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Coleção Stylus
Dirigida por J. G uinsburg
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Equipe de realização - Coordenação e Organização:


Affonso Ávila; Revisão: Alice Kyoko Miyashiro; Projeto ..
gráfico: Lúcio Gomes Machado.
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Esta obra é publicada em
1 co-ediçã() com a Secretaria
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da Cultura, Ciência e Tecnologia
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MODERNISMO
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reúne os trabalhOs apresentados 111111 11

no curso CIO VI Festival oe inverno


dedicado ao Modernismo, realizado sob· o
patroclnio da Umversldade Federal de
Minas Gerais.
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Cf.AC,
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O Modernismo

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© Editora Perspectiva S.A.
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Direitos exclusivos reservados à 1111 f'll1t1
EDITORA PERSPECTIVA S.A.
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Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025
Telefone: 288·8388
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01401 São Paulo Brasil
1975

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I SUMARIO

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9 Este Livro
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\- I. CARACTERIZAÇÃO DO l\t[ODERi"IISlvfO
13 Modernismo: Uma Reverificação da Inteligência Na-
.-•' cional - Francisco l glésias.
II. A LITERATURA NO MODERNISMO
29 Do Barroco ao Modernismo: O Desenvolvimento
Cíclico do Projeto Literário Brasileiro - Affonso ·
Ávila.
39 Estética e Corren~s do ~fodernismo - Benedito
Nunes.
55 Modernismo: As Poéticas do Centra111ento e do Des-
centramento
. - Affonso Romano de Sant'Anna.
69 .F icção: As Linguagens do Modernismo - Luiz
Costa Lima.
87 · 1'endências Regionalistas no lv1odernisn10 - Bernar-
do Jllis.
103 A Crítica no Modernismo - Eliane Zagury.
"" lJ 1 Van.guarda: Um Conceito e Possivelmente urn Mé-
todo - Silviano Santiago.
I II. OUTRAS MANIFESTAÇÕES DO MODE RNISMO llTI LIV

fr 121 As Artes Plásticas ( 19 17-1930) - Aracy Amaral.
127 A Música - Gilberto Mendes.

f 139 O T eatr o - D écio de Almeida Prado.


153 O Cinen1a - José T avares de Barros.
APBNDICE: O MODERNISMO EM MINAS
GERAIS
.' 165 Gênese e Expressão Grupal do Modernismo em Mi-
nas - Fernando Correia D ias.
179 A Poesia M odernista .de Minas - Laís Corrêa de ,
Araújo. ,
193 A Ficção Modernista de Minas - Ruí Mourão.
203 Guimarães Rosa e a Tendência Regionalista. -:-- Nelly
Novaes Coelho.
213 Jnvenção: Os Novos e a Lição do Modernismo
Ângelo Oswaldo de Ara(1jo Santos.
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221 Colaboram Neste Volume
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1 225 fndice de Ass untos e Referências
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r. ~ omemoração dos cinqüenta anos da Semana de


Arte Moderna, em meio às muitas e diversificadas
promoções alusivas, veio ensejar novos retrospectos
e balanços críticos do já longo percurso artístico e
literário que se conta entre a arrancada pioneira de
1922 e a atualidade criativa brasileira. Buscou-se em
conseqüência, através 'de exposições, conferências e
publicações as mais várias, fixar não só a imagem
histórica do acontecimento que assinalou nosso salto
para a modernidade estética, mas tan1bém os rumos
que daquele instante se projetaram tanto para o fu-
turo de nossa arte e de nossa literatura, quanto pâra
a conscientização mais ampla do que se pode cha-
mar a inteligência nacional.
Dentre essas promoções, destacou-se, pela sua di-
m.ensão crítica e universitária, a realização em Ouro
( I
Preto, durante o 6.° Festival de Inverno, de um curso
especial sobre o modernismo promovido pela Uni-
versidade Federal de Minas Gerais. Desde a singula-
ridade do local escolhido - a cidade barroca na
su a ambiência ainda ren1arcada pelos valores inaugu-
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rais de nossa cultura - , até a estrutura do progrruna
e seu alto nível docente, tudo concorreu para que a
iniciativa se convertesse num dos fatos de maior des-

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taque dentre as celebrações do cinqüentenárlo da Se-· dos volumes iniciais da 11ova coleção Stylus, a Edi-
n1ana. tora Perspectiva tem a certeza de estar tornando
Este vol.ume reúne os textos básicos das aulas pro- acessível ao leitor brasileiro, nota damente ao pro-
feridas cm Ouro Preto. A natureza intensiva do curso fessor e ao estudante universitário, subsídio daqui
impôs aos professores convidados certo rigor de sín- por diante imprescindível ao conhecimento e estudo
tese nas respectivas exposições, mas a abrangente do modernismo.
organização do currículo, alcançando os diferentes ...." 1
campos de manifestação do modernismo, possibilitou

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que dele se erguesse ao final uma totalizadora visão
crítica. Entregue cada aspecto ou setor .de ·abordagem
do fenômeno modernista a um especialista realmente
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categorizado, quer p ela atividade crítico-criativa, quer •,
pela atuação universitária, logrou-se com isso um en-
foque bastante dinã1nico e atualizado de toda a pro-
ble1nática· artística e literária emergente do movi-
1nento de 22. Esse di11a1nis1no e essa atualização po-
de1n ser aquilatados pela instru1nentação crítica e di-
dática 1nobilizada nos vários textos, onde os métodos
e técnicas vão do approach histor icista à análise es-
truturalista, dos quadros gerais às considerações mais
particularizadas. Se alguns dos ensaístas aqui reunidos
buscaran1 levantar do processo modernista um con-
junto n1ajor e sirnultâneo de significados e perspec-
tivas, outros preferiram centrar sua atenção em de-
terminados autores e determinadas obras, neles sur-
preendendo a caracterização mais expressiva dos ele-
mentos de consciência e linguagem acionados a par-
tir de 1922. Entretanto, harmonizando .tendências e
pontos de vista, há no núcleo de todo o volume uma
igual e mesma vontade crítica, que é a de demarcar
- sem concessões ao jí1bilo da efeméride - o ver-
dadeiro terri tório de formas e realidades co1n que,
nesle meio século, o modernismo ampliou o espaço
cultural brasileiro.
A inclusão, ein ap êndice, dos textos relativos ao
modernismo en1 Minas Gerais decorre nãô de uma
enfatização da iinportância do 1novünento numa de
~uas grandes projeções regionais, mas d& própria es-
trutura do curso de Ouro Preto. Promovido pela
Vniversidade Federal de Minas Gerais, não poderia
fugir - e1n razão de u in natural vínculo institucio-
nal ao contexto en1 que ela atua e cuja cultura inte-
!
gra e superiormente exprime - ao enfoque cio fato
modernista também en1 Slla vertente mineira. Essa
parte final, de que o volume se acresce e enriquece,
se. justificaria ainda pela contribuição fortemente ori-
ginal que os escritores e poetas de Minas trouxeram
ao moden1ismo na sua etapa de consolidação.
1•
P ublicando a presente coletânea em co-edição com
a Universid.ade Federal de Minas Gerais e con10 um
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Praça principal de Ouro Preto, nun1a aquarela do último quartel do século XVIII, vendo-se em destaque o antigo
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Palácio dos Governad'ores. Nesse mesmo edifício realizou-se, em julho de 1972, o curso con1emorativo do cinqüentenário
...,. . . da• Semana de Arte Mode rna, promovido pela Universidade Federal de M inas Gerais (original pertencente à biblioteca
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1 do lnstitnto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo). n111u ttJ••r,tt
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• MODERNISMO: UMA REVERIFICAÇAO DA
INTELIG@NCIA NACIONAL .-
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Francisco lglésias

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1- Tentativa de caracterização


O modernismo é o maior movimento que já se
verificou no Brasil no sentido de dar balanço do que
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é a sua realidade, com orientação eminentemente
crítica, de modo a substituir o falso e o superado
pelo autêntico e atual. Não é nosso propósito neste
breve ensaio defini-lo e caracterizá-lo pelo que fez,
mas tão-só dizer o que foi, na tentativa de explicar
por que se verificou: não é uma sociologia do co-
•1111 0111 111 .11. Umoquortel do século XVllJ, vendo-se em destaque o antigo nhecimento que se pretende, mas o esboço da si-
llt t~.I•! •• .. 11 , .., ... 1 t m Julho de 1'>72. o cu~so co.n~emorativo do cinqüe~t~nário tuação histórica em que se desenvolveu. ~ difícil
~1 ., ·l •1111 •·1.. 1o1>1 l'ed tlll do M !nus Gerais (original pertencente à b1bhoteca fixar marcos. Se é comum datá-lo da Semana de
"' ""'''"' ,,,. ,, Paulo) , Arte Moderna, de fevereiro de 22, não é possível
dizer quando termina - se é que já terminou. Em
sentido estrito, vai de 22 a 30; dando-lhe mais ex·
f tensão, pode-se falar de 22 a 45; com mais amplitude
ainda, de 22 a nossos dias. Não vamos optar por
' nenhum
. . desses
. .critérios, embora nossa
. análise se res·
tnn1a ao pn.me1ro momento, ou seJa, de 22 a 30. A
) data de 22 lembra-nos a Semana de Arte Moderna.
Se o conceito básico da História é a temporalidade,
a tarefa essencial do historiador é a periodizadora.
Periodizar é estabelecer marcos, que têm função so·

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exibe agora é forte demais para o convencionalismo
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bretudo didática, uma vez que o processo histórico 11lt1111 •
é fluido, per1nanente, contínuo, justificando-se os reinante, transformando-se a exposição em escânda·
cortes quase sempre por finalidade de facilitar o lo. Que cresce de proporções com o artigo de Mon- 1 lf\•-h•14 llt
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estudo. E1n certos instantes, porém, assiste-se a algo
que é novo ou parece novo, quando se fixa o marco
teiro Lobato - "Paranóia ou mistificação?" - , que
faz do simples acontecimento u1n divisor de opiniões. '111 li......
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de mudança, que pode ser superficial ou profunda.
Se o processo é cadeia contínua, o certo é que há
Oswald defendeu-a, a artista passou a ser referência
e viu-se envolvida em campanha que não pôde en"' ,ll lJlll l11'.'111H 1', 1111
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rupturas. Como gosta de lembrar Bertrand Russell, frentar. Daí o juízo de Lourival Gomes M achado de 11

"o universo é todo feito de pontos e saltos", o que que ela foi "a . protomártir de nossa renovação plás- ;..:.'~':f"ª°TS' 11ll 1ll\1l11 d 11 1111 ''" .1 .. 1110
é transposto para a História por G. Barraclough, ao tica". Em 1919 é a vinda de Brecheret, com a ex- •1111 h·Hltttltt
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" afirmar que "a continuidade não é, de modo algum, . periência de inovações européias. Oswald em 21 l111tlllt1ht ,.
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a característica mais saliente da História; ( ... ) em anuncia o grupo modernista, cm artigo que provoca
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todos os grandes momentos decisivos do passado de- sensação: "O meu poeta futurista", sobre Mário e l • ••

paramos subitamente com o fortuito e o imprev~to, Paulicéia Desvairada, com citação de versos que cau- I', ,, .., 11°11111
o novo, o dinâmico e o revolucionário"!. sam espanto. Outros fatos ainda poderiam ser cita- 1 li 111011111 •h· 1 1111
1111
Parece-nos razoável o conceito, embora, a nosso dos. Di Cavalcanti expõe na Livraria Jacinto Silva. Hll "'"' ... I'
ver, ele não se aplique com rigor ao 1nodernismo no D ele teria partido, segundo depoimentos, a idéia da 1t1111, 1111 '"'
Brasil, que foi longamente preparado. Tanto que seus Semana de Arte Moderna, como exposição maior e •IH• 1!•111!#11
estudiosos apresentam antecedentes, alguns ·até dis- debates na mesma :livraria2. 1 ljlh •t l•tlll
cutíveis, como 1902, data de Canaã, de Graça Ara- Chega-se a 1922. A idéia cresce, levada que foi a 11lu1 li• tt'
nha, e Os Sertões, de Euclides da Cunha. Também Paulo Prado, figura representativa da intelectuali- '"'" ... •it•
é pouco razoável lembrar o discurso de posse de João
do Rio na Academia de Letras, em 1909, quando
dade e da alta burguesia paulista. O grupo de jo-
vens encontra receptividade e amparo dos círculos '
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fala na necessidade de renovação, por vago demais. dominantes de São ·P aulo, misturando a. intelligentsia,
Já digno de referência é o ano de 1912, com a che- os altos círculos sociais, a plutocracia. De conversas • ,, • ..1.i.111
·gada de Oswald de Andrade, con1 a novidade do no Automóvel Clube, pensa-se em uma Semana no ·d· ..... " lllt
futurismo. No ano seguinte há a. primeira exposição Teatro Municipal, com exposições de artes plásticas, ' ' l ti 1
de Lasar Segall, negação da pintura acadêmica; em
1914 é a vez de Anita Malfatti, que exibe o expres-
recitais poéticos, concertos, conferências. A comis-
são encarregada é o que São Paulo tem de mais tra-
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sionisrno que aprendeu na Ale1na11ha, sem reper- dicional: além de Paulo Prado - alta expressão de ili• lt •111•1 •I
cussão; c1n 1915 Oswald funda o jornal O Pirralho, historiador - , Antônio Prado Jónior, Armando .pen- 11111<1 1 011111'
que se bate por uma pintura nacional. Mais digno teado, José Carlos de Macedo Soares, Numa de Oli· .. 11 1.. 11111, , • •
de ·nota é 1917, em que se dá a estréia de Mário de veira, Edgar Conceição, Alfredo Pujol, Oscar ·Ro- , " •11111l111H
Andrade, corn o nome de Mário Sobral, em Há Uma drigues Alves, D. Olívia Guedes Penteado (a res- 1
• t l'11~lll t l•I
Gota de Sangue e1n Cada Poerna, que, sem ser pro-
priamente moderno, ainda marcado pela -poética vi-
sonância dos nomes é expressiva), alguns outros. A
direção é do acadêmico René Tbiollier. Há aí uma
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gente, tem elementos novos; o mesmo se pode dizer soma de equívocos generosos: de fato, nada têm a , ....... ,... flt
de Manuel Bandeira - A Cinza das Horas - e Gui- ver com a sensibilidade realmente 1nodema de Má- l 111111(tolll1t1 1
Jhern1e de Almeida - Nó_s. Menotti Dei Picchia ob- rio e Oswald, Di e Villa-Lobos, Br'echeret e Anita I· tttr•l li llW-11
tém consagração com Juca Mulato. Também publi- Malfatti, os nomes da comissão, figuras representa- h•llltlll~·· ''"'
cam livros, com sinais mais antigos que modernos, tivas do velho e pretensamente aristocrático São · - 1111\ltl• lllllllY
Cassiano Ricardo e Murilo Araújo. Oswald conhece Paulo, ainda inuito familista, ciânico. De 11 a 17 · -·· 11 nu •11 I'
Mário e Di Cavalcanti. O fato mais notável, no en-
tanto, e que vai fazer de 1917 um vrecursor signi-
de fevereiro realizou-se a Se1nana, ante aplausos e
vaias. Dela participaram muitos nomes que depois
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ficativo, é a exposição de Anita Malfatti, que traz, ganhariam realce, como Oswald e Mário, Menotti, ~1111At11·ltt 1·111
alem do expressionismo que aprendera na Alema- Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Villa- 11 M111l111 i
nha e já exibira antes, sua experiência nos Estados ·Lobos, Guiomar Novais, artistas plásticos (alguns l)llh·lt ' ..
lt·f ~IAt 111 1t
Unidos, sem falar na originalidade própria. O que só com suas obras, mas ausentes). Assinale-se a im-
.. ,.,,.,' •• l•·l1•1ll~
( 1) B•RRACLOUGll. G. Introdução d Hlst6ria ContenzportJ- (2) MÁJ\tO DA SILVA Bttrro, A Revo/llçao Modeml•ta, pp. 431- u1114'1111,, ,,,.,. 11h11111111
nea. p. 13. -48. Com mais pormenores, ilist6rla do Modernismo Brasileiro.
14 Mllf
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.....,.. exibo agora é forte demais para o convencionalismo


portância da participação de Graça Aranha, já con-
sagrado como escritor e diplomata, da Academia
de seus problemas, que aparecia ein um otin1ismo
róseo - o porquemeufanismo que tem a expressão
lf h-11111111 ~1· .., r ·inanto, transformando-se a exposição em escânda- Brasileira de Letras, que apresenta em sua confe- clássica no livro de Afonso Celso, de 1901, ou no
,,.. 1111 1111111 lo. Que c resce de proporções com o artigo de M on- rencia, como espírito moderno, estranha combina-
•l~h· ••• li 111)11 ' teiro Lobato - "Paranóia ou m istificação?" - , que pessimismo negro e muitas vezes tolo dos negadores
U•n 11 111111 1'. CltZ do sin1ples acontecimento um divisor de opiniões. ção de elementos filosóficos e literários, em lingua- de tudo, que viviam em termos de comparação com
1111 111111 1110 t Oswnld defendeu-a, a artista passou a ser referência gen\ que nada tinha de moderna. Sua presença foi a Europa, que captavam ma1 a realidade (a única
in1portante, por dar atenção ao grupo jovem e, as-
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o viu-se envolvida em campanha que não pôde en~
frentar. Daí o juízo de Lourival Gomes M ach ado de sim, atrair as atenções convencionais dos bem-pen-
expressão alta dessa corrente aparecerá em 1928 com
o livro de Paulo Prado Retrato do Brasil, lúcido, ape-
•11ti.1~"... 1r1 quo ()la foi "a protomártir de nossa renovação plás- s~n tes, como se daria depois com a atuação do mi- ar de muitos equívocos). A contar da explosão de-
!111 111 ·lllltllh~ tica". Em 1919 é a vinda de Brech eret, com a ex- nistro Gustavo Capanema, que convocou artistas sarticulada do Modernisn10, supera-se a consciência.
t 11111 111 n'h( porlGncin de inovações européias. Oswald em 21 1nodernos para obras públicas, dando-lhes consagra- ingênua pela consciência crítica, que procura ver o
'li• t ) ~1:°' o.nuncia o grupo modernista, em a rtigo que provoca ção oficial. O certo, porém, olhando-se com a pers-
peet.iva da distância - cinqüenta anos depois - é
que é, sem deformações, como se assinalará mais
111 1 1111t~ 111 lo sensação: "O m eu poeta futurista", sobre Mário e adiante.
li ht1j•ll . f'aulicéla Desvairada, com c itação de 11ersos q ue cau- qu~ foi um. equívoco 1al presença na reunião pla- A rew1ião teve efeitos duradouros, pois quanto se
'1 Blltn espanto. Outros fatos ainda poderiam ser cita- nejada. e. fe1ta. O acontecimento sacudia a morna faz de criação no Brasil provém do que aí confusa-
1h11111, li 1,1..,1'-"' dos. Dl Cavalcanti expõe na L ivraria Jacinto Silva. fisionomia proviucia.na de São J>aulo, chamava a 1ne nt.e se pregou. Se teve aspecto iconoclasta, de des-
1111111· I li 1~ 1~ l Dele teria partido, segundo depoin1entos, a idéia d a .Atenção. F icou o marco inicial, en1bora, é claro não LrLlição de falsos valores, o certo é que se 'impõe pelo
l 1111lu 11111 . .Se1nana de Arte M oderna, como exposição m aior e fosse ind~spensável: ~en1 ela a 1nesma renovação se que realizou. De fato, os 111odernistas sentia1n o Brasil
1111111. ll1fl '.; dobnles na mesma livraria2. processaria, que 1:01 apenas acontecitnento retum- e querian1 renová-lo, repondo-o no verdadeiro cami-
li•tl10~1 ·· C hega-se a 1922. A idéia cresce, levada que foi a bante. Seu 1nérito foi sacudir o an1bie11te. E conse- nho, Jivre das ilnportações de gosto duvidoso e que
1111111 ~~~'Ll,{,Jl~ Paul.o Prado, figura representativa da intelect uali- guiu resultado por ter São Paulo como cenário: foSS< não se ajustavan1 à sua realidade. !Não importa a
1..~ ... 11 . dade e da alta burguesia paulista. O grupo de jo· no Ri.o e não teria n1aior repercussão. Os equívocos Jernbrança de que os expoentes modernistas eram
1111•1 '
1
vens encontra receptividade e amparo dos círculos que aí apnrecem, na união de pessoas de tendências europeizados, sofriam influências estrangeiras, tra-
uo1J1inantcs de São ·P aulo, misturando a intelligentsia, tão díspares, evideneian1 que -não se percebia ben1 zendo novidades por outros fabricadas - o que até
ois altos círculos sociais, a plutocracia. De conversas ' o que se passava. Era utna onda à qual se aderia, eles sabia1n. O que conta é que desejavam dar novo
no Automóvel Clube, pensa-se em uma Semana no cm parte pelo gosto de pioneirismo que leva o paulis- alento a u1na cultura que lhes parecia esclerosada -
'f onlro Municipal, com exposições de artes plásticas, ta a encampar o que lhe parece ou desconfia ser im- e e ra - , pondo o país a par do que se passava de
recitais poéticos, concertos, confe rências. A comis- portante, ainda que sem convicção. É o caso dos ele- novo no mundo. Se traziam fórmulas in1portadas
são encarregada é o que São Paulo tem de mais tra- rnentos organizadores da Semana, que a aceitaram para combater fórtnulas importadas, tinhan1 o mérito
dicional: além de P aulo P rado - alta expressão de pelo, f~to de que ~ dirigida por eles, no gosto de de trazer algo diferente e que era eficaz. A idéia de
historiador-, Antônio Prado Júnior, Arm ando -P en- dom1n10 em que <ú1~n1am sua suposta superioridade, un1a cultura autóctone, nativa, é sem base. l O Clas-
teado, José Carlos de Macedo Soares, Numa de Oli- como protetores de JOVens que _fazem su a festa, exi- sicismo, o Ron1antismo, o Realismo, o P arnasianismo
volrn, Edgar Conceição, Alfredo P ujo!, Oscar Ro- bem. talento e não afetan1 em nada a orden1 estabe- e o Simbolismo, como o Tomismo, o Evolucionismo,
lecida. o Positivis1no, o Liberalisn10 e outras fórmulas -
dduucs Alves, D. Olívia G uedes Penteado (a res-
•t•lll Ili 1 ft 1 801\fineia dos nomes é expressiva), alguns outros. A Séria ou piada, coerência ou amontoado de idéias artísticas, filosóficas e políticas - , adotadas aqni,
..111 jlll~·lh 1 direção é do acadêmico René T hiollier. H á aí um a e ír1tenções inorgânicas, o certo é que ela teve in1- sempre tiveran1 sua razão de ser. Seus aurores e ex-
Ili• Ili H 11• 1 fl'>"
I --.
, 801lHl de equívocos generosos : de fato, nada têm a portância e deve ser vista como marco na vida do poentes brasileiros não devem ser acusados de es-
''''º.. ( , ..• h . ver com a sensibilidade realmente moderna de M á· .Bras il_. O fato coloca ante nós problema que já se
examinou no campo da ciência social, qual seja -
trangeiros ou alienados, uma vez que os anin1ava a
l1<f ' ·llh·I 41!.1 i l 1 .rio e Oswnld, D i e Villa-Lobos, Brecheret e Anita construção de um Brasil em dia com o mundo, na
Hlllhillll l ~~rl Mnlfatt.i, os nomes da comissão, f iguras representa- o da "eficácia histórica". Há acontecime11tos que pa- tentativa de superar quadro antigo e esgotado. São
jllt• ll llll h 'l 1111 ti\'fls de) velho e pretensamente a ristocrático São recem fundamentais, retumbantes e Jogo ficam es- novas palavras que têm eficácia, se ajustadas ao real,
llW11lt l 1 111'1111 11 Pnufo, 11i11da 1nuito familista, clânico. De 11 a 17 quecidos, sern deixar sinal, enquanto outros, que não se não se perdem en1 simples jogos. Daí a importân.-
t11IA \'1 11, IH• 1•1 ' d fl'.lverciro realizou-se a Semana, ante aplausos e são percebidos o u parecem simples episódio · i ncon- cia dos expoentes de todas essas escolas, que deram
1t11 ·111 ~111 ~ l1tt.rl valas. J)ola participaram muitos nomes que depois seqüente - devia ser o caso da Semana na época contribuições a que se construísse um Brasil em con-
f11lll, •1111• 1111/ . 1}l'lídH,1rian1 realce, como Oswald e Mário, Menotti, - deixam vinco_ profundo. Tal é o episódio alegre sonância com a êpoca e ao que substancialmente era.
ltl 1111 /\ li•11111 Rooo.kf de Carvalho, G uilherme de Almeida, Villa- ~te fevereiro de 22. Vai marcar o Brasil, no campo O Modernismo foi mais cpnstrutor que destnlidor
IH 111111 l'•tl1nfn •Lobos, Guiom ar Novais, artistas plásticos ( alguns intelectual e com projeções no político. O que pa- - única ressalva que fazemos ao balanço que dele
111111111 11 ll·lli ~6 con 1 11\ll\S obras, mas ausentes) . Assinale-se a im- recia divertissement ou provocação era a prova de fez Mário de ~.ndrade em 1942, em conferência que
que o país estava farto de fórmulas gastas e preci- se refe~rrá adiante. De fato, seus seguidores é que
(:1) M ~~10 St~VA Barro, A Revolução Mc<krnlsla, pp. 431-
nA sava redescobrir-se. Superar a consciência ingênua
8, Corn n1nls 1>0rmcnorC11, História do },{odernismo Brasileiro. descobr1ran1 o passado artístico do país. O barroco
MODERNISMO: UMA REVERIFICAÇÃO. . . 15

1
1 1
1

mineiro, por exemplo, até então era desconsiderado, conheceram, pois, o que era válido no passado, e, '"t$11t 11 1 11) ... ,....,,, 14
como o Barroco no mundo (o reconhecimento de
suas realizações é recente). Os modernistas é que
através de investigações e poder criador, realizaram
trabalho admirável em todas as artes. Daí - para
,.~11111111 1 ...
......,,,,,....,
v"~-11 1tlt

11~111• li . ,
v.isitaram Mínas, cotno se viu com Mário antes de ficar apen as no plano literário - a força criadora "t ,,., ... •1
~m~1nt!l • 111114 ,....., .
1920 e depois, em 24, com a caravana de escritores, de um Oswald e de um Mário, que incorporam à
história, o índio, o negro, o ünigrante, como se vê
........ ,,..1
como foram à Amazônia, a-0 Nordeste, ao Sul. Eles p•l•fl l1•lt1• • '"
em seus poemas e romances. Lembre-se apenas, co- '11Últf .. tjlll· 1·111 •jll• "'""l"w
- Mário sobretudo - é que perceberam a riqueza l•th•lhl111l11
artística do que se fizera no fim do século XVIII n10 incorporação do que há de mais rico e signifi- .... 111111 ....
cativo no universo popular brasileiro, a rapsódia Ma- • 1•11• '" 1111
e fora visto como aberração ou excentricidade ao diz cob
.. longo do século XIX; Bilac, que viveu forçado al-
gum tempo em Ouro Preto, nada percebeu, passan-
cunmma, de Mário, de 1928, que só poderia ser es-
crita por quem conhecesse e tivesse assimilado quan-
f 1TllÍll h• 1\ 11
oloul"' 11 111

,...,...,...
to se fizera no Brasil. Não fosse ele o folclorista de
do indiferente ante igrejas e estátuas que não tinham
... ....,..,,,"
.. 11111 1•111
tantos estudos que estão entre o que há de melhor t ' " \1 .. 11 1t11t.
a forma clássica. ]}. M ário dl<YG.~Sc-CLpcimeiro estudo.. . \TJ1f1t •••
- se não o n1elhor - do que se fez n<i gênero entre
crítico d_L_valoLsobre o AleijadiJ;1ho, con1 a pul9li~ u11tlo 111111'•

ca_ç_~º __de_.11rtigos desde 1929 • . Eles <lé.sê06i·irãiü - o - nós. En1 conclusão : não era o gosto de destruir por Y:a • 1 • ''t' 1111<111•1- , ...
destruir, mas a necessidade de limpar terreno para 1111 ,,~ ti
Nordeste, a Amazônia, o Sul, em viagens que foran1
nascer o autêntico e novo é que aniinou os artistas l 111111
algo n1ais que turismo. Valorizaram a modinha tra- "" 1
verdadeirarnente criadores e modernos que se im- ln'~ o cnttdo "n!Udllmcatt · .
dicional: também ai distingue-se Mário, estudioso de
inúsica. Pode-se imaginar o que sentir ia ante a des-
põein a contar do 22. ,to, oa anttS : '"' " 'I''"
.t.. 1• 11111 ti ,,
I • Na tentativa de conceituar o Mode1nismo, por cer- ~t111h·1hl•tll
coberta do passado rico de compositores eruditos
ll~ t fu~1 º~~ 5:~16~1i i:i~::
to nada se escreveu superior à conferência .de Mário 1.. •••.••••• 1
mineiros do século XVIII, por Francisco Curt Lan- de Andrade - O Movim·ento Modernista-, há pou- 111•1 111111
ge : n1ostra-sc ai que o barrqco_mine_iro __é _re~Im.ente _
co citada, feita en1 1942 na Casa do Estudante do .,.,,~.. .,, ,,,
o primeiro grande 1no1ncnto de criatiyidade artística o •1Bnlf1oado elo qu
Brasil. Trata-se não s6 de admirável análise crítica
no BraiiÇ a música figurando en1 posição de relevo con10 de extraordinário docun1ento hun1ano, uma vez .
~··· 'Jllit •••.•
ao lado d-a literatúra e das artes plásticas, que já se
conheciam, de n1odo a revelar uma consciência artís- qu~ o _autor evoca o que se fez e qual foi sua par- li '
~1,, •. '"' ••·Ili •p•
tica completa e que é dos instantes decisivos da cria-
ção no Brasil, talvez o mais equilibrado e rico, em
ttc1paçao, em exame do que se verificou e do que
se obteve. 1:: estudo objetivo com algo de memórias. ' ... 1111• •Ili"
.. 1 1111·•1111••
tu

área distante e en1 processo de decadência. Além da


Parecem-nos corretas as posições que assume, ex- 1',.,,1.,1'''".,.,,. ,,.,,
ceto o acento que confere ao elemento destruidor,
arquitetura colonial, os modernistas foram os pri-
n1eiros a valorizar o que se fez no século XIX - o
embora, como escreveu, •·•·Ili
1
chamado estilo l mpério. Tiveram o culto do folclore.
Voltaram-se, pois, para as raízes da nacionalidade,
esta destruição não apenas continha todos os germes da
atualidade, como era uma convulsão profundíssima da
1 ,,
,,,.,, ,.,...
11 11111• ' 1

, 11111·1•ttlH1I
identificando-as com justeza, descobrindo-as freqüen- realidade brasileira.
temente. A revelação desse passado, que não se co-
nhecia ou não se compreendia, compensa os ataques Assinale-se a síntese, que é essencial: .,
,., ..,...,,.., ..
11111\ ll!ll•llh•

1•1•1 lftlltl li ,
que fizeram aos monstros sagrados da época, nota-
li 11~·1111 1111
.damente do Parnasianismo e de um pretenso Clas- o que. caracteriza esta realidade que o movimento rno-
s~cismo, cujos expoen.tes eran1 Rui Barbosa e Coelho <le~11llla in1pôs é él fusão de três princípios fundame.ntais: 11•\'l•ltu ri '
1' f .\ h•I l1t1 V hlH
Neto. Se riram dos monu1ncntos e estátuas, dos es- o Uireito pern1anentc à pesquisa estética; a atualização
da inteligência artístici~ brasileira; e a estabilização de 1lo1 1111111 ..
tilos italianados comuns, com obras importadas pron-
urna ce>osciênci;l críticn nacionaJ3. ~11111·11111 li
tas ou feitas por artistas de segunda orde1n que eran.1
contratados, soubera111 reconhecer quanto se fizera "'' 111111 ,,
antes e tinha autenticidade, no ajustamento ela obra E1n passagens anteriores - .princípio da confe- 1h·•l'lll 11111•11'
• •
renc1a: ,...... t 11111
à p aisagem, ao 1nesmo tempo que pesquisavam para • t ªª' ltt.' •••1• ••4• I, 1 111 h•tll
1111· li ..,,., 1
realizações, 111uitas das quais impuseram como valo-
res definitivos. Aos processos n1usicais europeiza-
manüestado especialmente .pela arte, mas n1anchando 1 ·ti "'i,,r,. •r, rl ,'f'f,il rr•t•'"'' ,,,, ··'· ,,.,, .., , , 11 llh·Uh Ili ~I·
Ili.....
:\ tU•W'-' I•• • j ••
também com violência os costumes sociais e políticos, t••·I·•
dos, então comuns e bem recebidos, substituíram as o movimento rn.odernista foi o prenunciador, o ~-
11'
1 ,, ,, ...,. ,,,, 1\ t .• ' 1, t .1. •• '1 1 fu 1, •• •
,,, t, ~•ll•r.c 1: 4' ."
novas formas que resultam de pesquisas que incor-
poram o folclore, como se vê em Villa-Lobos. Re- (3} ANDR~D.e, Mário de. O Movimento Modernisra. p'. 242.
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Ho 1111
ltlt•tt<•
1 Ili

16
•-•til'"'l1 ) • ., , •• ,, t OODb coram, pois, o que era válido no passado, e, rador e por muitas partes o criador· de um estado de pos mais próximos, da pesquisa desinteressada, da reno-
lt ••• , ••••• •• 4tt Dtr véa de investigações e poder criador, realizaram 'bspíffiõnacional. vação filosófica, do livre exame das questões de caráter
"'"''". ,,,..
. , •• 1)4il1 t ,,,
trDbnlho admirável em todas as artes. Daí - para
tlonr npenns no plano literário - a força criadora Mais adiante:
sociológico. Fugindo, porém, à minúcia, marquemos so-
mente o efeito maior do Modernismo na história da cul-
de u1n Oswald e de um Mário, que incorporam à tura brasileira que foi, indubitavelmente, a eliminação
••• 1 'il tlf•••' ~j dos arrepelamentos azedos e do abatimento sorumbátíco,
''" '•1•1 1 ll
hlst6rio, o fndio, o negro, o imigrante, como se vê foi uma ruptura, foi um abandono de p-rincípios e de que revelavam um como-que-incurável complexo de in-
,.,. l ,,,,,,. 1,, om l!CU& poc1nas e romances. Lembre-se apenas, co- técnicas conseqüentes, foi uma revolta contra Q...~ era ferioridade secularmente embricado na personalidade inte_
mo Incorporação do que há de mais rico e signifi- ;\. inteligência naeional4. · Jectual do Brasil, e sua substituição por uma calma cons-
(111111 '\li
oatlvo no universo popular brasileiro, a rapsódia Ma- ' ciência de nossas verdadeiras e curabilíssimas inferiori-
llt 11
1
,,1 ••• 1.
l••lt.·ltl11
1l• !

c11na11na, de MáTio, de 1928, que só poderia ser es- :e justo o que diz sobre São Paulo, cenário da dades. O que - parece - é bem saudável7.
t
or!ta por quem conhecesse e tivesse assimilado quan- Sen1ana:
.J lt ,. t 1•(•1 •·t••
to QC fizera no Brasil. Não fosse ele o folclorista de Depois, n1uito aconteceu e sobretudo muito se es·
11 Ih 1 li t tfi>11 V
tontos estudos que estão entre o que há de melhor urn;t cidade grande mas provincian!t; ( .. . ) o Rio era
IHl•I! 11 1 ·1J1nll 1nuito mais internacional, como norma de vida ex- creveu sobre o movin1ento, notadamente agora que
1111-t !I ~1111 •
- ec não o 1nclhor - do que se fez n11 gênero entre terior. ( . .. ) São Paulo era espiritualtnente muito n1ais se celebra a Sen1ana. Centenas de a11igos e depoi-
·'lolf t11.,, •..• ,.....1... nda. Em conclusão: não era o gosto de destruir por rnoderna porém, fruto necessário da econornia do ca(é mentos permitem ver melhor o significado do que
... • ,,., t11 ••
delltruir, 1nas a necessidade de limpar terreno para e do industrialismo conseqüentes. foi. Há muito de passional em quanto se disse, a
•••• ,.1, •• 111• . n11ocor o autêntico e novo é que animou os artistas favor ou contra. Do que lemos, preferimos incorpo-
vorduúoinunelltc criadores e modernos que se im- Lembra o -sentido "nitidan1ente aristocrático" do rar o que é inforn1ação, enriquecimento do quadro.
põem a contar de 22. rnovimento, os salões: deixando de lado os aspectos valorativos. Não foi o
I• N11 tcutativa de conceituar o Modernismo, por cer- Moder.nismo que fez o Brasil, que ele ve1n sendo fei-
to nadu se escreveu superior à conferência .de Mário e vivemos uns oito anos, até perto de 1930, na maior to desde o século XVI, uotadamente a contar de
do Andrade -- O Movimento M odernista-, há pou- orgia intelectual que a história artística do país registra. 1822. Não foi tambén1 uma página em branco, epi-
co citudn, feita en1 1942 na Casa do Estudante do sódio sen1 significação, sin1ples barulho de jovens
Uruall. 1'rnta-sc não só de admirável análise crítica Não exagera o significado do que houve: irrequietos ou festas de salões da burguesia paulista,
oomo de extraordinário documento hun1ano, un1a vez com ecos no Rio e bem menos em outros pontos,
•f .,... .... . .. . . . .
quo o autor evoca o que se fez e qual foi sua par- o movimento ele inteligência que representamos, na sua ou sem qualquer eco, como pretendem analistas aze-
' l4'ttt ,,, ,, f ,
llolpação, en1 exame do que se verificou e do que fase verdadeiramente modernista, não foi o fator das
mudanças político-sociais posteriores a ele no Brasil. Foi dos que tudo negam ou outros que reivindicam para
obteve. 1?. estudo objetivo com algo de memórias. essencialmente um preparador; o criador de um estado si mesmos ou suas Províncias as glórias renovadoras.
1 f ct
Pnrcccm nos corretas as posições que assume, ex- de espírito revolucionário e de um sentin1ento de arre- O fato é que a Semana foi excessivamente comemo-
1t1•••1 fl
octo o ocento que confere ao elemento destruidor, bentação6 rada na imprensa - o que não deixou de ser um
lt+ '• i \
omborn, como escreveu, bem - , com depoimentos, apologias e detratações.
, .I;• l1•I A perspectiva de Mário en1 42 parece-nos válida Ficamos com os depoimentos e deixamos o valora-
Gil~ dcslruiçiío não apenas continha todos os germes da e exata, em linhas gerais. tivo. E les nos fortalecem no que pensávamos e fora
Aluulldnde, con10 era uma convulsão profundíssima da Gostaríamos de acrescentar a esse juízo, expresso convenientemente escrito por Mário de Andrade. O
r nlldndc brasileira. por um expoente do episódio, o de um crítico lú- n1ovimento foi importante, sem ele não se pode com-
tf l(t; ,,.!,,, ••. A1uinale-sc a síntese, que é essencial:
cido que soube entender o que houve ·e escreveu um preender o Brasil de hoje. A perspectiva histórica já
f'J••ll 1. llttlt
livro que é "retrato da arte nloderna ·do Brasil" - permitê a justa avaliação. Foi um momento de cons·
ootadamente das artes plásticas (deveria ter sido re- trução do Brasil, crítico e criador. Contribuiu para
l•·l?.~.. '.';'ff ' ,,,,.,
o quo. ctuacteri7a esta realidade que o movimento mo- editado n as comemorações do cinqüentenário, que revelar a verdadeira fisiono1nia nacional. Podia não
••11·~· •. ' ••t-4lt1 d9n11Wh inlpôs 6 a fusão de três príncípios fundamentais:
está entre o que de melhor se escreveu sobre o te- ter havido a Semana e a transformação se verifica-
., •••••. 1111•1 t ', o Ulrelto põt•n1ancntc à. pesquisa estética; a atualização
' ' ft6)lrt11 1•+ • ti , da Inteligência artística brasileira; e a estabilização de ma) . Diz Lourival Gomes Machado, em 1945: ria. Houve, e teve eficácia. O que conta é o mo·
umn consclencia crítica nacional3. vitnento, não a reunião festiva. Pena a crítica que
1·111 ''"' ' 1 •111 Tudo adquiriu nova feição na nova era e mesmo fez não fosse 1nais profunda, orgâ1úca e coerente,
1111 "' ''" ,.
Bn1 pussngens anteriores - .p rincípio da confe- fatos tão longínquos a ponto de parecerem independentes, desencadeando verdadeira mudança qualitativa do
, •• , •• , tl11 11ft11
deven1 sempre alguma c-0isa à renovação, o que parece
·~·•·t• ~ttl' ,, .•• ,.: _ rOnola.: acontecer em particnlar con1 o encarecin1ento, em tem- país. Não havia amadurecimento ainda, mas cabe-
1 1 ••+t111 \ ,f,, ·lhc o mérito de ter dado o sinal. O n1ovimento frag-
manlfOttnclo especiiiln1ente pela rote, mas manchando (4) ANOltADE, Mário de. O A-fovi1nen/o Motler11ista. pp. 230 e rnentou-se en1 correntes até opostas, às vezes foi da·
li• 1 111 "I" 1.. 1 .~ Ulmbdm com violência os costu1nes sociais e políticos, l-JS.
i:.1111111 ,,,,, ' noso, pela falsa colocação social e política. O que
o mcvfmonto 1l\odernisla foi o prenunciador, o pr~-
..

+1
~ ....

lt+I"'''
,, •• 1 .,

llo (a) ANO~AD~, Mtlclo de.


