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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL

UFMS/CPAR

Alexandre Pito Giannoni

A imaginação e sua relação com os sistemas psicológicos: uma análise a partir de


representantes da psicologia soviética

PARANAÍBA
2016
FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
UFMS/CPAR

Alexandre Pito Giannoni

A imaginação e sua relação com os sistemas psicológicos: uma análise a partir de


representantes da psicologia soviética

Monografia apresentada à Banca


Examinadora da Fundação
Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul, como exigência parcial para a
obtenção do título de Bacharel em
Psicologia sob a orientação do Prof.
Dr. Bruno Peixoto Carvalho.

PARANAÍBA
2016
Banca Examinadora

__________________________________________________
Dr. Bruno Peixoto Carvalho (orientador)

__________________________________________________
Dra. Inara Barbosa Leão (UFMS – Campo Grande)

__________________________________________________
Dr. Nilson Berenchtein Netto (UFU)

__________________________________________________
Dra. Jassonia Lima Vasconcelos Paccini (UFMS – CPAR)
Em memória de minha avó
Arianes, símbolo da mulher
trabalhadora e das várias
contradições do capitalismo.
AGRADECIMENTOS

À minha mãe Janine, pelo carinho, sustento e todo apoio e confiança desde que
ingressei na UFMS.

Ao meu pai Alexandre pelos momentos de carinho e conversas.

Ao meu Avô, João Pito por tudo que representou sobre o conhecimento em minha
infância e adolescência, e pelo que representa hoje, e sempre em minha vida.

À minha tia Juliana pelo carinho e ajuda financeira nestes anos de graduação.

Ao Netto, por ter me apresentado a psicologia histórico-cultural e principalmente ter me


orientado em meus primeiros trabalhos sobre a imaginação.

À Jassonia, pelo carinho, sabedoria e por ter me acolhido em momentos difíceis na


graduação, viabilizando a continuação de meus trabalhos.

À Claudinha por todo amor, carinho, momentos compartilhados e principalmente por


sua paciência e compreensão comigo nestes últimos meses de término de curso.

À minha querida amiga e companheira de estágio Cris, pelos momentos compartilhados


de surtos e pela paciência e atenção nestes últimos meses de minha graduação.

Ao Bruno, pelo carinho, momentos de orientações, broncas, brigas e leitura desse


material afim de torna-lo melhor.

Ao Shiro, Hellen, Rayana e Gabi pelos momentos divertidos, descontraídos e por toda a
amizade e carinho neste último ano.

Aos camaradas de Jaboticabal do Bar do Zé: Zezinho e Rô, Servidone, Breno, Gilson
Bom, Pifão, Tadeu, Chico e Zé Furim, que me ensinaram que a psicologia deve estar a
serviço da classe trabalhadora e por todos os momentos de carinho, brincadeiras e
broncas para que me dedicasse aos estudos.
Aos amigos restantes de Jaboticabal, em especial Lambão, Aline e Gigi, pelos vários
roles e pelas conversas jogadas fora em um banco de praça durante a madrugada.

Aos camaradas Celinha e Henrique por toda a contribuição teórica e prática dentro e
fora da sala de aula.

Ao camarada Dirceu pelos dias de república e principalmente pelos debates e devaneios


durante as madrugadas.

Aos camaradas da União da Juventude Comunista de Paranaíba, pelas vivências e lutas


compartilhadas.

Aos camaradas de luta que passaram pelo Centro Acadêmico de Psicologia: Dani Dani,
Natália, Carol, Jean e Núbia. Aos novos que se aproximaram: Jéssica e Gabizinha e a
todos que sempre estiveram ao nosso lado no C.A.

À todos os educadores que passaram em minha vida, em especial, Edmara e Sandrão,


pelas broncas, ensinamentos e principalmente por toda a confiança que sempre tiveram
em mim.

À Inara, por aceitar fazer parte de meus trabalhos futuros, e por toda a disposição na
avaliação deste trabalho.
Não existe sensações, pensamentos e
sentimentos que não sejam de alguém. Toda
sensação, todo pensamento sempre é uma
sensação ou um pensamento de um
determinado ser humano. O caráter subjetivo
do psíquico significa que o psíquico é uma
atividade do sujeito.
Serguei Leonidovich Rubinstein

Tanto o sentimento quanto o pensamento


movem a criação humana.
Liev Semiónovich Vigotski
RESUMO

Este trabalho objetiva investigar como o conceito de imaginação em sua dependência


com os sistemas psicológicos, se desenvolveram nas obras dos psicólogos soviéticos.
Adota-se como modelo de análise, as teorizações desenvolvidas por Vigotski sobre o
desenvolvimento dos sistemas psicológicos, e a dependência mútua entre todas as
funções psicológicas superiores dos seres humanos. Analisa-se também, se a
compreensão de sistemas psicológicos participa do processo de teorização de outros
autores da psicologia soviética, tomando como ponto de investigação as escolas de
Moscou e Leningrado. Neste sentido, o primeiro capítulo desse trabalho, apresenta as
discussões sobre os fundamentos marxistas da psicologia histórico-cultural e soviética,
retornando aos autores originais e apresentando os debates iniciais sobre materialismo e
idealismo, atividade, trabalho e apropriação dos sentidos humanos. Também neste
capítulo, apresenta-se a história da psicologia na Rússia Czarista e, posterior a
Revolução de Outubro de 1917 com o nascimento da União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas. No segundo capítulo desse trabalho, investiga-se a compreensão de
atividade para a psicologia soviética e como essa categoria encontra-se desenvolvida
nas obras de Rubinstein e Leontiev, afim de encontrar semelhanças e diferenças em suas
concepções teóricas. Neste capítulo, também apresenta-se a importância da
compreensão dos sistemas psicológicos nas obras de Vigotski e como as funções
superiores encontram-se em constante dependência. No terceiro capítulo, são
apresentadas as leis gerais e particulares do conceito de imaginação, identificando o
desenvolvimento desse processo a partir das obras de Vigotski, Luria, Rubinstein,
Ignatiev e Liublinskaia. Também identifica-se os processos particulares que movem a
criação humana por meio da atividade criadora. Por fim, na conclusão apresenta-se a
dependência da imaginação com os sistemas psicológicos e como esse conceito
desenvolvido por Vigotski participa da teorização de outros autores soviéticos de
diferentes escolas. Também apresenta-se a fossilização da imaginação em uma
sociedade de classes, e como esse processo de automatização intervém no
desenvolvimento de uma personalidade criativa e na objetivação da atividade criadora.

Palavras-Chave: Psicologia Histórico-Cultural, Sistemas Psicológicos, Imaginação,


Marxismo.
ABSTRACT

This study aims to investigate how the concept of imagination in its dependence on the
psychological systems developed in the works of Soviet psychologists. It adopts as
analytical model, theories developed by Vygotsky about the development of
psychological systems, and the mutual dependence between all higher mental functions
of humans. It analyzes if the understanding of psychological systems participates in the
theorizing process other authors of Soviet psychology, taking as a research point
schools of Moscow and Leningrad. In this sense, the first chapter of this work presents
the discussion about the Marxist foundations of historical-cultural and Soviet
psychology, returning to the original authors and presenting the initial discussions on
materialism and idealism, activity, work and ownership of the human senses. In this
chapter, it also presents the history of psychology in Tsarist Russia and later the October
Revolution of 1917 with the birth of the Union of Soviet Socialist Republics. In the
second chapter of this work investigates the understanding of activity for Soviet
psychology and how this category is developed in the works of Rubinstein and Leontiev
in order to find similarities and differences in their theoretical concepts. This chapter
also shows the importance of understanding the psychological systems in the works of
Vygotsky and how the higher functions are in constant dependence. In the third chapter,
the general and particular laws of the concept of imagination are presented, identifying
the development of this process from the works of Vygotsky, Luria, Rubinstein,
Ignatiev and Liublinskaia. It also identifies the particular processes that move the
human creation through creative activity. Finally, the conclusion shows the dependence
of the imagination with the psychological systems and how this concept developed by
Vygotsky participates in the theorizing of other Soviet authors from different schools. It
also shows the fossilization of the imagination in a class society, and how this
automation process intervenes in the development of a creative personality and
objectification of creative activity.

Keywords: Cultural Historical Pysichology, Pysichological Systems, Imagination,


Marxism.
SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 – OS FUNDAMENTOS HISTÓRICOS PARA O


DESENVOLVIMENTO DE UMA PSICOLOGIA MARXISTA NA
U.R.S.S............................................................................................................................01
1.1 Materialismo e idealismo...........................................................................................02
1.2 A história da psicologia na União Soviética: As escolas de Moscou e
Leningrado.......................................................................................................................18
1.2.1 A superação do idealismo começa na fisiologia?...................................................21
1.2.2 O desenvolvimento de uma psicologia Marxista: Seus principais
representantes..................................................................................................................26
1.2.3 A psicologia em Moscou e seus principais representantes.....................................33
1.2.4 A psicologia em Leningrado e seus principais representantes...............................40

CAPÍTULO 2 – ATIVIDADE, FUNÇÕES PSICOLÓGICAS E SISTEMAS


PSICOLÓGICOS: A IMPORTÂNCIA DA ATIVIDADE PRÁTICO-OBJETAL
NO DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO HUMANO......................................44
2.1 A atividade para S. L. Rubinstein..............................................................................44
2.2 A atividade para A. N. Leontiev................................................................................53
2.3 Rubinstein ou Leontiev? O problema da atividade como problema da
psicologia.........................................................................................................................57
2.4 As funções psicológicas superiores e a interdependência com os sistemas
psicológicos.....................................................................................................................63

CAPÍTULO 3 – A IMAGINAÇÃO E SEU DESENVOLVIMENTO GERAL E


PARTICULAR: UMA SÍNTESE A PARTIR DOS PSICÓLOGOS DE MOSCOU
E LENINGRADO..........................................................................................................68
3.1 O que é imaginação? Explicações gerais sobre a compreensão da função
imaginativa......................................................................................................................68
3.2 Os tipos de imaginação: Questões particulares sobre o desenvolvimento e
objetivação dos produtos da função imaginativa.............................................................78
3.3 A atividade criadora: A imaginação no meio técnico, científico e artístico..............82
3.4 O desenvolvimento da imaginação na infância: traços particulares do princípio
imaginativo......................................................................................................................87
CONCLUSÃO – A IMAGINAÇÃO E SUA FOSSILIZAÇÃO NA SOCIEDADE
DE CLASSES: TENDÊNCIAS PARA FUTUROS ESTUDOS................................91

REFERÊNCIAS.............................................................................................................97

ANEXOS.......................................................................................................................101
CAPÍTULO 1 – OS FUNDAMENTOS HISTÓRICOS PARA O
DESENVOLVIMENTO DE UMA PSICOLOGIA MARXISTA NA U.R.S.S.

Pelo próprio conteúdo, a psicologia científica


não pode ser mais que uma série de doutrinas
acerca das atividades psíquicas.
(Iván Mijailovich Séchenov)

Neste trabalho, surge como objetivo geral analisar o desenvolvimento da função


imaginativa em trabalhos dos principais psicólogos das escolas de Moscou e
Leningrado, identificando de que modo a categoria de sistemas psicológicos
desenvolvida por Vigotski, participa da compreensão da função imaginativa. A análise
do desenvolvimento da função imaginativa exige ainda retomar o debate sobre os
fundamentos do materialismo histórico-dialético, sintetizando nos principais autores que
apresentaram esse problema, as diferenças entre o materialismo e o idealismo. Para
cumprir a tarefa de analisar a imaginação como função psicológica superior, também se
deve apresentar o contexto histórico e os fundamentos que levaram ao desenvolvimento
de uma psicologia marxista na extinta União Soviética. As escolas de Moscou e
Leningrado serão analisadas neste trabalho, assim como, a importância do método
materialista como momento filosófico no desenvolvimento de uma ciência voltada à
construção de uma nova sociedade e um novo ser humano.
O desenvolvimento dos seres humanos, assim como sua relação cognoscitiva
com a realidade também será explorada neste trabalho, adentrando-se assim, à essência
do desenvolvimento das funções psicológicas superiores e dos sistemas psicológicos.
Vale dizer que estes são dois conceitos desenvolvidos por Vigotski que serão
apresentados pela totalidade que estabelecem com a vida psíquica dos seres humanos.
Neste mesmo caminho, o modelo de Vigotski será comparado com os de outros autores
das escolas aqui já mencionadas, identificando de que modo estes conceitos aparecem
nas obras de seus principais representantes e qual a relação que estabelecem com a
função imaginativa.
A importância da teoria marxista nas obras dos psicólogos soviéticos caminha de
encontro com novas questões postas pela Revolução de Outubro, o desenvolvimento de
um novo ser humano se apresentava agora como um grande objetivo para a ciência
psicológica neste período. O método de Marx foi a principal engrenagem no

1
desenvolvimento de uma nova psicologia na União Soviética (U.R.S.S). A criação de
uma ciência objetiva utilizando como fundamento filosófico o materialismo histórico-
dialético se apresentava como um novo desafio aos pesquisadores soviéticos. A
tentativa de substituir as teorias idealistas que vigoravam na ciência psicológica estava
posta para os novos pesquisadores da União Soviética. Poucos eram os que dominavam
este novo método que se desenvolvia em decorrência da revolução. Assim, vale resgatar
nos próprios autores que iniciaram o debate, a discussão envolvendo o materialismo e o
idealismo para posteriormente identificar esse fundamento presente na própria
psicologia soviética.

1.1 – Materialismo e idealismo

A filosofia marxista que se desenvolve neste novo momento histórico e em um


contexto revolucionário, é apresentada como uma oposição a filosofia idealista. Este
debate que ganha força na União Soviética é apresentado por Marx e Engels na
Ideologia Alemã1. Os autores que realizam uma crítica aos jovens hegelianos que
dominavam a filosofia Alemã, dizem que os pensamentos filosóficos na Alemanha
estavam pautados no sistema erigido por Hegel. As oposições a estes idealistas que
apareciam neste período se limitavam a um materialismo vulgar, sempre retornando aos
debates que giravam em torno do sistema hegeliano. Quando as críticas atingiam esse
sistema, elas ficavam apenas no protesto e segundo os autores acabavam assim (MARX;
ENGELS, 2007). A luta entre as oposições das ideias aconteciam apenas entre troca de
pensamentos e eram nestes que anunciavam sua própria morte.
Marx e Engels (2007) apontam que a filosofia alemã posterior a Hegel continuou
trabalhando com os conceitos trazidos pelo filósofo prussiano. As críticas tecidas e ele
não contemplavam toda sua magnitude e os autores que objetivavam críticas
materialistas ora e outra iludiam em um idealismo que era anterior ao de Hegel. Apesar
do exercício crítico que representava a nova visão dos filósofos alemães, nenhum deles
abrangia em totalidade o sistema hegeliano, diga-se de passagem, combatendo ideias
com ideias, pensamentos com pensamentos e esquecendo da própria realidade material e
do contexto histórico que estavam inseridos.

1
Cabe lembrar que tal obra só teve sua primeira edição em 1932, da qual apenas foi publicada a
primeira parte do manuscrito, dedicada à crítica a Feuerbach. Vigotski não teve acesso as discussões
entre materialismo e idealismo tal qual estão presentes nesta obra de Marx e Engels.

2
Não eram apenas os materialistas vulgares que teciam críticas às ideias
filosóficas ao sistema vigente da Alemanha. Os hegelianos também se dividiam entre
esquerda e direita, realizando assim, críticas e mais críticas que ficavam apenas no
próprio plano das ideias. Os conservadores que defendiam o Estado Absoluto tomavam
o mesmo como condição de existência dos seres humanos, enquanto os hegelianos de
esquerda apresentavam críticas ao estado absoluto (ENGELS, 1888/1962). Porém, eram
apenas críticas. Os jovens hegelianos também foram criticados por Marx e Engels
(1845-1846/2007). Por mais fervorosas que fossem as críticas da juventude hegeliana,
estas não se objetivavam na realidade. As críticas aconteciam em um plano filosófico e
por lá permaneciam.
Em direção oposta a esses autores – idealistas e materialista vulgares – Marx e
Engels salientam que o caminho em que deveria se analisar o cenário filosófico e as
produções de ideias começariam nos próprios indivíduos reais e o modo como estes
produzem suas condições de vida a partir de suas ações na realidade objetiva. Nas Teses
sobre Feuerbach, Marx apresenta o principal problema presente neste materialismo:

O principal defeito de todo materialismo até aqui – o de Feurbach incluído –


consiste no fato de que a coisa (Gegenstand) – a realidade, a sensualidade –
apenas é compreendida sob a forma do objeto (Objekt) ou da contemplação
(Anschauung); mas não na condição de atividade humana sensível, de práxis,
não subjetivamente. (MARX; ENGELS, 1845-1846/2007, p. 611).

Feurbach, como escreve Marx, não considerava a atividade objetal dos seres
humanos. A materialidade estaria apenas depositada no objeto, porém, sem a atividade
objetal a vida psíquica como se conhece não existiria. É por meio dela que os seres
humanos criam condições para sua existência, é por meio dela que os seres humanos se
humanizam. Ao não considerar a atividade, se perde grande parte da tentativa de
reconstruir a história humana. Sem a própria atividade, não existiria o primeiro ato
histórico que é mencionado por Marx e Engels.

O primeiro pressuposto de toda a história humana é, naturalmente, a


existência de indivíduos humanos vivos. [[Riscado no manuscrito: o primeiro
ato histórico desses indivíduos, através do qual eles se diferenciam dos
animais, não é o fato de eles pensarem, mas sim o de eles começarem a
produzir seus víveres (Lebensmittel).]]). (MARX, ENGELS, 1845-
1846/2007, p. 41/42).

Sem a atividade, a produção dos víveres seria algo impossível. A satisfação das
necessidades humanas simplesmente não se realiza sem a atividade. Assim, os seres
humanos se diferenciam dos animais, pelo desenvolvimento dos meios que garantem a

3
satisfação de suas necessidades. Ao criar esses meios, surgem então novas necessidades
que assim como as anteriores devem ser satisfeitas a partir de novos meios que serão
desenvolvidos e, estes só se desenvolvem a partir da atividade humana, que irá mediar a
relação dos seres humanos com a natureza.
Ao produzir os próprios víveres, os seres humanos iniciam o distanciamento de
sua vida imediata. Surge o primeiro fato situacional derivado deste primeiro ato
histórico. Os seres humanos, ao produzirem meios para à satisfação de suas
necessidades, estabelecem novas relações com a natureza. Para Marx e Engels “toda a
historiografia tem de começar a partir desses fundamentos naturais e de sua modificação
através da ação dos homens no decorrer da história.” (MARX; ENGELS, 1885-
1846/2007, p. 42). Na relação que os seres humanos estabelecem com a natureza, os
mesmos iniciam a própria produção de meios materiais para a sobrevivência e satisfação
de suas necessidades. A constituição dos indivíduos será determinada por esse primeiro
fato situacional. O que eles são, dependerá do modo que eles produzem e como eles
produzem.
Em decorrência do processo de produção e reprodução da vida material, os seres
humanos estabelecem novas relações com outros seres humanos, assim também se
desenvolve a própria divisão do trabalho, inicialmente como divisão entre campo e
cidade que posteriormente dará origem a propriedade privada. (MARX; ENGELS,
1845-1846/2007). Com a divisão do trabalho, a propriedade privada e com novas
relações estabelecidas pelos seres humanos, novas ideias começam a se desenvolver.
Estas ideias, assim como as relações que os seres humanos estabelecem entre eles
apenas se desenvolveu com a própria atividade material. A consciência dos seres
humanos também se desenvolve neste processo ativo na relação com a realidade
concreta.
Para Marx e Engels (1845-1846/2007): “não é a consciência que determina a
vida, mas a vida quem determina a consciência.” (p. 49). O que o ser é e as relações que
ele estabelece enquanto indivíduo ativo no processo de produção material da vida,
determinará suas relações posteriores com outros indivíduos que também são ativos na
produção e reprodução da própria vida social, política e intelectual.
Após identificar o primeiro ato histórico e a garantia das condições de
sobrevivência dos seres humanos, Marx e Engels (1845-1846/2007) apresentam quatro
condições que aparecem como históricas se derivando dessa geração dos meios de
produção. A primeira condição para os autores é identificar o próprio fato que

4
pressupõem o primeiro ato histórico e a garantia da criação de meios para a satisfação
das necessidades humanas, por mais básicas que elas aparentem ser.
A segunda condição, derivada da primeira, se desenvolve na medida em que
satisfeita a primeira necessidade, novas são criadas, assim como, outras ações e
instrumentos que auxiliam na satisfação destas decorrentes necessidades. A terceira
condição apresentada que se deriva desde o princípio do desenvolvimento histórico
aparece na medida em que os seres humanos começam a se reproduzir criando outros
seres humanos. Porém ao ponto que a reprodução é uma condição biológica os seres
humanos se reproduzindo estão criando novos indivíduos e consequentemente a
formação das próximas gerações que irão produzir e reproduzir a vida material e social
em uma determinada cultura. E, por fim a quarta condição apresentada define que a
história humana deve ser sempre compreendida a partir do modo de cooperação, que
ocorre entre o intercâmbio da indústria. Assim, se chega à conclusão de que a história
dos seres humanos é marcada por “uma conexão materialista dos homens entre si, que é
condicionada pelas necessidades e pelo modo de produção e é tão velha quanto os
próprios homens [...]” (MARX; ENGELS, 1845-1846/2007, p. 52). A concepção
histórica deve ser analisada a partir de indivíduos reais e concretos que desenvolvem os
meios de produção e se desenvolvem em conjunto, assim como, alteram a natureza e se
alteram mutualmente. Após considerar os quatro aspectos históricos, Marx e Engels
analisam a consciência, diga-se de passagem, como resultado desse mesmo
desenvolvimento histórico, e que se desenvolve, em meio a todas as condições materiais
que os seres humanos estão inseridos.
As condições de produção determinam, portanto, o desenvolvimento da
consciência dos seres humanos. Essa é uma afirmação que se torna fundamental para a
compreensão posterior do desenvolvimento psíquico dos indivíduos. Mas, a consciência
simplesmente não se desenvolve por meio quimérico ou ainda pela boa vontade dos
seres humanos. Ela também é fruto desse desenvolvimento histórico, que encontra sua
gênesis na própria linguagem, sendo um produto do meio social que o indivíduo está
inserido. A linguagem que se desenvolve no decorrer do processo de trabalho é a
principal condição para o aparecimento da consciência. A consciência que surge neste
decorrer do desenvolvimento dos meios de produção, expressa mudanças significativas
também no processo de divisão do próprio trabalho. A divisão entre trabalho manual e
intelectual altera por sua vez todo o desenvolvimento posterior da consciência dos

5
indivíduos que se dividem para executar essas diferentes funções. (MARX; ENGELS,
1845-1846/2007).
Vários foram os conceitos utilizados pelos soviéticos na construção de uma
psicologia marxista. A consciência foi um desses conceitos defendidos por Vigotski
para a criação de uma psicologia objetiva. A consciência não se desenvolve em meio a
críticas, ou, como menciona Marx e Engels (2007) no exercício crítico das críticas que
os filósofos que se nomeavam materialistas – e os hegelianos de esquerda - faziam. A
consciência irá se desenvolver pela própria atividade concreta dos indivíduos na
realidade.
A atividade e a consciência foram contemplados aqui, até então a partir do
materialismo histórico-dialético de Marx e Engels. Porém, Rubinstein, psicólogo
soviético que diverge de Vigotski em alguns pontos teóricos, escreve um artigo em
1933, intitulado Princípios filosóficos da psicologia. Os primeiros manuscritos de K.
Marx e os problemas da psicologia2, que viria a ser publicado em 1934 apontando as
principais contribuições de Marx para a psicologia. Rubinstein se dedica em suas obras
a sistematizar uma psicologia da atividade e explora também um material que Vigotski
não teve acesso, a saber, Manuscritos econômico-filosóficos de Karl Marx.
Nos Manuscritos econômico-filosóficos, Marx realiza uma discussão sobre o
trabalho estranhado, ou seja, a forma pela qual a objetivação do trabalhador se volta
contra ele em uma figura completamente estranha a si mesmo. A atividade que deveria
ser a essência de todo o desenvolvimento humano, torna-se apenas um meio de
existência para o trabalhador. Essa mesma atividade deveria possuir grande importância
para toda a humanização, já que é por meio dela que o indivíduo altera a natureza. É ela
que diferencia os seres humanos dos animais, mediando a relação humana com a
natureza, enquanto, a atividade animal acontece de maneira imediata, uma vez que, “o
animal é imediatamente um com a sua atividade vital. Não se distingue dela. É ela. O
homem faz da sua atividade vital mesma um objeto de sua vontade e da sua consciência.
Ele tem atividade vital consciente.” (MARX, 1844/2010, p. 84). Os seres humanos são
os únicos capazes de submeter sua atividade à própria vontade e necessidade. A
atividade passa a ser, portanto, uma atividade consciente.
Em O Capital, obra em que Marx desenvolve sistematicamente o conceito de
trabalho encontra-se que:

2
Alguns dos títulos de livros, artigos, assim como, citações utilizadas neste trabalho, encontravam-se em
espanhol e foram traduzidos livremente.

6
O trabalho é, antes de tudo, um processo entre o homem e a natureza,
processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e
controla seu metabolismo com a natureza. Ele se confronta com a matéria
natural como com uma potência natural [Naturmacht]. A fim de se apropriar
da matéria natural de uma forma útil para sua própria vida, ele põe em
movimento suas forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços
e pernas, cabeça e mãos. Agindo sobre a natureza externa e modificando-a
por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria
natureza. Ele desenvolve as potências que nela jazem latentes e submete o
jogo de suas forças a seu próprio domínio. Não se trata, aqui, das primeiras
formas instintivas, animalescas [tierartig], do trabalho. Um incomensurável
intervalo de tempo separa o estágio em que o trabalhador se apresenta no
mercado como vendedor de sua própria força de trabalho daquele em que o
trabalho humano ainda não se desvencilhou de sua forma instintiva.
Pressupomos o trabalho numa forma em que ele diz respeito unicamente ao
homem. (MARX, 1867/2013, p. 255).

O trabalho é a atividade vital e central dos seres humanos, e é por meio dele que
os seres humanos alteram a natureza, transformando ao mesmo tempo sua natureza
interna. O trabalho é, portanto, sempre uma atividade orientada a um fim, que
pressupõem sua representação em forma ideal antes do próprio processo de trabalho. O
trabalhador possui a capacidade de antecipar seus atos antes mesmo de executá-los.
Assim, “os momentos simples do processo de trabalho são, em primeiro lugar, a
atividade orientada a um fim, ou o trabalho propriamente dito; em segundo lugar, seu
objeto e, em terceiro, seus meios.” (MARX, 1867/2013, p. 256). Sem os meios –
instrumentos, máquinas e instalações - para que o trabalhador produza um determinado
valor de uso, por exemplo, o trabalho seria impossível. No final do processo de trabalho
surge a materialização do produto:

No processo de trabalho, portanto, a atividade do homem, com ajuda dos


meios de trabalho, opera uma transformação do objeto do trabalho segundo
uma finalidade concebida desde o início. O processo se extingue no produto.
Seu produto é um valor de uso, um material natural adaptado às necessidades
humanas por meio da modificação de sua forma. O trabalho se incorporou a
seu objeto. Ele está objetivado, e o objeto está trabalhado. O que do lado do
trabalhador aparecia sob a forma do movimento, agora se manifesta, do lado
do produto, como qualidade imóvel, na forma do ser. Ele fiou, e o produto é
um fio [Gespinst].” (MARX, 1867/2013, p. 258).

É no decorrer do processo de trabalho que este se materializa no objeto,


criando assim, um produto, um valor de uso. Esse movimento que aparece no decorrer
do processo é fundamental para a materialização do produto do trabalho e para a
modificação de suas qualidades. Tudo o que existe nas mais diversas sociedades é
decorrente do próprio processo de trabalho. Sem o trabalho, o produto não existiria, e
seria na melhor das hipóteses, uma representação ideal impotente diante da realidade.

7
Voltando ao conceito de estranhamento desenvolvido por Marx ainda nos Manuscritos
econômico-filosóficos pode-se ainda mencionar baseando-se no O Capital que:

[...] o produto é propriedade do capitalista, não do produtor direto, do


trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor da força de trabalho por
um dia. Portanto, sua utilização, como a de qualquer outra mercadoria – por
exemplo, um cavalo – que ele aluga por um dia, pertence-lhe por esse dia. Ao
comprador da mercadoria pertence o uso da mercadoria, e o possuidor da
força de trabalho, ao ceder seu trabalho, cede, na verdade, apenas o valor de
uso por ele vendido. A partir do momento em que ele entra na oficina do
capitalista, o valor de uso de sua força de trabalho, portanto, seu uso, o
trabalho, pertence ao capitalista. (MARX, 1867/2013, p. 262).

A força de trabalho que provem do trabalhador é alugada pelo capitalista, em


condição de em troca receber um salário. O produto pelo qual o trabalhador despendeu
sua força física para produzir se volta contra ele, em uma forma estranha a ele mesmo.
Em troca dos meios necessários à sua reprodução o trabalhador recebe um salário que
deve “garantir” a satisfação de suas necessidades – comer, vestir, morar etc. A atividade
principal dos seres humanos, em uma sociedade de classes aparece apenas como um
meio para garantir a sobrevivência.
Os fundamentos da psicologia histórico-cultural devem ser resgatados em Marx
e Engels, mas não se esgotam neles.3 Ambos desenvolveram ideias que foram de
extrema importância para a criação de uma nova filosofia. De todas as ideias aqui
apresentadas deve se considerar, portanto, que a consciência não é algo que se
desenvolve espontaneamente e nem mesmo é ela quem determinará os seres humanos.
Essa relação se apresenta como oposta. A atividade dos seres humanos na realidade
desenvolve sua consciência que determina seu ser na realidade. Porém, essa relação não
é tão simples. No desenvolvimento material da sociedade não são apenas os meios de
produção que se desenvolvem, mas sim, todo o conhecimento teórico e prático dos seres
humanos e consequentemente suas próprias funções psicológicas superiores, junto com
sua consciência.
O desenvolvimento dos meios de produção e da satisfação das necessidades
humanas, é o ponto de partida para o desenvolvimento da consciência mas na verdade,
essa relação ocorre de maneira oposta. Em uma sociedade de classes a consciência se
desenvolve de modo fragmentado e a atividade estranhada colabora para o
desenvolvimento parcial da consciência. A atividade que é responsável pela existência

3
Vale lembrar, por exemplo, uma comunicação realizada por Vigotski e intitulada: Sobre os sistemas
psicológicos que o psicólogo Soviético resgata elementos na filosofia de Espinosa para sistematizar o
pensamento como responsável pela condução dos sistemas psicológicos dos seres humanos.

8
material das coisas também é responsável pela fragmentação da consciência. Ao mesmo
tempo que os seres humanos objetivam o produto do trabalho na realidade, criando
assim, cada vez mais riquezas, esse produto produzido pelo próprio trabalhador volta-se
contra si mesmo em uma forma estranha, que o trabalhador não reconhece. Na medida
que a atividade do trabalho deixa de ser consciente ou de ter uma certa finalidade para o
trabalhador, ele se torna estranhado de seu próprio objeto, de sua própria criação. Marx
ainda menciona que “este fato nada mais exprime, senão: o objeto (Gegenstand) que o
trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um
independente do produtor.” (MARX, 1844/2010, p. 80).
Ao escrever sobre o estranhamento, Marx menciona outros quatro fenômenos
decorrentes deste. Sendo estes: o estranhamento do próprio objeto, da atividade, do
gênero humano e de si mesmo. Vale apresentar brevemente cada um destes fenômenos
decorrentes da externalização do trabalho no decorrer do processo.
O trabalhador em sua jornada de trabalho é o único capaz de produzir valor, a
partir de seu processo de trabalho ele cria novo valor, não para ele mas para o
capitalista. E, desse modo, “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza
produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador4 se
torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria.” (MARX,
1844/2010, p. 80). É por meio desse mesmo trabalho externalizado do trabalhador que
surgem as mercadorias, objeto da efetivação do trabalho cristalizado. Esse mesmo
objeto que surge do processo de trabalho não é apropriado pelo trabalhador, se tornando
assim, um ser completamente estranho, como já foi mencionado acima, para o
indivíduo. O objeto que torna-se, portanto, externo ao trabalhador também se torna
alienado ao mesmo. Alienado, pois veio do trabalhador, era parte dele e se externaliza
como parte dele, porém uma parte estranha ao próprio indivíduo. A efetivação desse
trabalho, que gera como resultado o objeto estranho ao próprio trabalhador contribui
também para sua desefetivação:

4
Esses são ainda os Manuscritos econômico-filosóficos de Marx, o filósofo não havia desenvolvido as
ideias sobre trabalho que viria a desenvolver em O Capital. Ao analisar o trabalho em O Capital o
trabalhador não é uma mercadoria, mas sim sua força de trabalho aparece como mercadoria. O
capitalista vai até o mercado e compra a matéria prima para uma determinada produção, junto com a
matéria prima o capitalista compra também a força de trabalho do operário, porém ele não compra o
trabalhador, mas sim, aluga sua força de trabalho pelo dia que o mesmo trabalha. A força de trabalho se
paga no decorrer do próprio processo de trabalho em que, o trabalhador paga o valor de seu trabalho e
no restante do dia produz um valor excedente para o capitalista, o que Marx denomina como mais-
valor. (MARX, 1867/2013).

