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Gramática histórica da

língua inglesa

Organizador
Thomas Daniel Finbow
Doutorado (D.Phil.) e Mestrado (M.Phil.) em Filologia Comparativa e
Linguística Geral pela Universidade de Oxford
Professor Doutor de Linguística Histórica
Departamento de Linguística (FFLCH) na Universidade de São Paulo

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(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Nononononononono-- São Paulo : Pearson Education do Brasil, 2016.

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1. Nonono

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2016
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sumário

Apresentação........................................................................................... VII
Prefácio........................................................................................................ IX

Unidade 1  Inglês antigo........................................................................1


Linguística histórica...................................................................................3
Famílias linguísticas.................................................................................3
Método de reconstrução comparada...............................................7
A família indo-europeia...................................................................... 21
A família germânica.............................................................................. 26
Mudança linguística................................................................................ 29
História interna versus história externa......................................... 29
Mudança fônica..................................................................................... 30
Mudança gramatical............................................................................. 31
O inglês antigo.......................................................................................... 34
História externa: as migrações germânicas à Grã­‑Bretanha..... 34
História interna: a estrutura do inglês antigo............................. 37
Os dialetos anglo-saxões.................................................................... 45
Inglês antigo em contato com outras línguas............................. 50
História externa: os reinos anglo-saxões...................................... 50
Contato com as línguas celtas.......................................................... 52
Contato com o latim............................................................................. 53
Contato com o norreno....................................................................... 54
História externa: os séculos IX e X................................................... 56
Fontes textuais.......................................................................................... 59
Beowulf...................................................................................................... 59
The Dream of the Rood.......................................................................... 60
The Anglo-Saxon Chronicle.................................................................. 60
Beda, Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum................................. 61

Unidade 2  O inglês médio................................................................. 67


História externa da Inglaterra medieval........................................ 71
A conquista normanda e o século XII............................................. 71
O século XIII: o império angevino.................................................... 78
O século XIV: a Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra............ 83
O século XV e a Guerra das Rosas.................................................... 98

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IV Gramática histórica da língua inglesa

Influências estrangeiras......................................................................100
Contato com o francês normando e o francês de Paris.........100
Contato com outras línguas............................................................108
História interna: mudanças estruturais........................................109
Fonologia...............................................................................................109
Morfologia e sintaxe...........................................................................115
Diversidade dialetal..............................................................................120
Os dialetos medievais do inglês e do escocês..........................122
Literatura medieval...............................................................................130
Peterborough Chronicle...................................................................131
Sir Gawain and the Green Knight..................................................... 133
Geoffrey Chaucer.................................................................................135
The Paston letters.................................................................................. 137

Unidade 3  O inglês pré-moderno.................................................147


História externa: a Renascença, a Reforma, a Guerra Civil
Inglesa, a Restauração da monarquia e a “Revolução
Gloriosa”................................................................................................151
Henry VII..................................................................................................153
Henry VIII................................................................................................156
Edward VI................................................................................................161
Mary I.......................................................................................................163
Elizabeth I...............................................................................................164
James I.....................................................................................................168
Charles I...................................................................................................170
Charles II.................................................................................................176
James II....................................................................................................177
História interna: mudanças estruturais........................................178
Fonologia...............................................................................................178
Morfossintaxe.......................................................................................191
Léxico.......................................................................................................207
Ortografia, gramáticas e dicionários.............................................217
Ortografia...............................................................................................217
Gramáticas e dicionários ..................................................................221
Textos pré-modernos...........................................................................227
Poesia e teatro elizabetanos............................................................228
Shakespeare e a Bíblia King James................................................238
Ben Jonson e os poetas metafísicos.............................................243
John Milton e John Bunyan.............................................................246
Daniel Defoe e Jonathon Swift.......................................................252

Unidade 4  O inglês moderno.........................................................269


Variação e mudança na América do Norte..................................274

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Sumário V

A constituição do inglês americano.............................................274


Inglês no Canadá.................................................................................278
Diferenças entre o inglês americano e o inglês britânico....280
Variação global.......................................................................................285
Inglês no Caribe...................................................................................285
Inglês na África.....................................................................................290
Inglês na Ásia........................................................................................298
Austrália e Nova Zelândia.................................................................301
Variação nas ilhas britânicas e na Irlanda...................................305
Inglaterra................................................................................................305
Escócia.....................................................................................................310
País de Gales..........................................................................................313
Irlanda......................................................................................................315

Referências..............................................................................................323

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a p r e s e n taç ão

Nos catálogos de livros universitários há vários títulos cuja pri-


meira edição saiu há 40, 50 anos, ou mais. São livros que, graças à
identificação da edição na capa (e somente a ela), têm sua idade re-
velada. E, ao contrário do que muitos podem imaginar, isso não é um
problema. Pelo contrário, são obras conhecidas, adotadas em diversas
instituições de ensino, usadas por estudantes dos mais diferentes per-
fis e reverenciadas pelo que representam para o ensino.
Qual o segredo de sucesso desses livros? O que eles têm de
diferente de vários outros que, embora tenham tido boa aceita-
ção em um primeiro momento, não foram tão longe? Em poucas
palavras, esses livros se adaptaram às novas realidades ao longo
do tempo, entendendo as mudanças pelas quais a sociedade – e,
consequentemente, as pessoas – passava e as novas necessidades
que se apresentavam.
Para que isso fique mais claro, vamos pensar no seguinte: a
maneira como as pessoas aprendiam matemática na década de
1990 é igual ao modo como elas aprendem hoje? Embora os ali-
cerces da disciplina permaneçam os mesmos, a resposta é: não!
Nesse intervalo de tempo, ocorreram mudanças significativas – a
Internet se consolidou, os celulares se popularizaram, as redes so-
ciais surgiram etc. E todas essas mudanças repercutiram no modo
de vida das pessoas, que se tornou mais rápido e desafiador, trans-
formando os fundamentos do processo de ensino/aprendizagem.
Foi com base nisso que nasceu a Bibliografia Universitária
Pear­son (BUP). Concisos sem serem rasos e simples sem serem
simplistas, os livros que compõem esta série são baseados na
premissa de que, para atender sob medida às necessidades tan-
to dos alunos de graduação como das instituições de ensino –
independente­mente de eles estarem envolvidos com ensino presen-
cial ou a distância –, é preciso um processo amplo e flexível de
construção do saber, que leve em conta a realidade em que vivemos.
Assim, as obras apresentam de maneira clara os principais
conceitos dos temas propostos, trazendo exatamente aquilo que
o estudante precisa saber, complementado com aprofundamentos

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VIII Gramática histórica da língua inglesa

e discussões para reflexão. Além disso, possuem uma estrutura didática que propõe uma
dinâmica única, a qual convida o leitor a levar para seu dia a dia os aspectos teóricos apre-
Gramática histórica da língua inglesa

sentados. Veja como isso funciona na prática:


A seção “Panorama” aprofunda os tópicos abordados ao mostrar como eles funcionam
Temas
na 1prática, promovendo
– Linguística histórica interessantes reflexões. Inglês antigo 63

Neste tema, conheceremos o conceito de família linguística, as


aplicações da reconstrução comparada e as mudanças sonoras
que ocorreram na família indo-europeia. Exploraremos tam-
bém as línguas germânicas, aprendendo quais são suas raízes
e classificações. Panorama
2 – Mudança linguística
No segundo tema, aprenderemos as diferenças entre história Diferenças entre linguagem, línguas e dialetos
interna e história externa, conhecendo os aspectos sonoros
das línguas e as principais
Emalterações
português,linguísticas em relação
há distinção a
entre linguagem, lín- veiculada em alguma língua específica, adquirida
morfologia, sintaxe, léxico e semântica.
guas e dialetos. Possivelmente você já deve ter ouvi- pelos indivíduos no processo de aquisição da língua
3 – O inglês antigo do falar sobre os três termos, não é mesmo? São três materna. A língua é, sobretudo, um instrumento re-
Em seguida, estudaremos a história
palavras externa
distintas da cumprem
que estruturação do mesma fina-
uma lacional que estrutura o sistema de comunicação
inglês, avaliando o contexto histórico das migrações germâni-
lidade: promover a comunicação entre os falantes. de algum grupo e possibilita a formação de signos
cas na Grã-Bretanha. Analisaremos também os principais diale-
Contudo,West
tos anglo-saxões: Northumbrian, embora linguagem,
Saxon, Mercian e língua,
Kentish.idioma e dia- linguísticos (morfemas, palavras, frases e sentenças),
leto sejam termos corriqueiros, os sociolinguistas, e permite a transmissão de mensagens entre indiví-
4 – Inglês antigo em contato com outras línguas
aqueles
Aprenderemos, neste tema, o quequefoi aestudam a relação
heptarquia, entre a língua e
relacionan- duos (codificação e descodificação de significado),
a sociedade,
do os aspectos particulares de cada umtendem a evitá-los,
dos sete queAo
já que, especial-
grande reinos longo
é a sua do livro,
maior finalidade. Ou seja,o
umaleitor
língua ése depara com
Saiba mais Exemplo
anglo-saxões: Sussex, Kent,
Northumbria.
Wessex,
mente East Anglia,
linguagem, Essex,
língua e Mercia
vários
dialeto,e pressupõem
hipertextos. Classificados como “Saiba
um “princípio estruturador” ou, em outras palavras,
algumas relações hierárquicas que carecem de é uma certa organização de conceitos, do sistema
5 – Fontes textuais bons fundamentos científicos, e seu uso quotidia- mais”, sonoro e “Exem­ plo”,
dos elementos “Fique
gramaticais que é atento”
com- e “Link”,
Por fim, avaliaremos algumas dascausar
mais relevantes
Link obras do in-
Fique atento no pode mal-entendidos.
glês antigo, reconhecendo seu enorme valor para as pesquisas esses hipertextos
partilhada pelos membrospermitem
de determinadoao aluno
grupo ir além em
social por terem-na aprendido. Os falantes de uma
linguísticas e sua importância para a literatura inglesa.
Linguagem suas
línguapesquisas, oferecendo-lhe
servem-se dela para estabelecer interaçõesamplas possibi-

Introdução Para os linguistas, a linguagem é a faculdade ge- lidades de aprofundamento.


com a sociedade em que vivem.
nérica e inata que todo ser humano possui para Quando dizemos que a língua é um instrumento
Seja como for o que penses, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras.
aprender alguma língua ou algumas línguas nati- do povo, dizemos que, embora existam normas
vamente. Tal capacidade é específica à nossa espé-
(William Shakespeare)
A linguagem
gramaticais, de significado dialógica
e de pronúncia aproxima
(as o es-
Nesta unidade trataremos da linguística histórica. Iniciaremos nossos
cie, uma herança genética que possibilita qualquer
estudos aprendendo o conceito de família linguística e como funciona tudante dos temas abordados,
normas reais reveladas nas práticas linguísticas
cotidianas da comunidade de falantes nativos,
eliminando
criança a adquirir qualquer língua natural apenas
o método da reconstrução comparada de linguagens. Conheceremos
por exposição
também as modificações sonoras a pessoas
ocorridas na falando-a, sem nenhuma
família indo-europeia,
qualquer
não as normas obstáculo para seu
prescritivas da gramática tradi- entendimento
além de investigar as origensinstrução formal.
e classificações Por
das mais germânicas.
línguas que um filhote de gato, e incentivando o estudo.
cional), cada falante desenvolve uma forma de
cachorro ou papagaio conviva com seres huma- expressão própria, originando aquilo que cha-
nos, embora possa aprender a reconhecer diversas mamos de fala. No entanto, qualquer fala, em-
palavras e expressões (e até57enunciar algumas, no A diagramação contribui para que o estu-
Inglês antigo
bora possa ser individual, distintiva e criativa, é
caso do papagaio), ele nunca aprenderá a dominar regida sempre por regras maiores e mais gerais
dante registre ideias e faça anotações, intera-
Os avanços vikings e a ascensão do reino de Wessex
As invasões dos vikings, principalmente do grande exército
dinamarquês, desestruturaram a geografia social e política da Grã- a língua dos donos da mesma maneira que uma (as normas da língua). Caso contrário, cada um
criança se tornar um falante nativo, capaz de pro- gindo
de nós com
acabariaocriando
conteúdo.
-Bretanha e da Irlanda. No entanto, em 878, a famosa vitória do
rei Alfredo sobre os vikings, em Edington, freou a investida di-
namarquesa. Porém, a Nortúmbria já se tornara um reino viking, sua própria língua, o
enquanto a Mércia foi partida ao meio e a Ânglia Oriental já não
mais era um território político anglo-saxão. Os reinos pictos, es-
coceses (imigrantes do norte da Irlanda que fundaram um reino na
duzir sentenças inteiramente originais, nunca an- que impossibilitaria a comunicação, porque nin-
costa sudoeste da futura Escócia – em latim, os irlandeses eram
chamados Scotti) e galeses também foram abalados pelos ataques tes ouvidas, e de interpretá-las. guém compartilharia as normas para decifrar as
vikings, que certamente também contribuíram para a constituição
do Reino de Alba, que mais tarde formaria a Escócia. Todastransmitidas.
mensagens essas características
Na fala encontramos deixam claro
Língua
que os livros da Bibliografia Universitária
muitas variações linguísticas, que jamais devem
Figura 1.10 Divisão da Inglaterra no século X.

Cedido à Escócia c. 975

ST LOTHIAN Assentamento norueguês

ser vistas como transgressões, mas como prova


N

Uma língua é uma manifestação da Linguagem. Não


O

A Bamburgh Assentamento dinamarquês


TH
RT

podemos acessar a Linguagem, nossa capacidade Pearson constituem


é viva e dinâmica, aum
não serimportante aliado
Fronteira do reino de
HU
C

Guthrum
LY

M B ne

Rio
Ty
D

55º N

de que a língua que as


E

RIA

Carlisle English Frontier, 927


Rio
Eamont Tee
s Mar

linguística geral, de forma direta, pois ela sempre é para estudantes conectados e professores ob-
do

variantes consideradas “erradas” ocorram na boca


Rio Ouse

REINO Norte
Ilha de Man York
Fronteira inglesa, 920
DE YORK
Manchester

jetivos – ou seja, para o mundo de hoje – e


Thelwall
Rio Trent

Bakewell
Runcorn Davenport
Dublin Chester Eddisburg Lincoln Fronteira inglesa, 917
TERRA DOS
Mar
MÉRCIA CINCO BURGOS
da
Stafford
Irlanda ÂNGLIA
se

Tamworth
Rio

INGLESA
Rio Ou

certamente serão lembrados (e usados) por


Thetford
Sev

O R I E N TA L
ern

Bedford
Cambridge
Gloucester
Buckingham
Hertford
Cricklade Maldon
OCEANO Wallingfdord

muito tempo.
Malmesbury
ATLÂNTICO Rio Thames London
Bath
Canterbury
W E S S E X Winchester
Porchester Hastings
Southhampton
Lydford Exeter Chichester
Wareham
Rio
Tam

Ilha de Wight
ar

ancha
l da M
Cana

Fonte: adaptada de Blair (1984, p. 89).

Boa leitura!

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p r e fác i o

Este livro não pretende oferecer aos leitores não especialistas ape-
nas uma introdução ao percurso histórico do inglês traçada em termos
das modificações das estruturas linguísticas. Também buscamos, no
entanto, fornecer aos interessados os fundamentos da linguística his-
tórica descritiva e comparada, além de um embasamento em aspectos
da sociolinguística variacionista, além de determinados elementos da
filologia e noções da história dos povos anglófonos. Nosso objetivo é,
portanto, ambicioso, motivado pelo desejo de proporcionar aos estu-
dantes uma base geral em linguística, por meio da linguística histórica
do inglês. Por conseguinte, visamos ir além do tratamento oferecido
nos compêndios clássicos de “gramática histórica”, juntando à história
interna e à história externa da língua inglesa diversas reflexões acerca de
várias questões teórico-práticas ligadas à pesquisa linguística em uma
capacidade mais genérica, para enfatizar a importância de se enxergar
a situação linguística em qualquer momento da perspectiva mais ampla
possível. Esperamos que o aluno conclua seus estudos com uma noção
de quão multifacetado é o trabalho do linguista na hora de lidar com a
fantástica diversidade e a riqueza da linguagem humana, apresentada
sob o viés de uma das línguas mais faladas no mundo.
É inegável que o inglês é uma língua importantíssima ao redor do
mundo. Por isso, ela merece o interesse dos cientistas e das pessoas de
modo geral. Por outro lado, jamais podemos perder de vista a maneira
pela qual a língua inglesa chegou a tal posição: mais por casualidade his-
tórica que por qualquer outro mérito próprio. Ninguém que contemplasse
os dialetos germânicos migrantes no leste da Grã-Bretanha no século VI
d.C. apostaria que alguns de seus descendentes se tornariam uma força
global. Em outras palavras, toda e qualquer língua é um objeto de análise
interessante e que vale a pena conhecer e investigar, pois todas elas são
incrivelmente ricas e é muito difícil deduzir como as coisas vão se desen-
volver no futuro!
Iniciamos a Unidade 1 com a identificação das relações de parentes-
co na família indo-europeia. Depois, apresentamos os diferentes tipos de
mudança que impactam as estruturas linguísticas. Descrevemos o ramo
germânico do indo-europeu, ao qual o inglês pertence e as características

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X Gramática histórica da língua inglesa

do inglês antigo, como o contexto histórico que levou os povos litorâneos do


noroeste europeu a se deslocar para a ilha da Grã-Bretanha e se estabelecer por
lá. Abordamos como o contato com os povos e as línguas dessa ilha influen-
ciou na evolução e diversificação do inglês antigo. Finalmente, oferecemos
uma breve amostra literária (em prosa e em verso) do inglês antigo.
Abrimos a Unidade 2 com uma apresentação panorâmica da história da In-
glaterra medieval com foco em quatro períodos: a primeira dinastia normanda;
a constituição do Império angevino sob Henrique II e Eleonora de Aquitânia; a
Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França; e a guerra civil conhecida
como a “Guerra das Rosas”. Além dos acontecimentos políticos, destacamos
as diferentes contribuições socioculturais de cada período histórico e o im-
pacto nas questões linguísticas. A segunda parte da Unidade 2 se concentra
na enorme contribuição da língua francesa à formação do léxico inglês. O
terceiro tema explica as mudanças que afetaram as demais estruturas da língua
inglesa (os sons e a gramática) durante o período medieval. E o quarto tema
segue exemplificando a grande diversidade dialetal que caracteriza o inglês
médio. Encerramos com alguns monumentos literários medievais.
A Unidade 3 apresenta o período pré-moderno e começa com a aci-
dentada história externa, fundamental à construção da identidade britânica
moderna. A seguir, apresentamos as mudanças estruturais que converteram
os dialetos medievais em algo que nos é reconhecível como inglês. A ter-
ceira parte proporciona um panorama dos debates sobre a melhor maneira
de regular e codificar a língua em dicionários, gramáticas e tratados de
ortografia. Novamente, fechamos a unidade com uma passagem pelos mais
conceituados autores da língua inglesa do período: Shakespeare, John
Milton, Daniel Defoe e Jonathan Swift.
A Unidade 4 fala da diversidade do inglês como um idioma global. Co-
meçamos com o estabelecimento do inglês em territórios norte-americanos
e a evolução dos vários tipos de inglês falados nos Estados Unidos e no Ca-
nadá. Seguimos em frente, comparando o padrão britânico ao padrão ame-
ricano. No terceiro tema descrevemos as variedades do inglês pelo mundo.
Por fim, voltamos às origens para tratar da diversidade dialetal nas Ilhas
Britânicas e na Irlanda.
Concluindo, nosso objetivo é fundamentar os principais aspectos da lin-
guística geral, linguística histórica e sociolinguística para o leitor não espe-
cialista e sem conhecimentos prévios por intermédio da evolução da língua
inglesa. Esperamos que o presente livro tenha algo a oferecer para qualquer
pessoa que deseja se iniciar no instigante mundo da linguística sócio-históri-
ca e da fascinante história do inglês.
Bons estudos!
Thomas Finbow

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unidade 1
Inglês antigo
Objetivos de aprendizagem
Explorar o campo da linguística histórica, compreendendo o caráter
mutável das línguas e as relações existentes entre elas.
Descobrir as chamadas famílias linguísticas, aprendendo como fun-
ciona o método de reconstrução comparada e analisando os pa-
drões de alterações sonoras na família indo-europeia.
Conhecer as origens e a classificação tradicional das línguas
germânicas.
Diferenciar história interna e história externa e aprender como a fo-
nética e a fonologia formam o panorama sonoro das diversas línguas.
Investigar as transformações linguísticas possíveis nos contextos
morfológico, sintático, lexical e semântico-pragmático.
Conhecer a história externa da formação da língua inglesa, abordan-
do principalmente as migrações germânicas às ilhas britânicas.
Analisar a estrutura do inglês antigo e explorar os quatro principais
dialetos anglo-saxões da época: Northumbrian, West Saxon, Kentish e
Mercian.
Estudar a chamada heptarquia, conhecendo os sete maiores rei-
nos anglo-saxões: Kent, Sussex, Wessex, East Anglia, Essex, Mercia e
Northumbria.
Reconhecer a influência das línguas celtas, do latim e do norreno na
formação da língua inglesa.
Pesquisar a história externa do inglês antigo, analisando a trajetória
das invasões vikings e a unificação do reino da Inglaterra.
Conhecer as principais fontes textuais do inglês antigo, descobrindo
a importância dessas obras para o estudo da linguística.

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2 Gramática histórica da língua inglesa

Temas
1 – Linguística histórica
Neste tema, conheceremos o conceito de família linguística, as
aplicações da reconstrução comparada e as mudanças sonoras
que ocorreram na família indo-europeia. Exploraremos tam-
bém as línguas germânicas, aprendendo quais são suas raízes
e classificações.
2 – Mudança linguística
No segundo tema, aprenderemos as diferenças entre história
interna e história externa, conhecendo os aspectos sonoros
das línguas e as principais alterações linguísticas em relação a
morfologia, sintaxe, léxico e semântica.
3 – O inglês antigo
Em seguida, estudaremos a história externa da estruturação do
inglês, avaliando o contexto histórico das migrações germâni-
cas na Grã-Bretanha. Analisaremos também os principais diale-
tos anglo-saxões: Northumbrian, West Saxon, Mercian e Kentish.
4 – Inglês antigo em contato com outras línguas
Aprenderemos, neste tema, o que foi a heptarquia, relacionan-
do os aspectos particulares de cada um dos sete grande reinos
anglo-saxões: Sussex, Kent, Wessex, East Anglia, Essex, Mercia e
Northumbria.
5 – Fontes textuais
Por fim, avaliaremos algumas das mais relevantes obras do in-
glês antigo, reconhecendo seu enorme valor para as pesquisas
linguísticas e sua importância para a literatura inglesa.

Introdução
Seja como for o que penses, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras.
(William Shakespeare)

Nesta unidade trataremos da linguística histórica. Iniciaremos nossos


estudos aprendendo o conceito de família linguística e como funciona
o método da reconstrução comparada de linguagens. Conheceremos
também as modificações sonoras ocorridas na família indo-europeia,
além de investigar as origens e classificações das línguas germânicas.

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Inglês antigo 3

Em seguida, definiremos os conceitos de história interna e história


externa, compreendendo como o padrão sonoro de uma língua é
formado a partir da fonologia e da fonética. Abordaremos também
as mudanças linguísticas que podem ocorrer nos campos sintático,
morfológico, semântico-pragmático e lexical.
Além disso, analisaremos a história externa da construção da língua
inglesa, estudando a chegada germânica ao território britânico e co-
nhecendo os quatro principais dialetos anglo-saxões. Aprenderemos
ainda o que foi a famosa heptarquia, descobrindo como as línguas
celtas, latim e norreno contribuíram com a formação do inglês antigo.
Por fim, examinaremos o contexto histórico das invasões vikings, que
acompanhou o processo de consolidação do reino inglês, além de
explorarmos as mais importantes fontes textuais do inglês antigo.

Linguística histórica
Famílias linguísticas
Ao explorarmos o vasto campo da linguística histórica, deve-
mos ter em mente uma de suas características fundamentais: a na-
tureza dinâmica e mutável das línguas humanas. Essas mudanças
que as línguas sofrem ao longo do tempo, contudo, não descarac-
terizam seu potencial semiótico ou sua plenitude estrutural. Ou
seja, apesar das variações geográficas, socioculturais, cronológi-
cas e de uso, as línguas mantêm sempre uma organização básica,
viabilizando seu uso contínuo e desimpedido pelos falantes e pre-
servando, assim, sua funcionalidade social.
O fim do século XVIII foi marcado por diversas pesquisas
científicas dedicadas a investigar a história das línguas ao redor
do mundo. Nessa época, foram realizadas análises pioneiras dos
diversos grupos de línguas, em um padrão sistemático e específico,
visando fundamentalmente descobrir correlações entre eles que pu-
dessem demonstrar relações de parentesco entre as línguas. A espe-
rança dos estudiosos era que, caso fossem encontradas evidências
contundentes nesse sentido, seria possível comprovar a existência
de uma fonte comum, uma língua-mãe global que teria originado
todas as demais, tal como narra a história bíblica da torre de Babel.
No continente europeu, já se sabia da evidente origem latina
das línguas italiana, francesa e espanhola, entre outras. Contudo,
a principal dificuldade para os estudiosos que se interessavam pe-
las relações de parentesco entre as línguas era metodológica: eles

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4 Gramática histórica da língua inglesa

não tinham desenvolvido nenhum método sistemático para deci-


Saiba mais dir quais semelhanças eram relevantes e quais não tinham impor-
tância. Além disso, não houve consenso sobre a regularidade da
O prefixo “proto”
mudança estrutural ou, inclusive, se as línguas podiam mudar de
significa que a língua
forma independente, por gerar inovações, ou se as diferenças eram
não está atestada
o resultado da “mistura” de línguas de tipos diferentes.
em nenhum livro
Porém, com o emprego de novas técnicas capazes de solucio-
ou inscrição, pois
nar parte desses problemas em grupos mais extensos de línguas,
existia muito antes da
foram encontrados fortes indícios da existência de uma língua
invenção da escrita
(ou, após a invenção
pré-histórica que teria gerado a maioria das línguas da Eurásia.
da escrita, significa
Essa língua passaria a ser conhecida como protoindo-europeu e,
que os falantes não a partir de então, vários outros grupos de línguas passaram a ser
a conheciam), mas estudados com base no mesmo método de pesquisa.
sua estrutura fônica,
gramatical e seu
vocabulário foram Fique atento
reconstruídos por
Por meio da comparação entre várias línguas, os pesquisadores conseguiram
meio do método
identificar relações sistemáticas entre sua estrutura linguística (os sons, os pa-
comparativo aplicado
radigmas flexionais de declinação de caso nos nomes e adjetivos e na conju-
às descendentes dessa
gação dos verbos), deduzindo que, por existir tantos paralelos repetidos com
língua ancestral, das
tanta frequência, elas devem ser originadas de uma fonte em comum. O pa-
quais temos registros
norama linguístico da Europa teve grande importância nesse processo, com
escritos.
a percepção de importantes similaridades e diferenças, por exemplo, entre
palavras nas línguas italiana, francesa, espanhola e portuguesa. Um exemplo
disso são as expressões para “caro” e “campo” em algumas línguas neolatinas:

Francês Italiano Espanhol Português


cher caro caro caro
champ campo campo campo

Nestas palavras, o fonema francês /ʃ/, representado por ch, apresenta clara
relação de correspondência com o fonema /k/, simbolizado por c em vocá-
bulos italianos, espanhóis e portugueses.
A partir dessa comparação, é possível dizer que ao menos alguns termos
com o fonema francês /ʃ/ são derivados do fonema mais antigo /k/, passan-
do por mudanças fonéticas e fonológicas até estabelecer-se em sua forma
atual /ʃ/. Essa teoria pode ser confirmada por outros exemplos, tais como:

Francês Italiano Espanhol Português Latim


chandelle candela candela candeia candela
chez casa casa casa casa

Fonte: adaptado de Lehmann (1992, p. 6-7).

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Inglês antigo 5

É frequente a alusão a árvores genealógicas ou famílias lin-


guísticas nesse processo de análise de laços históricos entre as
línguas. No caso das línguas românicas, como o espanhol, o fran-
cês, o italiano etc., elas são consideradas línguas “filhas” da língua
“mãe”, o latim. Assim, o italiano pode ser entendido como uma
língua “irmã” do francês e do espanhol. De modo similar, a língua
protoindo-europeia (PIE) representa a língua-mãe na família indo-
-europeia, tendo o latim, o grego, o sânscrito e muitas outras como
línguas-filhas (CRYSTAL, 1992).

Saiba mais
Teoria da árvore genealógica ou família linguística
A teoria da árvore genealógica ou família linguística (Stammbaumtheorie) foi
desenvolvida pelo linguista austríaco August Schleicher. Embora Schleicher
utilizasse o conceito da evolução, sua interpretação dessa noção ainda in-
cluía muitos princípios da ciência natural pré-Darwiniana. Ele introduziu o
conceito de linguagem como um organismo que pode nascer, evoluir, en-
trar em decadência e morrer, sujeito a transformações que podemos analisar
por meio de métodos do campo da biologia. Por esse motivo, em meados
do século XIX os linguistas consideravam apropriado descrever as relações
entre línguas com a terminologia do parentesco biológico. Para cada “ramo”
ou “galho” que se separa dos demais na árvore genealógica, a bifurcação cor-
responde a uma ou várias mudanças que separa as filhas de determinada
língua-mãe entre si e da sua antecessora comum.

Embora a metáfora das famílias linguísticas seja útil para


a compreensão do fenômeno das relações de parentesco entre
línguas e para a cronologia da formação de novas línguas, é
importante reconhecer que essa abordagem não corresponde a
uma sequência linear e padronizada. Ou seja, uma língua-mãe
pode deixar de existir após o “nascimento” de línguas-filhas,
pode coexistir com suas filhas e até sobrevivê-las, pode inte-
ragir com suas filhas, ou pode desenvolver-se de modo relati-
vamente autônomo. A trajetória de constituição de uma nova
língua, portanto, é repleta de pequenas e constantes transfor-
mações, influenciadas pelas diferentes reações dos diversos
grupos sociais e pelas inovações que surgem constantemente
entre seus membros.

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6 Gramática histórica da língua inglesa

Exemplo
Não são apenas as línguas indo-europeias que podem ser agrupadas em fa-
mílias e subfamílias. Aproximadamente 7.000 famílias linguísticas vivas já fo-
ram identificadas (ainda há outras muitas já extintas). As línguas urálicas são
um exemplo típico do conceito de família linguística. Elas formam uma família
de línguas euroasiáticas oriundas dos Montes Urais e faladas por aproximada-
mente 20 milhões de pessoas. O estoniano, o finlandês e o húngaro são as
três línguas dessa família com maior quantidade de falantes. No caso brasileiro,
podemos citar o tupi, que é composto por 10 famílias, algumas delas, como o
tupi-guarani, com até 40 línguas.

  Figura 1.1  Família de línguas urálicas. 


Samoieda yurak
Norte Samoieda do Yenisei

Samoieda Tavgi
Urálico
(c. 4000 a.C.) Selcupe
(Camassiano)
Sul
(etc.)
Ob-úgrico Ostíaco
Vógul
Fino-úgrico Úgrico
(c. 3000 a.C.) Montes Urais
Húngaro
Permiano
Votiáco
Ziriano
Fínico
(c. 1500 a.C.) Fínico volgaico Mordoviano
Cheremise
Fínico Lapão (Divisão c. 750 d.C.) Lapão oriental
báltico
(c. 500 a.C.) Lapão setentrional
(Divisão Lapão meridional
c. 1 d.C.)
Finlandês Lude Ingriano Estoniano Livônio
Estoniano
Carélio Vepsa Votiano
meridional
Fonte: Anttila (1972, p. 301).

O século XX trouxe novas nomenclaturas e classificações


para esse processo. O termo “família” ainda é utilizado como uma

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Inglês antigo 7

designação genérica para grupos de línguas que apresentam correla-


ções históricas, porém em algumas classificações é estabelecida uma
diferenciação quanto à intensidade dessas relações. Assim, o termo
“família” geralmente é empregado para nomear línguas muito próxi-
mas, enquanto a expressão “filo” ou “tronco” diz respeito a línguas
com conexões mais superficiais. O termo “macrofilo” ou “superfamí-
lia”, por sua vez, é utilizado para descrever grupos de línguas com li-
gações ainda mais indefinidas e fracas do que as observadas nos filos.
As línguas aborígenes da Austrália, por exemplo, embora se-
jam claramente relacionadas entre si, não apresentam evidências
históricas de conexões claras acima do nível da família – diferente
do indo-europeu, em que os ramos podem ser agrupados em fa-
mílias sucessivamente maiores –, razão pela qual costumam ser
classificadas como filo ou macrofilo australiano, em vez de fa-
mília australiana, pois algumas famílias menores não se deixam
aglomerar no bloco maior chamado “pama-nyungano”. Portanto,
embora os linguistas suspeitem que a relação genealógica entre
essas famílias linguísticas exista, ainda não foi possível compro-
vá-la definitivamente pelo método comparativo e fala-se de “filo”
ou “macrofilo”, já que esses termos apontam para uma relação
possível, porém, menos segura. No Brasil, as línguas indígenas do
grupo macro-jê apresentam uma situação parecida.
Na classificação genética das línguas, as relações linguísticas são
determinadas quanto ao grau de “parentesco”; assim, temos as cha-
madas “línguas-mães”, “línguas-filhas”, “línguas-irmãs” e “famílias
de línguas”. Desse modo, se o processo de reconstrução obtiver êxito,
serão comprovadas as relações existentes entre as línguas abordadas.

Método de reconstrução comparada


No ano de 1808, foi publicada a obra Über die Sprache und die
Weisheit der Indier, do alemão Friedrich Schlegel, reconhecida
como marco inicial das pesquisas comparativistas. Nela, Schlegel
realiza comparações sistemáticas entre línguas antigas europeias
e o sânscrito, e propõe métodos de classificação entre as diversas
línguas, buscando determinar seu parentesco e descobrir sua as-
cendência comum.
De acordo com Crystal (1992), o método comparativo é um
modo de comparar sistematicamente uma série de línguas, visando
provar relações históricas entre elas. Primeiro, partindo do nível
dos sons, os pesquisadores descobrem uma série de similaridades

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8 Gramática histórica da língua inglesa

e divergências entre as línguas, buscando em seguida reconstruir


uma fase inicial de evolução comum a todas elas. Essa prática é
chamada de reconstrução comparada. Nela, línguas que provam
ter a mesma ancestral são conhecidas como cognatas.
Essa relação é mais facilmente constatada quando a existência
da língua-mãe é comprovada, como no exemplo das várias pala-
vras para pai nas línguas indo-europeias:

Protoindo- Grego Irlandês


Latim Sânscrito Gótico Esquimó
-europeu clássico antigo
pǝtér páter patḗr pitā fádar áthir ataataq

Como podemos ver, todas as formas acima, exceto a palavra


esquimó, podem ser derivadas regularmente da palavra em PIE
*pǝtér. O esquimó se deixa excluir por não ser possível estabelecer
correspondências sistemáticas entre os fonemas que compõem a
palavra /ata:taq/ e as formas fonológicas dos demais vocábulos.
Assim, mesmo que o PIE não existisse mais, seria viável recons-
truir sua estrutura a partir desse tipo de comparação entre várias
palavras. Essa técnica comparativa é empregada de modo análogo
quando a língua-mãe foi extinta, como no caso da língua indo-
-europeia. Nesse caso, as formas em latim, grego, sânscrito, eslavo
antigo, armênio etc. para pai, por exemplo, são comparadas visan-
do a reconstrução do termo original indo-europeu, *pǝter. Cabe
ressaltar que, no estudo de linguística histórica, o uso de asterisco
precedendo uma palavra significa que esse termo é uma reconstru-
ção, não apresentando comprovação escrita em registros históricos.
A pronúncia dos termos reconstruídos é um tema extensamente
debatido entre os linguistas; enquanto alguns atribuem característi-
cas fonéticas a eles e os pronunciam dessa forma, outros defendem
que isso não é adequado, dado o grau de abstração de tais termos e
a natureza hipotética e probabilística das formas propostas.

Abordagem genética das linguagens


Podemos dizer que duas línguas de uma mesma família de
línguas são geneticamente relacionadas, ou seja, são cognatas,
quando elas se originam ou “descendem” da mesma língua origi-
nal; e quando essa língua-mãe é reconstruída, ela é então chama-
da de protolíngua. Quer dizer, o latim e o inglês antigo não são
protolínguas, apesar de serem a mãe do português e do inglês,

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Inglês antigo 9

respectivamente, por serem línguas atestadas em manuscritos e


inscrições, mas o PIE ou o protogermânico são protolínguas, por
serem fruto de reconstrução.
A reconstrução de linguagens por meio do método comparati-
vo objetiva recuperar o máximo possível da língua ancestral ou da
protolíngua, comparando as línguas descendentes e buscando esta-
belecer quais foram as transformações sofridas por elas. A fonologia
costuma ser o primeiro aspecto analisado nesse processo, que tenta
inicialmente reconstruir o sistema sonoro. Em seguida, são estudadas
características inerentes ao vocabulário e à gramática da protolíngua.
Por meio da comparação entre as características herdadas por
cada língua-irmã românica, por exemplo, almeja-se reconstruir os
aspectos linguísticos da língua protorromânica – que não é idên-
tica ao latim devido às formas presentes no latim que desaparece-
ram totalmente na passagem às línguas-filhas sem deixar nenhum
rastro e que, portanto, não podem ser reconstruídas. Um exemplo
disso é o fato de sabermos que o latim tinha /h/ apenas porque os
romanos nos contaram, esse som não continuou em nenhuma lín-
gua neolatina. A língua protorromânica apresenta os aspectos mais
falados do latim na época em que começou a sofrer suas primeiras
variações e fragmentações, que posteriormente se converteram
em suas línguas “descendentes”.
O êxito nessa trajetória de pesquisa depende de uma série de
fatores, como evidências de características originais da língua-
-mãe nas línguas-filhas e a habilidade no emprego de técnicas do
método comparativo.

Exemplo
No caso de línguas amplamente documentadas, como o latim, é possível veri-
ficar se as características que descobrimos por meio do método comparativo
são compatíveis com os registros escritos. Quando pesquisamos muitas famí-
lias de linguagens, porém, esse recurso de conferir as reconstruções não está
disponível. A língua protogermânica, originadora da família à qual pertence o
inglês, é um exemplo disso, uma vez que não existe qualquer documentação
escrita dela, que é reconhecida apenas por meio de reconstrução comparada.
Todas as línguas existentes atualmente que possuem línguas-parentes apre-
sentam um histórico nas famílias de línguas. Por meio da aplicação do méto-
do comparativo às línguas-parentes das quais possuímos registros é possível
reconstruir a língua-mãe original.

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10 Gramática histórica da língua inglesa

Assim sendo, é realizado um processo de comparação entre a língua inglesa e


suas línguas-parentes, tais como o alemão, o sueco, o dinamarquês e o islan-
dês, visando compreender as características da protolíngua protogermânica.
O inglês, portanto, representa um dialeto do protogermânico que passou
por grandes e contínuas transformações até se tornar a língua que hoje co-
nhecemos, diferenciando-se assim de suas línguas-irmãs, que tiveram suas
próprias modificações. É importante observar que todas as protolínguas já
foram línguas reais, ainda que as pesquisas atuais ainda não sejam capazes
de reconstrui-las em sua totalidade.

 Figura 1.2  Família de linguagens protorromânica e genealogia


espanhola.
Protorromânico
(bisavó)

Românico ocidental Românico oriental


(avó)

Ibero-românico Galo-românico Ítalo-dálmata Românico dos


(mãe) Balcãs

Ocidental Norte
(irmã)

Românico

Galego Espanhol Occitano


Catalão Reto-
Português Francês Sardo Italiano Dálmata
(irmã) -românico
Fonte: Campbell (1998, p. 110).

Padrões de mudanças sonoras na família indo­


‑europeia
A família indo-europeia teve grande influência sobre o processo
evolutivo da linguística histórica. As Leis de Grimm, Grassmann e
Verner são grandes marcos na história indo-europeia e na das línguas
em geral, e compreendê-las é fundamental para o entendimento do
método comparativo e da teoria dos padrões ou regularidade sonora.

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Inglês antigo 11

Como descrever os sons de qualquer língua


Quando os linguistas descrevem os sons de uma língua, eles
usam um vocabulário técnico especial e representam os sons por
meio do Alfabeto Fonético Internacional (AFI). O motivo para isso
é preservar a consistência das descrições e destacar as relações co-
muns que diferentes articulações mantêm. Não podemos confiar nas
ortografias tradicionais, pois cada língua estabelece suas próprias
normas de representação na escrita, de modo que as letras indivi-
duais e suas combinações não são iguais. Por exemplo, em inglês,
a letra a é pronunciada “ei” e tem esse valor fônico de ditongo em
várias palavras, como name “nome”, que é pronunciada “neim”.
Em alemão, a letra j representa o som da semivogal i em iogurte em
português. Em francês, ch soa como em português, mas em espa-
nhol, soa como se fosse escrito tx ou tch em português; e em italia-
no, ch funciona como qu antes de i e e em português, ou seja, para
expressar o som “duro” como em queijo. Muitas línguas empregam
letras “mudas”, como o e no final de name, ou o h de homem. Tudo
muito complicado e confuso, não é?
Para evitar essas dificuldades, os linguistas desenvolveram
um alfabeto em que cada símbolo sempre corresponde ao mes-
mo som, independentemente da grafia tradicional da língua em
questão. Dessa maneira, eles sempre sabem como pronunciar uma
palavra escrita com esse alfabeto fonético, seja como for a língua.
Por exemplo, queijo é escrito [′kej.ʒʊ]. Tais transcrições fonéticas
são sempre escritas entre colchetes. O apóstrofo inicial “ ′ ” mar-
ca qual sílaba é tônica (a articulada com maior força e volume).
Outro aspecto é que cada sílaba é separada por pontos. Qu- = [k],
ei = [ej], j = [ʒ] e o o final, que é quase um u, é transcrito como [ʊ].
Esse valores fônicos nunca variam, de modo que tchau e ciao – o
correspondente de tchau em italiano – são transcritas da mesma
forma, como [′tʃaw]. O AFI contém símbolos para praticamente
todos os sons possíveis nas línguas humanas.
Além do uso do AFI, linguistas utilizam uma nomenclatura
para classificar os sons conforme uma série de traços articulató-
rios (como você configura os órgãos da fala ao pronunciar certo
som). Por exemplo, [k] é descrito como uma “consoante oclusiva
velar surda oral”. Isso quer dizer que é, primeiro, uma consoante –
ou seja, sua produção envolve bastante interferência no fluxo de ar
que sai dos pulmões, diferentemente de uma vogal, que modifica
pouco a passagem de ar pulmonar. Segundo, a língua realiza um

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12 Gramática histórica da língua inglesa

fechamento total da passagem do ar, que depois é solto com uma


microexplosão. Terceiro, “velar” quer dizer que o fechamento total
da língua é realizado contra o “véu palatino” (também conhecido
como palato mole). Quarto, “surda” significa que as cordas vocais
não vibram durante a articulação; e, finalmente, “oral” significa
que o palato mole está levantado, de modo que o ar escapa apenas
pela boca, e não pelo nariz. Cada símbolo no AFI corresponde a
um som classificado dessa maneira.
Os pontos de articulação (articuladores passivos) discrimina-
dos no AFI são:
lábios;
dentes;
alvéolos;
região prepalatal ou alveopalatal;
palato duro;
palato mole ou véu palatino;
úvula (a “campainha”);
faringe;
laringe.
Os articuladores ativos, que se deslocam no espaço para inte-
ragir com os articuladores passivos, são:
lábio inferior;
dentes inferiores;
língua (a ponta ou ápice, a lâmina e o dorso);
palato mole;
cordas vocais.
Além da oclusão (bloqueio total do ar), as maneiras de articu-
lação (a conjunção dos articuladores) são:
Fricção/Fricativa – o articulador ativo se aproxima muito do
articulador, mas não fecha a passagem de ar totalmente.
Africação – uma oclusiva e uma fricativa articuladas suces-
sivamente, como ts, dz, pf, bv etc.
Nasalização/nasal – o palato mole desce, permitindo o ar
pulmonar passar pelo nariz.
Lateralização/lateral – a língua fecha a passagem do ar na
região central da boca, mas o ar pode escapar livremente pe-
las laterais.
Vibração/vibrante – os lábios, o ponto ou dorso da língua
bate muito rapidamente, uma ou várias vezes.

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Inglês antigo 13

Retroflexão/retroflexo – a língua se curva para cima e a par-


te de baixo encosta na região alveolar.
Vozeamento – as cordas vocais vibram com a passagem do
ar (vozeado/sonoro), criando um zumbido na laringe, ou as
cordas vocais são afastadas, de modo que o ar passe livre-
mente pela glote (o espaço entre as cordas vocais), sem ne-
nhuma vibração (desvozeado/surdo).
As vogais também são descritas da mesma maneira, sendo di-
vididas entre anteriores e posteriores, a depender de qual parte da
língua, a frente ou o dorso, é a mais elevada. Além disso, podemos
notar a presença ou ausência de arredondamento dos lábios e a
posição do véu palatino para cima (vogais orais) ou para baixo
(vogais nasais). Convencionalmente, distinguimos quatro graus
de altura da língua:
1. alto [i u];
2. médio-alto [e o];
3. médio-baixo [ɛ ɔ];
4. baixo [a ɑ ɒ].
Também existem descrições dessas vogais cardeais em termos
da abertura da boca, de modo que alto = fechado, médio-alto =
médio-fechado, médio-baixo = médio-aberto e baixo = aberto.
Para que você se familiarize com esse alfabeto, segue um qua-
dro com seus principais aspectos:

  Quadro 1.1  Alfabeto Fonético Internacional. 

Consoantes (mecanismo de corrente de ar pulmonar)

labio-
bilabial dental alveolar pós-alveolar retroflexa palatal velar uvular faringal glotal
dental
Oclusiva p b t  d ʈ  ɖ c  ɟ k g q  G ʔ
Nasal m ɱ n ɳ ɲ ŋ N
Vibrante B r R

Tepe (ou ɾ ɽ
flepe)
Fricativa Φ  β f v θ  ð s z ʃ  ʒ ʂ  ʐ ç  ʝ x  ɣ χ  ʁ ħ ʕ h ɦ
Fricat. lateral ɫ  ɮ
Aproximante ʋ ɹ ɻ j ɰ
Aprox. l ɭ ʎ ʟ
lateral
Em pares de símbolos, tem-se que o símbolo da direita representa uma consoante vozeada. Acredita-se serem
impossíveis as articulações nas áreas sombreadas.

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14 Gramática histórica da língua inglesa

Consoantes (mecanismo de corrente de ar não pulmonar)

Cliques Implosivas Ejetivas Suprassegmentos Tons e acentos nas palavras


vozeantes ' acento primário 'foʋnɘ'tiʃɘn Nível Contorno
ʘ bilabial ɓ bilabial ʼ como em ě ou �
' acento secundário ou ˥
ǀ dental ɗ dental/ pʼ bilabial ascendente
alveolar ê�
ː Longa eː é alta
ǃ pós-alveolar ʄ dental tʼ dental/ descendente
alveolar ĕ � alto
ˑ Semilonga eˑ ē ˧ média
ǂ palatoalveolar ɠ velar kʼ velar ascendente
ǁ lateral-alveolar Ƹ uvular sʼ fricativa ě � baixo
˘ muito breve ĕ è ˨ baixa
alveolar ascendente
ẽ � ascendente-
. divisão silábica ɹi.ækt ȅ ˩ muito baixa -descendente
etc.
ǀ grupo acentual ascendência
menor ↓ downstep global
ǁ grupo entonativo (quebra brusca) descendência
principal global
̮ ligação (ausência ↑ upstep
de divisão) (subida brusca)
anterior central posterior
Fechada ɨ ʉ
i y
n m
(ou alta)
iy ʊ
Meia-fechada e ø e ϴ ɤ o
(ou média-alta) e
Meia-aberta ε œ ε ɞ c v
(ou média-baixa)
æ a

Aberta (ou baixa) a œ ɑ ɑ

Quando os símbolos aparecem em pares, aquele da direita representa uma vogal arredondada.
Diacríticos Pode-se colocar um diacrítico acima de símbolos cuja representação seja prolongada na
parte inferior, por exemplo: ŋ̇ .

. desvozeado   ṇ ḍ ̤ voz. sussurrado   ̪ dental      t̪ d̪


˯ vozeada    ̰ voz. tremulante   ̺ apical       t̺ d̺
h
aspirada    th dh ̪ ̪ linguolabial     ̻ laminal      t̻ d̻
mais arred.    w
 labializado   tw dw ͂ nasalizado     e͂
menos arred.   j
  palatalizado   tj dj n
soltura nasal      dn
̟ avançado    u̟ ɤ  velarizado    tɤ dɤ l
 soltura lateral     dl
̠ retraído     ҁ faringalizado   tҁ dҁ ̚   soltura não audível  d ̚
̈ centralizada     ë ̴ velarizada ou faringalizada ɫ
̇ centraliz. média  ė ̝ levantada e (ɹ̝ = fricativa bilabial vozeada)
̣silábica     ṇ ̞ abaixada e̞ (β̝ = aproximante alveolar vozeada)
̭ não silábica    ḙ ̘ raiz da língua avançada e̘
roticização   ɚ a ̙ raiz da língua retraída e̙

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Inglês antigo 15

Outros símbolos

ʍ f ricativa ɕʑ f ricativas
labiovelar desvozeada vozeadas epiglotal
w  aproximadamente ɹ flepe
labiovelar vozeada alveolar lateral
ɥ aproximadamente ɧ articulação simultânea
labiopalatal vozeada de ʃ e X
ʜ f ricativa epiglotal Para representar consoantes
desvozeada africadas e uma articulação
ʢ fricativa epiglotal dupla, utiliza-se um elo ligando
vozeada os dois símbolos em questão.
ʡ  oclusiva epiglotal k͡ p t͜ s

Fonte: Egelbert (2011, p. 44-45 apud GUIMARÃES, 2015, p. 26-27).

Lei de Grimm
A Lei de Grimm promove “deslocamentos de sons” pautados
basicamente nas consoantes, que Grimm separa em três grupos ou
ordens. Cada grupo, por sua vez, é composto por três séries (uma
de consoantes labiais, uma de dentais e uma de velares). O cha-
mado grupo das “tênues”, na terminologia de Grimm, correspon-
deria às atuais consoantes oclusivas surdas (p, t, k), enquanto as
“médias” seriam as oclusivas sonoras (b, d, g) e fricativas sonoras
(v, ð), e as “aspiratæ” seriam as oclusivas surdas aspiradas (pʰ, tʰ,
kʰ), as fricativas surdas (f, θ <þ>, x <h>) e as africadas (pf, ts <z>).
Estabelecendo comparações entre o grego, o gótico e o alto
alemão, Grimm indica um movimento “descendente”, defen-
dendo uma visão romântica de uma contínua decadência das
línguas ao separarem-se da língua-mãe. Do grego, que represen-
ta os sons originais, Grimm parte para o gótico, que representa
o germânico ancestral (a língua germânica mais antiga de que
temos registros escritos), e do gótico para o alto alemão antigo.
Os itens abaixo representam uma série de alterações nas pau-
sas da língua protoindo-europeia para a protogermânica seguindo
a Lei de Grimm:
Oclusivas sem som (p, t, k) > fricativos sem som (f, θ, x).
Oclusivas sonoras (b, d, g) > oclusivas surdas (p, t, k).
Oclusivas sonoras aspiradas (bʰ, dʰ, gʰ) > oclusivas sonoras
simples (b, d, g).

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16 Gramática histórica da língua inglesa

No Quadro 1.2, a seguir, as formas inglesa e gótica de palavras


demonstram os efeitos dessas mudanças na língua germânica. As
versões em sânscrito, latim e grego, por outro lado, apresentam as
oclusivas da língua indo-europeia inalteradas, sem passar pelas
transformações da Lei de Grimm presentes nas formas germânicas.

Quadro 1.2  Efeitos da Lei de Grimm sobre cognatas indo-europeias.

Sânscrito Grego Latim Gótico Inglês


Set Ia: *p > f
pad- (pé) pod- ped- fōtus foot
páńča (cinco) pénte [quinque] fimf five
[páɲča] [kwinkwe]
pra- pro- pro- fra- fro
pū- (clarear, fazer pur pūrus [OE fȳr] fire (fogo)
brilhar) (puro)
pitár- (pai) patér pater fadar [faðar] father [OE fæder]
nápāt- nepōs (sobrinho, [OHG nefo] nephew
(descendente) neto) [OE nefa]
Set Ib: *t > θ
trī-/tráyas (três) treĩs/tría trēs þrija three
tv-am (tu) tū (Dório) tv-am þu thou
-ti- (sufixo -ti- -tis/-sis -th
nominalizador, -te,
mor-te ‘morte’)
gátis (passo, jeito mor-tis básis (indo) health, truth, birth,
de andar) death (saúde,
verdade, nascimento,
morte)
Set Ic: *k > h (or [x])
śván- kúōn canis hunds hound (cão)
[ʃvən-] [kanis]
śatám (cento/cem) (he-)katón centum hunda (pl.) hundred
[ʃətə́m] [kentum]
kravís (carne crua) kré(w)as (carne cruor (cru, raw [OE hrāw]
crua, carne) sangue, espesso/ (cadáver)
consistente/
grosso)
dáśa (dez) déka decem taíhun ten
[də́ʃə ] [dekem] [tɛxun]
Set IIa: *b > p (*b era um som bem raro no protoindo-europeu, e muitos duvidam que ele realmente fazia
parte do sistema fonético dessa língua)
(Lituânia) diups deep [OE dēop]
dubùs (profundo)
kánnabis (Lituânia) hemp (cânabis,
[kanapẽs] (empréstimo?))
Latim sliupan slip
lūbricus

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Inglês antigo 17

Set IIb: *d > t


-
d(u)vá- dúo/dúō duo twái two (dois)
[twɛ-]
dánt- odónt- dent- tunƿus tooth (dente)
dáśa déka decem taíhun ten (dez)
[də́ʃə] [dekem] [tɛxun]
pad- pod- ped- fōtus foot (pé)
ad- édō edō eat [OE etan] (< com
(comer) (eu como) (eu como) + ed + e + re)
véda woīda videō wáit [wɛt] wit (saber, conhecer)
Set IIb: *g > k
ǰánás génos genus kun-i (raça, tribo) kin
ǰánu- gónu genū kniu knee
ǰnātá gnōtós (g)nōtos kunnan know
áǰra- agrós ager akrs acre (medida de
(país) área)
mr̥ ǰ- (a-)mélgō mulgeō miluk-s milk (leite)
(ordenhar) (espremer) (ordenho) (leite)
Set IIIa: *bh > b
bhar- phér- fer- baír-an [bɛran] bear (levar, carregar)
bhrátar phrátēr fráter brōƿar brother (irmão (cf.
fraternal))
a-bhū-t (ele foi) é-phu (geri, fu-ti bau-an be (ser)
produzi) (ele foi) [bō-an]
(morar, habitar)
Set IIIb: *dh > d
dhā- ti-thē-mi fē-cī do [OE dō-n]
(colocar, pôr) (eu coloquei, pus) (fiz, fabriquei)
dhr̥ aṣṇóti thrasús (fest-) (ga-)dars dare [OE dear(r)]
(ele se atreve) (atrevido) (ele se atreve) (ele se atreve)
-
dvār- thúr-a for-ēs daúr- [dor-] door (porta)
vidhávā ē-wíthewos’ vidua widuwo widow (viúva)
(jovem solteiro)
mádhu méthu mead (hidromel)
madhya- mésos medius midjis mid (meio)
Set IIIc: *gh > g
haṁs-á- khēn āns-er, Gans [German] goose
(cisne, ganso)
stigh- steíkhō steigan
(passo largo) (ando a passo) [stīgan] (escalar)
vah- wókh-os veh-ō ga-wig-an weigh/wain (pesar/
(levar, carregar) (carruagem, biga) (levo, carrego) (mexer, sacudir) carro, carreta)
* OE = Old English ou inglês antigo. OHG = Old High German ou alto alemão antigo.
Fonte: Campbell (1998, p. 137-140).

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18 Gramática histórica da língua inglesa

Como vimos, a Lei de Grimm representa constantes correla-


ções entre línguas germânicas e não germânicas, resultantes de
regulares mudanças sonoras na língua germânica. Há, contudo,
exceções à Lei de Grimm, como as oclusivas em agrupamentos de
consoantes exemplificadas no Quadro 1.3, a seguir.

Quadro 1.3  Exceções à Lei de Grimm em agrupamentos de consoantes.

Sânscrito Grego Latim Gótico Inglês


1. páś- [skep-] spec- [OHG spy (?) (ver, enxergar)
speh-]
2. ṣṭhiv-) pū spu- speiw-an spew (cuspir, vomitar)
[spīw-an]
3. ạṣtáu oktō octō ahtáu eight (oito)
[əʂʈə́u] [oktō] [axtau]
4. nákt- nukt- noct- nahts night (noite)
[nokt-] [naxts]
5. capt(ivus) (captivo) (haft) [OE hæft] (prisioneiro)
6. -ti- -ti- -tis/sis -t (sufixo normalizador)
gátis mor-tis básis (indo) thrift, draught, thirst, flight, drift (parsimônia,
(andar) (morte) corrente de ar, sede, voo, deriva)
7. piscis fisks [OE fisc] (peixe)
[piskis]
Fonte: Campbell (1998, p. 141).

De acordo com a Lei de Grimm, o /p/ nos termos (1) e (2) do


sânscrito, grego e latim, por exemplo, deveria corresponder a /f/
nas formas em inglês e gótico, e não ao /p/ existente nessas ver-
sões. De modo similar, no intervalo de (3) a (6), seria esperado
que o inglês e o gótico apresentassem /θ/ (escrito <þ>), e não o
verificado /t/, correspondendo ao /t/ do sânscrito, grego e latim.
Já no (7), o /k/ do latim deveria corresponder ao /x/ germânico,
não ao /k/ dos termos gótico e inglês nesse grupo de cognatas
(CAMPBELL, 1998). Vale destacar, ainda, o caso da palavra svan
em sânscrito, em que o *k do PIE também sofreu mudança:

Sânscrito Grego Latim Gótico Inglês


svan kuon canis hunds hound (cão)

Todas essas exceções podem ser compreendidas quando consi-


derarmos que a Lei de Grimm surgiu antes da emergência de várias
fricativas e oclusivas. Contudo, se a Lei de Grimm for corretamente

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Inglês antigo 19

aplicada – excluindo oclusivas após fricativas (/s f θ x/ + oclusiva)


e outras oclusivas em agrupamentos de consoantes, por exemplo, as
Leis de Grassmann e de Verner que veremos a seguir – e desde que
não hajam alterações inerentes a essas circunstâncias, as oclusivas
em agrupamentos não são de fato exceções às mudanças sonoras.

