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PARA SER LIDA E DEBATIDA
~1~
Esta cartilha é para ser lida e debatida por grupos
populares. Aborda temas atuais que exigem refle-
xão e aprofundamento: a homossexualidade, o ca- FREIBETTO
samento homoafetivo, a orientação sexual, e o que
são teoria e "ideologia de gênero".
O preconceito homofóbico, o patriarcalismo e
SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL
o machismo predominantes na sociedade brasilei- E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

ra ainda impedem que temas relacionados a sexo,

• sexualidade e gênero sejam tratados com seriedade.


Eis aqui uma iniciativa para superar tais obstá-
culos e fazer "sair do armário" temas que merecem
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também ser enfocados à luz dos ensinamentos da


Bíblia.
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Preço por unidade: R$5,OO '.

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Pedidos para envio pelo Correios: tecacarvalho@uol.com.br

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Ao Felipe, meu sobrinho, íNDICE
verdadeiro e feliz em sua homossexualidade.

INTRODUÇÃO

2. DIVERSIDADE DE GÊNERO E

"IDEOLOGIA DE GÊNEROS"

3. IDENTIDADE DE GÊNERO

4. PRECONCEITOS MATAM

5. FAMíLIA, UM ÚNICO MODELO?

6. CONQUISTA DE DIREITOS
FREI BETTO é frade da Ordem dos Dominicanos e escri-
tor. Autor de 65 livros, estudou jornalismo, antropologia, 610- 7. DIREITO DE SER DIFERENTE
sofia e teologia. É assessor de movimentos pastorais e sociais.
Mereceu vários prêmios por sua obra literária e por sua luta 8. IGREJA E DIVERSIDADE SEXUAL
em defesa dos direitos humanos.
9. A ATITUDE DE JESUS

www.frcibetto.org 10. JESUS E AS RELAÇÕES DE GÊNEROS


1

INTRODUÇÃO

POR QUE ESTA CARTILHA

Hoje se fala muito em gênero. O que significa gênero?


Segundo o Dicionário Aurélio Online, "gêne-
ro é um substantivo masculino. Maneira de ser ou de
fazer; estilo, tipo: é esse o seu gênero de se vestir?
Diferença entre homens e mulheres que, construída so-
cialmente, pode variar segundo a cultura, determinando
o papel social atribuído ao homem e à mulher e às suas
identidades sexuais."

VOCÊ SABIA?

A população mundial, calculada em 7,6 bilhões de pes-


soas (dado de 2017), está dividida assim: metade, mulhe-
res e metade, homens. Todos filhos e filhas de mulheres.
De cada 100 homens, 90 têm dinheiro próprio. De
cada 100 mulheres, apenas 10. De cada 100 homens,
98 conseguem crédito agrícola. De cada 100 mulheres,
somente 2.
Mais de 1 bilhão de pessoas sobrevivem em pobreza
extrema. Gente que não tem certeza se vai poder comer
6- SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GENERO"
'7

amanhã. Dessa população de 1 bilhão de miseráveis, de tomar homem; e trans-mulher-nasceu homem e fez ci-
cada 100, 33 são homens e 67, mulheres. rurgia de redesignação para se tomar mulher).
De cada 100 pessoas desnutridas, 20 são homens e
80, mulheres. SEXUALIDADE
De cada 100 parlamentares (deputados e senadores),
Homossexual (atração por pessoas do mesmo sexo), an-
77 são homens e 23, mulheres. O mundo é governado
drossexual (atração sexual por homens), assexual (falta
pela cabeça dos homens.
de atração sexual), bissexual (atração pelos dois sexos),
Na direção da economia, 76 são homens e 24, mulhe-
sexualidade fluida (ora se interessa por um gênero, ora
res. (Fontes: http://hdr.undp.org/en/composite/Dashbo-
por outro), ginessexual (sente atração por mulher), pan-
ard1; https://goo.gl/8ikoSk; https://goo.gl/99Xtuw)
sexual (atração por todo tipo de pessoa, seja homem ou
mulher), lésbica (mulher que sente atração por mulher).
COMO USAR ESTA CARTILHA

Esta cartilha pode ser lida individualmente. Mas foi es- GÊNERO
crita para ser lida em comunidade - na família, na es- Há pessoas que não se encaixam em um gênero especí-
cola, na igreja, no sindicato, na associação, no grupo de fico. Outras são: andrógino (traços ou comportamento
amigos ou amigas, enfim, em uma roda na qual se possa imprecisos, entre masculino e feminino), bigênero (iden-
debater os temas aqui abordados. tidade de quem possui dois gêneros), cisgênero (aquele
Ao fim de cada capítulo há perguntas para serem res- que se identifica com seu gênero de nascença), cross-
pondidas. Não é preciso ficar preso a elas. O importante dresser (pessoa que gosta de se vestir ou portar objetos
é trocar ideias, opiniões, pontos de vista, sempre em cli- de uso do sexo oposto), gênero fluido (homem um dia,
ma de tolerância e respeito. mulher no outro ... Pessoa cuja identidade de gênero cos-
tuma mudar, às vezes se expressa como mais feminina,
PRESTE ATENÇÃO
outras como mais masculina), queer (palavra inglesa que
SEXO significa "excêntrico", pessoa que não segue os padrões
Homem, mulher, intersexo (nascem com órgãos sexuais convencionais), transgênero (não se identifica com o
que não se encaixam na definição comum do que é sexo gênero tradicionalmente atribuído ao sexo com o qual
masculino ou feminino), transsexual (trans-homem- nasceu).
nasceu mulher e fez cirurgia de redesignação para se
8· SEXO, SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

ENTENDA MELHOR 2
Todos nós, seres humanos, possuímos um sexo e um gê-
nero.

Sexo é o conjunto dos nossos atributos biológicos, ana-


DIVERSIDADE DE GÊNERO
tómicos, físicos e corporais. Esses atributos nos definem E illDEOLOGIA DE
como menino/homem ou menina/mulher.
GÊNEROS"
Gênero é tudo aquilo que a sociedade e a cultura espe-
ram e projetam nos meninos e nas meninas em matéria
de comportamentos, oportunidades, capacidades etc. É
um conjunto de características que diferenciam as pes- CONVERSA DE COMADRES
soas, independentemente se são homens ou mulheres. Maria: Comadre, você com certeza já ouviu falar em
Sexo é um dado biológico. Gênero tem caráter social. "ideologia de gênero" e diversidade de gêneros.
Marta: Já ouvi sim, Maria. Mas não sei bem o que sig-
nificam.
Maria: Não existe "ideologia de gênero", comadre.
Existem, sim, teorias de gênero - o modo de explicar as
diversas identidades de gênero.
Marta: Se não existe, por que se fala tanto em "ideolo-
gia de gênero"? Aliás, confesso que nem sei bem o que
é ideologia.
Maria: Ideologia é o conjunto de ideias que cada um de
nós traz na cabeça. Ideias de como devem ser as relações
humanas, a política do país, os rumos do mundo. Ideias
que nos são transmitidas pela formação familiar, ensino
10 - SEXO, SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" DIVERSIDADE DE GÊNERO E "IDEOLOGIA DE GÉNEROS" -11

escolar, leitura de livros, influência de amigos, da mídia, Maria: Faço uma comparação: segundo os fundamentos
de pessoas cuja trajetória admiramos etc. Nem sempre científicos da biologia modema não existem raças. No
temos consciência da nossa ideologia. A ideologia é o entanto, a ideologia racista difunde a ideia de que exis-
óculos que trazemos nos olhos. Quem usa óculos enxer- tem diferentes raças e, entre elas, a branca é superior...
ga melhor com ele, mas nunca enxerga o próprio óculos Do mesmo modo esse pessoal que fala em "ideologia de
que usa. gênero" quer nos convencer de que existem apenas dois
gêneros, o masculino e o feminino.
Marta: E quando surgiu essa expressão "ideologia de
gênero"?
VOCÊ SABIA?
Maria: Surgiu na década de 1990, no ambiente da Igreja
Católica, para combater as teorias de gênero. Naquela A sexualidade humana pode ser vivida de muitas manei-
década aconteceram dois eventos mundiais importantes ras, nas quais se manifestam afetos, impulsos e gostos se-
para debater gênero, sexualidade, direitos reprodutivos xuais, e expressa o amor que une duas pessoas. Elas mar-
da mulher etc: a reunião convocada pela ONU, no Cairo, cam diferenças em níveis biológico, psicológico e social.
capital do Egito, em 1994, que tratou do tema "Popula- Uma cultura que considera natural apenas a rela-
ção", e a Conferência Mundial sobre Mulheres, em Bei- ção homem/mulher certamente favorece o preconceito,
jing, capital da China, em 1995. a discriminação e a violência contra qualquer outra
forma de relação amorosa e sexual entre pessoas. Isso
Marta: Se não existe "ideologia de gênero", comadre,
precisa mudar!
por que se usa tanto essa expressão?
Quando alguém xinga o outro de "bicha", "viado",
Maria: Para tentar enfiar na cabeça da gente a ideia equi- "sapata", não está apenas manifestando injúria, ofensa
vocada de que o conceito científico de gênero é mera ide- ou bullying por ser preconceituoso. Expressa sobretu-
ologia, sem base na realidade. Como se não existissem do, uma cultura gestada por essa sociedade machista e
gays, lésbicas, travestis etc. Assim, procura-se encobrir homofóbica, que considera existirem pessoas que valem
um dado real e científico: as diferenças dos gêneros, ou mais do que outras.
melhor, a diversidade de gênero. São aceitas apenas as
diferenças sexuais, as que fazem distinção entre homem CONVERSA NO QUINTAL DE CASA
e mulher. Zé: Maria, quer dizer que existem vários gêneros?
Marta: Dê um exemplo.

