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COLEÇÃO CIÊNCIA ATUAL

Coordenafão editorial: Leny Cordeiro

Complexidade - Roger Lcwin


Buracos 11egros, universos-bebês e outros e11saios - Stephen Hawking
Dobras 110 tempo - George Smoot e Keay Davidson
O bico do te111ilhão - Jonalhan Weiner
So11hos de uma teoriafi11al - Steven Weinberg
O quark e o jaguar - Murray Gell-Mann
Nt1110 - Ed Regis
Signos da vida - Robert Pollack
I\ perigosa idéia de Darwi11 - Daniel C. Dennett
I\ beleza da/era - Natalie Angier
Somos diferentes? - James Trefil
Em revistas sobre o fim dos tempos - Jean-Claude Carriêre, Jean Delumeau,
Umberto Eco, Stephcn Jay Gould
1-/iperespaço - Michio Kaku

SÉRIE MESTRES DA CIBNCIA


Os três 1íltimos mi11utos - Paul Davies ·
I\ origem ela espécie humana - Richard Leakcy
A origem do 1111iverso - John D. Barrow
O rio q1le saía do Éde11 - Richard Dawkins
O reino periódico - P. W. Atkins
Os números da natureza - lan Stewart
Tipos de mentes - Daniel C. Dennett
Como o cérebro pensa - William H. Calvin
Laboratório Terra - Stephen H. Schneider
O brilho do peixe-pônei - George C. Williams
Por que o sexo é dil'l!rtido? - Jared Diamond
O cérebro humano - Susan A. Greenfield
Uma célula renegada - Robert A. Weinberg
O padrão gravado na pedra - Daniel Hillis
O pla11e1<1 simbiótico - Lynn Margulis
Apenas seis 111ímeros - Martin Rees

SÉRIE MESTRES DO PENSAMENTO


Depois de Deus - Don Cupitl
1'vlentes extraordinárias - Howard Gardner
A descoberta do fluxo - Mihaly Csikszentmihalyi
A beleza d<1s máquinas - David Gelemtcr
O relógio do longo agora - Stewart Brand
Mente, linguagem e sociedade - John R. Searle
PLANETA SIMBIÓTICO
Uma nova perspectiva da evolução

Lynn Margulis

Tradução de
LAURA NEVES

CltNCIA
ATUAL

~occo
Rio de Janeiro - 200 l
T)
=l:S./\
f\~,. --.;
1
.•\

Título original
SYMBIOTIC PLANET
A ncw vicw oí cvolution

Copyright CC, 1998 by Sciencewritcrs


Amhcrsl. Massachusetu
e Orion Publishing Group Lld.

'"O nome e a marca 7"he Science Mnsters


foram publicados com a autorizaçllo
de seu propriel4rio. Drockman, Jnc.'"

,Direitos 1nundiais para a língua portuguesa


' reservados com exclusividade li
(' 1 EDITORA ROCCO LTDA,
1 Rua Rodrigo Silva. 26 - .5~ andar
C"·i
-'I"
20011-040 - Rio de Janeiro. RJ
e:, Tel.: .507-2000 - Fax: .507-2244
~
e-mail: rocco@rocco.com.br
p.,C"'i www.rocco.com.br
Cl e,:,
CI Printed in Brnzil / Impresso no Brasil
:.J
o.:i ,.,
revisAo técnica
MAXBLUM
(lnslilUlo de BiocU!ncins da USP)

preparação de originais
SANDRA PAIVA

CIP-Brasil. Callllogaçllo-na-fonlc
Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ

Margulis, Lynn. 1938-


M284p O planeta simbiólico: uma nova perspectiva da cvoluçilo / Lynn
Margulis: traduçllo. Laura Neves: revisllo técnica, Max Bium. - Rio de
Janeiro: Rocco. 2001
. - (Ciencia Atual)
Tradução de: Symbiolic planei: a new vicw of evolulion
85-32.5-1145-7
1. Simbiose. 2. Evoluçllo (Biologia). 3. Simbioçenesc. 1. Título. li. Série.

CDD- .576.138
00-0450 CDU-.576.8
Sumário

Lista de ilustrações................................................................. 7
, Prefácio .................................................................................. 9
\1 - Simbiose em todos os lugares.......................................... 13
2 - Contra a ortodoxia............................................................ 20
3 - Individualidade por incorporação.................................... 38
4 - O nome da videira ........................................................... 53
5 - A vida a partir do zero . ..... ...... ..... .. ... ... . .. ........ .. . . . . . . . . . . .. . . . 70
6 - O sexo como herança ...................................................... 85
7 - Em terra firme .................................................................. 101
8 - Gaia .................................................................................. 107
Apêndice .. .. .. .. . . .. ... . .. . . . .. . .... .. ..... .. .. .. .. ... .... ..... ...... .. . . . . . . . . ...... ... 123
Notas ...................................................................................... 125
Índice ...................................................................................... 129
.

Lista de ilustrações

l - Comparação de células procarionle e eucarionte............. 15


2 - Pilogenia SET (teoria da endossimbiose seqüencial) ...... 36
3 - Espiroquetas se transformam em ondulipódios
(flagelados) ...................................................................... 40
4 -· Mão dos cinco reinos....................................................... 55
5 - Mixotricha paradoxa, um prototista ................... .. ...... ..... 64
6 - Biota de Ediacara da era proterozóica tardia................... 94
7 - Protistas acasalando ........................................................ 97

Créditos das figuras: 1. Chrislie Lyons; 2. 6 Laszlo Mcszoly; 3. 5 Kalhryn Delislc;


4, 7 Dorion Sagan
~
:\

.
.
Prefácio

Sim, o tempo passa


Digo isso feliz para aqueles que /zoje sofrem
Eles hão de sobreviver
fiá um sol
Mas não acreditam nele agora (1121)
Emily Dickinson*

- Mãe, o que o conceito de Gaia tem a ver com sua teoria da sim-
biose? -perguntou meu filho Zach, então com 17 anos, certo dia
após chegar do trabalho. Zach já não era um aspirante a político,
mas um desiludido assistente de um legislador na assembléia le-
gislatíva de Boston, e havia acabado de chegar em casa após uma
exaustiva tentativa de esboçar leis relativas a abrigos para idosos
para um de seus dois chefes ausentes.
- Nada - respondi de pronto -, ou, pelo menos, nada pelo que
eu saiba.
Desde então venho refletindo sobre a pergunta que ele me
fez. O livro que você tem em mãos é uma tentativa de responder
àquela questão. As duas principais idéias científicas com que
tenho trabalhado em minha vida profissional, a teoria da endos-
simbiose seqüencial (SET- serial endosymbiosis theory) e Gaia,
e a relação entre as duas, compõem o tema central deste livro.
A pergunta de Zach, como a simbiose coexiste com Gaia, foi
sucintamente respondida com uma brincadeira de um maravilho-
so ex-aluno meu, Greg Hinkle, hoje professor da Universidade de
Massachusetts em South Dartmouth. Antes de receber seu PhD,
Greg sabia e ensinava que a simbiose é simplesmente a convivên-
cia com contato físico de organismos de espécies diferentes.
Parceiros na simbiose, companheiros simbiontes subsistem lite-

• Todas as epígrafes dos capítulos silo citações de Emily Diclcinson { 1830-1886); n numera-
ção é de T. H. Johnson. org., Tlu: Complete Bonk of Poems o/ Emily Dickinson {Lilllc Brown
and Company, 1955).
'I O O PLANETA SIMBIÓTICO

r·almentc tocando um ao outro ou mes1no dentro un1 do outro, no


mesmo lugar e ao mesmo tempo. O conceito de "Gaia", um anti-
go termo grego para Mãe Terra, pressupõe a idéia de que a Terra
está viva. A hipótese Gaia, proposta pelo químico inglês James E.
Lovelock, afirma que aspectos dos gases atmosfédcos, das
rochas e da água superficiais são regulados pelo nascimento,
morte, metabolismo e outras atividades dos organismos vivos.
G1·eg gracejou: "Gaia é tão-somente a simbiose vista do espaço":
todos os organismos estão em contato porque todos são banhados
pelo mesmo ar e na mesma água corrente. Os motivos por que
acho que Greg está certo serão detalhados nas páginas a seguir.
Se este livro lhe ensinar sobre simbiose e a teoria Gaia no
contexto de visões radicalmente novas da vida, isso se deverá a
quatro fatos felizes: primeiro, a pergunta de Zach; segundo, a
contribuição de Dorion Sagan à qualidade de meu pensamento e
redação; 1 terceiro, ao questionamento, reorganização e reestrutu-
ração deste manuscrito com sinceridade idealista e bom gosto
artístico meticuloso por parte de Lois Byrnes;2 por fim, à correta
insistência de William Frucht, da Basic Books, em uma organiza-
ção mais concentrada e uma narrativa menos comodista. O prazer
de trabalhar com esse editor intelectualmente curioso e crítico
como se deve é constante.
Este livro trata da vida planetária, da evolução do planeta e da
forma como nossas maneiras de vê-las estão mudando. Se há um
tema implícito, ele diz respeito à pesquisa, especificamente à pes-
quisa científica, e aos muitos subterfúgios e rotinas que podem
estimulá-la ou obstruí-la. Muitas circunstâncias conspiram para
extinguir as descobertas científicas, sobretudo as que causam
desconforto em relação às normas sagradas de nossa cultura. Co-
mo espécie, apegamo-nos às submissões familiares e confortado-
ras da maioria. No entanto, a "convenção" penetra mais profun-
damente do que costumamos admitir. Mesmo que não tenhamos
um nome adequado e conhecimento da história de uma filosofia
ou estilo de pensamento específicos, todos nós estamos imersos
em nossa própria e segura "realidade". Nossos pontos de vista
dão forma ao que vemos e como sabemos. Qualquer idéia que
concebamos como fato ou verdade é integrada a todo um estilo de
pensamento, do qual cm geral não estamos conscientes. Não i~1-
porta se as restrições são chamadas de "incapacidades induzi-
das", "coletivos de pensamento", "construções sociais da r~alida-
PREFÁCIO

de". Denomine as restrições que determinam nosso ponto de vis-


ta da forma que você achar melhor. Todas estão sobrecarregadas
de pesados obstáculos lingüísticos, nacionais, regionais e de
gerações à percepção. Como os de qualquer outra pessoa, os pres-
supostos ocultos dos cientistas afetam-seu comportamento, res-
tringindo de forma inconsciente o pensamento.
Um pressuposto amplamente degradado é a grande cadeia do
ser, ou seja, definir a respeitável posição dos seres humanos como
o centro exato do universo no meio da cadeia do ser abaixo de
Deus e acima dos minerais. Essa idéia antropocêntrica domina o
pensamento religioso, inclusive daqueles que afirmam rejeitar a
religião e substituí-la por uma perspectiva científica de mundo.
Para os gregos, a cadeia reunia um cortejo de deuses no topo e,
em ordem descendente, o homem, a mulher, os escravos, os ani-
mais e as plantas. Um substrato de pedras e minerais ocupava o
cio mais baixo. A versão judaico-cristã permite ligeiras modifica-
ções: as pessoas, acima dos animais, estavam posicionadas um
pouco abaixo dos anjos. O homem, é claro, era incontestável e
obviamente desbancado por Deus.3
Essas idéias são rejeitadas como tolices obsoletas pela pers-
pectiva científica de mundo. Todos os seres vivos atualmente
evoluíram de forma igual. Todos sobreviveram por mais de 3 bi-
lhões de anos de evolução de ancestrais bacterianos comuns. Não
existem seres "superiores", "animais inferiores" ,Anjos ou deuses.
<Ydemônio~ como Papai Noel, é um mito útil. Até os primatas
"superiores", os macacos e símios,* apesar do nome (primata
vem do latim, primus, "primeiro"), não são superiores. Nós,
Homo sapiens sapiens, e nossos parentes primatas não somos es-
pec-iais-,apcnãs recentes: na verâade, somos estreantes no cenário
evolufivõ-.-As-semelhanças humanas com outras formas de vida
são muito mais notáveis que as diferenças. NosspsJJ1ços de_famí-
iia mais profundos, ao longo de vastos período.sgeológicos, deve-
riam inspirar admiração-, não~-iep~lsa: - .. . - - - -- ---
Como espécie, ainda tememos o exótico em nossa visão de
nós mesmos. Apesar ou talvez por causa de Darwin, nossa cultu-
ra ainda não entende de verdade a ciência da evolução. Quando a
ciência e a cultura entram em conflito, esta última sempre vence.

• O termo apt! designa os grandes primatas do Velho Mundo (chimpanzés, gorilas e orango-
tangos). Em português, não há designação semelhante. Adotamos o lermo "símios" para uma
aproximação e diferenciação (entre numkeys e npes) etimoiógica. (N. do R.T.)
'I 2 O PLANETA SIMBIÓTICO

A ciência evolutiva merece ser muito mais bem compreendida.


Sim, os seres humanos evoluíram, mas não apenas de símios ou
mesmo de outros mamíferos. Evoluímos de uma longa linhagem
=
de progeTlit~res_ emjilti:t1:1-ª ~~?-li~~•- da_P!Í!11~~n1 _bactéri.i.
-A- -
-
maior
- - . part~~a
----- - --evolução
- - --
- .
ocorreu
--
com o que repudiamos co-
mo "micróbios". Sabemos agora que todas as formas de vida evo-
luíram das menores formas de vida, as bactérias. Não precisamos
aceitar bem esse fato. Os micróbios, principalmente as bactérias,
são destratados como inimigos e denegridos como germes. Os
micróbios, na verdade, são quaisquer seres vivos - algas, bacté-
rias, fungos e assim por diante - vistos mais cuidadosamente com
um microscópio do que como manchas ou espuma a olho nu.
Afirmo que, como todos os outros símios, os seres humanos não
são obra de Deus. mas de milhares de milhões de anos de intera-
ção entre micróbios altamente responsivos. Esse ponto de vista é
perturbador para algumas pessoas. Para alguns é uma notícia apa-
vorante da ciência, uma fonte de informação repudiável. Consi-
dero-a fascinante: ela me estimula a aprender mais.
1 - Simbiose em l'odos os lugares

Em sua carruagem brilhante uma abelha


Dirigiu corajosa até uma rosa
Ao mesmo tempo descendo
De si me.mia ( 1339)

A simbiose, o sistema em que os membros de diferentes espécies


;;ivem em contato físico, nos parece ser um conceito misterioso e
um termo biológico especializado, uma vez que não temos cons-
ciência de seu predomínio. Não apenas nossos intestinos e cílios
estão infestados de bactérias e simbiontes animais, mas, se você
observar seu quintal ou um parque, os simbiontes não est~ão -~vi-
de11_te§,__rnas eles são _onipresent~~ Q.!!~VO_~ a""eí-vü~a. ervas
d~~i ~!i_~~--c::_?ml;lrJ.f-'.tl~JP-.i€eg uenas bolas na&_raíz~s_,_S_ãQ _a§_ ba_cJ~rias
fixadoras de o~nseruo, essenciais para o crescimento saudável em
uni solo-pobre-em-nitrogênio. Depois observe as árvores, o bordo,
o carvalho e a nogueira. Mais de trezentos diferen-tessimbiontes
fú~gj_ÇQ__~_.a_mjç_o..rr:l~ª---que observamos como cogumelos, ~
entrelaçados em suas raízes. Ou olhe um cachorro, que geralmen-
te-nem percêbe os vermes simbióticos presentes em seu intestino.
Somos simbiontes em um planeta simbiótico e, se prestarmos
atenção, podemos encontrar a simbiose em todos os lugares.
O contato físico é um requisito inegociável para muitos tipos
diferentes de vida.
Quase tudo que afirmo atualmente foi previsto por eruditos ou
naturalistas desconhecidos. Um de meus predecessores científicos
mais importantes compreendia e explicava por completo o papel
da simbiose na evolução. O anatomista Ivan E. Wallin (1883-
1969), da Universidade do Colorado, escreveu um excelente livro
no qual afirmava que as novas espécies se originavam da simbio-
\ se. A simbi!?,gê1Jese, um termo evolutivo, refere:-§~ à origem de
~ n_oVÕSteci.do_&,_6..rg_ãos, organismos - e até espécies - p9r meio d~_
1 simbiose permanente _Q.~_ d~ long_º- P-_razo. Wallin nunca empregou
---·- . - -
~ 4 O PLANETA SIMBIÓTICO

o Lermo simbiogênese, mas ele entendia o conceito perfeitamente.


Ele deu ênfase especial à simbiose entre animais e bactérias, um
processo que denominou "o estabelecimento de complexos
microssimbióticos". Isso é importante. Embonr :Oarwin tenha inti-
tulado sua obra-prima de A origem das e~pécies, o surgimento de
novas espécies raramente é tratado cm seu livro.•
A simbiose, e neste ponto concordo _çom Wallin, é crucial
para o entendimento da inovação evolutiva e da origem das espé-
cies. Para dizer a verdade, creio que a própria noção de espécie
requer a simbiose. As bactérias não têm espéci~.2 Não existiam
espécies antes que as bactérias se juntassem para formar células
maiores, incluindo os ancestrais de plantas e animais. Neste livro
explicarei como a simbiose duradoura levou primeiro à evolução
de células complexas com núcleos e a partir daí a outros organis-
mos, como fungos, plantas e animais.
A noção de que as células de animais e pla!)tas tiveram (?ri-
gem por meio da simbiose não é mais- motivo dê-controvérsia.
A biologia molecular, incluindo o seqüenciamento gênico, reivin-
dicou esse aspecto de minha teoria da simbiose celular. A.__incQr-
pornção Pl:ffi!_ªIJÇJJt~_de_b_~ct~rias__Q(?~!rô c:l~s célaj~_§__de_pl<M}_~~~
animais na forma de plastídi_9~_ç__mitocôndrias é a parte da minha
tc9ria-cfaenctossirríbioses~qüenciaTqúe hoje-aparece nos livros
didáticos do ensino médio. Mas o verdadeiro impacto da visão
simbiótica da evolução ainda está para ser sentido. E a idéia de
que novas espécies surgem de fusões entre membros de espécies
antigas ainda não é sequer debatida na sociedade científica
respeitável.
Eis um exemplo. Certa vez perguntei ao eloqüente e amável
paleontólogo Niles Eldredge se ele conhecia algum caso em que
a formação de uma nova espécie houvesse sido documentada.
Disse a ele que me daria por satisfeita se seu exemplo fosse obti-
do do laboratório, do campo ou de observações de registros fós-
seis. Ele conseguiu convocar apenas um bom exemplo: as
experiências de Theodosius Dobzhansky com a drosófila, a mos-
ca-das-frutas. Nessa experiência fascinante, populações de
moscas-das-frutas, desenvolvendo-se a temperaturas cada vez
mais elevadas, se tomaram geneticamente distintas. Após dois
anos, mais ou menos, as moscas da linhagem quente não produ- ,
ziam mais prole fértil com suas irmãs de linhagem fria. "Mas",
Eldredge logo acrescentou, "depois se descobriu que isso estava
SIMBIOSE EM TODOS OS LUGARES

DNA
· Parede celular

Bactérias, células sem núcleos Eucariontes, células com núcleo

Figura 1
Comparação de células procariontc e cucarionlc.

relacionado a um parasita!" De fato, posteriormente se descobriu


que_~_s_ 111o_~c_as de li~1!_~g~11_1_ ql:!~1:1!~ E~<? -~iJ!ham u~~~rui~u.im-
biótica intnlcéfolar encontrada nas moscas de linhagem fria.
Eldredge não considerou esse-~cõmouma observação de espe~
ciação porque ele envolvia uma simbiose microbiana! Ele apren-
dera, como todos nós aprendemos, que os micróbios são germes, e
que onde há germes há doença, não uma nova espécie. E ele
aprendera que a evolução pela seleção natural ocorre pelo acúmu-
lo gradual, ao longo de eras, de mutações isoladas nos genes.
Ironicamente, Niles Eldredge é o autor, junto com Stephen
Jay Gould, da teoria do "equilíbrio pontuado". Eldrcdge e Gould
afirmam que os registros fósseis mostram que a evoluçã_Q._~está-
~!~~--ºura11te a ~a:i_m:_p__w_te_do_temP.O e procede aos solavancos:
'16 O PLANETA SIMBIÓTICO

rápidas alterações em populações fósseis ocorrem ao longo de


breves períodos; a estase então prevalece por longos períodos. Do
ponto de vista de longo alcance do tempo geológico, simbioses
são corno flashes de luz evolutiva. Na minha opinião, a simbiose
corno fonte de inovação evolutiva ajuda a explicar a observação
do "equilíbrio pontl~ado", de descontinuidades no registro fóssil.
Além das 'rnosça'$.;das-frutas;ldentre os outros únicos organis-
'----~- ---
mos entre os quais se oosêivou o surgimento de espécies em labo-
ratório estão os membros do ~ênero'Amo~, e a simbiose estava
envolvida. A simbiose é um tipo,-mas--não-b tipo notório, de la-
marckismo. O "lamarckismo", assim chamado por causa de Jean
Baptiste Làmarck, que os franceses afirmam ter sido o primeiro
evolucionista, em geral é repudiado como "her~_I!Ç~~e ~ar~~ter_is-
l
ticas ~dquiri_das". l".-lo lamarckismo simples, os organismos h_~r-
µam_traço~ i~~uzidoi_é_iij_:_~~Ü.ipªJ_s ~çJas__condiçõ~i~aJI}b_i_eJ!t~i~,i
enquanfo- pa siml:>j.9g~n~~e os organismos ªdquir~JTI não traços,
mas outros organis_mos..mteir.os, e, é claro, seus c:~~j_~!)~C>~__de g~-
nes COI!}pletc:>s! Eu poderia dizer, como meus colegas fra~s.e..s_
tantas vezes fizeram, que a simbiogênese é uma forma de\neola-
-. ÍJiarcR-iso:iô/ A simbiogenesc é- a mudança evolutiva pela herança
\ de conjuntai; ~~ g~ne_s __a~ql:li_!"id~s.3 ; · ··-
Os seres vivos escapam a uma definição concisa. Eles lutam,
se alimentam, dançam, acasalam, morrem. Na base da criativida-
de de todas as grandes formas de vida familiares, a simbiose gera
inovação. Ela junta diferentes formas de vida, sempre por algum
motivo. Muitas vezes a fome une o predador à presa ou a boca à
bactéria fotossintética ou alga que é a vítima. A sirnbiogênç_se
j_~nt~ in~ivíslu~~ dif~rentes para formar seres mai<>r~_II1ais com-
. plexos..: As formas de vida simbiogenéticas são ainda mais dife-
rentes do que seus "pais" dessemelhantes. "Indivíduos" estão
sempre se fundindo e regulando sua reprodução. Eles geram
novas populações que se tornam novos indivíduos simbióticos
compostos por múltiplas unidades. Estes se tornam "novos indi-
víduos" em níveis maiores, mais abrangentes de integração.
A simbiose não é_ um fenômeno limitado ou raro. Ela é natural e
comum. Residimos em um mundo simbiótico.
Em Brittany:-~- ~-~Sta noroeste da Fra~ça, e ao longo das
praias junto ao canal da Mancha encontramos uma estranha for-
ma de "alga marinha" que na verdade não é uma alga marinha.
De longe ela é uma mancha verde sobre a areia. As manchas cha-
SIMBIOSE EM TODOS OS LUGARES 'I 7

pinham e tremeluzem em poças rasas. Se você pegar a água ver-


de e deixar que ela escorra pelos dedos notará fitas pegajosas
muito semelhantes a algas marinhas. Uma pequena lente de au-
mento ou um microscópio de baixa potência revela que o que pa-
reciam ser algas marinhas na verdade são vermes verdes. Essas
aglomerações de vermes verdes banhados ao sol, ao contrário de
qualquer alga marinha, se escondem na areia e efetivamente
desaparecem. Eles foram descritos pela primeira vez na década
de 1920 por um inglês, J. Keeble, que passava os verões em Ros-
coff. Keeble os chamou de "plantas-animais" e esboçou-os es-
plendidamente no frontispício colorido de seu livro, Plam-
Animals. Q~latelmintos da es~_iJ;~.s.c.afjensis são
todos verdes porque seus tecidos são apinhados de células Plaf)!:_
monas; <:<?_rp.o os vermes são transparentes~ a cor verde d~s
Platymonas, algas fotq_~aj_Qt~tj_za.ntes,_aP-ª1'~.f~- Embora adoráveis,
as algas verdes não são apenas decorativas: elas vivçm.e_cr~_SÇ,ein,
morrem e se. r~p_rºc;!t,1i~ro_g.~_mr_o_gos corposdos ·venne.s. . . De-fato,
elas proc:lu?;~ITI o alimento ~~-Q~ vermes "comem"._As bocas dos
~ermes se torn-ãm supérfl~as e não funcionam depois que as lar-
vas do· verme saem da casca. A luz do sol alcança as algas dentro
de suas estufas móveis e lhes permite crescer e se alimentar
enquanto vertem produtos fotossintéticos e alimentam seus hós-
pedes internamente. ~s algas simbiótic_as chegam a fazer um
favor ao verme no que diz respeito ao gerenciamento de resíduos:
elas reciclam o resíduo de ácido _úrjço_do_venne em nutr_ieotes
para elas mesmas. Algas e vermes compõem um ecossistema em
miniatura nadando ao sol. Para dizer a verdade, esses dois seres
são tão íntimos que é difícil dizer, sem um microscópio de gran-
de potência, onde termina o animal e onde começa a alga.
Esse tipo de parceria é abundante. Corpos de Plachobran-
chus, caracóis, abrigam simbiontes verdes crescendo em fileiras
tão uniformes que parecem ter sido plantados. Mariscos gigantes
agem como jardins vivos, nos quais seus corpos mantêm as algas
voltadas cm direção à luz. Mastig_ias é um medusóide do tipo
caravela que nada no oceano Pacífico. Como uma série de peque-
nos guarda-chuvas verdes, medusóides Mastigias4 flutuam aos
milhares junto aos raios de luz na superfície da água.
De forma semelhante, hidras tentaculadas de água doce
podem ser brancas ou verdes, dependendo de seus corpos estarem
repletos de parceiros verdes fotossintéticos. Será que as hidras
WU O PLANETA SIMSIÓTICO

são animais ou plantas? Quando uma hidra verde é permanente-


mente habitada por seus parceiros produtores de alimento (cha-
mados Clzlorella), é difícil dizer. Quando são verdes, as hidras
são simbióticas. São capazes de fazer fotossíntese, nadar, movi-
mePtar-se e ficar de pé. Elas permaneceram no jogo da vida por-
que se tornaram indivíduos por incorporação.
Todos os 30 milhões de espécies de nós, animais, têm origem
no microcosmo. O mundo microbiano. manancial do solo e do ar,
denuncia nossa própria sobrevivência. Um dos principais temas
do drama microbiano é o surgimento de individualidade a partir
das interações de comunidade de atores antes independentes.
Adoro observar as lutas diárias pela vida de nossos compa-
nheiros de planeta não humanos. Por muitos anos eu e Lorraine
Olendzenski, ex-aluna hoje na Universidade de Connecticut, gra-
vamos em vídeo a vida no microcosmo. Mais recentemente traba-
lhamos com Lois Byrnes, a vivaz ex-diretora adjunta do New
England Science Center em Worcester, Massachusetts. Nós e um
excelente grupo de alunos da Universidade de Massachusetts
produzimos filmes e vídeos que apresentam nossos amigos
microbianos às pessoas.
O Oplzrydium, uma espuma de água doce parada que, a um
olhar mais atento, parece ser composta de contáveis corpos de
"bolas de gelatina" verde é um exemplo de individualidade emer-
gente que descobrimos recentemente em Massachusetts e redes-
crevemos. Nossos filmes mostram essas bolas de água com extre-
ma clareza. A maior bola de gelatina verde "individual" é com-
posta de "indivíduos" menores em forma de cone ativamente
contráteis. Estes, por sua vez, são compósitos: Chlorellas verdes
vivem dentro de ciliados, todas dispostas em fileiras. Dentro de
cada cone de cabeça para baixo há centenas de simbiontes esféri-
cos, células de Chlorella. A Chlorella é uma alga verde comum;
as algas do Ophrydium são colocadas a serviço da comunidade de
bolas de gelatina. Cada "organismo individual" desta "espécie" é
na verdade um grupo, um pacote de micróbios fechados por
membranas que se assemelha e age como um indivíduo.
Uma bebida nutritiva chamada quefir, consumida nas monta-
nhas do Cáucaso, também é um complexo simbiótico. O quefir
contém coágulos granulados que os georgianos chamam de
"pclotas de Maomé". O coágulo é um pacote integrado de mais
de 25 tipos de levedura e bactérias. Cada coágulo é composto por
SIMBIOSE EM TODOS OS LUGARES 1 9

milhões de indivíduos. Desses corpos interativos de organismos


amalgamados surgem às vezes novos organismos. A tendência da
vida "independente" é se aglomerar e ressurgir em uma nova to-
talidade em um nível mais elevado e maior de organização. Creio
que o futuro próximo do Homo sapiens como espécie requer nos-
sa reorientação em direção às fusões e incorporações dos compa-
nheiros de planeta que nos precederam no microcosmo. Uma de
minhas ambições é persuadir um renomado diretor a produzir his-
tória evolutiva como imagem microcósmica em filme formato
72 mm (IMAX ou OMNIMAX), * mostrando espetaculares rela-
cionamentos vivos à medida que se formam e se desfazem.
Agora, como ao longo de toda a história da Terra, associações
de vida se formam e se desfazem. As simbioses, tanto estáveis co-
mo efêmeras, prevalecem. Essas narrativas evolutivas merecem
ser difundidas.

