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A ADMOESTAÇÃO BÍBLICO-DIRETIVA COMO TAREFA MISSIONAL: UM ENFOQUE A

PARTIR DE JAY ADAMS


BIBLICAL-DIRECTIVE ADMONITION AS MISSIONAL TASK: A APPROACH FROM JAY
ADAMS

Saimon Vargas Saldanha1

RESUMO

O objetivo do presente artigo é abordar a prática do aconselhamento cristão


bíblico-diretivo enquanto tarefa essencial da missão da Igreja. A partir do conceito de
Aconselhamento Noutético, cunhado por Jay Edward Adams, busca-se discutir, após um
breve histórico biográfico-ministerial do autor, a base conceitual e o legado de Adams para
o aconselhamento no âmbito eclesiástico. Pretende-se ainda refletir sobre a abordagem
diretiva no aconselhamento mútuo entre os cristãos como uma necessidade missional
esquecida pela igreja contemporânea.

Palavras-chave: Teologia. Missão da Igreja. Aconselhamento Bíblico.

ABSTRACT

The objective of this article is to address the practice of biblical-directive Christian


counseling as an essential task of the Church's mission. From the concept of Nouthetic
Counseling, coined by Jay Edward Adams, we seek to discuss, after a brief biographical-
ministerial history of the author, the conceptual basis and Adams' legacy for ecclesiastical
counseling. It is also intended to reflect on the directive approach in mutual counseling
among Christians as a missionary need forgotten by the contemporary church.

Keywords: Theology. Church’s Mission. Biblical Counseling.

1
Mestrando em Teologia (FABAPAR) e Bacharel em Música (UFRGS). Email: svskeyboard@hotmail.com
INTRODUÇÃO

Muito se tem debatido ao longo das eras a respeito do papel da Igreja enquanto
corpo de Cristo. A preocupação geral de teólogos, clérigos e leigos em torno do equilíbrio
das atuações dos cristãos nas práticas eclesiásticas se faz notada na vasta literatura que
tem sido produzida sobre missão da Igreja e seus temas correlatos, especialmente no
último século. Juntamente com o caráter devocional e a prática de adoração a Deus, a
comunhão e a edificação dos santos tem sido tratados como alguns dos pontos focais
essenciais em relação à “razão de existir” da Igreja, em um aspecto interno. Já ao tratar-
se da atuação da igreja no mundo, tanto em suas ações evangelísticas quanto nas
atuações no âmbito social, as ramificações de pensamento nas diversas possibilidades de
ação tornam-se ainda mais abrangentes. Nos mandatos bíblicos relacionados ao
discipulado e à missão da Igreja enquanto corpo que se mantém através da atuação do
Espírito Santo, trabalhando tanto individual e internamento quanto mutuamente, através
dos vários mandamentos “uns aos outros”, vê-se como uma importante função da Igreja
em sua ação no mundo a prática da admoestação e do aconselhamento mútuo.
A prática do aconselhamento sempre foi comum em diversas formas de
constituições sociais e culturais, sendo um fenômeno praticamente universal, quer
baseado em paradigmas filosóficos ou religiosos, quer baseado em metodologias ligadas
a diversas formas de ciência ou mesmo às práticas e experiências da vida comum. Seja
qual for a base de pensamento por trás do interesse de auxílio mútuo, a busca pelo
equilíbrio e por uma vida integralmente conectada com o “eu” e com a realidade das
relações sociais parece fazer parte da própria constituição da alma humana. Nessa busca
intelectual e espiritiva, as percepções advindas das diferentes cosmovisões geraram ao
longo da história diversas formas de tratar a questão.
O século 20 trouxe ao alcance do homem moderno as mais diversas – e até
mesmo divergentes – formas de tratamento das questões da alma – a psyque grega. Com
o avanço das pesquisas nas áreas científicas, diversas escolas de pensamento buscaram
fundamentar o estudo da alma humana, tentando tornar a psicologia, através do
“processamento da observação e do experimento”, uma “ciência do homem por
excelência”.2
É nesse contexto de choque de cosmovisões que o autor americano Jay Edward