9
A efetivação do trabalho tanto aparece como desefetivação que o trabalhador
é desefetivado até morrer de fome. A objetivação tanto aparece como perda
do objeto que o trabalhador é despojado dos objetos mais necessários não
somente à vida, mas também dos objetos do trabalho. Sim, o trabalho mesmo
se torna um objeto, do qual o trabalhador só pode se apossar com os maiores
esforços e com as mais extraordinárias interrupções. A apropriação do objeto
tanto aparece como estranhamento (Entfremdung) que, quanto mais objetos o
trabalhador produz, tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio
de seu produto, do capital. (MARX, 1844/2010, p.80-81).

A atividade do trabalho se torna estranha ao próprio indivíduo quanto mais


mercadoria este produz, “[...] o estranhamento não se mostra somente no resultado, mas
também, e principalmente, no ato da produção, dentro da própria atividade produtiva.”
(MARX, 1844/2010, p. 82). A própria atividade do trabalhador é estranha a ele mesmo,
é uma atividade alheia ao próprio indivíduo que a executa. O trabalho executado,
externalizado, não pertence ao próprio trabalhador, mas sim ao capitalista que compra
sua força de trabalho. Isso, faz com que sua atividade se torne totalmente estranhada.
A atividade que agora se torna estranha ao próprio trabalhador, também gera
outra determinação. O estranhamento aparece presente no próprio gênero humano. Para
Marx (1844/2010) os seres humanos são seres genéricos, vivem e dominam a natureza,
desenvolvem objetos para as ciências e para as artes. Os seres humanos alteram essa
natureza inorgânica, a transformam para suprir suas necessidades. Mas, tudo que os
seres humanos utilizam vem da própria natureza, sendo natureza transformada,
humanizada. No estranhamento de seu trabalho, o indivíduo torna-se estranho, portanto,
do gênero humano e na decorrência disso de si mesmo. Assim,

Na medida em que o trabalho estranhado 1) estranha do homem a natureza,


2) [e o homem] de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade
vital; ela estranha do homem o gênero [humano]. Faz-lhe da vida genérica
apenas um meio de vida individual. Primeiro, estranha a vida genérica, assim
como a vida individual. Segundo, faz da última em sua abstração um fim da
primeira, igualmente em sua forma abstrata e estranhada (MARX,
1844/2010, p. 84).

Na medida que o trabalho torna-se estranhado do próprio trabalhador ele


também estranha esse mesmo trabalhador de todo o gênero humano. Os seres humanos
que são seres genéricos, encontram agora apenas uma vida individual. A atividade vital
consciente dos seres humanos fazem destes, seres genéricos, mas o trabalho estranhado
veta este tipo de atividade, invertendo assim, essa relação. Agora, sua atividade é
executada para que sobreviva, para gerar meios que permitam sua existência.
Como consequência, para Marx (1844/2010), do estranhamento de seu trabalho,
de sua atividade e do gênero humano, o trabalhador também não se reconhece no outro.

10
O estranhamento do próprio ser humano aparece como condição decorrente desse
processo, não reconhecendo no outro seu próprio eu.
Porém, não é apenas a atividade e o estranhamento que estão presentes nos
Manuscritos de Marx. Rubinstein (1934/1963) apresenta outros elementos como, por
exemplo, o caráter histórico do desenvolvimento dos sentidos humanos que também se
encontram neste mesmo material. Nesse livro de Marx, segundo Rubinstein, estão
presentes informações fundamentais para a compreensão do psiquismo humano e para,
o posterior desenvolvimento da psicologia soviética.
Para o filósofo os seres humanos são seres genéricos, necessitam de outros seres
humanos para sua própria sobrevivência. Por mais individualista que seja a sociedade de
classes em sua forma burguesa, sem a relação que o indivíduo estabelece com outros,
sua sobrevivência estaria ameaçada. Os seres humanos produzem sua existência.
Encontram meios de alterar a natureza para sua sobrevivência. Assim:

Nesta relação também se mostra até que ponto a carência do ser humano se
tornou carência humana para ele, portanto, até que ponto o outro ser humano
como ser humano se tornou uma carência para ele, até que ponto ele, em sua
existência mais individual, é ao mesmo tempo coletividade (Gemeinwesen)
(MARX, 1844/2010, p. 105).

A vida em coletividade que se desenvolveu ao longo da história humana é o que


permite ao seres humanos se humanizarem. Porém, o desenvolvimento integral de sua
personalidade é impossível enquanto existirem classes sociais. A humanização ocorre
de maneira fragmentada e estranhada ao próprio indivíduo. A divisão do trabalho, entre
trabalho manual e intelectual, auxilia na fragmentação do próprio desenvolvimento
individual. Mesmo com o não desenvolvimento integral das potencialidades humanas,
ela só surge em meio ao convívio em sociedade. Os seres humanos começam a se
apropriar das características humanas. Para Marx, cada uma das relações estabelecidas
pelos seres humanos são:

[...] relações humanas com o mundo, ver, ouvir, cheirar, degustar, sentir,
pensar, intuir, perceber, querer, ser ativo, amar, enfim todos os órgãos de sua
individualidade, assim como os órgãos que são imediatamente em sua forma
como órgãos comunitários, || VII| são no seu comportamento objetivo ou no
seu comportamento para com o objeto a apropriação do mesmo, a
apropriação da efetividade humana; seu comportamento para com o objeto é
o acionamento da efetividade humana (por isso ela é precisamente tão
multíplice (vielfach) quanto multíplices são as determinações essenciais e
atividade humanas), eficiência humana e sofrimento humano, pois o
sofrimento, humanamente apreendido, é uma autofruição do ser humano.
(MARX, 1844/2010, p. 108).

11
Todo o psiquismo humano, assim como, o desenvolvimento de suas funções
psicológicas superiores é fruto dessa apropriação humana. A mediação do instrumento –
e o trabalho que é central na vida humana - torna-se também de extrema importância
para que isso ocorra. Vale lembrar que, neste momento que Marx escreve, a ciência
psicológica ainda encontrava-se apenas como um ramo da filosofia, portanto,
desenvolver ideias que fossem psicológicas significava desenvolver ideias filosóficas.
Ao afirmar que o pensamento, o sentimento – e outras funções psicológicas superiores,
como os soviéticos denominariam posteriormente em seus estudos – são frutos da
apropriação dos seres humanos, Marx abre o caminho para o desenvolvimento de uma
psicologia instrumental, histórica e cultural. Assim sendo, o desenvolvimento das
funções psicológicas superiores é o resultado da apropriação pelo sujeito das
objetivações do gênero humano. Portanto, as funções psicológicas superiores somente
se desenvolvem a partir do momento em que se cria condições para que isso ocorra.
Assim como, “o olho se tornou olho humano, da mesma forma como o seu objeto se
tornou um objeto social, humano, proveniente do homem para o homem.” (MARX,
1844/2010, p. 109). É apenas com a mediação do outro, que as funções psicológicas se
complexificam e apresentam características tipicamente humanas. Uma criança que
cresce na selva, possui características humanas, suas estruturas biológicas são humanas,
porém, não é humanizada, seu olho não se tornou humano, seus sentimentos não se
desenvolveram ao ponto de se encantar com uma obra de arte5 e sua linguagem
principalmente não possibilitou o desenvolvimento de seu pensamento.
Vigotski, em seu curto período de vida na psicologia, não teve acesso a esses
materiais –Ideologia Alemã e Manuscritos econômico-filosóficos – mas, chega por meio
do método, a resultados semelhantes e alguns mais complexos dos apresentados por
Rubinstein, revolucionando a ciência psicológica. A questão da atividade evidenciada
nas obras de Marx e Engels, é incorporada por Vigotski e outros psicólogos soviéticos.
A atividade que é externa ao indivíduo permite que ele se aproprie das características
humanas, que venha a desenvolver, portanto, suas funções psicológicas superiores. A
apropriação dos características tipicamente humanas se evidencia em Marx. O filósofo
afirma que “compreende-se que o olho humano frui de forma diversa da que o olho
rude, não humano [frui]; o ouvido humano diferentemente da do ouvido rude etc.”
(MARX, 1844/2010, p. 109). Pode-se ainda afirmar que essas características somente se

5
Em uma sociedade de classes em sua forma burguesa, muitas pessoas também não possuem acesso a
obras de artes. Esse acesso encontra-se restrito para a classe trabalhadora.

12
desenvolvem com a atividade dos seres humanos em sociedade. Os seres humanos se
apropriam dessas características humanas. Marx ainda escreve que:

Por outro lado, subjetivamente apreendido: assim como a música desperta


primeiramente o sentido musical do homem, assim como para o ouvido não
musical a mais bela música não tem nenhum sentido, é nenhum objeto,
porque o meu objeto só pode ser a confirmação de uma das minhas forças
essenciais, portanto só pode ser para mim da maneira com a minha força
essencial é para si como capacidade subjetiva, porque o sentido de um objeto
para mim (só tem sentido para um sentido que lhe corresponda) vai
precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, por causa disso é que os
sentidos do homem social são sentidos outros que não os do não social; [é]
apenas pela riqueza objetivamente desdobrada da essência humana que a
riqueza da sensibilidade humana subjetiva, que um ouvido musical, um olho
para a beleza da forma, em suma as fruições humanas todas se tornam
sentidos capazes, sentidos que se confirmam como forças essenciais
humanas, em parte recém-cultivados, em parte recém-engendrados. Pois não
só os cinco sentidos, mas também os assim chamados sentidos espirituais, os
sentidos práticos (vontade, amor etc.), numa palavra o sentido humano, a
humanidade dos sentidos, vem a ser primeiramente pela existência de seu
objeto, pela natureza humanizada. (MARX, 1844/2010, p. 110)

O ouvido não humanizado, não consegue distinguir o próprio som da linguagem.


Não consegue perceber as palavras, assim como o olho não humanizado não consegue
distinguir as letras e o formato das mesmas. Vale dizer que, em uma sociedade de
classes, mesmo as pessoas sendo humanizadas, muitas não conseguem distinguir letras
do alfabeto, muitas não conseguem admirar as formas em uma obra de arte e muitas não
conseguem apreciar a beleza do som em uma melodia. Por mais humanizadas que
sejam, sua personalidade encontra-se fragmentada. O acesso ao conhecimento
produzido e acumulado ao longo da história humana não é para a classe trabalhadora.
Os limites da sociedade de classes em sua forma burguesa está dado até mesmo no
desenvolvimento psíquico dos seres humanos. A psicologia histórico-cultural e outras
escolas que se desenvolveram na União Soviética somente se objetivaram quando a
Revolução de Outubro extinguiu as classes sociais. Mesmo com todos os problemas que
viriam acontecer, uma nova possibilidade estava posta. Aqueles cujos ouvidos e olhos
não conseguiam perceber a beleza da própria arte, tinham a possibilidade de
desenvolver isso. Assim, como a psicologia, agora tinha a possibilidade de criar um
novo ser humano. Um ser humano que desenvolvesse sua personalidade de forma
integral. A psicologia deve contemplar a essência humana, o fruto de sua atividade
principal, não de sua atividade estranhada. Assim como:

Uma psicologia para a qual este livro, portanto precisamente a parte mais
presente e perceptível de modo sensível, a parte mais acessível da história,

13
está fechado, não pode[ndo] se tornar uma ciência real, plena de conteúdo
efetivo. O que se deve pensar, em geral, de uma ciência que abstrai
solenemente desta grande parte do trabalho humano e não sente em si mesma
a sua incompletude, enquanto uma riqueza do fazer humano assim expandida
nada lhe diz senão, talvez, o que se pode dizer numa palavra: “carência”,
“carência comum!”? (MARX, 1844/2010, p. 111).

Os soviéticos tentaram – e conseguiram por um tempo – desenvolver ideias que


permitissem o desenvolvimento integral do psiquismo humano, objetivando a criação de
um novo ser humano que cumprisse as exigências de uma nova sociedade. Ao contrário
de uma sociedade que preserva em primeiro lugar a propriedade privada, os soviéticos
tinham a possibilidade de desenvolver pela primeira vez as potencialidades humanas ao
seu máximo. Até mesmo aqueles que eram isolados das condições humanas, agora
possuíam a capacidade de se humanizar, é o que mostra a defectologia.
Marx, por sua vez compara o dinheiro com o desenvolvimento das capacidades
humanas. Ele escreve: “Eu, que por intermédio do dinheiro consigo tudo o que o
coração humano deseja, não possuo, eu, todas as capacidades humanas? Meu dinheiro
não transforma, portanto, todas as minhas incapacidades (Unvermögen) no seu
contrário?” (MARX, 1844/2010, p. 159). Na sociedade capitalista as incapacidades se
tornam capacidades por intermédio do dinheiro, fazendo com que a classe trabalhadora
não tenha acesso ao conhecimento produzido e acumulado ao longo da história. Quem
decerto tem acesso ao conhecimento nessa sociedade? A regra geral de toda sociedade
capitalista é de fato tornar com o dinheiro as incapacidades em capacidades. Não é
apenas o indivíduo que cresce a esmo que não desenvolve suas potencialidades. A
classe trabalhadora encontra-se também privada do desenvolvimento de suas
potencialidades.
Isto compõem parte de um debate que chega até a Rússia pré-revolucionária e é
desenvolvido por Lenin, revolucionário russo. Ele desenvolve objetivamente as ideias
entre o materialismo e o idealismo no livro Materialismo e empiriocritiscismo, escrito
em 1908 e publicado em 1909. Esse livro logo se torna uma obra de fundamental
importância para os psicólogos soviéticos. Vale, portanto, analisar brevemente essa obra
e encontrar nela alguns dos fundamentos que basearam a psicologia materialista na
União Soviética. Rubinstein (1959/1963) também dedica um capítulo de seu livro, O
desenvolvimento da psicologia: princípios e métodos, para analisar a importância dessa
obra.

14
Em Materialismo e empiriocriticismo, Lenin tece várias críticas a Ernst Mach e
as análises realizadas pelo autor de como os seres humanos conhecem a realidade. Nas
críticas realizadas, o revolucionário Russo também dirige vários julgamentos a autores
que estavam discutindo a filosofia marxista na Rússia pré-revolucionária. Lenin já no
início de seu livro alertava que tais autores eram na verdade defensores da filosofia
burguesa. Em seu prólogo ele escreve que:

Toda uma série de escritores que pretendem ser marxistas estão


empreendendo em nosso país, no ano que ocorre, uma verdadeira campanha
contra a filosofia do marxismo. Em menos de meio ano surgiram a luz de
quatro livros, consagrado, fundamental e quase exclusivamente a atacar o
materialismo dialético. (LENIN, 1909/1966, p. 9).6

Lenin já em 1909 apresenta dados dos ataques que estavam sendo realizados
contra a filosofia marxista e em seu livro defende o materialismo histórico-dialético
como filosofia do conhecimento. As críticas a Mach se pautam principalmente na
relação cognoscitiva dos indivíduos na realidade. Para Mach as sensações não seriam
resultados de um desenvolvimento objetivo pautado no objeto material, mas sim esse
objeto seria apenas um símbolo das coisas. Para Lenin, e também para a filosofia do
materialismo histórico-dialético, essa afirmação de Ernst Mach seria incorreta. O
materialismo compreende as sensações como um reflexo ou imagem das coisas 7. As
sensações, o pensamento e a consciência seria algo secundário a própria matéria
(LENIN, 1909/1966). Para a psicologia histórico-cultural e outras correntes
desenvolvidas na União Soviética esse conceito trazido por Lenin se tornou capital no
desenvolvimento teórico da psicologia.
Rubinstein por sua vez salienta que a obra de Lenin possui fundamental
importância para o pensamento científico e filosófico e a coloca como a obra mais
importante do revolucionário russo. Rubinstein ainda aponta a importância do
desenvolvimento do conceito de reflexo psíquico para a psicologia. Para ele “[...] a
atividade psíquica do cérebro pode ser reflexo do mundo somente no caso de que o
próprio cérebro é uma atividade reflexa [..]” (RUBINSTEIN, 1959/1963, p. 297), é o

6
O autor cita entre os autores que “pretendem ser marxistas”: Basárov, Bogdánov, Lunacharski,
Berman, Helfond, Iushkévich e Suvórov.
7
Cabe lembrar que está obra foi escrita em 1908, desde então, a ciência psicológica avançou em vários
pontos, inclusive nos resultados de como se desenvolvem as sensações e outras funções psicológicas
superiores. Apesar dos vários equívocos encontrados nessa obra é de extrema importância uma análise
minuciosa, pois algumas correntes que se desenvolveram na União Soviética utilizam alguns conceitos
trazidos por ela. Dentre elas a de Serguei L. Rubinstein. Pelo curto tempo deste trabalho não será
possível tal análise que identifique ponto à ponto as contribuições de Lenin para a psicologia soviética.
Assim, se apresenta aqui apenas a ideia principal do revolucionário Russo sobre o reflexo psíquico.

15
cérebro o órgão capaz de refletir a realidade, sem ele o indivíduo não se desenvolveria.
O cérebro é o órgão principal para o início do desenvolvimento. Sobre o conceito de
reflexo psíquico Rubinstein (1959/1963) ainda salienta que:

Cabe dizer – como se foi indicado mais acima – que a teoria dos reflexos
constitui a extensão do princípio do determinismo sobre a atividade psíquica
como atividade nervosa superior do cérebro, enquanto que a teoria
materialista dialética do reflexo constitui a extensão do mesmo princípio a
atividade psíquica como atividade cognoscitiva do homem. (p. 287).

Rubinstein menciona que após a publicação de Materialismo e empiriocriticismo


a previsão de Lenin é confirmada e a atividade psíquica se desenvolve como função do
cérebro humano (RUBINSTEIN, 1959/1974). O debate entre idealismo, materialismo e
a concepção de mundo da filosofia marxista, não se limita apenas a Lenin, ela também
se estende a outros autores, na psicologia inclusive os psicólogos que desejavam
fundamentar uma psicologia marxista realizam incansavelmente essas discussões. Um
desses filósofos que vale lembrar é Evald Vasilyevich Iliénkov, que publicou materiais
junto a psicologia Soviética. Suas críticas também se dirigiam ao idealismo.
Iliénkov, em sua obra Lógica dialética ensaios de história e teoria, apresenta
uma discussão sobre a diferença do materialismo e do idealismo, voltando a Hegel para
explicar a concepção de mundo para essas duas correntes filosóficas. Para além disso,
Iliénkov também realiza diferenciações entre o dualismo e o monismo. O materialismo
histórico-dialético para ele se basearia em uma filosofia monista que não realiza
distinções entre a matéria física e seus processos psicológicos. Ele escreve que

O pensamento é a função ativa do cérebro vivo, inseparável da matéria do


cérebro. E quando se trata da matéria do cérebro, é absurdo perguntar como
está “relacionado” o pensamento com ela, como se une e “se intermedia”
com o outro, pois aqui, simplesmente, não há nem “um”, nem “outro”, mas
um mesmo: o ser real do cérebro vivo é pensamento, e o pensamento real é
ser do cérebro vivo (ILIÉNKOV, 1977, p. 239).

Não se pode separar a matéria de um processo psicológico. Se o ser possui


cérebro e ao mesmo tempo pensa, seu cérebro e seu pensamento é um. Assim, a matéria
e o “espírito” não são dois, mas sim um. Formam, portanto, uma unidade inseparável.
Ele ainda menciona que:

O materialista deve partir da unidade direta real (da indivisibilidade) do


indivíduo humano, para compreender e demonstrar como e porque surge na
cabeça desse indivíduo a ilusão sobre a contradição imaginária do
pensamento e do ser corporal (ILIÉNKOV, 1977, p. 240)

16
Para o filósofo, os seres humanos existem em uma realidade concreta, sua
existência está posta como ser material e sensorial. O filósofo resgata em Marx, Engels,
Feuerbach e em outros filósofos materialistas – históricos-dialético ou vulgares –
elementos que já foram apresentados nesta mesma seção do texto. O que importa dizer é
que o debate chega até a União Soviética, é desenvolvido primeiramente – e
principalmente – por Lenin e tem seus aprimoramentos em outros filósofos, psicólogos
e cientistas em geral que estavam discutindo, revisando e desenvolvendo essa filosofia
de mundo. Ao recuperar essas discussões, Iliénkov apresenta novos – porém velhos –
elementos. O ser como ser indivisível aparece como parte do mundo, da natureza e não
como contrária a ela. Porém, mesmo Iliénkov resgatando em Feuerbach elementos do
materialismo, o filósofo realiza as mesmas críticas feitas por Marx e Engels. Ele diz que
o principal erro de Feuerbach é não conceber o “papel da atividade prática como
atividade que modifica a natureza.” (ILIÉNKOV, 1974, p. 247). Ele ainda continua, diz
que Feuerbach coloca o ser humano como um sujeito passivo na realidade, ao não
considerar a atividade prática do mesmo na realidade. Atividade que altera a natureza a
partir da necessidade e vontade dos seres humanos e que em hipótese alguma pode ser
negada, por isso

[...] a relação – homem mundo circundante se interpreta como relação


indivíduo – todo o restante, tudo o que se encontra fora do cérebro individual
e existe independentemente dele. Mas na verdade, fora do indivíduo e
independentemente de sua vontade e consciência existe não só a natureza,
mas também o meio social histórico, o mundo das coisas, criadas com o
trabalho do homem e o sistema de relações do homem com o homem, que se
formam no processo de trabalho. Em outras palavras, fora do indivíduo se
encontra não só a natureza por si mesma (“em si”), mas também a natureza
transformada pelo trabalho, humanizada. Para Feuerbach o mundo
circundante, dado na contemplação, se toma como ponto inicial e suas
premissas não se investigam. (ILIÉNKOV, 1974, p. 249).

Iliénkov não apenas utiliza Feurbach afim de desenvolver sua ideia sobre a
dicotomia entre o físico e o “espiritual”, mas também o critica em seus maiores
equívocos. A relação dos seres humanos com a natureza não é para Iliénkov uma
relação dos seres humanos com a natureza em si, como tal, mas sim, uma relação com a
natureza transformada e modificada pela atividade dos seres humanos.
Recuperar o debate entre idealismo e materialismo não significa se limitar
apenas a estes autores. Existem uma gama imensa de obras publicadas sobre a diferença
entre essas duas correntes filosóficas e sobre a concepção de mundo a partir do
marxismo, porém pelo curto tempo deste trabalho, não será possível recuperar este

17
debate em forma mais detalhada. Mas, pode se realizar uma afirmação prévia neste
trabalho. Os fundamentos da psicologia histórico-cultural traz em si a filosofia do
marxismo. E como próximo passo desta monografia cabe agora recuperar os principais
momentos históricos que possibilitaram o desenvolvimento da psicologia histórico-
cultural e de outras correntes psicológicas que se desenvolveram na União Soviética.
Analisando, portanto, as escolas de Moscou e Leningrado de maneira que permita
identificar a utilização da filosofia marxista até mesmo no desenvolvimento mais
mecanicista ainda da psicologia soviética.

1.2 – A história da psicologia na união soviética: As escolas de Moscou e


Leningrado

Realizar uma análise histórica da psicologia soviética aparece ainda como um


grande desafio. Primeiro, pela significativa diferença entre o português e o idioma russo
e, segundo, pela extrema dificuldade de encontrar materiais relacionados à história da
psicologia soviética. A maioria dos materiais acessíveis estão em outras línguas como o
espanhol e o inglês. Assim, mesmo as melhores traduções sendo feitas, ainda se trabalha
com fontes secundárias. Porém, vale recuperar nestes materiais as discussões realizadas
pelos autores e, a partir de uma pequena reconstrução histórica do desenvolvimento
dessa ciência na União Soviética, apresentar, os principais representantes da psicologia
em Moscou e Leningrado para que se possa posteriormente analisar suas obras a partir
das composições teóricas de Vigotski, partindo do conceito de sistemas psicológicos na
relação estabelecida com a função imaginativa.
Na reconstrução histórica dessa ciência, trabalha-se com dois tipos de materiais.
Primeiro, com os escritos de psicólogos que viveram o momento histórico em que a
psicologia Soviética ainda estava em desenvolvimento, como é o caso de Alexander
Romanovich Luria e Serguei Leonidovich Rubinstein. O segundo tipo de material com
que se trabalha aqui apresentam maior distanciamento histórico, como é o caso das
obras de Marta Shuare, Luis García Vega, Arthur Vladímirovich Petrovski, Arthur
Vládimirovich Petrovski e Boris Lomov.
Ao apresentar o contexto histórico que possibilitou a criação de uma nova
psicologia, não se deve perder de vista os fundamentos marxistas apresentados neste
texto. Todo caminho percorrido até aqui, a revisão teórica entre o materialismo e o
idealismo e, a apresentação da filosofia marxista, apresentam-se intrinsicamente ligados

18
a psicologia soviética. A ciência psicológica que se desenvolveu após a Revolução de
Outubro, é inseparável da filosofia, justamente por sua metodologia, o materialismo
histórico-dialético (SHUARE, 1990). Portanto, o caminho filosófico percorrido até aqui,
garante minimamente revisar os fundamentos que deram origem as elaborações teóricas
da psicologia soviética.
A psicologia que se desenvolveu como ciência ainda no século XIX, atinge seu
desenvolvimento teórico-filosófico na Rússia, utilizando o materialismo histórico-
dialético como expressão de um método, após a Revolução de Outubro (SHUARE,
1990). A Revolução de Outubro deu origem a construção de uma sociedade nova
sociedade, substituindo o antigo modelo social vigente na Rússia, o czarismo. Foi este
novo momento histórico que permitiu o desenvolvimento da ciência psicológica com
um novo objetivo; a construção do novo homem e, da nova mulher socialista. Segundo
Petrovski (1976/1985), a Revolução foi um importante momento no desenvolvimento
da consciência dos cientistas soviéticos, o que permitiu desenvolver novas ideias e
traçar novos objetivos também para a ciência psicológica.
A sociedade czarista mantinha sua compreensão dos fenômenos como imutáveis,
conservando suas características de uma sociedade tipicamente feudal e, convertendo
essas características como uma condição da própria ciência conservadora e idealista. A
fisiologia materialista, por exemplo, que expressava uma condição progressista da
ciência encontrava vários problemas e grandes restrições em sua divulgação e pesquisas.
Os fisiólogos materialistas sofriam com a repressão czarista e eram impedidos de ocupar
alguns espaços de discussões nas universidades russas, como foi o caso de Séchenov8
(RUBINSTEIN, 1959/1963).

8
Rubinstein ao reconstruir a história da psicologia na Rússia czarista chama a atenção para alguns fatos
históricos entre as disputas das ciências idealistas e materialistas. Ele escreve, que Chelpanov, filósofo
idealista, desenvolveu sua teoria e cooptou alguns seguidores, dentre tais, Rubinstein aponta Kornilov,
que futuramente iria romper com as concepções teóricas de Chelpanov, desenvolvendo assim, sua
própria escola teórica. A condição essencial que permitiu Chelpanov cooptar seguidores aparecia na
própria vertente idealista que se encontravam suas posições teóricas. Suas ideias não abalavam a
própria estrutura conservadora do governo czarista e dos membros do clérigo. Por sua vez Séchenov,
com sua concepção materialista era impedido de apresentar suas ideias para novos estudantes, tendo
seus livros censurados pelas instituições. Nas universidades se limitava a lecionar sobre o básico da
fisiologia, suas ideias progressistas se divulgavam apenas fora da Rússia e em poucos congressos que
ocorriam no país. Neste sentido, Rubinstein aponta que a psicologia na Rússia era majoritariamente
idealista por uma difícil divulgação das obras e ideias dos fisiólogos materialistas, esse é um dos fatos
que marcaram o não desenvolvimento de uma escola psicológica baseada nas ideias de Séchenov. Vale
lembrar que o pai da fisiologia russa se interessava pelos fenômenos oriundos do psiquismo, apontando
a necessidade de encontrar elementos materiais no desenvolvimento psíquico dos seres humanos,
porém pelas limitações conservadoras da ciência czarista foi impedido de desenvolver sua própria
escola, como o fez Chelpanov posteriormente (RUBINSTEIN, 1959/1963).

19
Para Trotsky (1930/1950), a ideia mais geral que se pode ter do aspecto histórico
no desenvolvimento da Rússia é que, ela representava, perto de outros países europeus,
um grande atraso econômico, e também uma estrutura social primitiva. As classes
sociais na Rússia czarista eram extremamente divididas e, a mobilidade de uma classe
para outra, se constituía como uma tarefa mais improvável do que em uma estrutura
econômica burguesa. Isso se refletia na educação, por exemplo, que não assegurava
condições de estudos para filhos de camponeses e trabalhadores em geral. Essa era uma
condição já garantida por outros países da Europa que estavam desenvolvendo cada vez
mais a sociedade burguesa. O desenvolvimento da Rússia se encontrava distante dos
demais países da Europa.
O que cabe dizer neste momento, é que, a Rússia era um país materialmente,
economicamente e culturalmente atrasado perto de outros países da Europa, que se
desenvolveram em meio aos séculos XIX e XX. Suas forças produtivas se limitavam a
uma pequena porcentagem de cidades industrializadas, enquanto a maioria de sua
população vivia no campesinato. Suas relações tipicamente feudais, apareciam na
própria divisão de classes neste país. A imensa maioria era composta por camponeses,
como já foi mencionado, outra pequena minoria de trabalhadores fabris, setores
governamentais e por fim, a aristocracia russa. (HOBSBAWM, 1995). A Revolução de
Outubro de 1917 para Lenin (1921/1977), significou o desmanche das velhas relações
sociais de um país que até então mantinha-se no medievalismo. A Revolução apresenta
uma nova possibilidade histórica para camponeses e pequenos grupos de operários.
A ciência tinha também uma nova possibilidade de se desenvolver, diga-se de
passagem, traçando novos objetivos para seu futuro. Para a psicologia a tarefa era de
desenvolver uma ciência condizente com o marxismo, embora essa tarefa não se deu
imediatamente. Posterior ao triunfo socialista, Luria (1992) escreve sobre dificuldades
encontradas pelos jovens e velhos pesquisadores. Segundo ele, muitos não estavam
preparados para esse novo momento histórico e, muitos não dominavam nem sequer a
própria filosofia marxista. Shuare (1990), neste mesmo caminho, ainda salienta que os
problemas que se desenvolveram em meio a década de 1920 era a de substituir a
filosofia idealista pelo materialismo histórico-dialético, o que se constituiria em uma
árdua tarefa nos primeiros anos ulteriores à 1917.
Na psicologia esse debate ganhou força ainda nos primeiros anos da década
1920. Mas, as críticas oriundas as teorias idealistas da psicologia e da filosofia que

20
pretendiam compreender os seres humanos se iniciam alguns anos antes de 19209.
Alguns trabalhos da fisiologia Russa foram de extrema importância para a compreensão
elementar do psiquismo humano. A fisiologia foi um primeiro caminho, embora ainda
mecanicista/reducionista, na solução de encontrar uma saída às teorias idealistas que
compreendiam à sua maneira os fenômenos do psiquismo humano. Esse fato está
presente nos trabalhos de Rubinstein (1959/1963), Lomov (1989), Shuare (1990) e Vega
(1993) que apontam a importância de Séchenov, Bekhterev e Pavlov na compreensão
dos fenômenos relacionados ao psiquismo e ao “espírito humano”. Vale, portanto,
identificar a importância de alguns destes representantes da fisiologia que auxiliaram no
desenvolvimento teórico da psicologia soviética10.

1.2.1 – A superação do idealismo começa na fisiologia?

