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ELEMENTOS DE ECONOMIA, AGRONEGÓCIO

E DESENVOLVIMENTO LOCAL
Série Acadêmica, 01

ANTÔNIO CORDEIRO DE SANTANA


Professor da UFRA
ii

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Ministro: Tarso Genro

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA


Reitor pro tempore: Manoel Malheiros Tourinho
Vice-reitor pro tempore: Waldenei Travassos de Queiroz

INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL E DOS RECURSOS HÍDRICOS


Diretor: Raimundo Aderson Lobão de Souza
Professor: Antônio Cordeiro de Santana

CAPA: Antônio Cordeiro de Santana


EDITORAÇÃO: Graphitte

AGÊNCIA ALEMÃ DE COOPERAÇÃO TÉCNICA – GTZ


UNIVERSIDADE TÉCNICA DE DRESDEN - TUD

Esta publicação foi financiada pela Agência Alemã de Cooperação Técnica – GTZ,
no âmbito do Convênio entre a UFRA e a TUD.

Santana, Antônio Cordeiro de

Elementos de economia, agronegócio e desenvolvimento local / Antônio Cordeiro de Santana. –


Belém: GTZ; TUD; UFRA, 2005.

197 p. il.

1. Agronegócio. 2. Arranjo produtivo local. 3. Desenvolvimento local. I. Título.


CDD – 338.1
iii

AGRADECIMENTO

Esta Apostila Didática foi desenvolvida com o apoio financeiro da Agência Alemã de
Cooperação Técnica (GTZ), mediante convênio de cooperação envolvendo a Universidade Federal
Rural da Amazônia (UFRA) e a Universidade Técnica de Dresden (TUD). O apoio embora pequeno
para o objetivo pretendido de publicar um livro, permitiu disponibilizar parte da literatura empregada
nos cursos de graduação e pós-graduação da UFRA. Trata-se, pois, de um texto transversal, em que
a distinção entre a graduação e a pós-graduação é o aprofundamento da análise. Com isto,
disponibiliza-se temas de fronteira para toda a comunidade de estudantes e professores da UFRA.
Agradecemos ao professor Fernando Mendes pela leitura do capítulo 4 desta apostila e a
Raimunda Lima pela revisão do texto.
Agradecemos ainda aos estudantes do doutorado, Ismael Matos da Silva e Iracema Cordeiro
pelo fornecimento de algumas planilhas de custo de atividades produtiva.
Finalmente, agradecemos ao Max e a Izildinha pelo empenho para que este apoio financeiro
se tornasse efetivo.
iv

SUMÁRIO

CAPÍTULO 1............................................................................................................................................ 1
CONCEITO DE ECONOMIA RURAL...................................................................................................... 1
1.1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 1
1.2 FATORES DE PRODUÇÃO ......................................................................................................... 2
1.3 PRINCIPAIS TIPOS DE UNIDADES DE PRODUÇÃO ................................................................ 7
1.3.1 Agricultura tradicional ou de baixa renda .............................................................................. 7
1.3.2 Agricultura sustentável ou ecológica ..................................................................................... 9
1.3.3 Agricultura integrada ou moderna ....................................................................................... 10
1.3.4 Agricultura de precisão ........................................................................................................ 11
1.4 QUESTÕES ECONÔMICAS....................................................................................................... 13
1.5 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM .......................................................................................... 15
1.6 REFERÊNCIAS........................................................................................................................... 16
CAPÍTULO 2.......................................................................................................................................... 17
MERCADO DE PRODUTOS RURAIS .................................................................................................. 17
2.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 17
2.2 MERCADO: FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES ........................................................................ 17
2.3. FORÇAS DO MERCADO: DEMANDA E OFERTA ................................................................... 18
2.3.1 Conceito de demanda.......................................................................................................... 18
2.3.1.1 Análise e aplicação da demanda...................................................................................... 22
2.3.1.2 Análise da demanda, incluindo a renda. .......................................................................... 25
2.3.1.3 Análise da demanda, incluindo a renda e um produto substituto..................................... 27
2.3.2 Oferta: conceito, análise e aplicação................................................................................... 28
2.3.2.1 Análise da oferta............................................................................................................... 31
2.3.3 Equilíbrio de mercado.......................................................................................................... 32
2.3.3.1 Aplicação e análise do conceito de equilíbrio................................................................... 34
2.4 ELASTICIDADE-PREÇO DA DEMANDA E DA OFERTA.......................................................... 37
2.4.1 Elasticidade-preço da demanda .......................................................................................... 37
2.4.2 Elasticidade-preço da oferta ................................................................................................ 40
2.4.3 Elasticidade-renda e elasticidade-cruzada da demanda..................................................... 43
2.5 MERCADO E EFICIÊNCIA ECONÔMICA.................................................................................. 45
2.5.1 Excedente do consumidor – EC .......................................................................................... 45
2.5.2 Excedente do Produtor – EP ............................................................................................... 47
v
2.5.3 Excedente econômico - EE ................................................................................................. 48
2.6 REFERÊNCIAS........................................................................................................................... 51
2.7 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM .......................................................................................... 51
CAPÍTULO 3.......................................................................................................................................... 55
COMERCIALIZAÇÃO E MARGENS DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS ........................................ 55
3.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 55
3.2 MARGEM DE COMERCIALIZAÇÃO .......................................................................................... 56
3.3 APLICAÇÃO EMPÍRICA DA MARGEM DE COMERCIALIZAÇÃO............................................ 58
3.4 REFERÊNCIAS........................................................................................................................... 60
3.5 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM .......................................................................................... 61
CAPÍTULO 4.......................................................................................................................................... 63
ELEMENTOS PARA A AVALIAÇÃO DE PROJETOS DE INVESTIMENTOS RURAIS....................... 63
4.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 63
4.2 ASPECTOS TÉCNICOS E ECONÔMICOS DO PROJETO....................................................... 63
4.2.1 Aspectos técnicos................................................................................................................ 63
4.2.2 Aspectos econômicos.......................................................................................................... 64
4.3 ENGENHARIA DO PROJETO .................................................................................................... 64
4.3.1 Orçamento unitário .............................................................................................................. 65
4.4 AVALIAÇÃO DO PROJETO ....................................................................................................... 66
4.4.1 Fluxo de Caixa..................................................................................................................... 67
4.4.2 Critérios de avaliação .......................................................................................................... 68
4.4.2.1 Valor Presente Líquido (VPL) ........................................................................................... 68
4.4.2.2 Taxa Interna de Retorno (TIR).......................................................................................... 70
4.4.2.3 Relação Benefício-Custo (Rb/c) ....................................................................................... 74
4.4.3 Análise de sensibilidade ...................................................................................................... 75
4.5 APLICAÇÃO A UM SISTEMA AGROFLORESTAL (SAF) ......................................................... 76
4.6 REFERÊNCIAS........................................................................................................................... 78
4.7 EXERCÍCIO DE APRENDIZAGEM ............................................................................................ 79
APÊNDICE – ORÇAMENTOS UNITÁRIOS.......................................................................................... 81
CAPÍTULO 5.......................................................................................................................................... 83
AGRONEGÓCIO, CADEIA PRODUTIVA E CADEIA DE SUPRIMENTO ............................................ 83
5.1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 83
5.2 CADEIA DE SUPRIMENTO........................................................................................................ 85
5.3 CONCEITO DE CADEIA DE SUPRIMENTO OU SUPPLY CHAIN............................................ 85
5.3.1 Quem são os clientes? ........................................................................................................ 86
5.3.2 Distribuição: atacado e varejo ............................................................................................. 87
5.3.3 Processamento agroindustrial ............................................................................................. 88
5.3.4 Produtores rurais ................................................................................................................. 89
5.3.5 Fornecedores....................................................................................................................... 89
5.3.6 Legislação e regulamentação.............................................................................................. 90
vi
5.4 CANAIS DE DISTRIBUIÇÃO OU REDE DE DISTRIBUIÇÃO.................................................... 91
5.4.1 Sistema vertical dos canais de distribuição......................................................................... 94
5.5 PLANEJAMENTO DO CANAL DE DISTRIBUIÇÃO ................................................................... 96
5.5.1 Logística de distribuição ...................................................................................................... 97
5.5.2 Fluxos da cadeia de suprimento.......................................................................................... 98
5.5.3 Matriz FOFA (SWOT) de planejamento ............................................................................ 100
5.5.4 Visão global do processo de gestão de uma cadeia de suprimento ................................. 103
5.5.4.1 Visão cíclica do processo de transação comercial......................................................... 103
5.5.5 Governança ....................................................................................................................... 105
5.6 CONSIDERACÕES FINAIS ...................................................................................................... 107
5.7 REFERÊNCIAS......................................................................................................................... 108
5.8 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM ........................................................................................ 109
ANEXO – CONCEITOS BÁSICOS ..................................................................................................... 111
CAPÍTULO 6........................................................................................................................................ 115
MAPEAMENTO E ANÁLISE DE ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS NA AMAZÔNIA .................. 115
6.1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 115
6.2 CONCEITO DE ARRANJO PRODUTIVO LOCAL - APL ......................................................... 116
6.3 METODOLOGIA ....................................................................................................................... 118
6.3.1 Modelo de análise.............................................................................................................. 120
6.3.2 A técnica de componentes principais ................................................................................ 122
6.4 ANÁLISE DOS RESULTADOS................................................................................................. 125
6.4.1 Índice de concentração normalizado................................................................................. 126
6.5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................... 130
6.6 REFERÊNCIAS......................................................................................................................... 131
6.7 EXERCÍCIOS DE APRNDIZAGEM .......................................................................................... 132
APÊNDICE – ANÁLISE FATORIAL .................................................................................................... 133
1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 133
2. O QUE É ANÁLISE FATORIAL .................................................................................................. 134
2.1 OBJETIVO DA ANÁLISE FATORIAL ....................................................................................... 134
2.2 TAMANHO DA AMOSTRA ....................................................................................................... 134
2.3 SUPOSIÇÕES NA ANÁLISE FATORIAL ................................................................................. 134
2.4 ANÁLISE DE FATORES VERSUS ANÁLISE DE COMPONENTES ....................................... 135
2.5 CRITÉRIOS PARA A EXTRAÇÃO DE FATORES ................................................................... 135
2.6 ROTAÇÃO DE FATORES ........................................................................................................ 135
2.7 MODELO BÁSICO DE ANÁLISE FATORIAL ........................................................................... 136
2.8 EXEMPLO DE APLICAÇÃO ..................................................................................................... 138
2.8.1 Adequação dos dados ....................................................................................................... 138
2.8.2 Análise fatorial de componentes ....................................................................................... 139
2.8.3 Interpretação de fatores..................................................................................................... 139
2.8.4 Nomeação de fatores ........................................................................................................ 140
vii
2.8.5 Equações do modelo ......................................................................................................... 141
2.9 CONSIDERAÕES FINAIS......................................................................................................... 142
2.10 REFERÊNCIAS....................................................................................................................... 142
2.11 EXERCÍCIOSDE APRENDIZAGEM ....................................................................................... 142
CAPÍTULO 7........................................................................................................................................ 143
APL E DESENVOLVIMENTO LOCAL NA AMAZÔNIA: EVIDÊNCIAS .............................................. 143
7.1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 143
7.2 O FOCO TERRITORIAL E O CONCEITO DE ARRANJO PRODUTIVO................................. 146
7.2.1 Arranjos produtivos locais e competitividade sistêmica .................................................... 147
7.3 EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS COMUNS AOS APL DA AMAZÔNIA ............................................ 153
7.3.1 Centralização das ações de decisão nas empresas ......................................................... 154
7.3.2 Elementos comuns identificados em estudos prévios....................................................... 154
7.3.3 Elevado grau de integração vertical intra-empresa regional ............................................. 155
7.3.4 Ampla diversidade de produtos e baixo volume de produção........................................... 157
7.3.5 Fontes escassas de recursos e forte aleatoriedade na aplicação .................................... 157
7.3.6 Mercado de produto restrito............................................................................................... 158
7.3.7 Tecnologia ......................................................................................................................... 158
7.3.8 Capacitação da mão-de-obra local.................................................................................... 159
7.3.9 Infra-estrutura de transporte e comercialização ................................................................ 160
7.4 REFERÊNCIAS......................................................................................................................... 160
7.5 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM ........................................................................................ 162
CAPÍTULO 8........................................................................................................................................ 163
MATRIZES DE INSUMO-PRODUTO E DE CONTABILIDADE SOCIAL............................................ 163
8.1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 163
8.2 MODELO ESTÁTICO ABERTO DE INSUMO-PRODUTO....................................................... 164
8.2.1. Exemplo de aplicação do modelo ......................................................................................... 166
8.3 MATRIZ DE CONTABILIDADE SOCIAL .................................................................................. 167
8.3.1 O modelo algébrico da matriz de contabilidade social .......................................................... 169
8.3.2. Aplicação do modelo de MCS .......................................................................................... 174
8.4.3 Efeitos multiplicadores e setores-chave da Região Norte................................................. 178
8.4.4 Considerações finais ......................................................................................................... 181
8.5 REFERÊNCIAS......................................................................................................................... 182
8.6 EXERCÍOS DE APRENDIZAGEM............................................................................................ 184
APÊNDICE – ÁLGEBRA MATRICIAL................................................................................................. 186
1. TERMINOLOGIA DA ANÁLISE MATRICIAL .............................................................................. 186
2. MANIPULAÇÃO ALGÉBRICA DE MATRIZES ........................................................................... 187
2.1 IGUALDADE DE MATRIZES .................................................................................................... 187
2.2 MATRIZ TRANSPOSTA ........................................................................................................... 187
2.3 ADIÇÃO E SUBTRAÇÃO DE MATRIZES ................................................................................ 187
3. MULTIPLICAÇÃO DE MATRIZES.............................................................................................. 188
viii
3.1 MULTIPLICAÇÃO POR UM ESCALAR.................................................................................... 188
2.2 MULTIPLICAÇÃO DE MATRIZES............................................................................................ 188
4. DETERMINANTE DE UMA MATRIZ .......................................................................................... 189
4.1 REGRA GERAL DE LAPLACE................................................................................................. 190
4.2 PROPRIEDADES DO DETERMINANTE.................................................................................. 191
5. MATRIZ INVERSA ...................................................................................................................... 191
5.1. SOLUÇÃO DE SISTEMAS LINEARES ................................................................................... 193
6. SOLUÇÃO DE MATRIZES NO EXCEL ...................................................................................... 194
7. REFERÊNCIAS........................................................................................................................... 195
8. EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM .......................................................................................... 195
CAPÍTULO 1
CONCEITO DE ECONOMIA RURAL
1.1 INTRODUÇÃO

Neste capítulo, apresenta-se o conceito de economia rural como uma aplicação do conceito
de economia ao setor rural. A possível origem da economia rural deve estar vinculada à Escola
Fisiocrata, que marcou seu espaço entre 1750 e 1775 quando nasceu a Escola Clássica. Neste
tempo, o maior representante da Escola Fisiocrata, Dr. François Quesnay, filho de agricultor e médico
de Luís XV, atribuiu grande ênfase ao setor rural ao defendê-lo como único capaz de gerar riqueza.
Deste momento histórico em diante, a produção rural marca cada vez mais, sobretudo na
economia brasileira, importância para o desenvolvimento intersetorial da economia. Até os anos 30, o
Brasil dependia praticamente da economia do café, depois iniciou a diversificação da produção e da
agroindustrialização dos produtos rurais, de modo que na segunda metade do século XX, a pauta de
exportação de produtos rurais se ampliou consideravelmente para café, açúcar, suco de laranja,
algodão, soja, milho, pimenta-do-reino, frutas, flores, madeira, papel e celulose, peixe, camarão,
carnes, óleo vegetal, entre outros.
No início do século XXI, o Brasil passou a ser o maior exportador de carnes, suco de laranja,
açúcar, álcool e o segundo maior exportador de soja, por exemplo. Em 2004, o agronegócio brasileiro
exportou US$ 39 bilhões, gerando um superávit de US$ 34,1 bilhões, representando 48,46% das
exportações totais.
O agronegócio respondeu por 21,6 milhões de empregos, cerca de 30% da população
economicamente ativa e 34% do produto interno bruto (PIB), ou US$ 206 bilhões.
Na Amazônia, o agronegócio empregou 1,3 milhão de pessoas, em 2004, 45% da mão-de-
obra ocupada na região, participou como 22% das exportações e com 39% do PIB, cerca de R$ 33
bilhões.
Pelo que se observa, a Economia Rural é um tópico importante dentro da ciência econômica,
merecendo destaque no ensino de graduação e pós-graduação nos principais cursos agrícolas e não-
agrícolas das principais universidades do Brasil e do Mundo.
O conceito de Economia Rural diz respeito ao conjunto dos conhecimentos que envolvem as
relações de produção, processamento, distribuição e consumo das coisas rurais, agora e no futuro. A
definição de Economia Rural se refere ao estudo das formas como o homem escolhe utilizar
tecnologia e recursos escassos (como trabalho, capital, recursos naturais e capacidade de gestão)
em atividades alternativas (agrícola, pecuária, florestal, extrativa) para produzir alimentos e fibras
e distribuí-los para atender às necessidades de consumo das populações presentes e futuras,
sem destruir a natureza.
2
Este conceito amplo de Economia Rural carece de compreensão sobre como utilizá-lo na
prática para cumprir as funções socioeconômicas da agricultura e contribuir para enfrentar, talvez, o
maior problema da humanidade neste século que é a fome e a desnutrição. Sabe-se que o setor rural
é o que apresenta a maior capacidade de resposta, a um menor custo e maior dinamismo por:
a) Utilizar racionalmente os fatores de produção, tecnologia apropriada e reduzir os impactos
ambientais;
b) Produzir alimento e fibra para consumo, processamento e exportação, reduzindo a fome;
c) Criar oportunidade de trabalho e emprego, gerar e distribui renda, ampliar o tamanho do
mercado de produtos e de fatores, reduzindo a pobreza;
d) Contribuir para controlar a inflação e equilibrar a balança comercial, via exportações de
commodities e produtos de maior valor agregado;
e) Colaborar com o desenvolvimento econômico em função das ligações que estabelece com as
atividades a montante e a jusante, formando cadeias produtivas integradas e dinâmicas.
Um dos pontos cruciais da aplicabilidade do conceito de Economia Rural e compreender o
que são os fatores de produção e como são alocados nas atividades rurais.

1.2 FATORES DE PRODUÇÃO

Por fatores de produção, compreendem-se os meios utilizados pelo homem para produzir
bens e serviços, destinados à população presente e futura. Esses fatores possuem as características
de serem limitantes em quantidade, em função do Estado da arte, e versáteis por ter uso múltiplo e
permitir combinações em proporções variáveis.
A classificação mais usual para os fatores de produção é a seguinte: trabalho (T), capital (K)
e recursos naturais (N).
a) Trabalho (T): é a contribuição do ser humano na produção, na forma de atividade física
(trabalho do diarista na agricultura, peão na pecuária, técnico agrícola, funcionários na
agroindústria, etc.) e atividade mental (gestão e controle – contador, administrador,
agrônomo; consultor – veterinário, agrônomo, engenheiro florestal, zootecnista, engenheiro
de pesca, advogado, etc.). O trabalho na unidade de produção rural é identificado por:
emprego permanente (trabalho remunerado e com carteira assinada, consultoria
permanente), emprego temporário (trabalho remunerado com ou sem carteira assinada; mão-
de-obra do diarista ou trabalho eventual), trabalho da família (a grande maioria não é
remunerada), serviço de empreitada (prestação de serviço), mutirão (geralmente ocorre nas
comunidades rurais, mediante a troca de dias de trabalho onde todos participam).
b) Capital (K): o capital pode ser classificado em fixo e variável, de acordo com o tempo de uso.
O capital fixo é o conjunto de ferramentas, equipamentos, máquinas e instalações (armazém,
casa de máquinas, estábulo, conjunto de irrigação, estrada, barragem, etc.), fabricados ou
construídos pelo homem e que contribuem para a produção de bens e serviços. Este tipo de
capital é incorporado lentamente ao processo produtivo e uma vez adquirido, seu custo
independe da quantidade produzida. Assim, se um agricultor adquire um trator por 100
unidades monetárias, cujo uso racional permite arar 300 ha de terra por ano e o agricultor ara
apenas 20 ha e deixa o trator parado o resto do ano, o custo empatado é o mesmo que
trabalhasse os 300 ha. Portanto não há como recuperar o custo investido em capital fixo que
não é utilizado. O capital variável, como o próprio nome indica, varia com a quantidade
produzida. Ele se incorpora ao processo produtivo em um único ato de produção. São
exemplos: sementes, adubo, fertilizantes, agrotóxicos, mão-de-obra temporária, combustível,
sacaria, etc. Se para o cultivo de um hectare são necessários 200 kg de adubo, cinco
hectares necessitam de uma tonelada de adubo. Portanto, o uso do insumo varia com a
quantidade produzida.
c) Recursos Naturais (N): são os elementos da natureza que o homem utiliza para produzir
bens. A terra é o principal fator de produção entre os recursos naturais. A terra oferece o
substrato de sustentação das lavouras (culturas temporárias e permanentes), pastagens para
a pecuária, plantio de florestas, construção de edificações rurais, etc. De acordo com sua
fertilidade e proximidade dos mercados e da infra-estrutura de estradas, alcança maior preço
3
no mercado. A terra é um ativo importante que serve como garantia para a obtenção de
empréstimos bancários e para a formação de parceria com agroindústrias, cooperativas, etc.
A água também é um importante fator de produção e responde por grande parte das boas
colheitas e produção de pastagens, de acordo com sua distribuição pluviométrica. A água
utilizada na irrigação afeta diretamente a produção e a qualidade do produto. A água utilizada
na produção de energia, produção de peixe e camarão em cativeiro, consumo dos animais e
consumo humano também é considerado como recurso natural de grande influência na
produção rural. A floresta é outro recurso natural que fornece madeira para as construções
rurais, cercas, estábulos, lenha, carvão e proteção de encostas, margens de rios, etc. O clima
(insolação, temperatura, chuva, umidade, vento, etc.) também contribui de forma significativa
para o bom desempenho da produção rural. Os minerais (nitrogênio, fósforo, potássio,
calcário, ferro, etc.) são importantes fatores de produção. Por último, são considerados como
recursos naturais os animais como aves de postura, matriz leiteira, eqüídeos, etc.
Atualmente, grande atenção tem sido dada ao uso dos recursos naturais de forma
sustentável, sendo reconhecido pelo mercado consumidor, que paga um prêmio aos produtos
gerados em processos limpos, ou seja, de baixo impacto sobre o meio ambiente.
Após esta apresentação sucinta dos fatores de produção, é de fundamental importância que
se conheça como esses recursos produtivos estão sendo empregados nas unidades de produção da
Amazônia. Toma-se como exemplo as unidades produtivas rurais do Estado do Pará, com base no
Censo Agropecuário de 1995.
A utilização das terras nas unidades de produção rurais do Estado do Pará, de acordo com
os dados do Censo Agropecuário, é a seguinte: 3,9% ocupadas com lavouras (culturas temporárias e
culturas permanentes); 28,3% ocupadas com pastagens plantadas e 7,9% com pastagens naturais
(pecuária de corte e de leite); 0,6% com matas plantadas (plantio de eucalipto para celulose e outros
plantios para produzir carvão vegetal); 56,3% ocupados com matas naturais (mata densa, capoeirão
e capoeira); 3,0% com áreas inaproveitáveis para agropecuária (são consideradas as áreas próximas
aos igarapés, rios, terrenos muito inclinados, área com benfeitorias, etc.).
Os preços das terras agricultáveis na região amazônica e, especificamente, no Pará, em
2004, são: mata R$ 255,00/ha em Monte Alegre; pastagem formada R$ 383,00/ha em São Félix do
Xingu; agricultura R$ 1.225,00/ha em Monte Alegre, Oriximiná e Alenquer. No Paraná, os preços das
terras agrícolas são: mata R$ 1.294,00/ha em Guarapuava, pastagem formada R$ 6.198/ha em
Londrina e agricultura R$ 14.773,00/ha em Londrina. Observam-se que os preços das terras no Pará
são os mais baixos do mundo, por isso, dada sua fertilidade natural e a facilidade de correção,
mesmo não contando com infra-estrutura de estradas e de comercialização, a Amazônia está
atraindo muitos empresários da área de grão, madeira e de pecuária.
O pessoal ocupado nas unidades de produção rural do Estado do Pará, segundo os dados
do Censo Agropecuário, apresentou a seguinte distribuição por atividade produtiva: 48,4% das
pessoas estão ocupadas nas lavouras temporárias (arroz, feijão, milho, mandioca, hortaliças, etc.);
11,9% nas lavouras permanentes (frutas, cacau, café, pimenta-do-reino, dendê, seringa, sistema
agroflorestal, etc.); 16,8% na silvicultura (florestas plantadas) e extrativismo florestal; 22,9% na
pecuária (bovinos, bufalinos, aves, suínos, ovinos, caprinos). Cabe ressaltar que o conceito de
ocupação é mais amplo do que o de emprego formal, pois, contempla o trabalho de qualquer pessoal
mesmo que tenha se ocupado na atividade apenas por um dia de serviço em dado ano agrícola.
O emprego formal, nestas mesmas atividades rurais foi o seguinte: 23,7% em lavouras
temporárias e 15,0% em lavouras permanentes; 9,0% em silvicultura e extração vegetal; 43,8% na
pecuária; 8,6% na produção mista (lavoura e pecuária).
Pelo que se observa, a situação se inverte entre a pecuária e a lavoura temporária. Assim, a
atividade rural pecuária gerou maior número de emprego formal e a lavoura temporária ocupou maior
número de mão-de-obra. Tanto o emprego formal quanto a ocupação temporária de mão-de-obra são
importantes para atenuar a migração da força de trabalho mais qualificada do campo para as cidades,
vez que mesmo de forma sazonal, em determinados períodos do ano, por ocasião de preparo de
área, tratos culturais, colheitas, limpeza de pasto, concerto de cerca, etc., cria-se oportunidade de
trabalho para a mão-de-obra do setor rural.
Na Tabela 1.1, apresenta-se a relação entre o total do emprego (formal e informal,
remunerado ou não-remunerado), obtido do Censo Populacional de 2000 e o emprego formal do
Registro Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego relativo ao ano
2000. Pelo que se observa, a hegemonia das atividades está trabalhando com mão-de-obra informal,
4
portanto não estão cumprindo a legislação trabalhista. As atividades de pesca e lavoura temporária
na Amazônia são tipicamente unidades familiares, em que a quase totalidade do trabalho é da família
e uma pequena parte é constituída do trabalho temporário.
Tabela 1.1
Dados de pessoal ocupado e emprego formal por atividade produtiva no Estado do Pará, relativo ao
ano 2000.
Atividade produtiva Ocupação (A) Emprego (B) Participação (B/A)
Lavoura temporária 279.694 2.251 0,80%
Lavoura permanente 119.743 2.879 2,40%
Pecuária de corte 65.422 5.075 7,76%
Pecuária de pequeno porte 37.712 961 2,55%
Exploração florestal 49.549 2.849 5,75%
Pesca 66.386 476 0,72%
Agroindústria animal 5.456 3.876 71,04%
Agroindústria vegetal 74.580 10.725 14,38%
Curtumes de couro 1.482 244 16,46%
Madeira e mobiliário 55.342 31.340 56,63%
Total geral 2.017.162 458.632 22,74%
Fonte: Censo (2000); RAIS (2001). A = dados do censo de ocupação de mão-de-obra; B = dados de
empregos formais da RAIS.

Mesmo nas atividades agroindustriais como o processamento de produtos vegetais


(agroindústria vegetal) e o beneficiamento de couro (curtume) em que a informalidade é grande.
Estas unidades produtivas são enquadradas na categoria de microempresas e de empresas de
pequeno porte, que sofrem a influência de diversos fatores, como elevada carga tributária, dificuldade
de acesso a crédito, acesso a assistência técnica e a tecnologia, acesso a mercado e elevados
encargos trabalhistas. Em função disso, a maioria das empresas operam na informalidade.
Mesmo na agroindústria de beneficiamento de produtos de origem animal (carne, leite,
pescado, aves) e de madeira e mobiliário, em que há muitas empresas de médio e grande porte, há
também emprego informal, face aos fatores indicados no parágrafo anterior.
A tecnologia empregada nas atividades rurais do Estado do Pará ainda é rudimentar ou
tradicional. Na pecuária, convive-se com fazendas em que são empregadas as práticas de
inseminação artificial, transferência de embrião e manejo rotacional de pastos, representando a
fronteira tecnológica e da qualidade da produção, e com fazendas em que o gado não tem raça
definida, com sistema de manejo extensivo. Na agricultura, predomina a agricultura familiar em que
no preparo da área ainda utiliza o fogo para a queima da vegetação. Recentemente, chegou a
agricultura mecanizada, em que são empregadas tecnologias-padrão de outros centros de produção
de grãos domo Paraná e Mato Grosso.
Na pecuária, o controle de doenças do rebanho, conforme dados do Censo Agropecuário,
apenas 60,85% das unidades de produção fez o controle de alguma doença (aftosa, raiva, brucelose,
etc.); 0,56% das unidades de produção fizeram inseminação artificial, contra 7% no Brasil. A
conservação do solo (uso de curva de nível, terraço, quebra-vento, rotação de cultura, plantio direto,
correção do solo, etc.) foi praticada em 3,45% das unidades de produção e apenas 16,87% dessas
unidades empregaram fertilizantes de solo.
Com relação ao fogo intencional, utilizado como técnica agrícola tem-se que na Amazônia, é
empregado para a limpeza de pastagens, de áreas agrícolas e em áreas de floresta densa para ralear
e permitir o crescimento de gramíneas. Há também o fogo não intencional ou acidental que ocorre em
áreas de floresta (por ocasião de faísca, fogos realizados para tirar mel, etc.) e em áreas de
pastagens, provocado por faísca produzido por pedras ao se tocarem, pontas de cigarro jogadas por
passageiros, etc. A distribuição da incidência de fogo é a seguinte: 52% são queimadas intencionais,
sendo 36% para limpeza de áreas e 16% em áreas de floresta; 48% são queimadas acidentais,
sendo 12% em áreas de floresta e 36% em áreas de pastagens.
Com relação ao preparo de área para o plantio de grãos, a Figura 1.1 mostra uma área
prepara pelo método tradicional de derruba e queima para plantio de arroz ou de pastagem. A Figura
2 é uma área que inicialmente foi preparada com uso de trator e os leirões com as árvores acamadas
sendo queimados para permitir a limpeza do terreno e realizar o plantio de grãos.
5
A Figura 1.1 mostra um preparo de área pelo método tradicional de derruba e queima. Nota-
se que as árvores mais grossas são deixadas, porque demanda trabalho pesado para ser feito com
machado. Assim, broca-se o mato mais fino e põe fogo para limpar a área e depois se contrata uma
moto-serra para fazer a derruba e corte da madeira para a produção de estacas, lenha ou ainda
madeira para carvão.
Na Figura 1.2, a madeira é arrancada por tratores, mediante o uso de correntão atrelada a
dois tratores que a arrasta para tombar as árvores. Após esta prática, põe-se fogo para queimar as
árvores finas. O restante é ajuntado em leiras, formando camaleões no comprimento da área. Entre
estas leiras, faz-se o plantio de arroz. No ano seguinte, queimam-se essas leiras e planta-se o arroz.
Esta prática continua até amansar a terra, ou seja, até que a área fique livre de raízes, tocos, para
permitir a utilização plena nas máquinas na lavoura da soja.

Figura 1.1 – Área preparada para o plantio de arroz ou pastagem. Foto de Antônio Menezes.

Figura 1.2 – Área preparada com trator e queima dos leirões de mato. Foto de Max.
6
Estas informações, portanto, ajudam a entender a utilização dos recursos ou fatores de
produção nas unidades de produção. É importante observar que a não utilização de tecnologias
apropriadas se deve à escassez dos recursos. A escassez é determinada em função do Estado da
arte em termos do conhecimento que os produtores têm sobre a utilização racional desses fatores de
produção em cada atividade.
Assim, a terra mesmo existindo em grande quantidade na Amazônia, é limitada no que
concerne à qualidade e possibilidade de uso (fertilidade natural, declividade, legislação ambiental,
reservas, áreas indígenas, infra-estrutura, preço, direito de uso, etc.). A terra para ser utilizada na
produção agropecuária precisa atender aos requisitos legais e se prestar para uso das técnicas
agrícolas de forma eficiente e competitiva.
A mão-de-obra pode ser limitada tanto em quantidade como em habilidade profissional para
executar com eficiência determinadas tarefas agropecuárias ou florestais. Por exemplo, na área da
BR-163, onde a produção mecanizada de grãos está avançando rapidamente, não se dispõe de mão-
de-obra local para operar com trator e colheitadeira, agrônomos e técnicos agrícolas especializados
em grãos, caracterizando uma escassez de mão-de-obra com especialização nas atividades de
grãos.
Há também escassez de tecnologia apropriada às condições das terras da Amazônia e da
força de trabalho local. A introdução de tecnologia importada está causando grande estrago ao meio
ambiente, portanto, sem garantia de sustentabilidade em longo prazo. A tecnologia social ou
tecnologia apropriada aos sistemas de produção locais carecem de maciços investimentos na
geração e difusão desses conhecimentos para a apropriação dos agentes que atuam na Amazônia.
A seguir serão apresentados os principais sistemas de produção ou alternativas de produção
em prática na Amazônia. É nestas atividades que os fatores de produção são combinados de tal
forma a gerar os produtos destinados ao consumo das famílias. Esta ação de alocar recursos
escassos em atividades alternativas dentro da unidade de produção ocorre como no esquema
apresentado em seguida.
A Figura 1.3 ilustra o processo de produção em que os fatores de produção representam as
entradas, a unidade de produção é o local onde se faz a escolha da atividade para a alocação dos
fatores e a produção representa as saídas dos produtos finais para a venda nos mercados
consumidores. Uma parte deste produto volta para retroalimentar o sistema.

Fatores de produção Unidade de produção Produção


• Trabalho • Escolha da atividade • Alimentos
• Capital • Alocação de fatores • Fibras
• Recurso natural • Gestão, etc. • Outros

Figura 1.3 – Esquema do sistema de alocação e transformação de insumo e produto final.

Os fatores de produção têm preço em função da sua escassez e da utilidade que agregam à
produção. Estes fatores vão compor o custo de produção das atividades produtivas. Em função disso,
na unidade de produção procura-se fazer uso de tais fatores de tal modo a se obter o máximo de
produção ao menor custo possível, ou seja, procura-se maximizar o lucro de cada atividade. A arte de
utilizar racionalmente os fatores de produção é denominada gestão empresarial, considerado fator
limitante ao desenvolvimento local na Amazônia e no Brasil como um todo.
Na seção seguinte serão apresentados os principais sistemas de produção ou tipos de
unidades produtivas em que a utilização desses fatores de produção entra como variáveis
caracterizadoras.
7

1.3 PRINCIPAIS TIPOS DE UNIDADES DE PRODUÇÃO

Neste tópico, faz-se uma descrição sucinta sobre os principais traços dos sistemas
agropecuários praticados nas unidades de produção rural da Amazônia ou do Brasil. Todos os
sistemas serão avaliados com base em sete variáveis fundamentais: tamanho da unidade de
produção, força de trabalho, tecnologia, destino da produção, forma de produção, tipo de produto e
impacto ambiental.
A analise dessas variáveis permite que seja feita uma diferenciação dos principais tipos de
sistemas de produção rural, sem a necessidade de seguir uma ou outra visão teórica estilizada.
Essas variáveis permitem transitar por todas as correntes ideológicas que tratam dos conceitos de
agricultura sem optar por uma específica.

1.3.1 Agricultura tradicional ou de baixa renda

A agricultura tradicional, também chamada de agricultura familiar, agricultura camponesa ou


agricultura de baixa renda, apresenta as seguintes características:
a) Tamanho da unidade de produção ou porte do produtor: pequeno porte. Na Amazônia,
pode ser considerado um pequeno produtor aquele que possui apenas um lote de terra (50
ha no nordeste paraense ou 100 ha na rodovia Transamazônica ou na BR-163). Alguns
autores consideram as unidades com áreas produtivas de até 100 hectares e outros incluem
como agricultura camponesa todos os produtores com área de até 200 ha.
b) Força de trabalho: predomina a mão-de-obra familiar. A literatura considera agricultura
familiar ou agricultura de baixa renda aquela unidade produtiva em que pelo menos 50% da
mão-de-obra utilizada provêm da própria família do produtor. O termo baixa renda se deve ao
fato de que a produção desses agricultores alcança baixa cotação de preço no mercado,
gerando uma baixa renda, dado que são produtos de primeira necessidade, de baixo valor
agregado e produzido em pequena quantidade.
c) Tecnologia de produção: tradicional, adquirida com a experiência passada, com forte traço
da cultura local. Os produtos (variedades de plantas e raças de animais) são rústicos, porém
de menor produtividade que as culturas comerciais. A tecnologia, do preparo da área até a
colheita, via de regra, é feita manualmente, com uso mínimo de mecanização e agrotóxicos.
A broca e derruba da mata é feita com ferramentas rústicos (foice, machado, terçado), em
alguns casos moto-serra. Ainda se pratica a queima para limpar a área a ser cultivada. Os
tratos culturais como plantio e capina é feito com enxada.
d) Destino da produção: boa parte da produção se destina ao consumo da família na
propriedade e apenas o excedente é destinado ao mercado. Isto significa que a decisão do
produtor volta-se, em primeiro lugar, para assegurar o sustento da família e não para atender
ao mercado.
e) Forma de produção: diversificada. Um traço fundamental da agricultura familiar é a
diversificação da produção. Numa mesma área cultivam-se vários produtos, como uma forma
eficiente de reduzir o risco de preço de mercado, reduzir o ataque de pragas e doenças e
garantir a sustentação da família. A diversificação de atividade (culturas anuais, culturas
perenes, árvores, pequenos animais, grandes animais) permite alocar de forma adequada a
mão-de-obra da família ao longo do ano. Pratica-se o consórcio agrícola ou, em alguns
casos, o sistema agroflorestal.
f) Tipo de produto: arroz, feijão, mandioca, milho, hortaliças, frutas, lenha, carvão, galinha,
porco, gado, ovinos e caprinos. Esses produtos são cultivados em pequena escala individual,
mas no conjunto, o excedente comercializado abastece boa parte do mercado.
g) Impacto ambiental: de moderado a alto. Como não são empregadas as práticas
conservacionistas de solo (curva de nível, terraço, plantio no sentido contrário ao declive,
áreas próximas a igarapés, etc.) e o uso do fogo para limpar a área, causa importante
impacto na fertilidade do solo e na flora e fauna, pois, na Amazônia, as queimadas,
geralmente, ultrapassam á área a ser queimada e destrói parte da floresta e sua
biodiversidade.
8
A Figura 1.4 ilustra uma produção de galinha caipira, típica da produção familiar. Observa-se
que há várias raças de galinhas, inclusive a galinha-d’angola. Esta diversificação de produtos permite
atender aos diferentes gostos e preferências do consumidor e da própria família. O cercado de
madeira próximo à casa serve para reunir o rebanho, alimentá-lo com milho, escolher os animais para
venda e para proteger de predadores durante a noite. A Figura 1.5 mostra um rebanho de animais da
produção familiar, onde também predomina a diversidade de animais sem raça definida, são os
mestiços (mistura de gado zebu como gado europeu) e raçados (mistura entre raças zebuínas). Este
tipo de animal é criado pela sua rusticidade e grande capacidade de sobrevivência ao manejo
extensivo. Porém, no que tange ao mercado, a carne apresenta baixo padrão de qualidade, não
atendendo aos requisitos dos consumidores internacionais.

Figura 1.4 – Produção familiar de galinha caipira no Pará. Foto de Antônio Menezes.

Figura 1.5 – Produção familiar de gado no Pará. Foto de Antônio Menezes.

A Figura 1.6, por sua vez, mostra o transporte de banana da produção familiar, em lombo de
burro. Esta prática causa grande prejuízo, pois apenas 40% da produção colhida chegam ao mercado
em condições de consumo.
9

Figura 1.6 – Transporte de banana da produção familiar no Pará. Foto de Antônio Menezes.

1.3.2 Agricultura sustentável ou ecológica

A produção sustentável engloba um grande leque de sistemas de produção, como a orgânica,


em que não se utilizam insumos químicos na produção, também conhecida como produção
ecológica, com uso de tecnologia biológica para manejo do solo e das plantas, e produção
sustentável, em que é permitida a utilização de insumos químicos rigorosamente dentro das
recomendações técnicas.
As características deste tipo de agricultura, bastante utilizada nas regiões Sul e Sudeste do
Brasil, e iniciadas na Amazônia, são apresentadas em seguida.
a) Tamanho da unidade de produção ou porte do produtor: pequeno porte.
b) Força de trabalho: mão-de-obra familiar em algumas unidades produtivas e em outras
utilizam predominantemente mão-de-obra contratada.
c) Tecnologia de produção: tecnologia biológica para manejo do solo, manejo de pragas e
doenças e de plantas invasoras. Emprega-se tecnologia motorizada também e uso de
agrotóxico, porém em níveis reduzidos e obedecendo a todas as recomendações técnicas do
fabricante.
d) Destino da produção: boa parte da produção se destina ao mercado consumidor. É um
nicho de mercado, em que o produto é identificado, com preço mais alto, mas que uma
parcela de consumidor está disposta a pagar esse preço mais alto para obter produtos
saudáveis, sem produtos químicos prejudiciais à saúde.
e) Forma de produção: diversificada. Combinam-se vários tipos de plantas e animais em uma
mesma unidade de produção. É uma atividade própria das granjas próximas ao mercado
consumidor. As chácaras produtoras de hortaliças, frutas, leite, ovos, permitem integrar a
produção e empregar a tecnologia biológica.
f) Tipo de produto: hortaliças, frutas, queijo, leite, ovos, galinha caipira. A produção se destina
à feira do produtor e atende a um nicho de mercado. Nos supermercados, o produto é
diferenciado para os consumidores que demandam esse tipo de produto. O nicho de mercado
é formado por consumidores de renda mais elevada e com maior nível de conhecimento
10
sobre saúde, alimentação e meio ambiente. Este nicho de mercado cresce a taxas superiores
a 20% ao ano no mundo.
g) Impacto ambiental: baixo a muito baixo. No caso da agricultura orgânica, o impacto
ambiental é muito baixo, chegando a zero no que tange ao uso de produtos químicos.
Os produtos ilustrados nas Figuras 1.1 e 1.3, produção de galinha caipira e banana, são
orgânicos, pois não empregam produtos químicos, porém a tecnologia não é biológica, no caso da
banana.

1.3.3 Agricultura integrada ou moderna

A agricultura integrada ou moderna predomina no Brasil e em algumas atividades na


Amazônia, como pecuária de corte, produção de grãos (arroz, milho e soja) e dendê. Esta agricultura
faz uso intensivo de agrotóxico e de máquinas em todas as fases da produção. A produção se vincula
diretamente ao mercado consumidor, a uma agroindústria ou a uma cooperativa. As decisões são
tomadas de acordo com as regras do mercado.
Os principais traços desta atividade são apresentados a seguir.
a) Tamanho da unidade de produção ou porte do produtor: pequeno, médio e grande porte.
Não há discriminação quanto ao tamanho, pois os pequenos produtores, se organizados em
associação ou cooperativa, podem empregar de forma eficiente a tecnologia motorizada
(mecânica e química). Na Amazônia, há associações de produtores produzindo grãos
mecanizados em áreas entre 5 e 10 ha por unidade produtiva.
b) Força de trabalho: mão-de-obra contratada e com habilidade técnica. Da mão-de-obra da
família, geralmente, apenas com o produtor ou filho que respondem pela gestão das
atividades constam como empregados.
c) Tecnologia de produção: mecanizada e química. Faz uso da mecanização em todas as
fazes da cultura (preparo de área, plantio, tratos culturais, colheita e beneficiamento). Utilizam
produtos químicos em larga escala para combate de pragas e doenças na lavoura e no
rebanho.
d) Destino da produção: A maior parte ou toda a produção é destinada ao mercado.
Dependendo da característica do produto, vende-se a produção no mercado físico ou no
mercado de futuros, mediante negociações em bolsa de mercadorias. No mercado físico,
geralmente, a produção é entregue a traders (grandes intermediários da produção e
comercialização como a Cargil, Bunge, no caso de milho e soja), a uma agroindústria de
beneficiamento como usina de arroz, frigorífico para abate de gado, indústria de óleo, etc.
e) Forma de produção: monocultura. Este tipo de agricultura empresarial necessita de escala
mínima para tornar o uso das máquinas, instalações, insumos químicos e a gestão eficiente.
Assim, faz-se o cultivo de um único produto em dada área contínua.
f) Tipo de produto: grãos mecanizados (arroz, milho e soja); pomares de laranja, manga,
maçã; pecuária à base de pasto; avicultura e suinocultura integradas, etc.
g) Impacto ambiental: alto a muito alto. O grau de revolvimento do solo é grande, levando à
compactação e/ou à perda por erosão. Uso intensivo de agrotóxico leva à contaminação do
meio ambiente por poluição do ar e contaminação do lençol freático, além de eliminar parte
dos insetos inimigos naturais das pragas, assim como reduzem os insetos que servem de
alimentos para os pássaros. Demais disso, afeta a saúde do homem.
Figura 1.7 mostra o gado da raça nelore sendo alimentado à base de pasto, formada
artificialmente, no município de Rurópolis no Estado do Pará. Nota-se que para a formação da
pastagem foi retirada toda a vegetação e para fazer a limpeza, geralmente, se utiliza o fogo.
A Figura 1.8 exibe uma área preparada mecanicamente para o plantio de soja. Observa-se
que a área está totalmente desprovida de vegetação e sem nenhuma proteção. Ao fundo, encontram-
se os silos para o beneficiamento e armazenamento da produção. A escala mínima para viabilizar
esta infra-estrutura gira em torno dos 800 hectares de área cultivada. Na Amazônia, em função da
legislação ambiental que só permite desmatar 20% da área, o produtor necessitaria de uma área de
4.000 hectares de terra.
11

Figura 1.7 - Produção integrada ou moderna em Rurópolis Pará. Foto de Max.

Figura 1.8 – Agricultura integrada ou moderna em Belterra Pará. Foto de Max.

1.3.4 Agricultura de precisão

A agricultura de precisão surge como necessidade de manter o lucro da agricultura moderna,


mediante a redução de custo de produção por aumentar a precisão e o controle do uso de insumos e
da tecnologia de produção. Consiste então em empregar tecnologia da informação e conhecimento
para fazer uso preciso dos insumos e evitar desperdício. O produtor deve mapear sua área e
subdividi-la em talhões homogêneos quanto às suas características físicas e químicas. As
informações são armazenadas em banco de dados para gerar padrões de análise e comparação em
relação ao nível ideal de que necessita para o desenvolvimento de cada cultura. Assim, a imagem de
satélite revela um determinado talhão está com deficiência de nitrogênio ou com um início de ataque
de pragas.
12
O produtor, de posse dessa informação, corrige o solo ou combate a praga apenas naquele
talhão, economizando uma adubação nitrogenada em toda a área ou faz a pulverização. Com isto, as
experiências indicam que a redução no uso de adubo ou de agrotóxico chega a mais de 20%.
Empregam-se também plantas geneticamente modificadas para desenvolver resistência a pragas e
doenças e ainda não ser afetada pelo uso de dado herbicida para o controle de ervas, gerando uma
redução de custo de até 30% em relação ao cultivo tradicional. Isto é a fronteira no uso de
conhecimento e informação na agricultura. As características dessa agricultura são apresentadas em
seguida.
a) Tamanho da unidade de produção ou porte do produtor: grande porte. Necessita-se de
uma área grande e contínua para racionalizar o uso da tecnologia (máquinas, banco de
dados, imagem de satélite, etc.).
b) Força de trabalho: mão-de-obra contratada e com alto nível educacional e alta habilidade
técnica. É uma atividade conduzida por profissionais (agrônomos, veterinários, zootecnistas,
contadores, administradores, técnicos agrícolas, etc.).
c) Tecnologia de produção: mecanizada, química, tecnologia da informação e do
conhecimento. Uso intensivo de informática, imagem de satélite, geoprocessamento e
georeferenciamento, banco de dados, etc. Faz uso da mecanização em qualquer fase da
lavoura, monitorado por imagem de satélite. As máquinas são importadas e de preço elevado,
assim como o quite de informática e a geração de banco de dados sobre a cultura e a área da
unidade de produção. Testes utilizando a pulverização de precisão por avião já se iniciou na
Amazônia, no Estado do Mato Grosso, nos plantios de soja, com redução de custo estimada
em mais de 20%. Esta tecnologia permite colher e identificar diretamente a qualidade do
produto e a produtividade do talhão. Na pecuária, esta tecnologia entra com a implantação de
um chip que permite o armazenamento de dados sobre o estádio do animal, sua origem,
localização, etc.
d) Destino da produção: Toda a produção é destinada ao mercado. A venda ocorre no
mercado de futuros (bolsa de mercadorias), onde as agroindústrias adquirem a produção,
assim como diversos agentes especuladores.
e) Forma de produção: monocultura.
f) Tipo de produto: grãos mecanizados (arroz, milho e soja), pomares de laranja, plantios
florestais, pecuária de corte e de leite.
g) Impacto ambiental: moderado a baixo. Com a determinação das necessidades de uso de
adubo e de agrotóxico com maior precisão, a quantidade de insumos aplicados na lavoura
diminui, o que reduz o impacto sobre o meio ambiente.

Um outro tipo de unidade produtiva em expansão no mundo e no Brasil é a agricultura


plural, também chamada de pluriatividade. Neste tipo de unidade produtiva, combinam-se atividades
rurais com outras atividades não-agrícolas na composição da renda, que são desenvolvidas por
membros da família e/ou com a ajuda de mão-de-obra contratada. Portanto, é um mix das várias
unidades de produção apresentadas. Não há limites quanto aos itens utilizados na caracterização das
unidades de produção acima. A produção agropecuária e florestal pode ser familiar, moderna ou de
precisão, a mão-de-obra pode ser predominantemente familiar ou contratada, a tecnologia pode ser
rudimentar ou motorizada, a forma de produção pode ser diversificada ou monocultura, o destino da
produção pode ser para o autoconsumo ou para o mercado. O traço desta agricultura é que boa parte
da renda é oriunda de atividades não-agrícolas.
Uma unidade de produção onde se produz peixe em cativeiro e se combina essa atividade
com as atividades de lazer na forma de pesque e pague e/ou restaurante para a população, é
considerada uma unidade de produção plural, pois além da produção de peixe se desenvolve a
atividade serviço e lazer. Em outras unidades produtivas se combina a atividade agrícola com o
trabalho no serviço público ou empresa, serviços de mecânica, adaptação de áreas da propriedade
com trilhas para turistas, etc. Outros combinam ainda as atividades agrícolas com a oferta de mão-
de-obra e comércio ou venda da produção na feira.
O importante é que neste tipo de unidade de produção, bastante freqüente na região
amazônica, boa parte da renda é gerada nas atividades não-agrícolas. Nas comunidades ribeirinhas
da Amazônia, é comum a combinação das atividades de pesca, agricultura, pecuária e a prestação
de serviços de barco para transporte de safra e de passageiros, assim como a atividade de comércio.
13
É freqüente, também, nas unidades produtivas, algum membro da família que complementa a renda
da família vendendo a força de trabalho e outros atuando como professor no local.

Até aqui, dois pontos fundamentais do conceito de economia rural foram apresentados: a
identificação e alocação dos fatores de produção, e os principais tipos de atividade rural onde tais
fatores produtivos são utilizados, de acordo com a tecnologia disponível. Mostrou-se também o
significado do termo escassez ou limitação de recursos para emprego imediato nas atividades
produtivas, quando o mercado sinaliza, tendo como barreira o Estado da arte tecnológica.

1.4 QUESTÕES ECONÔMICAS

A compreensão do conceito de Economia Rural ajuda ao tomador de decisão a se preparar


para responder as seguintes questões fundamentais da economia:
a) O que e quanto produzir?
b) Como produzir?
c) Para quem produzir?
Estas questões estão presentes no dia a dia dos agentes econômicos, que tomam decisão de
alocar recursos escassos em atividades alternativas, para satisfazer os desejos e preferências
individuais ou coletivas, como o produtor familiar de arroz que tenta maximizar seus lucros fazendo
uso da mão-de-obra familiar, terra e máquinas disponíveis na propriedade, o governo que tenta alocar
seus gastos, força de trabalho dos funcionários, máquinas e conhecimento para atender as
necessidades coletivas por saúde, educação, segurança, qualidade de vida, etc.
A primeira destas questões envolve uma decisão de caráter econômico, pois remete o
tomador de decisão a fazer a escolha de qual atividade deve produzir e em que quantidade. Para
apoiar esta decisão, precisa-se fazer um estudo sobre o mercado de produtos e de fatores para que
sejam afloradas as condições de interesse. Dentre as alternativas mais rentáveis e sustentáveis em
longo prazo, pode-se escolher a mais adequada para atender aos objetivos econômicos, sociais e
ambientais do tomador de decisão. Eleita a atividade, passa-se para a segunda fase que é determinar
a quantidade a ser produzida. Isto é importante porque não se pode produzir em demasia nem muito
pouco em relação ao ótimo de mercado. Se a produção for muito baixa, pode-se estimular a entrada
no mercado de outros produtores e tirar sua parcela de mercado. Se produzir em demasia, os preços
podem sofrer forte queda e causar prejuízo. Portanto, a resposta a essa questão exige cuidado, muito
conhecimento do mercado e experiência para tomar a decisão adequada.
A segunda questão se resolve no âmbito tecnológico, pois se volta para o conhecimento da
engenharia de produção de como produzir, fazendo uso da tecnologia apropriada. O emprego de
tecnologia e conhecimento gerencial permite que se produza no limite máximo que o sistema de
produção permite ao menor custo possível. Isto significa que se devem eleger os fatores de produção
e combiná-los na proporção que leva ao máximo de produtividade física e econômica, sem causar
danos à natureza.
A formação de capital humano nas universidades e escolas técnicas permite que a
produtividade total dos sistemas de produção aumente, porque cria condições para combinar de
forma eficiente os fatores econômicos, sociais e ambientais com as inovações tecnológicas. Define-
se assim, as tecnologias sustentáveis para produzir grãos, frutas, fibras, carne, madeira, peixe, etc.,
em dada área de terra, com a mão-de-obra disponível no local.
A terceira questão envolve a distribuição da produção para atender aos diversos segmentos
do mercado local, nacional ou internacional. O âmbito desta decisão envolve conhecimento da
sociologia para se compreender as necessidades dos consumidores, de acordo com o nível de
conhecimento, renda per capita e cultura. Esta é uma questão de extrema importância a considerar
no planejamento da produção para que se contribua efetivamente para aumentar a qualidade de vida
da população. Ou seja, a resposta a esta questão permite atender ao último requisito do conceito de
Economia Rural que é a satisfação das necessidades da população agora e no futuro.
Portanto, a solução adequada para essas três questões é encontrada quando a área de
convergência entre elas aumenta, ou seja, a área hachurada da Figura 1.9. Nesta figura, o número 1
no centro representa a área de interação sinérgica das três questões, que representam uma
14
combinação ótima de ordem econômica, tecnológica e social. Assim, quanto maior for esta área, mais
apropriada deve ser a decisão, em conformidade com o conceito de Economia Rural.

O que e quanto
produzir?

Como produzir? Para quem produzir?

Figura 1.9 – Representação das questões fundamentais da econômica.


15

1.5 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM


E1. Apresente o conceito e a definição de Economia Rural e compare com o conceito de Economia.
E2. Apresente o conceito de fatores de produção, sua classificação, características e utilização na
economia da Amazônia.
E3. Caracterize os principais tipos de agricultura e descreva o que mais se aproxima da realidade de
sua área do conhecimento (agronomia, medicina veterinária, zootecnia, engenharia de pesca,
engenharia florestal, economia).
E4. Quais são as grandes questões da economia e como elas são solucionadas? (pesquise em
outros textos).
E5. O conceito de Economia Rural envolve a alocação de recursos escassos em usos
alternativos, com o fito de atender às necessidades ilimitadas das populações presentes e
futuras. Explique o significado dos termos grifados.
E6. Com base no conceito de economia rural “Ciência da alocação de recursos escassos, em
alternativas de produção rural, com o fito de atender às necessidades do consumidor no presente
e no futuro, sem destruir a natureza”, responda aos seguintes questionamentos: Como se avalia
que a terra, em grande disponibilidade na Amazônia e com mais de 56% da área das unidades de
produção do Estado do Pará ocupadas com matas naturais, é um recurso escasso?
E7. O quadro abaixo apresenta as características das unidades de produção praticadas na Amazônia.
Nos espaços em branco da segunda coluna, escreva o nome do tipo de unidade ou sistema de
produção a que cada uma das características relacionadas se refere.
Unidade de
No Conteúdo das notícias veiculadas pela imprensa produção a
que se referem
Combinação de produtos alimentares e comerciais, turismo ecológico, pesque pague
01 na unidade de produção, parte da renda oriunda de atividades não-agrícolas.
Grande propriedade, mão-de-obra qualificada, tecnologia GIS, GPS e baixo impacto
02 ambiental.
Produção de frango caipira, ovos, frutas e leite, sem uso de agrotóxicos e controle
03 fitoterápico de doenças, venda para consumidor de alta renda.
No Pará, uma propriedade inferior a 100 ha, cria gado, culturas temporárias e
permanentes, extrai produtos não madeireiros, contrata mão-de-obra de forma
04 complementar, verde parte da produção para agroindústria, usa tecnologia tradicional
e moderna, pode ser caracterizada como:

E8. O quadro abaixo reproduz as notícias de jornais em determinado dia. Nos espaços em branco da
segunda coluna, escreva a questão econômica relacionada a cada uma das notícias.

No Conteúdo das notícias veiculadas pela imprensa Questões


econômicas a que
se referem
01 Os pecuaristas do Pará deverão implementar técnicas de reprodução para
aumentar a eficiência produtiva e a qualidade do produto.
02 Os empresários da Amazônia devem estudar formas de utilizar a terra para
atender à legislação do Ibama que prega a diminuição do desmatamento para
20% da área.
03 Os pecuaristas devem rapidamente identificar e certificar seus animais (bovinos e
bufalinos) para atender às exigências do mercado consumidor internacional.
04 O BASA destinará parcela dos recursos do FNO para a implantação de
agroindústrias com grande capacidade de absorver mão-de-obra.

05 Em decorrência dos danos ambientais e dos prejuízos causados ao homem pelo


uso de pesticidas, avança a produção de produtos orgânicos para atender a
nichos de mercado.
16

1.6 REFERÊNCIAS

AGROANÁLYSIS. A revista do agronegócio da FGV. Rio de Janeiro, v.15-25, n.1-12, jan.-dez.,


1995/2005.
CAVINA, R. Introdução à economia rural brasileira. São Paulo: Atlas, 1979.
CONJUNTURA ECONÔMICA. Rio de Janeiro, v.49-59, n.1-12, jan.-dez., 1995/2005.
COSTA, F.A. Formação agropecuária da Amazônia: os desafios de desenvolvimento sustentável.
Belém: UFPA.NAEA, 2000.
HÉBETE, J. Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Belém:
EDUFPA, 2004.
IBGE. Censo Agropecuário – 1995/96. Rio de Janeiro, 1998.
MENEZES, Antônio José Elias A de; HOMMA, Alfredo Kingo O; SANTANA, Antônio Cordeiro de;
GOMES, Fernando Antônio T. A importância da produção invisível para a agricultura familiar na
Amazônia: o caso dos projetos de assentamento agroextrativistas Praialta e Piranheira, Município de
Nova Ipixuna, Pará. Novos Cadernos Naea, Belém-PA, v. 4, n. 2, p. 5-26, 2001.
ROSSETTI, D.P. Introdução à economia. São Paulo: Atlas, 2002.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Perfil do profissional de ciências agrárias formado na
Universidade Federal Rural da Amazônia: empregadores, graduados e instituições correlatas.
Belém: UFRA, 2003.
SANTANA, Antônio Cordeiro de, AMIN, M.M. Cadeias produtivas e oportunidades de negócio na
Amazônia. Belém: UNAMA, 2002.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Análise econômica da produção agrícola sob condições de risco
numa comunidade amazônica. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 30, n. 2, p.
159-170, 1992.
SANTANA, Antônio Cordeiro de; KHAN, Ahmad Saeed. Análise sócio-econômica de pequenas
unidades de produção em Santa Izabel do Pará. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília,
v. 28, n. 2, p.255-274, 1990.
SANTANA, Antônio Cordeiro de; SANTANA, Ádamo Lima de. 500 ano de agricultura no Brasil.
Movendo Idéias, Belém, v. 5, n. 7, p. 12-19, 2000.
CAPÍTULO 2
MERCADO DE PRODUTOS RURAIS

2.1 INTRODUÇÃO

Neste capítulo, apresentam-se os conceitos de mercado e das forças de oferta e demanda


que o define. Além da representação tradicional da demanda e oferta por meio gráfico, tabular e
matemática, são desenvolvidas as extensões e feitas aplicações empíricas aos casos reais da
economia brasileira e da região amazônica.
Ênfase especial é dada aos conceitos e aplicações da elasticidade da demanda e da oferta
para os principais produtos agropecuários e florestais. Análises são desenvolvidas para mensurar e
evidenciar os efeitos de mudanças em políticas públicas, choques exógenos e nas variáveis
macroeconômicas sobre o equilíbrio de mercado.
Por fim, empregam-se os conceitos de excedente do produtor e do consumidor para avaliar
as mudanças na distribuição de renda e do bem-estar social dos produtores e consumidores, diante
de alterações nas variáveis definidoras da demanda e da oferta dos principais produtos
agropecuários e florestais.

2.2 MERCADO: FUNDAMENTOS E APLICAÇÕES

Inicia-se este capítulo respondendo a uma das perguntas fundamentais que trata do
entendimento sobre o significado da palavra mercado. Ou seja, o que significa a palavra mercado?
Literalmente, mercado sempre foi compreendido como um local onde os bens (de consumo e
duráveis) e serviços são comprados e vendidos ou trocados. Exemplos: mercado de peixe do Ver-o-
Peso, mercado de carne (açougue das feiras municipais; gôndolas de supermercados), mercado de
commodity da BM&F. Atualmente, com freqüência, as transações de compra e venda de um produto
ou serviço se efetivam pelo telefone e pela Internet, ou seja, pelo mercado eletrônico.
Assim, mercado é um processo dinâmico através do qual ocorre a interação (de forma física,
telefone e/ou Internet) entre compradores (consumidor ou cliente) e vendedores (produtor ou
empresário) de um bem ou serviço para determinar o preço e a quantidade transacionada no
mercado desse bem ou serviço.
Cada mercado tem seu mecanismo de operação: cada bem ou serviço tem um preço; cada
agente (consumidor ou vendedor) recebe um rendimento pelo que vende e utiliza esse rendimento
para comprar o que deseja. Essa é a força que torna efetiva a transação de bens e serviços e, como
conseqüência, a determinação do preço.
18
O sistema de preços é o instrumento de sinalização de uma economia. É o sistema de preços
que orienta ao produtor como que deve explorar seus recursos naturais de forma mais intensiva ou
extensivamente elevada.
O preço de equilíbrio de mercado é determinado pela interação da oferta e demanda de um
produto ou serviço. É claro que o preço depende de muitos fatores, contudo, esses fatores só
influenciam o preço na medida em que se incorporam nas forças que determinam a demanda ou a
oferta. Assim, a emissão de moeda afeta o preço de equilíbrio porque aumenta o rendimento das
pessoas e este desloca a demanda. Da mesma forma, a escassez de milho no Brasil fez com que o
preço do frango aumentasse porque o milho faz parte da ração e esta compõe cerca de 75% do custo
de produção do frango. Portanto, o custo mais alto deslocou a oferta para cima e para a esquerda e
fez o preço do frango aumentar. Conclui-se, todavia, que o preço de equilíbrio só é afetado pela
demanda e oferta.
Para que serve o mercado? Entre muitas outras finalidades, a análise de mercado serve para:
ƒ Apoiar a tomada de decisão do produtor sobre o produto que deve ser produzido e na
quantidade certa, ou seja, ajuda a responder à questão econômica: O que e quanto produzir?
ƒ Orientar a geração, difusão e implantação de inovações tecnológicas, isto é, responde a
questão econômica: Como produzir?
ƒ Identificar os canais de comercialização dos produtos e sua distribuição, que responde à
questão econômica: Para quem produzir?
ƒ Estudar os efeitos distributivos de políticas (tributária, subsídio, segurança alimentar, juros,
crédito, choques climáticos, câmbio, epidemias, barreiras tarifárias e não-tarifárias, etc.) sobre
a atividade produtiva.
ƒ Explicar a formação dos preços de mercado dos produtos e serviços.
Neste texto, para maior facilidade no entendimento, considera-se que o mercado funciona em
regime de concorrência pura.
Um mercado em concorrência pura apresenta as seguintes características fundamentais:
grande número de consumidores e produtores, cujas ações individuais não afetam os preços de
mercado; produto homogêneo aos olhos dos consumidores e ausência de barreiras e regulamentos à
entrada ou saída da atividade. Os produtos da agropecuária, de modo geral, se aproximam desse
conceito, pelo menos no mercado em nível do produtor rural.

2.3. FORÇAS DO MERCADO: DEMANDA E OFERTA

A demanda e a oferta se referem ao conjunto de pessoas que realizam transações de compra


e venda de um produto ou serviço no mercado. Os compradores ou consumidores, em conjunto,
determinam a demanda, e os vendedores ou produtores, em conjunto, determinam a oferta do
produto ou serviço.

2.3.1 Conceito de demanda

A demanda é a quantidade dos bens ou serviços que os consumidores desejam e podem


comprar, aos vários preços de mercado, em dado período de tempo, ceteris paribus. Este termo
significa que as demais variáveis que influenciam a demanda são mantidas constantes e apenas o
preço varia.
O consumidor, diz-se, é soberano e é, juntamente com a tecnologia, a força que responde
pela evolução do consumo ao longo do tempo: antes se consumia alimento in natura; mais tarde o
mercado foi dominado por produtos beneficiados; atualmente se encontram refeições completas em
uma embalagem.
Esta evolução se processou por mudanças nos gostos e na tecnologia que influenciaram a
demanda e a oferta.
O que acontece ao Peixe/Frango/Carne se aparece disponível no mercado uma quantidade
superior àquela que as pessoas desejam e podem comprar ao último preço?
19
A conseqüência é uma diminuição no preço desses produtos. Por outro lado, se a
disponibilidade dos produtos for menor do que as pessoas desejam comprar, o preço se eleva.
Portanto, há uma consciência de que as quantidades dos bens e serviços tendem a variar de forma
inversa aos preços de mercado. A isto se denominou de lei da demanda.
A lei da demanda é dada por: A quantidade demandada apresenta uma relação inversa
ao preço, ceteris paribus. Esta lei se verifica para quase todos os produtos: cereais, carnes, pescado,
roupas, sapatos, eletrodomésticos, etc. Vale também para os serviços: educação, energia elétrica,
água, saúde, etc. Em todos esses bens e serviços, a quantidade demandada tende a diminuir quanto
o preço de mercado aumenta e vice-versa.
Esta lei pode ser representada por meio de uma equação matemática, uma representação
tabular ou gráfica, como a seguir:
Equação de demanda: Qx = a – b Px
em que:
Qx é a quantidade demandada do produto X, medido em unidades físicas (kg, @, t, sc, etc.);
Px é o preço real do produto X, medido em unidades monetárias (R$/kg, R$/@, R$/t, etc.);
a é o consumo médio de X, na ausência do preço, também conhecido na matemática como o
coeficiente linear da reta e na estatística como intercepto, medido em unidades físicas;
b é a magnitude da mudança na quantidade demanda de X, quando o preço muda de uma unidade,
também conhecido como inclinação da reta.
Na Figura 2.1, o coeficiente a é representado pelo ponto onde a linha de demanda toca o eixo
das quantidades e é obtido fazendo o preço igual a zero; o ponto a/b é obtido fazendo a quantidade
igual a zero e isolando o valor de Px. O coeficiente b é a inclinação da linha de demanda, dada pela
tgθ [=a/(a/b)=b]. Quando o preço diminui de P0 para P1, a quantidade demandada aumenta de Q0
para Q1.

Preço A inclinação negativa da


linha de demanda deve-se
ao efeito renda e ao efeito
Qx = a – b Px substituição.
a/b
O efeito renda é percebido
pelo aumento no poder de
θ compra do consumidor
quando o preço de X
diminui. O consumidor pode
P0
comprar mais unidades de
X, com a mesma renda.
O efeito substituição ocorre
P1 porque ao baixar o preço,
atrai-se o consumidor de
D outros produtos cujos preços
se mantiveram ou
aumentaram.
Observe que alteração no
0 Q0 Q1 a Qx/t preço de X produz
ajustamento ao longo da
linha de demanda.
Figura 2.1 – Representação gráfica da demanda de um produto X.

Na Figura 2.1, o preço, que é a variável independente, é representado no eixo vertical e a


quantidade, que é a variável dependente, é representada no eixo horizontal, ao contrário da
matemática. Isto é feito apenas para facilitar a análise.
20
A demanda também pode ser representada por dados discretos apresentados na forma
tabular e, geralmente, é chamada de tabela de demanda. A Tabela 2.1 apresenta dados hipotéticos
da demanda de peixe.

Tabela 2.1 – Dados hipotéticos de preços e quantidades demandas de peixe.


Quantidade demandada (kg) 16 11 8 6 4 2 1
Preço do peixe (R$/kg) 0 2 4 6 8 10 12

Pelo que se observa, à medida que o preço do peixe aumenta, a quantidade demandada
diminui. Quando o preço é igual a zero, tem-se a situação de consumo médio ideal que se efetivaria
se todos os consumidores tivessem acesso ao produto, ou seja, 16 kg/hab/ano. No outro extremo,
quando o preço é igual a R$ 12/kg, poucos consumidores poderiam adquirir o produto e o consumo
médio restringe-se a apenas 1,0 kg/hab/ano. No intervalo desses extremos, tem-se um
comportamento típico da lei da demanda, pois à medida que o preço aumenta a quantidade que os
consumidores desejam e podem comprar tende a diminuir, ceteris paribus.
Plotando-se os dados da Tabela 2.1 em um eixo cartesiano e unindo os pontos por uma linha,
obtém-se a representação gráfica da demanda de peixe, como na Figura 2.2, elaborada com o auxílio
do Excel. Esta figura é, geralmente, chamada de gráfico de demanda.
Evidencia-se, portanto, que a demanda apresenta uma inclinação negativa, mostrando que
quando o preço aumenta a quantidade demandada diminui, em função do efeito renda que diminui o
poder de compra do consumidor e do efeito substituição, que força a substituição do peixe por outra
fonte de proteína cujo preço não se alterou. Conclui-se, portanto, que alterações no preço do produto
originam movimentos ao longo da curva de demanda.

14

12
Preço do peixe (R$/kg)

Demanda de peixe
10

0
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18
Quantidade de peixe (kg/hab)
Figura 2.2 – Representação da curva de demanda, apresentada na tabela acima.

