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TEOLOGIA SISTEMÁTICA

[Clique em ÍNDICE]

VOLUME I

CHARLES HODGE, D.D.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA [Clique em ÍNDICE ] VOLUME I CHARLES HODGE, D.D. Tradutor e digitador: Carlos Biagini

Tradutor e digitador:

Carlos Biagini

Teologia Sistemática (Charles Hodge) – Volumes I, II, III

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I SOBRE O MÉTODO

§1. A teologia, uma ciência

A necessidade de sistema em teologia

§2. O método teológico §3. O método especulativo Forma deísta e racionalista

Forma dogmática Os transcendentalistas §4. O método místico

O misticismo em sua aplicação à teologia

Consequências do método místico

§5. O método indutivo

O

método indutivo em sua aplicação à Teologia

A

coleta dos fatos

O

teólogo deve ser conduzido pelas mesmas regras

que o homem de ciência. Necessidade de uma indução completa Os princípios devem ser deduzidos com base nos fatos

§6. As Escrituras contêm todos os fatos da Teologia.

O Ensino do Espírito

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CAPÍTULO II TEOLOGIA

§1. Sua natureza

Definições de teologia Teologia natural §2. Os fatos da natureza revelam a Deus

A. Resposta aos argumentos anteriores

B. Argumento escriturístico para a Teologia Natural

§3. A insuficiência da Teologia Natural

A.

O

que dizem as Escrituras a respeito da salvação

dos homens. A salvação das crianças.

B.

A

regra do juízo para os adultos

C.

Todos os homens sob condenação.

D. As condições necessárias para a salvação

E. Objeções

§4. A teologia cristã

Teologia Própria Antropologia Soteriologia Escatologia Eclesiologia

CAPÍTULO III RACIONALISMO

§1. Significado e uso do termo §2. Racionalismo deísta

A. Possibilidade de uma revelação sobrenatural

B. Necessidade de uma revelação sobrenatural

C. As Escrituras contêm uma revelação assim

O argumento da profecia

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Argumento com base nos efeitos do Evangelho §3. A segunda forma do racionalismo.

A. Sua natureza

B. Refutação

C. História

Racionalismo na Alemanha §4. Dogmatismo, a terceira forma do racionalismo

A. Significado do termo Wolfianismo

B. Refutação

O testemunho das Escrituras contra o dogmatismo

§5. O papel próprio da razão em matéria de religião

A.

A razão é necessária para a recepção de uma Revelação

Diferença entre Conhecimento e Entendimento.

B. A razão deve julgar a respeito da credibilidade de uma

C.

Revelação

O

impossível não pode ser crido

O

que é impossível

Prova desta prerrogativa da razão

A razão deve julgar quanto às Evidências de uma Revelação

§6. Relação entre a filosofia e a Revelação

A filosofia e a teologia ocupam um terreno comum

Os filósofos e os teólogos deveriam esforçar-se pela unidade

A autoridade dos fatos

A autoridade da Bíblia, mais elevada que a da Filosofia

§7. O papel dos sentidos nos assuntos da fé

CAPÍTULO IV MISTICISMO

§1. Significado das palavras entusiasmo e misticismo.

A. Uso filosófico do termo

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B. O sentido em que os cristãos evangélicos são chamados místicos.

C.

O

sistema que faz dos sentimentos a fonte do conhecimento

A

teoria de Schleiermacher

D.

O

misticismo conhecido na História da Igreja

O

misticismo não é idêntico à doutrina da “iluminação do Espírito”

Difere da doutrina da “guia do Espírito” Difere da doutrina da “graça comum” §2. O misticismo na Igreja Primitiva

A. montanismo

O

B. assim chamado Dionísio, o areopagita

C. neoplatonismo

O

O

Causas da influência dos escritos do pseudo-Dionísio §3. O misticismo durante a Idade Média

A. Características gerais daquele período.

A primeira classe de teólogos medievais

A segunda classe

B. Místicos medievais Tendências panteístas do misticismo

Os místicos evangélicos

§4. O misticismo durante e depois da Reforma.

A.

O

efeito da Reforma na mente popular.

As desordens populares não foram um efeito da Reforma

B.

Místicos entre os Reformadores

Sckwenkfeld

Os místicos posteriores §5. O Quietismo

A. Seu caráter geral

B. Líderes deste movimento

Madame Guyon Arcebispo Fénélon

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§6. Os Quakeres ou Amigos

A. Sua origem e primeira história

B. Suas doutrinas. As doutrinas dos Amigos Ortodoxos Amigos Heterodoxos

C. A doutrina dos Amigos quanto à luz interior dada a todos os homens As posturas de Barclay

§7. Objeções à Teoria Mística

O

misticismo não se baseia nas Escrituras

O

misticismo é contrário às Escrituras

O

misticismo é contrário aos fatos da experiência

Não há critério para julgar da fonte de sugestões interiores

A doutrina é produtora de males

CAPÍTULO V A DOUTRINA CATÓLICA ROMANA A RESPEITO DA REGRA DA FÉ

§1. Declaração da doutrina

§2. A doutrina Católica Romana a respeito das Escrituras As Escrituras são incompletas

A obscuridade das Escrituras

A Vulgata Latina

§3. A Tradição

A Doutrina Tridentina

§4. O ofício da Igreja como Mestra

Os órgãos da infalibilidade da Igreja

A teoria Ultramontana

§5. Exame das doutrinas romanistas

§6. Exame da doutrina da Igreja de Roma a respeito da Tradição

A. Diferença entre Tradição e a Analogia da Fé

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B. Pontos de diferença entre a doutrina romanista e a dos protestantes a respeito do consentimento comum.

C. Tradição e Desenvolvimento

A

moderna teoria do desenvolvimento

O

desenvolvimento conforme sustentam alguns romanistas

A

verdadeira questão

D. Argumentos contra a doutrina da Tradição

Não há promessa de intervenção divina Não há critério

O

consentimento comum não é critério

O

inadequado das evidências do consentimento

A

tradição não está à disposição do povo

A

tradição destrói a autoridade das Escrituras

As Escrituras não são recebidas sobre a base da tradição §7. O ofício da Igreja como Mestra

A.

A doutrina romanista a respeito desta questão

B.

A definição romanista da Igreja se deriva do que é agora a

Igreja de Roma

C.

A definição romanista da Infalibilidade baseada sobre uma teoria errônea da Igreja. A doutrina protestante da natureza da Igreja As teorias conflitivas a respeito da Igreja Prova da doutrina protestante da Igreja

D.

A doutrina da Infalibilidade se baseia na falsa pressuposição da perpetuidade do apostolado Os modernos prelados não são apóstolos

E.

A Infalibilidade se baseia numa falsa interpretação da promessa de Cristo

F.

A doutrina é contrariada pelos fatos

A apostasia ariana

A evasão romanista deste argumento

A Igreja de Roma rejeita a doutrina de Agostinho

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G. A Igreja de Roma ensina agora o erro H. O reconhecimento de uma Igreja Infalível é incompatível com a liberdade religiosa ou civil

CAPÍTULO VI A REGRA PROTESTANTE DA FÉ

§1. Enunciado da doutrina O Cânon §2. As Escrituras são infalíveis, isto é, são dadas por Inspiração Divina

A.

A natureza da Inspiração. Definição

B.

A Inspiração é sobrenatural

C.

Distinção entre Revelação e Inspiração

D.

Homens inspirados foram órgãos de Deus

E.

Prova da doutrina Argumento baseado no significado da palavra profeta

O

que os profetas disseram, Deus o disse

A

inspiração dos escritores do Novo Testamento

O

Testemunho de Paulo

F.

A Inspiração estende-se igualmente a todas as partes da

Escritura

G.

A

Inspiração das Escrituras estende-se às Palavras.

Inspiração plenária

H.

Considerações gerais em apoio da doutrina

I. Objeções

Discrepâncias e erros Objeções históricas e científicas §3. Teorias adversas

A. Doutrinas naturalistas

A teoria de Schleiermacher

Objeções à teoria de Schleiermacher

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B. Inspiração graciosa

Objeções à doutrina de que a inspiração é comum a todos os crentes

C. Inspiração parcial

§4. A Integridade das Escrituras

§5. A perspicuidade das Escrituras. O direito ao juízo privado

O povo tem ordem de esquadrinhar as Escrituras

§6. Regras de interpretação

PARTE I: TEOLOGIA PRÓPRIA

CAPÍTULO I A ORIGEM DA IDEIA DE DEUS

§1. O conhecimento de Deus como coisa inata A. O que se entende por conhecimento inato

B. Prova de que o conhecimento de Deus é inato

O conhecimento de Deus é universal

Objeções à pressuposição de que o conhecimento de Deus é universal

A crença em Deus é necessária

deve a um processo de

§2. O conhecimento de Deus não se raciocínio

§3.

Tradição §4. Pode-se demonstrar a existência de Deus?

O

conhecimento

de

Deus

o

se

deve

exclusivamente

à

CAPÍTULO II TEÍSMO

§1. O argumento ontológico

O argumento de Descartes

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O

argumento do doutor Samuel Clarke

O

argumento de Cousin

§2. O argumento cosmológico

A. causalidade

A

A

A

O

doutrina comum sobre esta questão

convicção intuitiva da necessidade de uma Causa

mundo é um efeito

B. argumento histórico

O

O

argumento geológico

C. Objeções. A doutrina de Hume

A segunda objeção §3. O argumento teleológico

A. Sua natureza.

B. Evidências de desígnio no mundo Desígnio em órgãos singelos

Desígnio na relação de um órgão ao outro

A adaptação dos órgãos ao instinto dos animais

Argumento com base na previsão Organismos vegetais Quanto às adaptações da natureza

Todas criaturas vivas sobre a terra têm relações orgânicas Evidência de que a terra foi designada para o homem Disposições cósmicas §4. Objeções ao argumento com base no desígnio

A.

B.

A negação das causas finais

Objeções de Hume e Kant

Resposta às objeções

C.

Objeções miscelâneas Órgãos inúteis

O instinto

§5. O argumento moral ou antropológico

A. Natureza do argumento

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B. Argumento baseado na existência da mente

C. Baseado na natureza da alma

D. Baseado na natureza moral do homem Nossos sentimentos morais não se devem à educação

CAPÍTULO III TEORIAS ANTITEÍSTAS

§1. Que se entende pelo Antiteísmo Ateísmo É possível o Ateísmo? §2. Politeísmo §3. Hilozoísmo §4. Materialismo

A.

A

doutrina de Epicuro

B.

O

materialismo na Inglaterra durante o século dezoito

 

Locke

 

Hartley

Priestley

C.

O

materialismo na França durante o século dezoito

D.

O

positivismo

Observações Aplicações práticas do Positivismo

E.

O

materialismo científico.

Princípios condutores Correlação das Forças Físicas e Vitais

Teoria do Dr. Carpenter

As opiniões mais avançadas

O argumento para as correlação das Forças Físicas e Vitais

Vida animal Os fenômenos mentais Os físicos alemães.

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F. Refutação

O

materialismo contradiz os atos da consciência

O

materialismo contradiz as Verdades da Razão

O

materialismo é inconsequente com os fatos da experiência

O

materialismo é Ateu

A

correlação das forças físicas, vitais e mentais

Os argumentos a favor de tal correlação não são válidos

O argumento da analogia

Argumentos adicionais dos Materialistas Argumentos diretos contra a teoria da correlação das forças

físicas, vitais e mentais Prof. Joseph Henry Dr. Beale Alfred Russel Wallace As forças vitais e as físicas não são conversíveis Wallace, o naturalista §5. Panteísmo A. O que é o Panteísmo Princípios gerais do sistema História do panteísmo

B. Panteísmo Brahmânico

A religião dos hindus, não originalmente monoteísta

Era panteísta Relação do Ser infinito com o mundo

Relação do Panteísmo com o Politeísmo

O

efeito do Panteísmo sobre a religião

O

caráter do culto hindu

A

antropologia dos hindus

O efeito do panteísmo sobre a vida social dos hindus

C. panteísmo grego

O

A

escola jônica

A

escola eleática

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Os Estoicos

Platão

As Ideias

A relação das Ideias com Deus na filosofia de Platão

A cosmogonia de Platão

A natureza da alma

Aristóteles

D. O panteísmo medieval. Os Neoplatonistas João Escoto Erígena

E. O panteísmo moderno. Espinoza

F. Conclusão

CAPÍTULO IV O CONHECIMENTO DE DEUS

§1. Deus pode ser conhecido.