--'
O Mov/n1ento Modernista. p'. 242.
(S) ANDRADE, Mário de. O .\1.uvitnento Modernista. pp. 235 ~
236.
(6) ANDRADE, M ãrio de. O Mo••imento Modernista. pp. 236, 238
e 241 •
(7) GOMl!S MACHADO, Lourival.
o,a.rll. p . 91.
Retrato da Arte Mod•,na do

MODERNISMO: UMA REVERIFICAÇÃO . . . 17
l,v f,f ·,
. • (+

••111111 ..11111 11 1111111 111• u,ofdwt••'IJ 1\1~1·"· 1••111 1111v4"1 1111 ··lttllt 11111 •
aconteceu depois, direta ou indiretamente, está vin- - 1889-94. O grupo tradicional conhece certo aba• 1111 111 '' • 11111 lhu ui líll•11iiul1t1 111•1l1 1·11u11•1111 h11 •111111t 1(11 111111111 ••
culado à revolta de 22. F., razoável, pois, que se tente lo, com o domínio dos militares e uma política eco- 1Hltl111 11f h'I iro il 1111011•11jH 1\111~1 ll 1'1 JIJ1Htc"t11 Nll11 ,, llltll
traçar o quadro que levou à contestação e o rumo nômico-financeira ousada, no Ministério da Fazenda l 'l'\.•lllh u ' ' 1•11114•1"1111 {I 1u•1
•• 1( 1·111;1\11 lt<111HíhJ1J •1ncU1 f 11111111111
que teve o protesto. O que se. pode COQseguir com de Rui Barbosa, com o conhecido episódio do En- 1111li111l11 • 11111 "" , 111 11.. li\"JOl'l111 ~ 1 111• tlll11·n1111111 n • 11111 jlltlhUlll' 1
cilhamento. O segundo vai de 1894 a 1922 e é fase 111111h11 11 ' 1rl1111c ht' 11 11p11~'1,íll t •tllt" t IYI~ 1• 11111111111•11, lllh·h• llltl
o esboço da ambiência histórica dos anos que an-
tecedem e sucedem 1922. de muito interesse. Eleito o primeiro p residente civil, 111111 llt t h• 11 1111p111 h lltl•• ~· 1 , i lí'tdo 1lt' lltlt lfllll'" , .. llt u 11111
inicia-se o domínio dos grandes Estados - São Paulo 1h• pu l •'Hh"t 1t1i·11l 1 1 1 "'''' ...a•lii•~11·1tllo11111 f\U 1 '\n'\ h
li - Quadro histórico 111111 1111111.pi• Jttv1•111t ui 11 n 1ur1l111t•11 11111 11,1 lt111•-
e Minas Gerais. São Paulo dá os três primeiros che-
fes civis, alternando-se depois paulistas e mineiros · ••1t• v1•lho~ 1 lu•Ji·• 111 1 vllrd11 1111 1111• 11101
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por crises sucessórias - 1909/10 e 1919. F., o pe-
A história da República tem recebido importantes ríodo que se convencionou chamar de retomada do 1111• 1lllt <•11•
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contribuições, em data recente. Até há pouco ~ra poder pelas oligarquias, que conhecem esplendor nun-
mal conhecida, pelo engano con1u1n em historiaao~ ca atingido antes. O fcdcralis1no distorcido explica . 1'•1111..1111' li
res de que só se deve1n preocupar com períodos re- o fato. Sua projeção é a "política dos governadores" , .... ... 1" "'...' ,....,, 111.. 11h1 hui~
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cuados. Os estudos de sociólogos, economistas, cien- ou "dos Estados", inaugurada ;por Campos Salles e ·
tistas políticos e outros, ben1 como a verda- que representa a real negação dos ideais republicanos · 'tlh 1 1•1111111
deira obsessão dos estrangeiros - sobretudo norte- e ó co1npleto desvio do sistema federal. Em conse- 111111 ~ .. li 1·
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·an:tericanos - con1 a República, em perspectiva his- qüência da troca de favores que se institucion aliza ·
tórica que nos parece muito exata - o desejo de - os poderes dos Estados e da República se com.'. Ili<\ 1 11111 1•
aprofundamento ela realidade atual - ' levam a ra- 1 11111 •11(1"1 t
. pletam em suas pequenas e grandes ambições, com . , llllt ,, 11•••• 1
zoável ciência do período. É claro que falta muito o desconhecimento do povo - , fortalecem-se de vez
ainda a ser visto, n1as o que há já permite certo
exame do que vai de J 889 a 1930 e mesmo depois.
as oligarquias. Aos poucos vai ganhando mais corpo
a política viciada, no que se via co1no a negação da I,.,, ,.,
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Sabe-se que o sistema não alterou profundamente a prática correta - os famosos vícios da República 1'1·11111• ....

ordem que vinha d a monarquia. Movin1ento feito por


grupo militar com o auxílio de políticos descontentes
velha, oligárquica e fundada em falsificações de todo
tipo, em que o povo não conta. Ao lado desse as-
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con1 o trono - às vezes por motivo pouco nobre pecto, verificam-se lutas, como a história melan- 11111..111 11111
1111• ~111 li t •
de desagrado con1 a abolição do trabalho escravo cólica de Canudos - que não conseguiu despertar 1 " ' , ... 1111.1

- , teve pequena participação popular, tal como se


verificara com a Independência. O resultado é que
se organizou o novo Estado em função dos interes-
as atenções oficiais, a não ser a repressiva, para a
tragédia dos sertões - e outros protestos, coroo a
luta contra a vacina, a revolta dos marinheiros e
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ses dos grupos ativos que derrubaram o regime. O outras, que sempre houve a contestação, ainda que ,_,,,.,,~[IJ • u. l1tl'\ t Ili 1•1,111,
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importante, no entanto, é que já não existe o es- frágil e logo abafada. Verifica-se também .certo bri- 'i• 1 ' 1 ·~11~1·lm1 1111' • 11111 11 l'I ~•lltilll "
cravo, impõe-se o trabalho livre. Crescem em ex.- lho epidérmico no que se chamou de belle époque 1111 111 1 0~1\1• .1 "\/ 11 . o 1 1.~M. 1•t•11t•ilt; 110 tjllt• 1• 1111
i--pressão os grupos médios, surge o proletariado, mas brasileira, sobretudo no início dó século, com ·as lllllh•••• L'll l l1!thí!1 • 1Jl ll 1 . 11111111/ Íll ,,, ... ll11llJ11111t11, ttlllA ll11111ltf
• !" cresce ta1nbém o poder do grupo dominante, que é grandes obras de e1nbelezamento e saneamento do •1111· 1llh1 1111Y1• l ll1f •t11•111111 1 tollr.I•"•,
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.::·:"' ·o, da grande lavoura para a exportação - a burgue- Rio, o prestígio social dos salões, as propaladas afir- 'Oh • l '1111f11 t ltht l ~ll·11 l1 Wll'l lf t !lll Mlll 1 1n1~11) t''t cf1, YI 11111·1'-·ll h
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sia agrário-exportadora, com base no café, mantida mações de Rui Barbosa no estrangeiro ou o invento 1111, •1111• IP\11111~ 11 IUlllJO,;l 11, 1 1 ~ 11··· ·~ il'ltUll h•t l1i1 h 1yl11 )111 li 11111
a característica econômica de produzir para o exte- de Santos Dumont, além de um grande momento •lluph·•. 1tt11~ q111 ~ n1.q1111l111lh ' · • 11111 ~,, 1111 1111111•, 1111 l l'l, l•llllltt
rior, origem• dos recursos financeiros e de todas as literário, cujo expoente é Machado de Assis . O café . 1 11111 1111 111 111 111!11•1 11· h 11fl l ~n•i.
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dificuldades cambiais e orçamentárias. Instaura-se a atinge a superprodução, que requer política inter- · 1 h ltt't, orlilJ 1 l11•1 1,f'I V1'l 'Ili> " Ul'll lJ)l1ll111l1~ llllll • 1Hl• Ili 1 1•1 l 11" ...111.. 1111 •
federação, para atender às reivindicações regionais, lhll~lljAl•ll~ 1 ttlH 1'111111 f'll'•Tl'~l~ll 111111>1 .\<IV.I, t t1IHt1 f. 11 •11111•11 ,...
vencionista do Estado. A guerra de 14 desenvolve ·
que vinham de longe e são das causas mais sensíveis o impulso industrial que vinh a de antes, impondo-se 1 11•11 1h• ,'i11l NJ,~ l\<v111th1u 11•u l11'1 11\1 1 11111 1 11~!111 1111h 11t
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da qued a da monarquia. Como escapa a nosso pro- o modelo chamado de "substituição de importações". .
pósito o estudo com minúcias, vamos apenas lem- Os erros políticos e o n1cnosprezo do social são de- ...11 ~11, 1•11111 11111h 111' 11 t1· 1·111 ,'ti111 1'01rl~• < 1 1111l1t 111-.11 ~ 1•• ti 1111l11 1111h1 t
brar a periodização que já se convencionou e tem nunciados por vozes isoladas, que não ecoam, como 1 111v11<1 •• •111111•1111\1 111 1111 1·•1111111)11'1111•1, 11 11111• 111111 •I' 1lt· 111111 li•
alguma funcionalidade. 1h11•11 1!1111 •1 1 11111 1t li 1 t111h111.l 11 1' 1•11 1111• 11<11 IUtHI .11: \li •· Hiii ,._ 1411
se vê na solidão dos que clamam pelo melhor enca-
• 1, Reconhecem-se então, de 1889 a 1930, três mo- minhamento do problema do tral>albador. O presi-. 1ln, lt•lll 111 l•11t 1f•1 '111 H 1111·111.!1111,_:111• •11•1 1nl, •1ir1• 11111111• tl11• ... 011
mentos: o primeiro é marcado pela presença militar dente Epitácio Pessoa, que surge de impasse provo,
18
cado com a morte de Rodrigues Alves, tem governo ciam cm seus países - sobretudo o Anarquismo - ,
llit, •~I ~ VIII - 1889·94. O grupo tradicional conhece certo aba· forte e com fim acidentado, pela campanha suces- de rnodo que vão dar forma às tímidas lutas de 1890
''"'' ... ll'llh• lo1 co111 o domínio dos m ilitares e uma política eco- sória crítica, na disputa entre Artur Bernardes e N ilo a 1930.
li .. 41 1111111• !lOJDlco·fln nnceira ousada, no M inistério da Fazenda Peçanha - a Reação Republicana. O processo é per- Quando se instaura a República, o Rio é mais im-
Oll"jillll •••Ili de Rui Barbosa, com o conhecido episódio do En- turbado com as cartas falsas que dificultam a cam- portante que São Paulo, área cujo progresso tem
lllh .,.... •li• ollbnmento. O segundo vai de 1894 a 1922 e é fase panha. Explora-se a oposição entre civis e m ilitares, início em 1870, com o café, depois a indústria. Ve-
d multo interesse. E leito o primeiro presidente cívil, com êxito. O importante é o surgimento de um grupo ja-se o movimento populacional: em 1900 o Rio tem
fQiala~e o domínio dos grandes Estados - São Paulo de patentes médias no Ex:ército - o Tenentismo - , 691 565 habitantes, São Paulo 239 820 (em 1890 ti-
Mluns Gorais. São Paulo dá os três ·primeiros ch e- que agrupa jovens oficiais com p adrões superiores 'nha 65 000); em 1910, os números são 905 013 e
f clvls, alternando-se depois paulistas e mineiros aos velhos chefes, pelo estudo com a vinda da mis- 375 439; etn 1920, 1157 873 e 587 072; em 1930,
ll presidência, com eventuais exceções provocadas são francesa. Têm preparo técnico a mais entendi- 1 505 59 5 e 887 81 O. Como se vê, o índice paulista
por or!Stlll sucessórias - 1909/10 e 1919. S o pe- mento da realidade: julgam-se com tarefa regenera- é mais alto q~1e o da Capital, o que vai fazer que
1 1111111111111 1h•' rtodo que se convencionou chamar de retomada do dora, com algo de m essiânico, que apreende o país nos decênios seguintes São Paulo se avantaje, como
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li l•I 1 fJõclcr pulas oligarquias, que C?nhece~ iyp~endor ni:n-
on ntlngldo antes. o federahstno distorcido expltca
corno um todo. F. algo. de novo que surge, a denun-
ciar os erros da política. O grupo não é pacífico e
cidade relativamente ao Rio e como Estado relati-
van1ente a Minas. Outro dado de relevo é o cresci-
,... , ,,,.i.... li . O to.to. Suu projeção é a "p olítica dos governadores" parte para a luta. O pri111eiro n101nento é a revolta mento industrial: no .censo de 1907 o R io te1n 1/3
11111•1,. •• 1 h•1 OU 11dos Estados", inaugurada por Campos Salles e do F orte de Copacabana, em julho de 22. Surge da p rodução, São Paulo 16,5%, enquanto e1n 1920
qu11 r6pre11onta a real negação dos ideais republicanos no cenário un1a .força que vai pesar n1uito e dar ou- São Paulo te1n 31,5% e o Rio 20,8%. São Paulo tor-
o ó con1pleto desvio do sistema federal. Em conse- tros r umos à política. Daí 22 encerrar a primeira fase. nou-se o centro industrial mais notável do país, em
qU~ncl n. drl troca de favores que se institucionaliza Assinale-se ainda que o país mudou bastante ab surto que vem desde o começo do século e se acen-
- oa poderes dos Estados e da República se com- longo dos trinta primeiros ;mos da República. Se a tua com a guerra de 14. Riqueza básica é o café,
pl tum ern suas pequenas e grandes ambições, com substituição da n1011arquia não teve significado pro- c uja superprodução preocupa os responsáveis pela po-
O doaconhecilnenfo do povo - , fortalecem-se de vez fundo, pesou o estabelecimento do trabalho livre. Eni lítica desde 1890. A exportação e os preços varian1,
OllE)11Tq1.tias. Aos poucos vai ganhando mais corpo decorrência, a estrutura social, vai aos poucos sendo provocando <JUOlentos de estoques que geram pro-

• ··~ lflt" ·'······ a poUtlca viciada, no que se via como a negação da .1 n1odificada, como se assinalou e deve ser repetido, blemas. Daí as necessidades de intervenção dos go-
!llll IH11tw11lo pràtlco correta - os famosos vícios da República com o surgimento do proletariado e oportunidades vernos no n1ercado, como se vê sobretudo com as
11111 "'"" 1111 V lhn, oligárquica e fundada em falsificaçóes de todo cada vez maiores para os gru.POS médios, ao m.esn10 políticas de valorização, a primeira das quais é a de
.1..., ...... 1111· tl.po, 0 0-1 que o povo não conta. Ao lado desse as- tempo que a burguesia agrário-exportadora se 1906. O mercado instável é ameaça :permanente à
fllltl• •• 11111111 pecto, verificam-se lutas, como a história melan- fortalece e vai ganhando consistência uma bur- ordem nacional, que depende dele. A preponderân-
1tll1t 1 1 ~-· l •• \"4. o611on do C:inudos - que não conseguiu despertar gu esia comercial e industrial. O Brasil de 22 cia paulista no plano brasileiro está Jigada ~ essa cul-
lt1f • llHll• "' !la Ol.et1ÇÕes oficiais, a não ser a repressiva, para a não é o mesmo de 891 evidentemente, ·que tura, cada ve-1, 1nais crescente. São 'Paulo dá, no sé-
1l11ul11 e qro tr g dln dos sertões - e outros protestos, como a aos poucos se impôs mudança qualitativa, além da culo XX, até os anos 40, cerca .de 70% da pro-
1huo 111!1 l 1 ~ lut contra a vacina, a revolta dos marinheiros e quantitativa. Se a população nacional era 14 333 915 dução, cultninando em 17/18, qua.rido atinge 78%.
•• 11·jll111· • Ql.l.t1' 9, que sen1pre houve a contestação, ainda que em 90, é 17 3 18 556 em 1900, 30 636 605 em 1920, O café é que explica a distribuição populacional, o
... 1111 .. 1•• tt •••
. fll\(ltl o logo abafada. Verifica-se também .certo bri- 37 625 436 em 1930. Cresce notavelmente com ·a prestígio e o declínio de cidades, em curioso roteiro
1•1"111 ••Ili ··~ '' lho pldér1nico no que fte chamou de belle époque imigração - 2 575 3?8 de 1891 a 1920, ~eríodo de que já foi objeto de muito estudo. Â rede ferroviária
l111hul11, 11111 ·~. br llolrn, sobretudo no início do século, com as maiores entradas - , com a primazia dos italianos, está ligada a ele. Outro aspecto a ser lembrado é
'
º"~~'"1 •jll•· (. ' n.ndos Ollt'os de embelezamento e saneamento do '1 que dão nova fisionomia às cidades, notadamente que a renda gerada pelo produto é que dá base ao
• ,•; llh .. Ili· o, o prostfgio social dos salões, as propaladas afir- São Paulo e Rio. Eles trazem outros padrões de vi- p.roçcsso industrial - tese em que se tem insistido .
14111, 111111111i1 .. mn.Qõet do Rui Barbosa no estrangeiro ou o invento da, que levam à imitação; trazerr1 tuna tecnologia Daí a ·mesma área apresentar realce nos dois seto-
,,,.,,, .. ··· ···
,,.. ,, ,,,,,., li.,, . :
' d Snntos Du1nont, alé1n de um grande momento
llt rdrlo, cnjo expoente é Machado de Assis. O café
sin1plcs, 1nas que é importante e logo se difunde, no
fabrico de artigos de todo tipo, como alitnentos, te-
res, corno é den1onstrado em muito livro de Histó-
ria, Sociologia e Economia. O impérialismo está p re-
~·· t1.tlna1 n Sllj)erprodução, que requer política inter· cidos, objetos diversos, máquinas, marcando certas sente no Brasil .r epublicano, con10 fora no rr1onár-
'...
""''"'' '' li
, ..1111111111•. Uolonlstu do Estado. A guerra de 14 desenvolve paisagens con1 un1a presença 1nais viva, como é o quico. Se então era predominantemente inglês, com
tlil• •llll•l \11•1~ O lmvul&o l11dusti·ial que vinha de antes, impondo-se caso cio Sul. Nos levantamentos da produção indus- e1npréstimos e investin1entos de todo tipo, com a
li 111111~11 l 1111 ·mad !f;) oha1u0do de "substituição de importações". trial feitos em 1901, 1907 e 20, é sensível essa pre-
sença, principalmente em São P aulo. O país sem ·es-
República começa a ser diversificado. A té 1930, é
1111.-111111 1•111 · l)Olíticos e o n1enosprezo do social são de- ainda sobretudo inglês, mas se acentuam as entradas
1!1111111 1- 1••111 do po1· vozes isoladas, que não ecoam, como cravos e saneado atrai estrangeiros, o que não se de Olltros capitais europeus - franceses, alemães -
D oUdtto dos que clamam pelo melhor enca- dava antes. Com a tecnologia e outras normas de vi- e norte-americanos. Com o ten1po; os Estados Uni-
li 1, li fl• 11111 cnto do problema do trabalhador. o presi- da, t~azern também a reivindicação social, que conhc- dos se sobrepõem a todos. os outros. É no período
ltHlfll 1111111+11 1Jltdolo P essoa, que surge de impasse provo-
MODERNISMO: UMA REVERIFICAÇ.!.0 . . . 19
1
• ·F.
que. se verifica a ma!s interessante disputa entre o Ocorre-nos citar estudo de Ortega y Gasset sobre oligarquias em vigor e um grupo dirigente mui " " 111\1)•1•
nacional e o estrangeiro, con1 as tentativas de Far- o pro~len1~: quand~ fala na ··sensibilidade vital de reduzido. Daí o movimento dos tenentes, que de~ , h• nh 1 ti•
quhar para a exportação de minério de ferro. Co- cada epoca e exan11na as gerações objeto de muita dia posição nacionalista e contra os regionallSm.Q!!r:· •11111 ....111
meça em 1909 e só terá solução no fim da década an~lise s~ci~Lógica. Considera que geração "é o con- a favor de forte governo central, que federalh ' " 1..11111111•
de. 30. De todos os prob.te1nas con1 o itnperialismo ceito mais importante da história" e que há muito u justiça e as polícias estaduais - golp e nas o'ij..-. •• u•volu~
foi o que m ais deu que falar. de co111un1 entre seus membros cheoando a afirmar garquias. Os tenentes não chegaram a formu1ax prQ• )1< IOY1• ....
, Como se no~a po r esses dados simples, o Brasil que "o reacionário e o rcvoluci~nári; do século XIX gn~ma. corpo orgânico de idéias. Suas causas, quo , ,, f 11111 111~
e cada vez mais complexo, não pode continuar es- são n1uito mais afins entre eles que qualquer deles
tagnado como antes, na ordem patriarcal das fazen- .co1n qual~uer un1 de nós" - observações que pre-
' ' hoje parecen1 banais, tinham razão de ser: não atln, • •1 11ll11ltl Mt
,, · ·-t ll l llt
gi:un plano profundo de reivindicações, ficavanl nG ·
das e no convencionalisn10 das Academias• un1a vez ferimos n~o enca111pa~. O autor reconhece gerações 1 111" e '1u 1
l ' . •
que se~ ~resc1mento º·coloca, ainda que em posição e111 que ha ho1nogcnc1dadc entre o que se recebe e
nível das aspirações da classe média, pequena bur-
guesia, de simples reformas, mas tiveram função v11 h•l11 1 11
secundaria e con1 lc nt1dão e hiatos, no ritmo do sé- o gue se tem _de espontâneo - são as épocas cun1u- alto sentido. Realizad<is que foram e1n grande parte , ' l i 111 ll\'111111
c ulo XX. S.ituação que ncni sen1pre é percebida pelo lat1vas; geraçoes con1 profunda heterogeneidade en- - sobretudo no governo Vai-gas - , não ecoam maia d1111•t·llt\t1I
g rupo do1n1na11te - seja o político, que se apeg'} a tre o que se ten1 de específico e o que se recebe ~ojtJ, quando as reivindicações são bem mais pro• 1•11·11-•lt·- 1
se us esquen1as clássicos, corno se nada houvesse acon- con10 herança. :--- gerações cli111inatórias, polêmicas tun~l as . .Deve-se ao g r upo, no entanto, a sua apresen-
11111 l 1t, .. 1
tecido, seja o responsável ·pela economia, que não ~ de con1bate. 1 en1pos de velhos e t.e1npos de jovens, 1111 h •l l~l h·
taçao e a luta por elas. Em 22, no Forte; em 23
que r sair da rotina, seja o intelectual, q ue se man- epocas de s~n~ctud~ e épocas de juventudeª . Desen - no llio Grande Sul; en1 24, em São Paulo e, em me! t ., ,.... "· 1
tém de l~tdo,, con10 se não fosse parte do processo, volvendo a 1ele1a, a1 e c1u ou tros estudos, di z Ortega
em 1narg1nalldade que é 1nais insuficiência que ati- 11o r escala em outros Estados; depois, alguns reVo • ''"'"' •1111•
que se aqu~l as têm relativa tranqüilidade e é então lucionários de São Paulo se unen1 aos do Rio G raudo ' ' '"'' 1~1 1111
tude. 1n1p unha-se o recxa1nc de tudo, com a to1nada que se ':'..erifi~atn os "séculos de ouro", quando um:\ 1 11111 11 11111
1 1 c formam a Coluna Prestes, que percorre o sertão
de novas posições. onentaçao atinge a sua p lenitude, as segundas são ,, l111t1h
1 1 do Brasil, do Sul ao Norte, ao Nordeste e ao Cen·
efervescentes, pictóricas, vivas e críticas. Embora nos
12. Geração heterodoxa, 1922/30 p~rcça haver certa arbitrariedade no esquema - não
tro-Oeste, ele 25 a 27, levando a palavra de crítica.
e protesto ao povo dos sertões, esquecido pela poU- l
f' "''"
~ t., •• i~· 1 lttt

, .Como ~e , v_ê, há c~i~cidência entre o evento po-


1Jt1co - 1n1c10 da at1v1dade tenentista - e o lite-
ha. a o~den1 p~rfeita, todas as épocas viven1 de in-
qu1etaça? t: c rises - , não se pode deixar ele ver aí
tica das Metrópoles. O Tcnentismo ecoou profunda·
mente, seus chefes chegaran1 à categoria de 1lenda.
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a.lgum fundan1cnto e certa funcionalidade explica- A eles é que apelam os poJíticos descontentes, quan• ·111h1 111•lhl1
rá rio - a Sen1ana de Arte Moderna esta e1n feve- tiva. •... • .. 1\1\ .. 1114
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reiro, aquele en1 julho. Se um prega ' a renovação do da sucessão de Washington L\lís: da aliança de ,
Na história do Brasil, a geração de 22 - de con- tenentes e políticos que os hostilizaram é que resultou 1(111111 11·~ 1
dos ,co~tumes políticos, na superação dos erros da tornos d.ifici~1i:iente delimitados - é exemplo de gru- 1'.l 111 l1·11h1
Republica, a outra prega a renovação artística na o êxito da Aliança Liberal, que se realiza na cha-
po elun1n a~or10 e d<: combate. O f ilósofo espanhol, 11t t' • l ll
superação .d~ fórmulas gastas. É curioso que o~ fa- niada Revolução de 1930. Ainda que não fosse re-
tos se verificassem em 22, no centenário da Inde-
pendência. Haveria aí algo mais que simples acaso,
ao caracterizar geraçoes, di z que elas têm de comum·
1) c?incidêocia dos anos de nascimento; 2) homo~
vol ução no sentido sociológico, foi virada na vida
do Brasil. De f ato, ela é n1arco divisor, encerrando
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v1 olt1 t 1u
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ge.ne1dade de formação; 3) fato histórico capaz de a llepública Velha e inaugurando novo período. Os I" ·, N1•l11
um~ vez qu~ as grandes datas impõem balanços e criar .estado ele consciência e 4) inspiração con1um. 111111 111·11-
pro1etos. Assrn1 na vida dos indivíduos como na dos tenentes atingem o poder de 30 a 32, depois sito
Se tres não são be1n determináveis, u1na é nítida - afastados: Vargas, porém, herda-lhes a bandeira, e ,, 11•v11ll11
pov~s e sociedades. Nem todos os dias ou anos são a Independência é fato histórico capaz de criar es-
iguais : no plano pessoal, o aniversário, a data da tad~ de ~o_nsciência. Cem anos depois da e manci-
vai realizar, sobretudo depois de 37, as reivindicações • ' '" '" Ili•
tcnentistas. Esvaziou o 1novin1ento, cumprindo-lhe o 1'111 ) J li
m orte de alguém, o Natal, o íllti1no dia de dezen1- paçao pohtica, o homem brasileiro podia perguotar
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<bro; n~ ?~s povos, ui:n fato 1narcante, revolução que
tçnha 1n1c1ado um ciclo, a Jndependência. Para os
~e de fato o país se tornara livre, se não lhe pesavan1
al~u1nas tutelas. Perguntar, sobretudo, o que h avia
programa. Estão eles, pois, entre os grandes artífices ..
do Brasil novo, de u1na nação que busca moderoi• .· / 1111 ll1t11
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franceses e russos, por exe1nplo, os anos 89 e 17 z<~í·-sc, supel!ando a estrutnra arcaica. Estão na base Vlltlil •• li
feito ~o longo de cem anos, no sentido de realizar do p rocesso político de hoje, coni as vicissitudes que '' (1p11• -•\ li
se1npre h~o de significar. muito (111es1no para o n1un-
do.' q u? a1 os fatos adqu1reni. caráter universal ) . Para
a naçao, explorando suas potencialidades e incorpo- n1arcan1 trajetória de avanços e recuos, como se v~ · ... ,., , ,1,111/
rando t?~ª a população cm uma sociedade abe rta e rifica em 37, 45, 54, 61 e 64, no acidentado processo ,; ')Ili• Ili• I••
o Brasil, os anos 22., 88, ~9, por _exemplo, ou alguns democrat1ca. Co1no a resposta não era animadora da política brasileira, que não cabe apreciar. · pt1hlh·li ..
o utros, de cunho 1na1s regional, hao de provocar se1n- cabia i~entificar os focos responsáveis pelo subde~ Outro elemento a ser Ien1brado, nessa tentativa de l /1111;.. ,. 1#
p:e, o exan1e ~e. co~sciência, º. balanço de realiza- s~nyolvunento e pela exclusão de amplos setores,- que
çoes con1 a venf1caçao dos desvios, do que se deixou ambiência da década dos vinte, é que a política acl- 1 11•nh• " ..

de fazer e o conseqüente levantamento de projetos.
vrv~am em co;11pleta n1arginalidade. O ponto de mais
fácil apreensao era a política dominante, con1 as
q uire outra conotação, que é a ideológica. Fora at6 .i.,/\11111
Os fatos .provocam um estado de consciência cole- ai simples disputa. de poder, quando surge o debate .1111111 Ili•
tiva! configurando todo o comportamento de u1na ge- (8) ÜRTfCA Y GASSET, José. F:I Tema de Nuestro Tícmpo. de. idéias com vinco mais profundo. Aparecem a di· ,, 1111111-. ·111
raçao. 146-9. pp. re1ta. e a esquerda: a direita, com a criação, em 192'1 1 1111 v1•11 111

20
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,.. ,.,. Ocorre-nos citar estudo de Ortega y Gasset sobre
ollgarquins em vigor e um grupo dirigente muito da revista A Ordem, orientada pelo radical~smo vio-
1' ' o problema, quando fala na "sensibilidade vital de
ft 11,,,. cnua época" e cxarnina as gerações, objeto de muita reduzido. Daí o movimento dos tenentes, que defen- lento de Jackson de F igueiredo, com pletada no
11n~lise sociológica. Considera que geração "é o con-
dia. posição nacionalista e contra os regionalismos, ano seguinte com a fundação do Centro Dom Vital;
coilo n1ais itnportunte da h istória" e que há nluito n favor de forte governo central, que federalizasse a esquerda com o grupo Cl<1rté, em 1921, para apoio
de co1nun1 entre seus 111e1nbros, chegando a afirmar a justiça e as polícias estaduais -- golpe nas oli- à revolução bolchevista de 191 7, a exemplo do que
•l o que "o reacionário e o revolucionário do século XIX garquias. Os tenentes não chegaram a formular pro- houve cm outros países, completada em 1922 com
• • •tlf lltf) ' silo muito mais afins entre eles que qualquer deles grama, corpo orgânico de idéias. Suas causas. que a fundação do Partido Comunista. Foi mais sensível
coi!l qual~uer llm de nós" - observações que pre- hoje parecen1 banais, tinham razão de ser: não atin- • a atividade da direita que da esquerda, que faltou
f crtn1os nao encampar. O autor reconhece gerações giam plano profundo de reivindicações, ficavam no a esta um chefe que a projetasse - a conversão d e
c1n que há ho1nogeneidadc e11trc o que se recebe e nive~ das aspirações ~a classe média, pequena bur- Luís Carlos Prestes, figura mítica da década, o " Ca-
o que se te1n de espontâneo - são as épocas cun1u- guesia, de simples retonnas, mas tiveram função e valeiro ela Esperança", só se dá em 30 - , além das
lt1 tivas; gerações com profunda heterogeneidade en- alto sentido. Realizadas que foram em grande parte condições naturais da sociedade e do pequeno ama-
tre o que se tcrn de específico e o 9.ue se recebe - . sobretudo no governo Vargas - , não ecoam mais durecio1ento das classes trabalhadoras, vítimas de re-
•' 1 1 •
corno herança - gerações eli1ninatór1as polên1icas ~OJe, quando as reivindicações são bem mais pro- pressões de um poder que não as compreendia. De-
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ti 0 '1 11 '
,,.
:ft(O e de co1nbate. 'f empos de velhos e tempo~ de jovens, tun~as. Deve-se ao grupo, no entanto, a sua apresen- mais, o mundo conhece então a maré direitista, ca-
,.,. ,... ,. épocas de senect·udc e épocas de juventude8. Desen-
volvendo a idéia, aí e en1 outros estudos, diz Ortega
taçao. e a luta por elas. E111 22, no Forte; cm 23,
no l~10 Grande Sul; cm 24, em São Paulo e, cm n1e-·
t'acterística do decênio posterior à Primeira G rande
Guerra, como a esquerdista vai caracterizar o pe-
que se aquelas têm relativa tranqüilidade e é então ' nor escala cn1 outros Estados; depois, alguns revo- ríodo que se segue à Segunda Grande G uerra. ~ o
que se verificarn os "séculos de ouro", quando u1na lucionários de São Paulo se unem aos do Rio Grande fascismo na Itália, o salazarismo em Portugal, bem
orientação atinge a sua plenitude, as segundas são e fom1am a Coluna Prestes, que percorre o sertão co1no outros rnovimentos vitoriosos em vários p aíses
clcrvcscentes, pictóricas, vivas e críticas. Embora nos do Brasil, do Sul ao Norte, ao Nordeste e ao Cen- e a formação de milícias em muitas partes.
pnrcça haver certa arbitrariedade no esque1na - não tro-Oeste. <le 25 a 27, lcv<1ndo a palavra de crítica O Modernismo e o ·renentismo surgem da insatis-
há u orde1n perfeita, todas as épocas vivcn1 de in- e_ protesto ao ,povo dos sertões! esquecido pela polí- fação dorninante. Um, ante a estag11ação ou mesmo
q ulelação e crises - , não se pode deixar de ver aí tica das Metropoles. O Tenentismo ecoou profunda- a realidade retrógrada, que vive de academismos,
.,, 11.lgun1 funclan1ento e certa funcionalidade explica-
ltvu.
1nente, seus chefes chegaran1 à categoria de lenda.
A eles é que apelam os políticos descontentes,' quan-
de culto da gramática e de regras, literatura e artes
submetidas a padrões europeus, sem criatividade: daí
Na história do Brasil, a geração de 22 - de con- do da sucessão de Washington Luís: da aliança de a revolta contra o pretenso falar bem. Demais, os
torno~ d.ifici}n~cnte delimitados - é exemplo de gru- tenentes e políticos que os hostilizaram é que resultou grandes nomes da literatura haviam desaparecido:
po c lin11na~ono e ele con1batc. O filósofo cspal1hol, o êxito da Aliança Liberal, que se realiza na cha- Machado de Assis (1908), Euclides (1909) . N abu-
110 caracterizar gerações, diz que elas têm de co1num : ~·• 1n ada f{evolução de 1930. Ainda que não fosse re- co ( 191O), Raimundo Correia ( 1911 ) , Aluísio Aze-
1) c?incidência dos anos de nascimento; 2) homo-
ac.nc1dade de formação; 3) fato histórico capaz de
"' volução no sentido sociol6gico, foi virada na vida
do Brasil. De fato, ela é n1arco divisor, encerrando
vedo ( 19 i 3), Silvio Ron1ero e Augusto dos Anjos
(1914), José Veríssimo, Afonso Arinos e Simões Lo·
cr1 ur estado de consciência e 4) inspiração comum. a República Velha e inaugurando novo período. Os pes Neto (1916), Bilac (1918), Alphonsus de G ui-
.,,j .• ,,,, So três não são bem determináveis, uma é nítida - tenentes atingem o poder de 30 a 32, depois são n1araens (1921), Lima Barreto morre em 1922. D aí
a Independência é fato histórico capaz de criar cs- afastados: Vargas, porém, herda-lhes a bandeira, e a revolta artística pretendida, que consegue êxito,
• •• •1•• t.
llu.lo de consciência. Cem anos depois da en1anci- vai realizar, sobretudo depois de 37, as reivindicações co1no se vê em grandes realizações: Oswalcl publica
111 ,,, "' ,,
. .. pação política, o homem brasileiro podia perguntar tenentistas. Esvaziou o n1ovimento, cun1prindo-lhe o em 22 o primeiro volume da Trilogia do Exílio, em
1. ,.,, ••••••
_,,,...- programa. Estão eles, pois, entre os grandes art'i.fices 24 M en16rias Sentimentais de João Miramar, em 25
1, • •' 1• 1 BC de fato o país se tornara livre, se não Jhe pesavam
,,'•.. li'' n l~umas tutelas. Perguntar, sobretudo, o que havia do Brasil novo, de uma nação que busca modemi- Pau-Brasil, em 28 o Manifesto A ntropófago e a re-
, •. ,,11 •• ,. feito ao longo de cem anos, no sentido de realizar zat-se, supel!ando a estrutura arcaica. Estão na base vista Antropofagia, escreve Serafitn Ponte Grande
n noção, explorando suas potencialidades e incorpo- do processo político de hoje, con1 as vicissitudes que (qne só edita na década seguinte). Do Pau-Brasil à
" ' ... .i 1 ~· marcam trajetória de avanços e recuos, como se ve-
rando toda a população em uma sociedade aberta e Antropofagia há duas correntes de grande vitalidade,
democrática.. Como a resposta não era anin1adora rifica em 37, 45, 54, 61 e 64, no acidentado processo que se completam. Antônio de Alcântara Machado
cabia identificar os focos responsáveis pelo subde: da política brasileira, que não cabe apreciar. pubJica ein 25 Pathé-Baby, em 27 Brás, Bexiga e
fllt ... ·li ,, • 1cnvolvimento e pela exclusão de amplos setores, que Outro elemento a ser letnbrado, nessa tentativa de Barra Funda, em 28 Laran.ja da China. Outra cor-
,,, 1•11 lf1 ••• viviam cm con1pleta marginalidade. O ponto de mais ambiência d a década dos vinte, é que a política ad- rente é a verde-amarela, de 26, depois a do grupo
ldoll apreensão era a política don1inante, com as quire outra conotação, que é a ideológica. Fora até da Anta. Teve figuras atuantes, como Menotti, Cas-
• aí simples disputa de poder, quando surge o debate siano Ricardo, Plínio Salgado, todos com muitas
14 ~nJ, OR'rso~ V O~ssrrr, José. El Tema de Nuestro T'ie1111,o. pp . de idéias co1n vinco mais profundo. Aparecem a di-
reita e a esquerda: a direita, com a criação, em 1921,
obras, que não deixariam 1narcas. Menotti nunca foi
na verdade autor moderno, apesar do tanto que fez
MODERNISMO: UMA REVERIFICAÇÃO . . . 21
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pelo movimento. Plínio produziu bastante, em fonna in Brazil iri the Middle of the 19th Century, início .Alisinalen1os, porém, que esse e1npréstimo se reveste'·1 ,. 'llllll •I~
confusa que não chegou a adquirir um estilo novo, de vasta produção de Sociologia e Antropologia e, caráter bastante .diverso dos anteriores. "" p11~1t. 1
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impulsionado por nacionalismo equívoco e vocação notadamentc, de História Social, que terá desenvol- 1
1
11111 ..1..
Lembra que as ligações do Brasil ,con1 o Oeidc ilo Yltlll"
1\ messiânica, que o "levou à chefia da política direi· vimento e repercussão; en1 28 Paulo Prado edita Re- europeu são mais íntimas agora que antes; o o •
., tista, na qual teve grande atividade e prestígio, por trato do Brasil; Sérgio Buarque de. Hollanda, parti~ j& lltll ltllUtn
da velocjdade e mecanização, que anima aquelas V ,
algum tempo. Só Cassiano Ricardo manteve intensa cipante do movimento, amadurece idéias que apa- ·11t11t1••
guardas, pode ecoar p~Jo recente surto indust,rial br ~·.
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produção literária, por vezes mesclando-a com a po- recem em livros publicados depois. f: a consciência .~t• t hWtthl
sileiro, pela urbanização crescente, pelas re1vludla'1' ·
lítica, atingindo a plenitude da forma artística vários crítica, que logo se aprofunda com a contribuição ' , p111 1ll•l11 1
ções operárias. Mais: , ~
anos depois. De 27 é a corrente chamada Festa, de mais ordenada e científica das Universidades seuse /• . 11111• ulhttv
cunho espiritualista e que nada produziu de expres- cursos de Ciências Sociais, tão representativos de um nüo se ignora o papel que a arte primitiva, o fololol' ,· ·' ~"'""' .. t
sivo, então. Mário de Andrade em 22 aparece com a etnografia tiveram na definição das estéticas n1odêrt!JI 1 l ~ l1l1thl 1)1
Brasil novo.
Pau/icéia D esvairada, em 25 com A Escrava que não 1nuito atentas aos elementos arcaicos e populares co,m, '1 11p11h. 1
Manifestam-se aí, em obras literárias - como de prinlidos pelo academis1no. Ora, no Brasil as cultUl'!\S
é Isaura, em 26 com Primeiro Andar e Losango Cá- outras artes em geral - e de estudo, influências eu- 111111111t lltl ..
qui, em .27 con1 Amar, Verbo Intransitivo e Clã tlo vrln1itivas se misturam à vida cotidiana ou são remi.ili~· l 11111lh1tll I
ropéias, quando se publicam em diversos grandes cências ainda vivas de um passado recente. As torr!ve
Jabuti, e, sobretudo, em 1928, com Macunaima, tal-
vez a obra mais importante e acabada do Modernis-
centros, sobretudo da Itália, França, Alemanha e Suí-
ça manifestos que pretendem a formação de esco-
ousudias de um Picasso, um ·Brancusi, um Max J!\Qíib1
i 11n Tri.stan 'r zara, eram, no fundo, mais coerentes co,m
,
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' 11111-.
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mo em sua fase de combate, ao mesn10 tempo que ia;, con1 rumos remodeladores, como os vários ma- 11 nossa herança cultural do qL1e com a deles. O hábito , 11111111 11111
publica livros eruditos de folclore e história da mú- nifestos futuristas de Marinetti, o Expressionismo 0111 que estávan1os do fetichisrno negro, dos caltu1grui1 1 11111 1 111 11
sica. Assinale-se ainda que em 28 José Américo de alemão ' o Cubismo e o Dadaísmo, o Surrealismo, co· , dos ex-votos, da poesia folclórica, nos predispunha a 11cçt.· 11 1111111, Ili
Almeida lança A Bagaceira, iniciando o ciclo nor- "
tar e assimilar processos artísticos que na Europa toprc- " 111• 11111u11h
,
'I

,
destino, que tanto se desenvolve na década seguinte,
1no, no campo das ciências sociais, de várias linhas
interpretativas, como as da Antropologia e Sociolo-
scntavam ruptura profunda com o meio social e as trCI• ·: ,,,. 1 l' h •\111
~lições espirituais?.
marcando-a, como a dos vinte foi marcada pelos gia norte-americanas, mais recentes. São influências 11 11h 1 11•111
paulistas. Haveria muito mais a lembrar, como a comuns, algumas profundas, a maior parte bem epi- ,, ~ Se Modernismo e T eneutismo surgem e se dcscn• jlllll lll Y.. 11
continuação da obra de Manuel Bandeira, a estréia dérmicas - notadamente no caso da criação artís- volvem paralelamente, não houve contato maior cn,.. l 11h•111 •• 11110
de Augusto Frederico Scbmidt (Canto do Brasileiro, tica em que os modelos externos, de manifestos ou trc eles. Sabe-se que os elementos não se combl.nnii 1111 lll~l1•IH 1

1928) e as publicações em jornais e revistas de au- de ~bras, exercem efeitos quase se1npre ligeiros, com ran1. Querer apresentar uns - os tenentes - como ' • ••11111 t I•
tores como Carlos Drummond de A ndrade, Emílio citações ou imitações que apenas captam os cacoe- expressão da classe média, 1nais Jigados ao povo, Cll• 1 11h1 !Ili 1
Moura e Murilo Mendes, que só aparecem em livro IA 1•111li111 lili 1
tes, sem penetrar no sentido profundo. A acusação quanto os 1nodernistas eram expressões ou joguetClS ,
em 1930. Sem falar em outros, atuantes então, como
Jorge de J~ima, que sai do simbolismo e neoparna-
sianismo dos primeiros versos para os temas regio-
de que faltou autenticidade a muito do que se fez,
portanto, não tem procedência, que sempre há a nota
de originalidade, de contribuição nativa. ~ o que se
t,
, " da plutocracia paulista, desenvolvendo-se em sal51.\S
e festas, é pegar apenas o superficial dos movit1l~U.·
t:os. P-. certo que os artistas - sobretudo os de Sue
fvl /11111
.l1•li•• -111•11
~Il i 11111l h1 1
-1

nalistas e as ousadias de Poemas (1927 ), Essa Nega dá com o exemplo mais referido - o de Oswald í Paulo, os mais significativos da década - foram li• 1 111•1111 li lll
"
Fulô (1928) , Novos Poemas (1929) . Ou Augusto de Andrade com o Pau-Brasil e depois com a Antro· gados ao que havia de don1inante na sociedadé, r 1 111111111101•

't"'
Meyer, que se apresenta com A Ilusão Querida
"o

velando mesmo incompreensão para o que se pM• "• 1111111•• .,....


pofagia, vistos como descobrimentos do Brasil feitos
(1923), Coração Verde (1926), Giraluz e Duas
Orações (1928), Poemas de Bilu e Sorrisô Interior
em Paris, de Montaigne a Picabia e Blaise Cendrars.
Só a má vontade pode negar o que existe de nativo
sava. ~ o que se vê, por exemplo, com o episódio
que lembra Oswald e Blaise Cendrars "atônitos" COJ)l
l'"""""t
11l ia1111• ' li 1
( 1929). Tratar de todos, lembrando outros nom"es, ' l'tt l l'l'tl ,,
e original na obra do poeta e. ficciqnista brasileiro. os eventos de 24 em São Paulo. Se o francês po<Il!ii .
'; . ., !linda que com simples referência, alongaria o texto. Os próprios artistas reconheceram a filiação a esc~­ não entender, é injustificável a falta de comprêCll.' ~ 111 11lth111t" 1
"• · · Pôder-se-ia lembrar ainda que é então que começa o las estrangeiras, como se poderia ilustrar com depo1~ são do brasileiro. Demais, ligavam-se aos govern® , ·' 11•1111, 1•11111
sur to de estudos de temas brasileiros, em nível de - em São P aulo e Minas, pelo menos - , ex1>rla • l h1l 11• 1•11111
mentos de escritores e pintores. Assim havia sido
· profundidade que não se conhecia antes. :e. certo que antes como será depois, no Brasil e em todo o mun· 1niam-se em jornais oficiais. Os p aulistas ficaratn COUl. : 1h•rl111th11 t
importantes obras já haviam sido escritas, mesmo no do. O i1nportante é consignar a esc~lha q~e se f~z o Partido Republicano P aulista, expressão máxi~IJ,,,'.:; \16•11111 UI+ I!
século anterior, como se poderia ilustrar com exem- do grupo poderoso e responsável pelos diesvios da. il"O',,- .'.! 111111111 ltllllt·
<lo modelo, no intuito de colocar o pais na linha mais
1 1 plos. Agora há continuidade na produção. Tal é o avançada e do que pode ser mais rico e fecundo. Jítica, ou com o Partido D emocrático, que fez 09 .:: 11' 1 1111U11"1
sentido da estréia de Oliveira Viana, em 1920, com No estudo do problema, Antônio Cândido colocou-o sição sem maior profundidade. Ignoraram as 011\19 -i~ 111111111111114•
Populações Meridionais do Brasil, começo de inter- populares. Vê-los como conservadores ou da diteit 1tY, · 11111111\lll • 1
muito bem: t1l1U•tlljltl
pretação de nossa realid ade em livros que subsistem, 1
.como tem feito "Certa crítica, enquanto rotula de · i

apesar de equívocos e dogmas do autor (o sociólogo \, pulistas e esquerdistas os tenentes, é forçar a not ~ •' ' " "• 1111111•~
no campo da pesquisa formal os modernistas vão ins-
nunca teve nada a ver com o Modernismo) ; em 22 11•1 1 l 1'111111111~
pirar-se em parte, de maneira algo desordenada, nas cor-
Gilbertp Freyre apresenta, em Baltimore, Social Life rentes literárias de vanguarda na França e na Itália. (9) A,NTÔNJO Cll<r>IOO. Literat11ra e Sociedade. p p. 144•5, 11111 lllth" 1