O leitor já deve ter percebido que há muitas outras variáveis que determinam a demanda,
além do preço do produto. Para facilitar o entendimento, podem-se agregar as forças que influenciam
a demanda, além do preço do produto, em quatro grandes dimensões: renda do consumidor, preço
dos produtos relacionados no consumo (substitutos e complementares), tamanho do mercado e
fatores subjetivos.
• Renda do consumidor - R: esta talvez seja a força de maior poder de determinação da
demanda porque dimensiona o poder de compra do consumidor. A relação é direta: o
21
aumento da renda leva a um aumento no consumo para a maioria dos bens e serviços,
mantendo as demais variáveis constantes. Isto produz uma mudança na curva de demanda,
que se deslocará para o alto e para a direita.
• Preço de outros bens - Py: os preços dos produtos substitutos afetam diretamente o
consumo de X. Um aumento no preço da carne de boi tende a levar o consumidor a diminuir
a quantidade comprada e passar a adquirir mais frango. Portanto, aumento no preço dos
produtos substitutos Y induz aumentos na demanda de X, mantendo as demais variáveis
constantes, e vice-versa para os produtos complementares. Isto produz um deslocamento da
curva de demanda para cima e para a direita, e vive-versa para produtos complementares.
• Tamanho do mercado – H: o tamanho do mercado e dimensionado com base no número de
agregados familiares e apresenta uma relação direta com a quantidade demandada. Assim,
quanto maior o tamanho e o número de famílias, maior tende a ser a demanda dos vários
bens e serviços.
• Fatores subjetivos – Fs: esta dimensão contempla um conjunto de variáveis como gostos e
preferências do consumidor – G, esta é a variável que responde pela evolução no padrão de
consumo de alimento, vestuário, etc; índice de qualidade dos produtos – Iq, atualmente está
influenciando fortemente as decisões de compra do consumidor para os produtos de
qualidade e segurança; expectativas com relação à economia – E, se o cenário da economia
quanto à manutenção de regras consistentes do jogo, controle da inflação, nível de taxa de
juros, controle do câmbio é confiável, o consumo tende a aumentar; variáveis de política Vp
(imposto, subsídio, juros, segurança alimentar, etc.), os impostos reduzem o consumo, o
subsídio aumenta e os juros diminuem as compras a prazo.
A ação conjunta desses fatores determina a demanda dos produtos e serviços. É o estudo de
como tais fatores atuam sobre a demanda que se entendem os movimentos da demanda e a
magnitude de seus efeitos sobre o preço de mercado.
A demanda pode ser especificada, na concepção geral, da seguinte forma:

Demanda: Q x
= f ( P x , P y , R , H , F s)
Qx = quantidade demandada do produto X;
f = símbolo da forma funcional de demanda (linear, logarítmica, etc.);
Px (-)= preço real do produto X;
Py (+ ou -)= preço dos produtos relacionados no consumo de X, desloca a demanda;
R (+)= renda real dos consumidores, desloca a demanda;
H (+)= população, dada pelo número de habitantes, desloca a demanda;
Fs (±) = fatores subjetivos, envolvendo as variáveis discriminadas abaixo:
G (+)= gostos e preferências dos consumidores pelo produto X;
Iq (+)= índice de qualidade total do produto x;
E (+)= expectativas com relação à economia;
Vp (±) = variáveis de política (imposto, subsídio, juros, etc.).
Todas essas forças, a exceção do preço do produto, produzem mudança na curva de
demanda. Assim, um aumento na renda dos consumidores, tende a deslocar a curva de demanda
para cima e para a direita, ceteris paribus.
• Mudança na demanda: quando a renda aumenta, o poder de compra dos consumidores
também aumenta e a demanda se desloca para cima, mantendo as demais variáveis
constantes (Figura 2.3).
Neste caso, observa-se que toda a linha de demanda se deslocou para cima e para a direita,
indicando que para qualquer nível de preços a demanda será maior do que a anterior. Este mesmo
tipo de efeito pode ser produzido pelo aumento nos preços dos produtos substitutos de X. Por
exemplo, se o preço da carne de boi sofrer um substancial aumento, é provável que muitos
consumidores diminuam as compras de carne bovina e a substituirão por carne de frango, fazendo
sua demanda aumentar.
22

Preço Demanda inicial:


Qx = a – bPx

a/b Demanda final:


Qx = a – bPx + rR

Se a renda aumenta de R
para R1 (R1 > R), a
demanda se desloca de D
P0 para D1. Ao mesmo nível
de preço P0, tem-se uma
quantidade comprada de
X maior Q1.
A demanda se desloca
D1 quando a renda, o número
de famílias, o preço de
D substitutos aumentam e
alguns fatores subjetivos
melhoram ceteris paribus.
0 Q0 Q1 a Qx/t

Figura 2.3 – Representação gráfica da mudança na demanda de um produto X.

2.3.1.1 Análise e aplicação da demanda

Em primeiro lugar, mostra-se o comportamento do consumo e do preço de carnes e peixe no


Brasil a partir dos de 1980. Com isto tenta-se referendar a lei da demanda para esses produtos
(Figuras 2.4 e 2.5).

45
Qfrango Qboi
40
Qsuíno Qpeixe
35

30
Quantidade (kg)

25

20

15

10

0
1980 1985 1990 1995 2000 2002

Figura 2.4 – Evolução do consumo de carne e peixe no Brasil, 1980/2002.


23

7 Pfrango Pboi
6 Psuíno Ppeixe
Preço (R$/kg)

0
1980 1985 1990 1995 2000 2002
Figura 2.5 – Evolução do preço de carne e peixe no Brasil, 1980/2002.

Observa-se que há uma nítida correlação inversa entre preços e quantidade das carnes de
frango, boi, suíno e peixe no período em evidência. Isto referenda a lei da demanda para esses
produtos.
A Figura 2.6 mostra a curva de demanda de carne de frango. A linha azul representa os
dados originais de preços e quantidades. Evidencia-se claramente a relação inversa entre preço e
quantidade demandada de carne de frango. Em 1980, ao preço de R$ 4,4/kg, o consumo per capita
era de 8,9 kg; em 1990, o preço caiu para R$ 2,2/kg, o consumo aumentou para 13,9 kg/hab; em
2000, o preço caiu para R$1,10/kg e o consumo passou para 29,8 kg/hab; finalmente, em 2002,
embora o preço tenha se mantido no mesmo nível de 2002, o consumo aumentou para 33 kg/hab.

5.0
4.5 Demanda de frango

4.0 Linear (Demanda de frango)


Log. (Demanda de frango)
3.5
Preço (R$/kg)

3.0
2.5
2.0
1.5
1.0
0.5
0.0
8.9 8.9 13.9 22.8 29.8 33
Quantidade (kg)
Figura 2.6 – Relação de demanda individual de carne de frango do Brasil, 1980/02.
24
As outras linhas representam o comportamento linear e logarítmico dessa relação de
demanda. Apresentam-se os modelos linear e logarítmico para estudo da demanda.

Modelo linear: Q = a + b P +ν
it i i it it

Em que Qit é a quantidade demanda do produto i (i = frango, boi, suíno ou peixe), no período
t, em kg/hab; Pit é o preço real do produto i, no período de tempo t, em R$/kg; ai e bi são
denominados, respectivamente, de intercepto e inclinação da linha de demanda; vit é o termo de erro
aleatório da equação do produto i, no período t.
A estimação dos parâmetros a e b é feita, de forma elementar, da seguinte maneira:

Cov(Q, P) ∑ i =1, n
(Qi − Q ).( Pi − P )
b = = 2
Var ( P)
∑ (P − P )i =1, n i

a = Q − b.P
Modelo logarítmico: ln Q = α + β ln P + lnν
it i i it it

Em que ln é o logaritmo natural das variáveis Q e P. Os valores dos parâmetros a, b, α e β


foram obtidos estimando cada equação no Excel (ver SANTANA, 2003).
Os resultados são os seguintes:

Demanda linear: QF = 34,41 − 6,96 PF ; R


t t
2
= 0,724.
( 0 , 003) ( 0 , 032 )

Os valores entre parênteses se referem ao valor de probabilidade para a significância


estatística dos parâmetros. Esse valor multiplicado por 100 deve ser inferior a 5%, para assegurar
significância estatística.
Interpretação dos resultados:
ƒ A estimativa de a = 34,41 é a quantidade média de carne de frango per capita consumida ao
longo do período da análise, desconsiderando a influência do preço. Portanto, considerando o
preço igual a zero, tem-se o consumo médio igual a 34,41 kg/hab.
ƒ A estimativa de b = - 6,96, mede a magnitude da queda nas quantidades demandadas de
carne de frango, quando o preço aumenta de uma unidade R$1,00/kg, ou seja, para cada
aumento de R$1,00/kg no preço do frango, as quantidades demandadas caem de 6,96 kg e
será igual a zero quando o preço atingir o patamar de R$ 4,95/kg.

Demanda logarítmica: ln QF = 3,453 − 0,995 ln PF ; R


t t
2
= 0,915.
(9, 4 E −6 ) ( 0 , 003)

ƒ A estimativa de α = 3,453 está expressa em logaritmo e a quantidade física é obtida


calculando o antilogaritmo de α= 31,60 kg, que é o consumo médio per capita de carne de
frango na ausência da influência do preço.
ƒ A estimativa de β = - 0,995, indica a magnitude percentual de queda na quantidade
demandada de carne de frango quando o preço aumenta de 1%. Assim, quando o preço
aumenta 1%, as quantidades demandas tendem a cair de 0,995%.

Com base nos dados da Tabela 2.2, faça as representações gráficas para as demandas de
carne de boi, suíno e peixe. Usando o Excel, estime as equações de demanda na forma linear.
Como a estimação das equações exige um conhecimento mínimo de estatística e
econometria, os resultados das equações estimadas são fornecidos:
Demanda de carne bovina: QB = 45,873 – 4,215 PB
Demanda de carne suína: QS = 10,30 – 0,49 PS
25
Demanda de peixe: QP = 6,77 – 0,468 PP
Analise o significado de cada coeficiente das equações acima e teça comentário sobre a
realidade atual do consumo desses produtos no Brasil.

Tabela 2.2 – Dados de quantidade e preço das carnes de frango, boi, suíno e peixe, 1980/2002.
Quantidade demandada (kg/hab) Preço (R$/kg)
Ano
Qfrango Qboi Qsuíno Qpeixe Pfrango Pboi Psuíno Ppeixe
1980 8,9 21,8 9,5 6,88 4,40 6,35 4,38 7,49
1985 8,9 23,1 7,4 7,41 2,70 3,55 3,15 1,97
1990 13,9 28,0 7,0 5,62 2,20 3,28 2,11 2,14
1995 22,8 34,0 9,0 5,04 1,30 2,58 1,67 3,48
2000 29,8 39,0 10,8 5,93 1,10 2,57 1,32 2,35
2002 33,0 41,0 11,1 7,00 1,10 2,63 1,46 2,01

A seguir, faz-se um exemplo prático de como estimar os coeficientes da equação de


demanda de um produto. Em primeiro lugar, calcula-se a média das variáveis quantidade (Qm) e
preço (Pm) do produto. Em seguida, calcula-se o desvio de dada ponto em relação à média. O desvio
da quantidade é (qi = Qi – Qm) e o desvio do preço é (pi =Pi –Pm). Na seqüência, calcula-se o
produto entre os desvios e depois o desvio do preço ao quadrado. A Tabela abaixo ilustra este
cálculo, para a demanda de carne de boi: QB = a – b PB.

Ano Qtde. - QB Preço - PB qi pi qi.pi pi2


1980 21,8 6,35 -9,35 2,856667 -26,7098 8,16054
1985 23,1 3,55 -8,05 0,056667 -0,4562 0,00321
1990 28,0 3,28 -3,15 -0,21333 0,6720 0,04551
1995 34,0 2,58 2,85 -0,91333 -2,6030 0,83418
2000 39,0 2,57 7,85 -0,92333 -7,2482 0,85254
2002 41,0 2,63 9,85 -0,86333 -8,5038 0,74534
Soma 186,9 20,96 0 0 -44,8490 10,64133
Média 31,15 3,4933

O coeficiente b da equação de demanda é dado pela razão entre a covariância das variáveis
QB e PB e a variância de PB. As fórmulas são as seguintes (SANTANA, 2003):
6

∑q p
i =1
i i − 44,849
Cov(QB, PB) = = = −8,9698
n −1 5
6

∑p
2

i 10,64133
Var ( PB) = i =1
= = 2,1283
n −1 5
b = Cov(QB, PB)/Var(PB) = -8,9698/2,1283 = -4,2145
Este valor é igual à razão entre os valores das somas das últimas duas colunas da tabela
acima.
O valor do parâmetro a é dado por: a = Qm – b Pm = 31,15 – (-4,2145)x3,4933 = 45,873.
Assim, a equação de demanda é dada por:
QB = 45,873 – 4,215 PB.

2.3.1.2 Análise da demanda, incluindo a renda.

A renda é, talvez, a força mais poderosa de determinação da demanda por bens e serviços.
Emprega-se o salário mínimo real como indicador de renda das famílias brasileiras, vez que mais de
1/3 da população vive com menos de um SM. Além disso, a carne de frango é um produto de grande
consumo das famílias de renda baixa.
26
Ficou claro que a renda é uma força deslocadora da curva de demanda. A Figura 2.7 mostra
os movimentos da demanda de carne de frango, ao longo dos anos 90, em função das variações
reais do salário mínimo. A relação é positiva, mostrando que aumento no SM produz aumento da
curva de demanda de carne de frango. Estes resultados indicam que, em média, a renda produz
deslocamentos na demanda na mesma direção de suas variações.
Inicialmente, estima-se a equação de demanda, para os dados anuais do período de
1990/2001 para depois incluir a variável renda. Isto é importante para efeito de análise comparativa. A
equação de demanda, com base apenas no preço é a seguinte:
Demanda: QF = 42,93 – 14,20 PF
A demanda incluindo a variável renda é a seguinte:
Demanda: QF = 30,63 – 13,62 PF + 0,145 SM.
Análise dos resultados:
ƒ O consumo médio per capita de frango, mantendo o preço e o salário mínimo constantes
(PF=SM=0), é de QFm = 30,63 kg/hab/ano. Este seria o nível de consumo médio, que
vigoraria na condição de o produto ser distribuído gratuitamente para os consumidores.
ƒ Mantendo os valores médios do preço (PFm = R$1,46/kg) e do SM (SMm = R$79,24), relativo
ao período de 1990/01, tem-se um consumo médio de frango de: QFm = 22,23 kg. Este seria
o consumo médio caso o preço e o SM fossem congelados nestes níveis.
ƒ O coeficiente -13,62, associado à variável preço, indica a magnitude da mudança na
quantidade demandada QF, para o aumento no preço PF de R$1,00. Se o preço aumenta de
R$1,00/kg, a quantidade demandada tende a cair de 13,62 kg/hab/ano, mantendo o SM
constante.
ƒ O coeficiente 0,145, associado ao SM, indica a mudança na demanda de frango, quando o
SM muda de R$1,00. Se o SM aumenta de R$1,00, a QF aumenta de 0,145 kg per capita,
mantendo o preço constante.

100
Relação renda demanda de frango
Linear (Relação renda demanda de frango)

90
Salário mínimo (R$)

80

70

60
13.0 16.5 20.0 23.5 27.0 30.5 34.0
Quantidade (kg)
Figura 2.7 – Comportamento da demanda de carne de frango em função da renda, 1990/2001.

Admitindo que o SM aumentasse em 25% (R$ 99,05), representar esta situação em um


gráfico. A figura 8 ilustra essa situação (Figura 2.8).
27

40

Dfrango
Quantidade de frango (kg/hab)
35
Dfrango SM

30

25

20

15

10
1.00 1.20 1.40 1.60 1.80 2.00 2.20 2.40
Preço do frango (R$/kg)
Figura 2.8 – Mudança na curva de demanda de carne de frango em função do aumento de 25% no
SM.

A linha azul é construída, substituindo o SM médio na equação de demanda, que resulta na


seguinte equação:
QF = 30,63 – 13,62 PF + 0,145 (79,24) = 42,12 – 13,62 PF
A linha vermelha é construída fazendo a substituição do SM, acrescido de 25%, na equação
de demanda para obter-se o seguinte resultado:
QF = 30,63 – 13,62 PF + 0,145 (99,05) = 44,99 – 13,62 PF
O aumento de 25% no SM produz uma mudança na linha de demanda para cima e para a
direita de 6,81% {[=(44,99/42,12)-1]100}, que é representado pela diferença entre os interceptos das
equações, ou seja, a diferença no consumo médio, uma vez que a inclinação da reta não muda.
A inclusão da renda produz duas alterações na equação de demanda inicial, que inclui
apenas a influência do preço: a primeira é que o intercepto torna-se ligeiramente menor, passando de
42,93 kg para 42,12 kg; a segunda é que a renda torna as quantidades demandadas menos sensível
às mudanças nos preços, vez que a inclinação diminuiu de 14,2 kg para 13,62 kg, quando o preço
muda de R$1,00.

2.3.1.3 Análise da demanda, incluindo a renda e um produto substituto

Outra força que determina a demanda por bens e serviços é o preço dos produtos substitutos.
Produtos substitutos, como a renda, são deslocadores da demanda. A carne de boi pode ser
considerada como um produto substituto para a carne de frango, no período de 1990/2001.
Demanda: QF = 10,18 – 19,81 PF + 7,69 PB + 0,255 SM.
Análise dos resultados:
ƒ O sinal positivo para o coeficiente 7,69, associado à variável preço da carne de boi, indica
que os produtos carne de boi e carne de frango são substitutos.
ƒ Quando o preço da carne de boi aumenta de R$1,00, a demanda por carne de frango tende a
aumentar de 7,69 kg/hab/ano, mantendo constantes o preço do frango e o salário mínimo.
Por que isto tente a ocorrer?
ƒ Quando o preço da carne de boi aumenta, os consumidores de carne de boi tendem a
diminuir a quantidade demandada, fazendo a substituição por outras carnes como a de frango
cujos preços não aumentaram ou aumentaram menos.
28
Substituindo-se o valor médio das variáveis PB = R$2,70/kg e SM = R$ 79,24 na demanda,
tem-se:
Demanda: QF = 51,15 – 19,81 PF
Observa-se que o produto substituto alterou substancialmente tanto o intersepto quanto a
inclinação da demanda. O consumo médio passou de 42,12 kg/hab para 51,15 kg/hab, aumento de
21,44%; a inclinação também mudou muito, passando de 13,62 kg para 19,81 kg, ou seja, tornou a
demanda mais sensível às variações de preço.
Se o preço da carne de boi aumenta de R$ 1,00, passando para R$ 3,70/kg (aumento de
37,04%), qual a magnitude desse impacto no consumo de carne de frango? O resultado é o seguinte:
QF = 10,18 -19,81 PF + 7,69 (3,70) + 0,255 (79,24) = 58,84 – 19,81 PF, gerando um aumento no
consumo de 7,6 kg/hab (=58,84 – 51,15), equivalente a 15,03%.

Análise da demanda, incluindo a renda e um produto complementar.


Os produtos complementares são aqueles que variam na mesma direção, ou seja, se o
consumo de um produto aumentar, automaticamente o consumo do complemento também deve
aumentar. O peixe parece ser um produto complementar do frango no consumo do brasileiro. A
demanda, para o período 1990/01, é a seguinte:
Demanda: QF = 44,29 – 15,98 PF – 3,5 PP + 0,137 SM
Análise:
ƒ O sinal negativo para o coeficiente - 3,5, associado ao preço do peixe, indica que os produtos
carne de frango e peixe são complementares no consumo, na década de 90. Neste caso,
para cada aumento de R$1,00/kg no preço do peixe, a demanda de frango tende a cair de 3,5
kg/hab/ano, mantendo constantes o preço do frango e o SM.
Substituindo-se o valor médio das variáveis PP = R$2,74/kg e SM = R$ 79,24 na demanda,
tem-se:
QF = 45,56 – 15,98 PF
Observa-se que o produto complementar alterou substancialmente tanto o intersepto quanto
a inclinação da demanda. O consumo médio passou de 42,12 kg/hab para 45,56 kg/hab, aumento de
8,17%; a inclinação também mudou muito, passando de 13,62 kg para 15,98 kg, ou seja, tornou a
demanda mais sensível às variações de preço.
Se o preço do peixe aumenta de PP = R$ 1,00, passando para PP = R$ 3,74/kg (aumento de
36,5%), qual a magnitude desse impacto no consumo de carne de frango? O resultado é obtido da
seguinte maneira: QF = 44,29 -15,98 PF – 3,5 (3,74) + 0,137 (79,24) = 41,82 – 15,98 PF, tem-se uma
redução no consumo da ordem de 3,64 kg, equivalente a 8,21%.

2.3.2 Oferta: conceito, análise e aplicação

A segunda força que determina o preço de mercado é a oferta. A oferta representa a


quantidade dos bens ou serviços que os produtores desejam e podem ofertar, aos vários preços de
mercado, em dado período de tempo, ceteris paribus.
Ao contrário do que ocorre com a demanda, a quantidade ofertada tendem a aumentar
quando o preço do produto ou serviço aumenta. A esse fato se denomina de lei da oferta (Figura 2.9).
Esta lei pode ser representada por uma equação matemática ou por uma tabela de dados. A
equação da reta de oferta é dada por:

Oferta: Qx = - c + d Px
Qx é a quantidade ofertada do produto X, medido em unidades físicas (kg, @, t, sc, etc.);
Px é o preço real do produto X, medido em unidades monetárias (R$/kg, R$/@, R$/t, etc.);
- c é o coeficiente linear da reta e o sinal negativo indica que só haverá produção a preços
diferentes de zero e positivo, é medido em unidades físicas;
29
d é a magnitude da mudança na quantidade ofertada de X, quando o preço muda de uma
unidade, também conhecido como inclinação da reta.
• Atenção: O ponto onde a linha de oferta corta o eixo do preço indica o preço em que
nenhuma unidade de produto é ofertada. Neste ponto, o custo marginal de produção é igual
ao preço. Portanto, o lucro por unidade produzida e ofertada no mercado seria igual nulo.
Com efeito, se os produtores tomam decisão com base nos sinais emanados pelo mercado,
só ofertariam unidades de produto a preços acima deste limite mínimo, iniciando pelas
empresas mais eficientes.

Preço Lei da oferta: a quantidade


ofertada apresenta uma relação
direta ao preço, ceteris paribus.
A inclinação positiva da linha de
oferta deve-se às expectativas de
O
obter lucro por parte dos
produtores. Um preço mais alto
torna a atividade mais lucrativa,
P1 estimulando os produtores a
ampliar a capacidade produtiva e
incrementar a quantidade ofertada,
mantendo constantes os demais
P0 fatores que influenciam a oferta.
Observe que a alteração no preço
de X, produz ajustamento ao longo
da linha de oferta.
Quando o preço aumenta de P0
para P1, as quantidades ofertadas
-c 0 Q0 Q1 Qx/t também aumentam de Q0 para Q1.

Figura 2.9 – Representação gráfica da oferta do produto X

A oferta também pode ser representada por dados tabulados, como na Tabela 2.3.

Tabela 2.3 – Dados hipotéticos de preços e quantidades ofertadas de peixe.


Quantidade ofertada (kg) 1 2 4 6 9 12 15
Preço do peixe (R$/kg) 0 2 4 6 8 10 12

Como é dado observar nos dados da Tabela 3, à medida que o preço aumenta a quantidade
ofertada também aumenta. Quando o preço é igual a zero, tem-se que a quantidade ofertada é igual
a um. Isto significa que há unidades de produção que produz alguma unidade independente do preço.
É comum encontrar este tipo de situação em economias de subsistência, em que o produtor pensa
primeiro na segurança alimentar da família e depois no mercado, caso sobre algum excedente, ou em
economias extrativistas, uma vez que há produção independente do preço. Quando o preço aumenta,
um número maior de produtores passam a ofertar unidades do produto e assim por diante.
Plotando-se os dados da tabela acima em um diagrama cartesiano, geram-se o gráfico de
oferta, como na Figura 2.10 abaixo.
Sabe-se que além do preço do produto, há outros fatores que determinam a oferta dos bens e
serviços. Os principais fatores determinantes da oferta, além do preço do próprio produto são: custo
de produção - C, representado pelos preços dos fatores utilizados na produção; tecnologia – T,
associado aos novos processos de transformação de insumo em produto; preço de produtos
relacionados na produção – Py, se o preço do arroz aumenta, é possível que a área plantada de arroz
aumente e diminua a que seria ocupada por outros grãos cujos preços não se alteraram ou
30
diminuíram; precipitações pluviométricas – Ch, dado pela quantidade e regularidade das chuvas ao
longo do ciclo das culturas; fatores subjetivos – Fs, englobando a qualidade do produto, expectativa
sobre a economia, influência de políticas, risco e incertezas climáticas e econômicas. Assim, pode-se
especificar a oferta da seguinte forma:

14

12
Preço do peixe (R$/kg)

Oferta de peixe
10

0
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18
Quantidade de peixe (kg)
Figura 2.10 – Ilustração gráfica da curva de oferta de peixe.

Oferta: Q x
= f ( P x , P y , C ,T , C h , F s)
Em que:
Qx = quantidade ofertada do produto X;
f = símbolo da forma funcional de oferta;
Px (+) = preço real do produto X;
Py (±)= preço dos produtos relacionados na produção de X;
C (-) = preço dos fatores utilizados na produção;
T (+) = tecnologia implantada na produção de X;
Ch (+) = precipitações pluviométricas ou distribuição de chuvas;
Fs (±) = conjunto de fatores qualitativos que influenciam a quantidade ofertada dos produtos, são:
Iq (+) = índice de qualidade total do produto X;
E (+) = expectativas com relação à economia;
Vp (±) = variáveis de política (imposto, subsídio, juros, etc.).

• Custo de produção - C: para produzir grãos, os agricultores utilizam diversos fatores de


produção como terra, mão-de-obra, sementes, adubos, defensivos, combustível, máquinas e
implementos. Quando o preço de um ou mais desses fatores aumenta, a produção de grãos
se torna menos lucrativa e os agricultores produzem menos. Dependendo da magnitude do
aumento, alguns produtores podem até mesmo abandonar a atividade. Portanto, a
quantidade ofertada do produto ou serviço se relaciona negativamente ao preço dos fatores
utilizados na sua produção.
• Preço de outros produtos – Py: o que está em observação é a forma como as mudanças
nos preços de produtos como soja e milho, por exemplo, influenciam nas decisões de plantar
arroz, algodão, uma vez que a área plantada com milho não pode ser cultivada com algodão
simultaneamente. Portanto, se o preço de um produto Y aumenta, a área a ser cultivada com
X diminui, apresentando uma relação negativa. Por outro lado, em se tratando de produção
conjunta como consórcio de culturas ou produção de animais em associação (suíno e peixe)
a relação é positiva.
31

• Tecnologia – T: a tecnologia para transformar os fatores de produção em produto é um dos


principais determinante da oferta. A invenção de novas variedades de plantas mais produtivas
e máquinas que aumentam o rendimento do trabalho fazem a produção aumentar para um
mesmo custo ou o custo diminuir para uma mesma produção. Isto significa que os avanços
tecnológicos aumentam a quantidade ofertada.
• Precipitação pluviométrica – Ch: a quantidade de chuva e sua distribuição ao longo do
período de safra das culturas, associada com outros fatores climáticos como vento, umidade
e radiação solar, contribui para se obter boas colheitas e produtos de qualidade. A
associação é positiva entre chuvas e quantidade ofertada.
• Fatores subjetivos – Fs: desse conjunto de fatores, a qualidade do produto é fundamental
para a conquista de novos nichos de mercado e atender às exigências cada vez mais
elaboradas dos consumidores, apresentando uma relação positiva com a quantidade
ofertada; as expectativas sobre a economia sendo favorável com respeito às taxas de juros,
inflação, crescimento da economia, leva a aumentos de oferta; os riscos de preço, de
epidemias, de medidas protecionistas, etc. afetam negativamente a oferta; aumento de
imposto reduz a oferta.
Desse conjunto de forças, tem-se que o preço do produto induz ajustamento ao longo de uma
mesma curva de oferta, como ilustrado anteriormente, enquanto que os demais fatores produzem
mudanças de toda a curva de oferta.

• Mudança na oferta: quando a tecnologia melhora, a produtividade aumenta para o mesmo


nível de utilização dos fatores, de modo que se os produtores a adotarem, a produção de
cada um deles tende a aumentar e a oferta se desloca para baixo e para a direita, ceteris
paribus.
Como a tecnologia gera mudanças na oferta?
O impacto direto da tecnologia é sobre o custo dos fatores de produção. A utilização de uma
variedade de sementes melhorada que seja ao mesmo tempo resistente a pragas e doenças e com
maior capacidade de absorver os nutrientes disponíveis no solo, contribui para reduzir os custos com
defensivos e com mão-de-obra, tornando a produção mais lucrativa.
Igualmente, a utilização da técnica de inseminação artificial, permite elevar a taxa de
natalidade do rebanho e melhorar o padrão genético em menor tempo, reduzindo o investimento na
aquisição de reprodutores, diminuindo o ciclo de produção e aumentando a produtividade, torna a
atividade mais lucrativa, induzindo aumentos na oferta de animais para abate.
Na produção de frangos de granja, o melhoramento genético produziu raças de maior
conversão alimentar (capacidade de transformar ração em carne), menor ciclo de produção e mais
produtivos, tornando a atividade mais lucrativa e adequada à produção em escala (Figura 2.11).

2.3.2.1 Análise da oferta

A oferta de carne de frango é determinada como uma relação positiva entre preço e
quantidade ofertada. A equação de oferta é dada por:
QF = 4,41 + 8 PF
O coeficiente 4,41 indica que ao preço igual a zero são ofertados 4,41 kg por unidade
produtiva. Este valor parece estranho a uma primeira observação, dado que ninguém estaria disposto
a arcar com custos para produzir algo que não tem preço. No entanto, há a produção de pequenos
produtores cujas decisões não estão atreladas a mercado e sim ao consumo da família. Esta
quantidade de 4,41 kg representa, portanto, a produção dos criatórios tradicionais que se efetivarão
independente do preço.
O coeficiente associado ao preço do frango, igual a 8 kg, indica a magnitude de alteração na
quantidade ofertada de carne de frango quando o preço aumenta de R$ 1,00/kg.
32

Preço
A equação de oferta, incluindo a
mudança na tecnologia, é a seguinte:
O Qx = - c + d Px + t T
O1 Uma mudança na tecnologia (uso de
irrigação, sementes melhoradas,
implicam aumento de produtividade)
produz redução no custo unitário e
desloca a curva de oferta do O para
P0 O1, fazendo a quantidade ofertada, ao
nível de preços P0, mudar de Q0 para
Q1.
Da mesma forma que a tecnologia,
uma redução nos preços dos fatores
de produção, redução dos preços dos
produtos concorrentes, redução de
impostos, levam deslocamento para a
direita da curva de oferta.

-c 0 Q0 Q1 Qx/t

Figura 2.11 – Representação de uma mudança na curva de oferta em função de mudança na


tecnologia.

2.3.3 Equilíbrio de mercado

Compreendido o padrão de influências para o conjunto das forças que determinam a


dinâmica de ajustamento da demanda e da oferta, passa-se a avaliar como essas forças conduzem a
determinação do preço e da quantidade de equilíbrio do mercado.
Equilíbrio de mercado: É uma situação em que as forças que atuam no mercado estão em
equilíbrio, ou seja, é a posição em que a demanda e a oferta se igualam, gerando o preço de
equilíbrio - Pe e a quantidade de equilíbrio - Qe do mercado de um produto ou serviço.
Preço de equilíbrio – Pe: é o preço que satisfaz aos gostos e preferências para os consumidores que
desejam e podem comprar o produto e às expectativas de lucro dos produtores que estão aptos a
ofertar o produto no mercado. Uma vez atingido essa posição, as forças que influenciam a
demanda e a oferta tendem a se anular, mantendo a situação de equilíbrio.
Quantidade de equilíbrio – Qe: representa a quantidade do produto que é efetivamente
transacionada no mercado, ou seja, a quantidade de equilíbrio indica que a quantidade
demandada é exatamente igual à quantidade ofertada.
O equilíbrio de mercado pode ser representado pelos dados do mercado de peixe da Tabela
2.4.

Tabela 2.4 – Situação simulada de oferta, demanda e equilíbrio do mercado de peixe.


Quantidade demandada (kg) 16 11 8 6 4 2 1
Quantidade ofertada (kg) 1 2 4 6 9 12 15
Preço do peixe (R$/kg) 0 2 4 6 8 10 12
Situação Excesso de demanda Equilíbrio Excesso de oferta
33
Pelo que se observa dos dados da tabela acima, o equilíbrio do mercado ocorre no ponto em
que o preço é igual a R$ 6,00/kg. Isto significa que a esse preço, cada consumidor estaria satisfeito
em comprar 6 kg de peixe por ano e os produtores a ofertar igual quantidade. A representação gráfica
dessa situação é feita na Figura 2.12.
Quando um mercado está em equilíbrio, o preço determina quais os consumidores e
produtores que participam do mercado. Aqueles consumidores que atribuem ao produto um valor
maior que seu preço e optam por comprar o produto. Igualmente, os produtores cujos custos são
inferiores ao preço e optam por produzir e vender o produto.
Preço abaixo do equilíbrio: O preço situado abaixo do preço de equilíbrio do mercado (Pi <
Pe) leva a uma quantidade ofertada menor que a quantidade de equilíbrio (Qo < Qe) e a uma
quantidade demandada maior que a quantidade de equilíbrio (Qd > Qe), gerando um excesso de
demanda sobre a oferta de (Qd – Qo).
Por que preços baixos tende a produzir excesso de demanda? Porque os consumidores
percebem que seu poder de compra aumentou em relação ao produto.
Preço acima do equilíbrio: O preço situado acima do preço de equilíbrio do mercado (Pj >
Pe) leva a uma quantidade ofertada maior do que a quantidade de equilíbrio (Qo > Qe) e a uma
quantidade demandada menor do que a quantidade de equilíbrio (Qd < Qe), gerando um excesso de
oferta sobre a demanda de (Qo – Qd).
Por que preços altos tende a produzir excesso de oferta? Porque os produtores criam
expectativas positivas de obterem lucros e ampliam a produção.
Para qualquer nível de preços diferentes de R$ 6,00/kg, há desequilíbrio entre a oferta e a
demanda. Para níveis de preços de mercado abaixo de R$ 6,00/kg, tem-se uma demanda maior do
que a oferta, criando um excesso de demanda no mercado de peixe, ou seja, a quantidade que os
consumidores desejam e podem comprar é maior do que as quantidades que os produtores desejam
e podem ofertar.
Na situação inversa, para níveis de preços acima de R$ 6,00/kg, a oferta é maior do que a
demanda, criando um excesso de oferta, ou seja, a esses preços a quantidade que os produtores
estão dispostos a ofertar e maior do que as quantidades que os consumidores desejam e podem
comprar.

18
Demanda de peixe
16
Oferta de peixe
Quantidade de peixe (kg)

14

12

10

0
0 2 4 6 8 10 12 14
Preço do peixe (R$/kg)
Figura 2.12 – Representação do equilíbrio de mercado de peixe.
34
Na situação de excesso de demanda, não havendo desova de estoques reguladores ou
importação de produto, o excesso de demanda cria uma pressão altista de preço (caracterizada a
escassez de produto no mercado, os consumidores de maior poder aquisitivo passam a oferecer
lances maiores pelo mesmo produto, criando um mercado “negro” se a situação demorar muito a ser
solucionada) até que a posição de equilíbrio se restabeleça.
Por outro lado, na situação de excesso de oferta, não havendo possibilidade de estocar ou de
exportar, o excesso de produto cria uma pressão de queda do preço até o equilíbrio voltar a se
estabelecer.
Na Figura 2.12, ao nível de R$ 8,00/kg, a quantidade demandada é de 4 kg e a quantidade
ofertada é de 9 kg, gerando um excesso de oferta de 5 kg, ceteris paribus. O excesso de oferta
aumenta para 10 kg e para 14 kg quando o preço aumenta, respectivamente, para R$ 10,00/kg e
R$12,00/kg.
Na seqüência, apresenta-se a determinação matemática do equilíbrio de mercado. Na
prática, o ponto de equilíbrio é uma situação de difícil observação, uma vez que as interações entre
as forças que determinam a oferta e a demanda produzem um processo dinâmico no ajustamento em
torno do equilíbrio, nos ínterins de tempo entre o curto e o longo prazo.
Matematicamente, impõe-se a condição de equilíbrio ao mercado entre a demanda e a oferta,
por meio de uma equação de identidade que torna a quantidade demandada igual à ofertada. Assim,
o mercado será especificado por meio de três equações: duas comportamentais (demanda e oferta) e
uma identidade (condição de equilíbrio), como no modelo teórico representado no esquema que
segue.
O preço R$ 5,88/kg satisfaz tanto aos consumidores quanto aos produtores, para uma
quantidade transacionada (ofertada e demandada) igual a 6,98 kg.

Modelo matemático teórico: Aplicação do modelo linear:

Demanda: Qd = a – b P Demanda: Qd = 14,04 – 1,20 P


Oferta: Qo = -c + d P Oferta: Qo = -0,36 + 1,25 P
Equilíbrio: Qd = Qo = Qe Equilíbrio: Qd = Qo = Qe

a – b P = -c + d P Preço de equilíbrio: Pe = R$5,88/kg


bP+dP=a+c 14,04 – 1,2 P = -0,36 + 1,25 P
(b+d) P = (a+c) 2,45 P = 14,4
P = R$5,88/kg.
Preço de equilíbrio:
P = (a+c)/(b+d) Quantidade de equilíbrio: Qe = 6,98kg
Substituindo o valor de Pe na equação de
Quantidade de equilíbrio: demanda, tem-se:
Q = (ad – bc)/(b+d) Qe = 14,04 – 1,2 (5,88) = 6,98

2.3.3.1 Aplicação e análise do conceito de equilíbrio

Inicialmente, determina-se o equilíbrio do mercado da carne de frango e depois avaliam-se a


influência da mudança na renda sobre o equilíbrio do mercado.
Apresentam-se, então, as equações de demanda e oferta antes e depois do aumento na
renda de 25%. As equações são:
Modelo de equilíbrio inicial:
Demanda: QFd = 42,12 – 13,62 PF
Oferta: QFo = 4,41 + 8 PF
Equilíbrio: QFd = QFo = QFe
35
Solução:
1. Iguala-se a demanda à oferta: 42,12 – 13,62 PF = 4,41 + 8 PF;
2. Determina-se o valor de PF: 21,62 PF = 37,71, donde PFe = R$ 1,7442 ou R$ 1,74/kg;
3. Substitui-se PFe em uma das equações: QFe = 4,41 + 8 (1,7442), donde QFe = 18,36 kg.
Tem-se, portanto, que o preço e a quantidade de equilíbrio inicial do mercado de carne de
frango são, respectivamente, PFe = 1,74/kg e QFe = 18,36 kg.
Modelo de equilíbrio final (aumento de 25% no SM):
Demanda: QFd = 44,99 – 13,62 PF
Oferta: QFo = 4,41 + 8 PF
Equilíbrio: QFd = QFo = QFe
Solução:
1. Iguala-se a demanda à oferta: 44,99 – 13,62 PF = 4,41 + 8 PF;
2. Determina-se o valor de PF: 21,62 PF = 40,58, donde PFe = R$ 1,8774 ou R$ 1,88/kg;
3. Substitui-se PFe em uma das equações: QFe = 4,41 + 8 (1,8774), donde QFe = 19,43 kg.
Tem-se, portanto, que o preço e a quantidade de equilíbrio do mercado de carne de frango,
após o aumento na renda são, respectivamente, PFe = 1,88/kg e QFe = 19,43 kg.
Observa-se que o incremento da renda desloca a curva de demanda para cima e para a
direita, gerando uma nova posição de equilíbrio em que o preço e a quantidade são maiores. Pelos
resultados apresentados, o preço aumentou cerca de 8,05%, passando de R$1,74/kg para R$
1,88/kg, ou seja, um aumento de R$ 0,14/kg. As quantidades transacionadas também aumentaram
de 5,83%, passando de 18,36 kg para 19,43 kg, ou seja, um aumento de 1,07 kg per capita. (Figura
2.13 e Tabela 2.5).

34
Demanda
30 Demanda renda
Oferta
Quantidade (kg)

26

22

18

14

10
1.00 1.15 1.30 1.45 1.60 1.75 1.90 2.05 2.20
Preço do frango (R$/kg)
Figura 2.13 – Situação de equilíbrio do Mercado de carne de frango do Brasil, antes e depois de
um aumento no salário mínimo de 25%.
36
Do lado da demanda, houve um deslocamento da linha e do lado da oferta um deslocamento
ao longo da linha. O aumento de preço estimulou o incremento da quantidade ofertada de 19,33 kg
para 19,43 kg. Na demanda, se o preço permanecesse igual ao do equilíbrio inicial, a quantidade
demandada seria de 21,23 kg (posição na curva de demanda com aumento na renda – linha
vermelha e o preço de R$1,74/kg). Essa quantidade diminui para 19,43 kg em função do aumento no
preço (Figura 2.13 e Tabela 2.5).
Tanto os dados da Tabela 2.5 como da representação gráfica da Figura 2.13 foram obtidos,
fazendo a substituição dos valores do preço nas respectivas equações de demanda e de oferta.
Observe que a Figura 2.13 está com os eixos invertidos, com as quantidades no eixo vertical
e os preços no eixo horizontal. Para preços superiores a R$1,75/kg tem-se um excesso de oferta,
caracterizado pela diferença entre as linhas verde e azul e a partir de R$ 1,90/kg para a situação
entre as linhas verde e vermelha. No caso inverso, tem-se excesso de demanda, com as linhas de
demanda azul e vermelha superiores à linha verde de oferta.
A situação é mais bem evidenciada na Tabela 2.5, que separa as situações de equilíbrio do
mercado e as situações com excesso de demanda e de oferta. O equilíbrio ocorreu entre os anos de
1991/92. Antes a situação era de excesso de oferta, em função do poder aquisitivo da população
brasileira e do elevado preço do frango. Depois a situação se inverteu, passando a excesso de
demanda, dado que o preço do frango caiu bastante e a renda aumentou no período.

Tabela 2.5 – Equilíbrio do mercado de frango no Brasil, segundo as equações de demanda com e
sem o aumento de renda e a oferta.

Qtde.
Preço do Quantidade demandada Quantidade
Situação do mercado frango demandada com renda ofertada Ano
(R$/kg) maior
(kg) (kg)
(kg)

2.15 12.84 15.71 21.61 1990


Excesso de oferta (PF >
PFe) 2.11 13.38 16.25 21.29 1991
Equilíbrio após aumento Período
de 25% no Salário 1.88 16.56 19.43 19.43 entre os
Mínimo anos 91/92
Equilíbrio inicial do
1.74 18.36 21.23 18.36
Mercado de frango
1.71 18.83 21.70 18.09 1992

1.62 20.06 22.93 17.37 1993

1.60 20.33 23.20 17.21 1994

1.32 24.14 27.01 14.97 1995


Excesso de demanda de 1995
carne de frango no 1.29 24.55 27.42 14.73
mercado brasileiro (PF < 1.17 26.18 29.05 13.77 1997
PFe)
1.23 25.37 28.24 14.25 1998

1.17 26.18 29.05 13.77 1999

1.05 27.82 30.69 12.81 2000

1.11 27.00 29.87 13.29 2001


37
Em função das exportações do frango e da segmentação do mercado para partes de frango e
preparados de frango, a quantidade ofertada de frango congelado é inferior ao que a população, em
média, deseja e pode comprar. Em função disso, nos últimos dois anos tem-se observado um
aumento no preço da carne de frango, no período de safra.

2.4 ELASTICIDADE-PREÇO DA DEMANDA E DA OFERTA

Elasticidade é um conceito que mede a magnitude da resposta dada por consumidores ou


produtores de produtos ou serviços em relação aos preços do próprio produto, de outros produtos
relacionados no consumo ou na produção, da renda e dos fatores de produção. Portanto, é um
conceito de extrema utilidade para a vida cotidiana dos agentes econômicos.

2.4.1 Elasticidade-preço da demanda

Sabe-se, em princípio, que:


a) Um aumento na oferta, resultante de uma colheita abundante ou de qualquer outra razão,
tende a fazer baixar o preço do produto;
b) Os produtores, no conjunto, tendem a obter uma receita total com a venda do produto menor
com colheitas boas do que com colheitas pouco abundantes.
O entendimento desses fatos necessita considerar e dominar o conceito de elasticidade-
preço da demanda. A elasticidade é uma medida da variação percentual na quantidade demandada
em resposta a uma mudança percentual no preço do produto.
%∆Q
Elasticidade-preço da demanda: ε p
=
%∆P
Importância da elasticidade:
a) Serve para medir a variação da quantidade demandada em resposta a uma mudança
percentual no preço;
b) Os diversos produtos diferem entre si no grau em que a quantidade comprada reage às
alterações nos respectivos preços;
c) A quantidade demandada pode aumentar muito menos (muito mais ou na mesma proporção)
que 1% por cada diminuição no preço de 1%.
O conceito de elasticidade-preço foi criado para se identificar esses casos e classificá-los em:
Demanda inelástica: εp < | -1 |, fraca reação percentual na Q demandada às alterações no P: %∆Q <
%∆P;
Demanda elástica: εp > | -1 |, forte reação percentual em Q a alterações em P: %∆Q > %∆P;
Demanda unitária: εp = | -1 |, caso intermediário: %∆Q = %∆P .

Determinantes da elasticidade-preço
Em geral, os principais fatores que determinam a elasticidade-preço são:
1. O número e a qualidade dos substitutos de um produto ou serviço. O número de substitutos
disponíveis tende a ser a influência dominante nas elasticidades-preço da demanda. Um
aumento no preço de um produto ou serviço leva os consumidores na direção dos substitutos.
Assim, quanto maior o número de substitutos e a sua qualidade, mais elástico tende a ser o
produto.
2. A parcela que um produto ou serviço absorve como parte do orçamento do consumidor. Os
custos de transação são a principal razão para que os valores dos orçamentos dos
consumidores sejam relacionados positivamente à elasticidade-preço da demanda. Assim,
uma mudança nos preços de produtos que absorvem pequena parcela do orçamento pode
não ser notada, como farinha de mandioca e sal de cozinha; porém, o consumidor ajusta-se
rapidamente às mudanças nos preços de produtos como roupas, gasolina, eletrodomésticos.
38
3. O período de tempo considerado. Geralmente, a elasticidade-preço aumenta de acordo com
o intervalo de tempo, porque com o passar do tempo, novos produtos substitutos se tornam
disponíveis.
Estes determinantes devem, portanto, ser considerados na avaliação dos resultados das
elasticidades-preço dos produtos e serviços, no momento da tomada de decisão por parte dos
consumidores ou por parte dos formuladores de políticas públicas em prol dos consumidores.

Medição da elasticidade-preço da demanda entre dois pontos

 ∆Q 
 
 Q   (Q 2 − Q1) ÷ (Q1 + Q 2) / 2 
Elasticidade-preço: ε p = =
 ∆P   ( − ) ÷ ( P1 + P 2) / 2 
   P 2 P1 
 P 
A elasticidade-preço entre dois pontos é dada pela razão da variação na quantidade
demandada, ponderada pela média das quantidades desses pontos, pela variação no preço,
ponderado pela média dos preços dos respectivos pontos. Veja a aplicação aos dados de demanda
da Tabela 2.6, abaixo.

Tabela 2.6 – Cálculo da elasticidade-preço entre dois pontos, para dados hipotéticos.
Preço Quantidade Situação da
P Q
∆P ∆Q (P1+P2)/2 (Q1+Q2)/2 εp demanda
RT=PQ

0 10 - - - - - 0

2 8 2 -2 1 9 - 0,111 Inelástica 16

4 6 2 -2 3 7 - 0,429 24

6 4 2 -2 5 5 - 1,000 Unitária 24

8 2 2 -2 7 3 - 2,333 16
Elástica
10 0 2 -2 9 1 - 9,000 0

Observa-se, para os dados da Tabela 2.6, que ao longo de uma mesma linha de demanda, o
produto torna-se inelástico para preços baixos, unitária para preços intermediários e elástica para
preços elevados.

Medição da elasticidade-preço para uma equação: Q = a – b P


Neste caso, a elasticidade-preço é dada pelo coeficiente b multiplicado pela razão entre o
preço médio e a quantidade média do produto, como na fórmula abaixo.

dQ P P
Elasticidade-preço: ε p
= ⋅ =b
dP Q Q
Demanda de carne de frango: QF = 42,93 – 14,2 PF; preço médio PFm = R$ 1,46/kg e
quantidade média QFm = 22,19 kg. O coeficiente de elasticidade-preço da oferta é dada por:

P 1,46
ε p
=b
Q
= −14,2(
22,19
) = −0,934

Natureza da demanda: Como o coeficiente de elasticidade-preço da demanda de carne de frango,


em valor absoluto é menor do que um, a demanda de frango é inelástica a preço.
Análise econômica: Este resultado indica que a cada variação de 1% no preço da carne de frango,
ao longo do período de 1990/2001, a quantidade demandada variou 0,934% em sentido contrário,
ceteris paribus.
39

b b.P b.P
A fórmula geral da elasticidade-preço: ε p
=
Q/P
=
Q
=
a − b.P
Para valores de preço entre zero e infinito, a elasticidade-preço também varia entre zero e
infinito. Um preço igual a zero, torna a elasticidade-preço também igual a zero.
Repetir o cálculo, determinar a natureza e analisar o resultado para as seguintes demandas:
Carne de boi: QB = 54,77 – 0,497 PB; PBm= 40,56/@ ; QBm = 34,61 kg
Carne de suíno: QS = 14,97 – 0,246 PS; PSm = 24,55/@; QSm = 8,93 kg
Peixe: QP = 6,77 – 0,43 PP; PPm = 2,74/kg; QPm = 5,49 kg
Polpa de açaí: lnQA = 0,753 – 0,825 lnPA

Relação entre elasticidade-preço e receita total (ou despesa total)


Antes de analisar essa relação entre elasticidade-preço e receita total, adicionam-se alguns
conceitos matemáticos importantes.
Receita Total – RT = P.Q,
em que Q é a quantidade vendida e P é o preço do produto. Para o consumidor, isto significa
despesa e para o vendedor uma receita.
Receita Média – RMe = RT/Q = Q
Receita Marginal – RMa = ∆RT/∆Q, ou alternativamente, RMa = ∆RT/∆P. Igualando-se a
RMa = 0, obtém-se a quantidade ou o preço que maximiza a receita total.
A última coluna da Tabela 2.6 contém a receita total – RT, que apresenta uma relação
interessante com o coeficiente de elasticidade-preço da demanda. Quando a demanda apresenta
elasticidade-preço unitária, a receita total é máxima, ou seja, variação no preço ou na quantidade não
altera a RT.
Para o ramo da demanda elástica, a RT ou despesa total dos consumidores aumenta com a
diminuição do preço ou com o aumento da quantidade vendida (comprada).
Para o ramo da demanda inelástica, a RT ou despesa total dos consumidores aumenta com a
diminuição da quantidade ou com o aumento do preço.
A prova de que para a receita total máxima a elasticidade-preço é igual a um, é feita como
segue:
1. Gera-se a equação de receita total: RT = P.Q = P (42,93 – 14,2 P) = 42,93 P – 14,2 P2.
2. Determina-se o preço que torna a receita máxima: (a) calcula-se a receita marginal e iguala-
dRT
se o resultado a zero, RM a
=
dP
= 0 ; 42,93 – 28,4 P = 0, donde P = R$ 1,512; (b)
substitui-se este preço na equação de RT e obtém-se RTmáx = R$ 32,45;
3. Determina-se a quantidade demandada: Q = 42,93 – 14,2 (1,512) = 21,46 kg;
4. Utilizam-se os valores de P e Q para determinar a elasticidade: εp = - 14,2 (1,512/21.46) = -
1,00.
Verifica-se, portanto, que quando o valor absoluto da elasticidade-preço é igual a um, a
receita total alcança o valor máximo. O movimento para qualquer um dos lados faz a receita cair. Vale
sempre lembrar que a elasticidade aumenta com o aumento do preço, conforme ficou evidenciado na
fórmula geral da elasticidade.
A Figura 2.14 apresenta a relação entre a elasticidade-preço da demanda de carne de frango
e a receita total. A elasticidade-preço da demanda de frango igual a 1,0, coincide com o valor máximo
da receita total. Um valor menor do que um, que representa o ramo inelástico da demanda a RT é
menor, assim como no ramo elástico, para a elasticidade maior do que um.
Assim, a regra para aumentar a RT, quando o produto é inelástico seria aumentar o preço,
para tornar o produto mais elástico; quando a demanda é elástica, a regra seria diminuir preços. No
40
caso de produtos inelásticos da agropecuária, a receita seria formar estoques ou exportar, visando
enxugar o excesso de produto do mercado e contribuindo para o aumento do preço e da elasticidade-
preço em curto prazo.

35
33
31
Receita total
29
Receita total (R$)

27
25
23
21
19
17
15
0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0
Elasticidade-preço
Figura 2.14 – Relação entre a elasticidade-preço da demanda de frango e a receita total.

2.4.2 Elasticidade-preço da oferta

O que se fez para a demanda pode fazer-se também para a oferta. O conceito de
elasticidade-preço da oferta representa o aumento percentual na quantidade ofertada Q em
conseqüência de um dado aumento percentual do preço P do produto.
%∆Q
Elasticidade-preço da oferta: η p
=
%∆P
Importância da elasticidade:
d) Serve para medir a variação da quantidade ofertada em resposta a uma mudança percentual
no preço;
e) Os diversos produtos diferem entre si no grau em que a quantidade vendida reage às
alterações nos respectivos preços;
f) A quantidade ofertada pode aumentar muito menos (muito mais ou na mesma proporção) que
1% por cada aumento no preço de 1%.

O conceito de elasticidade-preço foi criado para se identificar esses casos e classificá-los em:
Oferta inelástica: ηp < 1, fraca reação percentual na Q demandada às alterações no preço P:
%∆Q < %∆P;
Oferta elástica: ηp > 1, forte reação percentual em Q a alterações em P: %∆Q > %∆P;
Oferta unitária: ηp = 1, caso intermediário: %∆Q = %∆P .
41
Medição da elasticidade-preço da oferta entre dois pontos

 ∆Q 
 
 Q   (Q 2 − Q1) ÷ (Q1 + Q 2) / 2 
Elasticidade-preço: η = =
 ∆P   ( − ) ÷ ( P1 + P 2) / 2 
  P 2 P1
p
 
 P 
A elasticidade-preço entre dois pontos é dada pela razão da variação na quantidade ofertada,
ponderada pela média das quantidades desses pontos, pela variação no preço, ponderado pela
média dos preços dos respectivos pontos. Veja a aplicação aos dados de oferta da Tabela 2.7.

Tabela 2.7 – Cálculo da elasticidade-preço da oferta entre dois pontos, para dados hipotéticos.
Preço Quantidade Situação da
∆P ∆Q (P1+P2)/2 (Q1+Q2)/2 εp
P Q demanda
0 1 - - - - -
Inelástica
2 2 2 1 1 1,5 0,333

4 4 2 2 3 3 1,000
Unitária
6 6 2 2 5 5 1,000

8 9 2 3 7 7,5 1,400
Elástica
10 13 2 4 9 11 1,636

Observa-se, para os dados da Tabela 2.7, que ao longo de uma mesma linha de oferta, o
produto é inelástico para preços baixos, unitária para preços intermediários e elástica para preços
elevados.

Medição da elasticidade-preço a partir de uma equação: Q = c + d P


Neste caso, a elasticidade-preço é dada pelo coeficiente d multiplicado pela razão entre o
preço médio e a quantidade média do produto, como na fórmula abaixo.

dQ P P
Elasticidade-preço: η p
= ⋅ =d
dP Q Q
Oferta de carne de frango: QF = 4,41 + 8,0 PF; preço médio PFm = R$ 1,46/kg e quantidade
média QFm = 22,19 kg. O coeficiente de elasticidade-preço da oferta é dado por:

P 1,46
η =dp Q
=8⋅(
22,19
) = 0,526

Natureza da oferta: Como o coeficiente de elasticidade-preço da oferta de carne de frango é menor


do que um, a oferta de frango é inelástica a preço.
Análise econômica: Este resultado indica que a cada variação de 1% no preço da carne de frango,
ao longo do período de 1990 a 2001, a quantidade ofertada aumentou 0,526%, ceteris
paribus
Repetir o cálculo, determinar a natureza e analisar o resultado para as seguintes ofertas:
1. Carne de boi: QB = 4,77 + 0,503 PB; PBm= 40,56/@ ; QBm = 34,61 kg
2. Carne de suíno: QS = 4,97 + 0,754 PS; PSm = 24,55/@; QSm = 8,93 kg
3. Peixe: QP = 1,77 + 1,57 PP; PPm = 2,74/kg; QPm = 5,49 kg
42
4. Polpa de açaí: lnQA = 3,293 + 0,396 lnPA
5. Polpa de açaí (oferta em longo prazo): lnQA = 9,81 + 1,80 lnPA

Análise da elasticidade-preço no equilíbrio


É importante aplicar o conceito de elasticidade à situação de equilíbrio do mercado, para
efeito de análise neste ponto, cujo resultado deve ser estável para a situação da economia no
momento. As fórmulas são as seguintes:

Demanda: ε =b P
e
; Oferta: η =d P
e
;
p
Q e
p
Q e

em que Pe e Qe são, respectivamente, o preço e a quantidade de equilíbrio do mercado.


Aplica-se este conceito aos resultados já determinado anteriormente para o equilíbrio de
mercado da carne de frango antes e depois do aumento da renda. As equações, para o período de
1990/01, são:

Demanda inicial: QFd = 42,12 – 13,62 PF


Demanda final: QFd = 44,99 – 13,62 PF
Oferta: QFo = 4,41 + 8 PF
Solução:
1. Dados: preço e quantidade de equilíbrio inicial: PFe = R$ 1,74/kg, QFe = 18,36 kg; preço e
quantidade de equilíbrio final: PFe = R$ 1,88/kg, QFe = 19,43.
2. Elasticidade da demanda inicial: εp = - 13,62(1,74/18,36) = - 1,291
3. Elasticidade da oferta inicial: ηp = 8 (1,74/18,36) = 0,758
4. Elasticidade da demanda final: εp = - 13,62(1,88/19,43) = - 1,318
5. Elasticidade da oferta final: ηp = 8 (1,88/19,43) = 0,774

Natureza da demanda e da oferta: a demanda é elástica a preço, uma vez que o valor absoluto da
elasticidade-preço da demanda é maior do que um; a oferta é inelástica a preço, dado que o
coeficiente de elasticidade-preço da oferta é menor do que um.
Análise econômica: no ponto de equilíbrio inicial, tem-se que para cada aumento de 1% no preço do
frango, as quantidades demandadas caem 1,29% e as quantidades ofertadas aumentam
0,758%, ceteris paribus. Observa-se, portanto, que após aumento de 1% nos preços leva a um
desequilíbrio de mercado, provocando um excesso de oferta. Por que ocorre esse
desequilíbrio? A razão é que a demanda é elástica e a oferta inelástica e que os coeficientes de
elasticidade-preço são diferentes.
Observação: o aumento de renda torna as curvas de demanda e oferta mais elásticas a preço.

Exercício: Determinar os coeficientes de elasticidade-preço da demanda e da oferta no ponto de


equilíbrio, dizer a natureza da demanda e da oferta e interpretar os resultados, para os
seguintes mercados, no período 1980/02:
Peixe: QPd = 6,77 – 0,468 PP e QPo = 1,77 + 1,57 PP; Carne suína: QSd = 10,30 – 0,49 PS e
QSo = 4,97 + 0,754 PS; Carne bovina: QBd = 47,35 – 4,16 PB e QBo = 4,77 + 0,503 PB; Açaí:
lnQAd = 14,5 – 0,5 lnPA e lnQAo =11,5 + 0,5 lnPA.
43

2.4.3 Elasticidade-renda e elasticidade-cruzada da demanda

A elasticidade-renda da demanda mede a resposta na quantidade de um bem ou serviço


adquirido pelo consumidor em resposta a uma alteração da renda, mantendo as demais variáveis
constantes.
%∆Q
Elasticidade-renda: ε r
=
%∆R
em que %∆Q é a variação percentual na quantidade demandada e %∆R é a variação percentual na
renda do consumidor.
A elasticidade-renda serve para classificar os bens e serviços em:
Supérfluos εr > 1: a variação na quantidade Q é maior do que a variação na renda R: %∆Q >
%∆R;
Normais 0 < εr < 1: a variação na quantidade Q é menor do que a variação na renda R: %∆Q <
%∆R;
Inferiores εr < 0: a variação na quantidade Q é contrária à variação na renda R: %∆Q (+) e %∆R
(-);
A elasticidade-cruzada da demanda mede a resposta na quantidade de um bem ou serviço
adquirido pelo consumidor em resposta a uma alteração do preço do bem ou serviço relacionado no
consumo, mantendo as demais variáveis constantes. A fórmula da elasticidade cruzada é a seguinte:
%∆Q
Elasticidade-cruzada: ε c
=
%∆Py
em que %∆Q é a variação percentual na quantidade demandada e %∆Py é a variação percentual no
preço do bem ou serviço relacionado no consumo.
A elasticidade-cruzada serve para classificar os bens e serviços em:
Substitutos εc > 0: aumento na quantidade Q resultante de uma variação positiva no preço Py;
Complementares εc < 0: aumento na quantidade Q resultante de uma variação negativa em Py;
Independentes εc = 0: a variação em Q independe da variação em Py;

Medição das elasticidades-renda e cruzada entre dois pontos

As fórmulas das elasticidades-renda e cruzada da demanda são apresentadas abaixo, para


dados discretos ou tabulados.

 ∆Q 
 
 Q   (Q2 − Q1) ÷ (Q1 + Q2) / 2 
Elasticidade-renda:
ε r =  ∆R  =  ( − ) ÷ ( + ) / 2 
   R 2 R1 R1 R2 
 R 

 ∆Q 
   (
 =  Q2 Q1
Q − ) ÷ (Q + Q ) / 2 

Elasticidade-cruzada:
ε c  ∆Py   ( − ) ÷ ( 1 + 2 ) / 2 
=
   P y 2 P y1 P y1 P y 2 
 P y 

Para os cálculos dos coeficientes de elasticidade-renda e elasticidade-cruzada, utilizam-se os


dados de quantidade de carne de frango, salário mínimo como indicador da renda do consumidor e
preço da carne de boi como substituto da carne de frango, no período de 1995/01, para a economia
44
brasileira. A Tabela 2.8 apresenta o resultado da aplicação das fórmulas. Determinam-se as
elasticidades-renda da demanda de carne de frango e a elasticidade-cruzada entre a carne de frango
e a carne de boi.

Tabela 8 – Cálculo da elasticidade-renda e cruzada da demanda de frango.

Ano QF PB R ∆QF ∆PB ∆R Qm Pm Rm ∆c ∆r

1995 22.8 38.66 76.6 - - - - - - - -

1996 21.6 32.53 82.7 -1.20 -6.13 6.14 22.20 35.60 79.67 0.31 -0.70

1997 23.3 33.92 83.3 1.70 1.39 0.54 22.45 33.23 83.01 1.81 11.73

1998 25.6 34.99 86.6 2.30 1.07 3.31 24.45 34.46 84.93 3.03 2.42

1999 28.3 36.26 82.3 2.70 1.27 -4.32 26.95 35.63 84.42 2.81 -1.96

2000 29.8 38.47 79.5 1.50 2.21 -2.78 29.05 37.37 80.87 0.87 -1.50

2001 32.4 39.47 84.5 2.60 1.00 5.01 31.10 38.97 81.98 3.26 1.37

Definições: ∆QF = QF2 – QF1; ∆PB = PB2 – PB1; ∆R = R2 – R1; Qm = (QF1+QF2)/2; Pm =


(PB1+PB2)/2; Rm = (R1+R2)/2

O coeficiente de elasticidade-cruzada, em todo o período, apresentou valor maior do que


zero, indicando que a carne de frango e a carne de boi são produtos substitutos, ou seja, a variação
no preço da carne de boi levou os consumidores a substituí-la por carne de frango. Esta substituição
foi mais forte em 1997/99 e 2000/01, quando o coeficiente foi superior a 2,8 e fraca em 1995/96,
quando o coeficiente foi da ordem de 0,31.
Interpretação: o coeficiente de elasticidade-cruzada de 3,26, para 2000/01, indica que um aumento
de 1% no preço da carne bovina, conduziu a um aumento de 3,26% na quantidade de carne
de frango, ceteris paribus.
O coeficiente de elasticidade-renda apresentou valor irregular ao longo do período, fazendo o
produto oscilar entre um produto supérfluo a um produto inferior. Em 1996/97, a carne de frango, com
o coeficiente de elasticidade-renda de 11,73, mostra que o frango se transformou um produto
supérfluo, em função do reduzido aumento do salário mínimo em relação ao aumento do consumo.
Interpretação: o coeficiente de elasticidade-renda de 1,37, para 2000/01, indica que um aumento de
1% no salário mínimo, conduziu a um aumento de 1,37% na quantidade de carne de frango,
ceteris paribus.

Elasticidade-renda e cruzada a partir de uma equação

A especificação da equação de demanda, incluindo o preço do produto, a renda dos


consumidores e o preço de um produto substituto ou complementar, é feita como a seguir:

Equação de demanda: Q = a – b P ± c Py + d R,
em que Q é a quantidade demandada do produto, P é o preço do produto, Py é o preço do produto
substituto ou complementar e R é a renda dos consumidores. As fórmulas de elasticidade são:
Elasticidade-preço: εp = -b . (Pm/Qm)
Elasticidade-renda: εr = d . (Rm/Qm)
Elasticidade-cruzada: εc = ± c . (Pym/Qm)

Demanda de carne de frango: QF = 10,18 – 19,81 PF + 7,69 PB + 0,255 SM


em que: QFm = 22,19 kg é a quantidade média de carne de frango; PFm = 1,46/kg é o preço médio
da carne de frango; PBm = R$ 2,70/kg é o preço médio da carne de boi; SMm = R$79,24 é o salário
mínimo médio do período 1990/01.
45

Elasticidade-preço: εp = -19,81 (1,46/22,19) = - 1,30, indica que uma demanda elástica a preço
Elasticidade-renda: εr = 0,255 (79,24/22,19) = 0,911, indica produtos essenciais
Elasticidade-cruzada: εc = 7,69 (2,70/22,19) = 0,936, indica produtos substitutos

Análise: Os resultados mostram que a demanda de frango, ao longo dos anos 90, foi elástica a
preço, indicando que para cada aumento de preço de 1%, a quantidade demandada diminuiu
de 1,3%. A carne de frango é um produto normal ou essencial à dieta do consumidor
brasileiro de salário mínimo, mostrando que o consumo de frango aumenta menos que
proporcional ao aumento da renda. A carne de boi é um produto substituto da carne de
frango. Pois para cada aumento de 1% no preço da carne de boi, o consumidor aumenta o
consumo de frango em 0,94%.

Repetir a análise para as demandas:


Demanda de frango: QF = 44,294 – 15,98 PF – 3,495 PP + 0,137 SM; PPm = R$ 2,74/kg.; PFm =
R$ 1,46/kg; SMm = R$ 79,24.
Demanda de frango: QF = 30,71 – 14,19 PF + 0,74 PS + 0,139 SM; PSm = R$ 1,64.
Demanda de peixe: QP = 7,26 – 0,72 PP – 0,77 PF + 0,017 SM; QPm = 5,49 kg; PPm = R$ 2,74.
Demanda de peixe: QP = 6,9 – 0,692 PP – 0,885 PS + 0,025 SM; PSm = R$ 1,64.
Demanda de carne suína: QS = 10,68 – 1,142 PS – 2,357 PF + 0,045 SM; QSm = 8,93 kg; PSm =
R$ 1,64/kg.
Demanda de carne suína: QS = 11,33 – 4,09 PS – 0,483 PP + 0,071 SM.
Demanda de carne de boi: QB = 28,48 – 0,955 PB – 3,06 PF + 0,0024 R; QBm = 34,61 kg; Pbm =
R$ 2,70/kg; Rm = R$ 5.481/hab.

2.5 MERCADO E EFICIÊNCIA ECONÔMICA

A eficiência do mercado pode ser mensurada por meio do excedente do consumidor e do


produtor. No caso dos mercados de concorrência pura, em que há um grande número de
consumidores e de produtores, em que a ação isolada de cada um individualmente não é capaz de
afetar os preços de equilíbrio do mercado.

2.5.1 Excedente do consumidor – EC


O excedente do consumidor é uma medida de bem-estar social do consumidor. É
concebido como a diferença entre o preço que o consumidor estaria disposto a pagar por dada
quantidade de um produto ou serviço e o preço efetivamente pago. Pode ser empregado para
analisar a variação no bem-estar dos consumidores de um produto em relação às variações de
preços no mercado. Matematicamente é dado pela área situada abaixo da curva de demanda e acima
do preço de mercado (Figura 2.15).
O excedente do consumidor representa o benefício social para os consumidores que estão
dispostos a pagar um preço igual ou superior a R$ 5,00/kg e menor do que R$ 10,00/kg. Os demais
consumidores ou não gostam do produto ou não dispõem de rendimento suficiente para adquirir o
produto. Os resultados mostram que o consumo de 5 kg per capita, produz um benefício per capita de
R$12,50 (Figura 2.15).
Quando o preço diminui, o excedente do consumidor aumenta e o bem-estar social aumenta
tanto para os consumidores que continuam consumindo 5 kg como para os novos consumidores que
entram no mercado, em função do menor preço.

Excedente do consumidor – EC para uma equação de demanda.

Toma-se a demanda de carne de frango, envolvendo o período de 1980/2002, para aplicar o


cálculo do excedente do consumidor brasileiro desse produto.
46
Demanda de carne de frango: QF = 34,4 – 7,0 PF e o preço médio da carne é PFm = R$
2,13/kg.
Passos para construir o gráfico de demanda, da Figura 2.16:
1. Quando o preço for igual a zero, tem-se QF = 34,4 kg;
2. Quando a quantidade for igual a zero, tem-se PF = R$ 4,90/kg;
3. Quando o preço for igual a R$2,13, tem-se QF = 19,49 kg.

Cálculo do EC:
Preço Base: b=(5-0)=5; Altura: h=(10-5)=5
EC = Área do ∆ (5A10)
EC = (b.h)/2 = (5.5)/2 = R$12,5/hab
EC = (b.h)/2
Se o preço cair para 3, qual o EC?
10 Base: b=(7-0)=7; Altura: h=(10-3)=7
EC1 = (b.h)/2 = (7.7)/2 =
R$24,50/hab.
Variação no EC: ∆EC=(EC1-EC) =
EC 24,5-12,5 = R$12,00/hab.
A Análise: Uma queda no preço do
5 produto de 40% levou a um aumento
∆EC no EC de 96%. A queda de preço
aumenta o bem-estar social do
3 consumidor, por isso é importante
manter a inflação baixa.

0 5 7 10 Q/t
Figura 2.15 – Representação do excedente do consumidor – EC.

Preço Cálculo do EC:


EC = Área do ∆ (2,13A4,9)
Base: b=(19,49-0) = 19,49;
EC = (b.h)/2 Altura: h=(4,9-2,13) = R$ 2,77
EC = (b.h)/2 = (19,49.2,77)/2 =
4,9 R$26,99/hab
Se o preço cair para R$ 1,5, qual
o EC?
Base: b = (23,9-0) = 23,9;
EC Altura: h = (4,9-1,5) = R$ 3,4
A EC1 = (b.h)/2 = (23,9.3,4)/2 =
2,13 R$40,63/hab.
∆EC
Variação no EC: ∆EC =
R$13,64/hab.
1,5
Análise: Uma queda no preço do
produto de 29,58% levou a um
aumento no EC de 50,54%. A
queda de preço aumenta o bem-
estar social do consumidor de
0 19,49 23,9 34,4 Q/t frango.

Figura 2.16 – Medida do excedente do consumidor – EC de carne de frango, 1980/02.


47

2.5.2 Excedente do Produtor – EP


O excedente do produtor é concebido como a diferença entre o preço que o produtor não
estaria disposto a ofertar dada quantidade de um bem ou serviço e o preço efetivamente recebido.
Pode ser empregado para analisar a variação no bem-estar dos produtores de um produto em
relação às variações de preços no mercado. Matematicamente é dado pela área situada abaixo do
preço de mercado e acima da curva de oferta (Figura 2.16).
O excedente do produtor representa o lucro, que é o principal motor de estímulo à expansão
da produção. Ao preço de R$ 5,00/kg, cada produtor ofertaria 5 kg do produto. Ao se elevar para R$
7,00/kg, o excedente do produtor aumenta de R$ 12,50 para R$ 24,50. Este incremento no excedente
é resultante dos produtores atuais que continuam ofertando 5 kg, dado pela área do retângulo
(5AC7), que é da ordem de R$ 10,00 e de outros produtores que entram no mercado. O excedente
gerado pelos novos produtores é dado pela área do triângulo (ABC), da ordem de R$ R$ 2,00 (Figura
2.17).

Preço EP = Área do ∆ (0A5) Cálculo do EP:

EP = (b.h)/2 Base: b=(5-0)= 5; Altura: h=(5-0)=5


EP = (b.h)/2 = (5.5)/2 = R$12,5
O Se o preço aumentar para 7, qual o
C EP?
Base: b=(7-0)=7; Altura: h=(7-0)=7
7 B
EP1 = (b.h)/2 = (7.7)/2 = R$24,50/hab
∆EP
Variação no EP: ∆EP = (EP1-EP) =
5 24,5-12,5 = R$12,00.
A Análise: Um aumento no preço do
EP bem de 40% levou a um incremento
no EP de 96%. A alta de preço
aumenta o lucro do produtor.
Observa-se que as variações de
preços atingem de modo diferente
os produtores e os consumidores.
Como equacionar isto?
0 5 7 Q/t
Figura 2.17 – Representação do excedente do produtor – EP.

Excedente do produtor – EP para uma equação de oferta.

