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Artes e Cultura: os Novos

Paradigmas da Repressão
António Branquinho Pequeno
criação cultural, nomeada- Para ilustrar a vitimização da imobiliza e define, ao privilegiar

A mente artística, não é epi-


fenómeno. Apertadas gre-
lhas a submeteram no passado. A
Criatividade neste passado recente,
tomarei como referência a criação
artística, que se tem confrontado
mais a matéria pictórica que a
representação, ao considerar a
visão do artista e a maneira de pin-
repressão a que foi sujeita vem de com a história das ideias políticas e tar mais decisivas que a coisa pin-
longe, a visar sobre alvos preci- das mentalidades. Convém frisar tada. No primeiro Salão de 1859,
sos e identificados: criadores que que a afirmação desses valores cria- foram desde logo afastadas pelo
foram silenciados, condenados à tivos caminhou lado a lado com os júri as obras de Manet e Millet,
prisão, ao exílio ou assassinados, combates pela liberdade. Mais Pissaro e Sisley foram, também eles,
de que Lorca foi trágico exemplo, ainda: as ditaduras políticas instala- proibidos nos Salões.
entre tantos. ram-se, não raramente, após terem Cézanne, que já participara na
O estatuto dessa repressão sido desmantelados os valores da primeira exposição dos Impres-
mudou no entanto nestas últimas criatividade. sionistas franceses, veio a marcar
décadas. Ela atinge difusamente Seria longo proceder ao inventá- decisivamente a história da Pintura,
todo o tecido social, com outras rio dessas agressões. De assinalar muito embora tivesse ficado amar-
modalidades de intervenção, novas alguns marcos reveladores do pesa- gamente confinado ao “Salão dos
roupagens, outros actores. Os tem- do tributo pago, o que, por si só, Recusados”, em 1863, e lhe tives-
pos são outros, na era dos circuitos deveria constituir um sério alerta: sem impedido os Salões oficiais de
imateriais, do imperialismo da ima- O Déjeuner sur l’Herbe de 1864 e 1870. Apenas reconhecido
gem e da banalização da informa- Manet provocou um motim, de tal em 1900, teve acesso pela primeira
ção. Não se trata mais, por enquan- modo se tinham tornado intolerá- vez ao “Salão de Outono” em 1903,
to, de alvejar pontualmente a veis, para a época, a mancha larga três anos antes de morrer.
criatividade, mas de desvitalizar os do artista francês, as cores ousadas, A exposição de 1874, que reu-
seus alicerces sociais. o estilo espontâneo, nada acadé- niu Cézanne, Degas, Monet, Pissaro
Procurarei traçar essa trajectó- mico. O Impressionismo foi penali- e Sisley foi um escândalo, provo-
ria a partir dos modelos do passa- zado pelas suas ousadias, ao dar cou injúrias e sarcasmos.
do, antes de focar as novas modali- uma maior importância ao contor- Os Cubistas, um pouco mais
dades de intervenção. no das coisas, ao contrariar o que tarde, viriam, por seu turno, a ser
violentamente interpelados pelo
seu anti-academismo, desde as
célebres Meninas d’Avignon, de
Picasso, no “Bateau Lavoir”, em
1907. Uma violência que atingiu o
seu auge em 1912. Maus cidadãos,
agentes anti-nacionais, assim foram
provocatoriamente apelidados pela
imprensa francesa da época.
Calúnias que foram politicamente
exploradas seguidamente, durante
a Guerra de 14-18, quando essa
mesma imprensa escrevia “Kubismo”,
(com “K”), a insinuar uma colabo-
ração entre o cubismo e os
“boches”. Uma Arte acusada de
anti-semitismo. Mais tarde, já nos
anos 30, foi a vez dos Abstractos e
dos Surrealistas.
Nos Estados Unidos, em Nova
York, a 16 de Abril de 1914, assis-
tia-se, entretanto, ao linchamento
das efígies de Brancusi, o grande
Edouard Manet, “Le déjeuner sur l’herbe”. escultor romeno, e de Matisse, no

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Pablo Picasso, “Les Demoiselles d’Avignon”, 1907.

