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Resenhas

leira. As teses e dissertações enfocam o influência da mídia escrita e televisiva cias dessa publicação foram enormes.
aluno, jovem trabalhador, seu ingresso no sobre a adolescência e, por último, a Com base nas formulações de
ensino superior noturno, a expansão da nova presença dos grupos juvenis e seu Saussure, desenvolveu-se uma escola
oferta, a evasão nos cursos, as trajetórias papel atuante e mobilizador do ponto de pensamento, o chamado estrutura-
escolares e as escolhas profissionais do de vista cultural. lismo, que se estendeu para fora da lin-
estudante. Carrano expõe, na apreensão De fato, como o título da publica- güística e conquistou adeptos na antro-
dos trabalhos, a hipertrofia da categoria ção expressa, o estado de conhecimen- pologia, na psicanálise, na psicologia e
juventude, quando muito apreendendo o to realiza uma fecunda investigação so- na filosofia. Desses primórdios até os
jovem a uma provisória identidade estu- bre a juventude e sua interface com os dias de hoje, a lingüística sofreu inú-
dantil. Os trabalhos privilegiam, em sua processos de escolarização. O amplo meras reformulações epistemológicas,
maioria, o estudo das situações presentes mapeamento dos estudos permite pen- ramificou-se em diversas escolas teóri-
num quadro de democratização da uni- sar projetivamente e abre novas possi- cas e metodológicas, até se tornar a
versidade, enfatizando o estudante das bilidades para a compreensão da ma- ciência humana com a maior vocação
camadas populares e camadas médias neira pela qual os indivíduos constroem para a interdisciplinaridade – o que se
emergentes. sua socialização, como os atores se so- verifica nos próprios nomes das novas
Tomando como foco o Estatuto cializam e se constituem como sujeitos, áreas de investigação, surgidas dentro
da Criança e do Adolescente (ECA), em função das experiências vividas, am- do campo maior da lingüística: socio-
nos anos de 1990, e os trabalhos volta- pliando o sentido do educativo. Essa lingüística, psicolingüística, pragmáti-
dos para o exame dos jovens outsiders, obra, em síntese, constitui-se em fonte ca lingüística, lingüística cognitiva, an-
ou seja, aqueles que vivem em extrema de pesquisa e reflexão por parte dos tropologia lingüística, sociologia da
condição de pobreza e acirrados pro- educadores e pesquisadores interessa- linguagem, lingüística computacional
cessos de exclusão, Ana Paula de Oli- dos em desenvolver estudos no campo etc. Na psicanálise, o estruturalismo se
veira Corti (mestranda da UFSCar) da juventude e sua relação com a esco- firmou com a escola fundada por
produz o artigo “Adolescentes em pro- larização. Jacques Lacan (1901-1981), que tirou
cesso de exclusão social”. Segundo a proveito de forma original e criativa
autora, o interesse dos pesquisadores Denise Cordeiro Terra dos postulados saussurianos.
que desenvolveram teses e dissertações Professora da Faculdade de For- Com isso, a abordagem dos fenô-
passam a centrar-se, então, na faixa mação de Professores da UERJ e dou- menos da linguagem humana ganhou
etária anterior à maioridade, conforme toranda do Programa de Pós-Graduação status de atividade científica e se liber-
marca o recorte legislativo, o que traz em Educação da UFF tou das amarras normativo-prescritivas
como novo vocabulário político impostas pela milenar doutrina grama-
identificador as denominações “meni- tical tradicional, fundada no mundo
nos e meninas de rua” e cria outras la- Antonio Carlos Xavier e Suzana Cortez grego no século III a.C. e que consti-
cunas na produção do conhecimento. (orgs.). Conversas com lingüistas: tuiu, durante dois milênios e meio, o
Em “Jovens e participação políti- virtudes e controvérsias da lingüísti- único corpo conceitual disponível para
ca”, Paulo César Rodrigues Carrano ca. São Paulo: Parábola Editorial, o estudo das línguas. Refletindo a orga-
(UFF) analisa as teses e dissertações 2003, 200p. nização social do período histórico em
agrupadas na categoria participação que foi elaborada, a gramática tradicio-
política do jovem estudante e da socia- nal é essencialmente aristocrática: des-
lização política e cidadania. Destaca- A pluralidade viva preza a língua falada (considerada “caó-
se, nesse campo, a maior tradição dos da lingüística brasileira tica” e “corrupta”) e se concentra
estudos sociológicos sobre juventude, exclusivamente na língua escrita dos
voltados para os processos de mobili- A lingüística é um campo de in- grandes autores do passado, canoniza-
zação social e ação política dos jovens. vestigação que se firmou como ciência dos como “modelos a imitar”. Tudo o
Por último, Marília Pontes autônoma no início do século XX, e que foge desse uso restrito e
Sposito (USP) e Ana Paula de Oliveira sua “certidão de nascimento” é o livro minoritário da linguagem é lançado na
Corti (mestranda da UFSCar) dão rele- Curso de lingüística geral, publicado lata de lixo do “erro”; se uma dada pala-
vo aos “Temas emergentes”, dando voz em 1916, compilação póstuma dos en- vra ou construção sintática não aparece
aos poucos estudos sobre a juventude e sinamentos do suíço Ferdinand de na obra dos “clássicos” é porque está
sua relação com a violência escolar; a Saussure (1857-1913). As conseqüên- “errada” ou simplesmente “não existe”.

