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Delectando pariterque monendo – um pequeno exercício de

tradução de uma ode de Horácio


@Renato Roque, Junho 2018

Omne tulit punctum, qui miscuit utile dulci


lectorem delectando pariterque monendo;

Horácio, Ars Poetica, V 343

1. Introdução

Perante o desafio que nos foi proposto: traduzir uma ode de Horácio, o poeta-vate, o
príncipe dos poetas romanos1, esse “lindíssimo homenzinho”, como, lhe chamava, a
brincar o imperador Augusto, porque ele seria de muito baixa estatura e gordinho, como
o descreve Suetónio, no curto passo biográfico que lhe dedica, algumas questões se nos
impuseram de imediato.
Primeiro pensámos: como escolher o poema a traduzir, de entre os 103, que constituem
os seus quatro livros2 de odes? Quais os critérios a adoptar nessa escolha?
Depois percebemos: antes de decidir qual o poema, teríamos de compreender os
objectivos a atingir com esse exercício académico de tradução, sabendo que já existem
muitas versões acessíveis, em língua portuguesa e noutras línguas que dominamos
medianamente, de todas as odes de Horácio.
Finalmente compreendemos: não se tratava de traduzir um texto, que não tivesse sido
traduzido antes, ou de que não existissem traduções satisfatórias, propondo-nos fazer
uma tradução melhor, mas, sobretudo, de utilizar o processo de tradução e de reflexão
em torno dessa tradução, como um mecanismo de aprendizagem.
Por isso, este texto pretende, para além de apresentar uma proposta nossa de tradução
para a ode de Horácio que escolhemos, plasmar tanto quanto possível o nosso exercício
de aprendizagem. Aprender fazendo, neste caso traduzindo, mas também reflectindo,
antes e durante o acto de traduzir.

1
A influência de Horácio na poesia portuguesa, de Camões a António Ferreira, ou de Antero de Quental a Fernando
Pessoa seria suficiente para provar a importância da sua obra, para não falar no impacto da sua Arte Poética durante o
Renascimento e Barroco.
2
As odes de Horácio estão agrupadas em três livros, publicados provavelmente em 23 a.C – a sua ode 3.30 “Exegi
monumentum” parece assinalar o fim desse ciclo – mas há um quarto livro de odes posterior, que poderá agrupar
algumas odes compostas a pedido de Augusto. Neste quarto livro o poeta questionar-se-á sobre a sua atracção ainda
pelo amor – “porque escorre por minha face rara lágrima?" (Ode IV.1 v34) - , apesar da idade avançada que já tem.
“De novo moves, Vénus, guerras /há tanto interrompidas? Poupa-me, rogo-te, rogo-te.” (Ode IV.1, v1-2), locus
communis de tanta poesia ocidental, reflectindo o encontro indesejável, por vezes humilhante, da paixão com a
velhice.

1
1.1 Como organizámos o texto
Depois desta secção 1, que constitui uma simples introdução, na secção 2,
desenvolvemos algumas reflexões sobre o processo de tradução que pretendíamos
realizar: as suas limitações, dificuldades, opções. É também aqui que apresentamos a
metodologia e as regras que decidimos adoptar, a partir de um ensaio de Beethoven
Alvarez. Estas reflexões na secção 2 são completadas por um conjunto de anexos, onde,
por um lado aprofundamos a metodologia que escolhemos (Anexo 6.1), e, por outro
lado apresentamos várias propostas de tradução da ode 1.5 (Anexos 6.2 a 6.6), ode
muito conhecida, apenas porque a tradução dela, de Beethoven Alvarez, nos serviu de
ponto de partida para este nosso exercício de tradução.
O carácter académico deste trabalho poderá justificar a dimensão do texto dedicado à
ode 1,5, quando a ode escolhida por nós para tradução vai ser a 1.23.
Na secção 3 fazemos a escolha da ode a traduzir, a 1.23, e justificamos a nossa opção.
Na secção 4 apresentamos e discutimos as nossa propostas de tradução, fazendo este
exercício em dois tempos: uma primeira tentativa mais literal e uma segunda, adoptando
as regras de métrica e de rima que nos tínhamos imposto.
A secção 5 apresenta as conclusões.
A secção 6 contém a bibliografia.
A secção 7 reúne os anexos.

2. Algumas reflexões à priori

A tradução de qualquer obra literária constitui sempre um exercício complexo e,


porventura, ingrato, pois fazer literatura pressupõe a construção de objectos artísticos,
onde o autor utiliza como ferramenta a sua língua, o que pressupõe usar as construções
gramaticais e as palavras dessa língua. Uma tradução literal do texto, que se limite a
procurar o sentido primeiro das palavras e das frases, será sempre incompleta, muitas
vezes traiçoeira: “Traduttore, Traditore”.
As dificuldades são maiores na poesia, pois um poeta só é poeta se for capaz de inventar
uma nova linguagem (uma “neo-língua”):
A poesia é fundamentalmente linguagem, um certo jogo de linguagem, ou, melhor, uma linguagem
nova criada por cada poeta na linguagem dada. Toda a criação literária, e a criação poética em
particular, inventa, de cada vez, uma língua na linguagem, uma língua contra a linguagem, contra os
limites e as impossibilidades da linguagem. Uma neo-língua exclusiva, fazendo violência à língua
comum: não há literatura, não há poesia, sem esta violência.... toda a poesia é boca bilingue, voz
bilingue, fala duas línguas ao mesmo tempo ou existe «entre» elas, na tensão delas. A poesia fala e
não fala a língua-mãe, faz e não faz parte dela, está dentro e está fora dessa língua, porquanto
constitui nela, e por desvio ou traição a ela, uma «outra» língua.
Sousa Dias, O que é a Poesia