Os representantes do pensamento fisiológico da Rússia somam grande


importância no desenvolvimento teórico dessa ciência. O início das produções teóricas
significativas da fisiologia na Rússia data de meados do século XIX e início do século
XX. I. M. Séchenov é considerado por muitos psicólogos e fisiólogos como o fundador
e pai da escola de fisiologia e da orientação científico-natural na Rússia. Para além de
Séchenov, os fisiólogos V. M. Bechterev e I. V. Pavlov tiveram grande
representatividade no desenvolvimento de uma teoria fisiológica objetiva ainda na
Rússia Czarista e posteriormente na União Soviética. Embora Pavlov, compreendesse
que a vida psíquica dos seres humanos poderia ser explicada pela fisiologia, sua teoria
foi utilizada como fundamento de muitas correntes psicológicas nas décadas que
seguiriam a Revolução de Outubro (VEGA, 1993).
A tentativa de compreender o psiquismo a partir dessa vertente teórica
desenvolvida por representantes da fisiologia, levou ao reducionismo e a uma
compreensão mecanicista dos fenômenos psíquicos como, por exemplo, na

9
Pelo curto espaço desse trabalho será impossível abordar os filósofos materialistas da Rússia Czarista.
Porém, dentre seus representantes pode se apresentar Mijaíl Vasílevich Lomonosov (1711-1765), que
foi um dos principais representantes da filosofia materialista de sua época. Foi o fundador da
Universidade de Moscou e combateu o idealismo vigente nesse período. Mas, como todo materialismo
anterior ao de Marx e Engels, não concebia a atividade objetal como fundamental na vida dos seres
humanos e, depositava a materialidade apenas no próprio objeto do conhecimento. (IOVCHUK;
OIZERMAN; SCHIPANOV, 1978).
10
Vale lembrar que a fisiologia não na Rússia czarista não se reduziu apenas a esses três representantes,
porém a escolha de Séchenov, Bekhterev e Pavlov foi devido as várias referências a esses três
elementos, realizadas pelos principais representantes da psicologia Soviética.

21
conceituação de Pavlov sobre linguagem ser um segundo sistema de sinais, igualando
esta, aos reflexos condicionados (SHUARE, 1990). Sobre esse reducionismo presente
na psicologia, Rubinstein (1957) também escreve sobre algumas teorias que se
desenvolveram contemporâneas a ele – décadas de 1940 e 1950 – que objetivavam a
compreensão do psiquismo humano a partir do reducionismo dos processos psíquicos à
própria fisiologia. Rubinstein, escreve sobre a tarefa que estava sendo realizada na
União Soviética de reconstruir a ciência psicológica a partir da teoria pavloviana. Para o
autor, isso se constituiu como um grave erro metodológico na compreensão dos
fenômenos psíquicos e no domínio do método dialético. Tais teorias traziam
fundamentos que foram negados por Vigotski e seus colaboradores já no fim da década
de 1920. Porém, deve-se reconhecer os méritos da fisiologia no auxílio da compreensão
dos processos elementares dos seres humanos.
A fisiologia que se desenvolveu na Rússia Czarista foi de extrema importância
combatendo o idealismo presente no pensamento filosófico e clérigo, típico da
sociedade czarista. Muitos fisiólogos que estavam elaborando pesquisas neste período
foram perseguidos e tinham suas obras censuradas com o argumento de que elas: não
poderiam e deveriam influenciar a juventude. O pensamento clérigo presente neste
período dominava o meio científico e apresentava a filosofia idealista como fundamento
para a compreensão dos seres humanos. Vale lembrar que o materialismo deste período
presente nas obras dos fisiólogos se reduzia a um materialismo vulgar e distante daquele
proposto por Marx e Engels. A materialidade estava apenas no próprio organismo e, a
atividade objetal mencionada por Marx e Engels ainda não aparecia no combate ao
idealismo. Porém, as produções fisiológicas representaram um importante papel na luta
contra as concepções idealistas e reacionárias.
O primeiro fisiólogo reconhecido na Rússia e, em outros países, por seus
trabalhos envolvendo o reflexo do cérebro foi Iván Mijailovich Séchenov (1829-1905).
O pai da fisiologia Russa foi um teórico que desenvolveu ideias capitais sobre a
atividade psíquica, somando grande importância no combate às teorias idealistas e
irracionalistas contemporâneas a ele, e que viriam a surgir. (SHUARE,1990). Séchenov
acreditava que os problemas da psicologia deveriam ser estudados pelos fisiólogos, a
partir dos reflexos do cérebro. Fez descobertas importantes para a ciência de sua época,
sendo perseguido e retalhado em várias instituições por sua vertente materialista. Para
alguns, principalmente membros da Igreja, a teoria de Séchenov ignorava e negava os
princípios da alma. Lomov (1989) escreve que suas ideias foram ignoradas pelos

22
filósofos de orientação idealista, que pretendiam compreender os fenômenos
psicológicos apartados do mundo material. Lomov, ainda salienta que nesse período
havia grande dificuldade da aceitação das obras de Séchenov, principalmente, pelo
governo Czarista e membros eclesiásticos. Sua orientação materialista o levou também
segundo Vega (1993) a ser o primeiro fisiólogo a provar o caráter reflexo do cérebro
humano, sendo o primeiro cientista a demonstrar esse reflexo sem recorrer a
pensamentos ou teorias idealistas.
Segundo Vega (1993), Séchenov ao estudar os reflexos nos hemisférios
cerebrais concedeu um grande avanço para a fisiologia em sua época, já que o reflexo
era aplicado apenas ao sistema nervoso central, com exceção dos hemisférios cerebrais.
Apesar de seus avanços no campo da fisiologia, Séchenov concebia o cérebro humano
como uma máquina e considerava o fisiólogo como o cientista responsável pela
investigação dos fenômenos psicológicos. Séchenov influenciou fortemente as obras de
Pavlov, que ainda quando estudante universitário, entra em contato com a teoria do pai
da fisiologia russa, se encantando com a concepção que este mantinha sobre os
problemas relacionados a fisiologia. Para além de Pavlov, Séchenov influenciou
fortemente a psicologia experimental russa que veio a se desenvolver nas décadas de
1880 e 1890 (RUBINSTEIN, 1940/1967.)
Outro fisiólogo importante e que viria a influenciar o pensamento psicológico na
União Soviética foi Vladimir Mijailovich Bekhterev (1857-1927). O fisiólogo que
realizou seus estudos na Academia de Medicina Militar de São Petersburgo, percorreu
várias universidades europeias, travando contato com teóricos de grande importância
como Wundt e Charcot. Na Rússia foi professor da Universidade de Kazan, cidade em
que fundou o primeiro laboratório de psicofisiologia da Rússia. Bekhterev, assim como
Pavlov, realizou pesquisas com os reflexos, porém utilizando o termo associado. Seu
objetivo era o desenvolvimento da teoria reflexológica, como expressão da
compreensão dos fenômenos psicológicos. As ideias da reflexologia influenciaram
diversas correntes psicológicas na União Soviética e principalmente nos representantes
de Leningrado. (VEGA, 1993). No desenvolvimento mecânico da teoria reflexológica,
Bekhterev admitiu a existência de um “mundo” subjetivo que estaria ligada aos
processos materiais do cérebro humano. Mas, admitindo a existência da subjetividade,
Bekhterev propõem que o “mundo” subjetivo deveria ser estudado a partir de
observações das manifestações externas do indivíduo, conservando assim, ainda uma
característica da objetividade fisiológica.

23
Bekhterev esteve ao lado da Revolução de Outubro, apoiando a virada
revolucionária e a concretização de uma sociedade socialista, assim como, a construção
de uma psicologia objetiva e marxista. Em 1925, publica o livro Psicologia,
reflexologia e marxismo em que tenta, ainda sem sucesso, adequar a psicologia a esse
novo momento histórico. Porém, em 1929 sua concepção reflexológica foi abandonada
por ter sido considerada incapaz de sustentar uma psicologia marxista. Bekhterev,
esteve toda sua vida ofuscado pela magnifica figura de Pavlov, que na psicologia era
mais reconhecido, mesmo afirmando que seus estudos se voltavam a fisiologia
(VEGA,1993).
Porém, o fisiólogo que teve a maior expressão de sua teoria na psicologia foi
Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936). Pavlov foi um eminente fisiólogo Russo
extremamente reconhecido na Rússia, e em outros países por suas teorias baseadas e
desenvolvidas na fisiologia. Durante muitos anos foi modelo para o desenvolvimento de
uma psicologia objetiva na União Soviética. Vega (1993), ao apresentar os trabalhos de
Pavlov, salienta que o autor revolucionou a história da psicologia com suas
investigações e descobertas. Suas investigações lhe renderam em 1904 o Prêmio Nobel
de Medicina. A premiação ocorreu devido a suas pesquisas com glândulas digestivas
que culminaram no livro, O funcionamento das glândulas digestivas de 1897.
Pavlov ficou conhecido em todo o mundo por seus estudos sobre o reflexo
condicionado. O fisiólogo russo presava acima de tudo em seus trabalhos o objetivismo
e, segundo Vega (1993), ele se concentra nos acontecimentos do mundo exterior que
atuavam sobre o organismo exercendo assim, reações que eram visíveis a ele. Porém,
seu objetivismo leva a um reducionismo fisiológico dos fenômenos psíquicos. O
fisiólogo substitui o termo atividade psíquica superior por atividade nervosa superior,
pois para ele a fisiologia seria uma ciência que deveria estudar a conduta dos seres
humanos. Pavlov também acaba caindo em um reducionismo biológico, defendendo os
estudos em organismos inferiores para a compreensão dos seres humanos. Ao estudar
fisiologicamente os organismo inferiores, Pavlov vai em direção oposta ao método do
materialismo histórico-dialético, partindo do mais simples para obter a compreensão do
mais complexo. Esse reducionismo e mecanicismo de Pavlov está evidenciado em seu
artigo Resposta de um fisiólogo aos psicólogos. Para Pavlov,

O homem é um sistema, uma máquina, e ele está submetido, como qualquer


outro sistema na natureza, às mesmas leis naturais, irrefutáveis e comuns.
Mas é um sistema incomparável pela sua faculdade de auto-regulação, o que
podemos afirmar segundo o nível atual da ciência. Nós conhecemos grande

24
número de máquinas de auto-regulação complexa entre as criações do
homem. A partir deste ponto de vista, o estudo do homem-sistema é
exatamente o mesmo de qualquer outro sistema: decomposição em partes
constituintes, estudo da importância de cada uma destas partes, estudo das
correlações com a natureza-ambiente, e em seguida, baseada em tudo isso, a
explicação do seu funcionamento e regulamento, na medida das
possibilidades humanas. O nosso sistema, auto regulador no máximo grau, é
capaz de manter-se sozinho, restabelecer-se, consertar-se e, até mesmo de
aperfeiçoar-se. A principal impressão, a mais forte e a mais constante, que se
tem ao estudar a atividade nervosa superior pelo nosso método é a extrema
plasticidade dessa atividade, as suas imensas possibilidades: nela, nada
permanece na imobilidade, nada é inflexível, tudo pode ser conseguido e
aperfeiçoado, posto que sejam satisfeitas certas condições necessárias.
(PAVLOV, 1930/1980, p. 124).

Ao conceber os seres humanos como máquinas que se auto regulam o fisiólogo


apresenta brevemente sua forma de compreender a conduta humana. Porém, nenhum ser
humano sobrevive sozinho - se restabelece, conserta ou se aperfeiçoa - seu
desenvolvimento é fruto de uma mediação de outro ser humano e principalmente de
instrumentos que foram criados por seres humanos, para outros seres humanos. Ao
escrever também que os seres humanos estão sujeitos apenas as leis naturais, Pavlov
perde de vista o próprio desenvolvimento cultural dos seres humanos. Os indivíduos são
seres históricos, culturais, ativos na realidade e que modificam a natureza a partir de sua
vontade e necessidade, logo, não estão sujeitos apenas as leis naturais, assim como, os
animais. Pavlov no estudo do humano-sistema também propõem decompor em partes os
seres humanos e estudar detalhadamente cada uma delas, adentrando assim, em um
dualismo e uma compreensão fragmentada dos indivíduos. Essa seria apenas uma
expressão de seu método - experimental – na compreensão da “atividade cerebral” e dos
estudos dirigidos a compreensão dos seres humanos.
Mesmo com o falecimento de Pavlov, em 1936, aos 87 anos, vítima de uma
tuberculose, sua obra não morre com ele. Na União Soviética, vários foram os
fisiólogos e psicólogos que continuaram suas pesquisas, e, que pretendiam inserir o
modelo pavloviano de investigação na psicologia soviética. (VEGA, 1993). E durante
muitos anos, para Shuare (1990), o modelo pavloviano esteve presente na psicologia, na
fisiologia do sistema nervoso e até mesmo na psiquiatria. Embora a teoria de Pavlov
esteja marcada pelo mecanicismo suas contribuições estão marcadas no conhecimento
dos reflexos condicionados e dos fundamentos fisiológicos das funções psicológicas.
A União Soviética apoio sempre financeiramente suas pesquisas, vendo na teoria
pavloviana uma expressão do materialismo histórico-dialético. Seu reconhecimento lhe
rendeu uma cidade-laboratório em 1927, que mais tarde viria a ser chamada de Pavlovo.

25
Foi neste laboratório que Pavlov se dedicou a desenvolver os problemas dos reflexos
condicionados até a data de sua morte. Pavlov elabora por meio dos reflexos até mesmo
uma teoria sobre a linguagem e o pensamento, que devido a seu falecimento não veio a
desenvolver com maiores detalhes e formulações teóricas essas investigações.
(LEFÈVRE, 1980). Mas, mesmo assim, suas formulações teóricas estão presentes e
consolidadas na história da psicologia russa e mundial.
Em um primeiro momento a fisiologia aparece como uma negação ao idealismo.
Apresenta uma possibilidade de compreender os fenômenos psicológicos desvinculados
das teorias idealistas, como fazia Chelpánov, em seus trabalhos. A fisiologia surge,
portanto, como um primeiro momento na superação ao idealismo, mas ainda de maneira
sensualista. O materialismo é ainda vulgar e a atividade objetal não está presente na
compreensão dos fenômenos psicológicos. É esta a próxima superação que aparece na
história da psicologia soviética. A negação das teorias idealistas, a negação das teorias
fisiológicas e a afirmação de uma teoria baseada no materialismo histórico-dialético.

1.2.2 - O desenvolvimento de uma psicologia Marxista: Seus principais


representantes.

Estudar um determinado sistema psicológico requer desconstruí-lo e voltar a


suas raízes filosóficas, históricas e teóricas. A história de uma psicologia marxista
começa com as primeiras tentativas que para Shuare (1990), ocorreram na
sistematização de novos conceitos na psicologia. Os primeiros anos após a Revolução
de Outubro, em específico no final da década de 1910 e início da década de 1920,
permitiram algumas breves sistematizações por parte de alguns autores sobre o que seria
o objeto da psicologia. Dentre novos conceitos na elaboração da teoria psicológica,
Shuare apresenta o problema da atividade que aparentemente começa a ser explorado
por M. Ya. Básov (1892 -1931), sendo um dos primeiros teóricos a apontar a
importância da atividade na psicologia. Básov ainda não menciona em seus trabalhos, a
necessidade de desenvolver uma psicologia marxista, mas traz novas contribuições para
a psicologia como, por exemplo, a necessidade de explorar o conceito de atividade.
Contudo, Básov compreendia que o elemento fundamental na estrutura da atividade
eram os reflexos condicionados. Ele propunha também, uma sistematização de
diferentes tipos da atividade. Para ele havia o jogo, o estudo e o trabalho como
atividades principais na vida dos seres humanos.

26
Suas contribuições vão para além de tentar sistematizar os estudos da atividade –
embora isso ocorresse ainda por meio dos reflexos condicionados. Básov, também se
preocupava com os métodos da psicologia e destacou em suas pesquisas a importância
do método genético ao estudar os fenômenos psíquicos, levantando o problema do
desenvolvimento e periodização, mas não utiliza sua sistematização das atividades
principais nestes estudos sobre a periodização da infância. Shuare (1990) apresenta
quatro momentos das formulações teóricas de Básov que sintetizam suas ideias:

[...] 1) a formulação da ideia do caráter ativo do homem, assim como a


importância de sua atividade, do caráter transformador da mesma, do papel,
do papel do meio sócio-cultural na determinação das características que
adquirem os fenômenos psíquicos. Estas ideias serão desenvolvidas e
formuladas em um nível superior bem mais tarde por A. N. Leóntiev; 2) A
caracterização dos principais tipos de atividade: de jogo, de estudo e a
laboral, que serão utilizados posteriormente na concepção referida a atividade
regente e sua mudança como base da periodização do desenvolvimento; 3) o
reconhecimento do papel da herança e dos fatores biológicos que , ainda
subordinados, marcam, segundo Básov, os limites possíveis do
desenvolvimento; e 4) a definição da paidologia como síntese das ciências
que estudam a criança. (p. 32).

Apesar de suas contribuições para uma inicial sistematização de conceitos que


são fundamentais para a psicologia histórico-cultural, suas ideias e teorias foram
fortemente criticadas e esquecidas ao longo da década de 1930. Apesar de Básov não
apresentar em si uma teoria marxista, suas contribuições foram notáveis no que diz
respeito a categorização da atividade e periodização da infância.
Outro autor pioneiro na discussão de uma psicologia materialista, e que apontava
a necessidade de sistematizar a psicologia a partir do marxismo foi Pável Petrovitch
Blonski (1884-1941). O autor foi um importante teórico na sistematização de críticas
dirigidas as correntes idealistas no final da década de 1910 e início de 1920. Para
Blonski os seres humanos não eram passivos na realidade, assim como, as teorias
idealistas propunham (PETROVSKI, 1976/1985). Blonski também foi o primeiro
teórico dentro da União Soviética ao dizer que a psicologia deveria se orientar
teoricamente por meio do marxismo. Porém, ao analisar a história da psicologia,
Blonski a classifica como uma ciência biológica, diga-se de passagem, possuindo como
objeto de pesquisa o comportamento humano. Assim Blonski compreendia o ser
humano “não como ‘alma’, mas como um ser biológico.” (SHUARE, 1990, p. 34).
No momento em que a psicologia é uma ciência biológica, cujo objeto é o
comportamento humano, Blonski propõem, segundo Shuare (1990), que seus estudos

27
deveriam ser realizados por meio dos métodos naturais, sendo estes, a observação e o
experimento. Mas ao mesmo tempo, Blonski salienta que a psicologia deveria estar
diretamente ligada as ciências sociais e econômicas, já que, os seres humanos estão
inseridos em um determinado modelo de sociedade, produzindo e reproduzindo a
própria vida social. Neste sentido, ao mesmo tempo que a psicologia é uma ciência
biológica, ela também seria uma ciência social, já que, para Blonski todas as atividades
dos seres humanos são sociais e, se caracterizam pela utilização de instrumentos.
Blonski também se limitava em certos momentos a um reducionismo biológico e
incompreensão do próprio método marxista. Sua proposta era que sem o conhecimento
de níveis inferiores – vegetal e animal – a compreensão dos seres humanos se torna uma
tarefa impossível. Sua importância dada ao biológico estava também presente no que se
diz respeito a educação infantil. Blonski dizia que o conhecimento não era apenas
assimilado pela criança a partir de intervenções no meio externo, mas sim, eram novas
qualidades que se desenvolviam sobre suas capacidades inatas. Assim como Básov,
Blonski também fui extremamente criticado por suas posições teóricas na década de
1930, envolvendo especialmente a paidologia (SHUARE, 1990).
Outros teóricos iniciaram também uma proposta de psicologia orientada pelo
marxismo. A sistematização entre psicologia e marxismo se inicia formalmente,
segundo Shuare (1990), no primeiro congresso de psiconeurologia de 1923 em Moscou.
K. N. Kornilov (1879-1957) apresenta neste congresso a proposta de sistematizar a
psicologia soviética as luzes do marxismo. Sua proposta é aceita por grande parte dos
teóricos ali presentes, inclusive, neste mesmo ano, uma resolução é aprovada,
destituindo Chelpanov de seu cargo como diretor do instituto de psicologia de Moscou,
em seu lugar foi nomeado Kornilov, que havia sido aluno do próprio Chelpanov.
George Ivanovich Chelpanov (1862-1936)11, foi o fundador do Instituto de
Psicologia de Moscou, em 191112, e era um filósofo de orientação idealista. Luria
(1992), escreve que Chelpanov apropriado das discussões que estavam sendo realizadas
na Europa, desenvolve um laboratório de psicologia com alguns instrumentos
experimentais típicos da psicologia alemã. O trabalho de Chelpanov no Instituto de

11
Vale dizer que Chelpanov, foi um grande crítico também das correntes materialistas de sua época.
Rubinstein (1959/1963) chama a atenção para críticas dirigidas a Séchenov e sua concepção
materialista. Como psicólogo idealista, Chelpanov estava combatendo a filosofia materialista que estava
ganhando forças no fim do século XIX já com os fisiólogos russos.
12
Vale dizer que em algumas biografias consultadas, por exemplo, a de Leóntiev (1999), a data da
fundação do Instituto de Psicologia de Moscou aparece como 1912.

28
Moscou se limitava em reproduzir experimentos de Wundt e Tichener. Luria também
salienta que em alguns momentos se reproduziam algumas pesquisas da psicologia
empírica, especialmente as desenvolvidas por Hoffding. Apesar de Luria mencionar as
pesquisas que eram realizadas no instituto, ele não apresenta detalhes específicos.
Com a substituição de Chelpanov, inaugura-se um novo momento histórico para
a ciência psicológica na jovem União Soviética, o combate às tendências idealistas e
empiristas da psicologia tendo como objetivo a fundamentação teórica de uma
psicologia marxista. A proposta de Kornilov de abandonar a psicologia idealista e
empirista e buscar uma nova saída, foi de extrema importância para o avanço da
psicologia marxista. Kornilov inicia, portanto, um trabalho de reunir jovens
pesquisadores interessado em desenvolver uma ciência psicológica objetiva, pautada no
método de Marx. Também se dedica aos estudos do marxismo-leninismo mas, assim
como, outros autores contemporâneos a ele – Blonski, por exemplo – parecia não
compreender o materialismo histórico dialético. Shuare (1990) chama a atenção para
uma afirmação de Kornilov sobre a psicologia dialética:

Afirmou que a psicologia dialética deve ser a síntese da psicologia empírica


(idealista e subjetiva) e da psicologia objetiva (reflexológica e condutista),
sem ver que a soma das duas preposições errôneas não leva a um resultado
correto e que a solução não se encontrava na síntese como conjunto, mas na
superação dialética de ambas posições. (p. 41).

Rubinstein em uma de suas notas de rodapé de seu livro O desenvolvimento da


psicologia, apresenta uma citação de Kornilov, a qual o autor apresenta com suas
próprias palavras a saída para uma psicologia que caminhasse rumo ao marxismo:

Me atrevo a afirmar – escreveu Kornílov13 -, como disse já outras vezes (ver


o livro Psicologia moderna e marxismo, do ano 1924) que o futuro sistema
da psicologia marxista será uma síntese das duas correntes que atualmente
estão em disputa em todos os países: a mais antiga, já bastante caduca,
embora, ainda encontre quem a defenda, a denominada corrente empírica ou
subjetiva, tendência que constitui a tese da psicologia moderna, e a segunda
corrente, posterior, mas produto de nossos dias, que representa a antítese, e é
a psicologia da conduta, a reflexologia, ou como também se chama
psicologia objetiva.” (RUBINSTEIN, 1959/1963, p. 335).

Para Kornilov, a psicologia empírica e subjetiva constituiria uma tese, já a


objetiva uma antítese, na síntese dessas duas teorias emergiria a psicologia marxista.
Porém, Kornilov compreendia como síntese a junção dessas duas teorias e não uma
superação, assim como, compreende a filosofia marxista. Rubinstein ainda salienta que

13
Devido as diferentes traduções – espanhol, inglês e português – dos nomes russos e afim de preservar
a citação original, o nome de Kornilov ora ou outra, será escrito de formas diferentes.

29
Kornilov apresentou sua teoria reatológica “na qualidade da psicologia marxista: na
realidade, constituía uma síntese das concepções existentes realizada, no fundamental,
dentro do marco de uma concepção condutista mecanicista.” (RUBINSTEIN,
1959/1963, p. 335/336). A teoria de Kornilov, em um primeiro momento, embora “fosse
ingênua, naturalista e mecanicista, parecia conter uma alternativa à psicologia idealista
de Chelpanov.” (LURIA, 1992, p. 35). Assim, a nova onda reatológica – embora
mecanicista e tendendo a um ecletismo - substituiu a psicologia subjetivista e empirista,
na qual em nada, superou as correntes fisiológicas que haviam sido elaboradas como um
combate ao idealismo no início do século, mas apenas se aproximou delas.
Petrovski (1976/1985) também apresenta mais detalhadamente como seria a
síntese de Kornilov ao pensar a reatologia:

A ampliação da noção de ‘reflexo’ a categoria de ‘reação’, segundo


opinavam os reatólogos, dava a possibilidade de realizar a síntese da
psicologia subjetiva e a objetiva. A primeira investigava a psique, o
subjetivo, ignorando as análises do movimento e a conduta como um todo, e
a segunda, ignorando a psique se ocupou unicamente dos movimentos de
resposta. Aqui viram os reatólogos o caminho para a dialética na psicologia
(o subjetivo como objeto da psicologia seria a tese, os reflexos ou os atos da
conduta seriam a antítese e a reação a síntese). (p. 13).

Com essa informação pode-se apresentar a reatologia, portanto, como uma


síntese das duas correntes mais desenvolvidas que haviam neste período, fim da década
de 1910 e início de 1920. Mas, ingenuamente Kornilov apresenta a subjetividade como
uma tese, os reflexos como uma antítese e as reações constituiriam a síntese dessa tríade
hegeliana, o que permitiria a compreensão do psiquismo humano. A partir de uma
junção de vários elementos, Kornilov acreditava estar desenvolvendo uma teoria
marxista, porém realizando uma fusão, ou ainda um ecletismo e, não buscando
superação em si destas teorias idealistas e condutistas. Assim como Básov e Blonski, a
teoria reatológica de Kornilov também foi criticada no início dos anos de 1930 e
considerada incapaz de sustentar uma psicologia marxista.
As primeiras tentativas de desenvolver a psicologia na União Soviética estão,
segundo Rubinstein (1940/1967), estruturadas a partir de conceitos da psicologia
condutista. Este fato se evidência, portanto, nas obras dos teóricos revisados até então.
Desde Basov, que compreendia a atividade a partir dos reflexos condicionados,
passando por Blonski que definia o comportamento dos seres humanos como objeto de
estudos da psicologia e, chegando até Kornilov e sua abordagem reatológica pautada em
uma “tríade hegeliana”.

30
As tentativas até então propostas na União Soviética, não emergiam em uma
criação de uma psicologia marxista, mas sim, na substituição de uma psicologia
idealista, por uma psicologia que era apenas nominalmente marxista. A expressão
criativa que inicia a superação das teorias mecanicistas e idealistas na psicologia
aparece em 1924, em meio ao II Congresso de Psiconeurologia de Leningrado. Para
Luria foi, Vigotski, o teórico que mudou o cenário da psicologia na União Soviética, e
conseguiu com coerência no método, unir o marxismo à psicologia. Vigotski realizou
uma comunicação sobre a investigação reflexológica e psicológica neste congresso e,
sobre a impressão momentânea causada por ele, Luria menciona que:

Quando Vygotsky14 se levantou para dar sua palestra, não portava consigo
qualquer texto impresso, e nem mesmo notas. No entanto, falava
fluentemente, e parecia nunca ter que vasculhar a memória à procura da
próxima ideia. Fosse prosaico o conteúdo de sua fala, esta seria admirável
pelo encanto de seu estilo. Mas sua fala não foi, de modo algum prosaica. Ao
invés de atacar um tema menor, como talvez fosse conveniente a um jovem
de vinte e oito anos que está falando pela primeira vez aos decanos de sua
profissão, Vygotsky escolheu como tema a relação entre os reflexos
condicionados e o comportamento consciente do homem. (LURIA, 1992, p.
43).

A fala de Vigotski chama a atenção de Kornilov, que o convida para integrar o


Instituto de Psicologia de Moscou. É também neste mesmo momento que surge uma
nova parceria que envolveria Vigotski, Luria e Leontiev e que ficaria conhecida como a
“troika”. A colaboração entre estes três jovens pesquisadores foi de fundamental
importância para o desenvolvimento da psicologia histórico-cultural e para a
compreensão da essência dos fenômenos do psiquismo humano (LURIA, 1992).
A aparição de Vigotski II Segundo Congresso de Psiconeurologia, foi importante
para encaminhar a psicologia a novos rumos, uma vez que suas formulações rompiam
com o materialismo vulgar na psicologia, que considerava

[...] que o objeto da psicologia se definia preponderantemente como o


comportamento dos seres vivos (incluindo o homem). Embora, na diferença
do condutismo norte americano, se tentava fundamentar essa definição no
materialismo dialético e se reconhecia o papel ativo do homem, já se fazia
evidente, naquela ocasião, que as tendências “objetivas” levavam à
biologização do comportamento e à psicologização da sociologia. (SHUARE,
1990, p. 54)

As investigações da psicologia, tendo como principal método o materialismo


histórico-dialético, ainda estavam se desenvolvendo, mas a importância que

14
Devido as várias grafias utilizadas para traduzir o nome de Vigotski, quando em citações integrais ou
referências, aparecerá escrito mantendo a originalidade das citações ou referências.

31
representaria Vigotski, Luria e Leontiev estaria presente na colaboração que superaria a
reflexologia e o condutismo mecanicista que marcavam a psicologia
preponderantemente neste momento.
Algumas conclusões, foram levantadas ainda neste congresso. Segundo Vega
(1993), os teóricos ali presentes concluíram que: 1) Deveria se evitar as correntes
idealistas, empiristas e subjetivistas da psicologia; 2) A psicologia deveria se basear no
materialismo histórico-dialético e na filosofia do marxismo-leninismo; 3) As correntes
objetivistas que se desenvolveram neste período não superaram o dualismo e; 4) A
necessidade das composições teóricas que unissem de maneira criativa o marxismo à
psicologia.
Petrovski (1976/1985) ao reconstruir a história da psicologia soviética, também
apresentou dois pressupostos que orientaram os psicólogos neste novo momento, pós
congresso de 1924. O primeiro, era que a psicologia pós-revolução deveria se orientar a
partir da filosofia materialista e, segundo, que a psicologia deveria adotar o
determinismo, baseado no método do materialismo histórico-dialético.
Como uma primeira expressão criativa para a superação das teorias existentes e
a criação de uma psicologia marxista, entra em cena a proposta de Vigotski, e seus
colaboradores. Sua proposta fundamentada no materialismo histórico-dialético e em
uma concepção monista do ser, enfrentou as teorias idealistas e as propostas condutistas
que estavam vigorando na psicologia. O método, a unidade entre atividade e
consciência, as funções psicológicas superiores entre outros problemas, aparecem a todo
instante como preocupação essencial em não apenas descrever, mas explicar todos estes
problemas.
O caminho percorrido até agora, permite analisar os principais representantes da
psicologia soviética que desenvolveram ideias capitais para a ciência psicológica nas
décadas de 1920 e de 1930. Para Vega (1993), a psicologia na União Soviética se
desenvolveu principalmente em Moscou, Leningrado e Tbilisi (Georgia). Para ele, a
diferença entre cada uma dessas escolas é acidental, porém deve-se analisar, se de fato o
desenvolvimento entre estes diferentes locais se deu de forma acidental. Vale lembrar
que, alguns autores exerceram grande influência nestas escolas. Como o próprio Vega
salienta, o pensamento bekhtereviano e pavloviano influenciou grande parte das
concepções teóricas em Leningrado. Mas, previamente, pode-se afirmar, que tanto os

32
psicólogos de Moscou como os de Leningrado15 buscavam a criação de uma psicologia
que se orientasse a partir da filosofia marxista-leninista.

