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Resenha - O feitiço das Organizações. Sistemas Imaginários

Article  in  Caderno CRH · December 2010


DOI: 10.1590/S0103-49792010000300014

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Bruno Stramandinoli Moreno


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Bruno Stramandinoli Moreno

SCHIRATO, M.A.R. O feitiço das Organizações. de que a personalidade do trabalhador é impelida a


Sistemas imaginários. São Paulo: Atlas, 2004. fundir-se na identidade organizacional, num pro-

RESENHA
150p.
cesso de forja de extensão do trabalho. Os relatos
apresentados consubstanciam essa ideia, pois se
mostra recorrente nos discursos o ideário organi-
Bruno Stramandinoli Moreno zacional permeando objetivos, vida pessoal, famili-
ar e social.
Num primeiro momento do livro, tem-se
a elucidação da tarefa a que a autora se propõe:
O feitiço das organizações é uma obra que construir o arcabouço teórico e metodológico para
contempla o entendimento de sistemas imagi- buscar entender e analisar o fenômeno, dispon-
nários no âmbito das relações de trabalho den- do-se a discutir as organizações, o imaginário e as
tro do contexto organizacional de uma grande relações engendradas nesse cenário. Inicialmen-
corporação. A presente discussão é fruto de um te, ela recorre à perspectiva antropológica de
estudo realizado no ano de 1995 junto a trabalha- Mounier para fundamentar suas discussões e se
dores demitidos de uma grande fabricante de avi- munir de instrumentos para avaliar o impacto
ões, de capital nacional, mas de âmbito global. das políticas praticadas pelas organizações.
Articulando análises teóricas e relatos dos Essa construção teórica perpassa o esta-
próprios demitidos ou de terceiros, a pesquisa- belecimento dos níveis de análise em que a pes-
dora vai tecendo o sustentáculo de suas concep- quisa se foca. Foi na literatura de Enriques que a
ções sobre a relação desses profissionais e a autora elencou as seguintes instâncias de análi-
corporação – até então amparo de suas subjeti- se: mítica, sócio-histórica, institucional, organi-
vidades –, tendo como pano de fundo as pre- zacional, grupal, individual e pulsional. Esse pas-
missas do professor Eugène Enriquez acerca do so lhe possibilitou alçar um próximo degrau, o
feitiço que as organizações estabelecem por meio do estabelecimento do espaço dos sistemas ima-
de suas relações com os funcionários. ginários de Enriquez e seu impacto nas relações.
A partir de uma análise mais acurada e Partindo da fundamentação conceitual e de sua
tendo como referência o trabalho de Enquiez, a interpretação de análise sobre organizações, a
autora apresenta suas constatações sobre a pre- autora se baseia na compreensão das situações-

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sença significativa de sistemas imaginários que problema. Entretanto, não se propõe a erigir uma
permeiam as relações no âmbito organizacional. fundamentação psicanalítica no estrito senso do
Um mundo de intenções e promessas que ela termo, nem se presta a tal intento.
considera como feitiço, um espaço configurado É especificamente na busca por uma aná-
como imaginário, aludindo a um feitiço que en- lise socioatropológica que a autora estabelece sua
volve o indivíduo e que se distancia do controle empreitada quanto à condição de “cidadão
racional, e onde, justamente, se dá a formação organizacional” nos meandros da estrutura de
das impressões determinantes no comportamen- trabalho que organizações modernas, como a es-
to e na escolha dos indivíduos. tudada nessa pesquisa, constroem, desenvolvem,
O que é mais significativo é a empreita da defendem como situação sine qua non, e que,
autora de denunciar, ao longo da obra, as inúmeras por conseguinte, mostra-se dogmática e pouco
discrepâncias do discurso na relação entre organiza- questionada. Essa conceituação inicial lhe possi-
ção e profissional ofertado pela empresa, confirma- bilita constatar a existência de sistemas imagi-
do pelo profissional e consolidado pelas práticas e nários (as políticas de Recursos Humanos, por
políticas de Recursos Humanos. Já nesse momento exemplo) funcionando como teias de um feitiço
é possível entender que uma de suas hipóteses é a nas organizações.

