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JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL

- LEI n. 9.099/95 -

ORGANIZAÇÃO, PESQUISA E ESCRITA

Roberto C. A. Oliveira Jr

- Doutrina, Súmula e Jurisprudência do STJ e STF


relacionada;

- Com Enunciados do Fórum Nacional de Juizados


Especiais (FONAJE);

- exercícios de provas e concursos;

- 2017 -
- JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – - ROBERTO OLIVEIRA –
Lei n. 9.099/95

Em caso de eventual citação do trabalho, por favor, adotar:

OLIVEIRA JÚNIOR, Roberto Carlos Alves de. JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL. No prelo

Ao Rei dos Reis consagro tudo o que sou!

Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada


“O agir de Deus quem impedirá?”
- JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – - ROBERTO OLIVEIRA –
Lei n. 9.099/95

Conteúdo

1. BREVE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 5


1.1 NATUREZA JURÍDICA DA LEI N. 9.099/95 .......................................................................................... 6
2. PRINCÍPIOS EXPRESSOS DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL ................................................................... 6 3

2.1 PRINCÍPIO DA CELERIDADE ................................................................................................................ 7


2.2 PRINCÍPIO DA ECONOMIA PROCESSUAL ........................................................................................... 9
2.2.1 PRESCRIÇÃO VIRTUAL E JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL ............................................................................ 9
2.3 PRINCÍPIO DA SIMPLICIDADE........................................................................................................... 11
2.4 PRINCÍPIO DA INFORMALIDADE ...................................................................................................... 12
2.5 PRINCÍPIO DA ORALIDADE ............................................................................................................... 12
3. COMPETÊNCIA DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS ......................................................................... 12
3.1 FIXAÇÃO DA COMPETÊNCIA: critérios norteadores .................................................................................. 12
4. TERMO CIRCUNSTANCIADO DE OCORRÊNCIA (TCO) .......................................................................... 17
4.1 CONCEITO E FINALIDADE ....................................................................................................................... 17
4.2 AUTORIDADE POLICIAL: limites da expressão ....................................................................................... 17
4.3 PRISÃO EM FLAGRANTE......................................................................................................................... 19
5. AUDIÊNCIA PRELIMINAR...................................................................................................................... 19
5.1 COMPOSIÇÃO CIVIL DOS DANOS ..................................................................................................... 19
5.2 OFERECIMENTO DE REPRESENTAÇÃO ............................................................................................. 21
5.3 TRANSAÇÃO PENAL ......................................................................................................................... 21
JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA..................................................................................................................... 24
5.3.1 CABIMENTO ..................................................................................................................................... 24
5.3.2 REQUISITOS ..................................................................................................................................... 25
5.3.2.1 REQUISITOS OBJETIVOS ................................................................................................................... 25
5.3.2.2 REQUISITOS SUBJETIVOS ................................................................................................................. 25
5.3.3 PROCEDIMENTO PARA O OFERECIMENTO DA PROPOSTA DE TRANSAÇÃO PENAL ........................ 26
5.3.4 RECUSA INJUSTIFICADA DE OFERECIMENTO DA PROPOSTA DE TRANSAÇÃO PENAL..................... 26
5.3.5 MOMENTO PARA O OFERECIMENTO DA PROPOSTA DE TRANSAÇÃO PENAL ................................ 27
5.3.6 DESCUMPRIMENTO INJUSTIFICADO DA TRANSAÇÃO PENAL ......................................................... 27
5.3.7 RECURSO.......................................................................................................................................... 29
6 PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO ......................................................................................................... 29
6.1 OFERECIMENTO DA PEÇA ACUSATÓRIA .......................................................................................... 29

Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada


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Lei n. 9.099/95

6.2 DEFESA PRELIMINAR........................................................................................................................ 30


6.3 REJEIÇÃO OU RECEBIMENTO DA PEÇA ACUSATÓRIA ...................................................................... 30
6.4 POSSIBILIDADE DE ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA ..................................................................................... 30
6.5 AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO ......................................................................................... 31
7 SISTEMA RECURSAL NO JECRIM .......................................................................................................... 31 4

7.1 APELAÇÃO NO JECRIM ..................................................................................................................... 32


7.2 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ................................................................................................................ 32
8. REPRESENTAÇÃO NOS CRIMES DE LESÃO CORPORAL LEVE E CULPOSA ..................................................... 33
9. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO – art. 89 ................................................................................... 35
9.1 DEFINIÇÃO E NATUREZA JURÍDICA ........................................................................................................ 35
9.2 REQUISITOS ........................................................................................................................................... 37
9.3 LEGITIMIDADE ....................................................................................................................................... 38
9.4 PERÍODO DE PROVA............................................................................................................................... 39
9.5 SUSPENSÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL ............................................................................................... 40
9.6 REVOGAÇÃO DA SUSPENSÃO ................................................................................................................ 40
10. SENTENÇA .................................................................................................................................................. 41
11. EXECUÇÃO ................................................................................................................................................. 42
12. DEMAIS ENUNCIADOS ............................................................................................................................... 42
13. EXERCÍCIOS ................................................................................................................................................ 42

Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada


“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

1. BREVE INTRODUÇÃO

O processo, modernamente, deve ser visto em uma perspectiva de resultado, onde, para além das
formalidades típicas, se alcance de forma efetiva e integral a tutela jurídica do direito violado. O processo é, em
essência, um instrumento de realização da ordem jurídica, tanto na aplicação do direito posto ao caso concreto,
quanto na observância das garantias processuais fundamentais.
A atividade jurisdicional, regida pelas linhas do processo, deve estar adequada à resolução dos conflitos
que lhe são levados, afinado particularidades do direito material discutido. Isso perpassa ao ajustamento de 5
procedimentos adequados a resolução das mais variadas lides. Não se trata de uma peculiaridade de um rito ou outro,
mas de vetor do legislador e, mais ainda, dos aplicadores do Direito, na busca constante por uma tutela jurisdicional
célere e eficaz.
No entanto, não é novidade a conhecida dificuldade se alcançar essa rápida resposta. É dado factível e
facilmente perceptível aos olhos daqueles que buscam nela uma solução judicial de seu problema, que, por vezes, são
agravados pela típica morosidade do judiciário. A celeridade, com efeito, se revela como um anseio a efetividade, de
modo a revelar uma justiça resolutiva na promoção da paz social, em sua integralidade.
No campo penal, por vezes, essa conhecida morosidade representa em impunidade, especialmente
naqueles processos que ao final são fulminados com o reconhecimento da extinção da pretensão punitiva pelo
reconhecimento da prescrição. Embora não seja uma exclusividade, isto era marcante nos delitos em que pena
cominada é baixa e, por conseguinte, possui um reduzido prazo prescricional.
Inserto nesse cenário e na premente necessidade mudança, um novo viés foi trazido com os juizados
especiais pelo legislador constituinte. Imbuído no intento de imprimir maior resolutividade para questões de menor
complexidade, restou assentado no art. 98, inc. I da Constituição da República, as criações destes juizados, voltados
para a conciliação, julgamento e execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor
potencial ofensivo, mediante um procedimento sumaríssimo, pautados na oralidade e, nas hipóteses previstas em lei,
na possibilidade de transação penal e no julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau.
Calcado a este preceito constitucional, em sede infraconstitucional, a Lei n. 9.099/95 veio estatuir tal
imperativo, marcadamente influenciado por uma nova visão de justiça criminal consensual1, na qual tipicamente se
confere um relevante papel da vítima na solução do conflito2. Desde então, princípios processuais outrora intocáveis
cederam espaço à busca pelo acordo entre as partes, a reparação voluntária dos danos sofridos pela vítima e
aplicação da pena não privativa de liberdade, sempre com objetivo de evitar, o quanto possível, a instauração de um
processo penal.
Para tanto, não obstante as conhecidas garantias processuais constitucionais, alicerçado no próprio
texto constitucional, a Lei n. 9.099/95 elencou alguns axiomas hermenêuticos a serem perseguidos ao longo de sua
aplicação, de forma a concretizar a inspirações constitucionais do denominado procedimento sumaríssimas. Por isto, o
legislador deixar que “o processo perante o Juizado Especial orientar-se-á pelos critérios da oralidade, informalidade,
economia processual e celeridade, objetivando, sempre que possível à reparação dos danos sofridos pela vítima e a
aplicação de pena não privativa de liberdade” (Lei n. 9.099/95, art. 62).
De fato, o JECRIM não só aproximou as partes para solução do conflito, mas, com destaque, permitiu de
certo modo a retomada da credibilidade na tutela penal, até então cotidianamente manchada pelas recorrentes
marcas da impunidade pela inoperância estatal materializada nas prescrições dos delitos de menor ofensividade. Em
termos pragmáticos, ao menos em tese, a com essa inovação, permitiu-se a punição de infrações penais que antes
eram fadadas à prescrição e na impunidade de seus autores, que se viam vangloriados em conseguir delongar as
discussões processuais até a extinção da punibilidade3.
Como se denota, a Lei n. 9.099/95 instituiu um discurso de celeridade e informalidade quebrando velhos
paradigmas processuais, até então irretocáveis, tal como a mitigação do princípio da obrigatoriedade da ação penal,
do princípio da inderrogabilidade do processo e, entre outros, trouxe a luz a busca pelo consenso na seara criminal.
Com razão, parcela da doutrina tem enaltecido os seguintes pontos da Lei n. 9.099/95: a)
desformalização do processo, tornando-o mais rápido e eficiente, portanto, mais democrático, pois acessível à
sociedade; b) desformalização das controvérsias, tratando-as por meios alternativos, como a conciliação; c)

1 ALENCAR, Rosmar Antonni Rodrigues Cavalcanti de. Natureza jurídica da transação penal e efeitos decorrentes. Revista do Tribunal Regional

Federal da Primeira Região, n. 8, ano 18, p. 42, ago. 2006.


2
TOURINHO NETO, Fernando. O crime organizado. Revista Jurídica da Seção Judiciária do Estado da Bahia, Salvador, n. 7, ano 6, p. 185, maio 2007.
3 KARAM, Maria Lúcia. Juizados Especiais Criminais: a concreção antecipada do poder de punir. São Paulo: RT, 2004, p. 38.

Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada


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diminuição do movimento forense criminal, com pronta resposta do Estado; d) fim das prescrições; e) ressocialização
do autor dos fatos, associada à sua reincidência4.
Em destaque, consignou-se uma fala de despenalização5 e descarcerização, introduzindo em seu bojo
alguns institutos que, em seu âmago, almejam o consenso entre as partes para evitar a instauração do processo ou, ao
menos, impedir o seu prosseguimento.
Em relação a estas medidas, a Lei n. 9.099/95 introduziu 4 (quatro) medidas despenalizadoras (ou
institutos despenalizadores), quais sejam:
6
a) Composição Civil dos Danos (art. 74, parágrafo único);
b) Transação Penal (art. 76);
c) Representação nos Crimes de Lesão Corporal leve e lesões corporais culposas (art. 88);
d) Suspensão Condicional do Processo (art. 89).

Paralelo a isto, também há uma importante medida descarcerizadora. A Lei 9.099/95, modificada pela
Lei 10.259/01, estabeleceu nova sistemática nos casos das infrações definidas como de menor potencial ofensivo: não
se lavrará auto de prisão em flagrante e não se exigirá fiança sempre que o agente for encaminhado imediatamente
ao Juizado ou quando assumir o compromisso de fazê-lo (art. 69, parágrafo único) 6.
A par deste sintético introito, como se percebe, a Lei n. 9.099/95 importou significativa transformação
do panorama penal e processual até então vigente no Brasil. Com ela criaram-se instrumentos destinados a viabilizar,
juridicamente, instrumentos de despenalização aliada à ampliação do espaço para o consenso, com consequente
valorização da própria vontade dos sujeitos que integram a relação processual penal.

1.1 NATUREZA JURÍDICA DA LEI N. 9.099/95

O Supremo Tribunal Federal na ADI n. 1719-9 de Relatoria de Joaquim Barbosa, concluiu que os
institutos despenalizantes introduzidos pela Lei 9.099/95 são normas processuais híbridas ou mistas, pois refletem
diretamente no direito de punir. Por esta razão, não obstante o Art. 90 da Lei 9.099/95, tais institutos deverão ser
regidos em conformidade com o Art. 5º, inc. XL da Constituição da República, que prevê a retroatividade da lei
benéfica.
Anote-se que, com advento da jurisdição consensual introduzida pela Lei 9.099/95, parte minoritária da
doutrina passou a sustentar a sua inconstitucionalidade, pois a aplicação de pena exige o Devido Processo Legal cujo
acento inclusive esta no Art. 5º Inc. LIV da CF/88. No entanto, o STF, em plenário (Inquérito. 1055 QO-AM/96),
entendeu que a Lei 9.099/95 é constitucional, cujo assento é antes de tudo constitucional, trazido pelo próprio
legislador constituinte originário (Norma Constitucional Originária).

2. PRINCÍPIOS EXPRESSOS DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL

Sem olvidar os princípios gerais do processo de aplicação inevitável a qualquer relação jurídica
processual, de modo a dar cumprimento ao preceito constitucional impositivo no julgamento das infrações penais de
menor potencial ofensivo, a Lei n. 9.099/95 apontou alguns princípios expressos em seu texto, sendo eles vetores
axiológicos a serem conduzidos na sua aplicação.
O art. 62 da Lei dos Juizados estabelece que ele será orientado pelos critérios da oralidade,
informalidade, economia processual e celeridade, com intento de busca, quando possível, a reparação dos danos

4 GRINOVER, Ada Pellegrini. GOMES FILHO, Antonio Magalhães; FERNANDES, Antonio Scarance; GOMES, Luiz Fávio. Juizado Especial Criminal.

Comentários à Lei 9.099, de 26.9.1995.5. Ed. São Paulo, p. 36, 49-50).


5 “Despenalizar” representa a adoção de processos ou medidas substitutivas ou alternativas, de natureza penal ou processual, que visam, sem

rejeitar o caráter ilícito da conduta, com o escopo de dificultar, evitar ou restringir a aplicação da pena de prisão ou sua execução ou, ainda, pelo
menos, a sua redução. Não se confunde com descriminalização. Como a própria palavra diz, descriminalizar ocorre quando uma conduta deixa de
ser considerada crime. No Brasil, isto se dá duas formas: via legislativa ou via judicial. A primeira, com a edição de lei revogando o dispositivo ou,
tacitamente, criando um novo tipo versando sobre a mesma matéria, em apertada síntese, há supressão da figura típica (abolitio criminis). A
segunda, em sede de controle difuso ou concentrado de constitucionalidade, afastando a incidência da norma legal e reconhecendo sua invalidade
em face do fundamento da validade da Constituição Federal ou, ainda, em uma interpretação restritiva do ius puniendi, tal como no
reconhecimento da incidência do princípio da insignificância. A título de maiores esclarecimento, sugerimos a leitura do RE 430105 QO, Relator(a):
Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Primeira Turma, julgado em 13/02/2007, DJe-004 DIVULG 26-04-2007 PUBLIC 27-04-2007 DJ 27-04-2007 PP-00069
EMENT VOL-02273-04 PP-00729 RB v. 19, n. 523, 2007, p. 17-21 RT v. 96, n. 863, 2007, p. 516-523)
6 (STJ, Pet 6.906/SC, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, QUINTA TURMA, julgado em 23/03/2010, DJe 26/04/2010)

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sofridos pela vítima e, sempre que possível, evitar a aplicação da pena privativa de liberdade. Acrescenta-se, ainda, o
princípio da simplicidade, extraído do art. 2º.
Nesse sentido, a Lei do Juizado Especial prevê expressamente os princípios da oralidade, simplicidade,
informalidade, economia processual e celeridade, critérios norteadores para interpretação e aplicação da Lei dos
Juizados Especiais. A partir deles incorrem várias implicações. Vejamos separadamente cada um deles.

PRINCÍPIO EXPRESSOS DO JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL


7
C ELERIDADE
E CONOMIA PROCESSUAL
S IMPLICIDADE
I NFORMALIDADE
O RALIDADE

2.1 PRINCÍPIO DA CELERIDADE

A morosidade na solução de uma determinada demanda acarreta a inevitável sensação de ineficiência


da resposta jurisdicional. Nada mais que verdade é a celebre expressão de que “a justiça atrasada não é justiça, senão
injustiça qualificada e manifesta”.
A demora gera a sensação de impunidade e de ausência do Estado na prestação de direito mínimos de
segurança. Os reclamos da sociedade a uma resposta efetiva e concreta dos órgãos jurisdicionais é notável diante de
prática de um crime, pugnando por uma pena que coadune as finalidades retributivas e preventivas perante a conduta
do criminoso. Certamente, é um pensamento comum que surge a qualquer pessoa diante de um fato supostamente
delituoso.
O tempo da sociedade, porém, não é o tempo do processo. Se por um lado a sociedade reclama por
respostas rápidas, de outro lado, de nenhuma forma pode ser preterir a garantias mínimas daquele que está sendo
julgado. Aliás, os direitos e garantias evidenciam senão como regra contramajoritária, para resguardar as garantias
mínimas de qualquer acusado.
Logo, se a celeridade ascende como exigência social por uma atuação rápida da tutela jurisdicional, de
igual forma, também surge como uma garantia do acusado em ver, o quanto antes, resolvido a sua situação. De fato, a
situação de vulnerabilidade do réu em qualquer relação jurídica processual, impõe uma proteção efetiva resguardada
pelos sujeitos processuais. É aqui a maior preocupação e falta de compreensão sem técnica!
É insofismável que a celeridade é o ponto fundamental para eficácia da tutela jurisdicional. Todavia, não
se pode confundir, jamais, celeridade com rapidez. Nem tudo que é rápido é eficaz, e nem tudo que é eficaz é rápido;
inexiste uma simbiose processual nos termos.
Por certo, para além dessa concepção natural, a celeridade processual também encontra assento
constitucional, porquanto seja ele um desdobramento do princípio da duração razoável do processo (CF, art. 5º,
LXXVIII), na medida em que “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do
processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. O Pacto de São José de Costa Rica apresenta a
duração razoável dentre uma das garantias processuais de qualquer pessoa e, ainda, a Convenção Europeia para
Proteção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais diz expressamente no §1º do art. 6º que “a justiça que
não cumpre suas funções dentro de um prazo razoável é, para muitas pessoas, uma justiça inacessível”.
A credibilidade da tutela jurisdicional está entrelaçada com resposta justas a partir de um processo justo
e equânime entre as partes, o que impõe cautela, sobretudo para refutar decisões midiáticas às situações que não
raramente não justificam tamanho ferrete penal – para não ir mais longe. Neste contexto, José Rogério Cruz e Tucci
aponta três variáveis a serem levadas em consideração na análise da duração razoável do processo e, por conseguinte
a celeridade: i) a complexidade do assunto; ii) comportamento dos litigantes e, c) a atuação do órgão jurisdicional7.
Com este pensamento, o legislador instituiu um procedimento mais célere na Lei n. 9.099/95. Além de
prever medidas que comungam com percepção de jurisdição consensual, assentou um conjunto de atos processuais
específicos ao procedimento sumaríssimo, uma fase preliminar com dispensa do inquérito policial, porém, sem jamais
perder de vista as garantias processuais do autor do fato. Como bem aponta Renato Brasileiro de Lima:

7 TUCCI, José Rogério Cruz e. Tempo e Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997. p. 68.
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[...] guarda relação com a necessidade de rapidez e agilidade do processo, objetivando-se atingir
a prestação jurisdicional no menor tempo possível. Com isso, a Lei dos Juizados não só consegue
dar à sociedade uma rápida resposta à solução do caso concreto, como também evita a
impunidade pelo advento da prescrição, outrora tão comum em relação às infrações de menor
potencial ofensivo. Essa celeridade, todavia, não pode colidir com princípios constitucionais
como os do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa8.

Obviamente, ao assentar de forma expressa o critério da celeridade no Juizado Especial Criminal, o 8


legislador estava atento à complexidade do assunto de sua competência. Ora, se fosse imposto idêntico tratamento
para o processamento de uma contravenção penal com o do crime de homicídio, em face do tempo normal apuração
e processo deste último, certamente a punibilidade daquele seria fatalmente atingida pela prescrição.
Como já apontado na introdução, o que se busca no JECRIM é alcançar a efetiva punição de delitos que
antes eram alcançados pela prescrição, ampliando as sanções “sobre a população de infratores que antes não recebia
punição efetiva”9. Nesta perspectiva, por exemplo, que o Enunciado 27 do Fórum Nacional dos Juizados Especiais
prevê que “em regra não devem ser expedido ofícios para órgãos públicos, objetivando a localização de partes e
testemunhas nos Juizados Criminais”, de modo a primar pela celeridade na consecução do processo.
Alusivamente, a dita celeridade é retratada em muitos dispositivos da Lei n. 9.099/95. A sua implicação
é notória ao longo de seus artigos. Vejamos algumas situações que refletem a isto10:

- art. 64. Os atos processuais serão públicos e poderão realizar-se em horário noturno e em
qualquer dia da semana, conforme dispuserem as normas de organização judiciária;

- art. 65, §2º. A prática de atos processuais em outras comarcas poderá ser solicitada por
qualquer meio hábil de comunicação.

- art. 70. Comparecendo o autor do fato e a vítima, e não sendo possível a realização imediata da
audiência preliminar, será designada data próxima, da qual ambos sairão cientes;

- art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada,
não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de
pena restritiva de direito ou multas, a ser especificada na proposta.

- art. 80. Nenhum ato será adiado, determinando o Juiz, quando imprescindível, à condução
coercitiva de quem deva comparecer.

- art. 81, caput. Aberta a audiência, será dada a palavra ao defensor para responder à acusação,
após o que o Juiz receberá, ou não, a denúncia ou queixa; havendo recebimento, serão ouvidas a
vítima e as testemunhas de acusação e defesa, interrogando-se a seguir o acusado, se presente,
passando-se imediatamente aos debates orais e à prolação da sentença.

