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Nutrição

e Esporte

Uma abordagem bioquímica


QBQ 2003
Departamento de Bioquímica

Instituto de Química
USP

Nutrição e Esporte

Uma abordagem bioquímica

Professores

Alexandre Z. Carvalho (ale.zat.carvalho@bol.com.br)

André Amaral G. Bianco (biancob@iq.usp.br)

Daniela Beton (danielab@iq.usp.br)

Erik Cendel Saenz Tejada (esaenz@iq.usp.br)

Fernando H. Lojudice da Silva (lojudice@iq.usp.br)

Karina Fabiana Ribichich (kribi@iq.usp.br)

Leonardo de O. Rodrigues (leonardo@iq.usp.br)

Sayuri Miyamoto (miyamot@iq.usp.br)

Tie Koide (tkoide@iq.usp.br)

Supervisor

Bayardo B. Torres (bayardo@iq.usp.br)


2003
Cronograma das Aulas
Nutrição e Esporte – Uma abordagem bioquímica (QBQ 2003)

Instituto de Química da USP – Bloco 6 inferior


Dia
Período
Tema Abordado
10/02/2003

Manhã

Apresentação do curso

Contração muscular e fibras

Revisão de vias metabólicas

Tarde

Adaptação

Tomada de O2

VO2

11/02/2003

Manhã

Lactato

Carboidratos

Lipídeos

Intensidade do exercício físico

Tarde

Proteínas

12/02/2003

Manhã
Estresse Oxidativo

Defesa Anti-Oxidante

Tarde

Vitaminas

Sais Minerais

Câimbra

Hidratação

13/02/2003

Manhã

Doping

Tarde

Suplementos

14/03/2003

Manhã

Grupos Especiais

Tarde

Palestra

INDICE

1.

Contração Muscular e Fibras ....................................................................... 1


2.

Revisão – Vias metabólicas....................................................................... 16

3.

?-Oxidação .............................................................................................. 23

4.

Síntese de Ácidos Graxos......................................................................... 28

5.

Tomada de Oxigênio ................................................................................ 30

6.

Déficit de O2 ............................................................................................ 31

7.

VO2max - Consumo máximo de oxigênio ................................................... 32

8.

Recuperação após o exercício ................................................................... 35

9.

Limiar de Lactato ..................................................................................... 40

10. Adaptações na utilização de diferentes substratos durante o treinamento ... 42

11. Treinamento de longa duração e alta intensidade ..................................... 44

12. Exercícios de intensidade baixa e moderada.............................................. 46

13. Proteínas................................................................................................. 48
14. Carboidratos............................................................................................ 55

15. Lipídios.................................................................................................... 57

16. Estresse Oxidativo, Defesa Antioxidante e Atividade Física .........................


61

17. Vitaminas e Minerais ................................................................................ 80

18. Adaptações ao exercício em diferentes populações .................................... 91

19. Doping ...................................................................................................103

20. Suplementos ..........................................................................................119

21. Suplementação de Aminoácidos...............................................................131

22. Hidratação..............................................................................................135

23. Mitos e verdades acerca dos suplementos alimentares..............................136

24. Apêndice ................................................................................................139


CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

1. Contração Muscular e Fibras


SISTEMA MUSCULAR
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

1.1. Introdução

Os músculos são órgãos constituídos principalmente por tecido muscular,


especializado em contrair e realizar movimentos, geralmente em resposta a um
estímulo nervoso. Os músculos podem ser formados por três tipos básicos de
tecido muscular (figura 1):

Tecido Muscular Estriado Esquelético

Apresenta, sob observação microscópica, faixas alternadas transversais, claras e


escuras. Essa estriação resulta do arranjo regular de microfilamentos formados
pelas proteínas actina e miosina, responsáveis pela contração muscular. A célula
muscular estriada chamada fibra muscular, possui inúmeros núcleos e pode
atingir comprimentos que vão de 1mm a 60 cm.

Tecido Muscular Liso

Está presente em diversos órgãos internos (tubo digestivo, bexiga, útero etc) e
também na parede dos vasos sanguíneos. As células musculares lisas são
uninucleadas e os filamentos de actina e miosina se dispõem em hélice em seu
interior, sem formar padrão estriado como o tecido muscular esquelético.

A contração dos músculos lisos é geralmente involuntária, ao contrário da


contração dos músculos esqueléticos.

Tecido Muscular Estriado Cardíaco

Está presente no coração. Ao microscópio, apresenta estriação transversal.

Suas células são uninucleadas e têm contração involuntária.

Figura 1: Os três tipos de tecido muscular

Músculo Esquelético

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Antes de prosseguirmos devemos nos recordar que os músculos esqueléticos não


podem executar suas funções sem suas estruturas associadas (figura 2). Os
músculos esqueléticos geram a força que deve ser transmitida a um osso através
da junção músculo-tendão. As propriedades destes elementos estruturais podem
afetar a força que um músculo pode desenvolver e o papel que ele tem em
mecânicos comuns.
Figura 2: Estruturas associadas ao

músculo.

O movimento depende da conversão de energia química do ATP em energia


mecânica pela ação dos músculos esqueléticos. O corpo humano possui mais de
660 músculos esqueléticos envolvidos em tecido conjuntivo. As fibras são
células musculares longas e cilíndricas, multinucleadas que se posicionam
paralelas umas às outras. O tamanho de uma fibra pode variar de alguns mm
como nos músculos dos olhos a mais de 100 mm nos músculos das pernas.

Composição Química

Cerca de 75% do músculo esquelético e composto por água e 20%, proteína. Os


5% restantes consistem em sais inorgânicos, uréia, acida lático, fósforo, lipídeos,
carboidratos, etc. As proteínas mais abundantes dos músculos são: miosina
(60%), actina e tropomiosina. Além disso, a mioglobina também esta
incorporada no tecido muscular (700 mg de proteína para 100g tecido).

Aporte Sanguíneo

Durante o exercício, a demanda por oxigênio é de 4.0L/min e a tomada de


oxigênio pelo músculo aumenta 70 vezes, 11mL/110g/min, ou seja, um total de
3400mL por minuto. Para isso, a rede de vasos sanguíneos fornece enormes
quantidades de sangue para o tecido. Aproximadamente 200 a 500 capilares
fornecem sangue para cada mm2 de tecido ativo.

Com treinamentos de resistência, pode haver um aumento na densidade capilar


dos músculos treinados. Além de fornecer oxigênio, nutrientes e hormônios, a
microcirculação remove calor e produtos metabólicos dos tecidos. Há estudos
utilizando microscopia eletrônica que mostram que em atletas treinados, a
densidade de capilares é cerca de 40% maior do que em pessoas não treinadas.

Essa relação era aproximadamente igual à diferença na tomada máxima de


oxigênio observada entre esses dois grupos.

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Para entender a fisiologia e o mecanismo da contração muscular, devemos


conhecer a estrutura do músculo esquelético.Os músculos esqueléticos são
compostos de fibras musculares que são organizadas em feixes, (fascículos)
(figura 3). Os miofilamentos compreendem as miofibrilas, que por sua vez são
agrupadas juntas para formar as fibras musculares. Cada fibra possui uma
cobertura ou membrana, o sarcolema, e é composta de uma substância
semelhante à gelatina, sarcoplasma. Centenas de miofibrilas contráteis e outras
estruturas importantes, tais como as mitocôndrias e o retículo sarcoplasmático,
estão inclusas no sarcoplasma.

Figura 3: Estrutura muscular


Ultraestrutura
Cada miofibrila contém muitos miofilamentos. Os miofilamentos são fios finos
de duas moléculas de proteínas, actina (filamentos finos) (figura4) e miosina
(filamentos grossos), que forma um filamento bipolar (figura 5). Há outras
proteínas envolvidas na contração muscular: troponina e tropomiosina, que se
localizam ao longo dos filamentos de actina (figura 4), dentre outras.

Figura 4: Os filamentos

de actina são polímeros de

moléculas globulares de
actina que se enrolam
formando uma hélice. A

tropomiosina é um dímero

helicoidal que se une cabeça a

cauda formando um cordão. A

troponina é um trímero que se

liga a um sítio específico em

cada dímero de tropomiosina.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Figura 5: Filamento grosso de miosina. As moléculas

de miosina se associam cauda a cauda para formar o


filamento
Ao longo da fibra muscular é possível observar bandas claras e escuras, o que dá
ao músculo a aparência estriada (figura 6). A área mais clara é denominada
banda I e a mais escura, A. A linha Z bissecciona a banda I e fornece
estabilidade à estrutura. A unidade entre duas linhas Z é denominada de
sarcômero, a unidade funcional da fibra muscular. A posição da actina e miosina
no sarcômero resulta em filamentos com sobreposição. A região A contém a
zona H, onde não há filamentos de actina. Essa zona é bisseccionada pela linha
M que delineia o centro do sarcômero e contém estruturas protéicas para
suportar o arranjo dos filamentos de miosina.

Figura 6: (A) Micrografia eletrônica de baixa magnificação através de corte


longitudinal de músculo esquelético, mostrando o padrão estriado. (B)
Detalhe do músculo esquelético mostrado em (A), mostrando porções
adjacentes de duas miofibrilas e a definição de sarcômero. (C) Diagrama
esquemático de um único sarcômero, mostrando a origem das bandas claras
e escuras vistas nas micrografias eletrônicas. A linha Z, localizada nas
extremidades dos sarcômeros, estão ligadas a sítios dos filamentos finos
(filamentos de actina), a linha M, na metade do sarcômero, é a localização
de proteínas específicas que ligam filamentos grossos adjacentes (filamentos
de miosina). As regiões verdes marcam a localização dos filamentos grossos
e são referidas como banda A. As regiões vermelhas contêm somente
filamentos finos e são chamadas de banda I.

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Etapas da Contração Muscular

1) Um potencial de ação trafega ao longo de um nervo motor até suas


terminações nas fibras musculares;

2) Em cada terminação, o nervo secreta uma pequena quantidade de substância


neurotransmissora: a acetilcolina;

3) Essa acetilcolina atua sobre uma área localizada na membrana da fibra


muscular, abrindo numerosos canais acetilcolina-dependentes dentro de
moléculas protéicas na membrana da fibra muscular;

4) A abertura destes canais permite que uma grande quantidade de íons sódio
flua para dentro da membrana da fibra muscular no ponto terminal neural.

Isso desencadeia potencial de ação na fibra muscular;

5) O potencial de ação cursa ao longo da membrana da fibra muscular da mesma


forma como o potencial de ação cursa pelas membranas neurais; 6) O potencial
de ação despolariza a membrana da fibra muscular e também passa para
profundidade da fibra muscular, onde o faz com que o retículo sarcoplasmático
libere para as miofibrilas grande quantidade de íons cálcio, que estavam
armazenados no interior do retículo sarcoplasmático;

7) Os íons cálcio provocam grandes forças atrativas entre os filamentos de actina


e miosina, fazendo com que eles deslizem entre si, o que constitui o processo
contrátil;

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

8) Após fração de segundo, os íons cálcio são bombeados de volta para o


retículo sarcoplasmático, onde permanecem armazenados até que um novo
potencial de ação chegue; essa remoção dos íons cálcio da vizinhança das
miofibrilas põe fim à contração.

Mecanismos da Contração Muscular

A teoria mais aceita para a contração muscular é denominada sliding

filament theory (figura 7), que propõe que um músculo se movimenta devido ao
deslocamento relativos dos filamentos finos e grossos sem a mudança dos seus
comprimentos. O motor molecular para este processo é a ação das pontes de
miosina que ciclicamente se conectam e desconectam dos filamentos de actina
com a energia fornecida pela hidrólise de ATP. Isto causa uma mudança no
tamanho relativo das diferentes zonas e bandas do sarcômero e produz força nas
bandas Z.

Figura 7: Sliding filament


theory como modelo de

contração muscular. Os

filamentos de actina e de

miosina deslizam uns


sobre os outros sem
diminuição no tamanho
do filamento.
A miosina tem um papel enzimático e estrutural na ação muscular. A cabeça
globular tem atividade de ATPase ativada por actina no sitio de ligação a actina e
fornece a energia necessária para a movimentação das fibras

Seqüência de eventos na contração muscular

1)Com o sítio de ligação de ATP livre, a miosina se liga fortemente a actina


(figura 8);

2) Quando uma molécula de ATP se liga a miosina, a conformação da miosina e


o sítio de ligação se tornam instáveis liberando a actina;

3) Quando a miosina libera a actina, o ATP é parcialmente hidrolisado


(transformando-se em ADP) e a cabeça da miosina inclina-se para frente; 4) A
religação com a actina provoca a liberação do ADP e a cabeça da miosina se
altera novamente voltando à posição de início, pronta para mais um ciclo.

5) Todo este ciclo leva ao deslocamento dos filamentos e o músculo contrai;


Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

6) A ativação continua até que a concentração de cálcio caia e libere os


complexos inibitórios troponina-tropomiosina, relaxando o músculo.

Figura 8: O ciclo de mudanças

nas quais a molécula de miosina

“caminha” sobre os filamentos

de actina (Baseado em I.

Rayment et al., Science 261:50-

58, 1993).
Tipos de Fibras Musculares
Há diferentes e controversos critérios para a classificação do músculo
esquelético humano. Baseados nas características de contração e metabolismo
podemos classificar dois tipos de fibras, as de contração rápida e lenta (figura 9).

Figura 9: (A) Células especializadas em produzir contrações

rápidas são marcadas com anticorpos contra miosina “rápida”. (B) Células
especializadas em produzir contrações lentas e longas são marcadas com
anticorpos contra miosina “lenta”.

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Uma técnica comum para estabelecer o tipo de fibra é baseada na sensibilidade


diferencial a alteração de pH da miosina ATPase. São as características dessa
enzima que determinam a velocidade de contração do sarcômero. Nas fibras
rápidas (fast-twitch), a miosina ATPase é inativada por pH

ácido mas é estável em pH alcalino, essas fibras coram escuro para esta enzima.

Para fibras lentas (slow-twitch) a atividade da miosina ATPase permanece alta


em pH ácido e fica estável em pH alcalino.

As fibras rápidas são conhecidas como células musculares brancas porque elas
contém relativamente pouco de mioglobina, proteína que se torna vermelha
quando na presença de oxigênio. As fibras lentas são chamadas de células
musculares vermelhas, porque elas contêm muito mais desta proteína. As células
podem ajustar-se à característica rápida ou lenta através de mudanças de
expressão gênica de acordo com o padrão de estimulação nervosa que elas
recebem.

Características dos diferentes tipos de fibra muscular

Figura 10: Percentagem do grupo de fibras lentas nos

músculos de atletas de diferentes categorias.

Cada esporte exige uma demanda de energia, esforço e obviamente uma


velocidade de contração muscular diferente. Sendo assim é mais do que lógico
imaginar que existem tipos diferentes de fibras que compõem a musculatura.
Como observado na figura 10, cada atleta possui uma percentagem específica de
fibras de contração rápida e lenta.

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Slow-twitch – tipo I

?? Metabolismo aeróbio
?? Baixa atividade de miosina ATPase

?? Baixa velocidade de captação e liberação de cálcio

?? Capacidade glicolítica menor do que na fast-twitch

?? Número grande de mitocôndrias, tamanho das organelas é maior

?? A concentração de mitocôndria e citocromos combinada com alta


pigmentação por mioglobina são responsáveis pela coloração característica.

?? Alta concentração de enzimas mitocondriais para o metabolismo aeróbio

?? Usadas para treino de resistência

?? SO : slow speed of shortening

?? Adaptadas ao exercício prolongado

Fast-twitch – tipo II

?? Alta capacidade de transmissão eletroquímica dos potenciais de ação

?? Alta atividade de miosina ATPase

?? Alta velocidade de liberação e captação de cálcio (reticulo endoplasmático


desenvolvido)

?? Gera energia rapidamente para ações rápidas e potentes

?? Velocidade de contração é de 3 a 5 vezes maior que na slow-twitch

?? Sistema glicolítico de curta duração bem desenvolvido

?? Metabolismo anaeróbio
Tipo IIA
Intermediaria: contração rápida e capacidade aeróbia moderada (alto nível SDH)
e anaeróbia (PFK) = FOG (fast oxidative glicolytic fiber)
Tipo IIB
Potencial anaeróbio maior – verdadeira fast – twitch FG (fast glicolytic) Tipo
IIC

Rara e não diferenciada; envolvida na inervação motora.

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Tipo de fibra pode ser mudado?

Treinamento: pode induzir mudanças, mas há controvérsias.

Pode ser que só haja um aumento na capacidade aeróbia das fast. Ou vice versa.

Altamente determinado pelo código genético.

Idade não é impedimento

Diferenças entre grupos atléticos

45 a 55% de slow-twitch

slow twitch – atletas de resistência


Hipertrofia x Hiperplasia
Hipertrofia é um aumento no tamanho e volume celular enquanto que
Hiperplasia é um aumento no número de células.

Se você olhar para um fisiculturista e para um maratonista, de cara dá para notar


que a especificidade de um treinamento produz efeitos diferentes em cada atleta.
Um treinamento aeróbico resulta em um aumento de volume/densidade
mitocondrial, enzimas oxidativas e densidade capilar (devido a um aumento no
número de hemácias). Atletas de resistência também possuem as fibras de seus
músculos treinados, menores quando comparadas com as de pessoas sedentárias.

Por outro lado, fisiculturistas e outros levantadores de peso, têm músculos muito
maiores. Sabe-se que o aumento de massa é devido primariamente à hipertrofia
das fibras, mas há situações onde a massa muscular também aumenta em
resposta a um crescimento no número de células.

Apesar de hiperplasia ser uma grande controvérsia entre pesquisadores da área,


em modelos animais já foi demonstrado que sob certas condições podem ocorrer
tanto hipertrofia quanto hiperplasia das fibras musculares, com um aumento de
até 334% para massa muscular e 90% para o número de fibras.

Uma das evidências da existência da Hiperplasia em seres humanos, é que este


processo também pode contribuir para o aumento de massa muscular. Por
exemplo, um estudo feito em nadadores, revelou que estes tinham fibras do tipo
I e IIa do músculo deltóide menores que as de não nadadores, entretanto o
tamanho deste músculo era muito maior nos nadadores. Por outro lado, alguns
pesquisadores mais céticos atribuem o fato de fisiculturistas e outros atletas
deste tipo possuírem fibras de tamanho menor ou igual ao de indivíduos não
treinados à genética: estes atletas simplesmente nasceram com maior número de
fibras.

Existem dois mecanismos primários pelos quais novas fibras podem ser
formadas. No primeiro, fibras grandes podem se dividir em duas ou mais fibras
menores. No segundo, células satélite podem ser ativadas. Células satélite são

“stem cells” (células-tronco) miogênicas envolvidas na regeneração do músculo


esquelético. Quando você danifica, estira ou exercita as fibras musculares,
células satélite são ativadas. Células satélite proliferam e dão origem a novos
mioblastos.

Estes novos mioblastos podem tanto se fundir com fibras já existentes quanto se
fundir com outros mioblastos para formar novas fibras.

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Câimbras e Fadiga Muscular

Apesar de existirem muitas causas para câimbras musculares ou tetania, grandes


perdas de sódio e líquidos costumam ser fatores essenciais que predispõem
atletas a câimbras musculares. O sódio é um mineral importante na iniciação dos
sinais dos nervos e ações que levam ao movimento nos músculos. Nós temos
uma baixa nas reservas de sódio no organismo ao transpirarmos quando
praticamos alguma atividade física.

Um estudo realizado com um tenista profissional no EUA apresentava que a


perda de sódio em uma partida de várias horas era muito maior do que o
consumo diário desse mineral pelo atleta e o quadro de câimbras musculares era
reincidente. Dada a popularidade de dietas com pouco sódio, um déficit de sódio
não está fora de questão quando um atleta está suando em taxas altas,
particularmente nos meses quentes do ano.

Mas não devemos apenas associar as câimbras musculares o déficit do sódio no


organismo. Existem outras causas potenciais como diabetes, problemas
vasculares (estes pela baixa de oxigênio na fibra muscular, já que o oxigênio é
elemento fundamental na contração muscular) ou doenças neurológicas. Os
atletas atribuem câimbras à falta de potássio ou outros minerais como cálcio ou
magnésio.

A opinião médica atual não dá apoio a esta idéia. Os músculos tendem a


acumular potássio, cálcio e magnésio de forma tal que são perdidos em níveis
menores na transpiração, se comparados com sódio e cloreto. A dieta geralmente
fornece quantidades adequadas para prevenir déficits que iriam contribuir para a
ocorrência de câimbras.

A fadiga pode ser entendida como um declínio gradual da capacidade do


músculo de gerar força, resultante de atividade física (figura 11).

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Figura 11: Representação

esquemática da fadiga de

contrações intermitentes
submáximas. A capacidade

máxima de geração de força

diminui logo a partir do início da


atividade.
A fadiga muscular resulta de muitos fatores, cada um deles relacionados às
exigências específicas do exercício que a produz. Esses fatores podem interagir
de maneira que acabe afetando sua contração ou excitação, ou ambas. As
concentrações de íons de hidrogênio podem aumentar causando acidose. Os
estoques de glicogênio podem diminuir dependendo das condições de contração.
Os níveis de fosfato inorgânico podem aumentar. As concentrações de ADP
podem aumentar. A sensibilidade de Ca2+ da Troponina pode ser reduzida. A
concentração de íons livres de Ca2+ dentro da célula pode estar reduzida. Pode
haver mudanças na freqüência de potenciais de ação dos neurônios. Uma
redução significativa no glicogênio muscular está relacionada à fadiga observada
durante o exercício submáximo prolongado. A fadiga muscular no exercício
máximo de curta duração está associada à falta de oxigênio e um nível sangüíneo
e muscular elevado de ácido lático, com um subseqüente aumento drástico na
concentração de H+ dos músculos que estão sendo exercitados. Essa condição
anaeróbica pode causar alterações intracelulares drásticas dentro dos músculos
ativos, que poderiam incluir uma interferência no mecanismo contrátil, uma
depleção nas reservas de fosfato de alta energia, uma deterioração na
transferência de energia através da glicólise, em virtude de menor atividade das
enzimas fundamentais, um distúrbio no sistema tubular para a transmissão do
impulso por toda a célula e desequilíbrio iônicos. É

evidente que uma mudança na distribuição de Ca2+ poderia alterar a atividade


dos miofilamento e afetar o desempenho muscular. A fadiga também pode ser
demonstrada na junção neuromuscular, quando um potencial de ação não
consegue ir do motoneurônio para a fibra muscular. O mecanismo exato da
fadiga é desconhecido.

A contração muscular voluntária envolve uma “cadeia de comando” do cérebro


às pontes cruzadas de actina-miosina (figura 12). A fadiga pode ocorrer como
resultado de rompimento de qualquer local da cadeia de comando. A fadiga pode
ser descrita tanto como central como periférica. A fadiga central está tipicamente
associada com a ausência de motivação, transmissão espinhal danificada ou
recrutamento das unidades motoras danificado. Geralmente, fatiga periférica se
refere ao dano na transmissão nervosa periférica, na transmissão neuromuscular,
dano no processo de ativação das fibras ou interações actina-miosina.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Figura 12: Figura esquemática

representando a “cadeia de

comando” da contração muscular.

1. Preencha a tabela abaixo, indicando para cada esporte, qual seria o tipo de
fibra predominante (tipo I - lenta, tipo II - rápida), a fonte de energia mais
utilizada e se o exercício é aeróbio ou anaeróbio

Tipo de Esporte Tipo de fibra

Fonte de energia Aeróbio/anaeróbio

Corrida 100m

Maratona

Caminhada
Natação

Sedentário

2. Além do ATP, a creatina fosfato também fornece energia e sua reserva é de 3 a


5

vezes maior do que as de ATP. A creatina fosfato é produzida nos períodos de


repouso, por fosforilação à custa de ATP:

Creatina + ATP

Creatina Fosfato + ADP + H+

A reação é reversível catalisada pela creatina quinase. Durante a atividade


muscular, processa-se no sentido da regeneração de ATP, o doador imediato de
energia para a contração. A quantidade de ATP e de Creatina Fosfato (CP)
armazenada no músculo é de aproximadamente 5 mmol e 15 mmol por kg de
músculo, respectivamente. A hidrólise de 1 mol de ATP libera aproximadamente
7

kcal/mol e a de Creatina fosfato, 10kcal/mol. Seja uma pessoa de 70kg com


30kg de massa muscular que mobiliza 20kg dos músculos durante uma atividade
física.

Para cada uma das atividades, calcule por quanto tempo seria possível realiz ar a
atividade, levando em consideração os dados de gasto energético fornecidos na
tabela.

Tipo de Esporte Gasto energético Tempo

(kcal/min)

Ciclismo (rápido) 12,0

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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CONTRAÇÃO MUSCULAR E FIBRAS

Judo

13,8

Karate

13,8

Corrida (rápido)

20,5

Natação (intenso) 12,0

Competição pólo 13,6

aquático

Baseado nos seus cálculos, explique como essas atividades podem ser mantidas
por um período de tempo maior, como ocorre usualmente. Que tipo de substrato
seria utilizado como fonte de energia? Você se lembra das vias de utilização
desses substratos? Para utilizar os substratos que você citou, é necessário que
haja oxigênio?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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REVISÃO – VIAS METABÓLICAS

2. Revisão – Vias metabólicas

(retirados do livro de Bioquímica básica do Bayardo)


Geral
Mapa pg 340 (mapa1)

Ex1

Qual é a finalidade biológica dos processos descritos no mapa 1?

Quais os compostos aceptores de hidrogênio?

Qual é a função das coenzimas e do oxigênio na oxidação dos alimentos?

Ex2 Mapa pg 116

Observe o mapa abaixo. Ele mostra de forma simplificada o metabolismo de


degradação de carboidratos, lipídeos e proteínas, com reações reversíveis e
irreversíveis.

Em que composto há convergência dessas vias?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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REVISÃO – VIAS METABÓLICAS

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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REVISÃO – VIAS METABÓLICAS

Complete o quadro abaixo, indicando se as conversões indicadas são possíveis e


quais etapas seriam percorridas para cada conversão possível
Conversões

Possível?

Etapas

a. Proteína ? Glicose

b. Proteína ? Ácido

Graxo

c. Glicose ? Ácido

Graxo

d. Glicose ? Proteína

e. Ácido Graxo ?

Glicose

f. Ácido Graxo ?

Proteína

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REVISÃO – VIAS METABÓLICAS

GLICOSE

hexoquinase

GLICOSE 6 P

FRUTOSE 6 P
fosfofrutoquinase 1

FRUTOSE 1,6

BISFOSFATO

DIIDROXIACETONA

GLICERALDEÍDO 3 P

FOSFATO

FOSFOENOLPIRUVATO

piruvato quinase

PIRUVATO

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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REVISÃO – VIAS METABÓLICAS

2.1. Glicólise

1. Quais são os substratos iniciais da via?

2. Quais são os seus produtos?

3. O NADH produzido na glicólise pode ser oxidado aerobia ou


anaerobiamente?

Que vias ou reações estariam envolvidas? O que ocorre com o piruvato?

4. Fosfofrutoquinase 1: Esta enzima tem como inibidor o ATP e como efetuador


alostérico positivo o AMP. Pense, em um músculo em contração vigorosa, qual é
a conseqüência dessa regulação? Se o aporte de oxigênio for insuficiente para o
músculo, o que deve ocorrer com as coenzimas? Haverá produção de lactato?
2.2. Conversão de piruvato a acetil-coA

A conversão do piruvato a acetil-coA é catalisada por um complexo


multienzimático chamado complexo piruvato desidrogenase que requer cinco
coenzimas: tiamina pirofosfato (TPP), coenzima A (CoA), nicotinamida adenina
dinucleotídeo (NAD+), flavina adenina dinucleotídeo (FAD) e ácido lipóico. As
quatro primeiras coenzimas são derivadas de vitaminas hidrossolúveis: tiamina,
ácido pantotênico, nicotinamida e riboflavina, respectivamente. O ácido lipóico
também é uma vitamina. A equação da reação é a seguinte:

Piruvato + Coenzima A + NAD+ ? Acetil-CoA + NADH + CO2

a) Qual é a importância dessa reação no metabolismo? De onde vem o piruvato?

b) O que a falta de uma das vitaminas causaria?

c) Em que compartimento celular ocorre esta reação?

d) Se um indivíduo possuir um excesso de vitamina, haverá um aumento na


velocidade de reação?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-20-

REVISÃO – VIAS METABÓLICAS


2.3. Ciclo de Krebs
ACETIL-CoA

H2O

CoA

NADH + H+
OXALOACETATO
CITRATO

citrato

sintase

NAD+

MALATO

ISOCITRATO

NAD+

isocitrato

desidrogenase

NADH + H+

H2O

CO2

FUMARATO

? -CETOGLUTARATO

Co-A

succinato

? -cetoglutarato

NAD+
desidrogenase

desidrogenase

FADH2

NADH + H+

SUCCINATO

SUCCINIL-CoA

CO2

FAD

CoA

GDP + Pi

GTP

1. O ciclo de Krebs se inicia com a condensação de acetil-coA e oxaloacetato.

Observe o mapa 1. De onde vem o acetil-CoA? (Na sua opinião, qual é a


contribuição de cada composto para formação de acetil-CoA?)

2. Quantas coenzimas são reduzidas para uma molécula de acetil-coA?

3. Como o ciclo de Krebs pode contribuir para a formação de grande parte do


ATP

produzido na célula se ele gera somente 1 ATP e 1 GTP por molécula de acetil-
coA? Esta via pode funcionar em condições anaeróbias?

4. Em um programa de treinamento, foram medidas a atividade da succinato


desidrogenase e da citrato sintase. Em que vias essas enzimas participam? Qual
seria o motivo para utilizar essas medidas para avaliação em um programa de
treinamento físico?
2.4. Cadeia de transporte de elétrons e Fosforilação oxidativa 1. Qual é a
função da cadeia de transporte de elétrons? Esta via poderia funcionar sem
oxigênio?

2. As necessidades celulares de ATP variam bastante de acordo com o estado


fisiológico da célula. Uma fibra muscular pode ter suas necessidades Nutrição e
Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-21-

REVISÃO – VIAS METABÓLICAS

aumentadas de 100 vezes em poucos segundos quando passa do repouso para


uma atividade física intensa. Para promover o ajuste de produção de ATP e seu
gasto, o transporte de elétrons só ocorre com a síntese de ATP e vice-versa.

Para que essas reações ocorram, os substratos são: coenzimas reduzidas,


oxigênio, ADP e Pi, dentre os quais somente o ADP atinge concentrações
limitantes na célula.

Descreva o que ocorre no ciclo de Krebs, cadeia de transporte de elétrons,


fosforilação oxidativa e glicólise quando

a) a razão ATP/ADP aumenta

b) a razão ATP/ADP diminui

1) a razão NAD+/NADH aumenta

2) a razão NAD+/NADH diminui

2.5. Glicogênio

1. O glicogênio é sintetizado principalmente pelo fígado e músculos quando a


oferta de glicose supera as necessidades energéticas imediatas destes órgãos. O

glicogênio deve ser sintetizado em uma situação fisiologicade razão ATP/ADP

alta ou baixa? Por que? Essa condição deve ocorrer durante o exercício ou
durante o repouso?

2.6. Gliconeogênese

1. A gliconeogênese é uma via que se processa no fígado e minoritariamente nos


rins e tem como objetivo a síntese de glicose a partir de compostos que não são
carboidratos, aminoácidos, lactato e glicerol. Essa via utiliza as reações
reversíveis da glicólise e substitui por outras irreversíveis. Há gasto de energia
para efetuar a síntese de glicose? Qual é a necessidade de sintetizar glicose para
um organismo? Essa via é realmente necessária já que temos reservas de
glicogênio?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-22-
(-OXIDAÇÃO

3. ?-Oxidação

A continuação você tem os mapas das vias metabólicas mais importantes tal e
qual elas são conhecidas em mamíferos. Eles estão relativamente simplificados
ao efeito de que você consiga relembrar coisas básicas e não fique perdido no
meio da complexidade que elas possuem. Logo de cada via, se apresentam
detalhes dos pontos importantes por serem pontos de regulação, por envolverem
gasto ou produção de energia ou poder redutor, ou por mostrar moléculas que
serão nomeadas de aqui em diante e cujo destino você conseguirá seguir pelo
universo metabólico. Alguns desses detalhes serão de utilidade não nessa fase de
revisão e sim ao longo do curso.
-Observe a via de degradação de triacilgliceróis e oxidação (?-oxidação) de
ácidos graxos.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-23-

(-OXIDAÇÃO

Revisemos alguns pontos dos caminhos indicados no diagrama anterior: (1) -


Utilização do glicerol

(2) - Ativação ao nível da membrana externa da mitocôndria


- Transporte ao nível da membrana interna da mitocôndria

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-24-

(-OXIDAÇÃO

(E) A TRANSFERASE cataliza o processo e é regulada por (-) malonil-CoA


(Ver na via da síntese de ácido graxo)

(3) - ? - Oxidação

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-25-
(-OXIDAÇÃO

Em determinadas condições fisiológicas, o acetil-CoA gerado na ? - oxidação


não pode ser aproveitado no ciclo de Krebs e se produz a formação de corpos
cetônicos (acetona, acetoacetato, .e ?-hidroxibutirato), como se indica em baixo.

Tente responder:

1- Observando a via geral, de que depende a mobilização dos depósitos de


triacilgliceróis? Considerando que os hormônios catecolaminas (epinefrina ou
adrenalina e norepinefrina ou noradrenalina) são sintetizados em situações de
perigo, hipoglicemia, exercício físico e exposição a baixas temperaturas,
estimulando a produção de glucagon e inibindo a da insulina, em que condições
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-26-

(-OXIDAÇÃO

fisiológicas é ativada a lipase dos adipócitos? Nessas condições, quais serão as


principais fontes de energia do tecido muscular?

2- Os subprodutos das vias que estão realçados (diidroxiacetona fosfato, o acetil-


CoA e o Succinil-CoA) funcionam como intermediários de outras vias nas quais
eles são processados. Quais são essas vias.

3- A carnitina é um composto amplamente distribuído pelos diferentes tecidos


mas encontrado em concentrações elevadas no músculo. O que sugere este dado?

4- Em quais das seguintes situações haverá estímulo da formação de corpos


cetônicos:

-dieta rica em hidratos de carbono e normal em lipídeos

-jejum

- dieta rica em lipídeos e normal em hidratos de carbono

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-27-
SÍNTESE DE ÁCIDOS GRAXOS

4. Síntese de Ácidos Graxos

A primeira etapa da síntese de ácidos graxos é o transporte de Acetil-CoA para o


citossol

Revisemos o ponto da síntese dos caminhos indicados no diagrama anterior: (1)


Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-28-

SÍNTESE DE ÁCIDOS GRAXOS

4.1. Síntese de triacilgliceróis

Discuta a seguinte afirmação:

1) “Os triacilgliceróis constituem a forma de armazenamento de todo o excesso


de nutrientes”

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-29-
TOMADA DE OXIGÊNIO

5. Tomada de Oxigênio

A figura acima mostra a tomada de oxigênio pulmonar durante os minutos


iniciais de uma corrida com velocidade constante por 10 min, ou seja, um
exercício leve. Nos primeiros minutos, há um aumento exponencial da tomada
de O2. A região do gráfico onde nível de tomada de O2 permanece constante é
considerado o estado estacionário.

1. O que significa o estado estacionário em relação ao balanço energético?

2. A produção de ATP ocorre de forma aeróbia ou anaeróbia?

3. Ocorre acúmulo de lactato?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-30-

DÉFICIT DE O2

6. Déficit de O2
O déficit de O2 é a diferença entre o oxigênio total consumido durante o
exercício e o total que teria sido consumido se uma taxa estacionária do
metabolismo aeróbio tivesse sido alcançada no início. No gráfico, o déficit está
representado pela área em lilás.

1. Enquanto a tomada de oxigênio é pequena, qual é a fonte de energia utilizada


preferencialmente?

2. Por que há sempre um atraso do aumento na tomada de oxigênio em relação


ao gasto de energia? Responda levando em consideração a produção de
substratos oxidáveis.

3. Por que o déficit de oxigênio é menor nos indiv íduos treinados?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-31-

VO2MAX - CONSUMO MÁXIMO DE OXIGÊNIO

7. VO2max - Consumo máximo de oxigênio

Em uma conversa entre atletas profissionais, provavelmente você irá ouvir a


frase: "qual é o seu VO2Max?" Um alto nível de consumo máximo de oxigênio é
uma das características principais de atletas de esportes de alta intensidade como
corrida e ciclismo, portanto, deve ser uma característica importante... Mas o que
é e como ele é medido?

7.1. Definição de VO2 Max

VO2Max é o volume máximo de oxigênio consumido pelo corpo por minuto


durante o exercício realizado no nível do mar. Como o consumo de oxigênio está
linearmente relacionado com o gasto de energia, quando medimos o consumo de
oxigênio, estamos medindo indiretamente a capacidade máxima do indivíduo de
realizar um trabalho aeróbico.

7.2. Por que o dele é maior que o meu???

Devemos começar perguntando: "quais são os determinantes do VO2Max?"


Toda célula consome oxigênio para converter a energia dos alimentos em ATP
para o trabalho celular. As células musculares em contração têm alta demanda
por ATP, o que faz com que o consumo de oxigênio aumente durante o exercício.
A soma total de bilhões de células de todo o corpo consumindo oxigênio e
gerando CO2

pode ser medida pela respiração, usando equipamentos que medem o volume e a
presença de oxigênio. Portanto, se medimos um consumo maior de oxigênio
durante o exercício, sabemos que mais células musculares estão contraindo e
consumindo oxigênio. Para receber e usar o oxigênio para gerar ATP para a
contração muscular, as fibras musculares são absolutamente dependentes de dois
fatores:

1) um sistema de delivery para levar o oxigênio da atmosfera para as células


musculares

2) mitocôndrias para realizar o processo de transferência de energia aeróbia De


fato, os atletas de resistência são caracterizados por possuir um ótimo sistema
cardiovascular e uma capacidade oxidativa bem desenvolvida nos músculos
esqueléticos. Precisamos de uma bomba eficiente para enviar o sangue rico em
oxigênio para os músculos e também de músculos ricos em mitocôndria para
usar o oxigênio e sustentar altas taxas de exercício físico. Mas, qual seria o fator
limitante na VO2Max, o delivery ou a utilização de oxigênio? Esta questão criou
muito debate entre os fisiologistas, mas agora já temos uma resposta clara.

7.3. Os músculos dizem, se você entrega-ló, nós o usaremos.

Muitos experimentos de diferentes tipos sustentam o conceito de que, em


indivíduos treinados, é o delivery e não a utilização de oxigênio que limita o
VO2Max. Realizando exercícios com uma perna e medindo diretamente o
consumo muscular de oxigênio de uma pequena massa muscular, foi mostrado
que a capacidade do músculo utilizar o oxigênio excede a capacidade do coração
de bombeá-lo. Apesar de um homem adulto possuir de 30 a 35 kg de músculo,
somente uma parte desse músculo pode ser perfundido com sangue a qualquer
momento. O coração não pode enviar um grande volume de sangue para todo o
músculo esquelético e ainda manter uma pressão sangüínea adequada. Como
mais uma evidência para uma limitação no delivery, um treino de resistência
longo pode resultar em um aumento de 300% da capacidade oxidativa do
músculo mas Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-32-

VO2MAX - CONSUMO MÁXIMO DE OXIGÊNIO

aumenta somente de 15 a 25% o VO2Max. O VO2Max pode também ser


alterado artificialmente mudando a concentração de oxigênio no ar. Além dissso,
o VO2Max costuma aumentar em pessoas não-treinadas antes que ocorra uma
mudança na capacidade aeróbica do músculo. Todas essas observações
demonstram que o VO2Max pode ser dissociado das caracterísiticas do músculo
esquelético.

O volume de sangue que é ejetado do ventrículo esquerdo a cada batimento


cardíaco é chamado de "stroke" e está relacionado linearmente com o VO2max.
O

treinamento faz com que haja um aumento do stroke volume e portanto, um


aumento da capacidade caríaca máxima. Isto resulta em uma maior capacidade
para o delivery de oxigênio. Mais músculos são abastecidos de oxigênio
simultaneamente e ao mesmo tempo, a pressão sanguínea é mantida.

É importante também considerar e compreender o papel da capacidade oxidativa


do músculo. À medida que o sangue rico em oxigênio passa pela rede de
capilares de um músculo esquelético em ação, o oxigênio difunde para fora dos
capilares para a mitocôndria, seguindo o gradiente de concentração. Quanto
maior a taxa do consumo de oxigênio pela mitocôndria, maior é a extração do
oxigênio e maior a diferença entre a concentração de O2 entre o sangue arterial e
venoso. O

delivery é o fator limitante pois mesmo nos músculos treinados, não se pode usar
o oxigênio que não é fornecido. Mas, se o sangue chega nos múculos que não
são treindados, VO2max será menor apesar de uma maior capacidade de
delivery.

7.4. Como o VO2Max é medido?

Para determinar a capacidade aeróbica máxima, devemos seguir condições de


exercício que demandam a capacidade máxima de delivery de sangue pelo
coração. Para isso, devemos considerar as seguintes características:

?? Utilizar pelo menos 50% da massa muscular total. Atividades que cumprem
este requisito: corrida, ciclismo, remo. O método mais comum no laboratório é a
corrida em uma esteira, com inclinações e velocidades diferentes.

?? Ser independente da força, velocidade, tamanho do corpo e habilidades.

?? Ter duração suficiente para que as respostas cardiovasculares sejam


maximizadas. Geralmente, testes para capacidade máxima usando

exercício contínuos são completados em 6 a 12 minutos.

?? Ser feito por pessoas motivadas pois os testes para medir VO2max são muito
pesados mas terminam rapidamente.

