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O QUE É FEMINICÍDIO?

ENTENDA A DEFINIÇÃO DO CRIME QUE MATA MULHERES

Feminicídio é o termo usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do


gênero. Ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. No Brasil, a Lei do Feminicídio, de 2015,
estabelece que, quando o homicídio é cometido contra uma mulher, a pena é maior.
De acordo com o Mapa da Violência de 2015, último levantamento quantitativo nacional sobre o
assunto, o Brasil é considerado o 5º país do mundo com maior número de feminicídios. Segundo
dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU), só em 2017, foram 4.600 casos, ou
seja, entre 12 e 13 mulheres são mortas todos os dias.
Mas o que esse crime significa, exatamente? Toda morte de mulher é considerada feminicídio? Veja,
a seguir, as respostas para essas e outras perguntas sobre o tema.

QUAL A ORIGEM DA PALAVRA FEMINICÍDIO?

A palavra feminicídio vem do termo femicídio, cunhado pela socióloga sul-africana Diana Russell em
1976 em um simpósio chamado Tribunal Internacional de Crimes contra Mulheres, em Bruxelas, na
Bélgica. Vinha da ideia de que a palavra homicídio tem um conceito geral e que seria preciso criar
uma definição específica para mulheres a partir da palavra "fêmea". Homicídio de fêmeas virou,
então, femicídio.
Diana explicou que optou pela palavra fêmea e não mulher uma vez que o femicídio é cometido
também contra crianças e idosas. A análise tinha um viés sociológico e, naquela época, ainda não
havia atingido o âmbito da lei.
Em 1992, Diana escreveu o livro "Femicídio: a Política de Matar Mulheres". A obra inspirou a
antropóloga e ex-deputada mexicana Marcela Lagarde a criar uma mobilização contra assassinatos
de mulheres no México. Mas Marcela modificou o termo: disse que ao traduzir para o espanhol, a
palavra perdia a força e propôs o uso de feminicídio que, segundo ela, o "conjunto de delitos de lesa
humanidade que contém os crimes e os desaparecimentos de ". Ela também pontuava a negligência
do Estado em permitir que esses crimes acontecessem. O Brasil seguiu Lagarde e adotou essa
versão do termo. Por aqui, a palavra apareceu pela primeira vez em âmbito legislativo nos
resultados da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da Violência contra a Mulher, de
2012. O relatório final da comissão propôs o projeto de lei 292/2013, do Senado Federal, que
alterava o código penal para inserir o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de
homicídio.

O QUE DIZ A LEI DO FEMINICÍDIO?

O Brasil institui o crime de feminicídio com a Lei nº 13.104, conhecida como Lei do Feminicídio,
promulgada pela presidente Dilma Rousseff em 9 de março de 2015. Tornou o feminicídio um
homicídio um homicídio qualificado e o colocou na lista de crimes hediondos, com penas mais altas.
Assim, para um homicídio simples, a pena varia entre 6 e 20 anos. Para o feminicídio, de 12 a 30
anos.

O QUE DIZ A LEI DO FEMINICÍDIO?

O Brasil institui o crime de feminicídio com a Lei nº 13.104, conhecida como Lei do Feminicídio,
promulgada pela presidente Dilma Rousseff em 9 de março de 2015. Tornou o feminicídio um
homicídio qualificado e o colocou na lista de crimes hediondos, com penas mais altas. Assim, para
um homicídio simples, a pena varia entre 6 e 20 anos. Para o feminicídio, de 12 a 30 anos. Um crime
é considerado feminicídio quando for cometido contra uma vítima por ela ser do sexo feminino.
Segundo a lei, para ser considerado feminicídio, as situações devem envolver violência doméstica e
familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Mas o que isso significa