- art. 81, §1º. Todas as provas serão produzidas na audiência de instrução e julgamento, podendo
o Juiz limitar ou excluir as que considerarem excessivas, impertinentes ou protelatórias.

8
LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de processo penal. V. II. Niterói, RJ: Impetus, 2012, p. 524.
9
KARAM, Maria Lúcia. Juizados Especiais Criminais: a concreção antecipada do poder de punir. São Paulo: RT, 2004, p.
38.
10
Sob o fundamento do princípio da celeridade, informalidade e economia processual, o extinto Tribunal de Alçada do
Estado de São Paulo julgou na AP n. 1017469: Gravação do ato registrado por escrito. Desnecessidade. Juizado
Especial Criminal. Transação Penal. Gravação do ato já registrado por escrito. Desnecessidade. Afronta aos princípios
da informalidade, economia e celebridade. Ocorrência. – “É o juizado especial criminal presidido pelo princípio da
informalidade, oralidade, economia e celeridade processual (art. 62 da Lei n. 9.099/95). Nos termos do art. 65 da
mencionada Lei as gravações – que poderão existir – voltam-se exclusivamente para a audiência de instrução e
julgamento; inexistente esta, por aceitação da proposta regularmente homologada, desnecessária se revelam as
gravações, que afrontariam o princípio da informalidade, economia e celeridade”.
Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada
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ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 27 – Em regra não devem ser expedidos ofícios para órgãos públicos, objetivando a localização de partes e testemunhas nos Juizados
Criminais.

2.2 PRINCÍPIO DA ECONOMIA PROCESSUAL


9
Em uma perspectiva interna e microscópica da relação jurídica processual, a economia processual é
refletida na ideia de realizar o máximo com o mínimo. Vale dizer, almeja-se alcançar a maior efetividade processual
com a menor quantidade de atos processuais possíveis.
Cuida-se de uma decorrência lógica do princípio da celeridade processual e ligação estreita ao princípio
da instrumentalidade das formas. Com muita didática, Daniel Amorim Assumpção Neves leciona:

Pelo princípio da instrumentalidade das formas, ainda que a formalidade para a prática de ato processual
seja importante em termos de segurança jurídica, visto que garante à parte que a respeita a geração dos
efeitos programados por lei, não é conveniente considerar o ato nulo somente porque praticado em
desconformidade com a forma legal. O essencial é verificar se o desrespeito à forma legal para a prática do
ato afasta-se de sua finalidade, além de verificar se o descompasso entre o ato como foi praticado e como
deveria ser praticado segundo a forma legal causou algum prejuízo. Não havendo prejuízo para a parte
contrária, também ao próprio processo, e percebendo-se que o ato atingiu sua finalidade, é excessivo e
indesejável apego ao formalismo declarar o ato nulo, impedindo a geração dos efeitos jurídico-processuais
programados pela lei. Fundamentalmente, esse aproveitamento do ato viciado, com as exigências descritas,
representa o princípio da instrumentalidade das formas, que naturalmente tem ligação estreita com o
princípio da economia processual11.

Não por outro motivo, que o art. 65 da Lei do Juizado Especial prevê que a interpretação dos atos
processuais deve ser calcada no preenchimento de suas finalidades. Logo, eles devem interpretado no sentido de que
o ato seja considerado válido, independentemente da forma. Com maior razão ainda, semelhantemente ao que se
encontra no Código de Processo Penal12, este mesmo dispositivo assenta expressamente o princípio do pás de nullité
sans grief ao dispor em seu §1º que “não se pronunciará qualquer nulidade sem que tenha havido prejuízo”13. A
contrario sensu, a atipicidade do ato processual só gerará nulidade se causar prejuízo à parte.
Evidentemente, aqui, o exagerado rigorismo formal cede lugar em prol a economia e a celeridade
processual, pensamento contrário insurgiria a criticável ideia de que o meio teria maior importância do que o fim14.
Conforme ensina Guilherme de Souza Nucci, “os atos processuais realizados no contexto dos processos do JECRIM
serão sempre considerados válidos se atingirem as finalidades para as quais idealizados, ainda que, porventura,
possam conter álbum vício ou falha [...]”15.
Essa perspectiva de celeridade e economia processual é reforçada ainda mais quando analisados a luz
dos desdobramentos do princípio da oralidade, como será demonstrado em tópico oportuno.
De toda forma, os princípios da economia processual e da celeridade apresentam a otimização e a
racionalização dos procedimentos. Tais princípios impõem ao magistrado na direção do processo que confira às partes
um máximo de resultado com mínimo de esforço processual com o aproveitamento de todos os atos praticados.

2.2.1 PRESCRIÇÃO VIRTUAL E JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL

11 NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito Processual Civil. 2. Ed. São Paulo: Método, 2011. P. 77.
12 Art. 563, CPP. Nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo para a acusação ou para defesa.
Art. 566, CPP. Não será declarada a nulidade de ato processual que não houver influído na apuração da verdade substancial ou na decisão da causa.
13
HABEAS CORPUS. TENTATIVA DE LESÃO CORPORAL E AMEAÇA NO ÂMBITO DO JUIZADO ESPECIAL. ARGUIÇÃO DE NULIDADES DE ATOS
PROCESSUAIS. INOCORRÊNCIA. PREJUÍZO NÃO DEMONSTRADO. PAS DE NULLITÉ SANS GRIEF. ART. 65 DA LEI 9.099/95. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
NÃO CONFIGURADO. ORDEM DENEGADA. - No âmbito do JECRIM sempre vigora o princípio pas de nullité sans grief, segundo o qual não deve ser
declarada nulidade sem que tenha havido prejuízo, bem como se os atos atingirem as finalidades para as quais foram idealizados. - Ordem
denegada. (TJ-MG - HC: 10000130946312000 MG , Relator: Doorgal Andrada, Data de Julgamento: 12/03/2014, Câmaras Criminais / 4ª CÂMARA
CRIMINAL, Data de Publicação: 18/03/2014);
14
MUCCIO, Hidejalma. CURSO DE PROCESSO PENAL. 2. Ed. São Paulo: MÉTODO, 2011. P. 1080.
15 Leis Penais e Processuais Penais Comentadas, Editora Revista dos Tribunais, 4ª edição, 783 pág. 29

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“O agir de Deus quem impedirá?”
- JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – - ROBERTO OLIVEIRA –
Lei n. 9.099/95

A introdução de um procedimento célere voltado para apurar às infrações penais de menor


complexidade pela Lei n. 9.099/95, dentre os seus diversos objetivos, também está o de repelir a ocorrência da
extinção da punibilidade pela prescrição. Ao impor um rito mais condensado, o legislador visou que as infrações
penais cujo prazo prescricional fosse menor pudessem ser julgadas e, por assim, tivessem a necessária resposta
estatal no exercício do ius puniendi.
Uma análise abstrata dos institutos e da celeridade do Juizado Especial demonstraria que a prescrição
seria algo inocorrente em seus processos. No entanto, em que pese todos os elogios às modificações inseridas por ele,
a prática nos demonstra, comumente, uma situação diversa. 10
Em regra, inexiste uma vara exclusivamente destinada ao processamento e julgamento das infrações
penais de menor potencial ofensivo e acúmulo inevitável de serviço impede uma resolução rápida do litígio muitas
vezes ocasionando o reconhecimento do decurso do prazo prescricional e a consequente extinção da punibilidade. A
nosso ver, trata-se de um reconhecimento da falha estrutural – e não procedimental – que reflete na ineficácia da
atuação estatal na reprimenda de tais infrações.
Há situações em que, não obstante não tenha transcorrido o prazo prescricional, os juízes reconhecem a
extinção da punibilidade a partir de uma perspectiva da possível pena a ser aplicada ao agente. Insofismável que, em
cede de infrações penais de menor potencial ofensivo, o prazo prescricional será de quatro anos no máximo, o que
cotejado a outros delitos cuida-se um período curto.
Esta antecipação dos efeitos da prescrição é o que a doutrina convencionou em chamar de prescrição
virtual, como nas demais modalidades, o seu reconhecimento gera a extinção da pretensão punitiva estatal16. Por isto
que, aliás, tal modalidade de prescrição também ser conhecido como prescrição em perspectiva, prescrição da pena
em perspectiva ou, ainda, prescrição da pena hipotética ou por prognose. Na verdade, cuida-se de uma criação
jurisprudencial, sem amparo legal, cuja finalidade é o reconhecimento antecipado da prescrição retroativa.
Em apertada síntese, nela o magistrado simula a pior sanção possível para o réu se condenado fosse ao
final da instrução criminal tendo por base os aspectos objetivos e subjetivos do crime. Alcançada esta pena hipotética,
o juiz faz o seu cotejo aos prazos do art. 109 do Código Penal e, com ele, afere-se este lapso temporal já ocorreu
dentre as causas interruptivas (CP, art. 117), o que uma vez ocorrida ter-se-á uma prescrição virtual.
Para sustentar esta modalidade prescrição, dois fundamentos são considerados: i) ausência de interesse
de agir e ii) economia processual. O primeiro está relacionado à condição da ação e, o segundo, a própria utilidade do
processo. Ambos os fundamentos se entrelaçam e decorrem não de uma análise incisiva ao juizado especial criminal,
mas teoria geral do processo.
Aos que aderem à prescrição virtual, partem, em suma, questionam-se a utilidade da relação jurídica
processual para o fim pretendido. Ora, seria útil movimentar a máquina judiciária para que, ao final, seja reconhecida
a prescrição retroativa a partir de uma pena que possivelmente será aplicada ao réu em caso de condenação. A luz
desta percepção chegaria à ausência de interesse de agir e, por conseguinte, a desnecessidade de desdobrar atos
processuais para que o inevitável seja reconhecido, aqui, a economia.
A nossos olhos, se por um lado reconhece-se a economia processual, especificadamente ao Juizado
Especial17, por outro, revela-se que o distanciamento entre o “quisto e o visto”. O reconhecimento desta modalidade
de prescrição no JECRIM só demonstra a inoperância prática das elogiáveis modificações inseridas com a Lei n.
9.099/95 (o visto), marcadamente uma dificuldade estrutural e humana dar efetiva e célere aplicação (o quisto).
De toda forma, seja em qualquer modalidade de prescrição no âmbito do Juizado Especial Criminal
representa o descompasso com um dos objetivos que calcaram a sua criação: repelir a ocorrência da prescrição das
infrações de menor complexidade.
Se isto não ocorre, evidentemente há uma falha, bastante sentida pela sensação de impunidade
reclamada pela sociedade. As falhas estruturais e de funcionalização dos Juizados permitem que resultados
ineficientes sejam invocados como soluções práticas para aos inúmeros processos que abarrotam os cartórios.
A prescrição virtual, de fato, é uma solução prática da relação processual. A grande celeuma, no
entanto, é desconsiderar que os efeitos da conduta criminosa transcendem a relação jurídica processual e atingem,
em maior ou menor intensidade, o tecido social, que clama por respostas que alinhem a natureza retributiva e
preventiva da pena. Em um cenário ótimo para autor, porém nada eficaz para vítima, novamente ofendida pela
inoperância estatal.

16
MACHADO, Fábio Guedes de Paula. Prescrição penal: prescrição funcionalista. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2000, p.201.
17
Preferimos nos limitar ao Juizado Especial Criminal para não perder de vista o objeto de estudo deste material. No
entanto, com as vênias necessárias, qualquer prejuízo que este entendimento também seja expandido para além do
JECRIM.
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Lei n. 9.099/95

É preciso levar a sério o Juizado Especial Criminal, porquanto instrumento do Direito Penal. Isto impõe
uma atuação de todos os atores que se preste a observar a efetiva concretização da celeridade e a economia
processual, notadamente a fim de buscar a solução dos conflitos apresentados, seja mediante a rápida aplicação das
medidas despenalizantes (reforçando a justiça consensual) ou na condução do processo até a incidência da pena ou
da absolvição.
O que de fato não se pode concordar é com a leniência e o descompromisso na aplicação íntegra dos
objetivos tão caros da Lei n. 9.099/95, por vezes em razão de manter-se a crença que as infrações penais de menor
potencial ofensivo não representam grande repercussão social. 11
Na verdade, a ausência do Estado nos principais setores da sociedade é um dos fatores que ensejam no
aumento da criminalidade, com incluí inoperância da tutela da jurisdicional, basta lembrar a famigerada teoria das
janelas quebradas, pela qual, em essência, prega que a desordem gera desordem.
Por tudo isto, a nossa crítica em entender que não seja a prescrição em pena hipotética a melhor
escolha, muito embora os fundamentos que a sustentam sejam bastantes atrativos a relação jurídica processual e
estrutural da máquina judiciária.
Bastante a estes argumentos, a prescrição virtual fere o princípio da não culpabilidade (ou presunção
inocência). Isso porque, como Cezar Roberto Bitencourt ensina18, não há suporte jurídico para o reconhecimento
antecipado da prescrição da pretensão retroativa, como está começando a apregoar, com base numa pena hipotética.
Ademais, o réu tem direito a receber uma decisão de mérito, onde esperava ver reconhecida a sua inocência. Decretar
a prescrição retroativa, com base em uma hipotética pena concretizada, encerra uma presunção de condenação,
consequentemente de culpa, violando o princípio constitucional da presunção de inocência (art. 5º, LVII, da CF).
Com efeito, a fixação de pena ideal, virtual, para consubstanciar a prescrição da pretensão punitiva,
dissona flagrantemente a não culpabilidade do acusado. Em outros termos, antecipar atribuição de pena, levando-se
em conta, inclusive, as circunstâncias judiciais, as causas agravantes/atenuantes e, até mesmo, as causas de
aumento/diminuição, supre senão as regulares fases do processo, garantia do devido processo legal, ampla defesa e
do contraditório, em desprestígio manifesto a não culpabilidade presumida.
Ainda, suprir a eventual absolvição pela extinção da punibilidade em face de uma pena virtualmente
construída, antes mesmo da dilação probatória, é atingir diretamente o princípio da individualização da pena, vez que
olvidado, constrói-se, na prescrição virtual, uma idealização pena que, ademais, ao final, sequer poderia existir.
Sobre o tema, o Superior Tribunal de Justiça fixou entendimento no enunciado sumular n. 438 ao
prever que “é inadmissível a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva com fundamento em pena
hipotética, independentemente da existência ou sorte do processo penal”19.
Malgrado todo exposto, o enunciado n. 75 do Fórum Nacional do Juizados Especiais dispõe pela
possibilidade da prescrição virtual no juizado especial criminal a luz do caso concreto.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 75 – É possível o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva do Estado pela projeção da pena
a ser aplicada ao caso concreto (XVII Encontro – Curitiba/PR).

2.3 PRINCÍPIO DA SIMPLICIDADE

Visa diminuir ao máximo a massa de materiais juntados aos autos do processo. A título de aplicação
deste princípio, a doutrina coloca a substituição do exame de corpo de delito para os crimes não transeuntes, cuja
materialidade poderá ser demonstrada por meio de Boletim Médico ou prova equivalente (art. 77, §1º, da Lei n.

18
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral; 20. Ed. São Paulo: Saraiva, 2014.
19
Em igual sentido, o Supremo Tribunal Federal: Habeas corpus. 2. Redução à condição análoga à de escravo – CP 149,
caput e § 2o., I. 3. Alegações de falta de justa causa e reconhecimento da prescrição antecipada. Não ocorrência e
inadmissibilidade. 4. Satisfeitos os requisitos do CPP 41 e não comprovadas, de plano, atipicidade, incidência de causa
extintiva de punibilidade ou ausência de indícios de autoria e materialidade, inviável trancar-se a ação penal.
Inadmissível a prescrição punitiva em perspectiva, projetada, virtual ou antecipada à míngua de previsão legal.
Jurisprudência reafirmada no RE 602.527/RS. 5. Precedentes. 6. Ordem denegada.(STF, HC 102439, Relator(a): Min.
GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em 11/12/2012, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-028 DIVULG 08-02-2013
PUBLIC 13-02-2013).

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Lei n. 9.099/95

9.099/95), diferentemente do que prevê o art. 158 do Código de Processo Penal. Esta previsão, aliás, para a doutrina
majoritária não se aplica somente para o oferecimento da denuncia podendo também ser prova da materialidade
para eventual condenação.

2.4 PRINCÍPIO DA INFORMALIDADE


12
O rigorismo da formalidade dos atos processuais é dispensado, desde que finalidade do ato seja atingida,
como estreita relação com o Princípio da Instrumentalidade das Formas. Em que pese à tipicidade do ato processual,
uma vez atingida a sua finalidade e não tem acarretado nenhum prejuízo a uma das partes o ato deve ser considerado
valido, pois atingiu a seu fim (Art. 65 da Lei 9.099/95).

2.5 PRINCÍPIO DA ORALIDADE

Para este princípio a palavra falada deve ser sobreposta a escrita, sem que esta seja excluída, o essencial
deve ser reduzido a termo ou transcritas por qualquer outro termo. Em decorrência deste princípio a doutrina
apresenta outros subprincípios, quais sejam:

i) Princípio da Concentração: os atos processuais devem ser reunidos ou concentrados o


quanto possível. Por isso a necessidade de uma audiência de instrução una (Art. 81 da Lei
9.099/95).

ii) Princípio da Imediatidade: o juiz deve colhe as provas diretamente, em contato com as
partes.

iii) Princípio da Identidade Física do Juiz: o magistrado que presidiu a instrução será aquele
que também proferirá a sentença.
Esse princípio, no entanto, não impede a expedição de cartas precatórias para oitiva de
testemunhas ou vídeo conferência não viola este princípio (STJ, CC n. 99.023/PR). Em sede de
juizado especial, aliás, o enunciado 17 do FONAJE prevê a possibilidade de sua expedição.
No entanto, o mesmo não ocorrerá em relação à carta rogatória. Neste caso, o juiz caso
entenda imprescindível deverá remeter os autos para a justiça comum com fundamento no Art.
77, §2º da Lei 9.099/95.

iv) Princípio da Irrecorribilidade das Decisões Interlocutórias: considerando a celeridade


exigida no procedimento sumaríssimo, a decisões que resolvem questões incidentais ao longo
do processo são irrecorríveis, sem prejuízo do uso das ações autônomas de impugnação.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 17 – É cabível, quando necessário, interrogatório por carta precatória, por não ferir os princípios que
regem a Lei 9.099/95 (nova redação – XXI Encontro – Vitória/ES).

3. COMPETÊNCIA DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS

3.1 FIXAÇÃO DA COMPETÊNCIA: critérios norteadores

A competência do JECRIM é fixada a partir de três parâmetros: i) natureza da infração penal; ii) local da
prática da Infração penal e iii) inexistência de Circunstância modificativa da competência do JECRIM.

A) NATUREZA DA INFRAÇÃO PENAL

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Lei n. 9.099/95

Em decorrência da premissa constitucional prevista no art. 98, inc. I, da Constituição Federal, o JECRIM
tem competência para processar e julgar as infrações penais de menor potencial ofensivo. Coube a o legislador
infraconstitucional definir o que são tais infrações.
O art. 60 da Lei n. 9.099/95 aponta que as infrações penais de menor potencial ofensivo são TODAS as
CONTRAVENÇÕES PENAIS e os CRIMES cuja pena máxima cominada em abstrata sejam IGUAL ou INFERIOR a 2 anos,
cumulada ou não com multa.
Sobre a natureza da competência dos Juizados Especiais Criminais, o Superior Tribunal de Justiça já
assentou entendimento de que a mesma é de natureza absoluta, uma vez que fixada em razão da matéria, pelo qual é 13
indisponível, improrrogável e imodificável, impondo-se com força cogente ao juiz (RHC 45.135/SP, Rel. Ministro JORGE
MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 05/06/2014, DJe 12/06/2014).
Por ter assento constitucional, a competência do Juizado Especial Criminal prevalece, inclusive, em
relação às infrações penais que são processadas mediante um procedimento especial. Por isto, só é utilizado o
procedimento especial na impossibilidade de manter-se a competência do JECRIM20.
Outra questão que merece destaque, é a fixação da competência quando da ocorrência de uma das
hipóteses de concursos de crimes, isto é, de concurso material (CP, art. 69), concurso formal (CP, art. 70) e crime
continuado (CP, art. 71).
Nestas hipóteses, prevalece o entendimento que a competência do JECRIM será fixada levando-se em
conta o somatório ou a exasperação para fixação da competência, tudo isto a partir da pena em abstrato21. Assim,
havendo, em tese, a existência de causa de aumento e diminuição da pena, leva-se em consideração o quantum que
mais aumente (sempre o máximo), já havendo causa de diminuição, utiliza-se o que menos diminui (para sempre
manter o máximo).
Havendo a incidência em tese de alguma atenuante ou agravante, mesmo que genérica, elas não serão
consideradas para a fixação da competência, pois não há um parâmetro legal para sua fixação.
Muito embora seja esse o entendimento majoritário na doutrina, no entanto, no XXIX Encontro do
Fórum Nacional dos Juizados Especiais fixou-se no enunciado n. 120 o entendimento de que o concurso de infrações
de menor potencial ofensivo não afasta a competência do Juizado Especial Criminal, ainda que o somatório das penas,
em abstrato, ultrapasse dois anos.