Eis um exemplo do que ocorre durante um teste. Sua freqüência cardíaca será
medida e o teste se inicia por uma caminhada em uma esteira a velocidades
baixas e sem inclinação. Se você estiver em forma, o teste pode ser iniciado com
uma corrida leve. Então, a velocidade e/ou a inclinação da esteira é aumentada
em intervalos regulares (30s a 2 min). Enquanto você corre, estará respirando
por um sistema de 2 válvulas. O ar entra do ambiente mas será expirado por
sensores que medem o volume e a concentração de O2.

Usando estas válvulas, a tomada de O2 pode ser calculada por um

computador em cada estágio do exercício. A cada aumento na velocidade ou


inclinação, uma massa muscular maior será utilizada em maior intensidade. O

consumo de oxigênio ira aumentar linearmente com o aumento de carga. Porém,


Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-33-
VO2MAX - CONSUMO MÁXIMO DE OXIGÊNIO

em algum ponto, o aumento da intensidade não irá resultar em um aumento do


consumo de oxigênio. Esta é a indicação de que você atingiu o VO2 max.

O valor do VO2 max pode ser dado em duas formas: absoluta, ou seja, em
litros/min e o valor é tipicamente entre 3 e 6 para homes e 2,5 e 4,5 para
mulheres. O valor absoluto não leva em conta as diferenças de tamanho do
corpo.

Por isso, outra forma de expressar o VO2max é na forma relativa, em ml por min
por kg.

O consumo máximo de oxigênio entre homens não -treinados com

aproximadamente 30 anos é aproximadamente 10-45 ml/min/kg e diminui com a


idade. O indivíduo que faz exercícios regularmente pode aumentar para 50-55

ml/min/kg. Um corredor de ponta com 50 anos pode ter um valor de VO2max


maior do que 60 ml/min/kg. Já um campeão olímpico de 10.000 metros
provavelmente apresenta um valor próximo de 80ml/min/kg. Claramente, o
treino é importante mas a genética favorável também é um fator crítico. Mais
uma informação: antes de você ficar muito impressionado com o corredor na TV,
lembre-se ue os humanos não são nada em comparação com muitos animais
atletas - o VO2 de um cavalo treinado é de 600 litros/min ou 150ml/min/kg!
Como vimos no texto, um dos fatores que afeta o VO2max é a pressão de
oxigênio. Isso ocorre pois a ligação do oxigênio à hemoglobina é regulada pelo
2,3

bisfosfoglicerato (2,3 BPG). O 2,3 BPG está presente em concentrações


relativamente altas nos eritrócitos e faz com que a afinidade da hemoglobina
pelo oxigênio seja bastante reduzida de acordo com a pressão de oxigênio. A
concentração de BPG no sangue de um indivíduo normal é de aproximadamente
5

mM no nível do mar e de aproximadamente 8 mM em grandes altitudes. O


gráfico abaixo mostra uma curva de saturação de oxigênio para a hemoglobina
em função da pressão de oxigênio para diferentes concentrações de BPG.

a) Explique por que o BPG é importante para a adaptação fisiológica em regiões


de grandes altitudes.

b) A afinidade da hemoglobina fetal por BPG é maior ou menor que nos adultos?

Por que?

c) Os indivíduos treinados possuem maior ou menor concentração de 2,3 BPG.


Este fato é coerente com a diferença de déficit de oxigênio observada no gráfico
da tomada de oxigênio?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-34-
RECUPERAÇÃO APÓS O EXERCÍCIO

8. Recuperação após o exercício

8.1. Definição de EPOC / relação de EPOC com intensidade do exercício


Após uma atividade física, os processos fisiológicos do corpo não voltam
imediatamente ao estado de repouso. Independente da intensidade do exercício, a
tomada de oxigênio durante a recuperação (pós-exercício) sempre excede o valor
do repouso. Este excesso é chamado de débito de oxigênio ou recovergy oxygen
uptake ou EPOC (“Excess Post Exercise Oxygen Consumption” - excesso de
oxigênio pós-exercício). Ele é calculado como:

(Oxigênio total consumido na recuperação) - (Oxigênio total que teria sido


consumido no repouso durante o período de recuperação se o exercício não
tivesse sido realizado)
Então, se um total de 5.5L de oxigênio foi consumido durante a recuperação até
atingir o valor de repouso de 0.310L/min e o tempo de recuperação foi de 10

min, o débito de oxigênio seria de 5.5L - (0.310L x 10 min) = 2.4L.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-35-

RECUPERAÇÃO APÓS O EXERCÍCIO

Os gráficos acima mostram a tomada de oxigênio durante e depois do exercício.


Indique para cada um dos gráficos a intensidade do exercício: a) leve

b) aeróbico moderado a pesado

c) máximo (aeróbico + anaeróbico)

Justifique, tentando explicar o por que de uma componente mais rápida e outra
mais lenta nos dois últimos gráficos, relacionando com a intensidade e duração
do exercício. Que elementos indicados no gráfico levaram a essas conclusões?

2. Qual seria a função desse excesso de oxigênio pós-exercício?

3. Implicações do EPOC na recuperação

O EPOC tem implicações para a recuperação após o exercício que pode ser feita
de forma ativa ou passiva. A forma passiva consiste em repouso, inatividade
completa que reduz o requerimento de energia, liberando o O2 para o processo
de recuperação. A forma ativa ou cooling down é feita com exercício aeróbio
submaximal, dessa forma, o movimento aeróbio contínuo evita a fadiga e facilita
a recuperação.

Que tipo de recuperação seria mais adequado para:

a) exercício feito com uptake de O2 abaixo de 50% de VO2 max

b) exercício cuja intensidade ultrapassa 60 a 75% do VO2 max

Justifique, levando em consideração a função do EPOC e a formação de ácido


lático.

Observe o gráfico abaixo e responda:

1. Descreva as diferenças observadas no gráfico entre um indivíduo treinado e


não treinado para as diferentes intensidades de exercício físico.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-36-
RECUPERAÇÃO APÓS O EXERCÍCIO

2. No exercício leve, como o ATP necessário é gerado? Há aumento na


concentração do lactato? Por que?

3. Assumindo que ocorre hipóxia nos tecidos, como explicar o acúmulo de


lactato no exercício moderado? Explique, utilizando na sua resposta a via
glicolítica e a produção de NADH.

4. Por que durante o repouso há produção de lactato? O que significa o nível


basal de lactato? O lactato pode ser formado continuamente em repouso e
durante o exercício moderado. Em condições aeróbias, há um balanço entre a
produção e a remoção de lactato por outros tecidos, mantendo a concentração
estável. Quando a taxa de remoção não é equilibrada pela produção, ocorre o
acúmulo de lactato. Por que nos indivíduos treinadas o acúmulo de lactato é
menor no exercício moderado?

Por que no exercício intenso o acúmulo de lactato no indivíduo treinado é


maior??

5. A enzima lactato desidrogenase (LDH) favorece a conversão de piruvato em


lactato nas fibras musculares de contração rápida. Já nas fibras lentas, a LDH

favorece as reações contrárias, transformando preferencialmente lactato em


piruvato. Como isso é possível? Nos exercícios em que há maior mobilização de
fibras do tipo II, o que seria esperado em relação à concentração de lactato? Este
fato dependeria da oxigenação dos tecidos? Como pode uma mesma enzima
favorecer reações no sentido contrário?

6. A enzima lactato desidrogenase é uma enzima oligomérica formada por


diferentes subunidades. Os vertebrados possuem duas subunidades distintas
dessa enzima: M, que predomina nos músculos e H, que predomina no tecido
cardíaco.

Para saber quantas subunidades compõem a enzima, as diferentes proteínas


oligoméricas (formadas somente por subunidades M ou H) foram purificadas,
misturadas, dissociadas de suas subunidades componentes em condições suaves
de Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-37-

RECUPERAÇÃO APÓS O EXERCÍCIO

desnaturação (mudança de pH, adição de uréia) e foram então incubadas juntas


para se reassociarem (retirando as condições desnaturantes). Foi feita uma
eletroforese onde na primeira canaleta a amostra aplicada foi a isoenzima
composta somente de subunidades M, na segunda, a mistura após desnaturação
leve e renaturação e na terceira, a isoforma H, como mostra a figura.

O que representam as diferentes bandas na canaleta contendo a mistura?


Quantas subunidades compõem a enzima?

Quantas isoformas da LDH existem? Descreva a composição de subunidades das


isoformas.
M mistura H
(+)

Origem

(-)

8.2. INFORMAÇÕES ADICIONAIS

A Lactato Desidrogenase encontra-se na maioria de todos os tecidos. Quando há


dano nas células em tecidos contendo LDH, há liberação de LDH na corrente
sangüínea. Como a LDH é amplamente distribuída, a análise total de LDH não é
útil para o diagnóstico de uma doença específica. Mas, devido a suas diferentes
isoformas, a análise dos níveis de LDH pode auxiliar no diagnóstico de certas
doenças, mas há controvérsias. As diferentes isoformas são: LDH-1, LDH-2,
LDH-3, LDH-4, LDH-5. Em geral, cada isoforma é usada por um tecido
específico. LDH-1 é encontrada preferencialmente no coração, LDH-2 está
associada com sistemas de defesa contra infecção, LDH-3 está encontrada nos
pulmões e em outros tecidos, LDH-4 no rim, placenta e pâncreas e LDH-5 no
fígado e músculo esquelético.

Normalmente, os níveis de LDH-2 são maiores do que o das outras isoenzimas.

Certas doenças têm padrões de níveis elevados de isoenzimas LDH. Por


exemplo, um nível maior de LDH-1 em relação a LDH-2 pode ser indicação de
ataque cardíaco, elevações de LDH-2 e LDH-3 podem indicar danos nos
pulmões, elevações em LDH-4 e LDH-5 podem indicar danos no fígado ou
músculo. Um aumento de todas as isoformas da LDH simultaneamente pode ser
diagnóstico de lesões em múltiplos órgãos.

Um dos testes comumente utilizados é o diagnóstico de infarto do miocárdio.

O nível total de LDH aumenta em 24-48h após o ataque do coração, tem um pico
em 2 ou 3 dias e retorna ao normal em aproximadamente 5 ou 10 dias. Este
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica
-38-

RECUPERAÇÃO APÓS O EXERCÍCIO

padrão pode ser útil para um diagnóstico tardio. Já o diagnóstico utilizando a


isoforma LDH-1 é mais sensível e específica do que o LDH total. Normalmente,
o nível de LDH-2 é maior do que o de LDH-1. Um nível de LDH-1 maior do que
LDH-2 pode ser um indicativo de ataque cardíaco. Essa inversão aparece em 12-
24h após o ataque.

Porém, o uso dos níveis de LDH como diagnóstico de infarto do miocárdio têm
sido considerado obsoleto pois após mais de 10 anos tentando fazer com que os
testes utilizando as isoformas de LDH tivessem mais sensibilidade e
especificiade, continua apresentando muitas falhas quando utilizado na prática.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-39-

LIMIAR DE LACTATO
9. Limiar de Lactato
Para determinar o limiar de lactato, podemos utilizar dois procedimentos
distintos:

1. O indivíduo em teste faz corridas de 800m e tem o lactato dosado. A primeira


corrida é feita em alta velocidade, a máxima conseguida pelo indivíduo. Após
uma pequena pausa, faz-se um ciclo de corridas em velocidades baixas e
crescentes intercaladas com curtos descansos. Para isso, é necessário ter um
controle de velocidade do atleta e um lactímetro. Para dois indivíduos,
obtivemos os seguintes dados:
Limiar de lactato
14

12

10

(mmol/L)

Limiar de

lactato

concentração de lactato

21

18

8
9

10

velocidade (Km/h)

O limiar de lactato é a velocidade em que o indivíduo atinge a concentração


mínima de lactato, ou seja, quando a taxa de produção começa a exceder a taxa
de remoção.

2. Pode ser feito um teste em laboratório, utilizando estágios sucessivos de


exercício em bicicleta ergométrica, esteira, etc. Inicialmente, a intensidade do
exercício é de 50 a 60% do VO2max. Cada estágio do exercício tem duração de
5

minutos. Perto do final de cada estágio, a taxa cardíaca e o consumo de oxigênio


são registrados e uma amostra de sangue é coletada para a dosagem de lactato.

Após essas medidas, a carga do exercício é aumentada e as medidas são


repetidas.

Após o sexto estágio, obtém-se uma distribuição de intensidades como mostra o


gráfico abaixo. O limiar de lactato é quando a taxa de produção de lactato
excede a taxa de remoção, correspondendo ao consumo de oxigênio de
45ml/min/kg.

Geralmente determina-se o limiar de lactato em % do VO2max. Qual seria o


limiar de lactato do indivíduo abaixo, dado que o VO2max é de 61 mo/min/kg?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-40-
LIMIAR DE LACTATO

Freqüência Cardíaca

Concentração de lactato (mmol/L)

Consumo de oxigênio (ml/min/kg)

a) Qual a finalidade de se medir o limiar de lactato?

b) Observando os gráficos do item 1, responda: qual indivíduo é o treinado? Por


que? Quais os fatores que devem influenciar o acúmulo de lactato no organismo?

c) Qual seria uma forma de monitorar o limiar de lactato durante o exercício sem
que seja efetuada a sua dosagem?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-41-

ADAPTAÇÕES NA UTILIZAÇÃO DE DIFERENTES SUBSTRATOS


DURANTE O TREINAMENTO

10. Adaptações na utilização de diferentes substratos durante o treinamento

Sistemas de transferência de energia durante o exercício. Exercício de


duração imediata e de curta duração.

1. A atividade física demanda a maior quantidade de energia, comparada com


todas as outras funções metabólicas complexas que ocorrem no corpo. Durante
uma corrida de velocidade ou uma competição de nado, por exemplos, o gasto
de energia dos músculos ativos pode ser 100 vezes maior que o gasto em
repouso.

Durante um exercício menos intenso mais intenso, como uma maratona, o


requerimento de energia aumenta para 20 ou 30 vezes em ralação com o
requerido na ausência de atividade. Dependendo da intensidade e duração do
exercício, os três grandes sistemas de transferência de energia existentes no
corpo são requisitados em forma diferenciada e a sua contribuição relativa para o
exercício é distinta.

-Considere o gráfico abaixo e preencha os espaços em branco com os nomes dos


sistemas de transferência de energia correspondentes com cada curva. Após isso
estabeleça: Que sistemas operam em forma anaeróbia e quais em forma aeróbia?

Que sistemas liberam energia mais rapidamente? Existem atividades que sejam
feitas em foram anaeróbia ou aeróbia exclusivamente?

120

100

80

60

40

20

contribuição dos sitemas de energia (%)

10
30

min

min

duração do exercício

2. Segundo a gráfica em baixo, o lactato sangüíneo não se acumula a todas as


intensidades de exercício. Porque o lactato aumenta a medida que aumenta a
intensidade do exercício? Observe as diferenças entre treinados e não treinados e
discuta quais seriam as vantagens dessa diferença no caso de um atleta e
possíveis explicações para essa diferença. Que significam os pontos que estão
sendo indicados pelas setas? Com que tipo de atleta (ou seja, praticando que tipo
de esporte) se corresponde a curva dos “treinados”?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-42-

ADAPTAÇÕES NA UTILIZAÇÃO DE DIFERENTES SUBSTRATOS


DURANTE O TREINAMENTO

exercício

extenuante

exercício

moderado

exercício
fraco

Concentração de lactato sangüíneo

25

50

75

100

VO2 max. (%)

Não treinados

Treinados

3) Treino de intervalo: intercalar exercícios de alta intensidade com descanso


permite realizar exercícios de alta intensidade que não seriam possíveis se foram
feitos continuamente. Baseado no metabolismo energético, justifique se há ou
não base para esse treino.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-43-
TREINAMENTO DE LONGA DURAÇÃO E ALTA INTENSIDADE

11. Treinamento de longa duração e alta intensidade

Treinamento de longa duração e alta intensidade

1. Os atletas que fazem esportes de alta intensidade, freqüentemente


experimentam uma sensação de fadiga crônica, na qual dias sucessivos de
treinamento extenuante chegam a ser mais difíceis de suportar,
progressivamente.

Essa fadiga, pode-se relacionar com uma gradual diminuição das reservas de
CHO

corporais. Na Figura 1 mostra-se a mudança na concentração de glicogênio


intramuscular em seis atletas ingerindo uma dieta com as doses recomendadas de
CHO, lipídeos e proteínas, antes e depois de corridas de 16,1 km realizadas em
três dias sucessivos.

Figura 1. Mudanças na concentração de glicogênio intramuscular em seis atletas


homens antes e depois de corridas de 16,1 km realizadas em três dias sucessivos.
O glicogênio muscula r também foi medido 5 dias após a última corrida.

Observe as variações na concentração e na velocidade de degradação e discuta


como está sendo utilizado o glicogênio ao longo dos três dias de competição.
Estão sendo utilizadas outras fontes de energia ao longo dos três dias?

Como varia a utilização dessas outras fontes em relação com a variação nos
níveis de glicogênio? Que pode dizer respeito da recuperação nos níveis de
glicogênio (5º

dia pós)?

2. Em uma experiência para avaliar o efeito da dieta sobre as reservas de


glicogênio intramuscular e sobre a duração do exercício, três grupos de pessoas
foram alimentados de forma diferente durante três dias, e após essa dieta
diferenciada, foram submetidos a uma sessão de ciclismo até o limite das suas
forças (tempo de fadiga o de extenuação) (Figura 1). A quantidade de calorias
ingeridas foi a recomendada normalmente nos três casos, mas em uma condição
a maior parte das calorias foi dada como lipídeos, na segunda as porcentagens
diárias recomendadas de CHO, lipídeos, e proteínas foram mantidas, e na
terceira, a dieta foi rica em CHO.

Figura 1. Efeitos da dieta no conteúdo de glicogênio no quadriceps femoris e na


duração do exercício feito sobre uma bicicleta

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-44-

TREINAMENTO DE LONGA DURAÇÃO E ALTA INTENSIDADE

Discuta:

-O que pode dizer ao respeito da relação entre a dieta, as reservas de glicogênio


no músculo e a resistência ao exercício?

-Para que tipo de competições você recomendaria uma dieta rica em CHO?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-45-

EXERCÍCIOS DE INTENSIDADE BAIXA E MODERADA


12. Exercícios de intensidade baixa e moderada

1. Em condições de treinamento moderado, que tipo de substrato você espera


que seja degradado preferencialmente e porque? Como espera que essa
degradação evolua ao longo do tempo do exercício?

2. Observe os gráficos inseridos em baixo e discuta as seguintes afirmações: a. O


consumo de lipídeos aumenta na medida que o tempo do exercício aumenta.

b. A contribuição relativa de cada substrato (o fonte de carbono) ao exercício que


está sendo feito depende da intensidade do exercício, da duração do exercício, e
da aptidão física.

c. Como resultado do treinamento as reservas de glicogênio são preservadas.

18

16

14

12

Fontes não sangüíneas

10

FFA

glicose

entrada de oxigênio (mM/min)


0

tempo do exercicio (min)

Figura 1. Consumo de oxigênio e nutrientes durante o exercício prolongado em


condições moderadas. As Fontes não sangüíneas são glicogênio, triglicerídeos e
proteínas do músculo.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-46-

EXERCÍCIOS DE INTENSIDADE BAIXA E MODERADA

350

300

250

glicogênio do músculo

200

triglicerídeos dos músculos

150

FFA do plasma

glicose do plasma

100

50

Gasto de energia (kcal/kg/min)

0
25 65 85

porcentagem do VO2max

Figura 2. Utilização do substrato em diferentes intensidades de exercício

Observação: 25% do VO2 max equivale a exercício suave

65% do VO2 max equivale a exercício moderado

85% do VO2 max equivale a exercício intenso

250

200

ácidos graxos

livres no plasma

150

triglicerídeos

glicogênio

100

glicose

50

sangüínea

sedentário treinado

Figura 3. Contribuição estimada de vários substratos ao metabolismo energético


em músculos dos membros treinados e não treinados, considerando exercícios de
intensidade moderada.

3. A glicose é transportada para dentro das células mediante difusão facilitada.

Uma família de transportadores denominados GLUT1-7 é responsável pelo


transporte. Nos músculos esqueléticos dos humanos adultos há três isoformas
presentes. Dessas, GLUT 1 é responsável pelo transporte basal e GLUT 4 é o
maior transportador de glicose. Na presença de insulina ou por efeito da
contração muscular, GLUT 4 é translocado de depósitos intracelulares para a
membrana plasmática.

Discuta quais seriam as diferenças entre o uso da glicose proveniente da


degradação dos depósitos de glicogênio muscular, hepático ou da ingestão de
sacarose, pelos músculos em atividade.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-47-

PROTEÍNAS

13. Proteínas

Proteínas na dieta

Alguns aminoácidos devem ser fornecidos através da dieta porque sua síntese no
organismo é inadequada para satisfazer as necessidades metabólicas.

Eles são chamados aminoácidos essenciais. Esses aminoácidos são: treonina,


triptofano, histidina, lisina, leucina, isoleucina, metionina, valina e fenilalanina.
A ausência ou ingestão inadequada de qualquer desses aminoácidos resulta em
balanço nitrogenado negativo, perda de peso, crescimento menor em crianças e
pré-escolares e sintomas clínicos. As necessidades de aminoácidos essenciais
estão na tabela 1.

Tabela 1: Estimativas das exigências nutricionais (mg/kg/dia) de aminoácidos


por grupo de idade Aminoácido

Lactentes, idade
Crianças, idade

Crianças, idade

Adultos

3-4 meses

~2 anos

10-12 anos

Histidina

28

8-12

Isoleucina

70

31

28

10

Leucina

161

73

44
14

Lisina

103

64

44

12

Metionina + 58

27

22

13

Cisteína

Fenilalanina + 125

69

22

14

tirosina

Treonina

87

37

28
7

Triptofano

17

12,5

3,3

3,5

Valina

93

38

25

10

Os demais aminoácidos são chamados não essenciais e são igualmente


importantes na estrutura protéica. Se ocorrer deficiência na ingestão desses
aminoácidos, eles podem ser sintetizados em nível celular a partir de
aminoácidos essenciais ou de precursores contendo carbono e nitrogênio.

Aminoácidos conhecidos como condicionalmente essenciais são aqueles que se


tornam indispensáveis sob certas condições clínicas. Acredita-se que a cisteína, e
possivelmente a tirosina, podem ser condicionalmente essenciais em crianças
prematuras. A arginina pode se tornar indispensável em indivíduos mal nutridos,
sépticos ou em recuperação de lesão ou cirurgia.

Fontes de proteína

As proteínas estão amplamente distribuídas na natureza, mas poucos alimentos


contêm proteínas com todos os aminoácidos essenciais, como as proteínas do
ovo e do leite utilizadas como referência.

Alimentos de origem animal, como carnes, aves, peixes, leite, queijo e ovo,
possuem proteínas de boa qualidade, suficiente para serem considerados as
melhores fontes de aminoácidos essenciais.

Os dados sobre consumo de alimentos de 1985 e 1987 do departamento de


Agricultura do Estados Unidos (USDA) revelaram que os alimentos de origem
animal fornecem 65% da proteína consumida. No Brasil esse valor é de
aproximadamente 40% dependendo do poder econômico da população.

As leguminosas (10 a 30% de proteínas) são os alimentos mais ricos em


proteínas, mas são deficientes em metionina. Os cereais (6 a 15% de proteínas)
apresentam um conteúdo protéico menor do que as leguminosas e são deficientes
em lisina, mas contribuem mais para a ingestão protéica da população, pois são
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-48-

PROTEÍNAS

consumidos em grandes quantidades. Frutas e hortaliças fornecem pouca


proteína (1 a 2% do seu peso).

Tabela 2: Composição de aminoácidos em alguns alimentos.

Aminoácidos Queijo,

Milho

Cereal

Legumes Grão

Nozes,

Sementes Amendoim Vegetais, Gelatina Levedura

essenciais

ovo,

integral óleos de de
“folhas

leite e

(com

sementes, gergelim

verdes”

carne

germe) soja

e girassol

Metionina

Isoleucina

X
Leucina

Lisina

Fenilalanina

Treonina

_
X

Triptofano

Valina

X = Altas quantidades de aminoácidos presentes no alimento

_ = Baixas quantidades de aminoácidos presentes no alimento

Recomendações nutricionais para proteínas

O aumento da ingestão de proteínas mais que três vezes o nível

recomendado não aumenta o desempenho durante o treinamento intensivo. Para


atletas, a massa muscular não aumenta simplesmente através de uma
alimentação rica em proteína. Por exemplo, o aumento do consumo extra de
proteína de 100g (400 calorias) para 500g diárias não aumenta a massa muscular.
Calorias adicionais na forma de proteínas são depois da desaminação (remoção
do nitrogênio) usadas diretamente como componentes de outras moléculas
incluindo lipídeos que são estocados em depósitos subcutâneos. Assim, se numa
dieta com excesso de proteínas o músculo não tiver condições de utilizar os
aminoácidos para síntese de tecido muscular, as cadeias carbônicas serão usadas
na gliconeogênese e o nitrogênio excedente excretado pela urina. O aumento da
excreção de nitrogênio leva a uma maior necessidade de água, uma vez que ele é
incorporado à uréia e esta à urina. Isto, a longo prazo pode sobrecarregar os rins
e causar desidratação.

A tabela 3 mostra as recomendações nutricionais de proteínas para adolescente e


adultos homens e mulheres. Em média, o consumo diário de proteína
recomendado por kg de massa corpórea é 0,83g (para determinar o requerimento
de homens e mulheres com idade de 18 a 65 multiplicou-se a massa corpórea em
kg por 0,83. Por exemplo, para um homem com 90 kg, a necessidade diária de
proteína é 90 x 83 ou 75 g).

Geralmente, a necessidade e a quantidade de aminoácidos essenciais diminuem


com a idade. A recomendação protéica diária para lactentes e crianças em
crescimento é de 2 a 4g por kg de massa corpórea, enquanto para mulheres
grávidas é 20 g e para mães em fase de amamentação é 10g. Stress e doenças
aumentam a necessidade protéica.

É tema de debate a grande necessidade de proteínas para atletas

adolescentes que estão em crescimento moderado, atletas envolvidos em


programas de desenvolvimento de força e resistência. Em geral, o aumento no
consumo de proteínas desses atletas serve mais para compensar o aumento no
gasto de energia. Homens e mulheres fisiculturistas e halterofilistas e outros
atletas de força costumam ingerir entre 0,5 a 4 vezes o RDA para proteína por
dia. Esse excesso é consumido na forma de líquido, pó ou pílulas de “proteínas”
purificadas.

Essas preparações que contém proteínas são “predigeridas” quimicamente em


aminoácidos em laboratórios.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-49-
PROTEÍNAS

Tabela 3: Recomendação nutricional (RDA) de proteínas para adolescentes e


adultos homens e mulheres.

Quantidade

Adolescente homem Adulto homem

Adolescente mulher Adulto mulher

recomendada

Gramas de proteína 0,9

0,8

0,9

0,8

por kg de peso

corpóreo

Gramas de proteína 59

56

50
44

por dia (baseada na

média de peso *)

*A média de peso é baseada numa “referência” para homens e mulheres. Para


adolescentes (idade 14-18) a média de peso é aproximadamente 65,8 kg para
homens e 55,7kg para mulheres. Para homem adulto essa média é 70 kg e
mulher é 56,8 kg.

Proteína exercício 1

Revisão metabolismo de aminoácidos

Explique como é originado o pool de aminoácidos e o que ocorre com os


aminoácidos excedentes.

No organismo não existe uma grande reserva de aminoácido livres e qualquer


quantidade acima da necessária para a síntese de proteínas de tecidos e os vários
compostos não protéicos, contendo nitrogênio, é metabolizada. Nas proteínas
celulares existe um “pool” metabólico de aminoácido (figura 1) num estado de
equilíbrio dinâmica que pode ser solicitado em qualquer situação para satisfazer
uma necessidade. O contínuo estado de síntese e degradação de proteínas,
fenômeno denominado “turnover”, é necessário para manter o “pool”

metabólico e a capacidade de satisfazer a demanda de aminoácidos nas várias


células e tecidos do organismo quando esses são estimulados a produzir novas
proteínas. Os tecidos mais ativos responsáveis pelo “turnover” protéico são
plasma, mucosa intestinal, pâncreas, fígado e rins, enquanto tecido muscular,
pele e cérebro são os menos ativos.

Figura 1: pool de aminoácidos originado pela degradação das proteínas


endógenas e pelas da dieta.

Antes da oxidação do esqueleto de carbono da molécula de aminoácido o grupo


amino deve ser removido. Essa remoção é catalizada por enzimas chamadas
aminotransferases ou transaminases. Na maioria dos aminoácidos o grupo ? -
amino é transferido para o átomo de carbono ? do ? -cetoglutarato produzindo o
? -

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-50-

PROTEÍNAS

cetoácido e glutamato. Esse processo ocorre principalmente no fígado. Esse


grupo amino é convertido e, NH +

4 e aspartato que são precursores do ciclo da uréia.

Figura 2: Ciclo da uréia

Os esqueletos de carbono são convertidos a algumas das formas intermediárias


(figura 3), formadas durante o catabolismo de glicose e ácidos graxos. Assim,
podem ser transportados para os tecidos periféricos, onde entram no ciclo de
Krebs para produzir adenosina trifosfato (ATP). Esses fragmentos podem ser
usados também nas síntese de glicose ou gorduras.

Figura 3: Destino da cadeia carbônica dos aminoácidos

A maioria dos aminoácidos, particularmente alanina, são potencialmente


glicogênicos. O piruvato, a partir da oxidação da glicose no músculo, é aminado
para formar alanina que é transportada para o fígado, onde sofre desaminação e o
esqueleto de carbono é convertido à glicose. Esse ciclo da alanina (figura 4) é
importante como fonte de glicose durante o período de baixo suprimento
exógeno.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-51-
PROTEÍNAS

Figura 4: Ciclo alanina-glicose. A alanina transporta a amônia e o esqueleto


carbônico do piruvato do músculo até o fígado. A amônia é excretada e o
piruvato é utilizado na produção de glicose (gliconeogênese)

Existe um balanço de nitrogênio, quando o consumo de nitrogênio (proteína) é


igual à excreção de nitrogênio. O organismo apresenta um balanço de nitrogênio
positivo se o consumo de nitrogênio for maior do que a sua excreção. Assim, a
proteína é retida como um novo tecido que começa a ser sintetizado. Isso é
freqüentemente observado em crianças, durante a gravidez, em recuperação de
doença e durante exercícios de resistência quando a síntese de proteínas ocorre
nas células do músculo.

O balanço de nitrogênio negativo pode ocorrer quando o organismo cataboliza


proteínas devido a falta de outros nutrientes que forneçam energia. Por exemplo,
um indivíduo que consome quantidades adequadas ou excesso de proteína, mas
pequena quantidade de carboidratos ou lipídeos. Conseqüentemente a proteína é
usada como a principal fonte de energia, o resultado é um balanço negativo de
proteína (nitrogênio). Em períodos de jejum também é observado um balanço
negativo de nitrogênio.

Questões

Qual o principal produto de excreção do metabolismo nitrogenado no homem?

Quais são os outros compostos nitrogenados excretados pelo homem?

Qual é a origem dos dois átomos de nitrogênio presentes na molécula de uréia?

Discuta o balanço energético no ciclo da uréia (balanço de ATP)?

Quais são os destinos das cadeias carbônicas dos aminoácidos?

Discuta a importância do ciclo da alanina-glicose.

Onde ocorre a síntese da uréia?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-52-

PROTEÍNAS

Exercício 2

Para o estudo da dinâmica de proteínas no exercício é utilizado o método


clássico de determinação da quebra de proteínas através da excreção da uréia.
No experimento da figura 1 a excreção do nitrogênio foi medida a partir do suor.

Discuta, a partir do gráfico, as conseqüências de uma dieta com restrições de


carboidratos.

O balanço de nitrogênio é a medida mais utilizada para avaliar o metabolismo


protéico de um indivíduo. Sabendo que o balanço de nitrogênio é a diferença
entre a quantidade de nitrogênio ingerido e a quantidade de nitrogênio excretado
explique como está o balanço de nitrogênio nas situações abaixo.

Figura 1: Excreção de uréia no suor em situações de repouso, durante o exercício


depois de grande ingestão de carboidratos (alto CHO) e diminuição de
carboidrato (baixo CHO).

Exercício 3

Algumas proteínas do organismo não podem ser utilizadas para a obtenção de


energia. As proteínas do músculo são mais lábeis e com o aumento da demanda
com os exercícios ela pode ser utilizada na obtenção de energia. A figura abaixo
mostra a liberação do aminoácido alanina (e possivelmente glutamina) a partir
de músculos da perna em diferentes situações. Por que ocorre um aumento dos
níveis de alanina nas situações apresentadas? Qual o destino dessa alanina
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-53-
PROTEÍNAS

Figura 6: Influência de 40 minutos de exercícios de varias intensidades e


liberação de alanina a partir dos músculos da perna.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-54-

CARBOIDRATOS
14. Carboidratos
De onde vem os carboidratos?

Os carboidratos são sintetizados pelos vegetais verdes através da fotossíntese,


processo que utiliza a energia solar para reduzir o dióxido de carbono.

Assim, os carboidratos atuam como reservatório químico principal da energia


solar.

Recomendações Nurticionais

Não há uma recomendação de ingestão para carboidratos. A típica dieta


americana inclui de 40 a 50% da calorias totais como carboidratos. Para uma
pessoa sedentária de 70kg é recomendado um consumo diário de cerca de 300g
de carboidratos. Para uma pessoa ativa envolvida em treinamento o consumo
sobe para 60% de calorias diárias (400 a 600g). Esse carboidrato deve ser
predominantemente proveniente de frutas e vegetais. Na dieta americana cerca
de 50% do carboidrato consumido como açúcar simples, predominando a
sacarose.

Um consumo adequado de carboidratos é fundamental para pessoas ativas.

Quando o suprimento de oxigênio para os músculos ativos é inadequada, o


glicogênio dos músculos e a glicose do sangue são as primeiras fontes de
energia.

Ao estocar glicogênio os carboidratos asseguram energia para exercícios


aeróbicos de alta intensidade. Assim, para pessoas ativas é importante uma dieta
com 50 a 60% de calorias na forma de carboidratos predominantemente na
forma de amido e fibras. Durante treinamento vigoroso e antes de competição o
consumo de carboidratos pode aumentar para assegurar reservas adequadas de
glicogênio. A recomendação para atletas com treinamento prolongados é de 10g
por kg de massa corpórea. Portanto, o consumo diário para um atleta de 46kg
que gasta cerca de 2.800kcal por dia é de aproximadamente 450g ou 1800kcal.
Um atleta com 68kg deve ingerir cerca de 675g de carboidratos (2.700kcal)
como parte de um requerimento de 4.200kcal. Em ambos os casos os
carboidratos representam cerca de 65% da energia total consumida.
Fontes de carboidratos
A maior parte dos carboidratos da dieta são provenientes de alimentos de origem
vegetal. A única exceção é a lactose, dissacarídeo que ocorre no leite e seus
derivados. A frutose está presente em grandes quantidades em frutas e no mel.
Os três açúcares duplos (dissacarídeos) que são comuns na alimentação:
sacarose, lactose e maltose. A sacarose é o açúcar comum de mesa e o mais
disseminado na natureza sendo encontrado em todos os vegetais que efetuam a
fotossíntese e é obtida industrialmente da cana-de-açúcar da beterraba. Quando o
amido é hidrolisado pela enzima diastase, um produto é a maltose. A maior fonte
de maltose é a de grãos em germinação. O amido em grãos se rompe durante a
germinação formando a maltose. Isso ocorre antes dos grãos serem usados na
fabricação da cerveja. No processo de produção da cerveja ocorre a mudança de
maltose em “malte”, que é mais fácil de ser metabolizado do que o amido
original no grão. São poucas as fontes de maltose em nossa dieta. Assim, a
maltose possui papel significativo como produto intermediário da digestão do
amido. O amido ocorre como grânulos microscópicos nas raízes, nos tubérculos
e nas sementes dos vegetais. As maiores fontes de amido incluem milho, batata,
trigo e arroz.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-55-

CARBOIDRATOS

Fibra dietética

Fibra dietética em alimentos corresponde à soma dos resíduos de paredes


celulares e de tecidos de sustentação dos vegetais consumidos nas dietas,
correspondendo a um conjunto de compostos que resistem à hidrólise pelas
enzimas endógenas do tubo digestivo.

O baixo consumo de fibra dietética está ligada a prevalências de desordens


intestinas nos Estados Unidos comparado com países com alto consumo de
complexos de carboidratos não refinados. Por exemplo, na África e na Índia as
dietas apresentam de 40 a 150 g de fibras enquanto a típica dieta americana
apresenta um consumo diário de somente 12g.

Os principais grupos de componentes integrantes das paredes celulares de


vegetais são: celulose, hemicelulose, polissacarídeos pécticos, proteoglicanas,
glicoproteínas e compostos polifenólicos inclusive a lignina. A proporção desses
polímeros varia e o seu grau de maturidade

A celulose é resistente à degradação e insolúvel em água. Assim, os integrantes


da fração fibra classificam-se em solúveis e insolúveis em água. As fibras
solúveis como a pectina e a goma de guar presentes em farinha, feijão, ervilhas,
cenouras e frutas podem diminuir o colesterol do sangue. Essas fibras podem
inibir a síntese e a absorção do colesterol no intestino e ao mesmo tempo se
ligam ao colesterol existente facilitando a excreção nas fezes. As fibras
insolúveis como hemicelulose, lignina e celulose encontradas em arroz, cereais e
farelo de trigo não têm efeito na diminuição do colesterol.

Embora, a fração insolúvel seja em geral a mais abundante, ela não é a mais
importante. A fração insolúvel da fibra está relacionada co o aumento do bolo
fecal que garante o peristaltismo intestinal e evita a constipação, evitando o
aparecimento de hemorróidas e diverticulites (inflamação da parede do intestino,
resultado de irritação conseqüente a diverticulose) que provocam
enfraquecimento da parede intestinal causada pela pressão de fezes duras.

A relação entre câncer de cólon e fibra dietética tem sido estudada, mas os
resultados são conflitantes. Enquanto alguns pesquisadores afirmam não ter
encontrado qualquer relação, outros descrevem diminuição ou aumento do
aparecimento do câncer. Esse assunto é muito discutido em vista da variabilidade
das condições experimentais.

Parece que a fibra reduz a absorção de minerais reduzindo a sua

biodisponibilidade. Em 1992, Sandstead aconselhou não consumir altas doses de


fibra, enquanto não tivermos pleno conhecimento sobre o equilíbrio mineral,
particularmente em relação ao cálcio e o zinco. É recomendado a ingestão diária
de 20 a 35 g de fibra.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


-56-

LIPÍDIOS

15. Lipídios

Os lipídios são fundamentais na alimentação para: transportar as vitaminas


lipossolúveis, fornecer a maior quantidade de calorias por grama, fornecer os
ácidos graxos essenciais etc. Os ácidos graxos essenciais são poliinsaturados e
não podem ser sintetizados pelo organismo humano, sendo obtidos a partir da
alimentação. Os ácidos graxos essenciais são o ácido linoléico e o ácido
linolênico, mas há duvidas se o linolênico é essencial. O ácido linolênico
participa da formação do ácido araquidônico que é precursor dos eicosanóides.
Os ácidos graxos essenciais fazem parte da estrutura dos fosfolipídios que são
componentes importantes das membranas e da matriz estrutural de todas as
células. O ácido linoléico é comum na maioria dos óleos vegetais.

Na dieta típica americana os vegetais contribuem com 34% do consumo diário


de lipídios enquanto 66% é de origem animal. Em média as pessoas nos Estados
Unidos consomem 15% das calorias totais como ácidos graxos saturados. A
relação entre ácidos graxos saturados e o risco de doenças coronárias faz com
que médicos e nutricionistas sugiram a substituição na dieta de ao menos uma
parcela dos ácidos graxos saturados por insaturados. No presente é prudente que
não mais que 10% da energia total seja consumida na forma de ácidos graxos
saturados. .

Para uma boa saúde se tornou comum o uso de lipídios provenientes de fontes
vegetais na alimentação como o óleo de milho. Porém, o consumo total de
lipídios (ambos ácidos graxos saturados e insaturados) podem constituir riscos
para doenças cardiovasculares e diabetes. Portanto, o consumo total de lipídios
deve ser reduzido. Existe associação de dietas ricas em gorduras com cânceres
de ovário, mama e cólon, bem como a possibilidade de promover o crescimento
de outros cânceres. A redução de lipídios na dieta também pode reduzir
problemas de controle de peso.

15.1. Ácidos graxos Ômega-3

Os ácidos graxos ômega-3, de interesse nutricional, incluem o ácido linolênico e


seus derivados, ácido eicosapentaenóico e ácido docosahexaenóico.

Óleos de peixe, principalmente peixes de águas geladas como atum, arenque,


sardinha e cavala são ricos em ácidos graxos ômega-3. O consumo regular de
peixe e óleos de peixe tem efeitos benéficos, especialmente em relação a
doenças cardiovasculares. Um mecanismo proposto para prevenção de ataque
cardíaco é que o óleo de peixe ajuda na prevenir a formação de coágulos
sanguíneos nas artérias.
15.2. Colesterol
As lipoproteínas de alta densidade (HDL) são produzidas no fígado e no
intestino. Essas lipoproteínas têm grande porcentagem de proteínas e um baixo
teor de colesterol. As lipoproteínas de baixa densidade (LDL) contêm maior
colesterol.

O colesterol, juntamente com outros lipídios, é absorvido a partir do intestino e


transportado para o fígado. No fígado o colesterol e os triacilgliceróis excedentes
são usados na síntese das VLDL que são exportadas. Quando os triacilgliceróis
presentes nas VLDL são hidrolisados pela lípase protéica ocorre a formação das
LDL. As LDL transportam (“mau” colesterol) a maior parte do colesterol sérico
e têm grande afinidade pelas células da parede arterial. As HDL (“bom”
colesterol) Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-57-

LIPÍDIOS

removem o colesterol dos tecidos e o transportam para o fígado onde é


incorporado a bile e excretado.

