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Para um Estatuto da Vítima em Portugal

direitos mínimos das vítimas de todos os crimes

Contributo da APAV para a transposição da Directiva da UE


sobre direitos, apoio e proteção das vítimas
Índice

INTRODUÇÃO 7

A DIRECTIVA ENQUANTO MARCO NA EVOLUÇÃO DOS DIREITOS DAS VÍTIMAS DE CRIME 10

CONCEITO E ESTATUTO DA VÍTIMA DE CRIME 16

OS CONCEITOS DE ASSISTENTE, OFENDIDO E LESADO 16

O CONCEITO DE VÍTIMA 19

O ESTATUTO DE VÍTIMA 21

GARANTIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO 22

OS ARTIGOS 3º, 4º E 6º DA DIRECTIVA 24

DIREITO DE RECEBER INFORMAÇÃO SOBRE DIREITOS E SOBRE SERVIÇOS DE APOIO 25

DIREITO DE COMPREENDER E DE SER COMPREENDIDO 26

ESTRATÉGIAS DE INFORMAÇÃO PRECONIZADAS 27

DIREITO DE RECEBER INFORMAÇÕES SOBRE O PROCESSO 30

DIREITOS AQUANDO DA APRESENTAÇÃO DE DENÚNCIA 32

DIREITO DE ACESSO AOS SERVIÇOS DE APOIO ÀS VÍTIMAS 34

OS ARTIGOS 8º E 9º DA DIRECTIVA 38

CENÁRIO EUROPEU: UMA REALIDADE HETEROGÉNEA 38

natureza pública ou privada e fontes de financiamento 39

âmbito material e territorial de intervenção 40

modelo de funcionamento: profissionais vs voluntários 41

sistemas de referenciação 41

MODELO DE SERVIÇOS DE APOIO À VÍTIMA PRECONIZADO PELA APAV 43

natureza privada 43

relação entre o Estado e os serviços de apoio à vítima 45

parceria com o Estado: sistema de referenciação 45

parceria com o Estado em outras vertentes 46

consulta no âmbito da produção legislativa e na definição de políticas públicas 46

ligação à academia 47

3
formação 48

prevenção 48

financiamento 48

âmbito material e territorial 50

composição mista 51

DIREITO A SER OUVIDA E DIREITOS NO CASO DE UMA DECISÃO DE NÃO DEDUZIR ACUSAÇÃO 52

DIREITO A SER OUVIDA 53

DIREITOS NO CASO DE UMA DECISÃO DE NÃO DEDUZIR ACUSAÇÃO 54

DIREITO A GARANTIAS NO CONTEXTO DOS SERVIÇOS DE JUSTIÇA RESTAURATIVA 56

O ART.º 12º n.º 1 DA DIRECTIVA 58

O ARTIGO 12º N.º 2 DA DIRECTIVA E A ACTUAL SITUAÇÃO DA MEDIAÇÃO PENAL EM PORTUGAL 59

CONCLUSÕES E ALGUMAS PROPOSTAS 62

DIREITO A APOIO JUDICIÁRIO 64

O ARTIGO 13º DA DIRECTIVA E A LEI n.º 34/2004 64

APOIO JUDICIÁRIO A VÍTIMAS DE CRIMES 65

DIREITO AO REEMBOLSO DE DESPESAS 68

DIREITO À RESTITUIÇÃO DE BENS 70

DIREITO À INDEMNIZAÇÃO 72

O ART.º 16º DA DIRECTIVA 72

O DIREITO A UMA DECISÃO DE INDEMNIZAÇÃO NO ÂMBITO DO PROCESSO PENAL 74

O ARTIGO 82º-A DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL PORTUGUÊS 74

FORMAS DE INCENTIVO AO PAGAMENTO DA INDEMNIZAÇÃO 75

MEIOS DE GARANTIA DO PAGAMENTO DA INDEMNIZAÇÃO 76

PRIORIDADE DA INDEMNIZAÇÃO NO CUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES DO ARGUIDO 77

INCUMPRIMENTO DO DEVER DE INDEMNIZAÇÃO 77

suspensão do processo em caso de acordo a cumprir em prestações 77

fundo indemnizatório: a indemnização pelo Estado às vítimas de crimes 78

DANO CORPORAL 81

jurisprudência recente 81

4
avaliação 82

VÍTIMAS RESIDENTES EM OUTRO ESTADO-MEMBRO: INTERPRETAÇÃO, TRADUÇÃO E OUTROS DIREITOS 84

O ARTIGO 17º DA DIRECTIVA 84

O ARTIGO 7º DA DIRECTIVA 85

PRESTAÇÃO IMEDIATA DE DEPOIMENTO E POSSIBILIDADE DE


RECURSO A VIDEOCONFERÊNCIA OU TELECONFERÊNCIA 86

ACEITAÇÃO DE DENÚNCIA DE CRIME COMETIDO NOUTRO ESTADO-MEMBRO


E TRANSMISSÃO DE DENÚNCIA ÀS AUTORIDADES COMPETENTES 87

TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO EM PROCESSO PENAL 87

DIREITO À PROTECÇÃO 94

DIREITO À INEXISTÊNCIA DE CONTACTOS ENTRE A VÍTIMA E O AUTOR DO CRIME 96

DIREITO A PROTECÇÃO DURANTE AS INVESTIGAÇÕES PENAIS 97

direito a acompanhamento 97

declarações para memória futura 99

outras medidas de protecção 99

DIREITO À PROTECÇÃO DA VIDA PRIVADA 100

A AVALIAÇÃO INDIVIDUAL 101

MEDIDAS A APLICAR A VÍTIMAS COM NECESSIDADES ESPECÍFICAS DE PROTECÇÃO 104

MEDIDAS PREVENTIVAS DE POLÍCIA 106

PENA ACESSÓRIA DE PROIBIÇÃO DE CONTACTOS 109

VÍTIMAS COM NECESSIDADES ESPECÍFICAS 110

VÍTIMAS DE CRIMES DE ÓDIO 112

IMIGRANTES VÍTIMAS DE CRIMES 113

PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VÍTIMAS DE CRIME 115

PESSOAS IDOSAS VÍTIMAS DE CRIME 117

CRIANÇAS VÍTIMAS DE CRIME 119

FORMAÇÃO E MONITORIZAÇÃO 124

O ARTIGO 25º DA DIRECTIVA 124

A FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS EM PORTUGAL NA ÁREA DAS VÍTIMAS DE CRIMES 126

MONITORIZAÇÃO DA IMPLEMENTAÇÃO DOS DIREITOS DAS VÍTIMAS DE CRIMES 128

CONCLUSÕES 129

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Abreviaturas mais utilizadas

CRP – Constituição da República Portuguesa

CP – Código Penal

CPP – Código de Processo Penal

CC – Código Civil

CPC – Código de Processo Civil

LPT – Lei de Protecção de Testemunhas

LVD – Lei da Violência Doméstica (regime jurídico aplicável à prevenção da violência doméstica,

à protecção e à assistência das suas vítimas)

SMP – Serviço de Mediação Penal

UE – União Europeia

MP- Ministério Público

PJ – Polícia Judiciária

PSP – Polícia de Segurança Pública

GNR – Guarda Nacional republicana

SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima


INTRODUÇÃO

Estamos a viver um momento de viragem no que toca ao


reconhecimento do papel e dos direitos das vítimas de
crime.

A União Europeia, face ao menor sucesso que foi a imple-


mentação da Decisão Quadro de 2001 relativa ao Estatuto
da Vítima no Processo Penal, não desistiu, não se retraiu
e, ao invés, deu um passo em frente: numa matéria tão
sensível em termos de soberania de cada Estado Membro
como é a justiça e, designadamente, a justiça penal, apro-
vou em 25 de Outubro de 2012 a Directiva 2012/29/EU do
Parlamento Europeu e do Conselho que estabelece nor-
mas mínimas relativas aos direitos, ao apoio e à protecção
das vítimas da criminalidade.

Optando por um instrumento jurídico dotado de força vin-


culativa superior, redigido de uma forma muito mais aper-
feiçoada do ponto de vista sistemático e que impõe aos
Estados Membros um conjunto de deveres por um lado
mais alargado e por outro mais concretizado do que a
Decisão Quadro de 2001, a União Europeia quis dar um
claro sinal de qual o caminho que pretende ver trilhado,
face a um cenário estimado de cerca de 75 milhões de

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vítimas por ano no espaço europeu. Contudo, e para que a participação da do tema escolhido e que foram pre-
Esta Directiva confere à vítima de APAV neste debate fosse o mais rica viamente enviadas aos convidados.
crime uma carta de direitos basilares possível, procurou obter-se, de forma
que deverão ser transpostos para os organizada e sistemática, os contribu- Após cada reunião, a APAV preparou
ordenamentos jurídicos nacionais até tos de profissionais que, pela activi- e enviou para os participantes, para
16 de Novembro de 2015. dade que desenvolvem, têm contacto validação, uma súmula escrita dos
directo e/ou influenciam a forma como principais tópicos debatidos e das
as vítimas de crimes são diariamente conclusões a que foi possível chegar.
Perante esta obrigação do Estado tratadas no percurso institucional que Importa referir que as posições as-
Português, a APAV entendeu dar o têm que fazer na sequência da vitima- sumidas nestes encontros foram ex-
seu contributo para o debate que ção sofrida. Para esse efeito, foram clusivamente pessoais, uma vez que
desejavelmente precederá a trans- organizados focus groups, cada um os convites foram endereçados aos
posição desta Directiva. Sendo a abordando uma temática específica profissionais, não estando por isso
única organização de âmbito nacio- relacionada com os direitos das víti- estes em representação das institu-
nal que presta apoio gratuito e confi- mas das crimes e para o qual foram ições, serviços ou organismos que
dencial às vítimas de todos os tipos convidados entre cinco e 12 profis- integram.
de crimes, encontra-se numa posição sionais cuja contribuição poderia,
privilegiada para transmitir algumas no entender da APAV, constituir uma Para além destas reuniões, foram ai-
das necessidades, expectativas, de- mais-valia quanto à matéria concre- nda efectuadas várias entrevistas in-
sejos e dificuldades experienciadas tamente tratada nessa reunião. Cada dividuais, ou porque não foi possível a
por estas em Portugal. focus group assentou num conjunto alguns profissionais participarem nos
de questões concretas emergentes focus groups para que haviam sido


(…) A União Europeia quis dar um claro sinal de
qual o caminho que pretende ver trilhado, face a
um cenário estimado de cerca de 75 milhões de “
vítimas por ano no espaço europeu.

8
convidados não tendo contudo queri- Este documento não segue escru- ticipar e estimular o debate em torno
do deixar-se de recolher o seu con- pulosamente a ordem sequencial da das questões atinentes aos direitos
tributo, ou porque se pretendeu que Directiva. Nalguns casos agrupou-se das vítimas de crimes, é a de contri-
a sua participação fosse transversal, e tratou-se em conjunto uma série de buir para que estas sejam vistas cada
isto é, não se cingindo a um tema es- direitos, em virtude da conexão exis- vez mais como uma prioridade pelo
pecífico mas antes abordando todas tente entre eles. Refira-se ainda que decisor político, como um sujeito de
ou quase todas as matérias focadas este é um documento dinâmico, isto direitos pelos operadores judiciários
na Directiva. Estas entrevistas foram é, passível de ser revisto, alterado e/ e policiais, como destinatária de um
conduzidas com base em guiões pre- ou actualizado ao longo do processo tratamento personalizado, não dis-
viamente enviados aos entrevistados. de transposição da Directiva, conso- criminatório e assente no respeito, no
ante o rumo que este processo for tato e no profissionalismo por parte de
Assim, a posição e as propostas seguindo, as posições manifestadas todos os técnicos que consigo contac-
concretas da APAV espelhadas neste pelos diferentes atores, novas ob- tam, e como alguém cuja fragilidade
documento e relativas às matérias rigações para o Estado Português decorrente da situação de vitimação
tratadas na Directiva resultam da in- decorrentes de instrumentos jurídicos sofrida deve ser alvo de reconhe-
formação, saber e experiência acu- internacionais que venham entretanto cimento por parte da sociedade em
mulados não apenas pela associação a surgir, experiências eventualmente geral.
na sua missão quotidiana de informar relevantes empreendidas noutros Melhorar o tratamento conferido às
e apoiar cidadãos vítimas de crimes, países, entre outros aspectos. vítimas de crime é um desiderato ape-
mas também por mais de sessenta nas alcançável se tudo aquilo que de
profissionais que, embora abordando seguida se proporá for pensado no
estas realidades a partir de um ângulo A finalidade última da APAV, quer ao âmbito de uma política integrada e
diferente, conhecem também em pro- desenvolver todos os esforços que global em prol daquelas.
fundidade a actual situação das víti- desembocaram na elaboração do
mas de crimes em Portugal. presente documento quer ao par-

9
A DIRECTIVA ENQUANTO MARCO NA EVOLUÇÃO
DOS DIREITOS DAS VÍTIMAS DE CRIME

C
ontextualizando, ainda que de forma muito breve, a crescente preocu-
pação devotada às vítimas de crime, importa realçar o facto de se tratar
de um fenómeno relativamente recente, cujo início podemos situar nos
anos 70 do século XX, embora fruto de uma evolução ao nível da consciência
social emergida nos anos 60.

Esta maior atenção dedicada às vítimas resulta de uma multiplicidade de cau-


sas, muito diferentes umas das outras mas que acabaram por se conjugar e
confluir num movimento de defesa dos direitos e interesses daquelas.
Desde logo o surgimento da vitimologia, enquanto ciência que estuda a vítima.
Ironicamente, nos seus primeiros tempos, logo após a segunda guerra mun-
dial, a vitimologia centrou-se na procura do contributo da vítima para o compor-
tamento criminoso, isto é, a vítima era estudada com a finalidade de medir o
grau do seu contributo para a ocorrência do crime, isto é, a sua culpa.
Mas a cada vez maior preocupação face aos índices de criminalidade, a desco-
berta, através dos inquéritos de vitimação, da elevada percentagem de vítimas
que não denunciava os crimes de que era alvo e a constatação de que estas
significativas cifras negras reflectiam insatisfação e descrença relativamente
ao sistema de justiça pela forma como este as marginalizava acabaram por
recentrar a atenção dos investigadores no estudo desta insatisfação e do im-
pacto do crime nas vítimas: nos anos 70, diversas investigações desenvolvidas
sobre temáticas como o trauma em casos de violação, o impacto do crime na
população idosa ou o síndroma da mulher batida e, nos anos 80, as inves-

10
tigações sobre stress pós traumático das vítimas de crime, na medida em a Resolução 40/34 e anexos: Decla-
contribuíram decisivamente para afir- que a prevalência de comportamen- ração dos Princípios Fundamentais
mar a necessidade de proporcionar tos como a violência doméstica ou a de Justiça Relativos às Vítimas de
apoio psicológico, quer imediato quer violência sexual e o tratamento por Crimes e de Abuso de Poder (1985),
de longa duração, às vítimas de crime vezes um pouco benevolente con- o Conselho da Europa, com três re-
e muitas vezes também aos seus fa- ferido a estes casos pelo sistema comendações (R(85)11 – estatuto
miliares ou outras pessoas próximas. de justiça eram vistos como sintoma da vítima no âmbito do direito penal
Por outro lado, os estudos efectuados claro de desigualdade e, como tal, de- e processual penal; R(87)21 – as-
acerca da participação das vítimas nunciados e combatidos. sistência às vítimas e prevenção da
no processo penal levaram à criação vitimação; R(2006)8 – assistência às
e financiamento, inicialmente a título vítimas de crime) e a União Europeia,
experimental, dos primeiros serviços Por fim, este movimento em prol dos que começou a debruçar-se sobre
de atendimento, vocacionados para interesses das vítimas de crime foi estas questões a partir do tratado de
informar e apoiar vítimas. também impulsionado pelas próprias Amesterdão e que em 2001 produz o
vítimas. Muitas organizações de apoio primeiro instrumento jurídico interna-
foram criadas por estas ou por famili- cional de natureza vinculativa nesta
Começou também por esta altura a ares, demonstrando bem o papel de- matéria - a Decisão Quadro relativa ao
ganhar relevância a ideia de que o cisivo da sociedade civil no surgimen- estatuto da vítima em processo penal
Estado, numa óptica de solidariedade to destes serviços que, de uma forma -, que resultou de iniciativa portugue-
social, devia prover algum tipo de geral, cobriam quatro dimensões es- sa durante a presidência portuguesa
compensação económica às vítimas senciais: intervenção imediata em da UE no primeiro semestre de 2000
que dela necessitassem para fazer situações de crise, acompanhamento
face às necessidades resultantes do psicológico, informação e apoio jurídi-
impacto do crime. Mecanismos in- co e acesso a indemnização.
demnizatórios começam por isso a ser
criados em diferentes países, repre-
sentando o primeiro reconhecimento O surgimento destas organizações
público da responsabilidade da socie- e grupos activistas, bem como uma
dade e do Estado para com as vítimas cada vez maior sensibilização da
de crime. Ao mesmo tempo, estes opinião pública, acabaram por impul-
mecanismos promoveram o contacto sionar o movimento, e a etapa natural
de mais vítimas com o sistema de seguinte passou pela consagração de
justiça, na medida em que o acesso à um conjunto de direitos tidos como
indemnização estava dependente da fundamentais tendo em vista a melho-
denúncia do crime às autoridades. ria do tratamento conferido às vítimas
pelo sistema de justiça. Esta consag-
ração ocorreu tanto ao nível das leg-
Os movimentos de defesa dos di- islações nacionais como, sobretudo,
reitos das mulheres desempenharam por força de instrumentos jurídicos
também um papel fundamental para a emanados de organizações interna-
crescente visibilidade da problemática cionais, designadamente a ONU, com

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(o que impõe, de forma simbólica mas Esta Directiva não pode contudo ser No seu todo, este acervo legislativo
não só, responsabilidade acrescida vista isoladamente, na medida em que visa assegurar que as vítimas de
ao Estado Português nesta matéria). se insere num conjunto de legislação todos os tipos de crimes, indepen-
A Decisão-Quadro foi recentemente comunitária do qual fazem ainda parte dentemente da sua nacionalidade ou
substituída pela Directiva de 2012 as Directivas 2011/99/UE, de 13 de país de residência e do local em que
referida, e que resulta directamente do Dezembro de 2011, relativa à decisão o crime ocorreu, dispõem, no âmbito
Programa de Estocolmo (2010), que europeia de protecção, 2011/36/UE, dos sistemas de justiça criminal, dos
veio demandar a Comissão Europeia de 5 de Abril de 2011, relativa à pre- direitos processuais adequados, de
e os Estados Membros no sentido de venção e luta contra o tráfico de seres apoio e de protecção.
incrementarem os direitos, apoio e humanos e à protecção das vítimas,
protecção das vítimas de crime. Os 2011/92/UE, de 13 de Dezembro de
passos destinados a alcançar tal de- 2011, relativa à luta contra o abuso Não se trata de recentrar as finali-
siderato foram definidos através da sexual e a exploração sexual de crian- dades do processo penal nem de
Resolução do Conselho sobre um ças e a pornografia infantil e 2004/80/ alterar os seus actores principais. O
roteiro para fortalecer os direitos e CE, de 29 de Abril de 2004, relativa à processo serve e continuará a servir
protecção das vítimas, em particular indemnização das vítimas de criminal- para indagar da ocorrência de um
durante o processo penal, conhecido idade e a Decisão Quadro 2002/475/ crime e, em caso afirmativo, apurar
como Roteiro de Budapeste (2011). JAI, de 13 de Junho de 2002, relativa quem foi o seu autor e sancioná-lo.
à luta contra o terrorismo. Os protagonistas são e continuarão
a ser o Estado e o arguido, e é en-
tre estes que se estabelece a relação
principal do processo. Aquilo que se
pretende, com todos os esforços de-
senvolvidos nos últimos 40 anos pelo
movimento ligado à defesa dos in-


Aquilo que se pretende (…) é tão- teresses das vítimas, é tão-somente
promover o reconhecimento do seu

somente promover o reconhecimento estatuto e do seu papel, garantir um


tratamento assente no respeito e no
profissionalismo e conferir-lhes um
do seu estatuto e do seu papel, garan- conjunto de direitos que melhorem
a sua experiência no âmbito do pro-
tir um tratamento assente no respeito “ cesso penal e evitem ou minimizem a
ocorrência de fenómenos de vitima-
e no profissionalismo e conferir-lhes ção secundária. Faz-se esta ressalva
porque por vezes, quando se fala em
um conjunto de direitos (...) direitos das vítimas no processo pe-
nal, alguns contrapõem com a ideia
de que o centro do processo não é
a vítima, e de que a finalidade prin-
cipal deste não é protegê-la, apoiá-la

13
ou repará-la. É por isso importante independentemente do Estado Mem- Directiva, conhecer os cenários de
deixar claro que, pelo menos na per- bro em que se encontre. A Directiva outros Estados Membros e não ter
spectiva da APAV, estes não são as- consagra um conteúdo mínimo para medo de copiar soluções que já aí
pectos inconciliáveis. Se repararmos cada direito, mas nada impede que provaram os seus méritos. É verdade
com atenção, os direitos das vítimas os Estados Membros vão para além que por vezes poderá não se afigu-
elencados na Directiva não acarretam do que aquela preconiza, o que aliás rar possível transpor pura e simples-
qualquer limitação aos direitos dos ar- já sucede nalguns casos. A Directiva mente realidades que fazem sentido
guidos. Aliás, isso é expressamente não deve por isso levar a retrocessos inseridas num determinado contexto,
referido no considerando n.º 12, onde relativamente a direitos, procedimen- não apenas jurídico mas também so-
se afirma que “os direitos previstos na tos e/ou práticas que actualmente já cial e cultural, mas que noutro poderão
presente Directiva não prejudicam os suplantam o preconizado neste nor- revelar-se deslocadas. Mas pensam-
direitos do autor do crime”. A postura mativo. os que, quanto a alguns aspectos, há
da APAV, à semelhança aliás daquilo bons exemplos externos que deverão
que é o posicionamento habitual das merecer a nossa atenção.
organizações de apoio à vítima, é a Em segundo lugar, a cabal trans-
de que estar do lado das vítimas não posição desta Directiva não se bastará
significa estar contra os arguidos e de com a mera introdução de algumas al-
que defender os direitos daquelas não terações legislativas. A preocupação
significa atacar ou pretender encolher do decisor político deverá centrar-se
os direitos destes. Em suma: melho- tanto na lei quanto na praxis, na me-
rar o tratamento conferido às vítimas dida em que a efectiva implementa-
no processo penal não implica qual- ção de muitos dos direitos dependerá
quer colisão com os interesses dos porventura mais da inovação ao nível
arguidos nem com as finalidades do dos procedimentos, da formação de
processo. profissionais e da informação e sensi-
bilização do público do que apenas da
actividade legislativa.
Na transposição da Directiva não de-
veremos perder de vista três aspec-
tos: Em terceiro lugar, o cenário europeu
é profundamente heterogéneo nestas
matérias, quer no que respeita às pos-
Em primeiro lugar, aquilo que se pre- sibilidades de intervenção da vítima
tende é que em cada Estado Membro no processo penal, quer nos direitos
seja garantido à vítima de crime um que lhe são conferidos, quer também
patamar mínimo de direitos, consub- nos recursos de apoio disponíveis. Há
stanciado através de um estatuto da países que em muitos aspectos es-
vítima no processo penal, de modo a tão objectivamente um passo à frente
que toda a pessoa que seja vítima de de Portugal, tal como há outros que
crime no espaço da União Europeia estarão um passo atrás. É por isso
beneficie desse conjunto de direitos, fundamental, na transposição desta

14
“ Entendemos que a adopção do conceito de vítima
no ordenamento processual penal português
permitiria respeitar a terminologia
exacta utilizada por vários diplomas
internacionais e pela Directiva (…)

15
CONCEITO E ESTATUTO
DA VÍTIMA DE CRIME

OS CONCEITOS DE
ASSISTENTE, OFENDIDO
E LESADO

A
Comissão Europeia reco-
menda que os conceitos uti-
lizados na Directiva 2012/29/
UE do Parlamento Europeu e do
Conselho, de 25 de Outubro de 2012,
sejam transpostos integralmente para
a lei interna, em nome da certeza e
clareza jurídicas.

Será possível fazer isto, quanto ao


conceito de vítima, no caso portu-
guês?
Na lei processual penal portuguesa
existem três figuras principais que
tendem a coincidir com a pessoa da
vítima – o assistente, o ofendido e o
nos arts.º 68º e ss. do Código de Pro-
lesado.
cesso Penal (CPP). O assistente cor-
responde à pessoa ou entidade que
requer ao Juiz de Instrução Criminal
O assistente é um sujeito processual,
(na fase de inquérito e na de instrução)
a par do tribunal, do Ministério Públi-
ou ao Juiz de Julgamento (na fase de
co, do arguido e do defensor, o que
julgamento) a sua constituição como
significa que, como eles, tem o poder
tal, devendo para o efeito reunir os
de conformação processual, ou seja,
pressupostos legitimidade (art.º 68º,
dispõe da faculdade de fazer avançar
n.º 1 do CPP), tempestividade, que
ou parar o processo. O regime legal
varia consoante a natureza do crime
aplicável ao assistente está expresso

16

A APAV posiciona-se

no sentido de os direi- acusação subordinada (cfr. art.º 283º na lei, incluindo o direito de requerer
do CPP). para o lesado ou lesados a correspon-
tos consagrados pela
dente indemnização, nomeadamente
Directiva para a para promover a prevenção, a cessa-
Do ponto de vista da legitimidade, po- ção ou a perseguição judicial das in-
vítima deverem ser dem constituir-se como assistentes fracções contra a saúde pública, os di-
o ofendido (art.º 68º, n.º 1, alínea a) reitos dos consumidores, a qualidade
transpostos para o do CPP), a pessoa de cuja queixa ou de vida, a preservação do ambiente
acusação particular depender o pro- e do património cultural e assegurar
ordenamento jurídico
cedimento (que tende a coincidir com a defesa dos bens do Estado, das
português, criando- o ofendido, cfr. Arts. 68º, n.º 1, alínea regiões autónomas e das autarquias
b) do CPP e 113º, nº 1 e 117º do CP), locais. Nessa senda, a Lei da Acção
se um Estatuto da as pessoas constantes das alíneas Popular mencionada define no nº 1 do
c) e d) do n.º 1 do art.º 68º do CPP seu art.º 1º os casos e termos em que
Vítima que proceda à e qualquer pessoa nos crimes con- são conferidos e podem ser exercidos
tra a paz e a humanidade, bem como o direito de participação popular em
definição do conceito
nos crimes de tráfico de influência, procedimentos administrativos e o di-
e preveja os princi- favorecimento pessoal praticado por reito de acção popular para a preven-
funcionário, denegação de justiça, ção, cessação ou perseguição judicial
pais direitos e deveres prevaricação, corrupção, peculato, das infracções previstas naquele n.º 3

desta figura num só


“ participação económica em negócio,
abuso de poder e de fraude na ob-
do art.º 52º da CRP. O nº 2 do art.º 1º
da mesma Lei exemplifica os direitos
tenção ou desvio de subsídio ou sub- protegidos sob a sua égide, desta-
artigo do CPP.
venção, como decorre da alínea e) do cando a saúde pública, o ambiente, a
mesmo preceito. Mas o corpo do n.º qualidade de vida, a protecção do con-
1 do art.º 68º do CPP dispõe ainda sumo de bens e serviços, o património
que a legitimidade para a constituição cultural e o domínio público. Já o art.º
como assistente pode decorrer de leis 2º da Lei em referência determina que
especiais que confiram esse direito. E são titulares do direito procedimental
é precisamente o que sucede na Lei de participação popular e do direito de
e a fase processual em causa (art.º
de Acção Popular, Lei n.º 83/95, de 31 acção popular quaisquer cidadãos no
68º, n.ºs 2 e3 do CPP), patrocínio
de Agosto, em cumprimento do que gozo dos seus direitos civis e políticos
judiciário (art.º 70º do CPP) e paga-
dispõe a Constituição da República e as associações e fundações defen-
mento de taxa de justiça (art.º 519º,
Portuguesa (CRP). soras dos interesses mencionados,
n.º 1 do CPP). O assistente coadjuva
independentemente de terem ou não
o Ministério Público (art.º 69º, n.º 1
interesse directo na demanda (n.º 1),
do CPP) e, embora dele autónomo,
Assim, o nº 3 do art.º 52º da CRP con- assim como as autarquias locais em
está subordinado à actuação daquele
fere a todos, pessoalmente ou através relação aos interesses de que sejam
nos crimes de natureza pública e
de associações de defesa dos inter- titulares os residentes na área da re-
semipública para efeitos de dedução
esses em causa, o direito de acção spectiva circunscrição (n.º 2).
de acusação, já que apenas deduz
popular nos casos e termos previstos

17
Nestes termos, no plano da criminali- creto-Lei n.º 35 007, de 1945, que al- Mas o conceito restritivo de ofendido
dade que afecta os interesses refe- terou o CPP, mas manteve inalterada tem sido burilado e ampliado nas últi-
ridos, a qualquer titular do direito de a definição de ofendido. Foi também mas décadas, pela mão da doutrina e
acção popular é reconhecido o direito o que fez o legislador de 1987, que da jurisprudência.
de denúncia, queixa ou participação verteu a mesma noção de ofendido no
ao Ministério Público, bem como o de art.º 68º, n.º 1, alínea a) do CPP em
se constituir assistente no processo análise (e no art.º 113º, n.º 1 do CP). Paulo de Sousa Mendes defende um
penal, de acordo com o art.º 25º da Durante largos anos, o conceito res- conceito restritivo alargado de ofen-
Lei de Acção Popular. tritivo de ofendido foi pacificamente dido2. Sustenta que, à luz da teoria
aceite na doutrina e na jurisprudência, do bem jurídico, o advérbio especial-
não só pela clareza e persistência do mente, constante da letra do art.º 68º,
Podemos verificar, pois, que o con- texto legal, mas também por se ad- n.º 1, alínea a) do CPP, reporta-se
ceito de assistente se apresenta bas- mitir ser essa a opção mais coerente aos interesses particularmente pro-
tante amplo. com o carácter público do processo tegidos, isto é, directamente protegi-
penal. dos. Por contraposição, os interesses
reflexa ou mediatamente protegidos
Já o conceito de ofendido é definido não caberiam no preceito. Retoman-
como sendo o titular dos interesses Este conceito restrito de ofendido do a análise dos tipos de ilícito acima
que a lei penal especialmente quis tinha ainda reflexos especialmente in- mencionados, que tutelam bens jurídi-
proteger com a incriminação, noção tensos em sede de legitimidade para cos de natureza pública, e seguindo a
constante dos arts.º 113º, n.º 1 do CP a constituição como assistente no âm- linha de pensamento que ora se explo-
e 68º, n.º 1, alínea a) do CPP. Mas o bito dos crimes que tutelassem bens ra, a natureza pública do bem jurídico
exacto alcance do conceito de ofen- jurídicos de natureza pública, de que não obsta a que, para além do inter-
dido é questão controvertida. são exemplo os tipos de falsificação esse público, se afectem igualmente,
Tradicionalmente, apenas se admi- ou contrafacção de documento (art.º de modo paralelo e directo, os inter-
tia como ofendido o titular do inter- 256º do CP), de denúncia caluniosa esses do particular. Assim, “a tese re-
esse especialmente previsto pela (art.º 365º do CP) ou de desobediên- strita de ofendido [é] expandida até ao
norma. O advérbio especialmente cia (art.º 348º do CP). Seguindo a ponto de admitir a legitimidade para a
era interpretado no sentido de exclu- linha de raciocínio que ora se explora, constituição como assistente sempre
sivamente, ou seja, adoptava-se um os tipos mencionados tutelariam es- que haja interesses de titularidade
conceito restritivo de ofendido , nos 1
pecialmente, ou melhor, exclusiva- individual directamente afectados”3.
termos do qual cada incriminação mente, ou, melhor ainda, unicamente, Trata-se de uma nova compreensão
protegeria apenas um único interesse um interesse de natureza pública. Por da tese restritiva de ofendido, que ad-
que comportaria um único titular. Este isso, não haveria espaço para outro(s) mite a constituição como assistente
entendimento corresponde à doutrina interesse(s), e o particular nunca as- sempre que o particular seja directa-
clássica sobre o conceito de ofendido, sumiria as vestes de ofendido, nem mente afectado pela prática do crime.
construída a partir do art.º 11º do CPP poderia requerer a sua constituição
de 1929, e do art.º 4º, n.º 2 do De- como assistente quanto a tais crimes, 2 Mendes, Paulo de Sousa (2013):
Lições de Direito Processual Penal, Coimbra,
1 Assim Beleza dos Santos, apud
por lhe mancar legitimidade. Almedina: p. 134.
Neves, Alfredo Castanheira (1968): Sumários 3 Mendes, Paulo de Sousa (2013):
de processo criminal, Coimbra: Dactilog. Por Lições de Direito Processual Penal, Coimbra,
João Abrantes Almedina: p. 134.

18
E a jurisprudência tem assumido um a incriminação e/ou não se tenha con- basear-se em critérios objectivos e
papel decisivo na sua construção . 4
stituído ou não possa constituir-se transparentes e devem ser tomadas
Indo mais longe, Augusto Silva Dias assistente. O seu papel no processo apenas quando as circunstâncias do
sustenta o conceito amplo de ofen- penal restringe-se à sustentação e caso o exijam.
dido, nos termos do qual a legitimi- à prova do pedido de indemnização
dade para a constituição como as- civil, nos termos do art.º 74º do CPP.
sistente deve abranger os processos No CPP o conceito de vítima já é uti-
por crimes colectivos ou interesses lizado, nomeadamente, no ponto 4 do
difusos, de titularidade intersubjec- Preâmbulo, quando se faz referência
O CONCEITO DE VÍTIMA
tiva, como sucede no âmbito do crime à busca de inovação conciliada com o
de poluição (art.º 279º do CP). Em tais respeito pela tradição patente na figu-
casos, qualquer pessoa se pode con- ra da “vítima-assistente”, na definição
Vítima, de acordo com o art.º 2º,
siderar ofendida e, como tal, requerer de relatório social constante do art.º
alínea a), ponto i) da Directiva, é a
a constituição como assistente. Se- 1º, al. g), no art.º 82º-A que consagra
pessoa singular que sofreu um dano,
guindo o mesmo entendimento, o a possibilidade de o tribunal arbitrar
nomeadamente um dano físico, moral
conceito amplo de ofendido que as- uma quantia à vítima quando par-
ou emocional, ou um prejuízo material
sim se concebe não se confunde com ticulares exigências de protecção o
directamente causados por um crime.
o art.º 68º, n.º 1, alínea e) do CPP, por imponham, em casos de condenação
A Directiva inclui no conceito de víti-
não existir ali qualquer conceito de quando não tenha sido deduzido o
ma “os familiares de uma pessoa cuja
ofendido. Trata-se de uma cláusula pedido de indemnização cível e tam-
morte tenha sido directamente causa-
aberta, que permite a constituição bém no art.º 281º, nº 7, estabelecen-
da por um crime e que tenham sofrido
como assistente a qualquer pessoa, do-se que em processos por crime
um dano em consequência da morte
com base no propósito de se garantir de violência doméstica não agravado
dessa pessoa”, sendo familiares o
a boa administração da justiça e, em pelo resultado, o Ministério Público,
cônjuge, a pessoa que vive com a víti-
última instância, maior transparência mediante requerimento livre e es-
ma numa relação íntima de compro-
na administração da justiça . 5
clarecido da vítima, determina a sus-
misso, num agregado familiar comum
pensão provisória do processo, com a
e numa base estável e permanente,
concordância do juiz de instrução e do
os familiares em linha directa, os ir-
O lesado é a pessoa singular ou col- arguido, desde que se verifiquem os
mãos e as pessoas a cargo da vítima.
ectiva que sofreu danos ocasionados pressupostos das alíneas b) e c) do
pelo crime, seja ou não ofendido, isto n.º 1 do artigo.
é, seja ou não titular do interesse que
Quanto às possibilidades previstas
a lei especialmente quis proteger com
4 Mendes, Paulo de Sousa (2013): Lições de pela Directiva no nº 2 do art.º 2º de,
Direito Processual Penal, Coimbra, Almedina:
Já nas Leis nº 104/2009 e nº 112/
na lei nacional, limitar o número de
p. 134. 2009, o conceito de vítima é utiliza-
5 Dias, Augusto Silva (2004): “A tutela familiares que podem beneficiar dos
do ofendido e a posição do assistente no pro- do, sendo definido na última como
cesso penal português”, in AA.VV., Jornadas
direitos previstos para a vítima ou de
”a pessoa singular que sofreu um
de Direito Processual penal e direitos funda- dar prioridade a certos familiares no
mentais (org. Faculdade de Direito da Universi- dano, nomeadamente um atentado
dade de Lisboa e Conselho Distrital de Lisboa exercício dos direitos, diz a Comissão
da Ordem dos Advogados, com a colaboração
à sua integridade física ou mental,
Europeia que decisões neste sentido
do Goethe Institut e coord. Científica de Maria um dano moral, ou uma perda mate-
Fernanda Palma), Coimbra: Almedina, 2004, devem dirigir-se a casos concretos e
pp. 57 ss. rial, directamente causada por acção

19
ou omissão, no âmbito do crime de poderia constituir-se assistente ou sofreu danos ocasionados pelo crime,
violência doméstica previsto no ar- participar no processo a título próprio. ainda que se não tenha constituído
tigo 152.º do Código Penal”. Embora Isto implicaria que, violando o carácter ou não possa constituir-se assistente”
relacionando o conceito apenas com público do Direito Processual Penal, -, pensamos que não há razão para
o crime de violência doméstica, esta os titulares de interesses meramente qualquer confusão. Com efeito, é pos-
definição vai ao encontro da que é privados poderiam influenciar o pro- sível retirar dos textos daqueles nor-
feita na Directiva. cesso, correndo-se o risco de senti- mativos que o primeiro abrange so-
mentos de “vingança” virem a ter eco mente pessoas singulares e se refere
no mesmo. A adopção do conceito de a danos que decorram directamente
Entendemos que a adopção do con- vítima poderia também resultar numa do crime e o segundo engloba pes-
ceito de vítima no ordenamento pro- perda de direitos para o assistente, soas singulares e colectivas e não
cessual penal português permitiria re- sendo consagrado o direito daquela faz tal referência. Isto é: o conceito
speitar a terminologia exacta utilizada se constituir como tal. Este actual- de vítima, ao contrário do conceito de
por vários diplomas internacionais e mente pode requerer diligências, acu- lesado, não abrange a pessoa que
pela Directiva, na definição constante sar ao lado do MP nos crimes públi- sofre danos meramente civis. Segun-
da al. a), do nº 1 do art.º 2º daquela, cos e semipúblicos, acusar mesmo do esta interpretação, que diferencia
não colhendo, em nossa opinião, al- que o MP não deduza acusação nos substancialmente os dois conceitos,
guns argumentos que à primeira vista crimes particulares, requerer abertura a argumentação apresentada para
poderiam desaconselhar tal opção. de instrução e recorrer. Ora, estes questionar a viabilidade da adopção
Um primeiro argumento nesse sentido poderes compreendem-se por o as- do conceito de vítima centrada na fun-
seria o de que o conceito de vítima sistente ser colaborador do MP. Caso damental semelhança entre aqueles
previsto na Directiva parece confun- qualquer pessoa que sofresse um deixa de ter validade.
dir-se com o conceito de lesado pre- dano pudesse constituir-se como as-
visto no CPP, centrando-se ambos na sistente e influenciar o processo pe-
produção de danos pelo crime. Assim nal, correndo-se o risco de se estar a O conceito de vítima que se propõe,
sendo, adoptar o conceito de vítima prosseguir interesses privados e não redigido nos termos da Directiva –
da Directiva implicaria sacrificar um os fins do processo penal, poderia “Uma pessoa singular que tenha so-
aspecto muito claro na nossa legisla- dar-se a amputação de certos direitos frido um dano, nomeadamente um
ção – a separação entre ofendido (ou do assistente, que só se justificam por dano físico, moral ou emocional, ou
vítima – desde que tenham direitos de este ser um auxiliar do MP. um prejuízo material directamente
participação processual característi- causados por um crime” - poderia, as-
cos do assistente impõe-se a distin- sim, coexistir com os conceitos já ex-
ção face ao segundo) e lesado. Contudo, olhando o texto da definição istentes na nossa lei. À vítima atribuir-
de vítima da Directiva – “Uma pessoa se-iam todos os direitos previstos na
singular que tenha sofrido um dano, Directiva, excepto aqueles direitos de
Continuando esta linha de raciocínio, nomeadamente um dano físico, moral participação processual que esta só
veja-se que, adoptando o conceito de ou emocional, ou um prejuízo material faculta à vítima de acordo com o seu
vítima da Directiva, qualquer pessoa directamente causados por um crime” papel no sistema de justiça penal –
que tivesse sofrido um dano, fosse ou - e o texto da definição de lesado pat- veja-se, por exemplo, o art.º 11º, nº 1
não titular de um dos bens jurídicos ente no nº 1 do art.º 74º do CPP – “(…) da Directiva - que caberiam somente
tutelados pela norma, seria vítima e entendendo-se como tal a pessoa que ao assistente. Os direitos de confor-

20
mação processual continuariam, as- tos para o ordenamento jurídico por- assim como permitir uma maior certe-
sim, a ser consagrados apenas para tuguês, criando-se um Estatuto da za jurídica e uniformidade no que aos
o assistente. Vítima que proceda à definição do con- direitos das vítimas diz respeito por
ceito e preveja os principais direitos e toda a UE. A introdução de novos di-
deveres desta figura num só artigo do reitos e a sua junção aos já existentes
Adoptando-se o conceito de vítima CPP. Caso não se proceda a uma re- na nossa lei seria, então, colocada em
no ordenamento jurídico português, forma que implique a renumeração de foco pela introdução de um estatuto
deverá ser prevista legalmente, em todo o CPP, sugere-se que tal norma que reunisse todas as prerrogativas
atenção ao art.º 2º, nº 2 da Directiva, seja um art.º 84-º-A a criar, escolhen- da vítima.
a possibilidade de certos familiares do-se esta localização sistemática por
daquela não beneficiarem dos direi- ser a vítima um “quase sujeito proces-
tos que lhe são conferidos quando a sual”. Não sendo, por um lado, sujeito A introdução do Estatuto da Vítima no
análise das circunstâncias concretas processual, mas não se reduzindo, CPP, como alternativa à sua inserção
o imponha, nomeadamente por tais por outro, a mero interveniente, na num diploma autónomo, privilegia a
familiares terem contribuído para a medida em que vai poder, ainda que codificação e a reunião num diploma
morte daquela. limitadamente, conformar o processo, consistente e completo da legislação
surgiria o seu estatuto no seguimento processual penal ao invés de a re-
das partes civis. talhar e parcelar, combatendo a dis-
persão legislativa. Outra vantagem de
inserir o Estatuto de Vítima no CPP
O ESTATUTO DE VÍTIMA
A criação do Estatuto da Vítima, a traduz-se no facto de, por esta via,
par das necessárias alterações aos chegar a todos os operadores do Di-
artigos já existentes no CPP, visaria reito, enquanto que se surgisse sob a
A APAV posiciona-se no sentido de os
enfatizar a posição desta figura no forma de diploma autónomo acabaria
direitos consagrados pela Directiva
ordenamento jurídico e reforçar a sua porventura por não ser conhecida por
para a vítima deverem ser transpos-
associação a um conjunto de direitos, todos.