2
Traduzir poesia implica, portanto, ser capaz de descobrir essa nova linguagem na língua
original e de certa forma inventá-la na língua destino. “Poesia não é sentimento, é
linguagem”, afirma Sousa Dias.
Segundo (Oliveira, 2015), interpretando o texto de Sousa Dias, a nossa língua, como a
língua de qualquer povo, tem como objetivo primordial fazer referência ao real, mas
isso não acontece na poesia; algo mais (mágico?) acontece na poesia, onde a referência
da nova linguagem, criada pelo poeta, é a vida num sentido muito largo, pois não tem o
mero intuito de exprimir emoções e sentimentos ou de descrever a vida existente, mas
sim, de criar uma vida nova, através de uma nova linguagem.
Os jogos polissémicos, que as palavras e as expressões tantas vezes contêm, a
musicalidade das sílabas, o ritmo, as imagens sugeridas, as metáforas não podem ser
traduzidos de uma forma mecânica, ou seja, o exercício de tradução implicará sempre
opções difíceis de tomar e, em muitos casos, obriga praticamente à construção de uma
nova obra na “neo-língua” de destino, para atingir alguns dos resultados patentes da
obra inicial, na “neo-língua” de partida. Este dilema vai ser particularmente agudo na
poesia, onde o ritmo, a métrica, os jogos de relações entre as palavras e as metáforas
constituem a essência da escrita.
A somar às dificuldades enunciadas, no caso de Horácio, a rede complexa de referências
mitológicas, geográficas, sociais e políticas, num tempo que em grande medida nos
escapa, torna muitas vezes o texto difícil e de ambígua leitura, o que obriga muitos
tradutores ao recurso a infindáveis notas.
Quando se traduz do latim para o português, se por um lado temos uma proximidade
muito relativa das duas línguas, em virtude de o português ter origem no latim oral,
temos, apesar disso, uma dificuldade adicional, por a métrica latina se basear no ritmo
criado pela alternância de sílabas longas e sílabas breves. Que fazer, ao traduzir um
poema de Horácio, onde o jogo auditivo assenta nesse ritmo intercalado, se em
português não existem sílabas longas nem breves? Como obter o efeito das mudanças de
ritmo e como reproduzir ritmos lentos ou rápidos do poema original, de acordo com a
semântica? Como escreve Pedro Braga Falcão, numa língua sem padrões rítmicos como
existiam no latim, ”O objecto sonoro do latim de Horácio é intraduzível”.
As vogais longas (ā, ē, ī, ō, ū) têm sensivelmente o dobro do tempo das vogais breves (ă, ĕ, ĭ, ŏ, ŭ) e
têm um timbre mais fechado, o que confere um ritmo espontâneo à língua: pode dizer-se que a música
do mundo clássico nasceu com a própria fala. (em Introdução de Pedro Braga Falcão às Odes)

Adaptando o que escreveu um dia José Ortega y Gasset: “vivir es encontrarse náufrago
entre las cosas” (1994, Qué es la filosofía?), poderíamos dizer que “traduzir é encontrar-
se náufrago entre as línguas”.
A maior parte dos estudos que existem versa apenas a semântica, o significado do que disse e porque
o disse, e tão infindável se tem revelado esse trabalho. A palavra tem contudo uma forma audível.
(em Introdução de Pedro Braga Falcão às Odes)

Nenhum dos ritmos e esquemas métricos usados por Horácio foi realmente inventado
pelo poeta. Horácio recuperou a tradição lírica grega. O ritmo de muitos versos
horacianos foi, por exemplo, usado antes por Alceu, poeta grego que viveu entre o

3
século VII e VI a.C: Horácio foi, como ele próprio nos informa, “o primeiro a trazer o
canto eólio aos metros itálicos” (Horácio, Ode III.30, v 13).
o "eu lírico" [de Horácio]- com propriedade o primeiro "eu lírico" latino, pois a própria palavra
"lírico" foi usada pela primeira vez em latim por Horácio no sentido pleno do termo, na acepção que
hoje conhecemos. (em Introdução de Pedro Braga Falcão às Odes)

Recuperando esses esquemas gregos, Horácio escreveu em latim poemas que versam os
mais diversos temas. Textos que nos falam da Itália do seu tempo, de Roma, de
Augusto, de Mecenas, mas também do amor, do tempo, da morte e da vida, da beleza e
da mudança. E que nos falam muito de si próprio "Falo agora sobre mim, nascido de um
pai liberto/ que todos mordem por ter nascido de um pai liberto” (Ode 1.6, v1-2).
Durante o nosso processo de reflexão, quando lemos o artigo de Beethoven Alvarez, em
que o autor justifica a sua tradução das conhecidas odes 1.5 e 1.14 de Horácio, usando
versos alexandrinos e octossílabos e recorrendo à rima, para se aproximar da estrutura
original latina, que se organiza em quatro estrofes, utilizando em cada uma dois versos
“asclepiadeus menores”, um “ferecrácio” e um “glicónio”, pensamos que tal
aproximação poderia ser um bom desafio para nós. Ou seja, comprometíamo-nos a
transformar “asclepiadeus menores” em alexandrinos e os dois versos seguintes em
octossílabos. Para tal, teríamos de escolher uma ode de Horácio com o mesmo esquema
métrico.
As duas figuras abaixo representam a estrutura de cada grupo de quatro versos em
Horácio, nas duas odes referidas, e a estrutura dos dois tipos de versos que tentaremos
utilizar, como base para o poema em português, tal como Alvarez fez e justifica.

