no caso do filósofo Sócrates quando, agonizante, ordenou
o trabalho rotineiro de honraria dada a Esculápio, o deus da
medicina.*
Outros vão mais longe. (Há muitos níveis de diferença
entre os que claramente rejeitam e os que cordialmente abra-
çam a doutrina da redenção por intermédio de Cristo). Este

* “Crito”, disse Sócrates, “devemos um galo a Aesculápius; pague-


o, portanto, e não o negligencie.” Isto se referia à oferta costumeiramen-
te feita ao deus da medicina quando da recuperação de uma enfermida-
de. Nesse momento, Sócrates estava para tomar o veneno mortal de seu
suicídio.
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
59
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

grupo de pessoas possui uma dependência genérica, vaga e in-


suficientemente justificada de nosso bendito Salvador. Suas
esperanças, quando distintamente elaboradas, parecem por fim
repousar nesta persuasão: elas são agora, por meio de Cristo,
membros de uma nova dispensação. Por causa disto, elas crêem
que serão provadas por uma regra mais branda do que à que
estavam sujeitas anteriormente.
O argumento da dependência a uma regra mais branda é
o seguinte: “Deus não será agora tão extremo a ponto de zom-
bar daquilo que fizemos de errado. Ele dispensará as exatidões
rigorosas de Sua lei – ela é muito rígida para criaturas tão fracas
como nós, de modo que é impossível que a cumpramos. O cris-
tianismo amenizou as exigências da justiça divina. Tudo o que
precisamos fazer agora é confiar com gratidão nos méritos de
Cristo para o perdão de nossos pecados e na aceitação de nossa
sincera, embora imperfeita, obediência”.
“Nossa natureza está inclinada a fraquezas e enfermidades;
nossa situação na vida nos expõe a essas mesmas enfermidades.
Deus, por certo, não julgará severamente essas fraquezas. É a
prática que realmente determina o caráter. Podemos descansar
seguros de que, no todo, nossas vidas são toleravelmente boas
e que escaparemos, com pouco ou nenhum julgamento. E que,
através de Jesus Cristo, nosso Senhor, seremos finalmente co-
participantes da felicidade celestial”.
Não podemos perscrutar o coração humano. Portanto,
deveríamos sempre falar com cautela e hesitação ao afirmar-
mos ou negarmos a existência de princípios internos a partir
dos quais enxergamos. Mas não é difícil compreender o modo
como a mente trabalha a fim de chegar a uma conclusão gené-
rica acerca dos que fazem as declarações acima mencionadas.
Essas pessoas se apóiam não nos méritos de Cristo e na inter-
venção da graça divina, mas no seu próprio poder de cumprir as
exigências moderadas da justiça divina. Quem quer que tenha
discernimento descobrirá nelas uma disposição de depreciar a
60 CRISTIANISMO VERDADEIRO

seriedade de sua doença. Observará que elas estão propensas a


desculpar em si mesmas aquilo que não podem justificar plena-
mente, bem como exaltar o mérito daquilo que consideram ser
suas boas qualidades e ações elogiáveis.
Elas têm quase nenhuma – ou, alguém diria, nenhuma – idéia
da importância ou da dificuldade da tarefa que as Escrituras cha-
mam de “submetermo-nos à justiça de Deus”. Elas não reconhe-
cem nossa propensão a nos justificar aos olhos de Deus, ao invés
de ter consciência de que somos culpados e pecadores desam-
parados. Elas nunca renunciaram por completo a seus próprios
méritos e à sua própria força.
Portanto, aqueles que ainda vêem o mérito em e de si
mesmos fracassam em enxergar o orgulho natural do coração
humano. Todos esses erros naturalmente resultam da concep-
ção errônea acalentada acerca dos princípios fundamentais do
cristianismo. Elas não consideram o cristianismo um plano para
“justificação dos pagãos”, por meio da morte de Cristo por eles,
“quando ainda eram pecadores”.
As conseqüências práticas desses erros são as que seriam
de se esperar. Eles têm a tendência de impedir aquela sensibili-
dade que devemos ter para com a nossa própria miséria natural
e com o nosso estado desesperador. Esses erros anulam o sen-
timento profundo de gratidão pelos méritos e pela intercessão
de Cristo, a quem devemos totalmente nossa reconciliação
com Deus.
Os que erram da maneira acima mencionada sofrem con-
seqüências equivalentes. Eles ignoram deliberada e totalmente
essa vontade e poder de desenvolver a nossa própria salvação.
Eles consideram a relação entre o homem e Deus como um con-
trato entre duas partes; nesse contrato, cada um age indepen-
dente do outro, com o homem fazendo sua tarefa e Deus justifi-
cando e aceitando em nome de Cristo. E assim, estão propensos
a lidar somente com a discussão da moralidade. Eles provavel-
mente não se empolgarão ao ouvir o nome de seu Salvador,
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
61
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

ou para ensinar de modo detalhado acerca do sofrimento e do


amor de seu Redentor.
Quando se dirigindo a outros que eles pensam estar vi-
vendo com hábitos pecaminosos e sob a ira de Deus, eles acon-
selham tais pessoas a corrigir seus caminhos como uma prepara-
ção para sua vinda a Cristo. Eles não exortam seus aconselhados
a se lançar em reverência profunda de alma aos pés da cruz,
onde podem obter perdão e encontrar graça em tempo de ne-
cessidade.
Em tudo isso, o ponto importante é a condição interior
e o modo de pensar da mente. Esperemos que, a despeito da
imprecisão com a qual os homens se expressam, eles possam ter
uma dependência do perdão e da santidade colocada no lugar
onde deveria estar.
Se a análise acima for de algum modo justa, ela pode aju-
dar a explicar a ausência de paixão para com o bendito Sal-
vador. Ela também pode nos ajudar a compreender a falta de
importância dada à necessidade e ao valor do auxílio do Espírito
Santo, que tão freqüentemente prevalece.
Não podemos esperar que a paixão por nosso bendito Se-
nhor floresça, porque ela não recebe o alimento que deveria
receber. Para amarmos a Cristo apaixonadamente, e nos rego-
zijarmos triunfantemente Nele, como os cristãos primitivos o
faziam, devemos aprender, como eles, a colocar nossa confiança
por completo Nele. Para adotar a linguagem do apóstolo, de-
vemos exclamar, “que eu jamais me glorie, a não ser na cruz de
nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6.14); “o qual se tornou sa-
bedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção”
(I Coríntios 1.30).
Sem dúvida, há muitos que, para sua eterna ruína, têm
abusado da doutrina da salvação pela graça. Mas o perigo desse
erro não deveria nos cegar com relação ao erro oposto. É um
erro do qual devemos, me parece, nos guardar, particularmente
nestes dias.
62 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Não devemos considerar nossa dependência de nosso


bendito Salvador a única causa meritória de nossa aceitação
por Deus, como algo meramente formal e nominal; devemos
considerá-la algo real e substancial. Ela não deve ser imprecisa,
modificada e parcial; deve ser direta, sincera e inteira.
“Arrependimento para com Deus e fé para com nosso
Senhor Jesus Cristo” foi o resumo do ensino apostólico (Atos
20.21). Não se tratou de uma invocação ocasional do nome de
Cristo ou um reconhecimento transitório de Sua autoridade que
preencheu a medida da frase “fé em Jesus”. Veremos que isto
não é uma tarefa fácil. Faríamos bem se clamássemos, usando
as palavras de um discípulo determinado e empenhado, “Creio,
ajuda-me a vencer a minha incredulidade!” (Marcos 9.24).
Cada um de nós – por si mesmo – necessita fazer solene-
mente a pergunta: Tenho buscado refúgio na esperança coloca-
da diante de nós? E estamos constantemente olhando para ela,
como a única fonte de consolação? “Pois ninguém pode colocar
outro alicerce” (I Coríntios 3.11). Não há nenhum outro fun-
damento para a dependência, nenhum outro apelo por perdão;
mas ali há esperança, até para os mais distantes.
Trabalhemos, pois, para contagiar nossos corações com
uma profunda convicção de nossa necessidade do Redentor, e
do valor de Sua oferta mediadora. Prostremo-nos humildemen-
te diante do trono de Deus, implorando por piedade e perdão
no nome do Filho do Seu amor. Clamemos a Ele que nos dê
um verdadeiro espírito de arrependimento e uma fé genuína e
sincera no Senhor Jesus.
Não nos satisfaçamos até que a sinceridade de nossa cren-
ça seja confirmada em nós pelo caráter, conforme exemplifica-
do por um escritor inspirado, que escreveu, “que muitos, tantos
quanto possível, creiam que Cristo é precioso”. Lutemos para
crescer diariamente em amor para com nosso bendito Salvador.
Oremos intensamente para que “o Deus da esperança nos encha
de toda alegria e paz, ao confiarmos nele, para que transbor-
CONCEITOS INADEQUADOS DE DEUS E
63
DO COMPORTAMENTO CRISTÃO

demos de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Romanos


15.13).
Coloquemos esmeradamente em prática as direções já
dadas acerca do cultivo e do cuidado ao princípio do amor de
Cristo. Com essa visão, trabalhemos diligentemente para cres-
cer em conhecimento, de modo que nossa paixão pelo Senhor
que nos comprou possa estar profundamente arraigada e ser ra-
cional. Isso pode ser feito por meio da meditação freqüente nos
eventos da vida de nosso Salvador e, ainda mais, na reflexão
sobre as terríveis circunstâncias de Sua morte.
Tenhamos constantemente em mente o estado do qual Ele
se propõe nos resgatar; e olhemos para as glórias de Seu reino
celestial. Que possamos nos relacionar diariamente com Ele em
oração e louvor, buscando a dependência e a confiança diante
dos perigos, e a esperança e a alegria em nossos momentos mais
luminosos. Empenhemo-nos em mantê-lo constantemente em
nossa mente e em entregar a Ele todos os nossos pensamentos
mais preciosos, intensos e hábeis.
O título de cristão é uma repreensão a nós, se nos afastar-
mos Dele, de quem recebemos o nome. O nome de Jesus não
deve ser para nós como o de Alá dos muçulmanos; ou como
um talismã ou um amuleto, usado no braço como um distintivo
exterior e um símbolo de uma profissão, com o objetivo de se
preservar do mal através de uma potestade misteriosa e incom-
preensível.
Ao contrário, devemos permitir que o nome de Jesus este-
ja gravado profundamente em nossos corações, escrito nele pelo
próprio dedo de Deus com letras eternas. É nosso direito legal,
certo e indubitável, herdar a paz e a glória futuras. A segurança
que este direito comunica de um caminho em direção ao céu
aliviará os fardos e tornará mais leves os sofrimentos da vida.
Nesses momentos mais felizes, Jesus repartirá conosco
parte dessa plenitude de alegria que está à mão direita de Deus,
capacitando-nos a fazer coro ao hosana celestial: “Digno é o
64 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria,


força, honra, glória e louvor” (Apocalipse 5.12). “Àquele que
está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra,
a glória e o poder, para todo o sempre” (Apocalipse 5.13).
Capítulo IV

Conceitos inadequados acerca da


natureza e da disciplina do
cristianismo prático

A s pessoas normalmente acreditam que, se um ho-


mem admitir a verdade do cristianismo em termos
gerais, não temos razão para estarmos insatisfeitos com ele. Em-
bora não conheça nem se preocupe com as particularidades da
fé, não questionamos a validade de sua alegação. Se ele não
for continuamente culpado por nenhum dos vícios grotescos
contra seu semelhante, ele pode então receber o nome e os pri-
vilégios de um cristão. O direito legal implica uma simples acei-
tação genérica do cristianismo e um certo nível de moralidade
prática. É um pouco diferente daquilo que procuramos em um
bom deísta, muçulmano ou hindu.
A indiferença à verdadeira doutrina, no meio cristão,
pode suscitar a seguinte pergunta: será que a maioria dos que
são chamados de cristãos ficaria alarmada se lhes fosse prova-
do, sem qualquer sombra de dúvida, que o cristianismo era uma
farsa? Será que isso ocasionaria qualquer alteração significativa
em sua conduta ou mentalidade? Será que fariam qualquer mu-
dança como conseqüência dessa descoberta, com exceção de
algumas poucas opiniões especulativas?
Conhecendo os bons efeitos da religião sobre as massas, elas
poderiam pensar, por conta do exemplo, que deveriam freqüen-
66 CRISTIANISMO VERDADEIRO

tar ocasionalmente as reuniões na igreja. Será que a preocupação


com relação ao caráter, à saúde e aos confortos domésticos e so-
ciais ainda continua a refreá-las de cometer excessos maléficos?
Será que não estariam prontas a cumprir suas muitas tarefas de
acordo com sua posição social e profissional? Será que elas ainda
não teriam acesso a recursos disponíveis de conselho e instrução,
conduta, à fonte de sua paz, esperança e consolação?
Estas perguntas são desnecessárias. As vidas de muitos
incrédulos conhecidos respondem a elas. Entre esses incrédu-
los e cristãos nominais um observador descobriria pequenas di-
ferenças de conduta e de pensamento. Mesmo um observador
intimamente familiarizado com ambos notaria uma pequena
variação.
O cristianismo mereceria então verdadeiramente o títu-
lo de singularidade e superioridade que lhe tem sido quase que
universalmente atribuído? Ele possui a preeminência, como có-
digo específico, sobre todos os outros sistemas éticos? Seriam
então imerecidos os elogios feitos generosamente a ele por seus
amigos, elogios com os quais até mesmo seus inimigos têm sido
inadvertidamente forçados a concordar quase sempre!
É para isto então que o Filho de Deus tornou-se a Si mes-
mo sem reputação quando aceitou ser nosso instrutor e modelo?
É este o exemplo que Ele nos deixou a fim de que pudéssemos
seguir pisando em suas pegadas? Foi para isto que os apóstolos
de Cristo voluntariamente se submeteram à fome e à nudez, à
dor e à desgraça, sim, e até mesmo à morte quando advertidos
de antemão por seu Mestre que este seria o seu tratamento?
É bom lembrar, a esta altura, uma observação que já fize-
mos: o mérito do cristianismo é o de que ele suscitou padrões
gerais de moralidade.
Mas deixe-nos fazer esta pergunta: seriam as motivações
do cristianismo tão desnecessárias à sua prática de modo que
seus princípios possam ser dispensados, mas suas motivações
sejam mantidas com força inalterada? Se esse for o caso, suas
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
67
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

doutrinas não são mais do que uma teoria estéril e inútil (ou no
mínimo desnecessária). Podemos substituir esta teoria por um
plano mais simples e menos dispendioso.
Mas será que isto seria possível? Estaria o cristianismo
então reduzido a um mero credo? Sua influência estaria res-
trita a algumas poucas possibilidades externas? Sua essência
consistiria somente de algumas poucas opiniões especulativas
e algumas poucas crenças inúteis e não proveitosas? E pode-
ria ser esta a base da distinção significativa que é claramente
feita pelo evangelista entre os que aceitam, e os que rejeitam
o Evangelho? “Quem crê no filho tem a vida eterna; já quem
rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece
sobre ele” (João 3.36).
Esta atitude negligente é semelhante à da situação que
ocorria nas viagens de Espanha e Portugal no século XVI. Sain-
do em direções opostas, do oeste para o leste respectivamente,
eles cruzavam um com o outro no momento exato em que pensa-
vam estar mais distantes. Assim, cristãos nominais chegam com
um trajeto diferente ao mesmo ponto e ocupam praticamente
o mesmo espaço daqueles que, eles consideravam, tinham um
ponto de vista oposto do deles, e cujas crenças detestavam. Mas
que cortesia perversa de linguagem seria esta, na qual o nome de
“cristianismo” tenha encorajado a este sistema imprestável?

I. A disciplina do cristianismo conforme apresentada


nas escrituras

A moralidade do Evangelho não é composta de um teci-


do assim tão frágil. Em sua natureza e objetivo, o cristianismo
exibe provas de sua origem divina; e seus preceitos práticos não
são menos puros do que suas doutrinas mais sublimes. Pode a
linguagem humana, em sua plenitude, oferecer prescrições mais
rígidas em suas medidas ou amplas em sua abrangência do que
aquelas das quais a Palavra de Deus está repleta? “Tudo o que
68 CRISTIANISMO VERDADEIRO

fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Se-


nhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai” (Colossen-
ses 3.17). “Sejam santos, porque eu sou santo” (I Pedro 1.16).
“Sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Ma-
teus 5.48). Recebemos a ordem para sermos “aperfeiçoados na
santidade” (II Coríntios 7.1). E para “avançarmos para a matu-
ridade” (Hebreus 6.1).
Estas são admoestações bíblicas. Por certo, os leitores
destas admoestações não se satisfarão facilmente com peque-
nas realizações. As Escrituras confirmam esta nossa conclusão,
bem como a força da expressão que caracteriza os cristãos em
muitos de seus versículos. Isto também se observa na mudança
radical que ocorre em todo homem quando este se torna um
cristão verdadeiro. “Todo aquele que nele tem esta esperança
purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro” (I João 3.3). Os
verdadeiros cristãos devem ser “participantes da natureza divi-
na” (II Pedro 1.4). Eles são criados “à imagem do seu Criador”
(Colossenses 3.10), para serem “santuário de Deus” (I Coríntios
3.16). Os efeitos disto devem ser “toda bondade, justiça e ver-
dade” (Efésios 5.9).
Embora fosse grande o progresso que o apóstolo Paulo ha-
via feito no que tange a todas as virtudes, ele declara que con-
tinua seguindo adiante: “esquecendo-me das coisas que ficaram
para trás e avançando para as que estão adiante” (Filipenses
3.13). Ele ora por seus filhos na fé, para que “sejam cheios de
toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.19); possam ser “cheios do
fruto de justiça” (Filipenses 1.11); e “vivam de maneira digna
do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda a
boa obra” (Colossenses 1.10). A partir de uma das petições que
nosso Senhor nos ensinou a fazer, podemos concluir que deveria
ser um sentimento comum em nossos corações que “seja feita a
tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6.10).
Estas citações da Palavra de Deus servem claramente para
mostrar os padrões rígidos da moralidade cristã.
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
69
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

Eu entendo que a característica essencial e prática dos


verdadeiros cristãos seja a seguinte: uma vez tendo confiado nas
promessas de aceitação dos pecadores arrependidos por meio
do Redentor, eles tenham renunciado e rejeitado a todos os ou-
tros mestres, e tenham se consagrado sincera e irrestritamente a
Deus. Este é o símbolo que o batismo representa para nós. Seu
propósito agora é o de se entregarem completamente ao serviço
racional de seu justo Soberano. “vocês não são de si mesmos”
(I Coríntios 6.19).
Para os verdadeiros cristãos, as faculdades físicas e men-
tais, suas habilidades adquiridas, sua substância, sua autorida-
de, seu tempo e sua influência não são instrumentos para a sua
própria gratificação; estes pertencem e são consagrados para a
honra de Deus, e são empregados em Seu serviço.
Este é o princípio mestre ao qual todos os outros devem
estar subordinados. Qualquer que tenha sido a paixão anterior,
qualquer que tenha sido a busca, quer dos sentidos, quer inte-
lectual, científica, de gosto, de ilusão ou de sentimento – todas
são agora de importância secundária. Agora, a paixão existe so-
mente para agradar seu verdadeiro e legítimo Mestre e o seu
proprietário a coloca inteiramente sob Sua direção e controle.
Esta é a prerrogativa do cristianismo, “levar cativo todo
pensamento, para torná-lo obediente a Cristo” (II Coríntios
10.5). Eles sentem o seu poder, e estão decididos a “não viver
mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e
ressuscitou” (II Coríntios 5.15). Sabem que o caminho no qual
entraram é estreito e difícil. Mas agora conhecem a segurança
encorajadora de que “aqueles que esperam no Senhor renovam
as suas forças” (Isaías 40.31). E o grande princípio regulador do
futuro de suas vidas é o de “fazer tudo para a glória de Deus”
(I Coríntios 10.31). Este é o princípio básico que contém em si
os elementos fundamentais de toda a verdadeira virtude.
Assim como é glorioso o fruto do seu trabalho, os ser-
vos de Cristo, nos caminhos desta vida, são constantemente
70 CRISTIANISMO VERDADEIRO

lembrados de modo humilhante acerca de suas imperfeições re-


manescentes. Muitas paixões os afetarão. Mas uma descrição
precisa dos verdadeiros cristãos seria a de que estão sendo gra-
dualmente transformados à imagem de seu divino Mestre.
Nem o temor da penúria, nem o desejo pela felicidade de-
terminam seus esforços para exceder em toda a santidade. Eles
a amam por si mesma. Não é o auto-interesse que os estimula a
obedecer à vontade de Deus e a cultivar o Seu favor. Esta obe-
diência tem suas bases primeiro em uma profunda percepção
da majestade de Deus e de seu infinito poder. E esta percepção
está combinada com a consciência de sua própria pequenez e
seu senso de dever como criaturas Dele, para submeterem-se em
todas as coisas à vontade de seu Criador.
A admiração pela perfeição infinita e pelo caráter amo-
roso de Deus dignifica seus sentimentos. Uma esperança con-
fiante, embora humilde em Sua bondade e proteção paternal,
é a força motriz desse amor. Este é o amor cristão de Deus! Um
amor feito de admiração, preferência, esperança e alegria, e
também refinado pelo temor reverente que é conscientemente
caracterizado por uma contínua gratidão.
Preciso, neste ponto, expressar-me com cautela no caso
de, sem querer, ofender algumas almas mais sensíveis. Os prin-
cípios elementares que foram descritos acima podem existir em
vários níveis e proporções. Devemos considerar uma diferença
na disposição natural de uma pessoa, nas circunstâncias particu-
lares do passado de uma vida e em outros inúmeros detalhes que
afetam a formação de um caráter. Isto pode causar uma gran-
de diferença nos temperamentos predominantes de diferentes
cristãos. Em um, o amor de Deus pode ser predominante, e, em
outro, o temor. A confiança pode fortalecer a um, enquanto que
a gratidão fortalece a outro.
Mas, em maior ou menor grau, uma apreciação calorosa
das excelências de Deus afetará a todos os crentes. Comum a
todos é o desejo de consagrarem-se a Deus, servi-lo e ser para a
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
71
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

Sua glória. Comum a todos é o desejo de santidade, pelo pro-


gresso contínuo em direção à perfeição. Comum a todos é a
consciência humilde de sua própria indignidade e de suas mui-
tas e constantes fraquezas, fraquezas que quase sempre corrom-
pem a simplicidade de suas intenções e frustram seus propósitos
mais puros.
Mas alguns podem buscar esquivar-se dessas conclusões
e argumentar que seria ir longe demais aplicá-las aos cristãos
comuns. Além disso, eles argumentam que a lei mosaica não se
aplica às nossas vidas hoje.
Este é um assunto muito importante para não ser tratado, de
modo que recorreremos à autoridade das Escrituras para tratá-lo.
Note, primeiramente, que os preceitos das Escrituras são
expressos nos termos mais genéricos. Não há pistas de que qual-
quer pessoa esteja livre para se considerar isenta de sua obriga-
ção para com Deus.
Segundo, os preceitos do Evangelho contêm neles prova
abundante de sua aplicação universal. Isto é resultado de es-
tarem baseados em circunstâncias e relações comuns a todos
os cristãos. Os cristãos não são “deles mesmos” porque “foram
comprados por alto preço” (I Coríntios 6.20). Não devem viver
“mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e
ressuscitou” (II Coríntios 5.15). São convocados a fazer as ta-
refas mais difíceis para que “venham a ser filhos de seu Pai que
está nos céus” (Mateus 5.45). “Ninguém pode entrar no Reino
de Deus, se não nascer da água e do Espírito” (João 3.5).
É porque são filhos que, na linguagem bíblica, “receberam
o Espírito que os adota como filhos” (Romanos 8.15). Somen-
te se “são guiados pelo Espírito de Deus” é declarado que “são
filhos de Deus” (Romanos 8.14). Além disso, uma advertência
é dada, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence
a Cristo” (Romanos 8.9). Em resumo, as Escrituras, em toda
parte, chamam os cristãos em geral de servos e filhos de Deus.
A Palavra requer deles que O sirvam com obediência submissa
72 CRISTIANISMO VERDADEIRO

e uma disposição apaixonada, que caracterizam essas relações


afetuosas.
Considerem a seguir a força da famosa passagem: “ame o
Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma
e de todas as suas forças” (Deuteronômio 6.5). Considere a gra-
vidade dessa determinação, feita como que para silenciar o ra-
ciocínio sutil do opositor e fazer a mente mais insensível parar
e pensar. Essa passagem nos força a uma conclusão veemen-
temente, confirmada por outros trechos das Escrituras; a reco-
mendação positiva, para toda a igreja cristã, de amar a Deus.
Esta passagem está em II Coríntios 13.14. Outras passagens, tais
como I João 3.17, Romanos 16.18, junto com Filipenses 3.19 e
I Coríntios 16.22, falam das conseqüências quando o amor de
Deus não é correspondido ou observado.
Trata-se de um engano imaginar-se que Deus só condena
uma rejeição total a Ele. Deus também não aceitará uma afeição
dividida. Ele declara expressamente que um único coração e
um único foco são requisitos indispensáveis. As Escrituras nos
ordenam, usando a imagem do tesouro celestial acumulado, que
façamos do favor e do serviço a Deus nossas buscas prioritárias
pela seguinte razão: “Pois onde estiver o seu tesouro, aí também
estará o seu coração” (Mateus 6.21).
Sob força desse princípio, frases semelhantes freqüente-
mente usadas nas Escrituras sugerem que o erro de outras prio-
ridades consiste principalmente no fato de que elas afastam o
coração de Deus. E Ele é o justo objeto de nossa preferência.
As Escrituras, portanto, nos conclamam a preferi-lo acima das
afeições viciadas (o cristianismo, claro, é hostil a elas). Mas isso
não é tudo. As Escrituras afirmam que preferimos a Ele às coisas
que normalmente mais somos compelidos a praticar.
“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim”, de-
clara nosso bendito Salvador, “não é digno de mim” (Mateus
10.37). “Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não
é digno de mim” (Mateus 10.37). O espírito destas ordenanças
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
73
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

se harmoniza com muitas recomendações nas Escrituras acerca


do zelo para com a honra de Deus. Há também expressões fortes
de rejeição e repulsa ao que é morno. Aqueles que não são nem
frios nem quentes são considerados mais repugnantes e ofensi-
vos que os inimigos declarados e reconhecidos.
Outra categoria de passagens bíblicas que nos ordena a
promoção da glória de Deus concentra-se neste mesmo ponto.
Pois Deus não permitirá concorrentes. A honra é devida a Ele
somente.
As Escrituras vêem a idolatria, então, como um crime con-
tra o qual Deus expressa Seu mais alto ressentimento e anuncia
Sua mais severa punição. Mas não nos enganemos. A idolatria
não consiste tanto em se curvar a ídolos quanto em prestar ho-
menagem de coração a eles. Ela consiste de sentir-se para com o
ídolo qualquer supremo amor, reverência, ou gratidão, os quais
Deus reservou para si como privilégio exclusivo.
Partindo-se do mesmo princípio, qualquer coisa que afas-
te nosso coração Dele, monopolize nossa atenção primeira e
ocupe o lugar principal de nosso respeito e nossas afeições – este
é tanto um ídolo para nós quanto uma imagem de madeira e pe-
dra diante da qual nos prostramos e adoramos. A Bíblia ordena
ao servo de Deus que não estabeleça seu ídolo em seu coração.
Ela, portanto, repetidamente denomina a sensualidade e a co-
biça de idolatria.
O mesmo Deus que declara, “não darei a outro a minha
glória nem a imagens o meu louvor” (Isaías 42.8), também de-
clara, “não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em
sua força, nem o rico em sua riqueza” (Jeremias 9.23), “para que
ninguém se vanglorie diante dele” (I Coríntios 1.29). “Aquele
que se gloria, glorie-se no Senhor” (I Coríntios 1.31). A vin-
gança repentina que puniu o soberbo Herodes, que permitiu
receber para si o louvor de uma multidão de admiradores, é um
exemplo terrível destas ordenanças. Pois “Herodes não glorifi-
cou a Deus” (Atos 12.23).
74 CRISTIANISMO VERDADEIRO

No entanto, temo que poucos dêem ouvidos a estas decla-


rações hoje em dia. Que os poderosos, os sábios, os doutos e os
bem-sucedidos as considerem de coração sincero. Esta reflexão
poderá produzir uma disposição oposta à do orgulho autocom-
placente que cresce tão facilmente no coração humano. Ela é
uma disposição que honra a Deus e que é útil ao homem. É uma
determinação composta de reverência, humildade e gratidão,
que se deleita em louvar ao Benfeitor universal.
A necessidade desta consagração cordial e sem reservas à
glória e ao serviço de Deus é indispensável ao caráter do ver-
dadeiro cristão. No entanto, as pessoas em geral desprezam este
dever. Mas, uma vez estabelecido, ele serve como princípio
fundamental, tanto para o controle do coração quanto para a
disciplina na conduta. O dever do serviço consagrado a Deus
se mostrará eminentemente útil para a tomada de decisões em
muitas situações práticas. Nenhuma outra regra seria capaz de
controlar tão completa e apropriadamente os processos de to-
mada de decisões nestas situações.