21
GARANTIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO

A
informação é uma necessidade crucial para toda e qualquer vítima de
crime. Esta precisa de receber informação sobre três vectores essen-
ciais: sobre os seus direitos, caso contrário não os poderá exercer
de forma cabal e esclarecida; sobre os recursos de apoio disponíveis, sem os
quais a recuperação do impacto da vitimação será mais lenta e difícil; e sobre
o decurso do processo, condição indispensável para que a sua participação
neste tenha mais qualidade e para que a vítima tenha maior capacidade para
acautelar os seus interesses.

A importância do direito à informação é aliás reconhecida em todos os instru-


mentos jurídicos internacionais, passados e presentes, que regem a área dos
direitos das vítimas de crimes: com algumas variações quanto à sua extensão,
ao direito à informação é sempre conferido um papel de relevo, abrangendo
aspectos como sejam como denunciar um crime e etapas subsequentes do
processo, serviços de apoio e tipos de apoio disponíveis, acesso a protecção,
acesso a indemnização, apoio judiciário, etc.

Mas ao mesmo tempo que é reconhecidamente um dos mais importantes direi-


tos, a informação é, simultaneamente, um dos mais negligenciados. Sabemos,
a partir de diferentes investigações6 desenvolvidas nos últimos dez ou quinze

6 Relatório Vítimas na Europa: implementação da Decisão Quadro relativa ao estatuto da


vítima em processo penal nos Estados Membros da União Europeia, (pgs. 61 – 62), APAV 2009

22
23
anos, que muito poucas vítimas de direito pode ser efectivado:
crime conhecem minimamente o fun- a linguagem utilizada, quer oral quer
cionamento do sistema de justiça pe- escrita, deve ser simples e acessível
nal, que uma percentagem significa- e ter em conta as características pes-
tiva de vítimas não sabe que recursos soais da vítima, nomeadamente qual-
e tipos de apoio estão ao seu dispor quer deficiência que possa limitar a
e que a falta de informação é o princi- sua capacidade de expressão e/ou
pal motivo de descontentamento face compreensão;
àquele sistema.

aquando do primeiro contacto com as


Para além disso, não basta garantir autoridades, e caso a vítima assim o
que a informação é transmitida, com- solicite tendo em conta o impacto do
petindo ao emissor assegurar-se de crime, esta deve poder fazer-se acom-
que a mesma é compreendida. Esta panhar de pessoa à sua escolha que
tarefa não é fácil, sobretudo quando a ajude a compreender e a ser com-
a informação a transmitir encerra al- preendida, salvo se tal for contrário
guma tecnicidade. Importa contudo aos interesses da vítima ou prejudicar
adoptar mecanismos e estratégias o desenvolvimento do processo.
que permitam a melhor compreensão
possível por parte da vítima.
O n.º 1 do art.º 4º elenca o vasto con-
junto de informações que a vítima tem
direito de receber a partir do primeiro
contacto com as autoridades, estabel-
OS ARTIGOS 3º, 4º E 6º ecendo o n.º 2 do mesmo artigo que a
DA DIRECTIVA extensão e grau de detalhe daquelas
informações podem variar de acordo
com as necessidades e circunstân-
A matéria atinente às garantias de co-
cias específicas de cada vítima e com
municação e informação é regida pe-
o tipo ou natureza do crime e que
los arts.º 3º, 4º e 6º da Directiva.
pode ainda a informação ser comple-
mentada e/ou repetida ao longo do
processo.
Estabelecendo o n.º 1 do art.º 3º o
direito elementar de qualquer vítima
de crime a compreender e a ser com-
Em sede de informação sobre o pro-
preendida em qualquer contacto com
cesso, exige o n.º 1 do art.º 6º que a
as autoridades competentes no âm-
vítima seja notificada de qualquer de-
bito do processo penal, concretiza-se
cisão que o arquive, da natureza da
depois nos n.º 2 e 3 de que modo este
acusação e da data e local da audiên-

24
cia de julgamento. O n.º 2 prevê ai- promovido qualquer esforço de infor-
DIREITO DE RECEBER
nda que, em função do seu estatuto mação acerca deste recurso. O resul-
INFORMAÇÃO SOBRE
processual – e que, à luz da realidade tado é o de que o número de pedidos
DIREITOS E SOBRE
portuguesa, poderá entender-se como deduzidos é extremamente baixo,
SERVIÇOS DE APOIO
o ofendido que se constituiu como as- estimando-se que só cerca de 10%
sistente -, a vítima possa ser informa- a 15% das vítimas que teriam direito
Centrando-nos na realidade portugue-
da acerca da sentença, bem como, a essa indemnização é que efectiva-
sa, alvo aliás de reparos em relatóri-
em geral, do andamento do processo, mente a requerem, o que coloca Por-
os internacionais, designadamente
salvo se, em casos excepcionais, tugal como um dos Estados Membros
naqueles produzidos pela Comissão
essa notificação seja susceptível de da União Europeia com índices mais
Europeia que pretenderam avaliar a
prejudicar o bom curso daquele. reduzidos de pedidos.
implementação da Decisão Quadro
de 2001 relativa ao Estatuto da Vítima
de Crime no Processo Penal, há que
Exige também a Directiva, no n.º 3 Só em 2010, ou seja, quase 10 anos
ter em conta que durante muito tempo
deste artigo, que qualquer informação após aquela Decisão Quadro, é que
não houve em Portugal previsão le-
sobre uma decisão judicial inclua uma se introduziu, no art.º 247º do Có-
gal que conferisse a uma autoridade
explicação acerca da motivação da digo de Processo Penal, o dever do
específica o dever de informar as víti-
mesma. Ministério Público de informar a víti-
mas de crime sobre um conjunto de
ma sobre um conjunto de matérias
aspectos absolutamente relevantes
relativas a direitos e a serviços de
para estas. A única excepção pren-
A Directiva confere valor ao desejo da apoio. Contudo, o défice em matéria
dia-se com o direito a indemnização
vítima de receber ou não informações, de informação está ainda longe de se
pelo infractor. Na ausência de uma
ao estabelecer, no n.º 4 do art.º 6º, a poder considerar sanado, quer legal-
política concertada de informação
vinculação das autoridades a esta mente, quer na prática: na lei porque
e de procedimentos nesse sentido,
vontade, a não ser que a prestação o elenco de matérias relativamente às
andou-se ao sabor de boas vontades
daquelas decorra do direito da vítima quais o Ministério Público tem o de-
de muitos magistrados do Ministério
de participar activamente no processo ver de facultar informação às vítimas
Público e de muitos elementos das
penal. de crimes se revela incompleto face
forças policiais que, mais sensíveis
às exigências da Directiva; na prática
ao problema, faziam um esforço para
porque, quase cinco anos volvidos,
elucidar minimamente as vítimas. Os
Nos termos dos n.º 5 e 6 do art.º 6º e com excepção do caso especial
materiais informativos primavam pela
da Directiva, a vítima deverá ainda ser da violência doméstica em virtude
inexistência, com excepção de alguns
informada quando a pessoa detida, da Lei 112/2009, continua a não es-
folhetos isolados e claramente insufi-
acusada ou condenada por crimes tar definida uma estratégia, um mod-
cientes que foram sendo produzidos
que lhe digam respeito for libertada ou elo e um conjunto de procedimentos
pelas polícias ou por algumas orga-
se tiver evadido da prisão, pelo menos uniformes, envolvendo o Ministério
nizações. Exemplo do que acabou de
nos casos em que exista um perigo ou Público mas obviamente também os
se dizer é o facto de, tendo Portugal
um risco identificado de prejuízo para órgãos de polícia criminal, na medida
um regime de indemnização pelo Es-
si, bem como de todas as medidas em que é com estes que na maioria
tado às vítimas de crimes violentos
relevantes tomadas para a proteger dos casos a vítima contacta, pelo me-
há mais de 20 anos, nunca ter sido
em caso de libertação ou fuga. nos na fase inicial do processo, que

25
garantam o acesso efectivo à infor- necessita. Impõe-se por isso a adop-
DIREITO DE
mação. Aquilo que verificamos actual- ção de uma estratégia de informação
COMPREENDER E DE SER
mente, e do conhecimento que temos padronizada e generalizada, com re-
COMPREENDIDO
do terreno, é que as disparidades são curso a protocolos de actuação ob-
acentuadas. rigatórios e amigáveis inseridos nos
Mas não basta facultar a informação,
sistemas de informação existentes,
é imprescindível garantir que a vítima
que garanta que qualquer que seja a
a compreende. As competências de
Como fornecer a informação relativa autoridade que contacte com a vítima
comunicação variam de pessoa para
aos direitos e aos serviços e tipos e independentemente do local do
pessoa; acresce que o stress decor-
de apoio existentes? Esta tarefa não país em que isso aconteça, o pacote
rente da vitimação, bem como a her-
pode limitar-se à criação e produção informativo é, de uma forma geral, o
meticidade de alguma terminologia
de materiais informativos, como bro- mesmo, salvo algumas excepções
legal, podem afectar a capacidade
churas, folhetos, sítios na internet, respeitantes a serviços e recursos
de comunicação de algumas vítimas.
etc. Há uma diferença crucial entre de apoio que poderão variar de zona
Compete às autoridades que con-
haver informação disponível e efecti- para zona.
tactam com a vítima terem estas vi-
vamente informar a vítima. Os meios
cissitudes em conta e assegurarem
para atingir a finalidade de informar
que a vítima recebe e compreende
são deixados ao critério dos Estados Um outro aspecto a ter em conta re-
a informação que lhe é transmitida.
Membros, mas o resultado a que es- sulta de, em muitos casos, a informa-
Pretende-se que as necessidades da
tes estão vinculados é o de assegurar ção não chegar à vítima em tempo
vítima ao nível da comunicação se-
que a vítima recebe de facto a infor- útil. Consideramos, de acordo com o
jam avaliadas – na linha da avaliação
mação. O direito não é meramente o estatuído na Directiva, que a informa-
prevista no art.º 22º da Directiva - e
de ter informação disponível, mas sim ção deve ser prestada assim que pos-
que, quando pertinente, se adoptem
o de receber informação, o que impli- sível: idealmente aquando do primeiro
medidas que permitam remover ou
ca uma atitude proactiva por parte das contacto com uma autoridade policial
pelo menos minimizar os obstáculos
autoridades. O ónus é destas, não da ou judiciária, formal (na esquadra ou
à comunicação:
vítima: são as autoridades que têm o posto policial ou nos serviços do MP
dever de, proactivamente, transmitir no momento da denúncia) ou informal
a informação, não é a vítima que tem (no local do crime logo após a ocor-
se se tratar de uma questão lin-
que a procurar ou pedir. As epígrafes rência deste, por exemplo). Mas, de
guística, poderá ser contornada
dos artigos 4º e 6º da Directiva não acordo com o que acima se disse, e
obviamente através da nomea-
são vagas, não são simplesmente “di- tendo em conta as capacidades da
ção de intérprete e da existên-
reito à informação”, são pelo contrário vítima nesse momento, pode revelar-
cia de materiais informativos em
muito claras: “direito de receber infor- se pertinente seleccionar e dosear
várias línguas (vide p.88) – e
mação”. Se alguém tem o direito de a informação, transmitindo apenas
este foi um ponto fraco apontado
receber informação, alguém tem que aquela que se afigure essencial. Pode
em todos os relatórios: o facto de
ter o dever de a transmitir, por sua ini- também ser necessário ir repetindo
só em poucos Estados Membros
ciativa. Não tem que caber à vítima a alguma da informação ao longo do
ser disponibilizada informação
responsabilidade de desenvolver as processo.
em diferentes línguas e em ain-
diligências práticas necessárias para
da em menos existirem mecanis-
poder aceder à informação de que

26
mos específicos que vão ao en- Em primeiro lugar, importa sintonizar brochura7 no âmbito do Projeto Info-
contro das necessidades das as previsões constantes do art.º 247º vítimas que visa precisamente con-
vítimas não residentes (como do CPP relativas às informações a tribuir para esta finalidade e que tem
por exemplo linhas telefónicas prestar à vítima com as exigências sido bem acolhida quer por vítimas
com acesso directo a intérpre- da Directiva, introduzindo neste nor- de crimes quer pelas próprias auto-
tes); mativo os pontos ainda não previstos. ridades que a têm utilizado (Ministé-
A previsão legal do direito a receber rio Público, PSP e GNR, designada-
não se tratando de uma questão informações, com toda a abrangên- mente).
linguística mas de outro tipo de cia requerida pela Directiva, é uma
dificuldades na assimilação da dimensão prévia fundamental, na me-
informação, pode ser relevante, dida em que alicerçará a estratégia Para que os órgãos de polícia criminal
por exemplo, a existência de e os procedimentos de informação a estejam aptos a fornecer os esclare-
materiais escritos que permitam adoptar. cimentos necessários, deverão ter a
à vítima, num momento poste- formação devida e ver estabelecidos
rior, eventualmente com maior protocolos internos de actuação. Sug-
tranquilidade, retomar o contacto Em segundo lugar, e agora já ent- ere-se que tais protocolos incluam,
com essa informação; rando na implementação no terreno nomeadamente, a disponibilização a
do direito à informação, entendemos cada agente de um elemento informa-
ou permitir à vítima o acompan- que se deve distinguir dois níveis: um tivo em suporte escrito, com informa-
hamento por alguém da sua es- a que podemos chamar principal e ção sobre os direitos da vítima, a sua
colha e confiança, que lhe preste outro complementar. Deverá ser dado extensão e limites e a forma de os ex-
apoio aquando da sua participa- a conhecer à vítima, idealmente no ercer e esclarecimentos sobre o pro-
ção em diligências processuais, momento do seu primeiro contacto cesso penal, mais detalhado do que o
ajudando-a a compreender o com as autoridades, o seu estatuto entregue à própria vítima, permitindo
que se está a passar e a infor- enquanto tal, através da entrega de que o agente seja capaz de uma cor-
mação que lhe está a ser trans- um documento escrito, que abranja os reta elucidação daquela. Note-se que
mitida. aspectos elencados no n.º1 do art.º 4º quer a formação dada aos agentes
da Directiva. Nesse mesmo momen- policiais quer o elemento informativo
to, a vítima deverá poder esclarecer disponibilizado deverão ser balizados
qualquer dúvida que tenha quanto e os agentes esclarecidos no sentido
ESTRATÉGIAS DE ao documento que recebeu, junto da de fornecerem somente a informa-
INFORMAÇÃO autoridade que lho entregou. A vítima ção de que dispõem e que dominam.
PRECONIZADAS deverá ainda receber ainda um ele- Pela sua tecnicidade, alguns esclare-
mento informativo em suporte escrito cimentos não poderão ser facultados
contendo a enumeração dos seus di- pela Polícia, devendo haver encamin-
Tendo em conta tudo o que acabou de
reitos, a sua explicação, a forma de hamento, nestes casos, para o Minis-
se preconizar, as propostas da APAV
os exercer e ainda uma exposição tério Público ou para mecanismos de
nesta matéria traduzem-se em con-
resumida sobre o funcionamento do consulta jurídica prestados, designa-
creto da seguinte forma:
processo penal, em linguagem igual- damente, por serviços de apoio.
mente simples e acessível a todos os
7 http://apav.pt/apav_v2/images/pdf/
cidadãos. A APAV desenvolveu uma brochura_infovitimas.pdf

27
Deve ainda prever-se a possibilidade lizada noutros formatos e através de
de, em virtude do impacto do crime, a outros meios para além dos utilizados
vítima, por sua solicitação, ser acom- pelos operadores policiais e judiciári-
panhada por alguém à sua escolha, os relativamente às vítimas que os
se tal não colidir com os seus próprios contactam. Devem ser desenvolvidas
interesses nem perturbar o desenro- campanhas públicas, que dissemi-
lar do processo. Contudo, caso este nem informação através de meios e
acompanhamento não seja prestado em locais que permitam alcançar es-
por um técnico, designadamente téc- tas vítimas. Devem ser disponibiliza-
nico de apoio à vítima, deve ser alvo dos folhetos e brochuras em unidades
de uma avaliação prévia por parte da de saúde, organizações de apoio à
autoridade responsável pela diligên- vítima, autarquias, serviços da segu-
cia nos termos descritos à frente em rança social, escolas, embaixadas e
matéria de protecção (vide p.97/98), consulados (isto pensando nas víti-
na medida em que, em alguns casos, mas não residentes), ou seja, em lo-
pode haver o fundado receio de que cais onde é expectável que vítimas de
a vítima tenha a sua liberdade de es- crime se possam dirigir. Deve ser co-
colha limitada e de que o verdadeiro locada informação online, não só nos
objectivo deste/a acompanhante seja sítios das forças de segurança mas
não o de auxiliar a vítima, prestan- criando igualmente instrumentos es-
do-lhe apoio emocional e ajuda na pecíficos que sirvam este propósito.
descodificação e assimilação da in- Estes esforços, para além de darem
formação transmitida mas sim o de a cumprimento ao direito à informação
controlar, inibir e/ou intimidar. por parte de todas as vítimas, poderão
contribuir para que muitas delas, que
num primeiro momento optaram por
Este é o nível que se designou como não denunciar o crime que sofreram,
principal, e que deverá depois ser possam mais tarde sentir-se moti-
complementado através de outros vadas a fazê-lo.
materiais e instrumentos de informa-
ção que sejam acessíveis não apenas
à minoria de vítimas que denuncia o
crime de que foi alvo, mas também ao
universo de vítimas que decide não
denunciar os crimes sofridos mas que
também tem direitos que devem ser
respeitados - designadamente o de
acesso a serviços de apoio - e, con-
sequentemente, deve obter a infor-
mação necessária ao seu exercício. A
informação deve assim ser disponibi-

28

Deverá ser dado a conhecer à vítima, idealmente no momento

do seu primeiro contacto com as autoridades, o seu estatuto

enquanto tal, através da entrega de um documento escrito

(…) A vítima deverá receber ainda um elemento informativo

em suporte escrito contendo a enumeração dos seus direitos, a

sua explicação, a forma de os


exercer e ainda uma exposição resumida sobre o

funcionamento do processo penal, em linguagem igualmente



simples e acessível a todos os cidadãos.

29
do seu estatuto processual, deveria quase todos os aspectos estão já
DIREITO DE RECEBER IN-
ser informada, pelo menos, da de- previstos na lei portuguesa -, perpet-
FORMAÇÕES SOBRE
cisão de acusar ou não o arguido, da uar-se-á uma excessiva diferença de
O PROCESSO
natureza da acusação, das medidas tratamento em sede de informação
de coacção aplicadas ao arguido, da entre as vítimas que se constituem
No que respeita ao direito de receber
data e local do julgamento e da de- como assistentes e as que o não fa-
informações sobre o processo, pre-
cisão final. Deveria também ser in- zem, o que não é desejável particular-
visto no art.º 6º da Directiva, importa
formada de quaisquer obrigações ou mente quando sabemos que os cus-
começar por chamar a atenção para o
condições impostas na sentença e tos com taxas de justiça e honorários
seguinte: para uma vítima, a decisão
que a possam afectar, como sejam a de mandatário decorrentes da consti-
de denunciar um crime e de colaborar
proibição de o arguido a contactar ou tuição como assistente inibem muitas
com as autoridades pode ser difícil,
de frequentar certos locais ou áreas, e vítimas de o fazer. Consideramos por
seja pela exposição a que vai estar
da forma de reportar alguma eventual isso que o legislador deverá atenuar
sujeita, pelo facto de ter denunciado
violação destas condições bem como estas diferenças, garantindo a todas
alguém próximo, pela revelação de
das consequências da violação que as vítimas a prestação de um conjun-
dados relativos à sua esfera de intimi-
poderão advir para o arguido. Deveria to de informação mais abrangente do
dade, pelo receio de represálias ou de
ainda ser informada da forma como a que o actualmente previsto e do que
vir a ser novamente vitimada ou por
sentença será, na prática, cumprida, a Directiva exige, designadamente
outra razão. Se, depois de denunciar
designadamente da possibilidade da sobre a aplicação de medidas de
o crime, a vítima estiver muito tempo
ocorrência de saídas e de concessão coacção, a sentença, o cumprimento
sem saber nada acerca do processo,
de liberdade condicional. E, final- ou não da pena de multa e de even-
poderá criar a ideia de que nada está
mente, deveria ser sempre informada tuais penas acessórias e alguns as-
a acontecer e de que a sua queixa
da libertação ou fuga do arguido ou pectos relativos à execução da pena
não foi levada a sério. Obviamente
condenado salvo se existir um risco de prisão, como seja a concessão de
que, quer quem faculta informação
identificado de prejuízo para este que liberdade condicional.
à vítima num momento inicial, quer
possa decorrer da notificação. Justifi-
quem lhe presta apoio, deve explicar-
car-se-ia ainda a audição da vítima no
lhe que a investigação poderá levar
decurso do processo de execução de
algum tempo devido a uma multiplici-
pena, por forma a recolher alguma in-
dade de razões. Mas para além disso
formação relevante que esta pudesse
é importante reconhecer a necessi-
dar, ouvir os seus receios relativa-
dade que as vítimas têm de ver algo
mente ao regresso do indivíduo à co-
acontecer no seu processo, quer en-
munidade e avaliar o risco de intimi-
quanto validação de facto do seu es-
dação ou retaliação.
tatuto enquanto vítima de crime, quer
de modo a poderem, se quiserem,
assumir um papel activo naquele, fa-
O art.º 6º da Directiva, enquanto pa-
zendo uso dos direitos e prerrogativas
tamar mínimo, não vai contudo tão
que o processo penal lhe confere.
longe. No entanto, entende-se que,
Do ponto de vista da APAV, toda e
se o legislador se limitar a dar cum-
qualquer vítima, independentemente
primento ao ali exigido – sendo que

30
Mesmo que não se entenda ir para O mesmo se diga quanto à obriga- assim que este artigo deve ser altera-
além do exigido nesta matéria pela toriedade de informar a vítima rela- do por modo a que o ofendido seja no-
Directiva, detectam-se ainda assim tivamente à natureza da acusação, tificado da data e local do julgamento,
nesta matéria algumas lacunas na prevista na al. b) do n.º 1 do art.º 6º uma vez que este é um direito que lhe
nossa legislação. da Directiva: o art.º 283º n.º 5 do CPP assiste enquanto vítima e não apenas
postula a notificação do despacho de quando testemunha.
acusação ao denunciante com a facul-
Note-se que o art.º 6º, nº1, al. a) im- dade de se constituir como assistente,
põe a notificação a todas as vítimas mas não está prevista a notificação do Uma nota final para o direito das víti-
de qualquer decisão de não prosse- despacho de pronúncia. mas à não informação, previsto no n.º
guir ou de encerrar uma investigação 4 do art.º 6º da Directiva mas ainda
ou de não deduzir acusação contra não plasmado na nossa lei proces-
o autor do crime. Ora, se está pre- Voltando à al. a) do n.º 1 do art.º 6º, sual penal. A vontade da vítima de
vista a notificação do despacho de merece-nos aqui uma referência a não ser informada deve, sempre que
arquivamento ao denunciante com a suspensão provisória do processo: possível, ser respeitada: algumas
faculdade de se constituir como as- embora não implicando ab initio uma vítimas preferem alhear-se de tudo o
sistente (art.º 277º n.º 3) o mesmo decisão de não prosseguir ou de que tenha que ver com a situação de
não se pode dizer quanto ao despa- encerrar uma investigação, ou de não vitimação que viveram, e este desejo
cho de não pronúncia, uma vez que deduzir acusação contra o autor do é perfeitamente legítimo. O direito à
o art.º 307º n.º 1 e 3 apenas exige a crime, a suspensão provisória pode não informação deve por isso merec-
notificação aos presentes no debate ser concluída exactamente com uma er toda a atenção das autoridades,
instrutório sendo que, na maior parte decisão de arquivamento e envolve que deverão perguntar à vítima, face
das vezes, a vítima não está presente uma paragem por vezes demasiado ao leque de informação disponível,
neste ato. longa do processo para que de nada qual a que pretendem receber e qual
se informe a vítima. Entende-se, as- a que não querem. Esta informação
sim, que deverá ser prevista a noti- deve ficar registada e ser respeitada
ficação da suspensão provisória do pelas diferentes autoridades que vão


(…) Toda e qualquer processo ao ofendido. sendo responsáveis pelo processo,
vítima, independentemente salvo nos casos em que a notificação

do seu estatuto processual, Outra lacuna consiste no facto de a da vítima no âmbito daquele é ob-
necessidade de informar todas as víti- rigatória. Todavia, e tendo em conta
deveria ser informada,
mas da data e do local do julgamento, que este desejo de não informação
pelo menos, da decisão de
patente na al. b), do nº1 do art.º 6º é uma realidade excepcional e não
acusar ou não o arguido, da Directiva, não se encontrar plena- a regra, não deverá levar a qualquer
da natureza da acusação, mente consagrada no CPP. Veja-se presunção de uma vontade da vítima
das medidas de coacção que o art.º 313º, nº 2 do CPP só impõe de não ser informada ou servir como
aplicadas ao arguido, da
data e local do julgamento
“ a notificação ao assistente e não ao
ofendido. É certo que, na maior parte
desculpa para, em consequência de
uma avaliação subjectiva da parte das

e da decisão final. dos casos, o ofendido é testemunha autoridades, justificar a não prestação
e, como tal, é notificado para compa- de informação.
recer na audiência. Entende-se ainda

31
DIREITOS AQUANDO DA
APRESENTAÇÃO DE DENÚNCIA

O
art.º 5º da Directiva estabel-
ece essencialmente duas ex-
igências:

a de que qualquer vítima que apre-


sente uma denúncia receba uma con-
firmação por escrito da recepção de-
sta contendo os elementos básicos do
crime em questão;

e que quem não domine a língua em


que decorre o processo possa efec-
tuar a denúncia numa língua que
compreenda ou que, em alternativa,
receba a devida assistência linguísti-
ca para o fazer, e que receba gratu-
itamente uma confirmação por escrito
da apresentação desta em língua que
compreenda.

O considerando n.º 21 da Directiva


Tratando-se este último aspecto nou- preconiza que “caso denunciem um
tra sede, designadamente a propósito crime, as vítimas deverão receber da
do direito a interpretação e a tradução, polícia uma confirmação por escrito
importa focar aqui a questão do direito da recepção da denúncia da qual con-
à obtenção de certificado da denún- ste a descrição dos elementos bási-
cia. cos do crime, nomeadamente o tipo, a
data e o local do crime, bem como os
danos ou os prejuízos causados pelo
crime.

32

Importa, por isso,

prever de forma clara certificado do registo da denúncia”. to ou da redução a escrito da queixa


Diz-nos, por seu turno, o art.º 81º n.º ou denúncia efectuada oralmente.
no Código do Processo 1 do Código do Procedimento Admin- Importa ao mesmo tempo instruir as
istrativo que “os interessados podem forças policiais no sentido de cumpri-
Penal (…) o direito exigir recibo comprovativo da entrega rem este dever escrupulosamente e
dos requerimentos apresentados”. sem qualquer margem de discriciona-
das vítimas de crime
Conjugando estes dois normativos riedade.
com o regime estabelecido na Lei
obterem, de forma
46/2007, de 24 de Agosto, que regula
gratuita, imediata e o acesso aos documentos administra-
tivos e a sua reutilização, não parece
automática, cópia da subsistir qualquer incerteza quanto ao
direito que actualmente em Portugal
queixa ou denúncia qualquer vítima já tem de obter um
comprovativo de denúncia ou queixa
que apresentaram por apresentada.

escrito ou da redução

a escrito da queixa ou

denúncia efectuada
“ Sucede contudo que, na prática, este
direito nem sempre é respeitado pelas
autoridades policiais, que muitas vez-
es ou recusam entregar os referidos

oralmente. comprovativos com o fundamento de


não estarem autorizados a fornecer
cópias ou transcrições de declara-
ções, ou, invocando o Regulamento
das Custas Processuais, cobram 14
euros por página.

Importa, por isso, prever de forma


Da confirmação deve con
clara no Código do Processo Penal -
star um número de processo e a data
não porque seja necessário uma vez
e local da denúncia do crime, a fim
que tal direito já decorre dos norma-
de poder servir como prova de que o
tivos acima indicados mas para que
crime foi denunciado, por exemplo, no
não reste qualquer dúvida mesmo nas
caso de um pedido de indemnização
mentes menos conhecedoras deste
a uma companhia de seguros”.
imperativo - o direito das vítimas de
Diz-nos o n.º 6 do art.º 247º do CPP
crime obterem, de forma gratuita, ime-
que “o denunciante pode, a todo o
diata e automática, cópia da queixa ou
tempo, requerer ao Ministério Público
denúncia que apresentaram por escri-

33
DIREITO DE ACESSO AOS
SERVIÇOS DE APOIO ÀS VÍTIMAS

S
abemos que o impacto do crime varia de vítima para vítima em resultado
de uma multiplicidade de factores. O tipo de crime e as circunstâncias
em que ocorreu, a gravidade das consequências, a idade da vítima, a
personalidade da vítima, a existência ou não de redes de suporte primário e
secundário e a situação económica e profissional da vítima são algumas das
condicionantes que moldam as reacções desta face à experiência de vitima-
ção.

Sabemos que o crime afecta não apenas a própria vítima mas também aqueles
que lhe são próximos.

Sabemos que o crime tem um impacto maior do que outros fenómenos que
provoquem as mesmas consequências, sendo mais difícil para a vítima lidar,
por exemplo, com uma lesão física resultante de um ilícito criminal do que de
um acidente, ou com uma perda financeira decorrente de uma burla ou um
roubo do que de má gestão.

Sabemos que a vitimação na infância ou juventude aumenta a probabilidade de


prática futura de crimes.

34
35
Sabemos que a vitimação continuada visório, substituição de fechadura e de apoio à vítima reconhecidos, cuja
tem consequências especialmente limpeza da casa após a ocorrência de missão, experiência e competências
graves ao nível físico, psicológico, fa- um assalto, cancelamento de cheques específicas visam esse fim.
miliar e social, até porque as vítimas e/ou cartões de débito e/ou de crédi-
não se “acostumam” a “ser vítimas”. to, etc.; informação sobre o impacto Uma abordagem policial à vítima, a
Sabemos que a vitimação aumenta e consequências que um crime pode partir do seu primeiro contacto, deve
o risco de adesão a comportamentos ter, sobre o processo penal e sobre compreender um atendimento de re-
aditivos. práticas de prevenção; e apoio emo-
cional, isto é, falar com alguém sobre
Sabemos que o sentimento de inse- o crime e o seu impacto, sentir que os
gurança resultante de uma experiên- seus sentimentos são validados e a
cia de vitimação tem, sobretudo en- suas reacções vistas como normais
tre a população idosa, um fortíssimo e saber que outros já passaram pelo
impacto traduzido, pelo menos, em mesmo e lidaram com a situação.
desconfiança e medo, difíceis de ul-
trapassar sem ajuda. Para além destas necessidades, out-
ras mais específicas poderão estar
Sabemos que os custos associa- igualmente presentes, justificando a
dos directa ou indirectamente a um prestação de apoio especializado.
fenómeno de vitimação podem ser
substanciais – perda das poupanças Uma abordagem integrada na respos-
efectuadas ao longo da vida, despe- ta a estas necessidades requer, em
sas de funeral, instalação de alarmes primeira linha, uma resposta das au-
e outros mecanismos de segurança, toridades públicas e, desde logo, das
etc. – e as vítimas, pela situação de autoridades policiais, a partir da acção speito, reconhecimento e compreen-
fragilidade emocional, se não mesmo que deve decorrer das competências são pela situação desta e a disponibi-
de trauma, em que se encontram, não de polícia e que se traduz num atendi- lização de informação sobre o tipo de
conseguem gerir adequadamente mento qualificado às vítimas de crime, apoio que podem receber e de quem;
esta situação nem sabem por vezes devendo garantir: os seus direitos no âmbito da pro-
a quem (ex. seguradoras) e como tecção e de participação no processo
recorrer, caindo abruptamente numa a imediata segurança e protecção da penal; e o acesso a serviços de apoio
situação de dificuldades económicas vítima e seus bens, se aplicável; à vítima para apoio complementar e
ou mesmo de pobreza. especializado (psicológico, social,
o acompanhamento e apoio no quadro económico, jurídico, residencial, etc.),
Variando as necessidades das vítimas do desenvolvimento das competên- garantindo a referenciação à estrutura
de acordo com o impacto concreto da cias de polícia (e designadamente de apoio à vítima no tempo e modo
vitimação, podemos contudo listar nas suas competências de investiga- adequados à vítima.
três necessidades básicas comuns ção de polícia criminal). Por seu turno, a função dos serviços
a quase todas: assistência imediata, Esta resposta distingue-se clara- de apoio à vítima no suprimento das
que pode consistir em cuidados de mente do apoio à vítima profissional- necessidades acima elencadas, não
saúde, obtenção de alojamento pro- izado, prestado através de serviços sendo exclusiva, é essencial. A ca-

36
pacidade para prestar a assistência bendo-se que a confiança das vítimas que se complementam mas não se
imediata - de natureza legal, social no sistema de justiça depende prima confundem, na medida em que para
ou prática, por exemplo -, ou para en- facie do conhecimento que têm acer- uma vítima em situação de fragilidade
caminhar para quem a possa prestar, ca do mesmo, deve reconhecer-se emocional é fundamental sentir a pre-
resulta da abordagem e das com- o papel crucial que aqueles serviços sença dos que lhe são próximos mas
petências multidisciplinares presen- podem desempenhar quer em relação é igualmente crucial a intervenção
tes naqueles serviços e da formação às vítimas que já denunciaram o crime distanciada mas empática de um téc-
mas pretendem saber o que se vai nico de apoio.
seguir e qual o seu papel, quer junto


(…) na União Europeia, daquelas que, tendo num primeiro Para além da importância do apoio
apenas 16% das víti- momento optado por não denunciar sob o ponto de vista físico, emocio-
mas que necessitariam mas tendo procurado apoio, poderão nal, psicológico, familiar e social da
de apoio é que efetiva- após a prestação deste e, nomeada- própria vítima e do contributo que o
mente o recebem. mente, a obtenção de informação, mesmo pode dar no que se refere à
sentir-se mais confiantes e motivadas motivação e qualidade da participação
E se esta média já é, para procederem à denúncia. da vítima no processo penal e ao ex-
por si só, preocupante, ercício dos direitos que lhe assistem,
mais preocupante é
ainda o facto de se es-
timar que em Portugal
“ No que respeita ao apoio emocional,
deve realçar-se que muitas vezes as
vítimas não o encontram junto dos fa-
são também relevantes os benefícios
sociais e económicos da prestação
efectiva e atempada desse apoio, que
esse valor baixa para miliares ou amigos, ou porque não os pode revelar-se decisivo para um re-
os 5%. têm, ou porque também estes estão gresso mais célere daquelas à “vida
afectados pelo que aconteceu e não normal” e à actividade profissional,
estão em condições de prestar esse com as inerentes consequências em
apoio, ou porque culpabilizam a víti- termos de produtividade e de redução
específica ministrada aos técnicos no
ma pelo sucedido, ou porque a vítima de custos sociais e de saúde.
sentido de saberem como responder
não quer recorrer a eles. E é nestes
a um leque de carências que pode ser
casos que a intervenção imediata dos Sabemos contudo que na União Eu-
vasto.
serviços de apoio à vítima é particu- ropeia, apenas 16% das vítimas que
larmente importante, na medida em necessitariam de apoio é que efecti-
Em matéria de informação, designa-
que é hoje absolutamente consensual vamente o recebem. E se esta mé-
damente sobre direitos e sobre recur-
a ideia de que a não prestação, em dia já é, por si só, preocupante, mais
sos de apoio, o labor dos serviços de
tempo útil, de apoio a uma vítima que preocupante é ainda o facto de se
apoio à vítima é também fulcral, ainda
dele necessite e o pretenda receber estimar que em Portugal esse valor
mais num país como Portugal em que,
é sinónimo de um impacto acrescido baixa para os 5% 8. Esta realidade é
tal como ficou atrás detalhadamente
e, logo, mais difícil de ultrapassar. prova evidente do muito que ainda há
descrito, as autoridades públicas não
E ainda que a vítima obtenha apoio para fazer no nosso país em matéria
têm cumprido o seu papel. Sendo a
emocional junto dos que lhe são próx- de serviços de apoio à vítima.
prestação de informação uma das
imos, tal não afasta a necessidade
vertentes fundamentais da actividade 8 Van Dijk J. & Groenhuijsen M.
da prestação desse mesmo apoio Benchmarking Victim Policies in the Frame-
dos serviços de apoio à vítima, e sa- work of European Union Law, Handbook of
por parte dos serviços. São auxílios Victims and Victimology, (2007), p. 374

37
prestação de apoio mesmo às vítimas mento das políticas de apoio à vítima
OS ARTIGOS 8º E 9º
que, seja por que razão for, optaram de crime a que estes estão obrigados,
DA DIRECTIVA
por não denunciar, é conferido o di- quer sendo expressão e garantia da
reito de acesso a serviços de apoio participação do cidadão e da comu-
A Directiva 2012/29/UE prevê, no seu
a todas as vítimas de crime, indepen- nidade organizada nessas mesmas
artigo 8.º, um princípio geral de aces-
dentemente de terem ou não denun- políticas, num constante trabalho de
so gratuito a serviços de apoio con-
ciado o crime sobre si perpetrado. proximidade com as vítimas, para que
fidenciais antes, durante e depois do
estas, após o crime, reassumam o
processo, a todas as vítimas de todos
controlo da sua própria vida, tão cruel-
os crimes, sendo este apoio estendi-
Preconizando-se um patamar mínimo mente devastada por uma experiência
do a familiares das vítimas consoante
de apoio a que todas as vítimas de- dolorosa e muitas vezes traumática.
as necessidades concretas destas e a
verão ter acesso, admite-se ao mes-
gravidade dos danos sofridos em con-
mo tempo que seja dada particular
sequência do crime cometido contra a
atenção a determinadas vítimas, em
vítima.
função das necessidades acrescidas CENÁRIO EUROPEU:
apresentadas por estas. Assim, no UMA REALIDADE
art.º 9º da Directiva procede-se à dis- HETEROGÉNEA
É salientada a necessidade de os
tinção entre serviços gerais e serviços
Estados Membros promoverem o
especializados e define-se o teor de
encaminhamento das vítimas, por Olhando para o quadro europeu ac-
cada um destes.
parte das autoridades, para serviços tual no que aos modelos de serviços
de apoio, e de que devem fazê-lo de de apoio à vítima diz respeito, verifica-
forma activa, isto é, não somente pela se uma variedade significativa de ex-
Este normativo europeu não manifes-
mera informação mas antes também periências.
ta qualquer preferência nem quanto à
através de sistemas de referenciação,
natureza dos serviços de apoio, ad-
devendo assegurar-se que os requisi-
mitindo que possam ter cariz público
tos em matéria de protecção de dados
ou privado, nem quanto ao seu modo NATUREZA PÚBLICA
são respeitados.
de funcionamento, podendo assentar OU PRIVADA E FONTES
numa base profissional ou em regime DE FINANCIAMENTO
de voluntariado.
Relativamente à natureza pública
O apoio deve ser prestado através
Efectivamente sabemos que um bom ou privada dos serviços de apoio à
de meios diversificados, sem formali-
texto não é suficiente para promover vítima, não são muitos os países da
dades excessivas e com uma cober-
uma modificação de paradigma. Não União Europeia em que o Estado as-
tura suficiente em todo o território do
menos importante é reconhecer o suma directamente esta função. En-
Estado-Membro, a fim de que todas
papel das organizações não-gover- contramos na Bélgica um dos poucos
as vítimas possam dispor de acesso
namentais de apoio à vítima na ga- exemplos em que tal sucede, através
a esses serviços.
rantia dos serviços de apoio, sendo dos Services d’accueil des victimes
que a sua missão se desenvolve quer existentes nas Maisons de Justice,
colmatando as incapacidades e as serviços estes totalmente financiados
Reconhecendo a importância da
lacunas dos Estados no desenvolvi- pelo Estado e tutelados pelo Ministé-

38
rio da Justiça. Para além da Bélgica, endimento para prestação de informa-
também na Hungria, Estónia e Croácia Encontramos também alguns, embo- ção junto aos serviços do Ministério
o Estado assume um papel central na ra raros, exemplos de organizações Público em cada comarca, sendo que
prestação deste serviço, coexistindo de apoio à vítima que não dependem algumas Províncias têm desenvolvido
contudo algumas organizações não- de financiamento estatal. É o caso algum apoio à vítima dentro destes
governamentais que desenvolvem da Alemanha, em que a associação centros de atendimento, nomeada-
trabalho nesta área. Weisser Ring é financiada essencial- mente em Madrid, onde já é prestado
mente através de quotizações dos apoio psicológico de continuidade.
seus membros, doações e legados, Existem depois gabinetes de apoio às
Em muitos países da UE, o apoio a pagamentos coercivos impostos por vítimas de crimes violentos e crimes
vítimas de crime é essencialmente decisões judiciais e apoio de funda- sexuais que prestam apoio jurídico
garantido por organizações não-gov- ções. e fazem encaminhamento, mas que
ernamentais, financiadas, em medida em si não prestam apoio directo. Está
variável, pelos respectivos Estados. É Em todos os casos descritos, es- neste momento em curso um projecto
neste cenário que se inserem as reali- tas organizações que prestam apoio da Sociedade Espanhola de Vitimolo-
dades britânica e holandesa, em que geral a vítimas de crime coexistem gia para alargar o apoio geral à vítima
as organizações nacionais de apoio com outras dedicadas à prestação a todas as vítimas de crime.
à vítima – Victim Support England de apoio especializado, por exemplo,
and Wales, Victim Support Scotland e a certos tipos de vítimas (crianças,
Slachtofferhulp Nederland – são forte- estrangeiros, etc.) ou a vítimas de
mente financiadas pelo Estado, con- determinados tipos de criminalidade ÂMBITO MATERIAL E
stituindo-se, em termos de cobertura (violência doméstica, crimes sexuais, TERRITORIAL DE
nacional e número de técnicos, como etc.) e, por vezes, também com ser- INTERVENÇÃO
as maiores entidades deste género viços de apoio disponibilizados pelas
na Europa. Salvaguardadas as devi- autoridades policiais ou por serviços Também no que concerne ao âmbito
das proporções, é aqui também que sociais junto do tribunal. material e territorial de intervenção
se deve incluir o caso português, em Por fim, encontramos ainda vários dos serviços de apoio à vítima a reali-
que a APAV, enquanto instituição par- países da União Europeia – Itália, dade é dissonante: do ponto de vista
ticular de solidariedade social de uti- Bulgária, Roménia Grécia, Roménia, material, enquanto alguns serviços
lidade pública reconhecida, é a única Eslovénia, Chipre e Lituânia - em se configuram como efectivamente
organização de âmbito nacional que que não existe um serviço de apoio gerais, efectuando um primeiro at-
presta apoio aos cidadãos vítimas de genérico a vítimas de crime, nem pú- endimento e prestando logo nesse
todos os tipos de crimes. O financia- blico nem privado. momento todo o apoio adequado
mento estatal é contudo substancial- (tal como descrito no n.º 1 do art.º
mente mais modesto do que nos ex- 9º da Directiva) e que estiver ao seu
emplos acima referidos e não cobre, Em Espanha existem apenas orga- alcance e encaminhando depois a
nem de perto nem de longe, todas as nizações da sociedade civil de apoio vítima, sempre que tal se justificar,
necessidades da única organização a vítimas específicas, nomeadamente para os serviços especializados que
nacional de apoio à vítima de todos vítimas de violência doméstica ou de se afigurem pertinentes, noutros ca-
os crimes. terrorismo. Quanto às restantes víti- sos os serviços funcionam numa base
mas, somente existem serviços de at- mista de assistência geral/especial-