dia do fecho da sua exposição. te. Ridicularizados também foram Inadmissíveis as representações
Com efeito a cor, instrumento pri- Derain e Vlaminck. As considera- não convencionais de naturezas
vilegiado duma metamorfose pictó- ções xenófobas faziam parte do mortas, uma outra análise da cor e
rica (Cf Banhistas com Tartaruga, cenário, como se tornou evidente da luz, um olhar não fotográfico
1908), sufocada desde o Renascimento nas colunas do quotidiano Gil Blas, sobre as coisas, tal como fez
pelos imperativos do modelo e do pela pena de um crítico de serviço Delaunay. Insuportável, em suma,
sombreado, renascia com Matisse. ao referir que no Salão de Outonoe que esses artistas se aventurassem
Inaceitável, essa nova mensagem nos Independentes, os Muniquenses, a decompor e a elaborar de outro
cromática, aos olhos do júri e da os Eslavos e os Guatemaltecos modo a realidade exterior. Os
Academia americana. A França pululam, uma pretalhada que colo- dizeres do conselheiro Lampué, por
aliás, pátria de Matisse, alimentou niza Montrouge e Vaugirard. ocasião desse mesmo Salão de
durante longo tempo um desprezo Inadmissíveis pois as cores puras Outono, são, a este propósito,
pela sua obra, a tal ponto que o destes artistas, a falta de classicis- esclarecedores, numa carta que
artista só vendia para a Rússia, mo do trabalho, a suposta ignorân- enviou ao Secretário de Estado fran-
Inglaterra e América inclusivamen- cia da arte de desenhar. cês para as Belas Artes, na qual se

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Kasimir Malevich, “Composition suprématiste”, 1915.

interrogava sobre o “direito de alu- nacional. Mais uma vez se voltou a vam o “atentado ao pudor” dos nus
gar um monumento público a mal- falar, por esta ocasião, de manifes- do artista italiano ali expostos. Isto
feitores que se comportam no tações anti-artísticas e anti-nacio- passou-se três anos antes da sua
mundo das Artes como os Apaches nais, um discurso que será tragica- morte, em 1920.
na vida de todos os dias”, e em que mente retomado pelos nazis em Em 1922, a Arte abstracta é proi-
se perguntava “se alguma vez a 1933. bida na Rússia Soviética e, algum
natureza e a forma humana tinha Voltemos à França do princípio tempo depois, o Suprematismo de
sofrido tamanhos ultrajes”. Lampué do século: em 1917, concretamente Malevitch, acusado de formalismo,
referia-se ainda nessa carta às feal- a 3 de Dezembro, a Polícia france- é denunciado coma a expressão
dades e às vulgaridades expostas e sa investe a Galeria “Berthe Weil”, típica da arte da época do imperia-
comentava que a dignidade do 50 Rue Taitbout, em Paris, onde lismo e do industrialismo burguês.
Governo francês fora duramente Modigliani expunha pela primeira Uma espécie de arte degenerada,
atingida com tais feitos de arte, ao vez. Isto na sequência de uma conceito que os nazis virão a mani-
albergar semelhantes horrores no denúncia feita pelos pequeno - bur- pular mais tarde com arrogância.
“Grand Palais”, um monumento gueses do bairro, que não suporta- Será que Malevitch, após 1927,

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regressou a uma figuração “reac-
cionária”? Parece ter sido essa a lei-
tura dos censores, porquanto o pin-
tor russo acabou por ser expulso
em 1929 do “Instituto Nacional da
História das Artes”, com Staline no
poder. Em 1934 é proclamado o
realismo socialista, como dogma,
denunciam-se os Impressionistas,
pede-se aos artistas que a Arte seja
compreensível. Um realismo socia-
lista, que não deixou de fazer
obstáculo à criatividade revolu-
cionária, prisioneiro que ficou
duma concepção estética redutora.