2
OUWENEEL, 2014, p. 8.
Adams se posiciona de forma absoluta em relação ao que, em sua visão, deveria de ser o
cerne do pensamento cristão no aconselhamento: o aconselhamento bíblico-diretivo,
centrado na pessoa de Cristo e na revelação bíblica da vontade de Deus para o ser
humano.3 O autor cunhou então o conceito de Aconselhamento Noutético ao publicar sua
primeira obra sobre o assunto, “Conselheiro Capaz”, em 1970.
Diante das inúmeras teorias psicológicas e metodologias que interagem e disputam
entre si na intenção de embasar as práticas de psicoterapia e aconselhamento no âmbito
cristão ainda hoje – inclusive no meio acadêmico teológico –, faz-se necessário um olhar
atento na problematização trazida e sistematizada por Jay Adams em torno da
admoestação bíblica como padrão basilar ao aconselhamento cristão enquanto parte
essencial da missão da Igreja.
Embora o conceito tenha Adams como seu precursor – trabalhando e
desenvolvendo essa perspectiva desde o final da década de 1960 –, o presente artigo
objetiva partir da visão de Adams e proporcionar um diálogo de inter-relações
bibliográficas com outros autores, impulsionando assim uma discussão com
considerações críticas pessoais, também baseada nas conexões autorais. Busca-se,
então, tratar do assunto como uma necessidade da igreja como tarefa missional no
cuidado de uns para com os outros como membros de um mesmo corpo eclesiástico.

1 – A MISSÃO DA IGREJA E SUAS DIMENSÕES

Em sua conhecida obra “A Missão do Povo de Deus: uma teologia bíblica da


missão da igreja”, Christopher Wrigth aborda a missão da Igreja a partir de várias ênfases
de atuação. Ao longo de 15 capítulos, o autor declara seu entendimento a respeito da
construção de uma imagem ampla do “motivo de ser Igreja”, segundo as Escrituras. Sua
visão de uma Igreja com atuação holística na existência humana, conectada ao divino
plano cósmico e às revelações mandatárias de Deus para Seu povo ao longo de todo o
texto bíblico mostra como é possível ser Igreja e se entender como Igreja a partir de
diversos focos de atuação. Nisso, aponta possíveis respostas para a pergunta “quem
somos e para estamos aqui?”.4

3
ADAMS, 1977, p. 55.
4
WRIGTH, 2012, p. 21-23.
Entre as ênfases que Wrigth traz, nota-se uma relação constante entre o cristão e
Deus, o cristão e sua consciência identitária como membro do Reino e participante da
missão de Deus, o cristão e o mundo/as nações e o cristão enquanto pessoas que
apresentam um estilo de vida redentor em sua ação na igreja e na comunidade. 5 Em meio
a outros temas, o autor destaca o caráter de urgência da “recuperação da confiança no
Evangelho” em meio a um Cristianismo cada vez mais secularizado. A consciência da
verdade do Evangelho, de sua unicidade e de seu poder é o que mostra e afirma a real
relevância dessa mensagem ao ser humano, trazendo sentido à sua história e unindo sua
existência a essa nova criação que surge redimida pela obra de Deus e se expande em
Sua missão através de Seu povo.
Embora de maneira menos abrangente, Darrel Robinson comenta a respeito do
papel da Igreja em sua missão no mundo a partir de eixos complementares. Para isso,
traz como essenciais três aspectos da “razão de ser” da Igreja: (1) a atuação relacionada
com Deus, enfatizada na vida eclesial de louvor e adoração; (2) a atuação relacionada
aos irmãos cristãos, com ênfase na edificação mútua e no “equipar dos santos”; e (3) a
ação para com o mundo, focando na atuação da igreja em seus focos missionais. 6
Comentando o foco tríplice de Robinson, o missiólogo Ted Ward, da Trinity Evangelical
Divinity School aponta: “Creio, de fato, que essas são as três questões principais. […]
Elas são inseparáveis, e mesmo que o ministério se concentre numa delas, que se
mantenham justas todas as três.”7
No décimo segundo capítulo da 1ª Epístola aos Coríntios, o apóstolo Paulo
expressa a diversidade de dons e ministérios como um mecanismo divino para manter e
edificar o corpo de Cristo: “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há
diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações,
mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.” 8 Como explica Padilla, os dons e
ministérios são meios do Espírito de Deus para capacitar a Igreja na gestão de mudanças
que reflitam e cumpram os propósitos de Deus para a vida humana e para Sua criação. 9
Toda a igreja, então, passa a ser envolvida, de uma forma ou de outra, na propagação do
Reino de Deus em todas as suas possíveis dimensões de atuação missional,
evidenciando assim o sacerdócio universal dos santos e a necessidade de identificação
5
WRIGTH, 2012, p. 11.
6
ROBINSON, 2011, p. 26.
7
WARD apud ROBINSON, 2011, p. 26.
8
1Cor 12.4-6, ARC.
9
PADILLA, 2011, p. 63.
com os caminhos de Cristo enquanto servo que atua de acordo com os planos divinos
para com Sua criação e Seus filhos.