A. Estado da questão Deus é inconcebível Deus é incompreensível Nosso conhecimento de Deus é parcial

B. Como conhecemos a Deus?

C. Prova de que este método é fidedigno

Nossa natureza moral demanda esta ideia de Deus Nossa natureza religiosa faz a mesma demanda Argumento com base na Revelação de Deus na Natureza Argumento com base na Escritura Argumento com base na manifestação de Deus em Cristo §2. Deus não pode ser conhecido plenamente.

O argumento de Sir William Hamilton Só o Infinito pode conhecer o Infinito

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O

Infinito não pode Conhecer

O

Absoluto não pode ser a Causa

A

Conclusão a que conduz o argumento de Hamilton

§3. A doutrina de Hamilton A. Deus é um objeto da fé, mas não do Conhecimento Diferentes classes de ignorância Prova de que Hamilton nega que podemos conhecer a Deus

A

doutrina de Hamilton sobre Deus como um objeto de Fé

O

Impensável, ou Impossível, não pode ser um objeto de fé

O

Conhecimento é essencial à fé

B. Conhecimento regulador

Objeções à doutrina do conhecimento regulador

C. Objeções à teoria inteira Definição errada de conhecimento Que se quer dizer por conhecimento

A doutrina de Hamilton conduz ao cepticismo

A necessidade de uma Revelação sobrenatural

CAPÍTULO V A NATUREZA E OS ATRIBUTOS DE DEUS

§1. Definições de Deus

O ser de Deus

§2. Os Atributos divinos

A relação dos atributos com a essência de Deus

Os Atributos divinos Os atributos divinos não diferem só em nossas concepções Os atributos divinos não são resolvidos na Causalidade Os atributos divinos diferem virtualmente §3. A classificação dos atributos divinos

§4. A espiritualidade de Deus

A. O significado da palavra “Espírito”

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B. Consequências da Espiritualidade de Deus

As Escrituras confirmam estas posturas §5. Infinitude A ideia de Infinitude não é uma meramente negativa

A. Infinito não é o Todo

B. Infinitude de Deus com relação ao espaço

§6. Eternidade

A. doutrina escriturística

B. postura filosófica

A

A

Posturas filosóficas modernas §7. Imutabilidade Declarações Filosóficas Os atributos absolutos de Deus não são inconsistentes com a

Personalidade

§8. Conhecimento

A.

Sua natureza

A

teoria panteísta impede a possibilidade de conhecimento de

Deus Conhecimento e Poder não se devem confundir A doutrina da Escritura a respeito deste extremo

B.

Os objetos do conhecimento divino

O atual e o possível

C.

A Scientia Media

A origem desta distinção

D.

Presciência

E.

A

Sabedoria de Deus

§9. A vontade de Deus

A. Significado do termo

B. liberdade da Vontade Divina

C. Vontade decretiva e preceptiva de Deus

D. Vontade antecedente e consequente

E. Vontade absoluta e condicional

A

A

A

A

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F. A vontade de Deus como base da obrigação moral

§10. O poder de Deus

A.

A

natureza do poder, ou, A origem da ideia

B.

Onipotência

C.

A

negação do poder

D.

Poder absoluto

“Potentia absoluta” e “Potentia Ordinata” E. Não se devem confundir Vontade e Poder Esta doutrina destrói nosso conhecimento de Deus §11. A santidade de Deus

Razões alegadas para negar os atributos morais de Deus §12. Justiça

A. Sentido do termo

B. A justiça em sua relação com o pecado

C. A reforma do ofensor não é o objeto primário do castigo

D. prevenção do crime não é o objeto primário do castigo

A

A

Teoria Otimista

E. Prova da doutrina escriturística

O

argumento da experiência religiosa dos crentes

O

sentido da justiça não se deve à cultura cristã

Argumento com base na santidade de Deus

Argumento da conexão entre pecado e miséria

Argumento

com

base

nas

doutrinas

bíblicas

satisfação e da justificação

O argumento de Paulo

da

F. Concepções filosóficas da natureza da justiça

§13. A bondade de Deus

A.

A

doutrina escriturística

Benevolência

Amor

B.

A

existência do mal

Teorias que envolvem a negação do pecado

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O pecado considerado como o meio necessário para o maior bem

Objeções a esta teoria

A doutrina de que Deus não pode impedir o pecado

num sistema moral

A doutrina escriturística

§14. A verdade de Deus §15. A soberania de Deus

CAPÍTULO VI A TRINDADE

§1. Observações preliminares

§2. Forma bíblica da doutrina

A. Qual é a forma que adota

B. Prova escriturística da doutrina Caráter progressivo da Revelação divina

A fórmula batismal

A bênção apostólica

§3. O período de transição

A. A Necessidade de uma declaração mais definida da doutrina B. Conflito com o erro Os gnósticos Os platonistas

A doutrina de Orígenes

A teoria sabeliana

Arianismo

§4. A doutrina da Igreja apresentada no Concílio de Niceia

A. Os Motivos pelos quais se convocou o Concílio Diferença de opinião entre os membros do Concílio Os Semi-Arianos Os Ortodoxos

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B.

O

Concílio de Constantinopla

O

Credo chamado Atanasiano

O Credo Atanasiano §5. Pontos decididos pelos Concílios de Niceia e de Constantinopla

A.

Contra o Sabelianismo

B.

Contra os arianos e os semi-arianos

C.

A

relação mútua das Pessoas da Trindade

§6. Exame da Doutrina Nicena

A. Subordinação

B. Geração eterna

C. Filiação eterna Objeções à doutrina Salmo 2:7 Atos 13:32,38 Lucas 1:35

D. Relação do Espírito com as outras Pessoas da Trindade

§7. Concepções filosóficas da doutrina da Trindade

Trinitarianismo panteísta

CAPÍTULO VII A DIVINDADE DE CRISTO

§1. O testemunho do Antigo Testamento O Proto-Evangelho Jeová e o Anjo de Jeová

A.

O

Livro de Gênesis

B.

Os outros livros históricos do Antigo Testamento

C.

Diferentes modos de explicar estas passagens

D.

Os Salmos

E.

Os Livros Proféticos

§2. As características gerais do ensino do Novo Testamento a respeito de Cristo

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A.

O

sentido em que Cristo é chamado Senhor

B.

Cristo é apresentado como o Objeto de nossos afetos

religiosos C. As relações que Cristo tem com Seu povo e com o mundo

Sua autoridade como Mestre

Seu controle sobre todas as criaturas

D.

A

natureza de Suas promessas

E.

Seu controle sobre a natureza

§3. Passagens particulares do Novo Testamento que ensinam a Divindade de Cristo

A. Os Escritos de São João Outras passagens no Evangelho de São João

O último discurso de nosso Senhor

As Epístolas de São João

O Apocalipse

B. As Epístolas de São Paulo As Epístolas aos Coríntios

Gálatas

Efésios

Filipenses

Colossenses

As Epístolas Pastorais

A Epístola aos Hebreus

C. Os outros Escritores Sagrados do Novo Testamento

CAPÍTULO VIII O ESPÍRITO SANTO

§1. Sua natureza

A.

Sua Personalidade

Prova de Sua personalidade

B.

A

Divindade do Espírito Santo

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A relação do Espírito com o Pai e o Filho

§2. O ofício do Espírito Santo

A. Em a Natureza

O Espírito, a fonte de toda vida intelectual

B. O ofício do Espírito na obra da Redenção

§3. História da doutrina a respeito do Espírito Santo

CAPÍTULO IX OS DECRETOS DE DEUS

§1. A natureza dos Decretos divinos

A. A Glória de Deus é a causa final de Seus Decretos

B. Os Decretos são reduzíveis a um propósito

C. Os Decretos de Deus são eternos

D. Os Decretos de Deus são imutáveis

E. Os Decretos de Deus são livres

F. Os Decretos de Deus são certamente eficazes

G. Os Decretos de Deus se relacionam com todos os acontecimentos As ações livres estão predeterminadas

§2. Objeções à doutrina dos decretos divinos

A. A preordenação, inconsequente com o livre-arbítrio

B. A preordenação do pecado, inconsequente com a santidade

C. A doutrina dos decretos destrói todo motivo para o esforço

D. É fatalismo

CAPÍTULO X A CRIAÇÃO

§ 1. Diferentes teorias sobre a origem do universo A teoria puramente física

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As teorias que assumem Inteligência na própria natureza

A doutrina escriturística

§2. Criação mediata e imediata §3. Prova da doutrina §4. Objeções à doutrina Resposta às objeções anteriores §5. O propósito da Criação

Doutrina escriturística quanto ao propósito da Criação §6. O relato mosaico da Criação Objeções ao relato mosaico da Criação

A Geologia e a Bíblia

CAPÍTULO XI A PROVIDÊNCIA

§1. Preservação

A natureza da preservação

A preservação não é uma criação contínua

Objeções à doutrina de uma criação contínua A doutrina escriturística a respeito desta questão

§2. Governo

Enunciado da doutrina

A. Prova da doutrina 1. Prova com base na evidência da operação da

Mente em todos lugares

2. Argumento com base em nossa natureza religiosa

3. Argumento com base nas predições e promessas

4. Argumento com base na experiência

B. As Escrituras ensinam a providência de Deus sobre a natureza

A providência se estende sobre o mundo animal Sobre as nações

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Sobre os indivíduos

A providência de Deus com relação às ações livres

A relação da providência de Deus com o pecado

§3. Teorias diferentes a respeito do governo divino

A. A teoria deísta da relação de Deus com o mundo

B. A teoria da completa dependência Objeções a esta doutrina da dependência

C. A doutrina de que não há eficiência exceto na mente

D. Teoria da harmonia preestabelecida

E. A doutrina de Concursus Observações a respeito da doutrina de Concursus

§4.

Os

princípios

Providência

envoltos

na

doutrina

escriturística

da

A.

A Providência de Deus sobre o universo material

A matéria é ativa

As leis da Natureza

A

uniformidade das leis da Natureza, congruente com

 

a doutrina da Providência

 

A Providência de Deus com relação aos processos vitais

B.

