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DeRiVaNtEs

DeLiRaNtEs











DeRiVaNtEs
DeLiRaNtEs
Antologia

Título Original:

Derivantes Delirantes

Organização: Matheus Peleteiro


Capa: Maria Mariô

Edição: Matheus Peleteiro

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada ou reproduzida em sistema
de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, gravação etc., sem a
permissão dos detentores do copyright.


APRESENTAÇÃO

Certo dia contei a uma amiga que eu escrevia poesias. Sempre gostei de escrever, afinal, é
escrevendo que me encontro.
Ela me pediu para que compartilhasse com ela algum dos meus escritos, e assim o fiz. Ela gostou
bastante e disse que eu precisava conhecer uma amiga dela, pois assim poderíamos escrever juntas. Foi
como eu conheci a Ana Flavia.
Eu e Ana comentamos uma com a outra sobre a nossa sede de escrever e discutimos a
possibilidade de criar uma página para compartilhar nossos escritos.
Certo dia, estava lavando a louça (não há momento exato para que aconteça, rs), e tive um insight
sobre um potencial nome para a nossa futura pagina. Foi quando pensei em “Derivantes Delirantes”, pois
era exatamente o que éramos (somos).
Derivantes das experiências que tivemos, derivantes das nossas amizades, dos nossos ancestrais,
dos nossos ídolos. Delirantes porque somos devaneios, cheios de maluquices que são transformadas em
normalidades - ou que superam as normalidades - quando lemos e nos vemos em nossos autores
preferidos.
Ana concordou com o nome, a comunidade cresceu, adicionamos mais membros ao nosso grupo, e
agregamos mais delirantes sonhadores, derivantes de tudo e de muitos. Foi assim que a nossa página
evoluiu. Adicionar mais amigos com pontos de vista parecidos foi o principal “booster” para que a
Derivantes Delirantes pudesse ter um maior alcance. Além da Ana e Eu, faz parte hoje desse
talentosíssimo grupo: Aryana Frances, Diego Sanches, Eric Moreira, Iago Souza, Matheus Peleteiro,
Pedro Poker, Pedro Venturini, Rennan Sama, Roge Weslen, Saulo Matos e Vitor Oliva (que serão
devidamente apresentados no final do livro). Nesta antologia, convidamos também os poetas Aleff
Ribeiro, João Farias e Joe Arthuso.
A Derivante e Delirantes é constituída por um pouco de cada um de nós, que escreve para aliviar a
alma. Por cada um de nós que escreve para deixar um legado, para não enlouquecer, ou para, talvez, ser
lembrado num futuro qualquer. Escrever é a arte da alma, e ficamos imensamente felizes em dividir um
pedacinho de nós com cada um de vocês.
Agora, tornando palpável e lançando o nosso primeiro livro impresso, esperamos, sinceramente,
que apreciem os nossos escritos e, mais que tudo, que nossos escritos os inspirem a escrever, para que,
assim como nós, possam deixar uma nova faísca, por mais ínfima que seja, acesa na literatura brasileira.

Estefani Camile

Bem vindo ao caos
eu sei que você me vê
em todo o canto,
no quarto
nas ruas
nos olhos daquela
ruiva de bem com a vida
na política
no trânsito
nos cabelos
daquela manhã de segunda
mal dormida
e eu te vejo
e além disso
me vejo em você
que não é apenas
mais um zumbi
de relógio
mas está perdido
sabendo exatamente
onde está
e eu amo isso.

sei que você me vê
e me acha sublime
à minha maneira,
pois entendes
a necessidade
deste pandemônio
como ninguém,
essa desordem
quase etérea
que clama
por ti
e dança
para ti
diariamente.

todos esses sons
horrendos
misturados
em uma única
onda de balbúrdia,
aromas doces
e aromas
assassinos,
cenas belas
e ridículas
se fundindo
em um único
arco ordinário,
não finja que
não gostas da cidade
e dos seus dejetos
messiânicos!

bem vindo ao caos
companheiro.
não resista,
essa é a minha humilde
existência,
jogue tudo pelo
chão
ou em qualquer
outro lugar,
sente-se ai mesmo
sob os cacos da cidade
e vamos assistir
tudo da camarote,
pois eu preciso
de você,
você precisa de mim
e eles precisam de nós.

Saulo Matos


Cotidiano poético
Boletos, riso amarelo,
pensamento qualquer
e, no calor intenso, a fila não anda.

Pago boletos para ter o mínimo,
rio amarelo por excesso de café,
minha falta de fé já aceitou mais um dia infernal
e os poemas seguem nesse vão de pensamento qualquer.
Aryana Frances


Mais um poema
Um poema para levar no bolso direito da calça
junto à bala de menta e dinheiro da passagem do ônibus
Um poema roto
pra ser lido para os infinitos mendigos postos à sarjeta
Um poema escrito em folha de caderno
com letra feia e caneta vermelha
Um poema que faça a professora de português
me olhar com asco
e as palavras talhadas no papel
como escrituras na carne (feitas à faca)
Um poema que faça teus olhos castanhos brilharem
e o céu se abrir
Um poema que te diga que vá e tente
que nada é certo (exceto os erros)
o resto é incerto
como as rimas nulas que aqui deixo.

Um poema que funcione como um soco na cara
ou uma chuva no verão
Um poema desses, que eu sempre escrevo,
e logo deixo de canto, mofando à imensidão.
Um poema desses, de amor, falando do teu púbis
e dos teus sinais e sardas na face
e da marca de infância nas tuas coxas.
Um poema feio.
Um poema que faça teu peito sangrar
e tua alma rugir o eco indefinido
de todos os amantes (desde que o mundo é mundo).
Roge Weslen


eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas o demônio
que se debate dentro de mim
emite gemidos mais doídos
que os meus.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas búfalos trespassam
sobre minha têmpora
me provocando vertigens
incuráveis.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas um tinhoso anônimo
rasga meu peito, amiúde,
fazendo-me inalar cigarros
e exalar álcool vagabundo
pela manhã.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas estou prestes
a matar alguém.
e, desta vez,
meu alvo é certo.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas lembro de ocorrências
do passado,
e fico estático num canto,
e choro quieto.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas tenho muito ódio
correndo em mim,
causando-me tremores
intermináveis
e uma vontade incessante
de derramar sangue
- aquele sangue.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas minha quimera de bom homem
nada mais é que devaneio,
onde meu inibidor de conduta
continua por um fio.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas continuo instável demais,
insano demais,
propenso a cada vez
mais violência.
eu queria escrever
sobre coisas bonitas,
mas a beleza excessiva
dos livros românticos
roubou-me a capacidade
de me comover por eles,
e eu fico dentre o pó
e o limo,
aguardando pelo sussurro do diabo
me dizendo que é chegada
a minha hora
de agir.


Vitor Oliva



O céu rugindo
acompanha a ginga do reflexo das nuvens na água.
O morro tão distante forma
a complexidade artística
de um quadro gigante.
Eu escrevo poemas percorrendo os metros quadrados num quintal abaixo dos galhos e das frutas.
A chuva regando o mundo
é a renovação do terreno baldio da minha alma.
Minha solidão é pura meditação
e amizade para com a natureza das coisas.
Meu coração finalmente floresce.


Rennan Sama

Próprias fronteiras
com a mochila nas costas
leva nos ombros
o peso da casa.
sente nas asas
um futuro que aposta
na brisa dos sonhos.
há lobos na rodovia,
mas há também
o brilho da lua e
das estrelas,
que caem da escuridão
além do horizonte da cidade
logo a frente;
onde as ruas, monstros de energia,
consomem e carregam
os vagabundos
pelos becos e bares,
aos tropeços.
mesmo um viajante
solitário na estrada
com seus manuscritos
e os poucos trocados no bolso,
sabe que sua felicidade
consiste na esperança
de um amanhecer mais claro;
pois o ideal é ultrapassar
as próprias fronteiras.


Ana Flavi Sarti

Semideuses
A criação foi feita.
Para alguns, um sopro
uma dádiva, a graça!
Para outros uma explosão,
uma estrela, um cometa, BUM!

Junto disso veio o Eu,


o ego, o semideus.

O poder a essa raça foi dado


O semideus foi pro Universo um achado.
Havia o próprio semideus pensado!

Junto do poder, um perigo exagerado,


de novo era o ego, coitado!

O ego fez o semideus sentir-se culpado


seja culpa simplista ou culpa do Eu comparado.

Semideus se perguntava
Por que eu, meu Deus?
Sou um pobre, quebrado!
Do Éden me havia expulsado.

Por que tu fizestes


da minha vida um estrago?

O semideus, já sentindo-se desgraçado


não sabia onde havia errado
Julgava-se, questionava-se,
mas não olhava pro lado.

Dizia ter na vida pecado,


mas não sabia que o errado,
era o que havia acertado.

Que o mundo vivia o sistema inflamado,


cansado de tanto sofrimento infundado
de tanta dúvida, não se sentindo encaixado
O semideus decidiu fazer jus ao seu legado
O arbítrio dado era o espelho do mundo arruinado.

O fim havia chegado,


o semideus colheu tudo que havia plantado
sem rumo, em um adeus o semideus se despediu
dessa loucura que ele mesmo criou
uma decisão, um suspiro, um segundo, um tiro.
Em um instante, esse mundo,
para o semideus, desmoronou.

Tinha ele pensado


que o sofrimento havia acabado
mas o disparo por ele dado
abriu uma porta,
mais um difícil recomeço
uma outra vida,
de um outro lado.

Estefani Camile

Eu
Deixei
De acreditar
Nas
Minhas crenças religiosas por falta de
Esperança
Ou
Excesso
De
Ignorância
Não
Sei
Dizer
Ao certo
Hoje
Caminho
Incerto
Ateu de Deus


Joe Arthuso


Fatalidades
te amei o tempo de uma canção de Serge Gainsbourg
vivi rápido demais por tempo demais
as drogas aumentaram o déficit de qualquer coisa dentro de mim
um câncer me aguarda na próxima carteira de cigarro
morrerei antes dos 60
nunca serei um grande escritor
a poesia é inútil
os poetas são inúteis

mas inutilidades importam

cerveja quente é uma porcaria
nunca confiar em quem não toma vodka pura
beijar prostituas que fazem ponto na segunda Alameda
xingar Deus e foder os anjos
apertar a mão do diabo e traí-lo em seguida
escrever um romance e depois jogá-lo fora
amar uma mulher casada
odiar quase todos
beber cerveja gelada todo dia no bar do Mané
roubar um banco
transar entre beijos e socos
gozo e suor
umidade
aí, então, num dia ensolarado
deixar-se ser atropelado por um carro.

Roge Weslen

Poema ardente
Minhas emoções nunca se apossaram de mim
e ainda que a serenidade beije a minha boca e
transe comigo toda madrugada,
o mundo insiste em pertencer
aos que tem a sorte
de nascer com os olhos
fechados.

É triste notar
a literatura reduzida a opiniões políticas;
a música reduzida ao underground;
e a arte sangrando, como sempre sangrou,
enquanto aqueles que costumavam beber seu sangue
em taças postas na mesa durante a ceia,
cospem imbecilidades nas redes sociais
apontando para tudo
que se opõe ao usual.

O soco na face que costumava ser proferido aos leitores
agora não passa de um afago sutil
àqueles que se acostumaram a chamar deputados
de celebridades ou
ídolos.

Assisto o poeta triste
vendendo livros na delegacia,
o funcionário desolado,
sendo despedido
mais uma vez,
e as mulheres
metendo seus dedos
nas faces daqueles
que já temem trata-las
como objetos.

A cidade é quente,
e a poesia arde
enquanto as feridas dos poetas
cicatrizam
em versos
soluçantes.


Matheus Peleteiro



Ironias
Eu era uma criança e tinha o mundo em minhas mãos,
oodia fazer o que quisesse com ele.

Hoje sou um adulto e o mundo me tem nas mãos,
me resta saber
o que ele fará
comigo.


Matheus Peleteiro


Meus instintos se aguçam
quando sinto de longe
o aroma da alma.
Sua aparência não me basta.
Me apresente algo único,
sua natureza única.
Não me chateie com superficialidades.
Me mostre aquilo em você
que a tua família despreza
e seus amigos sentem repulsa.
Me mostre um pedacinho
daquilo que você mesma considera
loucura.
Algo palpita aqui dentro
quando percebo originalidade.
Um pouco daquilo que falta
no mundo.
Um pouco daquilo que tentam destruir no mundo.
Os grandes querem a igualdade.
Não de vida! Jamais!
Eles pregam a igualdade das cabeças.
Não no formato dos crânios,
mas nas formas de pensar e agir!
Me salve um dom, um bom dilema,
um lema, uma ideia.
Me apresente um projeto de revolução,
um crime, um assalto ao banco central!
Me tranquilize com sonhos
de vencer o mundo!
Me surpreenda com boas expectativas,
só não falhe em desanimar...
Mostre-me a origem
dos teus desejos.
O núcleo do teu possível
ímpeto.
Não me faça sonhar sem antes
ter peito para oferecer às balas do fracasso.
A vida foi dada para explodir.
Se fosse para sentar e observar
o tempo se estendendo
como uma grande chance
se esvaindo,
as florestas, os animais,
os mares, nada
seria tão bonito...
Nada valeria a pena.

