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O Movimento Cristero e o Conceito de Guerra Justa – Uma Lição dos Mártires aos Dias de

Hoje

Por Luiz Astorga

Após recentes atitudes do tribunal mais alto de nosso país, fui instado por amigos que se
dedicam à ciência política a dar forma escrita a uma palestra proferida há alguns meses.
Cabe ao leitor, após devida meditação, emitir seu próprio juízo sobre se viveríamos ou não
numa tirania, se ela seria apenas iminente, ou se seria uma mera ameaça no horizonte; o
que desejamos neste texto é antes aproveitar o exemplo dos mártires cristeros para
delinear claramente os critérios do direito natural para a guerra justa, sobretudo num
quesito crucial para os dias de hoje: o da autoridade pública.

Quando fui convidado a participar deste evento, decidi tratar brevemente da justiça da
guerra cristera, cuja compreensão creio ser muito importante e muito relevante para o
momento histórico atual, aquele no qual nós, inspirados por eles, nos propomos travar o
bom combate, seja nos debates, seja na cultura, seja em manifestações, seja em outros
âmbitos aos quais, espero, nosso povo jamais tenha que chegar.

Nas suas Confissões (XIX 6), já nos dizia Santo Agostinho que, embora a contragosto, o
homem sábio fará a guerra, se ela for justa e a necessidade o impelir a isto. A guerra justa
foi assunto tratado em praticamente todas as épocas da cristandade, por incontáveis
doutores. São Basílio, Santo Agostinho, Santo Atanásio, Santo Ambrósio, Graciano, Rufino
de Bolonha e Raimundo de Penhafort; depois Santo Tomás, seguido de toda a escolástica
tardia, como Vitória, Belarmino, Suárez, Soto, etc. A tradição sobre isso é muito extensa,
mas há alguns critérios que são fundamentais, quase que universais, e que foram
gradualmente depurados nesta continuidade de pensamento. Vamos a eles, portanto:

1- Causa justa: Diz Santo Tomás que aqueles a quem se combate devem merecer ser
combatidos devido a alguma culpa. Ou seja, deve ser uma guerra em reação a uma
injustiça ou dano, e não qualquer injustiça ou dano, mas um que seja duradouro, grave e
certo. E os cristeros foram exemplo de combate a uma agressão grave, certa o suficiente
para ser entendida e reconhecida por uma parcela muito grande da população, e que se
pretendia não apenas duradoura, mas permanente.

2- Intenção justa: Não basta lutarmos contra um agressor pela razão errada. Moralmente,
não basta brigar contra um ladrão se a sua intenção não é se defender, nem reparar
imediatamente uma injustiça, mas a mera saudade de uma boa briga. A intenção não pode
ser a de se alegrar no sofrimento alheio, mas sim a de reparar uma injustiça, preservar a
justiça, coibir o erro, buscar a paz.

Em tempo: buscar a paz mediante a guerra não é nenhuma contradição. O objetivo da


guerra justa é alcançar a paz, porque não há paz quando reina a injustiça. A paz não é a
ausência de guerra, não é a injustiça soterrada pela ameaça; a paz é a tranqüilidade
assentada sobre a ordem; e não há ordem onde não há justiça e caridade. Creio que
nesse quesito não há muito por que nos estendermos. A intenção dos cristeros, por todos
os documentos e relatos que se têm, era justa.

3- Necessidade: Que este tipo de reação seja o único recurso disponível, e outros meios
se mostrem impraticáveis ou ineficazes. Ora, a plena execução das antigas Leis da
Reforma não foi imposta pela Lei Calles sem grande oposição e manifestações de
descontentamento do povo mexicano, ações que infelizmente se revelaram ineficazes.
(Em verdade, dependendo das circunstâncias, um povo pode até estar desobrigado de
insistir em meios pacíficos quando se esperam retaliações graves àqueles que os tentam,
como se dava na Rússia comunista ou em Cuba. Foi o que também ocorreu no México de
então.)