Revista Brasileira de Educação 197


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Apesar da revolução epistemoló- língua, variação lingüística etc. No pri- governado por um dispositivo
gica provocada pelo surgimento da lin- meiro caso, a ciência de ponta. No se- sociocognitivo”, “complexa realidade
güística moderna, o peso da tradição gundo, um obscurantismo dogmático. semiótica”, “condensação de todas as
gramatical é muito grande e até hoje a Quem sabe a publicação do livro experiências históricas de uma dada
visão que predomina acerca da língua, Conversas com lingüistas ajude a dissi- comunidade”, “produto de um trabalho
no senso comum, é aquela que divide par ao menos um pouco dessa névoa social e histórico”, “capacidade biológi-
as manifestações lingüísticas em “cer- obscurantista que, infelizmente, ainda ca, inata à espécie humana”, “domínio
tas” e “erradas”, atrelando-as, quase envolve a sociedade brasileira no que público de construção simbólica e
sempre, a juízos de valor moral ou, diz respeito aos fatos de língua. Os de- interativa do mundo”, “fenômeno so-
pior, às próprias capacidades poimentos ali recolhidos oferecem um cial por excelência, vinculado a um ter-
cognitivas dos falantes das formas con- panorama muito atual da diversidade e ritório e a uma população”, entre ou-
sideradas “erradas”. Quem não conse- da dinamicidade da ciência lingüística tras. Cada uma delas sintetiza o
gue falar o português “certo” é “igno- no país. Os 18 lingüistas entrevistados conjunto de filiações teóricas e de posi-
rante”, “atrasado”, “primitivo”, e já se filiam às mais diferentes áreas espe- ções filosóficas de cada entrevistado.
houve mesmo um gramático brasileiro cíficas de atuação (fonética e fonologia, Vale observar que a multiplicida-
que atribuiu o suposto problema ao análise do discurso, semântica, sintaxe, de de filiações teóricas não correspon-
“psiquismo inferior” das classes so- sociolingüística, lingüística aplicada de a uma multiplicidade de filiações
ciais desprestigiadas. etc.) e também a distintas escolas teóri- institucionais. Os 18 entrevistados se
Com matizes mais ou menos cas (formalistas, funcionalistas, distribuem num total de apenas seis
acentuados, essa visão pré-científica da sociocognitivistas). Os organizadores da universidades, sendo que metade dos
linguagem é veiculada regularmente obra, Antônio Carlos Xavier e Suzana lingüistas têm vínculos com a
nos meios de comunicação de massa, Cortez, procuraram entrevistar profes- UNICAMP. As outras universidades
sobretudo na imprensa escrita. Ao con- sores-pesquisadores com mais de 20 são a USP (2), a UFPR (2), a UFPE
trário do que acontece na abordagem anos de atuação na área. (2), a UFRJ (1) e a UFJF (1). Se é ver-
de outros fenômenos, em que se recor- Todos os entrevistados responde- dade que a UNICAMP representa hoje,
re à explicação e à opinião de especia- ram as mesmas dez perguntas: Que é no Brasil, o pólo mais ativo da pesqui-
listas, quando o assunto é língua o jor- língua? Qual a relação entre língua, sa lingüística, causa estranheza a au-
nalista se julga dispensado dessa linguagem e sociedade? Há vínculos sência de nomes importantes vincula-
consulta e profere seu próprio julga- necessários entre língua, pensamento e dos a outras instituições – como a
mento acerca do fato abordado. Quan- cultura? A linguagem tem sujeito? Que UNESP, a PUC, a UFRGS, a UFMG, a
do muito, escora seus veredictos na ve- é lingüística? A lingüística é ciência? UFBA, a UnB, entre outras –, onde
lha doutrina gramatical tradicional. Para que serve a lingüística? A lingüís- também se têm desenvolvido uma lin-
De tudo isso surge uma situação tica tem algum compromisso necessá- güística teórica e aplicada de alta quali-
paradoxal: ao lado de uma ciência lin- rio com a educação? Como a lingüísti- dade. Essas ausências podem ser
güística extremamente dinâmica e em ca se insere na pós-modernidade? explicadas pelas vicissitudes inerentes
constante renovação de seus aparatos Quais os desafios para a lingüística no à organização de uma obra coletiva
teóricos e metodológicos (uma ciência século XXI? como essa. De todo modo, esperemos
que tem no Brasil centros de investiga- As diferenças (às vezes radicais) que elas sejam compensadas, no futu-
ção de excelência reconhecida interna- entre as respostas dadas mostra a plu- ro, com a publicação de outros volu-
cionalmente), temos uma ideologia lin- ralidade de pontos de vista, a saudável mes que venham a dar seqüência a essa
güística arcaica, impregnada de multiplicidade de recortes epistemoló- oportuna iniciativa.
superstições e, sobretudo, entranhada- gicos existentes dentro dessa área de
mente preconceituosa. Basta comparar conhecimento. Um claro exemplo está
o que se estampa nos jornais e revistas nas respostas à primeira pergunta: O Marcos Bagno
acerca de física, química, biologia, psi- que é língua? Aparecem definições de Universidade de Brasília,
cologia etc. com o que ali aparece pu- língua como “atividade trabalho”, Instituto de Letras
blicado a respeito de língua, ensino de “meio de comunicação”, “multissistema E-mail : mbagno@terra.com.br

198 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24