I
12 - SEXO, SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GENERO"
DIVERSIDADE DE GENERO E DE GÊNEROS" -13

Maria: É isso aí, meu amor. Existem vários gêneros: TOME NOTA
neutro ou assexual, que sente pouca ou nenhuma atra- Gênero, sexo e sexualidade são conceitos distintos.
ção sexual; não significa que não haja atração românti- Gêneros não cabem no tradicional esquema binário
ca. Transsexual não se identifica com o sexo com o qual masculino/feminino. Não devemos confundir orientação
nasceu, sente-se pertencente ao sexo oposto. Daí o dese- sexual (como percebo minha sexualidade), identidade de
jo de fazer cirurgia de mudança de sexo ou tratamento gênero (me sinto masculino ou feminino), e sexo biológico.
com hormônios. Transgênero não se identifica com seu Há quem seja biologicamente mulher e se sinta psi-
sexo de origem nem com o oposto. Drag queen, homem cológica e culturalmente homem. E quem seja biologi-
que se veste de mulher. Drag king, mulher que usa rou- camente homem e se sinta psicológica e culturalmente
pa de homem. Queer, excêntrico, que foge aos padrões mulher. Existem também pessoas que nascem com os
tradicionais etc. dois sexos.
Zé: A sexualidade independe de gênero?
VOCÊ SABIA?
Maria: Sexo não determina a sexualidade. Uma pessoa
pode ser do sexo masculino e ter sexualidade feminina.
o conceito gênero só surgiu porque Se tornou necessário
mostrar que as muitas desigualdades às quais a mulher
O contrário também acontece, a mulher ter sexualidade
era e é submetida na vida social deCorrem da crença de
masculina.
que ela é inferior ao homem, incapaz, e merece menos
Zé: Quer dizer que o sexo da pessoa não identifica o direitos.
gênero dela. É isso?
Maria: Positivo, Zé. Alguém que se identifica como CONVERSA DE IRMÃOS
transsexual ou como drag pode ser heterossexual, bisse- Marta: João, você andou conversando com o compadre
xual ou homossexual. '?
Z e.
Maria: Um homem (sexo) pode ser feminino (identida- João: Andei sim, Marta. Expliquei a ele que todo ser
de de gênero) e heterossexual (sexualidade). Uma mu- humano nasce homem ou mulher. Com pênis ou vagina.
lher (sexo) pode ser cisgênero (identidade de gênero) e É o que caracteriza o sexo de cada Um. Mas os sexos
homossexual (sexualidade). homem e mulher não são, necessariamente, dos gêneros
masculino e feminino. Há diversidade de gêneros.
14' SEXO. ORIENTAÇÃO SEXUAl. E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"
DIVERSIDADE DE GÊNERO I: "IDEOLOGIA DE GÊNEROS" -IS

Marta: Encontrei a Maria, mulher do Zé, na saída da


outro homem. Estes são homens muito afeminados,
feira. Viemos conversando rua afora. Ela contou que a
apesar de serem altos e fortes. Vestem-se como mu-
filha perguntou se homem deve ter mais direitos que mu-
lheres, trabalham como mulheres, carregando muita
lher.
carga, e possuem o membro maior que os dos outros
João: E o que ela respondeu? homens.
Marta: Respondeu que tem gente que acha que sim. E Naufrágios & Comentários -
que pensar assim é puro machismo de quem concorda Memórias de Álvar Nufiez Cabeza de Vaca,
em "jogar pedra na Geni". Porto Alegre, L & PM, 1999, p. 75.

João: De fato, Marta, a ideologia machista, que valoriza PARA RESPONDER EM GRUPO:
o homem e desvaloriza a mulher, quer evitar a aprovação
1) Você tem ideologia?
de políticas que ampliam os direitos das mulheres, dos
homossexuais, dos não heterossexuais. 2) Cinco séculos antes do atual os índios do México já
Marta: Ora, admitir que o homem deve ter mais direitos admitiam o casamento entre dois homens. Por que a lei
do que a mulher não é coisa de Deus. É coisa da cultura brasileira demorou tanto a reconhecer este direito?
machista e da ideologia patriarcal. Assim como no pas-
sado os brancos se julgaram no direito de escravizar os 3) O que é mais importante na relação entre dois homens
ou duas mulheres?
negros, ainda hoje há quem defenda que não deve haver
direitos iguais para homens e mulheres, homossexuais e 4) Explique a diferença entre sexo e identidade de gê-
heterossexuais. nero.

UM DADO HISTÓRICO

Depoimento do conquistador espanhol Cabeza de Vaca,


no século 16, ao visitar indígenas mexicanos:

Durante aquele tempo em que estava com eles, vi


uma coisa extraordinária, um homem casado com
IDENTIDADE DE GÊNERO ·17

ção por homem e por mulher. Transsexual é a pessoa que


3 não se identifica com o sexo com o qual nasceu e, assim,
procura mudar para o sexo oposto através de cuidados
médicos.
IDENTIDADE DE GÊNERO Zé: Que tipos de cuidados médicos, João?
João: Pode ser cirurgia, que muda o sexo da pessoa, ou
administração de hormônios que, por exemplo, tomam
CONVERSA DE COMPADRES mais feminino o corpo de um homem.

Zé: Compadre, no meu modo de entender existem ape- Zé: E o que são transgênero e intersexual?
nas dois gêneros sexuais, homem e mulher. Certo? João: Quando a gente nasce, compadre, o sexo da crian-
João: Não é bem assim, compadre. As pessoas são todas ça diz logo se é homem ou mulher. Isso não quer dizer
homem ou mulher, do sexo masculino ou do sexo femi- que ela, se tem pênis, é do gênero masculino; ou se tem
nino. Mas os gêneros sexuais são variados. vagina, é do gênero feminino. O transgênero é o indiví-
duo que não se identifica com o gênero tradicionalmente
Zé: Como assim variados?
atribuído ao sexo com o qual nasceu, ou seja, transita
João: Você é heterossexual, casado com a comadre Ma- entre os dois gêneros. E hoje, felizmente, isso não é con-
ria. E eu, como você sabe, sou homossexual. siderado doença ou distúrbio psicológico.
Zé: Quer dizer que entre homens e mulheres existem di- Zé: Mas, compadre, antes não existiam apenas dois gê-
ferentes gêneros sexuais? neros, o feminino e o masculino?
João: Sim, como as pessoas LGBTTI: Lésbicas, Gays, João: Era o que muita gente pensava, por força da opi-
Bissexuais, Transsexuais, Travestis, Transgêneros e In- nião predominante na sociedade e na Igreja. Durante
tersexuais. séculos a identidade de gênero era reconhecida apenas
Zé: Explica melhor, compadre. pelo sexo biológico das pessoas. Mas sempre existiram
outros gêneros, obrigados "a ficar no armário", como se
João: Lésbicas são mulheres que sentem atração afetiva diz hoje, por causa do preconceito da sociedade.
e sexual por mulheres. Gays são homens que, como eu,
sentem atração por homens. Bissexual é quem sente atra- Zé: Explica melhor.
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18' SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" IDENTIDADE DE GÊNERO ·19