Para fins de comparação com o momento atual, vale observar que um governo não deve
ignorar repetidas manifestações pacíficas de milhares – ou, em alguns casos, milhões – de
pessoas nas ruas, sob pena de o povo reconhecer que estes meios estão sendo recebidos
por seus magistrados com desprezo ou respeito fingido e estão se revelando ineficazes.

4- Proporcionalidade: este quesito exige que não se vá causar um mal maior do que o bem
a ser obtido. Ou seja, que o benefício visado seja proporcional aos males inevitáveis que
virão com ele. Aqui cito Pedro Erik Carneiro, em Teoria e Tradição da Guerra Justa, que a
meu ver comentou muito bem o teólogo Francisco de Vitória. “A proporcionalidade não
requer que as partes beligerantes usem o mesmo tipo de armamento. O princípio é uma
análise de custo e benefício moral e material de uma guerra, não no sentido econômico,
mas no sentido de justiça e caridade, ou no sentido da busca da paz e do bem”. E vale
observar que um uso isolado de destruição desproporcional, como no episódio da
incineração de um vagão de trem repleto de pessoas por um líder cristero, não torna
injusta a guerra como um todo – assim como o esforço aliado na Segunda Guerra Mundial
não se tornou todo injusto pelos episódios isolados de Hiroshima e Nagasaki.

Quanto a este princípio, os cristeros estavam plenamente justificados. Para um povo


cristão, a maior morte é a morte da alma. Que o estado feche as portas de um povo à sua
salvação é, objetivamente, maior dano do que se o ferisse na carne. E, se um povo como
um todo tem consciência da falta que lhe fazem os sacramentos, está justificado em lutar
para preservá-los. Exponhamos este ponto de modo ainda mais universal e atual: se um
povo tem consciência de que está sendo obrigado a viver sua vida de um modo que
condenará sua alma, está justificado em lutar contra quem o obriga a isso.

Ora, não era o caso que o povo mexicano estivesse perdendo com a Lei Calles um modelo
de estado cristão, que considerasse uma de suas funções tentar promover, dentro do
possível e do prudente, a salvação das almas. Isto já não se tinha no México havia
décadas. O que o povo mexicano perdia naquele momento era o último mal menor que lhe
restava, isto é, o veneno político diluído da indiferença estatal (ou “laicidade”, que é uma
indiferença de iure que tende a produzir um ateísmo de facto). O que o governo federal
queria então era implementar um modelo de Estado anticristão de iure e de facto, o que é
um ponto especialmente interessante de comparação com os dias de hoje.

De lá para cá, os mínimos morais de nossa sociedade ocidental foram bastante reduzidos,
e os principais meios e métodos implantados para produzir esta redução foram, como
sabemos, as mentiras, a desinformação, o hedonismo, e sobretudo o seqüestro da cultura
e das categorias da linguagem. Ao mesmo tempo, hoje é raro vermos um estado ocidental
implementar leis explicitamente truculentas como a Calles, porque este não quereria
perder o direito de se dizer “democrático” em reuniões da ONU, muito embora já realmente
não o seja. Mas, do jeito que as coisas caminham, é facilmente imaginável que, para
amainar o “fanatismo” da população, uma base curricular obrigue a atividades de
“diversidade” que sejam unicamente afrontas à religião de nossas crianças, que são, em
sua vasta maioria, cristãs. Num dia de maior delírio parlamentar, podemos facilmente
imaginar deputados propondo uma lei que obrigue sacerdotes a realizar casamentos
sacramentalmente impossíveis, inclusive entre a espécie humana e outras espécies, ou
mesmo com entes inanimados; pois boa parte disso, ou já se está tentando implementar
pelo mundo, ou está ao menos sendo ativamente discutida.
E não é apenas no sagrado que pode ocorrer a perseguição nos dias de hoje; se ontem o
leviatã estatal destronava o sagrado sob o pretexto de exaltar a natureza, hoje tirou a
máscara e quer subverter a natureza mesma em prol da imposição absoluta de sua própria
vontade como medida da lei. Hoje a lei natural é desprezada e a lei positiva se sente livre
para declarar que ninguém é menino nem menina e bizarrices do tipo. Quando a vontade é
a medida da lei, o absurdo tende a se tornar na lei um elemento estrutural. Enfim, o fato é
que podemos facilmente imaginar um ponto além do qual o dano causado por um governo
a seu povo – seja na possibilidade de este praticar a Fé, seja na violação da mera saúde
mental de seus filhos, por exemplo – seja reconhecido por parte suficientemente grande
deste povo, não só como grave o bastante, mas como um dano ao qual uma revolta seria
preferível, com todas as tristezas e perigos que a acompanhariam. Toda sociedade deve
encontrar um ponto abaixo do qual ela não pode ir sem se tornar cúmplice de sua própria
destruição.