1.2.3 – A psicologia em Moscou e seus principais representantes

Ao realizar uma revisão bibliográfica surge um novo problema. Vega (1993), ao


apresentar a escola de Moscou, a classifica como a escola da atividade, conceito
desenvolvido por grande parte dos psicólogos soviéticos. Porém, ao apresentar a escola
de Moscou e seus principais representantes une a ela Vigotski, Leontiev, Luria e
Rubinstein. Embora Rubinstein tenha se dedicado a desenvolver o conceito/categoria de
atividade, ele tece uma série de críticas a Vigotski, seus colaboradores e seguidores.
Vale deixar claro nesse trabalho que se compreende a importância de Rubinstein nos
estudos da atividade e no desenvolvimento da psicologia soviética, porém o próprio
autor não se identifica com a teoria histórico-cultural16. Esse problema retornará ao
analisar as obras de Rubinstein posteriormente, e compará-las as de Vigotski. Shuare
(1990) realiza também uma diferenciação entre as publicações nas diferentes regiões da
União Soviética, porém ao mencionar Moscou apresenta tal concepção como: A
concepção histórico-cultural de Vigotski e, ao se referir a Rubinstein, o menciona como
um importante teórico na sistematização do conceito de atividade. Shuare não o
identifica com nenhuma escola, mas como fundador de uma tradição própria: escola de
Rubinstein. Portanto, dentre os psicólogos de Moscou – ou melhor, os que objetivaram
desenvolver uma psicologia pautada no conceito de atividade – estarão presentes:
Vigotski, Leontiev, Luria, Rubinstein e Ignatiev17. O último aparece apenas como um
importante teórico no desenvolvimento do conceito de imaginação e da categoria de
atividade criadora. Ao buscar outros materiais de E. I. Ignatiev não se encontrou

15
Devido aos limites desse trabalho se propôs analisar apenas as escolas de Moscou e Leningrado, assim
como, seus principais representantes que contribuíram para a compreensão da função imaginativa.
16
Rubinstein, em diversas obras, em especial, ao escrever sobre a história da psicologia na Rússia e
posteriormente na União Soviética, classifica a concepção teórica de Vigotski como errônea. Em
Princípios de psicologia geral, o psicólogo escreve que as concepções teóricas de Vigotski, e de outros
autores como Bekhterev e Kornilov, estariam marcadas por erros e por um insucesso na tentativa de
sistematizar uma psicologia marxista. Em especial na teoria de Vigotski, Rubinstein menciona que ela se
desenvolveu com grande entusiasmo entre os psicólogos soviéticos, porém logo estes perceberam que a
concepção vigotskiana estava marcada pela tentativa de contrapor a partir de uma dualidade o natural e
o social (RUBINSTEIN, 1940/1967). Este é um problema que retornará ao analisar outras obras de
Rubinstein, em específico, O Desenvolvimento da psicologia.
17
Estes autores também foram escolhidos pelas suas publicações, que estão acessíveis, sobre a função
imaginativa.

33
nenhum dado biográfico sobre o autor ou sobre a “escola teórica”, pela qual ele se
orienta em seus trabalhos. Mas, observa-se em sua obra, sobre a imaginação
fundamentos importantes e que devem ser conservados neste trabalho.
Como já mencionado em outros momentos deste trabalho, a psicologia histórico-
cultural nasce com Vigotski. Liev Semiónovich nasceu em 5 de novembro de 1896 em
Orsha, cidade situada na Bielo-Rússia. Vigotski nasceu em uma família judia, que
durante o período czarista conseguia manter uma posição privilegiada na sociedade. Seu
pai, segundo os apontamentos de Rivière (1985), era chefe do banco central e
representante de uma companhia de seguros. Sua mãe, por sua vez, era grande amante
de poesias e falava diversos idiomas. Por insistência de seus familiares, Vigotski se
matriculou na faculdade de medicina de Moscou em 1913. Logo, percebeu que seus
interesses pessoais não caminhavam junto à medicina, e fez a opção de trocar a
medicina pelo direito, também na faculdade de Moscou. Neste mesmo período Vigotski
além do direito, cursava filosofia e história na Universidade Popular Shanyavsky, uma
universidade livre e independente que abrigava professores banidos de outras
instituições. Para Rivière, os cursos de filosofia e história vieram influenciar Vigotski
muito mais que o próprio direito. Vigotski também era apaixonado por literatura e
poesia, mas sua principal paixão era o teatro, um dos elementos que foram decisivos em
sua futura carreira. Primeiramente como crítico literário e posteriormente como
psicólogo. Sua atração pelo teatro e pela arte em geral, permitiu que ele escrevesse a
crítica de Hamlet e posteriormente Psicologia da arte.
Vigotski termina sua faculdade junto com a consolidação da Revolução de
Outubro e, sua obra encontra-se marcada justamente por este momento histórico como
salienta Leóntiev (1999). Ao terminar seus estudos, retorna a Gomel, cidade em que
permaneceria até 1924. Neste período, Vigotski dirige seus interesses a estudos
relacionados à pedagogia, estética e psicologia18. Neste meio tempo, Vigotski leciona
em várias instituições da cidade, mas, o momento decisivo na vida de Vigotski foi,
como já mencionado anteriormente, o II Congresso de Psiconeurologia de Leningrado.
Sua fala surpreendeu a vários pesquisadores no evento, inclusive Kornilov que o
convidou a integrar o Instituto de Psicologia de Moscou (VEGA, 1993). Segundo
Shuare (1990), Vigotski se debruçou em vários ramos de psicologia científica, inovando

18
Vigotski se aventurou em vários campos da ciência moderna, dentre alguns pode-se mencionar:
Direito, filosofia, história, filologia, arte, educação, defectologia, psicologia e no fim de sua vida retorna
a medicina com seus interesses voltados a neurologia.

34
e criando novas vertentes, como foi o caso da defectologia. Ainda, para Rivière (1985),
a posição criativa frente à psicologia e ao marxismo tomada por Vigotski, não fora
apenas devido a uma necessidade momentânea, mas sim, pela apropriação das obras de
Hegel, Marx e Engels que Vigotski havia tido antes mesmo de iniciar seus trabalhos na
psicologia.
A chegada de Vigotski à Moscou no final do ano de 1924, resultou logo de
imediato em uma parceria com Luria e Leontiev. Luria (1992) escreve que Vigotski
iniciou um trabalho incansável de revisão de materiais que estavam sendo publicados
por todo o mundo, sintetizando as principais ideias e chegando a um resultado que
gerou um artigo sobre a crise na psicologia19. Vigotski e seus colaboradores
reconheciam os méritos de seus colegas estrangeiros, em especial, do teóricos alemães –
Kurt Lewin, Wolfgang Kohler entre outros representantes da psicologia da Gestalt –
porém, também sabiam que não era possível explicar a essência do psiquismo humano
utilizando nenhuma destas teorias que vigoravam dentro e fora da União Soviética. Para
Luria, Vigotski era também o principal teórico marxista que tinham no Instituto. Sobre
isso ele escreve que:

Influenciado por Marx, Vygotsky concluiu que as origens das formas


superiores do comportamento consciente estavam nas relações sociais do
indivíduo com o meio externo. Mas o homem não é só produto de seu meio
ambiente; também é um agente ativo na criação desse meio ambiente.
(LURIA, 1992, p. 48).

A influência de Marx é notável nas obras de Vigotski, inclusive o germe do


conceito de atividade se encontra presente já nas primeiras conclusões do psicólogo. O
ser humano é um indivíduo ativo na realidade, a modifica por meio de sua atividade e
ao fazer isso, modifica a si mesmo. Luria salienta que Vigotski denomina essa nova
teoria de “‘cultural’, ‘instrumental’ ou ‘histórica’.” (LURIA, 1992, p. 48). Cada um
destes conceitos definia parte ou características da nova abordagem que havia nascido,
às luzes do materialismo histórico-dialético.
Coerente ao método de Marx, Vigotski embasou uma teoria que fosse
condizente com a própria filosofia marxista, resultando em um primeiro momento no
próprio avanço da ciência psicológica. Novos problemas começavam a surgir, assim
como, novos conceitos que objetivavam explicar a origem do psiquismo humano.

19
O material produzido por Vigotski sobre a crise na psicologia encontra-se disponível em português, no
livro Teoria e método em psicologia, e possui o título de: O significado histórico da crise da psicologia.
Uma investigação metodológica.

35
Vigotski, como nenhum outro psicólogo de sua época dominou o marxismo,
visualizando nele, uma expressão do método para a psicologia. (IAROCHEVSKI,
GURGUENIDZE, 1999).
Vigotski era fiel aos próprios fundamentos filosóficos em que se orientava para
o desenvolvimento teórico da psicologia. Não se preocupava simplesmente em analisar
os fenômenos psicológicos, descrevendo-os em leis ou regras, mas sim, propôs estuda-
los a partir da própria atividade prática e da história dos seres humanos. A atividade
prática dos seres humanos, mediada pelos instrumentos desenvolvidos pelos próprios
seres humanos, era decisiva para o desenvolvimento psicológico humano. Isso reflete, o
caráter mediado das funções psicológicas superior (LEONTIEV, 1999), assim como, o
caráter mediado e histórico do desenvolvimento da consciência.
As funções psicológicas superiores dos seres humanos, para Vigotski, se
estruturavam “por cima das naturais, inferiores, involuntárias (comuns aos animais e ao
homem)”, dessa maneira, “situam-se as culturais, as superiores, as voluntárias.”
(IAROCHEVSKI, GURGUENIDZE, 1999, p. 481). O desenvolvimento das funções
psicológicas superiores, a partir da teoria histórico-cultural de Vigotski somente é
possível em um meio histórico e social. As funções só se desenvolvem na atividade do
indivíduo na realidade, em conjunto com os mediadores presentes na cultura, os
instrumentos e outros seres humanos que em um primeiro momento dirigem as funções
psicológicas e os comportamentos da própria criança.
O importante a dizer é que Vigotski abriu caminho para um novo
desenvolvimento histórico da psicologia. Encontrou em velhos conceitos, novas
respostas. Em velhos problemas, novas soluções. Em suas pesquisas encontra a gênese
das funções psicológicas superiores, elaborada a partir do materialismo histórico-
dialético. Em outro momento deste trabalho cabe deter-se sobre a compreensão do
psiquismo humano e da internalização20 das funções psicológicas superiores a partir dos
trabalhos da psicologia histórico-cultural. Isso auxiliará na investigação entre a
interdependência da função imaginativa com os sistemas psicológicos e sua importância
na objetivação da atividade criadora.

20
Rubinstein em seu livro O desenvolvimento da psicologia, escreve que Vigotski ao invés de utilizar o
termo internalização, utilizava reversão. Em suas próprias palavras, Rubinstein diz que “a interiorização
tal como era compreendida por Vigotski (ele a chamava ‘reversão’) se referia diretamente ao que
entendia como fundamental para estruturar as funções psicológicas superiores do homem: ao conceito
de signo.” (RUBINSTEIN, 1959/1963, p. 338).

36
Vigotski, já no fim de sua vida, retorna à medicina buscava ele segundo Rivière
(1985) e Vega (1993), a solução sobre a localização das funções psicológicas no cérebro
humano. Porém, vítima de uma tuberculose, seu trajeto na psicologia foi interrompido
em 1934. Mas, suas obras continuam se fazendo presentes atualmente. Como escreve
Leóntiev (1999), é difícil na psicologia um teórico continuar sendo contemporâneo após
50 anos do desenvolvimento de suas ideias. 40 anos após Leontiev escrever a
apresentação do Artigo de introdução sobre o trabalho criativo de L. S. Vigotski, suas
ideias ainda vigoram na psicologia e sustentam a base de toda a psicologia histórico-
cultural.
Vigotski também influenciou fortemente as concepções teóricas de Alexander
Romanovich Luria (1902–1977), e segundo o próprio neuropsicólogo, o contato que
travou com Vigotski no período em que teve a oportunidade de trabalhar com ele,
mudou para sempre sua vida e modo de compreender todos os fenômenos relacionados
com o psiquismo humano (LURIA, 1992). Alexander Romanovich foi um dos
psicólogos mais reconhecidos dentro da União Soviética e em outros países como o
fundador de um novo campo da psicologia, a neuropsicologia (LEVITIN, 1982). Foi
também um grande colaborador de Vigotski no desenvolvimento da teoria histórico-
cultural e na compreensão dos fenômenos psicológicos, diga-se de passagem, possuindo
trabalhos de grande importância sobre o desenvolvimento das funções psicológicas
superiores como, por exemplo, os compêndios de Curso de psicologia geral publicados
em quatro volumes e disponíveis em português. Luria, ainda segundo Levitin, dirigiu
diversos estudos sobre os fatores genéticos e sociais no desenvolvimento psicológico da
criança, chegando a resultados que permitiram compreender a regularização dos
processos psicológicos a partir da linguagem. Suas contribuições sobre a
neuropsicologia são valiosas para a psicologia histórico-cultural, principalmente pelo
desenvolvimento, posterior a Vigotski e dependente dele, sobre os conceitos de sistemas
psicológicos e o problema da localização das funções psicológicas superiores no cérebro
humano.
Luria direcionou na Segunda Guerra Mundial uma mudança significativa na
compreensão da neuropsicologia e das psicopatologias. O psicólogo soviético escreve
sobre o tamanho desastre que a segunda guerra representou para todo o mundo. Dentre
milhões de pessoas que morreram durante a guerra, várias outras sofreram lesões,
inclusive lesões cerebrais, o que acarretou cuidados especiais e trabalhosos para estes
pacientes. Luria (1992) salienta que neste período o

37
[...] recurso mais importante era a dedicação com que realizávamos a tarefa,
precisávamos diagnosticar e tratar um enorme conjunto de distúrbios das
funções mentais – de deficiências de sensação, percepção e movimento a
distúrbios dos processos intelectuais. (p. 144).

O desenvolvimento e os objetivos da psicologia mudaram de foco e o dever de


auxiliar nos cuidados dessas patologias oriundas da guerra era o principal dever para
Luria e outros profissionais neste momento.
Outra figura, também influenciada por Vigotski e, de extrema importância no
desenvolvimento da psicologia na União Soviética foi Alexei Nicoláevich Leontiev
(1903-1979)21, assim como Luria, foi colaborador de Vigotski na construção de uma
psicologia marxista. Para Vega (1993), ele aparece como um dos autores mais influentes
no desenvolvimento do conceito de atividade elaborado por vários teóricos da
psicologia soviética. Leontiev após terminar sua graduação na universidade de Moscou
em 1924, integra o jovem grupo de pesquisas de Kornilov, em busca da construção dos
pilares de uma psicologia que se baseasse na filosofia do marxismo-leninismo. Como
muitos outros psicólogos desse período, final da década de 1910 e início de 1920,
Leontiev seguia a mesma orientação filosófica e teórica de Chelpanov. Porém,
integrando o grupo de Kornilov, logo rompe com as ideias do filósofo e psicólogo
idealista (GOLDER, 2004).
Os primeiros trabalhos realizados por Leontiev – os estudos sobre a memória,
por exemplo, estão intrinsecamente vinculados com a psicologia histórico-cultural,22
justamente pelo momento em que se encontrava. Vale lembrar que ele estava
trabalhando junto com Vigotski no início de sua carreira (SHUARE, 1990). Para
Golder (2004), um dos marcos mais importantes, e que veio a determinar toda a carreira
de Leontiev como psicólogo, aparece inicialmente nas obras de Vigotski como: a
atividade objetal. Leontiev como é de conhecimento para os estudiosos da psicologia
histórico-cultural e soviética desenvolveu suas principais ideias a partir desta categoria

21
Vale mencionar que em algumas bibliografias revisadas, a data de nascimento de Leontiev aparece
como 1904, como no caso da de Karl Levitin.
22
Alguns autores como, por exemplo, Marta Shuare, mencionam Leontiev como um fundador de uma
própria escola na psicologia. Outros, Rubinstein por exemplo, o classificam como defensor e
continuador da escola de Vigotski. Rubinstein (1959/1963) ao tratar da teoria da internalização das
funções psicológicas superiores, escreve que: “Esta concepção, atualmente, é sustentada na psicologia
soviética por A. N. Leóntiev e seus colaboradores. Eles compreendem a ‘interiorização’ como
‘mecanismo’ graças a qual, nossa atividade psíquica interna se forma a partir de nossa atividade
material externa.” (p. 339). Nesta monografia, Leontiev aparece vinculado como colaborador e
importante teórico no desenvolvimento da psicologia histórico-cultural.

38
denominada atividade. Vale lembrar seu livro Atividade, consciência e personalidade de
1974.
Outro psicólogo que é apresentado neste trabalho, não vinculado com a teoria de
Vigotski, mas sim, como um dos mais eminentes teóricos da psicologia soviética é
Serguei Leonidovich Rubinstein (1889-1960). Serguei Leonidovich se dedicou durante
grande parte de sua vida a responder questões filosóficas da psicologia, e se tornou um
dos grandes defensores da psicologia marxista e da categoria de atividade na psicologia
soviética. Tratando-se de seus materiais bibliográficos também se encontra grande
dificuldade de obtê-los, apenas algumas de suas obras foram traduzidas para o espanhol,
inglês e alguns livros foram também traduzidos por editoriais portugueses, mas não
foram reeditados. Por sua vez, os materiais biográficos acessíveis, também são escassos.
Se resumem novamente em uma pequena apresentação de Vega (1992), Shuare (1990),
uma página sobre a polêmica com Leontiev apresentada por Golder (2004) e alguns
sites russos23 que conservam parte de sua memória.
Rubinstein, inicia sua graduação fora da Rússia czarista, na Alemanha nas
Universidades de Freiburg, Marburg e Berlin, estudando filosofia e psicologia24.
Retorna a sua cidade natal, Odessa, em 1914, onde leciona filosofia, psicologia e logica
nas escolas ginasiais. Após a Revolução de Outubro é convidado para lecionar na
Universidade de Novorossiysk em Odessa. Somente em 1930 Rubinstein, começa a
ganhar notoriedade no campo da psicologia, onde foi convidado por M. Ya. Básov a
trabalhar no instituto pedagógico de Leningrado. Nesta mesma cidade, durante a
Segunda Guerra Mundial, permanece na Universidade de Leningrado onde é nomeado
vice-reitor, possuindo como principal responsabilidade a proteção dos arquivos
científicos desta instituição durante a guerra. Rubinstein também auxiliou a população
local e trabalhou na preservação dos monumentos históricos e obras de arte durante a
Segunda Guerra Mundial.
É também na década de 1930 que Rubinstein inicia seu trabalho em sistematizar
uma psicologia marxista. Publica em 1934, um artigo denominado: Princípios

23
Nestes sites encontram-se um vasto número de materiais teóricos publicados por Rubinstein, porém
somente a apresentação sobre a vida do teórico soviético encontra-se em Inglês, o restante, inclusive
suas publicações se encontram ainda em Russo. Como exemplo, pode-se citar o site: Scientific
psychology society, que foi consultado para buscar maiores informações sobre a vida teórica deste
eminente cientista. Os materiais para acesso encontram-se disponíveis no link: http://rubinstein-
society.ru/
24
Assim como Vigotski, Rubinstein se aventurou em vários campos da ciência, dentre alguns pode-se
citar a psicologia, filosofia, sociologia, matemática, física, ciências naturais e lógica. Inclusive suas obras
estão marcadas pela presença de todas estas áreas citadas.

39
filosóficos da psicologia. Os primeiros manuscritos de K. Marx e os problemas da
psicologia. Nele, Rubinstein apresenta a importância de Marx para os estudos teóricos
da psicologia e, a importância da categoria de atividade para os estudos psicológicos
(SHUARE, 1990). No início de 1940, Rubinstein se muda para Moscou, onde trabalhou
até 1950, período que sofreu algumas sanções e censuras. Foi acusado de engrandecer a
psicologia ocidental e burguesa, e rotulado de revisionista e antimarxista em seus
artigos e livros publicados, principalmente em Fundamentos da psicologia geral de
1935.
Em meados de 1950, Rubinstein retoma junto com o Instituto de Filosofia da
Academia de Ciências da União Soviética seus trabalhos sobre os fundamentos
filosóficos da psicologia. Assim, publica em 1957 o Ser e a Consciência, apontando a
importância da teoria de reflexo psíquico para os trabalhos da psicologia, em específico,
no auxílio da atividade prática humana e no desenvolvimento da consciência. No início
de janeiro de 1960, Rubinstein falece repentinamente, em meio ao período mais criativo
e produtivo de sua vida científica.
Tanto Vigotski, como Luria, Leontiev e Rubinstein contribuíram no
desenvolvimento da ciência psicológica na União Soviética. Sistematizaram, com suas
diferenças, conceitos fundamentais para os estudos psicológicos. Estes são os teóricos
representantes da “escola de Moscou” que serão analisados posteriormente em outro
momento desse trabalho. Cabe agora, deter-se no desenvolvimento teórico da psicologia
em Leningrado e, em alguns de seus principais representantes.

1.2.4 - A psicologia em Leningrado e seus principais representantes.

Ao analisar o desenvolvimento da psicologia em Leningrado, um problema


aparece à tona. Os materiais para uma breve análise histórica da psicologia em
Leningrado são bem mais escassos e difíceis de se encontrar do que os que se referem à
psicologia em Moscou. Novamente se recorre a Shuare (1990) e Vega (1992) para se
reconstruir o desenvolvimento teórico desta escola. Também surgiram dificuldades em
encontrar autores que expliquem o fenômenos da imaginação nesta escola. Apenas em
uma autora se verificou a existência de escritos sobre a imaginação, sendo esta, A. A.
Liublinskaia. Mas, nenhuma nota biográfica foi encontrada sobre a vida científica dessa
teórica. No que se diz respeito a “escola leningradense”, como denomina Shuare (1990),

40
encontrou-se brevemente alguns dados biográficos de seus principais representantes: V.
M. Miasíschev e B. G. Anániev.
A partir dos dados bibliográficos apresentados por Shuare (1990) e Vega (1992)
pode-se dizer que a psicologia em Leningrado se desenvolve sobre forte influência do
pensamento fisiológico. Primeiramente a partir dos conceitos levantados por Bekhterev
e posteriormente da fisiologia de Pavlov.
Vladímir Nikolaevich Miasíschev (1893-1973), aparece como o primeiro e
principal representante dessa escola que será denominada neste trabalho como
leningradense. Vladímir Nikolaevich se graduou em medicina e em seus primeiros anos
de estudo se interessou pela psicologia dos seres humanos normais e enfermos. Esse
interesse o levou a psicologia médica e a psiconeurologia, áreas em que desenvolveu
trabalhos sobre métodos de psicoterapia. Miasíschev também foi aluno de Bekhterev e
possuía um amplo conhecimento dos principais representantes da fisiologia de seu país,
dentre os quais, Séchenov e Pavlov (SHUARE, 1990).
Ao explicar o desenvolvimento psicológico dos seres humanos, em específico da
personalidade, Miasíschev, segundo Shuare (1990), recorre a uma explicação de
relações, que o ser humano estabelece com a realidade e também consigo mesmo. A
personalidade seria ainda para Miasíschev fruto de um desenvolvimento histórico, diga-
se de passagem, se desenvolvendo na medida em que os seres humanos se relacionam e
interagem com outros seres humanos. A personalidade também não seria uma condição
estável na vida dos indivíduos, mas sim dinâmica, vindo a sofrer influência da
sociedade em que o indivíduo está inserido. Como exemplo breve de como Miasíschev
compreendia tais relações, vale apresentar um pequeno trecho sobre um capítulo escrito
no livro Problemas de Psicoterapia de 1958. Miasíschev, ao apresentar a psicoterapia,
escreve que

O método psicoterapêutico representa a influência que um homem (o médico)


exerce sobre outro (o doente ou um grupo deles) durante o processo de seus
contatos. Por isso constitui um método especificamente humano, e sua
interpretação se fundamenta na compreensão das peculiaridades do homem,
tanto como ser social e natural. (MIASISHEV25, 1958/1962, p.13-14).

Deixando de lado sua compreensão sobre como se consiste uma psicoterapia, se


observa alguns dos elementos apresentados por Shuare (1990), minimamente sobre a
compreensão de Miasíschev sobre a personalidade e os sistemas de relações. Primeiro

25
Novamente, devido as diferentes traduções realizadas, o nome de Miasíschev, quando em citação
aparecerá assim como na citação original.

41
observa-se o médico e o paciente inseridos em um contexto, dentro desse sistema de
relações, o médico estabelece contato com o paciente ou um grupo de pacientes e estes
por sua vez estabelecem contato com o médico e outros pacientes. Como crítica previa à
esse autor, pode-se levantar que o mesmo apesar de considerar a personalidade como
produto de uma condição histórica e social, ele aparentemente não se atenta a atividade
objetal dos seres humanos e sua importância para o desenvolvimento da personalidade.
Esse é um dos primeiros pontos que se nota uma diferença com os teóricos de Moscou.
Outro importante representante da psicologia leningradense foi Boris
Gerasimovich Anániev (1907-1972). Assim como, Miasíschev, Anániev possuía um
vasto domínio dos clássicos da fisiologia russa, dentre os quais, aparece forte influência
de Bekhterev. No início de sua produção teórica, Anániev trabalhava a partir das
categorias da reflexologia, mas surgiu a insuficiência por parte desta teoria de explicar
alguns fenômenos oriundos do psiquismo humano. Segundo Shuare (1990), neste
momento da vida teórica de Anániev, ele busca no caráter social dos seres humanos,
algumas explicações que a reflexologia não podia realizar.
Após abandonar a reflexologia, Anániev se dedica a sistematizar estudos sobre o
impacto da educação na personalidade e sobre o sentido do tato26. Embora Anániev
desenvolva neste período pesquisas a partir do caráter social, ainda se encontram em
suas obras o peso do pensamento fisiológico. Shuare também escreve que Anániev ao
explicar o processo de desenvolvimento da personalidade, acrescenta a esse o conceito
de socialização, o qual permite a interiorização da relações sociais que rodeiam o
indivíduo. O indivíduo por meio de sua socialização, com outros seres humanos,
desenvolve sua personalidade. Nas formulações teóricas de Anániev também se
encontra presente a unidade entre atividade e consciência, segundo Shuare, a partir de
uma formulação “rubinsteiniana”. Em que a autora explica como, “o processo de vida
não é redutível a atividade objetal e a determinação da consciência possui uma base
ontológica muito mais ampla.” (SHUARE, 1990, p. 129).
Por fim, outro nome que aparece vinculado a escola leningradense é A. A.
Liublinskaia. Sobre a autora, só se tem conhecimento sobre os dados breves de seus
trabalhos apresentados nos prefácios de seus livros. Liublinskaia foi professora do curso
de psicologia infantil no Instituto Pedagógico A. I. Herzen, de Leningrado e também na

26
Pode-se encontrar artigos de Anániev em algumas coletâneas traduzidas para o Inglês e o Espanhol.
Em específico, se encontra no livro Psicologia na União Soviética de 1957, o artigo As bases da
discriminação espacial, e no livro Psicologia Soviética contemporânea de 1967, o artigo Sobre a teoria do
sentido do tato.

42
Faculdade de Filosofia da Universidade A. A. Zdanov, também em Leningrado. Em seu
prefácio, ela escreve que várias observações que permitiram a sistematização de seu
livro – O desenvolvimento psíquico da criança – foram realizadas em meio ao bloqueio
que sofreu Leningrado frente a Segunda Guerra Mundial, mesmo período em que foi
educadora de um grupo de crianças.
Estes são os principais representantes da psicologia em Leningrado, mas a
psicologia leningradense não se esgota neles. Outros teóricos também desenvolveram a
psicologia neste local, porém por falta de materiais teóricos não será possível analisar
outras contribuições. Nessa escola, nota-se previamente uma forte influência da
fisiologia nas pesquisas vinculadas a psicologia. Em especial Miasíschev ao apresentar
os problemas de psicoterapia, por exemplo, demonstra questões que estavam sendo
resolvidos a partir de conceitos utilizados pela fisiologia; a atividade nervosa superior, o
primeiro e segundo sistemas de sinais entre outros conceitos trabalhados por Séchenov,
Bekhterev e principalmente por Pavlov aparecem constantemente em seus textos.
Portanto, se para Vega (1992) a diferença entre as escolas de Moscou e
Leningrado são meramente acidentais, neste trabalho, afirma-se que não são acidentais,
mas sim, carregam em si traços do próprio desenvolvimento histórico e de alguns
representantes que influenciaram fortemente as pesquisas nestes locais. Em Leningrado,
como vale lembrar, Bekhterev estava trabalhando frente ao instituto do cérebro e veio a
influenciar fortemente as obras de Miasíschev e Anániev. Por outro lado, Moscou nega
– em um sentido dialético – a fisiologia. Conserva na explicação psicológica os traços
mais importantes das contribuições fisiológicas sobre o desenvolvimento das funções
elementares, mas busca em outros conceitos, a explicação para a essência do
desenvolvimento psicológico dos seres humanos. Um dos conceitos trabalhados para a
explicação do desenvolvimento psicológico dos seres humanos é a atividade, que abre a
possibilidade de explicar posteriormente o desenvolvimento das funções psicológicas
superiores e dos sistemas psicológicos. Aqui, se encerra esse capítulo, afirmando que a
importância atribuída à atividade objetal, como apresentada por Marx, para o
desenvolvimento psicológico dos seres humanos se encontra mais presente nos
trabalhos dos representantes de Moscou do que nos de Leningrado. A próxima
investigação passa a ser agora sobre a importância desses três conceitos – atividade,
funções psicológicas superiores e sistemas psicológicos – no desenvolvimento
psicológico dos seres humanos.

43
CAPÍTULO 2 – ATIVIDADE, FUNÇÕES PSICOLÓGICAS E SISTEMAS
PSICOLÓGICOS: A IMPORTÂNCIA DA ATIVIDADE PRÁTICO-OBJETAL
NO DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO HUMANO

A atividade como já mencionado em outros momentos deste trabalho é um


conceito fundamental, que permite compreender a essência do desenvolvimento
psicológico dos seres humanos. Em primeiro lugar, surge a atividade prática, para
somente depois terem origem as formas superiores do comportamento humano. Como
escreveu Luria (1992), Vigotski foi um dos primeiros teóricos a compreender a
importância da atividade em um sentido estritamente marxista. Mas, apesar de em
Vigotski se encontrar o germe do conceito de atividade, foi S. L. Rubinstein e A. N.
Leontiev que se dedicaram ao estudo desse problema, descrevendo e explicando as
principais leis da atividade. Rubinstein, como de praxe, se diferencia ao explicar a
atividade, e seus seguidores, segundo Shuare (1990) acusam Leóntiev de “psicologizar”
esse conceito. Cabe, portanto, situar as concepções tanto de Rubinstein como de
Leóntiev, para encontrar semelhanças e diferenças, e superar eventuais limitações postas
pela falta de materiais bibliográficos e pelas traduções trabalhadas.

2.1 – A atividade para S. L. Rubinstein

A atividade é para Rubinstein um dos pontos fundamentais para se realizar um


estudo psicológico, porém, não se deve em momento algum individualizar a atividade.
Existem outros processos que devem ser analisados, para além da atividade. Durante a
análise dos trabalhos de Rubinstein, ao menos nos principais trabalhos que o autor
descreve e explica a atividade, objetiva-se expor estes outros processos que Rubinstein
compreende serem importantes na análise do psiquismo humano. Segundo Shuare
(1990), a primeira obra que Rubinstein inicia a sistematização do conceito de atividade
é O princípio filosófico da psicologia. Os primeiros manuscritos de Karl Marx e os
problemas da psicologia. Portanto, é também por ela, que se inicia essa análise,
identificando elementos que são fundamentais para explicar o desenvolvimento
psicológico dos seres humanos.
Rubinstein (1934/1963) aponta no desenvolvimento da ciência psicológica na
União Soviética, a presença marcante da filosofia do marxismo-leninismo, mas realiza
uma ressalva. Nem Marx e nem Lenin se debruçaram sobre o vasto campo da psicologia

44
e, objetivaram explicar a essência do psiquismo humano. Marx, Engels e Lenin não
eram psicólogos, mas sim filósofos, e sua importância para a psicologia consiste no que
diz respeito à sistematização de um método que explica a realidade concreta e objetiva,
cujo ser humano é um ser real, ativo e histórico, que altera a natureza a partir de suas
necessidades e volição. O método é, portanto, o principal legado de Marx, Engels e,
posteriormente Lenin para a psicologia. Na concepção filosófica de Marx se encontra o
ser humano, mas

[...] não o homem abstrato ou a abstração do homem, como em Feuerbach,


mas o homem real, concreto, que vive em uma determinada situação em
desenvolvimento e historicamente formada, e que se forma em determinadas
relações sociais com outros indivíduos. (p. 270).

Em toda a vasta publicação de Marx, se encontra segundo Rubinstein


(1934/1963), apenas um único material em que Marx dedica atenção aos assuntos que
estão relacionados à psicologia, a saber, os Manuscritos econômico-filosóficos. Estes
manuscritos ocupam na elaboração teórica da psicologia soviética uma importante
referência, não por apenas tratar de temas centrais da psicologia, mas por destacar o ser
humano em suas análises sobre o estranhamento humano e a apropriação dos sentidos.
Assim, o ser humano nestes manuscritos aparece como um ser concreto e não mais
abstrato como nas concepções das teorias filosóficas idealistas. Rubinstein também
escreve que Marx formula três leis básicas durante a exposição de suas ideias nesta
obras.
A primeira tese presente nos manuscritos de Marx, segundo Rubinstein, consiste
na atividade prática e teórica dos seres humanos. Para o psicólogo, “o princípio
concernente da atividade como fator importante na formação das propriedades psíquicas
do homem está também solidamente incorporado na psicologia soviética [...].”
(RUBINSTEIN, 1934/1963, p. 256). A atividade como compreendida por Marx, prática
e objetal, aparece com grande destaque nas obras dos soviéticos logo no fim da década
de 1920 com Vigotski, e início de 1930 com outros teóricos e inclusive o próprio
Rubinstein.
Como segunda tese, Rubinstein salienta que ela encontra-se intrinsicamente
ligada a primeira, porque o mundo do objetos, elaborados a partir da atividade humana,
influência no desenvolvimento ulterior dos sentidos humanos (RUBINSTEIN,
1934/1963). Portanto, a atividade dos seres humanos na realidade aparece neste
momento como a ligação, ou a dialética, entre sujeito e objeto.