A

Providência de Deus sobre as criaturas racionais

Distinção entre a eficiência providencial de Deus e as influências do Espírito Santo

Conclusão

CAPÍTULO XII OS MILAGRES

§1. Sua natureza. Significado e uso da palavra Definição de Milagre Objeções a esta definição de Milagre Resposta à objeção anterior Leis mais elevadas

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Objeções à doutrina de uma lei superior

Os milagres e as providências extraordinárias §2. A possibilidade dos milagres §3. Pode um milagre ser conhecido como tal? Prodígios mentirosos

A insuficiência do testemunho humano

§4. O valor dos milagres como prova da Revelação divina

CAPÍTULO XIII OS ANJOS

Introdução §1. Sua natureza Erros a respeito desta questão §2. Seu estado §3. Suas missões §4. Os anjos maus

O poder e a atividade dos maus espíritos

Possessões demoníacas

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INTRODUÇÃO

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CAPÍTULO I

SOBRE O MÉTODO

§ 1. A teologia, uma ciência

EM todas as ciências há dois fatores: fatos e ideias; ou, fatos e a mente. A ciência é mais que conhecimento. O conhecimento é a persuasão a respeito do que é certo com base numa evidência adequada. Mas os dados da astronomia, da química ou da história não constituem a ciência destes departamentos do conhecimento. Tampouco a mera disposição ordenada dos fatos constitui ciência. Os fatos históricos narrados por sua ordem cronológica são meros anais. A filosofia da história supõe que estes fatos devem ser compreendidos com base em suas relações causais. Em cada departamento supõe-se que o homem de ciência deve compreender as leis por meio das que se determinam os fatos da experiência; de modo que não só conheça o passado, mas também possa predizer o futuro. O astrônomo pode predizer a posição relativa dos corpos celestes para os séculos futuros. O químico pode dizer com certeza qual será o efeito de certas combinações químicas. Então, se a teologia é uma ciência, deve incluir algo mais que um mero conhecimento dos fatos. Deve incluir uma exibição da relação interna destes fatos, uns com os outros, e de cada um deles com todos os outros. Deve poder mostrar que se se admitir um, não se podem negar os outros. A Bíblia não é um sistema de teologia do mesmo modo que a natureza não é um sistema de química ou de mecânica. É na natureza que encontramos os fatos que o químico ou o físico devem examinar, e deles determinar as leis que os regem. Da mesma maneira, a Bíblia contém as verdades que o teólogo tem que recolher, dispor e exibir em sua mútua relação interna. Esta é a diferença entre a teologia bíblica e a sistemática. A função da primeira é determinar e enunciar os fatos da Escritura. A função da última é tomar estes fatos, determinar sua relação entre si e com outras verdades relacionadas, assim como vindicá-las e mostrar sua

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harmonia e consistência. E esta não é uma tarefa fácil, nem de pouca importância.

A necessidade de sistema em teologia

É natural perguntar-se: Por que não tomar as verdades tal como

Deus viu adequado revelar, e nos poupar assim a fadiga de mostrar sua relação e harmonia?

A resposta a esta pergunta é, em primeiro lugar, que não se pode

fazer assim. É tal a constituição da mente humana que não pode deixar de tentar sistematizar e conciliar os fatos que admite como certos. Em nenhum departamento do conhecimento os homens ficaram satisfeitos com a posse de uma massa de fatos não assimilados. E tampouco se pode esperar que os estudantes da Bíblia fiquem satisfeitos com isso. Existe, portanto, a necessidade de construir sistemas de teologia. Sobre isto a história da Igreja dispõe de prova abundante. Tais sistemas foram produzidos em todas as idades e entre todas as denominações. Segundo: obtém-se desta maneira uma classe muito superior de conhecimento ao que se consegue pela mera acumulação de fatos isolados. Uma coisa é saber, por exemplo, que existem oceanos, continentes, ilhas, montes e rios por toda a superfície da terra; e outra coisa mais elevada é saber as causas que determinaram a distribuição da terra e da água sobre a superfície de nosso globo; a configuração da terra; os efeitos desta configuração sobre o clima, sobre as raças de plantas e animais, sobre o comércio, a civilização e o destino das nações. É pelo fato de determinar estas causas que a geografia foi elevada de uma coleção de fatos para uma ciência altamente importante e elevada. De certa forma, sem o conhecimento das leis de atração e movimento, a astronomia seria uma coleção confusa e ininteligível de atos. O que é certo de outras ciências é certo da teologia. Não podemos saber o que é que Deus nos revelou em Sua palavra a não ser que compreendamos, ao menos em certa medida, a relação que têm entre si as verdades separadas que esta Palavra contém. Custou à Igreja séculos de estudo e

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controvérsia resolver o problema a respeito da pessoa de Cristo; isto é, ajustar e levar a uma disposição harmônica todos os fatos que a Bíblia ensina a respeito deste tema. Terceiro: Não temos escolha nesta questão. Se queremos cumprir nosso dever como mestres e defensores da verdade temos que tratar de trazer todos os fatos da revelação a uma ordem sistemática e uma mútua relação. Só assim poderemos exibir de uma maneira satisfatória sua veracidade, vindicá-los diante de objeções, ou fazer com que exerçam todo seu peso sobre as mentes dos homens. Quarto: Esta é evidentemente a vontade de Deus. Ele não ensina aos homens astronomia nem química, mas lhes dá os fatos com base nos quais se erguem estas ciências. Tampouco nos ensina teologia sistemática, mas nos dá na Bíblia as verdades que, apropriadamente entendidas e ordenadas, constituem a ciência da teologia. Assim como os fatos da natureza em todos relacionados e determinados pelas leis físicas, assim os fatos da Bíblia estão todos relacionados e determinados pela natureza de Deus e de Suas criaturas. E assim como Ele quer que os homens estudem Suas obras e descubram sua maravilhosa relação orgânica e harmônicas combinações, assim é Sua vontade que estudemos Sua palavra, e aprendamos que, como as estrelas, Suas verdades não são pontos isolados, mas sim sistemas, ciclos e epiciclos numa harmonia e grandeza sem fim. Além disto, embora as Escrituras não contêm um sistema de teologia como um todo, temos partes elaboradas deste sistema nas Epístolas do Novo Testamento. E estas são nossa autoridade e guia.

§ 2. O método teológico

Cada ciência tem seu próprio método, determinado pela peculiar natureza da mesma. Esta é uma questão de tal importância que foi constituída como um departamento próprio. A literatura moderna abunda em obras sobre Metodologia, isto é, sobre a ciência do método, e estas obras têm o propósito de decidir os princípios que deveriam reger as

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investigações científicas. Se se adotar um método falso, é como quem toma um caminho errôneo que nunca o levará a seu destino. Os dois grandes métodos inclusivos são o a priori e a posteriori. O primeiro argumenta da Causa ao efeito, o segundo do efeito à causa. O primeiro se aplicou durante séculos inclusive à investigação da natureza. Tentava-se determinar quais devem ser os atos da natureza com base das leis da mente ou das supostas leis necessárias. Até em nosso próprio tempo tivemos Cosmogonias Racionais, que levam a construir uma teoria do universo da natureza de ser absoluto e seus modos necessários de desenvolvimento. Todos sabem o que custou estabelecer o método da indução sobre uma base firme e obter um reconhecimento geral de sua autoridade. Segundo este método, começamos recolhendo fatos bem estabelecidos, e deles inferimos as leis gerais que os regem. Com base no fato de que os corpos caem rumo ao centro da Terra se inferiu a lei geral da gravitação, que estamos autorizados a aplicar muito além dos limites da experiência real. Este método indutivo se baseia em dois princípios:

Primeiro: Que há leis da natureza (forças) que são as causas próximas dos fenomenais naturais. Segundo: Que estas leis são uniformes. Por isso temos a segurança de que as mesmas causas, sob as mesmas circunstâncias, produzirão os mesmos efeitos. Pode dar-se uma diversidade de opinião a respeito da natureza destas leis. Pode supor-se que sejam forças inerentes na matéria; ou podem ser consideradas como modos uniformes da operação divina; mas em todo caso deve haver alguma causa para os fenômenos que recebemos ao nosso redor, e esta causa deve ser uniforme e permanente. É sobre estes princípios que se fundamentam todas as ciências indutivas, e é por eles que são conduzidas as investigações dos filósofos naturais. O mesmo princípio aplica-se à metafísica que à física; à psicologia que à ciência natural. A mente tem suas leis, o mesmo que a matéria, e estas leis, embora de natureza distinta, são tão permanentes como as do mundo externo.

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Os métodos que se aplicaram ao estudo da teologia são muito

numerosos para podê-los considerar separadamente. Talvez possam reduzir-se a três classes gerais: Primeiro, o especulativo; segundo, o místico; terceiro, o indutivo. Estes termos, certamente, estão bem longe de ser precisos. São usados por falta de algo melhor para designar os três métodos gerais de investigação teológica que prevaleceram na Igreja.

§ 3. O método especulativo

A especulação pressupõe certos princípios de uma maneira

apriorística, e com base neles empreende a determinação do que é e do que deve ser. Decide a respeito de todas as verdades, ou determina a respeito do que é certo com base nas leis da mente, ou com base nos axiomas implicados na constituição do princípio pensante em nosso interior. É sob este cabeçalho que se devem pôr todos aqueles sistemas que se baseiam em qualquer tipo de pressuposições filosóficas a priori. Há três formas gerais nas quais se aplicou este método especulativo à teologia.

Forma deísta e racionalista 1. A primeira forma é aquela que rechaça qualquer forma de conhecimento a respeito das coisas divinas à parte da que se desprende da natureza e constituição da mente humana. Pressupõe certos axiomas metafísicos e morais, e com base neles desenvolve todas as verdades que está disposta a admitir. A esta classe pertencem os escritores deístas e estritamente racionalistas das gerações passadas e presentes.

Forma dogmática 2. A segunda forma é o método adotado por aqueles que, admitindo uma revelação divina sobrenatural e concedendo que tal revelação está contida nas Escrituras cristãs, reduzem entretanto todas as doutrinas assim reveladas às formas de algum sistema filosófico. Isto o fizeram

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muitos dos pais [da Igreja] que tentaram exaltar a πίστις [pistis] a γνῶσις [gnosis], isto é, a fé das pessoas simples em filosofia para os acadêmicos. Este, em maior ou menor grau, foi também o método dos escolásticos, e acha uma ilustração incluso no «Cur Deus Homo» de Anselmo, o pai da teologia escolástica. Em tempos posteriores Wolf aplicou a filosofia de Leibnitz para a explicação e demonstração das doutrinas do Apocalipse. Ele diz: “A Escritura serve de ajuda à teologia natural. Abastece a teologia natural com proposições que deveriam ser demonstradas; consequentemente o filósofo está destinado a não inventar, mas sim demonstrar.” 1 Este método segue ainda em voga. Estabelecem-se certos princípios, chamados axiomas, ou primeiras verdades da razão, e deles se deduzem as doutrinas da religião mediante um curso argumentativo tão rígido e implacável como o de Euclides. Isto se faz em ocasiões para a total demolição das doutrinas da Bíblia e das mais profundas convicções morais não só dos cristãos mas também das massas da humanidade. Não se permite murmurar a consciência na presença do dominador entendimento. Está no espírito do mesmo método que a velha doutrina escolástica de realismo é feita na base das doutrinas bíblicas do pecado e redenção original. A este método se aplicou o termo, melhor dito, ambíguo de dogmatismo, porque tenta conciliar as doutrinas da Escritura com a razão, e levar sua autoridade a repousar sobre evidências racionais. O resultado deste método foi sempre, até onde teve êxito, o de transmutar a fé em conhecimento, e para chegar a este fim se modificaram de maneira indefinida os ensinos da Bíblia. Espera-se dos homens que creiam não com base na autoridade de Deus, mas sim na autoridade da razão.

Os transcendentalistas 3. Em terceiro lugar, os modernos transcendentalistas estão aderidos ao método especulativo. São racionalistas no sentido amplo do termo, e

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não admitem uma fonte mais elevada de verdade que a razão. Mas devido ao fato de que eles consideram a razão como algo muito diferente do que pensam os racionalistas comuns, as duas classes estão, na prática, muito distanciadas. Os transcendentalistas diferem também essencialmente dos dogmatistas. Os últimos admitem uma revelação externa, sobrenatural e autoritativa. Reconhecem que por ela se dão a conhecer verdades que a razão humana não pode descobrir. Mas mantêm que estas doutrinas, quando são conhecidas, podem ser demonstradas como certas com base nos princípios da razão. Buscam dar uma demonstração independente das Escrituras a respeito das doutrinas da Trindade, da Encarnação, da Redenção, assim como da imortalidade da alma e de um futuro estado de retribuição. Os transcendentalistas não admitem nenhuma revelação autoritativa à parte da que se encontra no homem e no desenvolvimento histórico da raça. Toda verdade deve ser descoberta e estabelecida pelo processo do pensamento. Se se conceder que a Bíblia contém a verdade, só é assim enquanto coincide com os ensinamentos da filosofia. Esta mesma concessão faz-se livremente a respeito dos escritos dos sábios pagãos A teologia de Daub, por exemplo, é nada além da filosofia do Schelling. Isto é, ensina sozinho o que aquela filosofia ensina relativo a Deus, homem, pecado, redenção, e o estado futuro. Marheinecke e Strauss acham hegelianismo na Bíblia, e eles então admitem que até agora a Bíblia ensina a verdade. Rosenkranz, um filósofo da mesma escola, diz que o cristianismo é a religião absoluta, porque seu princípio fundamental, isto é, a unidade de Deus e homem, é o princípio fundamental de sua filosofia. Em sua “Encyklopädie” (pág. 3) ele diz:

“A única religião que se ajusta à razão é o cristianismo, porque ele concede ao homem como a forma na qual Deus Se revelou a Si mesmo. Sua teologia é então antropologia, e sua antropologia é teologia. A ideia de (Gottmenschheit) a divindade do homem, é a chave do cristianismo, em que como diz Lessing, descansa sua racionalidade.”

