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02/02/2019 Instituto Ludwig von Mises Brasil

Instituto Ludwig von Mises Brasil


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Sim, o “socialismo real” já foi tentado. E foi um


desastre
por Ryan McMaken, segunda-feira, 7 de maio de 2018

No dia 5 de maio de 2018 foi comemorado o 200º aniversário de Karl Marx. O filósofo alemão inspirou
uma grande variedade de movimentos políticos que geraram incontáveis desastres humanos.

O falecido Rudolph Rummel, o demógrafo perito em contabilizar todos os homicídios em massa


causados por governos, estimou o total de vidas humanas dizimadas pelo socialismo do século XX em
61 milhões na União Soviética, 78 milhões na China, e aproximadamente 200 milhões ao redor do
mundo. Todas essas vítimas pereceram de inanições causadas pelo estado, coletivizações
forçadas, revoluções culturais, expurgos e purificações, campanhas contra a renda não-merecida, e
outros experimentos diabólicos envolvendo engenharia social.

Em termos de monstruosidade, esse terror simplesmente não encontra paralelos na história humana.

Entretanto, embora tenha sido o inspirador direto de todas essas catástrofes, Marx continua sendo objeto
de admiração de vários intelectuais e artistas. Um recente exemplo foi o filme O Jovem Karl Marx, de
Raoul Peck, que retrata Marx como um radical repleto de bons princípios e dotado de uma louvável
sede por justiça.

Felizmente para Marx, para seu mito e sua reputação, ele próprio nunca pessoalmente adquiriu o
controle do aparato de algum estado. Consequentemente, o trabalho sujo de realmente implantar a
necessária "ditadura do proletariado" foi deixado para terceiros. E aqueles que tentaram trazer o
marxismo para a realidade prática rapidamente descobriram que o marxismo aplicado gera apenas
empobrecimento, dizimação de vidas humanas, e a total destruição das liberdades individuais.

Não obstante, após um século marcado por brutais regimes socialistas baseados em várias interpretações
das idéias de Marx, o filósofo alemão sempre é reabilitado sob o mesmo lema: "o socialismo real não
fracassou; ele simplesmente nunca foi tentado".

Ou seja, uma experiência socialista genuinamente "pura" -- como Marx presumivelmente queria --
sempre acabava sendo maculada e se degenerava pela presença de idéias burguesas ou por hábitos
capitalistas que persistiam no aparato estatal.

Um exemplo típico desse tipo de pensamento pode ser encontrado, por exemplo, em Noam Chomsky e
em sua insistência de que o regime obviamente socialista da Venezuela não tem absolutamente nada de
socialista. A mesma tenacidade é também encontrada em um artigo de 2017 do filósofo Slavoj Žižek
intitulado "O problema com a revolução venezuelana é que ela não foi longe o bastante".

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De acordo com Žižek, o socialismo só pode funcionar se os hábitos e costumes do status quo forem
destruídos completamente e substituídos inteiramente por novas formas de pensar criadas e impostas
pelos socialistas. Ou, como o próprio Žižek descreve, provérbios antigos (isto é, modos de pensamento)
devem ser totalmente substituídos por novos provérbios. Por exemplo:

Revolucionários radicais como Robespierre fracassaram porque tentaram romper com o


passado sem ser bem-sucedidos em seus esforços de impingir um novo arranjo de costumes
(vale recordar o supremo fracasso da ideia de Robespierre de substituir a religião pelo novo
culto do Supremo Ser).

Já líderes como Lênin e Mao foram bem-sucedidos (ao menos por algum tempo) porque
inventaram novos provérbios, o que significa que impuseram novos costumes para regular a
vida cotidiana das pessoas.

Ou seja, o problema com o socialismo venezuelano não está no fato de milhares de empresas, fábricas,
indústrias e até mesmo pontos de comércio terem sido confiscadas e estatizadas, de os direitos de
propriedade terem sido abolidos, e de milhões de cidadãos terem sido destituídos de suas liberdades
básicas. Não, o problema é que o regime venezuelano foi muito conservador, e falhou em implantar
uma total ruptura com o passado.