II. as noções de cristianismo prático geralmente em voga

Tenho me esforçado por estabelecer a exatidão e por de-


terminar o caráter essencial do verdadeiro cristianismo prático.
Vamos investigar mais detalhadamente o sistema pragmático
dos cristãos professos entre nós.
Considere a religião como a implantação de um princípio
ativo e vigoroso. Quando alguém reconhece a autoridade da
religião e a acolhe de forma suprema no coração, em geral rejei-
ta qualquer coisa que se oponha a ela. E, a partir do coração, a
religião gradualmente coloca todas as afeições e desejos sob seu
completo controle e disciplina.
Mas, embora o coração seja a morada especial da verda-
deira religião, pode-se dizer que a religião possui, de certo modo,
a habilidade de estar presente em toda parte em uma pessoa – as-
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
75
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

sim como seu divino Autor. Todo empenho e toda busca devem
reconhecer a sua presença. Ela é como a circulação de sangue
que anima todas as partes do corpo humano e comunica sua
influência bondosa a seus menores e mais remotos tecidos.
Mas a noção de religião cultivada por muitos entre nós
parece totalmente diferente. Eles começam tirando as cercas do
campo de ação de um certo território que pode ser produtivo e
para o qual podem ter olhado com um olhar de interesse. No
entanto, eles o vêem como campo proibido.
Depois, designam para a religião um pedaço de terra –
maior ou menor, de acordo com suas visões e circunstâncias
– no qual ela tenha meramente uma jurisdição qualificada. Isto
feito, eles supõem que têm o direito de vagar a esmo pelo res-
tante do amplo território.
Em outras palavras, a religião pode reclamar somente uma
proporção declarada de seus pensamentos, seu tempo, seu di-
nheiro e sua influência. Se derem uma permissão liberal a um
ou mais desses recursos, eles então supõem que satisfizeram à
religião. O resto é deles; fazem com ele o que bem entendem.
Pagaram seus dízimos; satisfizeram à demanda da igreja. Por cer-
to obtiveram permissão para desfrutar do que resta sem interfe-
rência!
É quase impossível descrever com veemência suficiente o
engano resultante deste erro fundamental. Suas conseqüências
são óbvias. Pois ele presume que a maior parte das ações huma-
nas seja indiferente à religião. Se os homens não são respon-
sabilizados por seus verdadeiros vícios, eles são aprovados na
execução de suas tarefas religiosas e não se desviam para terreno
proibido. E se refletem os direitos à porção de terra dada à reli-
gião, o que mais esperar deles?
Assim, ao invés de manter distância de todo o pecado
– que por si só é o que podemos fazer de mais seguro – eles pro-
vavelmente não se importarão em chegar bem perto daquilo
que consideram a fronteira. De fato, se sentirem que não a ul-
76 CRISTIANISMO VERDADEIRO

trapassaram, pensarão que não sofreram nenhum dano. Afinal,


não cruzaram a linha. Assim, o espírito livre e ativo da verda-
deira religião é “cercado e isolado”. Eles detiveram a tendência
natural da religião de expandir seu território e alargar o círculo
de sua influência. As pessoas pensam que precisam estabelecer
seus limites, e a toda tentativa de estendê-los, resistem como
que a uma invasão.
Mas isso não é tudo. Pois seja o que for que possam ganhar
de território religioso, eles adicionam este tanto à esfera da li-
berdade, onde os homens podem circular à vontade, livres de
repressão ou interferência. Assim, irão, quase que inconsciente-
mente, é claro, estreitar e aumentar os limites sobre a parcela de
terra da religião. Também irão, consciente e deliberadamente,
esticá-la como que a um elástico. Se a religião tenta defender
sua fronteira, gradualmente cede espaço. O espaço ocupado por
ela diminui até que fique quase imperceptível. Eles extinguem
o seu espírito e destróem sua força, reduzindo-a a pouco menos
que um posseiro nominal de sua área delimitada.
Estas imagens metafóricas das condições da religião são
um retrato vívido de nossa situação presente. Não mais reco-
nhecemos a promoção da glória de Deus e a obtenção de Seu
favor como objetos do nosso mais alto respeito e alvos de nossos
esforços mais concentrados. A religião não mais nos alimenta
como sendo um princípio de ação vigoroso, constante e univer-
sal. Nós mesmos estabelecemos um sistema. Nós nos tornamos
nossos próprios mestres. Uma atitude de constante honra a Ele
e de contínuo serviço por Ele é entediante e vexatória. Alegra-
mo-nos em nos enxergar emancipados dela, como que livres de
uma opressão abrangente e repugnante.
Assim, as ocupações e circunstâncias da vida e suas pos-
sessões passam por uma total transformação. Nossas faculdades
e poderes agora não são mais nossos. Qualquer coisa que te-
nhamos é considerada mais uma propriedade do que uma res-
ponsabilidade. Se ainda houver a lembrança de algum direito
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
77
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

permanente, um reconhecimento ocasional de sua prerrogati-


va nominal nos satisfaz. Pagamos nosso “aluguel pechincha”,
e tomamos posse de nossos estados, desfrutando deles plena e
livremente.
É por isso que temos uma noção tão limitada de respon-
sabilidade para com a possessão de status, habilidades intelec-
tuais, riqueza, ou outros meios ou instrumentos de utilidade.
Esquecemo-nos das admoestações “Preste contas da sua admi-
nistração” (Lucas 16.2), “Ponham esse dinheiro para render até
que eu volte” (Lucas 19.13). Ou, quando homens mais idea-
listas que o normal reconhecem que deveríamos praticar um
princípio maior que o da autogratificação, ouvimos o apelo feito
somente em nome da boa sociedade ou do bem-estar de nossas
famílias. Mesmo quando nossa determinação para com as obri-
gações resultantes desses relacionamentos venha reforçada por
autoridades não superiores às do conforto familiar e do interesse
e da estima terrenos. Além disso, há multidões que não têm
família, ou possuem temperamentos acanhados; tais princípios
raramente se aplicam a elas.
Portanto, eliminamos o espírito generoso e ativo da be-
nevolência cristã. Em seu lugar, temos estabelecido declara-
damente um sistema de egoísmo conveniente. A recreação é
seu negócio principal. Balneários, campos esportivos, jogos de
cartas (as infalíveis cartas!), o teatro – todos dão a sua contri-
buição. As diversões se multiplicam, combinam e variam, “para
preencher o vazio de uma vida lânguida e indiferente”.
Alguns estão tomados por prazeres sensuais. A principal
alegria de suas vidas consiste de uma ou outra espécie de gra-
tificação animal. Lembrem-se, não é o nosso objetivo falar dos
extravagantes grosseiros e escandalosos que renunciam a todos
os direitos ao nome de Cristo. Mas falamos daqueles que man-
têm uma certa decência de caráter e que talvez observem com
tolerância as formas da religião – a estes descrevemos como sen-
sualistas sóbrios. Embora menos impetuosos e mais regulares
78 CRISTIANISMO VERDADEIRO

em seu estilo de vida, não são menos dedicados e constantes na


busca de seus objetos favoritos do que os consagrados professos
aos prazeres licenciosos.
“Mortifiquem a carne com seus prazeres e luxúrias”, é o
preceito cristão. Uma suave rotina lasciva de indulgência habi-
tual é a prática da maioria dos cristãos modernos. A constante
moderação, a completa disciplina de contenção e autonegação
que são os requisitos para evitar os atalhos imperceptíveis dos
apetites carnais parecem totalmente ignoradas e não praticadas.
O cristianismo convoca seus mestres para um estado de
vigilância diligente e de serviço ativo. Falamos agora de pessoas
que igualmente esquecem as obrigações que devem a si mesmas
e aos seus semelhantes. Elas quase sempre agem como se suas vi-
das existissem somente para estar em um estado de indulgência
uniforme e vazia, indolência improdutiva. Elas fazem da preser-
vação de sua saúde e de seus ânimos fontes de prazer ao invés de
instrumentos de utilidade. E assim, substituem os meios pelos
fins.
Outros novamente parecem atrelados “às pompas e vai-
dades deste mundo”. Casas luxuosas, móveis extravagantes,
inúmeros serviçais, entretenimentos esplêndidos e relaciona-
mentos de influentes parecem constituir, por conta do quanto
são estimados, a suprema felicidade da vida. No entanto, quase
sempre, essas pessoas, cuja posição social combina com estas
indulgências, são as mais indiferentes a elas. Observamos mais
preocupação excessiva em pessoas menos ricas e opulentas, que
lutam por elas. Mas esse espírito de exibição e competição tra-
ta-se de uma oposição direta ao caráter humilde, modesto e des-
pretensioso do verdadeiro cristão.
Assim como há uma sensualidade sóbria e uma avareza
sóbria, há também uma ambição sóbria. O mundo comercial
e profissional compõe a principal esfera de sua influência. Os
conselhos sedutores para que sejamos diligentes em nossas car-
reiras, tenhamos sucesso em nossa profissão e possamos prover
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
79
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

liberalmente para nossos filhos acabam por distrair nossos me-


lhores julgamentos. “Levantamo-nos cedo e nos deitamos tarde
e comemos o pão do zelo”.
Em nossos poucos períodos de lazer, nossos espíritos
exaustos exigem refrigério. Mas as preocupações sérias acerca da
imortalidade de nossas almas são questões de especulação muito
graves e sombrias para ajudar-nos a relaxar. Assim, voamos para
algo que possa melhor merecer o nome de relaxamento, até que
encerremos as atividades diárias de nosso emprego.
Enquanto isso, a religião raramente cruza o nosso cami-
nho, e quase nunca ocupa nossos pensamentos. Quando come-
çamos a sentir dúvidas secretas sobre ela, as companhias logo as
afogam, as diversões as fazem cessar, ou as ocupações diárias in-
conscientemente suplantam ou sufocam a crescente apreensão.
Pessoas empreendedoras ou profissionais bem sucedidos podem
facilmente fazer calar suas consciências ao argumentar que a
necessidade de dar atenção a seus negócios não lhes deixa tem-
po para pensar sobre essas questões tão sérias no presente.
“Conhece-te a ti mesmo” é uma ordem à qual os descui-
dados e preguiçosos não podem se amoldar. Juntamente com ela
devemos obedecer ao preceito bíblico, “acima de tudo guarde o
seu coração” (Provérbios 4.23). De um modo geral, a humani-
dade é deploravelmente ignorante a esta declaração verdadei-
ra. Poucos talvez tenham qualquer concepção real da força dos
laços que os amarram aos muitos objetos de sua devoção. Nem
estejam cientes do quão pouco consideram essas questões que
verdadeiramente importam.
No entanto, devo dizer: se as paixões da alma não estive-
rem totalmente centradas em Deus; e se nosso desejo primeiro
e alvo principal não for o de obter o favor de Deus e promover
a Sua glória – seremos então traidores em rebelião contra nos-
so Soberano por direito. Todos os objetos de nossas devoções,
os quais descrevemos acima e que se encontram em diferentes
classes da sociedade, são simplesmente expressões variadas de
80 CRISTIANISMO VERDADEIRO

deslealdade. Deus insiste em que estabeleceu Seu trono no co-


ração, e reina nele, sem qualquer rival. Se o privarmos de Seu
direito, de nada irá importar quem seja o oponente. Pode ser a
traição da escolha deliberada ou da inconstância inconseqüen-
te. Podemos encontrar emprego em serviços mais pesados ou
mais refinados.
Mas quer sejamos escravos da avareza, da sensualidade,
das diversões, da indolência, quer devotos da ambição, do pra-
zer ou da moda, do mesmo modo nos opomos ao domínio de
nosso justo Soberano. Quer nossos governantes supremos sejam
a vaidade e o egoísmo, quer o desejo pela fama, ou pela glória
profissional – tudo isto é idolatria. Os atos externos podem ser
diferentes, mas, em princípio, a perda da afeição por Deus é a
mesma. A menos que retornemos à nossa fidelidade a Deus de-
vemos nos preparar para receber nossa punição como rebeldes
naquele dia tremendo, quando as falsas cores desaparecerão. E
então, “Aquilo que tem muito valor entre os homens será detes-
tável aos olhos de Deus” (Lucas 16.15).
A preguiça, a inconseqüência, as diversões vazias, o des-
perdício do tempo e dos talentos, o gastar a vida em atividades
frívolas ou estudos sem proveito – podemos lamentar estas coi-
sas na vida dos outros ao nosso redor. Mas assim o fazemos so-
mente em vista de seus resultados temporários. Não as conside-
ramos em uma perspectiva religiosa nem as lamentamos como
elementos que ameaçam a felicidade eterna. A vaidade exces-
siva e a ambição desordenada são mencionadas como fraquezas
ao invés de pecados. Até mesmo a própria cobiça, embora uma
paixão odiosa, raramente é considerada como não-religiosa.
Considerem nossas crianças. Devemos pensar com mais
profundidade acerca de sua felicidade e cuidar para que sigam
princípios corretos. Mas neste caso, onde podemos discernir
com toda a clareza nossos verdadeiros padrões, como refletimos
pouco sobre o fato de que nossas crianças são seres imortais!
Saúde, aprendizado, crédito, as qualidades cordiais e agradáveis,
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
81
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

acima de tudo dinheiro e sucesso na vida – levamos bastante a


sério. Mas que preocupação mínima verdadeiramente demons-
tramos por seus interesses eternos!
Busque então pelos efeitos fatais e abrangentes deste erro
fundamental mencionado acima, o de não considerar a religião
como um princípio de aplicação universal e de comando para
toda a vida. Privada de suas melhores energias, a religião assume
meramente a forma de uma compilação de restrições e proibi-
ções. Aquilo então que não podemos fazer curvar, nós quebra-
mos, racionalizando nossas fraquezas e ansiando pela clemência
de Deus.
Esta não é a linguagem da verdadeira humildade cristã.
Pois a sua essência diz respeito a sentir o peso do pecado e desejar
ser aliviado dele. Nas pessoas com quem temos conversado sobre
isto, notamos o desinteresse com o qual podem divertir-se nos
limites da fronteira do pecado. Observamos a familiaridade com
a qual podem flertar com o pecado diariamente, em sua forma
menos ofensiva. Isto mostra claramente que ele não é um objeto
de aversão para elas. Não há amor pela santidade, nem empenho
em adquiri-la. Não observamos cuidado no sentido de prepara-
rem suas almas para a recepção do princípio divino da humilda-
de; tal preparação manteria fora qualquer coisa que obstruísse a
entrada deste princípio ou disputasse a sua soberania.
Esta condição é a conseqüência lamentável de se consi-
derar a religião como uma compilação de estatutos ao invés de
um princípio interno. É mais fácil conversar acerca de ações
externas do que acerca de hábitos da mente. Esta atitude pode
até mesmo sugerir a quem a adota que ela tenha a aparência de
preocupação especial pela religião prática. Mas nós sabemos o
que acontece a um prédio se o arquiteto decidir que é desper-
dício de material se incomodar em construir qualquer tipo de
fundação.
É certamente verdade, e nós nunca deveríamos esquecer,
que todas as declarações acerca de princípios internos de santi-
82 CRISTIANISMO VERDADEIRO

dade são vãs quando a conduta as contradiz. Mas também não


é menos verdade que a única maneira para efetivamente se me-
lhorar a conduta é dar uma atenção redobrada ao princípio in-
terno. Nosso Salvador fez a seguinte declaração, “considerem”
(Mateus 12.33) como um meio necessário para obter-se o bom
fruto. As Santas Escrituras estão repletas de admoestações para
que tenhamos como prioridade o cultivo de nosso coração com
toda a diligência; o exame de sua condição com imparcialida-
de; e a sua vigilância como cuidado contínuo. Na verdade, é o
coração que constitui o homem. Ações externas expressam seu
caráter e significado a partir das motivações e disposições do
coração, de quem elas são nada mais que indicações.
Pode parecer desnecessário enfatizar uma verdade tão ób-
via e estabelecida. No entanto, podemos facilmente perder de
vista esta verdade na revisão de nosso caráter religioso pelo fato
de nos preocuparmos constantemente com as ações externas.
Paixões ruins, assim como ervas daninhas, se espalham e
brotam muito naturalmente, enquanto que as graças do espírito
cristão são como plantas exóticas no solo do coração humano.
Elas requerem não somente luz e ar do céu para acelerar o seu
crescimento, como também constante atenção e cuidado dili-
gente de nossa parte para mantê-las saudáveis e vigorosas. Mas,
por causa do princípio que condenamos acima, não usamos os
métodos para cultivá-las, tais como graça, vigilância moral e
orações incessantes a Deus. Assim, permitimos que esses traços
de moralidade desapareçam e quase morram por falta de aten-
ção suficiente. Quase que totalmente negligenciamos a cultura
da mente. Isto abre o caminho para o crescimento desimpedido
de outras disposições que naturalmente se espalham e rapida-
mente tomam posse da mente. Para grande parte das pessoas,
elas passam despercebidas.
A essa altura, iremos citar alguns exemplos. Primeiro, faz
parte da realidade do caráter de um verdadeiro cristão que, “vi-
vemos por fé e não pelo que vemos” (II Coríntios 5.7). Isto
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
83
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

significa não somente que eles crêem na recompensa e na pu-


nição futuras, como também que obedecem, embora tentados
a abandonar suas tarefas em troca de gratificação presente. Isto
também significa que as grandes verdades reveladas nas Escritu-
ras acerca do mundo invisível têm lugar de destaque constante
em suas mentes e em seus corações.
Este estado de mente corrige as ilusões da visão; ele apro-
xima de foco essas verdades eternas que são normalmente des-
prezadas por completo ou aparecem quase imperceptíveis no
horizonte. Pois os objetos da vida presente, por causa de seu
imediatismo, enchem o olho humano com um aumento falso.
O verdadeiro cristão, no entanto, sabe, por experiência,
que o eterno provavelmente desaparecerá de vista, e que o tem-
poral irá exagerar a si mesmo. Ele cuidadosamente preserva as
visões justas e iluminadas do futuro dadas a ele pela misericór-
dia divina. Isto não significa que ele se retire como um recluso,
pois está ativo nos negócios da vida e desfruta de seus confortos
com moderação e gratidão.
Mas o nosso cristão não estará totalmente no mundo, nem
desistirá de sua alma em prol de coisas mundanas. Pois a ver-
dade de que “o que se vê é transitório, mas o que não se vê é
eterno” (II Coríntios 4.18) enche a sua mente. No tumulto e
na agitação da vida, a voz suave e pequenina o traz à realidade
com a declaração sussurrada, “a forma presente deste mundo
está passando” (I Coríntios 7.31).
Esta disposição por si só deve estabelecer uma grande di-
ferença entre o temperamento constante do verdadeiro cristão
e o da maioria dos cristãos nominais. As preocupações do mun-
do presente os dominam quase que por inteiro. Eles sabem, na
verdade, que são mortais, mas não se sentem assim. Pois a ver-
dade encontra o seu caminho somente em suas mentes, mas não
podem entrar em seus corações. Este entendimento da mente é
totalmente diferente daquela forte impressão prática da impor-
tância infinita das coisas eternas.
84 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Esta atitude de saber que “a noite se aproxima, quando


ninguém pode trabalhar” (João 9.4), produz uma firmeza de ca-
ráter que nos fortalece diante dos percalços da vida. Ela evita
que os cuidados e preocupações, bons e ruins, desta situação
transitória penetrem profundamente em nós. Esta impressão
apropriada do valor relativo das coisas temporais e eternas man-
tém na alma uma postura digna diante de todas as dificuldades
da vida. Ela estimula a nossa diligência e modera o nosso zelo.
Ela nos conclama tão-somente a irmos à luta, e avalia qualquer
cuidado indevido acerca do sucesso. Ela nos capacita, nas pala-
vras das Escrituras, a usar “as coisas do mundo, como se não as
usássemos” (I Coríntios 7.31).
Segundo, há uma outra distinção entre o cristão nomi-
nal e o verdadeiro. O cristão verdadeiro anda nos caminhos
da religião não por constrangimento, mas com disposição. Eles
são para ele não somente seguros, mas “agradáveis” (Provérbios
3.17). Não que ele desconheça a necessidade de apoio constan-
te em vigilância contínua. Pois sem estes, sua velha visão das
coisas retornará, e os antigos objetos de suas paixões exercerão
sua influência.
Assim, com cuidado zeloso, autonegação resoluta e ora-
ções sinceras, pedindo por ajuda divina, ele se guarda daquilo
que possa obscurecer novamente seu juízo iluminado, ou que
possa corromper seu gosto reformado. Desse modo, ele faz de seu
esforço incansável o crescer no conhecimento e no amor pelas
coisas celestiais e busca obter uma admiração mais calorosa e
uma apreciação mais autêntica pela excelência destas atitudes.
Se consultarmos as Sagradas Escrituras, encontraremos
que isto é apenas uma representação do julgamento e da dis-
posição dos verdadeiros cristãos. Se também considerarmos o
domingo como um dia para descanso instituído por Deus, en-
contraremos o contraste entre os cristãos verdadeiros e os no-
minais. Para os últimos, ele é, na melhor das hipóteses, um dia
pesado. Quando compelidos a dedicar o dia todo à religião, eles
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
85
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

apelam contra ele. Com muita freqüência eles encontram des-


culpas para viajar, escrever cartas, fechar balanços.
Até mesmo o próprio negócio é uma recreação se com-
parado à religião. Do tédio desse dia sagrado de descanso eles
fogem em busca de alívio para suas ocupações rotineiras. Todos
esses expedientes, que profanam o domingo e tentam mudar o
seu caráter (poderia quase que se dizer “mitigar seus horrores”),
provam claramente que, para os cristãos nominais, a religião
possui um aspecto pessimista e proibitivo, e nenhuma face de
consolo e de alegria.

III. O desejo pela admiração e aplauso humanos

Um outro contraste entre o verdadeiro cristão e as visões


da opinião vigente é o do desejo pela admiração e pelo aplau-
so dos homens. Esta talvez seja a paixão mais generalizada e
a autoridade mais exigente que existe. Assim como um con-
quistador incansável, ela parece não poupar idade, nem sexo,
nem condição humana. Possui dez mil formas, os disfarces mais
criativos, e encontra seu caminho em secreto, quando ousa não
se defender abertamente. Ela é, na maioria das vezes, a paixão
primeira da alma.
Este é o princípio que pais reconhecem com alegria em
seus filhos. A vida diligentemente o inculca e alimenta nos anos
posteriores. Com os nomes de ambição honrada e de rivalida-
de elogiável, as escolas e faculdades o estimulam e incentivam
como seu alvo professado. Os que defendem este princípio tal-
vez possam exclamar, “A sua extinção seria como a eliminação
do princípio do movimento no mundo material. Sem ele tudo
estaria inerte, frio e desconfortável. Poderíamos ir mais além e
afirmar que nunca devemos abrir mão da força presente no de-
ver de procurar pelo aplauso ou evitar a vergonha dos homens.
Reconhecemos que o amor ao louvor é em alguns exemplos
uma paixão ridícula, e, em outros, danosa. Mas todos eles são
86 CRISTIANISMO VERDADEIRO

somente sua perversão. Quando voltados para a direção correta


e aplicados para seus verdadeiros propósitos, ele nos disponibili-
za para todos os relacionamentos dignos e generosos. Ele mode-
ra e restringe as grandes desigualdades da condição humana”.
Agora vejamos quais são os efeitos do amor ao louvor e à
distinção. Os homens argumentam, “admitimos que a história e
um mundo que julga equivocadamente quase sempre fazem elo-
gios e censuras inapropriados. Reconhecemos que seria melhor
se os homens sempre agissem a partir de um senso de justiça e de
amor pela virtude, sem referência à opinião de seus semelhantes.
Nós até permitimos que esta seja a forma mais alta de virtude:
agir independentemente das conseqüências. Mas este é um grau
de pureza que não devemos esperar da maioria das pessoas”.
Esta motivação para o elogio próprio, que não é outra se-
não “a enfermidade de mentes nobres”, é a que leva à verdadei-
ra ação e à energia aprovada, eles argumentam mais adiante.
Eles dizem, “não negligencie um princípio tão universal em sua
influência, tão valioso em seus efeitos e tão constante em seu
suporte à fraqueza de virtude! Em um mundo egoísta, a falta de
louvor produz os efeitos do desinteresse. E quando um espírito
público é extinto, o país sofre de falta de patriotismo”.
Este princípio em questão é, claramente, muito variável
em essência. Ele é disseminado nas culturas, na moda, nos hábi-
tos e opiniões, e nos diferentes períodos da história e das socie-
dades. O que ele tolera em uma época, proíbe em outra. O que
um país irá recomendar e aplaudir com respeito a este princípio,
outro condenará e ridicularizará!
Muito disto os filósofos e poetas do mundo pagão enxer-
garam e reconheceram, descrevendo-o como um princípio mu-
tável e inconsistente. Eles lamentaram os efeitos fatais da falsa
glória e as suas inadequações no sentido de renovar a paz e a
felicidade da humanidade. Eles condenaram a busca por ele.
Mas as Escrituras destacam sua natureza defeituosa e vi-
ciada, e nos revelam mais plenamente suas tendências danosas
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
87
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

e perigosas. As Escrituras nos ensinam como, quando purifica-


dos de seu caráter corrupto, podemos exercitá-lo legitimamente
e dirigi-lo ao seu verdadeiro fim.
Por todas as suas páginas, as Escrituras nos lembram que
somos originariamente criaturas formadas por Deus e continua-
mente dependentes de Sua bondade. Nelas, também, aprende-
mos a dolorosa lição da degradação do homem e de sua indig-
nidade. Aprendemos que a humildade e a contrição são as dis-
posições de mente que melhor se encaixam em nossa condição
caída – e que são as mais aceitáveis aos olhos do nosso Criador.
Aprendemos que devemos reprimir e extinguir o espírito
de arrogância e valorização própria que é tão natural no coração
do homem. Deveria ser nosso cuidado habitual o incentivo e
o cultivo de um comportamento mais humilde. Por causa da
vantagem natural que temos sobre outros, e também por causa
de toda a nossa superioridade moral, precisamos depender intei-
ramente da bondade imerecida de Deus para conosco.
Poder-se-ia dizer que o grande alvo e propósito de toda
a revelação, e especialmente o objetivo do Evangelho, é o de
nos resgatar de nosso orgulho e egoísmo naturais com suas con-
seqüências fatais. Seu propósito, portanto, é o de nos dar uma
idéia justa e equilibrada de nossa fraqueza e depravação. Isto
resulta em nossa humildade não fingida, com a qual deixamos
a nós mesmos de lado e damos glória a Deus, “para que nin-
guém se vanglorie diante dele. Aquele que se gloria, glorie-se
no Senhor” (I Coríntios 1.29, 31). “Os olhos do arrogante serão
humilhados e o orgulho dos homens será abatido; somente o
Senhor será exaltado naquele dia” (Isaías 2.11).
Fica indubitavelmente claro que, à luz da Palavra de Deus,
o amor pela admiração do mundo e pelo aplauso é basicamente
corrupto. Pois ele tende a exaltar e engrandecer a nós mesmos;
a nos deixar orgulhosos de nós mesmos quanto a nossas habi-
lidades adquiridas; ou a dar crédito e mérito a nossas próprias
qualidades. Ele opta por esta auto-estima, ao invés de tributar
88 CRISTIANISMO VERDADEIRO

toda a honra e glória a quem elas são devidas. Ele é falso, por-
tanto, porque exalta o que deveria ser humilhado. Também é
criminoso, porque invade o privilégio de Deus.
As Escrituras nos ensinam que a humanidade está sujeita
ao erro, e, portanto, o mundo comete erros em suas recomenda-
ções. Isso não é tudo. Elas também nos lembram que seu julga-
mento é obscurecido e seu coração depravado: daí seus aplausos
e seu desprezo, na maioria das vezes, serem sistematicamente
mal direcionados.
Note o forte contraste quando o espírito benevolente e
desinteressado do cristianismo aspira mais do que a simples exce-
lência. Ele quase nunca sucumbirá à repugnância e à ofensa ao
suscitar desconfiança ou um doloroso sentimento de inferiori-
dade. A Palavra de Deus nos ensina que podemos professar sem
ofensas essas doutrinas e preceitos do cristianismo juntamente
com princípios, anseios e sistemas do mundo. Às vezes, no en-
tanto, o cristão terá de se opor e divergir desses valores.
Por estas e outras razões, o seguidor de Cristo deve con-
cordar em abrir mão do favor mundano. Ou mais ainda, ele de-
veria encorajar uma santa inveja ou desconfiança de si mesmo,
quando o mundo, generosa e exageradamente, lhe dedicasse
louvor.
Uma vez que devemos direcionar nossas paixões para as
coisas do alto e nos associarmos às coisas celestiais – e constante
e totalmente desejar o amor e o favor de Deus –, a conseqüência
natural é a de que o amor ao aplauso humano deve ser pre-
judicial à saúde. Pois ele tende a atrair nossa atenção para as
preocupações terrenas e manter cativos os nossos desejos dentro
dos limites estreitos deste mundo. Uma vez impuro – reforçado
pela tendência por desejar e amar demasiadamente as opiniões
positivas e recomendações do homem –, devemos enxergá-lo
com desconfiança.
As Santas Escrituras nos advertem, portanto, contra o de-
sejo desordenado ou a busca incansável pela estima e pela honra
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
89
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

mundanas. Elas nos ensinam que Deus chama os cristãos a re-


nunciar ou se abster delas de modo voluntário e absoluto. Mas
e no caso de outros oferecerem estas honras a nós por ações
intrinsecamente boas? Quando isto ocorrer, sem que tenhamos
solicitado, as Escrituras nos ensinam que devemos aceitá-las
como ofertas da Providência, com o intuito de confortar-nos
momentaneamente e de recompensar a virtude. Além disso,
Deus nos instrui que, em nosso comportamento como um todo
e em pequenas particularidades de conduta, devemos buscar
oportunidades de fazer pequenos atos de bondade.
Nos exemplos acima, devemos ter o devido respeito pela
aprovação e favor do homem. A eles, no entanto, não deve-
mos dar o valor principal. Eles poderiam servir somente para
alimentar a nossa gratificação própria. Ao contrário, eles de-
vem somente fornecer meios e instrumentos de influência que
podemos transformar em boa reputação. Ou podemos fazê-los
instrumentos de aprimoramento e de geração de felicidade a
nossos semelhantes, tornando-se assim canais de glória a Deus.
Ao mesmo tempo, devemos vigiar os nossos corações com o
mesmo cuidado zeloso. Caso contrário, o orgulho e o egoísmo
podem entrar sorrateiramente e corromper rápida e facilmente
a pureza de princípios.
No julgamento do verdadeiro cristão, o crédito e a repu-
tação não têm peso diferente do das riquezas. Ele não deveria
ter alta estima por elas ou desejá-las e persegui-las com muito
empenho. No entanto, quando a mão da Providência permite
que ele as tenha, ele deve aceitá-las com gratidão e usá-las com
moderação. Ele deveria estar pronto a deixá-las, se necessário,
sem murmuração.
O verdadeiro cristão se guardará cuidadosamente dos ma-
les que o crédito e a reputação podem produzir e cultivar: a
tentação do egoísmo em si, e até mesmo o orgulho e a imora-
lidade de coração. Ele os considera inaceitáveis. Mas, a partir
da enfermidade de sua natureza, ele os enxerga como possessões
90 CRISTIANISMO VERDADEIRO

altamente perigosas. Ele os valoriza primariamente como ferra-


mentas por meio das quais ele honra seu Benfeitor celestial e
diminui as misérias da humanidade. Ele não os vê como instru-
mentos de luxo e esplendor, nem como fim em si mesmos.
Lembre-se – o cristianismo não propõe a extinção de nos-
sos desejos naturais. Ele promete colocar os desejos sob controle
e direcioná-los a seu verdadeiro objeto. No caso das riquezas
e da honra, ele mantém a consistência de seu caráter. Mas o
cristianismo ordena que não coloquemos os nossos corações nas
riquezas terrenas. Ele nos lembra que “possuímos bens superio-
res e permanentes” (Hebreus 10.34).
Assim, ao mesmo tempo em que o cristianismo reprime
nossa ambição acerca do crédito terreno e modera nosso apego
a ele, produz em nós uma outra aspiração. Ele nos direciona fre-
qüentemente a desejarmos os esplendores de um estado melhor,
onde há verdadeira glória, honra e imortalidade. Ele, portanto,
nos encoraja a termos uma ambição justa, harmonizada com
nossa origem mais elevada e digna de nossa grande habilidade.
As pequenas, inapropriadas e perecíveis distinções deste mundo
tentam em vão satisfazer esta ambição, e não conseguem.
Cristãos professos consideram o crédito e a reputação
mundanos de uma perspectiva que é totalmente diferente da-
quela que as Escrituras apresentam. Na verdade, o amor desor-
denado pelas glórias mundanas implica uma paixão que ocorre
até mesmo nas dimensões da vida cotidiana. Ele é modificado e
direcionado de acordo com o temor de agir que todos possuem.
Assim, há o amor supremo por distinção, admiração e louvor.
Trata-se da aceitação aparentemente universal da bajulação.
Acima de tudo, nós o observamos na avaliação excessiva
de nosso caráter mundano. Observamos o modo como outros o
protegem com vigilância e ciúmes – bem como com excessivo
cuidado quando está em perigo. Quando atacado, observamos
um ressentimento inflamado; quando incapacitado ou perdido,
observamos aquela amargura que é fruto do sofrimento. Não
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
91
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

podemos todos disputar estas emoções – elas são muito óbvias.