Enquanto os ácidos graxos saturados tendem a elevar tanto o LDL-colesterol


como o HDL-colesterol os insaturados reduzem o LDL-colesterol e os
poliinsaturados reduzem também o HDL-colesterol.

15.3. Manteiga X Margarina: O risco dos ácidos graxos Trans?

A manteiga é composta por cerca de 62% de ácidos graxos saturados e a


margarina com aproximadamente 20%. Durante a produção da margarina através
da hidrogenação ocorre a formação de ácidos graxos na forma natural cis e na
não natural trans. Na margarina a porcentagem de ácidos graxos trans
insaturados é maior que na manteiga, mas como a margarina é de origem de óleo
vegetal não contém colesterol como a manteiga. Suspeita-se de uma possível
relação entre ácidos graxos trans e arteosclerose.

15.4. Recomendações nutricionais


A dieta de lipídios representa cerca de 38% das calorias totais ingeridas nos
Estados Unidos, ou cerca de 50kg de lipídios consumidos por pessoa a cada ano.

Embora as recomendações para a ingestão diária de lipídios não estão


estabelecidas, o consumo de lipídios não deve exceder 30% da energia total da
dieta. Foi proposto que a maior parte dos lipídios seja consumido na forma de
ácidos graxos insaturados, igualmente distribuído entre poliinsaturados e
monoinsaturados. A principal fonte de colesterol são os alimentos de origem
animal ricos em ácidos graxos saturados.

15.5. Lipídios no exercício

O requerimento de energia para atividade de baixa a moderada é largamente


proveniente de ácidos graxos provenientes dos estoques de triacilgliceróis e
liberados do músculo como ácidos graxos livres (FFA). Durante breves períodos
de exercício moderado a energia é derivada aproximadamente em igual
quantidade de lipídios e carboidratos. Depois de uma hora aumenta a utilização
de lipídios e os carboidratos se tornam depletados.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-58-
LIPÍDIOS

Questões carboidratos, lipídios e proteínas

1- O que é o bom e o mau colesterol?

2- Diante de duas dietas com mesma quantidade de açúcar simples (sacarose) e


amido qual é a mais recomendada?

3- Quais são as recomendações nutricionais (RDA) de carboidratos, proteínas e


carboidratos, proteínas e lipídios?

4- Quais são as principais fontes de carboidratos, proteínas e lipídios na


alimentação?

5- Compare as proteínas de origem animal com as de origem vegetal?

6- A mistura de cereais e leguminosas substitui as proteínas de origem animal


numa dieta?

7- Explique a importância de uma dieta de boa qualidade do ponto de vista


protéico para o pool de aminoácidos?

8- Quais as conseqüências de uma dieta deficiente em proteínas?

9- È recomendado uma alta ingestão protéica em atletas?

10- Além do glicogênio qual é a outra maneira do homem armazenar energia?

Qual fornece mais energia? Quem é mais facilmente disponível?

11- Explique o papel dos carboidratos em exercícios prolongados?

12- Quais as conseqüências de uma dieta deficiente em carboidratos?

13- Na tabela abaixo temos a porcentagem de ácidos graxos saturados e


insaturados em gorduras de origem animal, margarinas e óleos vegetais. Com
base na tabela explique que tipo de lipídio é mais recomendado para uma dieta
adequada?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-59-
LIPÍDIOS

Saturados

Monoinsaturados

Poliinsaturados

Gorduras

Manteiga

66

31

Toicinho
43

44

13

Margarinas

26

49

25

Óléos

Amendoim

20

50

30

Algodão

27

22

51

Soja

15

25

60
Milho

13

25

62

Girassol

11

21

68

Oliva

14

77

Coco

92

14- Qual o ácido graxo essencial para o organismo humano?

15- Qual a influência dos ácidos graxos no “mau colesterol” (LDL-colesterol) e


no

“bom colesterol” (HDL-colesterol)? Quais as vantagens e as desvantagens no


consumo de margarinas?
16- Quais são os ácidos graxos omega-3? Quais são as suas principais fontes e
funções?

17- A figura abaixo mostra a porcentagem de calorias totais consumidas como


carboidratos, proteínas e lipídios, incluindo kcal total por kg de massa corpórea,
em diferentes tipos de atividade física. Explique a diferença de calorias
consumidas na forma de proteínas, lipídios e carboidratos em diferentes tipos de
exercícios.

Porcentagem de calorias totais consumidas na forma de carboidratos, proteínas e


lipídios, incluindo kcal total por kg de massa corpórea, para 8 grupos de atletas
mulheres e homens e 4 grupos de atletas homens.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-60-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

16. Estresse Oxidativo, Defesa Antioxidante e Atividade Física


“Paradoxo do Oxigênio”

"One of the paradoxes of life on this planet is

that the molecule that sustains aerobic life, oxygen,

is not only fundamentally essential for energy

metabolism and respiration, but it has been

implicated in many diseases and degenerative

disorders."

O estudo do papel do estresse oxidativo vem atraindo grande interesse por sua
associação com envelhecimento e uma série de outras condições patológicas. A
relação entre atividade física, radicais livres, antioxidantes, ainda não está bem
estabelecida. Os estudos indicam que em atividades físicas de intensidade média
o organismo tem condições de neutralizar os radicais livres produzidos durante o
exercício. Porém outros estudos mostram que, durante os exercícios intensos e
extenuantes, o sistema antioxidante do organismo não é capaz de neutralizar os
efeitos danosos dos radicais livres ao organismo. Nesta seção introduziremos
conceitos básicos sobre radicais livres, danos oxidativos, defesas antioxidantes e
discutiremos tópicos relacionados à adaptação (indução de enzimas de defesa
antioxidante) lesões e suplementos antioxidantes.

16.1. O que são: Radicais Livres, Espécies Reativas de Oxigênio e


Nitrogênio

Antes de começarmos a discussão sobre o estresse oxidativo no exercício físico é


fundamental que entendamos o significado dos termos radicais livres, espécies
reativas de oxigênio e nitrogênio.

De maneira geral, tem-se que o oxigênio molecular (O2) é necessário para a


sobrevivência de todos organismos aeróbicos. Assim, a obtenção de energia por
estes organismos é feita na mitocôndria através da fosforilação oxidativa, onde o
O2

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


-61-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

é reduzido por quatro elétrons a H2O. Quando o oxigênio é parcialmente


reduzido, tanto na fosforilação oxidativa quanto em outras reações, há a
formação de radicais livres, que constituem moléculas com coexistência
independente (o que explica o uso do termo “livre”) e que contém um ou mais
elétrons não pareados na camada de valência. Esta configuração faz dos radicais
livres espécies altamente instáveis, de meia vida relativamente curta e
quimicamente muito reativas.

e-

e-

e-

e-

??

H2O2

OH

H2O

2H+
H+

H+

Esquema 1. Passos intermediários da redução do oxigênio. A redução por 4


elétrons do oxigênio até a água ocorre em etapas sucessivas de redução por 1
elétron.

Neste processo são formados os intermediários: ânion radical superóxido,


peróxido de hidrogênio e radical hidroxila, que correspondem à redução por um,
dois e três elétrons, respectivamente.

O termo espécies reativas de oxigênio (EROs ou ROS:“reactive oxygen


species”) incluem, além dos radicais livres derivados do oxigênio (como o
radical superóxido e o radical hidroxila), espécies não radicalares como a água
oxigenada (H2O2, mensageiro secundário na transdução de sinal intra e extra-
celular), o ácido hipocloroso (HOCl, agente oxidante e clorinante produzido por
macrófagos), o oxigênio singlete (uma forma altamente reativa do oxigênio) e o
ozônio.

Um dos principais representantes de ROS é o anion radical superóxido (O ?-

2 ),

o qual é produzido através de uma redução monoeletrônica do oxigênio. Nas


células o O ?-

2 é rapidamente convertido à peróxido de hidrogênio (H2O2) através de sua


dismutação espontânea ou enzimática (superóxido dismutase). O H2O2 é menos
reativo que o O ?-

2 , porém na presença de metais como o ferro (Fe2 +) ou o cobre (Cu+), ele pode
gerar radicais hidroxila (?OH). O ?OH é provavelmente um dos radicais mais
reativos dentre os ROS.

H2O2 + Fe2+ ? Fe3+ + OH- + ?OH (reação de Fenton) As espécies reativas de


nitrogênio (ERNs ou RNS:”reactive nitrogen species”), como o próprio nome
indica, referem-se às espécies reativas derivadas do nitrogênio. Um
representante muito importante desta classe é o radical óxido nítrico (?NO), um
agente vasodilatador e neurotransmissor sintetizado pelas células do endotélio
vascular. Na tabela 1 estão representados os principais exemplos de radicais
livres, ROS e RNS.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-62-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

Tabela 1: Principais ROS e RNS


Nome
Fórmula Comentários

Radical superóxido

O ?-
2
É formado através da redução por 1 elétron do

oxigênio. Produzido por células fagocíticas onde

tem papel importante na inativação de vírus e

bactérias. Também é produzido durante o

metabolismo normal na mitocôndria

Radical Hidroxila

?OH

É um dos radicais livres mais potentes. É

produzido pela ação de radiações ionizantes e na

decomposição de H2O2 catalisada por metais

Peróxido de H

? -
2O2
É formado na dismutação de O2 catalisada pela

hidrogênio

SOD. Também é produzido por várias oxidases,

entre elas a xantina oxidase

Ácido hipocloroso
HOCl
É produzido a partir de Cl- e H2O2 pela

mieloperoxidase em neutrófilos ativados. Possui

importante papel na destruição de bactérias.

Reage com H2O2 produzindo 1O2

Oxigênio singlete
1O2
É uma forma bastante reativa do oxigênio. É

produzido nas reações de fotosensibilização e em

outras reações envolvendo peróxidos

Óxido nítrico

?NO

É um radical com importantes papéis fisiológicos.

É formado a partir da L-arginina numa reação

mediada por enzimas do grupo da NO sintase.

Peroxinitrito

ONOO-

Formado na reação entre O ?-

2 e NO?. Sua

protonação torna-a altamente oxidante sendo

capaz de lesar uma série de biomoléculas

16.2. Quais são as fontes de radicais livres durante o exercício físico?

Durante o exercício físico as ROS podem ser produzidas por diversas fontes, que
variam de acordo com o órgão, o tempo de exercício e o tipo de exercício, sendo
que muitas das fontes não são exclusivas e podem ser ativadas simultaneamente.

A figura abaixo ilustra de maneira geral as vias principais de formação de


radicais livres durante o exercício.
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-63-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

Neutrófilos/Macrófagos

O2

NO

NADPH

sintase

oxidase

NO

O ??

Fe2+

?OH

ONOO-

H2O2

Mieloperoxidase

NO
L

L?

LOO?

sintase

HOCl

NO

OH

ONOO-

O ??

Fe2+

H O

Xantina

2 2

O2

Oxidase

O ??

NO
NO

sintase Mitocôndria

Célula Endotelial

Célula Muscular

16.2.1. Mitocôndria – Cadeia de Transporte de Elétrons

Uma das principais fontes de radicais livres durante o exercício físico e o


vazamento de elétrons que ocorre na cadeia de transporte de elétrons. Sabe-se
que em torno de 1 a 3 % de todo o oxigênio consumido pela mitocôndria resulta
na formação de radicais superóxido. Sugere-se que a produção de O ?-

ocorra

principalmente nos complexos I (NADPH-ubiquinona oxidoredutase) e


complexo III (citocromo c redutase). Logo após a sua produção, o O ? -

é rapidamente convertido

a H2O2 pela SOD mitocondrial (MnSOD).

Succinato

e-

Complexo II

NADH

2 H O
2
2
e-

4H+/4e-

Complexo I

Complexo III

Cit c

Complexo IV

e-

e-

pontos de ”vazamento de eletrons”

O2
O
O •-

2
2
O consumo de oxigênio pelos tecidos pode aumentar cerca de 100 vezes durante
o exercício intenso o que, teoricamente, levaria a um aumento proporcional da
conversão de O

?-

2 a O2 . Entretanto, até o momento poucas evidencias

demonstram esse efeito, ou seja, as suposições existentes sobre esse aumento são
baseadas em observações indiretas como o aumento da peroxidação de lipídios
mitocondriais, perda de grupos tióis em proteínas e inativação de enzimas
oxidativas.

16.2.2. Xantina Oxidase

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-64-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

As reações catalisadas pela Xantina Oxidase (XO) têm sido demonstradas como
uma das principais fontes geradoras de radicais livres durante situações de
isquemia e reperfusão no coração. Durante a isquemia, a alta demanda de
energia do miocárdio leva a degradação do ATP a ADP e AMP. Nas células
musculares o ATP

é regenerado a partir de 2 ADPs pela ação da enzima adenilato quinase (AK).


Caso o fornecimento de energia ainda não seja suficiente para nova produção de
ATP, o AMP é degradado a hipoxantina. Em condições normais, a degradação de
hipoxantina ocorre via xantina desidrogenase (XDH) utilizando NAD como
aceptor de elétrons, porem durante a isquemia a XDH e convertida a XO. Esta
enzima por sua vez converte hipoxantina (HX) à xantina (X) e ácido úrico (UA)
mediante a redução de O
? -

2 , o que leva a formação de O2

ATP

2 ADP

AK

AMP

HX

HX

NAD+

Ca2+

XDH

XO

NADH

protease

O ??

X
X

NAD+

Ca2+

O2

XDH

NADH

XO

protease

O ??

UA

UA

Repouso

Exercício

Situações de isquemia e reperfusão também podem ocorrer nos músculos.

Sabe-se que durante exercícios extenuantes os músculos podem sofrer algum


grau de privação de oxigênio, especialmente quando o trabalho beira ou atinge o
nível de exaustão. Após intensa contração muscular, foi demonstrado que ocorre
um acúmulo de hipoxantina e um aumento da concentração de ácido úrico, tanto
nos músculos quanto no plasma sanguíneo, sugerindo que houve a ativação da
XO.

Também é observado um aumento nas concentrações de xantina e hipoxantina


sanguínea.
Embora existam fortes evidências de uma relação ente a ação da XO e a
formação de radicais livres, as situações em que esta relação ocorre ainda não
foram esclarecidas. Em condições aeróbicas, por exemplo, quando músculo é
suprido com quantidades suficientes de oxigênio, a via de formação de ATP é
mais utilizada que a via da xantina/hipoxantina, e como o músculo esquelético
possui pouca atividade de XO, a XO deve possuir maior importância quando o
músculo se encontra em atividade anaeróbica, ou seja, quando há um déficit na
produção de ATP.

16.2.3. Neutrófilos e Reposta Inflamatória (NADPH oxidase)

Neutrófilos Polimorfonucleares (PMN) são células sanguíneas que possuem


como função a defesa de tecidos contra invasões virais e bactericidas. Quando
recrutados para um foco de infecção os PMNs migram até o foco e liberam
primordialmente dois fatores, lisozimas e O ?-

2 . Mesmo que esta resposta

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-65-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

inflamatória seja crítica para a remoção de proteínas danificadas e restos


celulares, ROS e outros oxidantes liberados pelos neutrófilos podem causar
danos ao seu redor como lipoperoxidação.

A produção de O ?-

2 por Neutrófilos e células fagocitárias ocorre através da

redução por um elétron do oxigênio na presença de NADPH, numa reação


catalisada pela enzima NAPH oxidase (processo conhecido como “respiratory
burst”). A maior parte do O ?-

2 produzido é convertido a H2 O2 e, a partir destes, são

formados vários outros agentes microbicidas oxidantes, como o HOCl, o ?OH,


ONOO-, e vários outros (Tabela 1).

2 O

2 + NADPH ? 2 O2 + NADPH+ + H+

Como um dos fatores de ativação dos neutrófilos constitui a presença de danos


teciduais, quando tais danos são causados por exercício intenso é ativada uma
resposta inflamatória no músculo que está sendo utilizado. Um exemplo deste
fato foi observado por Hack e colaboradores (1992), ao demonstrar que após
exercício exaustivo há um aumento significante nas quantidades de leucócitos,
linfócitos e neutrófilos circulantes.

Devido ao longo tempo necessário para a infiltração dos neutrófilos,


provavelmente esta via de ação não está associada como uma fonte primária de
radicais livres para exercícios curtos, ou seja, deve ser uma fonte secundária de
radicais livres e contribuir para a danificação celular em exercícios pesados e de
longa duração.

16.3. NO sintase

A NO sintase catalisa a formação de óxido nítrico (NO) a partir de L-arginina,


oxigênio e NADPH.

L-arginina + O2 + NADPH ? NO + citrulina + NADP+

O NO e uma molécula de grande interesse biológico por exercer papel


importante no sistema vascular sanguíneo (importante fator de relaxamento dos
vasos), no sistema nervoso (neurotransmissor, importante nos processos de
memória), e em processos inflamatórios. Estudos recentes demonstram que o
NO

também influencia vários aspectos da contração muscular. A NO sintase está


presente nas células endoteliais e macrófagos. Sabe-se que as fibras musculares
também expressam a NO sintase e a sua atividade varia entre os tipos de fibras
musculares, sendo em geral mais elevada nas fibras de contração rápida (Tipo II)
do que nas lentas (Tipo I). Estudos imunohistoquímicos mostram a presença de
NO

sintase do tipo neuronal no sarcolema de fibras do tipo II e NO sintase do tipo


endotelial associado à mitocôndria.

Qual é o papel do ? NO no músculo?

Além disso acredita-se que o ?NO em baixas concentrações funcione como


antioxidante. No entanto, em situações de hiperatividade muscular, em que a
produção de ?NO é elevada, este pode agir como um agente pro-oxidante, pois o

?NO produzido em excesso pode reagir com o O ?-

2 gerando o peroxinitrito (ONOO-),

uma espécie altamente reativa capaz de oxidar e nitrar biomoléculas.

?NO + O ?-

2 ? ONOO-
16.4. Metais
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-66-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

Metais como o ferro e o cobre podem catalisar reações de formação de radicais


livres. Eles reagem com H2O2 gerando ?OH ou com peróxidos derivados de
lipídeos (LOOH) gerando radicais peroxila (LOO?) ou alcoxila (LO?). Estes
radicais são bastante reativos e podem danificar biomoléculas importantes do
organismo.

Normalmente os metais encontram-se cuidadosamente seqüestrado por proteínas


ligadoras como a ferritina e a transferrina.

Porem, danos teciduais, como as decorrentes de lesões musculares, podem


liberar metais agravando assim a lesão.

16.5. Como agem os radicais livres?

Os radicais livres podem atacar uma série de biomoléculas, iniciando reações em


cascata onde um radical reage com um composto gerando novos radicais.

O alvo celular dos radicais (proteínas, lipídeos e DNA) está relacionado ao seu
sítio de formação. Um alvo clássico são os ácidos graxos poliinsaturados
presentes nas membranas celulares e em lipoproteínas. O processo de oxidação
resultante do ataque de radicais livres sobre a membrana chama-se
lipoperoxidação. A lipoperoxidação é dividida em 3 etapas, iniciação,
propagação, e terminação. Na etapa de iniciação, o radical livre ataca a cadeia do
ácido graxo (LH) abstraindo um hidrogênio, gerando um radical centrado no
carbono da cadeia alifática do lipídeo (L?). Na etapa de propagação, o L? reage
rapidamente com o oxigênio formando radicais peroxila (LOO?), que por sua
vez atacam outros ácido graxos adjacentes gerando mais L?, resultando numa
reação em cadeia. A etapa de terminação é resultante da reação entre os radicais
formando compostos não radicalares. Durante a lipoperoxidação os
intermediários radicalares podem sofrer quebras gerando hidrocarbonetos de
cadeia curta (etano, pentano), aldeídos (como o malonaldeído, 4-
hidroxinonenal), epóxidos e outros produtos altamente citotóxicos. Como
resultado da lipoperoxidação as membranas sofrem alterações na fluidez e na
permeabilidade, resultando em perda na homeostase e morte celular.

LH

Membrana Celular

O
1
2

Aldeídos: MDA, 4-HNE, etc.

LH

L?

LOO?

LOOH

Etano, Pentano

Epóxidos
2
L?

Etc.

Os passos intermediários da lipoperoxidação

1. Iniciação: LH ? L?

2. Propagação: L? + O2 ? LOO?

LOO? + LH ? LOOH + L?

3. Terminação: LOO? + LOO? ?

produtos

LOO? + L? ?

não

L? + L? ?

radicalares

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

As proteínas também são alvos de ataque dos radicais livres. A oxidação dos
aminoácidos resulta na formação de carbonilas, tióis oxidados, entre outras
modificações que alteram a função normal da proteína.

Outro alvo muito importante dos radicais livres é o DNA. A formação de


radicais livres próximo ao DNA pode resultar na oxidação de bases de
pirimidina e purina, formação de adutos e quebras na fita. Dentre as bases, a
guanina é altamente sensível à oxidação (formação de 8-hidroxiguanina, 8-
OHdG) mediado por radicais livres. Essas alterações no DNA têm sido
associadas com processos mutagênicos e carcinogênicos.

O esquema acima ilustra de maneira geral os principais alvos celulares dos


radicais livres.

16.6. Como o organismo se protege dos radicais livres?

A produção contínua de radicais livres durante os processos metabólicos levou


as células a desenvolverem mecanismos de defesa que controlassem os níveis de
radicais livres e impedissem a indução de danos, os antioxidantes.

O sistema de defesa antioxidante inclui antioxidantes enzimáticos (como a


superóxido dismutase, glutationa peroxidase e catalase), antioxidantes
nãoenzimáticos (como ácido ascórbico, tocoferol, glutationa, e carotenóides),
proteínas extracelulares ligantes de ferro e cobre (como a albumina,transferrina,
lactoferrina, ferritina, haptoglobina e ceruloplasmina) e antioxidantes exógenos
polifenólicos (como os flavonóides, produto presente nas frutas, vegetais e
legumes).

Tabela 2 – principais agentes de defesa antioxidante

Antioxidantes enzimáticos

Enzima

Propriedades

Tipos

Antioxidante

Superóxido Transforma o radical superóxido Cu, Zn-SOD: localizado no


Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-68-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

dismutase

em H2O2

citoplasma

(SOD)

2 O ? -

+ 2 H+ ? H2O2 + O2
Mn-SOD: localizado na matriz

mitocondrial

Extracelular SOD: contem Cu e Zn

no sítio catalítico

Glutationa

Remove o H2O2 e outros c-GPX: GPX clássica

peroxidase peróxidos orgânicos

PHGPX: GPX específica para

(GPx)

H2O2 + 2 GSH ? 2 H2O + GSSG hidroperóxidos de fosfolipídio

LOOH + 2GSH ? LOH + H2O + p-GPX: GPX plasmática

GSSH

GI-GPX: GPX encontrada

principalmente no trato digestivo.

* todas possuem Selênio no sítio

ativo

Catalase

Remove o H2O2

Heme-Catalase: abundante no

2 H2O2 ? 2 H2O2 + O2
fígado e em eritrócitos.

Mn-Catalase

Antioxidantes não-enzimáticos

Antioxidante Propriedades

Reações importantes

Vitamina E

Composto lipossolúvel; principal Reage principalmente com

(? -tocoferol) antioxidante encontrado

em radicais peroxila (LOO?) da

membranas celulares; principal membrana celular formando

antioxidante contra radicais livres hidroperóxidos (LOOH). Neste originados na


membrana interna processo o tocoferol forma radical da mitocôndria

tocoferoxil, o qual é relativamente

estável.

Vitamina C

Localizado na fase aquosa das Neutraliza vários radicais gerados (ácido

células; intercepta radicais livres na fase aquosa da célula, entre ascórbico)

e regenera a vitamina E

eles o O ? -

, HOCl, etc.
Carotenóides Antioxidante lipossolúvel presente Neutraliza os radicais formados
em membranas e tecidos

em membranas. Ótimo

neutralizador de oxigênio

singlete.

Glutationa

Tripepitídeo presente em altas Reduz peróxidos (H2O2, LOOH) a

(GSH)

concentrações nas células; exerce água ou álcool numa reação

papel fundamental no catalisada pela GPX. Capaz de

funcionamento da GPX.

neutralizar radicais O ?-

2 e ?OH.

Reduz dehidroascorbato à

ascorbato.

Proteína

Propriedades

Transferrina

Glicoproteína sintetizada no fígado responsável pelo transporte de Nutrição e


Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

ferro na circulação sanguínea

Ferritina

Proteína estocadora de ferro. Liga-se ao ferro intracelular.

Lactoferrina

Secretado por neutrófilos. Liga-se ao ferro.

Ceruloplasmina Proteína ligadora de cobre

Albumina

Proteína de transporte do sangue, liga-se ao ferro e ao cobre.

Haptoglobina

Liga-se à hemoglobina livre do plasma sanguíneo e diminui sua

ação pro-oxidante.

Metalotioneínas Proteína encontrada no citosol, rica em grupos de enxofre. Liga-


se à vários metais como o cobre, o zinco, o cádmio, mercúrio,

etc.

16.7. O que é estresse oxidativo?


“Para a maioria dos animais, o movimento é essencial para a sobrevivência.
Em humanos, o exercício não representa mais uma maneira de sobrevivência,
mas sim um estilo de vida, recreação e, algumas vezes, uma maneira de
tratamento terapêutico. Uma elevada taxa metabólica como resultado de
exercício pode aumentar dramaticamente o consumo de oxigênio nos músculos
locomotores, coração e outros tecidos. Na década passada, têm sido acumuladas
evidências de que o exercício esporádico ou excessivo pode manifestar um
desbalanço entre a quantidade de espécies reativas de oxigênio (ROS) e defesa
antioxidante, resultando em um ambiente de estresse oxidativo para o
organismo”

O estresse oxidativo está relacionado a situações onde os mecanismos celulares


pró-oxidantes superam os antioxidantes. É um estado em que há uma elevada
produção de espécies reativas. Este estado está comumente ligado a danos
celulares como por exemplo peroxidação de lipídios, fragmentação de proteínas
e ácidos nucléicos.

Existem vários fatores que podem induzir o estresse oxidativo. Eles podem ser
divididos em dois grupos:

Fatores endógenos: exercício físico, estresse psicológico, inflamação, câncer,


etc.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-70-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

Fatores exógenos: alimentos, álcool, fumo, poluentes ambientais,

radiação, etc.

O exercício físico pode resultar em diferentes níveis de estresse oxidativo de


acordo com a sua intensidade. Exercícios de intensidade baixa ou moderada
normalmente estão associados com estresse oxidativo “ameno”, enquanto que
exercícios intensos ou extenuantes causam estresse oxidativo “severo”. Estudos
mostram que o estresse “severo” resultam em danos oxidativos que podem levar
a morte celular, danos teciduais e inflamação. Por outro lado, o estreasse
“ameno”

parece estar relacionado com indução de defesas antioxidantes. Pesquisas mais


recentes demonstram espécies reativas de oxigênio ou nitrogênio podem agir
como moduladoras do metabolismo celular, da expressão gênica e de
modificações pós-traducionais em proteínas.

Célula Muscular

Estresse Oxidativo

Estresse Oxidativo

Severo

Ameno

Lesões

Respostas Adaptativas:

-Indução de enzimas antioxidantes

-Indução de proteínas de choque térmico

16.8. Como se pode monitorar o estresse oxidativo associado ao exercício?

Uma forma de verificar se o exercício praticado esta sendo danoso ao organismo


e quantificar a produção de radicais livres. Infelizmente devido ao seu tempo de
vida curto a detecção de radicais livres não e fácil. Por isso, o que se faz e medir
as

“pegadas” ou resíduos deixados por eles.

16.8.1. Detecção direta da produção de radicais livres


A quantificação direta de radicais livres em tecidos biológicos é um processo
difícil, pois os radicais livres têm uma meia-vida curta (ao redor de micro ou
milisegundos) e são altamente instáveis. A técnica utilizada para a detecção é a
ressonância eletrônica paramagnética (EPR).

16.8.2. Detecção de produtos derivados do ataque de radicais livres O


monitoramento do estresse oxidativo durante o exercício pode ser feita através
da medida de parâmetros relacionados a peroxidação lipídica, danos em DNA,
oxidação de tióis, status antioxidante, etc.

A) Quantificação de marcadores de lipoperoxidação

Os produtos da lipoperoxidação são os marcadores mais utilizados para o


monitoramento do estresse oxidativo associado ao exercício. A peroxidação dos
ácidos graxos poliinsaturados, presentes nas membranas celulares, podem gerar
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-71-
ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

uma série de subprodutos como hidrocarbonetos voláteis (etano, pentano),


aldeídos (malonaldeído - MDA), epóxidos, peróxidos entre outros.

Atualmente existem vários ensaios utilizados para o monitoramento da


lipoperoxidação. Entre eles podemos citar:

? Teste do MDA: O MDA é derivado da quebra de ácidos graxos durante a


peroxidação lipídica. A medida de MDA no sangue ou na urina é a técnica mais
utilizada para o monitoramento do dano oxidativo causado pelos radicais livres.
O

MDA pode ser quantificado através de uma técnica relativamente simples em


que se utiliza um reagente chamado TBA (ácido tiobarbitúrico), o qual forma um
complexo de cor pink. A quantidade de MDA detectado é normalmente expresso
em forma de TBARS (substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico), e representa
um índice bastante geral do nível de estresse oxidativo no sistema em estudo. A
técnica é bastante criticada pelo fato de sofrer interferências de outros compostos
além do MDA.

Exemplo: Detecção de TBARS em fibras do tipo I antes e após uma corrida de


intensidade moderada e de alta intensidade.

? Níveis de etano e pentano no ar exalado: Estudos mostram que os níveis de


pentano no ar exalado aumenta após o exercício físico intenso ou prolongado.
Este método tem a vantagem de não ser invasivo, sendo que o ar exalado é
coletado e analisado por um sistema de cromatografia a gás.

Exemplo: Níveis de pentano exalado em relação ao nível de exercício realizado


em bicicleta ergométrica.

? Dienos conjugados: Os dienos conjugados são formados como conseqüência


do rearranjo da cadeia poliinsanturada do ácido graxo após a abstração do
elétron pelo Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA


radical livre. Sua medida é feita através de sua absorbância característica em
235?m.

B) Marcadores de danos em DNA

O método freqüentemente para o monitoramento dos danos em DNA é

medida da base de guanina oxidada, a 8-hidroxi-2’-deoxiguanosina (8-OHdG).

Também existem técnicas em que se mede a quebra da dupla fita de DNA,


formação de adutos entre DNA e produtos da peroxidação lipídica, etc.

C) Níveis de tióis oxidados e reduzidos

Normalmente faz-se o monitoramento dos níveis sanguíneos de glutationa


reduzida (GSH) e oxidada (GSSG). Os níveis de tióis oxidados e reduzidos são
indicativos do estado redox (estado oxidoredutivo) da célula. A atividade de
várias enzimas requerem grupamentos tióis na forma reduzida. O principal tiol
não protéico é a glutationa, o qual desempenha papel fundamental na
manutenção do estado redox celular e também na defesa antioxidante. Acredita-
se que a razão normal da GSH em relação à GSSG seja em torno de 10:1 a 50:1.
Esta razão se altera após exercício intenso de longa duração (endurance
training), sendo que os níveis de GSH sanguíneo diminuem enquanto os de
GSSG aumentam. Por outro lado exercícios de curta duração parecem ter pouco
efeito sobre os níveis de GSH/GSSG sanguíneo.

D) Avaliação do status antioxidante

Durante o exercício tem-se verificado alterações na defesa antioxidante do


organismo. A avaliação do status antioxidante é normalmente feita no sangue ou
eritrócitos isolados. Normalmente são monitorados os seguintes parâmetros:

níveis de GSH e GSSG

quantidade de vitamina E, vitamina C e outros antioxidantes


-

atividade das enzimas antioxidantes: SOD, Catalase e GPX

16.9. Como é monitorado o dano muscular?

Normalmente o dano muscular é monitorado através da medida da atividade de


enzimas como a creatina quinase, aspartato aminotransferase e a lactato
desidrogenase no plasma sanguíneo.

16.9.1. Creatina quinase

A creatina quinase (CK ou CPK) é uma enzima encontrada no músculo e


cérebro. Normalmente o nível de CK na circulação sanguínea é baixo. Níveis
elevados indicam tanto dano muscular ou cerebral.

Existem três tipos de CK:

• CK-I ou BB, produzido principalmente pelo cérebro e pela músculo liso.

• CK-II ou MB, produzido principalmente pelo músculo cardíaco.

• CK-III ou MM, produzido principalmente pelo músculo esquelético.

O monitoramento de danos musculares durante o exercício é feito normalmente


através da medida de CK-III.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-73-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

16.9.2. Aspartato aminotransferase

A aspartato aminotransferase, AST (transaminase glutâmica-oxaloacética, GOT)


é uma enzima intracelular que catalisa a transferência reversível dos grupos
amino de um aminoácido para o ? -cetoglutarato, formando um cetoácido e ácido
glutâmico. Esta reação de transaminação é importante tanto na síntese como na
degradação de aminoácidos.
As aminotransferases estão amplamente distribuídas nos tecidos humanos, sendo
que atividades mais elevadas de AST (GOT) encontram-se no miocárdio, fígado
e músculo esquelético. Normalmente observa-se uma elevação de 4-8 vezes na
AST (GOT)em casos de distrofias musculares.

16.9.3. Lactato desidrogenase

A lactato desidrogenase (LD) é uma enzima que catalisa a oxidação reversível do


lactato a piruvato. A LD encontra-se no citoplasma de todas as células do
organismo, sendo rica no miocárdio, fígado, músculo esquelético, rim e
eritrócitos.

Existem 5 tipos de LD que são designadas conforme a sua mobilidade


eletroforética em:

??

LD-1 (HHHH): miocárdio e eritrócitos

??

LD-2 (HHHM): miocárdio e eritrócitos

??

LD-3 (HHMM): pulmão, linfócitos, baço e pâncreas

??

LD-4 (HMMM): fígado, músculo esquelético

??

LD-5 (MMMM): fígado, músculo esquelético

O monitoramento de danos musculares durante o exercício é feito

normalmente através da medida de LD-4 ou LD-5. Observa-se uma elevação nos


níveis de LD-5 em casos de distrofia muscular, trauma muscular e exercícios
muito intensos.

16.9.4. Medida da concentração de lactato plasmático.

A medida de lactato é uma das melhores medidas de intensidade do

treinamento. A grande maioria das medidas de lactato são feitas no sangue. O

aumento nos níveis de lactato é uma indicação de que o sistema aeróbio não está
sendo capaz de suportar a demanda de energia necessária para completar a
atividade.

Relação Entre o Sistema Antioxidante e o Exercício

16.9.5. Sistema não enzimático

Vitamina E – É essencial para o funcionamento normal da célula durante o


exercício. Ratos com deficiência em vitamina E, levados a realizarem exercício
intenso, apresentam excesso de produção de radicais livres no fígado e nos
músculos, alem de elevada taxa de peroxidação lipídica e disfunção mitocondrial
O exercício de curta duração parece não afetar significantemente os níveis
endógenos de vitamina E presente nos tecidos, o que sugere que os níveis
fisiológicos de vitamina E já são adequados para a proteção contra a geração de
ROS, entretanto, mediante o exercício crônico, parece haver uma queda nos
níveis de vitamina E.

Relatos demonstram que a suplementação de vitamina E aumenta a

resistência tecidual a lipoperoxidação, entretanto, essas doses devem ser tomadas


Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-74-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

cuidadosamente, visto que ainda não há estudos em relação aos efeitos


provocados por uma possível overdose de vitamina E.

Ao que parece, exercícios intensos de curta duração não reduzem a quantidade


de vitamina E nos tecidos, entretanto é enco ntrado um grande decréscimo da sua
concentração, tanto em diversos tecidos como na mitocôndria, após um exercício
de longa duração. Colaborando com esses dados, temos que a suplementação de
vitamina E aumenta a resistência a lipoperoxidação provocada pelo exercícios
intenso.

Vitamina C – Suas propriedades químicas permitem que ela interaja diretamente


com O ? -

e ?OH em meios aquosos, como no plasma onde previne

danos a membrana de eritrócitos. Tem sido demonstrado que sua deficiência


pode afetar a função respiratória de mitocôndrias de células do miocárdio.

Experimentos indicam que a suplementação com altas doses de vitamina C

reduzem a fadiga e os danos musculares, entretanto não foram estudados


marcadores para estresse oxidativo, ou seja, não se sabe até que ponto esse efeito
foi relacionado às funções anti-oxidantes da vitamina C. Entretanto, doses altas
de vitamina C podem causar defeitos metabólicos no coração e fadiga prematura
durante exercícios prolongados, possivelmente devido as suas características
pro-oxidantes ao reagir com íons metálicos gerando ROS.

Glutationa (GSH) – A GSH possui a capacidade de reduzir hidrogênio e


peróxidos orgânicos através de uma reação catalisada pela GPX (Tabela 2),
servindo então como um scavenger de ?OH e 1O2. GSH ainda reduz radicais
tocoferol, o que previne drasticamente reações de radicais livres em cadeia e
peroxidação lipídica.

Diversos estudos foram feitos em relação à proteção de GSH contra o estresse


oxidativo induzido por exercício, e as seguintes considerações podem ser feitas
em relação a sua função:

?? apesar de GSH apresentar grandes concentrações em todos os tecidos, essa


concentração varia consideravelmente com o tecido e o tipo de fibra muscular,
sua atividade metabólica e potencialidade para gerar ROS, ou seja, a resposta via
GSH para um determinado exercício e tecido e fibra dependente
?? em geral, não ocorrem grandes alterações nos níveis de GSH devido a ação da
enzima glutationa redutase, que reduz GSSG a GSH novamente

?? durante exercícios prolongados, a síntese de GSH de novo (a partir de


aminoácidos ingeridos) no fígado é intensificada, suprindo uma possível
deficiência de GSH que possa vir a ocorrer no músculo. Entretanto, os níveis
plasmáticos e musculares de GSH podem ser reduzidos durante a prática de
exercício intenso por tempo prolongado

?? embora alguns estudos tenham demonstrado uma melhora na performance em


exercícios de longa duração após suplementação com GSH, o mesmo não foi
constatado para exercícios de curta duração e alta intensidade

?? suplementação com análogos de cisteína (como N-acetilcistina) reduzem a


concentração de GSSH e peroxidação lipídica em ratos, melhorando a contração
muscular e reduzindo a fadiga nos músculos do diafragma e das pernas

16.9.6. Sistema enzimático

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-75-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

As enzimas antioxidantes podem ser ativadas seletivamente durante o exercício


físico dependendo da intensidade do exercício, da quantidade de radicais livres
gerada e da capacidade de defesa antioxidante do tecido.

Como o músculo esquelético constitui a maior fonte de radicais livres durante o


exercício, ele apresenta um mecanismo antioxidante maior que os demais
tecidos, portanto como uma resposta primária a esta produção de radicais livres,
há uma indução de enzimas antioxidantes como SOD, CAT e GPX.

?? O exercício intenso tem sido demonstrado como um indutor da atividade de


SOD não só no músculo esquelético, como também no fígado, coração e
hemácias, indução está que está ligada ao aumento da produção de O ? -
2

durante o exercício. A maioria dos estudos indica que essa indução se dá em


maior grau na CuZnSOD (SOD citossólica) do que na MnSOD (SOD

mitocondrial). Após 1-3 dias a quantidade de proteína e a atividade de


CuZnSOD volta ao normal enquanto a de MnSOD permanece crescendo,

indicando que a síntese de tais SODs são controladas por diferentes mecanismos

?? Há estudos que relatam um aumento de GPX após exercício intenso enquanto


outros não relatam nenhuma alteração na sua expressão ou atividade, portanto
ainda não se pode concluir se o exercício provoca ou não alterações na expressão
de GPX

?? Assim como em GPX, ainda não existe um consenso em sobre a resposta de


CAT ao exercício, entretanto, a maior parte dos dados indicam que não há
alteração significativa em CAT após a prática de exercícios.

Na maior parte dos estudos em que foi constatado uma alteração da atividade de
enzimas antioxidantes frente ao exercício físico ainda não foi completamente
elucidado se esta alteração se deveu a alteração na expressão gênica, e portanto
na quantidade de enzima, ou a alterações na atividade das enzimas.

16.10. Adaptação do Sistema Anti-Oxidante ao Exercício

Ainda que exercícios curtos de alta intensidade apenas ativem determinado


sistema antioxidante, ou seja, sem a síntese de novo de proteínas, existe a
possibilidade de que após o exercício a célula produza novas enzimas
antioxidantes como uma resposta ao estresse oxidativo a que ela esteve
submetida.

Após o exercício a CuZnSOD, por exemplo, possui um aumento na

quantidade de proteína, entretanto sem alteração na quantidade de mRNA,


enquanto a MnSOD produz tanto um aumento na quantidade quanto na atividade
da proteína.

Até o momento, não existe um consenso em relação ao efeito do exercício sobre


a atividade de CAT, embora existam artigos demonstrando um aumento na
atividade de CAT, a outros que demonstram que não há alteração e alguns que
indicam até um decréscimo na sua atividade.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-76-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

Ao contrário das demais enzimas antioxidantes, tem-se demonstrado uma


adaptação induzida pelo esporte em relação a GPX, adaptação esta que é
músculo específica, sendo que já foi encontrado até uma aumento de 45% na
atividade de GPX, em músculos do tipo 2a, após o exercício.
16.11.
Outras adaptações induzidas pelo exercício

Além da indução da atividade de enzimas antioxidantes, estudos mostram que o


exercício induz a expressão proteínas de choque térmico (HSP, heat shock
proteins). As HSPs também exercem importante papel na proteção das células
contra o ataque dos radicais livres. Estudos em ratos, camundongos e humanos)
submetidos ao exercício têm evidenciado um aumento na quantidade de HSPs
muscular.