Esquema métrico das odes 1.5 e 1.14 de Horácio

Versos alexandrinos e octossilábicos

O verso alexandrino tem normalmente pausa (cesura) depois da sexta sílaba, no caso de
uma palavra oxítona, ou depois da sétima sílaba, no caso de uma palavra paroxítona,
mantendo no entanto a estrutura de dois hemistíquios, típica do alexandrino.
Alvarez justifica também que tentar ir mais longe, fazendo coincidir sílabas longas com
tónicas, lhe parece contraproducente:
Sem buscar um eruditismo que poderia soar empolado, ou sem arriscar um registro informal
demais que poderia soar satírico, persegui um discurso médio, em que sonoridade e
recursos expressivos rítmicos se destacassem. Para tanto, preferi o uso de versos

4
tradicionais rimados: nesse caso, o alexandrino e o octossílabo.... Uma prática de tradução
não incomum atualmente busca coincidir a acentuação tônica das palavras em português
com as posições longas do verso latino, criando versos que se afastam dos modelos mais
tradicionais e, embora marcados por um ritmo mormente constante, mas muitas vezes
agradável, são normalmente criticados pela “monotonia”... Na tradução das odes de
Horácio que apresento aqui, adoto a métrica tradicional luso-brasileira. Para traduzir as
estrofe das odes 1.5 e 1.14, optei por uma estrofe formada por dois alexandrinos e dois
octossílabos, muito embora essa combinação de versos como uma estrofe não tenha sido
muito usual (Alvarez, 1988).
Enveredando por este caminho, temos, antes de começar a tradução, a consciência de
que uma das consequências do espartilho da rima e do esquema métrico proposto
poderá ser um movimento de uma tradução literal para uma tradução parafrástica. A
dificuldade neste processo de paráfrase aumenta, se tivermos em conta a ambiguidade e
polissemia de muitos versos do poeta, que permitem múltiplas interpretações, como por
exemplo Falcão reconhece:
Foi isto que o poeta quis deixar escrito. O sentido que lhe quisermos posteriormente dar, metafórico,
irónico, subversivo, subserviente, crédulo, sóbrio, e tudo o mais, é por conta de quem o assim
interpretar. (em Introdução de Pedro Braga Falcão às Odes)

Nota final: tendo tomado a decisão de nos colocarmos perante o desafio de uma
abordagem semelhante à que Alvarez adoptou, pareceu fazer sentido utilizar uma das
odes traduzidas por Alvarez no seu artigo (Alvarez, 1988), como forma de
aprofundarmos a nossa reflexão, comparando-a com outras versões de tradução da
mesma ode. Colocamos essa informação em anexo (6.1 a 6.6), como informámos na
introdução, devido à sua extensão.

3. A escolha da ode a traduzir

A decisão tomada, quanto à métrica e rima a adoptar no nosso exercício, limitava-nos à


partida o número de odes que podíamos escolher. Começámos por verificar que havia
sete odes de Horácio com um modelo métrico e rítmico idênticos aos da ode 1.5, que
tomámos como referência para a nossa estratégia de tradução. São as odes: I.5, I.14,
I.21, I.23; III.7, III.13; IV. 13. De entre as que Alvarez não traduzira, optámos pela ode
1.23, pelo facto de ela ser dedicada a uma rapariga chamada Cloé, nome da nossa
sobrinha neta.
O nome Cloé é usado por Horácio em várias odes, para além da ode 1.23, o que sugere
poder ser um dos nomes fictícios de que o poeta gostaria, para nomear as suas paixões.
If we ask after Horace's lady-love, her name is Legion; Chloe, Glycera, Leuconoe, Lyce and
Cinara. All these ladies are perfectly unreal to us. They may have existed, or the poems in their
honour may be simply translations from the Greek. Lyce and Cinara are less shadowy than the
rest, and many people have written sentimentally of Horace's devotion at least to the latter. (

5
Cloé aparece também nas odes III.7, III.9, e III.263. É um nome de etimologia grega e
significa literalmente "verdura fresca", parecendo por isso sugerir uma jovem e ainda
imatura rapariga, como acontece na ode que escolhemos. É também um epíteto ligado a
Deméter, deusa da agricultura, e também à sua filha Perséfone, acentuando-se assim o
carácter de renovação primaveril associado ao nome feminino, que seria recuperado por
Fernando Pessoa e Ricardo Reis em vários odes de influência horaciana.
Quão breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nela! Ah! Cloé, Cloé,

Ricardo Reis
Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloé, beijemo-nos, amando.
Ricardo Reis

4. Tradução da ode 1.23

Faremos a tradução da ode de Horácio escolhida por um processo iterativo, começando por uma
tradução literal e procurando a seguir realizar uma tradução que respeite a métrica e a rima que
nos impusemos, ao adoptar a solução proposta por Alvarez, para encontrar uma certa
equivalência ao ritmo original em latim.

4.1 Tentativa de tradução literal


A nossa primeira tentativa de tradução procura ser literal, tentando apenas respeitar a estrutura
do poema original em três estrofes de quatro versos:

Vitas hinnuleo me similis, Chloe, Evitas-me, Cloé, como uma jovem corça
quaerenti pavidam montibus auiis que procura nas ermas (inacessíveis) montanhas
matrem non sine uano a mãe medrosa, não sem um medo vão
aurarum et siluae metu: das brisas e da floresta:
nam seu mobilibus ueris inhorruit assim, se a chegada da primavera se agitou
adventus foliis seu uirides rubum nas folhas ligeiras (que se movem, trementes, como mobiles)
dimouere lacertae, ou se os verdes lagartos afastaram uma silva
et corde et genibus tremit. ela treme com o coração e com os joelhos
Atqui non ego te tigris ut aspera E no entanto como cruel tigre
Gaetulusue leo frangere persequor: ou leão getúlico, eu não te persigo para te violar;
tandem desine matrem finalmente, deixa de seguir tua mãe,
4
tempestiua sequi uiro. estás madura para um homem

3
CHLOE TEMPESTIVA, MISERA, DOCTA AND ARROGANS; em cada uma das quatro odes (1.23, 3.7, 3.9
AND 3.26) Cloé adopta uma qualidade diferente (Madura, Infeliz, Sábia e Arrogante), como nos indica o título do
artigo de Blanche Mccune em “The Classical Quarterly”, Volume 66, Issue 2 December 2016 , pp. 573-579
4
Versão do texto latino obtida do site http://www.perseus.tufts.edu/, que corrigimos, substituindo, “vs” por “us”

6
A ode é dedicada a uma jovem, de nome Cloé, que parece ter atingido a idade para
casar, mas que, receosa, ainda procura um refúgio junto da mãe.
Horace has created a different scenario from either the elegiac or the epigrammatic, in which the girl
seems to be of a status somewhere between that of a hetaera and of a marriageable virgin. (Konstan,
2018)