• Sislcmas de projcç.'lo de cinema cm que as imagens projetadas. às ve:r.cs cm enonncs cúpu-


las, são muilo maiores e mais nítidas que as dos sistemas COD\'Cllcionais. (N. da T.)
2 - Contra a ortodoxia

As montanhas erguem suas cabeças purpzfreas


Os rios se inclinam para ver
Mas o homem 11ão se aglomerou
Uma curiosidade ( 1688)

Não me recordo de angústia maior que a de meus 13 anos. Ne-


nhuma decepção profissional ou rejeição amorosa me lançou
mais profundamente na infelicidade e na inércia. Em secreto
exercício do que eu entendia como meus direitos como pessoa de
livre-arbítrio, retirei-me furtivamente da oitava série da escola
normal da Universidade de Chicago, com um pool infinitamente
inferior de possíveis namorados, e voltei à enorme escola secun-
dária pública à qual decidi que pertencia. Recusei-me a ficar mais
um dia que fosse naquela escola normal, onde tudo era tão fami-
liar e a álgebra era tão complicada. \
Eu morava no adorável apartamento de meus pai~ em South
Shore Drive e decidi que fugir era a única solução. É claro que eu
não tinha dinheiro, nenhum lugar para ir e havia um rígido crono-
grama de aulas e tarefas. Quando ficou claro que fugir seria impra-
ticável e os dias se tomavam mais longos e o tempo ficava de um
frio rascante, maquinei um plano. Tendo entrado na escola normal
na quarta série na classe de setembro, a única que eles tinham, cu
sabia, é claro, que estava um semestre atrasada. Meus amigos da
escola pública estavam meio ano à minha frente. Quando minha
infelicidade chegou ao ponto máximo, cm novembro ou dezem-
bro. quando o primeiro semestre da oitava série estava chegando
ao fim, meu plano se consolidou. Eu ia abandonar as complexida-
des da álgebra para sempre e me inscrever, com meus antigos ami-
gos da escola pública, na nona série da Hyde Park High School,
com seus esplêndidos cinco mil alunos. Após um hediondo cerco
no qual meu pai deixou mais do que claro que eu não faria aquilo,
percebi que meu plano teria de ser executado às escondidas. Em
CONTRA A ORlODOXIA .2 'I

um belo dia encoberto no início de fevereiro, com uma gloriosa


sensação de me libertar dos grilhões da responsabilidade, matei
aula. Peguei um ônibus e encontrei o enorme e anônimo escritório
na confusa e policiada escola secundária urbana na rua 63.
Inscrevi-me na nona série, para, a qual me considerava extrem~-
mente qualificada, e disse aos funcionários da escola, quando eles
perguntaram, que eu havia freqüentado a escola primária da
Universidade de Chicago mas que, após perder o semestre do
outono, chegara recentemente com meus pais à cidade.
Por umas 12 semanas simplesmente fui a todas as aulas. Gos-
tava especialmente da sra. Kniazza, uma excelente professora de
espanhol. Eu era uma verdadeira aluna-modelo. Me· .s pais, é cla-
ro, não tinham por que imaginar que eu não estava na escola nor-
mal da Universidade de Chicago diariamente e eu não tinha moti-
vo para desiludi-los. Mais tarde, na primavera, recebi um aviso.
A Hyde Park High School fora informada, ao pedir uma cópia de
meu histórico escolar do primário, de que eu não havia completa-
do a oitava série na escola normal da Universidade de Chicago.
Eles concluíram que eu não tinha autoridade alguma para cursar
a Hyde Park. Fui chamada ao escritório do diretor da Hyde Park
para um interrogatório. Não, eu não havia concluído o normal da
Universidade de Chicago, mas e daí?, afirmei. Desde o jardim-
de-infância na escola primária O'Keefe eu sempre iniciava cm fe-
vereiro e estava voltando para meus amigos formados da
O'Keefe, que agora estavam na Hyde Park High. Ao me juntar a
meus antigos colegas de classe, eu estava simplesmente voltando
ao status quo anterior. Tudo veio a público quando a direção da
escola percebeu que meus pais nem imaginavam que eu não esta-
va na escola normal; quando lhes contei que estava deixando a
escola não admiti que meus pais não sabiam. É claro que meus
pais não haviam notado que as contas da escola não chegavam.
Muitas sessões de choro se seguiram por causa da escola.
Não me lembro se fui eu ou se foi meu pai que imaginou a solu-
ção. Acabamos resolvendo tudo quando nos perguntamos como
os adolescentes provenientes de escolas estrangeiras com siste-
mas de avaliação não equivalentes eram colocados no nível ade-
quado de escola secundária nos Estados Unidos. Solicitamos que
eu fizesse os testes de matemática, inglês, história e humanidades
aplicados aos estudantes de escolas de ensino médio do exterior.
Passei, com facilidade, para a nona série. Eu havia vencido a ba-
2.2 O PLANETA SIMBIÓTICO

Lalha. Obtive permissão para cursar a nona série na Hyde Park,


onde desfrutei uma variedade muito maior de namorados.
Mas eu havia perdido a guerra. Após dois anos de ensino mé-
dio na escola pública, meus conselheiros acadêmicos me disse-
ram, ao voltar para a Universidade de Chicago, como "caloura
precoce", que eu havia piorado em matemática, que meu vocabu-
lário havia diminuído e que, em geral, eu era uma aluna pior no
final da décima série do que fora a meio caminho da oitava.
Quando, na primavera de 1954, finalmente deixei o tormento ra-
cial urbano de Hydc Park para freqüentar A Faculdade (como a
Universidade de Chicago era chamada, embora eles aceitassem
alunos bem novos), fui instruída, após um lapso de dois anos, a
me tomar uma boa aluna de novo. De volta ao lugàr ao qual eu
pertencia, segundo meus ansiosos pais, estava pronta para conhe-
cer o que havia de melhor cm termos de homens bonitos, inteli-
gentes e aceitáveis. Seguiram-se os anos Sagan.
Aos 14 anos tive a sorte de ser aceita no programa especial da
Universidade de Chicago para calouros precoces. Embora três
anos e meio depois cu tenha me formado com muitos ganhos,
incluindo um diploma em ciências humanas e um marido, de lon-
ge o mais duradouro foi um ceticismo crítico completo e fina-
mente acalentado. Aprecio a formação que recebi na Universida-
de de Chicago por seu principal ensinamento: deve-se sempre
lutar para discernir o que é tolice da autenticidade.
Meu colega Carl Sagan, então um astrônomo cm formação,
era quase cinco anos mais velho que eu. Alto, bonito, com um
emaranhado de cabelos castanho-negros e extremamente bem ar-
ticulado, já então era cheio de idéias. Literalmente colidi com ele
certo dia enquanto saltitava pelas escadas do Eckhart Hall, o pré-
dio de matemática. Sagan, aos 19 anos, estava prestes a iniciar
sua carreira de astrônomo. Ele era estudante de física, cu não pas-
sava de uma garota agitada, entusiasmada e inculta.
Eu era uma ignorante em ciência. Carl e sobretudo seu dom
da loquacidade me fascinaram. Ele já parecia ser um profissional
rematado. Desde nosso primeiro encontro ele partilhou comigo, e
com qualquer pessoa que quisesse ouvir, seu aguçado conheci-
mento da vastidão do tempo e do espaço. Como presidente do
clube de astronomia, jornalista com artigos publicados e orador,
ele mostrava a todos à sua volta como nós, frangotes ignorantes,
poderíamos nos juntar ativamente ao empreendimento científico.
Seu amor pela ciência era contagiante.
.,. _,
,;. ' CONTRA A ORTODOXIA

Nossa apaixonada investida à terra do amor teve um início


vacilante e um final igualmente abrasivo. Meu pai odiava a arro-
gância dele e minha mãe sempre suspeitara de seu caráter auto-
centrado. Viajamos para o sul, até o México, e para o leste, até
Nova Jersey. Fomos juntos a muitos lugares e nos separamos
diversas vezes. Cheguei a gravar uma fita para mim mesma rela-
cionando os motivos pelos quais casar com ele seria uma atitude
tola e autodestrutiva. Mesmo assim, em 6 de junho de 1957,
quando eu estava com 19 anos, fryemos um casamento maravi-
lhoso. Minha mãe, perita em elegância, organizara o que havia de
melhor. A mãe dele, Rachel Sagan, embora tivesse participado, é
claro, de todas as festividades, mandou-me um telegrama naque-
le dia. Ele dizia: "De bacharel a senhora em apenas uma semana."
As cerimônias de formatura de meu magnífico legado Robert M.
Hutchins, o diploma em ciências humanas sem especialização,
sem eletivas, aconteceram uma semana antes de nosso casamen-
to. Hutchins ( 1899-1977), inovador do ensino superior liberador,
chegou à reitoria da Universidade de Chicago, onde permane_ceu
por 22 anos até se aposentar, aos quarenta anos. Embora ele tives-
se emigrado para o Oeste quando entrei na faculdade, devo minha
formação a seu talento e ao currículo por ele reformulado.
Convencida, em parte por Carl, de que os fenômenos da here-
ditariedade acabariam sucumbindo a uma só explicação química,
pensei que a ciência genética nos forneceria a melhor pista de
como a evolução funciona. Aos 19 anos segui, sem querer, oca-
minho apontado por George Gaylord Simpson.t Simpson escre-
vera que a evolução não é o tema mais importante porque ele a
havia estudado; na verdade, ele estudara evolução porque é a
ciência mais importante.
Naquele mês de setembro, alguns dias antes do lançamento
do satélite soviético Sputnik, acompanhei Carl ao Observatório
Yerkes em Williams Bay, Wisconsin. Yerkes, o departamento de
astronomia da Universidade de Chicago, ficava cerca de 140 qui-
lômetros da grande cidade junto ao lago. Carl trabalhava como
estudante de pós-graduação, um entre os apenas quatro em ciên-
cia planetária, na época uma disciplina quase desconhecida. Ele
já havia começado a busca por planetas habitáveis.
Eu também me inscrevi em um programa de pós-graduação.
Surpresa ao ver que haviam aceitado meu diploma em ciências
humanas sem especialização como um bacharelado, tomei-me
24 O PIANETA SIMBIÓTICO

candidata ao grau de mestra 140 quilômetros a noroeste, na Uni-


versidade do Wisconsin, em Madison. O ano era 1958. Grávida e
sonolenta nas aulas, estudei biologia celular e genética em dois
departamentos. Comecei como monitora onde eu era mais neces-
sária, no departamento de zoologia da faculdade de ciências
humanas. Meu outro trabalho era no departamento de genética da
escola de agricultura. Aprendi genética geral e depois genética de
populações com meu principal professor, James F. Crow. Adorei
o curso de genética geral de Crow; ele mudou a minha vida. Eu
sabia, ao deixar a Universidade de Chicago, que queria estudar
genética, mas após as aulas de Crow eu sabia que só queria estu-
dar genética. Descobri que o estudo da genética é o caminho cer-
to para reconstruir a evolução, a história da vida primitiva, pré-
humana, na Terra. Quando eu e meu filho mais velho, Dorion,
estávamos escrevendo nosso livro Microcosmos,* lembro-me de
ter ido, a pedido dele, à estação do metrô Auditorium-Massachu-
setts Avenue em Boston para ver uma pichação garatujada em um
velho mapa de um dos túneis. As grandes letras em preto pergun-
tavam: "De onde vêm as amebas no caos?" Gargalhei cm voz
alta. A frase, em essência a pergunta da minha vida, brilhava nas
paredes sombrias da encardida estação de metrô.
Ainda reflito sobre o começo do passado remoto. O que acon-
teceu com a vida em si mesma na Terra em seus primeiros dias?
Após aquele primeiro curso percebi que o campo da genética de
populações, com sua insistência em conceitos neodarwinianos
abstratos como "carga mutacional", "aptidão" e "coeficiente de
seleção", ensinava mais uma religião do que uma descrição das
regras pelas quais os organismos reais passaram para seus genes
e evoluíram.
Os genes, como todo mundo na época sabia, estavam locali-
zados no núcleo de todas as células de plantas e animais, onde
eram passados para a prole, geralmente inalterados. Esses genes,
conforme aprendemos com conjuntos de problemas detalhados e
as soberbas palestras de Crow, determinavam - na verdade, con-
trolavam - os traços dos descendentes.
Por temperamento, eu já não estava propensa a me concentrar
de forma monomaníaca no núcleo da célula mais do que em ser
uma esposa satélite em uma família nuclear; minha atenção, como

• Ver página 126.


CONTRA A ORTODOXIA

a de muitas outras mulheres, estava dividida. Minha amiga Mary


Catherine Bateson, filha da antropóloga Margaret Mcad, descreve
as mulheres modernas como "idealistas periféricas". Para sobre-
viver, uma mulher tem de ser quase octópode em suas atenções.
Segurando o bebê em um braço, diz Bateson, ela mexe a panela
com o outro braço enquanto observa a outra criança engatinhan-
do. Essas múltiplas pressões não foram eliminadas na época, nem
hoje, seja pela vontade política ou pela retórica feminista.
";, Meu trabalho começou de forma não convencional. Eu estu-
dava os sistemas genéticos que outras pessoas costumavam igno-
rar, aqueles residentes em estruturas celulares (organelas) fora do
núcleo. Os dados sobre "genes citoplasmáticos" me fascinaram
desde a primeira vez que aprendi sobre eles. O citoplasma é a par-
ie líquida da célula, no qual se encontram as mitocôndrias, cloro-
plastos e outras organelas.2 Acreditava-se, como se acredita até
hoje, que os genes ficam centra}izados no núcleo. Uma vez que os
genes citoplasmáticos eram desconcertantes, as experiências que
estabeleciam sua existência em geral eram descritas de forma
incompleta. Não fui a primeira a chamar atenção para os genes
citoplasmáticos. Na verdade, muitos pesquisadores da genética
celular, ou, como também era chamada na época, "hereditarieda-
de citoplasmática", estavam cientes da existência desses genes.
Jan Sapp, atualmente professor da Xork University, próximo a
Toronto, descreve maravilhosamente e~ seu livro Evolution by
Association a história intelectual de todo esse subcampo da gené-
tica.3 As pesquisas em genética citoplasmática começaram na pri-
meira década do século XX, na mesma época em que começaram
os trabalhos em genética nuclear. Ambas as linhas de pesquisa
tiveram início com a redescoberta do trabalho d~ Gregor Mendel,
que havia estabelecido a existência somente dos genes nucleares.
Mendel, o monge e botânico da Boêmia, inferiu a existência dos
genes, que denominou "fatores", por regras de hereditariedade de
traços alternados em ervilhas de jardim. Seu trabalho na década
de 1860 foi redescoberto por três cientistas cm IQ90, muito de-
pois de sua morte. Mendel é indiretamente aplaudido quando é
acusado de ser o "pai da genética". Os pesquisadores de genética,
eufóricos com suas primeiras descobertas sobre os fatores nu-
cleares de Mendel (que se tomaram os genes nucleares), ficaram
perplexos com sistemas genéticos não nucleares (ou citoplasmá-
ticos). Boris Ephrussi, especialista cm genética de leveduras e
26 O PIANETA SIMBIÓTICO

exilado russo que vive na França, brincou que "existem dois tipos
de sistema genético, o nuclear e o obscuro".* É óbvio que com
"obscuro" ele queria dizer citoplasmático.4
__ ;-- O que começara às margens da visão microscópica da célula
estava então mais próximo do centro do palco. As descobertas so-
bre a importância da simbiose na evolução nos obrigaram a rever
a antiga perspectiva nucleocêntrica da evolução como uma luta
entre animais. Que a natureza seja impiedosa, displicentemcnte
indiferente ao sofrimento individual, não exclui o fato de que a
simbiose, começando como uma aliança desconfortável de for-
mas de vida distintas, pode estar na base da origem das principais'
inovações evolutivas. A consciência humana e dos animais, as-•
sim como outros tipos de beleza e complexidade biológica, são
propriedades de nossa linhagem bacteriana, pontilhista e de coe-
volução. A convivência intracelular, uma infiltração e assimila-
ção muito mais profundas do que qualquer aspecto da sexualida-
de humana, produziu de tudo, de florescências primaveris e cor-
pos de mamíferos quentes e úmidos ao nexo global da Terra. A
simbiogênese, três décadas mais tarde, está convertendo a genéti-
ca citoplasmática de tema marginal a tema central nos estudos
dos genes.
O abade Mendel postulou a existência de "fatores"; somente
mais tarde outras pessoas os denominaram genes nucleares. Esses
fatores, teorizou Mendel, produziam as diferentes cores (amarelo
e verde) e texturas (enrugada ou lisa) nas ervilhas-de-cheiro que
ele plantou e cruzou em sua horta no monastério. O propósito de
Mendel, muito provavelmente, era mostrar a imutabilidade fun-
damental da hereditariedade e assim opor-se, como em uma ver-
são respeitável e brilhante de um "cientista da criação" paradoxal
moderno, à noção anti-Adão de Charles Darwin da mutabilidade
de todas as espécies. Segundo um brilhante manuscrito inédito de
um historiador da ciência amador da ilha de Nassau, nas Baha-
mas, cujo nome não consigo me lembrar, Mendel não viu indício
algum de que as espécies mudavam e evoluíam. Flores macho
vermelhas e flores fêmea brancas produziam sementes que cres-
ciam em uma prole rosa. Mas as flores geradas por pais rosa eram
apenas vermelhas ou apenas brancas como seus avós. Quaisquer
que tenham sido suas motivações, os fatores de Mendcl foram

• No original, jogo ele palavras com 1111clear e unclr.ar. (N. da T,)


CONTRA A ORTODOXIA 27

correlacionados à hereditariedade de características inalteradas.


Além disso, esses fatores hipotéticos foram estritamente associa-
dos ao comportamento dos cromossomos de coloração vennelha
fechados por membranas nucleares. Meu colega Jan Sapp publi-
cou análises do trabalho de Mendel similares aos da mulher des-
conhecida que chegou sonolenta ao meu escritório com toneladas
de papel, provas de seu trabalho coletadas durante anos e que
nunca viriam a público.
Os cromossomos, corpos diminutos que residem dentro do
núcleo das células de animais e plantas, já eram conhecidos mui-
to antes da descoberta da estrutura 1do ácido desoxirribonucléico
(DNA) em 1953. Na época em que cheguei à idade científica, a
teoria cromossômica da hereditariedade já havia sido canonizada
como verdadeira. O termo "teoria" fora descartado e ela era ensi-
nada como fato: os genes, como "contas em um colar". ficavam
nos cromossomos. Os indícios eram incontestáveis; franzidos
dentro do núcleo de células de tecidos, os genes hipotéticos fica-
vam nos cromossomos. Esses genes correspondiam exatamente
aos fatores da teoria de Mendel: seguiam as regras e determina-
vam se as flores das plantas seriam vermelhas, brancas ou rosa e
determinavam características herdadas comparáveis nos animais.
Os indícios da localização no núcleo dos genes que determinam
as características foram considerados tão fortes que o recém-des-
coberto conhecimento genético podia ser resumido como "a base
cromossômica da hereditariedade".
Após meados da década de 1950, os biólogos que seguiam o
pensamento da maioria, ou "citologistas bioquímicos e biofísi-
cos", como eram conhecidos, estavam empolgados em sua busca
pela coisa verdadeira, pela base material detalhada dos fatores de
Mendel. De que eram compostos os cromossomos de coloração
vermelha? Qual é a química da hereditariedade? A própria ciên-
cia, como em um romance de ficção científica ou de terror, reve-
lava o segredo da vida. É difícil exagerar a emoção faustiana de
uma busca como essa. Com muitas pistas falsas mas depois
sucessos espetaculares, o conhecimento das entranhas da célula e
seu núcleo aumentou. A química subjacente da célula incessante-
mente ativa foi descoberta. Proteínas foram sintetizadas e o ácido
nucléico foi replicado a ~rür de moléculas de alimento. Essas
atividades químicas eram a base do metabolismo de toda ~ vida.
Mas um óvulo não era um saco nucleado cheio de genes.
28 O PLANETA SIMBIÓTICO

Como os embriologistas e botânicos continuaram a afirmar, os


gcn·cs citoplasmáticos ou fatores citoplasmáticos nos óvulos de
plantas e animais, mas não dentro do núcleo, também exerciam
controle sobre os traços. Descobriu-se que fatores externos ao
núcleo estavam profundamente implicados na respiração de oxi-
gênio (mitocôndrias) e na coloração das folhas (cloroplastos).
Em outras palavras, os genes não estão necessariamente no
núcleo. Tanto cm plantas como em animais, alguns fatores gené-
ticos celulares estão dispersos. Desde a década de 1930, quando
os primeiros trabalhos sobre bioquímica foram realizados na Ale-
manha e na Inglaterra, estabeleceu-se, a partir de leveduras e ou-
tros fungos, que a mitocôndria contém seus próprios genes. Essas
pequenas organelas são os lugares onde o gás de oxigênio do ar
reage com moléculas de alimento para gerar energia química.
Células de algas e vegetais contêm corpos verdes visí".eis, os clo-
roplastos, nos quais a fotossíntese converte a luz do sol em ener-
gia e alimento utilizáveis. Os cloroplastos das algas e das plantas
também contêm seus próprios genes. Isso foi descoberto na vira-
da do século XIX para o XX por H. De Vries e C. Corrcns, dois
botânicos, que também redescobriram de forma independente os
genes de Mendel. O cloroplasta herdado de apenas um dos pais,
cm geral a fêmea, aparentemente determinava a cor verde.
O padrão de hereditariedade era não nuclear.
"Do ponto de vista da hereditariedade, o citoplasma de uma
célula pode ser seguramente deixado de lado." Mesmo quando li
pela primeira vez essa afirmativa, proferida confiantemente por
T. H. Morgan, professor da Columbia e participante fundamental
da descoberta da genética, em 1945, considerei-a uma arrogante
supersimplificação.s A hereditariedade da célula, tanto nuclear
como citoplasmática, sempre deve ser considerada para toda a
célula, todo o organismo.
Se Carl Sagan teve um papel fundamental em minha conver-
são adolescente à ciência, provavelmente mais crucial foi "A Fa-
culdade" da Universidade de Chicago. Uma primeira etapa críti-
ca de minha formação científica foi um curso de um ano de dura-
ção, Ciências Naturais 2. Em vez de livros didáticos, nós, alunos
das aulas de ciências biológicas Cien Nat 2, líamos os textos dos
próprios grandes cientistas: Charles Darwin, Gregor Mendel e os
biólogos alemães Hans Spemann, um embriologista ativo nas
primeirns duas décadas do século XX, e August Weismann, co-
CONTRA A ORTODOXIA 2V

descobridor da fertilização que postulou a existência da "conti-


nuidade do plasma de germe". Também lemos neodarwinistas de
língua i1:1glesa, incluindo os matemáticos e geneticistas britâni-
cos G. S. Hardy, J. B. S. Haldane e R. A. Fisher. Hardy, Haldane,
Fisher e muitos outros desenvolveram os princípios da genética
de populações, um pilar fundamental que sustenta o neodarwi-
nismo. A Cien Nat 2 nos inspirou a refletir sobre a genética de
populações, embriologia e muitos conceitos: o que é hereditarie-
dade? O que une as gerações? Como os materiais em óvulo e
espermatozóides fundidos levam ao desenvolvimento de um ani-
mal completo? Conforme aprendemos em Cien Nat 2, a ciência é
uma forma de obter conhecimento. Aprendemos como, por meio ,1
da ciência, poderíamos responder a importantes perguntas filosó-,L
ficas. As questões relativas aos mistérios da hereditariedade que
monopolizavam minha atenção em Cien Nat 2 me inspiram até
hoje.
A soberba ciência da Universidade de Chicago, um conjunto
de métodos francos, abertos, acessíveis e vigorosos, não parece
ter nada a ver com a atual mentalidade "dilema tecnológico". Lá,
a ciência facilitava a busca de perguntas profundas nas quais a fi-
losofia e a ciência se confundiam: o que somos nós? De que nós
e o universo somos feitos? Como funcionamos? Não duvido que
devo minha escolha de uma carreira científica ao talento dessa
formação "idiossincrática".
Lendo a ementa de Cien Nat 2, ouvi as vozes de grandes bió-
logos cm minha imaginação: Vance Tartar dissecando o "ciliado
gigante" Stentor; Thomas Hunt Morgan estabelecendo a supre-
macia do núcleo; Hermann J. Muller definindo a vida como "mu-
tação, reprodução e reprodução da mutação"; Theodosius Dobz-
hansky perseguindo moscas-das-frutas em sua busca infindável
para correlacionar genes, cromossomos, ambiente e história evo-
lutiva. A. H. Sturtevant, fumando seu cachimbo na sala de mos-
cas na Columbia University, procurando as bases cromossômicas
dos fatores que determinaram as características de diferentes ti-
pos de moscas-das-frutas. A genética e a evolução, os geneticis-
tas e os evolucionistas, mesmo aqueles há muito tempo mortos,
exerceram sobre mim um fascínio desde meu primeiro encontro
com seus trabalhos. O conjunto coerente de ciência produzido
pela escola norte-americana de geneticistas na primeira metade
do século XX proporcionou-me uma noção da história do pensa-
30 O PLANETA SIMBIÓTICO

mento biológico - especialmente o genético. Desde o início esta-


va claro que era necessária uma explicação química.
Meu fascínio pela evolução começou em Cien Nat 2. Theodo-
sius Dobzhansky, ainda em atividade na Columbia University
quando li seus trabalhos pela primeira vez, escreveu que "nada em
biologia faz sentido exceto à luz da evolução".6 A evolução, defi-
nida simplesmente como mudança ao longo do tempo, coloca em
evidência a história intrincada da qual somos o legado vivo.
O estudo da evolução é vasto o bastante para incluir o cosmo e suas
estrelas, assim como a vida, inclusive a vida humana, e nossos cor-
pos e tecnologias. A evolução é simplesmente toda a história.
Já na graduação eu percebia que havia alguma coisa de con-
veniente demais, reducionista demais, limitadora demais na idéia
de que os genes no núcleo determinam todas as características de
plantas e animais. Como mutações genéticas aleatórias levaram à
evolução de flores e olhos? Meu ceticismo só se consolidou
quando, acompanhando Carl. a Wisconsin, continuei meu traba-
lho biológico em Madison. Preferindo observar diretamente as
células vivas em vez de esquadrinhá-las para examinar a química
intrínseca (metabolismo), interessei-me pelos cromossomos e
outras organelas herdadas, corpos visíveis dentro das células. De-
diquei-me à pesquisa das regras de sua propagação.
Em 1963, muitas dissertações sobre os fatores citoplasmáti-
cos dos óvulos mostravam genes misteriosos fora do núcleo.
Plantas fêmeas verdes cruzadas com plantas machos brancas em
alguns casos geravam apenas prole verde. No entanto, nessa mes-
ma espécie, se plantas machos verdes são cruzadas com fêmeas
brancas, apenas prole branca nasce das sementes. Por quê? Ao
herdarmos os genes nucleares, as contribuições do macho e da
fêmea são iguais, e não importa quem é pai ou mãe. Estava claro
para mim que o óvulo ou célula vegetal não era simplesmente um
saco que carrega o núcleo com todos os seus genes importantes,
com o que concordavam os geneticistas predecessores cujos tra-
balhos eu lera. O conselho de T. H. Morgan para que se ignoras-
se o citoplasma me parecia, já naquela época, simplesmente uma .
negação.
A percepção de que a ênfase em ligar a genética à química ha-
via desnecessariamente dado aos cientistas uma perspectiva es-
treita demais, muito centrada no núcleo, foi meu ponto de partida.
Estudei os trabalhos de Ruth Sager e Francis Ryan sobre os genes
CONTRA A ORTODOXIA 3 'I

citoplasmáticos e os estranhos casos genéticos de bolores coleta-


dos pelo pesquisador italiano Gino Pontecorvo. 7 Experiências
descritas por esses autores mostraram que dois tipos de organelas,
estrutui:as fechadas por membranas dentro das células mas fora do
núcleo,lpl~S!f_çlj~s e mito_c§ndpias, haviam influenciado de forma
significativa a heredítariedade. As referências nesses livros me
levaram a The Cell in Development and Heredity, a obra-prima de
1928 de E. B. Wilson.s Wilson reviu antigos livros que falavam
sobre a similaridade das organelas celulares, os plastídios e as
mitocôndrias, com micróbios livres. Essª-pista me_levou a estudar
os micróbios nª lit~~~tura sobre simbiÕs-e. À medida ·que -notava a
abundância de encontros simbiôticos na natureza, sobretudo bac-
térias vivendo junto com (e às vezes dentro) células de insetos e
vermes, fui me interessando pelos primeiros pesquisadores que
Wilson citava: I. E. Wallin, K. S. Merezhkovsky e A. S. Famin-
tsyn. A história é contada no soberbo livro _de_l_(h_a~hina, agora
disponível em inglês.9 Julguei qu~- eles _estavam certos _ao supor
que partes não ·nucleares das células, com sua própria hereditarie-
dade peculiar, eram formas remanescentes de bactérias antes
livres. Pareceu-me óbvio que havia sistemas duplos de heredita-
riedade com células dentro de células.· Posteriormente descobri
que essa idéia também parecia óbvfa para Merezhkovsky.
Inscrevi-me como estudante de pós-graduação no departa-
mento de genética da Universidade da Califórnia em Berkeley em
1960. Embora eu tivesse 22 anos e já fosse mãe de dois garotos
insistentemente ativos, meu entusiasmo pela busca da genética
celular e pela evolução dominavam qualquer idéia de me tornar
dona-de-casa em tempo integral. Mais do que maridos, sempre
desejei ter filhos. Ao contrário de meus pais, eu achava uísque e
cigarros, pôquer e bridge, reuniões e política, fofocas e golfe in-
suportavelmente chatos. Eu, por outro lado, era intoleravelmente
pedante, séria e estudiosa e preferia a companhia de bebês, lama,
árvores, fósseis, animais de estimação e micróbios ao mundo nor-
mal dc.j adultos. E ainda prefiro.
Em Berkeley não havia nenhuma relação entre os membros
do departamento de paleontologia, onde se estudava a evolução,
e os do departamento de genética, onde a evolução mal era men-
cionada. Uma vez que eu buscava uma formação em todos os as-
pectos da evolução, da paleontologia e da genética, que pudessem
esclarecer a história evolutiva das células, a princípio fiquei sur-
32 O PLANETA SIMBIÓTICO

presa com a profundidade do apartheid acadêmico. Cada departa-


mento parecia nem saber das pessoas e temas que estivessem
além de suas fronteiras. Quase todos os geneticistas bacteriolo-
gistas do Laboratório de Vírus e Bactérias (BVL) no lado leste do
campus haviam começado suas carreiras como químicos.
A maioria era incrivelmente mal informada a respeito da genéti-
ca de células de plantas e animais. Poucos haviam ouvido falar
cm hereditariedade citoplasmática ou organclas em células com
núcleo. Nenhum geneticista bacteriologista, microbiologista ou
virologista daquele lado do campus sabia algo a respeito de siste-
mas genéticos no citoplasma das algas. Alguns eram tão bacterio-
cêntricos que mal compreendiam a mitose, tipo de divisão celular
característico de células com núcleo. Certamente eles nunca ha-
viam ensinado ou sequer considerado a variação especial da
mitose, chamada meiose, que é subjacente às regras de heredita-
riedade mendeliana. A maioria não sabia quase nada sobre essa
hereditariedade, que se aplica somente a organismos nucleados.
Aqueles biólogos - formados em física e química - maria-vai-
com-as-outras eram tão arrogantes que nem sabiam que não sa-
biam. Muitos transmitiam erudição em química, mas ignorância
em biologia e arrogância para seus alunos de pós-graduação. Os
alunos e o corpo docente do BVL nem sequer haviam ouvido
falar do empolgante trabalho sobre hereditariedade citoplasmáti-
ca cm um ramo então florescente da genética, a genética dos ci-
liados. Até os membros do departamento de genética, no lado
oeste do campus, desconheciam a ciência genética dos ciliados
que para mim era tão interessante. Seu desinteresse e ignorância
me surpreenderam, mas não me detiveram. Fiquei fascinada pela
genética do paramécio, o ciliado, e pelo expositor da teoria, Tracy
Sonneborn (1895-1970), desde a primeira vez que li a respeito.
O que Sonneborn e sua colega francesa Jannine Beisson haviam
descoberto parecia contradizer grosseiramente o dogma onipre-
sente de que características induzidas não podem ser herdadas.
Sonneborn, há muito professor de genética na Indiana University,
junto com a pesquisadora Bcisson, relatou que se os cílios do
paramécia são cirurgicamente removidos em bloco com suas
bases e girados cerca de 180 graus sobre a superfície celular e, ,
depois recolocados, eles aparecerão em células descendentes, por _:
muitas gerações futuras, nessa posição inversa. Em outras pala-
vras, os cílios se reproduziam e a mudança experimentalmente
o -;;v;3_'it./? _ J-
CONTRA A ORTODOXIA