A Bauhaus

Uma referência particular deve


ser feita à escola alemã da
“Bauhaus”, onde ensinaram Klee e
Kandinsky, e que marcou uma vira-
gem ideológica. Fundada em 1919
pelo arquitecto alemão Walter
Gropius, em Weimar, o seu estatu-
to era polivalente: bem mais arqui-
tectónica que pictórica, reunia ate-
liers para trabalhar a madeira, o Wassily Kandinsky, “Accompagnement en jaune”, 1924.
metal, a pedra, o vidro, espaços
para a litografia, a encadernação, a antigas escolas não conseguiram Ora, como dizia Heinrich Heine,
tipografia, a impressão. realizar esta unidade e como teriam “onde se queimarem os livros, quei-
Um dos seus objectivos era podido fazê-lo se a Arte não é mam-se os homens”.
romper com o ensino académico e ensinável?- e devem voltar-se de Goebbels decretou ainda a pi-
uma certa forma de profissionalis- novo para o atelier... não há arte lhagem sistemática dos museus
mo, daí as acesas discussões entre profissional”. alemães, numa tentativa de pôr fim
professores e alunos. Tinha como A “Bauhaus” passou em 1927 à “Arte degenerada”, que não exal-
premissa, por um lado, que a Arte para Nassau, cidade operária, por tava os valores arianos. Numa lista
não era ensinável, por outro lado dificuldades materiais, acabando de mais de 100 pintores condena-
considerava não haver diferenças por ser desmantelada em 1933, em dos, acusados de criminosos, figu-
entre os artesãos e os artistas, uma Berlim, no mesmo ano em que ravam Picasso, Klee e Max Ernst,
maneira de dar valor e prioridades Hitler subiu ao poder. Vários pin- os Expressionistas, os Abstractos
ao trabalho manual e de instituir tores foram exonerados das suas (Kandinsky) e os Judeus (Chagall,
capilaridades entre uns e outros, o docências, nomeadamente Dix, Freundlich).
artista enriquecendo-se com o Klee, Beckman, Baumeister, alguns A guerra de anexação nazi não
artesão e vice-versa. forçados ao exílio. Em 1935 vocife- tinha ainda eclodido, já os valores
A admissão dos alunos era aliás rava Hitler num dos seus discursos: estéticos e culturais alemães tinham
feita na base da apresentação de “É necessário que a Arte seja anun- sido profundamente atingidos.
trabalhos, duma obra, não sendo ciadora do nobre e do belo, que Antes da penetração das divisões
exigido, à partida, nenhum diplo- seja a portadora do natural e do alemãs e dos bombardeamentos,
ma. Os alunos eram convidados a são”. O Führer diferenciava duas Goebbels sabia serem esses alvos
libertarem-se de todo e qualquer Artes, uma factor de saúde, de prioritários. A estratégia da solução
entrave à sua capacidade criadora. reconstrução e de perenidade, a final nazi incluía, à partida, a morte
Oiçamos Gropius nalgumas linhas outra sinal de degenerescência. Juiz da criatividade alemã.
do programa de que foi o autor: “o da Arte degenerada, apóstolo da A 20 de Março de 1939, no
objectivo final de toda a actividade Arte ariana, qualificou de crimino- mesmo mês da invasão da
plástica é a construção. Arquitectos, sos os criadores da Arte moderna. Checoslováquia, cerca de 5000
pintores, devem reaprender a for- Milhares de livros foram quei- obras de artistas, não vendáveis,
malização da construção no seu mados então por ordem de foram queimadas, em Berlim, numa
conjunto e nos seus elementos- as Goebbels, o ministro da Propaganda. caserna de bombeiros, no coração

