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A Outra Eduardo Alves

Um Serão em família
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A noite estava morna. O Mini White, avançava lentamente


pelas ruas. Àquela velocidade toda a estrutura vibrava. Era a
10velocidade adequada para que a janela de trás, ainda rachada por
um lamentável acidente, assinalasse a sua presença e o seu estado
precário com toda a veemência. Um cartaz publicitário anunciava
ser meia-noite. A temperatura indicada era de 24 graus de
temperatura.
15 Foi um serão de retorno às origens. Um serão em que tive
ocasião de "ir a casa". Não a Nordeste, ou a qualquer outro sítio
distante. Fui a casa, ali a poucos passos do meu mundo, apenas
bastando para tal propor-me passar o serão na companhia das
minhas tias. Uma delas, a tia Natália, fazia anos.
20 - Este ano não fiz anos - dizia ela com o seu habitual bom
humor. E explicava: - Setenta e dois anos; sete e dois: nove;
"novesfora": nada.
Numa pequena casa de dois pisos numa rua que
gostosamente dá pelo nome de Alegria, vivem duas destas
25minhas interessantes tias. Uma terceira tia, mais nova, que mora
numa rua vizinha, estava também presente.
A tia que mora no rés do chão, Ilda de seu nome, cultiva
uma longa e sentida amizade por um cão. A do primeiro andar,
entrega-se a um amor pouco correspondido por um gato arisco de
30pêlo arrufado. Elas próprias mantêm na verdade entre si uma
interessante relação classificada inúmeras vezes pela família de
"cão e gato".
Ao entrar nesta casa de duas habitações, chegou-me às
narinas um perfume que identifiquei como sendo "um cheiro a
35tias". Todas as casas de tias têm um cheiro peculiar.
Reconfortante, familiar, no entanto diferente do odor das nossas
casas, e por isso mesmo com o seu quê de estranho. Tudo estava
no seu preciso lugar. Nem um milímetro à esquerda. A família
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A Outra Eduardo Alves

Alves têm esta veneração pela ordem. "Cada coisa no seu lugar,
cada lugar para a sua coisa" - é uma das máximas de meu pai,
ainda não descoberta por nenhuma agência noticiosa. Pelo menos
o Açoriano Oriental ainda não a publicou, com aquele ar
5pomposo de "Pensamento do Dia".
Depois de passar pelo hall com "cheiro a tias", atravessei
a porta que antecedia as escadas conduzentes ao 1º andar, onde
morava a tia do gato. Subi, dando os parabéns no cimo da
escada, ao mesmo tempo que lhe entregava a minha oferta: uma
10ampulheta de areia, comprada (à última hora, devo confessar) no
Centro Comercial. Eis um sinal de modernidade desta fascinante
cidade: a possibilidade de se comprarem ampulhetas ao sábado,
tarde e a más horas...
Minha tia ficou fascinada com o simpático objecto:
15 - Que lembraça a tua, uma coisa destas de areia.
- É um brinquedo para a tia. - disse-lhe eu.
- Pois claro, duas vezes somos meninos.
A minha priminha Sílvia, filha de uma prima minha, ficou
intrigada com a forma como aquele estranho aparelho parecia ter
20poderes cósmicos de influênciar o caminhar do tempo, num
estranho fenómeno de causa e efeito.
- A Tia não sente nenhuma dor ?- perguntava ela depois
de a areia ter escorrido toda.
Fiquei a imaginar que estranhos mecanismos mentais
25estariam a decorrer naquela cabecinha.
- A Tia não se sente alegre agora ? - insistiu a perrucha
depois de tornar a virar a ampulheta.
- Sabes - confessava a tia Ilda, a do cão - nunca percebi
como é que se contava o tempo com estas coisas. Então como é
30que se sabe que horas são olhando para aí ?
A Sãozinha, a mãe da Sílvia, lá tentou uma explicação
razoável. Mas a tia não se deu por satisfeita.
- Então quando o tempo está mais húmido, aqui escorre
mais devagar. - continuou - Atrasa a contagem.
35 - É por isso que o tempo quando está húmido parece que
passa mais devagar - adiantei eu com ar muito sério.
O que é certo é que a ampulheta serviu de ponto de partida
para que todos manifestassem a sua opinião sobre tão estranho
objecto. Apesar da madeira que emoldurava os vidros da
40ampulheta condizer com a mobília da sala, a verdade é que
aquele objecto tinha o seu quê de estranho naquele mundo. Só a