Rennan Sama




Dos amores que se foram
as traças comendo todos os restos das paixões
e amores despedaçados pelo tempo
nos dias assassinados pela imensidão
das lembranças refratárias
que me intimam à escrever esse poema.


Roge Weslen


Satânica I
eu conheci o diabo
tinha olhos castanhos
um cabelo comprido
e batom vermelho
me aparecia assim
em qualquer horário
em qualquer dia
depois de sumir
um mês ou mais
e eu deixo ela entrar
deitar na minha cama
beber da minha cachaça
e se escorrer em mim
espalhar suor pela cama
só pra sumir de novo
e voltar daqui um mês
ou mais
pra que eu deixe ela entrar
outra vez
querendo que ela fique
mas nunca fica
só fica o cheiro
só fica a falta
meu erro foi achar
que ela era minha
enquanto ela
é dela
só dela
e de mais ninguém

Iago Souza


Para K.
Vou conviver com isso pra sempre
com o nó na garganta e
o arrependimento pela falta de coragem
de não ter dito alguma coisa
nem que fosse a coisa errada
talvez a coisa certa a ser dita fosse qualquer coisa
mas não consegui.
o nó na garganta
o gargalo descendo rasgando
o gosto de sangue na boca e a amargura na língua
agora mandarei flores para seu apartamento em Maceió
deixarei bilhetes com o porteiro pra entregar-te
picharei as paredes de São José da Tapera com poemas intitulados com seu nome
seu nome está gravado nas paredes do meu coração e arde quando penso em você
eu tenho uma fotografia sua guardada,
ela fica numa gaveta do criado-mudo, você está sorrindo na foto
eu vou continuar fumando e bebendo e cheirando,
mas não se preocupe, a literatura vai me acolher
cheguei em casa triste naquela sexta e ela me abraçou e disse "calma, senta na frente do PC e vê se não
chora."
já vou no meu décimo cigarro e você sabe sobre o conhaque, né?
ainda estarei esperando até às 2 horas da manhã pela sua mensagem,
enquanto escrevo poemas com seu nome e juro ser o último no final de cada um.

João Farias

Eu escrevo
para alçar meu voo
para realçar o segredo
e saciar os desejos
a vista pro horizonte
a paisagem entre os montes
empirismo louco
entre o sufoco
ativismo
pacifismo
escrevo senão morro
de relance
nesse novo lance
avisto meu próprio e abalado semblante
no espelho
meus olhos refletem
a chama do isqueiro
e nesse olhar de
revoltado com o mundo inteiro
escuridão e luz
jazem no fundo dessa pupila
e minha imaginação
num ritmo filosófico
resume a sensação
numa luz de pisca-pisca
alma lírica
desmistifica a vida
mente possuída
LSD
cannabis
imagine a metafísica
a esfera imaginativa
a arte ofensiva
a briga com a realidade
da vida
enquanto a chuva cai lá fora
o desalento aqui dentro piora
aceito pagar por estar vivo
todo esse preço
me deito e escrevo.

Rennan Sama


invento desculpas
para minha preguiça nas manhãs frias,
tão convincentes.
guardo a tarde
no bolso do casaco
e arrasto as horas em insignificâncias
importantes pra mim.
alego que o ócio
é algo essencial.
faz parte de toda a encenação.
reconheci muito cedo
que pro nada eu tenho talento.


Ana Flavia Sarti


Poema Batido
escrevo sobre aquilo
que verte em minha pele

do olhar de um eu criança
nas tardes de meu tempo

escrevo sobre ritalina,
morfina e outras paranoias

em estado escatológico
sobre as visões do fim

sou dor, sou drama, tesão,
amor, fúria, colo e lágrima

ator de minha própria peça
uma autobiografia púrpura

eu falho, eu cego, eu rio
e me caio de joelhos ferrado

arrebento o peito todo
com o maldito do cigarro

escrevo a fuligem nos pulmões
e a benção dos dias quentes

eu chupo o sangue do lábio
e a laranja do entardecer

escrevo sobre a memória
e ela escreve sobre mim

e nu me entrego no escuro
ao corpo que me aquece

sou testemunha dos dias
e das noites que me atingem

escrevo sobre a capela olvidada,
as paredes descascadas e a santa

o som do motor do caminhão
e o cheiro da gasolina pela manhã

a lembrança que ruge felina
e anoitece em meu coração

sou revolução e hino socialista,
a marca que branda na pele

e me contenho: incompleto,
contraditório e todo fluído

me desfaço em ossos cinzas
como se flutuasse no breu

a febre roxa me bate à porta
e me arranha em delírio a cabeça

escrevo rios de água braba
e choro por páginas inteiras

me faço paisagem quieta
de caminhos silênciosos

e então sou tão saudade
que quase desapareço só

hesito quieto o beijo
e me confesso em sorriso

envelheço anos em meses
e lembro do que preocupa

ranjo feito porta empenada
e esmiúço os sonhos no dente

o motor continua a rodar
roncando nas costelas

então me entrego fantasia
como se fosse conto eterno

escrevo a maquiagem-bem-vermelha
e a tormenta que causam os lábios

escrevo neuroses de uma página
e me falta o ar em angústia

bato a parede na cabeça
e abalo com força toda coluna

beijo, beijo e beijo de novo
tudo num bem-querer-danado

e caminho tropeçante
entre as plataformas do trem

escrevo lembrança de criança,
minha inocência que incendeia

me faço refúgio como um cão
e durmo a chuva gelada

minha garganta entope de sonhos
e vomito pedregulhos do lar

retratos-velhos-de-infância
cobrem por inteiro meus brônquios

então cresço semente entorpecida
de amores virulentos & botânicos

escrevo fêmures-de-adultos
e um metro e oitenta centímetros

escrevo pelos pubianos, unhas,
barba e cabelos negros e maciços

escrevo com um único tiro
um poema (a)batido pelo tempo

que me envelhece em estalos
e me queima dor e paixão na alma.


Pedro Venturini


Eu e meus devaneios sobre Kerouac, parte 1
tens toda razão,
iluminados são os vagabundos,
querido Jack.
mentes em constante
ascensão,
embriagadas por Buk,
Ginsberg, Buda, cervejas,
Drummond, Cristo...
as estrelas prenunciam
um dia de sol.
o amanhecer sempre chega,
claro, alto.
a hora vai chegar,
cedo, inesperada.
é tudo tão lindo e
tão orgânico quando se aceita
a real condição
da fragilidade humana e
quando se aceita a natureza,
a cruel & linda natureza
do pecado
do desejo
da tristeza
da mortalidade.
não há tempo
para arrependimentos eternos.
por isso, os vagabundos
são os mais puros de coração,
querido Jack.
afinal de contas,
no fundo
quem não é?
bem, espero que eu tenha razão.

Ana Flavia Sarti


nem sei
mais
o intragável
é tudo
o que tenho
nem verso ou haicai
nem Mahler nem Mozart
Bukowski morreu faz mais
de 20 anos
Fante também
Céline também

o indizível
exige novos interlocutores
a posteridade é uma mentira
todo homem é uma farsa
ninguém nunca mais
nascerá póstumo.


Roge Weslen
Essas capitais...
Tenho um amigo em São Paulo
que fuma maconha de madrugada enquanto escuta Nick Cave
e que já assistiu a todos os filmes que eu queria assistir
Tenho um amigo em São Paulo
que chega bêbado nas aulas da Universidade de Psicologia
e que queria mesmo era ser cineasta
Tenho um amigo em São Paulo
Que já teve um roteiro recusado pela Amazon
e escreve loucos contos eróticos
que se fossem lidos no século passado
seriam condenados e queimados
Tenho um amigo em São Paulo
que tem a alma voyeur
e sente que apenas observa outras existências
Tenho um amigo em São Paulo
que é fã de Serge Gainsboug e
fuma um cigarro atrás do outro
enquanto me fala de um cantor de música country dos anos 60
Tenho um amigo em São Paulo
que ainda não desistiu do que quer e que sabe
que mesmo sendo tudo tão difícil
ainda há tempo
Tenho um amigo em São Paulo
que não se importa se um dia seremos grandes
e apenas bebe outro gole de conhaque
e me diz que seria foda viver nos 20
com Fitz, Hemingway, Zelda e os caralhos
Tenho um amigo em São Paulo
que busca sua iluminação em porres intermináveis e
toma rivotril quando está atrás de um pico
Tenho um amigo em São Paulo
que lê meus textos e diz que um dia seremos ricos e idolatrados
e que a eternidade não vale nada pra gente
Tenho um amigo em São Paulo
que se concentra no próximo gole
e fuma camels enquanto escreve textos
que provavelmente nunca serão lidos.

Roge Weslen



Alguma consciência
Sinto coisas
vejo coisas
às vezes as compreendo
bem… às vezes
raramente.

Algo entra e não bate na porta
acho que esteve comigo durante o dia.
Isso pesa, dói, me guia
desde a aurora dum sorriso infame.
Foi aquele frouxo riso consciente
na nua alma melancólica
da firme máscara sorridente
que esconde uma vida toda amarga.


Aryana Frances

Eu sou um fodido.
Penso demais,
Erro demais,
Vivo demais,
Sinto demais,
Bebo demais,
Preciso de mais.

Me escondo por detrás de


Frases prontas
E do emprego ordinário
E do sol e do meu volante
E da forma como finjo me
Importar.
Me sinto egoisticamente
Livre
Às três da manhã
Com insônia,
Contando as estrelas do meu
Teto,
Enquanto algumas estrelas
Lá de fora
Deixam de brilhar.

Escancaro essa ferida aberta


Para que possam ver o sangue escorrendo
E sentir o cheiro da nudez,
Do interior,
Da profundidade,
Porque é isso mesmo,
Ela dói pra caralho
E a não ser que você já tenha
Rasgado seu peito,
Perfurado seu coração
E mergulhado nele de cabeça enquanto ainda pulsante,
Não entenderá.

Aleff Ribeiro


No final das contas,
Na última respirada
No último olhar
No apagar das luzes
Depois do orgasmo
Quando acaba o efeito
Quando o despertador toca
(Nem sempre) Após o Adeus
Estamos sós.

Solidão é desejar um sorriso para admirar


Um ombro para dividir o fardo
Uma mão para manter quente a nossa
E não encontrar.
É estar no meio de gente e não, de fato,
Estar.
É entender que risos e abraços e
Bebidas e cigarros e
Transas
E amores
Não duram,
Que ao final estamos apenas na nossa
Companhia,
Vendo as letras miúdas deslizarem
Na tela do filme das nossas vidas.


Aleff Ribeiro

Há tamanha solidão nesse mundo
Há tamanha solidão nesse mundo
que eu me sinto acompanhado
pelo choro daqueles
que um dia já sorriram.

Mães de santo espalham promessas nos postes da cidade
e clínicas psiquiátricas ficam lotadas por pessoas sãs que carecem de atenção.

Há tamanha solidão no mundo
que eu me sinto abraçado mesmo quando estou sozinho
e sinto o calor daqueles que ardem
queimando no meu peito.

Músicos tocam solos eternos sem ninguém para ouvi-los
pintores reproduzem um mundo num quadro 20x50
e uma sonhadora protesta na rua
pelo direito à felicidade
sem
ninguém
para
escutar.


Matheus Peleteiro


Ausência
Eu vivia,
certas vezes com torpor,
assistindo algo
sem emoção, sem fulgor.

Mas era qualquer coisa
que passasse
sem a tevê
naquela estação.

Eu vivia
esperando pelo amor
só pra dizer
que amo sem a pretensão
de ter alguém ao meu lado
pra sentir de perto mais de uma solidão.


Aryana Frances



Lar, habitação
Noite no esgoto,
Há rostos, restos e trapos.
É assim, só a vida de ratos?


Aryana Frances



A vida é uma bagunça às vezes
Tudo parece virar de cabeça pra baixo
Menos você
Te deixando com vertigem
E sem saber o que diabos está acontecendo.

A vida é uma bagunça às vezes


Lança golpes certeiros
Sem dó, mas sem rancor também
Te deixando caído no chão, engasgando com
O próprio sangue, e
Perguntando o que diabos há de errado consigo.

A vida é uma bagunça às vezes


Te faz sorrir enquanto te fode por trás
Ao som de "you can't always get what you want"
E você percebe que os certos e errados
São carros indo e vindo sobre o mesmo chão.

A vida é uma bagunça às vezes


E te faz realmente pensar que
Não sabe como viver, e
Que está destinado a estar nesse mundo
Fodido,
Cambaleando entre cenas que
Às vezes
Te fazem perceber todo o ponto
Dessa falta absurda de
Sentido.


