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Clotilde Chaparro Rocha

AS GÊMEAS

1.

A Doutora Maria Sílvia de Toledo Bordeaux de Lima estava em seu


gabinete, depois de reunião com altos executivos e políticos de expressão,
quando soube da notícia: o marido havia levado uma facada, em assalto.
Ele estava indo para o hospital. Ela deu as últimas instruções e arrumou
tudo apressadamente. Sua assessora a ajudou, pois estava nervosa. Não
estava conseguindo nem achar suas coisas. Seu motorista a levou.

Chegando lá, soube, pelos policiais, que ele estava saindo do


restaurante, onde esteve almoçando, quando quatro delinquentes o
abordaram. O mais alto lhe deu um solavanco para que ele caísse, dois
magrinhos lhe tomaram tudo do bolso e todos deveriam sair correndo. Foi
quando a vítima reagiu. Ele sempre fora um homem alto e forte, metido a
valentão, e, querendo enfrentá-los, agarrou um pelo braço. Então este
pegou uma facão e enterrou em seu ventre. A intenção do agressor devia
ser se desvencilhar.

Pelos funcionários do hospital, soube que seu marido já havia


entrado para ser operado. Apesar de ser único, o ferimento foi profundo.
Por ele ter saído de almoço, estava com as entranhas cheias. Se tudo
aquilo se espalhasse, prejudicaria a limpeza da cavidade abdominal após a
cirurgia. Outro agravante foi ter havido demora no encaminhamento dele

Sentou-se numa cadeira sem prestar atenção em nada que a


rodeava. Através do telefone celular, soube, por sua assessora, que suas
filhas estavam sendo avisadas.

O delegado de polícia chegou se desculpando pela demora. Por ela


ser pessoa importante, temia consequências desagradáveis. Com muitas
reverências, ele lhe perguntou se poderiam, naquele momento, falar
sobre o assunto, ou se ela preferia a conversa adiada. Ela disse-lhe que
podia prosseguir. Então ele lhe repetiu o que escutara do agente policial.

- Seu marido ia sempre a esse restaurante?


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- Nem faço ideia. Eu nem sabia que existia esse lugar. Meu marido,
apesar de gostar de muita sofisticação, eventualmente ia a lugares que lhe
lembram suas origens. Ele estava sozinho? Disseram que houve demora
em ser socorrido.

- Parece que ele veio com clientes, não sei bem. Quando saiu,
estava com uma pessoa, mas somente ele foi agredido. Ele estava muito
bem vestido...

- Quem era a pessoa que o acompanhava?

- Aquela! Parece que trabalha como recepcionista.

Falou apontando para uma moça. Não quis dizer nem senhora –
porque assim não a classificava -, nem vadia, nem jovem. Calculou as
palavras.

Então ela olhou em direção a tal fulana, que retribuiu o olhar com a
cabeça erguida, com os olhos desafiadores, querendo mostrar que podia
muito e deliciando-se ao ver a mulher poderosa ali disputando com ela.
Até achando que era mais do que realmente era.

Então entendeu. Ela pôde ver que era trintona, tinha os cabelos
compridos mal tingidos de loiro e suas roupas eram coladas, provocantes
e bem baratas. Ele sempre teve seus deslizes e sua preferência sempre foi
por mulheres loiras e vulgares. Se alguém lhe assediava, não havia dúvida,
ele retribuía as investidas com entusiasmo. Porém sempre negava os
casos com veemência. Imitava o pai, que tinha sido adúltero,
irresponsável, e, apesar de ser homem bonitão, por ter autoestima baixa,
tinha casos com mulheres horrorosas, até fedidas.

Quando casaram, logo ele quis ter filhos para prendê-la. E nasceu
uma menina. Maria Silvia queria fazer mestrado e doutorado. Para isso,
havia reservado dinheiro para as necessidades do dia a dia.

O Dr. Cipriano Silva Lima – exigia categoricamente ser chamado de


Dr. Lima, pois detestava seu nome e o primeiro sobrenome - sempre
negou os casos com energia e arrebatamento. Dizia que ela era a mulher
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de sua vida e a única que ele amou. Imediatamente se desvencilhava da


história. Seu pai tinha gasto tudo com mulheres, e, por isso, eles tinham
passado muita fome e necessidades. Não queria isso para si. Daí ser
avarento, ter fixação por dinheiro e investimentos no futuro.

Ele vinha de família muito complicada. O nosso jovem era o


segundo filho de quatro irmãos. O mais velho tinha gênio difícil. O terceiro
morreu em acidente, quando entrou na adolescência. A mais nova era
mulher. Não se sabe o porquê, Cipriano se julgava muito mais do que era.
Se ele se fazia de modesto, era para imaginar-se exaltado, porém, quando
isso não acontecia, tinha reação estourada. A mãe tinha xodó pelo
primogênito, pois ele batia nos irmãos, fazendo a reprimenda quando ela
assim o queria. A irmã, Odete, não gostava de trabalhar e tinha muitos
namorados. A mãe a queria assim para se deliciar, por meio da filha, com
o que não acreditava poder mais: os prazeres do sexo. Por isso a mimava
muito.

Cipriano ficou com a pior parte. Entretanto teve de aprender a se


fingir de simpático com quem o interessava. Com quem não lhe desse
algum lucro, era grosseiro e reagia desproporcionalmente a qualquer
insulto.
Como ele julgava que o mundo lhe devia algo, praticava pequenos
furtos de coisas sem importância, sem que as vítimas percebessem. Fazia
isso inclusive com seu pai e com sua mãe. No futuro, tiraria pequenas
somas de dinheiro de Maria Sílvia, só pelo prazerzinho de senti-la
enganada. Até das filhas e do genro ele subtrairia notas de menor quantia,
mas tiraria.
Quando o menino tinha onze anos, o pai foi embora de casa com
uma velha rica que o sustentava sem que precisasse trabalhar. Sua mulher
não se chateou por ter sido traída, e sim por ele nunca mais se importar
com a antiga família.
- Porcaria de homem! Em vez de pegar dinheiro da velha e dar para
nós, só pensa nele mesmo. E xinga a gente quando se vai lá... Não quer
nos ver por perto!
Esse caso do pai durou bem pouco. Entretanto ele nunca mais quis
viver com a antiga família. Vivia de serviços eventuais biscates, bicos.
Gastava tudo o que ganhava com mulheres e prazeres.

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Cipriano havia saído de sua terra e viera para a metrópole. Uns


amigos seus também vieram, mas estes pensavam em trabalhar, estudar e
melhorar sua situação e a de sua família. Ele não.

Desde novo trabalhava, pois logo percebeu que não havia outra
saída para ele, porém não gostava do trampo. Teve vários serviços, os
quais nenhum bom, segundo seus conceitos deturpados. Depois de algum
tempo, conseguiu emprego numa loja. De início se situou para perceber os
detalhes, principalmente os sórdidos.
O patrão tinha uma amante, que era caixa. A patroa lhe tinha ciúme
doentio, e, não se sabe o motivo, ele não queria que ela soubesse de jeito
nenhum do tal relacionamento. Numa tarde, houve uma confusão e a
esposa quase pega os dois em adultério. Fez escândalo, disse que há
tempo desconfiava e que não ia mais permitir tamanha sem-vergonhice.
No auge do caos, surgiu Cipriano dizendo:
- Dona Magda, a senhora está equivocada. A moça é minha
namorada. Nós não queríamos que ninguém daqui soubesse, com medo
de nos mandarem embora.
Houve alívio geral. Até a própria esposa gostou do desfecho. Com
isso, ele passou a ter certas regalias, que sabia muito bem usá-las na hora
certa. Abusava de horários e fazia corpo mole. Chegava ao ponto de ser
muito respeitoso na frente do dono, porém, perto de Dona Magda,
beijava a colega e até bulia nela. As duas tinham faniquitos. Quando a
esposa contou ao marido e este veio ter com os dois, estes negaram com
veemência. O patrão queria acreditar que era o único da moça, e assim a
história continuou. Os dois empregados transarem na surdina foi o
esperado.
A jovem chegou a acreditar que ele estava apaixonado por ela.
Triste engodo. O que mais o atraía nela era o fato daquilo não passar
adiante. Ele tinha horas de sexo e estava tudo acabado. Sem
consequências, do jeito que ele queria. Isso ele sempre fez durante toda
sua vida. Para ele, o sexo era prazer momentâneo. Como ele nunca
conseguiu ter ligações afetivas, era só isso. Suas emoções só existiam em
palavras. Quando namorava, era só pelo tesão e pelo poder sobre a outra
pessoa. Também, ao perder um amigo, não ficava triste, porém frustrado
por ter uma fonte de favores a menos, se fosse precisar em alguma
ocasião.
Ele fez de tudo para se levantar na vida. Muitas coisas nada éticas,
nem morais. Resolveu estudar. Na hora de escolher a faculdade, não teve
nenhuma dúvida: Economia. Queria ficar rico. Para entrar no vestibular e
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cursar a universidade, transou com um homossexual, que se arriscou lhe


dando colas na prova. O infeliz estava tão apaixonado, que se arriscou
tanto, que nem chegou a passar. Desnecessário dizer que, após a última
prova, Cipriano nem o olhava, e ainda ameaçava àquele que o ajudara.
Depois, durante o curso universitário, copiava de quem pudesse.
Entretanto, quando chegou ao curso superior, teve cautela. Não
queria se queimar, apesar de copiar de quem pudesse. Todos seus atos,
conversas e relacionamentos tinham por objetivo sua futura carreira. Vez
por outra, transava com alguém, tomando todas as precauções. Era só
para aliviar seus hormônios juvenis.
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Já formado, precisava ter chances de sucesso. Aos poucos, começou
a procurar moça para ser sua futura esposa. Preferencialmente vir de
família rica, além de ser carente, ingênua e bem inocente. Estes três
últimos predicados, para ele, eram muito importantes. Se pudesse,
gostaria que tivesse atrativos e fosse educada, para ser mais fácil sua
entrada em ambientes sociais. Achou que seria mais fácil do que foi.
Deparou-se com dificuldade.
Calmamente ia procurando, procurando. Até que conheceu uma
advogada rica, não muito, pertencente a família tradicional de seu estado.
Sua mãe era descendente até de condes. Ainda com a vantagem de ser
seu pai ilustre cientista estrangeiro, também com linhagem. Usou todos os
meios – alguns nada dignos - para conquistá-la e teve êxito. Ele conseguiu
que ela se apaixonasse por ele.
Casaram-se. Ela arcava com as despesas – não queria que os seus
soubessem da irrisória situação financeira do casal - e advogava em
escritório, somente fazendo audiências de assuntos repetitivos. Pouca
coisa jurídica, para sua capacidade. Assim teve sua filha. Antes do parto,
ela só foi ao ginecologista uma vez e rapidamente. Quase sem pré-natal,
nem a ultrassonografia fez.

Depois de nascida a bebê, trabalhava, cuidava da sua pimpolha –


era mãe exagerada – e estudava muito por seu objetivo. Não lhe sobrava
tempo para nada. Como tinha admiração pelo pai, sem perceber, ela o
imitava, pois ele era muito estudioso. Pressentiu que devia investir em
determinada área e teve, de fato, no futuro, uma ascensão extraordinária.
Inimaginável mesmo. Porém ficou sem lazer três anos.
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O marido a incentivava muito, pois lhe interessava aquela situação.


Primeiro, a importância da posição dela, que era boa para seus negócios; e
segundo por ele dizer que ia para cursos, e, na verdade, ia para a farra.
Tanto é que tão logo ela terminou seus cursos, ele insistiu em ter outro
filho, para ela continuar enjaulada. Tiveram outra menina. Sem contar
que ficou três anos sem trabalhar, inventando cursos e ela, altaneira,
aguentava as despesas da casa sozinha.

Maria Sílvia ainda conseguia que as outras pessoas não


percebessem essa situação precária, principalmente sua mãe. Não tinha
dinheiro para nada. Uma vez foi convidada para ser madrinha de
casamento, no qual iam todos seus amigos. Pois ela conseguiu customizar
um vestido velho com adornos. Ficou despercebido. Não ficou nenhuma
formosura, entretanto não fez má figura. Na sua cabeça, ela tinha de
cuidar dele, imaginando-o desamparado. Enquanto isso, ele fantasiava
salários astronômicos, bem além de sua capacidade laboral. Inventava
cursos e, enquanto ela trabalhava e realmente estudava, ele dormia, pois
passava horas em bebedeiras e luxúrias. Quando ela chegava perto de
perceber, ele se fazia de coitado e invocava os problemas de seu núcleo
familiar:

- Pra você é fácil, mas para mim, que fui filho de Efigênio Baco e
Nonata...

E ela ficava toda condoída com os problemas psicológicos dele.

Só que havia um detalhe: ele falava mal dos seus para ela, quando
lhe interessava. De resto, escondia os defeitos deles e imitava suas
limitações. Do pai, imitava os adultérios e as luxúrias, porém não seus
calotes, que o faziam pessoa muito mal falada na cidade a ponto de terem
de trocar de lugar constantemente. Queria ter posição de destaque na
sociedade. De sua mãe, a veneração ao dinheiro. Planejou e arrumou uma
otária que se enquadrava bem a seu propósito de ficar rico. Para isso,
engendrava tudo que podia.

Ele se achava a pessoa mais importante do mundo, ou melhor,


procurava se fazer. Também era cheio de opinião, um dominador.
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Adorava ter poder e acreditava que nenhum palpite dos outros valia tanto
quanto suas ideias, porém, com sua inteligência, maquiava tudo isso.

Em uma das vezes, inventou situação que se adaptava à música de


cantor de sucesso da época, Roberto Carlos, e conseguiu que a esposa a
considerasse a canção dos dois. Ela gostava da composição, pois se
encaixava ao seu exagerado romantismo, e ele gostava do engodo, que o
fazia sentir supostamente superior.

Ele sempre teve boa lábia. Como ator em cena, conquistava a


vítima, não só a esposa como outros também, bajulando e contando
histórias mirabolantes de si mesmo. Mentia, quando concordava com
tudo que seu interlocutor falava, sem nem mesmo prestar atenção ao que
era dito.

Ela lhe abriu as portas para seus negócios e ele foi longe, muito
longe. Usou tudo que pôde. Fez os melhores cursos em sua área. Nunca a
custa de estudo, sempre pensando no diploma. Também subornou,
trapaceou, blefou, mentiu e usou o que pode para ganhar dinheiro. Sua
fortuna era seu principal objetivo na vida. Entretanto se dizia honesto e
gostava demais de apontar os corruptos que a mídia estava enfocando,
ridicularizando-os como se fosse o mais honesto dos mortais. Glorificava-
se de sua honradez com a cara lavada. A esposa nem lhe percebia os
enrustes, e se percebeu alguma vez, arrumou desculpa para si mesma.

Ele também gostava muito dos prazeres materiais e carnais. Quando


ela estava para lhe flagrar algum deslize, ele, com a cara mais tranquila do
mundo, fazendo teatro com muxoxo e tudo, dizia sempre:

- Eu nunca mentiria nem a enganaria, porque amo você!

E ela acreditava sempre... devido a sua carência afetiva. Queria


acreditar.

Ele mentia tanto, que às vezes nem se dava conta de que estava
mentindo. Porém tinha, interiormente, orgulho de sua capacidade de
enganar. Para ele, o mundo era feito de caças e predadores, por isso
gostava de se aproximar daqueles de boa-fé. Na verdade, achava a
companhia deles detestável.
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Outra coisa: ele a queria com sexualidade virtuosa, isto é, ela


tinha de ser sensual, mas deitar-se somente com ele, e ainda com
qualidades mil na cama. E nenhum homem poderia tê-la, nem mesmo
desejá-la. Algumas pessoas podem achar isso complicado, entretanto ela
submetia-se achando tudo normalíssimo!

A carência de Maria Sílvia era pela figura materna. Sua mãe


chamava-se Maria Joaquina – importaram de ascendente que diziam ter
vivido na Corte Imperial -, mas o apelido era Kiki, pois ela detestava seu
nome. Gostava ser tratada assim e ninguém a enfrentava, em virtude de
seu péssimo gênio. Era tanto o exagero que até as pessoas mais próximas
não sabiam seu verdadeiro nome. Ela pertencia a uma das famílias mais
tradicionais do estado e era muito orgulhosa de seu pedigree. Porém saíra
com traços rústicos demais para o seu nariz empinado. Coisa de
antepassados esquecidos.

Quando conheceu seu marido, gringo, loiríssimo e com avós na


nobreza de seu país, ela achou ótimo. Foi quando nasceu uma menina
loira de olhos azuis e muito parecida com o pai. De acordo com seus
padrões, isso era motivo para ela ficar eufórica. Já imaginou a filha casada
com marido maravilhoso. Rico, poderoso e nobre. Pode-se avaliar a
desilusão que teve, quando Maria Sílvia se apaixonou e casou com homem
pobre e, como se diz, sem eira nem beira. A sogra não os perdoou...

Ela nunca deu atenção à filha, pois não conseguia amar ninguém.
Amor dado com a intenção de fazer alguém feliz, sem nada de volta, não
era Kiki. Podia até gostar, sempre pensando em algum benefício próprio,
nem que fosse longínquo. Vinha de relação conjugal falida, com pais
adúlteros, ausência total da figura paterna e avó materna egoísta. Para
agravar ainda mais, sua mãe morreu antes de sua adolescência, tendo ela
ficado com a avó matriarca e parentes que a maltratavam muito. Lá
dentro de sua cachola, mesmo sem se dar conta, ela nunca sentiu dos
outros sentimentos positivos.

Nunca amou o marido, que era sensível, carinhoso e fiel, enquanto


ela era rabugenta, agressiva e infiel. Ela cometia adultérios não por
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desejo, nem luxúria, muito menos por amor. Era sempre por interesse
próprio. Quando conseguia seus objetivos, descartava totalmente o caso.
Ao rever a tal pessoa, agia com descaramento e frieza impressionantes.
Não foram muitos casos não, foram até poucos. Talvez por ela não ter
capacidade de sedução satisfatória. Entretanto agradava o marido o
bastante para mantê-lo, pois não conseguiria outro igual. Disso ela tinha
uma noção bem precisa. O interessante é que se fazia ser detentora da
moral e dos bons costumes. Como frequentava muito a igreja, as pessoas
não lhe tinham suspeitas. E ela acusava aos outros com veemência...!

Kiki dava a Maria Sílvia indiferença. Quando estava a sós com a


criança, exigia que ela não se mexesse, e como a menina amava muito à
mãe, procurava obedecer. Só se preocupava com suas roupas e sua
aparência quando ia ser exibida como sua filha. Caso contrário, nem na
adolescência, ela sequer a enxergava. Porém a levava consigo, sempre que
precisava de companhia, nos lugares mais estapafúrdios possíveis. Como
não tinha instinto materno – infelizmente muitas e muitas mulheres não o
têm -, empurrava a filha para a babá. Umas melhores, outras piores.

Maria Sílvia aprendeu desde pequenina a se virar sozinha, exposta a


tudo e a todos, como se fosse menina de rua, com a diferença de ter
sempre teto, nunca ter passado fome e ter família socialmente aceita e
respeitada. O pai lhe dava carinho, porém era muito ocupado e não
conseguiu suprir a falta da mãe. Esta vivia em eventos sociais bem fúteis e
jogatinas. Afastava-se de lugares onde havia cultura ou assistência social.
Só se preocupava em compras e fuxicos. Sem motivo, impunha à filha
castigos exagerados e dizia coisas absurdas para a infeliz que ela nunca
tinha feito, nem pensado em fazer. Se ela retrucava, se defendendo, aí
que a raiva aumentava e começava o forrobodó. Assim se acostumou a
aguentar a insensatez da mãe e escutar calúnias calada. Talvez esse seja o
motivo por que aguentou os absurdos do marido. Ninguém consegue ser
sadio psicologicamente vivendo em ambiente que não o seja.

Quando a mulher aguenta absurdos de seu homem, ou vice-versa –


o marido aguenta absurdos da mulher -, tem sempre motivo psicológico,
lá dentro de seu bestunto. Maria Sílvia ficava exposta à cabeça amalucada
de sua mãe. Parecia-lhe que o seu amor lhe escapava pelos dedos das
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mãos. Nunca conseguia tê-lo. Sem tomar consciência desta aberração,


este foi o motivo que a aproximou de Cipriano. Quando ela percebia-lhe
algum adultério, ou mesmo simples paquera, ele imediatamente se
afastava da traidora, que ficava sem entender, e ficava com ela... Nesse
momento ela supria a carência da mãe e fantasiava o amor dele por ela.

O motivo dele não era amor, pois Cipriano não tinha a capacidade
de amar ninguém. Acontece que ele viu o pai, várias vezes, largando a
família por qualquer vira-lata, com consequências tristes, até mesmo
trágicas, para todos. Apesar de Cipriano querer a mulherada, não queria
aquilo para si. As relações sexuais, para ele, eram quase masturbação a
dois. Qualquer buraco – vagina, ânus ou outra coisa -, servia. Por isso,
gostava tanto de luxúria bem exagerada. Nisso ele conseguia emoção, um
desafio que lhe dava um maluco prazer. A sedução dele com a esposa
ficou sendo sua vontade de sempre querer ficar com ela. Entretanto isso
custou a ela sofrimentos, angústias, até agressões. Nela e nas filhas, as
quais amava tanto. Como ele tinha a autoestima baixa, imaginava a
esposa acima dele, precisando diminuí-la. Por isso a ridicularizava o
quanto podia e falava mal dela pelas costas.

Ninguém entendia o motivo de uma mulher satisfatoriamente


bonita, inteligente e independente financeiramente – ele é que se
pendurava nela – continuar nesse relacionamento. Chegavam a dizer que
ele devia ter feito macumba para ela... Ainda algumas fantasiavam que ele
devia ser muito bom em sexo... Diz o ditado popular que o amor tem
razões que a própria razão desconhece. A nossa cabeça é que tem
emaranhados tão complicados e confusos, dificultando o entendimento.
Entretanto, lá no fundo, há sempre uma razão. O difícil é descobri-la.

Sentada ali em um banco do hospital, Maria Sílvia reviu sua vida


conjugal inteira. Aquela fulana ali, quase diante dela, desencadeou em sua
cabeça todas as infidelidades do marido. Achava até estranho como,
durante décadas, ele lhe mentia e ela acreditava. Queria acreditar?
Ingenuidade? Apego à imaginária família? Conto de fadas de adolescente?
Ideal sem ser real. Difícil saber...
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Às vezes, o tempo não dá para ser medido. A vida passa em minutos


e minutos viram horas. Quanto tempo ficou ali lembrando, meditando,
não se sabe.

Em dado momento, viu a tal moça falando com o delegado, que lhe
fazia sinais de negação. Meio irritado, saiu da sala. Alguns minutos depois,
o policial se dirigiu a ela:

- Doutora, aquela testemunha quer falar com a senhora, mas se a


senhora achar que ela não deve, eu a impeço. Não se preocupe.

Nesse instante, a fulana chegou a eles.

- A senhora quer que eu a retire, doutora?

A tal começou a falar. O policial quis agir com violência, entretanto


Maria Sílvia o impediu com a mão.

- Agora eu quero ir para casa, de táxi. Além do mais, preciso de


dinheiro para comer. Já fiz um lanche ali embaixo e a conta ficou
pendurada. Agora quero jantar e muito bem. Preciso de dinheiro e não
pouco.

- Sim. E daí?

- “Cê” é que tem que me dar.

Mais uma vez, o policial tentou intervir e ela novamente o impediu.

- Senhora, lamento seus problemas financeiros, com os quais eu não


tenho nada a ver. Não sei se o hospital tem serviço de assistência, tente
na portaria.

- Assim, “cê” vai me obrigar a falar com ele... e...

Uma das filhas havia chegado e ela foi ao encontro dela, deixando a
moça ali plantada. O policial a retirou dali discretamente. Também veio
lhe dar apoio o amigo antigo, Dr. Cristóvão, o qual Cipriano classificava
como otário incorrigível. Como ele era médico e ele poderia precisar dele,
aguentava a sua presença nesses anos. Também por achá-lo inofensivo.
De fato, ele era muito ingênuo.
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A operação durou horas. Maria Sílvia, em dado momento, começou


a ficar pálida. A filha percebeu.

- Mamãe, mamãe, você está muda, não fala nada.

Ela estava com seus pensamentos, digerindo aquela situação bem


desagradável a qual ele a expôs. Por isso, houve aquele seu mal-estar.

A operação ia demorar muito tempo e depois ainda haveria a


recuperação no centro cirúrgico. Então foram aconselhados a irem para
casa. Um funcionário do escritório do operado insistiu em ficar de plantão.
Qualquer novidade entraria em contato. O amigo Cristóvão ficou também
para ver a situação. Não querendo assumir nada, a filha Amada, apesar de
médica, disse estar emocionada, não se sentindo em condições de nada,
omitindo-se. Ofereceu para acompanhar a mãe, entretanto esta recusou.

Mesmo sem se dizer uma palavra, havia pressão sobre a polícia para
desfecho do ocorrido.

Quando Maria Sílvia chegou à sua casa, foi ao banheiro e evacuou.


Muito. Quando estava fazendo sua higiene íntima, sua aliança de
casamento escorregou de sua mão e caiu no vaso sanitário, misturando-se
às fezes. Para resgatá-la, teria de botar a mão no cocô. Olhou
desacorçoada para o excremento e pensou que não valia a pena sujar suas
mãos. E deu descarga.

Depois, desligou o telefone, tomou calmante e deixou bilhete para a


empregada doméstica, com muitos anos de trabalho, acordá-la pela
manhã cedo. No quarto, chorou muito, muito mesmo.

Pela manhã, soube pelo delegado do caso, que a polícia já havia


prendido os assaltantes.

Na periferia da cidade, em bairro bem pobre, uma velha acordava a


filha desesperada.

- Acorda, imprestável! “Os homi levô” seu neto e, como ela


reclamou, berrou e bateu, “levô” sua filha também. Devem estar
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apanhando, igual cachorros. Querem botar toda a culpa nele, que é “de
menor”.

- Me deixa em paz. Eu deitei muito tarde e tenho sono.

- Além do mais, Malvina está jurada de morte pela Lazinha.

- Lazinha “tá” presa.

- E agora a sua filha também vai pra cadeia. E lá, Lazinha manda e
vai acabar com ela, com certeza.

- Não enche...

- Você tem que fazer alguma coisa pela sua filha!

- “Cê” sabe que ela nem é minha filha...

- Sei. “Cê” roubou a pobre quando acabou de nascer, sua maluca.


Mas eu gosto dela como se fosse minha neta. Com tudo que sofreu na
vida, que “cê” “fez ela” sofrer na vida, é uma pessoa boa. “Cê” tem que
arrumar um jeito dela não ficar presa. Senão a Lazinha acaba com ela. E do
pior jeito possível.

Lelé levantou da cama enfurecida.

- Ela não é minha filha e você sabe disso. Além do mais, quem
mandou ela se meter com a chefona.

- A Lazinha se interessou pelo Pipão e não se conformou de não ter


caso com ele. Aí, fizeram um assalto, “os homi descobriu”. A peste da
Lazinha quis pôr o crime nas costas do menino, por vingança e despeito.
Malvina não se conformou, enfrentando e desafiando a outra. Malvina
não tinha nem passagem na polícia, nunca foi do crime...

- Depois não ficou? “Que” que adiantou? Não me enche! Não vou
fazer nada e pronto!

- Vai sim. Caso contrário, eu vou apelar!

- Já disse: não vou fazer nada e não me enche.


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Ao falar assim, deu um solavanco na mãe e voltou a dormir. A velha


foi para o canto e começou a chorar.

Lembrou-se do dia que sua filha lhe trouxe uma bebê recém-nascida
branquinha, branquinha... A criança chorava muito, parecia até que
gritava. Era forte, muito forte.

