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A ORIGEM DOS POVOS AMERICANOS

Os habitantes do continente americano descendem de populações advindas da Ásia,


sendo que os vestígios mais antigos de sua presença na América, obtidos por meio de
estudos arqueológicos, datam de 11 a 12,5 mil anos.

Todavia, ainda não se chegou a um consenso acerca do período em que teria havido a
primeira leva migratória.

Os povos indígenas que hoje vivem na América do Sul são originários de povos
caçadores que aqui se instalaram, vindo da América do Norte através do istmo do
Panamá, e que ocuparam virtualmente toda a extensão do continente há milhares de
anos.

De lá para cá, estas populações desenvolveram diferentes modos de uso e manejo dos
recursos naturais e formas de organização social distintas entre si.

Não existe consenso também, entre os arqueólogos, sobre a antigüidade da ocupação


humana na América do Sul. Até há alguns anos, o ponto de vista mais aceito sobre este
assunto era o de que os primeiros habitantes do continente sul-americano teriam
chegado há pouco mais de 11 mil anos.

No Brasil, a presença humana está documentada no período situado entre 11 e 12 mil


anos atrás. Mas novas evidências têm sido encontradas na Bahia e no Piauí que
comprovariam ser mais antiga esta ocupação, com o que muitos arqueólogos não
concordam.

Assim, há uma tendência cada vez maior de os pesquisadores reverem essas datas, já
que pesquisas recentes vêm indicando datações muito mais antigas

HÁ 500 ANOS
Há cinco séculos, os portugueses chegaram ao litoral brasileiro, dando início a um
processo de migração que se estenderia até o início do século XX, e paulatinamente
foram estabelecendo-se nas terras que eram ocupadas pelos povos indígenas.
O processo de colonização levou à extinção muitas sociedades indígenas que viviam no
território dominado, seja pela ação das armas, seja em decorrência do contágio por
doenças trazidas dos países distantes, ou, ainda, pela aplicação de políticas visando à
"assimilação" dos índios à nova sociedade implantada, com forte influência européia.

Embora não se saiba exatamente quantas sociedades indígenas existiam no Brasil à


época da chegada dos europeus, há estimativas sobre o número de habitantes nativos
naquele tempo, que variam de 1 a 10 milhões de indivíduos.

Números que servem para dar uma idéia da imensa quantidade de pessoas e sociedades
indígenas inteiras exterminadas ao longo desses 500 anos, como resultado de um
processo de colonização baseado no uso da força, por meio das guerras e da política de
assimilação.

A chegada do europeu
O impacto da conquista européia sobre as populações nativas das Américas foi imenso e
não existem números precisos sobre a população existente à época da chegada dos
europeus, apenas estimativas. As referentes à população indígena do território brasileiro
em 1500 variam entre 1 e 10 milhões de habitantes.

Estima-se que só na bacia amazônica existissem 5.600.000 habitantes. Também em


termos estimativos, os lingüistas têm aceito que cerca de 1.300 línguas diferentes eram
faladas pelas muitas sociedades indígenas então existentes no território que corresponde
aos atuais limites do Brasil.

Dezenas de milhares de pessoas morreram em conseqüência do contato direto e indireto


com os europeus e as doenças por eles trazidas.

Doenças hoje banais, como gripe, sarampo e coqueluche, e outras mais graves, como
tuberculose e varíola, vitimaram, muitas vezes, sociedades indígenas inteiras, por não
terem os índios imunidade natural a estes males.

Em face da ruptura demográfica e social promovida pela conquista européia, foi


sugerido que os padrões de organização social e de manejo dos recursos naturais das
populações indígenas que atualmente vivem no território brasileiro não seriam
representativos dos padrões das sociedades pré-coloniais.

Esse é um ponto controvertido entre os pesquisadores, pois ainda não há dados


suficientes advindos de pesquisas arqueológicas, bioantropológicas e de história
indígena enfocando o impacto do contato europeu sobre as populações nativas para que
se possa fazer tal afirmativa.

O atual estado de preservação das culturas e línguas indígenas é conseqüência direta da


história do contato das diferentes sociedades indígenas com os europeus que dominaram
o território brasileiro desde 1500.

Os primeiros contatos se deram no litoral e só aos poucos houve um movimento de


interiorização por parte dos europeus.
O deslocamento da população
Quando se observa o mapa da distribuição das populações indígenas no território
brasileiro de hoje, podem-se ver claramente os reflexos do movimento de expansão
político-econômica ocorrido historicamente.

Os povos que habitavam a costa leste, na maioria falantes de línguas do Tronco Tupi,
foram dizimados, dominados ou refugiaram-se nas terras interioranas para evitar o
contato.

Hoje, somente os Fulniô (de Pernambuco), os Maxakali (de Minas Gerais) e os Xokleng
(de Santa Catarina) conservam suas línguas.

Curiosamente, suas línguas não são Tupi, mas pertencentes a três famílias diferentes
ligadas ao Tronco Macro-Jê.

Os Guarani, que vivem em diversos estados do Sul e Sudeste brasileiro e que também
conservam a sua língua, migraram do Oeste em direção ao litoral em anos relativamente
recentes.

As demais sociedades indígenas que vivem no Nordeste e Sudeste do País perderam


suas línguas e só falam o português, mantendo apenas, em alguns casos, palavras
esparsas, utilizadas em rituais e outras expressões culturais.

A maior parte das sociedades indígenas que conseguiram preservar suas línguas vive,
atualmente, no Norte, Centro-Oeste e Sul do Brasil. Nas outras regiões, elas foram
sendo expulsas à medida em que a urbanização avançava.

O ÍNDIO HOJE
Hoje, no Brasil, vivem cerca de 460 mil índios, distribuídos entre 225 sociedades
indígenas, que perfazem cerca de 0,25% da população brasileira.

Cabe esclarecer que este dado populacional considera tão-somente aqueles indígenas
que vivem em aldeias, havendo estimativas de que, além destes, há entre 100 e 190 mil
vivendo fora das terras indígenas, inclusive em áreas urbanas.

Há também 63 referências de índios ainda não-contatados, além de existirem grupos que


estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão federal
indigenista.

O que é ser índio


Os habitantes das Américas foram chamados de índios pelos europeus que aqui
chegaram. Uma denominação genérica, provocada pela primeira impressão que eles
tiveram de haverem chegado às Índias.
Mesmo depois de descobrir que não estavam na Ásia, e sim em um continente até então
desconhecido, os europeus continuaram a chamá-los assim, ignorando propositalmente
as diferenças lingüístico-culturais.

Era mais fácil tornar os nativos todos iguais, tratá-los de forma homogênea, já que o
objetivo era um só: o domínio político, econômico e religioso.

Se no Período Colonial era assim, ao longo dos tempos, definir quem era índio ou não
constituiu sempre uma questão legal.

Desde a independência em relação às metrópoles européias, vários países americanos


estabeleceram diferentes legislações em relação aos índios e foram criadas instituições
oficiais para cuidar dos assuntos a eles relacionados.

Nas últimas décadas, o critério da auto-identificação étnica vem sendo o mais


amplamente aceito pelos estudiosos da temática indígena. Na década de 50, o
antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro baseou-se na definição elaborada pelos
participantes do II Congresso Indigenista Interamericano, no Peru, em 1949, para assim
definir, no texto "Culturas e línguas indígenas do Brasil", o indígena como: "(...) aquela
parcela da população brasileira que apresenta problemas de inadaptação à sociedade
brasileira, motivados pela conservação de costumes, hábitos ou meras lealdades que a
vinculam a uma tradição pré-colombiana.

Ou, ainda mais amplamente: índio é todo o indivíduo reconhecido como membro por
uma comunidade pré-colombiana que se identifica etnicamente diversa da nacional e é
considerada indígena pela população brasileira com quem está em contato".

Uma definição muito semelhante foi adotada pelo Estatuto do Índio (Lei nº. 6.001, de
19.12.1973), que norteou as relações do Estado brasileiro com as populações indígenas
até a promulgação da Constituição de 1988.

Em suma, um grupo de pessoas pode ser considerado indígena ou não se estas pessoas
se considerarem indígenas, ou se assim forem consideradas pela população que as cerca.

Mesmo sendo o critério mais utilizado, ele tem sido colocado em discussão, já que
muitas vezes são interesses de ordem política que levam à adoção de tal definição, da
mesma forma que acontecia há 500 anos.

Identidade e diversidade
As populações indígenas são vistas pela sociedade brasileira ora de forma
preconceituosa, ora de forma idealizada.

O preconceito parte, muito mais, daqueles que convivem diretamente com os índios: as
populações rurais.

Dominadas política, ideológica e economicamente por elites municipais com fortes


interesses nas terras dos índios e em seus recursos ambientais, tais como madeira e
minérios, muitas vezes as populações rurais necessitam disputar as escassas
oportunidades de sobrevivência em sua região com membros de sociedades indígenas
que aí vivem.

Por isso, utilizam estereótipos, chamando-os de "ladrões", "traiçoeiros", "preguiçosos" e


"beberrões", enfim, de tudo que possa desqualificá-los. Procuram justificar, desta forma,
todo tipo de ação contra os índios e a invasão de seus territórios.

Já a população urbana, que vive distanciada das áreas indígenas, tende a ter deles uma
imagem favorável, embora os veja como algo muito remoto.

Os índios são considerados a partir de um conjunto de imagens e crenças amplamente


disseminadas pelo senso comum: eles são os donos da terra e seus primeiros habitantes,
aqueles que sabem conviver com a natureza sem depredá-la.

São também vistos como parte do passado e, portanto, como estando em processo de
desaparecimento, muito embora, como provam os dados, nas três últimas décadas tenha
se constatado o crescimento da população indígena.

Só recentemente os diferentes segmentos da sociedade brasileira estão se


conscientizando de que os índios são seus contemporâneos.

Eles vivem no mesmo país, participam da elaboração de leis, elegem candidatos e


compartilham problemas semelhantes, como as conseqüências da poluição ambiental e
das diretrizes e ações do governo nas áreas da política, economia, saúde, educação e
administração pública em geral.

Hoje, há um movimento de busca de informações atualizadas e confiáveis sobre os


índios, um interesse em saber, afinal, quem são eles.

Qualquer grupo social humano elabora e constitui um universo completo de


conhecimentos integrados, com fortes ligações com o meio em que vive e se
desenvolve.

Entendendo cultura como o conjunto de respostas que uma determinada sociedade


humana dá às experiências por ela vividas e aos desafios que encontra ao longo do
tempo, percebe-se o quanto as diferentes culturas são dinâmicas e estão em contínuo
processo de transformação.

O Brasil possui uma imensa diversidade étnica e lingüística, estando entre as maiores do
mundo.

São 215 sociedades indígenas, mais cerca de 55 grupos de índios isolados, sobre os
quais ainda não há informações objetivas.

180 línguas, pelo menos, são faladas pelos membros destas sociedades, as quais
pertencem a mais de 30 famílias lingüísticas diferentes.

No entanto, é importante frisar que as variadas culturas das sociedades indígenas


modificam-se constantemente e reelaboram-se com o passar do tempo, como a cultura
de qualquer outra sociedade humana.
E é preciso considerar que isto aconteceria mesmo que não houvesse ocorrido o contato
com as sociedades de origem européia e africana.

No que diz respeito à identidade étnica, as mudanças ocorridas em várias sociedades


indígenas, como o fato de falarem português, vestirem roupas iguais às dos outros
membros da sociedade nacional com que estão em contato, utilizarem modernas
tecnologias (como câmeras de vídeo, máquinas fotográficas e aparelhos de fax), não
fazem com que percam sua identidade étnica e deixem de ser indígenas.

A diversidade cultural pode ser enfocada tanto sob o ponto de vista das diferenças
existentes entre as sociedades indígenas e as não-indígenas, quanto sob o ponto de vista
das diferenças entre as muitas sociedades indígenas que vivem no Brasil.

Mas está sempre relacionada ao contato entre realidades socioculturais diferentes e à


necessidade de convívio entre elas, especialmente num país pluriétnico, como é o caso
do Brasil.

É necessário reconhecer e valorizar a identidade étnica específica de cada uma das


sociedades indígenas em particular, compreender suas línguas e suas formas tradicionais
de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais.

Isto significa o respeito pelos direitos coletivos especiais de cada uma delas e a busca do
convívio pacífico, por meio de um intercâmbio cultural, com as diferentes etnias.

As línguas indígenas
A língua é o meio básico de organização da experiência e do conhecimento humanos.
Quando falamos em língua, falamos também da cultura e da história de um povo.

Por meio da língua, podemos conhecer todo um universo cultural, ou seja, o conjunto de
respostas que um povo dá às experiências por ele vividas e aos desafios que encontra ao
longo do tempo.

Há várias maneiras de se classificar as línguas. Os lingüistas atuais consideram como


mais apropriada a classificação do tipo genético.

Eles só recorrem a outros tipos de classificação quando não há dados suficientes para
realizar a classificação por meio do critério genético.

Na classificação genética, reúnem-se numa mesma classe as línguas que tenham tido
origem comum numa outra língua mais antiga, já extinta.

Desta forma, as línguas faladas pelos diversos povos da Terra são agrupadas em famílias
lingüísticas, e estas famílias são reunidas em troncos lingüísticos, sempre buscando a
origem comum numa língua anterior.

Embora o português seja a língua oficial no Brasil, deve haver por volta de outras 200
línguas faladas regularmente por segmentos da população.
Um exemplo são os descendentes de imigrantes italianos, japoneses etc., que em
determinados contextos falam a língua materna.

Ainda hoje, muitos índios falam unicamente sua língua, desconhecendo o português.
Outros tantos falam o português como sua segunda língua.

O lingüista brasileiro Aryon Dall'Igna Rodrigues estabeleceu uma classificação das


línguas indígenas faladas no Brasil, sendo esta a mais utilizada pela comunidade
científica que se dedica aos estudos pertinentes às populações indígenas.

As línguas são agrupadas em famílias, classificadas como pertencentes aos troncos


Tupi, Macro-Jê e Aruak. Há Famílias, entretanto, que não puderam ser identificadas
como relacionadas a nenhum destes troncos.

São elas: Karib, Pano, Maku, Yanoama, Mura, Tukano, Katukina, Txapakura,
Nambikwara e Guaikuru.

Além disso, outras línguas não puderam ser classificadas pelos lingüistas dentro de
nenhuma família, permanecendo não-classificadas ou isoladas, como a língua falada
pelos Tükúna, a língua dos Trumái, a dos Irântxe etc.

Ainda existem as línguas que se subdividem em diferentes dialetos, como, por exemplo,
os falados pelos Krikatí, Ramkokamekrá (Canela), Apinayé, Krahó, Gavião (do Pará),
Pükobyê e Apaniekrá (Canela), que são, todos, dialetos diferentes da língua Timbira.

Há sociedades indígenas que, por viverem em contato com a sociedade brasileira há


muito tempo, acabaram por perder sua língua original e por falar somente o português.

De algumas dessas línguas não mais faladas ficaram registros de grupos de vocábulos e
informações esparsas, que nem sempre permitem aos lingüistas suficiente conhecimento
para classificá-las em alguma família. De algumas outras línguas, não ficaram nem
resquícios.

Estima-se que cerca de 1.300 línguas indígenas diferentes eram faladas no Brasil há 500
anos. Hoje são 180, número que exclui aquelas faladas pelos índios isolados, uma vez
que eles não estão em contato com a sociedade brasileira e suas línguas ainda não
puderam ser estudadas e conhecidas.

Ressalte-se que o fato de duas sociedades indígenas falarem línguas pertencentes a uma
mesma família não faz com que seus membros consigam entender-se mutuamente. Um
exemplo disso se dá entre o português e o francês: ambas são línguas românicas ou
neolatinas, mas os falantes das duas línguas não se entendem, apesar das muitas
semelhanças lingüísticas existentes entre ambas.

É importante lembrar que o desaparecimento de tantas línguas representa uma enorme


perda para a humanidade, pois cada uma delas expressa todo um universo cultural, uma
vasta gama de conhecimentos, uma forma única de se encarar a vida e o mundo.

Índios isolados
Alguns povos indígenas, desde a época do Descobrimento, mantiveram-se afastados de
todas as transformações ocorridas no País.

Eles mantêm as tradições culturais de seus antepassados e sobrevivem da caça, pesca,


coleta e agricultura incipiente, isolados do convívio com a sociedade nacional e com
outros grupos indígenas.

Os índios isolados defendem bravamente seu território e, quando não podem mais
sustentar o enfrentamento com os invasores de seus domínios, recuam para regiões mais
distantes, na esperança de lograrem sobreviver escondendo-se para sempre.

Pouca ou nenhuma informação se tem sobre eles e, por isso, sua língua é desconhecida.
Entretanto, sabe-se que alguns fatores são fundamentais para possibilitar a existência
futura desses grupos.

Entre eles, a demarcação das terras onde vivem e a proteção ao meio ambiente, de
forma a garantir sua sobrevivência física e cultural.

No processo de ocupação dos espaços amazônicos, o conhecimento e o


dimensionamento das regiões habitadas por índios isolados são fundamentais para que
se possa evitar o confronto e a destruição desses grupos.

Há na FUNAI, desde 1987, uma unidade destinada a tratar da localização e proteção dos
índios isolados, cuja atuação se dá por meio de sete equipes, denominadas Frentes de
Contato, atuando nos estados do Amazonas, Pará, Acre, Mato Grosso, Rondônia e
Goiás.

AS SOCIEDADES
Os índios sobrevivem. Não apenas biologicamente, mas também do ponto de vista das
tradições culturais, segundo comprovam estudos recentes, os quais demonstram que a
população indígena vem aumentando rapidamente nas últimas décadas. Hoje, as 215
diferentes sociedades somam cerca de 358 mil pessoas, que falam 180 línguas distintas.

Os índios vivem nos mais diversos pontos do território brasileiro e representam, em


termos demográficos, um pequeno percentual da população de 150 milhões de
habitantes do Brasil. Todavia são um exemplo concreto e significativo da grande
diversidade cultural existente no País.

Os seus antepassados contribuíram com muitos aspectos de suas diversificadas culturas


para a formação do que atualmente se chama Brasil: um país de vasta extensão
territorial, cuja população é formada pelos descendentes de europeus, negros, índios e,
mais recentemente, também de imigrantes vindos de países asiáticos, que mesclaram
suas diferentes línguas, religiões e tradições culturais em geral, propiciando a formação
de uma nova cultura, fortemente marcada por contrastes.

Mais da metade da população indígena está localizada nas regiões Norte e Centro-Oeste
do Brasil, principalmente na área da Amazônia Legal. Mas há índios vivendo em todas
as regiões brasileiras, em maior ou menor número, com exceção dos estados do Piauí e
Rio Grande do Norte.
Mesmo no Piauí, existem grupos de pessoas que vivem no interior do estado as quais
vêm se auto-identificando como indígenas e começam a reivindicar o reconhecimento
como indígenas junto à FUNAI.

Muitos dos nomes usados para designar as sociedades indígenas que vivem no Brasil
não são autodenominações destas sociedades.

Foram imensas as dificuldades de comunicação entre os europeus e os nativos da terra,


bem como, muito mais tarde, entre os funcionários do órgão indigenista oficial e mesmo
entre os antropólogos e os índios, motivadas pelo não-entendimento das línguas faladas.

Assim sendo, é comum que uma sociedade indígena seja conhecida por uma
denominação que lhe foi atribuída aleatoriamente pelos primeiros indivíduos que
entraram em contato com ela ou pela denominação dada pelos inimigos tradicionais.

Ela é quase sempre pejorativa. E há, ainda, sociedades que receberam nomes diferentes
em épocas diversas.

Portanto, a mesma sociedade indígena pode ser conhecida por vários nomes e eles nem
sempre são escritos da mesma forma.

Isto depende de convenção feita pelos não-índios, uma vez que os falantes originais das
línguas indígenas eram ágrafos, isto é, não conheciam a escrita.

Existe uma "Convenção para a grafia dos nomes tribais" estabelecida pela Associação
Brasileira de Antropologia (ABA) em 1953. Embora muitos aspectos desta convenção
sejam respeitados pelos antropólogos até hoje, há outros aspectos que nunca foram
seguidos.

Fonte: www.funai.gov.br

História dos Índios Brasileiros

A origem dos "índios" brasileiros ainda é um mistério para os estudiosos.

A teoria de que vieram pelo estreito de Bering continua sendo a mais aceita, apesar de já
existirem muitas discordâncias.

Com a chegada dos portugueses às terras brasileiras, os nativos pareciam nada menos
que exóticos aos olhos de seu invasor",que assustou-se com os costumes "bárbaros"
daquele povo que andava nu sem pudor e desconhecia a maior Instituição Européia até
então: A Igreja católica.

Após 500 anos de convivência conflituosa, a figura do índio ainda parece distante da
realidade do país.
Viu suas terras serem tomadas, dirigiu-se para as grandes metrópoles e vive hoje a
realidade marginal de milhares de pessoas.

Episódios como o do índio pataxó Galdino Jesus, queimado vivo por jovens
brasilienses, insistem em alongar a extensa lista de atos desrespeitosos direcionados às
comunidades indígenas.

Dizimidos aos montes também no passado, poucos restaram para contar e perpetuar a
nebulosa e fantástica história desse povo.

Atualmente, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) luta junto ao Congresso Nacional


para que os direitos dos índios sejam colocados em prática.

A demarcação das terras indígenas tomadas pelos colonizadores é uma das dívidas
históricas em pauta.

A valorização da riqueza cultural dos índios é uma bandeira a ser levantada por toda a
sociedade, já que costumes que fogem à memória dos povos que aqui chegaram mais
tarde estão em jogo.

A população brasileira precisa aprender a respeitar uma cultura que não é a sua, pois só
assim estaremos vivendo a livre expressão de pensamento que nossa tradição
democrática tanto prega.

Fonte: Funai

A mera utilização – de resto inescapável... – da expressão “índios” para referirmo-nos a


esquimós, araucanos, comanches tupinambás e ianomâmis, entre outros povos distintos,
já constitui, em si, uma violência.
Seres humanos que se deslocaram para este continente, seja através da ponte de gelo
que existia entre a o estremo oriental do continente asiático e o estremo ocidental do
continente americano, ou seja, o Estreito de Bering, seja através de viagens sucessivas
em canoas através das ilhas Malaio-Polinésias, distanciam-se pelo menos quatrocentos
séculos da cultura européia.

Quarenta mil anos de distanciamento cultural durante os quais os povos destas terras
não aprenderam a mentir, por exemplo.

Quarenta mil anos de superioridade moral. Quarenta mil anos de inferioridade bélica.
Massacrados num genocídio continental ao longo de meio milênio...

Imagine uma civilização tecnologicamente avançada que invadisse o planeta Terra, mas
ou menos como naquele filme “Independence Day”.

Arrogantes, informariam às autoridades de seu planeta natal que “descobriram” uma


terra totalmente nova, a nossa Terra! Felizes com a beleza de nossas mulheres, a
abundância de nossas riquezas naturais passam a sistematicamente escravizar e tomar
concubinas entre nossas mães, irmãs, namoradas, filhas, esposas.

Os invasores passariam a nos impor as suas crenças religiosas desprezando as nossas


como inferiores, nos obrigariam a desmatar a Floresta Amazônica para levar nossa
madeira ao seu planeta natal, esvaziariam nossas reservas hídricas para levar água ao
seu planeta árido e outras atrocidades.

Como se não bastasse eles trariam consigo doenças terríveis, que matariam os
terráqueos em pouquíssimo tempo entre dores atrozes.

Doenças infecciosas para as quais eles teriam fortes resistências mas nós não...

Aqueles que resistissem seriam mortos simplesmente com suas pistolas de raios ou
armas ainda mais sofisticadas. De toda a forma, todos concordam que o mais sensato
num quadro assim é mesmo a resistência ao invasor; para não ser saqueado, para não ter
sua companheira estuprada, suas terras ou empresas tomadas ou pior, para não ser
escravizado ou morto., na melhor das hipóteses, julgados em ritos sumaríssimos e
condenados à morte de maneiras atrozes.

Passam-se os anos. Nas escolas do conquistador ensina-se que há muito tempo


chegaram os civilizadores de um povo idólatra, que havia assassinado seu próprio deus
crucificado, que vivia em guerra por motivos banais, que pregava o valor da verdade
mas mentia sempre, que buscava a ética mas vivia imerso em corrupção, etc.

Trouxeram a civilização e a paz entre aqueles que guerreavam entre si. Não falavam que
o preço da tal paz havia sido o extermínio brutal da maioria, cultural ou fisicamente
suprimidos.

Assim fizeram os europeus com os primeiros habitantes destas terras. Ia escrever,


“primeiros donos destas terras”, mas este linguajar lhes seria estranho.
Não se consideravam “donos” de nada, menos que tudo da terra. Consideravam-se,
como na bela carta que o cacique Seattle escreveu ao Presidente Francis Pierce, “filhos
da Terra”.

Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta


carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver
dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios.

Faz já 147 anos. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

"Como podeis comprar ou vender o céu, a tepidez do chão? A idéia não tem sentido para
nós.

Nós não somos donos do frescor do ar ou o brilho da água, como podeis querer comprá-
los de nós? Qualquer parte desta terra é sagrada para meu povo.

Qualquer folha de pinheiro, qualquer praia, a neblina dos bosques, o brilhante e


zumbidor inseto, tudo é sagrado na memória e na experiência de meu povo.

A seiva que percorre o interior das árvores leva em si as memórias do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem a terra de seu nascimento, quando vão vaguear
entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta terra maravilhosa, pois ela é a
mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós.

As flores perfumadas são nossas irmãs, os gamos, os cavalos a majestosa águia, todos
nossos irmãos. Os picos rochosos, a fragrância dos bosques, a energia vital do pônei e
do homem, tudo pertence a uma só família.

Assim, quando o grande chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossas
terras, ele está pedindo muito de nós. O grande Chefe manda dizer que nos reservará um
sítio onde possamos viver confortavelmente por nós mesmos.

Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Se é assim, vamos considerar a sua
proposta sobre a compra de nossa terra. Mas tal compra não será fácil, já que esta terra é
sagrada para nós.

A límpida água que percorre os regatos e rios não é apenas água, mas o sangue de
nossos ancestrais. Se vos vendermos a terra, tereis de lembrar a nossos filhos que ela é
sagrada, e que qualquer reflexo espectral sobre a superfície dos lagos evoca eventos e
fases da vida do meu povo. O marulhar das águas é a voz dos nossos ancestrais.

Os rios são nossos irmãos, eles nos saciam a sede. Levam as nossas canoas e alimentam
nossas crianças. Se vendermos nossa terra a vós, deveis vos lembrar e ensinar a nossas
crianças que os rios são nossos irmãos, vossos irmãos também, e deveis a partir de então
dispensar aos rios a mesma espécie de afeição que dispensais a um irmão.

Nós mesmos sabemos que o homem branco não entende nosso modo de ser. Para ele um
pedaço de terra não se distingue de outro qualquer, pois é um estranho que vem de noite
e rouba da terra tudo de que precisa. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, depois que
a submete a si, que a conquista, ele vai embora, à procura de outro lugar.

Deixa atrás de si a sepultura de seus pais e não se importa. A cova de seus pais é a
herança de seus filhos, ele os esquece. Trata a sua mãe, a terra, e seus irmãos, o céu
como coisas a serrem comprados ou roubados, como se fossem peles de carneiro ou
brilhantes contas sem valor. Seu apetite vai exaurir a terra, deixando atrás de si só
desertos.

Isso eu não compreendo. Nosso modo de ser é completamente diferente do vosso. A


visão de vossas cidades faz doer aos olhos do homem vermelho.

Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e como tal, nada possa
compreender.

Nas cidades do homem branco não há um só lugar onde haja silêncio, paz. Um só lugar
onde ouvir o farfalhar das folhas na primavera, o zunir das asas de um inseto. Talvez
seja porque sou um selvagem e não possa compreender.

O barulho serve apenas para insultar os ouvidos. E que vida é essa onde o homem não
pode ouvir o pio solitário da coruja ou o coaxar das rãs à margem dos charcos à noite?
O índio prefere o suave sussurrar do vento esfrolando a superfície das águas do lago, ou
a fragrância da brisa, purificada pela chuva do meio-dia ou aromatizada pelo perfume
dos pinhos.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois dele todos se alimentam. Os animais, as


árvores, o homem, todos respiram o mesmo ar.

O homem branco parece não se importar com o ar que respira. Como um cadáver em
decomposição, ele é insensível ao mau cheiro. Mas se vos vendermos nossa terra, deveis
vos lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar insufla seu espírito em todas as coisas
que dele vivem.

O ar que vossos avós inspiraram ao primeiro vagido foi o mesmo que lhes recebeu o
último suspiro.

Se vendermos nossa terra a vós, deveis conservá-la à parte, como sagrada, como um
lugar onde mesmo um homem branco possa ir sorver a brisa aromatizada pelas flores
dos bosques.

Assim consideraremos vossa proposta de comprar nossa terra. Se nos decidirmos a


aceitá-la, farei uma condição: O homem branco terá que tratar os animais desta terra
como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e não compreendo de outro modo. Tenho visto milhares de búfalos a
apodrecerem nas pradarias, deixados pelo homem branco que neles atira de um trem em
movimento.

Sou um selvagem e não compreendo como o fumegante cavalo de ferro possa ser mais
importante que o búfalo, que nós caçamos apenas para nos mantermos vivos.
Que será dos homens sem os animais? Se todos os animais desaparecem, o homem
morreria de solidão espiritual. Porque tudo isso pode cada vez mais afetar os homens.
Tudo está encaminhado.

Deveis ensinar a vossos filhos que o chão onde pisam simboliza a as cinzas de nossos
ancestrais. Para que eles respeitem a terra, ensinai a eles que ela é rica pela vida dos
seres de todas as espécies. Ensinai a eles o que ensinamos aos nossos: Que a terra é a
nossa mãe.

Quando o homem cospe sobre a terra, está cuspindo sobre si mesmo. De uma coisa nós
temos certeza: A terra não pertence ao homem branco; O homem branco é que pertence
à terra.

Disso nós temos certeza. Todas as coisas estão relacionadas como o sangue que une uma
família. Tudo está associado. O que fere a terra fere também aos filhos da terra.

O homem não tece a teia da vida: É antes um dos seus fios. O que quer que faça a essa
teia, faz a si próprio.

Mesmo o homem branco, a quem Deus acompanha e com quem conversa como um
amigo, não pode fugir a esse destino comum. Talvez, apesar de tudo, sejamos todos
irmãos.

Nós o veremos. De uma coisa sabemos, é que talvez o homem branco venha a descobrir
um dia: Nosso Deus é o mesmo deus.

Podeis pensar hoje que somente vós o possuis, como desejais possuir a terra, mas não
podeis.

Ele é o Deus do homem e sua compaixão é igual tanto para o homem branco, quanto
para o homem vermelho.
Esta terra é querida dele, e ofender a terra é insultar o seu criador.

Os brancos também passarão talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminai
a vossa cama, e vos sufocareis numa noite no meio de vossos próprios excrementos.