Oferta de carne de frango: QF = 4,4 + 8,0 PF; preço médio da carne de frango PFm = R$
2,13/kg.
Passos para construir o gráfico de oferta da Figura 18:
1. Quando o preço for igual a zero, tem-se QF = 4,4 kg;
2. Quando a quantidade for igual a zero, tem-se PF = - 0,55; 3;
3. Quando o preço for igual a R$2,13, tem-se QF = 21,44 kg. Trata-se de calcular a área de
um trapézio.

Observa-se que a linha de oferta cruza o eixo das quantidades no ponto 4,4 kg, indicando
que há produção quando o preço da carne de frango é igual a zero. Este fato, como já foi explicado
anteriormente, ocorre em situações de produção de subsistência ou de produção extrativa, ou ainda
de produção subsidiada. O interessante é que o excedente do produtor, medido pela área acima da
curva de oferta e abaixo do preço de mercado, forma uma figura na forma de um trapézio, cuja área é
calculada da seguinte forma:
48
Soma-se a base menor b à base maior B e o resultado multiplica-se pela altura h. O
resultado obtido é dividido por dois, assim: EP = [(b + B).h]/2.
A variação no excedente do produtor, resultante do aumento de preço na carne de frango,
também, pode ser calculado, aplicando-se essa mesma fórmula. Os resultados obtidos são
apresentados na Figura 2.18.

2.5.3 Excedente econômico - EE


A junção dos excedentes do consumidor e do produtor gera o conceito de excedente
econômico, que para um mercado em concorrência pura, representa a eficiência econômica. Este é o
valor máximo do benefício social que o mercado pode gerar para a economia. Isto, porém, nada
indica sobre a distribuição eqüitativa desses benefícios para a população de consumidores e
produtores.
O Excedente econômico – EE é representado pela área que fica abaixo da linha de
demanda e acima da linha de oferta, ou seja, é a soma dos excedentes dos consumidores e dos
produtores. A representação do EE é dada na Figura 2.19.

Preço EP = Área (04,4A2,13) Cálculo do EP:

EP = [(b+B).h]/2 Base: b = 4,4; B = 21,44 kg; h = 2,13


O EP = [(4,4 + 21,44).2,13]/2 = R$27,51
C Se o preço aumentar 29,5%, qual o EP?
2,75 B Base: b = 4,4; B = 26,4; h = 2,75
∆EP EP1 = [(4,4+26,4)2,75]/2 = R$42,35.
Variação no EP: ∆EP = (42,35 -27,51) =
2,13 R$14,84/produtor.
A Análise: o aumento de 29,5% no preço
EP
gerou um incremento no EP de 53,94%.
Faça o cálculo do EP para uma redução
de preço na mesma proporção.
Compare os resultados com os obtidos
para o excedente do consumidor.

0 4,4 21,44 26,4 Q/t


Figura 2.18 – Medida do excedente do produtor – EP de carne de frango, 1980/02.

Excedente econômico – EE para equações de demanda e oferta

Calcula-se o valor do excedente econômico, com base nos resultados para o mercado de
carne de frango do Brasil, no período de 1980/2002. Os resultados são os apresentados em seguida.
Equilíbrio do mercado:
Demanda: QFd = 34,4 – 7,0 PF
Oferta: QFo = 4,41 + 8 PF
Equilíbrio: QFd = QFo = QFe
Solução:
1. Iguala-se a demanda à oferta: 34,4 – 7,0 PF = 4,41 + 8 PF;
2. Determina-se o valor de PF: 15 PF = 30, donde PFe = R$ 2,00/kg;
49
3. Substitui-se PFe em uma das equações: QFe = 4,4 + 8 (2,0), donde QFe = 20,4 kg.

A representação gráfica da situação está na Figura 2.20.

Preço

10 Oferta

Excedente econômico – EE:


EC E EE = EC + EP
5 EE = R$ 12,5 + R$ 12,5 =
EE = R$ 25,00
EP

Demanda

0 5 10 Q/t

Figura 2.19 – Representação do excedente econômico.

Preço

4,9
Oferta

Excedente econômico – EE:


EC EE = EC + EP
E
EE = R$ 29,58 + R$ 24,8 =
2,0 EE = R$ 54,38 por pessoa
EP

Demanda

0 4,4 20,4 34,4 Q/t

Figura 2.20 – Excedente econômico do mercado de carne de frango do Brasil, 1990/02.

Cálculo do benefício social:


Excedente do consumidor – EC:
EC = (b . h)/2 = (20,4 . 2,9)/2 = R$ 29,58
50
Como esse resultado se refere à demanda individual, o valor R$ 29,58 representa o
benefício social que o consumo de 20,4 kg per capita de carne de frango, ao preço de R$ 2,00/kg,
gera para cada consumidor, ceteris paribus.

Excedente do produtor – EP:


EP = [(b + B).h]/2 = [(4,4 + 20,4).2]/2 = R$ 24,8
Da mesma forma que para o excedente do consumidor, o excedente do produtor, no valor
de R$ 24,8, representa o lucro individual para cada vendedor por ofertar 20,4 kg de frango ao preço
de R$ 2,00/kg, ceteris paribus.

Excedente econômico – EE: EC + EP = R$ 29,58 + R$ 24,8 = R$ 54,38/pessoa.


O excedente econômico, que engloba toda a sociedade, é da ordem de R$ 54,38, para cada
agente participante do mercado de carne de frango.
Diante desses cálculos cabe a seguinte pergunta: Por que o excedente do produtor é menor
do que o excedente do consumidor?
Isto ocorre porque a inclinação da linha de demanda é menor do que a inclinação da linha de
oferta, ou seja, a elasticidade-preço da demanda é menor, em valor absoluto, do que a elasticidade-
preço da oferta.
Com base neste resultado, pode-se concluir que sempre que a demanda é menos elástica do
que a oferta, os consumidores terão um benefício maior do que os produtores.
Admita agora que o avanço na tecnologia de produção de frango permita ofertar uma
quantidade maior de produto ao mesmo custo. A oferta passa a ser dada por: QF = 7,4 + 8 PF. Qual
a magnitude dos excedentes do consumidor e do produtor? Quem se beneficia com a mudança na
tecnologia?

Resposta:
Os novos preço e quantidade de equilíbrio são: Pe = R$ 1,80/kg e Qe = 21,8 kg. A mudança
tecnológica produziu uma redução no preço do produto e um aumento na quantidade transacionada
no mercado.
1. O excedente do consumidor é da ordem de R$ 33,79, representando um incremento de
14,23% em relação à situação anterior;
2. O excedente do produtor é da ordem de R$ 26,28, representando um aumento de 5,97% em
relação à situação anterior;
3. O excedente econômico é da ordem de R$ 60,07, representando um aumento de 10,46% em
relação à situação antes da mudança tecnológica.
Neste caso, ficou claro que uma mudança na tecnologia resulta em aumento nos excedentes
dos consumidores e dos produtores. Este resultado não é sempre verdadeiro, pois, na situação em
que a mudança tecnológica produzir uma redução nos preços maior do que a redução nos custos de
produção, apenas os consumidores ganham.
51

2.6 REFERÊNCIAS

BYRNES, Ralph T., STONE, Gerald W. Microeconomia. São Paulo: Makron Books, 1996. cap.3-
demanda e oferta (p.55-76), cap.4-mercados e equilíbrio (p.77-96), cap5.-elasticidade (p.99-118),
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia: princípios de micro e macroeconomia. Rio de
Janeiro: Campus, 1999. cap.4-oferta e demanda (p.63-90), cap.5-elasticidade (p.91-114), cap.7-
eficiência dos mercados (p.139-160).
SAMUELSON, Paul S., NORDHAUS, Willian D. Economia. São Paulo: McGraw-Hill, 1988. cap.4-
oferta e demanda (p.71-90), cap.18-elasticidade (p.467-504).
SANTANA, A. Cordeiro de, AMIN, M.M. Cadeias produtivas e oportunidades de negócios na
Amazônia. Belém: Unama, 2002. cap.1-2.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Métodos quantitativos em economia: elementos e aplicação.
Belém: UFRA, 2003. cap.1-4.
SANTANA, Antônio Cordeiro de; FILGUEIRAS, Gisalda Carvalho. Análise comportamental do
mercado de pimenta-do-reino no Brasil. Movendo Idéias, Belém, v. 6, n. 9, p. 16-24, 2001.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. O poder da concorrência extrapreço no mercado varejista da carne
bovina em Belém. Movendo Idéias, Belém, v. 6, n. 10, p. 29-37, 2001.
SANTANA, Antônio Cordeiro de; SANTOS, Marcos Antônio Souza. O mercado de caupi no Estado do
Pará: aplicação do método dos momentos generalizados. Revista de Ciências Agrárias, Belém, n.
34, p.47-58, 2000.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Mudanças recentes nas relações de demanda de carne no Brasil.
Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 37, n. 2, p. 51-76, 1999.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Estrutura da oferta de carne suína sob condições de risco no Brasil.
Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 30, n. 1, p. 21-39, 1992.

2.7 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

E1. A lei da oferta pode ser representada pela relação entre as quantidades ofertadas e os preços do
produto, que deverão representar um comportamento econômico do tipo:
(a) Diretamente relacionado
(b) Inversamente relacionado.
(c) Correlacionado até certo nível de preços
(d) Independente.

E2. No ponto em que ocorre o preço de equilíbrio:


(a) As quantidades demandadas igualam-se à curva de oferta.
(b) A procura é igual à oferta.
(c) As quantidades ofertadas igualam-se à demanda.
(d) Nenhuma das alternativas anteriores.

E3. Em cada um dos pares de produtos, qual terá a demanda mais elástica?
(a) Café em grão e café solúvel: _________________________
(b) Refrigerante e suco de laranja: ______________________
(c) Leite longa vida e iogurte: __________________________
(d) Carne de boi e frango: _____________________________
(e) Açaí e farinha de tapioca: __________________________
(f) Computador e software: ____________________________
52
E4. Uma política de garantia de preços acima do equilíbrio para farinha de mandioca, causaria que
tipo de desequilíbrio no mercado de farinha do Estado do Pará:
(a) A quantidade demandada é maior que a de equilíbrio
(b) Excesso de demanda no mercado
(c) A quantidade ofertada é menor que a de equilíbrio.
(d) Excesso de oferta no mercado.

E5. Sabe-se que algumas variáveis produzem deslocamento nas curvas de demanda ou oferta e
outras promovem apenas o movimento ao longo das curvas. Sendo assim, a influência do imposto
sobre a produção gera que tipo de deslocamento:
(a) Ao longo na curva de demanda.
(b) Ao longo na curva de oferta.
(c) De toda a curva de demanda.
(d) De toda a curva de oferta.

E6. Sabe-se que algumas variáveis produzem deslocamento nas curvas de demanda e de oferta e
outras promovem apenas o movimento ao longo das curvas. Sendo assim, uma mudança do preço
de outro produto relacionado no consumo gera que tipo de deslocamento:
(a) Ao longo na curva de oferta.
(b) Ao longo na curva de demanda.
(c) De toda a curva de demanda.
(d) De toda a curva de oferta.

E7. A agropecuária é reconhecidamente uma atividade econômica sujeita a riscos de várias


naturezas, mas que podem ser resumidos em riscos de produção – ligados ao comportamento do
clima e riscos de preços – devidos ao comportamento dos mercados dos produtos e insumos. Os
riscos de preços, representados por alterações inesperadas nas cotações dos produtos, o mercado
de futuros tem sido recomendado como instrumento que pode ser muito útil para o gerenciamento da
atividade agropecuária. No mercado de futuros,
(a) Negociam-se mercadorias para entrega e recebimento por agentes especificados em contrato.
(b) Para assegurar um determinado preço futuro para sua mercadoria, o produtor deve vender
contratos por meio de uma corretora credenciada à Bolsa de Futuros.
(c) Para operar no mercado, o produtor precisa ter a mercadoria disponível para pronta entrega.
(d) O produtor terá prejuízo caso venda contratos a determinado preço e, a seguir, o preço passe a se
elevar até o vencimento do contrato.

E8. Complete a frase:


O aumento significativo no custo de produção do abacaxi no Estado do Pará via aumento do salário
rural e no preço dos insumos químicos, produz uma alteração na ______________ ____________
para a ___________ (curva de oferta ou quantidade ofertada/ direita ou esquerda), resultando em
preço de equilíbrio __________ (maior ou menor) e quantidade transacionada ____________ (maior
ou menor).

E9. Uma melhoria na tecnologia de produção do abacaxi no Estado do Pará, produz uma alteração
na __________________ para a ______________ , resultando em preço de equilíbrio __________ e
quantidade transacionada ____________.

E10. A elasticidade cruzada da oferta entre mandioca e milho no Estado do Pará foi da ordem de (ηc
= 0,45). Que tipo de relação há entre estes produtos? E se o coeficiente fosse igual a (ηc = - 0,50) que
associação há entre os produtos? Justifique sua resposta.

E11. Mostre claramente, incluindo representação gráfica, a diferença entre uma variação na demanda
e uma variação ao longo da curva de demanda.

E12. Uma chuva de granizo na área produtora de fumo do Rio Grande do Sul, mostrada no Globo
Rural de 15/09/02, e destruí a lavoura, por danificar as folhas. Quais as conseqüências deste
53
fenômeno sobre o preço e a quantidade de equilíbrio de fumo? O que ocorre ao mercado de cigarros
(preço, quantidade e tamanho do mercado)? Qual o efeito sobre o excedente do consumidor de
isqueiros? Para cada resposta faça o diagrama que ilustra a situação do mercado antes e depois do
efeito da chuva de granizo.

E13. Desenhe o gráfico da demanda de peixe de Belém, dada por: Qd = 30 – 3.P.

E14. Admita que a demanda brasileira de carne de frango seja dada por:
Demanda: Qd = 18 – 2,7 PF + 0,28 PB + 0,003 R
em que Qd, PF, PB e R são as quantidades demandadas, o preço do frango (R$/kg), o preço da
carne de boi (R$/@) e a renda per capita do consumidor (R$/hab./ano). Os valores médios são: Qm =
18 kg; PFm = R$0,80/kg; PBm = R$30,00/@ e Rm = R$3.621,00/hab/ano.
(a) Calcule os coeficientes de elasticidade-preço e renda da demanda de frango e interprete os
resultados;
(b) Com base na elasticidade-preço, diga a natureza da demanda e que estratégia deve ser adotada
para incrementar a receita do vendedor;

E15. Admita que o que o mercado de coco-da-baía em Belém seja dado por:

Demanda: P = 15 – 5Qd
Oferta: Qo = 5 P
Equilíbrio: Qd = Qo = Qe
em que Qd e Qo são as quantidades demandada e ofertada de coco-da-baía (milhares de cocos) e P
é o preço do coco-da-baía (em R$/coco).
(a) Calcule o preço e a quantidade de equilíbrio do mercado;
(b) Desenhe o gráfico, represente o equilíbrio e diga seu significado;
(c) Calcule o coeficiente de elasticidade-preço da demanda no ponto de equilíbrio e interprete o
resultado.
(d) Calcule os excedentes do consumidor e do produtor de coco-da-baía.

E16. Admita que o que o mercado de alimentos em Belém seja dado por:

Demanda: Qd = 150 - 0,3 P


Oferta: Qo = - 50 + 0,2 P
Equilíbrio: Qd = Qo = Qe
em que Qd e Qo são as quantidades demandada e ofertada de alimentos (em toneladas) e P é o
preço do alimento (em R$/t).
(a) Calcule o preço e a quantidade de equilíbrio do mercado;
(b) Desenhe o gráfico, represente o equilíbrio e diga seu significado;
(c) Calcule o coeficiente de elasticidade-preço da oferta no ponto de equilíbrio e interprete o
resultado.

E17. Por que a curva de demanda se inclina para baixo e por que a curva de oferta se inclina para
cima?

E18. Uma pesquisa de mercado revelou as seguintes informações relativas ao mercado de chocolate
em tabletes: o esquema de demanda pode ser representado pela equação Qd = 1600 – 300 P, em
que Qd é a quantidade demandada e P o preço. O esquema de oferta é representado pela equação
Qo = 1400 + 700 P, em que Qo é a quantidade ofertada. Calcule o preço e a quantidade de equilíbrio
do mercado de chocolate em tablete e as elasticidades-preço.

E19. Uma mudança nos gostos dos consumidores provoca um movimento ao longo da curva de
demanda ou um deslocamento da curva de demanda? E uma variação no preço?

E20. Uma alteração na tecnologia produtiva provoca um movimento ao longo da curva de oferta ou
um deslocamento da curva de oferta? E uma variação no preço?
54

E20. Uma movelaria se depara com a seguinte função de demanda do produto principal: móveis de
madeira.
ln QM = 140 − 0,52 ln PM t + 0,28ln PF t + 0,62 ln Rt
t
20 , 301 − 3,826 3, 742 6 , 715
2
R = 0,852

em que ln é o símbolo dos logaritmos naturais, QM é o número de unidades de móveis de madeira,


PM é o preço dos móveis de madeira (R$/unidade), PF é o preço dos móveis de ferro (R$/unidade) e
R é a renda média dos consumidores de móveis.
a) Avalie a coerência econômica dos resultados obtidos na equação acima;
b) Calcule os coeficientes de elasticidade-preço, elasticidade-cruzada e elasticidade-renda da
demanda de móveis de madeira e diga a natureza da demanda;
c) Interprete economicamente os resultados obtidos no item anterior.
CAPÍTULO 3
COMERCIALIZAÇÃO E MARGENS DE
PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

3.1 INTRODUÇÃO

Neste capítulo, analisa-se sucintamente a margem de comercialização dos produtos


agropecuários e florestais. A margem de comercialização é dada pela diferença entre o preço pago
pelo consumidor e o preço recebido pelo produtor por um dado produto. Quanto maior for esta
diferença, maior o número de intermediação ou o poder que determinado agente da comercialização
tem sobre o produto.
A margem de comercialização sofre influência das condições de infra-estrutura de estradas,
transporte, portos, proximidade do mercado, mercado regulado. Também depende da perecebilidade
do produto, pois quanto mais perecível seja o produto, maior é o risco de perda e, por conseqüência,
maior deve ser a margem de comercialização. A maior ou menor influência destes fatores está ligada
diretamente ao tipo de canal de comercialização e de sua complexidade.
Entre o produtor e o consumidor de produtos agropecuários existe um conjunto de agentes
intermediários da comercialização, que levam os produtos do produtor até o local de consumo final,
no momento e na forma que o consumidor desejar. Este percurso que o produto faz, saindo do
produtor, passando pelos mercados atacadistas e varejista até chegar ao consumidor final é,
geralmente, denominado de canal de comercialização.
No Estado do Pará, a maior parcela dos produtos vendidos é entregue para agentes
intermediários da comercialização, e a parcela restante é entregue as cooperativas, agroindústrias ou
diretamente ao consumidor. A Tabela 3.1 apresenta dados de comercialização dos principais
produtos agrícolas paraenses.
Pelo que se observa dos dados da Tabela 9, a comercialização dos produtos agrícolas do
Estado do Pará, independentemente de ser um cereal, frutas, produtos industriais ou produtos
extrativos, é dominada por agentes intermediários. Esta prática contribui para gerar problemas no
momento da determinação da origem do produto, pois não há controle sobre a origem e destino dos
produtos que circulam internamente nos mercados dos municípios paraenses.
Independentemente dos problemas gerados ao longo dos canais de comercialização dos
produtos agropecuários e florestais, pode-se avaliar a magnitude da margem de comercialização de
tais produtos. Isto será feito na seção seguinte.
56

Tabela 3.1
Formas de comercialização dos principais produtos agrícolas do Estado do Pará.

Produto entregue para Produto entregue a Venda direta


Produto agentes intermediários da cooperativa ou ao
comercialização agroindústria consumidor
Arroz com casca 74,8% 6,9% 18,3%
Milho em grão 78,4% 1,3% 20,3%
Pimenta-do-reino grão 90,6% 7,4% 2,0%
Café conillon grão 91,9% 3,1% 5,0%
Cacau semente 91,2% 7,7% 1,1%
Maracujá fruto 83,5% 8,1% 8,4%
Cupuaçu fruto 71,5% 14,9% 13,6%
Açaí fruto 62,3% 0,34% 37,36%

3.2 MARGEM DE COMERCIALIZAÇÃO

Para realizar as tarefas de levar o produto do local de produção para o consumidor final, os
agentes intermediários incorrem em despesas como salário para empregados, aluguéis de armazéns,
fretes de transporte, impostos, juros sobre capital de giro, depreciação de máquinas e instalações,
riscos de preço e de perdas do produto, etc., que são definidos como custos de comercialização.
Além desses custos, os intermediários também obtêm lucros ou prejuízos. Estes itens compõem o
conceito de margem de comercialização, cuja especificação é feita como a seguir:
Margem de Comercialização - MC = Custo + Lucro
A obtenção de informações sobre os itens de custo de comercialização dos produtos
agropecuários é difícil, pela não disponibilidade de estatísticas sistematizadas de custos de
comercialização, carecendo pesquisa de campo para o levantamento de dados de cada produto a ser
estudado. Para contornar esse problema, emprega-se a metodologia de cálculo da margem de
comercialização dos produtos a partir dos preços praticados nos três principais níveis de mercado do
canal de comercialização: mercado em nível do produtor, mercado atacadista e mercado varejista
(Figura 3.1).

Preço ao produtor: Preço no atacado: Preço no varejo:


Pp Pa Pv

Margem do atacadista: Margem do varejista:


Ma=(Pa – Pp)/Pv Mv=(Pv – Pa)/Pv
+

Margem de comercialização:
MC = Ma + Mv ou MC=(Pv – Pp)/Pv

Figura 3.1 – Canal de comercialização e fórmulas de cálculo da margem de comercialização


(Santana, 2002).
57
A margem de comercialização (MC) é dada pela diferença entre o preço pago pelos
consumidores, ou preço do varejo (Pv) e o preço da primeira comercialização, ou preço pago aos
produtores (Pp), expressa em termos do preço do varejo (Figura 21). Esta margem reflete a
remuneração de todas as operações realizadas ao longo do canal de comercialização do produto (do
produtor até a mesa do consumidor).

• Margem de comercialização do atacado - Ma: é a diferença entre o preço pago em nível de


atacado (Pa) e o preço recebido pelos produtores (Pp), expressa em termos do preço no
varejo (Pv). Esta margem capta a remuneração das operações de comercialização do produto
da unidade de produção até o nível de atacado (Figura 3.1).
• Margem de comercialização do varejo - Mv: é a diferença entre o preço no varejo e o preço
no atacado, em termos do preço no varejo (supermercado, quitanda ou feira livre).
Compreende a remuneração das operações praticadas do atacado até chegar ao consumidor
final (Figura 3.1).
• Margem do produtor – MP: é a parcela do preço pago pelo consumidor que fica com o
produtor, obtida da seguinte forma: MP = 100 – MC.
Para calcular essas margens de comercialização do açaí, os preços do fruto do açaí foram
ajustados de acordo com o coeficiente de transformação do fruto em polpa, produto comercializado
no varejo. O coeficiente de rendimento de polpa é de 0,45 litro por kg de fruto de açaí. Assim, os
preços do fruto de açaí foram multiplicados pelo coeficiente 2.22, ou seja, 2.22 kg de fruto para 1,0
litro de polpa de açaí, para efeito do cálculo das margens de comercialização (Tabela 3.2).

Tabela 3.2 – Preços reais da polpa in natura e do fruto de açaí no mercado paraense, juntamente
com as margens de comercialização do atacado e do varejo, 1998/2002.

Ano PAv (R$/l) PAa (R$/kg) PAp (R$/kg) Ma (%) Mv (%) MC (%) MP (%)
1998 2.81 0.40 0.14 68.19 20.49 88.68 11.32%
1999 2.50 0.42 0.16 62.34 23.47 85.81 14.19%
2000 2.22 0.38 0.15 61.65 23.77 85.42 14.58%
2001 2.23 0.39 0.14 61.02 24.85 85.87 14.13%
2002 2.36 0.41 0.15 61.45 24.15 85.60 14.40%
Fonte: Santana (2002a).
Observação: PAv é o preço da polpa de açaí no varejo de Belém; PAa é o preço do fruto de açaí no
atacado; PAp é o preço de fruto de açaí no produtor; Ma é a margem de comercialização do atacado;
Mv é a margem de comercialização do varejo, MC é a margem de comercialização total e MP é a
margem do produtor.

Cálculo da margem de comercialização – Ano 1998:


Margem do atacado: Ma = [(PAa – PAp)/PAv].100 = [(0,40 – 0,14)/2,81].100 = 68,19%
Margem do varejo: Mv = [(PAv – PAa)/PAv].100 = [(2,81 - 0,40)/2,81].100 = 20,49%
Margem total: MC = [(PAv – PAp)/PAv].100 = [(2,81 – 0,14)/2,81].100 = 88,68%
Margem do produtor: MP = 100 – MC = 100 – 88,68 = 11,32%

Interpretação da margem de comercialização: para o ano de 1998, a MC = 88,68%, indicando que


de cada R$ 100,00 gastos pelo consumidor na compra da polpa de açaí, R$ 88,68 ficaram
com os intermediários da comercialização (R$ 68,19 com os atacadistas e R$ 20,49 com os
varejistas) e apenas R$ 11,32 ficaram com os produtores. Isto mostra que há uma
distribuição desigual do valor pago pelo consumidor na compra de açaí, entre os extratores e
os intermediários.
A margem de comercialização ajuda a entender a forma de estruturação dos mercados ao
longo de cada canal de comercialização e orientar a formulação de políticas públicas e/ou os
instrumentos de política em funcionamento. Por exemplo: uma elevada margem de comercialização
58
pode ser uma função de imperfeição do mercado (ação de monopsônios e oligopsônios na compra do
produto e de monopólios e oligopólios na venda do produto), deficiência na infra-estrutura de
comercialização (insuficiência e precariedade de armazéns, portos, transportes, estradas,
informações, comunicação, energia elétrica, etc.), baixo índice de processamento agroindustrial dos
produtos, alto grau de perecibilidade dos produtos in natura, sazonalidade de preço, grandes
distâncias entre o local de produção e o centro consumidor, riscos de variações de preço por
ineficiência de políticas de sustentação de preço, altos impostos e fretes, etc.
A Tabela 3.3 apresenta a margem de comercialização para os principais produtos da Região
Norte. Observa-se que a margem é alta tanto para produtos agrícolas quanto para produtos da
pecuária. Isto não significa dizer que o lucro dos intermediários da comercialização é grande, mas,
sobretudo, que as condições da infra-estrutura de comercialização são precárias. Também é
freqüente a presença de monopsônios, alta sazonalidade dos produtos e, também, da baixa
agregação de valor aos produtos e alta desorganização dos produtores.

Tabela 3.3 – Margem de comercialização dos principais produtos agropecuários da Região Norte.

Margem do Margem do Margem total de Margem do


Produto
atacado varejo comercialização Produtor

Carne 19,69% 36,06% 55,75% 44,25%


Leite 33,51% 35,08% 68,59% 31,41%
Peixe 35,00% 25,00% 60,00% 40,00%
Farinha 29,03% 27,42% 56,45% 43,55%
Açaí 61,45% 24,15% 85,60% 14,40%
Abacaxi 41,67% 33,33% 75,00% 25,00%
Maracujá 15,7% 27,14% 42,86% 57,14%
Pimenta-do-reino 43,48% 23,91% 67,39% 32,61%
Fonte: Santana (2002b)

A identificação da maior ou menor influência de cada um desses itens que determinam a


margem de comercialização, permite que sejam aplicados os instrumentos de política para debelar os
gargalos da comercialização, de forma a beneficiar tanto os consumidores como os produtores e
intermediários da comercialização.
Outro ponto importante que a margem de comercialização permite analisar é a forma de
como a mudança da margem afeta os produtores e os consumidores. Este aspecto está ligado aos
conceitos de elasticidade-preço da demanda e oferta e de excedentes do consumidor e produtor.
Assim, quando a demanda é mais elástica do que a oferta do produto, uma variação na margem de
comercialização afeta mais fortemente os produtores do que os consumidores.

3.3 APLICAÇÃO EMPÍRICA DA MARGEM DE COMERCIALIZAÇÃO


As informações obtidas na viagem de investigação ao longo da BR-63 informam de que os
preços médios recebidos pelos produtores rurais de arroz, em outubro de 2004, de R$ 32,00/sc ou R$
0,53/kg. O preço médio praticado no atacado, ou preço de venda do produto beneficiado pelas
agroindústrias ao segmento de distribuição foi da ordem de R$ 66,00/sc ou R$ 1,10/kg. O preço
médio de varejo, no mercado de Santarém, foi de R$ 93,00/sc ou R$ 1,55/kg.
As margens de comercialização são as seguintes:
MTc = 65,8%
MAc = 36,8%
MVc = 29,0%
MPc = 100 – MTc = 34,2%.
59
Estes resultados mostram que de cada R$ 100,00 alocados na aquisição de arroz pelo
consumidor final, R$ 65,80 ficam com os agentes intermediários da comercialização (R$ 36,80 com
os atacadistas e R$ 29,00 com os varejistas) e a parcela restante de R$ 34,20 fica com o produtor.
Independentemente da empresa está obtendo lucro e/ou prejuízo, o canal de comercialização está
sendo controlado pelos mercados atacadistas e varejistas.
Este resultado se coaduna com a taxa de concentração de mercado das agroindústrias
cerealistas da BR-163, em que as cinco maiores empresas dominam mais de 82% do mercado. Para
os produtores de grãos contrabalançarem esta assimetria de poder, devem formar uma associação
para negociarem coletivamente com as agroindústrias. Muitas agroindústrias também produzem
grãos, portanto, conhecem as informações de custo dos produtores, o que assegura maior
informação e poder de determinar preço do produto. Por outro lado, os produtores não conhecem os
custos de produção das agroindústrias, o que caracteriza uma forte assimetria de informação em prol
da indústria. Este quadro exige a criação de uma estrutura de governança para orientar e coordenar
as negociações entre os elos da cadeia produtiva de grãos.
No mercado local, as empresas atacadistas, visivelmente, em função de sua versatilidade
operacional, estão coordenando as atividades desenvolvidas a montante da cadeia produtiva de
arroz, em articulação com o segmento de distribuição.
A margem de 34,2% que o produtor local está obtendo na comercialização do arroz de
sequeiro em Santarém é similar à obtida pelos produtores de arroz de Mato Grosso, da ordem de
32,9% para uma produtividade de 67 sc/ha e 9,2% acima da margem obtida pelos produtores de
Goiás com produtividade média de 38 sc/ha, conforme informações do Agrianual 2005.
Finalmente, os 34,2% do negócio que é apropriado pelos agricultores, em função da baixa
agregação de valor ao produto, significa uma boa participação no negócio de arroz. Os produtores
estão obtendo uma margem de lucro em relação à produção que varia entre 19,05% para a
agricultura de toco, 33,33% para os produtores da ASSIPAK e 29,23% para os médios e grandes
produtores de arroz.
60

3.4 REFERÊNCIAS

GOODWIN, J. W. Agricultural price analysis and forecasting. New York: John Wiley & Sons, 1994.
SCOTT, G.J. (ed.) Prices, products, and people: analyzing agricultural markets in developing countries.
Lima: CIP, 1995. cap. 9, 11, 14 e 17.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Arranjos produtivos locais da BR-163: contribuições ao
planejamento estratégico territorial. Belém: ADA, 2005.
SANTANA, A. Cordeiro de. Mercado e comercialização de produtos do açaí. Belém: UFRA, 2003a.
42p. (mimeografado)
SANTANA, A. Cordeiro de. Desempenho intersetorial da agropecuária na Amazônia e a contribuição
do Basa. In: MENDES, A.D. (org.) A Amazônia e o seu banco. Manaus: Valer, 2002. p.157-212.
SANTANA, Antônio Cordeiro de; AMIN, M.M. (Org.). Cadeias produtivas e oportunidades de
negócio na Amazônia. Belém, 2002. cap. 1-5.
SANTANA, Antônio Cordeiro de. Análise da comercialização e dos custos na cadeia produtiva de leite
na Amazônia. In: SANTANA, Antônio Cordeiro de; AMIN, Mário Miguel. (Org.). Cadeias produtivas e
oportunidades de negócio na Amazônia. Belém, 2002, v. 1, p. 157-178.
SANTANA, Antônio Cordeiro de; SILVA, Denise Michele Furtado da. Comercialização e custo de
produção na cadeia produtiva do maracujá no Estado do Pará. In: SANTANA, Antônio Cordeiro de;
AMIN, Mário Miguel. (Org.). Cadeias produtivas e oportunidades de negócio na Amazônia.
Belém, 2002, v. 1, p. 225-278.
61

3.5 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

E1. Defina margem de comercialização e relacione os fatores que influenciam a margem de


comercialização.

E2. Com base nos seus conhecimentos de mercado e comercialização, obtidos na sala de aula, na
apostila do curso, nos textos lidos e nos livros recomendados, responda às questões abaixo,
assinalando com V as alternativas verdadeiras e com F as alternativas falsas.
( ) A margem de comercialização de queijo no Estado do Pará, em 2001, foi da ordem de 60%,
indicando que de cada R$100,00 que o consumidor gasta na compra de queijo, o produtor fica com
R$60,00 e os intermediários com R$40,00.
( ) A margem de comercialização do açaí no Estado do Pará, em 2002, foi da ordem de 85,6%,
sendo a margem do atacado de 61,45% e do varejo de 24,15%. Esta margem tão alta resulta de
perecibilidade do produto, grande número de intermediários da comercialização, infra-estrutura
deficiente e alta desorganização dos produtores.
( ) Canal de comercialização é o caminho percorrido pelo produto desde o local de produção,
passando pelos mercados atacadistas, varejista até chegar ao consumidor final.
( ) Demanda é a quantidade de um bem ou serviço que os consumidores estão dispostos e podem
comprar, aos vários preços, em dado período de tempo, ceteris paribus.
( ) Margem de comercialização é um conceito que indica apenas a magnitude dos riscos e lucro ou
prejuízo dos intermediários para fazer a comercialização do produto.

E3. Os preços praticados no mercado de carne de caprino são os seguintes: preço em nível do
produtor igual a Pp = R$1,20/kg; preço no atacado igual a Pa = R$2,40/kg; preço no varejo: Pv =
R$3,20/kg.
a) Determine as margens de comercialização do atacadista e do varejista e interprete o resultado.
b) Determine a margem de comercialização do produtor.

E4. Com base nos dados da tabela abaixo, calcule a margem de comercialização total e a margem do
produtor para cada espécie de peixe e interprete os resultados. Faça uma análise comparativa entre
os produtos.

Preços praticados na pesca esportiva, no Estado do São Paulo (R$/kg), 2001.


Produto Produtor – Varejo - Pv Margem de Margem do produtor -
Pp comercialização - MC MP
Tilápia 2,50 4,50
Pacu 3,00 4,70
Tambaqui 3,20 4,70
Piaussu 3,00 4,70
Matrichã 3,00 4,70
Pintado 10,00 15,00
Catfish 4,00 6,00
Carpa 3,80 5,00
Fonte: Anualpec (2002)
62
E5. Com base nos dados da tabela abaixo, calcule a margem de comercialização do varejo e analise
o resultado. Compare os resultados entre os produtos.

Preços de alguns peixes (R$/kg) do mercado brasileiro, 2001.

Produto Atacado - Pa Varejo - Pv Margem do varejo - Mv


Pintado 7,00 13,03
Merluza 5,45 9,09
Pescada 3,50 6,45
Cação 3,00 11,00
Curimbatá 2,50 5,50
Sardinha 2,20 4,74
Porco 2,10 6,60
Traíra 2,00 9,71
Tilápia 1,70 7,81
Fonte: Anualpec (2002)

E6. Os preços praticados no mercado de ovos são os seguintes: preço em nível do produtor igual a
Pp = R$0,40/dz; preço no atacado igual a Pa = R$0,90/dz; preço no varejo igual a Pv = R$1,10/dz.
a) Determine as margens de comercialização do atacadista e do varejista e interprete o resultado.

E7. A quais produtos pertence as seguintes margens de comercialização total: MT = 10%; MT = 65%.
Alface, curimatã, CD, livro, carro, fogão; carne de boi. Explique sua escolha.

E8. Os preços praticados no mercado de carne bovina são os seguintes: preço em nível do produtor
Pp = R$35,00/@; preço no atacado Pa = R$50,00/@; preço no varejo Pv = R$60,00/@.
a) determine as margens de comercialização do atacadista e do varejista e interprete os resultados.
CAPÍTULO 4
ELEMENTOS PARA A AVALIAÇÃO DE PROJETOS
DE INVESTIMENTOS RURAIS

4.1 INTRODUÇÃO

Este capítulo trata da elaboração de orçamentos e fluxos de caixa para subsidiar a avaliação
econômica de projetos agropecuários e florestais. Emprega objetivamente os três principais critérios
de análise de projetos que são o valor presente líquido, a taxa interna de retorno e a relação
benefício-custo.
A ênfase é centrada nos pontos que não podem ser negligenciados pelo analista de projeto e,
fundamentalmente pelo estudante que inicia o aprendizado nesta matéria. Itens como preços de
produto e de insumo a serem utilizados no orçamento, assim como a taxa de juros que reflete o custo
de oportunidade e as condições a serem observadas para emprego da taxa interna de retorno são
tratados.
O capítulo apresenta uma sinopse dos aspectos técnicos e econômicos do projeto, a
elaboração de orçamentos e fluxos de caixa, os critérios de avaliação de projetos e aplicações
manuais e por meio da planilha do Excel.

4.2 ASPECTOS TÉCNICOS E ECONÔMICOS DO PROJETO


Entendendo projeto como uma atividade de investimento em que recursos são empregados
para produzir benefícos durante um dado período de tempo, e que o produtor toma decisão de
implantar um projeto visando maximizar o valor presente líquido dos benefícios gerados no projeto, é
necessário dimensionar rigorosamente os custos e as receitas para que tais premissas sejam
atingidas. Para isto, se faz necessário construir as peças do projeto que são os orçamentos e os
fluxos de caixa. Estas peças envolvem a concepção dos aspectos técnicos e econômicos da
engenharia do projeto.
Inicia-se, portanto com a apresentação dos aspectos técnicos necessários à concepção de
um projeto de investimento.

4.2.1 Aspectos técnicos


Neste ponto, o tomador de decisão deve investigar minuciosamente se existem condições
adequadas para a implantação e sucesso do empreendimento. Os aspectos de maior relevância e
que não podem escapar à análise preliminar do projeto são os seguintes:
a) Localização do projeto: a área onde o projeto vai ser implantado deve ser caracterizada na
sua localização, dimensão, limites, via de acesso, distância ao principal mercado e pontos de
referência;
64
b) Potencialidades: descrever o relevo, apresentar dados sobre o clima e a precipitação
pluviométrica, descrever o tipo de vegetação, tipos de solo da região e da área do projeto,
disponibilidade de água, etc.;
c) Demografia do município e região: verificar os dados sobre a população rural e urbana,
idade, sexo, nível de instrução, nível de renda, etc.;
d) Infra-estrutura de apoio à produção: indicar a disponibilidade de assistência técnica e
extensão rural, as formas de organização social (sindicatos, associações, cooperativas),
estrutura de produção da região (pequeno, médio, grande), instituições de pesquisa
(Embrapa, Universidade), instituições de fomento (Bancos), acesso a insumos (Casas
Agropecuárias), tecnologia, mão-de-obra qualificada, mercado de produto.
De posse dessas informações, pode-se ter idéia da magnitude das limitações técnicas a
serem enfrentadas durante a implantação e ao longo da vida útil do projeto. Ajuda, portanto, a
responder à questão econômica: Como produzir?

4.2.2 Aspectos econômicos


Este é um ponto que exige cuidado especial do empreendedor, antes de tomar a decisão de
realizar o investimento no projeto. Se houver mercado para o produto a ser gerado no projeto
(demanda maior do que a oferta), há possibilidade de sucesso para o projeto. Se, por outro lado, a
demanda for menor do que a oferta, não há justificativa para a implantação do projeto. Sendo assim,
o esforço deve ser redobrado nesta etapa do projeto. Os itens mais significativos entre os aspectos
econômicos são os seguintes:
a) Aspectos econômicos: reunir dados sobre as principais variáveis definidoras do mercado do
produto no estádio atual e prospectivo. As variáveis envolvem renda per capita, preço do
produto e dos produtos substitutos, tecnologia e custo de produção;
b) Aspectos de mercado: classificar o tipo de concorrência do mercado do produto, estudar a
demanda e a oferta do produto e determinar as elasticidades-preço da oferta e da demanda,
a elasticidade-renda e as elasticidades-cruzadas, projetar a oferta e demanda e calcular a
evolução do excedente (capítulo 2);
c) Comercialização: determinar e descrever os principais canais e formas de comercialização
do produto e dos insumos, fazer análise sazonal dos preços e verificar a evolução das
margens de comercialização do produto (capítulo 3).
A análise criteriosa desses pontos ajuda ao empreendedor a entender com maior clareza os
limites das questões econômicas: O que e quanto produzir? Para quem produzir?

4.3 ENGENHARIA DO PROJETO

Neste ponto se determina a tecnologia do projeto. Faz-se a elaboração dos orçamentos


unitários para as atividades do projeto. Antes da elaboração do orçamento, devem ser analisados os
seguintes itens:
a) Terra: identificar o uso atual e potencial da terra, sua cobertura vegetal, relevo, fertilidade
natural e aptidão;
b) Mão-de-obra: determinar a disponibilidade atual e potencial, bem como a habilidade técnica
da mão-de-obra e nível de instrução;
c) Tecnologia: determinar os coeficientes técnicos de produção, produtividade, custos e preços
das atividades agrícola, pecuária e florestal.
Dar-se, portanto, a conhecer como o recurso terra da propriedade, onde será implantado o
projeto, está sendo utilizado. Reúnem-se também informações sobre a necessidade de mão-de-obra,
sobretudo, nos períodos de pico de demanda por trabalho. Verifica-se, portanto, em quais meses do
ano há maior disponibilidade de mão-de-obra e quais meses a mão-de-obra se torna escassa. Isto
pode influenciar o custo de produção.
No que se refere à tecnologia, deve-se descrever tanto a tecnologia atual como a tecnologia
proposta para ser incorporado ao projeto, envolvendo cada atividade produtiva, consórcio ou sistema
65
de atividades, desde o preparo do solo, passando pela implantação das culturas até a colheita
(determinar a produtividade das lavouras ou criações). Finalmente, apresentam-se os coeficientes
técnicos de cada atividade (quantidade de insumo por unidade – ração/UA, kg de semente/ha, mão-
de-obra/ha ou mão-de-obra/UA).
Estes dados devem ser obtidos mediante a aplicação de questionário específico na
propriedade. É, pois, de fundamental importância para que se possam elaborar orçamentos de forma
a refletir a realidade da exploração agrícola, pecuária e/ou florestal.

4.3.1 Orçamento unitário


Há vários tipos de orçamentos, no caso deste texto, será estudado apenas o orçamento
unitário, que diz respeito a uma atividade específica, por unidade padrão de análise (hectare, unidade
animal, km, etc.).
O orçamento unitário reúne a organização de uma atividade produtiva por unidade de área ou
por unidade animal. Por atividade produtiva entende-se um conjunto de operações bem caracterizado
em função dos insumos que usa e/ou do produto que gera. Por exemplo, pimenta-do-reino, cacau,
gado leite, avicultura, milho, eucalipto, etc.
Na formação dos orçamentos unitários são necessárias informações detalhadas sobre a
tecnologia de produção atual e proposta e sobre os preços dos insumos e produtos. Ao ser definida a
tecnologia, automaticamente se definem os coeficientes técnicos de produção e a produtividade
(produção/ha, produção de leite/vaca, produção de madeira - m3/ha, etc.) que caracterizam o
processo produtivo a ser orçado.
Os preços usados são em nível da fazenda, ou seja, os preços dos produtos são aqueles
efetivamente recebidos pelos produtores na sua propriedade e os preços dos insumos são aqueles
pagos pelos produtores às portas da unidade de produção. Tais preços, se considerados à época de
pico da produção e de exigência de insumo, se aproximam do custo de oportunidade dos produtos e
dos insumos.
Com efeito, a unidade de produção é considerada o ponto do canal de comercialização que
se deve tomar como referência para cotar os preços dos produtos vendidos e dos insumos
comprados, para a elaboração do orçamento do projeto. Sendo assim, aos insumos adquiridos no
mercado, deve-se adicionar o frete até a fazenda.
Na Tabela 4.1, apresenta-se um orçamento unitário, ou seja, para a implantação de um
hectare de eucalipto, a ser cortado seis anos depois da implantação. A tecnologia utilizada na
produção de eucalipto envolve um espaçamento de (3m x 2m) e produção de 300 m3/ha de madeira.
Os itens de A a D são custos de produção, cuja soma foi totalizada no item E, ou custo
unitário de produção. A receita total é concentrada no item F (preço multiplicado pela produção).
O item A descreve os custos das operações mecanizadas de preparo da área, plantio, tratos
culturais (capinas, combate a pragas e doenças, etc.). O item B diz respeito às operações manuais. O
item C se refere aos gastos com os insumos utilizados na produção. O item D inclui todas as
despesas com administração (contabilidade, assistência técnica, viagens, contas de luz e telefone,
etc.). A somatória de todos esses itens, avaliados ao preço em nível de fazenda, compõe uma das
peças fundamental do orçamento que é representado pelas as saídas (custos) e está representado
pelo item E.
O item F compõe o outro elemento fundamental do orçamento que é representado pelas
entradas. As entradas (receitas) são as receitas geadas pelo projeto e são obtidas multiplicando-se
cada produto pelo respectivo preço em nível de fazenda ou preço recebido pelo produtor. No caso do
eucalipto, tem-se que a produção por ha é de 300 m3 e o preço de R$ 50,00/m3, gerando um valor
total de R$ 15.000,00/ha.
Observa-se que a preocupação inicial foi elaborar o orçamento unitário de uma única
atividade. Neste caso, quando se trata de um projeto de implantação de um produto, o orçamento se
confunde com o fluxo de caixa. Porém, para um projeto que envolve mais de uma atividade, é
conveniente preparar os orçamentos unitários para cada atividade e depois compor um fluxo de caixa
geral.
66
Outros orçamentos para cultivo em consórcio, construção de cerca de arame, formação de
pastagem estão disponíveis no Apêndice.

Tabela 4.1
Orçamento unitário para a implantação de um hectare de eucalipto.
Valor Ano zero Ano 1 a 5 Ano 6
Descrição orçamentária Unid.
Unit. Qtde. Total Qtde. Total Qtde. Total
A. Operações Mecanizadas
A1. Limpeza do terreno hm 40 1,5 60 - - - -
A2. Preparo do solo hm 46 2 92 - - - -
A3. Plantio/transporte hm 29 4 116 1 29 1 29
A4. Tratos culturais hm 34 1,5 51 1,5 51 8 272
A5. Outras despesas hm 29 0,5 14,5 0,5 14,5 0,5 14,5
Subtotal A 333,5 94,5 315,5
B. Operações manuais
B1. Preparo do solo dh 27 5 135 - - - -
B2. Plantio/condução dh 27 18 486 2,5 67,5 6,5 175,5
B3. Colheita/transporte R$/m3 12 - - - - 300 3600
Subtotal B 621 67,5 3775,5
C. Insumos
C1. Fertiliz. corretivos R$/ha - - 600 - - - -
C2. Herbicidas R$/ha 17 4,5 76,5 2 34 - -
C3. Formicidas R$/ha 7,9 6 47,4 2 15,8 - -
C4. Mudas R$/mil 220 1,8 396 - - - -
C5. Cupinicida R$/ha - - 3 - - - -
C6. Outros insumos R$/ha 7,2 1 7,2 1 7.2 1 7,2
Subtotal C 1130,1 57 7,2
D. Administração
D1. Assistência técnica R$/ha 78,5 1 78,5 0,5 39,25 1 78,5
D2. Contabilidade R$/ha 32 - - - - - -
D3. Luz/telefone R$/ha 36 - - - - - -
D4. Viagens R$/ha 12 - - - - - -
D5. Depreciação R$/ha 1,8 1 1,8 1 1,8 1 1.8
D6. Impostos e taxas % Rec. 2,5% - - - - 1 375
Subtotal D 80,3 41,05 455,3
Custo total (R$/ha) E - - - 2164,9 - 260,05 - 4553,5
Receita (R$/ha) F - - - - - - - 15.000
FONTE: Agrianual (2005).

4.4 AVALIAÇÃO DO PROJETO

Neste ponto, o objetivo é estruturar o fluxo de caixa e comparar o fluxo de custo (investimento
e custo operacional de produção) com o fluxo de benefícios ou de receitas (valor da produção do
projeto), desenvolvido numa propriedade ou empresa rural. Estabelecido o fluxo de caixa, parte-se
para a avaliação do investimento realizado no projeto. Aqui, toma-se a decisão de realizar ou não o
investimento.
Admite-se, adicionalmente, que os empreendimentos são novos. Parte-se, portanto do ano
zero, com a implantação do projeto e se evolui até o final do ciclo do projeto.
67
O instrumento de análise de qualquer empreendimento é o fluxo de caixa, que se apresenta
em seguida.

4.4.1 Fluxo de Caixa


O fluxo de caixa reflete as entradas e as saídas dos recursos (insumos) e produtos ao longo
do período de tempo do ciclo de vida do projeto ou a proposta de investimento. Sua constituição só
se torna viável se os orçamentos de cada atividade forem corretamente dimensionados. O fluxo de
caixa deve ser elaborado para permitir a apuração do benefício líquido ou receita líquida do projeto.
No caso dos empreendimentos agropecuários e florestais, o fluxo de entrada contempla os
seguintes itens principais:
a) Venda de produtos agrícolas (grãos, frutas, fibras, hortaliças, etc.);
b) Venda de produtos da pecuária (animais, leite, queijo, carne, etc.);
c) Venda de subprodutos agropecuários (esterco, couro, etc.);
d) Venda de produtos florestais (madeira, lenha, carvão, etc.);
e) Valor residual dos bens de capital que permanece em operação ao final do projeto.

O fluxo de saída é constituído pelos seguintes itens:


a) Despesas de investimento (implantação de obras de alvenaria, pastagens, cerca de arame,
estábulo, aquisição de máquinas, terreno, etc.);
b) Despesas operacionais ou de custeio (insumos, mão-de-obra, energia, combustível, etc.).

Assim, para a análise do projeto, deve-se elaborar o fluxo de caixa, composto das entradas,
saídas e o BNL ou receita líquida. O benefício nominal líquido (BNL) é o fluxo que deve ser objeto de
análise, e compreende o resultado da subtração entre as entradas (receitas) e as saídas (custos)
como na equação 4.1.

n n

BNLt = ∑ Re ceitat − ∑ Custot


t =0 t =0
(4.1)

Os componentes desta fórmula compõem o fluxo de caixa e são apresentados na Tabela 4.2,
para o eucalipto. Observa-se que o fluxo de receitas só apresenta valor no último ano, quando as
árvores são cortadas. Isto significa que o projeto só apresenta receita no último ano, enquanto os
custos ocorrem todos os anos. Em função disto, o fluxo de benefício nominal líquido ou de receita
líquida, apresenta valores negativos até o ano quinto e valor positivo no sexto ano. Este valor, para
que o projeto seja viável, deve ser suficiente para cobrir todos os valores negativos e sobrar algo para
novos investimentos.

Tabela 4.2
Fluxo de caixa nominal para um projeto de implantação de um hectare de eucalipto.
Fluxo Nominal
Ano
Receita Custo Benefício Líquido
0 0 2.164,9 - 2.164,9
1 0 260,05 - 260,05
2 0 260,05 - 260,05
3 0 260,05 - 260,05
4 0 260,05 - 260,05
5 0 260,05 - 260,05
6 15.000 4.553,50 10.446,50

De posse desse fluxo de caixa, pode-se fazer a análise de viabilidade econômica de cada
atividade individualmente ou do conjunto das atividades, de acordo com a conveniência do analista.
68
Antes de iniciar a análise de um projeto, é importante verificar a categoria de enquadramento
do projeto, com base no fluxo de benefício. Com efeito, os projetos podem ser enquadrados em dois
tipos principais: projetos convencionais e projetos não-convencionais.
Os projetos convencionais são aqueles que apresentam apenas uma troca de sinal, de
negativo para positivo. Neste caso, o projeto de eucalipto se enquadra na categoria de projeto
convencional, pois apresenta apenas uma troca de sinal: negativo do ano zero ao ano 5 e positivo no
ano seis.
Os projetos não-convencionais apresentam mais de uma troca de sinal: de negativo para
positivo e depois para negativo, ou qualquer outra combinação de sinal do fluxo de benefícios
líquidos.
Este enquadramento é importante para a análise por meio do critério da taxa interna de
retorno, que será apresentado mais adiante.

4.4.2 Critérios de avaliação


Na avaliação de projetos, o fluxo de caixa deve ser atualizado para que os valores monetários
sejam comparados em um mesmo ponto do tempo. O problema da atualização surge exatamente da
necessidade de se comparar valores monetários em períodos diferentes do tempo. Como o
investimento representa uma troca entre as despesas realizadas no presente e as receitas geradas
em períodos futuros, a comparação deste intercâmbio, necessariamente, requer que se proceda com
a atualização dos valores monetários.
Para contornar isto, emprega-se o princípio do desconto, pois, o investimento realizado em
dada atividade produtiva tem um custo de oportunidade que não está contabilizado no fluxo de caixa.
O custo de oportunidade equivale à perda que o capital (dinheiro) investido no projeto sofre por não
poder ser aplicado (ou investido) em outra atividade alternativa, oferecida pela economia.
Neste texto, são apresentados apenas os três principais critérios empregados na avaliação
de projetos, sobretudo porque têm respaldo teórico. Tais critérios são: o valor presente líquido (VPL),
a taxa interna de retorno (TIR) e a relação benefício-custo (Rb/c).

4.4.2.1 Valor Presente Líquido (VPL)


O valor presente líquido permite que sejam comparados os custos atualizados com as
receitas atualizadas de um projeto. Em outras palavras, é a soma dos benefícios líquidos atualizados
(receitas menos custos) do projeto. A atualização do fluxo de caixa é feita por uma taxa de juros que
reflete o custo de oportunidade de longo prazo da atividade. O cálculo do VPL é dado pela equação
4.2.

     
n
 Rt − C t  n  1  n  1 
VPL = ∑ t 
= ∑  Rt ⋅ t
− ∑ Ct ⋅ t (4.2)
+ + (1+i) 
t
t =0 
 (1 i )  t =1 
  (1 i )  i =1 
 
Em que:
Rt = fluxo de receitas do projeto no ano t;
Ct = fluxo de custo do projeto no ano t;
n = número de anos do projeto (t = 1, 2, ..., n)
i = taxa de juros de longo prazo.
Alternativamente, tem-se que o valor presente líquido é a soma do benefício nominal líquido
(BNL) atualizado a uma dada taxa de desconto, como na equação 4.3.

BNL n

VPL = ∑ t
(4.3)
(1+i)
t t
t =0
69
É necessário que o analista tenha em mente que este é um critério de avaliação de longo
prazo, pois o interesse recai sobre a viabilidade do projeto depois de completado o ciclo de produção.
Portanto, não se deve tomar para a atualização dos valores monetários uma taxa de juros de curto
prazo. No Brasil existe a taxa de juros de longo prazo, a TJLP, que gira ao redor dos 12% ao ano e
pode ser tomada como referência para esse tipo de análise.
A interpretação do VPL, quando a taxa de juros reflete o custo de oportunidade do capital
investido no projeto, é a de que representa o valor atual dos benefícios gerados por um investimento.
O critério de decisão com base neste critério é o seguinte:
a) VPL > 0. Diz-se que o projeto é viável economicamente. Assim, ao final do projeto, depois de
cobrir todas as despesas ainda resta um saldo positivo. Ou seja, as receitas foram superiores
às despesas.
b) VPL = 0. Diz-se que o projeto apenas empata. Não apresenta interesse econômico, uma vez
que as receitas foram suficientes apenas para cobrir os custos, nada restando para cobrir
riscos, investir em tecnologias, etc.
c) VPL < 0. Diz-se que o projeto é inviável economicamente à taxa de juros i, uma vez que os
custos foram superiores às receitas.
A aplicação deste critério pode ser feito, utilizando-se o fluxo de caixa do eucalipto. Para isto,
necessita-se adequar o fluxo de caixa para comportar todos os itens de interesse da análise e facilitar
a compreensão por parte do leitor.
Em primeiro lugar, estrutura-se o fluxo nominal, de acordo com os resultados de receitas e
custos apurados no orçamento unitário. Em seguida, determina-se o fator de atualização (fa), que é
dado pela fórmula:

1
fa = (4.4)
(1+i)
t

A taxa de juros utilizada nesta fórmula é de 12% ao ano. Os valores calculados ao longo do
ciclo do projeto são apresentados na Tabela 4.3.
O leitor deve estar se perguntando sobre a razão de se utilizar este fator de atualização. Por
que se deve atualizar o fluxo de caixa a uma dada taxa de juros?
Em qualquer projeto de investimento, o tomador de decisão se depara com várias alternativas
que podem gerar retorno para o capital que deseja investir. A taxa de juros utilizada na atualização do
fluxo de caixa reflete o custo de oportunidade do capital, ou seja, o quanto ele renderia se o
investimento fosse aplicado para render juros em prazo igual ao do projeto. Portanto, quando se
decide investir em dada atividade, deve-se atualizar o fluxo à taxa de juros que representa o custo de
oportunidade do capital, ou seja, reflete o emprego do capital na melhor alternativa disponível. Isto
porque, naturalmente, o produtor espera receber um retorno pelo menos igual a essa taxa de juros.
Isto é possível quando se obtém um valor presente líquido positivo.

Tabela 4.3
Fluxo de caixa da atividades de implantação de eucalipto.
Fluxo nominal Fator de Fluxo Atualizado
Ano
Receita Custo Atualização Receita Custo Benefício
0 0 2.164,9 1,000000 0 2.164,90 -2.164,90
1 0 260,05 0,892857 0 232,19 -232,19
2 0 260,05 0,797194 0 207,31 -207,31
3 0 260,05 0,711780 0 185,10 -185,10
4 0 260,05 0,635518 0 165,27 -165,27
5 0 260,05 0,567427 0 147,56 -147,56
6 15.000 4.553,50 0,506631 7.599,47 2.306,95 5.292,52
Valor Presente Líquido (VPL): R$ 2.190,19
70
Para obter o fluxo atualizado das receitas e dos custos, multiplica-se cada um deles pelo fator
de atualização. A diferença entre a receita atualizada e o custo atualizado gera o fluxo de benefícios
líquidos atualizados. A soma deste fluxo é o que se chama de valor presente líquido.
O VPL é obtido pela soma dos valores da última coluna da Tabela 4.3. Portanto, o VPL do
projeto de implantação de um hectare de eucalipto foi igual a R$ 2.190,19/ha, ao final do ciclo de
produção. Isto significa que o projeto apresenta viabilidade econômica. Em outras palavras, a uma
taxa de 12% ao ano o projeto se apresenta viável, pois, o fluxo de benefícios foi positivo. Isto significa
que o projeto deve gerar um retorno superior a 12%, portanto, foi aplicado no melhor uso alternativo.

4.4.2.2 Taxa Interna de Retorno (TIR)


Desses critérios de avaliação de empreendimentos, a eficiência marginal do capital ou taxa
interna de retorno (TIR), embora polêmica, apresenta respaldo teórico formal dentro da literatura
econômica, tendo dois renomados economistas Fisher (1930) e Keynes (1936) como âncora.
De acordo com esse critério, um empreendimento do tipo investimento convencional
(apresenta apenas uma variação de sinal) ou não-convencional (apresenta mais de uma variação de
sinal) será considerado economicamente viável se a TIR for superior a uma dada taxa de juros i,
tomada como comparação e que reflita o custo de oportunidade do capital. Como esse critério é de
longo prazo, é importante que se tome a taxa de juros de longo prazo. No Brasil, essa taxa é a TJLP,
que nos últimos 10 anos se manteve em torno de 12%aa, em média.
Além disso, para que o critério acima possa ser empregado na avaliação econômica de um
projeto, é necessário que:
a) A comparação com a taxa i possa ser feita, ou seja, exista uma taxa de juros que anule a
função de VPL do projeto;
b) Não exista ambigüidade, ou seja, não deve ter mais de uma taxa de juros anulando a função
de VPL;
c) Não haja inconsistência com o resultado da avaliação econômica do projeto, ou seja,
existindo uma única TIR que anula o VPL, deve-se ter uma TIR > TJLP.
A taxa interna de retorno pode ser calculada comparando-se o fluxo de receitas, atualizado a
cada ano, com os custos totais do projeto. É definida como a taxa de juros ou taxa de oportunidade
do capital que torna a seguinte igualdade verdadeira:

n n

∑ Re ceitat ⋅ (1+TIR) = ∑ Custot ⋅ (1+TIR)


−t −t
(4.5)
t =0 t =0

em que:
TIR = taxa interna de retorno e (t = 1, ..., n).
O objetivo é determinar a TIR que torna o fluxo de receitas igual ao fluxo de custos, ou seja,
torna o VPL nulo. A TIR revela a taxa de retorno que, ao final do ciclo do projeto, a receita gerada é
suficiente apenas para cobrir o custo. Portanto, para ser considerado viável, a TIR deve ser superior à
taxa de juros que reflete o custo de oportunidade do capital, no caso a TJLP = 12%aa.
O cálculo da TIR não é trivial. Trata-se da solução de uma equação de grau n, portanto de
difícil tratamento manual. Dessas n taxas de retorno do fluxo com n períodos, interessam apenas as
taxas positivas, visto que as taxas negativas e as taxas complexas não interessam para o âmbito
deste texto. A Regra de Descartes para a teoria dos polinômios, relaciona o número de raízes
positivas do polinômio ao número de troca de sinal dos seus coeficientes. O número de raízes
positivas em um polinômio não excede o número de troca de sinal. Assim, para um projeto
convencional, espera-se encontrar apenas uma raiz positiva.
A fórmula geral de cálculo, alternativamente, pode ser apresentada da seguinte maneira:

VPL(TIR) = ∑ BNL ⋅ (1+TIR) = 0


t

t t
(4.6)
t =0
71
Um exemplo de aplicação pode ser feito, apenas a título de ilustração, a um projeto cujo
horizonte de tempo é de dois anos. O fluxo de caixa, exibindo o benefício nominal líquido (BNL) é o
apresentado a seguir:
{R$ -100,00; R$ 50,00; R$ 100,00}
A equação do segundo grau gerada a partir do fluxo acima é dada por:

−100(1+TIR) + 50(1+TIR) + 100(1+TIR) = 0


2 1 0

Resolvendo cada membro da equação, passo a passo, tem-se:


-100 x (1 + 2TIR + TIR2) + 50 x (1 + TIR) + 100 x 1 = 0
-100 - 200TIR – 100TIR2 + 50 + 50TIR + 100 = 0
-100TIR2 – 150TIR + 50 = 0
Dividindo-se ambos os lados da equação por 50, tem-se:
- 2TIR2 – 3TIR + 1 = 0
Aplicando a regra da equação do segundo grau, tem-se:
2
− b ± ∆ − b ± b − 4ac
TIR = =
2⋅a 2⋅a

−3 − 4 x(−2) x1 =
2
∆= 17 ≅ 4,1231

− (−3) + 4,1231 7,1231


TIR1 = = = −1,7808
2 ⋅ (−2) −4
− (−3) − 4,1231 − 1,1231
TIR 2 = = = 0,2808
2 ⋅ (−2) −4
A TIR1 pode ser descartada, por ser negativa. A segunda, TIR2 = 28,08% é a taxa que atende
ao critério de atualização de empreendimentos. Isto significa dizer que o projeto que apresentou este
fluxo de BNL só será viável até esta taxa de retorno. Qualquer taxa acima deste valor torna o VPL
negativo e, por conseqüência, o projeto inviável economicamente.
A TIR pode ser calculada, alternativamente, por meio da semelhança de triângulo. Este
método é extremamente frágil, fornecendo apenas uma aproximação grosseira do verdadeiro valor da
TIR.
O cálculo consiste em se atualizar o fluxo a duas taxas de desconto diferentes e depois
aplicar a regra da semelhança de triângulo. A lógica operacional parte do princípio teórico de que a
uma taxa de juros igual a zero, o VPL atualizado é igual ao VPL nominal a uma taxa igual à TIR o
VPL torna-se nulo. Na faixa intermediária entre zero e TIR, à medida que a taxa aumenta o VPL
diminui, como na representação gráfica da Figura 4.1.
A fórmula utilizada no cálculo da TIR pelo método da semelhança de triângulo é a seguinte:
VPL1 − VPL 2 VPL1 VPL 2
= =
(i 2 − i1) (TIR − i1) (TIR − i 2)
Assim, tem-se que a TIR é dada por:

VPL 2 ⋅ (i 2 − i1)
TIR = i 2 + (4.7)
VPL1 − VPL 2
72

VPL (R$)

VPL1

VPL2

i1 i2 TIR Taxa de juros (i)

Figura 4.1 – Valor presente líquido obtido às taxas de juros i1 e i2 e à TIR.

Para aplicar este método, toma-se o fluxo de BNL do eucalipto atualizado às taxas de 12%aa
e a 20%aa. Portanto, necessita-se o cálculo de dois fatores de atualização, como na Tabela 4.4.

Tabela 4.4
Fluxo de BNL atualizado às taxas de juros de 12%aa e de 20%aa..
Ano BNL Fa 12% Fa 20% BLA-12% BLA-20%
0 - 2.164,9 1,000000 1,000000 -2.164,90 -2164,90
1 - 260,05 0,892857 0,833333 -232,19 -216,71
2 - 260,05 0,797194 0,694444 -207,31 -180,59
3 - 260,05 0,711780 0,578704 -185,10 -150,49
4 - 260,05 0,635518 0,482253 -165,27 -125,41
5 - 260,05 0,567427 0,401878 -147,56 -104,51
6 10.446,50 0,506631 0,334898 5.292,52 3.498,51
Valor Presente Líquido (VPL): 2.190,19 555,90

Aplicando a fórmula para cálculo da TIR, tem-se:


555,90 ⋅ ( 20% − 12%) 555,90 ⋅ 8%
TIR = 20% + = 20% + = 20% + 2,7212% = 22,7212%
2.190,19 − 555,90 1.634,29
Portanto, a TIR foi de 22,72%. Isto significa que o projeto é viável até esta taxa, de modo que
o empresário não deve obter empréstimo para financiar o projeto a taxa de juros superior a 22,72%.
Caso contrário, o projeto torna-se inviável economicamente.
Estes métodos apresentados são muito limitados, para uso em condições em que não se
dispõe de um computador. O cálculo correto da TIR, para projetos de investimento convencionais,
pode ser facilmente realizado por meio da planilha Excel. Para isto, basta aplicar a fórmula:

=TIR(BLN;0,12) (4.8)
73
O BNL compreende a faixa dos dados onde se encontram os valores do fluxo, que está
situada na coluna E entre as linhas 4 e 10 (E4.E10), como na Figura 4.2. A taxa de juros utilizada na
atualização foi de 12% ou 0,12 na fórmula 4.8.

Figura 4.2 – Ilustração do cálculo da TIR por meio do Excel.

A TIR foi de 23,96%, um pouco maior do que a obtida pelo método da semelhança de
triângulo. Portanto, o analista ao empregar o método da semelhança de triângulo, deve fazer a prova
para verificar se a TIR obtida realmente torna o VPL nulo, para evitar erro de grande magnitude.
A TIR pode levar a decisão errônea quando o projeto não é bem comportado, ou seja, em
caso de projeto não-convencional, é possível a existência de mais de uma taxa de juros que torna o
VPL igual a zero. Para não ter surpresa, deve-se construir um gráfico do VPL no intervalo de juros
entre zero e a TIR, para verificar o comportamento do VPL às taxas de juros alternativas.
A Figura 4.3 ilustra o comportamento do VPL para diversas taxas de juros. Pelo que se
observa, o fluxo é bem comportado, pois apresenta apenas uma TIR.

Figura 4.3 – Comportamento do VPL para várias taxas de juros, inclusive a TIR.
74
Esta ilustração deixa claro que o VPL não apresenta um comportamento retilíneo como
assumido no cálculo da semelhança de triângulo, por isso, a TIR calculada apresentou-se diferente
do verdadeiro valor. Se a opção de atualização fosse 20% e 23%, o cálculo seria mais aproximado do
valor real. Esta tarefa deixa-se para o leitor como exercício de aprendizagem.
O terceiro critério utilizado na avaliação de empreendimentos é a relação benefício-custo,
apresentada em seguida.

4.4.2.3 Relação Benefício-Custo (Rb/c)


A relação benefício-custo, como o próprio nome sugere é dada pela razão entre a soma do
fluxo de receitas e a soma do fluxo de custos, atualizada a uma taxa de juros adequada i. A fórmula
de cálculo é a seguinte:

∑ Re ceita ⋅ (1+i)
−t
t

R b/c
= t =0
n (4.9)
∑ Custo ⋅ (1+i)
−t
t
t =0

A tomada de decisão é feita com base nos seguintes resultados para o valor da Rb/c gerada
pelo projeto:
a) Rb/c > 1. Significa que a soma das receitas atualizadas são maiores do que a soma dos
custos atualizados à taxa i. A decisão é de que o projeto apresenta viabilidade econômica.
b) Rb/c =1. Significa que as receitas são iguais aos custos, portanto não sobra nada após o
término do projeto. Não é um projeto interessante à taxa de juros i.
c) Rb/c < 0. Significa que os custos são maiores do que as receitas, indicando que o projeto não
é viável economicamente.
A aplicação deste critério ao projeto de implantação de eucalipto é apresentada na Tabela
4.5. Da mesma forma que para o VPL, faz-se a atualização das receitas e dos custos à taxa de juros
de longo prazo, TJLP = 12%aa.
Neste caso, não é necessário calcular o BNL, uma vez que a Rb/c é uma razão entre a soma
das receitas e dos custos e não a diferença entre esses fluxos.

Tabela 4.5
Fluxo de caixa preparado para o cálculo da relação benefício-custo.
Fluxo Nominal Fluxo atualizado
Ano fa 12%
Receita Custo Receita Custo
0 0 2.164,9 1,000000 0 2.164,90
1 0 260,05 0,892857 0 232,19
2 0 260,05 0,797194 0 207,31
3 0 260,05 0,711780 0 185,10
4 0 260,05 0,635518 0 165,27
5 0 260,05 0,567427 0 147,56
6 15.000 4.553,50 0,506631 7.599,47 2.306,95
Soma das receitas e dos custos 7.599,47 5.409,28

Aplicando-se a equação 9 aos dados ta Tabela 4.5, obtém-se:


7.599,47
R b/c
=
5.409,28
= 1,4049

O valor da Rb/c maior do que um indica que o projeto apresenta viabilidade econômica. A
interpretação do valor encontrado é a seguinte:
75
Rb/c = 1,40 significa que para cada R$ 1,00 aplicado no projeto, ao final ele gera o montante
de R$ 1,40 bruto ou R$ 0,40 líquido.
Os três critérios levam a uma mesma orientação para a tomada de decisão. Assim, uma Rb/c
> 1, implica em um VPL > 0 e uma TIR > TJLP. Da mesma forma, um VPL = 0, leva a uma Rb/c = 1 e
a TIR = TJLP.
Por fim, cabe observar que as análises desenvolvidas até aqui assumem que não há restrição
de fatores de produção (terra, mão-de-obra e capital) que limitem a implantação e o desenvolvimento
do projeto.
Mesmo nestas circunstâncias é conveniente que se verifique a capacidade de o projeto
enfrentar situações adversas que possam influenciar o fluxo de receita ou o fluxo de custo. Uma
redução nos preços do produto em função de excesso de oferta, importações do produto na época de
safra, o próprio efeito sazonal do comportamento dos preços, etc., pode tornar o projeto inviável. Da
mesma forma, um incremento no custo de produção, causado por aumento no preço dos insumos ou
da mão-de-obra, impostos, transporte, etc., também podem tornar o projeto inviável.
Para se prevenir destes eventuais problemas, deve-se fazer uma análise de sensibilidade do
projeto, variando o preço do produto e o custo de produção. Este é o assunto da próxima seção.