22 M1
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... 11111 1111 110 lri Brat.il in the Middle of the J 9th Century, início AS:Sioalcrnos, porém, que esse empréstimo se reveste de ,ê, certo que os militares rebeldes estavam mais perto
.. ,.11.. llll 1 ~ de vasta produção de Sociologia e Antropologia e, coráler bastante diverso dos anteriores. do povo, mas não se pode djzer que se confundissem
1 ., V t .. 11\ ootadrunentc, de História Social, que terá desenvol- com ele. Se não e ram de salões e amigos dos "donos
illl h li 1lli 1· vin1ento e repercussão; em 28 P aulo Prado edita Re- l cJnbra que as ligações do Brasil com o Ocidente
da. vida" - expressão que Mário usaria muito al-
....1111111. , •• trato do Brasil; Sérgio Buarque de. Hollanda, parti- europeu são m ais íntimas agora que antes; o culto
gum tempo depois - , negaram-se a aceitar o apoio
º" ~·· l11h.f
•1.... olpnntc do movimento, amadurece idéias que apa- da velocidade e mecanização, que anima aquelas van-
guardas, pode ecoar pçlo recente surto industrial bra- das camadas mais simples, ou nunca as cortejar am .
recem em livros publicados depois. É a consciência Se Oswald viu "atônito" 1924, os ·chefes da rebeldia
__,1
sileiro, pela urbanização crescente, pelas reivindica- •
crítica, que Jogo se aprofunda com a contribuição paulista recusaram a colaboração do proletariado,
111 f-,. tlll •.~• .. ções operárias. Mais:
mais ordenada e científica das Universidades e seus que olhavam com a mesma suspeita dos donos dos
1 ,,,. ''' "'" cursos de Ciências Sociais, tão representativos de um não se ignora o pa.pel que a arte prinútiva, o folclore, salões e fazendas festivas (lembre-se o episódio de
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Brasil novo. a etnografia tiverarn na definição das estéticas modernas, Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa, que não querem
lf• lt 1/111' ' 1nuito atentas aos elementos arcaicos e populares com-
Mnnifestitm-se ai, em obras literárias - como de o apoio que lhes é oferecido pelos trabalhadores,
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' outras artes em geral - e de estudo, influ·ências eu- prin1idos pelo academisn10. Ora, no Brasil as culturas
1>rio1itivas se n1isturan1 à'. vida cotidiana ou são reminis-
temerosos de suas causas, com as quais não se con-
ropéias, guando se publica1n em div<frsos grandes cências ainda vivas de um passado recente. As terríveis fundiàm). Depois, quando da Aliança Liberal, mis-
cent.ros, sobretudo da Itália, França, Alemanha e Sui- ousadias de un\ Picasso, unt -Brancusi, um Max Jacob, turam-se em grande parte com os politicos tradicio-
ça, 1nanifestos que pretendem a formação de esco- un1 ·rristan T1..ara, era1n, no fundo, mais coerentes com nais, que combateram e pelos quais foram comba-
1 h •ll 11''
las, con1 rumos rernodeladores, como os vários ma- a nossa herança cultural do que com a deles. O hábito tidos. Poucos fugiram à colaboração·: negou-se a ela
1I ri li t 1\ ilJ,9
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nifestos futuristas de Marinetti, o Expressionismo e1n que est(l.vamos do fetichismo negro, dos calungas, Luís Carlos Prestes, que denuncia como espúrio o
·" 111!11 r. 1 ' ulornão, o Cubismo e o Dadaísmo, o Surrealismo, co- dos ex-votos, da poesia folclórica, nos predispunha a acei- acordo, mas a maior parte aceitou o movimento, e
• • lo 1.. ' tar e assimilar processos artísticos que .na Europa repre-
mo, no campo das ciências sociais, de várias linhas sentavam · n1ptura profunda com o n1eio social e as tra-
de maneira decisiva, vindo mesmo alguns a postos
lntorprctativas, como as da Antropologia e Sociolo- de relevo. Demais, se do Modernismo sai uma cor-
..~dições cspirituais9.
1,1ln norte-americanas, mais recentes. São influências rente reacionária que vai ser a própria direita - o
con1.uns, algumas profundas, a maior parte bem epi- \ Se Modernismo e Tenentismo surgem e se desen- grupo verde-a1narelo, da Anta, que dá os chefes do
dórmicas - notadamente no caso da criação artís- volvem paralelamente, não houve contato maior en- Integralismo - , saem sobretudo liberais ajustados
tica, cm que os modelos externos, de manifestos ou tre eles. Sabe-se que os elementos não se combina- ao sistema, ou nlentalidades de tipo anarquista -
de obras, exercem efeitos quase sempre ligeiros, com ram. Querer apresentar uns - os tenentes - como como Oswald (é sem expressão seu episódico vín-
citações ou imitações que apenas captam os cacoe- expressão da classe média, mais ligados ao povo, en- culo ao Partido Comunista) - ou outros que ca-
'
les, sem penetrar no sentido profundo. A acusação
de que faltou autenticidade a m uito do que se fez,
! ,
~
quanto os modernistas eram expressões ou joguetes .
da plutocracia paulista, desenvolvendo-se em salões
1ninharam para a esquerda, anos depois - como
'M ário. O mesmo se poderia diz.er dos tenentes: se
deles saem um P1=estes e outras figuras d a esquerda,
portll11to, não tem procedência, que sempre há a nota e festas, é pegar apenas o superficial dos movimen-
de originalidade, de contribuição nativa. É o que se tos. :e. certo que os artistas - sobretudo os de São sai muita figura perfeitamente ajustada ao jogo, que
dá com o exemplo mais referido - o de Oswald P aulo, os m ais signüicativos da década - foram li- chega a ministro e interventor, a outros cargos mais
de Andrade com o Pau-Brasil e depois com a Antro· gados ao que havia de dominante na sociedade, re- comprometedores depois e saem vários chefes mi-
po/agia, vistos como descobrimentos do Brasil feitos velando ntes1no incompreensão para o que se pas- litares que não se distinguem por centrismo ou po-
om J>nris, de Montaigne a Picabia e Blaise Cendrars. sava. :e o que se vê, por exe1nplo, com o episódio pulismo, antes pela direita, que recruta entre eles
Só a 1ná vontade pode negar o que existe de nativo que lembra O swald e Blaise Cendrars "atônitos" con1 alguns de seus elementos de relevo, como se sabe.
origioal na obra do poeta e. ficcionista brasileiro. os eventos de 24 e1n São Paulo. Se o francês podia P arece-nos que não vem a propósito colocar o
Os l'róprios artistas reconheceram a "filiação a esco- não entender, é injustificável a falta de compreen- proble1na em termos de ideologia de esquerda e di-
lns estrRngciras, como se poderia ilustrar com depoi~ são do brasileiro. Demais, ligavam-se aos governos reita, catalogando pessoas. O certo é que tanto ar-
ment.os de escritores e pintores. Assi,m havia sido - em São Paulo e Minas, pelo menos - , expri- tistas como tenentes não tinham orientação segura,
OJ\les con10 será depois, no Brasil e em todo o mun- 111iam-se cm jornais oficiais. Os paulistas ficaram com definida, reagindo antes pelo efeito da última con-
1 1111 1 ~111• Ili versa ou leitura ou das circunstâncias. O Brasil era
do. O itnportante é consignar a escolha que se faz ·O Partido Republicano Paulista, expressão máxima
1·11111 , . " '"
li l 111 ,.
elo ll'lodolo, no intuito de colocar o país na linha mais do grupo poderoso e responsável pelos desvios da po- ainda n1uito pouco maduro na década dos vinte. Que-
avançada e do que pode ser mais rico e fecundo. J~ti~a, ou com. o Partido _Democrático, que fez opo- rer aplicar àqueles anos rótulos de agora ou buscar
111 ' " · 1 1111 No estudo do problema, Antônio Cândido colocou-o s1çao se.m 1na1or profundidade. Ignoraram as causas programas que só se sedimentariam em décadas se-
li 111· lllh•1 . multo ben1 : guintes é trabalho pobre. Parece-nos que a razoável
~1111 .. 1.. i. -11 .
populares. Vê-los como conservadores ou da direita,
.como tc111 feito certa crítica, enquanto rotula de po- colocação do problema está em dizer que os mem-
" ~·li 1t1h 1111 tlO CIUnpo da pesquisa formal os modernistas vão ins· bros atuantes de então - artistas ou militares -
•••• ••• , !
pulistas e esquerdistas os tenentes, é forçar a nota .
I!
pJror•SO ern parte, de maneira algo desordenada, nas cor- representavam, ainda que inconscientemente, a mes-
'111 1<1/ I li• · r n tCD llterArins de vanguarda na França e na Itália. (9) ANTÔNIO CÂNDIDO. Literatura e Sociedade. pp. 144-5. Jna linh a de aspirações, que era a de renovar o país,
MODERNISMO: UMA REVERl.FICAÇÃO. .. 23
..

• '
~

todos con1 a 1nesn1a "sensibilidade vi tal" de que fa- que se desenvolverá depois, na década de 30 e nas riadores, sociólogos, economistas, cientistas políticos, n nhHI 1
que c-0mpletem suas visões de diferentes abordagens • l'Ollll 11111,_
lava Ortega. A associação entre o protesto artístico e seguintes. O q ue de melhor se prod uz no país está
em um tpdo. ~ trabal ho q ue se justü ica, que a época 1•lt1 111111 11
o político é f reqüente. Aparece, sem convicção, em ligado di reta ou indirctan1ente às experiências do pe-
~
•I
Mário de Andrade, mas, com muita ênfase, em Os- ríodo que se estudou aqui. Foi ponder ável, pois, o é das mais criativas da vida do Brasil. Realizando-o,
os que se emp enham nele estão sendo fiéis à prega- '
"""'"11111114
111 lll l'lllU•,
li wald, em Plínio Salgado e até em discurso de 1950
de Getúlio Va rgas, cm depoimentos que não são
Legado que se deixa e outros desenvolvem - muitos
dos quais são os mesmos que, jovens ainda, se agi- ção dos renovadores de 22, que pre tenderam exa- 11111 11- l jll lo
•1111- 111 .1.
• 1
tamente, como afirmou Mário de Andrade, em pas-

'
l
citados para · não alongar o ensaio. T em alguma ló- tavan1 naqueles anos. 111 L• l IUI t 1-1~
gica a ap roximação, em termos de "sensibilidade vi- Tentativa de quadro an:iplo, é claro que nosso es- , sagem citada, "o direito permanente à pesq uisa es•
tal". Não importa que diferissen1 no p onto de par- t udo se ressente de ligeirt·za e tom evocativo e des- tética; a atualização da inteligência artística brasi• t'Y4'lllll ll l

''
tida ou ele c hegada, ou no comportamen to, m as sim
que atuavam 1novidos por um desejo que tinha muito
critivo. Síntese de decênio f1.:cu11do, só se fez refe-
rência a alguns aspectos, deixando-se outros inteira-
leira; e a estabilização de uma consciência crítica n a-
cional". P retensão que foi alcançada, uma vez que ""''" ''"'
11 Ih 111111 •
o Brasil te1n hoje visão crítica de sua realidade, su- llllll 11 , .. ,
de con1un1 e que resultava da sensibilidade da ge- n1ente de lado. Faltou o estudo das revistas e ma-
ração. Querer que tenentes e artistas tivessen1 rntti.- nifestações regionais, que nlongarüun a exposição . perando as interpretações ingênuas de otimismo ê ' """'· 1•1111111
pessimismo . O atnadurecún ento de grandes realiza· . uno -11 11111
tos laços co1nu ns é utópico, uma vez que 1nesn10 en- O q ue se p retcnde11 foi. sobretudo, realçar a influên- ·, 111111111 ... ,
tre eles havia diferentes linhas - do radicalismo c ia de q uanto se lançou . Daí a len1bra:n.ça do con- ções artísticas
/ . - na
. poesia, na ficção, na
. pintura,
1
de uns a certo acon1odamento de outros, do van- ceito de "eficácia histórica", fundamental e f ugidio. na musica, n a arq uitetura, no teatro, no cmema - , ,' ' ' " 1 111111 ,.
ª.° lado do gosto perm anente de p esquisa e do expe· ', 1) 1Hllllhtll1
guardisn10 de uns à conciliaçã.o o u até ao reacio- Há n1uito engano con1etido pelos q ue viven1 certo ' l111tio1111l11•
narismo de o utros. O certo, con10 le1nbrou o 111esmo 1n o1ncnto: o que lhes parece digno de nott1 pode '.1 n n1entalismo, q ue conduz a tanta realização rica e '
"
que virá ainda a desdobra r-se, como se vê em todas r:

'1

Ortega, é .que o~ hon1ens da mesma geração se pa-
recem n1u1to mais q ue co1n os de gerações diferentes.
A í é q ue se deve colocar o interesse, não na busca
não deixar qualquer 1narca, perdendo-se logo, en-
quan to nluito do q ue parece desti tuído de in1portân-
cia é que se p rojeta depois. Assiln foi a Se1n ana de
li
as direções. A vitalidade do estudo da interpretação
nacional, em historiadores, sociólogos, economistas,
outros ainda, q ue aplicam os diferentes modelos que
"' de verdades o u ró tulos, q ue não cabem à década Arte Moderna, ai;si rn foran1 as experiências dos anos
dos vinte no Brasi 1, ainda inorgânica, mais inquieta, seguintes, cujo sentido pode ter escapado até a seus 1• recebem ou criam os mais adequados à nossa pe• '
·: contestadora e polê1nica do que proprian1ente segura autores. O certo é que de 11on1es de então, que se culiaridade, de modo que a ciência social está hoje,
1
e de idéias e progra1nas claros. entregavam às pesquisas - n1al conhecidos ou ob- e m gra11cle parte, a par do que se passa no mundo,
jeto de ridículo - é que sai o que influirá, impri- sem aquele hiato de dez a trinta anos que se veri•
Ili - Legado mindo linhas à vida iotelectual e política do país. ficava antes. E consciente de que é sempre preciso
Houve 1nuitos equívocos, seja nas afirmações ou nas adaptar o que recebe à realidade. O Brasil entra
Não foi nosso intento estudar o Modern ismo em negações. Rele1nbrc-se, por exernplo, o que foi a Se- no ritmo de aceleração histórica que se verüica nos
s ua estética ou realizações, mas traçar o quadro em n1ana de fevere iro de 22, patrocinada pela alta so- 1
./ grandes centros, dos quais era simples reflexo, quan-
q ue se desenvolveu nos anos vinte, quando surgiu ciedade ou pela plutocracia de São Paulo, que nem do agora, ainda seja cm pa rte reflexo, já produz. •
em cena e realizou trabal ho de choque. Estudo que sequer desconfiava do alcance do que fazia ou do bem m ais o que é seu, dando-lhe a nota essencial
é pa~te .de um curso, se~s diferen tes aspectos, de que se fazia. A participação de Graça Aranha, o de seu estilo.
s.ubstanc1a ou de obras, f1can1 a cargo de especia- engano de supor 1noderno o que já era velho, como Se as instituições oficiais - serviços públicos, as
ltstas. I nteressados en1 História, só tivemos em vista se nota em vários artistas, inclusive participantes do Academias e outros organismos do gênero, as Uni~
traçar a ambiência em que ele surgiu e· se desen- episódio da Scn1ana. Tanto é assim que a perspec- versidades - nem sempre apresentam o melhor, en•
volveu, con1 acentos agressivos e a té de piadas ou tiva já pennitc julgan1ento deles en1 outras direções, rijecidas em privilégios e na in compreensão que tão
. apa~en tes brincade i r<~s, para contestar o sistern a que rnuitos dos quais são vistos con10 conservadores ou n1al as recom enda - é claro que com as fatais e11'..•
s·e tin ha como respeitável e consagrado. Era contes- a té reacionários. E não é que tenhan1 adq uirido esse ceções (ainda exceções) - , há hoje uma criativi• ~·
t~ção qu~ se fazia indispensável, de modo a den un- tom depois: já o tinham, só festejando o moderno dade dispersa e que se apresenta em pontos ines~ ·
ciar equ1vocos, no preparo do te rreno para coisas por engano . . A.lg uns encontraria m o canlinho exato perados, de modo q ue o país exp lode em realizações. '"
1
m ais sólidas e represen.tativas. D aí a aparência de te1npos a pós, superada a agitação. Sem falar nos de- O desco1npasso entre o n ovo e o oficial, seja o da ·:;
' inteligência seja o d a vida d a sociedade e da polí•
1 '
destruição, q ue de ve ter assustado os ho n1ens con- sencontros entre as soluções a rtísticas e politicas: o
e O :

ve ncionais, q ue não percebiam o sentido profundo ace rto e tn uma preocupação e o equívoco em outra. tica, n ão chega a abafar uma forç a que está. além
do que se operava. Consigne-se a inda que muito Enfim, o estudo em profundidade do Modernis1no de qualquer tipo de com pressão, embora esta .1 us
artista se perdeu nesse cli1na, enfraquecendo a obra pode ser a melhor ilustração das dificuldades que vezes a violente. E foi o Modernismo que deflagr® "
que poderia realizar, en1penhado em des1n istificar o cada época tc1n de harmonizar suas forças, que se o surto inovador, na recusa de p adrões estabelecido ;·~·
i estabelecido. B o que se cha1naria de "modernismo manifestam em todas as linhas, às vezes até em opo- e na busca a firmadora d a criação. Se os aspeCt08" '1-
' 1

.1 de guerra", que vai de 22 a 30 e foi vivido sobre- sição. É material rico para análise, que requer a sociais e políticos não foram aprofundados - eram 1
1 t udo en1 São Paulo. L ançam-se então as linhas do cola boração 11ão só de críticos de artes, m as histo- mesmo debilidades da geração d e 20, como se a.sai• '

24 M



11.. qll• que se desenvolverá depois, na década de 30 o nas
•111 11flhlh'
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'º 1esufntes. O gue de inelhor se produz no país está
ligado ~Jircla ou indiretan1ente às experiências do pe·
riadores, sociólogos, economistas, ci.entistas políticos,
que completem suas visões de diferentes abordagens
cm um tpdo. É trabalho que se justifica, que a época
nalou - , se há. avanços e .recuos, é nesse jogo de
contradições que se realiza a vida nacional no que
ela tem de expressivo. O mais é acomodamento ou
tio•" , 111 < 1 rfodo qllc se estudou aqui. Foi ponderável, pois, o é das mais criativas da vida do Brasil. Realizando-o, contemplação, existência vegetativa que se es~ota em
111~11 ,,, l'•'Y logo.do que se deixa e outros desenvolvem - n1uitos os que se empenba1n nele estão sendo fiéis à prega· si rnesn1a, sem qualquer eco. Aos grupos contesta-
tjll• "''" 'ti dos quais são os mesn1os que, jovens ainda, se agi- ção dos renovadores de 22, que pretenderam exa- dores que se lançaram em 22 é que se deve a con-
,, ·· 11.11111111 " • tavam nuqueles anos. tamente, como afirmou Mário de Andrade, em pas- quista da inquietação permanente e do desejo de
111U11lhl11d1 ' ~rent.ativa de quadro arnplo, é claro que nosso es- sa~em citada, "o direito permanente à pesquisa es· ' acertar, como traço constante de gnipo, não como
tu(!o se ressente de ligeireza e ton1 evocativo e des- téüca; a atualização da inteligência artística brasi- bventual procedimento de indivíduo. Daí o signifi-
c ritivo. Síntese de decê n.io fecu ndo, só se fez reJ'e- leira; e a estabjlização de un1a consciência crítica na· cado das realizações de 22 a 30, que redescobrem
rêncio. u alguns aspectos, deixando-se outros inteira· cional". Pretensão que foi alcançada, uma vez que o Brasil e traçam para ele o caminho que deve se-
monte de lado. Faltou o estudo das revistas e n1a- o Brasil tem hoje visão crí:tica de sua realidade su- guir. E segue e continuará, com obstinação e cora·
nlícstuções regionais, que alongariam a exposição. perando as interpretações ingênuas de otimis~o e gem, como fez o grupo que iniciou o movimento que
O que se pretendeu foi. sobretudo, reaiçar a influên- pessimismo. O amadurecimento de grandes realiza- não se detém, pela força própria e sup erior que o
.. ,.. , ,,.. '
cia de quanto se lançou. Daí a Jen1brança do con-
ceito d ~ "eficácia histórica'', flu1dan1ental e fugidio .
ções ~r~ísticas - n.a poesia, na ficção, na pintura,
na n1us1ca, na arquitetura, 110 teatro, no cinema - ,
anima e que está além das contingências eventuais
de certo instante. Assim procedendo é que se é fiel
1,·: il• i t t~·~~ liá. 1.nu1to engano cornetido pelos que vivem certo ª? lado .do gosto permanente de pesquisa e do ex:pe· à mentalidade polêmica e criadora daquela geração
n1on1en~o: o que lhes parece digno de nota pode nn1entahsmo, que conduz a tanta realização rica e heterodoxa que tinha niuito o que dizer.
nfto deixar qualquer marca, perdendo-se logo, en- que virá ainda a desdobrar-se, con10 se vê em todas
quo1110 n1uito do que parece destituído de importân- as direções. A vitalidade do estudo da interpretação
cia 6 que se projeta depois. Assim foi a Scmnoa de nacional, en1 historiadores, sociólogos, economistas,
1 1t ri Arto Moderna, assim foran1 as experiências dos a nos outros ainda, que aplicam os diferentes modelos que
1' .• 1
80BUin tcs, cujo sentido pode ter escapado até a seus rec~b~m ou criam os mais adequados à nossa pe-
nutorcs. O certo é que de non1es de então, que se cultandade, de modo que a ciência social está hoje,
cntreg11vu1n às pesquisas - inal conhecidos ou ob- etn grande parte, a par do que se passa no mundo,
jeto de ridículo - é que sai o que influirá, iinpri- s~m aquele hiato de dez a trinta anos que se veri-
mlndo linhas à vida intelectual e política do país. ficava antes. E consciente de que é sempre preciso
1-fouvo rnuitos equivocos, seja nas afirn1ações ot1 nas adaptar o que recebe à realidade. O Brasil entra
nenuções. R.cleLnbre-se, por exetnplo, o que foi a Se-
n1ona de feverei ro de 22, patrocinada pela alta SO· -. '
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no ritmo de aceleração histórica que se verifica nos
grandes centros, dos quais era simples reflexo, quan·
olodttdc o u pela plutocracia de São Paulo, que ne1n do agora, ainda seja cm parte reflexo, já produz
a quor dt:sconfiava do alcance do que fazia ou do bem mais o que é seu, dando-lhe a nota essencial
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que se fazia. A participação de Graça Aranha, o de seu estilo.
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1 Oll!}nno dti supor moderno o que já era velho, como Se as instituições oficiais - serviços públicos, as
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por engano. Alguns encontrariam o caminho exato perados, de modo que o p aís explode em realizações .
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1 •Ili•· 11111!11 llnfltn, o estudo en1 profundidade do lvfodernismo de qualquer tipo de compressão, e1nbora esta às
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o. materjal rico para análise, que requer a sociais e políticos não foram aprofundados - eram
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MODERNISMO: UMA REVERIFICAÇÃO., . 26
Referências bibllográflcas
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28
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• A LITERATURA NO MODERNISMO

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DO BARROCO AO MODERNISMO:

O DESENVOLVIMENTO CICLICO DO
PROJETO LITERARIO BRASILEIRO

Affonso Avila

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~ouve momento em que se pretendeu considerar
o Modernismo como um fato literário autônomo,
desvinculado das linhas gerais de desenvolvimento
" . do processo de nossa literatura. Deu-se ênfase, com
isso, ao aspecto de ruptura que o movimento real-
mente assumiu na sua-·radicalidade, omitindo, porém,
uma tal atitude, a evidência crítica e histórica de
que todo passo criativo do homem não ocorre à mar-
gem da fata lidade de transformação inerente ao or-
"
;. ganismo vivo da cultura. Ainda que se rotulem de
antiarte ou contracultura uma dada proposta esté-
tica ou um dado comportamento crítico, o campo
de material, linguagem ou significados onde a insa-
tisfaç'ão se opera é por si mesmo um acrescentamento
de território, que a inteligência apõe, contestando-os
ou reavaliando-os, aos li1nites conhecidos do espaço
cultural. Este espaço, conquanto infinitivo em sua
potencialidade, expõe-se, ciclicamente, ao risco das
\\\ crises de perempção ou esclerose que acometem o
organisnio da cultura. Constatada a saturação, ati-
vam-se em contrapartida os elementos de núcleo do
que se pode chamar essencialidade ou tradição, os
quais, violentados ou simplesmente questionados, ge·
ram por metabolismo crítico os elementos de uma
nova estrutura. f:. certo que um fenômeno dessa projeto literário brasileiro, teremos infalivelmente
or_de~ não se dá ~ão-somente em razão de . um a quí- contra nós o argumento de que uma tal · esquemati- ratura colonial vieram desencobrir material vaató e 11m11 1&11itl
mica interna adstrita, por exemplo, à arte ou à litera- <.ação levará ao risco de simplificarmos de modo de suma significação para um estudo dessa naturo~. M fllllUr•
tura de dete}minado país, mas em decorrência tam- absoluto o conceito de período na· história de nossa São os levantamentos de textos relativos às manifôs• 11011111111111
bém de fatores m enos do1nésticos, t ais con10 as ten- literatura, com a. m inin1ização de manifestações cro- lações l.iterárias do s~cu.1~ X':'II e primeira me(~ 1111 ,.,,.,,"""
dências generalizadoras das formas artísticas e as nológica e estilisticam ente autônonu1s como deverian1 do XVI li - o bras 1nd1v1dua1s de poetas, . cronJsh 111111 UUllt
pressões de conjuntura histórica. Esses estímulos ser ·o Arcadismo ou o Neoclassicis1no, o Realisn10 ~ sermonistas ou exercícios coletivos das, chamad · hnl 1uu11 1 o
atuam ern simbiose com os elem entos em transfor- ou o P arnasianismo, o Naturalismo ou o Simbolis- cicade1nias - , material cujo con junto comprova iér, lll!ll • 11t
mação do processo, a ele aportando maior sentido m~. É aqui, precisamente, que nosso esquema con- sido maior ,e m ais caractetizadora a atividade que ~ 1twt11 1tu tt•
e dime~sã? de atualidade e universalidade. Rompen- solida sua f11ndamentação crítica, pois o que pro· espécie então se desenvolveu. Aind a que t-enhamó"t~ 1•l~·11ll11u ln
do os limites que demarcavatn o espaço até ali de- cura1nos corn ele é elucidar os andamentos cíclicos de aceitar, p al a entendimento didático, o barroq~1lit~~ 111111 •• •tt
,.:;' senvoJvido
. . por nosso processo literário ' o M oder- das forn1as e os corresponden tes saltos da consciência mo literário brasileirô como um apêndice da: litet(\; · ',t 1111114 111tl•1
n1srno viveu a sua situação de emergência consciente criadora nacional - e não a 1nera subordinação tura seiscento-setecentista portuguesa, o quadrQ or{;r '"' 1t1111111t11111••
do estado de crise deflagrado - e por isso o viveu do projeto literário brasileiro a subdivisões 1ninuden- tico que se esboça a partir da localização de unt' ·~' 1t1nll1l11lf '
revolucionariamente - , porém não teve de imediato, tes e pouco esclarecedoras. Porque as 1nencionadas novo e vasto material de estudo já autoriza uma CO• l•11111/,l1tf '
por excessiva proximidade de foco, alcance suficiente particularizações se circunscrevem na verdade a locação menos tímida e acomoda.dora da questUo, 11111111 ... 11
para então perceber o seu vínculo de novo passo .
eventuahdad~s '
de transição, de moda, de escola ' - A avaliação ao m esmo tempo estatística e Iiterárll\ ~. 1!1•11111 •0 th
cíclico cm relação· ao devir da literatuta. brasileira. como prefen.a a velha 1netodologia. da h istória da de manuscritos ou edições da época nos abre agoti\ (' 11~ph 110 I'•
Nos cinqüenta anos que nos separam da Se1nana de l ite~atura - e não a t~ansformações no corpo do campo bastante para situarmos os elementos de os• 1111•u-a11 tt
22, to.rnou-se cada vez mais nítida essa integração pro1eto con10 o Ron1ant1smo ou o Modernismo. f:., t1utura que remarcam, tambén1 na esfera da !itera• h1l1 11 tltt
evolutiva do modernisn10, que hoje, sem equívoco, p~r~anto, dentro de um raio m aior de abrangência tura, a experiência barroca brasileira. E é curioso 111\1111 1ltt
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podemos divisar, cm seqüência ao Barroco e ao Ro- cnt1ca que devemos enquadrar os rótulos episódicos verificar que a mesma volúpia formativa .qu e e1n • .,,. 1141111 111111
·n1antismo, con10 outra etapa maior e ciclicamente ou transitórios, que serão no projeto nada mais que polga o nosso primeiro barroco plástico - o do faus· , . tt111h11• 11-1
definida. pontos de saturação . ou · cstrangulan1cnto. Algumas to decorativo das igrejas baianas e, em geral, do Nor• , 1111 0 11•1111 111
, A image1n
. crítica do Modernisn10 s6 se desenha- ~bras características da peripécia evolutiva de nossa. deste - , empolga igualmente a prosa OU O VOtSÔ ; HIUI" 1/11,.fl
ra, ass1n1, a nosso ver, corretan1entc se buscarmos, literatura poderão indicar, em síntese, co1no vere- de nossos primeiros autores, que então, numa opc- · 1,..111 111 1l111
ao apreendê-la, abarcar também a totalidade do pro- n1os, os, el.ementos constitutivos do processo de cada raço de mimese idêntica à dos escultores ou enta.. 111dn 1•11 11t
jeto chamado literatura brasileira. Nesse quadro, o eta~a. c1cl1ca e os pontos de saturação respectivos, lhadores, se apropriam dos modelos vigentes no ba~ " 1·01111111, ••
n1ovimento desencadeado en1 1922 passa a. inserir-se auxiliando-nos a erguer do Modernismo uma ima- roquismo ibérico. A busca da au(onomia criativa teí\• •:' 111111111lttl •
não apenas pelo caráter de originalid<tde de que se gen1 que nos parece n1ais válida e acertada. derá, no entanto, a fazer-se acentuar na medida en\ ·' 1h• 111111 1•
revestiu a sua proposta estética, mas igllaln1ente pela que as ·formas se aclimatam e a sedimentação de ·" 11lh•11t1• it
maneira através da qual repropôs certos elementos Barroco: um processo de apropriação um a nova consciência cósmica propicia a eclosão de , p1 111t11h•11
1 de núcleo de nosso ,Processo litetári:l e assilnilou ele- uma concepção artística ou literária de alguma ori~ ', 111 1111 lllMI
' mentos tomados às correntes do pensamento criador Embora a consideração crítica. e histórica do Bar- ginalidade. As formas a princípio francamente ba.I"' tol l11•A11 l'I
l' rocas caminharão, ao fim d.o século X VIII, sob nÇ)• 1 1111111 1111 1
. da época, ou seja, às vanguardas européias. O Mo- roco no Brasil, especialn~cnte do barroco literário, já
,, dernismo, a exe1n plo do que se dera a. seu tempo tenha su.perado as barre!fas da incompreensão e do vas pressões, p ara as soluções formais de desinênoin."" "' 11111111 1111•11~
co1n o Barroco e o Ro1nantis1110, responderia a duas preconceito que obstavatn a sua exata avaliação, a b~rroquista - par~ a complementação caracterlzn.t. 'i 1111011• 1•11.i t
'I dora de um ciclo formal maior a que podemos 9b~ · d11 1111111111
sortes principais de proposições : a de uma linguagern abordagent objetiva desse .primeiro passo cíclico de
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...,
... . ~
,en1 curso criativo e a de un1a realidade contextual nosso processo criador ainda requer a cautela d as mar o grande barroco - e, concomitantemente' ,
isso, para a inserção definitiva no incipiente pi:ojetn·
1111 M11ht•,
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inseparável de nossa peculiar exp eriência de expres- comprovações estatísticas, do cotejo estilístico entre
são. No âmbito dessas respostas, o que antes repre- as obras realmente representativas da instância for- literário brasileiro dos substratos de permanência ((Ut> · 111111 llltf • u
sentara. no Barroco e no Romantismo os estágios, rnal barroca e aquelas que, rotuladas especüicam ente nos ficariam da experiência inaugural. Porqué I(~ ti! , 1111 1111t
respectivamente, de apropríação d a reali.dade e de sob o utras conceituações de estilo, se inscrevem ape- funden,i, nas origens de nossa literatura, o impuJB(Íf.., 1111 h•111n~
posse da realidade, evolui no Modernis1no para. u m sar disso, por suas fontes ou correlações de estrutura, ~orrn ativo da herança b:arroca e o <D?odo intuidot q f .1 1hhuh• lltl
estágio de l'eflexão sobre a realidade, valendo para no grande parâmetro -ou paideuma barroquista. N ão l\().uela altura começaria a denunciar u ma voo.ta • 11hJ t ht hUI
o fenômeno d a linguagem um análogo esquem a de de fantasia própria: t11d1t ltllllljt
é este o momento de nos esten dermos n a fixação
três fases, isto é: apropriação da linguagem, n o Bar- de um quadro amp lo de projeções tipológicas e ideo- A obra poética de G regório de Matos represet\ú1 cs1111t11Jil11111
r~co, posse da. linguagem, no Romantismo, e refle~ ló_gicas de desinência_ ~arroquizante, mas aqui s~ im- ben1, por sua qualidade, extensão e tipicidade; aqililo 1f1l1tll••U •
xao sobre a l1n,guagen1, no Modernismo. Ao deli- que poderíamos ch amar a obra-p rotótipo do batt o b111"t t1t•n lo
po~ acentuar, par~ .efeito. de nosso esquema interpre-
.1n itar, entretanto, esses três grandes segmentos do tativo, que pesquisas mais recentes n a área da lite- literário no Brasil. Através da riqueza e coinplo ' ll-1111 t1IMf
d ade de que se reveste, ela põe em evidência ""4 , 1nl11 1111 111-
30
projeto literário brasileiro, teren1os infalivelmente
contra nós o argume11to de que un1a tal:· esquemati- ratura colonial vieram desencobrir material vasto e uma análise formal, lingüística e ideológica de sua
zação levará ao risco de simplificarmos de modo de súma significação para um estudo dessa natureza. estrutura - os elementos de processo do que de-
absoluto o conceito de período na· história de nossa sno os levantamentos de textos relativos às manifes- nominanios apropriação da linguagem e apropriação
literatura, com a minimização de 1nanifestações cro- tações literárias do _sécµlo XVII e primeira metade da 1·ealidade. Assumindo, como nenhum outrd autor
nológica e estilistica1nente autônomas como deverian1 do XVIII - obras individuais de poetas, cronistas seu contemporâneo, a totalidade de nossa instância
ser ·o Arcadismo ou o Neoclassicismo, o Realismo ~ sermonistas ou exercícios coletivos das chamadas barroca, o poeta ba.iano, a par de uma atitude esté-
ou o Parnasianis1uo, o N aturalisn10 ou o Sirnbolis- acadetnias - , material cujo conjunto comprova ter tica e existencial consonante com a visão seiscen-
rno: .~ aqui, precisamente, que nosso esque1na con- Gldo n1aior e mais caracterizadora a atividade que na tista do mundo, é já também o homem europeu tro-
solida sua fundam,entaç~o crítica, pois o que pro- espécie então . se desenvolveu. Ainda que tenhamos picalizado e reagindo a<;> instrumento lingüístico de
c ura.tnos com ele e elucidar os andamentos cíclicos de aceitar, pal-a entendimento didático, o barroquis- que se apropria, é .o artista que, sob o ~impacto de
das fo rn1as e os correspondentes saltos da. consciência 1110 literário brasileiro como um apêndice da litera- uma ordem· original de fatores - de intuição, de
criadora nacional - e não a mera subordinação tura seiscento-setecentista portuguesa, o quadro crí- imaginação, de concepção· - decorrentes de .uma
do projeto literário brasileiro a subdivisões 1niuuden- tJco que se esboça a partir da localização de um realid~de nova, viabiliza pela .Primeira vez uma saída
tes e pouco esclarecedoras. Porque As inencionadas 11ovo e vasto material de estudo já autoriza uma co- brasileira na expressão literária de língua portuguesa.
particularizações se circunscrevem, na verdade, a locução menos tímida e acomodadora da questão. Pode-se mesmo dizer que aquela ruptura que, no
eventualidades de transição, de 1noda de escola - A avaliação ao mesmo tempo estatística e literária decurso do século XVIII, se operará na unidade · do
c.01110 preferia a velha n1etodologia. da história da de manuscritos ou edições da época nos abre agora espírito português, com o surgimento de uma di-
l tte~atura - e não a transformações no corpo do campo bastante para situarmos os elementos de es- 1nensão francamente americana na maneira de in-
projeto co1110 o Ron1antis1no ou o Modernis1no. É , trutura que remarcam, também na esfera da litera- tµir e ele formar; já se· prenuncia na obra de Gre-
p~1:~anto, dentro de u1n raio n1aior de abrangência
.,' tura, a experiência barroca brasileira. E é curioso gório de Matos. Com efeito, não será difícil cons-
c nttca q~~ ?evemos enquadrar os rótulos episódicos verificar que a mesma volúpia formativa que em- tatar que o discurso poético gregoriano difere em
ou trans1tonos, que serão no projeto nada mais que polga o nóssó primeiro barroco plástico - o do faus- muitos aspect<>s do discurso-.p adrão da poesia lusa
pontos de saturação .ou estrangulamento. Algumas to decorativo das igrejas baianas e, em geral, do Nor- do mesmo período, quer pela temperatura semântica,
ha.· ~bras características da peripécia evolutiva de nossa deste - , empolga igualmente a prosa ou o verso mais quente em sua referencialidade imediata,' quer
literatura poderão indicar, e1n síntése, como vere- de nossos primeiros autores, que então, numa ope- pela própria índole da dicção, menos solene e afe-
n1os, os ele111entos constitutivos do processo de cada raço de mimes.e idêntica à dos escultores ou .e nta.- tada. Para o acaloramento semântico do verso con-
etap~ cíclica e os pontos de saturação respectivos, lhadores, se ap ropriam dos modelos vigentes no bar- correm, sem dúvida, o àproveitamento de um novo
nux.1hando-11os a erguer do Modernismo uma in1a- roquismo ibérico. A busca da autonomia criativ.a ten- material signüicante, retirado ao vivo de uma fala
gen1 que nos parece n1ais válida e acertada. derá, no entanto, a fazer-se acentuar na medida em de nítida feição popular ou nativa, e o recurso fre-
que as formas se aclimatam e a sedimentação de qüente a um repertório temático de predominância
Barroco: um processo de apropriação un1a nova consciência cósmica propicia· a eclosão de prosaica. Por seu turno, a rigidez da dicção provém
( 1
un1a concepção artística ou literária de alguma ori- aí da maior desenvoltura sintática da frase, da sua
E n1bo.ra a consideração crítica. e histórica do Bar- ginalidade'. As formas a princípio francamente bar- inflexão coloquial, da formulação mais livre e auda-
J'OCO no Brasil, especialmente do barroco literário, já
rocas caminharão, ao fim do século XVIII, sob no- ciosa da idéia, o que redunda - à exceção de al-
tenha su.perado as barreiras d~ incornpreensão e do vas pressões, para as soluções formais de desinência guns poemas de contextura buscadamente cultista ;_
preconceito que obstava1n a sua exata avaliação a barroquista - pari:l a complementação caracteriza- numa ,clarif.Lcação geral do discurso pçético. Através
nbordagem objetiva desse .p rimeiro passo cíclico 'de dora de um ciclo formal maior a que podemos cha- da leitura digan1os · lingüística da poesia de Gregório
n1ar o grande l;>arroco - e, concomitantemente a de Matos, o especialista poderá rastrear o fenômeno
nosso processo criador ainda requer a cautela das
comprovações estatísticas, do cotejo estilístico entre isso, para a inserção definitiva no incipiente projeto emergente de uma entonação brasileira da língua, que
literário brasileiro <tos substratos de permanência que não será outro senão um mo~o já específico de sen-
ns obras realmente representativas da instância for-
nos ficariam da experiência inaugural. Porque se tir, de mentar e exprimir o choque -entre as · formas
1 11 ~ •' 'f11l 11uw1 n1al barroca e aquelas que, rotuladas especüicamente fundem, nas origens de nossa literatura, o impulso de herança e os estímulos e sugestões da peculia-
1•11lllf11tl1 sob ~utras conceituações de estilo, se inscrevem ape- formativo da herança b~roca e o ,modo intuidor que ridade tropical do país. Assim, a sua obra p9ética,
sar disso, por suas fontes ou correlações de estrutura,
àquela altura começaria a denunciar uma vontade aberta tanto estética quanto semanticamente e vol-
no grande parâmetro ou paideuma barroquista. Não de fantasia própria; ' tada sempre para a urgência comunicativa, traduz
é este o nlomento de nos estendermos na fixação A obra poética . de Gregório de Matos representa exemplarmente um . processo de apropriaçãp da lin-
de un1 quadro amplo de projeções tipológicas e ideo- ~ be1n, por sua qualidade, extensão e tipicidade, aquilo guagem e .da realidade, que é o próprio processo do
•~1111 1 , •.. , , ' lógicas de desinência ~arroquizante, mas aqui sy im-
'

que poderíamos chamar a obra-protótipo do barroco barroco brasileiro.