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do “Reich” e, alguns meses mais infestam os programas do bobo ou percurso. O que importa é proce-
tarde, a 30 de Junho, eram leiloa- do dono da corte , com a compla- der à desmontagem e à desmisti-
dos em Lucerna, na Suíça, cerca de cência e as cumplicidades de gente ficação dos agentes e apoiantes
1250 obras de arte provenientes dos notória e a participação de gover- inconfessados da asfixia social, sob
museus alemães, em proveito da nantes deste país nessas emissões, a capa do entretenimento televisi-
Alemanha nazi. Um leilão que os nunca nestes últimos tempos a mul- vo.
artistas no exílio tentaram boicotar. her foi publicamente tão achincal- Caducaram os velhos paradig-
O alerta não fora escutado, por- hada, “en douce”. Seria fastidioso mas repressivos, tornados anacró-
quanto o tema da “decadência cul- fazer o inventário. Que se recorde nicos. Por isso as estratégias de
tural” figurava já, nos anos 20, no apenas a sua Marylin Monroe dos resistência também não são as mes-
programa político de “Mein Kampf” “Parabéns”, entre outros mimos. mas.
de Hitler. O sacrifício dos valores Quanto a Quim Barreiros- curiosa- O xadrez é diferente. A repressão
artístico-culturais alemães já tinha mente também figura top das fes- cultural adoptou outras posturas e
sido anunciado. Houve vítimas em tas académicas, basta recordar as globalizou-se. A diplomacia do
todas a frentes, e não só nas Artes. suas interpretações no “/ Bacalhau canhão cede cada vez mais o lugar
Literatura, Ciências, todo o pensa- quer alho/”, ou ainda no “/Volta à diplomacia dos circuitos
mento critico sofreu brutalidade e minha vaca louca/ Tenho saudades (Brzeninsky).Diria mesmo que a
castração. do teu bife/”, esta uma das mais dominante é mais propriamente
Não está de modo algum excluí- gritantes expressões da zoomorfi- agressiva que repressiva.
do que os livros voltem a ser quei- zação da mulher portuguesa, da
mados, os museu pilhados e a Arte mulher “tout court”, que não moti-
excomungada no Ocidente euro- vou qualquer protesto significati- Informação e Imagem: novos esta-
peu, apesar de os tempos serem vo!...É certo que Maria Lamas já tutos
outros. morreu e Natália Correia também
A vitimização da Cultura conti- já foi a cremar. E o país real lá se A Informação dispensada pelos
nua na ordem do dia, sob outras vai rindo com estas coisas... A fac- media não conduz necessariamente
roupagens, dos Baiões Pimba, aos tura ser-lhe-á apresentada mais ao Saber e ao Conhecimento, tudo
Hermans, dos Quim Barreiros à tarde, duma maneira ou doutra. depende do modo como ela é geri-
“Roda dos Milhões”. Uma cultura Heinrich Hein dizia “onde se da por quem a dispensa e pelos
de pacotilha. Sem esquecer os “Big queimam os livros queimam-se os que a ela têm acesso. Para encon-
Brother” que, de modo menos visí- homens”. Poder-se-ia dizer, para- trar a boa informação há que saber
vel, não deixam de fustigar os direi- fraseando, que onde se acanalha a colocar as boas questões. José
tos humanos, a cidadania e a urba- mulher, para além de se matarem Saramago tem razão quando afir-
nidade. as mães, abrem-se covas para ma, em substância, que a
Mas voltemos a Herman José, todos. Sem epitáfio. O que está em Informação só nos torna mais
que foi quem deu uma bem maior causa, note-se, não é pretender sábios se nos faz aproximar dos
visibilidade à música Pimba. Para aqui fazer a educação do Herman homens, que é possível ter toda a
além das agressões culturais que ou do Quim, simples acidentes de informação ao alcance e ignorar o
universo social, económico e polí-
tico em que se vive. Por outras
palavras, uma cultura deveria pas-
sar pela experiência e não necessa-
riamente pela sua disponibilidade
ou acessibilidade. As hierarquias
são aliás evidentes na Internet, em
termos de desigualdades dos
saberes sociais.
A Informação disponível e dis-
pensada conduz hoje à derrota dos
factos, à desorientação relativamen-
te ao real, através da digitalização,
que agora se alarga à comunicação
televisiva, via computador. Toffler
descreve a sociedade do computa-
dor como uma “terceira vaga” a
substituir-se aos velhos paradig-
mas da sociedade industrial, que
sucedera à era agrícola.
Paradoxalmente, é pela Informação
Joseph Albers, “Constellation structurée vers 1954”. que hoje se instala um novo tipo