5- Mínima chance de vitória: Este ponto inicialmente não foi visto como duvidoso por
aqueles que observavam o esforço de guerra, como vários bispos e diplomatas, inclusive
porque os rancheiros cristeros eram soldados extremamente capazes, principalmente sob
a liderança do General Gorostieta. Era muito razoável dizer que havia mais que uma
mínima chance de vitória. O que ocorreu foi que, à medida que o tempo passava, parecia
que as posições haviam-se estagnado, e alguns acreditavam que ninguém venceria
ninguém. Ora, mesmo que fosse verdade que a batalha estivesse estagnada, isto não quer
dizer que ela não pudesse ser vencida “pelo cansaço” por um dos lados. A guerra estava
em aberto. Creio, então, que permaneciam justificados os cristeros até o fim daquele
grande conflito.

Ainda assim, consideremos por um instante que a chance dos cristeros fosse a mínima
das mínimas. Vale ressaltar que às vezes este quinto princípio é entendido de maneira
demasiado estreita. Há diferentes maneiras de se conceber o êxito numa mesma guerra.
Os templários, por exemplo, faziam voto de simplesmente não retroceder no campo de
batalha, mesmo que sua vitória tivesse suas chances muitíssimo reduzidas, e isso não
tornava injusta sua luta. É comum um grupo de combatentes saber que perderá uma
batalha e morrerá ocupando um ponto estratégico até a chegada de reforços, como se deu
com os trezentos de Esparta. Muitas vezes a vitória não vem dali, daquele sacrifício
pontual, mas pelas mãos de outros que verão aquele exemplo e darão continuidade
àquele sacrifício. Na guerra de independência americana, o Fort McHenry, em 1814, foi
bombardeado por mais de vinte horas pela armada inglesa e não houve rendição, pois
estavam convencidos de que uma derrota naquele momento poderia matar no berço uma
nação livre recém-nascida. O que observo apenas é que este princípio deve ser bem
entendido e aplicado prudentemente, pois nos guia principalmente a não jogar fora nossas
vidas por temeridade, mas não nos deve levar a crer que só uma vitória plena aqui e agora
poderia valer o preço de nossas vidas.

6- Autoridade pública legítima. A questão da autoridade para declarar uma guerra não é
em si um grande problema na questão da guerra justa. Tomás de Aquino menciona a
autoridade do príncipe como quesito da guerra justa em locais como o Comentário às
Sentenças (In II Sent., d.44 q.2 a.2), a Suma Teológica (IIa-IIae, q.42 a.2) e o De Regno (I,
7). Posteriormente, Vitória (por exemplo) a explica em detalhe no seu Tratado Sobre a
Guerra. Nele, o teólogo nos mostra como essa decisão compete à autoridade última de
uma comunidade perfeita, seja esta um corpo coletivo de aristocratas, um tribunal
democrático, um monarca, um dispositivo misto (no caso de regimes mistos), etc. Também
Belarmino, por exemplo, menciona a autoridade legítima em seu De Laicis. Entretanto, é
em situações de tirania e grave abuso do poder público – como a que gerou a Cristiada, e
como outras que infelizmente poderíamos vislumbrar na atualidade – que a questão da
autoridade é muito mais sutil e complexa, o que justifica o espaço consideravelmente
maior que a ela devemos dedicar.