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A Outra Eduardo Alves

tia mais nova, já com outras vivências, comentava com


naturalidade:
- Lá em casa tinhamos duas...
Depois veio a conversa sobre computadores. Minha Tia
5Ilda, perguntou-me a despropósito se era possível "descobrir"
doenças pelo computador. Intrigado pela pergunta, respondi
evassivamente que sim.
- É porque um senhor que esteve cá em casa (minha tia
alugava quartos) veio cá a S. Miguel para consultar um médico,
10que não é médico, por causa de umas manchas na perna. O
médico pediu-lhe uma fotografia, e no outro dia o homem foi lá e
ele tinha um relatório completo feito pelo computador, com tudo
lá escrito. O que é que tu achas disso? - perguntou auscultando a
minha opinião - E tudo pela fotografia - acrescentou.
15 - Pela fotografia ? - perguntei eu já descrente.
- Sim, pela fotografia - confirmou a Tia.
- Que médico é este ? - perguntou minha mãe.
- Ele não é médico. Vocês até devem conhecer. É o Eng.
Vasconcelos.
20 - Ah! Sei quem é - disse a tia mais nova.
- Ele teve mais de vinte anos para o Brasil - informou
minha mãe.
- Pois, e foi lá que ele tirou o curso desta especialidade. -
disse minha tia - Tem um cartão e tudo.
25 A coisa cheirou-me a esturro. Cartões destes eu também
arranjava, e com a minha habilidade para os computadores,
talvez eu também pudesse dar destas "consultas".
- Acho que é mais seguro ir à bruxa - disse eu com ar
desdenhoso.
30 - Não brinques Eduardo, que eu estou pensando ir lá.
- Já nem há bruxas.... - suspirou meu pai.
- Bruxas não - protestou minha tia, ofendida com a
ligeireira com que eu analisei o problema.
- Mas, mesmo já não existem bruxas ! - insistiu meu pai.
35 Levantei-me, sorrateiramente, enquando a conversa
escorregava para temas de uma dimensão cósmica que
ultrapassava a minha capacidade de resistência.
A tia mais nova, já na outra sala, lançou-se um olhar
cúmplice.
40 - Eu já me vim embora, porque não estava a aguentar a
conversa. - disse ela mansamente.

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A Outra Eduardo Alves

Dali a pouco, estávamos todos na sala de jantar, à volta da


mesa. Cantaram-se os parabéns, repetidamente, com toda a
família a acompanhar rouca e envergonhada, a vozinha clara e
hesitante da Sílvia, o representante mais novo da família naquele
5momento.
Dissertou-se ao longo do serão sobre as qualidades do
Vinho de Porto para levantar a tensão e dos defeitos do chá de
macela como instigador da "tensão-baixa". Passou-se em revista
o elevado índice de "açucar" dos figos...
10 - Têm muita glicose, os figos - informou a tia mais nova,
viuva de homem letrado nestas questões alimentares.
...e a inconsiências de quem guiando a grandes velocidades
se expõe aos mais diversos perigos nas estradas.
A propósito das flores que enfeitavam a mesa, meu pai
15alvitrou que o melhor era minha tia (a do gato) por as flores no
frigorífico, mostrando a pouca importância do facto de as flores
no frigorífico não poderem ser apreciadas, e portanto não
cumprirem a sua função ornamental.
- Eu ponho é nas vésperas, para que no dia certo estejam
20frescas - disse a tia mais nova, denunciando ali, toda a
capacidade de planeamento antecipado da família Alves.
- Eu não vou por as flores no frigorífico - declarou a tia
aniversariante - Vou coloca-las diante do meu santinho.
Ainda cheguei a alvitrar que minha tia, já agora, também
25colocasse o santinho no frigorífico, sempre ficava mais fresco...
Minha tia mais nova, acrescentou, na linha da minha
irreverência, que quando ela quizesse rezar, bastava abrir o
frigorífico, o que provocou o riso de toda a família.
E assim fiquei ali sentado calmamente numa cadeira
30colocada junto de minhas tias, sentido o escorrer adocicado das
horas, entre uma conversa mais espirituosa, um drama dali, um
comentário dacolá.
Nos momentos mais calmos da conversa, pude comtemplar
os quadros que ornamentavam as paredes. Peças de caça
35representadas em pinturas de grande realismo. Seriam litografias
de algum calendário, cuidadosamente recortadas, coladas e
emolduradas, pela mão paciente do avô Alves.
No corredor, outras litografias, deixavam-me enternecido,
só de as contemplar. Eram memórias que se avivavam, vivências
40que se recordavam. A claridade da casa em que meus avós
viviam, surgiu na minha frente. A cozinha espaçosa. Cozinha