induzid_a__ pelos c~n_ti~gis foi herdada, por pelo menos duzentas


, · gerações após a operação--:--Esre~m exemplo em laboratório
'· da chamada herança de características adquiridas que a ortodoxia
repudiava como @m<!x:E~i~m9...:
A manutenção de meu interesse por esses detalhes já era en-
tão um exercício intelectual solitário. À medida que a orientação
política da década de 1960 se acelerava, mais e mais se discutia na
academia a "relevância", com o resultado de que qualquer interes-
se intelectual era avaliado em relação ao bem-estar da humanida-
de. Nesse ambiente, meu interesse pelos padrões de hereditarieda-
de celular era anti-social. O que mais me interessava era irrele-
vante para meus monitores e para a maioria de meus colegas.
A genética, apesar dos geneticistas bacteriologistas de Berke-
ley, ainda me parecia ser a chave para a história evolutiva. Coletei
mais exemplos de, hereditariedade não mendeliana (não nuclear)
em uma grande variedade de espécies: plantas como Eupatorium,
' @ ~ , Mirabilis jalapa e Oenothera e algas como Chlamy-
domonas. Estudei mutantes de leveduras não nucleares deficien-
tes na respiração de oxigênio, chamados "petites", que crescem
lentamente e formam pequenas colônias. Também revi o padrão
de hereditariedade "assassino-kappa" do ciliado paramécio. Esse
fenômç1w maravilhosamente pesquisado foi descrito por Tracy
Sonnebom, que observou que alguns paramécios haviam nascido
para matar oulros, geneticamente diferentes. E nunca achei que a
hereditariedade "não nuclear" fosse "obscura". H. J. Muller
( 1890-1967), um geneticista que posteriormente recebeu o prê-
mio Nobel por mostrar como os raios X induzem a mudança here-
ditária (mutação), anunciara a existência de genes nus, pelo me-
nos em princípio, no cerne da vida. Apesar de seu trabalho conci-
so, não acreditei que alguém tenha provado que os "genes nus"
existam além do núcleo de células de plantas ou animais. Estudei
o antigo porém brilhante trabalho de Edouard Chatton (1883-
1947), biólogo da Marinha Francesa, e Lemuel Roscoe Cleveland
( 1892-1969), professor e cientista pesquisador de Harvard. Li
uma infinidade de trabalhos de Tracy Sonneborn, que escreveu
maravilhosamente e expressou sua opinião enquanto trabalhava.
Procurei as esplêndidas fotografias (micrografias de elétrons) que
foram tiradas em Madison por meu iconoclasta e dedicado pro-
fessor Hans Ris, da Universidade de Wisconsin.
Essas fontes diversas de informações comprovaram meu
34 O PLANETA SIMBIÓTICO

pressentimento: as bactérias, e não os genes nus, residiam fora do


núcleo mas dentro das células de muitos protistas, leveduras e até
plantas e animais. Enquanto eu revia a literatura sobre genética
citoplasmática, ficou óbvio que pelo menos três classes de orga-
nelas fechadas por membranas (plastídios, mitocôndrias e cílios),
todas fora do núcleo, lembravam as bactérias em termos de com-
portamento e metabolismo. De fato, para mim às vezes parecia
impossível diferenciar uma bactéria presa em uma célula de uma
organela herdada como parte de uma célula. Uma cianobactéria
capturada que solta sua parede para residir e crescer confortavel-
mente no citoplasma de uma célula vegetal parecia ser exatamen-
te a organcla que todos denominavam cloroplasto.
Encorajada por incursões intelectuais a essa literatura da gené-
tica das organelas citoplasmáticas, previ que o plastídio, nascido
como bactéria capturada, deveria ter retido algum DNA bacteriano.
O que começou como trabalho de detetive na biblioteca do
departamento de genética da Universidade da Califórnia em
Berkeley perdura até hoje. Continuo adquirindo avidamente dis-
sertações científicas sobre simbiontes bacterianos e organelas
fechadas por membranas. Meus alunos e eu continuamos traba-
lhando na mesma idéia fundamental: a origem das células com
núcleo é exatamente igual à integração evolutiva de comunidades
bacterianas simbióticas.
Minha primeira exposição completa da "teoria da endossim-
biosc seqüencial" foi publicada após cerca de 15 rejeições e per-
das vruiadas de um manuscrito precoce, dolorosamente comple-
xo e mal redigido. Intitulado "Origem das células mitóticas", ele
finalmente foi aceito para publicação em 1966 por meio da inter-
venção direta de James F. Daniclli, na época redator do ousado
Journ.al of Theoretical Biology. É claro que o artigo, quando
finalmente publicado no fim de 1967, levava meu primeiro nome
de casada, Lynn Sagan. A teoria foi apelidada de SET, acrônimo
de Serial Endosymbiosis Theory (para não ser confundida com
SETI - a busca por inteligência extraterrestre), por outro entu-
siasta dos protistas, professor Max Taylor, da Universidade da
Colúmbia Britânica em Vancouvcr.
Quando já estava em meu segundo casamento e grávida de
minha filha Jcnnifer, cm 1969, pude deleitar-me cm ser obrigada
a ficar cm casa por longos períodos. A licença imposta para ficar
cm casa permitia o pensamento ininterrupto. Isso, por sua vez, me
CONTRA A ORTODOXIA

estimulou a documentar claramente a versão expandida de minha


narrativa SET, composta de quatro partes. A história da origem
das células começou em minha tese de 1967, brotou, expandiu-se
e acabou sendo editada em um manuscrito do tamanho de um li-
vro. Eu datilografava até tarde da noite, determinada a cumprir o
prazo estabelecido no contrato. É claro que, por ser praticamente
uma desconhecida, eu não recebi adiantamento nem compensa-
ção pelas muitas ilustrações que enviei. Toda a ajuda veio de casa.
Finalmente terminei o que pensava ser a versão final. Com orgu-
lho e cuidado, logo pela manhã, antes de ouvir as vozes das crian-
ças, encaixotei e enviei o trabalho fartamente ilustrado para a edi-
tora que fechara o contrato: a Academic Press, em Nova York.
Não acusaram o recebimento da caixa. Esperei. Continuei espe-
rando por cerca de cinco meses. Certo dia minha caixa, sem expli-
cações, enviada pela tarifa mais barata, reapareceu na minha cai-
xa de correio. Muito mais tarde fui informada, e não foi nem pelo
editor, que uma análise feita por colegas, extremamente negativa,
fez com que a Academic Press retivesse o manuscrito por meses.
Finalmente recebi uma carta formal de recusa. Nenhuma explica-
ção, na verdade nem uma carta pessoal assinada pelo editor da
Academic Press, acompanhou a carta de recusa. Mais de um ano
depois, após um trabalho muito mais sofrido e muito mais ·longo
do que o que Jenny me dera, o livro foi enfim muito bem editaqo,
produzido e publicado pela Yale University Press. Devido a
comentários e críticas de Max Taylor e outros colegas generosos,
a teoria da endossimbiose seqüencfal prevaleceu. O sofrimento
por causa da rejeição da Academic Press acabou passando.
Ao longo das décadas de 1970 e 80, a SET atraiu diversas con-
tribuições experimentais de muitos cientistas e estudantes de pós-
graduação que cu não conhecia. Estudos de biologia molecular,
genética e de microscopia de alta potência em geral confirmavam a
antes radical idéia do século XIX de que células de plantas e de
nossos corpos animais (assim como os dos fungos e todos os outros
organismos compostos de células com núcleo) surgiram por meio
de uma seqüência específica de incorporações de diferentes tipos
de bactérias. A residência conjunta prevalece e prolifera. Minha
versão mais recente da SET é mostrada na Figura 2. Hoje fico
impressionada em ver uma versão mais branda da SET ser ensina-
da como verdade revelada em textos para escolas de ensino médio
e faculdades. Acho, para meu desalento. e quando não surpresa,
36 O PLANETA SIMBIÓTICO

• PLANTAE
Ácido
Tanicolignina
Celulo••
ANIMALIA
Ono
Concho
Mú.culo

PROTOCTISTA
Algas, bolar da água,
bolar da lado, redas da
Ioda, protozoários

FoQOCito•o
inlracelular
Motilidade

Diferenciação

Multicalularidada
Muhiceluloridode

Fotossintasa

Cianobaclérias coc6ides Espiroquelas Termoplasmas Paracocci


Cloroxibactérias Espiroplasmas Bdelovibrão
BACTÉRIA
MONERA, PROCARIONTES
Figura 2
Filogenia SET (teoria da endossimbiose seqüencial)

,L
.
\
. .
, ·. : .
que a exposição é dogmática, enganosa, não é apresentada de for-
ma lógica e muitas vezes é totalmente incorreta. Ao contrário da
própria ciência, a SET é hoje aceita sem críticas. A vida é assim.
.'-< -A SET é uma teoria da união, de incorporação de células e di-
. : ·, ..., , . forentes histórias e habilidades. Antes da endossimbiose seqilen-
CONTRA A ORTODOXIA 37

cial_ e do e~tabelecimento da céll!la l)µ_cleada_aer9bia, não havia


fusão sexual. O sexo meiótico, como o do óvulo fertilizado pelo
espenna~ veio-mais tarde. A endossimbiose seqüencial deu ori-
gem a nosso sexo, como o do óvulo fertilizado pelo esperma, tor-
nou nosso tipo de fusão sexual possíve1. O sexo também é a
união, a fusão de células de diferentes histórias e habilidades.
No sexo as células que se fundem são estreitamente aparen-
tadas e a fusão é reversível; na endossimbiose seqüencial as cé-
lulas que se fundem são apenas parentes distantes e a fusão é
permanente.
3 - Individualidade por incorporação

Absorta em meu problema,


Outro problema surge
Maior que o meu - mais sereno
Envolvendo somas majestosas (69)

A simbiose, tem10 cunhado pelo botânico alemão Anton deBary


cm 1873, é a convivência de tipos muito diferentes de organismos;
deBary na verdade a definiu como a "convivência de organismos
de nomes diferentes". Em certos casos a coabitação, existência a
longo prazo, resulta em simbiogênese: o surgimento de novos cor-
pos, novos órgãos, novas espécies. Em suma, acredito que a maior
parte da inovação evolutiva surgiu, e ainda surge, diretamente da
simbiose. Essa não é a noção mais comum presente na maioria dos
livros didáticos quanto à base da mudança evolutiva.
A simbiogênese, idéia proposta pelo russo Konstantin Me-
rezhkovsky (1855-1921), refere-se à formação de novos órgãos e
organismos por meio de incorporações simbióticas. Conforme
mostrarei, esse é um fato fundamental da evolução. Todos os
organismos grandes o bastante para que possamos vê-los são
compostos de micróbios antes independentes, agrupados para
formar.totalidades maiores. Ao se fundir, muitos perderam o que
cm retrospecto reconhecemos como sua antiga individualidade.
Minha teoria da origem simbiogcnética de células de plantas,
animais_e_ Õutraséélula; nucleadasu-t111zaqúatro postulados passí-
veis de comprovação. Todos os quatro envolvem simbiogênese,
incorporação e fusão de corpos pela simbiose. A teoria delineia
precisamente as etapas que devem ter ocorrido no passado, sobre-
tudo em relação às translúcidas células verdes das plantas. As célu-
las, é claro, são unidades estruturais familiares de musgos, samam-
baias e todas as outras plantas. Os pêlos finos do estame especial-
mente visíveis nas flores da Zebrina e da Tradescantia ("judeu
errante") são constituídos de fileiras dessas células vegetais.
INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO

Células verdes grandes e emparelhadas precederam as plantas: elas


já estavam plenamente formadas nas algas verdes, ancestrais das
plantas que viviam na água. O fato de que os organismos nucleados
evoluíram por incorporação é mais bem notado em plantas porque
cm suas grandes e belas células a integridade das organelas que as
compõem é facilmente observada. A idéia é simples: quatro ances-
trais antes inteiramente independentes e fisicamente separados se
fundiram em uma ordem específica e se tomaram a célula verde
das algas. Os quatro eram bactérias. Cada um dos quatro tipos de
bactéria diferia em formas que ainda hoje podemos inferir. Os des-
cendentes dos quatro tipos de bactéria continuam vivos, tanto nas
formas incorporadas como livres. Alguns afirmam que os quatro
tipos são mutuamente escravizados, capturados na planta e como a
planta. Hoje cada um dos tipos das antigas bactérias fornece pistas
sobre sua ancestralidade; a vida é quimicamente tão conservadora
que podemos até deduzir a ordem específica na qual elas se fundi-
ram. O termo seqüencial, em teoria da endossimbiose seqüencial,
se refere à ordem na seqüência de incorporação.
Creio que já consegui convencer muitos cientistas e estudan-
tes de que partes das células, as organelas, surgiram simbiogene-
ticamente, como conseqüência de diferentes simbioses perma-
nentes. É claro que trabalho com muito poucos indícios de minha
teoria; centenas de cientistas continuam contribuindo; Atualmen-
te trabalho na expansão da teoria para mostrar que organismos
maiores, com seus novos órgãos e novos sistemas de órgãos, tam-
bém evoluíram pela simbiogênese.
Se os simbiontes se fundem por completo, se eles se incorpo-
ram e formam um novo tipo de ser, o novo "indivíduo''_J)resüfracfo
da fusão, por definição, ·evoluiüpela silTl!;?iogên~se. Embora o con-
ceito de simbiôgênese ténha-stdoproposto há um século, somente
agora dispomos das ferramentas para testar a teoria com rigor.
Tentarei delinear a idéia da forma mais simples possível. Pri-
meiro, um tipo de bactéria que gosta de enxofre e calor, chamada
"arqueobactéria" fermentante (ou "termoacidófila"), se fundiu
com uma bactéria natatória. Juntos, os dois componentes da in-
corporação formaram o nucleocitoplasma, substância básica dos
ancestrais das células dos animais, plantas e células fúngicas. Es-
se primeiro protista natatório era, como seus descendentes hoje,
um anaeróbio, isto é, era envenenado pelo oxigênio. Vivia em
lama e areia organicamente ricas, em fendas de pedras, poças e
40 O PLANETA SIMBIÓTICO

J?igura 3
E.,;piroquctas se transformam cm ondulipódios

lagoas onde o oxigênio era escasso ou ausente. Células de ani-


mais, plantas e fungos são nucleadas porque, aquosas e translúci-
das, elas contêm um núcleo visível (as células fúngicas incluem
as dos cogumelos e leveduras). Em plantas, animais e alguns fun-
I·,
gos e prototistas, o núcleo fechado por membrana desaparece à
medida que a membrana se dissolve. Os cromossomos ficam visí-
veis toda vez que uma célula se multiplica por divisão. A croma-
tina, o material vermelho* a partir do qual os cromossomos são

• Em preparações celulares. o uso de corantes toma vcmtclha a cromatina. (N. do R.T.)


INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO

feitos, se enrola, formando estruturas de fácil visualização. A ex-


plicação que os livros didáticos fornecem sobre esse processo é
que a cromatina se condensa cm cromossomos visíveis e contá-
veis cujo número é representativo da espécie em questão/ A dan-
ça dos cromossomos, que então desaparecem em cromatina frou-
xamente espiralada quando a membrana nuclear reaparece, esta-
belece etapas no processo de divisão celular chamado mitose.
A mitose, com suas muitas variações em células protistas e fúngi-
cas com núcleo, evoluiu nos primeiros organismos com núcleo.
Depois que a mitose evoluiu em protistas natatórias, outro tipo de
micróbio livre, uma bactéria que respirava oxigênio foi incorpo-
rada à fusão. Células ainda maiores e mais complexas surgiram.
O complexo tripolar (apreciador do calor ácido, natatório e respi-
rador de oxigênio) que respirava oxigênio se tornou capaz de
fagocitar (ou "engolir") determinados alimentos. Seres comple-
xos e surpreendentes, essas células com núcleo, nadando e respi-
rando oxigênio, talvez já existissem na Terra há cerca de 2 bi-
lhões de anos.
Essa segunda fusão, na qual o anaeróbio natatório adquiriu o
respirador de oxigênio, deu origem a células de três componentes
cada vez mais capazes de lidar com níveis sempre maiores de oxi-
gênio livre no ar. Unidos, o delicado nadador, a arqueobactéria
tolerante ao calor e ao ácido e o respirador de oxigênio formavam
então um único indivíduo e prolificamente geraram uma prole
infinita.
Na aquisição final das séries geradoras de células complexas,
os respiradores de oxigênio fagocitavam, ingeriam mas não con-
seguiam digerir bactérias fotossintetizantes verde-brilhantes.
A "incorporação" literal só ocorreu após uma intensa batalha cm
que as bactérias não digeridas sobreviveram e a incorporação
completa triunfou. Por fim, as bactérias verdes se tomaram cloro-
plastos. No papel de quarto parceiro, esses produtivos apreciado-
res do sol se integraram por completo aos outros parceiros ante-
riormente separados. Essa incorporação final deu origem a algas
verdes natatórias. As algas verdes primitivas não foram apenas
ancestrais das células vegetais atuais, mas todos os seus compo-
nentes individuais estão em atividade, ainda nadando, fermentan-
do e respirando oxigênio.
Meu melhor trabalho, creio, é o desenvolvimento dos deta-
lhes da teoria da endossimbiose seqüencial. A idéia principal é
42 O PLANETA SIMBIÓTICO

que os genes extras no citoplasma de células de animais, plantas


e outras células nucleadas não são "genes nus": na verdade, eles
tiveram origem como genes bacterianos. Os genes são um legado
palpável de um passado violento, de competição e de tréguas. Há
muito tempo, as bactérias, parcialmente devoradas e aprisionadas
dentro dos corpos de outras, se tomaram organelas. Bactérias ver-
des que fazem fotossíntese e produzem oxigênio, chamadas "cia-
nobactérias", ainda existem em lagos e rios, na lama e nas praias.
Seus parentes coabitam com inúmeros organismos maiores: todas
as plantas e todas as algas.
A razão por que os primeiros geneticistas descobriram genes
nos cloroplastos de células vegetais é que eles sempre estiveram
_lá. Em todas as células vegetais, o tempo todo, há pequenos des-
cendentes verdes das cianobactérias.
As cianobactérias são uma forma de vida extremamente hcm-
sucedida. Elas cobrem nossas cortinas de chuveiro e formam es-
puma em nossas piscinas, banheiros e lagos. Se aquecidas e ex-
postas ao sol, podem cobrir de verde-claro uma poça de água pa-
rada em poucos dias. Embora a maioria das cianobactérias ainda
seja livre, algumas vivem como simbiontes com parceiros muito
diferentes. Algumas são cloroplastos, as partes verdes das células
de algas e vegetais. Outras vivem em cavidades de folhas, raízes
ou glândulas de talos de plantas verdes.
Assim como a cianobactéria e os cloroplastos são parentes
próximos, a mitocôndria é aparentada com as bactérias livres que
respiram oxigênio. Afirmo, como outros fizeram antes, em geral
estudiosos que não receberam atenção, que os ancestrais lineares
das mitocôndrias de animais e plantas também começaram como
bactérias livres. As mitocôndrias, usinas de força intracelulares,
produzem energia química dentro das células de todos os ani-
mais, plantas e fungos. As mitocôndrias são também residentes
regulares da maioria dos inumeráveis seres microbianos obscu-
ros, os prototistas, dos quais as plantas, os animais e os fungos
evoluíram. Numericamente, são os cloroplastos e as mitocôn-
drias, e não os seres humanos, as formas de vida dominantes na
Terra. Aonde quer que nós, seres humanos, formos, as mitocôn-
drias também vão, já que estão dentro de nós, provendo de ener-
gia todo o nosso metabolismo: o de nossos músculos, nossa di-
gestão e de nossas mentes reflexivas.
Gosto de me vangloriar de que nós, meus estudantes e cole-
INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO

gas, ganhamos três das quatro batalhas da teoria da endossimbio-


se seqüencial (SET). Hoje podemos identificar três dos quatro
parceiros na origem da individualidade celular. Cientistas atentos
a essa história agora concordam que a substância fundamental
das células, o nucleocitoplasma, descende das arqueobactérias;
em particular, a maior parte do metabolismo criador de metabo-
lismo surge da bactéria termoacidófila ("termoplasmal") (etapa 1).
A mitocôndria que respira oxigênio em nossas células e em outras
células nucleadas evoluiu de simbiontes bacterianos atualmente
denominados "bactérias púrpura" ou "proteobactérias" (etapa 3).
Os cloroplastos e outros plastídios de algas e plantas foram outro-
ra cianobactérias fotossintetizantes livres (etapa 4). Observe que
a etapa 2 não foi descrita.
Uma pergunta importante e controversa permanece: como
surgiram os prolongamentos natatórias, os cílios? É nesse ponto
que a maioria dos cientistas corta relações comigo. Eles concor-
dam com a descrição de Max Taylor de minha versão da teoria
simbiótica como "SET extrema". Taylor e seu colega Tom Cava-
lier-Smith, da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancou-
ver, apóiam uma teoria não simbiótica, de "ramificação" da ori-
gem das primeiras células nucleadas. A teoria deles ainda é a hi-
pótese corrente, mas existem indícios de que um enigmático
segundo parceiro se juntou à aliança primitiva. A primeira incor-
poração, a fusão permanente do primeiro e segundo parceiros, foi
crucial. Ela ocorreu. Mesmo que o legado da primeira incorpora-
ção seja obscuro e difícil de se detectar hoje em dia, ela deixou
pistas, e nós procuramos essas pistas. Minha hipótese de que o
natatório, outro micróbio diferente, foi simbioticamente adquiri-
do logo na primeira etapa da origem das células nucleadas é a
parte menos defensável da idéia. Essa primeira incorporação
ocorreu talvez há 2 bilhões de anos. A idéia fundamental (etapa 2)
da SET é que os cílios, caudas de espermatozóides, protuberâncias
sensórias e muitos outros prolongamentos das células nucleadas
surgiram na rusão original da arqueobactéria com a bactéria
natatória. Prevejo que cm uma década venceremos este argumen-
to: um dia serão quatro em quatro! Explico por que mantenho
minha opinião impopular e tento dar-lhe uma idéia da razão por
que passo miiiha vida reunindo indícios de todos os cantos
empoeirados da biologia. Alguns colegas dizem que sou comba-
tiva: outros, injusta. Alguns dizem que só coleto trabalho relcvan-
44 O PLANETA SIMBIÓTICO

te e injustamente ignoro dados contraditórios. Essas acusações


podem estar corretas ..
As bactérias, ao se fundir em simbiose, nos deixam pistas de
sua antiga independência. Tanto as mitocôndrias como os plastí-
dios são bacterianos em tamanho e forma. E, o que é mais impor-
tante, essas organelas se reproduzem de forma que muitas estão
presentes cm um momento no citoplasma mas nunca dentro do
núcleo. Ambos os tipos de organela, plastídios e mitocôndrias,
não só proliferam dentro das células, mas se reproduzem diferen-
temente e em momentos diferentes do resto na célula na qual resi-
dem. Ambos os tipos, provavelmente 1 bilhão de anos após sua
fusão inicial, retêm seus depósitos neutros de DNA. Os genes
ribossomais de ácido desoxirribonucléico (DNA) das mitocôn-
drias ainda são notavelmente semelhantes aos das bactérias que
respiram oxigênio e vivem por si sós atualmente. Os genes ribos-
somais dos plastídios são muito semelhantes aos das cianobacté-
rias. No início da década de 1970, quando o DNA de plastídios
em células de algas foi comparado pela primeira vez com o de
cianobactérias livres, descobriu-se que o DNA dos cloroplastos
era muito mais parecido com o DNA das cianobactérias do que
com o DNA do núcleo da mesma célula! O caso estava encerra-
do. A comparação em três vias dessas seqüências de DNA (do
núcleo, da organela e do co-descendente livre da organela) com-
provou a origem·bacteriana dos plastídios. Um caso semelhante
foi feito para as organelas menos pitorescas, as mitocôndrias.
Não foi necessária nenhuma testemunha que viajasse no tempo
para contar a história.
Max Taylor é o maior especialista do mundo em certos tipos
de protistas marinhos pitorescos e fascinantes. Ele e quase todo
mundo os chamam de dinoflagelados. Teimosamente me recuso a
concordar. Denomino-os dinomastigotes porque sou alérgica ao
termo flagelo quando não se aplica a bactérias. Na minha opinião,
bactérias carregam flagelos e organismos com núcleo, não.
Em certo momento, Max desenvolveu hipóteses diretamente
alternativas à minha teoria da endossimbiose seqüencial. No iní-
cio da década de 1970, ele esboçou uma teoria endógena ou de
"filiação direta". Ele deixou claro o esquema de uma teoria não
simbiótica da origem das células nucleadas. A teoria dele era di-
retamente oposta à minha. A teoria da filiação direta sustenta que
os três tipos de organelas citoplasmáticas - mitocôndrias, cílios e
INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO

cloroplastídios - evoluíram sem simbiose. Ao contrário, segundo


a hipótese de Max e toda a opinião pré-simbiogenética, todas elas
surgiram por "furtos" de DNA do núcleo. As mitocôndrias, os
plastídios e os cílios sempre foram parte das células. Eles nunca
começaram como uma bactéria estranha. A filiação direta de Max
não era apenas seu filhote teórico, mas ia ao encontro da suposi-
ção não declarada da ramificação versus evolução por fusão man-
tida por todos os biólogos.
Para ser meticuloso e organizar vastas quantidades de infor-
mações detalhadas, Max catalogou versões alternativas possíveis
da filiação direta e da teoria da simbiose. A filiação direta, em sua
versão extrema, nega a existência de qualquer simbiose celular.
As células nucleadas, na teoria da filiação, evoluíram diretamen-
te de um único ancestral ou de alterações em um só tipo de bacté-
ria. Plastídios, o Lermo genérico para organelas fotossintetizantes
das algas e plantas, incluem os famosos cloroplastos das algas
verdes e seus descendentes vegetais. A categoria também inclui
rodoplastos vermelhos de algas marinhas vermelhas e faeoplastos
encontrados em dinomastigotos, diatomáceas, fabófitos e muitas
outras algas. A versão mais branda da teoria simbióti~a pressupõe
que só os plastídios evoluíram de bactérias fotossintetizantes
simbióticas e que as mitocôndrias e todas as outras organelas sur-
giram sem simbiose, por filiação direta de genes que deixaram o
núcleo da célula. Há ainda uma SET intermediária que aceita a
origem simbiótica tanto para os plastídios como para as mitocôn-
drias. A versão intermediária é hoje incontestável. Conforme
explicado em livros didáticos, uma preponderância de indícios
favorece a idéia.
Max Taylor nij..9 está sendo injusto quando diz que sou uma
sin1biogeneticista radical e classifica minha versão da SET de
•~extrema". Por quê? Porque, apesar de escassos indícios, ainda
acredito que as organelas natatórias surgiram pela simbiogênese.
Essa classe de organelas (etapa 2 no esquema) também era bacte-
riana, na minha opinião. Os cílios, caudas de espermatozóides,
protuberâncias sensórias e outros flagelos celulares, sempre sus-
tentados por ínfimos pontinhos, corpos denominados centrfolos-
cinetoplastos, vêm da etapa 2. As organelas da etapa 2, uma vez
que são mais antigas e estreitamente integradas em células do que
as mitocôndrias ou os plastídios, têm uma história evolutiva cujo
rastro é mais difícil de seguir.
46 O PLANETA SIMBIÓTICO