Lei de Grassmann
A chamada Lei de Grassmann, também conhecida como “lei
de dissimilação das aspiradas”, elucida outro grupo de formas que
aparentavam ser exceções à Lei de Grimm. Em grego e sânscrito,
a Lei de Grassmann promove sistemáticas substituições na pri-
meira de duas oclusivas aspiradas, levando a primeira a perder sua
aspiração. Como resultado disso, algumas correspondências sono-
ras entre as línguas grega e o sânscrito desobedecem às previsões
da Lei de Grimm, como é possível observar nas cognatas a seguir:

Sânscrito Grego Gótico Inglês


bodha peutha biudan bid (despertar,
tomar
consciência)
bandha bindan bind (vincular,
amarrar)

O primeiro deriva do termo protoindo-europeu *bheuda-, en-


quanto o segundo advém da forma *bhendh. Houve subtração do
primeiro bh por conta da ocorrência de uma segunda oclusiva as-
pirada na mesma palavra (dh, neste caso). A partir daí, temos uma
correspondência sonora em (1):
Sânscrito b / Grego p / Gótico b / Inglês b
Segundo a Lei de Grimm, espera-se que o /b/ do sânscrito cor-
responda ao /p/ germânico (inglês e gótico nesse caso) e que o
/b/ germânico corresponda ao /bh/ do sânscrito e ao grego /ph/.
Assim sendo, a relação de correspondência verificada indica uma
exceção à Lei de Grimm (CAMPBELL, 1998).
Os grupos de cognatas correspondentes ao (1), no entanto, não
são verdadeiras exceções à Lei de Grimm. Na realidade, as for-
mas germânicas são descendentes regulares das PIE /bh dh gh/ >
protogermânico /b d g/ de acordo com a Lei de Grimm, sendo

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20 Gramática histórica da língua inglesa

as formas em sânscrito e grego não correspondentes ao esperado


em virtude da subtração regular da primeira parada aspirada pela
Lei de Grassmann, sempre que tal parada precedia outra pausa
aspirada. Podemos concluir, portanto, que a correspondência so-
nora é motivada por essas modificações sistemáticas da Lei de
Grimm na língua germânica e da Lei de Grassmann no grego e
no sânscrito.

Lei de Verner
A Lei de Verner explica uma série de formas que constituíam o
último e mais complexo grupo de exceções à Lei de Grimm a serem
explicadas. Algumas delas são demonstradas no quadro a seguir:
Quadro 1.4  Exemplos da Lei de Verner.

Sânscrito Grego Latim Gótico Inglês


1. saptá heptá septem sibun seven
2. pitár- patḗr pater fadar OE fæder
[faðar] ‘father’ (pai)
3. śatám (he-)katón centum hunda (pl.) hundred
[śətəm] [kentum] (cem, cento)
4. śrutás klutós ‘heard’ OE hlud ‘loud’
‘heard’ (ouvido) (ruidoso,
(ouvido) [volume] alto)
5. makrós ‘long, macer [OHG meagre
slender’ [maker] magar] (pouco)
(comprido,
magro, estreito)
Fonte: Campbell (1998, p. 143).

De acordo com a Lei de Grimm, o /p/ do sânscrito, grego e


latim deveria corresponder ao /f/ na língua germânica (represen-
tada aqui pelo gótico e pelo inglês); mas em vez disso temos em
gótico /b/ e em inglês /v/. A partir do gótico /b/, a correspondência
esperada em sânscrito seria /bh/ e em grego /ph/ (1). Já nos grupos
cognatos (2-4), o /t/ do sânscrito, do grego e do latim corresponde
ao /d/ germânico, e não ao /θ/ como previsto pela Lei de Grimm;
também não correspondem ao esperado o sânscrito /dʰ/ e o grego
/tʰ/, dado o germânico /d/.

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Inglês antigo 21

Ou seja, Verner destacou que a Lei de Grimm se aplicava so-


mente quando a vogal precedente era acentuada. Assim, o /θ/ ger-
mânico no meio de uma palavra, por exemplo, transformava-se
primeiro em /ð/ e depois em /d/, exceto quando a vogal precedente
era tônica. Caso a vogal precedente fosse átona, a Lei de Grimm
funcionava normalmente.

Quadro 1.5  Exemplos dos efeitos contrastantes da Lei de Grimm e da Lei de Verner nas
consoantes intermediárias.

Lei de Grimm Lei de Verner


‘...C... ...C...’
*p > f *p > b [β]
1a. Ingl. Ant. hēafod ‘head’ (cabeça) 1b. Gótico sibun [siβun] ‘seven’ (sete)
Latim caput [káput] Sânscrito saptá-
*t > θ *t > d [ð]
2a. Gótico brōþar [brōθar] ‘brother’ (irmão) 2b. Ingl. Ant. fæder ‘father’ (pai)
-
Sânscrito brátar- Sânscrito pitár-
*k > x *k > g [ɣ]
3a. Gótico taíhun ‘ten’ (dez) 3b. Gótico tigus ‘decade’ (década)
Grego déka Grego dekás
Fonte: Campbell (1998, p. 144).

A família indo-europeia
A família indo-europeia, também conhecida como indo-ger-
mânica ou ariana, é constituída por centenas de dialetos e línguas
que englobam as principais línguas da Europa, do norte da Índia,
do Paquistão, do Afeganistão, do Irã, e, no passado, da Anatólia
(hitita) e da Ásia Central (tocário). Embora não existam registros
históricos da língua indo-europeia original, podemos caracterizar
sua estrutura por meio das línguas descendentes, reconstruindo
assim seus aspectos léxicos e inflexões.
As línguas descendentes do indo-europeu apresentam vários
graus de semelhança entre si, fator relativamente influenciado
pela localização geográfica. Essas línguas são divididas nos se-
guintes grupos: indiano, iraniano, armênio, helênico, albanês, itá-
lico, balto-eslavo, germânico, céltico, hitita e tocariano. Vamos
conhecê-los separadamente a seguir (LEHMANN, 1992):

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22 Gramática histórica da língua inglesa

Indiano – os Vedas ou livros sagrados da Índia são os mais


antigos textos literários preservados em qualquer língua in-
do-europeia. Eles são formados por quatro grupos de livros,
que juntos fundamentam o brahmanismo – filosofia religiosa
indiana surgida há aproximadamente três mil anos. O conteú-
do desses livros foi transmitido oralmente por muitos séculos
até ser registrado por escrito em sânscrito.
Gradualmente, a língua sânscrita passou a ser empregada em
outras formas escritas não religiosas, até que gramáticos na-
tivos estabeleceram uma forma literária padronizada para a
língua, que ficou conhecida como sânscrito clássico. Para-
lelamente, porém, havia um grande número de dialetos de
uso rotineiro, os quais originariam as línguas indianas atuais,
como hindu, urdu, bengali e outras.
Iraniano – o grupo de línguas conhecido como iraniano é
encontrado na região do noroeste da Índia e no Irã. Os ocu-
pantes dessas áreas habitaram e viajaram por muito tempo
com membros da ramificação indiana, fato que explica o con-
siderável número de características linguísticas em comum
entre eles. Os mais antigos indícios do grupo iraniano são
divididos em dois ramos, um oriental e um ocidental, respec-
tivamente correspondentes ao avéstico e ao persa antigo. O
avéstico, também conhecido como zenda, corresponde a uma
língua iraniana oriental, relacionada ao sânscrito, empregada
na antiga Pérsia e idioma do livro sagrado do Zoroastrismo –
o Avesta. Já o persa antigo, encontra-se preservado somente
em alguns registros cuneiformes que relatam as conquistas
dos reis Dario (522-486 a.C.) e Xerxes (486-466 a.C.). A for-
ma mais moderna dessa língua, datada dos primeiros séculos
da era atual, é chamada de ­Pahlavi ou médio iraniano e era a
língua oficial do Estado e da igreja ao longo da dinastia dos
sassânidas (226-652 d.C.). Essa é considerada a língua ances-
tral do persa moderno.
Armênio – a língua armênia é falada em uma pequena área
ao sul do Cáucaso e na extremidade oriental do Mar Negro.
A chegada dos armênios nessa região ocorreu entre os sécu-
los 8 e 6 a.C., vindos dos Balcãs. Suspeita-se que a língua da
antiga população dessa área tenha influenciado o armênio,
especialmente em relação ao aspecto fonológico.

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Inglês antigo 23

A língua armênia apresenta determinadas alterações em algu-


mas de suas consoantes que se assemelham às alterações en-
contradas no germânico e que, como ocorre com esta, podem
estar relacionadas a interações com outras línguas. Como as
línguas do sul do Cáucaso, o armênio não possui gênero gra-
matical. Além disso, ao contrário do que se observa entre o
indiano e o iraniano, o armênio não apresenta característi-
cas em comum com nenhum outro grupo da família indo-
-europeia, razão pela qual é considerada uma língua bastante
isolada.
Helênico – nos primórdios da História, a região do Egeu foi
habitada por populações diferentes em termos linguísticos e
raciais dos gregos, que povoariam essa região mais tarde. Por
volta do ano 2000 a.C., em um contexto de mistura e intera-
ção entre o grego e as línguas pouco conhecidas dessas popu-
lações, o povo grego tomou a região. Sendo assim, a partir da
análise da língua grega, é possível identificar os cinco prin-
cipais grupos de dialetos: o iônico, do qual o ático é um sub-
dialeto; o eólico, no norte e nordeste; o arcádico-cipriota, no
Peloponeso e no Chipre; o dórico, que mais tarde substituiu
o arcádico no Peloponeso; e o grego do noroeste, do centro
norte e da parte ocidental da região grega. Também existe o
grego micênico que foi encontrado em listas e inventários de
produtos na escrita silábica Linear B em tabletes de barro, de-
cifrados pelo inglês Michael Ventris, em 1952; a mais antiga
variedade do grego (1600-1200 a.C.), aproximadamente 300
anos mais antigo que o grego clássico.
Albanês – o pequeno grupo albanês localiza-se na região da
costa oriental do Mar Adriático. Supõe-se que a língua al-
banesa seja remanescente da língua ilíria, falada em tempos
antigos no noroeste dos Balcãs. Além disso, nosso conheci-
mento do albanês é recente, e o vocabulário dessa língua é
extremamente misturado com noções de latim, turco, grego
e eslavo; fatos que dificultam uma análise mais específica da
língua albanesa. Diante disso, um longo tempo se passou até
que o albanês fosse reconhecido como membro da família
indo-europeia.
Itálico – o grupo itálico encontra-se concentrado na re-
gião da Itália e, embora a maioria das pessoas costume

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24 Gramática histórica da língua inglesa

relacionar a Itália à Roma e Roma ao latim, muitas outras


línguas atuaram nessa área. A posição geográfica favorável
e o clima ameno italiano atraíram habitantes de diversas
culturas e línguas. Como exemplo podemos citar o etrus-
co, língua não aparentada com a família indo-europeia que
era falada na região oeste; a língua venética, falada na re-
gião do Vêneto; e o messápio, falado no extremo sudeste
italiano. Além disso, o grego era amplamente empregado
em muitas colônias gregas do sul da Itália e da região da
Sicília. Todas essas línguas, contudo, foram sucumbindo
ao latim conforme Roma conquistava maior poder político
na região. Assim, a colonização romana na Espanha e na
Gália – por volta de 51 a.C. –, nas ilhas do Mediterrâneo,
no norte africano e até mesmo na Grã-Bretanha espalhou o
latim por todo esse novo território, interagindo com outras
línguas e locais.
As diversas línguas que demonstram influência do latim
em várias partes do antigo Império Romano são conhecidas
como línguas românicas. Algumas delas inclusive propaga-
ram-se, muitos séculos depois, por outras regiões, especial-
mente no chamado Novo Mundo. Os principais exemplos
de línguas românicas são o italiano, o francês, o espanhol,
o português e o romeno. Essas línguas, no entanto, não são
derivadas do latim clássico, uma variedade literária, mas do
latim falado pelas classes populares e sujeito a frequentes
transformações.
Balto-eslavo – o ramo balto-eslavo abrange uma ampla re-
gião na parte oriental europeia. Ele é composto por dois sub-
grupos bastante semelhantes entre si: o báltico e o eslavo.
O báltico é comporto por três línguas: o prussiano, o letão e
o lituano. O prussiano não existe mais, pois foi substituído
pelo alemão desde o século XVII. O letão, por sua vez, é uma
língua falada por aproximadamente três milhões de pessoas
no território da Letônia. Já o lituano é reconhecido na família
indo-europeia por seu alto grau de conservadorismo, preser-
vando estruturas e características já extintas em quase todas
as demais línguas da família.
O subgrupo eslavo é formado por três línguas bastante pare-
cidas: o eslavo do leste, o eslavo do oeste e o eslavo do sul.
O eslavo do leste e o eslavo do oeste ainda abrangem áreas

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Inglês antigo 25

contíguas, o eslavo do sul, porém, encontra-se separado dos


outros por uma área habitada por romenos e húngaros.
O eslavo do leste abrange três variedades: o russo, princi-
pal variedade e falada como primeira ou segunda língua
por aproximadamente 220 milhões de pessoas, o ucraniano
e o bielorrusso. O eslavo do oeste apresenta quatro varia-
ções: o polonês, falado por mais de 40 milhões de pessoas,
o tcheco, o eslovaco e as línguas sorábias. O eslavo do sul,
por fim, inclui o búlgaro, o servo e o croata, o esloveno e o
macedônio moderno.
Germânico – o germânico ou protogermânico corresponde à
forma que as línguas do ramo germânico possuíam antes de
diferenciarem-se entre si. Ou seja, assim como ocorreu com
o indo-europeu, o germânico antecede os mais antigos regis-
tros históricos encontrados, sendo necessária sua reconstru-
ção pelos filólogos. O germânico do leste, o germânico do
norte e o germânico do oeste são os três subgrupos de línguas
descendentes desse grupo.
No germânico do leste, o extinto gótico era a principal lín-
gua. O germânico do norte, por seu turno, é predominante
nas regiões da Escandinávia, Dinamarca, Islândia e Ilhas
Faroé. Já o germânico ocidental é especialmente interessan-
te, pois trata-se do grupo no qual a língua inglesa se encon-
tra; e apresenta-se em duas ramificações: o alto alemão e o
baixo alemão.
O alto alemão diz respeito a todas as variedades linguísticas
do Hochdeutsch (alemão padrão) e do iídiche, bem como de
dialetos locais alemães falados nas regiões sul e central da
Alemanha, na Áustria, Liechtenstein, Suíça, França (regiões
do norte de Lorraine e Alsácia), Polónia e Itália. É empregado
ainda na Romênia, Rússia, Estados Unidos e Namíbia. O bai-
xo alemão, por sua vez, é um conjunto de línguas – atualmente
tidas como dialetos – que formam o campo dialetal das línguas
germânicas faladas no leste dos Países Baixos e no norte da
Alemanha. O baixo alemão apresenta muitos pontos em co-
mum com o frísio e com o próprio inglês.
Céltico – as línguas célticas já constituíram um dos maiores
grupos da família indo-europeia. Nos primeiros anos da era
cristã, os celtas ocupavam a Espanha, a Gália, a Grã-Breta-
nha, a região ocidental da Alemanha e o norte da Itália. O

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26 Gramática histórica da língua inglesa

progresso da civilização celta, alguns séculos antes, levou as


línguas célticas também à Grécia e à Ásia Menor.
Atualmente, no entanto, o grupo de línguas célticas é utiliza-
do somente por minorias em regiões das Ilhas Britânicas e da
França.
Hitita e tocariano – os grupos hitita e tocariano são os mais
novos integrantes da família indo-europeia, descobertos ape-
nas no século XX. O hitita era o idioma falado pelos hititas,
donos de um império sediado na região centro-norte da atual
Turquia, e trata-se da mais antiga língua indo-europeia co-
nhecida, surgida aproximadamente em 1600 a.C.
Já as línguas tocárias ou tocarianas representam um dos cam-
pos mais desconhecidos da família indo-europeia, divididas
entre os chamados tocariano A e tocariano B, presentes em
cidades nos oásis ao redor do deserto de Taklimakan (Ásia
Central), entre os séculos VI e VIII.

A família germânica
A família germânica é um grupo de línguas derivado da língua
ancestral protogermânica (PGmc), que por sua vez tem suas ori-
gens na ainda mais remota língua-mãe protoindo-europeia (PIE).
O germânico é um grupo indo-europeu da região noroeste que
apresenta vários aspectos em comum com o eslavo, o báltico, o
céltico e o itálico.
Os mais antigos textos germânicos são inscrições rúnicas do
século III d.C. Esses registros, embora fragmentados e por vezes
ilegíveis ou curtos, nos permitem traçar um panorama da família
germânica em seus primórdios. Um dos textos mais antigos en-
contrados, do ano 200 d.C., é o seguinte:

Figura 1.3  Antiga inscrição germânica encontrada na região


da Jutlândia do Norte, Dinamarca.

ᛒ ᛁ ᛞ ᚫ ᚹ ᚫ ᚱ ᛁ ᛃ ᚫᛉᛏᚫᛚᚷ ᛁ ᛞ ᚫ ᛁ
b i d awa r i j az t alg i d a i
Bida-Warijaz entalhou isto.

Fonte: Lass (1994, p. 12).

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Inglês antigo 27

Classificação das línguas germânicas


A classificação tradicional das línguas germânicas estabelece
três grupos principais: os germânicos do leste (Gmc. Or.), do norte
(Gmc. set.) e do oeste (Gmc. Oc.). No entanto, a recente descober-
ta de inscrições rúnicas mais antigas e diferentes das anteriormen-
te conhecidas indicou a existência de um quarto dialeto, distinto
do germânico do leste e ancestral dos germânicos do norte e do
oeste: o germânico do noroeste (Gmc. NOe.). A árvore genealógi-
ca das línguas germânicas, portanto, seria:

Figura 1.4  Árvore genealógica das línguas germânicas.


Proto-Gmc

Gmc. Or. Gmc. NOe.

Gmc. set. Gmc. Oc.


Fonte: Lass (1994, p. 14).

Saiba mais
Família linguística germânica ocidental
Ao analisarmos a árvore genealógica linguística germânica, cabe destacar
que os povos germânicos ocidentais dividiam-se em três grandes grupos
tribais: os ingvaeones, os istvaeones e erminones. Os dialetos ingvaeones eram
falados na região da costa do Mar do Norte, os dialetos istvaeones eram em-
pregados nas áreas centrais e os dialetos erminones estão mais relacionados
ao moderno alto-alemão.
A família germânica ocidental é representada a seguir, incluindo as línguas
modernas:

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28 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 1.5  Família linguística germânica ocidental.

*Protogermânico ocidental
AD

100 'Ingveônica' 'Istveônica' 'Erminiônica'


200
300 ‘Angl-Fr’
400
500
600 OHG
700 OE OS
800 OLF
900
1000 ME MLG MDu MHG OYi
1100
1200 OFri
1300
1400
1500
1600
1700 ModE Fri LG Du Afr G Yi
1800
1900
1990
‘Angl-Fr’ – Anglo-Frisian – Anglo-frísio
OE – Old English – Inglês Antigo
ME – Middle English – Inglês Médio
ModE – Modern English – Inglês Moderno
OFri – Old Frisian – Frísio Antigo
Fri – Frisian – Frísio
OS – Old Saxon – Saxão Antigo
MLG – Middle Low German – Baixo-alemão Médio
LG – Low German – Baixo-alemão
OLF – Old Low Franconian – Baixo-francônio Antigo
MD – Middle Dutch – Holandês Médio
Du – Dutch – Holandês
Afr – Afriânder
OHG – Old High German – Alto-alemão Antigo
MHG – Middle High German – Alto-alemão Médio
G – German – Alemão
OYi – Old Yiddish – Iídiche Antigo
Yi – Yiddish – Iídiche

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Inglês antigo 29

*As datas à margem esquerda não representam as datas de surgimento


de fato das línguas, mas indicam as datas dos primeiros textos eviden-
ciando a existência da língua, ou a época em que determinada tradição
demonstra uma clara inovação.
Fonte: Lass (1994, p. 15).

Mudança linguística
História interna versus história externa
No âmbito da Linguística Histórica, a trajetória de uma lín-
gua pode ser analisada com relação à sua história externa ou
interna. A primeira diz respeito a características extralinguísti-
cas, ou seja, aspectos culturais, sociais, políticos e econômicos
que de alguma forma impactaram o processo evolutivo de uma
língua. A língua galega, por exemplo, falada na região noroeste
da Espanha, foi duramente discriminada durante o período co-
nhecido como franquismo. Somente com o fim da ditadura de
Franco ela foi reconhecida como idioma oficial daquela área.
Outro exemplo característico de história externa é a conquista
romana da Península Ibérica, a qual promoveu a formação das
diversas línguas românicas da região.
A história interna, por sua vez, relaciona-se à constituição da
língua e suas transformações nos vários campos linguísticos ao
longo do tempo, tais como a morfologia, a sintaxe e a fonética.
As alterações fonéticas pelas quais as palavras passam ao longo
dos anos, de acordo com as chamadas leis fonéticas, são um
claro exemplo da história interna de uma língua. A lei da sim-
plificação articulatória ou “lei do menor esforço” propõe que
os falantes de uma língua sempre tentam deixar sua pronúncia
mais fáceis para o aparelho fonador. A existência de poucas pa-
lavras proparoxítonas no português corrobora essa ideia; assim, o
termo latino /′o.ku.lu/ (proparoxítona), por exemplo, passou (via
/′ok.lu/) a ser /′ɔ.ʎo/ “olho” (paroxítona). No entanto, para que a
comunicação seja possível, é preciso que as unidades com signi-
ficado (morfemas) sejam distintas umas das outras, e isso exige
que a “lei de menor esforço” não vá longe demais e reduza todo e
qualquer morfema a uma sequência de /ǝ/ (a articulação de menor
esforço), como uma espécie de zeros e uns do binário.

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30 Gramática histórica da língua inglesa

De acordo com Faraco (2005), muitos linguistas modernos


concordam que é importante conjugar a história interna e a ex-
terna das línguas, visando uma compreensão mais abrangente e
empiricamente apropriada das complexas transformações pelas
quais as línguas passam. Ainda segundo o autor, há duas maneiras
principais de lidar com essa correlação: a aditiva, que argumenta
que todos os aspectos da história interna de uma língua devem
ser avaliados antes de olharmos para os elementos externos; e a
integrativa, que propõe a análise simultânea dos fatores internos e
externos, uma vez que ambos teriam grande importância no pro-
cesso de formação linguística.

Mudança fônica
A fonética e a fonologia são os ramos da linguística respon-
sáveis pela análise da estrutura sonora das línguas. Enquanto a
fonética se ocupa dos aspectos articulatórios e físicos, ou seja,
os sons da fala, sua formação e qualidades acústicas, a fonolo-
gia relaciona-se à parte estrutural, analisando como organizam-se
e funcionam os mecanismos que promovem o quadro sonoro de
uma língua (FARACO, 2005).
Da mesma forma, é importante diferenciar o conceito de mu-
dança fonética, que representa uma modificação na pronúncia de
alguns segmentos em certos vocábulos, da chamada mudança fo-
nológica, que abrange mudanças na quantidade de unidades sono-
ras distintivas (fonemas), por exemplo, afetando todo o sistema de
interações entre elas.
Portanto, a troca de [1] por [w] no término de sílabas no por-
tuguês brasileiro, por exemplo, modificou a pronúncia de termos
como golpe e alto, mas não mudou a quantidade de fonemas da
língua, pois sua substituição por outros fonemas resulta na tro-
ca de um signo por outro, como nos casos do substantivo mar,
que pode ser pronunciado das seguintes maneiras: /maR/ = [maɾ],
[maɹ], [max], [mah], [mar]; ou no caso do advérbio mal, de pro-
núncias /maL/ = [mal], [maƚ], [maw].
Por outro lado, Faraco (2005) explica que a supressão dos fo-
nemas medievais africados /ts/ e /dz/, que foram fusionados com
as fricativas /s/ e /z/, respectivamente, no português moderno, por
exemplo, modificou a estrutura geral da língua, diminuindo seu
número de unidades sonoras distintivas. Similarmente, o acrésci-
mo de fonemas no processo de transição do latim para o português

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Inglês antigo 31

também alterou a composição da língua, uma vez que incluiu no-


vos fonemas que se diferenciam dos já existentes, por exemplo
/s/ > /z/ entre vogais, > /ʃ/ antes ou depois de [j] (> /ʒ/ entre vo-
gais); /g/ > /dʒ/ antes de vogais anteriores (/i/ e /ɛ/) (> /ʒ/); /k/ e
/t/ > /tʃ/ (depois > /ts/) antes de /i/ e /e/ átonos etc.
Segundo Faraco (2005), há várias transformações possíveis no
contexto morfológico, tais como:
Conversão de vocábulos autônomos em morfemas deriva-
cionais – como no caso de advérbios indo-europeus se tornando
prefixos em latim, após anteposição e aglutinação aos verbos.
Supressão de sufixos como morfemas distintos, passando
a compor a raiz do vocábulo – um exemplo disso é o sufixo
latino -ulu-, referente a grau diminutivo, o qual deixou de ser
sufixo para compor a raiz das palavras.
Modificações no sistema flexional – como na transição do
latim para as línguas românicas, em que o sistema de flexão
de caso foi cortado.

Mudança gramatical
Mudança morfológica
No campo da linguística, a morfologia corresponde ao ramo
responsável pela análise da formação, estrutura e classificação das
palavras. Nela, os vocábulos são estudados isoladamente, desconsi-
derando sua participação na frase ou período em que estão inseridos.
A morfologia, portanto, dedica-se à investigação da estrutura
interna das palavras, observando seus componentes (os morfe-
mas) e processos derivacionais (as origens de novos vocábulos) e
flexionais (aspectos gramaticais como pessoa, tempo, gênero e nú-
mero). As investigações morfológicas também se interessam pela
gramaticalização, ou seja, o processo pelo qual palavras lexicais
(itens do vocabulário) são convertidas em elementos gramaticais,
muitas vezes perdendo sua função lexical totalmente, como no
caso do tempo futuro em português, em que as desinências núme-
ro-pessoais -ei, -ás, -á, -emos, -eis e -ão, que vêm do verbo haver
(habere em latim), atualmente não possuem nenhum vínculo em
seu significado com a da palavra original (“possuir”, “ter”). Nes-
se caso, o processo de gramaticalização esvaziou completamente
o significado original, deixando apenas a função gramatical de
indicar o tempo futuro. O fato de as desinências aparecerem na

Book 1.indb 31 17/11/16 19:14


32 Gramática histórica da língua inglesa

posição de sufixos também é um indício da sua antiguidade, pois


evoluiu em uma época em que a ordem sintática comum era
com o verbo em final de frase e qualquer verbo auxiliar devia se-
guir o verbo matriz (Dare habeo = “hei de dar”, “tenho de dar” >
dar (h)ei = “vou dar”, “darei”). Observe como, em português lite-
rário, as desinências número-pessoais no tempo futuro ainda são
separáveis (mesóclise), por exemplo, dá-lo-ei, apontando para um
tempo em que a base e o auxiliar eram unidades independentes,
conforme as expressões tenho-o visto, quero o ver. Tal inserção de
pronomes no tempo futuro sintético não é possível em outras lín-
guas neolatinas modernas. Outro caso de gramaticalização em an-
damento nas línguas românicas é o uso do verbo ir como auxiliar
para expressar o tempo futuro, ou seja, darei, darás, dará etc. –
substitutos das formas em latim dabo, dabis, dabit etc. – estão
sendo substituídos por vou dar, vais dar, vai dar etc. No português
brasileiro, podemos apontar para o uso generalizado do substan-
tivo a gente para expressar a primeira pessoa do plural (nós), ou
a introdução do pronome você(s) (< vossa(s) mercê(s)) para se
referir a qualquer segunda pessoa (o antigo tu e vós).

Mudança sintática
A sintaxe, ao contrário da morfologia, analisa as palavras
como elementos integrantes de uma frase, estudando questões
referentes à ordem, concordância e subordinação. Um exemplo
clássico de sintaxe histórica é o estudo da ordem dos integrantes
de uma sentença.
Na transição do latim para as línguas românicas, por exem-
plo, os termos em latim apresentam flexão de caso, indicando sua
função sintática; no entanto, com a perda dessa flexão, aumenta a
rigidez da ordem, como podemos observar nas línguas românicas.
Portanto, a sentença em latim Paulum Maria amat (Maria sendo
sujeito e Paulo objeto) passa para português como “Maria ama
Paulo”, e qualquer mudança de ordem afeta o significado, diferen-
temente do latim (FARACO, 2005).
No estudo da sintaxe, a gramaticalização também tem papel
importante, pois, como vimo na morfologia, ela pode ser defini-
da como um processo de modificação linguística que impacta o
conteúdo semântico de um vocábulo ou expressão, transformando
seu elemento lexical (uma palavra) em elemento gramatical (uma
preposição ou pronome, por exemplo). Um exemplo típico desse

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Inglês antigo 33

processo na língua portuguesa é a formação do pronome pessoal


“você” com base em uma expressão lexical (“Vossa Mercê”).
Nesse processo de formação, temos ainda a chamada descolo-
ração semântica, que ocorre sempre que um termo ou expressão
tem seu significado lexical inicial substituído por um significado
e função gramatical novos; e a redução fonética, responsável pela
forma reduzida “cê”, frequentemente utilizada em substituição a
“você” na língua falada. Se a morfologia interessa-se pela gra-
maticalização por ser uma fonte de novos morfemas, para a sin-
taxe é interessante investigar o contexto em que os processos de
gramaticalização ocorrem, buscando descobrir como a colocação
particular de uma palavra poderia influenciar na maneira que é
compreendida pelos falantes, de modo que possa desencadear o
processo de descoloração semântica.

Mudança lexical e semântico-pragmática


Mudança semântico-pragmática
O campo da semântica compreende o estudo do significado e
da interpretação do significado de uma palavra, de uma expressão
ou de uma frase inserida em certo contexto. A semântica, portanto,
aborda a chamada significação. Tratando-se de linguística históri-
ca, as alterações semânticas são analisadas a partir da palavra, ou
seja, são entendidas como processos que modificam o significado
da palavra (FARACO, 2005).
As diversas taxionomias dessas modificações são, normalmente,
debatidas em conjunto com as figuras de linguagem, tais como a me-
táfora, a hipérbole e a metonímia. Isso ocorre devido à crença de que,
como o processo de geração de figuras origina novas significações,
ele também influencia as mudanças de significado das palavras.
São estudados na semântica histórica tanto os processos que
diminuem ou restringem o significado da palavra quanto os que o
expandem. Segundo Faraco (2005), o uso do termo “arreio” é um
exemplo do primeiro caso: no português antigo, o vocábulo signifi-
cava todo tipo de enfeite ou adorno; atualmente, porém, representa
somente as peças destinadas à montaria de cavalos.
Já o segundo caso é exemplificado pelo termo “revolução”, que
inicialmente se aplicava apenas ao meio astronômico, significando
a movimentação cíclica e regular dos corpos celestes. Mais tarde,
porém, o vocábulo adquiriu um significado de movimento social que

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34 Gramática histórica da língua inglesa

reestabelece uma ordem prévia, conectando-se ainda com seu signi-


ficado original de ciclo ou volta. Atualmente, o termo “revolução”
corresponde à aniquilação de uma ordem para a instauração de outra.
Desse modo, a utilização dos mecanismos da chamada etimo-
logia mostra-se bastante útil. A etimologia é o estudo gramatical
da origem e da história das palavras, analisando de onde surgiram
e qual sua evolução ao longo dos anos. Os dicionários etimológi-
cos destinam-se a agrupar os resultados dessas pesquisas.
Cabe destacar ainda o papel da pragmática, geralmente rela-
cionada ao estudo da utilização de elementos linguísticos em com-
paração a suas funções estruturais. Assim, a pragmática histórica
pode abordar, por exemplo, o emprego do pronome de tratamento
“você” ao longo do tempo, analisando a quem ele se destinava em
cada período histórico da língua portuguesa.

Mudança lexical
Como vimos, todas as áreas de estudo da linguística dedicam-
-se à análise da palavra, seja abordando sua estrutura sonora, na
fonética e na fonologia; sua constituição interna, na morfologia;
seu papel integrante em sentenças, na sintaxe; seu significado, na
semântica; ou sua utilização, na pragmática. Na linguística his-
tórica ocorre o mesmo, com estudos direcionados a cada tipo de
mudança que uma palavra pode sofrer ao longo do tempo.
Do mesmo modo, é possível estudar a composição do léxi-
co de uma língua, ou seja, analisar o conjunto de vocábulos que
os falantes de determinado idioma possuem à disposição para se
expressar, observando os chamados “empréstimos” ou fluxos de
termos oriundos de outras línguas.
Ao abordarmos os aspectos lexicais de uma língua, fica mais
fácil notar como cultura e linguagem apresentam relações estrei-
tas. Podemos dizer, inclusive, que, por abrigar o acervo de pa-
lavras de determinada língua, o léxico representa o patrimônio
cultural do povo que o utiliza.

O inglês antigo
História externa: as migrações germânicas à Grã­
‑Bretanha
Por volta de 449 d.C., com o começo da invasão da ilha de
Grã-Bretanha por tribos germânicas, ocorreu um importantíssimo

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Inglês antigo 35

marco na história da língua inglesa e da civilização humana em


geral. Assim, ao longo de aproximadamente um século, bandos
de conquistadores e colonizadores migraram de sua terra natal, na
região dos Países Baixos e da Dinamarca, firmando residência nas
zonas sul e leste da ilha britânica e expandindo gradativamente
sua ocupação em direção ao norte e oeste.
Atualmente, embora seja possível compreender como se deu
esse processo, muitas questões permanecem obscuras, como as
datas das migrações, sua localização precisa e as tribos germâni-
cas envolvidas nesse processo.
No ano 731 d.C., a versão oficial da invasão germânica à
Grã-Bretanha é reportada na obra História Eclesiástica do Povo
Inglês, do monge inglês Beda. Nela, o autor relata que as tribos
germânicas que conquistaram a Inglaterra foram os jutos, origi-
nários do norte da península dinamarquesa, os anglos, do sul da
mesma região, e os saxões, do sul e do oeste da antiga Ânglia,
atualmente um distrito alemão. Os frísios, que originalmente ocu-
pavam uma estreita faixa ao longo da costa desde a desemboca-
dura do rio Weser, localizado no noroeste da atual Alemanha e
Holanda, até o Reno, seriam a quarta tribo invasora.

Figura 1.6  Localização original das tribos germânicas que


invadiram a Inglaterra, de acordo com Beda.
10º L

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Norte
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Fonte: adaptada de Baugh e Cable (1994, p. 46).

Book 1.indb 35 17/11/16 19:14


36 Gramática histórica da língua inglesa

A Grã-Bretanha esteve sob ataques saxões desde o século IV


d.C., até mesmo durante o domínio romano na região. Simul-
taneamente, a região norte da ilha sofria duras investidas dos
pictos – povo que vivia na Caledônia, região que hoje integra
a Escócia –, enquanto as forças romanas dominantes faziam o
possível para defender o território.
No entanto, com a decadência do Império Romano, os celtas
não mais eram capazes de conter os pictos. Diante disso, ­Vortigern,
líder regional celta, teria feito uma aliança com os jutos, que os
ajudariam a expulsar os pictos em troca da ilha de Thanet, locali-
zada ao leste de Kent, no sudeste da atual Inglaterra.
Os jutos, porém, não ficaram satisfeitos com apenas esse ter-
ritório. Percebendo a fragilidade dos bretões, começaram a forçar
entrada para o sudeste, na região de Kent. A invasão dos jutos foi
muito diferente do domínio romano anterior. Enquanto os roma-
nos governavam e regravam o povo da região, os jutos tomavam
suas terras e os expulsavam. As invasões de outras tribos germâ-
nicas, anos mais tarde, seguiriam esse modelo, conforme atesta a
chamada Crônica Anglo-Saxônica, um conhecido grupo de anais
em inglês antigo que relatam a história do povo anglo-saxão.
No contexto linguístico, podemos dizer que o inglês atual é
resultado da história dos dialetos falados pelas tribos germânicas
que tomaram a Inglaterra no século V. Assim, embora não seja
possível diferenciar claramente os dialetos dessas tribos na época
das migrações, por ainda serem ágrafas, podemos presumir, com
base nas diferenças que posteriormente observamos, que haviam
poucas divergências entre eles.

Fique atento
Os nomes “English” e “England”
Os conquistadores germânicos eram chamados indiscriminadamente de “sa-
xões” pelos celtas, talvez devido ao primeiro contato entre eles e um povo
germânico ter ocorrido com os saxões. Os primeiros escritores latinos tam-
bém costumavam chamar os habitantes da Inglaterra de saxões, nomeando
sua terra como Saxônia. Porém, não demorou muito para o termo Anglo ser
implantado ao lado de saxão e Saxônia, representando todas as tribos ger-
mânicas. Esse nome é autóctone, ou seja, deriva da palavra germânica escrita

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Inglês antigo 37

variavelmente como ænglisc, anglisc, engelisc (em inglês moderno, Angle,


Anglo, Anglian, English) e que denominava um dos povos que migrou para
as ilhas Britânicas, os anglos – cuja pátria ancestral foi a região de ­Angeln
(alemão) ou angel (dinamarquês), que corresponde ao litoral báltico de
­Schleswig-Holstein. Em alemão e dinamarquês, eng significa “estreito”, “aper-
tado” (provavelmente uma referência ao estuário do rio Schlei, o significado
seria algo como “a água estreita”). Alternativamente, pode haver alguma liga-
ção com a palavra “gancho”, “anzol” (em inglês moderno, angling – pesca com
vara e linha). Independentemente do significado verdadeiro, o termo pode
ser associado à raiz protoindo-europeu *ang- (dobrado, curvado).
O nome Englisc (English) para a língua inglesa surge mais tarde, mas os ter-
mos correspondentes Angli e Anglia ocorrem em textos latinos da época. Os
termos englisc e engelcynn (povo anglo/parentes dos anglicanos) passam
então a ser usados para designar a língua de todas as tribos germânicas inva-
soras. Somente a partir do ano 1.000 o nome Englaland (England), a “terra dos
anglos”, começa a ser utilizado no sentido de um reino, embora o título latino
rex anglorum (rei dos anglos) e, subsequentemente, rex totius Britanniae (rei
de toda Bretanha) foi aplicado aos sucessores de Alfredo Magno, vencedor
dos vikings.

História interna: a estrutura do inglês antigo


Fonologia
A língua inglesa atual é o resultado de um processo evolutivo
que perdurou por mais de 15 séculos. O chamado inglês antigo ou
anglo-saxônico (Old English) foi o inglês escrito e falado do ano
450 ao ano 1100. Ao estudarmos os aspectos fonológicos de uma
língua em um período tão distante, resta-nos estabelecer hipóteses
com base em alguns critérios específicos.
Após vastos estudos nesse campo, finalmente temos conheci-
mentos acerca da pronúncia da maioria dos sons da época. Desse
modo, podemos dizer que, caso ainda existisse um anglo-saxão
daquele tempo, provavelmente seríamos capazes de estabelecer
alguma forma de comunicação inteligível com ele (CRYSTAL,
1995, p. 18).
Ainda de acordo com Crystal (1995), há quatro principais tipos
de evidências empregados no processo de dedução dos efeitos so-
noros das letras do inglês antigo:

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38 Gramática histórica da língua inglesa

1. Lógica alfabética – como possuímos conhecimentos sóli-


dos da pronúncia das letras do alfabeto romano, podemos
supor que os missionários que as adaptaram ao inglês anti-
go o tenham feito de forma lógica. Assim, a letra m latina,
por exemplo, seria usada para representar o mesmo som na
língua inglesa, e letras e símbolos novos somente seriam
criados caso nenhuma letra latina existente fosse adequada.
Além disso, ao contrário do inglês moderno, o inglês antigo
apresenta caráter muito mais “fonético”, quase não existindo
as chamadas letras mudas.
2. Reconstrução comparativa – podemos estabelecer uma re-
construção do âmbito sonoro do inglês antigo por meio de
comparações com o inglês moderno (a língua padrão ou os
dialetos regionais) e/ou os dialetos medievais.
3. Mudanças fônicas – ao analisarmos as mudanças sonoras
que ocorrem conforme as línguas evoluem, podemos deter-
minar como elas devem ter acontecido. O pronome atual
“it”, por exemplo, equivale a “hit” no inglês antigo. Ou
seja, se o h era pronunciado, então houve posteriormente
uma mudança sonora na língua, com a supressão do mes-
mo. Considerando que a extração do h em pronomes ainda é
um fenômeno frequente na língua inglesa, essa teoria parece
bastante razoável.
4. Evidência poética – a forma como poetas criam rimas é um
importante indício da estrutura sonora de uma língua.

Morfologia, sintaxe e léxico


No inglês antigo, de modo similar ao latim, o sistema de fle-
xões nominais ou declinação apresenta três categorias: gênero,
número e caso. No entanto, essas três categorias são representadas
simultaneamente por uma mesma forma nominal.
1. Gênero – no inglês antigo temos os gêneros masculino, fe-
minino e neutro. Este último é empregado para palavras que
não são nem masculinas nem femininas. Cabe destacar, po-
rém, que o gênero natural, fundamentado nas diferenças de
sexo, nem sempre equivale ao gênero gramatical. Assim, os
vocábulos wif (mulher), maegden (menina) e cild (criança),
contrariando expectativas, são neutros.

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Inglês antigo 39

2. Número – assim como no inglês moderno, o inglês antigo


apresenta somente dois números: o singular e o plural.
3. Caso – ao contrário do inglês moderno, em que palavras
como os substantivos mostram variações em seu final (desi-
nências nominais) para indicar somente aspectos de número
e gênero, os substantivo, adjetivos e pronomes no inglês an-
tigo demonstram já nas desinências a função que desempe-
nham no período. Caso é o nome dado à forma tomada por
um termo declinável para demonstrar com precisão a função
sintática que desempenha na frase. Temos no inglês antigo
quatro casos:
1. Nominativo – é o caso do sujeito.
2. Genitivo – trata-se principalmente do complemento ter-
minativo do nome, que apresenta como principal função
indicar posse.
3. Dativo – representa atribuição, indicando o sujeito ou
“coisa” a quem um objeto se destina, ou em benefício
de quem se realiza algo. Sua principal utilização é como
indicativo da função de objeto ou complemento indireto
de orações.
4. Acusativo – a principal função do acusativo é a indica-
ção do objeto ou complemento direto do verbo.
Portanto, um substantivo típico em inglês antigo apresenta um
paradigma (quadro) de casos do seguinte tipo:

Inglês antigo Alemão moderno


Nom., se cyning “o rei” (sujeito) der Bär, der Mann “o urso”, “o homem”
Acu., þone cyning “o rei” (objeto direto) den Bären, den Mann etc.
Gen., þæs cyningas “do rei” (possessivo) des Bären, des Mannes
Dat., þam cyninge (“ao/pelo/no rei”) dem Bären, dem Mann(e)

Ainda em relação aos substantivos, no inglês antigo eles eram


classificados como fortes e fracos, como ainda existe em alguns
substantivos no alemão moderno, por exemplo, der Bär “o urso”
acima. Assim, enquanto os chamados substantivos fracos tinham
terminações mais uniformes, os substantivos fortes apresentavam
formas mais variáveis.

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40 Gramática histórica da língua inglesa

Substantivo fraco Substantivo forte


“nome” (masc.) “pedra” (masc.) “barco” (neut.) “palavra” (neut.)
Sg. Nom., nama stan scip word
Acu., naman stan scip word
Gen., naman stanes scipes wordes
Dat., naman stane scipe worde
Pl. Nom., nama stanas scipu word
Acu., naman stanas scipu word
Gen., namena stana scipa worda
Dat., namum stanum scipum wordum

Fonte: Mitchell e Robinson (1989, p. 19, 22-23).

Quase todos os adjetivos em inglês antigo também eram di-


vididos em duas classes de fortes e fracos. A distinção era se
o adjetivo era empregado sozinho, de forma predicativa, por
exemplo, “o homem é velho” = Se mann is eald, ou se qualifi-
cava o substantivo sem artigo, nem demonstrativo, por exem-
plo, “homens velhos” = ealde menn. Esses usos pediam a forma
“forte” do adjetivo. A forma “fraca” era usada quando o ad-
jetivo seguia algum demonstrativo ou artigo, por exemplo, se
­ealda mann “esse homem velho”, ou um adjetivo possessivo,
por exemplo, min ealda freond “meu velho amigo”. Basica-
mente, as formas fortes podem aparecer sozinhas enquanto as
formas fracas precisam de alguma outra palavra para dar apoio
(MITCHELL; ROBINSON, 1989, p. 30-31). As diferenças en-
tre os dois paradigmas são exemplificadas a seguir, com a pa-
lavra tila “bom”:
Declinação fraca de adjetivos:

Singular Plural
Caso Masculino Feminino Neutro (todos os gêneros)
Nom., se tila mann seo tile giefu þat tile scip þa tilan menn, giefa, scipu
Acu., þone tilan mann þa tile giefe þat tilan scip þa tilan menn, giefa, scipu
Gen., þæs tilan mannes þære tilan giefe þæs tilan scipes þæra tilra, manna, giefena, scipa
Dat., þæm tilan manne þære tilan giefa þæm tilan scipe þæm tilum mannum, giefum, scipum

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Inglês antigo 41

Se mann “o homem”, seo giefu “o presente”, þæt scip “o


barco”.
Declinação forte de adjetivos:

Singular Plural
Caso Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro
Nom., til mann tilu giefu til scip tile menn tile giefa tilu scipu
Acu., tilne mann tile giefe til scip tile menn tile giefa tilu scipu
Gen., tiles mannes tilre giefe tiles scipes tilra manna tilra giefena tilra scipa
Dat., tilum manne tilre giefa tilum scipe tilum mannum tilum giefum tilu scipum

Observe: Se mann is til “o homem é bom”, seo giefa is tilu “o


presente é bom”, þæt scip is tilu “o barco é bom”.
Já quanto à sintaxe dos adjetivos, preposições e artigos, esses
elementos gramaticais no inglês antigo eram empregados de modo
bastante similar ao inglês moderno. Como ocorre atualmente, por-
tanto, eles em geral são inseridos antes do substantivo. A principal
diferença está relacionada ao uso dos verbos, que frequentemente
apareciam antes do sujeito ou no final da oração, diferentemente
do que observamos hoje.
Semelhante aos verbos na língua moderna, o inglês anti-
go já exibia as classes fortes e fracas. O primeiro conjunto mo-
difica a vogal do radical para indicar diferenças de tempo e/ou
pessoa, por exemplo, infinitivo/presente do indicativo: strive –
pretérito perfeito: strove – particípio: striven (“esforçar-se”,
“esforça-se” – “esforçou-se” – “esforçado”), sing – sang – sung
(“cantar/canta” – “cantou” – “cantado”. A segunda classe marca
o pretérito e o particípio por um sufixo que contém uma oclusi-
va dental, por exemplo, dance – danced – danced (“dançar/dan-
ça” – “dançou” – “dançado”), laugh – laughed – laughed (“rir/
ri” – “riu”  – “rido”), scrub – scrubbed – scrubbed (“esfregar/
esfrega” – “esfregou” – “esfregado”), hum – hummed – hum-
med (“zumbar/zumba” – “zumbou” – “zumbado”). Observe que
a pronúncia do sufixo escrito <-ed> muda de acordo com o vo-
zeamento da última consoante do radical: [dans-], [laf-] + [-t],
[skrʌb-], [hʌm-] + [-d], ou seja, vozeado com vozeado e des-
vozeado com desvozeado. Quando o radical termina em uma
vogal, a consoante do sufixo é [-d], por exemplo, sow – sowed –

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42 Gramática histórica da língua inglesa

sowed “semear/semeia” – “semeou” – “semeado”). Quando o


radical termina em uma consonante dental ([t], [d]), a vogal do
sufixo é pronunciada (nos demais casos, é muda), ou seja, spot –
spotted – spotted “localizar visualmente” = [spɒt-] + [-ıd], plot –
plotted – plotted “tramar” = [plɒt-] + [-ıd], bud – budded – b­ udded
“brotar” = [bʌd-] + [ıd], skid – skidded – skidded “derrapar”, “es-
corregar” = [skıd-] + [-ıd].
Em inglês antigo, os verbos fortes distinguem sete classes, ba-
seadas no modelo de alternância na vogal radical e um marcador
no infinitivo (qual vogal e que tipo de consoante):

Classe Infinitivo Marca Sing. do pret. Pl. do pret. Part.


I. scinan [i:] + C scan scinon scinen “brilhar” (shine)
II. creopan [e:ǝ] + C creap crupon cropen “arrastar-se” (creep)
brucan [u] + C breac brucon brucen “disfrutar”
III. bregdan (várias)* brægd brugdon brogden “puxar”
IV. beran [ɛ] + [l, r] bær bæron boren “levar” (bear)
tredan [ɛ] + ocl./ træd trædon treden “pisar” (tread)
V.
fric.**
VI. faran [a] + C for foron faren “ir”
VII. healdan heold heoldon healden “segurar” (hold)
hatan het heton haten “mandar”

* A classe III abrange cinco subtipos:


1. [ɛ] + C C (bregdan) e – æ – u – o;
2. [eǝ] + [r] + C (weorpan “jogar”), [h] + C (feohtan “brigar”, “lutar”): eo –
ea – u – o;
3. [ɛ] + [l] + C (helpan “ajudar”): e – ea – u – o;
4. C palatal + ie + C C (gieldan “ceder”, “dar”): ie – ea – u – o;
5. [i] + nasal + C (drincan “beber”): i – a – u – o.
** Ou seja: [p t k d g] ou [f θ s].
Fonte: baseado em Mitchell e Robinson (1989).

Em VII, o particípio e o infinitivo sempre têm a mesma vogal,


tal como as duas formas do pretérito – ou eo ou e – que distingue
os dois subgrupos da classe.
A conjugação de um verbo forte típico é exemplificada por
singan “cantar”:

Book 1.indb 42 17/11/16 19:14


Inglês antigo 43

Presente do Presente do Pretérito do Pretérito do


indicativo subjuntivo indicativo subjuntivo
Sg. 1ª. ic singe singe sang sunge
2ª. þu singest singe sunge sunge
3ª. he, heo, hit singeþ singe sang sunge
Pl. 1ª. we singeþ singen sungon sungen
2ª. ge singeþ singen sungon sungen
3ª. hie singeþ singen sungon sungen

Sing. do imperativo: sing! Pl. do imperativo: singaþ!


Infinitivo: singan Infinitivo flexionado (“para...”) to
singenne
Gerúndio: singende Particípio: (ge-)sungen
Fonte: baseado em Mitchell e Robinson (1989).

Os verbos “fracos” exibem três subgrupos principais. A ter-


ceira classe contém apenas quatro verbos: habban “ter”, libban
“viver”, secgan “dizer” e hycgan “pensar”. O primeiro subgrupo
contém duas subclasses. Exemplificamos as três classes maiores
com fremman “fazer”, lufian “amar” e habban “ter”.

Presente do Presente do Pretérito do Pretérito do


indicativo subjuntivo indicativo subjuntivo
Sg. 1ª. ic fremme fremme fremede fremede
2ª. þu fremest fremme fremede fremede
3ª. he, heo, hit fremeþ fremme fremede fremede
Pl. 1ª. we fremmaþ fremmen fremedon fremeden
2ª. ge fremmaþ fremmen fremedon fremeden
3ª. hie fremmaþ fremmen fremedon fremeden

Sing. do imperativo: freme! Pl. do imperativo: fremmaþ!


Infinitivo: fremman Infinitivo flexionado (“para...”)
to fremmenne
Gerúndio: fremmende Particípio: (ge-)fremed

Fonte: baseado em Mitchell e Robinson (1989).

Book 1.indb 43 17/11/16 19:14


44 Gramática histórica da língua inglesa

Presente do Presente do Pretérito do Pretérito do


indicativo subjuntivo indicativo subjuntivo
Sg. 1ª. ic lufie lufie lufode lufode
2ª. þu lufast lufie lufodest lufode
3ª. he, heo, hit lufaþ lufie lufode lufode
Pl. 1ª. we lufiaþ lufien lufodon lufoden
2ª. ge lufiaþ lufien lufodon lufoden
3ª. hie lufiaþ lufien lufodon lufoden

Sing. do imperativo: lufa! Pl. do imperativo: lufiaþ!


Infinitivo: lufian Infinitivo flexionado (“para...”)
to lufienne
Gerúndio: lufiende Particípio: (ge-)lufod

Fonte: baseado em Mitchell e Robinson (1989).

Presente do Presente do Pretérito do Pretérito do


indicativo subjuntivo indicativo subjuntivo
Sg. 1ª. ic hæbbe hæbbe hæf(e)de hæf(e)de
2ª. þu hæf(a)st hæbbe hæf(e)dest hæf(e)de
3ª. he, heo, hit hæfþ hæbbe hæf(e)de hæf(e)de
Pl. 1ª. we habbaþ hæbben haf(e)don hæf(e)den
2ª. ge habbaþ hæbben haf(e)don hæf(e)den
3ª. hie habbaþ hæbben haf(e)don hæf(e)den

Sing. do imperativo: hafa! Pl. do imperativo: hafaþ!


Infinitivo: habban Infinitivo flexionado (“para...”)
to habbenne
Gerúndio: habbande Particípio: (ge-)hafed

Fonte: baseado em Mitchell e Robinson (1989).

Léxico
O vocabulário do inglês antigo, a princípio, era estreitamente
relacionado às línguas germânicas, com poucas interferências de
outros idiomas. A grande quantidade de termos normandos que
hoje integram o vocabulário inglês, por exemplo, não era empre-
gada naquela época.

Book 1.indb 44 17/11/16 19:14


Inglês antigo 45

Por outro lado, mais de mil vocábulos anglo-saxões sumiram


do vocabulário do inglês antigo após a conquista normanda da
Inglaterra, no século XI. Entre os termos sobreviventes, no entan-
to, alguns mudaram tão pouco ao longo do tempo que quase não
diferem de suas formas atuais, como mann (man (homem)) e cild
(child (criança)).
O inglês antigo é caracterizado por sua flexibilidade, ou seja,
sua capacidade de dar novos sentidos a palavras já existentes. Por
meio da inclusão de prefixos e sufixos, era comum a formação de
uma grande quantidade de termos derivados. Um exemplo típi-
co desse processo é o vocábulo “mood” (humor), que no inglês
antigo significava “coração”, “espírito”, “coragem” ou “orgu-
lho”. Ao adicionar o sufixo -ig, era formado o adjetivo “modig”
(em inglês moderno, moody (mal-humorado)), relacionado a
uma série de atributos como animado, altivo, arrogante. Com o
emprego de outros sufixos, formou-se o advérbio “­modiglice”
(orgulhosamente) (em inglês moderno, moodily (“mal humora-
damente”)) e o substantivo “modignes”, significando “orgulho”
ou “magnanimidade” (em inglês moderno, moodiness (mau hu-
mor)). Diferentemente do inglês moderno, que tende a assimilar
ou importar elementos de outras línguas (especialmente o fran-
cês, o grego e o latim), o inglês antigo baseia-se em sua capaci-
dade de derivação e formação de palavras.

Os dialetos anglo-saxões
O inglês antigo não era uma língua uniforme, apresentando diver-
gências relevantes entre as várias regiões da Grã-Bretanha. Existiam
quatro dialetos principais na época: o nortúmbrio (Northumbrian),
o saxão ocidental (West Saxon), o kentiano (Kentish) e o mércio
(­Mercian). O nortúmbrio e o mércio estavam presentes ao norte do
rio Tâmisa, trazidos pelos anglos. Esses dialetos apresentam carac-
terísticas em comum, sendo conhecidos em conjunto como Anglian.
No entanto, o nortúmbrio, falado ao norte do Humber, e o mér-
cio, empregado entre o Tâmisa e o Humber, possuem algumas di-
ferenças significativas. Acredita-se que os dialetos já mostrassem
tais divergências antes da invasão germânica, mas muitos aspec-
tos parecem ter evoluído já na Inglaterra.
Contudo, a expansão do reino Saxão Ocidental colocou o dia-
leto homônimo em destaque, desenvolvendo uma variedade es-
crita bastante padronizada e, pela quantidade de material escrito

Book 1.indb 45 17/11/16 19:14


46 Gramática histórica da língua inglesa

nesse dialeto, tornando-o a principal referência no estudo do in-


glês antigo. Esse domínio perduraria até a conquista normanda da
Inglaterra, no século XI.

Figura 1.7  Os dialetos do inglês antigo.


N
O
R
T
55º N

Ú
M
B
R
I
Mar

O
do Norte

Mar
da
Irlanda

M É R C I O
Rio Severn

Rio
m isa

A L KENTIAN
OCEANO E N T O
I D
ATLÂNTICO O C
O
X Ã
S A

a
l da Manch
Cana

Fonte: adaptada de Baugh e Cable (1994, p. 52).

Variação linguística
É sabido que a comunicação frequente entre pessoas que falam
uma mesma língua gera um efeito de uniformização da mesma, ou
seja, determinado padrão oral é negociado informal e inconscien-
temente entre os participantes que se sobrepõem às diferenças de
fala individuais existentes, em uma tentativa de facilitar a inter-
compreensão (assimilação). No nível de uma comunidade linguís-
tica, pressões sociais regulam a constituição das normas, também
favorecendo certa uniformidade. Quando há uma separação en-
tre duas comunidades, porém, esse quadro muda e observa-se o

Book 1.indb 46 17/11/16 19:14


Inglês antigo 47

crescimento de divergências na língua, já que cada grupo tende a


obedecer suas próprias normas.
Nesses casos, o grau de afastamento entre as comunidades ge-
ralmente é proporcional à variação linguística observada; assim,
separações sutis levam a diferenciações igualmente suaves, ge-
rando somente dialetos locais. Por outro lado, afastamentos mais
consideráveis, sendo eles geográficos ou sociais – por exemplo,
classes, castas –, podem tornar a variedade de uma comunidade
praticamente ou totalmente incompreensível à outra, situação pro-
totípica que caracteriza o surgimento de línguas diferentes.
No entanto, mesmo quando há a criação de outra língua, nor-
malmente é possível identificar aspectos remanescentes entre as
línguas separadas, o que configura um forte indicativo de uma
união passada. A relação entre o inglês e o alemão é um exemplo
desse processo; ao compararmos vocábulos como Wasser (alemão,
água) e water (inglês, água), Brot (alemão, pão) e bread (inglês,
pão) ou Milch (alemão, leite) e milk (inglês, leite), entre tantos
outros, não restam dúvidas quanto ao parentesco entre as línguas.
Processo semelhante pode ser verificado entre a língua inglesa
e o latim: father (inglês, pai) e pater (latim, pai), brother (inglês,
irmão) e frater (latim, irmão). As correlações nesses casos não são
tão evidentes p:f, t:ð (< θ / V__V); b:f, ʌ:a, t:ð, r:r etc., mas cedem
ao método comparativo. Uma cadeia de comparações muito mais
extensa envolve várias línguas europeias, o que nos leva à con-
clusão de que grande parte dos idiomas europeus e mesmo alguns
asiáticos já foram uma só língua:

Sânscrito Grego Gótico Alemão Holandês Inglês


Pitar (pai) Patêr (pai) Fadar (pai) Vater (pai) Vader (pai) Father (pai)

A formação de dialetos
Como aprendemos, o processo de invasão de povos germâni-
cos à Grã-Bretanha provocou diversas transformações, trazendo
também uma série de novos dialetos de uma nova língua, os quais,
juntos, seriam marcantes na formação da língua inglesa.
A maior parte da estrutura conhecida do inglês antigo encon-
tra-se escrita no dialeto West Saxon ou saxão ocidental, conse-
quência da grande influência dessa região no século X. Outros
dialetos da época, ao contrário, apresentam poucos textos dispersos

Book 1.indb 47 17/11/16 19:14


48 Gramática histórica da língua inglesa

encontrados até hoje. Apesar disso, aspectos peculiares de cada um


desses dialetos possibilitaram que os estudiosos de linguística os
identificassem e apontassem suas principais características, como
veremos a seguir.