A guerra justa contra o tirano (ou, em última instância, o justo tiranicídio) é uma
subespécie dentro do gênero da guerra justa, que se caracteriza pelo fato de que o
agressor tem certo caráter interno à república. É o caso da república que se defende da
agressão de seu tirano. “Tirano”, como se convencionou chamar na escolástica, é aquele
que governa para seu próprio bem, em detrimento do bem comum. Costumam-se
distinguir dois tipos de tiranos: o usurpador e o tirano em exercício ou em regime, que é
aquele cujo poder foi obtido legitimamente, mas que o exerce de maneira nociva.

Ilustremos brevemente a diferença entre os dois. No Comentário às Sentenças, Santo


Tomás nos ensina que a prelazia de alguém pode ser defeituosa de duas maneiras:
quanto ao modo de sua aquisição e quanto ao seu uso. No primeiro caso, o defeito que
impede a prelazia não é o da mera indignidade da pessoa – que diz respeito às inúmeras
falhas que possa ter quem foi escolhido para o cargo, ao contrário de (como veremos) uma
indignidade resultante do próprio uso tirânico de seu poder; o defeito que impede a
prelazia é o de havê-la obtido mediante violência, simonia ou outro meio ilícito, como,
digamos hoje, “caixa dois” eleitoral, dinheiro de traficantes, de governos estrangeiros, etc.
Nesse caso, quem adquire o poder não é um verdadeiro governante, exceto se legitimado,
ou pelo consentimento dos conquistados (que pode ser tácito e pode contribuir para a
prescrição do crime), ou por ordem válida de algum superior legítimo, o que não se aplica
no caso do poder supremo de uma república.

Já na prelazia defeituosa quanto ao uso, temos, num primeiro caso, aquele governante
que comanda algo contrário à própria finalidade de seu poder, como um pecado contrário
à virtude que o próprio prelado tenha sido instituído para promover. Nesta situação, o povo
não só não está obrigado a obedecer, mas está obrigado a não obedecer. Num segundo
caso, o de um governante que simplesmente exige algo neutro ao qual seu poder não se
estenda (como exigir impostos que estejam fora de sua alçada, por exemplo), é facultativo
ao povo obedecer ou não.

Pois bem. Como nos ensina Francisco Suárez, nem o usurpador nem o tirano em exercício
podem ser destronados por autoridade privada, porque, como diz o grande teólogo na sua
Defesa da Fé, “a vingança e a punição dos delitos ordenam-se ao bem comum da
república, e por isso não são confiadas senão àquele a quem foi confiado o poder público
de governar a república.” O autor, naturalmente, faz eco a Santo Agostinho, em Contra
Fausto: “a ordem natural exige que a autoridade para suscitar guerra resida na república
ou no príncipe.”

Como resolver este impasse?