39
izada, prestando simultaneamente os uniformemente garantido em todo o Vítima em 15 localidades diferentes,
tipos de apoio elencados nos n.º 1 e 3 território do Estado Membro. em que são prestados serviços de
do art.º 9º da Directiva. apoio gerais e especializados, e com
um conjunto de instituições sociais
Em Portugal, a APAV é a maior orga- que prestam serviços de apoio a cer-
Em termos territoriais, há alguns ex- nização privada sem fins lucrativos, tas categorias de vítimas e/ou às víti-
emplos de estruturas de apoio que com presença e vocação nacional, mas de certos tipos de crimes.
funcionam a nível regional ou local. de prestação de serviços de apoio às É preciso ir mais além, aproveitando
Contudo, e de uma forma geral, es- vítimas de crime, incluindo serviços a estrutura, conhecimento, experiên-
sas realidades tenderam ou tendem a gerais de apoio à vítima de qualquer cia e modelo de apoio à vítima de que
evoluir para a criação de uma estrutu- tipo de crime - a APAV presta anu- a APAV é detentora (com provas da-
ra de âmbito nacional, seja através da almente apoio a vítimas de mais de das e reconhecimento nacional e in-
criação de uma associação ou funda- sessenta crimes diferentes, desde os ternacional), potenciando e alargando
ção única - como sucedeu na Holanda crimes contra o património à violência a sua acção, serviços e presença no
ou Suécia, por exemplo - seja através doméstica -, mas também de serviços território como um dos caminhos para
da agregação numa federação que especializados, nos termos do art.º 9º, o Estado Português responder afirma-
funcione como umbrella das estrutu- n.º 3 da Directiva - com destaque para tiva e eficazmente aos desafios e ob-
ras regionais ou locais. É este último o acolhimento temporário e apoio per- rigações impostas pela Directiva.
o caso francês, em que existe uma sonalizado e integrado a vítimas com
federação de organizações de apoio necessidades específicas (vítimas
à vítima, denominada Institut National de violência sexual, doméstica e de
d’ Aide aux Victimes Et de Médiation, MODELO DE FUNCIONAMENTO:
género), incluindo apoio e aconsel-
aglutinadora das associações que hamento pós-traumáticos. O papel a PROFISSIONAIS VS
prestam apoio geral ou especial- desempenhar pela APAV em relação VOLUNTÁRIOS
izado. Estas associações assinaram ao Estado é o da prestação de ser-
um memorando de entendimento que viços gerais para as vítimas de qual- Quanto ao modelo de funcionamento
define o âmbito de actuação de cada quer tipo de crime e de serviços de dos serviços de apoio à vítima no que
uma delas e que estabelece serviços apoio especializado para vítimas com à menor ou maior dimensão do trab-
mínimos a serem prestados. A federa- necessidades específicas, nomeada- alho voluntário diz respeito, também
ção em si tem funções, designada- mente de certos tipos de crime, com aqui encontramos algumas variações.
mente, ao nível da gestão do serviço independência e qualidade, em par- Sabemos que o voluntariado, enquan-
de apoio telefónico, da formação dos ceria, em complemento ou mesmo em to reflexo de uma sociedade civil forte
técnicos das associações e da advo- substituição daquele. e capaz de se auto-organizar para a
cacia social. prossecução de finalidades colecti-
vas, não tem a mesma expressão em
Para um dispositivo territorial de cer- toda a União Europeia, fruto não só
Em muitos dos países em que o apoio ca de 700 estruturas de atendimento de diferentes características socio-
geral é prestado por organizações de policial (contando apenas as esquad- culturais mas também de contextos
âmbito nacional, o apoio especializa- ras da PSP e postos da GNR), o país políticos que não o privilegiaram ou
do está a cargo de organizações re- conta apenas com uma rede territorial até, nalguns casos, o constrangeram.
gionais ou locais e, como tal, não está da APAV de 15 Gabinetes de Apoio à Estudos indicam que nos países com

40
uma tradição e uma cultura enraiza- quer de background: nalguns casos, posições da Directiva que regem esta
das de voluntariado e/ou em que o como na Alemanha, o voluntariado matéria:
trabalho social tem uma dimensão tem uma componente sénior mais
mais significativa, a prestação de acentuada, sendo constituído, por
apoio geral a vítimas de crime é uma exemplo, por juízes, procuradores, o art.º 4º, n.º 1 al. a), quando se es-
realidade com uma amplitude mais advogados e polícias reformados; tatui que “a fim de permitir que as
significativa. noutros, o voluntariado assenta es- vítimas exerçam os direitos previstos
sencialmente em população jovem. na presente Directiva, os Estados-
Em Portugal, a rede nacional de Vol- Membros devem assegurar que elas
Salvo uma ou outra raríssima excep- untariado APAV é caracterizada pela recebam, sem atrasos injustificados e
ção, a esmagadora maioria dos ser- forte presença de jovens licenciados a partir do primeiro contacto com as
viços de apoio à vítima assenta numa ou estudantes finalistas do ensino autoridades competentes, informa-
estrutura mista que envolve profis- superior (direito, psicologia, serviço ções sobre o tipo de apoio que podem
sionais (a tempo inteiro ou parcial) e social, entre outras ciências sociais) receber e de quem, nomeadamente,
voluntários, em maiorias e proporções que pretendem desenvolver desinter- se necessário, informações básicas
variáveis: em França, por exemplo, o essadamente uma actividade em prol sobre o acesso a cuidados de saúde,
INAVEM inclui cerca de 1400 profis- da comunidade ao mesmo tempo que a apoio especializado, incluindo apoio
sionais e 650 voluntários; em Inglat- obtêm formação adicional e experiên- psicológico, e a alojamento alterna-
erra e País de Gales estão envolvidos cia de trabalho. Esta realidade traduz tivo”;
cerca de 1200 profissionais e 6500 igualmente um papel formativo em
voluntários; na Holanda, cerca de ambiente real na ligação da APAV ao
400 profissionais e 1300 voluntários; ensino superior. A rede de Voluntari- e o art.º 8º, n.º 2, ao estabelecer que
na Suécia, 7 profissionais e 1350 vol- ado APAV aposta ainda na presença “os Estados-Membros devem facilitar
untários; finalmente, em Portugal, a de cidadãos seniores, num esforço o encaminhamento das vítimas, pela
APAV tem cerca de 60 profissionais permanente de inter-geracionalidade. autoridade competente que recebeu a
(alguns a tempo inteiro, outros a tem- denúncia e por outras instâncias com-
po parcial) e cerca de 250 voluntários. petentes, para os serviços de apoio
Pode concluir-se destes dados que, às vítimas”.
de uma forma geral, todas as estru- SISTEMAS DE
turas assentam numa base consti- REFERENCIAÇÃO
tuída por profissionais, responsáveis Podemos, em concreto, distinguir três
por assegurar, na maior parte dos Um outro aspecto determinante para realidades:
casos, a coordenação dos técnicos e o funcionamento dos serviços de
a gestão dos serviços, cabendo aos apoio à vítima e em que as diferenças a inexistência de qualquer me-
voluntários colaborar, sobretudo mas entre Estados Membros são também canismo de encaminhamento
não só, no atendimento e prestação acentuadas prende-se com os me- ou, sequer, de procedimentos
de apoio aos utentes. canismos de encaminhamento de víti- de informação, isto é, a não ar-
mas para os serviços de apoio. ticulação entre as autoridades
policiais e judiciárias que con-
O perfil dos voluntários é bastante di- tactam com a vítima no âmbito
versificado, quer em termos de idade São essencialmente duas as dis- do processo penal e os serviços

41
de apoio tendo em vista a pro-
moção do acesso a estes ser- (…) os serviços gerais de apoio à
viços por parte daquela; nestes
casos, em que não há uma es-
vítima (…) devem ser prestados por
tratégia estabelecida e padroni- organizações não-governamentais de
zada para o encaminhamento, o
recurso das vítimas aos serviços
âmbito nacional, assentes num mode-
de apoio resultará do conheci- lo de funcionamento que integre pro-
mento que as mesmas possam
ter acerca da existência e da
fissionais remunerados e voluntários
actividade daqueles serviços, e articulando-se com as autoridades
conhecimento porventura resul-
tante de informação prestada
judiciárias e policiais (…) no âmbito
por familiares, amigos ou inclusi- de sistemas de referenciação (…)
vamente profissionais com quem
a vítima contactou em virtude da
situação de vitimação que sofreu
ter conhecimento da existência para os serviços, ficando estes
e que demonstraram particular
de serviços de apoio, cabendo- com o ónus de a contactar no
interesse e sensibilidade (profis-
lhe depois decidir se deles quere prazo de poucos dias.
sionais de saúde, de educação,
beneficiar e, Estas três realidades coexistem
dos serviços sociais ou até do
em caso afirmativo, promover o efectivamente na Europa, sendo
próprio sistema de justiça) ou de
contacto; bons exemplos de verdadeiros
campanhas informativas desen-
mecanismos de encaminhamen-
volvidas pelas organizações que
a autoridade com quem a vítima to os casos do Reino Unido ou,
prestam os referidos serviços;
contacta inicialmente no âmbito relativamente às vítimas de al-
do processo crime – normal- guns crimes, a Holanda, por ex-
a prestação de informação à
mente a polícia – não só a infor- emplo.
vítima por parte das autoridades
ma acerca dos serviços de apoio
policiais ou judiciárias acerca da
existentes mas pergunta-lhe se A situação em Portugal é, de certa
existência dos serviços de apoio
pretende beneficiar destes e, forma, híbrida, encontrando-se reali-
e dos tipos de apoio disponibi-
caso pretenda, se autoriza que dades parciais correspondentes aos
lizados; nestes casos, qualquer
os seus contactos sejam facul- três cenários acima traçados:
vítima que contacte com alguma
tados àqueles serviços de modo
daquelas autoridades (e, ideal-
a que estes a possam contactar; podemos dizer que, de um modo
mente em relação às vítimas
somente nestes casos podemos geral, não existe um sistema de
que optaram por não denunciar
falar em verdadeiro mecanismo referenciação, nem sequer um
o crime de que foram alvo, com
de encaminhamento, na medida procedimento uniforme de in-
outro profissional com quem con-
em que ao fornecimento de in- formação que garanta que toda
tactem em decorrência da situa-
formação acresce, caso a vítima e qualquer vítima que contacte
ção de vitimação, como seja um
o deseje, a referenciação desta com uma autoridade policial ou
profissional de saúde) passa a

42
judiciária é informada acerca da e mecanismos de referenciação – o assentar numa estreita parceria a
existência dos serviços de apoio cenário europeu caracteriza-se por diversos níveis (em complemento
à vítima, pese embora o que uma profunda diversidade, diver- ou mesmo em sua substituição, de
está previsto no art.º 247º n.º 3 sidade essa que resultará segura- acordo com o proclamado princípio
do CPP; mente de diferentes contextos socio- da subsidiariedade), cumprindo a
culturais, mas também de diferentes este, tendo em conta a relevância
relativamente a determinadas opções e prioridades traçadas pelos pública da actividade, assegurar o fi-
vítimas, como sejam as vítimas decisores políticos, que influenciam nanciamento estável e que permita
de violência doméstica, essa in- decisivamente as filosofias de inter- aos serviços a cabal prossecução da
formação deverá ser, nos termos venção que subjazem aos serviços sua missão.
da Lei 112/2009, prestada, mas implementados.
não estão implementados me-
canismos de encaminhamento
para os serviços de apoio à víti- NATUREZA PRIVADA
ma; MODELO DE SERVIÇOS DE
APOIO À VÍTIMA Muito embora a Directiva não tome –
têm vindo nos últimos anos a PRECONIZADO PELA APAV nem devesse tomar, aliás – qualquer
surgir algumas experiências pi- posição relativamente à natureza
loto de referenciação muito lo- pública ou privada dos serviços de
Tendo em conta as várias dimensões
calizadas e embrionárias por apoio à vítima, é forte convicção da
e, dentro de cada uma delas, as dife-
iniciativa da APAV com a PSP e APAV que a solução que melhor acau-
rentes alternativas que se oferecem,
a GNR, bem como com a Poli- tela os direitos, interesses e expecta-
manifesta-se desde já a seguinte
cia Judiciária para o apoio aos tivas das vítimas de crime passa pelo
posição: é entendimento da APAV que
familiares e amigos das vítimas carácter não estatal daqueles, essen-
os serviços gerais de apoio à vítima,
de homicídio. Mas trata-se ainda cialmente por duas ordens de razões:
com as funções descritas no n.º 1 do
de práticas com uma dimensão especialização e independência.
art.º 9º da Directiva, devem ser presta-
muito limitada, que implicam A questão da especialização não se
dos por organizações não-governa-
uma proatividade permanente coloca sob o ponto de vista individual,
mentais de âmbito nacional, assentes
da APAV junto das estruturas mas sim colectivo. Configurando a
num modelo de funcionamento que
policiais parceiras e que, con- hipótese de se atribuir a um Ministé-
integre profissionais remunerados e
sequentemente, abrangem um rio, Direcção Geral, Instituto Público,
voluntários e articulando-se com as
baixíssimo número de vítimas. Autarquias ou qualquer outro organ-
autoridades judiciárias e policiais (e
ismo do Estado a prestação de ser-
com outras entidades, públicas ou
Em conclusão, podemos afirmar pe- viços de apoio a vítimas de crime, o
privadas, designadamente das áreas
remptoriamente que, no que toca a problema principal não seria dotar os
da justiça, saúde, educação e segu-
todas as dimensões abordadas – na- respectivos técnicos de competências
rança social) no âmbito de sistemas
tureza pública ou privada dos serviços que lhes permitissem prestar esse
de referenciação que permitam a toda
de apoio e fontes de financiamento, serviço. Desde que tivessem as ha-
e qualquer vítima ser encaminhada,
âmbito material e territorial dos ser- bilitações académicas e a formação
se assim o desejar, para aqueles ser-
viços, modelo de funcionamento as- complementar necessária para at-
viços. A relação com o Estado deve
sente em profissionais ou voluntários ender vítimas de crime, concede-se

43
que esses técnicos pudessem even- porque não pode afastar-se liminar- er e incentivar iniciativas no seio da
tualmente ter a capacidade de prestar mente a possibilidade de, em dado sociedade civil vai para além de me-
apoio de forma adequada. momento ou face a determinada reali- ros juízos de natureza técnica ou or-
dade, tais fins não serem totalmente ganizacional. Decorre da perspectiva
compatíveis. de quem, em cada momento, exerce
Mas a especialização dos serviços de o poder, acerca do papel que os ci-
apoio à vítima vai muito para além da E este raciocínio conduz à segunda dadãos e a sociedade civil devem ter
competência de cada um dos seus razão apresentada: a independência. na prossecução do interesse público e,
técnicos para atender e ajudar vítimas Diz-nos o saber de experiência feito em última instância, do entendimento
de crime, porque a missão daqueles que nem sempre a agenda do deci- acerca da forma como uma sociedade
serviços não se esgota, longe disso, sor político está em completa sin- democrática deve ser construída e se
na prestação de apoio directo a ci- tonia com a promoção e protecção tal inclui ou não na esfera daquele
dadãos vítimas de infracções pe- dos direitos e interesses das vítimas interesse público a existência de en-
nais. O papel dos serviços de apoio à de crime. Ao longo dos seus 25 anos tidades reconhecidas, impulsionadas,
vítima traduz-se na prossecução, de de existência, a APAV tem mantido financiadas e monitorizadas, mas não
uma forma global, dos direitos e inter- face ao poder político uma postura controladas, pelo Estado.
esses das vítimas de crimes, o que de lealdade institucional mas não de
implica uma tremenda multiplicidade submissão, de parceria na busca das E a independência que se preconiza
de actividades, destacando-se, en- melhores soluções mas ao mesmo não é apenas face ao poder político,
tre outras, a formação, a prevenção, tempo de crítica sempre que tal se mas também ao económico, religioso
o estabelecimento e dinamização de afigura necessário, de procura de ou de outros sectores ou instituições,
parcerias locais, regionais, nacionais pontos comuns e de consensos relati- e deve ser princípio constituinte e es-
e internacionais, o incremento do con- vamente às prioridades políticas mas trutural da missão de superior interes-
hecimento científico, a informação sem abdicar das suas próprias priori- se público de apoio aos cidadãos que
e sensibilização da comunidade e a dades em prol das vítimas. E isto só é são vítimas de actos criminosos.
contribuição para a adopção das mel- possível em virtude da independência No entender da APAV, os serviços de
hores soluções políticas, legislativas, da APAV, da sua natureza não-gover- apoio a vítimas de crime devem ser
regulamentares e administrativas. namental. Não pode escamotear-se expressão dessa sociedade civil ac-
No entender da APAV, o grau de ex- a evidência de que serviços de apoio tiva e com capacidade para se orga-
igência desta missão exige dedicação à vítima de base estatal teriam certa- nizar e prestar um serviço à comuni-
exclusiva ou, no mínimo, a título prin- mente muito maiores dificuldades em, dade, relacionando-se com o Estado
cipal, não se afigurando consequent- sempre e a cada momento, reger-se de uma forma leal e responsável e
emente compaginável com a sua atri- exclusivamente pela defesa dos di- assentando esse relacionamento em
buição a organismos públicos, sejam reitos, interesses e expectativas das dois pilares fundamentais: parceria,
eles da administração central ou local, vítimas de crimes mesmo que tal incluindo-se aqui a matéria da refer-
que acrescentem esta às suas outras pudesse eventualmente conflituar enciação, e financiamento do serviço
funções. Os fins prosseguidos pelos com outras visões ou prioridades de interesse público que assegura.
serviços de apoio a vítima de crime políticas.
não devem confundir-se, e menos ai-
nda perder-se, no meio dos fins que A opção política entre criar um serviço
norteiam as estruturas estatais, até público de apoio a vítimas ou promov-

44
RELAÇÃO ENTRE O ESTADO ção, importante mas muitas vezes in- jam utilizados por aqueles serviços e
E OS SERVIÇOS DE APOIO À suficiente - para além de actualmente encaminhar estes dados, juntamente
VÍTIMA incumprido – para um efectivo siste- com a indicação do crime em questão,
ma de referenciação, em que a vítima, para os serviços. Podendo à primeira
PARCERIA COM O ESTADO:
mais do que apenas informada acerca vista este aspecto ser visto como um
SISTEMA DE REFERENCIAÇÃO
dos serviços de apoio disponíveis, é acréscimo de trabalho porventura in-
questionada sobre se pretende deles comportável para as forças policiais,
Relativamente à parceria que deve
beneficiar e, em caso afirmativo, é por a verdade é que, da experiência que a
existir entre Estado e serviços de
eles contactada num curto espaço APAV tem neste campo, fruto dos me-
apoio à vítima, a dimensão desde
de tempo. Só desta forma, retirando canismos de referenciação já estabe-
logo mais óbvia e imediata é a do en-
à vítima o ónus de ir em busca do lecidos com a PSP, GNR e PJ - em lo-
caminhamento das vítimas de crime.
serviço e conferindo à autoridade ju- cais ou relativamente a tipos de crime
Por todas as razões atrás aduzidas,
diciária ou, na maior parte dos casos, específicos, é certo -, um sistema com
é de elementar clareza a necessidade
policial, o papel activo de informar, de estas características seria relativa-
de as vítimas poderem aceder, se as-
apurar a vontade da vítima de obter ou mente fácil de agilizar e não colocaria
sim o desejarem, a serviços de apoio
não auxílio e de encaminhar a infor- dúvidas de legalidade em matéria de
que as possam ajudar a ultrapassar
mação para os serviços de apoio, e a protecção de dados.
ou, pelo menos, atenuar, os efeitos da
estes a tarefa de contactar as vítimas
vitimação. Admitindo-se que é utópico
que pretendam usufruir das ajudas
sequer pensar que algum dia será
disponíveis, só desta forma, dizia-se, Pensamos por isso que, actualmente,
possível oferecer esse apoio a todas
se implementa efectivamente o direito a principal interrogação se colocaria a
as vítimas que efectivamente dele
de acesso das vítimas a serviços de jusante, e decorreria da capacidade
necessitariam, cumpre contudo distin-
apoio. ou não dos serviços de apoio exis-
guir entre aquelas que denunciaram
tentes em Portugal darem resposta
o crime a autoridade policial ou judi-
a uma expectável massificação dos
ciária e aquelas que optaram por não
Esta é contudo uma solução extraor- pedidos de ajuda. Prendendo-se esta
o fazer.
dinariamente exigente, levantando questão com a matéria do financia-
várias dificuldades, umas mais reais, mento dos serviços enquanto motor
outras mais aparentes. para um indispensável crescimento
Quanto às primeiras, não há qualquer
destes, será abordada na secção se-
razão para se falhar: já é, aliás, ob-
Em primeiro lugar, tal solução impli- guinte.
rigação legalmente prevista no art.º
caria a adopção de procedimentos
247º n.º 3 do CPP que a vítima seja
adicionais por parte das autoridades Dir-se-á que esta solução de referen-
informada acerca da existência de
policiais no âmbito das suas funções ciação garante o potencial acesso aos
serviços de apoio, sabendo-se no
de atendimento policial qualificado às serviços de apoio apenas das vítimas
entanto que tal obrigação não é res-
vítimas que, no momento do primeiro que denunciem o crime de que foram
peitada. Mas preconiza-se, no campo
contacto com estas, teriam que as alvo, sendo que a Directiva exige,
dos princípios e dando cumprimento
questionar sobre se pretendem ser no n.º 5 do art.º 8º, que “os Estados-
ao exigido pela Directiva, que se dê
referenciadas aos serviços de apoio e, Membros devem assegurar que o
um passo em frente e se avance de
se sim, registar os elementos de con- acesso aos serviços de apoio às víti-
um mero procedimento de informa-
tacto que a vítima pretende que se- mas não esteja subordinado à apre-

45
sentação de uma denúncia formal de Por fim, e relativamente às vítimas substanciaria uma solução win-win,
um crime pela vítima às autoridades que não só optaram por não denun- ou seja, com ganhos óbvios para am-
competentes.” ciar o crime mas que, para além dis- bas as partes.
so, não contactaram com qualquer
entidade que as pudesse informar
Importa aqui fazer uma nova destrin- acerca da existência de serviços de
ça: de entre as denominadas “cifras apoio e/ou encaminhar para estes, a PARCERIA COM O ESTADO EM
OUTRAS VERTENTES
negras”, isto é, a significativa per- aposta deve residir na promoção de
centagem de vítimas de crime que campanhas públicas de informação e
CONSULTA NO ÂMBITO DA
escolhe não denunciar, há contudo sensibilização, que garanta cada vez
PRODUÇÃO LEGISLATIVA E NA
muitas que, em consequência directa mais que a comunidade em geral con-
DEFINIÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLI-
do crime sofrido, se vêem obrigadas a hece os serviços de apoio que estão
CAS
recorrer a serviços, por exemplo nas disponíveis.
áreas da saúde, segurança social ou
Em primeiro lugar, considera-se cru-
serviços consulares. Não entrando
cial a promoção da participação dos
agora aqui na matéria do dever legal O sucesso desta abordagem articu-
serviços de apoio à vítima, através
de denúncia por parte de funcionário lada para o apoio à vítima implica,
dos mecanismos de consulta exis-
que, no exercício das suas funções, necessariamente, a aposta pública
tentes, na produção de legislação e
tome conhecimento da ocorrência de no alargamento a todo o território na-
na definição de políticas públicas que
um crime – dever cujo cumprimen- cional da acção de apoio à vítima da
de alguma forma se possam reflectir
to, diga-se, ficará talvez um pouco APAV, através da prestação de ser-
ao nível dos direitos e interesses das
aquém do exigível, por uma multiplici- viços de proximidade.
vítimas de crime. O conhecimento
dade de razões que importa conhecer
que os serviços têm da realidade no
e combater -, importaria pelo menos
terreno, das falhas do sistema e das
promover junto destes organismos a Em suma: desenvolvendo esta di-
principais dificuldades sentidas por
importância de, quando necessário, versidade de esforços conseguir-
aquelas deve ser aproveitado pelo
prestarem aos utentes informação se-á gradualmente garantir que um
legislador e pelo decisor político. A
acerca da existência de serviços de cada vez maior universo de vítimas
APAV tem assumido e desenvolvido o
apoio a vítimas de crime e dos tipos de crime tem efectivamente acesso
seu papel como voz activa na defesa
de apoio disponibilizados e, sempre a serviços de apoio, ou pelo menos
e promoção dos direitos, das neces-
que possível, serem estabelecidos sabe da sua existência.
sidades e interesses específicos das
canais de comunicação - ainda que
vítimas junto dos decisores políticos,
informais - também de duas vias com
contribuindo para a adopção de me-
os serviços de apoio a vítimas, que Deverá ser esta a principal área de
didas legislativas, regulamentares e
facilitassem sinalizações e encamin- cooperação e parceria entre Estado
administrativas facilitadoras da sua
hamentos. Esta lógica é também ex- e serviços de apoio à vítima. Princi-
defesa, protecção e apoio, com vista
tensível aos profissionais da área da pal mas não única. Em complemento
à prevenção dos riscos de vitimização
educação, na medida em que são, desta dimensão fundamental, desta-
e atenuação dos seus efeitos.
muitas vezes, os primeiros a aperce- caríamos quatro vertentes em que, no
ber-se de indícios e sintomas de viti- entender da APAV, uma colaboração
mação de uma criança ou jovem. mais estreita, regular e intensa con-

46
LIGAÇÃO À ACADEMIA A configuração de um serviço de Para além dos protocolos estabe-
apoio à vítima deve decorrer de um lecidos com diversas universidades
Em segundo lugar, importa estabel- conhecimento profundo acerca de tendo em vista a realização na APAV
ecer laços de maior proximidade en- questões tão prementes como se- de estágios curriculares por parte de
tre os serviços de apoio à vítima e a jam quem é vítima de crime e quem alunos daqueles estabelecimentos de
academia, numa óptica de inovação, pratica crimes; quais são as principais ensino, a associação tem procurado
investigação e desenvolvimento. Ob- necessidades das vítimas; porque é promover uma cada vez maior inter-
viamente que, abordando-se aqui a que algumas vítimas recorrem aos ligação com a academia, designada-
parceria com o Estado, ao falar-se em serviços de apoio e outras não; que mente através da parceria em projec-
academia centramo-nos sobretudo vítimas denunciam, quais as que não tos dedicados a temáticas específicas
nas universidades públicas, embora denunciam e porquê; qual o efectivo (como por exemplo a violência sexual,
as considerações que se tecerão se grau de implementação dos direitos ou a avaliação de risco, entre muitos
possam aplicar também às restantes das vítimas; qual a incidência e pre- outros), no intuito não apenas de au-
instituições universitárias. valência da vitimação em zonas ou mentar o conhecimento mas também
grupos mais desfavorecidos e quais de o utilizar na definição de modelos
as eventuais dificuldades acrescidas de intervenção. Sente-se contudo que
Os procedimentos e práticas dos ser- destas camadas da população no esta colaboração fica todavia aquém
viços de apoio à vítima têm cada vez acesso aos seus direitos e a serviços do desejável, havendo ainda por ex-
mais que ser moldados tendo como de apoio; novos fenómenos criminais, plorar um largo espaço, com interesse
principal inspiração aquilo que a in- como o cibercrime nas suas diferen- não apenas para os serviços de apoio
vestigação científica vai descobrindo. tes dimensões. Todos estes aspectos, à vítima, pelas razões descritas, mas
Esta ligação não é fácil: de uma forma cruciais para quem trabalha no ter- também para as universidades, que
muito sucinta, diga-se que nem sem- reno, nem sempre têm o papel prin- encontrariam no trabalho da APAV e
pre a investigação é direccionada cipal que deveriam ter na definição de na população que esta serve um cam-
para caminhos que relevem verdadei- modelos de intervenção junto de víti- po fértil para a investigação.
ramente para o trabalho de terreno e mas de crime. A aposta no incremento do conheci-
nem sempre os técnicos estão a par mento e na sua aplicação prática para
dos resultados dos últimos estudos melhorar as respostas às vítimas de
efectuados sobre determinada ma- Por seu turno, a avaliação de pro- crime e garantir o exercício dos seus
téria ou, quando estão, nem sempre gramas e de procedimentos é direitos é essencial numa abordagem
conseguem interpretá-los e extrair condição sine qua non para garantir de inovação, de investigação e de-
as necessárias implicações e conse- um contínuo e sistemático controlo senvolvimento. Visa-se, designada-
quências para a sua actividade. de qualidade dos serviços, permitindo mente, o aumento do conhecimento,
perceber se as práticas em vigor são bem como a utilização desse mesmo
eficazes tendo em conta os objectivos conhecimento em novas aplicações
Os serviços de apoio à vítima necessi- e finalidades da intervenção e intro- da investigação científica; o desen-
tam de uma cooperação mais estreita duzir, se necessário, alterações que a volvimento experimental; e a assimi-
da parte da academia, a dois níveis: possam melhorar. lação e a adaptação de novas tecno-
investigação científica e avaliação de logias ao serviço da melhoria do apoio
programas e procedimentos. à vítima.

47
FORMAÇÃO PREVENÇÃO

Em terceiro lugar, a formação. E tam- Em quarto lugar, a prevenção. Infor-


bém aqui a cooperação deve ser uma mar a comunidade em geral sobre
estrada com dois sentidos, na medida questões relacionadas com a segu-
em que as necessidades são recípro- rança de pessoas e bens, factores de
cas. Pela natureza multidisciplinar do risco e formas de evitar ou minimizar
seu trabalho, as necessidades forma- as probabilidades de se ser vítima de
tivas dos serviços de apoio à vítima crime pode ser uma tarefa partilhada,
são extremamente abrangentes, ob- aproveitando os conhecimentos e a
viamente não numa lógica de invasão experiência quer de entidades públi-
de competências alheias mas sim de cas, com destaque especial para as
aprofundamento do conhecimento forças policiais, quer dos serviços de
acerca da realidade e também das apoio à vítima. Ao longo dos seus 25 FINANCIAMENTO
respostas disponíveis e adequadas. anos de existência, a APAV tem de-
Da necessidade e relevância do ser-
Nesse sentido, é – e tem sido - funda- senvolvido inúmeras campanhas de
viço prestado à comunidade pelos
mental a colaboração de formadores prevenção, muitas delas em estre-
serviços de apoio à vítima decorre nat-
das áreas da justiça, segurança social ita colaboração com as autoridades uralmente a pertinência do seu finan-
e saúde, entre outros exemplos. Mas policiais, e destinadas a diferentes ciamento pelo Estado, não devendo
considera-se que também os serviços públicos, tais como idosos, turistas, este ser encarado como um subsídio
de apoio à vítima podem desempen- comunidade LGBT, entre outros. para ajudar organizações da socie-
har um papel relevante na formação O principal foco tem contudo inci- dade civil, mas como uma verdadeira
contrapartida pelo serviço prestado.
de profissionais daquelas mesmas dido sobre a população mais jovem,
A APAV, enquanto única organização
áreas, justificando-se por isso uma tendo-se desenvolvido um trabalho
nacional de apoio às vítimas de to-
presença mais regular nos curricula muito intenso em estabelecimentos dos os tipos de crimes, nas vertentes
formativos de magistrados, forças de ensino espalhados um pouco por de serviços gerais e de serviços es-
policiais e profissionais das áreas da todo o país e trabalhando-se temáti- pecializados, presta um serviço à
saúde e da educação, para citar ape- cas como a violência no namoro, o comunidade de relevante interesse
nas os casos mais óbvios. Esta neces- bullying, a violência sexual, etc. Sem público, de forma complementar se
não mesmo substitutiva da acção do
sidade é tanto mais premente quanto, prejuízo da importância da prevenção
Estado, com provas dadas quanto à
no entender da APAV, os conteúdos junto de outras faixas etárias, deve
qualidade deste serviço e com menos
das formações iniciais, contínuas, dar-se particular atenção às crianças custos. Assim, ao abrigo do princípio
teóricas e práticas ministradas a es- e jovens, quer pela sua especial vul- da subsidiariedade, a contratualiza-
tes profissionais deverão ser objecto nerabilidade fruto de personalidades ção e financiamento destes serviços
de revisão e aprofundamento no que ainda em formação, quer pelos riscos pelo Estado impõe-se como a melhor
respeita às temáticas relacionadas acrescidos que o vivenciar situações solução na gestão da coisa pública.

com as vítimas de crime, designada- de vitimação na infância e juventude


Esse financiamento deverá garantir
mente no que toca aos seus direitos e comporta em termos da adopção pos-
aos serviços de apoio à vítima capa-
necessidades específicas. terior de comportamentos desviantes.
cidade para, em primeiro lugar, dis-
ponibilizarem a todas as vítimas de

48
Da necessidade e


relevância do serviço
prestado à comuni- so à mobilidade, cobrir determinadas Mas o financiamento do Estado deve
áreas; por outro lado, apostar em vias também ter em conta a necessidade
dade pelos serviços
alternativas para chegar às pessoas, de prossecução por parte dos ser-
de apoio à vítima designadamente àquelas – mas não viços de apoio à vítima de um con-
decorre naturalmente “ só – que, seja pela distância espacial junto de actividades complementares
a pertinência do seu seja por outras razões (tem-se aqui mas também elas fundamentais para
em mente cidadãos que têm sérias o cumprimento da sua missão social,
financiamento pelo
dificuldades ou estão mesmo impos- como sejam a prevenção, a informa-
Estado (…) sibilitados de aceder aos serviços, ção e sensibilização da população e a
como sejam idosos, pessoas com formação, esta numa dupla vertente:
deficiências motoras, reclusos, mas formação dos técnicos dos próprios
também populações que, por diversas serviços de apoio e colaboração
razões, demonstram por vezes algu- destes, enquanto formadores, na for-
crime que o desejem os tipos de apoio ma renitência em recorrer presencial- mação de profissionais de outras en-
elencados na Directiva e, em segundo mente aos serviços, tal como imigran- tidades.
lugar, desenvolver as actividades que, tes, minorias, etc.) não podem ou não
sendo complementares da função pretendem deslocar-se aos serviços Transversal a praticamente todas
principal que é a prestação de apoio, de apoio à vítima. Preconiza-se por as actividades a cargo dos serviços
se constituem contudo como indis- isso a existência de respostas como de apoio à vítima, principais ou
pensáveis tendo em vista uma cabal serviços de apoio telefónico e online acessórias, é a necessidade de in-
prossecução da missão de promoção que, baseados em procedimentos ab- vestimento em novas tecnologias, na
e protecção dos direitos e interesses solutamente padronizados, permitam medida em que estas, para além de,
das vítimas de crimes. optimizar o atendimento prestado por tal como acima referido, permitirem
estas formas e, ao mesmo tempo e chegar a um número mais elevado de
Começando pelo apoio directo a ci- sempre que necessário e possível, vítimas, contribuem igualmente para
dadãos vítimas de infracções penais, encaminhar os utentes para apoio agilizar a gestão dos serviços, recol-
e tendo em mente a inegociável finali- presencial. her e tratar com celeridade um maior
dade de chegar ao máximo número de número de dados – impondo-se,
pessoas possível, idealmente, aliás, a O financiamento do Estado, porven- nesta matéria, cuidados acrescidos -,
todas as que pretendam ser apoia- tura da administração central em con- diversificar as formas de ministração
das, impõe-se um investimento em jugação com a administração local, de formação, desenvolver esforços
duas dimensões: por um lado assegu- deve por isso focar-se em primeiro de prevenção, informação e sensibi-
rar que os serviços de apoio à vítima lugar na presença física dos serviços lização mais eficazes e abrangentes
cobrem efectivamente todo o território de apoio à vítima, na diversificação em virtude da utilização de diversos
nacional, isto é, que estão fisicamente dos meios de acesso a estes por canais e suportes, etc.
presentes junto dos cidadãos numa parte da população, na dotação dos
óptica de proximidade razoável, seja mesmos dos recursos logísticos, hu- Defendendo-se competir ao Estado
através de serviços fixos, que é a manos e técnicos necessários a dar o papel de protagonista no financia-
solução mais vantajosa, seja, quando resposta às necessidades de apoio mento dos serviços de apoio à vítima,
tal não se afigurar possível, através de todas as vítimas que o solicitem e não pode contudo deixar de sugerir-
de equipas que possam, com recur- na monitorização da qualidade. se, em simultâneo, a adopção de es-

49
tratégias que permitam, de alguma financiamento sólido plurianual não ÂMBITO MATERIAL
forma, suavizar o peso deste financia- é possível um efectivo planeamento E TERRITORIAL
mento. Aponta-se, em concreto, dois estratégico, sabendo-se o quão es-
caminhos, trilhados já aliás em outros sencial este planeamento é para o No que respeita ao âmbito material
países: uma possibilidade é a de cria- bom desempenho de qualquer orga- e territorial dos serviços de apoio à
ção de um fundo para apoio a vítimas nização. vítima, cumpre dizer o seguinte: faz
de crime, cujas receitas proviriam de todo o sentido a lógica da distinção
pagamentos adicionais a efectuar por Até à presente data, o financiamento entre serviços gerais e serviços espe-
indivíduos condenados em processos estatal não possibilitou a existência cializados a que a Directiva procede.
penais e seriam utilizadas no finan- de um serviço de apoio à vítima que Por um lado porque o significativo vol-
ciamento dos serviços de apoio. A ex- cubra fisicamente todo o território na- ume de trabalho que impende sobre
istência de um fundo em prol das víti- cional. A expansão da rede de Gabi- uma organização que se dedique à
mas de crime esteve aliás já prevista netes de Apoio à Vítima da APAV tem- prestação de todos os serviços gerais
em Portugal mas acabou por não ter se dado sobretudo em consequência preconizados na Directiva é, por si
continuidade, pelo que o contributo de parcerias locais e do consequente só, suficiente para a absorver em ex-
dos infractores para o serviços de financiamento por parte dos Mu- clusivo; por outro porque alguns dos
apoio à vítima – contributo por demais nicípios. Mas essa rede é claramente serviços especializados são também
justificável em face da repercussão do insuficiente, não abrangendo grande extremamente exigentes em termos
ato criminoso não só na vítima mas parte do interior norte e centro, todo de competências e qualificações dos
na própria sociedade - resume-se a o Alentejo e a Região Autónoma da técnicos e da multiplicidade de tarefas
alguns pagamentos pontuais deter- Madeira. Por outro lado, e pese em- que impõem.
minados por injunções judiciais, sem bora os esforços desenvolvidos pela
relevância significativa no orçamento associação no sentido da diversifica- Por estas razões, o sistema ideal se-
dos serviços. ção dos meios para chegar a cada ria aquele em que todas as vítimas
vez mais pessoas, não foi ainda pos-
Uma outra possibilidade, cumulativa sível, por exemplo, constituir equipas
com a primeira, é a da afectação de móveis de apoio à vítima ou criar um
(…) Se se tivesse que


bens e valores apreendidos em pro- serviço de atendimento online.
cessos penais e declarados perdidos eleger uma prioridade
a favor do Estado às mesmas finali- Pode assim afirmar-se que, se se máxima em matéria de
dades. tivesse que eleger uma prioridade
serviços de apoio à
máxima em matéria de serviços de
Em conclusão: um financiamento es- apoio à vítima, escolher-se-ia sem
vítima, escolher-se-ia
tatal estável e que cubra as necessi- dúvida o alargamento da rede e a di- sem dúvida o alarga-
dades acima descritas é condição de-
cisiva para que os serviços de apoio
à vítima possam cumprir cabalmente
versificação dos meios de atendimen-
to, de forma a garantir que em Por-
tugal, num futuro próximo, muito mais
mento da rede e a di-
versificação dos meios

a sua missão social. Esta é a melhor vítimas do que os 5% atuais benefi-
de atendimento (…)
solução, em face do princípio de sub- ciam de serviços de apoio.
sidiariedade que deve pautar a inter-
venção do Estado. Além disso, sem

50
passassem pelos serviços gerais tempo inteiro ou parcial) remunera- dade e continuidade de todas as ac-
de apoio, sendo depois encaminha- dos, mas que assente igualmente tividades, designadamente daquelas
das para os serviços especializados em trabalho voluntário, é a solução que vão para além do atendimento às
aquelas cujas necessidades espe- mais desejável. Podem aliás listar-se vítimas de crimes. Urge aliás camin-
cíficas assim o justificassem. Isto é, vários argumentos em prol do recurso har no sentido de uma cada vez mais
os serviços gerais seriam, de acordo ao voluntariado: em primeiro lugar, o justa remuneração de todos os profis-
com a terminologia adoptada no Con- menor custo dos serviços, o que não sionais que trabalham na área social,
siderando n.º 62 da Directiva, uma é de todo despiciendo face aos par- uma vez que, por força dos baixos
espécie de balcão único para onde cos recursos de que em regra estes orçamentos da maioria das organiza-
as autoridades judiciárias e policiais, serviços dispõem; em segundo lugar, ções, o cenário actual fica, em geral,
bem como outros profissionais, no- a oportunidade de acréscimo de ex- muito aquém do mínimo que seria ex-
meadamente da área da educação, periência profissional que o volun- igível para conferir a estas a possibili-
saúde, segurança social, etc. referen- tariado oferece, designadamente, aos dade de contarem com técnicos ainda
ciariam todas as vítimas que pretend- jovens; em terceiro lugar, a genuini- mais qualificados e motivados.
essem aceder a esse apoio. E daí se- dade da motivação dos voluntários
riam encaminhadas para os serviços no exercício de uma cidadania activa, Em conclusão, pode afirmar-se que o
especializados todas as que deles com impacto positivo ao nível do seu modelo de serviços de apoio à vítima
precisassem. empenho; e em quarto lugar, o facto de crime tem que ser pensado na
de alguém, desinteressadamente, se perspectiva de garantir três aspectos
Não é contudo isto que se passa ac- preocupar em ajudar, o que é visto de cruciais: em primeiro lugar, que toda e
tualmente em Portugal, quer porque forma extremamente favorável pelas qualquer vítima de crime tem acesso
as vítimas não são uniformemente vítimas de crime em geral e segura- a serviços gerais de apoio, indepen-
referenciadas para serviços gerais de mente contribui para a recuperação dentemente do local de Portugal em
apoio – desde logo porque os serviços da confiança destas na comunidade, que se encontre; em segundo lugar,
gerais existentes não cobrem todo o confiança muitas vezes tão abalada que os serviços gerais de apoio estão
território nacional -, quer porque, face pelo crime ocorrido no seu seio e pela em condições de oferecer, no mínimo,
à falta de respostas especializadas descrença subsequente nas institu- todas as respostas mencionadas no
em diversas áreas, os serviços gerais ições. art.º 9º n.º 1 da Directiva, fazendo-o
desenvolveram igualmente serviços de uma forma padronizada e uniforme
de apoio especializado para determi- Mas considera-se indispensável que em todo o território nacional; em ter-
nadas vítimas ou para as vítimas de este corpo de voluntariado seja en- ceiro lugar, que todas as vítimas que
determinados tipos de crimes. quadrado numa estrutura profissional, apresentam necessidades de apoio
em que um conjunto de colabora- específicas têm acesso a apoio espe-
dores permanentes e remunerados cializado. Só desta forma se poderá
assegure a gestão e coordenação da dar cumprimento às exigências da Di-
COMPOSIÇÃO MISTA equipa e dos serviços. Esta neces- rectiva nesta matéria.
sidade é ainda mais premente quanto
Relativamente à base de funciona- sabemos que o voluntariado jovem
mento dos serviços de apoio à vítima, é extremamente volátil, o que exige
a APAV entende que uma composição a existência de uma equipa perman-
mista, constituída por profissionais (a ente que garanta a estabilidade, quali-

51
DIREITO A SER OUVIDA E
DIREITOS NO CASO DE UMA

DECISÃO DE NÃO DEDUZIR
ACUSAÇÃO

N
o processo penal actual a
vítima já não é apenas figura
de passagem, o mero “ob-
jecto do crime”, sem direito de inter-
venção nos autos e de participação
activa no decurso das várias fases do
processo. A vítima é hoje, ou pode e
deve sê-lo, sujeito de pleno direito no
processo penal, bastando para tal que
intervenha no processo, constituindo-
se como assistente, ou possa e deva
ser ouvida em fases ou momentos
particulares do mesmo, ainda que na
qualidade de vítima, sem particular
estatuto processual.