Mas no nosso parecer, brilhareis alto, iluminado pela força do Deus que vos trouxe a
esta terra e por algum favor especial vos outorgou domínio sobre ela e sobre o homem
vermelho.

Este destino é um mistério para nós, pois não compreendemos como será no dia em que
o último búfalo for dizimado, os cavalos selvagens domesticados, os secretos recantos
das florestas invadidos pelo odor do suor de muitos homens e a visão das brilhantes
colinas bloqueada por fios falantes.

Onde está o matagal? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. O fim do viver e o
início do sobreviver."

Os bororo, ao ouvirem os portugueses fazer proposta parecida (o que era raro, em geral
tomavam as terras violentamente e ponto final) retrucavam: “mas para onde é que vocês
pretendem levar esta terra toda?” Não podiam compreender que havia uma proposta de
comprar sua mãe-terra.

Como entender que alguém se proponha a pagar um preço pela sua mãe???

Pindorama

De todo o modo, as questões “quem são?”, “de onde vieram”?, para onde vão?” seguem
sem resposta concreta cinco séculos depois do primeiro encontro. Os índios brasileiros
permanecem um mistério para o homem branco.

Não se pode afirmar com certeza de onde vieram, embora a teoria da migração via
estreito de Bering continue sendo a mais provável – mesmo tendo perdido a primazia e,
principalmente, a exclusividade. Quando teriam chegado à América também é assunto
ainda polêmico: 12 mil, 18 mil ou 53 mil anis atrás? Ninguém sabe ao certo. Sabe-se
apenas que aqui estavam.

De qualquer forma, sua simples presença já era um enigma. Quem seriam aqueles
homens “nus, pardos, ele bons narizes e bons corpos”, que negros não eram, nem
mouros, nem hindus?

Descenderiam de qual das doze tribos de Israel? Ou de qual dos três filhos de Noé?
Teriam alma? Em caso afirmativo, como poderiam ter vivido tanto tempo à margem de
Deus?

Cristóvão Colombo decidira chamá-los de índios – mas índios os portugueses sabiam


que não eram. O que seriam então esses “negros da terra”? Bons selvagens, como
sugeriu Pero Vaz de Caminha (e os filósofos Rousseau, Montaigne e Diderot ecoaram),
ou antropófagos bestiais, como quiseram outros cronistas? Defini-los de que forma se
alguns eram brutais e intratáveis, como os aimorés – que comiam carne humana “por
mantimento e não por vingança ou pela antiguidade de seus ódios” –, e outros tão
mansos e pacíficos, como os carijós, “o melhor gentio da costa”?

Passados pouco mais de 500 anos de convivência sempre conflituosa o índio continua
sendo pouco mais do que um mito brasileiro.

Afinal, são defensores da ecologia, como o caiapó Paulinho Paiakan, ou apenas


selvagens “estupradores”... como Paulinho Paiakan? São pessimistas incuráveis, que se
suicidam por puro desespero, como os guaranis-caiovás ou empresários bem sucedidos,
como os caiapós? Podem ser três, como os xetás, ou 23 mil como os ticunas.

Para onde vão? A resposta não depende deles.

A história brasileira não registra um único herói indígena – nem aqueles que ajudaram
os portugueses a conquistar a terra, como Tibiriçá, que salvou São Paulo; Araribóia, que
venceu os franceses, ou Felipe Camarão, que bateu os holandeses.

Não há um só atleta ou escritor nativo. Houve um político indígena, o cacique Mário


Juruna, mas ele foi abandonado em Brasília. Raoni é um herói, mas não no Brasil – é
um herói de Sting, o "pop-star" cheio de boas intenções e má consciência.

Raoni se tornou só uma imagem. Uma imagem tão incongruente quanto a do quadro “O
Último Tamoio”... Nenhum jesuíta jamais chorou a morre do ultimo tamoio, que eram
aliados dos franceses e foram traídos pelos padres. Haverá alguém para chorar pelo
último ianomâmi?

A antropofagia entre os tupinambás

De todos os "costumes bárbaros" dos índios brasileiros quando da chegada dos


colonizadores ao Novo Mundo, nenhum se revelou mais espantoso aos olhares europeus
do que a antropofagia.

Ainda que o canibalismo não fosse prerrogativa dos indígenas e já houvesse, em plena
Europa, o registro de casos ocorridos em épocas de crise, nada conhecido até então se
comparava aos requintes tétricos do banquete antropofágico tal como realizado por
quase todos os tupis e tapuias.

A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos representavam o ponto


culminante de uma cerimônia cujo sacramento maior, e o objetivo quase único, era a
vingança.

O festim canibal foi minuciosamente descrito por cronistas coloniais, entre os quais os
padres franceses Jean de Léry, André Thevet e Claude d' Abbeville. A narrativa mais
impressionante, porém, foi feita pelo mercenário alemão Hans Staden, prisioneiro dos
tupinambás entre 1554 e 1557. Graças a eles é possível reconstituir, passo a passo, as
etapas do banquete.

A vítima era capturada no campo de batalha e pertencia àquele que primeiro a houvesse
tocado. Triunfalmente conduzido à aldeia do inimigo, era insultado e maltratado por
mulheres e crianças. Tinha de gritar: "Eu, vossa comida, cheguei".
Após essas agressões, porém, era bem tratado, recebia como companheira uma irmã ou
filha de seu captor e podia andar livremente – fugir era uma ignomínia impensável.

O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia
de sua execução, o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos).

Quando a data fatídica se aproximava, os guerreiros preparavam ritualmente a clava


com a qual a vítima seria abatida.

A seguir, começava o ritual, que se estendia por quase uma semana e do qual participava
toda a tribo, das mulheres aos guerreiros, dos mais velhos aos recém-nascidos.

Na véspera da execução, ao amanhecer, o prisioneiro era banhado e depilado. Depois,


deixavam-no "fugir", apenas para recapturá-lo em seguida.

Mais tarde, o corpo da vítima era pintado de preto, untado de mel e recoberto por
plumas e cascas de ovos. Ao pôr-do-sol iniciava-se uma grande beberagem de cauim
-um fermentado de mandioca.

No dia seguinte, pela manhã, o carrasco avançava pelo pátio, dançando e revirando os
olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: "Não pertences ã nação... (tal ou
qual), nossa inimiga? Não mataste e devoraste, tu mesmo, nossos parentes?” Altiva, a
vítima respondia: ”Sim, sou muito valente, matei e devorei muitos...” Replicava então o
executor:” Agora estás em nosso poder; logo serás morto por mim e devorado por
todos". Para a vítima, aquele era um momento glorioso, já que os índios brasileiros
consideravam o estômago do inimigo a sepultura ideal.

O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca da vítima. Velhas recolhiam,


numa cuia, o sangue e os miolos: o sangue devia ser bebido ainda quente. A seguir, o
cadáver era assado e escaldado, para permitir a raspagem da pele. Introduzia-se um
bastão no orifício retal, para impedir a excreção.
Os membros eram esquartejados e, depois de feita uma incisão na barriga do cadáver, as
crianças eram convidadas a devorar os intestinos. A seguir, retalhava-se o tronco, pelo
dorso. Língua e miolos eram destinados aos jovens.

Os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos sexuais. As mães
embebiam o bico dos seios em sangue e amamentavam os bebês. As crianças eram
encorajadas a besuntar as mãos no sangue vertente e celebrar a consumação da
vingança.

Os ossos do morto eram preservados: o crânio, fincado numa estaca, ficava exposto em
frente da casa do vencedor; os dentes eram usados como colar e as tíbias
transformavam-se em flautas e apitos.

A População Nativa

Jamais se saberá com certeza, mas quando os portugueses chegaram à Bahia os índios
brasileiros somavam mais de 2 milhões – quase três, segundo alguns autores.

Agora, dizimados por, gripe, sarampo e varíola, escravizados aos milhares e


exterminados pelas guerras tribais e pelo avanço da civilização, não passam de 325.632
– menos do que dois Maracanãs lotados... Ainda assim, são 215 nações e 170 línguas
diferentes.

As tribos mais ameaçadas de extinção são as xetás, do Paraná (restam apenas três
indivíduos), os junas do Amazonas (sete) e os avá-canoeiros (14, dos quais só seis
contados). As tribos mais numerosas são os ticunas (23 mil índios), os xavantes e os
caiapós.

A idade média dos índios brasileiros é 17,5 anos, porque mais da metade da população
tem menos de 15 anos.

A expectativa de vida é de 45,6 anos, e a mortalidade infantil é de 150 para cada mil
nascidos.

Existem pelo menos 50 grupos que jamais mantiveram contato com o homem branco,
41 dos quais sequer se sabe onde vivem, embora seu destino já pareça traçado: a
extinção.

Fonte: www.culturabrasil.org

Primeiros Habitantes do Brasil


Desde a época em que os primeiros europeus chegaram ao continente americano que a
pergunta sobre a origem dos povos aqui encontrados vem desafiando os pesquisadores e
muitas hipóteses já foram levantadas, mas ainda não há uma resposta satisfatória e
definitiva.
Há pontos, no entanto, já definidos, como o fato de que o homem não surgiu na
América, mas veio de fora e chegou aqui em época mais recente do que na Europa, por
meio de migrações sucessivas de povos de origem asiática.

Chegaram ao continente principalmente, através do Estreito de Bering que, na época da


última grande glaciação, quase juntava a Ásia com a América do Norte (região do atual
estado americano do Alasca).

Uma vez na América e com o passar do tempo, os novos habitantes foram-se


espalhando por todo o território, de norte a sul e já que o povoamento da América
ocorreu há milhares de anos, tanto as populações asiáticas que lhes deram origem como
os diferentes povos que aqui vivem atualmente já se modificaram muito desde então.

Em terras brasileiras, pelo menos até a década de 1970, os estudos arqueológicos,


paleontológicos e geológicos apontavam os vestígios humanos encontrados na região de
Lagoa Santa, Minas Gerais, como os mais antigos, datando de 8.000 anos atrás.

Entretanto, pesquisas mais recentes, realizadas no Piauí e na Bahia, recuaram ainda


mais esta datação, falando-se em 20.000 e até 40.000 anos de antigüidade do homem em
solo brasileiro.

Dizer quantos índios habitavam o Brasil na época do descobrimento é tarefa


praticamente impossível, pois o território brasileiro foi sendo conquistado aos poucos e
sua configuração atual é relativamente recente (do final do século passado).

Por outro lado, os europeus que aqui chegaram não tinham a preocupação de fazer um
censo da população encontrada. Há apenas vagas estimativas (fala-se em cerca de 5
milhões ou mais).

O fato é que, como resultado do contato com os povos que para cá imigraram nos
últimos cinco séculos, a população indígena decresceu muito desde então.

Hoje, o número de sociedades indígenas conhecidas existentes no Brasil é de 215, com


uma população total de 325.652 pessoas (dados de meados de 1997).

Além das mencionadas acima, ainda há sociedades indígenas isoladas, isto é, que não
mantêm contato com a sociedade brasileira, vivendo em regiões de difícil acesso e
procurando se manter afastadas, como forma de autodefesa.

A FUNAI mantêm Frentes de Contato (atualmente, em número de sete) para


desenvolver os trabalhos de aproximação pacífica com os índios isolados e procurar
protegê-los do contato repentino e direto com certas parcelas da população brasileira
(como garimpeiros, madeireiros, etc.), procurando minimizar o efeito pernicioso que
este tipo de contato pode trazer para as populações indígenas em geral, mas
especialmente para aquelas que se mantêm isoladas.

Existem informações de 55 possíveis grupos diferentes de índios isolados, a maioria


com localização na região da Amazônia Legal.
Na atualidade, a superfície total de terras indígenas é de 83.507.923 hectares,
distribuídos entre 556 áreas diferentes, espalhadas por todo o território nacional (dados
de meados de 1997).

Perfazem 9,81% do total do território brasileiro, mas ainda restam terras indígenas por
serem identificadas e regularizadas.

A maior parte da população indígena concentra-se na região amazônica.

Fonte: www.museudoindio.org.br

História dos Índios Brasileiros

A mera utilização – de resto inescapável... – da expressão “índios” para referirmo-nos a


esquimós, araucanos, comanches tupinambás e ianomâmis, entre outros povos distintos,
já constitui, em si, uma violência.

Seres humanos que se deslocaram para este continente, seja através da ponte de gelo
que existia entre a o estremo oriental do continente asiático e o estremo ocidental do
continente americano, ou seja, o Estreito de Bering, seja através de viagens sucessivas
em canoas através das ilhas Malaio-Polinésias, distanciam-se pelo menos quatrocentos
séculos da cultura européia.

Quarenta mil anos de distanciamento cultural durante os quais os povos destas terras
não aprenderam a mentir, por exemplo. Quarenta mil anos de superioridade moral.

Quarenta mil anos de inferioridade bélica. Massacrados num genocídio continental ao


longo de meio milênio...

Imagine uma civilização tecnologicamente avançada que invadisse o planeta Terra, mas
ou menos como naquele filme “Independence Day”.

Arrogantes, informariam às autoridades de seu planeta natal que “descobriram” uma


terra totalmente nova, a nossa Terra! Felizes com a beleza de nossas mulheres, a
abundância de nossas riquezas naturais passam a sistematicamente escravizar e tomar
concubinas entre nossas mães, irmãs, namoradas, filhas, esposas.

Os invasores passariam a nos impor as suas crenças religiosas desprezando as nossas


como inferiores, nos obrigariam a desmatar a Floresta Amazônica para levar nossa
madeira ao seu planeta natal, esvaziariam nossas reservas hídricas para levar água ao
seu planeta árido e outras atrocidades.

Como se não bastasse eles trariam consigo doenças terríveis, que matariam os
terráqueos em pouquíssimo tempo entre dores atrozes.

Doenças infecciosas para as quais eles teriam fortes resistências mas nós não...

Aqueles que resistissem seriam mortos simplesmente com suas pistolas de raios ou
armas ainda mais sofisticadas.
De toda a forma, todos concordam que o mais sensato num quadro assim é mesmo a
resistência ao invasor; para não ser saqueado, para não ter sua companheira estuprada,
suas terras ou empresas tomadas ou pior, para não ser escravizado ou morto., na melhor
das hipóteses, julgados em ritos sumaríssimos e condenados à morte de maneiras
atrozes.

Passam-se os anos. Nas escolas do conquistador ensina-se que há muito tempo


chegaram os civilizadores de um povo idólatra, que havia assassinado seu próprio deus
crucificado, que vivia em guerra por motivos banais, que pregava o valor da verdade
mas mentia sempre, que buscava a ética mas vivia imerso em corrupção, etc.

Trouxeram a civilização e a paz entre aqueles que guerreavam entre si. Não falavam que
o preço da tal paz havia sido o extermínio brutal da maioria, cultural ou fisicamente
suprimidos.

Fonte: www.culturabrasil.pro

No dia 19 de abril comemora-se, no Brasil (Decreto Lei n.5540, 2.6.1943), o Dia do


Índio. Segundo estudos antropológicos, a população pré-histórica do Brasil teve início
com a chegada de grupos humanos vindos da Ásia, através do Estreito de Bering e das
Ilhas Aleutas, e que ao aportarem no litoral brasileiro, mais propriamente nas terras da
Amazônia, encontraram clima e solo propícios para seu estilo de vida. Há também uma
corrente na qual a origem dos índios da América ou ameríndios não é só asiática, mas
também australiana e malaio-polinésia.

A definição que os antropólogos dão sobre o que vem a ser índio é: ser descendente
genealógico de uma comunidade silvícola de origem pré-histórica, possuir a cor
morena, olhos e cabelos pretos e lisos, estatura mediana baixa e aspectos fisionômicos
de mongóis. Essas características fortalecem a tese dos estudiosos de serem os
ameríndios originários de grupos imigrantes asiáticos, australianos ou malaio-
polinésios.
Com a descoberta do Brasil pelos portugueses no século XVI, e em decorrência da
colonização européia, dos conflitos e das doenças adquiridas pelo contato com os
homens brancos, muitos índios foram desagregados do seu habitat natural. Inclusive,
grande parte da população indígena foi reduzida em mais da metade, as tribos que
resistiram a estas transformações estão integradas direta ou indiretamente à sociedade, e
outra parte ainda vive isolada em regiões da Amazônia.

As tribos ou sociedades indígenas são classificadas através de afinidades lingüísticas,


como Tupi, Macro-Jê, Aruak, Karib, Tukâno, Pomo, Guaykuru, formando assim tribos
de determinados grupos lingüísticos, pertencentes ao mesmo tronco genealógico. Outra
forma de identificação das tribos se dá através dos aspectos culturais ou homogeneidade
de costumes existentes entre os grupos que habitam as diversas regiões geográficas do
Norte da Amazônia, Juruá-Purus, Guaporé, Tapajós, Madeira, Alto Xingu, Tocantins,
Xingu, Pindoré-Gurupi, Paraguai, Paraná, Tietê-Uruguai e as do Nordeste do Brasil.

Para garantir sua sobrevivência, os índios utilizam-se de recursos naturais bastante


rústicos como: a caça, a pesca, a agricultura rudimentar e as queimadas como forma de
fertilização do solo.

A sociedade indígena se organiza em aldeias que se diferenciam umas das outras pelo
formato das habitações: em formas circulares, estacas fincadas cobertas com folhas de
palmeiras e taperas de barro cobertas com palhas.

A expressividade cultural das comunidades indígenas, a crença e suas raízes ancestrais


são vistas através das práticas artesanais e rituais.

A arte indígena mistura-se à vida cotidiana das comunidades e suas práticas são
visualizadas através dos objetos utilitários, da cerâmica, dos trabalhos em madeira, da
pintura, da cestaria, da arte plumária, da pintura ritual dos corpos e dos adornos.

A mitologia e as lendas estão relacionadas aos seres encantados e sobrenaturais que


habitam as matas, os rios, igarapés, igapós, e protegem os animais. São histórias
narradas no seio da sociedade indígena que servem de doutrina para os membros da
comunidade. Dentre estas histórias de encantamento e lendas as mais conhecidas são:
Anhangá, O Boitatá, O Boto, O Caipora, O Cairara, A Cidade Encantada, O Curupira, A
Galinha Grande, O Guaraná, A Iara ou Uiara, O Lobisomem, A Mandioca, A Princesa
do Lago, O Saci Pererê, O Uirapuru, O Velho e o Bacurau, O Velho da Praia, A Vitória-
Régia, entre outras.

As manifestações folclóricas indígenas compreendem inúmeros rituais, sendo que o toré


e os toantes são festejos realizados com mais freqüência entre os índios, como motivo
de agradecimento, em casamentos, batizados, celebrações solenes aos visitantes da tribo
e personalidades importantes, e também quando eles querem reivindicar às autoridades
governamentais benefícios para sua tribo. Esses folguedos duram a noite toda, neles
tomando parte os homenageados, as mulheres "cantadeiras" e os "praiás", que são
dançadores que se fantasiam com máscaras, totens, colares e se pintam com tintas
coloridas. O Kaurup é também uma das festas mais tradiconais de algumas tribos do
Alto Xingu.

O TORÉ

É uma manifestação sociocultural comum a vários grupos indígenas das regiões Norte e
Nordeste do Brasil.

É dançado ao ar livre por homens e mulheres que, aos pares, formam um grande círculo
que gira em torno do centro. Cada par, ao acompanhar os movimentos, gira em torno de
si próprio, pisando fortemente o solo, marcando o ritmo da dança, acompanhado por
maracás, gaitas, totens e amuletos e pelo coro de vozes dos dançarinos, que declamam
versos de difícil compreensão, puxados pelo guia do grupo, no idioma da tribo.

É um ritual que expressa contentamento, sobre diferentes aspectos como: festas


religiosas, louvação aos encantados, recepção a personalidades ilustres,
confraternização, casamentos, batizados e outros. É uma forma de manter viva não
apenas a cultura, a magia e a mística da tribo, mas também da conquista do seu espaço e
a preservação de seus costumes e de sua identidade diante de muitas lutas durante toda a
história do Brasil.
O KAURUP
É uma das maiores festas tradicionais indígenas. Trata-se de uma reverência aos mortos,
representados por troncos de uma árvore sagrada chamada Kam´ywá. É uma cerimônia
dos índios do Alto Xingu, em Mato Grosso.

O Kaurup se incia sempre no sábado pela manhã. Os índios, com muita dança e canto,
colocam os troncos em frente ao local onde os corpos dos homenageados estão
enterrados. Os filhos, filhas, esposas e irmãos choram o ente perdido e enfeitam o
tronco que simboliza o espírito que se foi.

O tronco é pintado com tinta de jenipanpo e envolvido com faixas de linhas amarelas e
vermelhas. Sobre o tronco enfeitado são colocados objetos pessoais do homenageado
como: o cocar de penas de gavião, o colar feito de conchas, a faixa de miçangas usada
na cintura e outros objetos. Cada morto é representado por um tronco de árvore.

A cerimônia do Kaurup realiza-se, tradicionalmente, nos meses de agosto e setembro, os


mais secos do ano e que antecedem as grandes chuvas.

OS TOANTES
São as músicas sagradas dos índios cantadas durante os cerimoniais para invocar a
presença de um ou mais seres encantados. Possui uma alucinante monotonia que
hipnotiza e empolga os participantes.

São entoadas pelos cantadores ou cantadeiras e dançadas pelos praiás, índios dançadores
profissionais, que usam máscaras, roupas e pinturas rituais.

Estão presentes em todos os cerimoniais das tribos, sejam cerimoniais abertos, rituais
fechados ou particulares.

Existem diversos tipos de toantes: toantes das festas, que não possuem letra e os índios
apenas emitem sons vocalizados; toantes particulares, que possuem letras e falam a
respeito do encantado a que pertence e não podem ser assistido por estranhos; toantes de
cura, um tipo de música utilizada pelos pajés benzedeiros, quando são solicitados para a
cura de uma pessoa doente; são executados durante os rituais para invocar a presença de
um ou mais seres encantados que tenham o poder de cura.

FONTES CONSULTADAS:

ANDRADE, Heitor. A música encantada Pankararu. Recife: Ed. do Autor, 1999. 177 f.

BEZERRA, Ararê Marrocos; PAULA, Ana Maria T. Lendas e mitos da Amazônia. Rio
de Janeiro: Demec, 1985. 102 p.

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Lendas brasileiras. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, 1984.
166 p.
PANKARARU, Maria Edna. Contando e escrevendo suas histórias: professores
indígenas de Pernambuco. Recife: Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco,
1997. 51 p.

PERET, João Américo. População indígena do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira; Brasília: INL, 1975. 91 p.

Fonte: www.fundaj.gov.br

História dos Índios Brasileiros

O MUNDO RELIGIOSO DOS INDÍGENAS


AMERICANOS
Há mais de 20 mil anos (alguns falam em 50 mil) chegaram os primeiros habitantes do
continente americano. Eram mongóis aqui chegados cruzando o oceano Pacífico por via
marítima ou atravessando o estreito de Behring que, em épocas glaciais, unia a Ásia ao
Alasca.

Esses migrantes deram origem aos inúmeros povos pré-colombianos – só no Brasil 215
nações e 170 línguas –, com sua riqueza cultural e religiosa.

O mundo religioso dos indígenas “primitivos”

Assumimos o termo “primitivo” para indicar os indígenas caçadores, pescadores,


coletores, nômades e semi-nômades, distinguindo-os dos povos urbanizados astecas,
chibchas, maias e incas. Inicialmente, os primitivos habitantes da América do Sul se
concentraram nas áreas verdes das cabeceiras dos grandes rios e, aos poucos, se
espalharam pelo resto do continente.

Por serem nômades ou semi-nômades, os indígenas brasileiros não construíram templos


ou locais de culto. O mundo é seu templo.

São animistas: tudo tem alma, Deus está em tudo, na árvore, na pedra, no animal, nas
pessoas, no raio, no trovão, no riacho, na lagoa. Toda a natureza e seus fenômenos estão
povoados de espíritos. Não há lugar ou pessoa que não sejam sagrados, não há o
dualismo sagrado-profano.

Os xamãs, sacerdotes indígenas

O xamanismo é o elemento principal da religião dos indígenas nômades e que revela sua
proveniência asiática. Os antropólogos encontraram semelhanças impressionantes entre
o xamanismo americano e o da Austrália, África, Ásia e Europa.

O xamã é a figura central, mais conhecido como pajé, ao mesmo tempo sacerdote,
curandeiro, conselheiro, vidente, feiticeiro. Seu poder se manifesta em êxtases, através
de sonhos, alucinações, consumo de bebidas sagradas.

O xamã se crê capaz de curar doenças, agir sobre a fertilidade da terra e das plantas, a
fecundidade dos seres humanos e dos animais, aconselhar, modificar as condições
atmosféricas.

O xamã domina os espíritos com sua força inspirada, mostrando que podem ser
influenciados e assim tornarem-se favoráveis ao ser humano.

O xamã faz o indígena ultrapassar os sentidos e o conduz ao mundo das almas, das
forças sobrenaturais e lhe recorda a vida além da morte. Os xamãs-pajés exercem três
funções: profetas, curandeiros e vingadores.

Como profetas (premonitores), prevêm os acontecimentos, a chegada de estranhos, a


sorte das pessoas, a melhor ocasião para as guerras.

Como curandeiros, são especializados em receitar remédios da natureza, realizar rituais


de cura, atrair as bênçãos para os doentes. Os cientistas, que hoje buscam o segredo
medicinal de plantas, estão atrasados em relação aos indígenas, que conhecem o segredo
da natureza há séculos.

Como vingadores, aceitam trabalhos para destruir inimigos, fazer o mal a alguém,
aplicar feitiços.

Deus, o Ser supremo

Os indígenas acreditavam e acreditam num Deus supremo que recebe vários nomes,
conforme o povo.

Às vezes é identificado com o sol. Entre os povos agricultores, sob influência do


matriarcado, a lua ocupa lugar importante, sendo chamada de Avó ou Mãe do grande
Espírito. Muito rica e diversificada é a concepção do Ser supremo. Alguns exemplos:

É o grande Pai que criou o mundo e a primeira mulher (guaranis apapocuva);

É um Deus onisciente e herói civilizador que ensinou aos homens a caça e a agricultura
(tupis mundicuru);

É um Ser superior que criou o céu, a terra, os pássaros, os animais (tupinambás);


É um Ser superior do qual descendem três grandes divindades: Guaraci-o sol, criador
dos homens, Jaci-a lua, criadora dos vegetais, e Ruda-o amor, guerreiro que reside nas
nuvens (tupis);

É a Deusa-mãe, virgem, com cauda de serpente, símbolo do tempo e a raiz de todas as


coisas, não nasce nem morre, mas se renova eternamente (caraíba).

Não há um culto determinado para o Deus supremo, e muitas vezes é considerado


ocioso, retirado definitivamente do mundo, desinteressado das criaturas após a criação.

Há a crença em espíritos intermediários, heróis míticos, que intervém na vida dos


homens e do pajé. São filhos de Deus, em forma de pessoas, animais, astros, plantas,
fundadores dos costumes humanos, das rivalidades entre as tribos, heróis que ensinaram
a agricultura, a caça e a pesca. Podem estar do lado do homem ou serem seus inimigos.
O pajé tem autoridade para atrair sua benevolência.

Os indígenas são monoteístas, pois não confundem com Deus estes espíritos ou seres
intermediários, como pensavam os brancos conquistadores.

O ser humano no mundo indígena

A origem do ser humano, normalmente, não é atribuída ao Ser supremo. Geralmente é


visto como saído do caos primitivo, tanto como surgindo da terra, das cavernas, ou
criado por Deus mediante um animal, uma árvore ou terra amassada. Um herói
antepassado o colocou em terra firme e ensinou-lhe a organização social e os meios de
sobrevivência.

O homem é visto como parte do mundo, vivendo a mesma vida dos outros seres. É
naturalmente feliz se vive segundo os costumes da tribo e em harmonia com a natureza.
É leal com quem lhe pode ser útil e inimigo de quem lhe estorva o caminho.

Todos os povos ameríndios acreditam na vida após a morte, na sobrevivência do


espírito. Esta realidade é explicada de três maneiras:

O destino da alma numa sobrevivência feliz;

A metempsicose, ou seja, a transformação da alma em outro ser;

A transmigração: o morto renasce em outro membro da tribo.

Após a morte, as almas não sobem aos céus, mas vivem na terra, nos lugares em que os
corpos foram enterrados.

Entre os canibais, o inimigo a ser devorado também era sagrado: comer suas vísceras,
beber seu sangue, era possuir sua alma. E o prisioneiro gostava de ser morto e comido,
pois para ele o estômago humano era o melhor lugar de repouso para um guerreiro.

As práticas funerárias são diversificadas de tribo a tribo. Os mortos podem ser


enterrados em posição fetal, ou numa cabana com seus bens. Na Amazônia era comum a
ingestão das cinzas do morto por parentes e amigos. Algumas tribos conservavam um
cadáver mumificado: tratava-se do primeiro chefe, a origem de sua história. Reverenciar
esta múmia significava retomar o fio da história.

Ritos religiosos

Nos povos entregues à caça e à pesca domina a figura do xamã-pajé, que estabelece o
contato entre as pessoas e o sobrenatural, e que age como profeta, conselheiro e
curandeiro. Existiram:

Sacrifícios humanos, com canibalismo nos povos de cultura agrícola (iroqueses,


aruaques, tupis).

Gritos de fecundidade: entre os de cultura agrária, havendo sacerdotes para a


organização do culto que obedece aos ciclos da natureza (pueblos).

Gritos agrícolas e de caça: incluem danças com sentido orgiástico e oferta de bebidas
inebriantes.

Gritos de iniciação ou de passagem: fundamentais na vida da tribo. Guiado por um


sábio, o jovem é introduzido na vida social e religiosa, aprende a sobreviver e são-lhe
revelados os segredos divinos.

Os ritos propriamente ditos muitas vezes se constituem de provas duríssimas e cruéis


(jejuns, flagelações, lacerações, etc.), para testar, de modo concreto, a resistência do
jovem que passará ao mundo adulto.

Grito do fumo: representa a comunicação com o mundo invisível e precede todo o ato
importante, como uma prece ritual. Os povos indígenas não usavam as plantas
alucinógenas como meio de fuga ou de evasão, mas como meio de comunicação com o
mundo espiritual, ganhando confiança para enfrentar a vida.

São as assim chamadas “plantas dos deuses”, como a ayahuasca, yagé, caapi, natem dos
povos amazônicos, cohoba dos ianomâmis, a coca dos aimarás). São servidas em
cachimbos de fumar ou pela absorção pelo nariz do pó obtido pela moedura do vegetal
ou como chá.
Danças: um componente inseparável dos povos nômades e semi-nômades. Elas são
realizadas para saudar os deuses e os astros e servem para comemorar todos os
acontecimentos sociais, como o casamento, a guerra, a morte. Cada ritmo tem um
significado próprio e invoca a proteção das divindades para a vida da tribo. Há danças
com máscaras, que representam os espíritos dos animais. É religiosidade e celebração da
vida.

O Eldorado - a terra-sem-males

No decorrer dos tempos, percebe-se a migração-peregrinação dos tupis-guaranis em


busca de uma terra sem males, um paraíso terrestre denominado pelo branco de
Eldorado. Cada vez que a situação se torna calamitosa, sob o comando de um pajé ou de
um profeta, empreendem a longa caminhada em busca desta terra-sem-mal.