Primeiro tratemos do usurpador: como harmonizar esta proibição de agir sob autoridade
privada com o fato de que o próprio Santo Tomás (e basicamente com ele toda a
escolástica) concordam que, sendo públicas e manifestas a tirania e injustiça graves do
usurpador, ou ao menos o próprio fato de que ele é um usurpador, o cidadão privado pode
tomar em armas (desde que cumpridos, é claro, os demais critérios da guerra justa) e
derrubar este usurpador? Afinal, não poderia ser à toa que Santo Tomás houvesse
aprovado o exemplo de Brutus, que matou César. Suárez nos auxilia nesta solução:
aquele homem privado que desse modo mata o usurpador “não o faz sem a administração
pública, porque, ou o faz com a autoridade de uma república que consente tacitamente, ou
com a autoridade de Deus, que pela lei natural deu a cada um o poder de defender a si
mesmo e a república contra a violência que semelhante tirano faz.”
Ainda Suárez: O usurpador, “enquanto detém o reino injustamente e domina pela força,
sempre inflige em ato violência à república, e assim ela sempre nutre contra ele uma
guerra em ato ou virtual – não vingativa, por assim dizer, mas defensiva.” Ou seja, a
guerra contra o usurpador se assemelha à legítima defesa. “E, enquanto a república não
declara o contrário, sempre se crê que quer ser defendida por qualquer de seus cidadãos,
até mesmo por qualquer estrangeiro; e, portanto, se ela não pode defender-se de outro
modo senão matando o tirano, é lícito a qualquer um do povo matá-lo.”

Vemos portanto que, se Plutarco Elías Calles e seu sucessor, Portes Gil, tivessem sido
eleitos por urnas pouco seguras (ou vigiadas por tribunais politicamente comprometidos ou
carentes de idoneidade), e se este defeito no modo de aquisição de seu poder público –
uma dúvida insanável de confiabilidade – fosse conhecido e reconhecido por grande parte
do povo mexicano, os Cristeros estariam justificados: estariam, ainda que na condição de
cidadãos privados, apoiados em autoridade pública.

Mas consideremos agora que as urnas fossem confiáveis (ou ao menos aferíveis) e que o
governo federal fora legitimamente eleito, e estivéssemos tratando de um tirano em
exercício. Ainda seria justa a revolta cristera, à luz da lei natural? Como se manifesta
nesse caso a autoridade pública para depor o rei? O que o caso dos cristeros pode nos
ensinar?

Ora, em última instância uma república está autorizada a livrar-se de seu tirano, visto que
ele fez por merecer a revogação do pacto de sujeição feito junto a ele pelo seu povo. E
Suárez me parece suficientemente fiel a Santo Tomás ao descrever essa situação: o
cidadão privado não está tácita e automaticamente autorizado a lutar contra este tirano da
maneira que estava contra o usurpador, mas pode fazê-lo desde que uma comissão com
autoridade pública (o que não quer dizer “oficial”, como veremos) declare revogado o pacto
de sujeição, isto é, declare que o monarca não está mais na condição de líder legítimo, o
que então o transformará automaticamente num usurpador – e nos remeterá ao quadro
anterior, já elucidado. Vejamos o que diz Suárez:

“Se um rei legítimo governa tiranicamente, e não resta ao reino outro remédio para a sua
defesa senão expulsar e depor o rei, poderá a inteira república, com um conselho comum
das cidades e dos nobres, depor o rei, tanto pela força do direito natural, pelo qual é lícito
repelir a violência com a violência, quanto porque este caso necessário à própria
conservação da república é entendido como exceção no pacto pelo qual a república
transfere seu poder ao rei. É deste modo que se deve entender o que disse Santo Tomás:
que não é sedicioso resistir ao rei que governa tiranicamente, sobretudo se o faz uma
autoridade legítima da comunidade, e prudentemente e sem maior detrimento do povo.”

Suárez usou o exemplo de uma comissão de nobres, ou um conselho de cidades, mas não
julgo que devamos nos restringir unicamente a esses exemplos, visto que um “conselho de
nobres” não implica necessariamente que estes estivessem vinculados às atividades
administrativas da corte. É preferível que seja alguém com mando público e com
autoridade para exercê-lo, mas o que se busca principalmente na pessoa ou na comissão
é a autoridade, mais do que o cargo, especialmente quando não haja ninguém com mando
público que tenha autoridade suficiente para liderar o levante. Foi o que fizeram os
cristeros. A Liga Nacional Defensora da Liberdade Religiosa, fundada em 1925, era uma
instituição que tinha presença em toda a nação, e que, visivelmente, pelo seu acolhimento
junto ao povo, pelas doações que recebia, pelo reconhecimento público que tinha,
constituía-se suficientemente como autoridade pública, isto é, autoridade junto ao povo. E
sua autoridade se consolidou, à época, com o apoio de boa parte da hierarquia
eclesiástica e com a obtenção da liderança militar do general Gorostieta, que, embora
então aposentado, era uma autoridade pública tanto em sua conduta quanto em suas
capacidades.