João: Se uma pessoa nascia Com pênis, então a família Zé: Como assim, João?
e a sociedade achavam que ela deveria se comportar e
João: Um homem transgênero pode sentir atração por
gostar do que é relacionado ao gênero masculino, como
outro homem ou por mulher.
jogar futebol, não brincar com bonecas nem usar vesti-
do. Se nascia com vagina, tinha que ser do gênero femi- Zé: E eu que me identifico com o meu sexo biológico,
nino, gostar de brincar com bonecas e não jogar futebol sou o quê?
nem usar gravata. As pessoas se sentiam obrigadas a se João: Você é cisgênero, porque se identifica com o seu
comportar conforme o que a sociedade entende como sexo biológico.
modo de agir do gênero masculino ou do gênero femini-
Zé: E o que são intersexuais?
no, como se esses modos fossem naturais. Na verdade ,
são culturais, criados pela sociedade. João: São pessoas que nascem com órgãos sexuais que
não se encaixam na definição comum do que é sexo fe-
Zé: Então o transgênero é o sUjeito que nasce com pênis,
minino ou masculino. Há quem nasça com aparência fe-
mas não se identifica com o gênero masculino?
minina, mas sua anatomia interior é tipicamente mascu-
João: Exatamente, compadre. E isso costuma se mani- lina. E há quem nasça com órgãos genitais que não são
festar desde a infância. É preciso ficar atento à criança. nem tipicamente femininos nem masculinos.
Ela pode demonstrar isso ao preferir o que costuma ser
Zé: Dê exemplos, compadre.
considerado como próprio do Sexo oposto, como um me-
nino usar saia. Mas cuidado, pode ser apenas uma ques- João: Conheço uma moça que nasceu com o clitóris vi-
tão de gosto, e a preferência por aquilo que é considera_ sivelmente grande e outra que nasceu sem abertura da
do próprio do sexo oposto não significa necessariamente vagina. E sei de um rapaz que nasceu com um pênis de-
que a criança é transgênero. masiadamente pequeno e o saco dele era dividido e com
formato de lábios vaginais.
Zé: Quer dizer que lésbica, gay, transgênero, são identi-
dades de gênero? Zé: Então quer dizer que há diversidade de gêneros?

João: Na verdade, lésbica e gay são orientações sexuais. João: Sim, há diversidade de gêneros, embora haja ape-
E transgênero é identidade de gênero. A identidade de nas dois sexos, homem e mulher.
gênero de uma pessoa não está obrigatoriamente relacio_
nada com a sua orientação sexual.
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20· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" IDENTIDADE DE GÊNERO· 21

ENTENDA gerar filhos, mas sim expressar com prazer o amor que
une duas pessoas.
Homossexual é quem se sente atraído por pessoa do
O resultado dessa cultura equivocada foi reforçar a
mesmo sexo.
submissão da mulher ao poder do homem, e reprimir e
controlar o corpo da mulher. A mulher tinha que acatar a
Heterossexual é quem se sente atraído por pessoa do
vontade do homem. Isso favoreceu a exploração sexual,
sexo diferente.
a opressão do trabalho da mulher, e a discriminação das
mulheres que rejeitam essa cultura.
Esses conceitos dizem respeito à orientação sexual da
O que tudo isso significa? Significa que as diferen-
pessoa.
ças de comportamentos entre homens e mulheres não
PRESTE ATENÇÃO existem apenas por causa do sexo (biologia), e sim por
causa do gênero (cultura). Ninguém discorda de que as
Homens e mulheres são seres humanos dotados de dife-
diferenças sexuais biológicas condicionam algumas di-
renças biológicas. Ao longo da história surgiram culturas
ferenças de comportamento, como, por exemplo, gerar e
que determinaram papéis específicos para homens (ca-
amamentar. A questão básica não é tanto a existência de
çar, carregar peso, trabalhar fora de casa etc.) e papéis
diferenças, e sim a valorização preconceituosa que se faz
específicos para mulheres (cozinhar, costurar, cuidar da
delas, estabelecendo uma hierarquia na qual a mulher é
casa etc.).
sempre considerada inferior ao homem.
Assim nasceu o patriarcado, a cultura da superiorida-
Ora, a realidade não é fixa. E refletir sobre gênero de-
de do homem sobre a mulher, a ideia de que o homem é
sestabiliza certa ordem, como as relações de poder ma-
forte e a mulher é frágil, ou seja, a vontade do homem
chista. O machismo é a ideia de que os atributos mascu-
deve prevalecer sobre a da mulher na sociedade e no lar.
linos são superiores aos atributos femininos.
Essa cultura patriarcal fez surgir na sociedade insti-
Há que dar um basta à violência e à opressão contra
tuições e comportamentos que a reforçam, como a ideia
indivíduos que são diferentes dos padrões até então con-
de que a finalidade do ato sexual é apenas procriar, gerar
siderados aceitáveis segundo o senso comum.
filhos, para garantir a descendência da família e a preser-
vação de seu património (herança).
Assim, essa cultura passou a considerar perversão ou
pecado a sexualidade que não tem por objetivo procriar,
22· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"
,
s

PARA RESPONDER EM GRUPO:

1) Já ouviu falar em violência de gênero?


4
2) Como diminuir a violência contra os gêneros que não
se enquadram no padrão tradicional (heteronormativo)?
PRECONCEITOS MATAM
3) Como reduzir o preconceito às pessoas que não estão
de acordo com as normas tradicionais?

4) Como encarar vidas sem julgar, mas sim, multiplican- PRESTE ATENÇÃO
do possibilidades de serem felizes? Em 1988 visitei a China. Éramos uma comitiva de 18
pessoas, entre as quais um negro. Quase não havia ne-
gros naquele país do Oriente. Em cidades do interior en-
contramos populações que nunca tinham visto um negro
de perto. Enquanto percorríamos a cidade, um punhado
de gente vinha atrás e observava com curiosidade nosso
companheiro negro, como se ele fosse um marciano che-
gado à Terra.
Assim acontece com as pessoas de identidades de
gênero diferentes das tradicionais. São encaradas com
curiosidade, preconceito ou agressividade. Porque desa-
fiam e questionam o nosso modo de ver as pessoas e o
.1
mundo.
I VOCÊ SABIA?

1 Homofobia é o horror aos homossexuais. Esse horror,


fruto de preconceito e ignorância, gera violência. Quan-
tos pais não expulsaram de casa o filho ou a filha homos-
sexual?
24· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"
!I PRECONCEITOS MATAM' 25
I
PANORAMA DAS AMÉRICAS faz do Brasil o campeão mundial de crimes contra as
minorias sexuais.
29 de janeiro é o Dia da Visibilidade Trans. A expectativa
de vida das pessoas transsexuais no continente americano Segundo agências internacionais de direitos huma-
é de 30 a 35 anos, Em 2017, das pessoas trans assassi- nos, muito mais homossexuais são mortos no Brasil do
nadas, 80% tinham menos de 35 anos. (Relatório da Co- que nos 13 países do Oriente e da África, onde há pena
missão Interamericana de Direitos Humanos a respeito de de morte contra pessoas LGBTTI. E o mais preocupante
"Violência contra as Pessoas LGBTI nas Américas"). é que aqui tais mortes crescem assustadoramente: de 130
Existem leis ou decisões que asseguram o direito homicídios em 2000, saltou para 260 em 2010, e 445
de uniões homoafetivas em 24 países, entre eles Brasil mortes em 2017.
(desde 2011), Argentina, Chile, Equador, México, Uru- Durante o governo FHC, matavam-se, em média, 127
guai, Colômbia e Canadá, dentre outros. No entanto, a LGBTTI por ano; no governo Lula 163; e no governo,
homossexualidade ainda é criminalizada em pelo menos Dilma/Temer, 325 mortes por ano, subindo para 445 em
73 países. 2017!
Segundo o antropólogo Luiz Mott, fundador do GGB e
PANORAMA BRASILEIRO responsável pelo site Quem a homotransfobia matou hoje
(https://homofobiamata.wordpress.coml) "tais números
Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), no relatório
alarmantes são apenas a ponta de um iceberg de violência
"Mortes violentas de LGBTTI no Brasil", os dados da
e sangue, pois não havendo estatísticas governamentais
violência são alarmantes:
sobre crimes de ódio, tais mortes são sempre subnotifica-
Em 2017, no Brasil, 445 pessoas LGBTTI (lésbicas,
das ,já que o banco de dados do GGB se baseia em notícias
gays, bissexuais, transsexuais, transgêneros e intersexu-
publicadas na mídia, internet e informações pessoais. A
ais) morreram (incluindo três brasileiros mortos no ex-
falta de estatísticas oficiais, diferentemente do que ocorre
terior) vítimas da homotransfobia: 387 assassinatos e 58
nos Estados Unidos, prova a incompetência e homofobia
suicídios.
governamental, já que a Presidenta Dilma prometeu apro-
Nunca antes na história deste país se registraram tan-
var, mas mandou arquivar o projeto de lei de criminaliza-
tas mortes. Aumento de 30% em relação a 2016, quando
ção e equiparação da homofobia ao crime de racismo, e
foram registradas 343 mortes.
o Presidente Temer não atendeu ao pleito do Movimento
A cada 19 horas uma pessoa LGBTTI é barbaramente
LGBTTI sequer para ser recebido em audiência."
assassinada ou se suicida vítima da "LGBTfobia", o que
""."..."".""'......"... '"""""""""""'T""""-_m_"'_'m_"""... "~'_"mm"_~"_m _ _ "__ 'm __ ~_"'mm"_'_m"_m_ ... _'_"..._"_"'_"..._",...""...""_.........,,...,... "...."....""""""..".................