Algumas notas (im)pertinentes para alguns dos nossos versos:


a) V1 - No primeiro verso em latim a colocação de “me” ao centro pode sugerir visualmente a
prisão do poeta entre Cloé e a sua atitude de o evitar. Justificará optar por “Cloé, evitas-me,
como jovem corça”
b) V1,2 – “Hinnuleo quearenti” é um dativo pedido por “similis”. “Semelhante a corça procurante”,
se tal palavra existisse em português. Ou seja, é a corça que procura a mãe (pavidam matrem),
em acusativo, pois é objecto directo de “quarenti” que tem aqui um sentido verbal (que procura).
c) V4,5,6 - Os versos 4, 5 e 6 poderão conter uma referência ao vento oeste, chamado Favónio, que
marcava o início da Primavera e que aparece referido explicitamente no verso 1 da ode 1.4,
“Dissolve-se o áspero Inverno dando a bem-vinda vez à Primavera e ao Favónio”. Em nota à ode
1.4, P. B. Falcão escreve: Favónio é “outro nome para o Zéfiro, vento do oeste que na Itália
anuncia a Primavera”.
d) V6 – Qual a melhor solução para “folliis mobilibus”? À letra, “nas folhas móveis”...
e) V6,7 - Segundo alguns autores, por exemplo Ronnie Ancona, os versos 6 e 7 “uirides rubum
dimouere lacertae” podem ter uma leitura com conotação sexual. A citação acima de David
Konstan parece confirmar esta leitura.
f) V8 - Temos consciência de que a tradução “ela treme com o coração e com os joelhos” do latim
“corde et genibus tremit” não é muito bonita, mas procurámos respeitar o sujeito da frase latina e
o ablativo de “corde et genibus”. Uma alternativa melhor em português poderia ser “tremem-lhe
o coração e os joelhos”, alterando o sujeito da frase.
g) V10 - A tradução de “frangere” (romper, estilhaçar, dilacerar) por “violar” poderá parecer
exagerada. Por outro lado poder-se-ia argumentar que se deveria utilizar um verbo que fizesse
sentido também com os animais, com os quais o poeta se compara. Optámos por “violar” devido
à conotação sexual, que referimos, que pode ser associada ao poema.
h) V11,12 - A oração infinitiva, que corresponde ao verbo depoente em infinitivo presente “sequi”,
no último verso, é pedida pelo imperativo desine, ou seja, “desine sequi pavidam matrem”
(“deixa de seguir a mãe medrosa”). O verbo “sequi” é depoente e transitivo e pede acusativo
(“pavidam matrem”).
i) V12 – A ordem das palavras neste verso pode-nos dificultar a leitura, com “sequi” entre
“tempestiva” e “viro”. Na opinião de Nisbet esta ordem deve-se ao jogo de simetria que Horácio
pretende vincar ao fazer “matrem” e “viro” nos dois versos como reflexos um do outro. Como
ele vinca, a métrica manter-se-ia se o poeta escrevesse “tempestiva viro sequi”.
I turn now to a few places where there is a more unusual dislocation. Consider 1.23.11f.
'tandem desine matrem I tempestiva sequi viro', where tempestiva viro is interrupted by the
intrusive sequi. The metre is not a significant factor (for Horace could have written
tempestiva vim sequi); in fact the artificial hyperbaton emphasizes vino and sets it against
matrem. (Nisbet, 1999)

Poderá fazer sentido comparar neste momento a nossa tradução, simples, literal, com a
reputada e recente tradução de Pedro Braga Falcão. Fazemos essa comparação na
secção seguinte.

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4.2 Comparação da tradução feita com a de Pedro Braga Falcão
Evitas-me, Cloé, como uma jovem corça Tu evitas-me, Cloe, como um jovem veado
que procura nas ermas (inacessíveis) montanhas que a mãe aflita nas ínvias montanhas procura,
a mãe medrosa, não sem um medo vão não sem um inútil medo
das brisas e da floresta: da floresta e do mais ligeiro vento:
assim se a chegada da primavera se agitou se a chegada da Primavera se arrepia
nas folhas ligeiras (trementes, que se movem, como mobiles) nas flores que dançam, ou se os verdes lagartos
ou se os verdes lagartos afastaram uma silva afastam uma silva,
ela treme com o coração e com os joelhos seu coração e joelhos tremem.
E no entanto como cruel tigre E, contudo, como o cruel tigre ou getúlico leão,
ou leão getúlico, eu não te persigo para te violar; para te fazer em pedaços não te persigo eu.
finalmente, deixa de seguir tua mãe, Deixa de andar atrás da mãe:
estás madura para um homem já estás madura para um homem.

A diferença das duas traduções no plano literal-informativo não nos parece muito
grande. Quase todas as diferenças parecem corresponder a alternativas de vocabulário –
por ex. “veado” por “corça” ou “inútil medo” por “medo vão” – ou na ordem da
construção das frases. As notas abaixo chamam a atenção para os versos, cujas
diferenças nos chamaram mais a atenção, e que poderão justificar alguma discussão:
a) V1 – “Veado” ou “corça”? “Corça” soa-nos melhor; é feminino e contém o elemento de
juventude, pequenez, inerente a “hinnuleus”.
b) V2 – A formulação de Pedro Braga Falcão parece-nos ser mais ambígua, pois sugere-nos a
interpretação de que é a mãe quem procura a filha, quando no texto latino é Cloé, como uma
corça, “hinnuleo”, em dativo, pedido por “similis”, que é “quaerenti” (“procurante”), também em
dativo. É Cloé que, como uma corça, procura a mãe.
Uma outra questão no verso 2 é como traduzir “auiis montibus”, que à letra significará
montanhas onde não há caminhos. “Ínvias”, adjectivo escolhido por Falcão, poderia ser mais
literal, mas é uma palavra que não nos agrada muito, por poder ter outras leituras em português.
Optámos, por isso, por “ermas”.
c) V5 – Não compreendíamos por que razão neste verso Falcão substitui o prefeito pelo presente. O
mesmo no V7. Encontramos uma nota numa edição antiga das odes que pode justificar a
opção:”The perfect here is like the aorist in Greek, and merely marks the occurrence with no
notion of time, past, present or future” (Gwinn, 1898).
d) V6 – A tradução de “folium” por flores ou de “mobilis” por dançante parece corresponder a um
afastamento do texto original, onde lemos literalmente folhas ou folhagem que se movem, com
certeza por razões poéticas.
e) V8 – Aqui a diferença sintática é mais subtil, pois há uma mudança do sujeito da frase: em vez
de ser Cloé a tremer com o coração e os joelhos, tremem o coração e os joelhos de Cloé. Ver a
nota f) na secção 4.1.
f) V10 – Opção entre “fazer em pedaços” ou “violar”. Ver nota g) da secção 4.1.