1111• põ~ acentuar, par~. -efeito de nosso esquen1a interpre- literário n.o Brasil. Através da riqueza e complexi-
, .. 111111 ·li lo. . Essa etapa cíclica de apropriação, tal como se cons-
tativo, que pesquisas mais recentes na área da lite- dade de que se reveste, ela põe em evidência - a tata na obra-protótipo de Gregório de Matos ou,
.DO BARROCO AO MODERNISMO. . . 31
,,
'.
.,
sern a mesn1a precisão tipológica, em manifestações será o do animismo romântico. D as cinzas do Bar- ·~

n1enores ou subsidiárias, introduz, no nascente pro- roco - para lembrarmos uma imagem a este muito norosa enquanto demarcação de uma realidade Ca.n!i , 11111111u1hl11
jeto da literatura em formação, uma primeira série cara: a da Fénix Renascida - , a literatura brasi· ti nte de sugestões que se pretendia o espaço dii , '" li~ llll•llftft
de elementos de estrutura que, de maneira constante leira reton1a e repropõe o seu projeto, agora mais rcncindor de uma experiência nova, amesquinba>i$lt . 11111111 1111~

l

ou intermitente, virão a atuar em todo o seu pro- autonomamente. onqunnto proposição de linguagem, pois os recurs ; - 11•11111111111 J
cesso de evolução. Os referidos elementos, apropria- de construção sobre que esta se sustenta estão mi ·, ...•li 1111'-...
dos mediante importação, i~to é, assimilados de um Romantismo: um processo de posse nodos pela ausência de ímpeto criativo. A instânOl:l :· ,,, 111111..11..
elenco de modelos externos e pela via preferencial do posse a que corresponde o ciclo do Romantismo .~ 111111..,11\'RI
da herança portuguesa, ou apropriados mediante uma O Romantismo, etapa cíclica que preenche, com rosulta, portanto, num fato de maior peso no pla.uO .!; 111•1 11~14 11
i;ln realidade do que no da linguagem e quando, em
1
condição original de apartação, ou seja, instaurados seu corolário ideativo e seu elenco formal, o desdo- 111111111111111•
;

dentro de uma perspectiva criadora já brasileira, se bramento do projeto literário brasileiro ao longo sua vigência, se constata um fenômeno de radioal l: 1·1 1111 li li•
condensariam, em resumo, no seguinte esquema: de quase todo o século XIX, não ten1 tido, nos anos Implicação inventiva, como o da poesia de Sousfln~ ;, jll ll 11111111'•~
1) linguagem de postura aberta; 2) reação ao i1n- mais recentes, a mesma fortuna crítica de que hoje tlrude, isso leva os historiadores de nossas letras a ·) <'tllll l i "ºJ
pacto tropical; 3) busca de uma fantasia autôn"ma; desfruta o Barroco em sua reavaliaÇão qualitativa. nlljá-lo para uma l'aix.a de ex.ceção. '[lll' ,., .. ·~
4) concepção contradit6ria do real; 5) tensão de Razões de vária ordem detern1i11am, setn dúvida, essa A to1nar-se o Romantismo como uma etapa CÍ• Mh1j i1[11 1'..
1
dilaceramento existencial. Se acompanhar1nos a trans- espécie de retração a que se vê levado o Roman· cfíca, ele coordenadas formais e filosóficas bem trans~ j,lllllll, "''
formação que, a partir das alturas de' 1750, começa tismo, razões que podem estar fundadas tanto remo· pnrentes e já sistematica111ente delimitadas, a sul.\. A 111-IA ~
a verificar-se na forn1a literária de .índole brasileira, tamente na própria inerência do organismo român· obra-protótipo não poderá ser, de modo evidente, f\, lltllll 11111
notaremos
. . - que os elementos
. ,.. .
liberados pelo
. Barroco
. se 1ns1nuarao, como 1nerenc1as estruturais, em meio
. tico - na essência idealista de sua filosofia, pouco
afinada com o espírito objetivista de nosso tempo ~.
que extrapola, pelo insólito teor criativo, essas coor•
dcnndas generalizadoras, mas a que assume, a con~ 1th11• "' t
às soluções de franca propensão arcádico-rococó, quanto niodernamente numa atitude crítica e estética 1r11gosto de nossa exigência crítica, a verdadeira re. . 11\11h• 1

quando não mesmo de feição neoclássica. Pode-se, que tende a subestimar a obra destituída de maior prcsentatividade ro1ná'11tica no conjunto de seus acera '11li1d11 ....
portanto, falar - como antes sugerimos - nun1a intenção inventiva. Nesse ponto, a criação românti· tos e de seus fracassos. Sob tal ângulo, o painel aleri• .... - 111111
prolongada vigência do parâmetro ou paideuma caria110 - como denominaremos aqui o bloco do 1·~~11 •.•• ,.
ca, impregnada de uma grande carga afetiva, mas
barroquista, ou num grande barroco, que só virá a revestida forn1almente por uma capa retórica quase ron1ances de José de Alencar - parece-nos reun.ir1 111 1111·111 li
conhecer seu termo de saturação quando o projeto sempre ingênua e impressionista, não poderia mesmo na sua abrangência, todos os elen1entos de tipifica• • lll\'11111 1111•
se encaminha declaradamente para uma nova ins- corresponder, em nível crítico, a um gosto e uma ção do nosso Romantismo. O painel ambiciona, na , p1 l11H1 1111
tância cíclica. Até aí, não se desfaz o paradoxal amál- sensibilidade condicionados por formas e materiais diversidade de focos, abarcar em amplitude um pi:e- , Y1•11 f111lt11!1
gama barroco, pois convivem ainda, na obra da se- penetrados cada vez mais pela tecnologia. Mas não lcxto de realidade entendida como nossa, mas não •, nt1 11111lt111
gunda metade do século XVIII, certas contradições há de ser uma tal diacronia que retirará ao Roman· o fa rá a partir de uma visão centrada, objetiva e "" • jlll• li
de âmbito filosófico e estético deflagradas, à distân- tismo a legitimidade de sua contribuição própria, de direta desSé pretexto, antes usàrá do artifício da am• 1(- l 1 uttf ··h

cia de um século, na poesia de Gregório de Matos. seu desempenho fásico no andamento de nosso pro- plificação ·retórica para conforn1á-Jo em um nível de " 1 111111• •
A gradativa perempção da atitude existencial e cria- jeto literário, da função que, bem ou mal, exerceu idealização e afetividade condizente com a proposta tii\111111 1111
tiva própria do Barroco virá a culminar no surgi- como movimento catalisador de influências ou mo- rornântica. Há, todavia, por detrás da atitude Hte- 11·11lp11 -•'
mento de uma obra-limite, assim conceituada porque vimento de expansão de forças liberadoras de uma rária de Alencar, uma impulsão motivadora mais for- .. • 1111~11 1 .. 1~,
leva ao máximo de depuração os elementos consti- expressão nacional. A rea1idade e a linguagem de te que é o propósito de fundar, simultaneamente a 11tlo 111111
tutivos da primeira etapa do projeto. O Uraguai, que o grande barroco, no seu todo, buscou apro· un1 ron1ance que seja a réplica brasileira do romance ; 11•'4)1h·ll 1
escolhido aqui dentre outras obras pela sua mais har- priar-se con10 instância de aclimatação a um mundo de seu tempo, uma fantasia autônoma, capaz de plas• " ~ h 11, 11 •li
mônica integração dos estratos nativista, ideológico culturalmente ainda não definido, de adaptação à 111ar a imagen1 singularizadora da ~ascente nacion11• du1h• 1lt1
e formal, .exercerá a nosso ver esse papel de obra- vontade de exprimir de uma experiência ainda não !idade. A falta de un1a tradição individualizadora do 1·111v11h1111;
.1 -limite, de ponto-referência a partir do qual, olhando caracterizada, só no segundo passo ·cíclico virão a horncrn americano, o escritor p rocuraria compensá-la. 1111p4'1 lu hl
1 para trás, reconstituiremos o percurso barroco, e, constituir categorias efetivas, das quais procurará co111 a ed ificação de u1na 1nitologia que de algum '\ 111;1)1 ·111 "
1
fixando a vista no futuro imediato, divisaremos as apossar-se mais concretamente o que então já se po- 1nodo nos remarcasse e distinguisse, mas para Jssq . '.' v11111 1111111
linhas denunciadoras do Romantismo. Sua língua~ derá chan1ar uma consciência literária brasileira. Au· recorrendo - con10 o fazia desde os épicos colo• .'.. 1 ll\'111111111, 1

ge111, contrapondo à insolência semântica da lingua- tonomizando-se paralelamente à instauração do es- niais a poesia - à heroicização, em 1noldes cavalQlT .; 1111•111 .. [lltt
gen1 gregoriana un1 grau 1nais refinado de referen- tado político nacional, o projeto de nossa literatura rosos, do componente étnico que àquela altura já lll.~ , 11111111111111
clnlidadc e à retórica sensorial de nossos primeiros sofre aí os mesmo percalços de conjuntura, oscilan· nos contava no processo estruturador do novo paítlf :, 111• 111111111
poetas, un1a espécie de 1netáfora mais lírica do que do entre a euforia telúrica e a ingenuidade idealista, o índio. O painel queria, porém, alcançar univer&Cf .:; 111.111111• tlt
dcoorallv&, encerra u1n ciclo típico de ·apropriação os modelos ambiciosos da concepção e as frustra- 1nais totalizador e ca1ni11har, da fundação do rnltó ~ .., 1 1111•111
o so encaminho purn u1n ciclo típico de posse, qual ções da realização objetiva. A obra rotnântica, ge· autóctone, para a saga do colonizador e para a hi.S! .':. 1•l~· 1111>11h11
t6ria de sua fixação, até atingir a própria contem~ ~·· tl11 111..1111
~a . ) ..
';,
.<
será o do au imismo romântico. Das cinzas do Bar-
roco - para lembrarmos un1a imagem a este muito ,; { à enquanto dem arcação de uma realidade can- poraneidade vivenciada pelo romancista. Alternando
oara: a da Fênix Renascida - , a literatura brasi- .r.. r;Bta de sugestões que se pretendia o espaço dife- as incursões que iam da lenda poética e telúrica ao
leira reton1a e repropõe o seu projeto, agora mais .. RUolador de 111na experiência nova, amesquinha--se idílio rural, dos costumes urbanos à caracterologia
nutono1na1nente. '.·~ GfIUMto proposição de linguage1n, pois os recursos regional, Alencar na verdade con1pôs como pôde · o
!< lilii constr ução sobre que esta se sustenta estão 1ni- seu ·m osaico, com ele erguendo não tanto a imagem
Aon1antismo: um processo de posse ·,, ruido.il pela ausência de ímpeto criativo. A instância brasileira que almejava, mas antes a image1n de uma
li 1•11·11 .... ' .: do posse a que corresponde o ciclo do llomantismo concepção ron1ântica do inundo, ainda que na pers-
hll·• 11·11111• O Roma11tis1no, etapa cíclica que preenche, com ft3Ultn, portanto, nurn fato de maior p eso no plano pectiva de un1a impressão brasileira. E não obstante
seu corolário ideativo e seu elenco formal, o desdo- da rc;nlidnde do que no da linguagem e quando, em propugnasse romper o vínculo entre nossa língua es-
bramen to do projeto literário brasileiro ao longo SUA vl2ência , se constata um fenômeno de radical crita e as matrizes normativas da ]1egada. língua escrita
de quase todo o século XIX, não tem tido, nos anos Implicação inventiva, como o da poesia de Sousân- portuguesa, o intento alenca.riano pouco teve a ver
mais recentes, a nlesma fortuna crítica de que hoje drado, isso leva os historiadores de nossas letras a cotn o enriquecimento da linguagem literária em si,
desfruta o Barroco em sua reavalia~o qualitativa. alt)~·lo para uma faixa· de exceção. que e1n seu painel restou irremediavelmente compro-
R.l1Zões de vária ordern determinam, sem dúvida essa A tOll'Hlr-se o Ro1nantismo como u.ma etapa cí- metida
.
pela falência criativa e ingenuidade da ima-
espécie de r~tração a que se vê levado o Ro'1nan- oflan, de coordenadas formais e filosóficas be1n tra ns- ~

g1naçao.
tlsmo, razões que podem estar f undadas tanto remo- pnrentes e já sistematicarnente delimitadas, a sua A instância de posse que, 110 curso do projeto lite-
ta111ente na própria inerência do organismo român· obrn•J)rotótipo não poderá ser, de modo evidente, a rário brasileiro, o Ro1nantismo Jepresentou para o
tlco - na essência idealista de sua filosofia, pouco quo e_xtrapola, pelo insólito teor criativo, essas coor- nosso escritor J1a manipulação das estruturas básicas
afinada com o espírito objetivista de nosso ten11p o - , donudas generalizadoras, mas a que assume, a con- sobre as quajs trabalharia - a Jinguage1n e a reali-
qunnto modernamente numa atitude crítica e estética tr112osto de nossa exigência crítica, ·a verdadeira re- dade - , pode-se dize r que foi u1na etapa desen-
que tende a s ubestimar a obra destituída de maior presentatividade ro111â11tica no conjunto de seus acer- rolada dentro de uma esfera de experiência talvez
t 11 lo\I
inte~ção inventiva. Nesse ponto, a criação românti- tos e de seus fracassos. Sob tal ângulo, o painel alen- próxima da experiência sensível da posse no pro·
f1~j
ca, 1r~1pregnada de uma grande carga afetiva, mas ct1ria110 - cotno denominaremos aqui o bloco de cesso erótico . As mesmas categorias da encantação,
li"' rovest1d~ f<_?rmalm~nte po~ urna capa retórica quase ron1ances de José de Alencar - parece-nos reunir, da alegria sensorial, da quebra da inocência ali es-
t 1 lt ' aempre 1ngenua e 1mpress1onista, não poderia mesmo n11, sua abrangência, todos os elernentos de tipifica- tavam presentes, tnovendo· então uma vontade de cx-
Ili lt corr~sp?nder, em .n~vel crítico, a um gosto e uma çlio do nosso Romantismo. O painel ambiciona, na prin1ir que tinha no impacto afetivo o seu único e
aons1b1hdade cond1c1onados por formas e n1ateriais l.liversidade de focos, abarcar em a1nplitude um pre- verdadeiro grau de tensão. Entretanto, o espaço des-
penetrados cada vez. mais. pela tecn_?lo~ia. Mas não texto de realidade entendida como nossa, mas não sa prolongada fantasit1 era conjunturalmente maior
hd de ser utna tal diacron1a que retirara ao Roman· o fa rá a partir de uma visão centrada, objetiva e do que o de u1n 1nero estado de espírito literário e
tismo u Jegitin1ida~e. de sua contribuição própria, de direta desse pretexto, antes usará do artifício da a1n- as frontei ras de sua inerência ingênua alcançava· todo
Geu d~se~I?enho fas1co no andamento de nosso pro· plificação 'retórica para conformá··lo exn um nível de o corpo do próprio estado político. O discurso in-
Jeto l1terano, da função que, bem ou mal, exerceu l idealização e afetividade condizente com a proposta gênuo de,,, que. o painel alencariano constituía um pro-
' ,. . . ,. . .
como niovimento catalisador de influências ou mo- romântica. Há, todavia, por detrás da atitude Jite· tottpo so seria assim prototlp1co enquanto dado de
vlmento de expansão de forças liberadoras de uma rária de A lencar, un1a impulsão motivadora mais for- consideração de ordem literária, porque - em sen-
... ,.. . . . • 1111'
o.tprossão nacional. A realidade e a linguagem de te que é o propósito de f undar, simultanean1ente a tido lato - não passava de utn simulacro de nossa
,, '''•'l!Jb quo o grande barroco, no seu todo, buscou apro· t1m romance que seja a réplica brasileira do romance retórica institucional: a do estado político roJl?.ân-
~1111 111111~ ~i'J prinr-sc eo1n o instância de aclimatação a um mundo ele seu tempo, uma fantasia autônoma, capaz de plas- tico, a do estado político ingênuo. Para uma socie-
ln .'..:ft.. 1111\uh • O!Jlturalme11te ainda não definido, de adaptação à ll'l.ar a i1nagem singularizadora da .11ascente naciona- dade de esteamento rural, apoiada na prática da es-
1110· 1 .i•. 1 i l.11 ·.
vontade de exprimir de uma experiência ainda não lidade. À falta de u111a tradição individualizadora do cravatura, elegían1os paradoxaln1ente o modelo do

....,.......
1111111. 11li1111

I«l••tl 1·1111 lij


·~
Ol\racterizada, só no segundo passo cíclico virão a
constituir cat?gorias efetivas, das quais procurará
apossar-se 1na1s concretamente o que então já se po·
hoinem an1ericano, o escritor procuraria compensá-la
co1n a edificação de tuna 1nitologia que de algum
n1odo nos remarcasse e d istinguisse, mas para isso
império liberal, procurando con1por com os barões do
açúcar e do café nossa metáfora tropical da corte
vitoriana. Isso de modo idêntico ao n1odelo que bus-
. ''"'' lhljl fll dcrá ohrunar uma consciência literária brasileira. Au- recorrendo - con10 o fazia desde os épicos colo- cávamos, cspecularmente, para .a literatura, notada-
,.,, 1 J.1 1111111 0
tenomlzMdo-se paralelamente à instauração do es- niais a poesia - à heroicização, em moldes cavalei- mente para a poesia, repassando-a ele afetação victor-
1 1l t- "'' ""'I tado político nacional, o projeto de nossa literatura rosos, do componente étnico que àquela altura já n1e- hugoana ou byroniana, O Rotnantismo, encarnado
-.1- 1•1IH1•ltot ·. GCho ní os mesmo percalços de conjuntura, oscilan- nos contava no processo estruturador do novo p aís : de nlodo ·totalizante na praxis e na expressão defi·
1111 ... 111> .,, .. . rlo entre a euforia telúrica e a ingenuidade idealista o lndio. O painel queria, porém, alcançar universo nidoras do oitocentos. brasileiro, faria pois com que
.,,1, 1~,., ''~i. ,,, ;
~ modelos ambiciosos da concepção e as frustra~ mais totalizador e ca111inhar , da fundação do mito se consolidasse en1 sua vigência um novo feixe de
li /hllll· 'I'"' WlS~ do reGilização objetiva. A obra romântica, ge· autóctone, para a saga do colonizador e para a his- elementos característicos, alguns dos quais, no caso
tót ia de sua fixação, até atingir a própria contem- da literatura, acabariam por aderir - positiva ou
DO BARROCO AO MODERNISMO . . . 33

..,,
C.l /isses de J ames Joyce. Assim, a propósito de 01', 011 •h• 111111 1
negativamente - ao nucleamento em curso do pro- o escritor voítado de início para a inerência lingüís· 001110 M enu)rias Sentimentais de João · .Mir{lf) 1111 Huttt•
jeto. Reformulação de elementos projetados do ciclo tica imediata - a palavra, a frase, o sintagma - , ( 1924), de Oswald de Andrade, e Macunal 1 111111 1111tlll
anterior, .ou seja, do grande barroco, ou mera' adição daí .evoluindo para operações mais complexas que ( 1928), de Mário de Andrade, podeme>s falar ft A./11r•11111ff1
de elementos de importação, esse feixe assim se sin- abarcam toda a problemática estrutural de seu texto. cn1nente em romances-textos e não mais em rOM 1IA 1•UIUl~t
tetizaria: 1) ·concepção idealizada do real; 2) ex- Entretanto, o que passa a ser questionado e refle- ces tout court como os que nos vinham da tradiQu 1
1111~111 ttt
tasia tropical; 3) mítica telúrica; 4) fantasia ingê- xionado não é ,tão-só uma linguagem literária bra- roinfintico-realista. Nesse ponto, o par Miramar..M hl11h10• U
nua; 5) linguagem de prevalência sensorial. Na sua sileira que se precisa rever e reformular, mas a pró- c11n<1Íma - que adotamos como obras-protótipo 4 11•111 11•1•1
i. simbiose, tais elementos - que igualmente poderão pria modernidade da escritura naquilo que as cor- especificidade modernista - prende-se, quan~o tn'Q 11111111•1•1

i.. 1
vir a repercutir mais tarde até mesmo no espaço
modernista - desbordam dos quadros do Roman-
tismo propriamente dito e empolgam sem subterfú-
gios a linguagem parnasiana e simbolista (ora direis
rentes internacionais do momento impõem então co- ·
mo foi:ça renovadora do pensamento criador. O Mo-
dernismo quer também utilizar-se da lição das cul-
turas mais amadurecidas, assimilando técnicas e, se
to, dentro do projeto literário brasileiro, aos fio~ bMi ,
tontc tênues de uma linha de prosa fragmentária CJ\l
prosa-montagem esboçada ainda .pa ancestralidnd9
barroca com o Peregrino da Arnérica, de N uno Müft!
1•11111111 attt
v111I•• ...,
-n111•oltt
l'lllt •ttl•t•
ouvir estrelas/ hão de chorar por ela os cinamomos), possível, reduzindo-as a uma necessidade nossa de ques Pereira, ou as Reflexões Sobre a Vaidade <lô~ ( 1U'l" l •
ao mesn10 tempo que invadem de conotações ibgê- expressão, de atualidade de expressão. ~ aqui que flo1ne11s, de Matias Aires, linha interrompida até ~Ull cituluit 11 11
nuas ou afetivas a chamada prosa realista. Nesta, ire- o processo da reflexão modernista, como um grande nrande e solitária retomada com o romance de Mri• 111111101 Yh
rnos muito justamente localiZ!ll' en1 Dorn Casmurro a leque de arejamento crítico, prüneiro se abre ao -so- chudo de Assis. Mira1nar, 1nais próximo da técnleu, ,, '11111 lllllff'
obra-limite da demorada postura oitocentista, pon- pro novo da viração universal, para depois fechar-se de frag1nentaçãof-m achadiana, traz, no entanto, un1, , t· lo ilu 1t1nj
to-referência de uma saturação que, estendendo em- sobre nossa própria perplexidade e repensá-l.à já nãe> ol"incnto de extraordinária novidade para a nosSfi 1'h111lll11111
bora, com a fragmentação sintagmática e a impos- ·apenas em termos de linguagem, mas sobretudo de linguagem ficciona.1, qual seja a de um diferente dJ• ' 1111 t 111111•1
tação irônica, uma ponte para o discurso modernista, realidade. O pêndulo linguagem I realidade, experi- 1nc11sionamento da frase, que, ! man~irLd.a tom.!!âJ.\ Ih lt·n 1111
também faz exaurir a metáfora de nossa persona ro- me11tação/ construção ritmará o desenvolvimento do cinematográfica em cortes rápidos e si~ultâneos ou_ 1 l"1l1uh• 11
mântica: dos lábios de mel de Iracema aos olhos de projeto literário brasileiro ao longo de uma vigência Qn in1agem partida em superfícies cúbiêàs! resjJ}(A 1A111•l1t 1111
1
ressaca de Capitu. cíclica em que viremos, afinal, a conhecer a nossa nun1 estilo . marcado pela smtese e concreçao.. _.!.!• r- 11r111&1 Afh·1
opção maior de originalidade. cu11aíma, buscando antes uma tipificação da l.Úl~ '"''" •ltt
Modernismo: um processo de reflexão e, no âmbito pois das criações mais fortemente do que uma invenção de linguagem, pode-se dtzor 0111111r. .111
originais, seja pela nova atitude diante de> proble1na uunbém que reflui ao modelo barroco do Peregrit10 -1 11 11111 Ml1
O grande vetor da terceira etapa cíclica do pro- da linguagem, seja pelo pressuposto de um inferente qua"do abole tempo e espaço narrativos. e faz de , >11h11, 1111111
jeto literário brasileiro pode, a nosso ver, encontrar repensamento crítico da realidade, que devemos ir sou herói um outro ho1no ambulator, onipresente O 111-11111 t·
u1na dupla radicação propositiva, um elo originário procurar a obra ou as obras-protótipo instauradoras r~vcrsível. Enquanto Mirarnar, prosa cubista, abre-se ,: M41 lu 1111
que alcança simultaneamente a primitiva apropria- do inteiro espaço modernista~ão obstante a ·m aior h Ullgulação nletonímica, Macunaíma, prosa estrutll• IA111111 Jlltf
ção barroca e a experiência aposseadora do Roman- violência do salto qualitãtivd ocorrido na área da ral, prefere ater-se ao domínio da metáfora, emboro f 1111111 t11ylo1
tismo. ,. Fazendo reverter criticamente ao curso do poesia, relativamente ao padrão do produto poético nlnrgando-a à proporção do mito. · 1h•111l•11111
1 projeto a noção de liberdade formal e a conscienti- de fases anteriores, será na prosa de ficção que sur- Ganhando a categoria de texto criativo por forçl\ ''"'''"'''',.
1 .'

1 l zação diante de nossa realidade, o Modernismo aca-


bou por distinguir, ino cômputo daquilo. que a his-
preenderemos os exemplos do maior arrojo criativo
dos anos de implantação do Modernismo. Território
de uma radical reflexão sobre a linguagem, o par Mi·
r<11nar-Macunaíma ostenta, não obstante isso, .um. •
Jii1 •t11tfl1'••
,,, ,,,,,,,.,~
tória da literatura nos documentava como possíveis de estabilidade formal mais duradoura e definida, a grau muito intenso de referencialidade, através do ~ . , lo ltl~il.t
virtualidades;'<> que aí consistiria num -fulcro implí- fratura operada na estrutura do n osso romance pa- qual Oswald e Mário fazem .Pe.rmear em sua e~pr~--·~r lllllMI 1 !Jtl\
..."', ,-..... !=ito de intuição própria e o que até então tinha sido, rece-nos, por isso mesmo, à distância de meio século, alio literária aquela. potenc1ahdade . de consc1enc;))41·~·: 11 tlMdnl•t
ao contrário, mero impressionismo temático ou re- um impacto de extrema conseqüência para a forma- contextual inerente à ideologia crítica do Mqdc •"' 1116 t lllHttt
) petição ingênua de modelos importados. Assim, o que tividade modernista. ~ a mudança da .linguagem n:ismo. Há no substrato referencial de ambas. as o\it .
o Barroco trouxera remotamente como abertura cria- poética ocorria realmenfe-··i[ partir· qa_rQ:~º!_~ção r.a- u111a insinuadora gama de significados ,que rem~t.ê ·
1111 11h1. li
ora sob a forma despistadora da paródia, ora so~~: 1011111 111111
tiva ao primeiro esboço de uma expressão brasileira .cJical do verso livre, mas dentro da nall!r..~.r§P.!ia
- elemento de tradição que a etapa romântica su- de foêlá' a p oesia qµe é a movência ,plásJ.i«a assumida fol'lna mais agressiva do humor, ao núcleo de,'um!.\ 111111111101~1
focaria sob a camada da sua superficialidade formal pela p~~xn j;_o mo__mãiel'..!.!!.l de:_expres.s.ã.o......dô]iõêta, ru11lidade que a ·visão n1oderoista se propunha JÍ:' ''"y" o •••
•11 htl•h•
..
~ -
- é retomado e revigorado pelo movimento de 1922,
. .
que, no entanto, Jª nao o conceitua mais como ar-
a mudançª- :ru:.o.po.sta na esfera da ficção rom~a os
parân1étros naturai~-dõ - &ênero - o tempo- e e;)- es-
pensar, de maneira mais científica e abr angente1 tatnJ '
bém com os instrumentos novos da Sociologia, 1lt1111l•U1tl1
, ·--- _ . - ·- - - -.-.-
Etnografia, da Antropologia ou da História reverlf} 111111111• Jntt
tifício de ornamento da linguagem, porém como pes- paço na~r11t_i:-_os - , par!.lfilp_Of um~ noç~_J!OY.~E.~fª I
quisa de linguagem, categoria inseparável da moder- a espécie: a noÇao~áe texto. E isso acont~~~- em cada. Aqui o nosso escritor voltou, para erguer ta.11 MIHIHW• '
na criatividade estética. Esse princípio valorizador da nossa plena sincronia de modernidade com· a ficção significados, à necessidade de construí-los a parti lll•1•1tbtflH '
li ~Jerimentação exerce-se em nível de reflexão, com de língua inglesa ou-francesa, a contar mesmo do
- .., ........ - -
J 34
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f


. fJ l/SJf'S de James Joyce. Assim, a pi;opósito de obras de uma tradição, ainda que essa tradição fosse, como
111 111 1!11 1•111 o escri tor voltado de início para a inerência Iiogüís· oon10 Menwrias Sentimentais de João Miramar no Romantismo, articulada sobre valores étnicos de
11110- 1111 ' t1 tlca irnediata - a palavra, a frase, o sintagma - , ( 1924), de Oswald de Andrade, e Macunaíma que procuraríamos agora uma transposição filosófica .
111.. 111 n1lh;n daí evoluindo p ara operações mais complexas que Macunaí1na, somando estrafus míticos e etnográficos
( 1928) , de Mário de Andrade, podemos falar fran-
11••1111 ... 11{11 abarcam toda a problemática estrutural de seu texto. da cultura arcaica indígena a vicissitudes de uma
onmcnte en1 romances-textos e não mais em roman-
....,, ' J 1 ,. En tretanto, o que passa a ser questionado e refie· ces 10111 court com.o os que nos vinham da tradição nação cm incipiente processo indmtrializador, ai:n-
f+llll1llfol li/ xlonado não é 'tão-só uma linguagem literária bra- ro1n fintico-realista. Nesse ponto, o par Miramar-Ma· biciona não tanto compor, ém torno de seu herói
" '''' N~I JI{
..1111• p111h•1
sileira que se precisa rever e reformular, mas a pró·
prin modernidade da escritura n aquilo que as cor-
c1111aí n1a - que adotamos como obras-protótipo da ' sem caráter, uma fantasia de fundo meramente in-
rsp~cl ficid ade modernista - prende-se, quando mui- a ianista, mas a própria imagem do ser político n~­
li 1111 l'lfl'1 rentes internacionais do momento impõem então co- · to, dentro do projeto literário brasileiro, aos fios bas- cional em amálgama. Miramar, sátira urbana, já pul·
111.1 U11 n 1.,,1,..,.. 1no força renovadora do pensamento criador. O Mo- tonte tênues de uma linha de prosa fragmentária ou veriza contudo, na sua fragment.a ção frásica, o pen·
del'nismo quer também utilizar-se da lição das cul- prosn-n1ontagen1 esboçada ainda ..pa ancestralidade sarnento modernista, incisivo e anti-retórico, que se
turas mais amadurecidas, assimilando técnicas e, se barroca com o Peregrino da América, de Nuno Mar- extremará ideologicamente nos manifestos Pau-Brasil
possível, reduzindo-as a uma necessidade nossa de quos Pereira, ou as R éflexões Sobre a Vaidade dos (1924) e Antrop6fago (1928) , O texto oswaldiano,
' 11'"'
11~1\1·-
'" ' "'" 1 ' expressão, de atualidade de expressãcf. g aqui que T/01ne11s, de Matias Aires, linha interrompida até sua embora de maior radicalidade inventiva, nós o po-
" l·l1•1tl 11 , o processo da reflexão modernista, como un1 grande t;runde e solitária reton1ada com o romance de Ma- demos vincular, de n1aneira mais procedente dQ que
f 1 '1111 lfll~ leque de arejamento crítico, primeiro se abre ao ·so- Macunaíma, a lances de tradição no desenvplvimen~
+ 111111111, 11!,C;._
ch11do de Assis. Miramar, mais próximo da técnica
p ro novo da viração universal, para depois fechar-se de frug1nentação'f'm achadiana, tràz, no entanto, um to do projeto literário brasileiro, seja ao mQi;le\o ma-
..... i..11111 sobre nossa própria perplexidade e repensá-Ià já não ole1ncnto de extraordinária novidade para a nossa chadiano mais recente de humor e prosa elíptica, seja
apenas em tertnos de linguagem, mas sobretudo de linguagem ficcional, qual seja a de um diferente di- no recuado nascedouro seiscentista àquela · visão sa-
realidade. O pêndulo linguagem/ realidade, experi· nicnsionamento da frase, que, à mªn~ira. da . ~omada tírica de Gregório de Matos diante da mesma so-
1ne11taçãol construção ritmará o desenvolvimento do ch1en1atográfica em cortes rápidos e simultâneos ou ciedade de raízes rurais e monocultoras que, na dii;-
projeto literário brasileiro ao longo de uma vigência ~l n imagem partida em superfícies cúbicas, resulta tãncia de trezentos anos, apenas deslocara o seu eixo
cíclica em que viremos, afinal, a conhecer a nossa uu 1n . estilo . marcado pela síntese e concreção. Ma- geográfico e trocara o fulcro econômico do açúcar
opção maior de originalidade. c1u1aíma, buscando antes uma tipificação da língua pelo do café. Reflexão de uma consciência crítica
e no âmbito pois d as criações mais fortemente do que uma invenção de linguagem, pode-se dizer manifestada nos planos da linguagem e da realidade,
originais, seja pela nova atitude diante do proble1na também que reflui ao modelo ·b arroco do Peregrino o par Miramar-Macunaíma condensa e enfatiza, as-
da linguagem, seja pelo pressuposto de um inferente quando abole tempo e espaço narrativos e faz de sim, toda a proposta estética e ideológica do Moder-
repensamento crítico da realidade, que devemos ir seu herói um outro ho1no atnbulator, onipresente e nismo. Confluei:n e atuam nos textos de Oswald e
procurar a obra ou as obras:J?.rotótipo instauradoras reversível. Enquanto Mirarnar, prosa cubista, abre-se Mário aqueles elementos que, atravÇs de um simul-
do inteiro espaç0 modernistaf '.Não obstante a m aior à angulação metonímica, Macunaíma, prosa estrutu- tâneo processo de importação, de projeção ~u de
violência do salto qualitãtivo ocorrido n a área da ral, p refere ater-se ao domínio da metáfora, embora aportação, definem a redutora originalidade do" Mo-
poesia, relativamente ao padrão do produto poético olargando-a à proporção do mito. dernismo dentro do nosso projeto literário: 1) ex-
de fases anteriores, será na prosa de ficção que sur- Ganhand.o a categoria de texto criativo por força peri1nentação formal; 2 ) linguagem de prevalincia
preenderemos os exemplos do maior arrojo criativo de u1na radical reflexão sobre a linguagem, o par Mi- inve11tiva; 3 ) concepção crítica do real; 4) fantczyia
dos anos de implantação do Modernismo. Território r<unar-Macunaíma ostenta, não obstante isso, um de autenticidade nacional; 5) substrato de consciên·
de estabilidade formal mais duradoura e definida, a grau muito intenso de referencialidade, através do eia ideológica. Elementos que viriam a ·confluir e
fl'a tura operada n a estrutura do nosso romance pa- qual Oswald e Mário fazem permear em sua expres- atuar, em coesão ou alternância dialética, em todo
rece-nos, por isso mesmo, à distância de meio século, s5o literária aquela, potencialidade . de consciência ·o desdobramento do discurso reflexivo modernista,
ntn itnpacto de extrema conseqüência para a forma- contextual inerente à ideologia crítica do Moder-
tlvidudc modernista. Se a mudança_ da.Jinguagem até encontrar sua saturação criativa na obra-ápice,
n isn10. Há 110 substrato referencial de ambas as ob'tas
po6tlcn ocorria realmente'T. partir. .iIJL.t«;.~o~ção ra· 11n1a insinuadora ga1na de significados que remete, na obra-limite que é Grande Sertão : Veredas. E na
-~! do verso jivre, mas denti:o da_nature..zJLpl'.Qm:ia ora sob a forma despistadora da paródia, ora sob. a saga rosea11a, com a liberação .çle um inconsc;iente
d.e. toêla a po~i!l_q4e_ é -~--~~yª-n~j_ª_pl;is.ti~~ a~su_!!!!da forma n1ais agressiva do' humor, ao núcleo de . uma antropológico que em nossa experiência tropical sol-
po'l a p·it~~vra_como ..mat.e.c1aj de~pr.e..ssã,o_do_!Weta, realidade que a visão modernista se propunha .re- dava o sertão e o medievo, liberava-se também a nos-
fl,.)l'lllclunçl\_.BJO.POSta na esfÇ,!<}; ...9a _f icçãp roll!Qia os pensar, de maneira mais científica e abrangente, tam- ·sa inteira vontade de expressão preconizada pelo Mp-
partlljíctros n ~u§_i_DJ.Q:. gênero - o"tem~ 'e "Q- es- bém com os instrumentos novos da Sociologia, da dcrnismo, concretiz<1ndo em linguagem de ficção
10 1-1111111 1"'
. ·-- -- .....
pf\!fO n t~;ra11vos - , pa~wp.oi: =úm_~ l)()_Ç~ }}.OY!..F_~!'ª Etnografia, da Antropologia ou da História reverifi- aquela imagem mirífica divisada trinta anos antes por
.. , 1111 .... .. 1••, . a QSpéc1c: a n-oção~.textp. E isso aconteçiª em, cada. Aqui o n osso escritor voltou, para erguer tais Miran1ar: "E o sertão para lâ eldoradava sempres ~
11h11l1111hu 1 n~ssa plena sirrc1'on 1a de moderniôã.de éom a ficção significados, à necessidade de construí-los a partir liberdades".
, , ,... ""· '1111 éle Ungua inglesa ou francesa, a contar mesmo do
.' -·-·- O'O BARROCO AO MODERNISMO . • . 35


Estrangulamento ou reciclagem do projeto que, transmi~do como a grande h erança de 22, fez
há pouco artistas da geração moça reescrever criati-
Referências bibliográficas
Estaria irreversivelmente concluído o ciclo moder- vam ente, na linguagem vanguardista do teatro e do
••
nista ou é ai nda sob a sua vigência estética, crítica cinema, o texto oswaldiano do Rei da Vela e o Ma-
e ideológica que temos de compreender o .produto cunaíma, de Mário.
· literário pós-roseano, especialn1ente o trabalho das
novas gerações? Esta questão, que vem sendo pro-
posta com certa insistência principalmente em decor·
rência da Icnivação cinqüentenária da Semana de 22, ..•
ten1 encontrado respostas divergentes, contraditórias,
•I ' • mas todas elas respostas de alcance sem dúvida pro-
visório. Os que se atêm à velha noção de literatura
como um compartimento estanque e u1na atividade

estável, ainda que fracionada por eventuais saltoi de
transformação da linguagem, estes não admitem re-
servas e são pere1nptórios e1n afirmar a prevalência f~ '
:·;
cíclica do Modernismo, embora tel')ham do Moder- (
" .." ,,
nismo uma idéia aco1nodadora e cristalizada, mais ..
'
1 próxin1a talvez da idéia de um pós-modernismo tão
ao gosto da crítica oficial. Ao contrário, aqueles que
aceitam o desafio da grande fratura sofrida pela lin-
guagem das artes nos últin1os vinte anos, com reper-
:1 cussões na própria especificidade do discurso literá- .
'.
rio, dão como fato tranqüilo o encerramento do ciclo
modernista. A verdade é que a poesia concreta e as
proposições satélites, quebrando o tabu da estrutura
discursiva e introduzindo no aparato da linguagem ·"j
poética materiais e signos não-verbais, precipitaram I

1 a abertura de um fosso bem mais prof1111do do que


A Literatura 110 Brasil. Direção de Afrânio Coutinho. 2,
• o de transições intercíclicas anteriores experimenta- "' " ~ A
, il d as pelo projeto literário brasileiro. Vivemos atual-
m.ente uma conjuntura de estrangulamento que tanto
cd. Rio de Janeiro, Editorial Sul Americana, 1968/
1971. 6 V. •
,,,,,, ... 1

h•\ ""
ALl!NCAR, José de. Roniances. Edição consultada: vols. 11111111 " '
pode indiciar um fenômeno cabal de esgotamento, diversos - São P aulo, Edições Melhoramentos, s/d, 1, • I
quanto um fenômeno premonitório de reciclagem. E AMA<RAL, Aracy. As Artes Plásticas na Sema11a <le JJ, ) ~··
a crítica que pretender nesta altura intuir o futuro Siío Paulo, Editora Perspectiva, 1970. Coleção De• '' 1º"~
desdobra1nento do projeto de nossa litêratura terá bates, 27. ,•• 1 .\ M 111111,
que levar em conta não só a aderência de novos ma- ANDRADE, Mário de. 1\1acu11aí1na. 2. ed. Rio de Janeiro, ..
1111 . . ..
,! ..... o.!
. ~eriais de expressão, mas igualmente as novas reali- Livraria José Oly1npio Editora, 1937 . 1.. ~ .... ~
•1"11-. • ,,
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.dades postas e1n giro pela comunicação de massa, a e Ail ll•l 11
ANDRADE, Mário de. Aspectos da Literatura Brasilotrat
exe1nplo de fonnas ou técnicas que constituem uma
reformulação a seu 1nodo da antiga inve.ntividade do
São Paulo, Livraria Martins Editora, s/d. ·
~~
,,,l 'º'' 1
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ANDRADE, Oswald de. Me1nórias Se11ti111entais de l of!4.' Ili.MA , h
texto. A fusão e a interação das artes são também M ira111<11'. São Paulo, Difusão Européia do LIV.teJ!'· hlh ,,_.,..
. fatalidades a que terá de submeter·se o discurso li- 1964. ' l\ IA111-, 6
terário em incógnita, processo a que já assistimos ANTÔNIO C~NOIDO. For1naçiío da L iteraturc1 Brasl/ofti
..1
J
agora no â1nbito da poesia, através da franca per-
mutação de sua linguagem com a linguagem da mú-
São Paulo, Livraria Martins Editora, 1959.
Assis, Machado de. Don1 Cas1n11rro. Rio de Janoir01 • !
. ,.. .........
J1 1ll~n11
~
11111111111
.,
1 sica ou da criação plástica. Da lição modernista há M. Jackson Editores, 1947. ·. 111111 lt
de prevalecer, todavia, a radicalidade prospectiva, Á VILA, .Affonso. O Poeta e a Co11sciê11cia Crítico. Pe ,/,·111/111
aquele ver con1 olhos novos, ver com olhos livres
'''~--·
polis, Editora Vozes, 1969. Coleção Nosso Ten1po1
l
36
,..,....

que, transmitido como a grande herança de 22, fez


h á. pouco artistas da geração moça reescrever criati-
Referências bibliográficas
,,,, '" 111•11 vamente, na linguagem vanguardista do teatro e do
cinema, o texto oswaldiano do Rei da V ela e o Ma-
'"'""· 11t cunaí n1a, de Mário.
1 H I'""
•1 '"'"'
nh ''' · 11•1\ ~
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, n•t~I• .
11tl11 , •• '

l"t1,tt11•
,, t1l1•

,,,,,1 . .
A literatura 110 Brasil. Direção de Afrân io Coutinho. 2. Avn.A, Affonso. O Lúdico e as Projeções do Mundo
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l1• 11111 •
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lllt• '"" Atl!NCAR, José de. R on1ances. Edição consultada: vols. BRJTO, Mário da Silva. História do Modernis1110 Brasilei-
t •JjHl •llw,.y ro: f - A11tecede11tes da Sen1a11a de Arte Moderna.
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2. ecl. Rio de Janeiro, Editora Civilização B rasileira,
'"'"'''li'
l ll!t li
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1 1•/11111 ll polis, Editora Vozes, 1969. Coleção Nosso Tempo, 7. Coleção Vozes do Mundo Moderno, 6.
DO BARROCO AO MODERNISMO . • . 37
EST.~TICA E CORRENTES DO MODERNISMO
"
Benedito Nunes


'

,

'

l

Empregamos aquí a palavra estética num sentido


que oscila entre a acepção estrita do termo, conto
indagação acerca das condições da sensibilidade ar-
tística, e a acepção ampla, como jtúzo de valor acer-
ca da natureza e da função da arte, inclusive sob o
aspecto íiarticular de procedimentos e técnicas. Em
nosso modernismo, foi a poesia sensu stricto que con-
centrou e mobilizou aquela indagação. Foi em torno
da poesia que se precisou o conflito entre o novo e
o velho, o antigo e o moderno; passou· por ela a
principal linha divisória entre as exigências de re-
novação - a primeira das quais a .maior liberdade
no uso literário da língua-- e o status quo parna-
siano e naturalista para a literatura e acadêmico para
f,,
as artes plásticas. Até 1925, salvo a exceção de Me-
" 111órias Sentimentais de João Miraniar, de Oswa]d de
Andrade, o maior impacto do Modernismo veio do
campo da poesia, tema predileto de debates, e ter-
• mômetro das aspirações literárias e artísticas do mo-

vimento.
A rigor, portanto, deveríamos falar numa poética
do Modernismo : poética no sentido amplo, de cria·
J
em lírica, que os versos de Paulisé_ia Desvairadcf~ llllllUt tfJ

·1
ção literária. É verdade porén1 que, nesse movimento,
a criação literária catalisou toda 1111Ht revisão de prin-
mesmo direito, os Epigra1nas Irônicos e SentÍlnen-
tais ( 1922), de Ronald de Carvalho, e Losango Cá-
f 1922) então exen1plific~vam, a estet~ca,_ ~ermo Vil-"...
zlo 1, 0 rque se problematizara o seu s1~1f1cado tra:: .
ll fl l ll+illlll
jllll h• th
cípios estéticos na qual tívcrant influência preocupa- qui ( 1924), de Mário de Andrade, Raça ( 1925), de dlcional, uão era. apenas un1 f latus voeis. ..... .1
l
1111•11111,
ções específicas com a rnúsica, a pir1tura e a esc:~l­ Guilherme de Almeida, e J>au-Brasí/ ( 1925), de Os- 111•111 llHt
Através do constante emprego dessa palavra
tura. Mas somente tratarernos destas artes em funçao wald de A.ndrade. Nesse período que investigamos,
tcrnava-se uma inquietação que pe_rdurou durante Q. ·.: • ,, 1 "'" 1111
do relaciona1nento da poesia coin as formas plásticas fértil em proclamações doutrinárias, a palavra e~té­ fnsc crítica do Modernisrr10, que fo1 realn1ent~, como. · ll)llt-1.,à11
e n1usicais, que o nosso 1nodernis.1no considerou es- tic(l aparece como um passe-partout conceptu~l,_ im-
pccial1ncnte. buída de un1 prestígio quase mágico, para leg1t1mar disse Mário de Andrade, \Hna fase. de pesqu1s.a e d.e. . " 1•lt••
j.
Lin1itamo-nos a estudar o período entre 1922 e
l 930, durante o qual o Moclernisn10, como aquele
as novas cartas de princípios surgidas e1n 1922 e lo-
go após. ~ um termo que se esvazia e que suporta
experiência de tentativas e de pro1etos. Essa lnqulf.l.'l 1•
tude de q~e se acham imbuídos o "Prefácio In~c.o ''" l'l'\t
,,' 41111 "''
"estado de espírito dominante e criador" de que Má- ress~ntíssimo" de Paulicéia Desvairada e a _nota .10.•
as mais distintas conotações, significando desde a " " li 11114
trodutória de Me1nórias Sentirnentais. de loao Mtra•
rio de Andrade falou, abriu un1a "fase de ordem crí- simples reação ao passa?o à manif~tação_ d~ ~iber­ inar ( J 924) - essa inquietude. estética, como podOo '
111111 ....