O assistente mais não é que o titular


do interesse ofendido com uma espe-
cial posição processual que lhe permi-
ta acção autónoma, mas coadjuvante,
do Ministério Público. Pode requerer recorrer, pode alegar, pode opor-se
o que entender pertinente aos seus à suspensão provisória do processo,
interesses, oferecer provas e recorrer pode, enfim ter voz activa no decurso
de todas as decisões que lhe sejam do processo, ainda para o fazer findar
desfavoráveis. Pode igualmente não em determinadas condições.
se conformar com o arquivamento O assistente é, assim, uma parte in-
do Ministério Público e suscitar o in- tegrante do processo penal hodierno,
cidente de intervenção hierárquica com autonomia para participar activa-
ou requerer a abertura de instrução mente na defesa dos seus interesses
para que prossiga o processo. Pode e direitos. Contudo, muito pode ser
ainda não aceitar a não pronúncia e feito para alargar os poderes conferi-

52

(…) Entendemos que
consagrados na legislação dos Esta- absolutamente omissa a referência à
a tutela efectiva da dos-Membros. Concretamente o seu audição da vítima, que poderá, em
nº 1 prevê que as vítimas, de acordo muitos casos, ter interesse directo em
vítima (…) terá que
com o seu papel no sistema de justiça participar neste processo decisório,

passar pela consag- penal, tenham o direito ao reexame contribuindo com elementos que
da decisão de não deduzir acusação. poderão ser de relevo para a forma-
ração do direito de ção da convicção do juiz e para a boa
decisão da causa.
audição da mesma
quando estejam em DIREITO A SER OUVIDA O mesmo sucede nos casos de sus-
pensão da execução da pena, relati-
causa situações de Quanto ao direito a ser ouvida, en- vamente à qual a redacção actual do
tendemos que a tutela efectiva da n.º 2 do artigo 495º do CPP também
revogação de medida vítima em processo penal terá que prevê que o juiz decida obtendo ex-
passar pela consagração do direito de clusivamente o “parecer do Ministé-
de coacção ou de revo- audição da mesma quando estejam rio Público e ouvido o condenado, na
em causa situações de revogação presença do técnico que apoia e fis-
gação da suspensão
da execução da pena
“ de medida de coacção ou de revo-
gação da suspensão da execução da
pena, sendo tal necessidade particu-
caliza o cumprimento das condições
de suspensão”.

(…) larmente evidente quando esteja em


causa a alegada continuação da ac- Impor-se-á, portanto, que ao elenco
tividade criminosa ou a invocada vio- de agentes a consultar aquando da
lação de regras impostas que conten- decisão de revogação da medida
dam directa ou indirectamente com os de coacção ou da suspensão da ex-
direitos fundamentais da vítima, des- ecução da pena, previsto respectiva-
ignadamente com os seus direitos à mente nos artigos 212.º, nº 4 e 495.º,
vida, à liberdade, à autodeterminação nº 2 do CPP, seja acrescentada a víti-
sexual, à integridade moral e física e à ma. Tal solução é, aliás, a mais con-
dos às vítimas e para potenciar a sua
tranquilidade pessoal, familiar, social, forme com o disposto no art.º 32.º n.º7
acção dinâmica no processo penal.
profissional e digital. da Constituição da República Portu-
O art. 10º da Directiva estabelece o
guesa, que prevê o direito do ofendi-
direito da vítima a ser ouvida durante
do a intervir no processo, em especial
o processo penal.
No que respeita à revogação da me- quando se trate de matéria em que o
dida de coacção, o n.º 4 do artigo próprio seja directa e intensamente
212º do CPP prevê que o juiz revogue afectado nos seus direitos fundamen-
O art.º 11º da Directiva refere-se aos
ou substitua as medidas de coacção tais.
direitos da vítima no caso de ser pro-
“oficiosamente ou a requerimento do
ferida uma decisão de não deduzir
Ministério Público ou do arguido, de-
acusação, que se devem encontrar
vendo estes ser ouvidos”. É, portanto,

53
norma resulta, portanto, a natureza Nestes termos, a adequada tutela
DIREITOS NO CASO DE
alternativa destes dois institutos e a dos direitos da vítima e o reforço da
UMA DECISÃO DE NÃO
impossibilidade de um recurso suces- sua intervenção na fase de instrução
DEDUZIR ACUSAÇÃO
sivo aos mesmos. passam pela previsão, na referida
disposição legal, da possibilidade de
Relativamente aos direitos no caso de
tanto o arguido como a vítima serem
uma decisão de não deduzir acusa-
Contudo, quando a decisão do Minis- interrogados não só quando o juiz “o
ção, entendemos que existe um dé-
tério Público ou do seu superior hi- julgar necessário”, mas também sem-
fice na lei e, sobretudo, na prática, de
erárquico, em sede de intervenção pre que estes o solicitem, até para eq-
sindicância, ou de possibilidade de
hierárquica, seja a de não acusar, uiparar a vítima ao arguido na impre-
sindicância pelo juiz, do ato de arqui-
entende-se que não se poderá retirar scindibilidade de ouvir ambos.
var.
à vítima a faculdade de suscitar que
aquela seja sujeita à sindicância do
juiz, conforme previsto na al. b) do Entende-se igualmente que, do mes-
A transposição da Directiva para o or-
n.º1 do artigo 287º do CPP. Nestes ter- mo modo que a circunstância de a
denamento jurídico português criará
mos, a plena protecção da vítima im- abertura da fase de instrução ter sido
o contexto ideal para a efectivação
plica que nos casos em que esta opte requerida apenas por um dos argui-
de algumas alterações concretas ao
por solicitar a intervenção hierárquica, dos não prejudicar o dever de o juiz
CPP, no sentido de alargar os poderes
lhe seja ainda assim conferida a fac- retirar da instrução as consequên-
conferidos às vítimas e de potenciar a
uldade de requerer a abertura da in- cias legalmente impostas a todos os
sua acção dinâmica no processo pe-
strução relativamente à decisão que arguidos, também o facto de apenas
nal.
venha a ser proferida pelo superior uma das vítimas requerer a abertura
hierárquico, beneficiando assim dos de instrução não dever impedir que
plenos efeitos consagrados no CPP os efeitos que resultem desta fase
O efectivo cumprimento do disposto
para esta fase do processo. abranjam todas as vítimas. A decisão
no artigo 11.º da Directiva passará,
de pronúncia deve aproveitar a todas
antes de mais, pela consagração le-
as vítimas e não somente à/às que,
gal da possibilidade de requerer a
Em segundo lugar, refira-se que o constituída(s) assistente(s), requereu/
abertura de instrução também na se-
envolvimento da vítima no reexame requereram a abertura de instrução.
quência de um pedido de intervenção
da decisão de não deduzir acusação, Cumpre, assim, novamente, equipa-
hierárquica.
consagrado no artigo 11º, implica rar a vítima ao arguido, alargando o
também um reforço da participação âmbito do n.º 4 do artigo 307º do CPP.
da mesma na fase da instrução, no-  
A redacção do artigo 278.º prevê
meadamente consagrando a obriga-
actualmente que a intervenção hi-
toriedade da sua audição nesta sede,
erárquica apenas possa ser suscitada
quando assim o requeira. Trata-se,
pelo assistente ou denunciante com a
neste caso, de alargar o conteúdo
faculdade de se constituir assistente
do n.º2 do artigo 292º do CPP, equi-
“no prazo de 20 dias a contar da data
parando a vítima ao arguido no que a
em que a abertura da instrução já
esta matéria diz respeito.
não possa ser requerida”. Da referida

54
55
(…) Dever-se-á ponderar a possibilidade de tornar
automática – obviamente desde que verificados os
requisitos legais - a remessa do processo para este
mecanismo (mediação penal), à luz aliás do previsto
na proposta de lei inicialmente lançada para dis

56
DIREITO A GARANTIAS NO CONTEXTO DOS
SERVIÇOS DE JUSTIÇA RESTAURATIVA

S
urgida há quase quarenta anos e assente nas ideias de participação ac-
tiva de vítima e infractor e de comunicação entre estes, com o auxílio de
um mediador, tendo em vista a eventual negociação de uma reparação
pelo mal causado pelo crime, a Justiça Restaurativa tem vindo a conquistar
um espaço cada vez mais relevante em ordenamentos jurídicos de diferentes
continentes: do Brasil à Nova Zelândia, da Austrália aos Estados Unidos da
América, do Canadá a muitos dos Estados Membros da União Europeia, como
Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Finlândia, Reino Unido, entre
outros, as diferentes práticas de Justiça Restaurativa, entre as quais a media-
ção, vêm ganhando significativa expressão.

Sólidos estudos científicos demonstraram já cabalmente o impacto positivo


que pode ter quer para as vítimas de crime, quer para os infractores, quer para
o sistema judicial quer para a comunidade em geral. O reconhecimento da sua
importância foi aliás consubstanciado em instrumentos jurídicos emanados de
algumas das mais importantes organizações internacionais, como a ONU, a
União Europeia ou o Conselho da Europa.

Em Portugal, a mediação penal, enquanto mecanismo de resolução extrajudicial


de conflitos que consubstancia na prática o ideário restaurativo, foi legalmente
consagrada através da Lei 21/2007, de 12 de Junho, que criou um sistema
público de mediação vocacionado para lidar com a pequena e média crimi-
nalidade pessoal e patrimonial. Implementado no início de 2008, este sistema

57
opera na fase de inquérito, durante a
O ART.º 12º N.º 1
qual, por iniciativa do Ministério Pú-
DA DIRECTIVA
blico ou das partes, o processo pode
ser encaminhado para mediação, no
Ao contrário do que sucedia com a
âmbito da qual o mediador procurará
Decisão Quadro de 2001 da EU rela-
facilitar a comunicação entre vítima e
tiva ao Estatuto da Vítima em Proces-
infractor, sendo que se estes alcança-
so Penal, em que a mediação penal
rem um acordo o processo penal em
era consagrada como um direito da
curso é arquivado.
vítima de crime, na Directiva realça-
se sobretudo o direito da vítima a ga-
rantias que a protejam da vitimação
Nos últimos quinze anos, a APAV ded-
secundária e repetida, a intimidação e
icou especial atenção à mediação em
a retaliação.
contexto penal, tendo-se empenhado
particularmente no estudo, investi-
gação científica e divulgação desta
São especificamente previstas as se-
prática, na presença em redes inter-
guintes exigências:
nacionais de cooperação, na consulta
e debate públicos que precederam a
aprovação da lei da mediação e na
utilização apenas em casos em
formação profissional de mediadores.
que tal vá ao encontro dos inter-
A APAV acredita que este mecanismo,
esses da vítima
se desenvolvido num quadro institu-
cional adequado, por profissionais
consentimento livre e informado
devidamente qualificados e de acordo
prestação de informação sobre o
com um conjunto de boas práticas
processo restaurativo, sobre os
consensualmente preconizadas, tem
seus resultados potenciais e so-
um potencial positivo que não deve
bre as formas de supervisão da
ser desperdiçado.
aplicação de um eventual acordo

reconhecimento pelo infractor


dos factos essenciais (e aqui há
claramente uma má redacção da
versão portuguesa da Directiva,
porque aquilo que efectivamente
se pretende, e que resulta aliás
da versão inglesa, é que o infrac-
tor reconheça o essencial da ma-
téria factual, e não meramente
que “tome conhecimento dos

58
elementos essenciais do proces- Seria introduzido um novo n.º 2 no
O ARTIGO 12º N.º 2 DA
so” – “to acknowledge” significa art.º 4º, com a seguinte redacção:
DIRECTIVA E A ACTUAL
“reconhecer”, e não “conhecer”) “A mediação deve ter lugar apenas
SITUAÇÃO DA MEDIAÇÃO
quando o arguido reconheça a prática
PENAL EM PORTUGAL
voluntariedade do acordo e pos- dos factos essenciais que deram ori-
sibilidade de este ser tido em gem ao processo penal.”
Diz-nos este dispositivo que “os Es-
conta no processo penal Desta forma ficarão acauteladas
tados-Membros devem facilitar o en-
duas dimensões cruciais para que se
vio dos processos, se for caso disso,
confidencialidade. minimizem os riscos de ocorrência
aos serviços de justiça restaurativa,
de vitimação secundária ou repetida,
nomeadamente através do estabe-
retaliação ou intimidação: ao ter em
lecimento de procedimentos ou direc-
conta, como critério fundamental para
trizes sobre as condições de envio.”
Entende-se que no quadro legal vi- remessa do processo para mediação,
gente em Portugal e que rege a ma- o interesse da vítima, pretende-se
téria da mediação em contexto penal, evitar que esta possa ser de alguma
Com esta norma, pretende a Direc-
os aspectos atinentes à utilização de forma instrumentalizada ou secundar-
tiva estimular o recurso a programas
mecanismos restaurativos apenas em izada em prol de outros objectivos,
de justiça restaurativa, exigindo aos
casos em que tal vá ao encontro dos designadamente a reabilitação do in-
Estados Membros, designadamente,
interesses da vítima e ao reconheci- fractor ou uma eventual maior celeri-
o estabelecimento de regras e de
mento pelo infractor dos factos essen- dade do processo; ao exigir-se o
mecanismos de encaminhamento
ciais não estão devidamente previs- prévio reconhecimento pelo infractor
de processos. Contudo, em Portugal
tos. Sugere-se por isso a introdução do essencial dos factos pelos quais
temos quadro legal mas não temos
de duas alterações no art.º 3º da lei está indiciado, assegura-se a existên-
qualquer prática de justiça restaura-
21/2007, de 12.6: cia de pelo menos uma base comum
tiva a funcionar nos termos ali previs-
sobre a qual vítima e infractor podem
tos, na medida em que, actualmente,
estabelecer um processo de comuni-
a actividade do Sistema de Mediação
o n.º 1 do art.º 3º passaria a ter a cação e tentar negociar eventuais for-
Penal (SMP) é praticamente nula.
seguinte redacção: “Para os efeitos mas de reparação.
Após um período experimental de
previstos no artigo anterior, o Minis-
dois anos desenvolvido em quatro co-
tério Público, em qualquer momento
marcas e pautado por um assimétrico
do inquérito, se tiverem sido recolhi- Citando o considerando 46 da Direc-
volume processual – enquanto no
dos indícios de se ter verificado crime tiva, “os serviços de justiça restaura-
Porto, por exemplo, foram encamin-
e de que o arguido foi o seu agente, tiva (…) podem ser de grande bene-
hadas para mediação algumas cente-
tendo em conta o interesse da vítima fício para as vítimas, mas exigem
nas de casos, no Seixal esse número
e se entender que desse modo se precauções para evitar a vitimização
foi diminuto -, e tendo ainda durante
pode responder adequadamente às secundária e repetida, a intimidação e
aquele período o SMP sido alargado
exigências de prevenção que no caso a retaliação. Por conseguinte, esses
a mais comarcas, a verdade, pelas
se façam sentir (…)”. serviços deverão atribuir prioridade
informações disponíveis, é que sen-
aos interesses e às necessidades da
sivelmente desde 2011 o sistema está
vítima, à reparação dos danos causa-
parado, não sendo enviados proces-
dos e à prevenção de novos danos.”

59
sos para mediação. Desconhecem-se requisitos legais - a remessa do pro- so para mediação em decorrência de
com exactidão as razões que conduz- cesso para este mecanismo, à luz pedido nesse sentido efectuado por
iram a este cenário, embora se colo- aliás do previsto na proposta de lei vítima e arguido, na medida em que,
que a possibilidade de que tal possa inicialmente lançada para discussão até ao momento, esta faculdade não
ter resultado do movimento periódico pública em 2007 mas posteriormente foi utilizada uma única vez. Faria se-
dos magistrados do Ministério Pú- abandonada em resultado do denomi- guramente mais sentido que bastasse
blico, sendo que pelo menos em al- nado Pacto para a Justiça celebrado que um dos dois – vítima ou arguido
gumas das comarcas em que o SMP entre o Partido Socialista e o Partido – solicitasse o encaminhamento para
está instalado os magistrados anteri- Social Democrata. Deste modo, pre- mediação, sendo que tal em nada
ores teriam sido sensibilizados para a tende-se subtrair o encaminhamento beliscaria o princípio da voluntarie-
mediação mas os atuais não. de casos para mediação não ao poder dade, uma vez que o outro – aquele
de decisão do Ministério Público mas que não requereu o encaminhamento
Alguns operadores judiciários ofer- à força da inércia e às resistências – poderia, de imediato ou mais tarde,
ecem forte resistência à introdução demonstradas por alguns operadores manifestar a sua vontade no sentido
e desenvolvimento deste mecanismo do sistema. de que o processo não fosse remetido
de resolução de conflitos. Perante os ou não prosseguisse em mediação.
vários obstáculos levantados, há que Ainda quanto ao enquadramento legal Outro problema prende-se com a in-
afirmar que, embora a Justiça Res- da mediação, não se compreende o experiência da maior parte dos medi-
taurativa, quer na sua fundamentação porquê de se excluir as situações em adores: face ao escasso ou quase in-
teorética quer nas formas como tem que o caso pode ser remetido para existente encaminhamento de casos
sido levada à prática, não esteja nem processo sumário ou sumaríssimo. para mediação verificado em algumas
de perto nem de longe isenta de críti- Esta exclusão decorrerá provavel- comarcas logo desde o arranque do
cas, muitas delas absolutamente cer- mente de o legislador ter considerado SMP, acontece que muitos dos medi-
teiras, não deverá fazer-se tábua rasa que, por via da aplicação daquelas adores, embora em funções há mais
de algo que nos últimos quase qua- formas especiais de processo, o de sete anos, não desenvolveram um
renta anos tem vindo gradualmente princípio da celeridade e economia único processo de mediação. Este
a conquistar uma posição no modo processuais seria devidamente res- facto é deveras preocupante, quer
como lidamos com o crime e com as peitado, mas a verdade é que, para porque muitos dos mediadores que
suas consequências e que tem já uma além de assim se reduzir a mediação investiram significativo tempo e din-
expressão significativa em países que penal a um âmbito quase residual, heiro na sua formação profissional
nos são próximos, e preferir ignorar está ainda a escamotear-se o melhor não tiveram até à data qualquer re-
este sucesso, seja por que razão for: desempenho que a mediação pode torno, quer sobretudo porque caso
desconhecimento, aversão à novi- ter ao nível dos custos, da reparação sejam chamados no futuro a intervir
dade, receio da perda de poder ou de dos danos causados à vítima e da re- enquanto mediadores, os conheci-
clientela, ou outra. inserção social do agente . 9
mentos adquiridos durante o curso de
formação situar-se-ão num passado
Nesse sentido, e caso se queira ver- Um outro aspecto do regime legal que longínquo não tendo nunca havido
dadeiramente apostar na mediação comprovadamente não funciona é a oportunidade para serem postos em
penal, dever-se-á ponderar a pos- possibilidade de remessa do proces- prática.
sibilidade de tornar automática – ob- 9 Vide, neste sentido, Beleza, Teresa Quanto à articulação entre os profis-
Pizarro e Melo, Helena Pereira: A mediação
viamente desde que verificados os penal em Portugal, Almedina (2012), pp. 77-79 sionais, teria sido de extrema utili-

60
dade, numa fase inicial da mediação, se de um mecanismo ainda descon- tentados a pensar na relação esforço/
um contacto estreito entre os media- hecido para a maior parte da popula- benefício e a inibir-se de fazer tudo o
dores e os magistrados do Ministé- ção, o facto de se obter informação que estaria ao seu alcance. Acresce
rio Público envolvidos no SMP. Útil e aconselhamento por parte de uma que o único factor que pode fazer
porque permitiria desde logo uma entidade que tem como missão social variar os honorários – a celebração
afinação conjunta dos critérios de precisamente a prestação de apoio ou não de acordo entre as partes - é,
encaminhamento de processos para a cidadãos vítimas de crimes pode- também ele, descabido: pagar mais a
mediação, à semelhança do que su- ria fomentar a confiança no sistema um mediador por ter sido alcançado
cedeu aliás na fase experimental e consequentemente contribuir para um acordo no processo por si medi-
destas práticas noutros países, mas um decréscimo da percentagem de ado é assumir que se “premeia” este
também porque traria os magistrados vítimas que recusou liminarmente o por algo que, em bom rigor, não deve
mais para “dentro” deste novo para- convite para mediação, pois é possív- depender de si. O acordo deve resul-
digma de intervenção: participarem el que muitas o tenham feito precisa- tar exclusivamente da vontade das
em reuniões de discussão de casos, mente por mero desconhecimento e partes, e não se deve sequer “tentar”
contactarem com os procedimentos consequente desconfiança. o mediador a assumir um papel de-
específicos da mediação, assistirem masiado activo nos esforços negoci-
inclusivamente a simulações de ses- ais, pelo que a solução adoptada não
sões, compreenderem as principais Os honorários dos mediadores são é compatível com o conceito de me-
dificuldades sentidas pelos mediad- baixos e calculados de uma forma diação e com a função do mediador.
ores, tudo isto permitiria um entendi- desadequada. A compensação mon- Por último, refira-se que as despesas
mento mais cabal das virtudes e lim- etária, paga aos mediadores numa em que o mediador poderá ter que in-
ites da mediação. base case by case, é, em nosso en- correr, desde correspondência a des-
tender, não apenas baixa mas calcu- locações e telefonemas, não são co-
lada de acordo com premissas incor- bertas à parte pelo SMP, pelo que dos
Outra falha que apontamos prende-se rectas. Baixa porque, se atendermos parcos honorários recebidos aquele
com o escasso ou nulo envolvimento ao tempo de trabalho que os proces- terá ainda que retirar parte para su-
de organizações cuja intervenção sos de mediação, mesmo os menos portar estas despesas. Tendo em
neste mecanismo traria certamente complexos, podem exigir, facilmente conta a importância do seu contributo
uma mais-valia. A APAV considera concluímos que o montante tabelado para a administração da justiça penal,
que poderia desempenhar um papel está longe de corresponder a uma faria sentido que o vínculo dos me-
relevante no âmbito da mediação pe- retribuição digna. Para além disso, diadores penais fosse menos ténue,
nal, designadamente ao nível do con- o facto de os honorários serem fix- justificando-se a sua contratação em
tacto e informação das vítimas convi- os, independentemente do trabalho regime de prestação de serviços e por
dadas a participar neste mecanismo. efectivamente desenvolvido pelo me- períodos renováveis, à semelhança
Para além de dispor do know-how, diador, encerra em si uma injustiça e aliás do que acontece com os media-
uma vez que tem uma Unidade de um perigo: uma injustiça porque se dores que colaboram com os julgados
Justiça Restaurativa constituída por ganha exactamente o mesmo quer se de paz. Se assim não se entender,
um conjunto de técnicos que trabal- dedique a um determinado processo deverá pelo menos ser proporcionada
ham nesta área há alguns anos, está dez ou cinquenta horas; um perigo uma retribuição mais digna e con-
na posição ideal para desempenhar porque, perante esta realidade, al- sentânea com a natureza e relevância
aquela tarefa uma vez que, tratando- guns mediadores podem sentir-se do trabalho desenvolvido.

61
Por fim, mas não menos relevante, é gostariam de a ver devidamente im- Mas para poder provar tudo isto, a
o desconhecimento por parte do pú- plementada em Portugal. Os exem- mediação precisa de ter uma opor-
blico. A mediação não é ainda algo de plos provenientes de outros países tunidade, e essa oportunidade ainda
muito familiar à população em geral. demonstram que o arranque de um não surgiu. Não surgiu porque nasceu
Talvez por serem relativamente recen- mecanismo como este não é fácil, de forma envergonhada e porque aos
tes, e pese embora algum esforço de que a desconfiança face à novidade poucos foi sendo esquecida, deixada
divulgação feito, os sistemas públicos pode colocar inicialmente fortes en- ao abandono.
de mediação não estão ainda enraiza- traves e que o âmbito de intervenção
dos na nossa cultura de resolução de desta prática começa sempre por ser Convém ter em mente que o desin-
conflitos, o que se repercute no baixo reduzido. Ainda mais num país como vestimento na mediação penal tem
volume processual apresentado. Ai- o nosso, em que a tão propalada crise pouco ou nada que ver com o seu
nda assim, a mediação penal é um da Justiça anda nas bocas de todos, custo. Este é irrisório, uma vez que
caso à parte, na medida em que não é perfeitamente natural que muitos o funcionamento do SMP comporta
depende exclusivamente da auto- considerem que a prioridade deve ser pouco mais do que despesas com o
referenciação. Diga-se aliás que, se resolver ou, pelo menos, minimizar os pagamento dos honorários aos me-
dependesse, o volume processual problemas existentes, ao invés de “in- diadores e com a manutenção da apli-
seria nulo, na medida em que não ventar” coisas novas. cação informática que serve de inter-
houve até à data um caso em que o face entre tribunais e mediadores e no
Ministério Público tenha enviado um Para a mediação, a única forma de âmbito da qual é processada toda a
processo para mediação na sequên- ultrapassar estes obstáculos e dificul- informação relevante relativa ao caso.
cia de requerimento apresentado por dades é através da demonstração do Não foi necessário qualquer investi-
vítima e infractor. seu potencial. Da prova de que faz mento em infra-estruturas que supor-
todo o sentido, de que é uma metodo- tassem logisticamente o SMP, pois
logia de resolução de conflitos compe- este utiliza espaços afectos a outros
tente, de que pode funcionar melhor serviços da justiça, como por exemplo
CONCLUSÕES E que o sistema de justiça “convencio- os julgados de paz, nem foi efectuado
ALGUMAS PROPOSTAS nal” a diversos níveis – celeridade, qualquer investimento na formação
custos, satisfação das partes e paci- profissional dos mediadores uma vez
ficação social, por exemplo - e, con- que esta foi suportada integralmente
Não foi certamente este o quadro
sequentemente, de que pode trazer pelos próprios.
idealizado por todos aqueles que
benefícios reais para vítimas, infrac- Assim, entende-se que se trata, tão-
acreditam na mediação penal e que
tores, aparelho judiciário e sociedade. somente, de uma questão de von-
tade. De vontade política de dar um
(…) Dever-se-á ponderar a possibilidade de novo impulso à mediação penal. E
tornar automática – obviamente desde que de vontade dos operadores judiciári-
os envolvidos de “abrirem a porta”
verificados os requisitos legais - a remessa à mediação, de lhe proporcionarem
do processo para este mecanismo (mediação um espaço autónomo, com modelo
de intervenção e princípios próprios,
penal), à luz aliás do previsto na proposta dentro mas ao mesmo tempo fora do
de lei inicialmente lançada para discussão processo penal.

62
Na decorrência de tudo o que acima utilização mais sistemática des- promoção e/ou aprofundamento
se disse, o novo impulso que se pre- tas práticas. Este esforço deverá de programas experimentais de
coniza para a mediação penal deverá ser permanente, contínuo, e não mediação penal noutras fases
passar, nomeadamente, pelos se- se esgotar num momento inicial. do processo ou noutros proces-
guintes aspectos: sos – e lembre-se aqui que quer
fomento de mecanismos de ar- o Código de Execução de Penas
ticulação e cooperação entre os quer a Lei Tutelar Educativa pre-
alteração do enquadramento magistrados do Ministério Públi- vêem o recurso à mediação – ou
legislativo, no sentido de, desde co e os mediadores, pelo menos relativamente a outros tipos de
que verificados os requisitos le- numa fase inicial e nos termos e crime, designadamente criminal-
gais e não havendo razão fun- com as finalidades acima descri- idade mais grave (obviamente
damentada que desaconselhe tas; não com carácter diversivo);
o encaminhamento do processo
para mediação, este ocorra de envolvimento de organizações revisão do modelo de contrata-
forma obrigatória; da sociedade civil nos program- ção e/ou remuneração dos me-
as de justiça restaurativa: deu- diadores de acordo com o que
definição e execução de uma se acima o exemplo da APAV acima se referiu a este propósito;
estratégia de sensibilização, e das diversas formas através
em primeiro lugar, do Ministério das quais, enquanto organiza- divulgação pública deste - e de
Público, enquanto entidade en- ção que trabalha com vítimas outros - programas de resolução
caminhadora de processos para de crimes, pode contribuir. Mas alternativa de litígios, de modo a,
o SMP, mas também de outros há outras entidades presentes progressivamente, operar uma
actores que também têm um pa- no terreno, como por exemplo mudança cultural na população,
pel a desempenhar, como sejam organizações de mediadores ou tornando-a mais aberta e menos
os advogados e funcionários de organizações que desenvolvem renitente face a estes mecanis-
justiça. Essa estratégia deverá, a sua actividade junto de infrac- mos e, consequentemente, au-
sempre que possível, assentar tores (em meio prisional, por ex- mentando os índices de utiliza-
no envolvimento de pares, como emplo) que podem colaborar a ção daqueles.
sejam magistrados portugueses vários níveis neste âmbito;
e/ou de outros países que pos- envolvimento da academia na
sam expressar aos colegas o avaliação dos programas de Só dando, desta forma, uma oportuni-
porquê de acreditarem na medi- justiça restaurativa e aproveita- dade à mediação é que esta poderá
ação. Dever-se-á apostar na di- mento dos respectivos resulta- demonstrar a sua validade, crescer,
vulgação das potenciais virtudes dos para introdução em tempo sedimentar-se. Caso contrário, inevi-
da justiça restaurativa e será útil de melhorias naqueles pro- tavelmente desaparecerá.
pertinente apresentar-se casos gramas;
concretos de sucesso, casos promoção de projectos de in-
em que a mediação tenha tido vestigação sobre a temática da
um impacto altamente positivo, justiça restaurativa;
como forma de ilustrar os bene-
fícios que podem advir de uma

63
DIREITO A APOIO JUDICIÁRIO

O ARTIGO 13º DA
DIRECTIVA E
A LEI N.º 34/2004

O
art.º 13º da Directiva prevê
que “os Estados-Membros de-
vem assegurar que as vítimas
tenham acesso a apoio judiciário se ti-
verem o estatuto de parte no processo
penal”, sendo que “as condições e re-
gras processuais que regem o acesso
das vítimas a apoio judiciário são de-
terminadas pela legislação nacional.”
O artigo 20º da CRP estabelece que
“a todos é assegurado o acesso ao di-
reito e aos tribunais para defesa dos
seus direitos e interesses legalmente
protegidos, não podendo a justiça ser
denegada por insuficiência de meios
económicos”, e que “todos têm direito,
nos termos da lei, à informação e con-
da União Europeia, assim como es-
sulta jurídicas, ao patrocínio judiciário
trangeiros e apátridas com título de
e a fazer-se acompanhar por advoga-
residência válido num Estado-Mem-
do perante qualquer autoridade.”
bro da União Europeia, que demons-
trem estar em situação de insuficiên-
cia económica.
A Lei nº 34/2004, visando dar con-
sagração ao previsto constitucional-
mente, refere que à protecção jurídica
Ora, encontra-se em situação de in-
- que pode consistir na prestação de
suficiência económica, de acordo com
consulta jurídica ou de apoio judiciário
a mesma lei, aquele que, tendo em
- têm direito os cidadãos nacionais e

64

Sugere-se (…) que
carência económica podem beneficiar sempre sem contributo seu - ter sido
de qualquer uma das modalidades de cometido um acto considerado pela
a protecção jurídica
apoio judiciário e da consulta jurídica. sociedade como particularmente cen-
(…) passe a ser Consequentemente, haverá segura- surável.
mente muitos cidadãos que, por não
concedida, indepen- se enquadrarem naqueles critérios,
desistem de prosseguir judicialmente Analisando sucintamente o cenário
dentemente da prova as suas legítimas pretensões por não noutros países da União Europeia,
possuírem meios suficientes para verificamos que actualmente, em
da insuficiência suportar as custas do processo e os Espanha, o apoio judiciário é auto-
honorários de advogado. O acesso maticamente concedido, isto é, in-
económica, às de todos ao direito e à justiça, con- dependentemente da sua situação
stitucionalmente consagrado, acaba, económica, às vítimas de violência de
vítimas de crimes assim, por não estar na prática cabal- género, actos terroristas e tráfico de
mente garantido. seres humanos, a menores e pessoas
puníveis com penas
com perturbações psicológicas que

iguais ou superiores
“ tenham sido alvo de abuso ou maus-
tratos, assim como aos sucessores da
vítima que tenha falecido.
a cinco anos (…)
APOIO JUDICIÁRIO A
VÍTIMAS DE CRIMES
Em França, concede-se apoio judi-
Não está previsto nesta matéria qual- ciário nas mesmas circunstâncias às
quer regime especial para vítimas de vítimas de crimes graves: homicídio,
crimes, com excepção do estatuído tortura ou ofensas físicas que causem
no art.º 25º da Lei nº 112/2009 – re- a morte, abuso de crianças com me-
gime jurídico da violência doméstica – nos de 15 anos ou de outras pessoas
que prevê que a concessão de apoio particularmente indefesas, que lhes
judiciário a estas vítimas deve revestir causem a morte, mutilação ou incapa-
carácter urgente, não resultando con- cidade permanente, violação e actos
conta o rendimento, o património e a
tudo claro o modo como esta urgência terroristas que causem danos físicos.
despesa permanente do seu agrega-
se concretiza. Existem regimes de protecção jurídi-
do familiar, não tem condições objec-
ca específicos para vítimas de crimes
tivas para suportar pontualmente os
violentos e como características simi-
custos de um processo.
Em primeiro lugar, a APAV considera lares aos acima referidos também na
que as vítimas de crime deveriam Alemanha, Dinamarca, Suécia e Fin-
ser alvo de um regime especial mais lândia, por exemplo.
No entanto, os critérios definidos por
favorável em matéria de apoio judi-
esta lei para apreciação da insuficiên-
ciário. Estamos na presença de pes-
cia económica são actualmente tão re-
soas cuja necessidade de recurso à
stritivos que pode afirmar-se que ape-
justiça decorre de sobre si – e quase
nas pessoas em situações de extrema

65
Em suma: na impossibilidade material
da adopção da solução que seria, no
plano dos princípios, a mais justa – a
concessão de apoio judiciário a todas
as vítimas de crimes -, muitos países
europeus optam por conferir esta
prerrogativa às vítimas dos crimes
mais graves, por serem aqueles que,
em regra, causam maiores danos às
vítimas e/ou podem implicar uma von-
tade mais acentuada destas no sen-
tido de assumirem uma participação


activa no processo.
(…) A APAV defende que a taxa de

Sugere-se, nesta decorrência, que a


justiça que a constituição como assis-
protecção jurídica, abrangendo a con-
sulta jurídica e o apoio judiciário nas tente implica deve ser
modalidades de dispensa de paga-
mento de taxa de justiça e demais substancialmente reduzida, porventu-
encargos com o processo e nomea-
ção e pagamento da compensação ra para ½ UC, como forma de colocar
de patrono, passe a ser concedida,
independentemente da prova da in-
suficiência económica, às vítimas de
menos entraves a um efectivo acesso

crimes puníveis com penas iguais ou
superiores a cinco anos, incluindo ob- da vítima à justiça.
viamente os familiares da vítima que
tenha falecido em consequência do
crime.

Deve assim ser acrescentado ao art.º


7º da Lei nº 34/2004 um novo número,
a seguir ao nº 2, que preveja que têm
direito a protecção jurídica nos termos
dos arts.º 14º e ss. e do art.º 16º, nº 1,
al. a) e al. b), os cidadãos nacionais e
da União Europeia, bem como os es-
trangeiros e os apátridas com título de
residência válido num Estado-Mem-

66
bro da União Europeia, que tenham
sido vítimas de crimes puníveis com
penas iguais ou superiores a cinco
anos e aos sucessores da vítima que
tenha falecido em consequência do
crime, independentemente da demon-
stração da insuficiência económica.
Em segundo lugar, recorde-se que no
caso de uma vítima de crime se que-
rer constituir como assistente no pro-
cesso penal terá que liquidar taxa de
justiça no valor de 1 Unidade de Conta
(actualmente, 102 euros) e constituir
advogado. É percepção da APAV que,
face à consubstanciação restritiva do
conceito de insuficiência económica,
muitas vítimas que desejariam as-
sumir esta posição no processo não
o fazem por, não sendo elegíveis para
efeitos de apoio judiciário, ainda as-
sim o pagamento daquele valor se
revelar penoso ou mesmo incompor-
tável. Por esta razão, a APAV defende
que a taxa de justiça que a constitu-
ição como assistente implica deve ser
substancialmente reduzida, porventu-
ra para ½ UC, como forma de colocar
menos entraves a um efectivo acesso
da vítima à justiça. Poderia prever-se,
consequentemente, num nº 2 a acres-
centar ao art.º 8º do Regulamento das
Custas Processuais, que quando o/a
requerente da constituição como as-
sistente seja simultaneamente a víti-
ma do crime, a taxa de justiça é de
½ UC.

67
DIREITO AO REEMBOLSO DE DESPESAS

E
stabelece o art.º 13º da Directiva que “os Estados-Membros devem as-
segurar que as vítimas que participem no processo penal possam ser
reembolsadas das despesas que suportarem devido à sua participação
activa no processo penal, de acordo com o seu papel no respectivo sistema de
justiça penal.”

Este direito encontra-se já previsto no art.º 317º n.º 4 do CPP quanto às víti-
mas que intervenham no processo como testemunhas. O problema põe-se,
contudo, relativamente às vítimas que se constituam como assistentes e, nesta
matéria, atenda-se ao preconizado na parte final do considerando 47 da Direc-
tiva: “as despesas só devem ser pagas se a vítima for solicitada ou obrigada
pelas autoridades competentes a estar presente e a participar activamente no
processo penal”.

Parece-nos claro que daqui decorre a necessidade de estender este direito


pelo menos às vítimas de crimes de natureza particular, na medida em que
estas estão obrigadas a constituir-se como assistentes. Não repugna contudo
que mesmo as vítimas de crimes públicos e semi-públicos que se constituam
assistentes possam beneficiar deste direito, uma vez que também essas terão
que colaborar com as autoridades competentes sempre que para tal forem so-
licitadas, designadamente estando presentes em actos processuais.

68
É certo que as custas e encargos su-
portados integram as custas de parte,
previstas no art.º 25º e ss. do Regu-
lamento das Custas Processuais,
as quais são suportadas pela parte
vencida. Não nos parece contudo
adequado diferir para um momento
futuro e incerto este reembolso, até
porque casos há em que, por razões
alheias à vítima – pense-se em situa-
ções de não punibilidade ou de pre-
scrição, por exemplo -, este direito ao
ressarcimento das custas de parte
não operaria. Propõe-se por isso o
alargamento do direito ao reembolso
de despesas às vítimas que se consti-
tuam assistentes.

69
DIREITO À
RESTITUIÇÃO DE BENS

E
stabelece o art.º 15º da Direc-
tiva que “os Estados-Mem-
bros devem assegurar que, na
sequência da decisão de uma autori-
dade competente, os bens restituíveis
apreendidos durante o processo pe-
nal sejam devolvidos às vítimas sem
demora, salvo se forem necessários
para efeitos de processo penal.”

Este direito já se retira do art.º 186º


do CPP, estando igualmente previsto
no art.º 21º n.º 3 da Lei 112/2009 rela-
tivamente às vítimas de violência do-
méstica.

Pensamos poder afirmar-se que, na


maior parte das vezes, este direito é
respeitado pelas autoridades compe-
tentes que, de forma célere, desen-
volvem os procedimentos necessários
à entrega dos bens, não só para que
configurar a possibilidade de serem
estes regressem rapidamente à es-
declarados perdidos a favor do Es-
fera dos seus legítimos proprietários
tado.
como também para evitar a acumula-
ção de objectos em locais em que o
Julgamos por isso que será de toda
espaço disponível não abunda.
a pertinência aproveitar o ensejo
da transposição da Directiva para a
Nalguns casos, contudo, este direito
adopção de um dispositivo legal que
não é encarado jurisprudencialmente
concretize de forma expressa e in-
de forma tão linear, designadamente
equívoca a extensão e limites deste
nas situações em que, pela natureza
direito.
ou utilização dada aos bens, se pode

70
71
72
DIREITO À INDEMNIZAÇÃO

O ART.º 16º DA DIRECTIVA

O
art.º 16º da Directiva é exclusivamente dedicado ao direito da vítima a
uma decisão de indemnização pelo autor do crime durante o processo
penal. Cabe então aos Estados-Membros, nos termos do nº 1 deste
artigo, garantir que as vítimas possam obter, num prazo razoável, uma decisão
relativa a uma indemnização pelo autor do crime durante o processo penal,
excepto se a lei nacional previr que a decisão seja tomada num processo sepa-
rado. Já o nº 2 refere que os Estados-Membros devem promover medidas para
incentivar os autores de crimes a indemnizarem adequadamente as vítimas.

As orientações da Comissão Europeia para transposição da Directiva esta-


belecem a necessidade de especificação das circunstâncias e formas de as
vítimas receberem indemnizações, quer do infractor, quer do Estado, e de
desenvolvimento de procedimentos eficientes para indemnizar as vítimas de
todos os crimes. Os Estados-Membros devem adoptar medidas legislativas
e administrativas de modo a acelerar os procedimentos, para garantir que as
indemnizações são recebidas pelas vítimas num prazo razoável, de modo a
manterem o seu efeito útil.

