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8D-'' çior*.{'B'íê' oo BneslI CoLo^-teL zo5 esffavidão

doenças fecais, tudo se alastrando pela perte. Revigorou-se no século XIV, e

superpopulação dos navios. Praticamente não sobretudo no XV, em grande parte devido à

havia médicos a bordo, apesar das disposições expansão ultramarina portuguesa , o que a fez

da Coroa para que cada navio da carreira da mudar de caráter e enuergadura. Na legislação
Índia, por exemplo,levasse um médico portuguesa, a escravidão perece ter sido
qualificado e um cirurgião com caixa de estimulada desde a autorização de resgate dos
remédios. Na prática, embarcava apenas um negros da Guiné", feita em carta do rei Afonso
modesto cirurgião-barbeiro, como numa frota \', em 1448, que concedra a dízima do
de I6 3 1, que transporteva três mil homens em comércio de escrauos ao infante D. Henrique, o
quâtro navios para a Índia. Na'egador, como governador das descobertas
Ainda no século XVI, ao contrário do que da Guiné, pelos bons serviços prestados a

alguns afirmam, os portugueses perceberem o Portugal. E, de fato, já se utilizava largamente a

valor antiescorbútico de frutas cítricas como escravidão africana no arquipélago da Madeira,


limões e laranjas, e tretaram de abastecer as precursor do Brasil na produção do açúcar, com
naus com tais frutas. Mas o quadro geral era base no resgate de escra'os na coste d'Áf.i.",
extremamente precário, combinando-se a falta sobrerudo os oriundos do Sudão e do golfb da
de assistência médica com o excesso de Guiné.
população nes naus, falta de higiene e de A Igreja apoiou a escravidão. Através da bula
alimentação. Verdadeiros "mercados negros" de papalDum diversas, de Í452, o papado
medicamentos funcionavam nas viagens mais concedeu aos portugueses o direito de atacar,
longas e há relatos dramáticos sobre disputas conquistar e submeter pagãos e sarrâcenos,
entre marujos por retos, que podiam alcançar tomando seus bens e reduzindo-os à escravidão
elevadas cotações nos navios. O escorbuto, perpétua. A bulaRorrl anus pontiÍex, de Í45 5,
doença dos mares, exemplifica, com cores ampliou o território de atuação dos
trágicas, a insalubridade da navegação naquela portugueses, incluindo Marrocos e as Índias.
época. (R\) Várias outras bulas ratificaram ou ampliaram os
poderes concedidos aos portugueses no sentido
r\D ReJerências Bibliográficas de converter homens à fé católica, escravizá-los
BOXER, Ch. O impírio colonial português (I969). e comercializâ-los.A fonte legal da escravidão
Trad. Lisboa, Edições 70, I98I; FRADA, l.]. L. moderna era o direito romano, mantido durante
.1 '.tda a bordo das nails na ípoca moderna. Lisboa, a Idade Média, que fazia distinção tênue entre
Cosmos, 1997; HOLANDA, S. B. de. Vkao ào escravidão e servidão. Tanto é que a palavra
iu'.rútr (1959). Ju ed. São Paulo, Cia. Editora latina servi designava tento os escravos como os
\acional, I977. cemponeses dependentes das relações feudais
e, mesmo.r" Épo." Moderna, escravidão e

servidão eram expressões intercambiáveis em


muitos textos. Mas a Igreja tendeu semPre a

'31 Escravidão apoiar a instituição, ainda que desaprovasse es

formas extremadas de apresamento e

Le'.-ravidão vigente no império romano não condicionasse o cetiveiro à cristianização.


Jrsapareceu no Ocidente durante a Idade No Brasil, o processo de colonização, iniciado
!íelu. perrnanecendo residualmente em toda nos anos I5)O, foi marcado pelo apresamentLì
escrayidão $D Drcro^'ÁRro Do C016r.rrar-

ea utilização de índios como mie-dg-6hx inadaptabilidade do índio à escravidão, o