4.4.3 Análise de sensibilidade


A análise de sensibilidade permite medir em que proporção uma alteração pré-fixada em um
ou mais itens do fluxo de caixa do projeto altera o resultado final. Como exemplo, pode-se testar o
que ocorre com a taxa interna de retorno se o custo de produção sofrer um aumento de 10%, ou se o
preço do produto cair em 10%. Procedendo desta forma, é possível observar o grau de sensibilidade
do projeto a essas mudanças.
O nível de 10% foi arbitrário. Na prática, o analista deve fazer uma análise do comportamento
dos preços do produto, pelo menos nos últimos cinco anos e determinar a amplitude de variação
neste período. Com base nesta variação, determina-se a magnitude da alteração no preço do
produto.
As fórmulas da TIR para simular uma alteração c nos custos e d nas receitas são:
a) alteração no custo de produção de magnitude c:

n n

∑ Re ceita ⋅ (1+TIR) = ∑ Custo t ⋅ (1+ c) ⋅ (1+TIR)


−t −t
t
(4.10)
t =0 t =0

b) Alteração no preço do produto de magnitude d:

n n

∑ Re ceita (1− d ) ⋅ (1+TIR) = ∑ Custo t ⋅ (1+TIR)


−t −t
t
(4.11)
t =0 t =0

Diante de tais situações, se o projeto ainda apresentar-se viável economicamente, é uma


garantia adicional de estabilidade que o projeto apresenta diante de riscos e incertezas.
Utilizando o fluxo de caixa do eucalipto, faz-se uma simulação admitindo que os preços do
eucalipto sofram queda de 10% e que os custos de produção aumentem em 10%. O resultado é
apresentado na Tabela 4.6.
76

Tabela 4.6
Avaliação da sensibilidade do projeto a mudanças nos preços e nos custos de produção
Fluxo nominal
Ano
Receita Custo BNL( 10%R) BNL (10%C)
0 0 2.164,90 -2.164,90 -2381,39
1 0 260,05 -260,05 -286,055
2 0 260,05 -260,05 -286,055
3 0 260,05 -260,05 -286,055
4 0 260,05 -260,05 -286,055
5 0 260,05 -260,05 -286,055
6 15.000 4.553,50 8.946,50 9991,15
Taxa Interna de Retorno (TIR): 20,41% 20,75%

Pelo que se observa, o projeto apresenta uma menor taxa de retorno diante da mudança nos
preços do produto do que para alterações nos custos de produção, embora a diferença seja pequena.
Estes resultados indicam que o projeto apresenta forte estabilidade, uma vez que a redução na TIR
foi inferior às mudanças nos fluxos de receita e de custo.

4.5 APLICAÇÃO A UM SISTEMA AGROFLORESTAL (SAF)

O SAF analisado é formado de cacau (cultura perene), paricá (espécie florestal de


crescimento rápido) e puerária (leguminosa para cobertura do solo e controle de ervas). Este SAF
ocupa uma área de 1,8 ha (formado de 160 árvores de paricá, com 17 anos de implantado e de cerca
de 1000 plantas de cacau, com 18 anos).
Os dados de receita e custo estão na Tabela 4.7. O SAF foi implantado em 1988 na
propriedade do Sr. Shibata em Tomé-Açu. Como referência, adotou-se o ano 1 para a implantação do
SAF e não zero como é de praxe. Esta decisão foi para aplicar o cálculo do VPL por meio do Excel. O
Excel assume que as operações do fluxo são concentradas ao final de cada ano, portanto, o
empreendimento inicia no ano 1, dado que ao final do ano zero, deve-se atualizar o fluxo.
Os cálculos foram realizados com o auxílio da planilha do Excel. A fórmula para se calcular o
VPL é dada por:
=VPL(0,12;BNL)
Da mesma forma que se calcula a TIR, obtém-se o VPL, sendo que a taxa de desconto vem
em primeiro lugar e depois o fluxo.
Os resultados mostram que o SAF apresentou viabilidade econômica. O VPL foi da ordem de
R$ 1.291,63 para os 1,8 ha. Isto significa que ao final do ciclo de 20 anos o SAF gera um valor líquido
de R$ 717,57 por hectare.
A TIR, da ordem de 15,32% também indica que o SAF é viável economicamente, pois a TIR é
superior à TJLP de 12%aa.
A Rb/c = 1,26 atesta que o SAF é viável economicamente. Este valor indica que para cada
R$ 1,00 aplicado no SAF, ao final do ciclo de 20 anos ele gera um retorno de R$ 1,26 bruto ou R$
0,26 líquido.
77

Tabela 4.7
Fluxo de caixa do sistema agroflorestal (SAF) composto de cacau, paricá e puerária, do Sr.
Shibata de Tomé-Açu (1,8 ha)..
Fluxo Nominal Fluxo atualizado
Ano fa 12%
Referência Receita Custo BNL Receita Custo BLA
1988 1 0 1195,6 -1195,60 0,8929 0 1067,5 -1067,5
1989 2 0 552,5 -552,50 0,7972 0 440,4496 -440,45
1990 3 0 621,7 -621,70 0,7118 0 442,5138 -442,514
1991 4 0 743,4 -743,40 0,6355 0 472,4441 -472,444
1992 5 252 765 -513,00 0,5674 142,9916 434,0815 -291,09
1993 6 468 807 -339,00 0,5066 237,1034 408,8513 -171,748
1994 7 760,5 807 -46,50 0,4523 344,0116 365,0458 -21,0342
1995 8 936 632 304,00 0,4039 378,0347 255,2542 122,7805
1996 9 1404 638 766,00 0,3606 506,2965 230,0692 276,2273
1997 10 1404 638 766,00 0,3220 452,0504 205,4189 246,6315
1998 11 1008 507 501,00 0,2875 289,7759 145,7504 144,0255
1999 12 756 507 249,00 0,2567 194,0464 130,1343 63,9121
2000 13 504 340 164,00 0,2292 115,5038 77,91922 37,58457
2001 14 315 340 -25,00 0,2046 64,45524 69,57074 -5,1155
2002 15 4744,12 350 4394,12 0,1827 866,733 63,94369 802,7893
2003 16 5106,35 380 4726,35 0,1631 832,9563 61,98623 770,9701
2004 17 4629,3 380 4249,30 0,1456 674,2313 55,34485 618,8865
2005 18 4004 390 3614,00 0,1300 520,6785 50,71544 469,9631
2006 19 3564 400 3164,00 0,1161 413,8046 46,44271 367,3618
2007 20 3124 400 2724,00 0,1037 323,855 41,46671 282,3883
Soma: 6356,528 5064,903 1291,625
Valor Presente Líquido (VPL): R$ 1.291,63
Taxa Interna de Retorno (TIR): 15,32%
Relação Benefício-Custo (Rb/c): 1,255
78

4.6 REFERÊNCIAS

AGRIANUAL 2005: Anuário da agricultura brasileira. São Paulo: FNP, 2005.


ANUALPEC 2005: Anuário da pecuária brasileira. São Paulo: FNP, 2005.
BUARQUE, C. Avaliação econômica de projetos: uma apresentação didática. Riode Janeiro:
Campus, 1991.
CONTADOR, C.R. Avaliação social de projetos. São Paulo: Atlas, 1981.
COPELAND, T.; KOLLER, T.; MURRIN, J. Avaliação de empresas – valuation: calculando e
gerenciando o valor das empresas. São Paulo: Makron Books, 2002.
COSTA, P.H.S., ATTIE, E.V. Análise de projetos de investimento. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV,
1987.
FARO, C. A eficiência marginal do capital como critério de avaliação econômica de projetos de
investimentos. Rio de Janeiro: IBMEC, 1985.
FARO, C. Critérios quantitativos para avaliação e seleção de projetos de investimentos. Rio de
Janeiro: IPEA/INPES, 1971.
GITTINGER, J.P. Economic analysis of agricultural projects. 2. ed. Baltimore: Johns Hopkins
University Press, 1982.
HOLANDA, N.C. Planejamento e projetos. Fortaleza: UFC, 1982.
MISHAN, E.J. Análise de custo-benefício: uma introdução informal. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
MISHAN, E.J. Elementos de análise de custos-benefícios. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
NORONHA, J.F. Projetos agropecuários: administração financeira, orçamento e viabilidade
econômica. São Paulo: Atlas, 1987.
RESENDE, J.L.P., OLIVEIRA, A.D. Análise econômica e social de projetos florestais. Viçosa:
UFV, 2001.
SANTANA, A C. Manual de elaboração e avaliação de projetos de investimentos rurais. Belém:
BASA; FCAP, 1995. 27p. (Estudos Setoriais, 1).
WOILER, S., MATHIAS, W.F. Projetos: planejamento, elaboração e análise. São Paulo: Atlas, 1996.
79

4.7 EXERCÍCIO DE APRENDIZAGEM

E1. Em que nível do canal de distribuição se toma o preço do produto e dos insumos para a avaliação
econômica de projetos? Qual a época do ano deve ser considerada para os preços do produto e dos
insumos? Justifique as respostas.

E2. Qual o objetivo da análise de sensibilidade dos projetos? Qual a época do ano se deve tomar o
preço do produto e dos insumos para a análise de sensibilidade? Justifique as respostas.

E3. Preencha os campos em branco da Tabela I e calcule manualmente o VPL e a Rb/c. Depois, faça
uso do Excel e calcule a TIR e o VPL e interprete os resultados. Simule um aumento de 5% nos
custos de produção e recalcule todos os indicadores – VPL, TIR e Rb/c no Excel.
Tabela I
Orçamento para o sistema agroflorestal (SAF) de cupuaçu, seringa e puerária (3 ha).
Fluxo Nominal Fluxo Atualizado
Ano fa 12%
Referência Receita Custo BNL Receita Custo BLA
1988 1 0 4415,1
1989 2 0 1138,2
1990 3 1549,8 2583
1991 4 2066,4 2634,7
1992 5 2755,2 3022,1
1993 6 4959,4 3280,4
1994 7 5510,4 3280,4
1995 8 3444 3280,4
1996 9 3444 3285
1997 10 3444 3285
1998 11 3444 3285
1999 12 3794 3425
2000 13 3794 3425
2001 14 4144 3425
2002 15 5544 3425
2003 16 5544 3425
2004 17 5544 3425
2005 18 5544 3425
2006 19 6940 3425
2007 20 6940 3425
Fonte: Pesquisa de campo.

E4. Com base nos dados da tabela abaixo, referente a um projeto de produção de mudas de
essências florestais no município de Paragominas, empregue todo o seu conhecimento para
responder às perguntas apresentadas em seguida.

Fluxo Nominal Fator Fluxo Atualizado


Ano Custo Receita Fluxo (12%a.a.) Custo Receita Fluxo
0 0 -100
1 80 20
2 210 120

a) Identifique o tipo de projeto (investimento ou financiamento; convencional ou não-


convencional) com base no fluxo de caixa;
b) Complete o preenchimento da tabela;
80
c) Determine os seguintes indicadores de avaliação econômica: VPL, TIR, Rb/c e interprete os
resultados [dica: para calcular a TIR, considere a taxa de juros de 15%a.a. ou resolva a
equação de 2º grau: VPL(TIR)=ΣFluxot (1+TIR)t = 0].

E5. Com base nos dados do quadro abaixo, determine a taxa interna de retorno (TIR), o valor
presente líquido (VPL) e a relação benefício/custo (Rb/c) do projeto SAF e interprete os resultados
obtidos.

Ano Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5


Fluxo
Custo (R$ mil) 1.000 500 700 700 700
nominal
Receita (R$ mil) 0 550 1.200 1.500 1.500
Fator de atualização (12%aa)

Fluxo Custo (R$ mil)


atualizado Receita (R$ mil)

E6. A Tabela abaixo ilustra outro orçamento para a implantação de um hectare de cupuaçu em cultivo
solteiro e consorciado com culturas anuais. A prática do consórcio é importante porque ajuda a
reduzir os custos de implantação da cultura. Calcule o VPL, a TIR e a Rb/c para os dois sistemas de
produção e compare os resultados.

Orçamento para um hectare de cupuaçu, envolvendo o monocultivo e o consórcio com culturas anuais
nos primeiros anos da implantação.
Cupuaçu Solteiro Cupuaçu Consorciado
Ano
Receita Custo Receita Custo
1 0 2.234 2.042 3.255
2 0 1.518 1.870 1.911
3 548 159 1.203 813
4 1.296 202 1.296 202
5 2.736 217 2.736 217
6
2.736 217 2.736 217

E7. Com base no orçamento da Tabela 3A, do Apêndice, construa o fluxo de caixa, calcule o VPL, a
TIR e a Rb/c e interprete os resultados. Assuma um aumento no preço da mão-de-obra de 30% e de
20% na remuneração da terra. Calcule novamente o VPL, TIR e Rb/c e compare os resultados.

E8. Com base nos dados da Tabela 4A, construa o fluxo de caixa e calcule o VPL e Rb/c. Calcule a
TIR utilizando a equação do segundo grau.
81

APÊNDICE – ORÇAMENTOS UNITÁRIOS

Tabela 1A
Orçamento para a construção de um km de cerca de 4 fios de arame farpado (duração de 20 anos)
Discriminação Unidade Quantidade Preço (R$) Valor total (R$)
Estacas uma 500 2,5 1.250
Travas uma 10 5 500
Mourões um 100 5 500
Arame farpado rolo 500m 8 185 1.480
Frete interno hm 5 40 200
Subtotal 1 3.930
Manutenção anual (R$/km) % 2,5 142 98
Depreciação anual (R$/km) % 5,0 284 197
Subtotal 2 295
Mão-de-obra
Cavar buraco dh/km 15 15 225
Cerqueiro dh/km 6 40 240
Subtotal 3 465
Total 4.690
Fonte: Adaptado de Anualpec (2005).

Tabela 2A
Orçamento para a implantação de um hectare de pastagem cultivada de braquiarão.
Discriminação Unidade Quantidade Preço (R$) Valor total (R$)
Operações mecanizadas
Conservação do solo hm 1 50 50
Calagem hm 0,4 40 16
Gradagem (2 vezes) hm 2,2 45 99
Aração hm 3,1 45 12,4
Semeio a lanço hm 0,5 30 15
Transporte de insumos hm 0,5 30 15
Operações manuais
Limpeza do terreno dh 2 15 30
Semeadura dh 0,5 15 7,5
Calagem dh 0,5 15 7,5
Transporte de insumo dh 0,5 15 7,5
Aplicação de formicida dh 0,5 15 7,5
Insumos
Sementes kg 15 20 300
Calcário t 1,5 150 225
Formicida kg 1 20 20
Remuneração da terra ha 1 150 150
Total (R$/ha) 962,40
Fonte: Adaptado de Anualpec (2005)
82

Tabela 3A
Orçamento para a implantação de um hectare de curauá.
Ano zero Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4

Quantidade.

Quantidade.

Quantidade.

Quantidade.

Quantidade.
Operações

Valor – R$

Valor – R$

Valor – R$

Valor – R$

Valor – R$
Unidade

1. Preparo de área
Destoca h/d 8 120 -
Queima h/d 1 15 -
Coivara h/d 4 40 -
2. Plantio
Covas h/d 6 90 -
Plantio h/d 4 60 -
3. Tratos culturais
Capina h/d 9 135 18 270 20 300 25 375 25 375
Amontoa h/d 3 45 6 90 8 120 10 150 10 150
4. Insumos utilizados e remuneração da terra
Mudas uma 11111 3.333,3 -
Barbante rolo 2 8 -
Terra ha 1 150 1 150 1 150 1 150 1 150
5. Colheita h/d 12 180 40 600 45 675 50 750 50 750
Custo – A R$/ha 1 4.176,3 - 1.110 - 1.245 - 1.425 - 1.425
Produção de folhas e mudas
Folhas t 15 900 40 2400 45 2700 46 2760 46 2760
Mudas uma - - 44000 2200 44000 2200 44000 2200 44000 2200
Receita - B - - 900 - 4.600 - 4.900 - 4.960 - 4.960

Tabela 4ª
Orçamento para 200 matrizes (abate a cada 21 dias de 330 a 333 leitões com 90 kg)
Discriminação
Ano 0 Ano 1-2
Unid V. Unit Qtde V. Total V. Unit Qtde V. Total
Investimentos 225000,00 0,00
Galpão 1 - rec.cio/gest/cachaços 40000,00 1 40000,00 0,00
Galpão 2 - Maternidade/cria/Recria 40000,00 1 40000,00 0,00
Galpão 3 - Terminação 40000,00 1 40000,00 0,00
Marizes unid 500,00 200 100000,00 0,00
Reprodutores Unid 1000,00 5 5000,00 0,00
Custeio 66600,00 65400,00
Depreciação das Instalações % ano 12000,00 1 12000,00 12000,00 1 12000,00
Mão-de-obra homens 10,00 3900 39000,00 10,00 3900 39000,00
Serviços de consultoria mês 1200,00 13 15600,00 1200,00 12 14400,00
Custos variáveis 280930,40 629182,80
Ração para matrizes kg 0,40 219000 87600,00 0,40 219000 87600,00
Ração para reprodutores kg 0,40 7300 2920,00 0,40 7300 2920,00
Ração para suínos de abate kg 0,40 473526 189410,40 0,40 1341657 536662,80
Medicamento em geral 1000,00 2000,00
Custo Total 572530,40 694582,80
Receita Total leitões 190,00 1900 361000,00 190,00 5500 1045000,00
Receita Líquida -211530,40 350417,20
CAPÍTULO 5
AGRONEGÓCIO, CADEIA PRODUTIVA E
CADEIA DE SUPRIMENTO

5.1 INTRODUÇÃO
Antes de avançar na apresentação do conceito de cadeia de suprimento e sua aplicação,
inicia-se com o conceito de agronegócio e de cadeia produtiva que são os conceitos mais familiares.
O conceito de agronegócio foi criado por David e Goldberg (1957) e representa a “soma total
de todas as operações envolvidas na manufatura e distribuição de insumos para a unidade de
produção rural; as operações de produção e gestão que ocorrem na própria unidade de produção; e o
armazenamento, processamento e distribuição dos produtos das unidades de produção rurais e de
seus subprodutos”. Didaticamente este conceito pode ser estruturado em três segmentos: fornecedor
de insumos, produção propriamente dita e produtor e processamento e distribuição.
Pelo que se observa, este conceito é amplo e tem base na matriz de insumo-produto,
envolvendo as relações de compra de insumos e matérias-primas (lido nas colunas da matriz) e a
venda de produtos intermediários e finais (lido nas linhas da matriz), porém não está atrelado a
nenhum postulado teórico específico, podendo ser analisado sobre os vários enfoques. Para efeito
deste capítulo, interessa explorar a importância estratégica para o desenvolvimento da economia
brasileira, cuja integração agroindustrial se consolidou, atingindo o ápice de competitividade a partir
do final dos anos 90.
No Brasil, o agronegócio se destacou pela participação no produto interno bruto (PIB), nas
exportações e na geração de emprego, pois em 2004 contribuiu com 34 % do PIB (US$ 206 bilhões),
exportou US$ 39 bilhões e ocupou 30% da população economicamente ativa (21,6 milhões de
pessoas).
A distribuição do PIB do agronegócio entre os três segmentos é a seguinte: fornecedor de
insumos ou segmento a montante com 6,42%, produção com 30,34% e processamento e distribuição
ou segmento a jusante com 63,24%. O segmento de maior dinâmica, dado pela maior agregação de
valor é o de processamento e distribuição dos produtos agropecuários e florestais. Este segmento é a
base da integração das cadeias produtivas e da estruturação e desenvolvimento dos mercados de
produtos e insumos do agronegócio brasileiro.
Na Amazônia, em 2004, o agronegócio representou 39% do PIB (equivalente a US$ 13,5
bilhões), empregou 45% da mão-de-obra (1,3 milhão de pessoas) e exportou US$ 1,18 bilhão,
representando 23% do total. A distribuição do PIB do agronegócio da Amazônia, em 2004, foi a
84
seguinte: segmento fornecedor ou segmento a montante com 7,5%; segmento de produção com
32,3%; segmento de processamento e distribuição ou segmento a jusante com 60,2%. No
agronegócio da Amazônia, as principais cadeias são: madeira, móveis e artefatos, fruticultura e
carnes.
O conceito de cadeia produtiva, por sua vez, faz um recorte no conceito de agronegócio,
direcionando o foco da análise para um produto específico. A compreensão mais difundida do
conceito de cadeia produtiva, parte da identificação de uma matéria-prima, por exemplo, a soja, e
definida ppor uma sucessão de operações de transformação industrial da matéria-prima em produto
intermediário e/ou em produto final (agroindustrialização), dissociáveis e separáveis, bem como a
distribuição (atacado e varejo) até o produto final chegar ao consumidor. Estas etapas são ligadas
entre si por encadeamentos tecnológicos, relações comerciais e financeiras, que regulam as trocas
entre os sucessivos estágios do fluxo de transformação. A análise da cadeia produtiva abrange os
níveis microeconômicos (relações internas das unidades de produção – gestão, tecnologia,
produtividade, marketing, organização e transações interempresas) e mesoeconômicos (articulação
das unidades produtivas com as políticas setoriais, instituições e mercados), porém não apresenta
fronteira definida, podendo se restringir a um local específico (município, Estado, país), como é o
caso da cadeia produtiva do tacacá, que se resume ao mercado de Belém ou a cadeia produtiva da
soja que ultrapassas a fronteira nacional e se espalha por diversos países.
Para ilustrar um pouco da importância socioeconômica de uma cadeia produtiva, apresentam-
se exemplos de duas cadeias produtivas fortemente em expansão no Brasil e, sobretudo, na
Amazônia. A primeira á a cadeia produtiva de fruticultura (frutas in natura, polpa, suco de frutas,
frutas cristalizadas, etc.), que apresentou grande impulso em nível nacional e da Amazônia.
Em nível de Brasil, as principais frutas são: abacaxi, banana, laranja, mamão, maçã, manga
melão e uva. Estas frutas são largamente consumidas no mercado nacional nas formas in natura,
suco e polpa. Ambas as formas também estão sendo exportadas para diversos países da
Comunidade Européia, países do bloco comercial Nafta e da Ásia.
No caso da Amazônia, as principais frutas consumidas regionalmente e exportada nas formas
in natura de polpa e sucos, são: açaí, cupuaçu, bacuri, camu-camu, carambola, castanha-do-pará,
taperebá, acerola, graviola, maracujá, abacaxi, mangostão e murici.
A cadeia produtiva de madeira, móveis e artefatos da Amazônia utiliza como matéria-prima
madeira de floresta nativa, enquanto no resto do Brasil predomina a utilização de madeira oriunda de
florestas plantadas. Na Amazônia, os produtos da cadeia produtiva da madeira representaram, em
2004, 74% das exportações do agronegócio.
A importância econômica, traduzida em algumas variáveis econômicas (PIB, exportação e
emprego) é apresentada na Tabela 5.1, das cadeias produtivas de frutas e madeira, para o Brasil e a
Amazônia.

Tabela 5.1
Caracterização socioeconômica das cadeias produtivas de fruticultura e madeira, segundo as
variáveis de PIB, Exportação e Emprego, Brasil e Amazônia, 2004.
Variáveis/cadeia produtiva Brasil Amazônia
Cadeia produtiva de fruticultura
PIB US$ 11.2 bilhões US$ 113.8 milhões
Exportação US$ 935.3 milhões US$ 20.86 milhões
Emprego 4,6 milhões de pessoas 123 mil pessoas
Consumo 57 kg/hab./ano
Cadeia produtiva de madeira, móveis e artefatos
PIB US$ 19.94 bilhões US$ 1.89 bilhão
Exportação US$ 5.43 bilhões US$ 869 milhões
Emprego 4,4 mil pessoas 700 mil pessoas
85

5.2 CADEIA DE SUPRIMENTO


Neste texto, trabalha-se o conceito de cadeia de suprimento (tradução da expressão supply
chain) por ter uma dinâmica ajustada à discrição completa da cadeia produtiva e à análise de gestão
dos fluxos de produto, monetário e de informação, envolvendo as transações comerciais e financeiras
entre os elementos da cadeia, assim como a formação de estratégias competitivas sustentáveis,
sempre com o foco na satisfação do cliente. Portanto, além de uma abordagem moderna é
apropriada à incorporação das análises desenvolvidas pela nova teoria da organização industrial.
O conceito de cadeia de suprimento incorpora a dinâmica atual do processo de formação de
estratégias competitivas, que leva em consideração desde o conjunto das relações de insumo-
produto, passando pelas análises da cadeia de agregação de valor aos produtos e pela logística dos
fluxos de negócios das organizações para a integração e gestão das relações das empresas com
seus fornecedores e clientes, até o planejamento e gestão dos canais de distribuição de bens e
serviços.
Como o próprio nome da cadeia de suprimento sugere, a gestão tem lugar nas unidades
supridas, ou seja, no cliente ou consumidor, que é suprido pelos agentes varejistas; nas unidades de
varejo – supridas pelos atacadistas; nas unidades atacadistas, que são abastecidas por
agroindústrias; nas agroindústrias – supridas de matérias-primas, insumos e tecnologias, oriundas
dos produtores rurais e agentes fornecedores; e, por último, nos produtores que são abastecidos
pelas empresas fornecedoras de insumos, máquinas, serviços, informação, tecnologia etc. Nota-se,
portanto, que essa abordagem parte da unidade consumidora para a fornecedora, ao contrário da
análise tradicional de cadeia produtiva que parte do fornecedor para o consumidor.
A análise da cadeia produtiva por meio deste conceito permite identificar os pontos de
estrangulamentos em cada elo da cadeia, por produto e por mercado focal. Também é possível fazer
uma análise global da cadeia por meio da análise dos fluxos de produto (transformação de insumos e
matérias-primas em bens intermediários e finais), de distribuição e financeiro (canais de
comercialização de produtos e fatores intra e entre os estágios da cadeia produtiva, envolvendo as
relações comerciais físicas e monetárias) e de informação entre os membros participantes de cada
estágio da cadeia produtiva.
Portanto, o conceito de supply chain será empregado em sua forma geral, para alcançar os
avanços analíticos do conceito de cadeia produtiva e as dinâmicas focais, travadas nas negociações
entre os agentes de cada estágio da cadeia. Essa dinâmica abrange o planejamento das atividades e
a formação de estratégias competitivas sustentáveis, estabelecidas por meio de alianças verticais ou
horizontais entre fornecedores e fabricantes e entre estes e os clientes distribuidores, com vistas a
satisfazer os desejos dos consumidores.
O texto está estruturado em três seções, além desta rápida introdução. A primeira seção
apresenta o conceito de supply chain e os elementos formadores da cadeia produtiva. A segunda
seção trabalha a descrição e o planejamento dos fluxos inerentes à dinâmica da cadeia de
suprimento. A terceira seção apresenta uma visão global da gestão da cadeia de suprimento.

5.3 CONCEITO DE CADEIA DE SUPRIMENTO OU SUPPLY CHAIN


O que é cadeia de suprimento ou supply chain?
O conceito de cadeia de suprimento diz respeito à dinâmica operacional de um conjunto de
empresas que participam dos segmentos de uma cadeia produtiva, envolvendo não apenas a
compreensão do processo de encadeamento tecnológico que integra a transformação física de
insumos e matérias-primas em produtos intermediários e finais, mas principalmente as relações
comerciais e financeiras que regulam as trocas entre fornecedores e clientes que se verificam entre
os estágios da transformação e agregação de valor aos produtos, assim como um conjunto de ações
econômicas baseadas em estratégias empresariais competitivas, sempre focando o cliente.
Compreendido desta forma, a cadeia de suprimento está voltada para os clientes do mercado
consumidor dos produtos gerados na cadeia produtiva, e busca otimizar o processo de transferência
de bens e serviços interempresas, com vistas a melhorar os fatores competitivos em nível e no
entorno do mercado consumidor. Abrange também o desenvolvimento da função logística dos fluxos
de negócios das organizações, envolvendo a ligação entre as funções internas e, externamente a
estas, com os fornecedores e clientes diretos e indiretos. Desta forma, busca-se estender aos
86
parceiros comerciais a gestão por processos, visando a integração, a formação de parcerias e
mesmo a co-produção.
Cadeia de suprimento, portanto, consiste das operações comerciais e financeiras das trocas,
da logística de distribuição e informação envolvendo todos os estágios ligados direta ou indiretamente
à cadeia produtiva, no cumprimento dos pedidos dos clientes. A cadeia de suprimento inclui os
seguintes estágios da cadeia produtiva (Figura 5.1):
1. Clientes (consumidores ou compradores dos produtos finais);
2. Varejistas ou supermercados;
3. Atacadistas ou grandes distribuidores;
4. Agroindústrias (unidades processadoras);
5. Produtores rurais (produtores isolados ou organizados em cooperativas);
6. Fornecedores de matéria-prima, insumos e bens de capital.
Inicialmente, os elementos participantes de cada estágio da cadeia de suprimento são
definidos para efeito de entendimento de suas ações produtivas, comerciais, organizacionais e
estratégicas, visando atender aos desejos dos clientes ou consumidores.

5.3.1 Quem são os clientes?


Os clientes são as pessoas físicas ou jurídicas que realizam a compra de bens e serviços
para consumo final. São esses clientes que determinam o tamanho do mercado para os produtos. No
caso dos produtos das cadeias de suprimento ilustradas na Figura 5.1, o consumidor final de pescado
(peixe, camarão, crustáceos, moluscos, etc.), carne (carne bovina, carne suína, aves, carne de
carneiro, carne de bode, carnes de animais silvestres, carnes exóticas, etc.), frutas (frutas frescas,
suco de fruta, polpa de fruta, etc.), grãos (arroz, trigo, milho, feijão, soja, e derivados diversos como
óleo, massa, etc.) são as famílias, hospitais, cozinhas de fábricas, etc. que demandam o produto para
o consumo final. No caso da madeira, as famílias adquirem produtos como tábua, porta, janela,
móveis e artefatos para uso final.
Atualmente, o consumidor representa a principal fonte real de viabilização de toda a cadeia
de suprimento, pois é ele que efetiva a compra dos diversos bens e serviços, realiza o consumo e
efetua o pagamento final. Por conta disso, as empresas participantes da cadeia produtiva desejam
saber dos clientes o que eles compram, onde, como, quando, por que, quanto e com que freqüência
realiza as compras. Essas decisões são baseadas em fatores culturais, sociais, pessoais e
psicológicos.
a) Fatores culturais: Os fatores culturais exercem uma influência ampla e profunda no
comportamento do consumidor. Deve-se compreender o papel exercido por: cultura que é
considerada a causa mais determinante dos desejos e do comportamento dos consumidores
e tende a moldar as atitudes de compra e de consumo dos consumidores; subcultura são
pequenos grupos de consumidores que apresentam o mesmo sistema de valor, baseado em
experiências e situações da vida em comum; classe social que é a divisão permanente e
homogênea da sociedade em grupos que partilham valores, interesses e comportamentos
semelhantes, é determinada por vários fatores como renda, ocupação, educação, riqueza e,
com base nesses fatores, pode ser classificada em alta, média, baixa e pobre. Tais fatores
são úteis para se criar indicadores, visando à escolha e delimitação do nicho de mercado
para os produtos da cadeia.
b) Fatores sociais: O comportamento do consumo também é influenciado por fatores sociais
como grupos de referência (atores, jogadores, empresários, professores, etc.); família que
tem grande influência no comportamento do consumidor e é a organização de compra mais
importante da sociedade; papeis exercidos pelas pessoas de acordo com o grupo a que
pertence e sua posição no grupo, que caracteriza o status (clubes, organizações).
c) Fatores pessoais: As decisões de consumo também podem ser influenciadas por
características como idade e estágio de vida (jovens solteiros e casados com ou sem filhos;
pessoas de meia idade e idosos); ocupação (trabalhador operário, executivo); situação
econômica (salário, patrimônio); estilo de vida que se refere ao padrão de vida da pessoa
87
conforme sua psicografia (atividade, interesse e opinião); personalidade e autoconceito
(autoconfiança, domínio, sociabilidade, autonomia, defesa, adaptação e agressividade).

Governança da cadeia de suprimento

Ciclo 3 Ciclo 2 Ciclo 1

Produtores Processamento Distribuição do


Rurais Agroindustrial Produto Clientes
• Madeira • Madeira
Atacado
• Carne/leite • Carne/leite
• Frutas/grãos • Frutas/grãos
• Pescado • Pescado
Varejo

Ciclo 4

Fluxo de produto
Fornecedores
• Agropecuário Fluxo de monetário
• Agroindustrial
Legislação (2T + A)
Fluxo de informação

Figura 5.1 – Estágios e fluxos da cadeia de suprimento de produtos agropecuários e florestais.

d) Fatores psicológicos: motivação (impulso que leva à decisão – Freud diz que as pessoas
não têm consciência da maioria das forças psicológicas que moldam seu comportamento e
Maslow diz que as necessidades humanas são hierarquizadas assim: fisiológicas, segurança,
sociais, auto-estima e auto-realização); percepção; aprendizado e crenças e atitudes.
Estes fatores permitem conhecer o consumidor e considerá-lo como se fosse um mercado,
para poder atendê-lo de acordo com suas necessidades. O conhecimento do cliente permite
determinar a área de comercialização dos produtos da cadeia de suprimento, que se refere ao grupo
de clientes que a empresa espera influenciar por um programa específico de vendas. Está
evidenciado, pois, que a satisfação do cliente é o coração que determina sua lealdade ao produto,
marca ou empresa. Portanto, mais que nunca, as empresas buscam conhecer o cliente, pois, ao
cativá-lo cria-se uma vantagem competitiva em relação aos concorrentes.

5.3.2 Distribuição: atacado e varejo


A distribuição dos produtos é feita por dois grandes segmentos de mercado: o atacado e o
varejo. O atacado é formado por empresas ou organizações que realizam todas as atividades ligadas
à venda de produtos ou serviços para aqueles que compram para revenda ou uso organizacional. Os
varejistas, por sua vez, são empresas ou organizações que realizam a venda dos produtos em
pequenas quantidades diretamente aos consumidores finais. Uma padaria varejista que atende a um
hotel está realizando também uma atividade de atacado.
No caso dos produtos da agropecuária, o atacado pode ser representado pelas centrais de
abastecimento – Ceasa, agroindústrias – Sadia, Perdigão, Chapecó, Frangosul, Avipal, Parmalat,
Duratex, Impacel, etc. - empresas que adquirem produtos em grandes quantidades e armazenam
88
(setor de alimentos – Bunge Alimentos, Makro) para atender aos varejistas. O Makro é uma grande
rede atacadista de distribuição de produtos do agronegócio brasileiro.
As empresas atacadistas, geralmente, lidam com grandes volumes de produtos, envolvendo
uma pauta bastante diferenciada, o que exige estudo para a localização adequada de armazéns para
viabilizar a distribuição dos produtos aos mercados varejistas. Para isso, precisam planejar
adequadamente a logística de transporte e embalagem para atender às necessidades dos clientes.

O que é o varejo?
A atividade varejista engloba todas as atividades de venda de bens ou serviços diretamente
para consumidores finais, para o seu uso pessoal, não relacionado a negócios. Embora o varejo seja
feito por lojas e pontos de venda, nos últimos anos o varejo sem lojas, que realiza a venda por
telefone, de porta-em-porta, por máquinas automáticas e E-mail, tem aumentado substancialmente.
O varejo de produtos das cadeias de suprimento agropecuárias e florestais é constituído de
feiras livres, supermercados, açougues, peixarias, estâncias, lojas de móveis, etc., que adquirem
grande quantidade de produto dos atacadistas e revendem em volumes menores diretamente aos
consumidores.
Dentre os tipos de empresas que atuam no varejo, os supermercados são os mais
importantes. O que são supermercados? São grandes lojas de baixo custo, pequena margem de
lucro, elevado volume e auto-serviço, que oferecem uma ampla variedade de produtos alimentícios
(agropecuários), produtos de limpeza e de uso domésticos, móveis de madeira e utilidades
domésticas (artefatos de madeira). Cabe observar que um supermercado também pode operar como
atacadista, quando vende em grandes quantidades para atender a clientes como restaurantes, hotéis,
mercadinhos, etc. Estes restaurantes (varejistas), por sua vez, processam as mercadorias e vendem
refeições prontas diretamente aos consumidores. O supermercado Pão-de-Açúcar é o maior comércio
varejista do agronegócio brasileiro, seguido pela rede de supermercados Bompreço.
O varejo está mais próximo dos consumidores finais, portanto, buscam conhecer os atributos
dos produtos que são desejados pelos consumidores, para desenvolverem estratégias de
propaganda, marketing, preços, de modo a ampliarem suas parcelas de mercado, vendas e seus
lucros.
São esses estágios da cadeia produtiva que respondem pela maior parcela da agregação de
valor aos produtos e, em conseqüência, pela maior parcela do PIB, lucro e emprego, como
evidenciado na introdução.

5.3.3 Processamento agroindustrial


Agroindústria é a empresa ou organização que realiza o processamento industrial dos
produtos agrícolas, pecuários, florestais e extrativos oriundos do meio rural e de seus subprodutos.
Como exemplo de agroindústria tem-se: agroindústria de polpa de frutas, processa frutas;
agroindústria ou frigorífico, abate animais e prepara a carne e subprodutos; agroindústria ou usina de
laticínio, pasteuriza o leite e fabricam outros produtos como o leite em pó, leite longa vida, queijos,
iogurte, manteiga e outros derivados do leite; agroindústria da pesca, prepara o peixe em vários
produtos como o peixe inteiro eviscerado e sem cabeça, postas de peixe, filé, peixe defumado, peixe
enlatado, embutido de peixe, etc; agroindústria do óleo, transforma o grão de soja, amendoim,
girassol, dendê e os transforma em óleo e farelo; agroindústria de arroz, descasca o arroz e produz
vários tipos de arroz, farelo e quirela; agroindústria de madeira, desdobra a madeira em tora em
tábua, vigas, compensado, laminado, portas, janelas, móveis e artefatos diversos.
Este é um exemplo da agroindústria que realiza a primeira agregação de valor ao produto in
natura, pois a partir deste ponto o produto beneficiado pode entrar em agroindústrias como matéria-
prima para a fabricação de outros produtos finais. É o caso da carne que sai do frigorífico para a
indústria alimentar, que fabrica alimentos semiprontos e prontos para comer. A agroindústria de
sorvetes e sucos de frutas prontos para beber demanda a polpa de frutas como matéria-prima.
As unidades agroindustriais são os núcleos de formação dos negócios agrícolas locais, pois
podem organizar os produtores em grupos produtivos, formando os satélites fornecedores de matéria-
prima, de modo a assegurar volume e regularidade no fluxo de produto. Neste ponto, deve-se
observar com atenção a forma de integração dos produtores às agroindústrias para que aqueles ao
89
serem aprisionados por essas não tenham desvantagens permanentes nas negociações sobre preço
e lucro da atividade.
A agroindústria planeja a cadeia para frente, identificando mercados, canais de distribuição,
logística de transporte e clientes para os produtos do setor rural. As agroindústrias, ao beneficiarem
os produtos, agregam a eles as utilidades de forma, tempo e lugar, permitindo reduzir a perecibilidade
dos produtos, a sazonalidade de produção e de preço e adequar o produto na quantidade, qualidade
e forma desejada pelo cliente. Neste segmento, a Sadia, Perdigão e Chapecó são as maiores da
cadeia de carnes, a Bunge Alimentos e a Cargil na cadeia de grãos, a Parmalat e Kraft Lacta no
segmento de lácteos, Aracruz na cadeia de papel e celulose, Duratex na cadeia de produtos de
madeira, Vicunha na cadeia de têxteis, etc., conforme classificação geral das 100 Maiores do
Agronegócio brasileiro, publicado pela revista Agroanalysis.
Isto ocorre porque tanto os produtores quanto os industriais têm objetivos em comum. Um
deles é se manter no mercado e obter lucros com a venda dos produtos. Mesmo assim, há forte
assimetria de informação entre os seguimentos de produção de processamento. A agroindústria tem
mais informação e poder de negociação do que os produtores. Portanto, os contratos de entrega
(formal ou informal) sempre favorecem o capital industrial.

5.3.4 Produtores rurais


Os produtores rurais são os agentes que de forma individual ou organizada planejam suas
atividades e assumem os riscos das decisões sobre o que e quanto produzir, como produzir e para
quem produzir. Os produtores rurais atuam nas unidades de produção rurais, que são áreas de terra
própria ou ocupada, com uma mínima infra-estrutura, onde vivem ou não com a família e realizam a
produção de grãos, carne, frutas, fibras e/ou a extração de produtos madeireiros e não-madeireiros
(ver capítulo 1).
A produção rural pode ser direcionada para o processamento agroindustrial diretamente, caso
o produtor entregue seu produto para a indústria, ou indiretamente se vende para atravessadores e
as indústrias adquirem o produto no mercado. De qualquer sorte, nos locais onde as condições de
integração estão em processo, o que ocorre é a entrega direta da produção à agroindústria seja
mediante contrato formal, compra à vista ou contrato informal. Nos dois últimos casos, não há uma
compreensão sobre os ganhos econômicos globais que a gestão da cadeia produtiva pode gerar,
uma vez que cada membro envolvido na produção ou intermediação do produto tenta, de forma
isolada, obter lucro, mesmo que à custa de outros membros da cadeia. É este o caso dominante na
região amazônica para frutas, madeira, pescado, carne, leite, grãos, etc.
A tecnologia de produção é, para grande parte dos pequenos e médios produtores,
ultrapassada e o grau de organização desses produtores é baixo, formando uma estrutura do tipo
atomizado, de modo que suas ações individuais de compra e venda não influenciam os preços do
mercado. Atuando dessa forma, cria-se uma situação em que a informação sobre o mercado torna-se
cada vez mais assimétrica em relação aos demais agentes que atuam na cadeia de suprimento. Isto,
fatalmente, leva a uma negociação que desfavorece o produtor.
Os ganhos e distribuição dos resultados que devem ser obtidos com a integração da
produção regional a processos industriais e aos mercados nacionais e internacionais estão
subordinados ao equacionamento de questões básicas como o aumento do número de
empreendedores rurais (reunir, organizar e remunerar os recursos de produção; assumir riscos;
atender as legislações ambiental e trabalhista, etc.), disponibilização de tecnologia apropriadas ao
ambiente operacional dos pequenos produtores, organização dos produtores e a infra-estrutura de
apoio.

5.3.5 Fornecedores
Os fornecedores são empresas ou organizações que ofertam insumos, bens de capital e
serviços para os produtores e as agroindústrias. Os produtos fornecidos para os produtores rurais
incluem: insumos (sementes, sêmen, adubos, inseticidas, fungicidas, herbicidas, corretivos de solo,
fertilizantes, vacinas, medicamentos, sacaria, arame, combustível, lubrificante, etc.); ferramentas e
implementos (moto-serra, enxada, foice, terçado, machado, seringa, arado, grade, arreios,
apetrechos de pesca, motor, etc.); bens de capital (trator, colhedeira, carroça, caminhão, máquina
90
forrageira, computador, impressora, etc.); serviços (energia elétrica, telefone, Internet, assistência
técnica, transporte, etc.).
Entre os fornecedores de insumos e bens de capital e embalagens para o setor produtivo
rural estão a Basf, Bunge Fertilizantes e Bayer da cadeia de produtos químicos, a John Deere da
cadeia de máquinas e equipamentos, a Random da cadeia de montagem de veículos e peças, a
Pirelli Pneus da cadeia de borracha e plástico, a Aché e Schering-Plough da cadeia de produtos
farmacêuticos e veterinários, a Vicunha de produtos têxteis, a Aracruz, Votorantim e Suzano da
cadeia de papel e celulose, a Cargil e Agroceres na cadeia de sementes, que figuram entre as cem
maiores empresas do agronegócio brasileiro.
Essas empresas são estruturadas em oligopólios, de modo que suas ações individuais
alteram os preços de mercado. Isto torna a barganha difícil, por parte dos produtores, no que se
refere aos preços dos insumos. Infelizmente, o produtor não conhece o preço de custo dos insumos,
portanto as compras efetivadas tendem a produzir um valor de excedente para o fornecedor bem
maior do que deveria ser numa situação em que as informações fossem simétricas.
Os produtos fornecidos para as agroindústrias envolvem os seguintes itens: insumos
(embalagens, aditivos químicos, corantes, etiquetas, fios, papel, cola, adesivos, tintas, vernizes,
pregos, termômetros, combustível, lubrificantes, isopor, gelo, etc.); bens de capital (máquinas,
equipamentos de precisão, balanças, computador, impressora, móveis de escritório, etc.); serviços
(energia elétrica, transporte, telefone, Internet, saúde, etc.).
Neste caso, as negociações se dão entre empresas pertencentes a oligopólios, ficando a
eficiência das transações a depender das soluções seqüenciais das barganhas efetivadas entre as
partes. O nível de informação é maior, porém continua assimétrica.

5.3.6 Legislação e regulamentação


Existem várias normas que definem a legislação que regula as atividades desenvolvidas
pelos agentes de cada estágio da cadeia produtiva. Dessas normas, as de influência diretas são as
que definem a legislação trabalhista e a tributação dos produtos e insumos ao longo da cadeia
produtiva. Mais recentemente ganharam peso as normas ambientais, que se transformaram em
requisitos indispensáveis aos processos produtivos e aos produtos destinados aos mercados
internacionais.
As legislações trabalhista e ambiental, dada a sua maior fiscalização e interesse da
sociedade, estão causando impacto positivo junto às instituições empregadoras e processadoras de
produtos agropecuários e florestais, tendo algumas organizações implementado as normas da série
ISO 9000 (qualidade total de produto e processo) e ISO 14000 (qualidade ambiental) e algumas
outras estão implementando as normas da série IBD (Instituto Biodinâmico – que certifica processos
de produção orgânicos no Brasil) para produtos orgânicos.
Atualmente, qualquer projeto de implantação de agroindústria tem que constar o estudo de
impactos ambientais. E o cumprimento de todos os requisitos de proteção ao meio ambiente pode
render dividendo na venda dos produtos, uma vez que os produtos podem ser vistos como
diferenciados por parte dos consumidores. Da mesma forma, os produtos oriundos de processos que
atendem a todos os requisitos da legislação trabalhista, e quando envolve a distribuição de benefícios
às comunidades pobres (emprego, saúde, educação) os produtos podem incorporar o selo social e
serem comercializados como produtos diferenciados, principalmente, nos mercados internacionais.
As Delegacias Regionais do Trabalho, vinculadas ao Ministério do Trabalho, estão na busca
de eliminar o problema do trabalho escravo e de semi-escravidão nas fazendas de pecuária,
exploração de madeira para carvão e agricultura, principalmente no Estado do Pará, onde
ocorrências recentes aviltam o problema. Este esforço contribui para regulamentar o uso da força de
trabalho, para a remuneração da mão-de-obra e assegurar os direitos trabalhistas associados com o
pagamento dos encargos sociais, que garantem fundos para aposentadoria. Além disso, as unidades
empregadoras livram-se da acusação de prática de dumping nas principais atividades produtivas
brasileiras, justamente pelo fato da baixa remuneração da força de trabalho.
Na mesma direção deve-se avançar no processo de organização da produção, para regular o
processo de distribuição da terra e assegurar o direito de posse e uso dos recursos naturais. Isto
exige o equacionamento dos problemas de assassinatos de lideranças rurais, o que tende a fragilizar
o processo de integração agroindustrial da região amazônica. Observa-se que a implementação e
91
gestão de cadeias produtivas não é uma decisão trivial, recorre-se a uma política clara para orientar o
desenvolvimento regional.
O passo seguinte é fazer a descrição dos fluxos da cadeia de suprimento. Estes fluxos
respondem pela dinâmica das negociações que se realizam entre os agentes de cada segmento da
cadeia de suprimento, ao longo dos canais de distribuição que vai da fabricação do produto aos
consumidores finais. Assim, inicialmente, passa-se a compreender um pouco sobre a dinâmica
operacional dos canais de distribuição de produtos e serviços.

5.4 CANAIS DE DISTRIBUIÇÃO OU REDE DE DISTRIBUIÇÃO

Deve-se ter em vista que o estudo da cadeia de suprimento engloba a gestão das atividades
de transformação de matérias-primas em produtos intermediários e produtos finais, e que fazem a
entrega desses produtos aos clientes. Portanto as atividades da cadeia de suprimento envolvem as
compras, manufatura, logística, distribuição, transporte e marketing. E todas essas operações se
realizam ao longo dos canais de distribuição. As empresas que participam do canal de distribuição
representam os nodos da rede e suas relações comerciais e/ou organizacionais formam as ligações
que conectam os nodos da rede, cuja dinâmica operacional é movida pelos fluxos de produto,
monetário e de informação. Em função disso, os canais podem ser considerados como redes de
distribuição, pois a base teórica de suporte é a mesma.
O Canal de distribuição faz a ligação entre o produtor e o consumidor, superando as
principais lacunas de tempo, lugar e posse que separam os bens e serviços daqueles que desejam
utilizá-los. Os agentes participantes do canal de distribuição desempenham as seguintes funções:

a) Informação: coletar dados, processar e distribuir informações proporcionadas pela pesquisa


e pela inteligência de marketing sobre os atores e forças do ambiente competitivo das
empresas e participantes da cadeia para planejar e para facilitar a transação.

b) Promoção: desenvolver e distribuir comunicações persuasivas sobre uma oferta dos


produtos da cadeia de suprimento.

c) Contato: encontrar e comunicar-se com compradores potenciais dos produtos da cadeia de


suprimento.

d) Adaptação: modelar e adaptar a oferta às necessidades do comprador, inclusive atividades


como fabricação, montagem e embalagem.

e) Negociação: chegar a um acordo sobre preço, quantidade e outras condições da oferta para
que a propriedade ou posse possa ser transferida.

f) Distribuição física: transportar e armazenar os produtos, segundo as necessidades dos


agentes participantes dos estágios da cadeia de suprimento.

g) Financiamento: obter e alocar os recursos necessários para cobrir os custos do trabalho,


armazenamento e comercialização do produto, ao longo do canal.

h) Riscos: assumir os riscos de executar o trabalho do canal.


Os canais de distribuição ou de comercialização podem ser descritos de acordo com o
número de níveis contemplados. Cada conjunto de intermediários que executam alguma tarefa para
tornar os produtos acessíveis aos consumidores finais é um nível do canal. Como o fabricante
(produtor ou empresa) e o consumidor final executam algum trabalho, eles fazem parte de todos os
canais de comercialização. Os níveis de intermediários são empregados para determinar a extensão
de um canal de distribuição.
O canal direto não tem níveis de intermediários, consiste da venda direta do produtor ou
empresa fabricante do produto para o consumidor. Exemplo, o produtor que produz hortaliças, leite,
ovos, peixe e frutas e entrega diretamente ao consumidor; empresas que vendem por e-mail como a
amazon.com e as empresas que vendem seus produtos porta a porta, como é o caso da Avon
(canal 1 da Figura 5.2).
92
Os demais canais da Figura 5.2 são canais de distribuição indiretos. O canal 2 tem apenas
um nível de intermediário. O produtor que entrega o produto para feirantes ou supermercados, que
constituem o varejo, serve de exemplo de um canal com apenas um nível de intermediário. O canal 3
contém dois níveis de intermediários, um atacadista e um varejista. Esse canal é geralmente utilizado
por pequenos produtores que entregam o produto para uma agroindústria, esta processa e distribui
para os atacadistas e estes para os varejistas. É o canal praticado pelos pequenos fabricantes de
alimentos, medicamentos, ferramentas, etc. O canal 4 contém três níveis de intermediários. Na
produção de carne empacotada para a indústria de fast food, a carne sai do frigorífico (atacado), para
a indústria de beneficiamento e empacotamento e, depois, se destina ao varejo.
Do ponto de vista do produtor, quanto maior o número de níveis, menor o seu controle e
maior a complexidade exigida para a sua gestão. Isto significa menor visualização da demanda real e
maior sujeição ao efeito chicoteamento,(bullwhip effect) ou seja, as falhas de previsão da demanda
real leva a erros de planejamento na distribuição de produtos ao longo do canal de distribuição,
induzindo a excesso e/ou escassez de produto.

Canal 1 Produtor Consumidor

Canal 2 Produtor Varejista Consumidor

Canal 3 Produtor Atacadista Varejista Consumidor

Canal 4 Produtor Atacadista Atravessador Varejista Consumidor

Figura 5.2 – Canais de distribuição de produtos diretos e indiretos.

No caso de um canal de distribuição linear, como o Canal 4, e assumindo que o suprimento


do produto vem exclusivamente das empresas situadas no nível imediatamente a montante, pode-se
ilustrar claramente o efeito chicoteamento da cadeia. Nesse canal, os agentes finais (aqueles
situados no final da extremidade à jusante – consumidores) geram a demanda para a última empresa
do canal (varejista). Todavia, para empresas mais a montante no canal, a demanda é uma
compilação de ordens das empresas a jusante. Distorções na informação de demanda real ocorrem à
medida que se avança na direção de pontos mais distantes do cliente final ao longo da cadeia de
suprimento. Neste percurso, tanto a sazonalidade percebida da demanda quanto os erros de previsão
podem aumentar. Assim, uma pequena variação ou flutuação sazonal na demanda real do cliente
pode acionar o chicote para fornecedores à montante, levando-os a alternar entre situações de
superprodução e de ociosidade.
Portanto, o efeito do chicoteamento refere-se ao fenômeno onde:
• Os pedidos para o membro a montante na cadeia de suprimento exibem uma variação maior
que os pedidos reais no ponto-de-venda de varejo, representando distorção da demanda;
• A variação dos pedidos aumenta à medida que se move a montante, que é o caminho de
propagação da variação.
Em ambientes operacionais de cadeias produtivas como a economia brasileira e, particularmente,
da Amazônia, diversos fatores contribuem para que o fenômeno do chicoteamento esteja
presente:
• Distâncias geográficas substanciais separam os elementos da cadeia;
• Dificuldade de previsão nos mercados local, regional, nacional e internacional para os
produtos da cadeia;
93

• Flutuações nas taxas de câmbio, juros, inflação e outras incertezas macroeconômicas que
afetam as decisões dos agentes ao longo da cadeia;
• Inadequação e insuficiências infra-estruturais como mão-de-obra qualificada, disponibilidade
e qualidade dos suprimentos de insumo e matéria-prima, falta de equipamento de processo e
tecnologia local, logística de transporte e telecomunicação inadequados, falta de informações
sistematizadas;
• Grande variedade de produtos de maior valor agregado em mercados globais, ameaçando as
ofertas locais.
Esses fatores geram as causas comportamentais de acionamento do efeito chicoteamento,
pois informações distorcidas de uma extremidade da cadeia de suprimento para outra leva a
ineficiências, estoques excessivos, clientes insatisfeitos, receitas perdidas e programas de produção
ineficazes.
Nos produtos de grandes indústrias, a distribuição pode ser feita por meio de seus
representantes e filiais que vendem através de organizações de distribuidores, formando redes bem
articuladas aos nodos. Todas essas instituições participantes do canal de distribuição são interligadas
por vários fluxos: fluxo físico de produto, fluxo de propriedade, fluxo de pagamento, fluxo de
informações e fluxo promocional. Esses fluxos são dinâmicos e podem se tornar complexos até
mesmo para os canais com poucos níveis de intermediação.
Note que estes canais se enquadram bem na ilustração dos produtos agropecuários e
extrativos da Amazônia. Tenha sempre em mente que um mesmo produto pode ser distribuído,
utilizando vários canais de distribuição, pertencente a uma mesma rede ou a redes distintas de
distribuição de produtos, de acordo com o grau de agregação de valor ao produto e de integração
contratual dos agentes intermediários. Observe, ainda, que o canal de distribuição é um processo de
agregação de valor ao produto que se destina ao consumidor final, ou seja, em cada nível de
intermediação é adicionado um valor ao produto, referente aos custos, riscos e margem de lucro do
agente intermediário.
Nestes canais podem ocorrer dois tipos de conflitos: conflito horizontal e conflito vertical.
O conflito horizontal ocorre entre empresas no mesmo nível do canal. O conflito vertical, mais comum,
ocorre entre diferentes níveis do mesmo canal.
O conflito horizontal se dá na concorrência dentre empresas rivais, produtora de produtos
substitutos próximos e que se destinam a um mesmo mercado. Os conflitos se materializam na
concorrência de preços, conquista de clientes, esforço de vendas e ampliação da parcela de
mercado. Muitas vezes a solução para esse tipo de conflito se dá com o estabelecimento de alianças
cooperativas, mediante fusão, incorporação, acordo de vendas, etc. Há também conflitos entre
produtores de um mesmo produto com atravessadores, que levam a se organizarem em associações,
cooperativas de produção e comercialização, etc.
O conflito vertical, geralmente, nasce da integração entre produtores e agroindústria, para
fornecimento de produtos e/ou prestação de serviços e fornecimento de insumos. O não cumprimento
de itens acordados ou estabelecidos em contrato leva a conflitos entre as partes e fragiliza as
conexões da rede de distribuição. Um dos fatores muito comum que leva a conflito entre produtor
(integrado) e agroindústria (integrador) é a prática de comportamento oportunista por uma das partes.
Isto ocorre quando o produtor se compromete a fazer entrega regular, com exclusividade, de sua
produção para a agroindústria e esse só entrega parte da produção e destina a outra parte para
compradores diferentes, com vistas a obter resultado diferente a seu favor. Isto ocorre muitas vezes
por discordância quanto a preço. Exemplo: os produtores de maracujá comprometidos a entregarem
sua produção a Amafrutas, desviam facilmente parte da produção para outros compradores,
mediante oferta de um pequeno prêmio (diferencial de preço). É comum marchante retirar gado dos
currais de um frigorífico para outro frigorífico que cobra um preço menor para abater os animais. Os
pescadores que acordam entregar dada quantidade de peixe por mês a um frigorífico, geralmente
chega com quantidade menor ou falha na entrega em função de desviar parte da produção para
intermediários que oferecem uma pequena diferença de preço pelo produto. Este é um gargalo difícil
de remoção nas cadeias produtivas da Amazônia.
Da mesma forma a agroindústria pode não assegurar a compra total da produção ao preço
estabelecido em acordo ou contrato. Esta prática é comum no período da safra dos produtos
regionais, dada a grande oferta. Algumas agroindústrias terceirizam operações, como é o caso das
agroindústrias de frango, que terceirizam a entrega de insumos, pinto de um dia e recolhimento dos
94
frangos ao final da engorda. Muitas vezes as empresas terceirizadas não honram os compromissos e
recolhem os frangos com atraso, causando prejuízo aos produtores.

5.4.1 Sistema vertical dos canais de distribuição


Os canais de distribuição sempre foram coleções soltas de empresas independentes, todas
demonstrando pouca preocupação com o desempenho geral do canal de comercialização de seus
produtos. Esses canais convencionais de distribuição, ainda comum na agropecuária regional, não
tinham liderança forte e foram prejudicados pelos conflitos e desempenho fracos. Atualmente, na
Amazônia, a desorganização dos canais de distribuição constitui um grande problema para a
integração vertical da produção.
A Figura 5.3 apresenta os dois tipos de estrutura de canal de distribuição: canal convencional
de distribuição e o sistema vertical de distribuição.
O canal convencional de distribuição consiste de um ou mais produtores ou empresas
fabricantes de produtos, atacadistas (agroindústria, central de abastecimento, atacadista distribuidor)
e varejistas (feiras livres, supermercados, lojas). Cada um desses agentes encara seu negócio como
um evento separado, buscando maximizar seus próprios lucros, ainda que à custa do lucro do
sistema como um todo. Nenhum membro do canal de distribuição tem controle sobre os demais
membros e não existem meios formais de definir papeis e resolver conflitos do canal. O canal não
forma uma conexão em rede, porque faltam os elementos de ligação entre os agentes (acordos,
parcerias, alianças).

Canal convencional de Canal vertical de distribuição


distribuição CVD – Modelo Funcional

Produtor
Produtor
Minimizar o custo

Atacadista Atacadista

Varejista
Varejista

Consumidor Consumidor

Figura 5.3 – Canal de distribuição convencional versus sistema de distribuição vertical ou integrado.

a) Exemplo 1: o produtor de açaí entrega o produto para intermediários e estes para outra rede
de intermediários a serviços ou não de atacadistas, daí o produto se destina às quitandas
(batedeira), supermercados ou agroindústrias de beneficiamento da fruta. A polpa, se
processada nas batedeiras ou nos supermercados é vendida diretamente para os
consumidores. Se processada nas agroindústrias (atacado), a polpa segue para os agentes
distribuidores da própria empresa ou é distribuída para os supermercados diretamente. Cada
95
membro do canal opera de forma isolada, dificultando a identificação dos gargalos e a
solução de conflitos horizontal e/ou vertical.
b) Exemplo 2: o pescador entrega o produto para intermediários e estes para os frigoríficos,
onde o produto é beneficiado, resultando em peixe inteiro eviscerado com e sem cabeça,
postas de peixe, filé de peixe, todos congelados. Esses produtos são destinados a outras
agroindústrias de beneficiamento onde é feitos o espetinho de peixe, o empanado de peixe,
peixe defumado, peixe enlatado, etc. Tais produtos são entregues a supermercados,
diretamente ou por meio de distribuidores, para a venda direta a restaurantes, hotéis e aos
consumidores. Nesta cadeia, predomina o comportamento oportunista, em que os
pescadores geralmente desviam o produto para o intermediário que oferece um maior prêmio
pelo produto, sem embargo dos compromissos assumidos para entrega do produto a outro
intermediário ou cliente. Como no caso do açaí, cada membro da cadeia age de forma a
maximizar seu próprio lucro, sem levar em consideração o objetivo maior de conseguir o
desempenho conjunto de toda a cadeia de suprimento.
Os canais de distribuição são temas que mereceram o desenvolvimento teórico de diferentes
escolas. Existem pelo menos três visões distintas: a utilidade do consumidor, o modelo de
postergação e especulação e a funcional (desenvolvida neste texto).
O modelo de utilidade do consumidor usa noções de mix de marketing e se baseia em
paradigmas microeconômicos, cujo ponto focal está na busca de equilíbrio entre o mercado e a
alocação de recursos. A análise do canal de distribuição é feita com base no comportamento das
variáveis de marketing 4P: preço, produto, promoção e posição. O objetivo é minimizar os custos e
serviços ao longo do canal de distribuição integrado verticalmente (Figura 3).
O modelo de postergação e especulação desenvolve uma análise da margem intermediária,
que está associada ao grau de risco relacionado ao ganho especulativo dos agentes participantes do
canal, ou seja, elege-se o canal ou a combinação de canais em que o risco da especulação é menor.
A visão do modelo funcional relaciona-se com os modelos interorganizacionais que se
focam nos mecanismos que regulam as relações entre as organizações. A unidade de estudo pode
ser uma função desenvolvida no canal (marketing, produção e logística), o canal em sua totalidade,
uma díade (pares tais como produtor e agroindústria, agroindústria e distribuidor, ou distribuidor e
cliente), tríades (vários produtores, uma agroindústria e vários varejistas), ou uma seção do canal em
sua relação com o ambiente competitivo externo (empresas do canal e legislação tributária,
ambiental, câmbio, relações trabalhistas, etc.). Este modelo pressupõe a criação da rede de
distribuição dos insumos, produtos e serviços entre os agentes de um elo e/ou entre os elos da
cadeia de suprimento.
Como apresentado na Figura 5.3, a estrutura do canal, sob a ótica funcional, assume as
seguintes características:
• Comprimento: número de intermediários do canal, ou número de nodos da rede (Figura 2);
• Largura: um ou vários intermediários em dado estágio do canal de uma área geográfica definida.
Cada intermediário constitui uma distribuição exclusiva ou ponto da rede; alguns intermediários
criam uma distribuição seletiva, ramo da rede; muitos intermediários criam uma distribuição
intensiva, ou formam o tecido da rede de distribuição;
• Multiplicidade: número de tipos de canais que são empregados para levar o produto da origem
de fabricação até o consumidor final (Figura 5.2).
O sistema vertical de distribuição – SVD consiste de produtores e empresas, atacadistas e
varejistas agindo como um sistema unificado. No SVD, um membro do canal de distribuição poder ser
o dono dos demais, pode ter contratos com eles, ou ter poder suficiente para manter todos os demais
membros cooperando. Assim, o SVD pode ser dominado pelo fabricante (produtor), atacadista ou
varejista. O SVD surgiu para controlar o comportamento dos canais e administrar os conflitos.
Há basicamente três tipos de SVD: o SVD corporativo em que a coordenação e
gerenciamento dos conflitos são alcançados por meio de propriedade comum em diferentes níveis do
canal; o SVD contratual que é alcançado por meio de acordos contratuais entre os membros do
canal de distribuição; e o SVD administrado em que a liderança do canal é assumida por um ou
poucos membros dominantes do canal de distribuição.
96
SVD Corporativo ou rede topdown: Este SVD incorpora estágios sucessivos de produção e
distribuição sob um único comando. É o caso em que uma grande empresa controla a produção e
venda da maior parte dos produtos. Por exemplo, os produtos (cimento, papel) do grupo Votorantin
são produzidos e distribuídos por empresas sob seu controle. Ambev, que reúne a distribuição de
cervejas de várias marcas, unidas por uma organização central, resultado da fusão de três grandes
empresas de cerveja (Antarctica, Brahma e Skol), 2ª posição no ranking das 100 maiores empregas
do agronegócio brasileiro.
SVD Contratual: Consiste de empresas independentes situadas em diferentes níveis de
produção e distribuição, que se juntam por meio de contratos visando a obter uma maior economia de
escala, maior parcela de mercado ou maior impacto sobre as vendas do que obteriam atuando de
forma isoladas. Este sistema que se expandiu rapidamente nos últimos anos, pode ser de três tipos:
redes voluntárias patrocinadas por atacadistas, cooperativas de varejistas e franquias. No Brasil, o
primeiro e o terceiro se destacaram.
As redes voluntárias patrocinadas por atacadistas são os sistemas em que os atacadistas
organizam as redes de varejistas independentes para ajudá-los a concorrer com grandes redes. O
atacadista cria um programa no qual pequenos varejistas independentes padronizam suas práticas de
venda e conseguem economias de compras de forma a permitir o grupo competir com as grandes
redes varejistas de forma mais eficiente.
Exemplo 1: grupo comércio por atacado Makro ocupa a 23ª posição no ranking das 100
maiores empregas do agronegócio brasileiro. Além de vender para grandes redes, abastece
pequenos varejistas em condições de concorrência em locais definidos onde as grandes redes teriam
custos mais elevados.
Exemplo 2: A distribuição dos produtos das grandes empresas de produtos alimentares
como a Sadia, Perdigão e Parmalat que alocam seus produtos para as redes de supermercados e
realizam propaganda e marketing regionalizado para anunciar seus produtos e diferenciá-los dos
demais produtos da concorrência.
Cooperativa de varejistas: são sistemas em que os varejistas organizam uma entidade
comercial conjunta para cuidar das compras e até da produção de alguns itens. Isto é um tipo de
organização que poderia ser exercitado por feirantes.
Franquia: é um sistema no qual um membro do canal chamado franqueador une vários
estágios do processo de produção e distribuição. A franquia tem sido a forma mais rápida de
crescimento do varejo em todo o mundo nos últimos anos. Quase todos os tipos de negócios têm
franquias – de hotéis, restaurantes, fast food, centros odontológicos, escolas de informática, agências
funerárias, academias de ginástica e remédios.
Neste sistema, a empresa produtora e dona de uma marca ou franqueadora passa o know
how de produção, a marca do produto, os serviços de apoio para a empresa franqueada que faz um
investimento mínimo, paga um retorno por essa concessão e se encarrega de cumprir as regras
estabelecidas em contrato. Isto ocorre com freqüência entre as empresas de alimentos (McDonald’s,
pão de queijo de Minas Gerais em Belém). Os benefícios deste sistema se incorporam por meio do
aumento da economia de escala de marketing, do lado da demanda, e de tecnologia, do lado da
oferta.
SVD Administrado
Coordena sucessivos estágios de produção e distribuição, não através de posse comum ou
laços contratuais, mas através do tamanho e poder de uma das partes. Os fabricantes de uma marca
líder podem obter forte cooperação e apoio dos revendedores. Exemplo: marca Sadia, 5ª maior
empresa no ranking das 100 maiores empresas do agronegócio brasileiro. O caso reverso se dá
quando o varejo passa a coordenar vários estágios do canal, como são os casos do Pão de Açúcar e
Carrefour que administram alguns canais de produção de carne, frutas e produtos orgânicos nas
regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. O mesmo fenômeno está ocorrendo no Estado do Pará,
com as principais redes de supermercados coordenando os canais de distribuição de carne bovina,
peixe e hortaliças.

5.5 PLANEJAMENTO DO CANAL DE DISTRIBUIÇÃO


Na gestão de um canal de distribuição, as operações representam um processo de
planejamento e controle de um fluxo físico e de informações efetivo e eficiente em custo, do ponto de
97
origem (produtor) até o ponto de consumo (consumidor), para atender às necessidades dos clientes.
Portanto, o planejamento visa definir quais são os melhores canais de distribuição do produto e não é
tanto o problema; o problema é simplesmente saber como convencer um ou mais intermediários bons
a aceitarem trabalhar com a sua linha de produtos.
Os canais de distribuição podem ser considerados sistemas de oferta de valor para o
consumidor, em que cada membro do canal acrescenta mais valor para o consumidor. Assim, o
sucesso da empresa depende não apenas das suas próprias ações mas também da forma como o
canal inteiro compete com os canais de outras empresas.

5.5.1 Logística de distribuição


A logística compreende a gestão de fluxos entre funções de negócios. A distribuição física
envolve o planejamento, implementação e controle do fluxo físico de insumos, matérias-primas,
produtos finais e informações correlatas dos pontos de origem até os pontos de consumo, de modo a
atender às exigências dos clientes a um dado nível de lucro. A satisfação do cliente se consolida
quando a empresa (produto) atende a um conjunto de expectativas do cliente tais como
disponibilidade do produto, confiabilidade de entrega, tempo de entrega, suporte e qualidade.
A logística engloba não apenas os problemas de distribuição para fora (levar os produtos e
matérias-primas da fábrica ao consumidor) como também o problema da distribuição para dentro
(levar produtos e matérias-primas dos fornecedores até a fábrica). Envolvem o gerenciamento de
redes de fornecimento e fluxos acrescidos de valor dos fornecedores aos clientes finais. Essas
atividades de distribuição incluem previsão, sistema de informação, compras, planejamento de
produção, processamento de pedidos, estoque, armazenamento e planejamento de transporte.
O ponto fundamental do planejamento de logística de transporte é estudar os serviços de
distribuição que os consumidores esperam dos fornecedores, que inclui:
• Processamento rápido dos pedidos;
• Entrega pontual e flexível;
• Seleção e identificação da mercadoria;
• Informação sobre o andamento dos pedidos;
• Aceitação de devoluções ou substituição de produtos defeituosos.
Assim, um serviço de alta qualidade exige o atendimento aos seguintes requisitos: entrega
rápida, grandes estoques, sortimentos flexíveis e política liberal de devolução. Isto conflita com a
busca de obter custo mínimo que requer entrega lenta, estoque pequeno e expedição de maior
volume de mercadorias por vez. Portanto, a solução recai num problema de otimização condicionada.

5.5.1.1 Transporte
Deve-se dar muita atenção às decisões da empresa quanto a transporte. A escolha do meio
de transporte afeta o apreçamento do produto, a eficiência da entrega e a condição dos produtos ao
chegarem ao seu destino, sendo que tudo isto afeta a satisfação do cliente.
Ao expedir os produtos para os armazéns, revendedores ou consumidores, a empresa pode
escolher entre cinco meios de transporte: ferroviário, marítimo ou fluvial, rodoviário, aéreo ou por
dutos. O Quadro 5.1 resume as principais características e adequação desses meios de transporte.
O transporte ferroviário é um dos mais eficientes para a expedição de produtos a granel por
grandes distâncias (Quadro 5.1). Atualmente ganhou nova dinâmica com a adaptação de vagões
planos para receber carretas com caminhões e prestar serviços em trânsito para clientes. A grande
desvantagem ainda é a baixa flexibilidade de transporte.
O transporte rodoviário é o mais importante no mercado de transporte de cargas brasileiro.
Este meio de transporte responde pela expedição de cargas entre e dentro das cidades. A grande
vantagem é a flexibilidade em termos de rotas, programação de tempo e transporte de porta a porta.
São muito eficientes para transportar cargas pequenas com mercadorias de alto valor e responde
pela quase totalidade do transporte de safras agrícolas internas no Brasil.
98
Quadro 5.1 – Características e adequação dos principais meios de transporte de cargas de produtos
da cadeia de suprimento.

Meio de transporte Produtos tipicamente transportados

Ferroviário Produtos agrícolas, madeira, minérios, produtos químicos, automóveis.

Rodoviário Roupas, alimentos, livros, computadores, produtos de papel, produtos


agrícolas.

Marítimo ou fluvial Petróleo, grãos, madeira, areia, cascalho, minério de ferro, carvão.

Por dutos Petróleo, gás, carvão, produtos químicos e minérios.

Aéreo Instrumentos técnicos, produtos perecíveis, documentos.