Parte do problema de explicar a origem da motilidade das


organelas é que essa classe de estruturas celulares móveis tem
muitos nomes, todos confusos. A parte fundamental da teoria
começa com o ponto subjacente ao cílio.
Os enigmáticos centríolos-cinetoplastos agem como diminu-
tas sementes. Caudas de espermatozóides, cílios e, em alguns or-
ganismos. a haste mitótica crucial para o movimento dos cromos-
somos na divisão celular se estendem das pequenas sementes qua-
se por mágica. Uma célula, dependendo de sua ascendência, pode
desenvolver um ou muitos centríolos-cinetoplastos, seja em asso-
ciação com centríolos preexistentes, seja aparentemente de lugar
algum (este último é denominado surgimento de novo de centrío-
los-cinetoplastos). A sincronização é essencial. Uma célula nua
pode formar muitas "sementes" centríolos-cinetoplastos que criam
protuberâncias todas ao mesmo tempo. Todas as "sementes" cen-
tríolo-cinetoplastos são compostas de estreitos tubos de proteínas,
os microtúbulos. A proteína das paredes dos tubos, é claro, é
chamada de tubulina.
A aceitação da origem simbiótica das mitocôndrias e plastí-
dios foi concluída com a descoberta de que esses dois tipos de or-
ganela contêm DNA distintos, separados do DNA do núcleo e
inequivocamente bacteriano em estilo e organização. O DNA
dessas organelas codifica suas próprias proteínas específicas. As-
sim como nas bactérias livres, a síntese de proteínas ocorre den-
tro das mitocôndrias e plastídios. Ford Doolittle e Michael Gray,
biólogos moleculares da Dalhousie University em Halifax, Nova
Escócia, mostram seqüências de DNA em mitocôndrias e plastí-
dios extremamente semelhantes às de bactérias que vivem de for-
ma independente. A essa altura os cientistas aceitam esse e mui-
tos outros indícios como prova da versão moderada, de apenas
três em quatro, da SET.
Mas e o que dizer de minha teoria "extrema"? Será que exis-
te uma bactéria vestigial, um ancestral centríolo-cinetoplasto das
células nucleadas eucariontes? Creio que a integração da bactéria
centríolo-cinetoplasto foi o que criou a célula eucarionte em pri-
meiro lugar! Se eu estiver certa, a simbiogênese é o fator que di-
ferencia toda forma de vida de células nucleadas da vida bacteria-
na. Não existe meio-termo - um grupo de organismos evoluiu pe-
la simbiogênese ou não evoluiu. Minha tese é que todos os orga-
nismos nucleados (prototistas, plantas, fungos e animais) surgi-
INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO 47'

ram pela simbiogênese quando arqueobactérias se fundiram com


ancestrais de centríolos-cinetoplastos na evolução do ancestral
prototista final: a célula nucleada.
O antigo intruso que se transformou no centríolo-cinetoplas-
to ainda tem parentes livres. São bactérias conhecidas como espi-
roquetas. Seus ancestrais, àntigos seres coleantes selvagens, fa-
mintos e desesperados, invadiram muitas arqueobactérias, inclu-
sive algumas similares à atual Termoplasma. As invasões foram
seguidas por alianças. Suponho que as primeiras células nuclea-
das surgiram depois que as espiroquetas e arqueobactérias sobre-
viveram no estado de incorporação. A célula nucleada evoluiu
pela simbiogênese.
Existem outras versões "extremas" da SET. Sem revelar deta-
lhes, o dr. Hyman Hartman, pesquisador do Ames Research Cen-
ter da NASA em Moffett Field, na Califórnia, afirma que o pró-
prio núcleo começou como uma bactéria livre. O ponto de vista
"núcleo como simbionte" foi articulado pela primeira vez não
pelo cabeludo Hartman, que está vivinho da silva, mas pelo russo
K. S. Merezhkovsky, que faleceu em 1921. Merezhkovsky nunca
disse que as mitocôndrias começaram como simbiontes porque
na época em que escrevia nem ele nem ninguém sabia o que eram
mitocôndrias. Até o advento do microscópio eletrônico, um ins-
trumento muito poderoso, havia mais de vinte nomes para os
pequenos corpos dentro das células, posteriormente denominados
mitocôndrias. Os termos foram consolidados e seu significado
esclarecido e_m meados da década de 1960, quando o microscópio
foi aperfeiçoado.
Não concordo com Hartman nem Merezhkovsky quando di-
zem que os núcleos têm origens simbióticas. O mundo microbia-
no não contém, pelo que sei, bactérias livres semelhantes a nú-
cleos .. A meu ver, o núcleo evoluiu em resposta à incômoda incor-
poração de bactérias semelhantes à termoplasma e à espiroqueta.
Surgiram "novas células" que aumentaram de tamanho e cujas
membranas em interação proliferaram. A genética dessas células
se tomou mais complexa devido a sua dupla linhagem.
Radney Gupta, da McMaster University, segue adiante e apre-
senta indícios detalhados, ainda que misteriosos, da natureza "qui-
mérica" das primeiras céfulas nucleadas. Os argumentos de Gupta
se baseiam exclusivamente na análise da seqüência de aminoáci-
dos de muitas proteínas indispensáveis. Ele utiliza tem10s diferen-
40 O PLANETA SIMBIÓTICO

tes e critérios distintos, mas nossas idéias básicas são as mesmas:


a incorporação arqueobactérias-eubactérias gerou os primeiros
ancestrais celulares com núcleos fechados por membrana.
Todos concordam que a origem das células nucleadas foi uma
inovação crucial na evolução da vida na Terra. Os primeiros
micróbios a ostentar núcleos foram pequenos seres natatórios que
evitavam o oxigênio. Hoje eles seriam classificados no reino pro-
totista. Os menores membros vivos desse grupo variegado são tão
diminutos quanto as bactérias. Embora vivam em zonas de onde
o oxigênio foi excluído, uma vez que têm núcleos e muitas outras
características de células nucleadas, não são bactérias.
O que aconteceu? Em comparação com um ambiente extrace-
lular - sempre exposto à desidratação, esgotamento de alimento,
envenenamento e outras possíveis tragédias -, qualquer meio
intracelular é aquoso e rico em nutrientes. Uma espiroqueta (ou
outra bactéria natatória) que penetrasse a barreira membranosa de
uma arqueobactéria desfrutaria um fluxo constante de energia e
alimento. As taxas reprodutivas do agressor e do agredido acaba-
riam por se coordenar. Os sobreviventes dos agressores natatórios
que tragassem seus lares vivos não sobreviveriam por muito tem-
po. Sabemos hoje que os agressores viraram simbiontes e, com o
tempo, acabaram se tomando organelas. Novos truques de sobre-
vivência surgem após as incorporações. Imagino que células co-
lcantes e envenenadas pelo oxigênio, em busca de refeições regu-
lares, se fixaram às bordas e partes internas de arqueobactérias.
Habitadas por seres coleantes, a velocidade das arqueobactérias
infectadas aumentou, pois os agregados estrangeiros nunca dei-
xaram de se movimentar. As células nucleadas se dividem para se
reproduzir por mitose, um processo apelidado de "dança dos cro-
mossomos". Em outro ponto deste livro descrevi por que acredi-
'1
to que esse tipo de divisão celular se originou de um movimento
l incessante de espiroquetas vivas.
Junto com meus antigos e atuais alunos de graduação, conti-
,.j nuo a testar a hipótese "extrema". Em nosso cenário hipotético,
1
remanescentes da antiga incorporação são detectáveis no com-
portamento e nas reações químicas atuais de todas as células
nucleadas. É claro que precisamos de mais indícios até para nos
convencermos por completo.
A ordem dos acontecimentos na evolução é decisiva. As espi-
roquctas em forma de saca-rolhas, as apressadinhas do mundo
....
~---··
-.
INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO

microbiano, têm um formato espiralado, que lembra uma serpen-


te. Por meio de fluidos viscosos como lama, lodo, muco e tecidos
vivos, essas bactérias disparam para lá e para cá, para cima e para
baixo, para a direita e para a esquerda. No passado remoto, assim
como agora, elas nadavam mais rápido que outras bactérias. Rá-
pidas e prolíficas, as espiroquetas invadiram o espaço interno das
arqueobactérias e as que interagiram sobreviveram. Seus descen-
dentes vivos estão agora inextricavelmente envolvidos em movi-
mentos mitóticos e outras atividades de células complexas. Os
parceiros estão tão incorporados que é difícil - porém não impos-
sível - reconstituir o cenário original.
Todas as células com mitocôndrias também têm microtúbu-
los, remanescentes dos antigos coleantes. Tal estrutura é coerente
com a idéia de que a simbiose espiroqueta-arqueobactéria ocor-
reu primeiro. Hoje, certas células mitóticas natatórias, para as
quais o oxigênio é um veneno, ainda não têm mitocôndrias. Con-
cluo que o ancestral mitótico de toda vida eucariótica evoluiu
antes que o oxigênio tomasse todos os cantos da atmosfera.
As espiroquetas atualmente nadam tanto em ambientes ricos
em oxigênio como naqueles com pouco oxigênio. Às vezes elas
se fixam tão habilmente que os biólogos tomam seus pontos de
junção por centríolos-cinetoplastos e seus corpos por cílios. As
espiroquetas atuais vivem em grandes quantidades nos intestinos
de insetos saudáveis que se alimentam de madeira. Alguns tipos
de espiroquetas habitam os tecidos intestinais ou testiculares dos
seres humanos. Algumas vicejam na lama. Outras vivem nas
membranas permeáveis de protistas, tais como ciliados de lama
ou tricomonas. Em geral, as espiroquetas vivem em hábitats úmi-
dos, fecundos e escuros. A vida da espiroqueta se resume a ser-
pentear, alimentar-se e reproduzir-se pela divisão transversal à
maneira bacteriana. O caminho que levou aos cílios começou
quando as primeiras espiroquetas se deslocavam para dentro de
vizinhos vulneráveis sempre que podiam e algumas nunca volta-
vam. Do movimento mútuo de muitas pequenas espiroquetas,
após muita integração, os seres natatórias nucleados, os primei-
ros protistas, evoluíram.
Ainda tenho esperança de que o último postulado da SET
triunfará. Muitos colegas me aconselharam a desistir.
Centríolos e cinetoplastos, como em uma relação "o médico e
o monstro" amistosa, nunca são vistos ao mesmo tempo em célu-
.50 O PLANETA SIMBIÓTICO

las se dividindo. Em muitas células, os centríolos se metamorfo-


seiam em cinetoplastos que desenvolvem hastes logo que a divi-
são celular mitótica termina, o que é indicativo de uma única
idertidade. Em 1898, L. F. Henneguy, professor de fisiologia em
Paris, e Mihaly von Lenhossek, em Budapeste, observaram a
identidade entre o centríolo e o cinetoplasto em tecidos de ani-
mais e escreveram a respeito. A idéia dos dois - de que os cen-
Lríolos mitóticos se reproduzem, passam dos pólos mitóticos e se
tomam os cinetoplastos dos cílios - é a "teoria Henneguy-Le-
nhossek". Comprovada por microscopia eletrônica após a morte
dos dois cientistas, é a teoria Henneguy-Lenhossek que me faz
empregar o termo composto centríolo-cinetoplasto. Creio que as
espiroquetas originalmente formaram estruturas de fixação com
arqueobactérias vulneráveis. Conforme elas se integravam sim-
biogeneticamente, o ponto de fixação se transformou no centrío-
lo-cinetossomo de hoje. O biólogo David C. Smith, da Oxford
University, compara os supostos restos das espiroquetas nas
entranhas das células nucleadas ao gato maltês de Lewis Carroll.
Assim como o gato desaparece aos poucos mas deixa um largo
sorriso flutuando enigmaticamente no ar, "o organismo pouco a
pouco perde partes de si mesmo, lentamente se misturando ao
meio geral, e sua antiga existência é denunciada por algum tipo
de resto mortal" . 1 O ser incorporado se toma alguma coisa dentro
do parceiro participante. Quando a incorporação está completa, é
difícil determinar as contribuições genéticas de cada parceiro.
Em nosso laboratório procuramos ácidos nucléicos e proteí-
nas mais comuns entre bactérias livres espiroquetas e cílios do
que entre outros organismos ou organelas celulares escolhidos ao
acaso. Há muitos estudos em andamento, a maioria em laborató-
rios voltados para a medicina cujos cientistas não estão interessa-
dos na evolução. Na maior parte das vezes, eu apenas acompanho
as descobertas.
Algumas células suportam o congelamento a temperaturas
próximas ao zero absoluto. O metabolismo é interrompido. O flu-
xo de sangue, resíduos e energia pára. Mas, quando reaquecidas,
essas células funcionam e crescem perfeitamente. A célula tem
memória; a informação da vida é intrínseca à estrutura celular.
Depois de cortadas do corpo, caudas de espermatozóides, sem
núcleo, mitocôndrias ou mesmo m1;mbranas externas sobrevivem
e nadam por até uma hora em soluções adequadamente equilibra-
INDIVIDUALIDADE POR INCORPORAÇÃO

das e energizadas. Essas caudas de espermatozóide, os cílios dos


protistas ciliados, os cílios das células das trompas de Falópio das
mulheres e os cílios de nossas gargantas (todos formas de "ondu-
lipódios" com os característicos nove conjuntos de microtúbulos
em sua detalhada estrutura) são derivados, creio, de espiroquetas
originalmente livres que se integraram a nossas arqueobactérias
ancestrais. Sou otimista e acho que acabaremos tendo provas,
quando os genes das proteínas de motilidade e - ainda mais im-
portante, porque mudam menos rapidamente - as proteínas que
se movimentam (as próprias proteínas de motilidade) forem iden-
tificadas e tiverem suas seqüências estabelecidas.
O dado mais importante sobre a origem bacteriana de centrío-
los-cinetoplastos é a descoberta do que pode ser um fragmento de
DNA em um micróbio verde natatório. John Hall, David Luck e
Zenta Ramanis, da Rockefeller University, descobriram nas algas
verdes Chlamydomonas genes especiais que codificam caracte-
rísticas que influenciam as estruturas natatórias microtúbulo-cen-
tríolo-cinetoplasto. Esses genes foram agrupados e isolados dos
genes nucleares padrão. Assim que li o trabalho dos cientistas da
Rockefeller fiquei convencida da validade da SET "extrema".
Como até hoje ninguém separou o DNA centríolo-cinetossomo
de outros DNAs celulares, é claro que os genes do centríolo-cine-
toplasto ainda não foram diretamente comparados com os genes
de espiroquetas livres. Em um trabalho de 1995, esses cientistas
admitem que o conjunto especial de genes relacionado ao centrío-
lo-cinetoplasto e seus ondulipódios estão dentro do núcleo. Eles
fotografaram DNA muito próximo dos dois centríolos-cineto-
plastos reprodutores da alga. O DNA centríolo-cinetoplasto, dis-
tinguível do resto do DNA nuclear em alguns estágios do desen-
volvimento da célula, se junta a todos os outros DNAs cromossô-
micos durante a divisão celular mitótica.
Incapazes de detectar o DNA centríolo-cinetoplasto nessa
mesma alga verde, Joel Rosenbaum, da Yale University, e outros
pesquisadores negam' sua existência. Até provas circunstanciais
quanto à hipótese da espiroqueta são angustiantemente escassas.
Estou preparada para estar errada. Talvez as bactérias não espiro-
quetas, tal como um tipo verde de eubactéria não sulfurosa que
Gupta imaginou, tenham há muito tempo penetrado outras célu-
las. Pode ser que a simbiose nem esteja envolvida na migcm dos
primeiros cucariontes natatórias. Certamente Carl Woese e o
S.:Z O PLANETA SIMBIÓTICO

colega de Max Taylor, Cavalier-Smith, discordam de mim. Eles


não vêem a importância que a simbiogênese pode ter tido na ori-
gem dos primeiros protistas anaeróbios. No entanto, creio que
não é preciso ser um Sherlock Holmes para achar que é possível
que no passado remoto um participante microbiano tenha aumen-
tado em muito a velocidade natatória do que veio a se tomar uma
sociedade. O próprio descendente da motilidade permanece.
Os neurônios - que são as células nervosas de nossos cére-
bros - e os nervos periféricos estão repletos de microtúbulos
compostos de proteína tubulina. Os mesmos microtúbulos, exata-
mente iguais, compõem os cílios, caudas de espermatozóide e
paredes de centríolos-cinetoplastos. Os microtúbulos são a base
dos axônios e dendritos, prolongamentos das células nervosas
pelos quais processamos informações em nossos cérebros. Se
minha teoria radical da simbiogênese estiver correta, o próprio
cérebro e o pensamento necessário para ler esta frase se tomaram
possíveis pelos microtúbulos protéicos que evoluíram em bacté-
rias. Mesmo que as pesquisas mostrem que minha hipótese da
espiroquela está incorreta, pensar sobre a simbiose é em si mes-
mo um fenômeno sim biótico. O oxigênio que respiramos entra no
cérebro por nossa corrente sangüínea e é incessantemente meta-
boi izado pelas mitocôndrias que sabemos terem sido bactérias
que respiravam. Quer as espiroquetas coleantes estejam ou não
no cerne de nossa existência, continuamos sendo seres simbióti-
cos em um planeta simbiótico.
4 - O nome da videira

Muita loucura é o juízo supremo


Para um olhar observador
Muito juízo - a loucura mais completa
É a maioria
Nisto, como em tudo, que prevalece
Concorde - e você é são
Conteste - você imediatameflte se toma perigoso
E preso com uma corrente (435)

Os nomes dos seres vivos parecem ser suficientemente inócuos,


assim como seus sistemas de classificação. No entanto, a prática
superficial e tediosa de nomear e agrupar afetou profundamente
minha vida científica. Taxonomias imperfeitas induzem ao erro
com a mesma sutileza de pressupostos não declarados ou crenças
religiosas. UIJ1_dos motivos da demora na aceitação da simbiogêne-
_se é que ela vai -deencontro-a pressupostos familiares, respeitados.
- - A-taxonomia é a ciência da identificação, nomeação e classi-
ficação dos organismos. Nomes e esquemas de classificação or-
ganizam grandes quantidades de informações. A taxonomia,
como os mapas, realça algumas características peculiares. Contu-
do, como na expressão popularizada pelo filósofo e antropólogo
anglo-americano Gregory Bateson, "o mapa não é o território".
Tampouco o nome do organismo. A história de qualquer organis-
mo costuma ser representada por uma árvore de família. Árvores
de família geralmente crescem de baixo para cima a partir do
chão: um tronco se ramifica em muitas linhagens, sendo que cada
ramo é uma bifurcação a partir de um ancestral comum. Mas a
simpiose nos mostra que tais árvores são representações idealiza-
das do passado. Na verdade, à árvore da vida muitas vezes cresce
a partir de si mesma. As espécies se juntam, incorporam-se e for-
mam novos seres, que começam tudo de novo. Os biólogos cha-
mam a união dos ramos - sejam vasos sangüíneos, raízes ou
54 O PLANETA SIMBIÓTICO

encadeamentos fúngicos - de anastomose. Anastomose, ramos


formando redes, é uma palavra maravilhosamente onomatopaica.
É possível ouvir a incorporação. A árvore da vida é um ser entre-
laçado, intricado e pulsante, com raízes e ramos que se encontran1
sob e sobre a terra, formando novos e exóticos frutos e híbridos.
A anastomose, embora menos freqüente, é tão importante quanto
a ramificação. A simbiose, como o sexo, promove novas parce-
rias entre seres que já evoluíram anteriormente. Também como o
sexo, algumas simbioses são uniões prolongadas de futuros está-
veis, prolíficos. Outras rapidamente se desfazem. A interação de
cada geração de seres geneticamente relacionados põe em dúvida
qualquer árvore da vida retratada nos livros.
Utilizando o hoje famoso desenho sobre o qual tantos já tra-
balharam e que foi criado em meados da década de 1980 por Do-
rion Sagan, meu filho mais velho, empregamos a metáfora de
uma mão (Figura 4). Cada um dos cinco dedos representa um dos
princ-ipais grupos de organismos. Pense em cada dedo como um
entre cinco grandes reinos: todas as bactérias (as moneras ou pro-
cariontes, cujas células não têm núcleo), os prototist~s (todas as
algas, bolores de lodo, ciliados e muitos outros organismos obs-
curos formados por simbiogênese e compostos de células com
núcleos), os animais (todos os quais se desenvolvem de embriões
que, por sua vez, se desenvolvem de uniões espermatozóide-óvu-
lo ), os fungos (leveduras, cogumelos e bolores que crescem de
esporos fúngicos) e as plantas (que se desenvolvem de esporos e,
em outras ocasiões, de embriões de origem sexuada, embora não
façam fotossíntese). Exceto pelas bactérias, cada dedo da mão da
vida tem múltiplos ancestrais microbianos simbióticos.
Na década de 1920, quando Ivan Wallin, na Columbia Uni-
versity, sugeriu que componentes das células, cloroplastos e
mitocôndrias, se originaram de bactérias simbióticas, ele e suas
idéias foram repudiados. Sua "teoria do simbionticismo" foi ridi-
cularizada pela respeitosa sociedade biológica. Ele foi lançado ao
ostracismo pela solene comunidade de pesquisa e, aos quarenta
anos, desistiu das pesquisas em laboratório sobre a simbiose.
Bactérias eram causadoras de doenças, não fontes de inovação
evolutiva. Os micróbios, insistiam seus colegas, não fizeram uma
transição brusca em suas vidas como bactérias livres para setor-
narem prisioneiros de células animais. Wallin se mudou de Nova
York para Denver, onde sua carreira como professor e erudito
O NOME DA VIDEIRA 55

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Figura 4 -·
Mão dos cinco reinos

prosperou por mais quatro décadas, só que ele nunca mais pesqui-
sou a origem simbiótica das organelas. Bactérias eram pragas
perigosas; ninguém sequer escrevera sobre elas no contexto da
evolução da vida. Além do mais, os ramos das árvores de família
se subdividiam. Ninguém, além de Merezhkovsky, afirmou que
os ramos se incorporavam.
Hoje sabemos que o trabalho de Wallin, "o excêntrico", está
mais afinado com o pensamento de nossa época do que com o da
época dele. Um dos motivos pelos quais as afirmativas de Wallin
não foram sequer observadas de forma critica foi o compromisso
generalizado com uma rígida taxonomia. Qualquer organismo
visto como um animal ou uma planta era classificado como um ou
outro. E ponto final. Aliás, o que é confuso mas bastante revela-
dor, os micróbios natatórios eram classificados no reino animal.
Quando micróbios extremamente semelhantes eram verdes e tem-
porariamente imóveis, eram considerados plantas. Uma botânica,
só porque ocupava o departamento de botânica, classificaria todos
56 O PLANETA SIMBIÓTICO

os micróbios e seus descendentes como plantas. Do outro lado do


campus, um zoólogo incluiria um ser muito semelhante em seu
reino animal. Contradições eram abundantes. Pequenos organis-
mos de difícil observação, até os idênticos, eram classificados
pelos botânicos como plantas e pelos zoólogos como animais. Os
microbiologistas (bacteriologistas) e micologistas (especialistas
em bolores e cogumelos) travavam contendas semelhantes quan-
to às bactérias, leveduras e outros fungos. Lamentavelmente, essa
confusão taxonômica pitoresca ainda existe. r

Podemos desculpar Antony van Leeuwcnhoek (1632-1723),


inventor do microscópio, por ter denominado as novas criaturas
por ele descobertas de animálculos. Com o que mais ele poderia
compará-las? Mas creio que é indesculpável que os cientistas
hoje mantenham o termo protozoa (que se traduz como "primei-
ros animais") para criaturas aquáticas cujas características bioló-
gicas não são, definitivamente, as de um animal. Alguns antigos
protozoários, micróbios com núcleos, embora ancestrais dos ani-
mais, também são ancestrais das plantas, dos fungos e de todos os
prototistas indisciplinados. Os próprios protistas ancestrais, que
nunca se desenvolvem a partir de um espermatozóide, óvulo ou
embrião animal, não são animais. O grupo é surpreendentemente
diversificado. Mais de cinqüenta das principais linhagens ainda
existentes. Entre elas estão as diatomáceas, algas marrons, cilia-
dos e grupos muito menos conhecidos de seres que representam a
"onipresença da vida". 1 Não importa se são amebas, ciliados,
hipennastigotos ou outra coisa; não são animais.
Sinto arrepios também quando ouço biólogos empregando o
termo "algas cianofíceas". Esses seres não existem; essas maravi-
lhas azul-esverdeadas são, cm todos os aspectos, bactérias fotos-
sintetizantes. Tão irritante como "animal monocelular", que tam-
bém não existe, assim como "plantas superiores" ou "plantas
multicelulares". Todos os animais e todas as plantas se desenvol-
vem a partir de embriões, que, por definição, são multicelulares.
Uma vez que todas as plantas e animais são multicelulares, o
adjetivo é redundante. A caracterização de qualquer organismo
unicelular como "animal primitivo" ou "protozoário" é um oxí-
moro. Os termos verborrágicos "planta multicelular" e "animal
multicelular" também são errôneos.
A linguagem pode confundir e enganar. Esses termos antiqua-
dos - "algas cianofíceas", "protozoários", "animais superiores",
O NOME DA VIDEIRA 57

"plantas inferiores" e muitos outros - continuam a ser utilizados,


apesar de sua tendência a propagar mal-estar e ignorância biológi-
cos. Esses insultos à vida beneficiam pessoas cujos orçamentos,
anotações em sala e organização social dependem de sua conti-
nuidade. Creio que um dos motivos pelos quais as boas idéias de
Wallin foram rejeitadas ou ignoradas foi sua total incompreensão
por parte dos muitos biólogos e professores que reforçam o con-
ceito errôneo da classificação fixa. As bactérias, entendidas ape-
nas como causadoras de doenças, eram na época - como o são,
ainda hoje - quase sempre estigmatizadas como "agentes inimi:.
gos". Observe como elas estão "prestes a ser derrotadas" pelas
"armas" da medicina moderna. É claro que é absurdo descrevê-las
basicamente por meio de termos bélicos, antagônicos: a maioria
das bactérias não é mais prejudicial que o ar e, como o ar, jamais
poderão ser eliminadas de nossos corpos e de nosso ambiente.
Porém, muitas pessoas ainda acreditam, erroneamente, que qual-
quer bactéria, quando presente, deve ser erradicada. Hoje em dia,
e ainda mais na época de Wallin, as bactérias têm de ser subjuga-
das. Como elas poderiam "habitar" um tecido sadio? Os colegas
de Wallin confundiram o mapa com o território.
Hoje, para a maioria das pessoas, as formas de vida são facil-
mente divididas cm três categorias: plantas (para alimentação e
decoração), animais (como nossos bichos de estimação, frutos do
mar e nós) e germes (que devem ser derrotados). Não me lembro
de quando me dei conta de que essa idéia é tão perigosa quanto
dominante; com certeza foi há muito tempo. Tento substituir essa
tolice cultural supersimplificada por conceitos muito mais próxi-
mos de descrições científicas obtidas com grande dificuldade.
Nem animais nem plantas apareceram na Terra antes que as bac-
térias tivessem passado por pelo menos 2 bilhões de anos de evo-
lução química e social. Para dizer a verdade, não apenas os ani-
mais e as plantas, mas até os fungos são recentes na Terra. Nem
os animais nem as plantas são categorias de classificação eternas.
Nenhuma delas foi estabelecida de forma definitiva por uma
mente divina de pendor platônico. Além de todas as plantas e ani-
mais vivos, hoje em dia existem pelo menos três outras formas de
vida. E é aqui, entre as não-plantas e os não-animais, que está a
verdadeira biadi versidade.
Animais e plantas são muito mais semelhantes entre si do que
em relação a todas as outras formas de vida da Terra! Graças à mi-
58 O PLANETA SIMBIÓTICO

croscopia eletrônica e a novas maneiras biológico-moleculares de


estudar detalhes em todos os organismos, compreendemos me-
lhor do que nunca o heterogêneo sortimento de vida na Terra. Mo-
léculas de cadeia longa, como o DNA, o ácido ribonucléico
(RNA) e as proteínas nos permitem estudar todas as formas de
vida com um só padrão de medida. O divisor de águas animais-
plantas dominante desde antes de Aristóteles está ruindo. Uma
revisão radical tomou de surpresa nossos sistemas de classifica-
ção. Os biólogos exploram os assombrosos detalhes dos micró-
bios, incluindo sua resistência diante da adversidade e a tendência
a sobreviver por meio de compromissos evolutivos simbióticos.
Meu trabalho com simbiontes microbianos me estimulou a
criticar e depois rever a classificação biológica. Por mais de duas
décadas, Karlene V. Schwartz e eu reunimos informações taxonô-
micas com nossos colegas e suas publicações científicas a fim de
,reestruturar sistemas de classificação biológica contraditórios e
':limitados em um esquema único e coerente. Nossa meta é uma
\descrição tão precisa e útil quanto possível e que reflita a história
evolutiva. Nossa revisão moderna inclui uma classificação em
cinco reinos e duas fileiras. A maior distinção entre todas as for-
~1as de vida é a que separa os procariontes da primeira fileira -
/todas as bactérias compostas de células "procariontes" que não
evoluíram pela simbiogênese - da segunda fileira, que inclui to-
das as formas de vida eucarióticas. Os eucariontes, organismos
com células nucleadas, evoluíram por simbiogênese. Esse grupo
inclui prototistas, fungos, plantas e animais. O esquema dos "cin-
co reinos", mostrado na Figura 4, se toma cada vez mais útil.
Ernst Haeckel, um eclético cientista alemão, respeitando os
protistas, acrescentou o reino deles ao das plantas e dos animais.
Mas Antony van Leeuwenhoek (1632-1723), que nasceu mais de
duzentos anos antes de Haeckel, descobriu o mundo microbiano.
Comerciante de tecidos de Delft. na Holanda, van Leeuwenhock
passava os dias, como eu, perscrutando o microcosmo; ele, con-
tudo, montava seus próprios microscópios. Em um holandês co-
loquial do século XVII, ele descreveu uma vida microbiana exu-
berante encontrada nos charcos, na água parada, na saliva de jo-
vens beldades e na diarréia de bêbados. Suas descrições acaba-
ram sendo publicadas em Londres na forma de cartas à Royal
Society. Muito mais tarde, o conceito darwiniano de evolução le-
vou intelectuais europeus a buscar os ancestrais comuns da vida.
O NOME DA VIDEIRA 59

Foi então que os diminutos seres de van Leeuwenhoek se toma-


ram mais do que "anomalias" a serem mostradas pelo naturalista
amador que acertava o foco em uma versão do século XVIII do
microscópio criado pelo holandês. Cada vez mais os micróbios
eram vistos pelos microscopistas como configurações ancestrais
de formas de vida maiores.
É claro que os micróbios só foram incluídos nas categorias
formais taxonômicas muito depois de terem sido descobertos.
Após a descoberta por Louis Pasteur de nefandas bactérias causa-
doras de doenças, os menores organismos receberam nomes e
foram encaixados em um sistema de classificação.
Muito antes de Pasteur, no século Ili a.C., Aristóteles classi-
ficou mais de quinhentas espécies de animais. Utilizando apenas
seu olhar aguçado, é óbvio que ele não viu micróbio algum e
achou que as categorias de vida eram fixas e imutáveis. Entretan-
to, algumas classificações de Aristóteles correspondem às nossas
classificações modernas. Aristóteles agrupou os golfinhos, por
exemplo, junto com os mamíferos terrestres, em vez de com pei-A,-
xes. Mais tarde, o erudito romano Plínio (23-79 a.C.), nos 37 vo-
lumes de sua História natural, tentou catalogar todos os seres
vivos cuja existência tivesse sido relatada. Baseando-se em mui-
tas fontes de informação, Plínio incluiu em sua pesquisa os uni-
córnios, cavalos voadores e sereias. Durante a Idade Média e já
no Renascimento, de acordo com descrições de seres relatadas
em narrativas de viagem, os "bestiários" eram escritos e ricamen-
te ilustrados. Esqueletos de elefantes eram tomados como indí-
cios de humanóides gigantescos e dentes fossilizados de tubarões
eram interpretados como vestígios de dragões mortos.
A taxonomia se tornou mais confiável quando, em 1686, o in-
glês John Ray (1627-1705) publicou um compêndio reunindo
milhares de diferentes espécies de plantas. Em 1693 ele lançou
uma classificação de animais, dispondo-os de acordo com dife-
renças e semelhanças em seus corpos: cascos, garras, dentes e ou-
tras características. Refletindo uma desconfiança cada vez maior
quanto aos rumores, fábulas e fantasias relatados como fatos nos
bestiários, Ray afirmou que os fósseis eram vestígios de plantas e
animais que não mais existiam.
O projeto de classificação pré-evolutivo mais completo foi
publicado pelo famoso botânico sueco de Uppsala Carolus von
Linné ( 1707-1778). Assinando o nome em latim (Linnaeus).
00 O PLANETA SIMBIÓTICO