West Saxon
De acordo com Brook (1963 [1972]), o domínio do dialeto
West ­Saxon ou saxão ocidental na Grã-Bretanha era tamanho que
há mais trabalhos escritos nele do que em todos os demais juntos.
Seus principais autores foram o rei Alfredo e o abade Ælfric, os
quais deixaram trabalhos marcantes da época como Cura Pasto-
ralis e História do Mundo, de Paulo Orosius (traduzido pelo rei
Alfredo), além de homilias e uma gramática (pelo abade Ælfric).
Ainda segundo Brook (1963 [1972]), o dialeto West Saxon ou
saxão do oeste apresenta as seguintes características principais:
A utilização de [æ] como uma adaptação da forma do West
Germanic [ã] a partir do germânico [æ], enquanto a maio-
ria dos outros dialetos passou a representar [æ] como e. Essa
característica do West Saxon provavelmente já existia antes
da invasão germânica à Grã-Bretanha, uma vez que o frísio
antigo também apresenta esse padrão.
A ditongação de vogais por influência de consoantes palatais
precedentes.
A conversão de [æ] e [io] em [ie];
Saiba mais
A ausência de metafonia em vários vocábulos que apresen-
O conceito de tam tal mudança em outros dialetos, como exemplificado
metafonia (em alemão, pelas formas em West Saxon gebedu (orações) e wita (estu-
Umaut) trata-se da
diosos), em oposição a gebeodu e wiota nos outros dialetos.
anteriorização e do
Síncope na terceira pessoa do singular de verbos no presen-
alçamento por um
te do indicativo, ao contrário do que encontramos em outros
grau de uma vogal
dialetos, em que geralmente palavras terminadas com o sufi-
pela presença de outra
xo -eð sofrem metafonia e perdem sua vogal temática. Como
vogal alta [i u] na sílaba
exemplo podemos comparar as formas cīest (chooses (esco-
seguinte: [ɑ] > [ɛ], [ɔ] >
[œ], [o] > [ø] etc.
lha)) e hielt (holds (segura)) do West Saxon com as formas
cēoseð e haldeð que encontramos em outros dialetos.

Northumbrian
O dialeto nortúmbrio ou Northumbrian perdurou na escrita (os
dialetos do inglês no norte e da Escócia continuam o nortúmbrio)

Book 1.indb 48 17/11/16 19:14


Inglês antigo 49

do final do século VII ao início do século IX, tendo como principal


autor o monge inglês Beda (672-735). Sua obra História Eclesiás-
tica do Povo Inglês foi um marco na história da literatura anglo-
-saxônica, além de diversos outros trabalhos seus como os versos
“Canto de Morte de Beda”.
Entre os mais relevantes aspectos do Northumbrian, podemos
citar:
A inclusão do */a/ do germânico ocidental precedendo [r] +
consoante, principalmente quando uma consoante labial ([p],
[b], [f], [m] ou [w]) precede a vogal ou aparece após o [r].
Vocábulos iniciados com [w] provocando arredondamento da
vogal ou do ditongo posterior.
A supressão do [n] no final de vocábulos, como ocorre em
bigeonda (beyond (além)) e wosa (to be (ser/estar)), em com-
paração às formas do saxão ocidental bigeondan e wesan
(BROOK, 1963 [1972], p. 52-53).

Kentish
O dialeto Kentish ou kentiano possui características bastan-
te particulares, embora apresente poucos textos disponíveis para
estudo. Entre suas principais características podemos relacionar:
A frequente conversão de y [y] em e [e], como podemos ob-
servar no vocábulo senn (sin (pecado)), empregado em subs-
tituição ao synn geralmente utilizado nos demais dialetos.
O uso do e destacado da forma <æ>, a qual resulta na mu-
tação do germânico [aj] para a forma [a]. Assim, temos em
Kentish as formas enig (any (qualquer)) e mest (most (maio-
ria)) em vez de ænig e mæst dos demais dialetos (BROOK,
1963 [1972], p. 49).

Mercian
O estudo do Mercian ou mércio é muito interessante para a
linguística, considerando que o inglês moderno possui importan-
tes raízes neste dialeto. Assim, apesar de o mércio não apresentar
rastros históricos tão claros quanto o nortúmbrio, por exemplo,
podemos identificar como suas principais marcas:

Book 1.indb 49 17/11/16 19:14


50 Gramática histórica da língua inglesa

A conversão das formas [æ] em [ɛ] e [ɑ] em [æ]. São exem-


plos os vocábulos deg (day (dia)) e dægas (dias), em vez de
dæg e dagas nos outros dialetos.
A mutação de [æ] para [æǝ] provocada pela existência de
uma vogal no final da sílaba seguinte, como podemos obser-
var em featu (vessels ou embarcações) em vez da forma fætu
dos outros dialetos (BROOK, 1963 [1972], p. 48).

East Anglian
As principais características do East Anglian, o qual abrange
tanto o dialeto Northumbrian quanto o Mercian, são:
A utilização de a [a] precedendo l + consoante, seguindo a
forma do germânico ocidental, enquanto os dialetos Kentish
e saxão ocidental usam ea [ɛǝ]. Por exemplo, a utilização da
forma all (todos) em East Anglian, enquanto em outros diale-
tos temos a forma eall.
A monotongação dos ditongos ea [ɛǝ], eo [eǝ], io [jo], æ [æ]
para e [e] e i [i], respectivamente, sempre que forem seguidos
por c [k], g [g] ou h [h, x], se isolados ou precedidos por uma
consoante líquida (l ou r).
Tendência a manter a vogal média-baixa arredondada ante-
rior [œ] (pronuncia-se com a língua na posição para [ɛ] (é do
português), mas com os lábios arredondados também), a qual
em saxão ocidental ou West Saxon era não arredondada e [ɛ].
A conservação de -u ou -o como terminações de verbos na pri-
meira pessoa do singular do presente do indicativo (BROOK,
1963 [1972], p. 44).

Inglês antigo em contato com outras


línguas
História externa: os reinos anglo-saxões
No começo do século VII, a Inglaterra encontrava-se domi-
nada por sete grandes reinos anglo-saxões: Kent, Sussex (South
Saxons ou saxões do sul), Wessex (West Saxons ou saxões ociden-
tais), East Anglia (Anglia oriental), Essex (East Saxons ou saxões
orientais), Mércia e Nortúmbria. Juntos, esses reinos formavam a
chamada heptarquia.

Book 1.indb 50 17/11/16 19:14


Inglês antigo 51

Figura 1.8  Reinos anglo-saxões e reinos celtas (em negrito).


GODODDIN
Lindisfarne
Yeavering Bamburgh

BERNICIA
Rio
T 55º N
Monkwearmouth

yn
RH

e
EG Jarrow
E Rio
Tee

D
s

Rio
DEIRA

Ou
se
Ilha de Man York Sancton
Mar
do Norte
Anglesey
ELMET

LIN D SEY
GWYNEDD t
ME

en
Mar Tr
Rio Burgh
RC

da
Irlanda
Crowland Caistor Castle

se
IA

MID D LE

Rio Ou
Rio

EAST
AN GLIA
Sev

POWYS AN GLIA
Oundle
ern

Sutton Hoo
MAGON-
Colchester
SAETE Gloucester
DYFED Cirencester Kelvedon
ESSEX
London Mucking
Bath Rio Thames
Rochester Canterbury
OCEANO
ATLÂNTICO WESSEX KENT
Glastonbury
Winchester SUSSEX
Rio

IA
ON
MN
Tam

Isle of Wight
DU
ar

a
l da Manch
Cana

Fonte: adaptada de Blair (1984, p. 60).

Além dos grandes reinos, existia uma série de outros reinos


menores; como o de Surrey, que ficava na região sudeste da In-
glaterra e que, por volta de 670, possuía um “sub-rei” chamado
Frithuwold. Pelo que se sabe, é provável que seus ancestrais te-
nham sido soberanos de um reino independente, portanto, no
século VII, possivelmente existiam dúzias de reinos menores à
margem dos grandes reinos. Os reinos maiores, contudo, não eram
totalmente independentes. Beda e outras fontes descrevem vários
outros reis (Bretwaldas ou Brytenwaldas) que sucessivamente do-
minaram a maioria ou todos os povos anglo-saxões.
O contexto político do século VII foi marcado por uma grande
instabilidade de poder, com inúmeros conflitos entre reinos. Havia

Book 1.indb 51 17/11/16 19:14


52 Gramática histórica da língua inglesa

trocas constantes de reinos dominantes, uma vez que a manuten-


ção do poder conquistado era mais árdua do que a conquista em si.
Isso ocorria porque manter um reinado exigia forças militares, as
quais, por sua vez, eram conseguidas por intermédio de riquezas
obtidas pelo exercício do próprio poder.

Contato com as línguas celtas


A conquista do povo celta da Grã-Bretanha pelos anglo-saxões
resultou em uma interação entre as línguas; assim, podemos encon-
trar no vocabulário do inglês antigo alguns exemplos de palavras
que os anglo-saxões adotaram do léxico da população celta nativa.
Apesar da impressão deixada por alguns autores de que os celtas
haviam sido completamente exterminados, exceto em determinadas
regiões, muitos deles sobreviveram e foram assimilados pela cultura
dos invasores. As leis do rei Ine, de Wessex, por exemplo, incluem
referências ao valor monetário de compensação a pagar para a morte
ou lesão de diversas classes de pessoas, incluindo nobres e plebeus
celtas, indicando que ainda existiam comunidades celtas no período
da Heptarquia. A Crônica Anglo-Saxônica relata uma batalha san-
grenta entre nativos e invasores na região de Pevensey, no sudeste
da Inglaterra, destacando que nenhum celta sobreviveu ao conflito.
Apesar disso, um considerável número de populações celtas perma-
neceu por vários séculos na região oeste da Grã-Bretanha, no País de
Gales, na Cornualha e no noroeste (Cúmbria). Nos dois primeiros, as
populações se mantêm até hoje; tal fato é corroborado pela existên-
cia de diversas nomenclaturas celtas para as localidades dessas áreas.

Exemplo
Há claras evidências da influência das línguas celtas na formação de nomes de
localidades na língua inglesa. O reino de Kent, por exemplo, tem seu nome ori-
ginado da palavra celta Canti ou Cantion, de significado desconhecido, mas o
termo já era atestado entre os romanos. Já os nomes de reinos da Nortúmbria,
Deira e Bernícia, provavelmente derivam de nomes de tribos celtas.
Além disso, também apresenta origem celta a primeira sílaba de nomes de
cidades como Winchester, Salisbury, Exeter, Gloucester, Worcester e Lichfield.
O próprio nome da atual capital inglesa Londres (London), embora possua
origem incerta, provavelmente é originado do vocabulário celta.

Fonte: Pei (1968, p. 24).

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Inglês antigo 53

Além disso, é provável que muitos celtas tenham sido feitos


escravos pelos invasores saxões ou tenham se casado com pes­
soas do outro povo. Assim, o contato entre celtas e anglo-saxões
em muitas partes das ilhas britânicas foi frequente e próximo por
séculos.
Os empréstimos celtas são predominantemente topônimos,
cuja frequência aumenta de modo considerável quanto mais a
oeste se vai. No leste, até os topônimos costumam ser de origem
germânica.
Um aspecto gramatical eventualmente associado às línguas
celtas é o favorecimento de construções verbais analíticas (peri-
frásticas) com particípios progressivos, por exemplo, be going,
was eating, could have been seen etc., que diferencia o inglês
das demais línguas germânicas, as quais não tiveram contato
com o substrato celta. Apesar disso, segundo Baugh e Cable
(1994), a maior parte do vocabulário celta não integrou a língua
inglesa de forma permanente, desaparecendo ao longo do tempo
ou convertendo-se em meros vocábulos regionais.

Contato com o latim


Ao contrário da língua celta, o latim não era a língua de um
povo conquistado, mas de uma civilização altamente conceituada,
a qual os anglo-saxões admiravam e buscavam imitar. As re-
lações entre os saxões e essa civilização, a princípio somente
comercial e militar, tornaram-se também intelectual e religiosa,
prolongando-se por muitos séculos e renovando-se constante-
mente (PEI, 1968).
Essa interação teve início muito antes da chegada dos anglo-
-saxões à Inglaterra, perdurando por todo o período do chamado
inglês antigo. Enquanto as tribos germânicas – que originariam o
povo inglês – ainda estavam tomando a Grã-Bretanha, elas rela-
cionaram-se constantemente com os romanos, adotando uma série
de vocábulos latinos. Grande parte do vocabulário latino incorpo-
rado originou-se também do contato com os celtas, povo cujo lé-
xico era fortemente influenciado pelo latim, depois de quase meio
milênio de subjugação à Roma.
Além disso, mais de um século e meio após a invasão ger-
mânica e com a conversão dos anglo-saxões, o latim tornou-se
língua litúrgica dessa cultura, gerando uma adesão ainda maior
a termos latinos no inglês antigo. Vale destacar que a conversão

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54 Gramática histórica da língua inglesa

dos anglo-saxões ocorreu em duas ondas: inicialmente, por mis-


sionários irlandeses de Iona, em Nortúmbria e, pouco depois, por
missionários romanos no sul – com destaque para o primeiro mis-
sionário, S. Agostinho de Canterbury, em Kent.

Fique atento
Empréstimos linguísticos do latim no inglês antigo
Ao abordamos a importação de termos latinos para o inglês antigo, devemos
considerar os seguintes aspectos:
A predominânica de termos germânicos quanto à religião, a despei-
to da presença do latim entre os religiosos – são exemplos as pala-
vras “halig” (holy (santo)), “hadian” (to ordain (ordenar)) e witega (prophet
(profeta));
Resistência à incorporação de palavras latinas quando já existe um
termo anglo-saxão correspondente – são exemplos da retenção de
termos latinos as palavras: God e godspell (Gospel (evangelho)) e synn (sin
(pecado));
Assimilação total dos vocábulos latinos adotados no inglês antigo –
são exemplos os vocábulos planta, que origina o verbo plantian (plantar),
e martyr, do qual se deriva o termo martyrdom (martírio) (PEI, 1968, p. 25).

Contato com o norreno


O norreno ou nórdico antigo é uma língua germânica seten-
trional utilizada por povos escandinavos e suas colônias ao lon-
go da era viking e da Baixa Idade Média Nórdica, no período
entre 800 e 1300 d.C. O norreno divide-se em três grupos de dia-
letos: o Nórdico Antigo Ocidental, na região da Noruega; o Gút-
nico Antigo, na Gotlândia (sudeste da atual Suécia); e o Nórdico
Antigo Oriental, abrangendo a Dinamarca e o resto da Suécia.
No final do século VIII, prováveis mudanças políticas ou
econômicas na região da Escandinávia levaram seu povo a de-
senvolver o gosto pelas viagens de exploração, comércio e pi-
rataria. Com o tempo, porém, jornadas a princípio voltadas à
pilhagem, converteram-se em colonização e conquistas de ter-
ritórios, promovendo a ocupação e instauração de reinos vikin-
gs na Rússia, Islândia, Groenlândia, Normandia e finalmente na
própria Inglaterra.

Book 1.indb 54 17/11/16 19:14


Inglês antigo 55

Por meio dos ataques dos vikings dinamarqueses – os quais


perduraram por volta de 200 anos até o domínio da maior parte
da Inglaterra Oriental –, as ilhas britânicas passavam por sua se-
gunda grande invasão linguística. Aproximadamente mil palavras
norrenas ou nórdicas foram absorvidas pela língua inglesa (e ain-
da mais nos dialetos setentrionais), com acentuado aumento de
nomes de localidades de origem escandinava.
De acordo com Crystal (1995), o contato próximo entre os
anglo-saxões e os dinamarqueses é claramente perceptível quando
observamos a grande quantidade de empréstimos linguísticos. Ter-
mos comuns no inglês moderno, como get (conseguir), both (am-
bos), give (dar) e same (mesmo), possuem origem escandinava,
a qual influenciou até mesmo a formação dos pronomes pessoais
they, them e their, que substituíram as formas inglesas originais.

Figura 1.9  Distribuição de nomes de famílias inglesas com a terminação -son, como Jackson e
Davidson. Tais nomes, de origem escandinava, revelam a influência linguística dos vikings dinamarqueses
na Inglaterra, especialmente nas regiões de Yorkshire e ao norte de Lincolnshire. O mapa indica a
quantidade de nomes escandinavos diferentes em cada condado inglês.

31 - 50
17 - 26
12 - 14
0 - 10

38 55º N

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ATLÂNTICO 6 6 6
4 3
10
2 1

2
ancha
l da M
Cana

Fonte: adaptada de Crystal (1995, p. 26).

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56 Gramática histórica da língua inglesa

História externa: os séculos IX e X


As invasões dos vikings
De acordo com a Crônica Anglo-Saxônica, o primeiro ataque
viking registrado na Grã-Bretanha ocorreu no ano de 793, com a
pilhagem no mosteiro de Lindisfarne, localizado na costa oeste da
Escócia, nordeste da Inglaterra, na região que era o reino de Nor-
túmbria. Esse seria o ponto de partida para uma série de ataques
vikings às ilhas britânicas no século seguinte.
Após um breve período de saques e investidas violentas, os
­vikings começaram a colonizar as terras inglesas e nelas comerciar.
Em sua maioria dinamarqueses, chegaram em navios de guerra bem
construídos e com numerosos exércitos, conquistando quase todos
os reinos ingleses que eram independentes. No final do século IX, já
governavam grande parte do território inglês, que ficou conhecido
como o Danelaw (literalmente, a “Lei dinamarquesa”).

Saiba mais
Danelaw
Consta na Crônica Anglo-Saxônica, Danelaw é o nome histórico dado aos ter-
ritórios britânicos dominados pelas leis dos vikings dinamarqueses (Danes),
contrastando com a Lei Mércia ou Lei Saxã Ocidental vigente nas demais
­áreas da Grã-Bretanha. As leis dinamarquesas vigoravam nos reinos de Nor-
túmbria e Ânglia Oriental, e nas terras dos Cinco Burgos de Leicester, Nottin-
gham, Derby, Stamford e Lincoln.
O Danelaw foi concedido aos escandinavos pelo rei Alfredo Magno (também
conhecido como Alfredo, o Grande) no tratado de Wedmore, após a derro-
ta dos vikings de Guthrum na batalha de Edington em 878, e formalizado
no “tratado de Alfredo e Guthrum”, em algum momento entre 878 e 890. O
documento da negociação ainda existe em inglês antigo e em uma versão
latina posterior, a Quadripartitus, compilado durante o reinado de Henry I
(1100-1135).

Alfredo (849-899), rei de Wessex, defendeu seu reino contra


os vikings por meio da construção de várias fortalezas. Seu êxito
contra as investidas vikings e a reorganização do reino por ele
liderada lhe outorgaram o epíteto “o Grande”.

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Inglês antigo 57

Os avanços vikings e a ascensão do reino de Wessex


As invasões dos vikings, principalmente do grande exército
dinamarquês, desestruturaram a geografia social e política da Grã-
-Bretanha e da Irlanda. No entanto, em 878, a famosa vitória do
rei Alfredo sobre os vikings, em Edington, freou a investida di-
namarquesa. Porém, a Nortúmbria já se tornara um reino viking,
enquanto a Mércia foi partida ao meio e a Ânglia Oriental já não
mais era um território político anglo-saxão. Os reinos pictos, es-
coceses (imigrantes do norte da Irlanda que fundaram um reino na
costa sudoeste da futura Escócia – em latim, os irlandeses eram
chamados Scotti) e galeses também foram abalados pelos ataques
vikings, que certamente também contribuíram para a constituição
do Reino de Alba, que mais tarde formaria a Escócia.

Figura 1.10  Divisão da Inglaterra no século X.



Cedido à Escócia c. 975

S LOTHIAN Assentamento norueguês


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A Bamburgh Assentamento dinamarquês


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Cana

Fonte: adaptada de Blair (1984, p. 89).

Book 1.indb 57 17/11/16 19:14


58 Gramática histórica da língua inglesa

A tomada da Ânglia Oriental, da Nortúmbria e do noroeste


da Mércia pelos vikings dinamarqueses resultou em uma série de
assentamentos vikings nessas regiões. No começo do século X,
o governo norueguês de Dublin (na Irlanda) passa a administrar
também o reino dinamarquês de York (na Grã-Bretanha). Esses
assentamentos dinamarqueses e noruegueses foram influentes o
bastante para marcar significativamente a língua inglesa, especial-
mente os dialetos falados nas regiões de maior população escan-
dinava. Assim, embora a vasta maioria dos cem vocábulos mais
utilizados no inglês atual seja derivada do inglês antigo, diversas
palavras essenciais da língua inglesa moderna são originárias do
nórdico antigo. Ademais, vários nomes de localidades em zonas
de colonização viking apresentam origem escandinava.
No ano de 899, já no fim do reinado de Alfredo, ele era o úl-
timo soberano inglês remanescente. Sob seu comando, a Mércia
foi incorporada aos domínios de Wessex, sendo governada por seu
genro Æthelred. A região da Cornualha, localizada ao extremo
sudoeste da Inglaterra, também foi dominada por Wessex, assim
como os reinos galeses, que, embora independentes em termos
práticos, reconheceram Alfredo como seu soberano.

A consolidação do reino de Inglaterra


Ainda durante o reinado de Alfredo, o Grande, os anglo-
-saxões de Wessex foram lentamente ampliando seus domínios,
reconquistando os terrenos perdidos para os vikings dinamar-
queses. Essa trajetória de expansão foi, portanto, iniciada pelo
rei ­Alfredo, que passou a acumular os títulos de rei de Wessex
e rei dos Anglo-Saxões.
A unificação de todas as terras anglo-saxônicas, contudo, ainda
estava apenas começando. Com a morte do rei Alfredo, em 899, seu
filho Edward, o Velho (870-924), foi coroado e prosseguiu com a
dura missão de unir os territórios sob domínio escandinavo à coroa
de Wessex, conquistando as Midlands Orientais e a Ânglia Orien-
tal dos dinamarqueses, no ano de 917, e tornando-se o primeiro a
finalmente derrotar os escandinavos do Danelaw. Em 918, após a
morte da irmã de Edward, Etelfleda, ele passou a reinar também
sobre a Mércia, encerrando a independência nominal desse reino.
Com a morte de Edward, Athelstan (895-939), seu filho, assu-
miu o trono e conquistou, em seguida, o último reduto dinamarquês

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Inglês antigo 59

na Nortúmbria, York. Dessa maneira, Athelstan tornou-se o pri-


meiro rei anglo-saxão de todo o território inglês, no ano de 927.
Dessa forma, o sonho de Alfredo, o Grande, se concretizou, e
Athelstan recebeu o título de rei dos Ingleses. Com isso, a terra
dos anglos (Engla land, em inglês antigo) finalmente fora unifica-
da politicamente sob um único rei.

Fontes textuais
Beowulf
De autoria desconhecida e criado entre os séculos VIII e IX da
era cristã – apesar de já ser recitado pelos menestréis da Idade Mé-
dia desde o século VII –, Beowulf é o mais antigo texto conhecido
da literatura anglo-saxônica.
Esse poema épico passa-se na Escandinávia do século VI,
apresentando várias alusões a outras lendas e heróis das crenças
das tribos germânicas. Não há fatos que comprovem a real exis-
tência do personagem principal, o príncipe Beowulf, apesar de
alguns eventos relatados possuírem comprovação histórica.
Dividido em duas partes, o poema conta com mais de três mil
versos, começando pela narração de como Beowulf, príncipe sue-
co e herói da tribo dos gautas, vai ao socorro do rei da Dinamarca,
cujo reino se encontrava ameaçado pelo demônio ­Grendel. Com a
ajuda de seus companheiros, Beowulf vence Grendel e, posterior-
mente, a mãe de Grendel, que tentara se vingar da morte do filho.
Na segunda parte, Beowulf, após um reinado tranquilo de cin-
quenta anos em sua terra natal, trava sua última batalha contra um
dragão que ameaça seu reino. Mesmo sendo capaz de derrotá-lo,
a vitória custa-lhe a vida.
O único manuscrito conhecido de Beowulf data do século VI,
porém há evidências de que o texto original já existia anterior-
mente. Como outros poemas anglo-saxões, Beowulf não utiliza
rimas, estando escrito em versos aliterativos, nos quais a primeira
metade de cada verso se relaciona à segunda metade por sílabas
de som semelhante. Outro atributo interessante do poema é o uso
de kennings, figura de linguagem que consiste na utilização de re-
ferências poéticas compostas em lugar do nome habitual de indi-
víduos ou coisas. É um exemplo típico de kenning a representação
do mar como “caminho da baleia”.

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60 Gramática histórica da língua inglesa

De acordo com Mitchell et al. (apud MITCHELL; ROBIN-


SON, 1989, p. 267), o poema Beowulf representa uma sólida de-
monstração do poder e da variedade da poesia no inglês antigo,
expondo narrações sobre temas como o valor da batalha, reflexões
sobre o homem e seu mundo e um claro senso da transitoriedade
das coisas.

The Dream of the Rood


Provavelmente escrito em meados do século VIII, The Dream
of the Rood (O Sonho do Crucifixo) é o primeiro poema da língua
inglesa relacionado a sonhos e um dos documentos centrais da lite-
ratura do inglês antigo. Atualmente, o poema existe em sua forma
mais completa no Livro Vercelli, um manuscrito de poesia e prosa do
inglês antigo datado da segunda metade do século X.
O poema é dividido em três partes principais: o relato do so-
nhador de sua visão da cruz, o monólogo da cruz descrevendo o
processo de crucificação e a resolução do sonhador de buscar a
salvação da cruz.
Os monólogos e subsequentes diálogos de dois personagens –
o sonhador e o crucifixo – desenham o quadro do poema. De-
ve-se observar, ainda, a capacidade do poeta de The Dream of
the Rood de utilizar novos vocábulos e frases para descrever as
características de Cristo, de Deus e da cruz. Assim, além de um
dos personagens do poema ser um objeto inanimado, a atribuição
de personalidade e poder de oratória ao crucifixo diferencia The
­Dream of the Rood dos demais poemas da época.

The Anglo-Saxon Chronicle


A Crônica Anglo-Saxônica ou Crônica Anglo-Saxã (Anglo­
‑Saxon Chronicle) é uma coletânea de anais escritos em inglês
antigo que relata a saga do povo anglo-saxão. Seu manuscrito ori-
ginal foi provavelmente redigido em Wessex, no final do século
IX, durante o reinado de Alfredo, o Grande. Foram feitas várias
cópias da obra original, as quais foram entregues em monastérios
ingleses e constantemente atualizadas de forma independente.
Há nove manuscritos dessa obra conservados inteira ou par-
cialmente, embora nem todos apresentem a versão original. En-
quanto o mais antigo deles foi produzido ainda no final do reinado
de Alfredo, o mais recente foi elaborado em 1116, no monastério

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Inglês antigo 61

de Peterborough (Peterborough Abbey), após um incêndio ter des-


truído o acervo local.
A maior parte do conteúdo da Crônica encontra-se no formato
de anuário, sendo o primeiro registro do ano de 60 d.C. A narração
dessa obra mostra-se bastante parcial, uma vez que se percebem
omissões e contradições por parte dos escribas. Apesar disso, a
Crônica é o mais importante documento histórico desse período in-
glês, descrevendo os acontecimentos desde a evasão dos romanos
até as décadas da conquista normanda e fornecendo informações
exclusivas da época. Esses manuscritos são fontes inestimáveis
da história da língua inglesa; o manuscrito de ­Peterborough, por
exemplo, é um dos representantes pioneiros do chamado inglês
médio (Middle English).
Atualmente, sete dos nove manuscritos e fragmentos remanes-
centes estão localizados na Biblioteca Britânica (British Library),
enquanto os outros dois estão na Biblioteca Parker da Universidade
Corpus Christi, em Cambridge, e na Biblioteca Bodleian, em Oxford.

Beda, Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum


Grande parte do que hoje sabemos a respeito da história inglesa
antes do século VIII fundamenta-se na obra Historia ­Ecclesiastica
Gentis Anglorum (História Eclesiástica do povo inglês), do mon-
ge Beda (673-735); primeira narrativa inglesa que aborda, até 731,
o período da ocupação romana.
Nessas crônicas, Beda descreve o plano do Papa Gregório
­Magno de liderar a missão religiosa de conversão dos anglo-saxões,
mas terminou optando por enviar Santo Agostinho (de Canterbury,
não de Hipona). Os textos de Beda dimensionam o efeito do cristia-
nismo nos infiéis, relatando também o encontro entre o inglês anti-
go e o latim. Além disso, o Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum
foi o primeiro livro a apresentar notas de rodapé.
Outro aspecto valioso dessa obra são as informações de figuras
políticas e eventos da história anglo-saxônica, obtidas por Beda
de consultas em monastérios, Igrejas e registros dos governos da
época. O monge presta atenção especial aos conflitos entre cris-
tãos romanos e celtas, além das datas e localidades de eventos
importantes no calendário cristão. No ano de 1899, Beda foi cano-
nizado, sendo atualmente conhecido como São Beda, o Venerável
(Saint Bede, the Venerable).

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62 Gramática histórica da língua inglesa

Exercícios de fixação
1. Explique o conceito de plenitude estrutural 20. Como podemos deduzir os efeitos sonoros
ou potencial semiótico. das letras do inglês antigo, de acordo com
2. O que era a linguagem protoindo-europeia? Crystal (1995)?
3. Quem foi August Schleicher e qual foi sua im- 21. Quais gêneros existem na declinação do in-
portância no campo da linguística? glês antigo?
4. Qual é a utilidade do método de reconstru- 22. Quais eram os quatro principais dialetos an-
ção comparada? glo-saxões?
5. O que é uma protolíngua? 23. Quais eram as mais importantes característi-
6. Explique a chamada Lei de Grimm. cas do dialeto West Saxon?
7. Qual era a formação da família indo-europeia? 24. Cite os principais aspectos relativos ao dialeto
8. Como podemos classificar as línguas germânicas? Northumbrian.
9. Diferencie história interna de história externa. 25. Quais reinos anglo-saxões constituíram a co-
10. De acordo com Faraco, como é possível con- nhecida heptarquia?
jugar a história interna e a história externa de 26. O que era o chamado Danelaw?
uma língua? 27. Qual era a realidade política na Grã-Bretanha
11. Quais são as diferenças entre fonética e fono- ao longo do século VII?
logia? 28. Descreva a influência das línguas celtas e do
12. Qual é o papel da morfologia na área da lin- latim na formação do inglês antigo, diferen-
guística? ciando-os.
13. O que é gramaticalização? 29. Qual foi o primeiro ataque viking registrado
14. Defina descoloração semântica. na Grã-Bretanha?
15. Conceitue etimologia. 30. Quem foi Alfredo, o Grande?
16. O que representa o léxico de uma língua? 31. Quem foi Athelstan e qual foi sua relação com
17. Quais tribos germânicas conquistaram a o processo de unificação da Inglaterra?
Inglaterra, de acordo com a obra História 32. Explique a estrutura de The Dream of the Rood,
Eclesiástica do povo inglês? distinguindo-o dos outros poemas da época.
18. Por que a chegada dos jutos à Inglaterra foi 33. Qual foi a importância da obra História
diferente do governo romano anterior? Eclesiástica do povo inglês para os estudos
19. Como era o vocabulário do inglês antigo? histórico-linguísticos?

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Inglês antigo 63

Panorama

Diferenças entre linguagem, línguas e dialetos


Em português, há distinção entre linguagem, lín- veiculada em alguma língua específica, adquirida
guas e dialetos. Possivelmente você já deve ter ouvi- pelos indivíduos no processo de aquisição da língua
do falar sobre os três termos, não é mesmo? São três materna. A língua é, sobretudo, um instrumento re-
palavras distintas que cumprem uma mesma fina- lacional que estrutura o sistema de comunicação
lidade: promover a comunicação entre os falantes. de algum grupo e possibilita a formação de signos
Contudo, embora linguagem, língua, idioma e dia- linguísticos (morfemas, palavras, frases e sentenças),
leto sejam termos corriqueiros, os sociolinguistas, e permite a transmissão de mensagens entre indiví-
aqueles que estudam a relação entre a língua e duos (codificação e descodificação de significado),
a sociedade, tendem a evitá-los, já que, especial- que é a sua maior finalidade. Ou seja, uma língua é
mente linguagem, língua e dialeto, pressupõem um “princípio estruturador” ou, em outras palavras,
algumas relações hierárquicas que carecem de é uma certa organização de conceitos, do sistema
bons fundamentos científicos, e seu uso quotidia- sonoro e dos elementos gramaticais que é com-
no pode causar mal-entendidos. partilhada pelos membros de determinado grupo
social por terem-na aprendido. Os falantes de uma
Linguagem língua servem-se dela para estabelecer interações
Para os linguistas, a linguagem é a faculdade ge- com a sociedade em que vivem.
nérica e inata que todo ser humano possui para Quando dizemos que a língua é um instrumento
aprender alguma língua ou algumas línguas nati- do povo, dizemos que, embora existam normas
vamente. Tal capacidade é específica à nossa espé- gramaticais, de significado e de pronúncia (as
cie, uma herança genética que possibilita qualquer normas reais reveladas nas práticas linguísticas
criança a adquirir qualquer língua natural apenas cotidianas da comunidade de falantes nativos,
por exposição a pessoas falando-a, sem nenhuma não as normas prescritivas da gramática tradi-
instrução formal. Por mais que um filhote de gato, cional), cada falante desenvolve uma forma de
cachorro ou papagaio conviva com seres huma- expressão própria, originando aquilo que cha-
nos, embora possa aprender a reconhecer diversas mamos de fala. No entanto, qualquer fala, em-
palavras e expressões (e até enunciar algumas, no bora possa ser individual, distintiva e criativa, é
caso do papagaio), ele nunca aprenderá a dominar regida sempre por regras maiores e mais gerais
a língua dos donos da mesma maneira que uma (as normas da língua). Caso contrário, cada um
criança se tornar um falante nativo, capaz de pro- de nós acabaria criando sua própria língua, o
duzir sentenças inteiramente originais, nunca an- que impossibilitaria a comunicação, porque nin-
tes ouvidas, e de interpretá-las. guém compartilharia as normas para decifrar as
mensagens transmitidas. Na fala encontramos
Língua muitas variações linguísticas, que jamais devem
Uma língua é uma manifestação da Linguagem. Não ser vistas como transgressões, mas como prova
podemos acessar a Linguagem, nossa capacidade de que a língua é viva e dinâmica, a não ser que as
linguística geral, de forma direta, pois ela sempre é variantes consideradas “erradas” ocorram na boca

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64 Gramática histórica da língua inglesa

de falantes não nativos e jamais seriam aceitas e variedade que, por uma série de acidentes histó-
entendidas naturalmente pela comunidade de ricos, acabou se tornando o protótipo. Ou seja, a
falantes maternos (e até variantes não nativas, inglês culto não é mais que um dialeto que ga-
inicialmente consideradas “erradas” pelos falantes nhou prestígio por ser o mais usado na corte real
nativos, podem acabar sendo integradas no siste- em Londres e pelas classes sociais dominantes. Por
ma de regras da língua do grupo, se as condições esse destaque sociocultural, que não tem nada
socioculturais estiverem propícias). a ver com nenhuma qualidade inerente à ele, o
dialeto da elite inglesa passou a ser considerado
Dialeto o modelo da “língua inglesa” e seus usos acaba-
O dialeto é usado tipicamente para se referir à ram consagrados como “corretos” nos dicionários
variedade de uma língua própria de uma região e nas gramáticas. Sendo assim, divergências dessa
ou território e está relacionado às variações lin- norma eram tratadas como erros. No entanto, essa
guísticas encontradas na fala de determinados variedade padrão culta não é a “mãe” das demais
grupos sociais. As variações linguísticas podem ser variedades diatópicas faladas na Grã-Bretanha (e
compreendidas a partir da análise de diferentes ao redor do mundo). O escocês e os dialetos do
fenômenos: exposição aos saberes convencionais norte da Inglaterra são as filhas do nortúmbrio;
(diferentes grupos sociais utilizam a língua de ma- os dialetos falados no sudoeste descendem do
neiras diferentes e julgam os usos de maneiras di- saxão ocidental, e assim por diante. O “inglês” ofi-
ferentes); situação de uso (os falantes adequam-se cial é o resultado de uma mistura de variedades
linguisticamente às situações comunicacionais de diatópicas medievais e pré-modernas faladas pelo
acordo com o nível de formalidade, grau de inti- centro-leste e sudeste da Inglaterra, cujos falantes
midade (variação diafásica), meio de interação, por contribuíram para formar a população da capital
exemplo, escrita versus oral (variação diamésica); e em sucessivas ondas migratórias.
contexto sociocultural (gírias e jargões podem di- Consequentemente, ao falarmos da “língua ingle-
zer muito sobre grupos específicos formados por sa”, é imprescindível estarmos cientes de que o que
algum tipo de “simbiose” cultural). A variação de- unifica as diversas variedades modernas é sua rela-
corrente de divisões sociais (classes, castas etc.) é ção genealógica com outras variedades anteriores,
chamada de diastrática, a decorrente de variação as quais também podem ser derivadas de forma
geográfica, diatópica, e as decorrentes de fatores sistemática pela aplicação do método de recons-
cronológicos são as diacrônicas. trução comparada de versões ainda mais antigas,
Contudo, é preciso ter cuidado ao classificar as até chegar ao protogermânico e, em última instân-
diferentes variedades linguísticas identificáveis cia, ao protoindo-europeu. Portanto, poderíamos
por meio da hierarquia convencional na qual as classificar todas as línguas indo-europeias como
línguas possuem dialetos. Na verdade, em termos “dialetos” da sua mãe, embora elas sejam tão dife-
das relações genealógicas, muitas variedades que rentes entre si. É por esse motivo que os linguistas
são classificadas como “dialetos” de uma “língua” tendem a evitar os termos “língua” e “dialeto” ao
não possuem nenhuma relação direta com a va- tratar de agrupações cognatas complexas, e pre-
riedade identificada como “língua”. Por exemplo, ferem denominar tudo uma “variedade linguística”,
os “dialetos” ingleses não são corruptelas ou des- sem pressupor nenhuma relação hierárquica além
vios do inglês padrão, mas dialetos irmãos daquela da ascendência comum.

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Inglês antigo 65

Recapitulando

A
prendemos nesta unidade a noção de principais dialetos anglo-saxões: Northumbrian,
família linguística, descobrindo o uso West ­Saxon, ­Mercian e Kentish.
da reconstrução comparada para com- Conceituamos a heptarquia anglo-saxônica e
preender as línguas do passado. Estudamos as descobrimos a participação do latim, das lín-
línguas germânicas, suas origens e classificações. guas celtas e do norreno na constituição do
Além disso, abordamos os conceitos de his- inglês. Examinamos, ainda, a história externa
tória interna e história externa, conhecendo da língua inglesa antiga, compreendendo o
a participação da fonética e da fonologia no contexto das invasões vikings e da unificação
aspecto sonoro das línguas. Analisamos a his- do reino britânico. Finalmente, exploramos as
tória externa do estabelecimento da língua in- principais obras do inglês antigo, tais como a
glesa, avaliando como ocorreram as migrações Crônica Anglo-Saxônica e a História Eclesiástica
germânicas à Grã-Bretanha e a utilização dos do povo inglês.

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unidade 2
O inglês médio
Objetivos de aprendizagem
Explorar as mudanças que ocorreram na língua inglesa entre a inva-
são normanda de 1066 e a coroação de Henry VII em 1485, que en-
cerrou a Guerra das Rosas.
Descobrir a história externa do reino da Inglaterra e como a conquis-
ta pelos normandos transformou radicalmente o contexto sociocul-
tural e político dos falantes do inglês antigo.
Conhecer as origens e a classificação tradicional dos dialetos ingle-
ses medievais.
Entender a relação entre a história interna e a externa das línguas para,
então, compreender as mudanças estruturais da língua inglesa.
Investigar as transformações linguísticas que ocorreram nos contex-
tos fonético-fonológico, morfológico, sintático, lexical e semântico-
-pragmático durante o período medieval.
Analisar a estrutura do inglês médio e explorar as principais divisões
dialetais da época: Norte, Sudoeste, Centro-Oeste e Centro-Leste, Sudes-
te e Angliano Oriental.
Estudar a expansão territorial dos descendentes de William I, “o Con-
quistador”, no continente europeu, conhecendo os domínios da di-
nastia Plantageneta, as repercussões do contato com a cultura literária
francesa e com a cultura trovadoresca occitana.
Reconhecer a significativa influência da língua francesa, em seus dia-
letos normando e parisiense, na formação da língua inglesa durante
a Idade Média.
Pesquisar a história externa do inglês médio, analisando a trajetória
das invasões inglesas da França no século XIV, o impacto social da
Peste Negra e a instabilidade política do reino da Inglaterra durante
a Guerra das Rosas no século XV.

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68 Gramática histórica da língua inglesa

Conhecer algumas das principais fontes textuais do inglês mé-


dio, ressaltando a importância dessas obras para o estudo da
linguística e para a reintegração da língua como o veículo de
cultura da elite.

Temas
1 – História externa da Inglaterra medieval
Neste tema, você estudará três momentos centrais à história
da Inglaterra: primeiro, a controvérsia sobre a sucessão à co-
roa da Inglaterra que levou a duas invasões do país em 1066,
o impacto na sociedade e cultura inglesas da conquista nor-
manda e a expansão territorial inglesa no sul e no oeste da
atual França ao longo do século XII durante os reinados dos
descendentes de William I. Então, você explorará de que ma-
neira nos séculos XIII e XIV a sociedade híbrida anglo-nor-
manda se envolveu em relações intensas, às vezes violentas e
outras pacíficas, com seus vizinhos imediatos escoceses, gale-
ses e além-mar, com irlandeses, franceses, e no contexto das
Cruzadas, com povos ainda mais distantes. Veremos as terrí-
veis consequências da Peste Negra, que dizimou a população
e alterou as relações sociais na essência. Finalmente, você in-
vestigará a grande instabilidade política no século XV conhe-
cida como a Guerra das Rosas, durante a qual os territórios
continentais ingleses foram perdidos definitivamente, quan-
do o inglês volta a ser uma língua culta entre a elite, e cujo fim
encerra o período medieval em terras inglesas.
2 – Influências estrangeiras
Neste tema, você investigará as profundas influências que a
conquista normanda exerceu na língua inglesa, especial-
mente no tocante ao léxico e à grafia. Você aprenderá a de-
tectar a origem dialetal diversa de palavras emprestadas do
francês normando ou da variedade de Paris, e verá as outras
línguas que contribuíram à evolução do inglês ao longo da
Idade Média.

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O inglês médio 69

3 – História interna: mudanças estruturais


Neste tema serão abordadas as mudanças que ocorreram na
estrutura da língua inglesa durante os séculos medievais. Você
identificará as numerosas mudanças que atingiram o sistema
fônico e a gramática.
4 – Diversidade dialetal
Neste tema, você estudará a diversidade dialetal do inglês com
mais detalhes, aprendendo como os dialetos anglo-saxônicos
evoluíram nas diferentes regiões, gerando a enorme variedade
linguística que observamos no inglês medieval. Também apren-
derá um pouco das diferenças que existiam entre o inglês da
Inglaterra e sua irmã escocesa.
5 – Literatura medieval
Este tema apresentará uma seleção das mais importantes obras
literárias produzidas em inglês durante o período medieval.
Você conhecerá o valor específico desses monumentos lin-
guísticos e investigará seu papel no retorno da língua inglesa
ao estatuto de língua literária, depois de vários séculos de infe-
rioridade sociocultural frente à francesa.

Introdução
To Frankis & Normanz, for þar grete laboure,
To Flemmynges & Pikardes, þat were with him in stoure,
He gaf londes bityme, of whilk þer successoure
Hold ȝit þe seysyne, with fulle grete honoure.

(Robert Mannyng of Brunne)


Mannyng’s Chronicle (1338) (ed., Hearne, I, 72)1

Þus come lo Engelond in to Normadies hond.


& þe normans ne couþe speke þo bote hor owe speche
& speke French as hii dude atom, & hor children dude also teche;
So þat heiemen of þis lond þat of hor blod come
Holdeþ alle þulke spreche þat hii of hom nome.

1 “A franceses e normandos, por seu grande trabalho, / A flamingos e picardos,


que estavam com ele na batalha, / ele deu terras logo, das quais os sucessores
deles / ainda possuem o título, com muito grande honor.”

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70 Gramática histórica da língua inglesa

Vor bote a man conne Frenss me telþ of him lute.


Ac lowe men holdeþ to Engliss & to hor owe speche ʒute.
Ich wene þer ne beþ in al þe world contreyes none
Þat ne holdeþ to hor owe speche bote Engelond one.
Ac wel me wot uor to conne boþe wel it is,
Vor þe more þat a mon can, þe more wurþe he is.
Chronicle of Robert of Gloucester (c. 1300) (ll. 7537-7547)2

Nesta unidade, você aprenderá sobre a história externa da Inglaterra,


desde os últimos anos do reino anglo-saxônico e até a controvérsia so-
bre a sucessão ao trono de Edward “o Confessor”, que desencadeou duas
invasões do reino no ano de 1066. Primeiro, no norte, pelos noruegue-
ses, que o rei Harold Godwinsson conseguiu repulsar, e em seguida no
sul, pelos normandos sob o duque William, “o Bastardo”. A vitória das tro-
pas de William sobre o exército de Harold na batalha de Hastings muda-
ria o curso da história da Inglaterra e da língua inglesa profundamente.
Depois, você estudará o impacto da conquista normanda sobre a so-
ciedade e a cultura da Inglaterra. O domínio total do país por uma
pequena elite francófona causou um período de contato prolongado
e íntimo entre o inglês e a cultura e língua francesa. Os interesses po-
líticos dos reis da Inglaterra no continente europeu, na Irlanda e na
Grã-Bretanha durante os séculos depois da conquista, exerceriam in-
fluências que transformariam a língua inglesa.
Quando o inglês começa a ressurgir na escrita depois de um longo
tempo, durante o qual o francês tinha sido o principal veículo da
cultura literária, a forma da língua é quase irreconhecível quando a
comparamos com a do inglês antigo. Seus estudos levarão você a in-
vestigar a natureza dessas mudanças estruturais e os motivos que
fizeram que a língua inglesa não desaparecesse, abandonada em
prol do francês, e as condições que possibilitaram seu retorno.

2 “Escutem! Assim, veio parar a Inglaterra, na mão da Normandia. / E os norman-


dos não sabiam falar outra língua naqueles tempos que a própria deles / e eles
falavam francês, como costumavam em sua terra, e a seus filhos, o ensinaram
também; / De modo que, homens nobres deste país que vêm do sangue da-
queles, / todos eles mantêm essa mesma língua que tomaram deles. / Pois, a
não ser que um homem saiba francês, as pessoas pouco o estimam. / Contu-
do, homens comuns preservam o inglês e ainda mantêm sua fala. / Acredito
que haja, em todo o mundo, nenhum país / que não preserva sua própria
língua, exceto a Inglaterra apenas. / Mas é sabido que é bom saber as duas, /
porque quanto mais um homem souber, mais ele vale.” Tradução baseada em
Baugh e Cable (1994).

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O inglês médio 71

História externa da Inglaterra medieval


A conquista normanda e o século XII
A morte sem herdeiro do rei Edward III, “o Confessor”, da In-
glaterra em 1066 precipitou uma crise política no reino. Havia três
pretendentes ao trono inglês: o cunhado do falecido rei, Harold
Godwinsson, o poderoso earl de Wessex; Harold “Hardrada”, rei
da Noruega; e William, duque da Normandia, primo distante do
rei Edward.

Saiba mais
Harold Godwinsson
As fontes históricas parecem indicar que Harold Godwinsson, o earl de Wes-
sex, foi o escolhido por Edward como seu herdeiro. Além da preferência real,
Harold tinha a vantagem de ser o mais poderoso dos grandes senhores in-
gleses: o earl de Wessex incluía toda a região Sul da Inglaterra, e os outros
nobres anglo-saxões favoreciam sua candidatura, por ser nativo e conhecido.
Sua irmã Edite era casada com o rei Edward, e seu irmão Tostig era o earl de
Nortúmbria.
A família de Godwin dominava a política inglesa durante os meados do
século XI. No entanto, as relações entre a família de Harold e o rei Edward
não eram sempre cordiais. Seu pai, o earl Godwin, tinha apoiado os reis di-
namarqueses Canuto, Haroldo “Pé-de-Lebre” e Hardacanuto durante o longo
exílio de Edward na Normandia. Godwin e seus filhos tinham sido exilados
por Edward entre 1053 e 1054, por terem se recusado a punir os envolvidos
em um levantamento no porto de Dover. Harold também tinha uma relação
difícil com seu irmão mais novo, Tostig, que se rebelou e foi exilado. Tostig
apoiou a invasão de Harold Hardrada e morreu lutando contra os noruegue-
ses na batalha de Stamford Bridge em setembro de 1066.

Saiba mais
Harold Sigurdsson “Hardrada”
Rei da Noruega de 1046 a 1066, Harold teve uma vida plena de aventuras antes
de ser morto na batalha de Stamford Bridge, lutando contra o exército do rei
Harold Godwinsson, perto de York, a principal cidade no norte da Inglaterra,

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72 Gramática histórica da língua inglesa

em setembro de 1066. Seu apelido “Hardrada” significa “governo” ou “julga-


mento duro”, porque reprimia violentamente qualquer contestação a sua au-
toridade. Os historiadores consideram que a morte de Harold marca o fim da
era viking (séculos IX a XI). Antes de assumir o trono da Noruega, Harold via-
jara muito pelos principados eslavos no Leste Europeu, lutando como merce-
nário, e integrou a famosa “guarda varegue” dos imperadores bizantinos em
Constantinopla, por quem lutou pelo Mediterrâneo. Sua vida foi matéria de
várias sagas nórdicas.
Harold justificou sua reivindicação ao trono da Inglaterra por um acordo en-
tre o rei Hardacanuto da Inglaterra e da Dinamarca e o rei Magnus da Norue-
ga, sendo que cada rei indicou o outro como seu herdeiro. Contudo, quando
Hardacanuto morreu em 1042, Edward, o filho de Ethelred, o último rei an-
glo-saxão antes da conquista dinamarquesa, fez-se coroar rei da Inglaterra na
ausência de Magno, que por inércia ficou apenas com a Dinamarca. Quando
Magno morreu, Harold executou os planos noruegueses já existentes de re-
tomar a Inglaterra por força das armas. No entanto, seu exército foi derrotado
pelas forças do novo rei Harold Godwinsson.

Figura 2.1  Duque William de Normandia (no centro) com


seus meios-irmãos, Odo, bispo de Bayeux (à esquerda),
e Robert, Conde d’Eu (à direita, com espada na mão).
Foi Odo que mandou fazer a “tapeçaria de Bayeux”, um
painel de linho de quase 70 m de comprimento por 50 cm
de largura, bordado com cinquenta cenas do contexto
histórico da conquista normanda.

Fonte: Bayeux Museum.

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O inglês médio 73

Saiba mais
William, “o Bastardo”, duque da Normandia
William acreditava ser o herdeiro legítimo de Edward, “o Confessor”, por ser
o parente de sangue mais próximo (eles eram primos de segundo grau).
Além de alegar que Edward já lhe tinha prometido o trono, William declarou
que Harold Godwinsson jurou sobre uma caixa de ossos santos que apoia-
ria William, quando o duque capturou o nobre inglês depois que ele sofreu
um naufrágio na costa normanda. Portanto, quando Harold foi coroado em
Londres, William considerou que tinha sido traído. Ele conseguiu um decreto
do papa de que Harold havia se perjurado e, portanto, poderia ser deposto.
Filho ilegítimo do duque Roberto I com sua amante, Arlete, William foi no-
meado duque em 1035 na idade de sete ou oito anos. Ele escapou de várias
tentativas de assassinato durante sua infância e adolescência, e os nobres
normandos lutaram entre si para supremacia no ducado e para controlar o
jovem duque. Consolidando sua posição em 1047, William fechou uma alian-
ça por matrimônio com seu poderoso vizinho, o conde de Flandres, e guer-
reou contra seus vassalos rebeldes e outros nobres franceses.

Quando resolveu invadir a Inglaterra, William juntou um po-


deroso exército chamando não apenas seus vassalos normandos,
mas também guerreiros de outras regiões da França, com a pro-
messa de grandes recompensas de terras e botim.
Com o apoio pelo conselho de nobres ingleses, o witena-
gemot, Harold Godwinsson foi coroado em janeiro de 1066.
Harold Hardrada invadiu o norte da Inglaterra em setembro. No
entanto, o exército escandinavo foi derrotado pelos ingleses na
batalha de Stamford Bridge em 25 de setembro, onde Harold
Hardrada foi morto. Assim que a batalha acabou, Harold soube
da invasão de William da Normandia no litoral sul, e o exército
inglês teve de  retornar em marcha forçada. A batalha decisiva
entre normandos e anglo-saxões ocorreu em 14 de outubro, em
um morro perto da cidade de Hastings. Depois de várias horas
de combate, os normandos conseguiram romper a parede de es-
cudos dos ingleses. Harold Godwinsson foi morto, e as tropas de
William venceram a batalha. William foi coroado em Londres
em 25 de dezembro de 1066.

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74 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.2  Lugares e eventos importantes na Inglaterra no ano de 1066.


3º O 0º

Batalha de Fulford Batalha de


Haroldo Hardrada e Tostig Stamford Bridge
Godwinson derrotam Eduíno Haroldo derrota Haroldo
e Morcar (20 de setembro) Hardrada e Tostig Godwinson
(25 de setembro)

54º N
Wallingford
Stigand se submete Berkhamsted
(final de outubro) Líderes ingleses
se submetem
(fim de outubro)
Londres
Guilherme é coroado
(25 de dezembro)

Southwark
Guilherme é repelido
(meados de outubro)

Pevensey Batalha de Hastings


Guilherme desembarca Guilherme derrota
(28 de setembro) Haroldo (14 de outubro)
Canal da Mancha

Fonte: Amitchell125 e Lumos3.

Saiba mais
Os normandos: vikings afrancesados
O próprio nome “Normandia” significa “terra dos homens do norte” (cf., inglês,
northman, latim, nor(t)mannus, “escandinavo”). Os vikings tinham ocupado
áreas ao redor da desembocadura do rio Sena desde meados do século IX
para passar o inverno e como uma base para atacar outras regiões. A Nor-
mandia começou como território cedido em 912 pelo rei da França, Charles
III, “o Simples” (r. 893-922), ao líder dinamarquês Rollo.

Figura 2.3  A Normandia.


Canal da Mancha Dieppe


Fécamp
Ilhas Cherbourg Lillebonne
Anglo- Rouen
normandas Le Havre

Bayeux
Ri
o

Lisieux
Se

na
Caen
Coutances
49º N
Évreux
Ri
o
O
rn
e

Avranches

R io
Eu
Alençon re

Fonte: Urban.

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O inglês médio 75

A concessão de terras francesas assemelha-se à criação do Danelaw no norte


e no leste da Inglaterra por Alfredo Magno, em 886, em seu tratado com o
rei dinamarquês de East Anglia, Guthrum. Rollo jurou lealdade ao rei Charles,
casou-se com sua filha e aceitou ser batizado. Em troca, Rollo recebeu o título
ao território e foi nomeado duque. Ao longo do século seguinte, os duques
da Normandia expandiram seus domínios à custa dos senhores vizinhos e
sempre mantiveram bastante independência política a respeito do seu se-
nhor feudal, o rei da França.
Rapidamente, os normandos perderam a maioria de suas características
escandinavas, assimilando-se à cultura geral, falando um dialeto do francês
antigo, construindo grandes catedrais, fundando mosteiros e colonizando
outras regiões. No século XI, a Normandia foi uma das regiões mais dinâmicas
de toda a França medieval.

A vitória dos normandos transformou a sociedade inglesa


profundamente. Da noite para o dia, os nobres ingleses que não
foram mortos nas batalhas, ou nos levantamentos posteriores, fo-
ram substituídos por seguidores de William (em 1072, apenas um
dos doze earls era inglês e esse foi executado quatro anos depois)
(BAUGH; CABLE, 1994, p. 109). A grande maioria dos princi-
pais cargos eclesiásticos também foi distribuída entre norman-
dos, por exemplo, os dois arcebispados, de York e de Canterbury.
Apenas um bispo, Wulfstan de Worcester, sobreviveu à troca de
regime, e foi vítima de zombarias dos outros religiosos porque
não sabia falar francês. Os abades dos grandes mosteiros também
foram trocados por normandos ou franceses de outras regiões, à
medida que faleciam. Em 1075, 13 dos 21 abades que assinaram
os decretos do Concílio de Londres eram ingleses; em 1087 havia
apenas três. Além dos magnatas seculares e religiosos, havia uma
massa de seus seguidores comuns normandos, bretões e france-
ses de outras regiões que procuravam fazer fortuna nessa terra de
oportunidades.
William reprimiu com muita violência grandes levantamen-
tos que ocorreram anualmente entre 1067 e 1070, especialmente
no norte da Inglaterra. O novo rei redistribuiu os feudos entre
seus seguidores. A ocupação foi segurada pela construção de
castelos de mota, de terra e madeira, para possibilitar que grupos
reduzidos de normandos pudessem dominar a população majo-
ritariamente hostil.