As HSPs são chamadas assim por serem proteínas induzidas em reposta ao


estresse térmico. Elas funcionam como chaperones moleculares, associando-se
com as proteínas recém sintetizadas e assegurando o dobramento e o
funcionamento correto das proteínas. Acredita-se que o aumento de HSPs após o
estresse oxidativo facilite a recuperação e o remodelamento celular frente aos
danos causados pelos radicais livres.

16.12. Relação entre ROS e fadiga muscular

A fadiga muscular está relacionado à diminuição da capacidade do músculo de


gerar força e portanto está associado à diminuição da performance no exercício.

A associação entre ROS e fadiga muscular está em parte relacionado aos danos
provocados por ROS no retículo sarcoplasmático e na homeostase do cálcio.

16.13. Relação entre ROS e lesão muscular e inflamação

As lesões musculares associadas ao exercício normalmente ocorrem após o


exercício esporádico, particularmente aquelas que envolvem uma grande
quantidade de contrações excêntricas (contrações que envolvem o alongamento
da fibra muscular). Exercícios que envolvem contração concêntrica (contrações
que envolvem o encurtamento da fibra muscular, ex. levantamento de peso)
parecem causar menos danos.

Embora não se saiba ao certo o mecanismo pelo qual ocorre a lesão, o dano
inicial está relacionado ao rompimento da fibra muscular e os danos
subseqüentes são associados à processos inflamatórios e produção de radicais
livres. Estudos mostram que o treinamento excessivo causa danos musculares
normalmente acompanhados de uma resposta inflamatória aguda, em que se
observa a infiltração de neutrófilos e macrófagos no tecido muscular.

Exercícios:

1. O que são radicais livres?

2. O que é estresse oxidativo?

3. Quais são os principais mecanismos de defesa antioxidante?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-77-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

4. Exercícios intensos estão associados a produção excessiva de espécies reativas


de oxigênio. Cite os principais danos causados pelos radicais livres?

5. Existe um aumento de radicais livres durante o exercício? Caso exista, quais


são as principais fontes?

6. O radical superóxido pode produzir outros radicais, quais são eles?

7. “Um adulto de 70 Kg em repouso utiliza 3.5 ml de O2/Kg/min ou 352.8L/dia.

Sabendo-se que 1 – 3% desse oxigênio inevitavelmente gera anion radical


superóxido, isso significa que o organismo produz em torno de 3.5 L de radical
superóxido/dia. Se considerarmos que durante o exercício físico a quantidade de
oxigênio utilizado aumenta em torno de 10 vezes, pode-se facilmente deduzir
que a quantidade de radical gerado na cadeia de transporte de elétrons aumente
na mesma ordem de grandeza. “

Sabe-se que uma das principais fontes de radicais livres durante o exercício e a
cadeia de transporte de elétrons. Quais são as vias metabólicas que alimentam a
cadeia de transporte de elétrons? Qual seria o tipo de exercício em que se
esperaria uma grande produção de radicais livres?

8. Complete o esquema abaixo indicando a defesa antioxidante capaz de

“neutralizar” os radicais livres.


6
O2

L?

LOO?

LOOH
4
1.-------------------------------

?OH

LOH

Fe2+ ou Cu+

2.-------------------------------

GSSG

GSH

5
3
H

3. -------------------------------

2O

2O2

O
2
2
1
4. -------------------------------

O ??

H2O

5. -------------------------------

Mitocôndria

6. -------------------------------

Célula Muscular

9. A figura abaixo mostra a atividade da enzima superóxido dismutase (SOD) em


fibras musculares do tipo I (Soleus) e tipo IIb (Gastrocnemius branco) de ratos.

Observa-se que a atividade da SOD e maior em fibras de contração lenta.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-78-

ESTRESSE OXIDATIVO, DEFESA ANTIOXIDANTE E ATIVIDADE FÍSICA

35

Caracteristicas das fibras musculares tipo I e tipo II

30

Tipo I
Tipo IIb

Fibra

Soleus

White Gastroctemius

25

Velocidade de

Lenta

Rápida

Contração

20

Não treinado

Metabolismo

Oxidativa

Glicolítica

Treinado

15

Mitocôndria

Muitos

Poucos

10
Mioglobina

Sim

Não

Superoxido Dismutase (Atividade)

Cor

Vermelha

Branca

Tipo I

Tipo IIb

Fibra Muscular

* indica diferença significativa (p<0.05)

Observe as características de cada fibra e discuta porque a atividade da SOD é


maior nas fibras do tipo I?

10. Como você poderia monitorar a produção de radicais livres?

11. O exercício produz alguma alteração no sistema de defesa antioxidante do


organismo?

12. Qual seria o efeito do consumo de vitaminas C e/ou E? Por que?

13. Quais minerais têm relação com o aparecimento de radicais livres ou o


sistema de defesa antioxidante?

14. Foi comprovado que o exercício leva a uma liberação de ferro nos músculos,
sendo que esse ferro livre se difunde nas membranas e, ao interagir com ácido
ascórbico e tióis, leva a lipoperoxidação. Por que a interação de ferro com ácido
ascórbico e tióis leva a lipoperoxidação?

15. Sendo um dos marcadores de lipoperoxidação o MDA, que tipos de


adaptação ao exercício podemos encontrar nos gráficos abaixo?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-79-

VITAMINAS E MINERAIS

UNTR=indivíduos não treinados, TRAIN=indivíduos treinados, U-


EX=indivíduos não treinados após realizarem esportes e T-EX=indivíduos
treinados após realizarem esporte.

16. O esquema abaixo ilustra o mecanismo de cooperação antioxidante entre a


vitamina E (tocoferol) e a vitamina C (ascorbato) na prevenção da oxidação de
membrana.

Complete o esquema.

1
2

LOO?

LOOH
17. Vitaminas e Minerais
A forma de abordagem desse tópico foi escolhida em virtude da

complexidade, importância e quantidade de conteúdo relacionado. Não existe de


forma alguma a pretensão de esgotar o assunto, mas também não gostaríamos de
passar muito rapidamente, numa abordagem meramente superficial.
Pretendemos esclarecer algumas dúvidas e principalmente aguçar o senso crítico
para tratar melhor esse assunto tão presente no quotidiano da gente. Quem de
vocês nunca se deparou com situações como essas:

_ Ah! Como você faz nutrição na USP, pra que serve o Molibdênio?

ou então:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-80-

VITAMINAS E MINERAIS

_ Estou tomando carnitina e agora estou correndo muito mais. Olha, é


impressionante, mas já no primeiro dia eu dobrei minha performance. Olha, vou
te dar um pouco.

Dia seguinte você toma a “Santa Carnitina”, vai pro CEPEUSP, faz seu treino
mas não percebe muita diferença. No dia seguinte é a mesma coisa. E no terceiro
dia: nada. Você encontra seu amigo e rola a conversa:

_ Então, comecei tomar a carnitina, mas...

_ Legal né? O barato é coisa fina! Dobrei a dose e já to dando umas 20 voltas
sem cansar.

Daí você olha meio desconfiado, mas fica quieto porque não sabe exatamente o
que está acontecendo. Onde está o problema. “Deve ser comigo.” pensa você, e
fica na dúvida..
Repetimos: Não queremos que vocês decorem todas as funções metabólicas e
respectivas enzimas relacionadas as vitaminas e minerais, queremos que vocês
adquiram uma visão geral e crítica do tema.

A parte de apostila referente ao assunto é composta por uma pequena introdução


geral, uma lista de exercícios, que serão resolvidos por vocês durante a aula e um
apêndice com um pouco de teoria sobre as vitaminas.

Introdução

17.1. Vitaminas:

Características básicas:

- São compostos orgânicos, os quais precisamos ingerir em pequena quantidade.

Não são utilizadas para propósitos estruturais ou geração de energia.

Em geral são co-fatores de enzimas.

Exemplo: piruvato dehidrogenase: possui 5 co-fatores, 4 deles são vitaminas.

Em geral são absorvidas em formas inativas e ativadas posteriormente: inativa

ativa

éster retinílico

ácido retinóico

tiamina
pirofosfato de tiamina

vit. K

dehidro vit, K

folato

folato poliglutamatado

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-81-

VITAMINAS E MINERAIS

niacina

NAD

Quando absorvidas, as vitaminas interagem de formas distintas com as enzimas:


Podem caracterizar um sistema apoenzima/holoenzima. Essa situação é
característica das enzimas que utilizam como co -fatores as vitaminas tiamina,
riboflavina, piridoxina e cobalamina.

Podem apresentar interações fracas. Ocorre entre as vitaminas K, niacina, folato


e ascorbato e as respectivas enzimas que as utilizam como co-fatores.

Podem ocorrer ligações covalentes entre as enzimas e vitaminas.

Representam esse tipo de interação a biotina (com enzimas conhecidas como


biotina-dependentes), pantotenato (com a sintetase de ácidos graxos) e a
riboflavina (com a succinato dehidrogenase).

São classificadas em dois grupos, por critério de solubilidade:

1- Lipofílicas (imiscíveis em água): vitaminas A, D, E e K.

2- Hidrofílicas (miscíveis em água): tiamina, riboflavina, piridoxina e


cobalamina, biotina, folato, ácido ascórbico e ácido pantotênico.
As vitaminas atuam em importantes rotas metabólicas ou atuam como
antioxidantes ou hormônios:

1- Transferência de 1 carbono: folato, cobalamina, biotina e K.

2- Transferência de grupos pequenos (como a carboxila): piridoxina.

3- Metabolismo energético: niacina, tiamina e riboflavina.

4- Função hormonal: A e D.

5- Síntese da coenzima A (importante também para o met. energético) 6- Co-


fator do ciclo visual: vit. A.

7- Propriedades antioxidantes: E e ascorbato. A vitamina E é a principal proteção


contra a oxidação dos ácidos graxos insaturados.

8- Síntese do colágeno: ascorbato.

Ácidos graxos essenciais não são considerados vitaminas, pois participam como
unidades estruturais, além de ser possível seu uso para geração de energia.
17.2. Minerais
Os minerais também são elementos essenciais para a vida. Precisamos de alguns
deles em grandes quantidades e de outros em quantidades extremamente
reduzidas.

Podem atuar como elementos estruturais, como o zinco, o cálcio e o fósforo (na
forma de fosfato), podem ser responsáveis pela geração de potenciais elétricos,
como ocorre com o cloreto, sódio e potássio, ou mesmo na própria catálise
enzimática, quando ligados a sítios ativos.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-82-

VITAMINAS E MINERAIS

Antes de entrarmos mais em detalhes quanto a função dos metais no


metabolismo, temos que lembrar de algumas propriedades químicas dos
mesmos, o que muitas vezes passa desapercebido.

Metais alcalino terrosos (como o cálcio e o magnésio) e metais de transição


(como o cobre, ferro, zinco, manganês) formam complexos com várias
moléculas.

Metais de transição participam de reações de óxido-redução.

A solubilidade de cada espécie depende do pH, do co-íon e da concentração em


que se encontram, dentre outros fatores.

Lembrando dessas características dos metais fica mais fácil de entender o porque
determinados metais encontram-se no organismo (precipitados, ligados a
proteínas, reduzidos, oxidados, etc) e como exercem suas respectivas funções.

Suplementos vitamínicos e minerais

Este é um assunto muito complicado de se tratar. Principalmente as vitaminas


hidrossolúveis possuem baixa toxicidade, e sabidamente são importantes para as
funções metabólicas. Então surge uma oportunidade muito boa para uma
verdadeira indústria da suplementação “arregaçar as manguinhas” e bombardear
o mercado com seus produtos: tem suplemento para idosos, suplemento para
gestantes, suplemento para esportistas, suplementos anti-stress, suplemento para
economistas, suplemento para desempregados, suplemento para aumentar o
tônus da contração do músculo da orelha direita e assim por diante.

Mas em termos científicos muito pouco tem comprovação. Não existem provas
concretas de que há necessidade de suplementação se a dieta alimentar estiver
equilibrada. Também no caso do esporte, ainda faltam dados que comprovem
que essa suplementação aumente a performance, talvez com exceção da
reposição de eletrólitos e re-hidratação, que é necessária. Observe que as
palavras reposição e suplementação não são sinônimas.

E quando o assunto é um esportista de ponta, um atleta olímpico, o tema fica


mais complexo, uma vez que esses atletas são exigidos no limiar das
possibilidades humanas. Vocês acham que a vida desses atletas é saudável?
Toxicidade das vitaminas
O conceito de que vitaminas não fazem mal para a saúde mesmo em grandes
quantidades é amplamente difundido. Realmente algumas vitaminas, mesmo em
doses muito elevadas, não causam maiores transtornos, porém certas vitaminas
podem levar a quadros de intoxicação. Os melhores exemplos são a vitamina A e
a vitamina D. Essas duas vitaminas são lipossolúveis e podem se acumular no
tecido adiposo, além de possuírem ação hormonal, interagindo diretamente na
transcrição gênica.

A ingestão de doses 10 vezes maiores que a RDA durante a gestação pode


promover danos cerebrais a criança. Essa mesma dose pode levas a sintomas
neurológicos e danos a visão, tanto em crianças como em adultos. Outros
sintomas Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-83-

VITAMINAS E MINERAIS

comuns são dor de cabeça, vômitos, lesões cutâneas e ósseas, anorexia e queda
de cabelo.

O ? -caroteno é uma substância muito comum em vegetais vermelhos ou


alaranjados, como exemplo clássico, temos a cenoura. O ? -caroteno faz parte de
uma família (os carotenóides) de substâncias que podem sem convertidas em
nosso organismo para vitamina A. Cada molécula de ? -caroteno pode ser
convertida em duas moléculas de retinol, daí a denominação pró-vitamina A.

Apesar disso, a ingestão de altas doses dessa substancia não é tão tóxica como a
ingestão de retinóis. Observa-se que indivíduos que recebem altas doses diárias
tem a concentração plasmática em caroteno aumentada, mas não em retinóis.

Aparentemente essa conversão é cuidadosamente regulada. Inclusive ocorre


acúmulo de carotenóides no tecido gorduroso, levando inclusive a uma
coloração avermelhada da pele.

O excesso de vitamina D também é altamente prejudicial. Nessas situações


ocorre deposição de minerais tecidos moles, como rins, coração e pulmões. Em
geral o quadro é irreversível. Os sintomas de intoxicação são náusea, vômitos,
anorexia, dor nas juntas, e se a ingestão for continuada, pode ocorrer a morte.

A toxicidade em altas doses não é “privilégio” das vitaminas lipossolúveis.

Doses 1000 vezes maiores de vitamina B6 podem levar a danos neuropáticos


periféricos, como formigamento e analgesia de mão e pernas, até dificuldades de
manuseio de pequenos objetos e alterações no caminhar. A recuperação completa
de um quadro desse leva de 2 a 3 anos após drástica redução de vitamina B6 na
dieta.

Biodisponibilidade, dietas inadequadas e relação entre cultura e deficiência.

Um dos pontos mais importantes quando discutimos necessidades

nutricionais é o conceito de biodisponibilidade. Não basta uma vitamina ou


mineral estar presente em um determinado alimento, ele tem que estar disponível
para a digestão e absorção. Isso significa que não podemos simplesmente pegar
uma tabela contendo a porcentagem de vitamina ou mineral presente em dois
alimentos diferentes e sistematicamente classificar como melhor fonte àquela
com maior quantidade por grama. Temos que levar em conta a forma em que se
encontra o nutriente, e a constituição química total do alimento. Exemplos:

- Ferro: o ferro para se absorvido precisa estar no estado de oxidação (Fe2+).

Então fontes contendo o ferro no seu estado oxidado não são boas fontes. Esse
problema pode ser contornado com a ingestão de vitamina C junto com o ferro (a
vitamina C é redutora). Mas esse não é o único detalhe quanto à absorção de
ferro. O ferro, como outros metais de transição, pode ser complexado por várias
substâncias. Se o complexo formado for estável e não houver mecanismo de
transporte trans-membrana, não haverá uma absorção apreciável. Exemplo dessa
situação é o ferro em vegetais que possuem grandes quantidades de ácido fítico.

As melhores fontes de ferro são as carnes e sangue, onde ele não só está presente
em boas quantidades, mas também está na forma heme (grupo prostético da
hemoglobina e mioglobina), que é uma forma facilmente absorvida.

- Riboflavina e niacina: a riboflavina (como FAD) e a niacina (como NAD),


quando ligadas covalentemente a certas proteínas não podem ser liberadas e
absorvidas. O milho representa um exemplo de alimento que possui niacina
pouco Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-84-

VITAMINAS E MINERAIS

disponível, porém se o mesmo milho tratado em solução alcalina ocorre a


liberação da vitamina.

- Zinco e cobre: normalmente cerca de 1/3 do cobre presente na dieta é


absorvido. O zinco é absorvido proporcionalmente a quantidade presente no
alimento. Quanto maior a quantidade de zinco, menor a porcentagem absorvida,
e vice-versa. Uma das formas que encontramos o zinco é ligado a uma proteína
chamada metalotionina. O zinco é capaz de induzir a expressão dessa proteína.

Quando essa proteína é produzida no trato gastrointestinal, parte do metal se liga


a mesma e é eliminado nas fezes. A metalotionina não liga especificamente
apenas o zinco, outros metais como o cobre, chumbo e cádmio também se ligam
a essa proteína. O cobre também induz a expressão de metalotionina, porém é
um indutor muito mais fraco. Para que houvesse uma expressão significativa de
metalotionina grande quantidade de cobre deveria ser ingerida, porém, na
presença de quantidades relativamente discretas de zinco, ocorre a expressão e a
disponibilidade do cobre é reduzida.

A falta de vitaminas pode ser causada pelo consumo de dietas

desbalanceadas, inadequadas ou insuficientes. A situação mais constrangedora é


realmente a avitaminose provocada por uma dieta insuficiente ou pouco
diversificada, que ocorre normalmente em populações muito pobres. Nesse caso
é comum também o déficit calórico.

O teor de certos minerais nas plantas em geral depende das quantidades


encontradas no solo do local. Por exemplo, na região Sudeste do Brasil não há
muito selênio, porém na região Norte a quantidade de selênio é tão significativa
que uma castanha do Pará satisfaz plenamente nossa necessidade diária.

Dietas estritamente vegetarianas (onde não se consome nem leite, ovos e


derivados) são pobres em vitamina B12 e em ferro (discutido acima). Nessas
pessoas é comum encontrarmos anemia. Certas religiões são favoráveis a
exclusão de carne da dieta. Essas populações são susceptíveis a alta incidência
de anemia.

Algumas populações baseiam sua dieta em pão. No pão encontramos zinco,


porém também encontramos ácido fítico. O resultado é uma deficiência
endêmica de zinco, que promove distúrbios no crescimento e no
amadurecimento sexual.

Quando adolescentes dessas populações afetadas são suplementados com zinco,


em poucos meses surgem os pelos púbicos e a genitália pouco desenvolvida até
então, assume tamanho normal.

O alcoolismo é uma doença que normalmente leva a diversas deficiências


nutricionais. Isso ocorre por dois motivos, o primeiro por redução de absorção
ou por interação metabólica do etanol e o principal motivo é que certos
indivíduos obtêm 80 % do aporte calórico necessário, pela ingestão de
destilados. O resultado é que apenas 20 % da alimentação desses indivíduos
contém vitaminas.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-85-

VITAMINAS E MINERAIS

Exercícios

1. A falta de vitamina B12 leva a uma doença denominada anemia

perniciosa, cujos sintomas são anemia e medula megaloblásticas, e sintomas


neurológicos diversos. Cerca de 25% dos pacientes desenvolve os sintomas
neurológicos, dentre eles a dormência de pés e mãos. Quando não devidamente
tratados, os danos neuroló gicos podem ser irreversíveis ou mesmo fatais, daí o
nome anemia perniciosa. O quadro hematológico de pacientes acometidos por
anemia megaloblástica decorrente da falta de B12 ou por falta de folato são
indistinguíveis.
O tratamento com folato, em geral reverte ambos os casos, provavelmente pelo
aumento dos níveis de H4folato. Você considera apropriado esse tipo de
tratamento? Porque?

2. O bócio é uma doença conhecida, que proporciona a hipertrofia da glândula


tireóide. A causa da doença é a deficiência em iodeto. Certas algas marinhas,
conhecidas como joio marinho contém elevados níveis de iodeto.

Certas dietas comuns no Japão são baseadas em sopas feitas com essas algas, o
que pode levar a uma ingestão diária de 80 a 200 mg de iodeto (1000 vezes mais
que a quantidade indicada). Essa dieta promove bócio em adultos e crianças.
Qual seria o motivo? Como o bócio foi praticamente eliminado no Brasil?

3. Qual a relação entre o ácido retinóico e o ß-caroteno?

4. Quais são as vitaminas lipossolúveis? Como são absorvidas? Comente a


absorção dessas vitaminas nas seguintes situações: durante o tratamento com
XenicalR ; em dietas com teores muito baixos de lipídeos; se a pessoa sofre de
esteatorréia.

5. Qual a relação entre a vitamina C, a vitamina E, e o selênio?

6. Relacione as vitaminas tiamina, riboflavina, ácido pantotênico e niacina com


as vias metabólicas relacionadas a obtenção de energia. Os cofatores NAD e
FAD e a Coenzima A tem alguma relação com essas vitaminas? Qual? Porque o
alcoolismo crônico leva a deficiência dessas vitaminas (assim como de muitas
outras)?

7. Dietas vegetarianas (em especial as restritas) muitas vezes levam a um quadro


de anemia. Que vitaminas e/ou minerais estão relacionados?

8. Se houver uma freqüente exposição a luz do sol não precisamos ingerir


quantidade alguma de vitamina D. Essa afirmação está correta? Qual é o
precursor da vitamina D?

9. Quais as vitaminas e minerais relacionados com a remoção de radicais livres?


Como atuam (resumidamente)?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


-86-

VITAMINAS E MINERAIS

10. Qual o mecanismo de ação das vitaminas A e D? Como o zinco está


relacionado? Use as figuras para responder.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


-87-

VITAMINAS E MINERAIS

11. A doença de Wilson se manifesta em adolescentes e pré-adolescentes. A


causa é a inibição da excreção biliar de cobre. Dessa forma ocorre acúmulo de
cobre no fígado, rins e cérebro, resultando em danos cerebrais e hepáticos.

Observam-se também depósitos nas córneas, com a formação de anéis


amarronzados. Uma das abordagens terapêuticas é a Outra abordagem é a
suplementação oral de zinco (150 mg/dia). Qual o mecanismo do tratamento da
doença de Wilson com a suplementação de zinco?

12. O que você acha dos suplementos multi-minerais (aqueles que contem
cobalto, ferro, zinco, cobre, e mais metade da tabela periódica)? Existe alguma
necessidade de ingestão de cobalto?

13. Não precisamos ingerir sulfato. O sulfato tem funções estruturais diversas no
organismo. As duas afirmações anteriores estão corretas. Qual a explicação para
esse fato?

14. Um dos sintomas de deficiência em vitamina B6 é a presença de convulsões.


A inibição de qual via metabólica relacionada a essa vitamina deve ser a
responsável pelo sintoma? Porque?

15. Qual a razão dos sangramentos observados na deficiência de vitamina C?

16. Qual a função do cálcio na contração muscular?

17. A figura abaixo demonstra um experimento com a fosfofrutoquinase, onde


vários tubos contendo diferentes concentrações de Mg foram incubados nas
mesmas condições e concentrações de enzima (fosfofrutoquinase), ATP e
substrato (frutose-6-fosfato). O que o experimento indica?

100

80

60
40

20

% da atividade máxima

Mg / mM

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-88-

VITAMINAS E MINERAIS

18. O leite é uma boa fonte de diversas vitaminas e alguns minerais e


aminoácidos essenciais, porém apresenta pouca niacina. Antes da descoberta da
niacina, a ingestão de leite era o tratamento indicado para a cura da pelagra.

Como você explica o fato?

19. Em geral as vitaminas são substâncias de baixa toxicidade. Você concorda


com a afirmação “Se bem não faz, mal também não faz?”.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-89-
VITAMINAS E MINERAIS

Algumas coenzimas apresentam em suas moléculas vitaminas que são obtidas


através da dieta. Com base no esquema geral abaixo sobre o papel das vitaminas
solúveis em água no metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas complete
a tabela abaixo.

Coenzima

Vitamina

Grupo Transportado
Via Metabólica

Tiamina pirofosfato

Tiamina (B1)

(TPP)

Flavina adenina

Riboflavina (B2)

dinucleotídio (FAD)

Coenzima A

Ácido pantotênico (B3)

Nicotinamida adenina

Nicotinamida (B5)

dinucleotídeo (NAD+)

Piridoxal-fosfato

Piridoxina (B6)

Biotina

Biotina (B7)

Tetraidrofolato

Ácido fólico (B9)

Metilcobalamina

Cobalamina (B12)
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-90-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

18. Adaptações ao exercício em diferentes populações


18.1. Atletas Jovens

18.1.1. Capacidade Aeróbica e Função Cardiorespiratória

1. Observe os gráficos a seguir. O gráfico 1 relaciona o ganho de gordura e


massa magra de homens e mulheres entre 8 e 28 anos. O gráfico 2 mostra a
capacidade aeróbica de atletas jovens (representado pelo volume máximo de
O2). Baseado nas informações contidas nestes gráficos sugira uma hipótese
sobre as diferenças de rendimento entre atletas homens e mulheres durante o
desenvolvimento.

Gráfico 1: Ganho de massa magra e de gordura com o desenvolvimento em


homens e mulheres.

Gráfico 2: Mudanças no volume máximo de oxigênio com a idade. Valores


expressos em (a) l/min e (b) relativos ao peso corporal (ml/min.kg)

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-91-
ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

Comentário: O gráfico 1 revela o ganho de gordura e massa magra entre homens


e mulheres durante o desenvolvimento. Nota-se que ao redor dos 15 anos (início
da puberdade) há uma estagnação no acúmulo de massa magra, mas não de
gordura em mulheres. Isto é devido ao aumento dos níveis de estrógeno
circulante, o que não acontece nos homens, que tem um aumento de massa
magra até o fim da puberdade (21 anos), quando os níveis de testosterona são
máximos. A capacidade aeróbica pode ser medida através do volume máximo de
O2. Este aumenta de acordo com o crescimento do corpo, parando de aumentar
quando o corpo para de crescer: 16 anos para mulheres e 21 anos para homens
(gráfico 2a). No entanto quando se normaliza estes dados com o peso corporal
(gráfico 2b) nota-se um decaimento em mulheres que coincide com o início da
puberdade, que além de ter um aumento dos níveis de estrógeno/testosterona em
mulheres também demonstra um estilo de vida mais sedentário em mulheres.

2. Analise estas proposições:


Um garoto de 14 anos pode correr uma distância de 1 milha (1,6 km), duas vezes
mais rápido do que um garoto de 5 anos, com mesmo estado de treinamento. No
entanto se analisarmos seus valores de V O2 MAX/peso corporal, veremos que
eles são muito similares, demonstrando que a performance atlética aumenta até
certa idade, mesmo apesar do V O2 MAX não aumentar.

A pressão cardíaca é diretamente relacionada com o tamanho do corpo, portanto


é menor em crianças do que em adultos.

A disponibilidade de oxigênio nos tecidos é um os fatores limitantes para a


melhora na performance atlética em situações de exercício intenso.

Utilizando os gráficos a seguir, responda:

Por que crianças possuem um menor desempenho em situações de exercício


intenso do que adultos, apesar de ambos terem capacidade aeróbica similares?

Como elas podem compensar isto?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-92-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

Figura 1: (a) freqüência cardíaca, (b) volume circulante, (c) débito cardíaco e (d)
diferença de oxigênio arterial-venoso em um garoto de 8 anos de idade e um
homem completamente desenvolvido

Comentário: um dos fatores limitantes em função cardiovascular em crianças é a


disponibilidade de oxigênio nos músculos durante a atividade intensa. Como o
tamanho do coração de crianças é menor do que de adultos, consequentemente, o
débito cardíaco e o fluxo sangüíneo são menores. Para compensar isto em parte,
a pressão cardíaca em crianças é menor do que em adultos, portanto mesmo com
um débito cardíaco pequeno mas com maior freqüência, o fluxo para os tecido
aumenta. Outro ponto é que a diferença da concentração de O2 do sangue
arterial em relação ao venoso é maior em crianças, demonstrando assim uma
maior disponibilidade de O2 durante a atividade física.
18.1.2. Força

A massa muscular aumenta de acordo com o ganho de peso desde o

nascimento até o fim da adolescência. A massa muscular aumenta inicialmente


resultado de intensa hipertrofia e pouca ou nenhuma hiplerplasia das fibras
musculares. Em homens o pico do aumento de massa muscular acontece durante
a puberdade, quando a produção de testosterona aumenta dramaticamente. Em
mulheres, não acontece este pico. No entanto, o pico de força em homens e
mulheres é visto apenas ao final da adolescência. Por quê?

Comentário: Ganho de força é dependente também de estímulos nervosos. O

controle neuromuscular é limitado até que a mielinização das fibras esteja


completa. Esta geralmente só ocorre ao final da maturação sexual.
18.2. Mulheres vs. Homens
Na maioria das medidas de capacidade fisiológica e rendimento no exercício,
existem diferenças importantes entre homens e mulheres, quando eles são
comparados sobre bases absolutas. Isso quer dizer, desconsiderando na medição,
diferenças intrínsecas aos sexos e que afetam o rendimento na atividade física,
como são a massa corporal, a massa muscular e a massa corporal livre de
lipídeos ( fat-free body mass).

O que são estas medidas e o que elas significam?

Duas medidas comuns de avaliação do “sobrepeso” de uma pessoa são o peso


(ou a massa) corporal e a altura; usado no mesmo sentido é o índice de massa
corporal (ou body mass index, BMI = massa corporal (kg)/ estatura2 (m2)).

Ambas as medições tem a limitação da não considerar a composição


proporcional do corpo: a massa corporal é afetada por outros fatores além da
gordura do corpo, como a massa muscular e óssea e até o volume do plasma que
aumentam com a prática do exercício.

A contribuição dos diferentes componentes do corpo é marcadamente diferente


dependendo do sexo. Os componentes estruturais maiores do corpo humano são
a massa muscular, a massa adiposa e a massa óssea. A massa adiposa é dividida,
por sua vez, em lipídeos de armazenamento e lipídeos Nutrição e Esporte – Uma
abordagem Bioquímica

-93-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

essenciais. Na Tabela..., é possível observar as diferenças entre homens e


mulheres

"modelo" em relação com a composição do corpo.

Olhe as diferenças nos lipídeos essenciais. Os lipídeos essenciais incluem os


armazenados na medula dos ossos, no coração, nos pulmões, no fígado, no bazo,
nos rins, nos intestinos, nos músculos e nos tecidos ricos em lipídeos do sistema
nervoso. Nas mulheres os lipídeos essenciais também envolvem lipídeos
específicos ou característicos do sexo e isso faz uma diferença do 9% em relação
à contribuição nos homens.

Tabela 1. Distribuição dos componentes corporais em homens e mulheres.

Componentes do corpo

Homem "modelo" (kg e %)

Mulher "modelo" (kg e %)

Massa corporal

70

56,7

Massa corporal magra (inclui os 61,7 (88,1)

48,2 (85,0)

lipídeos essenciais)

Músculo

31,3 (44,7)

20,4 (36,0)

Osso

10,4 (14,9)

6,8 (12,0)

Lipídeos totais

Total
10,5 (15,0)

15,3 (27,0)

Armazenamento

8,4 (12,0)

8,5 (15,0)

Essenciais

2,1 (3,0)

6,8 (12,0)

Desconhece-se quanto dessa diferença na porcentagem de lipídeos se deve a


diferenças biológicas. Uma das hipóteses é que as diferenças hormonais têm um
papel preponderante.

As potências anaeróbica e aeróbica não ficam fora dessa distinção.

Conseqüentemente com o exposto em cima, as diferenças entre os sexos


deveriam ser grandemente reduzidas ou eliminadas se o rendimento for expresso
em relação com algum componente corporal. Nos dados disponíveis, nem
sempre isso acontece. As diferenças na capacidade de potência anaeróbica e de
potência aeróbica, ficam por volta do 20 % (quando se mede o topo no déficit de
oxigênio, uma medida válida da capacidade anaeróbica) e entre 15 e 30%
(quando se mede VO2 max. em mL/(kgxmin), uma medida válida da capacidade
aeróbica). As atletas ainda têm uma proporção de lipídeos maior do que os
homens (em média, 15 %), por tanto a relativização do volume de oxigênio à
massa corporal não é suficiente.

Outros fatores vão sendo considerados: a concentração de hemoglobina, que nas


mulheres é entre 10 e 14 % menor que nos homens, o que é atribuído ao maior
nível de testosterona masculina, diminui a diferença encontrada na potência
aeróbica para 11 %.

A diferença na oxidação de substratos no exercício aeróbico entre homens e


mulheres, é tema de discussão recente nas revistas especializadas e dos
exercícios apresentados em baixo. Uma das medidas que os pesquisadores
utilizam para avaliar o substrato metabolizado é a taxa de intercâmbio
respiratório ou respiratory exchange rate (RER). A oxidação completa de CHO e
lipídeos, produz CO2 e H2O; no caso das proteínas se geram também compostos
nitrogenados e enxofrados.

Devido às diferenças na composição química de CHO, lipídeos e proteínas, a


quantidade de oxigênio necessário para oxidar completamente os átomos de
hidrogênio e carbono a CO2 e H2O, é diferente dependendo do substrato.
Portanto, a relação CO2 produzido/O2 consumido será diferente e é usada como
indicativa do substrato que é usado. Como a relação H/O nos CHO é a mesma
que na água (2:1), todo o oxigênio consumido será usado para oxidar o carbono
a CO2; em conseqüência, o RER = 1. Nos lipídeos e nas proteínas, mais
oxigênio é requerido para a oxidação do excesso de hidrogênio e dos compostos
nitrogenados e enxofrados, respectivamente; portanto o RER <1 (geralmente
RER = 0,7). O RER é Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-94-
ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

normalmente indicativo de uma oxidação mista dos nutrientes (tipicamente CHO


e lipídeos porque a contribuição das proteínas é pouco significativa numa dieta
normal), e da contribuição de cada um deles dependendo de seu valor.

Exercícios

1- Vários estudos mostraram que, para uma dada intensidade de exercício


absoluta, treinamentos de curta e longa duração, mudam o balanço de utilização
de substrato de CHO para lipídeos (Ver exercício... já analisado).

Os dados disponíveis sobre as diferenças entre os sexos na utilização do


substrato para a obtenção de energia, sugerem que, no repouso e para
intensidades submáximas de exercício, as mulheres oxidam uma menor
proporção de carbohidratos (CHO) relativo aos lipídeos do que os homens
(Friedlander, 1998).

O objetivo deste problema e analisarmos alguns dos dados estudados pelos


pesquisadores e discutirmos as conclusões às que eles chegaram.

a) A diminuição no fluxo de glicose que ocorre após treinamento é um indicador


de mudança no substrato utilizado de CHO para lipídeos ( porque? ). Observe os
dados na Figura 1a,b referentes ao fluxo de glicose sangüínea. Há uma diferença
no fluxo de glicose após o treinamento? Homens e mulheres seguem o mesmo
padrão de fluxo de glicose como resposta ao treinamento e a intensidade do
exercício?

Qual é a diferença entre comparar o consumo de glicose em função da


capacidade aeróbica medida como mL/(kgxmin) e como porcentagem do VO2
max?

Figura 1. Relações entre a taxa de desaparição de glicose (Rd) e a intensidade de


exercício para homens e mulheres. (a) intensidade de exercício expressada como
VO2 por kg de massa corporal e (b) intensidade de exercício expressada como %
de VO2max. Os valores são médias +/- SE de medidas de derivados [1-13C]-
glicose usando GCMS (cromatografia gasosa com espectrometria da massa ). b)
Os pesquisadores também observaram os dados referentes à taxa de intercâmbio
respiratório ou respiratory exchange rate (RER) (Tabela 1). Que indicam as
diferenças na RER registradas entre homens e mulheres?

Tabela 1. Parâmetros indicadores da cinética da glicose em mulheres e homens,


seguindo protocolos de exercício e treinamento semelhantes.

Variável

Sexo

Repouso

Exercício

Pré

Pós

65% VO 2max

65% VO 2max

treino

treino

(Pré treino)

(Pós treino)

RER

0,84

0,81*

0,92
0,87*

0,86

0,86*

0,94

0,94*

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-95-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

Lactato no F

0,91*

0,85

2,86

2,12*

plasma (mM)

0,78*

0,85

3,25

2,66*
?? = significativamente diferente entre os sexos.

c) Analise os gráficos relativos às concentrações de epinefrina (Figura 2) antes e


depois do trenamento em homens e mulheres, e observe as

diferenças nos níveis de lactato no plasma (Tabela 1). Qual seria um dos
mecanismos pelo qual as mulheres oxidariam menos CHO que os

homens?

350

Repouso

mulheres

Exercício

300

homens

250
*
200

150

epinefrina (pg/ml) 100

50

Pré

Pós

65% (pré)

65% (pós)

Figura 2. Comparação entre as concentrações de epinefrina em homens e


mulheres antes e depois do treinamento. * = significativamente diferente respeito
das mulheres

2. É sabido que a prática de exercício ao longo prazo ( endurance training) ,


aumenta o uso de lipídeos endógenos como fonte de energia durante o exercício,
porém a fonte de triglicerídeos adicionais oxidados após o treinamento é matéria
de discussão e poderia ser diferente dependendo do sexo das pessoas
consideradas.

Dados e um estudo feito em homens que fizeram ciclismo durante pelo menos
três meses, mostram que o exercício sustenido não incrementou a oxidação de
ácidos graxos plasmáticos, sugerindo que o acréscimo na oxidação de graxas
após treinamento, é derivada de triglicerídeos intramusculares.

Dois estudos feitos em mulheres e publicados em 1998 e 2000, mostram


diferentes resultados sobre o efeito do exercício ao longo prazo sobre o
metabolismo de lipídeos em mulheres.

No primeiro estudo a prática foi feita após 4-6 hs do café da manhã (a refeição
noturna tinha sido de 505 kcal: 52% de COH - 32% de lipídeos – 16% de
proteínas e o café da manhã de 300 kcal: 83% de COH – 17% proteínas) (Figura
1). No segundo estudo, a prática foi feita após jejum de 12 hs e uma refeição
noturna de aproximadamente 690 kcal (60% COH – 25% graxas – 15%
proteínas) (Figura 2).

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-96-
ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

Figura 1.

Figura 2. * : significativo respeito dos não treinados

O que você pode dizer do aproveitamento de lipídeos como fonte de energia em


mulheres durante o exercício comparando as duas figuras? A que variáveis você
pode atribuir as diferenças? Compare com o resultado do estudo feito em
homens e discuta se é possível afirmar se há ou não diferença entre os sexos em
relação com

o aproveitamento de lipídeos durante o exercício com os dados disponíveis (O

estudo em homens, foi feito após jejum de 12 hs.)


18.3. Obesidade
Em indivíduos obesos a maior proporção de perda de peso depois de restrição
energética (dieta) se deve a uma redução no tecido adiposo. Porém, os obesos
possuem um incremento nos níveis de triglicerídeos nas fibras do músculo
esquelético respeito dos níveis dos não obesos. Desconhece-se a contribuição
dos depósitos de triglicerídeos localizados nos tecidos periféricos, p. ex.,
músculo esquelético, à perda de massa graxa.

Devido a que existe uma correlação entre alto conteúdo de lipídeos no músculo
com a resistência à insulina, resulta interessante determinar se efetivamente
diminuem pela dieta e/ou a atividade física.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-97-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

Exercícios:

Em um estudo exaustivo (Malenfant P et al., 2001), vinte pessoas obesas (entre


homens e mulheres) foram avaliadas após dieta de baixo conteúdo de lipídeos e
após dieta mais exercício sustenido, na variação de suas medidas
antropométricas (Tabela 1 e 2), nos níveis de reservas energéticas musculares
(glicogênio e triglicerídeos) (Figuras 1 a, b) e nos níveis de enzimas
mitocondriais indicadores de mudança de metabolismo energético (Figura 3).

1. O que você poderia dizer considerando as variáveis medidas na Tabela 1,


respeito dos resultados obtidos após dieta e dieta mais exercício? Observe as
diferentes medidas de massa corporal e discuta o que aconteceu com o peso. Há
uma tendência à mudança no metabolismo baseado no RER? Segundo a Tabela
2, há diminuição de lipídeo no músculo? E do tamanho das fibras musculares?

Tabela 1. Variáveis antropométricas, metabólicas e plasmáticas transitórias (


fasting plasma variables) em pessoas obesas antes, depois de dieta e depois de
dieta e exercício de resistência.
Sem dieta

Com dieta

Com dieta +

Control

exercício

Idade (anos)

42 ? 2

42 ? 2

42 ? 2

39 ? 3

Peso (kg)

100 ? 6

89 ? 4*

84 ? 4*

67 ? 3 $

IMC (kg/m2)

34 ? 1

31 ? 1*

29 ? 1*

24 ? 1 $
Massa graxa no tecido adiposo (kg)

39 ? 3

30 ? 3*

23 ? 1*!

Massa corporal magra (kg)

61 ? 5

59 ? 5

62 ? 4

Gasto energético (kcal/min)

1,6 ? 0,3

1,1 ? 0,1

1,1 ? 0,1

Taxa de intercâmbio respiratório (RER)

0,78

0,77

0,81

FFA (mmol/l)

0,5 ? 0,1

0,5 ? 0,1

0,5 ? 0,1
Triglicerídeos (mmol/l)

1,6 ? 0,3

1,2 ? 0,3

0,9 ? 0,1*

Os valores são as médias ? SE. IMC = índice de massa corporal. * =

significativamente diferente de Sem dieta; ! = significativamente diferente de


Com dieta; $ = significativamente diferente dos obesos.

Tabela 2. Mudanças morfológicas de tipo de fibras musculares em pessoas


obesas.

* = significativamente diferente do Tipo I, # = significativamente diferente do


Tipo I e do Tipo II A.