4.3 Primeira tntativa de tradução da ode 1.23 com métrica e rima


Tentaremos aqui traduzir a ode que nos acompanha, por forma a obtermos versos alexandrinos e
octossilábicos e de rima emparelhada. Primeira tentativa:

8
Evitas-me Cloé, | tal pequena gazela
em monte ermo busca a mãe, | medrosa por ela,
que dos bosques | e qualquer brisa
um medo insano | te agiliza

Se a primavera, vindo, | as folhas mover


ou se um lagarto verde | as silvas mexer,
treme-lhe junto o coração
e os joelhos de emoção.

Mas, como um cruel tigre | eu te persigo não,


nem p’ra te violar, | como berbere leão.
A mãe deixa de acompanhar,
estás madura p’ra casar.

Esta proposta de tradução respeita as rimas e a métrica dodecassilábica e octossilábica que nos
impusemos. Respeita também as cesuras no fim da sexta ou sétima sílaba, nos versos
alexandrinos. Obedece, portanto, às imposições de Alvarez, e parece não se afastar muito da
tradução literal.
Verificamos que há, no entanto, algumas soluções, que adoptámos, em parte forçados pelas
regras rimáticas e de métrica, que não nos satisfazem plenamente. Em particular, o nono e o
décimo versos desagradam-nos bastante, pela construção sintática, que se afasta do original, e
por a rima ter imposto um tom abrasileirado à frase.
Faremos, por isso, um segundo ensaio, procurando encontrar melhores soluções para as
traduções que fizemos na nossa tentativa primeira, que nos parecem ser desaconselháveis.
Nota: por opção, para evitar repetições, decidimos colocar as notas relativas a esta versão
intermédia junto com as notas relativas à versão final, que apresentamos na secção seguinte.

4.1 Segunda tentativa de tradução da ode 1.23 com métrica e rima


Apresentamos aqui a nossa versão final para a ode 1.23, mantendo a métrica e a rima
pretendidas. É acompanhada de algumas notas de tradução que justificam nomeadamente todas
as modificações que introduzimos na versão anterior.

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Vitas hinnuleo me similis, Chloe, Evitas-me Cloé, | tal a corça esquiva,
quaerenti pavidam montibus auiis buscando em montes ermos | mãe apreensiva,
matrem non sine uano não sem um vão medo
aurarum et siluae metu: das brisas e do arvoredo.
nam seu mobilibus ueris inhorruit Se a primavera, vindo, | as folhas mover,
adventus foliis seu uirides rubum se as silvas um lagarto | verde estremecer,
dimouere lacertae, treme-lhe junto o coração
et corde et genibus tremit. e os joelhos de apreensão.
Atqui non ego te tigris ut aspera Mas, como cruel tigre | ou leão africano
Gaetulusue leo frangere persequor: para te violar | não te persigo insano.
tandem desine matrem A mãe deixa de acompanhar,
tempestiua sequi uiro. és madura para casar.

a) V1 - “Corça” parece ser mais adequado do que “gazela”, ainda que sejam animais parecidos.
b) V1 - O adjectivo “esquiva” não aparece explícito no original, mas pode associar-se a alguma
coisa que nos evita, como a corça evita o poeta.
c) V2 - A tradução mais óbvia seria “ínvios”, mas é uma palavra que em português pode ter
conotação negativa, diferente da que está no texto (sem caminhos) e por isso preferimos
“ermos”.
d) V2 - “Apreensiva” em vez de “medrosa”, parece ser fiel ao original, onde Horácio usa palavras
diferentes para a corça e para a mãe: “pavidam” e “metu”. Por outro lado, “medrosa por ela”,
como escrevemos na versão anterior, acrescentava ao texto algo que realmente não estava lá.
e) V4 - A versão anterior não respeitava a ordem original no latim: “brisas”-> “floresta”, ou na
nossa tradução “arvoredo” em vez de “floresta”, e introduzia também uma ideia que não estava
no original com a palavra “agiliza”.
f) V5 - Temos consciência de que este verso modifica um pouco a ideia original “Se a chegada da
primavera se agitou nas folhas móveis”.
g) V8 - Não há no original a explicitação da razão para os joelhos e o coração da corça tremerem,
mas sabemos que não é “emoção”, como traduzimos antes, mas sim o medo ou a apreensão
h) V9 - A Getúlia correspondia para os romanos ao Norte de África; de acordo com o Oxford Latin
Dictionary, o adjectivo “gaetulus” ou “ gaetulicus” era frequentemente usado pelos poetas
latinos para referir África, em particular o interior selvagem desse continente. Por isso “africano”
parece-nos melhor para designar o leão do que o “berbere” da versão anterior.
i) V10 - O adjectivo “insano” também não está explicito no original latino, mas parece poder
inferir-se da imagem da perseguição de uma virgem pelo poeta, como se fosse um animal.
j) V11 – A tradução deixou cair “tandem” (finalmente) que no entanto não parece ser essencial.
k) V12 - “Madura para um homem” significa “madura para casar”.