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Estas são as principais formas do método especulativo em sua aplicação à teologia. Estes temas serão apresentados em uma consideração mais plena num capítulo posterior.

§ 4. O método místico

Poucas palavras foram tomadas com maior latitude de significado que o termo misticismo. Aquí se debe tomar en un sentido antitético a la especulación. A especulação é um processo do pensamento; o misticismo é assunto dos sentimentos. O primeiro pressupõe que é a faculdade do pensamento aquela mediante a qual chegamos ai conhecimento da verdade. O segundo, desconfiando da razão, ensina que só se deve confiar nos sentimentos, ao menos na esfera religiosa. Embora este método foi apressado de uma maneira indevida, e se erigiram sob sua guia sistemas teológicos que são ou totalmente independentes das Escrituras, ou nos que as doutrinas da Bíblia foram modificadas e pervertidas, não se deve negar que devemos uma grande autoridade a nossa natureza moral em questões de religião. Foi um grande mal na igreja que se permitiu que a compreensão lógica, ou o que os homens chamam sua razão, conduza a conclusões que são não só contrárias à Escritura, mas também fazem violência à nossa natureza moral. Concede-se que nada contrário à razão pode ser certo. Mas não é menos importante observar que nada contrário à nossa natureza moral pode ser verdade. Também se deve admitir que a consciência é muito menos suscetível a errar que a razão, e que quando entram em conflito, real ou aparente, nossa natureza moral é a parte mais forte, e afirmará sua autoridade apesar de tudo o que possamos fazer. Tem corretamente o posto supremo na alma, embora, com a razão e a vontade, está em total submissão a Deus, que é razão infinita e excelência moral infinita.

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O misticismo em sua aplicação à teologia Em sua aplicação à teologia, o misticismo adotou duas formas principais, a sobrenatural e a natural. Segundo a primeira, Deus, ou o Espírito de Deus, mantém relação direta com a alma; e pela estimulação de seus sentimentos religiosos lhe dá intuições de verdade, e o ativa para alcançar um tipo, um grau, e uma extensão de conhecimento, inacessível de qualquer outra maneira. Isto foi a teoria comum de místicos cristãos em tempos antigos e modernos. Se por isso foi meramente significado que o Espírito de Deus, por Sua influência iluminadora, dá aos crentes um conhecimento das verdades objetivamente revelado nas Escrituras, que é peculiar, certo, e salvador, seria admitido por todos os cristãos evangélicos. E é porque tais cristãos se agarram a este ensino do Espírito, que eles são frequentemente chamados místicos por seus oponentes. Este, entretanto, não é o que se quer dizer aqui. O método místico, em sua forma sobrenatural, assume que Deus por Seu intercurso imediato com a alma, revela através dos sentimentos e por meio de intuições verdades divinas com independência do ensino externo de Sua palavra; e que o que devemos seguir é esta luz interior, e não as Escrituras. De acordo com a segunda, a forma natural do método místico, não é Deus, mas sim a consciência religiosa natural do homem, estimulada e influenciada pelas circunstâncias do indivíduo, o que sucede a fonte do conhecimento religioso. Quanto mais profundos e mais puros sentimentos religiosos, tanto mais limpa a compreensão da verdade. Esta iluminação ou intuição espirituais é um assunto de grau. Mas como todos os homens têm uma natureza religiosa, eles todos têm mais ou menos claramente a apreensão de verdade religiosa. A consciência religiosa dos homens em diferentes idades e nações se desenvolveu historicamente sob diversas influências, e por isso temos diversas formas de religião: a pagã, o islã, e o cristianismo. Estas não se contrapõem como verdadeiras e falsas mas sim como mais ou menos puras. A aparição de Cristo, Sua vida, Sua obra, Suas palavras e Sua morte tiveram um efeito maravilhoso

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sobre as mentes dos homens. Seus sentimentos religiosos foram mais profundamente agitados, mais purificados e elevados que nunca antes. Estes não estão relacionado como verdadeiro e falso, mas sim como mais ou menos puro. A aparição de Cristo, Sua vida, Seu trabalho, Suas palavras, Sua morte, tiveram um efeito maravilhoso nas mentes dos homens. Seus sentimentos religiosos eram mais profundamente sacudidos, estavam mais purificados e elevados que nunca. Consequentemente os homens de Sua geração, que se entregaram à Sua influência, tiveram intuições da verdade religiosa de uma ordem mais alta que humanidade jamais alcançou. Esta influência continua no tempo presente. Todos os cristãos são Seus assuntos. Todos, portanto, em proporção à pureza e elevação de seus sentimentos religiosos, têm intuições de coisas divinas, como as que tiveram os apóstolos e outros cristãos. A santidade perfeita levaria a um conhecimento perfeito.

Consequências do método místico Desta teoria se desprende o seguinte: (1) Que não existem coisas como uma revelação nem uma inspiração, no sentido teológico estabelecido destes termos. A Revelação é a apresentação ou comunicação objetiva sobrenatural da verdade à mente, pelo Espírito de Deus. Mas segundo esta teoria, não há nem pode haver tal comunicação de verdade. Os sentimentos religiosos são providencialmente estimulados, e por causa daquela estimulação a mente percebe a verdade mais ou menos claramente, ou mais ou menos imperfeitamente. A inspiração, no sentido escriturístico, é a condução sobrenatural do Espírito, que torna infalível a quem é sujeito dela para comunicar verdade aos outros. Mas segundo esta teoria ninguém é infalível como mestre. A revelação e a inspiração são de graus diferentes comum a todos os homens. E não existe nenhuma razão por que elas não deveriam ser perfeitas em alguns crentes agora como nos dias dos Apóstolos. (2) A Bíblia não tem autoridade infalível em assuntos de doutrina. As proposições doutrinais que contém não são revelações do Espírito, mas

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sim só forma sob as quais homens de cultura judaica deram expressão a seus sentimentos e intuições. Homens de outra cultura e sob outras circunstâncias teriam empregado outras formas ou adotado outras declarações doutrinais. (3) O cristianismo, portanto, não consiste num sistema de doutrinas, nem contém tal sistema. É uma vida, uma influência, um estado subjetivo; ou é um poder dentro de cada cristão individual, seja como for que se descreva ou explique, que determina os sentimentos e suas perspectivas a respeito das coisas divinas. (4) Consequentemente, o dever de um teólogo não é interpretar a Escritura, mas sim interpretar sua própria consciência cristã; determinar e exibir que verdades a respeito de Deus se implicam em seus sentimentos para com Deus; que verdades a respeito de Cristo se implicam em seus sentimentos para com Cristo; o que ensinam os sentimentos a respeito do pecado, da redenção, da vida eterna, etc. Este método encontrou a seu mais distinto e influente defensor em Schleiermacher, cujo “Glaubenslehre” está edificado sobre este princípio. Por Twesten — seu sucessor na cadeira de Teologia na Universidade de Berlim — é mantido em sujeição maior à autoridade normal de Escritura. Por outros, novamente, da mesma escola, foi tirado seu último extremo. Estamos no momento, entretanto, preocupados apenas com seu princípio, e não com os detalhes de seu aplicativo, nem com sua refutação.

§ 5. O método indutivo

Recebe este nome porque concorda em todo o essencial com o método indutivo aplicado às ciências naturais. Primeiro: O homem de ciência vai ao estudo da natura1eza com certas pressuposições. (1) Pressupõe a confiabilidade de seus percepções sensoriais. A menos que ele possa confiar no testemunho bem autenticado de seus sentidos, é destituído de todos os meios de processar suas investigações. Os fatos da natureza revelam eles mesmos a nossas

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faculdades de sentido, e não podem ser conhecidos de nenhuma outra maneira. (2) Tem também que pressupor a confiabilidade de suas funções mentais. Que todo efeito deve ter uma causa; que a mesma causa sob certas circunstâncias, produzirá semelhantes efeitos; que uma causa não é um mero antecedente uniforme, mas sim contém dentro de si mesmo a razão pela qual o efeito sucede. (3) Tem que confiar também na certeza daquelas verdades que não se aprendem da experiência, mas sim se dão na constituição de nossa natureza: Que a cada efeito corresponde uma causa; que aquela mesma causa, em iguais circunstâncias, produzirá os mesmos efeitos; que uma causa não é um mero antecedente uniforme, mas sim contém dentro de si mesma a razão de que ocorra o efeito. Segundo: O estudante da natureza, ao ter esta base sobre que sustentar-se, e estas ferramentas com as quais trabalhar, passa a perceber, recolher e combinar seus fatos. Não tem a pretensão de inventá-los nem modificá-los. Tem que tomá-los como são. Só se cuida de que sejam reais, de tê-los todos, ou ao menos todos os necessários para justificar qualquer inferência que possa deduzir deles, ou qualquer teoria que possa erigir sobre eles. Terceiro: Com base nos fatos assim determinados e classificados ele deduz as leis que os regem. Que um corpo pesado cai por terra é um fato familiar. A observação mostra que não é um fato separado; mas que todo assunto tende em direção a qualquer outro assunto, que esta propensão ou atração está em proporção à quantidade de matéria; e suas diminuições de intensidade em proporção ao quadrado da distância dos corpos de atração. Como tudo isso é declarado ser universal e constantemente o caso dentro do campo de observação, é forçado a concluir que existe um pouco de razão para isto; em outras palavras, que esta é uma lei da natureza em que se pode confiar além dos limites da observação atual. Como esta lei sempre operou no passado, o homem de ciência está certo de que operará no futuro. É desta maneira que se foi edificando o vasto corpo da ciência moderna, e as leis que determinam os movimentos dos corpos celestes; as modulações químicas

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continuando constantemente ao redor de nós; a estrutura, crescimento, e propagação de plantas e animais, tem, para uma maior ou menor extensão, sido averiguada e estabelecida. Observa-se que estas leis ou princípios generais não são derivados da mente e atribuídos a objetos externos, mas derivaram ou deduziram dos objetos e impressionados na mente.

A. O método indutivo em sua aplicação à Teologia

A Bíblia é para o teólogo o que a natureza é para o homem de ciência. É seu arsenal de fatos; e seu método de determinar que o que a Bíblia ensina é o mesmo que o adotado pelo filósofo natural para determinar o que ensina a natureza. Em primeiro lugar, vai à tarefa com todas as pressuposições anteriormente mencionadas. Deve dar por suposta a validez das leis da fé que Deus impôs em nossa natureza. Nestas leis se incluem algumas que não têm aplicação direta às ciências naturais. Por exemplo, a da distinção essencial entre o bem e o mal; que Deus não pode ordenar nada contrário à virtude; que não se pode fazer o mal para que venha o bem; que o pecado merece castigo, e outras verdades básicas similares, que Deus implantou na constituição de todos os seres morais, e que não podem ser contraditas por nenhuma revelação objetiva. Mas estes primeiros princípios não devem ser aceitos de uma maneira arbitrária. Ninguém tem direito a assentar suas próprias opiniões, por muito firmemente que as mantenha, e as chamar «verdades primárias da razão», fazendo delas a fonte ou prova das doutrinas cristãs. Não se pode introduzir nada com direito sob a categoria de verdades primárias, ou leis da crença; que não possam suportar as provas de universalidade e necessidade, ao que muitos acrescentam a evidência inerente. Mas a evidência inerente está incluída na universalidade e a necessidade quanto a que nada que não é inerentemente evidente pode ser crido universalmente, e que o que é inerentemente evidente abre caminho na mente de toda criatura inteligente.