45
Já na terceira tese apresentada por Rubinstein (1934/1963), o autor salienta que
pode-se afirmar baseando-se em Marx que “a psicologia humana, os sentidos do
homem, são um produto da história.” (p.261). O ser humano como se conhece hoje, se
desenvolveu acompanhando o desenvolvimento material e econômico das sociedades.
Rubinstein ainda salienta que estas três teses encontradas nos Manuscritos econômico-
filosóficos, de Marx representam todo o pilar das formulações teóricas da psicologia
soviética. Em todas as teses, o papel da atividade objetal se faz presente, até mesmo e
principalmente na última. Nota-se que a atividade possui grande importância no
desenvolvimento dos sentidos humanos. A história que se desenvolveu frente a
produção humana dos próprios víveres é uma comprovação da importância que possui a
atividade. Porém, não deve-se pensar na atividade pela atividade, existe sempre um
sujeito por detrás da atividade e este é ativo frente a sociedade em que vive. Os sentidos
humanos, para Rubinstein, se desenvolveram em conjunto com o desenvolvimento da
atividade humana prática e externa.
A atividade, ainda nas obras de Rubinstein, ganha maior destaque nos Princípios
de psicologia geral, publicado em 1940. Nela, o autor sistematiza o que compreende
por atividade e quais os processos envolvidos em sua objetivação. No centro de sua
elaboração teórica aparecem novos conceitos: a ação, o motivo e fim. Todos estes
conceitos fazem parte da compreensão da atividade para Rubinstein. A ação representa
para o autor parte da atividade, nunca como uma ação isolada, mas sim como uma
totalidade, a atividade. A atividade também estaria dotada de uma finalidade e um
motivo para que o sujeito a realize (RUBINSTEIN, 1940/1967).
Rubinstein ainda salienta que a atividade se constitui como uma unidade. A
atividade analisada como unidade possui sempre um motivo e uma finalidade que leva a
um resultado. O motivo está diretamente ligado as necessidades ou interesses do sujeito,
que se formam em um meio social. Outro elemento que representa uma parcela da
atividade é a ação. Para o autor, a ação representa um meio e um fim ao mesmo tempo.
Ela é meio na resolução da atividade, como parte constituinte dessa atividade, mas
também é fim, em sua própria ação parcial. É por meio da atividade que também se
manifesta a personalidade, mas a personalidade, para além de se manifestar na
atividade, também se desenvolve em conjunto com a atividade do sujeito. Sua
importância é para Rubinstein (1940/1967) marcada na análise dos chamados
fenômenos psicológicos, segundo ele

46
Todos os processos psíquicos que empenhamos a estudar ao analisar a psique
humana, aparecem na realidade como fatores e aspectos do trabalho, do jogo
e do estudo, em geral, no ser ativo. Na realidade se manifestam somente nas
vinculações e transições recíprocas de todos os aspectos da consciência
dentro da concreta atividade, em que se formam e pela qual são
determinados. (p. 626).

A atividade prática e exclusivamente humana também se generaliza. Existem


segundo Rubinstein (1940/1967), diferentes tipos de atividade: o trabalho – a principal
atividade humana –, o jogo e o estudo. Vale, portanto, se deter minimamente nas
descrições e explicações de Rubinstein, e encontrar em cada atividade suas
particularidades que se manifestam em meio a personalidade.
O trabalho, é a primeira forma de atividade apresentada por Rubinstein
(1940/1967). O trabalho é para o autor o que possibilitou o desenvolvimento histórico
dos seres humanos e de suas qualidades psíquicas. É ainda por meio do trabalho que os
seres humanos produzem e reproduzem a própria existência. A possiblidade da
existência das demais atividades – jogo e estudo – somente torna-se possível pelo
simples fato dos seres humanos organizarem a vida social por meio trabalho.
Rubinstein, também salienta, que o trabalho não é uma categoria específica de análise
psicológica, mas sim, das ciências sociais. Mas, os componentes presentes na atividade,
ou seja, no trabalho em si, são aspectos vinculados ao estudo psicológico.
O trabalho possui sempre um motivo e é orientado à um fim. Nele, o ser humano
não apenas atinge sua finalidade, objetivando um produto no qual estava trabalhando,
mas também, desenvolve sua própria subjetividade, suas características mais pessoais.
No trabalho, assim como outra atividade orientada a um fim, a personalidade do sujeito
se manifesta de forma integral, ou seja, todas as suas funções psicológicas superiores –
processos espirituais – estão atuando em conjunto com o trabalho físico. A
personalidade conduz, desenvolve a atividade, mas também se desenvolve a partir dela.
A finalidade do trabalho está sempre ligada à criação de um produto útil para a
humanidade. Porém, o trabalho na sociedade capitalista, baseada na propriedade
privada, se caracteriza como uma atividade totalmente estranhada, que se desenvolve
em meio a motivos individualistas e pessoais.
O trabalho como atividade central na vida dos seres humanos se generaliza, e
encontra em algumas áreas suas manifestações. Dentre tais pode-se destacar o trabalho
do operário, inventor27, investigador e artista. Rubinstein (1940/1967) se concentra em

27
Existe todo um debate na filosofia do marxismo sobre o que é e não é trabalho. Alguns autores como
Lessa (2012) consideram a partir de Marx e Lukács, que o trabalho é uma atividade humana que altera

47
descrever e explicar cada aspecto relevante da atividade do trabalho nestas quatro áreas
apresentadas.
Para o autor o trabalho do operário está sempre vinculado ao desenvolvimento
da sociedade socialista28. Por outro lado, no trabalho sob a forma capitalista, o qual é
encarado como um fardo, o trabalhador não trabalha objetivando o desenvolvimento da
sociedade, mas sim, executa sua atividade de labor na condição de criar mais valor ao
capitalista. A finalidade de seu trabalho ainda se encontra ligada ao fato dele criar
objetos uteis para a sociedade, mas com uma dupla finalidade. O objeto que ocupava
antes um valor de uso se transforma agora em um valor de troca (RUBINSTEIN,
1940/1967).
Já o trabalho do inventor ocupa um papel distinto do trabalho do operário; o
trabalho do primeiro está caracterizado pela constante busca em criar algo novo na
realidade. Sua finalidade estaria completamente ligada ao futuro, ou seja, à utilidade
dessa invenção. Para Rubinstein (1940/1967), no trabalho do inventor a imaginação
cumpre uma importante tarefa de auxiliar nas descobertas de “novos” – ou até mesmo
velhos – elementos para sua criação. O trabalho do inventor está ligado em grande parte
ao trabalho técnico, relacionado à indústria, por exemplo, a construção ou reconstrução
de novas máquinas.
O trabalho do investigador aparece aqui como importante momento científico na
descoberta de novas leis ou fenômenos presentes na realidade. O trabalho do cientista,
ora ou outra é negado pelas teorias idealistas, que apontam a objetivação desse trabalho
a uma simples intuição. Em contrapartida a isso, Rubinstein salienta que o trabalho do
investigador é de extrema importância na descoberta de novas teorias científicas,
métodos e leis gerais que são intrínsecas à realidade. Portanto, sua atividade criadora,
não pode ser reduzida a uma intuição momentânea (RUBINSTEIN, 1940/1967).
A última área de trabalho que Rubinstein (1940/1967) apresenta é a do artista.
Novamente esse é confundido com uma simples e momentânea intuição, que permite ao
pintor, escritor e outros artistas o poder da criação. Pode-se afirmar, que essa concepção

em si a natureza, portanto, a atividade do investigador, cientista e artista não seria considerada


trabalho. Porém, ainda vale salientar que Rubinstein considera tais atividades como trabalho na
construção de uma sociedade socialista. Assim, apenas apresenta-se nesta monografia a concepção de
Rubinstein sobre tais atividades e, por não se caracterizar como um objetivo desta monografia, o debate
entre o que é e não é trabalho não entrará nesta análise. Mas, se reconhece aqui a necessidade de
retornar em futuras pesquisas aos autores marxistas e analisar como se caracteriza a atividade do artista
e do cientista.
28
Vale lembrar que Rubinstein escreve em meio ao desenvolvimento do socialismo na União Soviética.

48
– da intuição do artista – desmerece todo o trabalho que está contido por detrás da
criação. A verdadeira obra de arte requer estudos, observações e compilações sobre a
realidade objetiva. Essa tarefa não surge de imediato como um simples trabalho de
intuição. Acreditar na intuição do artista é desmerecer todo seu trabalho, e as
dificuldades que encontrou para objetiva-lo na realidade material. É na criação artística
que se manifesta, segundo Rubinstein, a imaginação com certa autonomia em relação
aos demais processos. Mas, ao mesmo tempo que a imaginação toma frente na criação
do artista, outras funções estão envolvidas nesta atividade criadora como, por exemplo,
a percepção. Esta função, em particular, percebe a realidade em sua forma mais sensível
e a reconstrói a partir de novos elementos. É ainda

Este “milagre” termina na maestria da obra de arte autêntica, a qual, ao


transformar o percebido, reflete a realidade objetiva, as vezes mais pura e
perfeitamente, por não dizer mais autenticamente, que jamais é possível
chegar à percepção cotidiana da realidade. (p. 644).

Os aspectos particulares de cada atividade se revelam perante a objetivação em


si da atividade. Mas, o que é possível notar no trabalho como uma atividade humana e
seus vários campos, é que tanto no trabalho do operário como do inventor, investigador
e artista, estão presentes traços psicológicos que se manifestam por meio da
personalidade do trabalhador, e são mais visíveis ainda na atividade criadora. A última,
aparece aqui como um ponto em comum entre todas as áreas do trabalho. Todas elas
visam a objetivação de algo novo – ou até mesmo velho - na realidade. Desde, o
operário que materializa seu trabalho, até o artista que objetiva na realidade sua obra de
arte, se faz presente a atividade criadora. Portanto, como conclusão prévia da atividade
para Rubinstein, pode-se dizer que sem a atividade criadora os seres humanos
orientariam suas ações apenas para o passado, vivendo ainda, da natureza em si. A
atividade, em específico a atividade criadora, ocupa um importante papel na
transformação da natureza a partir das necessidades mais diversas dos seres humanos.
O trabalho como atividade é de fundamental importância para se compreender o
desenvolvimento e a própria organização dos seres humanos. É nele que se manifestam
traços de sua personalidade, que se desenvolve em conjunto com essa atividade. Mas
nem todos os seres humanos trabalham, como as crianças, que ocupam uma posição
diferente na sociedade29. Neste sentido, a atividade principal na vida dessas crianças é o

29
Esse fato nem sempre é uma lei nas sociedades capitalistas.

49
jogo. Para Rubinstein, o jogo se caracteriza como uma atividade racional, orientada
sempre a um fim e com um motivo ligado a ela (RUBINSTEIN, 1940/1967).
Com o jogo ocupando o papel de atividade, características particulares da
personalidade do sujeito também se manifestam, o jogo é, portanto, “filho do trabalho.”
(RUBINSTEIN, 1940/1967, p. 645). Esta pequena alusão pode ser completada ao se
destacar as características particulares dos jogos e das brincadeiras infantis, as quais se
ocupam em grande parte na reprodução das tarefas do labor. Para o autor, o jogo é um
importante caminho, percorrido pela criança no início de seu desenvolvimento. A partir
dele, a criança aprende a transformar a realidade e, ao mesmo tempo, executando esta
atividade transforma a si mesma. Assim, seu motivo se encontra relacionado às
necessidades de vivenciar aspectos, ou relações, da realidade que a circunda. A criança
em muitas brincadeiras é o médico, o construtor ou o professor. A finalidade dessa
atividade, portanto, está relacionada à vivência da criança, mas sem ela de fato vivenciar
a tarefa do médico, do construtor ou do professor, mas sim, representar a atividade
destes profissionais. Nas palavras de Rubinstein, “o jogo é o modo como se realizam as
necessidades e exigências da criança dentro do marco de suas possibilidades.” (p. 647).
A criança não pode ser o médico, mas o pode ser, frente à sua brincadeira. No jogo, a
criança desenvolve suas potencialidades e só as desenvolve porque joga e brinca.
Mas, a criança perante o jogo somente encontra a possibilidade de se
desenvolver quando um adulto – ou companheiro mais velho e experiente – organiza a
brincadeira. O jogo sem a mediação do adulto, em sua forma espontânea, também
possibilita o desenvolvimento da criança, mas com uma qualidade muito inferior e
restrita do que o brincar organizado por um adulto, ou por um companheiro mais velho
e experiente (RUBINSTEIN, 1940/1967).
Outra atividade que se faz presente na vida dos seres humanos é o estudo, que
caracteriza-se por uma preparação do sujeito para a atividade do trabalho. É a partir do
estudo, que os seres humanos se apropriam dos conhecimentos acumulados ao longo da
história. Sua finalidade primordial

[...] consiste na preparação para a futura atividade independente do trabalho.


O meio mais importante e significativo é a apropriação dos resultados
generalizados do que já tenha sido criado pela precedente atividade humana.
Ao apropriar-se, o indivíduo, dos resultados do trabalho social se prepara
para sua própria atividade de trabalho. O processo do estudo não ocorre
espontaneamente. Este se realiza dentro do processo educativo.
(RUBINSTEIN, 1940/1967, p. 657).

50
O estudo também não representa uma forma passiva de apropriação do
conhecimento, mas exige do sujeito da atividade – o aluno – empenho e dedicação para
a apropriação do conhecimento. O estudante que é sujeito de sua atividade, não busca o
domínio de determinados conhecimentos apenas como um resultado, mas sim, como
finalidade de sua atividade consciente. A finalidade encontra-se diretamente vinculado
ao motivo geral da atividade de estudo, o qual Rubinstein apresenta como o interesse
pelo conhecimento. Mas, os motivos da atividade de estudo também se manifestam em
suas formas particulares (RUBINSTEIN, 1940/1967). No capitalismo, entretanto, os
motivos da atividade do estudo estão quase sempre vinculadas a um interesse
econômico e poucas vezes a um verdadeiro interesse pelo conhecimento.
O jogo, o estudo e o trabalho são atividades conscientes, exclusivamente
humanas. No que se refere à importância de todas estas atividades, pode-se afirmar que
elas são a interconexão do psíquico com o mundo material. É por meio da atividade
humana e objetal que se manifesta o psiquismo, as funções psicológicas superiores e,
como totalidade, a personalidade humana. A atividade, portanto, para a psicologia30
sempre se refere a interação de um sujeito com a realidade que o circunda, que será
sempre resolvida por meio de instrumentos. Sem os instrumentos, a ação não seria meio
da atividade e nem fim em si mesma, justamente porque os seres humanos orientariam
suas ações a partir de questões meramente instintivas. A humanização, o
desenvolvimento psicológico e da personalidade, somente torna-se possível a partir da
atividade mediada e da cultura em que o sujeito da atividade encontra-se inserido
(RUBINSTEIN, 1957/1968).
Em outra obra de Rubinstein, O ser e a consciência, o autor sintetiza em poucos
parágrafos o que seria a atividade. Para ele, se constitui como “o processo por meio do
qual se torna efetiva uma determinada atitude do homem a respeito do meio, a respeito
dos demais indivíduos e dos problemas que a vida lhe coloca.” (RUBINSTEIN,
1957/1960, p. 347). O pensamento, por exemplo, é para Rubinstein uma atividade no
que se diz respeito a seus motivos e finalidade, alcançada na resolução de um problema.
No pensamento se manifestam as atitudes do sujeito da atividade e quais os meios que
este busca para resolver determinado problemas.

30
Vale dizer que outras ciências como, por exemplo, a fisiologia também utilizam um termo
denominado atividade. Para a fisiologia a atividade é compreendida, e sempre mencionada a partir de
algum órgão: atividade cerebral, cardíaca etc. A psicologia histórico-cultural e soviética ao utilizar o
conceito de atividade, o apresenta sempre vinculado aos seres humanos. A atividade é sempre uma
atividade de um determinado sujeito.

51
É nesta obra citada de Rubinstein que se manifesta uma síntese geral de sua
compreensão do conceito de atividade. O autor na tentativa de explicar a atividade,
diferenciando a atividade prática da atividade teórica escreve que

A atividade prática aparece como material e a teórica (do sábio, do artista


etc.), como ideal, precisamente pelo caráter de seus produtos básicos, na
criação dos quais se radica a finalidade do fazer correspondente. A atividade
prática é material porque o seu efeito básico para o qual está orientada
consiste na transformação do mundo material, na criação de produtos
materiais. A atividade teórica é “ideal”, por isso mesmo, por ser “ideal” o
produto que engendra: a ciência e a arte. Qualificar a atividade prática como
material e a teórica como ideal em função do caráter dos seus produtos – que
constituem o seu fim – não precisa, como já indicamos, qual é a composição
dessa atividade. Não existe atividade teórica que não inclua atos materiais de
alguma classe, como, por exemplo, o movimento da mão ao escrever o texto
de um livro – científico ou literário – ou a partitura de uma obra musical –
sinfonia ou ópera -, na atividade do escultor que talha uma estátua de
mármore, o trabalho físico não é menor do que o de um operário na
produção, apesar de o escultor, ao criar uma obra de arte, estar ocupado numa
atividade ideal. De modo análogo, não existe atividade prática que, ao criar
produto material, esteja composta somente de atos materiais e se efetue sem a
participação de processos psíquicos. Daí que também o fazer prático do
homem deva entrar na esfera da investigação psicológica. (RUBINSTEIN,
1957/1968, p. 341).

A atividade prática é para Rubinstein material, porém não se deve separar a


atividade teórica da material. Na atividade teórica encontram-se processos materiais
envolvidos como, por exemplo, na atividade do cientista, em que este deve a todo
instante lidar com elementos materiais – lápis, cadernos, livros etc. - em suas pesquisas.
Por sua vez, a atividade material também não se encontra desvinculada em nenhum
momento da atividade teórica. Em todo trabalho, funções psicológicas superiores estão
envolvidas. A atenção do operário que dirige uma máquina, pode ser um exemplo da
manifestação psíquica durante a atividade prática e material.
A psicologia deve - como síntese do pensamento e compreensão da atividade
para Serguei Rubinstein -, estudar a atividade dos seres humanos, mas não apenas ela. A
psicologia, em hipótese alguma, pode renunciar aos estudos da atividade, mas também
seus estudos não devem ser restritos a ela. A psicologia, deve, também estudar os
processos psicológicos dos seres humanos e nestas investigações encontrar a
interconexão com a atividade prática, já que é por meio dela que os seres humanos
conhecem e transformam a realidade. Pode-se resumir esta afirmação como: a
psicologia deve se concentrar “no estudo dos processos psíquicos e no estudo
psicológico da atividade do homem [...]” (RUBINSTEIN, 1957/1968, p. 342). Assim,
conclui-se que apesar da atividade não ser objeto exclusivo do estudo psicológico, ela

52
não se separa das investigações dos processos psicológicos, já que, é por meio dela que
eles se desenvolvem.
A atividade psíquica e os processos psíquicos são para Rubinstein, a conexão
entre o sujeito e a realidade, no mundo que o circunda. Assim, não é apenas a atividade
que desenvolve as funções psicológicas superiores, mas em um outro momento as
funções psicológicas superiores conduzem e desenvolvem também a própria atividade.
Vale lembrar que no momento que os seres humanos alteram a natureza, alteram
também a si mesmos.

2.2 – A atividade para A. N. Leontiev

O conceito de atividade desenvolve-se como um dos pilares que sustentam a


psicologia na União Soviética. Aos psicólogos desse período, desenvolver teoricamente
o conceito de atividade para a psicologia, era um dever. Alguns seguiram ainda uma
tendência mecanicista, apontando a atividade como seguimento de uma teoria
reflexológica, como já demonstrado no primeiro capítulo deste trabalho. Rubinstein foi
um dos pioneiros no desenvolvimento desta categoria compreendendo a atividade, a
partir da relação do sujeito com o mundo circundante. Porém, sua compreensão difere
em vários pontos da psicologia histórico-cultural e da categorização de atividade
realizada por Leontiev (SHUARE, 1990). Até então, o que pôde se observar na
compreensão “rubinsteiniana” da atividade, é que os estudos da psicologia não devem
se resumir ou limitar-se a ela. A atividade deve ser investigada, mas também os
processos psicológicos envolvidos nela. Outro ponto que aparece marcante em suas
obras é que apenas seus trabalhos na década de 1930 e princípio de 1940 tratam a
atividade em seu sentido filosófico e conceitual. Em outras obras do psicólogo e
filósofo soviético encontra-se também a atividade, mas não com todo o
desenvolvimento que se apresentou em seus primeiros trabalhos. Esse é um detalhe
trazido também por Shuare, em que a autora inicia uma breve explicação das diferenças
entre a atividade para Rubinstein e Leontiev.
Leontiev dedica uma obra inteira a sistematizar o problema da atividade na
psicologia e sua relação com a consciência e a personalidade. Assim, vale deter-se na
concepção de Leontiev apresentada em Atividade, consciência e personalidade, para
poder analisar sua compreensão de atividade e apresentar as diferenças e semelhanças
com Rubinstein. Outro ponto que chama a atenção nas obras de Leontiev, é o fato de

53
suas traduções serem mais restritas. Encontrou-se apenas dois materiais em que o
psicólogo desenvolve o conceito de atividade e sua relação com a consciência. O outro
material encontrado foi um capítulo do livro Psicologia. Apesar de alguns problemas
apresentados neste livro, vale se deter nos escritos de Leontiev afim de suprir tal
carência de materiais bibliográficos.
A psicologia na União Soviética que se desenvolve a partir da filosofia do
marxismo-leninismo encontra na categoria de atividade uma grande significação, diga-
se de passagem, mais do que em outras categorias psicológicas. Assim como
Rubinstein, Leontiev também diferencia a compreensão da atividade de outros campos
da ciência. Para ele, a atividade é completamente distinta da conduta e também da
atividade fisiológica. A atividade caracteriza-se ainda como “um sistema que possui
estrutura, suas transições e transformações internas, seu desenvolvimento.”
(LEONTIEV, 1974/1978, p. 67). Logo, a atividade para o autor, jamais pode ser
confundida com uma reação, ou melhor, uma resposta de um organismo frente a um
estimulo apresentado. Ao se falar sobre atividade, também se fala sobre um sujeito da
atividade, o qual é ativo na realidade que o circunda.
A atividade também se caracteriza para Leontiev como um tema de estudos para
a psicologia, ela deve ser compreendida “não como ‘parte’ ou elemento especial, mas
como função especial. É a função de situar o homem na realidade objetiva e de
transforma-la em uma forma subjetiva.” (LEONTIEV, 1974/1978, p. 74). A atividade
inicialmente cumpre essa tarefa, é ela que orienta os seres humanos na realidade,
desenvolvendo assim, um reflexo psíquico, uma imagem de mundo e um caráter
subjetivo dessa realidade objetiva.
É por meio da atividade que o reflexo psíquico se regula e estabiliza,
engendrando a própria consciência. Leontiev afirma, que durante muito tempo esse
conceito foi reduzido aos estudos da atividade psíquica. Mas, deve-se enunciar neste
trabalho, que a atividade não é apenas interna ao sujeito, ela também possui caráter
externo e, se por algum motivo ela também se manifesta no “interior” dos seres
humanos é, justamente por seu caráter externo. Tal fato, pode ser resumido na seguinte
frase: o sujeito da atividade transforma a realidade externa e a partir deste movimento
desenvolve sua atividade interna. A atividade como categoria e conceito da psicologia
soviética, permite romper com um fato anunciado por Séchenov já na segunda metade
do século XIX. Segundo Leontiev (1974/1978), Séchenov em uma de suas obras
escreve que “por todo seu conteúdo, a psicologia científica não pode ser outra coisa que

54
uma série de teorias sobre a origem das atividades psíquicas.” (p. 75/76).
Diferentemente de outras teorias que visam apenas explicar a atividade psíquica, ou
ainda que negam a atividade psíquica, a psicologia histórico-cultural e outras correntes
soviéticas consideram que a atividade psíquica se desenvolve da própria atividade
prática, ou seja, da atividade em si.
A atividade para Leontiev possui uma característica básica, sendo ela, sua
objetividade. A atividade encontra na necessidade, por exemplo, sua expressão objetiva.
Mas, a necessidade não se classifica apenas como uma necessidade meramente
biológica do organismo. A necessidade quando se distancia de condições biológicas, se
desenvolve como orientadora da atividade, justamente pelo próprio encontro com o
objeto. Neste sentido, se a necessidade fosse meramente biológica, os seres humanos
seriam seres meramente instintivos. As necessidades – também - se desenvolvem e se
constroem diante ao desenvolvimento material da sociedade. Os produtos criados por
seres humanos, para outros seres humanos aparecem como uma expressão da criação de
novas necessidades (LEONTIEV, 1974, 1978). A utilização do computador, da internet
e dos novos meios de comunicação que surgem a cada dia, são por sua vez, a expressão
da criação e do desenvolvimento de novas necessidades. Neste sentido, vale ainda
reforçar que toda atividade é submetida a satisfação das necessidades humanas
(LEONTIEV, 1960). No momento em que Marx e Engels (1846-1846/2007) escrevem
que os seres humanos se diferenciam dos animais na produção dos víveres necessários
para a sobrevivência, pode-se pensar que esses víveres se complexificam com o
desenvolvimento histórico dos seres humanos, justamente para garantir a satisfação das
novas necessidades criadas pela humanidade. Como escreve Leontiev (1960, p. 344), “a
produção de objetos para satisfazer as necessidades naturais do homem modifica,
portanto, estas necessidades.” Quanto maior o desenvolvimento dos víveres, maiores
são as necessidades a serem satisfeitas.
As necessidades humanas se diferenciam das necessidades dos animais. Os seres
humanos, enquanto sujeitos da atividade, humanizam também suas necessidades básicas
e naturais. A fome, por exemplo, é uma necessidade básica dos seres humanos. Porém,
na própria satisfação dessa necessidade, os meios utilizados se diferenciam
propriamente dos meios naturais (LEONTIEV, 1960). O sujeito utiliza objetos da
cultura para atingir a finalidade de sua atividade. Portanto, não existe dúvidas de que as
necessidades humanas são determinadas pelo lugar e a forma que vivem.

55
Não deve-se em hipótese alguma confundir a atividade com uma resposta, um
conjunto de respostas ou ainda com reações do organismo. A atividade deve ser
encarada como uma unidade mediada pelo reflexo psíquico do sujeito na realidade. É
por meio dele que os seres humanos se orientam na realidade objetiva. Para Leontiev
(1974/1978), a atividade se constitui como uma unidade e deve ser estudada por suas
mudanças e transformações internas, ou seja, a partir de seu desenvolvimento. Esse é
um dos motivos que levaram ao fracasso das primeiras elaborações teóricas do conceito
de atividade, já que, esta era estudada e aplicada a partir de um conjunto de reflexos,
como nas teorizações de Básov, as quais foram brevemente detalhadas no capítulo
anterior dessa monografia.
Nesta orientação da atividade a partir do reflexo psíquico dos seres humanos na
realidade, Leontiev (1974/1978) ainda salienta que a atividade não aparece como parte
ou elemento dos estudos psicológicos, mas sim, como função específica de situar com o
auxílio do reflexo psíquico - que também se desenvolve em meio a atividade – o sujeito
na realidade, e ainda cumpre o importante papel de participar do desenvolvimento da
subjetividade. Nota-se aqui uma diferença entre a concepção de Leontiev para a de
Rubinstein, já que o segundo apresenta a atividade como parte ou elemento dos estudos
para a psicologia, porém apesar dessa diferença, Rubinstein também apresenta a
atividade como primaria em relação à subjetividade, como necessária ao
desenvolvimento dela e do reflexo psíquico que orienta os seres humanos na realidade
objetiva (RUBINSTEIN, 1957/1958).
A atividade para Leontiev, também foi uma preocupação inicial dos estudos de
Vigotski. Para ele, as pesquisas de Vigotski mostraram que a atividade interna se
desenvolve a partir da atividade externa. Leontiev ainda salienta que essa concepção
nasce da análise de uma atividade especificadamente humana, sendo essa o trabalho. No
trabalho os seres humanos ao modificarem a natureza, realizam essa tarefa com o
auxílio de instrumentos, desenvolvidos por seres humanos, e que serão utilizados por
outros seres humanos. É esse instrumento que mediatiza a atividade, que o auxilia a
alterar a natureza e se apropriar da história e cultura humana. Como escreve Leontiev
(1974/1978, p. 77) “graças a ele, sua atividade absorve a experiência da humanidade.”
O instrumento possibilita a humanização e atua como uma importante ferramenta no
desenvolvimento da atividade. Nota-se aqui, mesmo que brevemente, uma semelhança
as concepções teóricas de Rubinstein, em que ele, também apresenta o trabalho como
atividade fundante de todas as outras. A partir do momento que o trabalho é a atividade

56
principal na vida dos seres humanos, outras atividades – o jogo e estudo – passam a ser
filhas do trabalho e se derivam dele.

2.3 – Rubinstein ou Leontiev? O problema da atividade como problema da


psicologia

Como síntese entre as concepções teóricas e as análises apresentadas por


Rubinstein e Leontiev sobre o conceito de atividade, vale dizer que ambos
desenvolveram amplamente esse conceito. Rubinstein segundo Golder (2004) e
Leontiev (1974/1978) se contradiz ao desenvolver teoricamente o conceito de atividade
em longo de seus trabalhos. Para Leontiev, Rubinstein abandona as preocupações acerca
da atividade, tendo realizado discussões teóricas apenas até a primeira metade da década
de 1940. Após a segunda metade de 1940, as discussões realizadas por Rubinstein
encontram-se apartadas da atividade prática, sendo preferencialmente atribuída a
importância da atividade psíquica e de sua afirmação como atividade do cérebro.
Cabe dizer que as afirmações realizadas por Golder e Leontiev possuem seus
fundamentos. Rubinstein, durante sua vida teórica desenvolve primeiramente o conceito
de atividade na década de 1930, com seu artigo Princípios filosóficos da psicologia. Os
primeiros manuscritos de K. Marx e os problemas da psicologia, publicado em 1934.
Neste artigo, como já demonstrado neste trabalho, Rubinstein inicia a sistematização do
conceito de atividade e sua importância para a psicologia soviética. Posteriormente a
esse trabalho, ainda na década de 1930, Rubinstein lança a primeira edição de seu livro
Princípios de Psicologia Geral, que passaria na primeira metade da década de 1940 por
revisões críticas para novas reedições. Neste livro, Rubinstein se dedica a explicar a
importância da atividade prática e teórica para a psicologia. É neste material que se
encontra a sistematização de cada atividade nos períodos sensíveis do desenvolvimento
humano. No decorrer de sua vida teórica – analisando os materiais disponíveis –
Rubinstein não abandona os estudos sobre a atividade, mas inicia uma ampla gama de
revisões de temas filosóficos na psicologia. No livro O ser e a consciência, publicado
em 1957, Rubinstein afirma a importância da atividade prática no desenvolvimento do
psiquismo humano, porém isso ocorre em uma única frase. No decorrer do livro
Rubinstein se dedica a explorar temas filosóficos da psicologia como, por exemplo, a
relação cognoscitiva e gnosiológica dos seres humanos na realidade, o problema do
reflexo psíquico como mediador da consciência humana e também a relação entre o

57
fisiológico e o psicológico. Em outros trabalhos do fim da década de 1950 Rubinstein
acompanha esse mesmo percurso de discussões filosóficas na psicologia. No livro O
desenvolvimento da psicologia, de 1959, Rubinstein também apresenta a importância da
atividade prática para o desenvolvimento da personalidade humana, porém neste
material o filósofo/psicólogo se dedica a reconstruir a história da psicologia na Rússia e
no mundo ocidental e, novamente apresenta a importância da fisiologia para a
psicologia.
Leontiev ao escrever sobre a história da psicologia na União Soviética apresenta
a importância de Rubinstein para os estudos da atividade. Leontiev realiza uma
referência ao artigo de Rubinstein, publicado em 1934 sobre a importância de Marx para
a psicologia. Segundo ele, “foi um marco importante no estudo deste problema.
Infelizmente, não suscitou toda a atenção que merecia.” (LEONTIEV, 1959/1972, p.
166). Apesar do reconhecimento da importância do artigo de Rubinstein para a
sistematização do conceito de atividade, Leontiev logo apresenta sua discordância com
Rubinstein acerca de sua compreensão sobre a atividade. Segundo ele,

Mais tarde, apoiando-se na formula célebre de Marx a propósito da indústria,


“esta psicologia concretamente presente”, S. L. Rubinstein, propôs nos
fundamentos de psicologia (1935), a tese segundo a qual a psicologia estuda
as particularidades psicológicas da atividade que inclui nas suas
investigações também a atividade ou o comportamento. Esta formulação foi
em seguida modificada pelo autor. Num artigo teórico aparecido em 1940,
Rubinstein insistiu sobre a ideia de que a psicologia estuda “não o psiquismo
e a atividade, mas o psiquismo na atividade” e que “toda a psicologia que
compreende o que faz estuda o psiquismo e apenas o psiquismo.” Mas se
bem que o autor, nos seus trabalhos ulteriores, tenha várias vezes fornecido
esclarecimentos que salvaguardavam contra uma eventual interpretação
simplista das suas teses, estas foram muitas vezes compreendidas de tal
maneira que perdiam praticamente o seu sentido fundamental. Elas foram de
fato suplantadas por uma concepção essencialmente diferente, segundo a qual
os processos psíquicos se manifestam na atividade e dependem da atividade;
foi notoriamente a posição característica adotada nos manuais universitários
dessa época. (LEONTIEV, 1959/1972, p. 166-167).