20
RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. ADVOCACIA ADMINISTRATIVA (ARTIGO 321 DO CÓDIGO PENAL).
MODIFICAÇÃO DO RITO PROCEDIMENTAL. ADOÇÃO DA LEI 9.099/1995. COMPETÊNCIA ABSOLUTA DOS JUIZADOS
ESPECIAIS. DESNECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DO PROCEDIMENTO PREVISTO NOS ARTIGOS 513 A 518 DO CÓDIGO
DE PROCESSO PENAL. AÇÃO PENAL PRECEDIDA DE INQUÉRITO. INCIDÊNCIA DO ENUNCIADO 330 DA SÚMULA DESTE
SODALÍCIO. EXAME DAS ALEGAÇÕES DA DEFESA ANTES DO RECEBIMENTO DA DENÚNCIA. CONSTRANGIMENTO
ILEGAL INEXISTENTE. DESPROVIMENTO DO RECLAMO. 1. A competência dos Juizados Especiais é absoluta, uma vez
que fixada em razão da matéria, motivo pelo qual é indisponível, improrrogável e imodificável, impondo-se com força
cogente ao juiz. 2. No caso dos autos, não houve ilegalidade na modificação do rito procedimental, afastando-se as
disposições dos artigos 513 a 518 da Lei Penal Adjetiva e adotando-se as constantes da Lei 9.099/95, já que este
último diploma legal, por prever hipótese de competência absoluta, prevalece sobre as regras para o processo e
julgamento dos crimes de responsabilidade dos funcionários públicos. 3. Ainda que assim não fosse, consolidou-se
neste Tribunal Superior o entendimento de que a notificação do servidor público, nos termos do artigo 514 do Código
de Processo Penal, não é necessária quando a ação penal foi precedida de inquérito policial, exatamente como na
espécie. 4. Recurso improvido. (RHC 45.135/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 05/06/2014,
DJe 12/06/2014).

21
HABEAS CORPUS PREVENTIVO. INJÚRIA, CALÚNIA E DIFAMAÇÃO. CONCURSO DE CRIMES. COMPETÊNCIA DEFINIDA
PELA SOMA DAS PENAS MÁXIMAS COMINADAS AOS DELITOS. JURISPRUDÊNCIA DESTE STJ. PENAS SUPERIORES A 2
ANOS. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. PARECER DO MPF PELA CONCESSÃO DA ORDEM. ORDEM CONCEDIDA
PARA DECLARAR A COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL PARA O PROCESSAMENTO E JULGAMENTO DA CAUSA.1. É
pacífica a jurisprudência desta Corte de que, no caso de concurso de crimes, a pena considerada para fins de fixação
da competência do Juizado Especial Criminal será o resultado da soma, no caso de concurso material, ou a
exasperação, na hipótese de concurso formal ou crime continuado, das penas máximas cominadas aos delitos;
destarte, se desse somatório resultar um apenamento superior a 02 (dois) anos, fica afastada a competência do
Juizado Especial. 2. No caso dos autos imputa-se ao paciente a prática de crimes de calúnia, injúria e difamação cuja
soma das penas ultrapassa o limite apto a determinar a competência do Juizado Especial Criminal. 3. Parecer do MPF
pela concessão da ordem. 4. Ordem concedida.(HC 143.500/PE, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO,
QUINTA TURMA, julgado em 31/05/2011, DJe 27/06/2011)
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Lei n. 9.099/95

Por fim, por estarem relacionadas a natureza da infração penal, é necessário fazer algumas sintéticas
observações, que, certamente, não exaurem o estudo aprofundado dos temas a seguir expostos:

i) OBSERVAÇÃO 1: O Supremo Tribunal Federal na ADIN n. 3.096 promoveu interpretação conforme à


Constituição Federal do art. 94 do Estatuto do Idoso para reconhecer apenas a possibilidade do
rito sumaríssimo nas infrações penais previstas neste estatuto cuja pena seja igual ou inferior a
QUATRO anos, afastando, no entanto, os institutos despenalizadores da Lei n. 9.099/95;
Neste específico, é importante apontar o Enunciado 122 (XXXIII Encontro – Cuiabá/MT) do 14
Fórum Nacional dos Juizados Especiais no sentido de que “o processamento de medidas
despenalizadoras previstas no art. 94 da Lei 10.741/03, relativamente aos crimes cuja pena
máxima não supere 02 anos, compete ao Juizado Especial Criminal”.

ii) OBSERVAÇÃO 2: Aos de detentores de foro por prerrogativa de função também poderão ser
oferecidos os institutos despensalizadores da Lei n. 9.099/95, desde que preenchidos dos
requisitos (STF, Inq. n. 1.055 QO/AM);

iii) OBSERVAÇÃO 3: O Supremo Tribunal Federal, na ADC n. 19 e na ADIN n. 4424, reconheceu a


constitucionalidade do art. 41 da Lei n. 11.340/06, para afastar por completo todos a aplicação
da Lei n. 9.099/95 em relação as infrações penais de menor potencial ofensivo praticados em
violência doméstica contra mulher, inclusive quanto a incidência do art. 88 da Lei dos Juizados
Especiais. Ademais, não obstante a interpretação literal do art. 41 da Lei n. 11.340 mencionar
apensar a expressão crime, prevalece na jurisprudência o alcança de tal vedação também às
contravenções penais22.

iv) OBSERVAÇÃO 4: Não obstante a previsão do art. 90-A da Lei n. 9.099/95, o Supremo Tribunal
Federal, no HC n. 99.743/RJ, acenou pela possibilidade dos institutos despenalizadores da Lei n.
9.099/95 aos crimes militares cometidos por civis (crimes militares impróprios).
Vale ressaltar, a luz da Súmula 172 do Superior Tribunal de Justiça, os crimes previstos como
abuso de autoridade (Lei n. 4.898/65), é de competência da Justiça Comum, não havendo
qualquer impedimento que seu julgamento seja promovido pelo Juizado Especial Criminal, uma
vez que sendo de sua competência.

B) LOCAL DA INFRAÇÃO PENAL

Ao lado da competência material do Juizado Especial Criminal em processar as infrações penais de


menor potencial ofensivo, a Lei n. 9.099/95 também apresentou a sua competência territorial. Conforme aponta o art.
63 da referida lei, “a competência do Juizado será determinada pelo lugar em que foi praticada a infração penal”.
Distintamente do que aponta o Código de Processo Penal que adota a teoria do resultado, a priori, é
possível vislumbrar que a competência do JECRIM é fixada a partir da teoria da atividade23.
Apesar da clareza do dispositivo, a doutrina diverge sobre o tema. Para Ada Pellegrini Grinover, Luiz
Flávio Gomes e Antônio Scarance, por exemplo, a competência territorial do Juizado Especial Criminal leva em
consideração o lugar em que tenha ocorrido a conduta, em razão da palavra “praticada”. Já Guilherme de Souza
Nucci, a previsão legal deve ser lida a luz da teoria mista ou da ubiquidade, conquanto seja de sua competência tanto
o lugar da ação ou omissão, quanto o do resultado.

22
STJ, HC 280.788/RS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 03/04/2014, DJe 22/04/2014.
23
Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de
tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução. § 1o Se, iniciada a execução no território
nacional, a infração se consumar fora dele, a competência será determinada pelo lugar em que tiver sido praticado, no
Brasil, o último ato de execução. § 2o Quando o último ato de execução for praticado fora do território nacional, será
competente o juiz do lugar em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu resultado.
§ 3o Quando incerto o limite territorial entre duas ou mais jurisdições, ou quando incerta a jurisdição por ter sido a
infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições, a competência firmar-se-á pela prevenção.

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Lei n. 9.099/95

Para nós, parece-nos correto essa última corrente, haja vista que o art. 6º do Código Penal aponta ser o
lugar do crime¸ o local onde ocorreu a ação ou omissão no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria
produzir-se o resultado.

C) INEXISTÊNCIA DE CIRCUNSTÂNCIA DE MODIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIA DO JECRIM

Inexistindo qualquer das circunstâncias que determinam a modificação da competência do JECRIM, a


15
infração penal será processada e julgada nos ditames da Lei n. 9.099/95. A contrariu sensu, existindo uma de destas
circunstâncias não subsistirá a competência.
A Lei dos Juizados Especiais Criminais apresenta três circunstâncias modificativas da competência: i)
impossibilidade de citação pessoal do acusado; ii) complexidade da causa; iii) hipótese de conexão e continência.
Vejamos cada uma delas.

i) Impossibilidade de citação pessoal do acusado – (parágrafo único, art. 66)

A luz do art. 66 da Lei n. 9.099/95, a citação no JECRIM será exclusivamente pessoal, podendo
ser feita no próprio juizado, quando possível, ou por mandado. Apesar disto, o Enunciado 110
do Fórum Nacional dos Juizados Especiais Criminais (XXV Encontro – São Luís/MA), também
será possível a realização da citação com hora certa24.
Com efeito, não encontrado o acusado para ser citado, o Juiz encaminhará as peças existentes
ao Juízo comum para adoção do procedimento previsto em lei (parágrafo único, art. 66, da Lei
n. 9.099/95). Aqui inevitável à conclusão de que NÃO HÁ CITAÇÃO POR EDITAL NO JUIZADO
ESPECIAL CRIMINAL.
Com a remessa ao juízo comum, a competência do JECRIM é exaurida, e não se restabelecerá
com a localização do acusado (ENUNCIADO 51/FONAJE). Ademais, encaminhado os autos ao
juízo comum não se seguirá mais o rito sumaríssimo, mas sim o procedimento sumário (CPP,
art. 538).

ii) Complexidade da causa – (§2º, art. 77);

Como já sabido, o Juizado Especial Criminal foi criado para processar e julgar a infrações penais
de menor complexidade. Análises complexas em que exigem uma elástica dilação probatória
não coadunam com esta realidade.
Atento a isto, o §2º do art. 77 dispõe que, em face situações fáticas que apresentem maior
complexidade ou, ainda, que as circunstâncias do caso, não permitirem a formulação da peça
acusatória pelo Ministério Público, este poderá requerer ao Juiz o encaminhamento das peças
ao juiz comum. Com a remessa dos autos, a competência do JECRIM estará exaurida e não será
restabelecida ainda que a complexidade seja afastada (ENUNCIADO 52/FONAJE).

iii) Hipótese de conexão e continência – (parágrafo único, art. 60);

Não obstante a competência material do Juizado Especial Criminal, o legislador


faz a ressalva quanto à conexão e a continência. Assim, havendo conexão ou
continência entre uma infração penal de competência do JECRIM e outra do
juízo comum, a competência deste prevalecerá (ENUNCIADO 10/FONAJE).
Malgrado a modificação da competência em razão de tais circunstâncias
modificativas, a reunião de processos perante o juízo comum ou o tribunal do

24
A despeito da possibilidade da citação por hora certa, o Supremo Tribunal Federal, no RE 635145, reconheceu
repercussão geral a controvérsia acerca da constitucionalidade, ou não, da citação por hora certa, prevista no art. 362
do Código de Processo Penal. Até o fechamento deste material, o mérito do referido recurso ainda não tinha sido
analisado, razão pela qual recomendamos o leitor o acompanhamento do julgamento.
Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada
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Lei n. 9.099/95

júri, deverá ser observado os institutos da transação penal e da composição dos


danos civis.
Sobre o tema, comungamos com o pensamento de Guilherme de Souza Nucci,
que aduz que incidindo uma das hipóteses de conexão e continência deverá
ocorrer a separação obrigatória dos processos, tendo em vista que a
competência do JECRIM é fixada pelo próprio texto constitucional, sendo ela,
portanto, absoluta (CF, art. 98, I) e, consequentemente, inderrogável ou 16

suscetível de modificação. Ademais, a modificação da competência pela


conexão e pela continência são fenômenos processuais exclusivos da
competência relativa e não da competência absoluta.
Todavia, prevalece o entendimento da constitucionalidade, vez que haverá
força juízo comum em relação a infração de menor potencial ofensivo, já que
quanto a este deve ser garantido a transação e a composição civil (Lei n.
9.099/95, art. 60, parágrafo único).

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 10 – Havendo conexão entre crimes da competência do Juizado Especial e do Juízo Penal Comum,
prevalece a competência deste.

ENUNCIADO 51 – A remessa dos autos ao juízo comum, na hipótese do art. 66, parágrafo único, da Lei 9.099/95
(ENUNCIADO 64), exaure a competência do Juizado Especial Criminal, que não se restabelecerá com localização do
acusado (nova redação – XXI Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 52 – A remessa dos autos ao juízo comum, na hipótese do art. 77, parágrafo 2º, da Lei 9099/95
(ENUNCIADO 18), exaure a competência do Juizado Especial Criminal, que não se restabelecerá ainda que afastada a
complexidade.

ENUNCIADO 54 – O processamento de medidas despenalizadoras, aplicáveis ao crime previsto no art. 306 da Lei nº
9503/97, por força do parágrafo único do art. 291 da mesma Lei, não compete ao Juizado Especial Criminal.

ENUNCIADO 60 – Exceção da verdade e questões incidentais não afastam a competência dos Juizados Especiais, se a
hipótese não for complexa (XIII Encontro – Campo Grande/MS).

ENUNCIADO 64 – Verificada a impossibilidade de citação pessoal, ainda que a certidão do Oficial de Justiça seja
anterior à denúncia, os autos serão remetidos ao juízo comum após o oferecimento desta (nova redação – XXI
Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 67 – A possibilidade de aplicação de suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação


para dirigir veículos automotores por até cinco anos (art. 293 da Lei nº 9.503/97), perda do cargo, inabilitação para
exercício de cargo, função pública ou mandato eletivo ou outra sanção diversa da privação da liberdade, não afasta a
competência do Juizado Especial Criminal (XV Encontro – Florianópolis/SC).

ENUNCIADO 93 – É cabível a expedição de precatória para citação, apresentação de defesa preliminar e proposta de
suspensão do processo no juízo deprecado. Aceitas as condições, o juízo deprecado comunicará ao deprecante o
qual, recebendo a denúncia, deferirá a suspensão, a ser cumprida no juízo deprecado (XXI Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 110 – No Juizado Especial Criminal é cabível a citação com hora certa (XXV Encontro – São Luís/MA).

ENUNCIADO 120 – O concurso de infrações de menor potencial ofensivo não afasta a competência do Juizado
Especial Criminal, ainda que o somatório das penas, em abstrato, ultrapasse dois anos (XXIX Encontro – Bonito/MS).

ENUNCIADO 122 (Substitui o Enunciado 61) – O processamento de medidas despenalizadoras previstas no artigo 94

Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada


“O agir de Deus quem impedirá?”
- JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – - ROBERTO OLIVEIRA –
Lei n. 9.099/95

da Lei 10.741/03, relativamente aos crimes cuja pena máxima não supere 02 anos, compete ao Juizado Especial
Criminal (XXXIII Encontro – Cuiabá/MT).

4. TERMO CIRCUNSTANCIADO DE OCORRÊNCIA (TCO)


17
4.1 CONCEITO E FINALIDADE

A Lei n. 9.099/95 não previu a instauração de inquérito policial para a apuração das infrações penais de
menor potencial ofensivo. Ao tomar o conhecimento do cometimento de uma destas infrações, o art. 69, prevê que
seja lavrado o termo circunstanciado pela autoridade policial, para que o mesmo seja encaminhado imediatamente
ao Juizado, juntamente com o autor do fato e a vítima, providenciando as requisições dos exames pericias
necessários.
Renato Brasileiro de Lima define o Termo Circunstanciado como um “relatório sumário da infração de
menor potencial ofensivo, contendo a identificação das partes envolvidas, a menção à infração praticada, bem como
todos os dados básicos e fundamentais que possibilitem a perfeita individualização dos fatos, a indicação das provas,
com o rol de testemunhas, quando houver, e, se possível, um croqui, na hipótese de acidente de trânsito, visando à
formação da opinio delicti pelo titular da ação penal”25.
Em nossa concepção, o termo circunstanciado, comumente chamado de TCO (Termo Circunstanciado de
Ocorrência), é um procedimento administrativo simplificado, realizado pela autoridade policial com a finalidade de
angariar elementos informativos mínimos (fumus commisse delicti – justa causa) para que o titular da ação penal
proponha eventual peça acusatória ou aplique as medidas despenalizadoras às infrações penais de menor potencial
ofensivo, e, caso seja, promova o arquivamento26.

4.2 AUTORIDADE POLICIAL: limites da expressão

Discute-se a abrangência do termo autoridade policial para definir quem possui atribuição para a
lavratura do termo circunstanciado de ocorrência.
Evidentemente, a expressão afasta a possibilidade de o particular elaborá-lo. Todavia, não haverá
qualquer prejuízo que ele colha elementos de informações suficientes ao ponto que, assim como no inquérito policial,
a instauração do termo circunstanciado de ocorrência seja dispensado, uma vez presente elementos suficientes (justa
causa) para a deflagração da ação penal pelo seu titular. Destaca-se que a conditio sine qua non mínima para
movimentação da máquina judiciária é a justa causa e não a existência de procedimento investigativo, que são
dispensáveis.
O que se busca, de fato, é delimitar o que se entende por autoridade policial, ou seja, definir a sua
dimensão. Então, autoridade policial é somente o Delegado de Policia ou pode, por exemplo, ser lavrado pela Polícia
Militar, por exemplo?
O Supremo Tribunal Federal, na ADI n. 3614/PR27, analisou um Decreto do poder executivo paranaense
que atribuía aos subtenentes ou sargentos combatentes o atendimento nas delegacias de polícia. Dentre outras

25
LIMA. Renato Brasileiro de. Legislação Criminal Especial Comentada. 2º Ed. Editora JusPODVIM, 2014, p. 213.
26
Pode se entender por Fumus Commissi Delicti a comprovação da existência de um crime e indícios suficientes de autoria. É
a fumaça da prática de um fato punível. A prova, no limiar da ação penal, pode ser entendida como grande aproximação à
probabilidade da ocorrência do delito, ela não precisa ser exaustiva. Quanto à autoria são suficientes indícios para a presença
de tal instituto. A existência do crime requer elementos mais concretos para sua afirmação, enquanto a autoria trabalha com
a suficiência de indícios.
27
CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. DECRETO N. 1.557/2003 DO ESTADO DO PARANÁ, QUE ATRIBUI A
SUBTENENTES OU SARGENTOS COMBATENTES O ATENDIMENTO NAS DELEGACIAS DE POLÍCIA, NOS MUNICÍPIOS QUE
NÃO DISPÕEM DE SERVIDOR DE CARREIRA PARA O DESEMPENHO DAS FUNÇÕES DE DELEGADO DE POLÍCIA. DESVIO
DE FUNÇÃO. OFENSA AO ART. 144, CAPUT, INC. IV E V E §§ 4º E 5º, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. AÇÃO DIRETA
JULGADA PROCEDENTE. (ADI 3614, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Relator(a) p/ Acórdão: Min. CÁRMEN LÚCIA,
Tribunal Pleno, julgado em 20/09/2007, DJe-147 DIVULG 22-11-2007 PUBLIC 23-11-2007 DJ 23-11-2007 PP-00020
EMENT VOL-02300-02 PP-00229 RTJ VOL-00204-02 PP-00682).
Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada
“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

atribuições, o referido ato atribuía a estes membros da polícia militar a obrigação de elaboração de termo
circunstanciado de ocorrência a ser encaminhada a Delegacia de Polícia na sede comarca.
Na oportunidade, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, ora requerente argumentou
que a, teor do art. 144, §4º, da Constituição Federal, dentre as funções exclusivas da Polícia Civil, porquanto a polícia
judiciária, a apuração de infrações penais, que inclusive exigem formação jurídica para adequado desempenho
(discernimento sobre a tipicidade). Por isto, policiais militares estariam impedidos de lavrarem termos
circunstanciados, já que se trata de atos tendentes a definir a prática de crimes, atribuição da polícia judiciária e não
dá militar. 18
No voto – do qual é muito válida a leitura –, em razão da imputação formal e em face da necessária
adequação típica da conduta, a leitura do §4º do art. 144 demonstra que a função de polícia judiciária deve ser
exercida pela polícia civil ou, quando seja, pela polícia federal. Essa atribuição, porém, não foi conferida à polícia
militar, e caso assim fosse, o legislador infraconstitucional estaria lhe atribuindo poderes próprios de polícia
judiciária28.
Por isto, a Corte se posicionar no sentido de que a lavratura do termo circunstanciado de ocorrência é
atribuição exclusiva da autoridade da polícia judiciária, qual seja, o Delegado de Polícia, haja vista que se trata de
procedimento de caráter investigatório de infração penal. Na doutrina Júlio Fribbrini Mirabete já aquiescia com este
pensamento29.
Vale apontar que, em argumentos de passagem, o Supremo Tribunal Federal novamente reviveu a
matéria na ADI n. 2.862/SP30, muito embora a ação não tenha sido conhecida. Neste julgamento, em essência, infere-
se que alguns dos Ministros trataram o TCO como simples lavratura de documento de registro de ocorrência lavrado
pela polícia militar. No entanto, ambas as situações não se confundem: não obstante ser mais simplificado, o TCO
jamais perde a sua característica de procedimento investigatório de infração penal, cuja atribuição foi conferida
constitucionalmente a polícia judiciária.
Por estes motivos, somos convictos que a lavratura de tais procedimentos está a rogo da Polícia Civil e
da Polícia Federal a depender da situação. Ademais, é oportuno rememorar que a documentação produzida pela
polícia militar, assim como qualquer outro, poderá alicerçar a propositura de eventual ação penal, corroborado pela
própria dispensabilidade do inquérito policial, quiçá, do termo circunstanciado. Isto repisa-se, em argumentação
eminentemente técnica, não se confunde com a possibilidade de policiais militares lavrarem o TCO, sob o prejuízo de
afrontar o texto constitucional.
Em posição minoritária, Renato Brasileiro de Lima sustenta que a leitura do art. 69 da Lei n. 9.099/95
deve visto a luz do princípio da celeridade e da informalidade, para que a expressão autoridade policial seja lida para
abranger a todos os órgãos encarregados pela Constituição Federal pela defesa da segurança pública. Para ele, então,
o TCO poderia ser lavrado pela Polícia Civil, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Ferroviária Federal e as
polícias militares, por exemplo31.
Nesse sentido, aliás, o Enunciado n. 34 do Fórum Nacional dos Juizados Especiais assenta a possibilidade
de lavratura do termo circunstanciado de ocorrência pela polícia civil ou militar, atendida as peculiaridades locais.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS

28
Conforme se extraí do voto do então Ministro Cezar Peluso.
29
MIRABETE, Julio Fabrrini. Juizados Especiais Criminais – comentários, jurisprudência, legislação. 5ª Ed. São Paulo:
Atlas, 2002.
30
EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ATOS NORMATIVOS ESTADUAIS QUE ATRIBUEM À POLÍCIA
MILITAR A POSSIBILIDADE DE ELABORAR TERMOS CIRCUNSTANCIADOS. PROVIMENTO 758/2001, CONSOLIDADO PELO
PROVIMENTO N. 806/2003, DO CONSELHO SUPERIOR DA MAGISTRATURA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO, E
RESOLUÇÃO SSP N. 403/2001, PRORROGADA PELAS RESOLUÇÕES SSP NS. 517/2002, 177/2003, 196/2003, 264/2003 E
292/2003, DA SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO. ATOS NORMATIVOS SECUNDÁRIOS.
AÇÃO NÃO CONHECIDA. 1. Os atos normativos impugnados são secundários e prestam-se a interpretar a norma
contida no art. 69 da Lei n. 9.099/1995: inconstitucionalidade indireta. 2. Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal
pacífica quanto à impossibilidade de se conhecer de ação direta de inconstitucionalidade contra ato normativo
secundário. Precedentes. 3. Ação Direta de Inconstitucionalidade não conhecida.
(ADI 2862, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 26/03/2008, DJe-083 DIVULG 08-05-2008
PUBLIC 09-05-2008 EMENT VOL-02318-01 PP-00020 RTJ VOL-00205-03 PP-01125 LEXSTF v. 30, n. 356, 2008, p. 68-85)
31
LIMA. Renato Brasileiro de. Legislação Criminal Especial Comentada. 2º Ed. Editora JusPODVIM, 2014.