Mas como, afinal, esta ruptura com o passado pode ser implantada? A resposta está na linguagem
utilizada pelo próprio Žižek. Tudo depende de "impingir um novo arranjo de costumes" e de "impor
novos costumes". Esta, obviamente, é a linguagem da coerção e da violência. Esses novos "costumes"
não teriam de ser impostos se as pessoas quisessem adotá-los voluntariamente, óbvio.

Do ponto de visto do socialista purista, se ao menos surgissem um novo Lênin ou novo Mao, e estes
tentassem com mais afinco, aí sim o socialismo poderiam finalmente ser bem-sucedido. Como bem
resumiu o portal satírico The Onion, "Faltou somente um outro grande expurgo para que Stálin
conseguisse criar a Utopia comunista".

Por mais hiperbólica que tal declaração possa parecer, essa ideia ainda assim descreve de maneira
realista a mentalidade daqueles que alegam que "o socialismo real nunca realmente foi tentado". Se o
socialismo tiver de ser implantado, algo deve ser feito para abolir o apego que as pessoas têm à
propriedade privada e a todos os outros costumes e idéias que insistem em criar obstáculos nessa estrada
rumo à utopia.

Na prática, isso sempre significou utilizar o poder do estado para forçar um novo estilo de vida sobre as
pessoas. Também significou que, dado que as leis da economia não podem ser revogados, quanto mais o
socialismo era aplicado, mais o padrão de vida afundava. Porém, dizem os socialistas, enquanto os
planejadores socialistas continuarem esforçados e obstinados, e heroicamente se recusarem a ser
sabotados pelo pensamento capitalista, a utopia finalmente poderá ser alcançada. Sim, haverá muito
sofrimento neste ínterim, mas a recompensa final será incalculavelmente sublime.

Em termos sucintos, eis o raciocínio dos socialistas: o socialismo só irá funcionar se ele for progredindo
até chegar ao ponto do "socialismo total". Qualquer outro arranjo que não seja o socialismo pleno é
inaceitável. Nenhum esforço parcial será suficiente. E todos os experimentos socialistas até hoje só
fracassaram porque alguns elementos do "capitalismo" continuaram funcionando. Enquanto ainda
existir qualquer aspecto econômico que não seja de socialismo pleno, o regime não será socialista.

Naturalmente, conclui o raciocínio, se o socialismo pudesse chegar ao seu estágio pleno -- com todos os
elementos do capitalismo eliminados -- saberíamos que este sim seria o socialismo puro porque
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estaríamos vivendo em uma sociedade marcada por uma prosperidade sem precedentes e por uma
igualdade total.

Representada graficamente, a ideia seria assim:

Um modelo para ilustrar a tese de que "o socialismo real nunca foi tentado"

O eixo horizontal mensura a intensidade do socialismo. O eixo vertical mensura a felicidade

Quanto mais o socialismo vai se intensificando, quanto mais coisas horrendas o estado vai fazendo,
menor a felicidade das pessoas. Até que, finalmente, o socialismo chega à intensidade máxima, e aí sim
as pessoas repentinamente se dão conta de que estão no paraíso e passam a vivenciar uma felicidade
utópica.

Sem nenhum exagero, essa é a lógica dos socialistas que recorrem à tese de que "o socialismo real
nunca foi tentado". Socialistas inflexíveis, como Chomsky e Žižek, vivem repetindo que meras medidas
parciais não funcionam para o socialismo, e que apenas o socialismo total pode funcionar. Qualquer
coisa que não seja socialismo pleno, ao que tudo indica, irá entrar em colapso, como mostra a
Venezuela.

Tanto Marx quanto Stalin admitiram que esta "etapa intermediária" era um problema. Como Ludwig
von Mises observou, Marx chegou ao ponto de inventar uma evolução que se daria em duas etapas para
o socialismo:

Em uma carta, Karl Marx fez uma distinção entre dois estágios de socialismo: o estágio
preliminar e o estágio superior. Mas Marx não forneceu nomes distintos para cada um
desses dois estágios. No estágio superior, disse ele, haverá tamanha abundância de coisas,
que será possível estabelecer o princípio de "para todos de acordo com suas necessidades".

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Dado que os críticos estrangeiros observaram severas diferenças no padrão de vida dos
russos, Stálin criou uma distinção. Ao final da década de 1920, ele declarou que o estágio
preliminar era o "socialismo" e que o estágio superior era o "comunismo". A diferença era
que, no estágio preliminar, havia uma desigualdade nas rações oferecidas aos cidadãos; a
igualdade plena só seria alcançada no estágio superior, o comunismo.