5. Conclusões

No fim do exercício, que nos conduziu a Horácio, às suas odes, e depois, através da ode 1.5, até
à ode 1.23, que escolhemos para traduzir, obtivemos, como resultado final dessa viagem, duas
traduções para o poema que o poeta escreveu para Cloé:

10
a) uma primeira tradução, em que a nossa única preocupação foi encontrar as melhores
palavras e as construções mais ajustadas para tentar ser fiel ao original latino, mantendo
a estrutura de três estrofes de quatro versos;
b) uma segunda tradução, onde nos auto-impusemos uma disciplina de métrica e de
esquema rimático, que nos forçou algumas vezes a ter de optar por soluções porventura
não tão próximas do texto original. Esse desafio obrigou-nos a corrigir algumas
soluções adoptadas numa primeira tentativa, porque nos pareceram menos adequadas.

As duas traduções aí estão para obter os vossos comentários.

No anexo 6.7 apresentamos uma versão portuguesa da ode 1.23 de Eugénio de Castro, que
descobrimos já depois de completado o nosso exercício, e que nos parece ser uma belíssima
forma de terminarmos este texto.

5.1 O titulo do trabalho – “delectando pariterque monendo”


A justificação do titulo que escolhemos está apenas aqui, nas conclusões, porque, só quando
concluímos o trabalho, o titulo escolhido se nos revelou.

Aquilo que começou por ser um exercício académico de tradução, um trabalho de fim de
semestre, transformou-se num jogo lúdico, que nos acompanhou e divertiu ao longo de algumas
semanas. A procura da palavra certa, a busca do verso exacto, logo a rima que se constrói ou se
destrói, a palavra com uma sílaba a mais ou a menos, a procura de sinónimos, de alternativas...

Fez, por isso, sentido adoptar como epígrafe final os dois conhecidos versos da Arte Poética de
Horácio “Omne tulit punctum, qui miscuit utile dulci / lectorem delectando pariterque
monendo”, que se poderiam traduzir por “Todos estão de acordo com o que mistura o útil com o
agradável / por deleitar e ao mesmo tempo ensinar o leitor”.

Este foi, certamente, para nós um trabalho útil e agradável, que nos ensinou e nos deleitou,
dando assim justificação ao título do nosso trabalho “Delectando pariterque monendo”.

11
6. Bibliografia

ALVAREZ, Beethoven
2015 TRADUÇÃO DO NAUFRÁGIO: DOIS POEMAS DE HORÁCIO, Passages de Paris 11
p:389-404

AZEVEDO, Maria Teresa Schiappa


1994 CLOE EM RICARDO REIS/FERNANDO PESSOA, Humanitas Vol. XLVI

CASTRO, Eugénio
1901 DEPOIS DA CEIFA Folhas Soltas; Figurinhas de Tanagka ; Odes de Horácio, Livraria
Editora

DIAS, Sousa
2008 O que é a Poesia?, Documenta, ed. ut. 2ª, 2014

HORÁCIO, Quinto Flaco


Sec I Carmina, ed. ut: Odes, Cotovia, tradução Pedro Braga Falcão, 2008
Carmina, ed. ut: Horace, Odes et Épodes, Tome I, Les Belles Lettres, 1981, tradução de
F. Villeneuve
Carmina, ed. ut: Horace – Selected Odes, Bolchasy Carducci Publishers, 2002, tradução
de Ronnie Ancona
Carmina, ed. ut: Odes of Horace, Edited by STEPHEN GWYNN, Morang’s
Educational Series

KONSTAN, David
2018 Between Epigram and Elegy: Horace as Amatory Poet, in Horácio e a sua Perenidade,
coord. por M. H. Rocha Pereira, J. R. Ferreira e F. Oliveira CECH - Imprensa UC

NISBET, R.G.M.
1999 The Word Order in Horace’s Odes, Proceedings of the British Academy, 93, 135-154

OLIVEIRA, Eduardo
2009 O que é poesia?, de Sousa Dias, Revista Via Atlântica nº15, USP

RAMALHO, Américo da Costa


1988 Horácio, Falcão de Resende, Milton e Pessoa, Rev. Humanitas, Coimbra. Nº 39-40, p.
267-276

Site de textos de Horácio em latim:

http://www.perseus.tufts.edu/

12
7. ANEXOS

A bibliografia (secção 6) encerraria normalmente o nosso trabalho. No entanto, a sua natureza


académica, ao constituir um processo de aprendizagem, leva-nos a juntar este conjunto de anexos,
que permitem retratar melhor esse processo de reflexão, para escolher a ode e chegar à tradução
final.

Assim, no primeiro anexo reunimos algumas das reflexões que fizemos, a partir da tradução
proposta por Alvarez e de outras propostas alternativas para a ode 1.5. Nos anexos seguintes (7.2 a
7.6), apresentamos as diversas propostas de tradução integrais dessa ode 1.5. No último anexo
(7.7), apresentamos uma curiosa tradução, que encontrámos, para a nossa ode 1.23.

7.1 Reflexões sobre metodologia de tradução, a partir da ode 1.5


Usamos como objecto desta curta reflexão, por questões de simplicidade, apenas a
primeira estrofe5 da ode 1.5 de Horácio, intitulada “Ad Phyrram” 6 (para Pirra).
Comecemos pela versão de Alvarez que motivou o nosso desafio. No seu artigo, em
bibliografia, o autor justifica algumas das opções que teve de tomar durante o seu
exercício.