Não podemos negar sua existência – elas são do conhecimento
de todos. A desonra, a desgraça, e a vergonha, apresentam ima-
gens de horror muito difíceis de encarar. Somente uma coisa
pode excluir esses males – um espírito generoso.
As conseqüências disso são naturais e previsíveis. Embo-
ra não declaremos publicamente que buscamos a reputação do
mundo ou procuramos escapar de sua desaprovação, ainda con-
sideramos sua reputação como a excelência essencial mais ele-
vada. Pensamos na vergonha mundana como o maior de todos
os males possível.
Eu disse o bastante para deixar claro que o amor à repu-
tação do mundo é um assunto altamente questionável. Deverí-
amos tê-lo sob controle e vigiá-lo com o maior cuidado. A des-
peito das pretensões presunçosas, ele não pode de modo algum
justificar o seu propósito. Que verdadeiro valor pode ter o amor
à distinção mundana quando muda totalmente sua natureza e
seu caráter de acordo com a opinião pública?
É aí onde os cristãos moralistas na maioria das vezes exi-
bem pouca evidência de verdadeiro cristianismo, pois permitem
que esse amor penetre em sua estrutura de crença e o recomen-
dam com tão poucas qualificações e sem nenhuma reserva. Sem
qualquer consistência, eles argumentam que cobiçar a riqueza é
algo mesquinho e sórdido. Mas tratam a cobiça por honra como
a marca de uma natureza generosa e elevada. Eles estão muito
pouco cientes do quanto o louvor mundano mantém a paixão
presa às coisas terrenas e afasta o coração de Deus.
Uma glória que se destaca no cristianismo é a de não se
satisfazer com as aparências superficiais, mas corrigir as moti-
vações e purificar o coração. O verdadeiro cristão obedece às
Escrituras quando não tem sobre si um deus resoluto e ciumento
como o deus que deseja controlar o anseio humano por estima
e distinção. E sente mais profundamente a insuficiência de sua
força. E ora diligente e devotadamente por ajuda divina.
92 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Um verdadeiro cristão pode muito bem vigiar e orar con-


tra as invasões dessa paixão, pois quando alguém ultrapassa seus
limites justos descobre uma hostilidade peculiar para com as
graças especiais do espírito cristão. Ele vigia e ora porque o ver-
dadeiro cristão, em humilde dependência da ajuda de Deus, se
ocupa mais em compreender e contemplar sua própria fraqueza.
Assim, ele se empenha em adquirir e manter uma convicção
equilibrada de sua grande indignidade. Ele lembra continuamen-
te que qualquer coisa que o diferencie dos outros não é propria-
mente sua. Ao contrário, ele está totalmente em dívida para
com a bondade do céu.
Desse modo, ele busca sempre preservar um sentido jus-
to do verdadeiro valor da distinção e do aplauso humanos. Ele
sabe que irá cobiçá-los menos quando tiver aprendido a não
superestimar seu valor. Ele luta para lembrar-se do quão imere-
cidamente Deus sempre os confere e de quão precariamente os
homens sempre os possuem.
Elogios apropriados favorecem e fortalecem o crescimen-
to da confiança e da aceitação mútuas. Mas, mesmo no caso dos
elogios de homens bons, o cristão não se deixa iludir pela sua
supervalorização. Ele não ousa substituí-los pelo lugar da cons-
ciência. Ele se guarda disto ao refletir em nossa incapacidade
de discernir as motivações uns dos outros, de conhecermos as
circunstâncias uns dos outros, e na maneira equivocada como
outros – mesmo homens bons – podem formar juízo sobre nós
ou sobre nossas ações. É também quase certo que virá um tempo
quando teremos de desprezar seus elogios ao aderirmos aos dita-
mes de nossas próprias consciências.
O verdadeiro cristão se empenha em não considerar o fa-
vor e o aplauso até mesmo dos homens bons, e muito menos dos
do mundo como um todo. Não que ele seja insensível quanto
ao valor deles como instrumentos de utilidade e influência. Mas
ele controla o louvor dos homens e não o acumula como um
avarento.
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
93
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

Agindo de acordo com estes princípios, o verdadeiro cris-


tão usará cuidadosa e diligentemente cada grau de reputação
humana que possa desfrutar na remoção e na diminuição dos
preconceitos. Ele a usará para granjear a boa vontade e com isso
abrir caminho para o progresso mais desimpedido da verdade.
Conquanto ela o entretenha com sinceridade ou mesmo com
fineza, ele fará dela o seu negócio para seguir adiante com pro-
jetos benevolentes e úteis. E quando for necessário unir esforços
para obtê-la e preservá-la, ele buscará a cooperação dos homens
de boa vontade.
Por estes e outros muitos meios, ele luta por manter sua
reputação – pelo tempo que a possuir – subserviente a estes
grandes fins: o avanço da causa da religião e da virtude, a pro-
moção da felicidade e do conforto da humanidade. Enquanto
isso, não transgredirá a regra dos preceitos bíblicos a fim de
obter, cultivar ou preservar esta reputação. Ele resolutamente
repudiará aquele perigoso e sutil raciocínio do “faça o mal que
o bem virá”. Embora pronto a abandonar sua reputação se ne-
cessário, ele não a descartará.
O alvo do verdadeiro cristão no que diz respeito à sua re-
putação diante do mundo é como o daquele governante judeu,
de quem se disse “jamais encontraremos algum motivo para
acusar esse Daniel, a menos que seja algo relacionado com a
lei do Deus dele” (Daniel 6.5). Se agir de maneira ofensiva,
será somente quando não puder agir de outra maneira. Se cair
em desgraça ou desfavor, não será responsabilizado por qual-
quer ofensa pessoal de sua parte. Sua desgraça ou o seu desfa-
vor terá sido conseqüência de um julgamento equivocado do
mundo.
Quando outros, desse modo, interpretarem erroneamente
suas características ou condutas, ele não se recolherá em miste-
rioso aborrecimento. Mas estará pronto, onde o escutarem com
paciência e sinceridade, a esclarecer o que estiver duvidoso. Ele
explicará prontamente o que foi perfeitamente conhecido e, ao
94 CRISTIANISMO VERDADEIRO

“falar a verdade em amor”, corrigirá quaisquer impressões equi-


vocadas a seu respeito.
Ele pode, às vezes, sentir que é sua obrigação defender seu
caráter de avaliações injustas. Mas, em determinado momento,
ele também se guardará, mais do que nunca, do orgulho, a fim
de não ser retratado como transgressor de alguma verdade ou
beneficência cristã. Também se guardará de qualquer interesse
indevido de usar sua reputação em seu próprio favor. Quando
tiver feito o que seu dever exige em sua defesa, ele se assentará,
com a mente quieta e apaziguada. E não será uma questão de
preocupação se seus esforços não tiverem tido efeito visível.
O santo chamado do cristão o leva a ser vitorioso sobre
o mundo. Esta vitória requer uma indiferença essencial e in-
dispensável a seu desprezo e desonra. Ele reflete sobre aqueles
homens que “enfrentaram zombaria e açoites” (Hebreus 11.36).
Ele lembra as palavras de nosso bendito Salvador, que “foi des-
prezado e rejeitado pelos homens” (Isaías 53.3).
Quem é ele, portanto, para estar isento do que é comum
a todos, ou para pensar que seria muito suportar o escândalo de
sua confissão? Se, portanto, ele tiver credibilidade e for popu-
lar, deve considerar isto como algo que está além do que havia
planejado. Mas passa a vigiar, então, com cuidado redobrado,
com temor de se apegar demasiadamente àquilo que pode rapi-
damente ter de abandonar. Ele medita na probabilidade de ex-
perimentar situações que o façam ter que se sujeitar à desgraça
e até mesmo ao esquecimento. Assim, quando chegar a hora,
estas situações não o pegarão de surpresa.
Ele enxerga no cultivo deste desejo – “a honra vem de
Deus” – o meio mais eficaz de deixar sua mente preparada em
relação ao amor pelo louvor humano. Ele então se ergue nas
asas da contemplação, até que os louvores e censuras dos ho-
mens cessem de soar em seus ouvidos, e a voz pequenina e sua-
ve da consciência não mais seja abafada pelo estrondo desse
mundo inferior. Nesse mundo menor, a vista é provavelmente
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
95
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

capturada por objetos terrenos, e os ouvidos são monopolizados


pelos cuidados desta vida. Mas eis que em seu raio de visão surge
aquela resplendente e incorruptível coroa, e seus ouvidos são
presenteados com a melodia celestial!
Assim, em tempos determinados, o cristão se exercita.
Quando do plano elevado ele desce para a planície abaixo e se
mistura ao burburinho da vida, ele ainda retém as impressões de
suas horas de recolhimento. Por meio delas ele se percebe em
meio ao mundo invisível.
Mas o cristão está consciente de que fica particularmente
vulnerável quando verdadeiramente excede. É quando ele está
correndo um risco especial, temeroso de que suas motivações
mais puras se tornem inconsciente e gradualmente corrom-
pidas, e fica preocupado e ansioso pelos favores terrenos. Isto
pode acontecer até mesmo quando ele deseja obedecer à ordem
bíblica de que “assim brilhe a luz de vocês diante dos homens,
para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês,
que está nos céus” (Mateus 5.16).
O cristão também se policia nas pequenas e grandes oca-
siões. Ele está bem ciente de que o desejo excessivo pelo louvor
humano é uma paixão tão sutil, que não há nada em que ela não
possa penetrar. Ele a considera muito traiçoeira mesmo dentro
de sua própria fé, onde ela tem prazer em habitar. Quando ela
aparentar ser não muito grande em tamanho ou em forma, e for
ambígua, devemos então suspeitar de sua operação. Que o cris-
tão não se permita ser enganado pelas diferenças externas entre
ele e o mundo ao seu redor, confiando na sinceridade de sua
motivação original. Que esteja alerta, temendo que, por meio
das intromissões imperceptíveis do usurpador sorrateiro, ele seja
surpreendido, e sua religião, por fim, tenha “somente um nome
para sustentar”, sendo gradualmente roubada de seu princípio
vitalizador.
Para aqueles que desejam conformar suas vidas à Pala-
vra de Deus, devemos aconselhar uma vigilância laboriosa, um
96 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Deus ciumento, e um exame meticuloso e constante de nossos


próprios corações. Isto é necessário para que eles não se enga-
nem acerca de seu verdadeiro caráter. Acima de tudo, clame-
mos com orações humildes pela ajuda divina, a fim de que pos-
samos estabelecer em nós um sentimento profundo, constante
e prático de excelência “daquela honra que vem de Deus”, e de
indignidade para com toda reputação e preeminência terrenas.
Na verdade, a menos que as paixões da alma sejam predo-
minantemente fixadas no olhar em direção àquilo que é celes-
tial – em detrimento da honra humana – não teremos exigido
de nós mesmos aquela firme determinação mental que pode su-
portar a desgraça e a vergonha sem ceder à pressão. Entre estes
dois estados, o da desconsideração da fama e o da resistência à
desgraça, há um espaço enorme. Aquele que sobriamente pensa
haver chegado a um, não deve concluir que chegou ao outro. A
um, uma pequena moderação e quietude de espírito podem ser
suficientes para nos conduzir. Mas ao outro, só podemos che-
gar através de muita disciplina e avanços vagarosos. Quando
pensarmos haver feito grandes avanços, encontraremos razões
para confessar acerca da outra prova, na qual comprometemos
(e muito) o nosso progresso.
Quando assim engajados nesse caminho, devemos ter cui-
dado com as armadilhas diante de nós, e com o engano ao qual
estaremos sujeitos. A essa altura, é bom ter uma concepção ple-
na e distinta da disposição de mente, acerca do favor humano,
que foi prescrita a nós nas Escrituras. Examinemos continua-
mente os nossos corações e vidas para verificar o quanto esta-
mos correspondendo a elas. Isto nos poupará de substituirmos
contemplação por ação, e de nos entregarmos em demasia a
essas meditações religiosas que recomendamos, negligenciando
assim as tarefas simples da vida. Isto nos ajudará a não con-
fundirmos um espírito preguiçoso com desrespeito à fama de
cristão. Que nunca esqueçamos que devemos merecer estima,
embora não devamos possuí-la.
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
97
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

Desse modo, o princípio cristão operará de maneira uni-


forme, quer seja aprovado, quer não. No entanto, ele deve ser
testado além da firmeza mortal, a fim de provar-se genuíno.
Contudo, ao mesmo tempo, deve ser suavizado pelo amor e
temperado pela humildade.
Humildade, também, porque ela nos reduzirá à nossa pró-
pria estima e moderará nossos clamores pela reputação mun-
dana. Ela depurará nossa tendência de aparecer e se exibir, nos
dispondo a evitar a atenção, mais do que atraí-la. Por causa dela
nos assentaremos em obscuridade silenciosa, embora possamos
crer que temos mais condições de receber crédito que outros.
Ela fecha as portas a um espírito orgulhoso. Por outro lado, a
partir desse espírito e sob certas circunstâncias, mal consegui-
mos liberar a paixão pelo “desdém elevado a partir de uma no-
ção de mérito lesado”.
O amor e a humildade concorrerão para produzir uma
mentalidade que se equilibra entre uma sede zelosa por glória
e um menosprezo frio (ou desrespeito insolente) pela glória e
distinção humanas. Estas últimas reações são comumente re-
lacionadas a um espírito preguiçoso, sensual e egoísta. Ou são
fruto da consciência de se estar inadequado para a tarefa. Ou
podem ser a reação a uma pequena experiência pessoal com o
comportamento caprichoso e inconsistente do mundo.
A reação, nesses casos, embora profundamente sentida,
pode estar longe de ser sincera. Às vezes, a superavaliação e o
desejo desordenado pelo crédito do mundo, embora repudiados,
estão abundantemente evidentes e claros a partir do mérito ago-
ra assumido por aquele que os repudia, por tê-los abandonado.
Ou tal reação pode ser vista como o humor ácido e áspero que
trai uma mente triste e desgastada; ela está velha e incomodada
sob o sentimento colérico de querer o que mais deseja possuir.
Quão diferente é o caráter de um verdadeiro cristão. Ele
não é um caráter de sensualidade grosseira, de apatia preguiçosa,
de um orgulho dogmatizante ou de uma ambição decepcionada.
98 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Ele é mais verdadeiramente independente da estima do mundo


do que a filosofia com toda a sua ostentação. Pois ele contrasta
com o egoísmo epicureu, o orgulho histórico e a brutalidade
cínica.
O caráter cristão é um espírito composto de firmeza, com-
placência, paz e amor. Ele se manifesta em atos de bondade e
gentileza. Tem uma bondade genuína e não fingida. Ele é uma
reverência; não é falso e superficial, mas caloroso e sincero. Na
área da popularidade, ele não é afetado ou insolente. Na área
da impopularidade, não é desesperado ou cheio de remorso. Ele
é inabalável em sua constância, incansável em benevolência,
firme sem ser ríspido e diligente sem polidez.
Se parece que nos detivemos desproporcionalmente neste
tema, é porque o autor observa as perigosas qualidades e ten-
dências não cristãs desta tentação pelo louvor humano nas clas-
ses dominantes de nossa sociedade. Ela é uma das manifestações
mais comuns de orgulho.

IV. O erro comum de colocar gestos simpáticos e negó-


cios no lugar da verdadeira religião

Há uma suposição comum que é altamente nociva à causa


da verdadeira religião. Trata-se do reconhecimento exagerado a
certas qualidades amáveis e úteis da vida, e a suposição de que
elas podem substituir o supremo amor e o temor a Deus.
A seguinte suposição é comumente feita. A de que a bon-
dade e um espírito doce (que é compassivo, benevolente e ge-
neroso), juntamente com a atenção à estima do mundo, são
deveres sociais, e, acima de tudo, uma vida de ocupações úteis
– estas coisas, supõe-se, podem compensar a ausência da verda-
deira religião. Na verdade, muitos declararão que “a diferença
entre estas qualidades e a religião é verbal e ilógica, ao contrário
de ser real e essencial. Pois, de fato, o que são elas senão religião
e ação? Não seria este o grande objetivo da religião, e parti-
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
99
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

cularmente não seria esta a glória do cristianismo, iluminar as


más paixões, coibir a violência, controlar o apetite e abrandar
as aspirações do homem, e nos fazer compassivos, bondosos e
perdoadores uns com os outros?”.
Deste modo, alguns estabelecem uma distinção fatal en-
tre moralidade e religião. Este é um grande erro. Pois não pode
haver uma evidência mais forte de uma visão apressada e super-
ficial com a qual os homens se satisfazem acerca das questões
religiosas do que esta. Qualquer um que admita a autoridade das
Escrituras deve reconhecer a falsidade e o argumento persuasivo
de uma visão como esta.
Além disso, fica óbvio que o valor moral dessas qualida-
des doces e benevolentes tende a ser superestimado. Elas nos
desarmam de pronto por causa de sua popularidade e aceitação
pública. Mas podem ser nada mais que uma máscara vestida em
público. Siga para dentro do lar daquele que expõe tais caracte-
rísticas. Você poderá encontrar dentro desse lar um egoísmo e
uma malevolência que assolam sua própria família e a sujeitam
à sua tirania degradante.
Alguns apelam para o valor moral da boa índole e da uti-
lidade da vida de seus seguidores como um substituto do verda-
deiro cristianismo. Este apelo está pronto para ser grandemente
supervalorizado.
Tal benevolência desarma nossos julgamentos mais seve-
ros e conquista nossa simpatia com sua natureza bondosa, con-
descendente e aparentemente desinteressada. Ela predispõe os
homens a encorajar, ao invés de mortificar o nosso orgulho, a
solidarizarem-se com nossas alegrias e tristezas e a multiplicar as
atenções amáveis e os atos de cortesia.
Mas há muitos que fingem ter tais qualidades e que rece-
bem um crédito que não merecem. No entanto, vestem como
que uma máscara em público, diante dos homens, apenas para
ocultar seu temperamento oposto. Pois se você pudesse despir
esse homem de sua gentileza e doçura, colocar de lado seu falso
100 CRISTIANISMO VERDADEIRO

disfarce e segui-lo sem ser notado em seu dia-a-dia em família


– encontraria um outro lado dele. Encontraria orgulho e male-
volência destruidora, além da natureza infeliz e vexatória de sua
tirania degradante. Se seus familiares pudessem falar, contariam
ao mundo outra história a respeito dele.
Mas as qualidades benevolentes podem ser genuínas. Po-
dem, portanto, merecer o nome de instinto amigável, ao invés
do nome de virtudes morais. Em ambos os casos, elas implicam
ausência de esforço mental e de disciplina prévia. Essas bene-
volências evaporam em tempos de sensibilidades infrutíferas e
de simpatias transitórias, ou de desejos indolentes e declarações
improdutivas. Elas não possuem essa força e energia de caráter
que, diante das dificuldades e perigos, produzem prontidão para
o serviço, vigor e perseverança na ação. Desprovidas de firmeza
própria, elas quase sempre encorajam ao vício e à insensatez,
que é seu dever específico reprimir. Elas terão feito bem se, a
despeito de sua natureza autocondescendente, não tiverem par-
te com a injustiça – ou sido coniventes com ela.
Assim, diante da verdade e da razão, as benevolências na-
turais são maus magistrados, pais e amigos. Pois elas são muito
defeituosas naquelas muitas qualidades que estes relacionamen-
tos na vida exigem. Uma vez defeituosas, elas não estão livres
do egoísmo. Pois se seguirmos essas deficiências até chegarmos
à sua verdadeira fonte, descobriremos que elas surgem princi-
palmente de uma indisposição de submeter-se a um esforço do-
loroso (O bem genuíno, no entanto, exigirá sacrifício!). Ou a
disposição surge do temor de perder o respeito que os outros têm
para com elas, e da boa opinião que querem receber.
Essa fraca benevolência, que não está enraizada na ver-
dadeira religião, é de uma natureza efêmera e débil. Ela carece
daquele temperamento resistente e vigoroso que é necessário
para suportar a injúria, ou sobreviver aos choques violentos, aos
quais este mundo sempre nos expõe. Somente o amor cristão
possui o caráter para ser “paciente e bondoso”, que “não mal-
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
101
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

trata, não procura seus interesses”, e que “Tudo sofre, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta” (I Coríntios 13.4, 5, 7).
Analise a vida por inteiro, da primavera da juventude,
com seu vigor de confiança juvenil, esperanças ardentes, às bus-
cas em vão e esperanças frustradas da vida em idade avançada.
Uma pequena experiência pessoal com o egoísmo da humani-
dade desestimulou o entusiasmo generoso e os sentimentos bons
que primeiro desfrutamos. A consciência viva e a simplicidade
confiante de nossos primeiros anos foram repreendidas.
Acima de tudo, a ingratidão adoece o coração e arrepia e
engrossa o sangue da vida da benevolência. Por fim, nosso Nero
juvenil – doce e susceptível – torna-se um tirano implacável e
cruel.
Como é com a benevolência natural, também o é com
as chamadas vidas úteis. Novamente, seu valor intrínseco está
pronto a ser supervalorizado. Elas são o resultado de uma ocupa-
ção e de uma atividade naturais, que são sinônimo de movimen-
to constante. E elas também amam receber crédito por isso.
Se for de conhecimento geral que a religião tende a esti-
mular essas “utilidades”, elas tenderão a ser “religiosas” também.
No entanto, se a sua conduta fosse analisada, observaríamos
uma perda da verdadeira bondade, a qual só pode ser fruto de
um princípio mais elevado. Se elas tivessem essa bondade nelas,
elas teriam sido notadas e a sua influência teria sido estendida
a outros.
Suponhamos, no entanto, que o padrão dessas qualidades
de benevolência e utilidade fosse maior do que o que descre-
vemos. Será que, ainda assim, elas poderiam ser um substituto
para o amor supremo e o temor a Deus, e o desejo dominante de
promover a Sua glória?
Permitir a elas este argumento seria como permitir aos
homens que abolissem o primeiro mandamento, na preferên-
cia de obedecer ao segundo. Mas a verdadeira religião não tem
condição de inventar uma composição de deveres como esta.
102 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Igualmente, através deste mesmo argumento infeliz, alguns têm


buscado justificar uma vida de injustiça e despojo por meio da
rigidez de suas observâncias “religiosas”. Somente o auto-enga-
no e a parcialidade os impedem de ver sua incoerência.
A essa altura, alguém pode argumentar que o escritor não
está fazendo justiça ao argumento de seu oponente. Pois a ques-
tão não seria: os homens não religiosos de vidas úteis podem ser
desculpados por negligenciar seus deveres para com Deus, em
troca do cumprimento exemplar de seus deveres para com seus
semelhantes? Ao contrário, a pergunta é: se alguém cumpre seus
deveres para com seus semelhantes, isso significa que os deveres
para com Deus estejam cumpridos virtual e substancialmente,
mesmo que não explicitamente?
Para continuar o debate, a resposta está clara e inequívo-
ca nas Sagradas Escrituras. Amar e temer a Deus, adorá-lo e ser-
vi-lo continuamente, com corações humildes e gratos, é o seu
mandamento. As Escrituras nos recomendam que nós O consi-
deremos como nosso Benfeitor, Soberano e Pai. Estimulam-nos
a ter atos constantes de gratidão, lealdade e amor respeitoso.
Como alguém poderia negar estes preceitos objetivos? Quem
é então esse intruso arrojado que, em desprezo evidente a estes
mandamentos específicos dos conselhos da infinita sabedoria,
ousa argumentar ignorância para com eles? Alegando inocên-
cia, como ele pode violar estas obrigações tão claras? Como ele
pode inverter meios e fins?
Tal modelo de argumento (sem falar de sua profanação
insolente) iria, uma vez admitido, prover os meios para o des-
gaste paulatino de toda obrigação moral.
Mas tudo de que necessitamos é de uma pequena dose de
honestidade básica para refutar esse argumento. Pois ele é um
corpo sem alma. Ele carece de qualquer princípio vital, motriz. O
cristianismo é “uma religião de motivações”. Somente a prática
cristã pode brotar do princípio cristão. Deus deve ser obedecido
bem como adorado “em espírito e em verdade” (João 4.23).
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
103
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

Alguns adotariam ainda uma outra tática. Os inimigos da


religião, às vezes, gostam de comparar os homens sem religião,
de temperamento naturalmente amável e doce, com os homens
religiosos que possuem uma severidade e aspereza naturais. Ou
comparam os homens sem religião, que sejam naturalmente
úteis, com homens religiosos que sejam naturalmente preguiço-
sos. A partir desses contrastes, eles tiram suas conclusões.
Mas esse modo de raciocínio é também injusto. Ao invés
de comparar pessoas de qualidades naturais semelhantes, e de
citar um ou dois exemplos, olhemos para a massa de referên-
cias. Isto os levaria a confessar a eficácia da verdadeira religião
no aumento da benevolência e no crescimento da utilidade do
homem. Pois a verdadeira religião imprime qualidades que an-
tes não tinham espaço, e dá mais poder às características que já
existem. Torna o amigável ainda mais amigável; o útil mais útil;
e o faz com cada vez menos inconsistências.
Enquanto isso, que os cristãos possam sempre se lembrar
que são chamados com veemência a tornar este argumento ainda
mais claro. Deste modo, sua posição é menos questionável. As
Escrituras, em toda parte, ordenam a você que seja terno e com-
passivo, diligente e útil. É característica desta “sabedoria do alto”
– na qual você deve ser hábil - ser “pacífica, amável, compreensi-
va, cheia de misericórdia e de bons frutos” (Tiago 3.17).
Como alguém pode negar a eficácia do cristianismo para
amolecer o coração quando vê um perseguidor preconceituoso,
furioso e cruel transformado em um exemplo quase incompa-
rável de candura, mansidão, ternura e amor? Veja também o
exemplo de Cristo, que “andou por toda parte fazendo o bem”
(Atos 10.38). Imite tais exemplos, e “silenciem a ignorância
dos insensatos” (I Pedro 2.15). Assim, você obedecerá a essas
ordenanças divinas para honrar a doutrina de Cristo, e para que
“brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as
suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”
(Mateus 5.16).
104 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Se, no entanto, você está consciente de que é natural-


mente rude e austero; de que decepções o deixaram amargurado,
ou de que a prosperidade o encheu de soberba; seja qual for o
motivo pelo qual você tem um temperamento ruim, rispidez nos
modos ou aspereza de linguagem – não se desespere. Lembre-se,
as Escrituras prometem a ação divina de “retirar o coração de
pedra e dar um coração de carne” (Ezequiel 11.19). Ore, então,
zelosa e perseverantemente, para que a bendita ajuda da graça
divina possa operar eficazmente em seu favor.
Acautele-se de dar lugar aos temperamentos perversos.
Acautele-se de justificá-los ou permitir que continuem dentro
de você sob o disfarce de zelo pela causa da religião e da virtude.
Examine-se a si mesmo com rigidez rigorosa. Quando houver
muito espaço para o engano próprio, peça ajuda a um amigo e se
confesse a ele. Considere seriamente que esses comportamentos
rudes e infantis são um contraste direto com a “mansidão e hu-
mildade de Cristo”.
Os cristãos devem “livrar-se de toda amargura, indignação
e ira, gritaria e calúnia” (Efésios 4.31). Devem ser “amáveis para
com todos” (II Timóteo 2.24) e “refrear sua língua” (Tiago 1.26).
Uma das características desse amor (sem a qual todos os
clamores ao nome de Cristo são vãos) é a de que “não se ale-
gra com a injustiça” (I Coríntios 13.6). Lembre-se, portanto, de
que a honra de sua confissão como cristão está em risco. Assim,
tenha o cuidado de não desacreditá-la, de modo que, ao comu-
nicar uma impressão desfavorável de seus princípios e caráter,
você incorra na culpa de ser “uma pedra de tropeço para o seu
irmão” – com isso comprometendo o Evangelho de Cristo.
Examine-se cuidadosamente, portanto, para ver se atitu-
des não cristãs que você deveria erradicar estão sendo mantidas
pelo egoísmo e pelo orgulho. Lute para subjugá-las efetivamen-
te, através da destruição das raízes que as alimentam.
A partir da discussão acima, não pensemos que as quali-
dades da amabilidade e da utilidade, quando não estimuladas
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
105
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

e governadas pelo princípio da verdadeira religião, têm de ser


consideradas como inúteis. “Elas possuem a sua recompensa”.
Elas produzem um contentamento interior, consolo doméstico
e social, e são amadas em particular e respeitadas em público.
Mas, na ausência de fé, “de modo nenhum entrarão no reino
dos céus” (Mateus 5.20).
O cristianismo consiste na dedicação do coração e da vida
a Deus. Ele é suprema e constantemente governado por um de-
sejo de conhecer a Deus, de se dispor à vontade de Deus e de vi-
ver para a Sua glória. O espaço onde estes requisitos essenciais
são desejados pode receber o nome de cristianismo.
O caminho do cristão é cercado de perigos. Por um lado,
ele teme uma vida inativa e improdutiva. Por outro, treme
diante da perda do foco espiritual, que é a essência e o poder de
sua confissão.
Ele está muito engajado nos negócios deste mundo? Que
examine cuidadosamente o estado de seu próprio coração. Se
ele se perceber perseguindo a riqueza, o status ou a reputação,
deve entender que “ninguém pode servir a dois senhores” (Ma-
teus 6.24). O mundo, de maneira evidente, possui o seu coração.
Assim sendo, não é de se admirar que se perceba insensível, ou,
ainda, morto para notar e desfrutar das coisas espirituais.
Que possamos cuidadosamente analisar toda a nossa con-
duta, para ver se temos negligenciado ou descuidado de algum
dever para com Deus. Particularmente, necessitamos enxergar
se não temos dado a devida atenção à avaliação própria, à ora-
ção em particular e pública, à leitura das Escrituras e a outros
meios prescritos de graça. Se percebermos que, na divisão do
tempo, estamos em falta, estejamos abertos para consertar a si-
tuação. Caso contrário, essa negligência fatal começará a afetar
os nossos corações e a nossa conduta. Desse modo, precisamos
verificar se outras questões que nos preocupam estão consumin-
do uma parte muito grande de nosso tempo. Por meio de uma
administração cuidadosa, ainda podemos satisfazer plenamente
106 CRISTIANISMO VERDADEIRO

a essas demandas legítimas e então dedicar tempo à nossa vida


devocional.
Mas se, deliberada e honestamente, concluirmos que não
devemos dar a essas questões terrenas menos de nosso tempo,
empenhemo-nos ao menos em dar a elas menos do nosso co-
ração.
Tenhamos uma idéia imparcial de nossas grandes fraquezas
e de nossas inúmeras faltas. Este é um espírito adequado àqueles
que receberam a ordem para “desenvolver a sua salvação com
temor e tremor” (Filipenses 2.12). Ela nos estimula à oração
constante e zelosa. Produz sobriedade, humildade e ternura de
mente, brandura de comportamento e conduta cuidadosa, as
quais são características notáveis do verdadeiro cristão.
Não se trata de uma condição desprovida de consolo.
“Espere no Senhor. Seja forte! Coragem! Espere no Senhor”
(Salmos 27.14). “Mas aqueles que esperam no Senhor renovam
as suas forças” (Isaías 40.31). “Bem aventurados os que choram
porque serão consolados” (Mateus 5.4). Estes encorajamentos
divinos acalmam e incentivam a mente perturbada e desanima-
da do cristão, além de inculcar nela, inconscientemente, uma
santa serenidade.