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exatamente? Significa que houve uma situação de dominação ou humilhação, sendo o autor do
crime conhecido ou não da vítima.
A promotora de Justiça de São Paulo Valéria Scarance, especializada em gênero e enfrentamento à
violência contra a mulher, já analisou mais de 1.000 casos de feminicídio e explica o que há de
semelhante entre eles. "O homem mata a mulher por causa de alguma postura adotada por ela que
o faz sentir desafiado, desautorizado. É muito comum quando ela se recusa a sair com ele ou quer
terminar uma relação", diz. "É considerada uma morte por menosprezo, uma manifestação de crime
de ódio." Segundo Valéria, o feminicídio é um crime com assinatura. "É muito característico e
evidente. No geral, tem repetição de golpes com uma arma branca direcionado a algum aspecto
feminino, como seios e ventre", diz. Mais de 60% dos casos usam armas brancas: facas, estiletes,
facões. Ou o que estiver por perto: tijolos, pedras. "Ou então as próprias mãos para sufocar a
vítima", diz Valéria, salientado o aspecto de crueldade presente em todos os casos. "Não é um ato
de amor, é um ato de destruição do corpo da mulher."

FEMINICÍDIO SÓ VALE QUANDO O CRIME É COMETIDO PELO MARIDO OU NAMORADO?

Não. Também é considerado feminicídio se o criminoso for desconhecido, embora a grande maioria
seja cometido por parceiro ou ex-parceiro (96% dos feminicídios no Estado de São Paulo). A lei pode
abarcar diferentes circunstâncias. Por exemplo: um homem que mata uma prostituta porque ela
não aceitou sua oferta, um indivíduo que assassina uma vítima após estuprá-la, um homem que
mata uma mulher depois que ela rejeita um convite para sair. Todos esses são exemplos reais e são
considerados feminicídio pela Justiça, mesmo que o agressor não tenha relação com a vítima.
O estudo Diretrizes Nacionais - Feminicídio lançado pela ONU em parceria com o governo federal
em 2016 reforça que a as circunstâncias do feminicídio incluem a violência nas relações familiares,
mas também situações de maior vulnerabilidade e dá como exemplos a exploração sexual, o tráfico
de mulheres, e a presença do crime organizado. Em suma, explica que as formas de violência
envolvem a imposição de um sofrimento adicional para as vítimas. Exemplos são "violência sexual,
cárcere privado, emprego de tortura, uso de meio cruel ou degradante, mutilação ou desfiguração
das partes do corpo associadas à feminilidade e ao feminino (rosto, seios, ventre, órgãos sexuais)."
Outro ponto importante: não são apenas homens passíveis de serem punidos por feminicídio. Em
uma união homoafetiva, se uma mulher sofre violência e humilhação da parceira e é morta, a
pessoa que praticou o crime também terá de responder por feminicídio.

A MORTE DE UMA MULHER É SEMPRE FEMINICÍDIO?

Não. É preciso existir uma das duas circunstâncias contidas na lei para ser considerado feminicídio:
ou quando é cometido em ambiente familiar e doméstico, ou quando há menosprezo e
discriminação. A morte de uma policial, por exemplo, pode ou não ser feminicídio. "Se ela é rendida
e ultrajada por sua condição de mulher e sofre algum tipo de violência, sim. Mas, se morrer em um
tiroteio, como um colega do sexo masculino, não", diz Valéria. A interpretação do crime depende da
denúncia elaborada pelo Ministério Público e entregue à Justiça. Representante da ONU Mulheres
Brasil, Nadine Gasman afirma que a orientação da entidade é para que, em todas as mortes de
mulheres, a investigação já comece pela presunção do feminicídio. "A primeira pergunta a ser feita
deveria ser esta: ela foi assassinada por ser mulher?", afirma Nadine. Se a perspectiva de gênero
não é contemplada já de início, dificilmente haverá indícios para comprovarem a hipótese. "É
preciso pesquisar as evidências de outra maneira, ter outro olhar durante a perícia", diz. Caso se
conclua que não houve a circunstância do gênero como motivadora pro crime, a hipótese é
descartada.