- O que é isso, sua maluca?

- Vai ficar aqui só umas horas, até eu me conchavar com um cara da


pesada que vai levar esse pacote para estrangeiros. Ela é bem branquinha,
vai me dar uma nota grande. Os gringos “vai” enlouquecer com essa
galeguinha.

- Você não “tava” trabalhando num hospital, que aquele velho tinha
lhe arrumado? “Tava” tão bem no serviço...

- O Vetusto quer transar comigo e pagar muito mal (falou esta frase
com vários palavrões), mas como ele tem suas manhas, suas influências,
eu obriguei o velho a me pôr pra trabalhar no hospital, como terceirizada
na faxina. Trampo eu não queria. Eu só ia enrolar. Ele tinha de me dar
cobertura e ele ia me dando. E “me comendo”, “me comendo”...

- Que nojo!

- Até parece que você não foi puta da zona. Se eu aguentei o velho
babão, foi porque minha intenção era outra. O Cândido me informou
duma parada genial: vender bebezinho pra gente de fora do país.

- Que horror! Você fala porque nunca teve filho.

- Nem vou ter. Não posso ter e nem quero ter. E não prejudica
ninguém. A criança vai ter muito mais do que teria aqui...

- E os pais dos bebês?

- Logo, logo esquecem e fazem outro. O dinheiro é muito e ele tem


esquema que não dá errado. Quando cheguei ao hospital, pensei na
enfermaria da maternidade. Pegar gente pobre, o mais pobre e mais jeca
possível, mas branco, para vender pra gringo. Mas aí, apareceu um fulano
todo arrumado, que estava com a esposa para ter bebê na ala dos
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apartamentos. Ele tinha gana de safadeza. Era carne de primeira. Fiquei


maluquinha por ele, e ainda me disse coisas gostosas, quando me deu
abraço apertado, me bolinando e me apalpando. Eu fiquei mais doidinha
por ele.

- Falou em safadeza, você adora.

- Então ele me convidou para dar uma volta de carro. Ele me pegava
na esquina e eu não devia deixar ninguém perceber. Como eu gosto de
tudo que é errado, topei. O carro era de luxo e eu já imaginei um caso com
ele. Mas o sem-vergonha não me deu beijo ou carinho. Desabotoou a
braguilha e empurrou minha cara para fazer sexo oral (falou este final de
frase com palavras de baixo calão). Falava palavrões e me chamava de
puta relaxada. Fiquei com muita raiva, xinguei o safado e ele nem ligou.
“Me” deixou na mesma esquina e eu voltei para o hospital. Quando
cheguei, a esposa dele, muito loira, estava para ter bebê. Eu ainda ouvi ele
lhe dizer que ela era a única mulher da sua vida e que ele a amava muito.
“Me” deu uma raiva...!

Entretanto ela não soubera que a tal esposa estava chorando pela
ausência do companheiro. O pai dela estava presente no apartamento, o
mais simples que ela conseguira pagar para fazer jus à sua condição social.
Estava ausente a mãe dela, sempre resmungando e de mau humor com
tudo, principalmente com o genro, fazendo cara emburrada. O futuro pai
então falou frases que, apesar de mentirosas, sempre serviram para
convencer a boboca de sua mulher. Ele temia a chegada da sogra.

Lelé continua:

- Entrei na sala de parto e vi o médico parteiro sair para chamada


urgente de sua família. Deixou tudo com a auxiliar de enfermagem, que
parecia sem experiência. O pediatra não estava. A tal esposa loira uivava
de dor, mas logo nasceu uma criança. Loirinha, loirinha... A enfermeira
atarantada saiu da sala com a criança sem saber o que fazer. Ficamos eu e
a esposa loira. Foi quando nasceu a outra criança. Também loirinha,
loirinha, igualzinha à primeira. Foi um minuto. Eu me vingava do pai dela e
16

conseguia um bebê para o Cândido. Eu ouvi um dia alguém falando como


cortar o cordão umbilical e já tinha visto cadela fazer. Cortei o cordão,
passei uns troços com algodão para estancar o sangue e saí como louca
com a criança. Consegui que ninguém me visse.

- A mãe da pobre não tinha nada a ver com isso. Foi até vítima. Ela
ia sofrer.

- Ninguém nem soube que nasceu outra menina. Nem ela, que era
sem experiência e estava atordoada. Eu soube que ela ficou perguntando
pelo outro bebê, mas como o médico e a enfermeira tinham sua culpa,
disseram pra otária que ela se enganou e coisa e tal. Ninguém ligou para o
que ela falou e deve ficar assim mesmo.

- Louca!

- Esse embrulho vai ficar aqui muito pouco tempo, talvez nem uma
hora. O Cândido vem logo pegar.

- “Cê” está arrumando confusão.

- Eu vou é ganhar muito dinheiro.

A velha continuou a lembrar. O tal Cândido não veio. Seu esquema


foi descoberto e ele saiu do país. Justo naquele dia. Se não fosse isso, a
bebê ia ser criada nas “europas” e talvez tivesse paz. Em vez disso, ficou
ali com Lelé, que tentou desesperadamente vender a criança. Na época, a
mídia soube de caso ruidoso, que os pais, principalmente a mãe, fizeram
barulho muito grande. Os sujos comerciantes de bebê ficaram na mira da
polícia. E da mídia também. Quando os vizinhos começaram a perguntar
sobre a criança, ela lhes disse que era sua filha.

- Como? Não se viu barriga em você...

- Pra faturar, eu tinha que disfarçar a pança.

Como todos estavam preocupados somente com sua vida, ninguém


se importou.

O tempo começou a passar e Margarete começou a se sentir avó da


menina. Começou a gostar de criá-la. Já Lelé não a suportava. Foi um jogo
17

que não deu certo e ela ficou com o embrulho. Além de ter tido mágoas
do pai.

Certo dia, um daqueles seus amigos do mal lhe deu a idéia de ir para
sinal de trânsito com a bebê no colo.

- Criança loira fatura mais. Você ainda diz que o pai é loiro e aqui da
cidade, que os babacas dão mais dinheiro, imaginando ser parentes deles.

- Ela chora muito.

- Melhor ainda.

Riram muito todos.

E ela foi. Lelé percebeu então que era um mar de dinheiro esse
negócio. Comprava drogas, comia, bebia, e a bebê quase não lhe dava
despesa. A pele dela ficava queimada, e muito. Imaginem recém-nascida
no sol a pique. Quando chorava muito, dava-lhe uns tabefes e a infeliz
criatura parava.

Com o tempo, Malvina – assim lhe puseram o nome - pegou pavor


dela e de suas agressões. Como não tinha paciência de ficar com ela,
alugava a menina para quem quisesse. Inventou um aluguel caríssimo por
hora. Também a usava para traficar drogas, principalmente em carros.
Mulher com criança, e ainda branquíssima, despista. Difícil imaginar que
alguém iria colocar filho em empreitada tão arriscada.

A infeliz criatura ficou nessa vida até pesar muito no colo e os


pseudos pedintes a considerarem não compensadora para o investimento.

Malvina passou muita fome, pois não havia comida para lhe dar,
nem aquilo de primeira necessidade para a saúde nem para a dignidade
do ser humano. Infelizmente a criança, ao sentir a falta disso, passou a
achar que não tinha direito às coisas normais da vida.

Quando Lelé não precisava dela, a empurrava para a avó, que foi se
afeiçoando cada vez mais àquela criaturinha de Deus. Eram seus melhores
momentos, apesar da miséria das duas. Foi criada entre drogas, crimes,
agressões, sem amparo, sem comida e sem o mínimo da dignidade
18

humana. Quando cresceu e já não servia mais nem para semáforo, nem
para despistar tráfego de droga, Lelé a obrigava a vender rosas nas
madrugadas.

Maria Sílvia, carente do amor de sua mãe, criou sua filha o melhor
que pôde, com amor e carinho até exagerados. No futuro, filhos assim
têm como consequência acharem que todas as pessoas lhe devem
paparicos. Ela era tão mimada que dava birras enormes quando não se
satisfaziam seus mínimos desejos. Suas comidas eram preparadas com o
máximo requinte da higiene e valores nutricionais. No primeiro ano de
idade, quando começou a tomar suco natural, as diferentes frutas iam se
acrescentando por colherinhas.

O avô materno percebera as dificuldades financeiras que o casal


atravessava, entretanto não fez transparecer para ninguém, muito menos
para sua mulher, que iria tripudiar sobre a traição que julgara sofrer com o
casamento da filha. Além do mais, ele tinha um xodó enorme pela neta e
fez questão de dar mesada para que ela tivesse babá só para si. Mesmo a
avó materna era toda encantada com a bebê.

Para tomar sol, eram cronometrados os minutos. Era também posto


em sua pelezinha macia creme hidratante apropriado, além de filtro solar.
A mãe dava comida e luxo à sua filha. Era a relação entre a criança e o
lugar que a mulher ocupa no sistema econômico.

Ela dava à Amada um tanto enorme de amor, porque a sua vida


inteira precisou daquele sentimento de sua mãe e não o teve. Achando
que estava fazendo o melhor – e não estava -, desdobrava-se em atenção,
carinho e cuidados. Só que a filha não precisava de tanto, pois já tinha
segurança e sentimento necessários. Sem perceber, aquilo não lhe fazia
bem. Mais tarde, esse sutil aspecto traria à Maria Sílvia problemas que ela
não entenderia. Quem ama demais e dá demais, tende a sofrer abusos,
pois aquele que recebe, começa a achar que deve receber mais que o
normal.
19

A menina herdara um pouco do temperamento do pai. Quando


cresceu, imitava a mãe. Muito por ter sido criada quase só por ela. O pai
era omisso, pois, no seu psicológico, ele nunca fora casado, nem teve a
responsabilidade de filhos. Igual a seus pais.

A menina tinha birras homéricas. Numa tarde de sábado, foi com a


mãe à confeitaria. Ela queria que lhe comprassem todos os doces da
vitrine. A mãe foi firme:

- Escolhe um. . Se ainda quiser, poderá depois escolher outro. E só.

A menina gritava tanto que tiveram que sair do local. Quando


voltaram para casa, o pai absurdamente ridicularizou a mãe pelo episódio.
O casal brigou, ela se desequilibrou emocionalmente e ele a xingou,
caluniando a esposa sem o mínimo senso de humanidade. Fez isso até ser
instaurado o caos... como ele gostava.

10

Cipriano havia vivido sua infância com constantes brigas entre os


pais. Quase não havia momentos de paz. Daí, achar isso normal. Ele não
sabia, nem fazia ideia, que existiam famílias harmoniosas. Na sua cabeça,
a felicidade entre as pessoas era só fingimento. Ele era viciado em
angústia. Esta última frase pode parecer absurda, mas se olharmos em
nossa volta, nós perceberemos muita gente viciada em angústia, inclusive
em nossa família, entre nossos amigos, nossos vizinhos, colegas de
trabalho, etc.

No relacionamento dos pais de Maria Sílvia, a mãe, insatisfeita com


a vida, estava sempre reclamando. Muitas vezes era com o marido. Este
ficava calado, talvez por achar aquilo estapafúrdio. Porém a filha não
achava aquilo certo. Abominava aquela situação injusta, prometendo a si
mesma que com ela não aconteceria o mesmo. Quando a esposa estava
exagerando muito, muito, João calmamente lhe dava um “Basta!”, e a
esposa, apesar do mau gênio, parava, resmungando cada vez mais baixo.
Não queria perder o marido de jeito nenhum.

Este falecera com cinquenta e poucos anos e Kiki ficou muito bem
na vida. Daí veio o motivo pelo qual Maria Sílvia xingava muito nas futuras
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desavenças com Cipriano. Nisso os dois se completavam. Ele fazia alguma


coisa para começar a briga e ela se punha a xingá-lo, descontrolando-se
totalmente. Não se pode entrar na confusão e na maluquice do outro,
como ela fazia. Ele, viciado em angústia, sentia nisso um prazer neurótico.
Infelizmente as filhas dela, ao assistirem aquele combate conjugal, não
percebiam o pai dando motivos, e a mãe berrando, pois se incomodava
muito com toda a cena, como se lhe rasgassem as entranhas. Depois, ao
se desequilibrar, elas a viam como a figura fraca. Daí viria o desgosto que
elas lhe dariam no futuro.

Maria Sílvia era sempre tranquila na vida profissional, social e com


suas amizades, porque, nessa parte, tinha segurança. Desarmonizava-se
na vida familiar porque não conseguia transpor suas carências e apegos.

11

Numa madrugada, um drogado, o Nhou, quis abusar de Malvina


sexualmente. Então ela, num pontapé, acertou-lhe golpe no meio das
pernas – ela havia escutado Lelé dizer que, quando estava para apanhar
de macho, dava-lhe pontapé no escroto e corria muito... – e fugiu.
Acontece que ele lhe fez emboscada e deu-lhe uma surra bem malvada.
Estava para se fartar da vingança numa menininha de sete anos, quando
resolveu pegar a garrafa. Quebrou-a e deu-lhe um corte profundo no
calcanhar. Já ia lhe deformando a cara, quando a polícia chegou e ele teve
que zarpar. Mal passou a garrafa na cara da criança. Nunca houve
processo criminal contra o odioso agressor, nem mesmo Boletim de
Ocorrência. Nada foi investigado pela polícia. Foi como se nada tivesse
acontecido.

Nesse dia, Maria Sílvia teve pesadelos e mais pesadelos, não


conseguindo dormir direito à noite. Não entendia o porquê, de quando
em quando, tinha esses sobressaltos, aparentemente, sem motivo algum.
Chegou mesmo a comentar sobre isso com o ex-colega de primeiro grau, o
amigo Cristóvão, que havia se tornado médico. Este, diante de exames e
de sua aparência, avaliou não ser nada preocupante.

Malvina foi levada ao pronto socorro, porém os funcionários não


estavam trabalhando. Ela era uma coitada sem ninguém para revindicar
21

seus direitos. Ficou ali. Quase ao meio dia, apareceu a assistente social
que começou a lhe fazer perguntas. Malvina não sabia o que responder,
pois não queria comprometer aquela que considerava sua mãe. Não se
sabe se por bons sentimentos ou por pavor. Ela tinha tanto medo dela,
que mesmo depois de ter crescido e ficado maior que a pretensa mãe,
fazia quase tudo para não apanhar. Tanto Lelé como Margarete eram
miúdas.

Ninguém lhe dava atendimento médico. Primeiro por negligência e


depois por alegarem nem saberem direito quem ela era. Estava entrando
a noite quando Margarete conseguiu localizá-la. A criança chorou muito.
Neste horário, o médico já tinha ido embora... ficou pro outro e pro outro
dia... até que ela foi examinada. Constataram corte no tendão do pé.
Tinha de permanecer meses sem andar. Fizeram-lhe um procedimento,
que a avó não soube se foi operação ou não. O certo é que eles lhe
engessaram toda.
A menina disse que doeu muito, mas muito mesmo. Devem ter feito
sem anestesia, pois esta estava em falta na rede hospitalar. Depois,
mandaram a menina voltar para casa e regressar quarenta dias depois.
Até lhe marcaram futura consulta. Por azar, nesse dia chovia. Saiu dali
uma velha, sem forças nos braços, que mal podia com as pernas, e uma
criança engessada tendo de andar num pé só. Ninguém ajudou. Ainda
teve um casal imbecil que riu das duas. Não demorou muito, Malvina caiu
numa possa d´água, molhando-se toda, inclusive o gesso. O cabelo dela
ficou enlameado. Como respingou muito na velha, as duas pareciam
quadro de filme de terror.
12
Durante esses dias, Amada teve um piti enorme. Ela tinha muitas
bolas. Muitas mesmo, de todos os tamanhos e cores. Costumava brincar
sozinha e as colocava nas fantasias de sua imaginação. Sua mãe tinha
cargo importante e seu pai era rico. Talvez por isso, vivia muito solitária.
Um dia, a vizinha do lado, estrangeira asiática, recebeu a visita de parente
sua, que tinha uma filha. Essa tinha uma bola vermelha e dourada, bem
diferente das nossas usuais. Amada quis a tal bola. A outra criança
embirrou, não deu e sua mãe lhe deu todo o apoio. A vizinha e o pessoal
da casa ainda tentou contemporizar, mas sem sucesso.
A menina, sem a bola, chorava exageradamente. Perguntaram
então onde poderia ser comprada outra igual e foram informados que a
bola era chinesa, dum jogo específico regional. Ainda mais, fora daquela
região, não era comercializada, pois era considerada ultrapassada, fora de
22

mercado. Então argumentaram que ela tinha muitas bolas. Dezenas. O


problema eram as fantasias de sua imaginação. O certo é que a criança
teve até febre. O médico, que atendeu ao primeiro telefonema,
considerou faniquito bobo. Receitou calmante bem fraquinho e deu o
caso por encerrado. Entretanto a mimada levou o caso tão a sério, que
ficou abalada durante várias semanas. Emagreceu e teve até olheiras.
Malvina sofria as agruras da miséria, entretanto conseguia brincar.
Pegava no lixão pedaço de coisas, lixo reciclável, e inventava brinquedos
para ela mesma. Sua imaginação e criatividade soltavam-se totalmente.
Passava a gostar muito deles e divertia-se bastante. Muito, muito.
13
Maria Sílvia teve os tais pesadelos repetidamente. Sua empregada
doméstica sempre achou que era macumba de alguém que tinha inveja da
posição elevada que ela havia galgado.
Na quarentena de Malvina, o gesso foi quebrado. Ela andou com o
pé machucado, o que lhe causaria, pelo resto da vida, um aleijão
pequeno... mas aleijão.
Amada, quando fez dois anos, foi levada a um ortopedista para
avaliação de seu sistema motor, apesar de aparentemente não haver
nenhum problema. No dia, ela fez um escândalo tão grande, que quase
deu pontapé no rosto do médico especialista, com mestrado e doutorado
no exterior.
No futuro, Malvina viria a ter medo de sexo. Primeiro porque,
quando ouvia os gemidos sexuais de Lelé, os interpretava como coisa
ruim. Depois por ver sempre sua mãe humilhada atrás de homens, que lhe
batiam e a ridicularizavam, a cada ano mais que a idade lhe retalhava. Por
fim, o episódio com o Nhou a chocou muito. Não só pelo nojo e pavor dele
tentando lhe bolinar, mas também pelas consequências de tudo. Parece
incrível, mas o aleijão lhe daria esperança de afastá-la dos assédios
sexuais.
Só não quis ir para a prostituição pelos motivos de seus miolos.
Davam-lhe drogas e chegaram a obrigá-la a usar. Porém Malvina
vomitava, seu corpo todo parecia estrebuchar. Lelé, que nunca impediu,
tinha medo disso. Em sua cabeça, poderia vir espírito mau se vingar dela
pelo que fez. Talvez a criança tenha percebido isso e usava para o que não
gostava. Por que teve rejeição às drogas e conseguiu não se viciar, é difícil
se saber.

14
23

Amada vivia muito sozinha. Praticamente só brincava na escola ou


em atividades paralelas pagas. Os seus tinham muito medo de sequestro
ou coisa parecida. Protegiam-na tanto que ela não conhecia a vida. Seu
mundo era numa bola imaginária. Seus amiguinhos, que tinham ou
podiam ter acesso a ela, eram iguais. Ela não sabia, nem imaginava, como
era o mundo e as pessoas. Sabia até que havia ricos e pobres, porém
somente até o ponto de um mandar e o outro servir. Aqueles que lhe
prestavam serviços, ela não lhes avaliava sentimentos. Houve o caso de
sua babá que foi embora para sua terra natal e nunca mais deu notícias. A
menina ficou doente com a separação e nunca se conformou com o
acontecido. O pai ainda dizia:

- Era uma mercenária e fingia sentimentos pela menina.

Talvez fosse verdade. Ou talvez ela gostasse de cuidar de crianças e


até se apegou à menina. Entretanto a vida a embrulhou e ela não teve
mais tempo para pensar no antigo emprego. Ou, ao pensar, logo teve
outros muitos afazeres que a dispersaram.

Amada era tão fora do mundo que uma vez, num resort de luxo, no
meio da piscina, ela exclamou alto, no meio de pessoas embasbacadas:

- Mãe, como eu faço cocô?

O certo é que Amada vivia numa bolha fora do mundo.

Já Malvina vivia na rua. Teve de conhecer as pessoas que queria e


principalmente aquelas que não queria. Aprendeu a avaliar seus
comportamentos, seus sentimentos, limitações e até suas demências.
Como era muito inteligente, começou a aprender a jogar com as pessoas
para sobreviver. Quando cresceu, sabia lidar muito bem com as pessoas.
Apesar de não conhecer tudo, como o mundo de seus pais genéticos e
outros ainda mais sofisticados, pelo menos no seu meio, tinha mais
facilidades de adaptação.

Amada só fazia esportes com tênis. Na aula de educação física,


trocava seu rico sapatinho por um apropriado. Tinha vários, um para cada
modalidade esportiva ou para cada momento de frivolidade. Entretanto,
quando estava nos esportes, achava aquilo muito entediante. Não
24

ganhava sempre e as colegas não colaboravam, especialmente com ela.


Para os outros, ao jogarem, o importante era o andamento do jogo e não
a figura dela. O que era normal.

Já Malvina gostava muito de brincar em jogos com crianças de sua


idade, com menores e também com maiores. Com esses últimos, levava
uns sopapos a mais, porém o importante era estar na brincadeira. Ficava
sempre sem sapatos. Caso ela estivesse com algum, nem que fosse
sandálias, os tirava para não estragarem. Tênis, só teve usado, que pegou
no lixo. Ela tinha um xodó com ele, que até para atravessar lamaçal ou
algum lugar sujo, os tirava. Brincar com ele, nem pensar...

15

Eles tiveram outra filha: Duruca. O pai havia lhe posto o nome e o
apelido. Como todos, principalmente o pai, só lhe chamavam assim,
ninguém mais se preocupou com o verdadeiro nome.

Cipriano não queria contacto com seus parentes. Quando a esposa


se aproximava deles, resmungava contra ela. Também não queria dar
nenhum dinheiro para eles, apesar de ter ficado muito bem
financeiramente. A não ser que houvesse interesse pessoal e egoísta da
parte dele, nem os apelos de seus pais o comoviam. Costumava dizer:

- Quando eles me procuram, sempre é para pedir dinheiro ou favor.

De fato nunca lhe telefonavam, ou coisa semelhante, preocupando-


se com seu bem-estar, sua saúde ou sua felicidade. Maria Sílvia tinha pena
do marido pela rejeição, entretanto incomodava-se com o fato de,
podendo, não ajudá-los. Seu marido não. Não é que os pais dele fossem
paupérrimos, porém poderiam ter uma melhora em qualidade de vida.
Parece incrível, mas era ela que ajudava os sogros com o dinheiro de seu
trabalho. Até assistência médica, ela pagava para eles. No futuro, ficaria
sabendo que estes a caluniavam, dizendo que ela, a nora, é que dificultava
o filho a lhes ajudar. Coisas da vida.

Às vezes, ela se assustava com o egoísmo dele, como no dia em que


pediu a Cipriano para fazer reciclagem de lixo em benefício do meio
ambiente.
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- Eu não. Pra que ter trabalho? Logo, logo eu morro, nem teria esses
malefícios da degradação do meio ambiente.
- Você não pensa, pelo menos, em seus filhos, seus netos, enfim, em
seus descendentes?
- Eu não! Eles que se virem.
Quando vemos esses grandes executivos internacionais mentindo
contra o meio ambiente, contra a saúde, etc., percebemos que eles
pensam igual ao Cipriano. O pior é que essas pessoas são frias, calculistas,
e não têm nenhum escrúpulo, conseguindo chegar a altos postos de
decisão, inclusive dirigindo uma nação. A história nos dá uma lista
enorme.
16

A família do pai tinha muita inveja de Cipriano e sua família. Por


tudo, inclusive a aparência física, a qual eles davam importância muito
grande. A esposa e as filhas eram mais bonitas. Vez por outra, algum deles
ia visitá-los. Por motivos difíceis de explicar – apesar da psicologia
entendê-los bem -, quando seus parentes chegavam, ele se desmilinguia
todo, ficava como enfeitiçado. As filhas então, inconscientemente,
queriam se enturmar com eles, para agradar ao pai.

Em uma das vezes, veio a irmã dele com um casal de filhos. O


menino tinha três anos mais que Amada e a menina um ano também a
mais. Com o objetivo das filhas se entrosarem com a família paterna,
Maria Sílvia teve a ideia de brincarem na parte externa da casa. E lá foram
eles.

Quando os quatro estavam lá sozinhos, os primos chamaram Amada


e lhe disseram:

- Vamos brincar de bater na Duruca!

E riram muito. Apesar de Amada não ter grande sentimento pela


irmã, ficou pasma. Entretanto, como não estava acostumada a se
entender com pessoas, ficou calada. Então chamaram a menorzinha:

- Vamos brincar?

Esta ficou eufórica. Primeiro por, inconscientemente, agradar ao


pai, depois por se enturmar e também porque iria se divertir.
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Aí começou. Eles a fizeram correr, mas puseram o pé e ela caiu.


Quando ia chorar, logo a chamaram de chorona e bebê boba. Disseram
que, para brincar com eles, ela precisava ser forte, como eles se
autodenominavam. Na próxima corrida, a prima lhe deu soco na cabeça e
o outro pontapé no traseiro. Ela fez um muxoxo e eles repetiram a
ladainha. A infeliz então continuou a apanhar e nunca bater.

Amada não estava participando ativamente, mas se omitia. Quando


eles a questionaram por não participar, ela começou a dar uma risadinha
murcha enquanto a irmã apanhava.

O bullying ia rolando, quando a empregada da família viu e foi


chamar sua patroa:

- Sabe como chama a brincadeira deles: vamos brincar de bater na


Duruca!

Maria Sílvia veio e chamou todos para dentro. Teve medo da reação
do marido, carente, e não teve pulso de tomar atitude concreta e firme.
Errou mais uma vez.

Sua empregada então lhe contou que, na periferia, faziam isso


também com seu filho. Os mandões começavam a bater nele, que não
podia nem reclamar, pois, se eles se irritassem, ficava pior. É assim que
vão para os vícios e muitas vezes depois, para participar do grupo, fazem
igual com outro infeliz.

Maria Sílvia ficou então pensando quantas vezes, tentando se


enturmar e ser agradável com outras pessoas, estas, combinadas, lhe
maltratavam. Ela tentava outras saídas, se aprimorar, porém nada dava
certo, pois o grupo estava combinado no bullying de:

- Vamos brincar de bater na Duruca!

Aquela pessoa ou criança que prima pela amizade, o bom


relacionamento, além de querer lazer saudável, fica vítima de sádicos
malvados, que notam a vulnerabilidade de sua limitação social ou afetiva.
Geralmente, no começo, alguns nem percebem que seus algozes estão
mancomunados, às vezes em ajustes tácitos. Alguns conseguem se afastar
desse grupo cruel, porém, como aquele que fica nesse tipo de maldade
27

não se sente harmonioso emocionalmente, o mais comum é cair na


armadilha. Infelizmente isso acontece com frequência:
- Vamos brincar de bater na Duruca!

17

Quando chegou a idade de meninota, Malvina foi para o lixão.


Separava objetos e sujeira para futura reciclagem. Saía dali imunda e
chegava ao barraco fedendo. Lelé ria dela:

- Você é uma merda mesmo!

- O fedor sai com água, e o teu nunca sai.

Evidentemente que não reinava respeito entre elas.

Amada teve algumas poucas amigas. Essas fingiam e enganavam-na


facilmente. Ela era ingênua e tinha dificuldade de perceber as verdadeiras
intenções delas. Com isso, sofreu muito. Muito mais do que devia, pois,
como não tinha quase problemas, sua cabecinha rodava muito em
assuntos sem importância.