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76 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.4  Um castelo de mota normando da época da conquista.

torre de
menagem
plataforma
ponte levadiça
casa senhorial

recinto
fortificado

mota

baluarte de terra
paliçada portaria fortificada
fossa
ponte levadiça

Entre 1085 e 1086, William mandou um censo geral do reino


em que os investigadores anotaram o valor, a extensão e o dono
de todas as posses antes da conquista e a situação contemporâ-
nea, para fixar os títulos às propriedades e para calcular impostos.
Esse registro, que ainda existe, ficou conhecido como o Domesday
Book (Livro do dia de avaliação).
Quase todos os novos senhores eram falantes do normando,
um dialeto regional do francês antigo, ou de variedades de ou-
tras regiões francesas. No entanto, a maior parte dos senhores
de terras menores conseguiu manter suas posses depois da con-
quista. Como Baugh e Cable (1994, p. 111) observam, porém,
apesar de os normandos e seus aliados constituírem uma mi-
noria da população da Inglaterra (apud GILLINGHAM, 1984
[1997], p. 104), estimam-se aproximadamente 10 mil norman-
dos contra 1 a 2 milhões de ingleses, a influência exercida por
essa pequena elite francófona era completamente desproporcio-
nal, por sua dominância de todas as posições de destaque social,
militar e religioso.

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O inglês médio 77

Figura 2.5  Uma típica herdade feudal menor.

Herdade feudal

Pasto natual
Bosque
Terceiro campo Casas de servos
(alqueivado) Prado

Primeiro campo
plantio invernal
Casarão do senhor

Fábrica/Ferraria

Primeiro campo Igreja


plantio invernal Taverna Rio
Poço
Segundo campo
(plantio de primavera)
Celeiro Moinho d’agua

William I faleceu em 1087. Ele dividiu seu reino entre seus


filhos: o primogênito, Robert, recebeu o ducado da Normandia, e
o segundo filho, William, recebeu a Inglaterra. O caçula, Henry,
recebeu uma herança em dinheiro. Robert e William II brigavam
para unificar os territórios, até a morte de William II em 1100,
quando Henry assumiu o trono da Inglaterra e, capturando Rober-
to em 1106, unificou o ducado com o reino novamente.
O reino de Henry I contribuiu para restabelecer a autoridade
real, mas sua morte em 1135 provocou uma nova crise política,
porque seu único herdeiro legítimo morrera afogado em um naufrá-
gio em 1120. Henry nomeou sua filha Matilda, viúva do imperador
Sacro Romano, Henry V, como sua herdeira, mas a sucessão foi
contestada por um primo dela, Stephen de Blois, conde de Bou-
logne, que se fez coroar. Matilda e seu segundo marido, Geoffrey,
conde de Anjou, e seu filho Henry, apelidado FitzEmpress, “filho da
Imperatriz” (o prefixo fitz é o cognato normando de fils, “filho” em
francês central), lutaram contra Estevão na Inglaterra e na Norman-
dia, de 1139 até 1053, um período conhecido como “A Anarquia”,
durante o qual o controle do país trocou de mãos várias vezes. Fi-
nalmente, depois da morte do primogênito de Stephen, Geoffrey e

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78 Gramática histórica da língua inglesa

Henry, concordaram que, em troca de manter a paz, Henry herdaria


o reino. Quando Stephen morreu em 1154, Henry foi coroado.

O século XIII: o império angevino


Henry II foi um rei enérgico, que atuou decisivamente para
restabelecer a autoridade real na Inglaterra, depois dos longos
anos de guerra civil. No entanto, o ato mais influente de sua vida
foi certamente seu casamento em 1152 com Eleonor, duquesa de
Aquitânia. Ela foi a herdeira de imensos territórios na Occitânia
(atual sudoeste da França), que, junto com as terras possuídas
por Henry II nos dois lados do Canal da Mancha, criaram um
domínio feudal imenso que se estendia da fronteira da Escócia
até os Pirineus.

Figura 2.6  O “Império” angevino.


Carlisle
Mar do Norte
York
Dublin
Chester
Limerick

Cork
Waterford
Londres
Bristol

50º N

Caen Paris

OCEANO Rennes
ATLÂNTICO Chinon
Nantes

Poitiers
La Rochelle

Le Puy
Bordeaux
Território herdado
por Henry II Nines
Toulouse
Território adquirido por Bayonne
Henry por seu casamento
com Eleonora de Aquitânia
em 1152

Fonte: Watson (2015).

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O inglês médio 79

Henry e Eleonor tiveram cinco filhos e três filhas. A relação


deles era tumultuosa. Henry teve vários filhos ilegítimos com di-
versas amantes, como era esperado de um rei medieval. A partir
de 1167, o casal real passou a viver separadamente. Eleonor levou
sua corte para a cidade de Poitiers, onde se acredita que ela tenha
presidido as célebres, e eventualmente lendárias, “cortes de amor”
citadas pelo escritor Andreas Capellanus (André Capelão). De
acordo com Capellanus, Eleonor e várias outras nobres julgavam
casos amorosos em conformidade com as regras do amor cortês.
O período em que Eleonor esteve em Poitiers é importante por
ter difundido e popularizado a cultura trovadoresca pelo mundo
medieval, incluindo a Inglaterra.

Saiba mais
Occitano e francês
Na França, não se fala apenas o francês. Na Bretanha, no oeste, fala-se bretão,
uma língua celta que descende da língua falada no sudoeste e no sul da Grã-
-Bretanha na época das invasões anglo-saxônicas. Muitos romano-bretões se
refugiaram dos anglo-saxões de Wessex em uma série de emigrações para
o continente. Alguns grupos desses celtas refugiados se estabeleceram no
litoral norte da Espanha e na Galícia. Entre as línguas românicas faladas na
França, existem três grandes divisões dialetais:

1. Os dialetos francianos – (picardo, normando, angevino, champanhense,


orleanês, pontevino, borgonhês, valão) são os falados ao norte do rio
Loire, até a fronteira linguística com o germânico (os dialetos flamen-
gos, holandeses e alemães), aproximadamente ao longo do rio Reno.
2. No leste, no oeste da região da Borgonha, na Suíça ocidental e no
noroes­te da Itália há dialetos franco-provençais, que misturam alguns
traços dos grupos setentrionais e meridionais, sem ser idênticos a ne-
nhuma dessas agrupações.
3. Ao sul do rio Loire, existe o bloco occitano, que inclui o provençal, o
lengadociano e o gascão, entre outros dialetos regionais.

O occitano ou língua d’oco (porque a palavra para “sim” é òc < latim, hoc, “isso”),
é uma língua semelhante, porém, distinta do francês. Na Idade Média, os me-
nestréis compunham poesia pastoral e épica em dialetos francianos ou em
língua d’oil (atual francês, oui “sim” < latim, hoc ille, “isso ali”), mas eles prefe-
riam compor poesia lírica em occitano, seguindo a tradição estabelecida pe-
los trovadores. O occitano era conhecido pelos filhos de Henry II e Eleonor de

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80 Gramática histórica da língua inglesa

Aquitânia, porque era sua língua materna. O próprio Richard era conhecido
pelo apelido “oc et no” (“sim e não”), por ser muito taciturno. Richard I compôs
um poema J’a nus hons pris ou J’a nuls om pres (“Nenhum homem que é pre-
so”), em versões em occitano e em francês, durante sua prisão pelo duque
Leopoldo da Áustria entre 1192 e 1194. O poema é dirigido à sua meia-irmã,
Maria de Champanhe, expressando seus sentimentos de abandono por seu
povo e seus parentes.

Saiba mais
O sistema feudal
Na Idade Média, as pessoas acreditavam que a hierarquia social tinha
sido criada por Deus, tal como todo o mundo. Cada pessoa pertencia
inalteravelmente a uma das cinco camadas sociais. Entre as pessoas co-
muns e os nobres existia uma divisão insuperável de natureza que foi
determinada ao nascimento. Cada classe realizava determinadas funções.
O que as ligavam eram os direitos e responsabilidades. Por exemplo, as
terras pertenciam ao monarca, que as distribuía entre seus principais vas-
salos nobres (barões) em troca de serviços militares, ajuda financeira e
administração de impostos e de justiça. Os nobres maiores, por sua vez,
distribuíam as terras que receberam do rei entre a nobreza inferior (os
cavaleiros), que prestava serviço militar e administrava localmente. Essas
relações entre os nobres foram baseadas em juramentos de lealdade e
serviço (homenagem) do vassalo ao seu senhor.
Entre as pessoas comuns livres, os moradores das cidades ocupavam-se com
o comércio ou como artesões; no campo, eram produtores rurais.
O último degrau da hierarquia social eram os servos, as pessoas comuns
não livres, que trabalhavam na lavoura. Os servos pertenciam ao senhor
feudal e não podiam deixar a propriedade onde nasceram. Os servos de-
viam serviços na lavoura por determinado número de dias por semana
nas terras particulares do seu senhor, além de trabalhar em suas próprias
faixas de terreno, que eram espalhadas por três ou quatro grandes cam-
pos, para que todos compartilhassem os terrenos melhores e piores. O
que sobrasse depois da sua autossustentação poderia ser vendido. Além
do serviço de trabalho, os servos deviam diversos impostos em espécie
ao seu senhor e à Igreja. Em troca, o senhor feudal deveria protegê-los
contra violência e administrar justiça.

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O inglês médio 81

Do lado religioso, existia um pouco mais de flexibilidade para as pessoas co-


muns alcançarem posições de destaque, o que tornava a carreira religiosa
uma opção atrativa para indivíduos não nobres talentosos e com ambição.
No entanto, os cargos mais altos quase sempre eram ocupados por nobres.

Figura 2.7  Estrutura da sociedade medieval.

REI
Transmite
Fornecem
terras, títulos,
dinheiro e
cargos e
cavaleiros
privilégios
Barões
Fornecem
Transmitem
serviço
terras e
militar e
cargos
proteção
Cavaleiros
Fornecem
alimentos, Transmitem
produtos e terras
serviços
Lavradores

Hierarquia social medieval cristã


(social e religiosa, determinada por Deus)

DEUS
A†Ω
Senhor secular:
rei ou imperador Senhor religioso: papa

Nobreza secular: Nobreza religiosa:


príncipe, duque, cardeal,
conde, cavaleiro arcebispo, bispo
Comerciantes, Sacerdotes,
artesãos, frades e
camponeses monges
livres

Servos Fiéis

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82 Gramática histórica da língua inglesa

Em 1173, Henry, o filho mais velho de Henry e Eleonor, rebe-


lou-se contra seu pai e procurou apoio com seus irmãos Richard
e Geoffrey entre os vassalos da mãe deles. A rebelião fracassou,
mas, pelo fato de ter ajudado seus filhos contra ele, Henry II
encarcerou Eleonor durante 16 anos em vários castelos pelo sul
da Inglaterra, até a morte dele em 1189, quando Richard assumiu
o trono.
Apesar da sua fama de “Coração de Leão”, Richard I passou
pouquíssimo tempo na Inglaterra, preferindo explorar seu reino
como uma fonte de renda para manter seus exércitos no conti-
nente. Ele participou ativamente da terceira Cruzada, mas não
conseguiu reconquistar Jerusalém do grande líder muçulmano,
Saladino. Ele foi preso na Áustria ao voltar da Terra Santa e ficou
refém do Imperador Sacro Romano entre 1192-1194, sendo solto
por um resgate colossal de 10 mil libras de prata. Guerreou cons-
tantemente contra o rei da França, Felipe Augusto, morrendo em
1199 em decorrência de uma flechada de besta gangrenosa que
sofreu quando sitiava um castelo.
Durante o reinado de John “Sem-Terra” – que ganhou esse
apelido por não receber inicialmente nenhum patrimônio territo-
rial do seu pai –, vários territórios ancestrais foram conquistados
pelos franceses. A perda do ducado da Normandia e os condados
de Anjou e Maine danificou o prestígio da monarquia, e as po-
líticas desmedidas adotadas por John para financiar a campanha
de retomar as terras continentais o tornaram impopular. Depois
que o rei fracassou na tentativa de reconquistar a Normandia, o
final do seu reinado viu uma série de rebeliões pelos barões que
obrigaram o monarca a assinar a Magna Carta em 1215, um
documento em que os direitos e as responsabilidades do rei e de
seus vassalos foram definidos de forma a limitar o poder do mo-
narca de governar sem consultar os magnatas do reino. Nenhuma
parte respeitou o acordo da Carta inicialmente, e o país recaiu
em uma guerra civil em que os barões recebiam o apoio do rei da
França; quando John morreu de disenteria em 1216, e seu filho
Henry, de apenas nove anos, assumiu o trono, sob a tutela de
William, “o Marechal”.

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O inglês médio 83

O longo reinado de Henry III foi cheio de incidentes. Além de


apertar a população para financiar campanhas militares e extrava-
gantes gestos religiosos e cerimoniais, a situação política foi afe-
tada pela presença de diversos grupos de parentes da família real,
savoiardos da família da rainha Eleonor de Provença, e pictevinos
da família do rei, que eram favorecidos na corte, o que alienou a
nobreza inglesa, resultando numerosas rebeliões e muita instabi-
lidade sociopolítica.

O século XIV: a Guerra dos Cem Anos e a Peste


Negra
O reinado de Edward I
Edward I reinou de 1272 a 1307. Durante sua juventude, ele
participou ativamente de intrigas e rebeliões dos barões con-
tra seu pai, inicialmente apoiando os rebeldes, para depois de-
fender ferrenhamente a posição do rei contra seus adversários.
Foi à Terra Santa na nona Cruzada. Edward foi um rei ativo
administrativamente, promovendo várias reformas e reorgani-
zações jurídicas e burocráticas, principalmente com o objetivo
de melhorar suas rendas, para financiar seus projetos militares,
pois era muito ativo nesse âmbito também. Ele completou o
domínio inglês em Gales, onde fez prevalecer o direito inglês,
e tentou subjugar a Escócia à coroa inglesa. Nesse empreen-
dimento, seus sucessos iniciais não foram duradouros, sendo
desfeitos durante o reinado do seu filho, Edward II. Como todo
monarca da dinastia Plantageneta, ele era ativo na política con-
tinental, tentando principalmente estabelecer alianças contra a
França, com o objetivo de recuperar seus territórios ancestrais
na Normandia e em Anjou. A necessidade de conseguir dinheiro
para realizar suas ambições políticas fazia que Edward tivesse
de recorrer mais ao parlamento para facilitar a arrecadação de
impostos, fortalecendo a instituição, pois os nobres negociavam
o aumento e a garantia de seus direitos com o rei em troca de
liberar o apoio financeiro.

Book 1.indb 83 17/11/16 19:14


84 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.8  Gales depois do tratado de Montgomery em 1267, mostrando a extensão do poder do
príncipe galês Llywelyn durante as instabilidades do reinado de Henry III.
3º O

Iarllaeth
Caer
Gwynedd
Powys Fadog

Powys
Wenwynwyn
Mar da Irlanda
Gwynedd, principado de Llywelyn
Reino ap Gruffudd
da
Inglaterra Territórios conquistados por Llywelyn
Ceredigion
Builth Territórios de vassalos de Llywelyn

Candref Senhorias dos barões anglo-normandos


52º N Mawr “da Marca galesa”
Brycheining
Senhorias dependentes diretamente
do rei da Inglaterra

Marcher Lordships

OCEANO
ATLÂNTICO

Fonte: AlexD.

Figura 2.9  Os domínios em Gales depois do Tratado de Aberconwy de 1277.

3º O

Cemais

Deganwy
Abe

Rhosyr Aberconwy Reino


ra Garth da
r ff

w Ar Celyn
l
Bangor le Inglaterra Principado de Gwynedd, sujeito
iog
a Llywelyn ap Gruffydd
ch

n
fo
we

Dolbadan Dyfrfuin
Rhu
dd

Arfon Clwyd Terras de Dafydd ap Gruffydd,


Dolwyddelan
irmão de Llywelyn
53º N
Penllyn Senhorias “da Marca” e demais
Llyn Dunoding vassalos reais
Antigo território galês cedido
Senhorias da Marca
ao reino da Inglaterra
Galesa e outras
Mar da Irlanda
dependências reais

Fonte: AlexD.

Book 1.indb 84 17/11/16 19:14


O inglês médio 85

Figura 2.10  Gales depois do Estatuto de Rhuddlan de 1284.


3º O

Flint Condado
Palatino
LINCOLN de
Anglesey Chester
WARREN

Carnarvon FITZALAN

PO
OL
Mar da Irlanda
E CORBET Principado do Gales do Norte, administrado
pelo justiciar de Galês do Norte, nomeado
pelo rei, com os nomes dos distritos
Reino
MORTIMER da As senhorias da Marca Galesa, com
Inglaterra
an

seus sobrenomes
ig
rd
Ca

Outros territórios administrados


n diretamente pela coroa inglesa, com
he
52º N art os nomes dos distritos
M rm
A Ca
BOHUN
RD
R
SH

FO

LANCASTER
AL

GIF
L

CLARE

OCEANO
ATLÂNTICO

Fonte: AlexD.

Embora não houvesse nenhuma imposição linguística, a pre-


sença de senhores feudais anglo-normandos e seus seguidores,
além das guarnições dos vários castelos construídos ao mando de
Edward I, aumentou a quantidade de falantes de inglês (e francês)
na região galesa, especialmente no sul e no sudoeste.

Edward I na Escócia
A entrada dos ingleses na política escocesa resultou da morte
do rei Alexandre III e de todos seus parentes mais próximos entre
1281 e 1290. Os escoceses pediram que Edward I administras-
se o processo de negociação entre os pretendentes ao trono, John
Balliol e Robert de Brus, e implementasse o resultado, sem parti-
cipar no julgamento, que seria feito por uma comissão de nobres.
No entanto, Edward exigiu que o preço da sua participação fosse
a submissão feudal à sua pessoa. Os escoceses evitaram a exigên-
cia, entregando o reino a Edward durante a deliberação, mas com
o entendimento de que seria o candidato selecionado como rei a
tomar a decisão final.

Book 1.indb 85 17/11/16 19:14


86 Gramática histórica da língua inglesa

Quando Balliol foi escolhido, porém, Edward não deixou de


se considerar o senhor feudal da Escócia e demandou que os ba-
rões escoceses lhe prestassem serviço militar contra a França. Os
nobres escoceses recusaram-se a lutar pelo rei inglês, seu inimigo
ancestral, contra o aliado tradicional deles, e atacaram a cidade de
Carlisle no norte da Inglaterra, com a ajuda dos franceses. Em re-
taliação, Edward invadiu a Escócia em 1296, saqueando a cidade
de Berwick e derrotando os escoceses em uma batalha em Dunbar.
O recém-coroado Balliol foi deposto e levado preso para Londres,
e um inglês foi instalado para governar o país.

Figura 2.11  Mapa da região fronteiriça entre Inglaterra e Escócia na virada do século XIII para XIV.

Fonte: Heritage History (www.heritage-history.com).

Book 1.indb 86 17/11/16 19:14


O inglês médio 87

A resistência escocesa não demorou. Em 1297, William Wallace


e Andrew Moray derrotaram um exército inglês na batalha de Stirling
Bridge e tomaram o castelo. Edward, que estava em campanha
em Flandres, voltou para a Inglaterra e liderou uma nova invasão,
derrotando Wallace gravemente na batalha de Falkirk. Nos anos
seguintes, apesar da guerrilha liderada por Wallace, o controle in-
glês foi restabelecido, à medida que os nobres escoceses se sub-
metiam a Edward, reconhecendo seu domínio. Em 1305, William
Wallace foi traído pelos ingleses e foi executado em Londres.
Em 1306, Robert the Bruce, neto do pretendente perdedor em
1292, assassinou seu maior rival, John Comyn, e fez-se coroar
rei, iniciando um movimento independentista. Surpreendidos
pelo sucesso de Bruce, e com Edward doente e velho, os ingle-
ses conseguiram derrotar as forças de Robert the Bruce e reto-
maram os castelos capturados. Contudo, no ano seguinte, Robert
the Bruce voltou a derrotar os governadores ingleses, e Edward
resolveu intervir pessoalmente, apesar das suas enfermidades.
Ele marchou rumo à Escócia, mas contraiu disenteria e faleceu
na fronteira.

O reinado de Edward II
Edward II não foi um rei guerreiro como seu pai. Durante seu
reinado, Robert the Bruce conseguiu expulsar os ingleses da Es-
cócia definitivamente, na batalha de Bannockburn em 1314. Em
seguida, o país sofreu uma fome devastadora.
O comportamento desmedido do favorito dele, Piers Gaves-
ton, tinha enfurecido os nobres e seu pai, Edward I, que o exilou.
Depois da morte de Edward I, porém, Edward II revogou o exílio.
O retorno do detestado favorito fez que os barões obrigassem o
rei a assinar uma série de garantias para manter a paz. Em 1308,
Gaveston foi exilado novamente, por seu tratamento da rainha,
Isabel, filha do rei da França, mas Edward II conseguiu que Ga-
veston voltasse em 1309. Continuando a alienar a nobreza com
sua arrogância e insultos, Gaveston foi exilado pela terceira vez
em 1311. Quando voltou em 1312, o rei restaurou todas as terras,
os títulos e os privilégios confiscados. Os barões e o partido real
começaram a se preparar para lutar, mas Gaveston foi capturado
por um grupo de barões hostis, condenado por romper os termos
do acordo de 1311 e, então, executado.

Book 1.indb 87 17/11/16 19:14


88 Gramática histórica da língua inglesa

A derrota na Escócia em 1314, os problemas com a França


sobre a Gascunha (a última possessão continental inglesa, sendo
o litoral sudoeste da atual França) e rivalidades e animosidades
entre as facções nobres e o rei levaram a uma crise política em
que a rainha Isabel se aliou com o poderoso barão Roger Mor-
timer, que estava foragido na França após uma rebelião contra
a coroa em 1322. Isabel e Mortimer invadiram a Inglaterra em
1327 com um pequeno exército. A cidade de Londres levantou
a favor dos invasores, e Edward II fugiu para Gales, onde foi
capturado, obrigado a abdicar a favor de seu filho Edward III,
de quatorze anos, e foi encarcerado no castelo de Kenilworth,
onde morreu em circunstâncias misteriosas, provavelmente
assassinado.

O reinado de Edward III


A abdicação de Edward II deixou o reino da Inglaterra
nas mãos da rainha-mãe, Isabel, e seu amante, Roger Morti-
mer, como regentes que governaram durante a menoridade de
Edward III. Mortimer abusava da sua posição para se enrique-
cer; ele perdeu uma batalha contra os escoceses, que resultou
em um tratado humilhante para os ingleses, e desentendeu-se
com o jovem rei. Em 1330, com um pequeno grupo de com-
panheiros, Edward III capturou seu antigo guardião e mandou
executá-lo e encarcerou sua mãe sob prisão domiciliar, come-
çando seu reinado pessoal.
Entre os primeiros objetivos de Edward III estava o reco-
meço de hostilidades com a Escócia. Uma invasão organizada
por nobres ingleses que perderam terras nos tratados anterio-
res conseguiu uma vitória importante e instalaram Edward
Balliol no trono no lugar de David II. Os escoceses retaliaram,
e Balliol teve de fugir e pedir ajuda ao rei inglês. A reação de
Edward III foi decisiva: ele invadiu a Escócia novamente, sitiou
a cidade fronteiriça de Berwick e derrotou o exército escocês
que fora salvar a cidade. Edward Balliol foi restaurado ao trono
da Escócia, e o país cedeu bastante território no sul para a Ingla-
terra. No entanto, os ganhos políticos e territoriais na Escócia
não foram consolidados e, em 1338, foi preciso renegociar um
tratado com David II, que estava retomando o controle do país.

Book 1.indb 88 17/11/16 19:14


O inglês médio 89

A paz com a Escócia foi necessária para evitar o risco de uma


guerra em duas frentes, devido à deterioração das relações com
a França.
Os franceses tinham atacado cidades costeiras na Inglaterra
e, em 1337, o rei da França, Philippe VI, confiscara o ducado
de Aquitânia e o condado de Ponthieu, que pertenciam ao rei da
Inglaterra. Em lugar de negociar e prestar a homenagem espera-
da de um vassalo feudal, tal como seu pai Edward II tinha feito,
Edward III declarou-se o herdeiro legítimo ao trono francês,
como neto de Philippe IV e sobrinho de Charles IV, por parte
da sua mãe, Isabel, porque, embora a Lei Sálica observada na
França desde doze anos antes proibisse a sucessão às mulhe-
res, em princípio, a lei não impediu a transmissão do título pela
ascendência materna. Os franceses contestaram que o atual rei
Philippe VI possuía a melhor reivindicação à coroa, sendo pri-
mo do falecido rei Charles IV. Assim começou a Guerra dos
Cem Anos.
Edward iniciou sua ofensiva contra Philippe VI por vias di-
plomáticas, negociando alianças com príncipes e reis vizinhos
da França. A estratégia mostrou-se cara e pouco eficiente, provo-
cando descontentamento entre a população da Inglaterra devido
aos impostos punitivos cobrados. A necessidade de negociar com
o parlamento em 1340 trouxe o rei de volta para a Inglaterra de
Flandres, onde ele estava com o exército. Depois de uma rigorosa
purga de oficiais e uma série de negociações conflituosas com o
parlamento em que o rei teve de aceitar fortes limitações sobre
sua liberdade administrativa para conseguir a votação de impostos
que tanto desejava, Edward mudou de estratégia e invadiu a Fran-
ça diretamente. Desembarcando 15 mil soldados na Normandia,
o rei tomou a cidade de Caen e marchou ao norte para se reunir
com o restante das forças inglesas, que estavam em Flandres. No
caminho, Edward ganhou uma vitória importantíssima contra um
exército francês muito maior em Crécy, em agosto de 1346. Em
outubro, um exército inglês capturou o rei da Escócia, e, com a
fronteira setentrional da Inglaterra pacificada, Edward sentiu-se
bastante seguro de lançar uma considerável ofensiva militar con-
tra o importante porto de Calais, que caiu depois de um sítio de
quase um ano.

Book 1.indb 89 17/11/16 19:14


90 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.12  Território inglês na França em 1337.


INGLATERRA

Londres

Southhampton

s
er
Calais

nd
Fla
a
Manch
al da
Can

Ri
oR
eno
Normandia Paris
Champagne
Sena
Rio
Bretanha
Rio
Lo
ire
Anjou IMPÉRIO
Blois
SACRO
Touraine Borgonha ROMANO
OCEANO
ATLÂNTICO
Poitiers

Auvergne
45º N

Aquitânia
Bourdeaux
Rio Rodano

Rio
Ga
ro
na

Gasconha Languedoc
Toulouse

Mar Mediterrâneo

1337 Situação antes da


Batalha de Crécy ESPANHA
Território inglês
Território francês

Fonte: Pojer e Greeley (2016, p. 29).

Em 1348, a Peste Negra eclodiu na Inglaterra, matando quase


um terço da população. A catástrofe impossibilitou a manuten-
ção de hostilidades, e as campanhas militares na França reco-
meçaram apenas na década de 1350, quando o infante Edward,
“o Príncipe Negro”, ganhou uma batalha em Poitiers contra um
exército francês muito maior, em que o rei Jean II e seu filho

Book 1.indb 90 17/11/16 19:14


O inglês médio 91

menor, Felipe, foram presos. No entanto, a última campanha


de Edward III foi inconclusiva, e o rei inglês aceitou renunciar
sua pretensão ao trono francês no Tratado de Brétigny em 1360
em troca da confirmação do seu domínio sobre os territórios
conquistados.

Figura 2.13  A divisão da França de acordo com o Tratado de Brétigny. O território cinza escuro foram
as terras cedidas a Edward III.

INGLATERRA

Calais Flanders
a
Manch
al da
Can

Ri
oR
eno
Picardia

Normandia Paris
Champagne
Sena
Rio
Bretanha
Rio
Lo
ire
Anjou IMPÉRIO
Blois
SACRO
Touraine Borgonha ROMANO
OCEANO
ATLÂNTICO
Poitiers

Lyon
Auvergne
45º N

Aquitânia
Bourdeaux
Rio Rodano

Rio
Ga
ro
na

Gasconha Languedoc
Toulouse

Mar Mediterrâneo

ESPANHA

Fonte: John Richard Green.

Book 1.indb 91 17/11/16 19:14


92 Gramática histórica da língua inglesa

Saiba mais
O impacto da Peste Negra
A Peste Negra foi o nome dado a uma onda de epidemias que assolou a
Europa durante o século XIV. Proveniente do oriente, a peste costumava ser
transmitida por mordidas de pulgas infectadas (as pulgas viajavam nas rata-
zanas e nas pessoas). A mortandade foi tremenda. Estima-se que quase um
terço da população da Europa morreu. O impacto dessa epidemia foi incalcu-
lável, alguns efeitos da terrível doença atingiram a estrutura social e até teve
repercussões para o uso da língua inglesa.
Socialmente, a mortandade resultou em uma falta de mão de obra para a
lavoura e outras atividades artesanais. Consequentemente, os lavradores
ganharam mais poder de barganha com seus senhores, pois seu trabalho
valia mais. As tentativas do governo de legislar sobre o preço de trabalho,
geralmente a favor dos senhores, provocava ressentimento entre as pessoas
comuns, o que levou, finalmente, a um grande levante de campesinos dos
condados de Kent, Sussex, Essex e East Anglia durante o reinado de Richard
II. O povo exigia a troca dos ministros reais, a quem culpavam pela pesada
tributação para financiar a guerra na França, em que os exércitos ingleses
iam perdendo território. Além disso, eles queimavam os registros oficiais de
propriedades e títulos e matavam os fiscais, para impossibilitar a arrecadação
de novos impostos.
Quanto ao impacto da Peste Negra no uso da língua inglesa, quem nos
informa sobre isso é o estudioso John of Trevisa (d. 1352). Nascido na Cor-
nualha, no extremo sudoeste da Inglaterra, John of Trevisa era poliglota:
provavelmente falava cornualhês, inglês, francês e latim. Foi clérigo e pro-
fessor na universidade de Oxford. Em 1387, ele traduziu do latim para o
inglês o Policronicon de Ranulf Higden, uma história do mundo desde a cria-
ção até 1352. Em determinado momento, Higden relata como a Peste Negra
mudou o ensino na Inglaterra a favor da língua inglesa:
“Um [motivo] é que as crianças na escola, ao contrário do uso e costume
de todas as outras nações, são obrigadas e abandonar sua própria língua e
continuar seus estudos e negócios em francês e faz-se assim desde que os
normandos vieram para a Inglaterra pela primeira vez. Também, os filhos dos
nobres são ensinados a falar o francês desde a idade em que são balancea-
dos em seu berço e aprendem a falar e brincar com um joguinho de crian-
ça; e homens rústicos se comportam como gentis-homens, e fazem grande
esforço para falar francês, para que sejam considerados mais cultos.” (apud
CRYSTAL, 1995)

Book 1.indb 92 17/11/16 19:14


O inglês médio 93

Nesta altura, o tradutor, John of Trevisa, acrescenta a seguinte observação:


Tal prática era muito comum antes da primeira peste e, posteriormente, está
um tanto alterada. Assim que John Cornwall, professor de gramática, mudou
o ensino nas escolas de gramática e a análise do francês para o inglês pelo
francês; e Richard Penkridge aprendeu tal método de ensino dele, tal como
outros homens de Penkridge, de modo que hoje, 1385 a.C., no nono ano do
reinado do segundo rei Richard depois da conquista, em todas as escolas
de gramática na Inglaterra, as crianças abandonam o francês e compõem e
aprendem em inglês e, assim, elas têm uma vantagem, por um lado, e uma
desvantagem no outro. A vantagem é que elas aprendem a gramática em
menos tempo que as crianças aprendiam. A desvantagem é que, hoje em
dia, os estudantes na escola de gramática não conhecem nada de francês,
menos que conhecem seu talão esquerdo, e é um infortúnio para eles se
tiverem de atravessar o mar e viajar a países estrangeiros, e noutras circuns-
tâncias. Também, hoje, a maioria dos gentis-homens já deixaram de ensinar o
francês a seus filhos (apud CRYSTAL, 1995, p. 39).
A nova técnica de ensino desenvolvida por Richard of Penkridge, tornou-se
necessária para as lições de “gramática” (latim), que antes eram dadas em fran-
cês, porque os jovens não sabiam mais falar francês o suficiente para apren-
der o latim por esse meio. Os principais professores de latim vinham da vida
religiosa. Essas comunidades eram especialmente afetadas pela peste, por-
que funcionavam também como hospitais. A falta de eclesiásticos fez que o
inglês entrasse no ensino com língua veicular, substituindo o francês que de-
sempenhava essa função e tornando essa língua menos importante na cul-
tura inglesa e, simultaneamente, abrindo mais espaço para o uso do inglês.

Velho e doente, Edward III retirou-se do governo deixando-


-o nas mãos de seus filhos e favorecidos. Em 1369, os franceses
atacaram sob o comando do novo rei Charles V (Jean II morreu
preso na Inglaterra, esperando a arrecadação de seu resgate) e o
eficaz Bertrand du Guesclin. O príncipe John of Gaunt foi enviado
à França para organizar a resistência, mas foi em vão. Todas as
regiões conquistadas pelos ingleses foram perdidas no Tratado de
Bruges em 1375, com a exceção das cidades de Calais no noroes-
te, Bordeaux e Bayonne no sudoeste.
O reinado de Edward III foi importante para a língua inglesa,
pois o rei explorou o medo que existia desde os tempos de Edward
I de que os franceses pretendessem erradicar a língua, depois de
terem conquistado o país, para aumentar o sentimento nacional

Book 1.indb 93 17/11/16 19:14


94 Gramática histórica da língua inglesa

durante as guerras no continente. Edward também forjou uma


relação mais próxima com a nobreza, instituindo a Order of the
Knights of the Garter (“Ordem dos Cavaleiros da Jarreteira”),
que ainda existe hoje, fomentando identificação com o monarca
e com a Inglaterra entre uma elite social que era essencialmente
anglo-normanda e bilíngue. A partir de 1362, por outro lado, a
língua inglesa experimentou certa ressurgência oficial quando
uma lei obrigou o uso dessa língua nos tribunais (ironicamen-
te, esse “Estatuto de Advocacia” foi redigido em francês!). Em
1363, o parlamento foi declarado aberto em inglês pela primeira
vez – contudo, o parlamento ainda foi aberto em francês várias
vezes até 1377. Nos anos seguintes, escritores como William
Langland, John Gower e Geoffrey Chaucer compuseram obras
literárias em inglês para o consumo da corte (veremos mais de-
talhes no último tema desta unidade).

O reinado de Richard II
Quando Edward III morreu em 1377, seu neto, Richard, fi-
lho do Infante Edward, o Príncipe Negro (que já tinha falecido
em 1376), foi declarado rei com apenas dez anos de idade. Ini-
cialmente sob a tutela de vários conselhos de nobres, o reinado
de Richard II teve vários momentos de instabilidade. A repetida
arrecadação de impostos para malsucedidas campanhas militares
contra a França provocou descontento entre a população geral,
cuja maior manifestação foi a Revolta dos Lavradores em 1381,
quando um levantamento popular nos condados de Kent e Essex
ocupou as áreas de Londres, incendiando o palácio do tio do rei,
John of Gaunt, e assassinando o arcebispo de Canterbury e o Alto
Tesoureiro. Com apenas 14 anos, Richard negociou com os rebel-
des e conseguiu acalmá-los depois que seu líder, Wat Tyler, foi
morto. Subsequentemente, o jovem rei derrotou os lavradores e
reprimiu o levantamento.
Dificuldades políticas entre as facções favorecidas pelo rei
e por seu tio, John of Gaunt, e seu filho, Henry Bolingbroke,
complicaram a situação no reino com frequência. O partido de
Bolingbroke conseguiu dispersar o círculo de favorecidos do rei,
obrigando-o a se exilar ou condenar seus seguidores. Richard
aceitou o domínio dos “Senhores Suplicantes” durante oito anos
de paz relativa, quando, em 1379, ele mandou prender e executar

Book 1.indb 94 17/11/16 19:14


O inglês médio 95

vários deles para se vingar das humilhações anteriores. Apesar


de ter comprado o apoio dos nobres com títulos e terras confis-
cados dos homens condenados, o poder da família de Lancaster
continuou a preocupar Richard e, quando o velho duque de Lan-
caster, John of Gaunt, morreu em 1399, o rei não permitiu que o
exilado Henry Bolingbroke sucedesse ao título do pai e estendeu
o tempo de exílio de dez anos para toda a vida, confiscando todas
as suas terras.
Uma mudança política na França instigou o duque de Orléans
a apoiar Henry Bolingbroke a invadir a Inglaterra para desestabi-
lizar o regime. Desembarcando no norte, enquanto Richard estava
em campanha na Irlanda, Bolingbroke, alegando apenas querer
assumir sua herança, conseguiu rapidamente atrair um contingen-
te considerável de seguidores. Quando Richard chegou à Inglater-
ra, ele se entregou a Bolingbroke, prometendo abdicar se sua vida
fosse salva. Henry Bolingbroke assumiu o trono em 1399, embora
não fosse o herdeiro mais próximo por sangue, esse foi Edmundo
Mortimer, earl da Marca, filho de Lionel de Antuérpia, o segun-
do filho sobrevivente de Edward III; Henry era filho de John of
Gaunt, o quarto filho, embora a linhagem de Bolingbroke fosse
por ascendência paterna direta.

Os reinados de Henry IV e Henry V


Richard II morreu, provavelmente de fome no Castelo de Pon-
tefract, perto de York em 1400. Não se sabe se ele se suicidou
por uma greve de fome ou se ele foi assassinado. O reinado de
Henry IV foi perturbado por rebeliões, complôs e constantes ques-
tionamentos de sua legitimidade, já que Richard Plantageneta, du-
que de York, possuía um vínculo mais próximo com o antigo rei
Richard II. Não obstante, Henry VI conseguiu manter-se no trono,
que passou para seu filho Henry V em 1415.
O breve reinado de Henry V (1413-1422) ficou célebre entre
os monarcas medievais ingleses como o rei que mais perto chegou
do cobiçado trono francês. Depois de uma série de vitórias des-
lumbrantes, especialmente na batalha de Agincourt, contra grande
desvantagem numérica. Henry negociou o Tratado de Troyes em
1420, em que foi estipulado que ele passasse a ser o herdeiro pre-
suntivo do rei Charles VI e se casasse com a infanta Catarina de
Valois, para unificar as duas linhagens definitivamente.

Book 1.indb 95 17/11/16 19:14


96 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.14  As conquistas francesas de Henry V.



INGLATERRA
Mar E
do Norte NT
Londres A

AB
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Southhampton S LIMBURG
RE
Calais

D
Bruxelas

AN

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ncha

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LUXEMBURGO
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o Reims
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NORMANDIA na Paris Rio
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arn
CHAMPAGNE

e
Bretanha Brétigny
Troyes
Orléans Rio
Lo
ire

Nevers FRANCHE-
Bourges
OCEANO COMTE
POITOU
ATLÂNTICO

45º N AUVERGNE
Bourdeaux Aquitânia DAUPHINÉ

Rio Rodano
Rio
Ga
ro
na

ARMAGNAC Avignon
Toulouse Provença

NAVARRA Marselha
Mar Mediterrâneo

(C) 1429
ARAGÃO
Território máximo
anglo-borgonhês
Fronteiras da França

Fonte: Pojer e Greeley (2016, p. 21).

Henry V foi o primeiro rei a utilizar o inglês em sua correspon-


dência pessoal desde a conquista normanda, há quase 350 anos.
Ele também promovia o uso da língua inglesa na administração
do reino, o que contribuiu significativamente à evolução do estilo
denominado o “padrão chancelaresco”.
A despeito de seus sucessos militares, em campanha na França
em 1422, Henry V contraiu disenteria e faleceu à idade de apenas
36 anos, deixando o trono a seu filho, Henry VI, com apenas nove
meses. Dois meses depois da morte de Henry V, o rei francês lou-
co Charles VI também morreu, fazendo que Henry VI da Inglater-
ra se tornasse também Henry I da França.

O reinado de Henry VI
O reinado de Henry VI foi inquieto. A longa menoridade do
rei-menino possibilitou o crescimento de rivalidades ferozes entre

Book 1.indb 96 17/11/16 19:14


O inglês médio 97

os nobres mais importantes para integrar e controlar os conselhos


governantes, com vistas a beneficiar a si e seus parentes por sua
posição privilegiada.
Tentando tirar proveito da situação política estagnada na Ingla-
terra, o dauphin francês fez-se coroar na Catedral de Reims como
Charles VI em 1429. As vitórias de Joana d’Arc e outros líderes
militares dinâmicos franceses deram novo ímpeto à resistência à
ocupação inglesa, que havia perdido forças depois da morte do rei
guerreiro Henry V. Aos poucos, os ingleses iam sendo empurrados
para o oeste. As derrotas militares coincidiam com um período em
que o jovem rei favorecia uma estratégia pacífica de negociação
com os franceses, casando-se com Margaret de Anjou, sobrinha de
Charles VI, entretanto, mandou entregar os condados de Maine e
Anjou para os franceses em lugar de pagar um dote, uma ação ex-
tremamente impopular na Inglaterra. Simultaneamente, as forças
francesas varriam a presença inglesa do mapa, deixando apenas
um pequeno território ao redor da cidade de Calais.

Figura 2.15  Território inglês na França no fim da Guerra dos Cem Anos.

INGLATERRA

Londres

Southhampton
s

Calais
er
nd

a
Fla

Manch
al da
Can
Ri
oR
eno

Normandia Paris
Champagne
Sena
Rio
Bretanha
Rio
Lo
ire
Anjou IMPÉRIO
Blois
Ducado de SACRO
Touraine Borgonha ROMANO
OCEANO
ATLÂNTICO
Poitiers

Auvergne
45º N

Aquitânia
Bourdeaux
Rio Rodano

Rio
Ga
ro
na

Gasconha Languedoc
Toulouse

Mar Mediterrâneo
1453 Fim da guerra
Território inglês
Território francês
ESPANHA
Territórios borgonheses
reconciliados com a França

Fonte: Pojer e Greeley (2016, p. 29).

Book 1.indb 97 17/11/16 19:14


98 Gramática histórica da língua inglesa

Henry VI foi um rei pacífico e pio que investiu bastante em


obras ligadas à educação e à cultura. Ele fundou o famoso Colégio
Eton e colleges (instituições de ensino superior) nas universidades
de Cambridge e Oxford. Ele patrocinou a construção de igrejas e
a produção de música, arte e manuscritos. Sua corte era suntuosa,
e os gastos extravagantes da família real e seus seguidores chega-
ram a pesar negativamente nas finanças do reino.

O século XV e a Guerra das Rosas


A disputa acirrada pela coroa entre as linhagens de Lancaster
(Henry VI) e York (duque Richard) e seus descendentes, que dura-
ria o resto do século XV, ficou conhecida como a “Guerra das Ro-
sas”, devido aos emblemas heráldicos das duas estirpes: uma rosa
vermelha para os lancastrianos e uma rosa branca para os yorkistas.

O fim do reinado de Henry VI


Os repetidos fracassos militares na França e as intrigas cons-
tantes na corte foram agravados pelas enfermidades mentais do rei,
que sofreu um colapso mental em agosto de 1453, ficando insen-
sível ao que passava a seu redor durante mais de um ano. Richard,
o poderoso duque de York, assumiu a liderança do governo como
Protetor do Reino e procurou restaurar a ordem, eliminar abusos e
corrupção, e reduzir os gastos excessivos da família real. Quando
o rei finalmente voltou a si no natal de 1454, vários nobres mani-
festaram seu apoio ao duque de York para continuar na regência e,
mais tarde, para assumir o trono, apontando para sua maior pro-
ximidade de parentesco com o antigo rei Edward III. Por fim, foi
decidido que Richard assumiria o trono quando Henry morresse.
Em 1460, Richard, duque de York, morreu em batalha. Em 1461,
Henry foi 1ibertado da prisão que sofria, mas estava muito debili-
tado mentalmente para governar. No mesmo ano, Edward, filho de
Richard de York, venceu a batalha de Towton, e Henry e a rainha
Margaret fugiram para a Escócia. Edward de York declarou-se rei,
apesar de certa resistência por lancastrianos no norte. Em 1465,
Henry foi capturado novamente e encarcerado na Torre de Londres.

O reinado de Edward IV
Edward IV desentendeu-se com seus principais apoiadores
nobres, os duques de Warwick e de Clarence, que tramaram um

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O inglês médio 99

pacto com a rainha Margaret em exílio para restaurar Henry VI ao


trono com ajuda do rei da França. O complô deu certo, e Henry foi
entronado novamente em 1470, embora o governo do reino ficas-
se nas mãos dos dois duques. O regime restaurado durou apenas
seis meses, porque Warwick declarou guerra contra o poderoso
duque da Borgonha, e em retaliação o príncipe continental deu
todo apoio financeiro e militar necessário para Edward IV montar
seu retorno à Inglaterra. Nas batalhas que seguiram, os duques de
Warwick e Clarence morreram, como também morreu Edward, o
único filho de Henry VI e Margaret de Anjou.

Saiba mais
Figura 2.16 A chegada da imprensa móvel à Inglaterra.

Fonte: Culture Club/Getty Images.

A apresentação a Edward IV em 1477 por Anthony Woodville de um dos pri-


meiros livros impressos em inglês, Dictes and Sayings of the Philosophers (“Dita-
dos e provérbios dos filósofos”). O texto foi traduzido do francês pelo próprio
Woodville, cuja irmã Elizabeth era rainha, e foi impresso por William Caxton,
que trouxe de Bruges a primeira imprensa móvel para a Inglaterra em 1476.
Esta miniatura ilustra o evento da apresentação ao rei e à rainha, com seu
filho, Edward, príncipe de Gales e o futuro Edward V, e o irmão do rei, Richard
de Gloucester, o futuro Richard III.

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100 Gramática histórica da língua inglesa

Edward IV foi um monarca bem-sucedido. Um excelente ge-


neral que nunca foi derrotado em batalha, ele conseguiu elimi-
nar seus adversários e estabilizar o reino politicamente, depois
de quase duas décadas de guerra civil entre as facções de York
e Lancaster. Ele foi um administrador hábil e comerciante astu-
to, fazendo muito para reabastecer as finanças reais. Sua corte foi
esplêndida e patrocinou a vida cultural e artística do período. No
entanto, a despeito do sucesso, com sua morte em 1483, seu her-
deiro, Edward V, foi declarado ilegítimo e desapareceu junto com
seu irmão menor, após ser encarcerado por seu tio, Richard, o du-
que de Gloucester, que fora encarregado pelo falecido rei Edward
IV de cuidar dos seus filhos, e se declarou rei.

O reinado de Richard III


Richard III enfrentou duas rebeliões importantes durante seu
breve reinado. A primeira, em 1483, foi reprimida, mas a segunda,
em 1485, liderada por Henry Tudor, último (e distante) descen-
dente da linhagem de Lancaster, derrotou as forças de Richard na
Batalha de Bosworth, em que Richard III foi morto, encerrando
a dinastia Plantageneta que reinava na Inglaterra desde Henry II
no século XII, terminando definitivamente também o período da
Guerra das Rosas e iniciando a dinastia dos Tudor.
De relevância para a questão da língua inglesa, a ordem de
Richard III traduziu do francês as leis e estatutos do reino, sendo
redigidos em inglês.

Influências estrangeiras
Ao longo da Idade Média, o inglês estava em contato com
várias línguas que contribuíam com vocábulos e influenciavam a
evolução da gramática.

Contato com o francês normando e o francês de


Paris
O principal impacto da conquista normanda e o domínio de
uma elite francófona durante mais de 350 anos sobre a língua
inglesa está evidente no vocabulário. Não existem tantas carac-
terísticas gramaticais que possamos atribuir ao longo convívio

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O inglês médio 101

com o francês. Quando duas línguas estão em contato, é natural


que as pessoas tomem palavras para se referir a coisas, práti-
cas e ideias novas, para as quais não atribuíram um termo pró-
prio. Podemos descrever as relações entre os grupos de falantes
em contato como: (1) substráticas, (2) superestráticas, ou (3)
adstráticas.
1. No primeiro caso, um grupo autóctone é dominado por outro
grupo e abandona sua língua ancestral para a nova. No entan-
to, aspectos da língua original influenciam a nova língua no
vocabulário, na gramática e no sotaque.
2. No segundo caso, um grupo chega a uma região e domina a
população local. Em lugar de provocar o abandono da língua
ancestral autóctone, porém, é o grupo imigrante que acaba
abandonando sua língua, mas não antes de deixar vários as-
pectos dela influenciarem a língua da maioria.
3. Denominamos adstrático o caso de duas línguas que coexis-
tem com pouco ou nenhuma diferença de prestígio ou núme-
ro de falantes, por exemplo, português no Brasil e espanhol
na Argentina.
Evidentemente, a situação na Inglaterra era uma relação de
superestrato entre o francês e o inglês. O domínio sociopolítico
dos normandos e seus descendentes criou as condições perfei-
tas para a enxurrada de empréstimos lexicais franceses que ob-
servamos em inglês, porque a posição dominante dos falantes
de francês fazia que eles detivessem prestígio, e esse prestígio
social foi transferido para sua língua. Como as pessoas tendem
a desejar o prestígio, saber francês ou pelo menos usar algu-
mas palavras francesas se tornava uma maneira de demonstrar
sofisticação e importância. Além da atração do prestígio, outro
motivo mais prosaico favorecia a adoção de palavras francesas:
as necessidades da interação cotidiana. Como quem mandava o
fazia em francês, quem soubesse a língua teria melhores oportu-
nidades. Por outro lado, o inverso também é verdade: para inte-
ragir com seus vassalos e servos ingleses, os normandos tinham
de aprender inglês. Gradualmente, pela intensa interação social,
a elite anglo-normanda tornou-se bilíngue, abrindo outra frente
para a fácil entrada de palavras francesas no inglês das camadas
sociais mais altas.

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102 Gramática histórica da língua inglesa

Gráfico 2.1  Quantidade de empréstimos lexicais que entraram na


língua inglesa entre 1000 d.C. e 1900 d.C.

1100–

1200–

1300–

1400–

1500–

1600–

1700–

1800–

1900–
300

260

220

180

140

100

60

20
1000

1100

1200

1300

1400

1500

1600

1700

1800

1900
Fonte: Crystal (1995, p. 47).

O Gráfico 2.1 representa a entrada de vocábulos franceses no


inglês desde o final da época anglo-saxônica, de acordo com a
primeira atestação textual. Os empréstimos não são uniformes: no
início do período, há mais influências nos dialetos meridionais, em
traduções do francês, na poesia trovadoresca e de cavalaria, que
em outros gêneros e lugares. Até o século XIV, porém, não existe
dúvida quanto ao grau de permeação, por exemplo, Crystal (1995)
afirma que, em 858 linhas do “Prólogo” dos Contos de Canter-
bury de Chaucer, há quase 500 empréstimos lexicais franceses.
Baugh e Cable (1994) observam que é possível distinguir dois
momentos na história dos empréstimos lexicais franceses que en-
traram no inglês durante a Idade Média, com o ano de 1250 como
a divisa aproximada. As palavras que entraram antes dessa data são
menos numerosas (existem aproximadamente 900) e tendem a exi-
bir características fonéticas associadas ao dialeto normando. Tais
palavras também são mais específicas quanto ao campo semântico
(a área do significado) no qual foram introduzidos, por exemplo:

Book 1.indb 102 17/11/16 19:14


O inglês médio 103

Hierarquia social – baron “barão”, prince “príncipe”, prin-


cess “princesa”, duke “duque”, duchess “duquesa”, count
“conde”, countess “condessa”, noble “nobre”, dame “dama”,
squire “escudeiro”, page “pajem”, servant “criado”, serf
“servo”, messenger “mensageiro”.
Religião – pray “orar”, confession “confissão”, communion
“comunhão”, sermon “sermão”, homily “homilia”, clergy
“clero”, clerk “clérigo”, prelate “prelado”, dean “decano”,
chaplain “capelão”, pastor “pastor”, vicar “vicário”, ab-
bess “abadessa”, friar “frade”, theology “teologia”, religion
“religião”.
Literatura de cavalaria e de amor cortês – minstrel “me-
nestrel”, troubadour “trovador”, juggler “joglar”, story “es-
tória”, rhyme “rima”, lay “balada, canção”, poet “poeta”,
tragedy “tragédia”, romance “romance”.
Na segunda fase de empréstimos, a quantidade de empréstimos
aumentou de modo exponencial, provavelmente devido à situação
social em que o bilinguismo em francês e inglês era muito mais
comum. As áreas do léxico mais atingidas pelos empréstimos, de
acordo com Baugh e Cable (1994), são:
Governo e administração – government “governo” (fr.,
gouvernement), govern “governar” (fr., gouverner), adminis-
ter “administrar” (fr., administrer), crown “coroa” (fr., cou-
ronne), estate “estado” (fr. ant., estat, fr. mod., état), empire
“império” (fr., empire), realm “reino” (fr., royaume), reign
“reinado” (fr., règne), court “corte”, “tribunal” (fr., court),
council “conselho” (fr., conseil), parliament “parlamento”
(fr., parlement), assembly “assembleia” (fr., assemblée),
alliance “pacto” (fr., alliance), tax “imposto” (fr., taxe).
Títulos e cargos – chancellor “chanceler” (fr., chancelier),
treasurer “tesoureiro” (fr., trésorier), marshall “marechal”
(fr., maréchal), governor “governador” (fr., gouverneur),
councillor “conselheiro” (fr., conseilleur), minister “minis-
tro” (fr., ministeur), mayor “prefeito” (fr., mayeur), constable
“contestável” (fr., contestable); sir “senhor” (fr., sire, sieur),
madam “senhora” (fr., madame); vassal “vassalo” (fr., vas-
sal), homage “homenagem” (fr., hommage), peasant “cam-
ponês” (fr., paysan), bailiff “meirinho” (fr., bailli [arcaico]).
Direito – plea “pleito” (fr., plaider), defendant “réu” (fr.,
défendant), judge “juiz” (fr., juge), jury “júri” (fr., jurée),

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104 Gramática histórica da língua inglesa

inquest “inquérito” (fr. ant., enqueste, fr., enquête), proof


“prova” (fr., preuve), sentence “sentença” (fr., sentence), pri-
son “prisão”, “presídio” (fr., prison).
Atividades militares – army “exército” (fr., armée), navy
“marinha” (fr. ant., navie), battle “batalha” (fr., bataille), ene-
my “inimigo” (fr., ennemi), combat “combater” (fr., combat),
siege “sítio” (fr., siège), soldier “soldado” (fr. ant., soldier),
guard “guarda” (fr., garde), captain “capitão” (fr., capi-
tain),  sargeant “sargento” (fr., sargeant); arms “armas” (fr.,
armes), lance “lança” (fr., lance), mail “malha” (fr., maille),
archer “arqueiro” (fr., archer), barbican “barbacã” (fr., barbi-
can), moat “fossa” (fr., motte), ambush “emboscar” (fr., embus-
chier), banner “bandeira” (fr., bannière), brandish “sacudir”,
“agitar” (fr. ant., brandire, brandiss-), vanquish “vencer” (fr.
vainquire, vanquiss-), defend “defender” (fr., défendre).
Moda, comida e vida social – fashion “moda” (fr., façon),
dress “vestidura” (fr., dresser), gown “vestido” (fr. ant., goune),
robe “roupa longa” (fr., robe), cape “capa” (fr., cape), ­cloak
“manto” (fr. ant., cloche, cloque); dinner “jantar” (fr. ant., dis-
ner, fr., dîner), supper “ceia” (fr., souper), feast “banquete” (fr.
ant., feste, fr. mod., fête), venison “veado” (fr., venaison), beef
“carne bovina” (fr., boeuf), mutton “ovelha” (fr., mouton), pork
“porco” (fr., porc), sausage “salsicha” (fr. ant., saussiche), sar-
dine “sardinha” (fr., sardine), oyster “ostra” (fr. ant., oistre, fr.
mod., huître), raisin “uva-passa” (fr., raisin), orange “laranja”
(fr., orange), peach “pêssego” (fr., pêche), biscuit “biscoito”
(fr., biscuit), toast “torrada” (fr., toster), cream “creme” (fr.,
crème), jelly “geleia”, “gelatina” (fr., gelée), herb “tempero”
(fr., herbe), mustard “mostarde” (fr. ant., moustarde, fr. mod.,
moutarde), vinagar “vinagre” (fr., vinaigre), recreation “di-
versão”, solace “consolo”, jollity “alegria, jovialidade”, dance
“dança”, carol “hino natalino”, revel “festim, folia”, juggler
“prestidigitador”, fool “bobo”, melody “melodia”, music “mú-
sica”, chess “xadez”, dalliance “galanteio”, conversation
“conversação”, dais “estrado, plataforma”, parlour “sala de
estar”, wardrobe “guarda-roupa”, pantry “dispensa”, scullery
“área de serviço”, joust “peleja”, tournament “torneio”, pavi-
lion “pavilhão”.
Outra distinção que observamos entre a fase mais antiga e a
fase mais recente dos empréstimos lexicais franceses no inglês é o

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O inglês médio 105

dialeto de origem. As palavras que entraram antes vieram da varie-


dade normanda do francês antigo. Tal como o inglês antigo (como
qualquer língua), o que chamamos “francês” não é algo uniforme,
mas antes é um conglomerado de variedades regionais e sociais. A
situação não era diferente no passado: podemos identificar diver-
sos tipos regionais entre os falares antigos pelo reino da França.
O francês normando era uma variedade ocidental e exibe algumas
características que o distinguem das outras variedades faladas em
outros lugares. Por exemplo, nos dialetos centrais franceses, dos
quais a língua padrão descende, o grupo /ka-/ em início de palavra
em latim tardio passou a ser pronunciado como /tʃa-/ (como se
fosse escrito txa- ou tcha- em português, ou  cha- em inglês ou
espanhol), por exemplo, latim: captivus /kap′tiwu/ “preso”, “ca-
tivo” > francês central antigo: chaitiff /tʃaj′tif/, mas em francês
normando, o /ka-/ era preservado, dando caitif /kaj′tif/, que entrou
no inglês medieval escrito caitiff. Essa distinção entre ca- e cha- é
evidente em palavras como carry “levar”, carriage “carruagem”,
case “caixa”, cauldron “caldeirão”, carrion “carniça”, todos im-
portados do dialeto normando, os quais correspondem a charrier,
charriage, châsse, chaudron e charogne em francês moderno,
descendente dos dialetos centrais. Às vezes, as duas versões, a
normanda e a parisiense, coexistem em inglês, tipicamente com
alguma distinção de significado, por exemplo, cattle (< catel nor-
mando) “gado” versus chattel (< chatel parisiense) “bem”, “pos-
sessões”; ou catch “pegar” (< cachier normando) versus chase
“perseguir” (< chacier parisiense, = fr. mod. chasser).
Outra diferença entre os dialetos centrais e do noroeste era en-
tre /gw-/ e /w-/ em início de palavra. O francês central favorecia a
primeira variante, e o normando, a segunda, de modo que encon-
tramos guichet “guichê” e wicket “postigo”, waste “desperdiçar”,
“lixo” (do verbo waster) versus g(u)aster em francês central (= fr.
mod., gâster), cognatos com gastar em português. Outros exemplos
incluem: wasp (nor.) “vespa” e guêpe (fr. cent.), warrant e guaran-
tee “garantia”, reward “recompensa” versus regard “consideração”,
wardrobe “guarda-roupa” (mas guardsman “sentinela”), warden e
guardian “guardião”, wage “salário” e guage “avaliação”, “medi-
da”. O /w/ em /kw-/ também caiu nos dialetos centrais do francês,
de modo que, em inglês, encontramos quit “abandonar”, quarter
“quartel”, quality “qualidade”, question “questão”, “pergunta”, re-
quire “precisar”, todos com /kw-/, como descendentes das variantes

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106 Gramática histórica da língua inglesa

normandas, e em seus cognatos em francês moderno, encontramos


quitter, quartier, qualité, question etc., todos com /k/.
Nas vogais, o ditongo [úi] evoluiu para [y] em normando (a
língua na posição de [i], mas com os lábios arredondados). Em
inglês médio, esse [y] era tomado emprestado na forma de [u]
ou [ju] e era escrito <u>, <ui> ou <ew>, por exemplo, fruit [frut]
“fruta”, in lieu of [lju] “em lugar de”. Em francês central, porém,
a pronúncia desse ditongo mudou de [úi] para [uí], de modo que
“fruta” em francês moderno é [fʁɥí] (aproximadamente frui). Ou-
tra mudança vocálica foi o ditongo [ei], que foi preservado em
normando, mas se tornou [ói] (depois [ué] e finalmente [uá]): leal
“leal”, real “real” (< leial, reial normando) ocorrem em inglês
médio, junto com loyal, royal (< parisiense), que se generalizou.
Os sufixos “-eiro”, “-ouro” em francês normando eram -arie
e -orie /-aria/, /-oria/, mas eram -aire e -oire (/-airǝ/, /-oirǝ/) em
francês central. Por isso, inglês exibe salary “salário” e victory
“vitória”, mas francês moderno tem salaire e victoire (Observa-
ção: a pronúncia de oi como [uá] na última palavra) (BAUGH;
CABLE, 1994, p. 171-72).