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FEMINICÍDIO: BRASIL É O 5º PAÍS EM MORTE VIOLENTAS DE MULHERES NO MUNDO

Você já ouviu a expressão “o machismo mata”? Poucas vezes nos questionamos sobre o que está
por trás da morte violenta de uma mulher. A palavra “feminicídio” se refere ao assassinato de
mulheres e meninas por questões de gênero, ou seja, em função do menosprezo ou discriminação à
condição feminina. Isso não indica, no entanto, que toda mulher assassinada é vítima de
feminicídio. Trata-se de um crime de ódio, no qual a motivação da morte precisa estar relacionada
ao fato de a vítima ser do sexo feminino. A palavra foi difundida na década de 1970, pela socióloga
sul-africana Diana E.H. Russell (“femicide”, em inglês). Com esse novo conceito, ela contestou a
neutralidade presente na expressão “homicídio”, que contribuiria para manter invisível a
vulnerabilidade experimentada pelo sexo feminino em todo o mundo. O conceito foi inicialmente
formulado para conter as diferentes modalidades de violência que representam risco de morte
imediata ou potencial para elas. Russell entende que essas mortes não são casos isolados ou
episódicos, mas inseridos dentro de uma cultura, na qual a sociedade naturaliza a violência de
gênero e limita o desenvolvimento livre e saudável de meninas e mulheres. São exemplos de
feminicídio os crimes encobertos por costumes e tradições e que são justificados como práticas
pedagógicas, como o apedrejamento de mulheres por adultério, relacionadas com o pagamento de
dote, a mutilação genital e os crimes “em defesa da honra”. Rusell também pontua o assassinato de
mulheres por seus maridos e companheiros, os estupros de guerra, a morte por preconceito racial e
a morte pelo tráfico e a exploração sexual, que tratam as mulheres como objetos sexuais e
descartáveis. As mortes violentas por razões de gênero são uma fenômeno global e vitimizam
mulheres todos os dias, como consequência da posição de discriminação estrutural e da
desigualdade de poder, que inferioriza e subordina as mulheres aos homens. O Brasil ocupa o 5º
lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os
Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em
número de casos de assassinato de mulheres. Em comparação com países desenvolvidos, aqui se
mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes mais que a Dinamarca e 16 vezes mais
que o Japão ou Escócia. O Mapa da Violência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que o
número de mulheres assassinadas aumentou no Brasil. Entre 2003 e 2013, passou de 3.937 casos
para 4.762 mortes. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no país.

A LEI DE FEMINICÍDIO NO BRASIL

No período colonial e até o século 19, vigorava no Brasil um conjunto de leis que punia e previa a
execução de uma mulher adúltera. Era lícito ao homem casado matar a esposa em flagrante delito
pelo argumento da defesa da honra. Assim, a Justiça brasileira absolvia maridos assassinos. Até
metade do século 20, era comum situações em que maridos assassinaram suas companheiras e
receberem penas brandas por alegarem crimes passionais e a defesa da honra. Esses crimes seriam
motivados “por amor” ou uma “forte paixão”, induzindo o réu a eliminar a vida da vítima. A partir
de 2015, o Brasil alterou o Código Penal Brasileiro e incluiu a Lei 13.104, que tipifica o feminicídio
como homicídio, reconhecendo o assassinato de uma mulher em função do gênero. O crime de
homicídio prevê pena de seis a 20 anos de reclusão. No entanto, quando for caracterizado
feminicídio ele é considerado hediondo e a punição é mais severa, parte de 12 anos de reclusão.
Para reconhecer uma morte como feminicídio e não como um assassinato comum, a Justiça
brasileira investiga as características relacionadas aos contextos em que ocorrem, como as
circunstâncias e as formas de violência empregadas que resultaram na morte da mulher. Desde a
implementação da Lei 13.104, o número de sentenças em casos de feminicídio registrou
crescimento contínuo, o que reflete a adesão dos juízes à lei. O último levantamento do Ministério