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4

26. SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" PRECONCEITOS MATAM' 27

Afirma a Antra (Associação Nacional de Travestis sidente da Comissão Especial de Diversidade Sexual da
e Transsexuais) que 90% de 3,5 milhões de pessoas no Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entregou à se-
Brasil que são travestis ou transsexuais se vêem obriga- nadora Regina Sousa (PT-PI), presidente da Comissão
das a recorrer à prostituição para obter alguma renda que de Direitos Humanos e Legislação do Senado, sugestão
lhes garanta a sobrevivência. Apenas 0,02% se encontra de projeto do Estatuto da Diversidade Sexual e propos-
na universidade; 72% não cursaram o ensino médio; e tas de Emendas Constitucionais (PECs).
56% não completaram o fundamental. O Brasil é o país que mais mata homossexuais no
A cada 48 horas um travesti ou transsexual é assassina- mundo. O Estatuto visa a promover a igualdade de direi-
do no Brasil. A esperança de vida é de menos de 40 anos. tos entre os sexos, coibir os crimes contra homossexuais
e combater a homofobia.
PRESTE ATENÇÃO Entre as propostas de Emendas Constitucionais se
Feminicídio é o assassinato de mulheres. No Brasil, a destaca a que visa a inserir entre os objetivos fundamen-
cada 6 horas urna mulher é morta por um homem de suas tais da República Federativa do Brasil "a promoção do
relações íntimas (ONU-Mulher). A cada 11 minutos uma bem de todos, sem preconceitos relativos à identidade de
mulher é estuprada (Fórum Brasileiro de Segurança PÚ- gênero ou orientação sexual."
blica).
PARTICIPE DESTA LUTA
A violência de gênero reforça a suposta inferioridade
da mulher frente ao homem nesta nossa sociedade capi- A sociedade na qual vivemos nos faz acreditar que nela
talista, patriarcal, racista e desigual. reina "o homem" e, portanto, são consideradas "nor-
Não podemos aceitar em nossa sociedade um sistema mais" e aceitáveis apenas as relações heterossexuais
de leis, normas, preceitos jurídicos, religiosos, morais e (homem com mulher e mulher com homem). É a chama-
educacionais que discriminam pessoas que, no seu modo da sociedade androcêntrica - do grego andrós, homem,
de ser homem ou ser mulher, nas suas formas de expres- centrada na figura do homem.
sar seus desejos e prazeres, não se encaixam naquelas Ao longo do tempo esse modo de pensar favoreceu
formas que são consideradas "normais". a violência contra a mulher. Graças à luta da sociedade,
em 2006 foi aprovada a Lei Maria da Penha, que pune
ESTATUTO DA DIVERSIDADE SEXUAL quem age com violência contra a mulher.
Em 23 de novembro de 2017, Maria Berenice Dias, pre- Resta fazer aprovar o Projeto de Lei 122 que crimi-
28' SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

naliza a homofobia, ou seja, qualquer forma de violência 5


contra as pessoas que estão fora do esquema heterosse-
xual, como gays, lésbicas, travestis etc.

PARA RESPONDER EM GRUPO: FAMíLIA, UM ÚNICO


1) Conhece uma pessoa vítima de homofobia? MODELO?
2) Por que temos preconceitos? Como nascem os pre-
conceitos em nossa cabeça? Há diferentes modelos: a família nuclear (um casal com
filhos); a família monoparental (filho ou filhos com um
3) Por que existe tanta violência contra pessoas de orien-
dos genitores, ou a mãe ou o pai); a família homoafetiva
tação sexual e identidade de gênero diferentes?
(duas mulheres ou dois homens) etc.
4) Pode haver amor entre pessoas do mesmo sexo? Quem nasceu no século 20 antes da década de 1960
conheceu o que era considerado o modelo tradicional de
família: o homem trabalhava fora de casa e, com o seu
salário, sustentava mulher e filhos. A mulher cuidava da
casa e era submissa ao marido.
Hoje todos conhecemos modelos diferentes de famí-
lia: filhos de pais separados que têm duas casas; mulhe-
res que trabalham fora de casa e cuidam sozinhas dos
filhos; homens que cuidam de filhos sem a companhia
de uma mulher; homens homossexuais que adotam filho;
mulheres homossexuais que adotam filho ou uma delas
faz inseminação artificial para engravidar etc.
Querer naturalizar o que resulta de construções cul-
turais - como o modelo predominante de família na pri-
meira metade do século 20, quando não havia direito ao
divórcio e não era costume a mulher trabalhar fora de
30' SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"
FAMíLIA, UM ÚNICO MODElO?' 31

casa -, é o mesmo que defender hoje que todos os ho- Zé: E o outro exemplo, Maria?
mens, ao sair na rua, devem cobrir a cabeça com cha-
péu ou boné, e as mulheres devem usar vestidos longos, Maria: É o da gravidez. Antigamente, ainda que não
como vemos nas fotografias antigas. quisessem ter mais filhos, as mulheres corriam o risco de
ficar grávidas ao ter relações sexuais. Até que, em 1960,
VOCÊ SABIA? surgiu a pílula anticoncepcional. As mulheres passaram
a ter controle do próprio corpo. A gravidez deixou de ser
Que muitas famílias ainda funcionam como instituições
uma loteria e passou a ser uma opção.
patriarcais nas quais se estabelece uma divisão sexual
do trabalho, escondem-se relações de poder entre ho-
mens e mulheres, e muitas vezes ocorrem violências e VOCÊ SABIA?

abusos sexuais contra as mulheres e as crianças? o movimento sufragista, pelo direito de mulheres votarem
nas eleições, nasceu em meados do século 19. A ata de
CONVERSA NA MESA DE ALMOÇO fundação do movimento surge com a Declaração de Sene-
Zé: Maria, João ontem me explicou que a natureza di- ca Falls, em 1848. Em uma pequena cidade do estado de
vide os seres humanos em homens e mulheres. Mas não Nova York, um grupo de feministas exigiu que as mulhe-
determina que todos devem ser heterossexuais, ou seja, res exercessem os mesmos direitos que tinham os homens.
homem se relacionar apenas com mulher, e mulher com Defenderam também o direito de os negros votarem.
homem. Há diferentes gêneros. E cada um tem a sua for-
ma de relacionamento sexual e afetivo. PRESTE ATENÇÃO NAS LEIS E DIREITOS

DAS MULHERES
Maria: As relações de gênero não são naturais, Zé, mas
construídas socialmente. As mudanças ocorridas nas políticas públicas do Brasil
em tomo de gênero são muito recentes. O direito ao voto
Zé: O que significa "construídas socialmente"?
só foi conquistado pelas mulheres brasileiras em 1932,
Maria: Darei dois exemplos: no século 19, as mulheres há menos de um século. O salário-maternidade foi reco-
não votavam. Somente os homens tinham este direito. Era nhecido em 1943. Até 1962 as mulheres casadas eram
considerado natural a mulher "não se meter em política" . consideradas incapazes pela lei brasileira, e só podiam
Isso mudou no século 20. As mulheres lutaram por seus trabalhar fora de casa se o marido permitisse. O divórcio
direitos e conquistaram muitos deles, inclusive o de votar. foi aprovado somente em 1977.
I
jl

32· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" FAMíLIA, UM ÚNICO MODELO?' 33