O transporte fluvial ou marítimo transporta grande quantidade de produtos na Amazônia, por


meio de barcaças pelos rios da Amazônia (rio Tapajós, rio Madeira, rio Tocantins, rio Amazonas) e
navios na costa brasileira. A quase totalidade das exportações brasileiras é transportada por navios.
O transporte por dutos no Brasil se restringe, basicamente, ao transporte de gás, produtos
derivados do petróleo e minérios.
O transporte aéreo, em função do custo do frete elevado, é empregado para expedir
pequenas cargas de alto valor agregado. Na Amazônia, os principais mercados ainda são
abastecidos de hotifrutigranjeiros, em função de serem produtos perecíveis e não produzidos em
quantidade e em qualidade no mercado local, são transportados de avião.
A combinação de alguns modais de transporte é importante para diminuir o custo do produto
para o consumidor. Na Amazônia, dada a dotação natural de rios navegáveis, a combinação do
modal rodoviário ou ferroviário com o modal fluvial para transportar minérios, grãos e produtos
agrícolas processados constitui a principal oportunidade para o agronegócio regional se interligar aos
mercados regional, nacional e internacional.
Atualmente, a logística de transporte de grãos que é adotada por grandes empresas
exportadoras de grãos como Cargil e Maggi, envolve o transporte do produto por meio rodoviário
(caminhões) de áreas do Mato Grosso (cerca de 20% da produção) e Rondônia até Porto Velho
(distância entre 500 e 600 km), daí o produto passa para grandes barcaças que navegam o rio
Madeira e o rio Amazonas até Itacoatiara no Estado do Amazonas (grupo Maggi) ou navegam o rio
Madeira e o rio Tapajós até Santarém, no Estado do Pará. Nestes pontos o produto é beneficiado e
armazenado. Depois carrega os navios que levam a produção para os mercados nacional e
internacional. Portanto, a logística de transporte combina os modais rodoviário, fluvial e marítimo para
escoar a produção regional. Este, talvez, seja o principal gargalo das cadeias de suprimento da
região amazônica.

5.5.2 Fluxos da cadeia de suprimento


Quantos e quais são os fluxos da cadeia de suprimento?
As cadeias de suprimentos são movidas por meio dos três fluxos descritos abaixo:
a) Fluxo de produto, movido pela logística de transporte
b) Fluxo monetário, contrapartida em dinheiro do fluxo de produto.
c) Fluxo de informação.
Estes fluxos respondem pela dinâmica estabelecida entre os diferentes estágios que integram
cada cadeia de suprimento.
a) Fluxo de produto
O fluxo de produto envolve o planejamento e gestão das atividades de fornecimento dos
insumos, bens de capital e matérias-primas para as unidades processadoras e produtos
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intermediários e finais ao longo da cadeia de suprimento. A sua configuração e operacionalidade
estão vinculadas ao desenho do canal de distribuição e atuação da logística de transporte, já
descritos anteriormente.
Este fluxo, para funcionar adequadamente, precisa operar em grande sintonia com o fluxo de
informação. Inicialmente é necessário determinar a quantidade demandada por insumos, matérias-
primas e produtos finais exigido por cada estágio da cadeia de suprimento. Com base na demanda
real de um produto em cada estágio da cadeia de suprimento, planeja-se a oferta, elege-se o canal
de distribuição e o meio de transporte mais eficiente, no sentido de otimizar as necessidades dos
clientes ao menor custo para o fornecedor.
Assim, se a demanda final de um produto é de 100 unidades por mês, o varejo deve cuidar
para que este produto esteja sempre disponível nesta quantidade. Para que isto se concretize, o
atacado deve ter em estoque quantidade suficiente para atender aos pedidos do varejo. Por sua vez,
as agroindústrias para fabricar essa quantidade de produto necessitam de que os fornecedores
entreguem a quantidade exata de matéria-prima com a qualidade exigida e no tempo estipulado. Se
houver qualquer erro no dimensionamento da demanda final, para mais ou para menos, pode haver
excesso (escassez) de produto em algum ponto da cadeia, causando oscilação de preços, dos
custos, riscos e incertezas, que culmina em prejuízo para os membros da cadeia.
Em função disso, a disponibilidade e qualidade da informação gerada para guiar o fluxo de
produto é de grande importância para o desempenho de todas as atividades da cadeia.
b) Fluxo de informação
O fluxo físico de informação está se tornando uma ferramenta cada vez mais importante para
a gestão das cadeias de suprimento. A complexidade dos sistemas de gestão do fluxo monetário e de
produto da cadeia de suprimento coloca forte demanda no sistema de informação. A tendência que
vem de muitos anos é investir crescentes somas em processamento de dados, sistemas de
informação e recursos de telecomunicação para gerenciar o fluxo físico.
Além disso, os clientes esperam e exigem que os fornecedores sejam capazes de fornecer
informações logísticas atualizadas, tais como preços, situações de produtos e de pedidos. Demais
disso, o sistema de informação deve permitir o monitoramento das operações físicas, comerciais e
financeiras do fluxo monetário e do fluxo de produto de modo que responda em tempo real a objetivos
estratégicos e às restrições operacionais da cadeia de suprimento.
Sendo assim, o sistema de informação logística (logistics information system – LIS) tem o
objetivo de contínua e sistematicamente coletar, analisar e distribuir informações relevantes sobre o
mercado e sobre os indicadores de desempenho das empresas de cada elo da cadeia de suprimento
para detectar problemas, identificar oportunidades e ajudar o processo de decisão dos membros da
cadeia. Para monitorar o fluxo al longo de toda a cadeia de suprimento, o sistema de informação deve
apresentar as seguintes características:
• Coleta os dados básicos de forma contínua (dados de fluxo como performance financeira da
empresa, comportamento do concorrente) e periódica (estoque, preço, novos produtos,
gostos dos consumidores), por meio de processo sistemático para assegurar confiabilidade e
precisão às informações;
• Transfere os dados para os centros de tratamento e processamento;
• Armazena os dados e os processa em informações úteis;
• Armazena a informação e as transfere aos usuários na forma de relatório e indicadores de
fácil entendimento.
As informações coletadas no sistema de informação satisfazem aos objetivos de
monitoramento do fluxo de produto e podem ser utilizadas para:
• Prever, antecipar e planejar aspectos relevantes dos fluxos da cadeia de suprimento;
• Garantir que as operações podem ser rastreadas no tempo e que os produtos podem ser
localizados;
• Controlar e relatar as operações completadas.
Além disso, o LIS deve possibilitar análises do tipo SWOT, sigla das iniciais das palavras em
inglês: Strenght (força, ponto forte), Weakness (fraquezas, ponto fraco), Oportunity (oportunidade) e
100
Threats (ameaças) ou matiz FOFA (ponto Forte, Oportunidade, ponto Fraco e Ameaça), para apoiar a
empresa no monitoramento contínuo do negócio e no desenvolvimento de estratégias competitivas
sustentáveis.

5.5.3 Matriz FOFA (SWOT) de planejamento

A matriz SWOT contempla a análise da empresa em dois ambientes de sua arena competitiva:
ambiente interno ou ambiente microeconômico - pontos fortes e pontos fracos (SW); ambiente
externo, envolvendo variáveis nos níveis macroeconômicos, meso e metaeconômico na ótica da
competitividade sistêmica – oportunidades e ameaças (OT).
Pontos fortes: as empresas devem continuamente avaliar suas próprias forças e fraquezas. A
empresa está comparando-se com seus concorrentes. Assim, os pontos fortes correspondem às
vantagens competitivas que têm em relação aos concorrentes. Quais os pontos fortes que os clientes
percebem na empresa? (preço mais competitivo, melhor serviço, variedade maior, número de lojas,
etc. para as empresas do atacado e varejo). Na produção, os concorrentes enxergam como pontos
fortes as condições dos fatores produtivos (capacidade empresarial, mão-de-obra qualificada, salários
baixos, terra apropriada e barata, clima, água, informação, etc.), organização e localização da
produção, tamanho do mercado, condições de transporte, poder de compra do consumidor. Este
aspecto constitui, com a exceção de alguns fatores (mão-de-obra qualificada, organização da
produção, tamanho do mercado local, transporte, poder de compra do consumidor), ampla
possibilidade para as empresas regionais aproveitarem tais recursos na criação de vantagem
competitiva em quase todas as cadeias produtivas da Amazônia.
Pontos fracos: a identificação dos pontos fracos exige pesquisa detalhada da empresa com o
objetivo de identificar pontos de estrangulamentos a serem melhorados, sem estimular a rivalidade
interna. Deve-se observar que os pontos fracos da empresa, em tese, correspondem a pontos fortes
dos concorrentes. No que os concorrentes são melhores (preços, promoções, instalações, serviços,
comunicação, departamentalização, armazenamento, etc. para as empresas varejistas e atacadistas).
Na produção são as disponibilidades de fatores produtivos (preço da terra, salários, qualificação da
mão-de-obra, tecnologia, etc.), impostos, base industrial, custo de transporte, mercado, localização.
Estes fatores afetam todas as cadeias produtivas da Amazônia, implicando em desvantagem
competitiva.
Oportunidades: correspondem as possibilidades de mercado em que a empresa pode obter
resultados lucrativos. Podem consistir de novos mercados, novos produtos, produtos diferenciados,
infra-estrutura de apoio, linhas de crédito específicas, mudanças de estratégias para vencer o
concorrente, etc. Interessa saber sobre quais as tendências de mercado e de política econômica que
beneficiam a empresa. Estratégias para atrair novos clientes e conquistar novos mercados. Observar
se existem recursos para aproveitar as oportunidades que se apresentam. Na Amazônia, as
oportunidades para as cadeias de suprimentos locais estão na implementação de grandes empresas
de beneficiamento e processamento dos produtos, nos investimento governamentais em infra-
estrutura de transporte, comunicação e eletrificação rural, na possibilidade de aumentar a inserção no
mercado internacional, implementação de regulamentos para a rastreabilidade dos produtos, linha de
crédito específica (Fundo Constitucional de Financiamento do Norte – FNO) para a produção
agroindustrial da região amazônica.
Ameaças: refletem as tendências ambientais que devem comprometer o desempenho futuro
da empresa ou de toda cadeia de suprimento. Será que o governo continuará aumentando os juros
para conter a inflação, inviabilizando os investimentos? Será que o governo fará a reforma fiscal sem
onerar a carga tributária? Cuidado com a entrada de empresas concorrentes para roubar parcela do
mercado. Adoção de barreiras não tarifárias por parte dos países importadores de nossos produtos.
Será que as mudanças nos hábitos de consumo da população irão prejudicar o desempenho da
empresa? Então, a empresa deve desenvolver planos estratégicos para enfrentar tais ameaças, dado
que o alcance da assistência técnica é baixo e as instituições de apoio científico e tecnológico estão
muito distantes.
Em síntese, a matriz SWOT oferece quatro situações que a empresa pode se defrontar e gera
informações para orientar as decisões para melhorar o desempenho. A primeira é a situação que
combina pontos fortes com oportunidades, que representa o melhor dos mundos para a empresa.
Neste caso só não domina o mercado se for “bobo”. A segunda situação combina pontos fracos com
ameaças, reproduzindo o pior dos mundos. Neste caso é preciso uma reestruturação total dos planos
e objetivos da empresa para sobreviver no curto prazo e crescer a médio e longo prazo. As outras
101
duas situações representam posições intermediárias comum no dia-a-dia das empresas. Nestes
casos, devem-se realizar estudos e construir estratégias competitivas para vencer a concorrência.
Qual o propósito dos fluxos na cadeia de suprimento?
O dimensionamento e descrição dos fluxos, visam atender a dois propósitos básicos da cadeia
de suprimento:
1. Conduzir com eficiência a gestão dos fluxos de produto, monetário e de informação da cadeia
de suprimento;
2. Satisfazer as necessidades dos clientes, no processo de obtenção de lucro global da cadeia.
Como iniciam as atividades inerentes aos fluxos de produto, monetário e de informação na
cadeia de suprimento?
As atividades da cadeia de suprimento iniciam com uma ordem ou pedido emanado pelo
consumidor e findam quando o cliente é satisfeito e fecha negócio, pagando sua aquisição.
Como é desencadeada a dinâmica de interação entre os estágios da cadeia de suprimento
dos produtos indicados na Figura 1 (madeira, carne, leite, frutas, grãos e peixe)?
1. O cliente ou consumidor entra no supermercado ou outra loja do varejo e efetiva a compra do
produto (esta prática é realizada por vários clientes simultaneamente);
2. O supermercado interage com o estoque da loja para reabastecer as gôndolas e, ao mesmo
tempo, informa ao atacado para repor o produto, de acordo com a programação da demanda;
3. O atacadista interage com o armazém, faz inventário do estoque e atende ao pedido do
varejo e, imediatamente, emite um comando para a agroindústria fornecer o produto na
quantidade programada para repor o estoque;
4. A agroindústria recebe o pedido do armazém e atende ao pedido com o produto estocado na
fábrica ou que está sendo processado e, em seguida, emite o comando para os fornecedores
de matéria-prima e insumos;
5. Os produtores (isolados ou organizados em cooperativas) recebem o pedido e se programam
para atender no tempo adequado. De acordo com o pedido, emite-se comando para os
fornecedores de insumos agrícolas, tecnologia, assistência técnica, financiamentos, etc.
6. A interação continua ...
Estas interações formam ciclos de negociação, estabelecidos na interface entre os estágios
da cadeia de suprimento (Figura 5.4).

Fornecedor 2 Agroindústria 2 Atacado 2 Varejo 2 Cliente 2

Fornecedor 1 Agroindústria 1 Atacado 1 Varejo 1 Cliente 1

Fornecedor 3 Agroindústria 3 Atacado 3 Varejo 3 Cliente 3

Figura 5.4 – Interação entre os estágios da cadeia de suprimento.

Qual o objetivo da cadeia de suprimento?


O objetivo principal da cadeia de suprimento é maximizar o valor adicionado gerado em toda
a cadeia de suprimento. O valor adicionado é a diferença entre o montante final que o cliente pagou
pelo produto e o esforço realizado para atender adequadamente ao seu pedido. Na cadeia de
suprimento, não é interessante observar apenas o desempenho dos membros de um elo da cadeia
de suprimento, mas o global, uma vez que se busca a integração em que cada membro compartilha
com as ações que levam ao desempenho global da cadeia.
Exemplo: Os R$ 19,00/kg de filé de pescada amarela que o consumidor pagou no
supermercado corresponde ao valor final que a cadeia de suprimento recebe. A diferença entre esse
102
valor e a soma dos custos realizados ao longo de toda a cadeia de suprimento para pescar,
transportar, beneficiar, embalar, estocar e distribuir representa a lucratividade da cadeia de
suprimento.
Ao longo da cadeia, para o peixe pescada amarela inteiro, apenas eviscerados e congelados,
têm-se os seguintes valores de venda:

Pescador Intermediário Agroindústria Supermercado


R$3,00/kg R$5,00/kg R$9,00/kg R$13,00/kg

Nos níveis de pescador e intermediário o pescado é in natura, apenas conservado no gelo. A


agroindústria eviscera, limpa, congela e empacota. O supermercado conserva o pescado congelado
em gôndolas e em câmeras frias, e vende diretamente ao consumidor.
Assim, se a análise for realizada apenas em nível de agroindústria, o valor da cadeia de
pescada seria subavaliada, uma vez que deixaria de contemplar o último e mais importante lance da
operação comercial que seria o lance dado pelo consumidor, que paga R$13,00 por cada quilo de
pescada amarela que adquire. Cabe lembrar que para a determinação do lucro em cada etapa,
precisa-se diminuir o custo unitário de produção. Em nível de pescador, os custos envolvem as
despesas com combustível, apetrechos de pesca, salário de mão-de-obra, manutenção e
depreciação do barco e gelo. Assim, para que o pescador obtenha lucro, os R$3,00 que recebe por
quilo de peixe entregue a intermediário devem superar os custos, caso contrário toma prejuízo e
compromete o desempenho da cadeia para frente. Os custos do intermediário envolvem o pagamento
de salário à mão-de-obra, gelo, combustível, imposto e custos de transação.
Os custos da agroindústria são compostos de custos fixos (depreciação e manutenção de
instalações e bens de capital, salário de mão-de-obra permanente, impostos, etc.) e custos variáveis
(gelo, energia elétrica, mão-de-obra temporária, embalagens, matéria-prima, insumos, transporte,
impostos, etc.) e os custos de transação, envolvendo contratos e/ou acordos para aquisição do peixe
e para o fornecimento do produto. Nos supermercados, os custos são compostos de energia elétrica,
depreciação e manutenção de gôndolas, mão-de-obra, embalagens, custos de transação e serviços
de venda. Em todas as etapas há perdas e riscos, que são computados como custos. O que sobra da
remuneração desses custos é o lucro bruto. Lembre-se que o interesse maior para a gestão da
cadeia é a soma dos lucros obtidos em cada elo da cadeia e não apenas o lucro obtido em uma das
etapas. Sendo assim, o sucesso da cadeia de suprimento não pode ser medido com base apenas no
lucro individual obtido em um estágio.
Com efeito, deve-se observar que na cadeia de suprimento, a única fonte de renda é o
cliente, pois representa o único ponto real positivo do fluxo de caixa da cadeia de suprimento.
Como é sabido, o fluxo monetário é a contrapartida das transações comerciais de produto.
Em cada transação, um membro da cadeia fornece o produto e o outro retribui com o valor em
dinheiro, efetivando simultaneamente os dois ciclos. Sabe-se, também, que uma parcela do valor em
dinheiro que o cliente pagou ao varejista pelo produto é repassada ao atacadista. A transferência
deste dinheiro envolve custo e informação. O mesmo também na transferência de produto e de
informação entre os agentes da cadeia de suprimento. Em função disso, a gestão desses fluxos é a
chave para o sucesso das cadeias de suprimento.
O gerenciamento da cadeia de suprimentos, além de coordenar o fluxo de informações,
dinheiro e produto entre todos os componentes da cadeia, tem por objetivo ligar os elos da cadeia e
permitir que todos tenham acesso às informações de que precisam o mais perto possível do tempo
real. Para isso, é necessário adotar dois sistemas: um para fazer o planejamento de recursos das
empresas (ERP, do inglês Enterprise Resource Planning), que torno os negócios mais eficientes; e
outro para fazer o gerenciamento das relações com o cliente (CRM, de Customer Relationship
Management), que ao controlar com eficiência pedidos, vendas, atendimento e marketing, tende a
fidelizar o cliente. A partir disso, a rede de empresas articuladas e geridas por esses sistemas é
fortalecida, facilitando a identificação e remoção de gargalos, utilização dos pontos fortes e
103
incorporando as oportunidades que se apresentam, de modo a afastar as ameaças e produzir um
resultado positivo para toda a cadeia de suprimento.
Quais são as fases de decisão que se desencadeiam em cada elo da cadeia de
suprimento?
As fases de decisões da cadeia de suprimento podem ser categorizadas em estratégia
(desenho), planejamento e operacionalização.
1. Estratégia (desenho) da cadeia de suprimento: a empresa decide como estruturar a
cadeia de suprimento, os seja, elege-se o canal de distribuição e determina-se a configuração
de acordo com as etapas que se processam em cada estágio da cadeia em um horizonte de
longo prazo. Decide-se sobre:
a) Localização da empresa: próximo a mercado, fonte de recursos e infra-estrutura (modelos de
programação matemática);
b) Logística de transporte: combinação dos modais rodoferroviário, rodofluvial, na região
amazônica;
c) Sistema de informação a ser utilizado: telecomunicação, Internet.
2. Planejamento da cadeia de suprimento: define o conjunto de políticas e instrumentos
operacionais para funcionamento da empresa a curto prazo.
a) Previsão da demanda de diferentes mercados para os produtos da cadeia (modelos
quantitativos de demanda, séries temporais);
b) Subcontratação para manufatura ou fornecimento de matérias-primas e produtos finais
(formação de redes de conexões, por meio de alianças estratégicas cooperativas,
corporativas e globais);
c) Reabastecimento de produto (reposição de estoques);
d) Política de inventário, avaliação e atendimento a pedidos;
e) Promoção, distribuição, propaganda e marketing;
f) Parâmetros para o financiamento da cadeia de suprimento em determinado período (safra,
entressafra – capital de giro, investimento, etc.);
g) Avaliação e monitoramento do risco e incerteza de demanda, taxa de câmbio, taxa de
inflação, taxa de juros, concorrência, preços.
3. Operacionalização da cadeia de suprimento: a operacionalização pode ser diária,
semanal, mensal, semestral ou anual, de acordo com as demandas dos clientes. A demanda
é imprevisível, dado o tempo muito curto entre os pedidos. O objetivo é reduzir a incerteza e
aumentar a performance da cadeia de suprimento.

5.5.4 Visão global do processo de gestão de uma cadeia de suprimento


Uma cadeia de suprimento é uma seqüência de processos e fluxos que têm lugar dentro e
entre os diferentes estágios da cadeia de suprimento e são combinados para atender à necessidade
do cliente por um produto.
1. Visão cíclica: cada transação física ou monetária desencadeada entre os agentes
participantes dos elos de uma cadeia de suprimento é dividida em ciclos, e cada ciclo é
estabelecido na interface entre dois sucessivos estágios (os quatro ciclos da Figura 1).
2. Origem do processo: a transação pode ser desencadeada de duas formas – uma iniciada no
cliente e outra iniciada de forma antecipada ao pedido, feito pelo fornecedor.

5.5.4.1 Visão cíclica do processo de transação comercial


Dados os cinco estágios da cadeia de suprimento: cliente, varejista, atacadista, agroindústria
e fornecedor, como ilustrado nas Figuras 1 e 2, o processo pode ser dividido em quatro ciclos:
a) Ciclo da ordem do cliente;
104
b) Ciclo de reposição de produto;
c) Ciclo de manufatura do produto;
d) Ciclo de produção.
Pelo que se observa, cada ciclo é originado na confluência entre dois estágios da cadeia de
suprimento.
a) Ciclo da ordem do cliente
O ciclo da ordem do cliente ocorre na interface entre o cliente e o varejista e inclui a dinâmica
ao recebimento e conseqüente provimento da referida ordem. Tipicamente, o cliente inicia o ciclo em
uma loja do varejo e conclui com o atendimento de sua demanda. O ciclo contempla os seguintes
passos:
i) Chegada do cliente;
ii) Entrada da ordem do cliente;
iii) Cumprimento da ordem do cliente;
iv) O cliente recebe a ordem.
i) Chegada do cliente: refere-se à chegada do cliente a uma loja do varejo onde tem acesso
ao produto desejado. Neste momento, realiza-se a escolha e decide-se sobre a efetivação da
compra. A chegada do cliente pode ocorrer quando:
• O cliente se desloca até o supermercado para efetivar uma compra;
• O cliente emite um telefonema ou um fax para adquirir um produto;
• O cliente manda um o e-mail ordenando a compra de um produto.
ii) Entrada da ordem do cliente: refere-se a um comando emitido ao varejista manifestando
o desejo de adquirir um produto. A ordem indica o produto, a quantidade e a forma de
pagamento. O varejista separa o produto, embala e providencia para que seja entregue ao
cliente. O objetivo do cliente é que sua ordem seja atendida no tempo mais rápido possível.
iii) Cumprimento da ordem do cliente: a ordem do cliente é processada e enviada pelo meio
de entrega mais eficiente, ou escolhido pelo cliente, quando é dada essa opção. O objetivo
é que a ordem do cliente seja atendida no local e data marcados ao menor custo possível.
iv) Recebimento da ordem: o cliente recebe o pedido, confere e realiza o pagamento. Há
casos em que a mercadoria é enviada depois de efetivado o pagamento e o cliente pode
devolver o produto caso apresente defeito ou não esteja de acordo com o programado.
b) Ciclo de reposição de produto
O ciclo de reposição do produto nasce na interface entre o varejo e o atacado e refere-se ao
processo de reposição de estoques do varejo. Este ciclo é similar ao primeiro, exceto que o varejista
é o cliente e o volume do pedido é maior. O objetivo do ciclo de reposição é reabastecer o estoque do
varejista ao menor custo enquanto providencia a necessária disponibilidade de produto para o cliente.
O ciclo envolve os seguintes passos:
i) Início da ordem do varejista;
ii) Entrada da ordem do varejista;
iii) Cumprimento da ordem do varejista;;
iv) Recebimento da ordem.
c) Ciclo de manufatura do produto
O ciclo de manufatura do produto ocorre na interface entre o atacado e a agroindústria ou
entre o varejo e a agroindústria envolvendo a reposição do estoque dos produtos.
d) Ciclo de produção
O ciclo de produção ocorre entre a agroindústria e os fornecedores (produtores) e envolve o
processo necessário ao provimento de matérias-primas para processamento de acordo com o
esquema de fabricação do produto. O ciclo obedece aos seguintes passos:
105
i) Suprimento de matérias-primas necessárias ao pleno funcionamento da empresa;
ii) Esquema de suprimento de produção;
iii) Reunião e embarque do produto;
iv) Recebimento do produto.
i) suprimento de matéria-prima: geralmente, o suprimento de matéria-prima resulta da
realização de acordos ou contratos entre os produtores e as indústrias. Situações do tipo são
freqüentes na cadeia de frutas, madeira. Leite e grãos. Em alguns casos, as agroindústrias
interagem com agentes intermediários da comercialização para reunir o produto junto a
produtores e cooperativas em quantidade suficiente para atender ao fluxo de processamento
industrial. Com isso forma-se uma rede de encadeamentos do tipo topdown ou redes
flexíveis, em que uma grande empresa lidera um conjunto de empresas (produtores,
cooperativas) fornecedoras de matéria-prima.
No caso específico da cadeia de peixe, a agroindústria ou frigorífico estabelece parceria com
um grupo de intermediários donos de barcos-geleiros e estes se encarregam de adquirir a produção
de peixe junto aos pescadores ribeirinhos e abastecem a indústria. A indústria, principalmente na
entressafra, compra pescado de vendedores avulsos, dependendo da quantidade e qualidade do
produto.
ii) Esquema de suprimento de produção: o suprimento ocorre de acordo com o período de
safra e entressafra do produto. No período de safra, há muitos produtores ofertando o produto
e a empresa pode eleger seus fornecedores de acordo com a quantidade e a qualidade do
produto. O transporte do produto, geralmente vem por modal rodoviário (caminhão) e/ou pelo
modal fluvial (barcos). As agroindústrias, geralmente, têm produção própria e realiza o
transporte do produto até a fábrica. Esta atitude é tomada em função da alta sazonalidade da
produção e do oportunismo dos agentes. Na entressafra, o fornecimento de produto diminui,
limitando-se aos produtores que empregam tecnologia de irrigação e/ou produção em
cativeiro (no caso do peixe) ou confinamento (caso da carne). Diante disso, as agroindústrias
planejam sua capacidade com base no período de safra e concentram a operação a plena
capacidade, dado que na entressafra passa a operar com grande capacidade ociosa. Esta é
uma realidade das agroindústrias da região amazônica.
iii) Reunião e embarque do produto: o produto é reunido em grandes quantidades e
embarcado em caminhões ou barcos para levar da zona de produção até a fábrica. No caso
da cadeia de carne, encaminha-se o produto acabado (boi gordo e animais descartados) em
caminhões ou balsas gaiolas para o frigorífico. As frutas podem ser acondicionadas em
caixas, sacos ou a granel e embarcadas em caminhões. O peixe é capturado e
acondicionado no gelo para conservar em barcos-geleiros. A madeira é transportada em toras
por caminhões ou balsas.
iv) Recebimento do produto: o produto ao chegar no pátio da agroindústria é descarregado,
conferido o peso e feito o teste de qualidade para aceitação do produto.
Depois de completado o ciclo, o produto é destinado ao processamento, padronização,
embalagem e armazenamento, de acordo com as demandas dos clientes.
Pelo que se observa, a gestão da cadeia de suprimento, dada a complexidade da rede de
conexões que se estabelecem entre as empresas que operam dentro de um mesmo elo da cadeia
e/ou entre elos da cadeia. Em função disso, se faz necessário utilizar métodos eficientes para fazer a
integração setorial entre fabricantes e fornecedores e entre distribuidor e clientes, ou seja, deve-se
implantar um modelo de governança da cadeia de suprimento.

5.5.5 Governança
A governança é uma ação coordenada por uma estrutura institucional, onde a integralidade
das operações comerciais ou o conjunto das relações envolvendo transações comerciais são
decididas. Para cada transação efetivada, acompanha-se o processo do início até o desfecho final,
para que as ameaças não inviabilizem a completude da transação. Na verdade, a governança
coordena os fluxos real e monetário, envolvendo produtos, serviços, tecnologia e informações, que
conectam os elos da cadeia de suprimento indicados na Figura 5.5.
106
Sabe-se que cada transação envolve um custo operacional e a sua generalização, como é
tratada na economia dos custos de transação, se materializa na governança dos contratos
consensual, clássico e à vista, que regem tais transações. A governança não é uma ação isolada,
podendo seus modos de atuação variar de acordo com o ambiente institucional e com os atributos
comportamentais dos agentes econômicos.
A Figura 5.5 ilustra a funcionalidade da governança, estruturada em três níveis: individual, de
onde partem as iniciativas para a formalização de alianças estratégicas, envolvendo os termos dos
contratos de transações comerciais a que devem se submeter os produtores; institucional, onde as
regras do jogo são delineadas e os parâmetros que regem os contratos são estabelecidos, de forma
geral (leis, regulamentos) e específica (metas, compromissos, preços, redução de risco, ganhos de
parcela de mercado, crédito, etc.); governança, grupo institucional que coordena as ações,
acompanha seus desdobramentos e conduz ao objetivo traçado entre as partes (produtor e industrial;
produtor, industrial e instituição, etc.).

Ambiente Institucional

Mudança de parâmetros Estratégia

Governança

Preferências
Atributo comportamental endógenas

Ação individual dos


agentes econômicos

Figura 5.5 – Esquema de funcionamento da governança.

As questões macro são ordenadas no ambiente institucional e as questões micro são mais
aderentes às atribuições individuais dos agentes (produtores e empresas). A interação entre os
agentes econômicos, parte do ponto em que as transações não são compreendidas (ou honradas)
por todos ou não estão evoluindo de acordo com o esperado pelos agentes econômicos. O ambiente
institucional é o lócus onde as questões são tratadas e solucionadas, fazendo alteração nos
parâmetros institucionais, portanto, de acordo com as alterações nos custos comparativos da
governança e o ambiente individual é onde as ações e o atributo comportamental dos agentes
econômicos se originam.
No momento em que o agente individual formula seus atributos, definindo o interesse para a
integração, a organização institucional se movimenta para criar oportunidades ou restrições para
cada ação individual. Na realidade, o ambiente institucional define as regras do jogo e, em muitos
casos, são regras impostas. De modo geral, alterações como os direitos de propriedade, lei de
contratos, legislações e normas, tendem a induzir mudanças nos custos de governança e nova
configuração econômica é induzida a partir daí. A dinâmica dessa articulação se estabelece para criar
estratégias que atendam às preferências endógenas dos agentes é compreendida como governança.
No caso do leite, a governança deve se efetivar para acompanhar o curso das transações
entre produtores de leite e fornecedores de insumos (contratos de suprimento), entre produtores e
laticínios (contratos de fornecimento, adoção tecnológica, preços, qualidade e quantidade do produto)
107
e entre estes e as instituições reguladoras (Secretaria de Finanças, Ministério do Trabalho, Ibama,
etc.).
No caso da cadeia produtiva do leite, açaí, carne, peixe, muitos fatores estão influenciando
negativamente o seu desenvolvimento. Fatores como a margem de comercialização, sazonalidade de
preço, informalidade do mercado, estagnação da produtividade, instabilidade de preço e frágil
integração, podem ser minimizados por meio da ação eficiente de uma governança para coordenar as
transações entre os segmentos da cadeia. Há também a necessidade de promover a integração
vertical dessas cadeias de suprimento, uma vez que há grande oferta de matéria-prima de um lado e
um forte poder de mercado exercido por grupos empresariais, que operam no beneficiamento e
distribuição de outro lado.
A governança deve criar uma estrutura institucional onde o comportamento oportunista, riscos
e ameaças ao cumprimento integral das regras estabelecidas nos contratos de integração vertical
podem ser descobertos com antecipação, para que ações apropriadas sejam implementadas para
conter esses desvios de conduta e demais ameaças à integração. Para criar uma governança
eficiente, é necessário quebrar as barreiras que estão comprometendo o desempenho simultâneo dos
agentes da cadeia.
O ponto de interesse imediato é a integração entre produtores de matérias-primas.
Inicialmente é preciso organizar os produtores para receberem treinamento e capacitação
empresarial, manejo de fazenda, emprego de tecnologia (irrigação, pós-colheita, inseminação
artificial, ordenha mecânica, armazenamento do leite, tanques-rede para peixe) e determinar os
objetivos e metas a serem negociadas com os industriais, no momento da formação das alianças
estratégicas. Por exemplo, o preço do leite de R$ 0,20/l é muito baixo e poderia ser, caso houvesse
uma governança efetiva para otimizar as relações comerciais entre produtores e laticínios, com
impacto insignificante nos lucros dos laticínios, de pelo menos R$ 0,30/l. Estes R$ 0,10/l que os
produtores estão deixando de receber por simples incapacidade de negociação, corresponde a um
montante R$ 64.800 mil por ano, que representa o custo da ausência de governança da cadeia de
leite da Região Norte.
Na Região Norte, não há uma governança eficiente, exercendo a coordenação das cadeias
produtivas. Para que as cadeias produtivas alcancem a integração horizontal e/ou vertical plena, por
meio da criação de vantagens competitivas dinâmicas, a competitividade deve se pautar na inovação
tecnológica e de gestão empresarial, diferenciação e qualidade dos produtos, recursos humanos de
qualidade e formação de redes de interdependência entre empresas, instituições e atividades ligadas
aos mercados locais. Isto, necessariamente, carece de uma governança estabelecida e operacional
para que as forças competitivas sistêmicas sejam canalizadas para o desenvolvimento local.
A formação de governança é um ponto crítico das cadeias produtivas regionais, dado que os
valores dos agentes são, geralmente, investidos em prol das elites de maior poder de barganha
política, econômica e institucional, relegando os objetivos legítimos dos pequenos produtores a uma
vala comum de sucessos parciais ao longo da história. Mudar essa trajetória é o desafio número um
para o desenvolvimento sustentável da economia rural da região amazônica.

5.6 CONSIDERACÕES FINAIS


Os números apresentados na introdução deste capítulo consideram a importância
socioeconômica das cadeias produtivas regionais. O restante do texto apresenta caminhos que
servem de base para a análise, planejamento e operação das cadeias produtivas por meio de
políticas públicas.
A abordagem de cadeia produtiva, ao contrário do que pregou a política pública dos grandes
projetos de desenvolvimento realizados na Amazônia, prega o apoio ao desenvolvimento das cadeias
produtivas existentes nos elos que apresentam ações complementares, como forma de viabilizar a
formação de redes para atuar coletivamente para dadas decisões comuns.
Em todo estudo de cadeia produtiva, parte-se de um diagnóstico para identificar os pontos
fortes, pontos fracos, ameaças e oportunidades. A partir do diagnóstico, define-se coletivamente
(todos os agentes de interesse da cadeia) as estratégias a serem levadas a cabo para aproveitar os
pontos fortes para corrigir os pontos fracos e neutralizar as ameaças. As oportunidades merecem
projeto específico para conquistá-las e transformar em vantagens competitivas sustentáveis.
108
Isto só é possível se formulado em comitê gestor de cada cadeia, caso contrário, pode-se
produzir grande desequilíbrio entre os elos da cadeia, onde os elos a montante e a jusante da
produção, como sempre, ganham à custa do elo mais fraco da cadeia que são os produtores.

5.7 REFERÊNCIAS
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5.8 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

E1. Defina agronegócio, cadeia produtiva e cadeia de suprimento.

E2. Estabeleça a diferença fundamental entre cadeia produtiva, cadeia de suprimento e agronegócio.

E3. Como a legislação influencia os elos das cadeias de suprimento?

E4. Defina canal de distribuição e análise o efeito chicoteamento em dada cadeia produtiva.

E5. O que é logística e qual sua importância para o desempenho competitivo da cadeia produtiva.

E6. Quantos e quais são os fluxos da cadeia de suprimento? Apresente a dinâmica operacional de
cada um.

E7. Para uma cadeia produtiva de seu conhecimento, apresente os pontos fortes, fracos, ameaças e
oportunidades.

E8. O que é governança de uma cadeia produtiva e como deve se estruturar para operar a cadeia?

E9. Qual o objetivo da cadeia de suprimento? Quais as principais fazes de decisão?

E10. A modernização da agropecuária tem-se dado com sua maior inserção na economia de
mercado e intensificação dos seus vínculos, a montante, com segmentos fornecedores de insumos e
bens de capital e, a jusante, com segmentos encarregados do armazenamento, processamento e
distribuição da produção. A percepção de que se formara um sistema interdependente com base na
agropecuária levou à conceituação desse sistema como sendo o agribusiness ou agronegócio. No
caso da Região Norte, pode-se afirmar que
(a) O agronegócio produz mais do que 60% do produto interno bruto da Região Norte.
(b) O segmento de máquinas, equipamentos e implementos, chamado indústria para a agropecuária,
não faz parte do agronegócio.
(c) Mais do que 45% do produto interno bruto do agronegócio são gerados dentro das unidades de
produção agropecuária.
(d) O agronegócio contribui com 23% das exportações e 45% de ocupação da PEA, contribuindo para
o desenvolvimento regional.

E11. A indústria de ração e suplementos agropecuários teve crescimento surpreendente nos últimos
20 anos. Na década de 80, o volume de ração produzido anualmente no Brasil girava em torno de 15
milhões de toneladas. Na década de 90, este volume ultrapassou 30 milhões toneladas/ano. Hoje,
estima-se que a produção de ração para o ano de 2003 seja 40 milhões de toneladas. Este fenômeno
de crescimento de mercado deveu-se primariamente:
(a) À verticalização do sistema de produção de aves e suínos, organizado em integrações e
cooperativas, e conseqüente aumento na produção destas carnes para consumo interno e mercado
exportador.
110
(b) Ao confinamento crescente da bovinocultura de corte, criação de peixe em cativeiro e
conseqüente aumento no consumo de ração produzidas por empresas especializadas.
(c) À expansão da bovinocultura de corte para as regiões norte e centro-oeste do país, com aumento
na suplementação mineral destas criações extensivas.
(d) Ao aumento no consumo e nas variedades de rações para cães e gatos, expansão devida ao
aumento do poder aquisitivo da população depois do Plano Real.

E12. A agropecuária é reconhecidamente uma atividade econômica sujeita a riscos de várias


naturezas, mas que podem ser resumidos em riscos de produção e comercialização – ligados
principalmente ao comportamento do clima, de preço da carne e da ração e qualidade sanitária do
produto – devidos ao comportamento dos mercados dos produtos e insumos, e do comportamento
dos consumidores nacional e internacional. No tocante aos riscos sanitários, representados por
barreiras impostas por países importadores e alterações inesperadas nos contratos de importação,
alegando problemas sanitários (vaca louca, aftosa, aljeszky, new castle, etc.), o setor pecuário
brasileiro tem enfrentado forte impacto, levando ao seguinte quadro:
(a) As empresas exportadoras das carnes de frango e suíno se beneficiaram tiraram proveito das
barreiras sanitárias, ampliando as vendas no mercado interno.
(b) Para assegurar uma determinada renda para o setor pecuário, o produtor passou a vender
contratos no mercado futuro e, com isso aumentou a produção em 2002.
(c) O equacionamento do problema da aftosa e o investimento em marketing para divulgar a carne
brasileira nos mercados importadores (EUA, EU e China), podem levar o Brasil a assumir a liderança
das exportações mundiais de carne.
(d) O produtor de suíno e aves está reduzindo o plantel, inclusive com frigoríficos famosos como
Chapecó ameaçado, foi influência da baixa qualidade e produtividade do rebanho.

E13. (Provão Simulado): Identificar o meio rural com as atividades agropecuárias tem sido prática
convencional entre os estudiosos da Economia e da Sociologia. Mais recentemente, constatou-se que
as atividades agropecuárias, por si só, não explicam o comportamento do emprego e da renda no
meio rural. Em várias regiões rurais do país está havendo expansão de atividades não-agropecuárias
(ligadas ao lazer e ao turismo, à agroindústria, à preservação do ambiente, etc.). Assim, o emprego e
a renda no meio rural viriam de uma combinação de atividades, referida como pluriatividade. A
expansão da pluriatividade no meio rural brasileiro deverá acarretar algumas mudanças
socioeconômicas importantes, entre as quais pode-se mencionar
(a) A agricultura passa a ser considerada um setor produtivo autárquico, cuja evolução independe dos
demais setores econômicos.
(b) O emprego qualificado no meio rural – motoristas, mecânicos, digitadores e técnicos de várias
naturezas – deve decrescer.
(c) As disparidades de renda entre os meios rural e urbano devem aumentar.
(d) O nível de emprego rural, na economia como um todo, tende a crescer menos do que o emprego
na agropecuária.
(e) Maior ocorrência de fazendeiro/agricultor em tempo parcial, exercendo mais de uma ocupação.
111

ANEXO – CONCEITOS BÁSICOS

Neste anexo, apresentam-se as diferenças e similitudes entre alguns conceitos propalados na


literatura sobre o tema tratado neste texto. Tais conceitos foram capturados no site do ministério da
ciência e Tecnologia.

a) Redes flexíveis
A partir da realização da análise estratégica, as opções básicas para as pequenas e médias
empresas seriam constituídas pela sua inclusão em uma rede topdown ou redes flexíveis. Rede
topdow é uma rede de empresas lideradas por uma grande empresa, que representa um conjunto de
empresas menores como suas fornecedoras diretas e indiretas, característica de países em
desenvolvimento. Redes flexíveis são formadas por um consórcio de pequenas e médias empresas
onde cada uma participa em determinado estágio do processo produtivo, que constitui sua
especialização, contribuindo para a produção de um bem que garante a sustentabilidade da cadeia
como um todo no mercado em que participa. As Redes flexíveis são comuns nos países
desenvolvidos.
As redes flexíveis baseiam-se nas mudanças no cenário competitivo global que tornaram as
condições de sobrevivência das pequenas e médias empresas extremamente difíceis, quase que as
obrigando a estabelecerem alianças com o objetivo de acessar os recursos e a tecnologia
necessários à manutenção e sobrevivência no mercado.
As empresas que constituem uma rede formam consórcios. Elas estabelecem um acordo
entre seus integrantes sobre a forma operacional de atuação, visando o atingimento de objetivos
comuns, bem como a constituição de uma entidade pelos associados, destinada a realizar aquelas
atividades que eles não poderiam desempenhar isoladamente.
Consórcio setorial - empresas concorrentes e complementares realizam um acordo que
permite o ganho de competitividade aos membros pela difusão de informações e da
complementaridade produtiva.
Consórcio territorial - reúne empresas de todos os segmentos e atividades de uma região e
ocupa-se, principalmente, das atividades informativas e de promoção do conjunto dessas empresas.
Consórcio específico - restringe sua ação às atividades específicas para atingir um objetivo
determinado, como comprar, produção ou exportação de produtos.

b) Filière
O termo Filière tem origem francesa e apresenta o significado de fileira. Sua interpretação
está vinculada a uma seqüência de atividades empresariais levando à contínua transformação de
bens, do Estado bruto ao acabado ou destinado ao consumo.
De uma forma geral, a idéia de Filière não apresenta uma definição única e específica,
possuindo diferentes enfoques de acordo com o foco específico de análise. Neste sentido, são
adotadas como interpretações de Filière: uma sucessão de operações de transformação sobre bens
e produtos, dissociáveis e separáveis, as quais são ligadas entre si por encadeamentos tecnológicos;
um conjunto de relações comerciais e financeiras, que regulam as trocas que se verificam entre os
sucessivos estágios do processo de transformação; um conjunto de ações econômicas baseadas, por
sua vez, em um conjunto de estratégias empresariais para valorização dos meios de produção.
112
A análise de cadeias produtivas de acordo com a abordagem de Filière propicia a
identificação de questões significativas para a melhoria de desempenho e de sua competitividade, a
partir da identificação dos chamados "estágios", os quais se constituem nos pontos chaves onde são
estabelecidas as políticas de toda a cadeia. Ainda se podem identificar os chamados
estrangulamentos, ou fraquezas da cadeia, que são os elos que comprometem o desempenho da
cadeia como um todo pelas suas características específicas, assim como também os pontos fortes
existentes. Também considerando a questão estratégica, verifica-se que a análise de cadeias
produtivas, dentro do enfoque de Filière, permite abordagens diversas, entre as quais: análise de
cadeia produtiva como suporte à descrição e análise técnico-econômica de sistemas econômicos;
análise de cadeia produtiva como apoio à formulação de políticas públicas e privadas; análise de
cadeia produtiva como apoio à avaliação das estratégias empresariais e de inovações no âmbito
tecnológico.

c) Clusters
O conceito de Cluster relaciona-se à idéia de aglomerado de empresas vinculadas industrial
ou comercialmente. De acordo com Michael Porter, são aglomerados geográficos de empresas de
determinado setor de atividades e outras empresas correlatas. Os Clusters são típicos de
determinados segmentos e regiões e não genéricos, como pode ser observado no Vale do Silício e
em Hollywood, ambos na Califórnia, EUA. Por outro lado, envolvem tanto características de
cooperação como de competição.
Normalmente, estes tipos de aglomerados ou cadeias se expandem em direção aos clientes
e canais de distribuição e atraem para si empresas fabricantes de produtos complementares e
serviços afins. Assim, em que pese a globalização comercial dos dias de hoje, os Clusters
apresentam algumas características que os estimulam, como sejam o maior acesso à fornecedores, o
acesso a sistemas de informações especializados, o marketing vinculado à fama, o acesso
equivalente à instituições e bens públicos, o estímulo à inovação pela competição existente e a
melhoria da motivação e da avaliação de desempenho das empresas participantes.
A importância dos Clusters reside no fato de que a concorrência moderna depende em alto
grau da produtividade e não do acesso a insumos ou da economia de escala de empreendimentos
isolados, sendo esta produtividade dependente do grau de sofisticação da gestão das empresas, a
qual é fortemente influenciada pelas condições do ambiente empresarial local, vinculadas aos
diferentes Clusters. Assim, de acordo com Porter, os Clusters afetam a maneira das empresas
competirem de três formas principais: aumentando a produtividade das empresas sediadas na região;
indicando a direção e o ritmo da inovação que sustentam a produtividade futura; e estimulando a
formação de novas empresas, o que reforça o próprio Cluster.
d) Arranjo Produtivo Local (APL)
Se caracteriza pela existência no local ou região de atividades produtivas com características
comuns, pela existência de uma infra-estrutura tecnológica significativa (instituições de ensino
superior,centros de capacitação profissional, de pesquisa tecnológica, etc.), bem como pela
existência de relacionamentos dos agentes produtivos entre si e com os agentes institucionais locais,
consolidando a geração de sinergias e de externalidades positivas. Possuem todas essas
características com alto nível de coesão e organização entre os agentes: Incluem fornecedores de
insumos específicos, componentes, máquinas e serviços, criando uma infra-estrutura produtiva
especializada;- Muitas vezes estendem sua atuação até aos canais de distribuição e consumidores,
envolvendo os fabricantes de produtos complementares e as empresas de setores industriais afins,
que guardam características semelhantes, tecnologias ou insumos comuns;- Incluem instituições que
fornecem treinamento especializado,educação, informação, pesquisa e suporte técnico às empresas
participantes do arranjo (como universidades, instituições de pesquisa, escolas técnicas,laboratórios,
infra-estrutura em tecnologia industrial básica - TIB, etc.);- Também fazem parte destes arranjos,
instituições governamentais,agências de fomento, entidades ligadas ao setor empresarial, entre
outras instituições envolvidas com a coordenação das ações e com as políticas de apoio à inovação,
melhoria da competitividade e desenvolvimento tecnológico.
Fonte: Ministério da Ciência e Tecnologia - www.mct.gov.br
113

Comparativo dos diferentes tipos de Cadeias Produtivas de acordo com os critérios de


análise selecionados

REDES
CRITÉRIOS DE
FILIÈRE CLUSTER SUPPLY CHAIN (Peq. e Médias
ANÁLISE
Empresas)
Parte dos Parte da Enfoca Analisa a estruturação
produtos finais concentração especificamente do processo com
para analisar a espacial dos os produtos finais vistas aos produtos –
Competitividade cadeia – grau recursos e e suas grau alto
médio serviços para características –
realizar a análise – grau alto
grau alto
Pela visão Pela visão dos Pela orientação Em vista da
abrangente da segmentos, inter- focalizada ao estruturação de um
cadeia e das relações e segmento ou segmento específico
Políticas
diversas condições de mercado permite proposição de
setoriais
relações facilita contorno facilita a analisado dificulta políticas específicas
a definição de definição de o estabelecimento
políticas gerais políticas gerais de políticas gerais
Não aborda Enfoca Não considera a Considera, em certo
diretamente a diretamente o questão territorial grau, a regionalização
Regionalização
questão da aspecto da como ponto básico pelo porte das
regionalização regionalização empresas analisadas
Pela análise Pela análise dos Evidencia Não centra sua
abrangente segmentos diretamente as atenção nas relações
permite envolvidos permite relações de poder de poder e seu
Relações de identificar as identificar as que induzem as tratamento, apesar de
poder relações de relações de poder ações de vê-las como
poder existentes racionalização do equilibradas
existentes na processo
cadeia operacional
A análise da A questão A tecnologia é A tecnologia não
cadeia não está tecnológica considerada passo constitui o ponto
focalizada representa um dos fundamental na básico da análise,
Tecnologia
especificamente pontos lógica de apesar de integrá-la
na questão significativos da racionalização dos
tecnológica análise processos
Modelos Permite análise de Permite análise Propicia análise de
bastante diferentes detalhada, em diversos aspectos da
abrangentes, características, termos de estrutura da cadeia
que permitem mas limitadas competitividade, com limites regional e
Abrangência
diversas regionalmente a de uma cadeia ou de porte
análises certos segmentos segmento
diferenciadas. da cadeia produtivo
específico
Permite uma Possibilita a Permite verificar a Permite analisar a
análise clara e análise das estratégia estratégia vinculada à
objetiva das estratégias buscada e os cadeia e ao porte das
estratégias específicas meios empresas
Estratégia
adotadas empregadas no empregados na
segmento cadeia específica
analisado
114

Permite a Não enfoca Centra-se na Permite a visualização


identificação e diretamente os identificação dos dos gargalos e
Gargalos análise dos gargalos gargalos e sua necessidades de
gargalos da existentes eliminação estruturação
cadeia
Fluxo, Análise Aglomeração, Competição, Cooperação,
Palavras-chave Território Racionalização Organização,
Complementaridade
CAPÍTULO 6
MAPEAMENTO E ANÁLISE DE ARRANJOS
PRODUTIVOS LOCAIS NA AMAZÔNIA 1

6.1. INTRODUÇÃO
Este trabalho emprega uma metodologia alternativa para a identificação e mapeamento de
arranjos produtivos locais na Amazônia. É um passo adiante na aplicação da metodologia
desenvolvida por Santana (2004) e aplicada pela Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA)
para identificar e mapear os APL da Amazônia Legal, que se adota para eleger os municípios onde
existe especialização em dada aglomeração de atividades produtivas.
Um dos desafios da análise de APL é sua demarcação territorial. Diversos critérios têm sido
empregados, complementados ou não com artifícios de controle, porém não tem ainda um indicador
ou combinação de indicadores que equacione esse desafio a contento. Todos os critérios utilizados
até o momento apresentam fortes limitações. Neste trabalho, pretende-se contribuir para equacionar
esse problema, propondo, de maneira simplificada e exploratória, um método estatístico mais
robusto, que permite fazer a identificação e o mapeamento geográfico dos arranjos produtivos locais
(APL) na Amazônia.
Este esforço justifica-se não apenas pela importância que os arranjos produtivos têm na
geração de emprego, bem-estar social, crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico,
exportações e sustentabilidade ambiental, como também pela atenção que vem recebendo de órgãos
públicos (Ministério da Ciência e Tecnologia, Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio e
Ministério da Integração Nacional, entre outros), instituições privadas (Sebrae, por exemplo) e
organizações sociais diversas, a partir de uma miríade de metodologias que, muitas vezes, levam à
dispersão de esforços e, principalmente, desperdícios de recursos públicos.
No Brasil não há uma literatura ampla, nem tampouco fontes de dados sistematizados sobre
a estrutura de aglomerados produtivos locais ou APL nas economias regionais ou nacionais. Há
estudos específicos atendendo a necessidades também específicas, porém não há ainda uma
metodologia disponível no Brasil para orientar as decisões de política na direção dos APL regionais.

1
Versão do artigo “SANTANA, Antônio Cordeiro de; SANTANA, Ádamo Lima de. Mapeamento e análise de
arranjos produtivos locais na Amazônia. Teoria e Evidência Econômica, Passo Fundo, v.12, n.22, p.9-34,
maio 2004.
116
O objetivo desse capítulo é apresentar um método estatístico para identificar e mapear APL e
gerar parâmetros que sirvam à elaboração de critérios adequados para o planejamento do
desenvolvimento sustentável, gerenciamento de políticas públicas e ações privadas orientadas para
APL, oferecendo sugestões para ações de política diferenciadas segundo os tipos de APL e sua
relevância para o desenvolvimento sustentável local e regional da Amazônia.
Por fim, é importante deixar claro que se trata de uma contribuição metodológica inicial, para
cumprir a missão de identificação e mapeamento geográfico dos APL da Amazônia. Os passos
seguintes, de aprofundamento das análises sobre suas dinâmicas e de desenho de políticas públicas,
visando orientar trajetórias de desenvolvimento regional, só podem ter sucesso a partir de
levantamentos primários de dados para cada caso específico.
O trabalho está organizado em quatro seções além desta introdução. A primeira apresenta o
conceito de APL e suas relações com as teorias de rede e da competitividade sistêmica. A segunda
coloca superficialmente os fundamentos teóricos mais fortemente ligados ao desenvolvimento das
aglomerações empresariais locais. A terceira seção apresenta uma metodologia inicial para identificar
e mapear os principais APL da Amazônia, com o fito de orientar os estudos de caso para aprofundar
as análises no que concerne à caracterização estrutural, organização produtiva, mercado e formação
de vantagens competitivas sustentáveis de cada APL. A quarta seção apresenta os resultados do
trabalho, mapeia os APL e coloca as considerações finais.

6.2 CONCEITO DE ARRANJO PRODUTIVO LOCAL - APL


O foco da análise na economia espacial, territorializada em dado local, tem raízes no trabalho
dos economistas clássicos (mais evidente no estudo da renda da terra de Ricardo), no notável
trabalho de von Thünen e Weber (abordagem do abastecimento de cidades por agricultores do seu
entorno) e na escola neoclássica com o magnífico trabalho de Marshall (economias externas geradas
a partir dos distritos industriais), culminando no século passado com o ganho de notoriedade da
geografia econômica, ciência regional e economia urbana (FUGITA et al., 2002)2. Todavia, o
interesse mais detido de cientistas políticos, professores das escolas especializadas em negócios,
sociólogos econômicos e economistas sobre a economia em espaços geográficos (geografia
econômica, economia regional e teoria do desenvolvimento) vem crescendo apenas nos últimos 20
anos. Nesse movimento, o espaço territorial deixou de ser visto apenas como um suporte para
localização de fatores produtivos, numa ótica de desenvolvimento econômico exógeno, que buscava
equilibrar economias de aglomeração (forças centrípetas) com as deseconomias de aglomeração
(forças centrífugas), assumindo papel ativo na formação dos mecanismos de retorno crescente que
explicam o desenvolvimento.
O que muda na nova abordagem das economias locais é que as análises saltam de um
movimento mecanicista e estático para uma perspectiva mais qualitativa e dinâmica das mudanças
tecnológicas, enfatizando-se o papel da competitividade sistêmica, cooperação, inovação,
empreendedorismo, difusão de informação, cultura em pequenos negócios, flexibilidade,
adaptabilidade e muitos outros fatores que interagem no ambiente local (KRUGMAN, 1991;
DESROCHERS, 1998). Assim, um local pode ser considerado mais dinâmico do que outro para
integrar processos coletivos formais e informais essenciais à produção de fluxo permanente de
inovações, cuja evolução salta dos comportamentos maximizadores de equilíbrio para um processo
natural de seleção em que são premiadas algumas decisões e outras são castigadas, dentro de um
mecanismo evolucionário de condutas adaptativas (NELSON, 1997).
O território funciona como um espaço que favorece o desencadeamento de um conjunto de
relações intencionais e não-intencionais, tangíveis e intangíveis, comercializáveis e não-
comercializáveis, que movem o processo de aprendizagem e de construção de competências - que
se incorporam e evoluem de forma acumulativa, de modo a resultar em eficiências coletivas. Quando
essas forças interagem e passam a dar forma e coesão a um conjunto de empresas ou indústrias
diferentes, porém com grau de complementaridade no todo ou em alguns elos das cadeias
produtivas, de forma a gerar um tecido dinâmico e sinérgico de ações internas – formando as redes
de ligação com fornecedores, clientes e as instituições correlatas, têm-se aí o conceito de
aglomerado econômico ou cluster industrial. Fica evidente, portanto, que o foco do conceito de

2
O livro de Fujita, Krugman e Venables (2002), em português e por isso dispensa comentário dado fácil acesso,
apresenta resumo elucidativo das obras referidas de Von Tünen [1966 (1826)] The isolated state; Weber, A.
(1909) Under don standart der industrien; Marshall, A. [1982 (1920)] Princípios de economia.
117
aglomerações empresariais locais ou cluster é voltado para uma concentração espacial de empresas
setorialmente especializadas, com predominância de micro e pequenas empresas, fruto de um
processo histórico de desenvolvimento, gerado no espaço socioeconômico, cultural e político local
(SCHMITZ; NADVI, 1999; SCHMITZ, 1999; PORTER, 1999; HOWELLS, 2000; DESROCHERS, 1998;
LLORENS, 2001; SANTANA, 2004; FINGLETON et al., 2005).
É grande a importância que esse tipo de aglomerações produtivas desperta nos países em
desenvolvimento, que convivem com elevado desemprego, baixo nível educacional, ambiente
institucional enviesado para o grande empreendedor, baixa renda per capita, baixa capacidade
inovativa e ambiente macroeconômico instável, pois elas têm se demonstrado como referência de
estrutura-chave para programas de desenvolvimento que permitam incluir pobres, gerar e distribuir
renda, criar capacidade para desenvolver o capital humano e social, assegurar sustentabilidade
ambiental e reduzir as desigualdades regionais.
O conceito de sistema e arranjo produtivo local (APL) é fundamentado na visão evolucionista
sobre inovações tecnológicas e de gestão, envolvendo tudo que deriva do processo institucional de
produção e difusão tecnológica e do movimento dinâmico que ocorre no seu torno por conta dos
encadeamentos produtivos intra e interempresas, das transações comerciais via mercado ou via rede
hierárquica, da dinâmica do mercado de trabalho e da ação coletiva e voluntária protagonizada pelos
atores em busca da realização de objetivos comuns.
Em tese, um APL pode ser caracterizado por concentrações geográficas de empresas
setorialmente especializadas (com ênfase nas micro e pequenas), onde a produção de um bem ou
serviço tende a ocorrer verticalmente desintegrada e em meio a sólidas relações interempresas
(mercantis e não-mercantis, competitivas e cooperativas) a montante e a jusante na cadeia produtiva
(SCOTT, 1988; RREIRA, 1996; DESROCHERS, 1998; LASTRES et al. 1998; HMITZ; NADVI, 1999;
SCHMITZ, 1999; PORTER, 1999; HOWELLS, 2000; LLORENS, 2001; BRITTO; ALBUQUERQUE,
2002; SUZIGAN et al., 2001 e 2003; SANTANA, 2004; SANTANA; SANTANA, 2004). Nesse ambiente
geográfico, em geral, são encontrados:
a) Serviços especializados de apoio à produção e comercialização, principalmente para
mercados distantes e ao desenvolvimento de inovações tecnológicas de produto, processo e
gestão (envolve engenharia de design; marketing de vendas; logística; informação sobre
mercado, preço, custo, venda e pós-venda e finanças; organização produtiva e social);
b) Redes de instituições públicas e privadas que dão sustentabilidade às ações dos agentes
tanto de representação quanto de auto-ajuda, principalmente nos aspectos da formação de
mão-de-obra, regulação de base legal das empresas, desenvolvimento e difusão de
tecnologia apropriada;
c) Identidades socioculturais, relacionadas ao histórico comum dos membros da sociedade
local, visando trabalhar lideranças empresariais, política e sindical e gerar um ambiente de
solidariedade e confiança mútua.
A sua dinâmica de funcionalidade e evolução é atingida ao se atender a um conjunto de
condições necessárias e outro de suficiência. As condições necessárias ao desempenho competitivo
do APL são:
a) A existência de uma concentração de empresas (ênfase nas micro e pequenas),
especializadas em dado bem ou serviço, ou setor da economia, em uma dada escala
geográfica (município, região ou país);
b) Organizações sociais formadas e operando ativamente no local (contribui para a formação,
articulação e evolução do capital social para o APL);
c) Mercado de trabalho estruturado para atender às especificidades das atividades que se
desenvolvem no APL (formação e desenvolvimento de capital humano para o APL);
d) Estoque de ciência e tecnologia (C & T), contemplando a produção e difusão de inovações
tecnológicas apropriadas para as atividades do APL;
e) Infra-estrutura produtiva e comercial em operação no local, envolvendo estradas, transporte,
portos, estruturas de armazenamento e as unidades de processamento e distribuição, ou
seja, a logística de mercado.
118
Essas ações per si podem não assegurar desempenho competitivo sustentável ao conjunto
do APL. Para isso, precisa-se atender a uma condição de suficiência que envolve a ação conjunta e
voluntária protagonizada no âmbito do APL, com vistas ao alcance de objetivos em nível da
coletividade de empresas e demais atores, ou seja, produzir eficiência coletiva em que o resultado da
diminuição nos custos e/ou incremento de produtividade é fruto da ação de todos e galgar as
economias de aglomeração3.
Na área de influência da Amazônia, não há aglomerações produtivas que atenda a essas
condições em seu conjunto, porém há sinais de identidade coletiva entorno dos elos de várias
cadeias produtivas. As atividades com potencial para se promover convergências em termos de
expectativas de desenvolvimento de APL estão em início de organização.
Assim, é útil adotar o conceito de APL proposto pela Rede de Pesquisa em Sistemas
Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist), coordenada pelo Instituto de Economia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, de que os sistemas locais de produção e inovação “referem-se a
aglomerados de agentes econômicos, políticos e sociais, localizados em um mesmo território, que
apresentam vínculos consistentes de articulação, interação, cooperação e aprendizagem. Incluem
não apenas empresas – produtoras de bens e serviços finais, fornecedoras de insumos e
equipamentos, prEstadoras de serviços, distribuidoras, clientes, etc. e suas formas de representação
e associação – mas também outras instituições públicas e privadas à formação e treinamento de
recursos humanos, pesquisa, desenvolvimento e engenharia, promoção e financiamento”. Demais
disso, para contemplar os arranjos locais ainda não inteiramente constituídos e que certamente
domina o cenário da Amazônia, a RedeSist adotou o conceito operacional de arranjos produtivos
locais (APL) para incluir as “aglomerações produtivas cujas articulações entre os agentes locais não é
suficientemente desenvolvida para caracterizá-las como sistemas”4.
Com efeito, Cassiolato e Lastres (2003, p.31) propõem que “onde houver produção de
qualquer bem ou serviço haverá sempre um arranjo em seu torno, envolvendo atividades e atores
relacionados à sua comercialização, assim como o fornecimento de matérias-primas, máquinas e
demais insumos”, abrindo espaço para se trabalhar, dentro desse conceito de APL, as atividades com
potencial de evoluir para a consolidação dos arranjos produtivos locais que estão sendo formados
nos municípios da Amazônia Legal.

6.3 METODOLOGIA
A fonte básica dos dados de emprego do Registro Anual de Informações Sociais (RAIS) para
2002, refere-se ao trabalho formal registrado em dezembro de 2002. Os dados de emprego do Pará
são distribuídos em 195 classes de atividade produtiva por município, conforme Classificação
Nacional da Atividade Econômica (CNAE). Como um APL contempla várias classes empresariais,
esta abrangência de classes permitiu fazer uma agregação de acordo com as atividades produtivas
indicadas como APL em outros estudos desenvolvidos na Agência de Desenvolvimento da Amazônia
(ADA, 2003; SANTANA, 2004). As atividades eleitas com potencial de desenvolvimento e de
formação de APL são apresentadas na Tabela 6.1.
Pelo que se observa na Tabela 6.1, cada APL contempla uma ou mais das atividades de uma
mesma cadeia produtiva. Por exemplo: no APL de lavoura temporária, conforme a CNAE, são
agregadas as atividades produtivas grãos, mandioca e olericultura e no APL de Lavoura Permanente
foram agregadas frutas e culturas industriais. Da mesma forma, o APL da pecuária contempla a
pecuária de corte e de leite, ovino, caprino, aves e suínos. Dessa forma, trabalha-se mais próximo do
conceito de APL que, estruturado por sistemas produtivos, agrega várias classes de atividade
produtiva em dado local, porém com ações complementares atuando em vários elos das cadeias de
suprimento.
Neste ponto, o trabalho se diferencia dos demais textos que tratam do assunto, dado que os
métodos são aplicados diretamente a um produto apenas. O agrupamento de atividades pertencente
a uma mesma classe ou de classe produtiva diferente e cujas ações se complementam de forma
horizontal e/ou vertical, robustece o método por torná-lo mais aderente ao conceito, ao mesmo tempo

3
Economia de aglomeração diz respeito à redução dos custos pelo fato de empresas similares
estarem localizadas na mesma área. Essas empresas ou unidades produtivas podem ser
relacionadas como competidores na mesma indústria, por utilizar os mesmos insumos e
matérias-primas, ou produtoras para as demais industriais.
4
RedeSist, http://www.ie.ufrj.br/redesist/. Cassiolato et al. (2001); Lastres et al. (1998).
119
em que pode funcionar como filtro de atividades migratórias, quando se considera a dinâmica
temporal. Na Amazônia, o arroz, a exploração madeireira e a pecuária servem de exemplo de ações
que migram na direção do avanço da fronteira agrícola.

Tabela 6.1
Descrição dos APL potenciais, como resultado da agregação de várias classes de atividade do CNAE
para os municípios da Amazônia.
APL potencial Descrição dos APL
APL Lavoura Produção de lavouras temporárias e permanentes.
APL Pecuária Pecuária de corte, leite, aves, suínos, ovinos e caprinos, etc.
APL Exploração florestal Silvicultura, exploração florestal e serviços relacionados.
APL Pesca Pesca, aqüicultura e serviços relacionados.
APL Extrativismo
Carvão mineral, petróleo, gás, ferro, minerais metálicos não-ferrosos.
mineral
APL Oleiro Extração de pedra, areia, argila e minerais não-metálicos.
APL Agroindústria
Abate e preparação de produtos de carne e de pescado, laticínios, ração.
animal
APL Agroindústria Processamento, preservação e produção de conservas de frutas, legumes,
vegetal óleos e gorduras, etc.
APL Couro Curtimento e outras preparações de couro, calçados e artigos diversos.
APL Têxtil Beneficiamento de fibras têxteis naturais, fiação, tecidos, confecções.
APL Madeira e Desdobramento de madeira, fabricação de produtos de madeira, celulose,
mobiliário artefatos, papel e editoração, etc.
Fabricação de produtos químicos orgânicos e inorgânicos, farmacêuticos,
APL Químico
produtos de limpeza, etc.
Carvão mineral, petróleo, gás, ferro, minerais metálicos não-ferrosos;
APL Mínero metalúrgico fabricação de cimento, concreto, siderurgia, fundição, motores, máquinas
diversas, etc.
Preparação de terreno, construção de edifício, infra-estrutura e obras em
APL Construção civil
geral.
APL Comércio Comércio atacado e varejo.
Serviço de transporte terrestre, dutoviário, aquaviário, aéreo, etc; produção e
distribuição de energia elétrica, gás, captação e distribuição de água;
serviços de telecomunicação, financeiro, seguros, processamento de dados,
APL Serviço pesquisa e desenvolvimento, assessorias diversas, etc.; serviços sociais,
seguridade, saneamento, organizações, etc; ensino normal e
profissionalizante, saúde.
Fonte: Rais (2002). Santana (2004).

O emprego é uma variável econômica importante como reveladora das aglomerações


empresariais formais dos locais investigados na Amazônia. Esta variável mantém forte correlação
com o capital humano, capital social, escala de produção e aglomeração e crescimento econômico.
Demais disso, é a única variável disponível e atualizada para todos os municípios brasileiros e para
um grande número de atividades ou setores econômicos. O emprego também pode funcionar como
massa de atração, dado que quanto maior a concentração de emprego em uma atividade específica,
situada em dado local, maior tende a ser sua força para atrair mais atividades econômicas.
Os dados da RAIS apresentam, como apontado nos estudos consultados sobre APL,
limitações por contemplar apenas os empregos formais, deixando de fora as pessoas atreladas às
120
atividades informais. Por outro lado, essa característica funciona como um filtro da aplicação do
índice de concentração, uma vez que são as atividades formais que recolhem as contribuições
sociais e trabalhistas, pagam os impostos e taxas e os proventos que dão direito às aposentadorias.
Estas, portanto, são as atividades que possibilitam ao trabalhador o acesso aos direitos substantivos,
intrínsecos ao processo de desenvolvimento humano local.
Adicionalmente, emprego formal dá conta apenas do mercado de trabalho vinculado ao APL,
representando o alcance das externalidades marshallianas locais, que são geradas pelos
encadeamentos produtivos intersetoriais, mercado de trabalho e os transbordamentos de
conhecimento via mobilidade da mão-de-obra e da interação dos adensamentos empresariais nos
elos da cadeia produtiva. Ficam de fora, portanto, as externalidades tecnológicas ou
schumpeterianas, envolvendo inovações de produto, processo produtivo, gestão empresarial,
diversificação e diferenciação de produtos, treinamento contínuo da força de trabalho e ações
coletivas para induzir e difundir conhecimento, e as externalidades transacionais, que contempla os
custos de transação, a estrutura de governança via contratos ou apenas o contato face a face, que
operam no local e são fatores básicos para a formação e evolução dos APL. Trabalhar
metodologicamente a confluência dessas três forças constitui o desafio para novas investigações.

6.3.1 Modelo de análise


A metodologia empregada para delimitar geograficamente os principais arranjos produtivos
da Amazônia adota como índice de especialização o quociente locacional (QL), recorrentemente
empregado por muitos autores, combinado com outros critérios como o coeficiente de Gini, exercitado
inicialmente por Krugman (1991) para medir a concentração espacial da indústria dos Estados
Unidos, assim como por Suzigan et al. (2003) e IEDI (2002) para mapear os sistemas locais de
produção e clusters do Estado de São Paulo. Estes e outros estudos adicionaram outras variáveis
para atuar como filtros de controle, como o número de estabelecimentos por setor em dado local. Os
principais trabalhos que empregaram todos esses critérios ou parte deles, estão vinculados a um
setor específico, envolvendo todo o espaço territorial do Brasil, ou vários setores delimitados em uma
região específica ou ainda focando regiões dentro de uma unidade federativa do Brasil são: Ferreira
(1996); Britto e Albuquerque (2002); Sebrae (2002); Suzigan et al. (2001 e 2003); Crocco et al.
(2003); Lemos et al. (2003); Santana (2004).
Esta metodologia se diferencia do padrão usual em dois aspectos fundamentais. O primeiro
está relacionado à forma de agrupamento das atividades produtivas de acordo com a possibilidade de
operar ações complementares conjuntas a montante e a jusante da cadeia produtiva, visando criar
economias de aglomeração por meio das ações coletivas. Todos os demais trabalhos realizados no
Brasil, América Latina e resto do mundo focam apenas um produto.
O segundo aspecto diz respeito ao emprego simultâneo dos três principais indicadores
utilizados na literatura disponível, para construir um índice geral que capta as forças de fundamento
do conceito do APL que são a concentração, especialização e importância relativa de uma produto,
atividade ou setor da economia em operação em dado território.