Aleff Ribeiro


Me desculpe pelos catatônicos
Me desculpe
pelos esquizofrênicos
com a individualidade reprimida
por eletrochoque
seguido de morte
e pelos alcoólatras negros
torturados
pela loucura dos normais.

Me desculpe
pelos catatônicos
lobotomizados
deprimidos
e pelas possibilidades
de Ser
aniquiladas
entre
quatro paredes de
uma cela psiquiátrica.

Me desculpe
pelas mulheres
prostituídas e estupradas
com fezes envolta
do bebê que jamais
chegou a ver
e pelas crianças
sem linguagem
sem família
sem infância
fadadas aos ratos
e à podridão.

Me desculpe
pela timidez e tristeza
pelas mães que enviaram
seus filhos
rumo ao homicídio
institucional.

Me desculpe
por beber esgoto
e urina
por arrancar
meus dentes
e orelhas.

Me desculpe
pelos mortos de
frio
e de doença
pelos corpos vivos
cheio de moscas.

Me desculpe
pela revolta
de não fazer parte
da sua ditadura social.

Me desculpe
pelas flores
apodrecidas
de Barbacena
e tantos outros.

C. Sanches

Vi suas mensagens.
Olhei todos os recados
Eram tantos
E tantos homens em sua vida
Você era louca
E estava acabando comigo
Destruindo-me aos poucos
Consumindo-me com seu jogo sujo
Eu estava caindo direitinho
Como um peixe pega a isca no anzol
Mas sua coragem me deixava com tesão.
A falta de medo e o fato de saber que estava ficando submisso a você:
me deixava ainda mais de pau duro.
Parecia que era o meu combustível
E quanto mais eu ouvia você falando de seus homens
E quanto mais você falava perversidades com eles
Eu ficava com mais tesão.
E meu pau latejava como se estivesse implorando por sexo.
Você era sexo puro
Dos pés até a cabeça
Você exalava sexo
Sexo, sexo, sexo, SEXO!
Eu pensei seriamente em pular aquela janela, fugir enquanto você dormia
Ir embora e não olhar mais em seu rosto,
Mas só conseguia ter ódio de todos aqueles homens
E ficava a amaldiçoá-los em minhas orações
E pensava se todos teriam te comido melhor que eu
Mas eu parecia ter sido o melhor
Você nunca teria gozado daquele jeito.
Não com outro.
Eu era durão e aguentaria mais essa.
Eu sabia que iria sofrer, mas não importava.
Valeria a pena, valeria e muito.
Você merecia o meu desprezo, mas eu queria te dar amor.
Acabei o poema sorrindo e voltei para o lado direito da cama e fiquei te olhando dormir com minha
camisa e sem calcinha.


João Farias



Foi você
Para Amanda Quaresma
Os melhores poemas que eu já escrevi
foi você quem fez.

As melhores viagens que fiz
foram para dentro de ti.


Matheus Peleteiro


Não qualquer uma, jamais,
Porém, você,
Sempre você.
Até a reta final de tudo.
Pois tudo que já vivi
meu bem,
com você foi mais intenso.
Pois de todas as drogas que eu já usei
tua essência delicada
foi a que mais causou danos.
E de todas as loucuras que já cometi,
te amar foi de fato a mais arriscada.
E no fim te fiz acreditar que te amar foi um tropeço
lá no começo.
Triste e inevitável é a ilusão do desentendimento.
Enquanto desapareço
através de um grande "basta!"
teus traços faciais e teus relâmpagos de Jéssica
se dispersam...
Desvanecendo igual cinzas.
Inevitavelmente seguimos
numa outra viagem sem rédeas.

Rennan Sama

Se existe um infinito entre o Zero e o Um,
Há outro muito maior entre os anos de uma vida.
Somos, então, eternos mortais.
O rastro de perfume deixado pelo passante.
O silêncio entre uma e outra batida do coração.
A ironia da efemeridade, que torna a perfeição Compreensível.

Somos circenses pulando de eternidade em Eternidade compelidos pela morte a dar o próximo
Salto.
Somos a flor apanhada pelo romântico e apreciada pela amada.
A metáfora estapafúrdia e impossível, que provoca um riso fora de tempo.
Somos o nexo da loucura, e a
Exatidão do subjetivo.
Somos a forma encontrada pelo universo de ser Sua própria plateia, dando
Olhos a si mesmo para que pudesse ser Contemplado;
E boca, para ser gritado, rido, beijado.

Entre um sono e outro, nas palavras cunhadas na madrugada,


Jogadas ao silêncio junto ao
Sax e ao piano de fundo;
Entre o corpo cansado e a mente
Ansiando liberdade,
As antíteses e paradoxos dançam monotonamente, rindo pelas beiradas das Camas dos que dormem,
como dois amantes que se beneficiam da ignorância alheia.


Aleff Ribeiro


Ela tomava doce toda semana
pra me acompanhar
& ia ao bar de segunda a segunda
e me via esgueirar entortando o corpo
a cada copo
& saia pela cidade na madrugada fria
em busca de uma dose cavalar
de suicídio sofrimento salvação
sussurros dentro da cabeça
(mas eu louco de pó
a alcançava antes
de chegar a lugar-algum)
& então ela chorava cheirava no banheiro
olhando pra privada suja
& bebia Coca-Cola
mascando chiclete como uma criança
que recém-virava órfã
mas como se nunca
tivesse tido
mas como se nunca
tivesse sido
nada daquilo –


Pedro Poker


Fizera casa no meu peito
— esse vazio
veio com a mudança.


Ana Flavia Sarti

Sonho de uma Noite de Verão
teu cangote cheirando à Lavanda
e perfumes etílicos que evaporam no mormaço de uma noite de verão.

você sentada em seu trono de framboesas derretidas,


com seu longo vestido negro de decotes homicidas.

a marca de batom no cigarro de palha,


doses de clonazepam e conhaque relaxando os músculos da consciência.

nosso cavalo Pégaso marchando pelas ruas fantasmas da madrugada,


galopando pelos viadutos como se fosse constelações estrelares
e invadindo nebulosas nuvens carregadas de morfina e minério.

eu quero abafar
com beijos de cevada
a risada da caveira ébria guardiã de dolorosos crepúsculos.

do alto da varanda dos seus sonhos lúcidos


todo céu é blues
e chove diamantes reluzentes
em forma de lágrimas nos olhos da minha amada.


Joe Arthuso

Para aquela que me mandou embora
Ela me culpava por não dar importância ao seu
diploma em Literatura Estrangeira pela USP
e por nunca ter ido à um daqueles saraus
de universitários recitar meus poemas

Ela me chamava de burro
porque Borges nunca esteve entre os meus favoritos
e porque eu só sabia idolatrar Fante e Miller e Céline
e alguns outros que seria cansativo citar

Ela jogava na minha cara que praticamente me sustentava
e que eu ficava todo dia só escrevendo e escrevendo
e escrevendo e que nunca saíamos e só trepávamos
nos intervalos entre um conto ou um poema
e que nenhum daqueles poemas eram sobre ela

Sim
Ela sempre me perguntava se eu escrevia meus poemas pensando nela
eu não sabia como responder
já que quando escrevia minha cabeça se esvaziava por completo
e não, eu acho que nunca dediquei nenhum poema para ela

Ela disse um dia que estava farta de mim e da minha vagabundice
e indiferença
e que eu devia pegar minhas coisas e ir embora
assim mesmo, como naquelas comédias românticas americanas
então peguei minhas coisas e fui sem me importar
nunca soube o que sentia por ela de fato

Esses dias nos encontramos na rua
ela parecia muito feliz e sorridente
disse-me que havia se casado na semana passada
e que tinha acabado de descobrir que estava grávida
–– doida para contar para o marido.

E me abraçou e me desejou sorte e disse tchau
e eu sorri e disse tchau
me senti infinitamente estranho e destroçado naquele momento

acho nunca vou poder contar a ela
que finalmente
escrevi um poema
pensando em seu nome
com minha tristeza
ironicamente dedicado à sua felicidade.

Roge Weslen

Barulho do trafego --
ouvi alguém me chamar
pelo nome

Pedro Poker

Para G.
Ao atravessar
a rua e quase
ser atropelado;

ao estremecer
quando a gastrite
me mastiga;

nos delírios da tarde;



no abandono
da remota memória;

ao lembrar
dos lábios estranhos
que me tatuaram
o corpo em saliva;

ao ouvir Gilberto Gil;

com as legendas
em francês daquele
filme com Louis Garrel;

quando violeta de raiva
partiu com a honestidade
tingida nos olhos;

agora, nesse escritório
vazio e cinza marrom;

penso até as artérias,
penso na ponta dos dedos,
penso até na alma
– seja lá o que isso for –
penso câncer, vida,
ocupação mental e retalhos
desavisados do que erámos,
penso notícias frias em dias sós.
Eu penso seu rosto,
seu carinho, suas vibrações,
eu penso em Você.


Pedro Venturini



Admito,
Sou cheirador!
Pois cheiro a dor
Da sua ausência
E as dores do mundo
Enquanto você não volta
E o mundo não acaba
Comigo
Nem eu com ele.


Saulo Matos



A verdade é que eu ando triste
mais triste que um alcoólatra
budista
deitado no sofá
recitando
o mantra dos teus olhos castanhos
como se ainda fosse possível um nirvana
que não o último gole
amargo
do rum barato.
A verdade é que eu te prometi
no silêncio
do táxi escuro nunca mais falar de Chet Baker
em uma poesia
e que eu devia acreditar que aquele
silêncio significava alguma coisa.
A verdade é que agora eu tô sentado
contando meus dedos
porque não tenho nada mais para fazer.
As pessoas tristes estão por toda a parte
como eu
procurando por alguma verdade
que as levou para essa situação
e ter acreditado
mais uma vez
a última vez
nos teus afagos
e no balançar da tua cintura
me jogou novamente
na solidão da noite infinita
a noite está velha
assim como eu.

C. Sanches

Toda autodestruição é uma forma de amor
Se vamos todos ao encontro da morte
Morreremos então por amor à Carne
Pela fumaça que corrói os pulmões
Pela bebida barata e cirrose hepática
Pela cafeína e a dor no estômago
Pela tranquilidade da dopagem antidepressiva
Morreremos então pela contracultura
Por novas formas de pensar
Por toda individualização de sentimentos
Por tudo que não sabemos sentir
Pela poesia dos malditos
Pela música dos loucos
Pela dança dos epiléticos
Morreremos então por tudo de mais intenso
Por atos desesperados
Por anseios inconcebíveis
Por medos e angústias
Por sonhos destruídos
Por amor
Porque todo amor é uma forma de autodestruição.


C. Sanches


Medo
Medo das traças,
Dos relógios
E de perder a graça.
Aryana Frances


Eu e meus devaneios sobre Kerouac, parte 2
envolvido por uma névoa
de loucura e álcool
e café e anfetaminas
movido por poemas
e escritores
imortais e pelo som
dos alucinados bebops
dos anos 40 e 50
sentia a vida queimar
nos ossos
na pele
na alma
consumido quase que completamente
pela paixão por algo mais
a cada amanhecer.
mas vivenciar não foi o bastante.
encontrou na literatura
o âmago da chama
a vocação
a salvação
para esse mundo
desajustado e louco.
perambulou pelas rodovias e
embarcou em navios
e trens imundos
em busca de emoção
e sentido &
sensação.
cada experiência contada
em uma lírica
instigante e espontânea
e cativante.
fez-se eterno
beatificado numa escrita
cheia de beleza
e melancolia e amor.
repleta de humanidade.

Ana Flavia Sarti


Autor desconhecido
acabo de ler
o mais lindo & sincero
poema
já escrito.
autor desconhecido.
uma pitada de Vinicius
com García Lorca.

um mártir
canonizado santo.
linhas ditas,
como uma promessa.
uma prece.
um poema tão revelador
que nem mesmo
o escritor,
agora, se reconhece.

Ana Flavia Sarti


estou cheia da linguagem poética
e de tanta hipérbole
que sinto meu coração saindo pela boca.
me sinto louca e grito
grito! grito por dentro até ficar rouca,
sentada na mesa em silêncio,
quieta no meu canto.
ah, o poema! santo!
santo poema!
santo Sama!
santo Peleteiro!
santo Weslen!
santo Ginsberg! musa inspiradora.
santa cama!
onde meus piores pensamentos
nascem e nunca dormem.
santo vinho!
que me influencia nas mais
importantes decisões
e me entrega as malditas palavras,
que como balas de canhões
me ferem com lembranças
na ressaca
logo noutro dia de manhã.