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A coleta dos fatos Em segundo lugar, o dever do teólogo cristão é determinar, recolher

e combinar todos os fatos que Deus lhe revelou a respeito dEle mesmo e

de nossa relação com Ele. Estes fatos estão na Bíblia. Isto é verdade,

porque tudo o que é revelado na natureza, e na constituição de homem relativo a Deus e em nossa relação com Ele, é contido e autenticado na Escritura. É neste sentido que “a Bíblia, e a Bíblia só, é a religião de

protestantes.” Pode-se admitir que as verdades que o teólogo tem que reduzir a ciência, ou, para falar mais humildemente, que tem que dispor e harmonizar, estão reveladas em parte nas obras externas de Deus, em parte na constituição de nossa natureza, e em parte na experiência religiosa dos crentes; entretanto, para que não erremos em nossas inferências das obras de Deus, temos em Sua palavra uma mais clara revelação do que a natureza nos revela; e para que não interpretemos erroneamente nossa própria consciência e as leis de nossa natureza, tudo

o que se pode aprender legitimamente desta fonte se encontrará

reconhecido e autenticado nas Escrituras; e para que não atribuamos ao

ensino do Espírito as operações de nossos próprios afetos naturais, encontramos na Bíblia a norma e a pauta de toda genuína experiência religiosa. As Escrituras ensinam não só a verdade, mas também quais são os efeitos da verdade sobre o coração e a consciência, quando é aplicada com poder salvador pelo Espírito Santo.

O teólogo deve ser conduzido pelas mesmas normas que o homem de ciência. Em terceiro lugar, o teólogo deve ser regido pelas mesmas normas

na coleta dos fatos que os que guiam o homem de ciência. 1. Esta coleta de fatos deve ser feita com diligência e cuidado. Não

é uma tarefa fácil. Há em cada departamento de investigação uma grande

capacidade de erro. Quase todas as teorias falsas da ciência e as doutrinas falsas em teologia devem-se em grande medida a erros quanto a questões factuais. Uma naturalista distinto disse que repetiu uma

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experiência mil vezes antes dele sentir-se autorizado a anunciar o resultado para o mundo científico como um fato estabelecido. 2. Esta coleta de fatos deve levar-se a cabo não só de maneira cuidadosa, mas também deve ser inclusiva, e, se for possível, exaustiva. Uma indução defeituosa dos fatos conduziu homens por muito tempo a crer que o sol gira ao redor da Terra, e que a Terra era uma planície estendida. Em teologia, uma indução parcial de particulares conduziu a erros sérios. É um fato que as Escrituras atribuem onisciência a Cristo. Disto se inferiu que Ele não podia ter uma inteligência finita, mas sim o Logos também revestido nEle com um corpo humano com sua vida animal. Mas é também um fato escriturístico que atribuem a nosso Senhor desconhecimento e crescimento intelectual, assim como a onisciência. Ambos os fatos, portanto, devem ficar incluídos em nossa doutrina de sua Pessoa. Temos que admitir que tinha uma inteligência humana, assim como uma inteligência divina. É um fato que tudo o que se possa pregar de um homem isento de pecado se prega de Cristo na Bíblia; e também é verdade que tudo o que se prega de Deus se prega também de nosso Senhor; daí fez-se a inferência de que houve dois Cristos, – duas pessoas – uma humana e o outra divina, e que habitavam juntos de uma maneira muito semelhante a como o Espírito habita no crente; ou, como espíritos do mal habitam nos endemoninhados. Mas esta teoria passava por alto muitos fatos que demonstram a personalidade individual de Cristo. A pessoa que disse «tenho sede» é a mesma que disse: «Antes que Abraão existisse, EU SOU». As Escrituras ensinam que a morte de Cristo teve o desígnio de revelar o amor do homem e de obter a reforma dos homens. Daí Socínio negou que Sua morte fosse uma expiação pelo pecado, ou satisfação da justiça. Mas este último fato está tão claramente revelado como o primeiro; e por isso ambos devem ser tomados em conta em nosso enunciado da doutrina referente ao desígnio da morte de Cristo.

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Necessidade de uma indução completa Poder-se-ia dar inúmeras ilustrações a respeito da necessidade de uma indução inclusiva dos fatos para justificar nossas conclusões doutrinais. Estes fatos não devem ser negados teimosamente nem passados por alto com descuido, nem ponderados com parcialidade. Devemos ser honrados aqui, como o verdadeiro estudioso da natureza é honrado em sua indução. Inclusive os cientistas se sentem às vezes impelidos a suprimir ou perverter fatos que militam contra suas teorias favoritas; mas a tentação a esta forma de falta de honestidade é menos intensa em seu caso que no do teólogo. As verdades da religião são muito mais importantes que as da ciência natural. Apresentam-se ao coração e à consciência. Podem suscitar os temores ou ameaçar as esperanças dos homens, pelo que estão sob uma forte tentação de passá- las por alto ou de pervertê-las. Não obstante, se verdadeiramente desejamos saber o que é que Deus revelou, temos que ser conscientemente diligentes e fiéis em nossa coleta dos fatos que Ele nos deu a conhecer, e em lhes dar seu devido peso. Se um geólogo achasse em data primitiva um depósito de implementos de artesanato humano, ele não tem permissão para dizer que elas são produções naturais. Deve ou revisar sua conclusão sobre a idade do depósito, ou voltar para um período antigo da existência do homem. Não há nenhuma ajuda para isto. A ciência não pode fazer fatos; deve tomá-los como eles são. De certa forma, se a Bíblia afirmar que a morte de Cristo foi uma satisfação da justiça, não é permitido ao teólogo incluir a justiça na benevolência para que concorde com sua teoria da expiação. Se a Escritura nos ensinar que os homens nascem em pecado, não podemos mudar a natureza do pecado, e transformá-la numa tendência ao pecado e não realmente pecado, a fim de nos livrar da dificuldade. Se for um fato escriturístico que a alma existe num estado de atividade consciente entre a morte e a ressurreição, não devemos negar este fato ou reduzir esta atividade consciente para zero, porque nossa antropologia ensina que a alma não tem nenhuma individualidade e nenhuma atividade sem um corpo.

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Temos que confrontar os fatos da Bíblia como são, e erigir nosso sistema de modo que os abranja em toda sua integridade.

Os princípios devem ser deduzidos com base nos fatos Em quarto lugar, em teologia como na ciência natural, os princípios se derivam dos fatos, e não se forçam sobre eles. As propriedades da matéria, as leis do movimento, do magnetismo, da luz, etc., não são decididas pela mente. Não são leis do pensamento. São deduções com base nos fatos. O pesquisador vê ou determina mediante observação quais são as leis que determinam os fenômenos materiais; não inventa estas leis. Suas especulações a respeito das questões científicas não valem nada, a não ser que estejam sustentadas pelos fatos. Não é menos acientífico para o teólogo assumir uma teoria quanto à natureza da virtude, do pecado, da liberdade, da obrigação moral, e logo explicar os fatos da Escritura conforme a estas teorias. Seu único curso adequado é derivar sua teoria da virtude, do pecado, da liberdade, da obrigação, com base nos fatos da Bíblia. Ele devia lembrar que seu interesse não é partir seu sistema de verdade (isto é sem importância), mas averiguar e testificar qual é o sistema do Deus, o qual é um maior assunto do momento. Se ele não pode crer no que os fatos da Bíblia assumem ser verdade, que ele o faça. Deixe os escritores sagrados ter sua doutrina, enquanto ele tem a sua própria. Para esta base um grande classe de exegetas e teólogos modernos, depois de uma longa luta, realmente vieram. Dão o que eles consideram como as doutrinas do Antigo Testamento; então aqueles Evangelistas; então aqueles dos Apóstolos; e então suas próprias. Isto é justo. Mas entretanto, como a autoridade unificadora da Escritura é reconhecida, a tentação é muito forte para apertar os fatos da Bíblia de acordo com nossas teorias preconcebidas. Se um homem é persuadido que a certeza em agir é incompatível com a liberdade de ação judicial; que um livre reativo pode sempre agir contrário a qualquer quantidade de influência (não destrutiva de sua liberdade) aplicada nele, ele inevitavelmente negará que as Escrituras

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ensinem o contrário, e deste modo é forçado a explicar muito bem todos os fatos que provam o controle absoluto de Deus acima do testamento e volições dos homens. Se ele mantiver que a pecaminosidade pode ser predita só pela ação judicial inteligente, voluntária como transgressão da lei, deve negar que os homens nascem em pecado, deixe a Bíblia ensinar o que pode. Se ele crê que a habilidade limita o dever, deve crer independentemente das Escrituras, ou em oposição a elas, não importa que esses homens podem arrepender-se, crer, amar a Deus perfeitamente, viver sem pecado, em algum tempo, e em todo tempo, sem a ajuda do Espírito de Deus. Se ele negar que o inocente justamente pode sofrer pena do mal para o culpado, deve negar que Cristo levou nossos pecados. Se ele negar que o mérito de um homem possa ser a base judicial do perdão e salvação de outros homens, deve rejeitar a doutrina escriturística da justificação. É evidente que se perturbará completamente todo o sistema da verdade revelada, a não ser que consintamos em derivar nossa filosofia da Bíblia, em lugar de explicar a Bíblia por meio de nossa filosofia. Se as Escrituras ensinarem que o pecado é hereditário, temos que adotar uma teoria do pecado que concorde com este fato. Se ensinarem que os homens não podem arrepender-se, crer ou fazer nada espiritualmente bom sem a ajuda sobrenatural do Espírito Santo, temos que fazer com que nossa teoria da obrigação concorde com este fato. Se a Bíblia ensinar que levamos a culpa do primeiro pecado de Adão, que Cristo levou nossa culpa, e que padeceu a pena da lei em nosso lugar, estes são fatos com os quais temos que fazer com que concordem nossos princípios. Seria fácil mostrar que em todo departamento de teologia, — com respeito à natureza de Deus, sua relação para com o mundo, o plano de salvação, a pessoa e obra de Cristo, a natureza do pecado, as operações da graça divina, os homens, em vez de que tomar os fatos da Bíblia, e vendo que princípios eles implicam, que filosofia está por baixo deles, adotaram sua filosofia independentemente da Bíblia, para os quais tais fatos da Bíblia foram feitos para aplicar. Isto é totalmente antifilosófico. É o princípio

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fundamental de todas as ciências, e o da teologia entre o resto, que a teoria deve ser determinada pelos fatos, e não os fatos pela teoria. Assim como as ciências naturais eram um caos até que se admitiu o princípio de indução e se aplicou com fidelidade, assim a teologia é uma massa de especulações humanas carente de todo valor, quando os homens recusam aplicar o mesmo princípio ao estudo da Palavra de Deus.

§ 6. As Escrituras contêm todos os fatos da Teologia.