Fibra Tipo I

Fibra Tipo II A

Fibra Tipo II b

Pré

D + E

Pré

D + E

Pré

D
D + E

Tamanho da fibra 6,231 ? 5,366 ? 5,979 ? 6,138 ? 4,667 ? 5,116 ? 4,874 ? 3,610
? 3,849 ?

(µm)

503

451

303

497

355

336

444

274

407

Número de 251

? 253

? 243

? 165

? 150

? 143

? 77

? 82
? 68

agregados lipídicos 58

30

37

44

14*

32*

18*

12#

14*

2) Os pesquisadores também mediram o conteúdo de lipídeo e de glicogênio


intramuscular em um total de 100 fibras representativas, tomando em conta o
tamanho e a distribuição dos distintos tipos. Estas medidas dão informação sobre
o total armazenado no músculo (Figura 1 a, b). Discuta a que se deve a tendência
à diminuição nos níveis de lipídeos no músculo após dieta. Você esperava
diminuição significativa nos níveis de glicogênio após dieta? E a sua
recuperação após dieta mais exercício?

a)

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-98-
ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

b)

Figura 1. Conteúdo de lipídeo (a) e de glicogênio (b) intramiocelular total. Pré

= antes do treinamento; D = com dieta; D + E = com dieta mais exercício. * =

significativamente diferente dos obesos antes e depois de D e D + E.; # =

significativamente diferente da situação inicial (Pré). UA = unidades arbitrarias.

4) Observe os níveis das enzimas indicadoras do metabolismo. Nem a dieta nem


a dieta mais exercício resultaram em mudanças estatisticamente significativas,
mas houve um aumento de 37 % e de 22% nas atividades de CS e de COX,
respectivamente. Além disso, a relação PFK/CS foi maior que às dos controles
após a dieta mas se normalizou após dieta mais exercício. O que estão indicando
estas mudanças?

Tabela 3. Atividades enzimáticas no músculo esquelético de indivíduos adultos


obesos antes e depois de dieta e dieta mais exercício. Os dados são médias
? SE. As unidades são U/g de tecido. PFK = fosfofructokinase; CS = citrato
sintase; COX = citocromo c oxidase; HADH = 3-hidroxiacetil-CoA
deshidrogenase. * =

significativamente diferente dos controles.

Pré

D + E

Control

PFK

64 ? 4 *

65 ? 4 *

59 ? 4*

46 ? 4

CS

9,7 ? 1,1

10,0 ? 0,7

13,3 ? 1,6

10,0 ? 0,7

PFK/CS

7,1 ? 1,0 *

6,8 ? 0,8 *
4,6 ? 0,4

4,7 ? 0,4

COX

6,9 ? 0,5 *

6,4 ? 1,0 *

8,4 ? 0,9

8,1 ? 0,8

HADH

15,0 ? 1,6

15,0 ? 1,4

16,2 ? 0,7

14,2 ? 0,5

5) Após o discutido em cima, é possível concluir que o exercício não é


recomendável para pessoas obesas? Justifique a sua resposta.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-99-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES


18.4. Velhice
A velhice está associada a mudanças profundas na composição do corpo. A
sarcopênia é um conjunto de fenômenos caracterizados por perda da massa do
músculo esquelético relacionada com a idade, diminuição na tensão ( strength)
muscular e incremento na fadiga. A debilidade muscular predispõe a freqüentes
quedas que podem gerar fraturas de ossos. Por outro lado, devido a que o
músculo é um órgão metabólico maior, especialmente na liberação da glicose
dos carboidratos ingeridos com a dieta, a diminuição da massa muscular pode
contribuir à diminuição de glicose circulante que é observada na velhice. Como
conseqüência podem-se produzir o decrescimento no gasto de energia que pode
levar à obesidade e à resistência à insulina.

A capacidade funcional do músculo depende da qualidade e quantidade de


proteínas musculares. Ambas, qualidade e quantidade de proteínas musculares,
são mantidas através de um contínuo processo de remodelagem muscular
envolvendo síntese e degradação de proteínas. Se a taxa de síntese é menor do
que a taxa de degradação de proteínas, a massa muscular pode então declinar.

Vários estudos indicam que com aumento da idade as taxas de sínteses das
proteínas musculares misturadas ou mixed muscle protein (responsáveis pela
produção anaeróbica de ATP), e as das proteínas mitocôndrias (responsáveis pela
produção aeróbica de ATP), diminuem com a idade. No entanto, essas taxas de
sínteses representam a média da taxa de síntese de várias proteínas. Como cada
proteína tem diferentes funções, uma melhor aproximação ao entendimento da
sarcopênia pode resultar do estudo das taxas de sínteses de proteínas individuais.

A cadeia pesada da miosina (ou MHC) é a proteína principal no aparelho de


contração muscular, convertendo a energia química (hidrólise do ATP em ADP)
em mecânica. As várias isoformas da MHC diferenciadas pela sua atividade
ATPase em diferentes pHs (MHCI, MHCIIa e MHCIIb) compõem as fibras
musculares em diferentes proporções estequiométricas. A isoforma dominante,
determina o tipo de fibra.

Exercício:
1- Um grupo de pesquisadores estudou os níveis dos RNA mensageiros das três
isoformas da MHC em homens jovens (24 ? 1 a), maduros (25 ? 0,8 a) e idosos
(71

? 1 a), e o efeito de um programa de treinamento ao longo prazo ( resistance


training) na tensão muscular ( strength) e nos níveis de transcritos da MHC.

Como resultado do programa de treinamento, os pesquisadores observaram


melhorias significativas nos movimentos estudados (extensão da perna, flexão da
perna e bench press) e foram observar os níveis de RNAm antes e depois do
treinamento. Os resultados foram os das Figuras 1, 2 e 3 .

a- Baseado na Figura 1, que pode dizer respeito da regulação transcricional nas


diferentes isoformas.?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-100-

ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES


Figura 1. Efeito da idade nos níveis de RNAm das isoformas MHC. * =
significativo respeito do grupo jovem; # = significativo respeito do grupo
maduro.

b- O treinamento de resistência (nas condições da experiência que mostra a


Figura 2) reverteu as diferenças observadas ao nível de transcrição em maduros e
idosos?

Figura 2. Efeito do exercício ao longo prazo sobre os níveis de RNA das


isoformas de MHC. Homens e mulheres maduros e idosos foram escolhidos
aleatoriamente dos grupos originais para fazer o exercício ou ficar como
controles durante 3 meses

* = significativamente diferente de Antes de fazer o exercício (no caso do Grupo


que fez).

c- Os mecanismos da senescência não estão bem definidos. Os pesquisadores


indicam que uma das hipóteses é que a senescência é o resultado da progressiva
acumulação de danos no DNA e tecidos causados pelas EROS. Qual é a relação
entre esta colocação e os resultados dos experimentos?

d- Finalmente, os pesquisadores avaliaram a taxa de síntese proteica das MHCs


em su conjunto, observando um aumento após exercício. Qual seria a
contribuição a esse aumento das diferentes isoformas?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-101-
ADAPTAÇÕES AO EXERCÍCIO EM DIFERENTES POPULAÇÕES

Figura 3. Efeito do exercício ao longo prazo (vs. Controle) sobre a taxa de


síntese da MHC (considerando as três isoformas juntas) e sobre às das proteínas
musculares misturadas. Não houve diferenças entre as idades na resposta ao
exercício. * = significativamente diferente de Antes de fazer o exercício (no caso
do Grupo que fez).

e- Discuta uma das possíveis causas da sarcôpenia e o tipo de movimento que


seria mais afetado na velhice.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-102-
DOPING
19. Doping
DOPING NO ESPORTE

Atualmente todas as competições internacionais têm atletas que utilizam drogas


(esteróides anabolizantes, hormônios peptídicos, anfetaminas e outros) para
melhorar as performances atléticas competitivas. A dopagem além de viciar a
ética no desporto também põem em risco sua saúde. Então a dopagem pode ser
definida como o consumo de substâncias que aumentam de maneira artificial o
rendimento esportivo e que podem prejudicar a saúde do esportista.

O comitê olímpico internacional (COI) e as federações internacionais têm um


sistema de luta contra a dopagem avaliada em uma ampla lista de sustâncias
proibidas e em regulamentos de sanções para determinar aquelas pessoas que
tomam as sustâncias qualificadas como "dopantes". A definição que mais
concorda com a prática é: "Dopagem é tomar qualquer substância contida na
lista oficial publicada pelo COI e o Conselho Superior dos Esportes".

Dois mecanismos gerais de ação hormonal.

Os hormônios peptídicos e as aminas

são de ação m ais rápida que os hormônios esteróides

Esteróides anabolizantes

Os esteróides anabolizantes são hormônios sintéticos análogos da

testosterona. No organismo todos são derivados do colesterol, e são


transportados através da corrente sanguínea às várias células dos vários tecidos,
onde atuam regulando uma longa série de funções biológicas.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-103-
Mecanismo de ação dos hormônios esteróides:

O uso dos hormônios data da década de 40 e teve início no esporte de


levantamento de peso. O homem normal produz cerca de 7 mg por dia de
testosterona e para se obter o efeito anabólico, isto é, aumento de massa
muscular e diminuição da gordura, muitos atletas utilizam doses
suprafisiológicas até 100
vezes maior.

Atletas, treinadores físicos e mesmo médicos relatam que os anabolizantes


aumentam significantemente a massa muscular, força e resistência, podendo
melhorar o rendimento de um atleta em até 32%. Apesar dessas afirmações, até o
momento não existe nenhum estudo cientifico que comprove que essas drogas
melhoram a capacidade cardiovascular, agilidade, destreza ou performance
física.

Por quanto tempo os esteróides anabolizantes permanecem detectáveis no


organismo?

Isso depende da substancia utilizada (quantidade e tipo) e da pessoa que está


usando. Esteróides anabolizantes podem permanecer detectáveis no organismo
de uma pessoa variando de uma semana até mais de um ano depois do uso. Para
a maioria dos anabolizantes comercializados tipo nandrolona (Deca-Durabolin,
testosterona) um ano é tempo comum em que eles podem ser Nutrição e Esporte
– Uma abordagem Bioquímica

-104-
detectados. Para a testosterona injetável, entre 3 – 6 meses é comumente
suficiente para sua total eliminação.

Agora estudaremos um modelo de ação hormonal desde o nível celular até seus
efeitos metabólicos no organismo como um todo, tomando como modelo o
cortisol.

O uso excessivo de esteróides suprime a espermatogênesis. Em atletas que


tinham usado esteróides por três meses, a contagem média do esperma foi menos
de 20 milhões/ml, a diferença daqueles que tinham parado seu uso por 24 meses
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-105-

antes da contagem calculando a média de 84 milhões/ml. As pesquisas não


observaram nenhuma diferença com respeito à mobilidade do esperma.
Isto foi mais extensivamente estudado com testosterona enantato, para o qual os
atletas foram injetados semanalmente durante seis meses com diferentes
dosagens da testosterona. Depois do tempo estipulado se notou uma redução na
contagem das populações de esperma das diferentes dosagens.

Os esteróides anabólicos são chamados anabólicos porque incrementam a


sínteses de proteína através das interações com os receptores específicos nos
tecidos alvos que incluem o músculo esquelético, cardíaco e outros.

Os hormônios esteróides podem passar através da membrana celular e entrarem


na célula por simples difusão, dentro da célula ligam-se ao seu receptor; o
complexo receptor-hormônio interage com o sitio do receptor nos cromossomos
estimulando a transcrição gênica obtendo como resultado final deste processo
enzimas e proteínas estruturais.

Os esteróides anabólicos competem com os receptores dos glucocorticoides,


tendo por resultado um efeito anti-catabólico obstruindo a inibição da síntese de
proteínas. Os distribuidores de esteróides recomendam exercitar-se antes,
durante e depois do uso dos esteróides sempre com esforços máximos, alem de
uma dieta rica em proteínas e rica em calorias. Freqüentemente, são
experimentados aumentos de euforia e agressividade pelos consumidores,
estimulando a praticar por períodos mais longos e sem experimentar fadiga.

Em agosto de 1999, na Universidade do Texas, foi realizado um estudo sobre a


efetividade da oxandrolona, que é um análogo sintético da testosterona, em
promover a síntese de proteína muscular e o transporte de aminoácidos. Seis
jovens saudáveis com idade média de 22 anos foram estudados antes e depois de
5

dias de oxandrolona via oral, na dose de 15mg/dia. Foram medidos mRNA, IGF-
1 e receptores androgênicos em músculo esquelético. A síntese protéica sofreu
aumento ao redor de 53,5 nmol/min. O mecanismo de ação é
predominantemente por aumento de expressão do receptor androgênico no
músculo esquelético.

Os experimentos que indicam que as condições musculares foram

melhoradas pelo uso dos esteróides ainda não são aceitas por toda a comunidade
científica.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-106-

Uma pesquisa sob o decanoato de nandrolona (Deca-Durabolin) concluiu que os


esteróides anabólicos podem promover o aumento do peso em pessoas com HIV,
segundo o reporte da 11º Conferência Internacional sob HIV em Vancouver
1996, foi efetuada em 73 pessoas com baixo nível de testosterona, fadiga,
depressão, e com o placebo; foi administrado 100 mg de nandrolona
intramuscular uma vez por semana . Depois de 12 semanas, todos as pessoas
foram estimuladas a fazer exercício.

Depois das 12 semanas, o grupo submetido ao tratamento ganhou um total de 1.0


kg, em comparação de 0.1 kg do grupo placebo.

Têm sido realizados muitos estudos e experimentos sobre os efeitos dos


anabolizantes esteróides androgênios e o colesterol sangüíneo. Enquanto que o
consenso geral era de que os esteróides elevavam os níveis de colesterol do soro
plasmático, resultando num aumento do colesterol total, um aumento do
colesterol LDL e uma diminuição do colesterol HDL. (transporta colesterol para
o fígado, aonde ele é metabolizado).

O HDL colesterol transporta as partículas de colesterol para o fígado, aonde


serão metabolizadas. O LDL colesterol pode se concentrar nas paredes das
artérias e assim limitar a quantidade de sangue que vai para o coração e outros
tecidos, aumentando o risco de que ocorra um ataque cardíaco; este risco
aumenta ainda mais com a elevação do nível de triacilglicerídeos no plasma
sangüíneo.

A redução da HDL é devido à estimulação da atividade da triacilglicerol lipase


hepática uma enzima que regula os ácidos graxos plasmáticos. A estimulação
desta enzima leva a redução primaria da subfração HDL-2 do colesterol e da
apoproteína-A1.

A redução da HDL é considerada um fator de risco para doenças da artéria


coronária. Na Framingham Heart Study foram feitos estudos para avaliar este
fator de risco, onde compararam o nível inicial de 50 mg/ml de HDL com uma
redução a 25 mg/dl, obtendo como resultado o aumento do risco em três vezes
mais.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-107-

Questionário

1. Na sua opinião qual seria a melhor definição de dopagem?

2. Qual é o precursor básico dos esteróides anabolizantes?

3. Quais são os hormônios que levam ao aumento direto da transcrição gênica?

4. Qual é a concentração da testosterona no plasma sangüíneo?


5. Quais são os efeitos colaterais causados pela administração de altas doses de
testosterona em homens ou mulheres?

6. Você acha que o consumo de hormônios esteróides tenha algum efeito sob a
esterilidade.

7. Porque os hormônios esteróides são chamados de anabólicos?

8. Um treinador propõe a um atleta diabético que consuma alguns esteróides


para aumentar seu rendimento físico. O que você acha que poderia

acontecer? Explique.
Estimulantes
São drogas que afetam o SNC e que podem ser obtidas do chocolate

(teobromina), chá (teofilina), café (cafeína), denominadas metilxantinas por sua


estrutura química. Alem disso temos as estricninas, anfetaminas e derivados
(metilfenidato, pemolina).

Os estimulantes, como a dextroanfetamina (Dexedrine) e o metilfenidato


(Ritalín), têm uma estrutura química similar às monoaminas (neurotransmisores
cerebrais), que incluem a norepinefrina e a dopamina. Os estimulantes
aumentam a quantidade destas substâncias químicas no cérebro. Alem disso,
aumentam a Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-108-

glicose no sangue, abrem os condutos do sistema respiratório, aumentam a


pressão arterial e o ritmo cardíaco, contraindo os vasos sanguíneos. O aumento
da dopamina no corpo está associado com a sensação de euforia que acompanha
o uso destas drogas.

Valores limites permissíveis de estimulantes nos esportistas dadas pelo COI:


Estimulação

Concentraçao

Cafeína

12 µg/ml

Catina

5 µg/ml

Efedrina

5 ng/ml
Epitestosterona

200 µg/ml

Nonandrosterona

2 ng/ml.- homens

5 ng/ml - mulheres

Metilefedrina

5 µg/ml

Fenilpropanolamina

10 µg/ml

Pseudoefedrina

10 µg/ml
Anfetaminas
As anfetaminas são potentes agonistas catecolaminérgicos (induzem liberação de
catecolaminas pelas terminais nervosas). Agem diretamente nos receptores de
membrana da adrenalina, noradrenalina e serotonina, e inibem sua recaptura
pelos terminais nervosos, o que produz um efeito prolongado ao nível dos
receptores, tanto no SNC como na periferia. Os efeitos centrais das anfetaminas
se observam no córtex cerebral, no talo cerebral e na formação reticular. Ao agir
nestas estruturas produz uma ativação dos mecanismos de despertar, aumento da
concentração mental, maior atividade motora, diminuição da sensação de fadiga,
inibição do sono e da fome.

O uso de anfetaminas tanto em atletas sadios como em diabéticos são um risco


muito grande, porque elas agem ativando a glicogênio fosforilase e inativando a
glicogênio sintase, estimulando a degradação do glicogênio hepático em glicose
sangüínea. Alem de estimular a secreção de glucagon e inibindo a secreção de
insulina, para reforçar o efeito na mobilização dos combustíveis e inibir o
armazenamento, efeito que causaria a morte dos diabéticos.

Finalmente, trabalhos recentes em animais de laboratório mostram que o uso


continuado de anfetaminas pode levar a produzir lesões irreversíveis nas células
do cérebro.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-109-
Metilxantinas
Os fármacos psicotrópicos como a cafeína, a teofilina e a teobromina são
derivados metilados da xantina, sendo esta, por sua vez, uma dioxipurina
estruturalmente com o ácido úrico. Estas substâncias ocorrem amplamente na
natureza e em muitos alimentos. Alem disso, existem vários fármacos que
contêm cafeína, que incluem desde antigripais, antitérmicos, antiespasmódico,
miorrelaxantes.

A cafeína inibe a fosfodiesterase causando um acúmulo de monofosfato de


adenosina cíclica (AMP-C) celular, que tem ação mediadora da resposta
hormonal e de neurotransmisores. A cafeína é um inibidor competitivo da
enzima lactato desidrogenase quanto ao substrato piruvato e um inibidor não-
competitivo para a coenzima NADH. As pesquisas sob a cafeína sugerem que os
ácidos graxos poderiam ser reesterificados no tecido adiposo e, por sua vez, o
lactato no sangue poderia não constituir indicação direta da produção de ácido
lático no músculo em exercício.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-110-
A cafeína aumenta a liberação de cálcio do reticulo sarcoplasmico o qual
aumenta a tensão máxima da fibra fadigada no tecido muscular.

Um copo de café contem aproximadamente 150 mg da cafeína, café

instantâneo aproximadamente 120 mg, chá entre 70 e 130 mg, e bebidas fracas
em cafeína 50 mg. A cafeína é absorvida rapidamente alcançando a maior
concentração plasmática em 1 hora após da ingestão, exercendo uma influência
no sistema nervoso, cardiovascular e muscular.

Uma pesquisa feita com nove ciclistas competitivos, com um VO2 máx de 60

ml/kg/min, demonstrou que consumindo a quantidade de cafeína encontrada


geralmente em 2,5 copos do café filtrado (350 mg) 60 minutos antes de exercitar,
aumenta o tempo de exercício total até a exaustão em 19.5%, em comparação
àqueles que não consumiram cafeína. Os atletas podiam executar exercícios por
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-111-
uma média de 90,2 minutos em comparação com um período muito mais curto
de 75,5 minutos, sem cafeína.

Na pesquisa, a cafeína consumida produziu níveis plasmáticos maiores de


glicerol e valores de QR menores para todas as comparações temporais. A
utilização dos valores de QR permitiu aos pesquisadores calcular a oxidação dos
carboidratos durante os exercícios (cerca de 240 g de carboidratos em ambos
ensaios). Em contraste, a oxidação das gorduras em cafeína foi (118 g) maior
que em descafeínado (57 g).

Esta pesquisa demonstrou que a ingestão de cafeína acelerava o ritmo de lipólise


durante o exercício constante. Um maior ritmo de lipólise poderia evitar a
depleção do glicogênio no fígado e nos músculos esqueléticos durante os
exercícios e, subseqüentemente, aprimorar o desempenho.
C
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-112-
Conteúdo de cafeína em alimentos populares, bebidas, refrigerantes e
preparações medicamentosas.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-113-
Questionário

1. Quais são as drogas que afetam o SNC e de quais outros produtos naturais
podem ser obtidos?

2. Qual é o efeito metabólico das anfetaminas no músculo?

3. Em que medicamentos podemos encontrar cafeína?

4. Como a cafeína regula o AMP cíclico, e qual seria a conseqüência disso?

5. Porque é arriscada a utilização de anfetaminas em atletas diabéticos?

Explique.

Hormônios peptídicos

Os hormônios peptídicos são substâncias naturais cuja molécula é formada por


dois aminoácidos ligados (um peptídeo). Sua função principal é a fixação de
proteínas no organismo. São utilizados em esportes de potência ou força pura,
como arremesso, ciclismo, remo e levantamento de peso.

A dopagem com hormônios peptídicos (hCG, hGH, eritropeotina, LH, insulina,


ACTH, etc.) geralmente não são detectáveis nos testes de urina, já que são
produzidos pelo organismo de maneira natural, mas na atualidade pode-se
produzir de maneira sintética: somatotropina, eritropeotina, gonadotropina, etc.
O consumo de alguns hormônios como a gonadotropina coriónica (HCG)
conduzem a um aumento da produção de esteróides andrógenos naturais
(estrógenos, progesterona e testosterona) e é considerada equivalente a
administração exógena de testosterona. Este hormônio é produzido durante a
gravidez motivo pelo qual muitas atletas procuram engravidar antes das
competições.

O mecanismo de ação dos hormônios peptídicos está demonstrado no gráfico


abaixo.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-114-
Ação da corticotropina (ACTH) na esteróidogênesis. O ACTH se liga aos
receptores da membrana do plasma, que são acoplados a adenilato ciclase (AC),
a qual estimula a formação do AMP cíclico para ativar a proteína quinase a
(PKA) que estimula as proteínas fosforiladas (P-Pr); estas proteínas estimulam a
expressão dos genes para enzimas esteróidogênesis.

Questionário

1. Em quais esportes são mais utilizados os hormônios peptídicos? Porque?

2. Qual hormônio peptídico é considerado equivalente à administração exógena


de testosterona?

3. Porque muitas atletas engravidam antes das competições?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-115-

4. Como a corticotropina estimula a secreção dos hormônios esteróides?


5. Qual é a diferença no modo de agir dos esteróides anabólicos e os hormônios
peptídicos?

6. Em maio de 1999, o Instituto de Medicina Legal de Strasbourg, França,


realizou testes em dois fisiculturistas que portavam hormônios, eles alegaram ser
apenas para consumo pessoal e não para tráfico. A comissão decidiu fazer um
teste dos cabelos e do sangue dos esportistas. Quais poderiam ser os possíveis
resultados? Se os esportistas tivessem consumido EPO, qual seria o resultado
esperado?
Eritropoetina
A eritropoetina (EPO) produz um efeito substancial nos esportes aeróbicos e de
resistência porque aumenta o número de glóbulos vermelhos, aumentando o
transporte de oxigênio através do sangue.

O consumo de EPO é ainda algo difícil de detectar. Atualmente, o teste de


detecção baseia-se na concentração de glóbulos vermelhos no sangue, quando a
concentração é alta pode-se supor o consumo da EPO; mas, muitas pessoas de
lugares altos, como Quênia, Colômbia e Bolívia têm um hematócrito médio mais
alto naturalmente.

Uma prática cruel para aumentar o número de hemáceas e a capacidade aeróbica


dos atletas vem sendo adotada por vários técnicos: os atletas passam longos
períodos de treinamento em câmaras de descompressão, com o ar rarefeito
provocando hipoxia, que por sua vez, causa a liberação de EPO, então, os
mecanismo para a captação de oxigênio pelo sangue são melhorados e
maximizados. Porem começaram a ocorrer casos sérios de o hematócrito ficar
tão alto que o sangue chega a tornar-se viscoso, provocando dezenas de casos de
morte súbita por falha no coração. Segundo a opinião de médicos e dirigentes do
COI esta estratégia não é considerada doping.

Um outro método de dopagem é a reinfusão sangüínea, que aumenta

rapidamente a velocidade de oxigênio máxima. Segundo estudos realizados da


reinfusão em atletas durante exercícios submaximal e maximal depois de 24
horas, o aumento da hemoglobina foi de 13.8 g/100 ml a 17.6 g/100 ml, o que
representou o aumento porcentual de hemoglobina de 27.5%. O mesmo
aconteceu com a concentração de hematócritos aumentando de 43.3 a 54.8%.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-116-
Somatotropina
O HGH ou Human Growth Hormone utilizado na dopagem é um hormônio

polipeptídico composto pôr 191 aminoácidos sintéticos, é idêntico ao hormônio


produzido pela glândula pituitária anterior no organismo.

A HGH é um agente ergogênico (energético), aumenta a captação de

aminoácidos e a síntese de proteínas; assim como, acelera o metabolismo de


gorduras a síntese de glicogênio em armazenamento, diminuindo a utilização de
glicose para obtenção de energia. Pelo qual é consumido principalmente entre
atletas que requerem mais força, como lutadores e os próprios velocistas.

A utilização da somatotropina produz a secreção intestinal e urinária de cálcio e


aumenta as concentrações plasmáticas de fósforo, podendo ainda ter um efeito
diabetogênico por estimular a secreção de insulina extra; alem de estimular o
crescimento da cartilagem e dos ossos produzindo gigantismo e acromegalia.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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Questionário

1. Quais são os efeitos causado s pela EPO no sangue?

2. Porque é arriscada a utilização de altas concentrações de EPO? Explique.


3. Pode-se falar em dopagem quando se encontra um número alto de hemáceas
em pessoas que moram em lugares de altitudes elevadas? Porque?

4. O que são as câmaras de descompressão?

5. O que acontece no sangue na reinfusão sangüínea?

6. Como age a somatotropina?

7. Porque se atribui um efeito diabetogênico a somatotropina?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-118-
20. Suplementos
1. Para testar a eficiência da L-carnitina foi elaborado o seguinte
experimento:

Foram tomados dois grupos de ratos sedentários; o grupo suplementado com L-


carnitina (S) e o grupo de controle (C). O grupo dos suplementados foi
subdividido em três grupos: um suplementado com 0,1g de L-carnitina . kg-1 de
massa corporal (S0,1 ), outro com 1,0 g de L-carnitina . kg-1 de massa corporal
(S1,0 ) e o último com 2,0 g de L-carnitina . kg-1 de massa corporal (S2,0). A
suplementação foi realizada por 14 dias e 28 dias e foi servida quantidade
controlada de ração para esses animais.

Abaixo mostramos os gráficos do consumo de ração de cada grupo e a variação


de peso desses grupos. Com esses dados como podemos analisar a variação de
massa ao longo do tempo (14 e 28 dias)? O que podemos concluir a respeito da
suplementação de L-carnitina e a sua contribuição na degradação lipídica ?

Fig. 1: Consumo médio de ração aos 14 dias de tratamento

950

920

890

860

Consumo (g)

830

800

S0,1
S1,0

S2,0
Grupos
Fig. 2: Peso absoluto

240

210

grupo de

controle

média dos

Peso (g) 180

suplementados

150

14

Tempo (dias)

Figura 2: Progressão da massa corporal (g) dos animais, aferida a cada 4


dias, por 14 dias.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-119-
SUPLEMENTOS

Fig. 4: Peso absoluto

300

250

grupo de

controle

200

média dos

Peso (g)

suplementados
150

100

13

17

21

25

28

Tempo (dias)

Figura 3: Progressão da massa corporal (g) dos animais, aferida a cada 4


dias, por 28 dias.

(Fonte: “Suplementação oral com L-carnitina em ratos: efeito sobre a


concentração corporal da amina e sobre aspectos da utilização de ácidos graxos
pelo músculo esquelético”. Almeida, André Luís A.R., Dissertação de mestrado
apresentada ao Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, 2002)

(Fonte: LABEX – Unicamp)

2. O gráfico abaixo mostra o percentual de utilização de fosfocreatina e glicólise


durante um exercício em intensidade máxima de 30 segundos. O que podemos
inferir desses dados?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-120-
SUPLEMENTOS

3. A Tabela abaixo mostra a concentração de creatina nos músculos tibial


anterior (TA) reto femural (RF) em um grupo submetido à suplementação com
creatina (4x5g/dia) e outro com placebo (4x5g/dia), sem treinamento.

Placebo

Creatina

Antes

Depois

Antes

Depois

Total Cr (TA)

342.3 ? 5.1

346.1 ? 7.7
335.8 ? 8.9

368.1 ? 9.7

Total CR(RF)

372.8 ? 5.7

371 ? 4.6

365.4 ? 5.5

430.9 ? 7.6

PCr/ATP

1.043 ? 0.017 1.096 ? 0.020 1.005 ? 0.021 1.246 ? 0.016

O gráfico abaixo mostra as concentrações de creatina antes e após a


suplementação, administrada em diferentes doses. Os números abaixo de barra
representam o período e a quantidade ingerida por dia. Os números acima
indicam a quantidade total ingerida.

De acordo com os dados da Tabela e do gráfico acima, o que podemos concluir


em relação a concentração de creatina após a suplementação?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-121-
SUPLEMENTOS

4. A tabela abaixo mostra a composição corporal, medida antes e após 6 semanas


de treinamento de resistência, de um grupo submetido a suplementação de
creatina (4x5g/dia durante 5 dias consecutivos) e placebo.

Medidas

Creatina

Placebo

Antes

Depois

Antes

Depois

Massa Corporal(kg) 86.7

88.7

81.6

82.0

Massa Gorda(kg)
15.6

15.7

13.1

13.6

Massa magra(kg)

71.2

72.8

68.6

68.5

Gordura

17.8

17.7

16.0

16.5

corporal(%)

De acordo com esses dados, quais as alterações observadas na composição


corporal?

5. Os gráficos abaixo estão relacionados com a performance em diferentes


atividades. O gráfico 1 mostra o desempenho de um grupo placebo e um
suplementado com creatina (20g/dia durante 5 dias) em três séries de 30s numa
bicicleta (80rpm). O gráfico 2 mostra o desempenho em 10 sprints realizados
numa bicicleta ergométrica durante 6 segundos com pausa de 30 segundos em
intensidade máxima num grupo suplementado(20g/dia durante 5 dias).O gráfico
3
está relacionado à força, mostrando o efeito da suplementação (4x5g/dia durante
5

dias) em 1RM de flexão de braço.

Gráfico 1:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-122-
SUPLEMENTOS

Gráfico 2:

Gráfico 3:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-123-
SUPLEMENTOS

No Gráfico 1, por quê a coluna 3 apresenta um resultado próximo ao placebo.

De acordo com esses dados, quais as conclusões que podemos chegar em relação
à performance?

6. O gráfico abaixo se refere à concentração de lactato no sangue em um grupo


suplementado com creatina (20g/dia durante 5 dias) e um grupo placebo colhido
após cada um dos 10 sprints em bicicleta ergométrica (6segundos com 30

segundos de pausa) em intensidade máxima.

O que podemos inferir sobre a diferença observada nos dois grupos?

7. O gráfico abaixo mostra a relação entre a concentração de fosfocreatina


(bolinha branca) e creatina (quadradinho preto) obtidos através de biópsia
muscular nos tempos 0, 20, 60 e 120 segundos após uma contração máxima em
um grupo suplementado com creatina (20g/dia durante cinco dias). Os símbolos
vazios se referem a resultados obtidos antes da suplementação e os cheios após a
suplementação.
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-124-

SUPLEMENTOS

Discuta qual a concentração de Pc nos dois grupos após 20, 60 e 120 min de
recuperação?

8. ? – Hidroxi – ? – Metilbutirato (HMB) é um suplemento utilizado como


anticatabólico, ou seja, os usuários procuram minimizar possíveis perdas de
massa magra decorridas pelas horas de treinamento intenso. Entretanto outros
efeitos têm sido observados com o uso desse suplemento (como veremos
adiante).

Uma estratégia para aumentar a eficácia do treinamento é a tentativa de atenuar o


turnover protéico com a nutrição. Isso mostraria resultados no ganho massa e
diminuição no tempo ou intensidade do treino. O metabólito da leucina (HMB)
tem demonstrado ser um candidato no decréscimo da proteólise muscular e aos
danos aos músculos, aumentando o ganho de massa magra.
Experimentos realizados com a suplementação de HMB em dois grupos (placebo
e suplementado) durante 8 semanas, sob treinamento, obtiveram os seguintes
resultados:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-125-

SUPLEMENTOS

Fig. 1: Massa magra

56

semana 0

54

semana 4

semana 8

52

massa magra (kg)

50

placebo

HMB

Figura 1: massa magra nas semanas zero, quatro e oito de um programa de


treinamento com adultos consumindo 3g/dia de HMB ou 3g/dia de placebo.

Fig. 2: Porcentagem de gordura corporal

0,5

0
1

placebo

HMB

-0,5

Variação da % de gordura corporal

-1

Figura 2: Variação da porcentagem de gordura corpórea após 8 semanas de


treinamento em adultos consumindo 3g/dia de HMB ou 3g/dia de placebo.

(Fonte:Matthew D. Vukovich, Nancy B. Stubbs e Ruth M. Bohlken; Body


composition in 70

year old adults responds to dietary ? – Hidroxy – ? – Methilbutyrate similarly to


that of young adults, Journal of Nutrition, 2001, 2049-2052)

9. O que se pode afirmar a respeito da suplementação de HMB?

10. Como você explicaria os dados obtidos nesses experimentos?

11. Que ações metabólicas estão sendo constatadas nesses experimentos para o
HMB?

Outros experimentos de metodologia similar foram realizados obtendo-se


resultados parecidos, como podemos ver na tabela abaixo:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-126-
SUPLEMENTOS

0,5

0,4

0,3

0,2

0,1

% de massa magra ganha por semana

Nissen et al.

Nissen et al.

Kreider et al. Panton et al.

Panton et al.

Gallagher et

Presente

1996 -

1996 -

1999 -

2000 -

2000 -

al. 2000 -
estudo -

homens 19

homens

homens

mulheres ~24 homens ~27 homens 18

homens e

a 29 anos

19 a 22 anos

~25 anos

anos

anos

a 29 anos

mulheres ~70

anos

Entretanto um experimento realizado com 37 adolescentes (homens), submetidos


a seções de exercícios 3 vezes por semana e utilizando 76mg/kg dia de HMB (o
equivalente a 3-6g por dia) demonstraram resultados diferentes.

O grupo suplementado com 38mg/kg dia mostrou um grande acréscimo no


torque do pico isométrico e o grupo suplementado com 76mg/kg dia apresentou
um aumento no pico isocinético

A atividade da creatina quinase plasmática foi maior no grupo não suplementado


do que nos grupos de 76mg/kg dia ou 38mg/kg dia, medidos 48h após o início
do treinamento. Em contrapartida nenhuma alteração na massa gorda foi
observada nos três grupos. No entanto o grupo de 38mg/kg dia apresentou um
aumento na massa magra (ver tabela a seguir).

mg . kg-1 . dia-1

38

76

14

12

11

Idade

22,3 ? 0,9

21,0 ? 0,9

21,8 ? 1,1

Altura (cm)

178,8 ? 2,8

180,7 ? 1,6

181,8 ? 2,6

Antes (kg)

77,2 ? 4,0

76,1 ? 2,7
81,7 ? 5,3

Depois (kg)

77,6 ? 3,8

78,2 ? 2,7

81,8 ? 2,1

Massa magra (kg)

Antes

65,3 ? 2,5

64,4 ? 1,6

69,2 ? 3,0

Depois

65,3 ? 2,2

66,3 ? 1,6

69,0 ? 3,0

Variação

0,0 ? 0,1

1,9 ? 0,6

-0,2 ? 0,5

12. Que conclusões podemos tirar acerca desses dados? A que você atribui a
diferença dos resultados obtidos?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


-127-

SUPLEMENTOS

Em um informe publicitário do produto PowerBar, publicado na revista

“Academia Esportes” ano 3, nº 14 de 2002, constam as seguintes informações: O


carboidrato é considerado o “combustível” mais eficiente para os músculos em
funcionamento. É armazenado nos tecidos musculares sob a forma de glicogênio
e é utilizado como primeira fonte de energia para o corpo. O carboidrato é
essencial para a prática de qualquer atividade física, seja ela de baixa ou alta
intensidade.

1) Você considera que o uso de suplementação de carboidratos é necessário a


todos os praticantes de atividades físicas? Quando você recomendaria a ingestão
de carboidratos a um esportista?

2) Nessa mesma propaganda, o anunciante cita um artigo publicado por


McArdle, W.D. et al no livro Sports and Exercise Nutrition 148:152,1999:
Quanto mais longo ou intenso o exercício, maior a utilização do carboidrato
como combustível, e maior a possibilidade de você se esgotar ou seu rendimento
cair.

Junto a esta declaração aparecem os gráficos seguintes:

1 0 0
gordura

9 0

carboidrato

proteína

8 0

7 0

6 0

5 0

4 0

3 0

2 0

1 0

descanso

leve e moderado

alta intensidade e

alta intensidade e

alta intensidade e

curta duração

longa duração
altíssima duração

Figura 1

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-128-

SUPLEMENTOS

1 8 0

1 6 0

1 4 0

1 2 0

1 0 0

8 0

6 0

4 0

2 0

tempo de exaustão (min)

d i e t a b a i x a e m

d i e t a n o r m a l

d i e t a r i c a e m

c a r b o i d r a t o s
c a r b o i d r a t o s

Figura 2

1) Você concorda com a afirmação da propaganda?

2) Preencha a coluna vazia da Figura 1 para exercícios de alta intensidade e


duração ainda mais longa do que o da última coluna apresentada.

3) Quais tipos de exercícios apresentados na Figura 1 são aeróbios e quais são


anaeróbios?

4) Por que no exercício de alta intensidade e curta duração há predomínio da


utilização de carboidrato?

5) A propaganda ainda questiona como potencializar a recuperação pós-


exercício. Há gasto de proteína durante o exercício?

6) A concentração protéica normal é restabelecida durante o período diurno ou


noturno? E os estoques de glicogênio?

7) Justifique a resposta à questão anterior com base na razão

insulina/glucagon ao longo do tempo. Para responder essa questão use a tabela


abaixo:

Período

Período pós- Jejum de 3 dias

absortivo absortivo (12h)

(2 a 4h)

Glicose (mM)

6,7

4,4
3,6

Insulina (?m/ml) 100

15

Glucagon (? g/ml) 80

100

150

Insulina/glucagon 1,25

0,15

0,05

8) Que procedimento você sugere que sejam realizados para melhorar a


recuperação após o exercício físico?

9) Quais as conseqüências do uso de carboidratos durante a atividade física?

Como a relação adrenalina/insulina/glucagon influencia o uso de

substratos para a obtenção de energia?

10) Como devemos proceder à ingestão de carboidratos antes da atividade física


para melhorarmos a performance do atleta?

11) A partir de que tipo de nutriente é refeito o glicogênio utilizado durante o


exercício?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-129-

SUPLEMENTOS
A maltodextrina é um oligossacarídeo de glicose, com ramificações ? (1? 6).

Chamado de carboidrato complexo devido à sua longa cadeia, é encontrado


naturalmente na batata e na mandioca.

A sua digestão e absorção se dão de maneira mais lenta que a da glicose ou da


sacarose.

Produtos industrializados como o Carb Up? possuem maltodextrina e frutose nos


seus ingredientes.

Informações nutricionais do Carb Up gel:

Energia

Proteínas Glicídios Lipídios

1 sachê 80 kcal

0g

20g

0g

(30g)

Em 100g

266 kcal

0g

66,6g

0g

A suplementação com maltodextrina tem sido recomendada para repor as


reservas de glicogênio gastas durante a atividade física e ao mesmo tempo evitar
picos glicêmicos. Você concorda que esse produto tem essa capacidade?
Você conseguiria propor uma explicação para a sua resposta?

12) O consumo da frutose teria alguma vantagem sobre o consumo da sacarose?

13) Podemos apontar diferenças entre os suplementos de carboidratos na forma


de barras, em pó (para o preparo de soluções) ou gel?

14) A partir de que tipo de nutriente são refeitas as proteínas utilizadas durante o
exercício?

15) O aumento de massa magra tem relação direta com a quantidade de proteínas
ingeridas?

16) Para uma pessoa que pretende ganhar massa magra seria adequado ingerir
suplemento protéico ou de carboidrato?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-130-

SUPLEMENTAÇÃO DE AMINOÁCIDOS

21. Suplementação de Aminoácidos

Suplementos Nutricionais comercializados para indivíduos que realizam


treinamento de força:

Dados de pesquisa sobre a

suplementação para os

Suplemento Nutricional

Utilização proposta/ Efeito

apregoado

indivíduos que realizam

treinamento de força
Não há dados que confirmem que eles

são mais eficazes que as fontes

Fornecimento de uma quantidade naturais. O indivíduo que realiza Suplementos


protéicos

adequada de proteínas para auxiliar no treinamento de força pode necessitar de


crescimento muscular e no ganho de 1,5 – 2,0g de proteína/kg de peso peso

corporal. Essa quantidade é facilmente

obtida das fontes protéicas de uma

dieta saudável.