2 – O ACONSELHAMENTO E A MISSÃO DA IGREJA

A natureza comunitária da igreja está na essência da própria missão evangélica.


Justo Gonzales aponta para o fato de que as relações interpessoais dos cristãos como
formativas de um único corpo podem ser notadas até mesmo na nossa relação com Deus
em oração. Ao ensinar os discípulos a orar, Jesus mostra nitidamente o caráter coletivo
como no uso de “Pai nosso”, “venha a nós”, “o pão nosso”, “as nossas dívidas”, etc10 –
relação essa muitas vezes desfocada no evangelicalismo atual, devido à ênfase das
mensagens na relação pessoal do ser humano com Deus. À medida que os membros do
Corpo de Cristo interagem uns com os outros, ministrando e falando a verdade em amor,
a Igreja é edificada. A comunidade cristã torna-se então responsável pelo crescimento
coletivo da membresia “para a plenitude da estatura de Cristo”. Em um ideal eclesiástico
de um Corpo saudável, “é esperado que os crentes se aconselhem mutuamente”. 11
Durante muito tempo, o ministério do aconselhamento bíblico era tratado como
opcional na Igreja. O processo de discipulado, essencial à própria formação constitutiva
do corpo de Cristo enquanto comunidade, não tratava adequadamente os cristãos em seu
caminhar na fé, com todas as implicações e demandas que isso traz. O aspecto da
missão da Igreja voltado para a restauração, o consolo, a admoestação e o
encorajamento baseado na Palavra não recebia a devida importância. Perdia-se a
dimensão dessa relação de responsabilidade uns com os outros como ensinada por Paulo
na primeira carta aos Tessalonicenses: “Rogamo-vos também, irmãos, que admoesteis os
desordeiros, consoleis os de pouco ânimo, sustenteis os fracos e sejais pacientes para
com todos.”12 Na epístola aos Romanos, Paulo também relembra os crentes de Roma da
responsabilidade mútua nos processos de edificação pessoal e coletiva: “Eu próprio,
meus irmãos, certo estou, a respeito de vós, que vós mesmos estais cheios de bondade,
cheios de todo o conhecimento, podendo admoestar-vos uns aos outros.” 13
Na segunda metade do século 20, meio a essa visão parcial nas relações

10
GONZALES apud PADILLA, 2011, p. 96.
11
MACARTHUR, 2004, p. 350.
12
1Tes 5.14, ARC.
13
Rom 15.14, ARC.
eclesiásticas, a Igreja lidava com problemas cada vez mais agravados nas relações de
discipulado e aconselhamento. A psicologia moderna vindicava para si todo e qualquer
conselho no sentido de tratamento e tentativa de restauração da alma humana quanto às
suas questões mais íntimas e perturbadoras. O aconselhamento no âmbito eclesiástico,
tanto na mutualidade entre leigos quanto na abordagem bíblico-diretiva advinda dos
gabinetes pastorais, perdia cada vez mais sua importância e era visto com olhos de
desapreciação. Nesse contexto, surge a figura de Jay Adams como pioneira no
renascimento do aconselhamento bíblico-diretivo na Igreja moderna.