73
Urge, consequentemente, criar me-
O DIREITO A UMA
canismos para incentivar os autores
DECISÃO DE
dos crimes a indemnizar as vítimas.
INDEMNIZAÇÃO NO
Importa igualmente procurar formas
ÂMBITO DO PROCESSO
de garantir coactivamente a indem-
PENAL
nização e de assegurar que a vítima
seja ressarcida quando o autor do
A lei portuguesa prevê já um regime
crime não o faça.
completo sobre a indemnização à
vítima de crime nos arts.º 71º a 84º
do CPP e estabelece o princípio da
adesão – segundo o qual o pedido de
indemnização civil fundado na prática
O ARTIGO 82º-A DO CÓDIGO
de um crime deve ser deduzido no
processo penal respectivo - e as ex-
DE PROCESSO PENAL
cepções ao mesmo, respectivamente
PORTUGUÊS
nos artsº. 71º e 72º do mesmo diplo- Atente-se no art. 82º-A do CPP, que
ma. prevê que “Não tendo sido deduzido
pedido de indemnização civil no pro-
cesso penal ou em separado, nos ter-
Assim, o nº 1 do artº. 16º da Direc- mos dos artigos 72.º e 77.º, o tribunal,
tiva parece encontrar- se plasmado em caso de condenação, pode arbi-
na nossa lei, excepto no que respeita trar uma quantia a título de reparação
à razoabilidade do prazo em que a pelos prejuízos sofridos quando par-
vítima deve receber a indemnização. ticulares exigências de protecção da
No que diz respeito ao nº2 do mesmo vítima o imponham”.
artigo e às orientações da Comissão
Europeia quanto a este, existe um
longo caminho a percorrer. São raros Tendo em conta que muitas vítimas
os autores de crimes condenados de crime, por falta de informação e
que pagam efectivamente, ficando de apoio, por descrença no sistema
consequentemente grande parte das de justiça ou por não quererem pro-
vítimas sem nada receber. A indem- longar a sua relação com o arguido,
nização possui um significado mais não fazem o pedido de indemnização
intenso do que o da compensação civil, esta norma revela-se de muita
financeira pelos danos sofridos, rep- importância, permitindo aos juízes
resentando o reconhecimento formal contornar este problema e reparar os
do sofrimento por que a vítima passou danos causados à vítima pelo crime
e a admissão de culpa, tendo, assim, mesmo que esta não o requeira,
um importante papel no seu processo “quando particulares exigências de
de recuperação. protecção o imponham”.

74
Porém, esta faculdade é pouco uti- APAV, muito mais consentânea com a
lizada nos nossos tribunais. necessidade de garantir às vítimas de
crime, a todas as vítimas de crime, um
dos seus principais direitos e tal como
Recorde-se contudo que o artº. 21º, formulado na epígrafe do art.º 16º da
nº 2 da Lei 112/2009, estabelece que Directiva: o direito a uma decisão de
“Para efeito da presente lei, há sem- indemnização pelo autor do crime du-
pre lugar à aplicação do disposto no rante o processo penal.
artigo 82.º-A do Código de Processo


Tendo em conta as Penal, excepto nos casos em que a
vítima a tal expressamente se opus-
múltiplas razões que er”, aparentemente assumindo que

podem fazer com nos casos previstos nesta lei existem FORMAS DE INCENTIVO
sempre particulares exigências de AO PAGAMENTO DA
que uma vítima de protecção da vítima que ditam a ne- INDEMNIZAÇÃO
cessidade de o juiz arbitrar uma quan-
crime não deduza tia a título de reparação dos danos
A resolução de litígios através de me-
sofridos.
pedido de diação penal, nos casos em que esta
é permitida, poderia revelar-se impor-
indemnização cível tante para incentivar o autor do crime
Tendo em conta as múltiplas razões
a indemnizar de forma voluntária, uma
(…) sugere-se que, que podem fazer com que uma víti-
vez que, participando o próprio autor
ma de crime não deduza pedido de
do crime na negociação de um acordo
em caso de conde- indemnização cível, e sabendo ao
e, designadamente do valor indemni-
mesmo tempo a importância que esta

nação, o juiz arbitre
sempre à vítima (…)
poderá ter para aquela, não apenas
em termos materiais mas também
zatório, as probabilidades de o pagar
efectivamente são maiores, como se
comprova a partir de quase todos
enquanto reconhecimento cabal do
os estudos efectuados no âmbito da
uma quantia a título “ mal que lhe foi causado pelo crime,
justiça restaurativa e que demonstram
sugere-se que, em caso de condena-
índices bastante elevados de cumpri-
de reparação dos ção, o juiz arbitre sempre à vítima (a
mento.
não ser que esta a isso se oponha)
danos sofridos. uma quantia a título de reparação dos
danos sofridos. Esta proposta, que
Deve privilegiar-se a reparação da
transforma a excepção em regra (em
vítima, quer como injunção em sede
virtude da eliminação do requisito das
de suspensão provisória do proces-
particulares exigências de protecção
so (art.º 281º, nº2, al. a) CPP), quer
da vítima), não é propriamente uma
como condição para a suspensão da
novidade entre nós, na medida em
execução da pena de prisão (art.º
que era a solução prevista no CPP
51º, nº1, al. a) CP) sempre que tal se
de 1929, sendo, no entendimento da

75
mostre adequado (tendo, desde logo, tabeleça a necessidade de o arguido Título V do Livro I, a seguir ao art. 84º
em conta a situação económica do ar- ser alertado para tais consequências. do CPP, que a sentença que condene
guido) e esta priorização deve ser fei- Será de grande importância sensi- o arguido no pagamento de uma in-
ta constar de novos números a aditar bilizar os magistrados judiciais e do demnização civil por danos gerados
a ambas as normas. Seria igualmente Ministério Público para a temática da pelo crime deverá ser executada
importante, no sentido da promoção reparação da vítima e chamar a aten- pelo Ministério Público após o seu
da reparação como injunção e como ção para os mecanismos que a lei põe trânsito em julgado. Uma vez no âm-
regra de conduta, um papel mais ac- ao dispor dos operadores judiciários bito do processo executivo, a penho-
tivo dos operadores judiciais, nome- para incentivar essa reparação volun- ra de salários e de saldos bancários
adamente do Ministério Público. tária. é feita directamente junto da enti-
dade empregadora e das instituições
bancárias, respectivamente.
Outra medida de incentivo à indemni-
zação consistiria em, acrescentando
um número ao artº. 283º, estabelecer MEIOS DE GARANTIA Para fazer face ao segundo tipo de ca-
legalmente que, juntamente com o DO PAGAMENTO DA sos, ou seja, os casos em que é pre-
despacho de acusação, o arguido de- INDEMNIZAÇÃO visível que o autor do crime não cum-
veria ser notificado de que, em caso prirá a sua obrigação de indemnizar,
de prosseguimento do processo, a encontram-se previstas legalmente
É essencial ponderar, igualmente, os
reparação da vítima poderá ter as con- medidas de garantia patrimonial.
mecanismos coercivos que garantem
sequências legalmente previstas ao
o pagamento da indemnização quer
nível do arquivamento por desistência
à vítima, quer ao Estado em sede de
de queixa (se o crime o permitir10) ou A caução económica (art.º 227º do
direito de regresso, quando os perpe-
efeitos atenuantes na determinação CPP) pode ser requerida pelo Minis-
tradores tenham bens e não cumpram
da pena . 11
tério Público quando haja fundado
a sua obrigação ou quando seja previ-
receio de que faltem ou diminuam
sível que não a cumprirão.
substancialmente as garantias de
Aquando da leitura de sentença con- pagamento da pena pecuniária, das
denatória, se ao arguido for aplicada custas do processo ou de qualquer
Quando o autor do crime não pagar a
pena de prisão efectiva, deve ser feita outra dívida para com o Estado rela-
indemnização após a condenação, e
advertência no sentido de a repara- cionada com o crime, ou pelo lesado
procurando vislumbrar formas de min-
ção dos danos poder ter consequên- quando haja fundado receio de que
imizar a vitimação secundária imposta
cias positivas ao nível da execução da faltem ou diminuam substancialmente
à vítima pelo processo de obtenção
pena. Nesse sentido poderá aditar-se as garantias de pagamento da in-
da indemnização civil, que prolonga
um nº 4 ao artigo 373º do CPP que es- demnização ou de outras obrigações
o contacto com o infractor, sugere-se
civis derivadas do crime. A caução
10 Nos crimes semipúblicos, a repara- tornar a execução da sentença con-
ção dos danos sofridos pela vítima pode levá-la económica prestada a requerimento
a desistir da queixa. Também em certos crimes denatória “automática”, de modo a
públicos patrimoniais, a reparação, mediante do Ministério Público aproveita tam-
o consentimento da vítima e do arguido, pode que a vítima não se veja obrigada a
bém ao lesado. Deverá alterar- se o
conduzir à extinção da responsabilidade crimi- ter que intentar acção executiva. Para
nal – ver art.º 206º,n º 1 do CP. nº 4 do art.º 227º do CPP passando
11 Ver art.º 72º, nº 1 e nº 2, al. c) e art.º isso propõe-se que se estabeleça no
206º, nº 2 e nº 3 do CP. esta norma a prever que o lesado seja

76
pago em primeiro lugar. do condenado de fazer face a todas vítima seja recordada do que sofreu.
O arresto preventivo (art.º 228º do as suas obrigações. Ainda assim, esta solução, em caso
CPP) encontra-se também regulado de insuficiência de meios do arguido,
neste âmbito, sendo possível que, a é claramente preferível a que a vítima
requerimento do Ministério Público Para isso propomos a introdução de não seja indemnizada de todo.
ou do lesado, o juiz decrete o arresto, uma norma no Código de Processo
nos termos da lei do processo civil. Penal, a seguir ao artigo 82º, nos mol-
Se tiver sido previamente fixada e não des do art.º 126º do Código Penal es- Cumpre porém resolver um problema
prestada caução económica, o re- panhol, que estabeleça a ordem pela sério que o acordo de pagamento da
querente fica dispensado da prova do qual o autor do crime deverá proceder reparação levanta, particularmente
fundado receio de perda da garantia ao pagamento das suas obrigações quando tal pagamento deva ser feito
patrimonial. pecuniárias no âmbito do processo em prestações: como minimizar o
penal, devendo a indemnização à risco de não ressarcimento da vítima
vítima de crime ter prioridade face às quando o prazo para cumprimento
Estas medidas de garantia patrimoni- restantes. das prestações seja previsivelmente
al revestem-se de grande importância mais extenso que a duração do pro-
pelo seu carácter cautelar, permitindo cesso? Ou, dito de outra forma, como
evitar que o arguido se desfaça dos pode abrir-se no processo penal uma
bens que possa ter e garantir o paga- janela de tempo que permita aguardar
mento efectivo da indemnização à INCUMPRIMENTO DO pelo cumprimento antes da extinção
vítima. Por este motivo deve-se pro- DEVER DE INDEMNIZAR daquele?
curar incrementar a sua utilização
através da actuação conjunta da SUSPENSÃO DO PROCESSO EM
Procuradoria-Geral da República e da CASO DE ACORDO A CUMPRIR Se estivermos ainda em fase de in-
Ordem dos Advogados nesse sentido. EM PRESTAÇÕES quérito, a vítima pode aguardar pelo
cumprimento antes de desistir da
Em situações em que o agente não queixa (crimes semipúblicos ou par-
tem meios económicos para pagar ticulares) ou recorrer-se à suspensão
de imediato a indemnização na sua provisória do processo, a não ser ob-
PRIORIDADE DA totalidade, atente-se na possibilidade viamente em casos em que o acordo
INDEMNIZAÇÃO NO de arguido e ofendido acordarem no de pagamento contemple um período
CUMPRIMENTO DAS pagamento em prestações de uma muito longo. Na fase de julgamento,
OBRIGAÇÕES DO ARGUIDO quantia a título de reparação ao ofen- entendemos que poderia consagrar-
dido, desistindo este da queixa. se como causa para o adiamento da
O pagamento da reparação em presta- audiência a celebração de acordo in-
Sugerimos que seja dada prioridade
ções poderá ter efeitos nefastos no demnizatório, entre vítima e arguido,
ao pagamento da indemnização em
que concerne à vitimação secundária, a cumprir em momento diferido ou em
relação ao pagamento das multas,
uma vez que o prolongamento do prestações, sendo certo, no entanto,
taxa de justiça e custas processuais,
pagamento no tempo impede a vítima que esse adiamento não poderá mui-
o que virá minimizar os problemas da
de ultrapassar por completo o suce- tas vezes prolongar-se até ao integral
vítima nas situações de incapacidade
dido e implica que a cada prestação a cumprimento da obrigação.

77
FUNDO INDEMNIZATÓRIO: A servir para compor este fundo, assim
INDEMNIZAÇÃO PELO ESTADO como os montantes pagos a título de
ÀS VÍTIMAS DE CRIMES multa ou de injunção ou os supra refe-
ridos pagamentos adicionais a efec-
Acontece, infelizmente, inúmeras vez- tuar por indivíduos condenados em
es, o autor do crime não pagar a in- processos penais (v.serviços apoio
demnização à vítima, ou porque ainda vítima). Esta ideia em nada colide com
que desejasse cumprir o dever de in- a proposta supra apresentada e rela-
demnizar não possui meios económi- tiva ao financiamento dos serviços de
cos para o fazer, ou por outro motivo. apoio à vítima (vide p.50), podendo os
Importa, então, procurar soluções dois mecanismos, atentas as diferen-
para que a vítima não deixe de ser in- tes finalidades – um de garantia das
demnizada nestes casos. indemnizações às vítimas, outro de
financiamento dos serviços de apoio
- coexistir sem qualquer confusão,
O ideal seria a criação de um me- desde que fosse absolutamente cla-
canismo social de protecção, como ro que verbas (do ponto de vista da
o Fundo de Garantia Automóvel, que sua proveniência) seriam canalizadas
assegurasse o pagamento das in- para um e para outro.
demnizações devidas pelos danos
causados pelo crime, quando o autor
do crime não o fizesse. Numa lógica Nos EUA, o Código de Leis – com-
de igualdade entre os lesados no âm- pilação e codificação oficial dos es-
bito do direito civil e do direito penal, tatutos federais dos Estados Unidos
se os lesados em acidentes de viação da América – estabelece, no seu tí-
ocorridos em Portugal, quando os tulo 42, no capítulo 112, a criação de
danos sejam causados por respon- um Fundo para as Vítimas de Crime,
sável desconhecido ou isento da ob- para onde revertem valores pagos
rigação de seguro em razão do veícu- a vários títulos, nomeadamente a tí-
lo em si mesmo, ou por responsável tulo de multa, de pena ou de doação
incumpridor da obrigação de seguro - §10601 – e desse Fundo deve ser
de responsabilidade civil automóvel concedido um generoso montante
(ou seja, quando os lesados se en- para um programa governamental de
contram mais desprotegidos pela in- compensação às vítimas de determi-
tos que a vítima deixou de obter e
existência de seguro) têm acesso a nados crimes, que existe em todos os
em despesas com o funeral. A maior
fundo de garantia, também as vítimas Estados - §10602. Estes programas
parte do dinheiro provém dos própri-
de crime lesadas, numa situação de estatais fornecem ajuda financeira às
os autores dos crimes, uma vez que
completa vulnerabilidade, deverão ter vítimas de crime e às suas famílias.
a maioria dos Estados financia estes
acesso a um fundo de assistência. Os danos compensados consistem
programas inteiramente através de
Uma percentagem do valor pago a nas despesas médicas, nos custos
multas e taxas cobradas àqueles. As
título de custas processuais deveria com aconselhamento, nos rendimen-

78
tivados por condução em estado de de um olho ou agorafobia. Para aval-
embriaguez, de violência doméstica iar os danos psíquicos, o Fundo tem
e os familiares das vítimas de homicí- em conta se a vítima está a realizar
dio podem requerer ajuda financeira a algum tratamento em consequência


O ideal seria a estes programas estatais de compen- desses danos. Em crimes sexuais e
sação. Embora, os requisitos que ten- roubos com recurso a armas o Fundo
criação de um me- ham que preencher variem de Estado presume que a vítima sofreu danos
para Estado, diga-se que, por norma, morais graves, ainda que não se en-
canismo social o candidato à compensação tem o de- contre a realizar qualquer tratamento.
ver de participar prontamente o crime Para requerer uma compensação ao
de protecção (…) às autoridades policiais e colaborar Fundo não é necessário ter participa-
com a polícia e o Ministério Público do o crime (embora seja aconselhável
que assegurasse o (muitos Estados não exigem este fazê-lo como forma de reforçar a via-
requisito, principalmente no que con- bilidade da sua pretensão) nem espe-
pagamento das in-
cerne a crianças vítimas de crime), de rar pelo fim da investigação, embora
demnizações devi- apresentar atempadamente o requeri- para ter direito àquela seja exigida a
mento para obter a compensação e existência e comprovação de danos
das pelos não pode ter cometido um crime ou graves resultantes de uma ofensa vio-
outro acto censurável que tenha con- lenta e dolosa. O Fundo paga um val-
danos causados tribuído para o crime (estendendo-se or à vítima quando esta não consiga
este último requisito aos familiares). obter a indemnização junto do infrac-
pelo crime, quando “ Acresce que estes programas só tor ou de uma companhia de seguros.
atribuem compensação quando os A vítima não tem que esperar que se
o autor do crime danos sofridos não são cobertos por conclua que não obterá a indemniza-
outra entidade estatal ou por segura- ção de outro modo para requerer a
não o fizesse. dora. A detenção ou condenação do compensação ao fundo e para rece-
autor do crime não é exigida. ber o montante, bastando que se
demonstre que a probabilidade de tal
acontecer é pequena. Acontece é que
Na Holanda existe também um fundo caso receba este montante e também
estatal – o Fundo para Compensação seja paga pelo infractor ou por uma
de Vítimas de Crimes Violentos. As companhia de seguros, terá que de-
vítimas ou familiares próximos destas volver o valor recebido destas outras
podem candidatar-se ao pagamento, entidades ao Fundo. É a este Fundo
ajudas federais a estes programas,
por este Fundo, de uma compensa- que cabe procurar obter junto do in-
que representam 35% do valor pago
ção em casos de crimes violentos fractor o pagamento do montante que
às vítimas, também advêm dos mon-
cometidos com dolo de que resultem adiantou à vítima, poupando aquela
tantes pagos pelos perpetradores dos
em lesões físicas ou mentais graves de um processo revitimizador.
crimes que revertem para o Fundo. As
ou morte. Este Fundo considera
vítimas de violação, agressões, abuso
como danos graves, nomeadamente,
sexual de crianças, de acidentes mo-
a fractura de uma vertebra, a perda

79
Na Suécia existe um Fundo para as graves para a saúde física ou mental Na maior parte dos países da Europa
Vítimas de Crime para o qual todos directamente resultantes de actos de a indemnização pelo Estado é conce-
os condenados a pena de prisão con- violência, devendo verificar-se três dida igualmente em casos de crimes
tribuem e que permite atribuir a dev- requisitos cumulativos: que a lesão violentos, em obediência à Conven-
ida indemnização a todas as vítimas tenha provocado uma incapacidade ção do Conselho da Europa sobre
de crime, assim como fomentar pro- permanente, uma incapacidade tem- a indemnização a vítimas de crimes
jectos de investigação e apoiar orga- porária e absoluta para o trabalho de violentos, à Directiva 2004/80/CE em
nizações que necessitem. pelo menos 30 dias ou a morte; o fac- leitura conjugada com a Resolução
to tenha provocado uma perturbação do Conselho de 10 de Junho de 2011,
considerável no nível e qualidade de conhecida como Roteiro de Buda-
Esta matéria remete-nos inevitavel- vida da vítima ou, no caso de morte, peste, e ao art.º 30º da Convenção de
mente para o regime de indemniza- do requerente; e não tenha sido ob- Istambul.
ção pelo Estado, pelo que, apesar de tida efectiva reparação do dano em
a Directiva não fazer nenhuma refer- execução de sentença condenatória
ência a este mecanismo, por não se relativa a pedido deduzido nos termos Porém, a definição destes crimes aca-
tratar de um direito da vítima no âm- dos artigos 71.º a 84.º do Código de ba por ser quase sempre mais abran-
bito estrito do processo penal, importa Processo Penal ou se for razoável gente do que em Portugal, não impon-
ainda assim que nos debrucemos prever que o infractor e responsáveis do de modo tão exigente a gravidade
brevemente sobre o mesmo. Refira- civis não venham a reparar o dano, dos danos. Note-se ainda que a Lei
se que o que acima se preconizou sem que seja possível obter de outra nº 104/2009, apesar de não impor que
relativamente à criação de um fundo fonte uma reparação efectiva e su- os crimes contra a liberdade e autode-
indemnizatório iria, idealmente, per- ficiente. As vítimas menores ou de terminação sexual resultem em inca-
mitir alargar substancialmente o es- crimes contra a liberdade e autode- pacidade permanente ou temporária
pectro de vítimas que, não obtendo terminação sexual poderão beneficiar absoluta para o trabalho de pelo
a devida compensação por parte do deste regime mesmo não se verifi- menos 30 dias, refere que o adian-
infractor, seriam contudo ressarcidas cando o primeiro requisito, se circun- tamento da indemnização só deverá
(ainda que não integralmente) no âm- stâncias excepcionais e devidamente ser atribuído sem a verificação destes
bito do mecanismo de indemnização fundamentadas o aconselharem. danos se circunstâncias excepcio-
pelo Estado. Admitindo contudo que a nais e devidamente fundamentadas o
criação de um fundo com as caracter- determinarem. Ora, este carácter de
ísticas descritas poderá não ser uma Esta lei consagra também a possibi- excepcionalidade na atribuição de in-
realidade a curto prazo, não pode de- lidade de atribuição de adiantamento demnização nos crimes sexuais que
ixar-se de tecer algumas considera- da indemnização pelo Estado às víti- não envolvam lesões tão prolongadas
ções acerca do actual regime estatal mas do crime de violência doméstica no tempo também não existe noutros
de indemnização. previsto no art.º 152º do CP que, em regimes europeus.
consequência do crime, fiquem em
situação de grave carência económi-
Actualmente, a Lei nº 104/2009 prevê ca. Veja-se o caso da Alemanha, em que
o adiantamento da indemnização pelo se faz depender a indemnização pelo
Estado em casos de crimes violen- Estado da ocorrência de um crime
tos, ou seja, quando existam danos violento, não se fazendo, no entanto,

80
referência a um nível de gravidade quer crimes são alvo de indemnização No seguimento de tudo o que foi refer-
dos danos mínimo exigido e inclu- pelo Estado (na Áustria exige-se que ido, e sem prejuízo de outros ajusta-
indo no conceito de crime violento o a conduta seja punida com mais de 6 mentos de que a Lei 104/2009 even-
abuso sexual. O mesmo acontece na meses de prisão). Veja-se também o tualmente carece, propõe-se pelo
Eslovénia, na Eslováquia e na Ro- caso da França, em que a compen- menos a alteração do art.º 2º, nº 1,
ménia. Na Holanda, como referimos, sação total é apenas atribuída em ca- que atenue o grau de exigência esta-
existe um fundo estatal que procede sos de crimes violentos geradores de belecido na al. a) e inverta os termos
ao pagamento de uma compensação danos graves, mas os crimes menos da al. b) no sentido de, ao invés de
quando seja previsível que a vítima graves são também alvo de repara- só se conferir indemnização em caso
que sofreu danos graves em conse- ção .
12
de perturbação considerável no nível
quência de um crime violento doloso e qualidade de vida da vítima, só não
não será paga pelo infractor. Veja-se, se atribuir uma compensação se a
porém, supra, que a interpretação Cabendo ao Estado o adiantamento situação financeira da vítima manifes-
que é feita da gravidade dos danos da indemnização à vítima e ficando tamente o não justificar. Esta parece
não é exigente como no nosso país, este com direito de regresso face ao ser uma razoável solução de compro-
permitindo a um conjunto maior de infractor, evita-se que a vítima ne- misso perante a impossibilidade, face
vítimas requerer e receber esta com- cessite de prolongar o contacto com à realidade económica portuguesa,
pensação. No Reino Unido impõe-se o autor do crime para procurar obter de prever o direito a uma indemniza-
a existência de um crime violento, não uma compensação pelos danos sofri- ção pelo Estado de todas as vítimas
sendo prevista uma definição legal dos, revivendo o sofrimento por que de crime que não sejam indemniza-
deste conceito, mas incluindo-se nele passou e que seja alvo de mais incó- das pelo agente.
qualquer ataque físico, ofensa sexual modos e perturbações, para terminar,
ou ameaças de violência que causem muitas vezes, todo este processo sem
danos físicos e psíquicos suficiente- receber qualquer compensação.
mente sérios. Em Espanha, embora DANO CORPORAL
se condicione a indemnização estatal
à ocorrência de danos graves para a 12 A lei processual penal francesa esta- JURISPRUDÊNCIA RECENTE
belece que nos crimes que resultem em morte,
saúde física ou mental resultantes de incapacidade permanente ou incapacidade to-
tal para o trabalho por mais de um mês, nos
crimes violentos, abrange-se neste crimes sexuais, escravidão, tráfico de seres hu- O valor vida - valor supremo - e o
manos e trabalhos forçados, o requerimento de
conceito os crimes sexuais. dano da sua perda têm vindo a ser
indemnização, acompanhado dos documentos
Portugal encontra-se, assim, num pa- comprovativos deve ser apresentado à comis- avaliados indevidamente, sendo as
são de indemnização que depois o transmite
tamar de exigência muito alto quanto ao fundo de garantia para as vítimas de actos indemnizações pelo dano morte infe-
terroristas e outros crimes. Este tem um mês
aos danos a compensar pelo Estado, riores ao sensatamente expectável.
desde a recepção para apresentar uma oferta
mesmo face aos países mais restriti- de indemnização à vítima. Nos mesmos termos Nos últimos anos, as decisões juris-
pode receber uma indemnização quem foi víti-
vos nesta matéria. ma de roubo, fraude, abuso de confiança, extor- prudenciais variam entre a atribuição
são ou destruição, degradação ou deterioração
de 50.000€ a 80.000€, notando-se
de imóvel de que é proprietário e que não pode
receber adequada compensação por perdas e um progressivo aumento, que, no
danos, encontrando-se em situação económica
Exemplos positivos do ponto de vis- delicada e ainda qualquer vítima da destruição entanto, não é suficiente13. Também
pelo fogo de veículo a motor terrestre desde
ta das vítimas de crimes são os da
que demonstre que à altura dos factos cumpria 13 Neste sentido ver acórdãos do
Áustria, Finlândia e Suécia, em que as regras do Código da Estrada quanto ao se- STJ de 12/9/2013, 31/1/2012, 15/04/2009,
guro, ao certificado de registo e de inspecção 8/6/2006, do TRC 5/3/2013 e do TRE
quaisquer danos resultantes de quais- técnica. 10/4/2012, nomeadamente.

81
nos últimos anos tem-se buscado a na vítima e a sua relação de causa Assim, para além da uniformização
diminuição da disparidade entre os directa com o crime sofrido. dos conceitos utilizados num e noutro
valores, afirmando-se que o valor da âmbito, importa acrescentar ao mé-
vida deve ser tendencialmente fixo . 14
todo de descrição pormenorizada do
Tendo-se também procedido a uma A indemnização a obter em processo dano outras metodologias já utiliza-
análise dos acórdãos mais recentes penal, ou em separado, segue as nor- das em direito civil que permitem ao
dos tribunais de segunda instância mas da lei civil. julgador compreender melhor a exten-
centrados nos crimes de violência do- são dos danos, como a utilização da
méstica, nos crimes contra a honra, escala referida.
como a injúria e a difamação, nos Entendemos que a avaliação pericial
crimes de ofensa à integridade física, médico-legal dever ser efectuada em
nos crimes sexuais, nos crimes contra moldes idênticos no âmbito do direito Esta uniformização de conceitos e mé-
a liberdade e nos crimes patrimoniais, civil e do direito penal, recorrendo aos todos parece mais do que necessária
podemos concluir que estas variam mesmos conceitos e metodologias. no que respeita até ao princípio da
não só no âmbito do mesmo tipo legal Veja-se um caso exemplificativo. O igualdade. Se a indemnização no âm-
de crime, como também no contexto conceito de desfiguração utilizado na bito do direito penal segue o mesmo
dos vários crimes contra as pessoas, avaliação no âmbito penal pode coin- regime da indemnização no âmbito
de forma desproporcional à gravidade cidir com o conceito de dano estético, civil faz sentido que os lesados numa
dos actos criminosos praticados, e utilizado no direito civil. Por este mo- e noutra situação (sendo que no pri-
são claramente baixas face ao sofri- tivo, os danos correspondentes pode- meiro caso, à condição de lesado
mento que devem compensar. riam, para além ser descritos com acresce a de vítima de crime) usu-
pormenor no relatório médico-legal, fruam de uma avaliação médico-legal
ser quantificados com base na escala efectuada de forma similar, contemp-
de sete graus de gravidade crescen- lando todos os parâmetros dos danos
te usada no direito civil. A avaliação sofridos e avaliando-os de acordo
AVALIAÇÃO nestes termos pode auxiliar o julga- com o mesmo método.
dor a determinar com maior facilidade
A avaliação do dano corporal em a gravidade do dano e, consequent-
Direito Penal visa auxiliar as auto- emente, do crime. Existe no âmbito do direito civil a “pro-
ridades judiciais e policiais na desco- posta de indemnização razoável” não
berta da verdade material, no âmbito vinculativa para os tribunais, mas que
da produção de prova pericial técnico- Algo semelhante se dirá em relação serve como padrão orientador. Esta
científica, para efeito da comprovação ao conceito de doença particular- “proposta” consiste num conjunto de
dos pressupostos da punição criminal. mente dolorosa, utilizado no âmbito tabelas legalmente estabelecidas na
Porém, a avaliação pericial médica penal, que corresponderá ao quan- portaria 679/2009 de 25 de Junho e
em processo penal permite, também, tum doloris empregue no âmbito civil permite a um lesado avaliado em di-
fundamentar o pedido de indemniza- e que, como tal, poderá ser avaliado reito civil saber qual o valor mínimo
ção civil, comprovando (ou não) a ex- com recurso à mesma escala de sete que as seguradoras têm que propor a
istência de danos físicos ou psíquicos graus. título de indemnização.

14 Neste sentido ver acórdão do STJ


de 12/9/2013.

82
Sugere-se o estabelecimento de ta-
belas semelhantes às utilizadas na
“proposta de indemnização razoável”,
com valores adequados de indemni-
zação em função dos danos avaliados
em graus, aplicáveis à indemnização
devida no âmbito penal, que permitam
à vítima ter alguma noção do valor in-
demnizatório que pode vir a receber,
acabando com a discrepância de va-
lores (quer no âmbito do mesmo tipo
legal, quer na comparação entre dife-
rentes crimes) decorrente da utiliza-
ção do critério da equidade e com a
sua desadequação aos danos que se
pretende compensar.

“ Sugere-se o estabelecimento de tabelas


semelhantes às utilizadas na “proposta de
indemnização razoável”, com valores
adequados de indemnização em função dos
danos avaliados em graus, aplicáveis à

indemnização devida no âmbito penal, (…)

83
VÍTIMAS RESIDENTES EM
OUTRO ESTADO-MEMBRO:
INTERPRETAÇÃO, TRADUÇÃO
E OUTROS DIREITOS

A
Directiva nasce da consciên-
cia da necessidade de criar
um mínimo de normas que
permita aos cidadãos e residentes eu-
ropeus uma maior segurança ao mov-
er-se no espaço de livre circulação
que hoje caracteriza a União Euro-
peia, bem como um leque robusto de
direitos que minimize disparidades de
tratamento entre Estados-Membros.
A Decisão-Quadro de 2001 que a an-
tecede tem precisamente como uma
das suas principais origens a prob-
lemática transnacional, tendo desde
logo sido as vítimas transnacionais
o motivo pelo qual a União Europeia
aceitou ter competência sobre ma-
téria penal e processual penal. Por
forma a garantir igualdade de direi-
tos entre vítimas de crime nacionais
e transnacionais criaram-se normas
mínimas para que qualquer vítima de
O ARTIGO 17º
crime encontre no espaço europeu
DA DIRECTIVA
um mínimo de direitos, apoio e pro-
tecção, independentemente das es-
Como tal, e especificamente para
pecificidades do Estado-Membro em
quem seja vítima de crime num Esta-
que se encontra.
do-Membro diverso daquele em que
habitualmente reside, a nova Direc-
tiva prevê alguns mecanismos para
minimizar o impacto do crime e as
dificuldades acrescidas com que uma
vítima transnacional se depara por se

84
denunciar o crime no Estado-Membro em que participem; prevê-se ainda a
Idealmente (…)


onde habitualmente reside e a obriga- possibilidade de interpretação à dis-
toriedade das autoridades locais de tância – via videoconferência, telefone
deveria existir imediato transmitirem essa denúncia ou internet – a não ser que a presença

um serviço às autoridades competentes do Esta- física do intérprete seja efectivamente


do-Membro onde o crime ocorreu. To- necessária, bem como o direito a
centralizado e dos estes direitos são elencados nos tradução gratuita das informações in-
números do art.º 17º da supra men- dispensáveis ao exercício dos seus
especializado de cionada Directiva. direitos no processo penal – pelo
menos, de qualquer decisão de arqui-
videochamada vamento; admite-se a possibilidade
de as vítimas requererem que deter-
que permitisse o minado documento seja considerado
O ARTIGO 7º DA DIRECTIVA essencial para efeitos de tradução,
acesso imediato permitindo-se contudo que as partes
Não estando unicamente previsto menos relevantes desses documen-
a intérpretes por para estas vítimas (antes para qual-
15
tos não sejam traduzidas; aceita-se
quer vítima que não fale a língua do ainda que a tradução escrita de docu-
parte das processo, ou que por qualquer outro mentos essenciais possa ser sub-

autoridades judi- motivo necessite de interpretação stituída por tradução oral ou resumo

ciárias e policiais
“ para a compreensão daquele, nome-
adamente por razões de deficiência),
mas aplicando-se-lhes muito par-
oral, desde que tal não prejudique a
equidade do processo; estabelece-se
por fim o dever das autoridades com-
ticularmente, está também o direito a petentes aferirem da necessidade de
(…)
tradução e interpretação, previsto no interpretação ou tradução, podendo a
art.º 7º, e que estabelece que os Es- decisão tomada por aquelas a este re-
tados-Membros devem garantir que speito ser contestadas.
as vítimas que não falem nem com-
preendam a língua em que decorre o
processo beneficiem de interpretação
encontrar num espaço que não lhe é
gratuita, de acordo com o seu papel
familiar e por, muitas vezes, não falar
no respectivo sistema de justiça pe-
a língua local.
nal, pelo menos sempre que forem
ouvidas pelas autoridades judiciárias
ou policiais e em todas as audiências
Estabelece-se a possibilidade da
vítima prestar depoimento imediata- 15 O direito à interpretação e tradução
não é um exclusivo das vítimas residentes em
mente após apresentação de denún- outro Estado-Membro. Contudo, e face à estrei-
ta ligação com esta temática e à pertinência de
cia, a possibilidade de recurso a vid- analisar estas matérias como um todo, aborda-
eoconferência ou teleconferência para se aqui aquele direito, tendo contudo aplicação
relativamente a outros tipos de vítimas, tais
audição posterior, a possibilidade de como estrangeiros residentes em Portugal, por
exemplo, o que aqui se afirmar.

85
Não estando esta possibilidade ainda crime à protecção (vide p.99). Assim,
PRESTAÇÃO IMEDIATA
totalmente pacificada em sede juris- o facto de não se recorrer a registo
DE DEPOIMENTO E
prudencial e doutrinal, pode contudo audiovisual tem contribuído para a
POSSIBILIDADE DE
afirmar-se que a posição e opinião paradoxal situação de as declarações
RECURSO A
maioritárias vão no sentido de admitir para memória futura serem apenas
VIDEOCONFERÊNCIA OU
poder não haver sequer suspeitos e mais uma inquirição e não um meio
TELECONFERÊNCIA ser ainda assim aceite a prestação de de produção antecipada de prova e
declarações para memória futura des- protecção da vítima, com o efeito no-
Relativamente à possibilidade de
de que seja nomeado defensor (para civo que tal pode ter na sua recupera-
depoimento imediatamente após a
futuro arguido). No Ministério Público ção do impacto do crime que sofreu.
denúncia do crime, este mecanismo
existem aliás já orientações para as- Sendo o recurso ao registo audiovisu-
já está previsto no nosso ordenamen-
sim considerar no caso de vítimas al já previsto no ordenamento jurídico
to jurídico, incluindo vítimas residen-
crianças. Justificar-se-ia porventura português em sede de interrogatório
tes no estrangeiro, no art.º 271º, nº 1
uma alteração legislativa que clari- do arguido, no art.º 141º, nº 7 do CPP,
do Código de Processo Penal (sob a
ficasse este aspecto. esta possibilidade afigura-se viável
epígrafe Declarações para memória
também em sede de declarações para
futura). Este instituto permite que
memória futura. Assim poderia aditar-
vítimas (testemunhas, assistentes ou
Do ponto de vista das vítimas residen- se um novo n.º ao art.º 271º, com a
partes civis) que se desloquem para
tes em outro Estado-Membro, este seguinte redacção: “A declaração
o estrangeiro por tempo prolongado
instituto é essencial para garantir a para memória futura é efectuada, em
ou indeterminado sejam ouvidas de
sua efectiva intervenção no processo, regra, através de registo audiovisual,
imediato. O fundamento subjacente a
a qual pode inviabilizar-se pela sua só podendo ser utilizados outros mei-
estes casos de previsível impossibi-
ausência do país onde o crime foi co- os, designadamente estenográficos
lidade de comparência em audiência
metido. Ademais, para muitas vítimas, ou estenotípicos, ou qualquer outro
de julgamento não é tanto o da pro-
regressar significa reviver os acon- meio técnico idóneo, quando aqueles
tecção da vítima e aferição de credi-
tecimentos e pode por isso ter um im- não estiverem disponíveis”.
bilidade de testemunho como nos
pacto negativo na sua recuperação.
casos de crimes específicos a que
Por este motivo, a actual facilidade de
o instituto se aplica (crimes contra a
deslocação e rapidez nos transportes Quanto à possibilidade de recurso a
autodeterminação sexual e tráfico de
entre Estados-Membros da União Eu- videoconferência e teleconferência
seres humanos), mas antes essencial-
ropeia, argumento aliás já utilizado para audição de vítimas residentes
mente o da necessidade de produção
em alguma jurisprudência para negar no estrangeiro, o art.º 502º, nº 4 do
antecipada de prova que possa de-
a utilização do instituto das declara- Código de Processo Civil, aplicado
pois ser aí utilizada. Crucial para as
ções para memória futura, não deve por remissão do art.º 4.º do Código
vítimas residentes em outro Estado-
ser suficiente para se afastar a pos- de Processo Penal, estabelece a ob-
Membro é que se possa recorrer a
sibilidade de recurso a este mecanis- rigatoriedade de recurso a telecon-
este instituto de remédio urgente in-
mo, ainda que se trate de um instituto ferência sempre que existam meios
clusivamente antes da constituição de
de aplicação excepcional. técnicos que o permitam no local em
arguido, o que é de suma importância
Este mecanismo enfrenta contudo os país estrangeiro onde reside a vítima
dado que grande parte destas vítimas
problemas que serão mencionados testemunha. O recurso a mecanismos
abandonará o país mesmo antes.
a propósito do direito das vítimas de de telecomunicação em tempo real é

86
ainda previsto na Lei nº. 144/99, de 31 É importante que as autoridades factos denunciados 16
. Propõe-se por
de Agosto nos termos do art.º 145º, competentes estejam não só sensibi- isso que estes elementos mínimos a
nº. 3 (aplicado por via do regime do lizadas para a existência desta pos- traduzir sejam mencionados no Guia
art.º 500º, al. b) do Código de Proces- sibilidade de denúncia de crime que de auxílio judiciário mútuo em maté-
so Civil, por remissão do art.º 4.º do ocorreu em outro Estado-Membro, ria penal, produzido pelo Gabinete de
Código de Processo Penal). como para a celeridade necessária à Documentação e Direito Comparado
Actualmente os tribunais portugueses sua transmissão (conforme a letra do da Procuradoria-Geral da República,
dispõem já de uma rede alargada de art.º 154º-A, nº2: “no mais curto pra- como forma de orientação do trabalho
meios técnicos que permitem recor- zo”). Isto implica a urgência na trami- das próprias comarcas que detêm a
rer a esta possibilidade. A utilização tação de todo o processo, quer entre competência para transmitir directa-
destes meios, que deve continuar a as autoridades competentes naciona- mente denúncias que chegam até si, e
ser incentivada, colmata as dificul- lmente, quer na transmissão para as onde frequentemente se procederá à
dades de deslocação da vítima ao autoridades competentes no Estado- tradução dos documentos relevantes.
país para audiência de julgamento, in- Membro de destino. É importante que
dependentemente do tipo de interven- uma vítima de crime tenha a seguran-
ção que tenha no processo, evitando ça de saber que a sua denúncia será
custos acrescidos para as vítimas e, transmitida rapidamente e que o pro-
principalmente, evitando os malefícios cesso seguirá o seu curso num país TRADUÇÃO E
que esta deslocação pode acarretar em que muitas vezes não saberia INTERPRETAÇÃO EM
em termos de impacto para a vítima. onde se dirigir para apresentar denún- PROCESSO PENAL
cia, por estar pouco familiarizada com
as instituições e autoridades locais, e
No que diz respeito ao direito a inter-
do qual frequentemente pretenderá
pretação e tradução para língua que
ACEITAÇÃO DE DENÚNCIA sair o mais rápido possível, entre out-
a vítima domine, pensamos espe-
DE CRIME COMETIDO ros motivos por se encontrar nele sem
cialmente nas vítimas estrangeiras,
NOUTRO ESTADO-MEMBRO uma estrutura social de apoio.
imigrantes ou turistas residentes em
E TRANSMISSÃO DE
outros Estados-Membros ou países
DENÚNCIA ÀS AUTORIDADES
terceiros.
COMPETENTES Obviamente, a tradução é aspecto es-
sencial da transmissão da denúncia
A Directiva prevê a possibilidade de a de um crime para outro Estado-Mem-
É essencial que estas vítimas rece-
vítima denunciar o crime no seu Es- bro. Contudo, para que não se obste à
bam informação sobre os seus direi-
tado-Membro de residência se não o rapidez essencial a estes procedimen-
tos e sobre o processo em língua que
pode fazer no Estado onde o crime foi tos, é premente identificar um mínimo
efectivamente dominem, de forma a
cometido ou se, em casos de crimes de tradução que permita garantir tanto
compreenderem a informação que
graves, não o quis fazer. A recepção e a celeridade como a compreensão
transmissão de denúncias e queixas é do conteúdo. Assim, parece-nos que 16 Alguns Estados-Membros mostram-
se renitentes a aceitar denúncias somente
regulada pela Lei nº. 144/99, de 31 de este mínimo deverá consistir no con- com esta informação, por quererem que to-
das as peças processuais existentes ao mo-
Agosto, mais concretamente no seu teúdo do despacho final do Ministério
mento sejam traduzidas e transmitidas. Afigu-
art.º 154º-A. Público, declarando os motivos da ra-se contudo contraproducente, para efeitos
de celeridade, exigir a tradução do todo como
sua incompetência e identificando os regra.