V. Alguns outros grandes defeitos na prática da


maioria dos cristãos nominais

Parece haver, na mente da maioria dos cristãos nomi-


nais, uma idéia profundamente inadequada sobre culpa e sobre
a maldade do pecado. É como se a religião devesse ser nada
mais senão um caso de polícia. As ofensas são vistas somente
como injúrias à sociedade, mas não como ofensivas a Deus. Até
mesmo os vícios são diferenciados. Quando vistos em termos
das camadas mais pobres da sociedade, são ofensivos. Os mes-
mos pecados nas camadas mais altas são desculpados, porque
são o resultado de grande prosperidade, de alegria excessiva ou
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
107
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

de grande coragem. É muito injusto enxergar os males sociais


nas classes menos favorecidas da sociedade e aceitá-los entre
as classes mais abastadas como expressão do livre pensamento,
bravura, festividade e milhares de outros termos mais brandos!
Mas a Palavra de Deus avalia as ações por meio de um
padrão muito menos condescendente. Nela, não lemos de pe-
quenos pecados. No Sermão do Monte, não há distinção entre
os pecados dos ricos e os pecados dos pobres. Não há referências
a uma escala de moral para as classes mais altas e outra para as
mais baixas da sociedade. A idolatria, a fornicação, a lascívia, a
bebedeira, orgias, paixões desenfreadas – o apóstolo as classifica
todas ao lado do roubo e do assassinato. Ele declara de igual
modo para todos estes pecados que “os que praticam essas coisas
não herdarão o reino de Deus” (Gálatas 5.21).
Esta perspectiva dos cristãos nominais trai a ausência fa-
tal do princípio que é o fundamento da verdadeira religião. Suas
noções leves acerca da culpa e da maldade do pecado revelam
uma extrema falta de reverência para com a Majestade divina.
Este princípio é definido nas Escrituras como “o princípio da sa-
bedoria”. Talvez não haja uma qualidade mais significativa, que
os autores sagrados tenham enfatizado tanto e tentado imprimir
no coração humano, como esta (Jó 28.28, Salmos 111.10, Pro-
vérbios 1.7, 9.10).
As Escrituras consideram o pecado rebelião contra a sobe-
rania de Deus. Todo ato diferenciado de pecado viola por igual
a Sua lei. Se obstinado, ele nega a Sua soberania.
Para os levianos e desatentos, isto pode soar muito duro.
Batendo asas em vão no auge do sucesso terreno, eles se deixam
embalar por uma falsa segurança. “O dia do Senhor virá como
ladrão à noite” (I Tessalonicenses 5.2). “Visto que tudo será as-
sim desfeito, que tipo de pessoas é necessário que vocês sejam?
Vivam de maneira santa e piedosa” (II Pedro 3.11). “Voltem os
ímpios ao pó, todas as nações que se esquecem de Deus!” (Sal-
mos 9.17).
108 CRISTIANISMO VERDADEIRO

É necessário observar cuidadosamente que essas declara-


ções terríveis de punição futura do pecado derivam da conside-
ração de que elas não são somente uma sentença judicial, mas
surgem de uma ordem de coisas estabelecidas. O reino de Deus
e o reino de Satanás estão ambos estabelecidos neste mundo,
e devemos pertencer a um ou a outro. “Os justos passaram da
morte para a vida” (João 5.24). “Ele nos resgatou do domínio
das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho ama-
do” (Colossenses 1.13). Acerca dos pecadores não perdoados,
as Escrituras declaram, por outro lado, que “eles pertencem ao
pai deles, o Diabo” (João 8.44). Enquanto que, sobre a terra,
eles são chamados de seus filhos, “seus servos” e “fazem as suas
obras”.
Esta divisão entre os que são de Deus e os que são de Sa-
tanás contradiz totalmente a noção geral que muitas pessoas
têm de que, se alguém nasceu em um país onde o cristianismo
é a religião estabelecida, esse alguém nasceu cristão. Esta vi-
são embota a consciência, enfraquece a preocupação que todos
devemos ter de buscar, para a vida, amoldar-nos ao padrão de
nosso Senhor e Mestre, e esquece as provisões da graça de Deus.
As representações bíblicas da trajetória de um cristão sobre a
terra são as de uma “corrida”, “uma guerra”, da necessidade de
se desvencilhar de qualquer embaraço, e da necessidade de se
revestir de toda a armadura de Deus.
Na linguagem das Escrituras, o cristianismo não é um ter-
mo geográfico, mas moral. Ele não pertence por nascimento a
um país cristão. Ele é uma condição da alma. Além disso, ele
não é um estado no qual naturalmente nascemos. É um estado
para o qual Deus deve nos trasladar.
Nascido de novo! Por um lado, é obra da graça imerecida
de Deus. Por outro, Deus nos exorta a “desenvolvermos a nossa
salvação com temor e tremor” (Filipenses 2.12). As Escrituras
representam os cristãos que realmente fazem jus ao nome como
sendo “dignos de participar da herança dos santos no reino da
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
109
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

luz” (Colossenses 1.12). Consciente, portanto, da necessidade


indispensável e da natureza árdua do serviço no qual está enga-
jado, o verdadeiro cristão se dispõe para o trabalho com vigor e
o persegue com diligência.
A Bíblia descreve vividamente o estado do cristão como
sendo o de um Peregrino ou de um Estrangeiro. Todas as outras
figuras e imagens recebem um significado preciso. Delas, ne-
nhuma é mais freqüentemente representada nas Escrituras do
que a da jornada.
O cristão não é outro senão um viajante. Ele se prepa-
ra para todas as dificuldades da vida. Sabe que deve esperá-las
no clima instável e incerto do mundo. Mas ele está viajando
“para um país melhor”, de luz, sem nuvens e de serenidade. Se
a jornada for um pouco desagradável, ele provavelmente não se
demorará no caminho, e pode também desfrutar do que é belo e
examinar o que é curioso. A gratidão o revigora.
Ele também não se recusa de forma grosseira a se associar
aos habitantes do país por onde estiver passando. Mas também
sabe que, até o fim de sua vida, sua jornada será cruzar um país
cercado por muitos inimigos e armadilhas. As tentações irão se
amontoar ao seu redor e tentar seduzi-lo para que deixe o seu
curso. Em determinado momento, ele se sentirá estimulado pela
esperança e animado pelo sucesso. Em outro, será perturbado
pelas dúvidas e amortecido pelas decepções.
Para os cristãos nominais, a religião é um assunto estúpido
e monótono. Eles não têm nenhuma idéia dos desejos e decep-
ções, esperanças e temores, alegrias e tristezas que ela propor-
ciona. Mas, para o verdadeiro cristão, tudo é vida e movimento.
Sua grande obra é, alternadamente, evocar as várias paixões da
alma. Nem se deve imaginar que seu estado é o de luta e dificul-
dade constantes. Suas tarefas são “tarefas de amor”. Se ele tem
necessidade de paciência, é da “paciência da esperança”. Se está
encorajado, ele tem este encorajamento como apoio constante
e o terá na vitória final mais adiante. Assim, as Escrituras decla-
110 CRISTIANISMO VERDADEIRO

ram que “a piedade tem promessa da vida presente e da futura”


(I Timóteo 4.8).
Os cristãos nominais também carecem do grande compo-
nente do caráter do verdadeiro cristão, o amor de Deus. Com
relação ao amor para com Deus, eles carecem dele. Assim, eles
não encontram prazer no serviço e na adoração a Deus. Seus
atos de devoção assemelham-se mais a um tributo constrangi-
do e relutante exigido por algum tirano implacável sobre seus
dependentes oprimidos do que a ofertas espontâneas de um co-
ração grato.
É de infinito valor estabelecer em nossas mentes uma
compreensão clara e contínua do primeiro mandamento: “Ame
ao Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma
e de todas as suas forças” (Deuteronômio 6.5).
Esta paixão, operante e vigorosa em sua essência, é como
uma força motriz. Ela põe em movimento e mantém em ação
todas as nuanças da alma humana. Ela, em pouco tempo, co-
loca em ordem todas as questões morais incertas no lugar que
lhes é permitido, mostra com que rigidez a lei de Deus deve ser
observada e quanto temor há em nossas observâncias. O mais
generoso princípio do amor coloca um fim em todas essas dis-
cussões. O temor irá deter alguns de cometer crimes reconheci-
dos como tais. O interesse próprio subornará outros para fazer
serviços trabalhosos. Mas é a glória peculiar do amor que supera
as deduções do raciocínio. Ela sonda o refúgio da argumentação
falaciosa.
Se os cristãos nominais são defeituosos no amor a Deus,
o que dizer de seu amor a seus semelhantes? Quais são as mar-
cas do verdadeiro espírito da filantropia, podemos perguntar.
Como a benevolência resiste ao choque quando colide com
nosso próprio orgulho, nossa vaidade, nosso amor próprio, nos-
so interesse próprio, nosso amor ou cuidado pelo prazer, nossas
ambições, ou nosso desejo de ter a estima do mundo? Ela nos
torna desprendidos e liberais na ajuda aos outros? Ela nos faz
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
111
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

perseverar na prática do bem a despeito da ingratidão, e nos faz


tão-somente ter pena da ignorância, do preconceito, da malícia,
que distorcem nossa conduta e questionam nossas motivações?
Ela faz com que não lancemos mão daquilo que entendemos
provar o mal do semelhante para conosco? (Estas e muitas ou-
tras perguntas difíceis realmente testam as motivações de nossa
benevolência).
A verdade é que não nos lembramos o bastante do tom
exaltado da moralidade bíblica. Assim, provavelmente, nos va-
lorizamos, tendo como referência nossos próprios parâmetros.
Um melhor conhecimento do padrão das Escrituras nos mos-
traria quão distantes estamos dele. Assim, ao especificar a mais
difícil das tarefas – o perdão e o amor aos inimigos – nosso Sal-
vador aponta para a imitação do exemplo de nosso Supremo
Benfeitor. Em contraste com os nossos padrões de benevolên-
cia, Ele acrescenta, “sejam perfeitos como perfeito é o Pai celes-
tial de vocês” (Mateus 5.48).

VI. O maior defeito no negligenciamento das doutrinas


principais do cristianismo

Mas o maior e o mais radical defeito desses cristãos nomi-


nais é o seu esquecimento de todas as principais doutrinas da re-
ligião que professam. Elas são a corrupção da natureza humana,
a expiação do Salvador e a influência santificadora do Espírito
Santo. Esta, portanto, é a grande distinção entre a religião de
Cristo e a da maioria dos cristãos nominais.
Havendo pensado muito pouco ou nada acerca de Deus
–“sem Deus no mundo” (Efésios 2.12) – alguns, por fim, sentem
necessidade da religião. Talvez por conta de uma doença, da
perda de um amigo ou de algum ente querido, ou de alguma
outra diversidade que os desperta para pensar na precariedade
da vida. Eles então se voltam para buscar um fundamento mais
estável de felicidade que o mundo possa lhes dar.
112 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Eles olham interiormente, talvez, e se tornam sensíveis


ao fato de que devem ter ofendido a Deus. Decidem então por
uma reforma. No entanto, embora a desejando, não conhecem
a verdadeira natureza de sua enfermidade, nem o seu verdadeiro
remédio. Estão conscientes, é verdade, de que devem “parar de
fazer o mal e aprender a fazer o bem!” (Isaías 1.16-17). Estão
conscientes de que devem abandonar seus hábitos e vícios e
cumprir mais ou menos os deveres da religião. Mas não têm
idéia da dimensão do mal do qual sofrem, ou da perfeita cura
oferecida pelo Evangelho, ou da maneira através da qual a cura
pode ser efetivada.
Outros vão mais além. O temor da ira de Deus se apossou
de seus corações. Assim, por um tempo, lutam com todas as for-
ças para resistir às inclinações malignas e caminhar sem tropeçar
no caminho do dever. De novo e de novo decidem, e de novo
descumprem suas resoluções. Todos os seus esforços fracassam.
Eles se tornam cada vez mais convencidos de sua fraqueza moral
e da força da corrupção natural. Desse modo, gemendo sob o
poder escravizante do pecado e experimentando a futilidade do
emprego de seus esforços mais extremos para tentar sua própria
libertação, eles são tentados a desistir e a cair no desespero. En-
quanto isso, sua caminhada é triste e desconfortável.
Eles estão em busca do objeto correto, mas erram o caminho
no qual obtê-lo. Pois o caminho que traçaram não é aquele que
o Evangelho forneceu para conduzi-los à verdadeira santidade.
Assim, eles buscam instrução religiosa. Voltam-se para as
obras de nossos teólogos modernos. O conselho que eles dão
é este: “arrependam-se verdadeiramente de seus pecados e pa-
rem de praticá-los. Mas não fiquem desassossegados, pois Cristo
morreu pelos pecados do mundo inteiro. Façam o seu melhor,
cumpram os seus deveres fielmente, e não temam, pois no final
tudo acabará bem. Enquanto isso, vocês não podem fazer mais
do que ler cuidadosamente esses livros de divindade prática que
os instruirão nos princípios da vida cristã”.
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
113
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

Mas as Santas Escrituras os conclamam a começar de


novo e estabelecer um novo fundamento para a sua fé reli-
giosa. Eles devem se prostrar diante da cruz de Cristo, com
humilde penitência e profundo senso de arrependimento. So-
lenemente, devem decidir abandonar seus pecados e confiar
somente na graça de Deus para receber o poder de manter sua
decisão.
“Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua
casa” (Atos 16.31). “Ninguém”, diz o Senhor “vem ao Pai, a não
ser por mim” (João 14.6). “Eu sou a videira verdadeira... Vocês
também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim”
(João 15.1, 4). “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da
fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para
que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada
em Cristo Jesus para fazer boas obras, as quais Deus preparou de
antemão para que nós as praticássemos” (Efésios 2.8-10).
Este é o ponto cardinal para o qual todo o cristianismo
se volta. “Esforcem-se para viver em paz com todos e para se-
rem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hebreus
12.14). A natureza dessa santidade que o verdadeiro cristão
busca possuir não é outra senão a restauração da imagem de
Cristo em sua alma. Obtê-la depende inteiramente da operação
do Espírito Santo de Deus. O verdadeiro cristão sabe, portanto,
que sua santidade não precede sua reconciliação com Deus, sen-
do então a sua causa. Mas ela tem de a seguir, e ser o seu efeito.
Em resumo, ela ocorre somente pela fé em Cristo, fé marcada
pelo arrependimento do pecado.
Para “sermos cheios do pleno conhecimento da vontade
de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual” (Co-
lossenses 1.9) e para “viver de maneira digna do Senhor e em
tudo poder agradá-lo” (Colossenses 1.10), temos que olhar para
Jesus. Pois Ele é o Autor e o Consumador da nossa fé.
Olhar para Jesus tem seis conseqüências para o verdadeiro
cristão.
114 CRISTIANISMO VERDADEIRO

1. Olhar para Jesus! Neste ato aprendemos, da melhor ma-


neira, o dever e a racionalidade de uma absoluta e incondicio-
nal entrega da alma e do corpo à vontade e ao serviço de Deus.
“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito
Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que
vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto
preço” (I Coríntios 6.19, 20).

2. Olhar para Jesus! Neste ato encontramos exposta a cul-


pa do pecado e o quão odioso isto deve ser para a santidade de
Deus. Quando observamos que, ao invés do pecado ser punido,
Deus “não poupou a seu próprio Filho” (Romanos 8.32), e que
“foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer” (Isaías
53.10) por nossa causa – então começamos a entender a enor-
midade do pecado.

3. Olhar para Jesus! Neste ato podemos melhor aprender


a crescer no amor de Deus! Nele, a certeza de Sua piedade e
amor para com pecadores arrependidos é plenamente demons-
trada. Nele, nos tornamos então animados por uma disposição
constante de tentar agradar ao nosso grande Benfeitor, que já
provou estar bondosamente disposto a vir até nós. Nele, sen-
tiremos uma profunda preocupação de tristeza misturada com
vergonha, por nos termos conduzido tão indignamente para
com Ele. Nele, também encontramos a nobreza do amor de uns
pelos outros e de sermos bondosos uns para com os outros.

4. Olhar para Jesus! Nele, nos tornamos conscientes do


quão indignos somos de todo o Seu amor maravilhoso; e fica-
mos envergonhados de nosso serviço mais ativo. Ele reduz nosso
orgulho e diminui nossa opinião acerca de nós mesmos. Nós
nos tornamos menos dispostos a exigir respeito dos outros e nos
sentimos menos ofendidos quando desprezados. Quando vemos
a humilhação de nosso Senhor e que “nenhum escravo é maior
CONCEITOS INADEQUADOS ACERCA DA NATUREZA E DA
115
DISCIPLINA DO CRISTIANISMO PRÁTICO

do que o seu senhor” (João 15.20), ficamos humilhados tam-


bém. Se realmente crescermos na graça, também cresceremos
em humildade.

5. Olhar para Jesus! Nele, nos tornamos conscientes da


incerteza e da brevidade do tempo, e percebemos a vaidade da
vida como mera ninharia. Perdemos, portanto, nosso gosto por
diversões, pela corrida da ambição, pela gratificação da luxúria.
Nele, aprendemos a corrigir as falsas estimativas do mundo em
relação às coisas. Se caminhamos em uma estrada espinhosa e
árdua, sabemos que Jesus já esteve nela por nós. Podemos ver
suas pegadas; não podemos reclamar.

6. Olhar para Jesus! Nele, nós o seguimos como Autor e


Consumador da nossa fé. Pois “Ele vive sempre para interceder
por eles” (Hebreus 7.25). Nele, esforçamo-nos em nosso traba-
lho e cumprimos nossa mordomia. Nele, devemos nos conduzir
de acordo com a medida que nos é dada, de acordo com o exem-
plo de nosso bendito Mestre, cuja comida e bebida era fazer a
vontade de Seu Pai celestial. A percepção desta visão dá ao cris-
tão o gosto pela adoração e pelo serviço ao mundo celestial.

Desse modo, não devemos esquecer que a principal dis-


tinção entre o verdadeiro cristianismo e o sistema do grupo de
cristãos nominais consiste no lugar diferenciado que é dado ao
Evangelho. Para os últimos, as verdades do Evangelho são como
estrelas distantes que piscam com um brilho vão e despretensio-
so. Mas para o verdadeiro cristão, essas doutrinas principais cons-
tituem o centro no qual ele gravita, como o sol de seu sistema,
e a fonte de sua luz, calor e vida. O próprio Antigo Testamento,
embora uma revelação do céu, brilha com raios débeis e escassos.
Mas o Evangelho desvela aos nossos olhos suas benditas verdades,
e somos chamados a contemplar e a desfrutar “a luz do conheci-
mento da glória de Deus, na face de Cristo” (II Coríntios 4.6).
Capítulo V

A excelência do verdadeiro
cristianismo

É necessário, agora, chamar a atenção para as excelên-


cias do verdadeiro cristianismo, as quais tendem a ser
menosprezadas pelos cristãos nominais.
Para começar, há uma perfeita harmonia entre as dou-
trinas principais da fé e seus preceitos práticos. Há também
uma conexão estreita entre as principais doutrinas e a mesma
harmonia perfeita entre elas. Fica claro que as verdades acer-
ca da corrupção da natureza humana, de nossa necessidade de
reconciliação com Deus por meio da expiação de Cristo e da
restauração de nossa dignidade original por meio da influência
santificadora do Espírito Santo são todas partes de um todo úni-
co, interdependente e reciprocamente apropriado.
Do mesmo modo, nos principais preceitos práticos do
cristianismo, há esse mesmo acordo essencial e essa mesma de-
pendência mútua de um para com o outro. As virtudes mais
repetidas e veementemente estimuladas nas Escrituras e nas
quais, por meio do nosso progresso, podemos crescer em santi-
dade são: o temor e o amor a Deus e a Cristo; o amor, a bondade
e a submissão aos nossos semelhantes; a indiferença às posses-
sões e aos cuidados desta vida, comparada ao nosso interesse
pela eternidade; a autonegação e a humildade.
118 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Já destaquei o quanto essas graças cristãs que refletem o


caráter de Deus são essenciais. São elas as que também devería-
mos exercitar na relação com os nossos semelhantes e com nós
mesmos. Observamos que elas também são aquilo de que a hu-
manidade mais necessita. Além disso, quando adquiridas, elas se
harmonizam umas com as outras em união perfeita e essencial.
Tome como exemplo o amor e a submissão para com os
outros. Observe o fundamento sólido que a autonegação, a tem-
perança e a humildade têm debaixo delas. As causas principais
de contendas e inimizades entre os homens são o orgulho e a so-
berba, e a conseqüente atenção que exigem dos outros. Outras
causas são a supervalorização das possessões terrenas, da honra
do mundo, e, como conseqüência, uma competição ávida por
elas. As arestas não aparadas de um homem entram em atrito
contra as de outro. A fricção, desse modo, perturba o arranjo
apropriado e os movimentos regulares da sociedade. Mas o cris-
tianismo elimina todos esses desajustes.
O sistema religioso dos cristãos nominais é satisfeito por
uma aparência suportável de virtude. Enquanto recomenda o
amor e a caridade, tolera o orgulho e a vaidade, e até mesmo
ordena a valorização excessiva do caráter. O sistema nominal
permite que a alma do homem como um todo seja absorvida
na busca ao objeto que está seguindo, quer pelo sucesso pessoal
quer pelo sucesso profissional.
Embora possam, em grande parte, ter um comportamento
exterior suave e polido, eles não conseguem estar bem harmoni-
zados com o princípio do amor interior genuíno. Algumas cau-
sas de descontentamento, algum motivo para ciúmes e a inveja
surgirá; algumas desconfianças corroerão; algumas decepções
azedarão; alguns menosprezos ou calúnias irritarão e provoca-
rão retaliações.
Os mais sofisticados aprenderão a disfarçar suas emoções,
com polidez e humor exteriores. Mas trata-se apenas da arte de
ocultar sentimentos. Os desenhos a lápis de Hogarth, o artista
A EXCELÊNCIA DO VERDADEIRO CRISTIANISMO 119

inglês, descreveram as verdadeiras emoções humanas com ho-


nestidade crua; eles mostram as emoções como sendo distorci-
das e deformadas. Descrevem o “Inferno” que está realmente
presente.
Mas o verdadeiro cristianismo não se satisfaz com a pro-
dução pura e simples de um disfarce de virtude. Ele busca a
substância real, a qual resistirá ao escrutínio dos olhos de Deus,
“que sonda o coração”. Assim, se o cristão realmente busca a
bondade, ela deve então estar em uma atmosfera onde possa
ser absorvida e ser verdadeiramente viva. É por isso que o cris-
tianismo proíbe a imitação de outros, pois tal comportamento
acaba degenerando para a inveja. Na verdade, a inveja tem sua
origem principalmente no orgulho e no desejo de auto-exalta-
ção. Como poderemos de pronto amar ao nosso próximo como
a nós mesmos se o considerarmos nosso rival e se tivermos a
intenção única e exclusiva de superá-lo na corrida competitiva
que se estabeleceu entre nós?
Do mesmo modo, o verdadeiro cristianismo nos ensina a
não colocarmos o nosso coração nas possessões terrenas e nas
honrarias mundanas. Ele, assim, oferece o ambiente onde pode-
mos verdadeiramente amar e perdoar sinceramente os que são
mais bem-sucedidos que nós, ou os que têm se oposto a nós em
sua busca. “Não sejam orgulhosos, mas estejam dispostos a as-
sociar-se a pessoas de posição inferior” (Romanos 12.6). Como
levarmos a sério este e outros trechos das Escrituras se formos
hostis a qualquer um que tenha contribuído para a nossa frus-
tração?
O verdadeiro cristianismo também nos ensina a termos a
estima humana em alta conta. Com isso, Ele oferece, em prol
da prática de seu mandamento, o “amarmos de coração” aos que
possam justa ou injustamente atacar nossa reputação e denegrir
nosso caráter. Ele ordena não a aparência, mas a realidade da
humildade e da mansidão. Assim, retirando a fonte da ira e a
origem da discórdia, ele colabora com a manutenção da paz e a
120 CRISTIANISMO VERDADEIRO

restauração do entendimento entre os homens quando o mes-


mo tiver sido rompido temporariamente.
Trata-se de outra excelência básica do verdadeiro cristia-
nismo o fato de valorizar os dotes morais muito mais que as
conquistas intelectuais. Ele se propõe conduzir seus seguidores
às alturas da virtude, mais do que do conhecimento.
Por outro lado, a maioria dos sistemas falsos de religião,
os quais têm prevalecido no mundo, se propõem recompensar o
trabalho intelectual de seus adeptos. Ao colocar de lado o véu
que oculta o conhecimento esotérico e os mistérios escondidos,
esses sistemas se propõem iniciar seus seguidores em suas dou-
trinas sagradas.
Em sistemas que procedem a partir desse princípio, é ób-
vio que grande parte da humanidade não poderia jamais conhe-
cê-los a fundo. Havia, portanto, entre as nações da antiguidade,
um sistema para os iniciados e outro para os ignorantes. Um
procedimento oposto se observa no cristianismo. Sem distinção,
ele professa um respeito uniforme por todos os seres humanos, e
sua mensagem é caracterizada como “boas novas aos pobres”.
A preferência do cristianismo pela excelência moral aci-
ma da intelectual é parte da verdadeira sabedoria. É possível
exceder onde possamos verdadeiramente obter excelência. Pois
quão limitado é o alcance das mais altas habilidades intelec-
tuais! Quão escassos são os estoques das mais ricas formas de
conhecimento humano! A experiência diária nos dá exemplos
de fraqueza, miopia e erros (até mesmo entre os homens mais
sábios e instruídos!) que poderiam servir para confundir o orgu-
lho da sabedoria humana.
O mesmo não ocorre com a moralidade. Feitos primeira-
mente à semelhança de Deus – e ainda carregando alguns dos
traços tímidos de nossa origem gloriosa – recebemos de nosso
bendito Redentor os meios para nos purificarmos das corrupções
e mais uma vez adquirirmos a imagem de nosso Pai celestial. No
amor (que se trata do compêndio de quase todas as virtudes), na
A EXCELÊNCIA DO VERDADEIRO CRISTIANISMO 121

constância, na justiça, na humildade e em todas as outras graças


do caráter cristão, Deus nos capacita a atingirmos as alturas da
mais verdadeira santidade. Se fôssemos fiéis aos meios de graça
com a atuação pronta e o apoio do Espírito Santo em nossas
iniciativas diligentes, nossas obras seriam coroadas de sucesso.
No entanto, não é este o propósito deste livro, tentar
descrever as excelências do cristianismo, embora cada exemplo
dele seja uma nova prova de que se trata de uma revelação de
Deus.
Muito menos é intento do escritor tentar defender a ori-
gem divina de nossa fé. Cristãos têm colecionado uma grande
variedade de evidências que provam o cristianismo. Há provas a
partir de profecias, milagres, do caráter de Cristo, de Seus após-
tolos, da natureza das doutrinas do cristianismo, da natureza e
excelência de seus preceitos práticos e da harmonia que já des-
tacamos entre os sistemas doutrinários e práticos do cristianis-
mo.
Tudo isso, bem como outros tipos de evidências internas
(a partir de escritores contemporâneos, ou do predomínio ini-
cial e generalizado do cristianismo), e outras linhas de argu-
mento possuem lastro, em grau maior ou menor. Mas, acima de
tudo, o leitor deve ponderar acerca da diferença entre as bases
do cristianismo comparadas a todos os outros sistemas religiosos
propostos ao mundo.
Capítulo VI

Uma breve averiguação sobre a


situação atual do cristianismo

A té aqui temos nos concentrado nas opiniões predo-


minantes dos cristãos professos. Estendamos agora
nossa averiguação sobre a atual situação do cristianismo neste
país.
A religião em geral tem tido a tendência de promover o
bem estar temporal das comunidades políticas. Isto tem sido
imposto de maneira forçada sobre a mente do homem por toda
a história. Muitos têm argumentado acerca dos méritos e demé-
ritos dessa conexão entre religião e política. Alguns têm tido a
propensão de exagerar nos méritos.
Se a religião deve estar atrelada à política, então os temo-
res acerca do futuro do cristianismo são maiores, uma vez que a
religião tem estado em declínio entre nós. E continua a declinar
no presente momento.
Propomos comparar a situação da religião neste país com
as condições anteriores das questões religiosas. Mas há uma ob-
servação preliminar que precisamos fazer.
Há – estabelecido por consentimento tácito – em todos
os países, um padrão ou consenso geral de moralidade. Ele varia,
na mesma comunidade, em diferentes períodos, e difere também
nos vários setores da comunidade. Sempre que esse padrão de-
124 CRISTIANISMO VERDADEIRO

cresce (e também, muito freqüentemente, sempre que se eleva


bem alto), ofendendo a norma da sociedade, ele sofre de acordo
com a opinião pública.
Desse modo, um respeito pelo caráter, que é normalmen-
te o princípio dominante entre os homens, torna-se até certo
ponto – embora não muito distante – um estímulo à moralidade
e à virtude. Seria de se esperar que a prática se elevasse acima
da norma exigida. Se não se elevar, segue-se que não haverá
evidência suficiente da existência (muito menos um meio de
estimá-la) de um princípio vital de religião. Pessoas de dez mil
tipos diferentes de paixões e opiniões, quando membros de uma
mesma comunidade, regularão sua conduta e ajustarão seu com-
portamento ao padrão geral esperado.
Note também que as causas que determinam a elevação
ou a queda do padrão o fazem quase sempre de maneira lenta e
quase imperceptível.
Ninguém questionará que o cristianismo, sempre que pre-
valeceu, elevou o padrão geral de moralidade a um patamar até
então desconhecido. Alguns comportamentos, raramente con-
siderados como manchas de caráter nos mais queridos líderes do
mundo antigo, são reconhecidos hoje pelas leis de todas as comu-
nidades cristãs como merecedores das mais severas punições.
Em outras instâncias, virtudes anteriormente considera-
das raras se tornaram comuns. Um temperamento especifica-
mente misericordioso e cortês tem abrandado as maneiras rudes
e humanizado a crueldade brutal que prevalece entre as nações
mais refinadas do mundo pagão. É possível também observar
que, uma vez produzidos pelo cristianismo, esses efeitos se mos-
tram de igual modo nos que negam e nos que aceitam sua ori-
gem divina. Assim, ao investigar a verdadeira situação do cris-
tianismo em qualquer época, devemos ser cuidadosos para não
deixar que aparências superficiais nos confundam.
Algo de valia será aprender acerca do avanço ou declínio
da situação do cristianismo na Grã-Bretanha até o presente mo-
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 125

mento. Pode ser ainda mais valioso descobrir algumas das cau-
sas em questão, a fim de observar como as circunstâncias o afe-
tam. A experiência garante – e a razão justifica e explica – que
a perseguição geralmente tende a despertar o vigor e estender
o predomínio da opinião que ela busca destruir. “A máquina
maligna da perseguição ricocheteia sobre si mesma”.
O cristianismo, particularmente, tem sempre crescido sob
perseguição, uma vez que, em tempos assim, não há lugar para
adeptos mornos. O cristão é então lembrado de que o reino de
seu Mestre não é deste mundo. Quando tudo sobre a terra es-
curece, ele olha para o céu em busca de consolo. E então vê a
si mesmo como um peregrino e um estrangeiro. Pois é na hora
da morte que ele examinará bem suas bases e se agarrará a seus
fundamentos.
Mas quando a religião está em uma situação de quietude
e prosperidade, o efeito oposto tende a tomar lugar. Os soldados
da igreja militante têm então a tendência de esquecer que estão
em guerra. Seu ardor afrouxa e seu zelo definha. John Owen
fez uma comparação apropriada: a religião, em uma situação de
prosperidade, é como uma colônia há muito estabelecida em
um país estrangeiro. Ela passa a ser assimilada em suas caracte-
rísticas, comportamento e língua pelos habitantes nativos até
que todos os vestígios de sua distinção tenham desaparecido.
Se esses princípios gerais acerca dos efeitos da persegui-
ção e da prosperidade forem verdadeiros, sabemos então o que
esperar da situação do cristianismo em nosso país. Pois ele tem
estado, por um longo tempo, incorporado a um contexto que
está intimamente misturado a nossas instituições civis. As pes-
soas em geral simplesmente crêem que ele possui um interesse
comum a todas elas. A religião teve permissão para “exaltar sua
fronte mitral em fóruns e parlamentos”.
Ela é como um estabelecimento cujos escritórios são extre-
mamente numerosos. Ao contrário do sacerdócio judaico ou dos
brâmanes entre os hindus (uma casta de sucessão hereditária),
126 CRISTIANISMO VERDADEIRO

o sacerdócio cristão é formado por todas as classes da sociedade


e é representativo de quase todas as famílias. Ao contrário do
clero da igreja católica, que é privado pelo celibato de estabele-
cer laços matrimoniais, ou da tradição de isolamento das ordens
monásticas mais rígidas, os ministros cristãos têm permissão de
se misturar sem restrição na sociedade.
Admita-se também que o cristianismo não encontre des-
vantagens no que diz respeito ao avanço em todas as artes e
ciências, que são marca indelével de uma sociedade altamente
instruída.
Se essas são as circunstâncias dos parceiros de Cristo, o
destino da comunidade em geral é o de uma prosperidade co-
mercial rápida e crescente. Não é, portanto, difícil antever os
prováveis efeitos que essa situação próspera terá na religião vi-
tal, tanto no clero quanto no laicato.
Além disso, esses esforços são ainda mais destacados quan-
do o país em questão desfruta de uma constituição estatal livre.
Nós já tivemos oportunidade de destacar que uma situação de
moralidade frouxa normalmente prevalece mais entre as cama-
das mais altas da sociedade do que entre as classes médias ou
inferiores. Mas quando as classes médias progridem diariamente
em riqueza e substância, podemos esperar que essa frouxidão na
moralidade se amplie.
A multiplicação das grandes cidades e o luxo nelas en-
contrado também contribuem para o declínio da moralidade.
É preciso confessar que o espírito mercantilista não favorece a
manutenção do espírito religioso em uma situação vigorosa e
ativa.
Em tempos assim, os preceitos rígidos e os hábitos de au-
tonegação do cristianismo caíram naturalmente em desuso. Até
mesmo os cristãos mais sérios provavelmente se tornarão maleá-
veis e menos resistentes ao espírito predominante de relaxamen-
to e indulgência. Em circunstâncias de prosperidade como essas,
os homens ficam de fato propensos a pensar pouco em religião.
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 127