Lineu inventou o que veio a ser denominado nomenclatura bino-


mial. Deu dois nomes a cada forma de vida, ambos geralmente
derivados do latim ou do grego. O "primeiro" nome designava o
grupo ao qual o organismo pertencia - seu gênero - e, o último
nome, a espécie. Esses nomes eram e ainda são escritos cm itáli-
co, com inicial maiúscula no nome do gênero. O sistema Iineano
é hoje fundamental para o conhecimento biológico. No mundo
inteiro, todos os biólogos reconhecem esses dois nomes como gê-
nero e espécie. Até livros em japonês e chinês e textos em russo
escritos com o alfabeto cirílico trazem os nomes de espécie e gê-
nero cm latim e itálico. Independentemente da língua nativa ou
região de origem, todos os autores e naturalistas sabem que os
nomes lineanos se referem à mesma espécie de organismo.
O gênero é o grupo taxonômico superior, mais abrangente.
A espécie é o agrupamento menor, menos abrangente.
Todos os cães, por exemplo, pertencem ao gênero Canis.
A espécie dos cães domésticos é familiaris. Os lobos são Canis
lupus e os coiotes, Canis latrans. Os seres humanos são Homo
sapiens. Lineu aplicou essa classificação somente a nossos cor-
pos; ele achava que nossas almas estavam fora do esquema da
natureza convenientemente classificável. Os únicos outros mem-
bros do gênero Homo hoje são fósseis de seres humanos extintos,
como o Homo habilis, o Homo erectus, o Homo sapiens neander-
talensis e o recém-descoberto Homo sagittarius.
Lineu também agrupou os gêneros em categorias taxonômi-
cas superiores denominadas ordens, e as ordens em classes.
Posteriormente, o anatomista francês Georges Cu vier ( 1796-
1832) dispôs as ordens em grandes grupos de "ramificações", que
correspondem aos atuais filos. Cuvier, cujo trabalho foi extrema-
mente importante para a coleção do Museu de História Natural de
Paris, estendeu a classificação lineana aos fósseis. Tanto Cuvier
como Lineu acreditavam que todas as espécies eram formas eter-
namente separadas criadas por um Deus onipotente. Cu vier acha-
va que os fósseis eram indícios de formas de vida do passado que
haviam desaparecido com o Dilúvio bíblico e outras catástrofes.
Dessa maneira, ele admitia que alguns animais haviam se extin-
guido, mas não via indícios da criação de novas formas de vida
desde que Deus criara o mundo. Embora não fossem evolucionis-
tas, Cuvier e Lineu, muito atentos aos detalhes das relações entre
os seres vivos, foram excelentes eruditos. Seus trabalhos têm um
O NOME DA VIDEIRA

valor duradouro. Eles acentuaram o que mais tarde vieram a ser


as principais linhas do pensamento evolutivo que prosseguiu no
fim dos séculos XIX e XX.
Ernst Haeckel (1834-1919), o brilhante pesquisador alemão
do mundo natural, foi um dos primeiros a defender a evolução de
Darwin. Ele percebeu que o conceito de evolução representava
um problema para a antiga dicotomia planta-animal. Nem todas
as afirmações de Haeckel estavam corretas: ele acreditava que a
vida, inclusive atualmente, evolui da falta de vida. Nossos ances-
trais mais longínquos - alguns dos quais, segundo ele, ainda
viviam no fundo do mar- eram seres estranhos que deram origem
tanto às plantas co~o aos animais. Ele afirmou que os ancestrais
não eram nem um nem outro.
Haeckel ampliou, popularizou e aplicou de forma sistemática
as idéias darwinianas da evolução. Ele descreveu muitos seres
novos, ilustrou belos seres flutuando nos oceanos, o plâncton, e
foi o primeiro cientista a transferir formalmente diminutos habi-
tantes dos oceanos, os radiolários e os foraminíferos, nem plantas
nem animais, para seu próprio reino: Haeckel corajosamente con-
cedeu.-lhes o título "reino monera", que quer dizer unidades pri-
mitivas. Os limites do reino monera de Haeckel variaram ao lon-
go de sua vida. Ele às vezes incluiu amebas e bolores de lodo, ho-
je classificados como prototistas. Em alguns trabalhos Haeckel
chegou a incluir as esponjas, hoje consideradas animais, entre as
moneras. Nas muitas edições de seus muitos livros, Haeckel per-
sistiu em sua rejeição ao antigo sistema de classificação em dois
reinos. Ele pensava, assim como eu, que a rígida dicotomia plan-
tas-animais contradizia novos conhecimentos e dificultava a
compreensão da história evolutiva da vida. Ao contrário de Li-
neu, que classificou 10 mil espécies da criação de Deus, Haeckel
era um evolucionista darwiniano.
Herbert F. Copeland (1902-1968), professor de biologia em
Sacramento, Califórnia, aperfeiçoou o esquema de Haeckel. Em
1956, ele publicou um livro pouco conhecido dividindo o reino
monera de Haeckel em dois reinos.2 Copeland reservou a catego-
ria "monera" para as bactérias, observando a ausência de núcleo
das células. O segundo reino, o prototista, ele tomou do trabalho
de 1860 do naturalista inglês John Hogg. Copeland colocou todos
os micróbios cujas células tivessem núcleo no reino prototista.
Incluiu ainda protozoários tradicionais, os bolores de água que se
62 O PLANETA SIMBIÓTICO

reproduzem formando células natatórias semelhantes a esperma-


tozóides e algas de todos os tipos. Quanto a muitos outros grupos
estranhos de microorganismos nucleados ou formas de vida lodo.:.
sas maiores, Copeland decidiu incluí-los unilateralmente como
prototistas. Ele não trabalhou com ninguém nem pediu permissão
para alterar classificações a fim de adaptá-las a seu sistema.
A decisão mais importante de Copeland foi incluir bolores, leve-
duras, cogumelos e todos os outros fungos como filo Inófita em
sua versão do reino prototista.
Três anos mais tarde, um professor da Cornell University,
Robert H. Whittaker (1924-1980), cuidadosamente desenvolveu
a presciente porém quase ignorada taxonomia cm quatro reinos
de Copeland. Whittaker, fundador do campo de ecologia de co-
munidades na América do Norte, passou muitos anos estudando a
região de Pine Barrens, em Nova Jersey.3 Ele observou que os
fungos nos desertos de pinheiros, em sua maior parte cogumelos
ligados pelas raízes e nunca fotossintetizantes, eram tão diferen-
tes das plantas que pertenciam a um reino à parte. Whittaker esta-
beleceu cinco reinos: fungos, plantas, animais, os prototistas de
Hogg (apresentados como protistas, os membros menores, que
não pertencem a nenhum outro reino) e as moneras de Haeckcl
(bactérias). Whittaker, como Copeland, notou que os primeiros
quatro desses grupos são eucariontes: suas células sempre con-
têm núcleo. Só os membros do último reino não têm núcleo e,
portanto, são procariontes. Os membros desse grupo, todos bac-
térias, permaneceram entre as moneras de Haeckel depois que
Copeland removeu todos os organismos nucleados.
Como Copeland e Whittaker, Karlene Schwartz e eu ficáva-
mos frustradas com as inconstâncias, contradições e confusões de
nossos colegas. Descobrimos que era difícil ensinar os disparates
das classificações botânica e zoológica a nossos alunos. O aspec-
to botânico era, e muitas vezes ainda é, inconciliável com o as-
pecto zoológico. Precisávamos ensinar e utilizar uma taxonomia
coerente e compreensível, que fizesse sentido. Passamos anos
e
coletando os trabalhos de muitos eruditos pesquisadores: botâ-
nicos, zoólogos, microbiologistas, protistologistas, micologistas,
algologistas (= ficologistas), dentre outros. Queremos um esque-
ma que possa ser ensinado, um sistema evolutivo de classificação
que reflita a morfologia, o metabolismo e a genética celulares e a
biologia desenvolvimcntista. Observamos o que era óbvio: em-
O NOME DA VIDEIRA 6::J

bora plantas e animais tenham diferentes estratégias de sobrevi-


vência, eles compartilham grandes semelhanças estruturais.
Ambos são compostos de células que contêm cromossomos den-
tro de núcleos fechados por membranas. Ambos produzem óvu-
los, espermatozóides e embriões. Desde a primeira vez que lemos
sobre o sistema em cinco reinos de Whittakcr, na revista Science,
em 1969,4 ele nos pareceu ser o melhor reflexo dos agrupamentos
evolutivos da enorme diversidade da vida. Mas todas as grandes
formas de vida têm ancestrais diretos entre os micróbios: as algas
gigantes surgiram de diminutas algas douradas, bolores de lodo
evoluíram de amebas e os ancestrais de grandes algas marinhas
verdes eram microscópicas algas clorófitas, como muitas existen-
tes ainda hoje. Os grandes organismos não podem ser separados
de seus diminutos parentes próximos. Assim, seguindo Cope-
land, Karlene e cu ressuscitamos o termo abrangente de John
Hogg, Prototista: nós o empregamos em uma versão ampliada,
evolutivamente vigorosa do reino "protista" de Whittaker. Manti-
vemos o termo informal "protista" para nos referir a pequenos
membros dos prototistas (ver Figura 5). Todos os prototistas evo-
luíram, em última análise, de simbioses bacterianas. Alguns pro-
totistas são unicelulares; outros têm uma pequena quantidade de
células. Qualquer ameba livre, por exemplo, é um protista. Ame-
bas, ciliados, células de algas e algas marinhas e a forma em colô-
nias das amebas, bolores de lodo, são todos prototistas. Prato
vem da palavra grega para primeiro, como em protozoário. Mas,
ao contrário de "protozoário", os termos protista e prototista
(que, de prato e ctista, significam "primeiros seres criados") não
têm conotação zoológica. Chamo os prototistas de "nenhuns
aquáticos". Alguns vivem em charcos, outros em buracos de
árvore, outros em lagos; outros, ainda, flutuam no oceano. Apesar
de todos serem seres aquáticos, nenhum deles é animal ou planta.
Embora animais tenham evoluído de alguns dos prototistas (os
zoomastigotos), plantas de outros (os clorófitos) e fungos de
outros (os quítridos), nenhum prototista é, propriamente, um ani-
mal, uma planta ou um fungo.5
Estamos convencidas de que os vírus não pertencem a ne-
nhum dos cinco reinos. Eles não estão vivos, já que nunca fazem
nada quando estão fora de células vivas. Os vírus precisam do
metabolismo da célula viva porque não têm o que é necessário
para gerar seu próprio metabolismo. O metabolismo, a incessan-
O PLANETA SIMBIÓTICO

Figura 5
Mixotricha paradoxa, um "nenhum aquático" (prololisla): exemplo de indivíduo
composto de pelo menos cinco tipos de organismo.

te química da automanutenção, é uma característica essencial da


vida. Os vírus não têm isso. Por meio do metabolismo incessan-
te, do fluxo químico e de energia, a vida continuamente produz,
restaura e perpetua a si mesma. Somente as células, e os organis-
mos compostos de células, efetuam metabolismo. Independente-
mente de ser capaz de invadir plantas, animais, fungos ou proto-
ti stas, qualquer vírus fora da membrana de uma célula viva é iner-
te. Não obstante, os vírus são importantes para a história da vida
na Terra. Uma vez que dependem do metabolismo dos outros, é
muito plausível que os primeiros vírus tenham ev_oluído de bacté-
rias. Provavelmente começaram como partes irradiadas de célu-
las bacterianas vivendo à luz do sol. Alguns vírus, de estruturas
bastante complexas, podem parecer, sob um microscópio eletrô-
nico, robôs em miniatura ou agulhas hipodérmicas. Como eles
desenvolveram essas formas complexas sem ter seu próprio
O NOME DA VIDEIRA

metabolismo é uma pergunta à qual não pretendo responder.


O importante é notar, contudo, que os vírus não são mais "ger-
mes" e "inimigos" do que as bactérias ou células humanas. Hoje,
como sempre, aliás, os vírus disseminam genes entre células bac-
terianas, humanas e outras. Como os simbiontes bacterianos, os
vírus são fontes de variação evolutiva. Populações de organismos
infectados por vírus são aprimoradas pela seleção natural.
Os vírus, como todas as formas de vida baseadas em células,
geram problemas quando se desenvolvem em excesso, para fora
de seus hábitats. O ostensivo Ebola e outros vírus são culpados
por disseminar a destruição em certas populações. O aumento ex-
cessivo de recursos, virais ou outros, em geral é provocado pelo
enfraquecimento e dilaceração do ecossistema. Não podemos ser
curados de nossos vírus, da mesma forma como não podemos nos
ver livres dos lobos frontais de nossos cérebros; nós somos nos-
sos vírus.
A taxonomia cm duas partes (procariontes versus eucarion-
lcs) e cinco reinos retrata a história evolutiva de modo bastante
preciso. É, portanto, muito mais exata que a antiga e enganosa_
dicotomia planta-animal. As bactérias evoluíram primeiro. Elas
se ramificaram em muitas formas diferentes: vermelhas, roxas e
verdes; fermentativas, fotossintéticas e que realizam respiração;
produtoras de sulfeto e produtoras de oxigênio; ovais, serpeantes
e cm formato de bastão; até grandes bactérias em fonna de árvo-
re evoluíram. Mas as bactérias não ficaram apenas se diversifi-
cando. Elas também invadiam e depois ocupavam umas às outras.
Atacavam fontes de alimento, inclusive outras bactérias. Sem sis-
temas imunológicos nem barreiras externas rígidas, ao tentar se
alimentar elas se incorporavam internamente e, com e sem vírus,
trocavam genes. Sobreviventes de agressões frustradas forma-
vam tréguas constrangidas. Bactérias incorporadas, antes inde-
pendentes, se tornaram novos tipos de complexos celulares.
Quando a especiação começou, esses complexos se tomaram pro-
tistas. Diminutos protistas e suas colônias produziram um grupo
gigantesco e diversificado de organismos. Cerca de 250 mil espé-
cies de prototistas estão vivas hoje; muitas mais estão extintas.
Seus diminutos vestígios, microfósseis, nos revelam que elas
existiram.
Os prototistas são microorganismos nucleados que passaram
por muitas rotações evolutivas, inclusive a alternância do cruza-
06 O PLANETA SIMBIÓílCO

menta de unicélulas e gerações formadoras de adultos. Os descen-


dentes de alguns prototistas acabaram por se tornar plantas e ani-
mais de reprodução sexuada. A co-evolução simbiótica bacteria-
na de nossos ancestrais gerou nossos ascendentes prototistas. Ca-
da um de nós é uma colônia maciça de microorganismos. Antigos
protistas são agora animais articuladamente coordenados com
tecidos e órgãos extravagantes. Karlenc e eu achamos que nossa
"taxonomia dos cinco reinos de Whittaker" modificada reflete
fielmente a evolução dos prototistas a partir de bactérias simbióti-
cas e a de animais, plantas e fungos a partir de prototistas.6
Carl R. Woese, da Universidade de Illinois em Urbana, junto
com seus colegas, propôs uma taxonomia radicalmente diferente,
cm três partes, consistindo em archaea (a princípio denominadas
arqueobactérias), eubacteria (todas as outras bactérias) e eukarya
(todas as formas de vida nucleadas). Ele denomina esses agrupa-
mentos "domínios". Sua classificação eukarya, constituída por
organismos nucleados, é igual à nossa. Contudo, ele concede a
eukarya o mesmo status dos outros dois grupos de bactérias. Os
quatro reinos eucari6Licos distintos (prototistas, fungos, animais e
plantas) estão, para Woese, agrupados em um só. Na minha opi-
nião, Woese dificulta mais do que esclarece a distinção crítica
entre procariontes e eucariontcs, entre vida simbiogcnética e não-
si mbiogenética.
Os outros dois domínios de Woese, como seus nomes indi-
cam, são bacterianos. Comparando o RNA, uma das moléculas
longas fundamentais presentes em todas as formas de vida,
Woese utiliza diferenças na seqüência, a ordem das bases quími-
cas do RNA, pm·a classificar todos os organismos. Após coletar
dados a respeito de quase mil tipos de vida, Woese distribui os di-
ferentes procariontes pelas classes archaea ou eubacteria. Entre
os membros do domínio archaea de Woese estão algumas halo-
bactérias, procariontes que precisam de água salgada, e a maioria
das bactérias acidófilas, de fontes sulfurosas. Também em ar-
chaea estão todas as bactérias que produzem gás metano. O tenno
archea, do grego, significa "antigo", e pressupõe que elas foram
as primeiras a aparecer na Terra. Woese classifica todas as outras
bactérias como eubactérias ("bactérias verdadeiras"). É necessá-
ria uma tecnologia especial para verificar a distinção arqueo-eu-
bactérias, determinada principalmente pela análise da seqüência
do gene. Apesar de suas diferenças, tanto o sistema de três domí-
O NOME DA VIDEIRA 67

nios de Woese como o sistema de cinco reinos são coerentes com


um ponto de vista simbiótico da evolução. Ambos são muito su-
periores ao anacronismo plantas versus animais.
Na taxonomia de três domínios de Woese, diferenças molecu-
lares entre os dois tipos de bactérias recebem mais importância
do que as diferenças entre um cogumelo e um alce. A meu ver, is-
so é absurdo. O melhor evolucionista do mundo atualmente,
Ernst Mayr, da Harvard University, concorda plenamente conos-
co. Esse sistema de Woese, escreveu ele a mim recentemente, es-
tá se infiltrando cm Lodos os livros didáticos de biologia. "Acho
que vou fazer um pouco de barulho." Mayr publicou um ensaio
técnico sobre as semelhanças entre as arqueobactérias e outras
bactérias e as diferenças entre todas as bactérias e o resto da vida,
da vida nucleada.
Bacteriófila como sou, creio que nosso esquema recentemen-
te modificado de duas fileiras (prokarya, eukarya), publicado em
1998, é muito superior à classificação de três domínios. A princi-
pal característica diferenciadora de todas as formas de vida, célu-
las não simbiogenéticas (prokarya) versus célµlas simbiogenéti-
cas (eukarya), recebe o status mais alto. Em seguida os organis-
mos são diferenciados pelo modo como se desenvolvem: de espo-
ros (fungos), de um embrião cercado pelo tecido da mãe (plan-
tas), de um embrião blástula (animais) ou de nenhum dos casos
acima (prototistas). ·
Como Mayr, vejo muitos problemas no sistema menos bioló-
gico de Woese. O principal critério de Woese para diferenciar to-
das as fom1as de vida é um único gene, uma determinada parte do
'-
DNA que codifica uma das moléculas do RNA_ de um organismo.
ORNA que esse DNA codifica é parte da pequ~na subunidade de
uma partícula celular, o ribossomo. Woese utiliza apenas esse
gene, embora até as pequenas bactérias tenham cerca de 5 mil
genes em cada uma de suas células. Isso induz ao.erro. Os orga-
nismos devem ser classificados com base em toda a sua biologia.
Em segundo lugar, pelo menos um prototista (o plasmódio, para-
sita da malária) altera a seqüência de seu gene de RNA em dife-
rentes momentos ao longo da vida. Se o RNA de um microorga-
nismo pode mudar em questão de horas, a seqüência de RNA pro-
vavelmente não é a melhor forma de definir o maior de todos os
grupos. A categoria taxonômica mais abrangente à qual um orga-
nismo pertence tem de ser baseada cm muito mais. A maioria das
68 O PLANETA SIMBIÓTICO

pessoas consegue distinguir facilmente os quatro grandes reinos


dos grandes organismos a olho nu, mas poucos de nós têm aces-
so aos métodos de seqilenciamento genético de Woese. Além do
mais, um sistema no qual fungos, plantas, prototistas e animais
são reunidos em um só grupo encobre conhecimentos obtidos
com muita dificuldade. Um sistema taxonômico tem de ser um
sistema de recuperação de informações.
Tenho outras objeções aos três domínios de Woesc. Os proca-
riontes, ao contrário dos animais, plantas e outros eucariontes,
costumam passar seus genes adiante um de cada vez. As arqueo-
bactérias e as eubactérias trocam genes umas com as outras. Es-
ses diminutos organismos são muito semelhantes e pertencem a
um mesmo império, reino, domínio ou qualquer que seja o nome
dado à categoria taxonômica mais abrangente. O formato do cor-
po, o comportamento e o desenvolvimento de qualquer forma de
vida devem ser levados em conta juntamente com suas moléculas
e elementos químicos internos. Mesmo que houvesse seqüências
de genes idênticas na casca de uma bananeira e na pele de um
cão, ainda assim não classificaríamos um cão junto com uma ba-
nana, mas com lobos e chacais. A liberal tradição da taxonomia
que leva os botânicos a classificar plantas com base em partes de
flores é acentuada, em vez de subvertida, por novos insights bio-
lógico-moleculares. Embora eu aprove a imensa contribuição de
Woese para a classificação universal, penso que esse esquema cm
três domínios confunde mais do que organiza.
A passagem para os sistemas de classificação baseados na
evolução enfim se concretizou.~ As bactérias evol~íra_!]1_primeiro.
Elas se diversifiçaram pela ramificação. Depois-, por meio da sim-
biogênese bacteriana, os ramos se fundiram e surgiram os proto-
- tistasJ A partir de uma rica matéria-prima ancestral, alguns pro-
totistas evoluíram em fungos, outros em animais ou plantas. Gru-
pos antigos permanecem e se diversificam. Novas formas podem
se revelar transitórias ou estáveis. Enquanto todas as espécies
tendem a se tomar extintas, os agrupamentos maiores, recebam
eles o nome de domínio, reino ou qualquer outro, permanecem.
Qualquer esquema taxonômico apresenta problemas. Tende-
mos a rotular e descartar qualquer coisa uma vez que tenhamos
lhe atribuído uma categoria. Nossas classificações nos impedem
de ver o desregramento da organização natural, pois fornecem
"gavetas" conceituais nas quais enfiar nossas idéias preconcebi-
O NOME DA VIDEIRA

das. Elas deveriam refletir nosso estudo da natureza. O sistema


em duas fileiras e cinco reinos sempre precisará ser revisto.
Quaisquer que sejam suas dificuldades, ele_não perpetua os anti-
qüíssimos erros da dicotomia "animal versus vegetal". Podemos
agrupar as formas de vida em três, cinco ou um milhão de catego-
rias, mas a vida em si nos escapará.
S - A vida a partir do :zero

Que mistério pem1eia um ma11a11cial!


Onde a água viva tanto ...
Como olhar toda vez que dá vontade
Direto para um abismo! (1400)

Quer bacterianas ou nucleadas, as células são as unidades da vi-


da. Todos os organismos visíveis são compostos de células nu-
cleadas e, como já observamos, a primeira célula nucleada evo-
luiu por meio de incorporações de células bacterianas. Mas como
será que essa unidade esquiva, o pai de toda a vida na Terra, sur-
giu? O que deu início à célula primordial? Como surgiu a primei-
ra célula bacteriana? Fazer essa pergunta é exatamente a mesma
coisa que perguntar "como a vida surgiu?". Para entender a SET,
que é apenas a recombinação, incorporação e integração de bac-
térfas extremamente diversas, temos antes de entender de onde
essas bactérias diversas vieram. Em suma, temos de tentar enten-
der a vida a partir do zero, isto é, a partir da espuma.*
Em busca do cenário ecológico das primeiras células da Ter-
ra, a cada um ou dois anos eu e meus alunos fazemos uma pere-
grinação até San Quintín Bay, em Baja Califomia Norte, no Mé-
xico. Vamos até as margens movediças de Laguna Figueroa, um
complexo de lagoas enfeitado por planícies de sal. Lá encontra-
mos sedimentos em lâminas, com faixas brilhantes, cobertos por
um lodb gelatinoso. Essas extensões litorâneas, denominadas
"tapetes ·microbianos", me fascinam - uma paisagem viva exata-
mente onde o mar encontra a terra e se encapela de um lado para
outro. Felizmente para nossos estudos, o cenário é inóspito para a
grande maioria das grandes formas de vida, inclusive os seres
humanos. Coloco minhas mãos no lodo de aromáticos tecidos

• Jogo de palavras da autora comfrom scratch (a partir do zero) c.from scwn (espuma). no ori•
ginal. (N. dai.)
A VIDA A PARTIR DO ZERO 7"1

microbianos e sinto o cheiro da troca de gases. Aqui, como no


âmbito humano, mas sem ser por mandamento nem inevitavel-
mente, a morte faz parte da vida. O potencial de crescimento da
população é sucessivamente verificado e concretizado. Essas
comunidades litorâneas resistem há mais de 3 bilhões de anos.
Muitos habitantes morrem diariamente, mas a comunidade cm si
nunca cresce em excesso e ultrapassa seus limites. É um paraíso
evolutivo mais primitivo do que o mais verde dos pastos. Aqui,
nesse tecido da Terra, quase não existem animais nem plantas.
Até protistas e fungos são raros. O que floresce são, fundamental-
mente, bactérias. De pé sobre o tapete microbiano, sinto-me pri-
vilegiada. Adoro dar essa escapada, vibrando por renunciar ao
avanço urbano da hiperatividade humana e exultante com a liber-
dade de contemplar as mais remotas origens da vida.
A origem da vida é um conceito mítico, não no sentido de
irreal, mas sim por trazer à baila uma profunda impressão de mis-
tério. Até os cientistas precisam narrar, transformar suas observa-
ções em histórias de origem. Como.surgiu a primeira forma de
vida, a primeira célula bacteriana? Como as bactérias primordiais
se diferenciaram do ambiente no qual supostamente surgiram?
Essa questão não só faz parte da esfera de ação da pesquisa cien-
tífica, mas uma resposta adequada é essencial à SET. Precisamos
saber como as bactérias começaram e em que se transformaram
para que possamos entender como bactérias independentes se
incorporaram para criar nossas células. As respostas ao problema
da "origem da vida" são urdidas a partir dos trabalhos de toda a
vida de eruditos de diversos países. A história científica da pri-
meira vida na Terra é o menos tacanho dos mitos sobre a origem
do mundo. Ela está à disposição de todos que quiserem aprender
a respeito.
Há <li versas abordagens para inferir as propriedades da vida
bacteriana mínima, a primeira vida. Na primeira abordagem,
comparam-se todos os seres vivos para ver o que eles têm em
comum. A idéia é que aspectos comuns e absolutamente necessá-
rios a qualquer forma de vida existem desde nosso primeiro
ancestral bacteriano. A cadeia da vida não foi quebrada nem uma
vez sequer desde sua formação.
Uma segunda abordagem às origens é pela paleobiologia, o
estudo dos microfósseis, os vestígios da vida primitiva. Alguns
micro fósseis podem ter suas idades determinadas. Eles podem ser
O PLANETA SIMBIÓTICO

datados pela medida direta da idade das rochas vulcânicas circun-


jacentes com as quais estão associados.
No terceiro caminho para esclarecer a origem da vida, tenta-
se reconstituir uma célula. O estado da natureza ancestral mínimo
é imitado quimicamente em laboratório. Alguns componentes da
vida foram assim sintetizad9s a partir de compostos mais sim-
ples, mas até agora nada próximo de uma recriação em laborató-
rio de uma célula bacteriana foi alcançado. É claro que, mesmo
que fosse esse o caso, não poderíamos concluir que nossa tosca
imitação foi a forma como as células realmente surgiram.
Por meio de uma combinação de métodos, comecei a concor-
dar com outros cientistas quanto ao cenário mais provável - e
passível de investigação - da origem da primeira célula na Terra.
\Antes das células havia sistemas semelhantes a células. Atual-
hicntc:í-ienllumpedaço de DNA, nenhum gene, gera cópias de si
mesmo fora da célula da qual faz parte, e nenhum vírus consegue
reproduzir-se com eficiência sem habitar uma célula viva. A célu-
la bacteriana, a unidade de vida mínima da célula atual, automa-
nutenção e reprodução - é por aqui que devemos começar.
Ninguém afirma ter "resolvido" o problema da origem da
vida. No entanto, embora não possamos criar células a partir de
elementos químicos, cercados membranosos semelhantes a célu-
las se formam tão naturalmente quanto bolhas quando se sacode
óleo com água. Nos primeiros dias da ainda estéril Terra, esses
j.
cercados de bolhas separavam o interior do exterior. A pré-vida,

t.

5~
;
com uma fonte de energia adequada dentro de uma membrana
gordurosa, tornou-se quimicamente complexa. Harold J. Mo-
rowitz, professor emérito da George Mason University, cm Fair-
i ~ fax, Virgínia, e diretor do Instituto Krasnow para Estudo da Evo-
1
1, lução da Consciência, afim1a isso de forma eloqüente em Seu di-
'
vertido livro sobre a maionese.! Essas bolsas lipídicas cresceram
·1 e desenvolveram a autómanutenção. Por meio da troca de partes,
1
! elas mantiveram sua estrutura de forma cada vez mais constante.
É claro que a energia era necessária. Provavelmente a energia so-
:! lar, a princípio, circulou pelas gotículas; um fluxo de energia
i
' controlado levou à individualidade que se transformou em vida
celular. 2 Por definição, a mais estável dessas gotículas sobreviveu
por mais tempo e, por fim, aleatoriamente, reteve sua forma por
incessante intercâmbio de partes com o ambiente. Após um boca-
, do de evolução metabólica, que acredito ter oco1Tido dentro da
A VIDA A PARTIR DO ZERO 73

membrana gordurosa auto-sustentável, algumas delas, as que


continham fosfato e nucleosídios com fosfato a eles aderido,
adquiriram a capacidade de se replicar com relativa precisão.
Só podemos fazer conjeturas sobre como surgiram as primei-
ras bactérias. No entanto, acredita-se que os fósseis mais antigos
que temos hoje são vestígios de bactérias fósseis. Com mais de
3,5 bilhões de anos, os mais bem conservados provavelmente são
os que vêm do sul da África. A própria existência dessas microes-
feras da Suazilândia, como são denominadas, mostra-nos que a
vida já estava florescendo, se reproduzindo e crescendo, 1, 1
bilhão de anos após o surgimento da Terra como um corpo sólido
rochoso com atmosfera e oceano. Ninguém hoje duvida de que a
vida neste planeta é muito antiga. Uma vez que a idade do próprio
universo, que veio a existir subitamente pela "singularidade" do
Big Bang, em geral é calculada como de apenas 12 a 15 bilhões
de anos, os mais de 3 bilhões de anos de domínio da vida na Terra
indicam a presença de vida por um quarto da existência do uni-
verso. Ninguém duvida, tampouco, que a forma de vida mais pri-
mitiva não foi nem animal nem vegetal.
Em outro sentido - como a substância da qual todos os corpos
vivos são feitos -, estamos aqui desde a origem do universo.
A matéria presente nos corpos de todas as formas de vida,
incluindo, obviamente, mamíferos como nós, pode ser reconsti-
tuída até o carbono, nitrogênio, oxigênio e outros elementos cria-
dos nas explosões de estrelas supemovas.
àprincípJo rode_lbe..p<1recer improvável que todo_ser_vjvQJJJ!
Terra hoje - habitantes das cidad~§,_s~l~as, oceanos, florestas ç
past~; ::=-sc]ãaprolede-umiliáctéria. ancestral. Como uma ou Ül-
·-- gümas -bactérias podi-rr( fef sidõ-tão-prõciTgiosasTLernbt:e-se-de
que--võéê, você mesmo, t~b_ém já fo( uma ~~1ia- célüla: oóvúfõ _
rerfilizadÕ~ ozigÕto~ que se reprodu~il!_por -divisão~ se-tomôu-um--~--'
embr{ãonõ-iífero dé-suamãe:Mãi-; tarde--você era u~ bchêcfio:-
i-anâõ--nos·braços dela.Se-em nove meses um óvulo fertilizado
pode se transformar em um ser humano, ainda que um ser huma-
no rechonchudo, indefeso e sem coordenação motora, não fica
fácil imaginar que todas as formas de vida atuais surgiram de uma
só bactéria há mais de 3 bilhões de anos?
As células mínimas, as das bactérias mais diminutas, com
cerca de um décimo de milionésimo de metro de diâmetro, jamais
param de efetuar metabolismo. Isso significa que elas estão o
74 O PLANETA SIMBIÔTICO