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da Justiça é de 2017, quando foram registrados 4.829 novos casos nos tribunais, quase o dobro do
que no ano anterior. Mas ainda tramitam no Judiciário 10 mil processos de feminicídio, que
aguardam julgamento. A maioria dos crimes de feminicídio no Brasil foi cometida por maridos e
namorados das vítimas. Muitas das mulheres assassinadas por seus companheiros já recebiam
ameaças ou eram agredidas constantemente por eles. Os agressores se sentem legitimados e creem
ter justificativas para matar, culpando a vítima. Segundo as Nações Unidas, as motivações mais
comuns dos agressores envolvem sentimento de posse sobre a mulher, o controle sobre o seu
corpo, desejo e autonomia, limitação da sua emancipação (profissional, econômica, social ou
intelectual) e desprezo e ódio por sua condição de gênero. Sociedades machistas favorecem as
agressões violentas a mulheres. Além disso, fatores como a classe social, a etnia da vítima, a
violência no entorno e outros contextos sociais contribuem para a situação de risco e
vulnerabilidade social de uma mulher. No Brasil, as maiores vítimas do feminicídio são negras e
jovens, com idade entre 18 e 30 anos. De acordo com os últimos dados do Mapa da Violência, a
taxa de assassinato de mulheres negras aumentou 54% em dez anos. O número de crimes contra
mulheres brancas, em compensação, caiu 10% no mesmo período.

FIM DA PENSÃO PARA VIÚVOS ACUSADOS

Em 2013, Claudenice Josefa Olímpia, foi assassinada por seu marido por motivação de ciúmes. Réu
confesso, Evandi Guilherme da Silva foi preso por homicídio. Mas após o crime, ele passou a receber
do governo brasileiro uma pensão. Por falta de acompanhamento dos processos, casos como esse
acabavam recebendo benefícios da Previdência Social. Em 2017, a Advocacia Geral da União (AGU)
pediu na Justiça que os benefícios previdenciários pagos a homens autores de agressões contra
companheiras sejam suspensos e que eles sejam obrigados a devolver a pensão. A expectativa da
AGU é que quase R$ 2 milhões sejam devolvidos ao Estado.

A LEI MARIA DA PENHA

O feminicídio é apenas a ponta do iceberg da violência contra a mulher e representa o desfecho


mais extremo do problema. Segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública,
a cada hora, 503 mulheres acima de 16 anos foram agredidas em 2016. Isso representa um total de
4,4 milhões de casos. Os números podem ser ainda maiores, já que muitas mulheres não
denunciam. Segundo o levantamento, três em cada dez mulheres brasileiras sofreram algum tipo de
violência nos últimos 12 meses. A principal delas é a ofensa verbal, seguida da ameaça de violência
física. Em 61% dos casos, o agressor é conhecido da vítima, sendo principalmente companheiros e
excompanheiros. A Lei n. 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, é o principal marco
jurídico na defesa da mulher. Antes dela, havia a ideia popular de que “em briga de marido e
mulher, ninguém mete a colher”. Dessa forma, a sociedade entendia que a violência doméstica
devia ser tratada no âmbito privado e representava um crime de menor potencial ofensivo.
Também era comum a noção de que as mortes se tratavam de crimes passionais, motivados por
razões de foro íntimo ou como resultado de distúrbios psíquicos. Agora a norma estabelece que
todo caso de violência doméstica e intrafamiliar é crime, que deve ser apurado por meio de
inquérito policial e remetido ao Ministério Público. A lei entende também que quando uma mulher
está em situação de violência, é dever do Estado atuar para sua proteção. A Lei Maria da Penha
tipifica as situações de violência doméstica. Ela inclui tanto as formas de violência física, como a
doméstica (quando a agressão ocorre dentro de casa) e a psicológica, como calúnia, difamação ou
injúria contra a honra ou a reputação da mulher. O agressor pode ter uma pena de uma até três
anos de prisão e o Estado e determina o encaminhamento das mulheres em situação de violência,
assim como de seus dependentes, a Por aqui, muitos desses casos ocorrem em municípios de
pequeno porte, onde não há delegacias da mulher. Dados do IBGE apontam que apenas 7,9% dos
municípios brasileiros têm delegacias especializadas para atender mulheres. Na ausência de uma
delegacia especializada, as vítimas e seus familiares recorrem às delegacias tradicionais, onde há
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menos preparo dos policiais para lidar com casos desse tipo. Como consequência, pode aumentar a
impunidade penal pelo não reconhecimento da violência baseada no gênero como crime. Além de
garantir a investigação, punição e reparação de crimes contra as mulheres, o governo brasileiro
avalia que também é preciso atuar na prevenção, como falar sobre o tema desde a infância, para
diminuir a diferença de gênero e acabar com esse tipo de violência.