3 – JAY ADAMS E O ACONSELHAMENTO– BREVE HISTÓRICO BIOGRÁFICO-


MINISTERIAL

Jay Edward Adams nasceu em 30 de janeiro de 1929. Nascido e criado em


Baltimore, Maryland/EUA, Adams foi o único filho de um policial e uma secretária. Durante
o ensino médio, Jay Adams é convertido ao Evangelho. A partir daí, obtém os títulos de
Bacharel em Divindades (Reformed Episcopal Seminary – Filadélfia, EUA) e de Bacharel
em Ciências Socais em Clássicos (Johns Hopkins University – Baltimore, EUA). Após
atuar como diretor da Mocidade para Cristo, nos anos 50, o autor foi ordenado ao
ministério pastoral e pastoreou diversas congregações presbiterianos durante 13 anos.
Seguindo sua instrução acadêmica, com ênfase em Bíblia, teologia, grego e pregação,
Adams obteve mestrado em Teologia Sagrada (Temple University – Filadélfia, EUA) e
doutorado em Oratória (University of Missouri – EUA). 14
Por volta da metade do século 20, a relevância da Bíblia na prática do
aconselhamento pastoral estava sendo seriamente questionada. As principais lideranças
protestantes que levantavam-se como vozes de influência na época passaram a propagar
a importância de uma busca pelo chamado “cuidado pastoral clínico”, unindo
pressupostos teológicos advindos da teologia liberal com fundamentos epistemológicos
baseados em linhas humanistas da psicologia. 15 Nesse contexto, Jay Adams percebe a
necessidade de um retorno às bases bíblicas no direcionamento pastoral na prática do
aconselhamento. Adams então estuda intensivamente temas como “consciência, culpa,

14
MACARTHUR; MACK, 2014, p. 71.
15
LAMBERT; SCOTT, 2017, p. 16.
antropologia e mudança”, “estudando pessoas, estudando livros de aconselhamento,
estudando a Bíblia”, e consolida seu pensamento em um sistema, por volta de 1967. 16
Em 1970, Jay Adams lança seu primeiro livro, “O Conselheiro Capaz”, atacando a
proeminência da psicologia e da psiquiatra pagãs e de seus fundamentos epistemológicos
humanistas e antibíblicos como base para o aconselhamento cristão. David Powlison
relata que nessa época, onde aconselhamento pastoral se tornava uma prática cada vez
mais desencorajada no meio religioso, devido ao aumento das práticas psicoterápicas
profissionais na segunda metade do século 20, o livro de Jay Adams “foi igual a uma
bomba no mundo cristão conservador”.17
Entre 1968 e 1976, Adams empenhou-se por institucionalizar seus intentos
sistemáticos sobre aconselhamento cristão através do CCEF (1968) – Chistian
Counseling and Educational Foundation [Fundação Cristã de Aconselhamento e
educação] e da NANC (1976) – National Association of Nouthetic Counselors [Associação
Nacional de Conselheiros Noutéticos]. A partir daí, a obra e as instituições de Adams
passaram a influenciar ministérios tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, formando
centros de treinamentos para conselheiros com base nas premissas bíblicas do
Aconselhamento Noutético.18 No Brasil, tem-se a ABCB, Associação Brasileira de
Conselheiros Bíblicos, que atua baseada na visão de suficiência da Bíblia no
aconselhamento cristão, segundo o sistema de Adams e dos desenvolvimentos
19
posteriores feitos por seus seguidores.
Entre as principais obras do autor, temos “O conselheiro capaz” (1970) – livro base,
onde os conceitos basilares do sistema são apresentados –; “Manual do conselheiro
cristão” (1986) – obra com caráter mais prático, voltada para orientar conselheiros bíblicos
de maneira metodológica –; e “Teologia do aconselhamento cristão” (1986) – obra onde
Adams apresenta uma espécie de teologia sistemática do aconselhamento, tratando do
assunto a partir das categorias doutrinárias comuns às teologias sistemáticas (doutrinas
das Escrituras, de Deus, do homem, da salvação, da santificação, da igreja e das coisas
futuras). Assim, o autor, em menos de duas décadas, conseguiu criar um modelo de
aconselhamento fundamentado nas Escrituras, sistematizado a partir de uma metologia
com pressupostos epistemológicos baseados em um sistema teológico, e articulado de

16
POWLISON, 2004, p. 72.
17
POWLISON, 2004, p. 73.
18
POWLISON, 2004, p. 76.
19
Disponível em <http://abcb.org.br/>. Acesso em 14/03/2018.
maneira que conseguiu atingir efetivamente a prática eclesiástica e influenciar o
renascimento do aconselhamento bíblico como parte da missão da Igreja nos processos
de tratamento da membresia e discipulado.