A tradução em prosa livre deste conjunto de quatro versos latinos poderia ser: «Que
rapaz gracioso, entre tantas rosas, encharcado de líquidos perfumes, te persegue, ó Pirra,
no acolhedor retiro? A quem atas os cabelos louros?» Independentemente de gostarmos
mais ou menos da solução encontrada por Alvarez, satisfazendo as regras de rima e de
métrica, que decidiu adoptar, pois não é isso o que nos interessa aqui, verificamos que
não há muitas diferenças no plano do conteúdo do texto proposto. Por exemplo, a
versão de Alvarez introduz o número “mil”, em vez de “tantas”, que não está no
original, ou esquece a palavra “líquidos” para qualificar os perfumes, como está no
texto latino, ainda que, quando se fala de perfume em português, se pense em líquidos.
Podemos comparar a tradução de Alvarez com a tradução da mesma estrofe proposta
por Pedro Braga Falcão, no seu livro de Odes, que parece conseguir um bom equilíbrio
entre a literalidade, fidelidade ao original, e o ritmo a que a adaptou em português, ainda
que sem constrangimentos de métricas ou de rima.
5
Nos artigos referenciados em bibliografia, de onde as traduções parciais que usámos da ode 1,5 foram retiradas,
podem ser consultadas cada uma das traduções completas do poema. Por facilidade do leitor deste trabalho,
reproduzimos cada uma delas nos anexos 7.2 a 7.6.
6

13
Que grácil rapaz banhado em perfumes
sobre um leito de rosas te abraça, Pirra,
dentro de uma gruta amorosa?
Para quem prendes teus louros cabelos,

Verificamos que também Falcão, para além de pequenas diferenças na tradução de


alguns vocábulos: por exemplo “grácil” em vez de “cheio de graça” para traduzir
“gracilis”, ou “amoroso” em vez do “doce” para traduzir “grato”, ou “abraçar” em vez
de “desejar” para traduzir “urgere”, parece ter arriscado algumas diferenças do texto
original. Assim, usa a expressão “leito de rosas” em vez de “tanta rosa” ou “muita rosa”,
que não aparece explicitada no original, e a palavra “líquidos” também não foi traduzida
por Falcão para qualificar os perfumes.
A grande dúvida na tradução de Alvarez reside na utilização de “A quem” em vez de
“Para quem” no quarto verso, o que terá um significado diferente.
O artigo de Américo da Costa Ramalho, também em bibliografia, permite-nos
comparações com outras tentativas de tradução da ode 1.5. Comecemos por uma
tradução do século XVI de André Falcão de Resende. As quatro estrofes latinas de
quatro versos são convertidas em quatro estrofes de seis versos cada, num total de vinte
e quatro versos, em vez dos dezasseis em latim. O acrescento de dois versos poderá ter
sido uma forma de ultrapassar o obstáculo da concisão latina, que atinge o auge em
Horácio. Os primeiro, terceiro e sexto versos em Resende têm dez sílabas e o segundo,
quarto e quinto têm seis sílabas.
O esquema rimático é ABABCC: os quatro primeiros versos são de rima cruzada e os
dois últimos, de rima emparelhada. O mesmo esquema rimático foi usado por Resende,
na tradução de outras odes de Horácio.
Que mancebo dos simpres perfumados
Tens, Pirra, ora nas redes
De teus louros cabelos encrespados,
Entre as alvas paredes
De teu fundo aposento.
Cheio de falso e vão contentamento?

O poema de Resende7 pode ser-nos útil para evidenciar como um esquema rimático e
métrico pode obrigar a um afastamento significativo do texto original pelo poeta
tradutor. Alerta-nos para estarmos preparados para alguma insatisfação, perante o
resultado que conseguiremos, limitados pelo esquema que nos auto-impusemos.
Existe uma outra tradução conhecida da ode 1.5 de Horário, do poeta inglês John
Milton, e uma de Fernando Pessoa, que, conquanto escritas em inglês, podem ser-nos
úteis, para comparar aproximações diferentes.

7
Poder-se-ia falar em rigor de um novo poema ao referir o “Para Pirra” de André Falcão de Resende, pois o poeta, ao
traduzir, realmente reescreve o poema original.

14
Milton, com uma enorme preocupação de literalidade, respeitou o texto original de cada
estrofe, mesmo na sua concisão, recorrendo a quatro versos brancos. Usa dois versos
iniciais de dez sílabas (em vez das doze dos asclepiadeu menores de Horácio), um
terceiro de seis sílabas (em vez de sete do ferecrácio de Horácio) e um quarto de seis
sílabas (em vez de oito do glicónico de Horácio). A tradução de Milton tornou-se
famosa.
What slender youth bedewed with liquid odours
Courts thee on roses in some pleasant cave,
Pyrrha, for whom bind'st thou
In wreaths thy golden hair,

A versão de Pessoa, também em inglês, inspira-se claramente na tradução de Milton.


“No vocabulário, sintagmas, frases, construções sintácticas, número de sílabas e
disposição dos versos, tudo denuncia o intermediário miltoniano”8 (Ramalho, 1988).
Mas Pessoa acrescenta uma exigência à tradução: a rima, o que “introduz uma
dificuldade adicional, que é causa provável de uma das deficiências mais salientes: a
tradução de liquidis... odoribus (v. 2), vertido por Milton literalmente (v. I), pela
expressão odours grave, em que o adjectivo parece inaceitável e motivo de
ambiguidade” (Ramalho, 1988). Observamos que a rima parce ter obrigado o texto a tornar-
se mais obscuro.
What slender youth, bedewed with odours grave.
On couch of roses in thy pleasant cave,
Pyrrha, doth court thee bold?
For whom thy locks of gold

Os anexos seguintes (7.2 a 7.6) apresentam as várias traduções que referimos da ode
1.5, mas integrais.

8
No seu artigo A.C. Ramalho mostra todas as coincidências e semelhanças entre as duas traduções, indicando os
versos ou partes de versos que são iguais ou quase iguais, realçando as palavras de início de versos que coincidem, as
mesmas opções de cesura, etc.

15
7.2 Tradução de ode 1.5 de Horácio de Beethoven Alvarez
Tradução com versos alexandrinos e octossilábicos com rima emparelhada.