Grafia
Outra área em que a conquista normanda foi bastante sentida
foi a grafia. É muito evidente, ao ler um texto medieval, que exis-
tia uma diversidade enorme entre as maneiras de escrever. Essa
situação pode ser atribuída parcialmente à ausência de uma norma
prestigiosa, diferente do corpus anglo-saxônico, em que a varie-
dade desenvolvida pelos escribas de Wessex se tornou predomi-
nante e quase eliminou as outras variedades regionais da escrita
(no entanto, elas continuavam bem vivas oralmente). Na Idade
Média, as línguas de prestígio eram o francês e o latim. O inglês
era uma língua popular e pouco usada na escrita. Cada indivíduo
utilizava as letras alfabéticas e algumas convenções básicas para
representar os sons da sua variedade particular da melhor maneira
que pudesse, o que fez a escrita muito idiossincrática. Até o fi-
nal do período medieval, porém, um padrão (Chancery Standard),
baseado na linguagem de Londres e em certas características dos
dialetos das regiões dos Central e East Midlands, de onde vieram a
maior proporção dos migrantes internos (também havia contribui-
ções significativas das populações de East Anglia, Essex e Kent),
surgiu entre os burocratas da chancelaria real no século XIV. Esse

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O inglês médio 107

modelo exerceu uma influência muito grande sobre a consagração


de muitas grafias, por seu prestígio e porque suas normas eram
adotadas pelos primeiros impressores. Por exemplo, such “tal”
versus swich, sich, sych, seche; muitas palavras gramaticais can
e could, shall e should, not, but, through, these etc., devem sua
forma gráfica às escolhas dos notários da chancelaria (CRYSTAL,
1995, p. 41).
A Crônica de Peterborough é uma continuação da Crônica
Anglo-Saxônica, foi escrita no mosteiro de Peterborough em East
Anglia, até meados do século XII. Depois de uma interrupção entre
1131 e 1154, provavelmente devida à insegurança da guerra civil
entre Stephen e Matilda, a crônica continua, mas em um estilo que é
diferente da linguagem usada anteriormente. A grafia no Chronicle
ainda mantém as letras rúnicas thorn <þ>, eth <ð>, yogh <ȝ>, ash
<æ> e wynn <ƿ>. No entanto, encontramos <th>, às vezes, em lu-
gar de <þ> ou <ð>, <uu> e <w> por <ƿ>, e <g> por <ȝ>. As letras
<a> e <æ> alternam-se em algumas grafias, e <u> aparece para o
som /v/ também, ou seja, gyuen = ingl. mod., given “dado” [particí-
pio] e æure = ever “alguma vez” (CRYSTAL, 1995, p. 32-33, 40).
A origem dessas mudanças na grafia não é resultado de mudan-
ça na língua, mas porque os escribas normandos, que tinham de
escrever os nomes de pessoas, costumes, coisas e lugares que eram
ditos em inglês, escreviam de acordo com as convenções que
aprenderam para representar sua língua, o francês. Portanto, eles
trocavam <cw> por <qu>, por exemplo, cwen > queen “rainha”,
<gh> por <h>, por exemplo, niht > night “noite”, <ch> por <c>,
por exemplo, cyrce > church, chyrche “igreja”, <ou> por <u>, por
exemplo, hus > house “casa”. O som /s/ podia ser escrito <c> antes
de <e> e <i> em francês, e essa prática era aplicada em inglês tam-
bém, por exemplo, cercle “círculo”, cell “cela”. Outro problema
que os letrados enfrentavam era a “confusão dos traços mínimos”
que afetava as letras <ı> <u> <v> <n> <m>. Quando algumas des-
sas letras estavam escritas juntas no estilo gótico, era difícil reco-
nhecer quais letras eram, de fato, presentes. Seis traços verticais
breves poderiam ser <mni>, <imu>, <inni>, entre várias outras
possibilidades. Portanto, quando três traços ou mais seguiriam a
letra <u>, a letra <o> era usada em seu lugar, para facilitar a leitura,
por exemplo, dove, love, come, some, son, one, são pronunciadas
com /ʌ/ ou /ʊ/: /dʌv/ “pombo”, /lʌv/ “amor”, /kʌm/ “vir”, /sʌm/
“algum”, /sʌn/ “filho”, /wʌn/ “um”, mas são escritas com <o>. Os

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108 Gramática histórica da língua inglesa

normandos usavam <k>, <z> e <j> (ainda considerada apenas uma


variante de <i>) com mais frequência que os anglo-saxões, e eles
usavam <v> em início de palavra e <u> no meio, independente de
o som ser a consoante /v/ ou a vogal /u/. Essa mistura de tradições
gráficas francesas e anglo-saxônicas é um dos fatores que faz que a
ortografia do inglês seja tão irregular (CRYSTAL, 1995, p. 40-41).

Contato com outras línguas


Além do contato íntimo com o francês e o occitano, e com o
galês e o gaélico nas regiões celtas, durante a Idade Média, o inglês
estava em contato com várias outras línguas europeias, especial-
mente, as línguas germânicas dos Países Baixos, ou seja, flamengo,
holandês e outras variedades do baixo alemão. O baixo alemão é fa-
lado nas terras baixas (daí o nome) do norte da Alemanha, Holanda
e Luxemburgo. Esses dialetos “baixos” são bem diferentes dos dia-
letos do alto alemão falado no centro e sul, que é mais montanhoso,
causando a designação de “altura”. O alemão padrão é derivado do
alto alemão central do período da Reforma protestante (século XV).
É difícil saber, às vezes, de onde certas palavras foram tomadas
emprestadas, porque essas línguas são muito parecidas, sendo todas
do mesmo ramo germânico. Às vezes, é até difícil saber se uma
palavra é, de fato, um empréstimo, porque o próprio inglês pertence
ao ramo baixo alemão e os dialetos medievais eram muito mais pa-
recidos que as línguas modernas.
Havia muita interação entre a Inglaterra e os Países Baixos
durante o período medieval. As famílias reais inglesas casavam-
-se com as dos duques e condes da região, por exemplo, Matilde,
esposa de William I, era flamenga, Filipa, rainha de Edward III era
de Hainault (atual Bélgica). Mercenários flamengos lutavam nos
exércitos ingleses na França, em Gales e na Escócia, e participa-
vam das guerras civis. Outra fonte de interação era o comércio de
lã. A Inglaterra era uma grande produtora de lã, mas os tecelões
flamengos e holandeses eram melhores, de modo que a lã inglesa
era exportada. Os comerciantes alemães da importante Liga Han-
seática, ligada a todos os portos do Mar do Norte e do Mar Bál-
tico, mantinham casas filiais em Londres, Boston, no condado de
Lincolnshire e de King’s Lynn em Norfolk.
Devido à natureza dos contatos comerciais, a maioria das pala-
vras que o inglês recebeu do baixo alemão provém do âmbito dos
tecidos (nap “felpa, lanugem”, cambric “cambraia”, duck “lona”)

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O inglês médio 109

e do tráfego marítimo (skipper “capitão”, deck “convés”, bowsprit


“gurupés”, lighter “batelão”, dock “doca”, boom “longarina”, frei-
ght “frete, carga”, guilder “florim”, dollar “dólar”).
O latim medieval, a língua franca internacional da Idade Média,
também contribuiu com alguns termos para o inglês, especialmen-
te durante os séculos XIV e XV. O âmbito desses empréstimos,
como é de esperar, eram as profissões: direito, medicina, religião,
por exemplo, no campo legal: alias “alias”, arbitrator “árbitro”,
cliente “cliente”, conviction “condenação”, custody “custódia”,
gratis, homicide “homicídio”, legal “legal”, legitimate “legitimar,
legítimo”, testify “testificar”; em religião: diocese “diocese”, im-
mortal “imortal”, incarnate “incarnar, incarnado”, limbo “limbo”,
mediator “mediador”, missal “missal”, pulpit “púlpito”, requiem
“réquiem”, rosary “rosário”; nas ciências: abacus “ábaco”, co-
met “cometa”, contradiction “contradição”, desk “escrivaninha”,
equator “equador”, essence “essência”, genius “gênio”, history
“história”, index “índice”, interior “interior”, intellect “intelecto”,
library “biblioteca”, ligament “ligamento”, magnify “magnificar”,
mechanical “mecânico”, prosody “prosódia”, scribe “escriba”,
simile “símile”; alguns termos mais gerais: admit “admitir”, ad-
jacent “adjacente”, collide “colidir”, collision “colisão”, distract
“distrair”, expedition “expedição”, include “incluir”, incredible
“incrível”, lucrative “lucrativo”, lunatic “lunático”, necessary
“necessário”, nervous “nervoso”, picture “pintura”, private “pri-
vado”, quiet “quieto”, reject “rejeitar”, solitary “solitário”, tole-
rance “tolerância”, ulcer “úlcera”.

História interna: mudanças estruturais


Já apresentamos uma seleção das mudanças que atingiram o
vocabulário inglês. No entanto, todos os níveis estruturais da lín-
gua inglesa evoluíram bastante ao longo da Idade Média. Durante
o período do inglês antigo, grandes mudanças na situação extra-
linguística depois da conquista normanda criaram um contexto
especialmente propício para inovações.

Fonologia
Vários sons mudaram durante a primeira fase depois da con-
quista: alguns foram substituídos, outros desapareceram. O siste-
ma vocálico foi o mais atingido nesse momento inicial.

Book 1.indb 109 17/11/16 19:14


110 Gramática histórica da língua inglesa

Quadro 2.1  Sons e grafias do inglês antigo.

Exemplo e significado
Letra Símbolo AFI Exemplo moderno
em inglês antigo
æ sæt “sentou-se” (ingl. [æ] sat em inglês britânico
mod., sat) meridional
dæd “feito”, “ato” (ingl. [ɛ:] seta em port. (mas longa)
mod., deed)
a mann “homem” (ingl. [ɒ] hot em ingl. norte-americano
mod., man)
dagas “dias” (ingl. mod., [ɑ] (só antes de m, n, n[g]) Land em alemão
days)
ham “lar” (ingl. mod., [ɑ:] father em ingl. brit. merid.
home)
c cyrice “igreja” (ingl. mod., [tʃ] (antes/depois de i e com church em ingl.
church) frequência æ, e, y)
cene “atrevido” (ingl. [k] campo em port.
mod., keen)
cg ecg “margem” (ingl. mod., [dʒ] jump em ingl.
edge
e settan “colocar” (ingl. [ɛ] seta em port.
mod., set)
he “ele” (ingl. mod., he) [e:] bêbado (mas longa)
ea earm “braço” (ingl. ant., [æǝ] Como [æ] seguido por a de lata
arm) em port.
eare “orelha” (ingl. mod., [ɛ:ǝ] Como é de pé seguido por a de
ear) lata em port.
eo eorl “nobre” (ingl. mod., [eǝ] Como ê de bêbado seguido por
earl) a de lata em port.
beor “cerveja” (ingl. mod., [e:ǝ] Como ê de bêbado (mas longa),
beer) seguido por a de lata em port.
f æfre “cada” (ingl. mod., [v] (entre sons sonoros e v de vida em port.
every) vogais)
fif “cinco” (ingl. mod., [f] f de faca em port.
five)
g gyt “conseguir” (ingl. [j] (antes/depois de i e com y de yellow em ingl.
mod., yet) frequência æ, e, y)
fugol “pássaro” (ingl. [ɣ] (entre vogais posteriores rr de arruda em port. de RJ
mod., fowl) ([u, o, ɔ, ɒ, ɑ])
gan “ir” (ingl. mod., go) [g] g de gato em port.

Book 1.indb 110 17/11/16 19:14


O inglês médio 111

h heofon “céu” (ingl. mod., [h] (em início de palavra) h de hat em ingl.
heaven)
niht “noite” (ingl. mod., [ç] (depois de æ, e, i, y) ich “eu” em alemão
night)
brohte “trouxe” (ingl. [x] (depois de a, o, u) r de rato em port. carioca
mod., brought)
i sittan “sentar-se” (ingl. [ı] e de mate em port.
mod., sit)
wid “largo” (ingl. mod., [i:] i de sítio em port. (mas longa)
wide)
o monn “homem” (ingl. [ɒ] o de hot em ingl.
mod., man) Norte-americano
god “deus” (ingl. mod., [ɔ] ó de avó em port.
god)
god “bom” (ingl. mod., [o:] ô de avô em port. (mas longa)
good)
s risan “levantar-se” (ingl. [z] (apenas entre vogais) z de zebra ou s de asa em port.
mod., rise)
hus “casa” (ingl. mod., [s] s de samba
house)
sc scip “barco” (ingl. mod., [ʃ] ch de chave em port.
ship)
t ton “aldeia” (ingl. mod., [t] t de torre em port.
town)
þ, ð oþer, oðer “outro” (ingl. [ð] (entre vogais) th de this “este” em ingl.
mod., other)
þurh, ðurh “por” (ingl. [θ] th de through “por” em ingl.
mod., through)
u ful “cheio” (ingl. mod., [u] u de puro em port.
full)
hus “casa” (ingl. mod., [u:] u de puro em port., mas longo
house)
ƿ ƿynn “alegria” [w] w de whisky
y wynn “alegria” [y] u de lune em francês
ryman “abrir passagem” [y:] u de lune em francês, mas longo
Fonte: Crystal (1995, p. 18).

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112 Gramática histórica da língua inglesa

Os ditongos do inglês antigo (ea [æǝ], [ɛ:ǝ], eo [eǝ], [e:ǝ]) fo-


ram convertidos em vogais simples breves ([ɛ] e [e] breves, escri-
tas com e) e seus pares longos, [ɛ:] e [e:] (escritos ea e ee). Novos
ditongos surgiram quando a pronúncia de certas consoantes foi
vocalizada, por exemplo, ingl. ant., weg [weg] > ingl. méd., wei
[wej] (cf., ingl. mod., way).
As vogais átonas em final de palavra deixaram de ser pro-
nunciadas tão claramente, de modo que muitas foram reduzidas
a shwa [ǝ], um som indistinto que soa como o a final em lata em
português, antes de serem elididas completamente. A dificuldade
de distinguir entre as vogais finais causaria um impacto impor-
tante na erosão das desinências de caso nos nomes e de tempo e
pessoa nos verbos (veja a seguir “Morfologia e sintaxe”).
Empréstimos franceses introduziram os ditongos [oi] e [ui]
(atualmente [oi] como em joy “alegria”, point “ponto” etc., em
ingl. mod.).
Com a exceção dos dialetos do norte, [ɑ:] de inglês antigo pas-
sou a ser articulado como [o:] por exemplo, ban “osso” [bɑ:] e
swa “assim” [swɑ:] do inglês antigo, passaram a ser escritas com
bon [bo:] e so [so:] (ingl. mod., bone, so).
A consoante [h] começou a ser elidida, por exemplo, ingl. ant.,
hring [hriŋg] “anel”, hnecca [hnɛkka] “pescoço” > ingl. med.,
ring [riŋg], neck [nɛk]. Em muitos manuscritos medievais, encon-
tramos grafias em que a ausência da letra h ou sua inclusão onde
não era preciso indicam que [h] não era pronunciada, por exem-
plo, ædde por had “teve”, eld por held “segurou”, his por is “é”,
harm por arm “braço”. Posteriormente, no inglês padrão, o [h] foi
restaurado em muitas palavras, devido às grafias que ficaram con-
sagradas. Por escrever as palavras com h, as pessoas achavam que
deveriam pronunciar algum som, embora isso não tenha afetado
certas palavras emprestadas das línguas românicas, como honour,
por exemplo, que é [ɒnǝ] ou [ɑnǝɹ]. Diferente da língua culta do
sudeste, em muitas variedades do inglês faladas na Inglaterra, a
restauração de [h] ao inventário fônico nunca ocorreu, de modo
que [h] foi eliminada completamente. Nessas variedades, palavras
como hair “cabelo” e air “ar”, harm “dano” e arm “braço” são
homófonas, pronunciadas [ɛǝ] ou [ɛ:] e [ɑ:m], respectivamente.
A influência do francês também se fez sentir em certas distin-
ções entre consoantes. Por exemplo, em inglês antigo [s] e [z] e
[f] e [v] eram variantes que alternavam dependendo dos sons ao

Book 1.indb 112 17/11/16 19:14


O inglês médio 113

redor. Tipicamente, [s] e [f] apareciam em início e final de palavra,


e [z] e [v] apareciam entre vogais, mas, especialmente no sul, [v] e
[z] podiam aparecer no início de palavras também, pois substituir
o som sonoro ([v z]) por seu par surdo ([f s]) não afetava o sig-
nificado de uma palavra, ou seja, fat era pronunciado [vat] e [fat]
e queria dizer a mesma coisa (“barril”), tal como fox podia ser
[fɒks] ou [vɒks] “raposa” (compare a palavra fox “raposa”, com
[f], que é dos dialetos no norte, com vixen “raposa”, com [v], que
vem do sul). No entanto, em francês antigo, a distinção entre [f v]
e [s z] era importante, porque distinguia palavras: fin “fino” não
era igual a vin “vinho”. Com a entrada de tantas palavras france-
sas, esses contrastes foram adotados em inglês também, de modo
que atualmente, fat [fæt] e vat [væt] e seal [sıjl] e zeal [zıjl] são
palavras diferentes (“gordo” e “barril”, “foca” e “zelo”, respecti-
vamente), distinguidas pelo contraste entre as consoantes iniciais.
Por volta de 1400, no sudeste da Inglaterra, o sistema de sons
era aproximadamente como nos mostra o Quadro 2.2.

Quadro 2.2  Sistema de sons.

Grafias Exemplos IPA


CONSOANTES
p(p) – b(b) pin “alfinete”, bit “mordeu” [p] – [b]
t(t) – d(d) tente “barraca” (ingl. mod., tent), dart “dardo” [t] – [d]
c, k, ck – g(g) castell “castelo”, kin “parentes” [k] – [g]
c, ch, tsch, tch chirche “igreja” [tʃ]
dg, g(g) + e, i, y brigge “ponte” [dʒ]
m, mm make “fazer” [m]
n, nn name “nome” [n]
ng song “canção” [ŋ] (Este som começa a ficar
distintivo, por exemplo, sinne [sin]
“pecado” versus sing(g)(e) [siŋ]
“cantar”)
l, ll lay “deitar” [l]
r, rr rage “raiva” [r]
w, u, uu weep “chorar” [w]
y, i, j yelwe “amarelo” (ingl mod., yellow) [j]
f(f) foole “bobo” [f]

Book 1.indb 113 17/11/16 19:14


114 Gramática histórica da língua inglesa

v virtu “virtude” (de francês) [v] (Este som começa a contrastar


com [f])
s(s), c(c) + i, e, y sore “dolorido”, citie “cidade” (do francês) [s]
z, s zephyr “zéfiro” [z] (Este som começa a contrastar
com [s])
sh, ch, sch shadwe “sombra” (ingl. mod., shadow) [ʃ]
th, þ thank, þank “agradecer”; paþ, path “caminho” [θ] – [ð]
h happen “ocorrer” [h]
VOGAIS
i, y ryden “montar”, “andar a cavalo” [i:]
this “este” [i]
ee sweet “doce” [e:]
heeth “pântano” [ɛ:]
e men(n)(e) “homens” [ɛ]
joye “alegria” [ǝ]
a_e name “nome” [ɑ:]
ou houre “hora” [u:]
oo good “bom” [o:]
o holy “santo” [ɔ:]
oft “com frequência” [ɔ]
a hand “mão” [a]
about “sobre”, “ao redor”, [ǝ]
u but “mas” [ʊ]
DITONGOS
ay day “dia” [ai]
ui, uy, oy, oi joinen “juntar” [ʊi] (Introduzido do francês)
oi, oy joye “alegria” [oi] (Introduzido do francês)
ew newe “novo” [iʊ]
fewe “poucos” [ɛʊ]
au, aw law “lei” [aʊ]
ow growe “crescer” [ɔʊ]
Fonte: Crystal (1995, p. 42).

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O inglês médio 115

Morfologia e sintaxe
Em termos do sistema morfológico, o período do inglês médio
é caracterizado pela perda dramática das marcas de flexão do in-
glês antigo, especialmente nos nomes e nos adjetivos. Na sintaxe,
são notáveis as crescentes restrições sobre a ordem de palavras
nas frases. As duas mudanças gerais na gramática da língua ingle-
sa estão vinculadas porque a fixação da ordem sintática em Sujei-
to-Verbo-Objeto (com apenas algumas variações razoavelmente
previsíveis) ajudava a contrabalançar a eliminação de desinências.
Igualmente, quanto mais rígida a ordem dos constituintes da frase,
menos necessárias ficavam as flexões para indicar as funções gra-
maticais, acelerando sua obsolescência e abandono.
Podemos ver a redução nas flexões de caso nominais e adjeti-
vais nos seguintes exemplos:
Singular
Se tila mann = “o homem bom” (caso nominativo [sujeito]).
Þone tilan mann = “o homem bom” (caso acusativo [objeto
direto]).
Þæs tilan mannes = “do homem bom” (caso genitivo [posse]).
Þæm tilan menn = “para, com, por, desde o homem bom” (caso
dativo [objeto indireto]).
Plural
Þa tilan menn = “os homens bons” (caso nominativo).
Þa tilan menn = “os homens bons” (caso acusativo).
Þara tilra manna = “dos homens bons” (caso genitivo).
Þam tilum mannum = “para, com, por, desde os homens bons”
(caso dativo).
Como você pode ver, para quase todos os casos existe uma de-
sinência específica. Alguns casos, porém, já eram indiferenciados
em inglês antigo, por exemplo, plural do nominativo e acusativo
no nome. No adjetivo, não havia distinção entre o singular do
acusativo, genitivo e dativo e o plural do nominativo e acusativo
(tilan). Nesses casos as flexões no artigo definido e/ou o substan-
tivo podiam desambiguar o sentido.
O paradigma apresentado exibe a concordância para um subs-
tantivo do gênero masculino. Os substantivos femininos e neutros
tinham sistemas diferentes para expressar as mesmas distinções
de caso, mas quase todas as flexões desapareceram, tais como:

Book 1.indb 115 17/11/16 19:14


116 Gramática histórica da língua inglesa

glof “luva” (subst. fem.) wif “mulher” (subst. neut.)


Sg. Nom. seo glof > þe glof þæt wif > þe wyf
Sg. Acus. þa glofe > þe glof þæt wif > þe wyf
Sg. Gen. þære glofe > þe gloves þæs wifes > þe wives
Sg. Dat. þære glofe > þe glove þæm wif > þe wyve

Pl. Nom. þa glofa þa wif


Pl. Acus. þa glofa þa wif
> þe gloves > þe wyves
Pl. Gen. þara glofa þara wifa
Pl. Dat. þæm glofum þæm wifum

As formas do artigo definido também iam perdendo as diferen-


ças de caso, até ficar com apenas uma variante: /ðe/, normalmente
escrito þe (cf., ingl. mod., the). Para o paradigma de “homem”, as
formas em inglês médio eram: þe man (sg. nom., acus.), þe man-
nes (sg. gen.), þe manne (sg. dat.) e mannes em todo plural.
Podemos notar mudanças no sistema pronominal também en-
tre o inglês antigo e o inglês médio, especialmente na terceira pes-
soa. As formas da primeira e segunda pessoas (“eu”/”nós” e “tu” ~
“você”/”vocês”) mudaram pouco, como podemos ver (inglês an-
tigo > inglês médio):

Primeira pessoa do singular Segunda pessoa do singular


(“eu”) (“você”)
Nom., ic  > ic þu  > þu
Acus., me, mec  > me þe, þec  > þe
Gen., min  > min þin  > þin
Dat., me  > me þe  > þe

Primeira pessoa do plural Segunda pessoa do plural


(“nós”) (“vocês”)
Nom., we  > we ge   > ye
Acus., us  > us eow  > ow
Gen., ure   > ure eower  > ower
Dat., us   > us eow  > ow

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O inglês médio 117

O inglês antigo também incluía dois pronomes que se referiam


a pares (“nós dois” e “vocês dois”), cujas formas declinadas eram
wit, unc, uncer, unc e git, inc, incer, inc, respectivamente. Esses
pronomes do número dual desapareceram antes do período do in-
glês médio.
Na terceira pessoa, porém, encontramos a entrada gradual de
duas formas diferentes. O surgimento de scho, sche para “ela”, e o
aparecimento de þei, þem, þeir no plural para “eles”/“elas”.
Em inglês antigo, os pronomes para a terceira pessoa começa-
vam com /h/, escrito h, vejamos:

Singular Plural
Caso Masculino Feminino Neutro (todos os gêneros)
Nom., he heo hit hi, hie
Acu., hine hi, hie hit hi, hie
Gen., his hire his heora
Dat., him hire him him, heom

A transformação de heo /he:ǝ/ em she /ʃe/ é difícil de explicar,


mas uma hipótese é que /he:ǝ/ se tornou /hje:/ ou /hjo:/ e depois
passou para /ʃe:/ ~ /ʃo:/ (alguns dialetos do norte exibem scho), via
uma forma intermédia com /ç/ inicial (o som de rr em morria no
sotaque carioca). O problema com a teoria é que existem pouquís-
simos exemplos desse tipo de mudança sonora de [hj] > [ʃ], um
caso é Hjaltland > Shetland (Xetlândia, um arquipélago ao norte
da Escócia). Para auxiliar a mudança fônica tão incomum, alguns
linguistas históricos sugerem que possivelmente o artigo definido/
pronome demonstrativo feminino seo (“a” / “essa”) tenha influen-
ciado, talvez porque, com as mudanças fônicas, /hje:/ “ela” e /he:/
“ele” teriam ficado muito parecidos, com alto risco de confusão.
Para diferenciar, as pessoas teriam adotado seo ou, pelo menos,
transferido a primeira consoante para o pronome pessoal feminino
(CRYSTAL, 1995, p. 43).
No caso dos pronomes da terceira pessoa do plural, þei, þeir,
þem (cf., ingl. mod., they, their, them) surgem nos dialetos seten-
trionais como um empréstimo do escandinavo e gradualmente, a
inovação avança para o sul, eliminando as variantes do pronome
nos dialetos centrais e meridionais hi, heo, he, ha, a (nominativo),

Book 1.indb 117 17/11/16 19:14


118 Gramática histórica da língua inglesa

hi, his(e), heom, hem (acusativo), her(e), heor, hure, hire (geni-
tivo), heom, hom, hem, ham (dativo). O nominativo foi afetado
primeiro, no século XIV, em Londres, o poeta Geoffrey Chaucer
escrevia þei, mas mantinha her(e) ~ hir(e) (genitivo) e hem indis-
tintamente para o acusativo e dativo. No século XV, o genitivo
original em h dos dialetos do sul foi substituído por þeir “seu(s)” /
“sua(s)” / “dele/as”. Finalmente, no século XVI, por exemplo, nos
livros imprimidos por William Caxton, deparamos com them ins-
talado nos casos objetivos.

Figura 2.17  Mapa da distribuição de formas para a terceira pessoa do plural (“eles”/“elas”) para o
período aproximadamente entre 1350 e 1450.
0º 0º

Mar Mar
do do
Norte Norte

54º N 54º N

Mar Mar
da da
Irlanda Irlanda

Canal da Mancha Canal da Mancha

Fonte: A Linguistic Atlas of Late Medieval English (apud BURROW; TURVILLE-PETRE, 1992 [2005], p. 16).

Vejamos a Figura 2.17, o mapa à esquerda mostra as ocor-


rências de formas com þ- (por exemplo, þem, þam) introduzidas
do norreno antigo, e o mapa à direita reflete os casos de formas
com ­h- derivadas do inglês antigo (por exemplo, hem, ham). Fica
evidente que, no período sob investigação, o segundo grupo está
concentrado ao sul de uma linha entre o estuário do rio Mersey
no oeste e a grande baía de The Wash, no leste. Por outro lado, as
grandes concentrações das formas inovadoras estão ao norte da

Book 1.indb 118 17/11/16 19:14


O inglês médio 119

mesma linha, mas ocorrências dispersas estão por toda a região


sul, conforme os empréstimos penetravam. Um bloco especial-
mente intenso de þ- está no leste da região sul.
Outras mudanças importantes no sistema gramatical durante o
inglês médio são: o surgimento gradual do infinitivo marcado com
for to ou to em lugar da desinência ­-(i)an, por exemplo, em Chau-
cer: Thanne longan folk to goon on pilgrimmages / And palmeres
for to seken straunge strondes “Então as pessoas desejam fazer
peregrinações / e peregrinos a procurarem lugares distantes”. A
origem dessa construção era uma expressão de intensão ou pro-
pósito, ou seja, “para (que)”. Gradualmente, porém, a expressão
foi gramaticalizada, à medida que a desinência -(i)an sofria cada
vez mais redução na pronúncia, as formas preposicionadas refor-
çavam a construção do infinitivo, passando a ser os marcadores
dessa forma verbal (CRYSTAL, 1995, p. 45).
Nos verbos em geral, os paradigmas não sofreram grandes
alterações entre o inglês antigo e o inglês médio nas desinências
número-pessoais e de tempo e modo, além de algumas varia-
ções fônicas, como fica evidente no exemplo a seguir do para-
digma verbal regular “ouvir” de inglês médio (TRAHARNE,
2004, p. xxviii).

Inglês antigo Inglês médio


Infinitivo hieran (‘to hear’) heren (‘to hear’)
Presente do Indicativo Presente Indicativo
Singular 1 hiere here (‘I hear’)
Singular 2 hierst herest (‘you hear’)
Singular 3 hierþ hereð (‘he, she, it hears’)
Plural hieraþ hereð (‘we, you, they
hear’)

Imperativo
Singular hier her (‘Hear!’)
Plural hieraþ hereð (‘Hear!’)

Pretérito (Passado)
Indicativo
Singular 1 hierde herde (‘I heard’)
Singular 2 hierdest herdest (‘you heard’)

Book 1.indb 119 17/11/16 19:14


120 Gramática histórica da língua inglesa

Inglês antigo Inglês médio


Singular 3 hierde herde (‘(s)he, it heard’)
Plural hierdon herden (‘we, you, they
heard’)

Pretérito Imperfeito do
Subjuntivo
Singular hierde herde (‘I etc. may have
heard’)
Plural hierden herden (‘we may have
heard’)

Particípio Presente/ hierende herinde (‘hearing’)


gerúndio
Particípio Passado (ge)hierede iherd (‘heard’)

Diversidade dialetal
Tal como o inglês antigo, o inglês médio apresentava variação
regional. Em grande medida, os dialetos medievais são continua-
ções e diversificações das cinco principais divisões na língua dos
anglo-saxões: nortumbriano, merciano, saxão ocidental, angliano
oriental e kentiano. A maior diferença entre a situação dos dialetos
anglo-saxônicos e dos medievais é que o merciano divide-se em
dois: West Midland “centro-oeste” e East Midland “centro-leste”,
que abrange a região de East Anglia. A região sul é repartida en-
tre um bloco ocidental, que continua o antigo West Saxon e ou-
tra agrupação no sudeste, que mistura características do dialetos
orientais de Wessex com traços do kentiano. Os dialetos setentrio-
nais também acabam se separando entre os falados da Inglaterra
e os dialetos escoceses (Scots). Devido às redes de contatos dife-
rentes entre os dois países, a evolução do antigo nortúmbrio não
era uniforme.

Book 1.indb 120 17/11/16 19:14


O inglês médio 121

Figura 2.18  Mapa das principais divisões dialetais do inglês médio e da localização aproximada
de alguns dos textos mais conhecidos escritos nessas variedades.

Mar
do
Norte
NORTE
54º N 15
Mar
da
Irlanda
11
8 - 10
6
WEST MIDLAND 14 l - r
1
14 g - k
EAST MIDLAND
4 3
7
5.16 - 18 Londres
12
13
2?
SUDESTE
SUDOESTE

Canal da Mancha

1 The Peterborough Chronicle


2 The Owl and the Nightingale
3 Lazamon’s Brut
4 Ancrene Wisse
5 Sir Orfeo
6 The Cloud of Unknowing
7 Langland: Piers Plowman
8 Patience
9 Sir Gawain and the Green Knight
10 Pearl
11 St Erkenwald
12 Trevisa: Dialogue between a Lord and a Clerk
13 Gower: Confessio Amantis
14 Lyrics
15 The York Play of the Crucifixion
16 Chaucer: The Parliament of Fowls
17 Chaucer: Troilus and Criseyde
18 Chaucer: The Canterbury Tales
Fonte: Burrows e Turville-Petre (1992 [2005], p. 7).

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122 Gramática histórica da língua inglesa

O principal motivo para a diversificação regional de línguas


é o grau de contato entre os falantes. As redes de interação trans-
mitem produtos, assim como ideias também transmitem pala-
vras e mudanças. Repare como os pronomes escandinavos se
deslocavam gradualmente desde seu núcleo original para o sul,
como uma onda. Se os falantes de um lugar prestigioso, por
exemplo, uma cidade importante, como Londres, adotam deter-
minada variante, é muito provável que outros lugares menores
vizinhos vão seguir a moda rapidamente. Tais lugares funcio-
nam como centros irradiadores de mudanças, que tipicamente
“pulam” de centro urbano para centro urbano rapidamente e de-
pois preenchem os espaços rurais entre eles mais devagar.

Figura 2.19  Divisões dialetais do inglês médio segundo John


de Trevisa.3

Fonte: Brook (1963 [1972], p. 58).

A tradução do latim para o inglês feita pelo cornualhês John de


Trevisa (m. 1402) do Polychronicon escrito pelo monge Ranulph
Higden (m. 1364), que é uma história do mundo desde a criação
até meados do século XIV, expressa perfeitamente a percepção de
variação linguística pelo reino.

Os dialetos medievais do inglês e do escocês


Os dialetos setentrionais são os mais distintivos. A maioria dos
textos literários produzidos nesta variedade, porém, é tardia, dos
séculos XIV e XV. Dos textos escritos antes, podemos mencionar
o Saltério Surtees, do final do século XIII, e o Cursor Mundi, um
longo poema. As Canções de Lourenço Minot são do início do

3 “Também os homens ingleses, eles tiveram desde o começo as três maneiras de


falar deles: do norte, do sul, e a fala do meio do país, como eles vieram de três
tipos de povos da Germânia; assim, por combinação e mistura, primeiro com
dinamarqueses e, depois, com normandos, em muitas línguas diferentes é jun-
tado, e alguns usam estranhas articulações de chilrados, rosnados e rangidos.”

Book 1.indb 122 17/11/16 19:15


O inglês médio 123

século XIV. Pelo fim do século XIV, existem alguns poemas alite-
rativos: The awntyres of Arthur (sobre o Rei Arturo), The wars of
Alexander (sobre as conquistas de Alexandre Magno) e The des-
truction of Troy (sobre a Guerra de Troia). Desses, The wars of
Alexander se destaca pelo número de elementos escandinavos no
léxico e na gramática. Do século XV, há as York Plays: várias pe-
ças religiosas escritas e realizadas anualmente na cidade de York.
A quantidade de literatura composta no dialeto escocês é menor
e mais tardia: Bruce (sobre o rei Robert the Bruce) é de 1387. Do
século XV, são o longo poema The Actes and Deidis of the Illus-
tre and Vallyeant Campioun Schir William Wallace (“Os atos e
façanhas do ilustre e corajoso campeão Sir William Wallace”) do
menestrel Blind Harry (Henry, o Cego) e a Orygynale Cronykil of
Scotland (“Crônica Original da Escócia”) de Andrew of Wyntoun.
Também do século XV o poema anônimo Rauf Coilgear (“Rafael,
o Carvoeiro”). A poesia de Robert Henryson e William Dunbar é
associada às cortes reais do final do XV e início do século XIV.
As características dos dialetos setentrionais incluem:
A manutenção de a /ɑ:/ do inglês antigo, sem substituí-lo por
/o:/ (na escrita por oCe [em que C = qualquer consoante],
oo), como ocorreu mais ao sul, por exemplo, stan “pedra” >
ston, stoon, stone, hal “inteiro” > hool (ingl. mod., whole),
rad “estrada” > road.
A simplificação dos ditongos /ai/, /ei/, /oi/, /ui/ para vogais puras
longas /a: e: o: u:/. Esta mudança afetou a grafia, porque muitas
vezes a letra i continuou sendo escrita e era reinterpretada como
uma maneira de marcar quais vogais eram longas. Vemos esse
fenômeno na palavra raid “ataque”, cujo étimo é rad “estrada”.
No norte e no centro-leste o som de y /y(:)/ perdeu o arredon-
damento dos lábios, tornando-se /i(:)/. Novamente, a letra tra-
dicional continuava representando o som, mas com um novo
valor.
Em palavras de duas sílabas, as vogais /ɑ/ e /o/ foram alonga-
das. No norte, /i/ e /u/ também sofreram a mudança de dura-
ção, mas essas vogais eram pronunciadas com a língua mais
baixa, convertendo-as em /e:/ e /o:/, por exemplo, ingl. ant.,
wicu > ingl. méd., weke /we:k/ > ingl. mod., week.
A língua avançou e subiu na articulação de /o:/ para criar /y:/
no século XIV. Sabemos disso porque encontramos palavras

Book 1.indb 123 17/11/16 19:15


124 Gramática histórica da língua inglesa

com escritas sune “imediatamente” e buik “livro” (< inglês


sona, boc) em rimas com palavras como fortune /fortyn/, que
são empréstimos do francês, que também têm esse som /y/.
Na maioria dos dialetos ingleses, as vogais /a/ e /o/ foram con-
vertidas em ditongos /ai ei oi/ quando antecediam /x/ (escrito
ch, gh), por exemplo, taght /taxt/ “ensinou” > taught /tauxt/
(mod. ingl. /tɔt/). No norte, entretanto, apenas /ɑ/ ditongou,
de modo que encontramos taught e aught “oito” (< ingl. ant.,
aht), mas socht, soght para “procurou”, que era sought no sul.
Até o século XV, a vogal fraca átona /ǝ/, escrita com e em
final de palavras, desapareceu. No entanto, a perda ocorreu
muito mais cedo no norte do que no sul (provavelmente já no
século XIII), e já no século XIV é possível encontrar “amor”
escrito luf no lugar de love ou loven no sul.
No século XIII, /e/ > /i/ na segunda sílaba de palavras dissi-
lábicas, quando essa sílaba era travada, por exemplo, walles
“muros” > wallis, wonder “maravilha” > wondir.
Os dialetos setentrionais apresentam muitas palavras em que
/k/ (c, k) e /g/ (g) correspondem a /j/ (y, ȝ) , /dʒ/ (dg, g + e, i)
e /tʃ/ (ch) nos dialetos meridionais, por exemplo, spek “fala”
versus spech. Como não existe nenhum cognato escandinavo
para essa palavra, não podemos atribuir o /k/ a um empréstimo.
Nesses casos, a provável origem é uma generalização de uma
consoante em palavras com alternâncias entre as consoan­tes
velares /k g/ e palatais /j dʒ tʃ/ que eram causadas pela presença
de vogais diferentes, por exemplo, swilc /swilk/ “tal” no nomi-
nativo, mas swilces /swiltʃes/ no genitivo e swilcum no dativo,
com /k/, devido à vogal posterior. Esse tipo de variação entre a
articulação de consoantes devido a vogais existe em português
também, por exemplo, elétrico (/k/ antes de /o/) versus eletrici-
dade (/s/ antes de /i/). No centro e sul, os falantes nivelaram as
alternâncias em favor das formas palatais; no norte, as formas
velares eram generalizadas.
O grupo /hw/ em início de palavra era pronunciado com mais
força no norte, chegando a /x/, que as grafias chw-, qu(h)-,
qw(h)- refletem, sendo escrito wh- no sul, por exemplo, qu(h)
at versus w(h)at “que” (< ingl. ant., hwæt).
/ʃ/ > /s/ no norte, quando não era enfatizado, por exemplo,
fless versus flesh, fiss versus fish etc. Neste caso, os dialetos
meridionais mantiveram o som original.

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O inglês médio 125

Um importante marcador gramatical dos dialetos do norte é a


desinência -es para a terceira pessoa do singular. Esta varian-
te acabou substituindo a forma -eth, que era típica do sul.
Em escocês, o pretérito era escrito com -it, por exemplo,
wantit “quis”, “queria”, que em inglês era geralmente escrito
-ed, por exemplo, wanted.
Algumas formas de negação são típicas do escocês: nae,
nocht, e o enclítico -na, versus no e not dos dialetos centrais
e meridionais.

Figura 2.20  Extrato do poema Cursor Mundi, escrito na primeira metade do século XIV.

Um gosta de rimas para escutar,


E romances lidos de diversas maneiras,
Sobre Alexandre, o Conquistador;
Sobre Júlio César, o Imperador;
Sobre a luta terrível da Grécia e de Troia,
Em que muitos mais perderam a vida;
Sobre Bruto que, sendo de agir valente foi,
O primeiro conquistador da Inglaterra;
Sobre o Rei Artur, que era mais poderoso,
Que qualquer outro de seus tempos,
Sobre o destemido que eram seus cavaleiros ferozes,
Sobre cujos aventuras ouço contar,
Como Gawain, Kai e outros fortes,
Para defender a Távola Redonda.
Fonte: Brook (1963 [1972], p. 73).

Observem os seguintes traços, que são típicos do inglês


setentrional:
a e não o antes de ng e nd em strang “forte” e hand “mão” (L. 5);
a ausência de -e final em red “leu”(L. 2), tim “tempo” (L. 8)
e tell “contar” (L. 12);
i para e em lesis “perderam” (L. 6);
k onde os dialetos meridionais teriam ch, por exemplo, rike
“rico” (L. 9);
qu- em lugar de wh- em quam (L. 10) por whom “a quem”;
-(e)s para a terceira pessoa do singular (yhernes L. 1) e do
plural (lesis L. 9) (BROOK, 1963 [1972], p. 72).

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126 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.21 Extrato do poema Bruce de Barbour.


Contar histórias é prazeroso,
Imaginar que elas não são mais de fábulas,
Então, seria que histórias que eram verdadeiras,
E que eram contadas bem,
Teriam prazer em dobro no ouvir.
O primeiro prazer é a maneira de contar,
E o segundo, a veracidade
Que mostra a coisa bem como era;
E tais coisas de que se gosta,
Ao ouvido de muitos são agardáveis,
Portanto, eu queria decidir-me,
Se minha inteligência for o suficiente para isso,
Verter para o escrito uma história verdadeira.

Fonte: Brook (1963 [1972], p. 74).

Notem: y para a vogal normalmente representada por o no


centro e sul, por exemplo, gud “bom”, suth “verdade” e não god,
soth; -and para o particípio presente em likand, “gostando” (L. 9),
plasand “agradando” (L. 10) (versus -ing no sul); suld “deveria”
para shuld (L. 3); giff para if(f) “se” (L. 12); nocht para not (L. 2);
os itens lexicais tyll “para” e thartill “para ele/isso”.
Os dialetos do centro-leste são reconhecíveis pela troca de i por y
em unride, dint e lifte (< ingl. ant., ungeryde “...”, dynt “momento”,
lypte “levantou”), como os dialetos do norte, mas a letra o em drof,
þore e on (< ingl. ant., draf “conduziu”, þare “lá”, an “um”) não é
nada comum no norte. O plural do imperativo comes “venham” e
till “para” são outras formas comuns no norte, mas o > a antes de
m e n, exceto quando as consoantes nasais precedem d e b, ou seja,
bigan “começou”, mas hond “mão”, só ocorre no centro-leste.

Figura 2.22 Passagem de Havelock the Dane (ll. 2432-46), escrito na variedade do centro-leste.

Havelock o viu e forçou-se para lá,


E a barra rapidamente tirou,
que era enorme e grande, saibam
E jogou a porta aberta
E disse, “Agora vou morar aqui:
Venham rápido até mim;
Maldição em quem entre vocês fujam!”
“Não,” disse um, “você vai pagar isso”,
E começou a correr para ele,

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O inglês médio 127

em sua mão sacou sua espada;


ele ia matar Havelock lá,
E com [ele] vieram dois outros,
que teriam tirado a vida dele.
Havelock levantou a barra da porta,
E, com um golpe, ele matou os três deles.
Fonte: Brook (1963 [1972], p. 74-75).

Se os dialetos do centro-leste compartilham certos traços com


os do norte, os dialetos da região centro-oeste dividem caraterísti-
cas com os do sudoeste, como se pode ver no poema a seguir sobre
o homem na lua.

Figura 2.23 Exemplo do dialeto medival do centro-oeste: The Man in the Moon (“O homem na lua”),
de Harley, MS. 2253).

O homem na lua se levanta em pé e passa,


Em seu cajado bifurcado, ele leva seu fardo;
É um milagre que ele não escorrega,
De medo de cair, ele treme e se desvia.
Quando a escarcha congela, ele sofre muito frio;
Os espinhos são afiados; eles rasgam sua roupa.
Não há ninguém no mundo que sabe quando ele se senta,
Nem ninguém, a não ser a cerca-viva, quais roupas ele veste.
Fonte: Brook (1963 [1972], p. 75-76).

Repare, por exemplo, em o em mon “homem” e mone “lua”


(L. 1), em lugar de man(ne) no leste e norte. O som sonoro /v/
em valle “cair” (ingl. mod., fall) (L. 4) é típico do centro-oeste
e sudoeste. A vogal u em burþan “fardo” (L. 2) (ingl. mod., bur-
den) e muche “muito” (L. 3) (ingl. mod., much) em lugar de i ou
y são meridionais, tal como a desinência verbal -(e)þ que corres-
ponde a -(e)s no norte e centro-leste, por exemplo, bereþ “leva”
(L. 2), burþen (L. 3), shoddreþ “treme” (L. 4). Os verbos stond
“levanta-se”, strit “passa”, slyt “escorrega” não apresentam a
última sílaba -eþ. Esse processo de perda de sons em final de
palavra é chamado apócope e é típico dos dialetos do sudoeste e
centro-oeste. Por outro lado, chele “frio”, não descende de cele
do dialeto anglo-saxônico ocidental, sendo específico do centro-
-oeste e, portanto, ajuda a localizar a proveniência da composi-
ção. Em bue “seja” (L. 8), encontramos o reflexo arredondado

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128 Gramática histórica da língua inglesa

do ditongo /e:ǝ/ do inglês antigo, mas em freseþ “congela” e beþ


“são” (L. 6) (< ingl. ant., freoseþ, beoþ), a vogal não é articulada
com os lábios arredondados.

Figura 2.24 Dialeto medieval do sudeste: Ayenbyte of Inwyt (“O


arrependimento da consciência”), uma tradução do francês feita pelo
monge beneditino, Michael of Northgate, finalizado em 1340.4

Fonte: Brook (1963 [1972], p. 76-77).

Essa passagem apresenta vários traços que apontam para sua


origem no sudeste da Inglaterra:
A descida e desarredondamento da articulação da vogal y
(/y(:)/) do inglês antigo, que passa a e (/e(:)/), por exemplo,
ken (L. 8) “gado” (< ingl. ant., cyn, plural de cu “vaca”) (=
ingl. mod., kine “gado vacum”).
A subida da língua na articulação de æ (/æ/) do inglês antigo
para e (/e/), registrada nas grafias efterward “antes”, “antiga-
mente”, wes “era”, hedde “tinha”, þet “que” (= ingl. mod.,
afterwards, was, had, that).
A grafia ye na palavra yhyerde “ouviu” (L. 2) e a grafia uo
para a vogal em guod “bom” (ingl. mod., good) (L. 4, 7).
A troca de sons fricativos surdos para sonoros em início de
palavra, por exemplo, zayþ, zigge, zente, zayd, uor (= ingl.
mod., say(-eth), say, send, said, for).

4 “Antigamente, havia um homem pobre, como me dizem, que tinha uma vaca;
e [ele] ouviu seu sacerdote dizer em sua predicação que Deus disse em seu
evangelho que Deus entregaria cem vezes tudo o que me desse para ele. O ho-
mem bom, com a sugestão da sua mulher, deu sua vaca ao sacerdote, que era
rico. O sacerdote tomou [a vaca] dele alegremente, e enviou-a para as outras
[vacas] que ele tinha. Quando o entardecer começou, a vaca do homem bom
voltou para a casa dele, como ela estava acostumada e levou com ela todo o
gado do sacerdote, que eram cem.”

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O inglês médio 129

Figura 2.25 O dialeto do sudoeste: passagem de The Owl and The Nightingale (“A coruja e o
rouxinol”) ll. 1721-736.

A corruíra era considerada muito sábia,


Porque ela não tinha sido criada no bosque,
Ela estava à vontade entre os homens,
e deles recebeu sua sabedoria:
Ela podia falar onde quisesse,
Até ante o rei, se quisesse.
“Escutem”, ela disse, “deixem-me falar!
Que é isso? Vocês pretendem perturbar a paz,
e constranger o rei tanto?
Ele ainda não está morto, nem coxo.
Vocês dois vão sofrer talvez dano e desonra,
se nós quebrarmos a trégua em seu domínio.
Deixem ir e acalmem-se,
e vamos direto ao julgamento de vocês,
e deixemos julgar esse pleito,
Tal como foi combinado anteriormente.
Fonte: Brook (1963 [1972], p. 77).

As características mais marcantes de que esse manuscrito foi


composto no sudoeste da Inglaterra são as seguintes:
O reflexo arredondado da vogal y /y(:)/, por exemplo,
mankunne (L. 3) “humanidade”, “os homens” (< ingl. ant.,
manncynn) (= ingl. mod., mankind), lusteþ (L. 7) “escutem”
(< ingl. ant., lysteþ) (= ingl. mod., listen), gryþbruche (L. 12)
“distúrbio da paz” (< ingl. ant., griþbryce).
As vogais /o/ e /a/ do inglês antigo são representadas por
/o/ antes de consoantes nasais, seguidas ou não de outras
consoantes, por exemplo, schome “desgraça”, “desonra”
(L. 9) (< ingl. ant., scamu) (= ingl. mod., shame) (L. 10),
lome “coxo” (< ingl. ant., lamu) (= ingl. mod., lame) (L. 11),
among “entre” (< ingl. ant., onmang) (= ingl. mod., among)
(L. 3), schond “culpa”, “responsabilidade” (< ingl. ant., scan-
du) (L. 12) (= ingl. mod., scandel), londe “terra”, “país”
(L. 14) (< ingl., land) (= ingl. mod., land). Por outro lado,
temos a ainda em mannkunne e þanne (< ingl. ant., þone), em
que o arredondamento não ocorreu por algum motivo.

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130 Gramática histórica da língua inglesa

A vogal /æ/ do inglês antigo evoluiu para /ɛ/ em wes “era”/


“foi” (< ingl. ant., wæs) (= ingl. mod., was) e queþ “disse”
(< ingl. ant. cwæð) (= ingl. mod. arcaico, quoth). Esse se-
gundo caso é especialmente uma característica dos dialetos
meridionais.
O pronome hunke é um vestígio de unc, o antigo pronome
dual da segunda pessoa do inglês antigo, que não sobreviveu
nos demais grupos dialetais.

Literatura medieval
Os restos textuais que sobrevivem do período medieval depois
da conquista normanda são menos numerosos que os do período
anglo-saxônico. A nova situação política é parcialmente respon-
sável pelo aumento na documentação, porque a nova monarquia
e seus seguidores precisavam registrar suas posses e avaliá-las.
Por esse motivo, encontramos tanto documentos públicos, como o
enorme questionário do Domesday Book, quanto empreendimen-
tos administrativos e jurídicos reais e privados (mandados, escri-
turas, alvarás e privilégios, contratos e listas de tributação etc.). A
dificuldade principal, porém, com esse material, é que está escrito
ora em latim, ora em francês, e, portanto, os únicos elementos
ingleses que aparecem são nomes próprios de pessoas ou de lu-
gares, que são de utilidade limitada para desvendar a evolução
da língua. A exclusão da língua inglesa também ocorre no âmbito
religioso, devido ao papel do latim como a língua oficial da Igreja.
O latim substituiu o inglês como a língua para redigir as crônicas
históricas também, encerrando a época da grande Crônica anglo-
-saxônica e com algumas notáveis exceções em francês, só ressur-
gindo no século XV (CRYSTAL, 1995, p. 34).
O inglês começa a reaparecer nos documentos a partir do sé-
culo XIII. Primeiro em apenas alguns casos dispersos, depois,
com crescente importância, até a enxurrada de manuscritos em
inglês que explode em meados do século XV. Os primeiros tex-
tos são geralmente de natureza religiosa: sermões, homilias, tra-
tados sobre a vida religiosa e sobre a vida dos santos, e obras
de meditação. O século XIV viu um aumento na produtividade

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O inglês médio 131

em inglês com várias traduções do latim e do francês, à medida


que o conhecimento da segunda língua diminuía entre a nobreza
e a florescente classe mercantil urbana. Diversos textos são lições
para o ensino de francês, além de mais material burocrático (pro-
clamações, contabilidade) e experimentação com novos gêneros
textuais (provérbios, alegorias, diálogos). A publicação de uma
tradução da Bíblia pelo reformador religioso John Wycliffe gerou
muita polêmica, tal como as escritas dos seguidores de Wycliffe,
os lollardos. Finalmente, a partir da década de 1430, uma onda de
documentação tabelional irrompe da chancelaria real, o Chancery
Standard, desenvolvendo assim uma norma escrita razoavelmente
padronizada.

Peterborough Chronicle
A Crônica de Peterborough é um dos primeiros textos que
podemos classificar como “inglês médio”. Iniciado como uma
versão da Crônica Anglo-Saxônica no mosteiro de Peterborou-
gh no centro da região oriental de East Anglia, a crônica foi
iniciada depois que os monges perderam muitos manuscritos
em um incêndio em 1116. Eles pediram uma cópia da Crônica
de outro mosteiro e, ao terminar a cópia, eles continuaram a
escrever a história da comunidade. A redação foi interrompida
entre 1131 e 1154, provavelmente devido à violência e à insta-
bilidade durante a guerra civil entre Stephen e Matilda. Quando
os escribas retomaram suas atividades, depois da morte do rei
Estevão em 1154, parece que ocorreu uma mudança na política
editorial também, porque a linguagem e as grafias passam a ser
muito mais contemporâneas, evitando o estilo arcaico do perí-
odo anterior.
Não há consenso entre os especialistas sobre a identidade da
Crônica de Peterborough. Alguns apontam para a presença de
arcaísmos que lembram a variedade padrão do saxão ocidental
para justificar uma classificação como inglês antigo tardio. Ou-
tros estudiosos, porém, indicam as inovações linguísticas e as
normas de representação, preferindo identificar o texto como in-
glês médio precoce.

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132 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.26  Peterborough Chronicle.5

Fonte: Crystal (1995, p. 33).

5 “Um amarrou cordas com nós ao redor da cabeça deles e / 2 girou-as de tal
modo que entraram no cérebro deles. Eles os colocaram / 3 em uma cela onde
havia víboras e serpentes e sapos / 4 estavam, e mataram-nos assim. Alguns
eles fecharam no / 5 caixote de tortura, que é uma caixa que é curta e estreita
/ 6 e rasa, e puseram pedras afiadas dentro dela e / 7 pressionaram o homem
nela, de modo a quebrar-lhe todos os membros. / 8 Em muitos dos castelos
havia o laço de cabeça e o cabresto, os quais / 9 eram ferros dos quais dois ou
três homens eram precisos / 10 para levantar; que era feito de tal maneira que
estava fixa em uma / 11 viga, e colocavam um ferro afiado ao redor da gargan-
ta do homem / 12 e seu pescoço, de modo que ele não conseguisse nenhuma
posição para sentar-se, / 13 nem deitar-se, nem dormir, senão aguentar todo
esse ferro. Muitos / 14 mais eles mataram de fome. / 15 Eu não conheço, nem
posso contar todas as atrocidades nem todos os / 16 castigos que eles faziam
nas pessoas infelizes nesse país, e que / 17 duraram os doze invernos em que
Estevão foi rei, e sempre ficava / 18 cada vez pior.”

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O inglês médio 133

Sir Gawain and the Green Knight


O poema de “Sir Gawain e o Cavaleiro Verde” foi compos-
to por volta do final do século XIV no dialeto do centro-oeste,
embora algumas formas linguísticas indiquem que a versão que
sobrevive em manuscrito até hoje foi baseada em outra, provavel-
mente escrita no dialeto do condado de Lancashire, mais ao norte.
A composição é de 2.430 versos, divididos por 101 estrofes, com
forte esquema aliterativo. O poema conta duas histórias: a primei-
ra, sobre a chegada do gigante Cavaleiro Verde à corte do rei Artur
e seu desafio aos cavaleiros da Távola Redonda de que um deles o
golpeia com seu machado, se, dali um ano e um dia, ele puder vol-
tar e realizar o mesmo golpe em que tiver aceito o desafio inicial.
Gawain aceita e decepa a cabeça do cavaleiro com um golpe do
machado. O Cavaleiro não morre, mas se levanta, pega sua cabeça
e lembra Gawain de encontrá-lo em certa capela na data combi-
nada. A segunda história conta as aventuras de Gawain no castelo
do lorde Bertilak e sua esposa, quando ele tenta cumprir o acordo
com o Cavaleiro Verde. A segunda parte dessa história envolve
provas da lealdade, honestidade, coragem e fidelidade ao espírito
do código cavalheiresco de Gawain. O sobrinho do rei Artur é
apresentado com diversas tentações mundanas: as tentativas de
sedução pela Lady Bertilak e a vontade de se salvar da morte certa
que o aguarda às mãos do Cavaleiro Verde se cumprir o acordo.