tempo todo passando por centenas de transformações químicas,


cheias de vida. Trabalhos recentes revelaram que as bactérias
mais diminutas, mais simples, são muito semelhantes a nós. Elas
estão continuamente metabolizando, utilizando os mesmos com-
ponentes que nós: proteínas, gorduras, vitaminas, ácidos nucléi-
cos, açúcares e outros carboidratos. Até a bactéria mais simples é
extremamente complexa. Contudo, seu funcionamento interno
ainda é muito semelhante ao das formas de vida maiores. Todo o
DNA de uma das células mais simples, uma bactéria chamada
Mycoplasma geniticulum, já foi seqüenciado. Isso significa que
conhecemos todos os detalhes de seus genes. Quanto mais atenta-
mente estudamos seqüências e metabolismo de genes, mais nos
damos conta de que toda e qualquer vida, desde a origem, é simi-
lar a seus irmãos, todas as outras vidas. A Nlycoplasma, como to-
das as outras bactérias, nunca pára de usar energia para absorver
alimento, equilibrar sais, sintetizar DNA, RNA e proteínas e con-
verter um elemento químico em outro para continuar vivendo.
Elas se diferenciam claramente de suas cercanias. A célula bacte-
riana mais simples da Terra primitiva, como as menores de hoje
em dia, já tinha integridade. A primeira célula mais diminuta já
era tão complexa que sir Francis Crick, um dos descobridores da
estrutura do DNA, fez uma afirmativa surpreendente. Crick es-
creveu um importante livro, Life Itself. em que afirma que, devi-
do a sua complexidade assoberbante, a vida deve ter vindo à Ter-
ra do espaço cósmico.3 Ele diz que a vida bacteriana foi enviada
para cá por uma civilização extraterrestre disposta a semear o pla-
neta Terra. Crick, com uma seriedade inexplicável, afirma que,
assim como um jardineiro planta sementes no quintal, propágulos
foram semeados na Terra eras atrás. A meu ver, essa idéia - deno-
minada panspermia direta ou "pangênese" e aventada há séculos
- de que a vida veio do espaço na forma de sementes deriva do
desconhecimento da evolução na Terra.
Transferir para o espaço cósmico o problema da origem da
vida não é algo intelectualmente satisfatório. Por que deveria ter
sido mais fácil para a vida surgir em algum outro lugar e não na
Terra? Onde quer que a vida celular tenha começado, ela enfrentou
os mesmos problemas de origem. Essa idéia de geração espontânea
mostra não a origem das espécies, mas a origem do especioso.
Por gerações, os europeus acreditaram que a vida surge es-
pontaneamente na espuma e na sujeira. Acreditava-se que larvas
. . ;~-
. ~- :..,;1 •. ~.:
A VIDA A PARTIR DO ZERO

nasciam de carne podre, trapos velhos geravam ratos. Sabemos


que as larvas não nascem de sujeira, não importa quão quimica-
mente complexa elas sejam. Elas nascem de ovos fertilizados por
espermatozóides e postos por moscas. No entanto, para os prede-
cessores de Louis Pasteur, larvas se contorcendo em carne fétida
mostravam que a vida surgia da própria deterioração. Na década
de 1860, Pasteur expôs extrato de carne fervido ao ar. Ele utilizou
um balão de vidro longo, cujo gargalo fino e voltado para baixo
permitia que o ar entrasse, mas não bactérias ou qualquer outro
propágulo. Outro balão de vidro, aberto ao ar, ficou putrefato
com colônias de bactérias e fungos em poucos dias. O "controle"
de Pasteur, o balão de vidro fechado com o bico voltado para bai-
xo, nunca estragou. O caldo não contaminado continua em expo-
sição no Instituto Pasteur, em Paris. Os últimos partidários da ge-
ração espontânea, Pasteur provou de forma notável, estavam
errados. Cachorrinhos vêm de cães e cadelas; bebês vêm de
homens e mulheres. Moscas vêm de larvas; ratos, de mães rataza-
nas inseminadas. Como todos eles, os micróbios vêm de micró-
bios preexistentes, ou de pelo menos um pai ou mãe microbianos.
Há uma ironia nessa história, contudo: Pasteur, um católico
praticante, inferiu - como todos nós ainda fazemos - que sua des-
coberta indicava que toda forma de vida surge de uma vida pree-
xistente do mesmo tipo. Mas para Pasteur isso mostrava que a
evolução não ocorre e l-:·•P. somente Deus criou os muitos tipos de
vida. Hoje os cientistas invertem o argumento: todas as formas
de vida vieram não das mãos de Deus, mas da primeira forma de
vida, e a primeira forma de vida surgiu de matéria não viva do sis-
tema solar. Eis a ironia.
Pasteur nos convenceu de que as bactérias estão tão vivas
quanto nós. A presença de bactérias é relacionada a doenças e
contaminação de alimentos. Os brilhantes experimentos de Pas-
teur deixaram um importante legado. Ele estabeleceu a opinião
dominante: bactérias infecciosas, quase diabólicas, aliás, são
"germes" que têm de ser destruídos. Os grandes sucessos da me-
dicina moderna reforçam a idéia dos micróbios como inimigos.
A limpeza, a esterilização de instrumentos cirúrgicos e sobretudo
os ~ntibióticos são descritos como armas na guerra contra os
agressores microbianos.
A visão mais equilibrada dos micróbios como confrades e
ancestrais permanece quase inaudita. Nossa cultura ignora o fato
76 O PLANETA SIMBIÓTICO

duramente obtido de que esses "agentes" da doença, esses "ger-


mes", também deram origem a todas as formas de vida. Nossos
ancestrais, os germes, eram bactérias.
De onde vieram as primeiras bactérias?
A geração espontânea, conforme Pasteur e outros exultante-
mente comprovaram, não ocorre hoje em dia. Mas essa observa-
ção pasteurian~ ~ interpretada de forma errônea por criacionistas
e outros dogmatistas para afirmar que a vida nunca surgiu da fal-
ta de vida. Alguns teóricos da informação afirmam que a proba-
bilidade de que a vida se organizasse sozinha a partir da falta de
vida por interações aleatórias de moléculas é tão ínfima que cons-
titui uma "prova matemática" de que a vida tem origem divina.
Na minha opinião, porém, o pressuposto de que a vida surgiu
como resultado de moléculas misturadas ao acaso é inválido.
As experiências diretas com o problema da "origem da vida"
começaram em 1953. Na Universidade de Chicago, Stanley L.
Miller, então estudante de graduação de 22 anos de Harold C.
Urey, laureado com o prêmio Nobel, encheu balões de vidro de la-
boratório com gases flutuando sobre uma superfície de água este-
rilizada. Durante uma semana ele expôs periodicamente esse dio-
rama em miniatura da química da Terra primitiva à eletricidade,
simulando relâmpagos. Pela técnica de cromatografia em papel,
ele separou alguns dos muitos compostos orgânicos que se forma-
ram espontaneamente. Entre estes, Miller reconheceu a alanina e
a glicina, dois aminoácidos encontrados em todas as proteínas e
em todas as células dos corpos vivos. Miller e Urey jubilosamen-
te concluíram que essa "geração espontânea" dos componentes
químicos da vida era resultado natural da interação química.
Acreditamos que no espaço ou na Terra primitiva, compostos
orgânicos como os encontrados por Stanley Miller se formaram
espontaneamente de predecessores mais simples. Miller e Urey, é
claro, só podiam fazer suposições a respeito das características
químicas do ambiente superficial da Terra primitiva. Os gases
que Miller utilizou em sua aparelhagem de vidro - hidrogênio,
vapor de água, amônia e metano - parecem aceitáveis. Todos es-
ses gases são ricos em hidrogênio. O hidrogênio, principal ele-
mento do Sol, forma mais de 90 por cento da matéria de todo o
universo. Miller deduziu que provavelmente o hidrogênio era
abundante nos planetas inferiores no início da história do sistema
solar. Assim surgiu a idéia de "sopa primordial", de que a vida
A VIDA A PARTIR DO ZERO

emergiu de um "gemáceo", uma estrutura complexa como a que


ficou flutuando ou grudada nas laterais do balão de vidro de
Miller. Acreditamos que a Terra estava impregnada de compostos
orgânicos sintetizados pela luz do Sol e outras fontes de energia
muito antes da vida. Uma experiência semelhante à de Miller pro-
vavelmente ocorreu em escala planetária. Se seres humanos de 22
anos como Stanley eram capazes de produzir aminoácidos em
laboratório em poucos dias, por que o laboratório Terra, em uma
experiência ao longo de um milhão ou um bilhão de anos, não
poderia gerar a vida?
Experiências mais recentes confirmam que os precursores da
vida podem ser produzidos naturalmente em laboratório sob con-
dições que simulam o ambiente da Terra primitiva. As moléculas,
contudo, não se combinam ao acaso: carbono, hidrogênio, nitro-
gênio, fósforo, oxigênio, enxofre e outros elementos da vida inte-
ragem de acordo com as regras da química. As moléculas obede-
cem às leis da ciência do calor e da energia, denominada termo-
dinâmica. Certas reações químicas são muito mais prováveis que
outras; a idéia de que todas as combinações químicas são igual-
mente prováveis pode ser conveniente para o cálculo da improba-
bilidade da vida, mas não está correta. Além do mais, se supuser-
mos que a vida evoluiu de gotículas lipídicas semelhantes a célu-
las, as chances de surgimento de sistemas incrivelmente auto-sus-
tentáveis aumentam. Daí resulta uma tendência à complexidade.
A meu ver, as pesquisas mais empolgantes atualmente sobre
as origens da vida são as de meu amigo Harold Morowitz. Ao es-
paço, ao tempo e à casualidade em biologia, Morowitz acrescen-
ta a "memória". Ele afirma que a biologia é a ponte entre a física
e a história. As rochas mais antigas da Terra, incluindo as da for-
mação Isua na Groenlândia, têm quase 4 bilhões de anos. Toda
forma de vida tem uma memória química que não pode ser data-
da por medida direta. Muito provavelmente, a memória metabó-
lica das células modernas é ainda anterior às rochas mais antigas.
Morowitz observa que algumas vias metabólicas, como as etapas
enzimáticas que levaram de compostos de gordura a esteróides
como o colesterol, estão restritas aos animais. Outras, contudo,
compõem o "metabolismo primário": vias metabólicas comuns a
todos os seres vivos. Uma vez que certas vias metabólicas carbo-
no-químicas são absolutamente necessárias para todo metabolis-
mo, as primeiras - que subjazem ao fenômeno celular da automa-
O PLANETA SIMBIÓTICO

nutcnção e estavam presentes desde o começo, as interações quí-


micas do carbono, nitrogênio, enxofre e fósforo sobre as quais
qualquer metabolismo se baseia - devem ser conservadas em
todas as células o tempo todo. 4 Qualquer célula morre se seu me-
tabolismo universalmente necessário for dificultado por restri-
ções ambientais, mutação letal de DNA ou outra interferência.
Sistemas químicos na natureza que se tomam cada vez mais
complexos, mesmo que sejam capazes de reproduzir-se com efi-
ciência, não estão necessariamente vivos. Tais sistemas são cha-
mados autocatalíticos. Um sistema autocatalítico é uma série
cíclica de reações encadeadas cujo resultado final é igual ao pon-
to de partida. Algumas dessas reações foram chamadas de "reló-
gios químicos", pois não chegam rapidamente a um estado está-
vel; na verdade, elas permanecem e se repetem. O sistema Belou-
sov-Zhabotinsky é uma série muito variada de reações auto-sus-
tentáveis. O ácido malônico é oxidado pelo bromato em uma so-
lução de ácido sulfúrico contendo átomos de cério, ferro ou man-
ganês. Quando esses elementos químicos reagem uns com os ou-
tros, e depois reagem de novo, repetidas vezes, formam-se ondas
concêntricas e espiraladas em rotação que muitas vezes duram
horas até alcançarem um padrão estável. Na análise termodinâmi-
ca, essas reações são estruturas dissipativas, conforme descrito
pelo belga laureado com o Nobel Ilya Prigogine. Uma estrutura
dissipativa é qualquer sistema que mantenha sua função por meio
da assimilação de energia útil e dissipação de energia inútil,
geralmente calor. As reações de estruturas dissipativas têm certos
traços comuns com a vida e os sistemas químicos que evoluíram
e se transformaram cm vida. Mas todos os sistemas químicos,
estruturados de forma dissipativa ou não, só continuam a funcio-
nar e produzir mais matéria ordenada por um curto período.
Depois eles se desintegram.
A partir da análise termodinâmica e da experiência científica,
deduzimos que é impossível existirem máquinas de movimento
perpétuo: embora a energia em si não desapareça, ela é irrecupe-
ravelmente transformada. O calor dissipado não pode ser recupe-
rado. A energia de alta qualidade, energia que pode realizar traba-
lho, tende a desaparecer com o tempo. Bonecos de neve derretem
e não se recompõem. Canecas e copos se quebram com muito
mais freqüência do que são reconstituídos. Desarrumar um cômo-
do é muito mais fácil do que arrumar. Na termodinâmica, a desor-
A VIDA A PARTIR DO ZERO

dem é a regra. Não há como fugir ao fato de que a energia se per-


de e as coisas se separam, nunca se reunindo; é uma lei, uma lei
da natureza. A vida, com sua ordem complexa, não viola a lei da
termodinâmica da inexorável tendência à desordem. A vida sem-
pre precisa de sua fonte específica de energia de alta qualidade.
A luz do sol se movimenta pela vida, possibilitando o trabalho
cíclico, de forma muito semelhante à forma como a energia quí-
mica é canalizada em uma reação de Belousov-Zhabotinsky.
Porém, assim como as células crescem e se reproduzem para for-
mar mais células como elas, urna vez que a vida evoluiu, a quími-
ca da vida não parou mais. Se houver uma fonte de energia e
nutrientes, a vida cíclica gerará mais de si mesma indefinidamen-
te. Os sistemas químicos não têm individualidade, selves: eles
não podem gerar mais selves. A vida é uma sucessão de selves -
organismos ou células. Eles têm de gastar energia para continuar
existindo, mas o fazem em uma associação indivisível com a vida
do passado. A vida está, desde o começo e sem interrupção, qui-
micamente ligada ao próprio passado.
Morowitz destaca que o diagrama metabólico cumulativo dos
organismos vivos, elaborado por centenas de cientistas, princi-
palmente desde o início do século XX, é uma das maiores e mais
subestimadas realizações intelectuais da humanidade. Vários prê-
mios Nobel foram concedidos pela decifração de fragmentos
importantes do metabolismo, as reações químicas entrelaçadas
das células. Somente Morowitz, ao que eu saiba, tenta organizar
a grande quantidade de detalhes das informações metabólicas em
um conjunto coerente, uma lente para olhar de perto a história
primitiva da vida.
Uma vez que a vida é intrinsecamente um sistema de armaze-
namento de memória, alguns dos cenários propostos para explicar
sua origem me parecem pouco prováveis. Afirmou-se que cristais,
vidros, coacervatos, argila e pirita (o ouro dos tolos) foram funda-
mentais para os primeiros sistemas pré-vida. Os defensores da
idéia anunciam que fendas em pedras ou partículas de argila são os
locais de origem da vida. Existem cavidades cheias de fluido nas
células fechadas por membrana de quase todos os seres vivos.
Cavidades semelhantes, bolsas químicas denominadas liposso-
mos, também surgem naturalmente. Esses lipossomos, vesículas
membranosas, aparecem de forma espontânea nas chamadas
experiências sobre a origem da vida. Na minha opinião, é muito
ao o PLANETA SIMBIÓTICO

mais provável que essas gotículas representem a arquitetura origi-


nal da vida do que a pirita, a argila ou o vidro. Um princípio da
continuidade da vida, da memória da vida, pode ser lembrado
aqui. Acho que a famosa sopa primordial de DNA ou RNA flu-
tuante nunca existiu, porque é muito mais fácil que os ácidos
nucléicos (DNA, RNA) sejam destruídos do que espontaneamen-
te formados. Estruturas membranosas são a condição sine qua 1w11
da vida. Hoje as entidades fechadas por membranas com identida-
de e integridade são células. A vida surgiu em sua totalidade celu-
lar. As células atuais são, como diz Morowitz, "fósseis virtuais". ,
Em todas as células vivas atuais, os genes são compostos de
DNA. Todas as células precisam do RNA, que é muito semelhan-
te ao DNA, para sintetizar proteínas. A seqüência exata de ami-
noácidos fornece a uma proteína grande parte de sua estrutura,
determinando assim o que ela fará, da mesma forma como uma
seqüêne:ia de letras dá significado à palavra escrita. Há proteínas
de diversos tamanhos e formatos e com centenas de funções. Al-
gumas bombeiam íons: sódio, hidrogênio, fosfato, potássio e de-
mais; outras, associadas a pigmentos, fornecem absorvedores de
energia em olhos escuros, pele sardenta, cianobactérias verdes e
plastídios de algas. Os músculos são feitos basicamente de proteí-
nas; o sangue, a pele e a língua são complexos de proteínas acon-
dicionados cm células.
As células funcionam em um sistema de duas partes. Primei-
ro elas copiam ou "replicam" seus genes. Essa etapa de formação
de genes é a síntese do DNA. O DNA é copiado e uma cópia da
informação hereditária é reservada. A outra cópia é "traduzida":
seqüências de base idênticas de partes selecionadas do genoma
são convertidas em RNA. Dentro da célula, em diminutas "fábri-.
cas" denominadas ribossomos, o RNA supervisiona a fabricação ,
de proteínas de cadeias longas. O corpo de um organismo é em
grande parte formado por diferentes tipos de proteínas-de 3 a 10
mil por célula. Crescimento, em última análise, significa síntese
de proteínas (e, é claro, incorporação de água). Juntos cm uma
bolsa membranosa cheia de fluido, DNA, RNA e proteínas com-
,, põem a estrutura auto-sustentável das células. A molécula de
i
RNA, contudo, é mais versátil que seu complemento DNA. Dado
l o meio químico apropriado, mas sem qualquer proteína, o RNA
r pode reproduzir-se com eficiência autocataliticamente. O DNA.
por outro lado, precisa do próprio RNA e de proteínas enzimáti-
A VIDA A PARTIR DO ZERO

cas para completar o trabalho de replicação; por si só, o DNA está


morto. A capacidade do RNA de acelerar as reações químicas e
se replicar indica que o RNA veio antes do DNA na história da
vida. Podemos utilizar o RNA como um indício de proximidade
da pré-vida. Nada menor que uma célula viva mantém sua identi-
dade e produz grandes quantidades de si mesma. Desde o come-
ço, a vida era uma célula, uma interação mútua entre moléculas
genéticas (como o RNA) e a membrana gordurosa que as separa-
va do ambiente.
O físico Freeman Dyson acredita que o primeiro ser vivo sur-
giu de uma simbiose molecular, a junção de "criaturas protéicas"
relativamente amorfas e a supermolécula RNA. Como a maioria
de nós, Dyson está empolgado com a idéia do RNA como uma
supermolécula que, como o DNA, é capaz de fazer cópias de si
mesma, mas que, ao contrário do DNA, também distribui ami-
noácidos em seqüências de proteínas. Embora eu ache que Dyson
utiliza erroneamente a palavra simbiose, sua narrativa do desen-
volvimento independente de seqüências macromoleculares
seguido por forte interação é válida.s
Como Dyson sabe, os talentos singulares da molécula de
RNA são confirmados por experiências em laboratório. No fim
da década de 1960, no Instituto Gõttingen, na Alemanha, Man-
fred Eigen, físico laureado com o Nobel, mostrou moléculas de
RNA que se replicavam sozinhas em tubos de ensaio. Ele e seus
colegas, incluindo Don Mills, da Columbia University, e o já fale-
cido Sol Spiegelman, da Universidade de 111inois, em Urbana,
mostraram que o RNA de tubo de ensaio podia sofrer mutação e
se transformar em novas moléculas de RNA que se replicavam
mais rapidamente do que seus "pais". Por si sós, as moléculas de
RNA de tubo de ensaio, assim como os vírus, proteínas ou DNA
em solução, estão mortas. No entanto, se houver suporte adequa-
do, os sistemas moleculares podem proliferar e sofrer mutação
em tubos de ensaio.6
Thomas Cech, da Universidade do Colorado, e Sidney Alt-
man, da Yale University, ambos ainda bem jovens no início da
década de 1980, fizeram a descoberta fundamental. Certas molé-
culas de RNA não somente se replicam, mas agem como proteí-
nas: elas se emendam umas às outras. Dessa maneira, elas reorga-
nizam suas fonnas moleculares. Cech e seus colegas provaram
sem sombra de dúvida - isto é, sem proteínas contaminadoras -
02 O PLANETA SIMBIÓTICO

que o RNA se comporta como o tipo de proteína que pode reem-


baralhar e reorganizar material genético. Esse tipo de RNA é cha-
mado de "ribozima". Havendo ribozimas, pedaços de RNA, com
peq•1cnas peças sobressalentes (substâncias químicas denomina-
das ribonucleotídeos), se desenvolvem sozinhos cm tubo de
ensaio. Gostaria de enfatizar que a mistura de RNA - estando ou
não fechado em um lipossomo - ainda não é uma célula. Molécu-
las de RNA e/ou DNA em um frasco não estão vivas. Sem mani-
pulação, o RNA e o DNA de tubo de ensaio não chegam sequer a
ser vírus. São alimento pai:a bactérias, protistas e fungos ativos.
Mas as moléculas de RNA de fato evoluem no tubo de ensaio, in-
dicando que a evolução bioquímica deve ter precedido a vida.
Gerald Joyce e Jack W. Szostak, da Universidade da Califórnia
em San Diego, projetam ribozimas que aceleram a replicação do
RNA. Um cientista da Harvard University, Wally Gilbert, laurea-
do com o Nobel, cunhou a interessante expressão "mundo RNA".
Gilbert chamou atenção para o potencial do RNA, sugerindo,
entre outras boas idéias, que o RNA, ao agir como uma ribozima
replicadora, formou o cerne da primeira célula viva. Concordo
com Wally quando ele diz que as reações de aceleração do meta-
bolismo do RNA e moléculas replicadoras precederam as molé-
culas baseadas em DNA. Contudo, os tipos de metabolismo RNA
e DNA, como Morowitz enfatiza, vivem dentro das células.
Não existe forma de vida fora de uma célula auto-sustentável,
auto-reprodutora. A forma de vida mais despojada e mínima da
Terra ainda é extraordinariamente complexa. Até uma minúscula
esfera fechada por membrana, uma célula bacteriana sem pare-
des, precisa de uma equipe de interações moleculares, mais de 15
tipos de DNA e RNA, cerca de quinhentos e, mais geralmente,
até quase cinco mil tipos diferentes de proteína. Por si sós, o
RNA, o DNA ou qualquer vírus não estão vivos. Todas as células
vivas, mesmo em princípio, são muito mais complexas do que
qualquer gene ou vírus. As células intercambiam suas partes; elas
se mantêm continuamente por meio de nutrientes e energia retira-
dos do ambiente. Concordo com Morowitz: as primeiras formas
de vida foram células fechadas por membranas e auto-sustentá-
veis, como as que existem ainda hoje.
Utilizando o princípio da continuidade, Morowitz propõe que
os seres autotróficos, bactérias que fazem o próprio alimento e
geram a própria energia a partir de materiais inorgânicos, foram
A VIDA A PARTIR DO ZERO

as células fechadas por membranas originais. Os fotoautotróficos


não precisam se alimentar; eles utilizam a luz do sol como ener-
gia. Os quimiotróficos não precisam se alimentar; eles utilizam
compostos químicos ricos em hidrogênio sem a ajuda da luz co-
mo energia. Tanto os fotoautotróficos como os quimiotróficos
extraem carbono do dióxido de carbono da atmosfera (CO2). Ne-
nhum deles se alimenta de compostos orgânicos; isto é, nenhum
deles come comida. Plantas, cianobactérias e bactérias oxidantes
de amônia, sulfito e metano são todos autotróficos. O oposto de
um autotrófico é um heterotrófico: qualquer organismo (herbívo-
ro, algívoro, bacterívoro, carnívoro ou canibal) que coma comi-
da. "Comer" é o mesmo que ingerir matéria orgânica pré-forma-
da. Todos os heterotróficos se alimentam de moléculas orgânicas
feitas pelos autotróficos. Os autotróficos "comem" ar como co-
mida. Eles "comem" a luz do sol ou empregam o poder mefítico
de compostos ricos em hidrogênio, como o gás de hidrogênio
(H2), metano (CH3), sulfeto de hidrogênio (H2S) ou amônia
'..1 ~I:; (.HN:3) para reproduzir-se com eficiência. A energia dos autotrófi-
cos é igual à do fogo: os compostos ricos em hidrogênio reagem
com o oxigênio. Morowitz acha que os autotróficos que ainda es-
tão próximos da geoquímica original da Terra estéril foram o tipo
original a partir do qual o resto de nós surgiu. Raciocinando que
os autotróficos estão mais próximos dos ciclos termodinâmicos
originais da vida, Morowitz postula que o modo de vida quimio-
autotrófico é até anterior ao fotoautotrófico.
Em seus seminários, Morowitz destrincha passo a passo todas
as etapas do processo. Simplesmente nos juntamos e ouvimos.
Meus alunos e eu gostamos de trabalhar com Morowitz e outros
que traçam a história da vida desde o presente vivo até o passado
quimicamente inerte. Precisamos conhecer a transição da quími-
ca pré-biótica à vida baseada cm células para que possamos des-
cobrir como as organelas evoluíram. Será que elas evoluíram da
pré-vida e se tornaram complexas, ou são bactérias só com as
características essenciais? Penso e escrevo muito sobre isso, mas
o que faço com meus alunos e colegas no laboratório e na sala de
aula é diferente. Lidamos diretamente com a vida: micróbios e
outras células vivas e seus componentes. Nossos objetos de estu-
do são bactérias, prototistas, plantas, fungos. Com meus alunos e
colegas, traço a história da vida desde seus primórdios microbia-
nos. Observamos o crescimento e a reprodução, perscrutamos a
84 O í'LANETA SIMBIÓTICO

sexualidade e a maturidade física dos prototistas, medimos a res-


posta das bactérias e protistas às "agressões" do ambiente. Temos
especial interesse pelo comportamento, ricas vidas sociais e inte-
ração desses micróbios com sedimentos enquanto formam estru-
turas comunitárias resistentes.
A origem das células a partir de compostos químicos espu-
mosos pode ter ocorrido uma vez ou diversas vezes. Em qualquer
caso, as primeiras células cm nossa linhagem foram sistemas pro-
téicos auto-sustentáveis fechados por membranas, baseados em
RNA e DNA. Em termos de detalhes da estrutura celular do com-
portamento metabólico, elas eram muito semelhantes a nós. Seus
componentes materiais estavam em constante intercâmbio com o
ambiente externo. Elas se desfaziam dos resíduos enquanto obti-
nham alimentos e energia. Seus padrões perduravam enquanto
elas reabasteciam as entranhas com compostos químicos trazidos
do ambiente. A propósito, as antigas bactérias metabolizadoras
eram tão eficazes em refazer a si mesmas quando ameaçadas de
desintegração e extinção termodinâmica, que a parte interna de
nossos corpos agora é quimicamente mais semelhante ao ambien-'
te externo da Terra primitiva, no qual a vida teve origem, do que
em relação a nosso mundo atual rico cm oxigênio. A vida, sem-
pre composta de células que crescem e se dividem, literalmente
preservou o passado sob a forma de química. O livro da vida não
foi escrito em matemática nem física, mas no idioma da química
do carbono. "Falando" a língua da química, as bactérias se diver-
sificaram e se comunicaram umas com as outras em escala glo-
bal. As que nadavam se associaram às que degradavam glicose, o
açúcar, e assim geravam a energia para nadar. A parceria natató-
ria-degradadora de glicose levou aos protistas. O resto é história
- meu ponto de vista SET da história.
6 - O sexo como herança

Quando um amante é um indigente


Triste é sua submissão
Quando um amante é um senhor
Diferente ele é (1314)

Sexo é algo complicado. A essência do sexo ao longo da evolu-


ção da vida é a junção de células de gêneros complementares em
uma união efêmera ou prolongada. Em tennos biológicos, sexo é
fundamentalmente a atração entre gêneros, forte o bastante para
gerar a recombinação de genes dentro das células acásaladas.
Surgem novos seres vivos cujas constituições genéticas diferem
daquelas das células de gêneros diferentes que se encontraram e
se recombinaram. No sexo à maneira dos animais, metade desses
genes vem de um óvulo, metade do espermatozóide.
As bactérias transmitem seus genes com naturalidade quando
uma bactéria doa seus genes a outra. Para as bactérias, não exis-
tem contribuições meio a meio; elas literalmente recolhem genes,
em geral poucos de cada vez. O doador pode acasalar quando
"ele" entra em contato físico com "ela", uma bactéria receptora
viva. "Ela" é exatamente igual a "ele". A apreensão de genes tam-
bém pode ser uma necrofilia fortuita; o receptor pode apenas se
apoderar de genes largados anteriormente quando um doador
morto os deixou na água. Os genes arrebatados do ambiente
podem servir para fazer vitaminas, passagem de gases ou outras
características que aumentam as chances de sobrevivência. Às
vezes os genes codificam proteínas que permitem que o receptor
se desintoxique de venenos que representam risco de vida. O sexo
bacteriano é sempre unilateral. Os genes, e somente os genes,
chegam à célula receptora a partir de qualquer lugar: a água, um
vírus ou um doador vivo ou morto.
O sexo humano, como o dos animais, é um processo surpreen-
dentemente diferente. Esse sexo de fusão celular, denominado sexo
86 O PLANETA SIMBIÓTICO

meiótico, é igual em animais e plantas. O sexo meiótico não é op-


cional. Plantas e animais não "bebem" genes de águas ricas em
DNA. Na verdade, espermatozóides do macho são atraídos para o
óvulo da fêmea e ocorre a fusão. A fecundação já é um ato do de-
senvolvimento do embrião. Uma nova célula, o óvulo fecundado, o
zigoto, seja de animal ou de planta, tem agora dois conjuntos de
cromossomos, enquanto o óvulo e o espermatozóide originais ti-
nham apenas um. O óvulo fecundado cresce pela divisão de suas
células duplicadas. Uma se divide em duas, duas em quatro, quatro
cm oito e assim por diante. Todas as células se mantêm juntas en-
quanto formam o embrião. O óvulo fecundado se toma um mem-
bro reconhecível de sua espécie. O novo girino, pecíolo de limo,
espcrmatófita, réptil, bebê chorando ou outro incipiente ser multi-
celular que se desenvolve a partir do embrião é a prova viva de que
animais e plantas são parentes mais próximos entre si do que em
relação às outras formas de vida. As vidas sexuais de todos os mui-
tos seres que nunca formam embriões diferem profundamente das
dos animais e plantas. Bactérias e descendentes microbianos de sua
simbiogêncse (prototistas e fungos) têm outros hábitos sexuais.
As bactérias não precisam de sexo para se reproduzir desen-
freadamente. O sexo bacteriano como resultado de determinadas
contingências ambientais só ocorre de vez em quando. As vidas
sexuais das plantas e dos animais, ao contrário, são indispensáveis
à geração de um embrião. Sem sexo, a história de vida de animais
e plantas não se desdobra. No início do ciclo de vida de plantas e
animais, o núcleo do espem1atozóide se funde o tempo todo com
o do óvulo. Essa fusão lembra incorporações simbióticas cíclicas:
os parceiros reconhecem um ao outro. 1 Eles distribuem emissá-
rios celulares. Suas membranas celulares se abrem para deixar
passar núcleos (pelo menos). As membranas dissolvidas se refa-
zem quando as células dos amantes se fundem. Aberto e vulnerá-
vel, o óvulo "sabe" que não deve verter seu conteúdo e tem de dei-
xar que apenas o citoplasma e núcleos corretos entrem!
Os processos sexuais, a incorporação de seres que foram
atraídos, provavelmente tiveram origem da mesma maneira que
as primeiras simbioses. A fome deve ter sido um fator primordial
que estimulou o desespero de se incorporar, tanto na fusão sim-
biótica como na sexual. As células que se juntam no sexo, contu-
do, por definição representam genes e citoplasma de indivíduos
de gêneros diferentes que são membros da mesma espécie.
O SEXO COMO HERANÇA