Ad Pirram À Pirra

Quis multa gracilis te puer in rosa Que jovem cheio de graça, em perfumes banhado,

perfusus liquidis urget odoribus deseja-te assim, Pirra, em mil rosas deitado,

grato, Pyrrha, sub antro? numa doce gruta? Tu enfeixas

cui flauam religas comam, a quem tuas louras madeixas,

simplex munditiis? heu quotiens fidem com singelo primor? Ah!... a crença em ti quanto 5

mutatosque deos flebit! ut aspera chorará e infiéis os deuses. Com espanto

nigris aequora uentis como admirará negros ventos

emirabitur insolens, cresparem mares violentos,

qui nunc te fruitur credulus aurea, quem te desfruta agora e crê no teu valor,

qui semper uacuam, semper amabilem quem sempre teu dispor espera, sempre amor, 10

sperat, nescius aurae sem saber da brisa falaz.

fallacis. miseri, quibus Ah!... Tão infelizes aos quais

intemptata nites! me tabula sacer brilhas sem ser tocada. E as paredes sagradas,

uotiua paries indicat uuida numa placa votiva, indicam que, molhadas,

suspendisse potenti eu, ao deus dos mares potente

uestimenta maris deo. ali as vestes votei recente. 15

16
7.3 Tradução de ode 1.5 de Horácio de André Falcão de Resende
André Falcão de Resende transforma cada conjunto de quatro versos em latim em seis versos
em português, com 10 e seis sílabas !1º, 3º e 5º e 2º, 4º e 6º) com esquema de rima ABABCC

Que mancebo dos simpres perfumados


Tens, Pirra, ora nas redes
De teus louros cabelos encrespados,
Entre as alvas paredes
De teu fundo aposento.
Cheio de falso e vão contentamento?

Ah! quantas vezes esse a tua figura


E fé achará mudada.
Mentirosa tu sendo, e fé-perjura!
Sua alegria trocada
Em tristeza importuna,
E a que tem agora, em má fortuna!

Crerá cego e enganado a tua pousada


Teres sempre amorosa
E só para ele, sempre despejada;
Tua vista enganosa
E falsa não sentindo,
E as maranhas que a mil andas urdindo.

Eu tenho já a Neptuno oferecido


Em tábua alta pintada
O perdido e molhado meu vestido,
Da tormenta passada
E naufrágio, no templo.
Pêra aviso aos que amam, e pêra exemplo.

17
7.4 Tradução de ode 1.5 de Horácio de John Milton
Milton traduziu o poema latino em quadras de verso branco, com dois versos iniciais de dez
sílabas (em vez das doze do asclepiadeu menor de Horácio), e com seis sílabas no terceiro verso
(em vez das sete do ferecrácio, em Horácio ) e seis sílabas no quarto verso (em vez das oito do
gljcónico, em Horácio).

A língua inglesa permite-lhe uma concisão próxima do latim, ainda que muitas vezes à custa de
uma certa obscuridade.

What slender youth bedewed with liquid odours


Courts thee on roses in some pleasant cave,
Pyrrha, for whom bind'st thou
In wreaths thy golden hair,

Plain in thy neatness? O how oft shall he 5


On faith and changed gods complain, and seas
Rough with black winds and storms
Unwonted shall admire.

Who now enjoys thee credulous, all gold:


Who always vacant, always amiable, 10
Hopes thee, of flattering gales
Unmindful. Hapless they

To whom thou untried scem'st fair. Me, in my vowed


Picture, the sacred wall declares t'have hung
My dank and dropping weeds 15
To the stern god of sea.

18
7.5 Tradução de ode 1.5 de Horácio de Fernando Pessoa

A tradução de Pessoa é claramente influenciada por Milton, mas introduz a rima o que poderá
tornar o poema ainda de mais difícil leitura.

What slender youth, bedewed with odours grave.


On couch of roses in thy pleasant cave,
Pyrrha, doth court thee bold?
For whom thy locks of gold

Plain in thy grace dost braid? how oft shall he 5


Thy faith and changed gods bewail, and sea.
Rough with the tempest's ire.
Shall ignorant admire!

Who now enjoys thee, of thy faith too sure.


And always smiling and to him secure 10
Hopes thee, of flattery
Unmindful. Hapless he

Whom untried pleasest. Me on sacred walls


My picture sworn that my dank garb recalls
I hung at length, when free 15
To the strong god of sea.

19
7.6 Tradução de ode 1.5 por Pedro Braga Falcão

Que grácil rapaz banhado em perfumes


sobre um leito de rosas te abraça, Pirra,
dentro de uma gruta amorosa?
Para quem prendes teus louros cabelos,

tão simples na tua elegância? Ah , quantas vezes chorará 5


a tua inconstante fidelidade e a dos deuses,
e, não habituado, o tomará de assombro
o mar pelos negros ventos fustigado !

Ele que agora, crédulo, desfruta de ti, áurea,


ele que te espera sempre livre, sempre amável, 10
não conhecendo tua dolosa aura!
Infelizes aqueles para quem tu,

insondada, brilhas. Quanto a mim, uma parede


sagrada, uma placa votiva, testemunham que pendurei
minhas húmidas vestes \5
à deusa rainha do mar.

20
7.7 Tradução de ode 1.23 por Eugénio de Castro

Já depois de termos escrito a nossa versão da ode 1.23, encontrámos uma, curiosa, bastante
graciosa, de tradução bastante livre, e impondo versos de 12 e de seis silabas com rima cruzada ,
de Eugénio de Castro, poeta nascido em Coimbra, ligado ao movimento simbolista, (1869-
1944), cuja obra está digitalizada e disponível na internet. A ode foi publicada no livro Depois
da Ceifa de 1901, que inclui as traduções das odes de Horácio por Eugénio de Castro.

A CHLOE

Evitas-me, Chloé, qual veado mimoso,


Que procurando vae, em cerradas boscagens,
A inquieta mãe, candidamente receoso
Das auras e folhagens.

Tremem-lhe o coração e as pernas, quando fita


As folhas que de abril a viração esgarça,
Ou se acaso um lagarto, ao perpassar, agita,
Todo verde, uma sarça.

Leão getulio não sou, nem tigre que, em damninha


Fúria, te siga afim de te despedaçar:
Deixa emfim tua mãe! és uma mulhersinha,
Precisas de casar!

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