Sobre a noção de autoridade, façamos alguns esclarecimentos necessários. Hoje pratica-


se certo vício de linguagem ao identificar “autoridade pública” com um magistrado, um
ministro, um senador, um secretário, ou seja, alguém que ocupe um cargo político –
quando, na vasta maioria dos casos atuais, “autoridade pública” é infelizmente algo que
estas pessoas têm se esforçado em demonstrar que não são.

Embora a noção de autoridade possa estar vinculada a um cargo político quando um


estado se encontra minimamente íntegro e detém a confiança do povo, tanto na hora de
dar poder quanto na hora de se livrar daqueles que se mostram indignos de seus cargos
devido ao mau uso deste poder, a autoridade não é o mesmo que o cargo. A “autoridade
pública” não é a detenção do poder ou de um cargo público. É a precondição que mantém
lícita a detenção do poder ou do cargo. A autoridade vem, como dizia Cícero, de “autor”,
aquele que sabe fazer e que, no caso, tem a intenção de fazer o que se espera dele.
Autoridade pública é, no sentido mais fundamental, o depósito coletivo da confiança de um
povo sobre alguém, no que se refere às suas capacidades e intenções de promover o bem
comum.

Se o monarca, mediante crimes graves, evidentes e repetidos, dissolveu visivelmente essa


confiança, ele pôs a perder sua autoridade. E quem perde a autoridade só detém poder. E
isso não vale apenas para a figura do monarca; em outros sistemas de governo, podemos
falar das cabeças coletivas de cada um dos três poderes iguais e autônomos. O mesmo
vale, aliás, para um estado que faz isso coletivamente. E não usei o termo “evidentes” à
toa. A evidência desses crimes para uma grande parte do povo é um critério real da
licitude de uma revolta, não em razão de subjetivismos relativistas, mas por ser necessário
para mensurar a perda da confiança do povo, e sinalizar a licitude de que este coordene
uma oposição ao tirano, assim como a licitude de procurar esta liderança fora dos
escalões do governo. Embora seja preferível ao povo tiranizado procurar em escalões do
governo a autoridade pública para seu levante, não está forçado a abandonar essa
procura se é evidente que não consegue encontrar dentro deles tal autoridade.

Ao falarmos da evidência da perda da autoridade, nos referimos à percepção de um povo


acerca da falência sistêmica dos governantes em preservar o bem comum, e do visível
empenho destes em preservar-se no poder mediante a ruína moral e espiritual de uma
sociedade. Consideremos o seguinte exemplo: seria irrelevante ao povo mexicano escutar,
por exemplo, que a corte mais alta do México (suponhamos) teria olhado a Lei Calles de
perto e, devido a seu extenso conhecimento, decidido que seus absurdos óbvios não eram
absurdos óbvios. Ora, o uso da razão por parte de um povo deriva de sua condição natural
e está pressuposto em qualquer pacto jurídico. Sua licitude junto ao direito natural é
inalienável. A verdade das coisas vai na contramão do espírito leviatânico do estado
moderno, que se crê quase que ontologicamente anterior à natureza humana, a ponto de
crer que o bom-senso de um povo só existe, só capta a realidade – enfim, só é válido – se
regulado por dispositivos jurídicos chancelados pelo estado. Ora, o povo entende certas
coisas óbvias porque elas são simplesmente óbvias, e isto não pode ser invalidado por
nenhum estatuto jurídico. Explico-me: atualmente nos parece que muitas altas cortes
empregam seu vastíssimo conhecimento, não para decidir se aquele bicho distante, meio
escondido na sombra, é um leão ou um tigre, mas para incrivelmente dizer a um povo
indignado que esse tatu em plena luz do dia é um coelho. Ora, a função de tribunais deste
tipo deveria ser a de empenhar seu conhecimento em casos altamente específicos e
herméticos que não estejam ao alcance da maioria dos juízes comuns, não a de empenhar
a força de seu cargo para afrontar a justiça emitindo juízos cujo absurdo é evidente não
apenas a juristas, mas a qualquer ser humano normal. Uma corte que faz isso perde sua
autoridade, e o povo não está obrigado a pedir chancela de nenhum escalão do governo
para fazer uso de seu discernimento sobre o tema.