87
lhes é prestada e a poderem elas É essencial que exista previamente
próprias fornecer informação rel- informação escrita traduzida que seja
evante para o seu caso. Só assim o disponibilizada às vítimas de crime
seu direito a receber informação será que não dominem a língua portugue-
efectivamente assegurado. O direito à sa. Apesar de existir já alguma infor-
informação é basilar para que a vítima mação nas esquadras policiais sobre
possa exercer todos os outros direitos direitos das vítimas em algumas lín-
que lhe são atribuídos, e como tal o guas europeias principais, não só esta
direito à informação só é garantido informação não é suficiente como não
mediante a completa compreensão está adequadamente difundida, e a
do que se transmite. que existe é essencialmente destina-
da a vítimas de violência doméstica.
Será por isso importante criar mate-
Conforme se referiu anteriormente a riais transversais a todas as vítimas,
propósito do direito a receber informa- bem como traduzi-los. A selecção
ção sobre direitos e sobre serviços de das línguas a disponibilizar deve ser
apoio (vide p.27), é necessário que feita com base numa avaliação global
exista uma estratégia e procedimen- das necessidades nacionais e a sua
tos para transmitir esta informação de distribuição feita tendo em conta as
forma proactiva, envolvendo todas as necessidades regionais. Esta análise
autoridades competentes, judiciárias servirá para determinar o que são lín-
e policiais. Estes procedimentos de- guas principais mas à luz das neces-
vem incluir indicações sobre como sidades reais. Assim, verificando-se
melhor informar as vítimas que não por exemplo que o idioma romeno é
dominem a língua portuguesa, sensi- particularmente relevante na região
bilizando também para a necessidade de Lisboa, mas que o árabe é uma ne-
mas línguas identificadas poderia ser
real de informação em idioma que a cessidade na zona sul do país, estes
uma solução menos dispendiosa e
vítima domine, e que mecanismos matizes deverão ser tidos em conta
mais eficiente na promoção da infor-
activar para garantir a compreensão para que haja uma eficiente distri-
mação às vítimas de crime sobre os
da informação. É inclusivamente im- buição de recursos. Relativamente ao
seus direitos.
portante que as autoridades estejam suporte informativo base que todas as
sensibilizadas para o facto de um con- vítimas deverão receber, a APAV de-
hecimento superficial da língua portu- senvolveu uma brochura no âmbito do
Também o documento a criar que es-
guesa não poder ser suficiente para projecto Infovítimas que visa precisa-
tabelecer o estatuto de vítima (vide
considerar a vítima apta à compreen- mente contribuir para esta finalidade
p.27) deverá ser traduzido para as lín-
são da informação extremamente e que tem sido bem acolhida quer por
guas principais identificadas conforme
complexa que envolve o processo vítimas de crimes quer pelas próprias
exposto acima. O mesmo se diga rel-
penal. autoridades que a têm utilizado
ativamente à tradução de alguns for-
(Ministério Público, PSP e GNR, des-
mulários de actos processuais, à se-
ignadamente). Investir-se na tradução
melhança aliás do que existe já para
de um suporte deste cariz para algu-

88
os arguidos. Assim, consideramos
que a criação (em caso de inexistên-
cia) e tradução de alguns formulários
seriam essenciais. Referimo-nos, por
exemplo, ao documento para apre-
sentação de queixa/denúncia, ao
requerimento para prestação de de-
clarações para memória futura, ao re-


Parece-nos assim fulcral, para que não querimento de informação de ausên-
cia para o estrangeiro, ao pedido de
restem quaisquer dúvidas, a inclusão indemnização cível, ao requerimento

de um elenco de documentos essenciais


“ para apoio judiciário e ao requerimen-
to para reembolso de despesas.

a traduzir (…)
A existência desta informação já
traduzida minimizará algumas das
dificuldades sentidas na informação
às vítimas estrangeiras, mas não será
por si só suficiente. É importante que
todas as vítimas de crime, indepen-
dentemente da sua nacionalidade e
domínio linguístico, sejam efectiva-
mente esclarecidas de qualquer dúvi-
da que lhes surja quanto à informação
prestada. Aqui reside porventura a
maior dificuldade a colmatar para não
esvaziar de sentido o direito à infor-
mação que estas vítimas têm, e bem
assim estar conforme com a Directiva.
Em Portugal, encontramos actual-
mente as Esquadras de Turismo da
PSP, especializadas no que diz respei-
to ao atendimento policial de vítimas
estrangeiras e onde os agentes têm,
como requisito obrigatório, alguns
conhecimentos linguísticos. Contudo,
pela sua quantidade reduzida no país
e pelo número de línguas disponíveis
ser limitado, estas não conseguem,
nem podem conseguir, responder a

89
todas as necessidades existentes. É ca é o Serviço de Tradução Telefónica Já no âmbito da garantia de participa-
desde logo importante também que (STT) do Alto Comissariado para as ção da vítima no próprio processo, é
qualquer agente em qualquer posto Migrações. Nesta linha encontramos essencial que esta possa não só ser
policial esteja sensibilizado para a uma rede de intérpretes para 54 lín- ouvida em língua que domine, como
problemática das vítimas estrangei- guas, sendo contudo este um serviço que a informação que receba seja
ras, até para que possa recorrer aos não especializado e com tradutores sempre também transmitida nessa
mecanismos disponíveis. que podem não ser ajuramentados. mesma língua e que seja registado
Não sendo um serviço deste tipo um no seu processo que as suas decla-
substituto para a interpretação em rações foram prestadas em língua di-
Talvez uma das obrigações impostas qualquer diligência no âmbito do pro- versa da língua do processo e posteri-
pela Directiva mais complexas de im- cesso, ele é, outrossim, uma solução ormente traduzidas.
plementar na prática seja a disponibi- para estes casos de primeiro contacto
lização de serviços de interpretação com as autoridades. Idealmente, e
num primeiro momento de contacto fazendo uso das tecnologias de infor- O direito a tradução e interpretação
com as autoridades competentes, mação actualmente existentes, deve- para língua estrangeira está previsto
nomeadamente em esquadras poli- ria existir um serviço centralizado e no artigo 92º do Código de Processo
ciais, antes mesmo da existência de especializado de videochamada que Penal. Estão também previstas ga-
qualquer processo, no momento da permitisse o acesso imediato a inté- rantias de comunicação para surdos,
denúncia. A necessidade da vítima se rpretes por parte das autoridades ju- mudos e deficientes auditivos ao abri-
fazer entender e ser compreendida diciárias e policiais (e eventualmente, go do art.º 93º.
pelas autoridades que receberam a em nome de uma racionalização de
denúncia/queixa, bem como receber meios, de outras autoridades públicas Conforme o disposto no nº 2 do art.º
esclarecimentos nesse mesmo mo- cuja actividade implique atendimento 92º, a vítima, enquanto interveniente
mento, encontra sérios entraves práti- ao público) com a função de respond- processual (como assistente, como
cos. A Directiva prevê que, neste caso er a estas necessidades imediatas. parte civil ou como testemunha), tem
específico, e por questões operacio- Contudo, e para já, poder-se-ia, numa direito a interpretação por forma a
nais, se possa recorrer a intérpretes óptica de aproveitamento dos recur- permitir a sua participação no proces-
não oficiais ou agentes policiais com sos existentes, avaliar a possibilidade so, sem que tal implique para si qual-
competências linguísticas adequa- de estender esta linha STT assegu- quer encargo. Esta tradução tem de
das ao caso. É importante contudo rando também que a mesma não fica ser promovida por intérprete idóneo e,
garantir a idoneidade dos tradutores sobrecarregada ou não põe em causa considerando o disposto no n.º 1 do
mesmo que informais, bem como o o seu fim, que é o do apoio a imigran- mesmo artigo, poder-se-á considerar
seu real conhecimento tanto da lín- tes em situações quotidianas. O siste- exigida a tradução de todos os actos
gua portuguesa como da língua que ma criado ou optimizado deve ser processuais, quer orais quer escritos,
a vítima domina. Nas recomendações devidamente disseminado perante os que sejam essenciais à participação
que a Comissão Europeia faz aos operadores e como tal incluído tam- da vítima no processo 17. Procedendo-
Estados-Membros na implementação bém como recurso disponível referido se às necessárias alterações legisla-
desta Directiva propõe-se ainda o re- numa estratégia de comunicação e tivas no que se refere à informação
17 Ac. TRPorto, 08/05/2005, processo
curso a meios técnicos de comunica- procedimentos a desenvolver.
nº0513062 e Ac. TRÉvora, 22/04/2010, pro-
ção à distância e a linhas telefónicas cesso nº 11/05.0FCPTM.E1. No mesmo sen-
tido, a Recomendação nº 2/B/2013 do Prove-
gratuitas para a vítima. Uma boa práti- dor de Justiça

90
obrigatoriamente prestada à vítima, tanto o arguido como a vítima apre- A tradução parcial parece-nos por
independentemente do seu estatuto sentarem um pedido fundamentado princípio de afastar. Contudo, a adop-
processual (vide p.30), será também com vista a obter o tratamento de tar-se esse caminho, só deverá ser
obrigatória a sua tradução para língua documento não previsto nessa enu- admitida na medida em que não prive
que a vítima domine, à luz do disposto meração como documento essencial, a vítima da informação que lhe é es-
no art.º 92º, nº 1 e nº2. bem como a possibilidade de conte- sencial. A necessidade de tradução
star de imediato a decisão que profere parcial, por razões de celeridade
Contudo, esta interpretação do nº 1 a recusa de tradução de documentos. processual (como tal benéfica tam-
do art.º 92º não é inequívoca no que Para o efeito, afigura-se-nos adequa- bém para a vítima) poderá colocar-se
se refere à tradução escrita, principal- da a criação de um novo artigo após verdadeiramente em casos excep-
mente não esclarecendo o que con- o art.º 94º do CPP referente à forma cionais, de especial extensão dos
substancia documentos de tradução escrita dos actos. documentos, mas dificilmente quanto
obrigatória e de entre estes os que a documento tão essenciais como a
podem ser sujeitos a tradução oral sentença judicial. Ainda assim, a ser
e os que devem ser sempre apre- É certo que a tradução de alguns essa a perspectiva seguida, julgamos
sentados também por escrito. Existe destes actos processuais (nomeada- que a tradução deve garantir pelo me-
efectivamente algum consenso nesta mente a sentença) pode ser feita tan- nos que a vítima tome conhecimento
interpretação de que a tradução está to oralmente como por escrito, desde não só da decisão final como do elen-
englobada neste conceito lato de in- que garantido o direito a tomar con- co de factos provados e não prova-
terpretação previsto no CPP. No en- hecimento pessoal e compreender dos. Já relativamente aos despachos
tanto, jurisprudência relevante nesta os actos processuais em língua que de arquivamento ou de acusação do
matéria refere inclusivamente a aus- a vítima domine 19
. No que se refere Ministério Público, afigura-se difícil
ência no ordenamento jurídico portu- às decisões judiciais, a Directiva ex- determinar um mínimo nos termos do
guês de disposição específica quanto ige que uma súmula dos motivos de qual uma tradução parcial não afecte
à tradução de todos os despachos qualquer decisão lhe seja também co- o direito da vítima ao conhecimento do
lavrados no processo, mas conside- municada, o que como tal implica que cariz da decisão, a não ser, porven-
rando que por força da Convenção também esta informação seja traduz- tura, em casos que envolvam várias
Europeia dos Direitos do Homem ida. Todavia, parece-nos que esta op- vítimas e/ou arguidos e em que nem
essa norma vigoraria já na nossa or- ção é insuficiente. Ainda que os sujei- todo o conteúdo interesse a todo/as.
dem jurídica. tos processuais sejam notificados da O pedido de tradução integral deverá
sentença oralmente, esta é posterior- poder ser feito ao abrigo do artigo a
Parece-nos assim fulcral, para que mente disponibilizada em depósito na criar referente à tradução de actos
não restem quaisquer dúvidas, a in- secretaria e portanto não faz qualquer processuais supra mencionado.
clusão de um elenco de documen- sentido que não possam os sujeitos
tos essenciais a traduzir 18
, devendo processuais consultá-la só porque
ainda ser prevista a possibilidade de não dominam a língua do processo, Outra lacuna a nível prático que con-
ficando em situação de desigualdade stitui um entrave relevante à con-
18 No mesmo sentido, no entanto so-
mente quanto ao arguido, Patrícia Jerónimo face aos sujeitos processuais que a cretização do direito à tradução e
in A Diretiva 2010/64/UE e a garantia de
dominam. interpretação em contexto judicial
uma assistência linguística de qualidade em
processo penal – Implicações para a ordem é a inexistência neste momento em
jurídica portuguesa, Universidade do Minho, 19 Ac. TRPorto, 06/11/2004 e Ac. TC nº
2013. 547/98, de 23/09. Portugal de lista actualizada, oficial

91
e de registo obrigatório de tradutores das a sua disponibilização junto das que permitam essa avaliação, já que,
ajuramentados, que permita uma rá- autoridades a que pode ser útil e a no caso da interpretação, somente a
pida identificação de tradutor ou in- sensibilização das mesmas para a uti- audiência de julgamento e o primeiro
térprete fidedigno em cada ponto do lidade deste documento e importân- interrogatório judicial de arguido pre-
país (registo de tradutores e intérpre- cia de considerar as orientações nele vêem a gravação por meios audio ou
tes judiciais). A criação de uma tal lista contidas. audiovisuais.
disponibilizada em todas as comarcas
judiciais é essencial para a garantia
de acesso a tradutores e intérpretes Essencial seria ainda promover for- Importa ainda salientar que a inter-
em tempo útil. Este registo é ademais mação especializada para tradutores pretação deve também ser feita, em
já uma obrigação decorrente da Di- e intérpretes ajuramentados, no sen- todos os momentos, no interesse dos
rectiva 2010/64/UE relativa ao direito tido também de os sensibilizar para os sujeitos processuais e não apenas
à tradução e interpretação em proces- direitos e necessidades das vítimas no do tribunal. Assim, a interpretação
so penal (para suspeitos e acusados). de crime. em sede de audiência de julgamento
Esta lista deverá integrar obrigatoria- deverá ser de toda a audiência e não
mente apenas tradutores e intérpre- apenas de interpelações directas e re-
tes independentes e com qualifica- Um problema intimamente relaciona- spectivas respostas.
ções mínimas adequadas também a do é o da garantia da qualidade das
contextos jurídicos. A adopção de um traduções. Embora a Directiva não vá
sistema de nomeação automático, à tão longe ao ponto de exigir a cria- Outro ponto essencial para a garan-
semelhança do que existe já para a ção de uma disposição que permita à tia de qualidade na interpretação e
nomeação de advogado, afigura-se vítima contestar a qualidade de uma tradução no decurso do processo é a
adequada com vista a ultrapassar os tradução, julgamos que assegurar a revisão da tabela IV do Regulamento
problemas sentidos na prática. qualidade da tradução é um dever do das Custas Processuais, no que res-
Estado e que, portanto, esta possibili- peita a pagamento de traduções e de
dade deveria ser viabilizada de forma intérpretes, para montantes que per-
A EULITA (European Legal Interpret- mais clara. Ainda que a jurisprudência mitam atrair tradutores de qualidade,
ers and Translators Association), con- vá já nesse sentido, a clarificação ao ajuramentados, e especializados.
juntamente com a ECBA (European nível dos dispositivos legais não se-
Criminal Bar Association), criou um ria despicienda, pelo que se sugere
primeiro conjunto de linhas orientado- a alteração da al. c) do nº 2 do art.º Um ponto prévio a tudo o que foi refer-
ras para promover uma comunicação 120º do CPP no sentido de incluir, ido é, contudo, a premência de prever
mais eficiente entre autoridades judi- como causa de nulidade, não só a um mecanismo de aferição das neces-
ciárias e intérpretes e tradutores. Par- falta de intérprete mas também a má sidades de interpretação e tradução
ticularmente importante é a menção interpretação e tradução de documen- das vítimas de crime. Este deve des-
que se faz no documento à capacid- tos. 20
Mais importante ainda será as- de logo ser incluído no instrumento de
ade que o tradutor e o intérprete de- segurar a existência de mecanismos avaliação a criar, em observância do
vem ter de compreensão da cultura e 20 No mesmo sentido, Patrícia Jeróni- disposto no art.º 22º da Directiva (vide
mo in A Diretiva 2010/64/UE e a garantia de
significado cultural de expressões da p.101). Assim, não só se minimizaria
uma assistência linguística de qualidade em
vítima. Este documento pode ser de processo penal – Implicações para a ordem a possibilidade de avaliações menos
jurídica portuguesa, Universidade do Minho,
grande relevância, sendo recomenda- 2013. adequadas como facilitaria o próprio

92
trabalho dos operadores. É ainda es-
sencial que a vítima possa requerer a
reapreciação desta decisão.

De modo a garantir a correcta utiliza-


ção de todos estes mecanismos em
prol das vítimas de crime, essencial
será promover a formação dos profis-
sionais que mais directamente com
estas contactam. Significa isto que
A criação de uma tal lista (de


devem ser desenvolvidos conteúdos
formativos sobre as necessidades
específicas de vítimas estrangeiras, tradutores ajuramentados
bem como sobre os institutos dis-
poníveis para colmatar os problemas actualizada, oficial e de registo
mais específicos das vítimas de crime
residentes em outros Estados-Mem- obrigatório) disponibilizada em
bros e o seu funcionamento.

todas as comarcas judiciais é


essencial para a garantia de acesso
a tradutores e intérpretes em tempo

útil.

93
DIREITO À PROTECÇÃO

A
matéria da protecção é tratada na Directiva de for-
ma bastante detalhada e é porventura aquela
cuja transposição se revelará mais complexa.

O conceito de protecção adoptado pela Directiva é vasto, abrangendo a sal-


vaguarda da vítima contra a vitimação repetida ou secundária, a retaliação e
a intimidação, assim como o seu direito à privacidade e ao conforto no âmbito
das diligências em que tenha que participar. Embora focando-se essencial-
mente na protecção contra os danos emocionais, a Directiva esclarece que,
sempre que necessárias, deverão existir medidas que permitam igualmente a
protecção física da vítima e sua famílias.

O direito à protecção, consagrado na Directiva em termos gerais no art.º 18º,


abrange o direito à inexistência de contactos entre a vítima e o autor do crime
(art.º 19º), o direito a protecção durante as investigações penais (art.º 20º),
o direito à protecção da vida privada (art.º 21º) e os direitos das vítimas com
necessidades específicas de protecção durante o processo penal (art.º 23º).
A Directiva prevê dois níveis de protecção, consagrando direitos de protecção
para todas as vítimas nos artigos 18º a 21º e a aplicação das medidas de pro-
tecção especiais previstas no art.º 23º a quem sejam detectadas necessidades
específicas em resultado da avaliação prevista no art.º 22º.

Do ponto de vista legal, alguns dos direitos e das várias medidas concretiza-
doras dos mesmos mencionadas na Directiva carecem de transposição para
o ordenamento jurídico português, ou porque pura e simplesmente não es-
tão previstas, ou porque estão previstas somente na Lei de Protecção de Te-
stemunhas (LPT), tendo por isso natureza excepcional, e na Lei nº 112/2009
(LVD), para as vítimas de violência doméstica e deverão passar a ter aplicação
a todas as vítimas. Todos estes direitos devem ser inseridos no Estatuto da
Vítima e previstos noutras disposições legais específicas a mencionar ao longo
do texto.

94
95

DIREITO À INEXISTÊNCIA
DE CONTACTOS ENTRE A Sugere-se, assim, a introdução de um
VÍTIMA E O AUTOR
DO CRIME normativo (…) que estabeleça que com-
pete às autoridades judiciárias e policiais
Comecemos por analisar o art.º 19º
da Directiva que requer, então, que o evitar o encontro entre o arguido e a víti- “
contacto entre a vítima e a sua família ma nos atos processuais que marcarem,
e o infractor seja evitado em todos os
espaços em que se desenrole o pro- presidirem ou dirigirem.
cesso penal (incluindo esquadras e
postos policiais, serviços do Ministério
Público e tribunais) para impedir a viti-
mação secundária e a intimidação da
vítima e até uma eventual retaliação
além de se direccionar mais para a dias e horários. Poderá estabelecer-
por parte do infractor.
preservação da prova do que para a se isto mesmo no art.º 132º, que tem
protecção da vítima no respeitante a a epígrafe “Direitos e deveres da te-
declarantes com mais de 16 anos, re- stemunha”, num nº 6 a criar. Tal será
Este direito deve ser consubstanciado
speita apenas ao julgamento; o art.º aplicável ao assistente por via da re-
através de um duplo esforço: por um
29º al. c) da LPT tem natureza excep- missão do art.º 145º, nº3 do CPP para
lado, sob o ponto de vista da sua pre-
cional, e aplica-se apenas às teste- o regime de prestação da prova tes-
visão legal, regulamentar e procedi-
munhas especialmente vulneráveis; e temunhal.
mental e, por outro, ao nível logístico
o art.º 20º, nº 2 da Lei 112/2009 apli-
relativamente aos espaços em que
ca-se somente às vítimas de violência
decorrem diligências processuais,
doméstica. Tendo em conta que o ideal seria a
com a adaptação dos espaços já ex-
existência de entradas e saídas, zo-
istentes e a tomada em consideração
nas de espera, casas de banho e out-
desta preocupação nos edifícios a
Sugere-se, assim, a introdução de ras instalações separadas para o au-
construir.
um normativo no Título I do Livro II tor do crime e para a vítima em todos
do CPP sobre os actos processuais, os locais em que decorre o processo
a seguir ao art.º 85º, que estabeleça penal, sugere-se a realização de um
A ideia de necessidade de evitação
que compete às autoridades judi- levantamento das condições logísti-
de contactos entre o arguido ou sus-
ciárias e policiais evitar o encontro cas existentes, designadamente, em
peito e a vítima e a sua família patente
entre o arguido e a vítima nos actos todos os tribunais (porque é sobre-
no art.º 19º carece ainda de previsão
processuais que marcarem, presidi- tudo aí que é quase sempre inevitável
legal de natureza geral no âmbito do
rem ou dirigirem. Uma forma de obvi- a presença simultânea de vítima e ar-
processo penal, uma vez que o que
ar ao contacto será não marcando as guido), no sentido de verificar o que
encontramos actualmente no orde-
diligências que se destinam a ouvir o pode ser alterado neste sentido.
namento jurídico português é parcelar
arguido e as diligências que se desti-
e residual: o art.º 352º do CPP, para
nam a ouvir a vítima para os mesmos

96
Devem ser tomadas as medidas ne- Ainda no seguimento da exigência im-
DIREITO A PROTECÇÃO
cessárias para que na sala de audiên- posta por este normativo, propõe-se a
DURANTE AS
cias dos tribunais o contacto entre o alteração do art.º 352º do CPP inspi-
INVESTIGAÇÕES PENAIS
arguido e a vítima seja evitado tanto rada na letra do art.º 18º da Directiva.
quanto possível, nomeadamente or- Assim, acrescentar-se-ia (mediante o
Nos termos das alíneas a), b) e d) do
ganizando a sala de modo a que a aditamento de uma alínea d) ao nº 2
art.º 20º da Directiva, a inquirição da
vítima ao levantar-se para depor não do artigo) a possibilidade de ordenar
vítima deve ocorrer o mais rapidam-
tenha que passar em frente ao argui- o afastamento do arguido da sala de
ente possível a seguir à denúncia e
do, o que tem um forte efeito intimi- audiências durante a prestação de
deve-se evitar a sua repetição, re-
datório, e criando uma maior distância declarações se, por qualquer motivo,
duzindo o número de inquirições ao
entre o local onde o arguido está sen- houvesse razões para crer que a pre-
mínimo possível e a casos de estrita
tado e o local em que a vítima presta sença deste poderia intimidar ou cau-
necessidade. Deve também reduzir-
depoimento. sar vitimação secundária ou represen-
se o número dos exames ao mínimo
tar um risco de danos emocionais ou
possível. Estes direitos, para além de
Para além destas medidas, devem psicológicos ou de lesão da dignidade
deverem ser inseridos no Estatuto da
ser adoptados regulamentos relativos da vítima. Enfatiza-se, por este modo,
Vítima, deverão passar a constar em
às especificidades a observar na con- o direito desta à protecção.
outras normas do CPP.
strução futura de tribunais e outros
edifícios públicos em que decorram
Sugere-se, então, que se adite um nº
diligências processuais.
6 ao art.º 138º do CPP, que imponha
que, após a denúncia, a inquirição da
testemunha vítima ocorra sem atra-
sos injustificados e que o número de


inquirições seja reduzido ao mínimo e

(…) A par do estabelecimento da possi- aos casos de estrita necessidade, de


modo a evitar a vitimação secundária.
bilidade de a vítima se fazer acompanhar Igualmente, no art.º 172º, poderia

por pessoa à sua escolha, seja prevista acrescentar-se um nº4 que estabele-
cesse que deve ser reduzido ao míni-
a faculdade da autoridade judiciária ou mo indispensável o número de exam-

policial responsável pela diligência poder es a que a vítima se tem que sujeitar.

recusar a presença de certa pessoa no


DIREITO A ACOMPANHAMENTO
caso concreto, que se preveja ser
constrangedora para a vítima ou
“ O art.º 20º da Directiva, na sua al.

prejudicial às finalidades do ato c), refere que os Estados-Membros


devem assegurar que “as vítimas
processual. possam ser acompanhadas pelo seu
representante legal e por uma pessoa

97
da sua escolha, salvo decisão funda- nico qualificado em qualquer diligên- respeita à violência doméstica entre
mentada em contrário”. cia judicial, como já o é nos termos cônjuges, em que, frequentemente, a
dos números 1 e 2 do art.º 27º da LPT, vítima é acompanhada pelo cônjuge -
Julga-se que a expressão “repre- relativamente às testemunhas espe- o próprio autor do crime -, ou familiar
sentante legal” diz respeito ao man- cialmente vulneráveis. deste, que pretende controlar o que
datário e não ao representante legal, é revelado no depoimento. Também
devendo-se a confusão a um lapso O técnico será alguém em quem a no que respeita ao crime de tráfico de
de tradução da versão inglesa da vítima confia, com quem já criou uma seres humanos, apresenta-se como
Directiva para a língua portuguesa. relação prévia e que já conhece o comum a situação em que a vítima é
Veja-se que a al. c) do art.º 20º, na seu caso, por exemplo um técnico de acompanhada por membro da orga-
versão inglesa da Directiva, refere-se apoio à vítima. Não terá obviamente nização criminosa.
à possibilidade de acompanhamento qualquer intervenção na diligência,
por “legal representative”. Já o art.º sendo o seu papel o de fornecer contar o sucedido na presença dos pais ou
24º da mesma versão, que prevê que apoio emocional à vítima e procurar outros representantes legais, mesmo não
sendo estes os perpetradores.
os titulares das responsabilidades deixá-la mais confortável, de modo a


parentais, ou seja, os representantes minimizar os danos que a recordação
legais - no verdadeiro sentido - das do crime, a verbalização do que ocor- Propõe-se igualmente o a
crianças, sejam proibidos de repre- reu e a inquirição sobre o tema po-
art.º 271º do CPP, de mod
sentar a criança vítima quando exista dem causar. A vítima, normalmente,
um conflito de interesses, utiliza a ex- optará pela presença de um técnico obrigatória a inquirição d
pressão “holders of parental responsi- ou porque não possui familiares ou
inquérito quando esta sej
bility”. Assim, parece que, neste con- outras pessoas em quem confie ou
texto da Directiva, a expressão “legal porque não quer revelar determina- de crime (…)
representative” deverá ser traduzida dos factos em frente destas pessoas,
para “mandatário”, enquanto ao con- sentindo-se mais à vontade perante Tendo em conta estas possibilidades,
ceito de representante legal de meno- um profissional. que implicam que a vítima por vezes
res corresponderá o termo “holders of não tem poder efectivo de escolha
parental responsibility”, utilizado pela Menos consensual poderá ser o di- quanto à pessoa que a acompanha,
Directiva no seu art.º 24º. reito da vítima a fazer-se a acom- afigura-se necessário que, a par do
panhar por pessoa à sua escolha. estabelecimento da possibilidade de
A possibilidade de a vítima se fazer Sabemos que, nalguns casos, os a vítima se fazer acompanhar por
acompanhar por mandatário judicial representantes legais de crianças são pessoa à sua escolha, seja prevista
encontra-se já prevista no nosso or- os autores do crime ou, pelo menos, a faculdade da autoridade judiciária
denamento (arts.º 70º, nº 3 e 132º,nº coniventes com a sua perpetração, e ou policial responsável pela diligên-
4 do CPP), não levantando quaisquer a sua presença na entrevista, ao in- cia poder recusar a presença de certa
problemas. vés de proporcionar maior conforto à pessoa no caso concreto, que se pre-
criança vítima, tem o efeito contrário: veja ser constrangedora para a vítima
Deve ser prevista na lei processual intimidá-la e impedi-la de dizer a ver- ou prejudicial às finalidades do ato
penal a possibilidade de, salvo excep- dade . O mesmo perigo existe no que
21
processual.
ções, as vítimas de todos os crimes 21 Quanto às crianças, diga-se ainda A autoridade judiciária ou policial re-
que, quando sejam vítimas de crimes se-
poderem ser acompanhadas por téc- xuais, poderão mostrar-se renitentes em sponsável pela diligência deverá,

98
então, fazer algumas perguntas para Deverá também ser previsto no Esta- “A tomada de declarações nos ter-
avaliar da necessidade e adequação tuto da Vítima este direito: “que (…) as mos dos números anteriores não
da presença da pessoa e, caso enten- vítimas possam ser acompanhadas prejudica a prestação de depoimento
da dever recusar o acompanhamento pelo seu mandatário, assim como, em audiência de julgamento, sempre
por esta, mencionará o fundamento salvo decisão fundamentada em con- que ela for possível e não puser em
de forma sucinta. As perguntas que trário, por um técnico qualificado ou causa a saúde física ou psíquica de
permitirão o despiste de situações por uma pessoa da sua escolha”. pessoa que o deva prestar.” Ora, de
de intimidação da vítima e os funda- modo a evitar que, como regra, a cri-
mentos para a recusa do acompanha- ança vítima seja ouvida novamente
mento deverão encontrar-se expres- DECLARAÇÕES PARA no processo, poderá acrescentar-se
samente previstas em procedimentos MEMÓRIA FUTURA ao normativo um nº9 referindo que
internos destas entidades. nos casos previstos no nº 2 o menor
Em Portugal, as declarações para só deverá prestar depoimento em
Neutralizado ou, pelo menos, atenu- memória futura, por consistirem ac- sede de audiência de julgamento na
tualmente somente na gravação de medida em que tal seja indispensável
som e não de imagem, não são sufi- à prova do crime.
o alargamento do nº 2 do cientemente esclarecedoras. Isto con-
duz a que a inquirição para memória Acrescente-se que por via do art.º
odo a tornar
futura em sede de inquérito acabe 271º,nº 6, o art.º 352º do CPP
o da vítima durante o
seja qualquer menor vítima
“ muitas vezes por acrescer às restan-
tes, nomeadamente, à prestação de
é aplicável às declarações para
memória futura e, consequentemente,
depoimento em sede de audiência de o aditamento a este artigo proposto
julgamento, não a substituindo, como supra também o seria.
pretendido, mas implicando sim que a
ado, o eventual potencial negativo vítima reviva mais uma vez o crime de
OUTRAS MEDIDAS
que este direito pode ter, sugere-se, que foi alvo. Propõe-se, assim, que a
DE PROTECÇÃO
então, acrescentar, no art.º 70º, nº 3 inquirição da testemunha passe a ser
do CPP, a possibilidade de o assis- registada em suporte audiovisual, tal
Para diminuir o impacto causado pela
tente se fazer acompanhar por téc- como proposto anteriormente (vide
investigação e o perigo de vitimação
nico especialmente habilitado para p.82) de modo a ser mais eficaz.
secundária que esta representa, a
este fim ou pessoa de confiança, o
prontidão e redução ao mínimo das
que eventualmente acarretará a al- Propõe-se igualmente o alargamen-
inquirições e dos exames médicos e
teração da epígrafe da norma. Da to do nº 2 do art.º 271º do CPP, de
a presença de alguém que a vítima
mesma forma, importa acrescentar ao modo a tornar obrigatória a inquirição
escolha durante as inquirições des-
nº 4 do art.º 132º do CPP o direito de da vítima durante o inquérito quando
empenham um papel muito relevante.
a testemunha, tratando-se da vítima, esta seja qualquer menor vítima de
Porém, outras medidas mencionadas
se fazer acompanhar por técnico es- crime e não exclusivamente de crimes
no art.º 23º e, como tal, a aplicar so-
pecialmente habilitado para este fim contra a liberdade e autodetermina-
mente a vítimas com necessidades
ou pessoa à sua escolha, cumulati- ção sexual.
específicas de protecção, como a re-
vamente ou não com o acompanha-
alização das inquirições em espaços
mento por advogado. O nº 8 do art.º 271º estabelece que

99
calmos, apropriados para o efeito, relação de confiança e a evitação da da comunicação social no assunto do
em que a vítima se sinta segura e por repetição da história - e, no caso dos crime deve ser acompanhado de uma
profissionais devidamente formados crimes sexuais, por um agente do proporcional preocupação da lei em
para essa tarefa deveriam, enquanto mesmo sexo que a vítima, a aplicar proteger a privacidade das vítimas e
princípio geral, abranger, tal como exclusivamente às vítimas a quem as próprias quanto aos efeitos nega-
as imposições do art.º 20º, todas as sejam diagnosticadas necessidades tivos que a exploração mediática dos
vítimas, ou seja, fazer parte do nível específicas de protecção, deverão seus casos pode causar.
básico de protecção fornecido pela lei manter-se vocacionadas para estes
a quem tenha sido alvo de um crime, casos. Assim, no que respeita à primeira par-
podendo depois ter algumas configu- te do nº1 deste artigo da Directiva, que
rações particulares relativamente a estabelece que as autoridades devem
vítimas com necessidades especí- DIREITO À PROTECÇÃO DA poder tomar as medidas necessárias
ficas de protecção. A Directiva não VIDA PRIVADA para proteger a vida privada, nome-
proíbe que se vá para além do nível adamente, as características tidas em
de protecção que consagra. Assim, O art.º 21º da Directiva consagra o conta na avaliação individual prevista
à prontidão da inquirição da vítima direito da vítima à protecção da vida no art.º 22º e as imagens das vítimas
e à redução ao mínimo possível do privada, devendo este ser previsto no e dos seus familiares, entende-se,
número de inquirições, a consagrar Estatuto da Vítima. primeiramente, que se deve alargar o
num novo n.º6 do art.º 138º do CPP, art.º 88, nº2, al. c) do CPP às vítimas
revela-se igualmente importante adi- Os meios de comunicação social têm de todos os crimes, excepto se estas
tar, através da introdução de um nº 7, focado cada vez mais a sua atenção consentirem expressamente na divul-
que as inquirições sejam sempre real- nas vítimas de crime e têm, por isso, gação da sua identidade. A informa-
izadas por um agente com formação tido um importante papel na atribuição ção com interesse para a comunidade
específica para a inquirição de vítimas de uma maior visibilidade aos prob- é aquela que versa sobre a ocorrên-
e num local apropriado para o efeito. lemas que as afectam. Porém, para- cia de determinados tipos legais de
É premente a necessidade de criação lelamente à maior consciencialização crime, a área geográfica e o período
de um espaço para atendimento à víti- comunitária que a atenção dos media temporal em que ocorreram, o modus
ma em todas as esquadras e postos gera, surgem riscos e desvantagens operandi utilizado pelos suspeitos e
policiais, serviços do Ministério Públi- decorrentes deste interesse. A pub- os efeitos da vitimação, e não a iden-
co e tribunais, no qual a vítima possa licação da identidade das vítimas, tidade da vítima, as suas característi-
prestar o seu depoimento de forma nomeadamente através da divulga- cas ou vida pessoal.
segura, confidencial e minimamente ção da sua imagem, assim como de
confortável e no qual não esteja em outros dados sobre si e detalhes do Sabemos que algumas vítimas de
contacto com o autor do crime nem crime que sofreu, tem muitas vezes crime pretendem exposição mediáti-
tenha que se cruzar com mais pes- um efeito nefasto nestas que, para ca, muitas vezes na suposição de que
soas do que o necessário. além de terem que suportar o sofri- isso lhes trará algum benefício. Ao
mento da vitimação, acabam por re- adoptar-se esta medida, pelo menos
As medidas do artigo 23º que con- viver a dor causada e por sofrer as dar-se-á à vítima a possibilidade de
sistem na condução das inquirições consequências negativas de ver a ponderar a sua decisão, de preferên-
preferencialmente pela mesma pes- sua situação tornada pública. Assim, cia com o devido apoio, antes de ver
soa - permitindo a criação de uma parece-nos que o crescente interesse a sua identidade e/ou características

100

pluralismo dos meios de comunicação
(…) Entende-se, primeiramente, que se deve social, incentivar os meios de comuni-
alargar o art. 88, nº2, al. c) do CPP às cação social a adoptarem medidas de

vítimas de todos os crimes, exceto se estas


vítimas consentirem expressamente na
“ auto-regulação.”

Em decorrência do que se referiu no


início, a importância do papel que a
divulgação da sua identidade. comunicação social tem desempen-
hado no caminho para uma sociedade
informada sobre as questões da viti-
pessoais (que nalguns casos levam a cessidades específicas de protecção
mação poderia crescer e associar-se
uma fácil identificação, sobretudo em da vítima, prevista pelo art.º 22º, um
ao total reconhecimento dos direitos
meios mais pequenos) publicamente procedimento administrativo autóno-
das vítimas, mediante a realização
expostas. mo, como o que vigora no processo
de acções de formação e de sensi-
de avaliação de risco para aplicação
bilização para jornalistas, que os ha-
De qualquer dos modos, e indepen- de medidas de protecção no âmbito
bilitasse a tratar estes assuntos com
dentemente de se aderir ou não esta da LPT.
máximo rigor e para lidar da forma
solução, urge compatibilizar o art.º
mais cuidada possível com as vítimas
14º, n.º 2 al. g) da Lei 1/99, de 1 de Será ainda absolutamente necessário
de crime.
Janeiro (Estatuto do Jornalista) com prever um normativo inspirado no art.º
aquela previsão do CPP. 90º, nº 1 da Lei de Protecção de Cri-
anças e Jovens em Perigo22 no CPP,
A AVALIAÇÃO INDIVIDUAL
O art.º 21º, nº1, na sua 1ª parte, es- por modo a transpor para o nosso or-
tabelece que as características pes- denamento jurídico a 2ª parte do art.º
A lógica da Directiva em matéria
soais da vítima tidas em conta na 21º, nº1 da Directiva, relativa à não di-
de protecção assenta na existência
avaliação individual prevista pelo art.º vulgação pública de informações que
de dois níveis: um, a que podemos
22º devem ser protegidas, juntamente permitam a identificação da criança
chamar básico e no qual caberá a es-
com outras informações sobre a vida vítima, eventualmente como um novo
magadora maioria das vítimas, sendo
privada daquela. nº 5 a acrescentar ao art.º 88º.
que a estas se aplicarão as medidas
acima descritas; e outro no qual se
Deverá procurar-se impedir a tomada Atente-se ainda no nº 2 do art.º 21º
inserirão aquelas que revelem neces-
de conhecimento do conteúdo de- e na necessidade de o Estado Por-
sidades específicas e que, para além
sta avaliação individual pela defesa. tuguês, “a fim de proteger a vida
de também beneficiarem daquelas
Caso contrário, o que visava prote- privada, a integridade pessoal e os
medidas, poderão ainda ser abran-
ger a vítima – a avaliação individual dados pessoais das vítimas (…) sem
gidas por medidas mencionadas no
– vai acabar por poder prejudicá-la prejuízo da liberdade de expressão
ponto seguinte. Para se proceder a
(note-se que a informação que o MP e de informação e da liberdade e do
esta destrinça, a Directiva preconiza
tem que revelar à defesa é somente 22 “Os órgãos de comunicação social,
sempre que divulguem situações de crianças a realização de uma avaliação indi-
a que é relevante para esta no caso ou jovens em perigo, não podem identificar,
vidual de cada vítima de crime. O art.º
concreto). Para ocultar tais dados, nem transmitir elementos, sons ou imagens que
permitam a sua identificação, sob pena de os 22º da Directiva cuida desta avaliação
poderá aplicar-se à avaliação das ne- seus agentes incorrerem na prática de crime de
desobediência.” individual.