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“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

ENUNCIADO 34 – Atendidas as peculiaridades locais, o termo circunstanciado poderá ser lavrado pela Polícia
Civil ou Militar.

4.3 PRISÃO EM FLAGRANTE

A inteligência do parágrafo único do art. 69 da Lei n. 9.099/95, “ao autor do fato que, após a lavratura
do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá 19
prisão em flagrante, nem se exigirá fiança”.
Com efeito, não obstante a situação de flagrância, a lavratura do auto de prisão em flagrante incorrerá a
depender a conduta do autor dos fatos, assim:

CONDUTA CONSEQUÊNCIA
Imediatamente encaminhado ao JECRIM - Não imporá prisão em flagrante;
OU
Assumir o compromisso de comparecimento de nele - Não se exigirá fiança;
comparecer

Em caso de violência doméstica, o mesmo dispositivo prevê a possibilidade de o juiz determinar o


afastamento do autor dos fatos do lar ou do local de convivência com a vítima, como medida de cautela.

5. AUDIÊNCIA PRELIMINAR

A fase preliminar do JECRIM consiste na AUDIÊNCIA PRELIMINAR. Esta audiência precede ao


procedimento sumaríssimo, cuja deflagração dependerá no que nela for decidido.
O objetivo desta é fase é uma eventual conciliação entre o autor do fato e a vítima no âmbito penal. Por
esta razão, além da presença do juiz, também estarão presentes o membro do Ministério Público, o autor dos fatos e
a vítima. Conforme prevê o art. 73 da Lei n. 9.099/95, a conciliação será conduzida pelo juiz ou por conciliador sob sua
orientação.
É com esta finalidade que a doutrina aponta a conciliação como gênero, sendo suas espécies a
possibilidade da composição civil dos danos e a transação penal, as quais se passa a análise detalhada.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS

ENUNCIADO 9 – A intimação do autor do fato para a audiência preliminar deve conter a advertência da necessidade
de acompanhamento de advogado e de que, na sua falta, ser-lhe-á nomeado Defensor Público.

ENUNCIADO 70 – O conciliador ou o juiz leigo podem presidir audiências preliminares nos Juizados Especiais
Criminais, propondo conciliação e encaminhamento da proposta de transação (XV Encontro – Florianópolis/SC).

ENUNCIADO 71 (Substitui o Enunciado 47) – A expressão conciliação prevista no artigo 73 da Lei 9099/95 abrange o
acordo civil e a transação penal, podendo a proposta do Ministério Público ser encaminhada pelo conciliador ou pelo
juiz leigo, nos termos do artigo 76, § 3º, da mesma Lei (XV Encontro – Florianópolis/SC).

5.1 COMPOSIÇÃO CIVIL DOS DANOS

A composição civil dos danos busca a reparação dos danos sofridos pela vítima, especialmente, em
relação às infrações que acarretem danos materiais. Por envolver apenas interesses patrimoniais – portanto,
disponíveis -, não há necessidade de intervenção do Ministério Público, salvo houver interesse de incapazes (CPC, art.

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“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

178, II). Obtida a composição dos danos civis, o acordo será reduzido a escrito e homologado pelo juiz mediante
sentença irrecorrível, que terá eficácia de título a ser executado no Juízo Cível competente.
Esta composição poderá ocorrer tanto nas infrações penais que processam mediante ação penal
privada, ação penal pública condicionada à representação e na ação penal pública incondicionada. No entanto, a
depender da ação os efeitos serão distintos, vejamos, esquematicamente:

AÇÃO PENAL CONSEQUÊNCIA


De acordo com o art. 74, p. único, da Lei n. 9.099/95, o acordo homologado acarreta 20
a renúncia ao direito de queixa, com a consequente extinção da punibilidade (art.
107, V, CP). Ademais, por força do princípio da indivisibilidade (art. 48 e 49, CPP), a
AÇÃO PENAL PRIVADA
renúncia ao direito de queixa decorrente da composição civil estende-se a
coautores e partícipes do fato delituoso, ainda que eles não estejam presentes à
audiência preliminar32.
O acordo homologado também acarreta a renúncia ao direito de representação
(parágrafo único do art. 74, Lei n. 9.099/95).
AÇÃO PENAL PÚBLICA
CONDICIONADA À OBS: A despeito do silencia do CP quanto à consequência da renúncia ao direito de
REPRESENTAÇÃO representação, entende a doutrina que deve ser realizada uma interpretação
extensiva do art. 107, V, CP, para também alocá-la como causa extintiva de
punibilidade.
A composição NÃO acarretará a extinção da punibilidade, servindo apenas para
antecipar a certeza acerca do valor da indenização, o que permite, em tese, a
imediata execução no Juízo Cível Competente.

Nestes casos, então, como a eventual composição civil não produzirá a extinção da
punibilidade, o Ministério Público poderá, de imediato, oferecer a transação penal
se preenchidos os requisitos do art. 76 da Lei n. 9.099/95 e, caso seja, a denúncia.

Ademais, como a composição se dá de forma voluntária e visto as peculiaridades do


AÇÃO PENAL
procedimento sumaríssimo (art. 81 da Lei n. 9.099/95), nos crimes em que não
INCONDICIONADA
tenham sido cometidos com violência ou grave ameaça poderá incidir a causa de
diminuição do arrependimento posterior (art. 16, CP).

É válida a advertência de que o não cumprimento do acordo NÃO restituirá à vítima o direito de queixa
ou de representação. Restará, apenas, a execução do título executivo judicial junto ao juízo cível competente.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 37 – O acordo civil de que trata o art. 74 da Lei nº 9.099/1995 poderá versar sobre qualquer valor ou
matéria (nova redação – XXI Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 43 – O acordo em que o objeto for obrigação de fazer ou não fazer deverá conter cláusula penal em
valor certo, para facilitar a execução cível.

ENUNCIADO 74 (Substitui o enunciado 69) – A prescrição e a decadência não impedem a homologação da


composição civil (XVI Encontro – Rio de Janeiro/RJ).

ENUNCIADO 89 (Substitui o Enunciado 36) – Havendo possibilidade de solução de litígio de qualquer valor ou matéria
subjacente à questão penal, o acordo poderá ser reduzido a termo no Juizado Especial Criminal e encaminhado ao
juízo competente (XXI Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 113 (Substitui o Enunciado 35) – Até a prolação da sentença é possível declarar a extinção da

32
Em sentido contrário, Luis Flávio Gomes entende que, no tocante a renúncia compositiva, prevista no art. 74,
parágrafo único, da Lei n. 9.099/95, não se aplica o princípio da indivisibilidade.
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Lei n. 9.099/95

punibilidade do autor do fato pela renúncia expressa da vítima ao direito de representação ou pela conciliação (XXVIII
Encontro – Salvador/BA).

ENUNCIADO 119 – É possível a mediação no âmbito do Juizado Especial Criminal (XXIX Encontro – Bonito/MS).

5.2 OFERECIMENTO DE REPRESENTAÇÃO


21

Conforme o art. 75 da Lei n. 9.099/95, frustrada a composição civil dos danos, nos crimes de ação penal
pública condicionada à representação que exigem manifestação do ofendido, será dada imediatamente ao ofendido a
oportunidade de exercer o direito de representação verbal, que será reduzida a termo.
Discute-se na doutrina se este seria o momento processual adequado e único para representação do
ofendido, sob pena de reconhecer a sua decadência, ainda que ela tenha sido feita perante a autoridade policial.
Com efeito, prevalece que em sede de Juizados Especiais Criminais, há de se considerar válida a
representação da vítima realizada perante a autoridade policial por ocasião da lavratura do termo circunstanciado, já
que não há necessidade formalismo quanto ao implemento dessa condição específica da ação, bastando que fique
evidenciado o interesse da vítima na persecução penal do fato delituoso.
Desta forma, uma vez feita a devida representação perante a autoridade policial, ainda que a vítima não
compareça na audiência preliminar, não haverá qualquer óbice para o Ministério Público oferecer, caso seja, a
transação penal e, imediatamente, a denúncia oral.
Por outro lado, caso a representação não seja oferecida na audiência preliminar, ela poderá ser
realizada em outro momento desde que observado o prazo decadencial, que é fatal e improrrogável (art. 75,
parágrafo único, da Lei n. 9.099/95). Neste caso, necessariamente não havendo representação anterior, o magistrado
deverá suspender a Audiência Preliminar para aguardar o transcurso do prazo decadencial ou posterior manifestação
do ofendido durante o transcurso deste lapso.
Em relação à ação penal privada, a ausência do ofendido ou de seu representante implicará na
necessária suspensão do processo, devendo os autos permanecer em cartório aguar o decurso do prazo decadencial
(CPP, art. 19).

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS

ENUNCIADO 2 – O Ministério Público, oferecida a representação em Juízo, poderá propor diretamente a transação
penal, independentemente do comparecimento da vítima à audiência preliminar (nova redação – XXI Encontro –
Vitória/ES).

ENUNCIADO 25 – O início do prazo para o exercício da representação do ofendido começa a contar do dia do
conhecimento da autoria do fato, observado o disposto no Código de Processo Penal ou legislação específica.
Qualquer manifestação da vítima que denote intenção de representar vale como tal para os fins do art. 88 da Lei
9.099/95.

ENUNCIADO 33 – Aplica-se, por analogia, o artigo 49 do Código de Processo Penal no caso da vítima não representar
contra um dos autores do fato.

ENUNCIADO 117 – A ausência da vítima na audiência, quando intimada ou não localizada, importará renúncia tácita à
representação (XXVIII Encontro – Salvador/BA).

5.3 TRANSAÇÃO PENAL

Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública


incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a
aplicação imediata de pena restritiva direitos ou multas, a ser especificada na proposta.
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Lei n. 9.099/95

A Lei n. 9.099/95 introduziu no sistema penal brasileiro o instituto da transação, que, nos termos do art.
76 e parágrafos, permite seja a persecução penal dispensada pelo magistrado em crime de menor potencial ofensivo,
desde que o suspeito da prática do delito concorde em se submeter, sem qualquer resistência, ao cumprimento de
uma pena restritiva de direito ou multa que lhe tiver sido ofertada por representante do Ministério Público em
audiência.
Conceitualmente, a Transação penal é consiste no acordo celebrado entre o Ministério Público (ou
querelante, nos crimes de ação penal privada) e o autor do fato delituoso, por meio do qual é proposta a aplicação
imediata de pena restritiva de direito ou multas, evitando-se, assim, a instauração do processo. Trata-se de que 22
encontra assento em dois dispositivos constitucionais: o art. 98, inc. I e art. 129, I. No primeiro, autoriza a sua
aplicação nas hipóteses previstas em lei; o segundo, dispõe que o Ministério Público promoverá a ação penal, na
forma da lei. Com efeito, coube a Lei n. 9.009/95 regular a transação penal.
Ao assim dispor, a lei relativizou, de um lado, o princípio da obrigatoriedade da instauração da
persecução penal em crimes de ação penal pública de menor ofensividade, e, de outro, autorizou o investigado a
dispor das garantias processuais que o ordenamento lhe confere. Não por outra razão, que a doutrina aponta a
transação penal como sendo uma mitigação do princípio da obrigatoriedade que rege as ações penais. Neste ponto,
fala-se em princípio da obrigatoriedade mitigada (ou discricionariedade regrada), segundo o qual, não obstante a
presença de indícios de autoria e prova de materialidade da infração, penal, o órgão acusador poderá dispor da ação
penal para oferecer a transação, obviamente, se preenchidos os requisitos do art. 76 da Lei n. 9.099/95.
Por ser tratar de um verdadeiro acordo, as consequências geradas pela transação penal da Lei n.
9.099/95 hão de ser essencialmente aquelas avençadas entre as partes, inclusive a respeito do destino do
“instrumento do crime”. Isso porque, além do que está no acordo, o único efeito acessório gerado pela homologação
deste ato será o previsto ao final do §4º do art. 76 da Lei n. 9.099/95, segundo o qual será “registrada apenas para
impedir novamente o mesmo benefício no prazo de cinco anos”. Os demais efeitos penais e civis decorrentes das
condenações penais não serão constituídos (§6º, do art. 76).
A sanção imposta com o acolhimento da transação penal não decorre de qualquer juízo estatal a
respeito da culpabilidade do investigado, já que é estabelecida antes mesmo do oferecimento de qualquer denúncia,
da produção de qualquer prova e da prolação de qualquer veredicto. Trata-se de ato judicial homologatório,
expedido de modo sumário em obséquio a um interesse público na célere resolução de conflitos sociais de diminuta
lesividade para os bens jurídicos tutelados pelo Estatuto Penal.
Justamente porque a homologação da transação penal prescinde da instauração de um processo
formal de apuração de responsabilidade criminal, não é dado ao juiz, em caso de descumprimento dos termos do
acordo, fazer substituir a medida restritiva de direito consensualmente fixada por uma privativa de liberdade
compulsoriamente aplicada. As consequências jurídicas extrapenais previstas no parágrafo do art. 91 do Código Penal,
dentre as quais a do confisco de instrumentos do crime (art. 91, II, “a”), de seu produto ou de bens adquiridos com o
seu proveito (art. 91, inc. II, “b”), só podem ocorrer como efeito acessório, reflexo ou indireto de uma condenação
penal, nos termos do que consta o caput do dispositivo33.
Por esta razão, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do HC 83598, Rel. Min. Sepúlveda Pertence,
anulou o ato judicial que condicionava a eficácia da transação penal à comprovação da licitude de bens apreendidos
com fundamento no art. 91 do Código Penal. Embora se operem ex lege, as medidas acessórias previstas no art. 91
do Código Penal exigem a formação de um juízo prévio a respeito da culpa do investigado, sem o que haverá
evidente ofensa ao devido processo legal (STF, RE 362047)34.

33 O STJ recentemente decidiu que um candidato aprovado a agente penitenciário federal não poderia ser
eliminado do concurso pelo simples fato de ter celebrado transação penal. Conforme afirmou, corretamente,
o Min. Relator, a transação penal não pode servir de fundamento para a não recomendação de candidato
em concurso público na fase de investigação social, uma vez que não importa em condenação do autor do
fato (art. 76 da Lei n. 9.099/95) (STJ. 2ª Turma. REsp 1302206/MG, Rel. Min. Mauro Campbell Marques,
julgado em 17/09/2013). No mesmo sentido: STF. 1ª Turma. ARE 713138 AgR, Rel. Min. Rosa Weber,
julgado em 20/08/2013).

34
Ementa: CONSTITUCIONAL E PENAL. TRANSAÇÃO PENAL. CUMPRIMENTO DA PENA RESTRITIVA DE DIREITO.
POSTERIOR DETERMINAÇÃO JUDICIAL DE CONFISCO DO BEM APREENDIDO COM BASE NO ART. 91, II, DO CÓDIGO
PENAL. AFRONTA À GARANTIA DO DEVIDO PROCESSO LEGAL CARACTERIZADA. 1. Tese: os efeitos jurídicos previstos
no art. 91 do Código Penal são decorrentes de sentença penal condenatória. Tal não se verifica, portanto, quando
há transação penal (art. 76 da Lei 9.099/95), cuja sentença tem natureza homologatória, sem qualquer juízo sobre a
responsabilidade criminal do aceitante. As consequências da homologação da transação são aquelas estipuladas de
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“O agir de Deus quem impedirá?”
- JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – - ROBERTO OLIVEIRA –
Lei n. 9.099/95

A imposição de medida confiscatória sem processo revela-se antagônica não apenas à acepção formal
da garantia do art. 5º, LIV, da CF, como também ao seu significado material, destinado a vedar as iniciativas estatais
que incorram, seja pelo excesso ou pela insuficiência, em resultado arbitrário.
A transação celebrada a pálio da Lei n. 9.099/95, portanto, não possui força condenatória, sendo a
sentença homologatória que submete a extinção da punibilidade ao implemento de uma condição resolutiva
estampada no cumprimento daquilo que foi pactuado. Daí se justificar, por exemplo, o teor da Súmula Vinculante nº
35.
23
ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS
ENUNCIADO 13 – É cabível o encaminhamento de proposta de transação por carta precatória.

ENUNCIADO 20 – A proposta de transação de pena restritiva de direitos é cabível, mesmo quando o tipo em
abstrato só comporta pena de multa.

ENUNCIADO 44 – No caso de transação penal homologada e não cumprida, o decurso do prazo prescricional
provoca a declaração de extinção de punibilidade pela prescrição da pretensão executória.

ENUNCIADO 58 – A transação penal poderá conter cláusula de renúncia á propriedade do objeto apreendido
(XIII Encontro – Campo Grande/MS).

ENUNCIADO 62 – O Conselho da Comunidade poderá ser beneficiário da prestação pecuniária e deverá aplicá-
la em prol da execução penal e de programas sociais, em especial daqueles que visem a prevenção da
criminalidade (XIV Encontro – São Luis/MA).

ENUNCIADO 63 – As entidades beneficiárias de prestação pecuniária, em contrapartida, deverão dar suporte à


execução de penas e medidas alternativas (XIV Encontro – São Luis/MA).

ENUNCIADO 68 – É cabível a substituição de uma modalidade de pena restritiva de direitos por outra, aplicada
em sede de transação penal, pelo juízo do conhecimento, a requerimento do interessado, ouvido o Ministério
Público (XV Encontro – Florianópolis/SC).

ENUNCIADO 72 – A proposta de transação penal e a sentença homologatória devem conter obrigatoriamente o


tipo infracional imputado ao autor do fato, independentemente da capitulação ofertada no termo
circunstanciado (XVI Encontro – Rio de Janeiro/RJ).

ENUNCIADO 73 – O juiz pode deixar de homologar transação penal em razão de atipicidade, ocorrência de
prescrição ou falta de justa causa para a ação penal, equivalendo tal decisão à rejeição da denúncia ou queixa
(XVI Encontro – Rio de Janeiro/RJ). (CRITICAR)

ENUNCIADO 77 – O juiz pode alterar a destinação das medidas penais indicadas na proposta de transação penal
(XVIII Encontro – Goiânia/GO).

ENUNCIADO 79 (Substitui o Enunciado 14) – É incabível o oferecimento de denúncia após sentença


homologatória de transação penal em que não haja cláusula resolutiva expressa, podendo constar da proposta
que a sua homologação fica condicionada ao prévio cumprimento do avençado. O descumprimento, no caso de

modo consensual no termo de acordo. 2. Solução do caso: tendo havido transação penal e sendo extinta a
punibilidade, ante o cumprimento das cláusulas nela estabelecidas, é ilegítimo o ato judicial que decreta o confisco do
bem (motocicleta) que teria sido utilizado na prática delituosa. O confisco constituiria efeito penal muito mais gravoso
ao aceitante do que os encargos que assumiu na transação penal celebrada (fornecimento de cinco cestas de
alimentos). 3. Recurso extraordinário a que se dá provimento. (STF, RE 795567, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI,
Tribunal Pleno, julgado em 28/05/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-177 DIVULG 08-
09-2015 PUBLIC 09-09-2015)

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não homologação, poderá ensejar o prosseguimento do feito (XIX Encontro – Aracaju/SE).

ENUNCIADO 85 – Aceita a transação penal, o autor do fato previsto no art. 28 da Lei nº 11.343/06 deve ser
advertido expressamente para os efeitos previstos no parágrafo 6º do referido dispositivo legal (XX Encontro –
São Paulo/SP).

ENUNCIADO 102 – As penas restritivas de direito aplicadas em transação penal são fungíveis entre si (XXIII
24
Encontro – Boa Vista/RR).

ENUNCIADO 107 – A advertência de que trata o art. 28, I da Lei n.º 11.343/06, uma vez aceita em transação
penal pode ser ministrada a mais de um autor do fato ao mesmo tempo, por profissional habilitado, em ato
designado para data posterior à audiência preliminar (XXIV Encontro – Florianópolis/SC)ENUNCIADO 108 – O
Art. 396 do CPP não se aplica no Juizado Especial Criminal regido por lei especial (Lei nº. 9.099/95) que
estabelece regra própria (XXV Encontro – São Luís/MA).

ENUNCIADO 111 – O princípio da ampla defesa deve ser assegurado também na fase da transação penal (XXVII
Encontro – Palmas/TO).