Em nosso livro The Origins of Sex, Dorion Sagan e eu afirma-


mos que o sexo meiótico começou muito depois do sexo bacteria-
no, sob a forma de canibalismo malsucedido em certos protistas.2
Mostramos que para entender a intricada história do sexo é preci-
so compreender a biologia prototista - a biologia das células
natatórias que na realidade não são nem plantas nem animais.
Explicamos como as incorporações sexual e simbiótica reú-
nem genes distantes dentro do organismo recombinado. O sexo
difere da simbiose porque a fusão cíclica e posterior separação
tendem a ser muito mais previsíveis, muito menos criativas e for-
tuitas do que as da simbiose temporária. No sexo, a prole se pare-
ce muito com os pais e as diferenças de gênero são ritualizadas e
previsíveis.
Os corpos formados pela incorporação simbiogenética, tais
como raízes de feijão noduladas, hidras verdes, vacas ruminantes,
peixes brilhantes e algas vermelhas, diferem profundamente de
cada um dos parceiros/pais que se incorporam. A simbiogênese é
muito mais eficiente do que o sexo como geradora de inovação
evolutiva. Quando os pais têm um parentesco muito próximo -
como, por exemplo, algas vermelhas não fotossintetizantes que
habitam (ou melhor, "vivem à custa de") seus parentes, outras
algas vermelhas fotossintéticas -, mal se consegue distinguir
entre sexo e simbiose em termos de funções.3 Porém, quando os
pais simbióticos das incorporações são apenas parentes distantes
- por exemplo, plantas de feijão e bactérias rizóbio ou vacas e os
ciliados do rúmen (entodiniomorfos) -, os produtos dessas incor-
porações são formidavelmente diferentes de ambos os pais.
A morte programada é uma conseqüência inevitável do modo
de vida sexual. O grande ciclo no qual machos e fêmeas produ-
zem espermatozóide e óvulos com um conjunto de cromossomos
apenas para que eles se juntem de novo para gerar uma prole com
dois conjuntos de cromossomos está estreitamente relacionado à
inevitabilidade da morte de plantas e animais individualmente.
É claro que todos os organismos, inclusive bactérias e muitos
prototistas, podem ser mortos. A fome, a desidratação e os vene-
nos são grandes assassinos. Mas a morte por destruição não tem
um cronograma natural embutido. A evolução dos ancestrais pro-
totistas em corpos de plantas e animais exigiu sacrifícios e per-
das; a multicelularidade e a complexificação introduziram o
envelhecimento e a morte de corpos individuais. A morte, que é a
08 O PLANETA SIMBIÓTICO

literal desintegração da "casca" que é o corpo, foi o horrível preço


exigido pela sexualidade meiótica. O complexo desenvolvimento
de prototistas e seus descendentes animais e vegetais gerou a evo-
lução da morte como uma espécie de doença sexualmente trans-
missível. Mais de um bilhão de anos atrás, quando os prototistas
evoluíram pela integração de simbiontes bacterianos em comuni-
dades permanentes e estáveis e se tomaram indivíduos prototistas,
surgiu essa espécie de morte planejada que tanto nos perturba.
Muitos prototistas ainda exibem variações sobre o estranho
tema do sexo e da morte. Observei a vida e a morte do Stentor
coeruleus. Esse ciliado azul, um grande microorganismo facil-
mente capturado em lagos e lagoas de água doce não poluída, se
reproduz a partir de um só ascendente. Um indivíduo cresce e se
divide cm dois diariamente. Na primavera, em conglomerados
densamente povoados, os stentors azuis se dispõem aos pares.
Em seguida ocorrem orgias microscópicas em que todos os sten-
tors da mesma cavidade se emparelham e acasalam fervorosa-
mente. Os membros dos pares se colam uns aos outros por 36
horas seguidas! Contudo, ambos os parceiros do jogo do amor
sempre morrem em menos de uma semana. O sexo, da forma
mostrada neste protista, é "involução".
A cada geração, todos os animais - cerca de 30 milhões de es-
pécies distribuídas por quase quarenta filos - revertem a um está-
gio unicelular, semelhante aos protistas. Células sexuais seme-
lhantes aos protistas realizam fusões sexuais quando células de
animais repetem o estilo de vida de seus ancestrais. Entre ani-
mais, plantas e até fungos, o sexo não é uma opção dispensável
para permanecer no jogo evolutivo. A organização de vida nesses
seres é gerada pela fusão, pelo ato sexual. A mortalidade é o pre-
ço que eles pagam pelos tecidos extravagantes e histórias de vida
complexas.
A evolução do grande panorama da vida moderna na Terra a
partir de antigas bactérias é uma verdadeira epopéia. Também
assombroso, porém menos espetacular, é o desenvolvimento de
células maduras a partir de zigotos, óvulos fecundados. A evolu-
ção continuou por 3,5 bilhões de anos. O domínio da espécie hu-
mana sobre o "mármore azul" no espaço negro tem menos de 3,5
milhões de anos. Um ser humano se desenvolve em menos de 35
anos. Pela concentração de tempo e organização da matéria, o
produto é quase sempre um ser consciente. Como apontar com
O Sl;XO COMO HERANÇA

precisão o início de uma vida humana? A pergunta é absurda em


termos de biologia, totalmente artificial. A determinação do "iní-
cio da vida humana" é pura convenção. É comum, em conferên-
cias abertas ao público, me perguntarem: •~Quando a vida huma-
na começou?" Ela começou, é claro, como t.Q..d_a__viº-ª,__há pelo me_-
,,,- nos 3,2 bilhões de anos! A pergunta reflete um conceito errôneo.
~ vez que os genitais dos pais se encontram, ocorre a concep-
ção, a qual é seguida pelo nascimento como culminância do pre-
visível no desenvolvimento uterino. O desenvolvimento continua
quando um espermatozóide ondulipódio encontra um óvulo cheio
de gordura fustigado pela agitação dos ondulipódios que reves-
tem a trompa de Falópio da mãe. O espermatozóide haplóide que,
ao contrário dos companheiros de viagem, sobrevive à jornada, se
junta ao óvulo haplóide. O óvulo solta uma substância protéica
pegajosa, recebendo o vencedor da corrida de espermatozóides e
barrando visitantes posteriores. A cabeça do espermatozóide ven-
cedor, contendo 23 cromossomos, todos com os genes do pai,
entra no grande óvulo, cujo núcleo encerra 23 cromossomos mui-
to semelhantes da mãe. As duas células se incorporam. Esse ato
de "fertilização" gera uma célula dupla, agora com 46 cromosso-
mos. De cada par de 23 cromossomos um componente é matemo,
derivado da mãe. O outro é do pai.
O óvulo fecundado dos mamíferos lembra antigos protistas,
provavelmente os primeiros seres com cromossomos duplicados
que surgiram. Mas, ao contrário de seus ancestrais, nenhum óvu-
lo de mamífero permanece preguiçosamente em sua condição
unicelular, tampouco utiliza os ondulipódios para nadar em água
de lagos a fim de buscar alimento bacteriano. Não, a célula do
zigoto se divide e os produtos da divisão permanecem juntos.
O resultado são embriões humanos. Uma esfera de células cresce
e se diferencia, formando tecidos e depois órgãos em um conjun-
to de aspecto piscoso.
À medida que as células continuam se dividindo, crescendo,
trocando de posição umas com as outras e se comunicando, o
embrião vai se tomando um feto. Conforme os órgãos se desen-
volvem, o embrião vai perdendo a aparência piscosa, reabsorven-
do as fendas de guelras e o apêndice vestigial intra-uterino, e
começa a assumir uma forma humana. Um feto, de boca aberta,
pode até sugar o polegar in utero. Incapaz de respirar o ar, ele res-
pira por meio do cordão umbilical. Pela placenta, o oxigênio do
90 O PIANETA SIMBIÓTICO

sangue da mãe é removido pelo feto. Entregue ao mundo atmos-


férico, o bebê, se for fêmea, nasce com seu sortimento vitalício de
óvulos não fecundados já no lugar, em seus ovários. Cada óvulo
tem 23 cromossomos, metade do número do resto do corpo do
bebê fêmea. Como as células de ambos os pais, o número de cro-
mossomos de seu corpo, 46 por célula, já está duplicado. O nú-
mero de cromossomos já está duplicado em todas as células dos
corpos dos bebês machos. Os homens não produzem espermato-
zóide, com seus 23 cromossomos, até a adolescência. Depois que
a adolescência chega, as células produtoras de espermatozóide,
nos testículos, estimuladas pelos hormônios masculinos, produ-
zem espermatozóide continuamente. A formação de espermato-
zóide, com apenas um conjunto de 23 cromossomos, continua por
até noventa anos. Sem união fértil, peneu·ação sexual e continui-
dade da prole, nada interessa na arena da evolução. Se nossos
ancestrais simiescos não tivessem se acasalado apaixonadamente
para nos procriar, há muito tempo estaríamos extintos. Ser animal
é ser sexual.
Como surgiu a multicelularidade? Muitos de meus colegas e
seus leitores acham que essa é uma das grandes questões da evo-
lução. Os corpos de animais crescem sem sexo por meio das divi-
sões celulares mitóticas do óvulo fecundado. Mas como os pri-
meiros corpos de animais evoluíram? As células nucleadas, assim
como os prototistas, começaram a se replicar há pelo menos um
bilhão de anos. Os clones, cópias de organismos, resultaram da
divisão celular. Por que o sexo se tornou uma exigência?
Os fósseis de animais mais antigos estão bem preservados em
mais de vinte locais em todo o mundo, entre eles Sonora, no Mé-
xico; no mar Branco da Rússia, ao norte de São Petersburgo;
Ediacara, no sul da Austrália; Namíbia, no sudoeste da África, e
diversos locais da China. Nesses lugares, estão preservados res-
tos mortais de animais entre 650 e 541 milhões de anos de idade.
No entanto, centenas de milhões de anos antes desses animais, os
protistas sexuais já haviam feito cópias de si mesmos e se manti-
do juntos. "Indivíduos", com partes do corpo diferenciadas cm te-
cidos, eram naturalmente selecionados. Diferentes tipos de colô-
nias de prototistas, algas verdes, bolores de lodo, redes e muitos
outros, embora amorfos no início, aumentaram em complexidade
e individualidade à medida que evoluíam. Os seres que hoje cha-
mamos de plantas, animais e fungos são mais bem definidos
O SEXO COMO HERANÇA

como cópias de prototistas extremamente integrados. Pela sele-


ção natural, eles se transfonnaram_em seres novos, maiores.
Os animais - celenterados, braquiópodes e os outros 35 filos
- evoluíram nos oceanos há mais de 500 milhões de anos.* Eles
surgiram muito antes dos reinos de seres habitantes da terra, plan-
tas e fungos. As escalas de tempo geológico tradicionais agrupam
- e, portanto, não dão a devida atenção- todas as divisões tempo-
rocha anteriores a 541 milhões de anos atrás como pré-cambria-
nas. O período cambriano, assim denominado por causa das ro-
chas da Câmbria, um antigo nome do País de Gales e onde foram
descobertos os primeiros esqueletos de animais, ainda cativa a
imaginação dos paleontólogos. Como os animais evoluíram? Um
argumento tradicional, proposto pelo geólogo Preston Cloud
(1910-1992), é que concentrações atmosféricas de oxigênio cada
vez mais altas permitiram que a vida animal evoluísse após mi-
lhares de milhões de anos de bactérias e algas. Meus queridos co-
legas Mark McMenamin e esposa, Dianna, mostraram que o sur-
gimento dos animais está longe de ser um fenômeno de uma só
causa. O oxigênio é necessário, mas não suficiente. Muitos fato-
res ambientais e genéticos levaram aos primeiros seres gerados
por óvulos fecundados por espermatozóides.
Aplaudo a análise dos McMenamin. A vida animal não foi
restringida pela anoxia e logo em seguida evoluiu de repente
quando o oxigênio se acumulou na atmosfera. Não acredito que o
oxigênio tenha limitado qualquer forma de vida além das bacté-
rias e alguns protistas menos cotados. O oxigênio era necessário,
porém não suficiente para garantir a expansão da vida animal.
Todos os animais são aeróbios. Suas mitocôndrias sempre
precisam de oxigênio, caso contrário morrem. O oxigênio do ar,
mesmo em abundância, provavelmente precedeu o surgimento
dos animais em mais de 500 milhões de anos. As partes duras,
como os esqueletos de fosfato de cálcio dos peixes, os exosquele-
tos quitinosos dos artrópodes e os cascos de carbonato de cálcio
dos mariscos, caracóis e outros moluscos provavelmente come-
çaram como resíduos. Os íons de cálcio, abundantes nos oceanos,
são venenosos dentro das células. A concentração de cálcio den-
tro das células tem de ser mantida mil vezes inferior à concentra-
ção na água do mar, ou os microtúbulos da mitose param e o cres-

• Ver Nota 5 no Capitulo 4.


92 O PLAf-.JETA SIMBIÓTICO

cimento é interrompido. A extrusão de cálcio, começando como


remoção de resíduos, evoluiu em um estilo inovador de recicla-
gem que levou a sistemas de apoio natural; desenvolveram-se
dentes, carapaças e esqueletos. Usos engenhosos, econômicos e
exeqüíveis foram modificados conforme o resíduo de cálcio
endurecido se precipitava cm águas ricas em fosfato.
Nós, seres humanos, temos de prestar atenção à lição. Sempre
criamos resíduos; enquanto se espalha, a vida realiza excreção.
Ninguém se surpreende quando objetos úteis são fabricados com
peças de automóveis e plástico velhos. A metamorfose da polui-
ção lem precedentes. Prudente e inconscientemente, seguimos o
caminho indicado por nossos ancestrais.
Em meados do período cambriano, a vida havia se espalhado
em surpreendentes formas animais. A Hallucinogenia é um pe-
queno e monstruoso ser tão diferente das formas de vida modernas
que seus descobridores não sabiam se suas protrusões eram fer:
rões protetores nas costas ou pernas salientes. Outro animal da era
cambriana, Pikaia, era um nadador veloz e leve, que agora se acre-
dita ter sido o avô mais remoto de todos os animais vertebrados.
Entre meus amigos os debates não param. Preservadas em
arenitos de 650 a 541 milhões de anos de idade, muito antes do
período cambriano, grandes e complexas formas de vida, ainda
não identificadas, mesmo no nível do reino, são abundantes em
mais de duas dezenas de locais em todo o mundo. O que são as
criaturas de Ediacara? São uma fauna fóssil? Eram prototistas?
Alguns eram animais e outros prototistas? O que causou a extin-
ção deles? Se eles se desenvolveram a partir de embriões de ani-
mais (blástulas), não temos uma pista sequer de um embrião. To-
dos os animais se desenvolvem de blástulas. Ainda não temos co-
mo saber se isso aconteceu com esses estranhos seres. (As chan-
ces de encontrar embriões de criaturas de Ediacara aumentaram
muito desde que os microscópios de varredura eletrônica come-
çaram a ser utilizados no estudo de rochas sedimentares ricas em
fósforo da China denominadas fosfálitos.) Mark McMenamin me
convence de que o Pteridinium, cujo formato lembra uma folha,
e o Tribrachidium, de três braços, não eram animais. Ele acha que
eram uma linhagem bem definida em uma era mais suave, con-
vergentes com animais, mas não animais. Eram prototistas que
não deixaram descendentes (Figura 6).
As plantas evoluíram a partir de prototistas aquáticos verdes,
O SEXO COMO HERANÇA

algas do tipo verde-amarelado. Entre as algas mais familiares


para nós estão as rodófitas (algas vermelhas), os envoltórios co-
mestíveis dos rolos de sushi nos restaurantes de comida japonesa.
Uma vez que nunca se desenvolvem a partir de um embrião, as
algas marinhas, como as rodófitas e todas as outras algas, não são
plantas. Ancestrais hipotéticos não diferenciados e semelhantes
das plantas, certas algas fornecem uma sugestiva seqüência de
sinalizações evolutivas. Sua existência mostra um itinerário plau-
sível que leva do prototista unicelular ao descendente multicelu-
lar. Isso aconteceu várias vezes com muitas formas de vida. As
unicélulas se dividiram e a prole não conseguiu se separar, como
quando grandes algas de Volvox evoluíram a partir de diminutos
ancestrais Chlamydomonas. Novas algas cor-de-rosa da neve das
montanhas Rochosas ou dos Alpes e o matiz vermelho da neve
em Hawley Bog, próximo ao noroeste de Massachusetts, fazem
parte desse grupo de formas de vida resistentes. Embora solitá-
rias, as Chlamydomonas parecem uma célula individual de uma
esfera rotativa, a muito maior Volvox. A Volvox consiste em uma
camada de quinhentas a mais de quinhentas mil células seme-
lhantes às Chlamydomonas. Nessa seqüência há um intermediá-
rio. Gonium, um disco algáceo composto de quatro, oito, 16 ou
32 células verdes semelhantes a Chlamydomonas embebidas em
um gel transparente. Juntas, essas algas de Volvox - Chlamydo-
monas, Gonium, Pandorina, Eudorina e Volvox - representam
variações do tema dos clones cujas células se mantêm unidas e
compõem indivíduos multicelulares. Uma espécie, Gonium
sociale, lembra um prato raso em quatro partes, cada uma com-
posta por uma só célula. Qualquer célula da Gonium sociale pode
se separar, nadar e começar sua própria colônia. Uma esfera pro-
genitora da Volvox forma colônias-bebês dentro dela mesma. Elas
liberam uma enzima que dissolve a gelatina que mantém o proge-
nitor unido e "chocam" diversas pequenas crias. Quando a esta-
ção ou a luminosidade muda, a disposição de ânimo da Volvox
muda e ela se toma sexualmente atraente. Uma colônia sexy da
Volvox libera muitos óvulos. Outra libera espermatozóides ou, se
for hermafrodita, óvulos e espermatozóides serão expelidos de
esferas verdes transparentes iguais. Serpenteando pela água,
ondulipódios à frente, as células sexuais natatórias verdes lem-
bram superficialmente células de Chlamydomonas. Mas elas não
são indivíduos. São mensageiros sexuais que possibilitam a exis-
04 O PLANETA SIMBIÓTICO
O SEXO COMO HERANÇA

tência de indivíduos multicelulares no gênero Volvox. Provavel-


mente a biota de Ediacara ostentou estilos de vida semelhantes
aos de multicelulares agora extintos.
Trabalhando em conjunto, as células se tomaram colônias e
as colônias se transformaram em indivíduos com níveis cada vez
mais elevados de organização. A diferenciação de tecidos requer
a repetição de processos de desenvolvimento anteriores. Em
plantas e animais, a fertilização por incorporação de célula sexual
representa o ponto de partida da história da vida. Até plantas
como o dente-de-leão, cerejas,' licopódios e gramas, que estão li-
gadas por mensageiros subterrâneos e crescem sem o benefício
do sexo, ao fim acabam se tomando sexualmente atraentes. Os
animais que aparentemente desistiram do sexo, como grupos de
fêmeas de lagartos, ainda passam por processos sexuais, meiose e
fertilização, no nível celular. Uma célula fêmea com um conjun-
to de cromossomos se incorpora a outra célula fêmea. A mãe faz
sexo celular consigo mesma, para produzir um zigoto órfão de pai
que se desenvolve em embrião animal.
''Nós", uma espécie de estrutura exuberante, somos reconsti-
tuídos a cada duas décadas, mais ou menos, por bactérias incor-
poradas e mutantes. Nossos corpos são constituídos de células se-
xuais prototistas que fazem cópias de si mesmas por meio da
mitose. A interação simbiótica é a essência da vida em um plane-
ta apinhado. Nosso cerne simbiogeneticamente composto é mui-
to mais antigo que a recente inovação que denominamos ser hu-
mano. Nossa forte impressão de diferença em relação a todas as
outras formas de vida, nossa idéia de que somos uma espécie
superior, são delírios de grandeza.
-- Creio que essa ilusão provém da necessidade de uma "identi-
ficação como espécie". Sentimos a necessidade e o forte desejo
de nos reproduzir e gerar mais pessoas. O ato de permanecer na
arena evolutiva exige que reconheçamos possíveis parceiros de
nossa própria espécie. No entanto, esse autofoco sexual oculta a
verdade sirnbiogenética maior de nossos componentes de diver-
sas espécies. Nossa natureza é multicomposta.
A ironia zoológic_a é que, para compreender a evolução do sexo
entre os animais, é preciso conhecer os prototistas. Só que os proto-
tistas, muitas vezes erroneamente tornados por animais, raras vezes
são estudados por biólogos profissionais. Eles sofrem ultraje ainda
maior que a das bactérias vilipendiadas como germes causadores de
96 O PLANETA SIMBIÓTICO

doenças: os prototistas são ignorados. A maioria das pessoas ouviu


falar em bactérias, mesmo que só no contexto de sprays letais, pós
venenosos e soluções anti-sépticas. Entre as cerca de 250 mil espé-
cies de prototistas que se calcula que existam, apenas algumas
(amebas, bolores de lodo, algas verdes e ciliados) chegam a ter
nomes. Até elas são apenas curiosidades para aulas de biologia.
Animais e plantas têm de atrair e incorporar sexualmente seus
núcleos para fom1ar embriões. Para eles, o sexo não é opcional,
mas muitos prototistas nunca se entregam ao sexo de fonna algu-
ma e estão se saindo muito bem, reproduzindo-se o tempo todo.
Quando era professor da Harvard University, Lemuel Roscoe
Cleveland publicou na revista Sci~!J-<;_q_ uma teoria muito êlài-ã que
· resolvia o ·problema ·da-ongem de nosso tipo de-~e~o_1__neiótico.
Enquanto estudava prototistas vivos eobse~~;.{~uas fraq~'ezas,
confusões e erros graves, ele percebeu que a fertilização começou
como um acaso gerado pelo desespero. O sexo _:rnetó_t_iç_o, _q)m_o
estratégia de sobrevivência, ocorre!! como conseqüência da indi-
gestão-cariil5ãt-cleveland-observou-tensões peculiares em comu-
nidades agonizantes: um mastigoto aparentemente faminto devo-
rou o vizinho, outro se contorceu para sair do caminho de um
possível predador faminto. Cleveland percebeu que estava obser-
vando o canibalismo ·malsucedido. Alguns canibais comeram e
digeriram todos os apêndices das vítimas, seus irmãos. Outro
poderia ter uma indigestão e poupar o núcleo e os cromossomos
daquele que seria sua refeição. As duas células incorporadas for-
mariam uma nova célula com dois núcleos e dois conjuntos de
cromossomos. Cleveland, vivendo diariamente em seu microcos-
mo, reconheceu a aliança canibal definitiva. Era mais que caniba-
lismo malsucedido. Ele percebeu que dois núcleos tão estreita-
mente espaçados se incorporavam. Cleveland percebeu que esse
era o equivalente formal da fertilização.4
O complemento das incorporações por fertilização é a disso-
ciação. A dissociação no sexo requer a meiose. O sexo meiótico,
sexo "animal" - que também ocorre em muitos prototistas, cm to-
das as plantas e na maioria dos fungos -, é todo o conjunto de
processos que divide pela metade o número de cromossomos por
célula por intermédio de divisões celulares especiais. Por meio da
meiose, em geral duas divisões, os dois conjuntos de cromosso-
mos por célula são reduzidos a apenas um. Essas células haplói-
ucs, como são chamadas, em seguida estão prontas para detectar,
O SEXO COMO HERANÇA 07

Figura 7
Protistas acasalando: o canibalismo malsucedido cm prototistas unicelulares resul-
tou cm uma aliança denominada sexo. Aqui, duas Tric/1011ympha se acasalam.
A fêmea, com o anel de fecundação, é penetrada pela parte posterior pelo macho.

emparelhar e se incorporar a outras células haplóides a fim de


gerar embriões diplóides.
É claro que os prototistas não-fotossintélicos, independente-
mente de se entregarem ou não ao sexo, sempre se alimentam.
Sob condições de estresse, alguns se alimentarão de qualquer coi-
sa. Caso estejam desidratados, famintos, irradiados ou de alguma
outra forma correndo risco de vida, e na tentativa de se salvar ali-
mentando-se dos companheiros, eles se incorporam em vez de
morrer sozinhos.
Muitos prototistas de água doce acasalam sazonalmente antes
de morrer. Os produtos do acasalamento - zigósporos, histricos-
feras ou outras células com conjuntos duplos de cromossomos -
em geral têm paredes fortes o bastante para sobreviver ao inver-
no ou à estação seca. A princípio as robustas células duplas não
98 O PLANETA SIMBIÓTICO

se desenvolvem; na verdade, elas protegem seus genes e outras


panes das células durante verões escaldantes, invernos congelan-
tes ou outros períodos difíceis.
A sobrevivência pela duplicação teve início como resposta às
ameaças do ambiente. Como isso ocorreu? Se você comesse seu
vizinho, sem dúvida um ser geneticamente bastante semelhante a
você, mas não o digerisse por completo, em um encontro compa-
rativamente rápido você estaria quase duplicando seu tamanho.
Como um ser humano inchado, um prototista empanturrado, à
beira de enfrentar tempos difíceis, com seus dois conjuntos de
cromossomos e duas vezes mais fluido citoplasmático, provavel-
mente estará mais apto a suportar a privação. Em geral, contudo,
a duplicação do corpo, sobretudo do número de cromossomos, é
um estorvo. Provavelmente você ansiaria por se libertar de sua
condição de monstro duplicado. O estado original dos prototistas
é "haplóide", isto é, organismos com um só conjunto de cromos-
somos. No estado haplóide, uma diversidade estonteante de pro-
totistas evoluiu. O conjunto duplicado de cromossomos, vantajo-
sos em períodos de dificuldade, era complicado. Era preciso
retomar ao status quo haplóide.
O sexo meiótico por fertilização provavelmente surgiu há um
bilhão de anos. Mas, conforme Cleveland observou, o sexo meió-
tico, que envolve dois pais, só evoluiu depois que a redução-divi-
são da meiose "revezou" com a diploidia. O próprio acasala-
mento-alimentação criou um empanzinamento irreversível. À
medida que comiam uns aos outros, os haplóides se tornavam
diplóides que comiam uns aos outros e assim por diante. Os cro-
mossomos e células inchadas proliferaram. As células duplica-
das, com seus cromossomos extras e outras organelas, tiveram as
atividades cotidianas reduzidas ou até interrompidas. A síndrome
de Down é uma das muitas doenças genéticas humanas provoca-
das por um cromossomo ou parte de cromossomo a mais; ela nos
previne quanto aos perigos do desequilíbrio cromossômico.
Ainda hoje, muitas plantas e animais não mamíferos toleram cro-
mossomos e conjuntos de cromossomos extras. Os cultivadores
de íris siberianas, hemerocales e muitas outras plantas tratam as
sementes com produtos químicos que inibem a formação de gran-
des células com cromossomos a mais pelos microtúbulos da has-
te mitótica. Belas e vistosas flores podem ser geradas a partirdes-
sas sementes. Elas inspiram admiração e geram lucros; algumas
O SEXO COMO HERANÇA 99

continuam a se propagar na forma alterada desejada. Antes que o


sexo se tomasse ritualizado, cromossomos extras e conjuntos de
cromossomos podiam ser insignificantes, toleráveis, debilitantes,
perigosos ou fatais. Tudo dependia, como sempre, das condições
genéticas e ambientais. Como Cleveland destacou, a diploidia
tinha de ser revertida para que os prototistas duplicados retomas-
sem a seu estado haplóide aperfeiçoado.
A libertação dos cromossomos extras adq:u.iridos_p_elo_canib_a:-
lismo, segundo a análise de Cleveland, foi o primeiro passo em r
·dj_reção à meiose: Á-meiose, que produz esp~~~tozóides, óvulos
ou esporos haplóides em plantas, reduz o número de cromossomos
pela metade. O oposto da fertilização, a meiose transforma diplói-
des em haplóides. O último detalhe na origem do sexo meiótico
foi o aperfeiçoamento dos processos de duplicação/divisão, de
modo que estes ocorressem no momento certo e sem falhas.
Graças ao excepcional insight de Cleveland, é fácil para mim
entender a evolução da meiose. Do meu ponto de vista, o próprio
mecanismo mitótico evoluiu daquela incorporação primitiva de
espiroquetas-arqueobactérias. Os vestígios vivos da espiroqueta-
arqueobactéria indicam que há muito tempo elas se incorporaram
e agiram de comum acordo. Porém, não é possível ter certeza de
que seres antes independentes cooperarão impecavelmente. Suas
heranças se revelam quando eles ocasionalmente dissimulam um
ato reprodutivo desafiador seguindo seu próprio cronograma.
O sexo mciótico completo evoluiu cm diversas linhagens de
prototistas. Os ancestrais ficaram presos em ciclos sazonais de
incorporação e substituição de acasalamento e meiose. Quando
havia falta de alimento, águ_a c~u__o_µ!_ras_necessidades d~s seres
vivos, o_ "prato-acasalamento" p<>dia salvar a lavoura. A. privação
levou à incorporação e à sobrevivência no modo duplicado. /
Quando os ambientes estavam relativamente viçosos. contudo, a ·
organização em célula haplóide, mais antiga, mais-rápida e-efi-
ciente era naturalmente selecionada.s
Çomo ;:_i -~imbi.P~~•--º- sexo é uma questão_de_i_ncorp(?f.:~S~º·
Mas é também uma questão de fuga periódica da incorporação.
O sexo pode ser compreendido como um caso muito espe_cial de
simbiose cíclica: tanto o sexo (óvulos fecundados, os zigotos) co-
mo a simbiose, surgindo a partir de parceiros simbióticos, geram
novos seres. O ato de acasalamento (exceto em dípteros, casais de
sapos e na S,histo.rnma. verme lrematúdeo permanentemente
'I 0 0 O PLANETA SIMBIÓTICO

imóvel na posição copulatória enquanto produz óvulos férteis cm


abundância) em geral é breve. Em incorporações de plantas e de
animais, o novo ser é relativamente duradouro - em relação ao
próprio momento de acasalamento. Em simbioses cíclicas, como
as de peixes brilhantes, bactérias fixadoras de oxigênio e fungos
que fazem deslocamento de fosfato em raízes de plantas, os seres
incorporados também vivem mais que os parceiros dissociados.
Mas a simbiose celular é um nível de fusão mais profundo, mais
permanente e singular. Nas grandes simbioses celulares, aquelas
do momento evolutivo que gerou as organelas, o ato de acasala-
mento é, em termos práticos, eterno.
7 - Em 'terra firme

Supérfluo era o sol


Quando a virtude estava morta (999)