Para Leontiev esse é um dos erros fundamentais de Rubinstein ao caracterizar o


conceito de atividade. Vale dizer que realmente ao analisar as obras de Rubinstein, nota-
se que a atividade para o autor se manifesta nas funções psicológicas superiores e estas
por sua vez apresentam sua dependência da atividade (RUBINSTEIN, 1940/1967). No
decorrer de sua explicação, Leontiev (1959/1972) escreve que em contraposição a essa
concepção simplista de Rubinstein, encontrava-se a de Vigotski. Leontiev reconstrói as
explicações de Vigotski sobre atividade interna e externa, e salienta que a atividade
psicológica se desenvolve da atividade externa, prática e social. Para que uma função se

58
converta enquanto função psicológica superior ocorre o processo de interiorização. É
durante o processo de interiorização que aquilo que antes era interpsicológico torna-se
intrapsicológico. Leontiev se utiliza do termo de interiorização para contrapor-se a
Rubinstein. Mas, Rubinstein ao escrever sobre funções psicológicas superiores também
apresenta o caráter mediado dessas funções. Porém, segundo ele as funções psicológicas
superiores são na verdade parcela do reflexo psíquico da realidade. O sujeito da
atividade que reflete a realidade, também reflete e refrata suas funções psicológicas
superiores a partir de suas condições internas (RUBINSTEIN, 1957/1968).
Aparentemente, uma parcela do reflexo psíquico para Rubinstein, se assemelha a
interiorização para Vigotski, já que, para Rubinstein o reflexo psíquico não se
desenvolve apenas como uma imagem de mundo, mas também, como função
psicológica superior, neste sentido, os seres humanos refletem a realidade e ao refleti-la,
refletem para ela – o mundo, a sociedade - sua personalidade.
A polêmica entre os teóricos não encontra-se presente em apenas um único
escrito de Leontiev. Em seu livro Atividade, consciência e personalidade, Leontiev
também realiza uma crítica à Rubinstein e sua compreensão sobre atividade. Leontiev
escreve que

[...] em suas publicações posteriores Rubinstein sublinhou que embora a


esfera da psicologia entra também na atividade prática, por meio do qual os
homens modificam a natureza e a sociedade, o objeto do estudo psicológico
“fica circunscrito a seu conteúdo especificamente psicológico, a motivação e
regulação com que as ações se efetuam em consonância com as condições
objetivas em que se dão e que se refletem na sensação, na percepção e na
consciência.”
Em seguida, segundo concebe o autor, a atividade prática entra no objeto de
estudo da psicologia, mas fica circunscrita a seu particular conteúdo que
aparece como sensação, percepção, pensamento ou, em geral, na forma de
processos e estados psíquicos internos do sujeito. Mas esta afirmação é ao
menos unilateral, já que realiza abstração de fato capital de que a atividade –
em qualquer de suas formas – entra no processo de reflexo psíquico, no
próprio conteúdo deste processo, em seu engendramento. (LEONTIEV,
1974/1978, p. 73).

Vale salientar que a primeira publicação à que Leontiev se refere, novamente é o


artigo de Rubinstein de 1934 sobre a importância de Marx para a psicologia soviética.
Para Leontiev, o grande equívoco de Rubinstein é apresentar a atividade apenas em sua
relação com as funções psicológicas superiores, que nela se expressa. Ao consultar a
citação de Rubinstein trazida por Leontiev, encontrou-se que

Portanto eles entram também na esfera da investigação psíquica dos


movimentos, atos e ações dos indivíduos, é dizer, não só a atividade mental,
“psíquica”, mas, também, a atividade prática com que o ser humano

59
transforma a natureza e reforma a sociedade. Contudo, neles o objeto de
investigação psicológica fica circunscrito seu conteúdo especificamente
psicológico, a motivação e regulação com que as ações se efetuam em
consonância com as condições objetivas em que se dão e que se refletem na
sensação, na percepção e na consciência. (RUBINTEIN, 1959/1963, p. 53).

A atividade se manifesta, portanto, para Rubinstein nas funções psicológicas


superiores, e os estudos da psicologia acerca da atividade deve respeitar o próprio objeto
de estudo da psicologia, sendo esse, elementos do psiquismo humano. Neste sentido,
para Rubinstein deve-se evitar a “psicologização” do conceito de atividade. É essa
“psicologização” do conceito de atividade que Rubinstein e seus seguidores acusam
Leontiev (SHUARE, 1990).
Tratando-se das críticas de Rubinstein à Leontiev, poucos materiais foram
encontrados, dentre estes, Shuare (1990) apresenta a polêmica entre os seguidores de
Leontiev, que acusam Rubinstein de não atribuir a devida importância para o conceito
atividade e, os seguidores de Rubinstein que acusam Leontiev de “psicologizar” a
atividade, atribuindo a ela, uma importância imensurável e esquecendo de outros
processos inerentes ao psiquismo humano31.
Tratando-se das críticas do próprio Rubinstein à Leontiev, encontra-se em ordem
cronológica, em suas obras que ao escrever sobre atividade, o autor apresenta a
importância das pesquisas de Leontiev, principalmente ao se tratar das explicações da
estrutura da atividade32 (RUBINSTEIN, 1940/1967). Durante toda a apresentação de
suas ideias, Rubinstein não realiza nenhuma crítica direta sobre a concepção de
atividade de Leontiev, pelo contrário, elogia seus estudos acerca da estrutura da
atividade.
No decorrer de suas obras – das que se tem acesso -, em específico, O
desenvolvimento da psicologia, Rubinstein realiza algumas críticas a concepção de
atividade adotada por Leontiev, porém se dirige formalmente a Vigotski para realizar
essa crítica, diga-se de passagem, que já foi brevemente apresentada neste trabalho.
Rubinstein (1959/1963) ao apresentar sua crítica a Leontiev, deixa claro não concordar

31
No livro de Mario Golder – Leontiev e a psicologia histórico-cultural. Um homem em seu tempo – o
autor apresenta algumas polêmicas envolvendo Rubinstein, Leontiev e a disputa pela direção do
Instituto de Psicologia. Porém, como não se faz como objetivo deste trabalho, optou-se por não
apresentar essa disputa, para além, dos problemas teóricos dos autores.
32
Vale lembrar que o objetivo nesta parte do trabalho é apresentar minimamente o conceito de
atividade e as contribuições de Rubinstein e Leontiev, neste sentido, as críticas e referências tanto a
Leontiev como Rubinstein serão apresentadas apenas no que se diz respeito aos escritos acerca da
atividade. Mas, vale dizer que Rubinstein ao escrever sobre memória em seu Princípios da psicologia
geral, apresenta a importância de Leontiev para o desenvolvimento dos estudos sobre memória dentro
da União soviética.

60
com a posição adotada pelo seguidor de Vigotski em atribuir a atividade psíquica como
resultado de uma interiorização da atividade externa. Rubinstein (1959/1963), ainda
escreve que

Esta concepção, atualmente, é sustentada na psicologia soviética por A. N.


Leóntiev e seus colaboradores. Entendem eles a “interiorização” como
“mecanismo” graças ao qual nossa atividade psíquica interna se forma de
nossa atividade material externa. Os princípios que temos formulado mais
acima padecem aqui de um deslocamento devido ao qual, princípios certeiros
e importantes acerca da prioridade da atividade prática e de seu papel na
formação da atividade teorética e metal interna, adquirem um aspecto
inadequado. (p. 339).

Rubinstein em decorrência de seu posicionamento acerca da atividade psíquica


como interiorização ainda escreve em relação a atividade externa e interna que

É certo, como se foi dito mais acima, que a atividade material, prática, é a
primária; que a atividade teórica, mental, cuja expressão se dá unicamente
em um plano interno, só posteriormente se desprende da primeira (neste
sentido tem lugar a “interiorização”, é dizer, o passo da atividade que se
executa em um plano exterior a atividade que se realiza só no plano interior).
Não é certo, sem demora afirmar – colocando no lugar da atividade teórica ou
mental do pensar, a atividade psíquica em geral – que a atividade mental
prática surge só como resultado da “interiorização” do psíquico. Toda
atividade material externa do homem contém já em seu interior componentes
psíquicos (fenômenos, processos) por meio dos quais aquela se regula. Não é
licito, reduzindo a ação do homem a sua mera parte executiva externa,
eliminar totalmente da ação seus componentes psíquicos, situando os
processos psíquicos “internos” fora dos limites da atividade “externa” do
homem, como se faz consciente ou inconsciente, explicita ou implicitamente,
quando se afirma que a atividade psíquica surge como resultado de
interiorizar a atividade externa. No efeito, a interiorização não parte de uma
atividade material externa carente de componentes psíquicos internos, mas de
uma forma de existência dos processos psíquicos – em qualidade de
componentes de ação prática externa – e conduz a outra forma de sua
existência para certo ponto independente da ação material externa. Não só é
ouvido o denominado ouvido interno; o é, também, o denominado externo;
este constitui, portanto, um processo psíquico e, neste sentido, resulta interno;
não só o cálculo mental inclui em si processos psíquicos, mentais, mas que os
inclui, ademais, o contar o número de objetos com ajuda dos dedos. Na
interiorização, não se trata de que surjam os processos psíquicos, a atividade
psíquica, a atividade (puramente) externa, (puramente) material, mas do
passo de uma forma de atividade a outra, e de uma forma de existência dos
processos psíquicos (como componentes da atividade teórica, mental); se
trata do caso de uns processos psíquicos de outro nível, mais elevado, e - na
relação com ele – de uma forma de sua existência a outra. Ademais, a
“interiorização” não constitui um “mecanismo” por meio do qual se efetua
dito processo, mas tão só, sua expressão resultante; é a característica da
direção que dito processo se realiza. (p. 339-340).

É evidente que para o psicólogo a atividade interna já existe – e auxilia no


desenvolvimento da atividade prática - desde de sua relação com as funções elementares
dos seres humanos. Realmente deve-se admitir que alguns reflexos dos seres humanos
são importantes para orientar e manter viva a criança no momento de seu nascimento e
61
nos primeiros meses de vida. Ainda é evidente a concepção de Séchenov na atividade
psíquica como atividade do cérebro, diga-se de passagem, em afirmações que aparecem
ao longo das discussões teóricas realizadas por Rubinstein (1959/1963) sobre a
importância da fisiologia para a psicologia. Outro fato evidente neste trecho, é o retorno
as críticas à Vigotski iniciadas em seus Princípios de psicologia geral. Em suas críticas,
Rubinstein escreve que Vigotski apesar de possuir uma teoria concisa não supera o
dualismo entre atividade interna e externa, justamente por seu conceito de
interiorização. Para Rubinstein essa diferença entre atividade externa e interna se
constitui como uma não superação das teorias dualistas na psicologia, neste sentido, ao
afirmar que em toda atividade externa existem elementos psíquicos e que o psíquico se
manifesta na atividade prática dos seres humanos na realidade, Rubinstein acredita ter
superado esse dualismo entre atividade externa e interna.
As discussões teóricas entre Rubinstein e Leontiev não se esgotam apenas nesses
exemplos apresentados, assim como, o problema acerca da atividade. Em Shuare (1990)
encontram-se algumas referências as críticas dos seguidores dos autores. Ela escreve
que

Segundo assinalam diversos discípulos de Rubinstein, a teoria deste inclui


como categorias fundamentais, desde o ponto de vista metodológico, a
atividade, as formas do reflexo, os tipos de determinação e o princípio
pessoal. Queixam-se da concepção de Leóntiev de haver reduzido o objeto da
psicologia a categoria de atividade, haver convertido esta última em modelo
da psique e haver perdido a vinculação que pode compreender-se somente
sobre a base do princípio do sujeito da atividade. A nosso juízo, resulta
evidente que estas críticas são tendenciosas e se apoiam em uma
compreensão muito limitada e “textual”, diríamos, da concepção de Leóntiev.
(p. 117).

Shuare apresenta a concepção dos seguidores de Rubinstein sobre Leontiev, não


abranger outros elementos do psiquismo humano em seus estudos sobre a atividade. Por
outro lado, agora dos seguidores de Leontiev, Shuare (1990) escreve que
Por outra parte, os discípulos deste reconhecem que ambos autores se
ocuparam simultaneamente do problema de atividade, mas reprovam
Rubinstein de ter o substituído como objeto de estudo da psicologia pelo
conteúdo psicológico que apresenta esta atividade [...] (p. 117).

Tais críticas trazidas por Shuare já foram amplamente demonstradas entre os


dois teóricos, a partir de trechos de suas obras originais Leontiev e seus seguidores
enquanto são acusados de “psicologizarem” a atividade, Rubinstein é acusado de
substituir a atividade pelos conteúdos psicológicos que se expressam na atividade.

62
Em síntese, esse problema encontra-se longe de ser resolvido. Surge como
evidência, a necessidade de estudos aprofundados das obras de Rubinstein e Leontiev,
afim de encontrar mais detalhes sobre suas posições teóricas e elucidar novas e
profundas discussões metodológicas sobre ambas teorias. Isso não significa dizer que
deve-se unir ou ainda harmonizar as duas concepções sobre atividade, mas sim, realizar
contraposições e encontrar a superação das duas teorias, produzindo assim uma síntese
sobre a atividade na psicologia. É somente nessa contraposição teórica que se
desenvolvem novos conceitos e estudos acerca de um objeto da psicologia. Por fim, vale
dizer que tanto Rubinstein como Leontiev se dedicaram profundamente em
problematizar a atividade como categoria da psicologia, portanto, vale apresentar a
importância de ambos para a psicologia soviética e como uma contribuição para as
teorias marxistas da psicologia. Vale ainda ressaltar que a atividade deve ser
compreendida como um campo de estudos da psicologia, diga-se de passagem,
desenvolvendo e produzindo o psiquismo humano.

2.4 – As funções psicológicas superiores e a interdependência com os sistemas


psicológicos

As funções psicológicas superiores estão a todo instante em constante


desenvolvimento. O sujeito, que é ativo na realidade, segundo Luria (1979), se apropria
das características tipicamente humanas desde o momento de seu nascimento. É claro
que estas características surgem em um determinado contexto, mediado por
instrumentos e adultos que atuam como cuidadores da criança. No momento do
nascimento, a criança enfrenta uma grande crise que é descrita e explicada por Vygotski
(1932/2012) como a crise pós-natal. Neste momento inicial da vida do bebê, ele torna-se
um candidato à humanização. Na mediação de seus cuidadores, suas funções
psicológicas superiores começam a se desenvolver. As sensações e as percepções são as
primeiras funções a se manifestar neste processo, entretanto, ainda na dependência das
funções elementares e dos reflexos inatos de orientação. A forma essencial de interação
da criança com o mundo a sua voltam, neste período, é a comunicação emocional. Vale
dizer que a imaginação enquanto processo superior é uma conquista tardia no
desenvolvimento da criança. (MUKHINA, 1975/1995).
No processo de desenvolvimento, a criança começa a desenvolver a qualidade
superior de suas funções psicológicas, a atenção, memória, pensamento e a linguagem

63
que possibilitam um novo desenvolvimento e reorganização dos processos superiores. A
imaginação, por sua vez, é uma função que se desenvolve em conjunto com o
pensamento e a linguagem. É ainda um processo novo para a criança e tipicamente
humano (VIGOTSKI, 1933/2007). Não se vê todo dia uma abelha desenhando um
croqui para o projeto de sua colmeia. A abelha que constrói sua colmeia carrega os
traços inatos desta determinação, encontra-se submetida apenas às leis da natureza. Por
sua vez, os seres humanos conseguem antecipar o pensamento e apoiando-se em sua
imaginação, desenhar um projeto que será executado posteriormente, justamente porque
não estão mais submetidos apenas às leis da natureza. Como fundamentado no primeiro
capítulo desta monografia, os seres humanos são os únicos capazes de alterar a natureza
em conformidade com suas necessidades.
Assim, a imaginação é um processo tipicamente humano e que se desenvolve em
conjunto com a atividade objetal e ainda, possui um novo salto com o desenvolvimento
da linguagem e reorganização dos processos psíquicos superiores. Porém, não se deve
tratar a imaginação como se fosse uma função psicológica isolada. Não é apenas a
imaginação a responsável pelas criações existentes na realidade. Vale lembrar, que
todas as funções psicológicas superiores estão interligadas entre si, e, possuem uma
interdependência. Não é por menos, que Vigotski (1930/2009), escreve que “tanto o
sentimento quanto o pensamento movem a criação humana.” (p. 30). Todas as funções
psicológicas superiores fazem parte do processo chamado de atividade criadora. Mas,
como escrito por Rubinstein (1940/1967), a imaginação no processo de atividade
criadora se destaca, auxiliando neste processo criador, mas ainda, mantendo sua
interdependência com os demais processos do psiquismo humano. A imaginação deve
ser investigada nessa relação de dependência.
Outro fato que deve-se ter em destaque é que a análise do psiquismo humano
não pode deixar o sujeito concreto desaparecer. A função imaginativa pertence sempre a
alguém, constitui-se como parte da personalidade de um determinado sujeito. Como
escreve Rubinstein (1957/1968), “[...] o psíquico pertence ao indivíduo, ao homem
como sujeito. Não há sensações, pensamentos e sentimentos que não sejam de alguém.”
(p. 77). A imaginação também segue essa mesma lógica, não se deve nunca esquecer
que a função imaginativa pertence a um sujeito da atividade. Essa função psicológica
superior pertencente aos seres humanos estabelece relações com outras funções, o que
aparece aqui como sistemas psicológicos.

64
Vigotski, em 1930, realiza uma conferência intitulada Sobre os sistemas
psicológicos, em que explica o conceito de nexo ou sistemas psicológicos, e exemplifica
como ocorre a dependência entre as funções psicológicas superiores. Cabe apresentar as
contribuições de Vigotski, para compreender como a imaginação encontra-se em
constante dependência com os demais processos psíquicos. Essa tarefa se apresenta
como uma necessidade, justamente para não individualizar o processo da imaginação e
atividade criadora. Individualizar esse processo constituiria na negação dos
fundamentos teóricos da teoria histórico-cultural.
Como princípio de uma explicação sobre um termo um tanto quanto amplo,
pode-se afirmar que os sistemas psicológicos representam uma esfera de relações
estabelecidas entre as funções psicológicas superiores ao longo do desenvolvimento
humano. A imaginação como função psicológica superior segue essa mesma
determinação. A ligação entre imaginação e percepção na infância estão submetidas a
algumas reproduções do real. Por exemplo, a criança durante sua primeira infância
estabelece uma relação entre percepção e imaginação que é momentânea. Mukhina
(1975/1995)33 aponta essa relação inicial entre percepção e imaginação como condição
inicial para o desenvolvimento da função semiótica. A criança não consegue apenas
com a ajuda de sua imaginação representar um determinado animal, por exemplo, sem
ver o animal. Com o desenvolvimento da criança, novos nexos são criados entre
imaginação e percepção, a criança torna-se capaz de representar em um desenho ou em
suas verbalizações a descrição do animal quando esse se faz ausente de sua percepção
momentânea. Atribui-se essa nova qualidade a uma nova relação estabelecida entre as
funções psicológicas superiores, diga-se de passagem, que não envolve apenas a
percepção e a imaginação, mas também, a atenção, memória, linguagem e pensamento.
São essas relações novas e que enfrentam mudanças no processo de desenvolvimento
humano que denomina-se sistemas psicológicos (VIGOTSKI, 1930/1999).

33
Valéria S. Mukhina é uma psicóloga Russa que nasceu em 22 de janeiro de 1935. Ainda viva, Mukhina
é referência mundial nos estudos sobre o desenvolvimento humano, educação infantil e a educação da
personalidade da criança. Atualmente trabalha no Departamento de Psicologia de Moscou. Apesar de
não entrar nas análises sobre o desenvolvimento da imaginação, a contribuição da autora é relevante
aos estudos da periodização da infância e atividade principal em cada período do desenvolvimento. No
Brasil, apenas um único livro de Mukhina encontra-se disponível, sendo o Psicologia da idade pré-
escolar, editado pela Martins Fontes em 1995. Mukhina também mantém um site pessoal que pode ser
acessado pelo endereço eletrônico: http://www.vfly.ru/.

65
Outro exemplo, apresentado por Vigotski e que comprova essa relação
estabelecida entre as funções psicológicas superiores é a relação entre memória e
imaginação na infância. Para Vigotski (1930/1999),

A criança que lembra uma série de palavras com a ajuda de imagens apoia-se
não apenas na memória, mas também na fantasia, em sua habilidade para
encontrar a analogia ou a diferença. Por conseguinte, o processo de
recuperação não depende dos fatores naturais da memória, mas de uma série
de funções novas que intervém no lugar da lembrança direta. (p. 110-111).

Novamente, vale trazer à tona o exemplo de Mukhina (1975/1995) sobre o


desenvolvimento da função semiótica. A criança se apoia na imaginação para poder
lembrar o que representa determinada figura. Outro fato que surge, é que a imaginação e
a memória são confundidas muitas vezes, porém não representam o mesmo processo.
São processos diferentes que atuam em conjunto em determinadas situações. Em
pesquisas realizadas por Giannoni e Paccini (2014), encontrou-se que em alunos do
terceiro ano do ensino fundamental, a imaginação encontra-se intrinsicamente vinculada
à memória. Os alunos em atividades com desenhos reproduziam, ou melhor,
representavam a estória que ouviam a partir dos detalhes que lhes eram fornecidos. Se a
estória era sobre uma casa, as crianças reproduziam o que recordavam sobre a casa e
traziam para seus desenhos detalhes pessoais que lembravam sobre suas próprias casas.
Ignatiev (1960) denomina essa característica da imaginação como representativa, que
será descrita posteriormente neste trabalho. Assim, sem a participação de outras funções
psicológicas superiores, a objetivação da atividade representativa na criança seria
impossível.
A visualização concreta da manifestação das relações estabelecidas entre as
funções psicológicas superiores aparecem em outra pesquisa realizada com adolescentes
do nono ano. Nesta pesquisa, manifestou-se, em primeiro lugar, as características
interpsicológicas de determinadas funções superiores: memória, atenção, sentimento e
imaginação. Os pesquisadores dirigiam as funções psicológicas dos alunos, afim de
proporcionar o desenvolvimento da função imaginativa em sua esfera criadora. Por
meio de poesias e literatura dirigiam a atenção, memória e sentimentos dos alunos em
determinadas situações, contribuindo para que esses refletissem sobre os fatos
cotidianos. Com o decorrer da pesquisa estes processos se reorganizam estabelecendo
entre si, novos nexos, e objetivando novas criações. No início da pesquisa os alunos
apenas representavam os elementos fornecidos pelos pesquisadores, em outro momento
objetivavam suas próprias criações em textos literários ou poesias. Pode-se ainda dizer

66
que, em um primeiro momento, os pesquisadores dividiam com os alunos seus sistemas
psicológicos e, em um segundo momento, os alunos de forma individual expressavam
seus sistemas psicológicos. Primeiro, para eles mesmos, e depois, em forma coletiva na
objetivação de poesias e textos literários sobre problemas do cotidiano (GIANNONI;
PACCINI, 2014). Assim, na mudança de conexões estabelecidas pelos alunos, ocorre o
desenvolvimento psicológico, e consequentemente, o desenvolvimento da imaginação.
Vale lembrar que “a essência do desenvolvimento psicológico não se baseia aqui no
desenvolvimento posterior, mas na mudança de conexões.” (VIGOTSKI, 1930/1999, p.
117).
Como síntese geral da importância da compreensão dos sistemas psicológicos,
vale dizer que a imaginação por si só não possui a capacidade de objetivar novas
criações na realidade. É somente com os nexos que estabelece com outros processos
psíquicos e em conjunto com a atividade, que novas criações são objetivadas, o que é
chamado de atividade criadora. Os sistemas psicológicos representam em Vigotski e na
psicologia histórico-cultural um importante conceito e deve-se ainda buscar como a
imaginação se desenvolve nestes sistemas mutáveis, o que é objetivo do próximo
capítulo desse trabalho.

67
CAPÍTULO 3 – A IMAGINAÇÃO E SEU DESENVOLVIMENTO GERAL E
PARTICULAR: UMA SÍNTESE A PARTIR DOS PSICÓLOGOS DE MOSCOU
E LENINGRADO

Como parte final desse trabalho aparece como tarefa principal apresentar o
desenvolvimento da função imaginativa a partir das pesquisas dos psicólogos de
Moscou e Leningrado. Os psicólogos de Moscou que se caracterizam pelo
desenvolvimento do conceito de atividade, tendem a explicar o desenvolvimento da
imaginação em conjunto com a atividade criadora, ou seja, a objetivação da imaginação
que encontra forma na atividade humana. Por sua vez, os psicólogos leningradenses se
caracterizam pela teorização do desenvolvimento psicológico a partir de explicações
sobre as relações sistêmicas e, carregam em suas teorias traços dos autores que
influenciaram diretamente a construção dessa escola, notoriamente Bekhterev e Pavlov.
Como primeira dificuldade encontrada para realizar essa análise-explicativa
surge como problema, os materiais encontrados. Dos psicólogos de Moscou, os
materiais são mais acessíveis, principalmente os de Vigotski e Luria. Porém, a
dificuldade aparece nas análises dos teóricos de Leningrado, que encontram-se mais
restritos e quando consultados tratam basicamente da medicina psicológica e poucas
informações possuem sobre o desenvolvimento das funções psicológicas superiores,
principalmente da função imaginativa, ao menos nas bibliografias encontradas em
português, espanhol e inglês. Como representante da escola de Leningrado e que se
propõe a tratar do desenvolvimento da função imaginativa encontrou-se a teórica
Liublinskaia. Assim, as explicações sobre o desenvolvimento psicológico a partir dos
teóricos leningradenses se restringirá neste capítulo a ela. Como dificuldade maior
aparece a necessidade de retomar o conceito de relações sistêmicas e apresentar a
proposta do desenvolvimento imaginativo para a escola de Leningrado a partir dos
estudos de Liublinskaia.

3.1 – O que é imaginação? Explicações gerais sobre a compreensão da função


imaginativa

O que é a imaginação? A criança possui a imaginação mais desenvolvida do que


a do adulto? Ou ainda, a imaginação é algo que encontra-se vinculado à realidade?
Essas três perguntas surgem à tona ao se proceder qualquer estudo sobre a função

68
imaginativa. No senso-comum, rapidamente essas questões seriam respondidas a partir
da aparência do próprio fenômeno. A imaginação é algo que possibilita que os seres
humanos fujam da realidade, e apresenta-se mais desenvolvida na criança. A criança
possui uma “super” imaginação pois consegue fantasiar boa parte do tempo. Essas são
explicações que se encontram vinculadas fora da ciência psicológica, ou melhor,
distante da psicologia histórico-cultural e do materialismo histórico-dialético.
Esse capítulo elucida e explica o que é a imaginação, como ela se desenvolve e
principalmente refuta o mito de que a imaginação da criança é mais desenvolvida que a
do adulto. Como primeira resposta à pergunta inicial levantada acima, pode-se afirmar
que a imaginação é uma função psicológica superior que se desenvolve a partir da
atividade do sujeito na sociedade em que vive, encontra-se ausente em crianças muito
pequenas e não é compartilhada com nenhum animal. A imaginação, assim como,
qualquer outra função psicológica superior, é primeiro um processo interpsicológico e
no decorrer do desenvolvimento humano, tonar-se um processo intrapsicológico. Ou
ainda, segundo a expressão de Ignatiev (1960, p. 309), “a imaginação é a criação de
algo novo, no princípio unicamente na forma ideal.” Porém, a imaginação não pode ser
explicada apenas com essa afirmação. Existem elementos gerais e particulares sobre o
desenvolvimento dessa função que merecem ser elucidados e esclarecidos. Embora não
entre nessa análise, o psicólogo soviético Rozet (1977/2008)34, em seus estudos sobre a
imaginação escreve que esse processo psíquico foi durante muito tempo na psicologia
científica marginalizado: à imaginação foi atribuída uma característica inata, portanto,
não haviam motivos para a elaboração de leis específicas a essa função35. Em outros
estudos a psicologia científica aproximava e reduzia a imaginação a outras funções
psicológicas como a memória e o pensamento. Isso gerou grande atraso nos estudos da
imaginação que confundiam o pensamento criativo, com o processo em si da
imaginação. Cumpre assim, escrever que a imaginação constitui-se como uma função
psicológica superior, independente, mas que depende de outras funções superiores para

34
Issac Moiseevich Rozet (1927-1992), foi um psicólogo da Bielo-Rússia conhecido por seus trabalhos
sobre atividade criadora, psicologia da imaginação/fantasia e atividade psicológica criadora. Em
português não encontrou-se nenhum material desse teórico. Porém a editora espanhola Akal, possui um
livro traduzido chamado Psicología de la Fantasia. Um site sobre Rozet também é disponibilizado pela
Universidade do Estado Bielorruso e pode ser acessado pelo seguinte endereço eletrônico:
www.charko.narod.ru/Rozet.htm.
35
Rozet se refere em grande parte a estudos da psicanálise, em específico de seu fundador Freud. Ele
salienta que na psicanálise a imaginação encontra-se vinculada ao desejo da criança, a criança imagina o
seio materno e consequentemente o leite que está vinculado a sua alimentação. A essa característica
Freud, atribui uma característica inata.