Isto é perfeitamente consistente, por um lado, com a admissão de verdades intuitivas, tanto intelectuais como morais, devido à nossa constituição como seres racionais e morais; e, por outro lado, com o poder controlador sobre nossas crenças que é exercido pelos ensinos interiores do Espírito, ou, em outras palavras, por nossa experiência religiosa. E isto por duas razões. Primeira: Toda verdade tem que ser consistente. Deus não Se pode contradizer a Si mesmo. Ele não pode forçar-nos mediante a constituição da natureza que nos deu para crer uma coisa, e mandar-nos em Sua palavra crer o oposto. E segunda:

Todas as verdades que nos ensina a constituição de nossa natureza ou a experiência religiosa são reconhecidas e autenticadas na Escritura. Isto é uma salvaguarda e um limite. Não podemos assumir este ou aquele princípio como intuitivamente verdadeiro, ou esta ou aquela conclusão como demonstravelmente certa, e fazer de tudo isso uma norma a que a Bíblia tem que se amoldar. O que é certo com evidência inerente tem que ser demonstrado assim, e é sempre reconhecido na Bíblia como certo. Erigiram-se sistemas inteiros de teologia sobre chamadas intuições, e se cada homem tem a liberdade de exaltar suas próprias intuições, como os homens estão acostumados a chamar suas intensas convicções, teremos tantas teologias quanto pensadores. A mesma observação pode aplicar-se à experiência religiosa. Não há forma de convicção mais íntima e irresistível que a que surge do ensino interior do Espírito. Toda fé salvadora repousa sobre seu testemunho ou demonstrações (1Co 2:4). Os

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crentes têm uma unção do Santo, e conhecem a verdade, e nenhuma mentira (falsa doutrina) é da verdade. Este ensino interior produz uma convicção que nenhum sofisma pode obscurecer, e que nenhum argumento pode sacudir. Está baseada na consciência, e o mesmo se poderia tentar convencer a um homem de que não cria em sua existência que convencê-lo de que não confie na certeza do que assim foi ensinado por Deus. Mas se devem manter duas coisas em mente. Primeiro: Que este ensino interior ou demonstração do Espírito se limita a coisas ensinadas objetivamente na Escritura. Nos é dado, diz o Apóstolo, para que possamos conhecer coisas que nos foram dadas gratuitamente, isto é, que foram nos reveladas por Deus em Sua palavra (1Co 2:10-16). Não se trata, então, de uma revelação de novas verdades, mas sim de uma iluminação da mente, de modo que apreende a verdade, a excelência e a glória de coisas já reveladas. E segundo: Esta experiência está descrita na Palavra de Deus. A Bíblia nos dá não só as fatos concernentes a Deus e a Cristo, a nós mesmos, e a nossas relações com nosso Criador e Redentor, mas sim registra também os legítimos efeitos destas verdades nas mentes dos crentes. Assim que não podemos apelar a nossos próprios sentimentos ou experiência interior como base ou guia, a não ser que possamos mostrar que concorda com a experiência de homens santos tal como se registra nas Escrituras.

O Ensino do Espírito Embora o ensino interno do Espírito, ou experiência religiosa, não constitui um substituto da revelação externa, é entretanto uma guia inestimável para determinar o que é que nos ensina a regra da fé. A característica distintiva do agustinianismo, tal como o ensinou o próprio Agostinho e tal como foi ensinada pelos mais puros teólogos da Igreja Latina durante a Idade Média, e que foi exposta pelos Reformadores, e especialmente por Calvino e os teólogos de Genebra, é que o ensino interior do Espírito recebe seu posto apropriado na determinação de nossa teologia. A questão não é em primeiro lugar e de maneira

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principal: O que é verdadeiro para o entendimento?, mas sim: O que é verdadeiro para o coração renovado? Não se trata de esforçar-se em que as declarações da Bíblia harmonizem com a razão especulativa, mas em submeter nossa fraca razão à mente de Deus tanto quanto se revela em Sua palavra, e por Seu Espírito em nossa vida interior. Pode ser fácil conduzir os homens à conclusão de que eles são responsáveis apenas por seus atos voluntários, quando o apelo é feito exclusivamente para o entendimento. Mas se o apelo se faz a todos os homens e, especialmente, à experiência interior de cada cristão, se chega a conclusão oposta. Estamos convencidos da pecaminosidade de estados de espírito, bem como de atos voluntários, mesmo quando os estados não são o efeito de nossa própria agência, e não estão sujeitos ao poder da vontade. Estamos conscientes de estar vendidos sob o pecado; de ser seus escravos; de estar possuídos por ele como um poder ou direito, imanente, inato, e além do nosso controle. Essa é a doutrina da Bíblia, e tal é o ensinamento da nossa consciência religiosa, quando sob a influência do Espírito de Deus. O verdadeiro método em teologia demanda que os fatos da experiência religiosa sejam aceitos como fatos, e que quando forem devidamente autenticados pela Escritura, permita-se que interpretem as declarações doutrinais da Palavra de Deus. Tão legítimo e poderoso é este ensino interior do Espírito que não é coisa incomum encontrar homens sustentando duas teologias: una do intelecto, e outra do coração. A primeira pode encontrar expressão em credos e sistemas de Teologia, e a outra em suas orações e hinos. Seria seguro que um homem resolvesse não admitir em sua teologia nada que não seja sustentado pela escrita devota de cristãos verdadeiros de qualquer denominação. Seria fácil construir de tais escritos, recebidos e sancionados por romanistas, luteranos, reformadores, e remonstrantes, um sistema de teologia paulina ou agostiniana, como satisfaria qualquer inteligente e devoto calvinista no mundo. O verdadeiro método da teologia, então, é o indutivo, que dá por sentado que a Bíblia contém todos os fatos ou verdades que constituem o

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conteúdo da teologia, assim como os fatos da natureza são o conteúdo das ciências naturais. Também dá-se por sentado que a relação destes fatos bíblicos entre si, os princípios envoltos nos mesmos, as leis que os determinam, estão nos próprios fatos, e que deles devem deduzir-se, assim como as leis da natureza são deduzidas dos fatos da natureza. Em nenhum de ambos os casos se derivam os princípios da mente nem se impõem sobre os fatos, mas em ambos os departamentos, e da mesma maneira, os princípios ou leis são deduzidos com base nos fatos e são reconhecidos pela mente.

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CAPÍTULO II

TEOLOGIA

§ 1. Sua natureza

Se as perspectivas apresentadas no capítulo anterior são corretas, a pergunta Que é a teologia? já recebeu resposta. Se ciência natural está preocupada com fatos e leis de natureza, a teologia está preocupada com os fatos e os princípios da Bíblia. Se o objeto de um é organizar e sistematizar os fatos do mundo externo, e averiguar as leis pelas quais

eles são determinados; o objeto do outro é sistematizar os fatos da Bíblia,

e averiguar os princípios ou verdades gerais que esses fatos envolvem. E

como a ordem em que os fatos da natureza são organizados não podem ser arbitrariamente determinados, senão pela natureza dos próprios fatos, assim é com fatos da Bíblia. As partes de qualquer todo orgânico têm uma relação natural que não se pode ignorar nem mudar com impunidade. As partes de um relógio, ou de qualquer outro mecanismo, devem estar dispostas em sua maneira normal, ou tudo estará confuso e carente de valor. Todas as partes de uma planta ou animal estão dispostas para responder a um fim determinado, e são mutuamente dependentes. Não podemos pôr as raízes de uma árvore em lugar de seus ramos, nem os dentes de um animal em lugar de seus pés. Assim é como os fatos da ciência se dispõem. Não os dispõe o naturalista. Sua atividade é só

determinar qual é a disposição dada pela natureza dos fatos. Se ele errar, seu sistema é falso, e inválido em maior ou menor grau. O mesmo é evidentemente certo com relação aos fatos ou verdades da Bíblia. Não se podem sustentar isolados, nem admitirão nenhuma outra disposição que

o teólogo possa decidir atribuir-lhes. Têm entre si uma relação natural,

que não se pode passar por alto nem perverter sem que os próprios fatos fiquem pervertidos. Se os fatos de Escritura são o que os agostinianos creem que são, então o sistema agostiniano é o único sistema possível de teologia. Se aqueles fatos são o que romanistas ou remonstrantes os

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levam a ser, então seu sistema é o único verdadeiro. É importante que o teólogo saiba seu lugar. Ele não é o dono da situação. Não pode construir um sistema de teologia para dar satisfação à sua imaginação como tampouco o astrônomo pode ajustar os mecanismos do céu tal como melhor lhe pareça. Assim como os fatos da astronomia se dispõem numa certa ordem, e não admitirão outra, assim sucede com os fatos da teologia. Por isso, a teologia é a exibição dos fatos da Escritura em sua ordem e relação apropriadas, com os princípios ou verdades gerais envoltos nos mesmos atos, e que impregnam e harmonizam o todo. Segue-se, também, desta visão do assunto, que como a Bíblia contém um classe de fatos ou verdades que não são reveladas em outro lugar, e outra classe que, embora mais claramente feitas nas Escrituras que em qualquer outro lugar, são, não obstante, até agora reveladas na natureza sobre ser deduzíveis disso, a teologia é corretamente distinta como natural e revelada. A antiga está preocupada com os fatos da natureza na medida em que revelam a Deus e nossa relação para com Ele, e a moderna com os fatos de Escritura. Esta distinção, que, numa postura é importante, em outra, é de pequena consequência, considerando como toda aquela natureza ensina a respeito de Deus e nossas obrigações, é mais completamente e mais autoritariamente revelado em Sua palavra.

Definições de Teologia Dão-se frequentemente outras definições de Teologia:

1. Às vezes a palavra se restringe a seu sentido etimológico: «um discurso a respeito de Deus». Orfeu e Homero eram considerados teólogos entre os gregos porque seus poemas tratavam da natureza dos deuses. Aristóteles classificou as ciências sob os cabeçalhos de física, matemática, e teologia, isto é, aqueles que concernem à natureza, número e quantidade, e que concerne a Deus. Os Pais falaram do Apóstolo João como o teólogo, porque em seu evangelho e epístolas a divindade de Cristo é reproduzida tão proeminente. A palavra segue

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empregando-se neste sentido restringido quando usada em contraste à antropologia, soteriologia e eclesiologia, como departamentos da teologia em seu sentido mais amplo. 2. A teologia se considera às vezes como a ciência do sobrenatural. Mas o que é o sobrenatural? A resposta a esta pergunta depende do sentido que se dê à palavra natureza. Se por natureza se significa o mundo externo governado por leis fixas, então as almas dos homens e outros seres espirituais não ficam incluídas sob este termo. Neste uso da palavra natureza, o sobrenatural é sinônimo com o espiritual, e a teologia, como a ciência do sobrenatural, é sinônimo com a pneumatologia. Se se adotar esta postura, a psicologia sucede um ramo da teologia, e o teólogo deve, como tal, ensinar filosofia da mente. Mas a palavra natureza é com frequência tomada num sentido mais amplo, para incluir o homem. Então temos um mundo natural e um mundo espiritual. E o sobrenatural é o que neste sentido transcende à natureza, de modo que o que é sobrenatural também é necessariamente sobre-humano. Mas não é necessariamente sobre-angélico. Também a natureza pode denotar tudo o que está fora de Deus; então o sobrenatural é o divino, e Deus é o único objeto legítimo da teologia. Por isso, em nenhum sentido da palavra é a teologia a ciência do sobrenatural. Hooker 2 diz, “Teologia é a ciência das coisas divinas.” Se por coisas divinas, ou “as coisas de Deus,” quis dizer as coisas que se referem a Deus, então teologia é restringida a um “discurso relativo a Deus;” se ele queria dizer as coisas reveladas por Deus, de acordo com a analogia da expressão “as coisas do Espírito,” como usado cabelo Apóstolo em 1Cor. 2.14, então se soma às definições dadas acima. 3. Uma definição mais comum de Teologia, especialmente em nossos dias, é que se trata da ciência da religião. Mas a palavra religião é ambígua. Sua etimologia é duvidosa. Cícero a deriva de relegere, 3 ir