101
A necessidade de proceder a esta este nível, o que sucederá na grande mais forte quando estivermos em pre-
avaliação individual para eventual maioria dos casos, não se avançará sença de crianças vítimas de crimes.
aplicação de tais medidas e os ter- mais. Quando se diagnostiquem ne- A vulnerabilidade destas vítimas à
mos gerais em que ela deve ocorrer, cessidades específicas de protecção, vitimação secundária, repetida ou à
segundo a norma da Directiva, de- deverá, aí sim, ser colocado um outro intimidação deve ser tomada como
verão ser consagrados no Estatuto conjunto de questões, que permitam princípio e acautelados, por todos os
da Vítima. O modo como a ela se uma aferição mais detalhada da situa- meios possíveis, o impacto que a in-
procederá, quanto ao qual teceremos ção e uma decisão mais informada vestigação e o processo penal lhes
comentários de seguida, deverá ser sobre as medidas de protecção a apli- possa causar, em adição ao sofrimen-
descrito num protocolo de actuação car. to que constituiu a vitimação primária.
que garanta uma utilização uniforme No que concerne ao tipo, gravidade
pelos diferentes operadores. Em segundo lugar, esta avaliação das e circunstâncias do crime, devem ser
necessidades de protecção deve ter devidamente consideradas as vítimas
Afigura-se fundamental a criação de em conta as características da vítima, de terrorismo, criminalidade orga-
um instrumento nos moldes constan- a gravidade e circunstâncias do crime, nizada, tráfico de seres humanos, vio-
tes das orientações da Comissão Eu- assim como outros factores externos lência baseada no género, violência
ropeia, para que se proceda à avalia- que possam relevar no que respeita em relações de intimidade, violência
ção das necessidades específicas de ao risco de vitimação secundária e sexual, exploração ou crimes de ódio.
protecção da vítima. Este instrumento repetida, intimidação e retaliação. Em terceiro lugar, a avaliação deve
de avaliação visará definir rapidam- Isto é, não se confere relevância ex- ser actualizada ao longo do processo.
ente, numa primeira fase, se as ne- clusiva à natureza do crime, devendo Esta actualização deve depender da
cessidades específicas de protecção ter-se em conta outros aspectos. Há vítima, a quem deve ser solicitado que
existem e, numa segunda fase, fazer contudo algumas situações em que, entre em contacto com as autoridades
uma análise mais profunda, que per- tendo em conta o tipo de crime ou as responsáveis pelo processo sempre
mita concluir pela escolha das medi- características da vítima, a Directiva que se alterar algum dos pressupos-
das especiais de protecção a aplicar. preconiza que se estabeleça como tos em que a avaliação se baseou,
Quais as principais características e que uma presunção de que existem mas deve também passar por aquelas
aspectos a ter em conta relativamente efectivamente necessidades especí- autoridades, a quem competirá regu-
a esta avaliação? ficas de protecção. Deverão por isso larmente interpelar a vítima no sentido
merecer particular atenção as vítimas de aferir se tem algo de relevante a
Em primeiro lugar, tem que ser rápi- que tenham sofrido danos consid- reportar a este nível.
da e prática, de modo a não tornar o eráveis devido à gravidade do crime,
processo mais moroso e menos ágil. as vítimas de um crime cometido por Em quarto lugar, a perspectiva da
Assim, deverá existir um pequeno motivos de preconceito ou discrimi- vítima deve relevar para efeitos desta
conjunto de perguntas iniciais, a co- nação susceptíveis de estar particu- avaliação e a sua vontade deve ser
locar a toda e qualquer vítima que larmente relacionados com as suas tida em conta, nomeadamente no que
denuncie um crime, que permitam características pessoais e as vítimas respeita à aplicação das medidas de
desde logo concluir pela existência ou cuja relação e dependência face ao protecção.
inexistência de necessidades especí- autor do crime as tornem particular-
ficas de protecção. Não se verifican- mente vulneráveis e as vítimas com Em quinto lugar, deverá aproveitar-se
do qualquer necessidade especial a deficiências. Essa presunção é ainda esta avaliação individual para, a partir

102
da inclusão de uma ou duas questões/ Europeia e promovido pelo Ministério recem justificados os receios mani-
campos de preenchimento, se pro- da Justiça de França, no qual também festados por alguns dos operadores
ceder a um diagnóstico de neces- participam os Ministérios da Justiça judiciários e policiais quanto ao sub-
sidades comunicacionais especiais, de Espanha e da Polónia e o Crown stancial acréscimo de trabalho que a
com o objectivo de adaptar a lingua- Prosecution Service de Inglaterra e utilização de um instrumento desta
gem às características pessoais da Gales. No âmbito deste projecto foi natureza acarretaria. Na realidade, e
vítima, permitindo-lhe compreender produzido um instrumento de aval- como já acima se referiu, a avaliação,
a informação que recebe ao longo do iação de necessidades específicas independentemente do instrumento
processo e ser compreendida (art.º 3º de protecção de vítimas de crime, que em concreto se utilize, deve ser
da Directiva), assim como de neces- bem como um guia para a utilização realizada em duas etapas, no espírito
sidades de apoio específicas. do mesmo. A APAV teve já a opor- aliás do previsto no n.º 5 do art.º 22º
tunidade de partilhar este documento da Directiva, nos termos do qual “o
Através deste mecanismo de avalia- com a Direcção Geral de Política de âmbito da avaliação individual pode
ção, será porventura possível obter Justiça do Ministério da Justiça, a variar em função da gravidade do
decisões mais céleres, informadas e Procuradoria-Geral da República, a crime e do nível dos danos aparentes
fundamentadas quanto à aplicação Polícia Judiciária, a Polícia de Segu- sofridos pela vítima”. A primeira etapa
quer de medidas de coacção quer das rança Pública, a Guarda Nacional Re- de avaliação assentará num conjunto
medidas de protecção (já existentes publicana e o Serviço de Estrangeiros de informações muito sucintas, pro-
ou a criar em virtude desta Directiva) e Fronteiras tendo o feedback geral vavelmente recolhidas até em decor-
previstas no CPP ou na LPT. A auto- sido bastante positivo. É intenção rência natural da primeira inquirição
ridade que proceder a esta avaliação da APAV proceder ainda a algumas da vítima por autoridade policial, e
poderá desde logo, face à informação adaptações, quer do instrumento de que permitirá desde logo despistar a
obtida, sugerir ou chamar a atenção avaliação quer do guia de utilização, imensa maioria de vítimas que não
para a particular pertinência de apli- tendo em conta a realidade portugue- apresentam qualquer necessidade a
cação de determinada(s) medida(s), sa. este nível. Só quando este primeiro
obviamente sem prejuízo das com- nível de avaliação indicar a eventuali-
petências próprias de cada um dos Importa, em jeito de considerandos fi- dade da existência de necessidades
operadores do sistema. nais acerca esta temática, deixar duas específicas de protecção é que se
notas: em primeiro lugar, não nos pa- passará para um segundo nível, este
A operacionalização deste me-
canismo será seguramente facilitada


através da utilização de soluções e
plataformas digitais no âmbito dos
Afigura-se fundamental a criação de
sistemas de informação das autori- um instrumento nos moldes constantes
dades judiciárias e órgãos de polícia
criminal, que agilize a recolha, actual-
das orientações da Comissão Europeia,
ização e partilha de dados entre estas para que se proceda à avaliação das
entidades.
necessidades específicas de

A APAV é actualmente parceira num protecção da vítima.
projecto co-financiado pela Comissão

103

O art.º 23º prevê as medidas que po-
(…)as testemunhas e vítimas diagnosticadas dem ser aplicadas às vítimas com ne-
com necessidades específicas de protecção cessidades específicas de protecção,
diagnosticadas através da avaliação
deverão ser inquiridas sempre pela mesma referida. Estas medidas deverão con-
pessoa (…) as vítimas de crimes sexuais, de star da LPT, aliando-se aos restantes
preceitos já previstos neste diploma
violência baseada no género ou em relações
de intimidade deverão ser inquiridas por
“ e que visam proteger e responder às
necessidades das testemunhas es-
pecialmente vulneráveis, nas quais
agente do mesmo sexo (…) se incluem este tipo de vítimas. O
termo actualmente empregue nesta
já mais detalhado. Mas a percenta- ceito. A avaliação individual das ne- lei - “testemunhas especialmente vul-
gem de vítimas que “passará” para cessidades específicas de protecção, neráveis” - talvez devesse ser sub-
este segundo nível será seguramente nos termos acima descritos, será por- stituído por “testemunhas e vítimas
baixa. ventura a maior inovação trazida pela com necessidades específicas de
Directiva e visa promover a atempada protecção” para corresponder à termi-
Em segundo lugar, este processo de sinalização e uma informada interven- nologia usada na Directiva e ser mais
avaliação não deve ser confundido ção no âmbito daquela que deve ser objectivo e preciso. Assim, o capítulo
nem comportará qualquer duplica- uma das principais preocupações, se V, uma vez dedicado às testemunhas
ção relativamente aos mecanismos não mesmo a principal, do sistema de e vítimas com necessidades específi-
de avaliação de risco que vêm sendo justiça penal relativamente às vítimas cas de protecção, teria que sofrer as
implementados, nomeadamente junto de crime: a sua protecção. alterações impostas pela substituição
de vítimas de violência doméstica. O do termo usado, devendo para além
que na prática poderá suceder é que, disso prever-se no nº2 do art.º 26º a
quando decorrer da primeira etapa MEDIDAS A APLICAR A avaliação acima descrita e feita a liga-
da avaliação a existência de neces- VÍTIMAS COM ção entre esta avaliação e a aplicação
sidades específicas de protecção NECESSIDADES das necessidades específicas de pro-
face a um tipo de situação em que é ESPECÍFICAS DE tecção.
já utilizado um mecanismo de avalia- PROTECÇÃO
ção de risco, o instrumento a aplicar Este normativo prevê medidas a
nessa segunda etapa poderá ser o aplicar durante a investigação - as
Pela sua relevância e pela transver-
utilizado para medir o risco naquele inquirições à vítima devem ser real-
salidade com que percorre a Directi-
tipo específico de situações e não o izadas em instalações concebidas ou
va, a temática das vítimas com neces-
instrumento geral de avaliação de ne- adaptadas para o efeito, por profis-
sidades específicas é merecedora de
cessidades. sionais qualificados para o efeito ou
autonomização na secção seguinte,
com a sua assistência e ainda pela
pelo que aqui se abordarão apenas as
Em conclusão, espera-se que se- mesma pessoa; e todas as inquirições
medidas concretamente relacionadas
jam ultrapassadas algumas resistên- de vítimas de violência sexual, violên-
com o direito à protecção.
cias que indubitavelmente irão surgir cia baseada no género ou violência
quanto à introdução deste novo con- em relações de intimidade, salvo se

104
forem realizadas por um procurador tecção aplicáveis a todas as vítimas, violência baseada no género ou em
público ou por um juiz, devem ser re- tal como referido supra, e menciona- relações de intimidade deverão ser
alizadas por uma pessoa do mesmo das no Estatuto da Vítima no âmbito inquiridas por agente do mesmo sexo
sexo que a vítima, se esta assim o do direito à protecção durante a inves- salvo se as inquirições forem realiza-
desejar. E durante o processo pe- tigação penal. Deverão contudo ser das por um magistrado do ministério
nal - medidas para evitar o contacto igualmente incluídas na LPT, em sede público ou por um juiz. Acrescente-se,
visual entre as vítimas e os autores de testemunhas com necessidades no que respeita à sujeição das vítimas
do crime, nomeadamente durante os específicas de protecção, na medida com necessidades específicas de
depoimentos, mediante o recurso a em que, nalguns casos – pense-se na protecção a exames médicos, que se
meios adequados, como tecnologias inquirição de crianças, ou de vítimas sugere que passe a constar de novos
de comunicação; para permitir que a com deficiências, por exemplo -, quer nº 7 e nº 8 a acrescentar ao mesmo
vítima seja ouvida na sala de audiên- a formação dos profissionais quer as art.º 28º, respectivamente que estas
cias sem nela estar presente, nome- condições dos espaços requerem car- deverão ser examinadas sempre pelo
adamente através do recurso a tec- acterísticas especiais. Assim, sugere- mesmo médico e que as vítimas de
nologias de comunicação; para evitar se a introdução de novos números 3 crimes contra a liberdade e autodeter-
inquirições desnecessárias sobre a e 4 ao art.º 28º daquela Lei, que esta- minação sexual deverão ser exami-
vida privada da vítima e para permitir beleçam, respectivamente, que as in- nadas sempre por pessoa do mesmo
a realização de audiências à porta quirições à vítima com necessidades sexo.
fechada. específicas de protecção devem ser
realizadas em instalações concebi- As medidas enumeradas no nº 3 do
Enquanto as primeiras medidas têm das ou adaptadas tendo em conta art.º 23º já constam parcialmente da
que ser globalmente transpostas para aquelas necessidades específicas em LPT, da LVD e do CPP.
o nosso ordenamento - e, como já concreto, e que as inquirições à víti-
se referiu, devendo na nossa opinião ma com necessidades específicas de Quanto às medidas para evitar o con-
algumas delas, enquanto princípio protecção devem ser realizadas por tacto visual entre as vítimas e o autor
geral, abranger todas as vítimas e profissionais especialmente qualifica- do crime e para permitir que a vítima
não somente as vítimas diagnostica- dos tendo em conta aquelas neces- seja ouvida em audiência sem nela
das como mais vulneráveis -, as se- sidades específicas em concreto ou estar presente, patentes nas alíneas
gundas já estão consagradas para as com a sua assistência. a) e b) do art.º 23º, nº3, note-se, pri-
vítimas de violência doméstica e para meiro, que a forma de consagrar na
as testemunhas especialmente vul- Já a al. c) do nº 2 do art.º 23º deverá lei a necessidade de evitar o contacto
neráveis , no âmbito da LPT.
23
ser prevista no art.º 28º da LPT, num com o infractor como medida de pro-
nº 5 a criar, estabelecendo que as te- tecção aplicável a todas as vítimas já
Assim, as medidas de protecção refe- stemunhas e vítimas diagnosticadas foi supra referida. Em segundo lugar,
ridas nas alíneas a) e b) do nº 2 do com necessidades específicas de pro- verifica-se que já consta das alíneas
art.º 23º da Directiva, relativas à inves- tecção deverão ser inquiridas sempre a) e b) do art.º 29º da LPT que o juiz
tigação, deverão constar no art.º 138º, pela mesma pessoa, a não ser que pode dirigir os trabalhos de modo
nº6 do CPP como medidas de pro- isso prejudique a boa administração que a testemunha especialmente vul-
da justiça. De um novo nº 6 a aditar nerável nunca se encontre com certos
23 Vide artigos 16º, nº 2, 20º, nº 2 e nº
3 e 32º, nº1 da Lei nº 112/2009 e artigo 29º, ao mesmo art.º 28º deverá constar intervenientes no mesmo acto, desig-
alíneas a) e b) da Lei de Protecção de Teste-
munhas. que as vítimas de crimes sexuais, de nadamente com o arguido, e ouvir a

105
testemunha com utilização de meios caso de processo por crime de trá- ção ao longo do processo penal, é
de ocultação ou de teleconferência. fico de pessoas ou contra a liberdade fundamental concretizar o direito das
A necessidade de evitar inquirições e autodeterminação sexual, os actos vítimas à protecção física menciona-
desnecessárias já se encontra pat- processuais decorrem, em regra, com da na parte final do art.º 18º, visando
ente na adição de um nº 6 ao art.º exclusão da publicidade. Este artigo esta evitar directamente a retaliação e
138º do CPP, aplicável a todas as aplica-se à audiência de julgamento a vitimação repetida.
vítimas de crime e que imponha que por força do art.º 321º, nº 2 e nº 3. Para além das medidas excepcionais
as inquirições sejam reduzidas ao Sugere-se a introdução, no n.º 2 do previstas na LPT, existem, no pro-
mínimo e aos casos de estrita neces- art.º 87º, de uma referência às espe- cesso penal português, neste âmbito,
sidade. ciais necessidades de protecção da as medidas de coacção. Contudo, a
vítima enquanto possível razão de re- rigidez dos requisitos de aplicação de-
As medidas para permitir a realização strição da livre assistência do público stas, juntamente com a necessidade
de audiências à porta fechada já ex- e/ou exclusão da publicidade. de aplicação das mesmas através de
istem no nosso ordenamento. Veja- despacho fundamento do juiz e após
se o art.º 87º do CPP, que refere nos a audição do arguido, implica uma
morosidade na produção dos resulta-
dos desejados que muitas vezes não
se coaduna com a urgência de pro-


tecção das vítimas dos crimes mais
Sugere-se, então, (…) a introdução no violentos.
ordenamento jurídico português de uma
O crescente número de mulheres
medida preventiva de polícia de cariz assassinadas num contexto de vio-
administrativo que, havendo risco provável lência doméstica apesar de todos os
mecanismos existentes é alarmante
ou iminente para a vida ou para a e denota a evidência de que, apesar
integridade física da vítima, consista na “ da evolução, aumento e melhoria das
respostas do sistema tanto a nível
emissão pelas autoridades policiais de uma legislativo como de políticas no âm-
ordem de afastamento imediato (…) bito deste crime, os mecanismos de
protecção continuam a não ser sufici-
entes para, em tempo útil e adequa-
damente, responder a este imenso
flagelo social.
seus números 1 e 3 que o juiz, oficio-
MEDIDAS PREVENTIVAS A Convenção de Istambul, ratificada
samente ou a requerimento do MP,
DE POLÍCIA por Portugal, prevê no seu art.º 52º
do arguido ou do assistente pode, por
que seja concedido às autoridades
despacho, restringir a livre assistên-
Para além das medidas focadas nos competentes o poder para, em situa-
cia do público ou determinar que os
arts.º 18º a 23º da Directiva, centradas ções de perigo imediato, ordenar ao
actos ou partes destes decorram com
essencialmente na protecção contra autor do crime de violência doméstica
exclusão da publicidade e que em
a vitimação secundária e a intimida- que deixe a residência da vítima ou

106
da pessoa em risco por um período Face a isto, conclui-se que urge criar âmbito do processo penal assim ini-
de tempo suficiente e para proibi-lo de medidas de protecção física das víti- ciado, poderá requerer-se a aplicação
entrar na residência da vítima ou da mas rápidas e eficazes, até porque de uma medida de coacção. Porém,
pessoa em perigo ou de a contactar. as situações concretas podem não as únicas medidas de coacção que
O art.º 53º estabelece, por sua vez, preencher os requisitos necessários teriam aplicação nestes casos seriam
que devem ser criadas injunções ou para a detenção fora de flagrante deli- o termo de identidade e residência, a
medidas de protecção adequadas to pelas autoridades de polícia crimi- caução e a obrigação de apresenta-
que possam ser aplicadas em de- nal e pode ser necessário ainda assim ção periódica, que poderiam não ser
fesa das vítimas de todas as formas proceder ao afastamento do autor do eficazes para proteger a vítima.
de violência abrangidas pelo âmbito crime.
da Convenção, que assegurem uma Sugere-se, então, à semelhança do
protecção imediata e sem encargos Note-se também que o art.º 55º nº2 do que ocorre noutros sistemas judiciais
financeiros ou administrativos exces- CPP refere que compete aos órgãos inclusivamente próximos do nosso25,
sivos para a vítimas, que sejam emi- de polícia criminal, mesmo por inicia- a introdução no ordenamento jurídico
tidas por um determinado período tiva própria, entre outras atribuições, português de uma medida preventiva
de tempo ou até serem alteradas ou impedir dentro do possível as conse- de polícia de cariz administrativo que,
revogadas e, se for caso disso, ex quências do crime. É, assim, a própria havendo risco provável ou iminente
parte. Devem também poder ser apli- lei processual penal que estabelece para a vida ou para a integridade
cadas independentemente de ou para a necessidade da existência de me- física da vítima, consista na emissão
além de outros processos judiciais e didas de protecção com carácter pre- pelas autoridades policiais de uma
em acções judiciais subsequentes.  ventivo. Ora, as medidas cautelares ordem de afastamento imediato, que
A detenção em flagrante delito não e de polícia previstas nos arts.º 248º corresponderá a uma total proibição
costuma ocorrer, uma vez que, quan- a 253º respeitam somente à preser- de contactar, por qualquer meio, com
do as autoridades policiais chegam vação da prova e não da integridade a vítima, incluindo a proibição de fre-
ao local, não há sinais claros de que física e da vida da vítima. As medidas quentar os locais que a vítima fre-
o crime tenha acabado de suceder. A de coacção, para além do que supra quente e o afastamento da residência
detenção fora de flagrante delito, nos se referiu quanto à rigidez dos requi- onde o suspeito habite com a vítima,
termos do nº1 do art.º 257º, depende sitos de aplicação e à morosidade na devendo o juiz de instrução, num pra-
de mandado do juiz ou do MP, o que produção dos resultados desejados, zo de 48h (o mesmo fixado para a apli-
implica um período de espera que a só podem ser aplicadas no âmbito de cação de medida de coacção urgente
protecção da vítima não tolera. A de- um processo penal, exigindo-se que 25 Veja-se o exemplo das chamadas
emergency barring orders aplicáveis em si-
tenção nos termos do nº 2 do mesmo o crime já tenha ocorrido, e o que se tuações de crise, normalmente em casos
de violência doméstica, com efeito imediato
artigo 257º, a levar a cabo por iniciati- pretende é evitar que o crime ocorra.
e que permitem remover o infractor da casa
va das autoridades de polícia criminal, Se imaginarmos uma situação em de família. Estas medidas de protecção são
aplicadas pela polícia na Áustria, Bélgica, Es-
implica um conjunto de requisitos cu- que já ocorreu, por exemplo, o crime lovénia, Finlândia, Itália, Holanda e República
Checa. Na Áustria, Bélgica, Chipre, Dinamar-
mulativos que podem não se verificar de ameaça e existe o receio de que
ca, Estónia, França, Letónia, Lituânia, Hun-
no caso concreto e que são de difícil a este se siga um crime mais grave, gria, Malta, Holanda, Roménia, Eslovénia,
Eslováquia, Reino Unido, Itália, Luxemburgo,
prova. 24
fazendo-se queixa da ameaça, no Espanha, Bulgária e Finlândia encontram-se
24 Note-se que a detenção considerada legalmente previstas medidas de protecção
ilegal dá origem a um processo disciplinar, rão o risco de proceder a uma detenção nos que são aplicadas sem que se dê a audição
para além de poder preencher o tipo legal termos do art.º 257º, nº 2 do CPP sem es- prévia do suspeito ou arguido, ou seja, ex
de crime de sequestro e de abuso de poder. tarem absolutamente certas da verificação parte.
Dificilmente as autoridades policiais corre- dos pressupostos exigidos.

107
para o crime de violência doméstica ou integridade física da criança ou do dos bens” (alínea b)).
– art.º 31º da Lei 112/2009, de 16 de jovem e haja oposição dos detentores Por seu lado, a CRP prevê na parte
Setembro) confirmar a medida . 26
do poder paternal ou de quem tenha final do nº1 do art.º 272º a defesa dos
Esta medida poderia constar do Liv- a guarda de facto, as entidades com direitos dos cidadãos como sendo um
ro I da Parte I do CPP, dedicado aos competência em matéria de infância dos três fins da polícia administrativa.
sujeitos do processo, concretamente ou juventude ou as comissões de Este fim (que constitui igualmente um
do Título II centrado no Ministério Pú- protecção possam tomar as medi- limite) tem uma relação estrita com o
blico e nos órgãos de polícia criminal. das adequadas para a sua protecção direito à segurança previsto no art.º
Propõe-se a criação de um novo ar- imediata e solicitar a intervenção do 27º, nº1 da CRP. Ora, a medida pre-
tigo 55º-A, com a epígrafe “Medida tribunal ou das entidades policiais. As ventiva de polícia que permitisse afa-
preventiva de afastamento” e do seu entidades policiais dão conhecimento, star o agente da vítima em risco in-
nº 1 poderia constar o seguinte texto: de imediato, das situações referidas serir-se-ia nas competências referidas
“Os órgãos de polícia criminal podem no número anterior ao Ministério Pú- e cumpriria o fim constitucionalmente
emitir uma ordem de afastamento blico ou, quando tal não seja possível, previsto. Atente-se ainda no nº 2 do
imediato do suspeito em relação à logo que cesse a causa da impossi- art.º 272º, que impõe às medidas de
vítima, quando haja risco provável ou bilidade. polícia outros limites, nomeadamente,
iminente para a vida ou para a inte- o princípio da tipicidade e o princípio
gridade física desta”. O nº2 poderia Os poderes de polícia têm uma na- da proibição do excesso. A medida
ter a seguinte redacção: “A ordem de tureza predominantemente discri- preventiva de polícia de afastamento
afastamento corresponderá a uma cionária, estando vinculados a dois teria que ser prevista e definida pela
total proibição de contactar, por qual- aspectos essenciais: devem fazer lei, eventualmente nos termos indica-
quer meio, com a vítima, incluindo a parte de uma competência conferida dos supra.
proibição de frequentar os locais que por lei e devem visar a realização de
a vítima frequente e o afastamento fins legalmente fixados. Estes dois as- O princípio da proibição de excesso
da residência onde o suspeito habite pectos constituem verdadeiros limites vem reafirmar o princípio constitu-
com a vítima.” O nº3 deveria estabel- ao exercício dos poderes de polícia. cional fundamental patente no art.º
ecer que esta medida tem que ser 18º27 da CRP, que estabelece que
confirmada pelo juiz de instrução no A Lei Orgânica da Polícia de Segu- as restrições aos direitos, liberdades
prazo de 48 horas e o nº 4 que a me- rança Pública fixa no seu artigo 3º, nº e garantias devem ser limitadas ao
dida de afastamento deve ser. 2 as atribuições desta força policial necessário para salvaguardar outros
que são, nomeadamente, “Garan- interesses constitucionalmente prote-
Esta medida não constituiria uma tir as condições de segurança que gidos. Veja-se, então, que a medida
total novidade no ordenamento ju- permitam o exercício dos direitos preventiva de afastamento que se
rídico português. O art.º 91º da Lei de e liberdades e o respeito pelas ga- aborda visaria proteger o direito à se-
Protecção de Crianças e Jovens em rantias dos cidadãos, bem como o gurança (art.º 27º, nº1, 2ªa parte da
Perigo permite que, quando exista pleno funcionamento das instituições CRP), o direito à integridade pessoal
perigo actual ou iminente para a vida democráticas, no respeito pela legali- (art.º 25º da CRP) e o direito à vida
26 Por este modo não há violação da dade e pelos princípios do Estado de (art.º 24º da CRP), o que, apelando à
competência do juiz de instrução como guar- 27 Este artigo refere que “A lei só pode restrin-
direito” (alínea a)) e “Garantir a ordem
dião das liberdades e a quem incumbe asse- gir os direitos, liberdades e garantias nos
gurar a defesa dos direitos dos cidadãos e e a tranquilidade públicas e a segu- casos expressamente previstos na Consti-
também dos sujeitos processuais (art. 32º, nº tuição(…)”. Ora, as medidas de polícia es-
4 da CRP). rança e a protecção das pessoas e tão previstas no art.º 272º, nº2 da CRP.

108
ideia de necessária proporcionalidade contexto de violência doméstica, na crimes sexuais, maus-tratos, stalking
entre os males a evitar e os meios a esmagadora maioria dos casos, ser a (cuja criminalização se prevê a curto
empregar para a sua prevenção, a vítima a sair de casa, ficando privada prazo), entre outros. Daí que pareça
justifica. da sua habitação, bens pessoais e aconselhável prever a pena acessória
muitas vezes afastada dos seus fil- de proibição de contactos na parte
A medida preventiva de polícia em hos, é premente introduzir esta medi- geral do Código Penal, no capítulo III
causa seria, como se vem dizendo, da no ordenamento processual penal do título III, no seguimento das out-
vocacionada a impedir a lesão de bens português. ras penas acessórias previstas com
jurídicos em casos em que aquela é Esta medida de carácter administrati- carácter geral. Esta pena implicaria
provável ou mesmo iminente. A prob- vo deverá ser da exclusiva competên- que o arguido condenado em crime
abilidade ou iminência do risco para a cia das autoridades policiais. contra as pessoas ou contra o pat-
vida ou integridade física necessárias rimónio punido com pena abstracta-
à aplicação das medidas deverá ser mente aplicável igual ou superior a
aferida através de avaliações de risco PENA ACESSÓRIA DE três anos e que representasse um ris-
previstas em protocolos internos da PROIBIÇÃO DE CONTACTOS co para o bem-estar da vítima pudesse
polícia. Do mesmo modo, deverão ser condenado na pena acessória de
existir protocolos de aplicação da me- Na fase posterior à condenação do ar- proibição de contactos com esta, o
dida preventiva. guido, este consegue continuar a per- que deve incluir o afastamento da sua
turbar a vítima através de contactos e residência ou do local de trabalho e
Diga-se ainda que se as autoridades comunicações indesejadas. Para pro- cujo cumprimento deve ser vigiado
policiais podem deter, por maioria de teger a vítima, justificar-se-ia, quando através de meios técnicos de controlo
razão, também deverão poder afastar. necessário e para além da pena prin- à distância. O incumprimento deveria
A detenção é uma medida muito gra- cipal, a pena acessória de proibição conduzir à acusação por novo crime,
vosa, na medida em que priva total- de contactos, que contudo actual- desta vez de violação de imposições,
mente o autor do crime da liberdade, mente apenas está prevista para os proibições ou interdições, previsto no
enquanto o afastamento da vítima crimes de violência doméstica, nos art.º 353º do CP.
porá em causa o seu direito à habita- termos do art.º 152º, nº 4 e nº 5 da CP.
ção, caso este coabite com a vítima, Quando o infractor esteja preso, o
e/ou a sua liberdade de deslocação, O art.º 65º do CP estabelece, no seu estabelecimento prisional, perante a
noutros casos. De qualquer modo, a nº 1, que nenhuma pena envolve queixa da vítima de que tem sido alvo
detenção será sempre mais gravosa como efeito necessário a perda de di- de contactos não desejados, deve
do que uma possível medida de afas- reitos civis, profissionais ou políticos, procurar eliminar tais contactos entre
tamento. A opção pelo afastamento e no seu nº 2 que a lei pode, porém, aquele e esta. Para isso, deve incluir
virá, assim, concretizar o princípio da fazer corresponder a certos crimes a os números de telefone e telemóvel
proibição do excesso, permitindo não proibição do exercício de determina- que a vítima julgar necessários numa
recorrer a medidas mais gravosas dos direitos e profissões. Ora, a pena lista de números banidos, bem como
quando medidas mais brandas são acessória de proibição de contactos impedir o envio de correspondência
suficientes para atingir o fim preten- com a vítima só se encontra prevista para os endereços que a vítima indi-
dido. no art.º 152º e é necessária em mui- car, designadamente o seu e/ou de
Tendo tudo isto em consideração, as- tos outros casos para além da vio- familiares e o do seu local de trabalho.
sim como o facto de, actualmente, em lência doméstica, como por exemplo

109
VÍTIMAS COM NECESSIDADES
ESPECÍFICAS

M
uito embora esta temática
se prenda primacialmente
com a questão do direito
à protecção, a verdade é que a Di-
rectiva aborda, de forma transversal
a todo o seu normativo, as neces-
sidades particulares de alguns grupos
de vítimas. Por esta razão entendeu-
se autonomizar esta secção ao invés
de a incorporar na anterior, que versa
precisamente sobre aquele direito.

É preocupação do legislador euro-


peu garantir que, particularmente no
acesso à informação, nas garantias
de comunicação e na protecção a
dar às vítimas de crime, as suas ne-
cessidades especiais sejam tidas em
conta, por forma a garantir que efecti-
vamente se atribui a todas as vítimas
de crime os direitos mínimos que a cessidades ao nível da comunicação
Directiva estabelece. (art.º 3º, nº 2) e informação (art.º 4.º,
nº 2), neste último caso no sentido de
definir o âmbito, a extensão concreta
Assim, as necessidades das vítimas e o momento de transmissão da in-
de crime são tratadas de forma indi- formação à vítima de acordo com as
vidualizada, procedendo-se a uma suas necessidades.
avaliação personalizada (vide p.101)
não só ao nível das necessidades
específicas de protecção (art.º 22º), Esta avaliação individualizada tem em
como também das necessidades de conta alguns aspectos em concreto.
apoio (art.º 8.º, nºs 1 e 3) e das ne- Considera-se, à luz desta Directiva,

110
No âmbito da pro-

“ tecção, a Directiva
determina que às
vítimas com neces-
57) apontam-se alguns dos factores a
ter em conta nesta avaliação. Nome-
adamente, e no que às características
das vítimas diz respeito, referem-se a
A Directiva presume ainda que crian-
ças vítimas de crime são sempre víti-
mas com necessidades específicas,
pelo que estabelece para estas víti-

sidades específi- idade, o género, a identidade de gé- mas medidas acrescidas no art.º 24º.
nero, a expressão de género, a ori- Tendo em conta as categorias base
cas de protecção gem étnica, a raça, a religião, a ori- elencadas na Directiva, considera-

identificadas por entação sexual, o estado de saúde, mos importante reflectir sobre deter-
a deficiência, o estatuto de residente, minadas necessidades específicas
via do instrumento as dificuldades de comunicação e o de alguns destes grupos de vítimas

de avaliação indi- grau de parentesco ou dependência no contexto nacional. Mais precisa-


face ao infractor. Quanto ao tipo e mente, crianças, pessoas idosas,
vidual seja garan- natureza do crime, têm-se por facto- pessoas com deficiência, imigrantes e

tido um leque mais res de vulnerabilidade ser-se vítima vítimas de crimes de ódio.
de crimes de ódio, crimes motivados
alargado de medi- pelo preconceito ou cometidos com

das de protecção,
não só quanto à
“ discriminação, violência baseada no
género, tráfico de seres humanos,
terrorismo, criminalidade organizada,
Mas este elenco não deve ser encara-
do como taxativo, na medida em que
outras populações patenteiam clara-

sua segurança violência sexual e violência em rela- mente necessidades específicas,


ções de intimidade. E finalmente rela- merecendo, por isso, particular aten-
tivamente às circunstâncias do crime ção. Pensamos, por exemplo, nas víti-
menciona-se o facto de a vítima viver mas de crime em contexto prisional,
em zona de elevada criminalidade or- sendo que a especial perigosidade e
ganizada, num país que não é o seu incidência de conflitos entre reclusos é
de origem ou de o autor do crime ex- um dado evidente. A violência em con-
ercer alguma espécie de poder sobre texto prisional apresenta característi-
a vítima. cas muito específicas. A desconfiança
que os reclusos sentem relativamente
que algumas vítimas estão particular- aos guardas prisionais, o “código de
mente expostas ao risco de vitimação No âmbito da protecção, a Directiva silêncio” que mantêm entre si e a es-
secundária, à vitimação repetida, à in- determina que às vítimas com ne- cassez de informação sobre os seus
timidação e à retaliação, quer em con- cessidades específicas de protecção direitos contribuem fortemente para
sequência das suas características identificadas por via do instrumento a dificuldade da denúncia de crimes
pessoais, quer do tipo ou natureza do de avaliação individual seja garantido em contexto prisional. É verdade que
crime, quer das circunstâncias que um leque mais alargado de medidas houve já uma grande evolução legis-
envolvem o mesmo. de protecção, não só quanto à sua se- lativa ao nível da criação de mecanis-
gurança, como também à forma como mos que permitam reduzir conflitos
as inquirições são conduzidas e evi- entre reclusos e guardas prisionais
No preâmbulo da Directiva (nome- tando contacto com o infractor (art.º e impedir abusos de poder por parte
adamente nos considerandos 56 e 23º). destes últimos. No entanto, será ai-

111
nda necessário dar maior atenção O ordenamento jurídico português cial deste fenómeno e reconhecendo
a esta problemática, dado que, em reconhece crimes de ódio enquanto a especial perigosidade desta inten-
Dezembro de 2013, o Comité contra forma de agravação nos crimes de ção subjacente para as suas vítimas e
a Tortura da ONU alertou para a ocor- homicídio qualificado (art.º 132, n.º comunidades a que pertencem.
rência de maus tratos e uso excessivo 2 do C.P.) e de ofensa à integridade Outro ponto importante a mencionar é
da força nas cadeias portuguesas . 28
física (art.º 145, n.º2 do C.P.). Ai- a necessidade de rever as categorias
Aspectos como a sobrelotação das nda que não emane da Directiva, previstas na lei portuguesa. A menção
cadeias e más condições prisionais, talvez seja este também o momento expressa ao motivo de ódio com base
o número muito reduzido de guardas oportuno para pensar sobre a neces- na deficiência deverá também constar
prisionais e as insuficiências na sua sidade de alargar o leque de crimes da letra do art.º 132, nº 2, alínea f).
formação, a escassez de técnicos, de ódio em Portugal, tendo em conta É manifestamente diferente a agrava-
a não revisão regular dos planos de a realidade fática de crimes cometi- ção da pena pela vulnerabilidade da
reabilitação dos reclusos, a falta de dos motivados pelo ódio, passando vítima por se tratar de pessoa com
informação prestada a estes sobre os esta motivação a constituir factor de deficiência face à agravação por moti-
seus direitos e como os accionar (in- agravação para todos os crimes con- vações de ódio do autor relativamente
clusivamente quanto a queixas contra tra as pessoas e contra o património. às características da vítima (pessoa
outros reclusos ou contra guardas pri- com deficiência). As razões para tal
sionais) são em simultâneo potencia- agravação são diversas e, ainda que
dores de situações de criminalidade e Os crimes de ódio são diferentes de não exista informação suficiente que
obstáculos a que os reclusos vítimas outros crimes pelo facto de serem permita compreender a incidência do
destas exerçam devidamente os seus dirigidos não apenas a uma pessoa fenómeno em Portugal, esta é uma
direitos. individual, mas antes a um grupo de- categoria já prevista noutros orde-
terminado com características espe- namentos jurídicos e uma esfera que
cíficas. Deste modo, os grupos-alvo importa proteger, sendo pertinente
dos crimes de ódio podem sentir que lançar uma clara mensagem social de
não são bem-vindos, que não se en- condenação deste fenómeno. Acresce
VÍTIMAS DE CRIMES contram seguros numa determinada que os crimes de ódio permanecem
DE ÓDIO vizinhança, comunidade, escola ou realidades amplamente desconheci-
local de trabalho. Normalmente, os das e de difícil identificação e, mais
perpetradores de crimes de ódio têm ainda, frequentemente não existe se-
São entendidos como crimes de
como objectivo ameaçar e enviar uma quer sensibilidade para compreender
ódio todos os crimes contra as pes-
mensagem de ódio a uma comuni- que o ódio face à deficiência pode
soas motivados pelo preconceito, em
dade inteira. Em consequência, um também enquadrar-se neste contexto.
razão, nomeadamente, da pertença
sentimento colectivo de insegurança Um problema particularmente grave
da vítima a determinada raça, et-
e medo pode grassar entre os mem- no que se refere aos crimes de ódio
nia, cor, origem nacional ou territo-
bros dessa comunidade. Daí que seja é a não distinção do motivo de ódio
rial, sexo, orientação sexual, iden-
importante que outros actos crimino- no momento de denúncia. Com efei-
tidade de género, religião, ideologia,
sos menos extremos sejam também to, não consta do auto de denúncia
condição social ou deficiência física
enquadrados como crimes agravados qualquer campo obrigatório em que
ou intelectual.
pela motivação ódio, lançando uma seja registada a motivação de ódio
28 Segundo o Relatório Anual 2015 da
Amnistia Internacional, p. 299. clara mensagem sobre a repulsa so- presente no ato criminoso, ou a sua

112
“ A ideia subjacente é a de que os procedimentos das
autoridades de controlo de imigração não deverão ser
conduzidos de forma a que se desencoraje
desproporcionalmente o acesso a serviços essenciais

e à protecção de que esta população necessita.

descrição nos factos, e como tal esta de considerar as particulares vulnera- fica do crime que justifica aferição da
passa frequentemente invisível, a me- bilidades das vítimas deste tipo de especial necessidade ao nível da in-
nos que alegada pela vítima posterior- crimes na avaliação individualizada formação e comunicação, do direito a
mente no decurso do processo. Julga- das suas necessidades de informa- ser ouvido, da protecção e do acesso
mos de suma importância acrescentar ção, protecção e apoio. O reconheci- a serviços de apoio.
este campo, garantindo uma efectiva mento prévio de um crime como crime
identificação deste tipo de criminali- de ódio, bem como o conhecimento A Directiva estabelece ainda, no
dade. real das especificidades do impacto art.º 1º, n.º 1 in fine, que “os direitos
desta criminalidade sobre as suas víti- previstos na presente Directiva apli-
mas por parte das autoridades com- cam-se às vítimas de forma não dis-
Importa ainda garantir que as autori- petentes ao longo do processo é, as- criminatória, nomeadamente no que
dades policiais e judiciárias recebem sim, essencial à concretização desta respeita ao seu estatuto de residência”
formação adequada para a identifi- obrigação. e que “cabe aos Estados-Membros
cação destes crimes e das neces- tomar as medidas necessárias para
sidades específicas destas vítimas, assegurar que os direitos previstos na
decorrentes da vulnerabilidade asso- presente Directiva não fiquem condi-
ciada a um crime que lhes é dirigido cionados ao estatuto de residente da
por sentimentos de repulsa de carac- IMIGRANTES VÍTIMAS vítima no seu território ou à cidadania
terísticas a si inerentes por parte do DE CRIMES ou nacionalidade da vítima”, sendo
autor do crime. certo que “a denúncia de um crime
A Directiva refere-se (vide conside- e a participação no processo penal
rando 56) ao facto de a vítima não ser não criam direitos no que se refere ao
À luz da Directiva, a obrigação míni- originária do país onde ocorre o facto estatuto de residente da vítima” (vide
ma que impende sobre os Estados é a criminoso como circunstância especí- considerando 10).

113
Além das considerações feitas já an- to, em que a vítima é acompanhada já alvo de críticas pela Agência Euro-
teriormente relativamente ao direito à por intérprete. peia para os Direitos Fundamentais,
interpretação e tradução (vide p.87), a qual, nas linhas orientadoras que
importa ainda destacar alguns as- publicou em Outubro de 201229, afir-
pectos desta temática, decorrentes Especificamente sobre a questão do ma que os funcionários e os presta-
da observação que fazemos da re- estatuto legal dos imigrantes, muito dores de serviços não deveriam estar
alidade. A nem sempre suficiente di- nos preocupa o impacto que esta a tal obrigados. A ideia subjacente é
versidade de línguas disponíveis e a questão apresenta no exercício por a de que os procedimentos das auto-
desigual distribuição de recursos pelo estes dos seus direitos enquanto víti- ridades de controlo de imigração não
país (havendo comarcas em que os mas de crime. deverão ser conduzidos de forma a
tradutores são em número muito re- que se desencoraje desproporcional-
duzido ou mesmo inexistentes), a por mente o acesso a serviços essenciais
vezes menor qualidade das traduções Em Portugal a entrada ou permanên- e à protecção de que esta população
e a não atenção à cultura da vítima cia ilegal no país não constitui crime. necessita. Julgamos que este enten-
no processo de interpretação para ga- Contudo, os órgãos de polícia criminal dimento é também essencial quando
rantir uma efectiva compreensão por e também os órgãos judiciais têm, de estamos perante vítimas de crime que
parte desta são questões de suma acordo com a legislação,  o dever de se dirigem às autoridades policiais
importância e a que o sistema deve denunciar ao Serviço de Estrangeiros para denunciar crimes que sofreram
responder. Verificamos também a e Fronteiras (SEF) qualquer situação e que, consequentemente, necessi-
dificuldade sentida por muitas vítimas de irregularidade documental que tarão de vários tipos de apoio e pro-
estrangeiras (nomeadamente as in- identifiquem no exercício das suas tecção.
documentadas) no acesso a alguns funções. Em decorrência desta ob-
serviços de apoio, tanto privados rigação, uma vítima que esteja em A formação dos agentes policiais para
como estatais, muitas vezes com a situação irregular será necessaria- a não discriminação e para a sensi-
justificação de não falarem a língua mente sinalizada ao SEF, recebendo bilidade face à temática dos direitos
portuguesa. Preocupa-nos ainda a uma notificação para abandono vol- das vítimas de crime em situação ir-
não consideração dos relatórios do untário do país em 20 dias ou tendo regular no país é fundamental. Vale
Instituto Nacional de Medicina Legal contra si instaurado um processo de a pena também considerar algumas
e Ciências Forenses como documen- afastamento coercivo do território na- boas práticas a nível europeu que têm
tos essenciais, e como tal não sendo cional. Este processo faz com que as sido identificadas, como a criação de
feita a sua tradução para língua que vítimas fiquem desprotegidas na práti- departamentos especializados nas
a vítima compreenda no decurso do ca, dado que, por medo de expulsão polícias, prestando uma maior aten-
processo, bem como a não imposição do país, muitas não denunciarão os ção a estas vítimas e garantindo-lhes
legal da necessidade, decorrente do crimes, o que também tem como con- um sentimento de segurança de que
facto de a vítima não dominar a lín- sequência a impunidade dos autores não serão detidas ou deportadas em
gua portuguesa, de envio de informa- destes. consequência da denúncia do crime
ção e notificações traduzidas, sendo que sofreram. É o caso do Departa-
que, muitas vezes, o único momento mento para a Diversidade, projecto
em que o direito a compreender e ser Esta prática de imediata sinalização piloto em vigor na cidade de Amester-
compreendida é efectivamente res- às autoridades competentes em ma- 29 Estudo intitulado Fundamental
Rights of Migrants in an irregular situation in
peitado é o da audiência de julgamen- téria de estrangeiros e fronteiras foi the European Union.