Numa tardinha, Malvina e a suposta avó foram fazer compras em


um supermercado. Como alguém lá disse ser ela a meninota do lixão, o
segurança queria colocá-las na rua, pois já as imaginava furtando. Como
ela lhe mostrou dinheiro e uma senhora bondosa intercedeu por elas, foi
possível fazer as compras desejadas. Porém com o segurança ao lado, com
cara explícita de hostilidade e implicando com todas as compras. Ele
chegava ao ponto de elas não poderem nem examinar a mercadoria.
Tinham que levar sem examinar o produto nem ver sequer a data de
validade. Elas também nada sabiam sobre este assunto.

- Pôs a mão, tem de levar. Mercadoria que vocês mexem, quem é


que quer levar depois? Ninguém.

Quando saíram, ela viu que tinha sobrado uns trocadinhos e sugeriu
à avó que, em rasgo de luxo para elas, fossem de ônibus, pois o barraco,
que ficava em Vila das Cruzes, era a uns quarenta minutos andando
rápido. Foi aí que encontraram, por acaso, Lelé, já meia embriagada ou
drogada. No ponto de ônibus havia outras pessoas, quando chegou o
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coletivo. As três então foram entrar nele. Foi quando uma moça, toda
bem arrumada, reclamou da presença delas. Os outros dali concordaram
com a tal e aqueles que já estavam no ônibus também. Não foi só pela
bêbada, foi também pela extrema pobreza delas, que os deixou inseguros.
Lelé insistiu e entrou fazendo barulho. Depois deu mais confusão, pois ela
não tinha dinheiro para pagar a passagem. Malvina puxou a avó com
vergonha. Ela já sabia que, no ônibus, só podia entrar quando estivesse
muito vazio, e pudesse ficar em canto isolada. Para entrar em loja, era a
mesma tragédia. Não gostavam nem que ela passasse na frente. Em
shopping center, nem poderia cogitar. O motivo da cabeça de muitos era a
possibilidade de ela ser um perigo, uma ladra ou coisa parecida. esmo que
não fosse.

Já Amada andava no carro da mãe, pouquíssimas vezes com o pai,


de transporte escolar e até de motorista particular. Ao contrário, as
pessoas a olhavam com admiração ou inveja. Os funcionários dos lugares,
inclusive aqueles dos shopping centers, a paparicavam. Quando pedia
informações a algum deles, inclusive aos seguranças, tratava-os com
desdém. O motivo de toda a badalação era por ser ela possível
compradora, portanto pessoa que poderia lhes dar lucros, mesmo que
indiretamente. Além de sua presença chique ser atrativo para outros
clientes endinheirados.

18

Apesar de Duruca ter muito da mãe – aparência e feições -, a cor


não saiu clara, ficou mais da cor do pai. Com o passar do tempo, ninguém
mais diria que ela tinha traços do lado materno. Além disso, se alguém
falava da semelhança, ela asperamente negava. Ela se tornou uma moça
revoltada. Bebia já na adolescência e chegou a usar drogas. Nunca se
conformara com as brigas dos pais durante a vida inteira. Interpretou o
exagerado apego que a mãe tinha de continuar àquela família como falha
dela. Abusava dela no que podia.

O pai sempre foi violento em casa. Trazia isso na bagagem familiar.


A avó paterna o incentivava a bater, ou melhor, espancar suas filhas. Na
opinião da velha e má anciã, isso era educar. Ela tinha até um prazerzinho
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mórbido em ver a cena. Ele também xingava a esposa e as filhas de nomes


desprezíveis. Também tinha o aval de sua genitora. Cipriano então ficava
bem à vontade. Era estranho... pois Maria Sílvia tratava a sogra muito
bem, até com carinho. A velha dizia que gostava muito dela e era sua nora
preferida...

O pai dava surras enormes nas filhas, xingando-as dos piores nomes.
Amada, que tinha o temperamento dele, jogava nele tudo que via pela
frente. Se ele ia para sua direção, tentando revidar-lhe, aí ela corria para
os objetos mais caros. Nisso impunha-lhe medo.

Já Duruca era muito espancada, até torturada. Sempre longe da


mãe. O que não adiantou, provavelmente até piorou.

- Mãe, ele é bobão dos outros, principalmente se forem puxa-sacos.


Só abusa de mim e de você.

Isso a fez não querer ser igual à mãe em nada. Até a aparência, ela
rejeitava. Maria Sílvia tentou desesperadamente trazê-la para o caminho
do bem. Pagou-lhe professores particulares e cursinhos mil. Colocou-a em
psicólogos, atividades religiosas, escoteiros... Quando interessava, ela até
fazia de conta que os esforços da mãe estavam ajudando, depois, quando
não mais precisava, dava volta de 180° graus, sem o menor remorso, nem
o menor constrangimento. Tornou-se uma pessoa que fazia e falava o que
interessava àquele que lhe dava prazer ou alguma vantagem material.

Cipriano ofendia exageradamente a esposa com palavras grosseiras


e caluniosas. Esta, apesar de gritar e se exasperar, continuava com ele,
portanto aceitava tudo aquilo. Seu romantismo e seu apego ao casamento
a tornavam brinquedo nas mãos maldosas do marido. Maria Sílvia
também, na defensiva, falava mal do marido na frente de suas filhas. A
diferença entre os dois era que ele era viciado em angústia, deliciando-se
com aquela baixaria, que, neuroticamente, lhe lembrava o péssimo
relacionamento de seus pais. Já ela não gostava daquilo, e só ficava ali
pois tinha apego exacerbado àquele casamento.

Os dois se xingavam, culminando com as filhas lhes perderem o


respeito e considerarem normal falar impropérios e calúnias a eles. Para o
30

pai, não falavam tanto, pois tinham medo dele. Quanto à mãe, elas
chegavam a abusos e exageros absurdos. Duruca era mais, entretanto
Amada também não tinha por sua genitora o respeito normal.

Seu pai tinha dinheiro, mas era sua mãe, pela sua posição, que
tinha prestígio e poder. Isso gerava muita inveja nas pessoas. Duruca
então, para agradar a quem lhe interessava, tratava a mãe, na frente
delas, com grosserias, xingamentos e outras atitudes contrárias à sensatez
e à racionalidade. Não respeitava nem mãe, nem pai.

19

Vez por outra iam à praia na casa da tia Assunção – tradução


popular de seu nome -, irmã de João Bordeaux, pai de Maria Sílvia.
Décadas atrás, ela comprou um imóvel, que seria uma pequena chácara
bem em frente ao mar. Com o passar dos anos, a casa se tornou um dos
lugares mais valorizados pelas imobiliárias. Ela nunca aceitou nenhuma
proposta da venda. Passou a ser referência na redondeza: a casa da
francesa.

Em uma parte fez um estacionamento, com o qual tinha pouco


trabalho, poucos empregados e ganhava bom dinheiro. Fazia questão de
ter verde, mas também areia e pedras para facilitar o manuseio dos
carros. Sempre pensando em preservar a natureza.

O irmão, viúvo, sem filhos, passou a morar com ela, já separada, em


sua casa de muitos quartos. Seu nome era Sabino.

Então tia Assunção começou a contar um sonho no passado, ou


pesadelo, para a sobrinha:

“Meu filho se exasperava, muito e muito, depois morria. Houve


nebulosidade e, como em devaneios, já estava numa outra fase, já tinha
passado algum tempo... De vez em quando, havia mensagens do além...
Certo dia, ele voltou duma névoa. Ficou exasperado, muito e muito,
depois morreu novamente. Assim ele retornava vez por outra.
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No sonho, eu não aguentava mais tanta morte e nem queria que ele
voltasse, mesmo morrendo de saudades dele, daquele outro que era meu
filho – será que existiu -, ou simplesmente do meu filho ...!”

- Oh, tia Assunção, não fica sofrendo não. Vai fazer suas
caminhadas, entrar no mar e nadar até aquele ponto que a senhora gosta.
Leia seus livros, converse com suas amigas. Não dê importância aquele
ingrato.

Maria Sílvia sabia das dificuldades que ela teve com o marido
bêbado e abusador, e com o mau filho, que seguiu o péssimo exemplo
paterno.

- É, Maria Sílvia, o pai dele sempre me agrediu, me xingou na frente


dele e falava calúnias de mim na minha frente e por detrás. E,
infelizmente, eu permiti...

Então continuou seu sonho da noite anterior:

- Ontem eu sonhei que eu e ele (o filho) estávamos num lugar. De


repente, houve um zum sonoro, igual a esse barulho quando se exclui algo
no telefone celular. Meu filho foi pego por rodamoinho que o colocou
dentro de meu ventre e ele se tornou óvulo meu.

Continuando, disse:

- O interessante é que eu gostei disso. Apesar de ele ter deixado de


ser meu filho, ele não estava mais contaminado com o espermatozoide do
pai.

A sobrinha lhe deu um abraço bem forte. As duas ficaram assim


algum tempo. Ela sabia que a tia estava muito magoada com o filho
ingrato, entretanto sua saúde mental estava perfeita. Até lhe tinha muito
respeito e gostava de seus conselhos, pois a considerava sábia.

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Assim a vida continuou e Amada e Malvina estavam para fazer


quinze anos.
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Aos catorze anos, Amada resolveu deixar de ser virgem. Todas suas
amigas já não o eram. Sem pensar em sentimento, escolheu um rapazinho
rico, o qual sua turminha considerava bonito. Convidou alguns
adolescentes a irem passar fim de semana na casa da tia Assunção,
combinou uma armação para os dois ficarem sozinhos e aconteceu o
desvirginamento. Ela adorou, achou muito bom. Teve a precaução de se
proteger de doenças e provável gravidez. Para isso, teve a assessoria da
assistente social de sua escola, que dava palestras para as alunas sobre
esse assunto.

Amada havia se tornado uma adolescente fútil ao extremo. A avó


materna se vangloriava que tinha saído a ela. Queria só roupas de grife e
comprava exageradamente. Como não gostava de estudar, foi para
escolas de ensino bem fáceis. Assim não precisava estudar. Para não ter
de se preocupar com elas, e pela sua própria reputação, o pai emprestou
dinheiro ao diretor para que as filhas – Duruca também não era esforçada
– conseguissem passar de ano. Maria Sílvia nunca soube disso, pois não
concordaria, e achava que, apesar delas não estudarem, deviam ser
inteligentes, vez que conseguiam aprovação. Amada andava com as mais
esnobes da escola, enquanto Duruca andava com as mais arruaceiras, com
fama de vícios e má moral.

Para a festa de quinze anos de Amada, foram contratados os


melhores – dentro de seu meio - bufê, a melhor decoração, etc. Tudo do
melhor, com exagero. Ela inventou mil bobagens e a avó materna a lhe
incentivar. Falavam e agiam como se aquilo, de fato, fosse imprescindível.
A roupa da adolescente iria ser trocada quatro vezes. E assim por diante...

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Enquanto isso, espalhou-se em Vila das Cruzes a notícia que Malvina


era ainda virgem. E era. Esse assunto não era importante para ela. O
desagradável foi quando virou piada na comunidade.

- A Mau-mau fedida – este era o apelido que ela pegou por


trabalhar no lixão – nunca conseguiu arrumar ninguém que a encarasse.
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E riam e a azucrinavam muito. Ela ameaçava os agressores, o que


piorava até mais os deboches. A situação estava ficando cada vez pior. Sua
avó ficava muito triste com tudo isso, mas não podia fazer nada, a não ser
consolar a neta, que chorava muito. E sofria muito. Lelé achava muito
engraçado... pois nunca gostou da menina.

Ueslei era o chefe do tráfico do pedaço. Numa tardinha, ele estava


sentado pensando sobre suas atividades criminosas com seus comparsas,
quando, pela janela, viu Malvina. Então, ao tom jocoso, lhe contaram
sobre a Mau-mau fedida.

- Mas ela é virgem mesmo?

Eles lhe confirmaram com pilhérias mil.

- Apesar de mancar da perna, até que é bem feita de corpo. E ainda


virgem. Deve ser uma doidice...!

E começou a pensar nela, embora não lhe tivesse nenhuma


admiração. Já Malvina tinha medo dele, pois ele mandava ali e era capaz
das piores atrocidades. Como ela não era viciada, nem lhe prejudicava em
nada, quase não se cruzavam, apesar de supostamente terem nascido ali.
Isso ela imaginava.

E Ueslei decidiu:

- Vou tirar o cabaço dela!

Todos riram.

Malvina chegou do trabalho, tomou banho e colocou a bata em


cima do corpo. Sua avó não estava. Quando ia entrar no quartinho das
duas, deparou com o marginal. Levou um susto.

- Não tenho nada a ver com “cê” não. Não sou viciada, nem lhe
devo dinheiro. “Cê” deve estar confundido. Eu quero é paz.

- E eu quero amor. Vem cá, Mau-mau...

E começou a pegá-la, abraçando e beijando. Jogou-a na cama, que


não era bem cama, era um colchão velho em cima da madeira. Ela se
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defendeu como pôde, entretanto ele era mais forte. Arrancou sua bata,
bateu muito nela, prendeu suas mãos, colocou um pedaço de pano em
sua boca – ela tentava mordê-lo - e conseguiu penetrar o pênis em seu
corpo, chegando ao êxtase do sexo. Depois, limpou-se com a toalha que
ela havia se banhado e ainda teve o desplante de lhe dizer rindo:

- Pode se exibir, se mostrar. Quem tirou seu cabaço foi o rei Ueslei.

Ela começou a chorar. Nem falar nada, falou. Também de nada


adiantaria, pois os vizinhos viram uma parte, escutaram tudo e ninguém
fez nada. Eram apavorados com os traficantes.

Foi aí que Malvina viu aquela “sanguaiada” toda em sua mão.


Quando estava tentando se desvencilhar do rapaz, a donzela deu uma
topada na parede e um pedacinho de madeira, dum enfeite da parede,
entrou entre a carne e a unha. Jorrava sangue.

Nesse momento, chegou sua avó, já sabendo de tudo. Tinham


conhecimento que ela não teria lugar em hospital, e farmácia não podiam
pagar. Então ela e a avó, sem anestesia, nem instrumentos próprios,
tiraram a unha, pegaram a toalha de rosto limpa e estancaram o sangue.
Em todo esse procedimento ela não chorou nem reclamou de dor. Depois,
vó Margarete limpou a neta toda, deu-lhe carinho e não pôde fazer mais
nada.

Mais tarde se soube que Lelé participou da armadilha.

Só teve um ponto positivo: ninguém mais a azucrinou com a história


da virgindade. Ueslei continuou a ignorá-la. Aquilo foi brincadeira para
passar o tempo. Ela até preferia assim.

Malvina continuou sua vida, achando que aquele episódio havia sido
um capítulo triste em sua vida. Nem percebeu que sua menstruação não
estava mais vindo. Foi Lelé quem percebeu que sua barriga começou a
crescer:

- Além de Mau-mau fedida, agora também vai ser Mau-mau


barriguda.

Ria, ria e fazia piadas bobas.


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A avó Margarete é quem começou a prestar atenção, passando-lhe


pela cabeça sobre possível gravidez, apesar da adolescente nunca ter
sentido nada. Fez as contas e comprou teste na farmácia. Não deu outra:
Malvina estava grávida.

As duas choraram muito. Fizeram a conta e ela deveria estar com


mais de seis meses.

- Não dá mais para abortar. Aí já tem uma criança. Se nascer hoje e


for pros aparelhos, pode até vingar.

- Vó, eu quero ter meu filho.

- Vamos fazer o Ueslei dar dinheiro, ora essa...

- Não quero nada dele. Aqui dentro tem meu filho. Ele foi pai de
maneira horrorosa. Não quero nem que ele saiba, mas, vó, eu já estou
começando a gostar dessa coisinha aqui dentro.

Quando Lelé soube da gravidez, correu para extorquir o traficante.


Ele levou um susto.

- Será que ela não teve nada com mais ninguém...?

Lelé retrucou:

- Não teve não. Tenho certeza. Dou minha palavra!

- Oras, eu estou me lixando com sua palavra, sua vaca velha!


(Desculpe a ofensa à vaca, que é animal dócil e que muito nos ajuda, além
de fiel).

Porém aquilo ficou nos seus miolos e ele começou investigação


sobre o comportamento da futura mãe. Depois de muito fuçar, chegou à
conclusão que ele podia ser o pai da criança. Entretanto não deu
importância a este assunto. Estava chegando um carregamento de outro
país e ele estava muito ocupado.

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Nesse dia aconteceu a festa de quinze anos de Amada. Foi


luxuosíssima. Exagerada no supérfluo. Muita ostentação sem significado.
A adolescente estava no auge de seus despropérios.

Kiki estava nervosíssima com sua roupa e acessórios, com o bufê e


bebidas e principalmente com a repercussão da festa na sociedade.

Cipriano, inseguro, reclamava com a esposa e com Duruca, nunca


perdendo a chance de demonstrar interesse pelas recepcionistas. Para ele,
as regras sociais do evento não faziam sentido, pois era movido somente
pelo próprio prazer, indiferente ao próximo.

Já Maria Sílvia estava preocupada em agradar a todos.

Mas a festa aconteceu. Vieram os convidados, entre os quais muitos


adolescentes. Tinha tudo para ser um dia feliz. Entretanto, no dia
seguinte, Amada estava triste por três motivos: primeiro porque o Remo,
seu “grande amor” atual, não veio. Disse a um amigo que queria estudar
para prova. Não era bem isso... ele sabia que a mocinha estava
interessada nele e sabia também de seu péssimo gênio. Temia que ele
fosse forçado a alguma situação que não desejava, além de imaginar que
quisessem forçá-lo a dançar a valsa com ela. Ele era tímido e
principalmente isso o apavorou. O segundo motivo foi sua unha da mão
ter lascado na troca do terceiro vestido. Apesar de ter vindo o cabeleireiro
- que estava na festa de plantão -, lixar e pintar de novo sua unhinha, e
ninguém ter percebido nada, ela chorou muito, lamentou-se e se sentiu
infelicíssima. O outro motivo de sua “grande infelicidade” foi não vir
nenhum colunista social que ela havia convidado e paparicado. Maria
Sílvia ainda lhe disse:

- Minha filha, foi tudo do jeito que você quis, não faltou nada.

- Faltou sim...

E chorava, chorava... O principal motivo era a sensação de nada a


satisfazer. Aquela coisa dentro de si, de quem vive em gaiola de ouro.
Nunca precisou lutar por nada, por isso não conhecia a vida. Não tinha
objetivos concretos e nenhum desafio a enfrentar. Vivia numa bola vazia.
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Tinha outra coisa. Amada se vestia com roupas caras e de grife, fazia
absoluto empenho nisso. Estava sempre em salões de beleza sofisticados
e gostava demais de joias. Vez por outra namorava algum rapaz,
entretanto não lhes tinha afeição. Prestando-lhe atenção bem de perto,
percebia-se que ela fazia tudo para aparecer bem, para ser bem falada,
porém não tinha aquele gosto todo por rapazes. Não era lésbica, nem
machona, mas não tinha sensualidade, apesar de ser considerada uma
boneca linda no seu meio. Talvez fosse só uma boneca.

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Alguns meses depois, nasceu Phílis, o filho de Malvina. Ela viu o


nome em jornal. Com muito custo, copiou, pois cursou muito mal o
primário, para levá-lo ao Cartório. O nome era com ph, nome estrangeiro,
e a pronúncia devia ser Fílis, entretanto, por ali, chamavam-no de Pílis. E
ficou Pipo.

Quando cresceu – e cresceu muito –, chamavam-no de Pipão. A sua


avó não a deixou registrar a criança, pois queria que o traficante o fizesse.
Dessa forma, estariam todas protegidas. E o bebê também. Passaram
alguns meses e nada. Um dia Ueslei entrou no barraquinho das duas.
Malvina havia terminado de tomar banho e a criança estava no colo da
sua avó.

- Quero ver o machinho que a Mau-mau disse que é meu filho.

Margarete então pegou o menino, levando-o para perto dele:

- Olha só seu filho, Ueslei! É moreninho igual ao pai.

Ele o olhou e estava quase emocionado, quando gritou furioso:

- O menino não é parecido comigo nem com a Mau-mau. “Cês”


estão querendo me enganar. Bando de vadias sem-vergonha!

Saiu furioso, imaginando-se ludibriado.

Malvina pegou correndo seu filho, aconchegando-o a si, com medo.

- Lelé, o bebê é parecido com o pai da Malvina?


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- Tanto tempo que não me lembro mais... e meu pai, quem é? Você
era puta, nem pode saber de qual “homi” eu era filha... Vá à merda!

E não lembrava mesmo. Foi tão pouco tempo que estiveram juntos.
E para ela, havia sido o macho safado, com roupas bonitas, perfume e o
carrão chique.

Mas o certo é que o menino era a cara de Cipriano, o verdadeiro


avô materno. Só saiu moreno, por causa da cor do pai, Ueslei.

Malvina e Margarete não entendiam nada. Lelé só se importou


porque perdeu a pretensa proteção do traficante.

- Só sei que amo muito meu filhinho. Vou criar essa coisinha
sozinha, trabalhar muito, mas nada vai faltar para ele.

- Eu também já gosto muito do meu bisnetinho, sabe? Ele é forte!


Vamos ao cartório registrá-lo. Você lembra que aquela assistente social
deu a certidão para você? Onde está pra “nóis registra ele””?

E assim foi. Malvina continuou a trabalhar no lixão para sustentar a


si, o filho e a avó. No embrulho, ia também Lelé, pois ela se encostava
para pegar comida.

A avó ainda lhe falou:

- Minha querida, trabalhar no lixão é horrível... por que você não vai
ser puta. Eu fui – deixei de ser quando ninguém me queria mais -, Lelé
também se vira na calçada... é meia horinha... às vezes tem uns bestas,
outros estúpidos e outros tarados... mas é só meia horinha... a gente pega
o dinheiro e fica livre o dia inteiro sem precisar trabalhar. Ser puta não é
ruim, tanto é que quem vai pra profissão não larga mais. Ter de enfrentar
batente, “tô fora”...

Margarete tinha visão da vida toda deturpada. Foi criada e sempre


conviveu com pessoas imorais e também amorais. Quando alguém mais
centrado chegava perto dela, normalmente era para acusá-la e até xingá-
la. Portanto as achava fora de seu mundo. Acostumou-se a viver à
margem da sociedade. Apesar de não ser criminosa, era uma marginal.
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De fato nem ela, nem Lelé, queriam trabalhar. Preferiam viver mal,
dinheiro minguado, com vida irregular, sem nenhuma segurança, nem
dignidade, do que ter serviço o dia inteiro.

Malvina se esquivava e não queria. Não a retrucava, pois queria


bem à velha e, apesar de tudo, tinha-lhe respeito. O porquê de não gostar
da prostituição era coisa de seus miolos.

- Não me importo de passar o dia inteiro trabalhando. Já até me


acostumei ao fedor, aos bichos, às picadas e aos cortes dos vidros, além
de outras coisas...

Parece incrível, porém até sorriu. E era verdade. Suas mãos criaram
calos para se proteger dos acidentes dos quais ela constantemente era
vítima.

A nossa jovem não era lésbica, nem machona, mas não tinha
sensualidade. E não era devido ao seu aleijão, pois apesar disso, ficou até
com aparência boa. Não ligava para sexo. Quando algum rapaz lhe falava
alguma coisa, assediando-a, ela o xingava e blasfemava. A avó achava que
foi o episódio com o Nhou, depois o traficante. Sabe-se lá...

Também foi certo que, apesar de Ueslei achar que o filho não era
seu, devido ao comportamento da mãe, sempre ficou com uma coisa lhe
remoendo os miolos. Por isso ele dava proteção muito discreta – pra lá de
discreta – ao moleque. Isso não impediu que o menino, antes da
adolescência, já estivesse na malandragem, metido em pequenos furtos,
alguma droga, etc. A pressão do meio em cima dele era grande e forte.

Malvina e sua família sofriam toda espécie de violência. Não


apanhavam mais por serem vigorosos. Muitas vezes eram espancados por
um grupo normalmente pequeno, porém, em algumas ocasiões, com
número maior de atacantes. Uma vez, depois de desentendimento bobo
no lixão, ela foi espancada por várias pessoas. Tentou reagir, mas, como
eram muitos agressores, sucumbiu. Então, quando ficou sem forças no
chão, eles lhe jogaram toda espécie de lixo, inclusive cortante e molhado,
até cobri-la totalmente. Só aí, saíram rindo e ridicularizando a infeliz.
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Quase sem forças, quando percebeu que estava só, teve de levantar
cambaleando e ir embora, pois tinha medo de alguma máquina não a
perceber embaixo daquilo tudo, além do ataque dos bichos.

Em outras ocasiões, o seu moleque foi queimado, teve o braço


quebrado e cicatriz por arma de fogo. Tudo isso lhe deixou marcas para o
resto da vida.

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Em Vila das Cruzes, Malvina tinha uma amiga de infância, de nome


Neusinha. As duas brincaram muito quando pequenas. Ela era bonita,
tinha a pele morena e os olhos verdes, deslumbrantes. Sua beleza era
acima do normal. Quando pegou corpo, diziam-na muito atraente,
curvilínea. Logo os rapazes dali começaram a querer namorá-la. Talvez por
carência, ela teve muitos homens em sua vida. Desnecessário dizer que
deixou sua virgindade quando mal tinha entrado na adolescência. Quando
azucrinavam Malvina por ela ser virgem, a amiga vinha ao seu lado para
consolá-la. Como ela infelizmente passou de mão em mão, logo, logo os
moradores dali passaram a tratá-la como vadia. Homem agrada muito a
mulher quando quer conquistá-la, entretanto, quando a conseguem, e
outros também, eles a desprezam.

Foi quando Margarete entrou em cena, incentivando-a a ir para a


prostituição. A velha meretriz não fazia isso com má intenção. Ela achava
realmente que ganhar dinheiro vendendo o corpo era coisa boa. Sua mãe
e sua tia faziam isso. Ela o fez e não se arrependera. Só parou, quando os
clientes não a quiseram mais. Verdade que, em outros tempos, não havia
tantas doenças sexualmente transmissíveis praticamente sem tratamento
de cura como a AIDS, nem as mulheres se drogavam tanto. O certo é que
Neusinha foi para a zona de prostituição. Também a incentivou muito um
sujeito, o Dizo, que ela imaginava ser seu namorado.

Apesar de estar caindo, ela se achava muito esperta. Na verdade,


era exageradamente sonhadora e muito ingênua.

Um dia, quando Neusinha tinha dezesseis anos, um homem


contatou Dizo com o intuito de levá-la à Europa como bailarina. Como ia a
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pegar uma bolada, ele a estimulou a ir. Parece incrível que todos, até
mesmo sua mãe, a encorajavam a ir. Malvina não gostou daquilo,
entretanto, como os demais podiam dizer que era inveja da amiga bonita,
não se manifestou.

Falsificaram os documentos para a maioridade e a moça foi-se


embora para a Europa com a promessa de mandar muito dinheiro para a
mãe e enriquecer. Despediu-se de Malvina, dizendo que a próxima vez
que ela a visse, seria em capa de revista, toda charmosa.

Algum tempo depois, a mãe, que nunca recebera nenhum


numerário de dinheiro do exterior, recebeu um telefonema estranho, com
ela gritando que estava sofrendo muito como escrava, sujeita a muita
coisa ruim. Pedia socorro. As pessoas de Vila das Cruzes ficaram sabendo,
até lamentaram, porém não podiam fazer nada. Passou o tempo,
receberam uma carta dela pedindo socorro, pois não aguentava mais
aquele cativeiro sórdido. A mensagem vinha de turista nossa conterrânea,
a qual ela contatou e pediu que a enviasse.