! tica, que foi de pesquisa e experiência"•, e conser- dadc criadora, desde a hvre express.ao da 1nd1v1dua-
rcn1os chamar à intenção teor1za?~r~ que tr~spa-
,, 11111 1111

,,:1
vou a força das duas negações, u1na ruptura • un1a
revolta, que condicionaran1 a sua orige1n e o seu cur-
lidadc - o "livre e fecundo subjetivismo" a que se
reportou Graça Aranha'.l - à sensibilidade dilnen-
rccc nos projetos progra1nas e def1n1çoes do ~er1odo,
revela-nos o ele~1ento ~e busca !n.~electual merento
''"""''"·
11h 11111 1°
so enquanto movünento de Ull'HI geração. s ionada pela ciência e pela técnica do século XX. d li 1111111 I
no processo do 1nodern1smo bras1le1ro, no, planó da '',, ,, llllJl'llh
No seu discurso da noite de 17 de fevereiro, den-
.:1 () n1.oclernisn10 no Bra~il, convén1 lcrnbrá-Jo, foi urna tro do tríduo da Semana de Arte Moderna, Menotti hi11lória das idéias etn que pod_c1no~ coloca-lo. 1 {
l t11 tl 11111
rupt11r:1, un1 abandono de princ(píos. foi unia revolta 'Não é por acaso que a tal. 1nqu1etude se assoclUJ Jll 1'111\'lh
dei Picchia falava nu1na estética de reação, combativa
.1

contra o que era a Inteligência naciona12. e até guerreira, oposta aos convencionalismos en1 vi- muitas vezes, como nos ensaios de Gra~a Aranbo, '"· 1111•~11 li
gor, e gabava, ao n1esmo tempo, o "individualismo e~­ no Manifesto Pau-Brasil e na~ proclama~oes do vc~·
dcarnarelisn1o, 0 esforço de 1nterpretaçao da reall• '"' 11111•1
li tético" dos novos artistas e poctas4 . Ao ler-se hoJe lolllh llfl•
dnde sócio-histórica do país. En1 revolta contrn t\
Adn1i tindo-se essa conceituação preliminar, onde
encontrarmos a estética do Modc1nis1no, no pcríouo
esse discurso, vazado naquele estilo pomposo, tão ao
gosto do decoro verbal e gramatical da época, ~em-se
Inteligência nacional, e nisso sec~nd_ada po~ Orni;a
Aranha, que se considerou um autentico ~1sc1pu10 d
.,,,,,,.,, ,,,,....
•• t//1 ••


a in1pressão de que o movi1nento de 22 nascia sob
que tiven1os o cuidado de precisar? Tobias Barretos, a geração de 22 desv~;uiava~s 1 .. 11 11111111,
o signo do sincretis1no literário e artístico. T udo era
Entre J922 e 1930, do festival da Se111ana à re- abandonando os princípios de um.a t~a~1çao enrJJIJt ·· d11 1li~•·
permitido segw1do o pacto Iibe~tário que a Se~ana cid~I das formas de pensamento fJ!O~OÍlCO que COtll ,'. ,_
volução política, de un1 a outro desses marcos hete- instituía, transformando a estética nu1na Abadia de ··~I'''' 1111
rogêneos, o n1ovimento, con10 nos n1ostran1 os fatos eles' se relacionavan1 ou tinhatn afinidades. O ~Ollf.. ;f·
Thélême das letn1s . . . Fais ce qu'on voudra. ' tivísino e o Evolucionisn10, mas sobretudo a atttud , ·
1\ l 1\t lt
,,' da história literária, subdividiu-se cn1 grupos e con1- E 1n K laxon ( 1922), a primeira publica~ão ~11?­ ~··11 11t....
portou diferentes correntes, cujo deno1ninador co- cientificista neles inspirada, que ainda 1nar~ara1n, jull• ··:1
11~~11111111.
"
.1 mun1 fo i a óptica da re.novação: o esteticismo metafí-
d e rnista esse voluotarisrno passa do tom 11bertar10
ao liber;llizante; a estética já é a linha da renovaçlio
tamente com um esteticism~ vago e ~clético6, a po• "
1111111111111
sico de Graça Aranha, o paubrasil, o verdeamarelo, sição ideológica estável da int~lectuahdade ante,s cJ ,
orientada no sentido da atualidade, sob o foco do ti Ull~~I
I'
o grupo espiritualista de Festa e a antropofagia. In- guerra de 14, nada mais ~od1am ~eprese:ita~ pum ~
' cinematógrafo e da psicologia expe~imental: U~la essa geração que já se movia cm c1rcunstanc1as O.t' fJ\1 Ili "'
•i dependcnten1ente da diferença de pontos ·de vista, so1na de vi vências da época, uma articulação. de in- J ' Ulll
esses grupos contribuíram, at r avés das distintas pers- ciais e políticas diferentes,_ quando co1neço~ a totfij .
dícios ou de pistas para a reforma do enten?.1mento conhecimento do pragmatismo, do neotom1~mo 11 tl1
'111111 .1..
pectivas que os caracterizaram, para a quebra dos artístico, levada a cabo pelas correntes _europe1a_s, ,c?- Bergson, ao n1esmo ten1po q uc, en1bora iá tnrtl l •
J •t ll l"it/\1
velhos moldes. Mas se respeitarmos a diversidade e mo o Futurismo, que larga repercussao doutnnari_a llJll 1111••
fi:tcrn1os dela um critério de avaliação, a estética tivera em nossos meios intelectuais, e do qual a ori- lllCnte, das transforn1açÕeS guc se operaVanl l)Q. ~ I' 1111111111~
do Modernisn10 será um an1álgama de idéias, de va- entação de Klaxon procurava se distanciar. Servindo sia e na arte européias, desde o começo do s4Q: , '
lores e de procedimentos díspares e até contraditó- de isca na pescaria das idéias difundidas por estas Era un1a geração nein perdida nem ~bste11c1o 1 , t \' t

n1as perplexa diante de 11111 conjunto d: nJud , . l •IJJ•i•H 1


rios, res ultante da junção de todas essas perspectivas. correntes, que se entrançavam à obra. dos modernos 1H1 1'
Por direito de vinculação his tórica corn o movi- poetas franceses, italianos e a le1nães que os re~elues inte rnas e externas, dentro e fora do pais, que, " ...,,,,.1••1, •,
'
1! rncnto, seria1n tão 1nodernistas as idéias de A Esté"ti- da Semana liam; servindo também como meio de tundo tanto a maneira de sentir como a form.~: • ,......,.,,
tf•H ' lt• O•
\ ~

ca da Vida de Graça Aranha quanto as do Mani- aproximação aos conceitos latentes à nova lingua- pensar, compro1netian1 a antiga posição 1doo~ ~ .l'i1 1 f•i11••1••4
fcs:to Pau-Brasil, e modernistas tan1bém seriam, pelo estável da intelectualidade, sem que lhe ptO,PO ''"' l•11 •11••r•tt•
'" t ...
(3) AlCANlfA, Graça. "O Espírito Moderno"_. ln: . A Emoção t1tt1t1>t~ I•
( 1) J\NDRAJ>e,
Pa~rar/11/io. São
Mário de . "Modernismo". ln: O En1pa/hador de
Paulo, Livraria Martins Edi\ora, 1940. p. 16).
Estiti<'a '"' Arte }Joderna. 2. ed. São Paulo, Cia. Editora Nac10- (5) AfA!SRA, Graça. O me1< Pr6prio 11.omanct. SiiO
Cift. Editora Nacional, 1931. pp. I Sl.-1~6. . . •"•
,,,,,,, •• "'
f f

,.,.. ,., ....


(2) J\NDRAoe, Mário de. "O Movimento Modernista". ln: As-
nal, p . 17. .. o e ·a
(4) P1ccH•A, Menotlí dei. "Arte Moderna . 1n: . "'"P". (6) CRUZ COSTA, João. C'?lllTlb•!lfllO à Jl1st6rra 4111 lllttflt• • ••

pecto.r da Literatura Brasileira. São Paulo. Liv1aria h1artins Edi- r o Carão. (Mcootti dei Picchia. Plinio Salgado, Cassiano Ri- no Bra.ril. Livraria José Olym1llO Editora, 1956. p. 364.
IOrR, p. 235. cardo.) São Paulo, Editorial Helios Ltda., 1927. p. 20.
40
m~smo direito, os Epigramas Irônicos e Senti1nen- úm lfrica, que os versos de Paulicéia Desvairada uasse de imediato condições para um novo situacio-
ta1.~ ( 1922), de Ronald de Carvalho, e Losango Cá- { .L 922) então ex:en1plificavam, a estética, tern10 va- namento. Entre 1922 e 1930 ocorre a fixação, por
q111. (1924), de Mário de Andrade, Raça (1925), de rio porque se problematizara o seu significado tra- parte do grupo de São Paulo, promotor do movi-
Gullhern1e de Altneida, e Pau-Brasil (1925), de Os- dJolonal, não era apenas um flatus voeis. mento, de un1a atitude de rebeldia. que o colocava,
\~al~ de Andrade. Nesse período que investigamos Através do constante emprego dessa palavra ex- pela natureza mesma do seu fazer literário, antes
f~rtil en1 proclamações doutrinárias, a palavra esté~ t1m 11va-se uma inquietação que perdurou durante a do engaja1nento político, já no fin1 da década, e1n
t1c? aparece con10, U;°l passe-partout conceptual, im- rnoc crítica do Modernismo, que foi realmente, con10 oposição à .con1unidade7.
butda de un1 presllg10 quase mágico, para legitimar dlasc Mário de Andrade, uma fase de pesquisa e de A elaboração de sínteses da cultura, da sociedade
1oa2 e as novas c:rtas de princípios surgidas en1 1922 e Jo- 1xperié11cia, de tentativas e de projetos. Essa inquie- e da história brasileiras, quando não de verdadeiras
1(1\IC[C go ap~s. E'. ~111 termo que se esvazia e que suporta tude, de que se acham imbuídos o "Prefácio Inte- concepções-do-mundo, principalmente após 1924, in-
D Mfl- a~ mais d1s~ntas conotações, significando desde a ressantíssimo" de Paulicéia Desvairada e a nota in- dica-nos o can1inho que esse grupo trilhou. Para si-
orf- sunples. reaçao ao passado à manifestação da liber- trodutória de Memórias Senti1nentais de João Mira- tuar-se em sua própria realidade, compreendendo-a
• ' n1cr- c~ade criadora,. desde a livre expressão da 1ndividua· " lnar ( 1924) - essa inquietude estética, como pode- e con1prccndendo-se a partir dela, teve que produzir
umn l1clade - o "livre e fecundo subjetivi«n10" a que se remos chamar à intenÇão teorizadora que transpa- tan1bén1, e1n face das mudanças que esvaziaram o
• U U l:UI'• r~portou Graça Aranha3 - à sensibilidade dimen- rece nos projetos, programas e definições do período, alcance dos métodos científicos e das doutrinas tra-
s1onacla peh~ ciência e pela técnica elo século XX. revela-nos o elen1ento de busca intelectual inerente dicionais, os conceitos de que necessitava como ins-
No seu discurso da noite de 17 de fevereiro den- no processo do 1nodernismo brasileiro, no planó da trurr1entos. J)aí ter sido aventurosa a busca intelec-
fel 11n111 tro d? tr~du? da Se111ana de Arte Moderna, Menotti história das idéias en1 que pode1nos colocá-lo. . tual que a inquietude estética e o esforço de inter-
rtvolt11 dei ~1cch1a ~ulava nu111a estética de reação, combativa Não é por acaso que a tal inquietude se associa, pretação sócio-histórica, interligados no processo do
e ate guerreira, oposta aos convencionalismos en1 vi- 1nuitas vezes, cotno nos ensaios de. Graça Aranha, nosso rnoclcrnis1no, nos revelaxn: aventurosa porque
gor, ~.gabava, ao mesn10 tempo, o "individualisn10 es- 110 Manifesto Pau-Brasil e nas proclamações do vcr-
foi uma de111anda das idéias, unia exploração do pen-
t~t1co . dos novos artistas e poet.as4. Ao ler-se hoje <lcan1arelisn10, o esforço de interpretação da reali- sa111e11to, ci que não faltou uni certo enipenho filo-
esse discurso, vazado naquele estilo pomposo, tão ao dndc sócio-histórica do país. Em revolta contra a sófico, e que transcorreu pari passu con1 os percal-
nr. onde go~to do ~ccoro verbal e gramatical da época, te1n-se Inteligência nacional, e nisso secundada por Graça
ços da criação arústica. Experiência teórica e prá-
ptrfodo a 1~nprcssao .de que o 1novin1ento de 22 nascia sob Aranha, que se considerou uln autêntico discípulo de
tica, ora a praxis de criação artística suscitando as
o s1g~1 ? do s1ncretis1no literário e artístico. Tudo era Tobias Barretos, a geração de 22 desvinculava-se,
à re- idéias, ora estas conduzindo àquela, o pensamento
per':1'11~1do segundo o pacto libertário que a Semana abandonando os princípios de uma tradição enrije·
da fase decisiva do Modernisn10 constitui nlenos u1na
i hc!e· 1ns~1t,u 1 a, transformando a estética numa Abad ia de cida, das formas de pensamento filosófico que co1n
especulação do que um "trabalho pragmatista"&.
•· .•., DI fulos Thelemc das letras. . . Fais ce qu'on voudra. • eles se relacionavam ou tinham afinidades. O Posi-
1 "~'" 9 COOl· tivisn10 e o Evolucionismo, mas sobretudo a atitude Mário de Andrade já exprimia, antes de 1922, o
E'!l Klaxo11 ( 1922), a primeira publicação mo- seu desgosto pelo diletantismo filosófico que naua
' 111 1«• tlot CO· der~1sta, .esse voluntarismo passa do ton1 libertário cientificista neles inspirada, que ainda marcaram , jun-
assimila, e que disfarça com princípios de ocasião,
m1tnn- ªº. hberahzante; a estética já é a linha da renovação trunente com um esteticismo vago e eclético6, a po-
11rclo, sição ideológica estável da intelectualidade antes da apadrinhados por este ou por aquele grande nome,
o_ncntad~ no sentido da atualidade, sob o foco do a ausência de um verdadeiro pensamento. Todos
,.. ,... ln. ln· c1 nen1 atogr~f_? ~ da p~icologia experimental: un1a guerra de 14, nada n1ais podiam representar para
vlct11, essa geração que já se movia em circunstâncias so- lêem Kant, William James, Schopenhauer, dizia ele
s~1i:ia de v1ven~1as da epoca, u1na artic ulação de i11- - ''mas só um ou outro, raríssin10, folheou um tra-
por!l· d1c,10~ ou de pistas para a reforma do entendimento ciais e políticas diferentes, quando con1eçou a tomar
~dos conheciinento do pragmatismo, do neotomismo e de tado de I.ógica, leu un1a súmula de Psicologia ou
art1st1co, levi.1da a cabo pelas corren tes européias, co- prolegômenos de Metafísica"9. Nossos letrados de
lldo e ~10 o F utL1ns1no, que larga repercussão dou trinária Bergson, ao n1esmo tempo que, embora j á tardia-
ti16tlcci t11n niodo geral e não apenas os poetas seriam "ven-
tivera~ cm nossos meios intelectuais, e do qual a ori- 1nente, das transformações que se operavan1 na poe-
111, 1, p, "do· vu· toinhas de princípios ocasionais. "fêm por estética a
entaçao de K laxon procurava se distanciar. Servindo sia e na arte européias, desde o começo do século.
lldlló· de isca na pescaria das idéias difundidas por estas Era t1n1a geração ne1n perdida nem abstencionista, (7) V er AN1'ÔN 10 CÃN0100, Literatura e Sociedade, Siío Paulo,
I" 1"I Otlvnii. correntes, que se en trançavam à ob ra dos modernos n1as perplexa diante de un1 conjunto de 111udanças Editorn Naci<urnl, p. 192.
(8) "Porc1uc, c onscicntemeo1e o u não (em muitos consci<.:n-
1
"'"
•,,
• movi·
'l1t~·11.
poetas franceses, italianos e alen1ães que os rebeldes internas e externas, dentro e fora elo país, que, afe- tc mcnto corno flci1rá irrcspond ivelntente provado q1rnndo se divlll-
da Semana lian1; servindo tantbém cotno 1neio de tando tanto a maneira de sentir con10 a forn1a de gorcm a s c(lrrcspondências de algumas figuxas princip11is cio mo·
H • .1, 'l\cfnnl· aproximação aos conceitos latentes à nova lingua- pensar, con1pro1netian1 a antiga posição ideológica
virnen to) , o Modernismo foi um tr<tbalho pragma/l.ffa, preparador
o p.rol'ocador de um espírito inexistente então, de caráter revo·
.. , • "' i' pelo estável da intelectualidade, sem que lhe proporcio- l ucion~rio e libertário." - ANl>RAt>E, Mário de. "Modernismo" .
.t ln : O f. mpalhad<Jr de Passf/rinlto. São Partlo I..ivrarin :Martins
(3) Alt•NflA, Graça. "O Espíríto Moden10". ln: A Emoção Editorn, p. 161. '
E.·rér1ct1 "" Arte Mo<ltr11a. 2. ed. São Paulo Cia. Editora Nacío-
1
(5) ARANHA, <ltaça. O '"e11 Próprio Romance. São Paulo , (9) A NDR~DE, l\f:1rio de. " Mestres do Passado'', llf.: Rnl-
nttJ, Jl. 17. '
Cla. E dit ora Nacional, 1931. pp. 151-156. mondo Co rreia. ln: SlLV,\ BRITO, Mário da. História do l>foder-
•• 1 ' •
(4) P~CCHtA, l\fen.ottí deL "Arte ~f<?derna" . ln: O Cur11p/ra
'' . 1•
t o CartlO. (l'\1cno1ti dei P1ccl11a, PJm10 Salgado Cassiano Ri-
cardo.) S5o Paulo, Editorial Helios Ltda.. 1927. 'p. 20.
(6) CRUZ COS'rA, Jo ão. Co11trib11ição à História das ftUi(lj
no Brasil. Livraria José Olympio Editora, 1956. p, 364.
11 /.11111> Brasileiro, A11tcccdcntes da Semana de ArÍe '/lfoàerna. Ci·
viliz. )Iras .. p, 269.

. ESTÉTICA E CORRENTES DO MODERNISMO 41
"
'I .,

orientação do último poeta decorado ou 'a filosofia


do último Bergson que não digeriram' "10. Além da
as duas dimensões - a ruptura e a ascensão da van· ínoderna, onde encontrou uma nova t6pica - a V . M11• 1lt•11
guarda - que condicionariam, à semelhança de um
censura aos diletantes, percebe-se nas observações de a priori histórico, a experiência literária e artística locidade, as máquinas, as fábricas - do que o vaw ltlllUI
tl\1111
Mário aquela desconfiança, se n ão resistência' sadia- moderna. que emprestou aos elem entos materiais em est41lo (01111 • Ih~
.
m~nt~ pragmatista, à_ e~pecul ação imoderada, que o Se, abandonando os padrões sediços, as alas em bruto, aps signos rudimentares e à descontinuid111ni- 111•11•lun1t&I
guian a na busca das ideias estéticas. Ao mesmo te111- que o nosso movimento modernista se repartia .t i- lógica: os ruídos na música, os gestos no teatro,-.' .
palavra "solta e fecundante" produzindo efeito pelQ·
. 111111 1111 jtl~
flllll 11111 w
po que estudando a Psicologia de Mercier descon- nham a renovação p or denominador comum nem to-
f iava do lirismo fi losófico de Farias Britoi1 Mário das porém orientaram a busca intelectual e:n que se suas associações e analogias, o rompimento da ,- hl,lu nt..~
., " . '
Jª se torn ara ass1duo leitor dos poetas e teóricos Es- empe~hayam n a direção das vanguardas atuantes tnxe, o realce dos nomes e dos verbos em proveit -, tio 1llMlhll
da "imaginação sem fios"JS, que caminha de imag,_,·.,.,,, 1......
l' t , , , ..
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4•
t~an_geiros mais prestigiosos do momento, como Apol-
hna1re, Cendrars, P aul Dermée, H ans Becher, Au-
no pr11~e1ro qua~o. d~te séc~lº; . Na 1nedida em que
se r ealizou. a ass1f!11laçao das ideias, dos procedimen- n imagem, numa ordem intuitiva e aconceptual. M:i3'., 11111111,11 1

.' tos e técnicas veiculadas por estas vangliardas foi no F uturismo o poeta ainda era um chantre. Cel~ /" C'11hl•OUt
""ti gust Stra mmer, Carrá, Palazeschi, Baudouin, 1'zara,
b~·av~, e,m~:riagado, o ritual da vida moderna que h~..,'
e tantos outros citados em A Escrava que não é /sau- que ~e definiu, no movimento de 22, uma perspe~tiva ,.,. 1111 ...
estética central, de que se afastaram· ou" se aproxi- via 1nstttu ido para escamotear a Cultura, transfof.íi " 111huu1111n
r~ . ?swald de Andrade, que chegou a exprimir <:on-
m~r~m, no p:río.do de ordem crítica, ao sabor de 111nndo-a em N atureza. 11D11 11111011
~-icçoe~ de u1n neotomista rígido, e tomou lições de
filosofia coin Charles Sentrou}l.2, irá colher, entre mult1plas tendenc1as ein jogo, refletidas numa poesia A afirmação nietzsch.iana da vida, que pode ®1'. :: 0; , tlli • 1
e numa. prosa ne?l .sempre modernas, as pistintas encontrada nos pintores expressionistas, já não tranii•:: .. 1111111 u l'
1922 e 1925, cn1 Paris, __;_ onde conhece Satie, Coc- 111vAo, • IM
p~rspectivas que individualizaram as correntes do pi·ra essa forma de otilnismo. Para o Expressionismo/ ;"
teau, Superviclle, Uger, Lhote, Gleizes, Stravinsky, nosso nlodernismo. cuja poesia de interrupção16, também alcançou, dru~ ",1 111111111, l•ll•
Va léry-Larbaud 13 e l'ublica Pau-Brasil (1925) no ·~ 11ht
; Re~ta-nos' fazer uina última observação antes de do força a verbos e substantivos ou suprimindo· · '\1111111
Sans Pareil - as sugestões literárias. e .plásticas de pontuação, um efeitó de choque, as máquinas e ' ll A ,f,~t
uma at':11osfera turbulenta, agitada pela polêmica en- ª!?rec1armos aqu.elas idéias vanguardistas. Na propor-
çao em que r~tira~am de tal lastro a matéria-prima velocidade, como reflexqs da época, agravavam o con~ 111 111111• 1 1
tre cubistas e dadaístas. Tanto Mário como Oswald traste entre o homem e as coisas. Exprimir-se sorllí ' 1111 11 11, ., .
o~ientararn o trabalho prago1atista do modernismo na de . seus conceitos 1n ~truo1enta is, as sínteses interpre-
tativas <:lo pafs, surgidas no curso do movimento de ver interiormente, por meio de inexatidões, de de• 111 111 1•• 1
. d1rerão das correntes européias que melhor refletiam
~2, pudera~ fornecer uma visão acentuadamente crí- fonnações e de contrastes, aquilo que exis'te GX.lPi 1•111 1·141'111'
il· e ativavam as transformações da arte e da literatura
posteriores ao Impressíonisn10 e ao Simbolismo. Ora, t1~a da ~?czed ade brasilei~a. Di r-s~-ia que o ponto de riormente. Aqui também tende-se a exaltar o. cle>o h11l11 " •t
vista critico e a perspectiva estética especificamente n1entar: as estridências na música, as interrupçõe$i ,1 1\ 1l1J•l111•1
'lí essas correntes, que representavam o "estado de es-
· moderna se correlacionam e se completam. os cortes sintáticos na poesia, que tem a su a ordein ! , ou t•11l111h
pírito universal", de que os nossos modernistas co- verbal própria, não-discursiva, fragmentária e de&• ~ l'l 111111 1'1111
~' meçaram a se aproximar ainda antes de 22 não eram
- Ili contínua. A continuidade que se conhece é a cOD• · · \fttl !Mlll tJ
apenas a expressao de um renovamento, 'no rodízio tinuidade da emoção p ermeando uma linguagem l~9 ':·
~i das tendências _que se sucedem. Exprimiram também
IA .-1 111111
Recapitul~ndo os tão famos?s ismos do primeiro espasmódica quanto a realidade, em que latejá ô ~­ 11111111 1•IA
uma ruptura, a partir da ·qual se instaurou o sentido gnto, o U rschrei11. ,. h11hl11 , ....
•! da. moden1idade. como situação problemática da pró- qua~to do secul~ XX - Futurismo, Expressionismo,
li ~ub1smo, D ada1~mo .e Surre~lis?lo - que influen- Abandonando a perspectiva renascentista, o CUbÚ~ · .... 11•rl• lh
pna arte" e assinalavam, concomitantemente a es- n10 p roduziu um efeito liberador sobre as outras ~ .... 11111,
. ' j!
t~bjli~ação de u ma ati~ude de " heterodoxia e de opo- c1ara!11, de mane1r~ dl!'eta ou md1reta, pelos seus pro- ljllll
nunciamentos teóricos e pelas obras de seus repre- tcs, devido ao alcance revolucionário dessa rejeiç~Ot· ':- l11111h• 111
s!çao 14 quAe caracteriza, como parte dâquele sen- c1ue atingia um modo de r epresentar e de con~ . °''
:r sentantes, os nossos modernistas, interessa-nos esta- _ 1u111•lYJI•
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tido, o fenomeno do vang uardisnió próprio à nossa
' époc~. 1'."l'º estado desse. e~pírito universal, sob cuja.. .belecer. as confluências ~essas correntes que se ligam Q mundo. Na poesia levou, primeiramente corn Apõ1 ,,....... 1.. l
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l~· ~1fluenc1 a o nosso modenusmo nasceu, associaram-se
entre s1, do ponto de vista de uma só problemática, linaire e seus continuadores, à teorização do esn
1101.1veau, nome que passou à revista L'Esprit N
e, 1111t1~
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,,,, no proaesso comum de transformação da arte. Cada llAO • tUt~
veau, uma das princip ais fontes de que se va1cu
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(10) ANORADll, Mário de. l dtnl, qual deixa perceber, por determinado ângulo, a rup-
ri:: (11) " Compreendo e me comove n âns!a terrível dos que t~ra da tradição artística e literária a que nos refe- rio ele Andrade. Não há dúvida dê, que a "crist11l · 11011t1111•hli
'' ''
procuram a wrd adc e explodem na filosofia verdadeiramente Hri-
ca de um Faria~ B rito .. . " ANDRAon, Mário de. "Mestres do Pas. rimos. ção de um mesmo objeto tomado sob ângulos d tul1111 1•111 "
sado". Idem . 1 · O Futurismo, que esteve associado, de maneira rentes"•S foi uma das maiores invenções do Cubis~
(1~) Cf. nosso artigo Ho1nem de multa (é. SL de O Estado
ostensiva, publicitária e polêmica ao movimento de
. .~...;
tle Silo Paulo, 10-10·1971.
(13). _FrcqUcntavam o atelier de T arsila do Amaral. Cf . ..sf:r- ' 22, despertando nos.. seguidores deste as mais dese11- ( 15) MARINETTI. "Manifesto Técnico da Lite~atura F llt\IXJifn
glo Mill1et, Diário Crítico, São Paulo, Liv Martins Editora v ln:, MENDONÇA Tl!LBS, Ollbcrto. Vant11arda Européia e MotJf-qi .,
IX pp, 365-366. • . ' . . contradas _reaçõe~, foi, sobretudo, independentemente mo llrasllelro. Ed. Vozes, 1972, p , 73 . • ··
( i 4) SHATI'UCK, Rog<:r. 1'/ie Banquet Y~ars (The Origins of dll g.ang~ 1deol6~1~a de que o revestiu a pregação de ( 16~ .. ' ' ' poesi a dc ile intoerruzlonl, poesia quasl aestll•lb· ..
thc ~vant gardo ln France 188S to world war l - Alfred Jarry, lmpaz1cnza . . . " MlTTNllR, L adislao. L'Esf?t'es.lionlsm o . E dJt(j . · .11
H~nrt Rousseau, Erlk Sntle, Guillaumc Apollinaire) Ncw York Mannett1, um hr1smo catártico, de choque. O que terzn, 1965, p . 42. ·
V1ntage Boole, p. 24. · · •' nele . importa considerar é menos a exaltação da vida ( 17) MrT'rNllR, Ladlslao. Idem, pp, 29 e 49.
(18) GOLDING, John. Le Cublsme. Paris, L e L ivre dó
42 I>. 84. '
••,
111 11 r1111~111 os duas dimensões - a ruptura e a ascensão da van-
"Ili t\ li\111 1 guarda - que condicionariam, à semelhança de um : Qderna, onde encontrou umà nova t6pica - a ve- Mas desarticulada e suprimida a perspectiva clássica,
"-" 1 Vli\ 1\1• ~ a priori histórico, a experiência literária e artística Oidade, as máquinas, as fábricas - do que o valor que autorizava a 1nanter na superfície da tela, sob
•• 111111, 111111 ~ n1oderna. •·~u emprestou aos elementos materiais em estado forma ilusionista, a representação do espaço tridi-
flll tt1l11, tjl H' Se, abandonando os padrões sediços, as alas e1n r· Jf!JtÇ, U9S si9nos ruditner,itares e à descontinuidade
c;p,!ca: os ru1dos na música, os gestos no teatro, a
mensional, o que mudou in1ediatamente, p reludiando
outras profundas transformações que se sucederam
que o nosso movimento modernista se repartia .ti·
oha1n a renovação por denominador comum nem to· :' p ilnvra "solta e fecundante" produzindo efeito p elas com 'r apidez, foi não só a idéia de pintura como a
das porém orientaram a busca intelectual e:n que se 8U!.1.!i associações e analogias, o rompimento da sin- idéia mesm a da obra de arte, que passou à categoria
empe~ha:ram na direção das vanguardas atuantes tnx0, o realce dos nomes e dos verbos e m proveito de realidade autônoma, condicionada .pela m(1tua
oo primeiro quarto deste século. Na medida em que ti ui1naginação sem fios" lS, que caminha de imagem correlação de seus próprios elementos materiais e
se reali~u. a assi~ilação das idéias, dos procedimen- i.nlagem, numa ordem intuitiva e aconceptual. Mas formais. Por um ]ado, desenvolveu-se através do
tos e tecn1cas veiculadas por estas vanguardas foi no Futurismo o poeta ainda era um chantre. C ele- Cubismo a linha de uma estética depuradora, que
que ~e definiu, no movimento de 22, uma perspe~tiva brava, embriagado, o ritual da vida moderna que ha- fez da pureza a primeira virtude plástica - predo-
estética central, de que se afastaram pu se aproxi- Vill. in stituído para escamotear a Cultura, transfor- minantemente sintética e dinâmica, substituindo a vi-
1naram, no período de ordem crítica ao sabor de mando-a em Natureza. são aproximada e local pela inclusiva e simultaneísti-
rnúltiplas tendências em jogo, refletida~ numa poesia A afirmação nietzschiana da vida, que pode ser ca - e também criacionista, pois que, como salien-
e numa. prosa nem sempre modernas, as distintas encontrada nos pintores expressionistas, já não trans- taria o poeta Pierre Reverdy, filiado a essa orien-
p~rspectrvas 9ue individualizaram as correntes do pira essa forma de otimismo. Para o Expressionismo, tação, ela pôde criar, não copiando nada e nada iJni-
nbsso n1odern1smo. ouja poesia de interrupção16, também alcançou, dan- tando, com a ajuda de seus elementos e meios novos,
; R.e~ta-nos' fazer uma última observação antes de do força a verbos e substantivos ou suprimindo a "uma obra de arte por si mesma"19.
ap rec1arn1os aqu.elas idéias vanguardistas. Na propor- pontuação, um efeito de choque, as máquinas e a A despeito de que fosse, como nos quadros de
ção em que r~hra~am de tal lastro a matéria-prima velocidade, como reflexos da época, agravavam o con- Braque, um método de pintar, uma pintura da pin-
do. seus con~1tos 1n~trumentais, as sínteses interpre- traste entre o homem e as coisas. Exprimir-se seria tura2o, que continha expressa referência à sua pró-
la tivas do pais, surgidas no c urso do movimento de ver interiormente, por meio de inexatidões, de de- pria realidade a rtística, a autonomia da obra cubista
22, puderam fornecer uma visão acentuadamente crí- formações e de contrastes, aquilo que existe exte- era capaz de tornar-se uma qualificação extensiva a
ito IH••t 111u
111111111111 1 1 tica da ~<;>ciedade brasilei~a. Dir-se-ia que o ponto de . riormente. Aqui também tende-se a exaltar o ele- todo e qualquer objeto. No quadro que absorvera
li hll l11 1l 1•1.·t;.!I" vista cnt~co e a perspectiva estética especificamente n1entar: as estridências na música, as interrupções, e destacava os m ateriais adventícios a ele agregados
· moderna se correlacionam e se completam. os cortes sintáticos na poesia, que tem a sua ordem ou colados, já se poderia entrever, depois da colage1n,
11111111 Nltl
'J, ul1t1 íl' verbal própria, não-discursiva, fragmentária e des- como última conseqi.iência da autonomia da correla-
Ili contínua. A continuidade que se conhece é a con- ção entre matéria e forma, que as coisds mesmas,
1, Ili• 1111
l lilll l 1111J 1
tinuidade da en1oção permeando uma linguagem tão já existentes ou fabricadas, pudessem oferecer um
Recapitulando os tão famosos ismos do primeiro espasmódica quanto a realidade, em que lateja o meio plástico em potencial. Além de haver contri-
qua~to do sécul~ XX - Futur.ismo, Expressionismo, grilo, o Urschrei17. buído para a criação de um estilo cinemático21, que
.......... li l
C ubismo, D ada1smo e Surreahsmo - que influen- Abandonando a perspectiva ren ascentista, o Cubis- se refletiu na literatura, a revolução visual do C ubis-
Ili I• 1!1• l tjll olnr8!11, de manei,r~ direta ou indireta, pelos ·seus pro- n10 produziu um efeito liberador sobre as outras ar- 1no, que levou aos ready-1nade, aos obiets trouvés,
'"'1111•l1t ...., uunc1nmentos teor1cos e p elas obras de seus repre- tes, devido ao alcance revolucionário dessa rejeição, também provocou, paradoxalmente, nos dadaístas,
tt 111 A 1111~11 sentantes, os nossos modernistas, interessa-nos esta- que atingia um modo de representar e de conceber sensíveis à superfluidade e superfetação cultural, o
111,. ~1111 1•11 jn belecer. as confluências ~essas correntes que se ligam o mundo. Na poesia levou , primeiramente com Apol- desgosto pela obra de a rte.
''
llll!t;llll 11 111 eotre s1, do ponto de vista de uma só problemá tica, Jinaire e seus continuadores, à teorização do esprit O Dadaísmo, que se definiu negativamente - dada
no proc.esso comum de transformação da arte. Cada nouveau, nome que passou à revista L'Esprit Nou- não é nada e não significa nada - foi a capciosa
qual denc.a p~r~eber,, p~r det~imip~do ângulo, a rup· veau, uma das principais fontes de que se valeu Má- busca, no avesso da tradição cultural, de uma es-
1 h•I ''"' •1
1 •lt •lh•u h· U1
tura da tradiçao art1st1ca e hterar1a a que nos refe- rio de Andrade. Não há dúvida. de'·que a "cristaliza- pontaneidade originária impossíve122. Nenhum dos t{·
••li•~ .,..
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rimos. ção de um 1nesmo objeto tomado sob ângulos dife- tulos corrosivos, como antiarte, antiliteratura e an-
1 ,,, ,, t. ,,,..,, . ' O .Futurismo, que esteve associado, de maneira rentes"18 foi uma das maiores invenções do Cubismo.
1 OSIOJlSiva, publi<'.itária e polêmica ao movimento de (19) .llEVER'DY, Pierre. Essa! d'Eslhétique Littéra!re. Nord-Sttd,
•1 1 1 "'Ir "...
, 11•1
hu 11111 .. 111 1 .22, despertando nos . seguidores deste as mais desen- (IS) MAIUNl!'ITI. " Manifesto Técnico da Literatu ra Futurista".
ln: MENDONÇA Tl!us, Gilberto. V a11g11arda Europ41a e Modert1fs-
n .. 4 e S, 1917.
(20) SvrHER, Wyllc. Rococo t o Cubism (Transformations ln
, oontradas reações, foi, sobretudo, independentemente mo' Brasileiro. Ed. Vozes, 1972, p. 73. · Stylo, in art and llteraturc from the 18'h to the 20•h c~nluty) .
•tt• l'•'r111· .,, ' ~~ ganga. ideológica de que O· revestiu a pregação de (16) " ... poesia delle lnterruzioni, poesia quasi gcstuale deli'·
impazienza . .. " MJTTNU, Ladlslao. L'&pressionlsmo. Edito ri La-
New 'York, Vintage Boo:k, p . 269.
. (21 ) TACLIABUE, Guido M:trpurgo. Socialità . delle Avanguar-
Hfl• ·~"1~.
'1""'" V111
•Y.10rl~etti, um lir~smo catártico, de choque. O que tcrza, 1965, p. 42. die. Ri•'ista dl Estellca, Turim, Ano X, fase. Il, 1965.
n ele .importa considerar é menos a exaltação da vida (17) MrrrnB.11, Ladlslao. ld.im, p p. 29 e 49. (22) "Ce que nous voulons maintcnant c'est la sponlan~iti.
( 18) Gou>JNG, John. Le Cubim1e. Paris, Le Livre de Poche, Tristan Tzara. ConfErcn ce sur Dada" . Jn : PAUVE!lT, Jean.Jacques.
p, 84. Se pt Ma·n ifestes Dada. 1922, p. 139.

ESTtTICA E CORRENTES DO MODERNISMO 43


tifilosofia, que essa corrente estadeou e com os quais eles de dicção, várias modalidades de linguagem O"-, ,.,,,,,,, ,,,,,
separando-o da imaginação, e co cen· estilo. Em ambos verifica-se o esboroamento da in· , ~111 111" li ,.
se costuma defini-la, pcr1nite conhecer-lhe as inten- .sura, a~ poss1 1 1 a e~ e ambos que ,s e e!'ternaram
ções reais. Dada significou a extrema lucidez traves- tegridade e da unidade clássicas, em proveito do frag~ 1·11 11111111 li
nas ·oc1edades rimitivas. Assim contribuiria o Suê='
'Jl
tida de bufoneria, de loucura e de não-senso, diante r::Jismo, a seu mo o, 2ara qualific!lr antro,P;'iõgi:
mentário, correspondendo à fixação de um instantc11 ,..
de um momento vivido, e em proveito da composi~
'º"'"' ljllt>
111d1141
llllll
da dupla face da ruptura que se processava: a au- c~pente a rullll!r-ª de g ue a arte se tornara causa e
tonomia da obra era uma conquista que tambén1
0
çilo sintética, que se vale de contrastes e de passa• ' 11111·-111, tllt
"'1 efeito: deslocava-se o imàginár io, ·de onde a ativi-
punha e1n evidência o isolamento da arte na socie- dade artística PtOYéJxi,_d,a .Órbits ~SLCivl'lizâÇãõ' Õcf.::
gcns bruscas, sobrepondo o sin1ultâneo ao sucessivo, ~·· ~tllt ..
dade, e acentuava o seu contraste, que Hegel ante- dentaLpa.i:a a órbita da c!!Jtura subjacente à História.
como no realismo lírico de Apollinaire, transmitido. 1111111 1 '''-'ª"
~"'
vira, con1 a civilização técnico-industrial. Dessa for- n lllaise Cendrars. ( ) '11111t1l11
A.s contribuições das correntes que sintetizai'n;s 1t111h·\, IA
n1a, a atitude do Dadaísn10 não poderia deixar de As palavras en1 liberdade, a desarticulação da sin• ,.,
conl l~e1n, dentro do processo de transformação que lnx.e c as imagens-choque, patrimônio comum da& 1'1-lf, 11·1111
'' ser atnbígua. Seu tcrroris1no artístico, para nos va- • • '
lennos da conhecida expressão de Paulhan, desen-
agenc1aran1, em torno dos aspectos diferenciais da va nguardas das prilneiras décadas do século, part1• .(; 1 f,, ft OIL-1 H
estética n1oder.na25 . Para 1nelhor distingui-los toma- culanncnte utilizado pela geração que se conven- l'I ln~/111 Ih
cadeava a vi?lência cont,ra as deforn1aç~es da, lín-
ren1os por base três planos, do n1ais abstrato ao mais cionou chamar itnpropriamente a do "cubismo lite·
r1 guage•?· e visava destruir a cultura art1stica para
c~ncreto: o plano dos valores estéticos propriamente
• -~
depura-la dos c1nblcn1as e insígnias que a. mitifica- rário" (1917-1920), acham-se interligados rlo pro• :i r 111111 11
• d1t~s, o plano da, obra de arte con10 tal e o dos pro- ccdin1ento característico n1ais geral da arte modernl!I:
van123. Seja pela agressividade ou .p ela ingenuidade 11· 1•.111/1,
ced1111entos ou tecnicas. u técnica de justaposição ou 1no11tagem, en1 que se .
Il•1·i que se n1isturar~1n1 11a sua linguage1u, subrnetida a , ..,l 11111~ •••
urri regin1e de associações e de gagas verbais que de- No prin1eiro sobressai o que deno1ninaremos de correlaciona1n elc1ncntos heterogêneos, sem ligações 1111 '" 1111 .. 1
I!' su~pensão do belo, co1no princípio e ideal reguladqr. diretas entre si. Na poesia, que é o principal foco;.\
.lf sagregarn os sign ificados correntes, o poeta fazia l/,!lt ,,, •·Ili
questão de acentuar a distância que já o separava da J?1z ,A.rnol~ ~nuscr que a arte n1oderua, antiimpres- e.lestas observações, podemos encontrá-lo em diversos 111 1111• 1111
comunidade. Dada nascera "d'un besoin d'indépen~ s10111sttca, e fundan1entaltncnte uma arte "feia"26. Na gra us, aplicado c111 diferentes contextos verbais, tanto >li .... 111111•1
dance, de 1néfiancc cnvers la con1munauté"24. Assu- poesia são as in1agcn1l-choquc que preponderam lado nos poemas de Apollinaire quanto nos de Cendi:are. 111•1 1..... 1..