6.3.1.1 Indicadores estatísticos


O método aqui desenvolvido emprega o coeficiente de Gini e segue de perto o trabalho de
Crocco et al. (2003) e Santana (2004), por incorporar os vários critérios empregados em outros
estudos, para a elaboração de um índice de concentração normalizado, que permita indicar de forma
apropriada, os principais arranjos produtivos na Amazônia, levando em conta três características
principais: a) a especificidade de uma atividade ou setor dentro de uma região (município); b) o peso
da atividade ou setor em relação à estrutura empresarial da região (município); c) a importância da
atividade ou setor na Amazônia como um todo.
A primeira característica é determinada pelo índice de especialização ou quociente locacional
(QL). Este índice serve para determinar se um município em particular possui especialização em dada
atividade ou setor específico e é calculado com base na razão entre duas estruturas econômicas. No
numerador tem-se a economia em estudo, referente a um dado município da Amazônia que se
ponha em tela, e no denominador plota-se a economia de referência, em que constam todos os
municípios da Amazônia. A fórmula matemática é a seguinte:
121


= 
E ij / E j 
QL  E / E 
(6.1)
 iA A

Em que: Eij é o emprego da atividade ou setor i no município em estudo j; Ej é o emprego


referente a todas as atividades que constam no município j; EiA é o emprego da atividade ou setor i na
Amazônia; EA é o emprego de todas as atividades ou setores na Amazônia.
A maioria dos trabalhos considera que existiria especialização na atividade ou setor i no
município j, caso o seu QL seja superior a um. Outros estudos mais rigorosos adotaram como critério
o QL igual a dois ou três. Tendo em vista que a escala econômica do local depende de sua
especialização produtiva ou base exportadora (Fujita et al., 1999), o QL serve para identificar os
municípios da Amazônia de base exportadora ou de maior densidade econômica.
Em qualquer das situações, o resultado indica que a especialização do município j na
atividade ou setor i é superior à especialização do conjunto da Amazônia nessa atividade ou setor. Se
menor que 1, o QL indicaria que a especialização do município j na atividade ou setor i é inferior à
especialização do conjunto da Amazônia no referido setor.
Este indicador, utilizado generalizadamente pela sua simplicidade e importância pode,
todavia, provocar distorções como a apontada por Crocco et al. (2003) de que um QL > 1, ao invés de
significar especialização, pode estar indicando apenas uma diferenciação produtiva, em função da
disparidade dos municípios existentes em dada região. É possível também que alguns municípios
apresentem alto QL como decorrência da baixa densidade da estrutura empresarial do local, ou seja,
apenas uma empresa responde pela maior parte dos empregos gerados em dada atividade.
Para atenuar este problema, empregou-se um segundo indicador que visa captar o real peso
da atividade ou setor na estrutura produtiva local. Este indicador é uma modificação do índice de
concentração de Hirschman-Herfindahl (IHH), definido da seguinte forma:


 E   E  
= 
ij j
IHH  −   (6.2)
 E   E  
iA A

O IHH permite comparar o peso da atividade ou setor i do município j no setor i da Amazônia


em relação ao peso da estrutura produtiva do município j na estrutura da Amazônia como um todo.
Um valor positivo indica que a atividade ou setor i do município j na Amazônia está, ali, mais
concentrada e, portanto, com maior poder de atração econômica, dada sua especialização em tal
atividade ou setor.
O terceiro indicador foi utilizado para captar a importância da atividade ou setor i do município
j diante do total de emprego na referida atividade para a Amazônia, isto é, a participação relativa da
atividade ou setor no emprego total da respectiva atividade ou setor na Amazônia. A fórmula é dada
por:


= 
E ij 
PR  E 
(3)
 iA 

O indicador varia entre zero e um. Quanto mais próximo de um maior a importância da
atividade ou setor i do município j na Amazônia.
122

6.3.1.2 Índice de concentração


Os três indicadores descritos fornecem os insumos básicos para a construção de um
indicador mais geral e consistente de concentração empresarial ligado a uma atividade ou setor
econômico em um município, denominado de índice de concentração normalizado (ICN). A
constituição do ICN seguiu parte do procedimento de Crocco et al. (2003), mediante a combinação
linear dos três indicadores especificados na equação 6.4.

ICN = θ QL + θ IHH + θ PR
ij 1 ij 2 ij 3 ij (6.4)

em que os θ são os pesos de cada um dos indicadores para cada atividade ou setor produtivo em
análise.
Para o cálculo dos pesos θ de cada um dos índices especificados na equação 6.4, empregou-
se o método da análise de componentes principais. Este método produz alguns resultados de
interesse para esse trabalho. Assim, a partir da matriz de correlação dos indicadores, a análise das
componentes principais revela a proporção da variância da dispersão total da nuvem de dados
gerada, representativa dos atributos de aglomeração, que é explicado por cada um desses três
indicadores. Dessa forma, foram calculados os pesos específicos para cada indicador, levando em
consideração suas participações na explicação do potencial para a formação de arranjos produtivos
locais que os municípios apresentam setorialmente na Amazônia. Por esse critério, serão eleitos os
locais que apresentam ICN acima do valor médio do ICN para cada APL para a Amazônia.
A técnica da análise de componentes principais é apresentada, de forma didática, na próxima
seção.

6.3.2 A técnica de componentes principais


A técnica de análise de componentes principais (ACP) serve para descrever a variância total
de uma nuvem de n pontos no espaço de dimensão p, denotado por Rp, extraindo dessa nuvem de
pontos um novo conjunto de variáveis de mesma dimensão, ortogonais e não-correlacionados,
denominadas de componentes principais. Esse novo conjunto de variáveis é formado por meio de
combinações lineares normalizadas a partir do conjunto original de dados, de tal maneira que cada
componente principal gerada apresenta a maior variância possível, ou seja, cada componente é
orientada na direção da maior dispersão dos dados (DILLON; GOLDSTEIN, 1984; JOHNSON;
WICHERN, 1992).
Admite-se, inicialmente, que o conjunto de observações de um vetor de variáveis XT = (X1, X2,
..., Xp) tem a matriz de variância-covariância dada por Σ. As componentes principais são extraídas de
tal forma que cada componente principal (CPp) necessita de um vetor de coeficientes dado por γT =
(γ1, γ2, ..., γp), tal que a variância de γTX é máxima entre a classe de todas as combinações de X,
sujeita à restrição de que γTγ = 1. Isto significa que cada componente principal extraída da nuvem de
pontos fornece a direção da maior dispersão dos pontos observados.
Trata-se, portanto, de uma rotação ortogonal do sistema de referência original, dado pelas
variáveis Xi, em que a componente principal CPp é uma combinação linear de Xi na direção da maior
variância dos pontos e ortogonal às demais componentes principais CPi (i = 1, ..., p-1). Isto significa
que a correlação linear entre as componentes é nula.
A restrição é de que o produto do vetor de coeficientes γ multiplicado por ele mesmo resulta
no escalar igual a um, que é usado para prevenir que incrementos da variância de um γTX arbitrário
tornem as componentes de γ grande. Isto é, para um dado vetor γ sempre é possível encontrar outro
com grande variância, ao se escolher um vetor na mesma direção de γ mas de maior tamanho.
Contudo, a magnitude do vetor γ multiplicada por uma constante qualquer não altera as
características básicas de γTX, pois apenas a direção de γ pode determinar uma solução apropriada e
não o tamanho das componentes do vetor.
A solução geral do problema de extração das componentes principais de uma massa de
dados consiste, então, em maximizar γTΣγ, derivando com respeito à γ, sujeito à restrição de que γTγ =
1.
123
Portanto, fazendo uso da otimização matemática, pode-se mostrar que os coeficientes do
vetor γ podem satisfazer às p equações lineares simultaneamente.
(Σ - λI)γ = 0
em que λ é o multiplicador de Lagrange e I é uma matriz identidade. A solução do problema é
dada por:
(Σ - λI) = 0
Deste resultado, pode-se concluir que λ é o maior autovalor (ou raiz) de Σ e a solução para γ
é o correspondente autovetor γi (i = 1, 2, ..., p).
Dessa forma, o problema de determinar a componente principal CP1 passa a ser o mesmo
que determinar γ1 ∈ Rp, cuja direção seja orientada para a maior dispersão da nuvem de pontos. A
solução do problema é encontrada, maximizando a função lagrangeana, formada pela variância da
componente.
A combinação linear que dá origem à primeira componente principal (CP1), juntamente com a
restrição é dada pelas equações 6.5 e 6.6.
CP1 = γ11X1 + γ12X2 + ... + γ1pXp = γ1TX (6.5)
γ112 + γ122 + ... + γ1p2 = γ1Tγ1 =1 (6.6)

Os coeficientes da equação 6.5 são as coordenadas dos i-ésimos autovetores. O sinal e a


magnitude dos γ1j indicam o sentido e a contribuição da j-ésima variável na componente 1.
A função lagrangeana que especifica o problema é dada por:
L = γ1TΣγ1 - λ1(γ1Tγ1 – 1). (6.7)

Derivando a equação 6.7 em relação à γ1 e igualando o resultado a zero (condição de


primeira ordem), tem-se que:
2(Σ - λ1I)γ1 = 0
Σγ1 = λ1γ1 (6.8)
Σ = λ1

Esta é a equação característica da matriz de variância-covariância Σ que permite extrair seus


autovalores λ1 e respectivos autovetores γ1. Em seguida, tomando a expressão da variância da CP1, e
considerando o escalar, tem-se que:

Var(CP1) = γ1TΣγ1 = Σγ1Tγ1 = λ1γ1Tγ1 = λ1 (6.9)

Pelo resultado obtido em 9, tem-se que a variância da primeira componente principal é o


próprio autovalor da matriz Σ. Como essa variância deve ser máxima, λ1 é o maior autovalor de Σ e o
vetor γ1 será o autovetor correspondente. Em suma, para determinar as componentes principais de
um conjunto de dados, procede-se com a extração dos autovalores e autovetores de sua matriz de
variância-covariância Σ.
Nas aplicações práticas do modelo, por conveniência matemática e sem perda de
generalidade, assume-se que a média de Xi (i = 1, ..., p) é igual a zero e as variâncias iguais a um.
Esta é a solução inicial apresenta pelo Software SPSS. Para se obter as demais componentes
principais, o processo é o mesmo.
A solução do modelo de componentes principais pode ser ainda rotacionada para gerar uma
interpretação definitiva dos resultados, pois a estrutura inicial das estimativas das cargas ou
autovetores não é definitiva. Para confirmar ou rejeitar a solução inicial, o método de componentes
principais faz a rotação dessa estrutura inicial. A solução é ótima se as correlações entre as
componentes forem iguais a zero. Neste trabalho, utilizou-se o procedimento de rotação varimax, que
é o mais popular e constitui-se na busca da rotação que maximiza a variância ao quadrado das
cargas de cada coluna da matriz de variância-covariância. Os passos para este e outros métodos de
rotação podem ser encontrados em Johnson e Wichern (1992) e Dillon e Goldstein (1984).
124
Quando são extraídas todas as p componentes principais, a variância da nuvem de dados é
totalmente reproduzida, como na equação 6.10.

λ1 + λ2 + ... + λp = tr(Σ) = variância total (6.10)


em que o traço da matriz de variância-covariância tr(Σ) é a soma dos elementos da diagonal principal
da matriz Σ, ou seja, a soma das variâncias de todas as variáveis iniciais X.
Sendo assim, a importância descritiva de uma componente principal CPq qualquer é dada pela razão
entre a sua variância e a variância total, ou seja, é a proporção da variância total que é descrita por
ela, expressa na equação 6.11.

(λ q / trΣ ) = (λ q / ∑( s =1, p ) λ s ), q p p. (6.11)

Para a aplicação do modelo de componentes principais, geralmente, são desprezadas as


componentes que apresentam pequena participação para a explicação da variância total dos dados.
Como regra de bolso, geralmente se recomenda extrair da massa de dados o conjunto de
componentes principais que explicam pelo menos 60% da variância total. Neste caso, todas as
componentes foram consideradas no modelo por conveniência metodológica. (ver Apêndice)

6.3.2.1 Cálculo dos pesos para o índice de concentração


Para calcular os pesos relativos a cada um dos indicadores de atividades ou setores é
necessário utilizar alguns dos resultados do modelo de análise de componentes principais. Os valores
das componentes principais, propriamente, são desprezados, em favor dos resultados de interesse
gerados pelas matrizes de coeficientes rotacionados e a variância das três componentes, para
mostrar a importância específica de cada uma das variáveis na explicação da variância total da
nuvem de dados de referência.
O cálculo dos pesos inicia com os resultados dos autovalores ou variâncias relativas de cada
componente principal e a variância acumulada (Tabela 6.2). Portanto, ϕ1 significa o autovalor da
primeira componente principal ou a proporção da variância total que é explicada por essa
componente.

Tabela 6.2
Autovalores da matriz de correlação ou variância explicada pelos componentes principais, a partir da
matriz de variância-covariância.
Variância explicada ou Proporção da variância
Componente principal
autovalores acumulada total (%)
Componente CP1 λ1 λ1
Componente CP2 λ2 λ1 + λ2
Componente CP3 λ3 λ1 + λ2 + λ3
Fonte: elaboração própria.

A Tabela 6.3 apresenta a matriz de coeficientes ou dos autovetores da matriz de correlação


linear simples. Com esses dados é possível calcular a participação relativa de cada um dos
indicadores em cada uma das componentes principais, permitindo evidenciar a efetiva importância
das variáveis nas componentes. O processo de cálculo é o seguinte:
a) obtém-se a soma dos valores absolutos dos autovetores associados a cada componente
(equação 6.12); o sinal negativo de algum autovetor apenas indica que está atuando no sentido
oposto ao dos demais dentro de cada componente principal;
b) divide-se o valor absoluto de cada autovetor γij pela soma ψi, associada a cada componente,
gerando a matriz de autovetores recalculados: φij = (|γij| / ψi), conforme Tabela 6.4.

∑ ( i , j =1,..., 3) γ =ψ
ij i
(6.12)
125

Tabela 6.3
Matriz de coeficientes, pesos ou autovetores da matriz de correlação.
Indicador de insumo Componente CP1 Componente CP2 Componente CP3
QL γ11 γ12 γ13
IHH γ21 γ22 γ23
PR γ31 γ32 γ33
Soma dos coeficientes ψ1 ψ2 ψ3

Tabela 6.4
Matriz de participação relativa dos indicadores em cada componente principal.
Indicador de insumo Componente CP1 Componente CP2 Componente CP3
QL φ11 = (|γ11| / ψ1) φ12 = (|γ12| / ψ2) φ13 = (|γ13| / ψ3)
IHH φ21 = (|γ21| / ψ1) φ12 = (|γ22| / ψ2) φ23 = (|γ23| / ψ3)
PR φ31 = (|γ31| / ψ1) φ12 = (|γ32| / ψ2) φ33 = (|γ33| / ψ3)

Como os coeficientes φij da Tabela 6.4 representam o peso que cada variável assume dentro
de cada componente principal e os autovalores λi (Tabela 6.2) fornecem a variância dos dados
referentes a cada componente principal, o peso final que se atribui a cada indicador específico é dado
pela combinação linear dos produtos dos coeficientes pelos correspondentes autovalores, relativos a
cada componente principal, como a seguir:

θ =∑
i ( i , j =1,..., 3) φλ
ij i (6.13)

∑ θ =1
( i =1,..., 3) i (6.14)

em que:
θ1 é o peso atribuído ao indicador de quociente locacional, QL; θ2 é o peso atribuído ao indicador de
concentração modificado de Hirschman-Herfindahl, IHH; θ3 é o peso atribuído ao indicador de
participação relativa setorial, PR.

Dado que a soma dos pesos é igual a um, torna-se factível que a combinação linear dos
indicadores na forma padronizada, contribuem para gerar o índice de concentração normalizado
(ICN), em que os coeficientes são os próprios pesos calculados pelo método das componentes
principais, de acordo com o especificado na equação 4.
A metodologia empregada neste trabalho é um passo prévio, porém, essencial para
selecionar as aglomerações relevantes para embasar estudos aprofundados, por meio de estudos de
casos em dado APL específico. A seção seguinte apresenta o resultado da identificação dos arranjos
produtivos locais para os Estados da Amazônia.

6.4 ANÁLISE DOS RESULTADOS


O ICN permitiu identificar e mapear todas as atividades ou setores nos locais da Amazônia,
de acordo com o seu potencial aglomerativo ou de especialização, tendo no município a unidade de
referência. No entanto, os APL podem compreender mais de um município de um mesmo Estado e,
às vezes, englobar aqueles próximos, mas situados fora das fronteiras do Estado. Por enquanto, não
se tem preocupação com isto, e sim com todos aqueles municípios onde há especialização forte na
atividade ou setor i em qualquer Estado da Amazônia. No passo seguinte se partirá para o emprego
de uma metodologia pesada para a configuração completa (econômica, social, ambiental, institucional
e política) dos APL identificados e geograficamente mapeados. Não se deve perder de vista, portanto,
que o estudo dos aglomerados econômicos requer um pool de metodologias complementares,
resgatando e, ao mesmo tempo, orientando uma poderosa governança de decisões em diversas
órbitas, de forma a alcançar simultaneamente os níveis micro, meso, macro e metaeconômico, e criar
trajetórias evolucionárias de crescimento dos APL a partir de dado local.
126

6.4.1 Índice de concentração normalizado


Evoluindo na metodologia para a indicação e mapeamento de APL na Amazônia, com base
no índice de concentração normalizado (ICN), foi possível determinar o número de municípios em
cada Estado que apresenta especialização em dado APL acima do ICN médio da Amazônia.
A Tabela 6.5 mostra os resultados obtidos para os noves Estados da Amazônia e para o
conjunto da Amazônia, para os 16 agrupamentos de atividades com relações complementares e
ligações a um mesmo sistema geral de produção ou APL. Os Estados do Mato Grosso, Pará,
Tocantins e Maranhão apresentaram o conjunto de atividades produtivas de grãos, frutas, fibras que
compreende os fornecedores de matéria-prima, reunidos no APL lavoura e no APL pecuária em maior
número de municípios com índice de concentração acima da média obtida para a Amazônia. Com
relação às atividades de processamento agroindustrial, que compõem o segundo agrupamento de
empresas da cadeia produtiva de produtos agropecuários, destacam-se os Estados do Mato Grosso,
Rondônia e Pará, no caso da agroindústria processadora de produtos de origem animal; os Estados
do Pará, Mato Grosso e Maranhão, nos casos da agroindústria de produtos de origem vegetal e do
beneficiamento de couro e fabricação de calçados. Esses mesmos Estados se destacam também nos
APL de madeira e mobiliário, mínero metalúrgico, construção civil, comércio e serviços. A interação
desse conjunto de atividades configura o agronegócio ou o agricluster regional.
Com relação ao APL da pesca, o Estado do Pará se sobressai com sete municípios de
grande especialização, seguido pelos Estados do Maranhão, Amazonas e Tocantins. Este APL
concilia as atividades de pesca, aqüicultura e os serviços relacionados às atividades. É um APL típico
de subsistência, uma vez que suas atividades se desenvolvem na informalidade, ocupando mão-de-
obra familiar ou trabalho remunerado mas sem a legalização trabalhista.
Nestes termos, os municípios foram enquadrados em três classes, de modo a representar a
especialização dos locais em relação a dado conjunto de atividades com potencial de evoluir para
APL e, ao mesmo tempo, possibilitar uma leitura das linhas (representando os municípios) cruzando
os APL (lidos nas colunas). Isto pode ser de fundamental importância para a identificação de
municípios-núcleo de polarização de aglomerações econômicas de maior complexidade. Assim, os
municípios que computam até três APL podem ser considerados como de baixa concentração, os que
contam com quatro a seis como de intermediária concentração, e aqueles com mais de sete e até 10
APL (foi o número máximo encontrado de APL) são considerados de elevada concentração e que
podem ser indicados para formar os núcleos de atração para o desenvolvimento endógeno local, a
partir da rede de interação entre os agentes dos vários APL (Tabela 6.5). Naturalmente, o maior
apinhamento de APL em dado local pode redundar o campo da simples diversificação de atividades e
visualizar a complexidade da estrutura empresarial, carecendo de estudo específico para dar impulso
e rumo à trajetória do crescimento sustentado dessas aglomerações econômicas. Para se identificar
o município e os respectivos APL, visualizar no mapa da Figura 6.1.

Tabela 6.5
Número de municípios por Estado da Amazônia que abrigam vários APL simultaneamente, 2004.

Estrato AC AP AM MA MT PA RO RR TO AML
Até 3 APL 18 15 55 193 68 102 30 12 114 607
De 4 a 6 APL 4 1 6 17 55 35 16 3 25 162
De 7 a 10
0 0 1 7 16 6 6 0 1 37
APL
Total 22 16 62 217 139 143 52 15 140 806

Porcentagem
Até 3 APL 81.8% 93.8% 88.7% 88.9% 48.9% 71.3% 57.7% 80.0% 81.4% 75.3%
De 4 a 6 APL 18.2% 6.3% 9.7% 7.8% 39.6% 24.5% 30.8% 20.0% 17.9% 20.1%
De 7 a 10
0.0% 0.0% 1.6% 3.2% 11.5% 4.2% 11.5% 0.0% 0.7% 4.6%
APL
Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100%
Fonte: Dados da Rais (2002). Elaboração própria.
127

Figura 6.1 - Mapa temático dos municípios da Amazônia, segundo a penca de APL que abriga.

Os resultados das concentrações de atividades, sobretudo as enquadradas nas classes de 4-


6 e de 7-10 APL, sinalizam fortemente no sentido de que tais aglomerações conformem APL. Os
municípios da classe superior podem ser denominados de núcleos de desenvolvimento local-regional,
que integra sete ou mais grupos de atividades empresariais fortemente concentrados. Essas
aglomerações, portanto, se caracterizam pela importância para o local e/ou para a Amazônia,
conforme foi referendado nos Seminários-Participativos.
Assim, tem-se que os locais de maior especialização e de concentração de APL, portanto,
situados na terceira classe da Tabela 6.5 representam apenas 4,6% do total da Amazônia, com um
total de 37 municípios. Com relação aos Estados, Mato Grosso conta com 16 municípios (11,5% do
total de seus municípios especializados), Pará e Rondônia com seis municípios e Maranhão com
sete, Tocantins e o Amazonas com apenas um APL. Os resultados do Acre, Amapá e Roraima não
apresentam nenhum município com alta concentração.
Na Tabela 6.6, estão reunidos os municípios com pencas de 7 a 10 APL para os Estados
onde eles estão presentes e, para os Estados do Acre, Amapá e Roraima, que não apresentam essa
classe de APL, apresentaram-se os municípios com maior número de APL. Esses municípios podem
ser visualizados no mapa da Figura 6.1.
No caso do Estado do Pará, os municípios de maior concentração foram: Ananindeua,
Benevides, Castanhal, Itaituba e Santarém com oito APL e Belém com sete APL. Aqui entra uma
outra tarefa complexa que é avaliar o grau de interação existente e potencial entre esses APL e em
que grau contempla as prioridades para o desenvolvimento sustentável do local. Observa-se,
entretanto, que em todos os seis municípios, estão presentes as agroindústrias de beneficiamento de
produtos de origem animal e/ou vegetal, o APL comércio aparece em 100%, porém, apenas Belém
contempla o APL serviço. Isto remete a um trabalho homérico para se fazer operar de forma dinâmica
128
e sustentável os núcleos que não contam com especialização em serviços (educação e treinamento,
saúde, saneamento, telecomunicação, assessorias, energia, transporte, organizações, etc.), que é a
base para a eficiência coletiva e a obtenção de vantagens competitivas sustentáveis.

Tabela 6.6
Municípios que concentram pencas formadas com 7 a 10 APL, segundo o Estado, 2004.
Estados Municípios

Acre Xapuri e Senador Guiomar com 4 APL


Amapá Santana com 5 APL
Amazonas Manaus com 7 APL e Manacapuru com 6
Açailândia, Caxias, Governador Edson Lobão, Imperatriz, Rosário, São José de
Maranhão
Ribamar e Timon.
Barra do Bugre, Cáceres, Campo Novo dos Parecis, Canarana, Cuiabá, Dom
Aquino, Jaciara, Lucas do Rio Verde, Nova Nazaré, Planalto da Serra, Porto
Mato Grosso
Espiridião, Santa Cruz do Xingu, Santo Antônio do Leverger, São Félix do
Araguaia, Serra Nova Dourada e Tesouro.
Pará Ananindeua, Belém, Benevides, Castanhal, Itaituba e Santarém.
Alto Alegre dos Parecis, Alvorada d’Oeste, Castanheiras, Corumbiara, Jamari e
Rondônia
Primavera de Rondônia.
Roraima Rorainópolis com 5 APL e Boa vista com 4 APL
Tocantins Gurupi com 7 APL e Araguaína e Miranorte com 6 APL
Fonte: Elaboração própria.

No Estado do Amazonas, apenas o município de Manaus conta com sete APL, entre eles a
agroindústria beneficiadora de produtos vegetais, indústria têxtil, comércio, serviços, construção civil,
indústria metalúrgica e a indústria química.
Em Rondônia, os municípios de maior concentração de APL foram: Castanheiras com nove
APL, Alto Alegre dos Parecis, Corumbiara e Alvorada d’Oeste com oito APL, Jamari e Primavera de
Rondônia com sete. Em cinco dos seis municípios (83,3%) aparece o APL madeira e mobiliário; em
todos (100%) a agroindústria de beneficiamento de produtos vegetal e/ou animal e em quatro (66,7%)
o APL do couro, calçados e artigos diversos.
O Estado do Tocantins apresenta três municípios com elevada concentração de APL:
apenas o município de Gurupi com sete APL. Ali estão presentes os APL de couro e calçados e a
agroindústria de processamento vegetal e/ou animal.
O Maranhão também apresenta sete municípios com elevada concentração de APL:
Açailândia, Caxias, Governador Edson Lobão, São José de Ribamar e Timon com sete APL cada e
Imperatriz e Rosário com oito APL cada. Novamente há a presença, em todos eles, da agroindústria
de beneficiamento de produtos vegetais e/ou animal e em seis o APL serviços, o que é uma
característica diferente dos demais municípios estudados até agora.
Finalmente, o Estado do Mato Grosso que apresentou o maior número de municípios com
alta concentração de APL, cerca de 16 municípios. A lista dos municípios é a seguinte: Barra do
Bugre, Campo Novo dos Parecis, Canarana, Dom Aquino, Lucas do Rio Verde, Nova Nazaré, Santo
Antônio do Laverger e Serra Nova Dourada com sete APL cada; Cuiabá, Jaciara, Porto Espiridião,
Santa Cruz do Xingu, São Félix do Araguaia e Tesouro com oito APL; Planalto da Serra com nove; e
Cáceres com 10 APL. Neste Estado, há vários municípios especializados nos APL lavoura e/ou
pecuária, cerca de 14 municípios (87,5%) do total e 14 municípios especializados em agroindústrias,
o que mostra um grau consistente de verticalização da agropecuária. O ponto curioso é que apenas
Cuiabá, município que acolhe a capital do Estado, apresenta especialização no APL serviços.
Os demais Estados como Acre, Amapá e Roraima não apresentam alta concentração de APL
em seus municípios. Os locais onde há concentração intermediária de APL nesses Estados foram em
número de quatro no Acre, três em Roraima e um no Amapá. Assim, os municípios do Estado do
Acre foram: Porto Walter com cinco APL e Santa Rosa do Purus, Senador Guiamard e Xapuri com
quatro APL cada. O traço é que três dos quatro municípios apresentam especialização no APL
serviço.
129
No Estado de Roraima, tem-se que Boa Vista e Macajaí apresentam quatro APL e
Rorainópolis cinco APL. O município de Boa vista congrega os APL serviços e têxtil, já Macujaí é
especializado no APL oleiro cerâmico e madeira e mobiliário.
O Estado do Amapá apresenta concentração intermediária em apenas um município, com o
máximo de cinco APL. O município de Santana se destaca com os APL de agroindústria de
beneficiamento de produtos vegetais (açaí principalmente), minero metalúrgico, comércio, construção
civil e química.
O mata da Figura 6.1 ilustra a posição das informações da Tabela 6.5, em que a bola maior
(cor vermelha) representa os municípios da Amazônia que contemplam de 7 a 10 APL; a bola
intermediária (cor verde) acolhe de 4 a 6 APL por município; e a bola menor (cor azul) indica o
município que abriga de 1 a 3 APL. As áreas em branco são os municípios sem APL.
No geral, os municípios-núcleo, ou seja, aqueles que reúnem pencas de 7 a 10 APL, em
todos os Estados da Amazônia, apresentam características de aglomerações agropecuárias,
extrativas e agroindustriais, comércio e serviços. Boa parte dos produtos se destina aos mercados
nacional e internacional, configurando escalas econômicas locais com especialização produtiva de
base exportadora. São os casos dos grãos, madeira, minérios, carne e couro, peixe e polpa de frutas.
Diferentemente desse padrão se encontram os núcleos de Belém, Cuiabá, Manaus, Porto
Velho e São Luís, que são especializados em comércio e serviços, embora incorporem também
produtos agroindustriais. Adicionalmente, Manaus apresenta especialização em produtos
industrializados.
Esses núcleos, contudo, ainda devem ser tratados como núcleos com características de ilhas
de crescimento econômico, dado que o entorno é formado de arranjos produtivos de subsistência,
ainda com baixa capacidade de integração em rede e de criar dinâmica própria de crescimento.
Não obstante essa característica, está em curso um processo de adensamento de cadeias
produtivas, puxadas pelo desenvolvimento de agroindústrias a jusante da agropecuária e do
extrativismo florestal e mineral. Com isso, as áreas formando um grande círculo a partir de Belém,
passando pelo meio oeste do Maranhão, descendo ao longo da parte oeste do Tocantins,
circundando o Sul do Mato Grosso, atravessando o centro de Rondônia, avançando até Manaus e
contornando para Santarém (Figura 6.1), apresentam densa rede de atividades comerciais com
ligações inter-regionais e com poder de polarização de maior alcance. Com infra-estrutura de
estradas e transporte (Cuiabá-Santarém) e hidroviário (eclusas de Tucuruí), consolida-se o núcleo de
desenvolvimento da região amazônica, assentado na transamazônica, e se viabiliza a fragmentação
do Estado do Pará em três outros Estados.
Em aprofundamento das análises, estes resultados podem ser consubstanciados com uma
análise qualitativa para criar tipologias de APL segundo o grau de importância e/ou prioridade que
representam para o local e para a região amazônica. Em termos gerais, pode-se tomar como
exemplo a agroindústria de beneficiamento de produtos de origem animal e/ou vegetal, que apresenta
destaque tanto para os locais onde estão instaladas, como para a Amazônia, por permitir criar uma
estrutura em rede com os fornecedores de matéria-prima (produtores rurais e extratores) e com
clientes locais (comércio varejista), nacional (comércio atacadista e varejista) e internacional (traders).
Na mesma direção também pode ser enquadrado o APL de madeira e mobiliário.
Com relação ao escopo da abrangência de ação de políticas, dado o mapeamento dos APL
incluir muitos locais, necessariamente deve ser compartilhada com os Estados e municípios, para que
sejam eleitos os municípios-chave (aqueles com maior apinhamento de APL – com base nos
resultados da Tabela 6.5), de modo que cada microrregião seja contemplada por um município-
núcleo, formando um tecido de abrangência tal a gerar pólos de desenvolvimento. Isto pode
necessitar de uma governança complexa, mas se funcionar adequadamente produzirá fortes
impactos positivos sobre o desenvolvimento local, com possibilidade de repercutir em toda região
amazônica, reduzindo desigualdade que é o grande objetivo do Ministério da Integração Nacional.
Os resultados se apresentam fortemente aderentes às indicações de atividades, obtidas por
ocasião dos Seminários-Participativos que foram realizados nos noves Estados da Amazônia com
esta finalidade. Com raras exceções para atividades informais, que embora ocupem pessoas não
constam das estatísticas da RAIS ou atividades formais de pouca expressão quanto a emprego, os
resultados coincidem com as indicações.
130
Por fim, os resultados reforçam a assertiva de que há uma ocorrência de forte especialização
nas classes de atividade que congruem para a integração de cadeias produtivas de base
agropecuária e florestal, conforme Santana (1994, 1998), Santana et al. (1997), Santana (2002 e
2003a,b).

6.5. CONSIDERAÇÕES FINAIS


A metodologia desenvolvida neste trabalho mostrou-se robusta para a tarefa de
identificar e mapear aglomerações geográficas de atividades e na delimitação de APL, podendo até
mesmo servir de base para orientar a caracterização da estrutura empresarial local. Diante disso, a
ADA marca a posição de primeira instituição pública a empregar um método formal para identificar e
mapear APL, visando orientar as atividades em apoio ao planejamento do desenvolvimento da região
amazônica, de acordo com o que rezam as diretrizes do Programa Amazônia Sustentável, ancoradas
no Programa Plurianual “Brasil para Todos”. Essa metodologia, todavia, não teve a pretensão de,
como explicitado no início, apresentar todos os fatores que caracterizam e/ou influenciam o
desenvolvimento de qualquer APL específico, apenas de identificá-los.
Ficou evidente que os APL serviços e comércio estão presentes na grande maioria dos
municípios, em função das atividades governamentais (saúde, educação, saneamento, etc.) e de
instituições privadas (telecomunicação, energia, transporte, etc.) e de organizações diversas que
atuam na direção da formação de capital humano, capital social e capital produtivo. Naturalmente, no
percurso de amadurecimento dos APL, esse conjunto de atividades deve atuar sinergisticamente com
os demais APL. Somente assim, é possível gerar as eficiências coletivas e distribuir os resultados de
forma massificada.
O estudo, ao identificar e mapear os APL traça o perfil do desenvolvimento regional, pondo
em relevo os agrupamentos empresariais e a especialização econômica de cada local. Uma
característica presente em todos os locais é a vocação exploradora mesmo que materializada em
fluxos descontínuos e em volumes pequenos de produtos regionais.
Os resultados orientam sobre quais APL e respectivos locais as políticas públicas devem
centrar esforço, caso vise realmente o desenvolvimento sustentável com base no aproveitamento das
potencialidades instaladas na própria região amazônica.
Os resultados também permitem configurar a geografia econômica da Amazônia. Visualiza-se
a formação de um grande circulo virtuoso, saindo de Belém, passando pelo meio oeste do Maranhão,
descendo ao longo da parte oeste do Tocantins, circundando o Sul do Mato Grosso, atravessando o
centro de Rondônia, avançando até Manaus e contornando para Santarém (Figura 6.1). Ao se
consolidar a infra-estrutura de estradas e transporte, rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) e hidroviário
(eclusas de Tucuruí), emergem, naturalmente, as bases para a formação do núcleo de
desenvolvimento da região amazônica, assentado na transamazônica, com a possibilidade de divisão
do Estado do Pará.
A principal limitação enfrentada para realizar o trabalho, foi a não disponibilidade dos dados
necessários para a caracterização de APL e aplicação das metodologias de fronteira que, na maioria
das vezes, o resto do mundo dispõe e a ADA não dispõe. O apelo é, então, que o Ministério da
Integração Nacional viabilize a obtenção das informações necessárias ao bom planejamento do
desenvolvimento regional, que a ADA despontará como instituição federal com competência igualada
à fronteira do conhecimento técnico-científico no que concerne aos seus atributos.
Por fim, cabe enfatizar que essa metodologia dá conta de apenas identificar e mapear os APL
na Amazônia, de modo que necessita da complementaridade de outros estudos de caso que
aprofundem as análises e conhecimentos sobre a dinâmica evolucionária e as oportunidades para o
desenvolvimento dos APL.
131

6.6 REFERÊNCIAS
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Participativos para indicação de referências locais prioritárias ao planejamento do
desenvolvimento regional da Amazônia – SPIRAL: arranjos produtivos locais. Belém: ADA, 2003.
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pequenas empresas. In: LASTRES, H.M.M.; CASSIOLATO, J.E.; MACIEL, M.L. Pequena empresa:
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WILLIAMSON, O.E. The mechanisms of governance. New York: Oxford University Press, 1999.

6.7 EXERCÍCIOS DE APRNDIZAGEM


E1. Apresente os conceitos de arranjo produtivo local e compara com o conceito de cadeia de
suprimento.
E2. O mapa da Figura 6.1 indica um círculo virtuoso, uma vez que nos municípios ilustrados por pólas
vermelhas, verdes e azuis apresentam os maiores índices de PIB per capita, maiores IDH, maiores
índices de emprego e menores indicadores de fome. Analise este contexto e fundamente o APL como
política adequada de desenvolvimento local na Amazona.
E3. O círculo apresentado no mapa da Figura 6.1 também com o arco do desmatamento da
Amazônia. Faça uma síntese entre estes dois posicionamentos.
133

APÊNDICE – ANÁLISE FATORIAL


1. INTRODUÇÃO
Antes de entrar no estudo da análise fatorial, alguns pontos devem ser referidos, a título de
chamar a atenção do leitor para que não cometa erros ou venha a ter problemas que podem ser
evitados com relativa facilidade.
Toda análise multivariada necessita de um exame meticuloso da massa de dados, pois o
poder analítico dos instrumentos de análise multivariada que podem ser postos a disposição do
pesquisador depende diretamente da qualidade e consistência dos dados.
O exame dos dados antes da aplicação de uma das técnicas da análise multivariada
(componentes principais ou análise fatorial) permite que se tenha uma visão crítica dos dados. Este
exame envereda por alguns caminhos para saber a forma da distribuição dos dados (histogramas), a
relação entre as variáveis (gráfico de dispersão, correlação), identificação de autovalores, erros de
medida e assim por diante.
É importante, também, antecipar algumas termos-chave para facilitar o entendimento da
nomenclatura técnica que envolve a análise multivariada. A lista de termos-chave foi extraída de Hair
et al. (2005, p.90-91).
a) Análise de componente principal: modelo fatorial em que os fatores são baseados na
variância total da nuvem de dados.
b) Análise fatorial: analisa relações entre variáveis para identificar grupos de variáveis que
formam dimensões latentes (fatores).
c) Autovalor: soma em coluna de cargas fatoriais ao quadrado para um dado fator; também
conhecido como raiz latente ou raiz característica e representa a magnitude de variância
explicada por um fator específico.
d) Cargas fatoriais: correlação entre as variáveis originais e os fatores, considerado a chave
para o entendimento da natureza de um fator; as cargas fatoriais ao quadrado indicam o
porcentual da variância de uma variável original que é explicado por um fator.
e) Comunalidade: magnitude total da variância que uma variável original compartilha com todas
as outras variáveis incluídas na análise, captada pelo conjunto de fatores comuns.
f) Homocedasticidade: quando a variância dos termos de erro aparece constante ao longo de
um domínio de variáveis explicativas, diz-se que os dados são homocedásticos.
g) Linearidade: usada para expressar o conceito de que o modelo possui as propriedades de
aditividade e homogeneidade. Em geral, os modelos lineares prevêem valores que recaem
em uma linha reta que tem uma mudança com unidade constante (coeficiente angular) da
variável dependente em relação a uma mudança com unidade constante da variável
independente.
h) Matriz fatorial: tabela de cargas fatoriais de todas as variáveis sobre cada fator.
i) Multicolinearidade: grau em que uma variável pode ser explicada pelas outras variáveis na
análise.
134
j) Ortogonal: independência matemática (sem correlação) de eixos fatoriais, um em relação ao
outro (ângulos retos 90 graus).
k) Rotação fatorial: processo de ajuste dos eixos fatoriais para conseguir uma solução fatorial
mais simples e pragmaticamente mais significativa.
l) Varimax: é um dos métodos de rotação fatorial ortogonal mais popular.

2. O QUE É ANÁLISE FATORIAL


Análise fatorial é um nome genérico dado a uma classe de métodos estatísticos multivariados
cujo propósito fundamental é definir a estrutura subjacente em uma matriz de dados. De modo geral,
a análise fatorial é utilizada para analisar a estrutura das inter-relações (correlações) entre um grande
número de variáveis, definindo um conjunto de dimensões latentes comuns que facilitam a
compreensão da estrutura da nuvem de dados, chamadas de fatores. Com a análise fatorial,
inicialmente pode-se identificar as dimensões isoladas da estrutura dos dados e então determinar o
grau em que cada variável é explicada por cada dimensão ou fator. Depois dessa etapa, a análise
fatorial pode ser empregada para resumir ou para reduzir a massa de dados.
Com o resumo dos dados, a análise fatorial gera dimensões latentes ou fatores que quando
interpretadas e compreendidas, descrevem os dados a partir de um número muito menor de
conceitos do que as variáveis individuais originais.
A redução de dados, por ser conseguida calculando escores para cada fator e substituindo as
variáveis originais pelos referidos fatores.

2.1 OBJETIVO DA ANÁLISE FATORIAL


O objetivo da análise fatorial é encontrar uma maneira de condensar (resumir) a informação
contida em diversas variáveis originais em um conjunto menor de novas dimensões compostas ou
variáveis estatísticas (fatores) com uma perda mínima de informação, ou seja, buscar e definir os
constructos fundamentais ou dimensões assumidas como inerentes às variáveis originais. De modo
geral, a análise fatorial pode satisfazer a um dos objetivos: identificação da estrutura por meio do
resumo de dados ou redução de dados.
O primeiro objetivo diz respeito à identificação da estrutura de relações entre as variáveis,
examinando-se as correlações entre elas. O segundo objetivo implica em identificar variáveis
representativas de um conjunto muito maior de variáveis para uso em análises multivariadas
subseqüentes.

2.2 TAMANHO DA AMOSTRA


No que tange ao tamanho da amostra, dificilmente se faz uma análise fatorial com menos de
50 observações. De preferência, o tamanho da amostra deve ser igual ou superior a 100. Como regra
geral, deve ter-se pelo menos cinco vezes mais observações do que o número de variáveis a serem
analisadas e o número mais seguro deveria atingir uma proporção de 10 para um.

2.3 SUPOSIÇÕES NA ANÁLISE FATORIAL


Do ponto de vista estatístico, os desvios da normalidade, da homocedasticidade e da
linearidade aplicam-se apenas no nível em que elas diminuem as correlações observadas. A
normalidade é necessária somente se um teste estatístico for aplicado para a significância dos
fatores, mas estes testes raramente são usados. Em geral, um pouco de multicolinearidade é
desejável, pois o objetivo é identificar conjuntos de variáveis inter-relacionadas.
Além da base estatística para as correlações da matriz de dados, deve-se garantir que a
matriz de dados tenha correlações suficientes para justificar a aplicação da análise fatorial. Se a
análise não revela um número substancial de correlações superiores a 0,30, então a análise fatorial
provavelmente não é adequada aos dados. Se existem fatores “verdadeiros” nos dados, a correlação
parcial deverá ser pequena ou não significativa, pois a variável pode ser explicada pelos fatores
(variáveis estatísticas com cargas para cada variável). Se as correlações parciais são altas, então não
há fatores latentes “verdadeiros” e a análise fatorial é inadequada.
135
2.4 ANÁLISE DE FATORES VERSUS ANÁLISE DE COMPONENTES
A análise de componentes é usada quando o objetivo é resumir a maior parte da informação
original (variância) a um número mínimo de fatores para propósito de previsão. Em contraste, a
análise de fatores comuns é usada principalmente para identificar fatores ou dimensões latentes que
possam refletir o que as variáveis têm em comum.
A variância comum é definida como a variância de uma variável que é compartilhada com
todas as outras variáveis da análise. As comunalidades são estimativas da variância compartilhada,
ou comum, entre as variáveis. A análise de componentes considera a variância total e determina
fatores que contêm pequenas proporções de variância única e, em alguns casos, variância do erro.
A escolha entre um modelo e outro é baseada no objetivo da análise fatorial ou no montante
de conhecimento prévio sobre a variância das variáveis.
O modelo fatorial de componentes é apropriado quando a preocupação principal é a previsão
ou o número mínimo de fatores necessários para explicar a parte máxima da variância representada
no conjunto original de variáveis ou quando conhecimento anterior sugere que as variâncias
específicas e de erro representam uma proporção relativamente pequena da variância total.
Por outro lado, quando o objetivo principal é identificar as dimensões ou constructos latentes
representados nas variáveis originais e o pesquisador tem pouco conhecimento sobre o montante da
variância específica e do erro e, portanto, deseja eliminar essa variância, o modelo de fatores comuns
é mais adequado. Em função de suas suposições mais restritivas e uso apenas de dimensões
latentes (variância compartilhada), é visto como algo teoricamente mais fundamentado.

2.5 CRITÉRIOS PARA A EXTRAÇÃO DE FATORES


Qual o número de fatores a serem extraídos? Alguns critérios são utilizados para a extração
de fatores e os principais são: raiz latente, a priori e porcentagem da variância.
a) Critério da raiz latente: a técnica mais comumente utilizada é de raiz latente. Esta técnica
parte do princípio de que qualquer fator individual deve explicar a variância de pelo menos
uma variável para que seja mantido para interpretação. Cada variável contribui com um valor
1 do autovalor total. Com efeito, apenas os fatores que têm raízes latentes ou autovalores
maiores que 1 são considerados significantes e os demais fatores com autovalores menores
do que 1 são considerados insignificantes e descartados. Este critério é mais confiável
quando o número de variáveis está entre 20 e 50.
b) Critério a priori: o pesquisador já sabe quantos fatores extrair antes de empreender a
análise fatorial. Este tratamento é útil quando se testa uma teoria ou hipótese sobre o número
de fatores a serem extraídos. Também se justifica quando se trate de uma tentativa de repetir
o trabalho de outro pesquisador.
c) Critério da porcentagem da variância: é baseado na conquista de um porcentual
cumulativo especificado da variância total extraída por fatores sucessivos. O objetivo é
garantir significância prática para os fatores determinados, assegurando que expliquem pelo
menos um montante especificado de variância. Em ciências naturais, o procedimento de
obtenção de fatores não deve parar até que os fatores extraídos explicarem pelo menos 95%
da variância. Por outro lado, nas ciências sociais, é comum considerar uma solução que
explique 60% da variância total como satisfatória.

2.6 ROTAÇÃO DE FATORES


A solução de fatores não-rotacionados extraem fatores na ordem de sua importância. O
primeiro fator explica a maior parcela da variância total. O segundo e os seguintes são extraídos
baseados na variância residual.
A rotação fatorial é um processo em que os eixos de referência dos fatores são rotacionados
em torno da origem até que alguma outra posição seja alcançada. O efeito final de rotacionar a matriz
fatorial é redistribuir a variância dos primeiros fatores para os últimos com o objetivo de atingir um
padrão fatorial mais simples e teoricamente mais significativo. Ou seja, a rotação torna a correlação
mais forte entre as variáveis associadas a um mesmo fator e mais fraca com os demais fatores.
136
2.7 MODELO BÁSICO DE ANÁLISE FATORIAL
O modelo de análise fatorial guarda grande semelhança com o modelo de componentes
principais. O modelo de componentes principais com q componentes e p variáveis (q < p), pode ser
escrito como na equação 1 (DILLON; GOLDSTEIN, 1984).
CP1 = γ 11 X 1 + γ 12 X 2 + ... + γ 1 pXp
CP 2 = γ 21 X 1 + γ 22 X 2 + ... + γ 2 pXp
(1)
M

CPq = γq1 X 1 + γq 2 X 2 + ... + γqpXp


Em que:
CPi = são as i-esimas componentes principais (i = 1, 2, ..., q);
γij = são os coeficientes relacionados a cada variável;
Xj = são as j-ésimas variáveis (j = 1, 2, ..., p).
Por outro lado, o modelo básico de análise fatorial expressa cada variável em termos dos
fatores latentes comuns e de um fator único ou fator específico. A representação algébrica do modelo
é dada pela equação 2.
X 1 = λ 11 FC 1 + λ 12 FC 2 + ... + λ 1qFCq + e1
X 2 = λ 21 FC 1 + λ 22 FC 2 + ... + λ 2 qFCq + e 2
(2)
M

Xp = λp1 FC 1 + λp 2 FC 2 + ... + λpqFCq + ep


Em que:
Xi = são as i-esimas variáveis (i = 1, 2, ..., p);
λij = são os coeficientes relacionados a cada fator comum (i = 1,..., p; j = 1,..., q);
FCj = são os j-ésimos fatores comuns (j = 1, 2, ..., q);
ei = são os i-ésimos fatores específicos.
O modelo básico de fatores comuns é usualmente expresso na forma matricial como na
equação 3.
X = ΛF + Ε (3)
Em que:
X = é o p-dimensional vetor de variáveis originais, X’ = (x1, x2, ..., xp);
F = é o q-dimensional de variáveis não-observáveis ou fatores comuns, F’ = (f1, f2, ..., fq);
Ε = é o p-dimensional vetor de variáveis não observáveis ou fatores únicos, Ε’ = (e1, e2, ..., ep);
Λ = é a matriz (p,q) de constantes desconhecidas, ou cargas fatoriais.

 X 1  λ 11 λ 12 L λ 1q   f 1  e1 
 X 2 λ 21 λ 22 L λ 2 q   f 2  
X =  ; Λ =  ; F =  ; Ε = e 2 
 M  M M M  M M
       
 Xp   λp1 λp 2 L λpq   fq  ep 
No modelo de análise fatorial pressupõe-se que os fatores específicos são ortogonais entre si
e com todos os fatores comuns, ou seja, a matriz de variância é dada por:
137

ψ 1 0 L 0 
0 ψ2 L 0
E (ee' ) = Ψ =  ,
M M M
 
 0 0 L ψp 
e a covariância é dada por:
cov(e, f ' ) = 0
A matriz de covariância de resposta ao vetor X, associada ao modelo (3), denotada por Σxx,
pode ser expressa como:
Σxx = ΛΩΛ '+ Ψ (4)
em que Λ e Ψ são foram definidas acima e Ω é dada por:

1 
ω 21 1 
Ω= 
 M M 
 
ωq1 ωq 2 L 1
Os elementos de Ω são as covariâncias (correlações) entre os fatores comuns. Nota-se que
cada coluna de Λ pode ser selecionada arbitrariamente, assume-se, sem perda de generalidade, que
cada fator comum apresenta variância unitária (diagonal principal da matriz Ω). Como os fatores são
ortogonais, ou seja, não são correlacionados entre si, Ω = I e a equação 4, torna-se:
Σxx = ΛΛ '+ Ψ (5)
Alternativamente, o modelo 3 pode ser reescrito da seguinte forma:

 X 1   λ 11 λ 12 L λ 1q   f 1   e1 
 X 2  λ 21 λ 22 L λ 2 q   f 2  e 2 
 = ⋅ +   (6)
 M  M M M   M  M
       
 Xp   λp1 λp 2 L λpq   fq  ep 
ou
q
Xi = ∑ λijfj + ei (7)
j =1

O conjunto de equações de 4 é chamado de fator padrão. Para simplicidade do fator padrão é


tipicamente mostrado na forma tabular apenas as cargas fatoriais listados.
Cada equação do modelo 7 pode ser particionado em duas partes não correlacionadas,
dadas por:
Xi = ci + ei (7)
em que ci = λi1f1 + λi2f2 + ... + λiqfq é a parte de cada variável que é comum às outras p-1 variáveis, e ei
é a parte de cada variável que é única ou específica.
Dado que as partes comuns e únicas de das variáveis são não-correlacionadas e os fatores
comuns têm variância unitária, pode-se particionar a variância de Xi em:
var( Xi ) = var(ci ) + var(ei ) (8)
em que a var(ci) e var(ei) representam a variância comum e a variância única de Xi, respectivamente.
A variância comum de uma variável é também chamada de comunalidade da variável. A
comunalidade de uma variável é a porção da variância total das variáveis associadas aos fatores
138
2
comuns. Chamando de hi a comunalidade da i-ésima variável, a variância de Xi pode ser escrita da
seguinte forma:

var( Xi ) = h 2 i + Ψi (9)

em que var(ei) = Ψi do modelo básico (3). Assim, tem-se que:


q
var(ci ) = ∑ λ2 ij = h 2 i (10)
j =1

É, pois, apenas a soma do quadrado dos elementos da i-ésima linha de Λ.


A contribuição total do fator fj para a variância total do conjunto de variáveis é dada pelo
autovalor do fator fj, computado da seguinte maneira:
p
Vj = ∑ λ2 ij = λ ' jλj (11)
i =1

em que λj é a i-ésima coluna da matriz Λ. A contribuição total de todos os fatores comuns para o total
da variância de uma variável entre todas as variáveis originais é a comunalidade total, definida por:
q
V = ∑ Vj (12)
j =1

A variância entre todas as variáveis associadas ao fator fj como porcentagem do total de


todos os fatores é dado por:
Vj
Vc = (13)
V
Finalmente, a variância total pode ser escrita da seguinte forma:
q p p q p
VT = tr (Σxx ) = ∑ Vj + ∑ Ψi = ∑∑ λ ij + ∑ Ψi 2
(14)
j =1 i =1 i =1 j =1 i =1

2.8 EXEMPLO DE APLICAÇÃO


Como exemplo de aplicação, apresenta-se o resultado da análise fatorial de unidades de
produção em Tomé-Açu com sistemas agroflorestais e com cultivos tradicionais. Conta-se com um
conjunto de sete variáveis: valor bruto da produção (VB Produção), área cultivada (Área), mão-de-
obra contratada utilizada na produção (Mão-de-obra), valor das máquinas, equipamentos,
ferramentas e implementos utilizados na produção (Capital), valor dos insumos variáveis utilizados na
produção (Insumo), depreciação das máquinas, equipamentos e instalações utilizados na produção
(Depreciação) e a produtividade das unidades de produção (Tecnologia).
Essas observações foram obtidas para se estimar uma função de produção e determinar a
eficiência técnica e econômica das unidades de produção. Se as variáveis formarem apenas um
bloco, pode-se especificar uma função de produção do tipo Cobb-Douglas. Porém, se tais variáveis
definirem mais de um fator, pode-se optar por uma função de produção do tipo transcendental, para
combinar os dois ou mais fatores.

2.8.1 Adequação dos dados


Inicialmente, avalia-se a viabilidade da adequação da análise fatorial a partir da análise
fatorial e do teste Bartlett. A matriz de correlação simples entre as variáveis é apresentada na Tabela
2.8i. Observa-se que 17 das 21 correlações (81%) são significantes ao nível de 0,01. Isto fornece
uma base adequada para avançar ao próximo passo, o exame empírico da adequação dos dados
para a análise fatorial tanto para a massa de dados como para cada variável considerada na análise.
139
A adequação da análise é feita por meio do teste Bartlett, de esfericidade, que avalia a
significância geral da matriz de correlação, testa a hipótese nula de que a matriz de correlação é uma
matriz-identidade. Neste caso, as correlações, em geral, são significantes ao nível 0,0001.

Tabela 8.2i
Matriz de correlação simples de Pearson e significância estatística.
VB
Variáveis Produção Área Mão-de-obra Capital Insumo Depreciação Tecnol.
VB Produção 1,000
Área 0,846* 1,000
Mão-de-obra 0,730* 0,933* 1,000
Capital 0,735* 0,699* 0,551* 1,000
Insumo 0,872* 0,777* 0,662* 0,744* 1,000
Depreciação -0,125n -0,262* -0,254* -0,062n 0,104n 1,000
Tecnologia 0,735* 0,690* 0,543* 0,989* 0,759* -0,013n 1,000
(*) correlação significante a 0,01. (n) correlação não significante.
Teste Bartlett (aproximação qui-quadrado) = 880,96 (0,0001).

2.8.2 Análise fatorial de componentes


A matriz de correlação, como descrito na metodologia, é transformada por meio de um
modelo fatorial para gerar a matriz fatorial. As cargas de cada variável associadas aos fatores são
interpretadas para identificar a estrutura latente das variáveis, que são a função de produção. O
primeiro passo dessa tarefa é selecionar o número de componentes a serem mantidos para a análise
seguinte.
A Tabela 2.8ii contém a informação sobre os sete fatores possíveis e seu poder explanatório
relativo expresso pelos autovalores. Aplicando o critério da raiz latente, duas componentes serão
mantidas ou extraídas. Observa-se que os dois fatores explicam 84,86% da variância total da nuvem
de dados, o que é satisfatório pelo critério da porcentagem da variância. A terceira componente
poderia ser extraída se houvesse conveniência teórica para isto, mesmo com um autovalor
considerado baixo.

Tabela 8.2ii
Resultados dos autovalores para a extração de fatores componentes.
Autovalores iniciais (λi)
Componente
Variância total ou autovalor % da Variância total % da Variância acumulada
1 4,778 68,260 68,260
2 1,162 16,599 84,859
3 0,638 9,118 93,977
4 0,276 3,949 97,926
5 0,098 1,397 99,323
6 0,038 0,539 99,862
7 0,010 0,138 100,000

Eleitos então os fatores, passa-se à sua interpretação. Observa-se, portanto, que até este
ponto da análise, não se faz diferença entre as técnicas de análise de componentes e análise de
fatores.

2.8.3 Interpretação de fatores


As duas primeiras colunas são os resultados para os dois fatores extraídos, ou seja, as
cargas fatoriais para cada variável em cada fator. A terceira coluna fornece a estatística resumo,
detalhando o grau em que cada variável é “explicada” pelas duas componentes, denominada de
140
comunalidade. Das duas últimas linhas, a primeira é a soma da coluna de cargas fatoriais ao
quadrado (autovalores) e indica a importância relativa de cada fator na explicação da variância
associada ao conjunto de variáveis analisado. As somas dos dois fatores são 4,778 e 1,162,
respectivamente. Como esperado, a solução fatorial extraiu os fatores na ordem de sua importância,
com o fator 1 explicando a maior parcela da variância (68,26%) e o fator 2 muito menos (16,6%). O
número 5,94 representa a soma total de cargas fatoriais ao quadrado e indica a parcela total de
variância extraída pela solução fatorial.

Tabela 8.2.iii
Matriz fatorial rotacionada Varimax da análise de componentes.
Fatores
Variáveis Comunalidade
1 2
VB Produção 0,908 -0,165 0,851
Área 0,874 -0,392 0,917
Mão-de-obra 0,762 -0,451 0,784
Capital 0,902 0,037 0,816
Insumo 0,926 0,083 0,864
Depreciação 0,022 0,936 0,876
Tecnologia 0,909 0,083 0,833
Soma de quadrado do autovalor 4,778 1,162 5,940
Porcentual do traço (%) 68,26 16,599 84,859

A parcela total da variância explicada pela solução fatorial (5,94) pode ser comparada com a
variação total do conjunto de variáveis que é representada pelo traço da matriz fatorial. O traço é a
variância total a ser explicada e é igual à soma dos autovalores do conjunto de variáveis (soma da
primeira coluna da Tabela 8.2ii), que é igual a 7,0, dado que cada variável tem um autovalor possível
igual a 1,0. Os porcentuais de traço explicados por cada um dos dois fatores (68,26% e 16,6%,
respectivamente) são mostrados na última linha da Tabela 8.2iii. A soma total dos porcentuais de
traço extraído para a solução fatorial, serve como índice para determinar o grau de adequação da
solução fatorial em relação ao que todas as variáveis representam. O índice para esta solução mostra
que 84,859% da variância total são representados pela informação contida na matriz fatorial da
solução em termos dos dois fatores. O índice é considerado alto, e as variáveis estão, como
esperado, estreitamente relacionadas umas com as outras.
A soma em linha de cargas fatoriais ao quadrado gera a comunalidade, última coluna da
Tabela 2.8iii. Estes números mostram a magnitude da variância em uma variável que é explicada
pelos dois fatores tomados juntos. O tamanho da comunalidade é um índice útil para avaliar o quanto
de variância em uma dada variável é explicado pela solução fatorial. Comunalidades grandes indicam
que uma grande parcela da variância em uma variável foi extraída pela solução fatorial. Uma
comunalidade pequena mostra que uma boa parte da variância contida em uma variável não é
explicada pelos fatores. Neste caso, as variáveis que apresentam comunalidades inferiores a 0,50
não têm explicação suficiente, podendo ser deixadas fora da solução fatorial.
O passo seguinte é a nomeação dos fatores para a definitiva análise da solução fatorial.

2.8.4 Nomeação de fatores


Sempre que uma solução fatorial satisfatória é obtida, é importante atribuir um significado a
ela. O processo envolve substantiva interpretação do padrão das cargas fatoriais para as variáveis,
incluindo seus sinais, como esforço para nomear cada fator. Em geral, todas as cargas fatoriais
significantes são utilizadas no processo de interpretação, porém, as variáveis com maior carga
influenciam mais na seleção de nomes ou rótulo para representar um fator.
A seleção das variáveis significativas que devem fazer parte de um fator é eleita com base na
magnitude da carga fatorial. Inicialmente, pode-se adotar um ponto de corte, considerando apenas as
cargas acima de 0,30 na Tabela 8.2iii. Depois disso, as variáveis significativas podem ser eleitas,
olhando-se da esquerda para a direita ao longo de cada linha e selecionando-se as cargas de maior
valor. Adotando este processo, o fator 1 tem seis cargas significativas e o fator 2, uma.
141
No primeiro fator estão VB Produção, Área, Mão-de-obra, Capital, Insumo e Tecnologia,
ambas com sinais positivos e altos, demonstrando que todas as variáveis variam juntas, estando
coerente com um processo de produção racional. Isto indica que indica que à medida que essas
variáveis aumentam a produção agregada da unidade produtiva também aumenta. Este fator pode
ser chamado de produção racional, uma vez que pode representar o estádio racional de produção
especificado em uma função do tipo Cobb-Douglas.
No fator 2, apenas a variável depreciação está relacionada à componente de capital ou
patrimônio da unidade de produção. Esta variável está ligada à gestão patrimonial e seus efeitos se
manifestam em longo prazo, de modo que no período da análise sua contribuição para a
produtividade dos fatores ainda não esteja plenamente incorporada ao processo produtivo, ou seja,
possa está sendo empregada no primeiro estádio da produção, uma vez que o sinal. Este fator pode
então ser rotulado de gestão patrimonial.

2.8.5 Equações do modelo


A solução fatorial permite apresentar o peso do fator 1 para explicar seis das sete variáveis,
de modo que o fator 1 explica apenas uma variável.
VBP = 0,908 f 1 + e1
Area = 0,874 f 1 + e 2
Mão − de − obra = 0,762 f 1 + e3
Variáveis explicadas pelo Fator 1:
Capital = 0,902 f 1 + e 4
Insumo = 0,926 f 1 + e5
Tecno log ia = 0,901 f 1 + e6
Variável explicada pelo Fator 2: Depreciação = 0,936 f 2 + e7
Portanto, a visualização gráfica dos dois fatores está na Figura 2.8i, que indica claramente a
disjunção entre os dois fatores.

Component Plot in Rotated Space

1,0 Tecnologia

0,5
Component 2

Insumos
0,0 Capital
VBP

Area
MO
-0,5

-1,0

-1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0


Component 1

Figura 8.2i – Visualização gráfica dos dois fatores extraídos da solução fatorial.
142
2.9 CONSIDERAÕES FINAIS
Pelo que se observou nesta análise, há pouca diferença em relação à análise de
componentes principais. Nesta, portanto, não há preocupação em rotular as componentes, o que é
uma praxe na análise fatorial.
Na análise fatorial, a preocupação está em determinar a explicação de cada variável original
pelos fatores comuns e pelos fatores específicos, enquanto que na análise de componentes o
interesse está voltado para se expressar cada componente em função do conjunto de variáveis
relevantes.
Além destas diferenças, deve-se reforçar que a análise de componentes principais toma por
base o total da variância dos dados e a análise fatorial apenas a parcela da variância associada aos
fatores selecionados.

2.10 REFERÊNCIAS
CARVALHO, H. Análise multivariada de dados qualitativos: utilização da homals com o SPSS.
Lisboa: Silabo, 2004.
DILLON, W.R.; GOLDSTEIN, M. Multivariate analysis: methods and applications. New York: John
Wiley & Sons, 1984.
JOHNSON, R.A.; WICHERN, D.W. Applied multivariate statistical analysis. Prentice-Hall, 1992.
HAIR JR, J.F., ANDERSON, R.E., TATHAM, R.L., BLACK, W.C. Análise multivariada de dados. 5.
ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.
REIS, E. Estatística multivariada aplicada. 2. ed. Lisboa: Silabo, 2001.

2.11 EXERCÍCIOSDE APRENDIZAGEM


E1. Qual a diferença entre os métodos da análise de componentes principais e da análise fatorial
quanto à variância explicada da massa dos dados que se deseja descrever e analisar?

E2. Com base nos resultados da tabela abaixo sobre as empresas de demoveis da Região
Metropolitana de Belém (RMB), indique quais variáveis compõem cada fator e o rotule. Escreva a
equação linear atribuída a cada fator (análise de componentes) e a cada variável (análise de fator).
Calcule a comunalidade relativa a cada variável e a contribuição total de cada fator para a variância
total do conjunto dos fatores. Calcule o porcentual do traço e o índice total de adequação da solução
fatorial.

Variáveis Fator 1 Fator 2 Fator 3 Fator 4


X1. Emprego 0,5098 0,0045 -0,3028 0,0461
X2. Salário médio 0,8662 0,0683 0,0088 0,0644
X3. Subcontratação de empresas -0,4384 0,2085 0,0256 0,1523
X4. Nível de capacidade ociosa -0,1708 0,8185 0,0315 -0,0692
X5. Organização social da produção 0,2139 0,6671 0,1862 -0,0006
X6. Crédito de curto prazo (custeio) 0,0603 0,1347 0,8282 -0,0082
X7. Crédito de longo prazo (investimento) -0,1279 0,0802 0,7964 0,0359
X8. Número de fornecedores 0,8159 -0,0370 -0,0061 0,0822
X9. Mercado local -0,0752 0,1427 0,1015 -0,7469
X10. Mercado regional 0,1105 -0,0516 0,0974 0,8309
X11. Controle de qualidade dos produtos -0,1172 0,1582 -0,1245 0,5304
Soma de quadrado do autovalor
Porcentual de traço (%)
CAPÍTULO 7
APL E DESENVOLVIMENTO LOCAL NA
AMAZÔNIA: EVIDÊNCIAS

7.1 INTRODUÇÃO
Uma proposta de planejamento do desenvolvimento para a região amazônica vincula o
conceito de competitividade5 a tecnologia, eqüidade e sustentabilidade dos recursos naturais, dentro
da idéia do desenvolvimento endógeno local. Isto sugere que uma maior eqüidade e sustentabilidade
favorecem a produção e difusão de tecnologias apropriadas (intensivas em mão-de-obra e recursos
naturais) e cria condições favoráveis aos esforços de cooperação intra-empresas, requeridos pelas
novas tecnologias e interempresas para formar alianças estratégicas e produzir resultados coletivos.
Simultaneamente, dispõem-se dos elementos de um círculo virtuoso dado que os aumentos de
produtividade permitem a obtenção de aumento gradual na distribuição de renda e melhoria da
qualidade de vida da população regional. O instrumento de planejamento que congrega este conceito
é o de estímulo à formação e desenvolvimento sustentável de arranjos produtivos locais (APL6) em
todos os Estados da região amazônica.
O argumento é que nos APL onde há possibilidade de retro-alimentação entre
competitividade, eqüidade e sustentabilidade, podem-se atingir os seguintes degraus:
ƒ Transformação da agropecuária extrativa em estruturas agrárias homogêneas e/ou
diversificadas territorialmente, dependendo da especificidade do produto e ambiente, com
aumentos de produtividade, volume e qualidade dos produtos;
ƒ Acesso em condições igualitárias à propriedade da terra e de recursos financeiros e de
capital pelo estímulo à criação de micro e pequenos empreendimentos, articulado ao sistema
produtivo local e com produtividade crescente;

5
Compreende-se a competitividade como a capacidade das empresas para aumentar ou pelo menos manter sua
participação no mercado nacional e internacional, com incremento simultâneo da qualidade de vida da
população e sustentabilidade dos recursos naturais. Este conceito guarda estreita relação com o conceito de
“competitividade estrutural” da OCDE (1992) que implica no êxito da gestão das empresas, como reflexo da
eficiência da estrutura produtiva nacional, as tendências de longo prazo das taxas de juros e da estrutura de
investimentos, a infra-estrutura técnica e outros fatores que determinam as externalidades definidoras do
ambiente operacional das empresas.
6
Por Arranjos produtivos locais (APL), entendem-se as aglomerações de agentes econômicos, políticos e
sociais, com foco em um conjunto de atividades econômicas (agrícolas, pecuária, florestais, minerais e
industriais), que apresentem vínculos mesmo que incipientes. Incluem-se a participação e a interação de
empresas fornecedoras de insumos, bens de capital e serviços técnicos e financeiros, distribuidoras,
instituições de ensino e pesquisa, reguladoras e clientes, incluindo suas formas de representação e
associação.
144
ƒ Qualificação da mão-de-obra e dos empreendedores, universalização da educação formal e
aumento no grau de integração social, fortalecendo simultaneamente o capital humano e o
capital social local;
ƒ Aumento do emprego da mão-de-obra menos qualificada, associado ao dinamismo
exportador (para outras regiões nacionais e para o resto do mundo), possibilitando a inclusão
social e reduzindo a pobreza;
ƒ Incrementar a produtividade e a remuneração dos recursos humanos ligados direta e
indiretamente às atividades dos APL, visando melhorar a qualidade de vida das pessoas;
ƒ Disseminação da lógica da integração industrial horizontal e vertical para formar redes de
empresas e ampliar o alcance da redistribuição de renda por meio da aplicação dos recursos
oriundos dos programas governamentais e não-governamentais destinados para esta
finalidade.
O desafio fundamental desta estratégia de planejamento, com foco territorial, está em fazer
com que a competitividade dos APL da Amazônia seja capaz de construir uma trajetória de
crescimento sustentável, diferente de tudo que foi feito até agora.
Isto depende da incorporação das idéias teóricas do desenvolvimento endógeno, sobretudo
os postulados evolucionistas, no que tange ao progresso tecnológico7, reestruturação institucional8 e
a condição de interação recíproca entre quem produz as inovações tecnológicas e os usuários, que
tende a se traduzir em estímulo à capacidade de aprendizagem e adaptação contínua das empresas,
visando a implementação progressiva de novos processos e de novos produtos e serviços. Para isto,
há necessidade premente de se reduzir a distância que separa a região amazônica das tecnologias
de fronteira desenvolvidas em centros tecnológicos nacionais e/ou internacionais, em horizonte de
longo prazo. Em nível local, isto significa alcançar os padrões de eficiência em uso noutras regiões
nacionais e no resto do mundo, com relação à utilização dos recursos (mão-de-obra e recursos
naturais, fundamentalmente), qualidade de produto e dos serviços, supondo um processo amplo de
identificação, imitação e adaptação de novas funções de produção por parte das empresas (CEPAL,
1990).
Neste contexto, é de fundamental importância estimular a difusão de tecnologias apropriadas
e não apenas a busca deliberada para a obtenção de maiores taxas de acumulação de capital físico,
compreendida não como um processo high tech, mas como um veículo capacitante. Sendo assim,
deve-se trilhar o caminho da difusão horizontal de tecnologia, que ao produzir impactos setoriais
desequilibrados, permite reorientar a trajetória do desenvolvimento regional, tendo em vista a
reestruturação institucional para dar suporte ao desenvolvimento tecnológico, formação de capital
humano, capital produtivo e capital social, no âmbito dos APL que devem ser estimulados pelas
políticas direcionadas para o desenvolvimento da Amazônia.
O foco da análise na economia espacial, territorializada em dado local, tem raízes no trabalho
dos economistas clássicos (mais evidente em Ricardo), no notável trabalho de Von Thünen e Weber
e na escola neoclássica com o magnífico trabalho de Marshall, culminando no século passado com o
ganho de notoriedade da geografia econômica, ciência regional e economia urbana (FUGITA et al.,
2002). Todavia, o interesse mais detido de cientistas políticos, professores das escolas
especializadas em negócios, sociologia econômica e economia sobre a economia em espaços
geográficos (geografia econômica, economia regional e teoria do desenvolvimento) ganho maior
relevo nos últimos 20 anos, e o espaço territorial era visto apenas como um suporte para localização
de fatores produtivos que, numa ótica de desenvolvimento econômico exógeno buscava equilibrar

7
Envolve o enfrentamento das oportunidades e obstáculos tecnológicos para o desenvolvimento regional. Uma
maior oportunidade tecnológica implica em maior produtividade associado a uma inovação de produto ou
processo implementado. Estas oportunidades tecnológicas se encontram delimitadas pelo Estado da arte
vigente, necessitando de reformulações no alcance e na facilidade de realização, o que depende da natureza
da atividade produtiva e da distância tecnológica entre o “núcleo revolucionário” nacional ou internacional e a
base de conhecimentos regional (DOSI, 1988; NELSON; WINTER, 2002).
8
Compreende o conhecimento tácito (experiências e habilidades adquiridas por indivíduos e organizações, bem
assim as capacidades e experiências que fluem de uma atividade econômica para outra) e a construção dos
entornos institucionais, que são caracterizados por uma combinação de mecanismos entre instituições
públicas e privadas e o aporte dominado dos processos relevantes de “inovação institucional” plasmado na
região amazônica (capacidade de adaptar e transformar os aportes em apoio ao potencial de inovação dessas
instituições – universidades, instituições de pesquisa, Ong, etc.).
145
economias de aglomeração (forças centrípetas) com as deseconomias de aglomeração (forças
centrífugas).
A despeito do caráter estático desse esquema, algumas idéias são indubitavelmente de
grande valor, entre as quais estão as economias de aglomeração, ou seja, os benefícios que derivam
da concentração espacial de certo número de empresas. As economias de aglomeração ocorrem de
dois tipos: as relacionadas à aglomeração de empresas de uma mesma indústria em dado local
(economia local) e as relacionadas à aglomeração de várias indústrias em uma localização (economia
urbana).
O que muda nessa nova abordagem das economias locais é que as análises saltam de um
movimento mecanicista e estático para uma perspectiva mais qualitativa e dinâmica das mudanças
tecnológicas, enfatizando-se o papel da competitividade sistêmica, cooperação, inovação,
empreendedorismo, difusão de informação, cultura em pequenos negócios, flexibilidade,
adaptabilidade e muitos outros fatores que interagem no ambiente local (KRUGMAN, 1991;
DESROCHERS, 1998). Assim, um local pode ser considerado mais dinâmico do que outro para
integrar processos coletivos formais e informais essenciais à produção de fluxo permanente de
inovações, cuja evolução salta dos comportamentos maximizadores de equilíbrio para um processo
natural de seleção em que são premiadas algumas decisões e outras são castigadas, dentro de um
mecanismo de condutas adaptativas (NELSON, 1997).
A economia local vem ganhando relevo pelo fato de que as indústrias9 não são
uniformemente dispersas no espaço, mas, ao contrário, estão, em geral, altamente concentradas em
poucos locais. Assim, através da história, algumas cidades têm, em um ponto ou outro, sido chamada
de “capital do mundo” dada a elevada especialização na produção ou na prestação de serviços. A
universalidade desse fenômeno foi estabelecida há muito tempo, resultando como exemplo, a cidade
italiana de Sassuolo que é famosa em produtos de cerâmicas, Carpi em máquinas para a indústria
madeireira e moveleira e Prado em vestuário de lã. Na Alemanha, Soligen tem uma longa tradição na
produção de facas e Nuremberg em lápis e canetas (PORTER, 1990). No Brasil, tem-se o Vale dos
Sinos, especializado em calçados e a cidade de Bento Gonçalves em móveis de madeira.
Essas aglomerações geográficas de empresas podem ser estabelecidas em cidades, no
entorno das cidades ou ocupando apenas algumas ruas, naturalmente que depende da necessidade
de capital de cada indústria. Exemplos de casos podem ser encontrados em Scott (1994) e Porter
(1999).
A desintegração vertical da indústria é colocada como ponto fortemente associado com a
aglomeração geográfica. Tipicamente, com exceção das indústrias altamente intensivas em capital
como minério e petroquímico, as densas aglomerações de empresas são usualmente feitas por parte
de uma coleção de micro e pequenas empresas interconectadas ou subcontratadas de uma indústria
líder, que emprega trabalhadores e aproveita o grande potencial de trabalho dos produtores de
pequenas fábricas ou de pessoas que desenvolvem o trabalho em suas casas como são os exemplos
brasileiros de empresas de calçados, artesanato, ourivesaria.
A economia urbana se apóia no fato de que muitas cidades são especializadas em poucas
linhas de trabalho para dar suporte desde o mais simplório ao mais sofisticado equipamento,
tecnologia ou fornecimento de serviços para a indústria como um todo. A aglomeração espacial de
várias atividades como operação de aeroporto, hospital ou atividades culturais pode demandar
serviços de várias ordens. O recente “núcleo de competências” e as estratégias do tipo “just-in-time”,
adotados por muitas empresas, inclusive na Amazônia, têm também contribuído com os benefícios da
grande divisão do trabalho entre as empresas, dada a proximidade geográfica de uma para outra.
A partir disto, obviamente, alguns negócios criam funções que podem ser realizadas com
maior eficiência por empresas externas especializadas, através dos canais criados para explorar as
vantagens competitivas de aglomeração, a partir da formação de redes de empresas subcontratadas
que se habilitam a realizar determinadas etapas do processo de produção, fornecer insumos e
matérias-primas e prestar serviços a um grande leque de indústrias que se localizam próximos aos
clientes, com o fito de reduzir os custos de transação, aumentar a rapidez na distribuição de insumos
e produtos e produzir as economias de escala do lado da oferta e da demanda.