4 – ACONSELHAMENTO NOUTÉTICO – ENTENDENDO O CUIDADO MÚTUO COMO


MISSÃO DA IGREJA

A palavra grega noutheteo, forma verbal do termo grego clássico nouthétesis, traz
um significado amplo. Segundo Adams, “o termo contém mais de um elemento
fundamental. Esta é uma das razões da dificuldade para traduzi-lo. As traduções
tradicionais vacilam entre as palavras ‘admoestar’, ‘exortar’ e ‘ensinar’”. Através do
conceito bíblico de confrontação noutética – presente no Novo Testamento,
principalmente nas cartas do apóstolo Paulo –, ocorreu uma redescoberta do
aconselhamento bíblico.20
Adams enxergou a possibilidade de um aconselhamento cristão autenticamente
bíblico somente se suas bases estiverem totalmente dependentes do Espírito Santo,
visando aplicar a palavra de Deus à vida das pessoas. O encorajamento e o senso de
capacitação através das promessas bíblicas, o norteamento convicto e diretivo advindo
dos mandamentos bíblico-cristãos e as aplicações práticas das histórias vetero e
neotestamentárias foram apresentados por Adams como fontes de mudanças na psyche
humana e ferramentas efetivas no tratamento cristão dos problemas da alma.
Para Adams,
Jesus Cristo está no centro de todo genuíno aconselhamento cristão. Qualquer
forma de aconselhamento que remova a Cristo dessa posição de centralidade
deixa de ser cristã na proporção em o que o faça. Obtemos conhecimento de
Cristo e de Sua vontade em Sua Palavra (ADAMS, 1977, p. 55).

Dentro do sistema pensado por Adams, evidencia-se os conceitos de santificação


progressiva e aconselhamento mútuo como o cerne do aconselhamento bíblico. Os
mandamentos bíblicos baseados no “uns aos outros” são retomados e tratados como
mecanismos divinos para tratar dos problemas relacionados à alma humana e ao
tratamento saudável do corpus cristão enquanto povo formado moral e conceitualmente
sobre bases bíblicas. Para isso, a inerrância e infalibilidade das Escrituras são trazidas

20
ADAMS, 1977, p. 57.
como princípios hermenêuticos fundamentais. No sistema de Adams, a admissão da
Bíblia como palavra e conselho de Deus ao ser humano é o pressuposto primeiro no
tratamento das questões de alma, sejam elas abordadas diretamente nas Escrituras ou
mesmo indiretamente. Por esse viés interpretativo, entende-se que os problemas do ser
humano não podem ser tratados em sua integralidade se suas possíveis raízes teológicas
forem negadas.

Os efeitos da Queda e da pecaminosidade humana são notados em todas as


dimensões de relação do ser humano. Há uma ruptura que desconecta o homem de
Deus, de si mesmo, do outro e do cosmos, da esfera social. Nisso, pela via do
egocentrismo e da autogestão conforme herdada na natureza pecaminosa, o ser humano
tende a buscar a resolução de suas crises internas em si mesmo ou nas subjetividades de
sistemas psicológicos humanistas que valorizam o “eu” como princípio primordial da
autogestão. O conselheiro cristão que busca um fundamento objetivo nas Escrituras
bíblicas tem que lidar com essas questões. Muitas vezes, é preciso “lutar contra a noção
de direcionamento pessoal”21 que a relação entre conselheiro e aconselhado geralmente
tendencia, baseada na influência das psicologias seculares e de teologias com
abordagens sincréticas. Mesmo assim, o sistema derivado do pensamento de Adams não
nega que há muito o que aprender com a ciência ou com os esforços seculares em ajudar
as pessoas.22 Admite-se assim que “as observações da psicologia secular podem, muitas
vezes, preencher lacunas em todos os tipos de questões”, porém de forma a levar o
conselheiro a refletir nelas a partir de uma base bíblica de pensamento. 23