A mãe, sem saber o que fazer, procurou um religioso. Este se


interessou muito pelo assunto e encaminhou-a às autoridades, chegando
mesmo a cobrar providências delas. Entretanto nada era feito, fazendo
com que o tal religioso, cheio de outros problemas, desistisse do caso. O
problema era não haver praticamente endereço, somente o nome do país
e a província, sem o nome da cidade. Pobre infeliz, não sabia nem onde
estava.

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Duruca, a outra filha de Maria Sílvia, aos dezenove anos conheceu


um rapaz: Reimar. Tinha olhos azuis, pois a avó era descendente de
alemães. Só dormia em sua própria casa, pois passava o dia e a vida lá na
casa dele. A família dele era composta de pessoas sem cultura, sem
expressão e de moral deturpada. Alguns até faziam uns cursos, mas nada
de conteúdo e de futuro profissional. Mesmo com menos instrução,
menos educação e sem ética, tinham o desplante de tentar ridicularizar a
família dela. E pasmem! Ela deixava. Em alguns casos até ajudava.
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O motivo era a baixa autoestima da família do rapaz. Eles se sentiam


inferiores a todos. Como eles achavam a outra família acima da deles,
tentavam humilhá-los de todas as formas, para, em suas cabeças, colocá-
los abaixo e se sentirem iguais. Pode parecer maluquice, mas quem tem
autoestima baixa constantemente faz isso.

Duruca deixava acontecer o menosprezo à sua família, pois não se


sentia bem com eles. Assistira brigas e mais brigas, sentia vergonha disso.
Via o pai maltratar a mãe, cometer adultérios sem que a mãe tomasse
atitude, explorá-la, além de ser ela mesma humilhada constantemente.
Depois falava meia dúzia de palavras doces, e muito falsas, e ela se
desmilinguia. Toda essa situação a incomodava muito, demasiadamente.
Não gostava deles. Tinha-lhes carências e ligação muito forte, mas não
gostava deles.

Na adolescência, chegou a dizer à mãe, pois ao pai ela não tinha


coragem:

- Só o que me interessa em vocês é tirar o máximo que eu puder.

Maria Sílvia achou ser isso grosseria e falta de respeito muito


grande, mas nunca imaginou que, de fato, pelo correr dos anos, a filha
faria exatamente isso.

A jovem foi morar com Reimar em apartamento de propriedade dos


pais, sempre com o antigo propósito de explorá-los.

Duruca vivia com a cabeça, e principalmente os sentimentos, tão


fora da realidade, que passou a considerar a família de Reimar como
substitutiva da sua. Defendia-os com tudo que podia, até se ofendia por
eles. Imaginava o namorado muito bonito, e ele poderia ser considerado
de médio para baixo. Entretanto a família dele o considerava lindíssimo e
ela acompanhava o consenso deles. Ela era bonita e tinha o corpo bem
ajeitado, porém começou a pensar que era muito mais feia do que ele. O
que não era verdade. Ao contrário. O pai dele então, de nome Carlos, se
tornou, na cabeça dela, seu pai substituto. Ficavam horas conversando.

Os parentes dele se revezavam em morar no apartamento do casal.


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Começou a frequentar a casa dos pais dele a moça Cadina. Ela era
irmã de artista da televisão que fazia sucesso na época, principalmente
por ficar nua. Começou então um festival de elogios a tal fulana. Diziam-
na a linda das lindas. Quando ela ia a casa deles, todos se desmilinguiam a
bajulá-la. Era tanta bajulação, que fugia à normalidade. Até Duruca achava
muito, mas, nem de longe, colocava-se contra.

Assim foi indo até que, numa tarde, um desafeto de Reimar, ao


encontrar Duruca na rua, quis lhe falar. No começo, ela, só por ser contra
o seu amado, nem queria escutá-lo, mas o rapaz estava disposto a contar
o que sabia. Mesmo ela caminhando sem querer escutá-lo, ele lhe revelou
que seu amado dormia com Cadina na cama dos dois, e a família dele
sabia. O único que se omitia, mas não ia contra, era Carlos, o pai. Os
outros incentivavam e se refestelavam. Quando ela chegava, tinham gosto
em entretê-la para não perceber.

- Seu queridinho conta isso em todo lugar. Todos sabem. Se


vangloria que você, filha de quem é, tá na mão dele para o que ele quiser.
Você é motivo de chacota. Além da família dele explorar você, sua otária,
ainda é motivo de deboche de todos.

Ela lhe proferiu um palavrão e começou a correr. Estava muito


nervosa. Chegou à sua casa e Reimar estava só. Então lhe perguntou se ele
estava tendo um caso com Cadina.

Ele a achava tão apaixonada, que friamente lhe disse:

- Eu estou mesmo ficando com Cadina. Ela é muito atraente e eu


não resisto a uns bons momentos de sexo.

Ela sentou na cama arqueada sem falar nada. Foi quando tocou a
campainha e chegou alguém da família dele.

- Ela descobriu meu caso com Cadina. Vocês não vão mais ter que
entretê-la para ela não me pegar no flagrante, mas também não vão
poder se deliciar enganando a nobrezinha...

Parece incrível, mas todos riram.


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Duruca se pegou num parque ali perto, sentada num banco. Nem
tinha ideia de quanto tempo ficou lá. Pegou o telefone e ligou para a mãe.

- Mãe, Reimar me traiu. Eu preciso de você!

- Onde você está?

- Estou indo para sua casa.

Apesar de ainda ter serviço, ela entendeu que poderiam ser feitos
no outro dia, largou tudo e foi para casa tensa.

Duruca já havia chegado e as duas começaram a conversar. A filha


chorou muito, se lamentando. A sua autoestima estava lá embaixo. Maria
Sílvia fez tudo que pôde para reabilitá-la. Deu seu carinho, sua proteção,
sua compreensão e seu colo. Não lhe cobrou nada, mesmo sabendo que
sua filha tinha contribuído muito para aquela situação de abuso.

Carlos, o pai do rapaz, foi o único que telefonou para Duruca, para
saber como ela estava. Reimar tinha tanta certeza de que ela estava
fatalmente em suas mãos, que levou susto enorme quando percebeu o
afastamento dela. O pai dele ainda tentou se encontrar com ela, dizendo
ser tudo um mal entendido. Entretanto percebeu que infelizmente estava
tudo acabado. Definitivamente. Nem foi necessário os Toledo Bordeaux
de Lima tomarem nenhuma providência. Em tempo mínimo, eles saíram
do imóvel com o pouco de seus pertences.

Duruca ficou por umas semanas em casa, porém do seu jeito.


Chegava, não conversava com ninguém. Trocar frases era o máximo que
fazia. Ela não queria aproximação com ninguém naquela casa. Para alguns,
poderia parecer absurdo, mas ela não gostava de sua família. Começou a
se chegar à mãe, porém o motivo era voltar a morar no tal apartamento. E
voltou. A mãe gostava muito dela e caía fácil em suas armadilhas.

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Malvina começou a se relacionar com um sujeito lá no lixão. Ele era


todo gentil com ela. Ela até imaginou poder gozar de sua proteção.
Também começou a achá-lo bonito, o Simão. Um bonito daquele meio.
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Pele toda maltratada, sempre com cheiro de bebida... Ele lhe trouxe
sanduíche, outro dia cocada e ela se encantou.

Não teve a figura masculina. Os homens de Lelé, muitas vezes,


queriam boliná-la, e se ela não fugisse a tempo, até podiam violentá-la. Ou
então batiam nela. Havia um velho que, vez por outra, visitava sua avó, e
que era bom para com ela.

O melhor mesmo era “seu” Hugo, o vizinho da casa da frente. Dava-


lhe conselhos, parecia ser homem de honra e vivia bem com sua esposa.
Ela lhe tinha grande admiração. Lelé o detestava. Só não arrumava
confusão porque não queria sair dali. Ele tinha-lhe nojo. Mas com a velha
Margarete, ele conversava. Da menina, que agora estava moça, ele tinha
muita dó.

Com toda essa carência da figura masculina, não precisou muito e


Malvina se deitou com Simão no chão, embaixo de uma árvore. Não achou
ruim não. Na verdade, praticamente foi sua primeira relação sexual. Ele foi
amável com ela e deu-lhe carinho. Ela estava enlevada. Teve até outra vez.
Foi quando ela descobriu que ele tinha mulher há muitos anos e quatro
filhos. Ficou desiludida e começou a perceber que ele estava já se
afastando dela. Provavelmente era só o prazer mesquinho de uma
conquista a mais. Ficou até constrangida ao imaginar a possibilidade da tal
mulher vir lhe ofender com palavrões, igual ao que aconteceu muitas
vezes com a sua pretensa mãe.

Mais uma vez não se precaveu no sexo em atitude irresponsável e


ficou torcendo para descer a menstruação - pelo menos, desta vez, já
sabia isso -, o que não aconteceu. Ela estava grávida. Ficou apavorada.
Sabia todo o trabalho que teve com Pipão. Além do mais, o sem-vergonha
havia lhe passado doença venérea. Felizmente não era AIDS. Ela,
aconselhada pela avó, resolveu abortar. Como não tinham dinheiro, e nem
o pai do nascituro iria lhe dar, recorreram a uma fulana, pra baixo de
açougueira - esse é o nome da pessoa que mata nascituros no útero de
mães grávidas -, que lhe fez o aborto sem anestesia, e em péssimas
condições de higiene. Duma maneira inimaginável de terror.
46

Dessa vez ela até gritou de dor, entretanto teve de suportar. Não
tinha outro jeito. Saiu cambaleando, com a avó ao lado, tentando ampará-
la. Foram para o barraco, em Vila das Cruzes. Algumas horas depois, ela
ardia em febre e foi levada ao hospital público. Depois de horas, foi
atendida. De início, os funcionários xingaram a pobre dizendo-lhe que iam
comunicar à polícia... Trataram-na de mal para pior. Porém eles lhe deram
medicamentos e fizeram a internação. Disseram para a avó que ela não
iria suportar. Além do mais, havia as doenças venéreas. Ela se debatia e se
estrebuchava em um colchão no corredor. A avó chorava e ela nem a
escutava.

Ardia em febre. Ninguém se importava nem em lhe dar comida.


Alguma pessoa caridosa ou a avó, quando podia vir, dava-lhe alimento. Os
funcionários do hospital pouco se importavam com ela, mas havia uma
atendente de enfermagem que lhe dava os remédios. Margarete achou
que ela ia morrer, principalmente quando a infeliz se pôs a delirar.
Entretanto a avó chegou num dia, pela manhã, e encontrou a pretensa
neta com os olhos abertos, falando normalmente. A febre tinha ido
embora e parece que seu corpo tinha conseguido reagir. Até sorria.

- “Cê” é forte, Malvina. “Eta” como “cê” é forte!

As duas riram. Quando a tal atendente passou e viu o estado dela,


admirou-se muito:

- Quem faz aborto como você fez, quase nunca escapa... Dê graças a
Deus. Vou levar você para a médica.

Ao chegarem à sala da doutora, esta levou susto e até colocou-a na


frente de outros pacientes:

- Ressuscitou?

O espanto dela foi tanto que prescreveu receituário para serem


aplicadas injeções fortíssimas e deu-lhe os remédios que podiam ser
disponibilizados. Até amostras grátis. Também lhe deu receita médica
explicando como tomar todo aquele arsenal.
47

Com tudo isso, elas esqueceram a parte criminal. Por coincidência, o


policial de plantão no hospital estava às voltas com um baleado jurado de
morte por bandido famoso. E tudo ficou por isso mesmo. Caso contrário,
ela e a avó teriam de enfrentar processo criminal, no qual seriam
condenadas e trancafiadas em presídio imundo. O pai do nascituro e a
mulher que fez o aborto dificilmente seriam pegos.

Ela tomou a medicação direito e ficou totalmente boa, inclusive das


doenças venéreas.

Apesar de todo o sufoco, Malvina, pelo resto da vida, quando se


lembrava do fato, dava-lhe bolo no estômago, sentindo-se mal. Tinha até
pesadelos. No fim da vida, lamentava ter feito aquele aborto.

27

Dois meses antes, Amada se envolveu com um jovem da escola.


Apesar de ser pobre – o padrinho lhe pagava os estudos -, ficou famoso
entre as alunas por ser bonito, inclusive “bom de cama”. Na juventude
tudo é muito. Exageraram os dotes do rapaz. E muito. Amada não queria
ficar de fora dessa agitação. Tanto fez, tanto fez que conseguiu ir para a
cama com o tal rapaz.

Por descuido, ou fatalidade, rompeu a proteção. Ela mesma nem


achou boa a fama do par, porém imaginou que não ia dar o azar de haver
consequências. Entretanto ela ficou grávida. Primeiro fez escarcéu, chorou
como se ela fosse a vítima das vítimas. Foi para psicóloga. Fez alvoroço
grande para tirar o foco de sua irresponsabilidade.

Arquitetou tudo e contou para os pais. Maria Sílvia logo entendeu e


disse que eles poderiam se casar, ou ficar juntos, para criar a criança.
Cipriano quis saber quem era o pai, inclusive – é lógico – a sua posição
financeira, política e social. Quando soube da pobreza do cidadão disse
furioso:

- Aborta!

Maria Sílvia levou um susto e não concordou. Ao vir com o contra-


argumento, Amada soltou aliviada:
48

- Concordo! Era isso mesmo que eu queria.

- E a criança que está no seu ventre? É seu filho...

- Mãe, não vem com seus exageros. Para!

Cipriano não perdeu a oportunidade de ridicularizar a esposa e


xingá-la. Toda pessoa que tem autoestima baixa só sabe humilhar ou ser
humilhado, não sabe tratar as pessoas de igual para igual.
- Amada, vou arrumar um médico de qualidade, bom nisso. Este
assunto não deve sair daqui. Só nós três devemos ter conhecimento. O
médico é discreto e sabe como lidar com esses problemas. Cobra muito,
mas é competente. Uma colega minha de escritório me falou dele. Maria
Sílvia, a grande executiva, pare com esses faniquitos. Você nem pode
chegar perto disso. Por isso não se meta!

Maria Sílvia gritou e berrou. Ninguém a escutou, nem ligou para ela,
que foi para seu quarto chorar. Depois do trabalho, foi à igreja. Ficou lá
muito tempo, nem sabe quanto. Ela não teve força para enfrentar seu
marido e sua filha e impedir o desastre.

Dois dias depois, Amada estava em sua casa, toda banhada e


perfumada.

- Que médico educado! Que clínica chique! Não doeu nada. Nem
senti me livrar do estorvo.

- Amada, cala a boca! Pelo menos respeite meu repúdio e ...

- Pare, mãe, com essas bobagens e essas pieguices! O mundo é


outro hoje.

- Honra sempre terá lugar em qualquer época e em qualquer lugar!

Mesmo assim, tanto a filha quanto o pai esconderam de todos a


proeza. Envergonhando-se, sabiam não ser nada bom.

Amada, que parecia não ligar para o assunto, voltou à sua vida de
consumismo e futilidade. Porém, pelo resto da vida, ela teve pesadelos
sobre o aborto. Quando deu a luz a seus filhos, ficou imaginando que o
nascituro vinha lhe cobrar pelo passado.
49

28

Cipriano tentava seduzir todas as mulheres com quem convivia. Não


tinha bonita, feia, gorda, magra, alta ou baixa. Eram todas. Algumas,
poucas, nem percebiam. Muitas se sentiam lisonjeadas, principalmente
pela posição da traída, e algumas lhe correspondiam, deliciando-se e
julgando-se melhor – evidentemente que isso era coisa de mulher com
autoestima baixa e problemas psicológicos - que a esposa enganada. Não
sei se a proporção é correta, mas o certo é que ele era adúltero
inveterado.

Maria Sílvia era duma ingenuidade muito grande. Como ela era
muito fiel e honesta, imaginava que as pessoas eram iguais a ela. Homens,
ela bobamente os imaginava iguais a seu pai, que sempre foi fiel, honesto
e muito bom. Quando desconfiava do marido, este lhe vinha com
argumentos tolos e ainda a acusava, não importando os motivos. Em
seguida, xingava e ridicularizava a traída. Se acontecesse de ela se
descontrolar e eles começarem a brigar, ele tinha aquele prazer neurótico
por ser viciado em angústia. Ela nem percebia que nele havia um risinho
cínico e malvado. Nessa hora, ele se sentia igual ao pai dele , que sempre
foi um traidor constante. Ele imitava o pai não com as gastanças – ele
tinha sofrido muito pelos seus desmandos financeiros e sociais -,
entretanto no resto, era e queria ser cópia da figura paterna.

Ela gritava, berrava e chorava. Ele não se importava nem um pouco.


Ele não queria deixar de ser infiel e nem lhe passava pela cabeça ficar sem
ela, que tinha todos os atributos para ser sua esposa. Portanto dava um
tempo se deliciando maldosamente com as brigas, que lhe lembravam
muito seu ambiente familiar. Depois se chegava a ela, com os olhinhos
fingindo bons sentimentos, e dizia-lhe que ela era a mulher de sua vida e
que ele a amava muito. A primeira afirmativa era verdadeira: ela era a
mulher que melhor se encaixou em seus propósitos de vida. A segunda
afirmativa era totalmente falsa. Entretanto, parece incrível, mas ela
acreditava.

Tinha nisso seu passado com a carência materna. Kiki nunca lhe deu
atenção, pois Maria Sílvia foi investimento para seus objetivos e ela
50

sempre ficava em segundo, ou terceiro plano. Quando o marido a tinha


em primeiro plano e vinha com mentiras que ela queria acreditar, sem
perceber, fechava os olhos. Alguém poderia dizer que o motivo era que
ela o amava muito:

- Sei lá...

A gente se costuma a arrumar desculpas para o que não tem


coragem de fazer.

Ele nunca levou suas conquistas adiante. Quando alguma lhe


ameaçava, ele, grosseiro como era, cortava a história imediatamente. Não
podia perder sua galinha dos ovos de ouro.

29

No escritório de Cipriano havia outra economista: Valete. Ela era


feia, a cor sem sol, parecendo encardida, os olhos meio esbugalhados,
depois do peito, um pneu de banha, barriguda, os braços gordos e
exagerados para o resto do corpo, sem cintura e as pernas pareciam duas
toras de madeira. Podia se arrumar com roupas caras que não conseguia
melhorar. O pior não era isso. Era mal humorada. Gostava só de falar dos
defeitos dos outros. Ridicularizava quem podia e falava palavrão o tempo
inteiro. Às vezes, ela parecia homem, e homem cafajeste. Bebia muito
também. Talvez usasse drogas.

Maria Sílvia a considerava tão mal avantajada que tinha pena dela.
Não lhe passaria nunca pela cabeça ser sua concorrente conjugal, pois ela
possuía rosto bonito e corpo bem apanhado, além de ser meiga e
feminina.

Na juventude, Valete teve um caso com homem casado, seu chefe


na época, que lhe conseguiu vantagens financeiras, culminando com um
apartamento pequeno em bairro bom. Como ela adorava chefes e gostava
muito da posição de amante, ficou tudo muito bem para ela. Passado
algum tempo, conheceu um panaca, filho caçula de família de muitas
irmãs. Foi tão mimado que se tornou um parasita, não servindo para nada.
Não se sabe o motivo que a levou a ter relacionamento com ele. Achava-
se no direito de xingá-lo e ridicularizá-lo pelo fato de o sustentar. Quando
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entrou para o escritório de Cipriano – ela só o chamava de Lima -, ficou


encantada por ele.

Sem deixar o companheiro, começou a seduzi-lo. Arrumava jeito de


passar o bumbum no pênis dele, esfregava seus seios nele, deixava cair
algo e passava a mão na genitália dele. Cipriano, que adorava luxúria,
começou a arder. Daí a fazerem sexo foi rápido. Ele não tolerava
monotonia. Gostava de viver perigosamente. Se ficou no casamento com a
esposa, foi porque conseguiu enquadrá-la tanto em seu esquema, que não
lhe era vantajoso sair daquela relação.

Ele queria só contar para os amigos sobre a colega na cafajestada e,


o mais importante, ficar igual ao pai. Entretanto as coisas foram tomando
rumo. Ela apertava o cerco, apesar de continuar com o seu par, pois a
traição lhe atraía. Ele começou a levá-la para saída nos finais de tarde.
Também para noitadas. Tinham muito em comum. Havia uma frase que
ela gostava de repetir: “Se pagar bem, que mal tem?”

Se ele estava no escritório, ou já fora, e Maria Sílvia lhe telefonava,


Valete o incitava contra a esposa. Ele tinha lá dentro de si ódio por sua
mãe, que lhe rejeitou quando nasceu. Esse fato o estimulava.

- Xinga essa sebosa metida a nobre (e soltava três palavrões) ... além
do mais, quando você entrar em casa, se ela reclamar, dá-lhe bofetões
(também usava palavras de baixo calão) ...

Riam muito. Bêbado, ele, que já tinha raiva pela figura feminina –
não era homossexual, parecia até machão – e encorajado pela amante,
chegava à sua casa e agredia a esposa. No dia seguinte, percebia que
necessitava reverter a situação. A reação estourada vinha como ia, e logo
ele voltava a agir como se nada tivesse acontecido. Com o maior
descaramento, fingindo olhinhos de bondade, dizia-lhe a frase de sempre:
ela era a mulher de sua vida e que a amava muito. Além de culpá-la de ter
sido a causadora da briga. Infelizmente ele não tinha a menor intenção de
mudar nada do que estava acontecendo.

A verdade é que os amantes estavam se aproximando cada vez


mais. Os dois deliciavam-se muito com traições, bebiam muito – talvez
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drogas? -, falavam muito palavrão, gostavam muito de falar mal dos


outros, principalmente se o ofendido fosse fraco, sem defesas ou o
político ou a celebridade agredida pela mídia naquela época. Preferiam
luxúria a sexo normal.

Até sexo grupal faziam, convidando prostitutas e, poucas vezes,


travesti. Algumas vezes os dois deitavam-se na cama e se masturbavam
individualmente, falando palavrões e luxúrias extravagantes. Também se
tem a considerar que ele já estava na idade do lobo, que acontece por
volta dos quarenta anos, e, infelizmente, ele tinha tido declínio sexual
maior que o normal. Queria se dar uma desculpa.

Anos mais tarde foi que Maria Sílvia percebeu que as brigas,
xingamentos, agressões haviam aumentado na proporção dele diminuir
sua capacidade de ereção. Casou-se ingênua, por isso Cipriano a induziu a
fazer atos de libertinagem e ela concordou, no intuito de agradá-lo. A
possível traição da amante não significaria para ele fracasso, já a da
esposa, sentindo-se mal servida sexualmente, seria muito humilhante.

Além do mais, a devassidão que a amante lhe dava, com perversões


e maluquices, a esposa, romântica e apaixonada, nunca conseguiria. Ele
continuava tendo casos com outras mulheres sem esconder de Valete,
pois não precisava mentir para ela. Esta as xingava, ridicularizava-as e
dava-lhes uns passa-fora. Ele se deliciava com esse baixo nível. Como não
queria continuar com nenhuma delas, achava isso bom. Ela era casada,
parecia-lhe que não haveria perigo no envolvimento. Assim tudo seguia.

Ele nunca sentiu responsabilidade por algum fato ruim que tenha
feito. Para ele, a culpa é apenas mecanismo para controlar as outras
pessoas.

Um dia, Cipriano foi até uma pessoa que dizia prever o futuro. Essa
lhe disse que ele tinha amante, entre as muitas que passaram por sua
vida, e que sua esposa iria descobrir e abandoná-lo. Ele se descontrolou
tanto que a tal senhora levou susto. Aconselhou-o então a abandonar a
amante, se quisesse continuar com seu casamento. Ele não podia perder
Maria Sílvia de jeito nenhum, principalmente pelo dinheiro do casal e pela
53

sua posição social. Também não queria ficar como o pai, que no fim da
vida implorava companhia para uma mulher vulgar e fedida.

Como ele acreditava piamente em adivinhações, decidiu então se


afastar de Valete. Esta nunca entendeu os motivos e tentou, pelo resto da
vida, voltar àquele caso. Continuou sempre com o seu companheiro. O
incrível de tudo foi que Maria Sílvia, décadas depois, por acaso, descobriu
essa traição. Este fato fez com que ela se afastasse dele completamente,
apesar de já estarem distante paulatinamente. Para ela, a verdade era
sempre melhor do que a ilusão mentirosa. Nisso, ela estava certa, pois não
se pode ser feliz na ilusão.

Já ele não perdia tempo pensando em prós e contras antes de agir.


Era impulsivo e irresponsável. Ficou com vontade de ter a colega como sua
amante, teve, não se importando com obstáculo nenhum. Muito menos
sua família, que tinha como posse, não como entes queridos. E a própria
Valete, ele não se preocupou com os sentimentos dela, pois ele era
indiferente ao próximo.

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Chegou em Vila das Cruzes a notícia, por meio da Interpol, que


Neusinha, amiga de infância de Malvina, fora morta lá no exterior. Tinha
sido vendida novamente e não estava mais na Europa e sim na Ásia. Seu
corpo estava coberto de hematomas de tanto apanhar. Fora jogada num
lixo. Por acaso, dentro do seu bolso, estava o nome e endereço da mãe
aqui no nosso país. Seus assassinos não perceberam o tal papelzinho e os
policiais, que a encontraram, eram eficientes e prestativos, pois muitos
casos iguais a esse ficam somente como números em estatística. A família
da vítima nunca tem conhecimento do acontecido. Seu corpo foi
enterrado em vala rasa por lá mesmo, pois ninguém tinha dinheiro para
trazê-la nem nenhuma autoridade daqui se interessou pelo caso. Sua mãe
chorou muito, não se sabe se por sentimento ou pelo desencanto de
nunca mais vir o dinheiro imaginado.

Malvina sentiu muito a morte da amiga, lamentando principalmente


seu triste fim. Margarete também, pois nunca, em sua cabeça desmiolada,
quis essa tragédia para a moça.
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Conversando sobre este assunto na casa de “seu” Hugo, este lhe


disse que ela devia se preocupar muito com escravidão.

- Eu não vou ser convidada pra trabalhar como bailarina nas


“europas”, muito menos trabalhar em casa de mulher (prostíbulo).

- Mas tem outro tipo de escravidão: a de trabalho. Você é forte, tem


capacidade de aguentar qualquer tranco. Se for sequestrada, levam você,
deixam “cê” sem se comunicar e pronto. Se reclamar, apanha e muito.

- “Sô” acha?

- Acho. Um primo do Simão, aquele do lixão, que andou namorando


você, contou pra mim que ele morava com a mulher e filhos em lugar
muito pobre, mas muito pobre mesmo, e praticamente não tinha
emprego. Eles estavam passando fome há muito tempo, quando um
homem chegou lá oferecendo serviço em lugar de dinheiro. Ele topou na
hora. Quando chegou lá, puseram o coitado pra trabalhar o tempo inteiro.
Só parava pra dormir e comer, senão apanhava, apanhava. Dormia em
cima “duns papelão” ou debaixo de lonas em chão de terra. A higiene era
ruim, pior que animal. Os “homi” inventavam dívidas e mais dívidas pro
infeliz, que ele nunca conseguia pagar não. Aí chegou umas autoridades lá.
“Soltaram eles”. Ainda deram uns trocados e quiseram que eles voltassem
pra suas casas. Ele voltou. Passou o tempo e a miséria na sua cidade
continuava a mesma. Sua “muié” passando fome, seus filhos também.
Passa dia, passa dia e nada de tarefa nem dinheiro. Aí volta o tal homem,
que na boca do povo chamam de “gato”. Convidou o coitado de novo pra
ir ao lugar de dinheiro. Parece incrível, mas ele foi. Ele disse que não
aguentava mais olhar pra sua “muié” e seus meninos passando fome, e ele
ali sem poder fazer nada (a dignidade do ser humano). Voltou e não deu
outra: ficou escravo de novo. Teve sorte, que, por loteria do destino,
chegaram de novo autoridades e ele foi solto de novo. Aí veio parar aí no
lixão.