A Constituição Brasileira, aprovada em 1988, reco- Renda; e receber pensão do INSS depois da morte do
nhece direitos trabalhistas das mulheres, como a estabi- companheiro ou companheira.
lidade da gestante e licença-maternidade de quatro me- Em 2012, novos direitos foram conquistados, como
ses; a assistência gratuita de filhos até 5 anos em creches incluir o nome do cônjuge do mesmo sexo na identidade
e pré-escolas; e berçário nas empresas com mais de 30 militar e o benefício da licença-maternidade ao pai ado-
funcionárias. tivo que vive em união estável homossexual.
Em 1985, foi inaugurada a primeira Delegacia da Em 18 de junho de 2018, a OMS (Organização Mun-
Mulher. Mas só em 2006 a Lei Maria da Penha criou dial da Saúde) anunciou a retirada da transsexualidade
mecanismos para punir a violência familiar e doméstica da lista de doenças. No Brasil, pessoas transgênero têm
contra as mulheres. Em 2015, o feminicídio (assassinato direito à cirurgia de mudança de sexo pelo SUS.
de mulher) passou a ser considerado crime hediondo. Falta conquistar algo importante: considerar crime a
Desde 1830, a homossexualidade não é considerada homofobia (preconceito e discriminação de homossexu-
crime no Brasil. Mas ainda há países onde a homossexu- ais), conforme prevê o Projeto de Lei 122/2006, em tra-
alidade e a homoafetividade (a relação de afeição entre mitação no Congresso Nacional.
pessoas do mesmo sexo) são crimes punidos com prisão
e até mesmo pena de morte. CONVERSA NO BANCO DA PRAÇA
Desde 1985, o Conselho Federal de Psicologia retirou João: Percebo, comadre, que quando somos crianças
a homossexualidade da lista de enfermidades. Porém, só são interiorizados em nós modelos e comportamentos
em 1990 a Organização Mundial da Saúde deixou de sociais que nem sempre são corretos. Se a gente conti-
considerar a homossexualidade doença. nua a aceitar que meninos são mais aptos ao exercício
Em 2003, o governo do presidente Lula criou o Dis- do poder e ao uso da razão, enquanto meninas são ade-
que 100 para denúncias de crimes contra a população quadas às tarefas do cuidado da casa e são mais emoção
LGBTTI. do que razão, então nunca escaparemos dos esquemas
Em 2010, vários direitos foram incluídos nas leis bra- tradicionais.
sileiras, como adoção de crianças por casais do mesmo
Maria: De fato, compadre, a família é a primeira comu-
sexo; uso do "nome social" (o nome pelo qual travestis e
nidade que enquadra o indivíduo em determinados pa-
transsexuais preferem ser chamados); inclusão do com-
péis e tipos de relações sociais. É nela que, primeiro, se
panheiro ou companheira na declaração de Imposto de
formam a nossa cultura e os nossos valores.
FAMíLIA, UM ÚNICO MODELO?' 35
34' SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

João: Como nasci em uma família heterossexual - pendentemente de sua orientação sexual. Não é verdade
constituída por mãe, pai e crianças -, sofri muito precon- que um gay ou uma lésbica são anormais, e não é ver-
ceito por ser homossexual. dade que está "errado" uma menina jogar bola ou um
menino brincar com bonecas.
Maria: Imagino como foi sofrido para você! Muitas fa-
mílias heterossexuais ainda confundem sexo, sexualida- Maria: Quando um bebê nasce, ou ainda se encontra no
de e gênero. Se é homem, tem que gostar de mulher e útero, busca-se ver a genitália para determinar o sexo.
garantir o sustento da casa. Se é mulher, tem que gostar A partir dessa informação as pessoas relacionadas com
de homem e aceitar cuidar das crianças e da casa. aquele feto ou bebê criam expectativas e antecipam quem
aquele indivíduo será. Se é menina, as expectativas são
João: Tenho uma amiga que é travesti. Ela diz que desde de gênero feminino e sexualidade heterossexual, ou seja,
criança se sentia mulher com um corpo errado ... Mulher uso de roupas cor de rosa, vestido, maquiagem, salto
presa em um corpo de homem. Como é difícil vencer os alto, casamento com homem etc. Se é menino, espera-se
preconceitos da sociedade! Isso é reforçado pelo tabu em que seja do gênero masculino e tenha sexualidade hete-
tomo do sexo. Este tema não costuma ser debatido nas rossexual, ou seja, uso de roupas azuis, calça, gravata,
famílias, nas escolas e nas igrejas. E quanto menos se casamento com mulher depois de namorar muitas outras
fala, mais bobagem se faz ... mulheres etc.
Maria: De fato, compadre, existem muitos modos de ser João: Dessa maneira, comadre, a família e o meio sócio-
e de se sentir homem e mulher. Há mulheres que amam cultural nos quais somos educados antecipam as nossas
outras mulheres sem, por isso, serem menos femininas; relações, atitudes e comportamentos. Preestabelecem
e homens que amam outros homens sem, por isso, serem como seremos como indivíduos. Isso porque a expecta-
menos masculinos. Há mulheres heterossexuais com tiva em relação ao outro parte da anatomia.
traços de masculinidade, e homens heterossexuais com
traços de feminilidade. Sem nenhuma vontade de criar Maria: Sim, todo preconceito nasce de uma atitude de
confusão. Até porque identidade de gênero e orientação poder do "eu" sobre o "outro". O "eu" passa a se relacio-
sexual não são frutos de capricho ou pecado. Não são nar com o "outro" a partir de seus modelos preconcebidos.
ensinadas e ou escolhidas. São. Exatamente como ser E, muitas vezes, estabelece uma relação de poder sobre o
branco ou negro, alto ou baixo. "outro". E se o "outro" fugir à regra ou expectativa, o "eu"
perde o controle. Despreza ou agride o "outro".
João: O importante é o respeito de qualquer um, inde-
36' SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

João: Sim, Maria, toda mudança gera questionamentos, lher, na vida pública e privada. Foi condenada.
e dá trabalho responder a eles. A mudança do "outro"
obriga o "eu" a mudar. Mas algumas pessoas resistem e PARA RESPONDER EM GRUPO:
insistem em não admitir mudanças.
1) Conhece uma pessoa homossexual? Como ela é trata-
Maria: Qual o problema de um homem usar saia? Por da pela família e a sociedade?
que um menino não pode passar batom ou usar esmalte?
Por que uma menina não pode jogar futebol? Qual o pro- 2) Por que há tanto preconceito a quem não é heterosse-
blema de uma mulher ter pelos nas axilas ou nas pernas? xual?
Por que determinados papéis sociais são exclusivos de
3) Ficou clara a diferença entre sexo e gênero?
mulheres, e outros de homens?
4) Uma lei que discrimina pessoas é justa? Conhece al-
PRESTE ATENÇÃO guma?
o que importa não é o fato de pessoas do mesmo sexo ou
de sexos distintos se relacionarem. Importa se a relação é
baseada no amor, se tem o amor como raiz e fruto.

VOCÊ SABIA?

No dia 3 de novembro de 1793, em Paris, a lâmina da


guilhotina cortou o pescoço de Marie Gouze, mais co-
nhecida pelo nome literário: Olympe de Gouges. Qual o
crime desta mulher assassinada aos 45 anos?
Os líderes da Revolução Francesa haviam lançado
a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Ci-
dadão. Esqueceram apenas um "pequeno detalhe": não
incluíram a mulher. Olympe de Gouges publicou, então,
a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, na
qual defendeu a plena igualdade entre o homem e a mu-
CONQUISTA DE DIREITOS' 39

6 mone de Beauvoir era alertar as mulheres para repensa-


rem o seu papel na sociedade. Livrarem-se desses es-
quemas que, por séculos, fizeram de nós prisioneiras da
subordinação ao homem. Repensar, portanto, a questão
CONQUISTA DE DIREITOS de gênero, não para apagar as diferenças entre homens
e mulheres, mas para promover a igualdade. Em 1955,
nos Estados Unidos, o psicólogo John Money chamou
a atenção para a distinção entre sexo e gênero. Depois
VOCÊ SABIA?
surgiram na Europa os estudos dos franceses Claude Lé-
Em junho de 2016, um jovem afegão entrou armado em vi-Strauss e Michel Foucault, mostrando a diferença en-
uma boate frequentada pelo público LGBTT1, em Orlan- tre "sexo" e "gênero".
do, nos Estados Unidos, e matou 50 pessoas. Outras 53 Maria: Se bem entendi, Marta, sexo vem do que a na-
ficaram feridas. O atirador foi morto pela polícia. tureza nos dá, de nossas características genético-biológi-
Ao ser entrevistado, o pai do assassino declarou que cas. E gênero vem do que a sociedade nos dá, essas re-
seu filho, cerca de dois meses antes, chegou em casa gras, conscientes ou não, que existem nas relações entre
transtornado após ter visto dois homens se beijando. homens e mulheres.

REPETINDO Marta: É isso mesmo, Maria. E a partir da década de


1970 várias autoras feministas trabalharam o tema das
Sexo é algo produzido pela natureza. Gênero resulta
relações de gênero. Em 1986, Joan Scott publicou o arti-
da vida social e cultural.
go Gênero: uma categoria útil de análise, na American
CONVERSA DE COMADRES Historical Review (Revista Histórica Americana), para
chamar a atenção da dimensão do poder nas relações de
Maria: Comadre, como surgiu essa atenção para a ques- gênero. Diz ela que não se trata de negar as diferenças
tão de gêneros?
sexuais, anatômicas e biológicas, entre homens e mu-
Marta: Em 1949, a escritora francesa Simone de Beau- lheres. Trata-se de entendê-las, não como determinantes
voir lançou o livro O segundo sexo, no qual defende que do comportamento sexual, e sim de relações sociais de
não se nasce mulher, torna-se mulher! O objetivo de Si- poder e dominação. Para Scott, gênero é a organização
social das diferenças sexuais.
40· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" 7·41

VOCÊ SABIA?
7
Em 1792, a inglesa Mary Wollstonecraft publicou o livro
Defesa dos direitos da mulher, no qual denunciou que a
sujeição das mulheres não resulta do fato de terem uma
natureza inferior à dos homens, e sim de preconceitos e DIREITO DE SER DIFERENTE
tradições que atravessaram muitos séculos.