A partir do pensamento de Adams, outros autores passaram a desenvolver e adotar


uma postura ideológica que buscasse uma suficiência da imagem bíblica que o
cristianismo apresenta do homem para embasar o tratamento psicológico na boa
manutenção do corpo de Cristo enquanto parte da missão da Igreja. John MacArthur
mostra que as instruções bíblicas a respeito do aconselhamento mútuo “aplicam-se ao
povo da Igreja – não somente a uma casta sacerdotal de especialistas”. Argumenta que o
aconselhamento no âmbito religioso-cristão “é um dever necessário da vida cristã e da
comunhão” e também “se constitui no resultado esperado da verdadeira maturidade
espiritual”.24 Conhecido entre os conselheiros bíblicos americanos que trabalham com
21
ADAMS, 2016, p. 44.
22
ADAMS, 1977. p. xxi.
23
LAMBERT; SCOTT, 2017, p. 21.
24
MACARTHUR, 2004, p.21.
ênfase no Aconselhamento Noutético, o Dr. John D. Street trata os esquemas
epistemológicos baseados em cosmovisões não-cristãs com desconfiança:

Os cristãos estão plenamente autorizados a olhar com desconfiança a psicologia e


suas teorias, já que na elaboração de suas teorias têm explicitamente negado a
veracidade da Bíblia como também têm tomado a liberdade de rejeitar a
autoridade que as Escrituras têm em matéria da alma humana (STREET, 2005, p.
307-308).

Já o biólogo, teólogo e filósofo holandês Willem Ouweneel, de uma forma um pouco


mais branda que Adams, trata da questão com uma abertura um pouco maior para o
diálogo com a Psicologia no âmbito do cuidado cristão. Ouweneel propõe não um
abandono ou uma relação de total desconfiança, mas sim uma “conversão da Psicologia à
Escritura”, argumentando que “seu edifício deve ser desmontado [...] e reerguido sobre
novos alicerces”.25 Diferente dos seguidores de Adams, Ouweneel sugere uma linha que
considere os aspectos positivos da “psicologia secular”, lidando com seus sistemas de
maneira menos cética. Isso, de certa forma, traz um contraponto entre as ideias de Adams
e as de seus críticos integracionistas. Esses, como o Dr. Gary Collins, lançam suspeita de
seus escritos e de seu sistema, tanto com acusações de interpretações forçadas da
Bíblia, submetidas ao sistema noutético, quanto por sua abordagem bíblico-diretiva.
Segundo Collins, o papel do conselheiro cristão não é “pregar no gabinete de
aconselhamento”.26 Nega-se assim a importância da diretividade bíblica na prática do
cuidado pastoral e nas relações “uns aos outros”, entendendo que as abordagens
“centradas no outro” são mais adequadas ao se tratar dos problemas internos das
pessoas, respeitando de maneira tolerante e empática suas subjetividades e percepções
pessoais.

Wayne A. Mack entende de modo diferente de Collins, semelhante a Adams, a


importância da diretividade na missão da Igreja de edificar, exortar e admoestar uns aos
outros. Para Mack, há uma evidente necessidade da persuasão no processo de levar as
pessoas aconselhadas da conversa à ação, da consciência da necessidade de mudança
ao estabelecimento diligente do compromisso. Mesmo assim, o autor não trata de
persuasão no sentido impositivo e sem empatia que os terapeutas integracionistas
apontam de modo acusatório. Segundo Mack, “no aconselhamento bíblico, o termo
persuasão significa motivar o aconselhado a tomar decisões bíblicas que conduzem à

25
OUWENEEL, 2014, p. 11-12.
26
COLLINS, 2000, p. 175.
mudança”.27 Não apontam-se valores e opiniões pessoais no direcionamento
admoestatório. Ao contrário, aponta-se para os princípios bíblicos de forma que gere
confronto e ative no aconselhado uma percepção real da situação e de si mesmo em
relação aos desígnios de Deus. Assim, traz-se uma mudança de direção a partir do senso
de compromisso que se assume para com os parâmetros divinamente revelados na Bíblia
para com a criação.

5 – DISCUSSÃO – EM DEFESA DA DIRETIVIDADE NO ACONSELHAMENTO

Os escritos do filósofo e teólogo francês Antonin Sertillanges, na primeira metade