Ana Flavia Sarti


eu quero morar
em ti.
e passear a boca
pelo teu corpo e pernas
pescoço costas virilha
eu quero esquecer
minhas mãos na tua cintura
e tuas mãos na minha nuca
e nossas mãos apertadas
contra o lençol
quero lamber tua alma
e exclamar teu gozo
envolver teu cheiro em mim
eu quero o peso da tua cabeça
no meu peito
o som doce do teu prazer
e a tua ira sem raiva
cuspida em mim
espalhada no meu rosto
escorrida no meu corpo
quero teu corpo tremido
em cima do meu e os teus olhos
fechados a ver algo talvez alma.
tua alma nua e crua
curvas suor suspiro
quero ser roupagem
do teu espírito insano
a gritar aos quatro
cantos do quarto o meu nome
e que os teus suspiros
sejam tão altos que só eu ouça
também quero morar no teu peito
riscar no muro do teu corpo
que teu cheiro é meu
cais
eu sou cheio de querer
desculpa

Iago Souza


Todos os discos jogados no chão
Alguns vinis quebrados
E o CD do Cazuza que eu comprei em liquidação em pedaços
Você me dizendo que não presto
Que não tenho valor nenhum
"você é um canalha"
E eu acho que já ouvi isso em algum lugar
Enquanto você fala
Vejo sua boca abrindo e fechando e dá pra ver seu gargalo
Então me perco nos pensamentos
E vou longe e volto novamente e percebo que você jogou todas as minhas camisas pela janela
E tocou fogo no colchão da nossa cama
Pois tinha o cheiro da puta que deitei enquanto você viajava
Todos os meus livros jogados fora
Folha por folha pela janela
E as pessoas ignoravam como se não importasse que estivesse chovendo literatura (já que não era
dinheiro)
E eu vejo Cioran voando pela janela
Bukowski caindo no esgoto
Dostoiévski caindo dentro da calcinha estendida na janela do apartamento do primeiro andar
Allen Ginsberg sendo usado pra limpar o cu de uma velha que caga escondida atrás do lixeiro num beco
escuro
Oswald sendo devorado por um mendigo que acreditou aquele papel ser um pedaço de presunto enviado
por Deus
Eles pareciam querer me dizer algo, mas estavam distantes demais para tal
E Cazuza nunca mais tocará na minha amplificadora fodida que achei num lixão perto de onde moro
Veneza não terá mais graça e minha gata não mais irá miar pedindo por carinho enquanto passa entre
minhas pernas
Que estão embaixo da escrivaninha onde minha máquina de escrever Olivetti fica sobre,
pedindo pra ser dedilhada todas as noites
E todas as noites desconto meu ódio ali até os dedos sangrarem e ela pedindo por piedade fale comigo
"chega de poesia por hoje!"
E eu coloco um pouco de café misturado com cocaína e continuo acordado gozando da vida
E rezando pra que seu namorado morra
e eu possa casar com você numa igrejinha do interior de Alagoas.

João Farias



não é por nada não
mas dentro de mim
tem um puteiro
que abre as portas
toda vez que cê vai embora.

Roge Weslen


Vulva profunda
vão que quase-chega
no buraco da bunda
que não pode ser confundida
que não pode ser fodida
(e sim amada com
beijos, delícias e carícias)
sulco que carrega o mundo
teu suco de sabor único
míngua em minha língua
prazer eufórico que deixa
tudo fora do eixo
liquido aquoso silencioso
e oco
ao mudar o foco da cabeça
no cabaço do pau
Buceta poderosa
Fada misteriosa
baba de caldo fictício
saliva a um passo
do precipício
Símbolo antigo no
qual me enfio
no qual me meto dentro
sem questionamento
Metáfora que aflora
levando a mente
da órbita pra fora
Desejo que dá
à vida asas compridas
e dedos & dentes
pacientes o suficiente
para aguentar até
o próximo presente
ou até o próximo
gozo quente

Pedro Poker


Doutor Isac me disse que sou hipocondríaco
e que a minha mais nova neurose é você
que eu deveria conhecer novas pessoas
e que não é hipocrisia sorrir
mesmo sem vontade
o fato é que sinto necessidade
de ouvir seus batimentos cardíacos
em proximidade
aos meus
na mesma intensidade
e velocidade
e o que ele não sabe
é que amar
tem dessas perversidades
de te transformar em um louco
com atitudes irracionais
selvagens
e mortais
Não sabe que o amor
é um caroço insignificante
que o tempo
sem que percebamos
trata de evoluir
em um câncer
e tudo
que resta é a podridão
Todo amante
é um hipocondríaco
em evidência
Joe Arthuso

A moça de meias calças
Já era madrugada,
e num vagão de metrô,
ela entrou: sexy &
embriagada.

Sentou-se desejando apenas uma coisa


naquela madrugada:
deleite.

Um rapaz notou sua situação acolhedora
após o sorriso que ela lhe desferiu
e, sagaz como um legítimo gentleman,
notou em sua saia jeans
uma abertura que exibia sua
bela calcinha de renda preta.

Sentou-se ao seu lado e,
jeitosamente,
sem lhe dirigir a palavra,
afagou apenas a ponta da saia,
em silêncio,
enquanto todos estavam na parte de trás.

Observando a expressão da moça
para analisar a sua vontade,
começou com as pontas dos dedos
e seguiu
em direção a sua boceta,
que, no momento,
já estava encharcada.

Enquanto portas se abriam,
a moça contorcia as pernas
em cada estação
e sorria:
tensa,
delirando de prazer.

Sabia que aquilo não eram bons modos,


mas, que podia fazer?
A moça simplesmente não conseguia parar,
e não queria.

De repente, o metrô parou.
O rapaz se levantou e partiu.
Ela não pôde ver o seu rosto,
porém, de que importava um rosto,
se tudo que ela queria eram aqueles dedos
entre as suas pernas?

A moça, naquela noite,
um tesão inesgotável.
E, mesmo deixada ali,
solitária,
de pernas abertas
e coração fechado,
voltou todas as noites
na esperança de repetir aquele ato.

Sentava-se,
com sua saia curta e
sua meia-calça de sempre,
olhava para frente
e esperava que algo
acontecesse.

Esperava por horas,
na esperança de que aparecesse novamente
aquele homem
que, definitivamente,
sabia usar os seus dedos.


Matheus Peleteiro




Nossos olhos
Se encontraram
E nossas almas
Se perderam
Na eternidade
Finalmente.


Saulo Matos


desperdicei os dias
negando as vontades.
achei que o tempo não passasse
e que todas as idas
teriam regresso.
me exilei numa ilha
que habito por proteção.
achei que as vontades do coração
eram maravilhas
em excesso.
levei tudo muito a sério.
levei ao pé da letra
tudo que foi dito.
porém, sei que nada é infinito.
sei que nada é eterno.
no fim, acho que tenho que esquecer.
tudo que você tem a me dizer
não deixe pra depois,
peço que me diga agora.
não haverá outra aurora
pra nós dois.


Ana Flavia Sarti



Eu alcancei a puta e lhe perguntei o seu preço.
Ela respondeu '' cinquenta pelo começo. ''
Lhe perguntei quanto custava a submissão,
e ela disse oitenta.
Eu dei noventa,
Ela disse senta.

Se encaixou no meu colo


e se contorceu,
e eu imaginei que
a atitude súbita havia sigo paga
com os dez de gorjeta.

Eu só queria um diálogo genial


com uma puta qualquer,
e sobre o prazer,
eu sempre me viro com a punheta.

Eu lhe perguntei
o preço da sua alma,
paralisando seus movimentos
sem vida.
Ela me encarou com uma expressão:
aflita!
Que puta divina, pensei.

E então, após alguns segundos, ela respondeu:
''A alma é um jogo complicado.
Você me promete conceder o espaço
onde deveria estar a sua.
Só então fechamos o contrato.''

Essa puta nunca existiu.
É parte da minha ficção
de inventor, escritor, poeta
ou seja lá como você chamar.

O importante é que essa história não existiu,
simplesmente porque eu nunca haveria
de ter um diálogo genial com uma puta.

Mas o nome dela era Dilene!
Adivinha a razão! É engraçado...
Foi o nome que um colega inventou
nesta tarde,
quando conversávamos sobre nomes
que começam com ''Di''.

É um mundo louco.
E esse poema é mais um poema
sobre uma frustração.
É sobre as risadas fracas da vida,
que a gente solta
em meio aos suspiros fundos,
mais fundos
que o poço no qual nos encontramos
quase sempre.

quase sempre
por uma razão inquebrável
e irreversível.
Rennan Sama
Beleza é coisa que esfaqueia a gente pelas costas
eu não acredito mais em beleza
a traição começa sempre no belo,
tal qual a traição do bom.
do mal e do feio podemos esperar
sempre a mesma coisa,
são seres que não mudam.
Tenho sentido meu corpo
como, acho, nunca o senti antes.
Tenho sentido cada uísque, cada carreira,
cada copo e cada porção de torresmo
que como.
Tenho sentido meus músculos
de elástico frouxo
e câimbra alcoólica persistente.
E tenho sentido meus órgãos,
cada um a sua maneira
e cada qual com suas consequências.
Tenho sentido meus rins que doem
tal qual uma paulada seca
no saco.
O fígado inchado e marcado na barriga como um tumor
e o branco dos olhos amarelados de bilis.
meu estômago ressequido de junk
- a minha junk e não a convencional
daquele livro dos anos cinquenta.
e o corpo reclama
como um pistão desgastado pelo uso
fazendo o motor rugir de dor como uma
cadela pós-coito, caralho e boceta torcidos
numa tarde de verão.
tenho sentido também minha cabeça doente
que mostra os primeiros sinais do álcool
diário.
o ódio e os colapsos
dos nervos ruins.
hoje sou mais ansioso que ontem.
delírio e tremores involuntários.
tenho sentido medo
me olhando descolar do espelho pequeno
do banheiro.
De uma maneira muito específica, pelos olhos do uísque turvo e
falsificado.
sinto que morro mais
uma vez.


Eric Moreira



Dizem que um homem feliz vive com pouco
Sou um homem feliz e realizado
Me bastam apenas três coisas
Minha mulher, batida de limão
e comer
Como um porco capado.


Eric Moreira

uma mãe de santo
uma vez
me disse que
calada é a noite
eu não
não me calam as armas
e as fardas
os gritos que sejam
nem de ódio
nem de socorro
não me calam os dias
as horas e o tempo
o pouco o oco
a treva e o trevo
a sorte e o azar
as balas que insistem
em perfurar e explodir
e eclodir e repelir o peito
tão baldio quanto a esquina
da minha rua
não me calam nem as grades
e as calamidades
nem o verso a maldição
e a benção também não
não me calam as mãos
firmes
que apontam o leve e o livre
nem os calões as multidões
não me cala nem a mordaça
quem tenta
calar pra falar em ordem
e o toque que não seja de acolher
e recolher esse verso invisível
barulhento e insensível
que sempre diz o indizível
é de grito que se faz essas ruas
e calçadas escuras cheia de
histórias tristes e absurdas
não me calam os calos nas mãos
nem o grito de quem acerta na razão
só o que me cala é a boca é o beijo
é o coração


Iago Souza



Sonho real
Suspiro, sonho tranquilo;
tiros, caos a caminho;
sorrio, tenho você em meu destino.


Aryana Frances


Quem guarda o santo de guarda adia o juízo
final
Dizem que algumas pessoas sentem até o cheiro do calibre que atira
eu lembrei disso quando me joguei no chão no meio de um tiroteio no boteco da Zira
senti o cheiro do conhaque derramado, da cerveja
senti até o cheiro do mijo escorrido de algum cagão que mijou-se nas calças.
Foi a primeira vez que presenciei um tiro com vontade de morte.
Demorei a me levantar, fiquei debruçado no chão do bar até que a dona, Alzira da Conceição Pinheiro,
veio me pegar pela mão.
Achou que eu tava ferido.
Mas eu só tinha medo e porre.
O medo não deixava eu levantar, o porre me impedia de tentar.
Quando me sentei na cadeira, pedi um trago pra tentar recobrar os sentidos
Zira trouxe pra mim um copo de conhaque e afagou minha cabeça
“Menino de deus, foi por um dedo que o tiro não te pega. Você tava logo na reta da bala. Deus foi quem te
salvou”
Mas eu queria dizer pra dona Zira
Deus me salvou de muita coisa, se eu botar fé na palavra de quem crê nisso.
Quase caí da janela do terceiro andar com menos de quatro anos
quase me dei mal numa boca com dois maluco sem medo de morrer
que questionaram a qualidade do bagulho
quase levei uma facada de um corno ciumento no centro da cidade.
Se deus me salvou de tudo isso, viro crente,
Eu disse.
Mas eu não acho.
Eu tenho meus próprios santos
Acredito no meu santinho de zé pelintra
E maria navalha
Que eu cuido com muito amor.
Eles é quem me conhecem
Mais que o Deus jeová evangélico
Que pune e que mata
Quem não crê.
Nunca tive medo de inferno
Sei bem o caminho que trilho e confio demais
nos espírito que me guia.
Tatuei uma navalha no braço
Porque toda navalha é uma promessa
De vida ou de morte
E eu sempre fui um homem de palavra.