É um lugar de abundância, onde o milho cresce sozinho e a flecha se dirige


automaticamente à caça. Terra livre, sem leis nem governantes.

É a plenitude da liberdade, que foi prejudicada pelo poder de uns sobre outros. A única
norma é caminhar adiante sem temor, no sentido de alcançar o objetivo.

Após 500 anos do “encontro” dos cristãos com os indígenas, permanece o


“desencontro”, fruto da incapacidade do europeu de dialogar com o diferente, de ver fé
verdadeira em quem ainda não chegou ao conhecimento de Jesus Cristo. A Igreja
primitiva conseguiu realizar esse encontro com o mundo greco-romano. A nós ainda
permanece o desafio, em parte realizado pelo esforço de generosos missionários.

Pe. José Artulino Besen

Fonte: www.pimenet.org.br

PRINCIPIO E ORIGEM DOS ÍNDIOS DO BRASIL E


DE SEUS COSTUMES, ADORAÇÃO E
CEREMONIAS
Este gentio parece que não tem conhecimento do principio do Mundo, do dilúvio parece
que tem alguma noticia, mas como não tem escripturas, nem caracteres, a tal noticia é
escura e confusa; porque dizem que as aguas afogarão e matarão todos os homens, e que
somente um escapou em riba de um Janipaba, com uma sua irmã que estava prenhe, e
que estes dois têm seu principio, e que dali começou sua multiplicação.

DO CONHECIMENTO QUE TEM DO CREADOR

Este gentio não tem conhecimento algum de seu Creador, nem de cousa do Céo, nem se
ha pena nem gloria depois desta vida, e portanto não tem adoração nenhuma nem
ceremonias, ou culto divino, mas sabem que têm alma e que esta não morre 1 e depois
da morte vão a uns campos onde ha muitas figueiras ao longo de um formoso rio, e
todas juntas não fazem outra cousa senão bailar; e têm grande medo do demônio, ao
qual chamam Curupira, Taguaigba 2, Macachera, Anhanga, e é tanto o medo que lhe
têm, que só de imaginarem nelle morrem, como aconteceu já muitas vezes; não no
adorão, nem a alguma outra creatura, nem têm ídolos de nenhuma sorte, somente dizem
alguns antigos que em alguns caminhos têm certos postos, aonde lhe offerecem algumas
cousas pelo medo que têm delles, e por não morrerem. Algumas vezes lhe apparecem os
diabos, ainda que raramente, e entre elles ha poucos endemoniados.

Usão de alguns feitiços, e feiticeiros, não porque creião nelles, nem osadorem, mas
somente se dão a chupar em suas enfermidades, parecendolhes que receberão saúde,
mas não por lhes parecer que ha nelles divindade, e mais o fazem por receber saúde que
por outro algum respeito. Entre elles se alevantarão algumas vezes alguns feiticeiros, a
que chamão Caraiba, Santo ou Santidade, e é de ordinário algum índio de ruim vida:
este faz algumas feitiçarias, e cousas estranhas á natureza, como mostrar que ressuscita
a algum vivo que se faz morto, e com esta e outras cousas similhantes traz após si todo
o sertão enganandoos dizendolhes que não rocem, nem

1 "And they say that the soules are converted into devils." (Purchas, IV, 12891290). 2
Taguain, Pigtangua (Purchas, ib.) Knivet dá ainda outro nome do diabo, que é Avasaly
em Purchas e Avassaty na tradução portuguesa do dr. José Hygino Duarte Pereira, na
Revista do Instituto Histórico, tomo XLI, parte 1a, p. 230.

plantem seus legumes, e mantimentos, nem cavem, nem trabalhem, etc, por que com sua
vinda é chegado o tempo em que as enxadas por si hão de cavar, e os pânicas 3 ir ás
roças e trazer os mantimentos, e com esta falsidade os traz tão embebidos, e encantados,
deixando de olhar por suas vidas, e grangear os mantimentos que, morrendo de pura
fome, se vão estes ajuntamentos desfazendo pouco a pouco, até que a Santidade fica só,
ou a matão.

Não têm nome próprio com que expliquem a Deus, mas dizem que Tupã é o que faz os
trovões 4 e relâmpagos, e que este é o que lhes deu as enxadas, e mantimentos, e por
não terem outro nome mais próprio e natural, chamão a Deus Tupã.

DOS CASAMENTOS

Entre elles ha casamentos, porém ha muita duvida se são verdadeiros, assim por terem
muitas mulheres, como pelas deixarem facilmente por qualquer arrufo, ou outra
desgraça, que entre elles aconteça; mas, ou verdadeiros ou não, entre elles se fazião
deste modo. Nenhum mancebo se acostumava casar antes de tomar contrario, e
perseverava virgem até que o tomasse e matasse correndolhe primeiro suas festas por
espaço de dous ou três annos; a mulher da mesma maneira não conhecia homem até lhe
não vir sua regra, depois da qual lhe fazião grandes festas; ao tempo de lhe entregarem a
mulher fazião grandes vinhos, e acabada a festa ficava o casamento perfeito, dandolhe
uma rede lavada 5, e depois de casados começavão a beber, porque até ali não o
consentião seus pais, ensinandoos que bebessem com tento, e fossem considerados e
prudentes em seu falar, para que o vinho lhe não fizesse mal, nem falassem cousas
ruins, e então com uma cuya lhe davão os velhos antigos o primeiro vinho, e lhe tinhão
a mão na cabeça para que não arrevessassem, porque se arrevessava tinhão para si que
não seria valente, e viceversa.
DO MUNDO QUE TÊM EM SEU COMMER E BEBER

Este gentio come em todo o tempo, de noite e de dia, e a cada hora e momento, e como
tem que comer não o guardão muito.tempo, mas logo comem tudo o que têm e repartem
com seus amigos, de modo que de um peixe que tenhão repartem com todos, e têm por
grande honra e primor serem liberaes, e por isso cobrão muita fama e honra, e a peior
injuria que lhes podem fazer é teremnos por escassos, ou chamaremlho, e quando não
têm que comer são muito soffridos com fome e sede.

3 Beasts. (Purchas, ib.)

4 "They say Tupan is the thunder and lightning". (Purchas, ib.)

5 "And afhey they were laid, the father tooke e a wedge of stone and did cut upon a post
or stake, then they say hee did cut the talles from the grand children and therefore they
were borne without them". (Purchas, ib.)

Não têm dias em que comão carne e peixe; comem todo gênero de carnes, ainda de
animaes immundos, como cobras, sapos, ratos, e outros bichos similhantes, e também
comem todo gênero de fructas, tirando algumas peçonhentas, e sua sustentação é
ordinariamente do que dá a terra sem a cultivarem, como caças e fructas; porém têm
certo gênero de mantimentos de boa substancia, e sadio, e outros muitos legumes de que
abaixo se fará menção. De ordinário não bebem emquanto comem, mas depois de comer
bebem água, ou vinho que fazem de muitos gêneros de fructas e raizes, como abaixo se
dirá, do qual bebem sem regra, nem modo e até caírem.

Têm alguns dias particulares em que fazem grandes festas, todas se resolvem em beber,
e durão dous, três dias, em os quaes não comem, mas somente bebem6, e para estes
beberes serem mais festejados andão alguns cantando de casa em casa, chamando e
convidando quantos achão para beberem 7, e revesandose continuao estes bailos e
musica todo o tempo dos vinhos, em o qual tempo não dormem, mas tudo se vae em
beber, e de bêbados fazem muitos desmanchos, e quebrão as cabeças uns aos outros, e
tomão as mulheres alheias, etc. Antes de comer nem depois não dão graças a Deus, nem
lavão as mãos antes de comer, e depois de comer as alimpão aos cabellos, corpo e paus;
não têm toalhas, nem mesa, comem assentados, ou deitados nas redes, ou em cocaras no
chão, e a farinha comem de arremesso, e deixo outras muitas particularidades que têm
no comer e beber, porque estas são as principaes.

DO MODO QUE TÊM EM DORMIR

Todo este gentio tem por cama umas redes de algodão, e ficão nellas dormindo no ar;
estas fazem lavradas, e como no ar, e não tem outros cobertores nem roupa, sempre no
verão e inverno tem fogo debaixo: não madrugão muito, agazalhãose com cedo, e pelas
madrugadas ha uni principal em suas ocas 8 que deitado na rede por espaço de meia
hora lhes prega, e admoesta que vão trabalhar como fizerão seus antepassados, e
destribuelhes o tempo, dizendolhes as cousas que hão de fazer, e depois de alevantado
continua a pregação, correndo a povoação toda. Tomarão este modo de um pássaro que
se parece com os falcões o qual canta de madrugada e lhe chamam rei, senhor dos
outros pássaros, e dizem elles que assim como aquelle pássaro canta de madrugada para
ser ouvido dos outros, assim convém que os principaes facão aquellas falas e pregações
de madrugada para serem ouvidos dos seus.

6 "And there be men that emptie e whole vessel of wine". (Purchas, ib.)

7 "And be merrie." (Purchas, ib.)

8 Faltam estas palavras em Purchas.

DO MODO QUE TÊM EM SE VESTIR

Todos andam nus assim homens como mulheres, e não têm gênero nenhum de vestido e
por nenhum caso verecundant, antes parece que estão no estado de innocencia nesta
parte, pela grande honestidade e modéstia que entre si guardão, e quando algum homem
fala com mulher viralhe as costas. Porém para sairem galantes, usão de varias
invenções, tingindo seus corpos com certo sumo de uma arvore 9 com que ficam pretos,
dando muitos riscos pelo corpo, braços, etc, a modo de imperiaes 10.

Também se empennão, fazendo diademas e bracelletes, e outras invenções muito


lustrosas, e fazem muito caso de todo gênero de pennas finas. Não deixão crear cabello
nas partes de seu corpo, porque todos os arrancão, somente osda cabeça deixão, os
quaes tosquião de muitas maneiras, porque uns o trazem comprido com uma meia lua
rapada por diante, que dizem tomarão este modo de S. Thomé, e parece que tiverão
delle alguma noticia, ainda que confusa. Outros fazem certo gênero de coroas e círculos
que parecem frades: as mulheres todas têm cabellos compridos e de ordinario pretos, e
de uns e outros é o cabello corredio; quando andão anojados deixão crescer o cabello, e
as mulheres quando andão de dó, cortão os cabellos, e também quando os maridos vão
longe, e nisto mostrão teremlhe amor e guardaremlhe lealdade; é tanta a variedade 11
que têm em se tosquiarem, que pela cabeça se conhecem as nações.

Agora já andão alguns vestidos, assim homens como mulheres, mas estimãono tão
pouco que o não trazem por honestidade, mas por ceremonia, e porque lho mandão
trazer, como se vê bem, pois alguns saem de quando em quando com umas jornes que
lhes dão pelo umbigo sem mais nada, e outros somente com uma carapuça na cabeça, e
o mais vestido deixão em casa: as mulheres fazem muito caso de fitas e pentes.

DAS CASAS

Usão estes Índios de umas ocas ou cascas de madeira cobertas de folha 12, e são de
comprimento algumas de duzentos e trezentos palmos, e têm duas e três portas muito
pequenas e baixas; mostrão sua valentia em buscarem madeira e esteios muito grossos e
de dura, e ha casa que tem cincoenta, sessenta ou setenta lanços de 25 ou 30 palmos13
de comprido e outros tantos de largo.

Nesta casa mora um principal, ou mais, a que todos obedecem, e são de ordinário
parentes; e em cada lanço destes pousa um casal com seus filhos e familia, sem haver
repartimento entre uns e outros, e entrar em uma destas casas é ver 14 um lavarinto,
porque cada lanço tem seu fogo e suas redes armadas, e alfaias, de modo que entrando
nella sé vê tudo quanto tem, e casa ha que tem duzentas e mais pessoas.
9 "Of certaine fruite". (Purchas, ib.)

10 "Many white stroakes, after the fashion of round hose, and other kinde of garments".
(Purchas, ib.)

11 Vanitie. (Purchas, ib)

12 Palme tree leaues. (Purchas, ib.)

13 Quarters. (Purchas, ib.)

14 To enter. (Purchas, ib.)

DA CREAÇÃO DOS FILHOS

As mulheres parindo, (e parem no chão), não levantão a creança, mas levantaa o pai, ou
alguma pessoa que tomão por seu compadre, e na amizade ficão como os compadres
entre os Christãos;o pai lhe corta a vide com os dentes,ou com duas pedras, dando com
uma na outra, e logo se põe a jejuar até que lhe cae o umbigo, que é de ordinário até os
oito dias, e até que não lhe caia não deixam o jejum, e em lhe caindo, se é macho lhe faz
um arco com frechas, e lho ata no punho da rede, e no outro punho muitos molhos
d’ervas, que são os contrários que seu filho ha de matar e comer, e acabadas estas
ceremonias fazem vinhos com que alegrão todos. As mulheres quando parem logo se
vão lavar aos rios, e dão de mamar á creança de ordinário anno e meio, sem lhe darem
de comer outra cousa; amão os filhos extraordinariamente, e trazemnos mettidos nuns
pedaços de redes que chamão typoya 15 e os levão às roças e a todo o gênero de
serviço, às costas, por frios e calmas, e trazemnos como ciganas escanchados no quadril,
e não lhes dão nenhum gênero de castigo 16 . Para lhes não chamarem os filhos 17 têm
muitos agouros, porque lhe põem algodão sobre a cabeça, penna de pássaros e paus,
deitãonos sobre as palmas das mãos, e roçãonos por ellas para que creção. Estimão mais
fazerem bem aos filhos que a si próprios, e agora estimão muito e amão os padres,
porque lh’os crião e ensinão a ier, escrever e contar, cantar e tanger, cousas que elles
muito estimão.

DO COSTUME QUE TÊM EM AGASALHAR OS HOSPEDES

Entrandolhe algum hospede pela casa a honra e agazalho que lhe fazem é choraremno:
entrando, pois, logo o hospede na casa o assentão na rede, e depois de assentado, sem
lhe falarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentam ao redor, com os cabellos
baixos, tocando com a mão na mesma pessoa, e começão a chorar todas em altas vozes,
com grande abundância de lagrimas, e ali contão em prosas trovadas quantas cousas têm
acontecido desde que se não virão até aquella hora, e outras muitas que imaginão, e
trabalhos que o hospede padeceu pelo caminho, e tudo o mais que pôde provocar a
lastima e choro. O hospede neste tempo não fala palavra, mas depois de chorarem por
bom espaço de tempo limpão as lagrimas, e ficão tão quietas, modestas, serenas e
alegres que parece nunca chorarão, e logo se saudão, e dão o seu Ereiupe ‘ !s, e lhe
trazem de comer, etc; e depois destas cerimonias contão os hospedes ao que vêm.
Também os homens se chorão uns aos outros, mas é em casos alguns graves, como
mortes, desastres de guerras, etc; têm por grande honra agazalharem a todos e daremlhe
todo o necessário para sua sustentação, ealgumas
15 Tupyia. (Purchas, ib.)

16 "That their children may not crie". (Purchas, ib.)

17 Faltam estas palavras em Purchas.

18 Or welcome. (Purchas, IV, p. 1.292).

peças, como arcos, frechas, pássaros, pennas e outras cousas, conforme a sua pobreza,
sem algum gênero de estipendio.

DO COSTUME QUE TÊM EM BEBER FUMO

Costumão estes gentios beber fumo de petigma por, outro nome erva santa; esta seção e
fazem de uma folha de palma uma canguera, que fica como canudo de canna cheio desta
herva, e pondolhe o fogo na ponta metem o mais grosso na boca, e assim estão
chupando e bebendo aquelle fumo, e o têm por grande mimo e regallo, e deitados em
suas redes gastão em tomar estas fumaças parte dos dias e das noites. A alguns faz muito
mal, e os atordoa e embebeda; a outros faz bem e lhes faz deitar muitas reimas pela
boca. As mulheres também o bebem, mas são as velhas e enfermas, porque é elle muito
medicinal, principalmente para os doentes de asthma, cabeça ou estômago, e daqui vem
grande parte dos Portuguezes beberem este fumo, e o têm por vicio, ou por preguiça, e
imitando os índios gastão nisso dias e noites.

DO MODO QUE TÊM EM FAZER SUAS ROÇ ARIAS E COMO PAGÃO UNS
AOS OUTROS

Esta nação não tem dinheiro com que possão satisfazer aos serviços que lhes fazem,
mas vivem comutatione rerum e principalmente a troco de vinho fazem quanto querem,
assim quando hão de fazer algumas cousas, fazem vinho e avisando os visinhos, e
apelidando toda a povoação lhes rogão os queirão ajudar em suas roças, o que fazem de
boa vontade, e trabalhando até as 10 horas tornão para suas casas a beber os vinhos, e se
aquelle dia se não acabam as roçarias, fazem outros vinhos e vão outro dia até as 10
horas acabar seu serviço; e deste modo usão os brancos prudentes19, e que sabem a arte
e maneira dos índios, e quanto fazem por vinho, por onde lhes mandão fazer vinhos, e
os chamão às suas roças e canaveaes, e com isto lhes pagão.

Também usão de ordinário, por troco de algumas cousas 20, de contas brancas que se
fazem de búzios, e a troco de alguns ramaes dão até as mulheres, e este é o resgate
ordinário de que usão os brancos para lhes comprarem os escravos e escravas que têm
para comer.

DAS JÓIAS E METARAS

Usão estes índios ordinariamente, principalmente nas festas que fazem, de colares de
búzios, de diademas de pennas e de umas metaras 21 (pedras que metem no beiço de
baixo) verdes, brancas, azues, muitas finas e que parecem esmeraldas ou cristal, são
redondas e algumas tão compridas que lhe dão pelos peitos, e ordinário

19 Or Portugal. (Purchas, ib.)


20 To change some things for. (Purchas, ib.)

21 Broaches. (Purchas, ib.)

é em os grandes principaes terem um palmo e mais de comprimento: também usão de


maniihas brancas dos mesmos búzios, e nas orelhas metem umas pedras brancas de
comprimento de um palmo e mais, e estes outros similhantes são os arreios com que se
vestem em suas festas, quer sejão em matanças dos contrários, quer de vinhos, e estas
são as riquezas que mais estimão que quanto têm.

DO TRATAMENTO QUE FAZEM ÁS MULHERES E COMO AS ESCUDEIRÃO

Costumão estes Indios tratar bem ás mulheres, nem lhes dão nunca, nem pelejão com ei
Ias, tirando em tempo de vinhos, porque então de ordinario se vingão deilas, dando por
desculpa depois o vinho que beberão e logo f icão amigos como dantes, e não durão
muito os ódios entre elles, sempre andão juntos e quando vão fora a mulher vai de traz e
o marido diante para que se acontecer alguma cilada não caia a mulher nella, e tenha
tempo para fugir emquanto o marido peleja com o contrario, etc, mas á tornada da roça
ou qualquer outra parte vem a mulher diante, e o marido de traz, porque como tenha já
tudo seguro, se acontecer algum desastre possa a mulher que vai diante fugir para casa,
e o marido ficar com os contrários, ou qualquer outra cousa. Porem em terra segura ou
dentro na povoação sempre a mulher vai diante, e o marido de traz, porque são ciosos e
querem sempre ver a mulher.

DOS SEUS BAILOS E CANTOS

Ainda que são malencolicos, têm seus jogos, principalmente os meninos, muito vários e
graciosos, em os quaes arremedão muitos gêneros de pássaros, e com tanta festa e
ordem que não ha mais que pedir, e os meninos são alegres e dados a folgar e folgão
com muita quietaçáo e amizade, que entre elles não se ouvem nomes ruins, nem pulhas,
nem chamarem nomes aos pais e mães, e raramente quando jogão se desconcertão, nem
desavêm por causa alguma, e raramente dão uns nos outros, nem pelejão; de pequeninos
os ensinão os pais a bailar e cantar e os seus bailos não são differenças de mudança, mas
é um continuo bater de pés estando quedos, ou andando ao redor e meneando o corpo e
cabeça, e tudo fazem por tal compasso :2, com tanta serenidade, ao som de um cascavel
feito ao modo dos que usão os meninos em Espanha, com muitas pedrinhas dentro ou
umas certas sementes de que também fazem muito boas contas, e assim bailão cantando
juntamente, porque não fazem uma cousa sem outra, e têm tal compasso e ordem, que às
vezes cem homens bailando e cantando em carreira, enfiando uns detraz dos outros,
acabão todos juntamente uma pancada, como se estivessem todos em um lugar; são
muito estimados entre elles os cantores, assim homens como mulheres, em tanto que se
to mão um contrario bom cantor e inventor de trovas, por isso lhe dão a vida e não no
comem nem aos filhos. As mulheres bailão juntamente com os homens, e fazem com os
braços e corpo grandes gatimanhas e momos, principalmente quando bailão sós.
Guardão

22 And pleasantnesse as can be desired. (Purchas, IV, p. 1.293)

entre si diferenças da vozes em sua consonância, e de ordinário as mulheres levão os


tiples, contraltos e tenores.
DOS SEUS ENTERRAMENTOS

São muito mavíosos 23 e principalmente em chorar os mortos, e logo como algum


morre os parentes se lanção sobre elle na rede e tão depressa que ás vezes os afogão
antes de morrer, parecendolhes que está morto, e os que se não podem deitar com o
morto na rede se deitão pelo chão dando grandes baques, que parece milagre não
acabarem com o mesmo morto, e destes baques e choros ficão tão cortados que às vezes
morrem. Quando chorão dizem muitas lastimas e magoas, e se morre a primeira noite
24, toda ella em peso chorão em alta voz, que é espanto não cançarem.

Para estas mortes e choros chamão os vizinhos e parentes, e se é principal, ajuntase toda
a aldeia a chorar, e nisto têm também seus pontos de honra, e aos que não chorão lanção
pragas, dizendo que não hão de ser chorados: depois de morto o lavão, e pintao muito
galante, como pintão os contrários, e depois o cobrem de fio de algodão que não lhe
parece nada, e lhe metem uma cuya 25 no rosto, e assentado o metem em um pote que
para isso têm debaixo da terra, e o cobrem de terra, fazendolhe uma casa, aonde todos
os dias lhe levão de comer, porque dizem que como cança de bailar, vem ali comer, e
assi os vão chorar por algum tempo todos os dias seus parentes, e com elle metem todas
as suas jóias e metaras 26, para que as não veja ninguém, nem se lastime; mas o defunto
tinha alguma peça, como espada, etc, que lhe havião dado, torna a ficar do que lha deu,
e a torna a tomar onde quer que a acha, porque dizem que como um morre perde todo o
direito do que lhe tinhão dado. Depois de enterrado o defunto os parentes estão em
continuo pranto de noite e de dia, começando uns, e acabando outros; não comem senão
de noite, armão as redes junto dos telhados, e as mulheres ao segundo 27 dia cortão os
cabellos, e dura este pranto toda uma lua, a qual acabada fazem grandes vinhos para
tirarem o dó, e os machos se tosquião, e as mulheres se enfeitão tingindose de preto, e
estas ceremonias e outras acabadas, começão a communicar uns com os outros, assim
homens como as mulheres; depois de lhes morrerem seus companheiros, algumas vezes,
não tornam a casar, nem entrão em festas de vinhos, nem se tingem de preto, porém isto
é raro entre elles, por serem muito dados a mulheres, e não podem viver sem ellas.

23 Wicked. (Purchas, ib.)

24 At avening. (Purchas, ib.)

25 Couering. (Purchas, ib.)

26 Broaches. (Purchas. ib.)

27 After twentie daies. (Purchas, ib.)

DAS FERRAMENTAS DE QUE USÃO

Antes de terem conhecimento dos Portuguezes usavão de ferramentas e instrumentos de


pedra, osso, pau, cannas, dentes de animal, etc, e com estes derrubava grandes matos
com cunhas de pedra, ajudandose do fogo; assim mesmo cavavão a terra com uns paus
agudos e faziam suas metaras 28, contas de búzios, arcos e flechas tão bem feitos como
agora fazem, tendo instrumentos de ferro, porém gastavão muito tempo a fazer qualquer
cousa, pelo que estimão muito o ferro pela facilidade que sentem em fazer suas cousas
com elle, e esta é a razão porque folgão com a communicação dos brancos 29.
DAS ARMAS DE QUE USÃO

As armas deste gentio o ordinário são arcos e frechas e delles se honrão muito, e os
fazem de boas madeiras, e muito galantes, tecidos com palma de varias cores, e lhes
tingem as cordas de verde ou vermelho, e as frechas fazem muito galantes, buscando
para ellas as mais formosas pennas que achão; fazem estas frechas de varias cannas, e
na ponta lhes metem dentes de animaes ou umas certas cannas muito duras e cruéis, ou
uns paus agudos com muitas farpas, e ás vezes as ervas com peçonha.

Estas frechas ao parecer, parece cousa se zombaria, porém é arma cruel; passão umas
couraças de algodão, e dando em qualquer pau o abrem pelo meio, e acontece passarem
um homem de parte a parte, e ir pregar no chão: exercitãose de muito pequenos nestas
armas, e são grandes frecheiros e tão certeiros que lhes não escapa passarinho por
pequeno que seja, nem bicho do mato, e não tem mais que quererem meter uma frecha
por um olho de um pássaro, ou de um homem, ou darem em qualquer outra cousa, por
pequena que seja, que o não facão muito ao seu alvo, e por isso são muito temidos, e tão
intrépidos e ferozes que mete espanto. São como bichos do mato, porque entrão pelo
sertão a caçar despidos e descalços sem medo nem temor algum.

Vêem sobre maneira, porque á légua enxergão qualquer cousa, e da mesma maneira
ouvem; atinão muito; regendose pelo sol, vão a todas as partes que querem, duzentas e
trezentas léguas, por matos espessos sem errar ponto, andão muito, e sempre, de galope,
e principalmente com cargas, nenhum a cavalo os pôde alcançar: são grandes
pescadores e nadadores, nem temem mar, nem ondas, e aturão um dia e noite nadando, e
o mesmo fazem remando e ás vezes sem comer.

Também usão por armas de espadas de pau, e os cabos dellas tecem de palma de varias
cores e os empennao com pennas de varias cores, principalmente em suas festas e
matanças: estas espadas são cruéis, porque não dão ferida, mas pisão e quebrão a cabeça
de um homem sem haver remédio de cura.

28 Broaches. (Purchas, ib.)

29 The Portuyais. (Purchas, ib.)

30 And of their creating Gentlemen. (Purchas, IV, p. 1.294

DO MODO QUE ESTE GENTIO TEM ACERCA DE MATAR E COMER


CARNE HUMANA 30

De todas a honras e gostos da vida, nenhum é tamanho para este gentio como matar e
tomar nomes nas cabeças de seu contrários, nem entre elles ha festas que cheguem ás
que fazem na morte dos que matão com grandes ceremonias, as quaes fazem desta
maneira. Os que tomados na guerra vivos são destinados a matar, vêm logo de lá com
um signal, que é uma cordinha delgada ao pescoço, e se é homem que pôde fugir traz
uma mão atada ao pecoço debaixo da barba, e antes de entrar na povoações que ha pelo
caminho os enf eitão, depennandolhes as pestanas e sobrancelhas e barbas, tosquiandoos
ao seu modo, e empennandoos com pennas amarellas tão bem assentadas que lhes não
apparece cabello: as quaes os fazem tão lustrosos como aos Espanhoes os seus vestidos
ricos, e assim vão mostrando sua victoria por onde quer que passão. Chegando á sua
terra, o saiem a receber as mulheres gritando e juntamente dando palmadas na boca, que
é recebimento commum entre elles, e sem mais outra vexação ou prisão, salvo que lhes
tecem no pescoço um colar redondo como corda de boa grossura, tão dura como pau, e
neste colar começão de urdir grande numero de braças de corda delgada de
comprimento de cabellos de mulher, arrematada em cima com certa volta, e solta em
baixo, e assim vai toda de orelha a orelha por detraz das costas e ficão com esta coleira
uma horrenda cousa; e se é fronteiro e pôde fugir, lhe põem em lugar de grilhões por
baixo dos giolhos uma pea de fio de tecido muito apertada, a qual para qualquer faca
fica fraca, se não fossem as guardas que nenhum momento se apartão delle, quer vá
pelas casas, quer para o mato, ou ande pelo terreiro, que para tudo tem liberdade, e
commumente a guarda é uma que lhe dão por mulher, e também para lhe fazer de
comer, o qual se seus senhores lhe nao dão de comer, como é costume, toma um arco e
frecha e atira á primeira galinha ou pato que vê, de quem quer que seja, e ninguém lhe
vai á mão, e assim vai engordando, sem por isso perder o somno, nem o rir e folgar
como os outros, e algunsandão tão contentes com haverem de ser comidos, que por
nenhuma via consentirão ser resgatados para servir, porque dizem que é triste cousa
morrer, e ser fedorento e comido de bichos. Estas mulheres são commumente nesta
guarda fieis, porque lhes fica em honra, e por isso são muitas vezes moças e filhas de
príncipe, maxime se seus irmãos hão de ser os matadores, porque as que não têm estas
obrigações muitas vezes se afeiçoão a elles de maneira que não somente lhes dão azo
para fugirem, mas também se vão com elles; nem ellas correm menos riscos se as tornão
a tomar que de levarem umas poucas de pancadas, e ás vezes são comidas dos mesmos a
quem derão a vida.

Determinado o tempo em que ha de morrer, começam as mulheres a fazer louça, a


saber: panellas, alguidares, potes para os vinhos, tão grandes que cada um levará uma
pipa; isto prestes, assim os principaes como os outros mandão seus mensageiros a
convidar outros de diversas partes para tal lua, até dez, doze léguas e mais, para o qual
ninguém se excusa. Os hospedes vêm em magotes com mulheres e filhos, e todos entrão
no lugar com. danças e bailos, e em todo o tempo em que se junta a gente, ha vinho para
os hospedes, porque sem elle todo o mais agazalhado não presta; a gente junta, começão
as festas alguns dias antes^onforme ao numero, e certas cerimonias que precedem, e
cada uma gasta um dia.

Primeiramente têm elles para isto umas cordas de algodão de arrazoada grossura, não
torcidas, se não tecidas de um certo lavor galante; é cousa entre elles de muito preço, e
não nas têm senão alguns principaes, e segundo ei Ias são primas, bem feitas, e elles
vagorosos 31, é de crer que nem em um anno se fazem: estas estão sempre muito
guardadas, e levãose ao terreiro com grande festa e alvoroço dentro de uns alguidares,
onde lhes dá um mestre disto dous nós, por dentro dos quaes com força corre uma das
pontas de maneira que lhes fica bem no meio um laço; estes nós são galantes e
artificiosos, que poucos se achão que os saibão fazer, porque têm algumas dez voltas e
as cinco vão por cima das outras cinco, como se um atravessasse os dedos da mão
direita por cima dos da esquerda, e depois a tingem com um polme de um barro branco
como cal e deixãonas enxugar.