PARA RESPONDER EM GRUPO:


PRESTE ATENÇÃO
1) Que direitos da mulher ainda são socialmente nega-
dos? Não se ensina um heterossexual a se tornar homossexu-
al, ou um homossexual a se tornar heterossexual.
2) Como a mulher é tratada pela publicidade?
CONVERSA NA COZINHA
3) No seu trabalho homens e mulheres têm os mesmos
Marta: Fico impressionada, João, de ver como a cultura
direitos?
machista que respiramos inferioriza a mulher!
4) Quem faz a nossa cabeça? João: É a cultura que cria discriminações onde há ape-
nas diferenças. Se sou homem e machista, e você é mu-
lher, sinto-me no direito de fazer desta diferença uma
desigualdade, ou seja, me declaro superior a você.
Marta: Agora eu entendo como a cultura desvirtuada
transforma as diferenças em desigualdades. Branco que
se considera superior ao negro; gente da cidade que se
considera superior aos índios; professor que se considera
superior ao analfabeto ...
João: Quando falamos em gênero não negamos o fato
de que homens e mulheres possuem biologias distintas.
Mas essas diferenças não definem o nosso papel social.
42· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA OE GÊNERO" DIREITO OE SER DIFERENTE· 43

Marta: O bom da ideia de gênero é que permite escla- 2) Por que quem não é aparentemente heterossexual in-
recer quem são as pessoas LGBTTI, especialmente os comoda tanto?
trans, na medida em que discute, por exemplo, a identi-
3) Você acredita que a homossexualidade pode ser rever-
dade de gênero e o uso do nome social. Se uma pessoa se
tida? Existe "cura gay"?
sente mulher, mas nasceu em um corpo de homem, por
que ela tem que atender pelo nome de Pedro e não pode 4) No seu trabalho, homens e mulheres têm igualdade
ser chamada de Lúcia? Se outra pessoa se sente homem, de direitos e salários quando ocupam a mesma função?
mas nasceu em um corpo de mulher, por que não chamá
-lo de Pedro?
João: Ainda bem que isso já virou direito no Brasil, po-
dendo até tirar carteira de identidade e título de eleitor.
Em março de 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal)
reconheceu por unanimidade o direito de transgêneros
mudarem nome e gênero no registro civil sem a realiza-
ção de procedimento cirúrgico ou redesignação de sexo.

VOCÊ SABIA?

o medo de quem é diferente tem raízes antigas. É fácil


despertá-lo quando, em vez de entender que não há nada
de anormal em ser homossexual, invoca-se a subversão
da ordem e abraça-se a intolerância. Em São Paulo, um
jovem que se vestia de rosa e amava os esmaltes se sui-
cidou porque os colegas o chamavam de "bicha".

PARA RESPONDER EM GRUPO:

1) Qual a diferença entre preconceito e discriminação?


IGREJAS E DIVERSIDADE SEXUAL' 45

'terapias de reversão' ou a 'orações de cura', que fre-


8 quentemente são formas disfarçadas de exorcismo. E é
contra essa homofobia presente nas nossas paróquias e
dioceses, contra esse 'medo' das pessoas homossexuais
IGREJAS E DIVERSIDADE e transgêneros, que escrevemos essa carta aberta pedin-
do a vossa voz forte e profética para lembrar a todos que
SEXUAL qualquer oposição doutrinária que possa haver às práti-
cas afetivas das pessoas LGBTTI não elimina a dignida-
de fundamental que possuímos como filhos e filhas de
Deus."
IGREJA CATÓLICA (oo.)
Em novembro de 2015, o Grupo de Ação Pastoral da Di- "Não foi desejo de Deus que Luiz morresse. A sua
versidade de São Paulo, integrado por católicos leigos morte foi resultado da ignorância e do medo de sua co-
LGBTTI, remeteu carta aos bispos daquele estado la- munidade, de sua escola, de parentes e amigos, de sua
mentando "mais uma dolorosa morte, motivada pela ex- Igreja, quanto à realidade das pessoas LGBTTI. Em nos-
clusão e pelo preconceito. Nesta terça-feira (03/11), no sas comunidades existem muitos outros meninos e me-
município de Poá, na diocese de Mogi das Cruzes, Luiz ninas como Luiz. Eles estão rezando por compreensão e
Aquino, um menino de 16 anos, filho de um lar católico, aceitação, muitos outros estão escondidos com medo da
morreu por suas próprias mãos por não mais suportar o violência, do preconceito e do abandono. Essa também
preconceito e a intolerância que sofria por ser homosse- é a história de muitos de nós, membros deste grupo de
xual. Segregado e sem rumo, Luiz se enforcou." ação pastoral, pois ainda que alguns tenhamos encon-
"A Igreja Católica deu um passo adiante incluindo trado a acolhida calorosa que se espera na casa do Pai,
no Catecismo a exigência de se evitar qualquer discri- outros ainda somos açoitados pela incompreensão e pela
minação às pessoas homossexuais. Outros passos foram vergonha."
dados no Sínodo dos Bispos deste ano (2015), que refor- (oo.)
çou a necessidade de atenção pastoral às famílias com "Caros bispos, nós também somos filhos dessa Igreja,
pessoas com essa orientação. Mas em muitas de nossas também somos o Povo de Deus, e pedimos a vossa bên-
comunidades ainda se encaminham jovens LGBTTI a ção e a vossa acolhida para crescermos em comunhão
46· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" IGREJAS E DiVERSIDADE SEXUAL- 47

enquanto participamos do anúncio da Boa Nova de Je- Martin, de 57 anos, autor do livro Building a bridge
sus. Enquanto Comunidade LGBTTI, nós esperamos por (Construindo uma ponte), publicado pela editora Mar-
mudanças, mas sabemos que a principal mensagem do cianum Press.
Evangelho é que ninguém pode ser excluído, especial- Na obra, o autor defende uma nova relação da Igreja
mente de uma comunidade que guarda em seu coração a Católica com as pessoas LGBTTI.
mensagem da salvação." Eis o que o padre Martin responde ao jornalista:
Pergunta: Qual o maior erro que a Igreja cometeu e
VOCÊ SABIA?
poderá cometer em relação à comunidade LGBTTI?
Na arquidiocese de Belo Horizonte funciona a Pasto- Resposta: Tratá-los como contaminados. Nenhum
ral da Diversidade Sexual. Dela participam lésbicas, grupo de católicos é tão maltratado na Igreja. Tive a
gays, bissexuais e pessoas trans, além de familiares e oportunidade de ouvir as histórias mais inacreditáveis de
estudiosos. Os encontros são quinzenais e há retiros maus-tratos de pessoas LGBTTI católicas. Um homem
espirituais. de 30 anos de idade com autismo, que não mantém re-
lações sexuais, me disse que, depois de "se assumir", o
NOTíCIA seu pastor comunicou-lhe que não poderia mais receber
SANTIAGO - Um chileno que foi abusado sexualmente a comunhão aos domingos. No entanto, ele não está em
por um padre pedófilo afirmou que o papa Francisco lhe pecado, nem mesmo segundo as mais rigorosas orienta-
disse que Deus o fez gay e o ama assim - o comentário ções da Igreja. Muito do desprezo vem do medo da pes-
sobre homossexualidade mais progressista já proferido soa LGBTTI como "outro". O perfeito amor afasta o
pelo líder da Igreja Católica Romana. O relato foi publi- medo, diz o Novo Testamento; enquanto o perfeito medo
cado no portal do jornal espanhol "EI País". afasta o amor.
O Globo, 20/05/2018
DEUS E A DIVERSIDADE DE GÊNEROS

PRESTE ATENÇÃO Reja Diego Neria Lejárraga, 48, é espanhol. Nasceu


mulher. Mas desde criança se sentia homem. Aos 40
Em 20 de maio de 2018, o jornal italiano Corriere della anos se submeteu a cirurgias para redesignar sua sexua-
Sera publicou a entrevista que o jornalista Gian Guido lidade. Virou homem. O padre de sua cidade, Plasencia,
Vecchi fez com o padre jesuíta estadunidense James acusou-o de "filha do diabo".
48· SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" IGREJAS E DIVERSIDADE SEXUAL" 49