Eric Moreira


Você que secou minhas palavras tristes escritas antes num papel qualquer, Você que não me viu flutuar
como o som dum sax sobre a cidade de lugar à lugar sem encontrar algo que valha a pena nomear,
você que lutou contra a vida, entre ela encontrou alguém para ajudar – teu olho bateu com o meu, teu
sorriso falso na minha boca,
você que me suportou seis vezes por semana bêbado e no sétimo a ressaca – e agora
o baseado é sempre para dois,
você que provou através dos olhos que até no tudo se encontra o nada e vice-versa,
a poesia é meu corpo tanto quanto a cerveja no copo, tanto quanto o pouco que considero louco por não
ser maior:
Queria eu lembrar tudo o que vejo,
queria eu saber o que estou falando –
Queria eu subir ao céu e descer ao inferno e escutar a paranoia em teu ouvido calado, minha língua um
verme enrolado em teu pescoço
– Não prometo bom caminho na sequência de passos dos meus pés, no arrastar de sandálias –
sem profecias neste poema – sem perigo esse tiro
de cocaína.
Eu inspiro, e expiro o espírito então.


Pedro Poker


eu tenho pena dos eruditos porque
o amor deles é suicida, o amor dos
eruditos se joga da montanha e implora pela amada, escreve sonetos e cartas de amor perfumadas e
decoradas por flores de algum jardim secreto
de uma montanha longínqua,
eu tenho pena dos eruditos porque
eles só amam se for aquele amor
de serenata e novela mexicana,
que declama "ne me quitte pas" no mais
perfeito francês, o amor dos eruditos é
quase religioso, o amor dos eruditos
nunca entenderia o poema raso que fiz
sobre aquele lençol rasgado que nos cobria,
o amor erudito não entenderia o que te escrevi e mandei num guardanapo sujo do bar do Bené,
os eruditos não entendem o amor marginal, o amor que te oferece uma música do Belchior, uma cerveja
e uma tarde inteira de sorrisos soltos,
eu tenho pena dos eruditos porque eles
não entendem nada de amor,
amor não é isso que te ensinaram na
escola, o amor é tudo que eles diziam ser
vazio
&
Insignificante

Iago Souza


Mestiço
Em uma queda d'água
meu olhar cruzou com o seu .
Por trás dos seus óculos escuros,
a correnteza e o rio
deixaram que o papel se movesse como um mito.

Por instantes permaneci arrebatada em ânimos
com a certeza de que encontros incertos nos trazem a brisa
soprada pelo mar da vida.

Quem pode provar do seu olhar,
mestiço castanho claro,
rende-se ao esboço de um sorriso monalístico
deixado em um parque ambiental.

Hey, mestiço,
você escalou meu desejo
e fez alguns momentos parecerem ilusão.
Onde está seu sorriso mostrando os dentes
com seus olhos pouco apertados?
Diga onde está seu beijo?

Perguntas sem respostas
como um simples: quanto custa?
consumida em timidez,
foda mesmo é não saber responder.

Queria a eternidade na noite que passou
por momentos envolvida
porém, já sentia
a realidade que voltou.

Hey, garoto,
você escalou meu desejo
desorientou minha razão,
meu poder de dizer sim ou não.

Flutuar em seu olhar,
mestiço castanho claro,
em plena corda bamba
fez-me perder meus pensamentos
em cachoeiras,
em desencontros.


Estefani Camile




Cabe
No espaço entre sorrir e beijar
cabe minha eternidade
em seu suspirar.


Aryana Frances



As noites são frias ao sul do Equador
as noites são tristes
e eu estou cansado de escrever sobre
a noite
sobre você
sobre minha tristeza
sobre o jazz
estou cansado de escrever sobre
cerveja
sobre os mendigos
sobre os loucos
estou cansado de ser poeta
de ser o que não sou
nunca vou mudar o mundo
e nem vou mudar uma pessoa.
As frases soltas e quem sabe
belas
como "noites frias ao sul do equador"
são delírios
e apenas delírios.
Conheci pessoas esses dias
o que é raro
alguns bem loucos e intensos
como as linhas de Henry Miller
capaz de mandar Deus à merda
e perceber o sadismo de todos nós
outros líricos e cheios de vida
suportando problemas escritos em versos
simples.
São tantos os olhos
e tantas as tristezas que se esvaem
em quartos claustrofóbicos.
São tantos os sorrisos e cada um deles
sem expressão
opacos
como nós.
"olá, tudo bem?"
a mulher do caixa repete centenas de vezes
e vai chorar ao fim da tarde
porque
o dia inteiro está uma merda
para ela
e para mim.
Eu escrevo meus poemas e vou chorar
no fim do ponto.
As pessoas morrem e tudo é parte de um todo
como Anaxágoras
como Deleuze.
"Tudo" é uma expressão tão vazia
quanto assinaturas
nada é mais vazio e egoísta que assinaturas
quem dera pudessem todos
escrever ou pintar
e não assinar.
Eu falei que não queria mais escrever sobre
a noite
e tantas outras coisas
então lhe entrego esse poema
(assinado)
sem foco.

C. Sanches
O inferno é aqui, baby
eu lembro de você
dizer "o inferno é aqui, baby
nós somos nossos próprios
demônios"
eu nunca acreditei,
tantas vezes ateu de ti.
e hoje eu ouço os discos
do Cash na madrugada
sobre homens solitários e alcoolatras
eu machuco o pé nos cacos de garrafas
espalhados pelo chão.
Caetano chora baixinho no bar da frente
e eu não aguento mais ouvir "sozinho"
enquanto eu rasgo os lençóis
que já sujamos
e rasgo os poemas que te fiz
e rasgo minha pele com as unhas
e amasso a tua foto na mão
e bebo mais um pouco
e fumo uns 20 cigarros
que tem o gosto estranho da sua boca
que me amarga a língua,
sim, agora eu sei que o inferno existe,
eu me enganei,
o inferno é o que sobra
quando o amor acaba
eu me masturbei seis vezes ontem
pensando no teu sorriso bêbado

Iago Souza


O Barulho do Vazio

não sei se sobrevivo
à arritmia
a frequência
do meu coração
alterna entre sonho
& furacão
e eu meu desejo
é impróprio
e meu signo
tem lua em câncer
certas noites
daquelas bem tristes
eu converso
com Deus
noutras
ele me escuta
eu juro que ele
me escuta bem
pacientemente
e nas manhãs
eu me perco claro
de um jeito quase
súbito de incomodo
é que tudo
se desenha assim
meio de marcha ré
e eu imploro
para Deus
e a sala vazia
e a música quase
que muda, calada
e minhas manias
todas tortas elas
tudo dentro de
um imenso vazio
- o universo cabe
dentro de uma boca.


Pedro Venturini



Tenho dentro de mim
um desejo tão forte
de encontrar alegria
que nem a polícia
poderia apagar com bala
que nem a mídia
poderia manipular as notícias
mostrando meus sentimentos
mais tristes:
Tenho dentro de mim
flores no esôfago
que sufocam com oxigênio
Tenho dentro de mim
um caminhão lotado
de sacos de cimento
Tenho dento de mim
pássaros que não cantam.


Pedro Poker


Tudo continua como está
De onde venho as grandes avenidas são fichinhas
o que há são os becos intermináveis e obscuros
– locais onde a poesia de Shakeaspeare não chegou
dias inenarráveis
e esse sentimento tem me tomado
esse sentimento pior que a tristeza!
e não há música, não há livro, não há palavra
que dê jeito quando estou nesse estado
transe quimérico que me deixa agoniado
como se a vida estivesse prestes a acabar
& espero que esteja mesmo
é como se mil locomotivas tivessem me atropelado
e não restasse nenhuma parte de meu corpo
pra chamar de Eu
como naquele romance do F. Sabino
a ira ainda está aqui
& o problema todo fui eu que criei
por que será que o ser humano tem esse
instinto devastador de querer
sempre o pior para si – mesmo que as vezes inconscientemente?
mil locomotivas passando por cima de cada parte do meu Ser
que imagem linda de se ver
& acabou saindo uma rima
sei nem por quê
a televisão diz que um grupo de jovens vândalos
depredou o patrimônio público de são Paulo
há algo errado com essa notícia
e quem está depredando o futuro de nossos jovens vândalos, é o que?
a loucura sussurra algo ao meu ouvido
finjo que não escuto
– o estourar de uma bomba
jovens vândalos
incendeiam um ônibus na esquina.
tudo continua como está
no Facebook
vejo postagens “Fora Temer”
uma atrás da outra
mas
tudo continua como está & teve aquela menina que perdeu o olho
nossos jovens não dão mais sua cara à tapa de graça
nossos jovens uma porra!
eu sou jovem também
& quero gritar & bater & xingar
mas nossos homens de bem odeiam com todas as forças
a atitude de depredar o que acham ser seu
a parte tudo isso
o que faço é sentar aqui e descarregar a merda toda
aí eu consigo outra chance pra mim mesmo
e porra, é triste:
tudo continua como está.


Roge Weslen


Há muita festa em casa de rico, mas poesia só
mora em pau a pique
Há muita gente provando dry-martinis e cheirando cocaína no vidro alisado da mesa de centro
enquanto eu aceitei a aguardente de dois reais gorgolejando metanol pra me cegar.
Há muita gente contente com seus telhados de vidro e poesia fodida com trocadilhos escrotos.
Há muita gente recusando a vida em favor de cruzeiros que já não valem um centavo.
Muita gente elogiando periquitos mortos e Cuba-Livres sobre a mesa da sala
Rum caríssimo enquanto os bons morrem contando centavos.
O problema desse país é que existem poetas demais nas rebeliões das cadeias
E pouquíssimos doutores capazes de fazer poesia.
No entanto os livros são sempre recheados de títulos.
Há mais títulos que poesia nos livros dos doutores.
Conheci também doutores que de doutor, só o título
O resto era algazarra e porre e mesa e vidro e canudo e outro porre e vida para além do entorpecimento e
do trabalho.
Conheci poemas improvisados sobre sexo Anal com garrafas de rum da pior qualidade, mas do melhor
preço possível.
Fumei charutos cubanos trazidos em panos velhos como contrabando da ilha mais fodida da america
latina
Fodida de uma maneira boa e triste, como poeta acha legal.
Conheci os barbudos e pederastas, que o Piva cantou, e não gostei da maior parte deles
São coxinhas aos avessos
Com convicção demais no que dizem
E pouquíssima visão de experiência e gozo do mundo.
Conheci quarentões que travaram suas cabeças nos seus delírios punheteiros de quinze anos.
Conheci de menor mais experimente que homem feito.
E nada disso mudou nada.
Há muita gente que não viu porra nenhuma e acredita ter encontrado a razão do céu e do mundo
E das mazelas
Mas a gente ainda morre no jornal.
Com a tranquilidade do imbecil
Eu fumo um, dois, três cigarros seguidos.
E espero a próxima notícia,
Nos últimos cem anos
A melhor literatura que li
foi o depoimento do “maior bandido da américa latina”.

Eric Moreira


"Você ainda vai se foder muito na vida”
Me disseram certa vez,
Eu só não imaginava
Que seria a própria vida
Que iria me foder
A vida inteira!
Saulo Matos

Eu não fumo,
Mas depois daquela transa
Precisei acender um cigarro
Realizando a fantasia de
Ir à janela
Nu
E fumar lentamente
Sabendo que há uma mulher
Em minha cama.
De costas para ela.
A imaginava
E deixava a fumaça sair
Como que por vontade própria.

Estava frio,
E a brisa gelada
Contrastava com o
Quente do meu corpo
Cansado e
Satisfeito.

Terminei o cigarro
Voltei para a cama
Abracei-a e
Fingi assistir televisão.


Aleff Ribeiro


o mundo poderia acabar
enquanto nós trepávamos
com a TV ligada
no programa do Silvio Santos
a terceira guerra mundial
poderia explodir suas bombas
e mandar essa cidade pro
espaço
enquanto você gemia
que era minha e se contorcia
como uma cobra com fome
o mundo poderia parar ali
enquanto você põe minha camisa
do Pink Floyd e vai na cozinha
preparar um lanche
enquanto você puxa a calcinha
do rabo e pisca pra mim
enquanto você reclama da
programação da TV aberta
e diz que eu sou um caso perdido
mas que você até gosta
o mundo poderia acabar enquanto
eu te vejo comer um pão com queijo
em cima da cama e rindo das
videocassetadas do programa
do Faustão
e o mundo meio que acaba mesmo
por um momento
ele para de fazer sentido pra mim
mas só depois que você junta as roupas
espalhadas no chão
e eu fico ouvindo o barulho dos seus
passos por detrás da porta

Iago Souza

Amanheceu na rodoviária
um homem escutando
o resultado dos jogos
no radinho de pilha,
a mocinha lojista
comendo coxinha
e matando uma mosca
com um sorriso,
policiais chutando mendigos
com seus coturnos clérigos,
um casal de hippies
vendendo filtros de sonhos
na realidade de um pesadelo urbano,
passos emergindo
do ponteiro de um relógio
em direção ao embarque
de um suicídio cotidiano.
corre, corre
para onde?
por todos os lados!
apitos de ordens,
abre o jornal,
recebe mensagem,
uma selfie?
paga a passagem,
para onde?
quem sabe?
um canário de metal
pousa no meu ombro,
eu vislumbro
um oceano.