O segundo dia trazem muito feixes de cannas bravas de comprimento de lanças e mais,
e á noite poemnos em roda em pé, com as pontas para cima, encostados uns nos outros,
e pondolhes ao fogo ao pé se faz uma formosa e alta fogueira, ao redor da qual andão
bailando homens e mulheres com maços de frechas ao hombro, mas andão muito
depressa, porque o morto que ha de ser, que os vê melhor do que é visto por causa do
fogo, atira com quanto acha, e quem leva, leva, e com o são muitos, poucas vezes erra.

Ao terceiro dia fazem uma dança de homens e mulheres, todos com gaitas de cannas e
batem todos á uma no chão ora com um pé, ora com outro, sem discreparem, juntamente
e ao mesmo compasso assoprão os canudos, e não ha outro cantar nem falar, e como são
muitos e as cannas umas mais grossas, outras menos, além de atroarem os matos, fazem
uma harmonia que parece musica do inferno, mas elles aturão nellas como se fossem as
mais suaves do mundo; e estas são suas festas, afora outras que entremeiem com muitas
graças e adivinhações.

31 Their taking pleasure. (Purchas, IV, p. 1.295)

Ao quarto dia, em rompendo a alva, levão o contrário a lavar a um rio, e vãose detendo
para que, quando tornarem, seja já dia claro, e entrando pela aldea, o preso vai já com
olho sobre o hombro, porque não sabe de que casa ou porta lhe ha de sair um valente
que o ha de aterrar por detraz, porque, como toda sua bemaventurança consiste em
morrer como valente, e a ceremonia que se segue é já das mais propinquas á morte,
assim como o que ha de aterrar mostra suas forças em só elle o subjugar sem ajuda de
outrem, assim elle quer mostrar animo e forças em lhe resistir; e às vezes o faz de
maneira que, afastandose o primeiro como cansado em luta, lhe succede outro que se
tem por mais valente homem, os quaes ás vezes ficão bem enxovalhados, e mais o
ficarião, se já a este tempo o captivo não tivesse a pêa ou grilhões. Acabada esta luta
elle em pé, bufando de birra e cansaço com o outro que o tem aterrado, sae com coro de
nymphas que trazem um grande alguidar novo pintado, e nelle as cordas enroladas e
bem alvas, e posto este presente aos pés do captivo, começa uma velha como versada
nisto e mestra do coro a entoar uma cantiga que as outras ajudão, cuja letra e conforme a
ceremonia, emquanto ellas cantão os homens to mão as cordas, e metido o laço no
pescoço lhe dão um nó simples junto dos outros grandes, para que se não possa mais
alargar, e feita de cada ponta uma roda de dobras metem no braço á mulher que sempre
anda detraz delle com este peso e se o peso é muito pelas cordas serem grossas e
compridas, dãolhe outra que traga uma das rodas, e se elle dantes era temeroso com a
coleira, mais o fica com aquelles dous nós tão grandes no pescoço da banda detraz, e
por isso diz um dos pés de cantiga: nós somos aquellas que fazemos estirar o pescoço ao
pássaro, posto que depois de outras ceremonias lhe dizem noutro pé:

Si tu foras papagaio, voando nos fugiras.

A este tempo estão os potes de vinho postos em carreira pelo meio de uma casa grande,
e como a casa não tem repartimentos, ainda que seja de 20 ou 30 braças de comprido,
está atulhada de gente, e tanto que começão a beber é um lavarinto ou inferno velos e
ouvilos, porque os que bailão e cantão aturão com grandíssimo fervor quantos dias e
noites os vinhos durão: porque, como esta é a própria festa das matanças, ha no beber
dos vinhos muitas particularidades que durão muito, e a cada passo ourinão, e assim
aturão sempre, e de noite e dia cantão e bailão, bebem e fallão cantando em magotes por
toda a casa;de guerras e sortes que fizerão, e como cada um quer que lhe oução a sua
história, todos fallão a quem mais alto, afora outros estrondos, sem nunca se calarem,
nem por espaço de um quarto de hora. Aquella. manhã que começão a beber enfeitão o
captivo por um modo particular que para isso têm, a saber: depois de limpo o rosto, e
quanta penugem nelle ha, o untão com um leite de certa arvore que pega muito, e sobre
elle põem um certo pó de umas cascas de ovo verde de certa ave do mato, e sobre isto o
pintão de preto com pinturas galantes, e untando também o corpo todo até a ponta do pé
o enchem todo de penna, que para isto têm já picada e tinta de vermelho, a qual o faz
parecer a metade mais grosso, e a cousa do rosto o faz parecer tanto maior e luzente, e
os olhos mais pequenos, que fica uma horrenda visão, e da mesma maneira que elles
têm pintado o rosto, o está também a espada, a qual é de pau ao modo de uma
palmatória, senão que a cabeça não é tão redonda, mas quasi triangular, e as bordas
acabão quasí em gume, e a haste, que será de 7 ou 8 palmos, não é toda roliça, terá junto
da cabeça 4 dedos de largura e vem cada vez estreitando até o cabo, onde tem uns
pendentes ou campainhas de penna de diversas cores, é cousa galantes e de preço entre
elles, elles lhe chamão Ingapenambin, orelhas da espada. 0 derradeiro dia dos vinhos
fazem no meio do terreiro uma choça de palmas ou tantas quantos são os que hão de
morrer, e naquella se agazalha, e sem nunca mais entrar em casa, e todo o dia e noite é
bem servido de festas mais que de comer, porque lhe dão outro conducto senão uma
fructa que tem sabor de nozes, para que ao outro dia não tenha muito sangue.

Ao quinto dia pela manhã, ali ás sete horas pouco mais ou menos, a companheira o
deixa, e se vai para casa muito saudosa e dizendo por despedida algumas lastimas pelo
menos fingidas; então lhe tirão a peia e lhe passão as cordas do pescoço á cinta, e posto
em pé á porta do que o ha de matar, sae o matador em uma dança, feito alvo como uma
pomba com barro branco, e uma 32 a que chamão capa de

32 Garment. (Purchas, IV, p. 1.296).

penna, que se ata pelos peitos, e ficãolhe as abas para cima como azas de Anjo, e nesta
dança dá uma volta pelo terreiro e vem fazendo uns esgares extranhos com olhos e
corpo, e com as mãos arremeda o minhoto que desce á carne, e com estas diabruras
chega ao triste, o qual tem as cordas estiladas para as ilhargas e de cada parte um que o
tem, e o captivo, se acha com que atirar, o faz de boa vontade, e muitas vezes lhe dão
com que, porque lhe saem muitos valentes, e tão ligeiros em furtar o corpo que os não
póde acertar. Acabado isto, vem um honrado33, padrinho do novo cavalleiro que ha de
ser, e tomada a espada lh’a passa muitas vezes por entre as pernas, metendoa ora por
uma parte ora por outra da própria maneira que os cachorrinhos dos sanfonineiros, lhe
passão por entre as pernas, e depois tornandoa pelo meio com ambas as mãos aponta
com uma estocada aos olhos do morto 34 , e isto feito lhe vira a cabeça para cima da
maneira que delia hão de usar, e a mete nas mãos do matador, já como apta e idônea
com aquellas bênçãos para fazer seu officio para o qual se põe algum tanto ao lado
esquerdo, de tal geito que com o gume da espada lhe acerta no toutiço, porque não tira a
outra parte 35,eé tanta a bruteza destes que, por não temerem outro mal senão aquelle
presente tão inteiros estão como se não fosse nada, assim para fallar, como para
exercitar as forças, porque depois de se despedirem da vida com dizer que muito
embora morra, pois muitos tem mortos, e que alem disso cá ficão seus irmãos e parentes
para o vingarem, e nisto aparelhase um para furtar o corpo, que é toda a honra de sua
morte. E são nisto tão ligeiros que muitas vezes é alto dia sem o poderem matar, porque
em vindo 36 a espada pelo ar, ora desvia a cabeça, ora lhe furta o corpo, e são nisto tão
terríveis que se os que têm as pontas das cordas o apertão, como fazem quando o
matador é frouxo, elles37 tão rijo que os trazem a si e os fazem afrouxar em que lhes
pese, tendo um olho nelles e outro na espada, sem nunca estarem quedos, e como o
matador os não pude enganar ameaçando sem dar, sob pena de lhe darem uma apupada,
e elles lhe adivinhão o golpe, de maneira que, por mais baixo que venha, num assopro
se abatem e fazem tão rasos que é cousa extranha, e não é menos tomarem a espada
aparandolhe o braço por tal arte que sem lhe fazerem nada correm com ella juntamente
para baixo e ó metem de baixo do sovaco tirando pelo matador, ao qual, se então não
acudissem, o outro o despacharia, porque têm elles neste acto tantos agouros que para
matar um menino de cinco annos vão tão enfeitados como para matar algum gigante, e
com estas ajudas ou afouteza tantas vezes dá, até que acerta algumas e esta basta,
porque tanto que elle cae lhe dá tantas até lhe que lhe quebra a cabeça, posto que já se
vio um que a tinha tão dura, que nunca lha puderão quebrar, porque como a trazem
sempre descuberta, têm as cabeças tão duras que as nossas em comparação deltas ficão
como de cabaças, e quando querem injuriar algum branco lhe chamão cabeça molle.

33 Honoroble ludge. (Purchas, ib.)

34 Of the man which is to die. (Purchas, ib.)

35 For he striketh at another place. (Purchas, ib.)

36 When he sees. (Purchas, ib.)

37 Heepuls. (Purchas, íb.)

Se este que matarão ao cair cae de costas, e não de bruços, temno por grande agouro e
prognostico que o matador ha de morrer, e ainda que caia de bruços têm muitas
ceremonias, as quaes se se não guardao têm para si que o matador não pode viver; e são
muitas dellas tão penosas que se alguém por amor de Deus sofresse os seus trabalhos
não ganharia pouco, como abaixo se dirá. Morto o triste, levãono a uma fogueira que
para isto está prestes, e chegando a ella, em lhe tocando com a mão dá uma pellinha
pouco mais grossa que véo de cebola, até que todo fica mais limpo e alvo que um leitão
pellado, e então se entrega ao carniceiro ou magarefe, o qual lhe faz um buraco abaixo
do estômago, segundo seu estyio, por onde os meninos primeiro metem a mão e tirão
pelas tripas, até que o magarefe corta por onde quer, e o que lhe fica na mão é o quinhão
de cada um, e o mais se reparte pela communidade, salvo algumas partes principaes que
por grande honra, se dão aos hospedes mais honrados, as quaes elles levão muito
assadas, de maneiras que não se corrompão, e sobre ellas depois em suas terras fazem
festas e vinhos de novo.

DAS CEREMONIAS QUE SE FAZEM AO NOVO CAVALLEIRO

Acabando o matador de fazer seu officio, lhe fazem a elle outro desta maneira: tirada a
capa de penna, e deixada a espada, se vai para casa, á porta da qual o está esperando o
38 mesmo padrinho que foi com um arco de tirar a mão, a saber, as pontas uma no
lumiar de baixo e a outra em cima, e tirando pela corda como quem quer atirar, o
matador passa por dentro tão subtilmente que não toca em nada, e em elle passando, o
outro alarga a corda com um signal de pezar, porque errou o a que atirava, como que
aquillo tem virtude para depois da guerra o fazer ligeiro, e os inimigos o errarem; como
é dentro começa de ir correndo por todas as casas, e as irmans e primas da mesma
maneira diante delle dizendo: "meu irmão se chama A." repetindo por toda a aldea, e se
o Cavalleiro tem alguma cousa boa, quem primeiro anda lha toma até ficar sem nada.
Isto acabado tem pelo chão lançados certos paus de pilão 9, sobre os quaes elle está em
pé aquelle dia com tanto silencio, como que dera o pasmo nelle, e levandoihe ali a
apresentar a cabeça do morto, tiramlhe um olho, e com as raizes ou nervos delle lhe
untão os pulsos, e cortada a boca inteira lha metem no braço como manilha, depois se
deita na sua rede como doente, e na verdade elle o está de medo, que se não cumprir
perfeitamente todas as ceremonias, o ha de matar a alma do morto. D’ali a certos dias
lhe dão o habito, não no peito do pellote, que elle não tem, senão na própria pelle,
sarrafaçandoo por todo o corpo com um dente de cutia que se parece com dente de
coelho, o qual, assim por sua pouca subtileza, como por elles terem a pelle dura, parece
que rasgão algum pergaminho, e se elles são animosos não lhe dão as riscas direitas,
senão cruzadas, de maneira que ficão uns lavores muito primos, e alguns gemem e
gritão com as dores.

38 The same iudge or stickler. (Purchas, IV, P. 1.297)

39 Certaine legges of a certame Tree, called Pilan (Purchas, ib)

Acabado isto, tem carvão moido e sumo de erva moura com que elles esfregão as riscas
ao travez, fazendoas arreganhar e inchar, que é ainda maior tormento, e em quanto lhe
sarão as feridas que durão alguns dias, está elle deitado na rede sem falar nem pedir
nada, e para não quebrar o silencio tem a par de si agua e farinha e certa fructa como
amêndoas, que chamão mendobis 41, porque não prova peixe nem carne aquelles dias.

Depois de sarar, passados muitos dias ou mezes, se fazem grandes vinhos para elle tirar
o dó e fazer o cabello, que até alli não fez, e então, se tinge de preto, e dali por diante
fica habilitado para matar sem fazerem a elleceremonia que seja trabalhosa, e elle se
mostra também nisso honrado ou ufano, e com um certo desdém, como quem tem já
honra, e não a ganha de novo, e assim não faz mais que dar ao outro um par de
pancadas, ainda que a cabeça fique inteira e elle bulindo, vaise para casa, e a este
açodem logo a lhe cortar a cabeça, e as mães com os meninos ao collo lhe dão os
parabéns, estreamos para a guerra tingindolhes os braços com aquelle sangue: estas são
as façanhas, honras, valentias, em que estes gentios tomão nomes de que se prezão
muito, e ficão dali por diante Abaétés, Murubixaba, Moçacara, que são títulos e nomes
de cavaleiros: e estas são as infelizes festas, em que estes tristes antes de terem
conhecimento de seu Creador põem sua felicidade e glória.

DA DIVERSIDADE DE NAÇÕES E LÍNGUAS

Em toda esta província ha muitas e varias nações de differentes línguas, porém uma é a
principal que comprehende algumas dez nações de índios: estes vivem na costa do mar,
e em uma grande corda do sertão, porém são todos estes de uma só língua ainda que em
algumas palavras discrepão e esta é a que entendem os Portuguezes; é fácil, e elegante,
e suave, e copiosa, a diff iculdade delia está em ter muitas composições42; porem dos
Portuguezes, quasi todos os que vêm do Reino e estão cá de assento e communicação
com os índios a sabem em breve tempo, e os filhos dos Portuguezes cá nascidos a
sabem melhor que os Portuguezes, assim homens como mulheres, principalmente na
Capitania de São Vicente, e com estas dez nações de índios têm os Padres
communicação por lhes saberem a lingua, e serem mais domésticos e bem inclinados:
estes forão e são os amigos antigos dos Portuguezes, com cuja ajuda e armas,
conquistarão esta terra, pelejando contra seus próprios parentes, e outras diversas nações
barbaras e erão tantos os desta casta que parecia impossível poderemse extinguir, porem
os Portuguezes lhes têm dado tal pressa que quasi todos são mortos e lhes têm tal medo,
que despovoão a costa e fogem pelo sertão a dentro até trezentas a quatrocentas leguas.

40 Broamerape.(Purchas, ib.)

41 Amenduins. (Purchas, ib.)

42 Comparisons. (Purchas, ib.)

43 Pitiguaras. (Purchas, ib.)

Os primeiros desta lingua se chamão Potyguaras 43 senhores da Parahiba, 30 léguas de


Pernambuco, senhores do melhor pau do Brasil e grandes amigosdos Francezes, e com
elies contratarão até agora, casando com elles suas filhas; mas agora na era de 84 foi a
Parahiba tomada por Dipgo Flores, General de Sua Magestade, botando os Francezes
fora, e deixou um forte com cem soldados, afora os Portuguezes, que também têm seu
Capitão e Governador Fructuoso Barbosa, que com a principal gente de Pernambuco
levou exercito por terra com que venceu os inimigos, porque do mar os da armada não
pelejarão.

Perto destes vivia grande multidão de gentio que chamão Viatã, destes já não ha
nenhuns, porque sendo elles amigos dos Potyguaras 44 e parentes os Portuguezes os
fizerão entre si inimigos, dandolhos a comer, para que desta maneira lhes pudesse fazer
guerra e telos por escravos, e finalmente, tendo uma grande fome, os Portuguezes em
vez de lhes acodir, os captivarão e mandarão barcos cheio a vender a outras Capitanias:
ajuntouse a isto um clérigo Portuguez Mágico, que com seus enganos os acarretou todos
os a Pernambuco, e assim se acabou esta nação, e ficando os Portuguezes sem vizinhos
que os defendessem dos Potyguaras 45 , os quaes até agora que forão desbaratados,
perseguirão os Portuguezes dandolhes de supito nas roças, fazendas, e engenhos,
queimandolhos, e matando muita gente portugueza, por serem muito guerreiros; mas já
pela bondade de Deus estão livres deste sobroço.

Outros ha a que chamão Tupinahas: estes habitão do Rio Real até junto dos ilhéos; estes
entre si erão também contrários, os da Bahia com os do Camamu e Tinharê46.

Por uma corda do R io de São Francisco vivia outra nação a que chamavão Caaété, e
também havia contrários 47 entre estes e os de Pernambuco.

Dos Ilhéos, Porto Seguro até Espírito Santo habitava outra nação, que chamavão
Tupinaquim; estes procederão dos de Pernambuco e se espalharão por uma corda do
sertão, mulpiplicando grandemente, mas já são poucos; estes forão sempre muitos
inimigos das cousas de Deus, endurecidos em seus erros, porque erão vingativos e
querião vigarse comendo seus contrários e por serem amigos de muitas mulheres: já
destes ha muitos christão e são firmes na fé.

Ha outra nação parentes destes, que corre do sertão de São Vicente até Pernambuco, a
que chamão Tupiguae: estes erão sem numero, vãose acabando, porque os Portuguezes
os vão buscar para se servirem delles, e os que lhes escapão fogem para muito longe,
por não serem escravos. Ha outra nação vizinha a estes, que chamão Apigapigtanga e
Muriapigtanga. Também ha outra nação contraria aos Tupinaquins, que chamão
Guaracaio ou Itati.

44 Pitiguaras. (Purchas, ib.)

45 Pitiguaras. (Purchas, ib.)

46 Intrare. (Purchas, IV, p. 1.298)

47 Contrarieties. (Purchas, ib.)

48 Timimino. (Purchas, ib.)

Outra nação mora no Espirito Santo a que chamão Tegmegminó 48 : erão contrários dos
Tupinaquins, mas já são poucos. Outra nação que se chama Tamuya, moradores do Rio
de Janeiro, estes destruirão os Portuguezes quando povoarão o Rio, e delles ha muitos
poucos, e alguns que ha no sertão se chamão Ararape.

Outra nação se chama Carijo: habitão além de São Vicente como oitenta léguas,
contrários dos Tupinaquins de São Vicente; destes ha infinidade e correm pela costa do
mar e sertão até o Paraguay, que habitão os Castelhanos. Todas estas nações acima ditas,
ainda que diferentes, e muitas dellas contrarias umas das outras, têm a mesma lingua, e
nestes se faz a conversão, e tem grande respeito aos Padres da Companhia e no sertão
suspirão por elles, e lhes chamão Abarê e Pai, desejando 49 a suas terras convertelos, e é
tanto este credito que alguns Portuguezes de ruim consciência se fingem Padres,
vestindose em roupetas, abrindo coroas na cabeça, e dizendo que são Abarês e que os
vão buscar para as igrejas dos seus pais, que são os nossos, os trazem enganados, e em
chegando ao mar os repartem entre si, vendem e ferrão, fazendo primeiro nelles lá no
sertão grande mortandade, roubos e saltos, tomandoIhes as filhas e mulheres, etc, e se
não forão estes e semelhantes estorvos já todos os desta lingua forão convertidos á nossa
santa fé.

Ha outras nações contrarias e inimigas destas, de differentes línguas, que em nome geral
se chamão Tapuya, e também entre si são contrarias; primeiramente no sertão vizinho
aos Tupinaquins habitão os Guaimurês50, e tomão algumas oitenta léguas de costa, e
para o sertão quanto querem, são senhores dos matos selvagens, muito encorpados, e
pela continuação e costume de andarem pelos matos bravos tem os couros muito rijos, e
para este effeito açoutão os meninos em pequenos com uns caídos para se acostumarem
a andar pelos matos bravos; não têm roças, vivem de rapina e pela ponta de frecha,
comem a mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão
senão de salto, usão de uns arcos muito grandes, trazem uns paus feitiços muito
grossos51, para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vêm á peleja estão
escondidos debaixo de folhas, e dali fazem a sua e são mui temidos, e não ha poder no
mundo que os possa vencer; são muito covardes em campo, e não ousão sair, nem
passão água, nem usão de embarcações, nem são dados a pescar; toda a sua vi venda é
do mato; são cruéis como leões; quando tomão alguns contrários cortãolhe a carne com
uma canna de que fazem as frechas, e os esfolão, que lhes não deixão mais que os ossos
e tripas: se tomão alguma criança e os perseguem, para que lha não tomem viva lhe dão
com a cabeça em um pau, desentranhâo as mulheres prenhes para lhes comerem os
filhos assados. Estes dão muito trabalho em Porto Seguro, llhéos e Camamu, e estas
terras se vão despovoando por sua causa; não se lhes pode entender a lingua.

Alem destes, para o sertão e campos de Caatinga vivem muitas nações Tapuyas, que
chamão Tucanuço 52, estes vivem no sertão do Rio Grande pelo direito de Porto
Seguro; têm outra lingua, vivem no sertão antes que cheguem ao Aquitigpe e chamãose
Nacai 53. Outros ha que chamão Oquigtajuba. Ha outra nação que chamão Pahi: estes se
vestem de panno de algodão muito tapado e grosso como rede, com este se cobrem
como com saio, não tem mangas; têm differente lingua. No Ari ha outros que também
vivem no campo indo para o Aquitigpe. Há outros que chamão Parahió, é muita gente e
de differente lingua.

49 Thye would come to. (Purchas, ib.)

50 Guamures. (Purchas, ib.)

51 Certaine stones made a purpose verie bigge. (Purchas, ib.)

52 Tunacunu. (Purchas, IV, p. 1.299)

Outros que chamão Nhandeju 54, também de differente lingua. Ha outros que chamão
Macutü. Outros Napara; estes têm roças. Outros que chamão Cuxaré; estes vivem no
meio do campo do sertão. Outros que vivem para a parte do sertão da Bahia que chamão
Guayaná, têm lingua por si. Outros pelos mesmo sertão, que chamão TaicuyQ vivem em
casas, têm outra lingua. Outros no mesmo sertão, que chamão Cariri 55, têm lingua
differente: estas três nações e seu vizinhos são amigos dos Portuguezes. Outros que
chamão Pigrü, vivem em casas. Outros que chamão Obacoatiára, estes vivem em ilhas
no Rio de São Francisco, têm casas como cafuas debaixo do chão; estes quando os
contrários vêm contra elles botãose á água, e de mergulho escapão, e estão muito
debaixo d’agua, têm frechas grandes como chuços, sem arcos, e com ellas pelejão;são
muito valentes, comem gente, têm differente lingua. Outros, que vivem muito pelo
sertão a dentro, que chamão Anhehim 56, têm outra lingua. Outros que vivem em casas,
que chamão Aracuaiati, têm outra lingua. Outros que chamão Cayuara, vivem em covas,
têm outra lingua. Outros que chamão Guaranaguaçu 57, vivem em covas, têm outra
lingua. Outros muito dentro no sertão que chamão Camuçuyara, estes têm mamas que
lhes dão por baixo da cinta, e perto dos joelhos, e quando correm cingemnas na cinta,
não deixão de ser muito guerreiros, comem gente, têm outra lingua. Ha outra nação que
chamão Igbigraapuajara senhores de paus agudos, porque pellejão com paus tostados
agudos, são valentes, comem gente, têm outra lingua. Ha outra que chamão Aruacuig s ,
vivem em casas, têm outra lingua, mas entendemse com estes acima ditos, que são seus
vizinhos. Outros ha que chamão Guayacatu e Guayatun; estes têm lingua differente,
vivem em casas. Outros ha que chamão Curupehé 60, não comem carne humana,
quando matão cortão a cabeça do contrario e levãona por amostra, não têm casa, são
como ciganos. Outros que chamão Guayó, vivem em casas, pellejão com frechas
ervadas, comem carne humana, têm outra lingua. Outros que chamão Cicú têm a mesma
lingua e costumes dos acima ditos. Ha outros a que chamão Pahajú, comem gente, têm
outra lingua. Outros ha que chamão Jaicuju, têm a mesma lingua que estes acima.
Outros que chamão Tupijó, vivem em casas, têm roças, e têm outra lingua. Outros
Maracaguacu, são vizinhos dos acima ditos, têm a mesma lingua. Outros chamãose
Jacurujú; têm roças, vivem em casa, têm outra língua. Outros que se chamão Tapuuys
61 são vizinhos dos sobreditos acima, têm a mesma língua. Outros ha que chamam
Anacujü; têm a mesma língua e costumes que os de cima e todos pellejão com frechas
ervadas. Outros que se chamão Piracujû; têm a mesma língua que os de cima e frechas
ervadas. Outros ha que chamão Taraguaig, têm outra lingua, pellejão com frechas
ervadas. Ha outros que chamão Panacujû 62, sabem a mesma lingua dos outros acima
ditos. Outros chamão Tipe, são do campo, pellejão com frechas ervadas. Outros ha que
chamão Guacarajara, têm outra lingua, vivem em casas, têm roças. Outros vizinhos dos
sobreditos que chamão Camaragôã.

53 Nacy. (Purchas, íb.) 54 Mandeiu. (Purchas, ib.) /

55 Cariu. (Purchas, ib.l 56 Anhelim. (Purchas, ib.)

57 Guainaguacu. (Purchas, ib.)

58 lobiora Apuayara. (Purchas, ib.)

59 Anuacuig. (Purchas, ib.)

60 Cumpehe. (Purchas, ib.)

Ha outros que chamão Curupyá, forão contrários dos Tupinaquins. Outros que chamão
Aquirinó têm differente lingua. Outros que chamão Piraguaygaguig, vivem de baixo de
pedras, são contrários dos de cima ditos. Outros que chamão Pinacujú. Outros ha que
chamão Parapotô, estes sabem a lingua dos do mar. Outros Caraembâ, tem outra lingua.
Outros que chamão Caracuju, tem outra lingua. Outros que chamão Mainuma, estes se
misturão com Guaimurês, contrários dos do mar; entendemse com os Guaimurês, mas
têm outra lingua. Outros ha que chamão Aturary também entrão em communicação com
os Guaimurês. Outros ha que chamão Quigtaio, também communicão e entrão com os
Guaimurês. Ha outros que chamão Guigpé; estes forão moradores de Porto Seguro.
Outros se chamão Quigrajubê 63, são amigos dos sobreditos. Outros que chamão
Angararf, estes vivem não muito longe do mar, entre Porto Seguro e o Espirito Santo.
Outros que chamão Amixocori são amigos dos de cima. Ha outros que chamão Carajá:
vivem no sertão da parte de São Vicente; forão do Norte correndo para lá, têm outra
lingua. Ha outros que chamão Apitupá; vivem no sertão para a banda de Aquitipi.
Outros ha que chamão Caraguatajara; têm lingua differente. Ha outros que chamão
Aguiguira, estes estão em communicação com os acima ditos. Outra nação ha no sertão
contraria dos Muriapigtanga e dos Tarapé, é gente pequena, anã, baixos do corpo, mas
grossos de perna e espaduas, a estes chamão os Portuguezes Pigmeo, e os Indios lhe
chamão Tapigymirim 64, porque são pequenos. Outros ha que chamão Quiriciguig,
estes vivem no sertão da Bahia, bem longe. Outros que chamão Guirig são grandes
cavalleiros e amigos dos ditos acima.

Outros se chamão Guajerê; vivem no sertão de PortoSeguro muito longe. Há outra


nação que chamão Aenaguig; estes forão moradores da terras dos Tupinaquins, e porque
os Tupinaquins ficarão senhores das terras 65 se chamão Tupinaquins. Ha outros que
chamão Guaytacâ; estes vivem na costa do mar entre o Espirito Santo e Rio de Janeiro;
vivem no campo e não querem viver nos matos e vão comer ás roças, vêm dormir ás
roças, vêm dormir ás casas, não têm outros thesouros, vivem como o gado que pasce no
campo, e não vêm ás casas mais que a dormir; correm tanto que a cosso tomão a caça.
Outros que chamão Ighigranupâ 66, são contrarios

61 Tapecuiu. (Purchas, ib.)

62 Pahacuiu. (Purchas, ib.)

63 Guigraiube. (Purchas, ib.)

64 Taepyquiri. (Purchas, IV, p. 1.300)

65 Of the Mountames. (Purchas, ib.)

66 Igbigranupan. (Purchas, ib.)

Fonte: www.consciencia.org

História dos Índios Brasileiros

Indígenas Brasileiros
Não podemos ser coniventes com políticas contrárias aos interesses de nossos indios. É
preciso que a sociedade brasileira se manifeste juntos às autoridades no sentido de que
se demarque as terras indígenas, bem como na aprovação do Estatuto do Índio.

De uns tempos para cá iniciou-se uma preocupante mudança de postura dos


adolescentes indígenas. Muitos desses já não estão dispostos a manter seus costumes e
tradições antigas que eram passados de geração em geração. Atualmente os rapazes
fazem de tudo para incorporar em sua cultura costumes e modismos dos brancos.
Grandes chefes indígenas, como Raoni e tantos outros, têm demonstrado, em entrevistas
televisivas, grande preocupação com esses sinais.Segundo esses, até as mulheres nas
aldeias não querem mais dispensar os vestidos. A moçada quer saber mesmo é de tênis
bonito e roupas dos brancos. Estão até dançando o forró em algumas aldeias, numa clara
demonstração desagregadora que poderá colocar em riscos suas danças e rituais
sagrados.

Não bastasse isto, outro fator preocupante é o amiúde contato com a sociedade branca
em conseqüência da expansão do agronegócio, cujos desmatamentos chegam cada vez
mais próximos de suas aldeias diminuindo substancialmente a caça de animais que
outrora era abundante em suas terras.

Além disso,os chefes indígenas estão preocupadíssimos também com a construção de


hidroelétricas nos rios que banham suas terras e que, segundo eles, atrapalharão a
desova dos peixes, diminuindo com isso, mais uma de suas bases de alimentação.

A sociedade brasileira como um todo, precisa se conscientizar de que os índios têm


certamente alguma tipo de ligação umbilical com nosso país, alguma coisa de sagrado.

Afirma-se isso com base num fato ocorrido em março de 1.998, quando houve um
incêndio florestal no Estado de Roraima,que apesar dos esforços dos 130 homens do
Exército, 169 policiais de Roraima, 180 bombeiros do DF, 127 bombeiros argentinos,
56 bombeiros de Minas Gerais, com um aparato de 1 helicóptero brasileiro, 4
helicópteros argentinos, 2 helicópteros venezuelanos e 1 avião venezuelano, não
conseguiram debelar esse incêndio de grandes proporções que ameaçava alastrar-se por
várias cidades, foi preciso então que a FUNAI conduzisse 2 pajés Caiapós para fazerem
pajelança com a finalidade de se fazer chover em Roraima. Não deu outra, no dia 30 de
março os pajés fizeram seus rituais e afirmaram categoricamente que no próximo dia
choveria e a situação estaria resolvida.