- Eu não sabia dessa história dele.

- Tem também escravidão em cidade. Principalmente se a pessoa


não tem documento, como muitos estrangeiros. Tem brasileiro pobre
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também. Cai na mão de gente ruim “da pesada” e tem que trabalhar igual
a escravo. Outros, essa gente má percebe que ele, ou ela, não tem família
ou coisa assim e bota também pro cativeiro. Eu sei disso porque o irmão
dela (apontava para a esposa) “tá” ajudando nisso lá na nossa igreja.
Desculpe falar, Malvina, mas você é quase assim. Por isso, se cuida,
menina. Eu e minha mulher sempre fazemos oração por você.

- “Brigada”.

Ela ficou pensando durante muito tempo nas palavras de “seu”


Hugo, pois viu que ele podia ter razão.

31

Entretanto as traições de Cipriano nunca acabaram e nunca


acabariam, pois ele precisava reverenciar seus pais, seu memorial de
infância. Qualquer mulher que via ou com quem convivia, ele tentava uma
paquera. Às vezes o casal estava numa reunião em harmonia. Como não
havia interesse de dinheiro nem de sexo, ele começava a se enfadar. O
interessante é que Maria Sílvia não percebia esse aspecto da
personalidade dele. De repente ele notava alguma mulher que poderia lhe
render algum lance sexual, fazia grosseria para a esposa, afastava-se dela
e ia à caça da tal fulana. Sempre sem nenhuma intenção de durabilidade
do caso. Depois voltava e, questionado pela esposa, mentia cinicamente
para ela.

Certa vez, uma amiga de infância da esposa, Anajá, veio morar de


volta àquela cidade, depois de ter casado e mudado com o marido. Os
dois se separaram e ela ficou em situação financeira ruim, pior do que
antes. Maria Sílvia ficou abalada com as tristezas da amiga, dando-lhe
total solidariedade. O pior foi Anajá não ter tido vida profissional e ter de
viver com mesada provisória do ex-marido.

Por sorte sua, veio morar em casa herdada dos pais, podendo até
alugar um salão embaixo. Tudo não estaria mal, se ela não julgasse que
deveria ter muito mais, principalmente quando via a situação da amiga.
Cipriano implicou com ela, por ser separada e, portanto, em sua cabeça
preconceituosa, péssima para convívio com sua esposa. Ele imaginou que
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ela iria começar a falar mal do casamento, os homens iriam assediá-la...


não gostou daquilo. Porém sua mulher bateu o pé e continuou a amizade.

Num fim de semana prolongado, eles iam passear em casa


emprestada de amigos numa cidadezinha ali perto. Maria Sílvia insistiu em
levar a amiga. Durante os dias ali, o marido começou até a tratar Anajá
bem, chegando a muito bem. Inclusive a opinião de um era a do outro. Ela
ficou alegríssima, pois ele estava parando de azucriná-la e deixando a
amizade das duas fluir. Durante os dias ali, tudo parecia ir bem. Na última
noite, os três foram a uma pizzaria e beberam vinho. O dia tinha sido bem
cheio.

Quando voltaram, as duas disseram que iriam se recolher. O marido


falou que iria beber ainda mais vinho na sala, o que era comum. A esposa
subiu para seu quarto e a visita ficou no quarto de baixo. Quando Maria
Sílvia estava já pronta para dormir, lembrou-se de alguma coisa lá
embaixo e desceu. Foi quando viu o quarto da amiga com a porta aberta
escancarada e a luz acesa.

Ingênua, como sempre foi, imaginou que ela pudesse estar


precisando de alguma coisa. Entrou perguntando-lhe. Foi quando se
deparou com ela de calcinha, com o corpo nu, inclusive os peitos, deitada
na cama. A amiga, calmamente, meio desenxavida, disse que não
precisava de nada dela. Quando subiu, viu que ele já estava lá em cima,
dormindo. Como tinha bebido uma taça de vinho e os anjos lhe ajudaram,
ela dormiu tranquilamente essa noite. Ao acordar, recordou o episódio.
Nessa ocasião já não tinha aquela ingenuidade de outrora e já sabia que
bisca ele era.

- Você está assediando minha amiga de infância?

- Eu, eu não...

E voou...

A amiga ainda tentou, e tentou muito, se aproximar dele para


futuro encontro ou outra coisa que lhe passasse na cabeça. Ela dizia a si
própria que estava apaixonada, inclusive se desculpando pelo assédio ao
marido da amiga sincera. Porém ele escapava igual piaba. Cipriano não
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queria ficar sem a esposa. Nesse caso, não era nem a cafajestada. Sua
intenção mesmo era separá-la da amiga. O ato sexual seria um brinde
somente.

No dia seguinte, regressaram à sua cidade. Maria Sílvia estava


decepcionada com a ingratidão da amiga, pois, no marido, há muito
tempo, não tinha a mínima confiança. Então ela inventou dor de cabeça –
ela que nunca tinha dor de cabeça – e voltou calada. Na verdade, não
queria falar com nenhum dos dois. A amiga ainda tentou puxar assunto,
mas foi em vão. Ele falava alguma coisa banal, sempre se dirigindo
somente à esposa. Anajá tentou se aproximar, entretanto os dois
esfriaram totalmente. O pior foi perder a amizade e os benefícios da
amiga solidária. E também seus sonhos nababescos e adolescentes, apesar
de sua idade madura.

Ele conseguiu seu objetivo sórdido, infelizmente.

Este episódio foi mais uma gota d’água no esfriamento da esposa


em relação a ele. Ainda houve muitos outros.

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Um dia houve um sequestro e alguém, que morava perto do


barraco de Margarete, acoitou a vítima, que era rico e famoso. Entretanto
a polícia descobriu. Conseguiram prender os criminosos e a mídia deu
destaque até exagerado ao caso. Ficavam dias e dias falando sobre o
assunto. O principal aspecto enfocado era o horror do local em que o
infeliz ficou trancafiado: um barraco de madeira simples e rústico, com o
chão de terra, perigo de bichos e muita sujeira, fazendo suas necessidades
fisiológicas ali. Malvina ficou pensando que seu barraco sem janela e com
banheiro coletivo – só não eram moradoras de rua pelo seu trabalho no
lixão -, era igual. Inclusive havia uma lata, nem penico era, que elas
usavam para urina e dejeções, quando a fila do sanitário estava comprida.
Depois despejavam.

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Depois de muito pensar, Amada resolveu fazer Medicina. Não em


faculdade de categoria, mas naquela bem fácil de passar e de se formar.
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Além de cara e dispendiosa, é óbvio. Em outras palavras, praticamente


comprou o diploma. Apesar de não gostar de estudar, queria imitar a mãe
e ser importante e poderosa. Tornou-se médica com poucos
conhecimentos, consultório luxuosíssimo, status e prestígio.

Tinha umas tabelas, que copiou de colega playboy, inconsequente e


preguiçoso igual a ela, com os sintomas e medicamentos. Com base nessa
precariedade médica, irresponsavelmente soltava receitas. Quando o
assunto ficava um pouco complicado, mandava o paciente para um
professor seu. Este, apesar de saber da sua incapacidade profissional,
como lhe eram enviados clientes endinheirados, dizia considerá-la
competente...

Antes de se formar, num congresso, conheceu Josué. Ele fazia a


faculdade de medicina mais conceituada, tinha dinheiro e era loiro. Era
calmo, bondoso e dedicado. Talvez, sem perceber, ela queria alguém
parecido com sua mãe. Usou de todos os meios para ele ser seu
namorado, noivo e depois marido. Seu casamento foi deslumbrante.
Luxuosíssimo. Muito mais chique e caro do que sua festa de quinze anos.
Agradou sua sogra até conseguir a mansão da família, em um bairro
nobre, para morarem e o dinheiro necessário para as bodas. Depois de
casada, passou a tratá-la com desdém. Falsa... só se aproximava dela
quando lhe interessava, com voz e olhinhos doces, fingindo harmonia que
ela não pretendia nunca ter.

Pouco tempo depois, nasceu um menino. João, em memória de seu


avô materno, mas era a cara de Cipriano. Só que o bebê era clarinho e
loiro. A cor do bebê de Amada era todo o pai.

Josué, que conhecera o avô da criança mesmo antes de casar, achou


normal a criança parecer com o avó materno. Diferente de Uesley, que
não conhecia os ancentrais biológicos da mãe. Pipão, recém-nascido, e o
bebê eram iguais, com exceção da cor.

Apesar do avô não o ser, Joãozinho era muito bonito. Depois nasceu
uma menina, Mariana, agora em homenagem à família do pai. Ela nasceu
muito parecida com o pai e era linda. Como Amada era ciumenta e
possessiva, não deixava nenhuma das avós ficarem próximas de seus
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filhos. Sua mãe entendia. Tentava harmonizar o que podia e ficava com as
crianças tanto quanto lhe era possível, pois eram muitos seus afazeres,
pelo fato dela ser uma executiva ocupada. Entretanto a sogra não se
conformava e as duas, nora e sogra, vez por outra se desentendiam feio.
Sorte ter sempre a mãe e o marido para contemporizar. E tudo dava uma
abrandada: a sogra não queria ficar longe do filho e dos netos e Amada se
interessava muito pelo dinheiro dela.

Josué já vinha de família abastada e começou a carreira médica


baseado em estudos e investigações científicas. Como tinha dinheiro,
comprou aparelhagem moderníssima. Assim teve ascensão e credibilidade
muito grande. Com isso aumentou vertiginosamente sua situação
financeira. Dinheiro chama dinheiro. Porém ele colocava, em seu
consultório, estudiosos com a finalidade de descobertas de novas
pesquisas no domínio científico. Tempos mais tarde, seu trabalho médico
daria seu nome como o melhor em sua especialidade.

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Enquanto isso, Malvina nunca se casou. Uesley morreu assassinado.


Ela teve uns fulanos vagabundos encostados nela. Todos sem
relacionamento sério. Às vezes se metia em brigas com outras pessoas,
porém não era igual a Lelé, que era espetaculosa. Ela também não era
igual à pretensa mãe, que vivia quase constantemente bêbada ou
drogada. Entretanto, vez por outra, tomava umas cachaças, e,
esporadicamente, tinha umas bebedeiras enormes. Nessas ocasiões,
sempre dava surra em Lelé e depois vomitava. Em seguida, branca como
vela (vela branca natural, é óbvio), dormia a sono solto. A avó Margarete
nunca reclamou dos espancamentos e parecia até achar certo. No meio
que elas frequentavam, havia pessoas que bebiam muita cachaça. O
estranho era que, apesar de Malvina ter ficado muito maior e mais forte
que Lelé, sempre teve medo dela. Talvez por tantas surras que levou
durante a vida inteira, principalmente nos primeiros anos de sua vida.

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Amada vivia sempre em tensão. Tinha medo de sequestros de si


própria e dos filhos. Também de assalto ao seu carro maravilhoso e à sua
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casa glamourosa e emperiquetada. Uma coisa ela tinha de bom: apesar de


ter sempre babás de plantão, pois era preguiçosa, Amada era mãe
dedicada a seus filhos. Talvez imitasse Maria Sílvia, sempre carinhosa e
preocupada com seus descendentes. Não era igual à avó Kiki. Frequentava
reuniões sociais e era fútil, entretanto sempre preocupada com seus
pimpolhos e com sua família.

Vivia também às voltas com internet, computadores e celulares


moderníssimos, dos quais ela não desgrudava. Contas disso e daquilo.
Tinha mil senhas, que a descabelavam para guardá-las sem poderem ser
adentradas. O professor de educação física de sua academia lhe impunha
malhação rigorosa e exagerada, pois ela queria estar com corpo escultural.

Nunca estava relaxada, nem em casa. Além do pavor a criminosos,


precisava estar sempre charmosa e desejável para o marido. Sempre em
pose. Na sua cabeça, precisava também estar na última moda.
Preocupava-se muito se estava com roupas de última coleção e se tal
vestido ou tal sapato ainda estava na moda. Até com camisola se
importava. Dinheiro não lhe faltava, porém lhe pesava muito administrá-lo
e guardá-lo.

Ela cultivava um ciúme doentio pelo marido. Talvez por ver o pai
com traições durante sua vida inteira. Quando lhe diziam brincando, ou
não, que Josué era bonito, rico e médico famoso, ela ficava furiosa.
Dependendo da pessoa, procurava controlar-se ou fazia grosseria mesmo.

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Malvina tinha muito medo da violência que a cercava, pois era


monstruosa. Qualquer escorregão ou descuido, poderia haver torturas
horrorosas e até morte. Porém ela aprendeu a conviver com tudo isso e se
sair bem, pelo menos esperava. Desde pequenina, acostumou-se com a
violência amedrontadora.

Além disso, ela era livre, totalmente livre. Durante toda sua vida
levantou-se e foi dormir na hora que quis, comeu quando lhe dava fome e
trabalhava quando precisava. Sem compromisso com nada nem ninguém.
Nunca teve nada, a não ser uns trocados no bolso. Já houve ocasiões em
61

que foi furtada ou mesmo roubada, mas era tão pouco, que não deu nem
pra sentir. Em sua vida, não havia disciplina para nada.

Em seu barraco, no cortiço de Vila das Cruzes, tinha tão pouco, que,
se lhe tirassem, não ficava muito difícil repor.

Como ela nunca tinha tido família, família mesmo, esta não fazia
parte nem de sua vida, muito menos de seus objetivos. A figura masculina
não entrara na sua história. Ao contrário, passou longe, muitas vezes
associada à agressões ou abusos. Seus homens eram esporádicos. Nunca
ela se apaixonara por alguém perdidamente. Às vezes lhe dava
formigamento no corpo e na alma. Esse era o sintoma de estar
interessada em alguém. Então havia uns encontros, umas gentilezas a
mais. Nunca iam muito adiante, entretanto lhe bastavam para acalentar
sua vidinha. Verdade que não tinha ninguém seu, porém não tinha
também ninguém para preocupá-la. Havia se acostumado com aquilo.

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Margarete sabia que a pretensa neta e o bisneto não sairiam vivos


da cadeia. Como gostava muito de Malvina, ela deu uma de louca. Foi à
delegacia e contou a história que Malvina não era filha de Lelé e que seus
pais eram brancos, importantes e ricos. No começo, os policiais a acharam
uma velha maluca, entretanto um repórter que estava a procura de
notícias em dia parado, começou a escutá-la. Viu que sua história tinha
coerência.

Como era jovem e ambicioso, achou que devia investir no assunto.


Foi à maternidade e conseguiu localizar a verdadeira mãe. Descobriu que,
atualmente, ela era muito importante e que havia uma filha viva, nascida
também naquele dia. Pela internet, conseguiu as fotos necessárias. Uma
era o borrão da outra, porém tinham alguma coisa em comum. Colocou
no computador fotos das duas e ficou assombrado. Poderiam mesmo ser
irmãs, pois tinham as mesmas características. Deu-lhe até um frio na
espinha.

Com o material, foi ao escritório de Maria Sílvia, sendo impedido de


se aproximar de seu gabinete. Entretanto ele conseguiu contar a história
62

para a assessora dela. Pediu para ser levado à sua presença para mostrar-
lhe seu material. Ela não iria perder muito tempo. Quando a assessora
chegou a ela, meio sem-graça, a poderosa diretora parou e quis vê-lo.

Ela sempre teve a impressão de ter tido outra filha depois do parto
de Amada, apesar de todos acharem isso absurdo. Quando viu as provas,
principalmente a do computador, ficou balançada. Ao perceber, o
repórter logo lhe disse que poderiam fazer exame de DNA discretamente.
Pegou o telefone do jovem jornalista com o dizer lacônico de “vou
pensar!”.

Nessa mesma tarde, ela telefonou para o rapaz e combinou que


faria o exame de sangue. Ele prometeu conseguir o material genético da
presidiária sem ser percebido. Então deu propina alta – dinheiro
adiantado pela suposta mãe - para um carcereiro, que lhe prometeu
silêncio absoluto.

Malvina estava confinada em uma cela da delegacia entupida de


mulheres. Ali aconteciam todas as atrocidades possíveis. Ela nem dormia,
com medo de Lazinha. Estava um caco. O carcereiro a tirou aos
solavancos, enquanto ela se estrebuchava. Imaginava que ia lhe acontecer
algo pior ainda. Para sua surpresa, apareceu-lhe uma enfermeira toda
limpa e com roupas branquíssimas. Ainda, com muita educação, falou que
ia lhe colher o sangue, estendendo-lhe material esterilizado. Ela nunca
havia visto uma cena daquelas. Ficou boquiaberta. Nisso o material foi
retirado.

Logo, logo, saiu o resultado: a presidiária era mesmo filha de Maria


Sílvia.

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Quando soube, o jovem jornalista pensou ter tido a sorte grande: a


matéria seria noticiada no país inteiro e também no exterior, pois a
posição da mãe era de enorme notoriedade. Porém Maria Sílvia
imediatamente fez contatos que neutralizaram a ação do repórter.
Chamou-o, deu-lhe uma quantia em dinheiro muito boa e agradeceu-lhe
63

pela notícia. Mesmo com o dinheiro na mão, ele ficou decepcionado. A


parte profissional é sempre mais importante que a financeira.

Então a nossa executiva contratou um escritório de advocacia de


alto gabarito para resolver o assunto com muita discrição.

O mesmo carcereiro veio de novo buscar Malvina. Já só a retirou


pelo braço fortemente. As outras presidiárias começaram a fazer
brincadeiras, dizendo que o tal tinha gostado de fazer sexo com ela. Ele
lhe acalmou falando manso que nada de mal ia lhe acontecer. Ela foi já
com menos medo, porém muito assustada.

Em uma sala do presídio, um senhor distinto e elegante lhe disse ser


agora seu advogado. Ela ficou ainda mais assustada. Então o causídico lhe
adiantou que naquele mesmo dia, ela já sairia da cadeia.

- Ela precisa de banho, tratamento no visual e roupas para se


apresentar à frente da madame. Toma aqui esta quantia para ela sair
daqui como gente.

Todos riram. Foi quando ela tomou coragem:

- E Pipão? Ele é “de menor”. Não está aqui não, mas está jurado de
morte. Além do mais, o “homi” que ele furou era importante. Estão
fazendo pressão e muita.

- Eu entrei com Habeas Corpus para você. O caso dele é tentativa de


latrocínio, mais complicado. Tomei já as providências para você sair hoje,
no máximo amanhã, do sistema prisional. Seu filho vai ficar ainda mais,
mas não se preocupe. Já providenciei para ele ser colocado em cela
tranquila, sem perigo algum. Se vocês tivessem ganhado na loteria, não
seria tão bom.

E dirigindo-se para o assessor, deu-lhe ordens para que, quando ele


saísse, tivesse boa aparência.

Ela estava atônita, nem pensar, pensava. Foi quando lhe apareceu
uma senhora de olhos bons e as duas se encaminharam a outra sala. Sem
saber o porquê, ela já foi mais calma. Mesmo assim, atônita.
64

Então Lucy, que era psicóloga, e a acompanharia daí em diante,


começou a conversar calmamente com ela. Ela soube que Lelé a roubou
de mulher rica, e que agora queria resgatá-la como filha. Levou um susto
tão grande que ficou parada, sem falar. Então lhe deram água mineral e
calmante. Aos poucos, bem aos poucos, ela foi se mexendo e entendendo.
Depois de quatro horas de conversa, ela foi levada para tomar banho com
xampu, creme para o cabelo e para o corpo, e até água de cheiro. Depois
lhe foram dadas roupas simples, mas novas, além das íntimas, como
calcinhas e sutiãs, e de dormir, às quais ela não estava acostumada, pois
não tinha acesso a isso. Malvina estava entre perplexa e revoltada.
Depois, saiu da prisão, mesmo antes da hora oficial, e foi levada a um
hotel mais ou menos. Para ela, chiquérrimo. Ninguém, no escritório de
advocacia, quis abrigá-la em sua casa por medo.

No tal hotel, tomou lanche com frutas, como maçã e uvas, que ela
não estava acostumada. Além de refrigerante e sanduíche de marca
famosa. Como não dormia há dias, ela teve um sono de muitas horas,
entre sonhos e pesadelos.

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Naquela manhã, Maria Sílvia estava ansiosa para ver a outra filha.
Foi avisada da aparência dela. Enquanto Amada usou os bons cremes e
protetores solares, Malvina, recém-nascida, ficou exposta ao sol o dia
inteiro como mendiga, sem proteção nenhuma. Durante a vida, nunca
usou hidratantes ou produtos semelhantes. A alimentação de uma era da
melhor qualidade, da outra, da pior. Além da prevenção da assistência
médica da primeira e a total abstenção da outra, mesmo quando
necessária.

A aparência de Malvina era muito mais envelhecida. Triste mesmo.


Tinha os cabelos espetados, que nunca viram creme, muito mal cortados
por ela própria ou por Margarete, que não se preocupava, pois em sua
cabeça, “ela não ia mesmo ser puta, ia só pro lixão”. A pele era cheia de
pereba, manchada, com aspecto quase nojento. Além do aleijão, apesar
de pequeno, ela andava de um jeito diferente para disfarçá-lo. Nisso,
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ficava um pouco estranha. Era também mais baixa. Além de ser barriguda,
pois, desde pequena, sempre carregou muito peso.

Amada tinha os cabelos bem cortados em cabeleireiro renomado,


amaciados com produtos importados. Os melhores do mundo. Seus
cachos eram deslumbrantes. Sua pele era uma seda. Lisinha, sem
manchas. Seu corpo era bonito, porém ela o ajudava em atividades físicas
mil. Apesar do exagero, era considerada lindíssima. Talvez fosse
produzidíssima.

Quando Malvina chegou lá, nem imaginou que ali era a casa de seus
pais. Era um sobrado grande e com classe, porém não chegava a ser
mansão. Entretanto, para seus padrões, ela nunca havia visto uma casa
assim tão bonita, tão chique e tão cinematográfica, inclusive porque
nunca tinha ido a cinema. Nunca imaginou que uma família morasse em
lugar tão maravilhoso como esse. Ela foi colocada na garagem, entretanto
sentou no chão, pois não teve coragem de usar a cadeira que lá estava.
Ficou num cantinho.

Escutou os gritos de uma jovem, falando grosserias. Pela porta


entreaberta, viu sair uma moça loira lindíssima que não a viu e entrou
num carro, saindo em disparada. Ela a imaginou uma artista. Olhando o
móvel dali com várias fotografias em cima, reconheceu a tal lindona. Nem
lhe passou pela cabeça ser ela sua irmã gêmea. Achou estranho ter foto
de criança igual à Pipão bebê, que, em vez de moreno, era loiro.

Escutou a conversa entre os tais homens, que a trouxeram, e a


madame. Falavam que Pipão era o autor dos ferimentos em um tal fulano.
A senhora disse-lhes que não haveria problemas, pois ela o convenceria a
inocentar o neto. Malvina não entendia nada. Depois é que ficou sabendo
que o homem importante em quem seu filho havia dado a facada, e que
estava na UTI de hospital de luxo, era seu pai biológico. Ficou tão
atordoada que ficou sem cor. A mãe disse que iria beber um copo de água
lá dentro, pois eram muitas emoções juntas. Levaram a jovem à sala
principal.

Algum tempo depois, surgiu-lhe Maria Sílvia. Esta estava vestida


com simplicidade, se compararmos com suas roupas usuais, porém
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Malvina a achou uma deusa, uma figura inatingível. A mãe também teve
um susto, apesar de ter sido alertada sobre o péssimo estado da moça.
Entretanto, como era boa e altruísta, dirigiu-se à moça com carinho:

- Filha, dá-me um abraço. Vamos resgatar o tempo perdido.

Ela ficou parada. Quando sentiu as mãos da madame, afastou-se,


pois tinha medo de lhe sujar, apesar de ter tomado banho antes de vir. A
psicóloga Lucy interveio, explicando-lhe a situação. Ficaram ali sentadas. A
mãe tentando, inutilmente, se comunicar-se com a filha, e esta
respondendo por monossílabos, com uma vergonha enorme.

Foi quando surgiu na sala Duruca.

- Quero ver a gêmea da arrogante Amada.

Desnecessário dizer que as duas irmãs se detestavam. Primeiro


porque uma era o oposto da outra e, depois, porque, naquela casa, se
acostumaram com discórdias.

- Aqui está Duruca, sua irmã mais nova.

Ela ria às gargalhadas.

- Não posso perder de ver a cara da Amada quando olhar isto.

- Duruca, modos! Ela é sua irmã e sofreu muito por não ter tido
aquilo que vocês duas tiveram demais e pouco deram importância.

- Aquela incompetente! Nem para ficar sozinha numa barriga deu


conta, e nós não vamos ter que dividir a herança. Ela que divida a parte
dela (enfatizando a palavra dela). A Amada podia estar assim. É só tirar
aquela empáfia que sobra isso. Apesar de tudo, para mim, ganhei o dia
imaginando a cara da Amada. Isso é piada!

- Encerra, Duruca!

A jovem saiu rindo muito, muito mesmo.

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67

Kiki ficou sabendo do caso Malvina. Horripilou-se, horrorizou-se...


mas não pelo que a moça tivera de passar. Ela negava-se a considerá-la
“de Toledo”.

- Mamãe, ela é uma Toledo.

- Deixou de ser quando foi trabalhar no lixão! Uma nobre não é do


lixão!

- Mamãe, você não pensa em quanto ela sofreu? Você pode gostar
ou não, mas ela tem o sangue dos Toledo nas veias.

- Maria Sílvia, você tem o prazer de me azucrinar, de me aborrecer o


máximo possível!

A intolerância era tão irracional que se tornava cômica. Como são os


preconceitos.

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Duruca não fez faculdade, foi para a área do comércio. Conseguia


ganhar dinheiro. A mãe ajudou muito no começo, porém ela fez o negócio
andar e render-lhe dinheiro. Sim, porque ela precisava sempre de muito
dinheiro. Bebia, mas não muito, e usava drogas. Nada que fosse uma
tragédia. Jogar, jogava muito. Entretanto tudo isso não a deixava uma
pessoa malvista. Verdade é que a mãe estava sempre por trás para evitar
o pior.

Ela já estava no fim do terceiro relacionamento. Em todos, deixava-


se abusar e adotava a família do companheiro como sua. Como não
gostava da sua, procurava substitutas e sempre se dava mal. Se a família
da própria pessoa muitas vezes é motivo de tristezas, angústias e abusos,
mais difícil a dos outros a lhe dar harmonia e equilíbrio.

Esse último relacionamento era com uma pessoa que tinha até
curso superior, porém trabalhar, trabalhar, não trabalhava não. Vivia em
academia de artes marciais, à qual ele e os seus familiares davam
importância exagerada. Ela pagava tudo para o companheiro, para os pais
dele e até para a cunhada. Eles, que antes andavam de ônibus fuleiro,
passaram a andar só de avião e chegavam a fazer viagens internacionais,
68

além dos carros, joias e roupas de grife. O interessante é o fato de que ela
não dava nada, ou quase nada, para seus familiares. A disparidade era
absurda. E não era só material. Era emocional, social, enfim, em tudo.

Criticava seus pais muito, mesmo sem motivos. Já os parentes do


companheiro, que eram incultos e atrasadões, enfim, o inverso, a eles ela
dava sempre razão. Por mais estapafúrdio que fosse o que diziam, ela não
retrucava, calando-se ou dando razão a eles, se chamada. Parece até que
o tal a traía. Uma vez, Maria Sílvia disse para a filha que o marido de uma
parente estava reclamando do assédio de seu companheiro em cima de
sua esposa. Ela nem pestanejou, dizendo que o marido da outra devia
fazer por merecer para segurar a mulher, pois o seu homem era gostoso
mesmo. A mãe ficou abismada.