Joe Arthuso

A entidade mais bela
toda noite
se transforma
em anos
incandescentes
de anomalias
nostálgicas
indecentes
e as janelas
dos meus sonhos
se afogam
em maremotos
de purificada
agonia
e o sol brilha
pros cantos de lá
mas aqui na eternidade
das minhas horas
o nada me chama
de irmão
na imensidão
solitária
e escura
do vácuo
interior.

o cigarro queima
minha mão
e sabota
meu pulmão
bem devagar
com o carinho
doentio de um serial
killer
que se excita
em paparicar
sua vítima
antes do ultimo
e triunfal ato,
acendo mais
um
e aceito o meu
tracejar.

de todas as
coisa que esgueiram
por trás da cortina
negra
que eu não
consigo ver
e de todo
o mal que vive
lá fora,
hoje eu sei
que o meu maior
perigo
sou eu,
que vejo a morte
como a entidade
mais bela e pura
que já andou
por estas bandas.
levando todos
pra um lugar
que não é
aqui (espero).

fecho os olhos
e não durmo,
pensando em tudo
que não fui,
em tudo que não
foi dito,
me vejo em
uma cama
que não é a
minha
com o teto
me sufocando
e secando
de forma
colossal,
jogando todo
o peso do véu
noturno do
universo
sobre mim.

estico a mão e pego
a velha arma
que já encarei
tantas vezes
e a beijo
longamente,
minha antiga e
fria amante,
sinto o gosto
do metal,
então minha mente
se esvazia
como ejaculação
precoce nas
preliminares,
e assim eu
escorrego
de volta para
o ultimo fio de sanidade
que me resta
e durmo em paz
com um "celular"
na boca
tentando
ligar
para morte
novamente
mas ela também
não me atende.


Saulo Matos

Deserção
Acordo em meio ao fel
Podre da calçada suja.
Ouço um suspiro de redenção
Do diabo em meu ouvido.
O ar melancólico da cidade
Emite um zunido que ofusca
As buzinas.
O conhaque se esvaiu
Num gracejo indigente da noite anterior.
Sem almejar a vida, me levanto.
Acendo um cigarro,
E sinto a fumaça queimar
O que resta dos meus pobres pulmões.
Vejo a face de Thompson
Piscar pra mim da vidraça
Da padaria.
Minha garganta amarga
Se retorce num pigarro.
O céu desaba em cima de mim
Como num prelúdio sádico de Deus.
O castigo para os de mente ignóbil
Se anuncia.
A depressão moral de meus ancestrais
Me atinge no peito,
E caminho cambaleante
Rumo ao banco mais próximo.
Senta-se ao meu lado, com um sorriso torpe,
A imagem da Virgem-Maria.
Alisa meu queixo e me diz
Que meu futuro é uma solidão
Empoeirada em meio às prateleiras.
Ela se parece com a morte.
Cuspo um sangue viscoso
Na ponta dos meus pés.
Sinto meus olhos lacrimejando a embriaguez
De uma vida perdida,
Que se entorpeceu cedo demais.
Tudo parece se transformar
Num caos premeditado,
Sem alianças e sem pudores.
Ouço uivar o lobo sem bando
Que habita em mim,
Num pedido de socorro.
Ele quer se libertar da minha tragédia.
E, em meio a seus ganidos,
Percebo que ainda não despertei.


Vitor Oliva



Me mandaram ir a merda,
Virei poeta
E descobri
Que sou um cara
Obediente pra caralho
Disfarçado
De rebelde
Sem meta.


Saulo Matos

A concessão da estrela
Nascemos estrelas
com brilhos únicos, próprios
originais como canções
que vem do coração.

Sabemos da grandeza da existência
do que devemos buscar,
sabemos da importância das estrelas irmãs
das estrelas mães,
das estrelas guias.

Não quero perder a fé.
A fé que alimenta esse brilho,
a fé da ciência,
que é mais fervorosa que a fé religiosa
e que esses corpos celestes nem percebem.

Não quero perder a fé
no poder desse brilho
de todas as estrelas juntas.

Somos brilhos,
estrelas nascentes
ofuscadas naturalmente
por modelos de padrões decadentes.

Uma estrela, aqui nesse céu
nasce livre, e
se perde num buraco negro.

Se muito brilhante,
será aclamada e elogiada
mas, antes, verá seu sucesso
numa morte fadada.

esse céu que habito
cheio de estrelas lindas, brilhantes
sofre, por padronizar a emanação
de suas próprias luzes.

Meu céu de estrelas pensantes,
porém, insanas,
que fazem concessões para serem
felizes.

Estefani Camile



Poema de fim de tarde
É estranho:
Mas sinto que caminho para a derrota
sem a glória ter sido iniciada.

Faço o seu caminho,
imagino qual o lado da calçada que escolheu,
sinto o seu cheiro e sigo.
Te sigo mentalmente.
Vejo os lugares que me contou,
sinto o quanto perdi,
mas é tarde.

É tudo estranho e tarde.
Caminhos belos não bem regados e podados
Viram o inóspito caminho do meu coração.

Aryana Frances

Miles Davis faz seu instrumento chorar num dançar ritmado em toda angústia e tédio e tristeza e...
Olha onde eu cheguei.
Tenho um cigarro
e uma arma apontada pro futuro.
E o dedo que encosta no gatilho
não parece ser meu amigo.
Brinco com o teclado e a batida de um blues
meus dedos criam
muito mais que palavras.
Meus olhos enxergam a magia
da música e da poesia
e de todos os versos escritos.
Eu nasci no rock 'n' roll
desfrutei do rap nacional
e agora atolei no jazz
e acho que acaba assim.
E isso é tudo.
Farejei e assediei todos os limites
da perdição,
que ponderei como minhas únicas correntes.
Esta sempre, sempre, será minha poesia,
muito mais cheia de sentido
na véspera do fim de tudo.


Rennan Sama


Escadaria abaixo
Estou no inferno dos dias
dos dias ausentes de glórias,
do descanso dormente
da vida sem histórias
bonitas ou estranhas, mas minhas.
Aquele riso amargo
de lembranças e tristes fatos
se completam de tragédias
e de esquecidas promessas
vazias, mas tão belas.
O calor aprisionou meu coração,
o horror condenou minha ilusão,
e o amor não se esqueceu de nossa traição.

Eu penso nos meus erros
e vejo caminhos.
Eu não tenho acertos,
mas sigo meu destino.

Os meus medos são só meus medos.
Irei temê-los
Os meus medos estão na crise também
e irei vencê-los.


Aryana Frances


Meus amores são boleros cantados por um gago
apaixonado, sem medo de morrer de amor
há muita besteira sobre relacionamentos hoje em dia
descobri que é até fácil esquecer um amor frustrado
pelo ritmo excruciante do mundo moderno.
fiz a dieta da morte por um mês a fio,
rivotril e cocaína
alternadamente
três maços de Minister por dia e
meio litro de conhaque à noite.
chamam isso de dieta da morte,
e é bem óbvio o porquê.
eu não morri
mas todas as lembranças dela sim.
eu não me preocupo mais com o outro lado da cama vazio
nem com aquele cheiro doce de perfume de manhã.
Nenhuma ferida se abriu em mim outra vez,
quando, por acaso, cartola saiu do envelope e caiu no toca-discos.
Eu sou um homem bem feliz agora
mas, até quando?


Eric Moreira

Cercado
Mas agora, lá fora
O mundo é todo uma ilha
A milhas e milhas e milhas
De qualquer lugar
(Terra de Gigantes – Engenheiros do Hawaii)

Eu era uma ilha
sem arquipélago.

Eu era um punhado de terra, de lembrança
sem consolo.

Eu era o riso de outro
sem o outro.

Eu era o que ainda sou
sem mais conter o choro.

Eu era o mesmo
sem entender que já não o era mais.

Eu era…
Sem sentir o que o mar me trazia a cada alvorecer.

E eu era sempre
Sem nunca pedir para ser.


Aryana Frances


Indefensável
Era noite, voltava à minha casa
A lua toda misteriosa
Banhava minha noite

E minha alma vazia
só queria conhaque
Pra esquecer o dia desgastante

Mas não havia conhaque
Só havia lembranças.
Blasfemei à Dionísio:

“Por que em meu teto
Falta conhaque?
Não quero apenas versos, quero apagar, também.

Por que não transforma
O sereno em conhaque?
Perdeste as habilidades? Só apareces com vinho?

Não me responderás
Está enterrado numa crença
De infiéis lembranças. ”

Meu péssimo humor
Lembrou-me de que eu estava só.
Não adiantava reclamar.

Mas quero me esquecer
Mas quero me iludir
E acreditar na felicidade

Felicidade num trago
Repleto de saídas inexistentes
E de flashes da realidade.

Hoje ninguém, sorrindo, depois de um longo beijo, cochichará em meu ouvido:
“vamos dormir, amor, quem sabe virando o travesseiro,
Você sonhará de algum jeito”.

E então, era pra isso o conhaque
Pra te ouvir mais perto, pra te ver ao meu lado,
Sentir o gosto ébrio dos teus lábios e ter o teu corpo sob o meu.

Mas o conhaque acabou,
O sonho não chega.
É… esta minha noite se parece com um golpe indefensável.


Aryana Frances



Após a chuva
na próxima esquina —
o céu curvado de estrelas.


Ana Flavia Sarti

Agora
(Agora)
Eu me sinto um vidro quebrado
Uma peça descartada
Um peso inútil
Um violão sem cordas
Um céu.
Um céu poluído
Não visto do segundo andar
De um quarto no subúrbio.

Me sinto um pneu murcho


Uma flor apanhada, contando
Os instantes para ter sua cor
Perdida.
Me sinto resto,
Me sinto desperdício,
Me sinto desnecessidade,
Obviedade
Discrição
Explosão
Implosão
Me sinto fogo (morno)
Me sinto cigarro quebrado
Cerveja quente
Me sinto olho que ja não
Enxerga através da lente
Que deveria fazê-lo enxergar.
Me sinto descontínuo
Me sinto normal
Me sinto médio
E Deus, que puta dor
Que me causa esse sentimento!

Me sinto trêmulo,
Não me sinto eu
Me sinto poça d'agua
Insalubre
Insosso
Infeliz.

Me sinto mudo
E não ciente disso
Então falo e falo
E grito e
Só vejo inércia.
Me sinto amplo
E perdido aqui dentro.

Me sinto perdido.
Absolutamente
Estapafurdiamente
Idiotamente
Livremente
Perdido.


Aleff Ribeiro

Um cigarro no horizonte
José, recostado à janela
Fuma um cigarro
Contempla a rua, as portas, os postes
Sentindo a inutilidade
De toda esta fiação
Que vela as mentes
Mal iluminadas
Mas o que há, José,
Que nem em seu toldo chove mais?
O que há, que seu martírio
Tornou-se nada mais
Que flagelo?
Mas o que há, José,
Que em seu peito,
Nada mais aperta?
Nada mais se esgota
Ninguém mais bate à porta
José não sabe, como ninguém
Apenas continua tragando
Todas as suas dúvidas
Todas as suas lamúrias
Que sabe que de nada valem
Para os pulmões
Que a qualquer momento irão cessar.


Vitor Oliva

eu não exorcizei
os meus demônios
como a maioria
faz,
eu resolvi trancafiá-los
em mim e esquecer
onde guardei as chaves
já são tantos os monstros
vagando pela cidade e
tropeçando em mendigos
que não seria justo
soltá-los na avenida principal
e esquecer seus nomes
os meus demônios
eu criei em terreno hostil
meu peito meio aberto
meu corpo fechado
criei vínculos e laços
e até castiguei quando foi
necessário
meus demônios agora
cochicham conselhos
pra mim
gritam quando o perigo
se aproxima
às vezes dou ouvidos
às vezes os mando calar
e parar de atormentar meu juízo
meus demônios agora
se parecem comigo e são vários
um diferente do outro
um tão eu quanto o outro
meus demônios agora
se parecem comigo
ou
talvez seja só eu
que me pareço cada vez mais
com os meus demônios

Iago Souza


Veneno de Vênus
O céu escuro oferece a poção
que embebeda os olhos
sob a luz da lua cheia
que protege seus brilhos.

Toda sua proximidade aparente,
Vênus, aquece todo ser que te olha.
Vênus de Milo poderia ter braços
se sentisse tua energia letal.