'.~ misse o papel de 11111 diretor de circo ou de clo•vn,


usasse con10 arma ~L biague ou a visão infantil e in-
conseqüente, o dadaísta deu à atitude de oposiçao
a lado com as dissonâncias e as cacofonias. Outros
valores - o côrnico e o grotesco - antes confi-
nados a determinados gêneros, tornam-se essenciais.
Convergindo pois cm torno destes aspectos difO'<
rcnciais, que nos deixam perceber a ruptura que ex-
pressam e cm que tiveran1 origem, o Futurismo, o
1111111.!11 I'
.tl111l1 f\ Ili
.... 111111111111

~ e de heterodoxia da vanguarda o sentido de insulto O humor como método de abordagem, oposto em 'Expressionisn10, o Cubis1no, o Dadaísmo e o Surrea- • •111 I ,. 111
e de agressão social, ruidosos e espetaculares na eta- princípio ao tratamento sério, litúrgico, metafísico, lismo, também veicularam a exigência de renovaçilo \
111 11 11·~ 11111

~ pa final desse n1ovin1cnto, entre 1920 e 1923. do Sinibo\isrno e muitas vezes associado ao ingênuo, Ja linguagem, a desconfiança à realidade de fachada 1
1 No lismo a r cusa dadaísta muda-se num ao culto da infância ·e da si1nplicidadc de espírito, a absorção pela obra do estado de conflito que liga 1u•1 l11 •·•1•
• '1\llt'• '1•1• •
~tado de rcbe 1ao s1stc111á~ica, na n1edida em çwe aparece condicionando a própria visão do arlista27. o artista à sociedade, o índice sociocrítie-0 da forma t '/ ,,,,,,
desligada da 1 tadiçãQ, a. 12.1:.Ópria ~rte rep_reseptariâ Quanto à obra de arte, ela ganha em autonomia
e a reflexão da literatura sobre si mesma, que rea\.
um est ruptura, que se destinava a . · r ça1n, con10 partes integrantes de uma situação, a. '" hll"'' '''
o que perde em transcendência. Pela sua forrr1a e ''" .. ~111111'
pela as ia ão- o son o as otências · ~ pela sua função contrária ao deleite esteticista, quan-
problemática da arte moderna. Os n1odemistas taro•·
1
' conscientes da vida ima inária. . sa atua 1za ão a bém <lepararam con1 esses problemas enraizados ao , .. 11lt1111 Ili
to mais se despe dos ilusionismos que a relacionavam sentido da modernidade, nas correntes estrangeiras· ;~ l i 1· l-111 Ili
n1cs1no ten1po q11c 1 erassc o_ P.e.nsams:Ato e suas
,, con1 a natureza exterior, quanto 1nais se acentua o onde foram buscar as idéias estéticas. 1•111 li 1111111
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ª111ãrras 1ó]iêo·<:.ô•JCCRtuais. estendec-s.e..-ia,-J,lara alén:i.
seu afastamento crítico das aparências, mais adquire . ' .• 1• : .
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1
• da arte e por ela 1nediada, con10 u1na for ·a d • ;tJt.r'-11 11111 ... "'

.que. a serv ·(.uonaçao e a v1 a, a sociedade a. presença de un1a 1·ealidade fatual, próxin1a, des- IV nt· f\111~11~11
·11.1-~tpt., A éti~a_da rcl.J.ç!i.ão _pennanente "incorRQrii,da pida da aura que a divinizava e que ainda permitira ·?f; . 1111111 1111111
a Mallanné fazer de Un Co up de Dés um poetna ór- .... ~,.'.
à estétic · · calista é n1enos significativa pelo im- Devido sobretudo ao trabalho pragmatista de M«t. '.
11ll o·\l 111l11
12açli_) ri:vol uci<,>n . ~io . gu~ pudesse ""ii~vêi=---o.c•1~íWll\ao fico. A poesia e o rornance co1nbina1n várias espé-
rio ~ de Oswald de Andrade, a elaboração . da p~tftt'
•f, . 1 111+1~1
ue elo contraste ue inan teve e intensificou, pecttva central do Modcrn1s1no operou-se entre 19a- jlt•l 111111111 1
(25) P<1rn " cnrnc1.:r l1.açíio dn cstétiC!I cl:I literatura moderna
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1
eu.tre il a 1v1C ') ,t< <.1,rt1s.IJ,Cf\, ~ iw; · · · a ade-ci- nesse ~cnlido e vb:ln<lõ <lctcnnl11nr a ide11Hdade estilística do c J 925, nu1n t rajeto prático e te6rico, que vai . , · I '"' ln- .. ~.
I' vi.!j~ada. Aqu~la. s.<.: produziria !.?ª~ª su~,eel!,per ,o~ n1e- nossv 111<)der11i~1110, veja-se 1) Jmportnnle artígo
de JOSÉ Gu11..HJ::RME
'
CJ1n1s1nos rac1q!:!a1s que QJ:gl)n1zara1n . o pens.mnento-

. Ç~~) "Guctrn Dcchiradn i1s ln>Í&ni:.<. ~os Disfarce,;, aos Áli-


~fJ.!RQUIOlt, Em Busca ele unta Definição para
SL de O Esltu/Q de Silo Po11/11, 14-5-1972.
o Estilo Modernista

(26) HAllSER, i\rnolcl. T/le Social Histor)' o/ Ar/. Routledge,


4, p. 218.
' (28) "A vcrdndc ~ que, com Graça Aranha ou som elíl ·
Modernismo se dcsenvo lV'<lri~ no Brasil, como inf!uêncla. do : 111
..
~ -:~

esta(lo tle espírito u11lvcrsnl. E at(o C-O nl algt1n1 atraso:. pe,-1("'-' o·


·~ suas manifeatoçõcs mAis clan1orosns, <:uoosn10 e Ful'!nq '11;.
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bis . ln: RrnuMON'f.{)f!S!IAICN1'S, G. Dé}tl jadi.t 011 d11 mnuvement (27) O culto <la inf4ncfa, o humor con10 tnétodo e estilo deram ~cu.s prlmciro~ vngidos europeus POr 1909." ANDJA'DIJ, • •
.. ,
,,. • • •• 11111+
Dad11 à l' e.vpaci• abs1rait. J11llinr<1, p. 17. o so11ho e a nmblgüiclad~ c:on~lilt1c111 , purn Roger Sha11uck as'. rio de . "ModerníjllJO". Jn: O Empal/uulor dt Passarln/11>,, ,
(24) TZAl\A, Tristan. "Monile.~lc Onda"_ ln: Sept !14mii/t.<t•"
Dt1tl11. 1918, pp. 22·23.
pcctos distintivos da orle modcrua. Ver TJre 1Janq11et Yeors: op.
cit., p, 31 ç ss.
Paulo, Livr~rin Martins Editora, pp. 159· 160. 111+ '••·•••1tt11
44
eles de dicção, várias modalidades de linguagem e Pau/icéia Desvairada e seu "Prefácio Interessantís-
• ltlt~ 11•1 1 se nrando-o da imaginação e co cen- estilo. Em ambos verifica-se o esboroamento da in- simo" a Pau-Brasil e seu Manifesto precursor. Muito
11urn1 as posst 1 1 a es e ambos. que se externaram embora não tenham recorrido sempre às mesn1as
..., , , .... ·ijj~ soci~dadcs prin1itivas. Assim contribuiria 9 Sur: togridadc e da unidade clássicas, em proveito do frag-
mentário, correspondendo à fixação de um instante, fontes nem aos mesmos critérios de avaliação, sepa-
rcalisrno, a §Cu modo, E.ara qualific!1r antropologi- de um mon1ento vivido, e em proveito da composi- rados que estavam por uma diferente vivência da
Caf!!eotc a rup1u.ra d~. gue a arte se .tomara causa e çl'lo sintética, que se vale de contrastes e de passa- poesia, os resultados desse trabalho complementan1-
•f 1 ' eléito: dCSIC1Cl!Ya-sc o imaginário, de OJ?9~.-~_a~yj7 ~cns bruscas, sobrepondo o simultâneo ao sucessivo, -se sob o prisma da estética moderna e da proble-
Jfüfc artística pJ:QY.ém, da órbitã.. da_civiJizas:ão oci· corno no realismo lírico de Apollinaire, transmitido matização da arte ocorrida no começo do século.
®;1t!!Lp;u·a a órbita da cultuG subjacente à l-Iis't"óna.
As contribuições das correntes que sintetizamos - n Blaisc Ccndrars.
As palavras em liberdade, a desarticulação da sin-
O contato dos nossos nlodernistas com as novas cor·
rentes, já tardio, con10 acentuou Mário de Andra-
conl lucn1, dentro do processo de transformação que taxe e as in1agens-choque, patrimônio comum ~as de28, realizou-se numa etapa avançada do processo
nge11ciaran1, em torno dos aspectos diferenciais da vanguardas das primeiras décadas do século, parti- de transforn1ação histórica das artes, às vésperas da
cstéticn rnoderna2s. Para melhor distingui-los to1na- c uh1rn1ente utilizado pela geração que se conven- eclosão do Surrealismo muito depois do Manifesto-
rcn1os por base três planos, do n1ais ab~trato ao mais cionou cha1nar irnpropr.ia1nente a do "cubismo lite· -Síntese, A Antitradição Futurista ( J913).
,, concreto: o plano dos valores estéticos propriamente
ditos, o plano da obra de arte como tal e o dos pro-
r6rio" (1917-1920), acham-se interligados no pro- Nu1n ton1 de biague e de justificativa dos poen1as
cedirnento característico tnais geral da arte moderna: de Paulicéia Desvairada, que foran1 impetuosamente
cc<lin1cntos ou técnicas. u técnica ele justaposição OLl tnontagem, em que se escritos en1 pouco m,ais de un1a sernana29, o "Pre-
No pri1neiro sobressai o que deno1ninaren1os de correlacionam elementos heterogêneos, sem ligações fácio Interessantíssin10'', continuado, atnpliado e cor-
.1'uJ·pcnsão do belo, co1no princípi.o e ideal regulador. <li retas entre si. Na poesia, que é o principal foco rigido em A Escrava que não é Isaura (1924), mos-
Diz Arnold 1:-Iauser que a arte moderna, antiimpres- destas observações, pode1nos encontrá-lo em diversos tra..nos uma sedin1entação das idéias futuristas e ex-
Nionística, é fundamentalmente uma arte "feia"26. Na gra us, aplicado en1 diferentes contextos verbais, tanto pressionistas em Mário de Andrade, sob a influêl'.cia
poesia síio as i1nagens-choque que prepondera1n lado nos poernas de Apollinaire quanto nos de Cendrars. das teorias do grupo de L'Esprit Nouveau, a revista
11 lado con1 as dissonâncias e as cacofonias. Outros Convergindo pois en1 torno destes aspectos dife- dirigida por Ozcnfant e l.e Corbusier. De fato, já
valores o côrnico e o grotesco - antes confi- renciais, que nos deixan1 perceber a ruptura que ex- alude ~fário de Andrade no "Prefácio'' à fórmula

f, •
nodos a determinados gêneros, tornam-se essenciais.
O humor como método de abordagem, oposto em
pressam e em que tiveram orige1n, o Futurismo, o
Expressionismo, o Cubismo, o Dadaísmo e o Surrea-
somatória de Paul Dermée Girismo +
Arte = poe·
1 1 sia) e já igualmente cita Jean Epstein, dois impor-
···ti• princípio ao trata1nento sério, litúrgico, metafísico, lismo, também veicularam a exigência de renovação tantes nomes ligados àquele grupo. Aliás, o próprio
t t 1 • l do Simbolisrno e n1uitas vezes associado ao ingênuo, da linguagen1, a desconfiança à realidade de fachada,
poeta expressan1ente declara nesse mesmo texto as
•r...lUUl:! QO culto da infância e da simplicidade de espírito, a absorção pela obra do estado de conflito que liga
1111.! · • suas vinculações doutrinárias com a orientação de
lrlt uparecc condicionando a própria visão do ru:tista27, o artista à sociedade, o índice &ociocritico da forma
•tt•
e a reflexão da literatura sobre si mesma, que real· L'Esprit Nouveau. Sintetizando as contribuições das
Quanto à obra de arte, ela ganha em autonomia '
çam, con10 partes integrantes de uma situação, a prin1ciras vanguardas em torno de uma das linhas
o que perde em transcendência. Pela sua forma e problemática da arte n1oderna. Os n1odernistas tam- da estética do Cubismo, precisamente a que se em-
, ...1f'11· '" poln sua função contrária ao deleite esteti.cista, quan- penhou nun1a depuração das formas, o programa da
l••ttl' ,. ·~···r..~ bém depararan1 con1 esses problemas enraizados ao
to mais se despe dos ilusionisrnos que a relacionavam revista tinha por fim estabelecer as bases teóricas
11li 1 .1, . com a natureza exterior, quanto mais se acentua o
sentido da modernidade, nas correntes estrangeiras
para uma arte' de rigor, de clareza e de equilíbrio,
onde foram buscar as idéias estéticas.
11au ufusttuncnto crítico das aparências, mais adquire que se ajustasse à experiência cultural da época:10.
"''·''•• d,
i,~ .,. " ••• n.
u presença de u111a realidade fatual, próxima, des- Mas os conceitos hauridos em tal fonte, que era1n. já
, IV
,,,. 1•11111,. pid11 dn aura que a divinizava e que ainda permitira u1na interpretação das teudências que se haviam ma-
u l\.fnllnrmé fazer de Un Coup de Dés 1lm poema ór- nifestado no início do século, inc1usive a depuradora
h ·• I" t.. Devido sobretudo ao trabalho pragmatista de Má-
flco. A po<:sia e o rornance con1binam várias espé- do Cubis1no, que deu orige1n. à Section d'Or, vão
' li• IF·l 111 ' f' rio e de Oswald de Andrade, a elaboração da pers-
genninar num espírito fa1niliarizado com a leitura de
"
IHll •• d•·• (:IS) l'nrn fl C>Wf1Cl<'rir.:1çíío da estét ica da literatura moderna pectiva central do Modernis1no operou-se entre 1922
·~··· ,, .1,,.t, . .
'
nuu o !ICOlltlo e visando determin~c n !dentida<le esliiís1ica do e 1925, nu1n trajeto prático e teórico, que vai de p()et.as expressionistas e futuristas.
no110 modcroi8n10, vcj~-~c o jmportante artigo de Josi\ GUJtllt;RMF.
1·11d1 t • " '"' MaAQUIOl, Em Btt~ca de umn Definição para o Estilo Modernista, (29) J\NDRAl>I!, Mflrio de. "O tvtovlniento Moden1ista". ln:
(28) "A verdade (; que, co111 Graça Aranha ou sen1 ele, o
IL llo O !i:.·trulo de Súo Pa1ilo, 14-5-1972. Modernis mo se dcse11volverin no Brasil, como inlluência de um A.111ectos lia Literar11ra Drasi/eir11. São l'aulo, Livra~ia t.fartins
(2G) l!A.V8Elt, Arnold. Th~ St>cial Histnry o/ Art. Routlcdge, cs tn<lo de esp írito universnl. B até com alguo1 atrnso. POÍS que Editora, p. 234.
•• 1
"'· p. 21ti. ns suas m:mifest 11çõcs m;1is clan1orosas, •Cubismo e Futurismo, (30) Ver acerca de L'Esprlt No11veau e d~ sua io1fJuêncln so-
1 • • (17 ) O cuit(> da lnfâncin, o humor como método e estilo, deram >cu.s primeiros vagidos europeus por 1909." ANDRADE. MA· b1 e Mário de Andra<le, a monografia de ~1ana Helena Gremtxc-
o 10nho o o ornbigiiidndc constituem, para Roger ShnttucJc, as- rio de. ":Modernismo". Jn: O Empalhador de Passarl11ho. São ki, .'41frio d~ A,.drade e L'Esprir Noul'eau, São Paulo, PubliC11çfto
' 1 •l•·tl·-••• Jltalos 1ll1tln1lvo~ da arte moderna. Ver The Ba11q11et Yeors, op. Paulo, Lívr~ria Martins Editora, pp. 159-160. do lnstítuto de Estudo.ç 8rasilciros, 1969.
til,. p JI ç bS.
E;STÉTICA E CORRENTES DO MODERNISMO 45
1,

Precisan1os não esquecer também que as idéias se defrontou, entre liris1no e poesia, um rumo mais arnbos uma rememoração dos sentimentos o . • ~ ~t) VII#, t+)
vanguardistas interessarão a um pensamento com- reflexivo, que não interessa aqui exa minar32. atos, que os apreciaria intelectualmente ~p ara to~ 11 •~111111111
prometido, no qual a teoria e o fazer poético se com- Esses traços essenciais, que serão incorporados à -los mais expressivos ou m ais agradáveis. Essa a11t1· IJll\I 111 lt1 , ,

penetravàm. Pela sua natureza p ragmatista, a teori- perspectiva estética central do Modernismo, conden- ciação intelect ual, tam bé m chamada de crítica, 11 .. 'til
sam-se em torno daq uela antítese que marcou a evo- menta a distâ ncia e ntre o resultado do processo, 1 1 111 .. llt '•
zação de Mário de And rade avançou experimental e
taticamente, muitas vezes empregando de maneira lução do pensamento de Mário, e c ujos primeiros c riação artística e a sua origem subconsciel'it~ 1
polêmica os conceitos que utilizava. Assim o desvai- indícios podemos encontrar na suspensão do belo em Concomitanteme nte, a poesia distancia-se do liris 1' 1 li Il i••111111
.:1· ris1no, rubrica p ara a "grita do inconsciente" em
que implicava a idéia de arte exposta no artigo sobre puro pela, introdução de dois intennediários - .
UJl•ltlllll tllf
.' Vicente de Carvalho, da série "Os Mestres do P as- crítica e a pala vra - que corrigem a definição d
li' 111 1111~, H
Paulicéia Desvairada, é apenas o nome instigador, a sado". Como sugeria esse artigo, a arte decorre de 11111 111
1 Paul D ennéc, segundo nova fórmula (lirismo pnt ; 111•111111111111
'.
'
cobertura verbal polêmica da atitude de rompimento
com os valores t radicionais, que levava o poeta, atra-
uma necessidade psicológica ante rior ao senso de
beleza: a dinâmica do subconsciente, que constitui
+ crítica + palavra = poesia ). A ação crítica d 1hul11 11
inteligência e a ação da palavra se conjugam p~ ' 11111....111-1
vés de um debate, tanto íntimo co mo público, e que o lirismo. Qualificando-o ora de impulso, ora de es- condensar o estado lírico que as susci tou. M as 68to' , ,.1t1h•11111I
o "Prefácio" reflete, a estabelecer a primeija lin- tado, nosso autor quase fez do lirismo uma instância continua a ser, para o realis1no psicológico da COfi• ' <tlll l 11 filt
guagem da n1oderna poesia brasileira. motora da criação artística. Comentando, depois, no '
A poética de Mário, que come.çava reinterpretan- "Prefácio", a fórmula de Paul D ermée (Arte li- + cepção do nosso poeta, o fenômeno originário.
"O m ovimento lírico nasce do Eu profundo." UJ,l.') ,
A t11111
do as palavras en1 liberdade - a gra nde contribui- rismo = poesia), que voltaria· a apa recer e m A Es- " 1 111111411111 ht
crava, diz Mário que, na poesia, a arte "não consiste rnáxilno de expressão obtido co1n un1 1náxi1no de li~.
ção de Marinetti31 :....... nasceu so b o signo da afetação rismo e u 1n n1áxüno de crítica ainda é devollltiV " 1u 1i.n11 '
de loucura, da grita do inconsciente, espécie de Urs- em prejudicar a doida carreira do estado lírico para llll•t lhl , 11
avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho". desse moviinento, como n ecessidade primária que fQ ',. 11•l11t11•1tlll
chrei expressionista co ntrabalançado p elo quinor a r- u arte surgir. Quanto menos interferem as convcn•
A criação artística ainda é p ara ele, nesse momento, 1k I ' / . t/'
'
lequinaJ : misto de arrogância e de simplicidade, de
provocação e de pa lhaçada, de desafio e de auto-
a mimese rudimentar, que se legitima por uma rela-
ção de máxima proximidade com o n1ovimento do
ções intelectuais a serviço do prazer na con temp la•
ção do belo, mais se aproxima a criação artístlo~
llit111,Jh1
~ ,..... tJ ,, 1 l tt
.t.
-irrisão. Adota ndo a pose desinibida dum Arlequim, subconsciente, das flutuações da vida anímica. D e dessa necessidade que representa um potencial psi• .111i1 ... 1i.
q ue não tin ha 1nais a candura do poeta romântico, pouco ou nada valerá n a poesia, que é idealização cológico per1nanente. E insistindo numa idéia j á OX-
posta em "Os Mestres do Passado", Mário afirn\a: li'• 1111 '" '''
e que p erdera o decoro verbal do pa rnas iano, o autor livre, subjetiva e musical, a interferência do belo da "li ~h·1 11 Il i .
>

"A beleza é uma conseqüência. N enhu ma das grru1~


., ,.,,,.,
\
assumia a atitude do dissidente, "que se parte por Natureza. , A t 11111 1 1 11~
essa selva selvagem da cidade de alaúde em punho" des obras do passado teve realmente como f im ll
A Escrava consigna quatro fatores - expressão, beleza". Desde os tempos primitivos, elas despont n•
- para enfrentar, entre os intelectuais conservado· comunicação, ação e prazer - concorrentes da cria- ': lt' • 1111 •llltl
ram de um mesmo potencial p sicológico, qu~ sempre
·r•' res, os burgueses senis e os proletários indife rentes
da maravilhosa ó pera buf a de "As Enfibraturas do
ção artística e cada qual relacionado com uma ne- se manifestou de acordo com as co ndições p ró prias J'•''" ... ,,,
cessidade. Só o primeiro é fundamental como fe- .. 1•111! ft "'
lpiranga", fecho de Paulicéia D esvairada, o destino nômeno originário, que tende . a exteriori7..ar-se. O
de uma época ou de um determinado m eio. . ,,.1.... ,,..
social conflitivo que a .rupt ura co1n a tradição lhe terceiro, espécie de necessidade lúdica, mal se dis- . Abandonando o belo natural e a convenção cor• ;. 1·~pp1 lf lt li
impunha. D a linguagem gestual, exclamativa, que relata dos assuntos poéticos, o poeta m odernista, qu ..
tingue do quarto que se relaciona com a beleza: va- ' .J'
.

estendeu, nesse livro, até no uso de verbos e ad- gamente caracterizados pelo ensaísta, comportan1 visa ao n1áxiln o de expressão, somente obedece às 1 11111 li '"
~ t 111 11J t1tl 11
..l"i vérbios subs tantivados, a lição futurista, Mário pas- motivações que provocam o movimento lírico, isto 1 lp h 1~, t·I
'l saria, com as anotações líricas de Losango Cáqui (32) Em 1922, Mário confessava a Manuel Bandeira estar é, a din âmica do subconsciente. tvfas ao proceder as• 1 ll1t1t l11
·'
" "perdido em pesquisas e pesquis35 de expressão. Meus poe mas 1 s im ele restabelece o fenômeno artístico em sua or~·
( 1924), ao caminho de uma depuração progressiva atuais, de 1922 para diante, sã o verd adeiros ensaios, exercicios, 1111'111 li 11
.. ~.
~
de sua experiência, que se acha indicado em A Es- estudos". Em 29 de dezembro de 1924, mostrando-se preocupado gem, e satisfazendo a necessidade prin1ária de C}ll~ I" 1t•l 11 11111
em realizar uma poesia artística, declara que não é mais mo- o mesmo surgiu, satisfaz igualmente às exigências J
crava, ensaio onde sondou e f ixou, com as hesitações, dernista e vê A Escrava com um certo d istanciamento q ue as 1 Ili Ili h•l I•

os avanços e os recuos de uma busca intelectual notas acrescentadas a esse texto já revelam ( MÁlllO DE ANDRADE, época, q ue condicionan1 a sua experiência afetiva · '1111•1 1111
aventurosa, alguns traços essenciais da .estética mo-
Cartas a Manuel Bandeira, Rio, Organiza ção Simões Edít.ora,
19S8, pp. 1645-46) . Quase 20 anos de pois falaria, de9enca11·
intelectual do inundo. Consegue, portanto, de urn \'li 111111., 11
•1
tado, num desabafo, para o qual a situação política do xnomcnto u 111;111 ,, 1
derna. Sua obra poética já os absorvera, antes de contribuiu, no snc rlflcio necessário de sua ger ação às experi- (33) M ário qu nlif.ica de inconsciente a puni necessldQdO (!'at..;
tomar, ainda' dentro da fase de orde m crítica do ~10 - mentações poétJca., e no pragmatismo ("Elegia de AbrJI". fn : expressão. O subconsckntc cquiva lla pnrn e le à consciônoln n • 1111 1 11111•111
• Aspectos da Litera111ra JJraslleira. ed. cit., pp. 191·192) . A con- -rcflexin l e no pcnsrunc nto associativo . 'to.tas o -emprego deJ~ • 1111 1 1Jt1fl1IU
demismo, .'m as sempre refletindo a antítese. com que termos - in consciente e subconsciente - n ão é bem dollml~Q •
"' .
ferência ~ de O Movimento Modernista, menos desencantada, é
mais compree nsiva desse pr agmatismo e de sua fu nção, dentro O autor cita William James, Freud, e com mais frcq\l6nOfh t11l tl 1l .. li
(31) " M arinetti foi grande quan do re<kscobrlu o poder su- de u ma visão global do Mo dern ismo , que ap reende o seu sentido Ribot . Pelas noções q ue deste último aproveitou, sobretudo ~ '.1 l1~t l •llhl 1
gestivo, associativo, si mb61ico, universal, musica! da palavra em estéti co, polhico e social nas próp rias contradições que o movi- que d i:t respeito à imngincção. e ~uns relaç(>cs com o inCQJl
liberdade'". ANDJlU)E, Mário de. "Pref4clo Interessan tíssimo". ln:
me nto comportou. Ver, a respeito, de ALFREDO Bos1: " 0 M ovi- ciente, par•ce ter ,ido o psicólogo que 1nai~ contribuiu pari •.'l.·1""
mento Modernista" de Mário de A ridralle, comun icação apre· investigaçõc.• uc Mário. Veja-se de Nrres T11ERl!Z1NHA Fu.lit, l..! A' • ' ' 1 t
Pa.,/icéia Den·a/rada. "Poesias Completas", São Paulo, Livraria sentada à . quarta seção de literatura do programa c<>memorativo 111ras c1n F ra11cí!s de i11ário d e A11tlrade, seleções e co 111entarJO • 11·111fC'U• ti•.,
Martins Edito ra, p. 22. do 50.0 · aniversário da Semana de Arte Moderna de São Paulo. cmn fnndamc1110 nn mnrninália, São Pa1Jlo, 1969. f\ l 1• ~ ~ ,,..ti•f
46
.
se defrontou, entre lirism o e poesia, um rumo m ais nn1bos uma rememoração dos sentimentos e dos só vez, ajustar-se ao subconsciente, o q ue lhe permite
t• lllllPIU t reflexivo, que não interessa aqui examinar32_ ntos, que os apreciaria intelectualmente p ara tomá- revigorar a ima ginação - pois a "sacra fúria" re·
Ess es traços essenciais, que serão incorporados à Jos mais expressivos ou ma is agradáveis. Essa apre- novada de que Mário fal a não pode ser o utra coisa
persp ectiva estética central do Modernismo, conden· ciação intelectual, tambétn chamada de crítica, au- - e reintegrar-se à vida de seu tempo. Em con·
sam-se em torno daquela antítese que marcou a evo- menta a distância entre o resultado do processo, a clusão,
lução do pensamento de Mário, e cujos primeiros criação artística e a sua origem subconsciente33.
indícios podemos encontrar n a suspensão do belo em Concomitantemente, a poesia distancia-se do lirismo a niodcmizante concepção de Poesia, que, aliás, é a
que implicava a idéia de arte exposta no artigo sobre ' mesma de Adão e de Aristóteles e existiu em todos os
em Vicente de Carvalho, da série "Os Mestres do Pas-
puro pela in trodução de dois intermediários - a té1npos, mais ou n1enos aceita, levou-nos a dois resultados
r, a sado". Como sugeria esse artigo, a arte decor re de
rrftica. e a palavra - q ue corrigem a definição de - um novo, originado dos progressos da Psicologia Ex-
Pnul Dermée, segundo nova fórmula (lirisn10 puro perimental; outro antigo, originado da inevitável reali-
wito
atrn·
uma necessidade psicológica anterior ao senso de
beleza: a dinâmica do subconsciente, que constitui
+ crítica +palavra = poesia) . A ação crítica da dade: J .0 : respeito à liberdade do subconsciente. Como
Inteligência e a ação da palavra se conjugam para conseqiiência: destnlição do assunto poético. 2.0 : o poeta
o lirismo. Qualificando-o ora de impulso, ora de es· condensar o estado lírico que as suscito u. Mas este reintegrado na vida do seu tempo. Por isso: renovação da
li tado, nosso autor quase fez do lirismp uma instância continua a ser, para o reali.w no psicológico da con- sacra fúria34,
motora da criação artística. Comentando, depois, no cepção do nosso poeta, o fenô1neno o riginá rio .
"Prefácio", a fórmula de Paul Dern1ée (Arte -1- ·li- A. mode rnidade literária e a rtística tornar-se-ia, por
rismo = poesia), que voltaria· a aparecer em A Es- "O lnovimcnto lírico nasce do ·E u p rofundo." Um
t11áxi1no de expressão obtido com um n1áxi1no d e li· conseguinte, inseparável do reavivamento da ítnagi-
crava, diz Mário que, na poesia, a arte "não consiste nação. Essa conseqüência irnplicava 'O reconheci-
l'i.1·1110 e urn 1náxi1no d e c rítica ainda é devolutivo
em prejudicar a doida carreira do estado lírico para 1nento, que defi niu a p osição de Mário de A ndrade
avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho". desse n1ovhn ento, como necessidade primária que f ez
ti arte su rgir. Q uanto menos interferem as conven-
relativamente às idé ias de vangua rda em geral e às
A criação artística ainda é para ele, nesse momento, de L'Esprit N ouveau em particular, de que a atua-
a mimese rudimentar, que se legitima por uma rela- ções intelectuais a serviço do prazer na contempla-
çüo do belo, n1ais se aproxima a criação artística lização da arte às condições de vida moderna se pro-
ção de m áxima proximidade com o movimento d() cessaria como recuperação de/ ou retorno a possi-
subconsciente, das flutuações da vida anímica. D e dessa necessidade que representa utn potencial psi-
cológico permanente. E insistindo numa idéia já ex- bilidades constantes do espírito humano, desviadas e
pouco ou nada valerá na poesia, qu e é ideaJização recalcadas pelo primado da ordem i ntelectual que
livre, subjetiva e musical, a interferência do belo da posta em "Os Mestres do Passado", Mário afirma:
sustentara a convenção do belo da natureza e o de-
Natureza. "A beleza é uma conseqüência. Nenhuma das gran·
dcs obras do passado teve realmente como fim a coro dos temas poéticos.
A Escrava consigna quatro fatores - expressão, beleza". Desde os tempos primitivos, elas desponta- O verso livre, a rima livre e a vitória do dicionário,
comunicação, ação e prazer - concorrentes d a cria- ran1 de um mesmo potencial psicológico, q ue sempre tecnicamente, e a substituição da ordem intelectu al
ção artística e cada qual relacionado com uma ne- pela Ol'de1ri do subconsciente, a rapidez, a síntese e
se 1nanifestou de acordo com as condições próprias
cessidade. Só o primeiro é f undamental como f e- o polifo11isn10, esteticamente, articul ariam, como prin-
de uma época ou de um determinado n1eio.
nôme no originário, que tende a exteriorizar-se. O cípios de uma nova poética, o efeito das condições
terceiro, espécie de necessidade lúdica, m al se dis- Abandonando o belo natural e a convenção cor· específicas da época atual, contrário àquele primado,
tingue do quarto que se relaciona com a beleza: va- relata dos assuntos poéticos, o poeta modernista, que com o potencial psicológico do espírito hu111ano. Pa-
gamente caracterizados pelo ensaísta, comportan1 visa ao niáximo de expressão, somente obedece às ra co11statar essa articulação, examinemos tais prin-
111otivações que provocam o m ovimento lírico, isto cípios, começando pelos dois últimos.
(32) Bm 1922, Mário confessava a Manuel Bandeira estar é, a dinâmica do subconsciente. Mas ao proceder as- Ligndas entre si, a rapidez e a síntese, que resu·
"perdido cm pesquisas e pesquisas de expressão. Meus poe mas sirn ele restabelece o fenômeno artístico em sua ori-
atuais, d e 1922 para diante, são verdadeiros ensaios, exercícios, men1 a qualidade das operações mais f reqüentes do
estudos". Em 29 de dezembro de 1924, mostrando-se preoCUJ?ad o gem, e satisfazendo a necessida de pri mária de que
cm realizar uma poesia artística, declara que não é mais mo-
dernlstu e vil A Escrava com um certo distanciamento que as
j I,
o mesmo su rgi u, satisfaz igualn1ente às exigências da
poeta 1noderno, cxplicanJ, alé111 dos aspectos forn1ais
característicos da poesia nova, a vigência do poema
notas acrescentadas a esse texto já revelam (MÁRIO DE ANDRAl>.E, época, q ue condic io nam a sua experiência afetiva e c urto ou 1nín irno na lite ratura conten1porânea. A bre-
Carta;- a M an11e/ Bandeira, Rio, Organização Simões Editora, intelectu al do 111undo. Consegue, portanto, de uma
19S8, pp. 16-45-46) . Quase 20 anos depois (alaria, desencnn· vidade, a condensação, a f eição elíptica q ue distin-
lado, num desabafo, para o qual a situação política do n1omento g L1crn a forma da ling uagetn poética, dependem do
contribuiu , no sncrlficlo necessário de sua geração às experl· (33) Már.io q ualifica de inconsciente a pura necessidade do
mcntações poética~ e ao pragmatismo ("Elegia de Abril", ln: cxprcssiío. O s11bcl>ns1;icnte equ ivali a p ara ele à consciê ncin náo- mecanismo associativo das imagens e das idéias. Esse
Aspecto.r tia Literatura Brasileira. ed. cit., pp. 191-192). A con- .... cfl <:xlvt1 o A\) tle11sn1ne11to associa tivo . Mas o e 1t1prego desses n1ecanisn10, exacerbado pela p rópria época, consti-
ferê ncia 1 de O Movimento Modernista, n1enos dcsencan1adn, é lermos - inconscie nte e subconsciente - nlío é bc.m delit:nitado.
mais compreensiva desse pragmatismo e de sua função, dcnl(o O nt1tor cita W i11 iitrn J a nics, F r-t:LLcJ, e co1n mais frcqiiê11 cia tu iria, em parte, o resu ltado de uma adaptação da
de um a visão global do Modernismo, que apreende o seu sentido Ribol. T:'chls noções que deste. último aproveitou, sobretudo no sensibilidade e da inteligência aos novos dados da
estético, político e social nas próprias contradições que o n1ovi- <1t1<1 d iz rcspcito ~ imngir1~1ção, e su as relações con1 o incons-
mento comportou. Ver, a respeito , de ALFRllllO Bos1: "O M ovi· cicato. i>ar-:~cc 1er sido o nsicóiogo que mais contribuiu para :.s
mento M odern ista"" de Mário de Andrade, comunicação apre· ltwc•li gações de Má rio. Veja-se de NITES Tl-lF.R.EZJNHA Fa~~s. f.el· (34) A Escrm·a q11e não é lsal(ra (O;scurso sobre rugumus
sentada à qu arta seçllo de Jlter atura do programa comemorativo ''''""' e''' Frn1it·f..t tle iYf<írio de At1<lrt1<le, seleçõ~s e co111entúl·io~ tcndêncín.~ da pocMa modernista). l n: Obra Imatura. Livr:irl3
do S0.0 aniversário da Semana de Arte Moderna de São Paulo. com fundamente> na mar11inália, São Paulo, 1969. Mart ins .Edílora, p. 224.
ESTÉTICA E CORRENTES DO MODERNISMO 47
"' oposição ao pensa.m ento discu rsivo, cujas l' ~1 e~ Al,1t1
ambiência da civilização industrial, como a veloci- país da infância em que antigamente a criança ainda niío 10 liga1n mediante elos explícitos, sem interl'U ·d 'M, 1t'(1jt\1t• lt
dade, a rapidez dos deslocan1entos no espaço e a ficara pasn1ada sequer ante a glória da natureza. Uin
menjno de 15 anos neste maio de 1922 já 6 um cansado
Ulu pressupõe a vitória do dicionário, que é a S ~11ln h•, 1111 .u
aceleração do tempo. Dos princípios estéticos apon- mnrioand radina para as palavras e1n liberdade, lOll 1111111hl"1
intelectuaP7.
tados por M ário, a rapidez e a síntese são, portanto, xnndo a sintaxe e precipitando a substitui~ão 1i rir · 11111 .... ,
os que nlais de perto se ligam às condições especí- dcm intelectual pela ordem do subconsciente. X\11 11lv11• •Ili
ficas da vida moderna. O cansaço, no jogo teorizante de Mário, torna-se a fu nção liberadora dos princípios da poética .1N·
Jean Epstein, utn dos colaboradores de L'Esprit uma espécie de saturação dos quadros lógicos do pen- dor.na. Devolutiva de uma primeira concepçUO• 1\ 11 ''"-' " ''
''" li ••••
Nouveau, se pronunc iara acerca da adaptação m en- samento pela quantidade e pela qualidade das infor- nrtc para ·a qual se voltava "o grit~ Jite~ário, e o. t!I u "º'' n......
tal do homem à vida moderna com uma tese de ps i- m ações que os sentidos recebem e que a inteligência prenhe de erros do insultado futun smo 40, a c t1{1qlu1 t r111 111
cologia coletiva, adotada e reinterpretada por Mário necessita assimilar. Como novo tipo de me nsagem, or tistica, regida por estes princípios, acompanha, J:l ir " 1111 ..., ,
de Andrade. Segundo o cineasta francês, a pressão essas informações modelariam, para o homem mo- tic ularmentc na poesia, nm movimento de dc,p1 · . li ltll lt . ..
dos estítnulos, de vasta a1nplitude e de alta intensi- derno, um novo tipo de meio psicológico. çllo, de desnuda~ento. do go~to, que tende. a nlvo , 1 l 111Ilitt11•
dade, devida aos novos n1eios de comunicação e de n sinceridade ps1col6g1ca (o ideal de Mário do M 11111~•11
informação, conduzira o homem moderno a uti es- "O raciocínio", observa Mário a título de explicação, drade nessa fase) da "imaginação sem fios" i\ s.......1-' 1111•0 111 Jll
tado de fadiga intelectual, c ujo sinto1na era a pre- ccridade, realçada pelo Cubismo na pintura ~ ~n • ..
ponderância do pensamento associativo da literatu-
"agora que desde a meninice nos empanturram de ve-
racidades catalogadas, cansa-nos e CANSA-NOS. Em cultura das formas simples, eficazes, congen 1h\,l~ ü~ i .. ' "''"'º
li
111
-h1l!1•1t
ra3S, Mas a tese de Epstein, que formulava um diag- questão de meia hora de jornal passa-nos pelo espírito clti1nentos sensíveis e matérias artisticamente trl\~.. ,,;: 1lllt1t•11lu
nóstico, padecia de incô1noda ambigüidade. Admi- quantidade enornle de notícias científicas, filosóficas, es- ]hndas. ' ..... 1.., ...
tindo-se que a fadiga se produzia por um decréscimo portivas, políticas, artísticas, mancheias de verdades, er- Se a liberação que franqueou o recuo à ncce 111'1 tlYll•
das faculdades atencionais, em prejuízo do poder de rores, hip6teses''38. dndc primitiva e permane nte de que a arte der_lV 1
.-
1• ... ,,li 1
apreciação e de raciocínio lógico, ela duraria en- u graças à qual se renova, é naturalmente destrUidõ• •• ,, \•111 .,
1\
1
quanto durasse o período traumatizador a que deu Por força desse novo n1eio psicológico, a cadeia rn, produzindo uma r upt ura com o passado, a dop\\lt •
' ......, t•tt••
1
' . origetn a brusca 1nodificação do an1biente humano. da discursividade lógica se encurta, tnas sem que isso rnção das .formas poéticas, q ue se efetiva através de . •1. . ...... ...
~
' Assim, a té que sobreviesse o equilíbrio n at ural entre red unde em prejuízo do raciocínio, p rovido de ma ior um 01áxjmo de crítica do impulso lírico, que aill '• p hl 11j 1t'*I
o ritmo dos estím ulos exteriores e o ritmo interio r número de circ uitos, que aceleram e multiplicam o não é poesia, visa à construção de u ma lingungc ~ n11 11'111
do pensamento, até que se pudesse elaborar um novo poder de síntese da inteligência. Há 41m t reino co- q ue contenha o máximo de poss ibilidades expre..qslVlllJ.t
'"'· 11111•
estilo de vida intelectual, o poeta seria um inadap- tidiano que compensa a fadiga n1ental: Mos novamente se verifica nesse plano que o rc;ny!S -11111•1, ....
tado, e a sua poesia o produto transitório de uma vo1nento do imaginário e a inodernidade são ins 1•11111111111,
sensibilidade sob a "influência persistente do meio"36. O homem moderno, em parte pelo treino cotidiano, em pnráveis. P ois é a arte m ais nova e mais reprcsen~ 011 11.....
Uma vez que o pensamento associativo era o efe ito parte pelo cansaço parcial intelectual, tem uma rapidez tnciva das condições materiais da época, a cinol.ll .. · 1'111 ~·
da fadiga das faculdades atencionais, as i1nagens, as de raciocínio muito 1naior que a do homem de 183039, tografia, que já nasceu dentro do ciclo da comllni- ~,, 1h 11111111111
associações de palavras e o afrouxamento da "ronda c uçlio e da informação técnicas por ela mesma de& ·~:. h •ll V li 1111
sintática", não poderia1n ser considerados como ver- Por outro lado, os aspectos de brevidade da forma oldo e consolidado - é a cinematografia a grmu'l :; . l '111 1111 ..
dadeiros índices da linguagem poética. e de síntese da linguagem não derivam exclus iva- depuradora da percepção estética nas outras atl.ç · ».., 11 11•11'111 I
1

Mário de Andrade retirou do conceito duvidoso mente das condições m ater iais da vida medema. Na Percebe-se, com o seu advento, ·• 1h• -1111 1
do cansaço intelectual, utilizado em séu ensaio, a sintaxe dos modernistas, que se beneficiou com a ttl•lllll li
conotação negativa, patológica, que Eps tein não dei- divulgação dos gêneros poéticos orientais (tankas, qnc a pintura podia e devia ser' unic·amente p~t 111111111•11
xou de en1prestar-lhe. cquilibrio de cores, línhas, volumes numa superflc1Qj t' h1 11111 , ..
hai-kai, ghazel) , influiriam as "formas elípticas ar- formação sintética, interpretativa, es\ili~dora e nllo .~,, 1 11111 11 11
O homem instruído, moderno, e afirmo que o poeta pe rojadas" e visuais dos anúncios em estilo tel egrá· n1entário imperfeito e quase sempre unicamente epld~ · 111111 li 1
hoje é instruído, lida con1 letras e raciocínio desde um fico . Os anúncios, as notícias de jornal, também in· 1nico da vida. Só então é que se pôde comprcend~ Nlh• 111111
tegran1 o novo meio psicológico que, mensurado pela escultura como dinaniismo da luz no volume, o eur~1
nrquitetural e monumental de sua interpretação. .Só 1 1111111, 111
(:;S) "L;1 líltérature cn est anivéc aujourd'h ul à reproduirc síntese e pela rapidez qualificadora das operações •ln 1t..
la pens6~ associatio11 commc la forme essenticll t de la vie in-
111entais f reqüentes do poe ta, corresponde à escala t no é que se percebeu que a descrição literária nil() í I''\
tellectuclle". EPsTEI N, .1 ean. La P"l!s/e A 11io11rd' /1111, 1111 'N o1n·e1 creve ::oisa nenhuma e que cada leitor cria pela Jni IV' , ,. 111'11141
état d'1'11elligt11ce. P aris, Editions de La S irêne, 1921, p. 103. da sensibilidade 1noderna a que se referiria Oswald
(36 ) Expressão usada por Fernando P essoa no ~" J\1anl/esto
U/t/m a111111 ( 1919), qu~ fo caliza o mesmo problem:1 da~ relações
da sensibilidade com o 1neio ambic~te da civihl •Ção técnica. V"le
de Andrade no seu M anifesto Pau-Brasil. Mas tal
como Mário a concebeu, a síntese está, nessa escala,
nativa uma paisagem sua, apenas servindo-se dos lll! h 1'l
cupitais que o escritor não esqueceu4t, ~· ,.,, "
..• ~-1t• •t11

....
regi_strílr n coir1cidê r1c in. Para o •' OCl n J>l'lrtuguês, ~ s.-ensLti.iJjcladc 'ltllttl 111 111
teria q ue adaptar-se nrtlflcialtncnte aos cstína il()s do prog1esso (40 ) " Me.stres do Passado" , Vl: Vicct1le de Cnrvo,hl'.h·· • 1 • 1 "' l111tlc
c ientífico e político. Oní • in ter.:ssan tíssima Lei d e Malthus da (37) A Esc rtlVD. ln : Obra Jmn111ra. p. '.251. S 11..vA BKJTO, Mário da. H ist6rla.r do J\fodtr111smo 1Jr111l t/f 111111 • •Ili ..
(38) ~.,."

..'
sensíbilidad~. que levaria, inclu sive, à aboliçã o do dogma da Tdem , p. 251 . ( 41) A. Escrava. ldtm, pp. 258-259.
individualidade ar1ística. (39) Idem, p. 253.