O pai a considerava uma ingrata, principalmente por gastar com os


outros e não com ele. Já Maria Sílvia se preocupava muito com o futuro
dela. O pior é que sabia não poder fazer nada. Ela não tinha uma
previdência para possíveis dias ruins. Quando herdasse dos pais, os outros
a enganariam facilmente. A única coisa que fazia era muita oração por ela,
pois nem conselho podia dar. As famílias substitutas com quem ela se
metia, afastavam-na cada dia mais.

A verdade é que Duruca também queria distância da sua própria


família e ficava refém das pessoas de que ela se aproximava. Um dia ela
disse aos pais que nunca os quis em sua casa, nem visitando nem só
entrando e saindo. Poderia se dizer que foi uma frase mal dita, porém os
fatos mostravam que isso era verdade. Esse foi um dia muito triste
principalmente para a mãe.

Numa noite, conheceu outro rapaz, que seria o quarto companheiro


em sua vida. Companheiro, na acepção da palavra, nunca teve. O que teve
foram trastes a lhe explorar. Na primeira noite, fez sexo oral e anal. Uma
amiga sua, que tinha jeito despachadão e falava muito palavrão, mas que
não se dava mal em relacionamentos, disse-lhe, com palavras de baixo
calão, mais ou menos isso:
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- Pombas! Na primeira vez que você deita com o cara, ele goza na
tua boca e ainda você dá o rabo para ele. Não vai dar outra: igual aos
outros, ele vai te escangalhar!

Desta forma Duruca fazia com que o outro não precisasse lutar por
ela. Os dois princípios que regem o ser humano são a preservação da
espécie, que é o sexo, e a preservação do ser humano. Por este, desde a
época de nossos ancestrais, o ser humano tem a necessidade de lutar. Nos
primórdios, o combate era para se preservar, entretanto, até em nossos
dias, ainda há a vontade do enfrentamento, de ganhar a batalha. Duruca
se esfrangalhava para conseguir ficar com seus companheiros, porém eles
não. Era só deitar na rede e ficar por lá. Ela era tão fácil, que eles se
cansavam, abusando, traindo, etc., etc. e tal, pois não precisavam lutar
por ela.

Tinha carência do pai e a sua autoestima era muito baixa. Engraçado


que Duruca se ofendeu com a amiga. Disse inclusive que ela foi grossa e
agourenta. Todos sabiam que, se houvesse um próximo relacionamento,
seria igual ou pior: Duruca seria abusada emocional e financeiramente,
ficaria como escrava da família do companheiro e seria traída, como
infelizmente sempre foi.

A mãe continuava a lhe dar apoio irrestrito, inclusive lhe pagando a


assistência médica e perdoando seus impropérios. Isso a prejudicava ainda
mais, pois indiretamente contribuía para os abusos da filha em relação a
ela.

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Aconselhada pela psicóloga Lucy, Maria Sílvia levou a nova filha –


Amada só comprava em loja de grife - a uma loja de departamento. O
salto de seu status devia ser brando. Ela não queria entrar no shopping,
pois recordava os seguranças bravos, tentando expulsá-la, com hostilidade
e, se não fosse esperta, com abusos sexuais. Com jeito, a mãe conseguiu
fazê-la entrar. Então lhe foi perguntado o que ela queria comprar. Ela,
atônita, ficou sem responder.
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Maria Sílvia começou a ver o que ela precisava, perguntava seu


gosto e ia colocando em uma cesta. Diante da venda polpuda, a loja
colocou uma vendedora exclusivamente para ajudá-las, que,, de início,
perguntou se aquilo era para sua empregada. Infelizmente esta pergunta
seria repetida muitas vezes em razão da nova condição dela. Malvina não
queria experimentar as coisas, pois tinha medo. A funcionária, quando
ficava sozinha com ela, ria dela e a humilhava. Apesar de conturbada, a
compra terminou. Um funcionário da loja foi até o carro levar o que
haviam adquirido, pois era tanta coisa, que elas não conseguiam carregar.

Foram compradas roupas íntimas, sapatos, sandálias, bolsas,


carteira para dinheiro, tênis, meias de todo jeito, blusas, camisetas, short,
saias, calças compridas jeans e de tecido, vestidos simples e outros mais
arrumadinhos, agasalhos, camisolas e pijamas, enfim, tudo de que a
pessoa precisa. Havia coisas que ela nem sabia como usar. Logo pensou
em mostrar para Margarete. Também ria ao imaginar a cara de Lelé.

Quando voltaram e a jovem ficou sozinha com as roupas, a euforia


lhe tomou conta. Foi um dos melhores momentos dessa etapa. Entretanto
sentia medo de alguém vir lhe tomar tudo e ainda a acusar de furto. Ao
dormir, teve pesadelos com esse temor.

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A mãe logo providenciou para Malvina passar por exame médico


minucioso, mesmo antes de saírem os documentos e ela ser incluída no
seu plano de saúde. Os resultados foram alarmantes.

Ela nunca havia tomado água filtrada nem potável. Por isso, estava
cheia de vermes. Suas taxas de sangue estavam alteradas.

Tiveram então a ideia de levá-la à nutricionista. Ela foi. Só que a


nutricionista falava, falava e Malvina não conseguia entender realmente o
que a profissional queria lhe passar. Seus valores eram tão diferentes, que
não lhe faziam sentido. Aveia e granola, ela nunca tinha ouvido falar.
Algumas verduras e legumes também não. Até umas frutas não lhe eram
conhecidas. Quando ela lhe falou em gordura trans, ficou claro que elas
não falavam a mesma língua.
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Sobre o aleijão, foi-lhe indicado o melhor ortopedista, que


recomendou uma cirurgia moderníssima e caríssima, feita com sucesso. O
convênio da mãe não pagou. Já no começo do pós-operatório, Malvina
dava problema, pois tinha de permanecer muitos dias sem se mexer, e sua
indisciplina não a ajudava. A mãe fez de tudo para distraí-la, entretanto
não adiantou. Teve de voltar duas vezes ao médico, que felizmente teve
muita boa vontade, e continuava otimista sobre a recuperação.

Depois lhe foi indicada fisioterapia. Malvina não conseguia uni-la


com o fato da operação dar certo. Achava isso maluquice. Não colaborava
em nada, pois não acreditava que, o que ela considerava bobagem, fosse
lhe servir para melhorar seu problema na perna. Apesar da insistência e
dos cuidados da mãe, ficou ainda com uma pequena sequela, em virtude
da sua teimosia e indisciplina.

Também a matricularam em uma academia de ginástica. Esteira, ela


achou bestagem, além de enfadonha. Quanto à musculação, a mãe
colocou seu personal trainer para ajudá-la. Como este lhe dava muita
atenção, ela se pôs a achar que estava pintando romance entre os dois e
seu entusiasmo ficou exagerado. Maria Sílvia então, discretamente,
insinuou ao rapaz que lhe falasse de sua namorada, devendo deixar bem
claro que aquilo era somente profissional. Ele era pobre e esse trabalho
lhe era de grande ajuda financeira, além de não estar nada interessado em
Malvina. Até se envergonhava de se imaginar com ela.

Quando tudo esfriou e ficou só a musculação, ela se desinteressou


totalmente, também a tendo como asneira que não servia para nada. A
mãe ainda lhe disse para notar como Amada tinha o corpo bonito, por
causa da malhação. Ela não aceitou esse argumento, pois considerava a
irmã gêmea tão diferente e tão distante. Quem gostou da desistência foi
Amada, que tinha vergonha dela. Nem a olhava e detestava se alguém
perguntasse sobre esse assunto.

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Quando foram ao cabeleireiro, a mãe imaginou que ali não haveria


problemas. Ao analisarem seu cabelo, foi-lhe recomendado corte e alguns
procedimentos para melhorar o visual. Como eram necessárias algumas
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horas, ela não gostou. Para piorar, com exceção da proprietária do salão,
que queria agradar a mãe e tê-la como cliente, os outros funcionários se
esquivavam de atendê-la, além de rirem e ridicularizarem-na. Sempre
longe da mãe. Enquanto todos se acotovelavam para ter a honra de
atender Amada, que os desprezava, sentiam-se inferiorizados de atender
Malvina, apesar de ela procurar agradá-los no que podia.

A mãe a levou ao dermatologista. Ela nem sabia o que era isso.


Nunca tinha ouvido falar. Depois de examinar sua pele e seu cabelo, o
profissional lhe receitou uns cremes dermatológicos e uns para seu
cabelo. Ela gostou muito da ideia, entretanto achou tudo muito caro e
complicado. Perguntou se não podiam comprar um creme barato no
supermercado, imaginando ela que teria o mesmo efeito. Como os
produtos tinham horário, fácil se adivinhar que não deu o resultado
desejado. Apesar do médico ter advertido que certos aspectos já eram
irreversíveis, sua pele e seu cabelo melhoraram muito. Nem parecia
aquela Malvina de outrora.

No dentista foi difícil, porém, depois de alguns percalços, conseguiu-


se o mínimo necessário. Facilitou o fato de já haver a experiência em
outras áreas, e de Maria Sílvia não querer muito.

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Maria Sílvia achava o nome de Malvina feio, entretanto a psicóloga


Lucy a aconselhou a não fazer a modificação. Então teve a ideia de lhe
colocar o apelido de Vivi. Porém este não pegou, pois ela não tinha cara
de Vivi. Curioso é que Mau-mau fedida pegou com uma intensidade
tamanha que, em Vila das Cruzes, todos a conheciam assim.

A nova participante da família detestava sentar-se à mesa com os


outros. A mãe tentava lhe mostrar bons modos e etiqueta, porém isso era
em vão. Mesmo argumentando que não se pode comer de boca aberta,
pois as pessoas à sua frente ficariam enojadas, e de que se deve comer
com talheres para não sujar as mãos e contaminar os alimentos, nada
disso lhe entrava nos miolos. Na frente de Maria Sílvia, como ela já lhe
tinha amor, fazia o possível para não decepcioná-la, comendo o melhor
que conseguia socialmente. Depois de muitas tentativas com vexames, a
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mãe se conformou dela comer na cozinha, quando quisesse. Ali ela ficava
como gostava: sentada no chão e se alimentando com as mãos. Quem não
gostou foi sua empregada de décadas. Ela já havia assimilado certos
modos da patroa. Comia em mesinha e tinha nojo da filha resgatada,
inclusive se achava muito superior, Só não debochava dela, pois tinha
muito afeto à patroa. Resolveu não ficar lá enquanto ela comia, ou se
alimentar de costas.

Com tudo isso, Malvina não se sentia bem naquele meio e tinha
saudades de seu barraco na Vila das Cruzes. Principalmente da avó
Margarete, que vinha frequentemente visitá-la. Ao chegar, queria comer o
máximo que conseguia e levar dinheiro. A jovem pegava quase tudo que
tinha e dava a ela. Por medida de segurança, ela só podia ficar na área
externa da casa. Apesar de ter sido atitude humilhante, nenhuma delas se
ofendeu. Estavam tão acostumadas ao rebaixamento moral que isso lhes
pareceu normal.

Lelé foi proibida de chegar perto. Seu crime não foi denunciado,
porém, como o advogado do caso a ameaçou, ela acatou a proibição por
medo.

Maria Sílvia se incomodava muito do amor da filha à pretensa avó.


Um dia ela viu as duas em abraço apertado, no qual Malvina se entregava
totalmente, coisa que não acontecia quando elas se abraçavam. Ela
tentava dar o máximo que podia, pois via o quanto a sua mãe biológica lhe
dava, principalmente em apoio e carinho. Entretanto a sentia longe e
tinha a sensação estranha de distância entre pessoas iguais a ela. Sempre
houve, durante sua vida inteira, diferença enorme entre seus mundos.
Não conseguia a naturalidade que tinha com Margarete, da qual ela teve a
presença desde bebê. Quando percebia que tirava dela, sua mãe
verdadeira, e que estava lhe dando todo amor, para dar à outra, ficava
muito frustrada e aborrecida. E isso nunca teria solução.

46

Numa tarde, Glorinha, amiga de Maria Sílvia, foi visitá-la. Ela


ocupava alto cargo no governo. O motivo era “pra jogar conversa fora”
entre as duas. No meio do bate-papo, a outra começou a desabafar sobre
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o seu serviço com o trabalho escravo. Casualmente Malvina estava pelo


jardim e começou a prestar atenção no que a tal falava. Então foi se
achegando à sala para escutar melhor. Aquelas histórias, que “seu” Hugo,
de Vila das Cruzes, havia lhe contado, ficaram em sua cabeça.

Então Glorinha expôs que o trabalho escravo estava aumentando


assustadoramente, tanto no campo quanto na cidade. O que ela mais se
espantava é que, até o século passado, o cativeiro era assim: dois países
lutavam entre si, o ganhador ficava dono do povo perdedor, tendo
pseudos direitos sobre sua labuta e até sobre a vida dos coitados; ou o
país superior belicamente sequestrava a população do outro, fazendo-os
escravos. Foi o que aconteceu com os negros da África que vieram para o
nosso país. Nunca eram seus compatriotas. Agora não, os poderosos
perversos submetem à escravidão de outras nacionalidades – o que não é
correto também -, entretanto eles, da mesma forma, sequestram seus
irmãos do mesmo país. E em todo mundo está acontecendo isso. Glorinha
considerava essa a pior atrocidade da nossa atualidade.

Quando viram Malvina prestando atenção, as duas se viraram para


ela. Malvina superou sua sensação de inferioridade e disse que já tinha
visto gente, lá em Vila das Cruzes, passando por este problema. O assunto
ainda fluiu.

Apesar de ela ter atrapalhado a conversa das duas amigas, Maria


Sílvia gostou do aparte da filha, sempre tão fora do noticiário, ou então
vendo-o de forma deturpada, só se preocupando com assuntos banais e
insignificantes.

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Malvina mal tinha aprendido a ler e assinar o seu nome em


instituição religiosa, entretanto estava aquém, e muito, do restante da
família e de sua nova posição. Maria Sílvia percebeu que seria inviável
colocá-la numa escola convencional, por isso contratou professora para
lhe ensinar português, algumas noções de matemática, além de
conhecimentos gerais.
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Depois de algumas aulas, a professora de português constatou a


dificuldade do projeto. Ela não se conformava com a conjugação dos
verbos. Por que devia dizer eu vou, nós vamos, e não eu vai, nóis vai, se se
fala ele/ela vai? Quanto à flexão das palavras em número, etc., ela
também não compreendia porque era necessário dizer dois copos e dois
reais, e não dois copo e dois real, porque todos entendiam que ali havia
duas coisas.

No seu meio, as pessoas falavam com a gramática deturpada.


Alguns conseguiam se instruir um pouco, entretanto continuavam com a
mesma linguagem para não serem tidos como pedantes e pernósticos.
Lelé então não usava nenhum adjetivo, eram só palavras de baixo calão:
era a ‘merda’ do remédio, era a ‘puta’ duma mulata ou duma galega, era a
‘porra’ do biscoito, e assim ia.... Em frase sua, raramente não proferia
palavrões e era comum haver dois ou mais.

Ela achava engraçado ver a mãe verdadeira escrevendo com


acentos e pontuação. Não entendia o porquê. Achava exagero dela. Dá
para imaginar a dificuldade da sua mestra em lhe passar esses
conhecimentos. Evidentemente nem lhe passou pela cabeça falar sobre
hífen, maiúscula ou exceções da gramática.

48

Entretanto houve uma coisa, na nova vida, com a qual ela se


encantou: conseguir a carteira de motorista para poder dirigir. A mãe
prometeu que lhe daria um carro popular usado, no começo, e depois de
um ano, lhe compraria um novinho. Ela raramente havia subido em um
carro, pois nem mesmo as lotações piratas a queriam para não
constranger os outros passageiros. Mesmo os pobres tinham medo de
roubo ou agressões. Havia também o preconceito deles.

Ficou sonhando chegar dirigindo o carro dela em Vila das Cruzes.


Seria a glória. Maria Sílvia percebeu o entusiasmo e tentou infiltrar nisso
alguns ensinamentos que lhe eram necessários, pelo menos a seu ver. Ela
passou no exame médico e psicotécnico, depois ela só se interessava pela
cartilha para a obtenção da carteira de motorista.
76

A sua mestra lhe ajudava em suas aulas e ela ficava horas na tal
cartilha. Aí havia espontaneidade. Para surpresa de todos, ela passou no
primeiro exame escrito, e, depois, pelas aulas práticas necessárias.
Também passou na chamada prova de direção. Todas ficaram surpresas
com o fato, principalmente suas irmãs, separadamente. Apesar de sua
mãe lhe dar mil parabéns, etc., etc., também ficou admirada.

49

Outra coisa na nova vida não foi difícil: as entrevistas com a


psicóloga Lucy, que atendia precariamente Pipão na cadeia. Os dois
gostavam, principalmente Malvina. Pipão só não concordava, e irritava-se
muito, quando ela insistia em fazê-lo desistir da droga, pois não conseguia
pensar na vida sem se drogar. Parece incrível, entretanto ele achava isso a
melhor coisa de seu mundo. Gostava muito de sexo, mas drogado. Talvez
porque a primeira vez que fez cópula, estivesse sob o efeito de
entorpecentes. Porém as outras partes da sessão de terapia lhe davam
alívio na alma.

Um dia, Maria Sílvia perguntou a Malvina por que, quando estava


no lixão, ela não participou de cooperativa de reciclagem de lixo, em vez
de se aventurar no lixão com mil perigos.

- Nessas coisas aí tem horário, tem de fazer desse jeito, daquele.


Além do mais, eles querem que “nóis faça” um número lá deles. É muito
complicado! No lixão “nóis é livre” pra ser do jeito de “nóis”.

A mãe não entendia seus motivos, aquela indisciplina exagerada.


Maria Sílvia sempre tão certinha, tão enquadrada – a mãe a exigiu assim –
acostumou-se tanto que até gostava da disciplina.

50

Pipão continuava preso, porém gozava de mordomias na cadeia.

Cipriano soube da história da filha resgatada. Ficou abismado,


entretanto não se emocionou. Em enfoque melhor, poderia se dizer que
se chateou. Só. Concordou em assinar que não reconhecia Pipão como seu
agressor. Afinal era seu neto e poderia até enlamear seu nome. Como ele
77

estava ainda na UTI, a diligência foi feita em um quarto do hospital, tendo


entrado somente o delegado, o escrivão e o prisioneiro. Todos
paramentados com roupa de hospital. Os guardas penitenciários e o
advogado ficaram fora para preservar a saúde do paciente.

O reconhecimento não foi completamente dentro da lei, porém, nos


autos do inquérito policial, tudo ficou certinho. Todos estavam satisfeitos.
Logo depois, Pipão estava na rua, com sua mãe e sua nova avó esperando
em carro de luxo. Seus outros companheiros continuaram a apodrecer no
cárcere. Quando tudo terminou, Cipriano ainda recriminou a esposa:

- Você nunca devia ter levado essa história desses dois marginais
adiante. Se eu não estivesse nesta cama de hospital...

- São nosso sangue.

- E daí?

Maria Sílvia nem lhe prestou atenção. Na verdade, nessa tragédia


sobre o furto da criança, Lelé foi a principal culpada, mas ele teve culpa
indireta.

Kiki ficou sabendo da opinião do genro e, apesar de detestá-lo,


concordou com ele. Quando conheceu Malvina, olhava-a de cima para
baixo. Para o filho dela também e nunca nem lhes deu a mão. Ainda
insuflava Amada à rejeição, que já era grande.

Diante de tudo isso, quando se regularizou o nome deles, nenhum


dos dois quis o “de Toledo”. Era a forma de retribuir as agressões da avó
materna. Kiki acharia ótimo e eles também. Maria Sílvia fez questão do
sobrenome de seu pai: Bordeaux. Acrescido do sobrenome do genitor
biológico.

51

Pipão não quis ficar na casa de Maria Sílvia de jeito nenhum.


Malvina, muito alegre de estar perto dele novamente, ainda tentou
argumentar com ele. Contou-lhe do carro. Nada adiantou. Ele era drogado
e isso não ia combinar com a casa da avó legítima. Teve até bom senso
nisso. As drogas combinavam com a bagunça do barraco de Vila das
78

Cruzes. Interessante se observar que entre o luxo, a fartura de comida e a


mordomia, ele preferiu o vício da droga.

O jovem neto gostou da avó biológica. E muito. Sentiu todo o


sentimento de amor dela em relação a ele. Sentiu também que ela fazia
de tudo para o bem dele. Gostava da avó Margarete, entretanto, pelas
mordomias, como adolescente, muito consumista, ia mais para o lado da
avó biológica, que percebeu a preferência e achou bom. Porém o vício da
droga e o seu jeito contrário aos padrões legais e morais a incomodavam
muito. Muito mesmo.

Aconselhada pela psicóloga Lucy, Maria Sílvia alugou um pequeno


apartamento, perto de sua casa, para Pipão. Malvina resolveu
imediatamente ir morar com o filho. Ainda pediu para Margarete poder ir
também. Esse pedido magoou demais sua mãe legítima, que se sentia
incomodada com a presença e o amor que ela dava à falsa avó. Por mais
que a psicóloga Lucy lhe explicasse, os ciúmes continuavam. Margarete
ainda tentou se aproximar dela, porém foi logo rechaçada. A verdade é
que ela não suportava ver a filha resgatada abraçando a avó, que afinal a
criou, ainda que aos trancos e barrancos, dando-lhe amor, do jeito dela,
mas era sentimento positivo.

Com muita tristeza e dor no coração, concordou, mas fez duas


exigências. Uma era não ser admitida a presença de Lelé, fato esse que
nenhuma das duas queria, nem mesmo Pipão. A outra exigência era o
apartamento não ser frequentado pelos moradores da Vila das Cruzes,
nem por gente do tráfico de drogas. Apesar de os dois pedidos serem
abusivos, eram necessários para o convívio deles no prédio. E lá foram
eles.

Como não sabia muito bem o que estava para acontecer diante
dessa mudança tão brusca na vida da filha, ela lhe comprou para o
apartamento somente as coisas essenciais. Eles estavam tão
deslumbrados que não cabiam em si de contentamento.

Entretanto não demorou muito para começar a dar problema com


os outros moradores. Eles não estavam acostumados a limites e regras.
Nem as entendiam. Achavam tudo bobagem, besteira. Começaram a
79

achar a síndica e o porteiro uns chatos e aborrecidos. Além de Pipão, que


vez por outra era flagrado drogado.

Malvina não se sentia bem na nova vida, pois não estava integrada
nela. As pessoas não eram iguais a ela, e, por sua vez, ela também não
parecia semelhante àquele meio. Tinha muitas saudades de Vila das
Cruzes. Lá sentia que fazia parte daquela comunidade, entretanto não
gostava de recordar a miséria, a insegurança e as ameaças no ar.

Por outro lado, gostava de se saber filha da doutora Maria Sílvia de


Toledo Bourdeux de Lima e do outro doutor. Da proteção dela, dos
documentos que ela arrumou e de toda a situação de segurança. Não
queria mais ficar sem isso.

Na sua cabecinha, imaginava que as coisas iriam melhorar e ela ia


conseguir juntar o mundo de Maria Sílvia e Vila das Cruzes. Mal sabia que
dificilmente isso poderia acontecer. Esses dois universos não se
conhecem, não se gostam, chegando a casos de ódios entre si. A maioria
em ambos os lados faz questão de nem perto chegarem. Porém o difícil
não é impossível.

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Cipriano só piorava. Teve até ocasiões de alguma melhora, porém,


no geral, seu estado clínico se debilitava lentamente e com muitas dores.

Entretanto Maria Sílvia se deparou com um problema esdrúxulo. Ela


mesma estava toda consternada. Até triste de ver o sofrimento do marido.
Num período de melhora, ele foi para o apartamento e a esposa colocou
para atendê-lo uma cuidadora de nome Keity. Era uma jovem de
dezessete anos, que acabara de entrar na faculdade e que estava
desempregada, precisando de dinheiro. Tia Assunção, quando soube,
alertou a sobrinha:

- Seu marido é mulherengo. Vai acabar paquerando a fulana.

- Tia, ele está de fraldas, e a moça é menor de idade. Tem dezessete


anos... Não exagere!
80

Assunção se calou. Não é que, numa tarde, sua assessora lhe disse
que a prima da cuidadora queria lhe falar. Ela atendeu pensando ser um
problema de acerto de pagamento. E pasmem: a tal prima lhe disse que
seu marido estava assediando moral e sexualmente Keity. Acrescentando
que tinham um vídeo gravado pela adolescente com ele apalpando a
moça e ela bolinando as partes genitais do acamado. Segundo a prima, ele
induziu uma menor de idade a praticar atos libidinosos.

- A senhora quer ver o vídeo?

- Não, com certeza não!

Imaginem a cena: Cipriano, de fraldas, de safadezas com ninfeta


gananciosa...

Elas queriam o ressarcimento financeiro e ameaçaram colocar o


vídeo na internet. Todo o episódio mostrava que a jovenzinha fez tudo de
caso pensado.

Maria Sílvia falou para ela voltar em outro dia, pois estava chocada
e iria pensar. Então conversou com seu colega advogado, que estaria mais
capacitado nesse caso. Foi aí que soube: o homem, quando fica idoso e
doente, debilitado, não tem condições de fazer o sexo normal, com
penetração, e fica só bolinando... É quando pessoas desonestas se
aproveitam da situação e, para ganhar dinheiro, gravam, ameaçam e, às
vezes, conseguem seu objetivo sórdido. O gravado não está certo? e
aquela que gravou também não?

O amigo advogado entrou em contato com a moçoila e sua prima.


Soube que queriam uma quantia bem minguada. Eram tão desprovidas,
que nem sabiam cobrar. O causídico achou melhor pagar e encerrar o
caso.

Mais um fato para decepcionar-se com esse homem que havia sido
o amor de sua vida.

53

Nesse período de doença do marido, Maria Sílvia teve apoio do


amigo de infância, Cristóvão. Sempre gentil e respeitoso, passava para ver
81

Cipriano, e consolava muito Maria Sílvia, dando-lhe todo apoio. Amada e


Duruca estavam ocupadas em seus universos, enquanto Malvina mal sabia
que ele existia.

No episódio do encontro da filha perdida, também foi Cristóvão


quem escutou as incertezas de Maria Sílvia, com as aflições e os
problemas do assunto.

54

Maria Sílvia comprou o carro usado, como havia sido combinado,


para Malvina. Ela ficou eufórica. Já com a carteira de habilitação e os
documentos necessários, andou treinando em volta do apartamento e
chegou a pegar avenida de trânsito. Quando estava se achando
capacitada, pero no mucho, para onde ela ia querer ir? Por sua lógica, para
Vila das Cruzes. Pegou a avó Margarete e o filho Pipão, e lá se foram
mostrar o automóvel para seus antigos companheiros. Resolveu ir
domingo pela manhã, pois o trânsito era menos intenso. Quando
chegaram, houve até tumulto em frente ao antigo barraco delas, e que
agora só era habitado por Lelé. Esta, quando os viu, começou a se
embriagar.

Os moradores de lá entravam e saíam do carro, subiam no capô e


mexiam nos botões. Normalmente uma pessoa não deixaria alguém tratar
o automóvel como se fosse brinquedo barato, entretanto eles estavam
eufóricos pelo carro. O importante era exibi-lo.

Nem almoçar quiseram, pois Lelé não tinha nada para comer.
Também eles nem fome tinham. “Seu” Hugo apareceu com sua esposa e
esta os convidou para fazerem uma refeição, porém eles não aceitaram.
Ainda Malvina entrou um pouco na casa deles para papear.