Dito e feito, já na madrugada do dia 31 choveu como previra os pajés, acabando de vez
com aquele incêndio que já durava 63 dias. Na época, a Rede Globo de Televisão
mostrou no Jornal Nacional os 2 pajés sorrindo, com as palmas das mãos estendidas
para cima e as gotas da chuva caindo nelas.

Se destruírem as nações indígenas, todos nós, brasileiros, que também temos o gene
indígena, estaremos presenciando o fim de nossa ancestralidade.

A sociedade organizada precisa com urgência adotar medidas de apoio ao que sobrou
das nações indígenas no sentido de se lhes respeitar seus direitos, principalmente a
demarcação de suas terras e a aprovação do Estatuto do Índio.

Fonte: www.midiaindependente.org

A História
Em 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, estima-se que havia por aqui
cerca de 6 milhões de índios. Passados os tempos de matança, escravismo e
catequização forçada. Nos anos 50, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a população
indígena brasileira estava entre 68.000 e 100.000 habitantes.

Atualmente há cerca de 280.000 índios no Brasil. Contando os que vivem em centros


urbanos, ultrapassam os 300.000.

No total, quase 12% do território nacional, pertence aos índios.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, havia em torno de 1.300 línguas indígenas.


Atualmente existem apenas 170. O pior é que cerca de 35% dos 210 povos com culturas
diferentes têm menos de 200 pessoas.

Será o fim dos índios?


Apesar do "Dia do Índio", que é comemorado no dia 19 de Abril, não tem nada para se
comemorar. Algumas tribos indígenas foram quase executadas por inteiro na década de
70 em diante, enquanto estavam fora de seu habitat, quase chegaram a extinção, foram
ameaçados por epidemias, diarréia e estradas.
Mas hoje, o que parecia impossível está acontecendo: o número de índios no Brasil e na
Amazônia está aumentando cada vez mais. A taxa de crescimento da população
indígena é de 3,5% ao ano, superando a média nacional, que é de 1,3%.

Em melhores condições de vida, alguns índios recuperaram a sua auto-estima,


reintroduziram os antigos rituais e aprenderam novas técnicas, como pescar com anzol.
Muitos já voltaram para a mata fechada, com uma grande quantidade de crianças
indígenas.

"O fenômeno é semelhante ao baby boom do pós-guerra, em que as populações, depois


da matança geral, tendem a recuperar as perdas reproduzindo-se mais rapidamente", diz
a antropóloga Marta Azevedo, responsável por uma pesquisa feita pelo Núcleo de
Estudos em População da Universidade de Campinas.

Com terras garantidas e população crescente, pode parecer que a situação dos índios se
encontra agora sob controle. Mas não! O maior desafio da atualidade é manter viva sua
riqueza cultural.

Organização e sobrevivência do grupo


Os índios brasileiros sobrevivem utilizando os recursos naturais oferecidos pelo meio
ambiente com a ajuda de processos rudimentares. Eles caçam, plantam, pescam,
coletam e produzem os instrumentos necessários a estas atividades.

A terra pertence a todos os membros do grupo e cada um tira dela seu próprio sustento.

Existe uma divisão de tarefa por idade e por sexo: em geral cabe a mulher o cuidado
com a casa, das crianças e das roças; o homem é responsável pela defesa, pela caça (que
pode ser individual ou coletiva), e pela colheita de alimentos na floresta.

Os mais velhos - homens e mulheres - adquirem grande respeito da parte de todos. A


experiência conseguida pelos anos de vida transforma-os em símbolos de tradições da
tribo.

O pajé é uma espécie de curandeiro e conselheiro espiritual.

Garimpeiros invadem as terras indígenas


Entre os povos ameaçados estão os Ianomâmis, que foram os últimos a ter contato com
a civilização. Sua população atual chega a pouco mais de 8.000 pessoas. O encontro
com garimpeiros, que invadem suas terras, trazem doenças, violência e alcoolismo.

Entre os índios, os garimpeiros são conhecidos por outro nome: os "comedores de


terras". Calcula-se que 300.000 garimpeiros entraram ilegalmente em terras indígenas
na Amazônia.

Mas o problema não é insolúvel. Na aldeia Nazaré, onde moram 78 Ianomâmis, foram
expulsos pela Polícia Federal.
Permanece a questão de como ficará o índio num mundo globalizado, mas pelo menos
já se sabe o que é preciso preservar.

O chefe da tribo
Os índios vivem em aldeias e, muitas vezes, são comandados por chefes, que são
chamados de cacique, tuxánas ou morubixabas.

A transmissão da chefia pode ser hereditária (de pai para filho) ou não. Os chefes devem
conduzir a aldeia nas mudanças, na guerra, devem manter a tradição, determinar as
atividades diárias e responsabilizar-se pelo contato com outras aldeias ou com os
civilizados.

Muitas vezes ele é assessorado por um conselho de homens que o auxiliam em suas
decisões.

Alimento - pesca
Além de um conhecimento profundo da vida e dos hábitos dos animais, os índios
possuem técnicas que variam de povo para povo. Na pesca, é comum o uso de
substâncias vegetais (tingui e timbó, entre outras) que intoxicam e atordoam os peixes,
tornando-os presas mais fáceis. Há também armadilhas para pesca, como o pari dos
teneteharas - um cesto fundo com uma abertura pela qual o peixe entra atrás da isca,
mas não consegue sair. A maioria dos índios no Brasil pratica agricultura.

Tribos Indígenas
ARARA
As mulheres dessa tribo usam, como roupa, apenas uma espécie de cinto chamado uluri,
feito de entrecasca de árvore. Se esse cinto se romper (por acaso), a mulher se sente
desprotegida e nua.

A presença deste cinto significa que a mulher não está sexualmente disponível, e a
aproximação só acontece quando ela o retira.

Alguns desses povos já estão extintos. Sua língua é a tupi.

No ritual de transição entre a infância e a vida adulta, os meninos ficam reclusos na casa
dos homens e têm que passar por sofrimentos físicos e dar provas de força.

Embora não haja um espaço físico determinado, as meninas também têm que cumprir
alguns rituais de passagem.

BORORO
O funeral é o que mais chama atenção pela complexidade, podendo durar até dois
meses. A morte de alguém pode provocar mudanças ou reforçar as alianças.
Mas a tribo obedece a uma organização social rígida. São de língua tronco macro-jé,
autodenominado boe.

A aldeia é dividida em duas partes - exare e tugaregue - que, por sua vez, se subdividem
em clãs com deveres muito bem definidos.

Eles reconhecem a liderança de dois chefes hereditários que sempre pertencem à metade
exare, conforme determinam seus mitos.

Os antigos Bororo destribuíam-se por extensa região, compreendida entre a Bolívia, a


Oeste, o rio Araguaia, o rio das Mortes, ao Norte, e o rio Taquari, ao Sul.

GAVIÃO
Esse nome foi atribuído a diferentes grupos Timbira da região do médio Tocantins por
viajantes do século XIX, que sempre falavam do caráter guerreiro desses índios.

A denominação vem das penas de gavião usadas em suas flechas. Esses índios foram
muito reduzidos pelo contágio de doenças em seus primeiros contatos com os brancos.

Uma das maiores tradições é a corrida de toras: as equipes de revezamento (formada


somente por homens), carregam troncos de buriti nos ombros. O mais importante não é
quem chega primeiro, o que vale mais é o divertimento. A comemoração é maior
quando as equipes chegam juntas ou quase juntas.

Cada indivíduo recebe dois nomes e um deles não pode ser divulgado. Mostrar ao outro
este segredo, significa transferir poder.

Quando alguém recebe o nome de um parente que já morreu carrega a responsabilidade


de manter as características do antepassado e quem o escolhe assume o papel de
padrinho com a função de transmitir a cultura.

Depois do casamento, por um período determinado, entre genro e sogra, nora e sogro,
ficam proibidos de chamar o outro pelo nome.

KATUKINA
Designa dois grupos indígenas, da família Katukina, que autodenominam-se Peda Djapá
("Gente da Onça"). Vivem em diversos grupos no rio Biá, afluente do Jataí e Amazonas.
Existem aproximadamente 220 índios.

Os Katukina de língua da Família Pano, vivem no rio Envira, nas margens do rio
Gregório, juntamente com os Yawanawá, na área indígena Rio Gregório, Acre, e na área
indígena de Campinas.

Os Katukina já foram chamados, por muitos viajantes, como "índios barbados" por
causa do costume de pintar a boca de preto.

A troca de cônjuges é bastante comum, mas os filhos sempre ficam com a mãe.
KAYAPÓ
Também chamados de Caiapó, é um povo de língua da família Jê. Distribui-se por 14
grupos: Gorotire, Xikrin do Cateté, Xikrin do Bacajá, A'Ukre, Kararaô, Kikretum,
Metuktire (Txu-karramãe), Kokraimoro, Kubenkran-kén e Mekragnotí. Há indicações
de pelo menos três outros grupos ainda sem contato com a sociedade nacional.

As aldeias, identificadas pelo nome do grupo a que pertencem, são grandes para os
padrões da Amazônia: a dos Gorotire tem 920 pessoas, e há referências históricas de
aldeias com 1500 índios.

Eles mantêm pouco contato entre as tribos e possuem uma estrutura cultural e social
bastante homogenia, com poucas diferenças locais.

A forma tradicional da aldeia é um círculo de casas formando um pátio. No centro, fica


uma casa que só é utilizada para a reunião dos homens.

KULINA
São também chamados de Kurína, Kolína, Curina ou Colina, e vivem em pequenos
grupos.

Quando se casa, o homem vive na casa da família da esposa e tem que trabalhar para
retribuir a mulher.

Cada casal tem a obrigação de gerar pelo menos três filhos, ganhando o direito de
construir uma casa separada e continuando juntos se desejar.

Eles acreditam que a concepção acontece sem qualquer contribuição feminina, e para
engravidar, a mulher tanto pode relacionar-se apenas com o marido ou ter vários
parceiros.

Em qualquer dos casos, ela é a única responsável pelos cuidados com a criança.

MARUBO
Eles estão em contato com a sociedade nacional desde 1870 e foram incorporados ao
trabalho de exploração da borracha.

O homem pode se casar com várias mulheres (poligamia), e cada uma delas ocupa um
espaço bem definido na maloca.

Por influência dos missionários, hoje, os mortos são sepultados em cemitérios, mas a
cremação fazia parte dos antigos costumes desses índios, eles comiam as cinzas com
mingau para que o morto pudesse continuar entre eles.

A única exceção ocorre com as crianças de colo, que são enterradas geralmente entre as
árvores.
É uma população de 600 pessoas, que falam a língua da família Pano e vivem ao longo
dos rios Ituí e Curuçá, na Amazônia, junto à fronteira com o Peru.

SATERÉ-MAWÉ
Os Sateré-Mawé ou Sateré-Maué, vivem na região dos vales dos rios Marau e Andirá
(Amazonas), distribuídos por aldeias, com uma população de 5.800 pessoas.

Eles são conhecidos como os introdutores do guaraná na região. Têm uma forte tradição
agrícola e comemoram o fim da colheita com o tarubá, uma bebida fermentada tão forte
que pode causar embriaguez por até um mês.

A formiga tem um significado especial e é muito respeitada por esses índios. Uma das
espécies, a tocandira, é considerada como divindade e usada nos rituais de passagem.

A picada é extremamente dolorosa, mas para demonstrar coragem, os meninos tem que
colocar a mão dentro de uma espécie de luva cheia dessas formigas e resistir à dor, para
depois disso, serem considerados adultos.

TENHARIM
Povo indígena de língua Tupi-Guarani, que costumam enterrar os mortos debaixo dos
pisos das casas. Acreditam que o espírito permanece morando no local e usando os
utensílios que possuía quando era vivo.

Para pescar, eles colocam dentro d’água um pedaço de madeira com desenho dos peixes
que querem capturar. Fazem isso sempre debaixo de árvores frutíferas, mas acreditam
que a fartura da pescaria é explicada unicamente pelos desenhos. Eles só não pescam o
boto e o peixe-boi por serem considerados alimentos sagrados (tabu).

TIKUNA
Maior etnia da Amazônia brasileira, conta com uma população de 20.135 indivíduos,
que ocupam cerca de 70 aldeias às margens do rio Solimões, no Estado do Amazonas.
Outra parte do grupo vive no Peru.

As meninas, quando ficam menstruadas, são submetidas a um ritual de iniciação, que


sempre acontece na lua cheia, representando a bondade, a beleza e a sabedoria. Nesta
festa, os índios fabricam máscaras de macacos e monstros e enfeites para as virgens.

Um dos índios usa uma máscara com cara de serpente e incorpora o espírito do principal
personagem do ritual, um monstro que vivia na água.

Durante os festejos, o monstro faz gestos obscenos que divertem a tribo. Ele também
ronda o cubículo onde fica a menina, batendo com um bastão no chão.

Durante três dias e três noites, essa garota é protegida por duas tias que aproveitam o
tempo dando conselhos de como ser uma boa mulher Tikuna: respeitar o marido, ser
ativa e trabalhadeira.
TAKÂNO
São também chamados de Tucano, e a família lingüística Tukâno é dividida nos ramos
ocidental, que compreende línguas faladas no Peru, Equador e Bolívia; e oriental, com
as línguas Barasâna, Desâna, Karapanã, Kubéwa, Pirá-Tupúya, Suriâna, Tukâno e
Wanâno, faladas desde a Colômbia até o Brasil, no Noroeste da bacia Amazônica.

São extremamente vaidosos, gastam dias e esforços para capturar aves de plumagens
belas, coloridas e variadas para fazer adornos.

Eles também gostam de modificar as cores originais dando comidas especiais para as
aves ou aquecendo as penas, processo conhecido como tapiragem.

Usam até duas dezenas de aves para um único adorno. Estes enfeites são usados em
rituais e aqueles que usam as peças mais bonitas são muito prestigiados pela tribo.

WAI-WAI
Grupo de aproximadamente 1250 índios que vivem nas áreas indígenas Nhamundá-
Mapuera, no oeste do Pará, e Wai-Wai em Roraima.

Fazia parte da cultura deles a troca de mulheres capturadas de outras aldeias,


consideradas como troféus de guerra.

Com a chegada dos holandeses que colonizaram o Suriname, antiga colônia nas
Guianas, os índios estabeleceram este mesmo tipo de relação, trocando mulheres por
artigos europeus.

Os holandeses se utilizaram desta prática para conseguir com que os índios, ao invés de
trazer mulheres, capturassem os escravos negros fugidos.

YANOMAMI
É o último povo indígena das Américas que conseguiu sobreviver mantendo seu
patrimônio cultural e social. Seus membros, 7822 indivíduos, vivem dos dois lados da
fronteira entre o Brasil e a Venezuela, próximo ao Pico da Neblina.

Os Yanomami abrem várias trilhas para ligar as diferentes aldeias com as áreas de caça,
os acampamentos de verão e as roças recentes e antigas.

Eles fazem um constante rodízio entre esses lugares e com isso, a floresta se recupera
com rapidez.

Todos da tribo moram numa imensa casa coletiva e as crianças ocupam um lugar de
destaque, suas necessidades são prontamente atendidas e seus pedidos sempre levados
em conta.

Embora haja um intercâmbio freqüente de mulheres e produtos, cada uma das aldeias
tem completa autonomia política e administrativa.
Esses índios queimam os seus mortos e comem as cinzas. Eles acreditam que os
espíritos, que podem ser bons ou maus, habitam as plantas e animais.

Os garimpeiros disputavam suas terras desde 1987, atraídos pelas grandes reservas de
diamante, ouro, cassiterita e urânio, colocando em risco a sobrevivência do povo
Yanomami.

Em 1990, o governo brasileiro adotou medidas de proteção às terras indígenas,


iniciando a retirada dos garimpeiros.

Cultura indígena
O esforço das autoridades para manter a diversidade cultural entre os índios pode evitar
o desaparecimento de muita coisa interessante.

Um quarto de todas as drogas prescritas pela medicina ocidental vem das plantas das
florestas, e três quartos foram colhidos a partir de informações de povos indígenas.

Na área da educação, a língua tucana, apesar do pequeno número de palavras, é


comparada por lingüistas como a língua grega, por sua riqueza estrutural - possui, por
exemplo, doze formas diferentes de conjugar o verbo no passado.

Ritos e mitos
No Brasil, muitas tribos praticam ritos de passagem, que marcam a passagem de um
grupo ou indivíduo de uma situação para outra.

Estes ritos se ligam a gestação e ao nascimento, à iniciação na vida adulta, ao


casamento, à morte e a outras situações.

Poucos povos acreditam na existência de um ser superior (supremo), a maior parte


acredita em heróis místicos, muitas vezes em dois gêmeos, responsáveis pela criação de
animais, plantas e costumes.
Arte
A arte se mistura a vida cotidiana. A pintura corporal, por exemplo, é um meio de
distinguir os grupos em que uma sociedade indígena se divide, como pode ser utilizada
como enfeite.

A tinta vermelha é extraída do urucum e a azul, quase negro, do jenipapo. Para a cor
branca, os índios utilizam o calcário.

Os trabalhos feitos com penas e plumas de pássaros constituem a arte plumária


indígena.

Alguns índios realizam trabalhos em madeira. A pintura e o desenho indígena estão


sempre ligados à cerâmica e à cestaria.

Os cestos são comuns em todas as tribos, variando a forma e o tipo de palha de que são
feitos. Geralmente, os índios associam a música instrumental ao canto e à dança.

Fonte: Web Ciência

História dos Índios Brasileiros

Reservas indígenas
As reservas indígenas foram criadas, inclusive no Brasil, um pouco para compensar a
apropriação indébita de tudo quanto eles possuíam neste país por parte do homem
branco, que já não é tão homem branco assim.

As notícias relativas à Reserva Raposa Serra do Sol mostram que ainda subsiste por
aqui o mesmo espírito infernal de outros séculos que propôs caçar e liquidar os gentios,
tema de muita revolta entre os padres Jesuítas, inclusive o venerado Padre Antônio
Vieira.

Embora demonstre o Governo estar disposto a defender a reserva indígena, fica difícil
entender porque coisas como essas ainda acontecem. Os milhões de quilômetros de
terras de que dispomos deveriam permitir que as reservas fossem intocáveis. No
entanto, no caso da Raposa Serra do Sol são visíveis os sinais de deformação cultural,
posto que há índios estranhamente favoráveis à presença dos arrozeiros no território
demarcado.

As reservas existem não apenas por questão de territorialidade. Os índios não são todos
iguais. É incrível a variedade de culturas, modos de vida, costumes, línguas e rituais
entre as tribos que restaram. Também por isso eles precisam de espaço.

Como explica o estudioso francês Jacques Leclerc, em tradução da lingüista Maria


Cláudia Fitipaldi, antes da chegada dos europeus os índios no Brasil formavam uma
população entre 5 e 6 milhões de habitantes. Depois de massacrados, submetidos à
escravidão e epidemias, em torno de 1950 essa população estava reduzida a pouco mais
de 100 mil indivíduos. Um genocídio digno do holocausto judeu. A presença econômica
do homem branco nas reservas é o melhor caminho para a liquidação total do gênero
indígena.

Estima-se que cerca de 12 tribos desapareceram por mês somente no decorrer do século
XX. Foi, certamente, o alerta das organizações não governamentais e da comunidade
internacional para esse fato, que fez o governo brasileiro oferecer melhores condições às
suas populações autóctones. Diz Jacques Leclerc que foi preciso esperar mais de 5
séculos para que o Brasil reconhecesse nos índios a condição de seres humanos.

Hoje são muitas as leis no Brasil que protegem as populações indígenas. Seus direitos
são reconhecidos até na Constituição Federal. Entretanto, o Brasil ainda não é signatário
da Convenção Relativa aos Povos Indígenas e Tribais da Organização Internacional do
Trabalho, já ratificada por numerosos países latino-americanos.

O exemplo de Raposa Serra do Sol indica que os brasileiros ainda não aprenderam que
as leis precisam ser respeitadas. Não totalmente. Já há notícias de manifestantes
atacando posto da polícia em área de reserva e de confronto entre índios e a Polícia
Federal em Roraima.

Para que se compreenda ainda menos a invasão de reservas no Brasil, é preciso dizer
que este país tem 8 milhões e 500 mil km2 e que as 554 reservas existentes ocupam
apenas 964.452 km2. Se pensarmos nisso entendendo que eles eram os donos deste país,
concluiremos que já tomamos demais deles. Não custa nada permitir que os que
escaparam ao genocídio sobrevivam com dignidade no que sobrou de suas terras.

Fonte: www.jornalpequeno.com.br

Resistência Indígena
MOMENTOS DA RESISTÊNCIA DOS NATIVOS FRENTE A "VERDADEIRA"
FÉ CRISTÃ NO BRASIL COLONIAL

O principal interesse da coroa portuguesa, no sentido de "descobrir" novas terras, era o


de estabelecer novas rotas comerciais. O Brasil, Terra de Santa Cruz, Terra de Vera
Cruz, carregava estes nomes não por acaso. Os portugueses, desde à tomada de Celta
em 1415, carregavam consigo o espírito das cruzadas. As embarcações da expedição
cabralina trazia a cruz da Ordem de Cristo estampada em suas velas. D. Manuel I, então
rei de Portugal, era também Grão -- Mestre da Ordem de Cristo.

Em 1500, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, o Brasil foi batizado com a fixação
em terra da primeira cruz, seguida da reza da primeira missa, proferida, na ocasião, pelo
frei Henrique de Coimbra, um franciscano.

Portanto, a religiosidade sempre esteve presente no processo de colonização dos


portugueses.
Bahia, na primeira metade do século XVI
Os navegadores portugueses, além da beleza, encontraram também os homens gentios,
assim denominados por Manuel da Nóbrega, que representava um dos quadros da
Companhia de Jesus, fundada e 1534 por Inácio de Loyola. Era da incumbência de
Nóbrega a Missão no Brasil, além da educação dos filhos de colonos. Todas atividades
que a Companhia de Jesus realizava era peara glória de Deus, um lema dos soldados de
Cristo.

A primeira impressão deixada pelos nativos na visão dos viajantes era de que estes
homens gentios não possuíam qualquer vínculo religioso, ou seja, não adoravam
nenhum tipo de Deus, nenhuma santidade, ou até mesmo um ídolo. Voltaremos a tratar
deste aspecto mais afrente. No entanto, não demoraria muito tempo para que este
conceito elaborado pelos portugueses caíssem por terra.

Ronaldo Vainfas, um renomado estudioso de assuntos coloniais do Brasil, trata desta


dimensão da religiosidade dos índios deste período. Com muito brilhantismo e
competência, o autor reúne fontes fidedignas que nos revela à preocupação, por parte
dos portugueses - jesuítas, após terem se apercebidos da estrutura ritual religiosa contida
nos Tupinanbás -- tupi, tribo que iremos nos concentrar neste humilde trabalho.

A principal tarefa dos portugueses - inacianos no Brasil seria a de "organizar" os índios,


trazê-los para a verdadeira fé cristã, para que assim, costumes como a poligamia, a
antropofagia, o andar sem roupas, dentre outros, fosses extirpados. Havia unanimidade
quanto ao entendimento, por parte dos jesuítas, que tal feito seria fácil, visto que,
segundo Nóbrega, estes nativos não adoram nenhum Deus, dizia ele: "são como papel
branco, onde podemos escrever à vontade", eram os tupinambás.

Entretanto, não demorou muito para os padres se conscientizarem quanto às


dificuldades que os aguardara, eles achavam que os índios eram governados sim, mas
pelo demônio, seria, portanto, um trabalho árduo e, sobretudo, perigoso.

O fato é que os jesuítas não tinham muito tempo para o feito "missionário", pois a
colonização precisava de mão -- de -- obra. Em Pernambuco no ano de 1530 a
colonização do açúcar já estava funcionando. Temos de um lado a resistência dos índios
e do outro as ambições escravistas, na ocasião, para engenhos de açúcar. A verdade é
que os índios ficaram entre os apresadores de escravos (mamelucos) e os padres
jesuítas. Estes últimos diziam para os pajés que eles, padres, eram os verdadeiros pajés,
diziam ainda que os índios não poderiam seguir os mamelucos, por outro lado, estes
apresadores também instaram os nativos para que não ouvissem os jesuítas.

Os índios ora ouviam os apresadores, ora os padres, mas em outras oportunidades não
ouviam nem um nem outro, travando assim, uma guerra que terminava com rituais
antropofágicos.
Os colonizadores, segundo Vainfas, ficaram impressionados com a descoberta de um
dos rituais dos tupis, denominado santidade. Para os índios esta santidade era a
constante procura da Terra sem Mal, um espaço sagrado, o tempo sagrado, que se
renova eternamente, sem conhecimento de sua origem e fim.

Essas descrições estavam presentes pela santidade Jaguaripe (movimento que


desenvolveu-se no recôncavo baiano, conforme veremos), um tipo de idolatria indígena,
minuciosamente estudada pelo autor. Era um movimento religioso do século XVI.
Vainfas diz que esta santidade era um mito, que se posicionava contra a história,
falaremos um pouco mais deste movimento daqui a pouco.

O que podemos ver é, na verdade, uma grande resistência, por parte dos nativos. Uma
resistência antiescravista que era absorvida por esta santidade tupi.

Nóbrega conhecera o rito da santidade, logo percebeu o perigo desta dimensão dos
nativos, descreveu em 1549 uma cerimônia denominada caraimonhaga, onde o pajé
pregava a cultura tupi, revelando para seus seguidores o vindouro "paraíso tupi", a Terra
sem Mal. Nóbrega chamou este momento de santidade, tal fenômeno, para ele, era
diabólico.

Reconhecendo as sérias dificuldades em "converter" os tupinambás ao cristianismo


católico, os jesuítas decidiram substituir a língua sagrada (latim) para estabelecer os
procedimentos cristãos por meio da língua tupi, ensinando-a com a ajuda de José de
Anchieta que transmitiu aos noviços da Companhia.

Era a denominada "língua geral", que abrigou praticamente todos episódios da


atividades cristãs daquele século. Os portugueses fizeram peças teatrais com referências
bíblicas, onde então demonizavam os chefes e os costumes indígenas, mostrando para
os nativos que o verdadeiro Deus esta com eles, nestas peças o "mal" era vencido pelo
bem que estava ao lado do homem branco.
"O catolicismo ensinado e dramatizado em "língua geral" e com base em imagens e
significados extraídos da cultura nativa podia ter lá sua eficácia, mormente com os
culumins -- as crianças que, pela tenra idade, estavam em condições melhores de
aprendizado. Tal método trazia, porém, grandes riscos, sobretudo o risco de o
catolicismo fosse assimilado à moda Tupi, canibalizado e devorado como no repasto
cerimonial.

A santidade contra a Igreja Católica e os Jesuítas.


Os que aderiam à santidade, aqui inclui-se "negros" da terra (escravos), posicionavam-
se contra os senhores e contra os brancos, questionando o Deus católico. O índio
Silvestre foi um personagem nesta condição, e acabou açoitado e posto em grilhões pelo
seu próprio senhor.

"Os índios zombavam dos padres e dos sacramentos por eles ministradas, alardeando
que a verdadeira fé era a sua, assim como deus era o seu ídolo, e santos os seus caraíbas.
{Quando os brancos iam ouvir missa} -- contou Álvaro Rodrigues -- {eles (os índios)
davam apupadas dizendo que os brancos andava muito tempo errados naquela erronia
de cristãos} (...), escrava de um ferreiro em Parpe, costumava zombar da hóstia
consagrada e do próprio Deus cristão" ...

Os adeptos da santidade ameaçavam os "nativos traidores" (índios) com as piores penas.


Na verdade, uma metamorfose punitiva, como chamou Vainfas, ameaçavam transformar
os resistentes em animais, pedras, paus, etc.

O mito da Terra sem Mal, conta o autor, revela o maior inimigo do índio: o homem
branco, os portugueses, o cativeiro, sua Igreja dos padres, a lei dos cristãos..., temos,
portanto, um sentido anticolonialista, O autor diz também que, paradoxalmente,
algumas dimensões do catolicismo também fora absolvido pela santidade, dizendo, por
exemplo, da semelhança havida entre a Terra sem Mal e o paraíso celestial cristão.
"a igreja dos índios -- diziam -- era a verdadeira santidade para ir ao céu, porque a dos
cristãos era falsa e não merecia que nela se acreditasse".

O fato é que praticamente todo o litoral brasileiro passou a conhecer este termo
santidade, e também seu significado. A busca da Terra sem Mal significava uma
"guerra" contra os portugueses, contra a escravidão, etc. A mais importante santidade
ocorreu no recôncavo baiano, liderada por Antônio, nome de batismo, ancestral dos
tupinambá. Esse líder de Jaguaripe, foi um dos exemplos práticos dos perigos da
tradução feita pelos jesuítas do catolicismo para ingua e o imaginário Tupi. Antônio
entoava cerimônias de batismo, nomeava papas, bailes tribais, orações, sua companheira
era chamada de Maria Mãe de Deus, estava, portanto, feita a fusão católica e indígena.

Em suma, a história demonstra as aproximações da Terra sem Mal dos tupis com as
alusões jesuísticas, os portugueses católicos que conseguiram enganar os "homens
gentios" dizendo sobre a Terra prometida (Jerusalém), quando na verdade, esta terra fora
travestida nas fazendas de escravos.

A perseguição do Santo Oficio de Lisboa contra Jaguaripe (idolatrias indígenas) e o


Acotundá (idolatrias negras)

O Santo Oficio tinha muito a fazer, conforme afirma Ronaldo Vainfas: "teria de
enfrentar não apenas interpretações heterodoxas do divino, mas múltiplos santos pelo
avesso". De acordo com o autor, a rigorosidade do Santo Oficio, em suas visitações
realizadas na "Bahia de todos os santos", apresentou-se menos intensificada com relação
aos negros, de acordo com relatos do Acotundá, tal comportamento, segundo Ronaldo,
deve-se principalmente com relação a escravidão que não podia, de forma alguma,
sofrer um enfraquecimento.

A perseguição frente aos cristãos novos


Diferentemente aconteceu com os judeus (cristãos novos) convertidos a força por D.
Manuel I em 1497 em Lisboa. Muitos destes fugiram para o Brasil, com receio da
inquisição instalada em Portugal entre 1536 e 1540.
Esta estratégia dos cristãos novos deu certo por um bom tempo, pois não havia presença
da inquisição na colônia. Evaldo Cabral de Mello evidencia que estes judeus foram
importantes para o desenvolvimento, sobretudo em Pernambuco, da açucarocracia,
termo adotado por este magnífico historiador.

O quadro mudou-se com a visitação em 1591 na Bahia e Pernambuco, enviado pelo


Santo Oficio de Lisboa, o visitador Heitor Furtado de Mendonça, para verificar
denúncias de heresia contra o catolicismo.