então chamados de "negros da rerra" ou - problema parece rer derivado da repugnância
"negros brasis" assunto do lir-ro clássico de dos homens, sobretudo entre os tupis, em
-,
Alexander Marchant,D o escambt- à cscrartdão trabalhar nas lar.ouras, sendo estâ ume tarefa
(tO+z). A substituição da escravidão indígena feminina em sua cuhura. De todo modo, sabe-
pela africana, que preponderou desde o século se hoje que a diminuição da escravidão indígena
XVII em várias áreas agroexpnorradoras. foi e sua subsricuição pela africana no final do
explicada por diversos ângulos. Hisroriadores século X\l f-oiprocesso ocorrido no litoral. O
mais antigos, como Varnhagen e Capisrrano de avanço pera ointerior, sobretudo pera o norte,
Abreu, atribuíram à indolêncra indígena a o5ão implicou novas levas de escravização indígena
pelos africanos. Gilberro Frerre. fìor sue \-ez. ao longo do século XVII e parte do X\TII.
registrou a inapridão do índio para a vide As novas pesquisas ampliaram as percepções
sedentária da aqnculrura- Caio Prado fr- alegou sobre a complexidade da dinâmica interna da
que o rrabalho indígena seria pouco lucrarir-o. colônia no rocanre ao faror trabalho, mas
considerando a baixa resiscência física dos durante muiro tempo pouco esclareceram sobre
nativos e sua aversão ao trabalho agrícola. as condições que, no inrerior d^ Afrir^,
Celso Furrado, embora tenha desracado que permitiram o fbrnecimento de escrâvos durante
fora o índio cativo a mão-de-obra essencial na longo tempo e cusros relativamente baixos. No
montagem da economia açucareira entanto, pesquisas apoiadas na historiografia
quinhenrista, destacou a inexistência de norte-emericana rêm criticado a imagem de uma
reserves de população indígena que suprissem Afrir^passiva, vítima do colonialismo,
as necessidades de empresas rentáveis. Na apontando o papel-chave dos reinos africanos
década de I97o, Fernando Novais defendeu a na capture e revenda de escravos, no que
idéia de que a opção pelos africanos foi ampliavam práticas vigentes ,r" Áfri." muito
motivada pelo sisteme mercanrilista de tempo antes da expansão marítima européia.
colonização, especialmente pelos lucros Seja como for, a escravidão africana
proporcionados pelo tráfico atlântico, "alavanca preponderou em áreas mais ligadas à
fundamental da acumulação primitiva de agroexportação, como no caso do nordeste
capital", segundo o auror. Residiria, portanro, açucareiro desde o século XVII, e na mineração
nos interesses do tráfico a principal explicação do século XVIII, embora a escravidão indígena
pare a instauração da escravidão africana na tenha se mentido expressiva em outras áreas,
colônia. como no sudeste, até o século XVIII, e no
Diversas pesquisas demonstrerem, norte, até o XIX. Por ourro lado, há muitas
posteriormenre, que a escravidão indígena foi diferenças importanres quenro ao padrão
largamente utilizada e que foram vários os socioeconômico da escravidão colonial. É
fatores que levaram, em certos câsos, à opção clássico o contraste entre a escravidão da
pelos africanos. Nesses trabalhos, explica-se a lavoura nordestina e a da região mineratória das
escolha pela dificuldade cada vez maior de Gerais, como fez Celso Furtado (t 959), que
acesso aos índios, tanro pela diminuição de seu sugeriu haver mais concenrração da propriedade
número, provocada por guerres e doenças, escrave e rìgidez na primeira, em contraposição
quanto pela sua migração pera o interior, o que às pequenas escravarias eà maior mobilidade
dificultava o apresamenro. Quanro à social dos escravos na região mineradora
-
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EDi,FrqroxÁúô oo Bn.csrr- Cot-oNtnr 207 escravidão E


tese muito contesteda nas décâdas seguintes. da agriculrura escravista no século XVIII.
Por outro lado, outras gradações no padrão De todo modo. é consenso, entre os
das relações escravistas têm sido apontadas, esrudiosos. que a escravidão negre no Brasil era
inclusive nas áreas agrícolas: contrestes entre dependenre do rrálico africano, pois, se nas

a agromanufatura do açúcar, mais colônias meridionais inglesas da América do


concentradora de escravos, e a modesta Norre. por eremplo. a população escrava
escravaria das lauouras de tabaco ou algodão; âpresenrou crescimento endógeno, o mesmo
contrestes entre a escravidão rural e a urbana, não ocorreu na.\mérica Portuquesa. Como o

esta sim mais pulverizada; contrastes entre padrão demoqrátìco do trátìco afiicano variou
regiões conforme as conjunturas; ocorrência de pouco. sendo mais comum a enrrada de homens
uma lavoura de subsistência controlada pelos adultos do que de mulheres e crianças. o
escravos, inclusive com direito à venda de resulrado rettrcutiu na reproJução da