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de agressão. Não se trata de a que Benetton levou ao se extremo. termos de mercado, dado ser, por
amputar ou de a censurar mas de a Imagens-caricatura do real, natureza e essência, um amplifica-
fornecer em excesso, deshierarqui- desenquadradas, tal como surgiram dor de desequilíbrios. As novas
zada. A Ideologia, por outro lado, nas “Imagens Reais “dos programas agriculturas que sacrificam a terra
cedeu o lugar à Videologia da apa- televisivos dum Carlos Cruz ou ao altar da industrialização são,
rência1, sem que isso seja directa- dum Artur Albarran, cuja ficção se neste contexto, um modelo para-
mente imposto por governos ou apresenta sob a capa do real. O que digmático. O que a prática política
sistemas educativos autoritários. é irreal neste caso é o produto ser de José Bové tem denunciado, tal
A Comunicação tornou-se a apresentado com as roupagens da como ocorreu recentemente por
nova moeda da economia global e realidade. Por outras palavras, a ocasião de uma das reuniões da
terá o poder quem melhor soube realidade proposta é ficção tal OMC (“Organização Mundial de
conduzir essa revolução. As tecno- como é tratada. Ora, quando a rea- Comércio”).
logias da comunicação incorpora- lidade é sistematicamente tratada O presente e o futuro próximo
ram-se assim nas estruturas de como uma ficção, abrem-se as por- tornam-se inquietantes. Face aos
controlo e de domínio. tas à palavra do Chefe e a todos novos desmantelamentos éticos e
Não esquecer que o desenvolvi- os messianismos totalitários. culturais, haveria que proceder a
mento das Comunicações por saté- O sistema televisivo criou um uma desmontagem semiológica
lite teve como objectivo marginali- Exército de telévoros de imagem, mais aturada destes mecanismos,
zar a Inglaterra do controlo da em transe hipnótico, que neste caso de modo a equacionar esta nova
informação planetária e curto cir- é redutor da Percepção em vez de era de agressividades que estão
cuitar a hegemonia que ela detinha a libertar. conduzindo à fascização de todo o
com os cabos submarinos. A pseudocultura da diversão e tecido social. O que exigiria uma
O sector da Comunicação ocupa do entretenimento integra-se neste mais demorada reflexão, com
hoje o papel central na economia mesmo registo de Utopia Global. outras ferramentas conceituais que
dos USA, com a maior concentra- Carlos Cruz, na SIC, com a “Febre as dimensões deste trabalho não
ção de capital. Por outro lado, do Dinheiro”, Maria Elisa na RTP permitem, tendo-me limitado a
nunca se comunicou tão pouco com o “Quem Quer ser Milionário?”, enquadrar algumas das mais gri-
como na era dos internautas. A Luísa Castel-Branco na TVI com tantes problemáticas.
sociedade de comunicação, assente “Dinheiro à Vista”, num país de Os valores humanísticos conti-
em suportes imateriais, está em vias penúria também cultural, alimen- nuam a não ser epifenómeno, hoje
de realizar o que nenhum regime tam os fantasmas milionários. como ontem.
totalitário tinha até aqui consegui- Programas que se integram numa A Cultura do futuro está
do com a Ideologia. Entrámos num política cultural virtual de merca- confrontada com novas inquieta-
sistema de adesão “natural” a reali- dores de ilusão, sob roupagem edu- ções. O imperialismo consumista,
dade virtuais (B. Noël), porta aber- cativa. Um sistema televisivo, de normalizado, aliado à robotização
ta ao autismo social. O controlo cul- modo mais geral, cronófago, devo- dos circuitos imateriais atinge já, na
tural tomou caminhos novos, rador de tempo. O seu estatuto é o matriz, não só os fundamentos
assente nos suportes TV, telefone da rapidez, simplificação e banali- sociais da Cultura, como também
e computador. zação de universos sem relevo, a os fundamentos da produção, do
Ora é justamente neste registo tratar apressadamente as superfí- desenvolvimento económico e da
que convém situar o novo estatuto cies dos factos e dos acontecimen- riqueza. Os interesses do presente
da Imagem, hoje invasiva, contra- tos, e sem gostar de voltar atrás. e imediatos, na sua cegueira, com-
riamente à função complementar, Daí as hipocrisia das suas velei- prometem toda e qualquer estraté-
de apoio ao texto, que tivera no dades paternalistas, quando procu- gia de futuro. Novos desafios se
passado. Ocupou, com brutalidade ra refazer, nalguns dos seus pro- apresentam à Criatividade, que pas-
imperial o espaço da Informação, gramas, do tipo Fátima Lopes, os sarão talvez por uma nova Cultura,
que monopolizou, o que é bem laços sociais que fragiliza no dia a condição a longo prazo da sobrevi-
visível na Pub comercial e na comu- dia, (Instituições em crise, Sistema vência da própria riqueza e desse
nicação televisiva. escolar, Justiça, etc.) mesmo desenvolvimento económi-
O seu estatuto é intransitivo, em Os novos valores da Comunicação co 
termos de informação. Daí que e da Imagem inserem-se num
tenha empolado a sua face “signifi- campo mais vasto de Produtivismo
cante”, com empobrecimento do global, modelo Thomas Friedman2.
“significado”, para utilizar uma ter- Um contexto no qual é o mercado,
minologia linguística clássica. cada vez mais, quem governa, limi-
1 Louis Quesnel. Communication n° 17,
Empobrecimento com proliferação tando-se os Governos a adminis-
Paris, 1971
de significados, semanticamente trar. Ora, o mercado, entregue às 2 Thomas Friedman, “The lexus and
aleatórios, o que também é uma suas próprias leis, não pode deixar the olive tree, Understanding
modalidade de contra-informação. de governar mal, em termos sociais Globalisation “, Farrar Strauss and
Para além do verdadeiro e do falso, em primeiro lugar, mas também em Giroux, New York, 1999.

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