ENUNCIADO 116 – Na Transação Penal deverão ser observados os princípios da justiça restaurativa, da
proporcionalidade, da dignidade, visando a efetividade e adequação (XXVIII Encontro – Salvador/BA).

JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA
EMENTA: RECURSO. Extraordinário. Transação penal. Homologação. Efeitos de decisão condenatória. Ofensa aos
princípios constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da presunção de inocência. Relevância.
Repercussão geral reconhecida. Apresenta repercussão geral o recurso extraordinário que verse sobre a imposição
de efeitos de sentença penal condenatória à transação penal prevista na Lei nº 9.099/95.
(AI 762146 RG, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 03/09/2009, DJe-181 DIVULG 24-09-2009 PUBLIC 25-09-
2009 EMENT VOL-02375-10 PP-02680 LEXSTF v. 31, n. 369, 2009, p. 338-344 )

5.3.1 CABIMENTO

A interpretação gramatical do caput do art. 76 da Lei n. 9.099/95 leva a conclusão de que a proposta de
transação penal poderá ocorrer somente em relação às infrações penais que processem mediante ação penal pública
condicionada à representação e nas incondicionadas. Não há qualquer menção em relação às infrações penais
processadas mediante ação penal privada.
Em que pese o silêncio da lei, sem maiores discussões, doutrina e jurisprudência admitem a transação
penal em relação à ação penal privada (STJ, HC 34.085/SP). Porém, o mesmo não ocorre em relação a legitimidade
para a sua formulação.
Conforme o Enunciado 112 do FONAJE (Fórum Nacional de Juizados Especiais), “na ação penal iniciativa
privada, cabem transação penal e suspensão condicional do processo, mediante proposta do Ministério Público”. De
outro lado, há precedentes do STJ sustentando a legitimidade para a propositura de a transação penal ser do próprio
querelante, vez que, caso contrário fosse, haveria patente usurpação de seu direito de queixa, a qual o Ministério
Público não é titular. Sobre tema, cita-se: STJ, EDcl no HC 33.929/SP; STJ, APn 566/BA; STJ, Apn 390/DF.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS

ENUNCIADO 112 (Substitui o Enunciado 90) – Na ação penal de iniciativa privada, cabem transação penal e a
suspensão condicional do processo, mediante proposta do Ministério Público (XXVII Encontro – Palmas/TO).

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5.3.2 REQUISITOS

Os incisos do parágrafo segundo do art. 76 da Lei n. 9.099/95 preveem os requesitos objetivos e


subjetivos para o oferecimento da transação penal. No entanto, a análise deles está condicionada, inicialmente, a
presença de indícios de autoria e prova de materialidade, vez que para o oferecimento desta benesse é imperioso que 25
não seja caso de arquivamento do termo circunstanciado.
Assim, não sendo caso de arquivamento, passa-se, então, análise dos requisitos objetivos e subjetivos
para o oferecimento da transação, os quais devem visto de forma cumulativa. Sobre eles, vejamos.

5.3.2.1 REQUISITOS OBJETIVOS

a) Não ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade,
por sentença definitiva. (art. 76, §2º inc. I, Lei n. 9.099/95);

Como o dispositivo é claro em afastar o instituto para aqueles que já foram condenados por sentença
condenatória com trânsito em julgado à penal privativa de liberdade, NÃO há qualquer impedimento para o seu
oferecimento para àqueles que tenham sido condenados à pena restritiva de direito ou multa.
Porém, indaga-se na doutrina se a expressão “sentença definitiva” deve ser lida conjuntamente como
art. 63 do Código Penal, no sentido de apenas abarcas as hipóteses de reincidência. Neste pensamento, caso o
trânsito em julgado da sentença condenatória à pena privativa de liberdade tenha ocorrido após a prática da infração
de menor potencial ofensivo, mas antes da audiência preliminar, há quem entenda que é possível a transação penal.
É majoritário, todavia, o entendimento de que a lei não se utilizou do termo “reincidência” para impedir
a transação penal em tais situações, vez que este benefício não coaduna com a finalidade da intervenção penal em
sujeito com condenação definitiva à pena privativa de liberdade. Daí dizer que, a condenação definitiva pela prática de
crime à pena privativa de liberdade, ainda que posterior ao fato delituoso, impede a transação penal.

b) Não ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de 5 (cinco) anos, pela transação penal
(art. 76, §2º, inc. II, da Lei n. 9.099/95)

Somado ao requisito anterior, o agente não pode ser beneficiado da transação penal caso já tenha se
valido dela nos últimos cinco anos. Somente após este transcurso e observado os demais requisitos poderá,
novamente, se valer deste benefício.
Em que pese entendimentos em sentido contrário, uma vez aceita a transação penal e descumprida
pelo autor dos fatos, não poderá ele se utilizar novamente deste benefício.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 115 – A restrição de nova transação do art. 76, § 4º, da Lei nº 9.099/1995, não se aplica ao crime do art.
28 da Lei nº 11.343/2006 (XXVIII Encontro – Salvador/BA).

c) Nos crimes ambientais, a prévia composição do dano ambiental, salvo em caso de comprovada
impossibilidade; (art. 27, Lei n. 9.605/98)

Nos crimes ambientais de menor potencial ofensivo, a proposta de aplicação imediata de pena restritiva
de direito ou multa por meio de transação penal somente poderá ser formulada desde que tenha havido prévia
composição do dano ambiental de que trata o art. 74 da Lei n. 9.099/95, salvo em caso de comprovada
impossibilidade.

5.3.2.2 REQUISITOS SUBJETIVOS

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A inteligência do art. 76, §2º, inc. III, a proposta de transação penal não será admitida se restar
comprovado que os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as
circunstâncias, não indicarem ser necessária e suficiente a medida. De fato, aqui, a análise deve ser feita ao crivo do
caso em concreto, sob pena de afastar de modo inadequado um direito subjetivo do próprio agente.

5.3.3 PROCEDIMENTO PARA O OFERECIMENTO DA PROPOSTA DE TRANSAÇÃO


PENAL 26

Preenchidos os requisitos dos incisos I, III e III do §2º do art. 76 da Lei n. 9.099/95, a transação penal
será proposta pelo titular da ação penal. Vale dizer, o Ministério Público nas infrações penais de ação penal pública
incondicionada e condicionada à representação, e, do próprio ofendido, nos casos de ação penal privada35. Como se
denota, o Assistente de acusação, a vítima ou seu representante legal, não possuem qualquer titularidade em relação
aos casos de ação penal pública incondicionada e a pública condicionada à representação, posto que ela é exclusiva do
Ministério Público.
A transação penal pode ser oferecida oralmente ou por escrito, e deve consistir na imediata aplicação
da pena restritiva de direitos ou multas as quais serão devidamente especificadas na proposta formuladas. No caso de
concurso de agentes, não há qualquer óbice para a proposta seja oferecida apenas em relação a um dos coautores (ou
partícipes); não por outra razão, que se aceita por um deles, ela não se estende aos demais.
Em ato contínuo, a proposta será submetida à apreciação do autor do fato delituoso e de seu defensor
(art. 76, §3º, Lei n. 9.099/95), que deverão aceitar a proposta com subsequente apreciação do juiz competente.
Havendo divergência entre autor do delito e seu defensor, deve prevalecer a vontade daquele, conforme aplicação
subsidiária do art. 89, §7º, da Lei do Juizado Especial Estadual, não se aplicando o que prevê a súmula 705 do STF (“a
renúncia do réu ao direito de apelação, manifestada sem a assistência do defensor, não impede o conhecimento da
apelação por este interposta”).
Vale acrescentar, que a presença da defesa técnica na audiência preliminar é indispensável à transação
penal. Com efeito, caso o autor do fato delituoso não for amparado por defesa técnica na audiência preliminar em
que a proposta é aceita a transação penal, há de se declarar a nulidade absoluta da decisão homologatória do acordo.
Acolhida a proposta pelo autor do fato, o acordo será homologado pelo juiz que aferirá a sua legalidade.
Essa decisão homologatória não gera reincidência, reconhecimento de culpabilidade, nem tampouco efeitos civis ou
administrativos, sendo registrada apenas para impedir novamente o mesmo benefício no prazo de cinco anos.
Na hipótese de ser a pena de multa a única aplicável, o juiz poderá reduzi-la até a metade (Lei n.
9.099/95, art. 76, §1º).
É importantíssimo apontar que a transação penal homologada não interrompe o lapso prescricional da
pretensão punitiva abstrata permaneceu em curso desde a data do fato delituoso.
Caso a proposta de transação penal não seja aceita pelo acusado e por seu defensor, deve o Promotor
de Justiça ou o ofendido oferecer a peça acusatória oralmente, com o consequente prosseguimento do feito.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 91 – É possível a redução da medida proposta, autorizada no art. 76, § 1º da Lei nº 9099/1995, pelo juiz
deprecado (XXI Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 92 – É possível a adequação da proposta de transação penal ou das condições da suspensão do processo
no juízo deprecado ou no juízo da execução, observadas as circunstâncias pessoais do beneficiário (nova redação –
XXII Encontro – Manaus/AM).

5.3.4 RECUSA INJUSTIFICADA DE OFERECIMENTO DA PROPOSTA DE TRANSAÇÃO


PENAL

A transação penal é um direito público subjetivo do autor do fato, uma vez


preenchidos os requisitos subjetivos e objetivos exigidos pelo art. 76, §2º, da Lei n. 9.099/95. Com
efeito, diante da recusa injustificada do órgão do Ministério Público em oferecer a proposta de

35
Neste ponto, vide a divergência apresentada no item 1.3.1.
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transação penal, ou, ainda, caso o juiz discorde de seu conteúdo, prevalece na doutrina a
aplicação subsidiária do art. 28 do Código de Processo Penal, com a consequente remessa dos
autos ao Procurador-Geral de Justiça.
Por raciocínio similar também pode ser aplicado na transação penal de forma análoga,
o entendimento fixado pelo STF enunciado sumular n. 696 que “reunidos os pressupostos legais
permissivos da suspensão condicional do processo, mas se recusando o Promotor de Justiça a
propô-la, o Juiz, dissentindo, remeterá a questão ao Procurador-Geral, aplicando-se por analogia o 27

art. 28 do Código de Processo Penal”.


No caso de ação penal privada, como o juiz não pode conceder o benefício de ofício,
nem tampouco se admite a formulação de proposta pelo MP, vez que a legitimidade é do
querelante, a recusa deste em oferecer a proposta inviabiliza por completo a concessão da
transação penal.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 86 (Substitui o Enunciado 6) – Em caso de não oferecimento de proposta de transação penal ou de
suspensão condicional do processo pelo Ministério Público, aplica-se, por analogia, o disposto no art. 28 do CPP
(XXI Encontro – Vitória/ES).

5.3.5 MOMENTO PARA O OFERECIMENTO DA PROPOSTA DE TRANSAÇÃO PENAL

O momento procedimental correto para o oferecimento da proposta de transação penal é antes do


recebimento da peça de acusação.
No entanto, é possível que isto ocorra durante o curso do processo, como, por exemplo, na hipótese de
nova capitulação ser feito em razão da alteração da classificação do fato delituoso que, então, passe admitir a
concessão de transação penal.

5.3.6 DESCUMPRIMENTO INJUSTIFICADO DA TRANSAÇÃO PENAL

A homologação da transação penal não faz coisa julgada material e, descumpridas suas cláusulas,
retorna-se ao status quo ante, possibilitando-se ao Ministério Público a continuidade da persecução penal (situação
diversa daquela em que se pretende a conversão automática deste descumprimento em pena privativa de liberdade).
Não há que se falar, assim, em ofensa ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório. Ao
contrário, a possibilidade propositura de ação penal garante, no caso, que o acusado tenha a efetiva oportunidade de
exercer sua defesa, com todos os direitos a ela inerentes.
Nessa linha, é pacífico no STJ e no STF que o descumprimento das condições impostas em transação
penal acarreta o oferecimento da denúncia (ou queixa) e seguimento do processo penal, uma vez que a decisão
homologatória do acordo é submetida a condição resolutiva – descumprimento do pactuado – não faz coisa julgada
material (STJ, HC 188.959/DF).
A matéria foi consolidada com a recentíssima edição da súmula vinculante n. 35, editada pelo Supremo
Tribunal de Federal. Segundo ela “a homologação da transação penal prevista no artigo 76 da Lei 9.099/95 não faz
coisa julgada material e, descumpridas suas cláusulas, retoma-se a situação anterior, possibilitando-se ao
Ministério Público a continuidade da persecução penal mediante oferecimento de denúncia ou requisição de
inquérito policial”36.

36
- STF, RE 602.072 QO/RG/RS: o descumprimento da transação penal a que alude o art. 76 da Lei n. 9.099/95 gera
submissão do processo ao seu estado anterior, oportunizando-se ao Ministério Público a propositura da ação penal e
ao Juízo o recebimento da peça acusatória, sendo inviável se cogitar de propositura de nova denúncia por suposta
prática do crime de desobediência (CP, art. 330).
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Ousamos, no entanto, discordar deste posicionamento em partes. Isso porque, a leitura da referida
súmula poderá dar impressão de que para o oferecimento da transação penal pelo titular da ação penal prescinda de
indícios de autoria de materialidade. Ora, na medida em que descumprida a transação, o órgão ministerial poderá
oferecer denúncia ou requisitar inquérito policial, parece-nos demonstrar que a benesse pode ser ofertada mesmo
que não haja o fumus commissi delicti.
Nossa discordância incide a este último aspecto. Isso porque, não havendo indícios de autoria e
materialidade não poderão os órgãos ministeriais desarrazoadamente ofertar a imposição da medida
despenalizadora. O raciocínio a ser construído deve parta-se na existência ou não do fumus comissi delicti. Caso ele 28
esteja presente de duas uma: ou, preenchido os requisitos objetivos e subjetivos, o Parquet ofertará a transação
penal; se não preenchidos oferecerá então a denúncia.
O que não se pode coadunar é que mesmo ausentes indícios de autoria e materialidade possa o
Ministério Público oferecer a transação penal. Não havendo tais indícios, o caminho deve ser único: arquivamento.
Logo, eventuais diligências imprescindíveis devem ser realizadas anteriormente a oferta da transação penal, pois, caso
não seja cumprida ou não sendo hipótese de seu oferecimento, restará ao Parquet apenas apresentar a peça
acusatória. O próprio artigo 76 da Lei n. 9.099/95 assenta que a transação penal só será oferecida apenas quando
não for o caso de arquivamento.
Para melhor explicarmos, a atividade cognitiva do Membro do Ministério Público diante dos elementos
informativos colhidos no Termo Circunstanciado de Ocorrência deve-se, a título de sugestão, desenvolver-se nos
seguintes moldes:

i) Deparando-se com os elementos informativos, deverá aferir se há indícios de autoria e


materialidade que, desde já, autorizem a oferta da peça acusatória;
ii) Restando negativa a resposta, verificará se ainda há diligências imprescindíveis a serem
realizadas, justificando, portanto, o retorno dos TCO a origem para novas investigações (CPP, art.
16); se entender que já foram esgotadas todas as diligências no caso, deverá então promover o
arquivamento do TCO, observado o teor do art. 18 do Código de Processo Penal e a Súmula 524
do Supremo Tribunal Federal;
iii) Se positiva a resposta – isto é, presente o fumus commissi delicti – o Ministério Público
verificará o preenchimento dos requisitos objetivos e subjetivos da transação penal (art. 76, Lei n.
9.099/95). Nesta situação, é evidente que deverá ser oferecida a transação penal ao autor dos
fatos. Caso este recuse, o Parquet, de posse de elementos informativos necessários já oferecerá a
denúncia.

Em suma, só poderá ser ofertada a transação penal se houver, de igual forma, a possibilidade
de oferecimento da denúncia. Inexistindo isto, não se ofertará a citada medida despenalizadora e, sendo a
hipótese, requisitará novas diligências. Caso estas últimas não sejam possíveis ou inviáveis, restará apenas
à promoção do arquivamento pelo Parquet.
Por muitas vezes, o autor do fato diante da oferta do Parquet para a transação penal assume
as condições propostas para logo ver-se livre da imputação, quando, em ultima ratio, o próprio Ministério
Público já promoveria o arquivamento. Aliás, não raras vezes, o titular da ação penal oferta a transação
penal e, em face do descumprimento de seus termos, ao invés de oferecer denúncia, promove o
arquivamento. Então, o porquê de não promover o arquivamento no lugar de uma inoportuna transação
penal? Frisa-se: os mesmos substratos fáticos que autorização para a concessão da medida despenalizadora
são os mesmos para denúncia, se eles não existirem ou requisita-se diligências ou arquiva-se. Merece a
crítica nesse ponto, portanto!

JURISPRUDÊNCIA RELACIONADA
AÇÃO PENAL. Juizados Especiais Criminais. Transação penal. Art. 76 da Lei nº 9.099/95. Condições não cumpridas.
Propositura de ação penal. Possibilidade. Jurisprudência reafirmada. Repercussão geral reconhecida. Recurso
extraordinário improvido. Aplicação do art. 543-B, § 3º, do CPC. Não fere os preceitos constitucionais a propositura
de ação penal em decorrência do não cumprimento das condições estabelecidas em transação penal.

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(STF, RE 602072 QO-RG, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 19/11/2009, DJe-035 DIVULG 25-02-2010
PUBLIC 26-02-2010 EMENT VOL-02391-10 PP-02155 LEXSTF v. 32, n. 375, 2010, p. 451-456 RJTJRS v. 45, n. 277, 2010,
p. 33-36 )

5.3.7 RECURSO

Da decisão homologatória da transação penal caberá apelação (art. 76, §5º, Lei n. 9.099/95). Prevalece
29
na doutrina que também caberá este recurso contra a decisão que não homologar o acordo, aplicando
subsidiariamente, o art. 593, II, do CPP, por se tratar de decisão interlocutória mista não terminativa.
Esta apelação será julgada por turma composta de três juízes em exercício no primeiro grau de
jurisdição, reunidos na sede do Juizado, e deve ser interposta no prazo de 10 (dez) dias por meio de petição escrita,
da qual constarão as razões e o pedido do recorrente.

6 PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO

Conforme se extraí do art. 77 da Lei n. 9.099/95, “na ação penal de iniciativa privada pública quando
não houver aplicação da pena, pela ausência do autor do fato, o u pela não ocorrência da hipótese prevista no art. 76
desta Lei, o Ministério Público oferecerá ao juiz, de imediato, denúncia oral, se não houver necessidade de diligências
imprescindíveis”. Neste caso, haverá início a persecução criminal.

6.1 OFERECIMENTO DA PEÇA ACUSATÓRIA

No âmbito dos Juizados Especiais, há previsão legal de oferecimento de denúncia ou queixa oral, as
quais, obviamente, deverão ser reduzidas a termo, a fim de que o acusado possa ter ciência da imputação formulada
(Lei n. 9.099/95, art. 77, caput, e §3º). Não obstante esta previsão, não há qualquer óbice para que a peça acusatória
seja oferecida por meio de petição, como usualmente se vê.
Em relação ao limite máximo de testemunhas que podem ser arroladas no procedimento sumaríssimo,
prevalece na doutrina o número máximo de 3 (três), vez que aplica-se subsidiariamente, o quanto previsto para o
procedimento do Juizado Especial Cível (Lei n. 9.099/95, art. 34).
Quanto à comprovação da materialidade, o art. 77, §1º, da Lei n. 9.099/95 dispõe que, para o
oferecimento da denúncia, a ser elaborada com base no Termo de Ocorrência referido no art. 69, com dispensa do
inquérito policial, prescindir-se-á do exame do corpo de delito quando a materialidade do crime estiver aferida por
boletim médico ou prova equivalente.
Bastante a literalidade do citado artigo, entendemos que é prescindível, inclusive, a presença do exame
de corpo de delito até mesmo para prolação de sentença condenatória, desde que a materialidade possa ser
comprovada por boletim médico ou prova equivalente, tais como: cópias de ficha clínica ou de prontuário de hospital
ou pronto-socorro, relatório médico, etc (STF, 1º Turma, HC 80.419/RS).
Oferecida à acusação – e, caso seja, reduzida a termo -, entregando-se cópias ao acusado, que com ela
ficara citado imediatamente cientificado da designação de dia e hora para a audiência de instrução de julgamento, da
qual também tomarão ciência o Ministério Público, o ofendido, o responsável civil e seus advogados (Lei n. 9.099/95,
art. 78).
Caso não esteja presente, o acusado será citado na forma do arts. 66 e 68 e cientificado da data da
audiência de instrução e julgamento, devendo a ela trazer suas testemunhas ou apresentar requerimento para
intimação, no mínimo cinco dias antes de sua realização. Não estando presente o ofendido e o responsável civil, serão
intimados nos termos do art. 67 para comparecerem à audiência de instrução e julgamento (Lei n. 9.099/95, art. 78,
§§1º e 2º). As testemunhas arroladas também serão intimadas na forma prevista no art. 67. Segundo o art. 80 da Lei
n. 9.099/95, como uma das decorrências do princípio da oralidade, nenhum ato será adiado, determinando o Juiz,
quando imprescindível, a condução coercitiva de quem deva comparecer.
No dia e hora designados para audiência de instrução e julgamento, se na fase preliminar não tiver
havido possibilidade de tentativa de conciliação e de oferecimento de proposta pelo Ministério Público, proceder-se-á
nos termos do art. 72, 73, 74 e 75 da Lei n. 9.099/95.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS

Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada


“O agir de Deus quem impedirá?”
- JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL – - ROBERTO OLIVEIRA –
Lei n. 9.099/95

ENUNCIADO 100 – A procuração que instrui a ação penal privada, no Juizado Especial Criminal, deve atender aos
requisitos do art. 44 do CPP (XXII Encontro – Manaus/AM).