Judaizar em segredo, esta foi uma das inúmeras acusações proferidas por Heitor. Muitos
foram julgados e condenados à fogueira. Ana Rodrigues, moradora da Bahia foi
sentenciada, ficou trancada em Lisboa até sua morte chegar, segundo relatos, aos 100
anos de idade. Após seu enterro foi decretara sua condenação a fogueira, então
desenterram-na e queimaram seus ossos.

A perseguição atravessava o século XVII, os judeus eram criminosos à vista da época.


Vainfas revela que a força do judaísmo, com o passar do tempo, foi cada vez mais
enfraquecendo, demonstrando-se como cultos superficiais e secretos, como cerimônias
domésticas. Segundo o autor, "até mesmo o judaísmo acabou se cristianizando, à moda
católica, nessa época, transitando de uma cultura ode letras para uma economia de
gestos".

Vainfas diz ainda que os cristãos novos, devido a obrigatoriedade exercida pelos
"verdadeiros cristãos de Lisboa", de se seguir o catolicismo, adorando imagens, criou
uma revolta muito grande, revolta que muitas vezes era manifestada com maus tratos a
imagens de santos, por exemplo, a banalização do crucifixo. Para os "verdadeiros
cristãos" os judeus eram os piores hereges, para alguns estudiosos do assunto, afirma o
autor, os atos dos cristãos novos nada mais era do que vingança.

Contudo, a vida cotidiana dos colonos no novo mundo não fora nada tranqüila, muito
pelo contrário, seja os cristãos novos, seja os inacianos, todos viveram momentos de
angústia e indefinições, momentos de constante contato com as dificuldades ora
elaboradas por seus costumes, ora por seus inimigos de religião. A verdade é que tanto o
céu com o inferno eram atingidos com extrema facilidade, diante de tantas dificuldades
no dia -- a dia, os pedidos para santos e derivados eram inúmeros, bastava que um
destes pedidos não fossem atendidos para o espírito de rebeldia se manifestar contra os
ícones da fé católica cristã.

Fonte: www.historianet.com.br

História dos Índios Brasileiros

Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia


aproximadamente 100 milhões de índios no continente.

Só em território brasileiro, esse número chegava 5 milhões de nativos,


aproximadamente.

Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico
ao qual pertenciam:
Tupi-guaranis ( região do litoral )

Macro-jê ou tapuias ( região do Planalto Central )

Aruaques ( Amazônia )

Caraíbas ( Amazônia ).

Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro,
principalmente em reservas indígenas demarcadas e protegidas pelo governo.

São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas.

Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses.

O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade
cultural.

A sociedade indígena na época da chegada dos portugueses.

O primeiro contato entre índios e portugueses em 1500 foi de muita estranheza para
ambas as partes.

As duas culturas eram muito diferentes e pertenciam a mundos completamente distintos.

Sabemos muito sobre os índios que viviam naquela época, graças a Carta de Pero Vaz
de Caminha ( escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral ) e também aos
documentos deixados pelos padres jesuítas.

Os indígenas que habitavam o Brasil em 1500 viviam da caça, da pesca e da agricultura


de milho, amendoim, feijão, abóbora, bata-doce e principalmente mandioca.

Esta agricultura era praticada de forma bem rudimentar, pois utilizavam a técnica da
coivara ( derrubada de mata e queimada para limpar o solo para o plantio).

Os índios domesticavam animais de pequeno porte como, por exemplo, porco do mato e
capivara.

Não conheciam o cavalo, o boi e a galinha.

Na Carta de Caminha é relatado que os índios se espantaram ao entrar em contato pela


primeira vez com uma galinha.

As tribos indígenas possuíam uma relação baseada em regras sociais, políticas e


religiosas.

O contato entre as tribos acontecia em momentos de guerras, casamentos, cerimônias de


enterro e também no momento de estabelecer alianças contra um inimigo comum.

Os índios faziam objetos utilizando as matérias-primas da natureza.


Vale lembrar que índio respeita muito o meio ambiente, retirando dele somente o
necessário para a sua sobrevivência. Desta madeira, construíam canoas, arcos e flechas
e suas habitações (ocas ).

A palha era utilizada para fazer cestos, esteiras, redes e outros objetos.

A cerâmica também era muito utilizada para fazer potes, panelas e utensílios domésticos
em geral.

Penas e peles de animais serviam para fazer roupas ou enfeites para as cerimônias das
tribos.

O urucum era muito usado para fazer pinturas no corpo.

A organização social dos índios


Entre os indígenas não há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os
mesmo direitos e recebem o mesmo tratamento.

A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os
habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho ( machado, arcos, flechas,
arpões ) são de propriedade individual.

O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade.
As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio.

Já os homens da tribo ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e
derrubada das árvores.

Duas figuras importantes na organização das tribos são o pajé e o cacique.

O pajé é o sacerdote da tribo, pois conhece todos os rituais e recebe as mensagens dos
deuses. Ele também é o curandeiro, pois conhece todos os chás e ervas para curar
doenças.

Ele que faz o ritual da pajelança, onde evoca os deuses da floresta e dos ancestrais para
ajudar na cura.

O cacique, também importante na vida tribal, faz o papel de chefe, pois organiza e
orienta os índios.

A educação indígena é bem interessante. Os pequenos índios, conhecidos como


curumins, aprender desde pequenos e de forma prática.

Costumam observar o que os adultos fazem e vão treinando desde cedo. Quando o pai
vai caçar, costuma levar o indiozinho junto para que este aprender. Portanto a educação
indígena é bem pratica e vinculada a realidade da vida da tribo.

Quando atinge os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para
ingressar na vida adulta.
Os contatos entre indígenas e portugueses
Como dissemos, os primeiros contatos foram de estranheza e de certa admiração e
respeito. Caminha relata a troca de sinais, presentes e informações.

Quando os portugueses começam a explorar o pau-brasil das matas, começam a


escravizar muitos indígenas ou a utilizar o escambo.

Davam espelhos, apitos, colares e chocalhos para os indígenas em troca de seu trabalho.

O canto que se segue foi muito prejudicial aos povos indígenas. Interessados nas terras,
os portugueses usaram a violência contra os índios.

Para tomar as terras, chegavam a matar os nativos ou até mesmo transmitir doenças a
eles para dizimar tribos e tomar as terras.

Esse comportamento violento seguiu-se por séculos, resultando no pequenos número de


índios que temos hoje.

A visão que o europeu tinha a respeito dos índios era eurocêntrica. Os portugueses
achavam-se superiores aos indígenas e, portanto, deveriam dominá-los e colocá-los ao
seu serviço.

A cultura indígena era considera pelo europeu como sendo inferior e grosseira. Dentro
desta visão, acreditavam que sua função era convertê-los ao cristianismo e fazer os
índios seguirem a cultura européia.

Foi assim, que aos poucos, os índios foram perdendo sua cultura e também sua
identidade.

Canibalismo
Algumas tribos eram canibais como, por exemplo, os tupinambás que habitavam o
litoral da região sudeste do Brasil.

A antropofagia era praticada, pois acreditavam que ao comerem carne humana do


inimigo estariam incorporando a sabedoria, valentia e conhecimentos.

Desta forma, não se alimentavam da carne de pessoas fracas ou covardes. A prática do


canibalismo era feira em rituais simbólicos.

Religião Indígena
Cada nação indígena possuía crenças e rituais religiosos diferenciados. Porém, todas as
tribos acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados.

Para estes deuses e espíritos, faziam rituais, cerimônias e festas. O pajé era o
responsável por transmitir estes conhecimentos aos habitantes da tribo.
Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos índios em grandes vasos de cerâmica,
onde além do cadáver ficavam os objetos pessoais.

Isto mostra que estas tribos acreditavam numa vida após a morte.

Fonte: www.abrali.com

A expressão descobrimento do Brasil; tornou-se comum nos livros de história. Ela se


refere ao fato de os portugueses terem encontrado uma terra que era até então
desconhecida dos europeus. Mas o Brasil não era uma terra desconhecida e sem donos!
Ela era habitada e sua posse distribuída entre diversos grupos entre diversos grupos
indígenas que a ocupavam! A idéia de posse e propriedade dos indígenas logicamente
não é a mesma da dos portugueses, não tem o mesmo sentido o de propriedade privada.

A posse era coletiva, isto é, não havia um pedaço de terra para cada um ou para cada
família, as vastas regiões do Brasil eram ocupadas por nações e tribos. Havia limites
mais ou menos estabelecidos, mas não definidos. As tribos mudavam de lugar de acordo
com sua necessidade.

A presença portuguesa foi então uma ocupação, pois julgavam os povos não civilizados
como desprovidos dos direitos que eles europeus tinham.

Os europeus se julgavam os donos da civilização e das leis, todos os outros povos


deveriam portanto, reger-se pelas normas e leis vigentes na Europa (será que isso
mudou hoje em dia ou respeitamos o modo de vida diferente de outras culturas?) Há
cinco séculos, os portugueses chegaram ao litoral brasileiro, dando início ao processo de
migração que se estenderia até o inicio do século XX, e pouco a pouco foram
estabelecendo-se nas terras que eram ocupadas pelos povos indígenas. Com os índios
civilizados e amigos os portugueses formaram uma nova etnia: os mamelucos.

REAÇÕES DOS INDIOS NO BRASIL COLÔNIA


A confederação dos Tamoios Em 1555, os franceses tomaram a Baía de Guanabara, lá
se instalara com seus comandados, o almirante Nicolau Durand de Villegaignon, que
conseguiu uma aliança com os índios da região, os tamoios, inimigos tradicionais dos
tupiniquins.

Não fora difícil aos franceses conquistar os tamoios, homens altivos, que há tempos
lutavam contra portugueses, que pretendiam escraviza-los. No começo da década de 60
estremecia o planalto paulista diante das ameaças dos tamoios, quando algumas tribos
tupiniquins nos arredores de São Paulo unem-se a eles.

As coisas ficaram difíceis a ponto de obrigar até a transferência dos jesuítas do seu
colégio para São Vicente. São Paulo já era uma região cobiçada onde se assentavam
muitas hortas, pomares, lavouras de mandioca milho trigo e alguma cana.
Os índios atacam a vila da São Paulo sem conseguir toma-la. A presença dos francesas
aliada aos saques que os colonos faziam as aldeias e tabas dos índios, acabou por
estimular uma aliança entre as tribos de Bertioga a Cabo Frio, que reunia também tribos
do interior do Vale do Paraíba: era a Confederação dos Tamoios. As investidas dos
confederados se multiplicaram.

É quando intervem a experiência do padre Manuel da Nóbrega, que desde 1561 se


encontrava em São Vicente, vindo da Bahia. Nóbrega, inimigo da escravização do índio,
sente desde logo que há razões de justiça do lado da confederação das tribos e que só
uma missão de paz poderá aplaca-la.

Decide, pois, ir em pessoa tentar a paz, para a missão convida o padre Anchieta.
Anchieta e Nóbrega ouviram por dias e dias o chefe tamoio Caoquira contar os feitos
dos bravos guerreiros de sua tribo, vivos e mortos como era costume entre os índios e
fazer suas reclamações.

Caoquirra manda chamar todos os caciques da região. Nos sete meses passados com os
índios os jesuítas conseguiram conquistar a paz. A paz não é duradoura e os tamoios
voltam a se confederar e vencem muitas batalhas contra os portugueses, que só
conseguem subjuga-los em 1567, quando Estácio de Sá expulsa os franceses e funda um
núcleo de povoamento bem fortificado: é São Sebastião do Rio de Janeiro que ali nasce.

COCARES
CIVILIZAÇÃO E COSTUMES
Os espanhóis como os portugueses encontraram no continente americano, povos
diversos, com costumes vários e em diferentes estágios de civilização. Os mais
atrasados eram os que povoavam a região do Brasil.

Os índios, que foram os primeiros donos do Brasil, agora são só 344 mil, perdidos em
reservas espalhadas pelo país. As primeiras notícias sobre os índios brasileiros chegaram
na Europa na primeira metade do século XVI.

Eram histórias de viajantes, náufragos e missionários que viveram nas aldeias indígenas
do litoral, basicamente entre grupos do tronco lingüístico tupi (tupiniquins, tupinambás,
etc) Os traços culturais destas tribos foram generalizados para todas as tribos do Brasil.
Assim durante muito tempo os índios foram considerados como se fossem todos iguais.
Hoje sabemos que os indígenas brasileiros não formam um grupo homogêneo.

Assim como a língua, também os costumes, as crenças, as formas de organização


familiar e social, as técnicas artesanais, a cultura, enfim , variam muito de um grupo
para outro. Podemos encontrar um numero de características mais gerais que se aplicam
a muitas tribos mas devemos ter em mente que mesmo tais características não podem
ser generalizadas para todos os grupos indígenas do Brasil.

Artesanato indígena – cuia

Instrumento musical
Artesanato indígena

COMO VIVIAM
A organização social básica dos índios é a tribo. Trata-se de um grupo de indivíduos
cujas aldeias ocupam uma área próxima, que falam a mesma língua, tem os mesmos
costumes e estão ligados uns aos outros por um forte sentimento de unidade. Tal
sentimento é tão forte que se mantém unidos mesmo quando não existe nenhum chefe
ou conselheiro cuja autoridade se estenda a toda a tribo. O formato das aldeias varia
conforme a tribo.

Alguns grupos constroem aldeias em forma de círculo, alguns em forma de ferradura,


alguns ainda cuja aldeia se compõe de uma única habitação coletiva. Por necessidades
básicas de sobrevivência os índios se deslocam periodicamente para locais onde podem
encontrar recursos mais facilmente.

Os povos mais nômades não dispõem de agricultura, nem cerâmica, nem tecidos e não
criam animais domésticos. A economia dos índios era principalmente desenvolvida com
instrumentos simples visando à prática da caça usando o arco e a flecha e seu
cozimento, em artefatos de barro de barro.

A alimentação dos índios era principalmente constituída de peixes, tanto é que foram
considerados ótimos nadadores e existem muitas lendas que se referem a lutas entre
índios e peixes e muitos mitos que vem das águas. Mas os índios não comiam somente
peixes, comiam também bichos e uma das lendas mais engraçadas é que eles não
comiam bichos lerdos, pois achavam que estariam comendo a alma deles também e isso
faria com que se tornassem lerdos também. A agricultura também fazia em algumas
tribos parte de dos costumes indígenas. Eles cultivavam a mandioca, milho, amendoim e
o feijão. Pensem: eles também conheciam as fibras como o algodão para produzir
tecidos.

A organização social do índio se baseava principalmente nas tarefas relacionadas ao


trabalho, divididas por idade e sexo. As mulheres cuidavam da casa, das crianças, da
roça, fabricação de farinha, a fiação de telagens. Os homens jovens eram responsáveis
pela defesa da tribo e expedições guerreiras e pela coleta dos alimentos na caça e pesca,
pela derrubada da mata e preparação da terra para o plantio, construção de canoas e
armas, construção das casas enquanto que os idosos, tanto os homens quanto as
mulheres, ficavam sentados dando conselhos e passando aos mais jovens a sabedoria
das tradições da tribo.
Uma observação importante a se fazer é que os índios já usavam a queimada para abrir
espaços na mata que seriam usados para o cultivo de alimentos. Esta pratica era
denominada coivara. Tal sistema é ainda muito utilizado no interior do Brasil.

Geralmente as roças pertencem a toda a tribo e o fruto do trabalho é distribuído entre


todos, ou seja os índios faziam parte de um comunismo primitivo. Já os instrumentos de
caça e pesca, machados, arcos, flechas, facões, enxadas, etc.. costumam ser
propriedades individuais.

Em relação à religião dos índios podemos ressaltar que eles gostavam de rituais, por
exemplo, comemoravam a passagem de um grupo ou indivíduo da vida para a morte.
Era comemorada a gestação, o nascimento o casamento, a iniciação da vida adulta, etc.

A coisa mais interessante de religião dos índios é que eles não gostavam muito de
acreditar em um deus supremo, eles preferiam acreditar em mitos heróis e forças da
natureza .Todas as crenças eram passadas de geração em geração.

Ligado com a religião era a medicina dos índios tanto que o pajé que era o mais sábio da
tribo ele era o elo de ligação entre a religião e os homens. Praticamente ele era
"sacerdote e através da magia era "medico". O principal remédio que ele usava era a
auto - sugestão e o carisma dele que atuava através da auto sugestão como remédio para
cura das principais doenças indígenas.

Claramente essa não era a único método usado pelo pajé enquanto os índios conheciam
muito bem as plantas medicinais e os poderes medicinais delas e muitos medicamentos
vegetais que apresentam resultados surpreendentes, como no caso de picadas de cobra,
infecção, picadas de mosquito, feridas etc.

Tinham conhecimento de algumas matérias primas como por exemplo na extração do


sal, da borracha ,do tecido e até de gases asfixiantes.

COMO OS INDIOS QUASE DESAPARECERAM

O processo de colonização levou á extinção de muitas sociedades indígenas que viviam


no território dominado, seja pela ação das armas seja pelo contágio de doenças trazidas
dos países europeus para as quais os índios não tinham anticorpos ou ainda, pela
aplicação de políticas visando a "assimilação" dos índios 'a nova sociedade implantada,
com forte influencia européia.

Embora não se saiba exatamente quantas sociedades indígenas existissem no Brasil 'a
época da chegada dos europeus, há estimativas sobre o número de habitantes nativos
naquele tempo que variam de 1 a 10 milhões de indivíduos.

Estes números nos dão uma idéia da imensa quantidade de pessoas e sociedades
indígenas inteiras exterminadas ao longo destes mais de 500 anos, como resultado de
um processo de colonização baseado no uso da força, por meio das guerras e da política
de assimilação.

Da mesma que os brancos procuraram a explicação para a origem dos índios estes
também elaboraram explicação para a origem do homem branco. O processo do
colonizador do qual os índios brasileiros foram vítimas ocorreu assim: primeiro foram
cativados para o trabalho de exploração do pau Brasil em troca de objetos que exerciam
fascínio sobre eles; depois veio a escravização e a tentativa de faze-los trabalhar na
lavoura da cana de açúcar; suas terras foram sendo tomadas e os que não se submeteram
ao colonizador e não conseguiram fugir Brasil adentro, morreram após lutar
corajosamente pela sua terra e pela liberdade.

Os índios que conseguiram sobreviver eram descaracterizados pela catequese feita pelos
jesuítas e da própria convivência com o homem branco. Com isso muitos foram
perdendo sua identidade cultural substituindo suas crenças e costumes pelos valores dos
colonizadores.

Transformaram-se assim em seres marginalizados e explorados dentro da sociedade


branca.

Fonte: www.sabedoriamistica.com.br

Produção de Alimentos dos Índios


Todas as sociedades indígenas produzem seus próprios alimentos através de atividades
como a caça, pesca, coleta, agricultura e criação de animais.

Para desempenhar tais atividades, têm também de confeccionar os instrumentos


que servem para

Produzir

Transportar

Guardar

Conservar os alimentos
Entre eles

Armas de caça

Armadilhas

Canoas

Cestas

Potes

etc..

A produção de alimentos e dos implementos necessários acima referidos obedece a uma


divisão sexual do trabalho, isto é, algumas atividades são tarefas exclusivamente
femininas e outras são tarefas masculinas.

Esta divisão varia de sociedade para sociedade, mas para se ter uma idéia, pode-se dizer
que, freqüentemente, a caça e a pesca são praticadas pelos homens, que também
confeccionam os instrumentos utilizados para caçar e pescar, enquanto a coleta, o
cultivo da terra, a produção de cerâmica e o preparo dos alimentos para consumo são
feitos pelas mulheres.

Em alguns casos, os homens também coletam e executam certas etapas do cultivo (por
exemplo, preparam o terreno para a plantação).

Entretanto, dependendo da cultura específica de cada sociedade e do meio ambiente em


que ela vive, há uma grande variação nos tipos de alimentos consumidos e,
conseqüentemente, nos tipos de atividades desenvolvidas para obtê-los, nas técnicas
utilizadas, bem como no instrumental necessário para tanto.

Algumas praticam a agricultura e a criação de animais, outras não. Entre as que


cultivam a terra, há aquelas cuja base da alimentação é a mandioca, enquanto outras têm
o milho como produto principal, embora haja muitos outros produtos cultivados, que
variam de região para região e de cultura para cultura.

Atualmente, muitas sociedades indígenas também fazem uso de alimentos e de objetos


industrializados introduzidos pelos não índios após o contato.

Nos casos em que isto ocorre, os membros da sociedade passam a precisar de dinheiro
para adquiri-los, o que os leva a buscar trabalho remunerado ou a procurar comercializar
seus produtos, desta forma inserindo-se no mercado regional.

Fonte: www.museudoindio.org.br

História dos Índios Brasileiros


São considerados de origem asiática. A hipótese mais aceita é que os primeiros
habitantes da América tenham vindo da Ásia e atravessado a pé o Estreito de Bering, na
glaciação de 62 mil anos atrás.

Pesquisas arqueológicas em São Raimundo Nonato, no interior do Piauí, registram


indícios da presença humana, datados de 48 mil anos .

O primeiro inventário dos nativos brasileiros só é feito em 1884, pelo viajante alemão
Karl von den Steinen, que registra a presença de quatro grupos ou nações indígenas:
tupi-guarani, jê ou tapuia, nuaruaque ou maipuré e caraíba ou cariba.

Von den Steinen também assinala quatro grupos lingüísticos: tupi, macro-jê, caribe e
aruaque. Atualmente estima-se que sejam faladas 170 línguas indígenas no Brasil.

Jesuíta catequizando índios

Estima-se que, em 1500, existiam de 1 milhão a 3 milhões de indígenas no Brasil. Em


cinco séculos, a população indígena reduz-se aos atuais 270 mil índios, o que representa
0,02% da população brasileira. São encontrados em quase todo o país, mas a
concentração maior é nas regiões Norte e Centro-Oeste.

A Funai registra a existência de 206 povos indígenas, alguns com apenas uma dúzia de
indivíduos. Somente dez povos têm mais de 5 mil pessoas.

As 547 áreas indígenas cobrem 94.091.318 ha, ou 11% do país. Há indícios da


existência de 54 grupos de índios isolados, ainda não contatados pelo homem branco.
Índios kaiapó defendem suas terras no Pará

No início da colonização , os índios são escravizados.

O aprisionamento é proibido em 1595, mas a escravização, a aculturação e o extermínio


deliberado continuam e resultam no desaparecimento de vários grupos.

A primeira vez em que é feita alusão ao direito dos índios à posse da terra e ao respeito
a seus costumes é em 1910, com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) pelo
marechal Cândido Rondon . Em 1967, o SPI é substituído pela Fundação Nacional do
Índio (Funai).

Na década de 70, surgem Organizações Não-Governamentais (ONGs), que defendem os


direitos indígenas.

Fonte: paginas.terra.com.br

Diversidade Cultural dos Povos Indígenas


Estima-se a existência de cerca de 200 sociedades indígenas no Brasil. O número exato
não pode ser estabelecido, na medida em que existem grupos indígenas que vivem de
forma autônoma, não mantendo contato regular com a sociedade nacional.

Os dados demográficos das sociedades indígenas de hoje devem ser interpretados à luz
do processo histórico, considerando as formas de contato que cada grupo tem mantido
com a sociedade nacional, os efeitos das epidemias e os confrontos que tiveram com as
frentes de expansão.

A população dessas sociedades é muito variável, havendo grupos relativamente


numerosos como os Tikuna (20 mil), Guarani (30 mil ), Kaingaing (20 mil ), Yanomami
(10 mil ) e outros como os Ava-Canoeiros, cuja população atual é de apenas 14 pessoas,
o que implica que essa sociedade se encontra seriamente ameaçada de desaparecer.
As sociedades indígenas são muito diferenciadas entre si e, normalmente, essas
diferenças não podem ser explicadas apenas em decorrência de fatores ecológicos ou
razões econômicas.

Na década de 50, numa tentativa pioneira de caracterizar as semelhanças e diferenças


existentes entre os diversos grupos indígenas brasileiros, o antropôlogo Eduardo Galvão
desenvolveu o conceito de áreas culturais. Esse conceito procurou agrupar todas as
culturas de uma mesma região geográfica que partilhavam um certo número de
elementos em comum.

Assim, os grupos indígenas do Brasil foram classificados em 11 áreas culturais: Norte-


Amazônica; Juruá-Purus; Guaporé; Tapajós-Madeira; Alto-Xingu; Tocantins-Xingu;
Pindaré-Gurupi; Paraná; Paraguai; Nordeste e Tietê-Uruguai.

A área cultural do Alto-Xingu, por exemplo, adquiriu sua conformação geográfica a


partir da observação de certos costumes comuns e específicos à maioria dos grupos
indígenas da região. Entre esses costumes, destacam-se: a festa dos mortos, também
conhecida como Kuarup; o uso cerimonial do propulsor de dardos; o uluri, acessório da
indumentária feminina; as casas de projeção ovalada e tetos-parede em ogiva e o
consumo da mandioca como base da alimentação desses grupos.

Decorridos quase 50 anos do estudo de Galvão, permanece a idéia, como recurso


didático, de distribuir as sociedades indígenas em áreas, chamando atenção para suas
características específicas e, ao mesmo tempo, assinalando sua diversidade cultural.

Considerando o fato de que várias sociedades indígenas se situam em região de fronteira


e que circulam pelos países limítrofes ao Brasil onde vivem parentes e outros grupos
com os quais se relacionam, uma nova configuração classificatória para as sociedades
indígenas vem sendo proposta pelo antropólogo Julio Cesar Melatti - áreas etnográficas
- que se estende para toda a América do Sul.

Para a definição das áreas etnográficas foram consideradas, sobretudo, as seguintes


questões: a classificação lingüística, o meio ambiente e o contato das sociedades
indígenas entre si e com as sociedades nacionais. A classificação lingüística é
importante na medida em que existe um fundo cultural comum às sociedades que falam
línguas relacionadas, fazendo supor que sejam oriundas de uma única sociedade
anterior, mais remota no tempo.

Por essa concepção foram estabelecidas 33 áreas etnográficas para toda a América do
Sul.

As Terras Indígenas
A Constituição da República, de 05 de outubro de 1988, define o entendimento do
Estado brasileiro a respeito das terras indígenas. No artigo 231, diz a Constituição que:

São reconhecidos aos Índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e
tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam,
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos Índios as por eles habitadas em caráter
permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à
preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua
reprodução física e cultural, segundo seu usos, costumes e tradições.

§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos Índios destinam-se a sua posse


permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos
lagos nelas existentes.

§ 3º O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a


pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados
com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes
assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei.

§ 4º As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre
elas, imprescritíveis.

§ 5º É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo ad referendum do


Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua
população, ou no interesse da soberania do país, apôs deliberação do Congresso
Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.

§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por
objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a
exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes,
ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser a lei
complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações
contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de
boa-fé.

Para os índios, a terra de seu povo não é apenas suporte para a vida material, meio de
subsistência ou fator de produção, mas é também referencial a seu mundo simbólico.
Todas as dimensões da vida de um povo indígena têm por base seu território físico.
Graças ao conhecimento e domínio de uma área, os índios elaboram e reproduzem as
relações, idéias, crenças e produtos de sua vida sócio-cultural.

A Constituição brasileira estabelece como um dever a demarcação das terras indígenas.


Esta demarcação é o estabelecimento, pela via administrativa, dos limites do território
que tradicionalmente ocupam. Atualmente, o trabalho de definição de uma terra
indígena está regulamentado pelo Estatuto do Índio (lei 6001, de 19/12/73), pelo
Decreto nº 1775, de 09/01/96, e pela Portaria nº 14, de 10/01/96, estabelecida pelo então
Ministro da Justiça, Nelson Jobim.

O processo de identificação das terras indígenas, coordenado por antropólogos, envolve


conhecimentos técnicos de natureza etno-histórica, sociológica, juródica, cartográfica,
ambiental e fundiária, conforme estabelece o Dec. 1775, art 2º § 1º. É garantido o
direito dos índios participarem de todas as fases do processo administrativo.

Hoje, alguns povos indígenas controlam extensos territórios. A configuração de como


cada povo se organiza, com suas atividades de subsistência, permite aos especialistas
iniciar a definição da dimensão territorial necessária a sua sobrevivência. O número e a
área total das terras indígenas identificadas no Brasil aumentou substancialmente entre
1981 e 1994. Em 1981, havia 308 terras e 400 milhões de hectares reconhecidos,
enquanto, em 1994, esse número passou para 517 terras e 90 milhões de hectares.

Diante desse quadro, os inimigos dos índios - latifundiários, elites regionais, grileiros,
etc. - que antes exploravam uma postura racista, cheia de estereótipos de índios
preguiçosos, incapazes, justificam agora a invasão das terras indígenas, voltando-se para
a mídia em campanha difamatória, sintetizada na frase há nmuita terra para pouco índio.

Esta postura preconceituosa é totalmente equivocada nos seus fundamentos, pois é


enorme a concentração da propriedade fundiária no País, assim como é alto o índice das
áreas rurais aproveiáveis e não exploradas. É injusto concentrar as críticas da situação
agrária na realidade fundiária indígena. Além disso, a situação dos índios é grave em
várias regiões, onde os povos indígenas perderam grande parte de seus territórios
tradicionais. A maioria das áreas indígenas está invadida e existem aquelas onde não há
ainda qualquer proposta de definição territorial pela FUNAI. Essa é a realidade das
terras indígenas no Brasil, que estão concentradas, quase que totalmente (98%), na
Amazônia Legal.

Cestaria
Segundo o Dicionário do Artesanato Indígena de Berta G. Ribeiro, cestaria é o conjunto
de objetos - cestos-recipientes, cestos-coadores, cestos-cargueiros, armadilhas de pesca
e outros - obtidos pelo trançado de elementos vegetais flexíveis ou semi-rígidos usados
para transporte de carga, armazenagem, receptáculo, tamis ou coador. Variam em
tamanho, forma, decoração, técnica de manufatura, mas obedecem basicamente às
exigências ditadas por sua funcionalidade.

As sociedades indígenas no Brasil são detentoras das mais variadas técnicas de


confecção de trançados, utilizando-se delas para a confecção de cestos, que estão entre
os objetos mais usados, pois estão associados a vários fins.

A cestaria produzida e utilizada por uma determinada sociedade indígena está associada
à sua cultura, principal característica humana.

A cultura de um povo é como um código simbólico compartilhado por todos os homens,


mulheres e crianças do mesmo grupo social. É através da cultura que todas as pessoas
atribuem significado ao mundo e às suas vidas, pensam suas experiências diárias e
projetam seu futuro. É, portanto, um código dinâmico que se transforma ao longo do
tempo e através do espaço, dando sentido à própria vida, do nascimento até a morte, de
todos os membros de uma mesma sociedade.