Diego escreveu ao papa Francisco antes do Natal de xar essas crianças fora da catequese?" Hoje as crianças
2014. Indagou qual o seu lugar na "casa de Deus". Fran- filhas e filhos de homossexuais têm direito ao batismo
cisco telefonou duas vezes para ele. Convidou-o a ir a nas paróquias.
Roma no dia 24 de janeiro de 2015. Diego, em com- Quando a violência à diversidade de gêneros se re-
panhia de sua noiva, foi recebido na casa Santa Marta, veste de roupagem religiosa, acende o alarme de que se
onde reside o papa. Francisco demonstrou que a Igreja choca o ovo da serpente. O nazismo resultou também
Católica está aberta à diversidade sexual. Ao sair do en- da perversa ideologia religiosa que acusava os judeus de
contro, Diego disse sentir uma imensa paz. "assassinos de Cristo".
O papa abraça a ousadia de Jesus, que defendeu a mu- Matar é pecado mortal. Matar em nome de Deus é
lher adúltera do ataque dos fariseus; acolheu Madalena, ainda mais grave. E não se mata apenas pela eliminação
que portava "sete demônios", como discípula e primeira física. A morte simbólica usa as armas do preconceito e
testemunha de sua ressurreição; e elogiou a veracidade da discriminação para demonizar também os gays cria-
de samaritana, que estava no sexto marido, e fez dela a dos à imagem e semelhança de Deus - que não é homem
primeira apóstola. nem mulher - e por ele são amados como filhos e filhas
O amor e, com ele, a compaixão e a misericórdia, de- diletos.
vem soterrar preconceitos e discriminações.
"Quem sou eu para julgar os gays?", disse Francisco IGREJA BATISTA
em julho de 2013, ao deixar a Jornada Mundial da Ju-
Em 2011, a Aliança de Batistas do Brasil aplaudiu a
ventude, no Rio de Janeiro. "Se uma pessoa é gay, busca
decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que con-
Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?"
cedeu direitos civis a pessoas do mesmo sexo vivendo
O papa está à frente da Igreja Católica no duplo sen-
em situação estável. A Aliança "compreende como uma
tido - como seu chefe e por sua atitude profeticamente
'boa nova' o fato de que as pessoas identificadas sob a
evangélica. Em outubro de 2014, durante o Sínodo dos
rubrica LGBTS (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transse-
Bispos sobre a Família, em Roma, cardeais rejeitaram a
xuais e Simpatizantes) estejam sendo incluídas no ideal
proposta de maior aceitação, na Igreja, de casais homos-
de equidade social defendido pela Constituição Federal
sexuais. Francisco não contrariou os cardeais. Preferiu
Brasileira", diz o documento dos batistas, assinado pela
levantar uma pergunta que encurralou os prelados ho-
presidente da instituição, pastora Odja Barros.
mofóbicos: casais homossexuais têm filhos. "Vamos dei-
A Aliança de Batistas do Brasil não encara o reco-
50· SEXO, SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" IGREJAS E DIVERSIDADE SEXUAL· 51

nhecimento de direitos civis a pessoas do mesmo sexo ção sexual, o que é tão injusto quanto o crime contra a
vivendo em união estável como uma "onda de imorali- humanidade, o apartheid (discriminação racial)."
dade" , mas afirma ser uma reparação a uma minoria his- ( ... )
toricamente tratada como pessoas de segunda categoria, "Os negros estavam sendo culpados e obrigados a so-
estigmatizadas e sem uso pleno da cidadania. frer por algo que não podíamos fazer nada a respeito - a
O reconhecimento dos direitos civis a LGBTTIs está nossa própria pele. É o mesmo com a orientação sexual.
em consonância com os princípios evangélicos da vida É um dado determinado. Eu não poderia lutar contra a
em abundância, da dignidade humana e da justiça, de- discriminação do apartheid e não lutar também contra
fendidos pelas Sagradas Escrituras, frisa o documento a discriminação que os homossexuais suportam, mesmo
dos batistas. "Não defendemos essas ideias por mera so- em nossas Igrejas e grupos de fé."
fisticação cultural, muito menos para sermos fiéis à cul- ( ... )
tura presente, mas a defendemos como consequência de "Opor-se ao apartheid era uma questão de justiça.
nossa leitura do Evangelho de Jesus Cristo e de nossa Opor-se contra a discriminação contra as mulheres é
relação com a herança batista da qual fazemos parte", uma questão de justiça. Opor-se contra a discriminação
escreveu Odja Barros. (Fonte: IHU 23 mai 2011) com base na orientação sexual é uma questão de justi-
ça. Também é uma questão de amor. Todo ser humano é
IGREJA ANGLICANA precioso. Todos - todos nós - fazemos parte da família
de Deus. Todos devemos ser autorizados a amar uns aos
O Prêmio Nobel da Paz e arcebispo anglicano Desmond
outros com honra."
Tutu, da Cidade do Cabo, na África do Sul, se tomou
"No entanto, em todo o mundo, pessoas lésbicas,
uma das figuras mais importantes do mundo que pede
gays, bissexuais e transgêneros são perseguidas. Trata-
mudança nas atitudes das instituições religiosas com re-
das como párias e empurradas para fora das nossas co-
lação à sexualidade humana.
munidades. Fazemos duvidarem de que elas também são
Ele conta: "Um estudante uma vez me perguntou:
filhas de Deus."
quais injustiças o senhor gostaria de reverter? Respondi:
"As Igrejas dizem que a expressão do amor em uma
A primeira, que os líderes mundiais perdoem as dívidas
relação monogâmica heterossexual inclui o aspecto fí-
das nações em desenvolvimento que as mantêm nesse
sico - toque, abraço, beijo, ato genital. A totalidade do
estado de submissão. A segunda, que o mundo acabe
nosso amor faz com que cada um de nós cresça e se tome
com a perseguição às pessoas por causa de sua orienta-
52· SEXO. SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GENERO"

cada vez mais semelhante a Deus e compassivo. Se isso


é assim para os heterossexuais, que motivos e razões ter- 9
renas temos para dizer que não é assim com os homos-
sexuais?"
( ... ) A ATITUDE DE JESUS
"Não posso ficar quieto enquanto pessoas são penali-
zadas por algo que não podem fazer nada - sua sexuali-
dade. Discriminar nossas irmãs e irmãos que são lésbicas "Na experiência homoafetiva, Deus "sai do armário".
ou gays com base em sua orientação sexual, para mim, é Por conseguinte, cabe-nos, na reflexão teológica e no
totalmente inaceitável e injusto quanto foi o apartheid." serviço apostólico, reconhecer que Deus se revela tam-
bém nessa realidade tendo, pois, que assumi-la como
PARA RESPONDER EM GRUPO:
locus theologicus (lugar teológico)."
1) Conhece uma Igreja ou religião que discrimina pesso- Carlos Rafael Pinto, mestre em Teologia pela FAlE
as que não são heterossexuais? -BH e graduado em Filosofia e Teologia pelo CES-lF.

2) Conhece uma Igreja ou religião que acolhe pessoas Para nós, cristãos, a Bíblia é Palavra de Deus. Todo tex-
LGBTTI? to, porém, é lido a partir de um contexto.
O lugar social no qual se situa o leitor influi em seu
3) O que significa ser tolerante nos dias de hoje?
lugar epistêmico (o lugar a partir do qual se conhece).
Por isso, o mesmo texto bíblico é interpretado de modo
diferente se lido na faculdade de teologia ou em uma
Comunidade Eclesial de Base.
Na tentativa de evitar interpretações equivocadas, a
autoridade religiosa procura indicar a correta. Isso, en-
tretanto, não é a solução. A autoridade não é isenta de
múltiplas influências. Durante séculos a Igreja Católica
aceitou a versão criacionista, segundo a qual procede-
mos todos de Adão e Eva. Darwin e o evolucionismo
S4' SEXO, SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÉNERO" A ATITUDE DE JESUS' SS