2 Eccles. Pol. iii. 8.

3 Nat. Deor. II.28.

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diante de, considerar. Então «Religio» é consideração, observância devota, especialmente no que pertence à adoração e ao serviço de Deus. «Religens» é devoto, consciente. “Religiosus,” num bom sentido, é o mesmo que nossa palavra religioso; em sentido mau, quer dizer escrupuloso, supersticioso. “Religentem esse oportet, religiosum nefas.” 4 Agostinho e Lactâncio derivam a palavra de religare: voltar a atar. Agostinho 5 diz: “Ipse Deus enim fons nostræ beatudinis, ipse omnis appetitionis est finis. Hunc eligentes vel potius religentes amiseramus enim negligentes: hunc ergo religentes, unde et religio dicta perhibetur, ad eum dilectione tendimus ut perveniendo quiescamus.” E Lactâncio, “Vinculo pietatis obstricti, Deo religati sumus, unde ipsa religio nomen accepit, non, ut Cicero interpretatus est, a religendo.” 6 Com base a isto, religio é a base da obrigação. É aquilo que nos liga a Deus. Subjetivamente, é a necessidade interior de união com Deus. Usualmente a palavra religião, em seu sentido objetivo, quer dizer “Modus Deum colendi,” como quando falamos do pagão, dos maometanos, ou da religião cristã. Subjetivamente, expressa um estado mental. Há várias formas em que se descreve este estado quanto ao que é de uma maneira característica. Da maneira mais simples, é descrito como o estado da mente induzido pela fé em Deus, e um sentido devido de nossa relação com ele. Ou como Wegscheider o expressa, “Æqualis et constans animi affectio, qua homo, necessitudinem suam eandemque æternam, quæ ei cum summo omnium rerum auctore ac moderatore sanctissimo intercedit, intimo sensu complexus, cogitationes, voluntates et actiones suas ad eum referre studet.” Ou, como mais concisamente expressado por Bretschneider: «Fé na realidade de Deus, com um estado mental e forma de viver concordante com esta fé». Ou, mais vagamente:

«Reconhecimento da relação mútua entre Deus e o mundo» (Fischer),

4 Poet. ap. Gell. iv. 9.

5 De Civitate Dei, x. 3. Edit. of Benedictines, Paris, 1838.

6 Instit. Div. iv. 28.

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ou, «O reconhecimento de uma causalidade sobre-humana na alma e vida do homem» (Theile). «Fé fundamentada no sentimento da realidade do ideal» (Jacobi). «A sensação de uma total dependência» (Schleiermacher). «A observância da lei moral como instituição divina» (Kant). «Fé na ordem moral do universo» (Fichte). «A união do finito com o infinito, ou Deus vindo à própria consciência no mundo» (Schelling). 7 Esta diversidade de posturas quanto ao que é a religião é suficiente para demonstrar quão totalmente vaga e insatisfatória deve ser a definição de teologia como «a ciência da religião». Além disso, esta definição torna a teologia totalmente independente da Bíblia. Porque, como filosofia moral é a análise de nossa natureza moral, e as conclusões para a qual aquela análise leva, então teologia torna-se a análise de nossa consciência religiosa, junto com as verdades que aquela análise envolve. E até a teologia cristã é apenas a análise da consciência religiosa do cristão; e a consciência cristã não é a consciência religiosa natural de homens como modificados e determinados pelas verdades das Escrituras cristãs, mas isto é algo diferente. Alguns dizem que é o que se refere a uma nova vida transmitida de Cristo. Outros se referem a tudo o que é distintivo no estado religioso de cristãos para a Igreja, e realmente amalgama a teologia na eclesiologia. Por isso, temos que limitar a teologia a sua verdadeira esfera, como a ciência dos fatos da revelação divina enquanto que esses fatos tratam da natureza de Deus e de nossa relação com ele, como suas criaturas, como pecadores, e como sujeitos da redenção. Todos estes fatos, como já observamos, encontram-se na Bíblia. Mas como alguns deles estão revelados nas obras de Deus, e pela natura1eza do homem, existe nisso uma distinção entre a teologia natural, e a teologia considerada distintivamente como uma ciência cristã.

7 Véase Hutterus Redivivus, I.§2., de Hase.

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Teologia natural Com relação à teologia natural, existem duas opiniões extremas. Uma é que as obras da natura1eza não dão uma revelação confiável do ser e das perfeições de Deus; a outra, que tal revelação é tão clara e inclusiva que torna desnecessária qualquer revelação sobrenatural.

§ 2. Os fatos da natureza revelam a Deus

Os que negam que a teologia natural ensina algo confiável a respeito de Deus entendem usualmente por natureza o universo externo e material. Pronunciam insatisfatórios os argumentos ontológico e teleológico derivados da existência do mundo e das evidências de desígnio que contém. O fato é que o mundo é uma prova de que sempre foi, na ausência de toda evidência contrária. E o argumento do desígnio. diz-se, passa por alto a diferença entre mecanismos mortos e um organismo vivo, entre a manufatura e o crescimento. O fato de que uma locomotiva não se possa fazer a si mesma não é prova de que uma árvore não possa crescer. A primeira se forma ab extra [desde fora], pondo juntas suas partes inertes; o segundo é desenvolvido por um princípio vital interior. A primeira necessita da pressuposição de um criador externo e anterior, o segundo exclui, diz-se, tal assunção. Além disso, apressa-se que as verdades religiosas não admitem prova. Pertencem à mesma categoria que as verdades estéticas e morais. São objetos da intuição. Para ser percebidas, devem sê-lo à sua própria luz. Não se pode demonstrar uma coisa como bela ou boa a alguém que não percebe sua beleza ou excelência. Por isso, impõe-se também, é desnecessária a prova da verdade religiosa. Os bons não precisam de provas; e os ímpios não podem apreciá-las. Tudo o que se pode fazer é afirmar a verdade e deixar que desperte, se for possível, o adormecido poder de percepção.

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A. Resposta aos argumentos anteriores

Tudo isto são sofismas. Porque os argumentos que sustentam as verdades da religião natural não saem exclusivamente das obras externas de Deus. Os mais evidentes e eficazes surgem da constituição de nossa própria natureza. O homem foi feito à imagem de Deus, e revela sua linhagem de uma maneira tão inequívoca como qualquer classe de animais inferiores revela a origem da qual surgiram. Se um cavalo sair de um cavalo, o espírito imortal do homem, com seu instinto de convicções morais e religiosas tem que ser linhagem do Pai dos Espíritos. Este foi o argumento com aquele que Paulo dirigiu-se na Colina de Marte aos caviladores filósofos de Atenas. O fato de que a esfera da teologia natural não se limita meramente aos fatos do universo material faz-se patente com o sentido da palavra natureza, que, como já vimos, tem muitos sentidos legítimos. Não apenas se está acostumado a designar o mundo externo, mas também às forças ativas no universo material, como quando falamos das operações e leis da natureza, às

vezes para tudo que cai dentro da cadeia de causa e efeito como distintos dos fatos de agentes livres; e, como natura é derivado de nascor, natureza significa o que é produzido, e portanto inclui tudo à parte de Deus, de forma que Deus e natureza incluem tudo o que há. 2. A segunda objeção à teologia natural é que seus argumentos são inconclusivos. Este é um ponto que ninguém pode decidir por outros. Cada um tem que julgar por si mesmo. Um argumento que para uma mente é concludente pode ser ineficaz para outras mentes. O fato de que

o universo começou, que não tem a causa de sua existência em si

mesmo, e que por isso tem que ter tido uma causa extramundana, e as imensamente numerosas manifestações de desígnio que exibem devem

ser inteligentes, são argumentos para o ser de Deus, que deram satisfação

às mentes da grande maioria de pessoas inteligentes em todos as épocas

no mundo. Por isso, não deveriam ser lançados a um lado como insatisfatórios porque nem todos sintam seu peso. Além disso, como se

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acaba de observar, estes argumentos são só confirmatórios de outros mais diretos e poderosos, derivados de nossa natureza moral e religiosa. 3. Quanto à objeção de que as verdades religiosas são objetos da intuição, e que as verdades intuitivas nem necessitam prova nem a permitem, pode-se responder que em certo sentido é verdade. Mas as verdades inerentemente verdadeiras podem ser ilustradas; e pode-se mostrar que sua negação envolve contradições e absurdos. Toda a geometria é uma ilustração dos axiomas de Euclides; e se alguém nega algum destes axiomas, pode-se mostrar que deve crer impossibilidades. Da mesma maneira, pode-se admitir que a existência de um ser de quem dependemos, e perante quem somos responsáveis, é assunto de intuição; e pode-se reconhecer que é coisa inerentemente evidente que só somos responsáveis perante um ser pessoal, e entretanto a existência de um Deus pessoal pode-se apresentar como uma hipótese necessária para dar conta dos fatos da observação e da existência, e que a negação de sua existência deixa o problema do universo sem solução e irresolúvel. Em outras palavras: pode-se mostrar que o ateísmo, o politeísmo e o panteísmo envolvem impossibilidades absolutas. Este é um modo válido de demonstrar que Deus é, embora se admita que sua existência é, afinal de contas, uma verdade inerentemente evidente. O teísmo não é a única verdade evidente por si mesma que os homens são propensos a negar.

B. Argumento escriturístico para a Teologia Natural

As Escrituras reconhecem claramente que as obras de Deus revelam Seu ser e atributos. E isto o fazem não só mediante frequente referência às obras da natureza como manifestações das perfeições de Deus, mas sim mediante uma declaração direta. «Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos

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confins do mundo.» (Sl 19:1-4). «A ideia de um testemunho perpétuo», diz o doutor Addison Alexander, 8 «é comunicada mediante a figura de um dia e uma noite seguindo-se uns aos outros como testemunhas em

A ausência da linguagem articulada, longe de

debilitar o testemunho, potencializa-o. Inclusive sem fala ou palavras, os céus dão testemunho de Deus a todos os homens». Os escritores sagrados, ao disputar com os pagãos, apelam à evidência de que as obras de Deus dão a respeito de suas perfeições:

«Atendei, ó estúpidos dentre o povo; e vós, insensatos, quando sereis prudentes? O que fez o ouvido, acaso, não ouvirá? E o que formou os olhos será que não enxerga? Porventura, quem repreende as nações não há de punir? Aquele que aos homens dá conhecimento não tem sabedoria?» (Sl 94:8-10). Paulo disse aos homens de Listra: «[o] Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles; o qual, nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria.» (At 14:15-17). Paulo disse aos homens de Atenas: «O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração. Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é

sucessão

8 Comm. on Psalms, in loco.

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semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem.» (At 17:24-29).

O Apóstolo declara não só o fato desta revelação, mas também sua

clareza: «Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças» (Rm 1:19- 21). Por isso, não se podem ter dúvidas razoáveis a respeito de que não só o ser de Deus, mas também o Seu eterno poder e deidade ficam revelados em suas obras, estabelecendo um firme fundamento para a teologia natural. Para a ilustração deste assunto muitas obras importantes foram dedicadas, algumas das quais são as seguintes: “Wolf de Theologia Naturali,” “The Bridgewater Treatises,” Butler’s “Analogy,” Paley’s “Natural Theology.”

§ 3. A insuficiência da Teologia Natural

A segunda opinião extrema a respeito da Teologia Natural é que faz

desnecessária uma revelação sobrenatural. A questão de se o conhecimento de Deus que se deriva de suas obras é suficiente para levar os caídos à salvação é respondida de maneira afirmativa pelos racionalistas, mas de maneira negativa por todos os ramos históricos da Igreja Cristã. A respeito deste ponto são unânimes as Igrejas grega, latina, luterana e reformada. Neste ponto os gregos, os latinos, os luteranos, e as Igrejas Reformadas são unânimes. As duas antigas são mais exclusivas que as duas posteriores. Os gregos e latinos, ao fazerem os sacramentos os únicos canais de graça salvadora, negam a possibilidade da salvação do não batizado, em terras pagãs ou cristãs. Este princípio é tão essencial

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para o sistema romano sobre ser incluído na própria definição da Igreja, como dado pelos escritores autorizados da Igreja Papal. Aquela definição está tão emoldurada sobre excluir da esperança de salvação não só todas as crianças e adultos não batizados, mas todos, não importa quão iluminado no conhecimento das Escrituras, e contudo santo no coração e na vida, que não reconheçam a supremacia do bispo de Roma.