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A Outra Eduardo Alves

apenas com o mínimo de utensílios. Cozinha de gente que há três


ou quatro gerações vive neste purgatório de cidade pequena: nem
o céu da vida no campo, nem o inferno das grandes cidades. Da
cozinha saia-se para uma galeria, cheia de vidros e de luz, onde
5habitava um eterno pássaro, ora piriquito ora canário, que se
recusava a cantar sempre que minha avó, ainda nos seus tempos
de maior actividade, lhe pedia com insistência que deliciasse os
netos. Toda a luz que iluminava esta casa parecia vir da enorme
janela que existia nesta galeria. Em bicos de pés, era por esta
10janela que espreitavamos, para os fundos de um restaurante nas
vizinhanças, quando até nós chegavam, as notas alegres de
alguma festa de casamento. Adivinhávamos os petiscos, os
convivas em alegre dançaria.
A casa da avó era uma casa sem quintal, a dois passos do
15centro da Matriz. Apenas um terraço com alguns vasos de plantas
permitia um escasso contacto com a natureza, todos os domingos
depois da missa do meio-dia. Era sempre visitado com rituais de
cerimónia, não fôssemos sujar a roupa domingueira. Dum lado,
os telhados da cidade que iam até lá longe, onde se diluiam no
20verde dos pastos da Fajã de Cima. Do outro lado, o telhado dos
vizinhos, que não deixava ver a rua, cuja actividade se
adivinhava pelos ruidos que se elevavam naqueles princípios de
tarde de domingo.
Ali estavam aqueles quadros numa casa da Rua d'Alegria,
25no outro lado da cidade, no outro lado do tempo, agora num
corredor escuro, no outro lado da luz, no outro lado da
recordação.
Ao longe as vozes da família. Mediam a "tensão". Minha
tia (a do gato) já trabalhara no hospital. No "Raxis". Era ela que
30opinava sempre, em casos de doença, explicando onde ficava a
aorta ou o coxis, descodificando os termos empregues pelos
médicos, recomendando uma radiografia "para ficares
descansado" em caso de sobressalto causado por uma queda mal
dada.
35 Por fim, medidas as "tensões" da família, qual indicador
milagroso do estado de saúde de cada um, descemos as escadas,
entramos no rés-do-chão, para que a minha outra tia (a do cão),
podesse mostrar onde dormia quando alugava todas as camas que
tinha em casa.
40 - É aqui neste sofá que abro ali na galeria - explicava ela.
- Uma cadeira de praia - pormenorizava minha tia mais

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A Outra Eduardo Alves

nova, sussurrando-me ao ouvido.


Por fim despedimo-nos, comentando que só nos
visitavamos assim, ao fim e ao cabo, duas vezes por ano.

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Ao chegar a casa, voltei por momentos ao meu mundo.
Tornei a sair de relógio em punho. Tinha lido há pouco tempo
que contando os gri-gris do grilo se podia determinar a
temperatura do ar. Lá procurei um som mais isolado do canto de
10um grilo. Contei trinta e seis gris-gris em quinze segundos.
Dividi por dois, como manda o livro, e adicionei com seis.
Espantado verifiquei que correspondia a 24°C. Exactamente a
temperatura que indicava à momentos o tal termómetro dos
postes todos modernos. Incrível ! Das duas uma: ou o autor da
15publicação está certo, ou então o raio do grilo esteve a ler o
livro...

DA INFELICIDADE DA COMPOSIÇÃO, ERROS DE


ESCRITURA E OUTRAS IMPERFEIÇÕES DA ESTAMPA, NÃO HÁ
20QUE DIZER-VOS: VÓS OS VEDES, VÓS OS CASTIGAIS.

D. Francisco Manuel de Mello

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