A cestaria diz respeito ao conhecimento tecnológico, à adaptação ecológica e à


cosmologia, forma de concepção do mundo daquelas sociedades. O conjunto de objetos
incorporados à vivência de uma determinada sociedade indígena expressa
concretamente significados e concepções daquela sociedade, bem como a representa e a
identifica. Enquanto arte, em cada peça produzida existe também uma preocupação
estética, identificando o artesão que a produziu e aquela sociedade da qual ela é cultura
material.
Para uso e conforto doméstico, podem-se citar os cestos-coadores, que se destinam a
filtrar líquidos; os cestos-tamises, que se destinam a peneirar a farinha e os cestos-
recipientes, que se destinam a receber um conteúdo sólido ou armazená-lo, sendo
também utilizados para a caça e a pesca, para o processamento da mandioca, para o
transporte e para a guarda de objetos rituais, mágicos e lúdicos.

Os cestos cargueiros, como diz o nome, destinados ao transporte de cargas, apresentam


uma alça para pendurar na testa e têm o formato paneiriforme, com base retangular e
borda redonda, sendo conhecido pelo nome de aturá. Também são muito utilizados os
cestos- cargueiros de três lados, jamaxim, que dispõem de duas alças para carregar às
costas, tipo mochila. Em geral, esse cesto suporta até dez quilos de mandioca.

Em algumas sociedades indígenas, a confecção dos cestos é tarefa, exclusivamente,


masculina e sua utilização, essencialmente, feminina. Em outras, sua execução e
utilização são tarefa de ambos os sexos, como entre os Guarani que vivem em Bracuí,
município de Angra dos Reis no Rio de Janeiro. Os cestos-recipientes Guarani são
confeccionados de lasca de taquara previamente pintada, em trama cerrada,
apresentando desenhos geométricos representativos de losangos. Em geral, apresentam
as cores verde, rosa, roxo, vermelho, amarelo e azul e possuem tampa. A venda desse
tipo de artesanato, no acostamento da Estrada Rio-Santos, é uma importante fonte de
renda para a sobrevivência das famílias Guarani.

Para os Wayana e Apalaí, que vivem no norte do Pará, na região do Tumucumaque, são
somente os homens que, na divisão social e sexual do trabalho, devem confeccionar os
cestos feitos de fasquias do arbusto arumã. Cabendo às mulheres sua utilização nas
tarefas domésticas, na colheita e transporte de alimentos da roça para a aldeia e na
pesca.

O cesto- recipiente de uso mais comum entre as mulheres wayana é denominado poraxi
e serve para guardar algodão, miçangas, novelos, agulhas, tesouras e objetos diversos.
Somente os homens, e de forma estritamente individual, utilizam um cesto comprido
com alça de algodão e tampa encaixante denominado pakará. É feito de folha de
palmeira e se destina a armazenar pequenas facas, algodão, remédios, miçangas, agulhas
, penas de mutum para flechas e diversos objetos do universo masculino. Segundo a
tradição Wayana, quando um artesão morre, todos os seus pertences devem ser jogados
fora, queimados ou enterrados com ele. O pakará é o único bem que um filho pode
herdar de seu pai morto.

Como proceder para conhecer uma área indígena


A Fundação Nacional do Índio-FUNAI é o órgão do governo federal que tem a
atribuição legal da proteção e assistência às sociedades indígenas no Brasil e para tal se
baseia na Constituição brasileira, no Estatuto do Índio, na Lei 6.001 e nos atos e normas
do presidente da FUNAI.

No exercício de suas atribuições, a FUNAI não permite a entrada, em terras indígenas


de pessoas estranhas às comunidades para qualquer fim sem sua prévia autorização ou
das lideranças indígenas das referidas áreas.
A Instrução Normativa nº 01 do presidente da FUNAI, datada de 29.11.95 e publicada
no Diário Oficial da União em 13,12,95, disciplina o ingresso em terras indígenas com a
finalidade de desenvolver pesquisa científica.

Diz a Instrução que todo e qualquer pesquisador nacional ou estrangeiro deverá


encaminhar sua solicitação à Presidência da FUNAI. No caso de requerimento coletivo,
deverá ser subscrito por um dos membros do grupo, como seu responsável. A essa
solicitação deverá ser anexada os seguintes documentos: 1. carta de apresentação da
Instituição a que o pesquisador está vinculado; 2. projeto de pesquisa, em português,
detalhando a(s) terra(s) indígenas(s) na(s) qual(is) pretende ingressar e cronograma; 3.
curriculum vitae do(s) pesquisador(es) redigido em português; 4. cópia autenticada da
carteira de identidade ou passaporte; 5. atestado individual de vacina contra moléstia
endêmica na área; 6. visto temporário, quando se tratar de pesquisador(es)
estrangeiro(s).

O pesquisador interessado deverá, ainda, encaminhar diretamente ao Conselho Nacional


de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq o Projeto de Pesquisa e seu
curriculum vitae.

A solicitação de ingresso será objeto de análise pela Coordenadoria Geral de Estudos e


Pesquisas-CGEP, após parecer favorável do CNPq, quanto ao mérito da pesquisa
proposta e após ouvidas as lideranças do grupo a ser estudado. A consulta às lideranças
será realizada pela FUNAI com a presença do pesquisador. No caso de negativa quanto
ao pleito de ingresso ou quaisquer outros entraves, a CGEP encaminhará a questão ao
Conselho Indigenista através da presidência do órgão.

Quando se tratar de pesquisa em espaço territorial de ocupação tradicional de índios


isolados, o pedido será também, previamente, analisado pelo Departamento de Índios
Isolados-DII/FUNAI.

A Presidência da FUNAI poderá suspender a qualquer momento a autorização


concedida, caso seja solicitada a sua interrupção por parte da comunidade indígena em
questão. Ou, ainda, nos seguintes casos: conflitos, gerados pela pesquisa, dentro da terra
indígena, ou ocorrência de situações epidêmicas agudas ou conflitos graves envolvendo
índios e não-índios.

Todos os pesquisadores deverão remeter à FUNAI, relatório dos trabalhos de campo, em


português, e dois exemplares de publicações, artigos, teses ou outras produções
intelectuais oriundas das referidas pesquisas.

Atualmente, algumas lideranças indígenas discutem a realização de um Programa Piloto


de Ecoturismo em suas terras. Trata-se, ainda, de uma proposta não havendo, portanto,
nenhuma regulamentação em vigor, embora já existam algumas experiências em curso.

Mito e Cosmologia
As cosmologias indígenas representam modelos complexos que expressam suas
concepções a respeito da origem do Universo e de todas as coisas que existem no
mundo. Os mitos, considerados individualmente, descrevem a origem do homem, das
relações ecológicas entre animais, plantas e outros elementos da natureza, da origem da
agricultura, da metamorfose de seres humanos em animais, da razão de ser de certas
relações sociais culturalmente importantes, etc.

Para muitas sociedades indígenas, o cosmos está ordenado em diversas camadas, onde
se encontram divindades, fenômenos atmosféricos e geográficos, animais e plantas,
montanhas, rios, espíritos de pessoas e animais, ancestrais humanos, entes sobrenaturais
benévolos e malévolos.

Cada uma das diversas sociedades indígenas elabora suas próprias explicações a
respeito do mundo, dos fenômenos da natureza, dos espíritos, dos seres sobrenaturais e,
também, do momento em que surgiram os seus ancestrais. Para exemplificar,
apresentamos, resumidamente, o mito de origem dos índios Arara, grupo de língua
Karib.

Para eles, quando essa vida ainda não havia começado, existiam somente o céu e a água.
Separando-os, uma pequena casca que recobria o céu e servia de assoalho a seus
habitantes. Na casca do céu a vida era plena, pois havia de tudo para todos.

A boa humanidade, protegida pela divindade Akuanduba, vivia conforme as coisas


básicas da vida: acordar, comer, beber, namorar, dormir. Se alguém cometesse algum
excesso, contrariando as normas, a divindade fazia soar uma pequena flauta, chamando
a atenção de todos para que se comportassem de acordo com a boa ordem. Fora da casca
do céu, existiam coisas ruins, seres atrozes e espíritos maléficos, contra os quais a boa
humanidade estava protegida por Akuanduba.

Houve um dia, no entanto, que ocorreu uma grande briga da qual participou muita
gente. A divindade fez soar a flauta, mas a multidão teimosa não quis parar de brigar.
Nessa confusão, a casca do céu se rompeu, lançando tudo e todos para longe, para
dentro da água que envolvia a casca.

Com a queda, todos perderam e todos os velhos e crianças morreram, restando apenas
uns poucos homens e mulheres. Dos sobreviventes, alguns foram levados de volta ao
céu por pássaros amazônicos, onde se transformaram em estrelas. Os que ficaram,
foram abandonados pelos pássaros nos pedaços da casca do céu que caíram sobre as
águas. Assim, surgiram os Araras que, para se manter afastados das águas, escolheram
ocupar o interior da floresta.

Até hoje, os Arara, habitantes do vale dos rios Iriri-Xingu, no Estado do Pará, assobiam
chamando as araras quando as vêem voando em bandos por sobre a floresta. Quando
pousam no alto das árvores, as araras, por sua vez, observam os índios e, ao notarem o
quanto eles cresceram, desistem de levá-los de volta ao céu. Aqui já foram deixados
outras vezes e aqui deverão permanecer.

Os Arara, que antes viviam como estrelas, estão agora condenados a viver como gente,
tendo que perseguir o alimento de cada dia em meio aos perigos que existem sobre o
chão.

Organizações Indígenas
Nos anos 70, lideranças indígenas de várias regiões do País, com o apoio do Conselho
Indigenista Missionário (CIMI), começaram a promover a realização de Assembléias
Indígenas Intertribais para a discussão de seus problemas. Enquanto ano a ano
aumentava o número de assembéias realizadas, crescia , no cenário nacional, a presença
de alguns líderes como Mário Juruna (Xavante), Kretan e Xangrí (Kaingang) e Raoni
(Txukarramãe).

As assembléias procuravam levantar os problemas específicos de cada grupo e aldeia


indígena. A partir deste quadro, os índios identificavam as questões urgentes, voltadas
para a garantia da terra, assistência sanitária e educacional.

Entretanto, uma proposta governamental de emancipação dos índios, divulgada em 1978


e rejeitada por Universidades, Igrejas, Ordem dos Advogados, ONGs, etc., motivou os
índios a superarem a esfera local, para debater e agir sobre seus problemas em âmbito
nacional.

Os fatos de 1978 contribuíram para que os índios criassem em 1979 uma organização
nacional, a UNI - União das Nações Indígenas. Esta procurou representar um papel
simbólico de unificar as reivindicações indígenas, adotando nas suas atividades uma
política de alianças com os movimentos de apoio aos índios espalhados pelo Brasil.

A UNI enfrentou problemas de institucionalização, pois era difícil representar,


regularmente, interesses e povos dispersos pelo território brasileiro. Atuando na
Constituinte, influenciou a elaboração do capítulo sobre os direitos indígenas da
Constituição de 1988.

Essa representação nacional, diante de eventos de caráter continental ou mundial, levou


a uma indianidade genérica, uma ação política e ideológica voltada para os problemas
gerais dos índios e distante do dia-a-dia das aldeias. Nos anos 90, a UNI se enfraqueceu
e deixou de operar enquanto havia um fortalecimento das organizações de âmbito local
e regional. A própria Constituição de 1988 valorizou o poder político das aldeias, pois
há necessidade de consulta às comunidades para o desenvolvimento de projetos de
exploração mineral.

Assim, nos anos 90, surgiram organizações regionais como a FOIRN - Federação das
Organizações Indígenas do Rio Negro, e a COIAB -Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira. Novamente com o apoio do CIMI, algumas
lideranças começaram a construir uma nova organização nacional, o CAPOIB -
Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil.

Por todo o território nacional, as diversas organizações indígenas contam com a


intermediação de ONGs no apoio as suas atividades. Entre as organizações as diferenças
são grandes, envolvendo formas de representação, duração do mandato, tipos de
alianças, etc. Em sua maior parte já estão registradas em cartório, pois procuram captar
recursos externos à comunidade. Um levantamento realizado em 1995 pelo Instituto
Socioambiental revelou a existência de 109 organizações indígenas no Brasil.

Os Guarani no Rio de Janeiro


Existem índios no Rio de Janeiro. São os Guarani do subgrupo Mbya, falantes da língua
Tupi.

Nos Estados Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul vivem, além dos Mbya, os Guarani dos subgrupos Nhandeva e
Kaiowá.

Em 1996, as três terras indígenas existentes no Rio de Janeiro - a Terra Indígena


Guarani de Bracuí, localizada no município de Angra dos Reis, a Terra Indígena
Araponga e a Terra Indígena Parati-Mirim localizadas no município de Paraty - tiveram
o processo de demarcação concluído e foram homologadas pelo governo federal. O
Presidente da República, seguindo a Constituição brasileira, reconheceu-as oficialmente
como terras tradicionais do povo Guarani e fez publicar no Diário Oficial da União os
decretos que dão direito aos Guarani a posse permanente dessas terras.

Vivem nas três aldeias aproximadamente, 450 pessoas. A Terra Indígena Guarani de
Bracuí é a que tem a maior população, cerca de 320 indivíduos. Mais da metade é
constituída por crianças menores de 14 anos.

Os Guarani que vivem hoje , em território brasileiro, somam, aproximadamente, cinco


mil pessoas. Há também Guarani vivendo em áreas na Argentina, Paraguai e Bolívia,.

O subgrupo Mbya , em Angra dos Reis, vive no alto da serra em meio à Mata Atlântica,
de onde podem avistar o mar. Atravessar o mar e encontrar a Terra Sem Mal, o paraíso
mítico, é o sonho dos Guarani. Na busca incessante desse paraíso, que segundo a
tradição pode ser alcançado em vida, eles precisam cumprir e respeitar um conjunto de
regras e conduta divina que lhes são transmitidas pelos xamãs. São elas que norteiam as
relações que mantém com a natureza, com todos os seres humanos e com os espíritos. É
o modo de ser e viver guarani, o nandereko.

Um bom lugar para viver, de acordo com o seu nandereko, é próximo ao mar, mas
distante dele. Tem que ter terra boa para plantar, pois são tradicionalmente ,
agricultores, mantendo roças familiares e plantando, em sistema de rodízio, os
principais alimentos de sua dieta como o milho(awati), mandioca(mandio), batata-
doce(djety’i), amendoim (manduvi) e feijão(kumandá), uma média de três hectares ao
ano.

Tem que ter um lugar para pescar, caçar e colher as frutinhas do mato. Costumam ter
sempre próximo às casas de moradia(o’y) árvores frutíferas como complemento
alimentar, tais como o abacateiro e a bananeira. A mata é necessária para os índios para
colherem o material necessário para a construção de casas, cestos, arcos, ornamentos e
objetos rituais, mágicos e religiosos.

A Casa de Reza(opy) ocupa lugar de destaque, convergindo para ela todas as atividades
significativas da aldeia. No seu interior, cuja vedação é completa para impedir a entrada
de espíritos indesejáveis, os Guarani ouvem as belas palavras(porahei) proferidas pelos
xamãs, e realizam os rituais funerários, de cura, e do batismo do milho. É no pátio ,em
frente a opy, que se realizam as reuniões de deliberação da comunidade e o xondarê,
dança lúdica guarani, quando todos brincam ao som do violão e da rebeca.
São os xamãs, conhecidos também por rezadores, que, ouvindo as vozes e orientações
dos deuses, os conduziram a esses espaços para que pudessem neles construir suas
aldeias, o tekoa.

O tekoa é formado por um complexo de pequenos núcleos, de duas ou mais casas,


dispersos pela área escolhida. Nele, as relações sociais e de parentesco, a divisão sexual
do trabalho e as relações cosmológicas com os espíritos e o sobrenatural se reproduzem
e se atualizam, dando sentido ao modo de ser e viver Guarani.

Há quinhentos anos os Guarani têm enfrentado o desafio de sobreviver de acordo com


suas tradições, interagindo com a sociedade brasileira. Vêm selecionando e
incorporando as suas tradições e valores as novas necessidades e conhecimentos
advindos dessa relação.

Hoje, administram, em parceria com várias instituições, os projetos que escolheram para
desenvolver em sua comunidade: o escola bilíngüe, que já produziu uma cartilha
Guarani para alfabetização e um livro contando a história do contato com os não-índios
do ponto de vista Guarani; a instalação de um posto de saúde na aldeia e a formação de
agentes de saúde guarani; a construção de açudes para piscicultura; a criação de animais
; o ponto de venda de artesanato em Angra dos Reis e o projeto de oficinas fotográficas;
entre outros. Na aldeia Sapukai, do tekoa de Bracuí , os Guarani vivem o tempo
presente e constroem o futuro de seus filhos.

Línguas Indígenas
Segundo dados fornecidos pela sede da FUNAI, em 1997, o número de sociedades
indígenas conhecidas existentes no Brasil, atualmente, é de 215, com uma população
total de 325.652 pessoas, que falam 170 línguas indígenas diferentes. Não estão
contadas, neste total, as línguas faladas pelos índios isolados, isto é, aqueles que não
têm contato com a sociedade nacional, cujas línguas, portanto, não são conhecidas
(sabe-se da existência de pelo menos 55 grupos isolados, que vivem na região da
Amazônia Legal).

Os lingüistas agrupam as línguas faladas pelos diversos povos da Terra em Famílias


Lingüísticas e reúnem essas Famílias em Troncos Lingüísticos. Os Troncos a que
pertencem as línguas indígenas faladas no Brasil são: Tupi, Jê e Aruak. As Famílias que
não foram identificadas como pertencentes a nenhum dos Troncos acima mantiveram-se
como Famílias mesmo. São elas: Karib, Pano, Maku, Yanoama, Mura, Tukano,
Katukina, Txapakura, Nambikuara e Guaikuru. Além disto, existem as línguas que não
puderam ser classificadas pelos lingüistas dentro de nenhuma Família ou Tronco,
permanecendo isoladas.

Há, ainda, as sociedades indígenas que, por viverem em contato com a sociedade
nacional há muito tempo, acabaram por esquecer sua língua original e só falar o
Português. De algumas dessas línguas não mais faladas ficaram registros de grupos de
vocábulos e informações esparsas, que geralmente não permitem que os lingüistas as
conheçam o suficiente para classificá-las em alguma Família. De outras, não ficaram
nem resquícios.
O fato de duas sociedades indígenas falarem línguas pertencentes a uma mesma Família
não faz com que seus membros consigam entender-se mutuamente, da mesma forma
que o Português e o Francês são línguas latinas, mas os falantes das duas línguas não se
entendem, apesar das muitas semelhanças lingüísticas existentes entre ambas

Cerâmica Indígena Brasileira


No contato manual com a terra, o homem descobriu o barro como forma de expressão.
A confecção de cerâmica é muito antiga e surgiu ainda no período Neolítico,
espalhando-se, aos poucos, pelas diversas regiões da Terra.

Tradicionalmente, a produção da cerâmica, entre os povos indígenas que vivem no


Brasil, é totalmente manual, sem a utilização do torno de oleiro.

A argila (composto de sílica, alúmen e água) é a matéria-prima básica empregada na


confecção da cerâmica e certas substâncias, que recebem o nome de tempero, são
adicionadas a ela, de forma a reduzir o grau de plasticidade provocado pelo excesso de
alúmen.

O tempero pode ser de origem mineral (como a areia), animal (conchas trituradas, por
exemplo) ou vegetal (como cascas de árvores ricas em sílica, trituradas e queimadas).
Uma vez preparada a massa, a técnica mais usual para produzir os vasilhames é a da
união sucessiva de roletes (feitos manualmente), utilizando-se instrumentos rústicos,
bem variados, para auxiliar na confecção das peças, como cacos quebrados de potes
antigos para ajudar a alisar os roletes, pincéis feitos com penas de aves ou com raízes
para pintar a superfície, etc..

O tratamento dado à superfície das peças varia muito de povo para povo e de acordo
com o uso que será dado a cada objeto. A superfície pode apresentar-se tosca, alisada,
polida, decorada (com pinturas ou de outras maneiras) e até mesmo revestida por uma
outra camada de argila especialmente preparada para este fim, a que se dá o nome de
engobo. Finalmente, a louça de barro, como é comumente conhecida, pode ser
queimada ao ar livre (exposta ao oxigênio), ficando com uma coloração alaranjada ou
avermelhada, ou pode ser queimada em fornos de barro, fechados, que não permitem o
contato com o oxigênio, o que deixa uma coloração acinzentada ou negra.

Desta forma são produzidos objetos utilitários (como potes, panelas, alguidares, etc.),
objetos votivos ou rituais, instrumentos musicais, cachimbos, objetos de adorno e
outros.

Entre as sociedades indígenas brasileiras, a cerâmica é, geralmente, confeccionada pelas


mulheres. Todas aprendem a fazê-la mas, como em qualquer outra atividade, há aquelas
com mais habilidade e/ou criatividade. Atualmente, algumas já se utilizam de tintas e
instrumentos industrializados para produzir sua cerâmica.

Nem todos os povos indígenas produzem cerâmica e alguns, que tradicionalmente


produziam, deixaram de fazê-lo, após o contato com não índios e com o passar do
tempo. Entre alguns povos ceramistas, os objetos produzidos são simples. Entre outros,
são muito elaborados e valorizados pelos membros da sociedade.
Destacam-se por sua cerâmica os índios Kadiwéu e Terena, de Mato Grosso do Sul;
Waurá, de Mato Grosso; Karajá, de Tocantins; Asurini e Parakanã, do Pará; Wai-Wai, do
Pará, Roraima e Amapá; Marubo, Tukano, Maku e Baniwa, do Amazonas e outros.

Povos Indígenas e suas Relações com a Natureza


Ao pensarmos as relações dos índios com a natureza, devemos estar atentos, antes de
mais nada, ao fato de a natureza não se apresentar de forma homogênea e, sim, de ser
composta por uma variedade muito diversificada de ecossistemas.

Por ecossistemas, entendemos o conjunto de fatores físicos, ecológicos e bióticos, que


caracterizam um determinado lugar e que se estendem por um espaço de dimensões
variadas, constituindo-se numa totalidade sistêmica, integrada por fatores abióticos,
como as substâncias minerais, os gases e os elementos climáticos isolados, e por
organismos vivos, como plantas, fungos, animais, etc.

Nesse sentido, ao contemplarmos as cerca de 560 terras indígenas existentes no Brasil,


devemos considerar que cada uma dessas terras está situada em sistemas ecológicos
característicos. Assim, podemos dizer que o meio ambiente e seus variados ecossistemas
devem ser reconhecidos como um fator gerador do processo cultural das sociedades
indígenas, na medida em que os índios e suas organizações sociais tiveram que
desenvolver estratégias de adaptação a cada um desses ecossistemas de forma a obter os
meios necessários a sua sobrevivência.

Se considerarmos a região amazônica, podemos falar, entre outros ecossistemas, das


florestas de castanheiras, das matas de cipó, das várzeas, das matas de igapós, das
savanas de terra firme, dos rios de água preta, das florestas de terra firme, etc. Cada um
desses ecossistemas enseja aos índios uma forma particular de manejo, de forma a
otimizar a obtenção dos recursos que são necessários ao seu bem-estar.

Tradicionalmente, as sociedades indígenas não se fixavam a um mesmo território por


muito tempo. As aldeias indígenas eram organizadas, levando-se em consideração a
quantidade, a qualidade e a distribuição espacial dos recursos indispensáveis ao
desenvolvimento de suas comunidades.

Os Kayapó Gorotire, por exemplo, adotam um estilo de vida seminômade,


permanecendo por cerca de quatro a cinco meses durante o ano, fora de seus
povoamentos permanentes. Nesse período, além da caçaa e da coleta, os Kayapó
aproveitam o cerrado para plantar diversas espécies de plantas, formando verdadeiras
"ilhas de recursos", utilizadas como fonte de matéria-prima, ervas medicinais e
alimentação.

Os índios que vivem nas bacias dos rios de água preta, por sua vez, sabem que as matas
de igapó representam importante refúgio para diversas espécies de peixes, que
encontram alimento e condições adequadas para a desova. Por essa razão, os índios
evitam o plantio de suas roças nesse ecossistema de forma a não perturbar o
desenvolvimento do ciclo vital dessas espécies, que se constituem em sua principal
fonte de proteína animal. Ao chamarmos a atenção para a observação dos diversos
ecossistemas e de como suas características peculiares influenciam a organização social
dos índios, sua distribuição demográfica e sua tecnologia, não estamos dizendo que o
desenvolvimento cultural dessas sociedades é determinado pelo meio ambiente.
Estamos apenas salientando a idéia de que cada ecossistema apresenta possibilidades e
limitações, exigindo dos índios diferentes respostas adaptativas.

Política Indigenista
Chamamos de política indigenista as iniciativas formuladas pelas diferentes esferas do
Estado brasileiro a respeito das populações indígenas. A política indigenista é orientada
pelo indigenismo, conjunto de princípios estabelecidos a partir do contato dos povos
indígenas com a sociedade nacional.

Política indigenista e indigenismo são categorias históricas, noções empregadas


essencialmente no séc. 20. A categoria indigenismo deve ser referida, preferencialmente,
às diretrizes vitoriosas no 1º Congresso Indigenista Interamericano, realizado no
México, em 1940. Aí foram formulados os princípios e metas transformados em práticas
- ou políticas indigenistas - pelos países do continente americano.

No Brasil, desde o séc.16 , existem instrumentos legais que definem e propõem uma
política para os índios, fundamentados na discussão da legitimidade do direito dos
índios ao domínio e soberania de suas terras. Esse direito - ou não - dos índios ao
território que habitam está registrado em diferentes legislações portuguesas, envolvendo
Cartas Régias, Alvarás, Regimentos, etc.

No período colonial, a política para os índios envolveu extremos - das guerras justas,
descimentos e escravização de índios e esbulho de terras às ações missionárias nos Sete
Povos das Missões. Já a legislação imperial não é benéfica aos índios, seja pelo
Regulamento das Missões de 1845, a lei de terras de 1850 ou as decisões contrárias aos
índios de várias Assembléias Provinciais. No séc. 19, a política para os índios foi
marcada pela remoção e reunião de aldeias.

Com o advento da República e a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), foram
estabelecidos ou reforçados alguns princípios indigenistas, voltados para a prevenção de
qualquer coerção ou violência aos índios, o respeito às instituições e valores indígenas e
a garantia à posse de suas terras. Esses princípios foram transformados em políticas
indigenistas através da proteção leiga aos índios pelo Estado.

As políticas indigenistas estavam , então, voltadas ao estímulo ao trabalho e ao


desenvolvimento de atividades produtivas, através da educação e treinamento dos índios
e de seus filhos. Entretanto, a uma determinada política indigenista nem sempre
correspondia uma conseqüente ação indigenista, e o SPI acabou sendo extinto, nos anos
60, por problemas de corrupção, esbulhos de terras indígenas, etc.

Em substituição ao SPI, pela Lei nº 5371, de 5 de dezembro de 1967, foi instituída a


Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A partir de então, a política indigenista se baseou
nos seguintes princípios:

Pela Lei 6001, de 19/12/73, foi sancionado o Estatuto do Índio, que hoje regula a
situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com o propósito
de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente, à comunhão
nacional.
Até 1988 a política indigenista brasileira estava centrada nas atividades voltadas à
incorporação dos índios à comunhão nacional, princípio indigenista presente nas
Constituições de 1934, 1946, 1967 e 1969. A Constituição de 1988 suprimiu essa
diretriz, reconhecendo aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e
tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.

Os índios também ampliaram sua cidadania, já são partes legítimas para ingressar em
juízo em defesa de seus direitos e interesses. Assim, o principal objetivo da política
indigenista hoje é a preservação das culturas indígenas, através da garantia de suas
terras e o desenvolvimento de atividades educacionais e sanitárias.

População Indígena no Brasil


Distribuídos em 562 terras indígenas, vivem hoje no Brasil cerca de 315.000 índios. São
206 povos (ou etnias), concentrados, em sua maioria - 70% do total -, numa parcela da
Amazônia Legal que engloba seis Estados: Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Mato
Grosso e Pará. Além desses, devemos considerar ainda a existência de 40 povos
isolados na Amazônia Ocidental.

Em densidade populacional, os seis maiores povos são:

Guarani (sub-grupos Kaiowá, Nandeva e Mbyá): 30 mil (MS, SP, RJ, PR, SC, RS, ES);

Ticuna: 23 mil (AM);

Kaingang: 20 mil (SP, PR,RS,SC);

Macuxi: 15 mil (RR);

Guajajara: 10 mil (MA);

Yanomami: 9.975 (RR/AM).

Quarenta e oito povos conhecidos, além de outros isolados, habitam o Estado do


Amazonas, onde há maior concentração de etnias. Nos demais Estados, é a seguinte a
distribuição da população indígena:

Mato Grosso - 32 povos; Pará - 27; Rondônia - 22; Acre - 11; Roraima - 9; Bahia e
Maranhão - 8;Pernambuco - 7; Alagoas, Ceará e Mato Grosso do Sul: 6; Amapá: 5;
Minas Gerais e Tocantins - 4; São Paulo - 3; Rio Grande do Sul, Goiás, Santa Catarina e
Espírito Santo - 2; Sergipe e Paraíba - 1.

Obs. Alguns povos que se distribuem por dois ou três Estados foram citados em apenas
um deles.

Por que o dia 19 de abril é o Dia do Índio?


Em 1940, o 1º Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, México,
aprovou uma recomendação proposta por delegados indígenas do Panamá, Chile,
Estados Unidos e México.

Essa recomendação, de nº 59, propunha:

1. o estabelecimento do Dia do Índio pelos governos dos países americanos, que seria
dedicado ao estudo do problema do índio atual pelas diversas instituições de ensino;

2. que seria adotado o dia 19 de abril para comemorar o dia do Índio, data em que os
delegados indígenas se reuniram pela 1ª vez em assembléia no Congresso Indigenista.
Todos os países da América foram convidados a participar dessa celebração.

Pelo Decreto-lei nº 5.540, de 02 de junho de 1943, o Brasil adotou essa recomendação


do Congresso Indigenista Interamericano. Assinado pelo Presidente Getúlio Vargas e
pelos Ministros Apolônio Sales e Oswaldo Aranha, É o seguinte o texto do Decreto:

O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o art. 180 da


Constituição, e tendo em vista que o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano,
reunido no México, em 1940, propôs aos países da América a adoçãqo da data de 19 de
abril para o "Dia do Índio", decreta:

Art. 1º - considerado - "Dia do Índio" - a data de 19 de abril.

Art. 2º- Revogam-se as disposições em contrário.

A recomendação de institucionalização do "Dia do Índio" tinha por objetivo geral, entre


outros, outorgar aos governos americanos normas necessárias à orientação de suas
políticas indigenistas. Já, em 1944, o Brasil celebrou a data, com solenidades, atividades
educacionais e divulgação da cultura indígena. Desde então existe a comemoração do
"Dia do Índio", às vezes estendida por uma semana, a "Semana do Índio".

Rituais Indígenas
Uma grande parte dos rituais realizados pelos diversos grupos indígenas do Brasil pode
ser classificada como ritos de passagem. Os ritos de passagem são as cerimonias que
marcam a mudança de um indivíduo ou de um grupo de uma situação social para outra.
Como exemplo, podemos citar aqueles relacionados à mudança das estações, aos ritos
de iniciação, aos ritos matrimoniais, aos funerais e outros, como a gestação e o
nascimento.