48
.
•: ..


oposição ao pensatnento, ~iscursivo, .cujas PªEles Além disso, a cinematografia, capaz de realizar "as
1111111 li país da infância em que antigamente a criança ainda não ligam mediante elos exphc1tos, sem 1nter1upçoes. feições imediatas da vida", condensou exe1nplarmen-
fica ra pasmada sequer ante a glória da natureza. Um J p ressupõe a vitória do dicionário, que é a súmula te, no dinamismo das imagens, o princípio da sin1ul-
n1enino de 15 anos neste maio de 1922 já é um cansado ! 1 ronndradina para as palavras em lib~r~a~e, afrou- taneidade, antecedido pelo estilo cinemático do Cubis-
intelectual37. mo e ativador do máxinlo de possibilidades expres-
l!Jlt!O a sintaxe e precipitando a subst1tu1çao da or-
m Intelectual pela ordem do subconsciente. Daí sivas que a linguagen1 da poesia deverá visar p ara
O cansaço, no jogo teorizante de Mário, torna-se tu nçlío liberadora dos princípios da poética mo- transforn1ar-se, tal como já conseguira a música des-
uma espécie de saturação dos quadros lógicos do pen- d rnn. Devolutiva de un1a primeira concepção de de o século XVIII, nun1a "n1áquina de produzir co-
• "''
l·•t•l 111 1!D mf)ffl
O• samento pela quantidade e pela qualidade das infor- .,.
ru'tO pn ra a qual se voltava "o grito literário, embora moções"42.
111 """ de psi· mações que os sentidos recebem e que a inteligência pr nho de erros do insultado futurisn10"40, a criação Em p lena convergência mental com as vanguardas,
u l11 I" M~rlo necessita assimilar. Como no:vo tipo de m ensagem, rlfsllcn, regida por estes princípios, acompanha, par- é na estética da música que Mário de Andrade abona
r<Ni~Go essas informações modelariam, para o homem mo- tlculn rn1cnte na poesia, um movimento de dcpura- a sua teoria da simultaneidade ou do polifonismo,
l nsl· derno, um novo tipo de meio psicológico. Go de desnudamento do gosto, q ue tende a nivelar cha1nada de harmonismo no ''Prefácio" . Como "teo-
de
Uli\ cs-
, ai'nceridade psicológiéa (o ideal de Mário de An- rização de certos processos empregados cotidiana-
"O raciocínio", observa Mário a título de explicação, du1do nessa fase) da "in1aginação se1n fios" à sin- n1ente por alguns poetas modernistas", o polifonismo,
pre- "agora que desde a lneninice nos empanturram de ve- o rJdude, realçada pelo Cubismo na pintura ~ ~a es- abóbada da poética de Mário de Andrade, em que
lUernt.u- racidades catalogadas, cansa-nos e CANSA-NOS. Em oulturn, das formas simples, eficazes, . congen1ta1s aos a síntese e a rapidez se reúnem, consiste no proce-
um clln.g- questão de n1eia hora de jornal passa-nos pelo espírito oi rnc ntos sensíveis e matérias artisticamente traba- dimento característico da poesia moderna a que já
' Admi- quantidade enorn1e de notícias científicas, filosóficas, es- lhodos. nos referimos : a justaposição de palavras, sem co-
111• gr4oclmo portivas, políticas, artísticas, mancheías de verdades, er- So 11 liberação que franqueou o recuo à ncce_ssi- nectivos ou com um mínimo deles. Quem comparar
, .11 poder de rores, hipóteses"38. dude primitiva e p erman ente de que a arte der.1va, o texto do "Prefácio" com o da Escrava, poderá ob-
li 1 ur
aln cn- groças à qual se renova, é naturalmente destruido- servar que a formulação pessoal que Mário deu a
... li quo deu Por força desse novo n1eio psicológico, a cadeia ra, produzindo uma ruptura com o p assado, a depu- esse procedimento varia de um para outro. ~ mais
1. •l hurnnno. da discursividade lógica se encurta, mas sem que isso raçno das formas poéticas, que se efetiva através de de conteúdo estético no primeiro, que trata de uma
r l ontre redunde cm prejuízo do raciocínio, provido de maior um máximo de c rítica do impulso lírico, que ainda justaposição de palavras ou de frases soltas, sexn liga-
lntodor número de circuitos, que aceleram e multiplicam o nlio é poesia, visa à construção de u1na linguagem ção lógica, e n1ais de conteúdo psicológico 110 segun-
yn1 n ovo poder de síntese da inteligência. H:á ._.m treino CO· que contenha o máximo de possibilidades expressivas. do, que se limita a conside rar o procedimento co1no
lo• lnnd np· tidíano que compensa a fadiga mental: M O!í novamente se verifica nesse plano que o reavi- superposição de idéias e de imagens, focalizando-o,
Jo urna vnolcnto do imaginário e a modernidade são inse- portanto, do ponto de vista de sua causa no poeta
mclo"36. O homem moderno, em parte pelo treino cotidiano, em pnrúvcis. Pois é a arte mais nova e mais represen- ou de seu efeito sobre o leitor.
o i>fcito parte pelo cansaço parcial intelectual, tem uma rapidez 1n1iva das condições materiais da época, a cinem a- Em Mário de Andrade o realismo psicológico p re-
.... ~~ IJOOS, as de raciocínio muito maior que a do homem de 183039, tografia, que já nasceu dentro do ciclo da comun~­ dominou dentro do espírito pragmatista que o nor-
11111 • ''i o nda onçrío e da informação técnicas por ela nlesma defi- teava no trabalho intelectual de assimilação das idéias.
'' '" _egmo ve r- Por o utro lado, os aspectos de brevidade da forma nido e consolidado - é a cinematografia a grande Foi no entanto a música que lhe forneceu o eixo de
e de síntese da linguagem não derivam exclusiva- dopuradora da percepção estética nas outras artes. referência para coordenar os, conceitos instrumentais
•·U• d \lvlcloso mente das condições 1nateriais· da vida m oderna. Na Pe rcebe-se, com o seu advento, de sua poética. E ncontrou ele na teoria do polifo-
••·t tnllnlo, a sintaxe dos modernistas, que se beneficiou com a nismo ou do h a1monismo uma p rim eira solução à
·~•· J
.nllo dei- divulgação dos gêneros poéticos orientais (tankas,
hai-kai, ghazel), influiriam as "formas elípticas ar-
que a pintura podia e devia ser unicamente P!ntura,
oquilíbrio de cores, linhas, volumes numa superfície; de-
antítese entre o impulso lírico, espontâneo e capri-
choso, e a f orma da linguagem, que depende, pela
formação sintética, interpretativa, esiilizadora e não co- crítica das palavr as, da própria ação da inteligência
rojadas" e visuais dos an(1ncios em estilo telegrá· mentário imperfeito e quase sempre unicamente epidér-
poctn de que a ordem do subconsciente deveria substituir.
dt~tle urn fico. Os anúncios, as notícias de jornal, também in- mico da vida. Só então é que se pôde con1preender a Não importa que Mário tenha dado, depois de A Es-
tegra111 o novo meio psicol6gico que, mensurado pela e!K:ullura como dinamismo da luz no volume, o caráter
urquitetural e monumental de sua interpretação. .Só en· crava, outros run1os, 1ncnos tnodernis tas, à sua poe-
•, , 1
síntese e pela rapidez qualificadora das operações sia. De seu realismo psicológico, que surpreendeu
'fI• t~o é que se percebeu que a descrição literária :não des·
1nentais freqüentes do poeta, corresponde à escala os veios inconscientes da imaginação, saíram as ima-
çrevc coisa nenhuma e que cada leitor cria pela imagi-
da sensibilidade moderna a que se referi ria Oswald n11tlvn uma paisagem sua, apenas servindo-se dos dados
de Andrade no seu Manifesto Pau-Brasil. Mas tal cnpitais que o escritor não esqueceu41. (4 2) Essa definição que, comQ diz Mário, está completa para
como Mário a concebeu, a síntese está, nessa escala, os leitores de L'Esprit Nou>''ª"• pode ser rebcionada com o
conceito do poen1a - "n1achine à émouvoir" - lnspir•do em
( 40) " Mestres do Passado" , VI: Vicente de Carvalho . ln: Le Corb usier e portanto n n fonte de que se valtu Mário, que
(37) A Escravo. In: Obra lmn111r11. p. 251. 8 11..vA BRITO, .Mário da. Htst6rias do Modernismo Brnstle/ro. figur a cm epígrafe no livro de João Cabral de Melo Neto, O En-
(38) Idem, p. 251. ( 41) A Escrava. Idem, PI'· 2S8·259. gen/ltiro.
(39) 11/c?m, p. 253.
.. ESTÉTICA E CORRENTES DO MODERNISMO 49
... .
1

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td6las de vanguarda. Independentcn1ente das suge~ ·. 'lt 111111111111


1 gens-choque, a sintaxe interruptiva e a dissonância ta de sua realidade preliminar de fatos da cultura. tõcs cubistas e dadaístas que possa haver recolhlt1tf • 11111 1111111
do verso, que passaran1 a integrar, juntamente com Essa realidade já constituía o índice de uma carga, nn Europa, durante os seus sucessivos estágios pari• . ''""li
o humor e a atitude agressiva do poeta rebelde, a d e um potencial poético a ser extraído d a forma e 1lenses, que se cncadearan1 por longo período desíl ·
perspectiva estética central do Modernisn\o. dos rnateriais, quando se integrassem, segundo uma os fins de 1922, Oswald reelaborou a mensagem tcÓ• 1\
1111hli11ll' ''º'
Partindo de un1 outro ponto de vista, que ampliou, perspectiva determinada, na estrutura do poema, e rica do esprit nouveau na sua versão original, con~ 1!111111•111111
diversificou e modificou esses tópicos, a abordagen1 fossem aí trasladados do estado bruto de fato ou forme a doutrina exposta por Apollinaire en1 s1•1i: I ,. , l'l'fll
exploratória de Oswald de Andrade, con1plementar de aconteciinento ao nível de signo significativo. conferência L'Esprit Nouveau et les Poetes, anterior t, llt1 1l1• li
à de Mário, no t rajeto prático e teórico por a1nbos "A poesia existe nos fatos", declara o Manifesto. no progran1a da revista predileta de Mário, que to; .·
percorrido, co1neça con1 as Me1n6rias Sentintentais
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11111 ~1 11
Enumerando forn1as e materiais lado a lado, diz-nos moo aquele no1ne. ·r- 1
de João Miran1ar (1924). Mário escrevia então a o nlesmo documento programático que esses fatos Afirn1ava Apollinaire na sua fan1osa conferêooin ··~• 111 11 1 11
propósito desse romance: são acontecimentos pictóricos, folclóricos, históricos que o esprit nouveau, herdeiro dos clássicos e do ~•'llfll\1111
e étnicos, econôn1icos, culinários e lingüísticos (os românticos, era guiado pelo amor à verdade na pos• ""'!"''~
Com as Me1nórias Se11ti111e11tais de João MiraJnar Oswald casebres de açafrão e de ocre nas favelas, o carnaval, quisn da forn1a, relativamente à qual a _con.quista do 1
• •1• 1lllht h
de Andrade se incorporon praücarnente ao g:rup6 dos as crônicas de descoberta e de colonização do Brasil, verso livre representava apenas unia pnmeira etapo. 1111111 ..,_
n1odernistas brasileiros. Afinal Os Co11de11ados eram mais a etnia, a riqueza vegetal, o minério, a cozinha, a Os artifícios tipográficos, co1no nos caligramas, e O 11111111•11 H
urna contemporização. No fundo obra realista. Na for- língua sem arcaísn1os 1 sem erudição, enriquecida pe- c inema, que vieram depois, abria1n caminho pat'fl

1111 n 11n11
1na o discurso corJia lento, arreado de bugigangas so- .7

noras. Assim a prosa não podia correr. Quanta campai-


nha. ( ... ) Com i•S Me1nórias dentro da roupa o corpo
los seus próprios cJros e neologis1nos) de que se cOtJi-
põe a "originalidade nativa", con10 matéria-prin1a
uma arte nova que punha à disposição dos poetas
o mundo inteiro. Não poderia o poeta deixar de ga•
..i. 1t1 1 ~l111 ·11
11'1 ,,, h11

é já moderno. ( ... ) O livro saiu a n1ais alegre das des- exportável, de natureza histórica e social, que Oswald nhnr, acompanhando a sua época, uma Iiberda~e ln• • 1 1 hl~ 1\11
truições. Quase dadá. Pretendeu a "volta f\O material". de Andrade verteu em poemas breves, ágeis e câ11- tclectual enciclopédica, semelhante à de um iorna1 11l1j1 '"" 1
Isso indicava respeitar o material e trabalhá-lo. Ou pelo didos, graças a uma perspectiva determinada, senti- cotidiano. Eis a rnedida do novo realismo da poesln, ' >1tt11. l'1u 1
n1enos a apresentação do 1naterial literário puro, em toda mental e intelectual, irônica e ingênua ao mesmo que valoriza o grotesco e o ~idículo sem. transformá• Ili l1•tllh
a sua infante virgindade. tempo, como a dos quadros de Tarsila do An1aral · lo nu1n tipo de beleza horr1vel ou trágico. E coJnO ·' •r11!\ •
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d essa fase43. o esprit nouveau preza a verdade, nada ocultando OU
O n1aterial a que pretendeu voltar o romancista e Somente publicados en1 livro no ano de 1925, os tll11farçando, o seu principal recurso está na inanolra .. • li .. 11111 1

q ue nos apresenta e1n suas Men16rias, era tanto a poemas Pau-Brasil substituen1 a descrição pelo ins- diferente, abrupta ou chocante, de combinar os n1ól• 1i.. 1
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n1até ria lingiiística recalcada pelo decoro gra1natical tantâneo, a re1nemoração subjetiva pelo lembrete ane- tlplos fatos da experiência co1num. Por isso, a orlgl• "" 11111 '
co1n o que ele ro1npia, quanto a matéria-prima das dótico e a efusão lírica pela paródia. Por mais di- nnlidade e a novidade residem na surpresa.
palavras em libe rdade. Era, mais ainda, o material 1•.1111 .
versos que sejam, obedecem a uma estrutura comum,
específico das várias pautas do discurso, caricatu- < '"t.•1111 ••
resultante da aplicação dosada dos princípios esté- L'esprit nouveau est également dans la surprise, C'csl ,, 11111111111
rados e parodiados nesse rornance, e concorrendo ticos que o Manifesto invocou: a síntese, o equiúbrio CG qu'il y a en lui de plus vivant, de plus neuf. La 5Ur•
para fazer dele "un1 dicionário satírico de imbecili- ,..; VI llfl ~Ítlt
geômetra e o acaban1e11to técnico, a invenção e a prise est le grand ressort nouveau. C'est par la surprho1
dade e de ig11orância". As Me1n6rias realizavam, nu- surpresa. Muito e mbora se possa ver no priineiro pnr ln place importante qu'il fait à la surprise que _1'esprlt
n1a prosa de "estilo telegráfico" e numa fonna ele novveau se distingue de tous .les mouvements a rt1$tlqUíll ·.' ''""
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deles uma outra versão do sin1ultaneísrno de Mário, ' 1111• ,,,
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narração sincopada, por justaposição de episódios, ol lit!é raires qui l'ont précédé44. 1 ,,
a síntese Pau-Brasil já se vincula ao ponto de vista
como fragmentos de u1na realidade soê:iolingi.iística original que a condicionou, e que é a realidade pre-
reduzida a instantâneos que se sucedem em ritmo Mas não há surpresa sem invenção. •1111• 11l1A1tt
liminar das formas e dos materiais como fatos da 111!1111•111
cinemático, a rapidez, a síntese e a simultaneidade cultura. A poética de Oswa1d de Andrade, que as-
verbais que Mário h avia precisado para a poesia sen- sentou nas artes plásticas o eixo referencial dos seus c·est que poésie el création ne sont qu'une même cho l \ nn
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su stricto. Mas a tríade da poética n1arioandradina conceitos instrun1entais - e na qllal., portanto, as on ne doit appeler poete que celuê qui invente, colui qU
já aparecia no romance de Oswald, à luz de um ou- artes p lásticas desen1penhan1 função análoga à da crée, dans la mesurei ou l'homme pcut créer4~. , 1111f.,1C'1u
tro ponto de vista, que antecipava a estrutura e a l ll~lrl
1núsica na poética de Mário n1ove-se no âmbito de
perspectiva da poesia Pau-Brasil que o :rvfanifesto ho- un1 realismü que se pode classificar de fat ual ou
O nexo íntimo que Apollinaire estabeleceu entro ~ •" l 11~•11•111 l t
môni1no e prec11rsor delineou teoricamente. Invenção e a surpresa reaparece no Manifesto PnUie .. Jll' 11 t' llt
en1pírico por oposição ao rea lismo psicológico de
O Manifesto Pau-Brasil ratificou a volta ao n1a- ·Brasil. O acabarnent.o técnico e o equilíbrio S ff 1'H!ilriltr l1t 1
Paulicéia Desvairada e de Losango Cáqui, e que nos metra, os dois outros princípios apregoados nes~,ili .• , 1111 ..., 1
terial, possibilitada pela escala da sensibilidade mo- n1ostra o acesso a certas fontes preferenciais das
derna. Tambén1 p ara Oswald as condições d a época (44) APPOLUNAllUl. L'Esprit No11vea11 et l•s Poet~I. JAOQ\!I' t-1~1 ~~
operavam de nlodo a favorecer uma depuração da (43) ~ a perspectiva de trabalhos como Paisagem <:On• Touro HDumont, Paris, 1946, p. 17. As cirnções anteriores em J)Ofh,f . '",>''lt'" -
arte. Seria uma volta ao sentido puro das formas
e dos n1ateriais, considerados porén1 do ponto de vis-
(1925) e Vendeilor de. Frutas (1925). Ver de ARACY AMARAL,
Tar$i/a - 50 a110.r de Pintiira. Catálogo de Exposição, Tarsila
1918-1968. Muscn de A rtc Moderna do ~io de Janeiro.
s118s seguen1 essa edição.
(45) APOLLINAIRP., idem, p. 19. .
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ltldlon de vanguarda. lndependenten1ente das suges- documento, tan1bém procede!'! ~Joftllm!irt, ~ts
ta de sua realidade preliminar de fatos da cultura. teu cubistas e dadaístas que possa haver recolhido por uma vertente anterior à doutrina do esprit nn11-
Essa realidade já constituía o índice de uma carga, fl D Europa, durante os seus sucessivos estágios pari- veau: a teoria do cubismo.
de um potencial poético a ser extraído da forma e 11 naes, que se encadearam por longo período desde A pureza, que constitui, ao lado da verdade e da
dos rnateriais, quando se integrassem, segundo uma Ot tios de J 922, Oswald reelaborou a mensagem teó- unidade, a prín1cira das três virtudes plásticas fun-
perspectiva determinada. na estrutura do poema, e ' lon do esprit nouveau na sua versão original, con- dan1entais preconizadas pelo poeta de Zone em seu
fosse1n aí t rasladados do estado bruto de fato ou forme a doutrina exposta por Apollinaire e m sua Les Peintres Cubistes, pode ser interpretada na acep-
de acontecin1ento ao nível de signo significativo. oonferência L'Esprit Nouveau et les Poetes, anterior ção de pureza da matéria e de pureza da forma, am-
"A poesia existe nos fatos'', declara o Manifesto. ao })rograma da revista predileta de Mário, que to- bas correlativas ao grau de auto-suficiência da arte
Enun1erando forn1as e n1ateriais lado a lado, diz-nos mou aquele nome. cubista - que não é uma arte de imitação - o qual
'
o mesn10 docun1ento programático que esses fatos Afinnava Apollinaire na sua famosa conferência assinala o afastamento da obra do modo de repre-
são acontecimentos pictóricos, folclóricos, históricos qua o i:sprit nouveau, herdeiro dos clássicos e dos sentação artística vinculada às ilusões de óptica e às
e étnicos, econômicos, culinários e lingüísticos (os ro rnAn ticos, era guiado pelo an1or à verdade na pes- proporções locais46. Desse ponto de vista, tanto o
''" 1 r Os,vald casebres de açafrão e de ocre nas favelas, o carnaval, quloo dn forn1a, relativámente à qual a conquista do equilíbrio geômetra quanto o acabamento técnico se-
Jtll f)O cios as crônicas de descoberta e de coloniz~ção do Brasil, verso livre representava apenas urna prin1eira etapa. riani essenciais à autonomia do poema e de certa
Gr111n mais
, :t.J 11 for-
a etnia, a riqueza vegetal, o minério, a cozinha, a Os nrtifícios tipográficos, como nos caligramas, e o maneira equivalentes entre s i.. O acaban1ento téc-
língua sem arcaísn1os, se1n erudição, enriquecida pe- clnerna, que viera1n depois, abriam ca1ninho para nico não é a simples perfeição fonuaL Trata--se, como
1J11naus so- los seus próprios erros e neologisn1os) de que se co~n­
I11 cumpai- un1n ttrte nova que punh a à disposição dos poetas destaca o Man ifesto, de un1 acabamento de carros··
Cl o corpo põe a "ori ginalidade nativa", con10 nlatéria-prima o rnundo inteiro. Não poderia o poeta deixar de ga- serie, havendo pois identidade entre a operatória de
ro UllU c.les- exportável, de natureza histórica e social, que Oswald J1hur, acon1panhando a sua época, uma liberdade in- criação artística e a operatória da fabricação dos
mnlcri;1l". de Andrade verteu cm poeinas breves, ágeis e cân- tolcclual enciclopédica, semelhante à de um jornal objetos í1teis, especiahnente das 1náquinas. A propó-
o, Ou pelo didos, graças a uma perspectiva determinada, senti- cotidiano. Eis a medida do novo realismo da poesia, s ito, Paul Dern1ée observa en1 1917, num artigo do
ro. cn1 1oda mental e intelectual, irônica e ingênua ao mesmo que valoriza o grotesco e o ridículo sem transformá- n1ensárío N ord-Sud, onde colaborava ao lado de Re-
tempo, como a dos quadros de Tarsila do Amaral .. 10 num tipo de beleza horrível ou trágico. E con10 verdy e Braque, que
dessa fasc43. o t.vprit 11ouveau preza a verdade, nada oculta.n do ou
anclsta e Somente publicados en1 livro no ano de 1925, os dlsfn rçando, o seu principal recurso está na n1aneira a obra de arte deve ser concebida como o operário
• • t nnto a poemas Pau-Brasil substituem a descrição pelo ins- dife rente, abrupta ou chocante, de combinar os múl- concebe um objeto de sua fabricação, seja um cachin1bo
"• ·rAmatical tantâneo, a rememoração subjetiva pelo lembrete ane- l lplos fatos da experiência comum. Por isso, a origi- ou um chapéu . . . 47
rimo dns dótico e a efusão lírica pela paródia. Por n1ais di- nalidade e a novidade residem na surpresa.
·• O mntcrial versos que sejam, obedecen1 a uma estr utura comum, Para Apollinairc, que avançou muito inais ao con-
•• .. 1 Obrlcatu- resultante da aplicação dosada dos princípios esté- siderar as duas operatórias, a da arte e a da indústria,
, noorre11do l)csprit nouveau est également dans la surprise. C'est a imaginação poética não deveria ficar aquénl. da in·
ticos que o Manifesto invocou: a síntese, o equilíbrio i:o qu'il y a en lui de plus vivant, de plus neuf. La sur-
• • lmbccili- geômetra e o acaba111e11to técnico, a invenção e a prl~e est le grand ressort nouveau. C'est par la surprisc,
ventividade daqueles operários que contribuem para
.11 v111n, nu- surpresa. Muito embora se possa ver no pri1neiro pn r la place importante qu'il fait à la surprise que l'espdt aperfeiçoar as máquinas com que trabalham. Pode-
"'' tormn de deles uma outra versão do sin1ultaneís1no de Mário, nouvcau se distingue de lous Ies n1ouvements artísliques ria finalmente "1nachi11er la poésie comme ori a ma-
oh plaódios, a síntese Pau-Brasil já se vincl1la ao ponto de vista et littéraires qui l'ont précédé44. chi11é le n1011de". Essa possibilidade de mecanização
•" ,, UnsUlstica original que a condicionou, e que é a realidade pre- da poesia relacionada co1n a generosa expectativa,
·11 r ritn10 lin1inar das formas e dos materiais como fatos da Mas não há surpresa sem invenção. que alentou o esprit nouveau, confirmando a semente
e.Idade cultura. A poética de Oswald de Andrade, que as- futurista de onde provinha, de uma íntima colabora-
ln. 'se11-
, sentou nas artes plásticas o eixo referencial dos seus C'est que poési.e et créa1ion ne sont qu'une n1ême chose; ção dos engenheiros e elos poetas, foi a utopia tec-
drndina conceitos instrumentais -- e na qual, portanto, as on nc do it appeler poete que celui qui invente, celui qui nicista a que aludiu Blaise Cendrars numa das suas
um ou- artes plásticas desc1npe11ham função análoga à da crée, dans la 1n.esure. ou J'ho mme· peut créer45. conferências de São Paulo.
:urn e a 1núsicil na poética de Mário move-se no âmbito de Dizia ele en tão que as .P ala vras, quaisquer que
· OlllO ho- Lun realisn10 que se pode classificar de fatual ou O nexo íntimo que Apollinaire estabeleceu entre a fosscrn os meios de reprodução mecânica das ima-
empírico por oposição ao realisn10 psicológico de J11vc.nção e a surpresa reaparece no Manifesto Pau- gens, os recursos tipográficos e os artifícios de pro-
ao rna- Paulicéio Desvairada e de Losango Cáqui, e que nos
-Drasil. O acabamento técnico e o equilíbrio geô- paganda, podia1n servir aos poetas que queriam criar
dG n10- n1ostra o acesso a certas fontes preferenciais das 1netra, os dois outros princípios apregoados nesse ''um estilo novo em colaboração com os engenhei-
4poc~1
( 44 ) APPOl.LIN,\IRE. L'Esprit Nouveau et les Poetes. Jacques (46) Al'OLl.tNAIRE. Le.1 Peintres Cubistes - Méditatlons Er·
lo dn (43) ~ n perspectiva de trabalhos como Paisagen1 con• Touro Hnumont, P at·ls, t 946, p. l 7. As citações a11tedores em portu- thétiqtus. Gcnêve, Pierce Cailler, Editeur, 1950, p. 20.
ormns (192S) e Vendedor de Frutas (1925). Ver de A1tACY AMARAL
Tarsl/a - 50 u110.r de· Pl11111ra. Caiálogo de Exp0sição, Tarsil~
11uês scgucn1 essa edição.
( 45) A•<>u. rNAIRE, lden1, p. 19.
(47) DeRMl!f., Paul. Quand !e symbolis1ne fut mort. ;Vorcl-
.S11<l, n. 1, 15-3, 1917.
d vis· 1918-1968. Museu de Arte Moderna do JUo de Janeiro.
ESTÉTICA E CORRENTES DO MODERNISMO 51
esse carãter primitivista de nossa época artística. So op 1t1-ll~
ros"48. Quando o Manifesto Pau-Brasil propunha .a riais em estado bruto. Assim, .à semelhança da pin- nu realidade uns primitivos. E co1no todos os primiú lt1tll1111
substituição dos jurisconsultos pelos engenheiros de tura, o poema admite a colagetn dos próprios fatos, roa listas e estilizadores. piif1111 111
Blaise Cendrars ("contra o gabinetis1110, a prática como material poético virgem. An.tcs de Docu1ne11- ,, t 1t1h'IUlu11
c ulta da vida. Engen heiros e111 vez de jurisconsultos, taires, que ap roveita, nwna ve rdadeira montagem, fra- As correntes de vanguarda, inclusive a f uturl 1, 11.. 1111•11~
perdidos na genealogia das idéias"), não se lin1itava ses dos livros de G ustave Le R ouge, Cendrars uti- dcran1 ao primitivismo o alcance de uma idéia. p ,4 ,,,,,
apenas a refletir a euforia lírica, o bucolis1no indus- lizara diversos 1nateriais adventícios, publicitários, li- lêmica, utilizando-a p ara acentuar e mante r a 1'U 111l 111•11
trial do poeta f rancês. Oswald invocava um aspecto terários e históricos49. Oswald, que fabricou nos poe- tura com as tradições e convenções do p assado. lilll \ltl 11
da praxis da sociedade industrial - a prática culta
da vida, como ele a chamou - e o contrapunha ao
mas de "H istória do Brasil", primeira pa.rte de Pau-
-Brasil, decupando trechos de crônicas históricas (de
palavra tornou-se um signo de discordância com. '.r1
nrtc, de crítica dos emblen1as da cultura inteloot il . ' .' "
.,,,,,,.,.,
"lado doutor", bacharelesco, de nossa inteligência, Pero V az de Caminha, Gandavo, Claude d'Abeville, e de oposição à sociedade. Mas o primitivismo l i\ u 1•1111111 ti
utilizando no sentido de uma c rítica da cu1tura a Frei Vicente do Salvador e Frei M anoel Calado) , bém foi uma metáfora irredutível, significa ndo, n~ 11•111t•11•I
consta tação o tin1ista do esprit nouveau. verdadeiros ready-n1ade verbaisso, sem repetir o em- 1na s ucessão de acontecimentos em cadeia a que rcm . 1111v11~lu
D e ver-se-ia a tal prática o processo 1nais amplo pirisn.10 documenta.rista de Ccndrars .e sem reeditar- tio, como a difusão da arte dos primitivos desdê . . 1111 1'111•
de n1udança, na escala da sensibil idade n10<.!ema, -lhe o amável exotismo, transformou numa concep- fins do século XIX pela pesquisa e tnográfica, a rcln•;: .......11111
que desarticulou, depois da "democratização estética ção da originalidade nativa a 1nensagem do esprit tivização dos valores da civilização ocidental pe1Q·: ltl lllth ·li
nas cinco partes sábias do rnundo", correspondente 11ouveau, de q ue o seu compilnheiro e am igo foi o desenvolvimento da Antropologia e o conhechncntn; li 1111.,iri'
à ascensão do N atu ralismo, as antigas formas da ex-
periência e do p ensamento. ll o "esto uro dos apr en-
dilnentos", atingindo as elites intelectuais, inclusive
en1issário entre nós.
A volta ao n1aterial como volta ao "sentido puro"
na poesia pau-brasil, dentro da perspectiva sentimen-
do inconsciente pela 'Psicanálise, a descoberta, Clil .
ll(lSSa época, do "pensamento Selvagem", que é S~l~ .....
vagem ou primitivo na medida em gue as estrutur • ·,
.• /:
.f11ni111 1

·1 1 " " 1•111


a nossa. P ropunha-se o Manifesto Pau-Brasil a efe- tal e intelectual, irônica e ingênua que se adotara, n1itopoéticas que o integram desautoriza m a valido.d ·· ti "t111111
tuar, partindo das possibilidades lingüísticas reais do acon1panhou contudo esteticamente, até pela in ocên- absoluta dos padrões artísticos, éticos, sociais e pO• 1 11111111 ~
português falado no Brasil ("A língua sem arcaís- cia construtiva que o Manifesto considerou uma ten- líticos do pensamento civiJizados2. • " ··~11111
n1os, sem erudição. Natural e neológica. A contri- dência da sensibilidade moderna, a simplicidade for- Associando-se ao conceito polêmico e à metáforu1 1(11111111 '
buição milionária de todos os erros. Como falamos. n1al que fizera do Cubismo um primitivis1no da for- o primitivismo de Mário e de Oswald de Androoo .... h• hl
Como somos"), uma reconstrução do gosto e da in- ma externas• . Simetricamente, o realismo psicológi- - o nosso primitivismo nativo, único achado d w .1.. 1, .. 1
teligência, uma correção da totalidade da cultura, co de Mário de Andrade, insistindo na idéia de um geração de 22, a juízo do segundoS3 - que COll• t,IJ 1111 111111 li
que passaria, co1no a arte, por urna " volta ao sentido potencial psicológico que se descarrega na expres- dcnsou, independenteme nte d as diferenças que scpn• ..i ~1 1111 f h•1t
puro". Acompa nhando essa volta, que permitia "ver são lírica, ligou-se, pela busca da en1oção e do sen- rl\n1 as poéticas desses dois a utores, a visão 'purn do "1: 111 1111.. ,
corn olhos livres", a poesia pau-brasil, conseqüê ncia tirncnto espontâneos, à tônica primitivista do Expres- Cubismo, a "imaginação sen1 fios" do Futurisrno 1 !\- . l·l~l ll,

1 :r da prática c ulta da vida, pude ra captar a originali- sionismo e do Dadaísmo. ugressividade dadaísta e a tensão surrealista e11tr ~~ H lll>t VI• "
dade n ativa. o consciente e o inconsciente - sintetizava o con• ~ ~lh•lt ... t'
A poesia Pau-Brasil de. Oswald de Andrade filtrou "Somos na realidade os primitivos de um a nova /u11 to das idéias e dos processos que constitu fratn a. 11•ve11!11 f
o en1pirismo documenta rista de Blaise Cendrars. Para era'', .exclan1ava o poeta de Paulicéia Desvairada, no verspectiva estética central do Modernismo. Longe .' 1• 1111, ...
este també111, que concebeu Documentaires ou Ko- " Prefácio", acrescentando que fora "buscar entre as de terem mobilizado,· como pensava Blaise CendrnflfJ
dak ( 1923) como um a série de fotografias ver-
bais, a poesia existe nos fatos, de ondê o poeta a
hipóteses feitas .por psicólogos, naturalistas e críticos
sobre os primitivos das e ras passadas, expressão mais
quando visitou o Brasil e1n 1924, apenas o interes ~
Iódico de uma "estreita vanguarda de este tas''S4,
~~
"h
~
1
1 A'I 11
....
recolhe media nte registros sucessivos que a documen- hu111ana e livre de arte". O sentimento de esponta- aqueles ismos foram decisivos para o destino do n 1•
ta m . Mas a fotografia verbal da in1pressão viva, ins-
.' tantânea, de que se retira o halo evocativo para dar-
neidade e de liberdade. que se associou ao ímpeto
destrutivo da revol ução artística, comportava a vivên-
vimento e não de todo alheios à realidade cm q '
o·s rebeldes de 22 vivia m. Sob o aspecto do µ,rim'·
·lf•lli- :iw·...
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1 '"

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~·~ 1111li 111~
li
· lhe o caráter de anotação dire ta. e circunstancial, cia .de um reco1neço, de um recuo batism al às or igens tivismo, que representava o conjunto das tendêD.Q ·
.
apanha, ao 1nesmo tempo, con1 a objeti vidade da câ-
mara guc o poeta 1novilnenta, as coisas e os mate-
prirneiras ou a fontes a nteriores à concepção renas-
centista do mundo. "Ainda não vi sublinhado com
extremas de tais corrente_s, a modern!da~e, que O
wald fora buscar e1n Pa n s, onde sentiu a sugest:.1.' 1
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'f bastan te descara1nento e s inceridade'' - observava o



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(48) CllNO!tARS, Bla isc . Les Po~tes Mcder11es 1/a11s l'Ensemble
de la YJe Co11 1emvoral11e . Oeuvre Comple te, Quatriên1e Vollune, mes n10 M ário de Andrade numa Nota de A Escrava: (S2) ". . . cette 'pensée snuvage• qui n 'csl pns pour llOUS 1
11011sc!e d es sauv ages, n i cell'e d'\lnc humanlté pr;millve ilU ' ""li• t'
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Dcnocl, l960. Sobre Blaisc Ccndrnrs e cm relação com o n10-
dcrnismo brasileiro, ver de AltACY AMARAL, Bla/se Cendrars "º
tlulYque, mais' ta pensée à l'élat snuvaae, d istin cte do 111 j!lli1'41•
cuttivEe ou domesliquEe en vuc d'obtenir un rendcment" . Cl· "' ' ' '"f/11, '11
.1 Brasil e o:r Modernistas, L ivraria Martin s Editora; de ALEXl>NDRE
(49) CENDRARS, Blaise. Document, Documentaires. Poésies
Compl~tes tle B/aise Cendrars, Paris, Dcnocl, 1944. Ll!V r-STRAUSS , La Pensée Sau vage, Paris, Plon, 1962, p. 7 .1· "º 1• "~
.1~ "'''" 1 1
EULÁLIO, L'avt nlttre brlsilittme d e 1Jlai.re Centlrars, /;tudos Por-
tugaiscs et Brésilíenncs, V, Travaux de I:\ Facult<! de Loures et
Scien~es l:l. umaines de L 'Université de Rennes, p. 32, :Renn es.
(50) CAMPOS, Haroldo de, " Uma Po~tica da R adicalidade".
pp . 2S-26. l n: Poesias Re1111idas tlt U.•wold dt Andrade. São
Paulo, Difusão Européia d o Li• co, 1966.
(S3J ANDRADll, Oswald d e. "0 Ca minho Percorrido' , tu
Ponta de Lança. Rio, Civllizaçlio Brasileira, 1971 , p . 90.
(S4 ) "l'rop c'est trop". ln : La Voix du Sang. D.en~l 1 • •11
"•....."" . t!l:l'
1 , .. ~1~r'1.

••,
1969; de \VILSON MARTT1'1s, Ce nd rars e o Bro.~il. Rt\'ista do Livro, (S I) GOU>WALTER, Robert. Prim/livlsm ln Modern Art. Ne~ ISS·1S6. .... 4 - 1
l n. 18, Ano V, 1960. York, Vlntagc Book, 1967. p. 225.
'l 52
"i·'
1
98e caráter primitivista de nossa época artística. Somos aproximação do tam boJ do negro e do canto d o
riais em estado bruto. Assim, à semelhança da pin- flll real idade uns primitivos. E con10 todos os prin1itivos, índio"SS, podia ser encontrada e.n tre nós, passando
tura, o poe1na admite a colagern dos próprios fatos, 1 nlistas e estilizadores. pelos e lementos popul ares e étnicos d a cultura, re-
como rn ateria l poético virgem. Antes de Docu111en- calcados pela intelectualid ade contra a qual o Mo-
1aires, que aprovei ta, numa verdadeira montagem, fra- As correntes d e vanguard a, inclusive a futurista, dern ismo se rebel ara.
ses dos l ivros de Gustave Le Rouge, Cendrars u ti- deram ao p rimitivismo o alcance d e uma idéia po- A perspectiva estética central do Modernisrno, que
lizara diversos m ateriais a dventícios, publicitários, li- I001ica, utilizando-a para acentuar e manter a rup- no Pau-Brasil é inseparável de um esquema interpre-
terários e históricos49. Os\vald, que fabricou nos poe- tura com as tradições e convenções do passado. ./\ tativo da cultura brasileira, constituiu um elemento
m as de " História do Brasil", primeira parte de Pau- palavra tornou-se um signo de discordância com a •de di/erenciação das diversas tendências do movi-
-Brasil, decupando t rechos de crônicas históricas (de orle, de crítica dos emblemas da cultura intelectual rnento, algumas reativadoras de veios remanescentes,
Pero Vaz de Caminha, Gandavo, Claude d'Abeville, e J e oposlção à sociedade. Mas o primitivismo ta1n- como o nacionalisn10 românt ico, o simbolismo e o
Frei Vicente do Salvador e F rei M anoel Calado), bén1 foi uma metáfora irredutível, significando, nu- regionalisn10, e que confluíram, por força da re-
verdadeiros reacfy-made verbaisSO, sem repetir o em- rrin s ucessão d e acontecimentos em cadeia a que ren1e- novação artística e literária deslocando o status quo,
mplo piris1no docun1cntarista ele Cendrars e sen1 reeditar- tlu, como a difusão da arte dos primitivos d esde os no c urso do período militante do movimento, que se
t1orn11, - lhe o amável exotismo, transformou ~uma concep- fins do século XIX pela pesqnisa etnográfica, a rela- encerrou em 1930. Com a exceção do esteticisn10 me-
, •li, li• t6tlc:11 ção da originalidade nativa a mensagem do esprit tivização dos valores da civilização ocidental pelo tafísico de G raça Aranha, cujas idéias principais -
111 • , ~
,,, · d nte nouveau, d e que o seu companheiro e amigo foi o desenvolvimento da Antropologia e o conhec ime nto a integração ao universo pela en1oção estética e o
1111 ~1 dn CX· c1nissúrio entre nós. do inconsciente pela Psicanálise, a descoberta, em do1nínio sobre a natureza bárbara pela inteligência
,.. ' ciprcn· A volta ao n1aterial con10 volta ao "sentido puro" nossa épo ca, do "pensa1nento selvagem", que é sel- - A Estética da Vida ( 1921) já definira, as demais
"''" . oru11lvc na poesia pau-brasil, dentro da perspectiva sentimen- vage1n ou prin1ilivo na medida em que as estruturas correntes, o verdean1arelismo (1926) - voltada para
11, , 1 n Bfc· tal e intelectua l, irôn ica e ingênua que se adotara, 1nltopoéticas que o integram desautorizam a validade a "íntin1a co1nunhão das almas" como substrato na-
ronh1 do acompanhou contudo esteticamente, até pela inocên- nbsoluta dos padrões artísticos, éticos, sociais e po- cional e o grupo de Festa ( 1972) - voltado para
- - 11rcnfs- c ia construtiva que o Manifesto considerou uma ten- Hticos do pensamento civilizad o52. a espiritua lização da arte e da sociedade - confi-
con1ri- dência da sensibilidade moderna, a simplicid ade for- Associando-se ao conceito polê1nico e à metáfora, g uran1-se reagindo contra a estética e a interpretação
t11lamoR. mal que fizera d o C ubisn10 un1 prin1itivismo da for- o primitivismo de Mário e de Oswald de Andrade sócio-histórica de Pau-BrasiZ56. Teve início, a partir
da in- 1na externas •. Simetric amente, o realismo psicológi- - o nosso primitivismo nativo, único achado da daí, o processo de diferenciação ideológica do nosso
aulturn. co de Mário de Andrade, insistindo na idéia de um geração de 22, a juízo do segundo53 - que con- modern ismo de que a Antropofagia participou. O
a1nl ldo potenc ial psicológico que se descarrega n a expres- de nsou, independentemente d as diferenças que sepa- Manifesto Antropófago ( 1928), de Oswald de An-
llíl " ver são lírica, ligou-se, pela busca d a emoção e do sen- ram as poéticas desses dois autores, a visão pura do d rade, que retomou o impulso da rebeldia surrea-
O• l'lcia timen to espontâneos, à tônica p r imitivista do Expres- C ubis1no, a "imaginação sen1 fios" do Futurismo, a lista, aguçou o .prin1itivism o anterior, elaborando
r atnol i- sionismo e do Dadaísnio. agressivid a de dadaísta e a tensão surreal ista entre uma visão eminentemente crítica da sociedade b ra-
o consciente e o inconsciente - sintetizava o con- sileira, dent ro da qual a arte constitui o veículo d a
"Somos na realidade os p rim1t1vos de uma nova / 111110 das idéias e dos processos que constit11írarn a revolta individua] a serviço da transformação da vida
era'', exclamava o poeta de Paulicéia D esvairada, no {Jerspectiva estética central do Modernismo . . Longe e dos seus valores morais e políticos.
" Prefácio", acrescentando que fora "buscar entre as de terem mobilizado; como pensava Blaise Cendrars,
(55) "Ccs forces ethniqucs sont en -pleine modemité". OsWALD
hipóteses feitas por psicólogos, .naturalistas e críticos quando visitou o Brasil em 1924, apenas o interesse DE Al'IDRAoe, L'effort intellectuel du Brésil Contemporain dnns
sobre os primitivos das eras passadas, expressão mais lúdico de uma "estreita vanguarda de estetas"S 4, J 'Am~rlque L atlne, Rtv rte de J'Amlrique Latlne, 1923, pp. 197-207.
(56) Ao contrário de Estética (1924). revista de Prudente
humana e l ivre de arte". O sentimento de esponta- uqucles ismos foram d ecisivos para o destino do rno- de Morais Neto e Sérgio Buarque de Hollanda, que manteve o
neidade e de liberdade que se associou ao ín1peto vi1nento e não de todo alheios à realidade em que 10111 libcralizaote de Klaxon, n revista Festa ( 1927) exprime a
posição definida de um grupo. Consulte-se Festa (Contribuição
d estr utivo da re volução artística, comportava a vivên- os rebeldes de 22 viviam. Sob o aspecto do primi- para 0 espírito do modernismo) , de Neusa Pinsard Caccese --
c ia .de un1 recomeço, de um recuo batismal às origens 1ivis1no, que representava o conjunto das tendências Institulo de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo,
1971. Quanto às dcfinJções do vertleamarelo, o melhor repositó-
prim.e iras ou a fontes anteriores à concepção renas- cxt rcn1as d e tais correntes, a modernidade, que Os· rio ain<.la 6 O Curupira e o Carão (Editorial Helios L tda., Siío
centista do mundo. "Ainda não vi sublinhado com wald fora buscar em Paris, onde sentiu "a sugestiva Paulo, 1927 ) , rcuniodo ariigos e conferências de Menotti dei
Picchin , PHnío Salgado e Cassiano Ricardo. Acresccnt,:-se a este
bastante d escaramento e sinceridade" - observava o livro coletivo A A nta e o Curupira (Considerações sobre a Lite-
rnesmo Mário de Andrade numa Nota de A Escrava: (52) ". . . cctte 'pensée sauvage' qui n'est pas pour nous ln ra111ro Moderna), confer ência de P línio Salgado, em 1926, sô·
11onRée des sauvagcs, ni ccUe d'une humanité primitive ou ar· 1nu la do ideário verdeamarclo, e, já em confronto com a A?tra-
. chniquc, mais la pcnsée à l'état sauvage, dlstíncte de la pensée pofa1tl11, Nhe11gaç11 V erdea1narelo . (Manifesto do verde-amarehsmo
( 49) CENDRARS, Blaise. Pocumenc, Oocumcntaires. Polsies cultlvée ou donlestiquée en vue d'obtenir un rendement". CLAUDE ou da Escola da Anta), publicado no Correio Paulistano de 17
Comp/lte.< de Biaisc C~ndrars, Paris, Denoel, 1944. L({v1~'>TRAUSS, La Ptn.1·ée Suuvage, Paris, Plon, 1962, p . 789. de maio de 1929. Era justamente a segunda fase da Revista de An-
(50) C AMPOS, H aroldo de. "Uma Poética da Radicalidade". (5J) ANDRAD8, Oswald de. "O Caminho Percorrido" . ln : tropofagia (março a agosto de 1929), com Oswald do Andrade,
pp. 25-26. ln: l'ocs1as Re1t11idas de Oswald de An<lrade . São /'óntn de l,ança. Rio, Civilização Brasileira, 1971, p . 96. Geraldo Ferraz, J ayme Adour da Cân1ara e Raul Bopp, ague.r-
Paulo, Difus5o :Européia do Livro, 1966. (54) "T rop c'est trop". ln: La Voi.t du Sang. D.cnoel, pp. rida como não foi a primeira fase, sob a direção de An1õ1110
(S l ) GOU>WALTER, Robert. Primltivism /11 Moder11 Art. Nelf ISS-156. de Alcânt ara Machado ~maio de 1928 a fevereiro de 1929).
York, Vintage Book, 1967. p. 225.
. EST~TI CA E CORRENTES DO MODERNISMO 53
'
MODERNISMO: AS PO.~TICAS DO
CENTRAMENTO E DO DESCENTRAMENTOL

Affonso Romano de Sant' Anna


'

'
"A cstus questões, é ve1·dade que n~o scl rcspon·
der nem , nestas alternativas, qu<1l -termo convlrla
escolher. Não ndivinho sequer se poderei respon·
der jamnis a elas, ou se um dia 1crel razões para
me determinur a tal. Todavia, sei agora a raz3o
por que, oomo toda a gente, posso formular a mim
próprio essas questões - e que não posso dciX•lr
de as formular."
MICREL FOUCA.UI.T - As Pa/a1·ra,. e a.• Coisas.