69
seu desenvolvimento e objetivação. Neste sentido, ela não se reduz a outros processos
psicológicos.
Nos estudos dos soviéticos, ora ou outra, a imaginação aparecerá como sinônimo
da fantasia. Hegel, ao escrever sobre imaginação, salienta que esta possui duas
qualidades, sendo uma passiva e a outra ativa. Segundo ele,

Quanto ao poder geral da criação artística, uma vez admitido, logo se deve
ver na imaginação a faculdade artística mais importante. Todavia, é preciso
não confundir a imaginação criadora com a imaginação puramente passiva.
Por isso daremos à imaginação criadora o nome de fantasia. (HEGEL, 1999,
p. 274)

A imaginação que possui um caráter criador é para Hegel uma qualidade ativa e
criadora dessa função psicológica superior. Porém, nos estudos realizados pelos
soviéticos, embora apareçam as distinções entre imaginação passiva e ativa, ela não se
diferencia da fantasia e, em muitos escritos esses dois conceitos são utilizados como
sinônimos. Na verdade, quando os teóricos soviéticos recorrem ao termo fantasia, estão
em muitos casos referenciando Lenin (1902/1981), que em uma de suas falas recorre a
importância da fantasia para o desenvolvimento das áreas científicas e artísticas da vida
humana. Essas referências estão presentes em autores como Ignatiev (1960), Rozet
(1977/2008) e Petrovski (1976/1980). É claro que a imaginação – ou a fantasia para
Lenin – participa e auxilia em todas as esferas de conhecimento da vida humana. Por
sua vez, Vigotski, ao escrever sobre imaginação, utiliza sem distinção o termo fantasia.
Isso apresenta-se, principalmente, no capítulo sobre imaginação do livro Psicologia
pedagógica e, no ensaio psicológico sobre Imaginação e criação na infância. Portanto,
vale deixar para outro momento as diferenças entre fantasia e imaginação e se
constituem-se, ou não, como o mesmo processo.
O primeiro fato que surge de princípio em qualquer estudo sobre a imaginação
encontra-se em Vigotski (1924/2003, 1930/2009), sobre a vinculação da imaginação à
realidade. Muitas pessoas, principalmente, quando pautam-se na aparência ou no senso-
comum, pensam que a imaginação encontra-se distante da realidade. Porém, esse é um
fato que deve ser desmentido. A imaginação não faz com que o sujeito fuja da realidade,
pelo contrário, ela se baseia sempre nos produtos que existem na própria realidade para
auxiliar o sujeito em sua atividade criadora. Por mais fantasiosos que pareçam os
produtos da imaginação, eles se apoiam sempre na realidade objetiva. Os seres humanos
buscam na própria realidade, os elementos para suas criações e objetivações. Júlio

70
Verne36 e Edgar Allan Poe37, dois literários tidos como fantasiosos e que fugiam da
realidade para suas criações, entretanto, ao ir para além da aparência de seus contos e
livros, encontra-se que os elementos presentes em suas estórias, existem na realidade
concreta e material, porém, em seus escritos estes elementos são reelaborados e
refratados por suas condições internas (RUBINSTEIN, 1957/1968). A imaginação, os
desejos, sentimentos, pensamento e outras funções, cumprem um importante papel nesta
reelaboração e refração da realidade. Uma condição indissociável do reflexo psíquico.
É claro também, que a criação e a reelaboração destes elementos não ocorrem de
maneira momentânea e imediata. Vigotski (1924/2003), atribui ainda que as mais
diversas criações humanas são combinações dos elementos existentes na realidade. Em
Psicologia pedagógica, a teoria de Vigotski sobre o desenvolvimento das funções
psicológicas superiores e dos sistemas psicológicos não havia ainda sido desenvolvida,
assim, essas teorizações sobre combinações dos elementos existentes na realidade, que
se assemelha muito com as teorias associacionistas da psicologia, serão corrigidas e
reelaboradas a partir de 1930 com o livro Imaginação e criação na infância, em que o
autor escreve sobre a atividade combinatória ou criativa, utilizando como sinônimo as
duas palavras. Vale ainda dizer que a atividade criadora, enquanto conceito utilizado por
outros teóricos soviéticos, representa melhor o caráter ativo do sujeito no mundo que o
circunda.
Assim, os produtos da imaginação não são simples combinações de elementos
que existem na realidade, mas sim, constituem-se como um amplo processo de análise e
síntese destes elementos. Novamente, recorrendo a literatura, Júlio Verne não escreve
Viagem ao centro da terra, apenas combinando de forma reprodutora os elementos de
sua experiência. Os elementos presentes nesta obra são muito mais complexos que
simples combinações que vão, desde as cavernas encontradas que ligavam a superfície
ao seu núcleo, até a vida que existia dentro do núcleo da terra. Porém, todos os
elementos, que aparentam inicialmente serem combinados, são na verdade, uma

36
Júlio Verne (1828-1905), considerado o pai da ficção científica, foi um literário francês que em suas
obras misturava ficção e ciência. Era um pesquisador, que buscava informações sobre os principais
avanços científicos de seu tempo. A partir dessas pesquisas científicas, Júlio Verne extrapolava, ou
melhor, exagerava sobre tais fatos e descobertas. Suas histórias apesar de fantasiosas estão a todo
instante vinculadas com a realidade e, muitos dos objetos existentes em seus livros tonaram-se
materiais em descobertas científicas do século XX. Como exemplo, vale citar a exploração dos mares por
meio dos submarinos, o que aparece em seu livro Vinte mil léguas submarinas.
37
Edgar Allan Poe (1809 – 1849) foi um literário estadunidense do gênero horror. Em seus contos
misturava a ficção com os fatos cotidianos.

71
expressão da atividade criadora e fazem parte da experiência anterior de Júlio Verne,
caso contrário, o literário não poderia imaginar e objetivar sua estória.
Ao combinar elementos, por exemplo, uma aluna do nono ano de uma escola
estadual, cria uma bola com pernas, porém não vai além dessa criação. A combinação
cria um novo elemento na realidade, mas torna-se na verdade uma criação
representativa. A aluna representa a partir de suas vivências uma bola, só que, uma bola
com pernas. A aluna não vai para além da combinação (representação), criando uma
estória com essa bola, ou ainda, propondo uma nova invenção que poderia alterar a vida
dos jogadores de futebol que não necessitariam mais buscar a bola quando essa fosse
chutada para longe, pois ela, com suas pernas, voltaria correndo para o campo
(GIANNONI; PACCINI, 2014). A objetivação a partir da imaginação somente é
possível, portanto, apoiando-se nos elementos que existem na realidade, mas é ainda
mais complexa do que meras combinações38. Essa combinação na verdade, aparece
como elemento inicial da imaginação representativa e criadora, que serão descritas em
outro momento desse trabalho. Por ora, pode-se afirmar que a combinação é o primeiro
elemento para que se expresse a imaginação representativa e criadora. Para Rubinstein,
a concepção de combinação de elementos se caracteriza como “[...] totalmente
mecanicista, segundo a qual os elementos devem permanecer invariáveis, está
inseparável e vinculada a psicologia associativa e cai junto com ela.” (RUBINSTEIN,
1940/1967, p. 371). A imaginação representa mais que meras combinações; é, ainda,
para Rubinstein, a transformação da realidade de forma ativa e criativa.
Outro fato que permite que os seres humanos objetivem suas criações é o
acúmulo de experiências. Esta determinação auxilia na desmitificação de que a criança
possui uma imaginação mais desenvolvida que a do adulto. Se para Vigotski
(1924/2003, 1930/2009), a experiência é determinante na objetivação dos elementos

38
Aqui, cabe uma explicação sobre o termo combinatório, ainda utilizado por Vigotski em 1930. Sobre
os estudos da imaginação mais desenvolvidos neste período, encontra-se o livro, Ensaio sobre a
imaginação criativa, do psicólogo francês Théodule Armand Ribot (1839-1916). Ribot, seguia uma
corrente associacionista da psicologia de seu tempo, que acreditava que o psiquismo se desenvolvia a
partir de novas combinações de elementos da realidade. Assim, Vigotski utiliza ideias centrais de Ribot
em vários momentos de seu ensaio sobre a imaginação. Outros autores soviéticos também utilizaram
das ideias de Ribot em suas teorizações. Rubinstein, por exemplo, apresenta a linha de desenvolvimento
da imaginação criada por Ribot, neste livro citado acima. Porém, reafirma-se a necessidade de se
analisar os produtos da imaginação não como elementos combinatórios, mas sim, elementos de análise
e síntese que se objetivam por meio da atividade representativa ou criadora. O importante a dizer neste
momento é que, tanto a atividade representativa e criadora manifestam o caráter ativo do sujeito na
realidade. A representação e a criação aparecem ainda como momentos particulares do
desenvolvimento da função imaginativa.

72
presentes na imaginação, a criança que possui uma vivência menor que a do adulto, não
pode, pelas leis do desenvolvimento psicológico, apresentar uma imaginação mais
desenvolvida que a do adulto. Esse problema retornará ao se apresentar o
desenvolvimento da imaginação na infância. Porém, as vivências e experiências não são
restritas apenas as crianças. Um adulto que nunca viu, mesmo que por fotografias, um
deserto, a areia ou ainda o calor desse ambiente, encontra dificuldades em imaginar
como seria um lugar assim. Mas, caso alguém descreva o deserto, buscando
semelhanças com as experiências anteriores desse sujeito, esse ambiente, torna-se
possível de se imaginar. A importância da experiência no desenvolvimento da
imaginação encontra-se descrita por Luria (1931-1932/2013), em suas pesquisas com o
desenvolvimento das funções psicológicas em camponeses do Uzbequistão e Kirghizia.
Luria nestas pesquisas com camponeses, estuda a imaginação em seu sentido
cotidiano, não almeja apresentar as qualidades da imaginação representativa ou
criadora, mas sim, de apresentar como a imaginação auxilia na resolução de problemas
corriqueiros. Tudo isso é feito com camponeses, em sua maioria analfabetos, que
deveriam realizar perguntas aos investigadores apoiando-se na imaginação. A primeira
conclusão levantada pela pesquisa, revelou a importância da experiência para a
resolução de problemas com a imaginação. Os trabalhadores analfabetos quando
estavam em experimento recusavam formular suas perguntas aos investigadores, e,
como resposta, diziam que nada sabiam além de suas atribuições locais, portanto, não
podiam perguntar algo, pois não imaginavam como era a vida fora de seus vilarejos, não
possuíam experiências além das de seus trabalhos. Por sua vez, alguns trabalhadores
que eram alfabetizados conseguiam realizar as três perguntas exigidas pelos
investigadores e assim se envolviam em uma determinada situação imaginativa a partir
de suas próprias perguntas. Mas, mesmo assim, as perguntas realizadas pelos
trabalhadores eram vinculadas com suas práticas cotidianas de trabalho (LURIA, 1931-
1932/2013).
A experiência ou vivência do sujeito é de extrema importância para a
objetivação dos elementos na realidade – isso já foi demonstrado acima -, mas a
experiência em conjunto com a imaginação é importante ainda, para além das criações
do sujeito no mundo material, a experiência e a imaginação auxiliam o sujeito em sua
vida cotidiana. Ao contrário do que o senso-comum e teorias idealistas pregam, a
imaginação, segundo Vigotski (1930/2009), é também corriqueira na vida de uma
pessoa comum, e não apenas é utilizada por grande gênios dos campos artísticos,

73
técnicos e científicos. Ao ler uma estória, ou ainda, ouvir uma narração de alguém, a
pessoa se apoia em suas vivências para poder imaginar os elementos presentes na
estória ou narração. Esse fato também torna-se inseparável da educação. A criança que
aprende a história ou a geografia, se apoia a todo instante nas experiências que possui
para poder imaginar determinados contextos históricos ou geográficos. Quando ensina-
se nas aulas de história sobre a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o aluno que
frequenta essa aula se apoia na experiência que já possui previamente sobre o que é uma
guerra. O aluno pode ter visto algo relativo à guerra em filmes ou em descrições de
livros, por isso, é de extrema importância que o professor apresente elementos nas aulas
que são acessíveis aos alunos e, quanto mais ricos forem os elementos e as descrições
do professor, maior será a facilidade do aluno de se apropriar desse conteúdo e imaginá-
lo. Como adverte Vigotski (1924/2003, p. 154),

[...] nenhuma construção da fantasia deve ser provocada antes que o professor
tenha garantido a presença, na experiência pessoal do aluno, de todos os
elementos com os quais deve ser construída a compreensão adequada do
novo tema. Se desejarmos suscitar no aluno uma representação vívida do
Saara, devemos encontrar em sua experiência real todos os elementos a partir
dos quais essa representação deve ser construída.

Isso demonstra que a imaginação não é utilizada apenas como recurso dos seres
humanos que almejam objetivar novas criações na realidade. A imaginação é utilizada
diariamente pelos seres humanos, assim como qualquer outra função psicológica
superior, em suas atividades diárias. Quando combina-se a imaginação com a educação,
os resultados da apropriação dos conteúdos ministrados em aulas aumentam, como
demonstrado em Giannoni e Paccini (2014). Os alunos quando recebiam descrições que
remetiam, mesmo que brevemente, a algum fato vivenciado e semelhante à estória
narrada pelos pesquisadores, se apropriavam dos conteúdos da narração com maior
facilidade. Isso tornou-se evidente quando os pesquisadores apresentaram aos alunos as
poesias de Carlos Drummond de Andrade, em específico, uma poesia chamada Infância.
Inicialmente os alunos compartilharam a partir de suas experiências o que imaginaram
e, posteriormente, com a mediação dos pesquisadores, realizaram uma reflexão e
interpretação sobre essa poesia.
A utilização da imaginação nas salas de aula, constitui-se como uma importante
ferramenta para que o aluno se aproprie dos conteúdos ministrados pelos seus
professores. Mas, em momento algum, deve-se esquecer da educação da imaginação
enquanto função psicológica superior, assim como, não se deve esquecer da educação

74
de qualquer processo psicológico. Novamente ao recorrer a Vigotski (1924/2003, p.
157) encontra-se que

[...] a educação da fantasia deve ser realizada, acima de tudo, pela linha da
elaboração do respeito à realidade. A criança deve ser educada com grande
respeito pelo real, mas por real não se deve entender o pequeno mundo que a
rodeia. Aqui se trata dessa grande realidade que nos circunda, se não
quisermos criar um pequeno-burguês e um medíocre. Temos de admitir que,
quando se fica encerrado nesse estreito círculo dos interesses imediatos, isso
vai criando em crianças e adultos uma forma de vôo curto, uma concepção
miúda de vida, limitada e arrogante.

A educação da imaginação, assim como, de qualquer outra função psicológica


superior é de extrema necessidade. Mas, também e principalmente essa educação deve
condizer com a realidade. Essa educação deve seguir como preceito as experiências da
criança no mundo que a circunda, como já descrito e explicado por Vigotski. A
imaginação deve ser colocada no seu devido lugar e o sujeito deve ter claro os limites
dessa função. Pode-se traduzir esse devido lugar como: o sujeito deve ter clareza que
não pode resolver todos seus problemas apenas fantasiando sua resolução, ou ainda,
recorrendo aos seus sonhos mais profundos. A imaginação cumpre segundo Rubinstein
(1940/1967) um importante papel em auxiliar na transformação da sociedade, mas para
que isso se realize, a imaginação deve sair do plano ideal e se manifestar na forma de
atividade criadora. Por isso que para Vigotski (1924/2003, p. 157), “a imaginação é
sumamente útil como servidora, porém é prejudicial como amo [...].” Aqui reafirma-se a
importância de se compreender os sistemas psicológicos e ter em vista o papel do
pensamento como função regente desses sistemas. O sujeito que vive em função apenas
de sua imaginação, encontra diversas dificuldades na realização de suas objetivações,
diga-se de passagem, das objetivações dos elementos da própria imaginação, tendo em
vista, que o pensamento cumpre o papel mais importante na condução do sujeito na
realidade. É exatamente por isso, que deve-se tomar cuidado para não individualizar um
único processo nos estudos do psiquismo humano. Ainda, a educação pelo real deve
possibilitar que o sujeito torne-se sujeito de sua atividade, torne-se ativo no processo de
educação e resolução de problemas, desenvolvendo suas capacidades ao máximo e não
apenas reproduzindo aquilo que lhe é oferecido no imediato.
A experiência tem sido apresentada neste trabalho, a partir de sua importância
para o desenvolvimento da imaginação. Porém, ela não é a única forma de vinculação
do sujeito com a realidade. Vigotski (1930/2009), apresenta quatro formas de
vinculação da imaginação com a realidade. Essa teorização de Vigotski, constitui-se

75
como elemento fundamental e geral deste trabalho. Como já mencionado mais acima, o
primeiro meio de vinculação da imaginação com a realidade, constitui-se pelo fato de
que todos os elementos para a objetivação da imaginação encontram-se na realidade
material, na natureza, ou ainda, na natureza humanizada (ILIÉNKOV, 1977). Esse
primeiro fato encontra-se bem detalhado neste trabalho, comprova que objetos não
surgem do nada, ou por meio de uma força mística e divina. Todas as criações humanas,
são obras dos próprios seres humanos, que recorrem aos elementos presentes na
realidade e em suas experiências anteriores. Por mais fantásticos que pareçam os
elementos de uma criação fictícia, em sua essência, estão contidos os traços das
impressões da realidade e principalmente das vivências anteriores do sujeito da
atividade criadora.
A segunda forma de vinculação da imaginação à realidade é, para Vigotski
(1930/2009), ainda mais complexa que a primeira e também já foi brevemente descrita
neste trabalho. Nesta vinculação, encontra-se o produto final da imaginação apoiando-se
em algum fenômeno da realidade. Por exemplo, um determinado acontecimento
histórico que o sujeito não vivenciou, mas consegue com a narração de outra pessoa
visualizar com a ajuda de sua imaginação. Como exemplo, já fora apresentado o aluno
que apreende nas aulas de história sobre a Segunda Guerra Mundial. Porém, esse fato, o
de se apropriar de determinados conteúdos, em uma aula de história, ou ainda, de
visualizar algo narrado por outra pessoa, somente torna-se possível, porque os seres
humanos se apropriam da experiência alheia, ou seja, da experiência de outros seres
humanos que os auxiliaram no desenvolvimento de um quadro sobre o que está sendo
narrado. A imaginação, como qualquer outra função superior, também é internalizada e
a mediação do outro se faz necessária a todo instante neste processo de
desenvolvimento.
Existe, portanto, uma grande dependência entre imaginação e experiência que é
explicada por Vigotski (1930/2009) como “[...] dependência dupla e mútua entre
imaginação e experiência. Se no primeiro caso a imaginação apoia-se na experiência, no
segundo é a própria experiência que se apoia na imaginação.” (p. 25).
A terceira forma de vinculação entre imaginação e realidade possui um caráter
emocional que se expressa em uma via dupla. Aqui o sentimento tende a influenciar os
produtos da imaginação, entretanto, isso também se apresenta na direção oposta quando
a imaginação influencia os sentimentos humanos. É justamente por isso que Vigotski
(1930/2009) apresenta esse meio de vinculação à realidade manifestando-se de dois

76
modos. Pode-se pensar, por exemplo, que quando uma criança tem medo do escuro,
esse sentimento atua como elemento que desencadeia a criação de certas imagens. A
criança começa a imaginar monstros ou elementos que não existem na realidade. Em
seu contrário, quando a imaginação influencia os sentimentos, a criança imaginando
monstros em seu quarto tende a ficar com medo nesta situação. A criança que é
enganada por sua percepção durante a noite e, no lugar de um boneco visualiza um
monstro, cria uma fantasia irreal, mas o medo vivenciado por ela é real. É ainda notável
em Vigotski, a presença intrínseca da participação de outras funções psicológicas
superiores no desenvolvimento dos produtos da imaginação.
Essa emoção real, causada por uma fantasia irreal está presente a todo instante
no cotidiano dos seres humanos. Nos meios artísticos essa lei torna-se evidente. Os
seres humanos ao assistirem uma peça de teatro, um filme, ou ainda, ao ler um livro,
podem se emocionar com fatos fictícios. Mas, o sentimento de ódio, medo, anseio,
esperança, amor, entre outros, são tão reais quanto qualquer sentimento vivenciado nas
relações pessoais que o sujeito estabelece com outros seres humanos.
A quarta e última lei apresentada por Vigotski (1930/2009) é a imaginação
tornando-se realidade. Nesta lei, a imaginação que era antes um processo ideal se
externaliza, vira conteúdo material, ou segundo a expressão de Vigotski se “cristaliza”
(p. 29). O produto da imaginação que antes estava sob forma ideal, se torna um objeto e
começa e existir no mundo material. Os elementos que o sujeito retira da realidade são
reelaborados pelo pensamento e transformados em produtos da imaginação. Mas, ao
retornarem à realidade, ao serem externalizados, retornam como produto complexo da
imaginação objetivada pela atividade criadora. A cristalização da imaginação na
realidade é também apresentada por Ignatiev (1960). O autor soviético, escreve que a
imaginação que se desenvolve a partir de suas origens com a realidade, retorna à
realidade em forma material ou espiritual.
É em Ignatiev que aparece a importância da atividade prática no
desenvolvimento da imaginação e na criação do sujeito ativo na realidade. Portanto,
outra lei que se elucida da imaginação é que esta, é inseparável da prática. É no
momento da atividade prática que o sujeito confronta a realidade, a transforma e
encontra meios para a objetivação de suas criações. É por meio da atividade que a
imaginação se externaliza, se cristaliza (IGNATIEV, 1960).
A imaginação em seu termo geral se vincula com a realidade e, se desenvolve a
partir da atividade prática dos seres humanos. Porém, a imaginação também possui suas

77
particularidades e em cada sujeito manifesta-se de determinada forma. Assim, vale se
deter nos tipos particulares de imaginação e como essa se manifesta nos produtos da
atividade humana.

3.2 – Os tipos de imaginação: questões particulares sobre o desenvolvimento e


objetivação dos produtos da função imaginativa

Até agora a imaginação foi apresentada a partir da relação entre sujeito e


realidade, demonstrando sua vinculação com a realidade material e objetiva. Mas, a
imaginação não se limita apenas a vinculação do sujeito com o real, ela também possui
traços particulares que se manifestam em determinados períodos do desenvolvimento e
sob determinadas condições. Destaca-se aqui três tipos particulares da manifestação da
função imaginativa, sendo eles, a imaginação reprodutiva ou representativa, imaginação
criadora e a ilusão como problema e tipo especial da imaginação.
A imaginação, assim como qualquer outra função psicológica superior, se
desenvolve em meio a atividade do sujeito na realidade e a partir da mediação dos seres
humanos e dos instrumentos a seu redor. Em cada período do desenvolvimento uma
nova característica dessa função se destaca, sendo possível identificar seu
desenvolvimento concreto. Neste sentido, apresenta-se aqui a imaginação representativa
como qualidade que primeiro se manifesta no decorrer do desenvolvido imaginativo.
A imaginação representativa ou reprodutiva como denominada por Vigotski
(1930/2009), Rubinstein (1940/1967) e Luria (1931-1932/2013), cumpre o importante
papel de reproduzir, ou segundo a expressão de Ignatiev (1960) representar39 elementos
da realidade de maneira ideal ou material. Quando alguém ouve uma narração de outra
pessoa, ou ainda realiza a leitura de um romance, essa pessoa está representando a
narração ou a estória idealmente, apoiando-se em sua imaginação representativa. Outro
momento em que encontra-se a expressão da imaginação representativa é quando o

39
Cabe aqui novamente um breve esclarecimento sobre o termo reprodutivo cunhado por Vigotski,
Luria e Rubinstein nos estudos da imaginação. Como já mencionado, o que se encontrava de mais
desenvolvido nos estudos sobre a função imaginativa era o livro de Ribot, em que, o psicólogo
associacionista utiliza em vários momentos o termo reprodutivo. Assim, alguns teóricos soviéticos
incorporam esse termo em suas discussões teóricas. Ignatiev, por sua vez, utiliza um termo alternativo
para esse tipo de imaginação. Para ele o termo representativo cumpre melhor o dever de explicar essa
qualidade da imaginação, que ora ou outra, se assemelha a memória, mas é qualitativamente diferente
dela. Ainda, pode-se pensar que o sujeito não apenas reproduz de forma passiva os conteúdos da
realidade vivenciados por ele, mas sim, representa esses conteúdos de maneira ativa na realidade.
Portanto, a partir de agora utilizar-se-á o termo representativo ao invés do reprodutivo.

78
sujeito realiza uma representação de determinada obra de arte, por exemplo, que já
existe na realidade. A pessoa que representa a partir de suas características pessoais um
quadro que já existe no meio material, reproduz essa obra, porém segundo a expressão
de Rubinstein (1957/1968) com suas características mais subjetivas. O teatro guarda a
expressão da representação, por mais fiel que o autor seja do personagem que
representa, ele o fará a partir de suas vivências anteriores e características mais
particulares.
A imaginação representativa encontra-se intrinsecamente vinculada à educação.
Em investigações realizadas por Giannoni e Paccini (2014), encontraram-se os traços
mais particulares do desenvolvimento dessa qualidade da imaginação. Durante as
pesquisas apresentavam-se trechos de estórias para alunos de um nono ano, sendo que
estes deveriam, apoiando-se na imaginação, representar o que os pesquisadores haviam
narrado. Na leitura das estórias, os alunos representavam o que havia sido apresentado a
eles de uma maneira geral. Se no livro havia um cavalo, na descrição do aluno o cavalo
também se fazia presente. Mas, na manifestação particular de cada uma dessas
descrições, o cavalo mudava de cor, tamanho, ou ainda, de raça ao depender de alguns
alunos que possuíam em suas vivências o conhecimento sobre animais.
Mas a imaginação representativa não é a única qualidade dessa função
psicológica superior. Se os seres humanos orientassem suas atividades apenas a
reproduzir e representar o que já existe, eles viveriam apenas do passado, cultivando o
fogo em uma caverna. A imaginação representativa, apesar de ser uma característica do
sujeito ativo na realidade, não apresenta os conteúdos psicológicos necessários para a
realização de uma nova criação. Essa atividade psicológica responsável pelo novo, se
manifesta por meio da imaginação criadora que é, segundo Ignatiev (1960), a qualidade
responsável dessa função, por toda nova criação humana. O objeto, antes de ser objeto,
é objeto ideal. A visualização dessa futura criação, surge pela primeira vez, graças ao
papel que cumpre a imaginação criadora. Ainda para Ignatiev,

A criação, ou atividade criadora, é a função em virtude da qual se obtém


produtos novos originais, que se fazem pela primeira vez. Possui um grande
significado social, por exemplo, a invenção de novas máquinas ou
reconstrução fundamental das antigas, o descobrimento de novos métodos
para conseguir novas classes de plantas ou novas raças de animais, o
descobrimento de novas leis científicas, a criação de obras artísticas, literárias
etc. (p. 313).

A imaginação criadora cumpre a importante de tarefa de auxiliar o sujeito em


suas novas criações. Encontra-se presente em vários campos do saber humano, dentre
79
tais, destaca-se a importância da imaginação criadora nas áreas técnicas, científicas e
artísticas. Toda nova criação ainda encontra-se motivada por uma necessidade social e é
condicionada pelos meios materiais e períodos históricos. Pode-se ainda dizer que, uma
invenção não pode ser objetivada até que se faça necessária. A necessidade social que
condiciona o desenvolvimento de uma determinada criação, também influencia
diretamente o sujeito. Para Vigotski (1930/2009), todo ser humano, por maior gênio que
aparente ou seja, é sempre fruto de um determinado período histórico. Marx, sobre o
caráter histórico do desenvolvimento criador, em específico da arte, menciona que

Os gregos eram meninos normais. O encanto que encontramos em sua arte


não está em contradição com o caráter primitivo da sociedade em que essa
arte se desenvolveu. É, ao contrário, sua produção; poder-se-ia dizer melhor
que se acha indissoluvelmente ligada ao fato de que as condições sociais
imperfeitas em que nasceu e nas quais forçosamente tinha que nascer não
poderiam retornar nunca mais (MARX, 1859/2008, p. 272).

Todas as criações humanas são, portanto, fruto das condições materiais e


históricas da sociedade em que se desenvolveu. Júlio Verne, ao escrever Da terra a lua,
apresenta um desejo intrínseco ao sujeito cognoscitivo, o de conhecimento. Mas, a
possibilidade dos seres humanos conhecerem o espaço, somente se faz possível quando
se criam as condições materiais próprias e adequadas para que isso ocorra.
Outra característica vinculada à imaginação criadora é a intuição, ou, inspiração
momentânea. Para Ignatiev, as teorias idealistas e reacionárias da psicologia ao
explicarem os produtos da imaginação salientam que sua objetivação somente é possível
por uma intuição ou inspiração momentânea, o que constitui um grave erro nas análises
psicológicas. Todo novo, de grande significação social foi objetivado a partir de muitos
estudos e um grande trabalho, que se esconde no produto final da imaginação, em sua
cristalização. Portanto, “a inspiração é a tensão imensa de todas as forças psíquicas do
homem.” (IGNATIEV, 1960, p. 317). A inspiração se constitui na relação estabelecida
por todas as funções psicológicas superiores, nos nexos e interligações que elas
estabelecem entre si, no exato momento, em que o sujeito busca a solução de um
determinado problema. A inspiração, nesta tensão entre todas as funções psíquicas,
somente é possível pelo acúmulo de experiência do sujeito. Quando necessita resolver
determinado problema, o conhecimento prévio que já possui acumulado em sua
experiência, o auxilia nesta resolução.
A imaginação nada possui de excepcional, divino ou extraordinário, pelo
contrário, se constitui como uma função complexa, o que produz por sua vez, uma série

80
de estudos equivocados que levam a teorizações que atribuem suas características ao
inato ou às inspirações momentâneas. Sobre o longo processo de criação, Vigotski
(1930/2009, p. 35) escreve que “o que denominamos de criação costuma ser apenas o
ato catastrófico do parto que ocorre como resultado de um longo período de gestação e
desenvolvimento do feto.” Portanto, não deve-se minimizar o esforço do sujeito que
existe por detrás de uma determinada criação. É esse o papel principal que cumpre à
imaginação criadora, produzir novas criações na realidade material e objetiva, em que
algumas vezes, pode-se demorar dias, meses, anos, décadas e até mesmo séculos.
Como última qualidade e característica, apresenta-se aqui, a ilusão como um tipo
especial da imaginação. A ilusão consiste segundo Ignatiev (1960) em imaginar algo
dirigido ao futuro e que se relaciona com a vida e atividade do sujeito no meio em que
vive, é ainda, “[...] a criação de imagens com arranjos e desejos.” (p. 334). É através
das ilusões que o sujeito da atividade pode visualizar a utilização de sua criação na
realidade, é por meio da ilusão que os seres humanos expressam seus mais profundos
sonhos e desejos. Deve se ter claro que a ilusão nada possui de utópico, pelo contrário, é
ela que motiva o sujeito em suas várias atividades.
Porém, o problema da ilusão nos estudos dos soviéticos se resume a poucas
páginas em Ignatiev (1960), Petrovski (1976/1980) e Rubinstein (1940/1967), sendo
que nos dois últimos a ilusão aparece na verdade como o problema dos sonhos. Tais
sonhos devem ser compreendidos não a partir de um caráter freudiano, mas sim, a partir
das perspectivas que o sujeito levanta para sua vida individual e social. Vale dizer que
tanto o conceito de sonho como o de ilusão representa o caráter desse fenômeno40.
Na tentativa de compreender o problema da ilusão, Giannoni e Paccini (2014)
desenvolveram uma metodologia que foi utilizada com alunos do ensino médio. O
problema central era apresentar como esse problema estava posto nos alunos da rede
pública de educação e quais os sonhos/ilusões que possuíam para o futuro. Novamente,
apresentava-se um trecho de livro para os alunos, e, a partir da leitura, levantava-se
algumas problemáticas e discussões para reflexão. Em uma das atividades, os alunos
deveriam se imaginar no futuro e o que fariam para sobreviver, se teriam família ou não,
e no que trabalhariam para sustentar seus familiares. Assim, os alunos apresentaram
verbalmente seus sonhos e objetivos para o futuro. Vale dizer que quanto mais próximo

40
Vale ainda lembrar que trabalha-se com materiais que foram traduzidos para ouras línguas, portanto,
não sabe-se qual foi de fato a palavra utilizada pelos autores para definir tal fenômeno. Portanto, utiliza-
se o sonho e a ilusão como sinônimos.

81
da pobreza estes alunos se encontravam, maior era a proximidade das ilusões com a
necessidade imediata e financeira destes alunos. Por exemplo, em um dos momentos em
que os alunos estavam compartilhando seus sonhos com toda a turma, um deles
menciona que seu sonho mais profundo era ser empacotador de supermercado, pois
seria a única profissão que conseguiria exercer por ser um cadeirante. Vale dizer que os
sonhos encontram-se intrínsecos as vivências do sujeito em seu meio social. Durante
vários anos esse sujeito fora tido como incapaz e, em sua vivência, esse era o traço mais
forte que permanecera, assim, seus sonhos carregavam os traços mais profundos que lhe
atribuíram nos mais diversos momentos de sua vida, diga-se de passagem, um traço de
incapacidade que perduraria por toda sua vida.
Assim, evidencia-se que as vivências anteriores do sujeito influenciam
diretamente no desenvolvimento da ilusão. Porém, o debate sobre o problema da ilusão
como tipo especial da função imaginativa está longe de acabar. Pelo contrário, deve-se
buscar meios para desenvolver teoricamente esse conceito. E não será recorrendo
apenas a estes poucos materiais que se encontraram meios para o desenvolvimento
teórico e prático da ilusão.

3.3 – A atividade criadora: A imaginação no meio técnico, científico e artístico.

A imaginação, que ganha forma na atividade do sujeito, se manifesta em


diferentes áreas, dentre as quais, pode-se apresentar as mais importantes: a técnica, a
científica e a artística. Em cada um desses campos da cultura, a imaginação se evidencia
de uma determinada forma e é objetivada a partir da atividade dos seres humanos. Pode-
se ainda pensar que, os produtos da imaginação se cristalizam através da atividade
criadora nas áreas técnicas, científicas e artística.
A atividade criadora nas áreas técnicas encontra-se vinculada a todo instante
com o desenvolvimento tecnológico das sociedades. Ela se manifesta principalmente na
construção ou reconstrução de máquinas para o trabalho, novos projetos arquitetônicos
para um determinado país etc. Ignatiev (1960) divide em três partes o processo de
atividade criadora nas áreas técnica. Na primeira ocorre a preparação da invenção, na
segunda o trabalho do sujeito sobre a invenção e na terceira a realização e objetivação
da invenção. Vale dizer que é na terceira etapa deste processo que a imaginação se
objetiva, se cristalizando por meio da atividade no objeto produzido pelo sujeito.