9
Marshall (1982) definiu indústria como “o conjunto de firmas que elaboram produtos idênticos ou semelhantes
quanto à constituição física ou ainda com base na mesma matéria-prima, de modo que podem ser tratadas
analiticamente em conjunto” e firma ou empresa “como uma unidade primária de ação, dentro da qual
organizam-se os recursos com o fim de produção, em busca da otimização dos seus resultados”.
146

7.2 O FOCO TERRITORIAL E O CONCEITO DE ARRANJO PRODUTIVO


Para compreender a persistência de aglomerações ou clusters de empresas, primeiro é
necessário voltar à análise marshalliana, que identificou a importância do conhecimento tácito como
uma das forças motrizes para dar sustentação ao processo de formação e evolução dos
aglomerados.
Marshall identificou corretamente que as pessoas realizam comércio e distribuição, em maior
parte, com as empresas e agentes locais, em função da proximidade geográfica que aumenta a
concentração do conhecimento tácito e imprime maior velocidade no fluxo de informação. O
conhecimento crucial para uma indústria não é a informação padronizada, rotinas-padrão ou o
conhecimento científico de domínio público, mas aquele conhecimento que não é codificado e não
está disponível em nenhum modo formal de comunicação, mas encontra-se acumulado nas cabeças
das pessoas locais. Isto é o que se tem de novo e que traduz as últimas mudanças no know-how que
os indivíduos adquiriram através do mecanismo de ensaio prático e erros.
Atualmente, o principal argumento em defesa da importância da proximidade física das
empresas é que isto facilita o processo de transmissão do conhecimento tácito, pois na situação
inversa de desconcentração industrial, o fluxo de conhecimento enfrenta maior dificuldade para ser
disseminado, mesmo em operações convencionais envolvendo transações comerciais,
principalmente porque a comunicação à longa distância ainda é inadequada para dar suporte a
processos contínuos de engenharia simultânea ou ajustamento tecnológico, pontos de absoluta
necessidade em fluxos contínuos de criação tecnológica. A transferência tecnológica, tipicamente
envolve conhecimento especializado e um processo contínuo de interação pessoal. O sistema de
informação e banco de dados são ferramentas importantes e que podem ser postos em
disponibilidade com facilidade, mas o sucesso da transferência de tecnologia ainda requer um contato
pessoal entre os demandantes e as pessoas que estão efetivamente processando o conhecimento.
A cooperação humana, por sua vez, é favorecida pela proximidade geográfica das indústrias,
dado que a freqüente interação em que são efetivados os contratos de longo prazo ou compromissos
são firmados entre agentes, exerce um papel crucial para a construção de laços de confiança que são
necessários nesse processo de integração ou às sucessivas relações estabelecidas entre os agentes
que respondem pela produção e sua respectiva distribuição.
O empreendedorismo também pode ser estimulado pela proximidade geográfica das
empresas, uma vez que favorece ao conjunto de empresários e trabalhadores adquirir e acumular
conhecimentos especializados, mediante a interação com outros empresários e trabalhadores com
know-how na produção, gestão de negócios, marketing, finanças e assim por diante.
Como enfatizado em vários estudos teóricos e empíricos, o território delimitado funciona
como um espaço que favorece o desencadeamento das relações intencionais e não-intencionais;
tangíveis e intangíveis, comercializáveis e não-comercializáveis, que movem o processo de
aprendizagem e de construção de competências - que se incorporam e evoluem de forma
acumulativa, de modo a resultar em eficiências coletivas. Quando essas forças interagem e passam a
dar forma e coesão a indústrias diferentes, porém com grau de complementação no todo ou em
alguns elos da cadeia produtiva, de tal modo a gerar um tecido dinâmico e sinérgico de ações
internas – envolvendo as redes de fornecedores e clientes e as instituições correlatas, tem-se o
conceito de cluster industrial. Fica evidente, portanto, que o foco do conceito de aglomerações locais
ou cluster é voltado para uma concentração setorial e espacial de empresas, com predominância de
micro e pequenas empresas, fruto de um produto histórico, gerado no espaço socioeconômico local
(SCHMITZ; NADVI, 1999; HOWELLS, 2000; DESROCHERS, 1998; LLORENS, 2001).
É notória a importância que esse tipo de aglomerações produtivas desperta nos países em
desenvolvimento, que convivem com elevado desemprego, baixo nível educacional, ambiente
institucional enviesado para o grande empreendedor, baixa renda per capita, baixa capacidade
inovativa e ambiente macroeconômico que permeia problemas estruturais. Naturalmente, porque
essas economias estão à busca de programas de desenvolvimento que permitam incluir pobres,
gerar e distribuir renda, criar capacidade para desenvolver o capital humano e social, assegurar
sustentabilidade ambiental e reduzir as desigualdades regionais.
Neste contexto, as aglomerações produtivas surgem como o elemento adequado para fazer
face ao problema. A questão de fundo é que a região amazônica ainda não dispõe da formação de
clusters maduros, fruto de um processo histórico natural ou orientado de evolução, desde o
desenvolvimento de matérias-primas, passando pela integração e adensamento de cadeias
147
produtivas e pela vinculação com instituições correlatas, de modo a produzir horizontalidade quanto à
distribuição dos resultados entre os agentes locais. Pelo contrário, as iniciativas de maior similitude
foram na direção de extrema verticalização, produzindo enclaves industriais. No geral, predomina a
desuniforme dispersão de micro e pequenas empresas no imenso espaço geográfico da Amazônia,
distante, portanto, da coesão necessária das relações cooperativas intra-indústria e interempresas
para a formação de aglomerações produtivas. Em muitos casos, como se verá mais adiante há
apenas o produto sendo gerado em indústrias rurais sem qualquer conotação empresarial, como é o
caso da mandioca, não obstante a sua capacidade real de integrar e formar aglomerações produtivas
locais.
Pelo que se observa, trabalhar o conceito de aglomerações econômicas sinérgicas ou
clusters na Amazônia é o grande desafio que se apresenta para os órgãos indutores do
desenvolvimento da Amazônia, pois com exceção das vantagens comparativas dos recursos naturais,
os demais fatores dinâmicos como capital humano, capital produtivo e capital social, estão distantes
da condição de suficiência para por em marcha o processo de desenvolvimento local.
Diante disso, a ADA lança mão do conceito de Arranjo Produtivo Local (APL), cunhado e
disseminado por um grupo de pesquisadores ligados a Redesist, coordenados por Cassiolato e
Lastres (2003). Por APL, entendem-se as aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos
e sociais, com foco em um conjunto de atividades econômicas (agrícolas, pecuária, florestais,
minerais e industriais), que apresentem vínculos mesmo que incipientes. Podem-se incluir a
participação e a interação de empresas fornecedoras de insumos, bens de capital e serviços técnicos
e financeiros, distribuidoras, instituições de ensino e pesquisa, reguladoras e clientes, incluindo suas
formas de representação e associação.
Mesmo sendo possível encontrar, na Amazônia, APL em estádio de evolução mais próximo
da maturidade, como é o caso da madeira e mobiliário (onde já se encontram empresas empregando
inovações tecnológicas de fronteira, processo moderno de gestão e organização empresarial,
apresentando competitividade global, exportando produtos de alto valor agregado para vários países
e, em casos específicos, exportando know-how e serviços, mesmo sem abrangência horizontal), a
esmagadora maioria assume características de arranjos informais, compostos de micro e pequenas
empresas agroindustriais, operando com nível tecnológico muito abaixo do praticado por indústrias
inovadoras, baixa capacidade de gestão, mão-de-obra com baixo nível de qualificação, insignificante
grau de organização social, fracas barreiras à entrada, precária infra-estrutura de comercialização e
produzindo commodities homogêneo.
Estes arranjos, pelo curso de suas trajetórias de desenvolvimento não estão produzindo uma
dinâmica positiva como nos casos recorrentes no resto do mundo, e em alguns pontos do Brasil, em
que existe uma progressão da capacidade de gestão de micro e pequenos empresários, de
inovações tecnológicas, melhorias na qualidade do produto, avanço na diversificação e diferenciação
do produto, qualificação da mão-de-obra, congruência de ações institucionais de apoio financeiro e
prestação de serviços e orientação para exportar produtos de alto valor agregado. A infra-estrutura
dos APL da Amazônia é precária, estando, em vários locais, ausentes os serviços de apoio ao seu
desenvolvimento sustentável e a integração cooperativa, dificultando o processo de adensamento das
cadeias produtivas que se unem para a formação de complexos de empresas mono-matéria-prima,
sem produzir os efeitos laterais que geram as economias de aglomeração coletivas.

7.2.1 Arranjos produtivos locais e competitividade sistêmica


A proposta de planejamento do desenvolvimento para a região amazônica deve vincular o
conceito de competitividade a tecnologia, eqüidade e sustentabilidade dos recursos naturais, dentro
da idéia do desenvolvimento endógeno local.
Na realidade, busca-se identificar e estimular as forças que alimentam as raízes da
produtividade dos sistemas produtivos locais, consideradas o vetor dinâmico do desempenho
competitivo sustentável das aglomerações de negócios que formam os elos das cadeias produtivas,
mediante fluxo de informação e conhecimento, ação institucional, infra-estrutura e formação de
competências para a sustentabilidade ambiental.
Na Amazônia, tal como na América Latina, o que predomina são os clusters de subsistência
(arranjos produtivos), que apresentam, grosso modo, as seguintes características comuns:
a) Produzem bens de consumo de baixa qualidade, sazonal e voltado predominantemente para
o mercado interno;
148
b) Apresentam poucas barreiras à entrada de novas unidades produtivas;
c) Baixo nível de produtividade e muitas das características presentes nos setores informais da
economia;
d) Baixa especialização e cooperação informal entre as unidades produtivas, sem condições
adequadas para obter eficiências coletivas e gerar as economias de aglomeração;
e) Técnicas tradicionais e semi-sustentáveis de produção, baixa capacidade para inovação
tecnológica e gerencial e forte comportamento oportunista;
f) Baixa diferenciação e agregação de valor aos produtos, insuficiente conhecimento e
informação de mercado.
Para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, precisa-se mudar esse quadro criando
alternativas de planejamento para orientar o desenvolvimento e a disseminação das sinergias
necessárias ao deslocamento dos clusters de subsistência da inércia em que se encontram e avançar
nas fases de desenvolvimento até atingir a maturidade (arranjos empresariais avançados e
diferenciados). O ponto de partida é investir na capacidade de formar recursos humanos e criar ativos
coletivos, baixar os custos de transação, por meio de informações, estruturar um sistema local de
inovações para aumento de produtividade e competitividade, infra-estrutura de comercialização,
organização social e gestão comunitária, assistência técnica e empresarial, dotação dos serviços
públicos, para mover a eficiência produtiva individual e coletiva e estruturar o entrono do arranjo para
criar as externalidades coletivas mediante a intercambialidade de ações.
O contexto sistêmico da produtividade e do desempenho competitivo dos APL no âmbito do
desenvolvimento regional pode ser didaticamente apresentado na Figura 7.1.

Nível meta
Fatores socioculturais, escala de valores,
organização política, jurídica e econômica.

Nível macro Nível meso


Políticas: monetária, fiscal, Desempenho Políticas: infra-estrutura econômica
orçamentária, cambial, de competitivo e social, conhecimento e informação,
concorrência, comercial. do APL ambiental, desenvolvimento regional,
exportação, etc,

Nível micro
Inovação produtiva e comercial, capacidade de
gestão empresarial e tecnológica, relações
trabalhistas, redes de cooperação.

Figura 7.1 – Fatores determinantes da competitividade sistêmica e do desenvolvimento econômico


local.
Fonte: Esser et al.(1999); Santana (2002).

O nível meta é o estádio maior da governança econômica nacional, onde são estabelecidas
as diretrizes, regulações e orientações que definem a capacidade de motivação e de articulação
estratégicas dos agentes sociais e produtivos. É o nível onde as regras gerais do jogo são
estabelecidas e comandadas, portanto, representa o status quo que norteia a funcionalidade da
economia. Para o campo de ação específica da integração regional, tem-se o Programa Amazônia
Sustentável (PAS) que alinha, dentro do PPA “Brasil para Todos”, as ações operacionais que forçam
ações em escala territorial.
149
No nível macro se faz o controle e regulação das políticas macroeconômicas e que
repercutem sobre a sociedade como um todo, de modo a assegurar as condições gerais do regime
de acumulação e de operacionalidade dos agentes econômicos. Neste nível são definidas as regras
que asseguram a operacionalidade sustentável da atividade econômica, de conformidade com os
acordos com o FMI, envolvendo os instrumentos de políticas fiscais, monetárias, cambial, comercial e
de concorrência empresarial.
O nível meso desenvolve e formula os instrumentos de política econômica de abrangência
nacional, regional, municipal e setorial, visando impulsionar a criação de ambiente favorável ao
desenvolvimento econômico com maior equilíbrio regional, de forma articulada com os diferentes
atores sociais locais. Neste nível, situam-se os programas Pronager, Promeso e Promover que poder
ser articulados para apoiar o desenvolvimento local e reduzir as desigualdades inter-regionais, por
meio de ações que visam estruturar as economias locais, visando criar oportunidade de trabalho,
gerar e distribuir renda e viabilizar a expansão competitiva das atividades produtivas locais.
O nível micro responde pelas mudanças nos processos de produção e de gestão dos
negócios, como nos mercados de trabalho e de produto, a fim de diferenciar e adicionar valor aos
produtos, qualificar os recursos humanos (criar capital social) e costurar o tecido que impulsiona o
desenvolvimento das economias locais, acionando os instrumentos de cooperação social, técnica e
comercial, e de integração produtiva horizontal e vertical, diante das exigências produtivas locais.
A articulação desse conjunto de forças gera o desenvolvimento competitivo dos sistemas de
produção locais, regionais, nacionais e mundiais, a partir de empresas e APL.
Para tornar mais didática e operacional a compreensão deste conceito de competitividade
sistêmica e estabelecer sua relação com o desenvolvimento local, recorreu-se à idéia geral de que a
empresa ou unidade de produção não subsiste isoladamente, uma vez que depende de uma rede
complexa de outras empresas que se vinculam por meio do fornecimento de insumos e matéria-prima
e/ou para o processamento e/ou distribuição do produto in natura ou transformado. Analisar o
crescimento ou desempenho competitivo das empresas ou APL envolve três ordens de ações,
assumindo que a competitividade resultada de um conjunto de ações sinérgicas e dinâmicas que se
desenvolvem nos âmbitos micro e mesoeconômicos10 e, após processo de ruminação, levam as
empresas ou APL a manterem e/ou aumentarem suas participações nos mercados locais e/ou
internacionais.
a) As ações realizadas no interior da empresa (unidade de produção) na busca de eficiência
organizacional e qualidade na produção;
b) As ações levadas a cabo com a rede de fornecedores e clientes, que constitui o agrupamento
de cadeias produtivas ou cluster ao qual a empresa está vinculada;
c) As ações orientadas para a construção do entorno adequado de acesso aos serviços,
tecnologia e insumos de apoio à competitividade, tanto no mercado local quanto
internacional.
A integração dessas ações, visando o movimento articulado das forças agrupadas nos níveis
micro e mesoeconômicos como na Figura 7.2, tende a definir a organização adequada que permite às
empresas ou unidades produtivas criarem vantagens competitivas sustentáveis.
Observa-se que o desempenho competitivo dos negócios é fruto de um conjunto de fatores
que explicam a produtividade, embora não apenas esses, dado que também é dependente dos
fatores dos níveis macro e meta.
A incorporação de inovações tecnológicas, gerencial e organizacional no sistema produtivo,
também depende da capacidade de gestão empresarial, da infra-estrutura tecnológica disponível, da
qualidade dos recursos humanos, das relações trabalhistas, dos aspectos legais e de uso
sustentados dos recursos naturais, do regime fiscal e do vínculo com o sistema de educação e
pesquisa. Demais disso, os fatores explicativos da competitividade se vinculam à melhoria da
qualidade e da diferenciação de produto, da distribuição a tempo e/ou da eficiência no serviço de pós-
venda, acesso à informação estratégica e aos serviços disponibilizados pela rede de instituições que
operam no entorno onde as empresas atuam.

10
Uma vez que as forças geradas nos níveis macro e metaeconômicos e que atuam sobre as empresas são
consideradas como influências gerais e conhecidas no aspecto do alcance sobre o ambiente local das
empresas são admitidas como um dado.
150

AÇÃO LOCAL ENTORNO DA EMPRESA ou


Unidade Produtiva
Inovação no sistema de produção;
Vinculação entre educação e Acesso aos serviços de apoio à produção;
produção; Qualificação da mão-de- Melhoria na qualidade do produto; Acesso
obra; Capacidade empresarial. à informação estratégica; Alianças
estratégicas e governança.

AÇÃO NO MESONÍVEL COMPETITIVIDADE


Sistema educacional e de capacitação; Diferenciação de produto; Liderança de
Infra-estrutura básica; Relações custo; Esforço de venda; Qualidade do
trabalhistas; Tecnologia de produto e produto e processo; Certificação e
processo; Organização empresarial; normatização; Entrega pontual; Serviço
Acesso a crédito; Subcontratação de pós-venda.
empresas.

Figura 7.2 – Forças impulsionadoras do desempenho competitivo das empresas.


Fonte: Llorens (2001); Santana (2003).

Portanto, fica claro que a empresa ou unidade produtiva não atua no vazio, mas na disputa
competitiva incessante com as empresas rivais pelos serviços disponíveis no local onde opera.
A disputa competitiva nos mercados local e/ou internacional vai além das mudanças que as
empresas ou unidades produtivas introduzem no campo de funcionamento interno local, abrangendo
a qualidade das inter-relações com a rede de fornecedores e clientes, assim como das relações
horizontais ou para os lados que tece com as instituições atuantes no entorno local e podem
disponibilizar os ingredientes de inovação, informação e demais serviços, com o apoio dos
instrumentos de políticas de ação do Ministério da Integração Nacional.
O conjunto de serviços disponibilizados pelas instituições para o desenvolvimento dos
arranjos produtivos locais e/ou regional, abrange a incorporação de elementos de conhecimento e
informação estratégica, consultorias, comercialização e marketing, apoio às exportações, serviços de
cooperação interempresarial e apoio financeiro, organização da produção, capacitação empresarial,
controle de qualidade e certificação de produtos, utilização sustentável dos recursos naturais e
serviços de apoio à incorporação dos efeitos das políticas macroeconômicas (juros, câmbio, crédito,
concorrência, inflação, emprego, etc.)
Na esfera da Teoria da Organização Industrial, os fatores que limitam o crescimento das
empresas ou dos APL, no nível microeconômico, são determinados por deseconomias gerenciais ou
organizacionais para lidar com eficiências coletivas, que causam custos crescentes em longo prazo e
incertezas quanto às vendas e lucros futuros.
Na visão evolucionista, as forças internas dão origem a um processo de transformação
qualitativa que revoluciona continuamente a estrutura organizacional da empresa ou unidade
produtiva a partir de dentro, destruindo os métodos antigos e criando elementos novos, segundo o
processo denominado de “destruição criadora” de Schumpeter (NELSON; WINTER, 1982; DOSI,
1988; FREEMAN, 1994).
Na ótica dos institucionalistas e evolucionistas, a empresa é uma entidade legal que a partir
de uma base tecnológica e uma entidade administrativa estratégica e criativa, passando por uma
divisão do trabalho no seu interior e desenvolvendo mais de uma atividade produtiva, estabelece
contrato com fornecedores, distribuidores e clientes, numa perspectiva de obter lucros mediante
ampliação das vendas. Na base do processo de otimização das vendas sujeito a um nível de lucro
está a expansão do mercado para os produtos das empresas e isto é feito via estratégias de
151
11
diversificação e diferenciação de produtos, esforço de vendas, ampliação das linhas de produto e do
conjunto de serviços que definem a concorrência extrapreço. Esta perspectiva também se replica nos
APL, daí para os pólos de desenvolvimento e para a economia como um todo.
Sendo assim, a incorporação do fluxo de inovações tecnológicas na base da formação de
estratégias competitivas das empresas ou unidades de produção, as tornam instituições ativas e
prontas para enfrentar as empresas rivais, fortalecendo seu campo de ação mediante conexão com a
rede de fornecedores e clientes.
As ações da empresa com a rede de fornecedores e clientes, que ocorre em ambiente de
informação limitada e assimétrica dentro e entre os elos das cadeias produtivas regionais, põem em
funcionamento a economia dos custos de transação empregada na gestão dos contratos, mediante
alianças estratégicas firmadas entre as empresas, que visam favorecer a ampliação de suas parcelas
de mercado (Figura 7.3).
A construção do entorno das empresas é feito pela interação das forças que atuam no nível
meso como as diretrizes de política ambiental, educacional, infra-estrutura de transporte e
comunicação, regime tributário, linhas de créditos, etc., de modo a criar condições favoráveis às
multiplicações de negócios que complementam as atividades das cadeias produtivas nos APL dos
Estados da Amazônia.

Rede de
Empresas ou Rede de clientes
Fornecedores de
unidades produtivas para os produtos
insumos e produtos

Figura 7.3 – Relações da empresa com a rede de fornecedores de insumos e matéria-prima e clientes
dos produtos in natura e/ou beneficiados.

A partir deste entendimento teórico, os fatores relevantes que devem nortear a decisão de
eleger alguns sistemas articulados de produção, pautados na primazia de especialização (entendido
como a maior contribuição para a geração de renda e ocupação de mão-de-obra) de um conjunto de
atividades-chave na Amazônia são:
a) Importância da atividade para a economia local e regional, por propiciar a inclusão social
(ocupação de mão-de-obra analfabeta e pobre), criar emprego, gerar e distribuir renda, com
baixo impacto (ou possibilidade de reduzir o impacto) sobre o meio ambiente;
b) Grande possibilidade de agregar valor e formar uma sólida conexão com as redes de
fornecedores de insumos e de clientes (com ênfase na indústria processadora), de modo a
consolidar cadeias produtivas e gerar fortes economias de escala, escopo e aglomeração;
c) Atividades que otimizam os efeitos multiplicadores de emprego e renda. Forte diversificação
de atividades e fácil de implantar estratégias de diversificação e diferenciação de produtos e
gerar economias de escala e de escopo;
d) Atividades apoiadas no aproveitamento das vantagens comparativas por utilização racional e
intensiva dos recursos naturais e da mão-de-obra local e que tem forte conexão fiscal, por
meio da arrecadação de impostos (via transporte e comercialização);
e) Sistemas direcionados, predominantemente, para o abastecimento do mercado interno
(atender às demandas sociais da população local e nacional), apoiado no uso de tecnologias
apropriadas (intensivas no uso de recursos naturais e de mão-de-obra local), agregação de

11
Diversificação é um processo que envolve a venda de produtos de uma linha de produtos já conhecida e
fabricada com mesma tecnologia em uma nova área de comercialização; a venda de novos produtos em áreas
antigas de comercialização, fabricados com nova tecnologia; ou a venda de novos produtos em novas áreas de
comercialização e fabricados com tecnologia nova. Esse processo, portanto, pode fazer parte de longo período
de produção da empresa. Na Amazônia, por natureza, muitos produtos, mesmo em estádio natural, já são
diferenciados e nos APL diversificados.
152
valor e movimento dinâmico de cooperação produtiva endógena e estruturante, evoluindo a
partir da micro-articulação até abarcar todo o entorno das forças condicionantes do
desenvolvimento local;
f) Atividades econômicas com grande possibilidade de integrar ações conjuntas das instituições
públicas e privadas (ADA, Basa, Sebrae, Emater, Ong, Universidades, Secretarias de
Governos estadual e municipal, Ministério do Trabalho, Ministério da Integração Nacional,
Ministério da Ciência e Tecnologia, Ministério da Educação, Ministério da Agricultura,
Federações, Sindicatos, etc.).
Dessas premissas, os esforços devem ser direcionados para tornar ampla a inclusão social,
através de investimentos públicos e privados em:
a) Formação de mão-de-obra qualificada (capacitação e treinamento dos recursos humanos –
trabalhador e empresário, para formar o embrião de capital social que a Região Norte
precisa);
b) Possibilitar o acesso ao Estado da arte tecnológica dos processos e produtos e inserir as
unidades produtivas aos mercados nacionais e/ou internacional;
c) Fortalecer a organização social, reduzir o comportamento oportunista e ampliar o acesso aos
instrumentos de política pública (educacional, saneamento, informação creditícias, etc.);
d) Orientar a ampliação da produção, qualidade e valor agregado dos produtos, com recursos
do dos programas de fomento ao desenvolvimento regional.
A representação local da articulação dos fatores impulsionadores do desenvolvimento
econômico sustentável a partir dos APL pode ser ordenada em seis dimensões (Figura 7.4):
a) Dimensão do suporte físico: dotação de infra-estrutura básica adequada (água, rede viária
e telecomunicação, energia, recolhimento e tratamento de lixo, etc.), terra para base
industrial, produtiva e habitacional, logística de produção e comercialização, serviços básicos
que contribuam para melhorar a qualidade de vida da população local.
b) Dimensão de informação e assessoria: dotação dos serviços municipais de apoio à
produção, centros tecnológicos e de ciência, tecnologia e desenvolvimento (C,T&D) que
possam ser aproveitados por micro e pequenas empresas locais, assessorias técnicas a
projetos de produção e comercialização, acesso a redes de informação e base de dados de
interesse empresarial, consultorias especializadas e intercâmbio tecnológico.
c) Dimensão de gestão: a gestão municipal e local deve facilitar igualmente a cooperação
eficiente entre os diferentes níveis das administrações publicas, tanto horizontalmente (dentro
do próprio município e com os diferentes atores sociais locais) quanto verticalmente, com os
diferentes entes administrativos que constituem a organização territorial do Estado e
interagem com a esfera federal.
d) Dimensão econômica: inclui a ordenação de atividades econômicas no território, elaboração
de planos territoriais, linhas de ação para a diversificação da base econômica local,
levantamento de oportunidades e recursos potenciais, coleta de informações estatísticas
socioeconômicas no local, planos para uso racional dos recursos naturais e avaliação de
impactos, promoção do local e de seus produtos, impulso à parceria em nível empresarial e
entre os municípios do entorno do APL, baseado no princípio da confiança que se consolida
em combinação com condutas de reciprocidade e cooperação.
e) Dimensão de recursos humanos: disponibilidade de recursos humanos com nível
adequado de capacitação e formação, oferta educacional ampla e de qualidade para o
mercado de trabalho local, mecanismos de inserção e acompanhamento trabalhista,
existência de liderança e de capacidade empreendedora, capacitação empresarial e
tecnológica. Na Amazônia este talvez seja o maior entrave ao desenvolvimento local.
f) Dimensão financeira e fiscal: incentivos ao investimento e à criação de emprego, apoio da
ADA e Basa ao financiamento de atividades de pequenas e médias empresas locais,
adequação do fisco estadual e municipal à promoção do desenvolvimento local, articulação
dos recursos dos programas do MI para as atividades econômicas locais, apoio a projetos
estruturantes, que abarque várias etapas das cadeias produtivas, já em evolução no local,
com ênfase nas complementaridades de demanda (insumo e produto), serviços e/ou
tecnologias.
153

Marco Político, Jurídico e Ambiental Geral

Dimensão financeira e
fiscal
Dimensão
econômica Dimensão de
recursos humanos
Base Econômica
Local ou APL
Dimensão física Dimensão de
gestão local

Dimensão de informação e
assessoria

Contexto Socioeconômico, Competitivo e Tecnológico Geral

Figura 7.4 – Fatores característicos do desenvolvimento econômico local.

Pelo que se observam, esses grupos de fatores estão sob a égide das ações formatadas no
nível metaeconômico, onde determina o conjunto de regras gerais que regula o funcionamento do
sistema econômico como um todo, envolvendo o marco político, jurídico e ambiental de um lado e o
contexto social, tecnológico e competitivo dos agentes que movem o dito sistema econômico do
outro. Entre essas diretrizes gerais e as ações desencadeadas no âmbito de cada APL se amoldam
as governanças que funcionam como catalisadores para a formação do tecido endógeno do
desenvolvimento que combina elementos de competitividade com tecnologia, eqüidade e
desenvolvimento sustentável.

7.3 EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS COMUNS AOS APL DA AMAZÔNIA


Diante do exposto e na perspectiva de apresentar os traços gerais dos Arranjos Produtivos
Locais (APL) da região amazônica, eleitos nos Seminários-participativos e estudos de identificação de
APL realizados pela ADA nos nove Estados da Amazônia, adotando como referência inicial os
estudos de cluster realizados pelo Banco da Amazônia (Basa) e as indicações de cadeias produtivas
do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), em conjunto com outros estudos não sistematizados
envolvendo cadeias produtivas e análises setoriais, e o conhecimento tácito e acumulativo de
pesquisadores, empresários, trabalhadores e instituições públicas e privadas, será posto o elenco de
pontos críticos comuns a todos os APL regionais, segundo o enquadramento nos níveis micro e
mesoeconômicos.
Não obstante essa ressalva apresenta-se como complemento aos resultados obtidos dos
Seminários-Consulta a configuração genérica dos APL eleitos para formar o portfolio do Ministério da
Integração Nacional (MI). Com raras exceções, os APL apresentam características de subsistência ou
familiares, em que o peso na figura do dono da empresa ou unidade produtiva é grande (a idéia é de
que a empresa sou eu). Esses APL apresentam alguns elementos comuns que precisam ser
enfrentados para que a trajetória do crescimento empresarial a partir do território seja alterada na
direção dos ganhos de competitividade sustentáveis em longo prazo.
154

7.3.1 Centralização das ações de decisão nas empresas


Esta prática determina uma estrutura piramidal, que embora apresente poucos níveis
hierárquicos, cria fortes limitações no processo de delegar funções, potencializar o pessoal e
implantar estratégias competitivas sustentáveis (em muitos casos identificados em pesquisa de
campo12 a empresa se confunde com o dono). Por outro lado, encontrou-se nessas empresas que as
relações pessoais são próximas entre os diversos membros do staff da empresa, o que, de modo
geral, pode funcionar como fator de motivação interpessoal, porém pouco estimulada no local. Há
também a indeterminação de papeis ou funções a serem desempenhadas dentro das empresas que,
ao invés de criar um sistema eficiente, fortemente interconectado, flexível e polivalente na execução
das tarefas, acaba configurando um sistema de interdependência confusa, produzindo muitos
defeitos.
Atualmente na Amazônia, as empresas ramos produtivos: plantas medicinais, plantas
ornamentais e flores, agroindústrias, fruticultura, aqüicultura e madeira e mobiliário, na sua grande
maioria, não apresentam nenhuma técnica moderna no que tange à organização da produção
(Tabela 7.1). As informações desta tabela revelam que, na Amazônia, mais de 47% das empresas
pertencentes a esses ramos produtivos não apresentam qualquer técnica de organização da
produção. Não obstante este descompasso na organização empresarial existe o embrião em
formação de empresas que implantaram as técnicas just-in-time, rodízio e polivalência nos postos de
trabalho e círculo de controle de qualidade, que pode ser tomado como elemento de demonstração
para os demais APL.
Tabela 7.1
Que técnica de organização da produção sua empresa utiliza? (em %)
Técnica de Plantas Plantas ornamen- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
organização medicinais tais e flores mobiliário
Just-in-time - 8,3 2,3 4,8 6,7 20,0
Rodízio, polivalência
nos postos de trabalho
8,3 8,3 11,6 33,3 6,7 12,4
Controle estatístico de
processo
16,7 8,3 2,3 4,8 6,7 2,5
Círculo de controle de
qualidade
- - 4,8 - 20,0 3,5
Células de produção 8,3 8,3 11,6 9,5 6,7 8,0
Nenhuma 66,7 66,8 55,8 47,6 53,2 50,8
Fonte: Pesquisa de campo.

7.3.2 Elementos comuns identificados em estudos prévios


Alguns estudos realizados por Santana (2002a, 2002b), Santana e Gomes (2003) e Costa
(1998, 2002) identificaram vários elementos comuns:
a) As empresas regionais, sobretudo as micro e pequenas empresas, de modo geral, não
exercitam os procedimentos operacionais de gestão empresarial; a grande maioria não adota
normas técnicas de produto e processo e tampouco utiliza técnica organizacional; igualmente,
as empresas apresentam limitada capacidade para exercitar certas funções empresariais de
comercialização, gestão e informação estratégica;
b) Grande parte da gestão estratégica das empresas ou unidades produtivas está baseada na
intuição, experiência pessoal e observação do comportamento do mercado local, gerando
uma grande distância entre as tendências reais dos mercados nacional e internacional e as
estratégias traçadas pelos empresários locais;
c) A grande maioria das empresas não utiliza serviços de consultoria externa, dado que
dependem quase que exclusivamente (o caso de micro e pequenas empresas ou unidades
produtivas) de recursos próprios (humanos e financeiros) e estes são insuficientes para a
contratação de apoio externo (Tabela 7.2). Pelas informações da Tabela 7.2, pelo menos
metade das empresas não utiliza, por vários motivos, os serviços de assistência técnicas
disponíveis na região amazônica;

12
Santana (2002a; 2003), Santana e Amin (2002).
155

Tabela 7.2
A empresa recebe algum tipo de assistência técnica ou gerencial, 2002. (em %)
Opção Plantas
Plantas Madeira e
ornamentais Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais mobiliário
e flores
Sim 50,0 8,3 37,0 23,8 25,0 10,4
Não 50,0 91,7 63,0 76,2 75,0 89,6
Fonte: Pesquisa de campo.

d) A principal fonte de informação abrange apenas outras empresas concorrentes locais, sendo
muito baixa a presença de associações empresariais efetivas e a ação de instituições
públicas, pois grande parte dos empresários desconhece os principais sistemas de apoio e
quando conhecem não têm certeza de sua contribuição efetiva, produzindo uma baixa
interação entre as unidades produtivas e as instituições de apoio (Tabela 7.3). Pelo que se
observa, o esforço predominante das empresas regionais é por informações sobre o
ambiente operacional local, incluindo os concorrentes, fornecedores de insumo e matéria-
prima e clientes. No que se refere ao processo produtivo e tecnologia, o interesse é
insignificante, o que reforça a idéia de que os arranjos locais da Amazônia são de
subsistência.

Tabela 7.3
A empresa dispõe de informações sistemáticas e regulares sobre os pontos a seguir: 2002. (em %)
Ponto de Plantas
Plantas
Madeira e
informação ornamentais Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais mobiliário
e flores
Concorrentes locais 58,3 66,7 36,2 42,9 47,1 38,4
Concorrentes
exógenos
41,7 25,0 8,5 14,3 11,8 14,6
Fornecedores locais 66,7 41,7 25,5 23,9 5,9 30,5
Fornecedores
exógenos
50,0 41,7 12,8 14,3 23,5 7,2
Clientes locais 58,3 50,0 42,6 14,3 17,6 24,6
Clientes exógenos 8,3 25,0 14,9 14,3 35,3 18,3
Processo produtivo
e tecnologia
8,3 8,3 6,4 - 5,9 3,0
Índices econômicos
globais e setoriais
8,3 8,3 6,4 - 23,5 2,6
Fonte: Pesquisa de campo.

e) De maneira informal e não-sistematizada, as empresas regionais (sobretudo as micro e


pequenas) se valem do processo tradicional de aprendizagem repassado de forma gradual ao
longo dos tempos, sem registros formais (isto recai no processo secular que se sustenta
apenas na necessidade de resolver problemas específicos não identificados previamente), de
acordo com a capacidade instalada da empresa e, com base nisso, define-se a maior parte
de sua capacidade e vantagens competitivas nos mercados locais, regional e internacional.

7.3.3 Elevado grau de integração vertical intra-empresa regional


Na Amazônia são pouco representativas ou inexistentes as formas coletivas de ação (redes
de empresas, consórcios de empresas, cooperativas de vendas), assim como subcontratação de
empresas ao longo da cadeia produtiva (SANTANA, 2002 e 2003). O que de fato predomina é o
comportamento enviesado para a autoprodução, o que constitui fator de risco e incerteza diante das
opções de fornecimento de insumos e matéria-prima regional e/ou global, fragilizando a exploração
das vantagens comparativas naturais (dotação de recursos naturais e mão-de-obra) e a obtenção de
economias de escala do lado da demanda, mediante formação e ampliação da rede de negócios
(subcontratando empresas ou atuando como subcontratada), conforme dados das Tabelas 7.4, 7.5 e
7.6.
156

Tabela 7.4
Sua empresa subcontrata a produção ou os serviços de outra empresa? (em %).
Plantas
Plantas Madeira e
ornamentais e Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais mobiliário
flores
Sim 12,5 27,3 6,5 19,0 18,8 80,4
Não 87,5 72,7 93,5 81,0 81,2 20,6
Total 32,0 17,0 46,0 21,0 16,0 540
Fonte: Pesquisa de campo.

No que concerne as subcontratações, que é um passo fundamental para a formação de redes


de empresas, todos os ramos de atividade já implantaram esta técnica mesmo que de forma
incipiente, conforme indicam os resultados da Tabela 4. O ramo de madeira e mobiliário apresenta
elevado nível de subcontratação, porém a grande maioria se constitui de fornecedores de matéria-
prima (madeira) e não de empresas para efetivar partes de produtos ou produtos finais.
Os critérios adotados na seleção dos fornecedores pelas empresas locais se concentram no
preço, qualidade do produto, pontualidade e atendimento e condições de pagamento (Tabela 7.5),
que coincide com os fatores eleitos pelas empresas nacionais.

Tabela 7.5
Quais os principais critérios que a empresa adota para selecionar os fornecedores, 2002? (em %)
Critérios Plantas Plantas ornamen- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais tais e flores mobiliário
Preço 66,7 91,7 70,2 66,7 64,7 83,0
Qualidade 100,0 75,0 74,5 85,7 76,5 78,7
Pontualidade 41,7 25,0 27,7 14,3 5,9 24,8
Atendimento - - 10,6 14,3 17,6 9,8
Únicos no mercado 8,3 25,0 2,1 33,3 47,1 1,8
Condições de
pagamento
41,7 41,7 36,2 4,8 5,9 47,1
Confiança e
conhecimento
33,3 8,3 10,6 23,8 23,5 14,2
Menor prazo de
entrega
- - - - - 13,3
Flexibilidade 8,3 8,3 19,1 4,8 5,9 3,0
Fonte: Pesquisa de campo.

No que tange à organização social, atividade-núcleo para o desenvolvimento sustentável dos


APL ainda é pequena a participação de cooperativa, centrais de compra, consórcio de vendas, etc.
(Tabela 7.6).
As interações sociais giram em torno dos sindicatos e associações de classe de pouca
representatividade nas decisões locais.
Muitas razões podem ser atribuídas a esse desempenho comportamental apresentado pelas
empresas regionais, situação peculiarmente destoante do caminho seguido pelas empresas do
mundo desenvolvido, entre os fatores tem-se: o elevado custo de transação, em função dos
elementos macroeconômicos instáveis e regulados (juros, tributos, câmbio e crédito), assimetria de
informações e comportamento oportunista dos agentes, combinados com fatores inerentes às
estratégias de conduta intrínsecos às empresas, que atribui maior peso a autoprovisão de grande
parte dos elementos e processos produtivos. A adoção dessa estratégia tende a gerar um conjunto
de situações subótimas (não se comportando como uma situação de second best) e, por conseguinte,
conduz a situações de ineficiência no ambiente interno das empresas (organização da produção,
estratégia de investimentos e inovação) que, geralmente, frustram as estratégias defensivas de
redução de custos mediante a diversificação e ampliação da oferta de produtos sem entender o
contexto do ambiente competitivo externo em que essas empresas atuam.
157

Tabela 7.6
A empresa participa de alguma associação ou entidade setorial produtiva e/ou social, 2002. (%)
Plantas Plantas ornamen- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais tais e flores mobiliário
Sindicato de
produtores
30,0 - 50,0 15,8 58,3 31,8
Associação de classe 77,8 50,0 38,5 33,3 46,2 28,9
Cooperativa 10,0 - 9,5 15,0 16,7 3,4
Consórcio/cooperativa
de exportação
- - 4,8 - - 1,3
Central/cooperativa de
compras
- - - - 8,3 0,8
Centro ou entidade de
assistência técnica
11,1 10,0 9,5 5,6 16,7 2,1
Centro ou entidade de
treinamento
20,0 20,0 9,1 - 8,3 3,4
Outras associações do
setor
33,3 40,0 34,8 5,6 33,3 9,3
Fonte: Pesquisa de campo.

7.3.4 Ampla diversidade de produtos e baixo volume de produção


Esta é uma característica típica dos APL da Amazônia, que está arraigada nas estratégias de
sobrevivência individual das empresas; a atitude de ampliar a oferta dos produtos regionais e
internalizar em vários casos a fabricação dos produtos se deve ao desejo de reduzir custos de
transação através de uma maior utilização e aproveitamento do capital físico disponível13
(instalações, máquinas e equipamentos) e recursos humanos; atitudes do tipo têm levado muitas
vezes a deseconomias de comercialização, fruto da insuficiência de volume e qualidade do produto
para operar com ganhos de escala e de escopo.
Em função disso, as empresas estão operando com grande capacidade ociosa, conforme
mostram as informações da Tabela 7.7.

Tabela 7.7
Faixa porcentual que a empresa opera com capacidade ociosa, 2002.
Porcentual Plantas Plantas ornamen- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais tais e flores mobiliário
0 a 10 % 40,0 16,7 18,7 56,2 30,8 23,0
11 a 25 % 10,0 33,3 37,5 18,8 38,4 33,0
26 a 50 % 30,0 50,0 21,9 6,2 - 23,4
Mais de 50 % 20,0 - 21,9 18,8 30,8 20,6
Fonte: Pesquisa de campo.

Pelo que se observam, as empresas estão operando com mais de 83% de capacidade ociosa
e, em grande medida, a capacidade ociosa supera 50%. Este nível de capacidade ociosa, conforme
Santana (2003), está sendo utilizada pelos empresários como medida de desempenho competitivo
ex-ante.

7.3.5 Fontes escassas de recursos e forte aleatoriedade na aplicação


As fontes de financiamentos das atividades produtivas carregam forte viés contra as micro e
pequenas empresas e contra as atividades com perfil para gerar e redistribuir renda, sustentabilidade
ambiental e dotação de conhecimento tácito e social enraizado de forma secular nos agentes locais.
A efetivação dos financiamentos pressupõe documentações e garantias em excesso, taxas de juros e
prazos inadequados ao desempenho das atividades; extrema burocracia, ausência de recursos para
capital de giro. Não há consistência evolutiva das aplicações dos recursos públicos em projetos
estruturantes locais, dada a pulverização em muitos produtos e locais, e em volume insuficiente para

13
Em boa parte dos casos a capacidade instalada das empresas foi construída com recursos públicos e em
escala superdimensionada.
158
mover os efeitos multiplicadores econômicos (SANTANA, 2002b). Também são insignificantes os
investimentos em ciência e tecnologia e, além de insuficiente, enviesados para tecnologias pouco
ajustadas aos sistemas regionais (COSTA, 2002).
Quanto ao acesso a crédito, em que pesa vários fatores enviesados contra os pobres, são
apresentados na Tabela 7.8 os porcentuais de empresas que têm acesso a crédito são muito baixos
em todos os ramos de atividades.

Tabela 7.8
A empresa obteve crédito de curto prazo (capital de giro) nos últimos cinco anos (em %).
Opção Plantas Plantas orna- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais mentais e flores mobiliário
Sim 16,7 - 8,7 28,6 12,5 10,0
Não 83,3 100,0 91,3 71,4 87,5 90,0
Fonte: Pesquisa de campo.

7.3.6 Mercado de produto restrito


A grande maioria das empresas regionais opera em mercados com dimensão local (Tabela
7.9), outras com abrangência regional e nacional e uma pequena proporção consegue atingir os
mercados internacionais, mesmo assim são controladas por um grupo pequeno de grandes traders
de atuação internacional, exercendo poder de oligopsônio na compra dos produtos exportáveis. Há
grandes dificuldades no que concerne ao acesso a informações e requisitos sobre o mercado
internacional, até mesmo entre as empresas que trabalham com produtos cuja lógica principal é
desenhada para atender ao mercado internacional como é o caso da madeira; com relação ao
funcionamento do mercado, tem-se que a maioria dos produtos exportados pelas empresas regionais,
a exceção dos minerais, guarda pouca ligação com as características de commodities homogêneas –
aqui os produtos são tecnicamente diferenciados e com forte diferença de qualidade, preços,
funcionamento do mercado, baixa transparência e com diversas imperfeições que conduzem a uma
situação em que predominam as atitudes subjetivas dos consumidores e empresários.
Recentemente, a indústria de polpa de frutas, para obter volume e regularidade na exportação e
atender à demanda do varejo moderno, está exportando o mix de polpa de frutas, composto de até 12
polpas de frutas (SANTANA; GOMES, 2003).
O destino dos produtos das empresas regionais é preponderantemente para o mercado local,
evoluindo para o mercado estadual e regional, restando uma pequena parcela para o mercado
internacional. Pelo que se observam, as decisões locais predominam e seu reforço pode
desencadear o processo de desenvolvimento sustentável.

Tabela 7.9
Quais os mercados para onde destina a venda dos produtos de sua empresa, 2002? (em %)
Mercado Plantas Plantas ornamen- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais tais e flores mobiliário
Mercado local 75,4 88,6 61,87 62,2 46,7 45,3
Mercado estadual 12,0 3,7 19,10 8,1 12,4 13,4
Mercado regional 3,3 5,4 5,21 7,6 3,5 5,0
Mercado nacional 7,6 2,1 11,46 17,3 11,8 24,6
Mercado externo 1,7 - 2,36 4,8 13,7 11,7
Fonte: Pesquisa de campo.

7.3.7 Tecnologia
É incontestável o problema do déficit de investimento em desenvolvimento tecnológico na
Amazônia, compreendendo todos os aspectos atuais e potenciais das instituições regionais para
desenvolver pesquisa básica, pesquisa aplicada, imitação e adaptação dos novos produtos,
processos e serviços técnicos (COSTA, 2002). O desenvolvimento de tecnologia apropriada aos
sistemas agropecuários e florestais da Amazônia ainda está por ser pesquisado e/ou adaptado para a
159
posterior difusão horizontal entre os principais agentes econômicos (SANTANA et al., 2003). Como a
tecnologia é o principal vetor do aumento de produtividade das atividades locais e, por meio desta,
são incrementados os retornos econômicos e as remunerações do trabalho, deve-se contribuir para
diminuir esse viés. Os principais problemas que as empresas estão enfrentando são: falta de
informação, falta de orientação técnica, baixo nível de qualificação de pessoal, falta de recursos
financeiros e deficiente geração de C&T na região amazônica.
Cabe lembrar, adicionalmente, que a tecnologia para as realidades dos sistemas produtivos
locais da Amazônia deve levar em consideração aos aspectos de cada comunidade como uma
condição necessária em alguns casos e em outros casos como condição necessária e suficiente para
o sucesso das inovações tecnológicas e de gestão implantadas e/ou adaptadas. Isto significa uma
obrigatoriedade nos estudos da cultura, do conhecimento tácito, do grau de organização social, das
habilidades dos agentes locais e regionais para operar sistemas produtivos coletivos e gerenciar
ativos coletivos.

7.3.8 Capacitação da mão-de-obra local


Na região amazônica é generalizada a baixa capacitação da mão-de-obra14 e dos
empresários, assim como por conseqüência é baixa a organização social com fins produtivos, ou
seja, o capital humano e o capital social constituem as principais limitações ao desenvolvimento
sustentável da Amazônia com base nos APL. Por conta disso, é grande o comportamento oportunista
dos agentes econômicos em função da assimetria de informações, do baixo grau de organização da
produção e da representatividade limitada dessas organizações sociais. O capital humano é o
principal vetor do desenvolvimento local porque viabiliza a implantação de inovações tecnológicas, de
gestão e organizacionais, e alavanca o desenvolvimento (Tabela 7.10).

Tabela 7.10
Três principais áreas em que a empresa realizou treinamento, 2002 (%).
Áreas Plantas Plantas ornamen- Madeira e
Agroindústria Fruticultura Aqüicultura
medicinais tais e flores mobiliária
Qualidade e
produtividade
58,3 25,0 27,7 38,1 11,8 18,9
Gestão do meio
ambiente
- - 8,5 4,8 5,9 5,7
Tecnologia de produção 33,3 16,7 6,4 19,0 17,6 5,0
Operação de máquinas 16,7 - 12,8 4,8 5,9 26,6
Gestão de pessoal 50,0 8,3 4,3 4,8 - 2,4
Gestão empresarial 25,0 8,3 8,5 9.5 - 1,3
Vendas e marketing 25,0 25,0 14,9 4.8 - 2,6
Seg e méd trabalho - - 2,1 - 17,6 25,7
Informática 33,3 - 4,3 4,8 - 3,5
Exportação e comércio
exterior
- - 4,3 4,8 - 2,6
Outras 16,7 16,7 6,4 9.5 5,9 9,5
Não realizou 8,3 41,7 57,4 47,6 52,9 52,5
Observação: Os itens não somam 100% por se tratar de uma questão de múltiplas escolhas.
Fonte: Pesquisa de campo.

Os resultados da Tabela 7.10 mostram que é grande o percentual das empresas que não
realizam treinamento, com exceção do ramo de plantas medicinais. Menos de 10% das empresas
realizaram treinamento em gestão empresarial, bem como em gestão do meio ambiente e gestão
pessoal e ambos são ações que se decidem no âmbito microeconômico.

14
O treinamento técnico, na grande maioria das empresas, é realizado por técnicos mais experientes ou pelo
próprio dono da empresa, quando são repassadas técnicas apreendidas ao longo do tempo com a prática e
faz parte do conhecimento tácito. O treinamento em relações trabalhista é o realizado fora da empresa que
ocorre com maior freqüência, porém são raras as participações em curso sobre gestão de empresas,
inovações tecnológicas, organização empresarial, normas técnicas, qualidade total, etc.
160

7.3.9 Infra-estrutura de transporte e comercialização


Este é um problema grave para as empresas que operam na Amazônia, pois, torna-se
impossível criar e desenvolver uma logística de distribuição competitiva de produtos e insumos para
os mercados regionais e internacionais com as estradas sem oferecer condições de trafegabilidade
ao longo do ano, dificultando a integração dos modais rodo-fluvial e rodo-ferro-fluvial na região
amazônica, ou seja, o aporte de capital produtivo disponível é baixo para todos os APL. A deficiência
de infra-estrutura produtiva eleva o custo de transação e limita a formação de estratégias
competitivas sustentáveis, bem como a agregação de valor aos produtos, dado a dificuldade de
atender à dinâmica do mercado consumidor no tempo programado.
Além destes fatores há vários outros que inflamam e incomodam a implantação linear de
qualquer matiz teórico sobre o desenvolvimento regional, por pura insuficiência dos aportes que não
foram criados no decorrer de longos períodos de planejamento, fundados em matizes inadequados
ao desenvolvimento regional sustentável.
De forma consuetudinária, deve-se mudar a trajetória pretérita do desenvolvimento regional,
iniciando de forma originária pelo estudo primário da identificação de locais com a existência e/ou
com o potencial para formar uma aglomeração de empresas (informais ou não, de subsistência ou de
exportação), independente do porte, e orientar as ações para um enfoque endógeno local,
acompanhando os avanços hodiernos dos principais postulados teóricos do desenvolvimento
endógeno - escolas evolucionistas e institucionalistas - elaborados para apoiar o desenvolvimento
regional sustentável.

7.4 REFERÊNCIAS
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7.5 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

E1. Apresente o conceito de desenvolvimento local e estabeleça a interação com os conceitos de


crescimento econômico e desenvolvimento regional.

E2. Estabeleça as diferenças e similaridades entre os conceitos de desenvolvimento local, arranjo


produtivo local e cadeia produtiva.

E3. Faça uma reflexão sobre os resultados das tabelas do texto e compare com resultados gerados
em municípios que você conhece.
CAPÍTULO 8
MATRIZES DE INSUMO-PRODUTO E DE
CONTABILIDADE SOCIAL

8.1. INTRODUÇÃO
O objetivo do capítulo é apresentar a álgebra de cálculo nos modelos de insumo produto e de
contabilidade social para a economia da Amazônia. De início, mostra-se o padrão clássico de análise
do modelo de insumo-produto e depois evolui para a matriz de contabilidade como subsídio aos
estudantes do mestrado e doutorado da UFRA, principalmente. Pelo nível de detalhamento, clareza e
simplicidade das análises, o texto pode ser utilizado na graduação dos cursos de economia,
administração e de ciências agrárias. Este esforço, portanto, será feito para a matriz da Região Norte
e, como exercícios de aprendizagem, serão disponibilizadas matrizes para outros Estados da
Amazônia, especificadas com maior número de setores, destacando a agricultura, pecuária, pesca e
madeira.
A escolha da matriz de contabilidade social (MCS) foi feita em razão de sua estrutura ser
mais geral do que a matriz de insumo-produto (MIP) e permitir a incorporação das idéias teóricas
(institucionalistas e desenvolvimento regional). A MCS possibilita a representação do ambiente
interempresarial via coeficientes tecnológicos, as relações em cadeia para frente e para trás, fruto das
conexões com a rede de fornecedores e clientes, as relações com a formação do valor adicionado e
deste com a demanda final de forma endógena, assim como a ação institucional na distribuição de
renda e de realização de gastos na economia, além de captar o entorno de cada atividade por meio
da desagregação dos multiplicadores de impactos globais.
A relação entre essa metodologia e o desenvolvimento regional é direta, uma vez que o
processo de desenvolvimento regional a partir de ações locais pressupõe a compreensão do fluxo
completo dos encadeamentos intersetoriais que as atividades produtivas estabelecem com os setores
a montante e a jusante e das dinâmicas que são produzidas com a especialização e, ou,
diversificação de atividades, as tecnologias adotadas, os empregos e as relações com o incremento
das atividades desenvolvidas fora da unidade de produção, bem como as interações com as
instituições públicas e privadas do local. Os linkages são mais fortes à medida que os agrupamentos
produtivos se formarem em áreas geograficamente determinadas, formando pólos de
desenvolvimento, cujas ações abrangem os Eixos de Desenvolvimento da Região Norte,
contemplando as unidades plurais no que se refere às fontes de trabalho e de geração de renda e às
atividades integradas horizontal e verticalmente.
Neste capítulo pretende-se trabalhar essas relações para se compreender as interações entre
as dimensões micro, macro e mesoeconômicas, tratando simultaneamente as formações de arranjos
produtivos locais, suas interações com os principais setores da economia regional e destes com a
164
formação de pólos de desenvolvimento econômico, entendendo as sinergias e transversalidades que
devem aflorar dos encadeamentos produtivos e de suas externalidades.
Para dar conta desse desafio, a MCS é um instrumental metodológico útil para iniciar a
compreensão dessa complexidade, dado que descreve o fluxo circular da economia de forma
completa, segundo o setor produtivo. Como o entendimento de sua estrutura não é trivial, resolveu-se
apresentar o modelo de insumo-produto, por ser um modelo mais familiar, como forma de facilitar o
entendimento sobre os resultados e análises a partir da MCS.
O texto apresenta três seções e um anexo além dessa introdução. A primeira seção desenvolve e aplica
o modelo aberto de insumo-produto. A segunda seção descreve a MCS, gera os multiplicadores e evidencia a
superioridade metodológica em relação ao modelo de insumo-produto. A terceira seção mostra os resultados da
MCS, especificada para 23 setores da Amazônia Legal. O anexo apresenta as tabelas de multiplicadores globais,
efeitos de encadeamento para frente e para trás e os multiplicadores de emprego e renda dos Estados da
Amazônia Legal.

8.2 MODELO ESTÁTICO ABERTO DE INSUMO-PRODUTO


A estrutura da MIP é constituída de três blocos de contas: o bloco de contas endógenas ou de demanda
intermediária; o bloco de contas exógenas ou de valor adicionado; o bloco de demanda final, também exógeno,
daí o nome de modelo aberto, pois não há interação direta entre valor adicionado e demanda final (Quadro 8.1).

Quadro 8.1 – Representação do modelo estático aberto de insumo-produto, exibindo a demanda


intermediária, valor adicionado e demanda final.

Demanda Intermediária Demanda Final – D

produção -X
Exportação - E

Valor da
Agropecuária

Consumo - C

MIP
Indústria

Serviços

FBCF - I

Agropecuária X11 x12 x13 C1 I1 E1 X1


Indústria x21 x22 x23 C2 I2 E2 X2
Serviços x31 x32 x33 C3 I3 E3 X3
Salário S1 S2 S3
Excedente ou lucro L1 L2 L3
Imposto líquido T1 T2 T3
Importação M1 M2 M3
Emprego N1 N2 N3
Valor da produção - X X1 X2 X3
Fonte: Elaboração própria.

a) Demanda intermediária: é representada pelo conjunto das transações intersetorias de um


setor ou atividade econômica para outro. Revela a estrutura de compra e venda de produtos
entre os setores da economia. Assim, quando visto na linha, o produto de cada setor entra
como insumo ou matéria-prima para o outro que efetiva a compra, ou seja, o produto gerado
na agropecuária é vendido na proporção x11 para a própria agropecuária, x12 para a indústria
e x13 para serviço. Nas colunas, lê-se a compra que cada setor efetua dos demais. Assim, a
agropecuária compra a quantidade x11 de do próprio setor, x21 da indústria e x31 do serviço,
formando um balanço entre compra e venda em cada célula. Em suma, tem-se que xij é o
valor do consumo intermediário do i-ésimo produto necessário à fabricação de uma unidade
monetária do j-ésimo produto. Quanto maiores forem esses balanços, maiores são as
aderências intersetoriais da economia.
b) Valor adicionado: representa as remunerações aos fatores de produção trabalho e capital, o
pagamento de imposto e recebimento de subsídio. Nas linhas, visualiza-se a oferta de
trabalho e capital para os setores da economia e, nas colunas, lê-se o pagamento a esses
fatores, de modo que se tem um balanço entre oferta e demanda no mercado de fatores.
165
Assim, S1 representa o pagamento na forma de salário que o setor agropecuário fez aos
trabalhadores, S2 os pagamentos efetuados pela indústria e S3 pelo setor de serviço.
c) Demanda final: representa o valor das vendas para o consumo final das famílias e do
Governo (C), o valor destinado à formação bruta de capital (I) e o valor das vendas
destinadas à exportação (E) dos produtos setoriais. Assim, a quantidade de produto da
agropecuária que excede à demanda intermediária (x11 + x12 + x13) é vendida para a demanda
final, destinando C1 para o consumo das famílias e do governo, I1 para a formação bruta de
capital e E1 para as exportações.
O valor das vendas (igual ao valor bruto da produção) Xi dos setores dessa economia é dado
pela soma das demandas intermediárias com as demandas finais. A equação matemática é a
seguinte:
X i
= x +x
i1 i2
+ xi 3 + Di , (i = 1, 2, 3) (8.1)
Admitindo que cada produto seja fabricado por um único processo, em proporções fixas, a
partir de certa quantidade de mão-de-obra e do consumo intermediário de outros produtos, tem-se
que aij é o valor monetário do i-ésimo produto consumido na fabricação de uma unidade monetária do
j-ésimo produto e nj o valor da mão-de-obra necessária para a fabricação de uma unidade monetária
do j-ésimo produto. Tem-se a equação 8.2:
x =a X
ij ij j
(8.2)
N =n X j j j
Portanto, a soma das demandas intermediárias e finais é dada pela equação 8.3:
X a X a X a X D
i
= i1 1 + i 2 2 + i 3 3 + i , (i = 1, 2, 3) (8.3)
Os coeficientes técnicos aij têm a dimensão de valor de input por valor de produto (por
exemplo, valor de toneladas de minério de ferro por valor de toneladas de lingotes de aço). A matriz
de coeficientes técnicos é dada pela equação 8.4:
 a11 a a 
[a ]
12 13
 
A = ij
= a 21 a 22 a 23
(8.4)
a a a 
 31 32 33 

cuja j-ésima coluna indica os consumos intermediários necessários à fabricação de uma unidade
monetária do j-ésimo produto. Observe que todos os elementos de A são não-negativos, isto é, A ≥ 0.
Os problemas específicos que esse modelo de insumo-produto pode responder são do tipo:
a) Quais as proporções setoriais Xj, necessárias para que, subtraídas as demandas
intermediárias, sejam atendidas as demandas finais pré-determinadas exogenamente?
b) Dada a quantidade de mão-de-obra disponível N, qual o conjunto de demandas finais que
podem ser obtidos dentro da economia?
Essas questões podem ser resolvidas facilmente em termos de sistemas lineares, bastando
para isso igualar a produção total à soma das demandas intermediárias e das demandas finais e
ajustando adequadamente o sistema de equações 8.5:
(1 − a i11) X 1 − a12 X 2 − a13 X 3 =
D 1

− a X + (1 − a ) X − a X = D
21 1 22 2 23 3 2 (8.5)
− a X − a X + (1 − a ) X = D
31 1 32 2 33 3 3

A solução desse sistema linear de equações gera os valores das produções setoriais Xj para
o atendimento das demandas finais Dj.
É conveniente expressar o sistema 4 sob notação matricial. Denotando por I a matriz
identidade (com elementos iguais a 1 na diagonal principal e zero fora dela), por A a matriz de
coeficientes técnicos aij, por X = [X1, X2, X3] o vetor de produção e por D = [D1, D2, D3] o vetor de
demanda final, pode-se sintetizar o referido sistema na relação:
166

[ I − A] X = D (8.6)
Isto equivale a se ter o sistema matricial 8.7:
X = [I − A]−1⋅D
−1
1−
 X   a11
− a12 − a13   D1 
 
− a23 

1
  (8.7)
 X  = − a 21 1− a 22 •  D 2
X 
2
  D 
 −
 a31 − a32 1− a33
 3  3

A equação 5 sintetiza a solução do problema no modelo de insumo produto. Obviamente,


para que o problema seja economicamente possível é necessário que a matriz [I – A] seja não-
singular, admita uma inversa e que X ≥ 0, portanto, se os coeficientes técnicos forem consistentes (0
≤ aij ≤ 1), a matriz [I – A]-1 existe, assim, como D ≥ 0, a equação 5 sempre gera um vetor de valor da
produção X ≥ 0. Isto significa dizer que toda combinação de produtos finais será capaz de ser
produzida, desde que não haja limitação de mão-de-obra.

8.2.1. Exemplo de aplicação do modelo


Para a aplicação do modelo de insumo-produto, tomou-se por base a matriz de insumo
produto da Região Norte, agregada em três setores (Tabela 8.1).

Tabela 8.1 – Representação da matriz de insumo-produto da Região Norte, exibindo a demanda


intermediária, valor adicionado e demanda final, 1999.

Demanda intermediária Demanda final Receita


MIP
Agropec. Indústria Serviço Consumo FBCF Exportação Total
Agropecuária 766 235 909 977 100 471 861 660 7 027 002 46 875 9 712 219
Indústria 363 925 3 328 083 1 425 369 3 402 402 16 547 776 3 957 867 29 025 423
Serviço 718 264 3 281 224 7 012 029 26 189 496 1 700 889 1 614 188 40 516 090
Salário 785 767 2 526 673 15 483 104
Lucro 4 960 929 8 825 774 8 796 886
Imposto líquido 65 386 2 067 293 1 831 636
Importação 2 051 712 8 086 399 5 866 595
Valor da produção 9 712 219 29 025 423 40 516 090
Pessoal Ocupado 713 306 430 913 2 102 287
Fonte: Elaboração própria a partir da Matriz do BASA.

Pelo que se observa, o valor bruto da produção gerado pela Região Norte, em 1999, foi da
ordem de R$ 9.712.219 mil, dos quais, R$ 1.848.242 mil (19,03%) foi gasto na aquisição de insumos
intermediários da agropecuária, indústria e serviços, R$ 5.812.083 mil (59,84%) foi destinado ao
pagamento dos fatores de produção e de impostos (valor adicionado) e o restante R$ 2.051.712 mil
(21,13%) foi aplicado na importação de insumos. Portanto, em 1999, a economia regional dependia
mais dos insumos importados do que os produzidos internamente (Tabela 1).
Dividindo-se cada valor xij da demanda intermediária pelo valor bruto da produção Xj,
obtêm-se os coeficientes técnicos aij (equação 4). Essa matriz de coeficientes técnicos A é dada por:
Agropecuária Indústria Serviço
Agropecuária 0.0789 0.0314 0.0025
Matriz A = Indústria 0.0375 0.1147 0.0352
Serviço 0.0740 0.1130 0.1731

Estes valores mostram a parcela do valor bruto da produção de cada setor que é gasta na
aquisição de insumos e/ou matérias-primas de si próprio e dos demais setores. Subtraindo estes
valores da matriz identidade, obtém-se a matriz na forma reduzida (I – A), como na equação 8.6.
167

Agropecuária Indústria Serviço


Agropecuária 0.9211 -0.0314 -0.0025
Matriz (I – A) = Indústria -0.0375 0.8853 -0.0352
Serviço -0.0740 -0.1130 0.8269

A matriz inversa (I – A )-1 ou matriz de impacto de Leontief, como na equação 8.7, é dada
por:

Agropecuária Indústria Serviço


Agropecuária 1.0876 0.0391 0.0049
Matriz (I – A)-1 = Indústria 0.0502 1.1375 0.0485
Serviço 0.1041 0.1590 1.2164

Esse resultado representa a solução do modelo de insumo-produto para alterações


exógenas e unitárias na demanda final, ou seja, para atender a um incremento de uma unidade
monetária (R$ 1,00) de demanda exógena por produtos da agropecuária, este setor deve incrementar
de 8,76 centavos, a indústria em 5,02 centavos e serviço em 10,41 centavos de real. Igual raciocínio
vale para os demais setores. Veja a solução abaixo para uma mudança unitária de R$ 1,00 em cada
setor separadamente.

Agropecuária (I – A)-1 x D = X
1.0876 0.0391 0.0049 1 1,0876
X = (I – A)-1 . D: 0.0502 1.1375 0.0485 x 0 = 0,0502
0.1041 0.1590 1.2164 0 0,1041

Indústria (I – A)-1 x D = X
1.0876 0.0391 0.0049 0 0,0391
X = (I – A)-1 . D: 0.0502 1.1375 0.0485 x 1 = 1,1375
0.1041 0.1590 1.2164 0 0,1590

Serviço (I – A)-1 x D = X
1.0876 0.0391 0.0049 0 0,0049
X = (I – A)-1 . D: 0.0502 1.1375 0.0485 x 0 = 0,0485
0.1041 0.1590 1.2164 1 1,2164

Observa-se, portanto, que a mudança unitária na demanda exógena de cada setor, exige
incrementos simultâneos em todos os setores, na magnitude dos valores expressos na coluna do
respectivo setor.

8.3 MATRIZ DE CONTABILIDADE SOCIAL


A lógica de funcionamento da MCS é descrita no Quadro 8.2. As atividades endógenas da
matriz foram particionadas em cinco blocos. O primeiro bloco matricial, denominado atividades, é
constituído de três setores ou atividades produtivas [Ta(3x3)], cuja configuração reflete a interação e
distribuição dos insumos e produtos intermediários entre os setores, ou seja, este bloco matricial
reproduz os elementos da matriz de demandas intermediárias do modelo de insumo-produto, dado
por xij no Quadro 8.1 e constitui o bloco de setores ou atividades produtivas.
O segundo bloco matricial é o de valor adicionado, formado pelos pagamentos ou
remunerações dos fatores de produção trabalho e capital [Tv(2x3)], e representa os salários pagos aos
trabalhadores e o excedente bruto, que é a remuneração do capital, denominado lucro por
conveniência. Essas duas contas constituem a primeira ligação direta entre atividades produtivas e
renda de fatores (ou produção e renda na contabilidade social keynesiana), uma vez que grande
168
parcela do resultado monetário, gerado nos setores ou atividades produtivas, é apropriada pelos
fatores de produção trabalho e capital.

Quadro 8.2 - Estrutura da matriz de contabilidade social (MCS) exibindo as contas endógenas e as
contas exógenas.
Conta endógena Conta
exógena Receitas
MCS Setores Valor Total
produtivos Instituições adicionado Outras contas Y

Atividade produtiva 1 Ta Tc 0 Xa Ya
Instituições 2 0 Ti Tr Xi Yi
Valor adicionado 3 Tv 0 0 Xv Yv
Conta exógena 4 Ea Ei Ev Z Yj
Despesa total - Y 5 Ya Yi Yv Yj Yt
Fonte: Santana (1994, 1998, 2004).