O cristianismo, portanto, raramente ocupa a atenção dos


cristãos nominais. Assim, podemos esperar que sejam ignoran-
tes também acerca de suas doutrinas. Eles estarão familiarizados
somente com aqueles preceitos e princípios que a lei do país
normalmente mantém ou ratifica. Mas seja lá o que for ímpar
no verdadeiro cristianismo e deva ser constantemente cultiva-
do na mente, esses homens considerarão cada vez menos, até
que seja totalmente esquecido.
Além disso, o cristianismo perde espaço quando aqueles
elementos que são incompatíveis por natureza com ele, tais
como o orgulho, a lascívia, e a mentalidade mundana (as con-
dições gerais que acompanham o dinheiro fácil), têm permissão
de crescer. Esse declínio se intensifica ainda mais, especialmen-
te entre os leigos, se estiver sujeitos aos abusos da hipocrisia ou
do fanatismo entre alguns clérigos.
Quando um suposto reformador enxerga esses desvios e
busca corrigi-los, pode ser bem-sucedido por um tempo. Mas,
por sua vez, pode desviar-se para a direção oposta, e causar des-
gosto por conta de sua violência, sua vulgaridade ou seu com-
portamento absurdo.
A despeito de todas essas fraquezas, o caráter divino e ori-
ginal do cristianismo ainda deve ser sustentado. Às vezes, aqueles
que são sinceros com relação a ele o sustentam. Ou ele talvez seja
sustentado por conta de uma deferência política à fé estabeleci-
da. No entanto, na maioria das vezes, o caráter do cristianismo
é sustentado por aqueles que simplesmente não estão prepara-
dos para considerá-lo um impostor. Alguns constatam a verdade
desse último ponto a partir de sua visão das Escrituras. Alguns
espíritos mais ousados podem dizer com sinceridade que a Bíblia
é uma ficção. A maioria, porém, pode simplesmente professá-
la como sendo genuína, mas o faz sem consistência e se satisfaz
em permanecer ignorante acerca de seu conteúdo. No entanto,
quando pressionadas, essas pessoas podem se descobrir inaptas a
aceitar os aspectos mais importantes da verdade nela contida.
128 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Quando questões como essas se desenvolvem, a maioria


das pessoas encontrará pouco ou nenhum sentido na religião.
Assim, o tempo se aproxima rapidamente quando o cristianis-
mo será quase tão negado na linguagem quanto já o é na con-
duta das pessoas. A descrença então será considerada acessório
necessário da moda de um homem, e o crer será considerado
indicação de uma mente fraca e de uma inteligência limitada.
A verdadeira situação do cristianismo neste país é seme-
lhante à que supomos acima. Deus está esquecido. Sua provi-
dência não tem mistério. Não enxergamos a mão de Deus. E
embora ele multiplique Suas consolações para conosco, não
somos agradecidos. Ele nos visita com punições, mas não nos
deixamos ser quebrantados.
O dia da semana separado para a prática da religião che-
ga, e abrimos mão dele, sem qualquer relutância, em prol da
vaidade e da autogratificação. Se nos arrependemos em um dia
nacional de contrição, somente usamos isso como uma pausa
para os negócios e com propósitos festivos. Insultamos, desse
modo, a Majestade do Céu, e deliberadamente nos ausentamos
dos cultos solenes dessa estação de penitência e recolhimento.
Enquanto avançamos em todos os campos do conheci-
mento, ao mesmo tempo nos tornamos cada vez menos familia-
rizados com o cristianismo. Os capítulos anteriores mostraram a
deplorável ignorância religiosa de muitos de nós que acreditam
ser cristãos ortodoxos. Muitos têm a tendência de pensar nele
como um mero sistema ético, ao mesmo tempo em que possuem
a idéia mais inadequada possível acerca da natureza e da serie-
dade de seus princípios práticos.
A Inglaterra produziu esse declínio do cristianismo, redu-
zindo-o a um mero sistema ético, por uma razão em particular
– sua história de teologia. O cristianismo teve seus melhores
dias na época dos grandes reformadores. Alguns deles sofreram
martírio sob o reinado da Rainha Maria, e seus sucessores no
reinado da Rainha Elizabeth. Entre esses pilares da igreja Pro-
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 129

testante podemos citar John Davenant, o Bispo John Jewel, o


Bispo Joseph Hall, John Reynolds, Thomas Hooker, Lancelot
Andrewes, Henry Smith, o Arcebispo Baxter e muitos outros
não menos importantes. Seus escritos evidenciam as principais
doutrinas do cristianismo. Sobre a base sólida e profunda dessas
verdades doutrinárias, eles lançaram os fundamentos da mora-
lidade, proporcionalmente ampliada e exaltada. [Aqui Wilber-
force destaca seu mais profundo e genuíno respeito por Richard
Baxter, cujas obras práticas são um receptáculo de sabedoria
cristã].
Mas, mesmo antes da Guerra Civil, as grandes verdades
fundamentais sustentadas por esses homens começaram a ter
menos destaque nos escritos de outros teólogos. Durante aquele
período, muitas seitas abusaram de modo ofensivo das doutrinas
principais do cristianismo. Fizeram do nome de cristão um com-
pleto escândalo. [Wilberforce, no entanto, novamente cita que
havia muitas exceções, notadamente os puritanos como Owen,
Howe e Flavel, bem como Doddridge e Witherspoon, de Prin-
ceton].
Próximo do fim do século dezessete, os teólogos da igreja
estabelecida começaram a incorrer em um erro diferente. Eles
professavam ter como objetivo final implantar em seu povo os
preceitos morais e práticos do cristianismo, os quais, argumen-
tavam, haviam sido negligenciados. Mas assim o faziam sem sus-
tentar fundamentos teológicos suficientes para a aceitação do
pecador diante de Deus, ou sem demonstrar como os preceitos
práticos do cristianismo são fruto de suas doutrinas principais e
estão inseparavelmente ligados a elas.
Com esse erro fatal, a natureza essencial e a divindade
do cristianismo mudaram imperceptivelmente. Desse modo, o
cristianismo não mais retinha suas características distintas nem
produzia aquele espírito apropriado que havia caracterizado seus
seguidores. O exemplo estabelecido continuou até o presente
século.
130 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Nos últimos anos, a imprensa tem estado repleta de textos


sobre moral, muitos dos quais foram publicados periodicamen-
te. Esses textos tiveram ampla circulação, uma vez que acompa-
nhavam a literatura religiosa do momento, que havia perdido
as características do cristianismo. Desse modo, o hábito fatal de
considerar a moralidade cristã como algo distinto das doutrinas
cristãs tem ganhado força sutilmente.
Por fim, em nossos próprios dias, as doutrinas absolutas do
cristianismo quase desapareceram do cenário. Até mesmo na
maioria dos sermões de hoje, é raro encontrar sequer um traço
de doutrina bíblica.
Outro indicador do declínio da verdadeira religião é o
caráter dos romances. Eles, também, refletem a posição pouco
honrosa da religião em nosso país. Ao menos em sermões, o
pregador tem de adaptar sua pregação a um formato litúrgico
que nos lembra nossa fé, mesmo se o conteúdo dos sermões for
vazio. Mas nos romances, o escritor não está tão preso. Neles, o
autor coloca pessoas religiosas e clérigos na berlinda; elas pos-
suem práticas dignas de ensino, censura, conselho e consolo.
Embora retratadas como amáveis, benevolentes e perdoadoras,
as características que distinguem o cristianismo, contudo, para
todos os propósitos práticos, podem nunca haver existido.
De fato, muitos dos homens de letras mais eminentes em
tempos modernos têm se declarado incrédulos. Outros são indi-
ferentes à causa de Cristo, e tratam com especial boa vontade,
atenção e respeito os que publicam obras contra o cristianis-
mo, obras que atacam abertamente ou minam insidiosamente
os fundamentos da esperança cristã. [Aqui Wilberforce se refere
a David Hume como um dos mais agudos e extremados desses
incrédulos professos].
A lição da França, antes e depois da revolução, deveria ser
estudada. Ali, muitas das mesmas causas continuam presentes.
Elas produziram, depois de algum tempo, seu efeito pleno: com-
portamentos corrompidos, moralidade depravada, a predomi-
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 131

nância da busca pelo prazer e, acima de tudo, a religião desacre-


ditada. A incredulidade cresceu, resultando na rejeição pública
a todo princípio religioso. Representantes da nação inteira têm
testemunhado publicamente, sem a mais leve desaprovação,
uma negação explícita e absoluta à existência de Deus.
Há um grande número de pessoas que, embora preocupa-
das com o declínio gradual da religião, crêem que este escritor
tem a tendência de levar as coisas a sério demais. Elas dizem
que o nível de religião pelo qual ele luta é inconsistente com a
luta pelos negócios corriqueiros da vida e pelo bem comum da
sociedade. Se a opinião dele prevalecesse, as pessoas seriam to-
talmente absorvidas pela religião e gastariam todo o seu tempo
em oração e pregando! William Paley, em seu livro View of the
Evidences of Christianity (Visão das Evidências do Cristianismo),
argumenta dessa maneira.
A verdadeira questão é ainda se a nossa imagem daquilo
que o cristianismo exige é consistente com a Palavra de Deus
ou não. Se for, então é por certo insignificante sacrificar um pe-
queno conforto mundano e a prosperidade no curto período de
nossa existência nesta vida, a fim de assegurar uma coroa de gló-
ria eterna e o desfrute daqueles prazeres que estão à mão direita
de Deus para sempre. Acrescente-se a isso que nosso bendito
Salvador nos advertiu que quase sempre seria exigido de nós um
sacrifício. Ele nos exortou, portanto, a abrirmos mão de nossas
possessões e prazeres terrenos.
Mesmo que o predomínio geral do cristianismo vital in-
fluenciasse os interesses da riqueza nacional, essa participação
da fé seria uma realidade improvável. Se, de fato, o cristianismo
verdadeiro viesse a prevalecer, o mundo se tornaria um lugar
melhor, de paz generalizada, prosperidade e alegria.
Com a primeira proclamação do Evangelho, é verdade
que alguns dos primeiros convertidos estiveram sob o risco de
negligenciar suas tarefas diárias. Mas o apóstolo enfaticamente
os guardou de tal erro e repetidamente os estimulou a cumprir
132 CRISTIANISMO VERDADEIRO

suas obrigações rotineiras com crescente disposição e fidelidade.


Desse modo, eles puderam dar crédito à sua fé cristã. Ao mes-
mo tempo, o apóstolo lhes prescreveu a importância do amor a
Deus e a Cristo, de uma mente voltada para o céu, da indife-
rença comparativa às coisas deste mundo, do empenho intenso
para crescer na graça e aperfeiçoar-se na santidade – coisas que
já declarei serem características essenciais do verdadeiro cris-
tianismo. Aqueles que reconhecem a consistência do ensino do
apóstolo e que admitem sua autoridade divina devem admitir
que tais preceitos não são incompatíveis com aquele que os di-
vulga.
É importante lembrar que a grande marca característica
do verdadeiro cristão é o seu desejo de agradar a Deus em todos
os seus pensamentos, palavras e ações. Isto quer dizer ter a Pa-
lavra revelada como regra de fé e prática, de modo que “brilhe
a luz de vocês diante dos homens” (Mateus 5.16). Significa em
todas as coisas honrar a doutrina professada. Nenhum chamado
é repreendido, nenhuma carreira é proibida, nenhuma ciência
ou arte é reprimida, nenhum prazer é recusado – desde que pos-
sa estar conciliado com esse princípio.
O cristianismo, no entanto, não favorece o ardor vee-
mente e desordenado da busca por coisas temporais, que pro-
gride na direção da aquisição de grande riqueza ou do renome
generalizado. O verdadeiro cristianismo não se propõe premiar
as visões extravagantes daqueles políticos equivocados cujo in-
teresse primordial por seu país é o de ampliar seus domínios, ter
o poder principal, uma influência incomparável, ao contrário
das mais sólidas vantagens da paz, do conforto e da segurança.
Esses homens trocariam conforto por grandeza. Em seus vãos
devaneios, eles esquecem que a nação consiste de indivíduos, e
que a verdadeira prosperidade nacional não é outra coisa senão
a multiplicação da felicidade pessoal.
De fato, ao invés de ser verdade que a predominância da
verdadeira religião produz uma estagnação de vida, a verdade é
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 133

que ela produz o reverso. Um homem receberia nova motivação


para levar adiante sua vocação com vigor, seja qual fosse seu
emprego ou carreira. Seria uma motivação mais consistente e
dinâmica que qualquer outra que ele teria em perspectivas me-
ramente humanas. Seu interesse maior não seria tanto o de ser
bem sucedido, mas o de ter uma vida dirigida por Deus. Assim,
ele não estaria susceptível às mesmas decepções dos homens
que estão empenhados no trabalho em busca de ganho e fama
mundanos. E desse modo ele possuiria o verdadeiro segredo de
uma vida útil e feliz.
Buscando a paz com todos os homens e olhando para eles
como membros da mesma família, com direito à justiça e à bon-
dade fraterna, ele seria respeitado e amado por outros. Estaria
livre da perturbação das paixões ruins que são ativadas pelos
princípios mundanos e são tão comumente corrosivas. Se ho-
mens assim povoassem qualquer país, cada um deles cumprindo
suas tarefas relacionadas ao seu lugar na sociedade, sem usurpar
os direitos de outros, então todo o mundo na verdade estaria
ativo e harmonioso na família humana.
Tal deveria ser o estado feliz de uma nação verdadeira-
mente cristã. Esta comunidade, apaziguada em casa, seria res-
peitada e amada fora. A integridade como um todo, em todas as
suas relações, inspiraria a confiança universal.
As diferenças entre as nações normalmente surgem a par-
tir de agressões mútuas e da inveja e desconfiança recíprocas.
Acerca das agressões, não haveria mais espaço para reclama-
ções. Quanto à inveja e à desconfiança, não haveria razão para
ataques mútuos. Se a violência de algum estado vizinho forças-
se essa comunidade pacífica a resistir a um ataque provocado
(ações estritamente defensivas, causadas por hostilidades nas
quais estivesse envolvida), sua unidade doméstica dobraria seu
poder nacional.
Devemos reconhecer que muitos dos bons efeitos que
a verdadeira religião produz nas sociedades políticas seriam
134 CRISTIANISMO VERDADEIRO

produzidos até mesmo pela falsa religião – se a falsa religião


recomendasse o bom comportamento moral e efetivamente o
apoiasse. Mas a superioridade do cristianismo é observada por
meio do reconhecimento da excelência de seu código moral, da
motivação poderosa e dos meios eficazes que ele fornece, a fim
de capacitar-nos a praticá-lo. Além disso, suas doutrinas auxi-
liam no reforço de suas práticas por meio da produção de uma
atitude que corresponda a elas.
Se então o cristianismo está intrinsecamente apto a pro-
mover a preservação e a saúde das comunidades políticas por
meio de seu caráter e poder, qual é o grande fator de desordem
das nações? A resposta é curta. Egoísmo.
A doença do egoísmo assume diferentes formas em di-
ferentes classes sociais. Entre os grandes e ricos, ela se mostra
na luxúria, na pompa, na ostentação e em todas as frivolidades
de uma imaginação doentia e depravada. Tal imaginação busca
em vão por sua própria gratificação, e está morta a uma busca
generosa e vigorosa por um coração mais aberto. Nas classes
inferiores, onde não está imóvel sob o peso do despotismo, ela
se manifesta por meio do orgulho e da insubordinação.
Embora os efeitos externos possam variar, o princípio in-
terno é o mesmo. É o despotismo em cada um que faz do eu o
grande centro e fim de seus desejos e prazeres. É a tendência
de sobrevalorizar seus próprios méritos e importância, e, é cla-
ro, superestimar seus direitos sobre outros e menosprezar os de
outros sobre si. É a disposição para desvalorizar as vantagens e
supervalorizar as desvantagens de sua condição de vida. O opos-
to do egoísmo é o espírito público. Este é o grande princípio da
vida pública – o fôlego de vida do estado – que a mantém ativa
e vigorosa e que a conduz à verdadeira grandeza e glória.
É importante notar o quanto o cristianismo, em todos os
sentidos, se coloca em oposição direta ao egoísmo. Conseqüen-
temente, o bem estar público deve manter-se inseparável de sua
predominância. Pode-se dizer praticamente que o principal ob-
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 135

jetivo, o interesse primordial do verdadeiro cristianismo é o de


extirpar nosso egoísmo natural e corrigir o falso padrão que ele
impõe sobre nós. O cristianismo busca levar-nos a uma análise
justa acerca de nós mesmos e de todos ao nosso redor. Ele tam-
bém nos dá a consciência das várias exigências e obrigações que
são resultado das relações distintas nas quais estamos.
Benevolência ampliada, vigorosa e operosa é seu princí-
pio mais importante.
Elas estão entre as lições diárias do cristianismo: modera-
ção nas buscas e compromissos temporais; indiferença compara-
tiva à questão dos projetos terrenos; diligência no cumprimento
das obrigações civis pessoais, resignação à vontade de Deus e
paciência sob todas as dispensações da providência divina.
A humildade é uma das qualidades essenciais que todas
as doutrinas têm a tendência de gerar e cultivar. Na verdade, a
humildade é a base mais profunda e firme para a benevolência.
Ela ensina a abundância a ser liberal e benevolente. En-
sina a autoridade a desenvolver suas faculdades com paciência
e a considerar os muitos cuidados e obrigações concernentes à
autoridade como sendo condições sobre as quais esse status é
conferido. A humildade, desse modo, suaviza o brilho intenso
da riqueza, modera a insolência do poder e torna as inadequa-
ções da ordem social menos desagradáveis.
Ela ensina os desprivilegiados a serem mais diligentes, hu-
mildes e pacientes. Ela lhes lembra que sua trajetória inferior foi
concedida a eles pela mão de Deus. E que é sua parte cumprir
fielmente suas tarefas e suportar com alegria as inconveniências
de sua jornada. Finalmente, ela ensina que todas as diferenças
humanas em breve desaparecerão. E os verdadeiros seguidores
de Cristo irão, todos, como filhos do mesmo Pai, ser admitidos
para tomar posse da mesma herança celestial.
Mas o cristianismo que pode produzir efeitos como esses
deve ser verdadeiro, e não nominal; profundo, e não superficial.
Esta é, portanto, a religião que deveríamos cultivar se percebês-
136 CRISTIANISMO VERDADEIRO

semos essas agradáveis especulações e detivéssemos o progresso


da decadência política.
Nas circunstâncias presentes deste país (novamente en-
xergando-o de um ponto de vista político), a menos que haja
uma predominância do cristianismo em algum grau, nós prova-
velmente perderemos todas as vantagens das quais nos bene-
ficiamos por causa do cristianismo no passado. Mas isso não é
tudo. Também incorreremos nas mesmas maldades que resultam
da ausência de religião.
Uma religião de princípios fracos, embora politicamente
vantajosa, mal consegue sustentar a condição de nossa sociedade.
Uma religião como a de nossos antepassados poderia ter direito a
alguma reverência. Mas, em nossos dias, nota-se não somente um
preconceito cego para com o passado; até mesmo o respeito “pró-
prio” pelo passado desapareceu. E este preconceito não possui o
poder permanente de sustentar uma nação. Pois um sistema, se
não é sustentado pela real persuasão de sua verdade, virá abaixo.
Assim, a menos que reforcemos nas mentes que compõem
a nossa sociedade algo desse princípio original que deu vida ao
sistema de nossa igreja no passado, é inútil para nós esperar que
a ordem social estabelecida continue por muito mais tempo. Na
mesma proporção em que o cristianismo vital puder ser revivi-
do, a ordem social da igreja será fortalecida.
Como uma religião árida e inanimada, a exemplo da re-
ligião professada hoje por cristãos nominais, pode manter o seu
lugar? Além disso, como poderia despertar a grande massa que
é a humanidade?
A religião conhece pouco acerca da natureza humana.
O tipo de religião que temos recomendado deve ao menos ser
aquele que, acima de tudo, adaptou-se, a fim de causar uma boa
impressão sobre as classes mais desfavorecidas de nossa socieda-
de. Caso um sistema ético pudesse regular a conduta das classes
mais altas, tal sistema seria completamente inadequado se apli-
cado às classes menos favorecidas.
UMA BREVE AVERIGUAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO CRISTIANISMO 137

Mas, bendito seja Deus, a verdadeira religião que reco-


mendamos provou sua consistência com o caráter original do
cristianismo, a saber, sua preocupação com o pobre. E tem pro-
vado ser assim ao mudar toda a condição da massa em muitos
dos bairros mais populosos deste e de outros países.
O que então deveríamos fazer? A averiguação é de extre-
ma importância, e a resposta geral a isso não é difícil. As causas
e a natureza da decadência da religião e da moralidade entre
nós indicam de modo suficiente o curso da ação que cabe a nós
tomar a fim de perseguir o patamar mais elevado.
Devemos considerar o destempero, do qual estamos can-
sados enquanto comunidade, como uma desordem de natureza
moral, ao contrário de política. Todo esforço deveria ser fei-
to no sentido de erguer o baixo nível da moralidade pública.
Trata-se de uma tarefa de todos os que possuem uma condição
de vida melhor. Mas todas as pessoas com posição, riqueza e
habilidades deveriam empenhar-se por exibir um exemplo se-
melhante e recomendá-lo como imitação em seu círculo de re-
lacionamentos.
Colocados em uma determinada posição como estamos
agora, é mais que nunca óbvio que o melhor homem seja o mais
fiel patriota.
Não é também por meio de suas condutas pessoais – em-
bora elas sempre sejam vitais – que os homens revestidos de
autoridade e influência conseguem promover a causa das boas
obras. Que eles, seja qual for o seu papel na sociedade, encora-
jem a virtude e desencorajem o vício. Que dêem força às leis
que, pela sabedoria de nossos antepassados, têm resistido às in-
frações insaciáveis da moralidade. Que apóiem e tomem parte
em quaisquer planos que possam ser elaborados a fim de forta-
lecer os valores morais. Acima de todas as coisas, que eles se
empenhem em instruir e melhorar a próxima geração.
Mas infrutíferas serão todas as tentativas de sustentar, e,
ainda mais inúteis, de reviver a causa abalada da moralidade, a
138 CRISTIANISMO VERDADEIRO

menos que você possa de algum modo restaurar a predominân-


cia do cristianismo evangélico.
A tarefa de encorajar a religião vital na igreja é de to-
dos os que tenham a disposição de participar dos compromissos
eclesiásticos, e, mais especialmente, dos líderes na igreja.
Alguns já acionaram o alarme. Eles já, de maneira justa,
censuraram a prática de permitir que o cristianismo degenere
em um mero sistema ético. Eles recomendam mais atenção às
principais doutrinas de nossa fé.
Em nossas escolas e universidades, que seja dado o en-
corajamento ao estudo dos escritos de veneráveis teólogos que
floresceram nos primórdios mais puros do cristianismo. Que um
conhecimento detalhado de suas obras seja exigido dos candi-
datos à ordenação. Que nossas igrejas não mais testemunhem
desarmonias inapropriadas – tão em voga – nas orações que pre-
cedem o sermão que vem a seguir.
Não há motivações políticas que nos estimulem a perse-
guir este curso de ações. A todos que têm no coração o bem es-
tar da nação, eu solenemente submeto as sugestões acima. Elas
não foram feitas sem desconfiança, com o temor de que dessem
a entender que o interesse da eternidade foi diluído até tornar-
se uma mera questão de vantagem temporal ou de expediente
político.
Ao contrário, que o curso de ação aqui sugerido possa ser
rigorosamente perseguido, por Deus! Que as conseqüências po-
sitivas, como resultado dos princípios que recomendamos, se
tornassem realidades, por Deus, e, acima de tudo, que a influên-
cia da verdadeira religião pudesse ser difundida em toda parte!
O melhor que alguém poderia fazer por um país é ser al-
guém profundamente ansioso por seu bem estar.
Capítulo VII

Conclusão: sugestões práticas


para um cristianismo verdadeiro

T entamos traçar os principais defeitos do sistema reli-


gioso dos que se professam cristãos neste país.
Destacamos sua idéia limitada da importância do cristianis-
mo em geral. Observamos suas concepções inadequadas das dou-
trinas principais da fé cristã e o efeito do relaxamento da rigidez
de sua moralidade. Acima de tudo, discutimos suas compreensões
equivocadas fundamentais acerca de sua singularidade e natureza.
Portanto, não considere a diferença entre eles e os verda-
deiros cristãos como insignificante, como se fosse meramente
uma questão de forma e opinião. O problema está no cerne da
religião. A diferença é da mais extrema seriedade. Devemos er-
guer a voz e falar.
O cristianismo deles não é cristianismo.
Ele carece do princípio radical do verdadeiro cristianis-
mo. Ele é defeituoso em todos os seus principais elementos
constituintes. Que eles então não sejam mais enganados. Que
se voltem em oração para Ele, Fonte de toda a sabedoria, a fim
de que ilumine seus entendimentos e preserve seus corações do
preconceito. Que eles examinem seriamente, nas Escrituras, sua
real crença e sua prática permitida. Eles então se tornarão cons-
cientes do quão superficial e insuficiente é o seu sistema.
140 CRISTIANISMO VERDADEIRO

I. Sugestões práticas para evitar o auto-engano

Se alguém se dispuser à importante tarefa do auto-exame,


deixe-me adverti-lo de nossa inclinação natural a pensar muito
favoravelmente acerca de nós mesmos. O egoísmo é um dos
principais frutos da corrupção da natureza humana. É óbvio que
o egoísmo nos predispõe a supervalorizar nossas boas qualidades
e a relevar os nossos defeitos.
Ao admitir a corrupção da natureza humana, sabemos que
precisamos fazer concessões aos efeitos do egoísmo.
Outros efeitos de corrupção da natureza humana são o
enfraquecimento de nossa visão moral e o enfraquecimento de
nossa sensibilidade moral. Estes também, devemos admitir, têm
efeito sobre nós. Não há praticamente dúvida alguma de que
a pureza perfeita do Ser Supremo faz com que Ele veja em nós
manchas – muito maiores em número e profundas em variedade
que possamos descobrir.
Não deveríamos então esquecer de outra terrível consi-
deração. Pois somos propensos a ver somente aquelas coisas nas
quais tropeçamos recentemente, e relevar erros cometidos tem-
pos atrás. Se recentes, sentimos um profundo remorso por tais
pecados e vícios. Mas, após meses ou anos, eles deixam apenas
traços muito indefinidos em nossa memória.
Para Deus, no entanto, devemos crer que não há passado
ou futuro. Qualquer coisa que pudesse ter sido ou tenha sido,
ambas estão retidas por ele em contemplação constante e in-
variável. Isto deve nos manter humildes diante dos olhos “tão
puros que não suportam ver o mal” (Habacuque 1.13), a fim de
que nos lembremos da necessidade de arrependimento.
Sem verdadeiro arrependimento e uma fé viva, todos pas-
saremos pela vida cobertos por nossos pecados, pecados em toda
a sua profundidade de cores e com todos os agravantes das quais
particularmente não conseguimos mais lembrar. No entanto,
sabemos que eles já nos encheram de vergonha e de confusão.
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
141
CRISTIANISMO VERDADEIRO

O autor está particularmente ansioso por reiterar esta reflexão,


uma vez que, em sua própria experiência, não encontrou nada
mais eficaz para produzir dentro de sua própria alma o mais pro-
fundo sentimento de humilhação.
Deveríamos também notar outras fontes de auto-engano:
por exemplo, as falsas idéias que formamos de nossa religião e
do caráter moral. As opiniões favoráveis que outros possam ter
a nosso respeito podem iludir a muitos de nós. Muitos, também,
e isso é de se temer, confundem um zelo ardente pela ortodoxia
com a aceitação sincera das grandes verdades do Evangelho.
Quase todos nós, em um momento ou em outro, também
ficamos iludidos ao confundir as sugestões do nosso entendi-
mento com os impulsos da vontade. Desse modo, confundimos
a aprovação que o nosso julgamento possa dar às verdades reli-
giosas e morais com uma crença e um apoio exuberantes a elas.
Outra fonte freqüente de auto-engano é a observação de
certos vícios, bem como certas qualidades boas e amigáveis,
como pertencentes a certos períodos e condições da vida. Se
realmente enxergássemos nosso caráter moral como ele de fato
é, deveríamos nos examinar com referência àquele pecado em
particular “que nos envolve” (Hebreus 12.1).
Não deveríamos concentrar nossa atenção em nenhum
outro pecado ao qual não estejamos tão vulneráveis. Do mesmo
modo, não deveríamos dar valor excessivo a nenhuma qualida-
de boa e cordial que naturalmente pertença a nossa cultura e
época. Ao contrário, deveríamos procurar por algum sinal mais
consistente de um verdadeiro princípio intrínseco de virtude.
Contudo, estamos sempre prontos a reverter esses papéis
de julgamento. Estamos aptos a desculpar o “pecado que nos en-
volve” e receber agradecimentos dos outros por nossa isenção.
Por outro lado, exageramos na estima a nossas boas qualidades
de caráter que nos são naturais. Assim, não pensamos ser neces-
sário ir mais fundo a fim de descobrir quais são as necessidades
essenciais de nosso caráter moral.
142 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Tal presunção não nos perturba, exceto quando alguma


grande transgressão que tenhamos cometido nos choque. Deve-
ríamos, na verdade, estar procurando pelas marcas positivas do
verdadeiro cristão, conforme descritas nas Santas Escrituras.
Mas a fonte do auto-engano que primeiro deveríamos
destacar é esta: uma disposição de considerar o abandono de
qualquer vício em particular como uma vitória propriamente
dita sobre o vício em si. Na verdade, nós somente o esquecemos
porque deixamos o período ou condição de vida ao qual esse
vício pertence. Provavelmente o substituiremos por outro ao
entrar em um novo período ou condição de vida. Então, inter-
pretamos erroneamente tais mudanças em nossas circunstâncias
terrenas como se fossem uma reforma geral.
Para aplicar este princípio de maneira mais prática, toma-
remos como exemplo os jovens. O jovem de determinado sexo
pode incorrer ocasionalmente em excessos de licenciosidade.
Os de outro podem se entregar à vaidade e ao prazer. Desde que
sejam de temperamento maleável e aberto e não desobedientes
a seus pais e superiores, os primeiros são considerados moços de
bom coração, e as últimas, moças inocentes.
Os que amam esses jovens não têm preocupação com seus
interesses espirituais. Ninguém duvida de que eles se tornarão
mais religiosos à medida que amadurecerem na vida. Além dis-
so, ninguém pensa que eles possam estar vivendo debaixo do
descontentamento divino. Nem vê suas vidas como que em pe-
rigo ou o seu destino futuro ameaçado.
Eles então crescem e se casam. A mesma licenciosidade
que anteriormente havia sido considerada neles como uma fra-
queza venial presume-se que seja coisa do passado. “Eles semea-
ram seus carvalhos selvagens; eles devem agora se reformar e ser
normais”. Do mesmo modo, consideramos as vaidades e diversões
frívolas do passado como desaparecidas com a maternidade.
Se eles são bondosos tanto em seu relacionamento con-
jugal quanto paternal, toleravelmente regulares e decentes com
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
143
CRISTIANISMO VERDADEIRO

outros, eles então passam por “pessoas de boa índole”. Seus co-
rações, no entanto, talvez não estejam mais supremamente cen-
trados na grande obra da salvação como haviam estado antes.
Ao contrário, sua inclinação principal está sobre suas crescen-
tes fortunas ou no sustento de suas famílias.
Enquanto isso, eles se vangloriam de ter deixado seus ví-
cios, os quais estranhamente não são mais tentados a cometer.
Por fim, a terceira idade produziu seus avanços. Agora,
mais que em qualquer outro tempo, esperaríamos que esta fosse
a ocasião para dar às coisas eternas a maior de todas as atenções.
Nada disso! Espera-se deles agora que sejam indulgentes para
com as fraquezas e tolices da juventude, lembrando que quando
foram jovens entregaram-se às mesmas práticas.
Isto se opõe radicalmente ao repúdio pelo pecado que é
por certo característica do verdadeiro cristão. Tal repulsa faz
com que olhem para seus vícios passados de seus dias de ju-
ventude com vergonha e tristeza. E então, ao invés de serem
condescendentes para com os jovens em suas selvagerias e in-
conseqüências – privilégio de sua idade e das circunstâncias (!)
– eles estão prontos a adverti-los acerca daquilo que provou ser,
para eles, matéria de amarga reflexão.
Assim, por toda a vida, consideramos vários meios de fa-
zer calar a voz da consciência, “paz, paz, dizem, quando não há
paz alguma” (Jeremias 6.14). E encontramos essa complacência
em nós mesmos e nos outros, embora ela devesse somente pro-
ceder da consciência de se estar reconciliado com Deus e da
busca humilde pela esperança de possuir Seu favor.
Eu sei que muitos irão definir esses sentimentos como in-
justos. Não me sinto desencorajado por essa avaliação.
É tempo de dar cabo dessa ladainha insensível de caridade
que insulta a verdadeira compreensão e faz calar os verdadei-
ros interesses pelo bem estar de nossos semelhantes. Quanto
remorso e amargura eles armazenam para seu tormento futuro!
Que bobos miseráveis eles são por essa caridade tão distorcida,
144 CRISTIANISMO VERDADEIRO

quando foram orientados a vigiar sobre os interesses eternos dos


filhos de suas relações! Por que ficarem enganosamente ador-
mecidos por raciocínios tão rasos? Por que serem orientados a
abandonar suas importantes tarefas pelo mero temor de que tra-
gam uma dor momentânea!
A verdadeira caridade é viva, fervente, interessada, re-
pleta de boas obras, não facilmente satisfeita, nem tão pronta
a crer que tudo está indo bem, como que seguindo o curso das
coisas. Ao contrário, ela é zelosa acerca do engano, pronta a
suspeitar do perigo e sempre disposta a ampliar o alívio. Essa
qualidade infeliz, por meio da qual o nome sagrado da caridade
é agora usurpado tão generalizada e falsamente, não é outra se-
não a indiferença.
Moças inocentes! Moços de bom coração! Onde estão a
inocência e a bondade de coração? Lembrem-se de que somos
criaturas caídas, nascidas em pecado e naturalmente deprava-
das. O cristianismo não reconhece a inocência ou a bondade do
coração, mas sim a remissão do pecado e os efeitos da operação
da graça divina.
Será que encontramos nesses jovens os comportamentos
que as Escrituras afirmam ser as únicas evidências satisfatórias
de um estado seguro? Não descobriríamos, por outro lado, as
marcas específicas do estado de alienação de Deus?
Os mais cegos de todos poderiam persuadir a si mesmos de
que estão amando e lutando por “amar a Deus de todo o seu co-
ração, de toda a sua alma e de todas as suas forças” (Deuteronô-
mio 6.5). Eles estariam buscando “em primeiro lugar o Reino de
Deus e a sua justiça”? (Mateus 6.33). Estariam desenvolvendo
sua salvação “com temor e tremor”? (Filipenses 2.12). Estariam
sendo “humildes uns para com os outros”? (I Pedro 5.5).
Eles não estariam, ao contrário, inteiramente entregues à
auto-indulgência? Não seriam, no mínimo, “amantes dos pra-
zeres do que amigos de Deus” (II Timóteo 3.4). Não estariam
os jovens cometendo pecados (e ainda mais, freqüentemente
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
145
CRISTIANISMO VERDADEIRO