excedentes (a "brecha cemponesâ" do sistema escravaria. Sendo a escravidão transmitida pelo

escravista). Mas a maioria dos estudos sobre a ventre materno Partus squttur \'(ntrnn . era à

economia colonial está dedicada aos séculos quanridade de mulheres que determina'a a
XVIII e XIX. Quanto ao nordeste açucareiro, possibilidade de reprodução da mão-de-obra
região de ponta da agroexportação escravista, o escrava. Nas áreas mais dinâmicas da economia

melhor estudo é o de Stuart Schwartz, Segndos colonial, a proporção de africanos homens


internos ( I98 5), dedicado à Bahia. A mineração,
por sua vez, tem sido mais estudada, e muitos Abaixo: Debret, Engenho manual pare espremer
têm relativizado o traço exclusivamente a cana-de-açúcar, aquarela, século XIX, extraída
minerador das Gerais e destacado a importância de Voyge pittoresque et historique au Brísil.
E escravidão 208 DD Dtclo\\lìto tto BRestL Coroxrel

sempre foi expressiva, veriando enrre 6O% e amementação de crianças brancas por amas-de-
7O% da população escrava, o que signifìcava leite negras) dariam prova da tolerância racial
uma população majoritariamence masculina e dos portugueses, demonstrando o
adulta. Em certas áreas e épocas, havia uma "amolengamento" das relações escravistas no
mulher para cada dois homens. Nas regiões Brasil colonial, não obstante os lapsos de
mais "crioulizadas", ou seja, naquelas em que violência eventualmenre regisrrados pela
se equilibravam as proporções de afiicanos e crônica e por outros documentos.
crioulos (escravos nascidos no Brasil . as Nas décadas de I950 e I960, as teorias de
diferenças de proporção entre os seros Freyre foram implacavelmente questionadas.
tornevam-se mais tênues, ainda que nelas o O patriarcahsrt o, conceito central de seu livro
número de homens sempre fosse superior. pioneiro, foi identificado como paternalismo e

Mas é no caráter da escra,'idão brasileira e em associado à sua tese ou mito da democracia


suas relações com o preconceito racial que racial existente no Brasil. Aurores como Clóvis
reside uma das maiores polêmicas de nossa Moura ou Décio Freiras âcentueram os
historiografia. Em estudos clássrcos sobre o rigores terrificantes da escravidão, com seus
Brasil, realizados desde tlns do século XIX e tormentos e suplícios, bem como a ação de
preocupados com o problema da quilombolas ea resistência permanenre dos
mi sci genação,/branqueemenro do p'oto e scral,os contra os senhores. Mas as
brasileiro. a escraviJão em si erà pouco principais críticas
Freyre parriram dos
a
discurida. do ponro de vista hisrórico. \Ías. estudiosos da chamada "escola sociológica
com e tal.'ez solirária exceção de \Íanuel paulista", liderada por Floresran Fernandes.
Bonfim. imperava cerra convicção. herdeira da Invertendo-se os ârgumentos de Freyre,
raciologia cienritìcisra do século XIX. acerca consolidou-se a idéia de que a escravidão no
da infèrioridade racial dos negros afiicanos. A Brasil fora rão dura e violenta que reduziu os
ruptura com esse ripo de enfoque deu-se j negros a um esrado de anomia. A violência da
sobretudo com Gilberro Freyre, emCasa-grande escravidão e suas conseqüências, e não mais
c sen4ila (I9l l), que pôs em xeque âs seus carâcteres raciais, teriam massacrado o
interpretações racistas predominanres, celebrou negro como ser humano, formando um grupo
a mestiçagem, destacou a influência africana na patologicamente compromerido, incapazaté de
formação cultural brasileira e lançou a famosa forjar os laços básicos de todos os seres
,"r" á" que no Brasil a escravidão fora emena e humanos os laços familiares. A
adocicada. Sua interpretação baseia-se no
- ou reificação
"coisificação" do escravo, inerente
argumento de que os portugueses não eram à própria instituição escravisra, irrigaria
portadores de preconceitos raciais forres em portento todas as faces
decorrência da bicontinentalidade do próprio da escravidão, a psicologia do africano e de
reino, sua formação histórica racial e seus descendentes.
culturalmente híbrida, um pouco européia, Como decorrência dessas análises, diversos
outro tanto africana. Ao centrer sua análise na autores defenderam a idéia de que a
casa-grande, Freyre sugeriu que es relações humanidade do negro só rransparecia quando
domésticas e familiares ali estabelecidas entre os escrevos resistiam claramente contra a