Figura 2.27 Sir Gawain e o Cavaleiro Verde.6

6 “Desde que o sítio e o assalto terminaram em Troia, / 2 A cidade destruída


e queimada até brasas e cinzas, / 3 O homem que lá criou os engenhos da
traição / 4 Foi condenado por sua deslealdade, ele, o mais correto da Terra: /
5
Foi o nobre Enéas e seus ilustres parentes / 6 que, mais tarde, subjugaram
províncias, e se tornaram senhores / 7 De quase toda a riqueza das Ilhas Oci-
dentais. / 8 Quando o nobre Rômulo se dirige rapidamente a Roma, / 9 Com
grande pompa, ele constrói aquela cidade primeiro,

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134 Gramática histórica da língua inglesa

Fonte: Crystal (1995, p. 37).

Os temas do poema misturam elementos da mitologia celta da


Irlanda e do País de Gales, além de muitas figuras da tradição ar-
turiana que eram muito populares por toda a Europa Ocidental ao
longo da Idade Média.
O mesmo manuscrito de Sir Gawain contém três outros poe-
mas, escritos na mesma mão e no mesmo dialeto do centro-leste:
A pérola, A pureza e A paciência. Esses poemas tratam de temas
religiosos de estilo narrativo.

/ 10 E batiza-a com seu próprio nome, como é chamada agora; / 11 Tírio


levanta construções na Toscana, / 12 Langobardo ergue moradias na Lom-
bardia, / 13 E, distante, além do Canal da Mancha, Félix Brutus / 14 Sobre as
ladeiras largas de muitas colinas estabelece a Bretanha com júbilo. / 15 Onde
lutas e aflições e façanhas maravilhosas / 16 Muitas vezes foram encontradas
por lá / 16 E com frequência tanto a felicidade como a tristeza / 17 têm-se al-
ternado rapidamente desde então. / 18 E quando essa Bretanha foi constituída
por esse homem nobre, / 19 Homens corajosos se multiplicaram por lá que
adoravam lutar / 20 os quais, muitas vezes, em tempos posteriores, causaram
danos. / 21 Mais maravilhas ocorreram nesta terra aqui e com maior frequên-
cia / 22 Que em qualquer outro lugar que eu conheço desde então, / 23 Mas
de todos os reis da Bretanha que viveram aqui, / 24 Sempre Artur foi o mais
nobre, dos que eu ouvi contar.”

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O inglês médio 135

Geoffrey Chaucer
De todos os autores medievais, Geoffrey Chaucer (ca. 1345­
‑1400) legou a maior obra à posterioridade. Uma edição da sua
produção literária conta mais de 43 mil versos e dois livros
de prosa (CRYSTAL, 1995, p. 38). No entanto, não é apenas
pelo tamanho que Chaucer é considerado o mais importante
escritor da língua inglesa medieval. Em grande medida, a obra
chauceriana marca o momento histórico em que o inglês se res-
tabeleceu definitivamente no ambiente culto das cortes reais e
da nobreza, que antes haviam preferido consumir sua cultura
em francês.
Os primeiros poemas que temos de Chaucer são no Book of the
Duchess (O livro da duquesa), uma “visão amorosa” (sonho) na
forma de elegia que celebra a morte da esposa de John of Gaunt,
Branca de Lancaster, escrito entre 1368 e meados de 1370. Além
desse livro, outras obras importantes de Chaucer incluem sua tra-
dução do francês de uma parte do Roman de la Rose (O romance
da rosa), uma das mais famosas obras de cavalaria medieval, a
alegoria The Parliament of Fowls (O parlamento dos pássaros),
outra visão amorosa chamada The House of Fame (A casa da
fama) de aproximadamente 1378-1385, e The Legend of Good
Women (A lenda das boas mulheres), poema inacabado, que trata
de heroínas da mitologia clássica que ficaram famosas por terem
sofrido pela devoção ao amado.
As duas obras mais conceituadas da sua maturidade artísti-
ca são Troilus and Criseyd (Troilo e Créssida), um tema popu-
lar medieval sobre dois amantes durante a Guerra troiana, e The
Canterbury Tales (Os contos de Canterbury), sua obra mais fa-
mosa. Nos Contos, um grupo de peregrinos sai de Londres para
o sepulcro de São Thomas à Becket, na Catedral de Canterbury
no condado de Kent. Para se entreter ao longo do caminho, os
peregrinos contam histórias. Nunca terminada, a obra contém 24
contos. Embora nenhuma versão manuscrita tenha sobrevivido na
mão do autor, existem oitenta cópias contemporâneas: testemunho
ao seu sucesso com o público.

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136 Gramática histórica da língua inglesa

Figura 2.28 Extrato do “Prólogo” d’Os contos de Canterbury.7

Fonte: Crystal (1995, p. 39).

Podemos observar a grande habilidade poética de Chaucer


na facilidade com que ele consegue explorar técnicas de rima e

7 “Quando Abril, com suas chuviscas suaves, / 2 penetra a seca de março até a
raiz / 3 E rega cada veia com tal líquido / 4 De cujo vigor é concebida a flor. /
5
Quando Zéfiro também, com seu sopro delicado, / 6 exala em cada bosque e
charneca, / 7 Os brotos tenros e o jovem sol / 8 Está no meio de sua passagem
por Áries; / 9 E os passarinhos fazem música / 10 E dormem a noite toda de
olhos abertos, / 11 De tanto a Natureza atingi-los no coração / 12 Então, as pes-
soas anseiam para fazer romarias...”

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O inglês médio 137

de métrica para organizar longas frases em blocos auditivos e de


senso que podem ser compreendidas sem dificuldade (­CRYSTAL,
1995, p. 39). Os efeitos da linguagem ficam evidentes na passa-
gem citada do “Prólogo”, que começa com uma oração subordi-
nada de quatros linhas que contém uma oração coordenada (em
negrito) dentro dela (“Quando Abril, com suas chuviscas suaves, /
2
penetra a seca de março até a raiz / 3 E rega cada veia com
tal líquido / 4 De cujo vigor é concebida a flor.”). Essa longa
oração subordinada inicial é seguida imediatamente por outra ora-
ção subordinada de seis versos que começa com “Quando Zéfiro
também, com seu sopro delicado, / 6 exala em cada bosque e char-
neca / 7 Os brotos tenros ...”. Essa segunda oração subordinada
contém duas orações coordenadas (“... e o jovem sol / 8 Está no
meio de sua passagem por Áries” e “E os passarinhos fazem mú-
sica”), uma oração relativa (“Que dormem a noite toda de olhos
abertos”) e ainda uma oração parentética (“De tanto a Natureza
atingi-los no coração”), antes de chegar à oração principal (“En-
tão, as pessoas anseiam para fazer romarias”). Crystal (1995, p.
39) aponta para várias manipulações habilidosas da ordem normal
das palavras que o autor explora para efeitos rítmicos, por exem-
plo, o verbo antes do sujeito em versos 11 (“So priketh hem na-
ture...”) e 12 (“Than longan folkes to goon on pilgrimages”); no
verso 2, o objeto (grifado) vem antes do verbo (“Whan Aprille... /
The droght of March hath perced to the root”). Na linha 1, o ad-
jetivo soote (“suaves”) é colocado depois do nome showres (“chu-
viscas”) e, na linha 6, o verbo auxiliar hath “tem” é precedido pelo
particípio do verbo principal inspired (“respirado”, “respirou”).
Outros recursos usados pelo poeta são a presença do prefixo y- no
particípio yronne “corrido”, ou seja, ronne também era possível, e
a inserção do adjetivo demonstrativo that “esse” entre a conjunção
temporal whann “quando”, e o nome Aprille “Abril” na primeira
linha, para manter o mesmo número de sílabas.

The Paston letters


No século XV, no final da Idade Média, entre aproximadamente
1422 e 1509, os membros da família Paston mantiveram uma cor-
respondência volumosa. Mais de mil cartas sobrevivem dos Paston,
uma próspera família de fazendeiros, originários de uma aldeia do
mesmo nome perto da cidade de Norwich, no condado de Norfolk.
O advogado Geoffrey Somerton, cunhado de Clement Paston (d.

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138 Gramática histórica da língua inglesa

1419), pagou os estudos de seu sobrinho, William Paston. William


(1378-1444) foi um advogado muito bem-sucedido, sendo nomea-
do Justice of the Common Pleas (“juiz do tribunal para casos entre
pessoas comuns”) em 1429, e casou-se com uma herdeira. William
comprou muitas terras por Paston e o castelo de Gresham.
Quando William Paston faleceu em 1444, ele deixou uma he-
rança extensa e valiosa para seu filho primogênito, John, que tam-
bém era advogado. John Paston passou muito tempo em Londres
e deixava a administração de suas propriedades em Norfolk para
sua esposa, Margaret. As numerosas cartas trocadas entre John,
Margaret e seu filho mais velho, também chamado John, descre-
vem os tempos difíceis no início da Guerra das Rosas. A famí-
lia foi envolvida em vários litígios com os poderosos duques de
Norfolk e de Suffolk sobre questões relacionadas com as terras
que John Paston tinha herdado em circunstâncias controversas
de seu amigo e parente, o rico cavaleiro, Sir John Falstaff. John
Paston era deputado parlamentar para o condado de Norfolk em
1460 e 1461 e tinha recebido o favor do rei Edward IV na acirra-
da disputa com os duques de Norfolk sobre o Castelo de Caister,
ocupado por John Mobray, duque de Norfolk. O favor real não foi
duradouro, pois John foi preso três vezes.
Quando John Paston morreu em 1466, as controvérsias sobre
seu direito às terras que tinha recebido de Sir John Falstaff conti-
nuaram. Seu filho maior, também John, foi feito cavaleiro ainda
durante a vida do pai e frequentava a corte de Edward IV. No en-
tanto, Sir John Paston e seu irmão mais novo (também chamado
John!) lutaram para o partido lancastriano de Henry VI na batalha
de Barnet em abril de 1471, antes da derrota decisiva dos seguido-
res de Henry VI na batalha de Tewkesbury em maio de 1471, em
que Edward IV consolidou seu controle sobre o reino. O conflito
com os duques de Norfolk sobre o Castelo de Caistor foi resolvido
pela morte do quarto duque em 1476, mas, dois anos mais tarde,
uma nova disputa eclodiu, dessa vez com John de la Pole, duque de
Suffolk. Sir John Paston morreu sem filhos em 1479. Apesar da sua
extravagância e um certo descuido com vendas para pagar dívidas
e apaziguar seus rivais, ele legou um patrimônio considerável a
seu irmão menor, John. Durante a vida do segundo John Paston, a
correspondência entre os familiares diminui e deixou de ter tanto
interesse histórico, embora a participação da família Paston conti-
nuasse na política regional e nacional em níveis menos elevados.

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O inglês médio 139

Figura 2.29 Carta de Margaret Paston a John Paston, 19 de maio


de 1448.8

8 “Meu caro marido, encomendo-me a você, e gostaria que você soubesse que,
sexta-feira passada, antes do meio-dia, o vicário de Oxnead cantava a missa
na igreja da nossa paróquia, e, no exato momento de elevar a hóstia, James
Gloys, que estivera na cidade, voltava para casa pelo portão de Wyndham.
E Wyndham estava na entrada, com seu criado, John Norwood ao seu lado,
e seu outro criado, Thomas Hawes, estava na rua, perto da fossa. E James
Gloys vinha vestido com seu chapéu, entre seus dois criados, como ele cos-
tumava. E quando Gloys chegou em frente de Wyndham, Wyndham lhe disse
‘Cobre tua cabeça!’, e Gloys replicou, ‘Eu farei exatamente isso mesmo no
seu caso’. E quando Gloys tinha andado mais três ou quatro passos, Wyn-
dham tirou seu punhal e disse, ‘Você vai, mesmo, moleque?’, e, com isso,
Gloys se virou e desembainhou seu punhal e se defendeu, fugindo para a casa
da minha mãe. E Wyndham e seu homem Hawes jogaram pedras e obrigou
Gloys a se refugiar dentro da casa da minha mãe, e Hawes o seguiu para den-
tro da casa da minha mãe e jogou uma pedra do tamanho de um pão de quarto
de um penny na sala contra Gloys, e, então, saiu correndo de novo. E Gloys o
seguiu para fora e ficou do lado de fora do portão, e então Wyndham chamou
Gloys de ‘ladrão’ e disse que tinha que morrer, e Gloys disse que ele mentiu e
chamou-o de caipira, e disse para ele vir ele mesmo ou, se não ele, o melhor
homem que tinha e Gloys lhe contestaria, um contra um. E, então, Hawes
entrou correndo na casa de Wyndham e trouxe uma lança e uma espada, e deu
a espada a seu patrão. E pelo barulho dessa briga e alvoroço, minha mãe e eu
saímos da igreja no meio da comunhão, e eu disse a Gloys que entrasse na

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140 Gramática histórica da língua inglesa

Fonte: Crystal (1995, p. 35).

A carta descreve a briga de vizinhos em linguagem com toda


a vivacidade da oralidade. A estrutura das sentenças coordenadas
por “e”, com pouca pontuação no original, reflete a ligação mais
próxima entre a escrita e a fala. Podemos notar algumas caracte-
rísticas da variedade regional de Norfolk nas grafias.

casa da minha mãe novamente, e ele fez isso. E, então, Wyndham xingou a
mim e à minha mãe de más putas e disse que os Paston e todos seus parentes
eram [...]* disse que ele mentiu, como o moleque e caipira que ele era. E ele
desabafou com um monte de palavrões, que você ouvirá depois, oralmente”.
* O manuscrito está furado aqui.

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O inglês médio 141

Exercícios de fixação
1. Quais eram os três partidos que reivindica- 12. Quais fatores influenciaram a grafia do inglês
vam o trono da Inglaterra no ano de 1066? durante a Idade Média?
2. Quem eram os normandos? 13. Quais são as principais diferenças entre o in-
3. O que é o Doomesday Book? glês antigo e o inglês médio em termos do
4. Como o “império” angevino foi constituído? sistema flexional?
5. Descreva a estrutura da sociedade feudal. 14. Delineie as mudanças que afetaram o sistema
6. Qual foi o impacto da Peste Negra sobre o pronominal.
uso da língua inglesa? 15. Quais traços linguísticos e gráficos definem o
7. Qual foi o efeito da Guerra dos Cem Anos so- dialeto escocês frente ao inglês setentrional?
bre a identidade inglesa em termos de língua? 16. O dialeto do sudoeste compartilha mais tra-
8. Quais áreas do léxico que foram mais atingi- ços com qual outro dialeto regional?
das por empréstimos franceses? 17. Como podemos saber que Havelock the Dane
9. Quando a maior quantidade de empréstimos foi escrito no dialeto centro-oriental?
franceses entrou na língua, e por que isso 18. A Crônica de Peterborough está escrita em in-
ocorreu nesse momento histórico? glês antigo tardio ou em inglês médio?
10. Quais outras línguas contribuíram com quan- 19. Quais variantes linguísticas Chaucer explorou
tidades significativas de empréstimos ao in- para manter a métrica em seu “Prólogo” nos
glês medieval? Contos de Canterbury?
11. Como podemos distinguir empréstimos do 20. Qual é o valor histórico da correspondência
francês normando dos que vieram do fran- dos Paston?
cês central?

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142 Gramática histórica da língua inglesa

Panorama

Geoffrey Chaucer
Não se sabe exatamente o ano em que Chaucer Kent”), um dos deputados parlamentares para
nasceu, além de que tenha sido em meados da aquele condado.
década de 1340. Filho de um comerciante de vi- No entanto, Chaucer perdeu todos seus títulos e
nho londrino que tinha conexões com a corte. cargos, provavelmente devido à instabilidade polí-
Em 1357, Geoffrey entrou como pajem no ser- tica durante a minoria do jovem rei Richard II, e fi-
viço da esposa do Lionel, duque de Clarence, cou endividado. Quando Richard II se tornou maior
irmão do rei Edward III, e, mais tarde, passou a de idade em 1389, a sorte de Chaucer melhorou,
servir a família real. Foi soldado na campanha mi- e ele foi nomeado Clerk of the King’s Works (“Fiscal
litar contra a França, onde foi capturado e liber- das Obras Reais”). Entretanto, ele se demitiu do car-
tado depois de pagar um resgate. Por volta de go em 1391 e aceitou a posição de deputy forester
1360, ele se casou com Philippa, filha de Sir John (“vice couteiro”), responsável pelo couto de Pether-
Roet, ganhando conexões pela cunhada com o ton, no condado de Somerset. Na prática, é pro-
partido de John of Gaunt, irmão do rei Edward vável que ele tenha subcontratado alguém para
III e tio do rei Richard II. Chaucer soube explorar administrar o dia a dia do couto com uma porcen-
seus laços familiares com a realeza. Até 1368, ele tagem do estipêndio que recebia pelo cargo.
foi nomeado escudeiro real e participou em várias Em 1399, Chaucer alugou uma casa nos jardins da
missões diplomáticas na Itália e na França na dé- abadia de Westminster e morou lá até sua morte
cada de 1370. Em 1382, foi concedido o cargo de em 1400. Ele foi enterrado dentro da abadia e o
Controller of the Petty Customs (“Fiscal da alfânde- fato de que sua tumba ali estava fez que, posterior-
ga menor”) e, em 1386, ele foi nomeado Knight mente, aquela parte da abadia fosse chamada de
of the Shire for Kent (“cavaleiro para o condado de Poets’ Corner (“canto dos poetas”).

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O inglês médio 143

Recapitulando

N
esta unidade, vimos o rompimento dra- e o pastoreio alterou pouco, embora elas prestas-
mático com o passado anglo-saxônico sem seu serviço e pagassem seus impostos a se-
que ocorreu no ano de 1066. A conquista nhores que falavam outra língua. O inglês nunca
da Inglaterra por William, duque da Normandia, deixou de ser a língua majoritária. O que mudou
e seus seguidores teve um impacto inimaginável foi seu acesso ao prestígio sociocultural e o uso na
sobre o rumo político, cultural e linguístico dos in- escrita, com algumas observáveis exceções, como
gleses. Quase da noite para o dia, a esmagadora a Crônica de Peterborough e o Orrmulum.
maioria dos senhores feudais do reino fora subs- O domínio pelos falantes de francês normando de
tituída por uma nova nobreza francófona. E ao todas as posições de destaque social gerou uma
mesmo tempo, as principais autoridades religiosas situação em que era interessante aos ingleses
do reino foram trocadas também por prelados aprender francês, para melhorar suas chances de
normandos. conseguir uma posição no séquito de algum se-
Os novos governadores e administradores da In- nhor. Na mesma medida, o convívio intenso entre
glaterra não falavam inglês e, uma vez que con- normandos e ingleses nas camadas médias da so-
seguiram segurar suas aquisições territoriais, seus ciedade rapidamente produziam filhos bilíngues,
principais interesses políticos eram direcionados embora a mais alta nobreza não soubesse inglês e
para o continente e, especificamente, para a Fran- a grande massa da população não falasse francês.
ça. Além de um novo direcionamento, os conquis- Vimos que o problemático reinado de Henry III,
tadores normandos conseguiram uma notável desestabilizado por conflitos entre os nobres an-
concentração de poder. O estado anglo-saxônico glo-normandos invejosos do favorecimento dos
já era razoavelmente coeso para um reino me- parentes pictavinos e savoianos da família real, foi
dieval, e ficou ainda mais centralizado depois da seguido pela estabilidade do reinado do Edward
conquista, especialmente em comparação com I. As campanhas militares incessantes desse rei
a difusão de poder entre os magnatas franceses, guerreiro contra galeses e escoceses e na França
muitos dos quais eram mais ricos e mais poderosos ampliaram os domínios reais e fortaleceram a sen-
que o próprio rei, e cuja subjeção à coroa era mais sação de unidade entre os nobres mais importan-
teórica que prática. Os grandes projetos de cons- tes. E depois do reinado instável de Edward II, cujos
trução de castelos, catedrais e abadias, em con- favoritismos desmedidos novamente provocaram
junção com os empreendimentos fiscais, como o a ira dos magnatas à rebelião  – o que também
Doomesday Book, possibilitou aos reis da Inglaterra contribuiu para a noção de uma identidade inglesa
uma boa renda na forma de impostos sobre terras com seus próprios interesses, diferentes dos grupos
e produtos, porque conheciam as posses de seus francófonos, continentais –, Edward III restaurou a
vassalos e controlavam o acesso ao poder. política externa agressiva da Inglaterra para com
Por outro lado, pela imensa maioria das pessoas a França e a Escócia. A crise na sucessão francesa
comuns na Inglaterra, a vida mudou relativamente provocou a reivindicação de Edward III ao trono
pouco. Elas continuavam a viver em pequenas co- francês e desencadeou um período de mais de um
munidades feudais rurais, onde o ritmo da lavoura século de hostilidades intermitentes entre os dois

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144 Gramática histórica da língua inglesa

reinos. O estado de guerra prolongado aprofundou atingidas pelos empréstimos, nos quais a língua
a sensação de separação entre os ingleses e os fran- francesa era especialmente utilizada.
ceses comuns, embora as duas nobrezas estives- Outro aspecto da influência francesa sobre o inglês
sem muito ligadas, pela distribuição de suas posses é a grafia, como foi apresentado. A tradição anglo-
feudais e por laços de parentesco, cultura e língua. -saxã foi abandonada e os escribas introduziram
Foi precisamente durante esse período (século XIV) novas abreviações e grafias retiradas da escrita da
que a maior quantidade de empréstimos lexicais tradição francesa.
entravam na língua inglesa. A enxurrada de pala- Você aprendeu também as principais mudanças
vras foi causada pelo crescente bilinguismo entre que atingiram o sistema fônico do inglês, entre
a alta nobreza anglo-normanda. Cada vez mais o inglês antigo e o inglês medieval (a apócope
pessoas entre as camadas médias da sociedade ti- vocálica, as mudanças nos ditongos) e o impacto
nham de aprender o francês. Além disso, o dialeto dessa evolução sobre o desenvolvimento das gra-
anglo-normando não era prestigioso entre as varie- fias. Além disso, você investigou as mudanças que
dades francesas, devido à prevalência de dialetos ocorreram no sistema gramatical da língua, com
centrais na corte em Paris. A influência do inglês no a redução no número de flexões nos nomes e ad-
sotaque, no léxico e na gramática fez que os anglo- jetivos, a troca dos pronomes pessoais da terceira
-normandos soassem provincianos em Paris e eram pessoa (hi, heora, him), pelas formas escandinavas
alvo de piadas entre os franceses. Muitos nobres in- (they, their, them), e a gradual redução nos paradig-
gleses enviavam seus filhos para estudar francês na mas verbais.
França para aprender a variedade “correta”. O quarto tema envolveu a grande diversidade de
Vimos como a Peste Negra foi outro fator relevan- variedades linguísticas regionais faladas no país
te no declínio da língua francesa. A educação, que durante a Idade Média. Devido à ausência de tipo
antes tinha de ser ministrada em francês, passou de padrão, existem inúmeras variantes gráficas que
a ser dada em inglês. Então, entramos no período refletem as diferentes pronúncias. Os dialetos são
inicial da Guerra das Rosas, com as campanhas dra- divididos em cinco: sudoeste, sudeste, centro-oeste,
máticas de Henry V que o levaram praticamente ao centro-leste e norte e escocês, cada um com suas
trono da França, se não tivesse morrido de disente- especificidades lexicais, fônicas, gramaticais e grá-
ria. Foi durante esse segundo período de guerras ficas, apesar de certa sobreposição, especialmente
que a língua inglesa começou a aparecer em obras entre os dialetos do escocês e do norte da Inglater-
literárias para o consumo da corte real, como em ra, e os do sudoeste e do centro-oeste, permitindo
Piers Plowman de John Langland, a poesia de John assim que possamos identificá-los. Cada grupo dia-
Gower e as brilhantes obras de Geoffrey Chaucer. letal é representado por uma breve passagem de
No segundo tema, tratamos das mudanças inter- algum texto conhecido e exemplar.
nas sofridas pelo inglês entre a conquista norman- No último tema foram apresentadas quatro impor-
da e o fim da Guerra das Rosas. Você estudou as tantes obras medievais: a Crônica de Peterborough,
diferentes fontes da enorme quantidade de vocá- o romance de cavalaria arturiano Sir Gawain and
bulos que o inglês tomou emprestado do francês the Green Knight, The Canterbury Tales de Chaucer,
normando e do francês central, e as características e a correspondência dos Paston.
fônicas que distinguem suas origens. Além dis- Cada texto corresponde a um período histórico:
so, você aprendeu as diversas áreas semânticas escrita nas décadas depois da Conquista, a Crônica

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O inglês médio 145

fica na fronteira entre a tradição da Crônica Anglo- século XIV para XV, quando o inglês retoma seu
-Saxônica do inglês antigo tardio padrão de Wes- lugar no centro da vida cultural da elite inglesa
sex e as inovações regionais medievais. Sir Gawain pela primeira vez desde 1066. As cartas da famí-
representa a cultura cavalheiresca dos séculos XIII lia Paston espelham as preocupações cotidianas
e XIV, em que elementos mitológicos e lendários da nobreza menor durante os anos turbulentos
se misturam com a tradição do amor cortês com em meados do século XV, quando a fraqueza real
as aventuras dos cavaleiros da Távola Redonda. A permitia todo tipo de bandidagem e as pessoas
versatilidade do gênio de Chaucer representa a precisavam negociar o caminho difícil entre as
exuberância das cortes nobres e reais na virada do facções políticas.

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unidade 3
O inglês pré-moderno
Objetivos de aprendizagem
Conhecer a história externa dos países de língua inglesa no período
depois da Guerra das Rosas na Inglaterra, quando a dinastia Planta-
geneta foi substituída pela dinastia Tudor.
Examinar as mudanças sociais significativas que a Inglaterra e a Escó-
cia viveram durante a Reforma Protestante durante os reinados de
Henry VIII, Edward VI e Mary I da Inglaterra.
Investigar a consolidação do protestantismo anglicano sob o reina-
do de Elizabeth I e traçar as divisões religiosas na Escócia durante o
mesmo período.
Estudar a união das coroas da Inglaterra e da Escócia na pessoa de
James I (VI da Escócia) e a fundação da dinastia Stuart na Inglaterra.
Compreender as tensões religiosas entre a Igreja Anglicana e os
“puritanos” calvinistas que levaram à Guerra Civil Inglesa entre o rei
Charles I e o Parlamento, a derrota e a execução do rei, e os anos da
república sob a liderança de Oliver Cromwell.
Notar as características da sociedade da Restauração da monarquia
sob Charles II e as preocupações entre a classe governante com seu
irmão católico James II como herdeiro, que conduziram à “Gloriosa
Revolução”, em que James II foi deposto e o príncipe protestante ho-
landês William, duque de Orange, e Mary, filha de James II, foram
instalados no trono.
Aprender acerca das principais mudanças que atingiram a língua in-
glesa durante o período pré-moderno nas áreas da fonética e fono-
logia, tal como a grande mutação vocálica.
Assimilar as mudanças que ocorreram na morfossintaxe da língua,
como a obsolescência do pronome pessoal da segunda pessoa do
singular, thou, e sua substituição pela forma do plural, you.
Indagar sobre as alterações na sintaxe das sentenças em inglês, com
o crescente uso de do como verbo auxiliar em perguntas, negativas
e afirmações.

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148 Gramática histórica da língua inglesa

Investigar as controvérsias que envolveram o crescimento ex-


ponencial sem precedentes do vocabulário com derivações
internas e empréstimos de línguas estrangeiras.
Observar o desenvolvimento de uma norma ortográfica mais
fixa entre os letrados e os debates que travaram sobre a melhor
maneira de representar a língua na escrita.
Pesquisar as controvérsias sobre as propostas de estabelecer
uma academia para reger a língua inglesa e a produção dos
primeiros dicionários e gramáticas para o idioma.
Analisar os três grandes monumentos linguísticos do período
pré-moderno: o teatro de William Shakespeare, a Bíblia “Autori-
zada” e o dicionário de Dr. Johnson.
Examinar as obras de alguns dos principais escritores pré-mo-
dernos, como Ben Jonson, John Donne e os poetas metafísicos,
os grandes panfleteiros satíricos, John Milton, Daniel Defoe e
Jonathan Swift.

Temas
1 – História externa: a Renascença, a Reforma, a Guerra
Civil Inglesa, a Restauração da monarquia e a “Revolu-
ção Gloriosa”
O primeiro tema desta unidade apresenta uma visão panorâ-
mica dos principais acontecimentos na história externa das re-
giões de língua inglesa (essencialmente a Inglaterra e o sudeste
da Escócia) durante o período entre o fim da Guerra das Rosas
na Inglaterra, que marca o surgimento da dinastia Tudor, em
1485, e o fim da dinastia Stuart em 1688. Um momento de
enormes mudanças sociais e culturais para os falantes do in-
glês. No campo da cultura, houve a Reforma Protestante, que
separou os dois países da Igreja Católica Medieval. Na Inglater-
ra, a Igreja Anglicana, mais conservadora, que ainda preservou
muitos elementos do catolicismo, e os grupos mais radicais,
que procuravam romper de maneira mais definitiva com a Igre-
ja Romana. Na Escócia, a denominação predominante foi o
presbiterianismo. Na Irlanda, oficialmente sob o domínio da
Inglaterra desde os tempos de Henry II, a Reforma Religiosa

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O inglês pré-moderno 149

não teve muito êxito e a maior parte da população permane-


ceu católica. No entanto, durante todo o período pré-moder-
no, havia uma política de assentamento de protestantes na
Irlanda para aumentar essa população desde o reinado de
Elizabeth I. Essas divisões religiosas impulsionaram numerosos
conflitos entre diferentes grupos e causaram instabilidade polí-
tica crônica. Ocasionando um profundo impacto em questões
linguísticas, o movimento protestante levou à tradução da Bí-
blia das línguas clássicas (latim, grego e hebraico) para o verná-
culo. Tais traduções serviram como modelos estilísticos para
quem quisesse escrever em inglês. Simultaneamente, ocorreu
uma explosão na produção de textos literários escritos em in-
glês para o consumo geral, por exemplo, peças de teatro. O
novo interesse nas línguas da Antiguidade clássica que surgiu
durante a Renascença também estimulava a produção de li-
vros sobre temas eruditos, como a filosofia, direito, história e
teologia, e traduções de obras clássicas para o inglês. A impor-
tância de outras línguas europeias como veículos de transmis-
são das ideias renascentistas, como italiano, espanhol e francês
(que ainda era a grande língua vulgar internacional), levou o
inglês a uma onda de empréstimos lexicais, gerando polêmicas
sobre o valor de enriquecimento do vocabulário com tais pala-
vras e se não seria melhor adotar ou derivar termos com ori-
gens nativas. Os modelos externos também eram influentes no
que diz respeito ao desejo de fixar a língua em gramáticas e
dicionários, que começaram a aparecer em quantidades cres-
centes durante o período.
2 – História interna: mudanças estruturais
O período pré-moderno é relevante por ter sido nesse recorte
cronológico que a língua inglesa começou a perder os traços
que associamos com a Idade Média, parecendo assim mais fa-
miliar. As mudanças no sistema fonético e fonológico, como a
grande mutação vocálica, gradualmente rearranjaram os con-
trastes fônicos em uma distribuição mais reconhecível. Ao
mesmo tempo, na morfossintaxe, o sistema pronominal se ali-
nhava com as distinções modernas com a perda de thou (2a p.
sing.), primeiro a favor de ye (2a p. pl. do caso sujeito) e final-
mente de you (originalmente 2a p. pl. oblíquo). Houve várias

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150 Gramática histórica da língua inglesa

mudanças na ordem das palavras que tornaram a língua mais


próxima da variadade moderna.
3 – Ortografia, gramáticas e dicionários
O período pré-moderno também foi o momento em que o de-
sejo de regulamentar a língua começou a se manifestar. Espe-
cialmente após a grande variabilidade da Idade Média e o
influxo de uma quantidade enorme de expressões empresta-
das de outras línguas; muitos letrados, ao registrarem o que
acontecia em outros países, por exemplo, o estabelecimento de
academias na França e na Itália, ambas grandes fontes erradia-
doras de inovações, pensavam que a língua inglesa se benefi-
ciaria de uma organização parecida. Apesar da ideia de uma
academia não ter vingado para o inglês, outras questões foram
muito debatidas, como a normalização da ortografia, a produ-
ção de gramáticas e dicionários para registrar a língua e, em teo-
ria, pelo menos, fixá-la em certa medida. A maturação das ideias
sobre tais aspectos da língua será tratada ao longo do tema.
4 – Textos pré-modernos
Por fim, abordamos a produção em língua inglesa durante o
período pré-moderno. Apresentamos os dois pilares da lite-
ratura daquele período, isto é, o teatro de Shakespeare e a
tradução “autorizada” da Bíblia, que constituem os alicerces
do cânone literário do inglês. Além disso, oferecemos uma
seleção de outros escritores importantes em cada divisão do
período pré-moderno, outros dramaturgos e poetas impor-
tantes da época elizabetana; alguns representantes dos mo-
vimentos literários dos anos jacobinos e os gigantes do
mundo das letras dos tempos da Guerra Civil Inglesa e da
Restauração da Monarquia.

Introdução
Nesta unidade, você estudará o período de transição que os historia-
dores da língua inglesa costumam identificar entre a Idade Média e a
Idade Moderna: a época pré-moderna. Você examinará a história das
duas dinastias do período pré-moderno, a Tudor (na Inglaterra) e a
Stuart (tanto na Escócia ancestral, como na Inglaterra, depois da união
das coroas em 1604). Você aprenderá sobre as ações no campo social,

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O inglês pré-moderno 151

cultural e político que moldaram a língua inglesa de diferentes manei-


ras, pela introdução de novas ideias e tecnologias, por contato com
diferentes línguas, pela criação ou adoção de novos modelos estilísti-
cos, pela reação de novas necessidades sentidas entre os falantes.
Na sequência, você pesquisará as mudanças nos diferentes compo-
nentes da língua: o léxico e os sistemas fônico e morfossintático, con-
duzindo a língua inglesa mais próxima à situação atual. Essas
mudanças estruturais tiveram um impacto sensível em questões de
representação escrita e nas tentativas de descrever e codificar a língua
realizadas por contemporâneos com crescentes níveis de sofisticação.
Finalmente, você conhecerá aspectos biográficos e elementos das
obras mais relevantes de alguns personagens de destaque em cada
um dos subperíodos apresentados.

História externa: a Renascença, a


Reforma, a Guerra Civil Inglesa,
a Restauração da monarquia e a
“Revolução Gloriosa”
O termo Renascença refere-se a um movimento cultural que
teve início na Itália durante o século XIV. Seus adeptos pregavam
um retorno aos valores pessoais e civilizatórios da Antiguidade
greco-romana. Uma contribuição importante a essa nova visão
humanista veio dos imigrantes gregos que se estabeleceram nos
principados e cidades-estados italianos, fugindo da conquista
definitiva do Império Bizantino pelos turcos sob o sétimo sultão
otomano, Mehmet, o Conquistador. Em 1453, Bizâncio (atual
Istambul), a capital do Império Romano oriental, foi capturada,
encerrando mais de mil e quinhentos anos de história romana, des-
de a divisão do Império Romano em duas metades, ocidental, com
a capital em Roma (até 476 d.C.), e oriental, com a capital em
Constantinopla ou Bizâncio (o Império Bizantino).
Radicando-se em cidades como Florença, Gênova, Veneza,
Milão, Bolonha e Roma, vários intelectuais bizantinos ocuparam-
-se de ensinar e difundir língua, literatura, história, cultura e fi-
losofia grega para os italianos medievais. Os imigrantes gregos
trouxeram manuscritos antigos que não eram conhecidos pelos
estudiosos medievais no Ocidente, que já viviam um período de
grande inovação e criatividade desde o século XIII, provocado

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152 Gramática histórica da língua inglesa

pelo estudo de textos antigos sobre matemática, ciência natural


e filosofia, recuperados por meio de traduções de tratados árabes
feitas na Península Ibérica e na Sicília.
A fase inicial “latina” da Renascença no século XIV foi baseada
em Florença. Estudiosos como Francesco Petrarca, Coluccio
Salutati, Niccolò Niccoli e Poggio Bracciolini vasculharam as bi-
bliotecas em busca de manuscritos de Cícero, Lucrécio, Tito Lívio
e Sêneca, com o intuito de recuperar o conhecimento perdido da
Antiguidade. Esse período é conhecido pelas obras literárias de
Dante Alighieri, Petrarca e Boccaccio, os quadros de Giotto, as
esculturas de Donatello, os diversos feitos dos polímatas Lorenzo
Ghilberti e Filippo Brunelleschi e pelo gênio Leonardo da Vinci.
O patrocínio dos duques de Milão, como Lorenzo de’ Medici e
seus herdeiros, para artistas e estudiosos, com o objetivo de au-
mentar ainda mais o prestígio da família governante, estimulava
uma concorrência intensa entre as cortes dos príncipes italianos.
Cada um procurava atrair e manter uma seleção das mais brilhan-
tes mentes e mãos sob seu patrocínio.
A segunda fase da Renascença envolve o reencontro com a
cultura da Grécia Antiga. A transferência da mais sofisticada cul-
tura bizantina para o contexto dinâmico da Itália tardo-medieval
provocou uma verdadeira revolução cultural cuja influência ultra-
passava as fronteiras da Península Itálica e transformava o tecido
sociocultural da Europa. As ideias renascentistas tiveram um im-
pacto imenso na literatura, arquitetura, nas artes plásticas, música,
filosofia e nas ciências.
À base do programa renascentista estava o estudo dos autores
clássicos com ênfase nos aspectos ditos “humanos” (literatura,
história, oratória) e uma nova valorização do ser humano como
“a medida de todas as coisas”. O currículo dos estudos humanos
incluía cinco áreas principais: poética, gramática, história, retóri-
ca e filosofia moral. Na esfera pessoal, o modelo era o “homem
universal”, um exemplo da excelência mental, física e espiritual,
aperfeiçoado pela riquíssima formação humanista da Antiguidade
e sublimado pela religião cristã. O manifesto do plano para for-
mar esse ser magnífico foi apresentado por Giovanni Pico della
Mirandola em seu livro De hominis dignitate (Discurso sobre a
dignidade do homem) de 1486.
A transmissão das ideias renascentistas da Itália para o norte da
Europa foi catalisada pela corte dos duques da Borgonha, senhores

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O inglês pré-moderno 153

de um grande território fragmentado entre senhorias dispersas que


se estendia ao longo da fronteira da atual França e Alemanha.
A proximidade com o norte da Itália permitia a passagem fácil
de pessoas, textos e ideias para Borgonha, especialmente para as
regiões dos Países Baixos, onde havia relações de comércio muito
fortes com as ricas cidades flamengas de Bruges, Gante e Bruxe-
las, as sedes preferidas da corte ducal. Foi nesses lugares que os
princípios da Renascença começavam a se divulgar pelo norte da
Europa. Áreas afetadas precocemente foram a pintura, por exem-
plo, Pieter Bruegel, o Velho, Albrecht Dürer, Hieronymus Bosch,
Jan Gossaert, Jan van Eyck, Hans Holbein, o Velho, e a música
polifônica da escola flamenga.
Na Inglaterra, a Renascença veio tardiamente. O surgimento
de elementos renascentistas inicia-se apenas por volta da década de
1520, no reinado de Henry VIII. A literatura vernácula, em vez
de escrita em latim ou francês, outro aspecto importante da Renas-
cença italiana, já tinha seu correlato na Inglaterra, onde uma vi-
gorosa tradição de literatura vernácula existia desde os tempos de
Geoffrey Chaucer, William Langland, John Lydgate, John Gower
e Thomas Hoccleve. A principal contribuição das ideias renascen-
tistas foi na área da música (Thomas Tallis e Thomas Morley), no
pensamento filosófico e religioso (via seguidores de Erasmo de
Roterdã) e na adoção de modelos poéticos, como o soneto. Nas
artes visuais, as cortes dos monarcas da dinastia Tudor tendiam a
trazer pintores e escultores estrangeiros, como os Holbein, embo-
ra, pelo final do século XVI, alguns artistas plásticos, como Ni-
cholas Hilliard e Isaac Oliver, produzissem obras-primas.

Henry VII
A vitória de Henry Tudor (n. 1457-m. 1509) e seus seguidores
sobre o partido de Richard III na Batalha de Bosworth Field em
1485 é tida como o evento que marca o encerramento da Idade
Média nas Ilhas Britânicas e abre a fase renascentista do período
pré-moderno. Embora o novo rei fosse da linhagem de Lancaster,
ele tomou medidas para reduzir sua associação com uma das fac-
ções que tinha disputado a Guerra das Rosas. Henry VII casou-se
com Elizabeth de York, filha de Edward IV e sobrinha de seu rival,
Richard III (veja Unidade 2). Esse matrimônio deu a reivindicação
de seus descendentes ao trono inglês pelos dois lados rivais da es-
tirpe Plantageneta. No entanto, Henry VII tomou estrategicamente

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154 Gramática histórica da língua inglesa

a sábia decisão de adotar seu próprio nome dinástico, Tudor, por


seu pai, Edmund Tudor, o primeiro earl de Richmond, e não con-
tinuar com as provocativas denominações ancestrais.
A principal preocupação de Henry VII era restaurar a autori-
dade e as finanças reais, que tinham diminuído muito durante os
longos anos de conflito. Com esse fim, ele procurava limitar o
poder das famílias nobres importantes, a não ser que apoiassem o
regime. Suas políticas para a nobreza e a economia eram interli-
gadas. Por exemplo, George Neville, Lorde Burgavenny, foi con-
denado, em 1507, por manter um exército privado, pelo qual foi
multado em cinco libras por homem a cada mês. O lorde Neville
se confessou culpado (era mais barato assim) e pagou uma mul-
ta de £70.650 (aproximadamente um milhão de libras modernas)
pelos 471 homens que ele contratara durante trinta meses (GUY,
1984, p. 235). Foi por medidas como essa que Henry VII conse-
guiu restringir a capacidade militar de seus vassalos mais podero-
sos e encher os cofres da coroa.
A política de Henry VII valorizava lealdade ao monarca, bom
serviço, esperteza e habilidade, independentemente de sua origem
social. O objetivo era recrutar apoio por cima das facções nobres
pelo uso judicioso do patronato real, concedendo títulos, terras,
cargos, pensões e anuidades. Quem parecia ameaçar o status quo
era coibido por processos, penalidades financeiras e, nos casos
mais graves, por attainder (confisco de bens, títulos e direitos) por
traição, geralmente com condenação à execução. Cada recurso le-
gal e tributário era explorado ao máximo para minimizar gastos
e maximizar os retornos. Alguns métodos adotados eram moral-
mente duvidosos, como a extorsão de cartas de fiança de eventuais
opositores políticos para garantia de boa conduta e a venda de
cargos no judiciário e na administração.
A administração do reino foi realizada principalmente pelo
Conselho Real, composto, em teoria, por todos os nobres do reino.
Esse conselho era distinto do Parlamento, em que os religiosos,
as cidades e as regiões também participavam, sendo consultado
para outorgar impostos. Do conselho maior, um pequeno grupo
foi selecionado para formar a Court of the Star Chamber (“Cor-
te da Câmara Estrelada”), nomeada pelo desenho do céu noturno
pintado no teto da sala onde os conselheiros se reuniam no Palá-
cio de Westminster. A Corte da Câmara Estrelada era dominada
pelos Privy Councillors (“conselheiros privados”) do rei e tinha

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O inglês pré-moderno 155

a competência para julgar casos contra indivíduos tão poderosos


que os tribunais comuns não conseguiriam condenar. A Corte tam-
bém servia para debater leis que seriam passadas por decreto real,
sem a necessidade da demorada e enfadonha consulta aos con-
selhos maiores. Desse modo, a administração real conseguia se
tornar mais eficiente, embora deixasse de ser tão representativa,
sendo controlada na prática pelo rei e seu pequeno círculo de con-
selheiros favorecidos, o que aumentou a possibilidade de abuso
de suas competências com julgamentos arbitrários e subjetivos
contra seus rivais, que ocorreu mais tarde.
Se a política interna de Henry VII buscava sobretudo estabi-
lidade, eficiência e probidade financeira, sua política externa va-
lorizava relações pacíficas, e vantajosas, com os reinos vizinhos.
Com esse fim, seu governo assinou o Tratado de Paz Perpétua
com a Escócia em 1502 (a primeira entre os dois países em 200
anos), em uma tentativa de romper a Auld Alliance (“aliança anti-
ga”) entre os escoceses e os franceses – um pacto de ajuda mútua
assinado por John Balliol da Escócia e Philippe VI da França em
1295 contra as políticas agressivas de Edward I da Inglaterra –,
que sempre ameaçava a Inglaterra com uma guerra em duas fron-
teiras. Conforme os termos do acordo, a princesa Margaret Tudor
casou-se com James IV da Escócia, criando o vínculo sanguíneo
entre as famílias reais, o que levou James VI da Escócia a herdar
o trono inglês como James I, quando Elizabeth I morreu sem fi-
lhos, em 1603. Henry também concluiu o Tratado de Medina del
Campo em 1489, com a Espanha, recém-constituída da união dos
reinos de Castela e Aragão, em que seu filho maior, Arthur, se
casaria com a infanta Catarina de Aragão, filha dos “reis católi-
cos”, Fernando de Aragão e Isabela de Castela, e os dois países
se apoiariam contra a França e combinariam a redução de tarifas
sobre o comércio de certos produtos. No Tratado de Étaples de
1492, concluído com a França depois de uma intervenção militar
inglesa na Bretanha, Charles VII da França concordou em tirar
seu apoio ao pretendente Perkin Warbeck, que se dizia Richard
de Shrewsbury, duque de York, o filho menor de Edward IV, e
procurava ajuda financeira e militar nas cortes continentais para
montar uma invasão à Inglaterra. A França também pagou uma in-
denização à Inglaterra, em troca de os ingleses deixarem de inter-
ferir na região semi-independente da Bretanha, a qual os franceses
queriam dominar.

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156 Gramática histórica da língua inglesa

Em resumo, o reinado de Henry VII foi bem-sucedido, embora


o monarca nunca tenha sido um rei querido. No final da sua vida, a
eficácia e autonomia do tribunal da Câmara Estrelada eram usadas
para extorquir dinheiro da nobreza por meio do sistema de fianças
por boa conduta, sob ameaças de attainder. Por outro lado, o rei
conseguiu evitar conflitos externos, fechando alianças proveitosas
com os principais poderes europeus, e defendeu os interesses co-
merciais ingleses, por exemplo, promovendo a produção e venda
de lã para os centros de produção têxtil nos Países Baixos. Henry
também enriqueceu bastante atuando pessoalmente no comércio
de alume, produto químico importante para fixar tintura nos teci-
dos. O rei importava alume do Império Otomano para revender em
Flandres, quebrando o monopólio sobre a pedra-ume exercitado
pelo papa, em cujo domínio estava a única mina de pedra-ume na
Europa.
Internamente, seu governo restringiu vigorosamente qualquer
indicação de oposição entre os magnatas regionais, sendo entre-
tanto via canais judiciais, sem recorrer à violência aberta. O refor-
ço do sistema de tribunais no nível do condado com a participação
ativa dos justices of the peace (“juízes da paz”), escolhidos entre a
pequena nobreza, na manutenção da ordem localmente contribuía
bastante com a redução de instabilidade e a implementação eficaz
de medidas governamentais. Sua política de tributação intensa às
vezes conseguia concessões por pretextos falsos, por exemplo,
convencendo o Parlamento a votar-lhe subsídios, supostamente
para financiar campanhas militares contra a França ou a Escócia
que nunca foram realizadas. Em conjunto com a aplicação de mul-
tas e confiscos e a venda descarada de privilégios e títulos, os
impostos encheram a tesouraria real.

Henry VIII
Com a morte de Henry VII em 1509, seu segundo filho, também
chamado Henry, herdou o trono. Arthur tinha morrido em 1502,
apenas alguns meses depois de seu casamento com Catarina de Ara-
gão. Embora ele não tivesse gostado inicialmente da ideia de se
casar com a viúva de seu irmão, quando seu pai propôs a união, logo
depois da sua coroação, Henry VIII declarou que eles se casariam.
Em seguida, ele prendeu os dois principais ministros de seu pai, Sir
Richard Empson e Richard Dudley, detestados por seu papel nas
políticas de extorsão praticadas pelo governo contra os nobres que

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O inglês pré-moderno 157

eles acreditavam não apoiar o rei suficientemente. Os dois ex-mi-


nistros foram executados em 1510, após condenação por traição.
Henry VIII não foi educado para reinar. É provável que Henry
VII tenha imaginado uma carreira eclesiástica para seu segundo
filho. De qualquer maneira, ele recebeu uma excelente formação
renascentista, sendo fluente em latim e francês e provavelmente
sabia italiano. Além disso, ele era um músico talentoso e compo-
sitor ocasional; até escreveu alguns tratados teológicos. Adicio-
nalmente, Henry era alto para a época (ele media mais de 1,80 m),
bonito, forte e ativo, gostava de caçar e de lutar em torneios, sendo
especialmente habilidoso na justa.
Henry VIII rompeu com as políticas externas cautelosas e a
probidade financeira do seu pai. Sonhando com a conquista do
trono da França, ele se envolveu ativamente nos conflitos entre
os grandes poderes continentais. Em 1513, em uma aliança com
o imperador sacro romano e Fernando de Aragão, rei da Espanha,
Henry invadiu a França pessoalmente e conquistou algumas ci-
dades. Como costumava ocorrer em guerras entre a Inglaterra e
a França, a Escócia reagiu, invadindo o norte da Inglaterra para
auxiliar seu aliado. Contudo, na Batalha de Flodden, o exército es-
cocês foi derrotado completamente e o rei James IV, morto. Henry
mantinha uma rivalidade pessoal com Francisco I da França e com
Felipe V de Habsburgo, rei da Espanha e imperador sacro romano.
A maior preocupação de Henry VIII era evitar que o reino re­
caísse em guerra civil que ele temia acontecer se ele não con-
seguisse garantir a sucessão da dinastia Tudor com um herdeiro
homem. Depois de vários bebês que nasceram mortos ou sobre-
viveram pouco tempo, a rainha deu à luz uma menina, Mary, em
1516. Em 1519, a amante do rei, Elizabeth Blount, teve um fi-
lho, que foi chamado Henry FitzRoy. O rei reconheceu seu filho
ilegítimo e há motivos para acreditar que ele estava planejando
declará-lo seu sucessor oficial quando o jovem Henry faleceu de
febre em 1536. Preocupado novamente com o legado dinástico,
Henry chegou à conclusão de que seu casamento com Catarina de
Aragão, a viúva de seu irmão, não era justificado por motivos reli-
giosos e, portanto, estava malquisto por Deus. Por conseguinte, o
rei procurava dissolver a união ante o papa. Este, contudo, o único
que podia conceder-lhe o divórcio, estava sob forte pressão do im-
perador sacro romano, Felipe V da Espanha, sobrinho da rainha,
para não ceder aos argumentos do rei da Inglaterra contra sua tia.

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158 Gramática histórica da língua inglesa

Desesperado com o futuro da sua linhagem e obcecado por


Anne Boleyn, uma das damas da rainha, Henry VIII escolheu o
caminho radical para resolver seus problemas, adotando a doutri-
na de Martinho Lutero para se declarar chefe supremo da Igreja na
Inglaterra. Por meio desses novos poderes, Henry se deu o divór-
cio tão desejado e casou-se com Anne em 1532.
O fracasso das negociações em conseguir o divórcio real pro-
vocou a queda política do cardeal Wolsey, o mais poderoso mi-
nistro de Henry, que havia dirigido o governo desde o início do
reinado de Henry. Wolsey morreu poucos meses depois. A recusa
de reconhecer Henry como o líder supremo da Igreja custou a vida
a Sir Thomas More, o Lorde Chanceler, que havia assumido a
liderança do governo após a desgraça de Wolsey. Assim, as po-
líticas seculares e religiosos da Reforma Protestante na Inglater-
ra eram implementadas por Thomas Cromwell e o arcebispo de
Canterbury, Thomas Cranmer.
A Lei da Sucessão, em 1533, declarou a princesa Mary ilegí-
tima e nomeou qualquer filho de Henry e Anne herdeiro ao trono.
No mesmo ano, Anne Boleyn foi coroada rainha e nasceu uma
filha, Elizabeth. Henry estava decepcionado que não era um filho
homem. Em 1534, as Leis da Supremacia fizeram Henry o che-
fe supremo da Igreja na Inglaterra. Qualquer oposição aos novos
poderes reais era reprimida com violência. Protestos resultaram
em várias execuções por suspeita de traição, como os monges car-
tuxos, o bispo de Rochester e Sir Thomas More. Em 1536, um
levantamento em Lincolnshire e a “Peregrinação da Graça”, um
levantamento de cerca de vinte a quarenta mil pessoas de Yorkshi-
re, no norte da Inglaterra, protestaram contra o divórcio da rainha
Catarina, o casamento com Anne Boleyn (suspeita por ser do sul
e dita simpatizante com o protestantismo), a situação econômi-
ca ruim (a colheita foi mal) e modificações nos rituais litúrgicos.
Henry prometeu perdoar os revoltados e agradeceu-lhes por ter-
-lhe informado de suas dificuldades e preocupações, em seguida,
quando houve uma briga durante o retorno dos “peregrinos”, Hen-
ry mandou prender os líderes e executou-os, com mais duzentos
outros por traição.
Um aspecto importante da Reforma foi a “dissolução dos mos-
teiros”, entre 1536 e 1540, o fechamento de todas as instituições
monásticas, o confisco de seus imensos latifúndios e bens mate-
riais, que foram vendidos ou leiloados para arrecadar dinheiro à

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O inglês pré-moderno 159

coroa. Esses recursos eram necessários para repor as finanças re-


ais, em apuros desde as campanhas francesas.
Outros atos políticos relevantes no período são Laws in Wales
Act (“Decreto sobre as leis em Gales”) em 1535 e em 1542, pelo
qual os sistemas administrativo e judicial do principado de Gales
foram uniformizados e harmonizados com o sistema inglês, inte-
grando as duas nações, de maneira que aboliu o sistema legal e as
unidades territoriais tradicionais, e obrigou os galeses a usar a lín-
gua inglesa no Direito e outros atos oficiais. Por um lado, a pequena
nobreza galesa não reclamou das mudanças, porque ela percebia
que as medidas lhe davam igualdade com os ingleses perante a lei.
Um aspecto muito relevante da unificação foi a instauração das
condições para favorecer o crescimento de uma classe governante
anglófona em Gales. Muito mais tarde, porém, os galeses chegaram
a considerar que o custo que pagaram por essa igualdade política e
jurídica foi muito alto, já que eles tinham sido obrigados a abrir mão
de grande parte de sua identidade e tradições.
Outra legislação importante foi a Lei da Coroa da Irlanda, de
1542, um ato do Parlamento irlandês que converteu Henry VIII
e seus descendentes em reis da Irlanda. O rei da Inglaterra era
nominalmente o “Senhor da Irlanda”, desde os tempos de Henry
II, mas o controle político era exercido na prática pelos lordes
irlandeses nativos ou pelas famílias anglo-normandas que recebe-
ram senhorios feudais. O território controlado pela coroa inglesa
era uma faixa ao redor da cidade de Dublin chamada The Pale
(literalmente, “A pala”).
A fama de Henry VIII, além do rompimento religioso com a
Igreja Romana, deveu-se a seus seis casamentos. Após conceder-
-se um divórcio do primeiro matrimônio com Catarina de Aragão
e casar-se com Anne Boleyn, a felicidade do rei não durou. O ca-
sal real brigou com frequência e Henry pareceu ter julgado que
a falta de um filho, além da princesa Elizabeth, apesar de algum
aborto espontâneo, era uma traição pessoal da rainha.
Em 1536, o rei sofreu uma queda muito grave durante um tor-
neio e ficou desacordado por dois dias. Quando Anne ouviu a notí-
cia, ela sofreu um aborto de um menino. Henry arrumou uma nova
amante, Jane Seymour, e tramou livrar-se de Anne. O apoio dos
membros da família Boleyn que atuavam no Conselho Privado
para uma aliança com a França os posicionou contra o podero-
so ministro Thomas Cromwell, que favorecia uma aproximação

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160 Gramática histórica da língua inglesa

com o Império Sacro Romano. A inclinação do rei à proposta de


Cromwell enfraquecia a posição dos Boleyn e levava seus rivais
na corte a trabalhar para a execução de Anne, em lugar de conse-
guir uma segunda anulação.
Em maio de 1536, George Boleyn, o irmão de Anne, e mais
cinco homens foram presos, acusados de adultério traiçoeiro por
ter relações com a rainha. Anne também foi presa, acusada de
adultério traiçoeiro e incesto. As acusações eram fraquíssimas,
mas todos foram condenados à morte. Em 17 de maio, os homens
foram executados e, em 19 de maio, Anne também foi morta. Um
dia depois, Henry VIII noivou com Jane Seymour, casando-se
com ela dez dias mais tarde.
Em 12 de outubro de 1537, nasceu o tão desejado filho, Edward,
mas o parto foi muito difícil e Jane Seymour faleceu de complica-
ções pós-natais em 24 de outubro. Cromwell, agora earl de Essex,
tratou de encontrar uma nova esposa para o rei entre a nobreza
continental e propôs Anne de Cleves, irmã do duque de Cleves,
um principado que ocupava regiões na atual Holanda e Alemanha.
O motivo político para o casamento, celebrado em 1539, foi a pro-
cura de um aliado contra um eventual ataque de algum país católi-
co (França ou Espanha). No entanto, depois de apenas seis meses,
Henry já tinha cansado da sua esposa alemã e arranjou mais um
divórcio, alegando irregularidades nas negociações, já que Anne
tinha sido noiva do filho do duque de Lorena, além do fato de que
o casamento nunca foi consumado. Anne de Cleves não protestou
e recebeu uma boa pensão.
Ficou evidente que Henry estava enfatuado com a sobrinha
do duque de Norfolk, Catherine Howard, de apenas 17 anos. As
repercussões políticas para o todo-poderoso Thomas Cromwell
eram graves, porque o tio da nova amante do rei era um de seus
mais ferrenhos inimigos. A prisão e condenação à fogueira de três
reformadores protestantes favorecidos de Cromwell por heresia
tornou sua posição precária. Finalmente, Cromwell foi acusado
de traição, pela venda ilegal de licença de exportação e concessão
indevida de passaportes e cargos comissionados. Condenado, seus
títulos e posses foram confiscados e ele foi executado em 28 de
julho de 1540, o mesmo dia em que Henry se casou pela quinta
vez, com Catherine Howard.
Embora o rei estivesse encantado com sua jovem rainha, o ca-
samento não durou. Catherine teve um caso com um jovem nobre,

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O inglês pré-moderno 161

Thomas Culpeper, e mantinha como secretário Francis Dereham,


com quem ela teve um namoro quando eram extraoficialmente
noivos, antes de se casar com Henry. Quando a corte soube do
antigo caso da rainha com Dereham, o rei não estava e o arcebispo
de Canterbury foi encarregado de investigar. Ao confirmar a vera-
cidade da acusação, o rei não quis acreditar e somente aceitou os
fatos após saber da confissão de Dereham. Curiosamente, Cathe-
rine não mencionou o noivado para se defender das acusações de
adultério, já que o contrato anterior teria invalidado seu casamento
com Henry. Em lugar disso, ela insistiu que Dereham a tinha for-
çado a ter uma relação adúltera com ele. Dereham revelou o caso
de Catherine com Culpeper e os três foram executados em 1542.
O sexto e último casamento de Henry VIII foi com Catherine
Parr, uma viúva nobre e rica, que já havia se tornado viúva três
vezes. Ela conseguiu aproximar o rei a suas duas filhas, Mary e
Elizabeth, e conseguiu que ele as incluísse na sucessão, depois
do seu irmão menor, Eduardo, Príncipe de Gales. Reformadora
religiosa favorável ao protestantismo, Catherine Parr discutia com
seu marido sobre questões relacionadas ao clero, embora, quando
os inimigos dela tentaram conseguir sua condenação por heresia,
ela respondeu dizendo que o objetivo dos argumentos era sempre
distrair o rei das fortes dores que sofria devido a uma lesão ulcera-
da na perna provocada por um acidente em uma justa.
No final da sua vida, Henry engordou muito, medindo 1,40 m
pela cintura. Ele sofreu um enfraquecimento muscular, o que o fez
ser levantado e transportado por máquinas. Ele também sofria dis-
túrbios de personalidade incluindo paranoia e depressão, agrava-
das pela dor da perna, erupções cutâneas causadas por furúnculos
dolorosos cheios de pus, além de gota.
Ele morreu com 55 anos, em 28 de janeiro de 1547. Sua sexta
esposa, Catherine Parr, chegou a se casar novamente. Ela teve um
papel ativo na formação dos três filhos de Henry e influenciou o
protestantismo defendido por Edward VI e Elizabeth I.