Introdução
••
Os estudos sobre o Modemisn10 têm privilegiado
...... uma série de enfoques que oscilatn entre o hist6-
.rico-docu1nental e as monografias baseadas em es-
tudos estilísticos dos autores & obras.
Partimos do princípio de que se pode tentar um
outro enfoque - o estudo da Linguagem ou das
Linguagens que se cruzaram no Modernismo e que
escapam à classificação até agora mantida de co nce-
ber aquele movimento como uma simples sucessão

• • de revistas, grupos e gerações fechados em seus re-
gionalismos. O Modernismo como movimento homo-
., gêneo é uma ilusão histórica. Funcionou como um
.. '
toque de reunir que acabou congregando arrivistas
..'
t 1 ( 1) Este trabalho to1":1·se mais pertinente quando vinc ulado
a dois outros ·estudos que já publicamos. O pfimeiro: Escrita e
"

Ideologia (Cadernos rlt Jornalismo e Com1111icação, Edições Jor-
nal d() Brasil, n. 35, março/abril 1972) pressupõe a existência
de três tjpos de escrita: a escrita-sujeito (rnltica), a escr(ta-ob·
jeto (id eológica) e umn -esc rita 1erceira que ultrapassa o slstemo
d o alfabeto. No segundo estudo : A Narrativa de E strutura Sim·
pies e de Est nitura Complexa (ReYista Vozes, Ed. Vozes, n. 4,
ano 66, maio 1972), o simples define as obras mlticas e ldco·
lógicas e o complexo inverte o sentido daqueles termos para
tomar a escrita como próprio referente.

.,
1 •,
'
e revistas. N a verdade, não existe sequer um "estilo poética do centramento e a poética do
'
.I!
descentra-' preender os primeiros anos de nosso Modernismo Otl '
"

modernista"2 mas autores aglutinados em torno de


certas datas fa lando idiomas Jiterarian1ente divergen-
mento. as linguagens que aí começaram a se ~o:m~lar.
l 1111 '"
11\l'llllll
1' h 1n11111111t1
•li•
4. O estudo da n atureza daquelas três linguagens O que é relevante nesse texto de Mar1? e seu oao~ 1
tes. criador. E a volta para o problema d~ ~1teratura en• · 11111110 lt ...
e dessas duas poéticas só se efetiva qúando se con-
O que se pretende aqui é analisar o solo lingüís- sulta a natureza mesma do Modernismo como um quanto escrita. Es,tabelece neste p~efac10 uma rela: 110 A Mtt
tico em que se estabeleceu o Modernismo nos seus evento ideológico de que a arte faz parte. Isolar a _ çúo intertextos operando uma fusao de seu pensa 1111111 1111
primeiros dez anos de vida. Localizadas as lingua- mento com pensamentos alheios, utilizando-se nii,Q YlllU,llht
série social e a série artística é o primeiro passo para
gens formadoras deste solo con1um, talvez se possa uma compreensão possível do todo heterogêneo em · exatamente do processo de apropriação, ma~ da e!,.. ' ln YI\ no•
partir para a compreensão dos prolongamentos do que se transformou o movimento de 1922. tação direta e da bibliografia, que T. S. Ehot utlll• '.~ 1h1i. .._ ...
movimento e chegar às obras mais recentes tanto de zoria também em seu The Waste Land em 1922. A · VoJ 11Vl1t~

"
I· un1 Guimarães Rosa quanto à poesia que passando
por João Cabral de Melo Neto se entreabriu numa Desenvolvimento crítica que ele faz de um soneto seu transcreven·
do-o, a transcrição de versos de Shakespeare ou. H o
. l llVll htttll
1111\lllt•I••
série de manifestações de vanguarda a exe{llplo do
Concretis1no. , 1. A de1nanda da linguagem mero, uma teorização que faz com que se. refira ' .ª llllVetl 110
11111A 111u ,
i vários outros autores nacionais e estrangeiro~, ev1·
1
1 Este estudo é apenas um embrião, uma possibili- dencia o dilaceramento da demanda de uma hngua· 111111111 ••••
dade de rumo. Os critérios históricos, estilísticos e Problen1átiea presente em todos os primeiros tex-
'' tos produzidos pelo Modernismo é a demanda de gem nova. Po5 is~o ele d~:nvo~~e a teoria. ~e que 1ui\1ll11 1lt
espácio-temporais de interpretação do Modernismo 1 h1 Ili •li 1 1
un1a nova linguagem, que fosse taticamente a rup-
loda construçao e destru1çao ( toda perfe1çao cm.
são aqui tomados secundariamente. Procuramos abrir nrte significa destruição"). . . . ' 1'111111•"• ~
espaço para un1a análise do Modernismo como fe- tura com a linguagem interna sin1bolista-parnasiana :B nessa mesn1a linha que vai o resto de Paullcé1t1 • 4n11- 111 t I
nômeno que só pode ser entendido quando subme- e a reversão das experiências vanguardistas européias Desvairada ( 1922) . A linguagem que aí se desen• '., JIC'l llll HYlt
tido a um enfoque epistemológico que indaga sobre em termos de uma linguagem autônoma & nacional. volve é artificial e rebuscada, muito próxima. ~o f rn· U-i•ltlll H•
o próprio fenômeno da linguagem . A obra de Mário de Andrade, e especialmente casso enquanto realização poética, mas prop1c1adora lfllll•
. Como tal, este trabalho terá que ser repensado por o "Prefácio Interessantíssimo" (1922) mostra o di- de caminhos a serem ou não seguidos por outros Alr111111
mais de un1a pessoa. Não é uma formulação teórica laceramento em que se empenhou o poeta. Esse tex- \l-f •li 11111111
.J
poetas. :e, nesse esforço de destruição e dilaceran1ento
acabada, n1as apenas tuna proposta de pesquisa, que
se pecar por generalizações não pecará certamente
to, procurando a saída pelo lúdico e pela ironia reve-
la a ausência de llln solo estável onde a poesia mo-
que se deve con1preender "As Enfibraturas do Ipl- . 1 ti ''"
" llM llllttl-
h••
ranga", u1n fracasso poético proposital. '.
. por reduplicar o que se vem dizendo monotona- derna pudesse se desenvolver. Tudo aí é proposição. Considere1nos outros textos e autores. Klaxon lhlj&llllpU
1
.! n1ente ao longo desses 50 longos anos. A própria maneira de fundir poesia e prosa, zon1- ( J 922) primeiro grupo a se organizar f~la insistente• . ·011111111111

bando de uma e outra, incorporando o soneto den- n1ente em "construção" e marca uma atitude voltada . th• 1111111 1
Proposição tro dessa prosa apresentada em forma de versos, para o futuro: "Klaxon procura: achará. Bate: n
porta se abrirá''.; Pau-B_ra_sil ( 1924) i_nsiste: "a p~i·
1
tudo aí revela uma procura e insatisfação. Fundando •
Este tr abalho pretende desenvolver os seguintes urna escola - "o desvairismo", que teve a duração
pontos básicos: meira construçao bras1le1ra no movimento de t O•
da leitura do prefácio, Mário opta por uma ativi- construção geral. Poesia Pau-Brasil". Essa busca de ( l 1 'Mlt
1. O Modernismo como linguagem é a tentativa dade inquietante que revela antes a busca do que un1 rnodus próprio de expressão se conf~nde com . ll\11 1111 li
de preenchimento de um vazio, procurando estabe- o encontro. n necessidade de criação de um novo púbhco e los• tll'll• 11 111•
lecer entre duas ordens de linguagem .- a interna Esse texto não faz questão de abolir seus parado- tnuração de outra realidade histórica e socia_l. À Rc• •· 11'1 11111'1 A
e a externa - o seu 1n'odus próprio. xos, porque é a part ir daí que se pensa em estabe- vista (1925) assinala: "falta-nos desde a ttpogratlr' • 1l.--.011v11I
2. Esse preenchimento resultou num aglomerado lecer um solo novo. Lança-se num exercício cons- alé 0 leitor" e reserva dois terços de seu manifesto 11•hu•l111111
11 1 a •
heterogêneo e o que seria apenas uma linguagen1 se ciente-inconsciente da escrita utilizando recursos fu- a falar não de literatura, n1as de política., propo11cJO
fraciona em pelo 1nenos três tipos de linguagem que turistas, dadaistas e falando repetidamente numa lin- uma reforma que atinge até a Constituição do paf~ . ,.,.., ,111 nr.
constituirão o solo inicial do movimento: a lingua- guagem freudiana que prenuncia o Surrealismo de Al ia-se assim claramente a idéia de que a pt~• . htl•h• 11t•I
Hllt'lll • •
'J
gem da mimese, a paráfrase e a paródia. Bretoo em 1924. Não se quer um futurista ("Não posta de linguagem que se estava faz~ndo ~r~ g1obr11 . f •"1 '1 l•t"''
sou futurista de Marinetti. Disse e repito-o"), mas 0 tinha vinculações mais amplas e 1deol?g1~as. A: · :~! :111 :1 /:~: 'l!t
·I 3. Essas três linguagens se desdobram em novas estranhamente se confessa ligado à tradição ("Sou questão entre o Modemisn10 e o Parn,as1_an1smo j_~ ' ••t1~,1 f'JI'~
articulações que possibilitam o conhecimento de duas passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma era a revolução de 1930 versus a Repubhca Vclb1 • ~ \\111 ~~ ~r11~
poéticas centralizadoras da produção modernista: a
(2) JOSÉ GUJLHl:RMI! MERQUJ<lf., Em Busca de uma Definição
só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste
livro seria hipócrita se pretendesse representar orien-
E o interesse nas linguagens européias era um
. dº•
de atualização que se manifestou contra ~.or1ame~ . ,
dose' ' ",,. .
•~• JIK•
••~IH
1 ~l 1i..,;t.,,
para o Estilo Modernista, O Estado de Suo Pa11/o, 14-5-1972, t ação moderna que ainda não compreende bem "). quando se concluiu que o que se atu~ltzava era , ,.,.,,,., ""
trabalha esse problcrn:t sem conseguir romper con1 os limites .da
própria estilística, presa sempre ao nível mfnlmo da frase e sem
A confissão de que ainda não absorveu a "orienta- tipo de governo forte 9ue Vargas ~mb1guamentc CS• · ;r,~: 11:~::1 ~111
penetrar o discurso que o texto guarda. ção moderna" é fundamental (e rara) para se com- tatuiu à sombra das ditaduras fascistas. , :· l111111n-•• "I
' ' 56
• 1

1 ,
111<1 1111 • tllo poética do centramento e a poética do descentra~· ptecnder os primeiros anos de nosso Modernismo ou Um enfoque histórico e sociológico poderia facil-
1o111 Ili 0 d mento. ns linguagens q ue aí começaram a se formular. mente situar em 1922 as linguagens que se entre·
11·1111· " rg n· 4. O estudo da. natureza daquelas três linguagens O que é relevante nesse texto de Mário é seu caos chocaram dez anos depois no regime Vargas. Cas-
e dessas duas poéticas só se efetiva quando se con- Gri ndor. E a volta para o problema da literatura en- siano Ricardo de Martin1 Cererê . (1928) é o mesmo
sulta a natureza mesma do Modernismo como um e1ua nto escrita. Estabelece nest.e prefácio uma rela- de A Marcha Para o Oeste, que já se tinha exerci-
ev~nto i?eológico de que a arte faz parte. Isolar a 960 intertextos op'erando uma fusão de seu pensa- tado no gove rno Campos Salles e organizaria o mo-
série social e a ~érie artfstica é o primeiro passo para me nto com pensamentos alheios, utilizando-se não vimento "Bandeira" em 19363. O comunismo já es-
uma compreensao poss1vel do todo heterogêneo em ,'(atamente do processo de apropriação, mas da ci- tava nos manif estos de Oswald de Andrade com to-
que se transformou o movimento de 1922. tnç üo direta e da bibliografia, que T. S. Eliot utili- dos os seus dilaceramentos entre a boêmia e a re-
ioria tambén1 em seu The Waste Land em 1922. A volução4. O Integralismo de Plínio Salgado já es-
Desenvolvimento critica que ele faz de um soneto seu transcreven· ta va inquieto no grupo Anta. O udenismo em suas
J o-o, a transcrição de versos de Shakespeare ou Ho múltiplas manifestações, n1as sempre a favor de um
incro, uma teorização que faz com que se refira a governo forte, de um nacionalismo convencional já
l. A dernanda da linguagem , v6rios outros autores nacionais e estrangeiros, evi- está em A Revista, uma versão moderna do despo-
~!lllibJJI. dencia o dilaceramento da demanda de uma lingua- tis1no esclarecido do século XVIII. Talvez o grande
Problem~tica presente em todos os primeiros tex-
~U, cos e getn nova. Por isto ele desenvolve a teoria de que mérito do Modernismo tenha sido o de ser câmara
~1111'11lsmo tos produzidos pelo Modernismo é a demanda de
l:oda construção é destruição ("toda perfeição em de eco dos "18 .do forte" da Coluna Prestes e dos
11 111 t!05 nbrlr un1a nova lin.guagem, q.ue fosse taticamente a rup- ca1nisas verdes. O que se prenuncia aí não é só 1930,
nrtc significa destruição").
1•1111 emo fe- tura com a linguagem interna simbolista-parnasiana
e nessa nlesma linha que vai o resto de Paulicéia 1nas 1932, 1935, 1937, 1945, 1954, 1964. O que se
111•1 ~ ubrne· e a reversão das exp~riências vanguardistas européias ' preparava transcendia aos preparadores. No Moder- ,
em termos de uma linguagem autônoma & nacional. Desvairada (1922). A linguagem que aí se desen-
.. ~"' D sobre volve é artificial e rebuscada, 1nuito próxima do fra- nis1no as contradições que nos assolaram nestes 50
~ obra. de Mário ~e Andrade, e especialmente anos.
Cnsso enquanto realização poética, mas propiciadora
ntlo por o Prefácio Interessant1ssimo" (1922) mostra o di·
<lc caminhos a seren1 ou não seguidos por outros Abrindo mão desse enfoque histórico-sociológico e
........ tcdrlcn
laceramcnto em que se empenhou o poeta. Esse tex-
~.
a, que to, proc urando a saída pelo lúdico e pela ironia reve-
poetas.:e. nesse esforço de destruição e dilaceramento voltando ao f enômeno do Modernismo enquanto bus-
ca de linguagen1 procuremos definir os termos com
q ue se deve compreender "As Enfibrat uras do Jpi·
rtamcnte la a ausência de um solo estável onde a poesia mo- ronga", um fracasso poético proposital. os quais trabalharemos neste artigo. Consideremos a
_,,,_onotonn- derna p~desse se. desenvolver. Tudo aí é proposição. Consideremos outros textos e autores. Klaxo11 linguagem da mimese, da paráfrase e da paródia, que
A p rópria maneira de fundir poesia e prosa, zom- ( J922) primeiro grupo a se organizar fala insistente- compuseram o solo inicial do movimento através
bando de uma e outra, incorporando o soneto den- tne nte em "construção" e marca uma atitude voltada de uma parábola inicial que remonta aos gregos.
tro dessa prosa apresentada em forma de versos • • pora o futuro: "Klaxon procura: achará. Bate: a
tudo aí revela uma procura e insatisfação. Fundand~ porta se abrirá". Pau-Brasil ( 1924) insiste: "a pri- 2. A "República" e a li11guagem
1 sulntes uma ~cola - "o desvairismo'', que teve a duração n1eira construção brasileira no movimento de re-
da leitura do prefácio, Mário opta por uma ativi- construção geral. Poesia P au-Brasil". Essa busca de O Cap . X de A República de Platão trata da ques-
t ntcuiva dade inquietante que revela antes a busca do que urn 1nod11s próprio de expressão se confunde com tão da mimes e e poderia ser intitulado: razões por
Cl!tabe- o encontro. n necessidade de criação de um novo público e ins- que o poeta deve ser expulso da comunidade e como
i Interna Esse texto não faz questão <le abolir seus parado- tauração de outra realidade histórica e social. A R e- recuperá-lo diante da lei. A maneira como o filósofo
xos, porque é a partir daí que se pensa em estabe- vista ( 1925) assinala: "falta-nos desde a t ipografia desenvolve o problen1a serve aqui para introduzir o
fl\orndo lecer un1 solo novo. Lança-se num exercício cons- nté o leitor", e reserva dois terços de seu manifesto relacionamento Arte & Ideologia, fundamental para
geni se ciente-inconsciente da escrita utilizando recursos fu- li fal ar não de literatura, n1as de política, propondo (3) e. importante ler nas
memórias de CASSIANO R!CAR.OO,
Ili q ue turistas, dadaístas e falando repetidamente numa lin- urna reforma que atinge até a Constituição do país. Vlago111 no Tenrpo e no Espaç<>, Rio, José Olympio, 1970, o sen-
11111 il lln3lla- guagem freudiana que prenuncia o Surrealisn10 de Alia-se assim claramente a idéia de que a pro- tido polhJco do movimento "Bandei ra", cujo decálogo respira e
Breton em 1924. Não se quer um futurista ("Não transpira a ideologia d;~ ditadura de Vargas. t; Cassiano quem diz
1\1I & • posta de linguagem que se estava fazendo era global ai: "Depois, cnJretanto, quando as coisas começaram a tomar
sou futurista de Marinetti. .D isse e repito-o") , mas e tinha vinculações mais amplas e ideológicas. A um rumo lnaceilávcl, o Est ado Novo (sem o sat>er), adotou o
111~1 novas estran~amente se confessa ligado à tradição ("Sou caminho previsto pela 'Bandeira' que estava certa, originalm<:ntc
1111·1 d duns questão entre o Modernisn10 e o Parnasianismo já certa, optando por unia democracia brasileira, típica, baseada
passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma e ra a revolução de 193() versus a República Velha. na Justiça social. Não é , outra a diretriz seguida, ho}e, no Bra~il.
~· · lsla: a só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste Ela se funda no principio da autoridade, como garantia para
E <l interesse nas linguagens européias era um desejo o exercício da liberdade. Nada mais presente, nos nossos dias,
livr51 seria hipócrita se pretendesse representar orien- de atualização que se manifestou contraditoriamente, do que o programa da 'Bandeira'". ·
taçao ~oderna que ainda não compreende bem"). (4) Luiz Cost a Lima no seu estudo aproveitado no volume
q uando se concluiu que o que se atualizava era o Potras do Mocler11J.1mo 1 v. 1, MEC/INL, 1972, retoma <> dila·
A confissão de que ainda não absorveu a "orienta- ttpo de governo forte que Vargas ambiguamente es- ceramento do Oswald de Andraôe disposto entre a visão român-
ção moderna" é fundamental (e rara) para se com- tico em uma revolução comunista e seu refestelar-se na boemia
tatui u à sombra das ditaduras fascistas. burguesa do princípio do s~culo.
MODERNISMO: AS POÉTICAS. . . 57
a discrin1inação das linguagens consti tutivas do Mo- tegradoras d a poesia que, se estimulada e liberada, 111edida em que operacionalizarmos os conceitos de Hu 111111 ll•tn
1 dernismo. dará lugar "ao prazer e à do r ent lugar d a lei e da ecntra1nento e descentran1ento do discurso artístico 1•li•1111•11t1111
I· ~ "
Platão parte de anotações sobre o sentido especular razao .
.
j

da linguage1n. Ele que en1 outros diálogos já havia


c1n relação à ideologia. 1111\'ll
" e) Desprestigiado e definido con10 e le1ne11to pe- 1 . Mbnese. C onsiderareJnos miinese no seu sen- 1111,1111 '
considerado a possibilidade de a língua ter se desen- rigoso, o poeta só pod~ ser aceito na República se tido primeiro: uma função espe~ular. L i?guage1n 11•11111- l ,.,
volvido a partir de cópia de sons da natureza, numa produzir uma poesia útil e consagradora dos ideais que reproduz a realidade de n1ane~ra s1métr1ca. V~J­
reprodução onomatopaica, aqui, considerando a ati- dessa instituição. ~ a isto que se dedica o filósofo ' /\ l 1" " ' " , , ,
" tada para os referentes ?'ternos e um~ _construç~o ··11111' 1111111
vidade ·especular da linguagem, diz: "Basta tomar um a ·demonstrar no terceiro lance de sua exposição. A q ue busca• na onon1atope1a e na repetiçao dos nt-
espelho e dar-lhe voltas para todos os lados : num poesia não deve ser apenas agraclâvel, "mas útil para p1 n ln 111•1
• n1os e sons, e na fabulação dos n~i tos a s.ua. ~e~li­ ; p1 1'1~ 1111111
instante farás o sol e tudo que há no céu, a T erra os regilnes políticos e à vida hu1nana. Pois muito 'l,ação. Ela se define como uma atitude prinut1v1sta
1.. e a ti mesmo, os animais, as p lan tas, os móveis e teríamos a ganhar se fosse, alén1 de deleitável, pro- e oscila entre o exercício da oralidade e a sua vo- tl11 '"' '''H
'
tudo o que dissemos"5. D esenvolvendo a idéia d a veitosa"'· O resto do escrito é p ara enfatizar que cação para se converter em oráculo de forças inte- ""'º' 1Ili.
1
'I
mimese, Platão introduz a sua tese que é despresti-
gia r o poeta in1itador para depois recuperá-lo ~ seu
"os hinos aos deuses e os e ncômios aos heróis são
o único gênero de poesia ad1nissível na cidade"ª·
riores. É a escrita da oralidade. "" '"I
11\11..11111
11111
Aqui nos referiremos não só a essa nlimese ex-
n1odo. Seu raciocínio pode ser decomposto em três P la tão coloca em cena três questões diferentes a '
1 lcrior e consciente, mas a uina outra n1imese - a 1•11111 li
1 lances : partir da problen1ática da n1i1nese: '•
1 1' interior e inconsciente. A pri1neira, P.latão se re- lt·~ l11 ...11
a) O poeta imitador deve ser expulso da Repí1- 1. A poesia imitativa pura e sin1ples não tem .'
.'l blica porque não é capaz de produzir objetos úteis. valor.
" feriu e a desprezou. A segunda foi condenada: o
poeta não pode expor as in1agens que feriu e a des·
~ 1111 111111111
~p11i'I h 11' 1
1
Con10 um pintor ele apenas reproduz a aparência 2. O poeta torna-se perigoso quando começa a . .1i prezou. A segunda foi condenada: o po~ta não .pode
d as coisas. Não é sequer um artesão, que concretiza dar vazão à sua linguage1n interior, fazendo falar o expor as in1agens que ele traz de seu inconsciente, •1 l " '"'
1 llllllh·•
un1a idéia inicialmente projetada por Deus. Numa reprin1ido inconsciente. porque essa desrepressão colide com a repressão pelo
repúblíca voltada para as coisas "úteis" e para o "lu- consciente e a lei. Consideraremos, portanto, uma lí l,1111· •. 1
3. A única chance d e aproveitamento do poeta
cro" , o poeta não tem função. Por isto deve-se pedir é ideológica. A República não admite a ociosidade cnin1ese consciente descritiva do real, e uma mimese 11111111111·
contas a Homero por nunca ter feito uma invenção d a a rte q ue apenas copia o exterior, não permite a inconsciente que ultrapassa o real compond o-se sur- l 1 1 li1. 11.. •
como Tales de lv1ileto, não ter s ido mestre de edu- transgressão com a liberação do inconsciente e re- realisticamente. ·D uas mimeses c omo duas ordens de lll·l l11r111
'' cação, não ter conduzido nenhu1na guerra, nem ter •' 1•11v11lvhl11
('
cornenda o can to aos heróis e às instituições. rcnlidade que se opõem.
1nelhorado cidade a lguma. A cresce que a poesia é E n1 Platão, portanto, a min1cse assume c aráter de 2. Paráfrase. É uma linguagem que toma con10 li 1111111 , .. 1
"1 de ta l sorte arte n1enor, que se tirarn1os das narra- con1plexidade, porque não é exatamente da 1nin1ese niodelo uma linguage1n ante rior escrita. Enquanto a V•' l'llll•
ções dos poetas as cores que lhe empresta a mlisica, que e le fala. Ele parte daí para colocar outros pon- 1t1in1ese baseia-se nas fontes ora is e mobiliza os orá· 111-~cl11l11 "
a poesia se converte em prosa sin1ples e sem valor. tos. Condena toda mi1nese que não seja uma m i111e- colos inconscientes., buscando os mitos e lendas, de· 11 1 , .,,,,,
b) Desprestigiado o poeta, o fi lósofo ven1 agora se de segundo grau - a cópia da história e a re- scnvolvendo-se mítica e 1nagican1ente, a paráfrase 111•111 111/1111
mostrar que alé1n do n1ais a poesia pode ser danosa produção dos 1nitos nacionais. 'foda a problemática volta-se para os textos anteriormente escritos para 1
ao espírito. A arte imitat iva não é apenas "a união parle de uma questão exterior à arte. Ou seja: a estabelecer u1na continuidade. Seu referente é a es~ 1 111• '""
u i (t 1li1111
de elementos inferiores" produzindo "frutos bastar- arte s6 é reconhecida con10 tal quando se centra na e rita anterior que busca reproduzir com pequenas
dos e vis", m as "o poeta imitativo imp!anta um re- ideologia da comunidade. a lterações de superfície, a tualizando o lé~c~, mas 1llt,.R11 1•-.
gime perverso na alma de cad a uni, condescendendo
con1 o elemento irracio na l que nela existe ( . .. )
Os problemas entrevistos a partir do projeto da
república platônica renascem nas repúblicas de todas
~cm ocultar sua vinculação corn uma semant1ca an•
Liq uada e o exercício de urna sintaxe que é a sintaxe
"'""".. ..
I ' 111 lt•l 111
criando aparências inteiramente desl igadas da ver- da ideologia e do poder. Seu desempenho é eSt.r\l• lh1l 111 lll
as épocas inclusive a brasileira. O problema da mi- '
.' dade ( .. . ) . Portanto, muito acertado andrunos e1n 1nese escamoteia outras questões. O que Platão que- 1uralmente especular. 11°111111 1 1111

não admiti-lo numa cidade que devia reger-se por ria era a vigência de uma só Jinguagen1, que se co- 3. Paródia. P rocura u1n corte com os n1odelo9 , l11•R1• .. ,
" boas leis, já que ele desperta, nutre e fortalece o ele- dificaria con10 a linguagem da insti tuição. N ossa nnteriores. É u1na ruptura ao nível da consciência, ·
..
n1ento deso rdenado en1 prejuízo da razão, con10 fa- tarefa daqui para frente será n1ostrar as diversas lin- urna não-reprodução insconsc!ente, primitiva e . inaO• !'. 1111 \'•I
1 ttlfl At•I t
•li
• ria que1n atraiçoasse a cidade dando o poder a uns g uagens ocultas sob o disfarce de un1 s6 non1e - nua de uma realidade estatu1da. Opera. uma 111\IQl'• ·: •l•lllh• "'l'''"
miseráveis e votando ao ostracismo os cidadãos mais tvfodernismo. Para efeito d e 1na ior cl areza introduzi- são e uni deslocan1ento. RetcHna a linguagem antlgii, "" "'"I~"
"I'•11111 'I'
prudentes"6. O raciocínio do fi lósofo encaminha-se n1ns de maneira assimétrica e invertida, denunclant'IO. .·· ..
.,,.,,,,., t"I
11•
mos a definição sun1ária d aqueles três tipos de lin-
para uma atitude repressiva, pois as páginas seguin- n ideologia aí subjacente. U tiliza-se das técnicas dn "
.. tes são um·a exortação à resistência, às forças des in-
g uagem e no resto do trabalho mostra remos como
elas se articulam dentro e fora da série social na npropriação e considera o poenia como ~111 obJ! .
t Ili 1 11
.,,,,.1,.. ••4••
• t•J•t•• ,,,, ••••
lingüístico. Não é um endosso, é uma crítica dn lfJl• t tt\ l1>ffll11•
(S)
(6)
PLATÃ<>. A Rep1íblfca. Rio, Edições de Ouro, 1970, p . 381.
Idem. Op. cit. p. 394.
(7)
(8)
ltlem, Op. cit. p. 397.
Idem. Op. cil. p, 396.
g uagem antiga. Por sua n atureza irônica mostra fn 1~
dupla e sua vinculação-desvin culação tática com 1
····1·
' ~~ ....11•t " ...
' . tll a.tCtt ith.

58
legradoras da poesia que, se estimulada e liberada,
dará lugar "ao prazer e à dor em lugar da lei e da medida em que operacionalizarn1os os conceitos de linguagem antiga. Linguagem fracionante, é um dos
11111... '11'• Jlll1ir razão". ccntramento e descentramento do discurso artístico ele.mentos da fração . Está no lin1iar da linguagen1
111111 ... ~tl;i l em relação à ideologia. nova.
. e) Desprestigiado e definido co1no ele111ento pe- l. Mi1nese. C onsideraremos n1iinese no seu sen-
lt·I •11 f\ • tin• rigoso, o poeta só pod ~ ser aceito na República se Essas três linguagens (e seus desdobra1nentos in-
1111111 ,,. j
produzir un1a poesia útil e consagradora dos ideais Lldo prin1ciro: uma fttnção especular. Linguage1n ternos) constitue1n o solo primeiro do Modernis1no.
ti• que rep roduz a realidade de maneira simétrica. Vol-
l11"1"ll 1 , . dessa instituição. ~ a isto que se dedica o fi lósofo Através delas procurou se aterrar o vazio descoberto
,.,., '"•tri . ·un1 a ·de!non3trar no terceiro lance de sua exposição. A t11da para os referentes ex.ternos é uma construção entre as duas ordens de linguagem - a interna, com-
que busca na ono1natopéia e na repetição dos rit-
..... .Murn poesia .nao dev~ ~cr apenas agradável, "n1as útil para p~sta pela tradição e que tinha como representantes
mos e sons, e na fabulação dos mitos a sua reali-
ra os regimes pohticos e à vida hu1nana. Pois m uito
zação. Ela se define como un1a atitude prin1itivista próximos os parnasianos e simbolistas rema nescentes
ler:íam~~ a ganhar se fosse, além d.e deleitável, pro- e oscila ent re o exercício da oralidade e a sua vo- do século X IX, e a outra, a externa, representada
veitosa 7 . O resto do escrito é para enfatizar que pelas correntes de vanguarda européia do p rincípio
cução para se converter em oráculo de forças inte-
''os hinos aos deuses e os encô.mios aos heróis são do século onde sobressaíam o Futurismo e o D a·
riores. S a escrita da oralidade.
o único gênero de poesia admissível na cidade"8. daísmo.
Aqui nos referiremos não só a essa min1ese .ex-
Platão coloca e1n cena três questões diferentes a
parlir da problemática da min1ese: lerior e consciente, mas a un1a outra mimese - a Para un1a n1elhor distribuição formal e didática
lutcrior e inconsciente . A pri111eira, Platão se re- deste estudo reagcnciare1nos aquelas linguagens lo-
1. A poesia imitativa pura e sin1ples não tem feriu e a desprezou. A segunda foi condenada: o
valor. calizando a convergência delas para dois tipos de
poeta não pode expor as inJagens que feriu e a des- poéticas que se estruturam no Modernis1no:
2. O poeta torna-se perigoso quando começa a prezou. A segunda fo i condenada: o poeta não pode
dar vazão à sua linguagc111 interior, fazendo fa lar o expor as imagens que ele traz de seu inconsciente, a) Poéticas do cen.tra1nento. São constituídas pe-
reprimido inconsciente. porque essa desrepressão colide con1 a repressão pelo la milnese consciente voltada para a cópia da rea-
3. A única chance de aproveitan1ento do poeta consciente e a lei. Consideraremos, portanto, uma lidade e pela paráfrase. Nessas poéticas o sobredeter-
é ideológica. A Rep ública não admite a ociosidade numese consciente descritiva do real, e uma mimese n1inante é o referente ex.temo, tanto a oralidade da
do arte que apenas copia o exterior, não permite a inconsciente que ultrapassa o real compondo-se sur- tradição quanto a tradição dos escritos. As duas se
transgressão com a liberação do inconsciente e re- realisticamente. Duas mimeses como duas ordens de definem como uma transcrição do real e achan1-se
con1enda o canto aos heróis e às instituições. realidade que se opõem. envolvidas com a ideologia, na qual se centram e
Em Platão, portanto, a 1ni1nese assu111e caráter de 2. Paráfrase. 1:. un1a Jinguagern que ton1a como a qual procura111 repr9duzir especularmente num uni-
con1plexidade, porque não é ex.atamente da mimese 111odelo u1na linguage1n anterior escrita. Enquanto a verso de infinitude-fechada. A linguagem que aí se
que ele fala. Ele parte daí para colocar outros pon- mi111ese baseia-se nas fontes orais .e 111obilizit os orá- desdobra é a linguagen1 do Mesmo9.
to~. Condena toda 1nhnese que não seja uma 1nime- culos inconscientes, buscando os nlitos e lendas, de-
se de segundo grau - a cópia da história e a re- b) Poéticas do desccntran1ento. Ilepresentadas
senvolvendo-se mítica e 1nagicainente, a paráfrase
produção dos 1nitos nacionais. ·roda a problen1ática volta-se para os textos anteriormente escritos para pela mi1ne.1·e inconsciente ou interior e .pela paródia.
parte de u1na questão exterior à arte. Ou seja: a estabelecer un1a continuidade. Seu referente é a es- Elas são um corte co1n o real. O referente externo
arte só é reconhecida con10 tal quando se centra na crita anterior que busca reproduzir com pequenas aí é domado. São u1na antiideologia. T oman1 a tra-
ideologia da con1unidade. . alterações de superfície, atualizando o léxico, mas dição escrita e dela se afastam procurando uma nova
~s proble~as. entrevistas a partir do projeto da sem ocultar s ua vinculação com uma semântica an- sintaxe e ordenando de m odo diferente a realidade.
republica ~laton1ca renascen1 n as repúblicas de todas tiquada e o exercício de un1a sintaxe que é a sintaxe Em tern1os gerais a linguagem aí presente é a do
os épocas inclusive a brasileira. O problema da mi- da ideologia e do poder. Seu desempenho é estru- Outroio, "daquilo que para uma cultura é a ug:i
n.1ese esca~o~eia. outras qu es~ões. O que Platão que- turalmente especular. tempo interior e estranho". b uma Jinguagen1 de ex-
n.a. era. a v1genc1a de uma so .linguagen1, que se co- 3. Paródia. Procura tnn corte com os modelos clusão e de excluídos.
d1(1cana como a linguagen1 da instituição. Nossa anteriores. ~ uma ruptura no nível da consciência,
turefa daqui para frente será mostrar as diversas lin· u1na não-reprodução insconsciente, primitiva e ingê- (9) Ver principnhnen le: A .r J'(l/a111•as e as Cois<M de MICHEL
i.J uage11s ocultas sob o disfa rce de um só no1ne - nua de l1n1a realidade cstatuída. Opera uma inver- FouCAULT, Portugália Editora, 1966. Aí define o Me'""º como
sendo aquilo que pa rn n cullura é algo a unt te mpo disperso e
Modernismo. Para efeito de n1aior clareza introduzi· são e un1 deslocao1ento. Retorna a li.n guagem antiga, aparentado, portnnto a distlnguii· por marcas e a recolher cm
ll.los a definição sumária daqueles três tipos de lin- n1as de maneira assimétrica e invertida, denu11ciando identidades. O caráter especular do .\lesmo aproxima-o d o l111a-
gi11ário de Jacques Lacan .
(lUD(;ern e no resto do trabalho 111ostraremos como a ideologia aí subjacente. Utiliza-se das técnicas de (10) O 0111ro par:i Foucault é o excluído pel a socicdad~,
olos se articulam dentro e fora da série social na apropriação e considera o poema como um objeto aquilo que o código social rcfuga. O Outro é sempre o lo uco,
como moslra o mc~mo Fou cault en1 sua flist6ria da Loucura.
• • ..... t
lingüístico. Não é um endosso, é uma crítica da lin· Em termos de poesia, o 0111ro é o Vate. que no sentido original
(7) Idem. Op. clt. p. 397. guagem antiga. Por sua natureza irônic!l mostra face significa - o po55csso. Con10 lembra lfuitinga cm seu H omo
(~) Idem. Op. cit . J>. 396. L11dens. os solistas txpulsaran1 os poetas do poder opondo um
dupla e sua vinculação-desvinculação tática com a conceito ideológico d: razão li poesia.

MODERNISMO: AS POÉ:TICAS ... 59


..
.t·
'1~1

1 n~.1111011 11111
Poéticas do centramento mobiliza para reagenciar certos ingredientes consa- · on1pre revelando uma crítica 13, mas apenas prese:·
l
, 1 . Mimese consciente. Um dos processos uti-
lizados para o preenchimento do vazio descoberto
bidamcnte brasileiros, reafirmando dadas marcas e
recolhendo idehtidades numa reafim1ação do Mesmo
nacional. f: uma operação de reconhecin1ento.
vnndo um descritivismo, como em "Ascenso de Re1-
111do" "Bumba meu Boi" e "A Cavalhada". Mais do
que ~m cost11mbrisn10 ~es~ont~ aí a repx'Qdução da
· wln 111tt1a11tl
t h.;o :

f entre a vanguarda européia e a tradição brasileira Melhor exemplo talvez, porque menos sofisticado • lh1-of111,
pnisagem dentro da propr1a hnguagem:
1 foi o reencontro com os mitos nacionais através da e realmente mais primitivo, pode-se desentranhar da e '111tl11 '
reconstrução do que seria nossa vida primitiva. O -if produção poética de Ascenso Ferreira através de Ca- Fitas e fitas
1>h1h11 lt1
e·,111h1, ..
poeta pôs-se a recontar lendas e a transcrever a tra- tilnbó ( 1927). Aí os ritmos poéticos nacionais, a Fitas e fitas . . .
dição oral para a escrita. A ssim surgiu uma solução 1nusicalidade da língua popular, a inclusão de pa- Fitas e fitas .. .
tanto no plano forma l da língua, quanto no plano lavras provenientes do africano e da cultura indí- Roxas,
' do conteúdo. Adotou-se o português falado com to- gena ajudan1 a co1npor a linguagem mimética. O Verdes,
Brancas, l'rl11
1111
dos os seus desvios de norn1a e incorporou-se à te- poema reproduz un1a atmosfera mágica, a oralidade -. UI~ tlllllllfl
mática da literatura todo um arsenal temático mal é expressa claramente no exa1ne da camada sonora Azuis ...

1
versado nos escassos livros de folclore e costlil.!nes.
Todo um léxico antes mantido apenas em capacidade
dos versos : ·
l
("A Cavalhada". l n: Catimb6)
''• 111 r•
( lln1111h•
1 ociosa foi reempregado e os modelos sintáticos fo- Zabumbas de bo1nbos O poeta coloca os sentidos a serv~ço da ai;>reen são 1>li 111·••
ram trazidos da realidade cotidiana e não m ais dos estouros de bonibas "'' do realidade exterior para reproduzir sensor1almente 1 ll'flll\'11
,j. livros. Deu-se urn reencontro com as fontes o rais batuques de ingonos
"
t\ sua cultura. Aí o próprio folclore é reescrito como •11111 Ili
if'· da cultura nacional. cantigas de banzo '
'
ern "Os Sinos" de Manuel Bandeira : 1h Pll\'11
rangir de ganzás ... 11 llnltÁ
Exemplo bem acabado dessa linguagem talvez seja
Cobra Norato ( 1931), que articula os mitos da gê- Loanda, Loanda, aonde estás?
' Sino de Belém, Ih •'11\'ll
nesis da nacionalidade revelando uma preocupação Loanda, Loanda, aonde estás? Sino da Paíxão ...
tan1bém com as imagens arquetípicas do indivíduolt. 1
Alén1 de Othon Moacyr Gaxcia, Alfredo Bosi insiste ("Maracatu". In: Catimbó) Sino de Belém,
nesta mesn1a linha: Sino da Paixão . . . •
" llltj&tl
Tome-se o poema intitulado " Catimbó" e que abre 11r 11t 11111h1
o citado livro. Aí a linguagem mítica da comunidade Sino do Bonfim,
diálogos do protagonista com os seres espantados da Sino do Bonfim itllll , , .. , , ••
floresta e do rio forniam o coro cósmico desse poema em sua versão mágica e popular: utilização de ex- . . . . . . . .. . . .. . . . . . )li h 1 ' ,,
original e ainda vivo como documento li1nite do primi- pressões típicas da macumba, alusão a signos caba- 1111li1 1 11111
tivisn10 entre nós. O telúrico interiori.z.ado e sentido como • ' ("Os Sinos". l n: Ritmo Dissoluto)
lísticos (três m arias, três reis magos, sete-estrelo, sig- r ,, U11111111 1
libido e instinto de n1orte: essa, a significação da voga no de salomão), elementos naturais tratados mitica- Ullltl!I lllltl
africanizante da Paris anterior à: · I Guerra (art negre); n1ente (fogo, água, ar) , introdução do personagem En1 Jorge de Lima tem largo emprego atraves-
no Brasil, o reencontro com as realidades arcaicas e pri- ~ li 11111111
ordenador do ritual ("Mestre Carlos rei dos mes- sondo três de seus livros - Poe1nas ( 1927), Novos
mordiais fazia-se, isto é, pretendia-se '.fazer sem inter- Jtt1ilt111 .... 1
tres/ aprendeu se1n se ensinar ... ) e a utilização do Poernas (1929) e Poen1as Negros (1947). O e~p~­
mediários. Ilusão de óptica: o primitivismo afirmou-se nho é aliciar a voz da natureza e da cultura pr1m1- i1lr11l1111h1
ritmo próximo das cantigas cncantatórias enfatizado ti