do século passado, podem servir de ponto de partida para iniciar algumas elaborações
reflexivas em torno da diretividade no aconselhamento bíblico, como proposta por Adams
para a manutenção saudável do Corpo de Cristo. “O mundo está em perigo por falta de
máximas de vida. Estamos num trem propelido a toda velocidade, sem nenhuma
sinalização à vista, nenhum agulheiro. O planeta não sabe para onde está indo, sua lei o
largou. Quem vai lhe restituir o sol?”. 28 De fato, o problema da supervalorização das
subjetividades, uma das marcas do pensamento contemporâneo, não admite o uso de
guias estáticas e absolutas à existência. A ausência de “máximas da vida”, como aponta
Sertillanges, ou mesmo a não-aceitação das máximas existentes – as bíblicas, no caso –
como caminhos diretivos revelados e entendidos através de uma consciência da ordem
criacional e das verdades existenciais advindas do próprio Deus, tendenciam os
conselheiros a adotarem abordagens com enfoque não-diretivo, tanto por respeito às
individualidades, quanto por influência de teologias secularizadas. Estas, valorizam um
suposto “bem” existente no homem, assim como uma possível capacidade de
autoorganização psíquica que parte do pressuposto de que seus potenciais inatos são
suficientes para uma gestão satisfatória do “eu”.
Na maioria dos casos, esse pensamento mostra uma falta de consciência nas
questões concernentes a um maior entendimento da antropologia humana a partir da
cosmovisão cristã – questões essas tratadas quase que exaustivamente nas obras de Jay
Adams e dos autores que lapidaram seu pensamento nas últimas décadas. Quando os

27
MACK, 2004, p. 301.
28
SERTILLANGES, 2010, p. 29.
interesses pessoais baseados majoritariamente em sentimentos e subjetividades são
supravalorizados, a tendência natural de não optar pelos diretivos conselhos bíblicos
torna-se o caminho mais atraente. Nisso, esquece-se do conhecido conflito de conselhos
incutidos na raça humana, como aponta David Powlison: “O conselho que contradiz o
conselho de Deus existe desde o Jardim do Éden, desafiando o conselho de Deus criado
a partir de outras pressuposições e rumo a outros alvos”. 29 Enquanto o sistema noutético
de Jay Adams sugere um embasamento em estruturas divinamente direcionadas, as
escolas contemporâneas de psicologia trazem ao debate uma possível neutralidade no
estudo da psyche, tentando deixar o assunto longe das “subordinações religiosas” que a
cosmovisão cristã exige em sua plenitude de pensamento. O problema das
individualidades e subjetividades, como apresentado, é que as mesmas não permitem
subjugação alguma a padrões normativos, dificultando um entendimento sobre a geral
necessidade humana de viver de acordo com uma ordem relacional que parte do vertical,
do contato de Deus com a humanidade, conforme sugere Paulo em sua epístola ao
Colossences: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria,
ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos
espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.” 30 Paulo traz a palavra de
Cristo como princípio basilar na busca pela sabedoria que nutre as relações de ensino,
admoestação e os cânticos cristãos. Isso implica em uma lógica que leva,
necessariamente, a proposições diretivas.
Embora sendo vistas muitas vezes como invasivas às liberdades individuais, as
direcionalidades da terapia noutética com enfoque bíblico-diretivo partem da ideia de que
tais normas “não são imaginadas por nós, mas sim estabelecidas por Deus ao ordenar a
criação. Não se trata de um conselheiro definindo caminhos direcionados por escolas
psicológicas de pensamento ou pelo próprio entendimento que pode vir a ter de cada
caso. Trata-se sim de um cristão conselheiro que ouve, entende e aponta para as
direções que a Bíblia apresenta e para as realidades que a mesma desvela a respeito do
ser humano.
Como fruto de uma cultura em que os conceitos baseados no “self”, na
autoestima/autorrealização dominam o pensamento geral, é cabível o entendimento de
que as soluções geradas por abordagens que negam a diretividade no aconselhamento

29
POWLISON, 2004, p. 80.
30
Col 3.16, ARC.
são, de muitas formas, mais consistentes para com o pensamento dominante. Na
primeira, por buscar o antigo desejo humano de autogestão; na segunda, por trazer as
considerações do conselheiro em diálogo com as percepções do aconselhado – o que
pode resultar em um mero encontro de elaborações subjetivas que valorizam o
insubmisso senso humano de liberdade.