desejando a oportunidade de cometer esses pecados) acerca dos


quais as Escrituras expressamente dizem “que os que praticam
essas coisas não herdarão o Reino de Deus”? (Gálatas 5.21).
Quando então a força do calor da juventude passa, qual
é sua reforma mais alardeada? Eles podem ser decentes, sóbrios,
úteis e membros respeitáveis da comunidade, ou amigáveis em
seus relacionamentos na vida doméstica. Mas seria esta a mu-
dança às quais as Escrituras se referem?
Ouçam as expressões que as Escrituras declaram e jul-
guem vocês mesmos: “Ninguém pode ver o Reino de Deus, se
não nascer de novo” (João 3.3). “(do) velho homem (que) se
corrompe por desejos enganosos” (Efésios 4.22). Esta expres-
são descreve com muita propriedade as vãs ilusões da busca de
prazeres na juventude e os falsos sonhos de felicidade que ela
inspira. Mas o “novo homem” é despertado desse falso estado
de felicidade. Ele “está sendo renovado em conhecimento, à
imagem do seu Criador” (Colossenses 3.10). Ele é “criado para
ser semelhante a Deus em justiça e santidade provenientes da
verdade” (Efésios 4.24).
A vida é um estado de provação. A provação implica re-
sistir aos apetites que nós naturalmente desejamos saciar, em
obediência aos ditames da verdadeira religião. Jovens não são
tentados a ser rudes, egoístas ou avarentos; mas são tentados a
ser inconseqüentes e indulgentes, “amantes do prazer ao invés
de amantes de Deus”.
Pessoas na meia idade não são tão fortemente tentadas a
ser inconseqüentes, preguiçosas e licenciosas. Alegremente es-
tabelecidas na vida doméstica, elas estão mais livres dessas ten-
dências. As restrições impostas pelas relações familiares e uma
noção da decência da vida de casados os ajuda nesse sentido.
Sua provação é de outro tipo. Eles são tentados a ser
supremamente monopolizados pelos cuidados terrenos, pelos
interesses familiares, pelos objetivos profissionais e pela busca
ambiciosa por riqueza. Assim ocupados, eles são tentados a
146 CRISTIANISMO VERDADEIRO

concentrar suas atenções nas coisas terrenas, a esquecer “ape-


nas uma (coisa) necessária” (Lucas 10.42), “tendo aparência
de piedade” (II Timóteo 3.5) ao invés de buscar experimentar
o seu poder.
Os fundamentos dessa religião nominal estão assim lança-
dos no esquecimento, se não na ignorância, acerca das doutri-
nas distintas do cristianismo. Esses são cristãos já prontos que,
descobrimos, consideram o cristianismo como um termo geo-
gráfico que é propriamente aplicável a todos os que nasceram e
foram educados em um país onde o cristianismo é professado.
Eles não o enxergam como indicador de uma natureza renova-
da. Nem o vêem como a expressão de um caráter distinto, com
seus desejos e aversões apropriados, suas esperanças e temores,
alegrias e tristezas.
Para pessoas assim, a solene admoestação de Cristo é en-
dereçada: “Conheço as suas obras; você tem fama de estar vivo,
mas está morto. Esteja atento! Fortaleça o que resta e que estava
para morrer, pois não achei suas obras íntegras aos olhos do meu
Deus” (Apocalipse 3.1,2).
Qualquer um disposto a escutar esta advertência solene,
que tenha despertado de seu sono de falsa segurança e esteja
disposto a ser, não quase, mas totalmente um cristão – que não
sufoque “a obra do divino Espírito”. Que ele seja atraído dessa
“larga” e populosa “estrada da destruição”, para o caminho “es-
treito” e pouco habitado “que leva à vida”. Que ele se retire do
meio da multidão. Que entre em seu quarto e de joelhos medite
e implore, em nome de Cristo, que Deus “retire dele seu coração
de pedra, e lhe dê um coração de carne”. Que ele ore para que
o Pai das luzes abra seus olhos para a sua verdadeira condição,
limpe seu coração das nuvens do preconceito e ponha para cor-
rer o instrumento enganoso do egoísmo.
E que então examine cuidadosamente sua vida passada
e seu curso presente de conduta. Que ele possa comparar-se à
Palavra de Deus e considerar como ele deveria racionalmente
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
147
CRISTIANISMO VERDADEIRO

esperar conduzir-se a si próprio – alguém para quem as Santas


Escrituras sempre estiveram abertas e que esteja acostumado
a reconhecê-las como a revelação da vontade de Deus como
Criador, Governador e Supremo Benfeitor. Que ele possa então
avaliar criteriosamente as denúncias contra os pecadores impe-
nitentes. Que trabalhe para se tornar mais e mais profundamen-
te sensível ao sentimento produzido por sua própria cegueira e
corrupção radicais.
Acima de tudo, que possa firmemente contemplar em
todas as suas relações esta estupenda verdade: a encarnação e
crucificação do Filho Unigênito de Deus e a mensagem da mise-
ricórdia proclamada na cruz aos pecadores arrependidos: “Creia
no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua casa” (Atos
16.31).
Quando avaliar com justiça a culpa do pecado através
do sacrifício da morte de Jesus e o valor de sua própria alma
levando-se em consideração o preço que foi pago por sua re-
denção – ele então terá emoções misturadas de culpa, temor
e vergonha. Quando refletir acerca do maravilhoso amor e da
compaixão de Cristo e dos reconhecimentos frios e formais com
os quais tem respondido a eles, poderá então sentir remorso e
tristeza. Quando pensa que desprezou o convite gracioso de seu
Redentor, pode muito bem bater no peito e clamar, “‘Deus, tem
misericórdia de mim, que sou pecador” (Lucas 18.13).
No entanto, para os “cansados e sobrecarregados”, Cristo
ainda oferece descanso; e para os que têm sede, ele dá da água
da vida. Para os que estão amarrados “às cadeias do pecado”, Ele
dá o livramento. Entreguem-se então à Sua misericórdia imere-
cida. Ele é cheio de amor e não nos joga para fora do estrado de
Seus pés. Entreguem-se em Suas mãos e decidam solenemente,
por meio de Sua graça, dedicar todas as suas faculdades e forças
ao Seu serviço.
Cabe a você agora “desenvolver a sua salvação com te-
mor e tremor”, confiando na fidelidade Daquele que prometeu
148 CRISTIANISMO VERDADEIRO

efetuar “em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo


com a boa vontade dele” (Filipenses 2.13). Sempre olhe para
Ele em busca de ajuda. A sua única confiança consiste em uma
consciência profunda e permanente de sua própria fraqueza; de
uma firme confiança em Sua força. Se vocês “aplicarem toda a
diligência”, Seu poder estará ao redor para a sua proteção; Ele
empenha a palavra Dele, que é verdadeira, pela sua segurança.
“Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida” (Apocalip-
se 2.10). “Aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mateus
10.22).
Em um mundo como este, em uma situação social como
a nossa e especialmente nos caminhos mais elevados da vida,
vocês devem estar preparados para encarar muitas dificuldades.
Tenham, portanto, em primeiro lugar, a resolução determinada
de não considerar a estima humana além de seu real valor, não
temam o rótulo de estranhos quando for necessário que seja as-
sim. Ao contrário, retenham, em sua conduta, a visão de buscar
“a glória que vem do Deus único” (João 5.44). Vocês não podem
dar um único passo adiante sem que estejam em certa medida
possuídos por essa indiferença para com o favor dos homens.
Estejam constantemente cientes de sua própria corrupção
radical e de sua fraqueza habitual. Na verdade, se deixarem que
Deus realmente abra os seus olhos, e verdadeiramente amole-
ça os seus corações, vocês se tornarão a cada dia mais e mais
cônscios de seus próprios defeitos, desejos e fraquezas. Se vocês
tiverem “fome e sede de justiça”, desejarão cada vez mais se
purificar, assim como Deus é puro.
Esta é a solução que parece um paradoxo muito estranho
para o homem do mundo. À proporção que cresce em graça, um
cristão também cresce em humildade. A humildade é, de fato,
o princípio primeiro e último do cristianismo. A partir deste
princípio, ele vive e se desenvolve. À medida que a humildade
cresce ou declina, do mesmo modo o cristianismo deve florescer
ou decair.
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
149
CRISTIANISMO VERDADEIRO

A humildade, primeiro, predispõe o pecador a ter uma


profunda atitude de renúncia, a fim de aceitar as ofertas do
Evangelho. Durante todo o processo, estes são o fundamento e
a base de seus sentimentos e conduta em relação a Deus, ao seu
semelhante e a si mesmo. Quando, por fim, Deus o transportar
para a sua glória, este princípio continuará a subsistir com força
inabalável: Ele “se prostra diante do Cordeiro, adora aquele que
vive para todo o sempre e lança sua coroa diante do trono e
tributa a Ele louvor, honra, glória e poder, para todo o sempre”
(Apocalipse 4.10, 5.13).
Os benefícios práticos da habitual humildade de espírito
são muito numerosos para serem relacionados. Ela o levará a te-
mer pelo pecado e a fugir de suas oportunidades, assim como um
homem se manteria distante de uma doença infecciosa. Evitará
milhares de dificuldades e responderá a milhares de perguntas
a respeito dos comprometimentos mundanos. Ela o capacitará
a desejar de coração agir em todas as circunstâncias com um
olhar singelo para com o favor de Deus.
Assim, as ações mais extraordinárias da vida se elevarão
à categoria dos exercícios religiosos. Ela é um princípio purifi-
cador e transformador que torna realidade o toque lendário do
alquimista que transforma tudo em ouro. Ela se traduz no desejo
de agradar a Deus em tudo.
Para agradar a Deus, é também essencial guardar-se de to-
das as distrações dos cuidados terrenos. Para isso, é necessário o
cultivo de uma mentalidade voltada para as coisas celestes e um
espírito de oração contínuo. É preciso vigiar incessantemente
as obras de nosso coração enganoso.
Vocês precisam ser ativos e úteis. Assim, não permitam
que seu tempo precioso seja desperdiçado “em inatividade des-
propositada”. Esta é uma admoestação que em nossos dias até
mesmo pessoas de verdadeira piedade necessitam. Nunca este-
jam satisfeitos com suas conquistas presentes, mas, “esquecen-
do-se das coisas que para trás ficam”, trabalhem para “as que
150 CRISTIANISMO VERDADEIRO

estão adiante” com energia constante, e corram a corrida que


está diante de vocês sem esmorecer ou desfalecer.
Acima de tudo, avaliem o seu progresso por meio de sua
experiência com o amor de Deus e do exercício desse amor
diante dos homens. “Deus é amor”. Este é o princípio sagrado
que aquece e ilumina o mundo celestial, esse bendito trono da
presença visível de Deus. Ali ele brilha com brilho sem nuvens.
Alguns de seus raios esparsos são graciosamente transmitidos a
nós sobre a terra, ou estaríamos envolvidos e perdidos na escu-
ridão e no sofrimento. Mas uma porção mais ampla dele é der-
ramada nos corações dos servos de Deus, que são assim “renova-
dos na semelhança divina”. É o princípio do amor que faz com
que se entreguem sem reservas ao serviço Dele: “Vocês foram
comprados por alto preço” (I Coríntios 6.20).
Em contraste, é servil, básica e mercenária a noção da
prática cristã entre os cristãos nominais. Eles não dão nada
além daquilo que não ousam reter. Eles não se abstêm de nada,
a não ser daquilo que não devem praticar. Quando você lhes
declara a qualidade duvidosa de qualquer ação, e a conseqüente
obrigação de evitá-la, eles respondem, no espírito de Shylock,
que “não podem encontrá-la na fronteira”.
Em resumo, eles conhecem o cristianismo somente como
um sistema de restrições, posto à parte de qualquer princípio
liberal ou generoso, considerado quase que inadequado para os
relacionamentos sociais da vida, e apropriado somente para as
paredes soturnas de um monastério no qual o confinariam.
Mas os verdadeiros cristãos se consideram não como que
satisfazendo a um rigoroso credor, mas como que pagando uma
dívida de gratidão. Não vêem seu compromisso como um re-
torno limitado de uma obediência forçada, mas como a medida
ampliada e liberal de um serviço voluntário.
Este princípio do amor de Deus capacita o verdadeiro cris-
tão a ser como os apóstolos: “alegres por terem sido considerados
dignos de serem humilhados por causa do Nome” (Atos 5.41).
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
151
CRISTIANISMO VERDADEIRO

Ele também regula a escolha das companhias e dos amigos do


verdadeiro cristão, quando tem a liberdade de fazer uma opção.
Ele o enche do desejo de promover o bem estar temporário de
todos ao seu redor com compaixão e amor, e lhe dá a ansiedade
de que desfrutem da felicidade espiritual. A indiferença a este
princípio, portanto, é um dos sinais mais claros da situação ruim
ou declinante da verdadeira religião.
Outro princípio do verdadeiro cristão é o de que ele reco-
nhece que este mundo não é um lugar de repouso. Aqui, no má-
ximo, ele deve ser um peregrino e um estrangeiro. Ele é um solda-
do cuja ventura só termina com a vida. Ele está sempre em luta e
combate contra os poderes das trevas, as tentações do mundo ao
seu redor e os perigos ainda maiores da pecaminosidade interior.
Desse modo, as lutas, provas e dificuldades perpétuas que
diversificam a vida de um cristão o ensinam a esperar por aquele
dia prometido, quando ele será totalmente liberto da escravidão
da corrupção. A tristeza e o lamento desaparecerão. Ele antevê
esse futuro bendito, onde o amor reinará sem distúrbios, e to-
das as coisas serão unidas nos laços indissolúveis da amizade e
estarão juntas em uma canção de louvor harmoniosa ao Autor
de sua bem-aventurança. Pois o verdadeiro cristão triunfa sobre
o medo da morte. Estes, portanto, são os sentimentos habituais
do verdadeiro crente.

II. Conselho a alguns que professam sua plena submis-


são às doutrinas fundamentais do Evangelho

Em um capítulo anterior, enfatizamos que os erros funda-


mentais e práticos dos cristãos professos hoje são os de desprezar
ou confundir o modo como o Evangelho tem sido oferecido:
primeiro, a renovação de nossa natureza corrompida, e, segun-
do, a obtenção de todas as graças cristãs.
As Escrituras e a experiência ambas garantem que preci-
samos ter o arrependimento sincero e a fé viva como único fun-
152 CRISTIANISMO VERDADEIRO

damento de toda a verdadeira santidade. No entanto, devemos


também nos guardar de outro erro prático. Aqueles que, com
corações penitentes, se humilharam diante da cruz de Cristo
podem ser guiados a supor que sua obra está agora concluída.
Reconhecendo nos méritos de Cristo a única fonte de
perdão e aceitação diante de Deus e decididos a produzir frutos
de justiça com a ajuda de Seu Espírito, eles podem de novo cair
em pecado e necessitar de um ato novo de arrependimento.
Há muitos que se satisfazem com o que podem chamar de
“cristianismo geral”. Eles têm um arrependimento e uma noção
de humilhação a partir de um sentimento generalizado de peca-
minosidade e têm desejos genéricos por santidade. No entanto,
negligenciam o cuidado zeloso e vigilante com o qual deveriam
trabalhar para destruir toda forma específica de corrupção. Do
mesmo modo, estão longe de lutar com perseverança pela aqui-
sição e pelo aprimoramento de toda graça cristã.
Não é incomum para ministros que pregam as verdades do
Evangelho com fidelidade, habilidade e sucesso estarem também
sujeitos, em seus ensinos, aos limites estabelecidos pela religião
geral. Ao invés de delinear e expor todas as nuances secretas
da corrupção interior e instruir seus ouvintes a como melhor se
conduzir em todos os estágios da batalha cristã, eles generalizam
sobre tudo. Assim, observamos pouco progresso no desenvolvi-
mento de sua fé e na reforma de seu projeto de vida. Eles confes-
sarão, em termos gerais, ser “pecadores miseráveis”. Mas ela é,
na verdade, uma expressão de autocomplacência secreta.
Precisamos advertir essas pessoas de que não há atalho
para a santidade. Elas têm de ter como objetivo final de toda
a vida o crescer na graça e continuamente acrescentar a ela
uma virtude após outra. Sempre que possível “avancemos para
a maturidade” (Hebreus 6.1). “Aquele que pratica a justiça é
justo” (I João 3.7). A menos que produzam o “fruto do Espírito”
(Gálatas 5.22), elas não têm evidência suficiente de que verda-
deiramente receberam o Espírito de Cristo e, assim, “se alguém
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
153
CRISTIANISMO VERDADEIRO

não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Romanos


8.9). Se a essência da santidade não for encontrada nelas, elas
não estarão honrando a doutrina de Deus, e sim desvalorizando-
a e colocando-a em descrédito.
O mundo não enxerga suas humilhações secretas nem as
práticas em seus aposentos. Mas o mundo é hábil em discernir
fraquezas de ordem prática. Se o mundo observa que elas pos-
suem o mesmo entusiasmo na busca da riqueza e da ambição, o
mesmo gosto fútil pela ostentação e pela exposição, os mesmos
temperamentos descontrolados que podem ser vistos na maioria
da humanidade – ele então tratará com desprezo suas preten-
sões de superioridade em relação à santidade e sua indiferença
para com as coisas terrenas. Uma alma assim se tornará mais
convicta em seus preconceitos para com o único caminho que
Deus proveu para escaparmos da ira vindoura e obtermos a eter-
na felicidade.
Que aquele que é verdadeiramente um cristão vigie seus
caminhos e seu coração com seriedade incessante. Que se em-
penhe em aprender com a vida de homens piedosos e com livros
devocionais, particularmente os escritos por cristãos de desta-
que – os métodos que eles julgaram ser os mais eficazes na luta
contra os vícios, e na melhora em todos os aspectos da santida-
de. [Aqui Wilberforce destaca as vidas de muitos sobre os quais
leu, alguns agora desconhecidos, mas outros famosos como o
Arcebispo Robert Leighton, Matthew Hale, Philip Doddridge,
Richard Baxter, John Wesley, Henry Martyn e Colonel Gardi-
ner, etc.].
Assim, enquanto observa seu próprio caráter e as obras
mais íntimas de sua própria mente, ele obtém percepções do co-
ração humano em geral. Isto o capacitará a guardar-se de todas
as ciladas do mal. Esta perspectiva irá, acima de tudo, promo-
ver o crescimento da humildade e manterá essa sobriedade de
espírito e ternura de consciência que são marcas características
do verdadeiro cristão. É por essa diligência incessante – como
154 CRISTIANISMO VERDADEIRO

o apóstolo declara – que os servos de Cristo validam o seu cha-


mado. É somente assim que o seu trabalho irá por fim ser bem
sucedido. “E assim vocês estarão ricamente providos quando
entrarem no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo” (II Pedro 1.11).

III. Um desafio aos incrédulos

Uma outra classe de homens – uma classe em crescimen-


to, e que deve ser temida neste país – é a dos incrédulos absolu-
tos. Embora este livro não esteja propriamente preocupado com
eles, nós, no entanto, lamentamos sua condição. Desse modo,
o autor se permite fazer-lhes uma pergunta bem objetiva. Se o
cristianismo não é verdadeiro, em seu julgamento, não deveria
ao menos ser submetido a um sério exame?
Homens como Bacon, Milton, Locke e Newton fizeram
uma investigação completa e uma consideração profunda acer-
ca do cristianismo. Tais homens, por meio da interpretação de
seu entendimento, da extensão de seu conhecimento e do dese-
jo de combater preconceitos existentes obtiveram a admiração
da humanidade. E os homens de igreja, por que alguns não estão
entre os grandes nomes que este país jamais conheceu?
Poderiam os céticos em geral dizer com certeza que pro-
cederam a um exame de todas as evidências da revelação? Ou
que analisaram a importância do objeto com o mínimo de dili-
gência? O fato é que tal incredulidade não é o resultado de um
questionamento sóbrio ou de preferência deliberada. Ao con-
trário, trata-se da produção vagarosa de uma vida descuidada e
anti-religiosa, operando juntamente com preconceitos e con-
cepções errôneas acerca das doutrinas principais e dos preceitos
fundamentais do cristianismo.
Um caso típico dessa incredulidade começa quando jovens
são criados como cristãos nominais. Seus pais os levam à igreja
quando criança e ali eles tomam contato com aquelas passagens
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
155
CRISTIANISMO VERDADEIRO

da Bíblia usadas no culto. Se seus pais ainda mantêm alguns dos


velhos hábitos, eles podem até aprender o catecismo.
Mas eles então vão para o mundo, entregues às tentações
da juventude, negligenciam a leitura de suas Bíblias e não cum-
prem suas tarefas religiosas. Não tentam sequer refletir, estudar
ou amadurecer os pensamentos que tiveram quando criança.
Viajam para o estrangeiro, afrouxam ainda mais seus hábitos
religiosos e tendem a ler somente acerca das questões contro-
versas da religião.
Por ir à igreja de vez em quando, esses incidentes ocasio-
nais mais ofendem a estes jovens do que os fortalecem. Talvez
se sintam tentados a ser moralmente superiores àqueles que eles
consideram supersticiosos. Ou o exemplo pífio de alguns cris-
tãos professos os deixe enojados. Ou talvez tropecem por causa
dos absurdos de outros que os enxergam como igualmente igno-
rantes para com eles próprios. Em qualquer um dos exemplos,
eles passam gradualmente a duvidar da realidade do cristianis-
mo. Um sentimento confuso de alívio, a partir da constatação
de que tudo é falso, se estabelece dentro deles. As impressões
se aprofundam, reforçadas por novos argumentos. Por fim, eles
estão convencidos de suas dúvidas aplicadas a tudo o que diz
respeito à religião.
Pode não ser assim no mundo inteiro, mas a história na-
tural do ceticismo é bem semelhante a esta. Ela é a experiência
daqueles que assistiram ao progresso da incredulidade naqueles
a quem amam. Ela é confirmada por meio dos textos de alguns
dos mais eminentes incrédulos. Observamos que eles, certa vez,
deram um tipo de consentimento implícito à verdade do cristia-
nismo e foram considerados crentes.
Como então se tornaram céticos? Razão, pensamento e
questionamento têm quase nada a ver com isso. Tendo vivi-
do por muitos anos vidas desinteressadas e não-religiosas, eles,
por fim, amadureceram a sua incredulidade – não por conta de
sua força, mas pelo lapso de tempo. Isto é geralmente fruto do
156 CRISTIANISMO VERDADEIRO

preconceito, e o seu sucesso é resultado da depravação moral.


A incredulidade não é tanto conseqüência de uma época de
estudos e controvérsias, mas do declínio moral. Ela se espalha à
proporção que a moral declina. As pessoas a abraçam com me-
nos apreensão quando todos ao redor estão fazendo o mesmo.
Este relato acerca da causa secreta, porém mais comum,
de tanta incredulidade pode, com justiça, estender-se para in-
cluir todos aqueles que negam as doutrinas fundamentais do
cristianismo.
Uma posição intermediária entre a ortodoxia e a negação
total do cristianismo é o Unitarianismo. Alguns podem parar
nela, mas, para outros, ele é uma parada temporária. Eles então
seguem adiante, rumo a mais incredulidade.
Professores unitarianos de forma alguma professam liber-
tar seus seguidores da rigidez inflexível da moralidade cristã.
Eles enfatizam a importância predominante do amor de Deus,
e buscam um espírito constante de devoção. Mas não são re-
conhecidos por possuírem uma pureza superior de vida, muito
menos pela espiritualidade de mente que a Palavra de Deus nos
recomenda. Esta situação mental é um dos testes mais eficazes
para determinar se estamos experimentando o poder vital do
cristianismo.
Podemos explicar o Unitarianismo como uma fé racio-
nal, ao contrário de uma fé do coração. Ele é produzido pelas
dificuldades e impossibilidades intelectuais confusas, nas quais
o cristianismo ortodoxo parece estar envolvido. Mais ainda que
os deístas, os unitarianos atacam com fortes argumentos as dou-
trinas fundamentais do cristianismo e conclamam os homens a
abandonar posições que eles pensam ter abolido com seus ar-
gumentos. Em verdade, eles conseguem relacionar dificuldades
impressionantes e objeções plausíveis em oposição às verdades
mais cristalizadas. Mas seria esta uma razão para abandoná-las?
Se procederem de maneira lógica, eles não encontrarão descan-
so para a sola de seus pés e estarão bem próximos do ateísmo.
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
157
CRISTIANISMO VERDADEIRO

Além daqueles que abertamente rejeitam a revelação, há


uma classe crescente de meio-crentes que são encontrados nas
mais variadas condições. Eles observam que há “algo nele”, mas
negam as verdades fundamentais do cristianismo e então assu-
mem uma estranha posição intermediária em relação às verdades
qualificadas da fé cristã. E, no entanto, não se enxergam como
incluídos na lista dos incrédulos. Devemos lembrar-lhes que, se
olharem para suas Bíblias e não rejeitarem a sua autoridade, eles
não encontrarão base para a sua postura “intermediária”.

IV. Sendo verdadeiros cristãos por causa da condição


do nosso tempo

Para aqueles que realmente merecem ser chamados de


verdadeiros cristãos, muito já foi dito incidentalmente por todo
este livro. Eu tenho sustentado a idéia de que eles são sempre os
mais importantes membros da comunidade. Nenhum político
honesto ou experimentado negaria isso. Mas nós, com ousadia,
afirmamos que nunca houve um período em que isto fosse mais
verdadeiro do que em nosso tempo presente. Para onde quer
que olhemos, observamos que a religião e os padrões morais es-
tão declinando em toda parte, no exterior mais rapidamente do
que em nosso próprio país.
No entanto, aqui, o progresso da incredulidade e o declí-
nio da moral são suficientes para preocupar qualquer pessoa sen-
sível e nos encher de convicção acerca do crescimento do mal.
Podemos depender unicamente de cristãos verdadeiros para dar
algum remédio contra esse declínio. É necessário um zelo na cau-
sa da religião que só eles podem ter. Firmeza de propósito, ações
consistentes e perseverança nos esforços são imprescindíveis. So-
mente os cristãos verdadeiros podem mostrar essas qualidades.
Que os verdadeiros cristãos, com entusiasmo crescen-
te, lutem em todas as coisas para validar a sua profissão de fé
e silenciar o sarcasmo fútil das objeções ignorantes. Que eles
158 CRISTIANISMO VERDADEIRO

afirmem ousadamente a causa de Cristo em uma época quando


tantos que carregam o nome de cristão o fazem com vergonha
Dele. Que eles possam aceitar a tarefa de servir e de salvar o seu
país. Que eles possam servir, não por interferência política, mas
pelo interesse firme e radical de restaurar a verdadeira religião e
reerguer o padrão da moralidade.
Que eles sejam ativos, úteis e generosos para com os ou-
tros. Que eles possam mostrar moderação e desprendimento em
si mesmos. Que eles se envergonhem da inatividade. Quando
abençoados com riquezas, que possam se esquivar da compe-
tição por vaidade e ser modestos, evitando a ostentação e não
sendo escravos da moda. Que sejam moderados em todas as coi-
sas. Que possam cultivar um espírito universal de boa vontade
geral e de bondade para com os outros. Que encorajem homens
de verdadeira piedade onde quer que possam ser encontrados,
e outros, a reprimir o vício, revitalizar e espalhar por toda parte
a influencia do verdadeiro cristianismo. Que possam orar com
entusiasmo pela renovação de sua vitalidade.
Que eles orem continuamente por seu país neste tempo
de dificuldade nacional. Carregamos as marcas de um império
em declínio. Que a intercessão diante do Governador do uni-
verso possa evitar por um tempo a nossa ruína. Aos olhos do
mundo pode parecer tolice que cristãos verdadeiros orem, ainda
que creiamos, baseados nas Escrituras, que Deus mostrará o seu
favor à nação à qual Seus servos pertencem.
Com ousadia, devo confessar que creio que as dificuldades
nacionais são resultado do declínio da religião e da moralidade
entre nós. Devo confessar de igual modo ousadamente que mi-
nhas sólidas esperanças acerca do bem-estar da nação depen-
dem não tanto da marinha ou do exército, nem da sabedoria
dos governantes, nem do espírito de seu povo, mas do poder de
persuasão que a religião possui, representada pelos muitos que
amam e obedecem ao Evangelho de Cristo. Eu creio que suas
orações ainda podem prevalecer.
CONCLUSÃO: SUGESTÕES PRÁTICAS PARA UM
159
CRISTIANISMO VERDADEIRO

Assim, que as orações do leitor cristão também sejam ofe-


recidas em prol do sucesso desta iniciativa singela a serviço da
verdadeira religião. Pois Deus pode fazer valer o mais fraco dos
esforços. O escritor se sentirá muito privilegiado se aquilo que
escreveu despertar a consciência de uma única pessoa e encora-
já-la a ser mais útil.
Em grande parte da Europa, as pessoas têm optado por
uma falsa filosofia, a despeito das lições da revelação. A infideli-
dade tem mostrado suas garras sem qualquer constrangimento,
caminhando com elas descontraidamente, em plena luz do dia.
A licenciosidade e o vício prevalecem sem restrição.
Que esta nação possa ao menos ser um santuário, uma ter-
ra de verdadeira fé e piedade, onde ainda possamos desfrutar das
bênçãos do cristianismo. Que aqui tenhamos um lugar onde o
nome de Cristo ainda seja honrado e os homens possam provar
das bênçãos da fé em Jesus. Que os meios da educação religiosa
e do consolo uma vez mais sejam estendidos aos países ao redor
e ao mundo como um todo.
Apêndice

Um guia para a leitura devocional

Amas tu a Deus, como ele ama a ti?! Então digere,


Minh´alma, toda esta meditação,
Como Deus, o Espírito aguardado por anjos
No céu, faz Seu templo em teu coração.
John Donne, Soneto Santo 15

S e alguém hoje lhe perguntasse se você é um “devocio-


nalista”, você seria perdoado por não saber o que isso
significa. Se alguém conversasse sobre ser devocionalmente-orien-
tado, você poderia erguer uma de suas sobrancelhas em sinal de
surpresa.
O século que passou é possivelmente o primeiro no qual
a ação foi mais enfatizada e valorizada que a contemplação.
Hoje nós fazemos coisas. Achamos que a contemplação é perda
de tempo, não produz coisa alguma e atrapalha de modo esta-
banado nossas agendas. A leitura devocional é uma prioridade
questionável para a maioria das pessoas bem-sucedidas na atua-
lidade.
Mas somos cristãos “de sucesso” se estamos tão ocupados or-
ganizando e promovendo a fé cristã a ponto de não conhecermos
de fato a Deus pessoal ou intimamente? A leitura devocional cristã
nos ajuda a encontrar união íntima com Deus. Qual é a sua mo-
tivação? Que amemos a Deus com todo o nosso coração, mente e
vontade.
162 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Leitura devocional – um grande despertamento

O escritor de Eclesiastes se deu conta de que Deus colocou


a eternidade dentro de nossos corações.1 Agostinho observou que
Deus fez o homem para Si mesmo, e que nossos corações não en-
contram descanso até que descansem Nele. Esse anseio eterno for-
ma a base da devoção.
Somos criados com anseios infinitos. Podemos tentar ocul-
tá-los e escondê-los atrás de valores menores tais como a apre-
ciação pelo belo ou o desejo pela verdade e pela autenticidade.
Por outro lado, podemos nos desculpar pelos ideais adolescentes,
pelo otimismo incurável ou pelo romantismo indulgente conec-
tado aos nossos anseios. Mas uma vez tendo sido despertados para
o céu como uma possibilidade, nada mais trará satisfação senão
conhecer mais sobre ele. Somos então como peregrinos que final-
mente descobriram onde está localizado o Santo Graal. Ou talvez
sejamos como crianças na escola. O mistério da matemática está
diante de nós ao tentarmos entender os rudimentos da álgebra e da
geometria, e temos de crer no entusiasmo do professor com o fato
de que elas possuem uma beleza intrínseca.
Mais adiante descobrimos que os desejos de Deus não são
diferentes de nossos próprios desejos mais verdadeiros e íntimos.
No entanto, a conexão entre eles às vezes parece terrivelmente
comprometida pelo egoísmo e pela vontade própria. Refletimos e
começamos a observar que a forma mais profunda de saudade – a
de ser amado, ou ser compreendido, ou de estar religado ao Infinito
para além de todo o universo – não é “ilusão neurótica”, de acordo
com C. S. Lewis. Ao contrário, ela é “o indicador mais verdadeiro
de nossa real situação”.2
Em Cristo nós também descobrimos que não é a pessoalida-
de de Deus que é vaga e intangível. São as nossas próprias persona-
lidades que são incoerentes, fragmentadas e inadequadas. Assim,
a realidade da oração em nome de Jesus é a busca por uma perso-
nalidade mais plena e rica, a personalidade que a maioria de nós
profundamente anseia ter.
À luz disso, vemos a leitura devocional não apenas como
uma opção piedosa de leitura comparada a um bom romance po-
licial ou mesmo a uma obra séria. Ela se relaciona à natureza de
APÊNDICE 163

um despertamento, como o que o filho pródigo teve enquanto ali-


mentava porcos. Nossa existência animal não é boa o suficiente
quando descobrimos interiormente que temos um Pai que é rei e
que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus.
Os hábitos de leitura do chiqueiro não podem satisfazer a
um filho e aos porcos ao mesmo tempo. Os hábitos de leitura dos
“servos”, conduzidos pela mesmice dos livros do tipo “conselhos
práticos”, que definem a vida pela ação e que compram a aceitação
por meio da autoconquista, tampouco trarão satisfação. Pois um
filho amado, embora pródigo, responde à sua aceitação em Cristo.
É tudo o que podemos “fazer”. E isso tem mais a ver com amantes
de mãos dadas do que com homens de negócio tomando decisões
na sala de reunião.
Nós de fato percebemos que a vida consiste em um número
de despertamentos progressivos. Quando estudamos com serieda-
de pela primeira vez, ficamos entusiasmados com o despertamento
de nossa mente para a atividade de analisar e de compreender o
nosso mundo. Nós despertamos de novo na experiência de assumir
a responsabilidade de nossas vidas quando temos de decidir sobre
atitudes e opções de importância. Despertamos também quando
agimos em meio ao sofrimento. A dor é um grande despertador
para as realidades que outrora estavam adormecidas em nossas vi-
das. Mas é o despertamento para o amor de Deus que transcende
todas as outras formas de consciência humana.
Hoje, vivemos o grande perigo de politizar a nossa fé, organizá-
la ao extremo e transformá-la em uma ideologia fria. Precisamos mais
uma vez nos aquietar e ver a Deus. E então começaremos novamente
a viver mais como um filho de Deus do que como um empreendedor
diante dos homens. Emoções profundas serão revividas. Memórias
começarão a ser curadas. A imaginação será redirecionada. E muitas
e novas possibilidades se abrirão a partir dos becos sem saída das ruas,
para nos mostrar paisagens de amor e alegria que nunca imagina-
mos poder visualizar. A esperança sucederá o desespero. A amizade
substituirá a alienação. Acordaremos de manhã e descobriremos que
estamos verdadeiramente livres para nos apaixonar por Deus.
Podemos então começar a compreender aquilo que João Cal-
vino quis dizer quando chamou a fé de um firme reconhecimento
164 CRISTIANISMO VERDADEIRO

da benevolência de Deus, que está selado no coração. A afirmação


de Calvino fez lembrar o coração inflamado de muitos homens na
história: Jeremias, os discípulos no caminho de Emaús, Agostinho,
Jonathan Edwards. É assim que Deus instila a percepção de que
estamos na comunhão dos santos e simplesmente compartilhan-
do aquilo que muitos outros antes de nós já experimentaram com
grande alegria. Nós também, como eles, agora percebemos que o
céu é o nosso horizonte afinal.