Qualquer Deus perderia os poderes.
Vênus do amor provou sua luz
transformou amor em dor,
Veneno de malícia viciante.

Quantos anos luz longe te vejo
embriaguez cósmica que aumenta.
Vênus transforma alegria em melancolia,
brilho que completa
esplêndido Veneno de Vênus.


Estefani Camile


Transa cósmica
Esperando você chegar,
a noite é um uivo
engarrafado em cachaças
no alto-mar.
eu dizendo palavras sem vocábulo:
murmúrios de bêbados,
gírias de travestis desvairados
e insultos de loucos.
eu queimando
como as cinzas de um cigarro,
meu cinzeiro: almas perdidas em dias nublados.
você no meu incenso de ervas metálicas,
você gemendo de quatro
como um solo de uma guitarra;
derrubando os quadros
e gritando:
PICASSO! PICASSO! PICASSO!
esperando você chegar
enquanto leio Ferreira Gullar
vomitando no sanitário.
esperando você chegar
arrastando pelos terreiros
com os meus orixás.
a noite é ruiva
e na nudez do céu
enxergo os seus cabelos ruivos de Vênus.
esperando você chegar
tesuda
e gritando:
PICASSO! PICASSO! PICASSO!
eu sou tua!
Joe Arthuso


Querida,
Querida, você me diz
que eu tenho estado mais calado,
que tenho andado em outras frequências, e
que já não sou como era antes, mas,
e se eu te disser
que meus desejos não são mais os
mesmos,
que a minha esperança hoje,
não passa de um resquício da
vontade de derrotar os filhos da puta
que fecham os olhos perante as vidas que se vão
e se eu te dissesse
que notei um pássaro
voando em meio a uma multidão
e que a poesia nunca me procurou,
mas eu encontrei ela
e ela apontou uma arma na direção da minha testa
e me disse "sou eu
ou a morte"
e se eu te contasse
que de tudo o que passa
só o que fica
é a lembrança da calcinha das mulheres que te deixam
penduradas na fechadura da porta
e
a dor de ter de destruir tudo o que ama
para enfim viver de fato em
liberdade?
e se eu te dissesse
que até mesmo nas nossas trivialidades
sempre houve o receio
e a adorável inconstância
da falta de segurança
do amor,
você ainda me amaria
e diria que quer fugir para as Maldivas
comigo
para então mergulharmos na vida
até que um dia
não acordássemos mais?


Matheus Peleteiro

Você ainda teria medo se eu lhe dissesse
que a vida vai destruir
não importa de onde venha
todos que nasceram para a solidão
se eu lhe dissesse que a poesia
e os vícios vão te matar antes dos 50
que família não significa muita coisa
e pensar em deixar algo pra esse mundo é
atormentador demais
se eu lhe dissesse que é necessário morrer
pra poder viver novamente
que é necessário sucumbir para
que tudo se faça verdadeiro
que a literatura é uma farsa
cheia de palavras vazias
de significados
e somente os que compreendem isso
vão lhe entender
que Péricles
não passa de um charlatão
e Leônidas é o verdadeiro poeta
se eu lhe dissesse
que suas lágrimas não vão adiantar muita coisa
e no fim Werther foi fraco
os românticos sempre estiveram errados
se eu lhe dissesse que algumas vezes nem arte
ou amor
podem nos salvar
que nessas vezes
são eles que nos desesperam
se eu lhe dissesse que
em um ou dois dias
a angústia pode ser maior
e que talvez não seja a última vez
mas você não pode parar aí
se eu lhe dissesse que a filosofia não vai te
levar a lugar nenhum
que os remédios são a melhor opção
e que teu orgulho é um erro
se eu lhe dissesse que a tristeza
não é tão bela assim
nem tão necessária
mas os outros não sabem disso
que seu sorriso já não é mais tão branco
ou tão bonito
ou tão verdadeiro
que o quarto nunca foi quarto
e a casa nunca foi lar
as noites sempre mais longas
se eu lhe dissesse que se dopar
não é tão ruim assim
mas escutar a música certa é sempre melhor
se eu lhe dissesse
que não existe música certa
você ainda teria medo?

C. Sanches


Barulho noturno
Na madrugada até o amor silencioso
Torna-se gritante


C. Sanches

Eu quero achar
o que se perdeu:
transfigurar no nada
esse anseio de coisa
alguma
captar mensagens
eletrocutar espasmos
produzir ninharias
auxiliar deus
a se esquecer do mundo
(ele mesmo não dá
a mínima & sequer existe)
iluminar o corpo
até encantar a matéria
ao virar pó ao virar
a esquina
mostrar os dentes
a cada sorriso
jorrar lágrimas
expelir esperma
espremer o sumo
do sulco da enxada
no cérebro da terra
Forrar o estômago
de folhas verdes
derrubar os galhos secos
interferir no vento
assoprando sentidos
contrários
espirrar detalhes
tossir conteúdo
evacuar virtudes –
no mais ser menos
no resto ser tudo.

Pedro Poker



Fazer adormecer a língua
sobre a ferida alheia
e ocupar-se da saliva cuspida
a cada palavrão,
inaugurar nova visão
nos velhos mestres,
ouvir o porvir que há
em cada instante,
explodir no ar bolhas de felicidade
entre o oxigênio fantasma
da cidade,
ocupar-se de coisas terrenas
deliciando a matéria
com sua mortalidade,
jorrar quente o gozo
bem na cara
de quem não goza,
manipular a si próprio
num instante de esquizofrenia
calculada,
abstrair do espírito
qualquer coisa que não valha
o instante –


Pedro Poker

Agora o que me resta são poemas escritos por escritores desconhecidos do nordeste do Brasil
agora o que me resta são os cigarros feitos com fumo avião, pois é o que sobrou pra comprar com
algumas notas amassadas do bolso de uma bermuda suja
suja com o seu gozo enquanto te comia ao lado de sua casa, num terreno onde maconheiros se reúnem pra
fumar maconha, na cidadezinha pacata que morávamos
agora o que me restou foi esse aperto no peito que dói quando imagino você beijando outra boca
agora me restou o resto de Dreher de uma garrafa que caiu e saiu rolando da mão de um bêbado que
dormia jogado na grama da praça do Sesi
agora me restou esse vazio por saber que agora você deita com um advogado rico no motel Classic,
enquanto eu ainda bato punheta olhando a foto da sua buceta, que você me enviou via WhatsApp no meu
celular Sony Xperia
agora o que me restou foi o gosto de fel na boca vindo da raiva, por saber que eu sou um derrotado por
não conseguir nem dinheiro pra beber escrevendo poemas como este,
que serão esquecidos num sebo velho no centro da cidade de Maceió
e que eu nunca serei convidado para os saraus organizados por poetas burgueses que estudam direito na
Universidade Federal, e escrevem com a inocência de uma criança que brinca com suas bonecas e
fogãozinho rosa
agora o que me restou foi uma música do Tim Maia que não para de tocar dentro da minha cabeça com
todos aqueles metais, enquanto o filho da puta grita "ela partiuuu!", como se eu não soubesse
agora o que me restou foi a noite fria como cobertor e a minha sandália sendo segurada por um prego.


João Farias



Peça de um ladrão
Quebra-se a quarta parede.
O ator interage com o medo,
grita, desespera, clama por perdão
- Avista a morte, mas não sabe se ela chegará -
O ator errou no ato.
O público se revolta.
Fecham-se as cortinas.


C. Sanches


Deus em nós
Já se passaram alguns anos,
continuo tendo desejos por coisas proibidas:
pular janelas, tocar a campainha e correr,
roubar beijos.
A chuva ainda me consola quando bate no vidro
e escorre lenta e persistente em direção à terra.
Tudo segue seu fluxo,
o dinheiro e o sangue, o sagrado e o profano,
a verdade e a desilusão.
Ainda há muito do meu eu da infância.
Aquela vontade de aproveitar o dia,
de esconder a noite de baixo da cama.
Lembro quando descobri que no Japão ainda era d’manhã:
Eu só queria estar lá!
Minha mãe dizia: “Meu filho, é muito longe!.”
Eu aprendi que a felicidade sempre está um passo à frente,
como os sonhos que fogem na primeira luz que invade a cortina.
A vida é tão bonita no café da manhã,
a família reunida,
frutas, requeijão, sucos, bolos...
todos sorrindo para nós.
Mal sabem eles, ingênuos alimentos, que aquela
pode ser a nossa última ceia.
Às vezes fecho os olhos para não
ver sangue
em uma simples geleia de morango.
No calor árido do vale do ácido
ficava imaginando o inverno na Suíça:
o vapor do café, as montanhas congeladas,
o cachecol no pescoço.
A Suíça me consome tal qual um sentimento incógnito,
mas que me parece familiar
quando bate na porta da imaginação.
Quando menino queria ser uma águia,
ver tudo de cima, contemplar o infinito.
Sócrates dizia
que dentro do homem existe um deus desconhecido.
Talvez ele esteja escondido
nesse amontoado de dias análogos,
diante dos olhos enegrecidos.

Joe Arthuso


De repente,
Quero ler o mundo e escrever mil páginas!
Quero tocar piano e fazer amor
Quero aprender Francês
Tomar chuva
Falar sobre a vida e
Sorrir

Quero declamar como um gago


Quero gritar debaixo d'água
Quero pegar fruta no pé
Ziguezaguear nas faixas da rodovia
Pegar carona no seu abraço
Deitar no chão e olhar as
Constelações dos seus olhos

E assim, de repente,
Quero abraçar o universo
Ouvir as sinfonias nunca compostas
Me ensurdecer no silêncio sideral
Quero gritar “eu te amo” para as
Paredes do meu quarto

Quero esquecer das memórias carrascas


Executar minha liberdade em
Praça pública
Perder o peso do vazio de viver
Ter os pés no chão, de tão leve

Quero iludir-me com um propósito


Amar viver somente acompanhado

Não quero ser um copo meio vazio


Não quero ser um copo meio cheio
Quero ser transbordante
Um copo que flui.

Aleff Ribeiro

Quero ganhar o mundo
sendo assim
tão imundo quanto ele.
e ganhar a vida
na minha demência
de péssima aparência.
Quero como poeta
ganhar essa corrida
pela descida infinita
até o inferno. Mas
o bom poeta corre
não foge
e fode
e depois se arrepende
e acende-se
de repente
num instante
e num segundo.
o poeta é assim
uma ideia
antes de tudo.


Pedro Poker



Ando! Pois
se corro morro
sem observar o caminho


Pedro Poker


Poeta adolescente se emociona com pouco

O problema é que nos tornamos
uma grande geração de meninos emocionados
vangloriando vícios demais
que não adquirimos.
Só percebi depois que meus problemas no fígado apareceram.
Hoje eu vejo o quão ridículo nós soamos
naquele tempo.
Hoje, também, me dou o direito de rir dessa turma
que ainda não se criou
E dizer:
Meu alcoolismo não é status
e minha dependência não é vantagem.
Tudo o que eu conto
é aquilo que me rasga.
Minha literatura é exorcismo
Não oração.

Eric Moreira


Só confio em poeta que risca o chão com a faca
Há poetas demais
Vangloriando-se por aí
Conheço poucos que são verdadeiramente bons
Outros
Leram três páginas de um imortal
E imortalizaram-se em mediocridade e senso comum.
Eu sigo apenas não-sendo
Nunca quis disputar.

Eric Moreira

Vintage
Enquanto o vento sopra devagar alguma sorte,
a morte paira lentamente
e espera a soturna dança pela noite.

O vento sopra os mares,
o vento também sopra as cidades
levando chapéus, lixos e vidas.

Alguma crise se instala, mas não é 29;
o desemprego aumenta, mas não é 29;
o mecanicismo está no auge, pois não é 29...
é só o vento soprando para o aquém.

Os cigarros já devorados não saciam,
os tragos viciados se dispersam com a fumaça,
as cinzas poderiam descrever o que tenho
nessa noite escura como um anti-herói sem segredo.

Não tenho pressa, a imensa rua
continua por alguns quarteirões.
A noite nua descobre o vento,
o socorro tarda e não há fuga.
A lua some, o dia rasga o triste momento
enquanto levo as flores ao túmulo do que é novo.


Aryana Frances


A morte é o maior presente
À humanidade.
É a amante apaixonada da Vida
Que faz com que amemos
E sintamos falta
Odiemos
E abracemos
Como se Aquele instante
fosse o último.
É a bênção
Para que o momento
Tenha seu valor
É o que nos leva a
Gritar
"Não Vá!"
"Eu te amo!"
"Me Perdoe!"
É o calor e o aperto do abraço
É a saudade do que não aconteceu
A dor sentida
O Coração que contorce
E o sorriso
O Beijo quase que Desesperado
O segurar na mão
E o choro.
Desta forma não vamos gentis
Na noite tranquila
Mas gritamos
Enquanto ela cai.