Nessa busca sem paradigmas para um norteamento eficaz, o aconselhamento


cristão com foco bíblico-diretivo, como proposto por Adams e seus “seguidores
noutéticos”, aparece como uma opção que tira do âmbito humano a elaboração de
conceitos e bases para servirem de pontos iniciais para caminhos metodológicos e utiliza
a Bíblia como “instrumento prático do qual o conselheiro deriva sua autoridade funcional e
final, sendo aceito como autoridade determinativa em antropologia”. 31 É o retorno do
humano ao divino em entrega e confiança quanto às suas reais potencialidades para
orientar a alma humana. É a volta da Igreja cristã à sua missão de comprometimento com
uma mutualidade geradora de restauração e cura na gestão do corpo de Cristo segundo
as proposições bíblicas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Enquanto os proponentes de abordagens não-diretivas apontam os


aconselhamentos bíblico-diretivos como tentativas de imposição, subjugação e opressão
psicológica causadora de dependências, um entendimento mais aprofundado da
diretividade bíblica faz-se necessário. É preciso entender o papel do cristão que se dispõe
a investir na vida de outra pessoa através da prática do aconselhamento bíblico como um
facilitador e auxiliador do aconselhando quanto à sua própria capacidade de tomar
decisões que partam de um entendimento pessoal dos caminhos apontados pela
diretividade bíblica. A dualidade criada pelo entendimento comum que se tem da tensão
entre diretivo e não-diretivo traz um mau entendimento do próprio conceito de liberdade
de escolha humana quanto às suas ações, que a própria Bíblia traz em seu cerne. Uma
abordagem prática dessas verdades traz consigo não um aconselhamento que dirija de
forma paternalista, mas que, embasado no conselho que a própria Bíblia traz enquanto
verdade que embasa a fé cristã, aponte o caminho bíblico.
31
STREET, 2005, p. 308
O Aconselhamento Noutético proposto por Adams aponta para a Bíblia como
autoridade máxima em termos de alma humana, vindicando assim, de forma objetiva e
conscientemente direcionada, a necessidade do aconselhamento baseado no conselho
divino exposto através das Escrituras. Cabe então ao aconselhando, a partir de seu
entendimento e de suas elaborações, trabalhar em torno dessas proposições. Como
aponta Ouweneel32, ao invés de se criar abordagens invasivas às liberdades individuais,
as direcionalidades da terapia com enfoque bíblico-diretivo partem da ideia de que tais
normas “não são imaginadas por nós, mas sim estabelecidas por Deus ao ordenar a
criação”, trazendo o entendimento de que “a verdadeira liberdade não consiste em
sermos independentes dessas normas, mas em vivermos em submissão a elas”.
A missão da Igreja perde em muito o seu caráter de integralidade e deixa uma
importante área de atuação nas mãos de terapeutas profissionais. Não negando a
validade da ajuda terapêutica em determinadas questões, se essa for articulada dentro de
um pensamento que parta de uma cosmovisão cristã, por vezes, isso não é o bastante.
Ao contrário, nega-se a comunhão e as possibilidades relacionais advindas dos dons
distribuídos por Deus para a manutenção da Igreja. Nisso, cristãos com sabedoria e
capacidade dadas por Deus para atuar em meio à comunidade fazendo uso disso em prol
da missão da Igreja, acabam sendo desacreditados, muitas vezes, pela necessidade que
se sente da segurança de um “conselheiro profissional” formado em psicologia. No caso,
perde-se a oportunidade de utilizar dádivas entregues por Deus aos cristãos para sua
atuação no cuidado uns com os outros, tornando inativos muitos possíveis ministérios que
serviriam a igreja em sua amplitude missional. Em outros casos, o contato que o membro
de uma igreja local tem com o “conselho de Deus” acaba se dando apenas através das
mensagens nas pregações semanais do pastor, ou ainda em uma ou duas conversas em
gabinete pastoral, muitas vezes de curta duração.
Urge a recuperação de uma identidade realmente bíblica do corpo de Cristo em
todos os seus aspectos de atuação na missão de Deus através da Igreja na Terra. Sem
isso, os próprios impulsos evangelísticos e missionários acabam sendo, a longo prazo,
inoperantes dentro de seu potencial de efetividade, pois busca-se por uma membresia
saudável espiritualmente e embasada na Palavra, mas não usa-se os mecanismos
divinamente indicados por Deus para que esse crescimento pleno aconteça. A missão da
Igreja é a missão de Deus para com toda a criação, incluindo a alma do próximo, que

32
OWENEEL, 2014, p. 63.
deve ser tratada com o mesmo comprometimento e cuidado que se busca ter na própria
relação pessoal com Deus.

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