comprovado pela ciência demonstraram, como reconhe- PESCARIA DE VERSíCULOS


ceu o papa João Paulo II, que somos todos descenden-
Ler a Bíblia fora do contexto pode induzir o fiel desavi-
tes de primatas, dos quais vieram os bononos, os chim-
sado a odiar seu pai e sua mãe para aderir a Jesus (Lucas
panzés, os gorilas e ... nós, humanos. A Bíblia, ao citar
14,26).
a história de Adão e Eva, não quer fazer ciência, e sim
Um cristão tinha por hábito sortear, toda manhã, um
acentuar que somos todos filhos e filhas de Deus, criador
versículo dos evangelhos como motivação espiritual. Ao
do Universo.
abrir o texto em "Amai o próximo como a si mesmo",
A Igreja aceitou também, por muitos séculos, a teoria
adotou, naquele dia, postura mais atenciosa com a faxi-
do astrônomo egípcio Ptolomeu (90-168) de que o Sol
neira, o ascensorista e a copeira do escritório,
gira em tomo da Terra, erro comprovado pelo astrônomo
Dia seguinte caiu-lhe o versículo 5 do capítulo 27 de
polonês Copérnico (1473-1543), que provou que é a Ter-
Mateus, sobre a culpa de Judas: "E ele foi e se enforcou".
ra que gira em tomo do Sol.
Ciente de que a vida é o dom maior de Deus, permitiu-se
PRESTE ATENÇÃO uma segunda chance. Deparou-se com o último versículo
da Parábola do Bom Samaritano: "Vá e faça o mesmo."
"Ninguém deve ter vergonha de ser quem é, de ser como Ora, como Deus não quer o mal, e muito menos que
Deus fez. A vida e a natureza dessas pessoas expressam se ponha fim à própria vida, ele se deu uma última opor-
algo do desígnio divino. Em sua história também age tunidade. Veio-lhe este versículo da paixão de Jesus em
o Espírito Santo, resgatando a autoestima, dando cora- João: "O que tem a fazer, faça depressa" (13,27) ...
gem para enfrentar a homofobia e a transfobia, ilumi-
nando o discernimento e comunicando a força para o BíBLIA E HOMOSSEXUALIDADE
bem. Oxalá não falte aos discípulos de Cristo a devida
A leitura literal da Bíblia ou a pescaria de versículos,
sensibilidade para a ação surpreendente do Espírito.
que tira o texto de seu contexto, é hoje utilizada por fun-
Oxalá não lhes falte a coragem de se desprenderem de
damentalistas para proclamarem que a Bíblia condena a
leituras rígidas e imutáveis da doutrina que humilham
homossexualidade. Ora, em toda ela há apenas três ver-
esta ação divina,"
sículos que podem ser interpretados nessa linha (Gênesis
Luís Corrêa Lima, sacerdote jesuíta e professor do
19,1-28; Levítico 18,22; Romanos 1,26-27).
Departamento de Teologia da PUC-Rio,
Ainda que houvesse mais versículos, há que levar
em conta que a Bíblia foi escrita dentro de uma cultura
56' SEXO, SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO" A ATITUDE DE JESUS' 57

patriarcal e machista, e nem tudo que ela diz pode ser PRESTE ATENÇÃO
tomado ao pé da letra. Caso contrário, os fiéis não pode-
Escreve o teólogo Carlos Rafael Pinto:
riam, hoje, comer carnes de porco, coelho, lebre e maris-
"No itinerário pessoal que muitos jovens homoafeti-
cos, proibidas em Levítico 11. Nem produtos embutidos
vos percorrem, nota-se que experimentam sinais da ação
(Atos 15, 19-29). salvífica de Deus, pois a beleza infinita de Deus, "tão
O apóstolo Paulo proíbe que homens preguem com a
antiga e tão nova" (Agostinho, 2004, p. 295), irrompe-
cabeça coberta (1 Coríntios 11, 4). Quantos bispos não o
se também na intimidade homoafetiva, a partir da rela-
fazem ostentando a mitra? Paulo assinala que estar casa-
ção de amor, carinho, ternura, reciprocidade, liberdade,
do e ser bom marido é requisito para ser eleito bispo (1
cuidado. Percebe-se que nessa comunhão um se doa ao
Timóteo 3,2). E ainda recomenda que nos submetamos a
outro, ou melhor, um hospeda o outro, descobrindo um
toda autoridade, ainda que ditatorial (Romanos 13, 1-2).
dom em si e para si mesmo e, por desdobramento, fazen-
"A letra mata, o Espírito vivifica" (2 Coríntios 3,6),
do-se dom de si para o outro."
proclama o mesmo Paulo. E o próprio Jesus ousou nos
"A experiência da relação amorosa entre gays pode
posicionar em uma nova ótica quanto aos textos do An-
gestar-se na graça de Deus, no sentido de que Deus age
tigo Testamento: "Ouviram o que foi dito; eu porém afir-
provocando, inclusive, um movimento para a hospitali-
mo ... " (Mateus 5).
dade dos corpos frágeis e vulneráveis, conforme ilustra o
A fidelidade à Palavra de Deus não combina com a
formidável poema Dona do dom, de Chico César [12]:"
intolerância, o preconceito e a discriminação. E Deus só
se faz presente onde há amor (1 João 4,16).
Dona do dom que Deus me deu
Como alerta Carmina Navia Velasco, "não é correto
Sei que é ele a mim que me possui
continuar utilizando a Bíblia, com condicionamentos e
E as pedras do que sou dilui
limitações próprios da cultura na qual foi escrita, para
E eleva em nuvens de poeira
condenar realidades como a homossexualidade e a ho-
Mesmo que às vezes eu não queira
moafetividade. Como bem se diz popularmente, com o
Me faz sempre ser o que sou e fui.
mesmo critério se haveria de isolar as mulheres em seus
[. ..]
dias de menstruação por considerá-las "impuras" ... e não
Presa do dom que Deus me pôs
se poderia comer carne de porco e ir à mesa sem lavar as
Sei que é ele a mim que me liberta
mãos, o que seria pecado."
E sopra a vida quando as horas mortas
58' SEXO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

Homens e mulheres vêm sofrer de alegria


Gim,jumaça, dor, microfonia
10
E ainda me faz ser o que sem ele não seria.
[. ..]
Plena do dom que Deus me deu JESUS E AS RELAÇÕES DE
Sei que é ele a mim que me ausenta
E quando nada do que eu sou canta GÊNERO
E o silêncio cava grotas tão profundas
Pois mesmo aí na pedra ainda
Ele me faz ser o que em mim nunca se finda.
o Evangelho mostra que Jesus não fazia diferença de
tratamento entre homens e mulheres. Como todos nós,
Eu quero, quero, quero, quero ser sim
Deus entrou na história humana pelo ventre de uma mu-
Essa ave frágil que avoa no sertão
lher. No grupo de Jesus havia também mulheres: "Os
O oco do bambu
Doze iam com ele, e também algumas mulheres que ha-
Apito do acaso, aflauta da imensidão.
viam sido curadas de espíritos maus e doenças. Maria,
chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios;
Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Su-
zana, e várias outras mulheres, que ajudavam Jesus e os
discípulos com os bens que possuíam" (Lucas 8, 1-3).
A primeira pessoa a quem Jesus se revela como Mes-
sias, e que comunica ao povo esta verdade, foi uma mu-
lher, a samaritana que ele encontrou no poço de Jacó
(João 4, l-30; 39). Ela pode ser considerada a primeira
apóstola.
A primeira testemunha da ressurreição foi uma mu-
lher, Maria Madalena (João 20,18).
Há, porém, muitos outros episódios que comprovam
Jesus rompendo com rígidos paradigmas de gênero, ma-
chistas e patriarcais, dominantes em sua época.
JESUS E AS DE GÊNERO' 61

Marcos descreve que, certa ocasião, os discípulos 1,19-20; Lucas 9, 59-60; 8,2-3) e enfatizou que a causa
tentaram impedir que crianças se aproximassem de Je- do Reino é mais importante do que os laços familiares
sus (lO, 13-16). Na cultura da época, adultos homens (Mateus 10,37-39; Lucas 14, 26-27). Valorizou tarefas
e crianças não deviam ocupar o mesmo espaço. E elas consideradas femininas desempenhadas por homens e
eram cuidadas por mulheres. Um homem que abraçasse ele próprio as exerceu, como lavar os pés de familiares,
uma criança em público era tido como afeminado e fra- amigos e servos (João 13,1-20).
co. Jesus rompeu a barreira de gênero, censurou os dis-
cípulos, acolheu as crianças e ainda afirmou que "delas PARA RESPONDER EM GRUPO:
é o Reino de Deus". 1) O que temos a aprender com as atitudes de Jesus?
Por quê? Porque esta expressão resume o projeto ci-
vilizatório proposto por ele, em contraposição ao reino 2) O amor suporta discriminações e preconceitos?
de César: assim como ocorre entre crianças amigas, não
haverá apropriação privada de bens, opressão ou exclu- 3) Sexo é pecado? Por quê?
são, e sim partilha, solidariedade, pureza de coração e
4) A Bíblia condena a homossexualidade e a homoafeti-
alegria.
vidade?
"Jesus iniciou um movimento que transformava pro-
fundamente a identidade de gênero do mundo do Novo
Testamento", escreve o teólogo peruano Hugo Cáceres
Guinet. E afirma que no fechado mundo masculino dos
mestres judeus, Jesus se deixou interpelar pela mulher
sírio-fenícia (Marcos 7, 28), defendeu o direito de as
mulheres participarem de reuniões masculinas (Marcos
14,6) e exaltou o dom profético feminino (Marcos 14,
8-9).
Em uma sociedade que desconfiava de homens sem
mulheres e praticamente impunha aos homens a obriga-
ção do matrimônio, ele se manteve celibatário. Relativi-
zou a estrutura familiar (Mateus 8,21-22; 8, 19; Marcos
BIBLlOGRAFIA·63

Desmond Tutu, God Is Not A Christian: And Other Provo-


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