O terceiro bloco matricial é o que faz a ligação entre o valor adicionado [Tr(2x2)] e as
instituições (representada pelas famílias e governo), descrevendo a apropriação desse valor
adicionado pelas famílias (renda e lucro) e pelo governo (impostos menos subsídios).
O quarto bloco matricial é o que representa a distribuição de renda entre as instituições
[Ti(2x2)], contemplando as transferências, os impostos e subsídios, e faz a ligação com o quinto bloco,
que determina a estrutura de gastos institucionais realizados na aquisição de bens e serviços dos
setores ou atividades produtivas [Tc(3x2)], que é formado pelo consumo das famílias e do governo e
pela formação bruta de capital fixo, fechando o fluxo circular da economia.
O bloco matricial de contas exógenas é formado pelas contas de comércio (exportação e
importação) com as demais regiões do Brasil e com o resto do mundo, e o imposto líquido (imposto
menos subsídio), especificado como atividade exógena para, juntamente com as importações, avaliar
seu efeito sobre a estrutura produtiva e sobre a distribuição de renda da economia, assim como
simular algumas alternativas de proposições nesse campo.
Pelo que se observa, a MCS descreve o fluxo circular da economia regional (produto, renda e
consumo), uma vez que torna endógeno o vínculo entre produção e renda e entre renda e consumo,
incluindo as relações de distribuição da renda entre os agentes institucionais. Nessa estrutura são
captadas todas as relações de insumo-produto, as ligações institucionais e de apropriação de renda
pelos fatores trabalho e capital, assim como a alocação e distribuição de renda entre as famílias e o
governo. Dessa forma, tem-se a estrutura adequada para medir os efeitos globais dos
encadeamentos intersetoriais e sua repercussão socioeconômica.
O fluxo circular da MCS representada no Quadro 8.2, inicia-se nos setores ou atividades
produtivas, daí emite seus efeitos para o valor adicionado, deste para as instituições e retorna às
atividades produtivas, por meio das ligações de demanda, em três passos. O primeiro passo resulta
na matriz de coeficientes de valor adicionado, que reflete o fluxo de renda das atividades produtivas
para valor adicionado. O segundo passo termina na matriz dos coeficientes de distribuição de renda,
que mostra o fluxo de renda dos fatores para as instituições. O terceiro passo efetiva-se com a
determinação da matriz de coeficientes de gastos, que reflete o fluxo de renda proveniente das
instituições, traduzido na forma de demanda de bens e serviços das atividades produtivas, fechando
o ciclo.
A lógica de funcionamento desse fluxo obedece aos desdobramentos ilustrados na Figura
8.1. Como exemplo, toma-se um impulso dado por Xv se refere ao imposto que foi definido como
atividade exógena. Um aumento da carga tributária, por exemplo, tem impacto direto sobre a renda
institucional que, na seqüência, atinge as atividades produtivas e daí se dissemina para o valor
adicionado.
A base teórica que sustenta este modelo esteia-se na economia keynesiana e suas
derivações, já que o ponto nevrálgico de toda a dinâmica do modelo está nas relações de demanda.
Nesse ponto, o modelo mantém forte aderência com a dinâmica do desenvolvimento local, pautado
169
no estímulo à estruturação e adensamento de cadeias produtivas, envolvendo as transações
comerciais que se desencadeiam ao longo de seus elos, cuja força motora também está na demanda.
Nesse aspecto, toda a arregimentação que ocorre no ambiente interno das empresas em territórios
específicos, assim como os movimentos de alto a baixo, de lado a lado e no entorno da MCS, que se
desencadeiam em resposta às trajetórias comportamentais do mercado, são captadas na matriz de
efeitos globais.

Valor
Renda do adicionado Demanda de
exterior Yv exportação
(Xi ou Xv) Xa

Tv
Tr

Ti
Renda da Setor
instituição produtivo
Yi Ya

Figura 8.1 - Representação do encadeamento interno mediante impacto dos estímulos exógenos.
Fonte: Santana (1994; 2004).

Assim, o vínculo principal que a análise via MCS põe em evidência e permite quantificar diz
respeito às ligações oriundas do lado da demanda. A produção originada dos setores ou atividades
produtivas, particularmente os três setores representados na matriz da Amazônia Legal, responde a
aumentos da demanda interna de alimentos, fibras e de matérias-primas em geral, como também
atende à demanda de exportação.
A análise por meio da MCS permite estimar aumentos na produção setorial a partir de
incrementos conhecidos na demanda exógena, no produto total (PIB) e na política econômica,
obedecendo à dinâmica do fluxo circular da economia.
Em relação às mudanças endógenas do lado da oferta, que também devem ocorrer, serão
admitidas no âmbito da MCS apenas aquelas que se acomodam dentro da capacidade instalada das
unidades produtivas, em função da capacidade ociosa, e que afetam apenas o intercepto das funções
comportamentais.

8.3.1 O modelo algébrico da matriz de contabilidade social


Antes de iniciar a operação matemática do modelo, serão apresentadas as hipóteses básicas
do modelo. Assim como a MIP, a MCS é operada sob algumas hipóteses fundamentais e outras
específicas, necessárias ao seu funcionamento (SANTANA, 1994 e 2004):
a) A hipótese mais restritiva é a de coeficientes fixos, porque assume tecnologia com retorno
constante (ausência de economias ou deseconomias externas) e não permite que ocorra a
substituição entre fatores mesmo quando os preços relativos sinalizam, ou quando há
disponibilidade de fatores. Isto limita o uso da matriz em horizontes de longo prazo, que
envolve dinâmica e não apenas o exercício de estática comparativa. Há evidências empíricas,
entretanto, fundamentando sua utilização em análises de curto prazo, uma vez que há rigidez
de alteração dos processos tecnológicos em curtos espaços de tempo;
170
b) A hipótese de agregação assume que as indústrias que operam em dado setor da economia
fabricam um produto homogêneo a ser ofertado pelo setor, isto é, os coeficientes
tecnológicos de um setor são representativos para todas as indústrias que operam no referido
setor, como se refletisse uma situação média. No entanto, os erros de agregação podem ser
minimizados na medida em que as atividades produtivas sejam desagregadas de acordo com
o perfil dos produtos gerados nas empresas em operação na economia, a região ou o local da
análise, como é o caso deste trabalho;
c) Outra hipótese operacional e de grande relevância para que a estrutura da MCS funcione de
acordo com os pressupostos teóricos de estímulos exógenos e da conformação endógena
para reagir a tais impulsos é a de que a economia opera com capacidade ociosa. Isso
garante que, toda vez que houver mudança exógena na demanda por bens e serviços das
unidades produtivas regionais, estas atividades ou setores sempre podem atender, nos
mesmos níveis de custo, pela simples ampliação da escala de produção, desde que não haja
limitação de mão-de-obra. Qualquer atividade pode atingir o nível de produção desejado,
dado o Estado da arte, contando que as demais atividades adaptem seus níveis de produção
para satisfazer a demanda intermediária daquela atividade. Portanto, assume-se que a
economia não opera em equilíbrio de pleno emprego dos recursos, o que é uma realidade
para a economia da região amazônica;
d) Ainda dentro do escopo operacional da MCS, assume-se que o mercado processa seus
ajustamentos, em curto prazo, mediante alterações nas quantidades produzidas e não por
meio de alterações nos preços. Os desequilíbrios entre oferta e demanda, produzidos por
choques exógenos, implicam que uma queda na demanda é revelada por uma acumulação
involuntária de estoques e vice-versa, isto é, os choques de demanda influenciam o grau de
utilização da capacidade instalada que permanece ociosa e, na região amazônica, se situa
em torno dos 50% para boa parte das atividades produtivas. Isso é fruto da ausência de
competição perfeita (mercado com plena informação do mundo clássico) nas economias do
mundo real. Na Amazônia, esta hipótese é sustentável, pois mesmo do lado do fornecimento
de matérias-primas, em que os preços são mais flexíveis, as agroindústrias e os
supermercados controlam o comportamento dos preços por meio de contratos e/ou acordos
informais;
e) Por último, tem-se a hipótese de rigidez de preços, a qual tem base na separação de
comportamento entre o custo marginal e a demanda agregada. Os custos marginais se
movem diferentemente das receitas marginais, uma vez que os custos dependem mais da
oferta local do que da demanda agregada. Na realidade a maioria das empresas em
operação na região amazônica, são multiprodutos e necessitam de muitos insumos e/ou
matérias-primas, provenientes de diversos fornecedores, dificulta a identificação imediata das
alterações que se processam nos preços e em que proporção, sobretudo por não possuírem
sistemas de informação por computador para controle estatístico de custos, assim como dos
efeitos indiretos que se transmitem por meio da rede de conexões intersetoriais entre as
atividades produtivas. Em situação do tipo, pequenas mudanças na demanda agregada não
alteram os preços.
A matriz de contabilidade da Região Norte, gerada para o ano de 1999, é apresentada na
Tabela 8.2.
Tabela 8.2 – Matriz de contabilidade social da Região Norte, segundo as atividades endógenas e exógenas, para 1999.

Contas endógenas
Contas exógenas
MCS Atividades produtivas Instituição Valor adicionado Receita Total

Agropecuária Indústria Serviço Consumo FBCF Salário Lucro Imposto Exportação


Agropecuária 766 235 909 977 100 471 861 660 7 027 002 0 0 0 46 875 9 712 219
Indústria 363 925 3 328 083 1 425 369 3 402 402 16 547 776 0 0 0 3 957 867 29 025 423
Serviço 718 264 3 281 224 7 012 029 26 189 496 1 700 889 0 0 0 1 614 188 40 516 090
Famílias 0 0 0 0 0 18 795 544 13 015 882 0 0 31 811 426
FBCF 0 0 0 0 0 0 9 567 708 3 964 315 11 743 644 25 275 667
Salário 785 767 2 526 673 15 483 104 0 0 0 0 0 0 18 795 544
Lucro 4 960 929 8 825 774 8 796 886 0 0 0 0 0 0 22 583 590
Imposto líquido 65 386 2 067 293 1 831 636 0 0 0 0 0 0 3 964 315
Importação 2 051 712 8 086 399 5 866 595 1 357 868 0 0 17 362 574
Valor produção 9 712 219 29 025 423 40 516 090 31 811 426 25 275 667 8 795 544 22 583 590 3 964 315 17 362 574 119 793 118
Emprego 713 306 430 913 2 102 287
Fonte: Elaboração própria a partir da matriz de insumo-produto do BASA.
172

8.3.1.1 Determinação dos multiplicadores da MCS


A MCS pode ser especificada por um conjunto de equações expressas na forma matricial,
envolvendo os aspectos gerais mostrados no Quadro 2 (SANTANA, 2004). O modelo é dado por:

Xa = ta. Xa + tc. R + Ya
X v = tv . X a
,
X i = tr . X v
E = teXe + tiXv
ou na forma matricial como:
 I −t a −t c
0   Xa  Ya 
     
 0 I −t r  •  Xi  = Yi 
 −t 0 I   Xv  Yv 
 v

[I − A] • X = Y

A álgebra empregada nessa partição matricial é desenvolvida a seguir. Tudo se inicia a partir
da derivação da equação básica de Leontief para a MIP.

X = A⋅ X +Y
[ I − A]⋅ X =Y (8.6)
X = [ I − A] ⋅Y
−1
= M gY

Esta expressão representa a renda setorial das atividades endógenas como resultado das
injeções em X, multiplicado pela matriz de efeitos globais ou dos multiplicadores contábeis. O
desenvolvimento elaborado por Pyatt e Round (1979) se processa através da partição da matriz A,
em duas outras matrizes, denominadas B e C, de modo que A = B + C. A forma particionada das
matrizes B e C é dada por:

t a ta 0 0  0 tc 0 
t 0 
= 0 ti 0 ; = 0 0 tr  .
c

A = 0 t t ; B
i r C
t
 v 0 0  0 0 0 tv 0 0

Estas matrizes foram geradas a partir da matriz de propensão média a gastar ou de


coeficientes técnicos de Leontief. Tomando por base essa partição, a equação fundamental de
Leontief pode ser reformulada como a seguir:
X = A.X +Y
X = [ A + B − B].X +Y
X =[ A − B]⋅ X + BX +Y (8.9)
= [ I − B] ⋅ [ A − B].X + [ I − B]
−1 −1
X Y
−1
X = D.X + [ I − B] Y
173

em que [I – B]-1 existe e D = [I – B]-1.[A – B] ou D = Ma1.C.


Este foi o primeiro movimento interativo do processo. Multiplicando-se o resultado obtido na
equação 8.9 por D e substituindo-se o valor encontrado DX na dita equação, obtém-se:

D X + [ I + D] .[ I − B] .Y
2 −1
X = (8.10)

Este foi o segundo movimento interativo do processo. Analogamente, multiplicando-se o


resultado encontrado na equação 8.10 por D2, substituindo-se a expressão resultante D2X na
equação 10 e isolando o valor de X, obtém-se o seguinte resultado:
−1
= [ I − D3] .[ I + D + D 2] .[ I − B] .Y
−1
X (8.11)

Este foi o terceiro e último movimento interativo, necessário para o desmembramento do


multiplicador global em três outros efeitos.
Chamando-se a matriz de efeito-transferência (MET) de Ma1, a matriz de efeito-cruzado
(MECZ) de Ma2 e a matriz de efeito-circular de (MEC) de Ma3, tem-se:

= [ I − B] ;
−1
M a1

M a2
= [ I + D + D 2] ; (8.12)
−1
M a3
= [ I − D3]

O multiplicador global é então dado pelo produto desses três multiplicadores, como a seguir:

M g
= M a 3 . M a 2 . M a1 (8.13)

e a equação fundamental de Leontief se transforma em:

X = M a 3 . M a 2 . M a1 . X = M g .Y (8.14)

Stone (1985) tornou esse resultado mais interessante para a análise, propondo uma forma
de apresentação aditiva dos efeitos. A dedução pode ser encontrada em Santana (1994).

M = I + (M − I) + (M − I). M + (M − I) .M .M
g a1 a2 a1 a3 a2 a1 (8.15)

em que:
I: é a matriz de impulsos iniciais;
(Ma1 – I): é a matriz de efeito-transferência líquido de Stone (MET);
(Ma2 – I).Ma1: é a matriz de efeito-cruzado líquido de Stone (MECZ);
(Ma3 – I).Ma2.Ma1: é a matriz de efeito-circular líquido de Stone (MEC).

Para o entendimento da operacionalidade destes efeitos, empregam-se as definições triviais


conforme Santana (1994; 2004):
A matriz de efeitos-transferência (MET) de Stone mede os efeitos de transferência de insumo-
produto entre os setores ou atividades produtivas da MCS. Na realidade, esta é a matriz de impactos
174

líquidos globais relativos às relações intersetoriais, ou matriz de impactos de Leontief. Ou seja a


matriz de impactos de Leontief capta apenas esses efeitos intersetoriais, daí se mostrarem
subestimados, principalmente em economias em que a base industrial para transformar os produtos
primários em bens finais é rudimentar.
A matriz de efeitos-cruzados (MECZ) de Stone ou de open-loop, capta a magnitude dos
multiplicadores globais que resultam das interações que ocorrem dentro e entre os três blocos de
contas das atividades endógenas da MCS, ou seja, capta os efeitos cruzados entre setores ou
atividades produtivas e valor adicionado, entre valor adicionado e instituições ou entre instituições e
setores. Reflete os efeitos de mudanças exógenas na distribuição da renda institucional sobre o
produto e o emprego, mantendo constantes os efeitos de alterações no emprego e no produto sobre
a distribuição de renda.
A matriz de efeitos-circulares (MEC) de Stone ou de closed-loop, garante que o fluxo circular
se complete entre os blocos de atividades endógenas, ou seja, assegura que os efeitos resultantes
de estímulos exógenos nas atividades produtivas se transmitam para valor adicionado, deste para
instituição e daí retorna paras as atividades produtivas. A renda excedente àquela aplicada na
compra de insumos da própria atividade é gasta através de canais outros que resultam, via efeito
circular, numa demanda extra sobre produtos da agropecuária, indústria e serviços.
Esta decomposição dos multiplicadores que a MCS proporciona mostra efetivamente que o
modelo aberto de insumo-produto subestima os multiplicadores da economia. É importante que este
fato seja evidenciado, sobretudo para economias como a da Amazônia onde a integração intersetorial
é baixa.

8.3.2. Aplicação do modelo de MCS


Os resultados gerados a partir da MCS da Tabela 8.2 são apresentados e analisados em
seguida. Inicialmente, mostra-se a matriz de propensão média a gastar A das contas endógenas da
matriz de contabilidade social.
Os dados da Tabela 8.3 mostram, para o setor industrial da Região Norte, que para cada R$
1,00 de valor bruto da produção gerado em 1999, gastaram-se 3,14 centavos na aquisição de
produtos da agropecuária, 11,47 centavos em produtos do próprio setor e 11,3 centavos na
contratação de serviços, perfazendo um total de R$ 0,2591 ou 25,91% do valor bruto da produção.
Por outro lado, gastaram-se 27,86% do valor da produção na aquisição de inputs importados,
revelando uma maior dependência por insumos externos da indústria nortista relativamente aos
insumos produzidos na Região Norte.

Tabela 8.3 - Matriz de propensão média a gastar da MCS da Região Norte, 1999.
MCS Agropecuária Indústria Serviço Consumo FBCF Salário Lucro
Agropecuária 0,0789 0,0314 0,0025 0,0271 0,2780 0,0000 0,0000
Indústria 0,0375 0,1147 0,0352 0,1070 0,6547 0,0000 0,0000
Serviço 0,0740 0,1130 0,1731 0,8233 0,0673 0,0000 0,0000
Famílias 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 1,0000 0,5763
FBCF 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000 0,4237
Salário 0,0809 0,0871 0,3821 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000
Lucro 0,5108 0,3041 0,2171 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000
Imposto líquido 0,0067 0,0712 0,0452 0,0000 0,0000 0,0000 0,0000
Importação 0,2113 0,2786 0,1448 0,0427 0,0000 0,0000 0,0000
Valor produção 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000
Fonte: Elaboração própria.

A maior parcela do valor da produção foi direcionada para o pagamento de fatores e de


impostos. Cerca de 8,71 centavos foram aplicados na remuneração da mão-de-obra e 30,41 centavos
na remuneração do “capital”, na forma de lucro, mostrando forte desequilíbrio distributivo. Este
quadro é mais aviltante na agropecuária e mais equilibrado no setor de serviços.
175

Os resultados da Tabela 8.3 revelaram o grau de interdependência que cada setor


apresentou com os demais situados a montante e a jusante, em 1999. Os encadeamentos para trás
são visualizados e lidos ao longo das colunas, e para frente, lidos ao longo das linhas. Esses
coeficientes, de alguma maneira, refletem a intensidade das transações comerciais que as empresas
estabelecem com fornecedores e clientes. É uma das condições necessárias à formação de arranjos
produtivos, expresso na concentração espacial e especialização setorial de empresas correlatas,
principalmente.
Quando se põe como endógenas as instituições e o valor adicionado, a MCS permite que se
compute o conjunto das relações socioeconômicas que se processam no entrono das transações
comerciais, efetivadas nos mercados de produto e de fatores. Portanto, os multiplicadores globais
que são gerados a partir da MCS, representam mais adequadamente os vínculos entre empresas e
instituições que atuam nos setores da economia regional, uma vez que capta os efeitos das
transações comerciais dos agentes econômicos que se realizam no âmbito do fluxo circular da
economia regional.
Na Tabela 8.4, apresentam-se os resultados da matriz de efeitos-transferência ou efeitos
impactos líquidos de insumo-produto, obtidos da matriz (I – A)-1, apresentado anteriormente.
Observa-se que para atender a um impulso de demanda exógena de R$ 1,00 por produtos da
indústria regional, o setor industrial precisa incrementar a produção em 13,75 centavos,
simultaneamente com os aumentos de 3,91 e 15,90 centavos, respectivamente, na agropecuária e no
setor de serviços. Isto mostra o grau de conexão intersetorial da economia regional e deve ser levado
em consideração pelos formuladores de políticas para a Amazônia.

Tabela 8.4 - Matriz de efeitos-transferência de Stone (MET): [Ma1 – I], para a Região Norte, 1999.

Atividades produtivas Instituição Valor adicionado


MCS
Agropecuária Indústria Serviços Consumo FBCF Salário Lucro
Agropecuária 0,0876 0,0391 0,0049 0 0 0 0
Indústria 0,0502 0,1375 0,0485 0 0 0 0
Serviços 0,1041 0,1590 0,2164 0 0 0 0
Família 0 0 0 0 0 0 0
FBCF 0 0 0 0 0 0 0
Salário 0 0 0 0 0 0 0
Lucro 0 0 0 0 0 0 0
Fonte: Elaboração própria.

Os resultados dos efeitos-cruzados são apresentados na Tabela 8.5. Os coeficientes dessa


matriz, portanto, representam a parcela do multiplicador de impacto global que resulta das interações
cruzadas entre as atividades produtivas, instituições e valor adicionado, já que não há interação
cruzada dentro dos blocos.

Tabela 8.5 - Matriz de efeitos-cruzados de Stone (MECZ): [(Ma2 – I).Ma1] da Região Norte, 1999.

Atividades produtivas Instituição Valor Adicionado


MCS Agropecuári Indústri Serviço
Consumo FBCF Salário Lucro
a a s
Agropecuári
0 0 0
a 0,0377 0,3283 0,0377 0,1608
Indústria 0 0 0 0,1630 0,7619 0,1630 0,4167
Serviços 0 0 0 1,0212 0,2149 1,0212 0,6796
Família 0,4742 0,3937 0,6316 0 0 1,0000 0,5763
FBCF 0,2514 0,1696 0,1192 0 0 0,0000 0,4237
Salário 0,1322 0,1629 0,4695 0,4075 0,1750 0 0
Lucro 0,5934 0,4004 0,2814 0,2905 0,4460 0 0
Fonte: Elaboração própria.
176

Estes resultados podem ser considerados como os transbordamentos diretos e indiretos que
emanam dos setores ou atividades produtivas quando geram valor adicionado e este é apropriado
pelos agentes institucionais (famílias e governo), considerando a distribuição e a estruturas de canais
em que os gastos são efetivados. Como essas contas não constam na matriz de insumo-produto
seus efeitos não são captados.
Na Tabela 8.6, constam os resultados da matriz de efeitos-circulares. Estes resultados
mostram o incremento aos multiplicadores de impacto intersetorial de Leontief que derivam das
transações comerciais, que a matriz de insumo-produto não capta. Isto resulta do fato de que a renda
que excedente àquela aplicada na compra de inputs da própria atividade é gasta através de canais
outros, que resultam, via efeito circular, numa demanda extra sobre produtos da agropecuária,
indústria e serviços.

Tabela 8.6 - Matriz de efeitos-circulares de Stone (MEC): [(Ma3 – I).Ma2.Ma1] da Região Norte, 1999.

Atividades produtivas Instituição Valor adicionado


MCS
Agropecuária Indústria Serviços Consumo FBCF Salário Lucro
Agropecuária 0,2499 0,1866 0,2175 0,2058 0,2062 0,2058 0,2060
Indústria 0,7075 0,5346 0,6508 0,6121 0,5905 0,6121 0,6029
Serviços 1,8494 1,4641 2,0695 1,9104 1,6120 1,9104 1,7840
Família 1,2175 0,9530 1,3022 1,7819 1,4821 1,7819 1,6549
FBCF 0,3153 0,2439 0,3213 0,4222 0,4579 0,4222 0,4374
Salário 0,7885 0,6211 0,8651 0,8000 0,6841 1,2075 1,0599
Lucro 0,7443 0,5757 0,7583 0,7060 0,6349 0,9966 1,0323
Fonte: Elaboração própria.

Observa-se que os multiplicadores intersetoriais que resultaram do efeito-circular é superior


ao efeito-transferência. Portanto, refazendo a análise, tem-se que adicionalmente ao efeito-
transferência, o setor agropecuário teria de incrementar em 24,99 centavos o valor do produto para
atender ao aumento de demanda exógena de R$ 1,00. Portanto, o modelo aberto de insumo-produto
subestima fortemente os multiplicadores, portanto inadequado para representar a totalidade dos
efeitos de equilíbrio geral da economia regional.
A matriz de multiplicadores globais, que compreende a soma dos resultados apresentados
nas Tabelas 8.4, 8.5 e 8.6, é apresentada na Tabela 8.7. Os resultados mostram o resultado de todos
os efeitos diretos e indiretos, fruto da interação intersetorial interna (lido na diagonal principal) e com
a rede de fornecedores ou efeitos para trás (lido nas colunas) e de clientes ou efeito para frente (lido
nas linhas), que a economia produz para atender a mudanças unitárias nas demandas exógenas por
produtos e serviços das atividades produtivas regionais.

Tabela 8.7 - Matriz de efeitos-globais [Mg = I+(Ma1 - I)+(Ma2 - I)⋅Ma1 + (Ma3 - I)⋅Ma2 .Ma1], da Região
Norte, 1999.
Atividades produtivas Instituição Valor adicionado
MCS
Agropecuária Indústria Serviços Consumo FBCF Salário Lucro
Agropecuária 1.3375 0.2257 0.2225 0.2435 0.5346 0.2435 0.3668
Indústria 0.7577 1.6721 0.6993 0.7751 1.3524 0.7751 1.0197
Serviços 1.9535 1.6231 3.2859 2.9317 1.8269 2.9317 2.4636
Família 1.6917 1.3467 1.9338 2.7819 1.4821 2.7819 2.2312
FBCF 0.5667 0.4135 0.4405 0.4222 1.4579 0.4222 0.8610
Salário 0.9207 0.7841 1.3346 1.2075 0.8591 2.2075 1.0599
Lucro 1.3377 0.9761 1.0397 0.9966 1.0809 0.9966 2.0323
Fonte: Elaboração própria.

Adotando a mesma metodologia empregada na análise de insumo-produto para os dados da


Tabela 8.7, tem-se que para atender a um impulso incremental de R$ 1,00 na demanda exógena por
produtos da agropecuária, em 1999, esta deveria aumentar em 33,75 centavos o valor da produção, a
177

indústria 75,77 centavos e os serviços em R$ 1,95 (um real e noventa e cinco centavos) seus
respectivos valores de produção. Além disso, deveria aumentar o valor da massa de salário em 92,07
centavos e de lucro de R$ 1,33 (um real e trinta e três centavos).
Observa-se que este valor incremental pago aos fatores de produção é apropriado pelas
instituições da seguinte forma: R$ 1,6917 ou 74,91% para as famílias (pessoas físicas, jurídicas e
governo) e R$ 0,5667 ou 25,09% para a formação bruta de capital fixo. O mesmo padrão de análise
pode ser reproduzido para os demais setores da economia regional.
A leitura dos multiplicadores distribuídos ao longo das linhas é feita de modo diferente. Eles
revelam a magnitude do valor da produção que cada setor deve apresentar em resposta às
mudanças incrementais e unitárias na demanda exógena pelos produtos de cada um dos setores da
economia. Assim, para atender a aumentos unitários e simultâneos na demanda exógena dos setores
agropecuária, indústria e serviços, a agropecuária deveria incrementar, em 1999, o valor de sua
produção nos respectivos valores de R$ 0,3375, R$ 0,2257 e R$ 0,2225. Portanto, para atender aos
três impulsos simultâneos a agropecuária deveria aumentar o valor de sua produção de R$ 0,7857.
Este valor é obtido, como prova, multiplicando-se a matriz de efeitos globais pela matriz-coluna de
demanda final D, apresentada na forma transposta DT = [1, 1, 1, 0, 0, 0, 0].
Os valores da diagonal principal, portanto, mostra os montantes brutos que cada setor deve
incrementar o valor de suas produções para atender aos incrementos exógenos da demanda por
produtos do próprio setor. Para evitar conclusões apressadas e erros na implantação de políticas,
deve-se ter em mente que a magnitude desses multiplicadores só se concretiza se os demais setores
também incrementarem o valor de seus produtos nas magnitudes expressas nos números fora da
diagonal principal da matriz, lidos nas colunas.
Visto que a leitura dos multiplicadores da Tabela 8.7 pode se tornar cansativa e
desestimulante ao leitor, uma maneira bem mais fácil de visualizar os dados gerados nas matrizes
particionadas, que constituem os efeitos-transferência (MET), efeitos-cruzados (MECZ) e efeitos-
circulares (MEC), em termos da análise econômica específica de algumas atividades produtivas,
enfatizando a decomposição dos multiplicadores globais, é a apresentada na Tabela 8. Essa forma
de apresentação é importante porque mostra os efeitos desagregados do multiplicador global de
forma menos tediosa do que seria identificar cada número em quatro matrizes diferentes
simultaneamente. Quando a matriz envolve muitas atividades, o exercício se torna inoperante.
A característica apresentada nos dados da Tabela 8.8 está no fato de os valores relativos aos
efeitos-cruzados serem nulos, quando as atividades estimuladas pertencem a um mesmo bloco
matricial. Da mesma forma, as atividades institucionais e de valor adicionado apresentam efeitos-
transferência iguais a zero.
A título de interpretação, tem-se que na hipótese de expansão da demanda exógena da
atividade agropecuária em uma unidade monetária o multiplicador de magnitude 1,3375 reflete a
injeção inicial de igual magnitude (uma unidade monetária) mais a expansão de R$ 0,3375,
decomposta nas proporções de R$ 0,0876 para o efeito-transferência ou de insumo-produto e de R$
0,2499 para o efeito-circular da economia. Simultaneamente, o setor industrial deve aumentar o valor
de seu produto em R$ 0,7577, sendo R$ 0,0502 relativo ao efeito-transferência e R$ 0,7075 ao efeito-
circular; o setor de serviço deve crescer de R$ 1,9535, com R$ 0,1041 atribuído ao efeito-
transferência e R$ 1,8494 ao efeito-circular. Esse resultado está indicando que o efeito-circular
apresentou um peso maior do que o efeito de insumo-produto na economia regional em 1999. Disso
se conclui que a renda que excede àquela aplicada na aquisição de insumo é gasta utilizando-se
canais que resultam em demanda extra sobre os produtos da agropecuária, indústria e contratação
de serviços, captada no efeito-circular. O efeito circular, conseqüentemente, fortalece as ligações de
demanda, que, por seu turno, catalisam o processo que resulta da disseminação do crescimento
econômico por toda a economia.
A massa de salário necessita aumentar de R$ 0,9207, sendo R$ 0,1332 por conta do efeito-
cruzado e R$ 0,7885 em função do efeito-circular. O lucro também deve crescer de R$ 1,3377, com
R$ 0,5934 atribuído ao efeito-cruzado e R$ 0,7743 ao efeito-circular. Como se observa, o efeito-
circular também predomina na formação do valor adicionado da agropecuária.
No que tange à apropriação da renda, tem-se que as famílias (pessoas, governo e empresas)
ficam com R$ 1,6917 da massa de salário e lucro (74,91%) e R$ 0,5667 são aplicados na formação
bruta de capital fixo (25,09%). O mesmo padrão de análise pode ser reproduzido para os setores de
indústria e serviços.
178

A análise da seção seguinte é mais abrangente, uma vez que a matriz de contabilidade foi
especificada para 23 setores dos Estados da Amazônia Legal. Os cálculos foram realizados e
conferidos pelos demais membros da equipe que receberam treinamento e vêm trabalhando no tema
há mais de um ano.

Tabela 8.8 - Decomposição do multiplicador global da MCS da Região Norte nos efeitos
transferência, cruzado e circular de Stone, 1999

Atividade Atividade Efeito Efeito- Efeito- Efeito-


Caso induzida afetada global transferência cruzado circular
(i) (j) maij MET MECZ MEC
Agropecuária 1,3375 0,0876 0 0,2499
Indústria 0,7577 0,0502 0 0,7075
Serviços 1,9535 0,1041 0 1,8494
I Agropecuária Família 1,6917 0 0,4742 1,2175
FBCF 0,5667 0 0,2514 0,3153
Salário 0,9207 0 0,1322 0,7885
Lucro 1,3377 0 0,5934 0,7443
Agropecuária 0,2257 0,0391 0 0,1866
Indústria 1,6721 0,1375 0 0,5346
Serviços 1,6231 0,1590 0 1,4641
II Indústria Família 1,3467 0 0,3937 0,9530
FBCF 0,4135 0 0,1696 0,2439
Salário 0,7841 0 0,1629 0,6211
Lucro 0,9761 0 0,4004 0,5757
Agropecuária 0,2225 0,0049 0 0,2175
Indústria 0,6993 0,0485 0 0,6508
Serviços 3,2859 0,2164 0 2,0695
III Serviços Família 1,9338 0 0,6316 1,3022
FBCF 0,4405 0 0,1192 0,3213
Salário 1,3346 0 0,4695 0,8651
Lucro 1,0397 0 0,2814 0,7583
Fonte: Elaboração própria.

8.4.3 Efeitos multiplicadores e setores-chave da Região Norte


A partir da matriz de impactos globais (Mg), os efeitos multiplicadores de produto, emprego e
renda (salário e lucro) podem ser determinados, conforme as indicações metodológicas feitas por
Santana (1994, 1997, 2004), devidamente descritas e analisadas a seguir.
a) Multiplicador de produto (MPj): é obtido da soma dos coeficientes de impactos diretos e
indiretos dos vetores-coluna da Mg e este representa o efeito bruto de cada atividade
produtiva a estímulos exógenos. Em outras palavras, mede a mudança no produto total de
todos os setores produtivos em resposta a mudanças de uma unidade monetária da demanda
final dos produtos de um setor específico, ou seja, é a soma dos multiplicadores da coluna. A
fórmula matemática é a seguinte:
n

MP j
= ∑ Aij
i =1

b) Multiplicador de emprego (MEj): é definido como a mudança no emprego total, como


resultado de uma mudança unitária na força de trabalho empregada em dado setor produtivo.
Noutros termos, este multiplicador indica a capacidade de gerar emprego de cada atividade,
em resposta às mudanças exógenas da demanda final. É obtido pela divisão entre os valores
do vetor-linha de emprego relativo aos coeficientes diretos e indiretos de emprego - Ej
(multiplicação do vetor de coeficientes diretos de emprego pela matriz de efeitos globais, Mg),
179

pelos respectivos valores do vetor-linha dos coeficientes diretos de emprego - ej (número de


empregos de cada atividade dividido pelo respectivo valor bruto da produção). A fórmula é a
seguinte:

E j
ME =
j
e j

E j (1 x 23)
=e j (1 x 3)
⋅ M g ( 3 x 3)

c) Multiplicador de renda (MRj): representa a renda gerada direta e indiretamente para cada
unidade monetária injetada diretamente em um dado setor. O efeito direto da renda é o
montante de salário que vai para o trabalhador. O efeito direto e indireto do salário mostra a
mudança total no salário como resultado da alteração unitária na demanda final. Em outras
palavras, o multiplicador de renda (salário) é a capacidade que tem um dado setor de
multiplicar o salário em resposta mudanças exógenas unitárias. É obtido da divisão entre os
valores do vetor-linha de renda da matriz de efeitos globais (Mg) ou de efeitos diretos e
indiretos (Rj), pelos respectivos valores de renda da matriz de coeficientes tecnológicos (rj).
Ou seja:

R j
MR =
j
r j

R j (1 x 3)
=r j (1 x 3)
⋅ M g ( 3 x 3)

A Tabela 8.9 apresenta os resultados dos multiplicadores de produto, emprego, salário e


lucro da economia da Região Norte, relativos a 1999.

Tabela 8.9 - Multiplicadores de produto, emprego, salário e lucro da Região Norte, 1999.

Multiplicadores
Setor Produto Emprego Salário Lucro
Agropecuária 4,0487 2,8708 11,3801 2,6189
Indústria 3,5209 8,4615 9,0073 3,2102
Serviços 4,2076 3,8008 3,4923 4,7886
Média 3,92575 5,04438 7,95985 3,53924
Fonte: Elaboração própria dos autores.

A agricultura deve incrementar, após o resultado global das conexões setoriais diretas e
indiretas, que estabelece com os demais setores da economia regional, o valor do produto em R$
4,05, o número de empregos em 2,87 pessoas, a massa de salários em R$ 11,38 e o montante dos
lucros em R$ 2,62, para atender às mudanças unitárias na demanda exógena por produtos da
agropecuária em R$ 1,00.
A indústria necessita aumentar o valor da produção industrial em R$ 3,52, o número de
empregos em 8,46 pessoas, o valor da massa de salários em R$ 9,01 e o montante dos lucros em R$
3,21, para atender ao incremento de R$ 1,00 na demanda exógena por seus produtos. Da mesma
forma, o setor de serviços, para fazer face aos incrementos unitários na demanda por produtos do
setor deve aumentar o valor da produção em R$ 4,21, o número de pessoas ocupadas em 3,8, o
valor da massa de salários em R$ 3,49 e o montante dos lucros em 4,79.
Em relação ao nível médio das respostas da economia como um todo, o setor de indústria
apresentou um multiplicador de produto abaixo da média, os setores agropecuária e serviços
apresentaram multiplicadores de emprego abaixo da média, o setor de serviços esteve abaixo da
média com relação ao multiplicador de salário e os setores agropecuária e indústria exibiram
desempenho abaixo da média para o multiplicador de lucro, em 1999.
180

8.4.3.2 Efeitos de encadeamentos para frente e para trás


O resultado das conexões comerciais que se estabelecem entre os setores produtivos da
Amazônia Legal é expresso por meio dos encadeamentos retrospectivos ou efeitos de encadeamento
para trás ou linkages econômicos para trás (backward linkage), mediante relações a montante com
fornecedores de matéria-prima e dos efeitos prospectivos ou efeitos de encadeamento para frente ou
linkages econômicos para frente (forward linkage), gerados pelas relações a jusante com clientes que
efetivam as compras dos produtos setoriais.
O efeito de encadeamento para trás mede o grau de dependência de cada setor produtivo por
matérias-primas ou insumos produzidos nos demais setores em resposta às mudanças unitárias da
demanda final. O efeito de encadeamento setorial para frente mede a capacidade de cada setor para
atender às mudanças unitárias da demanda final da economia (SANTANA, 2002).
A matriz de efeitos globais da matriz de contabilidade social (Mg) é a referência para a
mensuração dos encadeamentos ou linkages setoriais para trás.
Para facilitar a interpretação econômica do rank de setores-chave, o efeito de linkage médio
para trás de cada setor ou atividade (1/n × m.j) pode ser normalizado pela média setorial global
definida por (1/n2 × m..), cujo resultado é o efeito de linkage para trás (Et), conforme Rasmussem
(1957). Este índice Et foi originalmente desenvolvido por Rasmussem (1957) e serviu como uma
medida sumariada de interdependência estrutural de uma economia. Depois foi utilizado por
Hirschman (1958) como uma boa proxi para a identificação dos setores ou atividades-chave e, a
partir daí, passou a ter um papel crucial nas estratégias de industrialização das economias em
desenvolvimento, dada a grande aplicação prática no planejamento. Assim, o efeito de
encadeamento para trás ou também conhecido como um índice de poder de dispersão pode assumir
um valor maior ou menor do que 1 e é dado pela fórmula abaixo.

Et = n.m. j / m..
n
m. j = ∑ mij;
i =1
n n
m.. = ∑∑ mij
i =1 j =1
Quando Et > 1, diz-se que o setor j apresenta um forte linkage para trás com outros setores e,
diante de alguma mudança na demanda exógena, conduz a um incremento acima da média no
produto total. Inversamente, um fraco linkage para trás, quando Et <1, produz um incremento abaixo
da média no produto total, visto que o poder de indução sobre outros setores é baixo (SANTANA,
2004).
No caso do efeito de encadeamento, ou linkage para frente (Ef), não se pode empregar
diretamente o método de Rasmussem utilizando a soma das linhas da matriz de efeitos globais de
despesa, uma vez que este método não deixa claro o poder de indução de cada setor. Isso porque o
índice de Rasmussem mostra o incremento de produto apenas do setor i, quando a demanda final
para todos os setores muda de uma unidade. Em razão disso, empregou-se o modelo de Jones
(1976), que consiste na utilização de uma matriz de coeficientes de produtos A , em lugar da matriz
de coeficientes técnicos A. Neste caso, os elementos de cada linha da matriz A são tidos como
proporção do produto total das vendas do setor i e não das despesas do setor j. O índice de
encadeamento ou linkage para frente, também conhecido como índice de sensibilidade da dispersão
é dado por (SANTANA, 2004):

Ef = n. m . j / m ..
181

m i. = ∑ m ij ;
j =1

n n

m .. = ∑i =1
∑m
j =1
ij

que é a soma dos coeficientes da linha i de M, a qual mostra os efeitos diretos e indiretos sobre o
produto do j-ésimo setor da linha i, quando a demanda final D aumenta de uma unidade.
Para normalizar o índice para frente de cada setor ou atividade, multiplica-se por (1/n × m i. )
e divide-se pela média setorial global definida por (1/n2 × m.. ). Este índice capta a causalidade do
processo, por construir um impacto cumulativo que resulta das interações para frente. Dessa forma, o
produto cresce primeiro na atividade i para expandir o valor adicionado de uma unidade desta
atividade; este resultado é então distribuído para utilização em outras atividades e, por esse caminho,
contribui para aumentar o produto de todas as atividades inter-relacionadas de forma direta e/ou
indireta; esta é a essência dos encadeamentos para frente (SANTANA, 2004).
Finalmente, tem-se que as atividades que apresentam altos efeitos de encadeamento para
frente e, ou, para trás (Et e, ou, Ef > 1) podem significar a indução de efeitos positivos sobre o produto
total da economia, por meio das economias externas que geram do lado da demanda e, ou, do lado
da oferta. Isso significa que essas atividades apresentam campo de influência suficientemente grande
para movimentar a economia em resposta aos impulsos de demanda.
Os resultados do cálculo dos efeitos de encadeamentos produtivos para trás e para frente da
Região Norte são apresentados na Tabela 8.10.

Tabela 8.10 – Efeitos de encadeamentos produtivos para frente e para trás dos setores econômicos
da Região Norte, 1999.
Setores Efeito para trás Efeito para frente
Agricultura 1,031327 0,8145
Indústria 0,896867 0,7856
Serviços 1,071805 1,3999
Fonte: Elaboração própria dos autores.

Os resultados da Tabela 8.10 mostram que, em 1999, os setores de agricultura e serviços


foram considerados como setores-chave, por apresentarem efeitos de encadeamento produtivos para
trás e ou para frente superior a 1. O setor de serviço se apresentou como um setor-chave e com
maior dinâmica, pois exibiu efeito para trás e para frente maior do que um.

8.4.4 Considerações finais


A economia regional, pelos resultados apresentados, mostra que as conexões intersetoriais
estão presentes, embora apresente padrão desequilibrado entre os setores, fruto dos vários graus de
integração das cadeias produtivas dos setores regionais.
Os multiplicadores globais e sua decomposição revelaram que na região amazônica as
transações comerciais captadas no efeito-circular, predominaram sobre as relações de insumo-
produto, mostrando, simultaneamente, que a industrialização setorial é insipiente e que, por isso
mesmo, a matriz de contabilidade social é uma metodologia adequada para representar as relações
intersetoriais da economia regional.
Os resultados também revelaram alguns setores-chave na economia da Amazônia Legal,
pela robustez dos encadeamentos produtivos para trás ou para frente. Foram identificados quatro
setores com maior dinâmica, por apresentarem efeitos de encadeamento produtivo para frente e para
trás, simultaneamente, mostrando que tais setores criaram extensas redes de conexões intersetoriais
a montante e a jusante.
182

Por fim, é importante, pois, observar os desequilíbrios entre os elos das cadeias produtivas
setoriais e desenvolver esforços para apontar soluções inteligentes e apropriadas ao
desenvolvimento regional.

8.5 REFERÊNCIAS
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184

8.6 EXERCÍOS DE APRENDIZAGEM


E1. Defina os componentes de uma matriz de insumo-produto aberta.
E2. Defina os componentes de uma matriz de contabilidade social.
E3. Compare os modelos de insumo-produto e estabeleça as principais diferenças estruturais e de
conteúdo empírico.
E4. Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas abaixo:
 0,3 0,4 15  x1 
A=  ;D= 10 ; X =  x2
0,4 0,2    
a) Gere a matriz (I – A);
b) Ache a matriz inversa (I – A)-1;
c) Encontre a solução do modelo X = (I – A)-1 D.

E5. Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas abaixo:

0,0 0,1 0,2


 0,3 0,1 0,0
A=  
0,5 0,7 0,0
a) Gere a matriz (I – A);
b) Ache a matriz inversa (I – A)-1;
c) Encontre a solução do modelo X = (I – A)-1 D.

E6. Com base nos dados da Tabela I, referente à matriz de insumo-produto da Região Norte,
desenvolva os tens:
a) Gerar a matriz de coeficientes tecnológicos e interpretar os resultados ao longo das colunas
de cada setor;
b) Gere a matriz identidade e a matriz reduzida (I – A);
c) Calcule a matriz de impacto de Leontief (I – A)-1 e interprete os resultados ao longo das
colunas e ao longo das linhas;
d) Calcule os multiplicadores de produto, salário, lucro e emprego e interprete os resultados;
e) Determine os efeitos de encadeamentos para trás e para frente e interprete os resultados;
f) Assuma que a demanda final da agricultura sofra um aumento de 15% e determine as
necessidades de crescimento do valor da produção o agrícola e dos demais setores para
atender a este incremento de demanda;
g) Simule uma alteração simultânea nos setores florestal de 12%, pecuária de 20% e
agroindústria de 23%; determine as necessidades de ampliação do valor da produção desses
setores, assim como dos demais setores da economia regional.
E7. A partir da matriz de insumo-produto da Tabela I, construa a matriz de contabilidade social e
reproduza todas as análises desenvolvidas no texto.
Tabela I
Matriz de insumo-produto da Região Norte, agregada em nove setores econômicos, 1999 (R$ mil).
Indústria de Madeira e Demanda Demanda
Setor Agricultura Pecuária Florestal Mineral
Transformação mobiliário
Agroindústria Distribuição Serviços
final total
Agricultura 152 849 329 479 6 955 644 30 173 0 150 287 23 963 59 762 2 583 585 3 337 698
Pecuária 26 894 249 748 129 0 3 280 0 601 419 7 247 9 498 4 392 301 5 290 517
Florestal 0 0 181 7 825 116 317 89 084 31 0 0 673 599 887 037
Mineral 9 818 8 988 269 398 312 197 639 7 443 10 477 8 258 511 162 2 240 140 3 392 507
Ind Transformação 96 361 79 541 2 995 87 416 1 125 660 86 130 34 056 301 557 802 223 11 579 206 14 195 144
Mad e mobiliário 1 193 509 67 1 830 138 920 110 707 888 3 828 74 991 1 307 099 1 640 032
Agroindústria 3 871 159 939 96 289 14 338 58 288 084 83 433 43 858 2 948 358 3 542 325
Distribuição 133 612 188 682 20 342 163 425 637 536 109 472 222 156 633 564 879 443 6 210 785 9 199 019
Serviços 57 738 107 818 13 383 291 650 573 707 73 145 132 718 999 485 3 995 964 26 638 151 32 883 758
Salário 273 495 466 406 45 866 294 490 1 630 006 269 099 195 122 2 108 085 12 508 003
Lucro 2 019 243 2 263 296 678 391 1 112 125 3 420 034 469 452 795 876 2 265 115 8 732 195
Imposto 21 301 40 468 3 617 243 723 1 127 281 113 418 239 832 528 797 1 491 017
Importação 541 323 1 395 642 114 746 790 776 5 180 250 312 023 871 380 2 235 686 3 775 641
Valor da produção 3 337 698 5 290 517 887 037 3 392 507 14 195 144 1 640 032 3 542 325 9 199 019 32 883 758
Pessoal Ocupado 416 189 157 103 140 013 38 606 217 473 97 231 41 403 696 251 1 162 306
APÊNDICE – ÁLGEBRA MATRICIAL
1. TERMINOLOGIA DA ANÁLISE MATRICIAL
Uma matriz é uma ordenação retangular de números, denotado por:

 a11 a12 L a1 k 
a 21 a 22 L a 2 k   i = 1,2,..., n.
A = [aij ] = [ A]ijj =  , para 
M M O M  j = 1,2,..., k .
 
 an1 a 2 n K ank 
Esta é uma matriz de ordem (i,j), onde i é o número de linhas e j é o número de colunas,
como aij = a(linha,coluna). Assim, tem-se:
a) Uma matriz de ordem (1,k) é chamada de vetor-linha, ou seja, uma linha e k colunas,
denotado por: bi,k = [a11, a12, ..., a1k];
b) Uma matriz de ordem (n,1) é chamada de vetor-coluna:

 a11 
a 21
cn,1 =   .
M
 
 an1 
Se n = k, então A é uma matriz quadrada, ou seja, o número de linhas é igual ao número de
colunas. Uma matriz quadrada de ordem 3, ou A3,3, é dada por:

2 1 7 
A3 x 3 = 1 2 − 2
4 1 2 
Uma matriz é simétrica quando aij = aji para todo i e j. Um exemplo de matriz simétrica é
dado por:

1 3 7 
A3 x 3 = 3 5 2 .
7 2 1 
Uma matriz identidade é uma matriz escalar com o elemento 1 na diagonal principal e zero
fora dela.

1 0 0
I 3 = 0 1 0
0 0 1
187

2. MANIPULAÇÃO ALGÉBRICA DE MATRIZES


Nesta seção, apresentam-se as principais operações matriciais de emprego geral na
economia, principalmente nas soluções de sistemas lineares e dos modelos de insumo-produto e de
contabilidade social.

2.1 IGUALDADE DE MATRIZES


As matrizes (ou vetores) A e B são iguais se e somente se têm mesma dimensão e cada
elemento de A corresponde ao igual elemento de B. Assim, se A = [aij] e B = [bij], A = B se e somente
se aij = bij, pata todo i,j. Exemplo:

4 1 4 1 4 1 
A=  ;B =   ;C =  
2 3 2 3 2 2
Neste caso, A = B; A ≠ C e B ≠ C.
Para as matrizes abaixo, determine os valores de x e y para que A = B.

 x 1 5 7 
A=  ;B =  .
 y 3 8 3

2.2 MATRIZ TRANSPOSTA


A transposta de uma matriz A, denotada por A’ ou AT, é obtida transformando-se as linhas de
A em colunas. Assim, se B = A’, cada coluna de A aparece como linha de B. Se A(nxk), por exemplo:

3 2 7
A( 2 x 3 ) =  
1 0 6 
3 1
A'3 x 2 = 2 0
7 6
Determine a transposta da matriz B.

1 0 4 
B = 0 3 7 
4 7 2
Propriedades importantes aplicadas às matrizes transpostas.
a) A = A’ somente se A for uma matriz simétrica;
b) (A’)’ = A;
c) (A + B)’ = A’ + B’;
d) (AxB)’ = B’x A’.
Aplique essas propriedades às seguintes matrizes:

 4 1  2 0 1 2 
A=  ;B =   ;C =  
1 0 7 1  2 1 

2.3 ADIÇÃO E SUBTRAÇÃO DE MATRIZES


A adição (subtração) de matrizes é feita a partir da adição (subtração) dos elementos
correspondentes, sendo definido apenas para matrizes de mesma ordem. Por definição,
C = A ± B = [aij ± bij]
Então se A = [4, 5] e B = [2, 1], então, A+ B = [4+2, 5+1] = [6, 6] e A – B = [4-2, 5-1] = [2, 4].
188

 3
Se A = [2, 3] e B =   , então A + B = ∅. A + B’ = [2, 3] + [3, 0] = [5, 3].
0 
Determine a adição e a subtração entre as matrizes A e B, para os itens abaixo:

1 2 7  3 4 2
a) A =   ;B =  
3 0 6 1 7 8 
 2 4
1 3 3 
b) A =   ; B = 1 5
2 4 1 6 2

3. MULTIPLICAÇÃO DE MATRIZES
Nesta seção, operam-se as duas principais formas de multiplicação de matrizes: multiplicação
de uma matriz por um escalar e multiplicação de matrizes.

3.1 MULTIPLICAÇÃO POR UM ESCALAR


Se a e b são dois vetores de ordem n, de modo que a’ = [a1, a2, ..., an] e b’ = [b1, b2, ..., bn], o
produto escalar dos dois vetores é dado por:
a’.b = [a1.b1 + a2.b2 + ... + an.bn], que é um número.
Portanto, dados dois vetores a e b, tem-se que a’.b é dado por:

1  3  3
 
a = 3; b = 2 , então: a ' b = [1 3 4] ⋅ 2 = [1 ⋅ 3 + 3 ⋅ 2 + 4 ⋅ 0] = 9 .
 

4 0 0


Neste caso, a’.b = b’.a.
Com base nos vetores a e b abaixo, calcule: a’.b; b’.a; a + b e a – b.

 2 0 
 
a = 1 ; b = 3
2 2

2.2 MULTIPLICAÇÃO DE MATRIZES


Se A é uma matriz de ordem (n,k) e B uma matriz (k,n), tem-se que o produto C = AB é de
ordem (n,n).
A multiplicação é feita para se obter os produtos escalares dos vetores-linha de A com os
vetores-coluna de B, Portanto, o número de elementos de cada vetor-linha de A deve ser igual ao
de cada vetor-coluna de B. Sendo as matrizes A e B dadas abaixo, calcule o produto AB.

2 1 5 2
A=  ;B =  .
0 3 3 1 
2 1 5 2  2.5 + 1.3 2.2 + 1.1 13 5
C ( 2 x 2) = A( 2 x 2) B( 2 x 2) 0 3 ⋅ 3 1 = 0.5 + 3.3 0.2 + 3.1 =  9 3
=

Calcule os seguintes produtos matriciais para as matrizes abaixo:


a) A.B; C.D; A.C’; A.D; E.F; B.C;
b) f) (C+E).F; A.(B.C).
189

9 7 0  2 0  x
3 6 0  2 1 3   2 4
A = 3 0 4; B = 0 1; C =   ; D =  y ; E =   ;F =  
2 3 0 3 5  4 2 − 5  z  0 1 2  5 6

As principais propriedades da multiplicação de matrizes são:


a) I.A = A (qualquer matriz multiplicada pela identidade é ela própria);
b) (AB)C = A(BC) (propriedade associativa);
c) A(B+C) = AB + AC (propriedade distributiva);
d) (ABC)’ = A’B’C’.
Teste essas propriedades para as matrizes abaixo:

1 0
1 0 1  2 3
A=  ; B = 0 1; C =  
2 1 1 1 0 1 0 

Exercício aplicado 1: Um fast-food vende dois tipos de sanduíches AS e SB, com base na
combinação dos seguintes ingredientes:
Ingrediente SA SB O fast-food vendeu 6 unidades do SA e 10 unidades do SB.
Queijo 18g 10g Determine as quantidades dos ingredientes utilizados na
Salada 26g 33g preparação dos 16 sanduíches. Para isto, formule o problema
Rosbife 23g 12g e aplique a multiplicação de matrizes para obter a solução.
Atum - 16g (Solução: A4,2.Y2,1 = X4,1)

Exercício aplicado 2: Seu Midas implantou dois tipos de sistemas agroflorestais em sua
propriedade. O SAF1 necessitou de 200 d/h de mão-de-obra, R$ 2.000,00 de capital e R$ 100,00 de
insumos por hectare. O SAF2 necessitou de 150 d/h de mão-de-obra, R$ 1.000,00 de capital e R$
200,00 de insumos por hectare. Quanto de cada fator de produção seu Midas necessitou para
implantar 5 ha do SAF1 e 10 ha do SAF2?

4. DETERMINANTE DE UMA MATRIZ


 4 2  4 2
Os vetores da matriz A= [a1, a2] são dados por: a1 =  ; a 2 =   e A =  .
1  3 1 3 
A representação gráfica dos vetores de A é ilustrada na Figura 1.

6 
O vetor resultante é dado por c = a1 + a2 ou c =   .
 4
A área do paralelograma formado pelos vetores-coluna de A é o determinante de A. O
resultado obtido pela congruência de triângulos é dado por:
Det A = | A | = 4.3 – 1.2 = 12 – 2 = 10.
190

Coordenada 1

3
det A

0 2 4 6
Coordenada 1

Figura 1 – Representação gráfica do determinante da matriz A.

4.1 REGRA GERAL DE LAPLACE


Há várias regras para se calcular o determinante de uma matriz, porém, a maioria se
restringe a matriz específica. A Regra de Laplace é geral, por isso será desenvolvida aqui.
O determinante de uma matriz quadrada de qualquer ordem é calculado pela expansão dos
co-fatores da referida matriz. A técnica dos co-fatores é aplicada a uma linha ou coluna da matriz.
Eleita a primeira linha, toma-se o primeiro elemento e multiplica-se pelo termo (-1) elevado à soma do
número da linha e da coluna do referido elemento e pelo determinante formado pelos elementos da
matriz depois de eliminadas a linha e a coluna a que o elemento pertence. A expressão matemática
do determinante de uma matriz A, de ordem (n,n), é dada por:
n
det A = A = ∑ aij ⋅ Aij
j =1 (1)

Aij = (−1) i + j Dij (i = 1, 2, ..., n)


em que:
Aij é a expansão do co-fator da matriz A;
Dij é o determinante dos menores principais da matriz A, eliminando-se a i-ésima linha e a j-ésima
coluna do elemento de A.
Aplicando-se a fórmula 1 para calcular o determinante da matriz A abaixo, tem-se:

 a11 a12 
A= 
a 21 a 22 
A = a11.(−1)1+1 a 22 + a12.(−1)1+ 2 a 21 = a11.a 22 − a12.a 21
Pelo que se observa, para uma matriz quadrada de ordem 2, o determinante é dado pela
diferença entre o produto da diagonal principal e o produto da diagonal secundária. O determinante
de uma matriz quadrada de ordem 3 é dado por:
191

 a11 a12 a13 


A = a 21 a 22 a 23
 a 31 a 32 a 33 

a 22 a 23 a 21 a 23 a 21 a 22 
A = a11.(−1) 2   + a12.(−1) 3   + a13.(−1) 4  =
 a 32 a 33   a 31 a 33   a 31 a 32 
A = a11.(a 22.a 33 − a 32.a 23) − a12.(a 21.a 33 − a 31.a 23) + a13.(a 21.a 32 − a 31.a 22)
Aplicando a fórmula a uma matriz de dados, tem-se:

10 5
A= 
 4 3
A = 10.(−1) 2 3 + 5.(−1) 3 4 = 10.3 − 5.4 = 30 − 20 = 10
Aplique a fórmula para calcular os determinantes das matrizes abaixo.

 2 1 3 1 2 3   4 0 1 8 1 3  3 −1 1 
       
A = 4 5 6; B = 3 6 9; C = 19 1 3; D = 4 0 1; E =  4 2 8 
7 8 9 4 5 7  5 4 7 6 0 3 10 3 16

4.2 PROPRIEDADES DO DETERMINANTE


O determinante de uma matriz é fundamental para que se possa identificar se um dado
sistema de equações apresenta uma única solução ou se é indeterminado. Na econometria é
empregado para se determinar a identificação de um sistema de equações simultâneas ou de um
vetor auto-regressivo. No caso de uma regressão múltipla, a estimação dos parâmetros pelo método
de mínimos quadrados ordinários depende do grau de dependência linear entre as linhas (colunas)
da matriz de dados. Nos modelos de insumo-produto, o determinante da matriz é fundamental para
se determinar a solução dos problemas. Pelo que se observa, a aplicação do determinante é ampla,
portanto, algumas propriedades devem ser lembradas.
a) O determinante de uma matriz é diferente de zero se todas as linhas (colunas) forem
linearmente independentes;
b) Se uma matriz B for obtida pela troca de qualquer par de linhas (colunas) da matriz A, então
|B| = - |A|;
c) Se a matriz A for multiplicada por um número k, então |A| = k.|A|.
Se o |A| ≠ 0, então a matriz A é dita não-singular.

5. MATRIZ INVERSA
Para calcular a inversa da matriz A (denotada por A-1), primeiro deve-se trocar cada elemento
de A por seu co-fator, depois se obtém a transposta da matriz de co-fatores e, então, divide-se cada
elemento da matriz de co-fatores pelo determinante de A.
A matriz transposta de co-fatores de A é camada de matriz adjunta de A (adj A). Assim, tem-
se que:
1 1
A −1 = [ Aij ]T , ou A −1 = adjA , em que adjA = [ Aij ]T ,
A A
Assim, a matriz de co-fatores de uma matriz A de ordem 2 é dada por:

 a11 a12 
A= 
a 21 a 22 
192

C11 = (-1)2.|a22| = a22 C12 = (-1)3.|a21| = -a21


C21 = (-1)3.|a12| = -a12 C22 = (-1)4.|a11| = a11

 a 22 − a 21
[ Aij ] =  ;
− a12 a11 
 a 22 − a12 
adjA = [ Aij ] = 
T

− a 21 a11 
|A| = a11.a22 – a21.a12

A matriz inversa de A é dada por:

 a 22 − a12 
1  a 22 − a12   (a11.a 22 − a 21.a12) (a11.a 22 − a 21.a12) 
A −1 = = 
(a11.a 22 − a 21.a12) − a 21 
a11   − a 21 a11 
 (a11.a 22 − a 21.a12) (a11.a 22 − a 21.a12) 
Calcule a matriz inversa de A, dada por:

 2 0
A= 
1 1 
O primeiro passo é calcular o determinante, pois só faz sentido prosseguir se o determinante
da matriz for diferente de zero.
|A| = 2.1 – 1.0 = 2 – 0 = 2
A matriz de co-fatores A2,2 é dada por:
C11 = (-1)2.|1| = 1; C12 = (-1)3.|1| = -1; C21 = (-1)3.|0| = 0; C22 = (-1)4.|2| = 2.

1 − 1
A2 , 2 =  
0 2 
A matriz adjunta de A é dada por:

 1 0
adjA =  
− 1 2
A matriz inversa é dada por:

1 
1  1 0  2 0
−1
A =  = 
2 − 1 2  − 1 1
2 
Para aferir se o cálculo da matriz inversa está correto, utiliza-se a seguinte propriedade: A.A-1
= I. Ou seja, qualquer matriz multiplicada por sua inversa tem como resultado a matriz identidade.
Veja o cálculo da prova:

1   1 −1 
2 0  2 0  2 2 + 0 2 2.0 + 0.1 1 0
−1
A. A =  ⋅ = = 
1 1  − 1 1 1. 1 + 1. − 1 1.0 + 1.1  0 1
2   2 2 
Portanto o cálculo da matriz inversa está correto.
A lei da inversão de matrizes diz que se duas matrizes A e B têm inversas, então:
193

(AB)-1 = B-1.A-1.
Como exercício, calcule a inversa das seguintes matrizes:

 3 − 1 1 4 1 − 1  0,15 0,5 0,25


A = 4 2 8; B = 0 3 2 ; C = 0,30 0,1 0,40
   
1 2 3 3 0 7   0,15 0,3 0,20

5.1. SOLUÇÃO DE SISTEMAS LINEARES


Qualquer sistema de equações lineares é passível de ser escrito na forma matricial e
solucionado por meio do cálculo da matriz inversa dos coeficientes associados às variáveis do
respectivo sistema. O sistema de duas equações lineares abaixo pode ser escrito na forma matricial,
como a seguir:
a11.x1 + a12.x 2 = b1
Sistema de equações lineares:
a 21.x1 + a 22.x 2 = b 2
Forma matricial do sistema: A.X = B

 a11 a12   x1   b1 
A=  ; X =  ; B =  
a 21 a 22   x2 b 2 
Multiplicando-se ambos os lados da equação acima por A-1, tem-se:

A −1 . A. X = A −1 .B
I . X = A −1 .B
X = A −1 .B
Assim, para achar a solução do sistema, basta calcular a inversa da matriz dos coeficientes
associados às variáveis do sistema.
Se B = 0, o sistema é homogêneo, ou A.X = 0. Isto significa que o vetor X é ortogonal aos
vetores-linha de A. Este conceito é uma ferramenta da análise de componentes principal da análise
multivariada.

2 x1 + x 2 = 5
Ache a solução do sistema de equações lineares dado por:
x2 + x2 = 3

2 1
A=  . O determinante de A é: |A| = 2.1 – 1.1 = 1.
1 1
Matriz de co-fatores A22:
C11 = (-1)2.|1| = 1; C12 = (-1)3.|1| = -1; C21 = (-1)3.|1| = -1; C22 = (-1)4.|2| = 2.

 1 − 1
A2 , 2 =   = adjA .
 − 1 2 
Como a matriz é simétrica, ou seja, os elementos fora da diagonal principal que estão abaixo
são iguais aos que estão acima da referida diagonal principal, ela é igual a sua transposta. Assim, a
inversa é dada por:

1  1 − 1  1 − 1
A −1 =  =
1 − 1 2  − 1 2 
A solução do sistema é obtida multiplicando-se A-1 por B, como a seguir:
194

 x1   1 − 1 5 1.5 + (−1).3  2


 x 2  = − 1 2  ⋅ 3 = (−1).5 + 2.3 = 1 
         
Ache a solução dos sistemas de equações lineares abaixo, empregando a matriz inversa.

4 x1 + 3x 2 + x 3 = 13 x1 + 2 x 2 + 2 x 3 = 1 2 x1 − x 2 + 5 x 3 = 4
a ) x1 − x 2 + x 3 = 2 ; b ) 2 x 1 + 2 x 2 + 3 x 3 = 3 ; c ) 4 x 1 + 0 x 2 + 6 x 3 = 1
2 x1 − x 2 + 3 x 3 = 9 x1 − x 2 + 3 x 3 = 5 0 x1 − 2 x 2 + 4 x 3 = 7

6. SOLUÇÃO DE MATRIZES NO EXCEL


Os sistemas lineares do mundo real envolvem mais de três variáveis, o que torna cansativo o
cálculo do determinante e da matriz inversa. Nestes casos, deve-se utilizar a planilha Excel para obter
a solução das questões.
Dadas as matrizes A e B abaixo, como fazer as operações no Excel?

 3 −1 1   3 − 1 1
A =  4 2 8 ; B = 4 2 8
 
10 3 16 1 3 5
a) Calculo do determinante da matriz A no Excel: =matriz.determ(B2:D4).

b) Cálculo da multiplicação de matrizes no Excel: =matriz.mult(B2:D4;F2:H4). O ritual é o


seguinte: marca-se a área onde deve ser posto o resultado; digita-se a fórmula acima e,
simultaneamente, pressionam-se as teclas [Shift], [Ctrl] e [Enter].
195

c) Cálculo da inversa de uma matriz no Excel: =matriz.inverso(B2:D4). O ritual é o seguinte:


marca-se a área onde deve ser posto o resultado; digita-se a fórmula acima e,
simultaneamente, pressionam-se as teclas [Shift], [Ctrl] e [Enter]. O resultado para a matriz A
não foi possível porque o determinante foi zero.

7. REFERÊNCIAS
CHIANG, A.C. Matemática para economistas. São Paulo: MaGraw-Hill, 1991.
CYSNE, R.P., MOREIRA, H.A. Curso de matemática para economistas. São Paulo: Atlas, 1997.
SANTANA, A.C. Métodos quantitativos em economia: elementos e aplicação. Belém: UFRA, 2004.
SIMON, C.P., BLUME, L. Mathematics for economists. New York: Norton & Company, 1994.
TAN, S.T. Matemática aplicada à administração e economia. São Paulo: Pioneira, 2001.
WEBER. Matemática para economia e administração. São Paulo: Harbra, 1992.
YAMANE, T. Matemática para economistas. São Paulo: Atlas, 1977.

8. EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM
1 2 1 
E1: Sejam as matrizes A =   , B=  e [5 − 1] . Pede-se para:
1 0  − 2
a) Calcular BxC + 2xA + CxB;
b) Determinar λ de maneira que o det(A-λI)=0, em que I2 é a matriz identidade.

n 0 1 
E2: Sendo A uma matriz quadrada, definida por A =1
AxAxA
424
n
...3
A . No caso de   , qual a
1 0 
matriz resultante da soma: A + A2 + A3 + ... + A20.

 y − 3 −1  x x − 4
E3: Sendo a inversa de A =   igual a
− 2 x 
A =
x − 5 1 
, determine x e y e o valor do

determinante de A.

E4: Uma agroindústria de polpa de frutas deve envasar um mix de açaí, guaraná e açúcar mascavo.
Sabe-se que a polpa do açaí custa R$ 16,00/kg, o extrato de guaraná R$ 20,00/kg e o açúcar
mascavo R$ 5,00/kg. Cada embalagem deve conter ½ kg do mix e o custo total dos produtos de cada
embalagem deve ser R$ 6,00/unidade. Além disso, a quantidade de guaraná em cada embalagem
deve ser igual a (1/3) da soma dos outros dois produtos.
a) Escreva o sistema linear de equações que representa a situação acima;
b) Resolva o referido sistema, determinando as quantidades, em gramas, de cada produto
contido na embalagem de ½ kg.
196

E5: Um boiadeiro para vender lotes de animais (bovinos, suínos e ovinos), propôs a seguinte oferta:
lote combinado de boi e suíno custa R$ 1.200,00; lote combinado de suíno e ovino custa R$
1.100,00; lote combinado de boi e ovino custa R$ 1.500,00. Quanto pagará o cliente para comprar os
três lotes de animais?

E6: Ao perguntar a um comerciante sobre os preços dos produtos comercializados na feira, ele
respondeu: “Quando vendo 2 cupus e 5 bacus apuro R$ 20,00; quando vendo 2 cupus e 5 laranjas
apuro R$ 12,00; quando vendo 6 bacus e 4 laranjas apuro R$ 8,00. Qual foi o preço de cada produto?

E7: Resolva as seguintes equações:


1 2 x x 0 1
a) − 1 x x + 1 = 6 , b) 2 x x 2 = 0
3 2 x 3 2x x

E8: Determine o valor de k para o qual o determinante da matriz A seja nulo.

1 1 1 1 2 1
a) A = 2 3 k , b) B = 4 9 4
1 0 k 6 k k −7

− 3 0
E9: Considere a matriz M =   . Quais os valores de λ que tornam a matriz (M – λI)=0, sendo
 4 5
I2 a matriz identidade.

2 3 1

E10: O determinante da matriz A = − 1 y 0  é igual a 2. Se B e C são as matrizes obtidas,

 1 2 2 y 
respectivamente, pela substituição em A do menor e do maior valor de y encontrados, calcule a
matriz transposta do produto B por C.

E11: Considere a matriz A(3x3), na qual os elementos são dados por aij = i + j – 1. Qual o detA?

i − j se i ≤ j
E12: Qual o determinante de A = [aij](3x3), em que a ij
=
2ij se i > j

E13: Se a matriz A = [aij](3x3) em que (i = j =0); (i > j = 1) e (i < j = -1), determine a matriz dada por: A –
A’ + I3.

E14: Um empresário pretende combinar os alimentos (A, B e C) de forma que contemple 3.600
unidades de vitaminas, 2.500 unidades de minerais e 2.700 unidades de gordura. As necessidades
por nutrientes de alimentos A, B e C são:

Alimentos Vitamina Minerais Gordura


Alimento A 40 100 120
Alimento B 80 50 30
Alimento C 120 50 60

E15: Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas
abaixo:
197

 0,3 0,4 15  x1 


A=  ;D= 10 ; X =  x2
0,4 0,2    
d) Gere a matriz (I – A);
e) Ache a matriz inversa (I – A)-1;
f) Encontre a solução do modelo X = (I – A)-1 D.

E16: Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas
abaixo:
0,25 0,5  150  x1 
A=  ;D= 120 ; X =  x2
 0,5 0,25    
a) Gere a matriz (I – A);
b) Ache a matriz inversa (I – A)-1;
c) Encontre a solução do modelo X = (I – A)-1 D.

E17: Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas
abaixo:
0,25 0,65 200  x1 
A=  ;D= 250 ; X =  x2
0,65 0,25    
a) Gere a matriz (I – A);
b) Ache a matriz inversa (I – A)-1;
c) Encontre a solução do modelo X = (I – A)-1 D.

E18: Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas
abaixo:
 0,4 0,5 125  x1 
A=   ;D=   ;X=  
0,25 0,2 110  x2
g) Ache a matriz inversa (I – A)-1;
h) Encontre a solução do modelo X = (I – A)-1 D.

E19: De posse da matriz abaixo:


0,0 0,1 0,2
 0,3 0,1 0,0
A=  
0,5 0,7 0,0
d) Ache o determinante da matriz;
e) Encontre a matriz inversa (I – A)-1.

E20: Gere a solução para o modelo de insumo-produto, cujas informações são disponibilizadas
abaixo:
0,2 0,4 15  x1 
A=   ;D=  ;X=  
0,4 0,2 10  x2
i) Gere a matriz (I – A);
j) Gere a solução do modelo X = (I – A)-1 D.
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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA

AGÊNCIA ALEMÃ DE COOPERAÇÃO TÉCNICA

TECHNISCHE UNIVERSITÄT DRESDEN