82
Na primeira etapa deste processo a imaginação sempre se manifesta a partir da
ideia que o “inventor” possui. O sujeito cria uma imagem de sua futura invenção e
busca encontrar soluções para poder objetivá-la. A experiência e as observações que o
sujeito realiza o auxilia nesta primeira etapa de planejamento de problema. No momento
em que o sujeito planeja o problema e uma finalidade a ser atingida, inicia-se a segunda
etapa da criação técnica, em que, se inicia o trabalho prático sobre a invenção. É nesta
etapa que o inventor começa a dar forma a sua criação. Na terceira e última etapa desse
projeto, encontra-se a realização, objetivação e cristalização da invenção. Neste
momento a invenção encontra-se pronta e pode ser utilizada pelo sujeito e por outras
pessoas na sociedade (IGNATIEV, 1960).
Outra área em que a imaginação se faz presente é na ciência, e como toda
atividade criadora, encontra-se movida pela necessidade social. No senso comum a
imaginação é apenas o dom ou a dádiva do artista, entretanto, na ciência psicológica, em
específico na psicologia histórico-cultural, afirma-se que o cientista que não se apoia em
sua imaginação para suas criações encontra vários problemas em suas pesquisas. A
criação de leis da física e química, os fatos históricos, por exemplo, não poderiam ser
elucidados sem o auxílio da função imaginativa. O pensamento, em conjunto com a
imaginação, cumpre um importante papel na atividade científica. Pode-se dizer que,
enquanto a imaginação é responsável pela ideia da nova criação, cabe ao pensamento
organizar os meios para que o sujeito objetive o produto de sua imaginação. O estudante
que escreve essa monografia teve que apoiar-se em sua imaginação para visualizar todo
o processo que deveria percorrer para escrevê-la, inclusive propor novos caminhos ou
novos problemas para estudar o fenômeno da imaginação.
Para que se caracterize enquanto atividade criadora na ciência, o pesquisador
deve buscar elucidar novas leis, novos caminhos para que se investigue determinado
problema, ou ainda, apresentar novas soluções para problemas antigos. Do contrário, o
aluno que se restringe, por exemplo, em desenvolver apenas pesquisas de outras pessoas
e que já foram objetivadas na realidade, executa uma atividade representativa na
ciência; o pesquisador que se restringe a representar pesquisas de outras pessoas é tão
ativo quanto o que busca elucidar novas leis para a ciência, mas sua diferença
fundamental, é que o caráter criador da imaginação não se manifesta nessa atividade, se
restringindo à representação do real. Em certas etapas do desenvolvimento da atividade
científica, a representação de pesquisas se faz necessária, por exemplo, em alunos que
iniciam um curso de graduação, entretanto, com o desenvolvimento acadêmico do

83
aluno, deve-se criar nele, um sentido de autonomia na decisão de suas pesquisas. Vale
lembrar que fazer ciência, não envolve simplesmente apanhar determinado tema e
investigá-lo, pelo contrário, os desejos e as emoções do sujeito frente a essa escolha
devem se evidenciar e principalmente representar algum sentido em sua vida, ou ainda,
para a sociedade em que vive. A escolha de um tema de estudo, pesquisa ou
investigação deve estar ligado às necessidades sociais, mas também, às necessidades do
próprio sujeito da atividade. É nessas necessidades que reside o verdadeiro motivo da
atividade científica.
Na criação científica, Ignatiev (1960) também apresenta três etapas sobre o
desenvolvimento da atividade na ciência, que merecem ser ligeiramente modificadas.
Neste sentido, vale introduzir uma quarta etapa no desenvolvimento da atividade
científica. Na primeira etapa aparece a elaboração do problema de pesquisa, na segunda
a revisão teórica de conhecimentos, na terceira o desenvolvimento da pesquisa e, na
quarta e última etapa, a divulgação dos resultados e conclusões da pesquisa.
A primeira etapa apresentada por Ignatiev e brevemente modificada é que o
cientista deve elaborar um problema de pesquisa, analisando os fenômenos existentes e
buscando métodos possíveis para estudar o problema levantado. Como segunda etapa,
aparece a revisão teórica dos conhecimentos que já foram produzidos sobre o fenômeno
que se propõem estudar. Isso surge como uma necessidade do cientista, pois sem o
acúmulo prévio de determinado conhecimento a pesquisa se torna impossível, ou no
mínimo tendenciosa. Na terceira etapa a pesquisa começa a ganhar forma pela primeira
vez, esboços são feitos, manuscritos são desenvolvidos e a criação toma parte do
pensamento que é externalizados pela palavra. Por fim, como quarta e última etapa
surge a objetivação final do trabalho em que são divulgados os resultados finais e
conclusão sobre o problema levantado anteriormente. Deve-se a todo instante nas
pesquisas respeitar a realidade e principalmente os limites frente ao tempo e condições
materiais para se realizar tal pesquisa. Torna-se impossível pesquisar a história da
imaginação nos filósofos materialistas desde a Grécia antiga, por exemplo, em um
trabalho na graduação e talvez até mesmo na pós-graduação. Esse seria um tema para
toda a vida. É por isso que Pavlov citado por Ignatiev (1960) expressa que “a ciência
exige do homem toda sua vida. E se vocês tivessem duas vidas não lhes seriam
suficientes. A ciência exige do homem uma grande tensão e uma paixão imensa.” (p.
317). O tempo deve ser minimamente planejado para que o sujeito não se perca em
meio ao seu objetivo proposto. Porém, como bem lembra Marx, “sejam quais forem as

84
influências dos meus escritos, tem, pelo menos, o mérito de constituírem um todo
artístico completo. Só consigo isso não publicando nada enquanto o que escrevo não
estiver inteiramente acabado em cima da mesa de trabalho.” (MARX, 1865/1980, p.
36)41.
A última área do conhecimento humano em que se apresenta a imaginação, nesta
monografia, é no campo artístico. Rubinstein (1940/1967) salienta que em vários
estudos da filosofia e da ciência, a imaginação era apresentada como a qualidade
principal e única do artista. Os grandes gênios da arte sempre possuíram uma “super”
imaginação, ou inata, ou ainda, herdada por uma herança genética, o que para o autor se
constitui como um grande equívoco. As pesquisas de Vigotski sobre o desenvolvimento
das funções psicológicas superiores e, posteriormente, de outros soviéticos sobre o
caráter mediado dessas funções, desmistificaram a lenda sobre o caráter inato da
imaginação artística.
Em uma primeira definição pode-se apresentar a arte como um “reflexo da
realidade em forma de imagens.” (IGNATIEV, 1960, p. 324). Mas, este reflexo não
pode ser encarado como um simples retrato da realidade; ele é, ao mesmo tempo,
reflexo e refração de determinado fenômeno da realidade. A realidade externa atua sob
as condições internas do sujeito – pensamentos, emoções, imaginação – e é neste
processo que se refrata, se modifica, torna-se subjetivo (RUBINSTEIN, 1957/1968). A
arte carrega em si, estes traços do sujeito, de suas características mais pessoais e ao
mesmo tempo geral de toda a sociedade.
Assim como nas áreas técnicas e científicas, a atividade artística é motivada
principalmente pela necessidade social. Para Ignatiev (1960) a criação artística segue
três etapas durante a criação. Na primeira ocorre a preparação da obra, na segunda a
criação e, na terceira sua elaboração final. Novamente estas etapas apresentadas pelo
psicólogo soviético auxiliam a desmistificar o caráter da inspiração momentânea nas
obras de arte. Nessa atividade, o estudo, a compilação de materiais e as observações da
realidade ocupam grande tempo da artista durante sua criação.
Durante a preparação da obra, o artista deve buscar os elementos para sua
criação na realidade objetiva. Nesta etapa o sujeito realiza observações, principalmente
sobre determinados elementos que irão auxiliar em sua criação. Tolstoi ao criar Natacha

41
Trecho retirado da coletânea Sobre literatura e arte que foi escrito a partir de fragmentos de textos de
Marx e Engels. Este trecho apresentado é na verdade uma carta de Marx, enviada a Engels em 31 de
julho de 1865.

85
em Guerra e Paz, buscou observar as características pessoais de sua esposa e cunhada
para a criação da personagem. A percepção do artista é no fim uma “[...] imagem
artística, é uma síntese do que o artista tem visto ou ouvido de uma maneira
disseminada. É um todo novo que se cria pela primeira vez.” (IGNATIEV, 1960, p.
327). Na segunda etapa da atividade artística surgem os primeiros esboços da obra e ela,
começa a ganhar forma. Esse é um período demorado e certas vezes pode durar anos.
Ignatiev em seu capítulo sobre a imaginação apresenta um manuscrito de Tolstoi, do
livro Anna Karenina42, em que, o literário Russo escreve e reescreve várias vezes uma
única página de sua obra. Por fim, na última etapa da criação, a imaginação se cristaliza
e a obra de arte se objetiva na realidade. Nela encontram-se os traços mais particulares
do sujeito e mais gerais de toda a sociedade. O sujeito que refletiu a realidade para sua
criação artística, agora reflete para ela sua obra de arte.
Outra característica da imaginação, principalmente atuando por meio da
atividade artística, é o exagero. Os contos de Edgar Allan Poe estão cheios de elementos
exagerados. Múmias de 2.000 mil anos atrás que realizam palestras para arqueólogos, e
corvos que aterrorizam seres humanos pronunciando “nunca mais” são exemplos desses
exageros presentes nos contos de Poe. O exagero compõe uma parte essencial de toda
obra artística. O exagero na obra de arte é fortemente influenciado pelos sentimentos do
artista. Segundo Vigotski (1930/2009), os seres humanos exageram, pois querem ver as
coisas de forma exacerbada.
Porém, é tolo aquele que pensa que o exagero encontra-se presente apenas na
atividade artística. Para Vigotski (1930/2009) o exagero é também uma qualidade
intrínseca do cientista. Ele escreve que

[...] o exagero, assim como a imaginação, em geral, é necessário tanto na arte


quanto na ciência. Não fosse a capacidade, comicamente manifestada na
história da menina de cinco anos e meio, a humanidade não teria criado a
astronomia, a geologia, a física. (p. 39).

O exagero cumpre, portanto, um importante papel no desenvolvimento da


atividade criadora, tanto nos campos técnicos, científicos e artísticos. Todo o novo
carrega em si, traços do exagero. É de extrema importância buscar desenvolver ainda
como a imaginação se manifesta frente ao desenvolvimento infantil, para tentar
compreender como os sistemas psicológicos se desenvolvem em conjunto com a
imaginação.
42
A imagem do manuscrito de Anna Karenina encontra-se em anexo neste trabalho, assim com, a
imagem do quadro de Reshetnikov que exemplifica o processo de criação artística.

86
Mas, antes deve-se pensar o papel da atividade como responsável pelo
desenvolvimento da imaginação. Para além disso, a atividade não deve ser pensada
apenas a partir da relação sujeito-objeto, mas sim, e principalmente na relação sujeito-
sujeito-objeto (RUBINSTEIN, 1940/1967). Deve-se lembrar que os seres humanos são
aqueles que criam os objetos e ensinam outros seres humanos a utilizá-los. É por meio
da atividade dos seres humanos na realidade material que a imaginação se desenvolve,
mas essa atividade é mediada por outros seres humanos e por instrumentos. Por fim, a
imaginação retorna como produto, encarnado em um objeto, ou ainda em palavras em
um livro, graças a atividade dos seres humanos na realidade.

3.4 – O desenvolvimento da imaginação na infância: traços particulares do


princípio imaginativo

Ao refutar a afirmação de que a imaginação é mais desenvolvida em crianças do


que em adultos, cabe agora identificar alguns traços particulares que fazem parte do
processo de desenvolvimento humano. No decorrer do processo de humanização, a
criança desenvolve novas características, novos comportamentos e novas relações entre
as funções psicológicas superiores. O afeto, por sua vez, representa para o sujeito o
início de todo o desenvolvimento. É ele “[...] o alfa e o ômega, o primeiro e último elo,
o prólogo e o epílogo de todo o desenvolvimento psíquico.” (VIGOTSKI, 1932/2012, p.
299). A comunicação emocional e os cuidados afetivos que o cuidador estabelece com a
criança potencializa esse desenvolvimento. É em um primeiro momento, o condutor de
todo psiquismo e de toda ação humana. O afeto também reaparecerá em outros
momentos do desenvolvimento do sujeito, sob novas formas.
Com a imaginação não é diferente essa relação. Quanto maior a ligação afetiva
entre adulto e criança, mais rapidamente a imaginação manifesta-se como qualidade
superior na vida da criança. E por ligação afetiva, deve-se compreender não apenas o
carinho imediato, mas toda mediação do adulto que permite com que a criança tenha
acesso aos elementos da cultura; neste sentido, quanto mais íntima for essa relação,
mais possibilidades são oferecidas ao desenvolvimento da criança.
No decorrer do processo de desenvolvimento humano, a imaginação é um dos
últimos processos a se manifestar em sua qualidade superior e representativa. Surge
consideravelmente tarde, aparece em conjunto com a linguagem e o pensamento. Suas
primeiras manifestações ocorrem próximo aos três anos de idade, diga-se de passagem,

87
momento em que a criança se distancia do mundo imediato e suas relações com a
realidade tornam-se mediadas pela linguagem e instrumentos (VIGOTSKI, 1933/2007).
As primeiras manifestações dessa função superior a partir dos três anos são
consenso entre as pesquisas dos soviéticos. Em Rubinstein (1940/1967), Ignatiev (1960)
e Liublinskaia (1979), os primeiros traços da imaginação surgem também nesta faixa
etária. Em Mukhina (1975/1995), a imaginação se desenvolve em conjunto com o
desenvolvimento da função semiótica. A função semiótica – ou simbólica – que se
desenvolve na criança próximo aos três anos de idade, é responsável pela substituição
de um objeto por outro na consciência. A criança, por exemplo, consegue identificar a
figura de um cachorro não somente no cachorro, agora ela identifica o cachorro em um
desenho, em um boneco e futuramente em uma palavra. Para a autora, isso se constitui
como o princípio do desenvolvimento da função imaginativa na criança.
A criança em suas brincadeiras começa a substituir esses objetos, caso não
possua um cavalo, um pedaço de pau será útil como um. Isso ocorre como um grande
salto no desenvolvimento da criança, primeiro por ela utilizar outro objeto em sua
brincadeira e, segundo, por ela utilizar esse objeto em suas brincadeiras, mas, consciente
de sua verdadeira função. A criança tem consciência que o cabo de vassoura não é um
cavalo, mas em sua brincadeira é o cavalo mais veloz, e após brincar, deixa de ser o
cavalo e volta ser a vassoura com que se limpa a casa. Esse é um importante passo para
que a criança inicie o desenvolvimento de sua imaginação, e a brincadeira possibilita
todos os elementos necessários para que a criança se desenvolva.
A imaginação começa a se manifestar neste período da vida de forma
reprodutiva segundo Liublinskaia (1979), ou de forma representativa para Ignatiev
(1960). Ela se manifesta na atividade e nela se encerra. A criança brinca, desenha e de
certa forma reproduz o que os adultos fazem, mas, no fim do brincar, a imaginação é
deixada de lado. A função imaginativa na criança muito pequena se manifesta assim,
somente quando está brincando, ou ainda, pode-se pensar que, a criança nesta idade –
fim da primeira infância e início da idade pré-escolar - não imagina para brincar, mas
sim, brinca imaginando.
Ainda para Liublinskaia (1979), a imaginação também deve ser educada,
principalmente para que não se torne um vago fantasiar. Neste sentido, aparece a
necessidade do educador desenvolver a imaginação em conjunto com o pensamento
crítico da criança. Para a autora “as crianças aprendem a fantasiar quando escutam
histórias, contemplam gravuras, quando desenham de acordo com uma ideia ou quando

88
fazem ilustrações para a história que ouviram.” (p. 257). Portanto, uma educação que se
proponha a desenvolver a função imaginativa deve trabalhar com essas condições a todo
instante. É de extrema necessidade que isso se faça presente na vida da criança desde
muito cedo, para ser mais exato, desde as primeiras manifestações do brincar na vida da
criança.
Por sua vez, a qualidade criadora da imaginação somente se manifesta no início
da adolescência. Segundo Vigotski (1930/1999), com o desenvolvimento do sistema de
conceitos, novos nexos são estabelecidos entre as funções superiores, e, neste sentido,
se cria uma nova qualidade da imaginação, sendo esta, criadora e transformadora. Para
Vygotski (1931/1932), nesta idade a imaginação “[...] se libera das imagens puramente
concretas, e opera com elementos do pensamento abstrato.” (p. 213). Os produtos da
imaginação encontram agora a possibilidade de serem produtos abstratos. A introdução
do pensamento filosófico, por exemplo, é de extrema necessidade nesse período da vida
do sujeito, justamente para o desenvolvimento do pensamento abstrato.
Na educação, essa qualidade da imaginação se torna uma necessidade no ensino
de ciências abstratas, tais como as matemáticas, física, química etc. O adolescente deve
se apoiar não apenas no pensamento abstrato para conseguir resolver inúmeras
equações, mas também na própria imaginação e visualizar um conteúdo que para ele
não é mais pautado na empiricidade. Neste desenvolvimento de uma “imaginação
abstrata”, a possibilidade de novas criações se fazem presentes na vida do sujeito. As
criações com essa característica de serem abstratas surgem, portanto, neste momento da
vida: as poesias e a literatura metafórica se tornam mais presentes na vida do
adolescente43. Vale lembrar do poeta francês, irracionalista, Arthur Rimbaud44, que
escreve sua obra, Uma estadia no inferno, entre os 15 e 20 anos de idade. Porém,
tomado pelo irracionalismo comete um erro já advertido por Vigotski (1924/2003, p.
157), em que o autor salienta que “a imaginação é sumamente útil como servidora,

43
Essa é uma afirmação que necessita ser matizada quando se trata do desenvolvimento humano no
seio de uma sociedade de classes burguesa. No capitalismo nem todos possuem acesso aos elementos
da cultura, o que dificulta a apropriação desse tipo de material: a poesia e a literatura. Em contraposição
a isso, alguns grupos sociais se desenvolvem como uma contradição a toda essa determinação das
sociedades capitalistas. Portanto, vale apresentar algumas manifestações populares como o cordel, o
teatro do oprimido, a música entre outras manifestações que nasceram no seio da classe trabalhadora e
apresentam uma possibilidade de intervenção artística da classe trabalhadora, para a classe
trabalhadora. Afinal, o sujeito não é passivo na realidade, mas sim, ativo.
44
Arthur Rimbaud (1854-1891) foi um literário francês, autor de um único livro, Uma estadia no inferno.
Sua única obra foi editada e custeada por ele e por sua mãe. Após seu fracasso como escritor, Rimbaud
tornou-se traficante de armas na África, na tentativa de enriquecer, porém também sem sucesso. Em
português sua única obra encontra-se publicada pela editora Martin Claret.

89
porém é prejudicial como amo [...].” Rimbaud em suas criações e devaneios acaba
sendo conduzido por sua imaginação e emoção, deixando o pensamento em um segundo
plano em suas criações, objetivando assim, sua obra irracionalista.
Por fim, vale dizer que surge a necessidade de desenvolver a imaginação
criadora ao longo da vida da criança e do adolescente. Se para Rubinstein a imaginação
carrega os traços que permitem a transformação da realidade, se apresenta como
necessidade social seu desenvolvimento transformador. A educação deve potencializar
esse processo na vida dos filhos da classe trabalhadora.

90
CONCLUSÃO – A IMAGINAÇÃO E SUA FOSSILIZAÇÃO NA SOCIEDADE
DE CLASSES: TENDÊNCIAS PARA FUTUROS ESTUDOS

Chega-se aqui ao último capítulo dessa tentativa de apresentar a função


imaginativa, não apenas nas obras de Vigotski, mas tentando contemplar outros teóricos
da psicologia soviética e marxista, porém não perdendo de vista a importância da
teorização de Vigotski e o adotando como modelo dessa análise. A tentativa de buscar
outros autores soviéticos, permite afirmar que a psicologia marxista e soviética, não se
resume a Vigotski, Luria e Leontiev. Existem muitos outros teóricos desconhecidos, ou
pouco conhecidos, no ocidente que possuem escassos trabalhos publicados em
coletâneas de outros idiomas como o espanhol, inglês, francês e italiano. Para além da
psicologia histórico-cultural, buscou-se compreender como se desenvolveu outras
vertentes da psicologia marxista dentro da União Soviética. Neste sentido, encontrou-se
as contribuições de Rubinstein no desenvolvimento do conceito de atividade e as
contribuições dos teóricos leningradenses, Miasíschev, Anániev e, tratando-se de
imaginação, Liublinskaia.
Importante mencionar que a pretensão inicial de ordenar a análise a partir da
definição mais ou menos arbitrária de escolas soviéticas não foi a melhor. Muitas
dificuldades surgiram na falta de materiais traduzidos para o português, espanhol e
inglês, mas também, tentou-se ao máximo manter a fidedignidade com os conteúdos
trazidos por psicólogos que vivenciaram diretamente a psicologia soviética. Teóricos
como Rubinstein, Lomov e Petrovski auxiliaram na compreensão da história da
psicologia soviética e como ela se desenvolveu a partir da filosofia marxista. Shuare,
por sua vez, manteve uma relação mais distante desses autores, mas realizou estudos
importantíssimos sobre a psicologia na União Soviética. Neste sentido, deve-se apontar
as contribuições da autora para a compreensão do conceito de enfoques sistêmicos.
Deve-se buscar – e isso se apresenta como uma necessidade -, novos materiais para a
melhor compreensão desse conceito e dos teóricos leningradenses, que surgem ainda
como novidade no ocidente.
Esse enfoque, brevemente detalhado no primeiro capítulo dessa monografia,
pode ser compreendido a partir das contribuições de Miasishev (1958/1962), para o qual
um ser humano exerce influência sobre outro ser humano e também pelas inúmeras
relações que o sujeito estabelece com o mundo e consigo mesmo (SHUARE, 1990).
Neste sentido, para Miasíschev a personalidade se desenvolve a partir dessas relações

91
estabelecidas e também, pelas influências diretas que o sujeito sofre da sociedade em
que vive. A partir disso, pode-se pensar que as funções psicológicas superiores, em
específico a imaginação, também se desenvolvem a partir dessas relações estabelecidas
pelo sujeito e pelas influências exercidas pela sociedade. Porém, vale ressaltar que a
partir dessa concepção, aparentemente o sujeito ativo sai de cena. Para isso pode-se
trazer novamente a citação de Miasíschev sobre o processo terapêutico, em que o autor
escreve que

O método psicoterapêutico representa a influência que um homem (o médico)


exerce sobre outro (o doente ou um grupo deles) durante o processo de seus
contatos. Por isso constitui um método especificamente humano, e sua
interpretação se fundamenta na compreensão das peculiaridades do homem,
tanto como ser social e natural. (MIASISHEV, 1958/1962, p.13-14).

O “paciente” não é visto por Miasíschev como um sujeito ativo, no lugar disso é
influenciado pelo médico durante o processo de terapia, vindo, ou não, a se curar.
Porém, por insuficiência de materiais não se pode afirmar que realmente o sujeito ativo
sai de cena em sua concepção.
Tratando-se do desenvolvimento da imaginação a partir das relações sistêmicas,
pode-se pensar, por exemplo, em uma escola, na qual o educador está trabalhando com
contos fantásticos para alunos de idade escolar. Neste sentido, o professor influencia
diretamente o aluno e determina o desenvolvimento de sua imaginação e de outros
processos psicológicos. Em Liublinskaia, encontrou-se o contrário dos posicionamentos
de Miasíschev. Para a autora, a criança deve ser educada para ser ativa na realidade,
para se constituir enquanto sujeito da atividade. No desenvolvimento da função
imaginativa, a atividade da criança deve ser organizada pelo adulto, afim de atingir
resultados satisfatórios no desenvolvimento desse processo.
Pode-se ainda afirmar que apesar de Liublinskaia não trabalhar com o conceito
de sistemas psicológicos, a dependência da imaginação com outras funções psicológicas
encontra-se presente em seus estudos. Em um trecho escrito pela autora, ela escreve que
“Assim, pois, a emotividade da imaginação, ao encontrar apoio na percepção da
imagem conhecida, impõe-se sobre a compreensão, ou seja, sobre a percepção
consciente da pessoa conhecida.” (LIUBLINSKAIA, 1979, p. 255). Neste sentido, para
a autora a imaginação não se constitui como um processo isolado, pelo contrário, ela
estabelece relações com outras funções superiores, afim de encontrar elementos para a
objetivação de seus produtos.

92
Tratando-se dos teóricos de Moscou, que se distanciam da psicologia histórico-
cultural apresentou-se neste trabalho Rubinstein e Ignatiev. O último adota uma
concepção de atividade desenvolvida pelo primeiro, em que o psiquismo se desenvolve
na atividade, mas também se manifesta nos produtos da atividade. Para Ignatiev a
imaginação encontra-se em constante dependência com outras funções psicológicas
superiores. Para o autor, o pensamento é a principal função que organiza a imaginação.
Na atividade criadora artística, o pensamento também se evidencia. Segundo Ignatiev
(1960, p. 326).

O artista não copia a vida, não a reflete fotograficamente em suas obras. Na


criação artística a realidade sofre uma refração ao passar através do
pensamento geral da obra. O artista elimina o casual procurando por mais de
manifesto o essencial. Precisamente assim, com a ajuda da imaginação e
baseando-se no conhecimento profundo da vida, se criam as imagens imortais
em distintos ramos da arte.

Em Ignatiev se faz presente o pensamento como condutor e organizador da


imaginação. Portanto, a imaginação para Ignatiev, poder-se-ia dizer, que encontra-se
compreendida como serva dessa relação e não como amo. Em Ignatiev, isso torna-se
ainda mais claro quando o autor escreve sobre a inspiração ser o momento de maior
tensão entre o psiquismo humano, a ocasião em que todas as funções superiores estão
trabalhando para a resolução de um determinado problema.
Outro autor que a todo instante demonstra a necessidade que a imaginação
possui de outras funções psicológicas é Rubinstein. A principal relação que a
imaginação estabelece na busca de materiais para sua objetivação é com a percepção. A
percepção fornece para Rubinstein os elementos principais para a imaginação que por
sua vez, transforma e modifica tais elementos, criando assim, novos produtos da
imaginação. Os sentimentos também estão a todo instante influenciando diretamente a
imaginação em suas criações. Isso evidencia-se quando o autor escreve que “a
imaginação, frente à influência dos sentimentos e do humor, cria as vezes um
espontâneo ideal, mas também pode fazer aparecer com maior acuidade a autêntica
aparência do ser humano.” (RUBINSTEIN, 1940/1967, p. 364). A imaginação para
Rubinstein também estabelece, portanto, relações com outras funções psicológicas.
Mas, a maior proximidade com o conceito de sistemas psicológicos, encontra-se
presente em um trecho de seu O ser e a consciência. Para Rubinstein (1957/1968, p.
344),

93
[...] a atividade psíquica, a estabelecer novos nexos, aparece com novas
qualidades. Quando se examinam todas as facetas de um problema, essas
novas qualidades hão-de ser tidas em conta do ponto de vista de suas
peculiaridades específicas e hão-de ser correlacionadas entre si.

As similaridades com as teorizações de Vigotski sobre os sistemas psicológicos,


aparecem quando Rubinstein apresenta o estabelecimento de novos nexos na atividade
psíquica. A partir de uma mudança qualitativa, novos nexos se desenvolvem na
atividade psíquica do sujeito. Mesmo dirigindo um grande conjunto de críticas à
Vigotski em vários momentos de suas teorizações, Rubinstein concebe o pensamento
como dirigente de outras funções psicológicas superiores, porém não utiliza o termo
sistemas. A importância do pensamento, para Rubinstein, é justamente organizar os
produtos da imaginação.
Em síntese chega-se à conclusão que embora outras escolas tenham se
desenvolvido na União Soviética, todas possuíam uma semelhança: o desenvolvimento
teórico a partir dos fundamentos marxistas. Embora cada teórico possua sua
particularidade, todos aqueles analisados neste trabalho apresentavam a importância do
pensamento para as objetivações da imaginação. Acredita-se neste trabalho, que a
psicologia soviética buscou seus elementos para a criação teórica para além de Marx,
Engels e Lenin, mas também, e principalmente em Espinosa para desenvolver
teorizações em que o pensamento aparece como condutor de todo o psiquismo humano.
Tanto em Vigotski, como em Rubinstein, encontram-se citações e expressões de
Espinosa. Em Vigotski, isso evidencia-se no próprio desenvolvimento teórico dos
sistemas psicológicos, em que o pensamento é o dirigente desses sistemas. Em
Rubinstein, ao escrever sobre a história da psicologia em seus Princípios de psicologia
Geral, aponta a importância do pensamento na organização da atividade, demonstrando
a importância de Espinosa na filosofia e psicologia. Portanto, ele também possui uma
concepção sistêmica/totalizante na ciência psicológica.
Retornando a Vigotski, como modelo de análise deste trabalho, encontra-se em
O desenvolvimento psicológico na infância, que a imaginação é parte de todo um
sistema psicológico e não deve ser considerada como função isolada, dentre todos os
outros processos superiores. Neste sentido, “a imaginação deve ser considerada uma
forma mais complicada da atividade psíquica, a união real de várias funções em suas
peculiares relações.” (VIGOTSKI, 1932/1998, p. 126-127).
A atividade criadora se desenvolve, primordialmente, nesta relação estabelecida
com outras funções superiores, não é apenas a imaginação em sua forma isolada que

94
participa da criação, mas sim, todos os processos superiores dos seres humanos. Ainda
para Vigotski (1932/1998, p. 127),

A análise da atividade da imaginação em suas diversas formas e a da


atividade de pensamento mostram que apenas enfocando estes tipos de
atividade como sistemas encontramos a possibilidade de descrever as
importantíssimas mudanças que nelas ocorrem, as dependências e os nexos
que nelas se descobrem.

Em Vigotski a imaginação integra os sistemas psicológicos, é ela, função


independente e dependente destes nexos estabelecidos. Portanto, torna-se impossível
explicar determinada função superior, individualizando-a e categorizando-a como
especial. A imaginação se desenvolve em correlação com outros processos superiores e
em sua objetivação, ou, cristalização, outros processos também se manifestam nos
produtos da imaginação. Pode-se dizer, que um determinado objeto não é apenas
produto da imaginação, mas produto de todo um sistema psicológico, ou ainda, produto
de um determinado sujeito que por sua vez é dono de suas emoções, pensamentos,
imaginações, dentre outros processos superiores.
Por fim, encerra-se este trabalho, levantando uma questão. De que forma a
imaginação se desenvolve em uma sociedade de classes em seu molde burguês?
Aparentemente, em uma sociedade de classes a imaginação surge como uma função
fossilizada, automatizada que atende as necessidades específicas de uma sociedade de
classes. Nestas necessidades, a incapacidade de visualizar, apoiando-se na imaginação
ou nas ilusões/sonhos uma sociedade diferente desta aparece cristalizado nos costumes e
tradições desta sociedade, em específico, na famosa crença do senso comum: é assim,
sempre foi assim e sempre será assim.
A incapacidade do sujeito de visualizar um quadro que contemple outra
sociedade se torna impossível pela fossilização de sua imaginação. A capacidade do
sujeito de imaginar, torna-se ao mesmo tempo incapacidade, principalmente de
contemplar um quadro diferente, que permita a visualização de um processo e não
apenas de um produto. Esse pode ser o primeiro passo para o desenvolvimento de uma
personalidade criativa, conseguir contemplar um novo quadro para a humanidade, e
principalmente, torna-se sujeito da atividade e de sua imaginação. Apoiar-se na função
imaginativa para uma transformação da humanidade, fornecendo a possibilidade da
emancipação humana. Deve-se negar a atual forma de desenvolvimento da imaginação,
para afirmá-la com uma nova qualidade transformadora e criadora.

95
Entretanto, deve-se ainda, buscar novos meios de retornar ao desenvolvimento
dessa função superior, negar sua fossilização e sua automatização nas sociedades de
classes e encontrar meios para o desenvolvimento de uma personalidade criativa. Para
isso, deve-se buscar auxílio em outros teóricos para além de Vigotski, Luria e Leontiev.
A psicologia soviética e marxista não se resume apenas a estes três autores. Também,
deve-se buscar auxílio na própria realidade objetiva, na transformação e atuação prática
desta realidade, pois não será apenas teorizando que se objetivará o desenvolvimento de
uma personalidade criativa. A atuação prática e direta na sociedade surge como uma
maior necessidade no fim deste trabalho. A atuação deve sair da academia e adentrar ao
espaço revolucionário da vida do trabalhador. A atuação prática constitui-se como o alfa
e o ômega de um futuro trabalho no desenvolvimento da imaginação e de um sujeito
criador e transformador.

96
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ANEXO 1

101
ANEXO 2

102
103
104
105