Edward VI
O terceiro filho de Henry VIII com sua terceira esposa, Jane
Seymour, Edward VI (1537-1553), tinha apenas nove anos de ida-
de quando ele foi coroado em fevereiro de 1547. Como o rei era
muito novo para governar, um conselho tutorial foi constituído,
presidido por seu tio, Edward Seymour, o earl de Herford, que

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162 Gramática histórica da língua inglesa

convenceu os outros membros do conselho regente a nomeá-lo


Lord Protector of the Realm (“Lorde Protetor do Reino”). Os mem-
bros do conselho aproveitaram-se de uma cláusula no testamento
de Henry VIII para se beneficiarem, concedendo a si próprios títu-
los e terras: Edward Seymour se tornou o duque de Somerset e seu
irmão, Thomas, recebeu o título de duque de Warwick.
Seymour convenceu o rei a assinar um documento que lhe deu
o poder de nomear os membros do Conselho Privado e convocá-lo
quando quisesse, podendo governar sem consultá-lo. Esse compor-
tamento ditatorial alienou muitos conselheiros, inclusive seu pró-
prio irmão, Thomas, que tentava constantemente minar a influência
de Somerset, incentivando o jovem rei a assumir seus poderes ple-
nos, apesar de receber um título, uma posição no Conselho Priva-
do e o cargo de Lord Admiral (“Lorde Almirante”) de seu irmão.
Thomas Seymour se rebelava contra o Lord Protector, mas acabou
sendo preso por invadir a casa onde o rei morava à noite com uma
pistola carregada, provavelmente em uma tentativa de levar Edward
VI do poder do Lord Protector. Acusado de fraude fiscal, entre ou-
tras coisas, Thomas Seymour foi condenado sumariamente à morte.
Somerset declarou guerra à Escócia e conseguiu várias vitórias,
ocupando o país até Dundee, no centro-leste. Porém, o custo de
manter seus grandes exércitos era exorbitante e ele foi obrigado a
abandonar as conquistas em 1549, quando os franceses atacaram a
cidade de Boulogne, ocupada pelos ingleses desde as campanhas
de Henry VIII. Por estar fora do reino em campanha, o final do go-
verno do duque de Somerset foi marcado por rebeliões e levanta-
mentos regionais do povo contra os abusos da classe proprietária.
Em particular, o novo costume de cercar os antigos pastos comuns
(enclosure) – em geral com o objetivo de criar ovelhas, cuja lã
era muito valiosa –, provocava protestos uma vez que os colonos
perdiam o lugar de pasto dos próprios animais, já que não costu-
mavam possuir terrenos suficientemente grandes para isso.
Finalmente, os demais conselheiros cansaram dos métodos au-
tocráticos do protetor Somerset, insistindo que o poder que ele
exercia lhe fora concedido por eles e não pelo testamento do anti-
go rei. Somerset foi deposto e a presidência do conselho regente
foi tomada por John Dudley, earl de Warwick, em 1551, breve-
mente autoproclamado duque de Northumbria. Quando Somerset
foi solto, ele foi convidado a um lugar no conselho novamente,
mas ele tramou derrubar a presidência de Dudley. O complô foi
descoberto e Edward Seymour foi executado em 1552.

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O inglês pré-moderno 163

Edward foi o primeiro rei inglês criado como protestante. Foi


durante seu breve reinado que a Igreja Anglicana foi estabelecida.
O celibato clerical foi abolido, assim como a missa. O inglês foi
decretado a língua das cerimônias e da liturgia, e um novo livro de
orações, The Book of Common Prayer, escrito pelo arcebispo
de Canterbury, Thomas Cranmer, foi publicado em 1549 e conti-
nha todos os ofícios divinos e orações formais da nova Igreja. A
Lei de uniformidade (1548/49) decretou que o livro de Cranmer
fosse o único texto de rituais litúrgicos a ser utilizado no reino.
Com o teatro de Shakespeare e a Bíblia de King James, o Book of
Common Prayer teria uma influência enorme sobre a língua ingle-
sa como fonte de modelos, expressões e provérbios.

Mary I
Em 1553, Edward VI ficou doente e faleceu. Ele tinha nomea-
do sua prima, Jane Grey, a sobrinha do duque de Northumberland,
sua herdeira, provavelmente pelo fato de ela ser protestante, e o
jovem rei temia que sua irmã maior tentasse desfazer a Reforma
Religiosa que ele tinha supervisionado. Para conseguir isso, po-
rém, Edward foi aconselhado que suas duas meias-irmãs teriam de
ser deserdadas, ainda que a menor, Elizabeth, fosse protestante. A
decisão de Edward em nomear Jane Grey foi contra a Terceira Lei
da Sucessão de 1542, na qual Henry VIII estipulou que todos seus
filhos que foram legitimados poderiam herdar o trono.
No entanto, Lady Jane Grey reinou apenas nove dias, antes de
Mary Tudor (1515-1558), a mais velha dos filhos de Henry VIII,
reunir seus apoiadores e depor Jane Grey. O líder da facção que
apoiava Jane Grey, o duque de Northumberland, foi executado.
Jane Grey e seu marido, Guildford Dudley, foram apenas encar-
cerados inicialmente, mas, depois da rebelião dos Wyatt em 1554,
contra o casamento de Mary e o futuro Felipe II da Espanha, o
casal foi executado também, por representar um potencial foco de
descontentamento com a rainha Mary.
Mary era católica convicta e uma das primeiras ações realiza-
das foi tentar reverter os efeitos da Reforma Religiosa. Em 1554,
Mary se casou com Felipe II da Espanha, sobrinho do imperador
do Sacro Império Romano. O casamento não era popular na Ingla-
terra. Os membros do Conselho Privado temiam que a Inglaterra
fosse reduzida a uma dependência dos Habsburgos, a família que
dominava a Península Ibérica e o Sacro Império Romano. O povo
receava o impacto das novas Reformas Religiosas e desconfiava

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164 Gramática histórica da língua inglesa

de um príncipe estrangeiro. No decorrer do restabelecimento do


catolicismo, quase 300 protestantes foram queimados vivos como
hereges e várias centenas mais escolheram o exílio durante seu
reinado. Mary morreu em 1558, sem filhos.

Elizabeth I
O reinado de Elizabeth I é considerado uma espécie de idade
de ouro em muitos aspectos culturais que envolvem a língua in-
glesa. Foi durante esse tempo que houve um florescimento es-
pecialmente grande nas artes literárias, por exemplo, o teatro de
Christopher Marlowe e William Shakespeare, a poesia de Sir
Philip Sidney, Edmund Spenser, Sir Walter Raleigh, entre vários
outros. A impressão quanto a tal exuberância linguística é de que
se trata da maturação da Renascença inglesa no que diz respei-
to ao vernáculo. Se o início do período nos reinados de Henry
VII e VIII envolvia o pensamento sofisticado de Thomas More
e os seguidores de Desiderio Erasmo de Roterdã (1467-1536), a
era elizabetana manifesta a produtividade e criatividade que sur-
gem quando os aspectos renascentistas já estavam razoavelmen-
te divulgados e acessíveis ao público. Apesar de ser um homem
cultíssimo, Thomas More lutava em vão para deter por censura a
enxurrada de textos – livros, tratados, panfletos – sobre assuntos
religiosos heterodoxos que entravam no país pelas imprensas con-
tinentais (GUY, 1984, p. 242).
O reinado também é associado com a vitória naval sobre a
Armada Invencível espanhola em 1588 e as viagens de corsários
como John Hawkins, Richard Grenville, Walter Raleigh, e espe-
cialmente Francis Drake, que chegou a circum-navegar o globo.
O investimento em atividades marítimas levaria ao envolvimento
inglês no tráfico de escravos africanos para as Américas, que tam-
bém foi iniciado nesse tempo. Embora baseado em uma prática
que atualmente é considerada totalmente inaceitável, esse Comér-
cio Triangular atlântico traria grande prosperidade para muitas ci-
dades litorâneas britânicas nos séculos seguintes (veja Unidade 4).
Mercadorias fabricadas na Europa foram vendidas no continente
africano para comprar escravos, que eram revendidos nas Améri-
cas para comprar os produtos agrícolas da região (pau-brasil, açú-
car, fumo, algodão etc.) e então vender nos mercados europeus.
Do ponto de vista das controvérsias religiosas que domina-
vam a política internacional do período, a atitude razoavelmente

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O inglês pré-moderno 165

tolerante da Igreja Anglicana, tanto com os católicos quanto com


as denominações protestantes mais radicais, permitia certa estabi-
lidade social. O governo de Elizabeth I valorizava mais a lealdade
e o bom serviço ao regime que a aderência estrita a determinada
doutrina, sem querer dizer que os inconformados tenham sido tra-
tados bem sempre. A legislação penalizava os que não confessa-
vam o anglicanismo.
No entanto, sob outra perspectiva, o reinado de Elizabeth foi
um tempo de problemas socioambientais (com fome e doenças),
embora essas dificuldades não chegassem a derrubar os funda-
mentos da ordem social, como ocorreu no século XIV com a
Peste Negra, de acordo com Guy (1984, p. 223). O mesmo autor
observa, por exemplo, que as ondas de peste que provocaram a
“grande mortandade” ao longo da segunda metade do século XIV
reduziram a população da Inglaterra e de Gales de 4 a 5 milhões a
2,5 milhões, aproximadamente. A recuperação foi muito lenta. Em
1525, mais de 100 anos depois, a Inglaterra (sem Gales) ainda não
contava mais de 2,25 milhões de habitantes.
Nos 75 anos seguintes, contudo, a população explodiu, che-
gando a quase o dobro (aproximadamente 4,1 milhões) na In-
glaterra. Em Gales, entre 1500 e 1600, a população cresceu de
210.000 para 380.000. A explosão demográfica do século XVI
trouxe grandes problemas sociais. Enquanto no século XV foi
reduzida a exploração de serviços diretos na lavoura das terras
senhoriais, substituídos por serviços pagos em dinheiro, havendo
uma queda nos preços pela demanda reduzida e um aumento de
salários por falta de trabalhadores, o século XVI logo entrou em
uma espiral de inflação, fome, uma queda vertiginosa de renda e
um brusco aumento concomitante de preços e aluguéis. Inquilinos
que não podiam pagar os novos aluguéis eram despejados; cháca-
ras e fazendas menores eram amalgamadas para reduzir custos, e
as terras marginais mais pobres e os antigos pastos comuns eram
cercados para fazer pastagens para a rentável criação de ovelhas
(GUY, 1984, p. 224-225).
O desemprego e a inflação de preços eram as maiores causas de
miséria. Apesar de os preços altos para produtos agrícolas estimula-
rem a produtividade entre os fazendeiros, o interesse por conseguir
os melhores preços os levava a vender seus produtos nos mercados
mais caros nas cidades, que cresciam com o influxo da popula-
ção rural, antes de distribuí-los nos distritos rurais para facilitar a

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166 Gramática histórica da língua inglesa

subsistência. Os próprios mercados, às vezes, não davam conta da


pressão populacional, sobretudo nos anos de colheita ruim por mau
tempo ou epidemia. Além disso, como a população não parava de
crescer, os salários permaneciam baixos, já que não faltava gente
que precisasse trabalhar. Os campesinos, despejados pelos aluguéis
altos e o cerramento das terras comuns, migravam para as cidades
na esperança de encontrar melhores condições de trabalho. O mo-
vimento populacional também impactava os números de indigen-
tes no crime e dos itinerantes (GUY, 1984, p. 225-226).
No que diz respeito à linguagem, esse momento de migração
intrarregional foi importante porque o deslocamento de pessoas
acarreta fluxo de variedades, gerando contato e, assim, transfe-
rências de traços e reconfigurações de gramáticas nas gerações
seguintes potencialmente expostas a elementos advindos de varie-
dades de lugares distantes. Em particular, a capital Londres vivia
ondas de migração de diversas áreas dialetais, como East An-
glia (Leste: condados de Essex, Suffolk, Norfolk, Bedfordshire,
Hertfordshire, Cambridgeshire), dos condados do Sudeste (Kent e
Sussex) e da ampla região Centro-leste.
Na corte dos monarcas da dinastia Tudor, ouviam-se os sota-
ques e dialetos mais variados, já que a linguagem da classe gover-
nante ainda não estava padronizada. Drake, Raleigh e Hawkins
falavam variedades do Sudoeste; o sotaque de Shakespeare cer-
tamente teria revelado sua origem em Warwickshire no Centro-
-oeste; Cardeal Wolsey teria indicações da sua origem na cidade
de Ipswich em Suffolk.
Os cortesãos eram tipicamente multilíngues. Uma boa educa-
ção renascentista incluía, no mínimo, o aprendizado de latim e
francês. Muitos também sabiam italiano, espanhol, holandês/fla-
mengo e alguns sabiam alemão. Os mais eruditos dominavam o
grego clássico e noções de hebraico. As línguas vernáculas das re-
giões celtas – o gaélico irlandês, o galês e o cornualhês – também
eram faladas por alguns. Emissários e embaixadores de outros rei-
nos também frequentavam a corte com seus séquitos e certamente
suas línguas eram ouvidas.
No longo prazo, as políticas cautelosas e estabilizadoras fa-
vorecidas por Elizabeth durante seu reinado gradualmente au-
mentavam uma série de tensões que terminaram na eclosão da
Guerra Civil entre Charles I e os deputados puritanos em 1642.
Os problemas religiosos iam crescendo desde o reinado de

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O inglês pré-moderno 167

Henry VIII. O catolicismo nunca foi eliminado e, portanto, sem-


pre existia um risco para a coroa inglesa de uma conspiração ser
promovida pelo papado e as grandes potências católicas, como
Espanha ou França.
O fato de a conquista da Irlanda ter sido tão demorada e violenta
resultou na impossibilidade de implementar a Reforma Religiosa
de maneira generalizada, tal como os Tudor o gostariam. Por esse
motivo, a Irlanda deixava uma porta dos fundos entreaberta, onde
haveria sempre simpatizantes da causa católica. Por outro lado, os
aspectos conservadores da Igreja Anglicana alienavam os protes-
tantes mais rigorosos, criando outra frente de ameaças à estabilida-
de do reino. A questão das finanças reais nunca foi solucionada de
forma satisfatória. Os altos custos de um estado pré-moderno não
podiam ser mantidos por um sistema de tributação medieval, mas
nenhum monarca Tudor enfrentou a necessidade de abrir novas fon-
tes de renda de forma séria, com a exceção do fundador da dinastia,
Henry VIII. Qualquer campanha militar esvaziava os cofres de tal
maneira que o Estado corria sérios riscos de quebrar. O fato de o
rei arrecadar impostos sem pedir a votação do parlamento foi outra
reclamação dos deputados antimonarquistas sob os reis Stuart.

Saiba mais
A dinastia dos Stuart
A grafia mais usada atualmente, Stuart, é uma forma afrancesada de Steward
em inglês ou Stiubhard, em gaélico (todos pronunciados aproximadamente
“stiúart”), que Mary I (r. 1542-1567) adotou (ela foi criada em exílio na França).
A família tinha origem normanda e era detentora do importante cargo admi-
nistrativo de High Steward (“Alto Mordomo Real”) da Escócia desde o século
XII. O primeiro rei da Escócia da linhagem foi Robert II (r. 1371-1390), que en-
frentou pressões enormes de Edward III, rei da Inglaterra, a entregar o trono.
Nove monarcas da dinastia reinaram na Escócia – Robert III (1390-1406), James I
(1406-1437), James II (1437-1460), James III (1460-1488), James IV (1488­‑1513),
James V (1513-1542), Mary I (1542-1567) – antes da união das coroas da Escócia
e da Inglaterra na pessoa de James VI da Escócia, que se tornou James I da
Inglaterra, ao herdar o trono da sua tia, Elizabeth I da Inglaterra, em 1603.
Depois da união das coroas, a dinastia dos Stuart contribuiu com mais seis
monarcas: James I (r. na Escócia desde 1567, r. na Inglaterra desde 1603-m.
1625), Charles I (r. 1625-1649), Charles II (r. 1660-1685), James II (da Inglaterra)

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168 Gramática histórica da língua inglesa

e VI (da Escócia) (r. 1685-1689), Mary II (r. 1689-1694) em conjunto com seu
marido holandês William, príncipe de Orange (William III da Inglaterra e II da
Escócia) (m. 1702), e Anne (r. 1702-1714). Em 1707, os dois países (a Escócia e
a Inglaterra, com seus domínios de Gales e Irlanda) foram oficialmente unifi-
cados em um estado, o Reino Unido da Grã-Bretanha.

James I
Em termos do uso da língua inglesa, o reinado de James I
continuou na mesma situação do final do reinado de Elizabeth I.
Na área das letras, na Inglaterra, os dois nomes de maior renome
ainda eram Shakespeare e Ben Jonson. O poeta John Donne e o
pensador e cientista Francis Bacon também viveram os períodos
elizabetano e jacobino. Os poetas chamados de “metafísicos” que
se aglomeravam de forma pouco sistemática ao redor da pessoa
de Jonson foram característicos da época, com seus temas centrais
sobre a mortalidade e a corrupção dos deleites do mundo.
Antes de assumir o trono da Inglaterra, James tinha escrito
um tratado sobre a tradição poética escocesa, Reules and Cautelis
(Regras e cuidados), em 1585, quando ele tinha apenas 19 anos.
O jovem rei fazia parte de um grupo de poetas denominado como
a “Banda de Castália”, cujo mais eminente membro foi Alexan-
der Montgomerie (c. 1550-1598). Mais de 100 das obras de Mon-
tgomerie sobrevivem, das quais as mais renomadas são a longa
alegoria The Cherrie and the Slae (A cereja e o abrunho) e sua
coleção de sonetos e poemas cortesãos públicos, que estão entre
os melhores exemplares do gênero produzido na Escócia.
Em termos políticos, James estimulava relações entre a Ingla-
terra e a Espanha, sem atrito com os espanhóis, quase conseguiu
contrair o matrimônio de seu filho Charles com a infanta Maria
Ana. O casamento nunca ocorreu porque a princesa espanhola não
gostou de Charles e ele recusou renunciar sua fé anglicana para o
catolicismo. O “partido espanhol”, como o projeto era conheci-
do, não era popular, pois uma das condições em que os espanhóis
insistiam foi a revogação da legislação anticatólica, que obrigava
todos os não conformistas a jurar que o papa não podia exercer
nenhum poder sobre o rei. James se mantinha em uma posição
razoavelmente tolerante com os católicos ingleses, pensando que
eles poderiam ser seus aliados contra as autoridades anglicanas

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O inglês pré-moderno 169

estabelecidas. A atitude de James com a comunidade católica co-


meçou a mudar depois de uma série de conspirações contra sua
pessoa. Além do “Complô principal” – que propôs substituir
James e sua família por Arabella Stuart, prima de segundo grau de
Elizabeth I –, e o “Complô secundário”, uma tentativa de seques-
tro, a agitação católica culminou com a “Conspiração da pólvora”
(Gunpowder plot), que tentou explodir o rei e seu parlamento em
1605. O ex-soldado, Guido Fawkes, foi capturado na véspera da
abertura do parlamento no porão de uma casa vizinha, que projeta-
va debaixo da Câmara dos Lordes do Palácio de Westminster, com
36 barris de pólvora e uma pila de lenha. Quatorze conspiradores
foram executados.
Durante seu reinado, James sofria pressões repetidas vezes de
grupos protestantes mais radicais para reprimir os católicos com
mais brutalidade e para implementar reformas mais rigorosas na
Igreja Anglicana. Também acabou se desentendendo com a Igreja
Presbiteriana na Escócia, com tentativas de reintroduzir bispos e
de aproximar as igrejas das duas nações em questões de doutrina,
o que desagradou muitos escoceses. Esse legado causaria proble-
mas na Escócia para seu filho e netos.
O outro grande evento religioso durante o reinado de James I
foi a publicação da edição “autorizada” da Bíblia, em 1611 (veja
mais adiante). Junto com o dicionário de Doutor Johnson e o tea-
tro de Shakespeare, a Bíblia do rei James era um dos fundamentos
do cânone literário em inglês.
Outro fator que se tornaria muito relevante posteriormente foi o
estabelecimento de colônias na América do Norte e no Caribe. Em
1607, Jamestown foi fundada na Virgínia pela chamada Companhia
de Virgínia (também conhecida como a Companhia de Londres.
Veja Unidade 4); em 1610, a Sociedade dos Comerciantes Aventu-
reiros estabeleceu uma comunidade permanente na Terra Nova; e
em 1612, a Ilha de São Jorge nas Bahamas foi colonizada, também
pela Companhia de Virgínia. (Veja também Unidade 4).
Em 1664, a antiga colônia holandesa de Nova Amsterdã foi
ocupada pelos ingleses e renomeada como New York. Junto
com a Província de New York, veio a província da Nova Suécia
(atualmente, Delaware), que os holandeses tinham conquistado.
A colonização escocesa da Terra Nova durou de 1629 a 1632 e
o malfadado projeto de estabelecer uma colônia na península de
Darién (atual Panamá) em 1695 gerou uma crise financeira no país

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170 Gramática histórica da língua inglesa

que contribuiu de forma significativa à união política da Escócia e


da Inglaterra em 1707, já que o governo inglês ofereceu pagar as
dívidas contraídas pelo governo escocês que o tinha levado prati-
camente à bancarrota.

Charles I
Em termos linguísticos, o reinado de Charles I é interessante
por nele ter ocorrido as guerras dos panfletários que se tornaram
muito evidentes no contexto das preliminares da Guerra Civil
Inglesa (1642-1651). O uso da imprensa móvel crescia constan-
temente desde a chegada da tecnologia na Inglaterra em 1476,
trazida por William Caxton dos Países Baixos. A facilidade de
produzir grandes quantidades de textos iguais, a um custo rela-
tivamente baixo, criou problemas em como controlar a produção
impressa e a difusão de ideias não desejadas por serem conside-
radas heréticas ou subversivas de alguma outra maneira. Febvre
e Martin (1976) estimam que, até 1500, 20 milhões de cópias de
livros tinham sido produzidas, e até 1600 a quantidade aumentou
quase dez vezes para 150 a 200 milhões cópias (FEBVRE; MAR-
TIN, 1976). As controvérsias religiosas do século XVI criaram
um ambiente muito propício para a publicação. Ingleses exilados
católicos e protestantes utilizavam as imprensas continentais, em
Flandres ou Genebra, para divulgar suas ideias. No contexto do
conflito entre o rei e os não conformistas puritanos, e durante o
período da restauração da monarquia depois de 1660, a imprensa
foi uma arma que todos exploravam.
A queda de Charles I na Guerra Civil com o parlamento re-
sultou da impopularidade da nomeação do favorito real, o duque
de Buckingham, como comandante das medidas militares no con-
tinente europeu no contexto da Guerra dos Trinta Anos (1618-
-1648). Já impopular com a nobreza por explorar o monopólio de
acesso ao rei, deu-se o fracasso da campanha de Buckingham para
ajudar os rebeldes protestantes franceses na cidade de La Rochelle
(apesar do apoio geral à campanha em si) em 1627. A resposta dos
deputados no parlamento foi de instaurar um processo de impea-
chment contra Buckingham. O rei reagiu à ameaça de seu favo-
rito com a dissolução do parlamento, uma medida que aumentou
a impressão de que ele não queria o escrutínio parlamentar para
seu governo, uma afronta aos direitos tradicionais da pequena no-
breza. Além disso, sem parlamento, era impossível conseguir a

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O inglês pré-moderno 171

concessão de impostos, o que impactou negativamente nas finan-


ças do reino.
O novo parlamento, convocado em 1628, mostrou-se ainda
mais intransigente que o antigo. Os deputados redigiram a Peti-
ção de direitos, em que eles estimulavam os limites que existiam
ao poder real, citando a Magna Carta assinada por John em 1215
(veja Unidade 2). Charles consentiu aos pedidos da petição, por-
que precisava do dinheiro que os deputados lhe votariam. Devido
aos problemas com o parlamento, Charles promoveu sua dissolu-
ção e governou sem consultar o parlamento durante a maior parte
da década seguinte, sem convocar os deputados. Isso significa que,
durante esse período, ele não recebia nenhum subsídio parlamen-
tar e conseguia fundos por explorar leis antigas para multar as pes-
soas. Outra fonte de renda era explorar a ameaça de uma invasão
em 1635 para obrigar os condados não litorâneos a pagarem uma
taxa supostamente para a construção de navios. Tais impostos irri-
tavam a população, que considerava as medidas ilegais, uma vez
que só teriam funcionado para manter os custos do rei se Charles
evitasse um confronto militar. Por esse motivo, ele efetivamente
encerrou a atuação da Inglaterra na Guerra dos Trinta Anos.
O programa de padronização religiosa liderado pelo arcebispo
Laud de acordo com o modelo do High Anglicanism (“anglica-
nismo superior”), uma variante da denominação que estava mais
suntuosa, incomodava muitos seguidores das confissões mais es-
tritas, por se aproximar dos rituais católicos. Temiam que Char-
les pretendesse se converter ao catolicismo da rainha francesa,
Henrietta Maria. Também foram reintroduzidas as multas aos
protestantes não anglicanos se não frequentassem as igrejas aos
domingos, o que provocou ainda mais descontentamento entre
essa classe importante. Quando três membros da pequena no-
breza reclamaram publicamente em panfletos das mudanças na
observância religiosa, eles foram condenados a terem as orelhas
decepadas, uma punição considerada especialmente humilhante
para um gentil-homem.
As mudanças religiosas que o rei quis impor na Escócia em
1639 não foram aceitas pela população, o que provocou uma re-
belião que ficou conhecida como a “Guerra dos Bispos”, sendo
o motivo para a luta a introdução de um novo livro dos ofícios
baseado no Book of Common Prayer (Livro de orações comuns)
anglicano, e um aumento no número de bispos introduzidos por

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172 Gramática histórica da língua inglesa

James I em uma igreja que defendia o presbiterianismo, ou seja,


sem bispos. A “Guerra dos Bispos” na Escócia escalou em 1640
uma série de conflitos localizados na Inglaterra, Irlanda e Escócia
conhecidos como a Guerra dos Três Reinos.
Os problemas políticos de Charles pioraram rapidamente de-
pois que ele convocou o parlamento para conseguir uma conces-
são de impostos na Inglaterra para financiar uma campanha na
Escócia. Os deputados aproveitaram-se da fraqueza do rei para
reivindicar suas reclamações e tentaram vincular a concessão do
subsídio com a reversão das práticas de arrecadação irregular e a
política religiosa. Furioso pelo que considerava um desrespeito
a sua pessoa, Charles dissolveu a assembleia depois de apenas
algumas semanas – por isso ficou conhecido como “o parlamento
breve” – e resolveu lutar contra os escoceses de qualquer maneira.
O resultado foi uma derrota contundente e a invasão do norte
da Inglaterra pelo exército escocês, que exigia pagamento diário
para não avançar para o sul. Se o rei não pagasse, eles ameaçavam
tomar o valor faltante por meio do saque. A situação estava desas-
trosa para Charles: como rei da Inglaterra, ele precisava do dinhei-
ro do parlamento para manter um exército e resistir aos escoceses,
mas, como ele também era rei da Escócia, ele precisava pagar o
exército ocupante! Não houve outra opção senão convocar nova-
mente o parlamento inglês, o que ocorreu em novembro de 1640.
O novo parlamento se mostrou ainda mais recalcitrante que o
anterior. Os deputados passaram leis que obrigavam sua convoca-
ção pelo menos uma vez a cada triênio, mesmo que o rei não os
chamasse, e o rei não podia dissolvê-lo sem o consentimento dos
deputados, mesmo que o prazo de três anos se passasse. Qualquer
tributação proposta pelo rei precisava do aval parlamentar, e o
parlamento podia censurar os ministros reais. As cortes da Câmara
Estrelada e da Alta Comissão foram abolidas, por possibilitarem
julgamentos sem júri, sem consulta e sem direito à defesa. Além
dessas medidas que fortaleciam o parlamento, tornando-o mais
independente do monarca, que viu seus poderes diminuírem, os
deputados aprovaram várias leis anticatólicas e tentaram limitar
ou desfazer o avanço do anglicanismo superior. Finalmente, eles
publicaram um “protesto de lealdade” ao rei, culpando seus con-
selheiros pelos problemas do reino.
Rumores de que o earl de Strafford tinha sugerido que o rei
trouxesse o exército irlandês para reprimir a população inglesa

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O inglês pré-moderno 173

provocaram seu processamento. Quando foi comprovado que


Strafford, de fato, tinha proposto uma intervenção militar con-
tra o parlamento, ele foi condenado por attainder, uma pena que
não precisava dos procedimentos legais normais. O rei, porém,
recusou-se a assinar o mandato de execução de seu principal con-
selheiro. Temendo que a situação terminasse em guerra, Strafford
convenceu Charles a reconsiderar sua posição, para o bem da sua
família, e o rei assentiu. Strafford foi executado em maio de 1641.
A morte de Strafford não resolveu a crise política. Os deputados
puritanos receavam a imposição do anglicanismo ou, pior ainda,
uma reversão ao catolicismo, e o fim do parlamentarismo em uma
tirania absolutista. O partido monarquista ressentia as exigências
dos parlamentares e a maneira pouco respeitosa de apresentá-las.
Em 1641, os católicos irlandeses, temendo mais repressão pelo
governo protestante, levantaram-se em uma guerra civil sangrenta.
Na Inglaterra, os boatos corriam entre os puritanos de que o rei fa-
vorecia os católicos e o que ocorria na Irlanda poderia se repetir lá.
Em janeiro de 1642, Charles, acompanhado por aproximadamente
quatrocentos soldados, foi à Câmara dos Comuns no Palácio de
Westminster para arrestar cinco deputados acusados de traição. O
presidente da Câmara recusou-se a entregar os deputados procura-
dos, enfatizando sua lealdade ao parlamento antes de ser servidor
do rei. Poucos dias depois, Charles deixou Londres rumo ao norte,
procurando apoio, e as cidades iam se declarando a favor do par-
tido real ou favorável ao parlamento. Em agosto de 1642, Charles
levantou a bandeira real em Nottingham em uma chamada a todos
os súditos para que comparecessem à defesa do rei.
A Guerra Civil Inglesa ocorreu em três fases, a primeira, de
1642 a 1648, em que as maiores batalhas ocorreram terminando
com a captura de Charles; de 1648 a 1649, os exércitos do parla-
mento combateram vários levantamentos monarquistas pelo país
e, a terceira fase, de 1649 a 1651, principalmente na Irlanda, em
que os ingleses subjugaram a aliança dos católicos e monarquistas
com muita violência.
Para combater as forças reais (tradicionalmente conhecidas
como cavaliers, “cavalheiros”), o parlamento criou e treinou um
exército profissional, o New Model Army (“Exército Novo”) em
1645. Os soldados parlamentaristas são conhecidos tradicional-
mente como roundheads (“cabeças redondas”), porque eles usa-
vam um corte de cabelo curto, diferentemente do cabelo comprido

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174 Gramática histórica da língua inglesa

dos cavaliers. O comandante supremo do exército era o Lorde


General, Thomas Fairfax. A cavalaria do parlamento era coman-
dada por Oliver Cromwell, o Tenente-General (vice-comandante),
e recebeu o apelido de ironsides (“costas de ferro”), por seu co-
mandante, cujo apelido era Old Ironsides.
Em 1648, a maioria dos apoiadores do rei tinha jurado manter
a paz. Portanto, o tratamento dos líderes vencidos foi especial-
mente severo, já que eles eram tidos como perjurados. Devido a
seu papel na instigação das insurreições do segundo período da
Guerra Civil, que incluiu uma tentativa de negociar uma invasão
escocesa da Inglaterra para libertá-lo, o parlamento tinha dúvidas
se Charles deveria voltar ao trono. Quando o exército soube que
o parlamento ainda cogitava manter Charles como rei, os gene-
rais marcharam para Londres e se instalaram ao redor da Câma-
ra. Então houve a “Purga de Pride”, realizada pelo regimento do
coronel Thomas Pride, em que 45 deputados foram presos, tendo
sido barrada a entrada de mais 146, deixando apenas 75 entrarem.
Sob forte pressão dos militares, os 75 deputados restantes desse
rump parliament (literalmente, “rabo do parlamento”) resolveram
formar um tribunal de três juízes e 150 comissários para julgar o
rei na acusação de traição. O chefe do exército, Fairfax, era um
moderado que favorecia uma monarquia constitucional. Ele se re-
cusou a continuar participando nas negociações.
O tribunal dos comissários, dos quais apenas 63 compareceriam
ao processo, condenou o rei à morte em 27 de janeiro de 1649, por
tirano, traidor, assassino e inimigo do povo inglês, embora ele não
reconhecesse a autoridade do tribunal para proceder contra ele, de-
vido à ausência de uma autorização real. Charles recusou declarar-
-se culpado ou inocente, alegando que o rei recebia sua autoridade
de Deus e, portanto, estava acima de qualquer lei e incapaz de errar.
O poder do tribunal parlamentarista, Charles sustentou, originava
apenas força de armas, mas carecia de qualquer legitimidade. Não
adiantou. Em 30 de janeiro 1649, Charles I foi executado.
A morte do rei conduziu ao domínio total do exército. Fair-
fax se demitiu do cargo. Isso permitiu que Cromwell assumisse
o controle do exército, o grupo político mais poderoso no tempo
pós-guerra. O governo ficou nas mãos de Cromwell, que presidia
o Conselho de Estado. Em 1650, Charles, filho do rei morto, foi
proclamado rei na Escócia, e voltou da França tentando retomar a
Inglaterra. O exército de Charles II foi derrotado finalmente pelo

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O inglês pré-moderno 175

New Model Army na batalha de Worcester em 1651. O “rabo do


parlamento” aboliu a monarquia, a Câmara dos Lordes (a segun-
da Câmara do parlamento), e declarou a Inglaterra uma república
(Commonwealth). O episcopado da Igreja Anglicana foi reduzido e
várias leis foram passadas para regular a vida moral das pessoas: os
teatros foram fechados, a observação religiosa era obrigatória aos
domingos. Um ato relevante para a língua inglesa foi a generaliza-
ção do vernáculo nos tribunais e na jurisprudência em geral, em lu-
gar de francês e latim, que eram meios importantes anteriormente.
Em 1653, Cromwell dissolveu o rabo do parlamento, apesar de
não ter recebido o consentimento da Câmara, portanto, violando
a Lei Trienal que determinava que a dissolução da Câmara dos
Comuns tinha de ocorrer com o assentimento dos deputados, pre-
cisamente uma das reclamações do “Parlamento Longo” de 1641
contra o poder do antigo rei de convocar e demitir as assembleias
à vontade. O “rabo” foi substituído pelo “Parlamento do Esque-
leto” (Barebones Parliament), cujos membros foram nomeados
pelo exército em uma tentativa de controlar os deputados, cujas
opiniões refletiam os partidos entre os militares: aproximadamen-
te quarenta radicais (que queriam abolir qualquer papel do esta-
do em questões religiosas), uns 60 moderados, e por volta de 40
conservadores (favoráveis à manutenção do status quo, já que a
Lei Consuetudinária contemporânea defendia os interesses da pe-
quena nobreza). Um deputado da classe popular era o comerciante
batista Praise-God Barebone (literalmente, “Louva-Deus Esque-
lético”), cujo nome curioso passou a ser a alcunha da instituição.
Cromwell desejava que o novo parlamento legislasse para redigir
uma constituição reformadora para a jovem república. Infelizmen-
te, os deputados não tinham as habilidades jurídicas nem a expe-
riência política para realizar a tarefa que Cromwell e o Conselho
do Exército lhes concederam. Depois de alguns meses de debates
improdutivos, Cromwell dissolveu o “Parlamento do Esqueleto” e
foi nomeado Lorde Protetor.
Os anos do protetorado de Cromwell viram a guerra vitoriosa
contra os holandeses (1652-1654), que fortaleceu a posição marí-
tima da Inglaterra. A ilha da Jamaica foi conquistada da Espanha
em 1655, e as “plantações” de colonizadores protestantes no norte
e leste da Irlanda continuaram, e em 1655-1656 os judeus, que
foram expulsos da Inglaterra durante o reinado de Edward I, tive-
ram permissão para voltar depois de 350 anos. O objetivo dessa

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176 Gramática histórica da língua inglesa

medida foi atrair os importantes comerciantes judeus de Amsterdã


e outras cidades holandesas para Londres para estimular negócios
com as colônias espanholas e portuguesas no Caribe e na Améri-
ca do Sul. Grupos de puritanos ou pessoas contrárias à república
emigravam para as várias colônias norte-americanas: Virgínia,
Maryland, Rhode Island, Connecticut, Massachusetts. Barbados
era outro destino frequente para os inimigos da república.
Quando Cromwell morreu em 1658, ele nomeou seu filho
Richard como Lord Protector. Sem o apoio do exército, que sem-
pre respaldara as decisões de seu pai, sem a influência política para
administrar o parlamento, e com pouca base entre os governantes, o
protetorado de Richard não foi um sucesso. Os parlamentares reto-
maram o poder e no Conselho de Estado Richard passou a ser irre-
levante para o governo do país. Em 1660, depois de um período de
negociações lideradas pelo general George Monck, Charles II emitiu
a Declaração de Breda (ele estava nos Países Baixos nesse momen-
to de seu exílio) na qual ele perdoou os envolvidos na execução de
seu pai e garantiu a liberdade religiosa, a manutenção dos direitos
do parlamento, e a proteção de quaisquer posses adquiridas durante
o período do interregno. Monck usou seu poder militar para obri-
gar o rabo do parlamento a admitir os deputados excluídos em 1648
na Purga de Pride. O parlamento reconstituído se dissolveu e houve
eleições gerais. A convite do novo parlamento, portanto, Charles II,
que já era reconhecido na Escócia, regressou à Inglaterra e foi co-
roado em 1661. Abrindo o período conhecido como a Restauração.

Charles II
A Restauração da monarquia sob Charles II (1660-1685) abriu
com prisão, execução e exílio de muitos dos comissários que ha-
viam assinado a sentença de morte contra Charles I. Culturalmen-
te, foi um tempo de inovação científica, por exemplo, a fundação
da Royal Society com importantes membros, como Robert Boyle,
Robert Hook e Sir Isaac Newon, além da construção do Observa-
tório Real. O centro da cidade de Londres foi reconstruído depois
da destruição com o Grande Incêndio de 1666, pelo arquiteto Sir
Christopher Wren, incluindo a Catedral de São Paulo. A era é fa-
mosa pelo hedonismo da vida na corte, porém, aflita por diversos
problemas, em geral de natureza religiosa. Os teatros reabriram. A
Restauração corresponde com o final da vida dos grandes poetas
não conformistas, como John Milton, autor de Paradise Lost e

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O inglês pré-moderno 177

Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé. Do lado anglicano, há o


ensaísta satírico e poeta anglo-irlandês, Jonathan Swift, que escre-
veu As viagens de Gulliver.
John Wilmot, earl de Rochester e um célebre libertino, descre-
veu o rei nos seguintes termos:
We have a pretty witty king, Temos um rei bonito e espirituoso,
Whose word no man relies on. Em cuja palavra ninguém confia.
He never said a foolish thing, Ele nunca disse nenhuma coisa tola,
And never did a wise one. E nunca fez nada sábio.
Quando ouviu o poema satírico, diz-se que Charles respondeu
que era a verdade, porque ele era o autor de suas próprias palavras,
mas “suas” ações eram na verdade as ações de seus ministros!
As autoridades queriam reforçar a posição da Igreja Anglicana
contra a percebida ameaça constante do catolicismo e os extre-
mismos dos puritanos. No entanto, Charles II favorecia uma polí-
tica de tolerância razoável em assuntos confessionais. Sua política
externa levou a guerras contra as Províncias dos Países Baixos
e Espanha, em uma aliança com Portugal (a rainha, Catarina de
Bragança, era portuguesa).
A afinidade dos membros da dinastia Stuart para o catolicismo,
devido às suas esposas e ao longo período exilados na corte fran-
cesa, ou em Bruxelas ou Haia. Charles II se converteu ao catoli-
cismo quando estava prestes a morrer e a questão da sucessão foi
complicada pelo fato de que seu herdeiro era seu irmão James (II
da Inglaterra, VII da Escócia), que havia se convertido ao catoli-
cismo. A preocupação crescia entre a nobreza e a hierarquia angli-
cana pelo possível retorno à instabilidade e persecuções do reino
de Mary I. Por essa razão, o breve reinado (1685-1688) de James
deu origem a várias dificuldades constitucionais que afetaram o
reinado da dinastia seguinte, os Hanoverianos.

James II
Em 1688, nasceu James Edward Francis Stuart, filho de James
II e sua segunda esposa, Maria de Modena. O fato que o rei mudou
a ordem de sucessão ao trono para favorecer o filho da sua rainha
católica em lugar de suas meias-irmãs maiores protestantes, Mary e
Anne, preocupou os governantes. Atuando para proteger sua fé pro-
testante anglicana, a classe política se rebelou: James foi deposto e
fugiu para a França. O parlamento convidou sua filha Mary, que era

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178 Gramática histórica da língua inglesa

casada com o príncipe protestante holandês, William de Orange, a


assumirem o trono na “Gloriosa Revolução”. Em vários momentos,
James II, seu filho James e seu neto Charles tentariam retomar a
coroa, mas nunca conseguiram. Suas atividades teriam graves con-
sequências para a história da Escócia e da Irlanda no início do pe-
ríodo moderno. O reinado em conjunto de William III e Mary II viu
diversos envolvimentos militares no continente europeu, em geral
dirigidos contra a França. Na Irlanda, a vitória de William III sobre
James II na Batalha do rio Boyne assegurou a ascendência protes-
tante no governo da Irlanda.
Em 1707, durante o reinado da rainha Anne, a Inglaterra e a
Escócia foram unificadas oficialmente em um país, o Reino Unido
da Grã-Bretanha.

História interna: mudanças estruturais


O período pré-moderno é o momento durante o qual os funda-
mentos da língua que reconhecemos hoje como inglês começaram
a se consolidar. A língua anglo-saxônica não é facilmente acessível
aos anglófonos modernos sem estudo prévio, e a linguagem dos
escritores medievais, embora haja muito mais paralelos, ainda custa
a ser entendida, pelo distanciamento estrutural e pelos fatores da
grafia. No entanto, a literatura da época pré-moderna faz parte
do cânone da língua inglesa, por exemplo, as peças e os sonetos de
William Shakespeare, o teatro de Marlowe e Ben Johnson, a poesia
de John Dunne, a Bíblia do Rei James, o Paraíso Perdido de Mil-
ton, a prosa de Swift, Defoe e o dicionário de Johnson, constituem
as bases da literatura inglesa, justamente pelo fato de essas obras
não apresentarem tantas dificuldades para o leitor moderno, princi-
palmente no que diz respeito ao léxico e à sintaxe.
No entanto, a inteligibilidade maior dos textos pré-modernos,
do ponto de vista dos falantes modernos, não quer dizer que a
língua pré-moderna não tenha sofrido diversas mudanças durante
seus três séculos de duração. De fato, é precisamente nesse mo-
mento que algumas das transformações mais marcantes surgiram.

Fonologia
Quanto ao sistema sonoro da língua inglesa, podemos dizer que
foi o aspecto da língua que mais mudou durante o período pré-mo-
derno. A evolução fônica está mais evidente nas complexidades

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O inglês pré-moderno 179

do sistema ortográfico do inglês, notório quanto à aparente falta


de vinculação entre as letras utilizadas e a fonologia. Entretanto,
grande parte das diferenças gráficas que são mantidas entre pala-
vras homófonas, por exemplo, laud “louvar”, “elogiar” e lord “se-
nhor”, “lorde” (/lɔ(r)d/); meet “encontrar” e meat “carne” (/mi:t/);
wright “artesão”, “fabricante”, write “escrever”, e right “direito”
(/rajt/), refletem diferenças de pronúncia que existiam no início do
período pré-moderno. Da mesma maneira, as diferentes vogais em
blood “sangue” /blʌd/, food “comida” /fu:d/ e good “bom” /gʊd/,
são escritas da mesma maneira (ou seja, com oo) porque, nos tem-
pos pré-modernos, as três palavras continham a mesma vogal, a
qual se diversificou posteriormente.
O impacto da fonologia pré-moderna precoce sobre a grafia do
inglês é considerável, porque foi justamente durante esse momento
histórico que as normas para representar a língua na escrita come-
çavam a se fixar, depois da intensa variabilidade da Idade Média.
Embora a padronização ortográfica não tenha ocorrido até o século
XVIII, ou seja, bem no final da época sob investigação nesta uni-
dade, as grafias que acabaram sendo selecionadas e consagradas
nas gramáticas e nos dicionários tinham começado a se estabelecer
socialmente como as consideradas “corretas” alguns séculos antes.

A grande mutação vocálica


O principal evento que durou toda a extensão do período pré-
-moderno para desenvolver-se, passando por várias fases interme-
diárias, foi a mudança conhecida como a Grande mutação vocálica
(Great Vowel Shift). Nessa mudança, a realização dos vinte fone-
mas vocálicos (7 vogais longas, 6 vogais breves e 7 ditongos) so-
freu várias alterações, algumas das quais podem ser caracterizadas
como uma mudança em cadeia – uma mudança que cria as con-
dições para a ocorrência da mudança seguinte, e assim por diante.
Na fase inicial, provavelmente em 1400, no dialeto do centro-
-sudeste usado nas imediações de Londres, as 7 vogais longas
eram: /i:/, /e:/, /ɛ:/, /a:/, /ɔ:/, /o:/ e /u:/. Em termos fonéticos, a
qualidade dessas vogais era muito próxima à pronúncia de i, ê, é,
a, ó, ô, u em português, isso é [i e ɛ a ɔ o u] no alfabeto fonético
internacional, com o fator adicional de que a articulação dessas
vogais durava mais tempo (é isso que os dois pontos indicam).
No inglês moderno, o resultado da Grande mutação vocálica, as
correspondências entre esses fonemas medievais são as seguintes:

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180 Gramática histórica da língua inglesa

/i:/: [i:] = [aj], por exemplo, child “criança”, fly “voar”, tide
“maré”, pie “torta”, mice “ratos”.
/e:/: [e:] = [ij], por exemplo, seed “semente”, field “campo”.
/ɛ:/: [ɛ:] = [ij], por exemplo, bead “conta”, seat “assento”,
complete “completar”, “completado”.
/a:/: [a:] = [ej], por exemplo, name “nome”, make “fazer”,
lame “coxo”, “manco”.
/ɔ:/: [ɔ:] = [ǝʊ], por exemplo, boat “barco”, hope “esperar”,
“esperança”, so “assim”, foe “inimigo”, both “ambos”.
/o:/: [o:] = [u:], por exemplo, food “comida”, goose “ganso”,
who “quem”, move “mover(-se)”.
/u:/: [u:] = [aw], por exemplo, house “casa”, mouse “rato”,
how “como”.
Repare como todas as pronúncias modernas são ditongos. Ob-
serve também que o segundo e o terceiro fonemas se fundiram
em um único fonema, representado pela pronúncia [ij]. É devido
a essa mudança que os nomes das letras a e i o u em inglês atual-
mente são [ej], [ij], [aj], [ǝʊ] e [ju:], respectivamente.
Os resultados modernos da Grande mutação vocálica não sur-
giram de imediato, mas progrediram lentamente em uma série de
etapas. Todos os fonemas vocálicos adotaram novas articulações
mais fechadas (a altura da língua subiu), com a exceção das duas
vogais mais altas, /i:/ e /u:/, que foram convertidas em ditongos
primeiro, por volta do ano 1500 (BARBER, 1997, p. 106). Como
esses dois fonemas não eram mais representados por vogais pu-
ras, não era problemático para a manutenção dos pares mínimos,
se a pronúncia fonética daquelas vogais médio-altas /e:/: [e:] e
/o:/: [o:] se realizasse de forma mais fechada que anteriormen-
te, ou seja, como [i:] e [u:] respectivamente, já que os antigos
alofones de /i:/ e /u:/ tinham passado para [ıi] e [ʊu] e, depois,
para [ǝj] e [ǝw], respectivamente. Podia-se dizer [tri:] para tree
“árvore” (antes [tre:]), porque o antigo [tri:] try “tentar” já era
pronunciado [trıi] ou [trǝj]. Não havia nenhum risco de confundir
os dois membros do par mínimo try e tree. A pronúncia mudou,
mas as palavras continuavam distintas. Os contrastes fonêmicos
não mudaram, mas os fones que os representavam na fala eram
diferentes: /i:/: [i:] > /i:/: [ıi], /u:/: [u:] > /u:/: [ʊu], /e:/: [e:] > /e:/:
[i:], /o:/: [o:] > /o:/: [u:].

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O inglês pré-moderno 181

Fique atento
Fonemas, fones e alofones
Os sons fonéticos, fones, que servem para discriminar significados, são deno-
minados fonemas da língua. Identificamos fonemas de uma língua aplicando
testes de comutação. Isto é, procuram-se palavras distinguidas por uma dife-
rença de apenas um som. Tais palavras são conhecidas como pares mínimos,
por exemplo, ver e vir em português, distinguidas pelo contraste fonêmico
/i/-/e/, ou /b/-/l/-/m/ em bata, lata, mata, ou em aba, ala, ama etc. Sons que
têm articulações diferentes, porém, não contrastam palavras, são alofones,
elementos do mesmo fonema, por exemplo, tia e dia, em português bra-
sileiro, podem apresentar a pronúncia [′tʃi.ǝ] ou [′ti.ǝ], [′dʒi.ǝ] ou [′di.ǝ], de-
pendendo da origem geográfica do falante, mas essa troca de [tʃ] e [t] ou
[dʒ] e [d] não exerce nenhuma influência sobre o significado: uma “[′tʃi.ǝ]”
é uma “[′ti.ǝ]”. Portanto, dizemos que, nas variedades do PB em que essa al-
ternância ocorre, [tʃ] e [t] são alofones (variantes fonéticas) do fonema /t/,
como [dʒ] e [d] são do fonema /d/. Dizemos que os fonemas contrastam
(/t/ vs. /d/, vs. /k m r s z l e o a i/ etc.). No entanto, em termos articulató-
rios, os fones que representam esses fonemas /t d/ não são distintivos. Além
disso, as variações entre os dois alofones de cada fonema são previsíveis: a
articulação é condicionada pela presença ou ausência do som [i] imediata-
mente depois (o som/fone [i], não a letra i, pois, para muitos brasileiros, bate
é pronunciado [′ba.tʃi] ou [′ba.tʃı], apesar da grafia). A ocorrência de fone-
mas, conforme a teoria, não é previsível; sua distribuição é teoricamente
livre. Desse modo, podemos dizer que [t] e [tʃ] são os dois alofones que re-
presentam a unidade de som abstrata /t/, o fonema, na fala. Eles fazem o
mesmo trabalho, embora não sejam foneticamente idênticos: [t] contrasta
com [d] antes de vogais médias e baixas e [tʃ] contrasta com [dʒ], antes de
[i]. Contudo, não é possível distinguir duas palavras opondo [t] com [tʃ] ou
[d] com [dʒ], porque, no sistema fonológico do português brasileiro, esses
pares são apenas “variantes” do mesmo fonema: /t/ ou /d/, como vimos no
caso de dia e tia, cuja substituição acarreta uma mudança de significado.

Da mesma maneira que /e:/: [e:] > /e:/ [i:] e /o:/: [o:] > /o:/: [u:],
uma vez que os alofones dos fonemas /i:/ e /u:/ tinham passado para
ditongos, quando as vogais média-altas desenvolveram seus alofo-
nes altos, [i:] e [u:], respectivamente, surgiu a possibilidade de alçar
os alofones dos fonemas médio-baixos /ɛ:/ e /ɔ:/ de [ɛ:] para [e:] e
de [ɔ:] para [o:] também, sem pôr em risco os pares mínimos asso-
ciados a esse contraste fonêmico. Portanto, ao longo do século XVI,

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182 Gramática histórica da língua inglesa

boat “barco” e meat “carne” mudaram de [′bɔ:t] para [′bo:t] (pense:


“bóót” > “bôôt”) e [mɛ:t] “méét” > [me:t] “mêêt”.
Novamente, o alçamento inconsciente dos alofones das vogais
média-baixas abriu mais espaço para a articulação de /a:/. Origi-
nalmente pronunciado [a:], no início do século XVI, houve uma
pequena subida para [æ:], que continuou a se alçar, chegando a
[ɛ:] por volta de 1600. Lembre-se de que /ɛ:/: [ɛ:] já tinha subido
para [e:], de modo que não havia nenhum problema de homofo-
nia, ou seja, mate “camarada”, “chapa” /ma:t/: [ma:t] > /ma:t/:
[mæ:t] > /ma:t/: [mɛ:t] não era igual a meat “carne” /mɛ:t/: [me:t],
nem a meet “encontrar” /me:t/: [mi:t].
No século XVII, novas mudanças ocorreram nas vogais longas,
continuando o processo da grande mutação vocálica. O alofone de
/ɛ:/: [e:] subiu ainda mais, tornando-se igual ao alofone de /e:/:
[i:]. Nesse caso, o fonema vocálico mais alto não tinha subido, e,
com a equivalência total entre seus alofones (agora os dois eram
[i:]), /ɛ:/ e /e:/ deixaram de ser distintivos. Ou seja, a língua perdeu
um contraste fonêmico: sea “mar” e see “ver”, meet “encontrar” e
meat “carne” tornaram-se homófonos ([si:] e [mi:t]). À época de
Shakespeare, essas palavras eram diferenciadas: [se:] “mar” e [si:]
“ver”, [me:t] “carne” e [mi:t] “encontrar”. Nesse mesmo período,
/a:/: [ɛ:] também respondeu a maior liberdade fonética e alçou seu
alofone para [e:], ou seja, gate “portão” foi de [gɛ:t] para [ge:t].
Em meados do século XVII, algumas variedades do inglês não
tinham alçado o [e:] de /ɛ:/ para [i:] (essa mudança era popular, já
que as classes mais altas resistiam em adotá-la). Portanto, quando
/a:/ foi de [ɛ:] para [e:], os dois fonemas /a:/ e /ɛ:/ coalesceram:
mate e meat eram homófonos. Que essa pronúncia gozava de
prestígio da segunda metade do século XVII ao início do século
XVIII, fica evidente nas rimas na poesia dos grandes poetas da
época, como John Dryden, que rimou make “fazer” e speak “fa-
lar”, que, atualmente, são [mejk] e [spijk], mas, naquele tempo,
eram [me:k] e [spe:k]); Alexander Pope rimou shade “sombra” e
mead “prado” [ʃe:d] e [me:d] (atualmente, [ʃejd] e [mi:d]); e Jona-
thon Swift rimou case [kejs] “caixa”, “caso” e peace [pe:s] “paz”
(atualmente, [ke:s] e [pi:s]).
O sotaque que fusionou /a:/ e /ɛ:/, porém, não é aquele do
qual os sotaques do inglês padrão atual descendem. A grande
maioria dos sotaques ingleses modernos exibe a fusão dos fo-
nemas medievais /e:/ e /ɛ:/: os alofones dos dois coincidiram
em [i:], ou seja, see “ver” e sea “mar”, meet “encontrar” e meat

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O inglês pré-moderno 183

“carne”, been “sido” e bean “feijão”, são pares de homófonos.


Entre aproximadamente 1650 e 1750, os dois sistemas, mate =
meat e meet = meat, estavam em concorrência. Sabemos disso
porque, além do tipo de rima mate = meat, em Dryden, encon-
tramos speak “falar” rimado com seek “procurar” (i.e., [spi:k],
[si:k]); na poesia de Pope, há scene “cenário” rimando com green
“verde” ([si:n] vs. [gri:n]) e conceive [konsi:v] / believe [bǝli:v].
A natureza da competição entre esses sotaques provavelmen-
te tenha algo a ver com a mobilidade social (BARBER, 1997,
p. 108). À medida que membros bem-sucedidos das classes po-
pulares conseguiam entrar nas camadas sociais mais altas, é pos-
sível que alguns traços da sua fala, como a fusão de /e:/ e /ɛ:/,
tenham ganhado prestígio e se difundido entre a classe média-
-alta, porque até meados do século XVIII o sotaque meet = meat
predominava. Apenas um punhado de palavras modernas ainda
apresenta a relíquia da pronúncia anterior, por exemplo, break
“quebrar” [brejk], great “grande” [grejt], steak “filé” [stejk]. O
[ej] dessas palavras exibe o resultado da fusão de /a:/ e /ɛ:/ me-
dievais em [e:] (ou seja, mate = meat), porque, posteriormente,
esse [e:] foi convertido em um ditongo [ej], ou seja, hoje, great
“grande” [grejt] rima com mate “chapa”, “camarada” [mejt] e
não com meat “carne” [mi:t].

Quadro 3.1  Mudanças cronológicas nas vogais longas pela grande mutação vocálica.