655
RESENHA

Num segundo momento da obra, susten- pessoal. Os relatos apresentados mostram indi-
tada por uma gama de pensadores, Schirato es- víduos infantilizados, inseguros, numa relação
tabelece um percurso que contempla instantes de dependência limitante no tocante à perspec-
da vida dos sujeitos pesquisados, ainda dentro tiva de mundo que constroem.
da organização (abarcando desde o ingresso até Os efeitos apontados pela autora, oriun-
o desligamento). A partir desse ponto do livro, é dos da consubstanciação da relação entre orga-
possível dimensionar o impacto que as políticas nização e trabalhador, mostram-se nefastos para
de Recursos Humanos – expressões materializa- esse último. Schirato entende que ele perde a
das do inefável envolvimento dos indivíduos capacidade de direcionar a própria vida, de cons-
pelas organizações – têm, por meio de processos truir sua identidade para além sua condição de
de integração ao cotidiano da corporação, o que trabalhador da organização. À medida que essa
imbrica o imaginário do profissional, transcen- relação se torna “pseudofamiliar” e as situações,
de as paredes da organização e alcança o cotidia- os eventos e os indivíduos assumem um ar “do-
no pessoal e íntimo desses trabalhadores. méstico”, “de casa”, a preocupação com a quali-
A autora, com intuito de dimensionar dade do trabalho e a reciclagem profissional as-
para o leitor o drama do processo de desliga- sumem uma importância secundária. É nesse
mento junto aos sujeitos- alvo da pesquisa e o momento que a autora preconiza a discussão so-
seu impacto no cotidiano desses indivíduos, in- bre os valores praticados, bem como o código de
sere vários relatos das experiências coletadas. Ao ética vigente, aludindo ao nível de análise
invés de estabelecer relação concreta entre o seg- organizacional em si.
mento teórico-reflexivo e o concreto-real, têm- Schirato encerra o livro alinhando os ele-
se, ao longo dessa segunda parte, a proposição mentos apresentados até então num tom de de-
de o próprio leitor buscar as aproximações que núncia e aponta a para um horizonte caracteri-
julgar adequadas. O que torna a proposta inte- zado pela necessidade de se perpetuar tal refle-
ressante é o fato de os casos serem relatados exa- xão, de modo a transformá-la em ação efetiva de
tamente como foram descritos. intervenção junto à equivocada relação entre or-
No decorrer dessas descrições, tem-se a ganização e trabalhador, no que se entende como
percepção de que as intenções e promessas o modelo tradicional de gestão.
concernentes à política de pessoal estabelecem Em síntese, a presente obra consegue al-
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uma relação de perversidade, pois tais intenções cançar o objetivo a que se propôs: desvelar o
e promessas se efetivam nas vivências cotidia- “feitiço” que os sistemas imaginários erigidos
nas. Essa perversão é demonstrada na apresen- pelas organizações, por meio das Políticas de
tação das falas dos sujeitos, na medida em que Recursos Humanos, praticam nos seus corredo-
eles relatam a desapropriação de suas vidas pes- res e destacar a necessidade de se resgatar a pri-
soais e demonstram como são explorados para mazia do reconhecimento em prol do humano,
muito além de sua força de trabalho, sendo atin- nessa relação.
gidos, em termos afetivos, até em sua agenda

Bruno Stramandinoli Moreno - Mestre em Ciências da Motricidade pela Unesp. Especialista em Psicologia
Organizacional e do Trabalho pela UEL. Psicólogo pela UEL. Professor Assistente II da Faculdade Integrado
de Campo Mourão para cursos de graduação e pós-graduação. bstram@gmail.com

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