A leitura devocional muda a história

Nada pode sobrepujar a prática da oração ou da leitura de-


vocional da Escritura nas devoções diárias de uma pessoa. No en-
tanto, essas práticas necessitam ambas de reforço e de orientação
a partir do exemplo de outros, do partilhar de suas experiências.
Talvez o uso devocional da Escritura esteja desaparecendo tão ra-
pidamente que somente com a ajuda de outros livros ele possa
ser redescoberto e se tornar uma prática comum hoje. Os resulta-
dos dessas leituras são, na maioria das vezes, bem abrangentes. Na
verdade, os encontros acidentais com grandes clássicos de fé têm
desencadeado toda uma série de reações inesperadas.
Foi assim com C. S. Lewis. Ele se deparou com clássicos
como os escritos de Richard Hooker, George Herbert, Thomas
Traherne, Jeremy Taylor e John Bunyan em conseqüência de seus
estudos em Literatura Inglesa.3
Como estudante, Alexander Whyte – o pregador escocês
do final do século XIX – começou a catalogar as obras de Thomas
Goodwin, do século XVII. Mas ele ficou tão envolvido por elas
que, mais tarde, em sua vida, escreveu sua obra Spiritual Life ba-
seado nos ensinos de Goodwin. Ele confessou, “eu carregava seus
livros comigo até suas capas originais começarem a se desprender,
e até que meu encadernador as colocasse em seu melhor protetor
de capas. Não li mais nenhum outro autor tanto e com tanta fre-
qüência.”4
Quando John Bunyan se casou, seu sogro lhe deu um dote
que consistia na obra de Arthur Dent, The Plaine Man´s Path-Way
to Heaven (1601), e de Lewis Bayly, The Practice of Pietie (1613).
Bunyan mais tarde reconheceu que essas duas obras “produziram
APÊNDICE 165

dentro de mim alguns desejos pela religião.”5 A popularidade delas


foi reiterada por muitos de seus contemporâneos.
Inácio de Loyola, um jovem e frívolo cavaleiro, foi ferido no
cerco de Pamplona, em 1521. Ali ele foi forçado a passar sua con-
valescença com apenas dois livros em mãos, Life of Jesus Christ, de
Ludolph Carthusian, e Flower of the Saints, de Jacobine Varagine.
Essas obras deixaram uma impressão sobre ele que produziu uma
mudança radical em sua vida.
Amigos cristãos apresentaram deliberadamente Agostinho à
obra Vida de Antônio, de Atanásio. Ela não impactou Agostinho de
imediato, embora seus amigos continuassem a dizer-lhe como em
Trèves, na Gália, um oficial do estado “a leu, maravilhou-se com
ela e foi incendiado por ela”. Enquanto o oficial a lia, começou a
pensar em como poderia abraçar uma vida monástica no deserto
egípcio. Ele pensou em abrir mão de seu trabalho para servir “A
Ti [Deus] somente...; e o mundo passou a não mais fazer parte de
sua mente...enquanto lia, e em seu coração, que agora batia em seu
próprio ritmo, ele por fim caiu em prantos, viu o caminho melhor
e decidiu por ele.”6
Agostinho acrescenta um comentário sobre o resultado de
ter lido um exemplo como o de Antônio. Esse homem e sua com-
panhia foram levados a edificar “uma torre espiritual ao único cus-
to que é adequado, o custo de deixar tudo e seguir a Ti”.7
A influência dos autores místicos sobre Martinho Lutero foi
fartamente documentada. Ele leu em profundidade os sermões de
Johannes Tauler (1515-1516) e editou o tratado anônimo místico
que intitulou de Teologia Alemã (1516, 1518). Quando defendeu
as noventa e cinco teses, em 1518, ele confessou que havia mais
boa teologia nos sermões de Tauler, mais “teologia pura e sólida”
do que em todas as outras obras do escolasticismo. Acerca de Teo-
logia Alemã, ele declarou que “somente a Bíblia e Agostinho o
haviam ensinado mais sobre ‘Deus, Cristo, o homem, e todas as
coisas.’”8
Às vezes, os escritos dos místicos podem prolongar as lutas
no sentido de se conhecer a Deus pessoalmente. Os leitores fica-
ram então entretidos em seus exercícios e percepções espirituais
ao invés de se encontrarem com o próprio Deus. Esse foi o caso de
John Wesley. Com sua mãe, ele aprendera sobre obras devocionais,
166 CRISTIANISMO VERDADEIRO

especialmente quando foi para Oxford pela primeira vez como es-
tudante. Ele achou os estudos ali “uma interrupção ociosa e inútil
de estudos proveitosos, horrível e intensamente superficial.”9
Mas Wesley ficou encantado com o Discurso sobre a Simpli-
cidade, do Cardeal Fenélon; a obra deu a ele a percepção de que
a simplicidade é “aquela graça que força a alma a deixar todas as
reflexões desnecessárias e voltar-se para si mesma.”10 Em férias, sua
amiga e guia espiritual, Sally, deu a ele uma cópia do livro de Jere-
my Taylor, Regra e Exercício do Santo Viver e Morrer. Ele admite que
essa obra “selou definitivamente minha prática diária de registrar
minhas ações (que eu tenho fielmente continuado até o presente
momento), e que me levou, mais tarde, a prefaciar aquele primeiro
Diário com as regras e resoluções de Taylor. Isso me ajudou a desen-
volver um estilo de introspecção que me manteria em constante
contato com a maioria de meus sentimentos.”11 É de se questionar
o quanto teriam Fenélon e Jeremy Taylor contestado as convic-
ções de um jovem confuso.
Aproximadamente naquela mesma ocasião, Sally também
encorajou Wesley a ler a obra de Thomas à Kempis, Imitação de
Cristo. Essa obra também deixou sua marca nele, de modo a fazê-
lo decidir-se por pertencer a Deus ou perecer. Essas obras, no en-
tanto, em certo sentido, somente prolongaram por treze anos a
necessidade de John Wesley de reconhecer que deveria “nascer de
novo” e aceitar Deus como seu próprio Salvador. Elas, ao mesmo
tempo, deixaram marcas indeléveis em seu caráter e ministério.
Finalmente, pensamos em C. H. Spurgeon e na profunda
influência que os autores puritanos tiveram sobre toda a sua vida
e ministério. Ele tinha uma coleção de 12.000 livros, aproximada-
mente 7.000 deles de escritores puritanos. Spurgeon leu por vezes
incontáveis Maçãs de Ouro, de Thomas Brooks. Ele também de-
dicou muito tempo à obra de Brooks, Remédios Preciosos Contra
os Artifícios de Satanás. Ele tinha enorme prazer em todas as doces
obras devocionais de Brooks.
Mas livros de Thomas Goodwin, John Owen, Richard Char-
nock, William Gurnall, Richard Baxter, John Flavell, Thomas
Watson, e, é claro, John Bunyan, também eram companheiros
de Spurgeon.12 Ele então confessa em seu Conversa sobre Comen-
tários que a obra Comentário de Matthew Henry sobre as Escrituras
APÊNDICE 167

é sua primeira opção de companhia constante. Ele recomenda


que todos os alunos a leiam nos primeiros doze meses após terem
terminado a faculdade.13
A influência dos livros sobre os líderes cristãos e, por sua vez,
seu impacto sobre os movimentos avivalistas da igreja são claros.
Como Richard Baxter comentou em sua obra Manual Cristão, do
século XVII, “há muitos que podem ter um bom livro a qualquer
dia ou hora da semana, e que não podem ter um bom pregador”.14
Às vezes o livro e o autor são totalmente desconhecidos na
atualidade, embora suas conseqüências sejam evidentes e perma-
nentes. Quem lê hoje O Caminho Simples do Homem para o Céu?
No entanto, O Peregrino de John Bunyan foi traduzido em 198 lín-
guas. Poucos hoje conhecem Florentino de Deventer; no entanto,
seu discípulo, Thomas à Kempis, teve seu livro Imitação de Cristo
editado mais de 2.000 vezes. Francisco de Osuna e sua obra O Ter-
ceiro Alfabeto Espiritual não significam coisa alguma para muitos
cristãos na atualidade; no entanto, eles inspiraram os escritos de
Teresa de Ávila sobre oração, escritos que ainda nos influenciam
poderosamente. O livro Combate Espiritual (1589), de Nicholas
Scupoli, foi, juntamente com a Bíblia, a leitura de cabeceira de
Francisco de Sales por mais de dezesseis anos. No entanto, é a
Introdução à vida Devotada de Sales que produziu um impacto pro-
fundo na vida de muitos.
A mensagem é, portanto, clara para todos nós. Abra as ja-
nelas de sua alma através da leitura meditativa, e o potencial da
presença de Deus em sua vida poderá ser, como Paulo ora, “infini-
tamente mais do que pedimos ou pensamos.”15

Não há leitores inocentes

Não existe algo como “apenas leitura”. A leitura é também


um instrumento de nossas emoções e do nosso espírito, de nos-
sas motivações e de nossos objetivos. A arte monástica da lectio
divina, a prática de ler meditativamente e em atitude de oração,
visando à nutrição e ao crescimento espirituais é pouco conhecida
fora das tradições católicas de espiritualidade nos dias atuais. A
perda dessa assimilação devocional das Escrituras se reflete na im-
paciência que muitos têm com as leituras espirituais dos grandes
168 CRISTIANISMO VERDADEIRO

mestres da fé cristã. Ou possivelmente revela uma pura negligên-


cia ou ignorância com relação a essas obras.
C. S. Lewis fala da “idéia estranha difundida de que em
qualquer circunstância os livros antigos deveriam ser lidos por pro-
fissionais, e que os amadores deveriam se contentar com livros mo-
dernos... um constrangimento”, ele acrescenta, “em nenhum outro
lugar mais rompante que na teologia.”16 Mas teríamos uma grande
confusão no cristianismo se sempre nos contentássemos com a su-
perfície do que é dito sobre suas origens e nunca nos motivássemos
a beber pessoalmente da fonte.
Também somos culpados quando não distinguimos leitura
fundamental de leitura acidental, ou leitura edificante de leitura
recreativa. Pois elas são todas distintas.17 Leitura acidental é aque-
la que captura a nossa atenção para as táticas da vida, de modo a
absorvermos uma enorme gama de conhecimento prático, trivial
e significativo. Tudo que se exige desse tipo de leitura é maestria
mental. Leitura fundamental, aquela que fazemos estrategicamen-
te, como parte do treinamento em uma profissão ou disciplina,
demanda docilidade e perseverança. A mudança do primeiro para
o segundo tipo de leitura é de informação para formação, de modo
que a atitude da mente também muda.
A leitura que relaxa é também tática, ainda que por vezes
possa nos apanhar desarmados. Absorvermos as trivialidades que
rotulamos de “recreacionais” pode representar desperdício de tem-
po. Pior, pode tomar e desviar nossas mentes e espíritos dos cami-
nhos da justiça e da pureza.
Uma leitura assim pode verdadeiramente testar nossos espí-
ritos e ser evidência da falta de uma imaginação cristã em nossas
vidas. A leitura estimulante depende muito das escolhas delibera-
das que fazemos. Se quisermos ser mais carnais, nos entregaremos
mais à pornografia pictórica com a qual nossa sociedade tem sido
tão inundada ultimamente. Se quisermos respirar o ar mais limpo
da autenticidade pessoal, desfrutaremos de uma boa biografia, se-
remos tocados pelas orações e diários de grandes guerreiros da fé
ou mergulharemos nas parábolas de nosso Senhor. Ter em mãos
autores favoritos, páginas inspiradoras e temas familiares para revi-
gorar um espírito abatido torna-se um recurso extremo em tempos
de depressão.
APÊNDICE 169

Não somos leitores inocentes, mesmo quando decidimos


não ler coisa alguma! Nós nos tornamos culpados de fundir nossos
pensamentos à cultura que tão prontamente aceitamos. O apare-
lho de TV, por exemplo, nos tenta com tendências profundamente
manipulativas, uma vez que podemos, ao toque de um botão, nos
transportar para uma dúzia de diferentes ambientes artificiais. Po-
demos literalmente escolher o ambiente onde queremos viver e
do qual depender. Não seremos então tentados a manipular nossos
anseios e necessidades espirituais? Submissão à vontade de Deus
parece mais do que nunca ser um comportamento em desuso. Essa
revolução de atitude aprofunda tanto o nosso egocentrismo que
escutar escritores espirituais torna-se uma tarefa realmente difícil,
embora a docilidade e não a maestria seja a essência da leitura
espiritual e da vida meditativa.
Nós também possuímos uma abrangência muito limitada
de atenção. Nosso estilo é desconjuntado: nossas frases são que-
bradas, nossas mensagens nem sempre têm significado. Vivemos a
fim de sermos entretidos como espectadores, ao invés de estarmos
envolvidos como participantes na vida. Nossos livros refletem o
staccato da modernidade. Mensagens são dadas de forma precisa e
em doses homeopáticas. Por semelhante modo, nossos estilos de
vida se alteram porque o homem procusteano* muda ao sabor da
moda e do entusiasmo do momento. É uma sociedade do divórcio,
onde se troca de parceiro quando o humor também se altera. O
alimento sólido da Palavra, sobre o qual fala o apóstolo, é rejeitado
não somente por leite, mas também por cola. Clássicos da fé e da
devoção não são interessantes para uma geração que vive à base de
pipoca e de goma de mascar.
Temos a tendência de viver do lado externo da vida. Tudo
gira em torno de desempenho, de como podemos impressionar
outras pessoas. Como cristãos, estamos mais preocupados com a
promoção de nossa fé do que com a sua prática privada. Atividade
é mais significativa que espiritualidade. Temos medo de ouvir a

* N. T. termo cunhado a partir do personagem da mitologia grega


Procusto, que convidava os viajantes a se hospedarem em sua casa, mas tinha
uma cama muito grande e outra cama minúscula. Durante a noite, ele procu-
rava adequar o viajante à cama escolhida, serrando os pés dos que optavam
pela cama pequena ou esticando os que escolhessem a cama grande. Seu
objetivo era colocar cada um na sua medida, ou melhor, no seu métron.
170 CRISTIANISMO VERDADEIRO

Deus porque estamos mais preocupados com o que as outras pesso-


as vão pensar. A mentalidade de rebanho e a tirania do consenso
– aquilo que Aldous Huxley certa vez chamou de “intoxicação de
rebanho” – nos faz ter medo do isolamento, de encararmos a Deus
sozinhos ou na verdade de encararmos nossos sentimentos interio-
res de culpa e de auto-traição.
A leitura devocional, no entanto, é uma questão muito ín-
tima, interior. Ela requer a coragem moral da humildade, da aber-
tura para perspectivas de mudança de vida e do respeito pelo seu
próprio ser interior. Ela significa mudança de engrenagem, a fim
de que operemos com o temor do Senhor, ao invés de estarmos
preocupados com o medo do homem.
Nós também jogamos o jogo dos números. “Todo mundo
está fazendo isso,” exclamamos. Como então eu poderia, ou deve-
ria, ser o único a destoar?
Em resposta, Kierkegaard nos pediria que deliberássemos:
“você agora vive de modo a estar consciente de si mesmo como
individuo?”18 Acima de tudo, você percebe o mais íntimo dos rela-
cionamentos, “a saber, aquele no qual você, como indivíduo, está
relacionado a si mesmo diante de Deus?”
Na natureza parece haver um enorme desperdício de luz do
sol, de plantas, de animais menores e maiores na grande cadeia
alimentar de nossos ecossistemas. Na violência do homem contra
seus companheiros, fruto de sua insensibilidade, os números pare-
cem ainda não fazer nenhuma diferença. Em nossa desobediência
à voz da consciência, nossos hábitos pessoais de leitura, nossa vida
de oração e a falta de progresso espiritual também parecem não fa-
zer diferença se observarmos o cristianismo como uma multidão.
Mas Deus não julga como julga a multidão. Ao contrário,
como Pai, Ele sabe de cada pardal que cai; cada fio de cabelo de
nossa cabeça é contado por Ele. “Na eternidade, você procurará
em vão pela multidão... Na eternidade, você também será esque-
cido pela multidão.”19 Isso é aterrorizante, a menos que nos prepa-
remos para a eternidade, nos encontrando com Deus agora, com
constância e desejo.
A leitura devocional nos ajuda, então, a termos uma cons-
ciência eterna, não uma consciência de rebanho; a consciência do
homem diante de seu Criador e minha diante de meu Salvador.
APÊNDICE 171

“Na eternidade”, acrescenta Kierkegaard, “há câmaras suficientes


de modo que cada um possa ser colocado sozinho em uma... uma
prisão solitária, ou a câmara abençoada da salvação.”20 Estaria en-
tão minha leitura espiritual e sua reflexão ajudando-me a ver a
mim mesmo “no lugar”, na vontade e no amor de Deus? O ver-
dadeiro individualismo não está seguindo a moda, mas seguindo
a Deus.

O lugar da intimidade com Deus

Não é coincidência o fato de que o tema “seguir a Deus”


para os israelitas no Êxodo fosse uma experiência no deserto. O
nosso deserto não é normalmente o Saara ou o Gobi, ou mesmo o
grande interior australiano. Nosso deserto é o espaço para refletir-
mos sobre nossos sonhos desfeitos, a alienação que nenhum toque
pode conectar entre até mesmo pessoas que se amam, a incerteza
sem rastros acerca do amanhã e a experiência da escuridão inte-
rior. Ali, Deus nos chama para Si, não a partir de nossa utilidade,
mas a partir de nós mesmos.
Quando dizemos sim para Deus, Ele então nos leva para o
deserto. Não há direções definidas, nada sistemático, nenhuma
proposta concreta, nenhum projeto mirabolante, nenhuma opor-
tunidade promissora; há somente a promessa do não ter medo de
ser. É a entrega total. É a docilidade, qualquer que seja o custo. É a
divina companhia, a despeito das conseqüências.
Carlos Carretto reconheceu que o grande presente que o
deserto dá é a oração.21 O deserto é o lugar do silêncio diante de
Deus, onde a quietude faz com que o coração perceba a Sua pre-
sença mais próxima que a nossa própria respiração. Nesse silêncio
de concentração, escutamos a Deus falando através de Sua Pa-
lavra. O silêncio é desinteressante sem a Palavra, mas a Palavra
perde seu poder criativo sem o silêncio do deserto.
A experiência do deserto não é apenas um ambiente para
o estoicismo. Ela é o lugar da intimidade com Deus. Ela necessita
de um recolhimento silencioso – ao menos temporariamente – do
mundo dos homens para se estar a sós com Deus. Ele é um taber-
náculo reflexivo, onde é possível ver coisas à luz da eternidade
e, portanto, em suas verdadeiras proporções. Ele é a remoção da
172 CRISTIANISMO VERDADEIRO

agitação, do alvoroço e da velocidade, para que as coisas sejam


vistas na quietude. Ele é onde nós silenciamos nossas paixões e
relaxamos nossas tensões. Assim como alguém que vagueia no de-
serto, nós aprendemos a descobrir o oásis onde a busca não é mais
necessária. Ali nós descansamos, nos refrescamos e renovamos.
A vida do deserto tem um modo de reduzir as necessidades
àquilo que é realmente essencial, como água, alimento e abrigo.
No deserto, a sós com Deus, descobrimos que Ele é suficiente para
satisfazer todas as necessidades. Nossa única necessidade restante
é simplesmente a de precisarmos mais Dele. De todas as lições que
o deserto ensina, nenhuma é maior do que encontrar a intimidade
de Deus.
Não é de admirar, portanto, que algumas das literaturas de
renovação espiritual mais importantes tenham vindo dos Pais do
Deserto – Antônio, Atanásio, Orígenes, Pacomias, Evagrio, Ba-
sil, Gregório de Nissa e muitos anônimos cujos ditados nós ain-
da conservamos na memória. Aquilo que mais tarde se tornou o
“monasticismo” institucionalizado nada mais é que o reflexo da
vida no deserto a sós com Deus. Somos lembrados de que, sem
a experiência de auto-esvaziamento no deserto, de abandono da
idolatria, de entrega compromissada a Deus e de nosso desperta-
mento espiritual para Deus, a leitura devocional não tem nenhum
papel significativo a desempenhar em nossas vidas. Esses são, pois,
os motivos e desejos básicos necessários para a leitura devocional.
Espaço e tempo são exigidos para tornar real o desejo pelo
deserto. “O tempo silencioso” é um espaço em branco para a pieda-
de matinal ou é o espaço mais importante em nossas vidas diárias.
Nossa leitura de cabeceira é outro tempo para nossas devocionais.
Determinados momentos durante o dia dão veracidade à devoção
espiritual.
Emocionalmente, também, nossas experiências de deserto
não são apenas espaços que Deus deveria ser convidado a preen-
cher; elas são lembretes daquilo que Ele realmente quer ocupar
em nossas vidas. Na verdade, o nosso recolhimento é o espaço no
qual estamos conscientes de nossa necessidade Dele. A literatura
devocional nos auxiliará a ver qual espaço, de um universo sempre
em expansão, Sua presença deve preencher. A medida através da
qual observamos progresso espiritual é a nossa crescente necessi-
APÊNDICE 173

dade de Deus. Não se trata de fraqueza, mas do segredo de nossa


maior força.
No entanto, uma jornada para dentro do deserto requer um
guia, no caso de nos perdermos. Precisamos de direcionamento,
a fim de não sucumbirmos diante de sua sequidão de desencora-
jamento e de derrota. Do mesmo modo, nossa jornada espiritual
necessita de um guia.
Temos o Espírito Santo como nosso Guia Supremo. Mas a
Sua presença depende também da condição de que não O entris-
teçamos nem O extingamos. Nós, portanto, temos os conselhei-
ros, exemplos inspiradores e as experiências espirituais do povo de
Deus para nos ajudar no direcionamento. A história da igreja é a
materialização da comunhão dos santos, cuja fé somos exortados
a seguir.
A superficialidade de grande parte da vida cristã contem-
porânea é a sua modernidade. Nós necessitamos de todos os vinte
séculos de vida de devoção para ajudar-nos a nos tornarmos mais
dedicados a Cristo no início do século XXI.
Aprendamos a desfrutar da comunhão dos santos, revivendo
suas vidas, repensando seus pensamentos e reexpressando o ardor
e o fervor de seus desejos por Deus. Quando ficamos desanimados,
esses exemplos do passado nos mostram que, quando ideais cris-
tãos são verdadeiramente testados, eles produzem um fruto muito
rico. Seus escritos devocionais podem revitalizar nossas formalida-
des sem vida, assim como ossos secos nos lixos dos desertos podem
ser revitalizados na visão de Ezequiel. Em outra metáfora, Paulo
fala da nuvem de testemunhas que torcem pelo atleta na corrida.
Obras devocionais fazem exatamente isso; elas nos encorajam a
seguir até a linha de chegada.

Diretrizes de leitura que transformam a vida

A despeito da avalanche de novos livros e de reedições de li-


teratura espiritual, há pouca orientação sendo oferecida acerca de
como a arte da leitura espiritual pode e deve ser cultivada. Já men-
cionamos que a arte da leitura devocional não é exegética, nem
informacional, nem literária em sua ênfase. A leitura espiritual
é essencialmente formativa da alma diante de Deus. Precisamos,
174 CRISTIANISMO VERDADEIRO

portanto, lê-la de tal modo que ela nos ajude a estarmos inspirados
e afinados com Deus no “homem interior”. Pois é a escrita que nos
coloca em sintonia com o céu e molda o nosso caráter em Cristo.

1. A leitura espiritual requer uma ênfase primária no uso


devocional da Escritura

Não permita que o primeiro entusiasmo gerado pelo contato


com a literatura devocional o distraia da prioridade que você ain-
da deve dar ao estudo da Bíblia e à meditação. Lembre-se de que
as Escrituras são o cânon da devoção do povo de Deus. Eles viam
unicamente as Escrituras como a revelação final dos propósitos de
Deus para o homem. Eles viam as Escrituras como guiadas pelo
Espírito Santo.
No entanto, o que é necessário ser resgatado ou significa-
tivamente revisado nos exercícios espirituais de muitos cristãos
é como usar e meditar na Bíblia devocionalmente. Pois desde a
Reforma temos tido a tendência de nivelar a interpretação da Es-
critura no processo histórico crítico; queremos vê-la como cremos
que o texto tenha sido originalmente escrito pelo autor. O mon-
ge-estudioso medieval a via, no entanto, de maneira muito mais
rica, como a seguinte rima hermenêutica resume seu quádruplo
significado:

A letra nos mostra aquilo que Deus e os nossos pais fizeram;


A alegoria nos mostra onde a fé está oculta;
O significado moral nos dá regras da vida cotidiana;
A analogia nos mostra onde encerramos nossa luta.

Embora não procuremos sistematicamente por esses quatro


níveis em cada versículo da Escritura, no entanto, o sentido literal
ou simples do texto, conforme cremos que seja, requer também
o uso do simbolismo para nos lembrar de seus mistérios. O uso
da aplicação moral para o cristão individual é também requerido,
bem como a percepção das realidades transcendentes da escato-
logia que estão ocultas no texto. Esse tipo de tratamento é mais
bem observado no Saltério, que sempre foi o mais popular livro da
Bíblia nas leituras litúrgicas da igreja.
APÊNDICE 175

2. A arte da leitura devocional é menos uma questão de técnica


e mais uma questão de atitude do coração

Observar as pressões e obstáculos de nossa cultura que ne-


gam e esterilizam os valores da leitura devocional é como desen-
volver um “sexto sentido”. É um processo semelhante a desen-
volver discernimento e desejo espirituais. É claramente diferente
da curiosidade por mais informação ou do desafio intelectual de
dominar a compreensão racional. A atitude se altera de um desejo
por informação para uma disposição de ser reformado e um desejo
de ser transformado. O mandamento, na criação, para termos do-
mínio sobre a terra por meio da imago Dei é superado quando nos
mudamos para o mandamento, na redenção, para sermos confor-
mes à imagem de Cristo.
Isso envolve uma nova maneira de conhecer, com uma
mentalidade diferente. A leitura informacional é mais uma busca
por perguntas e respostas. A leitura devocional se concentra nas
questões básicas da vida diante de Deus. A primeira busca transpa-
rência e entendimento; a segunda diz respeito a conviver satisfato-
riamente com os mistérios, em apreciação e adoração. Novamen-
te, leitura informacional é mais dialética e comparativa; a lógica é
importante. Mas a leitura devocional é mais dócil e receptiva, ao
contrário de ser crítica e comparativa.
A leitura informacional tende a ser detalhista. Os dados são
dissecados por meio de análise, a fim de aumentar a possibilidade
do aprendizado de novas coisas em novas disposições. A leitura
devocional, por sua vez, é caracterizada pela disposição de deixar
toda a iniciativa nas mãos de Deus, recordar e refletir acerca da-
quilo que Deus já fez e estar unido com Ele de maneira viva e dinâ-
mica. É como o capitão da embarcação convidando o piloto para
assumir o comando. Por esse motivo, a leitura devocional é muito
mais pessoal e envolve auto-entrega, docilidade e uma disposição
de mudar o curso através de resoluções profundas e por meio de
disciplinas interiores. A manutenção de um diário espiritual pode
começar a sinalizar as mudanças de atitude e os desejos diante de
Deus.
Uma leitura devocional assim, que encoraje as mudanças de
caráter, pode se deparar com batalhas espirituais acirradas e lutas
176 CRISTIANISMO VERDADEIRO

emocionais profundas. Ela exigirá mansidão de espírito para evitar


viagens de culpa, sustentar a alegria de espírito e evitar a rigidez
exacerbada consigo mesmo. Ela exigirá paciência e uma visão am-
pla do controle de Cristo sobre nossas vidas.