Inglês Inglês padrão


Inglês pré-moderno
medieval moderno
Etapa 3
Etapa 2 “Received Grafia
(surgem ao longo
Fonema + Etapa 1 (surgem no séc. Pronunciation” moderna
do séc. XVII;
alofone (séc. XVI) XVI; comuns (inglês britânico
majoritário até
até 1600) meridional culto)
1700)
/i:/: [i:] [tǝjd] [tǝjd] [tajd] /tajd/ tide
/e:/: [e:] [gri:n] [gri:n] [gri:n] /gri:n/ green
/ɛ:/: [ɛ:] [mɛ:t] [me:t] [me:t] ~ [mi:t] /mi:t/ meat
/a:/: [a:] [mæ:k] [mɛ:k] [me:k] /mejk/ make
/ɔ:/: [ɔ:] [bɔ:t] [bo:t] [bo:t] /bǝʊt/ boat
/o:/: [o:] [fu:d] [fu:d] [fu:d] /fu:d/ food
/u:/: [u:] [hǝws] [hǝws] [haws] /haws/ house
Fonte: adaptado de Barber (1997, p. 108).

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184 Gramática histórica da língua inglesa

Mudanças nas vogais breves


As vogais breves mudaram pouco em comparação com as lon-
gas. Os seis fonemas medievais eram /i/ – /ɛ/ – /a/ – /ɔ/ – /ʊ/ – /ǝ/
(o último apenas em sílabas átonas). Em termos de suas realiza-
ções fonéticas, havia:
1. /i/: [ı], como no inglês moderno, escrito i ou y, por exemplo,
pin “alfinete”, sit “sentar(-se)”, symbol “símbolo”. Esse som
corresponde aproximadamente ao -e final em português brasi-
leiro, por exemplo, mate, bate, hoje, que é menos tenso que i;
2. /ɛ/: [ɛ] era um pouco mais aberto que em RP (inglês britânico
meridional culto) moderno, sofrendo um pequeno alçamento,
que o aproximou a [e]. Algumas variedades mantêm a vogal
aberta original, por exemplo, no norte da Inglaterra; outras
variedades a fecharam ainda mais, como no inglês australia-
no e neozelandês, em que é quase [ı]. Essa vogal era escrita
com e, como ainda é hoje.
3. /a/: [a] também sofreu alçamento para [æ], possibilitado pela
subida na articulação de /ɛ/. Essa mudança provavelmente foi
completada pelo começo do século XVII. A letra a era usada
para representá-lo.
4. /ɔ/ medieval era [ɔ], como ó em português, mas foi baixado
para [ɒ] durante o século XVII.
5. /ʊ/: [ʊ] era escrito com u na maioria dos casos, por exemplo,
cut “cortar”, pull “puxar”, mas, às vezes, com o, como em wolf
“lobo” e son “filho”, quando havia risco de “confusão de traços
mínimos” (veja também Unidade 2). No século XVII, porém,
/ʊ/ sofreu uma fissão, ou seja, dividiu-se em dois fonemas di-
ferentes. Essa mudança encerrou um período no século XVI
em que o fonema medieval apresentava dois alofones. O fone
[ʊ] original permaneceu em alguns contextos, em geral antes
de [l], ou depois de [w b p f] (fones labiais), por exemplo, bull
“touro”, bush “arbusto”, full “cheio”, pudding “sobremesa”,
“doce” e wolf “lobo”, e uma inovação, [ʌ] (coloque sua boca
na posição de <ó> e desarredonde seus lábios). Finalmente, no
século XVII, [ʌ] começou a contrastar com [ʊ], especialmente
quando a vogal breve era o resultado de um abreviamento de
[u:], criando pares mínimos, por exemplo, look [lu:k] “olhar”
> [lʊk] versus luck [lʊk] “sorte” > [lʌk], convertendo [ʌ] de
alofone em fonema /ʌ/, ou seja, com o par mínimo /lʌk/ versus
/lʊk/. A grafia de look revela a origem da sua vogal (/o:/: [o:]

Book 1.indb 184 17/11/16 19:15


O inglês pré-moderno 185

medieval, que subiu para [u:] na grande mutação vocálica e


depois ficou breve: [ʊ]). Esse contraste entre [ʊ] e [ʌ] não
ocorreu em todos os dialetos ingleses. No norte da Inglaterra,
ainda existe apenas um fonema, ora /ʊ/, ora /ʌ/, dependendo da
região. O fato de que o surgimento de /ʌ/ foi tardio explica por
que não existe uma convenção padrão para representar esse
fonema na escrita de uma maneira diferente de /ʊ/.
6. /ǝ/ era uma vogal breve e átona (parecida foneticamente com o
a em final de pata em PB), que surgiu da redução fonética de
todas as outras vogais breves quando não recebiam o acento.
Por isso, as grafias variam tanto para esse som: a e o u, por
exemplo, father “pai”, about “sobre”, “ao redor de”, obey “obe-
decer”, submit “submeter”. /ı/, contudo, nunca gerava [ǝ] em
contextos átonos e, no século XV, até existia a tendência inversa
de trocar /ǝ/ por /ı/ na primeira sílaba de palavras, por exemplo,
before “antes”, embark “embarcar”, eleven “onze”, select “se-
lecionar”, em que o e representa /ı/. Ainda há bastante variação
entre a distribuição desses fonemas, porém, antes de /r/, /ǝ/ sem-
pre sobrevive, por exemplo, father “pai” e permit “permitir”.

Quadro 3.2  Principais mudanças no sistema de vogais breves desde o inglês medieval pelo
inglês pré-moderno.

Inglês
Inglês pré-moderno Inglês moderno padrão
medieval
Etapa 2 Etapa 3 Grafia
Valor fonêmico e fonético
Fonema + Etapa 1 (surgem no séc. (surgem ao longo moderna
em sotaque “RP” (inglês
alofones (séc. XVI) XVI; comuns até do séc. XVII;
britânico meridional culto)
1600) majoritário até 1700)
/ı/: [ı] [ʃıp] [ʃıp] [ʃıp] /ʃıp/: [ʃıp] ship “barco”
hedge
/ɛ/: [ɛ] [hɛdʒ] [hɛdʒ] [hɛdʒ] /hɛdʒ/: [hɛdʒ]
“cerca-viva”
/a/: [a] [hat] [hæt] [hæt] /hæt/: [hæt] hat “chapéu”
dog
/ɔ/: [ɔ] [dɔg] [dɔg] [dɒg] /dɒg/: [dɒg]
“cachorro”
[pʊt] [pʊt] [pʊt] /pʊt/: [pʊt] put “colocar”
/ʊ/: [ʊ]
[kʊt] [kʊt, kʌt] [kʌt] /kʌt/: [kʌt] cut “cortar”
better
[′bɛtǝr] [′bɛtǝr] [′bɛtǝr] /′bɛtǝ/: [′bɛtǝ]
“melhor”
/ǝ/: [ǝ]
-ed “tempo
[-ıd, -ǝd] [-ıd, -ǝd] [-ıd, -ǝd] /-ǝd/: [-ıd, -ǝd]
passado”
Fonte: adaptado de Barber (1997, p. 111).

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186 Gramática histórica da língua inglesa

Ditongos
Os fonemas dos ditongos também sofreram várias modifica-
ções ao longo do período pré-moderno. O Quadro 3.3, a seguir,
apresenta as principais mudanças.

Quadro 3.3  Principais evoluções nos ditongos ingleses desde o período medieval.

Inglês pré-moderno
Etapa 2 Etapa 3
Pronúncia
Fonema (surgem (surgem ao longo Grafias modernas e
Etapa 1 moderna
medieval no séc. XVI; do séc. XVII; exemplos
(séc. XVI) em RP
comuns até majoritário até
1600) 1700)
ew, ue, u, uCe (ieu, iew):
new “novo”, blew “soprou”,
hue “coloração”, true
/iw/ [viw] [viw] [vju:] /ju:/, /u:/
“verdadeiro”, use “usar”, lute
“alaúde”, suit “terno” (adieu
“adeus”, view “vista”)
ew (eu, eau):
dew “orvalho”, shrewd
/ɛw/ [fɛw] [fiw] [fju:] /ju:/, /u:/
“astuto” (neuter “neutro”,
beauty “beleza”)
au, aw:
/aw/ [kawz] [kɒ:z] [kɒ:z] /ɔ:/ cause “causa”, “causar”; law
“lei”, “direito”
ai, ay, ei, ey:
/aj/ [dɛj] [dɛ:] [de:] /eı/ nail “prego”, day “dia”, eight
“oito”, whey “soro de leite”
ou, ow:
/ɔw/ [lɔw] [lɔ:] [lo:] /ǝʊ/ soul “alma”, know “saber”,
“conhecer”
oi, oy:
/ɔı/ [dʒɔj] [dʒɔj] [dʒɔj]
noise “barulho”, royal “real”
/ɔj/ oi, oy:
/ʊj/ [bʊjl] [bʊjl] [bajl] boil “ferver”, destroy
“destruir”
Fonte: adaptado de Barber (1997, p. 112, 116).

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O inglês pré-moderno 187

A influência de /r/ sobre as vogais


Uma causa de muitas mudanças no sistema vocálico do inglês
pré-moderno era a consoante /r/. No inglês antigo e durante o pe-
ríodo medieval, é provável que esse fonema tenha sido realizado
por fones vibrantes (vibrante simples [ɾ], como o r intervocálico
em para em PB, ou depois de alguma outra consoante em início
de sílaba, como branco ou atrás, ou uma vibrante múltipla [r],
como r- ou –rr- em espanhol, ou em alguns variedades regionais
do PB). Naturalmente, na maioria das variedades inglesas, /r/ é [ɹ],
um aproximante alveolar – em que a lâmina da língua sobe em
direção à arcada alveolar, mas não chega a encostar nela.
Originalmente, o fonema /r/ era pronunciado em todas as po-
sições, antes e depois de vogais e consoantes em final e começo
de sílaba. Pelo final do século XVI e até o meio do século XVII,
contudo, as vogais /ı ɛ ʊ/ seguidas por /r/ sofreram uma mudança
fonética para [ǝ] quando o /r/ vinha antes de uma consoante ou em
final de palavra, ou seja, bird [bırd] “pássaro”, herb [ɛrb] “herva”,
curse [kʊrs] “maldizer” > [bǝrd], [ǝrb], [kǝrs]. Essa mudança pos-
sibilitou a presença de [ǝ] em sílabas tônicas e gerou contrastes
fonêmicos, por exemplo, com /ı/ e /ʊ/. O fonema rótico também
influenciou a duração dos reflexos pré-modernos das vogais me-
dievais /a/ e /ɔ/, de modo que yarn “fio” passou de /jærn/: [jaɾn]
para [ja:ɾn], e corn “trigo” foi de /kɒrn/: [kɒɾn] para [kɒ:ɾn]. Ne-
nhuma dessas mudanças fonéticas afetou as vogais que precediam
um /r/ intervocálico.
Várias palavras inglesas apresentam variantes em que os sons
descendentes de /ɛr/ e /ar/ medievais (/ɜː/ e /ɑ:/) trocam com fre-
quência durante o período pré-moderno, por exemplo, clerk “fun-
cionário”, “amanuense”, certain “certo”, herd “manada”. Em
geral, apenas uma variante sobrevive na língua moderna, mas, às
vezes, as duas continuam, normalmente com alguma diferença
de significado, por exemplo, person “pessoa” e parson “vicário”.
Em Shakespeare, há rimas entre palavras grafadas com a e com
e, por exemplo, departest “partes” / conuertest “convertes”, art
“és” / conuert “converte” etc. Em outros casos, a presença de /r/
seguindo uma vogal fez que ela não evoluísse como esperado. Por
exemplo, boat “barco” e boar “javali” compartilhavam a mesma
vogal [ɔ:] na Idade Média. No entanto, a vogal em boat sofreu
alçamento para [o:] e depois tornou um ditongo para [ǝʊ]; boar

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188 Gramática histórica da língua inglesa

ainda exibe a mesma vogal que a língua medieval [ɔ:]. A mesma


diferenciação ocorreu em meat “carne” e bear “urso”, em que a
primeira exibe [ɛ:] > [e:] > [ej], enquanto bear continua com a vo-
gal média-baixa. Hare “lebre” experimentou alçamento de [a:] >
[æ:] > [ɛ:], enquanto a vogal tônica em make “fazer” percorreu
toda a sequência histórica: [a:] > [æ:] > [ɛ:] > [e:] > [ej]. Essa
capacidade de /r/ pós-vocálico de, digamos, congelar certas mu-
danças, levou os fonemas medievais /ɛ:/, /a:/ e /ai/ a se fusionarem
em /ɛ:/ (ingl. mod., /ɛǝ/) criando uma série de homófonos, por
exemplo, pair “par”, pare “aparar” e pear “pera”. Como as grafias
revelam, as vogais medievais eram distintas, depois, /ai/: [ai] >
[æi] > [ɛi] > [ɛ:], /a/: [a:] > [æ:] > [ɛ:] e /ɛ:/ : [ɛ:], convergiram, não
progredindo para [ei] ou [i:], pela presença de /r/.

Quadro 3.4  Diversas influências de /r/ sobre a vogal que precede.

Fonema Inglês pré-moderno


Pronúncia RP Grafia moderna
medieval Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3
/ɛr/ [ɛɾb] [ǝɹb] [ǝɹb] /hɜ:b/ herb “erva”
/ır/ [bıɾd] [bǝɹd] [bǝɹd] /bɜ:d/ bird “pássaro”
/ʊr/ [kʊɾs] [kʊɹs] [kǝɹs] /kɜ:s/ curse “maldizer”
/ar/ [jaɾn] [jaɹn] [ja:ɹn] /jɑ:n/ yarn “fio”
/ɔr/ [kɔɾn] [kɒɹn] [kɒ:ɹn] /kɔ:n/ corn “trigo”
/i:r/ [fǝjɾ] [′fǝj.ǝɹ] [′faj.ǝɹ] /′fajǝ/ fire “fogo”
/e:r/ [pi:ɾ] [′pi:.ǝɹ] [′pi:.ǝɹ] /pıǝ/ peer “perscrutar”
/ɛ:r/ [bɛ:ɾ] [bɛ:ɹ] [bɛ:ɹ] /bɛǝ/ bear “urso”
/a:r/ [fæ:ɾ] [fɛ:ɹ] [fɛ:ɹ] /fɛǝ/ fare “passagem”, “alimento”
/ajr/ [pɛjɾ] [pɛ:ɹ] [pɛ:ɹ] /pɛǝ/ pair “par”
/ɔ:r/ [mɔ:ɾ] [mɔ:ɹ] [mɔ:ɹ] /mɔǝ/, /mɔ:/ more “mais”
/o:r/ [mu:ɾ] [mu:ɹ] [mu:ɹ], [mɔ:ɹ] /mʊǝ/, /mɔǝ/, /mɔ:/ moor “pântano”
/u:r/ [flǝʊɾ] [′flǝʊ.ǝɹ] [′flɑʊ.ǝɹ] /flɑʊ.ǝ/ flour “farinha”, flower “flor”
Fonte: adaptado de Barber (1997, p. 121).

Mudanças no sistema de consoantes


Diferente das vogais, o sistema de consoantes mudou pouco
ao longo do período pré-moderno. Barber (1997, p. 124) identifi-
ca os seguintes fonemas consonantais no repertório da língua no
começo do período:

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O inglês pré-moderno 189

Oclusivas:
Labial – /p/ /b/.
Alveolar – /t/ /d/.
Velar – /k/ /g/.
Africadas:
Alvéolo-palatal – /tʃ/ /dʒ/.
Fricativas:
Labiodental – /f/ /v/.
Interdental – /θ/ /ð/.
Alveolar – /s/ /z/.
Palatal – /s/.
Glotal – /h/.
Soantes:
Líquida – /l/ /r/.
Nasal – /m/ /n/.
Semivogal – /j/ /w/.
Ao repertório medieval, dois fonemas foram acrescentados du-
rante o período pré-moderno: um nasal velar, /ŋ/, e uma fricativa
palatal, /ʒ/.
O nasal velar surge a partir de um alofone nasal velar do fone-
ma /n/. Esse alofone aparecia sempre antes dos sons velares [k g],
por exemplo, sing “cantar” /sıng/: [sıŋg], thank /θænk/: [θæŋk]
“agradecer”. Por volta de 1600, o /g/ final desapareceu, fazendo
que [ŋ] e [n] entrassem em contraste em pares mínimos, por exem-
plo, sin “pecado” /sın/: [sın] versus sing /siŋ/: [sıŋ]; run “correr”
/rʊn/: [rʌn] versus rung “degrau de escada de mão” /rʊŋ/: [rʌŋ].
Essa mudança ocorreu precocemente nos dialetos medievais
orientais e na fala popular londrina, mas ainda hoje, no centro-
-oeste e centro da Inglaterra, é possível ouvir [sıŋg], [rʊŋg].
Outro acréscimo fonológico, /ʒ/, surgiu da assimilação (apro-
ximação articulatória) do grupo [zj] + vogal, no século XVII. Por
exemplo, vision “vista” era pronunciado [′vizjǝn] no século XVI.
Em meados do século XVII, a fricativa alveolar sonora e a se-
mivogal palatal coalesceram foneticamente, produzindo [ʒ], que
compartilha os traços articulatórios dos dois sons ancestrais, ge-
rando [′vıʒǝn]. Outros contextos, além de -sion, incluíam palavras

Book 1.indb 189 17/11/16 19:15


190 Gramática histórica da língua inglesa

com [ju:] como measure “medida” e pleasure “prazer”. O novo


som encaixava bem no repertório fonológico existente, porque
podia servir como par sonoro da fricativa palatal surda /ʃ/, que até
então estava sem correspondente sonoro, diferente da maioria das
consoantes da língua.
Outras alterações no quadro fonológico das consoantes envol-
viam perdas de fonemas total ou parcialmente em certas posições.
Um caso é o fonema /h/, que exibia três alofones: [h] em início
de sílaba, [ç] depois de vogais anteriores em final de palavra e
antes de /t/, e [x] depois de vogais posteriores em final de pa-
lavra e antes de /t/. As grafias de daughter “filha”, eight “oito”,
high “alto”, rough “áspero”, through “por” e thought “pensou”
indicam a antiga presença de /h/ não inicial com gh. Os diale-
tos orientais já tinham perdido [ç] e [x] em todas as posições; [h]
continuava em início de sílaba. Nos outros dialetos, entretanto,
os três alofones persistiam até o século XVI. Ou seja, eight era
[ɛjçt] e thought [θɔʊxt]. Até o século XVII, as variantes sem /h/
passaram a dominar. Nos dialetos orientais que perderam /h/ cedo,
uma das consequências da queda da fricativa glotal foi o alon-
gamento compensatório da vogal que precedia esse fonema, de
modo que [ʊx] e [ıç] > [u:] e [i:], respectivamente: drought “seca”
[drʊxt] > [dru:t] e light “luz” [lıxt] > [li:t]. Por serem longas, as
vogais passaram a ser articuladas como ditongos, de acordo com
as mudanças da grande mutação vocálica, produzindo as pronún-
cias modernas, [lajt] e [drawt]. Algumas palavras em inglês mo-
derno exibem /f/ escrito com gh, por exemplo, draught “corrente
de ar”, laugh “rir”. Essas pronúncias são originárias de outros
dialetos ingleses que penetraram a linguagem da capital antes de
aproximadamente 1625 (BARBER, 1997, p. 126).
O período pré-moderno viu a perda de vários grupos conso-
nantais em início de palavra, como /kn-/, /gn-/ > /n/, por exem-
plo, knight “cavalheiro” /najt/, gnat “pium” /næt/; /wr-/ > /r-/, por
exemplo, write “escrever” /rajt/; /hw-/ > /w/, tornado witch “bru-
xa” e which “qual” homófonos.
Outra mudança que afetou a língua foi a perda de /r/ antes de
consoantes ou em final de palavra, por exemplo, board “tábua”
[bɒɹd] > [bɒ:d], stair “escada” [stɛ:ɹ] > [stɛ:], art “arte” [ɑ:ɹt] >
[ɑ:t]. A queda de /r/ foi um fenômeno dos dialetos do centro-leste e
leste ao redor de Londres, no século XVIII. Com esta mudança, as
vogais que precediam o /r/ sofreram um processo de alongamento

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O inglês pré-moderno 191

compensatório – depois de perder algum fonema, outro fonema


adjacente altera sua alofonia para incluir um fone longo, de modo
a manter a mesma duração da palavra, apesar de ter perdido um
segmento. Por exemplo, board “tábua” /bɒrd/: [bɒɹd] > /bɒd/
[bɒd] > [bɒ:d]. Apesar de perder o /r/ pós-vocálico, a duração da
palavra não alterna, porque a vogal /ɒ/: [ɒ] é alongada para [ɒ:].

Morfossintaxe
Na área da gramática, várias mudanças ocorreram ao longo
do período pré-moderno. No entanto, em sua maioria, não consti-
tuem evoluções tão marcantes quanto os processos que atingiram
o sistema fonológico. Nesta seção apresentaremos algumas das
principais mudanças que ocorreram nos subsistemas morfológi-
co e sintático do inglês ao longo do período pré-moderno. Cabe
advertir, porém, que a separação desses dois conjuntos não é ab-
soluta; haverá vários momentos em que alterações em uma área
acarretarão modificações na outra.

Substantivos
Quanto aos substantivos, podemos dizer que na época pré-
-moderna o paradigma de três formas se instaurou definitiva-
mente. Sendo estas (1) uma forma básica, (2) o plural e (3) uma
forma possessiva. Na maioria dos casos, o plural básico e o pos-
sessivo são idênticos em termos da sua estrutura fonológica, por
exemplo, (1) girl “menina”, (2) girls “meninas”, e (3) girl’s ~
girls’ “da menina” ~ “das meninas”, ou seja, (1) /′gǝrl/, (2 e 3) /
gǝrls/ (observe: na grafia contemporânea, o uso convencional ou
não do apóstrofo para distinguir plural simples e singular e plu-
ral do possessivo não existia ainda. É importante também expli-
car como a organização morfológica é representada, já que não
corresponde às convenções para transcrever a fonética e a fono-
logia. Ao indicarmos a morfologia, transcrevemos {girl-}+{-Ø},
{girl}+{-s}, em que o fonema /-s/ é ambíguo, porque pode re-
presentar ou o morfema do plural, ou o morfema do possessivo.
Apenas alguns substantivos são livres dessa ambiguidade, como
woman (base sing.) – woman’s (poss. sing.) – women (base pl.) –
women’s (poss. pl.).

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192 Gramática histórica da língua inglesa

Fique atento
Como identificar morfemas
Uma transcrição morfológica costuma aparecer entre chaves, por exemplo,
{3a sing., masc.} e os diferentes morfemas (unidades mínimas de significado)
são separados pelo caractere <+>, com hífens expressando os pontos de
contato, por exemplo, {am-}+{-e-}+{-mos} = amemos, {menin-}+{-a-}+{-s} =
meninas. Os morfemas são as unidades linguísticas às quais podemos atribuir
um mesmo significado, por exemplo, {-mos} em um verbo expressa sempre
“primeira pessoa do plural” (nós ...-mos); o {-s} de meninas expressa “plural”. Po-
demos afirmar isso porque, ao aplicarmos um teste de comutação, como no
caso da detecção de fonemas a partir dos alomorfes, se trocarmos uma forma
por outra, enquanto mantemos o restante idêntico, o significado mudará de ma-
neira sistemática. Por exemplo, substituir {am-} por {danç-} muda o tipo de ação
de “amar” para “dançar”; ao trocar {-s} por {-mos} ou {-m}, mudamos de pessoa
(“2a p. sing.”, “1a p. pl.”, “3a p. pl.”, respectivamente). Se alteramos a vogal temática
em am+{-e-}+mos para am+{-a-}+mos, afetamos o modo do verbo, que pas-
sa de subjuntivo (= “vamos amar”, “eles querem que amemos”) para indicativo
(= “amamos”), isto é, de algo desejado, porém, apenas potencial, irreal, para
um significado de afirmação, de concretude. Se trocarmos {-s} por {-ste}, re-
conhecemos uma mudança no tempo do verbo, de presente para passado
(amas versus amaste) – embora veja a continuação sobre o que realmente
está indicando o passado. Às vezes, algumas formas do morfema variam sob
determinadas circunstâncias, como os fonemas são manifestados por diferen-
tes alofones em diferentes ambientes. Em tais casos, falamos que o morfema
apresenta alomorfes (variantes contextuais), por exemplo, no pretérito per-
feito, o paradigma é amei – amaste – amou – amamos – amastes – amaram.
A vogal temática, aquela que marca qual é a classe de conjugação do verbo
(amar tem /a/, porque é da primeira conjugação), é a vogal /a/ na maioria das
pessoas: amaste, amamos, amastes, amaram. Na primeira e terceira pessoas
do singular (amei e amou), porém, deparamos com /e/ e /o/, que correspon-
dem ao /a/ nas demais pessoas (os morfemas marcadores de pessoa são {-i}
e {-u}, respectivamente). Consequentemente, dizemos que o morfema que
indica que um verbo pertence à primeira classe conjugativa {-1a conjug.-} exi-
be três alomorfes: /-a-/ como padrão, /-e-/ antes de /i/, e /-o-/ antes de /u/. Se
trocarmos /a/ por /e/, podemos mudar do modo indicativo para o subjuntivo.
Para identificar morfemas, dependemos de contrates de forma e significado.
Portanto, é preciso observar que, em alguns paradigmas, existem correspon-
dências entre morfemas patentes (que têm uma forma fonológica) e outros
que são latentes (não têm forma fonológica). Isto é, existe um tipo de morfema
que é “invisível”, que ocorre quando encontramos uma alternância significante

Book 1.indb 192 17/11/16 19:15


O inglês pré-moderno 193

entre algo e nada. Como essa ausência de fonemas transmite algum signifi-
cado, trata-se de um morfema, o morfema zero. Por exemplo, no paradigma
do tempo presente, temos:
Amo – amas – ama – amamos – amais – amam.
Bebo – bebes – bebe – bebemos – bebeis – bebem.
Durmo – dormes – dorme – dormimos – dormis – dormem.
Em todas as conjugações podemos perceber diversos morfemas de pessoa:
-o, -s, -mos, -is, -m; há várias vogais temáticas: -a-, -e-, -i- (embora na segunda
e na terceira conjugação, observamos alomorfia de /e/ em tu, ele, eles e /i/
para nós, eles), e podemos notar as raízes lexicais {am-}, {beb-}, {dorm-} (ob-
serve: /durm-/ na primeira pessoa é outro alomorfe, nessa ocasião na raiz).
Contudo, consta que na terceira pessoa (ama, bebe, dorme) não existe ne-
nhuma forma explícita para exibir essa pessoa. As vogais /a/, /e/, /e/ são as
manifestações da vogal temática. No entanto, essa ausência é significante:
ela indica que o verbo está na terceira pessoa do tempo presente. É esse
vazio que ainda consegue assinalar algo que os linguistas denominam como
morfema zero, representado por {Ø}. Consequentemente, quando escreve-
mos a estrutura morfológica de uma forma como come, é preciso listar o
morfema zero, ou seja, come é {com-}+{-e-}+{-Ø}. Estritamente, é necessário
adicionar ainda outro morfema zero a come, como também é preciso para
bebo e outras formas do tempo presente, porque nessas formas verbais não
há indicação explícita de tempo.
Vejamos com um verbo no tempo pretérito imperfeito – caminhávamos –,
aqui podemos desmembrar os morfemas em: {caminh-}+{-a-}+{-va-}+{-mos}
(raiz + vogal temática + tempo [pret. imp.]. + pessoa [1a pl.]). Se comparamos
a estrutura com caminhamos, fica evidente que não há nenhum marcador
explícito de tempo para o presente:
Raiz V.T. Temp. Núm. + pess.
{caminh-}+{-á-}+{-va-}+{-mos} = 1a pl. pret. imp. do indic. (1a conjug.)
{caminh-}+{-a-}+{-Ø-}+{-mos} = 1a pl. pres. do indic. (1a conjug.)
{caminh-}+{-e-}+{-Ø-}+{-mos} = 1a pl. pres. do subj. (1a conjug.)
{caminh-}+{-Ø-}+{-Ø-}+{-o} = 1a sing. pres. do indic. (1a conjug.)
{caminh-}+{-e-}+{-Ø-}+{-i} = 1a sing. pret. perf. do indic. (1a conjug.)
{caminh-}+{-a-}+{-sse-}+{-m} = 3a pl., imperf. do subj. (1a conjug.)
{caminh-}+{-a-}+{-Ø-}+{-Ø} = 3a sing. pres. do indic. (1a conjug.)
{beb-} +{-e-}+{-sse-} + {mos} = 1a pl., imp. do subj. (2a conjug.)

A esmagadora maioria dos substantivos formava o morfe-


ma do plural com /-es/, escrito -es ou –s, por exemplo, boy(e)s
“meninos”, cats ~ cattes “gatos”, dogs ~ dogges “cachorros”.

Book 1.indb 193 17/11/16 19:15


194 Gramática histórica da língua inglesa

Inicialmente, esse morfema do plural exibia um alomorfe: /-ǝs/.


Barber (1997, p. 144) explica que, por volta de 1300, o /ǝ/ foi
elidido, especialmente em palavras com três sílabas ou mais, por
exemplo, hunteres “caçadores” /′hʊntǝrǝs/ > /′hʊntǝrs/, mas kin-
ges /′kıngǝs/ “reis” > /′kıngǝs/ ‒ ou seja, surgiu um novo alomorfe
do plural, /-s/. Ao longo do século XIV, contudo, o alomorfe /-ǝs/
foi transformado em /-ǝz/ por uma mudança que vozeou todas as
fricativas surdas em final de palavra. Desse modo, quando o shwa
foi elidido no século XV, surgiram dois modos de formar o plural,
um com /-z/ (< /-ǝz/ < /-ǝs/) e um com /-s/ (< /-ǝs/), por exemplo,
hunters /′hʊntǝr/+/-s/, mas kings /′kıng/+/-z/ (o <+> marca a di-
visão entre os morfemas). No século XVI, o sistema morfológico
foi reorganizado de modo que /-s/ aparecia depois de consoantes
surdas, por exemplo, cattes, cats /kæts/, e /-z/ era usado depois de
consoantes sonoras, por exemplo, dogges, dogs /dɒgz/. Quando
uma palavra terminava em /s z ʃ ʒ tʃ dʒ/, a vogal /ǝ/ ~ /ı/ ficou, para
facilitar a articulação, por exemplo, lasses “meninas” /′læsǝz/,
mazes “labirinto” /′mɛ:zǝz/, bushes “arbustos” /′bʊʃǝz/, watches
“vigia” /′watʃǝz/, judges “juízes”, “julga” /′dʒʊdʒǝz/ (são comuns
grafias com i ou y em tais palavras, por exemplo, horsis ~ horsys
/′hɔrsız/ (ingl. mod. horses, em que /-ız/ e /-ǝz/ ocorrem, depen-
dendo da variedade regional do falante), o que revela que /-ız/ era
frequente (BARBER, 1997, p. 144).

Exemplos
Algumas palavras em inglês que hoje são singulares, por exemplo, dice “dado” e
bodice “corpete”, eram originalmente formas plurais das palavras die “dado” e body
“corpo” e, por extensão, “parte de cima de um vestido”. A expressão inteira era
a pair of bodies “dois corpos”, ou seja, a parte da frente e de trás do corpete.
Como os dados e as partes do corpete geralmente ocorrem, pelo menos,
em pares, com o tempo, os falantes perderam o sentido de que se tratava
de plurais e, por conseguinte, passaram a usar bodice /′bɒdıs/ como singu-
lar e /′dǝjs/ como indistinto por número (one dice, two dice, three dice “um
dardo”, “dois dardos”, “três dardos”), de modo que não sofressem as mesmas
mudanças fônicas que os demais plurais. Reparem como a última fricativa
ainda é surda (/s/). Bodice até ganhou um novo plural regular com /-ız/:
bodices /′bɒdısız/. O plural de “body” é “bodies” /bɒdiz/, com /z/.
Outras palavras cuja história é interessante são pea “ervilha”, cherry “cere-
ja” e sherry “xerez”. As formas antigas eram pease /pi:s/, cherrise /tʃɛriz/ (um

Book 1.indb 194 17/11/16 19:15


O inglês pré-moderno 195

empréstimo do francês, cerise) e sherris (empréstimo do espanhol xerez, ou


seja, vinho fortificado da cidade espanhola de Jerez de la Frontera). Quan-
do o sistema de marcar o plural se estabilizou, essas palavras soavam como
se fossem plurais, porque terminavam em /-ız/. Portanto, os falantes criaram
novos singulares, “tirando” o que eles acreditavam ser o morfema do plural, e
produzindo pea /pi:/, cherry /tʃɛrı/ e sherry /ʃɛrı/!

Outra classe de plurais em inglês envolve um morfema zero,


por exemplo, one sheep “uma ovelha”, two sheep “duas ovelhas”,
three deer “três cervos” (observe: um pirex, dois pirex ou cinco
alferes, nove ourives, doze ônibus, em português). Na Idade Mé-
dia e no período pré-moderno, existiam mais substantivos des-
se tipo, por exemplo, winter “inverno(s)”, lamb “cordeiro(s)”,
year “ano(s)”, horse “cavalo(s)”. Por outro lado, várias palavras
que hoje são do tipo zero eram plurais normais antigamente, por
exemplo, pike : pikes “lúcio” > pike : pike, salmon : salmons “sal-
mão” > salmon : salmon, trout : trouts “truta” > trout : trout.
Além do possessivo com {-es}, era mais comum uma estraté-
gia que indicava a relação possessiva por simples justaposição, por
exemplo, Friar Lawrence cell “a cela do Frade Lourenço” (em Ro-
meu e Julieta, Ato 2, cena 5), versus my poore Fathers body “o corpo
do meu pobre pai” (em Hamlet, Ato 1, cena 2). Ainda outra forma de
indicar o possessivo era com o adjetivo possessivo his (e raramen-
te her, com mulheres), por exemplo, a sea-fight ‘gainst the Count
his gallies “Uma batalha marinha contra as galeias do Conde” (em
Twelfth Night, Ato 3, cena 3), Lucilla her company “a companhia
da Lucília” (em Euphues: The Anatomy of Wit de John Lyly), como
nos mostra Barber (1997, p. 146). Essas formas his /ız/ e her /ǝr/
são antiquíssimas, tendo origens nos pronomes do inglês antigo. A
forma his, portanto, quando átona, soava como o sufixo /-ǝz/ ~ /-ız/
do possessivo. Esse provavelmente seja o motivo para as grafias Mrs
Sands his maid para “a criada da senhora Sands”, quando Mrs Sands
é uma mulher e o possessivo para o feminino é “her” (OXFORD
ENGLISH DICTIONARY, 1607 apud BARBER, 1997, p. 146), ou
seja, equivalente a Mrs Sands’s maid na ortografia moderna.

Adjetivos
Até o final do século XV, todas as flexões de caso tinham sido
eliminadas dos adjetivos. No uso, a principal diferença entre o

Book 1.indb 195 17/11/16 19:15


196 Gramática histórica da língua inglesa

uso pré-moderno e o atual de adjetivos envolve a expressão dos


graus de comparação: feliz [grau neutro] – mais/menos feliz [grau
comparativo de superioridade/inferioridade] – o mais/menos feliz
[grau superlativo de superioridade/inferioridade]. Em inglês mo-
derno, a formação dos graus com -er (comparativo) e -est (super-
lativo) tende a ser em palavras de até duas sílabas, ou more ...,
most ... geralmente em palavras de três sílabas ou mais. Por exem-
plo, happy > happier > happiest (“feliz”, “mais feliz”, “o mais
feliz”), long > longer > longest (“comprido”, “mais comprido”,
“o mais comprido”), tall > taller > tallest (“alto”, “mais alto”,
“o mais alto”), versus massive > more massive > most massive
(“massivo”, “mais massivo”, “o mais massivo”), uncomfortable >
more uncomfortable > most uncomfortable (“incômodo”, “mais
incômodo”, “o mais incômodo”).
Na linguagem pré-moderna, essas duas alternativas estavam
praticamente em distribuição livre, e muitas vezes é possível en-
contrar as duas técnicas aplicadas simultaneamente, por exemplo,
This was the most unkindest cut of all “Esse foi o corte mais cruel
de todos” (Shakespeare, Julius Caesar, Ato 3, Cena 2). John Lyly
escreve delicatest “o mais delicado” (ingl. mod., most delicate), e
o famoso escritor de panfletos elisabetano, Thomas Nash, escre-
veu magnificentest “o mais magnífico” (ingl. mod., most magni-
ficent). Por outro lado, os Ben Jonson e Shakespeare escreveram
fitter e more fit (“mais conveniente), sweeter e more sweet (“mais
doce”), enquanto a língua moderna prefere sempre a primeira va-
riante do par.

Sistema pronominal
Talvez a mudança mais marcante no sistema pronominal seja
a perda da distinção entre o singular e plural na segunda pessoa:
thou – thee – thine – thy e ye – you – yours – your. Os motivos
para a substituição de ye por you não são claros, mas Barber (1997,
p. 148) propõe que um fator relevante na extensão do acusativo
seja a semelhança sonora com thou no singular: /θow/ e /jow/,
respectivamente. As primeiras evidências da troca datam do sécu-
lo XIV, mas a generalização de you ocorreu depois de 1540. Sir
Thomas Elyot (b. circa 1490) e a tradução do Novo Testamento
de William Tynedale distinguem ye e you como antigamente, mas
Roger Ascham (b. 1515) mistura as duas formas no nominativo,

Book 1.indb 196 17/11/16 19:15


O inglês pré-moderno 197

com you predominante no acusativo, um uso comum no último


terço do século XVI. Até os tempos de Shakespeare (1564-1616),
you estava estabelecido para o sujeito, com ye como uma variante
menos comum. Nesse mesmo período, ye começa a surgir para o
acusativo também, revelando a perda de distinção entre os dois
casos nos pronomes da segunda pessoa do plural, que é comple-
tada no século XVII, e a eliminação de ye em qualquer função é
concluída até o fim desse século (BARBER, 1997, p. 149).

Quadro 3.5  Mudanças no sistema pronominal durante o período pré-moderno.

Os pronomes pessoais e os adjetivos possessivos, c. 1500.

Número Singular Plural


Caso
Pessoa 1 a
2 a
3 m.
a
3 f.
a
3 n.
a
1 a
2a 3a (m.f.n.)
Nom. I thou he she hit, it we ye they
Acus. me thee him her hit, it, him us you them, hem
Poss. mine thine his hers his ours yours theirs
Dat. my, mine thy, thine his her his our your their

Os pronomes pessoais e os adjetivos possessivos, c. 1600.

Número Singular Plural


Caso
Pessoa 1 a
2a
3 m.
a
3 f.
a
3 n. a
1a
2a 3a (m.f.n.)
Nom. I thou he, ’a she it, ’t we you (ye) they
Acus. me thee him her it, ’t us you (ye) them, ’em
Poss. mine thine his hers his ours yours theirs
Dat. my (mine) thy (thine) his her his, it our your their

Os pronomes pessoais e os adjetivos possessivos, c. 1700.

Número Singular Plural


Caso
Pessoa 1 a
2 a
3 m.
a
3 f.
a
3 n. a
1 a
2a 3a (m.f.n.)
Nom. I you he she it we you they
Acus. me you him her it us you them, ’em
Poss. mine yours his hers its ours yours theirs
Dat. my your his her its our your their

Fonte: adaptado de Barber (1997, p. 148, 152, 157).

Book 1.indb 197 17/11/16 19:15


198 Gramática histórica da língua inglesa

Por motivos de espaço, o Quadro 3.5 exibe apenas algumas va-


riantes gráficas para os pronomes (as mais modernas). A segunda
pessoa do singular era escrita thow, the, thyn(e) com frequência.
Nos demais pronomes, podemos indicar o surgimento de it e
its para o neutro, substituindo hit e his, que encontramos na Bíblia
de King James na frase (Mateus 5:13): [...] if the salt haue lost his
sauour, wherewith shall it be salted? “[...] e se o sal está insípido,
com que se há de salgar?”.
Observe também as formas alternativas da terceira pessoa do
singular do masculino e do plural (’a e ’em), ainda comuns na
linguagem não padrão, especialmente ’em. No caso de ’em, é pro-
vável que seja uma relíquia dos pronomes anglo-saxônicos para o
caso acusativo da terceira pessoa do plural hem, que foi substituí-
do pelo empréstimo escandinavo them (veja Unidade 2).
Ao longo do século 1700, o pronome ancestral para a segunda
pessoa do singular era substituído pelo pronome da segunda pes-
soa do plural. Isso eliminou a distinção entre thou, como o pro-
nome de intimidade, e ye/you como o pronome honorífico (como
você versus o senhor, a senhora) que existia antes, provavelmente
sob a influência do francês tu e vous. Ye/you era a forma usada por
inferiores sociais a pessoas hierarquicamente superiores (o criado
ao patrão, os filhos aos pais, plebeus a nobres, ao rei). Inversa-
mente, o superior social usava thou para se dirigir a seus inferiores
sociais. As camadas sociais mais baixas tendiam a usar thou entre
si, enquanto as classes mais altas se referiam como ye/you como a
forma neutra, porém, respeitosa. Se eles queriam expressar intimi-
dade, por exemplo, entre um casal ou amigos próximos, podiam
dizer thou. O uso de thou para alguém da mesma classe ou para
um superior podia constituir um insulto. Por exemplo, em Twelfth
Night de Shakespeare (Ato 3, cena 2), quando Sir Andrew Ague-
cheek está preparando uma carta para desafiar seu rival, Sir Toby
Belch lhe diz: [...] if thou thou’st him some thrice, it shall not be
amiss, “[...] se tu o tuteares umas três vezes, não será inoportuno”.
Até 1600, you tornara-se a forma usual para qualquer inter-
locutor com um mínimo de pretensão à cortesia. Thou implica-
va relações sociais ou emocionais especiais, como as reações
das pessoas das classes superiores ao costume dos igualitários
quakers de se dirigir a todos com thou (BARBER, 1997, p. 154-
-157; CRYSTAL, 1995, p. 71).

Book 1.indb 198 17/11/16 19:15


O inglês pré-moderno 199

Ao longo do período, o sistema ternário tradicional de prono-


mes/adjetivos demonstrativos this/these – that/ those – yon(der)
(“este” / “estes” – “esse”/ “esses” – “aquele”/ “aqueles” [visíveis])
perde o terceiro membro para gerar o sistema binário atual de this/
these versus that/those. Yon era o membro fraco desse grupo, por-
que o contexto de uso era mais restrito, pois era utilizado apenas
para apontar algo distante do falante e do ouvinte, porém visível,
uma função que foi tomada por that/those.

Sistema verbal
Ao longo do período pré-moderno, o sistema verbal da língua
inglesa passou por várias mudanças que o aproximaram do sis-
tema moderno. Houve uma redução de algumas formas, princi-
palmente da segunda pessoa do singular, devida à eliminação do
pronome thou por you. Também ocorreram mudanças em termos
das classes conjugativas, às quais certos verbos pertenciam. Além
disso, surgiu um remodelamento do sistema verbal em que o anti-
go modo subjuntivo foi gradualmente substituído por construções
perifrásticas com os verbos modais.

Quadro 3.6  O sistema verbal por volta de 1500.

“carregar” “da” “andar” “cortar” “encontrar” “ter”


1. Base beare giue walk cutte meete haue
2. 2 p. sing. (thou)
a
bear(e)st giu(e)st walk(e)st cutt(e)st meet(e)st hast
3. 3a p. sing. beareth giueth walketh cutteth meeteth hath
4. + aux. = progressivo. bearing giuing walking cutting meeting hauing
5. passado/irreal bare gaue walked cutte mette hadde
6. passado + 2a p. sing. bar(e)st gau(e)st walkedst cutt(e)st mett(e)st hadst
7. particípio + aux. =
borne giuen walked cutte mette hadde
pret. perf.; voz passiva
Fonte: adaptado de Barber (1997, p. 165).

Das sete formas verbais exibidas no Quadro 3.6, quatro (2, 3,


5 e 6) sempre são finitas – ou seja, sempre levam marcadores de
tempo, modo, número e pessoa –, e duas (6 e 7) são não finitas –
sem os marcadores de tempo etc. A forma básica pode ser finita, por
exemplo, they beare “eles carregam”, ou não finita, por exemplo,

Book 1.indb 199 17/11/16 19:15


200 Gramática histórica da língua inglesa

to beare “carregar”. Os números 5 e 6 indicam tempo passado. Ob-


servem que 1, 5 e 7 são idênticos em cutte “cortar” (ingl. mod.,
cut), e em quatro dos sete verbos citados, as formas 5 e 7 são iguais
(walk, cutte, meet, haue). O único verbo na língua desta fase pré-
-moderna que não segue esse padrão de, essencialmente, sete for-
mas verbais básicas é o verbo to be “ser”, que exibe mais formas
em seu paradigma:
1. base: be.
2. 1a p. sing. presente: am.
3. 3a p. sing.: is.
4. gerúndio: being.
5. 1a, 3a p. sing. passado: was.
6. 1a, 2a, 3a pl. passado: were.
7. particípio: been.
8. 1a, 2a, 3a pl. presente: are (arne).
9. 2a p. sing. presente: art ~ beest.
10. 2a p. sing. passado: wast ~ wert.

-es e -eth na terceira pessoa do singular


A substituição de thou por you gradualmente eliminou a de-
sinência da segunda pessoa do singular em -(e)st e as formas al-
ternativas de to be. A flexão -eth da terceira pessoa do singular
concorria com outra variante morfológica, chegada do norte, com
três alomorfes: /-s/ (depois de consoantes surdas), /-z/ (depois de
consoantes sonoras) e /-ǝz/ ~ /-ız/ (depois de fricativas e africadas).
A grafia -eth foi incluída na seminorma escrita da chancelaria, pois
a variante setentrional não chegara ainda no sul no final da Idade
Média. No entanto, {-ǝs} continuava a crescer durante todo o rei-
nado da dinastia dos Tudor, até aparecer na mesma frequência que
{-ǝθ} nos textos do final do século XVI (BARBER, 1997, p. 166),
embora o uso oral certamente fosse mais frequente ainda que no
meio conservador da escrita. Sabemos, por exemplo, que em 1500
{-ǝs} já era comum na fala popular de Londres (BARBER, 1997,
p. 167) e, por 1600, comentários contemporâneos que permitem
entrever que, embora ainda se escrevesse -eth, a pronúncia mais
frequente era /-es/. Gradualmente, {-ǝs} substituía {-ǝθ} ao lon-
go do século XVII, resistindo mais tempo nos verbos auxiliares,
como doth “faz”, hath “tem”, e entre os outros mais frequentes,
por exemplo, saith “diz”.

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O inglês pré-moderno 201

Um plural em -es
Um fenômeno no paradigma verbal que surgiu no período pré-
-moderno, entretanto não perdurou para a língua padrão moderna,
foi o uso de {-ǝs} como indicador de plural. Por exemplo, em The
Tempest (Ato 3, cena 3), o velho conselheiro Gonzalo diz: By’r
lakin, I can goe no further, Sir, / My old bones akes, ... (“Por nossa
Senhorinha, não consigo andar mais, Senhor, / Meus velhos ossos
doem”). Repare que o verbo está no plural (“doem”), mas a forma
verbal termina em -es. Historicamente, a desinência do plural com
{-ǝs} é da região setentrional, mas ocorre com certa frequência
durante o século XVI, como evidenciam esses outros exemplos
em outras obras de Shakespeare:

These high wilde hilles, and rough vneeuen waies,


Drawes out our miles, and makes them wearisome.1
Richard II (Act 2, Scene 3).
Untimely stormes, makes men expect a Dearth2
Richard III (Act 2, Scene 3).
The great man downe, you mark his favourites flies,
The poore aduanc’d, makes Friends of Enemies.3
Hamlet (Act 3, Scene 2).

É interessante notar que o primeiro exemplo é uma fala de


um personagem do norte: o duque de Northumberland. O uso
não é restrito a Shakespeare, e os personagens que empregam o
morfema não são das classes populares, indicando que, embora
minoritária, a forma gozava de certo prestígio. Depois, porém,
na primeira metade do século XVII, o plural em {-ǝs} desa-
parece rapidamente. Não há ocorrências nas obras dos poetas
John Milton e John Dryden, por exemplo, que escreviam na
segunda metade do século XVII, mas ainda aparece em diálo-
gos, com personagens que falam dialetos rústicos ou em falas
vulgares. O morfema sobrevive até hoje em variedades regio-
nais não padrão.

1 “Esses morros altos e desertos e os caminhos irregulares e duros, / Prolongam


nossa viagem e tornam-na cansativa.”
2 “Tempestades fora de estação levam os homens a temer escassez.”
3 “O grande homem caído, repare como seus favorecidos fogem, / O pobre
levantado, faz amizades com inimigos.”

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202 Gramática histórica da língua inglesa

Verbos fracos e verbos fortes


Outra área do sistema verbal em que houve mudanças é nas
classes dos verbos fracos e fortes. Já existia uma tendência para
verbos fortes (os que modificam a vogal da raiz para indicar di-
ferenças de tempo e função, por exemplo, run – ran – run, sing –
sang – sung etc.) se converterem em verbos fracos. Por exemplo,
no inglês antigo, os verbos brew “infusar”, “fermentar”, fare “pas-
sar bem/mal”, fold “dobrar”, help “ajudar”, melt “derreter”, seethe
“ferver”, starve “morrer” (depois, “morrer de fome”), suck “chu-
par” e sup “sorver” eram fortes. Até a época pré-moderna, esses
verbos tinham passado a integrar a classe dos verbos fracos. Por
outro lado, alguns poucos verbos fracos foram realocados entre os
paradigmas fortes no século XVI, por exemplo, dig “cavar” (dig :
digged > dig : dug), spit “cuspir” (spit : spitted > spit : spat),
stick “espetar” (stick : sticked > stick : stuck). No período pré-
-moderno, verbos que eram fortes em inglês antigo atualmente
são fracos, e tendiam a exibir várias formas, por exemplo, climb
“escalar”: climbed ~ clomb ~ clamb, delve “cavoucar”: delved ~
dolve, help “ajudar”: helped ~ holp, melt “derreter”: melted ~ mol-
te, swell “encher”: swelled ~ swole (a primeira forma do pretérito
que existe na língua moderna). Ainda outros verbos, fortes em in-
glês antigo e moderno, vacilavam entre as duas classes na era pré-
-moderna, por exemplo, shake “sacudir”: shook ~ shaked, cling
“agarrar”: clung ~ clinged, drive “conduzir”, “dirigir”: drove ~
drave ~ drived, grind “moer”: ground ~ groond ~ grinded, shine
“brilhar”: shone ~ shoon ~ shined, run “correr”: ran ~ run ~ ron ~
runned.
Os particípios também variavam entre formas fortes e fracas,
por exemplo, help: holp ~ holpen (forte) versus helped ~ holped
(fraco) para “ajudado”.

O modo subjuntivo
No inglês pré-moderno, o indício de que um verbo está no
modo subjuntivo e não no indicativo é quando a segunda ou tercei-
ra pessoa do singular não está flexionada, e encontramos apenas a
forma-base. Exemplificamos o fenômeno do Novo Testamento de
William Tynedale, publicado em 1525:

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O inglês pré-moderno 203

Agre with thyne adversary quicklie / whyls thou art in the waye with
hym / lest that adversary deliver the to the iudge / and the iudge de-
livre the to the minister / and then thou be cast into preson. I say vnto
the verily: thou shalt not come out thence till thou have payed the
vtmost farthinge.4
Repare que as palavras grifadas no trecho não são delivereth/
delivers (“entrega”), thou art (“és”), thou hast (“tens”). Tal como
em português, no inglês antigo e medieval, o modo subjuntivo
servia para expressar noções em que havia elementos de desejo,
dúvida ou hipótese, necessidade, ordem ou vontade, por exemplo,
“você vai” (indic.) versus “quero que você vá” (subj.), “ela está
em casa” (indic.) versus “talvez ela esteja em casa”, “você vem”
(indic.) versus “é preciso que você venha”, “você come” (indic.)
versus “peço que você coma” (subj.). Na língua moderna, o modo
subjuntivo praticamente desapareceu. Apenas algumas frases fei-
tas arcaicas mantêm traços dele, por exemplo, if need be “se for
preciso”, if I were you “se eu fosse você”. É muito comum, hoje,
ouvir pessoas dizerem if I was you (lit., “se eu era você”).
As relíquias do subjuntivo sobrevivem em formas do verbo to
be “ser”. O motivo dessa permanência é, em parte, porque esse
verbo apresentava mais formas subjuntivas do que os demais ver-
bos, por exemplo:
Pres. indic. I am, thou art, he/she/it is, we, you ~ ye, they are.
Pres. subj. I be, thou beest, he/she/it be, we/ye ~ you/they be.
Pret. indic. I was, thou wast ~ wert, he/she/it was, we, you ~
ye, they were.
Pret. subj. I were, thou were ~ wast ~ wert, he/she/it were, we,
you ~ ye, they were.
Como em português, em inglês medieval e pré-moderno o
subjuntivo podia expressar desejos, quando aparecia em orações
principais, por exemplo:

4 “Pactua com teu adversário depressa / enquanto tu ainda estás de boa com
ele / com receio de que esse adversário te entregue ao juiz / e que o juiz te
entregue ao pastor / e então tu serás atirado na prisão. Em verdade, digo-te: tu
não sairás dali até que tiveres pago a última moedinha.”

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204 Gramática histórica da língua inglesa

Though not by Warre, by Surfeit dye your King,


As ours by Murther, to make him a King.
Edward thy Sonne, that now is Prince of Wales,
Dye in his youth, by like vntimely violence.
Thy selfe a Queene, for me that was a Queene,
Out-liue thy glory, like my wretched selfe.5
Richard III (Act 1, Scene 3)
Tal como em português, os desejos na maldição da rainha
Margarete são expressos mediante o subjuntivo, hoje substituído
pelo uso do verbo modal may (BARBER, 1997, p. 171-172).

Os verbos auxiliares modais


Embora ainda no futuro, já que no inglês pré-moderno o modo
subjuntivo estava vigoroso, o grande beneficiário gramatical da
diminuição do uso do modo subjuntivo no verbo será uma classe
de verbos auxiliares que cresceu bastante durante o período pré-
-moderno, os modais.
No final da fase medieval, existiam doze verbos auxiliares mo-
dais: can e couth, dare e durst, may e might, mote e must, shall
e should, will e would. Esses auxiliares diferem dos verbos au-
xiliares “primários”, be, do e have, cuja função era mais ligada
a distinções gramaticais de tempo, voz e modo. Em 1500, couth
/ku:ð/ já era arcaico; a pronúncia típica era /ku:d/ coud. A grafia
could surge na primeira metade do século XVI (BARBER, 1997,
p. 177), por analogia com a grafia de would e should. O l nunca
existiu na pronúncia! Will /wıl/ concorria com as variantes wull
/wʊl/ e woll /wɒl/. Will e would já apresentavam as formas reduzi-
das /l/ e /d/, que aparecem quando a palavra é átona.
Um fator que separava os auxiliares modais dos demais ver-
bos era a ausência de to quando esses verbos aparecem com outro
verbo lexical, por exemplo, I ought crave pardon “eu devo supli-
car perdão” (BARBER, 1997, p. 177). Outro fator era a falta do
morfema flexional{-eth} ou {-es} na terceira pessoa do singular,
por exemplo, he can, she will, e não he cans, she wills (quando

5 “Embora não por Guerra, [que] de Excesso morra seu Rei, / Como o nosso por
Assassinato, para tornar Rei a esse. / [Que] Eduardo, seu filho, que é Príncipe de
Gales agora, / Como Eduardo, nosso filho, que era Príncipe de Gales, / Morra
ainda jovem, por violência igualmente inoportuna. / [Que] tu mesma uma Rai-
nha, como eu que era Rainha, / Sobreviva tua glória, como eu mesma, desditosa.”

Book 1.indb 204 17/11/16 19:15


O inglês pré-moderno 205

essa última forma ocorre, é do verbo lexical will “determinar”,


“desejar”, e não do auxiliar). Os modais não têm infinitivo, nem
gerúndio. A segunda pessoa do singular flexionava-se com {-(ǝ)
st}, por exemplo, canst, coud(e)st, may(e)st etc., com a exceção
de must e durst, que já terminavam em /-st/. Shall e will também
exibiam formas ligeiramente variadas: thou shalt e thou wilt.
Originalmente, os doze verbos formavam pares distinguidos
por tempo (presente vs. passado), por exemplo, can – coud, will –
would, dare – durst, shall – should etc. Essa simetria acabou quan-
do mote desapareceu, deixando must sem par. A perda de mote
provavelmente ocorreu porque seu significado de “possibilida-
de” ou “permissão” era duplicado por may. No século XVI, need
“precisar” ganhou função modal (como precisar em português).
Ought, originalmente o passado de to owe “dever” (mais um pa-
ralelo entre os sistemas em inglês e português), desenvolveu fun-
ções modais também com o sentido de “devia”, no século XVI.
Portanto, nessa altura do período pré-moderno, existiam dez auxi-
liares modais em cinco pares e três individuais: can – could, dare –
durst, may – might, shall – should, will – would, must, need, ought.

Sintaxe
Na área da sintaxe, os auxiliares modais também participavam
em algumas mudanças na ordem de palavras ou de construções,
mas a principal mudança foi o crescente uso de do “fazer” como
verbo auxiliar em perguntas e afirmações. Por exemplo, em in-
glês moderno, o uso de do está estritamente regulado: é possível
dizer he does know e he did know (“ele sabe”, “ele sabia”), mas
não pode aparecer quando há outro auxiliar modal, ou seja, he
does may see ou she does have sung não são possíveis. Na língua
moderna, quando não há outro auxiliar, é preciso incluir do em
negações (I do not know them “Eu não os conheço”) e em quase
todas as perguntas (Do you know him? “Você o conhece?”). Em
afirmações positivas, porém, o uso de do é opcional e, quando
ocorre, recebe ênfase prosódica e funciona para destacar a ação
verbal: I do know him! (algo como: “Eu conheço ele sim!”).
Diferente do inglês moderno, a língua pré-moderna formava
perguntas e negações sem do com regularidade, e a presença de
do em uma sentença afirmativa positiva não indicava nenhuma
ênfase. Barber (1997, p. 193) exemplifica a flexibilidade da língua

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206 Gramática histórica da língua inglesa

pré-moderna nesse respeito com vários exemplos tirados das pe-


ças Richard III e Henrique IV, Parte II, de Shakespeare:
Perguntas positivas com e sem do:
How do’st thou feele thy selfe now? (“Como você se
sente agora?”)
Wherefore do you come? (“Por que você vem?”)
Why lookes your Grace so heauily to day? (“Por que
sua Alteza parece tão carregado hoje?”)
How cam’st thou hither? (“Como você veio até aqui?”)
Perguntas negativas com e sem do:
Awak’d you not in this sore Agony? (“Você não acor-