Aleff Ribeiro

Cidade que vive
morta
sempre tão cheia
de pessoas vazias
onde o calor sufoca a
mesma frieza crua
onde o sabor se mostra
na falta de apetite
onde o ódio inflama
e se confunde com a chama
de paixão
cidade teu cinza me clama
um poema do povo
um poema novo
um poema polvo
que lhe agarre pelo pescoço
e lhe diga a verdade
na sua cara
sem versos falsos
sem tua febre fabril
nem tua boca-tubo de concreto
a fazer fumaça fascista
nem tuas ruas abarrotadas
de poetas tristes
nem teu cotidiano que cansa
pelo tédio:
pro inferno tuas ideias bélicas
e teu cidadão médio
Não deixarei que teus ideais
caminhem comigo
como se fossem meus
amigos
não acolherei sobre meu teto
de vidro golpistas abusivos
(nem teu Judas disfarçado de Cristo
nem teu Cristo falso de olhos azuis)
não te oferecerei a outra face
nem palavra nem sequer uma frase
para que se sinta melhor:
teu humanismo deturpado não
comove
não tira uma lágrima
do olho do peixe.


Pedro Poker

Eu continuo aqui sentado, sabe?
escrevendo poemas tortos, e
às vezes fico relendo todas as nossas conversas no WhatsApp,
imaginando que poderia ser tudo diferente,
que você poderia estar sentada comigo ou trepando comigo ou ouvindo Beatles comigo
enquanto deita a cabeça no meu peito e diz "olha, tô ouvindo seu coração. Ele bate tão forte"
e tem aquela música que você ficava cantarolando pra mim, como num prefácio: close your eyes and I'll
kiss you/tomorrow I'll miss you/remember I'll always be true...
eu queria te dizer que fechar os olhos e imaginar beijando seus lábios não adianta mais
que eu sinto falta do cheiro da sua buceta, do gozo na minha barba enquanto te chupo
eu ainda uso a mesma marca de cigarro e só paro de beber quando estou dormindo
é uma sensação ruim essa de saudade
e tem aquela cicatriz na barriga que você adorava ficar passando o dedo subindo e descendo e descendo
e subindo a ponta do dedo pela cicatriz grande e feia
e você dizia que queria ter uma cicatriz, porque era algo tão íntimo uma cicatriz
agora eu entendo o que você quis dizer, sabe?
essa cicatriz que você deixou em mim,
ela é só minha
a guardo com o maior carinho e desejo tê-la para sempre comigo
é o que sobrou de você em mim
além da sua calcinha que eu guardo e uso pra bater punheta nas noites de domingo.

João Farias


Minha poesia é uma forma de oração

Não posso conter o relógio.
A noite se aproxima.
É no crepúsculo que as putas escolhem suas melhores calcinhas
e vão brincar pelas avenidas
atrás do seu amargo fim.
Não se pode conter o que se sente
sobre a morte precoce das coisas belas e invisíveis aos olhos.
Todos os dias pessoas
que amamos
morrem e passam
a viver para sempre dentro de nós.
O sonho está morrendo!
Meu cão velho não late mais,
porém, guarda um último suspiro
enquanto vê os carros indo depressa pela estrada.
O amor está morrendo!
Quantas crianças Herodes
matará em nossas guerras não declaradas?
Até Deus está de luto
e veste seu manto de eclipse luar
e chora suas lagrimas ácidas
no mar negro do homem.
Não posso conter o relógio.
Já se vão os trabalhadores com suas bicicletas de quadro circular
ao encontro de suas amadas.
Eu fico aqui
com um sorriso trágico
e cômico,
orando com minhas palavras.
Joe Arthuso
Coração de Tróia
De onde me foi dada esta audácia
De sempre querer percorrer
Caminhos impercorríveis?
Tudo que me foi posto
Me foi tirado
E o sangue dos desalentados
Que se autodestruíram
Em séculos passados
Corre violentamente
Em minhas veias
A bajulação do terror
Já não é mais temível
E todas as mazelas antes feitas
Já não deveriam importar mais
Mas descobri que sou rancoroso
E me importo
Guardo rancor por aqueles
Que não percebem sua ignorância
Que não assimilam sua crueldade
E, inconscientemente – ou o inverso –
Acabam por devastar entes próximos
Tudo está perdido
A esperança é gestante do pecado
E vem embuçando uma relação incestuosa
Com a ganância alheia
A olhos sensíveis é tudo muito óbvio
Mas o equilíbrio – financeiro ou mental -
Destruiu a sensibilidade
E tudo tornou-se dissimulado
Vaguei pelas calçadas
Durante o sono profundo dos ímpios
Tentando achar quiçá uma resposta
Que acudisse pelo menos o meu amor
Que findasse pelo menos minha mágoa
Mas, frustrado, retornei à vivenda
E jurei nunca mais vagar a esmo
Mas já tinha o dito ontem
Talvez eu deva me calar
A noite sempre dorme
E me deixa sozinho a querer sonhar
Mas eu não consigo.

Vítor Oliva



Tenho olheiras fundas no rosto
de modo que meus olhos parecem
distantes
quase que esquecidos
dentro
do crânio
tenho olheiras fundas no rosto
de modo que não me imagino
sem elas.

Iago Souza

Deus e eu
Deus e eu, vez
ou outra,
batemos um papo
ele conta das melhores
e das mais tristes
histórias
fala sempre das
promessas
que não gosta de cumprir
me confessa os pobres e duros
pecados
que cometeu e os que
ainda não
chora no meu ombro
e agradece
depois vai embora
cabisbaixo
com o olhar nostálgico
melancólico
de quem tudo sabe e tudo viu
sem os mistérios e as descobertas
que a vida triste oferece
Deus me disse que
quando anoitece
e os anjos
vão dormir
ele chora baixinho
de joelhos suplicando
perdão às crianças
da Somália

Iago Souza

perambulamos pela noite
de ruas desertas &
de um céu povoado
carregado de estrelas
maduras,
que caíam por detrás
dos morros &
das torres
de transmissão,
transmitindo o infindável.
dançávamos como xamãs
urbanos,
hipnotizados,
num ritual embriagados
pela persistência
de existir além da carne,
pela vontade
de sentir além do toque.
embriagados
de vinho
embriagados
de vida.
iluminados pelos
primeiros raios de sol.

Ana Flavia Sarti


Nada é tão inteiro
Quanto cair aos pedaços.

Joe Arthuso

Até onde vai o universo
Você alguma vezes já se perguntou
até onde vai o universo
e
por que as estrelas brilham?
Você já percebeu
que todas as pessoas são tristes
e só se sentem felizes
quando surtam?
Você já notou no sorriso de um mendigo bêbado
que acorda comemorando sua sobrevivência
depois de ter flertado com a morte?
Você já percebeu o quanto os poetas se repetem;
o quanto os livros se repetem
e como os discos não param de tocar
ainda que o silêncio seja o único remédio?
Você já reparou no desafinar de cazuza ao gritar
e alcançar ali o seu auge?
Você já tentou esquecer aquilo
que nunca escolheu lembrar?
Você já observou como todos os poemas são eternos, mas, ainda assim,
todos terminam
e morrem?

Matheus Peleteiro


Cessam os soluços
— a realidade
é um grande susto.

Ana Flavia Sarti

SOBRE OS AUTORES

Aleff Ribeiro: 21 anos, lucidamente embriagado pela vida, vomita palavras para viver e compartilha
seus escritos na página “Lucida Embriaguez”.
Contato: aleffdvan@hotmail.com
Ana Flavia Sarti: Nascida e criada em Apiaí - SP, 29 anos, frequentadora assídua de bibliotecas há
muito tempo, porém, o gosto pela escrita é recente. Compartilha seus poemas na página Derivantes
Delirantes.
Contato: anafsarti@gmail.com
Aryana Frances: Aryana Frances, nasceu em São Paulo, Capital, em 1995. Com certos teores
melancólicos, escreve sobre seu cotidiano urbano e as suas íntimas sensações, belas ou não. Publica seus
textos nas páginas do Facebook: “Derivantes Delirantes”; e no Blog – “A Sombra na Caverna”.
Contato: aryana.frances01@gmail.com
Diego Sanches: Nascido e residente em Belém - PA. Diego, 18 anos, é escritor, poeta e futuro estudante
de filosofia.
Contato: dcsanches@outlook.com
Eric Moreira: Filho mal parido das Minas Gerais. 23 anos. Autor de “Último Blues Em San Pedro”.
Condenado pela lei de Deus e dos homens por pequenos delitos causados a ninguém. Amém.
Contato: eric.ufjf@gmail.com
Estefani Camile: Nascida e criada em Apiaí - SP, 25 anos, libertária, formada em comercio exterior,
sonhadora, escritora nas horas vagas, nas horas necessárias e sempre que seu coração pede, amante de
psicologia e filosofia, atualmente estuda Antropologia e Direitos Humanos em Harvard Extension School.
Contato: estefanicamile_oliveira@hotmail.com
Iago Souza: Rondoniense, Iago tem 20 anos, é autor da página Contos de Fodas e estudante de
psicologia.
Contato: victgarcia1984@gmail.com
João Farias: João é escritor, tem 18 anos, reside em Maceió, porém, morou a maior parte da sua vida no
sertão alagoano, em São José da Tapera.
Contato: farias.joao.9277@hotmail.com
Joe Arthuso: Escreveu seu primeiro poema depois de tomar um porre e quase morrer estraçalhado por
um trem na ferroviária de Itabira. Não tem mais ele guardado, se perdeu com o tempo, mas lembra de um
verso que era mais ou menos assim: “Nada acaba tão rápido quanto maços de cigarros e o amor de uma
atriz de teatro”. Hoje mora no Vale do Aço, interior de Minas Gerais, escreve sobre o amor, Deus,
mulheres e ressacas. Posta diariamente textos na página “A Besta Essência”.
Contato: joearthuso@gmail.com
Maria Mariô: Responsável pela arte de capa da presente obra, Maria Mariô, nascida e criada na cidade
de Salvador – BA, 19 anos, é artista plástica formada na escola de pintura da vida.
Contato: mp.costa@live.com
Matheus Peleteiro: Nascido em Salvador – BA, romancista, poeta e contista, Matheus Peleteiro, 21
anos, publicou os livros “Mundo Cão”, pela editora Novo Século, "Notas de um Megalomaníaco
Minimalista", pela editora Giostri, e o livro de poemas "Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz",
pela editora Penalux.
Contato: matheus_peleteiro@hotmail.com
Pedro Poker: Pedro Poker nasceu em Marília e nunca viveu lá, tem 25 anos e atualmente vive com
mulher e filho em um apartamento apertado de Campinas. Gosta de caminhar pelas grandes avenidas
observando coisas que não se enxergam. Publicou recentemente um livro de haikais, intitulado 'Aqui e
Agora'. Participa do Coletivo Sapiens Marginalis, Derivantes Delirantes, e Haikai no Tempo.
Contato: pe_poker@hotmail.com
Pedro Venturini: Há 21 anos sobrevivendo nessa paulicéia desvairada e rabiscando pensamentos em
branco, Pedro Venturini acredita que apenas a arte, o antidadaísmo e as nuances dos sorrisos e olhares
sinceros podem salvar a vida.
Contato: pedroventurini@live.com
Rennan Sama: Poeta de 19 anos, Rennan escreve em duas páginas maravilhosas: “Derivantes
Delirantes” & “Que tal, Cultura? ”. Tem um livro de poemas publicado, porém, nada conhecido:
“'Ancorado”, da editora carioca “Autografia”. Começou a escrever aos onze anos, observando formigas e
suas vidas tristes e sem razão.
Contato: rennansama19@outlook.com
Roge Weslen: Roge, 16 anos, é estudante e escritor. Vive na periferia de Belém, e de lá extrai o chorume
verborrágico de seus escritos.
Contato: roge.weslen12@gmail.com
Saulo Matos: Carioca, maluco, apreciador de substâncias alcoólicas suspeitas, tentando ser ex fumante,
depressivo, escorpiano, fã de Star Wars, escreve menos do que gostaria e já perdeu muitos poemas para a
noite, assim como também ganhou muitos dela. Co-Fundador do Coletivo Sapiens Marginalis, tem
também a sua página pessoal “Bem vindo ao caos”.
Contato: saulomatos@globo.com
Vitor Oliva: Vítor Oliva, atualmente, conta com 24 anos. Nascido e criado no escaldante sol norte-
mineiro, em sua maior parte nas contendas de Brasília de Minas. Atualmente vive em Montes Claros,
onde se encontra desde cervejas de pequi a terremotos. Acredita, também, que tudo o que não vira
poesia, vira pó. Portanto, escreve para se salvar. É membro do coletivo literário “Sapiens Marginalis”,
escreve na “Derivantes Delirantes”, e possui uma página própria intitulada “A profana mente de um
qualquer desvairado”.
Contato: https://www.facebook.com/nene.oliva.9









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