Podem estimular a liberação do

hormônio do crescimento humano. No

Estimulam a liberação do hormônio do entanto, este não demonstrou ser


Arginina, lisina, ornitina

crescimento humano e de insulina. ergogênico para o indivíduo que realiza


Promovem o crescimento muscular.

treinamento de força. As pesquisas não

indicam qualquer efeito sobre o

crescimento ou força muscular.

Pouco se sabe a respeito dos

mecanismos que envolvem esse

Competem com o triptofano no processo. Muitos estudos falharam em BCAA

transporte para o cérebro, diminuindo a demonstrar um aumento do tempo de


fadiga do sistema nervoso central.
exercício até a fadiga com

suplementação de BCAA e concordaram

em descrever um aumento significativo

da amônia circulante.

Promove a manutenção do sistema Estudos demonstraram que altas

Glutamina

imunológico. Utilizado como principal concentrações de glutamina no plasma


fonte de energia para as células do não alteraram a resposta imune de um sistema
imunológico (leucócitos).

indivíduo normal.

Composição nutricional do Whey Protein

Composição Nutricional por 100g

Proteínas

80g

Gordura

6g

Carboidratos

5g

H2O

9g

Composição nutricional do Power Bar (Protein Plus)


Composição Nutricional por 100g

Proteínas

31g

Gordura

6,5g

Carboidratos

50g

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-131-

SUPLEMENTAÇÃO DE AMINOÁCIDOS

Composição nutricional de alguns alimentos

Carne de Boi por 100g

Proteínas

22g

Gordura

2,4g

Carboidratos

H2O

75g
Soja por 100g

Proteínas

33g

Gordura

16g

Carboidratos

36g

H2O

9g

Frango por 100g

Proteínas

25g

Gordura

1,6g

Carboidratos

0g

H2O

70g

Com base nos dados das tabelas acima você acha indicado o uso do suplemento
Whey Protein ou do Power Bar (Protein Plus)? Existem algumas situações aonde
o seu uso fosse mais indicado ou menos indicado?
Proteínas são constituídas de aminoácidos e sofrem digestão para poderem ser
absorvidas no tubo digestivo. Qual seria a diferença de uma suplementação
protéica para o uso de suplementos a base de aminoácidos?

A recomendação de 2g de proteína/kg faria com que um atleta que pesasse 80kg


tivesse a necessidade de ingerir 160g de proteína por dia. Esse valor seria
suprido com a ingestão diária de cerca de 320g de frango, sem levar em
consideração qualquer outro alimento ingerido durante o dia e que fosse
constituído por proteína (cereais, ovos, leite, etc). Com essas informações você
acha necessário uso de suplementos proteicos?

Num experimento realizado com humanos, foi dada uma dieta a base de
carboidratos (como estímulo à liberação de insulina) e aminoácidos e medido a
porcentagem de síntese de proteína muscular. Os resultados se encontram na
Fig.1:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-132-

SUPLEMENTAÇÃO DE AMINOÁCIDOS

0,2

0,1

Síntese de Proteína Muscular (%/h)

Basal

PE

PE + Ins

PE + AA

Fig. 1: Síntese de proteína muscular no descanso (Basal); após o exercício de


resistência (PE); após exercício de resistência e durante hiperinsulinemia
local (PE + Ins) e após exercício de

resistência e durante sistema hiperaminoacidêmico (PE + AA).

O mais potente iniciador da síntese protéica no músculo é uma combinação de


exercício de resistência e elevada taxa de aminoácidos disponíveis. Esse
pressuposto justifica uma suplementação por aminoácidos?

A hipótese do Overtraining e o BCAA propõe que a suplementação desses


aminoácidos diminuiria a concentração plasmática do triptofano, precursor da
serotonina, substância responsável pela fadiga do sistema nervoso central
durante a atividade física. Estudos realizados por Gastmann, Uwe A. L. e
Lehmann, Manfred J. da Ulm University Medical Center, Ulm, Alemanha,
chegaram aos seguintes resultados:

Treinamento de Alta Intensidade

[?mol/l]

Antes

Depois

Variação

Leu

135

133

-1,5%

Ile

79

76
-3,8%

Val

250

234

-6%

Tyr

79

78

-1,3%

Phe

50

59

-6%

Trp

74

73

-1,4%

fTrp

6,5

9,2
+41%

FTrp/BCAA

0,014

0,021

fTrp – triptofano livre

fTrp/BCAA – razão antes (dia o) e depois (dia 28) sob treinamento de ciclismo
Você concorda com a hipótese do Overtraining e o BCAA? Justifique.

Outra justificativa utilizada para a suplementação com BCAA seria a de esses


aminoácidos poderiam auxiliar na manutenção do glicogênio muscular após o
exercício. Veja o que mostra o trabalho de Eva Blomstrand e Bengt Saltin do
Copenhagen Muscle Research Center, da Dinamarca.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-133-

SUPLEMENTAÇÃO DE AMINOÁCIDOS

500

placebo

400

suplementado

300

com BCAA

200

(mmol/kg)
100

Descanço

Após o

0,5h após

1h após

2h após

nível do glicogênio muscular

exercício

(Experimento realizado por biópsia do músculo da perna com

nível normal de glicogênio antes do exercício)

500

placebo

400

suplementado

300

com BCAA

200

(mmol/kg)

100
0

Descanço

Após o

0,5h após

1h após

2h após

nível do glicogênio muscular

exercício

(Experimento realizado por biópsia do músculo da perna com

nível baixo de glicogênio antes do exercício)

Procure discutir esses dados e conflita-los com as hipóteses do

enunciado dessa questão.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-134-

HIDRATAÇÃO

22. Hidratação

O corpo é composto por cerca de 50~75% de água, dependendo da

idade e da gordura corporal, e a perda de apenas 3~4% da água corporal afeta de


forma adversa o desempenho aeróbio e torna o sistema cardiovascular inábil de
manter o mesmo débito cardíaco. Perdas maiores podem levar à morte.

Em condições normais sem exercício, a perda de água é de


aproximadamente 2,5 litros/dia, a maior parte sendo perdida pela urina. No
entanto, em temperaturas ambientais mais elevadas e quando um exercício
intenso é adicionado, a perda de água aumenta para 6~7 litros por dia. Os 2,5
litros de água por dia são repostos com bebidas (1,5 litros), alimentos sólidos
(750ml) e a água derivada de processos metabólicos (250ml).

Para evitar possíveis problemas associados à desidratação, uma pessoa deve


consumir água antes e durante o exercício.

1) Porque a sede não é um estímulo adequado para atingir um equilíbrio hídrico?

2) O estômago é capaz de esvaziar até 1,7 litros de água por hora. Qual volume
de água (por hora) você recomendaria para fazer uma reposição hídrica durante
uma atividade física?

3) O acréscimo de pequena quantidade de glicose e sódio na solução oral de


reidratação pode facilitar a captação dos líquidos depois de alcançarem a luz
intestinal devido ao acoplamento ativo ou co-transporte de glicose-sódio através
da mucosa intestinal, estimulando assim a captação passiva de água por ação
osmótica.

A palatabilidade, bem como a temperatura do líquido é fator determinante na


capacidade de ingeri-los.

A fórmula do Gatorade® contém uma mistura de glicose, sacarose e frutose, sal


e pode ser encontrado em diversos sabores. Com base nos dados alistados acima
tente explicar a escolha pela fórmula do Gatorade®.

4) A ingestão de bebidas isotônicas é essencial para a hidratação durante a


atividade física ou pode-se utilizar apenas água?

5) O que é hiponatremia? Como podemos evita-la?

6) Existe uma fórmula ótima de bebidas esportivas que atenda a crianças, idosos,
gestantes ou pessoas com doenças crônicas? Para esses diversos casos como
devemos proceder a reposição hídrica?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


-135-

MITOS E VERDADES ACERCA DOS SUPLEMENTOS ALIMENTARES.

23. Mitos e verdades acerca dos suplementos alimentares.

1. Para um treino de hipertrofia eu devo tomar suplementação de proteína?

2. Existe alguma diferença entre a suplementação com aminoácidos ou


suplementos proteicos como o Whey Protein?

3. O que é melhor, tomar albumina ou Whey Protein? Existe alguma diferença


entre esses dois suplementos?

4. Existe uma gama enorme de suplementos de aminoácidos. Como devo


proceder na escolha entre amino 5655, amino 4400, amino 2822, amino 2222,
amino 1700, egg amino 1200, BCAA 1000, glutamina, L-carnitina, por
exemplo?

5. Proteína engorda? E os aminoácidos?

6. Suplementação com proteína pode causar acne?

7. Para minimizar os efeitos colaterais de uma suplementação com proteínas eu


devo beber muita água? Isso tem algum efeito?

8. Quando é a melhor hora para se ingerir meu suplemento protéico, antes do


treino, após o treino ou antes de dormir?

9. Whey Protein repõe o glicogênio perdido durante a atividade física?

10.Devo associar o suplemento protéico com o uso de esteróides anabolizantes


para obter um melhor resultado no treino de hipertrofia?

11.Existem diferenças entre os suplementos importados e os nacionais? Qual


devo dar preferência?

12.Os aminoácidos são produtos naturais da nossa dieta, portanto posso


consumi-los a vontade que não trarão danos ao meu organismo.
13.Durante a atividade física eu “queimo” os meus músculos e se eu não tiver
uma suplementação proteica eu irei emagrecer ou ficar flácido.

14.Os aminoácidos são os “tijolos” dos meus músculos, portanto quanto mais eu
ingerir produtos a base de aminoácidos maior será a minha hipertrofia
15.Durante o treino eu provoco microfissuras na estrutura das fibras musculares
e a noite, com uma suplementação proteica, eu irei reconstituir essas fibras
obtendo hipertrofia muscular.

16.Outros alimentos que não sejam de origem animal também são fontes de
proteínas?

17.Os suplementos possuem proteínas mais “puras” que as fontes naturais


(carnes, ovos, etc)?

18.Proteína em excesso não faz mal.

19.É melhor tomar suplementos como Whey Protein em vez de complexos de


aminoácidos porque o primeiro é uma forma mais natural de se ingerir os
aminoácidos.

20.Glutamina auxilia na hipertrofia.

21.L-carnitina emagrece.

22.Arginina, lisina e ornitina aumentam a performance?

23.L-cisteína ajuda na recuperação de articulações e ligamentos?

24.Gelatina é indicada para uma dieta de hipertrofia?

25.O que são BCAA?

26.BCAA aumenta a coordenação durante o exercício?

27.BCAA diminui a fadiga do sistema nervoso central.

28.BCAA são os aminoácidos mais fáceis de entrar no músculo e que perfazem a


maior porcentagem das proteínas musculares, portanto a sua suplementação
causa hiopertrofia.

29.Quando é o melhor momento para se fazer uma suplementação de


carboidratos?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-136-

MITOS E VERDADES ACERCA DOS SUPLEMENTOS ALIMENTARES.

30.Quando devo tomar o meu suplemento de carboidrato, antes durante ou


depois do exercício?

31.O que é maltodextrina?

32.Existe alguma diferença entre o uso de suplemento de carboidrato em barra


ou em gel?

33.A maltodextrina diluída em água tem absorção mais lenta que em gel?

34.Suplementação com carboidrato engorda?

35.Maltodextrina engorda?

36.Posso substituir o meu suplemento de maltodextrina por uma bolacha de


maisena ou uma refeição com batata cozida?

37.É mais indicado eu utilizar sacarose ou frutose para adoçar o meu suco?

38.Não devo ingerir carboidratos na minha dieta para não engordar mas devo
suplementar com Carb Up para repor as minhas reservas de glicogênio.

39.O que são carboidratos complexos? Como posso coloca-los na minha dieta?

40.Existe açúcar ligth?

41.Uma suplementação para hipertrofia deve conter produtos como Carb Up,
Carbomax ou Carbo Plus para dar “gás” durante o treino e para não queimar a
proteína dos meus músculos e L-carnitina e “fat burners” para não engordar.
Assim estarei maximizando os efeitos anabólicos e minimizando os efeitos
catabólicos e ganharei massa magra.

42.Suplementos de carboidratos aceleram a recuperação durante exercícios


intensos?

43.Quais são os efeitos de uma dieta rica em carboidratos?

44.Quais são os efeitos de uma dieta pobre em carboidratos?

45.Gatorade leva carboidratos na sua composição?

46.Qualquer pessoa pode tomar isotônicos em substituição da água?

47.Creatina causa hipertrofia?

48.Creatina faz mal?

49.O que é a creatina?

50.Creatina é para dar “gás”.

51.Creatina dá força.

52.Com uma suplementação de creatina você irá conseguir levantar pesos


maiores.

53.Creatina retêm líquido, portanto quando estiver suplementando beba bastante


água.

54.É bom usar creatina quando estiver “bolando” porque aumenta os efeitos do
anabolizante e dá mais força.

55.Creatina líquida tem melhor efeito do que a em pó ou comprimidos e


dispensa o período de “super dose”.

56.Creatina líquida não possui os efeitos colaterais da creatina em pó.

57.Creatina é uma fonte natural de ATP.


58.Creatina é utilizada na transferência de energia para o músculo, aumentando a
produção e o armazenamento de ATP.

59.O que é creatina micronizada?

60.Creatina deve ser ingerida junto com carboidrato para aumentar a sua
absorção.

61.Creatina é considerada dopping?

62.O que são anticatabólicos?

63.O que é catabolismo?

64.Durante o dia nós estamos preponderantemente em um processo catabólico e


à noite em processo anabólico.

65.Se eu sou muito magrinho eu preciso usar hipercalóricos?

66.Suplemento é “bola”?

67.Quantos quilos por mês eu posso ganhar usando suplementos?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-137-

MITOS E VERDADES ACERCA DOS SUPLEMENTOS ALIMENTARES.

68.Quais suplementos eu devo tomar ao iniciar um treino de musculação?

69.Para emagrecer eu devo cortar o carboidrato e os lipídios da minha dieta e


fazer pelo menos 1h de academia três vezes por semana.

70.Posso usar suplementos a base de epinefrina para emagrecer? Isso traria


algum risco a minha saúde?

71.Devo almoçar, comer uma barrinha energética à tarde e ir treinar a noite para
poder emagrecer?
72.O que é efedrina? Ela ajuda a emagrecer?

73.Existe uma dieta adequada para ganhar um grupo muscular específico?

74.Existe uma dieta para emagrecer em determinadas regiões do meu corpo?

75.Água fria emagrece?

76.Água é calórica?

77.Fruta engorda?

78.Posso jejuar e não praticar atividade física que eu vou emagrecer?

79.O que é dieta da proteína?. Ela é eficiente?

80.Existe suplementação lipídica?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-138-

APÊNDICE

24. Apêndice

Biotina

Essa vitamina é cofator de quatro carboxilases dependentes de ATP: acetil-CoA


carboxilase, piruvato carboxilase, propionil-CoA carboxilase e ? -metilcrotonil-
CoA carboxilase. Normalmente encontra-se ligada a resíduos de lisina.

A RDA não está bem estabelecida, e as estimativas estão em torno de 30 a 100 ?


g/dia.

Pode ser encontrada em vegetais, leite e carne, normalmente ligada a proteínas.


No processo de digestão a enzima biotinidase é responsável pela clivagem da
ligação entre a biotina e a lisina. No leite encontra-se livre, pois alem da mucosa
intestinal o leite e o sangue apresentam atividade de biotinidase.

Estima-se que a microflora intestinal seja responsável pela produção de metade


da quantidade de biotina necessária.

Bioquímica da biotina

A biotina catalisa reações de carboxilases. Primeiro, em uma etapa ATP-


dependente, uma molécula de bicarbonato é transferido ao nitrogênio 1’ (ver
figura 1), que posteriormente é transferido para um substrato, acrescendo um
grupo carboxila.

Figura 1. Fórmula estrutural da biotina.

Deficiência em biotina

A deficiência em biotina é muito rara em humanos. Pode ser encontrada em


indivíduos acometidos por uma rara doença genética (1 entre 40.000) que
impossibilita a produção de biotinidase. Os sintomas são erupções nas
sobrancelhas bochechas, além de sintomas neurológicos como dores musculares,
forte cansaço e entorpecimento.

Pessoas que tiveram parte do intestino retirado ou que estão tomando


antibióticos por um período prolongado podem vir a apresentar déficit de
biotina.

Existe um fator anti-nutricional chamado avidina. A avidina é uma proteína


encontrada na clara de ovo. Nessa proteína a biotina liga-se muito fortemente
(porém na de forma covalente) e impede sua absorção no trato intestinal. Para
que ocorra a deficiência causada pela avidina a dieta deve ser baseada em ovos
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-139-

APÊNDICE

crus (seis por dia) durante muitos meses. Ovos cozidos não oferecem qualquer
risco, pois a avidina é destruída com o aquecimento.

A deficiência de biotina induz a acumulação de propionil-CoA, que passa a ser


reconhecida pela sintetase de ácido graxo, levando a produção de pequenas
quantidades de ácidos graxos com número ímpar de carbonos (15 ou 17).,
Estudos em animais revelaram que a deficiência durante a gestação promove
defeitos ao feto.
Vitamina B6
A RDA para essa vitamina é 2,0 mg para adultos e 0,3 mg para crianças. A
vitamina B6 possui diversas formas: oiridoxina, piridoxal, piridoxamina, e as
respectivas formas fosforiladas (figura 2). As formas ativas são a piridoxal
fosfato (PLP) e a piridoxamina fosfato (PMP). O cofator permanece ligado via
um resíduo de lisina o tempo todo. A ligação da PLP é mais estável.

Figura 2. Formas estruturais da vitamina B6

São fontes apreciáveis de vitamina B6: peixe, aves, fígado e ovos. O leite e a
carne de mamíferos menores quantidades. Em todas essas fontes praticamente
toda a vitamina é biodisponível.

Vegetais possuem, além das formas já descritas, a piridoxina glicosídeo (figura


3). Em vegetais como o feijão, laranja, cenoura, brócolis, etc., de 50 a 75

% da vitamina B6 encontra-se nessa forma, pouco disponível (absorvemos


menos que 50 % da vitamina ingerida).

Figura 3. forma estrutural da piridoxina glicosídeo

Bioquímica da vitamina B6

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-140-

APÊNDICE

A PLP é cofator de várias enzimas usadas no metabolismo de amino ácidos e


compostos relacionados. Algumas das enzimas que requerem B6 estão listadas
na tabela que segue:

Enzima

Função
Glutamato-piruvato aminotransferase Interconverção de alanina e piruvato
Glutamato-oxaloacetato

Intervonverção de aspartato e

aminotransferase

oxaloacetato

BCAA aminotransferase

Catabolismo do BCAA

Serina desidrogenase

Catabolismo da serina

Serina hidroximetiltransferase

Produção de uma unidade de carbono

utilizada no metabolismo mediado pelo

folato

Sistema de clivagem da glicina

Catabolismo da glicina na mitocôndria

DOPA descarboxilase

Conversão de DOPA a dopamina, na

via de síntese de catecolaminas

Histidina descarboxilase

Produção de histamina

Glutamato descarboxilase
Conversão de ácido glutâmico em

GABA

Cistationina sintetase

Biosíntese de cistationina a partir de

homocisteía e serina

Cistationase

Desdobramento de cistationina a ? -

cetobutirato e cisteína

Cisteína sulfinato aminotransferase

Produção de sulfato

Cisteína sulfinato descarboxilase

Síntese de taurina

Ácido aminolevolínico (AL) sintetase

Síntese do grupo heme

Cetoesfingosína (KS) sintetase

Síntese de esfingosina

Fosfatidilserina descarboxilase

Síntese de Fosfatidiletanolamina

Glicogênio fosforilase

Quebra do glicogênio
Nas aminotransferases o cofator muda de forma com a reação. Por exemplo:
Glutamato + enzima-PLP ?? ?-cetoglutarato + enzima-PMP

Oxaloacetato + enzima-PMP ??ácido aspártico + enzima-PMP

A PLP é também cofator da glicogênio fosforilase, uma enzima importante do


metabolismo energético. A PLP media a transferência de um grupo fosfato para
as moléculas de glicose do glicogênio, resultando na liberação de glicose-1-
fosfato. A maior parte do glicogênio do nosso corpo está armazenado no tecido
muscular, que contém também a maior quantidade da glicogênio fosforilase.
Praticamente toda a vitamina B6 encontrada nos músculos está associada a essa
enzima.

Deficiência

Novamente o alcoolismo crônico é uma das principais causas de deficiência.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-141-

APÊNDICE

Os sintomas apresentados em quadros de deficiência incluem depressão,


confusão mental e em alguns casos convulsões. Esses problemas são decorrentes
do bloqueio da síntese do neurotransmissor ácido ?-aminobutírico (GABA).

HOOCCH2CH2CHNH2COOH ? CO2 + HOOC CH2CH2CHNH2

Ácido glutâmico GABA Certos nutrientes aparecem no nosso organismo em


grandes quantidades em alguns tecidos. De fato são verdadeiros estoques que
podem ser mobilizados quando passamos a apresentar uma alimentação
deficitária nesse elemento. Esse conceito se aplica a reservas de energia
(glicogênio, proteínas e triacilglicerídeos), vitamina A, cálcio, etc. Embora entre
70 e 80 % da vitamina B6 encontrada no nosso corpo está no tecido muscular
(como cofator da glicogênio fosforilase), não ocorre mobilização desse elemento
para a realização de funções enzimáticas mais vitais.

Toxicidade
A vitamina B6 apresenta toxicidade se presente na dieta em doses 1000

vezes maior que a RDA. Doses diárias de 2 a 5 g de vitamina B6 podem levar a


dificuldade para caminhar e formigamento das pernas e sola dos pés. O consumo
continuado dessas doses resulta num agravamento do quadro, com o andar
cambaleante, dificuldade para manusear pequenos objetos e analgesia das mãos.

Quando a suplementação é descontinuada a recuperação começa após 2 meses. A


recuperação total pode levar de 2 a 3 anos.
Vitamina B2
A RDA para indivíduos adultos é 1,7 mg. Fígado é uma excelente fonte de
riboflavina, que também é encontrada em boas quantidades no leite, carne e
vegetais verde-escuros, como o brócolis e o espinafre. Grãos e legumes também
apresentam essa vitamina.

A riboflavina é foto-sensível, por esse motivo o leite deve ser conservado em


embalagens que não permitem a passagem de luz.

Após a absorção, cerca de metade da vitamina B2 se liga a albumina.

Quando ingerimos altas doses (20 a 60 mg), grande parte é prontamente


eliminada na urina, conferindo uma cor laranja bem característica.

Os cofatores FAD, derivados da riboflavina, são chamados de flavinas, enquanto


as respectivas enzimas que se ligam a eles são denominadas flavoproteínas.

A conversão da riboflavina para flavina mononcleotídeo (FMN) é catalizada pela


flavoquinase, numa reação que pode ocorrer na própria mucosa intestinal quando
da absorção, ou posteriormente em outros órgãos. A FAD sintetase cataliza
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-142-
APÊNDICE

a conversão da FMN em FAD. O ATP é a fonte do grupo adenil incorporado


(figura 4).

Figura 4. Conversão de riboflavina em FAD.

Várias fosfatases da mucosa intestinal são capazes de desdobrar a FAD em FMN


e a FMN em riboflavina. Essas reações são necessárias para a absorção de
vitamina. As flavinas ligadas covalentemente a proteínas não podem ser
absorvidas.
Bioquímica

Em mamíferos cerca de 50 enzimas utilizam flavinas como cofatores. As mais


estudadas são aquelas utilizadas nas vias principais do metabolismo energético,
como a dihidrolipoil desidrogenase, a acil-CoA desidrogenase a succinato
desidrogenase e a NADH desidrogenase.

Os cofatores FMN e FAD ligam-se fortemente, mas não de forma covalente, as


respectivas enzimas dependentes. Esses cofatores participam das reações
recebendo ou transferindo elétrons. O cofator NADH + H+ é capaz de transferir
elétrons para a FAD.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-143-

APÊNDICE

As enzimas que contém flavinas covalentemente ligadas incluem a succinato


desidrogenase, monoamina oxidase, e a monometilglicina desidrogenase.

A tabela apresentada a seguir relaciona algumas das principais

flavoproteínas.

Enzima

Cofator Função

Dihidrolipoil desidrogenase FAD

Metabolismo energético

Acil-CoA desidrogenase

FAD

Oxidação de ácidos graxos

Succinato desidrogenase
FAD

Ciclo de krebs

NADH desidrogenase

FMN

Cadeia respiratória

Xantina desidrogenase

FAD

Catabolismo de purinas

Glutationa redutase

FAD

Redução de GSSG para 2 GSH

Metileno-H4folato redutase FAD

Produção de 5-metil-H4folato

Esfinganina oxidase

FAD

Síntese de esfingosina

Piridoxina fosfato oxidase

FMN

Metabolismo da vitamina B6

Monoamina oxidase
FAD

Metabolismo de neurotransmissores

D-amino ácido oxidase

FAD

Catabolismo de D-AAs para ceto ácidos

L- amino ácido oxidase

FMN

Catabolismo de L-AAs para ceto ácidos

Colina oxidase

FAD

Catabolismo da colina

Dimetilglicina desidrogenase FAD

Catabolismo da colina

Monometilglicina

FAD

Catabolismo da colina

desidrogenase

A seguir (figura 5) será mostrado o ciclo de reações catalisadas pela piruvato


desidrogenase. Note a presença do ácido lipóico, que também é um cofator, mas
sintetisado pelo nosso próprio organismo. Esse ciclo requer quatro vitaminas, a
riboflavina (FAD), tiamina (TPP), niacina (NAD) e ácido pantotênico (coenzima
A).
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-144-

APÊNDICE
Figura 5.
1- O piruvato é descarboxilado, resultando na transferência de um grupo
hidroxietil para a TPP;

2- O grupo hidroxietil é oxidado e acetil e transferido para o ácido lipóico; 3- O


grupo acetil é transferido para a CoA, gerando a acetil-CoA. Simultaneamente é
gerado o ácido dihidrolipóico;

4- O ácido dihidrolipóico transfere elétrons para a FAD, gerando FADH2; 5 –


Dois elétrons são transferidos da FADH2 para a NAD, gerando NADH + H+.

Deficiência

Os sinais de deficiência em riboflavina são lesões na boca, conhecidas como


quelose e estomatite angular. A quelose provoca inchaço e fissura dos lábios, o
que é causa de dor e sangramento. A estomatite angular provoca fissura e
ulcerações nos ângulos da boca. Outros sintomas observados são dermatite e
erupções no escroto ou na vulva.

Normalmente não há deficiência isolada em riboflavina, mas sim associada a


outras avitaminoses.

Deficiências severas, induzidas experimentalmente em animais,

proporcionaram parada de crescimento, esterilidade, dermatite e danos


neurológicos.
Niacina
A RDA para adultos é 19 mg. A niacina é convertida pelo organismo a
nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD), que também pode ocorrer na forma
fosforilada (NADP). Ambas são cofatores de reações REDOX. Podemos
encontrar esses cofatores tanto nas formas oxidadas (NAD e NADH + H+) como
nas formas reduzidas (NADP e NADPH + H+).

A coenzima NAD participa da glicólise, interconverção malato-aspartato,


metabolismo de corpos cetônicos e oxidação de ácidos graxos. A coenzima
NADP é utilizada na síntese de ácidos graxos e via das pentoses.

O termo niacina compreende o ácido nicotínico e a nicotinamida. Em alimentos


encontramos a niacina principalmente como NAD, NADP e suas formas
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-145-

APÊNDICE

reduzidas. Para serem absorvidas é necessário hidrolisar as coenzimas a


nicotinamida ou nicotinamida nucleotídeo. No fígado ou no próprio intestino é
convertida a ácido nicotínico.

No fígado ocorre a conversão de ácido nicotínico a NAD:

Figura 6. conversão de ácido nicotínico a NAD.


Bioquímica

O NAD tende a ser um aceptor de elétrons em reações catabólicas

envolvendo a degradação de carboidratos, álcool, ácidos graxos, amino ácidos e


corpos cetônicos. São reações importantes para a produção de energia. O NADP

tende a ser usado em reações de biosíntese. Sua forma reduzida é gerada na via
das pentoses fosfato, e é utilizada para a biosíntese de ácidos graxos, síntese de
colesterol e pela ribonucleotídeo redutase.

As coenzimas niacínicas são usadas para transferência de dois elétrons, que é


acompanhada pela transferência de dois prótons. Um dos prótons transferidos
permanece dissociado, daí a notação NADH + H+, e não simplesmente NADH2.

O poder redutor da NADH + H+ é maior que o da FADH2. Dessa maneira


encontramos reações onde NADH + H+ transfere elétrons para a FADH2.
Ambas as formas reduzidas podem ser utilizadas na cadeia respiratória, porém a
NADH + H+

é capaz de gerar mais ATPs.

Também encontramos processos enzimáticos onde a NAD não é usada em


reações REDOX. A coenzima NAD é usada em modificações pós
transcripcionais em uma série de proteínas, em destaque uma série de proteínas
cromossomais relacionadas a regulação gênica. A Poli (ADP-ribose) polimerase
catalisa a ligação de ADP-ribose a essas proteínas. O substrato é a NAD. A
atividade dessa enzima aumenta durante o crescimento celular, diferenc iação e
reparo de DNA.

Deficiência

A deficiência severa em niacina resulta numa doença conhecida como pelagra,


caracterizada por uma severa dermatite, diarréia, demência e morte.

Esse quadro é mais freqüente em populações pobres, algumas com dietas


baseadas no milho. O milho possui NAD, porém ligado a proteínas (não é
absorvido). No México, porém, a dieta é baseada no milho e não há incidência
de pelagra. A explicação é simplesmente a forma de preparo da tortilla, que em
uma das etapas o milho é tratado em uma solução alcalina. Em pH alcalino
ocorre a hidrólise protéica com a conseqüente liberação de niacina.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-146-

APÊNDICE

Tanto o leite como o ovo são fontes apenas discretas de niacina, porém uma dieta
rica nesses nutrientes é capaz não só de evitar mas reverter quadros de
deficiência em niacina. A explicação é dada pela grande porcentagem de
triptofano encontrada nesses alimentos. Nosso organismo é capaz de converter
triptofano em niacina (figura 6). É aceito que a cada 60 mg de triptofano
ingeridos, 1 mg de niacina é produzido.

Figura 6. síntese de niacina a partir de triptofano.


Vitamina B1
A RDA para a tiamina é 1,5 mg (adulto). Essa vitamina está presente em uma
série de alimentos, tanto de origem animal como vegetal, como carnes magras,
vísceras (especialmente o fígado, coração e rins), gema de ovo e grãos integrais.

A forma ativa da tiamina é a tiamina trifosfato (TPP). O cofator TPP também a


forma mais comum encontrada em alimentos. Para ser absorvido deve primeiro
ser hidrolizado a tiamina. Numa etapa posterior a absorção e distribuição para os
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-147-

APÊNDICE

tecidos, é novamente convertida a TPP, pela ação da tiaminoquinase. A


deficiência em tiamina é conhecida por beribéri, uma doença descrita pela
primeira vez em 1630. No século XIX foi descoberto que a adição de carnes e
cereais a uma alimentação pobre poderia prevenir o beribéri. O componente
desconhecido foi chamado de tiamina.

Bioquímica

A TPP é cofator de um número pequeno de enzimas. São elas: piruvato


desidrogenase, ? -cetoglutarato desidrogenase, BCKA desidrogenase e
translocase.

As três desidrogenases catalisam a redução de NAD e a liberação de uma


molécula de CO2 do substrato. A translocase é a responsável pela transferência
de duas unidades de carbono em duas reações da via das pentoses fosfato. A via
das pentoses é importante pela síntese da ribose-5-fosfato, molécula constituinte
dos ribonucleosídeos, como o ATP e o GTP, e deoxiribonucleosideos, como o
dATP e o dGTP, além do RNA e DNA. O outro evento importante dessa via é a
redução do NADP a NADPH + H+. A tiamina consiste de um anel pirimidínico
ligado ao tiazol por uma ponte metílica (figura 7).

Em tecido animal livre as formas fosforiladas da tiamina estão presentes em


diferentes quantidades sendo TPP a mais abundante. No corpo animal as quatro
formas de tiamina sofrem interconversão de várias enzimas (figura 8).

Figura 7: Estruturas da (T) tiamina, (TMP) tiamina monofosfato, (TPP)


tiamina pirofosfato e (TTP) tiamina trifosfato.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-148-
APÊNDICE

Figura 8: Interconversão enzimática dos compostos de tiamina. (T1)


tiamina livre, (TMP) tiamina monofosfato, (TPP) tiamina pirofosfato, (TTP)
tiamina trifosfato, (Pi) fosfato inorgânico, (TPK) tiamina pirofosfoquinase,
(P-tranferase) tiamina pirofosfato quinase, (TMPase) tiamina
monofosfatase, (TPPase) tiamina pirofosfatase, (TTPase) tiamina
trifosfatase.

Deficiência

A deficiência está associada ao alcoolismo e a dietas baseadas em arroz polido,


razão pela qual a doença beribéri se tornou endêmica em certas regiões da Ásia.
Os sintomas da deficiência são anorexia e perda de peso, sintomas neurológicos
e problemas cardíacos. As implicações cardíacas incluem taquicardia, aumento
do tamanho do coração e falência do órgão.

Outra maneira de adquirir deficiência em tiamina é através de uma dieta baseada


no consumo de peixe cru. No peixe encontramos tiaminases, que são enzimas
que destroem a tiamina.
Folato
O folato é uma vitamina extremamente importante para o crescimento, razão que
leva a dobrar a quantidade diária recomendada (RDA) para gestantes e durante a
lactação (o folato pode ser encontrado no leite). Essa vitamina está presente em
quantidades apreciáveis em alimentos como fígado, gema de ovos, suco de
laranja e vegetais verdes, como o brócolis, o espinafre e o pimentão.

figura 9. estrutura do folato

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-149-

APÊNDICE

Folato é um termo genérico para as várias formas relacionadas ao ácido fólico


(PteGlu), apresentado na figura “9.1”. O ácido fólico pode ser reduzido,
formando o dihidrofolato (H2PteGlu) ou o tetrahidrofolato (H4PteGlu), reduções
que ocorrem nas posições 6, 7 e 8 do ácido. Outras modificações importantes são
a incorporação de algumas unidades de ácido glutâmico, formando uma cauda
poliglutamílica, em tecido de mamíferos geralmente com 5 (folilpentaglutamato)
ou 6 (folilhexaglutamato) resíduos de ácido glutâmico, envolvendo ligações
entre as

? -aninas e as ?-carbonílicas do ácido glutâmico.

A ligação dos resíduos de ácido glutâmico e a redução para tetrahidrofolato


fazem parte do processo de ativação do cofator.

Para que exerça sua função metabólica outra modificação ainda é necessária,
trata-se da incorporação de uma unidade de carbono, através de uma metilação
na posição 5 ou a ligação de um grupo formil na posição 10. Ao final temos o 5-
metil-tetrahidrofolilpentaglutamato (5-metil-

H4PG5) e o 10-formil-
tetrahidrofolilpentaglutamato (10-formil-H4PG5).

Em geral o folato está presente nos alimentos como

folilpoliglutamatos, em geral com de 4 a 7 resíduos de ácido glutâmico. Em


geral estão na forma reduzida tetrahidrofolato, carregando ou não os grupos
metil e formil. Embora os resíduos de ácido glutâmico sejam importantes para a
atividade do cofator, essa forma não é absorvida em quantidades significativas
pelo trato gastrointestinal. De fato, para que ocorra a absorção da vitamina é
necessário que os resíduos sejam removidos.

Os enterócitos contêm uma enzima de membrana ? ? glutamil hidrolítica, que


catalisa a hidrolise da forma folilpoliglutamato para folilmonoglutamato, forma
amplamente absorvida.

A forma mais comum de folato na corrente sanguínea é o 5-metil- H4PteGlu.

O grupo metil é mantido com a absorção ou incorporado quando da absorção


pelo próprio enterócito ou com a passagem pelo fígado. Após a entrada na célula
alvo, ocorre a reconstituição da cauda poluglutamílica.

Os resíduos de ácido glutâmico exercem papel importante, pois além de evitar a


difusão da vitamina para fora da célula ainda promove a ligação do folato à
enzima, aumentando inclusive a velocidade de catálise da mesma. A atuação
mais interessante dessa cauda é em uma enzima polifuncional. O poliglutamato
permite que o folato exerça sua função de forma intermitente como cofator em
dois sítios distintos da mesma enzima, sem a dissociação do complexo enzima-
cofator.

Bioquímica

Os folatos atuam como cofatores em uma série de reações conhecidas como


metabolismo de 1-carbono. A função do folato é mediar a transferência de uma
unidade de carbono para uma série de substratos. Junto com a vitamina B12 o
folato propicia a transferência de um grupo metila para a homocisteína,
formando como produto a metionina. O ponto mais importante é que a metionina
pode ser convertida em S-adenosilmetionina (SAM), uma molécula reconhecida
como doadora universal de metilas. A SAM é usada, por exemplo, nas sínteses
da creatina e da carnitina.

Os folatos também tem papel importante na síntese do DNA. Mais

especificamente, o folato é requerido duas vezes para a síntese da inosina-5’-

monofosfato (IMP) e também é necessário para a conversão do ácido


deoxiuridílico monofosfato (dUMP) em ácido deoxitimidílico monofosfato
(dTMP).

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-150-

APÊNDICE

O dUMP é precursor tanto do dTMP como da citidina trifosfato (CTP), porém o


folato não participa na conversão de dUMP em CTP. A IMP é convertida em
adenosina monofosfato (AMP) e guanosina monofosfato (GMP).

Pergunta: Ao ler essa passagem do texto, o que é de se esperar que ocorra com
as células em crescimento na falta de folato? E na falta de vitamina B12?

Para responder essa questão, baseie-se no mapa metabólico apresentado mais


adiante. Qual é a origem da unidade de carbono que o folato media a
transferência?

Resposta:

Pergunta: A enzima DNA polimerase reconhece dATP, dTTP, dGTP e dCTP

como substratos para a síntese do DNA, porém, se houver um grande excesso de


dUTP, a DNA polimerase aceita esse substrato no lugar do dTTP. Quando ocorre
esse tipo de erro, uma enzima denominada uracil DNA glicosilase executa o
reparo.

O reparo envolve uma etapa em que a fita de DNA é temporariamente quebrada


no local, o que normalmente não é problema, porém, quando esse erro ocorre em
grande quantidade, o DNA apresenta tantos fragmentos que é totalmente
destruído. Com base nessas informações e no mapa metabólico apresentado mais
adiante, proponha uma droga que proporcione esse tipo de dano ao DNA. Quais
as células mais afetadas por esse tipo de droga? Então, existe alguma aplicação
para a droga?

Resposta:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-151-

APÊNDICE

molécula

molécul

metilada

SAH

SAM

H2folat

homocisteí

metionin

formil-AICAR

AICAR

na

a
D

5-metil-

H4folat

H4folato

serina
B6
GAR

5,10-metileno-

glicina

H4folato

formil-GAR

10-formil-

H4folato
TS
dUMP

timidilat

TS: timidilato sintetase

DR: dihidrofolato redutase

SAM: S-adenosilmetionina

SAH: S-adenosilhomocisteína

GAR: glicinamida ribonucleotídeo

AICAR: aminoimidazolcarboxamida ribonucleotídeo

Figura 10. mapa do metabolismo de 1-carbono mediado por folato.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-152-
APÊNDICE
Vitamina B12
A vitamina B12 é genericamente denominada cobalamina, termo usado para
designar um conjunto de formas químicas com atividade vitamínica B12. A
ingestão de uma quantidade muito pequena de vitamina B12, algo em torno de
2,0

?g, é suficiente para suprir nossas necessidades diárias. Trata-se da vitamina


hidrossolúvel mais potente.

As principais fontes de vitamina B12 são a carne, frango, peixes e leite, ou seja,
fontes animais. Os vegetais e as leveduras não contêm essa vitamina.

Estruturalmente é complexa e volumosa. A B12 possui um átomo de cobalto


complexado, o qual assume normalmente três estados diferentes, Co+, Co2+,
Co3+, dependendo do grupo que se liga a esse átomo. Mais importante que o
número de oxidação do cobalto é que dependendo do grupo ligado a vitamina
B12 assume funções diferentes, atuando em pontos diferentes do metabolismo. A
figura 11

mostra a estrutura química da cobalamina, enquanto a tabela que aparece na


seqüência complementa a figura, relacionando o grupo ligado à função da
vitamina.

Figura 11. estrutura da vitamina B12.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-153-

APÊNDICE

nome
grupo X
função

cianocobalamina ciano

forma medicinal

hidroxicobalamina hidroxila

forma medicinal

metilcobalamina metila

cofator da metionina sintetase

5-

deoxiadenosil cofator da metilmalonil-CoA

deoxicobalamina

mutase

Apenas três enzimas requerem cobalamina, além da metionina sintetase e da


metilmalonil-CoA mutase, a leucina aminomutase, porém essa última não
possui, aparentemente, papel fundamental para o metabolismo.

Bioquímica

Apenas três enzimas requerem cobalamina: a metionina sintetase, a


metilmalonil-CoA mutase, e a leucina aminomutase, porém essa última não
possui, aparentemente, papel fundamental para o metabolismo.

A metionina sintetase é a enzima responsável pela conversão da

homocisteína em metionina, reação que consome um grupo metila, ligado até


então ao tetrahidrofolato. Como conseqüência da falta de vitamina B12, ocorre
um acúmulo de homocisteína nas células e no plasma, em detrimento a formação
de metionina, e conseqüentemente a formação de SAM. A não regeneração do
H4folato também impede a formação de 10-formil-H4folato, o que para a síntese
de nucleotídeos e impede o crescimento (ver o mapa metabólico apresentado no
estudo do folato).

A inibição da metilmalonil-CoA mutase impede a síntese de succinil-CoA a


partir de substratos como valina, isoleucina e ácido propiônico. A inibição dessa
via não causa efeitos diretamente, uma vez que um suprimento suficiente de
succinil-CoA pode ser obtido através de ácidos graxos e carboidratos, porém
ocorre um acúmulo de metilmalonil-CoA.