114
dão. Existindo já em Portugal equipas por prática de crime violento, para importância de a informação prestada
de proximidade que atuam junto a víti- o efeito aditando-se nova alínea ao a esta população ser especialmente
mas com necessidades específicas, art.º 122 da Lei n.º 23/2007, de 4 de bem descodificada mas não infan-
esta boa prática comparada poderia Julho, que aprova o regime jurídico de tilizada. Com efeito, urge criar proced-
ser facilmente integrada. entrada, permanência, saída e afasta- imentos para profissionais envolvidos
Deverão ainda ser criados mecanis- mento de estrangeiros do território na- na prestação de informação a vítimas
mos legais nesta matéria que permi- cional, alterado pela Lei n.º 29/2012, de crime que tenham em conta estas
tam resolver o problema. A PICUM 30
de 9 de agosto. especificidades, complementados
recomenda 31
que todos os Estados- através da criação de materiais que
Membros prevejam a suspensão de obedeçam às mesmas premissas.
ordens de expulsão durante o de- A criação de materiais informativos
curso do processo-crime no qual os PESSOAS COM sobre direitos em Braille e, prefer-
visados estejam envolvidos enquanto DEFICIÊNCIA VÍTIMAS encialmente, em suporte digital que
vítimas ou testemunhas. Em Espanha DE CRIME possa ser utilizado em programas es-
é concedida às mulheres indocumen- peciais é também aconselhada, para
tadas vítimas de violência doméstica garantir que todas as vítimas recebem
Um primeiro problema com que as
a possibilidade de obter autorização informação escrita sobre os seus di-
pessoas com deficiência que sejam
de residência temporária em circun- reitos, podendo levar consigo essa
vítimas de um crime se deparam é
stâncias excepcionais e com o intuito informação de forma a assimilá-la
a ausência de materiais informativos
declarado de incentivar a denúncia num momento ulterior. Uma solução
adaptados às suas especificidades,
deste crime. As vítimas nesta situação alternativa, e que poderia ser útil para
quer falemos de algumas deficiências
deverão provar a sua alegada situa- quando a vítima não conhece a lin-
físicas que exijam materiais adapta-
ção de vitimação e esta autorização guagem Braille e (já menos frequente)
dos, quer de deficiências intelectuais.
permitir-lhes-á trabalhar legalmente não dispõe de meios tecnológicos
No âmbito da deficiência intelectual,
no país, sendo retirados registos de para possibilitar a conversão de docu-
não existem materiais específicos
ilegalidade da situação documental mentos escritos poderia ser também
que considerem as necessidades par-
da vítima. Contudo, se no final do pro- o fornecimento desta informação em
ticulares destas vítimas, sendo que
cesso se decidir pela não condena- suporte áudio, em dispositivo que
os materiais genéricos existentes não
ção, a autorização de residência será possa ser ouvido em diferentes tipos
são, em regra, acessíveis a estas víti-
retirada e poderá regressar a uma de leitores áudio e que possa ser
mas.
situação de irregularidade. levado pela vítima.

É também notória a falta de procedi-


Em Portugal poderia ser ainda es- Importante será ainda, particular-
mentos32 pensados para saber como
tudada a hipótese de concessão de mente quanto a pessoas com defi-
informar e lidar com pessoas com de-
autorização de residência com dis- ciência intelectual, envolver os desti-
ficiência intelectual. Importa alertar os
pensa de visto com base na vitimação natários na construção dos materiais
profissionais, particularmente as auto-
30 Platform for International Coopera- de informação, de modo a adequá-los
tion on Undocumented Migrants - http://picum. ridades policiais e judiciárias, para a
às suas necessidades reais e assim
org/en. 32 Uma boa prática nesta matéria e que
31 In PICUM Five-Point Action Plan for poderá ser incentivada, expandida e melhora- garantir que a informação é efectiva-
the Strategic Guidelines for Home Affairs from da é o projeto Significativo Azul (parceria entre
2015, p. 5. PSP, FENACERCI, INR e CNIS). mente apreendida.

115
Uma considerável barreira ao acesso Mais problemática é a prestação de primento dos ditames constitucionais,
à justiça e ao apoio à vítima é também informação sobre o processo a pes- e o menos dispendiosas possível.
o profundo desconhecimento da mul- soa com deficiência visual. Estes Outra questão que se coloca com vis-
tiplicidade de características individ- problemas, contudo, podem ser facil- ta a assegurar a participação de pes-
uais e correspondentes necessidades mente superados, bastando que seja soas com deficiência intelectual no
das pessoas com deficiência vítimas criada a possibilidade de requerer um processo penal é o próprio tempo judi-
de crime, tanto por parte das autori- formato diferente para a notificação, cial. Assim, as vítimas com deficiência
dades, como por parte de outros pro- quer seja um formato digital, quer intelectual deveriam ser consideradas
fissionais envolvidos, mesmo em ser- seja a impressão do documento obe- em sede de prestação de declarações
viços de apoio à vítima. Isto implica decendo a regras específicas (quanto para memória futura, dado que, por
não só a necessidade de formação, a tamanho e fonte, etc.), entre outras força da sua incapacidade, poderão
como também de perceber junto des- possibilidades. não conseguir relatar, algum tempo
tas vítimas exactamente como podem após o facto criminoso ter ocorrido, o
ser melhor informadas. A avaliação que lhes aconteceu, além de que são
individualizada das necessidades de- Outro ponto essencial é a eliminação também vítimas particularmente vul-
stas vítimas torna-se especialmente de barreiras arquitectónicas, prob- neráveis a manipulação por terceiros.
importante, devendo assentar em cri- lema que é premente resolver em Como tal, sugere-se que se proceda a
térios bem definidos que considerem Portugal e que vai muito além dos uma alteração neste sentido do artigo
uma multiplicidade de factores sem edifícios de entidades do sistema de 271º do Código de Processo Penal.
cair em assunções estereotipadas, justiça. Na construção de novos ed- Relativamente à possibilidade previs-
de forma a aferir quais as medidas ifícios, as necessidades de pessoas ta na Directiva de acompanhamento
mais adequadas e qual a extensão com deficiência física, particularmente da vítima por pessoa à sua escolha
necessária. É importante considerar deficiências ao nível motor e também (art.º 3º, n.º 3), no caso das pessoas
factores como o tipo de crime e o seu ao nível visual, deverão ser consid- com deficiência intelectual este acom-
impacto na vítima em particular, bem eradas, para que se criem de raiz ed- panhamento deve ser particularmente
como as características específicas ifícios inclusivos. Quanto aos edifícios avaliado (vide p.97), para evitar que
da vítima e da deficiência em causa. já existentes, é essencial encontrar seja ouvida na presença de alguém
No que se refere a pessoas surdas ou alternativas adequadas para mitigar que de algum modo possa influen-
com deficiência auditiva ou mudas, a a falta de acessibilidade. Trata-se ciar esse depoimento. Esta referência
lei processual penal (no artigo 93º do do cumprimento de normas constitu- é importante, considerando que, no
Código de Processo Penal) prevê já cionais, nomeadamente do princípio caso de pessoas em regime de inter-
mecanismos de garantia de comuni- da igualdade (art.º 13º) e do acesso dição ou inabilitação, muitas vezes o
cação para prestação de declarações ao direito e tutela jurisdicional efec- representante legal pode ser o próprio
no decurso do processo através da tiva (art.º 20º). Estas alternativas têm infractor.
interpretação e, no caso de pessoa sido já trabalhadas noutros países, e
muda, da permissão de resposta es- a consulta de associações de defesa
crita. Na aplicação deste direito é de direitos de pessoas com deficiên- Os profissionais envolvidos em qual-
especialmente importante garantir a cia para compreender como melhor quer contacto com a pessoa com de-
qualidade da interpretação. se podem adaptar as estruturas exis- ficiência vítima de crime devem rece-
tentes é crucial e ajudará à escolha de ber formação que lhes permita não só
soluções mais adequadas, em cum- compreender o fenómeno de vitima-

116
ção, o impacto do crime e as necessi- acima de tudo garantir a execução e
PESSOAS IDOSAS
dades da vítima, mas também o grau eficácia do quadro legal já existente,
VÍTIMAS DE CRIME
de deficiência, as especificidades da bem como proceder à diferenciação
mesma e as necessidades acrescidas positiva em função da idade33.
Decorrendo directamente da Directiva
que acarreta, a diversidade de prob-
o respeito pelos direitos das pessoas
lemáticas que podem afectar pessoas
idosas (vide considerando n.º 66),
com deficiência vítimas de crime, a As pessoas idosas vítimas de crime
nada de mais concreto se diz acerca
forma como estas vítimas podem mel- sofrem o peso dos sentimentos de
destes. Todavia, à luz desta Directiva,
hor comunicar o que lhes aconteceu e, culpa, de vergonha e grandes baixas
a idade é factor determinante na de-
finalmente, as dificuldades acrescidas de auto-estima. É geralmente com
limitação das necessidades de infor-
que podem surgir quando o infractor dificuldade que pedem apoio a outros
mação, de acesso a serviços de apoio
é também o cuidador da vítima, nos familiares, a amigos ou vizinhos, a
e de protecção. Assim, e conside-
casos em que tal se verifique. profissionais e/ou recorrem ao siste-
rando a particular incidência em Por-
ma de justiça. Mas esta decisão é nor-
tugal do flagelo da vitimação de pes-
malmente tomada após longos perío-
soas idosas, consideramos crucial,
As autoridades policiais e judiciárias dos de vitimação, quer pelas barreiras
aproveitando a oportunidade criada
em particular deverão também rece- mentais/emocionais que se colocam,
pela Directiva, alertar para a neces-
ber formação quanto à forma como quer, por vezes, inclusivamente pela
sidade de ter em conta as neces-
proceder a interrogatório quando pe- dificuldade em se deslocarem aos ser-
sidades específicas destas vítimas, e
rante pessoas com deficiência. Estes viços das autoridades competentes. A
bem assim analisar até que ponto o
profissionais, juntamente com fun- vergonha e o medo são motivos es-
nosso ordenamento jurídico já lhes re-
cionários judiciais, deverão ainda ser pecialmente detectados na resistên-
sponde ou, pelo contrário, fica aquém
sensibilizados para as especificidades cia à denúncia dos crimes de que são
do necessário.
de disposição do próprio local de de- vítimas e os sentimentos de culpa e
poimento, de modo a acautelar as ne- de humilhação, muitas vezes asso-
cessidades destas vítimas quando tal ciados à violência quando exercida
Com efeito, existe em Portugal um
seja relevante e de acordo com o grau pelos filhos, são factores relevantes.
insuficiente regime jurídico e de pro-
de deficiência da vítima. Assim se ex- A violência nas relações familiares é
tecção às pessoas idosas vítimas de
plica, por exemplo, a necessidade de a mais recorrente, perfazendo mais
crime e de violência, bem como uma
considerar o posicionamento físico do de 80% dos casos de apoio prestado
fraca consciência pública deste fenó-
intérprete de linguagem gestual face pela APAV a esta faixa da população.
meno. E a resposta que já é dada pelo
à vítima que presta declarações, ou É importante criar mecanismos para
ordenamento jurídico português, além
ser dada a possibilidade de se sentar chegar efectivamente junto das pes-
de insuficiente, não é célere nem efici-
mais próxima quando a sua deficiên- soas idosas vítimas de crimes e pro-
ente para todas as condutas e formas
cia visual assim o exija. No caso de mover a denúncia por parte destas,
de violência em causa.
pessoa com deficiência intelectual bem como procurar respostas para as
vítima de crime, deverá ser assegu- suas múltiplas necessidades especí-
rada a possibilidade de presença de ficas associadas. É nesta lógica que
A legislação existente é dispersa e
técnico especializado nos casos em se inserem os programas de prox-
não é acessível a todos e a todas. Tor-
que tal se justifique. 33 Recomendações desde logo expres-
na-se necessário legislar mais, mas sas no relatório do projeto Envelhecimento e
Violência, em que a APAV participou.

117
imidade desenvolvidos pelas forças Miguel e Santa Maria, Açores. Esta É ainda relevante considerar a forma
de segurança, como o Projeto IAVE Comissão permite uma acção mul- de transmissão da informação a es-
da Guarda Nacional Republicana tidisciplinar e integrada no apoio às tas vítimas. A utilização de linguagem
(GNR), com o seu recente alarga- pessoas idosas e uma perspectiva simples e acessível, desconstruindo
mento funcional abarcando pessoas mais abrangente da prevenção e pro- terminologia excessivamente técnica,
idosas vítimas de crime, e o Modelo tecção contra a violência sobre idosos deve ser preocupação presente na
Integrado de Policiamento de Proximi- e idosas. transmissão de informação a qual-
dade com as suas Equipas de Prox- quer vítima de crime, mas particu-
imidade e Apoio à Vítima (EPAV) da larmente aquando da informação a
Polícia de Segurança Pública (PSP). É nomeadamente essencial flexibili- vítimas com especiais necessidades
Outra prática relevante diz respeito zar os procedimentos de denúncia e ao nível da informação, detectadas
ao projecto “A Solidariedade não tem apresentação de queixa, designada- na avaliação individual a ter lugar. As
idade – A PSP com os Idosos”. Ambas mente perante a impossibilidade de pessoas idosas vítimas de crime es-
as entidades estão ainda envolvidas deslocação da vítima. É preciso não tarão tendencialmente nesta situação,
no programa “Apoio 65 – Idosos em esquecer que muitas pessoas idosas em diferentes graus dependendo das
Segurança” da iniciativa do Ministério vítimas de crime têm dificuldades de características particulares de cada
da Administração Interna. É contudo mobilidade ou estão completamente vítima e do impacto do crime que so-
necessário investir e alargar estes isoladas, sendo difícil a sua desloca- freu.
programas para que cheguem a mais ção a uma esquadra/posto policial,
vítimas, e é também necessário mu- aos serviços do Ministério Público ou
nir estas equipas de procedimentos inclusivamente a um posto de cor- Quanto à necessidade de aceleração
adequados, protocolos formais mais reios. Ainda que tenhamos conhe- processual, preconizada em Directiva
fortes com entidades prestadoras de cimento de que, em regra, os agen- de 2010 do então Procurador-Geral
serviços, guias de recursos locais dis- tes policiais, perante apresentação da República e que estabelece a “es-
poníveis actualizados e meios proces- de queixa, recolhem a informação pecial prioridade” de investigação de
suais mais céleres. e posteriormente regressam a casa processos relativos a crimes contra
da vítima para obtenção da assina- crianças, pessoas com deficiência,
tura desta, esta prática não está ai- imigrantes, mulheres grávidas, doen-
A criação de equipas multidisciplin- nda procedimentada. Importa por isso tes e pessoas idosas34, diga-se que,
ares junto das polícias, mas também fazer com que tal passe a constar dos sendo esta medida louvável e da
do Instituto de Segurança Social, en- procedimentos escritos das polícias, maior relevância para o cumprimento
tre outros, que sejam tanto permanen- de modo a garantir que este procedi- muito em particular dos direitos das
tes como móveis, permitindo aceder a mento não fica dependente da maior pessoas idosas vítimas de crime, o
locais de maior isolamento, assume ou menor sensibilidade do agente que a realidade fática demonstra é
uma enorme importância. Uma práti- policial, permitindo que em todos os que não é só por si suficientemente
ca regional promissora é a Comissão casos a formalização da denúncia/ forte para acautelar os problemas ex-
de Intervenção Protocolada de Pre- queixa seja feita de imediato perante istentes na prática contra uma popu-
venção e Protecção do Idoso, criada a deslocação policial ao local onde a lação especialmente vulnerável à
no âmbito de intervenção da Rede vítima se encontra. morosidade dos processos judiciais e
Apoio Integrado ao Idoso em situação sujeita a vitimação secundária.
de acolhimento e emergência – São 34 Ponto 3.3 da Circular 4/2010.

118
Ao nível da formação de profission- tecção específica para os idosos e as um passo relevante tendo em vista
ais que contactam directamente com idosas vítimas de crime e violência, uma maior protecção a apoio a esta
vítimas de crime, a sensibilização de que conceba do ponto de vista legal população. Esta solução, cujo prin-
todos para as necessidades especiais mas também no âmbito das políticas cipal mérito consistiria no aproveita-
de vítimas idosas e para as particular- de operacionalização a promoção dos mento de dinâmicas e sinergias locais
idades da vitimação destas é absolu- direitos destas vítimas e que englobe já constituídas, não poderia contudo
tamente vital e deverá ser incluída as suas necessidades particulares. perder de vista que qualquer interven-
nos respectivos programas formati- O alargamento das competências ção junto deste público-alvo tem car-
vos, de forma obrigatória, pelo menos materiais das atuais Comissões de acterísticas próprias e que o respeito
no quadro de uma abordagem geral Protecção de Crianças e Jovens (com pelo princípio da autonomia e capaci-
sobre vítimas de crime especialmente a necessária dotação ao nível dos dade de decisão da pessoa idosa são
vulneráveis. recursos humanos, técnicos e logísti- – ao contrário do que sucede com as
cos destas) de modo a poderem pas- crianças - exigências inegociáveis. 
sar a abarcar outras populações vul-
Urge por isso pensar uma resposta neráveis e, muito concretamente, as
reflectida e criadora de uma pro- pessoas idosas, seria seguramente
CRIANÇAS VÍTIMAS
DE CRIME

O preambulo da Directiva postula, no


seu considerando 66, a premissa do
O alargamento das competências respeito pelos direitos das pessoas

materiais das atuais Comissões de idosas, das pessoas com deficiência


e das crianças. Com efeito, a Directi-
Protecção de Crianças e Jovens (com a va dedica particular atenção às crian-

necessária dotação ao nível dos recursos ças vítimas de crime, inclusivamente


presumindo a sua vulnerabilidade,
humanos, técnicos e logísticos destas) de contrariamente ao que acontece com

modo a poderem passar a abarcar outras as vítimas adultas, relativamente às


quais é exigida uma avaliação indi-
populações vulneráveis e, muito vidual das suas necessidades como

concretamente, as pessoas idosas, seria “ condição de aplicação de especiais


medidas de protecção. Esta opção
seguramente um passo relevante tendo em deve-se à consciência de que a viti-

vista uma maior protecção e apoio. mação secundária e repetida é espe-


cialmente sentida pelas crianças.

O artigo 1º estabelece desde logo a


primazia do superior interesse da cri-
ança e a necessidade de fazer uma

119
abordagem transversal aos direitos
estabelecidos na Directiva de acor-


do com uma perspectiva sensível
à criança, considerando o ponto de
vista desta, a sua maturidade, ne-
Relevante é também a formação
cessidades e preocupações. Esta obrigatória para magistrados e
abordagem deve ser tida em conta
nomeadamente quanto ao direito da
particularmente magistrados
criança a ser ouvida (art.º 10º), ao es- judiciais, nomeadamente
forço de transmissão da informação à
criança de forma sensível e adequada
formação específica para
à sua idade e maturidade (art.º 3º) e,
ao nível da protecção, na medida em
que não só se presume a especial ne-
conduzir declarações para
memória futura ou outras

cessidade de protecção por parte das inquirições a crianças.
crianças, aferindo-se individualmente
quais das medidas previstas no art.º
23º se devem aplicar ao caso con-
creto, como se estabelece um ainda
maior conjunto de medidas (art.º 24º),
também aplicadas de acordo com a
avaliação individual (art.º 22º). contexto do processo penal, apon-
tam-se alguns problemas principais. Sendo de louvar a evolução que tem
Desde logo, ao nível da informação, sido feita com a criação (ou adapta-
Para efeitos da presente Directiva, cri- são escassos os materiais específi- ção) de salas adequadas para ouvir
ança é qualquer menor de 18 anos, cos sobre os direitos das crianças no as crianças vítimas de forma respeito-
pelo que deverá ser esta a baliza processo, e a linguagem utilizada não sa e que reduza a possibilidade de vit-
etária a adoptar aquando da trans- está adaptada de modo a garantir a imação secundária, este investimento
posição da Directiva para a lei portu- sua compreensão por aquelas. Con- tem de ser continuado para que se
guesa. trariamente ao que foi dito quanto a progrida no sentido de uma abrangên-
outros grupos vulneráveis, considera- cia nacional e não apenas de esfor-
O ordenamento jurídico português se que para crianças vítimas de crime ços localizados. Estas salas devem
contempla já um sistema de atenção é necessário criar materiais simplifica- ser organizadas tendo em conta as
e protecção à criança vítima de crime. dos, desconstruindo a tecnicidade das necessidades das vítimas e, como tal,
Todavia, algumas das disposições questões e usando linguagem que técnicos especializados devem ser
desta Directiva não encontram ainda não é transversal a todas as vítimas consultados neste processo. A APAV
equivalente na lei portuguesa, ou não de crime, mas antes específica. Esta tem vindo a colaborar com as forças
o encontram de forma suficiente, e obrigação de adaptação da forma de policiais nesse sentido, dotando algu-
a prática revela prementes necessi- transmissão da informação para cri- mas salas de atendimento policial do
dades de alteração. anças vítimas de crime deve ser alvo equipamento adequado à realização
Relativamente à criança vítima no de previsão legal expressa. de entrevistas a crianças.

120
Relativamente ainda ao direito da cri- portuguesa, estão já a ser utilizados gurança (como seja, por exemplo, em
ança vítima ser ouvida no âmbito do no nosso país – destinado a garantir caso de criança desaparecida). Esta
processo, o instituto das declarações a melhor qualidade possível da infor- obrigação está já parcialmente con-
para memória futura aplicado às crian- mação a obter da criança e a minimi- templada no art.º 14º, n.º 2, alínea g)
ças vítimas de crime sofre desde logo zar a possibilidade de ocorrência de da Lei 1/99, de 13 de Janeiro - Estatu-
dos problemas já elencados anterior- fenómenos de vitimação secundária. to do Jornalista - sendo prevista para
mente (vide p.99). Ao nível das alte- Para além disso, a criança deve ser todas as vítimas de crimes contra a
rações legislativas necessárias nesta acompanhada por um técnico, pref- liberdade e autodeterminação sexual,
matéria, parece-nos adequado, como erencialmente alguém que a vítima já contra a honra e contra a reserva da
se defendeu acima, o alargamento conheça, em quem confie e que lhe vida privada até à audiência de julga-
deste instituto a todas as crianças víti- possa dar algum suporte emocional mento, e para as vítimas menores de
mas de crime, independentemente do no decurso da inquirição. 16 anos mesmo posteriormente. Já
tipo de crime sofrido, nos termos do anteriormente se apresentaram algu-
exigido pelo art.º 24º, n.º 1 al. a) da mas propostas nesta matéria (vide
Directiva. Estes procedimentos deveriam tam- p.100). Relativamente às crianças,
bém ser adoptados, mutatis mutan- isto é, menores de 18 anos, será ab-
dis, sempre que uma criança tiver que solutamente necessário prever um
Mas acrescem ainda outras propos- depor em audiência de julgamento. A normativo inspirado no art.º 90º, nº
tas concretas. Sabendo-se que o ide- possibilidade de a criança ser ouvida 1 da Lei de Protecção de Crianças e
al seria reduzir ao mínimo o número a partir de sala separada e adequada, Jovens em Perigo35 no CPP, de modo
de inquirições, deveria ser adoptado acompanhada por técnico equipado a transpor para o nosso ordenamento
um guião específico, contendo um com auricular que lhe permita rece- jurídico a 2ª parte do art.º 21º, nº1 da
conjunto de questões que servis- ber instruções e as perguntas que o Directiva, relativa à não divulgação
sem potencialmente todas as neces- magistrado quer colocar à criança, pública de informações que permi-
sidades dos vários processos em que com transmissão por videoconferên- tam a identificação da criança vítima,
a criança estivesse envolvida (pro- cia para a sala de audiências, é uma eventualmente como um novo nº 5 a
cesso penal, processo de promoção prática que vai encontrando o seu acrescentar ao art.º 88º.
e protecção, processo de regulação lugar noutros países e cuja utilização
das responsabilidades parentais, por entre nós deve ser rapidamente pon-
exemplo) e, no momento da entrev- derada. As medidas específicas de protecção
ista, que seria registada em suporte previstas no art.º 23º dever-se-ão apli-
audiovisual, vários profissionais es- car também às crianças vítimas de
tariam presentes mas por detrás de Relativamente ao direito à privacid- crime, sendo as considerações anteri-
um vidro, sem contacto directo com ade, o art.º 21º prevê expressamente ormente feitas a respeito dos regimes
a vítima mas podendo eventualmente a necessidade de criar “todas as me- vigentes em Portugal (e particular-
transmitir instruções ao entrevistador. didas legais necessárias para evitar a mente quanto à Lei de Protecção de
O profissional que conduzisse a ent- divulgação ao público de informações
35 “Os órgãos de comunicação social,
revista deveria seguir um protocolo que possam levar à identificação de sempre que divulguem situações de crianças
ou jovens em perigo, não podem identificar,
de actuação – e sabemos que instru- uma criança”, sendo somente aberta
nem transmitir elementos, sons ou imagens que
mentos deste cariz, devidamente excepção em caso de interesse de- permitam a sua identificação, sob pena de os
seus agentes incorrerem na prática de crime de
testados e aferidos para a realidade sta, isto é, para garantia da sua se- desobediência.”

121
Testemunhas36) e das lacunas exis- prevista na alínea b) do n.º1 do art.º para memória futura, que, como aliás
tentes a esse nível (vide p.104) tam- 352º do CPP. Contudo, esta regra é já se mencionou anteriormente (vide
bém aqui relevantes. Contudo, nesta prevista apenas para menores de 16 p.99), não é obrigatório relativamente
aplicação à situação das crianças en- anos, ficando as restantes crianças a todas as criança vítimas e no qual
contram-se algumas especificidades. (de acordo com a definição plasmada apenas se recorre à gravação de
nesta Directiva) sujeitas às mesmas som. Importa por isso legislar e criar
condições aplicáveis neste âmbito as condições logísticas e técnicas
Debrucemo-nos sobre a possibilidade a adultos vítimas de crime. Não se necessárias no sentido de garantir a
de acompanhamento da criança por pautando a Directiva por esta distin- concretização deste direito.
pessoa à sua escolha, e particular- ção feita à luz da lei processual por-
mente pelos pais da criança. Sabe- tuguesa, torna-se necessário harmo-
mos que, nalguns casos, os repre- nizar o sistema, garantindo a todas as O direito previsto na alínea b) do n.º
sentantes legais de menores são os crianças vítimas de crime (segundo o 1 do art.º 24º encontra-se já previsto
autores do crime ou, pelo menos, conceito da Directiva) os direitos es- na lei processual civil, aplicável por
coniventes com a sua perpetração, pecificamente previstos para crianças remissão do art.º 4 do CPP, na inter-
e a sua presença na entrevista, ao nesta Directiva. pretação que deve ser dada ao n.º
invés de proporcionar maior conforto 1 do art.º 17 do Código de Processo
à criança vítima, tem o efeito con- Civil (CPC).
trário: intimidá-la e impedi-la de dizer No que se refere à implementação
a verdade. Principalmente quanto aos das medidas de protecção postula-
menores vítimas de crimes sexuais, das no art.º 24º da Directiva, importa Já no que se refere à alínea c) do n.º 1
mas não só, estes poderão mostrar- considerar de que medidas se trata e do art.º 24º, esta medida encontra de
se renitentes em contar o sucedido como estas estão já previstas ou não alguma forma eco na conjugação dos
na presença dos pais ou outros rep- no ordenamento jurídico português, arts.º 68º, n.º 1, alínea d) e 70º n.º 1
resentantes legais, mesmo não sendo avaliando necessidades de trans- do CPP. Ainda assim, e em nome de
estes os perpetradores. É por isso posição legal e verificando se na práti- uma desejável total clareza quanto a
necessário investir na formação dos ca equivalem ao núcleo de protecção esta matéria, faria porventura sentido
profissionais que farão esta avaliação que a Directiva visa assegurar. importar para a lei processual penal
de quem é acompanhante idóneo e uma solução similar à contida no art.º
benéfico para a vítima, sendo tam- 103º n.º 2 da Lei de Protecção de Cri-
bém necessário criar mecanismos de Uma primeira medida prevista é a de anças e Jovens em Perigo 37.
modo a garantir uma avaliação o mais todas as inquirições levadas a cabo
objectiva possível e menos depen- durante a fase de inquérito serem gra-
dente da sensibilidade individual de vadas através de meios audiovisuais Quanto aos serviços de apoio espe-
quem avalia (vide p.98). e poderem ser utilizadas como meio cíficos para crianças em risco, entre
de prova ao longo de todo o processo. as quais se contam muitas que são
Esta não deverá ser uma opção, an-
37 É obrigatória a nomeação de patrono
A possibilidade de a vítima criança ser tes uma obrigação. No cumprimento à criança ou jovem quando os seus interesses
e os dos seus pais, representante legal ou
ouvida em audiência de julgamento desta disposição, no ordenamento ju-
de quem tenha a guarda de facto sejam
sem a presença do infractor está já rídico português apenas encontramos conflituantes e ainda quando a criança ou
jovem com a maturidade adequada o solicitar
36 Lei n.º 93/99, de 14 de Julho. resposta no instituto das declarações ao tribunal.

122
vítimas de crime, são problemas par- Forças de Segurança na Abordagem Incentivar a formação obrigatória de
ticularmente preocupantes a fraca de Situações de Maus Tratos ou Out- advogados nesta matéria (pelo me-
capacidade de resposta para acolhi- ras Situações de Perigo”, criado pela nos entre os que, pela sua área de ac-
mento de bebés, resposta que aliás Comissão Nacional de Protecção de tuação, se poderão deparar com cri-
está quase a alcançar o limite; o cada Crianças e Jovens em Risco. Este re- anças vítimas de crime) seria também
vez mais difícil acolhimento de jovens curso aborda todas as questões supra crucial para o bem-estar da vítima,
(os quais, de momento, por ausên- mencionadas e deveria ser mais am- evitando traumas na criança em face
cia de respostas, são colocados em plamente disseminado. de uma abordagem menos adequada
locais muito distantes do país, o que É também importante, e é um dever muitas vezes tomada por parte de al-
coloca em causa a possibilidade de do Estado, investir na formação de guns advogados de defesa.
trabalho com as famílias); e o facto de outros serviços que, pela sua nature-
a curto prazo se alcançar uma situa- za e funções, lidam com crianças víti-
ção de total ausência de respostas mas de crimes.
em emergência, face aos cortes or-
çamentais e reestruturações de ser-
viços. Relevante é também a formação
obrigatória para magistrados e, par-
ticularmente, magistrados judiciais,
Ao nível da formação de profissionais nomeadamente formação especí-
que lidam com vítimas de crime, muito fica para conduzir declarações para
se tem progredido, particularmente ao memória futura ou outras inquirições
nível das polícias, e nomeadamente a crianças. A formação de juízes
das suas unidades especiais, mas é neste sentido da multidisciplinarie-
necessária mais formação multidis- dade é de uma importância imensa
ciplinar para promover uma efectiva se considerarmos que compete a esta
mudança de mentalidades. No que autoridade judiciária aprovar e colocar
se refere à problemática das crian- à criança vítima (menor de 16 anos)
ças vítimas de crime, é necessário as questões que lhe são solicitadas
que essa formação incida sobre as por magistrados do Ministério Público
necessidades e direitos da criança, ou advogados de defesa em sede de
como conduzir um interrogatório sen- audiência (art.º 349º CPP).
sível à criança e como prestar-lhe in-
formação e compreender atitudes da
mesma.

Existem linhas orientadoras sobre


como as polícias devem actuar pe-
rante crianças vítimas de crime. Par-
ticular importância assume o “Guia de
Orientações para os Profissionais das

123
FORMAÇÃO E MONITORIZAÇÃO

O ARTIGO 25º DA DIRECTIVA

A
Directiva estabelece, no seu art.º 25º, algumas exigências no que re-
speita a formação. Foi-se ao longo do texto que antecede apontando
algumas necessidades e propostas específicas em matéria de forma-
ção, vertendo-se agora nesta secção algumas considerações mais transver-
sais.

A formação dos profissionais que contactam com vítimas é essencial para que
os direitos previstos na Directiva sejam respeitados e realizados na prática,
pelo que os Estados-Membros devem envidar todos os esforços possíveis para
permitir que estes profissionais recebam a formação adequada.

Se tal não se verificar, o risco de vitimação secundária resultante das acções


dos profissionais com que a vítima contacta aumenta exponencialmente. Isto
poderá conduzir ao crescimento da insatisfação do grande público em relação
ao nosso sistema de justiça, mas também relativamente aos serviços de saúde
ou da segurança social, por exemplo.

Nos termos do nº 1 do art. 25º da Directiva, cabe aos Estados-Membros asse-


gurar a formação geral e especializada dos funcionários susceptíveis de con-

124
125
tactar com vítimas, nomeadamente De acordo com o nº 5 do mesmo ar-
agentes policiais e funcionários judi- tigo, consoante as funções exerci-
ciais. das pelos profissionais e a natureza
e o nível dos seus contactos com as
vítimas, a sua formação deve ter por
Para além disso, e sem prejuízo da objectivo habilitá-los a reconhecer as
independência do poder judicial, os vítimas e a tratá-las com respeito e
Estados-Membros devem solicitar profissionalismo e de forma não dis-
que os responsáveis pela formação criminatória.
dos juízes e dos procuradores que in-
tervenham em processos penais lhes
prestem formação geral e especial-
izada a fim de aumentar a sua sensi-
bilização em relação às necessidades A FORMAÇÃO DE
das vítimas, de acordo com o nº 2 do PROFISSIONAIS EM
artigo. PORTUGAL NA ÁREA
DAS VÍTIMAS DE CRIMES

Quanto aos advogados, estabelece


O n.º 1 do art. 25º da Directiva, ao es-
o nº 3 do art.º 25º que, respeitando a
tabelecer que os Estados-Membros
independência da profissão, os Esta-
devem assegurar que os funcionários
dos-Membros devem recomendar às
susceptíveis de entrar em contacto
entidades responsáveis pela sua for-
com vítimas recebem formação geral
mação que estas ministrem a devida
e especializada, refere-se a todos os
formação geral e especializada no
funcionários, e não só àqueles que
sentido de sensibilizar os profission-
apresenta como exemplo – agentes
ais para as necessidades das vítimas.
policiais e funcionários judiciais. Daí
Nos termos do nº 4, os Estados-Mem-
que se deva considerar que outros
bros devem ainda, através dos seus
funcionários, nomeadamente os pro-
serviços públicos ou do financiamento
fissionais de saúde, devem ver asse-
de organizações de apoio à vítima,
gurada pelo Estado a sua formação
fomentar iniciativas destinadas a per-
nos termos deste nº 1.
mitir que as pessoas que prestam
serviços de apoio à vítima e serviços
de justiça restaurativa recebam, igual-
As Orientações da Comissão Euro-
mente, formação adequada ao seu
peia referem claramente que todos
contacto com as vítimas e que incuta
os profissionais que estabeleçam
o devido respeito pelas normas profis-
contacto com vítimas devem receber
sionais.
formação, embora o Estado tenha
uma maior obrigação de providenciar

126
pelo efectivo cumprimento desta im- izada - adequada ao grau de contacto judiciais, assim como dos advogados,
posição no caso dos seus funcionári- dos profissionais com esta. A forma- procuradores e juízes. A formação es-
os do que no caso dos magistrados, ção especializada, quando respeite pecializada deve ser providenciada a
dos advogados e das organizações às vítimas com necessidades espe- título de formação contínua.
não-governamentais. cíficas de protecção, poderá ter que
levar em conta as especificidades de
género e poderá ainda ter que incluir A frequência de acções formativas
Os profissionais devem receber for- alguns conteúdos da área da psicolo- sobre os direitos e necessidades das
mação que lhes permita reconhecer gia. vítimas que não constem do programa
as vítimas como tal, estar atentos básico da formação para o exercício
às suas necessidades (e condição de cada profissão deve ser estabe-
prévia, conhecê-las, sejam de apoio A extensão e profundidade da infor- lecida como requisito para a obtenção
ou protecção, gerais ou específicas) mação a transmitir varia, então, de de promoções ou progressões na car-
e tratá-las com respeito, profissional- acordo com as funções exercidas reira ou para o desempenho de fun-
ismo e de forma não discriminatória. pelos profissionais e a natureza e o ções específicas, de modo a incen-
Mais concretamente, os profissionais nível de contacto que têm com as víti- tivar os profissionais a participar em
devem ficar a conhecer bem, através mas, bem como com a capacidade e tais acções.
da formação ministrada, o impacto responsabilidade que estes têm para
que os crimes provocam nas vítimas, assegurar os direitos previstos na Di-
as diferentes formas de lidar com o rectiva. A exigência de formação especial-
sucedido, os riscos de intimidação, izada pode fazer parte do acordo de
de vitimação secundária e de vitima- financiamento entre o Estado e as
ção repetida e os modos de as evitar, O considerando 61 da Directiva esta- organizações de apoio à vítima, por
assim como os tipos de apoio dis- belece especificamente que “os pro- modo a fomentar a existência dessa
ponibilizados pelos serviços de apoio fissionais susceptíveis de participar vertente de formação.
à vítima e a importância de promover na avaliação individual destinada a
o acesso a estes serviços. Destaca- identificar as necessidades especí-
se, assim, de entre a informação que ficas de protecção das vítimas e a Em suma: embora se tenham operado
os profissionais devem conhecer, as determinar a sua necessidade de me- nos últimos anos marcantes desen-
entidades e os serviços de apoio para didas especiais de protecção devem volvimentos no que diz respeito à for-
que devem referenciar as vítimas. Es- receber formação específica sobre a mação das entidades que contactam
pecificamente, os profissionais que forma de realizar essa avaliação.” com as vítimas de crime no sentido de
prestam apoio às vítimas devem con- um aumento da preparação para lidar
hecer os serviços de apoio específico com estas, não há forma de contornar
para onde devem encaminhar certos A formação deve dividir-se em duas a premente necessidade, para que a
utentes. componentes - inicial e contínua. Se- Directiva chama a atenção, de fazer
gundo as Orientações da Comissão constar do currículo base de todas es-
Europeia, a formação geral sobre os tas profissões formação sobre os dire-
A Directiva impõe a transmissão de direitos e necessidades das vítimas itos e necessidades das vítimas. For-
formação geral – sobre os direitos e deve fazer parte do currículo básico mação esta que deve ser transmitida
necessidades da vítima - e especial- dos agentes policiais, dos funcionários a todos os profissionais e abranger

127
as vítimas de crime em geral, não se Reitere-se a particular obrigação do missão a prestação de serviços de
centrando consequentemente apenas Estado de providenciar formação nos apoio a vítimas de crimes, podem dar
naquelas à partida mais vulneráveis. termos referidos às forças policiais, um relevante contributo ao nível do di-
Isto sem prejuízo de, paralelamente, funcionários judiciais e profissionais agnóstico das experiências vividas no
existir formação especializada, nome- do Serviço Nacional de Saúde, se- terreno pelas vítimas e do impacto da
adamente sobre vítimas com neces- gundo o que se encontra estabelecido intervenção daquelas estruturas junto
sidades específicas de protecção, a no nº1 do art.º 25º da Directiva. destas.
ministrar de acordo com as funções Refira-se para finalizar que, em sede
exercidas pelos profissionais e o seu de formação, um dos principais as-
contacto com as vítimas. pectos a trabalhar deverá ser delimi- Sugere-se ainda a elaboração anual
tar o âmbito de intervenção de cada de um relatório independente, isto é,
força policial, assim como do Minis- de natureza não-governamental, que
Como já foi referido previamente, a tério Público, dos serviços de apoio aborde e analise o estado e evolução
formação é uma das áreas em que a à vítima e dos serviços de saúde, de- ao nível da implementação e respeito
parceria entre o Estado e os serviços finindo claramente as funções e com- pelos direitos das vítimas.
de apoio à vítima é mais necessária. É petências de cada entidade.
fundamental a colaboração de forma-
dores das áreas da justiça, segurança
social e saúde com os serviços de
apoio à vítima. Por outro lado, os pro-
fissionais dessas mesmas áreas ben- MONITORIZAÇÃO DA
eficiariam ao receber formação veicu- IMPLEMENTAÇÃO DOS
lada por técnicos especializados no DIREITOS DAS VÍTIMAS
contacto com vítimas, que pudessem DE CRIMES
transmitir-lhes os seus conhecimen-
tos teóricos e práticos sobre a melhor
De modo a garantir o incremento da
forma de comunicar com aquelas e de
observância dos direitos das vítimas
evitar vitimação secundária. Porém,
de crime em algumas estruturas, des-
preconiza-se que a estes técnicos se
ignadamente Ministério Público e for-
juntem profissionais das áreas dos
ças policiais, preconiza-se a criação,
próprios formandos, de modo a adap-
em cada uma delas, de uma unidade
tar os conteúdos tendo em conta as
específica, com a missão de garantir
especificidades do público e a com-
a adopção e subsequente monitoriza-
plementá-los com informação especí-
ção de um conjunto efectivo e padroni-
fica e a suprir quaisquer lacunas mais
zado de procedimentos tendentes a
facilmente preenchíveis por alguém
garantir que a acção destas estruturas
do sector. O ideal seria, assim, a cria-
está em sintonia com aqueles direitos.
ção de equipas multidisciplinares de
Neste esforço poderão ser chamadas
formação.
a colaborar, numa óptica de parce-
ria, entidades que, por terem como

128
CONCLUSÕES
Em jeito de conclusão, deixaríamos duas notas: em primeiro lugar, que com esta Directiva
não se cometa o mesmo erro que se cometeu com a Decisão Quadro anterior. A transposição
da Decisão Quadro não foi planeada e executada de uma forma global, nunca se pensou a sua
inserção sistemática na nossa legislação processual penal enquanto um todo consubstancia-
dor de um verdadeiro estatuto da vítima de crime. Limitou-se a alguns afloramentos isolados
– por exemplo, em 2007 as previsões relativas à comunicação à vítima em caso de libertação
ou fuga do arguido, em 2010 a questão do dever de informação – mas ficou muito por fazer. Só
que entretanto, em 2009, a Decisão Quadro foi vertida quase ipsis verbis para a primeira parte
da Lei 112/2009, comummente conhecida como o estatuto da vítima de violência doméstica.

Ou seja: um conjunto de direitos que deveria ser património de todas as vítimas de crime foi
conferido apenas a algumas, sem que na maior parte dos casos se descortinem razões váli-
das que justifiquem essa discriminação. A APAV está aqui perfeitamente à vontade até porque
mais de 80% dos utentes a que prestamos apoio são vítimas de violência doméstica e sempre
manifestámos a nossa concordância quanto à pertinência de, em muitos aspectos, conferir
a estas vítimas um tratamento “especial”, uma discriminação positiva que responda às suas
necessidades específicas por exemplo, e entre outros aspectos, ao nível da protecção. É um
flagelo com uma dimensão de tal modo relevante que justifica de facto particular atenção. O
que não nos faz qualquer sentido é esta atribuição cega e indiscriminada de todos os direitos
da Decisão Quadro apenas a algumas vítimas, é a existência de “vítimas de primeira” e “víti-
mas de segunda”, não apenas na lei mas também na prática, porque esta diferença reflecte-se
de facto no terreno e vimos sentindo que por vezes, no contacto com o aparelho judiciário e
policial, há as vítimas de violência doméstica e “as outras”, numa hierarquia de vítimas absolu-
tamente inaceitável.

Em segundo lugar, sabemos que não será fácil alcançar em Portugal todas as metas traçadas
pela Directiva. A situação económica poderá influenciar este processo, uma vez que a adopção
de algumas das medidas exigidas acarreta custos. Mas esta Directiva é uma oportunidade de
mudarmos de paradigma, de passarmos de um paradigma de exclusão para uma filosofia de
inclusão, de respeito e de reconhecimento de direitos. E se isto é obviamente essencial para
todos aqueles que nalgum momento da sua vida são vítimas de um acto criminoso, é também
importante para o próprio aparelho judiciário, que assim contará certamente com vítimas mais
colaborantes e mais capazes de exercer o seu papel no processo com maior qualidade.

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APAV, Junho de 2015
apav.sede@apav.pt