senhores e escravos (particularmente a relação instituição escravista: organizando-se em


sexual entre senhores e escravas e o hábito de quilombos, revoltando-se, matando senhores e
DD,Drçro^'-Á-nÍb oo Bn.qst t- Cot-oNIel 209 escravídãt^ E
feitores, suicidando-se ou, de maneira mats socialmente coercitivo, porém passível de
ampla, resistindo cotidianamente ao trabalho, adequações, resistências, acomodações,

através da quebra de instrumentos, negociações e pactos sociais.


automutilação, infanticídios, morosidade e Essas abordagens não ficaram sem resposta.

demais atos lesivos aos interesses senhoriais. A Nos meios acadêmicos, no início da década de
desproporção entre os sexos, característica do 199o, a polêmica se reacendeu e houve quem
uâfico, teria sido a principal responsár'el pela apontâsse que se estariam recuperando os
impossibilidade de formação de família regular argumentos de Freyre sobre a benevolência da
no câtiveiro. Argumentou-se, também, que a escravidão brasrleira. O principal expoente

mulher negra fora vítima da violência dos dessa réplica foi Gorender, que emA escravidão
apetites voluptuosos de senhores, seus (t Olo) criticou minuciosamente
reabilitada

familiares e demais homens brancos, muitos desses trabalhos, e começar pelo livro
enfatizando-se a promiscuidade como o Ser escravo no Brasil, de Kátia Mattoso (t OZ8),
comportamento comum de homens e, um dos primeiros a relarivizar a questão
principalmente, mulheres no cativeiro. paternalismo/violência ea propor um equilíbrio
A partir dos anos I980, pesquisas sobre o entre esses práticas como padrão do sistema.
negro ea escravidão se multiplicaram nos De todo modo, a escravidão é tema clássico de
cursos de pós-graduação em História. Novas nosse história e historiografia e um campo
fontes foram pesquisadas, bem como outros sempre aberto à investigaçao. (SCF/R\)
enfoques foram dados às fontes conhecidas.
Sob a influência principalmente de estudos r\* Referências Bibliográficas
norre-emericanos, tanto antropológicos quanto BOXER, Ch. RelaEões raciais no impírio colonial

historiográficos, foram questionados, dessa português. Trad. Rio de Janeiro, Tempo


vez, os estudos e argumentos da escola Brasileiro, I967; FREYRE, G. Casa-grande e

sociológica paulista. Contrariamente à idéia de sen4tla (l9l l). Rio de )aneiro, )osé Olympio,
que a maior quantidade de africanos homens I987; GORENDER, J. O escravismo rclonial.
inviabilizava a família escreva, trabalhos ligados São Paulo, Edirora Ática, tg78; A

à demografia histórica comprovarem a escravidao reabilitada. São Paulo, Ática, I99o;


-.
existência de famílias escrevas em proporções LARA, S. H. Campos da violôncia. Rio de
consideráveis em diversas regiões, do que se Janeiro, Paz e Terra, I988; MARCHANT, A.

conclui que, embora difícil para muitos, o Do escambo à escravidão (tO+z). 2u ed. São'Paulo,
matrimônio ea família eram instituições Cia. Editora Nacional, t980; MATTOSO, K.
presentes entre os cetivos. Argumentou-se que Ser escravo no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1982;

as escolhas matrimoniais faziam parte da SCHWARTZ, S. Segredos internos: engenhos e escraros

herança cultural dos negros e de sua condição na sociedaàe colonial (tO8l). Trad. São Paulo,

de escravos. Demonstrou-se, assim, que os Companhia das Letras, 1988; VAINFAS, R.


negros escravizados não teriam sido passivos ldeologia e escravidao' os letraàos e a sociedade escravista

nem muito menos massacrados pela escravidão. no Brasil colonial. Petrópolis, Vozes, I986.
Mesmo escravos, criaram e recriaram laços
culturais próprios, vários deles herdados de
suas raízes africanas. Dessa forma, a escravidão
fbi reinterpretada como um sistema