3. A leitura devocional tem mais o caráter de um despertamento espi-


ritual do sono cultural que o de melhora de atitudes existentes

Nós, de boa vontade, “dormimos” dentro de nossa cultura,


até viajarmos para o exterior e nos surpreendermos com o modo
diferente de viver e de se comportar de outras sociedades. O após-
tolo destaca que precisamos despertar espiritualmente de nossas
conformidades culturais, mentalidade e atitudes que compartilha-
mos com o mundo ao nosso redor; precisamos viver para Deus com
frescor e honestidade (I Tessalonicenses 5:6). Isso, na maioria das
vezes, requer um quebrantamento renovado de espírito, um novo
ou aprofundado senso de pecado ou uma profunda reavaliação de
nossas prioridades. Começamos então a descobrir dois cristãos que
podem partilhar da mesma ortodoxia doutrinária e, no entanto,
têm atitudes de espírito profundamente distintas.
Muito desgaste e confusão no seio da igreja na atualidade
demandam discernimento de atitude entre cristãos para evitar
aquilo que Bonhoeffer chamou de “graça barata” e exercitar a ver-
dadeira devoção diante de Deus. Podemos precisar então “viajar
para fora”, assim como fizeram os Pais do Deserto quando deixa-
ram as cidades dos homens. Talvez tenhamos de explorar, assim
como exploraram os místicos medievais, ou sofrer, como sofreram
os puritanos, a fim de aprendermos quão secular foi o tipo de cris-
tianismo de seu tempo, e como é o nosso hoje.
Confissão e arrependimento devem, portanto, ser as con-
seqüências da leitura devocional. Ela agita o coração de modo a
deixá-lo desconfortável e confuso com relação à leitura de entre-
tenimento. Ela é radical demais para nos manter a salvo, dentro
da esfera do nosso próprio controle de novas informações. A pato-
logia do coração se revela em seus enganos, seus ocultamentos de
pecados e na inabilidade do pecado em ser controlado.22
A confissão, portanto, implica a necessidade do reconheci-
mento (confiteri) da santidade de Deus e em fazer confissão (con-
APÊNDICE 177

fessio) da culpa e do pecado.23 Somente o sacrifício pode unir o


pecador a Deus, e o único sacrifício que une o homem a Deus é o
de Jesus Cristo. O valor de todos os outros sacrifícios é derivado
deste. A confissão se torna então louvor, uma oferta de gratidão.
Assim nos exorta Bernardo de Clairvaux, “por meio da confissão
dos pecados e por meio da confissão de louvor, que toda a nossa
vida confesse a Ele!”.24 Com o louvor como veste, a confissão se
torna o ato de alguém que recuperou uma beleza interior, o aperi-
tivo da glória vindoura.
Se pensamos em alguns autores espirituais como Thomas à
Kempis em seu Imitação de Cristo como sendo muito rigoroso e se-
vero, não seria porque nossas próprias vidas não são confessionais
o suficiente? Não seria porque estão carecendo de louvor adequa-
do? O louvor flui da gratidão, e a gratidão brota da confissão do
pecado na percepção de quem Deus é. A expressão teológica con-
temporânea da fé como um sistema de crença foi sendo formada ao
longo de todo o século XX por homens como John de Fecamp, que
considerava a teologia primariamente como uma tarefa de louvor,
adoração, executada em espírito de oração e desencadeada pela
contemplação de Deus.25
É na confissão do pecado que descobrimos novas dimensões
do eu e do auto-amor com as quais precisamos lidar. Um desperta-
mento da consciência do pecado que habita o interior do cristão,
como aquela vividamente exposta por John Owen, nos dá uma
nova sensibilidade à realidade de Satanás e nos faz ficar de joelhos.
A tentação se torna uma realidade mais profunda, que requer mais
vigilância moral e mais leitura devocional.26 O arrependimento se
torna uma realidade vívida, que precisa do apoio e do conforto da
comunhão dos santos.
Assim, um desejo de mudar o curso de nossa vida depois de
um fracasso e da desonestidade para com a nossa própria alma in-
tensificará a nossa busca por aprender de outros como lidar com
essas questões. Ver a vida agora com um significado mais profundo
demanda recursos espirituais maiores do que aqueles que anterior-
mente sequer imaginávamos que precisaríamos. Uma vez na pere-
grinação e fora do status quo, estamos em uma longa jornada. Des-
pertamos de um sono profundo e apagado. Assim como o cristão de
John Bunyan, necessitaremos de muitas companhias espirituais.
178 CRISTIANISMO VERDADEIRO

4. A leitura devocional tem seu próprio ritmo, um ritmo mais lento

Uma vez que comecemos a ver o discipulado como uma obe-


diência a longo prazo, teremos então de resistir à impaciência de
nossa “Sociedade Instantânea”. Se a nossa leitura devocional tiver
como objetivos a mudança e a formação de vida, não podemos
buscar resultados imediatos. É, portanto, fútil passar os olhos por
cima de uma obra devocional com pressa. Diferente de um roman-
ce de Agatha Christie, não podemos lê-la por completo em uma
noite.
Muita inautenticidade surge em nossa vida porque não di-
ferenciamos velocidades; fazemos as coisas muito rapidamente.
Como, de fato, eu penso mais rápido do que consigo falar, falo
mais rápido do que posso agir e ajo mais rápido do que tenho ca-
ráter para muitas ações. Eu então tenho sempre a tendência de ser
inautêntico.
Espiritualmente, precisamos diminuir a velocidade e gastar
mais tempo na reflexão e no silêncio. Necessitamos do ritmo lento
e pré-estabelecido de tempos regulares e determinados para lei-
tura, mesmo que sejam somente quinze ou trinta minutos no dia.
Absorver as poucas linhas de um autor no coração e através da cor-
rente sanguínea das atitudes é muito mais eficaz que ansiosamente
ler em alta velocidade, em nome da curiosidade. Se o problema de
muitas igrejas é como a velocidade das decisões de gabinete pode
ser comunicada em um espírito de comunidade, então, o problema
da leitura devocional é como a impaciência da mente pode ser
controlada, a fim de deter sua luxúria por mais informação.
O espaço, assim como o tempo, é necessário para a leitura
devocional. Isso pode levar literalmente ao hábito do desenvol-
vimento de um ambiente particular, uma área em determinada
sala, onde se localize um “altar” de devoção. Fisicamente, ele pode
requerer uma postura confortável, talvez uma cadeira específica,
onde seja possível relaxar de imediato e onde uma atmosfera seja
criada especificamente para esses exercícios de devoção, como a
oração e a contemplação. Talvez devêssemos primeiramente levar
a leitura espiritual a sério em um dia de feriado ou em férias; nesse
contexto, sentimos a atmosfera informal e relaxante com o espaço
de que necessitamos para exercícios e disciplinas assim. Um car-
APÊNDICE 179

taz em tom de brincadeira em uma estrada de Los Angeles dizia:


“Com sorvete, todo dia pode ser um sundae (tipo de sorvete cuja
palavra é semelhante a Sunday, domingo em inglês).” A verdade
é que se cada dia é alimentado pela leitura espiritual, todos os dias
são domingos.

5. Escolha os clássicos de fé e de devoção a partir de uma


vasta gama de obras do povo de Deus

Temos observado que a pobreza da cristandade hoje requer


recursos de todos os vinte séculos de tradições espirituais, sejam
eles ortodoxos, católicos ou protestantes. Teríamos então necessi-
dade de sermos hesitantes quanto a receber uma enorme variedade
católica de experiências que outros santos de Deus experimenta-
ram através dos séculos e culturas da humanidade? Na verdade,
aqueles que experimentam as maiores riquezas da graça de Deus
são os que mais têm condições de serem ecléticos em suas leituras
espirituais. E isso eles podem fazer sem perder de modo algum sua
firmeza de fé e doutrina, nem serem descuidados quanto à verdade
essencial do Evangelho.
Um exemplo de como a variedade pode enriquecer um cris-
tão é o da vida e ministério do Dr. Alexander Whyte, um membro
influente da Igreja Livre da Escócia, uma igreja que não é conheci-
da por seus interesses católicos. Quando tinha cinqüenta e seis anos
de idade (1892), Alexander Whyte começou a ler as obras selecio-
nadas de William Law. Ele escreveu uma antologia sobre as obras de
Law em seu livro The Characters and Characteristics of William Law
(As Personalidades e Características de William Law). No prefácio, ele
disse acerca desse anglicano, “o estudo desse autor incomparável
tem sido um período extraordinário em minha vida.”27
Whyte então foi conduzido ao estudo de Teresa de Ávila, a
respeito de quem ele também escreveu. Ele fez tributos a Lance-
lot Andrewes, Sir Thomas Browne, Samuel Rutherford e ao padre
russo John de Cronstadt. Em um período de sete anos, Alexan-
der Whyte teve contato com um vasto cenário de espiritualidade
através de autores que nunca havia conhecido antes. Ele começou
então a perceber que a admiração e o amor dos grandes santos de
Deus é de fato um estudo de grande valor.
180 CRISTIANISMO VERDADEIRO

“Exercitem a caridade”, Whyte costumava exortar, “que


se alegra com a verdade”, sempre que ela for encontrada e por
mais estranho que possa ser seu traje. “Os verdadeiros católi-
cos, como o próprio nome diz, são os evangélicos esclarecidos,
de mente aberta, de bom coração e espiritualmente exercitados;
pois ele pertence a todos as facções, e todas as facções pertencem
a ele.”28

6. Cultivem amizades espirituais com amigos de alma a fim de que


possam mutuamente ser beneficiados por um grupo de estudo
ou por um programa de leitura compartilhado

Um grupo assim pode se encontrar a cada duas ou quatro


semanas para ouvir e discutir livros lidos sucessivamente por mem-
bros do grupo. Em princípio, uma leitura como essa pode intensi-
ficar desafios espirituais profundos e gerar todo um novo sentido
de percepção de realidades. Trata-se de uma reação comum ques-
tionar se alguém está perdendo o equilíbrio ou mesmo ficando
louco por ter convicções e anseios como esses. Pois assim como
a recuperação de uma doença grave, a ameaça da morte ou uma
experiência de profundo quebrantamento pode abrir novas portas
de percepção, o novo desafio de ler místicos cristãos pode produzir
o mesmo. É, portanto, muito importante estar sendo encorajado e
conduzido sabiamente por aqueles que são mais experientes. Além
disso, reações divergentes podem dar um sentido de proporção ou
impressões parciais corretas. O alvo comum de crescer em Cristo,
argumenta o apóstolo Paulo, é alcançar uma maturidade corpora-
tiva (veja Ef. 4:13,14).
Um amigo espiritual, disse o autor do século XII Aelred de
Rievaulx em Spiritual Friendship (Amizade Espiritual), é aquele que
é leal e tem as motivações certas, a discrição e a paciência para
ajudar seu amigo a conhecer melhor a Deus.29 Uma vez que as
possibilidades de enganar a mim mesmo são infinitas, eu necessito
de um guia espiritual para me manter honesto. Além disso, o amor
de Deus é efetivamente desenvolvido somente quando meu amigo
me ajuda a sair de mim mesmo e me mostra como posso entrar em
um círculo mais amplo de percepções, onde posso ser mais honesto
comigo mesmo.
APÊNDICE 181

Desse modo, revelação e honestidade podem dar forma ao


companheirismo espiritual. A vida espiritual se baseia na reve-
lação: a revelação de Cristo, que continuamente nos chama, no
poder do Espírito Santo, para um relacionamento com ele. Ela se
baseia na honestidade: honestidade com respeito àquilo que existe
para ser observado e considerado. O companheirismo espiritual
é um processo de nutrição e de confrontação, quando ambos são
auxiliados pela leitura e pela descoberta da literatura devocional
juntos.
Um verdadeiro amigo em Cristo irá me acordar, me ajudar
a crescer e aprofundar minha consciência acerca de Deus. Pois o
amor de Deus é mediado por relacionamentos humanos, por aque-
les que se importam comigo, me encorajam e desejam que minhas
afeições se tornem centradas em Deus. Na verdade, diz Aelred,
Deus é amizade, de modo que a amizade com aqueles que têm a
mente voltada para a espiritualidade me levará em direção à pie-
dade. Talvez poucos de nós hoje levemos a amizade espiritual tão
a sério.

7. Reconheça que as leituras espirituais lidam com obstáculos que o


desanimam, distraem ou dissuadem, para que você
não persista em sua leitura

Na maioria das vezes, nós não estamos discernindo o sufi-


ciente para enxergar ou questionar por que um livro pode não cap-
turar imediatamente a nossa atenção, ou por que nos parece tão
irrelevante. Isso pode ser causado pelo nosso próprio desânimo ou
pelo nosso estado espiritual, conforme já descrito anteriormente.
O desânimo pode mostrar sua carranca mesmo quando há sinais
claros de que estamos sendo abençoados. Aquilo que os Pais do
Deserto chamam de acídia, tédio, inércia ou depressão pode tam-
bém ser a nossa aflição, quando somos tentados a crer que não
estamos fazendo nenhum progresso espiritual.
Também podemos nos distrair com a leitura dos Pais porque
nunca aprendemos a viver de um livro; o livro tem representa-
do somente entretenimento. Depois de um passeio casual pelos
programas na TV, a leitura concentrada talvez seja uma disciplina
nova. Ou talvez nunca tenhamos vivenciado a experiência da sur-
182 CRISTIANISMO VERDADEIRO

presa e da admiração na presença de Deus, tal como à que algumas


leituras espirituais irão nos incitar. Essa atitude pode, portanto,
necessitar de desenvolvimento antes que possamos apreciar alguns
mestres espirituais.
Também podemos ser dissuadidos de ir a fundo nos clássicos
espirituais por causa de sua estrutura cultural e teológica limitada
pelo tempo. Por exemplo, os níveis quádruplos de exegese utili-
zados na Idade Média para interpretar a Escritura necessitam de
alguma compreensão e de afinidade antes que os sermões de Ber-
nardo de Clairvaux possam significar muito para nós hoje. Místi-
cos medievais ingleses, tais como o autor anônimo de A Nuvem
do Desconhecido, Richard Rolle, Margery Kempe, Walter Hilton
ou outros tornam-se de difícil leitura para nós quando insistem
em que coloquemos de lado todo o pensamento humano em nossa
contemplação de Deus. Eles argumentam que é o amor, e não a ra-
zão, que nos dá o verdadeiro entendimento. Eles falam em “discri-
ção”, um determinado ponto espiritual de graça, humildade, con-
trição e profunda contemplação de Deus que é verdadeiramente
requerido.
Mesmo a literatura posterior, tal como a dos puritanos, pode
nos confundir por causa de seu estilo latinizado ou sua “precisão”
em tabular títulos e subtítulos maiores e menores.30 É fácil enten-
der seu apelido de “Precisos” pelo modo como freqüentemente
categorizavam ponto após ponto. É por essa razão, relacionada a
mudança de vocabulários, loquacidade, mudanças de estilo, etc,
que assumimos reescrever em uma linguagem mais contemporâ-
nea alguns desses clássicos, uma tarefa que muitos outros editores
estão agora assumindo. Assim, restam poucas desculpas hoje, ao
leitor moderno, para classificar esse material como ininteligível
ou impreciso.
É bem verdade, no entanto, que o imaginário literário dessas
obras seja freqüentemente o de uma cultura antiga. Obras como
as de Bernardo, Teresa ou Bunyan podem parecer símbolos ultra-
passados. No entanto, elas também possuem princípios de batalha
espiritual, entrega do eu à comunhão com Deus ou da vigilância
em relação à tentação, que permanecem para além do tempo. A
mortificação será sempre um exercício vital, ou uma série de exer-
cícios, na vida cristã.
APÊNDICE 183

8. Busque, em sua leitura, um equilíbrio entre os escritos


modernos e os antigos

Lembre-se de que o escrito moderno não é provado, carece


de qualidade e importância reconhecidas e freqüentemente reflete
as manias do mercado. C. S. Lewis disse:

Um novo livro ainda está sob julgamento, e o amador


não está em posição de julgá-lo... A única segurança é ter
um padrão de cristianismo claro, central (“cristianismo
puro e simples” como Baxter o chamou), que coloque as
controvérsias do momento em sua devida perspectiva.
Um padrão assim só pode ser obtido a partir dos livros
antigos. É uma boa regra, depois de ter lido um livro
novo, nunca começar a ler outro novo sem que tenha
lido um antigo antes. Se isso é muito para você, deveria
ler um antigo a cada três novos.31

A despeito dessa precaução, quando a revista Christianity


Today fez uma pesquisa popular dos “100 Melhores Livros Devo-
cionais” (25 de setembro de 1961), menos de um terço deles tinha
mais de cem anos. A maioria dos escolhidos eram obras contem-
porâneas. Apropriadamente excluídas estavam as obras de religio-
sidade geral, tais como os livros populares de K. Gibran, obras de
misticismo especulativo, tais como as de Mestre Eckart ou Jacob
Boheme, obras refletindo o pensamento positivo contemporâneo
ou obras de doçura e luz, todas do tipo que tem uma visão irreal do
pecado na vida humana.
Ao mesmo tempo, muitos de nós sentimos a necessidade do
ingresso em uma experiência espiritual mais profunda por meio
do uso de escritores modernos, que abrem caminho a fim de seguir
para além da mente moderna e secular e de volta às verdades eter-
nas do cristianismo. O próprio C. S. Lewis necessitou da sanidade
e do humor de G. K. Chesterton e da imaginação cristã de Geor-
ge MacDonald para alimentá-lo simbolicamente. Ele pôde então
se reportar à obra de Boécio, Sobre a Consolação da Filosofia, que
deu a Lewis uma firme consciência da solidez da eternidade, que
era mais que tempo sem medida. Mas é característica da literatura
184 CRISTIANISMO VERDADEIRO

que molda a vida o fato de que poucos autores sejam capazes de


produzir isso em nós. Lewis nos asseguraria, portanto, assim como
tantos outros têm experimentado, que ler de tudo pode produzir
pouco efeito em profundidade, embora nos torne pessoas muito
informadas.
Para muitos, hoje, o livro de Michel Quoist, Orações da
Vida, tem revolucionado suas vidas de oração e trazido vida e
humanidade às suas devoções. Eu fui primeiramente impactado
pelo desafio de Pureza de Coração é Desejar uma Coisa Só, de
Soren Kierkegaard. Ele é demolidor no que tange ao relaciona-
mento com o Todo-Poderoso. P. T. Forsythe, em Alma em Ora-
ção, nos lembra que “o pior pecado é a falta de oração”. Oswald
Chambers, em Tudo para Ele, tem estimulado muitos à busca es-
piritual. Ao mesmo tempo, nenhum livro devocional, passado
ou presente, pode fazer qualquer coisa decisiva se não estiver-
mos já buscando uma vida espiritual mais profunda, e preparados
para recebê-la. Assim como há Salmoss para todos os estados de
humor e necessidades da vida, também deveria haver um equi-
líbrio em nossas leituras. Às vezes, tudo o de que necessitamos
é leitura teológica sólida, como as Institutas, de Calvino. Outras
vezes, a celebração de Séculos, de Thomas Traherne, ou os poe-
mas de Templo, de George Herbert, são mais apropriados. João da
Cruz combina alguns dos melhores textos da literatura espanho-
la com expressões do mais intenso sofrimento e fervor por Deus
em Noite Escura da Alma. Os hinos de John e Charles Wesley, ou
o Diário, de George Whitefield, ou as Cartas, de Fènelon, ou o
Pensamentos, de Pascal abrangem as mais variadas expressões da
alma diante de Deus. A diversidade acrescenta equilíbrio à nossa
dieta espiritual.

9. Acrescente à sua leitura espiritual a manutenção de um


diário ou de um caderno de reflexões

Os puritanos costumavam argumentar que, assim como o


capitão de uma embarcação mantinha seus registros, ou o médico
anotava seus casos, ou um negociante controlava a sua contabi-
lidade, os cristãos, do mesmo modo, devem manter registros de
Deus, diários e curtos.
APÊNDICE 185

Na verdade, a partir dessa tradição de manter um diário, nós


temos alguns dos maiores tesouros da literatura espiritual. Pensa-
mos em John Bunyan e o seu Graça Abundante para o Maior dos
Pecadores, nas Memórias, de David Brainerd, nos diários Quaker de
homens como George Fox e John Woolman, nos diários de John
Wesley e George Whitefield. Seus exemplos ainda nos encorajam
não apenas a registrar sucessos espirituais, mas também a observar
a bondade de Deus em nossos fracassos, depressões e restaurações.
Eles também nos estimulam a considerar as pequenas coisas que
podem parecer triviais e sem importância e que, no entanto, são
também mantidas sob o cuidado atencioso de Deus. Do mesmo
modo, haverá ocasiões quando a nossa aridez de espírito poderá
sugerir que o nosso estudo e a nossa meditação devocionais são
despropositados e inúteis. Nessas horas, o registro fiel e continua-
do, preservado como um trabalho de amor, se mostrará como algo
oferecido para a honra de Deus em todas as circunstâncias.
Escrever é também um exercício útil e reflexivo. Ajuda-nos
a esclarecer os pensamentos quando nossas emoções estão con-
fusas ou inativas; ajuda-nos a manter as coisas dignas de nota e
edificantes. Os frutos de nossa meditação também são preservados
quando “pensamentos maravilhosos” poderiam muito facilmente
se evaporar de novo.
Para alguns, manter um diário parece um exercício muito
árduo e grandioso. Outros jamais irão adquirir esse hábito. No
entanto, suas autobiografias espirituais são ainda vitais para eles,
pois foram ensinados a ver cada evento que acontece desde a sua
conversão como algo significativo. Em alguns círculos, isso pode
gerar uma ênfase doentia em uma experiência definitiva que de-
termina o passado, o presente e o futuro de tal modo que nenhum
progresso espiritual é feito subseqüentemente. Tudo aconteceu de
uma vez por todas. Não, se somos peregrinos, pois a vida então
permanece em aberto diante de nós, de modo que a nossa autobio-
grafia espiritual ainda está sendo elaborada. Tentativas prematuras
de finalizar a “história”, na conversão, ou na “segunda bênção”, ou
mediante a recepção de um dom ou percepção específicos devem
ser rechaçadas.
Talvez, então, precisemos exercitar mais o senso de autobio-
grafia espiritual em nossas vidas, quer por meio da manutenção de
186 CRISTIANISMO VERDADEIRO

um diário, pequenas anotações diárias, memórias ou apenas uma


lista constante de gratidão pelas muitas circunstâncias que Deus
tem transformado em nossas experiências. Mas precisamos evitar a
expressão muito freqüente de testemunhos públicos que podem ser
exagerados ou espiritualmente desperdiçados pela superexposição.
O herói de Dostoievsky em Notas do Subterrâneo argumenta que
“a consciência é uma doença.”32 O culto à auto-realização desta
“Geração Eu” é certamente uma praga mortal entre nós hoje. Tal-
vez o resgate da autobiografia nos ajude. Pois toda autobiografia é
uma busca por um padrão significativo para a vida, e todas essas
buscas estão fadadas à futilidade sem a referência de nosso Cria-
dor e Redentor. Pois a ausência de Deus em nossos pensamentos
e decisões, desejos e deleites, é o que torna nosso desconforto tão
freqüentemente demoníaco.
A manutenção de um diário juntamente com a nossa lei-
tura devocional nos ajudará a fazer de nossa leitura uma dieta
regular. Será também uma forma de autodirecionamento no cul-
tivo da consciência, de um conhecimento de Deus, ao invés de
um conhecimento próprio. Trata-se de uma maneira de viver que
nos prepara para o céu. O Bispo Joseph Hall, que registrou mui-
tas de suas meditações, nos lembra que reflexões assim registra-
das são “a atividade espiritual do cristão, pois, assim como não é
possível viver sem um coração, do mesmo modo não é possível
ser dedicado a Deus sem meditação”.33 O registro das meditações
nos lembrará constantemente da longa jornada da alma diante
de Deus.

10. Escolha cuidadosamente a obra devocional que você deseja ler


pensando nos benefícios transformadores para a sua alma. Ore com
seriedade e busque alguém que o ajude em sua procura

Há tantos livros de caráter espiritual disponíveis que você


pode se sentir desencorajado a começar, tamanha a variedade.
Primeiro de tudo, portanto, faça distinção entre os clássicos “pri-
mários”, que são leitura básica, das fontes de apoio “secundárias”,
que são apenas clássicos menores em importância. Podemos então
chamar de “leitura terciária” os textos sobre a história da espiri-
tualidade, biografias e outros materiais que ajudem a reforçar o
APÊNDICE 187

contexto dos clássicos primários. O “quarto” tipo de leitura é a


vasta literatura devocional contemporânea, que ainda não se tor-
nou permanente ou obteve interesse e valor perenes.
Não imite a escolha de outra pessoa por um clássico porque
suas necessidades podem ser distintas. O conselho de um amigo
espiritual pode se fazer necessário para ajudá-lo a descobrir o livro
certo, que possa permanecer como seu companheiro para o resto
da vida. Se você ainda não tem um guia espiritual, a sugestão a
seguir pode ajudar.
Se você sente que seus piores inimigos ainda estão dentro
de você – culpa, luxúria, uma vida cristã de constantes derrotas
– então Confissões de Agostinho pode ser o livro certo para você.
Muitos de nós nos identificaremos com o reconhecimento de
Agostinho de que adiou sua exploração e submissão ao cristianis-
mo porque realmente desejava que sua luxúria por sexo, beleza e
sucesso o satisfizesse, ao invés da cura. “Senhor, torna-me puro,
mas ainda não”. A honestidade e abertura de Agostinho diante
de Deus são muito alentadoras, em se tratando de toda uma vida
de acúmulo de coisas e do adiamento da catarse da alma, a qual
muitos de nós desejamos tão intensamente.
Se você busca um relacionamento genuíno com Deus e tem
sentido a ausência de um discipulado verdadeiro diante Dele, en-
tão A Imitação de Cristo de Thomas à Kempis pode ser o chamado
incisivo que está procurando. A tradição que deu origem a essa
pequena obra foi a das notas (ripiaria) ou coleção de frases das
Escrituras e dos Pais que se tornaram um foco para meditação, não
somente para Thomas à Kempis, como também para incontáveis
gerações de “comprometidos”. Por que não se juntar a esse grupo
nobre de devotos?
Se você vê a vida como uma constante luta e se sente ten-
tado a desistir por conta do desânimo e da fraqueza, então talvez
Combate Espiritual, de Lorenzo Scupoli, seja o de que você preci-
sa. Ele só perde para Imitação de Cristo em termos de influência,
particularmente no leste da Europa, desde a sua publicação, em
1589. Francisco de Sales o manteve ao lado da cama por dezesseis
anos, “o livro de ouro, querido” que lia todos os dias. Para aqueles
que necessitam ser dóceis consigo mesmos em auto-rejeição, as
meditações do próprio Francisco de Sales, Introdução à Vida De-
188 CRISTIANISMO VERDADEIRO

votada, são um doce buquê de alívio diário para muitos espíritos


sensíveis.
Apaixonar-se por Deus parece algo temerário para muitos
cristãos. Talvez seja possível viver essa experiência lendo o clás-
sico de Jean Pierre de Caussade, Abandono à Providência Divina.
Ele foi recentemente retraduzido para o inglês por Kitty Mug-
geridge como O Sacramento de Cada Momento e tem o mesmo
tema desta obra. O livro do irmão Lawrence, A Prática da Pre-
sença de Deus, pertence à mesma tradição da devoção francesa
do século XVII.
Tudo isso pode encorajá-lo a retornar ao século XII que, a
exemplo do nosso, estava muito preocupado com a descoberta do
individual através do amor romântico. A resposta de Bernardo de
Claurvaix e de seus amigos foi ver o amor de Deus como a fon-
te da verdadeira pessoalidade. O homem sendo chamado para o
amor, e a fonte do amor é o próprio Deus. A nossa integridade e a
profunda compreensão de nós mesmos se aprofundam quando nos
apaixonamos por Deus como uma realidade permanente. Assim,
pequenas obras como Sobre o Amar a Deus, Amizade Espiritual e
meditações em Cântico dos Cânticos nos ajudam a entrar dentro
dessa realidade.34
Se você sente a necessidade de nutrir a sua vida devocio-
nal com estudo teológico sólido, as Institutas de Calvino, Parte 3,
foram escritas com esse propósito, embora sejam freqüentemente
negligenciadas. Antes de começar, talvez ache útil ler Cristianismo
Verdadeiro, de William Wilberforce, um ataque corajoso à religião
civil, feito por um líder abolicionista contra a escravidão. Se a sua
teologia é clara, mas seus sentimentos estão confusos e fracos com
relação a Deus, então o Tratado Sobre as Afeições Religiosas perma-
nece único em se tratando dessa necessidade de desejos disciplina-
dos para com Deus.35 Esse é um livro que demanda a restauração
do homem pós-moderno.
Talvez você também precise retornar aos livros da infân-
cia, tais como O Peregrino, de John Bunyan, para observar em
níveis mais profundos aquilo que não tem idade e serve a todas
as gerações. Reviver nossa infância com Deus pode ajudar-nos
a redimir o passado visando ao enriquecimento do futuro, como
C. S. Lewis fez com os contos de George MacDonald. Precon-
APÊNDICE 189

ceitos da infância às vezes necessitam ser descongelados, por


meio da releitura de fontes que, no passado, bloqueavam o nos-
so progresso.
Em suas Máximas, João da Cruz resume aquilo que temos
tentado dizer. “Busque, por meio da leitura, e você encontrará
meditando; clame em oração, e a porta será aberta na contem-
plação.”36 Mas, ele admite, aqueles que são “peregrinos por di-
versão e não por devoção são muitos.” Ele então nos adverte,
“nunca permita que entre em sua alma aquilo que não seja subs-
tancialmente espiritual, pois, se você assim o permitir, perderá a
doçura da devoção e da recordação.” E ele acrescenta, “viva no
mundo como se somente Deus e a sua alma estivessem nele; e
que o seu coração não seja cativado por nada que seja terreno”.

James M. Houston

NOTAS

1. Eclesiastes 3:11.
2. C. S. Lewis, Peso de Glória (São Paulo, SP: Edições Vida
Nova, 1993).
3. C. S. Lewis, God in the Dock, Walter Hooper, ed. (Grand
Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1970), 200-207.
4. Citado em G. F. Barbour, The Life of Alexander White
(New York: George H. Doran Co., 1925), 117-118.
5. Citado em Richard L. Greeves, John Bunyan (Grand Ra-
pids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1969), 16.
6. F. J. Sheed, ed., The Confessions of St. Augustine (New
York: Sheed & Ward, 1949), 164.
7. Ibid.
8. Steven Ozment, The Age of Reform, 1250-1550 (New Ha-
ven, CT: Yale University Press, 1980), 239.
9. Robert G. Tuttle, John Wesley: His Life and Theology
(Grand Rapids, MI: Zondervan, 1978), 58.
10. Ibid., 100.
11. Ibid., 65.
12. Earnes W. Bacon, Spurgeon: Heir of the Puritans (Grand
Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1968), 108.
190 CRISTIANISMO VERDADEIRO

13. C. H. Spurgeon, Commenting and Commentaries (Lon-


don: Banner of Truth, 1969), 2-4.
14. Richard Baxter, Practical Works, William Orme, ed.
(London: James Duncan, 1830), 4:266.
15. Efésios 3:20.
16. C. S. Lewis, God in the Dock, 200-201.
17. A. G. Sertillanges, The Intellectual Life, (Westminster,
MD: Christian Classics, 1980), 152-154.
18. Soren Kierkegaard, Purity of Heart Is to Will One Thing
(New York: Harper & Row, 1954), 184.
19. Ibid., 193.
20. Ibid.
21. Carlos Corretto, Letters from the Desert (London: Dar-
ton, Longman, Todd, 1972), 32.
22. Veja John Owen, Triumph Over Temptation, James M.
Houston, ed. (Colorado Springs: Victor Books, 2004).
23. Jean Leclerc, Contemplative Life (Kalamazoo, MI: Cister-
cian Publications, 1978), 109.
24. Citado por Leclerc, Contemplative Life, 117.
25. Ibid., 116.
26. John Owen, Triumph Over Temptation.
27. G. F. Barbour, Life of Alexander Whyte, 378.
28. Ibid., 389.
29. Bernardo de Clairvaux e seus amigos, The Love of God,
James M. Houston, ed. (Portland, OR: Mutlnomah Press, 1983),
233-251.
30. Veja por exemplo Richard Baxter, Watch Your Walk, Ja-
mes M. Houston, ed. (Colorado Springs: Victor Books, 2004).
31. C. S. Lewis, God in the Dock, 201-202.
32. Citado por Roger Pooley, Spiritual Autobiography (Cam-
bridge: Grove Books, Bramcote, Notts, 1983), 6.
33. Joseph Hall, The Works (London: M. Flesher, 1647), 114.
34. Bernardo de Clairvaux, The Love of God.
35. Jonathan Edwards, Faith Beyond Feelings, James M.
Houston, ed. (Colorado Springs, Victor Books, 2004).
36. David Lewis, ed., The Works of St. John of the Cross
(London: Thomas Baker, 1891).

Este livro foi impresso em Setembro de 2006,
pela Imprensa da Fé para a Editora Palavra.
Composto nas tipologias Goudy OldStyle e Lucida Console.
Os fotolitos da capa e do miolo foram feitos
pela Imprensa da Fé.
O papel do miolo é Chamois Fine 67g/m2
e o da capa é Cartão Supremo 250g/m2



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