O capitalismo parcial funciona melhor que o socialismo parcial

Observe, no entanto, o capitalismo não sofre este mesmo problema. Se pegarmos uma economia que
sofre intervenções do estado e começarmos a introduzir reformas liberais parciais, isso por acaso fará a
economia entrar em colapso?

Certamente não. Com efeito, a própria análise empírica mostra que, quanto
menos relativamente socialista for uma economia, menor será a pobreza e maior será a prosperidade.

Historicamente, isso é óbvio. Os países que adotaram mais cedo o livre comércio, a industrialização, e
as instituições de uma economia de mercado são hoje as economias mais ricas do mundo. Isso também
ocorreu na Europa do pós-guerra, onde as economias relativamente mais pró-mercado, como as da
Alemanha e do Reino Unido, são mais ricas e têm um padrão de vida maior do que as economias mais
socialistas do sul da Europa, como Grécia e Espanha. Com efeito, isso também vale até mesmo para os
países escandinavos, como a Suécia, que enriqueceram ao longo da história adotando regimes bem
próximos ao laissez-faire.

Vemos esse fenômeno se manifestar explicitamente ao compararmos a Alemanha Ocidental com a


Alemanha Oriental. Na Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra Mundial, as reformas liberais
efetuadas por Ludwig Erhard levaram a um período de acelerado crescimento econômico -- mesmo com
as reformas tendo sido apenas parciais. Ao abolir os controles de preços e outras restrições impostas
pelo governo à economia, a Alemanha decolou ao passo que outras economias mais socialistas -- como
a do Reino Unido à época -- ficaram estagnadas. Já a Alemanha Oriental, socialista, viu seu padrão de
vida encolher ao longo deste mesmo período de tempo.

Obviamente, a Alemanha Ocidental não adotou um capitalismo "puro e pleno". Os alemães adotaram
um arranjo de economia relativamente mais laissez-faire que o resto da Europa. E a economia cresceu
forte. Com efeito, as reformas de mercado feitas pelo governo da Alemanha Ocidental ocorreram quase
que por acidente. E, ainda assim, chamamos os resultados de "o milagre alemão".

Outros exemplos podem ser encontrados na América Latina (Chile, Peru e Colômbia versus Venezuela,
Equador e Bolívia) e na Ásia. Coréia do Sul e Japão estão longe de ser economias puramente de livre
mercado. As economias de ambos os países são caracterizadas por uma grande variedade de restrições
comerciais, ligações corporativistas entre governo e grandes empresas, e um maciço aparato regulatório.
No entanto, Coreia do Norte e Vietnã, que são muito mais pobres, sempre tiveram uma participação
estatal muito maior na economia -- com o governo sendo o proprietário de várias empresas no Vietnã e
de todas na Coreia do Norte -- e um setor privado muito menor em relação aos do Japão e da Coreia do
Sul.

E, ainda assim, pela lógica dos socialistas, o problema com a Coreia do Norte e com o Vietnã é que eles
não têm socialismo pleno. Se tais países ao menos pudessem se livrar totalmente de seus resquícios
capitalistas, então a Coreia do Norte finalmente irá se tornar próspera, e o Vietnã passará a rivalizar com
o Japão em termos de produtividade e riqueza.

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É claro que isso é um contra-senso total. Se a Coreia do Norte quiser ter menos pessoas passando forme,
ela tem reduzir substantivamente o socialismo em sua economia, como fez a Coreia do Sul.

Conclusão

Onde os mercados são mais relativamente livres, o padrão de vida da população é mais alto, e maior é o
crescimento econômico.

Ao contrário dos socialistas, os defensores do capitalismo não precisam ficar criando desculpas sobre o
fato de "o capitalismo real nunca ter sido tentado" -- ainda que mercados inteiramente livres, sem
nenhuma intervenção estatal, nunca tenham existido em lugar nenhum do mundo.

Por outro lado, duzentos anos após o nascimento de Marx, a cada novo fracasso inspirado no marxismo,
seus defensores são obrigados a recorrerem às mesmas desculpas de sempre, e com ares de
originalidade.

A única esperança é que daqui a 200 anos eles já tenham desistido.

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