6.2 DEFESA PRELIMINAR

Conforme o art. 81, caput, primeira parte, da Lei n. 9.099/9, aberta a audiência, será dada a palavra ao
30
defensor para responder à acusação, após o que o juiz receberá, ou não a denúncia ou queixa. Como se evidencia, há
previsão legal de defesa preliminar oral no procedimento sumaríssimo, vez que a Lei dos Juizados confere à defesa
a oportunidade de se manifestar oralmente antes de haver o recebimento da peça acusatória.
Prevalece o entendimento que, não obstante a resposta escrita à acusação e defesa preliminar
apresentarem conteúdos e finalidades distintas, há necessidade de apresentação de apenas uma defesa, a defesa
preliminar, oportunidade em que haverá a concentração de todas as teses defensivas, principais e subsidiárias,
buscando-se a rejeição da peça acusatória, assim como eventual absolvição sumária, sem se olvidar da necessidade de
produção de provas, para o caso de eventual prosseguimento do processo.

6.3 REJEIÇÃO OU RECEBIMENTO DA PEÇA ACUSATÓRIA

Após a apresentação da defesa preliminar oral mencionada no art. 81, caput, da Lei n. 9.099/95, duas
possibilidades abrem-se ao juiz: rejeição ou recebimento da peça acusatória.
As hipóteses de rejeição da peça acusatória estão previstas no art. 395 do CPP, que, por previsão legal
expressa do art. 394, §4º, do CPP, também é aplicável no âmbito dos Juizados Especiais.
Caso a peça acusatória seja rejeitada, no âmbito específico dos Juizados, a impugnação desta decisão
será a APELAÇÃO, que será julgada por turma composta de três juízes em exercício no primeiro grau de jurisdição,
reunidos na sede do Juizado (Lei n. 9.099/95, art. 82, caput).
Esta apelação deve ser interposta no prazo de 10 dias por petição escrita, da qual constarão as razões e
o pedido do recorrente. De acordo com o art. 82, §2º, da Lei dos Juizados (Lei n. 9.099/95), o recorrido deve ser
intimado para oferecer resposta escrita no prazo de 10 (dez) dias. Sobre isto, aliás, a Súmula 707 do STF “constitui
nulidade a falta de intimação do denunciado para oferecer contrarrazões ao recurso interposto da rejeição da
denúncia, não a suprindo a nomeação de defensor dativo”.
Vale traçar a distinção da via recursal na hipótese de recusa da peça acusatória entre o procedimento
comum ordinário/sumário e o sumaríssimo.

PROC. COMUM ORDINÁRIO/SUMÁRIO PROC. COMUM SUMARÍSSIMO


Rejeitada a peça acusatória, o recurso adequado é o RESE Rejeitada a peça acusatória, o recurso será a
(CPP, art. 581). APELAÇÃO (art. 81, Lei n. 9.099/95).

De outra sorte, em prestígio ao princípio da taxatividade dos recursos, inexistindo previsão legal na
hipótese de recebimento da ação penal, caso haja uma flagrante ilegalidade na ação penal (ex.: patente atipicidade da
conduta), poderá impetrar Habeas Corpus quando houver risco a liberdade de locomoção, seja por meio de mandado
de segurança, nas demais hipóteses.

6.4 POSSIBILIDADE DE ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA

Por força do art. 394, §4º, do CPP, as disposições dos arts. 395 a 398 deste código aplicam-se a todos os
procedimentos penais de primeiro grau, ainda que não regulados por ele. Com efeito, não obstante ser prescindível a
duas peças defensivas, é perfeitamente possível o julgamento antecipado do processo no âmbito dos Juizados
Especiais Criminais, por meio da absolvição sumária.
Por evidente, por se tratar de mérito, o recurso cabível contra essa decisão será a APELAÇÂO. De outro
lado, para Renato Brasileiro de Lima, especificadamente quanto à absolvição sumária com base na causa extintiva da

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Lei n. 9.099/95

punibilidade, o recurso cabível seria o RESE, com base no art. 581, VIII, do CPP, aplicável subsidiariamente ao
procedimento dos Juizados com base no art. 92 da Lei n. 9.099/9537.

6.5 AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO

Nos termos do art. 78, §1 º, da Lei n. 9.099/95, a defesa deve trazer suas testemunhas para a audiência
de instrução e julgamento, independentemente de intimação. Desejando-lhe a intimação das testemunhas, a defesa
deve formular requerimento, como no mínimo 5 (cinco) dias de antecedência. O ofendido e o responsável civil serão 31
intimados para comparecerem à audiência nos termos do art. 67, da Lei n. 9.099/95.
De acordo com o art. 81, caput, da Lei do Juizado, após a apresentação da defesa preliminar, se o juiz
deliberar pelo recebimento da peça de acusatória, serão ouvidas a vítima e as testemunhas de acusação e defesa,
interrogando-se a seguir o acusado, se presente, passando-se imediatamente aos debates orais e à prolação de
sentença.
Todas as provas serão produzidas na audiência de instrução e julgamento, podendo o juiz limitar ou
excluir as que considerar excessivas, impertinentes ou protelatórias (Lei n. 9.099/95, art. 81, §1º). Os debates serão
sucessivos, acusação e defesa, por 20 (vinte) minutos cada uma, assim como ocorre nos procedimentos comuns
ordinário e sumário.
A regra do art. 81, §1º, da Lei n. 9.099/95, que aponta a concentração dos atos processuais em
audiência única, não pode ser vista como absoluta. Isso porque, ela não poderá colocada como obstáculo à busca da
verdade, sob pena de afrontar o princípio da ampla defesa. Não por outra razão, tem-se admitido a expedição de
carta precatória para a oitiva de testemunha nos Juizados Especiais (art. 222, CP c/c art. 92 da Lei n. 9.099/95). (STJ,
HC 112.074/PR).
Do ocorrido na audiência será lavrado termo, assinado pelo juiz e pelas partes, contendo breve resumo
dos fatos relevantes ocorridos em audiência e a sentença. A sentença, dispensado o relatório, mencionará os
elementos de convicção do juiz (Lei n. 9.099/95, art. 81, §3º).

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 17 – É cabível, quando necessário, interrogatório por carta precatória, por não ferir os princípios
que regem a Lei 9.099/95 (nova redação – XXI Encontro – Vitória/ES).

ENUNCIADO 66 – É direito do réu assistir à inquirição das testemunhas, antes de seu interrogatório, ressalvado
o disposto no artigo 217 do Código de Processo Penal. No caso excepcional de o interrogatório ser realizado por
precatória, ela deverá ser instruída com cópia de todos os depoimentos, de que terá ciência o réu (XV Encontro
– Florianópolis/SC).

7 SISTEMA RECURSAL NO JECRIM

Em sede de sistema peculiar, o JECRIM apresenta uma importante peculiaridade em relação ao órgão
competente para julgá-los. Isso porque, distintamente do procedimento comum no qual o recurso é direcionado ao
Tribunal e julgado pelos Desembargadores, no JECRIM, o juízo ad quem não se cuida de um Tribunal, mas sim da
denominada TURMA RECURSAL (art. 98, I, CF e art. 82 da Lei n. 9.099/95).
A Turma Recursal é composta por três juízes togados em exercício no primeiro grau de jurisdição, sendo
vedada a participação no julgamento do magistrado prolator da decisão atacada. Nessa sintonia, ó órgão do
Ministério Público que atua como custos legis perante as Turmas Recursais não é um procurador de justiça, mas sim o
promotor de justiça que atua em primeiro grau.
A respeito do julgamento do recurso, não haverá necessidade de notificação pessoal do MP e do
defensor, bastando que a comunicação da sessão de julgamento da Turma seja feita pela imprensa oficial (art. 82, §4º,
Lei do Juizado Especial Estadual), prevalecendo à norma geral contida nos art. 370, §4º, CPP e do art. 5º, §5º, da Lei n.
1.60/50.
Ademais, caso a sentença atacada seja confirmada pelos próprios fundamentos, a súmula do julgamento
servirá de acórdão (art. 82, §5º, da Lei n. 9.099/95), sem prejudicar a exigência do art. 93, inc. IX, da Constituição
Federal, conforme entendimento do STF (RE 635.729).

37
LIMA, Renato Brasileiro de. MANUAL DE PROCESSO PENAL. V. II. Niterói, RJ: Impetus, 2012.
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Finalmente em relação às vias recursas previstas na Lei n. 9.099/95 são previstas expressamente
somente duas: o Recurso de Apelação e Embargos de Declaração, cuja análise passa a doravante.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 81 – O relator, nas Turmas Recursais Criminais, em decisão monocrática, poderá negar seguimento
a recurso manifestamente inadmissível, prejudicado, ou julgar extinta a punibilidade, cabendo recurso interno
para a Turma Recursal, no prazo de cinco dias (XIX Encontro – Aracaju/SE). 32

7.1 APELAÇÃO NO JECRIM

Conforme se extraí do art. 82 e do art. 76, §5º, ambos da Lei n. 9.099/95, a apelação será cabível em
três hipóteses:

i) REJEIÇÃO DA PEÇA DE ACUSAÇÃO: Nesta hipótese, é obrigatória a intimação do acusado para


oferecer resposta escrita no prazo de 10 (dez) dias (art. 82, §2º), o que também se vislumbra na
Súmula 707 do STF.
ii) SENTENÇA CONDENATÓRIA OU ABSOLUTÓRIA;
iii) DECISÃO HOMOLOGATÓRIA DA TRANSAÇÃO PENAL (art. 76, §5º);

A apelação no Juizado Especial Criminal não se confunde com Apelação prevista no Código de Processo
Penal. Vejamos:

APELAÇÃO NO JECRIM APELAÇÃO NO CPP


PRAZO DE
10 dias 5 dias
INTERPOSIÇÃO
FORMA DE Escrita ou por termos nos autos (CPP, art.
Por Escrito.
INTERPOSIÇÃO 578).
Não se aplica o princípio da É possível o princípio da
complementaridade, na medida em que a complementaridade, no sentido de que
interposição deve necessariamente vir faculta o recorrente apresentar as razões
acompanhada das razões. recursais em até 8 dias ou, caso queira, que
as mesmas sejam apresentadas diretamente
OBSERVAÇÃO
OBS: Prevalece que a ausência ou no tribunal, desde que, obviamente,
intempestividade das razões recursais não respeitado o prazo para interposição.
prejudicará o conhecimento da apelação
interposta tempestivamente (STF, HC
85.344/MS)

7.2 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO

Segundo o art. 83 da Lei 9.099/95, os embargos de declaração poderão ser opostos


quando, em sentença ou acórdão, houver obscuridade, contradição ou omissão, na forma escrita
ou oral, no prazo de cinco dias contados da ciência da decisão.

Os Embargos de Declaração previstos no Juizado Especial Criminal não se confundem


com os Embargos de Declaração previstos no Código de Processo Penal. Vejamos:

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO JECRIM EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO CPP


PRAZO DE
5 dias, contados da ciência de decisão 2 dias (CPP, art. 382 e 619)
INTERPOSIÇÃO
FORMA DE Escrito OU oral. Escrito

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INTERPOSIÇÃO
Quanto opostos contra SENTENÇA, eles Uma vez opostos contra sentença ou contra
INTERROMPEM o prazo para interposição de acórdão, INTERROMPEM o prazo para
recurso. Logo, após julgado ou rejeitado, o interposição de outro recurso, por qual das
prazo será interrompido será integralmente partes (Art. 1.026 c/c art. 3º, CPC).
EFEITO
restabelecido. Trata-se de alteração promovida
pelo Novo Código de Processo Civil (CPC, art.
1.066). 33

8. REPRESENTAÇÃO NOS CRIMES DE LESÃO CORPORAL LEVE E CULPOSA

Sem prejuízo das hipóteses previstas no Código Penal e da legislação especial, com o advento da Lei n.
9.099/95 passou-se a exigir a representação do ofendido ou de seu representante legal como condição de
procedibilidade para ações penais dos crimes de lesão corporal leve e lesão corporal culposa (art. 88).
Conquanto condição específica da demanda penal, o regular processamento – e, até mesmo a lavratura
de termo de circunstanciado de ocorrência – dependem desta manifestação do ofendido ou de seu representante
legal. Cuida-se de implementação necessária para a persecutio criminis, cujo exercício, a rigor, é uma liberalidade da
vítima.
Sobre esta condição específica é preciso fazer quatro anotações.
Primeiro. A representação deverá ser exercida no prazo decadencial de 6 (seis) meses contados do
conhecimento da autoria, conforme estatuí o art. 38 do Código de Processo Penal38. O não exercício neste lapso
temporal acarreta na extinção da punibilidade do autor dos fatos em razão dos efeitos da decadência, conforme se
extraí do art. 107, inc. IV, 2º figura, do Código Penal.
Por ser matéria de ordem pública, transcorrido este período sem a implementação da representação,
não haverá outro caminho senão em reconhecer os efeitos extintivos pela decadência. Ademais, a luz do art. 61 do
Código de Processo Penal, tratando-se de causa extintiva da punibilidade, a sua ocorrência poderá ser reconhecida de
ofício pelo juiz em que qualquer fase do processo39.
Segundo. O ato de representar não exige qualquer formalidade específica, tanto que poderá ser escrito
ou oral – quando deverá ser reduzido a termo40. Basta que ele contenha a narrativa, mesmo que sucinta, do fato a ser
apurado e que traduza claramente a vontade do ofendido ou de seu representante legal no prosseguimento da
persecução criminal.
Com efeito, demonstrado este claro intento da vítima estará reconhecido o preenchimento desta
condição de procedibilidade. Daí o Enunciado 25 do Fórum Nacional de Juizados Especiais, em sua última parte,
prever que “qualquer manifestação da vítima que denote intenção de representar vale como tal para os fins do art. 88
da Lei 9.099/95”.
Neste caminho, o Superior Tribunal de Justiça já reconheceu a possibilidade de se inferir o exercício da
representação a partir do contexto dos autos. No caso, o fato de a vítima, pessoa leiga, ter comparecido diversas
vezes perante a Delegacia de Polícia, lavrando Boletim de Ocorrência, prestando depoimento e juntando documentos
que prova, em tese, a prática do crime, demonstram o seu interesse na continuidade da persecução41.

38
Art. 38. Salvo disposição em contrário, o ofendido, ou seu representante legal, decairá no direito de queixa ou de
representação, se não o exercer dentro do prazo de seis meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do
crime, ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. Parágrafo
único. Verificar-se-á a decadência do direito de queixa ou representação, dentro do mesmo prazo, nos casos dos arts.
24, parágrafo único, e 31.
39 Art. 61. Em qualquer fase do processo, o juiz, se reconhecer extinta a punibilidade, deverá declará-lo de

ofício.Parágrafo único. No caso de requerimento do Ministério Público, do querelante ou do réu, o juiz mandará
autuá-lo em apartado, ouvirá a parte contrária e, se o julgar conveniente, concederá o prazo de cinco dias para a
prova, proferindo a decisão dentro de cinco dias ou reservando-se para apreciar a matéria na sentença final.
40
STJ,.AgRg no REsp 1110889/SC, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 05/02/2013, DJe
15/02/2013; STJ, HC 253.555/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 11/12/2012, DJe
01/02/2013.
41
STJ, HC 240.678/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 03/04/2014, DJe 14/04/2014.
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De fato, os simples lapsos administrativos não suplantam a realidade fática inequívoca da vontade do
ofendido, seria um formalismo exacerbado e dissonante de algo patente.
Terceiro. A rigor, as contravenções penais são processadas e julgadas mediante ação penal pública
incondicionada (Decreto-Lei n. 3688/40, art. 17). Todavia, a partir de um juízo de proporcionalidade, não há como não
reconhecer que o tratamento a ser dispensado a vias de fato deve ser o mesmo da lesão corporal. Se esta é o plus
daquela, não é proporcional impor o mais (ação penal pública incondicionada) para o mínimo (vias de fato), e o
mínimo (ação penal pública condicionada à representação) para o mais (lesão corporal). É patente a incoerência e a
desproporcionalidade. 34
Não por menos, de forma coesa, comumente passou também se exigir a presença da representação nas
contravenções de vias de fato, em igual tratamento da lesão corporal leve e culposa. O Enunciado n. 76 do Fórum
Nacional de Juizados Especiais é neste sentido ao assentar que “a ação penal relativa à contravenção de vias de fato
dependerá de representação”.
Em que pese este pensamento, nas escassas jurisprudências dos tribunais pátrios o entendimento é
diverso. Em um antigo julgado, o Supremo Tribunal Federal entendeu que a regra contida no art. 17 da Lei de
Contravenções Penais não foi alterada, nem mesmo em relação ao crime-anão das vias de fato em face do advento da
previsão do art. 88 da Lei n. 9.099/9542. Consonante a isto, o Tribunal Justiça de Mato Grosso do Sul recentemente
decidiu neste mesmo sentido43.
Quarta, e última. O Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade do art. 41 da Lei n.
11.340/06 (Ação Declaratória de Constitucionalidade n. 19)44. Tal dispositivo afasta a aplicação da Lei n. 9.099/95 aos
crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena de vista.
Por consequência, ao afastar a incidência da Lei dos Juizados Especiais nestas situações, de igual forma,
também repeli os termos de seu art. 88. Daí ser a ação penal relativa à lesão corporal resultante de violência
doméstica contra a mulher pública incondicionada (Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 4424/DF)45.
Calcado neste entendimento, é iterativa a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça que o
afastamento da Lei n. 9.099/95 alcança o crime de lesão corporal, mesmo leve ou culposa, praticado contra a mulher,
no âmbito das relações domésticas, deve ser processado mediante ação penal pública incondicionada46.

42
EMENTA: Ação penal pública incondicionada: contravenção de vias de fato (LCP, art. 17). A regra do art. 17 LCP -
segundo a qual a persecução das contravenções penais se faz mediante ação pública incondicionada - não foi alterada,
sequer com relação à de vias de fato, pelo art. 88 L. 9.099/9A5, que condicionou à representação a ação penal por
lesões corporais leves. (HC 80617, Relator(a): Min. SEPÚLVED PERTENCE, Primeira Turma, julgado em 20/03/2001, DJ
04-05-2001 PP-00005 EMENT VOL-02029-04 PP-00733).
43
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO - VIAS DE FATO - AÇÃO PENAL PÚBLICA INCONDICIONADA - PRESCINDIBILIDADE DA
REPRESENTAÇÃO - REJEITADOS. Segundo dispõe o art. 17, do Decreto-Lei n.º 3.688/41, é prescindível a
representação aos casos de contravenção penal de vias de fato, tendo em vista que a sua persecução se faz
mediante ação pública incondicionada. Embargos de Declaração defensivos que se rejeitam, por ausência de
sustento legal. (TJ-MS - ED: 40071215020138120000 MS 4007121-50.2013.8.12.0000, Relator: Des. Carlos Eduardo
Contar, Data de Julgamento: 11/11/2013, 2ª Câmara Criminal, Data de Publicação: 07/04/2014)
44
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – LEI Nº 11.340/06 – GÊNEROS MASCULINO E FEMININO – TRATAMENTO DIFERENCIADO. O
artigo 1º da Lei nº 11.340/06 surge, sob o ângulo do tratamento diferenciado entre os gêneros – mulher e homem –,
harmônica com a Constituição Federal, no que necessária a proteção ante as peculiaridades física e moral da mulher e
a cultura brasileira. COMPETÊNCIA – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – LEI Nº 11.340/06 – JUIZADOS DE VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER. O artigo 33 da Lei nº 11.340/06, no que revela a conveniência de criação
dos juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, não implica usurpação da competência normativa dos
estados quanto à própria organização judiciária. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER – REGÊNCIA
– LEI Nº 9.099/95 – AFASTAMENTO. O artigo 41 da Lei nº 11.340/06, a afastar, nos crimes de violência doméstica
contra a mulher, a Lei nº 9.099/95, mostra-se em consonância com o disposto no § 8º do artigo 226 da Carta da
República, a prever a obrigatoriedade de o Estado adotar mecanismos que coíbam a violência no âmbito das
relações familiares. (ADC 19, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 09/02/2012, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-080 DIVULG 28-04-2014 PUBLIC 29-04-2014)

45
AÇÃO PENAL – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER – LESÃO CORPORAL – NATUREZA. A ação penal relativa
a lesão corporal resultante de violência doméstica contra a mulher é pública incondicionada – considerações.
(ADI 4424, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 09/02/2012, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-
148 DIVULG 31-07-2014 PUBLIC 01-08-2014).
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Evidentemente, o mesmo raciocínio deve ser visto em relação à contravenção penal de vias de fato.
Novamente invocando a proporcionalidade, sendo a lesão corporal o mais, não poderia a vias de fato, o mínimo, ser
tratado de forma diferente.
A interpretação literal do art. 41 da Lei Maria da Penha47 não pode levar a este engodo. O enfoque da
ordem jurídico-constitucional e a interpretação teleológica da lei protetiva, bem como os fins sociais em que ela se
destina, a expressão crime deve ser lida como gênero, isto é, infração penal48.
Lido desta forma, não se pode olvidar que a distinção entre crime e contravenção é axiológica
(valorativa) e não ontológica (essência). Neste critério, seria flagrante a desproporcionalidade, já que ao impor um 35
tratamento mais rigoroso ao crime, não também estendê-lo as contravenções penais seria incoerente. Ademais,
dentre outras interpretações corroboram a isto, a Constituição Federal assenta que o dever o Estado em criar
mecanismo para coibir a violência no âmbito das relações familiares, imperativo a ser observado ainda nas infrações
penais praticadas contra mulher49.

9. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO – art. 89

9.1 DEFINIÇÃO E NATUREZA JURÍDICA

A Suspensão Condicional do Processo, também comumente chamado de sursis processual, é um


importante instituto despenalizador introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela Lei n. 9.099/95 em seu art.
89, pautado eminentemente em uma questão de política criminal50.
Trata-se, assim, como conceitua Guilherme de Souza Nucci51:

[...] de um instituto de política criminal, benéfico ao acusado, proporcionando a suspensão do


curso do processo, após o recebimento da denúncia, desde que crime imputado ao réu não tenha
pena mínima superior a um ano, mediante o cumprimento de determinadas condições legais,
com o fito de atingir a extinção da punibilidade, sem necessidade do julgamento do mérito
propriamente dito.

Conquanto mecanismo política criminal, a Suspensão Condicional do Processo não se limita as infrações
penais de menor potencial ofensivo. De natureza processual, ela apresenta uma perspectiva abrangente na medida
em que não leva em conta o preceito secundário máximo do tipo penal, mas sim o mínimo.
Com este parâmetro, embora introduzida pela Lei dos Juizados Especiais, nem sempre a sua aplicação se
dará nas infrações penais de sua competência, obviamente, desde que preenchidos todos os requisitos. Logo, a
suspensão condicional do processo não é um instituto exclusivo dos crimes cujas penas privativas de liberdade
máximas sejam igual ou inferior a dois anos e as contravenções penais. Por isto a afirmação do caput do art. 89 da Lei
n. 9.099/95 de sua incidência aos crimes abrangidos ou não por esta lei.

46
Nesse sentido: STJ, AgRg no AREsp 40.934/DF, Rel. Ministra MARILZA MAYNARD (DESEMBARGADORA CONVOCADA
DO TJ/SE), QUINTA TURMA, julgado em 13/11/2012, DJe 23/11/2012.; RHC 33.620/RS, Rel. Ministra MARIA THEREZA
DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 26/02/2013, DJe 12/03/2013; HC 232.734/DF, Rel. Ministra MARIA
THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 26/02/2013, DJe 08/03/2013. HC 190.835/SP, Rel. Ministra
MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 21/03/2013, DJe 02/04/2013. AgRg no REsp
1333935/MS, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 04/06/2013, DJe 20/06/2013.
47
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena
prevista, não se aplica a Lei no9.099, de 26 de setembro de 1995.
48
STJ, HC 190.411/MS, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 21/06/2012, DJe 28/06/2012; e, CC
102.571/MG, Rel. Ministro JORGE MUSSI, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 13/05/2009, DJe 03/08/2009.
49
Nesse sentido: STJ, HC 280.788/RS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 03/04/2014,
DJe 22/04/2014;
50
Art. 89. Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não por esta Lei,
o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde
que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais
requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal).
51
NUCCI, Guilherme de Souza. Leis Penais e processuais penais comentadas. 7. Ed. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2013, p. 475.
Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada
“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

Nesta distinção, passou-se a denominar de infrações penais de médio potencial ofensivo os crimes que,
abstratamente considerados, são suscetíveis ao oferecimento da suspensão condicional do processo. Assim, por
exemplo, o crime de furto simples (CP, art. 155, caput), cuja pena mínima cominada em abstrato é igual a um trata-se
de uma infração penal de médio potencial ofensivo, motivo pela qual, se preenchidos os demais requisitos pelo
acusado poderá ser oferecido o sursis processual.
Isto é importante, sobretudo, para diferenciar, por exemplo, a suspensão condicional do processo da
transação penal. Esta é intimamente ligada às infrações penais de menor potencial ofensivo e, aquela, norma
processual genérica. A transação leva em consideração a pena máxima e a suspensão, a pena mínima. Além do mais, a 36
rigor, ambas ocorrem em momentos distintos: uma antes do recebimento da peça acusatória, e a outra depois do
recebimento, com início propriamente dito do procedimento sumaríssimo52. Então, esquematicamente teríamos:

TRANSAÇÃO PENAL SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO


Infração Penal de Menor Potencial Ofensivo. Infração Penal de Médio Potencial Ofensivo.
OBJETO
Todas as contravenções penais e os crimes cuja
Crimes em que a pena mínima cominada for igual
pena máxima cominada em abstrato seja igual
PENA ou inferior a um ano, abrangidas ou não pela
ou inferior a dois anos, cumulada ou não com
competência do Juizado Especial Criminal.
multa;
MOMENTO Antes do Recebimento da peça acusatória Após o recebimento da peça acusatória.

Outro detalhe deve ser observado. A aceitação da suspensão condicional do processo não pressupõe, de
nenhuma forma, admissão de culpa por parte do acusado. Na nossa convicção, ela configura patente direito subjetivo
do acusado quando preenchido os seus requisitos, cabendo ao titular da ação penal apresentar por meio de uma
fundamentação idônea as razões de seu não oferecimento53.
Com efeito, uma vez ofertado tal benesse pelo titular da ação penal, o acusado poderá se valer deles
caso repute viável, sobretudo se visto os efeitos que o integral cumprimento das condições opera na extinção da
punibilidade, sem jamais declarar-se culpado.
Em razão disto, não há incompatibilidade para a impetração de habeas corpus em face de processo
suspenso em razão do benefício da suspensão condicional do processo. Em outros termos, em nada impede que o
acusado valha-se deste remédio constitucional para aduzir a inexistência de justa causa que justifique a deflagração
da ação penal. Neste caso, acolhido o HC haverá o trancamento da ação penal e, por conseguinte, a extinção da
suspensão condicional do processo54 55.

52
EMENTA HABEAS CORPUS. DIREITO PROCESSUAL PENAL. SUBSTITUTIVO DE RECURSO CONSTITUCIONAL.
INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. ESTELIONATO. RECEBIMENTO DA DENÚNCIA EFETUADO ANTERIORMENTE À
PROPOSTA DE SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO. INOCORRÊNCIA DE PRESCRIÇÃO. [...] 2. À luz do disposto no
art. 89 da Lei 9.099/1995, nos crimes em que a pena mínima for igual ou inferior a 1 (um) ano, o Ministério Público, ao
oferecer denúncia, poderá propor suspensão do curso do processo, pelo período de 2 (dois) a 4 (quatro) anos. 3. No
sistema processual penal, a manifestação do acusado sobre a proposta de suspensão condicional do processo, em
observância aos postulados constitucionais da presunção de inocência e da ampla defesa, há de ocorrer somente
após o eventual recebimento da denúncia. Precedentes. (STF, HC 120144, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira
Turma, julgado em 24/06/2014, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-148 DIVULG 31-07-2014 PUBLIC 01-08-2014)
53
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, em sentido diverso, já entendeu que a suspensão condicional do
processo é um poder-dever do Ministério Público e não um direito subjetivo do acusado. (RHC 115997, Relator(a):
Min. CÁRMEN LÚCIA, Segunda Turma, julgado em 12/11/2013, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-228 DIVULG 19-11-2013
PUBLIC 20-11-2013).
54
Nesse sentido, na doutrina Guilherme de Souza Nucci e
55
EMENTA: HABEAS CORPUS. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO. ALEGAÇÃO DE QUE A ACEITAÇÃO DO SURSIS
PROCESSUAL NÃO PREJUDICA A ANÁLISE DA FALTA DE JUSTA CAUSA PARA A AÇÃO PENAL. Considerando a
envergadura constitucional do habeas corpus e o direito fundamental a que visa resguardar, é de se reconhecer que o
acusado pode, a qualquer tempo, questionar os atos processuais que importem coação em sua liberdade de
locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder. Habeas corpus deferido para que, afastada a prejudicialidade, o
Superior Tribunal de Justiça aprecie a alegação de falta de justa causa para a ação penal. (HC 89179, Relator(a): Min.
CARLOS BRITTO, Primeira Turma, julgado em 21/11/2006, DJ 13-04-2007 PP-00102 EMENT VOL-02271-02 PP-00381
RB v. 19, n. 525, 2007, p. 35-37)
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“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

Feita estas simples considerações, é preciso, enfim, demonstrar quais são os requisitos para o
oferecimento da suspensão condicional do processo.

9.2 REQUISITOS

Art. 89. Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano,
abrangidas ou não por esta Lei, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá
37
propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde que o acusado não esteja
sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais
requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal).

1) Pena mínima cominada ao crime não superior ao um ano

Como já anteriormente afirmado, a suspensão condicional do processo leva em consideração apenas a


pena mínima não superior a um ano de prisão. Por óbvio, é indiferente se o crime seja doloso ou culposo, com ou sem
violência.
Ademais, existindo eventual concurso dos crimes, o cúmulo material ou a exasperação deverão recair
sob a pena mínima para se encontrar a possibilidade ou não do oferecimento do sursis processual. Neste sentido, a
Súmula 243 do Superior Tribunal de Justiça que assenta “o benefício da suspensão do processo não é aplicável em
relação às infrações penais cometidas com concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, quando a
pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano”.
Em igual sentido, o Supremo Tribunal Federal fixou entendimento na Súmula 723 ao prever que “não se admite a
suspensão condicional do processo por crime continuado, se a soma da pena mínima da infração mais grave com o
automento mínimo de um sexto for superior a um ano”.
Por meio de uma analogia in bonam partem, não obstante o dispositivo apenas menciona “crime”, em
nada impede que o benefício também seja concedido à aquele que cometeu alguma contravenção penal.

2) Não esteja sendo processado por outro crime;

Muito embora para a nossa convicção esta exigência afronte ao princípio constitucional da presunção de
inocência56, prevalece nos tribunais superiores a inadmissibilidade da suspensão condicional do processo em relação
ao agente que está sendo processado pela prática de outro delito, mesmo que não haja condenação. Para isto,
sustentam que a suspensão condicional do processo mitiga ao princípio da indisponibilidade da ação penal, sendo
facultado ao legislador o estabelecimento de critérios para o seu deferimento57.
Como se trata de circunstância limitativa de uma benesse, não há dúvida que uma interpretação
extensiva de seus termos desembocaria em uma analogia in malam partem. Com efeito, uma interpretação gramatical
reflete, então, a possibilidade concessão do benefício àquele que esteja sendo processado pela prática de
contravenção penal.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 22 – Na vigência do sursis, decorrente de condenação por contravenção penal, não perderá o
autor do fato o direito à suspensão condicional do processo por prática de crime posterior.

3) Não tenha sido o acusado condenado por outro crime;

Distintamente do requisito anterior, agora se exige o trânsito em julgado da sentença condenatória pela
prática de crime, seja ele culposo ou doloso, já que está distinção não foi feita pelo legislador. Novamente, tal
limitação não pode se estendida às contrações penais, sob pena de configurar patente analogia in malam partem.

56
Em sentido contrário, STF, HC n. 85.106/SP, 1º T, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, Dj. 04.03.2005.
57
STJ, HC n. 115. 815/RJ, 5º T, Rel. Napoleão Nunes Maia Filho, j. 18.05.2011.
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“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

Há uma discussão nos tribunais e na própria doutrina se esta vedação alcançaria os crimes praticados
após o decurso do prazo de reincidência previsto no art. 64, inc. I, do Código Penal.
Sobre isto, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que “a melhor interpretação do art. 89 da Lei n.
9.099/95 é aquela que faz associar a esse diploma normativo a regra do inciso I do art. 64 do Código Penal, de modo a
viabilizar a concessão da suspensão condicional do processo a todos aqueles acusados que, mesmo já condenados em
feito criminal anteriores, não podem mais ser havidos como reincidentes, dada a consumação do lapso de cinco anos
do cumprimento da respectiva pena58”. Nesta conjectura, o enunciado 16 do Fórum Nacional dos Juizados Especiais
prevê que “nas hipóteses em que a condenação anterior não gera reincidência, é cabível a suspensão condicional do 38
processo”.
Em caminho oposto, o Superior Tribunal de Justiça observou que “não faz jus à suspensão condicional
do processo o agente que possui condenação anterior independentemente da sua data ultrapassar os cinco anos
anterior ao novo fato”59.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 16 – Nas hipóteses em que a condenação anterior não gera reincidência, é cabível a suspensão
condicional do processo.

4) Presença dos requisitos exigido pelo art. 77 do Código Penal para a Suspensão
Condicional da pena;

Cuida-se de requisito gerais impostos para o deferimento da suspensão condicional da pena elencados
no art. 77. Dentre eles destaca-se o inciso II que exige a análise da culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a
personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias da infração. Evidentemente, o requisito apontado
no inciso I passa ser inútil, na medida em que basta que esteja sendo processado pela prática de outro crime para que
não seja oferecida a benesse.

9.3 LEGITIMIDADE

A leitura do dispositivo evidencia que, em regra, a legitimidade para o oferecimento da suspensão


condicional do processo é o Ministério Público, assim fará no momento do oferecimento da denúncia.
Muito embora pensamento seja diverso ao nosso, na concepção dos Tribunais Superiores, o
oferecimento da suspensão condicional do processo é um poder-dever do Ministério Público e não um direito
subjetivo do acusado, a ser exercido quando presentes os requisitos que o autorizam60.
De qualquer forma, o membro do Ministério Público deverá fundamentar as razões para o não
oferecimento. Diante desta circunstância, o Juiz poderá não concordas com o entendimento do Parquet. Caso isto
ocorra, a Súmula 696 do Supremo Tribunal Federal aponta que deverá o Magistrado, em analogia ao art. 28 do
Código de Processo Penal, deverá remeter os autos ao Procurador-Geral de Justiça, não podendo oferecer o benefício
de ofício.

58
STF, HC 88.157/SP, 1ª T, Rel. Min. Carlos Britto, DJ 30.03. 2007.
59
STJ, RHC 21.294/SC, 5º T, Rel. Min. Jane Silva, DJ. 1º.10.2007.
60
PENAL E PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. "OPERAÇÃO CUPIM". 1. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO.
NÃO OFERECIMENTO PELO PARQUET. AUSÊNCIA DE DIREITO SUBJETIVO DO ACUSADO. PODER-DEVER DO TITULAR
DA AÇÃO PENAL. 2. NEGATIVA DEVIDAMENTE FUNDAMENTADA. REPROVABILIDADE DA CONDUTA (CULPABILIDADE).
ART. 89, CAPUT, DA LEI 9.099/1995 C/C O ART. 77, II, DO CP. AUSÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL NO
PROSSEGUIMENTO DA AÇÃO PENAL. 3. ORDEM DENEGADA. 1. A suspensão condicional do processo não é direito
público subjetivo do acusado, mas sim um poder-dever do Ministério Público, titular da ação penal, a quem cabe,
com exclusividade, analisar a possibilidade de aplicação ou não do referido instituto, desde que o faça de forma
fundamentada. 2. Encontrando-se a negativa do Ministério Público, acatada pelo magistrado, devidamente
fundamentada nos termos da lei (art. 89, caput, da Lei 9.099/1995 c/c o art. 77, II, do CP), levando em consideração
dados concretos dos autos relativos à maior reprovabilidade da conduta dos pacientes, não se verifica
constrangimento ilegal no prosseguimento da ação penal. 3. Ordem denegada. (HC 218.785/PA, Rel. Ministro MARCO
AURÉLIO BELLIZZE, QUINTA TURMA, julgado em 04/09/2012, DJe 11/09/2012)
Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada
“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

Em relação à ação penal privada, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que em relação a elas não há
suspensão condicional processo, uma vez previstos meios de encerramento da persecução criminal pela renúncia,
decadência, reconciliação, perempção, perdão e retratação61.
É evidente a suspensão condicional do processo pressupõe um ato bilateral, vale dizer, pressupõe o
oferecimento pelo legitimado e aceitação do acusado. Daí, se não aceita, o processo prosseguirá normalmente (art.
89, §7º, da Lei n. 9.099/95).
Por fim, há quem sustente que mesmo em face do oferecimento do legitimado e a aceitação do
acusado, o deferimento da suspensão é uma faculdade do juiz62. Ousamos discordar. Primeiro, porque contraria o 39
sistema acusatório constitucionalmente assegurando, transferindo, mesmo que indiretamente a legitimidade do autor
da ação penal ao magistrado. Segundo, desde que preenchidos os requisitos, nasce ao acusado o direito subjetivo de
valer-se do instituto, cabendo ao Ministério Público oferecê-la e o denunciado, caso entenda, aceitar; não feito isto,
haverá patente nulidade.

9.4 PERÍODO DE PROVA

Feita a proposta pelo Ministério Público, sendo ela aceita pelo acusado, caberá ao juiz suspender o
curso do processo, fixando o período de prova de DOIS a QUATRO anos, sob as seguintes condições, levando-se em
conta as peculiaridades do caso concreto (art. 89, §1º, inc. I a IV, da Lei n. 9.099/95):

i) Obrigação de reparar o dano, salvo impossibilidade de fazê-lo;


ii) Proibição de frequentar determinados lugares;
iii) Proibição de ausentar-se da comarca onde reside sem autorização do juiz;
iv) Comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas
atividades.

O §2º do art. 89 possibilita ao juiz que, além destas condições, o juiz ainda poderá especificar outras a
que fica subordinada a suspensão, desde que adequadas ao fato e à situação pessoal do acusado. Nesse sentido, a
Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça já decidiu:

Além das condições obrigatórias previstas nos incisos do § 1º do artigo 89 da Lei 9.099/1995, é
facultada a imposição, pelo magistrado, de outras condições para a concessão da suspensão
condicional do processo, desde que adequadas ao fato e à situação pessoal do acusado, em
estrita observância aos princípios da adequação e da proporcionalidade. 2. A prestação
pecuniária constitui legítima condição que pode ser proposta pelo Ministério Público e ser fixada
pelo magistrado, nos termos do artigo 89, § 2º, da Lei 9.099/1995. 3. Recurso improvido. (RHC
46.382/RS, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 15/05/2014, DJe
21/05/2014)

No mesmo caminho, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu:

EMENTA HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. FURTO. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO


PROCESSO. IMPOSIÇÃO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS OU DE PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA. VALIDADE.
Não é inconstitucional ou inválida a imposição, como condição para a suspensão condicional do
processo, de prestação de serviços ou prestação pecuniária, desde que “adequadas ao fato e à

61
EMENTA AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO. AÇÃO PENAL PRIVADA.
INOBSERVÂNCIA DO ART. 89 DA LEI 9.099/95. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL.
IMPOSSIBILIDADE.2. Não há falar em nulidade pela inobservância do art. 89 da Lei 9.099/95. Em ação penal privada,
não há suspensão condicional do processo, uma vez previstos meios de encerramento da persecução criminal pela
renúncia, decadência, reconciliação, perempção, perdão e retratação. (HC 115432 AgR, Relator(a): Min. ROSA
WEBER, Primeira Turma, julgado em 28/05/2013, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-123 DIVULG 26-06-2013 PUBLIC 27-06-
2013)

62
AVENA, Norberto Cláudio Pâncaro. PROCESSO PENAL ESQUEMATIXADO. 6º Ed. São Paulo: Método, 2014. p. 839.
Roberto C. A. Oliveira Júnior – 2014. Revista e atualizada
“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

situação pessoal do acusado” e fixadas em patamares distantes das penas decorrentes de


eventual condenação. A imposição das condições previstas no § 2º do art. 89 da Lei 9.099/95 fica
sujeita ao prudente arbítrio do juiz, não cabendo revisão em habeas corpus, salvo se
manifestamente ilegais ou abusivas. (STF, HC 108914, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira
Turma, julgado em 29/05/2012, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-150 DIVULG 31-07-2012 PUBLIC 01-
08-2012 RT v. 101, n. 926, 2012, p. 757-764)

Por sua vez, a Sexta Turma do Superior Tribunal Justiça assentou63: 40

RECURSO EM HABEAS CORPUS. ARTS. 302, PARÁGRAFO ÚNICO E INCISO II, E 303, PARÁGRAFO
ÚNICO, DO CTB. PROPOSTA DE SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO (ART. 89 DA LEI N.
9.099/1995). INCLUSÃO DE CONDIÇÕES ESPECIAIS CONSISTENTES EM PENAS RESTRITIVAS DE
DIREITOS (PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA OU PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE E
RESSARCIMENTO DE DANOS À VÍTIMA). IMPOSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE.
VIOLAÇÃO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. 1. No caso dos autos, observa-se que as
instâncias ordinárias chancelaram a inclusão pelo Ministério Público estadual de condições
especiais, consistentes em prestação pecuniária, prestação de serviços à comunidade e
ressarcimento de danos à vítima, na proposta de suspensão condicional do processo oferecida ao
paciente. 2. A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça tem reiteradamente decidido que a
inclusão de penas restritivas de direitos na proposta de suspensão condicional do processo
ofende o princípio da legalidade, uma vez que possuem caráter autônomo e substitutivo, cuja
aplicação demanda previsão legal expressa. 3. Recurso provido para excluir o pagamento de
prestação pecuniária e a prestação de serviço comunitário como condições alternativas da
proposta de suspensão condicional do processo formulada ao paciente. (RHC 45.991/RS, Rel.
Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 15/05/2014, DJe 02/06/2014).

Expirado o prazo probatório estipulado sem que tenha ocorrido a revogação da suspensão, o juiz
declarará extinta a punibilidade do agente (art. 89, §5º, da Lei n. 9.099/95).

9.5 SUSPENSÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL

Sendo aceita a suspensão condicional do processo, seu efeito imediato será a suspensão do prazo
prescricional (art. 89, §6º, da Lei n. 9.099/95).
Com isto, em caso de eventual revogação do benefício, o prazo prescricional apenas retoma seu curso,
sem ter o reinício de sua contagem (como aconteceria no caso da interrupção).
Ademais, este efeito é exclusivo da suspensão condicional do processo, não alcançando, então, a
transação penal. Desta forma, uma vez aceita a transação penal inexistirá a interrupção e, muito menos, a suspensão
do prazo prescricional.

9.6 REVOGAÇÃO DA SUSPENSÃO

A revogação da suspensão condicional do processo será obrigatória ou facultativa.