Entre os Tupinambá - grupo indígena extinto que habitava a maior parte da faixa
litorânea que ia da foz do rio Amazonas à ilha de Cananéia, no litoral paulista, quando
nascia uma criança do sexo masculino, o pai levantava-se do chão e cortava-lhe o
umbigo com os dentes. A seguir, a criança era banhada no rio, após o que o pai lhe
achatava o nariz com o polegar. Em seguida, a criança era colocada numa pequena rede,
onde eram amarradas unhas de onça ou de uma determinada ave de rapina. Colocavam-
se, ainda, penas da cauda e das asas dessa ave e, também, um pequeno arco e algumas
flechas, para que a criança se tornasse valente e disposta a guerrear os inimigos.

O pai, durante três dias, não comia carne, peixe ou sal, alimentando-se apenas de certo
tipo de farinha. Não fazia, também, nenhum trabalho até que o umbigo da criança
caísse, para que ele, a mãe e a criança não tivessem cólicas. Três vezes por dia punha os
pés no ventre da esposa. Nesses dias, o pai fazia pequenas arapucas e nelas fazia a tipóia
de carregar a criança; tomava, também, o pequeno arco e as flechas e atirava sobre a
tipóia, pescando-a depois com o anzol, como se fosse um peixe. Assim, no futuro, a
criança caçaria ou pescaria. Quando o umbigo caía, o pai partia-o em pedacinhos e
pregava-os em todos os pilares da oca, a fim de que o filho fosse, no futuro, um bom
chefe de família. O pai também colocava aos pés da criança um molho de palha, que
simbolizava os inimigos. Quando todas essas práticas tinham sido realizadas, a aldeia
por inteiro se entregava às comemorações. Nesses dias, era escolhido um nome para o
recém-nascido.

Através desse rito de incorporação, o pai assumia a paternidade e se reconhecia ao


recém-nascido, um lugar na sociedade Tupinambá, como homem ou mulher.

Cabe destacar que nesses rituais ligados à gestação e ao nascimento não só a criança,
como também seus pais, eram submetidos ao ritual de passagem. O reconhecimento da
gravidez da mulher punha o pai e a mãe num estado de cuidados especiais, separando-
os, de certo modo, pela maneira de se comportar, dos demais habitantes da aldeia.
Ficavam, assim, segregados até que a criança nascesse e os ritos de sua incorporação
fossem realizados, momento em que eles eram reintegrados à vida normal,
desempenhando um novo papel social: pai e mãe de um novo membro da sociedade.

Socialização das Crianças


Todas as sociedades humanas constróem brinquedos para suas crianças. Os brinquedos
construídos e utilizados nas sociedades indígenas, no Brasil, variam de acordo com as
matérias-primas encontradas no meio ambiente em que esses grupos vivem, sendo que
os brinquedos mais comuns são feitos de palha, madeira ou barro. As mulheres Karajá
costumam fabricar minibonecas de barro para suas filhas brincarem.

É muito comum também os adultos fabricarem para suas crianças dobraduras de palha
representando os animais da floresta, ou elementos que estão presentes no dia-a-dia,
como os aviões, que sobrevoam as aldeias. Hoje também é comum as crianças indígenas
pedirem aos seus pais bonecas e bolas de plástico quando estes vão às cidades.

Os brinquedos são, em geral, miniaturas de objetos do uso cotidiano de cada sociedade e


têm como objetivo divertir as crianças e educá-las para o desempenho das tarefas que
irão realizar quando adultas.

Nas sociedades indígenas, a organização do trabalho se baseia na divisão das tarefas por
sexo. As crianças, desde cedo, aprendem a lidar com essa regra em suas brincadeiras e
pequenas tarefas.

Os bebês, até aprenderem a andar, vivem aconchegados junto ao corpo da mãe, no


macio da tipóia de algodão, feita especialmente para carregá-los, ou na rede. Já as
crianças pequenas, de até 3 ou 4 anos, brincam com outras crianças de ambos os sexos e
se divertem com seus brinquedos ou com algum cesto velho, já sem utilidade. Mas estão
sempre próximas às mães, pois costumam ser amamentadas até essa idade. É comum,
também, que uma irmã mais velha, adolescente, tome conta das crianças menores,
enquanto a mãe prepara os alimentos.

A partir dos 4 anos, aproximadamente, uma menina Wayana e Apalaí, do norte do Pará,
ganha de seu pai um pequeno cesto cargueiro, confeccionado com finas tiras do arbusto
arumã, especialmente para ela. É seu primeiro trançado, dos muitos que receberá ao
longo de sua vida. Cabe às mulheres e às meninas Wayana a utilização dos cestos e
vários outros tipos de trançados para a realização das tarefas domésticas. Cabe
exclusivamente aos homens e aos meninos Wayana e Apalaí a sua confecção. Com o seu
cesto, a menina Wayana irá brincar e acompanhar a mãe, a tia e a avó à roça.

Através da imitação, brincando de arrancar batatas e transportando-as para a aldeia em


seu cesto cargueiro, as meninas vão aprendendo o trabalho feminino, em especial o
processo de fabricação do beiju, uma espécie de panqueca de mandioca muito
consumida pelos povos indígenas brasileiros.

Os meninos Wayana, com aproximadamente 4 anos, recebem sua primeira tanga


vermelha. De seu pai, recebem um pequeno arco e diversas flechas, com os quais irá
brincar e se divertir. Por volta dos 7 ou 8 anos, os meninos possuem rede própria e já
circulam sozinhos pelos arredores da aldeia. A independência em relação a sua mãe é
completa podendo então passar a acompanhar o pai ou o irmão mais velho em caçadas,
pescarias e incursões na floresta, dando início ao longo processo de aprendizagem das
tarefas masculinas.

Os jovens devem exercer e dominar as tarefas próprias de seu gênero, masculino ou


feminino, e de sua idade. As atividades que irão desempenhar na vida adulta lhes são
ensinadas ao longo dos anos, no acompanhamento e observação da realização das
tarefas desempenhadas por seus pais, prestando-lhes também ajuda.

As principais atividades do universo feminino a serem aprendidas pelas meninas, que as


exercerão plenamente quando adultas, consistem basicamente na plantação, colheita e
conservação da roça, transporte de lenha e preparo dos alimentos, preparação das
bebidas fermentadas, fiação do algodão, confecção de redes, cerâmica e educação das
crianças.

As principais atividades do universo masculino a serem aprendidas pelos meninos, que


as exercerão quando adultos, são basicamente preparo do terreno para o plantio, caça,
confecção de arco e flecha, cestaria, confecção de enfeites plumários, construção de
casas. Em geral, as atividades ligadas à pesca com timbó são realizadas por ambos os
sexos.

O período de reclusão ritual a que são submetidos os jovens de ambos os sexos varia em
cada sociedade. Esse período marca o término do que é considerado como adolescência,
nas sociedades indígenas, que para as meninas acontece, geralmente, quando vem a
primeira menstruaão.
Ao atingir a puberdade, os jovens do sexo masculino e feminino devem se dedicar a
aprimorar as técnicas de seus afazeres, pois estarão aptos para o casamento e, portanto,
para a vida adulta, tendo-se completado o processo de socialização.

Nas culturas indígenas, o processo de socialização das crianças é considerado tarefa de


todos, cabendo às mães e aos pais a orientação nas tarefas e comportamentos que a
comunidade espera desse novo membro do grupo. Cabe às crianças brincar e ter sua
mãe sempre por perto para protegê-las, sem jamais levantar a voz, brigar ou bater-lhes.
Uma boa mãe e um bom pai educam com autoridade, desenvolvendo na criança a
atenção e a observação pessoal, bem como a importância da repetição de uma tarefa até
a sua plena aprendizagem. Cabe a todos desenvolver na criança o senso de
responsabilidade e o respeito ás regras sociais de sua comunidade.

Tecnologia e Cultura Material


A sociedade brasileira em seu período de formação, nos primeiros anos do
descobrimento e durante a época colonial, utilizou-se, amplamente, dos artefatos
indígenas para a sua própria sobrevivência, dada a existência de numerosas populações
indígenas habitando o país no litoral e no interior. Um dos vários e importantes legados
dessas sociedades a nossa cultura é o mobiliário indígena, em especial o banco e a rede.
A rede está entre os artefatos da cultura material das sociedades indígenas mais
utilizados pela sociedade brasileira desde o século dezesseis até hoje.

Chamamos de tecnologia o estudo de todos os objetos criados pelos grupos humanos


visando à sua melhor adaptação no tempo e espaço em que vivem. É através da
fabricação dos objetos que os grupos humanos interagem com o seu meio ambiente,
utilizando-se dele e imprimindo-lhe a sua marca.

A produção de variados objetos da cultura material, ferramentas, instrumentos,


utensílios e ornamentos, com os quais um grupo humano busca facilitar sua
sobrevivência, está ligada à escolha e utilização das matérias-primas disponíveis; ao
desenvolvimento da técnica adequada de manufatura; às atividades envolvidas na
exploração do ambiente e na adaptação ecológica; à utilidade e finalidade prática dos
objetos e instrumentos produzidos. Estão presentes, também, elementos de ordem
simbólica, ligados às concepções religiosas, estéticas e filosóficas do grupo.

Embora a humanidade tenha criado objetos bastante semelhantes, cada povo, ou grupo
étnico, com seu jeito de viver, inteligência e criatividade, tem desenvolvido tendências
próprias, objetos e técnicas totalmente distintas de outros grupos. Assim, a diversidade
se faz presente, pois cada povo construiu, através de sua unidade política, econômica e
religiosa, bem como de sua língua e forma de sociabilidade, a sua especificidade, o que
torna único e diferente dos demais.

Entendendo a cultura de um povo como um código simbólico compartilhado por todos


os homens, mulheres e crianças do mesmo grupo social, as sociedades indígenas não
separam, dentro de sua experiência coletiva, a produção de um objeto da cultura
material da produção artística, como costumamos fazer em nossa visão ocidental. Nas
culturas indígenas, todo objeto, seja utilitário, ornamental ou ritual ( mágico - religioso),
É também um objeto de arte, pois está plenamente integrado em todos os campos da
ação humana, das prááticas sociais. Uma rede, uma casa, um banco, um cesto, uma
panela são bons e belos se realizados dentro dos parâmetros compartilhados por todos
os indivíduos daquela sociedade. Nesse contexto, também são apreciadas as novidades
estéticas internas-meio-ambiente e externas, fruto das mudanças da vida cotidiana, que
cada indivíduo pode acrescentar ao modo de fazer um objeto.

Território Indígena
Para os índios, a terra é um bem coletivo, destinada a produzir a satisfação das
necessidades de todos os membros da sociedade. Todos têm o direito de utilizar os
recursos do meio ambiente, através da caça, pesca, coleta e agricultura. Nesse sentido, a
propriedade privada não cabe na concepção indígena de terra e território. Embora o
produto do trabalho possa ser individual, as obrigações existentes entre os indivíduos
asseguram a todos o usufruto dos recursos.

A Constituição do Brasil elaborada em 1988, em seu artigo 231, reconhece aos índios, o
direito originário sobre as terras que tradicionalmente ocupam. As terras,
tradicionalmente, ocupadas pelos índios são aquelas por eles habitadas em caráter
permanente, as que são utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à
preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua
reprodução física e cultural, segundo seus usos costumes e tradições.

Entre os Mundurucu, o produto da roça, da caça e da pesca é considerado propriedade


da pessoa que tem as roças e que matou os animais. Contudo, o sistema de distribuição
faz com que toda a comida que entre na casa seja partilhada pela família extensa e,
havendo excedentes, as demais casas da aldeia também receberão a sua parte.

Para os Kaingang, a unidade territorial constitui-se de um espaço físico composto por


serras, campos, florestas e rios, onde os índios podem exercer suas atividades de caça,
pesca, coleta e plantio de milho, abóbora, feijão e batata-doce. Este território constitui
um espaço de perambulação cíclica dos grupos que desenvolvem suas atividades de
subsistência material e social. Cada grupo local possui um subterritório próprio, com
direito à sua exploração, segundo regras determinadas culturalmente. As visitas entre
parentes dos diferentes grupos locais eram muito freqüentes e a recepção ( à margem
dos rios, na soleira da casa ) era feita ritualmente. Portanto, uma tribo se distribuía em
vários grupos locais, formando subterritórios que eram socialmente interligados e cada
grupo possuía sua área de perambulação e exploração.

O território é fonte permanente de socialização para os índios. Trocam-se notícias sobre


caçadas, abundância ou escassez de um determinado produto, sobre os aspectos
sobrenaturais da floresta, dos rios ou das montanhas, acerca do encontro com espíritos
na mata, etc. O território não é, afinal, apenas fonte da subsistência material, mas
também lugar onde os índios constroem sua realidade social e simbólica.

Fonte: www.museudoindio.org.br

História dos Índios Brasileiros

A Arte da Pré-História Brasileira


O Brasil possui valiosos sítios arqueológicos em seu território, embora nem sempre
tenha sabido preservá-los. Em Minas Gerais, por exemplo, na região que abrange os
municípios de Lagoa Santa, Vespasiano, Pedro Leopoldo, Matosinhos e Prudente de
Moraes, existiram grutas que traziam, em suas pedras, sinais de uma cultura pré-
histórica no Brasil.

Algumas dessas grutas, como a chamada Lapa Vermelha, foram destruídas por fábricas
de cimento que se abasteceram do calcário existente em suas entranhas. Além dessas
cavernas já destruídas, muitas outras encontram-se seriamente ameaçadas.

Das grutas da região, a única protegida por tombamento do IPHAN (Instituto do


Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) é a gruta chamada Cerca Grande.

Ela é considerada importante monumento arqueológico por causa de suas pinturas


rupestres e de fósseis descobertos em seu interior, indicadores de antigas culturas
existentes em nosso país.

Naturalismo e Geometrismo: as duas faces da arte rupestre no Brasil

No sudeste do Estado do Piauí, município de São Raimundo Nanato, há um importante


sítio arqueológico onde, desde 1970, diversa pesquisadores vêm trabalhando.

Em 1978, uma missão franco-brasileira coletou uma grande quantidade de dados e


vestígios arqueológicos. Esses cientistas chegaram conclusões esclarecedoras a respeito
de grupos humanos que habitaram a região por volta do ano 6 000 a.C., ou talvez numa
época mais remata ainda. Segundo as pesquisas, os primeiros habitantes da área de São
Raimundo Nonato - provavelmente caçadores-coletores, nômades e seminômades -
utilizavam as grutas da região como abrigos ocasionais A hipótese mais aceita, portanto,
é a de que esses homens foram os autores das obras pintadas e gravadas nas grutas da
região.

Os pesquisadores classificaram essas pinturas e gravuras em dois grandes grupos: obras


com motivos naturalistas e obras com motivos geométricos. Entre as primeiras
predominam as representações de figuras humanas que aparecem ora isoladas, ora
participando de um grupo, em movimentadas cenas de caça, guerra e trabalhos
coletivos. No grupo dos motivos naturalistas, encontram-se também figuras de animais,
cujas representações mais freqüentes são de veados, onças, pássaros diversos, peixes e
insetos
As figuras com motivos geométricos são muito variadas: apresestam linhas paralelas,
grupos de pontos, círculos, círculos concêntrico, cruzes, espirais e triângulos.

A partir do estudo dos vestígios arqueológicos encontrados em São Raimundo Nonato,


os estudiosos levantaram a hipótese da existência de um estilo artístico denominado
Várzea Grande). Esse estilo tem como característica a utilização preferencial da cor
vermelha, o predomínio dos motivos naturalistas, a representação de figuras
antropomorfas e zoomorfas (com corpo totalmente preenchido e os membros
desenhados com traços) e a abundância de representações animais e humanas de perfil.
Nota-se também a freqüente presença de cenas em que participam numerosas
personagens, com temas variados e que expressam grande dinamismo.

As pesquisas científicas de antigas culturas que existiram no Brasil, a partir das


descobertas realizadas no sudeste do Piauí, abrem uma perspectiva nova tanto para a
historiografia como para a arte brasileiras. Esses fatos nos permitem ver mais
claramente que a história de nosso país está ligada à história do mundo todo, e que as
nossas raízes são muito mais profundas do que o limite inicial de uma data, no tão
próximo século XV

A arte dos índios brasileiros


Na época do descobrimento, havia em nosso país cerca de 5 milhões de índios. Hoje,
esse número caiu para aproximadamente 200 000. Mas essa brutal redução numérica
não é o único fator a causar espanto nos pesquisadores de povos indígenas brasileiros.
Assusta-os também a verificação da constante - e agora já acelerada -destruição das
culturas que criaram, através dos séculos, objetos de uma beleza dinâmica e alegre.

Uma arte utilitária

A Primeira questão que se coloca em relação à arte indígena é defini-la ou caracterizá-la


entre as muitas atividades realizadas pelos índios

Quando dizemos que um objeto indígena tem qualidades artísticas, podemos estar
lidando com conceitos que são próprios da nossa civilização, mas estranhos ao índio.
Para ele, o objeto precisa ser mais perfeito na sua execução do que sua utilidade
exigiria. Nessa perfeição para além da finalidade é que se encontra a noção indígena de
beleza. Desse modo, um arco cerimonial emplumado, dos Bororo, ou um escudo
cerimonial, dos Desana podem ser considerados criações artísticas porque são objetos
cuja beleza resulta de sua perfeita realização.

Outro aspecto importante a ressaltar: a arte indígena é mais representativa das tradições
da comunidade em que está inserida do que da personalidade do indivíduo que a faz. É
por isso que os estilos da pintura corporal, do trançado e da cerâmica variam
significativamente de uma tribo para outra.

O período pré-cabralino: a fase Marajoara e a cultura


Santarém
A Ilha de Marajó foi habitada por vários povos desde, provavelmente, 1100 a.C. De
acordo com os progressos obtidos, esses povos foram divididos em cinco fases
arqueológicas. A fase Marajoara é a quarta na seqüência da ocupação da ilha, mas é sem
dúvida a que apresenta as criações mais interessantes.

A fase Marajoara

A produção mais característica desses povos foi a cerâmica, cuja modelagem era
tipicamente antropomorfa. Ela pode ser dividida entre vasos de uso doméstico e vasos
cerimoniais e funerários. Os primeiros são mais simples e geralmente não apresentam a
superfície decorada. Já os vasos cerimoniais possuem uma decoração elaborada,
resultante da pintura bicromática ou policromática de desenhos feitos com incisões na
cerâmica e de desenhos em relevo.

Dentre os outros objetos da cerâmica marajoara, tais como bancos, colheres, apitos e
adornos para orelhas e lábios, as estatuetas representando seres humanos despertam um
interesse especial, porque levantam a questão da sua finalidade. Ou seja, os estudiosos
discutem ainda se eram objetos de adorno ou se tinham alguma função cerimonial.
Essas estatuetas, que podem ser decoradas ou não, reproduzem as formas humanas de
maneira estilizada, pois não há preocupação com uma imitação fiel da realidade.

A fase Marajoara conheceu um lento mas constante declínio e, em torno de 1350,


desapareceu, talvez expulsa ou absorvida por outros povos que chegaram à Ilha de
Marajó.

Cultura Santarém

Não existem estudos dividindo em fases culturais os povos que ao longo do tempo
habitaram a região próxima à junção do Rio Tapajós com o Amazonas, como foi feito
em relação aos povos que ocuparam a Ilha de Marajó. Todos os vestígios culturais
encontrados ali foram considerados como realização de um complexo cultural
denominado "cultura Santarém".

A cerâmica santarena apresenta uma decoração bastante complexa, pois além da pintura
e dos desenhos, as peças apresentam ornamentos em relevo com figuras de seres
humanos ou animais.

Um dos recursos ornamentais da cerâmica santarena que mais chama a atenção é a


presença de cariátides, isto é, figuras humanas que apóiam a parte superior de um vaso

Além de vasos, a cultura Santarém produziu ainda cachimbos, cuja decoração por vezes
já sugere a influência dos primeiros colonizadores europeus, e estatuetas de formas
variadas. Diferentemente das estatuetas marajoaras, as da cultura Santarém apresentam
maior realismo, pois reproduzem mais fielmente os seres humanos ou animais que
representam.
A cerâmica santarena refinadamente decorada com elementos em relevo perdurou até a
chegada dos colonizadores portugueses. Mas, por volta do século XVII, os povos que a
realizavam foram perdendo suas peculiaridades culturais e sua produção acabou por
desaparecer.

As culturas indígenas
Apesar de terem existido muitas e diferentes tribos, é possível identificar ainda hoje
duas modalidades gerais de culturas indígenas: a dos silvícolas, que vivem nas áreas
florestais, e a dos campineiros, que vivem nos cerrados e nas savanas.

Os silvícolas têm uma agricultura desenvolvida e diversificada que, associada às


atividades de caça e pesca, proporciona-lhes uma moradia fixa. Suas atividades de
produção de objetos para uso da tribo também são diversificadas e entre elas estão a
cerâmica, a tecelagem e o trançado de cestos e balaios.

Já os campineiros têm uma cultura menos complexa e uma agricultura menos variada
que a dos silvícolas. Seus artefatos tribais são menos diversificados, mas as esteiras e os
cestos que produzem estão entre os mais cuidadosamente trançados pelos indígenas.

É preciso não esquecer que tanto um grupo quanto outro conta com uma ampla
variedade de elementos naturais para realizar seus objetos: madeiras, caroços, fibras,
palmas, palhas, cipós, sementes, cocos, resinas, couros, ossos, dentes, conchas, garras e
belíssimas plumas das mais diversas aves. Evidentemente, com um material tão variado,
as possibilidades de criação são muito amplas, como por exemplo, os barcos e os remos
dos Karajá, os objetos trançados dos Baniwa , as estacas de cavar e as pás de virar beiju
dos índios xinguanos.

A tendência indígena de fazer objetos bonitos para usar na vida tribal pode ser apreciada
principalmente na cerâmica, no trançado e na tecelagem. Mas ao lado dessa produção de
artefatos úteis, há dois aspectos da arte índia que despertam um interesse especial.
Trata-se da arte plumária e da pintura corporal, que veremos mais adiante.

A arfe do trançado e da tecelagem


A partir de uma matéria-prima abundante, como folhas, palmas, cipós, talas e fibras, os
índios produzem uma grande variedade de pe, cestos, abanos e redes .Da arte de trançar
e tecer, Darcy Ribeiro destaca especialmente algumas realizações indígenas como as
vestimentas e as máscaras de entrecasca, feitas pelos Tukuna e primorosamente
pintadas; as admiráveis redes ou maqueiras de fibra de tucum do Rio Negro; as
belíssimas vestes de algodão dos Paresi que também, lamentavelmente, só se podem ver
nos museus
Cerâmica

As peças de cerâmica que se conservaram testemunham muitos costumes dos diferentes


povos índios e uma linguagem artística que ainda nos impressiona. São assim, por
exemplo, as urnas funerárias lavradas e pintadas de Marajó, a cerâmica decorada com
desenhos impressos por incisão dos Kadiwéu, as panelas zoomórficas dos Waurá e as
bonecas de cerâmica dos Karajá.

Plumária
Esta é uma arte muito especial porque não está associada a nenhum fim utilitário, mas
apenas à pura busca da beleza.

Existem dois grandes estilos na criação das peças de plumas dos índios brasileiros. As
tribos dos cerrados fazem trabalhos majestosos e grandes, como os diademas dos índios
Bororo ou os adornos de corpo, dos Kayapó.

As tribos silvícolas como a dos Munduruku e dos Kaapor fazem peças mais delicadas,
sobre faixas de tecidos de algodão. Aqui, a maior preocupação é com o colorido e a
combinação dos matizes. As penas geralmente são sobrepostas em camadas, como nas
asas dos pássaros.Esse trabalho exige uma cuidadosa execução

Máscaras

Para os índios, as máscaras têm um caráter duplo: ao mesmo tempo que são um artefato
produzido por um homem comum, são a figura viva do ser sobrenatural que
representam Elas são feitas com troncos de árvores, cabaças e palhas de buriti e são
usadas geralmente em danças cerimoniais, como, por exemplo, na dança do Aruanã,
entre os Karajá, quando representam heróis que mantêm a ordem do mundo.

A pintura corporal
As cores mais usadas pelos índios para pintar seus corpos são o vermelho muito vivo do
urucum, o negro esverdeado da tintura do suco do jenipapo e o branco da tabatinga. A
escolha dessas cores é importante, porque o gosto pela pintura corporal está associado
ao esforço de transmitir ao corpo a alegria contida nas cores vivas e intensas.
São os Kadiwéu que apresentam uma pintura corporal mais elaborada Os primeiros
registros dessa pintura datam de 1560, pois ela impressionou fortemente o colonizados e
os viajantes europeus. Mais tarde foi analisada também por vários estudiosos, entre os
quais Lévi-Strauss, antropólogo francês que esteve entre os índios brasileiros em 1935.

De acordo com Lévi-Strauss, "as pinturas do rosto conferem, de início, ao indivíduo,


sua dignidade de ser humano; elas operam a passagem da natureza à cultura, do animal
estúpido ao homem civilizado. Em seguida, diferentes quanto ao estilo e à composição
segundo as castas, elas exprimem, numa sociedade complexa, a hierarquia dos status.
Elas possuem assim uma função sociológica."

Os desenhos dos Kadiwéu são geométricos, complexos e revelam um equilíbrio e uma


beleza que impressionam o observador. Além do corpo, que é o suporte.

próprio da pintura Kadiwéu, os seus desenhos aparecem também em couros, esteiras e


abanos, o que faz com que seus objetos domésticos sejam inconfundíveis.

Fonte: www.arteducacao.pro.br
As Línguas Indígenas e sua relação com seus universos sócio-culturais

Até 1.500, marco histórico da colonização, eram faladas no Brasil aproximadamente


1.300 línguas indígenas. Epidemias e doenças contagiosas, guerras, caça aos escravos,
campanhas de extermínios, destruição dos meios de subsistência, redução dos territórios
de caça, coleta e pesca, imposição dos costumes estrangeiros, obrigando a uma
assimilação forçada, entre outros, levaram muitos povos indígenas à morte física e
cultural. Atualmente, 180 línguas são encontradas pelo território brasileiro, o que
significa a destruição de cerca de 85% dessa diversidade.

Apesar dessa violência histórica, ainda hoje há grupos inteiros que só falam a sua língua
indígena materna. Há alguns grupos bilíngües, que falam o português e a sua língua
indígena. Hoje existem aproximadamente 216 povos indígenas e alguns destes não
possuem mais sua língua materna e falam apenas o português (cerca de 46 povos falam
apenas o português).

As línguas indígenas brasileiras possuem grande importância cultural e científica.


Quando falamos da língua de um povo, estamos também falando da sua cultura,
história, percurso geográfico, cosmovisão.

A diversidade lingüística existente no Brasil foi classificada de acordo com suas


semelhanças e diferenças. Este estudo sobre as línguas indígenas brasileiras produz um
conhecimento a respeito dos universos culturais desses povos. A cultura de um povo é
um conjunto de respostas que ele dá às experiências pelas quais ele passa e aos desafios
que lhe são feitos ao longo de sua história. E a língua é uma das mais importantes
chaves para se iniciar o conhecimento sobre um povo.

A língua, assim como a cultura, também é uma construção social, ou seja, se forma
junto com o povo e vai sendo moldada ao longo do tempo, passando por mudanças e
sendo, por isso, dinâmica. Um povo pode crescer demograficamente, ter dificuldades
com a alimentação, abrigo, defesa, ou pode se dividir, tomando direções diferentes. Tais
fatores vão acarretando diversas experiências de vida e respostas diferentes a estes
desafios. Tudo isso pode contribuir para a diferenciação entre as línguas.

Pelo grande número de Línguas Indígenas no Brasil, podemos deduzir que por aqui
passaram muitos e muitos grupos humanos. Portanto, o conhecimento das línguas
indígenas, suas semelhanças e diferenças, nos levam ao conhecimento das experiências
e aprendizados acumulados pelos povos que as falam.

Para facilitar a compreensão da classificação das línguas, vejamos uma análise


semelhante realizada com as línguas que se originam do Latim. Na medida em que os
povos latinos foram vivendo sua história e se estabelecendo em diferentes lugares,
compondo e trilhando diferentes experiências, o latim foi se modificando e criando as
diversas línguas: como o português, o espanhol, o italiano e outras, agrupadas em
"famílias lingüísticas". O Latim é a origem comum de diversas famílias lingüísticas e
recebe o nome de "Tronco Lingüístico". .

Uma análise semelhante realizada com as línguas que se originam do Latim: O mesmo
processo aconteceu com as línguas indígenas brasileiras, com um agravante: a amarga
história de invasão do Brasil pelos colonizadores. Colonização esta que gerou não
apenas o extermínio de diversas etnias, mas também a assimilação aos usos, costumes e
língua dos colonizadores, que foi tão violenta quanto o genocídio aqui ocorrido.

A maior parte das línguas indígenas se concentra na parte norte ou oeste do Brasil, pelo
fato dos primeiros contatos terem acontecido na região leste. Apenas quatro povos desta
região conseguiram conservar suas línguas e suas culturas: os Fulni-ô em Pernambuco,
os Maxakali em Minas Gerais, os Xokleng em Santa Catarina e os Guarani que migram
pelas regiões litorâneas do sul e sudeste.

A classificação em Troncos e Famílias Indígenas Lingüísticas mais aceita pelos


estudiosos foi a realizada pelo Professor Aryon Rodrigues (1986). As línguas indígenas
brasileiras são classificadas em dois troncos lingüísticos: o TUPI (com cerca de 10
famílias lingüísticas) e o MACRO-JÊ (com aproximadamente 12 famílias). E há ainda
outras línguas que não puderam ser agrupadas em troncos e foram consideradas por
Rodrigues como famílias lingüísticas de uma etnia apenas (10 línguas que não se
identificam com nenhum dos dois troncos). Seguindo este raciocínio, o Brasil tem cerca
de trinta e cinco famílias de línguas indígenas.

O tronco Tupi é o maior e o mais conhecido. Os povos indígenas pertencentes a este


tronco lingüístico se encontram dispersados geograficamente pelo território brasileiro,
geralmente, em regiões úmidas e com florestas ou no litoral.

Os povos indígenas constituintes do Tronco Macro-Jê situam-se em regiões de cerrado e


caatinga que vão desde o sul do Pará até o sul do país.

A vida dos povos indígenas é regulamentada por normas e tradições e existe uma
profunda ligação com o mundo sobrenatural, o mundo cósmico. Os mitos são narrativas
que explicam a origem do mundo e dos seres para cada etnia. E os rituais são
cerimônias que marcam as várias fases da vida de um povo, como a gestação, o
nascimento, a passagem para a vida adulta, o casamento e a morte. Existem também
rituais ligados à plantação, à colheita, à caça e à guerra.

Todos estes momentos rituais são celebrados de acordo com as particularidades


culturais de cada povo. Os rituais, a forma da aldeia, a maneira de celebrar a vida e a
morte, entre outras características possuem uma profunda ligação com as línguas e o
caminho histórico e geográfico percorrido pelos indígenas. Sendo assim, o estudo das
línguas e sua classificação, nos aproxima da compreensão dos universos de sentido dos
indígenas em toda a sua diversidade.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/indios-brasileiros/historia-dos-indios-
brasileiros-1.php