Quando voltaram, Malvina sentiu uma sensação desagradável.


Parece que agora aquele não era mais seu mundo, como o sentia
anteriormente. Também o de Maria Sílvia não era seu. Dias depois,
quando comentou com o filho, ele lhe disse que também estava ficando
distante de Vila das Cruzes.
82

Os dois continuavam com as aulas de português. Também com as


sessões com a psicóloga Lucy e gostavam muito. Esta estava com
esperança quanto à melhora das drogas do adolescente. Pipão evoluiu
para assistir aula no supletivo e de informática. Parece que não tinha tanta
necessidade da droga.

Agora já não era mais Pipão e sim Philis Bordeaux de Lima. O nome
era feminino, entretanto, por ser muito diferente, ninguém nunca
percebeu. Na hora da inclusão do sobrenome, Maria Sílvia entrou com
pedido para mudar a ortografia já em desuso, e como concedido, o nome
dele ficou Fílis Bordeaux de Lima. Ele gostou do nome e já se apresentava
assim. Malvina também tinha o mesmo sobrenome.

Malvina foi a única que ainda continuou com amizades na antiga


morada. Pipão só se relacionava lá com drogados e bandidos. Como agora
era Fílis, não tinha mais nada em comum com eles, nem precisava se
subjugar. Margarete então nunca mais aparecera por lá, depois da
inauguração do carro da neta. Largou até aquele antigo relacionamento
com velho conhecido seu. Agora tinha encontros com pessoas de
condições sociais bem melhores. Afinal, ela era avó da filha da doutora
Maria Sílvia Bordeaux e sua aparência havia melhorado muito. As pessoas,
que conviviam com ela, tinham-lhe respeito. Eles nem a imaginavam a
prostituta barata de tempos atrás. Vez por outra, Margarete deitava-se
com algum depravado e gostava muito. Como queria ser uma dama
também, portava-se discretamente.

De tio Sabino e de tia Assunção, eles gostavam muito. A casa da


praia então, eles adoraram. Sentiam que estavam no paraíso. Sem dúvida
que os tios-avôs estranhavam certas atitudes deles, que, por sua vez, não
os entendiam. Porém havia boa vontade muito grande entre eles e isso
fazia a diferença.

Como agora tinha fogão normal com forno e tudo, Malvina


começou a se interessar por cozinhar e por receitas culinárias. Ficava
encantada com os pratos que conseguia elaborar. Principalmente os
bolos. Nada de sofisticação. E gostava de presentear Maria Sílvia. Esta,
sempre carente, ficava emocionada com cada bolo que ganhava da filha.
83

A religião foi uma das poucas coisas que aproximaram mãe e filha.
Na secretaria da igreja, Malvina conheceu Justina, moradora de bairro
classe média, mas não longe dali. Aos poucos, a amizade foi crescendo e
ela passou a frequentar a igreja do tal bairro. Ali, ela se sentia mais à
vontade.

Na verdade, mãe e filha não tinham quase nada em comum. O que


as aproximava era um grande sentimento, principalmente da parte de
Maria Sílvia. No mais, havia abismo entre as duas. A história da gêmea
entrou na vida dela em uma época de desilusão completa em relação ao
marido e também às filhas, em especial à Duruca. Malvina havia sido a
tábua salva-vidas. Depois do susto e dos acontecimentos complicados,
quando tudo começou a se normalizar, veio uma lacuna grande entre as
duas.

Estariam se transformando em uma nova pessoa?

55

Sem perceber, Duruca passou a seu novo companheiro noção dela


ser rica. De fato, para ele, ela tinha uma condição financeira bem melhor.
Ele, Jil, era muito pior do que os outros que o antecederam. Não tinha
estudo, falava muito mal o português e não trabalhava. Mas não
trabalhava mesmo. Não tinha a menor intenção de demonstrar o
contrário. Chegava a se vangloriar de ser vagabundo. Antes, viveu à custa
da avó. Depois, se pôs a explorar mulheres carentes. Tinha estampa boa
de rapaz, entretanto não era um galã. Alimentava vários vícios e precisava
de alguém para sustentá-los. Escondia dela certas amizades sombrias e
negativas.

Ela tinha carro próprio e apartamento em nome dos pais. Ele sabia
que os pais dela não lhe tinham nenhum apreço, portanto o imóvel não
contava. Como ela trabalhava, tendo seu rendimento, e a mãe ainda lhe
dava dinheiro esporadicamente, ele a tinha como rica. O relacionamento
deles ia indo “à la Duruca”, como ironicamente qualificava tia Assunção.

Eis que, numa tardinha, ela foi sequestrada. Nos primeiros dias,
ninguém percebeu, pois ela tinha comportamentos fora da normalidade.
84

Entretanto como ela trabalhava, descobriu-se o seu sumiço. Foram então


a Jil, que disse estar sentindo a ausência dela e começou a se perguntar
onde ela teria ido.

Ela estava sofrendo muito no cativeiro. Colocaram-na em buraco


escuro, dentro de um saco. Ela quase não podia se mexer. Uma vez por
dia, um encapuzado ia lhe dar comida e água, além de lhe jogar jato de
água de uma mangueira de borracha. Como ela havia feito necessidades
fisiológicas, passaram a deixá-la nua. Foi aí que apareceram quatro deles,
de capuz. Violentaram-na, além de baterem muito nela, que estava toda
machucada. Um grandão era o que mais a seviciava.

O que eles queriam? Seu cartão de crédito, do qual ela lhes deu a
senha. Seu carro, o qual ela assinou o documento para transferência. Além
de dinheiro. Ela lhes deu o que possuía, entretanto eles queriam quantia
maior, pois imaginavam ter ela mais posses do que realmente tinha. Ela
estava passando um pesadelo grande.

Diante da ausência de Duruca, Maria Sílvia teve conhecimento do


acontecido. Inicialmente preocupou-se com Amada, que tinha obsessão
por assalto e sequestro de si e de seus filhos. Junto com o marido,
preparou-lhe bem a cabeça. Pelo menos, o melhor que puderam.
Concomitantemente, como sempre, a mãezona colocou-se à frente do
episódio. Contatou um policial amigo seu para dar rumo à solução do
caso. Como ela era pessoa importante e prometeu gratificação polpuda se
conseguissem resgatá-la bem, houve um grande empenho. Os saques e o
episódio da venda do carro mostraram que os criminosos não eram
espertos. Alguns da periferia, na zona da pobreza – nem todos
evidentemente -, que se põe a praticar crimes, não tem nem talento para
isso. E toda pessoa que dá o passo maior que a perna, se machuca. Em
qualquer modalidade.
Depois de pouco tempo, a polícia conseguiu chegar aos bandidos e
libertá-la. Quando o policial chegou, querendo que ela saísse, ela não
queria, pois achava que iria ser espancada e violentada sexualmente. Com
jeito, a equipe conseguiu persuadi-la a deixar o covil. Quando chegou à
liberdade, tinha dificuldade de abrir os olhos à luz do dia, e, nua, não
queria ajuda de ninguém. Uma agente do sexo feminino lhe deu toalha
para ela se cobrir. Mesmo assim, estava parecendo um bichinho acuado.
85

Quando viu a mãe, começou a se sentir mais confiante. Mesmo


assim tremia, apesar de não estar frio, e falava palavras desconexas. Então
foi para uma clínica para fazer exames. Foi medicada em razão dos
machucados e foram feitos exames para serem verificados os possíveis
contágios sexualmente transmissíveis.

Algum tempo depois, os resultados saíram e ela se deparou com


tristes realidades: estava infectada com o vírus HIV e Jil, seu companheiro,
era um de seus sequestradores. Inclusive ele participou das violências
sexuais contra ela, segundo seus parceiros. Ela ficou muito abalada. O
vírus HIV não é a mesma coisa que ter AIDS. Ela poderia viver anos sem
apresentar sintomas e sem desenvolver a doença, porém, se tivesse
relações sexuais, poderia transmitir o vírus a parceiros desprotegidos e até
a um filho, caso ela o tivesse.

Apesar de Jil também estar com o terrível vírus, ninguém tinha


certeza se ela já não o tinha antes do sequestro, pois seus parceiros
sempre foram pessoas de alto risco de contaminação. E infelizmente ela,
como confiava exageradamente neles, sempre fazia sexo sem camisinha
com seus companheiros. Não gostava de preservativo...

Em conversa com Assunção, ela lhe perguntara por que ele a


violentou, podendo ter sexo com ela com amor. A tia lhe respondeu: “São
taras”.

- Agora talvez você consiga ver a vida como ela é realmente. Sem
fantasias. O mal nos relacionamentos é que as pessoas colocam seus
sentimentos antes de se harmonizar e antes de procurar parceiro. Por isso
muitos, como você, minha querida, repetem em várias vezes a mesma
história.

Assunção percebeu que sua sobrinha-neta já não mais a escutava.

Tio Sabino ainda a aconselhou que, ao se fazer uma burrada, se


deve tirar lição de vida: é quando o fracasso torna-se sucesso no futuro.

Tudo isso abalou muito a jovem. Sem falar quase com ninguém,
passou uns dias na casa de praia da tia. Depois voltou para seu
86

apartamento. Agora tinha que fazer tratamento médico muito intenso


para combater o aparecimento possível da AIDS e seria para o resto da
vida.

Duruca mudou totalmente. Agora não tinha mais namorado e


começou a frequentar a igreja exageradamente. Tornou-se fanática. O
lado positivo foi largar os vícios: droga, bebida, jogo e até cigarro. Maria
Sílvia lhe sugeriu começar terapia com psicólogo, entretanto ela se
recusou terminantemente, alegando que Deus a curaria de tudo que fosse
necessário, dando-lhe inclusive a conformação para o HIV e possível AIDS.

A mãe não gostou dessa mudança radical, porém reconheceu que


ela estava melhor assim do que junto a pessoas negativas e
inescrupulosas, das quais ela sempre se aproximou.

Malvina e sua família acharam estranho alguém deles ser


sequestrado, pois em Vila das Cruzes, quando sabiam desse crime, era
comum ter alguém conhecido envolvido como criminoso. Nunca tinha
imaginado os sentimentos da vítima. Ela não se abalou com um possível
sequestro, pois imaginou que, se necessário, daria tudo aos criminosos.
Ela não tinha ligação com dinheiro tão grande como o restante desses
parentes.

Duruca estava muito próxima às pessoas de sua religião, entretanto


não se aproximou da mãe e nem do pai, mesmo doente. Seu repúdio a
eles continuava grande.

56

Numa tarde, Amada tinha um compromisso que julgava


importantíssimo e inadiável. Foi quando seu carro teve problema. Então
pediu para sua mãe lhe ceder seu motorista. Maria Sílvia concordou,
entretanto, antes ela e Malvina tinham de estar no fórum em
determinado horário ainda sobre a regularização do nome dela.
Combinadas, o motorista pegou as duas, depois Amada. A última entrou
no carro falando com a mãe, sem sequer olhar para sua gêmea.
87

Num cruzamento, o carro parou em sinal de trânsito e um


adolescente, visivelmente drogado, veio pedir dinheiro, como ajuda para
sua mãe doente em seu barraco. Não estava agressivo.

Amada, neurótica com sequestros e assaltos, teve um chilique e


começou a gritar. Ordenou ao motorista que fechasse todos os vidros do
carro. Não satisfeita, ligou para um número de telefone da polícia dizendo
que havia um delinquente em tal cruzamento tentando assaltar os
motoristas. Sua atitude era porque ela se sentia em perigo, mesmo que
não fosse real.

Malvina ficou revoltada. Além de ter sido mendiga de cruzamento,


mesmo sem a sua vontade, seu filho deve ter feito isso.

- Que horror!

A irmã ficou ainda pior.

Foi quando Maria Sílvia se pôs a fazer oração em voz alta. Até um
pouco alta demais. Por sorte, o fórum estava perto e as duas saltaram do
veículo.

Malvina disse que a mãezinha dele podia estar sim doente. Lá na


pobreza, as pessoas ficam doentes e não podem se tratar. É triste. Ela
queria ajudar o tal pedinte. Maria Sílvia abanou a cabeça.

- Amada exagerou. Você precisa notar que a violência dos dias


atuais lhe deixou assim, traumatizada. Tente entendê-la. Outra coisa,
aquele adolescente é digno de pena, pois é consequência de políticas
sociais falhas, mas, minha filha, se nós lhe déssemos dinheiro,
provavelmente ele iria usá-lo para comprar droga. Você era uma pessoa
boa na miséria, mas muitos não o são. Não exagere você também.

Terminando, deu-lhe um afago.

57

Nos próximos nove capítulos, à frente de cada fala, teremos a


pessoa que se exprimiu abreviadamente:

MS – Maria Sílvia,
88

S – tio Sabino e

A – tia Assunção.

Naquele fim de semana Maria Sílvia resolveu ir à praia para ficar


junto à tia Assunção e ao tio Sabino. Eles a receberam de braços abertos e
com alegria.

S – Cipriano está melhor?

MS – Na mesma, tio. Ele não se cuidava, não ia a médico


regularmente. Sempre dizia ter saúde boa. Agora, nesse problema, está
sofrendo as consequências.

A – Homem é assim mesmo, por isso que mais mulheres ficam


viúvas. Sabe que isso tem um motivo?

MS – Qual, tia?

A – Mulher, para fazer sexo, mesmo não querendo ou não estando


bem de saúde, é só abrir as pernas... Já homem não. Para fazer sexo, seu
pênis tem de ficar ereto, e se seu corpo não estiver bem, não acontece.
Daí, os homens associarem sua virilidade à saúde perfeita.

S – Essa Assunção tem cada história...

A - E tem mais. Dizem que o homem começa seu declínio sexual


depois dos quarenta anos, a chamada idade do lobo. Alguns podem passá-
la com harmonia, sem complicações. Entretanto outros arrumam outra
mulher, justificando a si próprio e causando mil confusões para sua vida.
Ainda há aqueles que ficam insuportavelmente ranzinzas ou lançam-se
desesperadamente ao trabalho ou ao dinheiro.
S – Nessa época, é comum virem desilusões junto com o declínio.
Muitas vezes, ele, e às vezes ela também, percebem que aquilo que
pensavam e pelo qual estavam lutando sua vida inteira é bem diferente.
Na maioria dos casos, para pior. Quando se juntam essas duas frustrações,
é igual a uma bomba. São brigas e brigas. Saber viver é administrar perdas.
A mulher também, quando o homem não comparece, não faz sexo, ela se
põe a não lhe ver encantos. Além de começar a notar os defeitos do
marido e perceber que são muitos. Existem casos em que essas
imperfeições são tão terríveis para ela, que se tornam insuportáveis.
Muitas se separam, outras não, por vários motivos. Casadas ou não, têm
89

pessoas que ficam numa tristeza sem fim, podendo chegar à depressão ou
coisa pior.
A – Que horror!
S – Para se ter saúde, devemos ter projetos, desafios, coisas novas,
abertura de espírito, disponibilidade para o novo.
58

Apesar dos risos, Maria Sílvia estava triste.

MS - Só vocês e o meu saudoso pai me amaram, pois sempre


quiseram o meu bem, a minha felicidade. Os outros ... O que eu fiz da
minha vida?

S - Você é bonita, tem até saúde e corpo bom para sua idade. Tem
carreira brilhante, internacional. Possui estabilidade financeira. Tem
amigos, é considerada por todos que a conhecem. Tem independência
(soletrando espaçadamente as sílabas), fato este que mais inveja provoca.
MS – Eu lutei e me empenhei para isso.
S – Concordo. Para uma pessoa comum, com bons princípios,
existem normalmente três coisas para se ter sucesso: estudo - não
necessariamente o estudo convencional -, trabalho - preferencialmente no
que gosta, sem perceber que está trabalhando -, e treino. Tem até
exceções, porém são raras. Como você seguiu esta regra, conseguiu
chegar à sua posição atual.

MS – Ah, tio Sabino, tive até sorte.

S – Talvez. Voltando a você, não seja como pessoas que consomem


os anos galgando caminhos e, quando chegam lá no topo, não sabem
apreciar o horizonte que descortinam. Aproveite o que a vida lhe deu de
bom. Você só é complicada na parte emocional e familiar.
A - A causadora disto é aquela megera da Kiki. Ela deixou a
“menina” carente e a pobrezinha pegou um malvado igual à mãe dela.
Como as filhas viram a vida inteira esses dois perversos a tratarem com
calúnias, agressões e abusos, passaram a achar que deviam tratar a mãe
assim também.

S – Acho que agora você acordou, depois de décadas aguentando


horrores daquele marido. Às vezes eu pensava como você podia não
perceber como ele era. Além dos comentários que outras pessoas faziam.
90

Isso porque, na minha frente, ele sempre dizia aquela famosa frase: “Você
é a mulher da minha vida e eu a amo muito”. É por isso que eu sempre
digo que o importante é o que a pessoa está fazendo, não o que fala.
MS – Eu não o via como ele era realmente. Eu o fantasiava.

S – Você o imaginava igual.

MS - A idade me fez perceber que as pessoas não eram iguais a


mim, nem tinham meus sentimentos.

S - Há pessoas que passam a vida inteira sem se dar conta disso. E


querem que os outros pensem e fiquem a agir iguais a elas. Muitas são de
bons sentimentos e querem que o outro “se salve”. Como isso não
acontece, sofrem muito.

A – Poderia se dizer que é até uma imposição.

MS – Uma coisa é certa: essa pessoa que Cipriano é, eu não quero


na minha vida. Não me serve. Hoje eu sei que ele é viciado em angústia e
tenho até dó dele ter ficado assim. Mas longe de mim, para minha
autodefesa.

A – Por que aguentar ele xingando, caluniando, traindo, usando,


explorando, ridicularizando, sacaneando e até agredindo você
fisicamente? Mesmo se sabendo de seu apego e da sua obsessão, tudo
tem limite. Mas não precisa responder. Já sei. Porque a Kiki sempre fez
isso com a própria filha.

S – Como a criança tem na mãe sua figura principal, ela começou a


considerar que aquilo que Kiki lhe dava era a melhor coisa do mundo.

A – Coitadinha...!

S - Uma coisa Kiki e Cipriano tinham em comum: percebiam que seu


par era a melhor opção que já lhes apareceu.

A – Por isso agarravam-se com unhas e dentes.

S – Há pessoas que não percebem o tesouro que está ao seu lado, e,


como quem não dá valor ao que tem, fica sem, perdem o seu grande
tesouro.
91

59

A - Só tem razão quem dá o prazer sexual.

MS - Você está falando da Duruca?

S - Não, de todas as pessoas. Há alguns mais emotivos, alguns mais


espirituais, e outros, em maior número, mais materialistas. Alguns se
sublimam. Se dá importância, maior ou menor, ao sexo, nem que seja se
sublimando. E isso é normal. Os dois primeiros instintos do ser humano
são a preservação de si mesmo – a defesa de seu corpo – e a preservação
da espécie, em outras palavras: o sexo. No documentário do diretor de
cinema José Padilha sobre os Yanomamis, Segredos da tribo, é dito a
importância dessa tribo indígena para a humanidade. Isso porque eles
ainda não são civilizados. Ora, o ser humano viveu nessa condição meio
milhão de anos, e só agora, há três ou quatro mil anos, é que vive
civilizado. Segundo o documentário, e pelas afirmações dos antropólogos,
os índios não sofrem com a escassez de alimentos. O motivo dos conflitos
dessas tribos é mulheres e infidelidades, isto é, sexo.

MS - Mas nós evoluímos?

S - Será? De qualquer forma temos que prestar atenção na


importância desse assunto. Os pais que veem seus filhos se dobrarem
exageradamente ao companheiro ou companheira ao seu lado, não
devem entender que são menos amados. São coisas lá de nossos
ancestrais das cavernas.

A - Só tem razão quem dá o prazer sexual.

MS - Então só isso é importante. Vale tudo.

S - Não. Absolutamente. Mesmo entre os homens das cavernas


havia regras que todos deveriam cumprir. Os índios também têm suas
linhas a serem seguidas. Tanto é que, quando alguém comete infidelidade
ou toma alguma mulher, o ofendido vai à guerra, ao confronto.

Atualmente também a infidelidade é considerada irregular, não


pelos motivos de antigamente, mas porque se trata de uma traição, de
92

uma perda de confiança. Além de perigo à saúde pública, em virtude das


doenças que hoje se sabe serem transmitidas sexualmente.

60

A - Há cinco mil anos, na Pré-história, ignorava-se a participação do


sexo na procriação. Imaginava-se que os bebês vinham das águas, das
grutas, da Terra-Mãe, enfim, do sopro de forças maiores. O matrimônio
era por grupos e só havia a linhagem materna. Quando o homem
começou a domesticar animais, percebeu que, quando se agrupava
somente um sexo, não havia reprodução da espécie. Ele precisava saber
se era ou não o pai da criança, para a continuação de sua propriedade.
Depois disso, infelizmente a mulher passou então a ser objeto,
considerada inferior, por conseguinte, subordinada à dominação
masculina. Isso segundo informações da socióloga Regina Navarro Lins.

S - A descoberta da pílula anticoncepcional, em 1960, com a


dissociação entre procriação e prazer sexual, deu um novo e melhor rumo
à mulher. Depois, a certeza da paternidade passou a ser precisa com a
evolução dos exames de DNA.

A - A mulher podia fazer sexo sem ter filhos e o homem, ao nascer a


criança, podia saber com exatidão se era ou não o pai.

S - A partir daí, a moral, a família, o casamento e os costumes


passam a ter rumos irreversíveis. E ainda veio a internet com a
globalização total. Foi muito difícil para as pessoas, entretanto a sociedade
teve e terá de se adaptar aos novos tempos. Aos poucos, as coisas se
acomodarão.

61

S – Não é só você a sofrer no casamento. A mulher é mais devotada


à relação amorosa e o homem se importa mais com sexo. Existem os
casais com bom relacionamento, entretanto existem aqueles em que a
mulher é mal amada. E você, minha ternura, não é a única. Nesses casos, a
mal amada casa e nos primeiros tempos está encantada, vivendo, ou
fantasiando viver, um amor de conto de fadas, de adolescente. Depois
vêm os filhos. Então ela, se for normal, dedica-se a criar e a preocupar-se
93

com sua prole. Muitas vezes exageradamente. Aquela mulher que ama
demais tem como consequência ser abusada. Aí eles crescem e, na
adolescência, normalmente batem asas. A partir daí, ela até tenta manter
essa família – muitas obstinadamente, podendo chegar a criar tragédias
domésticas – porém, às vezes, não consegue. Diante disso, ela se
entristece. É quando olha para seu relacionamento conjugal, pode estar
bom, entretanto ela pode perceber, dia após dia, que não está nada bom
Pode estar até péssimo. Então tenta resgatar o seu amor adolescente.

MS – Atualmente a maioria das mulheres não casa na adolescência.

S – Estou falando de amor que não é adulto. Ela imagina um


príncipe encantado, que não tem defeitos e eles iriam viver um conto de
fadas, no qual serão felizes para sempre, sem nenhum problema. Amor de
adolescente.

A - Imagina estar casada com um homem bem diferente do que


realmente ele o é. Quando a mal amada olha detidamente para seu
companheiro, aos poucos percebe que, na verdade, ele é um traste, um
sapo... e não se pode chegar ao ódio, que pode acontecer quando se fica
imaginando vinganças, mesmo sem concretizá-las.

S - As pessoas, que mais sofrem no amor, são aquelas que não


querem ver a vida como ela é. Querem fantasiar.

A - E aí, a felicidade?

S - Feliz nós somos, ou precisamos ser, mas, no dia a dia, faz-se


necessário resolver os problemas da vida. Resolver problemas não é um
mal. Há muita gente que acha que é, porém não o é. Quando se vive, nós
nos deparamos com pessoas e situações adversas. O que se tem a fazer?
Resolvê-las da maneira mais prudente e equilibrada possível. E continuar a
viver o mais alegre que conseguirmos. A vida gosta de quem gosta dela.
Temos que ser felizes com o que temos. Os bons casais são assim, mesmo
com problemas entre si.

MS – Mas existem os viciados em angústia...

A – Concordo. Como seu marido.


94

S – A maioria das pessoas quer colocar a felicidade no outro, fazer


algo ou estar com alguém. Não concordo com isso. Só se pode ser feliz
sozinho. Quando se está em harmonia só, somente com sua presença,
fazendo o que você gosta realmente, é que podemos perceber que
chegamos à felicidade. Se alguém que nos quer bem, que nos completa,
está ao nosso lado, ótimo, maravilhoso, melhor ainda. Porém, se, ao nosso
lado, não há ninguém agradável e prazeroso, paciência. O que não se deve
é entrar na confusão, na angústia do outro. Não se pode permitir que a
negatividade nos atinja. Quem pensa com a cabeça dos outros, não pode
dar boa coisa. Não nos esquecendo que devemos dar distância a qualquer
um, mesmo os mais próximos, que nos fazem sofrer.

MS – Isso não é utópico, tio?

S – Não, não é não. Uma pessoa que consegue passar um dia, como
o domingo, sozinha, descansando e fazendo um lazer calmamente que
goste, está em estado de felicidade. Entendendo as amarguras do
passado, não se exigindo perfeição no presente e, apesar de fazer planos
com esperança para o futuro, não o fantasiar.

A – Sabe que para os índios Mundurukus, não existe futuro?

S – Muita sabedoria eles têm.

MS – Tão diferente...

S - Meu anjo, quando se está feliz sozinho é que encontramos a


liberdade. Só se é livre emocionalmente quando se está só.

MS – Eu não gosto dessa pessoa que eu sou hoje.

S – Você é uma pessoa repleta de qualidades, minha flor.

A – Ela não gosta de ter sido filha da Kiki, ter se casado, e o pior:
continuar vivendo com o cafajeste do marido dela. E também ser mãe
daquelas duas ingratas. Sem contar a resgatada.

MS – Amada é uma boa filha. Não diga isso não. Sem falar na infeliz
Malvina.

Assunção se calou.
95

MS – Eu gosto da minha parte profissional e da minha aparência.


Gosto também da minha casa e, porque não dizer, do meu status
financeiro e social. Vez por outra me deparo com umas amigas falsas,
entretanto elas não abalam o meu lado emocional.

62

S – Sabe um dos motivos que a fizeram tão vitoriosa


profissionalmente?

MS – Qual?

S - A disciplina. É o maior dom da humanidade. Ninguém vence sem


disciplina.

MS – Talvez. Ah, tio...! (depois de respirar fundo, continuou) Como


eu, tão perspicaz na vida profissional e social, não percebia que o Cipriano
me mentia o tempo inteiro?

S – Minha doçura, os traumas psicológicos cegam as pessoas.

MS – Não é paixão que também cega?

S – Normalmente atrás ou debaixo de uma paixão devastadora está


um problema psicológico grave. Na maioria das vezes, vindo da infância.
Outros avisaram você. Até eu tentei, parando na metade, pois percebi que
você não me ouviria. Ou a pessoa é tão ingênua, tão ingênua que não
imagina, não percebe de jeito nenhum que alguém possa fazer aquilo, ou
simplesmente não quer ver.

A – Seriam os sequestros emocionais?

S – Sei lá. Continuando... é comum vermos uma pessoa que não


enxerga os defeitos de seu cônjuge ou companheiro, de seus pais, de seus
filhos, de seus irmãos e até de parentes e amigos. Nesses casos, não
adianta alertar.

A – A pessoa fica igual a porco-espinho. Parece barata tonta. Não dá


importância ao bem-intencionado. Pode até achá-lo errado.
96

S – O amor é lindo, calmo e duradouro. Apesar de sempre se ter de


cultivá-lo, pois, caso contrário, murcha, como as flores. Oras, ninguém
pode estar bem se está em sofrimento, pois o amor é alegria. O ser
humano não nasce para sofrer, mas sim para a felicidade. Um casal pode
se deparar com situações e pessoas para atrapalhar, entretanto, com
calma e maturidade, eles vão resolvendo os problemas da vida, tornando
o relacionamento mais forte.