A revogação será obrigatória se, no curso do prazo, o beneficiário não efetuar, sem motivo justificado, a
reparação do dano ou se vier a ser processado por outro crime (art. 89, §3º, da Lei n. 9.099/95).
A seu turno, será facultativa caso o beneficiário venha a ser processado, no curso do prazo, pela prática
de contravenção penal ou se descumprir qualquer outra condição imposta (art. 89, §4º, da Lei n. 9.099/95).
Predomina o entendimento de o simples término do período de prova sem revogação do sursis
processual não enseja a decretação da extinção da punibilidade de forma automática. De fato, a extinção só ocorrerá
após ter sido certificado que o acusado deu integral cumprimento às condições lhe imposta. Assim, desde que ainda

63
(AgRg no HC 279.841/RS, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 06/05/2014, DJe
26/05/2014)

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“O agir de Deus quem impedirá?”
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não tenha transitado em julgado a decisão extintiva da punibilidade, será possível a revogação da benesse mesmo que
já esgotado o prazo do período de prova64.

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 22 – Na vigência do sursis, decorrente de condenação por contravenção penal, não perderá o
autor do fato o direito à suspensão condicional do processo por prática de crime posterior.
41
ENUNCIADO 32 – O Juiz ordenará a intimação da vítima para a audiência de suspensão do processo como
forma de facilitar a reparação do dano, nos termos do art. 89, parágrafo 1º, da Lei 9.099/95.

ENUNCIADO 53 – No Juizado Especial Criminal, o recebimento da denúncia, na hipótese de suspensão


condicional do processo, deve ser precedido da resposta prevista no art. 81 da Lei 9099/95.

ENUNCIADO 123 – O mero decurso do prazo da suspensão condicional do processo sem o cumprimento
integral das condições impostas em juízo não redundará em extinção automática da punibilidade do agente
(XXXIII Encontro – Cuiabá/MT).

10. SENTENÇA

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS


ENUNCIADO 97 – É possível a decretação, como efeito secundário da sentença condenatória, da perda dos
veículos utilizados na prática de crime ambiental da competência dos Juizados Especiais Criminais (XXI Encontro
– Vitória/ES).

ENUNCIADO 99 – Nas infrações penais em que haja vítima determinada, em caso de desinteresse desta ou de
composição civil, deixa de existir justa causa para ação penal (nova redação – XXIII Encontro – Boa Vista/RR).

ENUNCIADO 104 – A intimação da vítima é dispensável quando a sentença de extinção da punibilidade se


embasar na declaração prévia de desinteresse na persecução penal (XXIV Encontro – Florianópolis/SC).

ENUNCIADO 105 – É dispensável a intimação do autor do fato ou do réu das sentenças que extinguem sua
punibilidade (XXIV Encontro – Florianópolis/SC).

ENUNCIADO 121 – As medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP e suas consequências, à exceção da

64
RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. DESCAMINHO (ARTIGO 334 DO CÓDIGO PENAL).
SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO. DESCUMPRIMENTO DE CONDIÇÃO.
COMPARECIMENTO MENSAL EM JUÍZO. HIPÓTESE DE REVOGAÇÃO FACULTATIVA. PRORROGAÇÃO
DO PERÍODO DE PROVA. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO
PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CARACTERIZADO.
DESPROVIMENTO DO RECLAMO. 1. O descumprimento da condição referente ao comparecimento
mensal em juízo é hipótese de revogação facultativa da suspensão condicional do processo. 2. Ao
não decidir pela revogação da benesse, apenas prorrogando o período de prova, o Juízo Federal
atuou de forma mais favorável ao acusado, pelo que não há que se falar em constrangimento
ilegal passível de ser reparado por esta Corte Superior de Justiça. Precedente. 3. A prorrogação do
período de prova por 2 (dois) meses, equivalente a mais um comparecimento pessoal em juízo,
não caracteriza medida desproporcional ou injusta, já que corresponde exatamente à condição
descumprida. 4. Recurso improvido. (RHC 41.168/PR, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA,
julgado em 08/04/2014, DJe 23/04/2014)

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“O agir de Deus quem impedirá?”
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Lei n. 9.099/95

fiança, são aplicáveis às infrações penais de menor potencial ofensivo para as quais a lei cominar em tese pena
privativa da liberdade (XXX Encontro – São Paulo/SP).

11. EXECUÇÃO

ENUNCIADOS DO FÓRUM NACIONAL DO JUIZADO ESPECIAL RELACIONADOS 42

ENUNCIADO 87 (Substitui o Enunciado 15) – O Juizado Especial Criminal é competente para a execução das
penas ou medidas aplicadas em transação penal, salvo quando houver central ou vara de penas e medidas
alternativas com competência específica (XXI Encontro – Vitória/ES).

12. DEMAIS ENUNCIADOS

ENUNCIADO 82 – O autor do fato previsto no art. 28 da Lei nº 11.343/06 deverá ser encaminhado à autoridade
policial para as providências do art. 48, §2º da mesma Lei (XX Encontro – São Paulo/SP).

ENUNCIADO 83 – Ao ser aplicada a pena de advertência, prevista no art. 28, I, da Lei nº 11.343/06, sempre que
possível deverá o juiz se fazer acompanhar de profissional habilitado na questão sobre drogas (XX Encontro –
São Paulo/SP).

ENUNCIADO 84 – Em caso de ausência injustificada do usuário de drogas à audiência de aplicação da pena de


advertência, cabe sua condução coercitiva (XX Encontro – São Paulo/SP).

13. EXERCÍCIOS

01. (XII Exame de Ordem Unificado/2013). Segundo a 02. (TJPR/ Magistratura-2013) Em uma infração penal
Lei dos Juizados Especiais, assinale a alternativa que de menor potencial ofensivo, de competência do
apresenta o procedimento correto. Juizado Especial Criminal, tendo como fundamento a
(A) Aberta a audiência, será dada a palavra ao Lei n. 9.099/95, é correto afirmar:
defensor para responder à acusação, após o que o Juiz
receberá, ou não, a denúncia ou queixa; havendo (A) Como o principal objetivo do Juizado Especial é a
recebimento, serão ouvidas a vítima e as testemunhas busca da conciliação, poderá haver a composição dos
de acusação e defesa, interrogando-se a seguir o danos civis, que será homologada pelo juiz e, em caso
acusado, se presente, passando- se imediatamente de recurso, este poderá ser julgado por turma
aos debates orais e à prolação da sentença. composta por três juízes em exercício no primeiro
(B) Da decisão de rejeição da denúncia ou queixa grau de jurisdição.
caberá recurso em sentido estrito, que deverá ser (B) Não obtida à composição dos danos civis, poderá o
interposto no prazo de cinco dias. Ministério Público realizar proposta de transação
(C) Os embargos de declaração são cabíveis quando, penal, sendo que da decisão que apreciá-la caberá
em sentença ou acórdão, houver obscuridade, recurso a ser julgado por turma composta de três
contradição, omissão ou dúvida, que deverão ser juízes em exercício no primeiro grau de jurisdição.
opostos em dois dias. (C) Uma vez aceita imposta a transação penal, o autor
(D) Se a complexidade do caso não permitir a da infração não poderá ser considerado reincidente,
formulação da denúncia oral em audiência, o mas poderá ser impedido de obter o mesmo benefício
Ministério Público poderá requerer ao juiz dilação do no prazo de cinco anos e, caso não cumpra a
prazo para apresentar denúncia escrita nas próximas transação penal, o ofendido poderá executá-la no
72 horas. juízo cível.
(D) Não aceita a transação penal, o Ministério Público
poderá de imediato oferecer denúncia oral, sem
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Lei n. 9.099/95

necessidade de reduzi-la a termo e, da decisão que (A) Um dos princípios regentes dos juizados especiais
rejeitá-la, caberá recurso a ser julgado por turma criminais é a reparação dos danos sofridos pela vítima,
composta de três juízes em exercício no primeiro grau uma exigência legislativa expressa como condição para
de jurisdição. a suspensão condicional do processo e transação,
sempre que possível.
03. (TJPB – JUIZ LEIGO/2013) No que concerne aos (B) É vedada a aplicação da suspensão condicional do
juizados especiais criminais e à suspensão processo depois de encerrada a instrução, uma vez
condicional do processo, assinale a opção correta. que o escopo dessa suspensão é evitar a instrução do 43
(A) O prazo prescricional fica suspenso ao ser aceita a feito e o desperdício da atividade judicante, sendo
suspensão condicional do processo, o que não impede admitida a sua aplicação, contudo, em momento
o beneficiado de discutir em juízo, sob a alegação de posterior, caso a infração penal inicialmente
atipicidade ou de outra causa extintiva da imputada seja desclassificada, na fase de sentença, e o
punibilidade, a validade do acordo. órgão de acusação seja ouvido.
(B) O benefício da suspensão condicional do processo (C) No âmbito dos juizados criminais, a citação e a
pode ser revogado pelo juiz caso o benefício seja intimação devem ser, sempre que possível, pessoais e
processado pela prática de outro crime ou descumpra efetivadas no próprio juizado ou por quaisquer dos
quaisquer condições estabelecidas em juízo. meios previstos na legislação processual penal comum
(C) A suspensão do processo subordina-se à imposição aplicada subsidiariamente.
cogente das medidas cautelares prevista no Código de (D) A exigência de comparecimento do autor do fato
Processo Penal (CPP), exceto no que se refere à prisão acompanhado de advogado ou defensor público
preventiva. impõe-se apenas à audiência de instrução e
(D) A participação do ofendido na suspensão julgamento, não abrangendo a fase de suspensão
condicional do processo é obrigatória, em especial no condicional do processo ou transação.
que se refere a discussão da reparação dos danos
causados pela infração; desse modo, impede-se a 06. (DPE/TO – Defensor Público/2013). No que
rediscussão do objeto na esfera civil. concerne aos juizados especiais criminais, assinale a
(E) A suspensão condicional do processo que resulta opção correta, segundo entendimento do STJ e do
na condenação do beneficiário da prática de crime STF.
doloso será obrigatoriamente revogada apenas se (A) Considere que Silas, em gozo da suspensão
houver trânsito em julgado de sentença penal condicional do processo, tenha sido novamente
condenatória pela prática de novo crime. denunciado por crime de menor potencial ofensivo,
praticado em data anterior ao delito cujo processo
04. (TJPB – JUIZ LEIGO/2013) Acerca dos Juizados está suspenso. Nesse caso, o novo processo, por delito
Especiais Criminais, assinale a opção correta. anterior, não interfere no gozo do benefício da
(A) Tratando-se de ação penal pública incondicionada, suspensão, uma vez que, à época da concessão desta,
o MP poderá propor a aplicação imediata de pena o acusado preenchia todos os requisitos legais, nos
restritiva de direito, o que não é possível em ação termos do princípio da imediatidade que rege os atos
penal pública condicionada à representação. processuais.
(B) A competência do juizado será determinada pelo (B) A desclassificação do fato imputado ao réu
lugar em que tenha sido praticada a infração penal ou promovida pelo tribunal de justiça, por ocasião de
pelo lugar em que se tenha produzido o resultado, o recurso de apelação, para delito de menor potencial
aplicando-se a teoria da ubiquidade. ofensivo, obsta a análise do benefício da suspensão
(C) Não sendo o acusado encontrado para ser citado, a condicional do processo, visto que a possibilidade
secretaria do juizado procederá de imediato à sua desta já se exauriu, na primeira instância, com a
citação por hora certa. prolação da sentença, mas não impede que o MP
(D) Não se faz necessária a presença de advogado para examina a possibilidade de oferecimento de transação
a defesa do acusado, que, no entanto, poderá penal.
constituir causídico ou solicitar a nomeação de (C) Suponha que Celso, beneficiado pela suspensão
defensor público. condicional do processo, seja denunciado pelo MP por
(E) Na ação penal de iniciativa priva, a homologação novo delito praticado no curso de benefício legal.
de composição civil dos danos acarreta a renúncia ao Nesse caso, a revogação do sursis processual, de
direito de queixa. acordo com a jurisprudência dos tribunais superiores,
ficará condicionada à prévia oitiva do acusado e da
05. (TJMA – Magistratura/2013). Com relação aos defesa técnica, sob pena de nulidade.
juizados especiais criminais, assinale a opção correta. (D) Como a vítima não participa da fase de suspensão
condicional do processo, tampouco intervém na
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fixação do montante para a reparação do dano A) A transação penal consiste na aplicação imediata de
causado pelo crime, toda a matéria poderá rediscutida pena restritiva de direitos ou multas àquele a quem se
no juízo cível competente a fim de se apurar eventual imputa uma infração de menor potencial ofensivo.
responsabilidade civil remanescente. B) Não poderá ser oferecida a suspensão condicional
(E) A suspensão condicional do processo, após o do processo ao acusado que tiver sido condenado
término do período de prova, sem revogação, enseja a anteriormente por contravenção penal.
automática decretação da extinção da punibilidade do C) Em caso de delito persequível por ação penal
acusado. pública condicionada à representação, havendo a 44
representação do ofendido, o Ministério Público está
07. (TRF – 5º Região – Juiz Federal/2013). Com relação legitimado para oferecer transação penal, mesmo que
aos juizados especiais criminais, assinale a opção o ofendido se oponha e deseje a continuação do
correta. processo.
(A) Para que seja possível a transação penal, nas ações D) Se, no curso da suspensão condicional do processo,
penais pública ou privadas, o beneficiário, entre outras o acusado vier a ser processado por contravenção
condições, deve reparar o dano causado pela infração, penal, o benefício poderá ser revogado pelo juiz.
salvo impossibilidade de fazê-lo, não podendo, ainda,
ser reincidente em crime doloso. 09. (XII – EXAME DA ORDEM) Segundo a Lei dos
(B) No procedimento sumaríssimo, é assegurada a Juizados Especiais, assinale a alternativa que
possibilidade da resposta à acusação, na forma e no apresenta o procedimento correto.
prazo previstos no CPP, e igualmente garantida a A) Aberta a audiência, será dada a palavra ao
possibilidade de absolvição sumária e de utilização da defensor para responder à acusação, após o que o
videoconferência, de modo a facilitar a participação do Juiz receberá, ou não, a denúncia ou queixa; havendo
acusado no ato processual. recebimento, serão ouvidas a vítima e as
(C) A suspensão condicional do processo só pode se testemunhas de acusação e defesa, interrogando-se a
dar se a pena mínima cominada à infração for igual a seguir o acusado, se presente, passando se
um ano, sendo admitida ainda no caso de o imediatamente aos debates orais e à prolação da
denunciado ser maior de setenta anos de idade ou se sentença.
razões de saúde a justificarem, ainda que a sanção B) Da decisão de rejeição da denúncia ou queixa
seja superior ao mínimo estabelecido, e dilatada, de caberá recurso em sentido estrito, que deverá ser
seis a quatro anos, o prazo de suspensão do feito se o interposto no prazo de cinco dias.
acusado atender aos demais requisitos para o gozo do C) Os embargos de declaração são cabíveis quando,
benefício legal. em sentença ou acórdão, houver obscuridade,
(D) A suspensão condicional do processo, por ser contradição, omissão ou dúvida, que deverão ser
direito subjetivo do acusado, poderá ser proposta em opostos em dois dias.
qualquer etapa processual, inclusive quando D) Se a complexidade do caso não permitir a
reconhecida sua possibilidade em sede recursal, formulação da denúncia oral em audiência, o
situação em que deve o tribunal baixar o processo em Ministério Público poderá requerer ao juiz dilação do
diligência, a fim de que seja realizada a proposta de prazo para apresentar denúncia escrita nas próximas
suspensão, que, uma vez aceita, paralisará totalmente 72 horas.
o processo.
(E) Considere que um indivíduo, maior de idade, 10. (PC/MA – Delegado de Polícia/2012) Com relação
capaz, tenha praticado crime de menor potencial ao procedimento nos Juizados Especiais Criminais,
ofensivo, e que o MP, convencido da existência da assinale a afirmativa incorreta.
materialidade e da autoria do delito, tenha oferecido (A) A composição dos danos civis acarreta renúncia ao
proposta de transação penal para aplicação imediata direito de queixa ou representação nas ações penais
de pena restritiva de direitos. Considere, ainda, que o privas e públicas condicionadas à representação.
magistrado, ao examinar a proposta, aceita pelo (B) Acolhendo a transação penal proposta pelas
acusado, tenha constatado que ele havia sido partes, o juiz, em decisão irrecorrível, aplicará pena
condenado anteriormente por contravenção penal, restritiva de direito ou multa, que não importará em
com sentença definitiva. Nessa situação, a condenação reincidência.
anterior, por si só, não obsta a transação proposta (C) De acordo com a jurisprudência majoritária do
pelo MP. Superior Tribunal de Justiça, no caso de concurso de
crimes, as penas deverão ser somadas ou exasperadas
08. (IX – EXAME DA ORDEM) Com relação à Lei n. para fins de verificação do cabimento de suspensão
9.099/95, assinale a afirmativa incorreta. condicional do processo.

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(D) Os embargos de declaração podem ser propostos representação da vítima ou de seu representante
oralmente e o prazo será de 5 dias da ciência da legal, nos casos de lesão corporal culposa, de lesão
decisão. corporal leve e nos crimes patrimoniais de pequeno
(E) A transação penal e a composição dos danos civis valor.
não são institutos privativos do Juizado Especial
Crimina. 13. (DPE-MS – Defensor Público/2012) No tocante às
disposições relativas ao Juizados Especiais Criminais,
11. (TJRO – Técnico Judiciário/2012) No que se refere é correto afirmar que: 45
aos juizados especiais criminais, assinale a opção (A) na hipótese de aplicação das regras de conexão e
correta. continência, que impliquem em julgamento de crimes
(A) A composição dos danos civis homologada por juiz de menor potencial ofensivo pelo Tribunal do Júri, é
criminal mediante sentença irrecorrível tem eficácia vedada a aplicação do instituto da transação penal nas
de título a ser executado no juízo civil competente, hipóteses em que tal instituto seria cabível se a
acarretando renúncia ao direito de queixa. apuração fosse realizada perante o Juizado Especial
(B) A transação penal consiste em benefício legal que criminal.
possibilita ao autor do fato parar de responder à ação (B) na hipótese de impossibilidade de citação pessoal
penal que está em curso no juizado, mediante o do acusado, este será citado por edital e, se mesmo
cumprimento de algumas condições. assim não comparecer, nem constituir advogado,
(C) A intimação é pessoal, devendo ser feito no ficarão suspensos, no Juizado Especial Criminal, o
próprio juizado. Caso o acusado não seja encontrado, processo e o curso do prazo prescricional, podendo o
contudo, deverá ser feito comunicado por edital, a fim juiz determinar a produção antecipada das provas
de que o acusado compareça em juízo. consideram urgentes.
(D) Define-se infração penal de menor potencial (C) a existência de condenação, pela prática de crime,
ofensivo como o crime ou contravenção penal cuja à pena privativa de liberdade por sentença recorrível
pena máxima não é superior a 1 ano, cumulada ou não em desfavor do autor da infração de menor potencial
com multa. ofensivo em apuração no Juizado Especial Criminal,
(E) Após ser comunicado da ocorrência de um crime impede a proposta de transação penal por parte do
de menor potencial ofensivo, o delegado deverá representante do Ministério Público.
instaurar o inquérito policial e, concluída a (D) da sentença proferida pelo juiz ao término do
investigação, deverá remeter o relatório ao juizado procedimento sumaríssimo caberão embargos de
competente. declaração quando houver obscuridade, contradição,
omissão ou dúvida, embargos estes que suspenderão
12. (TJRO – Técnico Judiciário/2012) Em relação aos o prazo para recurso.
dispositivos da lei que criou os juizados especiais
criminais, e suas alterações subsequentes, assinale a 14. (TJRJ – Magistratura/2012) No que concerne aos
opção correta. Juizados Especiais Criminais, considere as seguintes
(A) Os juizados especiais criminais terão a sua assertivas:
competência determinada pelo domicílio do agente I. A composição civil dos danos em todos os crimes
infrator, podendo este, no âmbito de uma conciliação, de menor potencial ofensivo impede a propositura
declinar do privilégio em benefício da vítima. da ação penal;
(B) Os juizados especiais criminais são competentes II. A sentença que decide pela aplicação imediata de
para o processo e o julgamento das contravenções pena restritiva de direito ou multa (transação penal)
penais e dos crimes com pena máxima não superior a é irrecorrível;
um ano. III. O rito procedimento admite oferecimento de
(C) Na ação penal de iniciativa pública, não sendo caso denúncia oral por parte do Ministério Público.
de arquivamento e não havendo composição civil ou
transação, o requerente do MP deverá aguardar os É correto o que se afirma em:
laudos periciais que comprovam a materialidade do (A) III, apenas.
delito e oferecer a denúncia no prazo de quinze dias. (B) I e III, apenas.
(D) No juizado especial criminal, o processo reger-se-á (C) II e III, apenas.
pelos critérios da oralidade, simplicidade, (D) I, II e III.
informalidade, economia processual e celeridade,
buscando sempre que possível, a conciliação das 15. (TJGO – 55º Concurso para ingresso na carreira
partes. de Juiz Substituto) Em relação à Lei nº 9.099/95, é
(E) Após a vigência da lei que instituiu os juizados INCORRETO afirmar que:
especiais criminais, tornou-se obrigatória a
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(A) se a sentença for confirmada por seus próprios crime estiver aferida por boletim médico ou prova
fundamentos no julgamento da apelação, a súmula equivalente.
do julgamento servirá de acórdão. (D) o juiz pode limitar ou excluir as provas considerar
(B) da decisão de rejeição da denúncia, nos excessivas, impertinentes ou protelatórias.
processos de competência do Juizado Especial, (E) na ação penal de iniciativa do ofendido poderá
caberá recurso em sentido estrito. ser oferecida queixa oral.
(C) para o oferecimento da denúncia, é prescindível
exame de corpo de delito quando a materialidade de 46

QUESTÃO ALTERNATIVA
01 A
02 B
03 A
04 E
05 B
06 D
07 E
08 B
09 A
10 B
11 A
12 E
13 D
14 A
15 B

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