Uma fração de metilmalonil-CoA é decomposta nas células, formando ácido


metilmalônico e CoA. O aumento das concentrações de ácido metilmalônico nas
células é refletido no plasma, fato de interesse direto para diagnose de
deficiência de vitamina B12.

O aumento da concentração de metilmalonil-CoA pode reverter a reação


mediada pela propionil-CoA carboxilase, que passa a catalizar a formação de
propionil-CoA a partir de metilmalonil-CoA. Quando o acúmulo de propionil-
CoA é significativo a sintetase de ácidos graxos passa a substituir em
parcialmente o acetil-CoA por propionil-CoA, o que leva a formação de
pequenas quantidades de ácidos graxos com número ímpar de carbonos.

Além de ácidos graxos com número ímpar de carbonos, surgem alguns ácidos
graxos metilados. Conforme a deficiência de B12 se acentua, ocorre aumento
nas concentrações de ácidos graxos com cadeias ímpares ou ramificadas, que
passam a ser incorporados nas membranas celulares, inclusive de células
nervosas. Sugere-se que esse seja o mecanismo dos distúrbios neurológicos
muitas vezes associados com a deficiência de vitamina B12.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-154-

APÊNDICE

Pergunta: Porque surgem os ácidos graxos ramificados na deficiência de


vitamina B12? Como são formados?

Resposta:

Deficiência de vitamina B12

O primeiro ponto que deve ser abordado ao discutirmos a deficiência de


vitamina B12 é lembrando como é dada a absorção dessa vitamina. A absorção
de B12 é dependente de uma proteína denominada fator intrínseco (FI),
secretado pelas células parietais do estômago. O FI combina-se com a vitamina
B12 e depois o conjunto formado liga-se a sítios na superfície de células
epiteliais na porção inferior do íleo, onde ocorre a endocitose do complexo
formado. Apenas uma pequena parcela é absorvida sem o FI.

A deficiência de B12 é comumente relacionada com uma doença auto-imune


denominada anemia perniciosa (AP). Portadores de AP produzem anticorpos
antiFI, que levam a inativação do FI e conseqüente baixa taxa de absorção de
B12. Em alguns casos as células parietais são destruídas, o que promove atrofia
gástrica, assim como falta das secreções gástricas.

Pergunta: Como diferenciar uma anemia provocada por deficiência de folato de


uma anemia provocada por deficiência de B12? Através de um hemograma seria
possível a diferenciação entre uma e outra?

Resposta:

Os sintomas da AP são anemia e medula megaloblásticas, e sintomas


neurológicos diversos. Cerca de 25% dos pacientes desenvolvem os sintomas
neurológicos, dentre eles a dormência de pés e mãos. Quando não devidamente
tratados, os danos neurológicos podem ser irreversíveis ou mesmo fatais, daí o
nome anemia perniciosa.

Alguns sintomas prévios importantes que permitem o diagnóstico prematuro da


AP são os fraqueza, cansaço, dispepsia, perda de apetite e flatulência.

A AP pode ser tratada com a administração de uma dose oral diária de 1 mg de


B12, ou injeções periódicas de B12, numa dosagem mensal total de 1 mg de
B12. Na administração oral, a enorme quantidade de vitamina consegue suprir a
deficiência através de um mecanismo de absorção não dependente de FI.. O
tratamento de se estender durante toda a vida do paciente.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-155-

APÊNDICE

Dietas estritamente vegetarianas são dietas compostas apenas por alimentos de


origem vegetal, portanto ovos e leite também são excluídos. Esse tipo de dieta é
um dos fatores de deficiência de vitamina B12. Para exemplificar dois casos de
deficiência são descritos a seguir:

Caso 1. Um indivíduo adulto, apresentava dor de garganta e fadiga cada vez com
maior intensidade durante um período de 8 meses. O paciente encontrava-se
extremamente pálido e seu hematócrito era de 19 % (valores normais são 47 %
para homens e 42 % para mulheres), indicando anemia. Não haviam sintomas de
alterações neurológicas. A figura BBBB121212 apresenta um estudo de 45 dias
com o paciente. A partir do 28o dia iniciou-se a aplicação de injeções de
vitamina B12.

Pergunta: O paciente do caso 1 apresentava também deficiência de folato? Caso


positivo, seria a deficiência provocada pela dieta vegetariana? De que forma?

Resposta:

Caso 2. Normalmente neonatos não apresentam deficiência de 12. Mesmo bebês


que apresentam raras doenças genéticas que afetam a produção de FI
demonstram sinais de deficiência apenas após o segundo ano de vida, indicando
que as reservas iniciais de B12 são suficientes para esse período.

O caso relatado descrevia um bebê alimentado apenas pelo leite de sua mãe, uma
mulher que nos últimos 8 anos praticava uma dieta estritamente vegetariana.

Com poucos meses de vida o bebê apresentava anemia e sintomas neurológicos


tais como flacidez, pobre controle muscular e eletroencefalograma anormal. Seu
nível sérico de B12 era inferior ao normal e o nível de MMA determinado em
sua urina era 2000 vezes maior que o normal.
Algumas comunidades apresentam maior propensão à deficiência de B12

devido aos seus hábitos e possibilidades alimentares. Em certas culturas Hindus


os indivíduos são estritamente vegetarianos, enquanto em determinadas
populações a oferta de carne é baixa. O hábito de ferver o leite também prejudica
a ingestão de B12, uma vez que ocorre inativação com o aquecimento.

Muitas vezes ocorre deficiência de B12 na velhice. Nem sempre o nível de B12
está abaixo do esperado, mas os níveis plasmáticos elevados de MMA e
homocisteína indicam a deficiência. De acordo com estudos, aproximadamente
15

% dos idosos apresentam deficiência de B12.

A atrofia gástrica, freqüente após os 60 anos de idade, é uma causa comum do


problema. A atrofia é resultante da diminuição de liberação de HCl no estômago,
denominada acloridria. Neste caso o aporte de ácido e pepsina corrige o
problema, uma vez que torna possível a liberação da vitamina das proteínas em
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-156-

APÊNDICE

que se encontra ligada. A suplementação com a própria B12 também é eficiente.

Apenas em casos mais avançados o estômago perde a capacidade de produzir FI


em quantidades suficientes, o que obriga a administração de B12 ser realizada de
forma intramuscular.

Uma outra causa de deficiência é a teníase. Esse parasita, que pode medir metros
de comprimento, consome praticamente toda a vitamina, antes que essa seja
absorvida pelo hospedeiro.

Pergunta: O quadro hematológico de pacientes acometidos por anemia


megaloblástica decorrente da falta de B12 ou por falta de folato são
indistinguíveis.

O tratamento com folato, em geral reverte ambos os casos, provavelmente pelo


aumento dos níveis de H4folato. Você considera apropriado esse tipo de
tratamento? Porque?

Resposta:

Ácido Pantotênico

A RDA de ácido pantotênico (AP) não está bem definida, uma vez que a
ingestão de AP é normalmente grande. Encontramos essa vitamina na forma
livre (AP), como coenzima-A (CoA), acetil-CoA livre, e como acetil-CoA ligada
a cadeias de ácidos graxos. Somando todas as formas, a ingestão diária em AP
varia de 5 a 10 mg/dia. As maiores fontes alimentares são o fígado, gema de ovo
e vegetais.

As formas de Co-A são absorvidas somente depois de hidrolisada a AP no


lúmem.

O AP é uma vitamina hidrossolúvel que desempenha basicamente duas funções


no metabolismo: síntese do cofator da sintetase de ácidos graxos e síntese da
coenzima A.

A CoA está presente em uma ampla gama de reações: ciclo de Krebs, síntese e
oxidação de ácidos graxos, metabolismo dos aminoácidos e de corpo cetônicos,
síntese do colesterol e conjugação de sais biliares.

O nome Coenzima A foi dado em virtude da capacidade de transferir um grupo


acetil a diversos substratos.

A forma acetilada de CoA, a acetil-CoA, é vital para o metabolismo. Participa de


reações catalisadas pela citrato sintetase (ciclo de Krebs) e pela colina acetil
transferase (síntese de acetil colina), está presente na reação de iniciação da
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-157-

APÊNDICE

sintetase de ácidos graxos e na reação catalisada pela acetil-CoA carboxilase, a


primeira enzima da via biossintética de ácidos graxos.
Bioquímica do ácido pantotênico

Como cofator da sintetase de ácidos graxos está presente nas formas de acetil-
CoA e também covalentemente ligada a essa enzima como 4’-

fosfopantoteína, que aparentemente atua apenas na sintetase de ácidos graxos.

Os substratos para a síntese da CoA são o AP, ATP e cisteína. A figura 12

mostra a síntese da CoA. Vários tecidos podem realizar essa síntese.

A 4’-fosfopantoteína e a sintetase de ácidos graxos:

A sintetase de ácidos graxos é uma enzima de PM 540.000, contendo duas


subunidades idênticas, ambas com uma molécula de 4’-fosfopantoteína. O grupo
sulfidrila desse cofator esterifica-se com o ácido graxo em elongação. Uma vez
formada essa ligação, o cofator funciona como um braço que movimenta-se
carregando o ácido graxo para diferentes sítios ativos da enzima. São sete sítios
catalíticos ao todo, dentre eles sítios de redução e de desidratação.

O cofator da sintetase de ácidos graxos é obtido a partir da CoA, sem


participação do AP. Uma enzima específica catalisa a ligação da 4 -
fosfopantoteína Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-158-
APÊNDICE

figura 12. síntese da Coenzima A

Deficiência de ácido pantotênico

Conforme já mencionado, a deficiência dessa substância é muito rara e é


provável que nunca tenha ocorrido a deficiência isolada de AP, exceto em
estudos controlados.

Animais privados de AP (assim como na forma de CoA) apresentam perda de


apetite, baixa taxa de crescimento, lesões na pele, ulcerações nos intestinos,
fraqueza e em alguns casos, morte. Um sintoma característico é o surgimento de
uma coloração cinza em animais originalmente de pele ou pelagem coloridos.

Nesses animais observou-se grande declínio do nível da vitamina em todos os


tecidos, exceto nos rins e fígado (pequeno declínio) e cérebro (praticamente sem
alteração).
VITAMINA C
No século XV uma doença comum entre os marinheiros era o escorbuto que foi
curada com a adição do suco de limão na alimentação. Na década de 30 foi
descoberto que a substância isolada dos limões poderia curar o escorbuto em
cobaias. Essa substância é conhecida como ácido ascórbico na sua forma
reduzida e Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-159-

APÊNDICE

como ácido deidroascórbico na sua forma oxidada. O ácido ascórbico é uma


vitamina hidrossolúvel com um papel antioxidante pronunciado.
Forma molecular
O ácido ascórbico é facilmente oxidado a deidroascórbico.

Figura 13: Oxidação do ácido ascórbico

O ácido ascórbico é encontrado em muitas frutas e folhas vegetais cruas (Tabela


1). Em alimentos o ácido ascórbico é facilmente oxidado a deidroasórbico.

Em alimentos frescos a forma predominante é a reduzida, mas no processo de


cozimento aumenta a proporção da forma oxidada. As melhores fontes são
laranja, limão, acerola, morango, goiaba, brócolis, repolho, espinafre, pimentão
verde entre outros.

:Conteúdo de vitamina C em alguns vegetais e frutas.l

Alimento

Concentração (mg/100g)

Brócolis, cru

97 – 163

Repolho, cru

42 – 83

Espinafre, fresco

25 – 70

Batatas

11 – 13

Tomates
14 – 19

Bananas

12 – 19

Laranjas

53 – 63

Bioquímica

O ácido ascórbico é um doador de elétrons (ou agente redutor) para reações


químicas intra e extracelulares, daí ser chamado de antioxidante. O ascorbato
reduz superóxido, radicais hidroxila, ácido hipocloroso e outras espécies reativas
de oxigênio. Esses oxidantes podem afetar a transcrição do DNA ou danificar o
DNA, proteínas, ou estruturas de membrana, ascorbato tem papel fundamental
na proteção antioxidante. A vitamina C atua na fase aquosa como um excelente
antioxidante sobre os radicais livres, mas não é capaz de agir nos
compartimentos lipofílicos para inibir a peroxidação dos lipídeos. Estudos in
vitro mostraram que essa vitamina na presença de metais de transição, tais como
o ferro, pode atuar Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-160-

APÊNDICE

como uma molécula pró-oxidante e gerar os radicais H2O2 e OH?. Geralmente,


esses metais estão disponíveis em quantidades muito limitadas e as propriedades
antioxidantes dessa vitamina predominam in vivo.

Dentro das células o ascorbato é usado como doador de elétrons como parte da
interação entre ferro e ferritina e pode prevenir a oxidação de lipoproteínas de
baixa densidade (LDL). O ascorbato extracelular pode também transferir
elétrons para radicais de tocoferol em partículas de lipídio ou membranas. Para
muitas dessas reações existem fortes evidências in vitro e não in vivo. É essencial
para a oxidação da fenilalanina e da tirosina e para conversão de folacina em
ácido tetrahidrofólico e na formação de noradrenalina a partir de dopamina. É
também necessário para redução do ferro férrico a ferroso no trato intestinal.
Embora se divulgue que altas concentrações de vitamina C auxiliam o organismo
na resistência a infecções, dados que ligam a maior ingestão de vitamina C com
a prevenção e cura de gripes e resfriados carecem de maiores evidências
científicas.

A vitamina C é, geralmente, consumida em grandes doses pelo seres humanos,


sendo adicinada a muitos produtos alimentares para inibir a formação de
metabólitos nitrosos carcinogênicos. A vitamina C da dieta é absorvida de forma
rápida e eficiente por um processo dependente de energia.

Estudos epidemiólogicos atribuem a essa vitamina um possível papel de


proteção no desenvolvimento de tumores nos seres humanos, mas a
recomendação de suplementação dessa vitamina deve ser avaliada
especificamente para cada caso, pois existem muitos componentes orgânicos e
inorgânicos nas células que podem modular a atividade da vitamina C, afetando
sua ação antioxidante.

O ácido ascórbico participa de forma importante da síntese do colágeno.

Tecidos conectivos como a pele, tendões, ligamentos, cartilagem e a matrix


óssea (onde são depositados cristais de cálcio) são constituídos por um elevado
porcentual de colágeno. O colágeno é sintetizado no retículo endoplasmático de
células chamadas condrócitos, e é armazenado em vesículas que se fundem com
a membrana para liberar o colágeno. A enzima prolina monooxigenase catalisa a
maturação do colágeno. Nessa fase ocorre a conversão de resíduos de prolina
para hidroxiprolina. O oxigênio molecular é a fonte do oxigênio usado na
hidroxilação.

A hidroxilação dos resíduos de prolina permitem a formação de ligações


cruzadas entre as moléculas de colágeno, formando estruturas de tripla hélice. Se
houver interrupção na hidroxilação da prolina a secreção de colágeno é
interrompida também. A enzima prolina monooxigenase é uma metaloenzima,
dependente de ferro. O ferro precisa estar na forma reduzida, ou seja, Fe2+ para
que a enzima apresente atividade. O ácido ascórbico “recupera” os átomos de
ferro que espontaneamente são oxidados a Fe3+ (figura 14). Portanto, a ausência
de níveis adequados de vitamina C acaba por interromper a síntese normal de
colágeno.
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-161-

APÊNDICE

Figura 14. Redução do ferro ligado a prolina monooxigenase,

mediada pelo ácido ascórbico.

Deficiência

A deficiência grave de vitamina C causa o ascorbuto. Os sintomas são


sangramento, fraqueza, perda de apetite, anemia, edema, inflamação nas
gengivas (podendo ocorrer perda dos dentes), dor entre outros sintomas. Podem
ocorrer distúrbios neuróticos como hipocondria, histeria e depressão. Através da
administração de doses terapêuticas os sintomas desaparecem rapidamente.

Apesar do aparecimento do escorbuto ser raro, a deficiência de vitamina C pode


ocorrer em indivíduos subnutridos, ou que têm uma dieta desprovida de frutas e
vegetais, em alcoólatras e em pessoas idosas com dieta muito restritas.
Toxicidade
O consumo de doses altas pode levar ao aumento da concentração dessa
vitamina nos tecidos e no plasma sangüíneo. A administração excessiva de ácido
ascórbico leva a formação de cálculos renais. A ingestão maciça de vitamina C
pode levar a sintomas de “dependência”. Através de um mecanismo
homeostático existe uma saturação na absorção da vitamina C, mais ou menos
no nível de 2 a 3g por dia, sendo que o excesso é excretado. Essa excreção
excessiva de vitamina C pode causar náuseas e diarréia, que seriam um efeito
osmótico da passagem dessa vitamina não absorvida pelo intestino. Geralmente,
esses efeitos ocorrem em indivíduos que ingerem Megadoses de vitamina C.
Vitamina E
Vitamina E é o termo adotado para um grupo de oito substâncias

encontradas na natureza com diferentes graus de atividade vitamínica. Existe


duas séries de compostos: os tocoferóis, ? , ?, ?, ? e os tocotrienóis, ? , ?, ?, ?. O
? -

tocoferol é o que apresenta maior atvidade biológica e o mais encontrado em


fontes naturais.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-162-

APÊNDICE

figura 15. estrutura dos tocoferóis

A forma predominante de vitamina E nos organismos é ? -

tocoferol. Dentre os alimentos que apresentam altas concentrações de tocoferóis


temos germe de trigo, amêndoas e avelãs e são

encontrados, também, nos óleos vegetais, principalmente aqueles com ácidos


graxos poliinsaturados, como o extraído do germe de trigo, o de girassol, caroço
de algodão , dendê, amendoim, milho e soja. Nos

alimentos de origem animal o teor de ? -tocoferol é bem menor, sendo, as


principais fontes a manteiga, o toucinho e os ovos.

Bioquímica

Umas das principais funções da vitamina E é a sua propriedade

antioxidante, principalmente a de proteção dos ácidos graxos

poliinsaturados (PUFA) existentes nas membranas contra a oxidação pelos


hidroperóxidos in vivo. Assim, a vitamina E confere proteção às membranas
celulares contra a destruição oxidativa, protegendo as

células dos danos causado pelos radicais de oxigênio. Os radicais de oxigênio


são produzidos através da redução do oxigênio a água,

formando esses radicais livres altamente reativos podendo ocorrer ataque às


duplas ligações das cadeias dos PUFA dos fosfolípides das membranas celulares.
As reações de peroxidação lipídica em cadeia envolvem a formação de um
radical livre por umamolécula de PUFA,

seguido pela adição de oxigênio para formar peróxido que pode reagir com outra
molécula de PUFA gerando outro radical livre e propagando a reação.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-163-

APÊNDICE

Como a vitamina E protege as membranas celulares da destruição

oxidativa?

Deficiência

A carência dessa vitamina pode causar disfunções neurológicas, miopatias e


atividade anormal das plaquetas. Em recém-nascidos a deficiência pode causar
anemia hemolítica devido a sensibilidade dos PUFA das membranas dos
eritrócitos aos radicais livres. A deficiência de vitamina E aparece em fumantes e
em casos em que há problemas de absorção de gorduras como na atresia biliar,
na fibrose cística e na sindrome do intestino curto.

Excesso

A ingestão oral de vitamina E em adultos apresenta uma alta segurança se


comparada a outras vitaminas lipossolúveis é segura uma vez que já se sabe que
a ingestão de 50 a 100 vezes a recomendação da RDA não apresenta problemas.

Estudos em animais mostraram que a vitamina não é mutagênica, carcinogênica


ou teratogênica. Pacientes tratados com antigoagulantes na devem receber altas
doses de vitamina E para previnir hemorragias

Pecularidade

Estudos têm sugerido que a vitamina E é utíl na prevenção de certos cânceres


uma vez que devido a sua ação antoxidante a vitamina E apresenta papel
importante na na imunocompetência e na reparação de membranas, funções
associadas à inibição da carcinogenese.

Vitamina K

Trata-se de um conjunto de estruturas químicas que possuem atividade


vitamínica intimamente relacionada à coagulação do sangue. A abreviação “K”
vem da palavra alemã koagulation.

A RDA para essa vitamina é 80 ?g para adultos e 5 a 10 ?g para crianças.

Verduras tais como espinafre, alface, brócolis, repolho e couve de Bruxelas


Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-164-
APÊNDICE

representam boas fontes de fitoquinona, ou vitamina K1. Bactérias também


sintetizam uma estrutura similar, denominada menaquinona, ou vitamina K2.
Um terceiro composto com atividade vitamínica é a menadiona, ou vitamina K3,
uma substância sintética. Todos esses compostos são lipossolúveis, e suas
estruturas podem ser observadas na figura 16. A função das vitaminas K1 e K2
são utilizados nas reações de transporte de elétrons para produção de energia nas
plantas e bactérias. Certos vegetais, como os exemplificados acima, podem
conter até 8 mg de vit.K por Kg, enquanto o leite de vaca e o possui um teor
aproximado de 20

?g/L, enquanto o leite humano contém apenas 2 ?g/L.

Figura 16. formulas estruturais da vitamina K

A absorção de vitamina K ocorre no intestino delgado, de onde passa para as


linfas, incorporado a quilomicrons, assim como os ácidos graxos.
Funções metabólicas.

A vitamina K atua como cofator das enzimas osteocalcina, que atua no


crescimento dos ossos, a proteína Gas6, uma reguladora do crescimento celular e
da proteína Z, cuja função ainda continua desconhecida. No entanto a função
mais estudada da vitamina K é como cofator da Carboxilase dependente de
vitamina K.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-165-

APÊNDICE

A carboxilase dependente de vitamina K é uma enzima que fica ligada na


membrana do reticulo endoplasmático. Essa enzima catalisa a incorporação de
CO2

em resíduos específicos de ácidos glutâmicos, formando uma ligação ? -


carboxílica.

Essa conversão ocorre durante o processo de tradução das proteínas K-


dependentes que atuam no processo de coagulação. Essas proteínas são os
fatores II, VII, IX, X, proteína C e proteína S. A forma que efetivamente atua
como cofator é a dihidrovitamina K. O Oxigênio é requerido como co-substrato.
Após cada catalise o cofator é convertido em vitamina K epóxido. A recuperação
da dihidrovitamina K é realizada pela epóxido redutase. Aparentemente a
epóxido redutase também catalisa a conversão da vitamina K em
dihidrovitamina K.

A vitamina K participa da síntese de protrombina e proconvertina que possuem


papel importante na coagulação. A protrombina e a proconvertina possuem na
sua estrutura, um aminoácido monoamino tricarboxílico (ácido
carboxiglutâmico). A vitamina K participa da bissíntese desse aminoácido. Na
cadeia polipeptídica uma carboxilase que requer vitamina K como coenzima fixa
uma molécula de CO2 ao resíduo de ácido glutâmico e as duas carboxilas
vizinhas na molécula de protrombina têm a função de se ligar ao cálcio. A
protrombina (fator II) vai originar a trombina através de vários fatores sendo três
deles dependente de vitamina K: a proconvertina (fator VII), o fator anti-
hemofílico B

(fator IX) e o fator Stuart (fator X).

Deficiência

A deficiência de vitamina K leva a um aumento no tempo de coagulação do


sangue.

É muito raro ocorrer uma hipovitaminose K por deficiência priméria da


vitamina, uma vez que ela aparece largamente distribuída nos alimentos, além da
flora do intestino normal sintetizar menaquinona. Em adultos e crianças com
sindromes de má absorção, como fibrose cística, pode ocorrer deficiência de
vitamina K.
Toxicidade
A toxicidade dessa vitamina não é habitual, podendo resultar da

administração de menadiona ao recém-nascido e infante, podendo causar anemia


hemolítica e hiperbilirrrubinemia.
Vitamina A
Introdução

Foi a primeira vitamina a ser identificada, em meados da década de 10,


simultaneamente, por Osborne e Mendel e por Mc Collum e Davis, sendo que
estes a chamaram de “fator dietético não identificado lipossolúvel A”, marcando
a origem da atual designação alfabética para as vitaminas. É a vitamina mais
estudada porque a sua deficiência pode se transformar em sérios problemas de
saúde pública de morbidade e mortalidade infantis, principalmente em alguns
países da Ásia e da África, onde a carência de vitamina A é a principal causa de
cegueira não acidental.

O termo vitamina A é genérico e refere-se a todos os retinóides com atividade


biológica de vitamina. As três formas de vitamina A encontradas no organismo
ativas são: retinol (álcool), retinaldeído (aldeído) e ácido retinóico Nutrição e
Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-166-

APÊNDICE

(ácido). O retinol se oxida reversivelmente a retinaldeído no organismo e este a


ácido retinóico (oxidação irreversível).

A vitamina A é proveniente de dois grupos de compostos: os carotenóides pró


vitamina A existente nos alimentos de origem vegetal e o retinol ou vitamina A
pré-formada, proveniente de alimentos de origem animal. Em ambos os casos, os
carotenóides consistem a fonte original de vitamina A. Algumas plantas são ricas
em carotenóides, característicos por sua cor amarela, alaranjada ou vermelha.

Na natureza foram identificados cerca de 600 carotenóides, mas apenas 50

podem ser considerados precursores da vitamina A. Para Ter atividade de


vitamina A é necessário possuir um anel de ?-ionona na sua estrutura. Exemplos
de carotenóides que possuem atividade de vitamina são o ?, o ? e o ?-caroteno e
a criptoxantina e sem atividade o licopeno. O ?-caroteno, o mais importante
precursor da vitamina A, está amplamente distribuído nos alimentos e possui
ação antioxidante.

figura 17. síntese de retinol a partir de ? -caroteno.

A maior fonte de vitamina A pré-formada é o fígado, sendo também

encontrado na gema do ovo, no leite integral e em produtos lácteos, como


manteiga, creme de leite e queijo.

Os óleos de fígado de algumas espécies de peixes, como o bacalhau, são fontes


importantes dessa vitamina, mas são usados apenas como medicamentos no
reino vegetal as mais ricas fontes são dois óleos extraídos de palmáceas
(abundantes no Brasil): o de dendê (amarelo-dourado) e o de buriti (vermelho).

Em relação às frutas e hortaliças as mais ricas em carotenóides

bilogicamente ativos são aquelas de cor amarelo alaranjado, como cenoura,


morango, abóbora madura, manga e mamão; ou verde escuro (por causa da
enorme quantidade de clorofila mascara os pigmentos carotenóides), como
mostarda, couve, agrião e almeirão.

Função e deficiência

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica


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APÊNDICE

A vitamina A é proveniente de dois grupos de compostos: os

carotenóides pró vitamina A existentes nos alimentos de origem vegetal e o


retinol ou vitamina A pré-formada, proveniente de alimentos de origem animal.
Em ambos os casos, os carotenóides consistem a fonte original de vitamina A.
Algumas plantas são ricas em carotenóides, característicos por sua cor amarela,
alaranjada ou vermelha.

Na natureza foram identificados cerca de 600 carotenóides, mas apenas 50

podem ser considerados precursores da vitamina A. Para Ter atividade de


vitamina A é necessário possuir um anel de ?-ionona na sua estrutura. Exemplos
de carotenóides que possuem atividade de vitamina são o ?, o ? e o ?-caroteno e
a criptoxantina e sem atividade o licopeno. O ?-caroteno, o mais importante
precursor da vitamina A, está aplamente distribuído nos alimentos e possui ação
antioxidante.

A vitamina A é fundamental no processo visual. Na retina existem dois tipos de


fotorreceptores os bastonetes, responsáveis pela visão em luz escassa, que
contêm um pigmento fotossensível, a rodopsina ou púrpura visual; e os cones,
responsáveis pela visão em cores e com luz brilhante, depositários do pigmento
rodopsina. Os dois pigmentos contêm 11-cis-retinaldeído como cromóforo,
ligado a proteínas diferentes. A deficiência de vitamina A no sangue leva à
lentidão na regeneração da rodopsina após um estímulo luminoso, resultando na
dificuldade de enxergar na obscuridade, o que é conhecido como cegueira
noturna, o primeiro sintoma clínico específico da deficiência.

Além de participar de ciclo visual a vitamina A atua na manutenção da pele e das


mucosas, por participar da diferenciação das células epiteliais e das células
caliciformes, que sintetizam e secretam muco, bem como no crescimento e
reprodução. Falhas no crescimento são comuns em crianças com deficiência de
vitamina A. O estado nutricional em vitamina A pode influenciar o sistema
imunológico e a expressão genética.
A vitamina A tem apresentado ação preventiva no desenvolvimento de tumores
da bexiga, mama, estômago e pele, em estudos realizados com animais.

Estudos epidemiológicos também mostraram que o consumo regular de


alimentos ricos em vitaminas A e C pode diminuir a incidência de câncer retal e
de cólon.
Toxicidade
Os fenômenos de toxicidade devido à ingestão excessiva de alimentos ricos em
vitamina A são raros.

A automedicação e a fácil disponibilidade de vitamina A em preparações de alta


potência sem prescrição médica e por tempo prolongado expõem adultos à
hipervitaminose A que pode apresentar sinais inespecíficos e neurológicos
(como hipertensão intercraniana), gastrointestinais, ósseos e lesões cutâneas. Os
sinais inespecíficos incluem secura de pele e mucosas, irritabilidade, perda de
cabelos, unhas quebradiças, mialgia, dores ósseas, artralgia, dores abdominais,
esplenomegalia e anemia. A hipervitaminose A varia com estado de saúde, e
tamanho do indivíduo, uma vez que crianças são mais sensíveis que adultos,
assim como os idosos são mais do que os indivíduos jovens.

A elevada ingestão de ?-caroteno parece não ser tóxica, embore cause


carotenodermia, pois aumenta o seu armazenzmento na gordura subcutânea
tornando a pele acentuadamente amarela ou alaranjada, principalmente na sola
dos pés e palmas das mãos. As reações são muito individuais, além de variarem
na mesma pessoa.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE
Vitamina D
O termo vitamina D é usado para todos os esteróides que possuem atividade
biológica de colecalciferol. Existem duas formas ativas de vitamina D: o
ergocalciferol (vitamina D2) e o colecalciferol (vitamina D3), ambos com
atividade anti-raquítica. A vitamina D2, existente nos alimentos de origem
vegetal, origina-se da irradiação do ergosterol e é a forma usada na fortificação
de alimentos (aditivo alimentar). O colecalciferol provém da transformação não-
enzimática do precursor 7-deidrocolesterol (intermediário na síntese do
colesterol) existente na pele de mamíferos, pela ação dos raios ultravioletas do
sol, da mesma maneira que o ergosterol.

A viitamina A D3 é convertida em 1,25 diidroxicolecalciferol através de duas


reações de hidroxilações. Numa primeira reação ocorre a formação de 25-
hidroxicolecalciferol D3 catalisada por uma enzima do fígado. A subseqüente
conversão de 25- hidroxicolecalciferol D3 em 1,25 diidroxicolecalciferol é
catalisada por uma enzima do rim.

Figura 18. Ilustração da síntese de vitamina D

mediada pela radiação solar

Poucos alimentos são considerados fontes de vitamina D: gema de ovo, fígado,


manteiga e pescados gordos. Carnes em geral e peixes magros contêm as
maiores concentrações de vitamina D, sendo que a sardinha e o atum enlatados
possuem teores apreciáveis.

Hoje em dia é possível o enriquecimento de alimentos com vitamina D, sendo


que no Brasil é optativa a adição de vitamina D à margarina.

Em relação à síntese cutânea do colecalciferol pela incidência da luz ultravioleta


sobre o 7-deidrocolesterol, que atua como uma pró-vitamina, sua quantidade
varia com uma série de fatores, como o tempo de exposição da pele, estação do
ano, situação geográfica, poluição atmosférica, hábitos culturais e pigmentação
da pele. O 7-deidrocolesterol é derivado do colesterol, portanto o precursor da
vitamina D sintetizada em nosso organismo é o colesterol.
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Figura 19. precursores e vitaminas D2 e D3, e sua forma ativa

1,25-dihidroxivitamina D3.
Metabolismo
A circulação sangüínea da vitamina D exige proteínas carregadoras como a
vitamina A proteína específica é a proteína transportadora da vitamina D (DBP),
que é uma globulina.

A vitamina D é considerada mais um hormônio esteróide do que uma

vitamina e uma das razões disso é o fato de que a formação do 1,25-


diidroxicolecalciferol D3 ser regulada homeostaticamente por suas
concentrações e pelo fornecimento de cálcio.

A maior parte da vitamina D e dos seus metabólitos é excretada através das


fezes, com auxílio dos sais biliares muito pouco é eliminado pela urina.

Função

A ação biológica da vitamina D está ligada ao metabolismo de cálcio e fosfato.


Mostrou-se que 1,25- diidroxicolecalciferol promove a absorção de cálcio na
mucosa intestinal e nos túbulos renais, estimulando a síntese de RNA
mensageiro responsável pela biogênese de uma proteína específica para absorção
de cálcio.

A forma hormonal da vitamina D ajuda a manter o metabolismo mineral normal,


principalmente a homeostase do cálcio e do fósforo, atuando em três locais: no
intestino delgado, estimulando a absorção do cálcio e fósforodos alimentos pela
mucosa; no ossos, facilitando a mineralização óssea, especialmente na fase de
crescimento e nos rins, auxiliando a reabsorção do cálcio e fósforo dos túbulos
renais.

Deficiência

Na infância, a deficiência de vitamina D leva ao raquitismo. O quadro clínico é


característico: ossos e dentes são sujeitos a fraturas, o crescimento é deficiente e
há o aparecimento de deformações ósseas, principalmente nas costelas e ossos
longos.
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

A forma mais comum de raquitismo é devido a falta de exposição das crianças as


radiações ultravioletas do sol. Dietas com baixos teores de vitamina D, bem
como de cálcio e fósforo e com altas concentrações de fitatos, como ocorre em
farinhas ou cereaiss integrais, pode, também, conduzir à deficiência de vitamina
D.

Outra causa de raquitismo é a má-absorção da vitamina D dietética, como em


casos de esteatorréia ou de insuficiência renal crônica.

O principal uso da vitamina D é na profilaxia e tratamento das desordens do


metabolismo de cálcio e fósforo. A prevenção e o tratamento do raquitismo
requerem adequada ingestão dietética de cálcio, fósforo e vitamina D. A
exposição à irradiação solar é a maneira mais simples, barata e eficaz de previnir
o raquitismo.
Toxicidade
Quantidade excessiva de vitamina D na dieta provoca uma séria toxicidade,
cujos principais sintomas são: hipercalcemia, hipercalcuíria, anorexia, fraqueza,
letargia, náusea, vômitos, constipação intestinal, dores articulares, desorientação
e perda de peso.

A hipervitaminose D pode causar calcificação irreversível dos tecidos moles,


com sérios danos aos rins, pulmões e coração. Não é possível estabelecer a dose
miníma de vitamina D que conduz à hipervitaminose, pois a sensibilidade
individual ao excesso é muito variável.

Minerais

Cobre

A RDA para o cobre não está bem estabelecida, porém aconselha-se a ingestão
de 1,5 a 3,0 mg de cobre por dia. Alimentos como o fígado, chocolate, nozes,
avelãs, e moluscos são boas fontes de cobre. As ostras são a melhor fonte de
cobre, pois possuem grandes quantidades desse e de outros metais, como o
zinco, compartimentados em vesículas.

O cobre está envolvido em reações de óxido-redução, assumindo os estados de


oxidação Cu+ e Cu2+. Essas reações envolvem o oxigênio e algumas das
enzimas que utilizam o cobre são a citocromo c oxidase (cadeia respiratória),
lisina oxidase (síntese do colágeno) e dopamina ?-hidroxilase (síntese de
neurotransmissor).

Normalmente encontramos o cobre ligado a proteínas, como a metalotionina e a


ceruloplasmina, essa última presente tanto nas células como no plasma.

Bioquímica do cobre

O cobre participa de reações enzimáticas como doador/receptor de elétrons.

A tabela apresentada a seguir apresenta as enzimas e proteínas relacionadas com


o cobre, assim como as funções das mesmas:
Enzima/proteína

função

citocromo c oxidase

cadeia respiratória

lisina oxidase

síntese de colágeno

dopamina ?-hidroxilase

síntese de neurotransmissor

tirosina oxidase

síntese de melanina

superoxido desmutase remoção de espécies reativas

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

citoplasmática

(superoxidos)

amina oxidase

catabolismo da histamina e estruturas

correlatas

metalotionina
armazenagem de cobre ou desintoxicação

ceruloplasmina

armazenagem de cobre ou transporte

A absorção de cobre não é prejudicada pelo ácido fítico, como ocorre com o
cálcio, ferro e zinco. Uma vez absorvido passa pelo fígado, onde se liga a
ceruloplasmina e é liberado dessa forma para a corrente sanguínea. A
ceruloplasmina contém de 60 a 95 % do cobre plasmático. Cerca de 7 % do
cobre se liga a albumina e a aminoácidos livres, principalmente histidina,
treonina e glutamina. Embora não seja letal, a ausência de ceruloplasmina pode
acarretar diabetes, degeneração da retina e formação de depósitos de cobre no
cérebro, fígado e pâncreas.

Existem evidências que a ceruloplasmina está envolvida no metabolismo do


ferro, auxiliando na incorporação de ferro pela ferritina, embora exista outro
mecanismo que permite a ligação de ferro a ferritina de forma espontânea. A
ceruloplasmina, através do cobre, oxida traços de Fe2+ presentes na circulação
sanguínea a Fe3+. Essa reação permite não só a ligação a ferritina como previne
danos a membranas celulares (o Fe2+ apresenta essa toxicidade).

Altas doses de cobre induzem a expressão de metalotionina nos enterócitos.

Deficiência

Dietas deficientes em cobre são raras e não atingem nenhuma população de que
se tenha conhecimento. Portanto a deficiência ocorre apenas em casos extremos
de mal-nutrição.

Quando induzida em animais provoca anemia (não pode ser tratada com ferro),
aumento do coração e drástico aumento das mitocôndrias do coração. Em alguns
casos ocorre ruptura do músculo cardíaco e de artérias, provavelmente pela
redução da atividade da lisina oxidase. A ocorrência de osteoporose é comum
nesses casos.

Infecções afetam o metabolismo do cobre, triplicando a concentração de


ceruloplasmina. Animais deficientes em cobre demonstram-se pouco aptos a
exercícios.
Duas doenças genéticas são causas de sérias alterações no metabolismo do
cobre. São doenças raras, que atingem 1 em cada 100.000 nascidos. Ambas
caracterizam-se por mutações em proteínas transportadoras localizadas nas
membranas. São proteínas responsáveis pela passagem do cobre pelas
membranas.

Doença de Wilson

A doença de Wilson se manifesta em adolescentes e pré-adolescentes. A causa é


a inibição da excreção biliar de cobre. Dessa forma ocorre acúmulo de cobre no
fígado, rins e cérebro, resultando em danos cerebrais e hepáticos.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Observam-se também depósitos nas córneas, com a formação de anéis


amarronzados. Também ocorre redução da concentração de ceruloplasmina .

Os danos hepáticos tendem a ocorrer a partir dos oito anos de idade, enquanto os
danos neurológicos apenas a meia idade. Os danos neurológicos não incluem
retardamento mental, e sim perda de coordenação.

Formas de diagnóstico são o aumento da concentração de cobre na urina e no


plasma não ligado a ceruloplasmina, com redução da concentração de cobre
ligado a ceruloplasmina.

Sem tratamento a doença é fatal. O tratamento baseia-se na administração de


quelantes, onde a primeira escolha é a D-penicilamina. É conveniente também
evitar alimentos ricos em cobre. Outra abordagem é a suplementação oral de
zinco (150 mg/dia).

Pergunta: Qual o mecanismo do tratamento da doença de Wilson com a


suplementação de zinco?

Resposta:
Doença de Menke

Comparada a doença de Wilson, a doença de Menke é mais severa. Envolve


retardamento mental e morte antes dos três anos de idade. Uma característica
marcante é o aspecto do cabelo: emaranhado, grisalho e quebradiço.

Nessa doença o nível de cobre sérico, hepático e cerebral são baixos, enquanto
as mucosas do intestino, renal e do tecido conectivo apresentam altos níveis de
cobre.

A indisponibilidade de cobre, acumulado nas células epiteliais (ligado a


metalotionina), promove estagnação do crescimento, defeitos no esqueleto
(osteoporose), degeneração celular e fragilidade das artérias.

O tratamento não é simples. Baseia-se na administração de doses orais elevadas


de cobre complexado com histidina. A dose diária é de 0,6 gramas de cobre.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Pergunta: A que se poderia atribuir a osteoporose, fragilidade das artérias e


retardamento mental obsernados na doença de Menke?

Resposta:

Iodeto

A única função conhecida desse elemento é como componente dos hormônios


tireoideanos, essenciais para o desenvolvimento embrionário, e para a regulação
da taxa metabólica e produção de calor durante toda a vida. A RDA para iodeto é
de 0,15mg, e sua absorção ocorre muito facilmente.

Em geral a deficiência de iodeto está relacionada com a falta desse elemento em


alguns solos utilizados na agricultura.

A suplementação de iodeto, como KI ou KIO3, realizada por vários


programas, praticamente erradicou essa deficiência em diversas áreas do mundo.

Aqui no Brasil os produtores de sal são obrigados a suplementarem o produto.

Infelizmente algumas das áreas mais pobres do mundo ainda sofrem dessa
deficiência.

Bioquímica do iodeto

O iodeto é a forma utilizada para a síntese dos hormônios tireoideanos. Se


ingerido na forma de iodato, um processo redutivo não enzimático envolvendo
compostos sulfidrílicos (como a glutationa) converte o iodato em iodeto.

Uma vez na circulação sanguínea, o iodeto penetra na glândula tireóide, através


de de um cotransportador Na-I. Aí ocorre síntese de T3 e T4. O primeiro passo á
a incorporação do iodeto a tireoglobulina, uma proteína de peso molecular
660.000 que possui um grande número (140 unidades) de resíduos de tirosina. É

justamente aos resíduos de tirosina que o iodeto se liga. Em geral a


tireoglobulina apresenta de 10 a 50 átomos de iodeto ligados.