Agora tratemos finalmente da lei positiva. Qual o papel da constituição neste assunto?

Suponhamos primeiro que a Lei Calles não houvesse sido promulgada, e que o governo
federal apenas impusesse, sem apoio legal, toda a tirania que sabemos que houve. O
povo ficaria rouco de chamá-los “fora-da-lei” e nada aconteceria, pois o governo se
empenhava em ignorar a lei. Ora, uma constituição jamais sai da prateleira, vai até a sede
do governo e depõe um tirano; apenas pessoas emitem juízos e comandos. A mera
existência de leis justas, portanto, não é solução contra governantes injustos. Se o
governo não respeita a lei positiva, o povo está no direito de fazer cumpri-la, se atendidos
os demais critérios da guerra justa.

Agora contemplemos a situação inversa, que foi o caso histórico dos cristeros:
consideremos um governo tirânico que simplesmente aprovara leis injustas (que, como
diria Santo Tomás, não têm caráter verdadeiro de lei) e que os cristeros eram de fato os
“fora-da-lei”. Isso em nada depunha contra os cristeros, visto que não só a lei era
gravemente injusta, mas sua injustiça era insanável (porque o tirano controlava a
promulgação das leis), e essas duas verdades eram públicas e notórias. Seria absurdo
atar-se ao critério moral de não ser um “fora-da-lei” numa revolta contra um tirano que
detém o controle do próprio aparato legal, e que, se conveniente, poderia simplesmente
promulgar uma lei adicional que proíbe destituí-lo, ou revogar dispositivos de exceção
destinados a defender a república contra a tirania. Sem ter fundamento na verdade e na
busca do bem comum, as leis positivas perdem seu significado.

É por este fato que nenhum aparato legal redige provisões para o caso de o desprezarem
completamente. Este “milagre metajurídico” é impossível. Seria o mesmo que dizer: “na
ocasião de que estas palavras neste papel não valham mais nada porque sua redação e
interpretação está nas mãos de tiranos, eis o que se deve fazer…” Qualquer provisão que
se seguisse seria tão absurda quanto uma tentativa de fazer-se flutuar puxando-se pelos
próprios cabelos; seriam apenas mais palavras no mesmo papel. Seria vazio exigir que o
levante cristero devesse ser “constitucional”, isto é, que estivesse obrigado a derivar da lei
positiva sua autoridade pública.

A autoridade pública do levante cristero foi a da Liga Nacional e a da Guarda Nacional


Cristera (liderada pelo general Gorostieta), com apoio de numerosos padres e bispos. Por
sua virtude e capacidade, pelo reconhecimento destas qualidades por parte do povo, e
pelo conseqüente depósito de confiança que a sociedade tinha nestas pessoas, o povo
mexicano pôde, com o respaldo da lei natural, lutar para defender sua Fé e salvar da ruína
a sua nação, ao brado de Viva Cristo Rei. Quanto ao povo brasileiro, cabe antes de tudo
meditarmos com plena serenidade, mas com igual dose de coragem, sobre em qual
situação nos encontramos ou poderíamos vir a nos encontrar.

Instituto Angelicum 25/04/2018 11h14

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