MS – Concordo. Sabe, eu não tenho saudades do tempo em que eu


formava um casal com Cipriano.

A – Sabe por quê? Porque você amava um personagem.

MS – Era isso mesmo. Eu o fantasiava com qualidades que ele não


possuía e nem queria possuí-la, apesar de dizer constantemente o
contrário. Aquele que eu amava não existia. Como ele é realmente, eu não
amo, portanto não posso ter saudades de episódios falsos.

A – Você pode ter saudades dos dias que se passaram, das alegrias
que teve. De você somente.

MS – Interessante é que agora eu vejo as coisas assim, porém,


quando eu estava naquele relacionamento destrutivo, com apego
exagerado ao casamento, que tinha de dar certo a qualquer custo, que
tinha de dar certo a qualquer custo, que tinha de dar certo a qualquer
custo...

A – Isso já passou, minha querida. Siga em frente com sua vida. As


pessoas inteligentes mudam de ideia, as burras não. Olhe em seu redor
também...

S - Sempre dizem que o tempo muda as coisas, mas quem tem de


mudá-las é você. Caso contrário, o tempo passa e tudo fica horrivelmente
igual. E não existe tempo perdido, a não ser por sofrimento repetitivo ou
vícios.
A – Como dizia meu pai, quando o assunto não interessa, muda-se o
assunto. Com os pensamentos também deve ser assim: quando as
preocupações estão negativas, deve-se mudar a cabeça para outro caso,
outra bobagem, outra realidade.
97

63

A – Meus pais tinham uma harmonia perfeita entre si. Os dois foram
seus primeiros namorados. Meu pai talvez tenha tido alguma iniciação
sexual. Não sei. Um vivia para o outro, não lançando seus olhos de amor
para ninguém mais. Eles tinham uma confiança enorme um no outro. Os
filhos, nós, viemos para dar ainda mais alegria ao outro. Um sentia a
felicidade ao lado do ser amado e pronto.

MS – Tia, será que você não está exagerando um pouco e fazendo


as coisas cor-de-rosa demais?

A – Não. Então você diria que essa harmonia é ótima para os filhos.
Durante a vida em família, sim. Entretanto, quando nós fomos para a vida,
éramos muito, muito ingênuos.

S – Põe ingenuidade nisso. Qualquer um nos fazia de otários.


Confundiam bondade com ser bobo.

A – Quando eu casei, “burramente” achei que meu marido era igual


a meu pai. Houve sofrimento, prejuízos financeiros e muita desilusão para
eu me dar conta que aquele traste era completamente diferente da
segurança que meus pais me davam.

MS – Eu mesma achava que todo homem era igual meu pai. Hoje
não me conformo de ser tão boba. Mas tia, meus avós não tinham
problemas com as outras pessoas? Não eram também passados para trás?

S – Eles eram cientistas, pesquisadores, viviam num universo


separado. Pouco relacionamento com a selva humana em que todos
vivem. O ideal é haver harmonia em casa e uma preparação para se lidar
com os outros de fora. Porém o que ocorre é que as pessoas que tiveram
pais, maridos e outros próximos que são pessoas de bondade e que lhes
dão segurança, geralmente nem acreditam que existem pessoas más,
inclusive psicopatas leves, infiltrados no nosso convívio. No caso de lhes
falar, acham que você está vendo o mundo ruim demais.

MS – Então não há solução?


98

S – Não sei, mas o ideal é termos harmonia, mas preparados para


nos confrontarmos com aqueles que são egoístas e perversos.

A – É isso aí.

S - A decepção deve servir para a pessoa ficar mais forte e mais


esperta e não mais fraca e sem esperança. Nós não temos controle sobre
as outras pessoas, mas nós temos, e devemos ter, controle sobre as
nossas reações.

64

A – Toda mulher muito bonita geralmente vai ser traída.

MS – Por que, tia? Não são as feias que são passadas pra trás?

A – Isso deveria ser lógico, mas a vida me mostrou diferente. Um


homem, que casa com uma mulher muito bonita, só dá valor à aparência
externa, não ao conteúdo interior dela, às suas qualidades morais.
Quando ela deixa de ser lindíssima – e isso acontece naturalmente, por
mais que ela tente retardar – ele não a quer mais. Vai atrás de outra cuja
aparência física está melhor. Já aquele que casa com a feia, foi por causa
de sentimentos e da capacidade de realizações da esposa. Então, mesmo
quando ela despenca, ele continua a admirá-la. Nesse contexto, ele pode
lhe ser fiel.

MS – Por essa sua teoria, a “lindissimamente linda” vai ser traída.

S – Não se esqueça, Assunção, que não há regra fixa quando se trata


de comportamento. Além de que não se deve dizer a palavra nunca.

A – Concordo, mas, na grande maioria dos casos, é isso que


acontece. E tem outra: se é verdade o ditado popular que diz que quem
ama o feio, bonito lhe parece, também é certo que quem não ama o
bonito, feio ele lhe parece. Diante disso, o marido da “lindissimamente
linda” começa até a não lhe ver beleza.

S – Nisso, sabe que, prestando atenção aqui e acolá, você tem


razão. Também o parceiro nunca pode ter certeza de que a relação
amorosa será eterna. Todos os dias, ambos terão de conquistar o outro,
99

pois os amores podem mudar o rumo, o interesse e o sentir, já que a vida


é dinâmica. Temos que estar atentos aos riscos que nos cercam.

A - Até olhar para o chão para diminuirmos o risco de sofrermos


uma queda...

S - Devemos cultivar sentimentos por meio do respeito. Também


temos de estar atentos às atitudes das pessoas, que falam mais que suas
palavras. Podemos escolher o que semear, porém somos obrigados a
colher aquilo que plantamos.

Todos pensaram muito.

65

A – Hoje o jovem não quer mais escutar o idoso. Descarta toda a


experiência acumulada dele.

S – Até bem pouco tempo, quem detinha a sabedoria era o idoso.


Então o jovem o escutava porque queria ter o acúmulo de conhecimento.
Quando veio a internet, a coisa mudou. Nela se tem o saber desde o início
de tudo. É só ir ao computador, acessar e lá está. Isso na hora que se quer,
sem ter de pedir nada a ninguém e quase sem se locomover. Então a
moçada descartou o idoso. Só isso.

MS – Mas tio, o idoso tem ainda muito para dar. Inclusive conselho
e carinho.

S – Concordo, meu anjo. Também não é todo jovem que radicaliza


assim. Tem aquele que vai ao computador, pega os dados, porém escuta o
idoso com sua sabedoria e sua experiência de vida. Sem dúvida, ele terá
mais amplitude para a vida e para as decisões.

A – Talvez não se tenha mais aquela conversa comprida com os mais


velhos...

MS – O carinho, o respeito e o amor aos idosos, principalmente aos


ascendentes, são primordiais. Aqueles de bons sentimentos sempre os
cultivarão.

S e A (juntos) – Concordo, minha querida!


100

Todos sorriram.

66

Cipriano morreu.

Kiki falecera de câncer do tipo avassalador, logo após o caso de


Malvina vir à tona. Apesar da doença não ter durado muito tempo, sofreu
demasiadamente.

Maria Sílvia continuou sua vida profissional e social. Como sempre


foi conhecida em seu meio como Maria Sílvia Bordeaux, para ela
continuou a mesma ascensão.

67

Duruca quase não participou do inventário. Apesar de Amada não


concordar, Malvina recebeu a herança do pai, que lhe era devida. Maria
Sílvia se ofereceu para ajudá-la a empregar seu dinheiro. Ela aceitou de
bom grado. Aliás, ela nem sabia que existia herança e que uma casa, ou
outro bem, passava para outra pessoa por ser filho.

Ela não entendia como herdaria alguma coisa de Cipriano, apesar de


ser ele seu pai biológico. Mal o viu numa tarde na UTI do hospital, levada
por sua mãe. Ele era um estranho e não tinha nada a ver com ela. Só
aceitou mesmo porque tanto Fílis como Margarete achavam que dinheiro
nunca é demais. Além de Maria Sílvia insistir para ela se apropriar do
legado.

Quando pensaram em comprar casa, Malvina disse que queria ir


para o mesmo bairro onde Justina residia. Um bairro de classe média. A
mãe achou boa ideia. Já não a imaginava incluída em seu mundo.

Compraram – sim porque todos deram palpite - então uma casa


antiga com três quartos, sala grande, cozinha também grande, porém com
um banheiro só. Como antes eles viviam em barraco com sanitário
coletivo, não viram o menor inconveniente. A garagem era descoberta à
frente da casa e, enfileirados, dava para dois carros, sem segurança
sofisticada. Também acharam ótimo. Os dois quartos maiores ficaram
para Malvina e Fílis e o menorzinho com Margarete. Era comum um
101

dormir no quarto do outro. Tudo naturalmente sem questionamentos.


Tinha até jardinzinho. Pequeno, mas eles colocaram plantas e ficou
arrumado. Até bonito.

Ela ainda recebeu do inventário – juridicamente, neste caso,


arrolamento - três salas grandes em prédio do centro, que lhe davam boa
renda mensal.

Para se entrosar com toda aquela papelada, Maria Sílvia lhe indicou
um contador, “seu” Miguel. Ele era calmo, alegre e muito honesto. Seu
escritório inclusive ficava perto da nova morada. Mãe e filho se deram
muito bem com ele. Fílis então passou a frequentar o seu escritório
algumas vezes na semana. “Seu” Miguel não tinha filhos e também se
encantou com o rapaz. Essa amizade fez bem aos dois, principalmente ao
jovem, que não teve pai, nem figura masculina. O contador lhe dava
relacionamento positivo, considerando-lhe bem mais que amigo.

Em um chá beneficente de Amada, uma empresa teria de entregar


uns bolos para o evento. Acontece que, dois dias antes, o tal pessoal
desistiu. Amada ficou desolada. Foi quando Maria Sílvia teve a ideia de
colocar Malvina para fazer bolos e assim suprir a falha. Amada não gostou
disso, entretanto como não tinha outra saída, concordou. Foi até
incentivada pelo marido.

Maria Sílvia deu a ela todo o suporte necessário, ficando na sua


torcida.

Malvina se entusiasmou muito e passou dois dias trabalhando. O


filho até lhe ajudou. Margarete também. Para surpresa de todos, foi um
sucesso. As amigas da irmã até consideraram esses melhores e mais
saborosos.

Daí, Maria Sílvia teve a ideia de Malvina começar a fazer bolos para
padarias, confeitarias, etc. Incentivados pela psicóloga Lucy, ela se
encantou e o filho também. Eles levaram o projeto a “seu” Miguel, que se
entusiasmou e disse que lhes daria suporte. Propôs que Fílis também
entrasse na sociedade. Abririam uma microempresa.
102

Todos gostaram e começou a funcionar a Bolos Mau-mau. A ideia


foi de “seu” Miguel, quando, numa tarde, o filho, em brincadeira boba,
chamou a mãe pelo apelido. Maria Sílvia também achou que o nome
ficaria gracioso, porém deveria estar escrito em letras femininas e
desenhadas. Contratou pessoa para fazer layout e ficou uma formosura.

Quando viu, até Amada gostou, entretanto disse que sabia ter ali o
dedo da mãe. As duas riram. Foi a primeira vez que a irmã chique não
rejeitou, nem esnobou sua gêmea.

“Seu” Miguel lhe arrumou clientela e toda a infraestrutura. Malvina


não tinha disciplina, nem método. Trabalhava aleatoriamente, isto é, “no
vamo que vamo”. Passava um dia sem trabalhar, noutro ficava doze horas
em atividade. Era capaz de fazer bolo em domingo e ficava à toa em dia de
semana. Assim ia levando sua labuta.

O que Maria Sílvia queria era lhe dar algo positivo para ela ocupar
seu tempo, pois já diz o ditado popular “a ociosidade é mãe de todos os
vícios”. E deu certo. Fílis também se entusiasmou e ajudava muito a mãe,
principalmente nos negócios e nas entregas. Como ele fez dezoito anos,
depois da herança que veio para sua mãe, ganhou carro só para si. Quis
um modelo que se adaptasse à sua nova atividade. Já pensava em estudar
mais. Nisso foi incentivado pela psicóloga Lucy, pelo novo mentor “seu”
Miguel e por sua avó biológica.

Fílis dizia ter parado com as drogas, porém, vez por outra, numa
ansiedade, tensão ou simplesmente alguma mágoa, pegava um baseado
de maconha. Mas era muito pouco, se compararmos com seu passado.
Agora já fazia sexo tranquilamente sem estar drogado. Isso foi fácil
conseguir, pois era muito jovem.

Bebida entrava pouco em casa – e cada dia menos -, principalmente


depois da morte de Lelé em acidente horrível devido à embriaguez total
em que ela se encontrava.

Malvina ia eventualmente à Vila das Cruzes, quando havia


casamento, nascimento ou outro acontecimento. Era generosa, mas não
103

dava para ninguém seu endereço. Exigência de Maria Sílvia. Absurda


talvez.

Ela sempre fazia questão de visitar “seu” Hugo e sua esposa, seus
antigos vizinhos. Eles a recebiam de braços abertos e estavam muito
felizes com sua nova vida.

A jovem começou a namorar o primo de Justina, entretanto não


tinha intenção de casar. Nem de ficar com ele a vida toda. Foi criada fora
dos padrões morais da sua família biológica.

Ela não ficou rica, entretanto sua situação financeira era estável e
muito boa. Seu dinheiro sobrava, pois vivia com muito pouco, o essencial
para a subsistência de uma pessoa. A mãe biológica e “seu” Miguel
administravam o excesso. Continuou a morar na mesma casa. Vez por
outra, fazia manutenção e mudava uma coisa aqui, outra ali. O reduto de
seu lar estava ficando bonito. Sem luxo nem ostentação. Também havia,
aqui e ali, detalhes cafonérrimos, como a grade dourada da entrada.

Eles melhoram o vocabulário, principalmente Fílis, mas os “nóis vai”


e “nóis vorta” nunca tiraram totalmente. Apesar de alguma gozação que
sofriam, não se esforçavam para melhorar, nem faziam questão de se
esmerar.

68

No dia do julgamento do crime de sequestro, Duruca se recusou a


olhar para Jil, que, em atitude petulante, lançou-lhe olhares sedutores.
Como a Promotora de Justiça, além da Assistente de Acusação que a
família contratara, precisava provar que eles viviam como companheiros,
foi necessário convocar o porteiro do prédio para caracterizar a união
estável. Isso para corroborar a acusação de ele ter se aproveitado da
intimidade da vítima para qualificar o crime, isto é, aumentar-lhe a pena.
Ele pegou pena bem longa e alta.

Durante sua vida, ela não sentiu do pai nem amor nem proteção. Ao
contrário. Talvez por isso deixasse seus companheiros abusarem tanto
dela. Ela se achava incapaz de ser amada e respeitada. Muito triste a sua
situação.
104

Com o passar do tempo, ela já não estava tão fanática como no


começo. Mesmo assim havia exagero em sua religiosidade. Gastava muito
dinheiro com sua igreja, onde era considerada pessoa iluminada. Seria?

- Sei lá...!

Maria Sílvia tinha a esperança de um dia ela se equilibrar. Porém,


como ela nunca teve harmonia em seu comportamento, isso seria atitude
difícil de se esperar. Impossível nada é.

69

Cada dia que passava, Amada estava mais rica. Agora já trabalhava
só três dias na semana, pela manhã. E somente três horas. Fora suas
viagens, que eram muitas. Trabalhava porque tinha em sua mãe seu
modelo. Parece incrível, a sua agenda era lotada, e, apesar do preço caro,
havia disputa entre clientes para serem atendidos por ela.

Ela era uma pessoa muito consumista. Só comprava suas bolsas de


grifes internacionalmente conceituadas em coleções exclusivas. Vestidos
seus, alguns seguiam este padrão, outros ela os adquiria em shoppings da
cidade. Em lojas badaladas, evidentemente. Outros acessórios seguiam
esta regra. Seu jaleco foi criado por designer famosa. Era comentadíssimo
e tão charmoso que suas clientes tiravam até fotos e selfies para postar.

Seus filhos também seguiam este padrão. A menina já tinha as


feições delicadas e era emperiquitada pela mãe. Parecia uma bonequinha
de louça. Mariana adorava encontrar Malvina na casa da avó. Gostava de
suas brincadeiras, gostava dela. A tia também lhe tinha grande afeto.
Josué concordava com essa amizade. Tudo sem Amada perceber, pois ela
achava sua gêmea um horror, quase uma doença pegajosa. No futuro, as
duas, sobrinha e tia, iriam se dar muito bem.

Ela continuava neurótica com pavor de assalto e sequestro. Outro


exagero eram os ciúmes do marido. Ele era médico dedicado à sua
profissão e não estava interessado em outra mulher, porém não havia
jeito de convencê-la. Ele era mais bonito que ela, entretanto gostava
muito dela e não tinha intenção nem de traí-la nem de abandoná-la.
105

Na intenção de acalmar seus ciúmes doentios, a mãe lhe contou


haver escutado de sua amiga Adriana a seguinte frase: “Todos gostam do
meu marido e quem não gosta dele está errado”. A moça era casada com
Alexandre, amigo de Josué. A filha respondeu imediatamente:

- Eu é que não sou boba de ficar confiando. Se alguém sabe que ele
a trai, ela fica como panaca.

- Será que ele realmente não a trai? Nem todo homem é adúltero.

- Eu não acredito!

Amada trazia em sua bagagem familiar os adultérios constantes de


seu pai que tanto a incomodaram. Talvez nunca conseguisse imaginar que
havia homens fiéis, iguais ao avô materno e a seu marido. Josué não
gostava disso. Às vezes se sentia envaidecido, entretanto, na grande
maioria das ocasiões, eram situações desagradáveis. Muitas com grosseria
por parte dela.

A sua boa aparência também era uma de suas neuroses, pois queria
a admiração de seu marido. Na verdade, nada daquilo dava-lhe os bons
sentimentos de Josué. O corpo escultural, malhado ao exagero na
academia, e a pele e o cabelo demasiadamente cuidados faziam-na uma
bonequinha somente. Para ele, o mais importante era ela ser o que era.
Fiel, boa mãe – tirando os excessos -, boa esposa e boa filha. Tinha o
defeito de ser gastadeira e gostar de empetecar tudo, além de seus
ciúmes doentios. Porém Josué a amava e desculpava suas fraquezas.
Quanto à sogra, as duas se acertaram o mínimo necessário para diminuir
seus próprios sofrimentos.

Apesar de sua imaginação andar por tormentos sem razão, Amada


tinha veneração por aquele marido e como não havia problemas entre
eles, a não ser os diários corriqueiros e sem importância, tudo estava bem.

70

As três irmãs quase não se falavam. Malvina as achava muito mais


do que ela. Também não tinha a mínima vontade de se entrosar com elas.
Duruca também se achava diferente. Pelo seu fanatismo religioso,
106

começou a ler a Bíblia para elas. Malvina escutava calada e mesmo a irmã
tentando evangelizá-la, ela nunca lhe respondia nada. Evidentemente isso
a desencorajava. Amada dizia-lhe uns impropérios, pois não queria a
aproximação fraterna. Na família, a única pessoa com quem ela se
entrosava era a mãe, à qual ela tinha profunda admiração, apesar de
algumas palavras ardidas vez por outra.

Apesar de tudo, Maria Sílvia conseguia uni-las esporadicamente e


tinha com todas relacionamento sereno.

71

Desde a época da escola que Cristóvão era amigo de Maria Sílvia. Os


dois tinham muita empatia entre si. Ambos estudavam muito. Alguns até
previam romance entre eles.

Na época da adolescência, o sexo é imperioso e Cristóvão


engravidou uma moça aos dezessete anos. Ele, querendo fazer vestibular
para medicina, ainda tendo de dar assistência para uma criança, viu tudo
ficar muito mais complicado. Nisso perdeu um ano de estudo. Ela, num
mundinho de conto de fada.

A faculdade dos dois foi muito puxada e ambos deram todo seu
empenho. Logo depois, entrou na vida dela Cipriano, que o afastou
peremptoriamente. Eles se uniram em matrimônio e a história já
conhecemos. Tristemente Cipriano se encaixava melhor nas necessidades
neuróticas das carências afetivas de Maria Sílvia, em relação à sua mãe.
Cristóvão casou-se também com uma colega, pois com a mãe de sua filha
não houve união. Sua esposa não podia ter filhos e eles adotaram um
menino. Este, no futuro, deu-lhes muitos problemas. A união ainda se
arrastou por muitos anos, entretanto não foi adiante. A esposa foi ficando
arrogante e importuna. Um dia, quase assim, ele se viu sozinho e sem lar.

Porém Cipriano nunca conseguira afastar totalmente os dois. Às


vezes eles conversavam e trocavam ideias. Com o fracasso dos dois
casamentos, as conversas foram aumentando cada vez mais. Tanto um
quanto outro era tão ingênuo e de caráter tão firme, que nunca houve
nenhuma palavra ou gesto que pudesse ser mal interpretado. Sei que
107

haverá pessoas que podem não acreditar, entretanto foi isso o que se
passou.

Cristóvão ainda tentou uniões que não lograram êxito. Ele já estava
achando que não nasceu para casamento. Sua filha foi morar em outro
estado, e, depois de terminar a pensão alimentícia, quase não se falavam.

Vez por outra, desabafava com Maria Sílvia, que também fazia o
mesmo em relação a seus problemas. Na época, logo após o acidente
sofrido por seu marido, no hospital, ele lhe deu todo o apoio. Depois que
Cipriano foi para a UTI, também.

Começaram então a se encontrar após o expediente. Ela


reencontrou a filha de que nem sabia da existência. Foram dias difíceis. Os
encontros de esporádicos passaram a ser mais constantes. Entretanto os
dois eram só amigos. Difícil acreditar que ainda existem pessoas assim.

Mesmo depois da morte de Cipriano, as coisas não mudaram.


Continuou aquela velha amizade. Porém Cristóvão começou a vê-la de
outra forma: como ainda era bonita, inteligente e tão meiga. Percebeu
que pensava nela muito, muito mesmo. Ela também começou a ter
vontade de ficar com ele e a ficar preocupada com a opinião dele.

Numa noite, estavam dançando e conversando. Maria Sílvia


começou a sentir o odor dele e a ter umas sensações boas pelo corpo.
Durante a dança, colou seu corpo no dele e aproximou sua boca da dele.
Cristóvão a olhou e ela o beijou carinhosamente. Em outras palavras, ela
lhe tascou um beijo. Ele então principiou a tocar seu corpo com cuidado e
emoção. No aconchego láscido, eles se enlevaram e se deleitaram. Tudo
muito calmo. Difícil imaginar quanto tempo ficaram assim. No final,
fizeram sexo como se já tivessem feito durante toda sua vida.

Quando chegou tia Assunção, ela lhe contou o acontecido.

- Só você ainda não tinha percebido. Ele é maravilhoso.

- Nós não somos muito iguais?


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- Por que vocês não deram certo com seus parceiros? Porque eles
eram pessoas egoístas. Para finalizar a vida com calma, paz e
tranquilidade, vocês merecem um ao outro.

Ela então passou mensagem a ele agradecendo. Acrescentou que


gostou demais do presente. Ele ficou muito feliz.

Os dois não acreditavam mais em contos de fadas, principalmente


ela. Já eram mais que adultos, logo estariam idosos e não estavam mesmo
em idade disso. Queriam um relacionamento sereno.

Cada um quis morar em sua própria casa, com suas coisas, suas
manias e seus silêncios. Quando um deles precisava do outro, ele ou ela
ficava alguns dias, ou mais, para lhe dar apoio. Também havia épocas em
que cada um deles ficava dias juntos para se acalentar e se aconchegar.
Normalmente era Cristóvão quem mais ficava, porém, às vezes, ela
também. Quando não estavam juntos, telefonavam-se longamente todos
os dias. Um gostava da presença e da conversa do outro.

Em sua vida sexual, ele se pôs a se esmerar para transar muito bem.
Como Cipriano era mulherengo e suas conquistas ficavam
interessadíssimas por ele, Cristóvão o imaginava com artifícios de alcova.
Na verdade, o falecido era só cafajeste – a maioria das mulheres adora um
velhaco que a faz lutar – e não queria se envolver com outra pessoa.
Queria só a esposa, que se encaixava perfeitamente em seus propósitos
egoístas. A própria cônjuge, no final do casamento, já estava considerando
muito a desejar o sexo com o marido. Na verdade, Maria Sílvia não
entendeu todo esse empenho de Cristóvão para a cama. Mas isso não
teve consequência.

Mesmo que o outro fosse maravilhoso na alcova e ainda que sua


mulher o amasse muito, ele não deveria se preocupar, pois um amor
nunca substitui outro. O amor é individual e intransferível. Isso serve para
companheiros, porém também para pais, filhos, irmãos, amigos, etc. Tolo
aquele que pensa que, ao ter separação na relação amorosa e namorar
outro, poderá resgatar a afeição perdida. A nova pode surpreender até
para melhor, e tristemente também para pior, entretanto nunca
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substituirá aquela antiga, apesar de canções e poesias dizerem o


contrário.

Às vezes, Maria Sílvia se pegava achando que ele se deixava abusar


demais pelas outras pessoas. Talvez fosse verdade. Aí, logo se lembrava de
seu falecido marido grosseiro, conspirando safadeza e sempre tentando
seduzir todas as mulheres que pudesse. Nessa hora, agradecia aos céus
pelo Cristóvão.

Ele também encontrava algum defeito nela. Raramente. Acontece


que os dois tinham tido relacionamentos péssimos. Quando eles
lembravam disso, imediatamente achavam aquela convivência
maravilhosa e não queriam perdê-la de forma nenhuma.

Havia ocasiões em que um até se aborrecia com o outro sim.

Vez por outra algum de seus filhos os desgostava. Entretanto um


dava amparo para o outro. Respeitavam-se muito nas lágrimas e nas
tristezas. Eram companheiros, amantes, cúmplices e solidários. Tinham
até projetos, coisas simples, muito diferentes daqueles da juventude e da
idade madura. Eram coisas novas, abertura de espírito, disponibilidade
para a novidade que entra e se instala na vida. Como isto é ter saúde, eles
estavam cada dia melhor.

Hoje eles não se consideravam perfeitos. Só aqueles que se aceitam


assim é que conseguem ser livres e ter alegria. Um dos segredos da
felicidade é não fazer dos aborrecimentos uma desgraça.
Os dois ficavam horas e mais horas juntos. Maria Sílvia passou sua
vida, até então, escutando música sempre sozinha. Era a forma de
amenizar a solidão. Agora continuava a fazer isso, entretanto, muitas
vezes, partilhava a audição de melodias com o companheiro. Também eles
assistiam filmes, televisão, principalmente noticiários, cantavam,
dançavam e principalmente namoravam. Muitas vezes os dois riam,
gargalhavam por coisas bobas.

Então, tiveram problemas ou não? Todos têm, porém nenhum aos


quais chegassem à angústia profunda. O mais importante na vida é saber
resolver os problemas, nunca os transformando em tragédias. Além disso,
ter muitos e muitos momentos de felicidade também.
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Temos muitas perguntas que não têm respostas. Um dia, passando


até décadas, vem a resposta. A verdade sempre aparece. Às vezes muito
tempo depois e até após a morte, mas aparece.

Como dizia meu pai:

a verdade da vida depende do cristal com que se mira, e

só é engraçado quem está em graça.

Terminando, tenho a lhes acrescentar que assim é a vida: pode ser


usada para promover o bem ou para praticar o mal.

FIM