A seqüência da síntese ocorre com a dimerização de quatro resíduos específicos


de tirosina (iodados), que são os resíduos 5, 2555, 2569 e 2748. Com isso temos
dois dímeros. A enzima tireoperoxidase é responsável pela incorporação do
iodeto a tireoglobulina e pela dimerização dos resíduos de tirosina. Essa enzima
requer peróxido de hidrogênio para sua atividade.

O terceiro passo é a quebra de uma das tirosinas do dímero, com a separação do


anel aromático do resto da molécula. Na seqüência, ocorre a quebra da ligação
peptídica, liberando duas moléculas derivadas da tirosina, com dois anéis
aromáticos tetraiodados ou triiodados. As moléculas são denominadas 3,5,3’,5’-

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

tetraiodotironina (T4) e a 3,5,3’-triiodotironina (T3). Cerca de 90 % do


hormônio secretado pela tireóide está na forma de T4.

Após a perda das duas moléculas de hormônio, a tireoglobulina é

completamente proteolisada, e os resíduos de iodotirosina não utilizados são


deiodados.

As concentrações normais de T3 e T4 na corrente sanguínea são 1,2 e 80

ng/ml, respectivamente. A forma ativa do hormônio é o T3, que pode ser


secretado diretamente pela tireóide ou produzido a partir de T4 pelo fígado e
pelos rins, através da ação da enzima 5’-deiodase. O cérebro produz seu próprio
T3 a partir do T4.

As deiodases são enzimas responsáveis tanto pela ativação de T4 como pela


desativação de T3. Possuem em suas estruturas um (deiodases tipos I e III) ou
dois (deiodase tipo II) átomos de selênio.

Figura 20. Síntese de T4

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

A maior parte de T3 em circulação é produto da ação da deiodase tipo I,


enquanto a conversão de T4 em T3 no próprio sito de ação é realizado pela
deiodase do tipo II, presentes no cérebro, coração tireóide e músculos
esqueléticos.

A deiodase do tipo III é a responsável pela conversão de T4 em T3 reversa e


conversão de T3 em T2, ambos inativos. Essa reação envolve a remoção do iodo
5, do anel fenólico interno (Figura 21)

Figura 21. inativação de T3 e T4 pela deiodinases.

Regulação da glândula tireóide e efeito dos hormôneos tereoideanos A glândula


tireóide, localizada no pescoço, é regulada pela ação de duas outras glândulas
localizadas no cérebro, a pituitária e o hipotálamo.
A pituitária estimula a tireóide através do TSH (hormônio tireoestimulante, ou
tireotropina). A tireóide é capaz de modular sua sensibilidade ao TSH

dependendo da quantidade ingerida de iodeto.

Por um mecanismo de feed-back, altas concentrações de T4 em circulação


inibem a secreção de TSH. A atividade da pituitária é regulada pelo hipotálamo,
através do TRH (hormônio liberador de tireotropina), que aparentemente
controla a sensibilidade da pituitária frente a regulação promovida pelos níveis
plasmáticos de T4. Altos níveis plasmáticos de iodeto reduzem a sensibilidade
da glândula tireóide a TSH.

O aumento dos níveis de T3/T4 promove aumento do metabolismo basal. As


reações mais importantes relacionadas ao T3 são as atividades da bomba Na, K-
ATPase e da síntese de ácidos graxos.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Ao invés de serem reservados na forma de triglicerídeos depositados nos


adipócitos, os ácidos graxos são oxidados. Dessa forma o hipertireoidismo leva a
perda de peso, maior produção de calor, irritabilidade, etc. Já o hipotireoidismo
promove justamente o inverso, com decréscimo do metabolismo basal, gerando
redução da temperatura corpórea, certo ganho de peso, cansaço, etc.

Outro papel fundamental desses hormônios ocorre no desenvolvimento


hormonal. A deficiência de T3/T4 nesse estágio da vida causa sério
comprometimento cerebral.

Deficiência em iodeto

Uma ingestão inferior a 50 ?g/dia durante um período prolongado promove a


deficiência em iodeto. O quadro mais comum é o bócio, caracterizado pela
hipertrofia da glândula tireóide. Além da hipertrofia ocorre o aumento do fluxo
sanguíneo na glândula. A tabela abaixo demonstra efeitos da deficiência em
iodeto de acordo com um estudo realizado:
parâmetro

em condições

na

normais

deficiência

glândula tireóide (mg)

13

23

T4 plasmático (ng/ml)

40

20

fluxo sang. na tireóide (ml.min-1/grama de

23

68

tecido)

TSH (ng/ml)

2,4

2,9

O bócio é reversível. O quadro mais sério proporcionado pela deficiência em


iodeto é o cretinismo. Os cretinos são acometidos por retardamento mental, têm
uma aparência facial característica, e possuem a língua desproporcionalmente
grande. Podem ainda ser surdos e mudos. O cretinismo é desenvolvido pela
deficiência de iodeto da mãe durante a gestação, e é irreversível.

Pergunta: algas marinhas conhecidas como joio marinho contém elevados


níveis de iodeto. Certas dietas comuns no Japão são baseadas em sopas feitas
com essas algas, o que pode levar a uma ingestão diária de 80 a 200 mg de
iodeto (1000

vezes mais que a quantidade indicada). Essa dieta promove bócio em adultos e
crianças. Qual seria o motivo?

Resposta:

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Magnésio

A RDA para o magnésio é de 4,5 mg/kg de massa corpórea. Plantas e carne são
boas fontes desse mineral. A absorção vai de 20 a 70 %, dependente da
quantidade ingerida, de forma a uma dieta com baixo nível de magnésio
proporcionar uma absorção maior, e vice-versa. Existe um mecanismo de
transporte especifico, aparentemente vitamina-D-sensível, como observado para
a absorção de cálcio.

Bioquímica do magnésio

A maioria das enzimas dependentes da ATP requer magnésio. Mais


precisamente, o magnésio é quelado pelas moléculas de ATP (figura 22), e
apenas na presença de magnésio e ATP a enzima é ativa. Experimentos com a
fosfofrutoquinase, onde vários tubos contendo diferentes concentrações de Mg
foram incubados nas mesmas condições e concentrações de enzima

(fosfofrutoquinase), ATP e substrato (frutose-6-fosfato) indica que a relação


entre as concentrações de ATP e magnésio é importante para a atividade
enzimática.

Figura 22. átomo de magnésio complexado com ATP

Outros metais bivalentes, como o manganês e o cobalto podem se complexar


com o ATP, substituindo o magnésio. Um outro experimento que demonstra que
a piruvato quinase é ativa na presença de outros ligantes, porém a concentração
necessária de ligantes só é compatível com a concentração celular de magnésio.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Certas enzimas requerem magnésio livre (não ligado a ATP), porém cabe
ressaltar que nessas enzimas o manganês é 10.000 vezes melhor ativador, o que
faz crer que nesses casos o manganês é o ativados biológico dessas enzimas.

O magnésio é requerido na síntese do DNA e do RNA e de proteínas, assim


como por várias enzimas relacionadas a síntese de carboidratos e lipídeos.

Estruturalmente o magnésio também apresenta funções, podendo ser

encontrado ligado a membranas fosfolipídicas, ribossomos e cromatina, na


forma iônica. O íon magnésio é importante para a transmissão de sinais entre
células, uma vez que a enzima adenilato ciclase é Mg-dependente.

Deficiência de magnésio

Casos de deficiência em magnésio são raros por dois motivos. Primeiro, a


quantidade disponível de magnésio é grande, tanto em alimentos de origem
animal como vegetal. Segundo, os rins são capazes de reabsorver muito
eficientemente o magnésio tubular, principalmente em situações de baixa
ingestão desse mineral.

Basicamente a deficiência pode ocorrer em pessoas afetadas por prolongadas


diarréias e por pessoas em tratamento com certos tipos de diuréticos. De
qualquer forma não se trata de uma deficiência isolada de magnésio. Ocorre
simultânea deficiência de outros minerais como o sódio e potássio.

Algumas síndromes podem causar a deficiência em magnésio, como a

esteatorréia, após remoção cirúrgica de partes do intestino delgado e alcoolismo


crônico.

Os efeitos da deficiência incluem baixos níveis plasmáticos, arritmias cardíacas


e tétano muscular.

Pergunta: A esteatorréia é uma síndrome onde os ácidos graxos não são


absorvidos convenientemente, originando um excesso de gordura nas fezes.

Porque ocorre a deficiência de Mg nessa situação?

Resposta:

A deficiência em magnésio pode ser induzida experimentalmente. Em


experimentos controlados a concentração plasmática desse mineral foi reduzida
para 10 a 30 % do valor normal (1,2 a 2,0 mM). Essa ampla flutuação
demonstrou-se tolerável, enquanto uma flutuação semelhante de cálcio, sódio ou
potássio seria fatal.

Após decréscimo de nível de magnésio o nível de cálcio tende a cair, mesmo


com o consumo normal de cálcio e vitamina D. Outro efeito é a deposição de
cálcio em tecidos moles como rins, coração e aorta, que aumentam de 30 a 160
vezes suas concentrações em cálcio.

Os sintomas neuromusculares apresentados após longos períodos de uma dieta


deficiente (aprox. quatro semanas) são o tétano, perda de reflexo, tremores e
fraqueza muscular. O tétano é pode ser observado quando baixos níveis
extracelulares de cálcio e/ou magnésio, ou pH alcalino, são encontrados ao redor
dos nervos.

Em animais, uma dieta completamente livre de magnésio provoca a morte, com


convulsões após duas semanas.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

Além dos sintomas musculares, a deficiência resulta em parada do

crescimento, anormalias estruturais nas mitocôndrias e retículos


sarcoplasmáticos, além do aumento dos níveis de sódio e redução dos níveis de
potássio nos músculos.

Pergunta: Porque ocorre alteração dos níveis citossólicos de sódio e potássio na


deficiência de magnésio?

Resposta:

Manganês

Ainda não está definida uma RDA para o manganês, porém recomenda-se , para
adultos, o consumo diário de 2 a 5 mg desse mineral.

A absorção de

manganês é relativamente baixa. Apenas de 1 a 16 % do elemento presente na


dieta é absorvido. Apesar disso, a deficiência é muito rara e não existe caso de
populações consideradas deficientes. Boas fontes de manganês são grãos, frutas
e vegetais. Fontes animais são relativamente pobres.

Bioquímica do manganês

O manganês é requerido pela superoxido desmutase. Essa enzima catalisa a


conversão de superóxidos (O -

2 ) em uma espécie menos reativa, o peróxido de


hidrogênio (H2O2). O peróxido de hidrogênio é decomposto em H2O e O2 pela
catalase. A deficiência de manganês pode, portanto levar a danos celulares
provocados por radicais, porém é difícil de comprovar experimentalmente que os
danos são provocados por falta desse mineral.

A piruvato carboxilase é uma metaloenzima que contém em cada uma das suas
quatro subunidades uma molécula de biotina e um átomo de manganês. O

magnésio nesse caso pode substituir o manganês, aparentemente sem


comprometimento da função metabólica.

A fosfopiruvato carboxilase talvez requeira manganês, assim como a enzima


responsável pela ativação da acetil-CoA carboxilase (ver iodeto) e a arginase,
uma enzima chave do ciclo da uréia. A tirosina sulfotransferase, enzima
envolvida no metabolismo dos hormônios catecolamínicos é dependente de
manganês.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

A indução experimental de deficiência de manganês sugere que existem ainda


muitas outras funções dependentes de manganês, mas que ainda não foram
elucidadas.

Deficiência em manganês

Em animais a deficiência em manganês impede um crescimento normal,


dificuldade de manter a postura ereta, inchaço e desorganização do retículo
endoplasmático e defeitos nas membranas das mitocôndrias.
Ratas privadas de manganês dão a luz a crias com uma série de

anormalidades esqueléticas, ataxia e tremores.

Em humanos ocorrem erupções vermelhas dispersas localizadas na pele da parte


posterior do dorso. O nível plasmático da fosfatase alcalina de cálcio aumenta,
sugerindo que a deficiência promove a dissolução dos ossos (reabsorção).

Molibdênio

A exemplo de muitos nutrientes, a RDA para o molibdênio não está definida,


porém recomenda-se uma ingestão diária de 75 a 250 ?g, baseada simplesmente
na ingestão típica desse elemento. A absorção de molibdênio é muito eficiente.

Em doses contendo de 0,025 a 1,4 mg de Mo, 99 % é absorvido.

Em mamíferos temos três enzimas que requerem molibdênio: a oxidase de


sulfito, a desidrogenase de xantina e a oxidase de aldeído. Nessas enzimas o
molibdênio aparece na forma de cofator molibdênico (co-Mo, figura XX). Esse
cofator é sintetisado a partir de GTP. Em todas as Mo-metaloenzimas
conhecidas, exceção feita a nitrogenase (encontrada em plantas), o molibdênio
encontra-se nessa forma.

Figura 23. Cofator molibdênico

Aparentemente a deficiência de molibdênio é rara. Inclusive a indução de


deficiência em animais é difícil, pois além da eficiente absorção, em geral
encontramos traços de molibdênio em todos os nutrientes.

A maneira mais conveniente de induzir a deficiência é a administração de um


antagonista em uma dieta já deficiente em molibdênio.

Pergunta: O tungstênio é um antagonista do molibdênio. Você poderia sugerir o


porquê?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-181-
APÊNDICE

Resposta:

Bioquímica do molibdênio

O molibdênio está envolvido diretamente na catálise química. Atua doando ou


recebendo elétrons em reações de REDOX. Seu NOX pode variar de +4 a +6

nessas reações. As enzimas dependentes de molibdênio também dependem de


ferro. A sulfito oxidase catalisa uma das últimas reações da oxidação de
aminoácidos sulfurosos. A catálise da metionina resulta na passagem de um
átomo de enxofre para a cisteína. A cisteína pode ser oxidada para a cisteína-
sulfonato, que é posteriormente degradada para piruvato e sulfito. Essa via
catalítica resulta na produção de 25mmol de sulfito, que é oxidado a sulfato pela
sulfito oxidase.

Deficiência

Embora extremamente rara, alguns estudos puderam observar a necessidade


fisiológica de molibdênio em virtude de certas doenças genéticas envolvendo
falha na síntese da sulfito oxidase e do co -Mo. A ausência do co-Mo inibe a
ação das três enzimas já citadas.

Essas doenças levam a danos neurológicos, retardamento mental,

deslocamento do cristalino dos olhos e morte. Provavelmente em virtude da


inoperância da sulfito oxidase.

A xantina dehidrogenase catalisa a formação de ácido úrico a partir de


hipoxantina. Essa enzima pode atuar como uma dehidrogenase ou como uma
oxidase. Sua inativação pode levar a formação de cálculos renais.

A função metabólica da enzima aldeído oxidase dependente de co-Mo não está


muito clara, uma vez que outra enzima, a aldeído oxidase NADH-dependente é
muito mais eficiente e rápida na conversão de aldeídos em ácidos carboxílicos.

Sulfito e sulfato
O sulfito é uma substância tóxica, porém, conforme pode ser visto na seção
correspondente ao molibdênio, o sulfito é convertido a sulfato. A maior parte do
sulfito ingerido está presente no alimento como aditivo. O sulfito como aditivo
impede o crescimento bacteriano, e atua como antioxidante, preservando a
qualidade microbiológica e principalmente a cor de determinados alimentos.

Vinhos, vagens, sucos de laranja, cereja, pêssegos desidratados são exemplos de


produtos freqüentemente aditivados com sulfito.

Algumas pessoas asmáticas possuem sensibilidade aumentada a sulfito.

Aparentemente essas pessoas possuem baixos níveis de sulfito oxidase. Esse


grupo de pessoas deve evitar alimentos aditivados com sulfito e alimentos ricos
em cisteína.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-182-

APÊNDICE

O sulfito é uma espécie altamente reativa, que reage com grupos

sulfidrílicos, aldeídos e cetonas, e com enzimas ligadas a FAD e NAD. Em


alimentos o sulfito reage com a tiamina, destruindo essa vitamina..

Entretanto, evitando-se superdosagens de sulfito e em condições normais do


metabolismo, o sulfito ingerido é totalmente oxidado a sulfato, sendo inclusive
utilizado.

O sulfato desempenha importantes funções como componente estrutural.

São exemplos o sulfato de codroitina, sulfato de heparina, gangliosídeos


sulfatados, e o sulfato de colesterol.

O sulfato está presente nos mucos secretados por células epiteliais. Por exemplo,
o muco gástrico é uma glicoproteína que contém cerca de 500 cadeias de
carboidratos, com grupos sulfato ligados a resíduos de N-acetilglicosamina e
galactose. Encontramos ainda sulfato em diversos hormônios e proteínas, onde
liga-se a resíduos de tirosina.

Não há necessidade de ingestão de sulfato, pois esse ânion é obtido do


catabolismo dos aminoácidos sulfurosos. Cerca de 25mmol de sulfato são
gerados diariamente.

O sulfato é incorporado a diversas das substâncias já citadas através de um


doador de sulfato, o 3-fosfoadenosina-5’-fosfosulfato (PAPS). O PAPS, substrato
das sulfotransferases, é sintetisado no citoplasma e transportado para o complexo
de Golgi.

No trato urinário o sulfato combina-se com o cálcio, impedindo sua reabsorção.


Certas dietas contendo concentrações muito elevadas de sulfato podem levar a
uma certa perda de massa corpórea.
Zinco
A RDA paras o zinco é de 15 mg. Cerca de 30 % do zinco contido em uma dieta
com fibras e fitato é absorvido. A absorção de zinco, a exemplo de alguns outros
minerais, aumenta quando a quantidade ingerida é baixa. O mínimo de zinco que
deve ser ingerido diariamente é 0,7 mg, valor de reposição para o zinco perdido.

Boas fontes de zinco são carne, frango, e frutos do mar.

O zinco não atua como um doador/receptor de elétrons. Normalmente encontra-


se ligado a proteínas, onde pode atuar como catalisador, ou simplesmente como
elemento estrutural.

Destaca-se a presença de zinco em várias enzimas denominadas de fatores de


transcrição. Nessas enzimas encontramos estruturas denominadas zinc fingers.

O Zn2+, livre, tem participação na

transmissão nervosa no cérebro, mas o mecanismo exato ainda não foi


completamente elucidado.

Bioquímica do zinco

Usualmente o zinco se liga nas proteínas através de resíduos de cisteína e


histidina, e com menor freqüência a glutamato e aspartato.

Uma seqüência característica de aminoácidos é muito comum em enzimas que


atuam como fatores transcricionais, ou as chamadas DNA-binding proteins.

Basicamente, uma seqüência de 30 aminoácidos, que assume uma estrutura


terciária num formato semelhante a um dedo. Nessa estrutura encontram-se
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-183-

APÊNDICE

resíduos de cisteína e histidina, que ligam-se a um átomo de zinco. Daí o nome


dado a estrutura: zinc fingers.

A seqüência genérica de aminoácidos dos zinc fingers é a seguinte:

-Phe-AA-Cys-AA-AA-Cys-(AA)3-Ph-(AA)5-Leu-AA-His-(AA)3-His-

Atenção: nem todas as proteínas que apresentam uma região com essa seqüência
são zinc fingers.

O zinco é necessário para ligar a proteína regulatória ao DNA, possibilitando a


expressão de algum determinado gene.

Os zinc fingers estão envolvidos na regulação de genes realizada por hormônios


e vitaminas.

Outra função do zinco é como elemento estrutural. Está envolvido no


armazenamento de insulina em vesículas das células ? do pâncreas. Cada
molécula de insulina associa-se com 2 a 4 átomos de zinco, formando cristais
pouco solúveis em água. As vesículas apresentam pH 6,0, e os cristais são
completamente insolúveis em pHs inferiores a 7,0. Com a liberação em pH
fisiológico, ocorre uma lenta dissolução da insulina no sangue.

Na tabela apresentada a seguir estão relacionadas várias enzimas e proteínas que


utilizam o zinco para alguma das funções citadas acima.

proteínas/enzimas

função

anidrase carbônica

interconverção de CO

2 /HCO2

álcool dehidrogenase

catabolismo do álcool
fosfatase alcalina

hidrólise de grupos fosfato

carboxipeptidase A

digestão de proteínas ingeridas

carboxipeptidase B

digestão de proteínas ingeridas

enzima conversora de angiotensina

reguladora da pressão sanguínea e

balanço salino

superoxido dismutase citoplasmática

eliminação de espécies reativas

(superoxidos)

acido aminolevulicina dehidratase

biossíntese de heme

insulina (nas vesículas secretoras)

“empacotamento” da insulina, como

cristais

vesículas contendo catecolaminas

dá mais força para a matrix protéica

usada no empacotamento de
catecolaminas

esfingomielinase

hidrolise de esfingomielina (existem

outras que não dependem de zinco)

metalotionina

estocagem de zinco ou desintoxicação

lactoalbumina/galactisiltransferase

síntese de lactose

componente 9 do complemento

sistema imune

proteína quinase C

transmissão de sinais celulares

frutose 1,6-difosfatase

gliconeogênese

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-184-

APÊNDICE

timulina

hormônio do sistema imune

5’-nucleotidase
quebra do fosfato de nucleosídeos 5’-

monofosfatos

glioxalase

desintoxicação de aldeídos

enzima editora de mRNA

muda o mRNA codificador da

apolipoproteína B100, para codifica a

apo B48

# fator de transcrição Sp1

ligação ao DNA e transcrição basal

# fator de transcrição TFIIA

ligação ao DNA e transcrição basal

# receptor de glicocorticóide

ligação ao DNA e transcrição basal

# receptor de andrógeno

ligação ao DNA e transcrição basal

# receptor de hormônio esteróide

ligação ao DNA e transcrição basal

# receptor de ácido retinóico

ligação ao DNA e transcrição basal


# receptor de vitamina D

ligação ao DNA e transcrição basal

# poli(ADP-ribose) polimerase

resposta a dano no DNA

# RAF

sinalização celular, através da ligação a

RAS

# HRS

usada em processos de endocitose

# indica a presença de zinc fingers

O zinco é um potente indutor da expressão da metalotionina. A indução ocorre


através da ligação do zinco ao fator de transcrição, que liga-se ao elemento
responsivo a metais encontrado no promotor desse gene.

Dietas com altos teores de Zn induzem, portanto, a expressão da

metalotionina no intestino delgado.

A metalotionina não liga-se apenas a zinco. Metais como o cobre, cádmio e


mercúrio também se ligam a essa proteína. Aparentemente a metalotionina não é
vital, mas experimentos demonstraram que animais knock-out para
metalotionina são mais sensíveis aos efeitos tóxicos do cádmio.

Deficiência

Embora o zinco participe de um grande número de reações enzimáticas, mesmo


em longos períodos de alimentação com baixos níveis de zinco, essas funções
resistem e continuam a ser realizadas.

Estudos demonstram que nessas condições de privação os rins passam a


reabsorver mais eficientemente o zinco, reduzindo sua excreção, de forma a
manter os níveis plasmáticos relativamente constantes.

Em estudos envolvendo humanos , a deficiência em zinco surgiu após 2 a 5

semanas de completa privação do nutriente. Os sintomas apresentados foram


diarréia e o surgimento de erupções cutâneas nos pés, mãos, virilha e face. Os
sintomas desapareceram com a administração de zinco.

O efeito mais pronunciado da deficiência em zinco é a baixa resposta do sistema


imune, demora para cicatrização de ulcerações e redução do paladar e olfato.

Certas populações submetidas a uma dieta com baixa quantidade de zinco


demonstram baixa estatura e retardamento do desenvolvimento sexual. Essas
populações são comuns em países como o Egito, Irã e Turquia, onde a dieta
exclui carne e é baseada na ingestão de pão. Embora o pão possua quantidades
até razoáveis de zinco, também possui altos teores de ácido fítico, que torna o
zinco dessas dietas pouco biodisponível.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-185-

APÊNDICE

A suplementação de zinco possibilita a recuperação de adolescentes afetados em


poucos meses. Com o tratamento observa-se o crescimento dos pelos púbicos e
aumento dos órgãos genitais a tamanhos normais.

Pergunta: Porque a deficiência em zinco afeta o sistema imune e a maturação


sexual?

Resposta:

Existe uma rara doença genética, a acrodermatite enteropática, que provoca a


deficiência em zinco. A doença se manifesta nos primeiros meses de vida e
produz áreas pigmentadas nos cotovelos, joelhos, face e nádegas. Também
ocorre diarréia e estagnação do crescimento. A doença é resultante da reduzida
capacidade de absorção de zinco, e é fatal se não tratada. O tratamento é simples,
basta a administração oral de doses equivalentes ao dobro da RDA.

Boro

O boro nunca ocorre na forma atômica em meios biológicos, e sim na forma de


borato, B(OH)3 e B(OH)4 -, que podem estar livres ou complexados com polióis
(como açúcares). Cerca de 0,1mM de borato são ingeridos e rapidamente
absorvidos por dia. De 88 a 97% do borato ingerido é excretado na urina.. Pouco
se sabe sobre as nossas necessidades de consumo de borato, apenas alguns
estudos apontam evidências que a deficiência de borato pode promover um
agravamento dos quadros de deficiência de vitamina D.

Cobalto

O cobalto é um elemento essencial, uma vez que a vitamina B12 possui um


átomo desse elemento em sua estrutura. No entanto, não existe evidência alguma
que é necessária qualquer ingestão de cobalto, além da própria ingestão de
cobalamina.

Silício

O silício aparentemente é necessário para a síntese normal da matrix orgânica


dos ossos e para a respectiva calcificação dos mesmos. Os osteoblastos são as
células do nosso corpo que possuem as maiores concentrações desse Nutrição e
Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-186-

APÊNDICE

mineral. A deficiência de silicone em animais leva a formações ósseas


defeituosas, incluindo a córtex ósseo fino, redução da flexibilidade dos ossos e
ossos cranianos achatados. A deficiência de silicone afeta também a formação
das cartilagens, com, por exemplo, uma pronunciada redução da largura das
epífises.

Cromo

Recomenda-se para esse mineral o consumo diário de 50-200 ? g (cerca de 1


a 3,8 ? M). Imediatamente após a absorção o cromo se liga a transferrina. O

cromo media a ação hormonal da insulina. Uma dieta deficiente em cromo


resulta em uma tolerância anormal a glicose e dificuldade de retirada da glicose
do plasma para as células. Visando o aumento do efeito da insulina, o cromo
representa um dos elementos mais utilizados em suplementos que visam o
aumento de performance no esporte.

Ferro

A RDA para o ferro é 10 mg para homens adultos e 15 mg para mulheres adultas


(30 mg para gestantes).

O ferro este presente em diversos alimentos, porém a biodisponibilidade varia


muito conforme a fonte. Carne, incluindo frango e peixe, são boas fontes de
ferro.

Pouco ferro encontra-se livre no nosso corpo. Além do ferro ligado a mioglobina
e a mioglobina, grande quantidade de ferro está ligada a uma proteína chamada
ferritina. Essa proteína representa um estoque eficiente do mineral. Em neonatos
o ferro utilizado para o crescimento do bebê é proveniente de grandes
quantidades de ferro ligado a ferritina quando do nascimento, o que é muito
importante, uma vez que o leite materno não é uma fonte conveniente de ferro.

Outros motivos pelo qual o ferro apresenta-se praticamente todo ligado são sua
baixa solubilidade e reatividade, ou toxicidade. Em pH 7,0, 0,1 M de íon ferroso
é solúvel, enquanto a solubilidade do íon férrico limita-se a 10-18 M.

Justamente a forma mais solúvel é a forma mais tóxica. Os íons ferrosos reagem
com o peróxido de hidrogênio, gerando íons e radicais hidroxila (reação de
Fenton).

HOOH

HO

+ HO

Fe2
Fe3+

A hemoglobina, proteína transportadora de oxigênio, corresponde a mais de 95


% das proteínas das hemácias, e possui cerca de 60 % de todo o ferro presente
no corpo. A mioglobina, responsável pelas reservas de oxigênio muscular
corresponde a 1 % de todas as proteínas musculares, e carrega cerca de 4 % do
ferro presente no corpo. O ferro encontrado ligado a ferritina corresponde de 5 a
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-187-

APÊNDICE

30 % do ferro do organismo, dependendo das necessidades fisiológicas das


células no momento. O ferro é incorporado a ferritina como Fe2+, porém é
oxidado a Fe3+

no interior da proteína.

Outras duas proteínas ligam-se ao ferro: a hemosiderina, que ocorre em


lisossomos e atua principalmente quando há uma superdosagem de ferro no
organismo, e a transferrina, que se trata de uma proteína transportadora,
encarregada de legar ferro para as células onde o mineral é necessário.

Bioquímica do ferro

A transferrina é capaz de ligar dois átomos de ferro, no seu estado oxidado, e


transportar o metal para as células que estejam precisando de ferro. O

mecanismo é o seguinte:

1: a holotransferrina se liga ao receptor de transferrina, encontrado na membrana


celular;

-
2: ocorre a invaginação de uma região de membrana onde encontram-se várias
holotransferrinas ligadas, com a formação de uma vesícula que é internalizada;

3: uma segunda vesícula contendo uma bomba de ácido liga-se a vesícula


contendo as holotrensferrinas. Com isso o pH é reduzido, promovendo a
liberação do Fe3+. A transferrina permanece ligada ao receptor e o íon férrico
permanece dentro da vesícula;

4: o Fe3+ é reduzido para Fe2+, que pede então atravessar a membrana e


alcançar o citoplasma. Provavelmente a redução é catalisada por uma enzima
ligada a membrana, e as supostas fontes de elétrons são o NADH, ácido
ascórbico ou glutationa.

5: a vesícula contendo o complexo apotransferria-receptor de transferrina funde-


se novamente com a membrana e em pH fisiológico a

apotransferrina dissocia-se e retorna a circulação.

Os níveis de ferritina e receptor de transferrina são regulados pelas células


conforme sua necessidade por ferro. Quando mais ferro é requerido, aumenta a
expressão de receptores de transferrina e diminui a expressão de ferritina,
possibilitando a internalização de ferro e a ligação do mesmo as enzimas que
precisam do mineral.

Cerca de 7 % do ferro do nosso corpo encontra-se ligado a metaloenzimas, que


podem apresentar o ferro ligado a um grupo heme, como nas proteínas
hemoglobina (Hb) e mioglobina (Mb), e nos citocromos. Outra possibilidade de
ligação é com resíduos de cisteína, em proteínas “não-heme”. A tabela abaixo
relaciona algumas enzimas não-heme dependentes de ferro.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-188-
APÊNDICE

Enzima

Função/via metabólica

Aconitase

Ciclo de Krebs

Succinato dehidrogenase

Ciclo de Krebs

Ribonucleotídeo redutase

Síntese de DNA. A enzima catalisa a

redução de ribonucleotídeos difosfatos

(ADP, UDP, GDP, CDP) para os

respectivos deoxiribonucleotídeos (dADP,

dUDP, dGDP, dCDP). Outra enzima se

encarrega da conversão para (dATP,

dUTP, dGTP, dCTP).

Xantina dehidrogenase

Catabolismo de anéis purínicos. Pode

atuar como dehidrogenase ou como

oxidase, convertendo xantinas em ácido

úrico.
Adrenodoxina

Enzima relacionada a síntese de

hormônios esteróides a partir do

colesterol. Catalisa a introdução de

átomos de oxigênio no colesterol na

biossíntese de aldosterona,

glicocorticóides e hormônios sexuais.

? 9-desaturase

Enzima usada na síntese de ácidos

graxos insaturados

NADH dehidrogenase

Cadeia respiratória

Coenzima Q redutase

Cadeia respiratória

O ferro, ligado a um grupo heme, está presente nos citocromos. Os citocromos


das mitocôndrias são usados para geração de energia, na cadeia respiratória. O
citocromo P450 e o citocromo b5 ocorrem no retículo endoplasmático. O P450 é
responsável pela hidroxilação de drogas, pesticidas, substâncias carcinogênicas,
etc. É, portanto uma enzima importante para a desintoxicação do organismo.
Participa também do metabolismo do álcool.

A Hb possui o ferro no estado reduzido. Espontaneamente uma pequena parcela


de átomos de ferro presentes na Hb são oxidados. O composto formado é
denominado meta-hemoglobina, e representa cerca de 1 % da hemoglobina
circulante. O citocromo b5, a citocromo b5 e a meta-hemoglobina redutase,
presentes nas hemácias são as enzimas responsáveis pela recuperação da Hb. O
NADH é a fonte de elétrons da reação.

A presença de nitrito aumenta a concentração de meta-hemoglobina. Em casos


de intoxicação aguda por nitrito, altos níveis de meta-hemoglobina são
formados, comprometendo o transporte de oxigênio. Nesses casos a pele assume
uma coloração azul, e o indivíduo apresenta náuseas e vomito. Crianças são mais
susceptíveis a intoxicação por nitrito, porquê?

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-189-

APÊNDICE

Pergunta: Crianças são mais susceptíveis a intoxicação por nitrito, porquê?

Resposta:

A Hb é a proteína responsável pelo transporte de oxigênio. Seu peso molecular é


64.500, e é composta por quatro subunidades, duas a-globulinas e duas ß-
globulinas. Cada uma delas possui um grupo heme com um átomo de ferro
ligado. O ferro encontra-se com NOX 2+.

A afinidade do oxigênio pelo ferro heme depende da concentração de oxigênio


na região próxima a hemácia. Quanto menor a concentração de oxigênio, menor
a afinidade, resultando na liberação de oxigênio para os tecidos. Se a
concentração local de oxigênio é alta, a ligação com o grupo heme é mais forte.

Outra forma de regulação é a resposta a pH. Em pHs mais baixos, a afinidade da


ligação do oxigênio ao ferro heme é reduzida, promovendo a liberação de
oxigênio no tecido. Esse mecanismo é denominado efeito Bohr.

Pergunta: Existe relação entre efeito Bohr e exercício? Explique.

Resposta:

A mioglobina (Mb) é uma proteína monomérica. Sua função é manter uma


reserva de oxigênio no tecido muscular. Semelhantemente a Hb, a afinidade do
oxigênio pela Mb depende da concentração local do gás, porém o oxigênio
apresenta maior afinidade pela Mb do que pela Hb, e apenas em condições mais
severas ocorre o deslocamento do oxigênio ligado a Mb. Em certos mamíferos
mergulhadores, como os golfinhos, a Mb representa de 3 a 8 % da proteína
muscular.

Absorção de ferro

A absorção de ferro é dependente da necessidade fisiológica. Normalmente


nosso organismo absorve de 20 a 50 % de ferro heme e de 1 a 40 % de ferro não-
heme. A porcentagem de ferro absorvido também depende da constituição do
alimento. Como o ferro é absorvido como Fe2+, a presença de vitamina C
aumenta a biodisponibilidade do mineral. Isso se deve ao petencial redutor do
ácido ascórbico, que reprime a formação de Fe3+. Por outro lado existem
substâncias que reduzem a absorção de ferro, como é o caso do ácido fítico, um
elemento que está Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

-190-

APÊNDICE

presente em derca de 1 a 5 % nos legumes. O fitato prejudica a absorção de


outros metais bivalentes, como o cálcio e o zinco. A absorção do cobre é pouco
afetada.

Deficiência

Em situações onde a velocidade de crescimento é grande (adolescentes,


gestantes, crianças) o risco de deficiência em ferro é maior. As mulheres em
idade fértil, devido ao fluxo menstrual, são mais susceptíveis a deficiência que
os homens.

Os primeiros sinais de deficiência envolvem o decréscimo da concentração de


ferritina (proteína estoquista de ferro) no plasma. A medida da concentração de
ferritina é interessante porque se trata de um diagnóstico bem prematuro.

A continuidade de uma dieta inadequada leva a uma diminuição da

cncentração de glóbulos vermelhos no sangue, configurando um quadro de


anemia.

Além da própria fraqueza provocada pela anemia, indivíduos deficientes em


ferro são mais sujeitos a infecções. A queda de imunidade está relacionada com a
redução da atividade da metaloenzima mieloperoxidase, que media a produção
de ácido hipocloroso em vesículas encontradas em neutrófilos.

Cálcio

O cálcio representa cerca de 1,5 a 2% do peso corpóreo. Grande parte do cálcio


(~99%) está presente nos ossos e nos dentes.As funções do cálcio estão
diretamente relacionadas à formação dos ossos e dentes, além de participar de
crescimento e atuar em vários processos metabólicos. O cálcio é necessário em
várias enzimas, modula algumas respostas hormonais e é importante na
coagulação sangüínea. A transformação de protrombina em trombina é
dependente da presença de cálcio. Também atua na contração muscular e na
condução de estímulos nervosos. A absorção de cálcio está ligada a inúmeros
fatores como disponibilidade de cálcio na dieta, a idade, a raça, a presença de
vitamina D, até o uso de drogas, como os barbitúricos. A vitamina D é necessária
para a melhor utilização do cálcio. O consumo adequado de vitamina D facilita a
utilização de cálcio, enquanto consumo excessivo de carnes, sal, café, álcool
inibem a absorção de cálcio.

Osteoporose: Cálcio, Estrógeno e Exercício

Embora, as crianças durante o crescimento necessitem mais de cálcio por


unidade de massa corpórea que os adultos, um significante número de adultos
apresentam um consumo deficiente em cálcio. Esse grupo apresenta a maior
probabilidade de desenvolver a osteoporose, caracterizada pela perda de matriz
orgânica dos ossos, assim como uma desmineralização progressiva. As mulheres
se tornam extremamente suscetíveis a osteoporose durante a menopausa, quando
a perda da densidade óssea acelera. Certos fatores predispõem a osteoporose.
Esses incluem: cor branca ou mulher asiática, vida sedentária, menopausa
precoce, fumante, consumo excessivo de álcool e histórico familiar. Estudos
recomendam um aumento no consumo de cálcio para 1200-1500 mg/dia por
estrógeno perdido para assegurar um balanço positivo durante este período. Não
é claro o benefício dessa suplementação de cálcio na carência de estrógeno.
Suplementos de Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica
-191-

APÊNDICE

estrógeno são utilizados freqüentemente no tratamento de osteoporose, mas


aumenta o risco de câncer de útero, mama e outros órgãos.Dados mostram que a
terapia de reposição do estrógeno pode reduzir o risco de ataque cardíaco por 40
a 50% na menopausa, e reduzir a 60% fraturas no quadril. Homens e mulheres
que praticam exercícios apresentam uma maior densidade corporal em relação
aos sedentários

Fósforo

As principais funções do fósforo são: mineralização óssea e dos dentes, além de


participar do metabolismo energético, sendo constituinte, por exemplo, do ATP.

É importante na absorção e transporte de nutrientes, na regulação da atividade


protéica e no balanço ácido-básico. O fósforo é amplamente distribuído na
natureza. Como o fósforo é muito encontrado na natureza, a sua deficiência
primária é rara.

Selênio

O interesse pelo selênio foi provocado inicialmente pela sua toxicidade devido
ao envenenamento por selênio, que foi detectado em animais que pastam em
terrenos com altos níveis desse elemento químico. Mais tarde, foi identificado
seu papel positivo quando se provou que protegia ratos deficientes em vitamina
E da necrose hepática. Em 1973, foi descoberta nos tecidos a forma mais ativa
da glutationa peroxidase, uma selenoenzima.O selênio participa da defesa
antixidante e na proteção contra a peroxidação lipídica de membranas celulares e
subcelulares.

Assim, age em sinergismo com a vitamina E, em sua função antioxidante. O


selênio está presente nos alimentos na forma inorgânica e ligado a dois
aminoácidos modificados, na forma de selenocisteína (origem animal) ou
selenometionina (origem vegetal). São boas fontes de selênio: aipo, alho, atum,
brócolis, cebola, cereais integrais, cogumelos, farelo de trigo, fígado, frango,
frutos do mar, ovo, germe de trigo, leite, pepino e repolho.
A deficiência de selênio resulta raramente em anemia e o excesso causa
desordens gastrointestinais e irritação do pulmão. A deficiência de selênio
resulta num aumento significativo do colesterol plasmático. Dietas com baixo
teor de selênio aumentam o risco de doença cardíaca. As enzimas que contêm
selênio diminuem a oxidação das lipoproteínas e protegem as artérias contra a
deposição do colesterol. Na china é observada uma cardiomiopatia endêmica
juvenil chamada doença de Keshan que parece resultar da interação de diversos
fatores como deficiência de selênio, de vitamina E e ácidos graxos
poliinsaturados e possivelmente de um agente infeccioso (vírus coxsackie). O
selenio não parece ser tóxico, mas certos selenídeos de hidrogênio têm grande
toxicidade, semelhantes ao arsênico.

Sódio, Cloro e Potássio

Sódio e potássio são cátions monovalentes. Cloro é um ânion monovalente.

Em contraste com os outros íons metálicos Na e K não participam da atividade


de enzimas especificas.

Sódio, potássio e cloro estão presentes como íons no corpo. O sódio e o cloro
são principalmente elementos extracelulares e o potássio intracelular. Esses três
minerais estão envolvidos em funções fisiológicas importantes como: balanço e
distribuição de água, equilíbrio osmótico, balanço ácido-base e transmissão dos
Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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APÊNDICE

impulsos nervosos. A bomba Na+/K+/Ca+/ATPase é importante para


manutenção do potencial de membrana, transporte através da membrana de
glicose, aminoácidos e outras moléculas. Os três minerais são absorvidos no
trato intestinal e são excretados pela urina, fezes e suor. A maior deficiência no
consumo desses eletrólitos envolve o potássio que pode ser ligado a hipertensão
e osteoporose. O

excesso de sódio causa hipertensão e retenção de fluídos. O excesso de potássio


pode causar disfunção miocárdica. A principal fonte de sódio e cloro é o sal
presente em alimentos. São boas fontes de potássio: bananas, vegetais folhudos,
leite, carnes, café, tomate e batata.

Nutrição e Esporte – Uma abordagem Bioquímica

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