A questão quanto à suficiência da teologia natural, ou das verdades

da razão, deve ser respondida com base na autoridade das Escrituras. Ninguém pode dizer a priori o que é o necessário para a salvação. A verdade é que é só por revelação sobrenatural que sabemos que há salvação para os pecadores. É só por esta mesma fonte que podemos saber quais são as condições da salvação, ou quem são os sujeitos da salvação.

A. O que dizem as Escrituras a respeito da salvação dos homens. A salvação das crianças.

O que ensinam as Escrituras a respeito de este tema, conforme à

doutrina comum entre os protestantes evangélicos, é primeiro:

1. Que todos os que morrem na infância são salvos. Isto se infere do que a Bíblia ensina da analogia entre Adão e Cristo. «Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, os muitos (οἱ πολλοί = πάντες [hoi polloi = pantes]) foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um, os muitos (οἱ πολλοί = πάντες [hoi polloi = pantes]) serão constituídos justos» (Ro 5:18, 19». Não temos direito a pôr limite algum a estes termos gerais, exceto os que a própria Bíblia lhes imponha. As Escrituras não excluem em nenhum lugar a nenhuma classe de infantes, batizados ou não, nascidos em terras cristãs ou pagãs, de pais crentes ou incrédulos, dos benefícios da redenção de Cristo. Todos os

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descendentes de Adão, exceto Cristo, estão sob a condenação; todos os descendentes de Adão, exceto aqueles dos quais se revela expressamente que não podem herdar o reino de Deus, são salvos. Este parece ser o claro sentido das palavras do Apóstolo, e por isso não duvida em dizer que onde abundou o pecado muito mais superabundou a graça, que os benefícios da redenção excedem em muito os males da queda; que o número dos salvos excede em muito ao dos perdidos. Isto não é inconsistente com a declaração de nosso Senhor, em Mateus 7:14, de que só uns poucos entram pela porta que conduz à vida. Isto deve entender-se dos adultos. O que a Bíblia diz dirige-se àqueles em todas as idades aos quais corresponde. Mas dirige-se àqueles que podem bem ler, bem ouvir. Diz-lhes o que devem crer e fazer. Seria uma total perversão de seu significado aplicá-la àqueles aos quais e dos quais não fala. Quando diz-se: «Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.» (Jo 3:36), ninguém compreende isto como impedindo a possibilidade da salvação das crianças. Não só, entretanto, a comparação que faz o Apóstolo entre Adão e Cristo, leva a conclusão de que visto que todos estão condenados pelo pecado de um, assim todos são salvos pela justiça de outro, aqueles só excetuados aos quais as Escrituras excetuam, mas o princípio assumido através de toda a discussão ensina a mesma doutrina. Este princípio é que é mais adequado com a natureza de Deus abençoar que amaldiçoar, salvar que destruir. Se a raça caiu em Adão, quanto mais será restaurada em Cristo. Se a morte reinou por um, quanto mais a graça reinará por um.

Este “muito mais” é repetido diversas vezes. A Bíblia em todos os lugares ensina que Deus não tem prazer na morte do ímpio; aquele juízo é Seu estranho ato. É, portanto, contrário não apenas ao argumento do Apóstolo, mas sim ao espírito inteiro da passagem (Rm 5:12-21), excluir meninos do “todos” que são feitos vivos em Cristo.

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A conduta e a linguagem de nosso Senhor em referência aos meninos não devem ser considerados como uma questão de sentimentos, nem como uma mera expressão de uma atitude bondosa. É evidente que as considerava como ovelhas do rebanho pelo qual, como o Bom Pastor, punha Sua vida, e das quais Ele disse que jamais pereceriam, nem ninguém as arrebataria de Suas mãos. Deles diz Ele que é o reino dos céus, como se o céu estivesse, em grande medida, composto das almas

das crianças redimidas. Por isso, é a crença geral dos protestantes, contra

a doutrina dos romanistas e dos romanizadores, que todos os que morrem na infância se salvam.

B. A regra do juízo para os adultos

2. Outro fato geral claramente revelado na Escritura é que os homens serão julgados por suas obras, e com base na luz que cada um teve. Deus «retribuirá a cada um segundo o seu procedimento: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e

incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem

à verdade e obedecem à injustiça. Tribulação e angústia virão sobre a

alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; glória, porém, e honra, e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego. Porque para com Deus não há acepção de pessoas. Assim, pois, todos os que pecaram sem lei também sem lei perecerão; e todos os que com lei pecaram mediante lei serão julgados.» (Rm 2:6-12). Nosso Senhor ensina que aqueles que pecaram com conhecimento da vontade de Deus serão açoitados com muitos

açoites; e que os que pecaram sem tal conhecimento serão açoitados com poucos açoites; e que o dia do juízo será mais passível para os pagãos, inclusive para Sodoma e Gomorra, que para os que perecem sob a luz do evangelho (Mt 10:15; 11:20-24). O Juiz de toda a terra fará o que é justo. Nenhum ser humano sofrerá mais do que o que merecerá, nem mais que

o que sua própria consciência reconhecerá como justo.

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C. Todos os homens sob condenação

3. Mas a Bíblia nos diz que se fossem julgados segundo suas obras

e segundo a luz recebida, todos os homens seriam condenados. Não há

justo, nem um sequer. Todo mundo é culpado diante de Deus. O veredicto fica confirmado pela consciência de cada homem. A consciência da culpa e da poluição moral é absolutamente universal. É aqui que falha totalmente a teologia natural. Não pode dar resposta à pergunta: Como se justificará o homem diante de Deus?, ou Como pode Deus ser justo e justificar o ímpio? A humanidade ponderou

ansiosamente esta pergunta durante séculos, e não obteve satisfação. Aplicou-se o ouvido no seio da humanidade para captar o som suave e baixo da consciência, e não recebeu resposta. A razão, a consciência, a tradição e a história se unem em proclamar que o pecado é morte; e por isso que no que concerne à sabedoria e recursos humanos, a salvação dos pecadores é tão impossível como a ressurreição dos mortos. Provou-se todo meio concebível de expiação e purificação, sem mérito algum.

4. As Escrituras, portanto, nos ensinam que os pagãos estão «sem

Cristo, excluídos da cidadania de Israel e estrangeiros quanto às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo» (Ef 2:12). São

declarados sem desculpa, «Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não

o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram

nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1:21-25). O Apóstolo diz dos gentios que «andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de

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Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.» (Ef 4:17-19). 5. Sendo todos os homens pecadores, e podendo ser com justiça acusados de uma impiedade e imoralidade indesculpáveis, não podem ser salvos por nenhum esforço nem recurso de sua própria parte. Porque nos é dito: «Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus.» (1Co 6:9,

10). «Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus.» (Ef 5:5). Mais ainda, a Bíblia nos ensina que alguém pode ser externamente justo diante dos homens, e ser entretanto um sepulcro branqueado, sendo seu coração

a morada da soberba, da inveja ou da malícia. Em outras palavras, pode

ser moral em sua conduta, e por causa de paixões do mal interior, ser aos olhos de Deus o chefe de pecadores, como era o caso do próprio Paulo. E

mais ainda que isto, embora um homem estivesse livre de pecados externos, e, se fosse possível, e fora de pecados do coração, esta bondade negativa não seria suficiente. Sem santidade «ninguém verá ao Senhor» (Hb 12:14). «Aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus» (Jo 3:3). «Aquele que não ama, não conhece a Deus» (1Jo 4:8). «Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele» (1Jo 2:15). «Aquele que ama a seu pai ou a sua mãe mais que a mim, não é digno de mim» (Mt 10:37). Quem, pois, pode ser salvo? Se a Bíblia excluir do reino dos céus a todos os imorais, a todos aqueles cujos corações estão corrompidos com soberba, inveja, malícia ou cobiça; a todos os que amam o mundo; a todos os que não são santos; a todos aqueles nos quais

o amor de Deus não é o princípio supremo e controlador de todas suas

ações, é evidente então que no que se refere aos adultos, a salvação deve

encerrar-se a limites muito estreitos. Também é evidente que a mera religião natural, o mero poder objetivo da verdade religiosa geral, será

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tão incapaz de preparar os homens para a presença de Deus como as águas da Síria para curar a lepra.

D. As condições necessárias para a salvação

6. Vendo porque o mundo não conhece a Deus mediante a sabedoria; vendo que os homens, deixados a si mesmos, inevitavelmente

morrem em seus pecados, «aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação.» (1Co 1:21). Deus enviou o Seu Filho ao mundo para salvar os pecadores. Se tivesse sido possível qualquer outro método de salvação, Cristo morreu em vão (Gl 2:21; 3:21). Por isso, não há nenhum outro nome pelo qual os homens possam ser salvos (At 4:12). O conhecimento de Cristo e a fé nEle são declarados como essenciais para

a salvação. Isto se demonstra: (1.) Porque os homens são pronunciados

culpados diante de Deus. (2.) Porque ninguém pode expiar sua própria culpa e restaurar-se a si mesmo à imagem de Deus. (3.) Porque se declara de maneira expressa que Cristo é o único Salvador dos homens. (4.) Porque Cristo encomendou à Sua Igreja a missão de pregar o evangelho a toda criatura debaixo do céu, como meio designado de salvação. (5.) Porque os Apóstolos, no cumprimento desta missão, foram

por toda parte pregando a Palavra, dando testemunho a todos os homens, judeus e gentios, aos sábios e aos ignorantes, que deviam crer em Cristo como o Filho de Deus para ser salvos. Nosso mesmo Senhor ensinou isto por meio de seu precursor: «Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.» (Jo 3:36). (6.) Porque a fé sem conhecimento

é pronunciada como algo impossível. «Porque: Todo aquele que invocar

o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?» (Rm 10:13-15).

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Por isso, e como já se tem dito, é a fé comum do mundo cristão que pelo que se refere aos adultos, não há salvação sem o conhecimento de Cristo e a fé nEle. Esta foi sempre considerada como a base da obrigação que tem a Igreja de pregar o evangelho a toda criatura.

E. Objeções

À objeção de que esta doutrina não é consequente com a bondade e a justiça de Deus, pode-se responder: (1.) Que a doutrina só dá por sentado o que o objetor, se for Teísta, deve admitir: isto é, que Deus tratará os homens com base no caráter e conduta dos mesmos, e que os julgará em correspondência à luz que cada um deles tenha tido. É devido ao fato de que o Juiz de toda a terra há de fazer o justo que todos os pecadores recebem o pagamento do pecado, por uma lei inexorável, a não ser que sejam salvos pelo milagre da redenção. Por isso, ao ensinar que não há salvação para os que ignoram o evangelho, a Bíblia só ensina que um Deus justo castigará o pecado. (2.) A doutrina da Igreja a respeito desta questão não vai além dos fatos do caso. Só ensina que Deus fará o que vemos que realmente faz. Ele, em grande medida, deixa à humanidade a si mesma. Permite que se façam pecaminosos e desgraçados. Não é mais difícil conciliar a doutrina que o fato inegável com a bondade de Deus. (3.) No dom de Seu Filho, a revelação de Sua palavra, a missão do Espírito e a instituição da Igreja, Deus deu abundante provisão para a salvação do mundo. Que a Igreja tenha sido tão remissa em dar a conhecer eI evangelho é a culpa da própria Igreja. Não devemos atribuir a ignorância e conseguinte perdição dos pagãos a Deus. A culpa é nossa. Nós guardamos para nós mesmos o pão da vida, e permitimos que as nações pereçam. Alguns dos teólogos luteranos mais antigos estavam dispostos a encontrar a objeção em questão dizendo que o plano de salvação era revelado a toda humanidade às três épocas distintas. Primeiro, após a queda, para Adão; segundo, nos dias de Noé; e terceiro, durante a era dos