Até recentemente, quando visitei a exposição comemorativa de


Jornada nas estrelas no Smithsonian Air and Space Museum, em
Washington, eu nunca havia visto um episódio sequer da série.
Uma curiosidade preguiçosa, a nostalgia da década de 1970 e a
massa de gente atrás de mim me levaram a assistir por dez minu-
tos: achei muito americanófilo e muito datado. Fiquei chocada
com a estupidez da série. A falta de plantas, o panorama excessi-
vamente artificial e, na nave espacial, a ausência de todas as for-
mas de vida não humanas me pareceram estranhos. Se algum dia
os seres humanos fizerem longas viagens para outros planetas em
naves espaciais gigantes, não o farão sozinhos. No espaço, assim
como na Terra, os elementos da vida - carbono, oxigênio, hidro-
gênio, nitrogênio, enxofre e fósforo e alguns outros - devem ser
reciclados. Essa reciclagem não é um luxo de classe média; é um
princípio de vida do qual nenhuma tecnologia pode nos libertar.
Para viajar pelo espaço, os seres humanos precisam de ecossiste-
mas compostos de muitos organismos não humanos para reciclar
o lixo em alimento. Apenas tarefas muito breves em constante
contato com a mãe Terra são possíveis na ausência de "serviços
de ecossistema".
Um ecossistema é a menor unidade que recicla os elementos
biologicamente importantes. O dióxido de carbono é "fixado",
quimicamente convertido em alimento e corpo (carbono orgâni-
co). O carbono orgânico é respirado, sofre reação, é degradado ou
transformado em diferentes tipos de matéria orgânica. Por fim, a
enzima ou a respiração profunda de alguém faz aquele carbono
orgânico reagir, liberando CO2. Nesse sentido, o carbono passa
por um ciclo. O mesmo pode ser dito do nitrogênio, quando pas-
sa, via "fixadores de nitrogênio", dos preguiçosos N2 da atmosfe-
1 0 2 O PLANETA SIMBIÓTICO

ra ao útil N dos aminoácidos. Quando aminoácidos liberados de


proteínas são convertidos em resíduo de nitrogênio e após con-
versões se tornam o N2 do gás no ar, diz-se que o ciclo do nitro-
gênio está completo. Os elementos completam seus ciclos mais
rápido dentro dos ecossistemas do que entre eles, mas nenhum
elemento químico está inteiramente isolado. Prefiro a idéia de
que a Terra é um~ rede de "ecossistemas" a qualquer personifica-
ção da Mãe Gaia. Meu colega Daniel Botkin provavelmente defi-
niria um ecossistema como um conjunto de comunidades de dife-
rentes espécies de organismos vivendo no mesmo lugar ao mes-
mo tempo e usufruindo um influxo de energia e matéria externo.
Ele diria, e concordo, que um ecossistema é uma extensão da su-
perfície terrestre onde os organismos reciclam energia e matéria
mais rápido dentro do sistema do que entre ele e outros sistemas.
As necessidades materiais e energéticas dos organismos em qual-
quer ecossistema são atendidas pela reciclagem dos muitos com-
postos químicos necessários à manutenção da vida. Para "esver-
dcar" Marte, para colonizar outros planetas ou para viver por lon-
gos períodos no espaço será preciso, é claro, muito mais do que
apenas colonizadores e máquinas. Serão necessárias comunida-
des organizadas e eficientes. A coabitação será tão crucial para a
colonização do espaço quanto a simbiose e a diversidade foram
para a colonização da terra firme na era paleozóica. Para que um
dia haja vida no espaço, serão necessárias alianças físicas,
incluindo novas simbioses, entre formas de vida diferentes.
Novas simbioses, forjando novos padrões de interação, foram
cruciais na colonização de importantes partes da Terra. Os habi-
tantes da terra firme devem sua fixação em área seca a simbioses
específicas entre plantas e fungos.
Raízes de plantas e fungos. cres~~m j~J1tos fomiando inchaços
nas raízes denominados micÔniz~~JJhtÕs, complexos de fungos
e plantas povoaram um rególito seco inóspito: areia, solo e seixos.
A vida evoluiu no mar, mas há fortes indícios de que só a in-
terconvivência - simbiogênese - possibilitou que a vida habitas-
se a nova e hostil terra firme. A radiação solar ultravioleta, a desi-
dratação devastadora e a escassez de nutrientes eram problemas
muito mais sérios há 500 milhões de anos do que hoje.
A sim biogênese transformou a te1Ta firme do planeta cm bens
imobiliários prontos para receber inquilinos. As primeiras sim-
bioses cercadas de terra provavelmente não foram bacterianas.
EM TERRA FIRME 'I 0 3

Os grandes organismos terrestres mais antigos que deixaram


registro fóssil devem ter sido complexos plantas-fungos. Os fós-
seis de plantas mais antigos do mundo vêm do sílex córneo, um
tipo de rocha popularmente conhecido como pedra-de-fogo.
O melhor e mais fossilífero sílex córneo, em termos de plantas,
vem de uma pedreira perto de Rhynic, na Escócia. Acredita-se
que os fósseis de Rhynie foram preservados com tamanha rique-
za de detalhes graças à penetração de um fluxo de água prove-
niente de uma fonte de águas termais próxima, rica em sílica. En-
tre os tesouros de sílex córneo de Rhynie estão fósseis de quítri-
dos, uma espécie de prototista, dentro de algas fossilizadas. As
próprias algas estão dentro dos caules de plantas de 400 milhões
de anos! A qualidade dos instantâneos que os fósseis nos propor-
cionam do início da vida na Terra é impressionante. Um inseto
preservado intacto no sílex de Rhynie carregava nas entranhas
um clamidósporo fúngico. (Esse nome extravagante se refere a
uma estrutura resistente ao frio e ao ressecamento. Clamidóspo-
ros são propágulos formados, sem qualquer tipo de sexo, pela
divisão de encadeamentos fúngicos.)
Os botânicos canadenses K. A. Pirozynski e D. W. Malloch
apresentaram a idéia da "fusão fúngica" para ajudar a explicar a
origem de plantas 450 milhões de anos atrás. Eles formularam a hi-
pótese da co-evolução de fungos e algas, os parceiros unidos na
simbiogênese. Em essência, as plantas forneceram seiva para fun-
gos internalizados cujos fiJamentos micelianos desenvolveram
ramos e raízes rígidos. Pcter R. Astatt, da Universidade da Cali-
fórnia, em lrvine, amplia a hipótese Pirozynski-Malloch, afinnan-
do que as plantas decompõem paredes de celulose de suas células
utilizando as habilidades de degradação e absorção dos fungos.
Tanto plantas como fungos, por exemplo, secretam enzimas quiti-
nases no solo. Astatt afinna que, durante sua longa associação com
os fungos, as plantas roubaram e armazenaram genes fúngicos.
Hoje os micorrizos são estruturas simbióticas inchadas, dis-
tintas e reconhecíveis. Muitas vezes coloridos, eles se formam
sirnbiogeneticamente por uma interação entre fungos e o tecido
das raízes das plantas. O rnicorrizo fornece nutrientes minerais à
planta parceira, abastecendo-a de fósforo e nitrogênio do solo.
A planta fornece a seiva, um alimento fotossintético, ao parceiro
fúngico. Os fungos de micorrizo atuais produzem clamidósporos
extremamente semelhantes aos encontrados nos fósseis antigos.
'I 0 4 O PLANETA SIMBIÓTICO

Até restos de plantas de 450 milhões de anos presentes no sílex


córneo de Rhynie, incluindo a própria Rlzynia, têm raízes incha-
das. Fungos e plantas já estavam encadeados em simbioses pro-
dutivas logo no início de seu domínio sobre a terra firme.
A passagem para a terra foi sinônimo de evolução das plantas
a partir de algas que viviam na água. A sobrevivência na te1Ta
exigia firmeza: força, resistência à desidratação e nutrição ade-
quada. Astatt, que não conseguiu convencer os colegas, afirma
que essas grandes diferenças em relação ao hábitat ancestral das
algas determinaram simbioses entre algas e fungos. As algas ver-
des, flutuando na superfície do oceano, não cresceram um belo
dia e se tomaram plantas.
Os vales desertos da Terra de Vitória, na Antártida, são um in-
ferno gelado. Rajadas de vento sopram de forma intermitente so-
bre as rochas e instantaneamente congelam o gelo que derrete no
verão. No entanto, ocultas dois ou três milímetros sob a rocha flo-
rescem comunidades de líquens, uma mistura simbiótica de fun-
gos, algas e bactérias que uniformemente habitam o arenito poro-
so. Contanto que consiga se expor ao sol através dos grãos crista-
linos de quartzo, essa comunidade vive. Estima-se que o peso
total desses fungos-líquens habitantes das rochas é de 13 x 1013
toneladas, uma biomassa superior à de toda a vida nos oceanos!
As algas que crescem sob a cobertura protetora dos fungos ade-
rem à pedra nua, alastram-se por sua superfície e acabam decom-
pondo-a em solo que pode ser penetrado por raízes de plantas e
redes de hifas fúngicas. A rocha dura deste planeta giratório se
esfacela há centenas de milhões de anos em um solo rico e nutri-
tivo como resultado de parcerias fúngico-alg.áceas. Os líquens
também são fundamentais para tomar a terra habitável para a vida
cm climas temperados.
Ao longo de bilhões de anos, a vida, no que os McMenamin
denominam "hipermar",1 estendeu seus domínios da terra natal
aquática à terra firme. Com sutileza, inovação e surpreendente
prodigiosidade, a vida se espalhou por lugares aonde nunca havia
ido. Hoje, a quantidade e a diversidade de espécies terrestres e de
interligações entre espécies excede as do mar, que foi o hábitat
original da vida. A biomassa da vida na terra é centenas, se não
milhares de vezes maior que a biomassa da vida nos mares.
Grande parte dessa vasta presença, 84 por cento, segundo estima-
tivas, é composta de árvores. A arborização da Terra, a drástica
EM TERRA FIRME

expansão da vida além de sua fonte oceânica, acarretou uma rees-


truturação radical do ambiente terrestre. Havia pouca oferta, em
terra, de nutrientes fotossintetizantes como sulfato e fósforo, que
flutuavam livremente na água, formando o sistema circulatório
externo dos oceanos. Esses nutrientes tinham de ser conduzidos
pela própria rede do hipennar. A passagem para a terra acarretou
nova arquitetura e infra-estrutura.
Onde havia vida, havia fluxo de água. Mais de 80 por cento
do citoplasma é composto de água. Mark McMenamin e esposa,
a paleontóloga Dianna McMenamin, a fim de chamar atenção pa-
ra os insondáveis efeitos das interligações simbiogenéticas, em-
pregam o interessante termo "hipennar". O que os McMenamin
chamam de hipennar é em grande parte o sistema de raízes das
plantas que dependem dos fungos micorrizos. Mais de 5 mil tipos
de simbiontes micorrizos, fungos entrelaçados cm pêlos radicula-
res, podem ser reconhecidos pelo nome. As plantas vasculares,
das quais a Rhynia é um antigo exemplo, incluem todas as plan-
tas exceto musgos, hepáticas e algumas outras coberturas de solo
úmido. As plantas vasculares têm sistemas circulatórios. São
capazes de bombear água do chão até os caules e folhas e distri-
buir fotossintato (seiva elaborada) para baixo. Indistinguíveis e
pouco valorizadas são as ligações de micorrizos subterrâneas,
microscópicas; a verdadeira discrição das parcerias explica o pro-
digioso sucesso das plantas que observamos.
Embora importantes para todo o planeta, os fungos micorrizos
raramente atraem atenção, exceto, por exemplo, quando formam
trufas. Essas iguarias italianas e francesas são partes reprodutivas
formadoras de esporos de certos fungos micorrizos aromáticos
atraentes para porcos e cães, que os farejam nas raízes de árvores
de madeira de lei. Plantas com micorrizos de raízes são seleciona-
das naturalmente: em solos pobres em nutrientes, elas produzem
plantas novas mais pesadas, com maiores depósitos de nitrogênio
e fosfato, do que aquelas que não estão associadas a fungos. Na
verdade, 90 por cento das plantas vivas têm micorrizos simbion-
les. Mais de 80 por cento de todas as plantas morrem se forem pri-
vadas desses associados fúngicos. O hipermar impera.
O conceito dos McMenamin carece de avaliação e aplauso
críticos. O mineralogista Vladimir Vemadsky (1863-1945) decla-
rou que a vida é a grande força geológica. Antevendo o hiperrnar,
ele denominou a matéria viva de "água animada". Água animada
é uma excelente descrição da vida.2
~ 06 O PLANETA SIMBIÓTICO

As plantas fizeram a passagem para a terra recriando seu


ambiente úmido e conservando-o dentro de si mesmas. As árvo-
res são prolificamente competentes em reter água, passá-la para a
tetTa e controlá-la pela evapotranspiração. Com suas redes ramifi-
cadas de tecidos fortalecidas pela celulose e pela lignina, as árvo-
res são, é claro, plantas vasculares. A lignina é uma complexa
combinação de elementos químicos carbônicos polifonólicos que
dão rigidez à madeira. O surgimento das árvores, mais de 400
milhões de anos atrás, instigou toda a biosfera para cima e para
fora. A grande expansão da terra para cima e para fora tanto do
mar como da água doce foi baseada na intimidade entre plantas e
fungos, e ainda é. Os fungos são preeminentes no reino dos habi-
tantes da terra. Nunca fotossintéticos, eles obtêm alimento por
meio da absorção. Eles nunca têm ondulipódios, por isso suas
células nunca nadam. Mas, felizmente, eles sobrevivem à desidra-
tação temporária! Os fungos têm uma paciência que excede em
muito a de qualquer santo. Eles se sentam e esperam e, quando a
umidade reaparece, assumem o comando. A maioria dos fungos
fonna inlricadas redes micelianas, emaranhados de tubos de ali-
mentação cheios de citoplasma. Seja sozinhos, de comum acordo
com as algas na forma de liquens ou com raízes de plantas na for-
ma de micorrizos, eles conquistaram a terra e se multiplicaram.
A simbiogênese foi a lua que puxou a maré da vida de suas
profundezas oceânicas para a terra seca e para o ar. A rede de
água na terra, a água animada dos fungos em plantas, é o hipcr-
mar dos McMenamin. Se as pessoas um dia viajarem por longos
períodos pelo espaço, a aventura nunca será tão artificial e estéril
quanto em Jornada nas estrelas. A visão da engenharia asséptica
nos libertando de nossos companheiros de planeta não é apenas
insossa e tediosa, mas toca as raias do revoltante. Não importa o
quanto nossa espécie nos preocupe, a vida é um sistema muito
mais amplo. A vida é uma interdependência incrivelmente com-
plexa de matéria e energia entre milhões de espécies fora (e den-
tro) de nossa própria pele. Esses estranhos da Terra são nossos
parentes, nossos ancestrais, e parte de nós. Eles reciclam nossa
matéria e nos trazem água e alimento. Não sobrevivemos sem "o
outro". Nosso passado simbiótico, interativo e interdependente é
interligado por águas agitadas.
S - Gaia

Não há silêncio na Terra - tão silencioso


Quanto o que durou
Que, pronunciado, desencorajaria a natureza
E assombraria o mundo (1004)

A propriocepção, a percepção de movimento e orientação espa-


cial que se origina de estímulos dentro do corpo, é um conceito da
área médica. Embora o termo não seja muito conhecido, o fenô-
meno é bastante familiar para todos nós. Nossos proprioceptores
nos informam a todo momento que estamos de pé, inclinando a
cabeça, apertando os olhos ou cerrando os punhos. Os proprio-
ceptores trabalham como sistemas sensórios não das informações
externas sobre as outras pessoas ou o ambiente, mas dentro do
corpo. Nervos ligados a músculos disparam quando detectam
movimentos, tal como uma mudança no posicionamento do cor-
po. Esses nervos automonitoradores nos dizem se estamos de pé
ou de cabeça para baixo, parados dentro do ônibus ou sendo sacu-
didos de um lado para outro a uma velocidade de 50 quilômetros
por hora. A Terra tem um sistema proprioceptivo há milênios,
muito antes da evolução dos seres humanos. Pequenos mamíferos
anunciam a vinda de um terremoto ou um aguaceiro. As árvores
liberam "voláteis", substâncias que avisam os vizinhos que larvas
de mariposa estão atacando suas folhas. A propriocepção, a sen-
sibilidade a si mesmo, provavelmente é tão antiga quanto o pró-
prio self Gosto de pensar que nós, seres humanos, ampliamos e
continuamos a acelerar a moderna capacidade proprioceptora de
Gaia. Um incêndio na floresta de Bornéu e a queda de um heli-
cóptero americano nos Alpes italianos chegam à cidade de Nova
York pelos telejornais. No entanto, extintas matilhas de lobos e
bandos de dinossauros tinham sua própria comunicação social
proprioceptora; o sistema nervoso global sem dúvida não come-
çou quando as pessoas surgiram. Gaia, a Terra fisiologicamente
1 OU O PLANETA SIMBIÓTICO

regulada, tinha comunicação proprioceptiva global muito antes


da evolução dos seres humanos. O ar fazia circular emissões de
gás e elementos químicos solúveis de árvores tropicais, insetos
prontos para o acasalamento e bactérias ameaçadas de morte.
Compostos de amor são levados pela brisa primaveril desde a era
arqucana, mas a velocidade da propriocepção aumentou muito
com a era eletrônica.
A segunda conferência Gaia, "Gaia em Oxford", Inglaterra,
realizada cm abril de 1996, reuniu cientistas e ativistas ambien-
tais para debater os superorganismos. Será que toda a vida na
Terra constitui um só superorganismo? A vida é um ser único e
auto-regulador denominado Gaia? Será que a insistência no supe-
rorganismo dá origem a noções confortadoras porém cientifica-
mente injustificadas quanto à harmonia planetária?
Essas idéias foram reunidas por cerca de quarenta participan-
tes, que chegaram à seguinte conclusão: a decisão de fundar a
Sociedade de Geofisiologia na East London University. Para mi-
nha alegria, essa decisão foi revogada no final de 1997: Gaia
vive, a geofisiologia está morta. A nova organização agora se au-
todenomina Gaia: Sociedade de Pesquisa e Educação na Ciência
do Sistema da Terra. Gaia, a sociedade científica, foi lançada em
9 de fevereiro de 1998, na sede da Royal Society em Londres.
O biólogo E. O. Wilson, maior especialista do mundo em biodi-
versidade e perito no comportamento social e habilidade tecnoló-
gica das formigas, enviou-me um vídeo de saudação. Realizar a
inauguração formal na jurisdição da mais antiga e respeitada
sociedade científica do mundo foi urna maravilhosa manobra
para a teoria Gaia. A saudação televisionada de um respeitado
professor de Harvard representando os fãs de Gaia deste lado do
Atlântico também foi uma jogada astuta. A maior comunicação
entre possíveis colaboradores para a ciência de Gaia só fará
aumentar a consciência da extensão de nossa ignorância quanto à
superfície da Terra, da qual dependemos de forma tão crucial.
A J!ipót~se G_aja não afirma, coI119. muitos pr.eJ~_ndem, ..que~a_
Terra é um só organismo"; todavia, a Terra, no sentido__lJic:,l§gi_çQ,
tem um corpo mantido por complexos processos. fisiq1ógicos.
A vida é um fenômeno planetário e a superfície da Terra está viva
há pelo menos 3 bilhões de anos. Na minha opinião, a atitude do
homem de se responsabilizar pela Terra é cômica - a retórica dos
impotentes. É o planeta que toma conta de nós, e não o contrário.
GAIA

A obrigação moral que presunçosamente nos atribuímos de


governar uma Terra instável ou curar nosso planeta doente é uma
prova de nossa enorme capacidade de nos iludir. Na verdade,
t_emos de nos proteger de nós mesmos.
A principal figura da conferência de 1996 foi James Love-
lock, autor da hipótese Gaia. Lovelock foi o primeiro a afirmar,
no início da década de 1970, que a vida como um todo otimiza o
ambiente para seu próprio uso. Os biólogos ficaram exaltados
com a palavra otimiza. Como, repreenderam eles, a vida poderia
planejar alguma coisa? Lovelock já havia pensado na idéia de
uma Terra viva em meados da década de 1960, anos antes de eu
conhecê-lo, quando era consultor da NASA e ajudava a planejar
formas de detectar vida em Marte. Jim percebeu que em qualquer
planeta a vida teria de utilizar seus fluidos - que na Terra seriam
a atmosfera, oceanos, lagos e rios - para reciclar os elementos
necessários à vida. Os nutrientes têm de ser fornecidos e os resí-
duos, eliminados. A química de um planeta vivo, concluiu ele,
deve ser acentuadamente diferente daquela de um planeta sem
vida. Ele percebeu que as contradições químicas da atmosfera
eram detectáveis até no espaço. Nossa atmosfera contém muito
mais oxigênio do que deveria na presença de metano. Esses
gases, extremamente reagentes quando misturados, não poderiam
coexistir em concentrações tão altas a menos que os níveis fos-
sem eficazmente mantidos. Há uma abundância de outros gases
em uma mistura totalmente improvável e muito instável. O hidro-
gênio e até o nitrogênio reagem explosivamente na presença de
oxigênio, mas coexistem na atmosfera terrestre. Quando Love-
lock se via às voltas, pela primeira vez, com os problemas relati-
vos à detecção de vida em Marte, análises de telescópios instala-
dos em terra já haviam mostrado que Marte, ao contrário de nos-
so planeta, tem uma atmosfera estável de gases não reagentes.
Lovelock concluiu corretamente que não poderia haver vida em
Marte. É claro que, de qualquer maneira, a missão Viking foi
enviada a Marte na tentativa de detectar vida genuína. Na minha
opinião, ao retransmitir os dados para a Terra, em 1976, o módu-
lo de aterrissagem da Viking só fez corroborar a previsão de
Lovelock a partir da teoria Gaia.
A atenção de Lovelock se voltou para a Terra. Um cientista
independente, ao mesmo tempo isolado e livre da influência aca-
dêmica, Jim buscou seus interesses à sua própria maneira. Ele é
11 O O PLANETA SIMBIÓTICO

um inventor prolífico; sua principal contribuição é o dispositivo


de captura de elétrons, um detector ligado a um instrumento cha-
mado cromatógrafo gasoso, utilizado para medir as concentra-
ções de determinados gases reagentes do ar, como os clorofluor-
carbonos. Reprojetado pela Hewlett-Packard, o equipamento de
Lovelock foi um sucesso de vendas. O dispositivo permitiu que
Sherwood Rowland e Mario Molina, do MIT, recebessem o prê-
mio Nobel de química de 1995 por mostrar como os gases de
aerossol e semelhantes reagem e destroem a camada de ozônio
estratosférica. As outras realizações de Jim incluem a comprova-
ção das afirmativas de Rachel Carson quanto ao impacto difuso
dos pesticidas, que ela levou à atenção do público nos Estados
Unidos em Silent Spring. Enquanto trabalhava com criogenia, a
biologia de baixas temperaturas, para o Conselho de Pesquisa
Médica (Medical Research Council, MRC) da Inglaterra, Jim
desenvolveu uma maneira de congelar e descongelar animais e
seus espermatozóides. Ele descongelou espécimes congelados
cm uma câmara que construiu, uma espécie de forno de microon-
das (no entanto, ele não patenteou essa invenção; o registro de
patentes, além de demorado e caro, é um processo confuso e que
requer muito contato social, exatamente o tipo de atividade que
Lovclock evita).
Quando se interessou pela maneira como a vida influenciava
a atmosfera da Terra, Jim pesquisou sua ciência sem apoio de ins-
tituições ou subvenção. Ele simplesmente mergulhou no assunto
e mediu gases por sua conta. Jim nunca parou de se comunicar
com colegas e alunos. O resultado dessa atividade incessante foi
o desenvolvimento da teoria Gaia.
Começamos a nos corresponder no início da década de 1970.
Em uma de suas primeiras respostas a minhas cartas, Jim escre-
veu que estava confuso em relação ao metano. Por que esse gás,
que reage tão intensamente com o oxigênio, está sempre presente
de forma mensurável na atmosfera da Terra? Ele deveria desapa-
recer. Suspeitando da vida desde o início, ele me perguntou se eu
sabia o que poderia produzir esse gás. Respondi da forma como
qualquer pessoa que leia a respeito de microbiologia teria respon-
dido. O gás metano é produzido por bactérias, principalmente
rnetanógenos que vivem em solos encharcados ou no estômago
dos ruminantes. O produto metabólico das bactérias metanogêni-
cas é liberado cm fartas quantidades não pela flatulência das
GAIA 1'1'1

vacas (como eu sempre pensara), mas por seus arrotos. O metano


é liberado no ar pelas bocas de bezerros, touros e vacas. O meta-
no atmosférico rapidamente reage com o oxigênio e produz dió-
xido de carbono. Está claro que o ar metano é substituído regular-
mente, pois está sempre presente em concentrações de duas a sete
partes por milhão. Lovelock percebeu que essas concentrações de
metano devem ser, portanto, produzidas pela vida. Outros exem-
plos de regulação de gases eram semelhantes.
Indícios geológicos sugerem que nosso planeta ficou mais
frio nos últimos 3 bilhões de anos. Os astrônomos insistem que o
Sol, uma estrela típica, ficou mais luminoso. O Sol deveria ter
aquecido cada vez mais a superfície terrestre durante seu longo
passado. O ajuste da temperatura e da atmosfera, concluiu Jim,
deve ocorrer em escala global. Percebendo que essas condições
ambientais vitais têm de ser ativamente controladas, Lovelock
propôs que a vida mantém seu ambiente.
Tomando emprestado um termo da fisiologia, Lovelock afir-
mou que o ambiente de nosso planeta é homeostático. Assim
como nossos corpos, e os de todos os mam1feros, mantem uma
temperatura interna relativamente estável a despeito de alterações
de condições, o sistema da Terra mantém a temperatura e compo-
sição atmosférica estáveis. Em termos de engenharia, escreveu
Lovelock, a temperatura da atmosfera é ajustada em torno de
pontos determinados por meio do feedback negativo. Suas afir-
mativas de que "a vida estabelece uma temperatura ambiental em
um ótimo absoluto" foram mal compreendidas - criticadas ou,
mais freqüentemente, ignoradas. Lovelock cada vez mais pensa-
va nesse sistema regulador planetário como fundamental para se
entender a vida na Terra.1
O termo Gaia foi sugerido a Lovelock pelo romancista Wil-
liam Golding, autor de O senhor das moscas. No início da déca-
da de 1970, os dois moravam em Bowerchalke, Wiltshire, na In-
glaterra. Lovelock perguntou ao vizinho se seria possível substi-
tuir a longa e pesada expressão "sistema cibernético de tendência
homeostática conforme detectado por anomalias químicas na
atmosfera da Terra" por um termo que significasse "Terra". "Pre-
ciso de uma boa palavra curta", disse. Em caminhadas pelo cam-
po na magnífica região das chapadas calcárias, no sul da Inglater-
ra, Golding sugeriu Gaia. Antiga palavra em grego para "Mãe
Terra", Gaia serve de raiz etimológica a muitos termos científi-
cos, como geologia, geometria e pangéia.
1 1 2 O PLANETA SIMSIÓTICO

O nome agradou em cheio. Os ambientalistas e pessoas reli-


giosas, atraídos pela idéia de uma deusa nativa poderosa, agarra-
ram-se a ela, dando a Gaia uma conotação nitidamente não cien-
tífica. Pouco antes de Oxford em 1996, Jim sugeriu o termo geo-
fisiologia para o estudo da superfície da Terra como um corpo
semelhante a um organismo no qual a geologia e a biologia estão
"estreitamente unidas", isto é, intimamente associadas.
Muitos cientistas ainda são hostis a Gaia - tanto ao termo
como à idéia-, talvez por ela ser tão popular.entre não-cientistas
e não-intelectuais. Na cultura popular, quando o termo é conheci-
do ele sempre se refere à noção da Mãe Terra como um só orga-
nismo. Gaia, uma deusa viva além do conhecimento humano,
supostamente nos punirá ou recompensará por nossos danos ao
ambiente ou bênçãos a seu corpo. Lamento essa personificação.
Conforme detalhado na teoria de Jim a respeito do sistema
planetário, Gaia não é um organismo. Qualquer organismo tem
de se alimentar pela fotossíntese ou quimiossíntese, produzir seu
próprio alimento. Todos os organismos geram resíduos. A segun-
da lei da termodinâmica fala claramente a respeito: para manter a
organização de um corpo, é necessário despend~r energia, que é
dissipada na forma de calor. Nenhum organismo se alimenta de
seus próprios resíduos. Gaia, a Terra viva, transcende em muito
qualquer organismo ou mesmo qualquer população. Os resíduos
de um organismo são o alimento de outro. Sem distinguir entre o
alimento de um e o resíduo de outro, ó sistema de Gaia recicla a
matéria em todo o planeta. Gaia,_Q_ sistema, é o resultado da inter-
ligação dos 10 milhões ou mais dê-espeêies vivas que compõem
seu corpo sempre ativo. Longe de ser frágil ou conscientemente
in;tável, a vida planetária é de extrema flexibilidade. Enquanto
obedecem inconscientemente à segunda lei da termodinâmica,
todos os seres buscam fontes de energia e alimento. Todos produ-
zem calor inútil e resíduos químicos. Essa é sua obrigação bioló-
gica. Cada um deles cresce e, ao fazê-lo, exerce pressão sobre os
muitos outros à sua volta. A totalidade da vida planetária, Gaia,
exibe uma fisiologia que identificamos como ajuste ambiental.
Gaia, em si, não é um organismo diretamente selecionado entre
muitos outros. É uma propriedade emergente da interação de or-
ganismos, o planeta esférico no qual eles moram e uma fonte de
energia, o Sol. Além do mais, Gaia é um fenômeno antigo. Tri-
lhões de seres se acotovelando, alimentando-se, acasalando e
GAIA '1'13

transpirando compõem seu sistema planetário. Gaia, uma megera


inflexível, não está de forma alguma ameaçada pelos seres huma-
nos. A vida planetária sobreviveu por pelo menos 3 bilhões de
anos antes que a humanidade fosse o sonho de um lépido símio
com um desejo por uma parceira relativamente glabra.
Precisamos de sinceridade. Precisamos nos libertar de nossa
arrogância específica da espécie. Não existem provas de que
tenhamos sido "escolhidos", a espécie para a qual todas as outras
foram feitas. Também não somos a mais importante por sermos
tão numerosos, poderosos e perigosos. Nossa teimosa ilusão de
termos recebido dispensa divina desvirtua nosso verdadeiro sta-
tus de ervas daninhas mamíferas verticais.
Na cultura popular, a confusa idéia de Gaia lembra algo de
mitológico. Gaia reproduz nossa ânsia por um significado para
nossas breves vidas na Terra. Quando mal formulada, Gaia corro-
bora o puritanismo contemporâneo: o discurso feminista sobre os
perigos do "estupro" e destruição da Terra iluminada pelo Sol. Há
séculos personificamos a natureza. A tomada da teoria Gaia pelos
inimigos da ciência e chefões dos meios de comunicação é sur-
preendente. Os primeiros culpam a ciência, que é apenas um
modo de conhecimento, pelos excessos da tecnologia, e os últi-
mos utilizam a ciência para justificar sua tosca arte de vender re-
vistas e programas de televisão. Embora popularizada, exagerada
e caluniada, a teoria Gaia não significa apenas conservação da na-
tureza ou um retorno à deusa. Gaia é a superfície regulada do pia-::-✓
neta que está incessantemente criando novos ambientes e orga-
nismos. Mas o planeta não é humano, tampouco pertence aos se-
res humanos. Nenhuma cultura humana, a despeito de sua inven-
tividade, pode acabar com a vida neste planeta, mesmo que ten-
tasse. A Terra é mais um gigantesco conjunto de ecossistemas em
interação do que um único ser vivo, e como fisiologia reguladora
de Gaia ela transcende todos os organismos individuais. Os seres
humanos não são o centro da vida, e nenhuma outra espécie o é.
Os seres humanos não são sequer fundamentais à vida. Somos
uma parte recente e em rápido desenvolvimento de uma gigantes-
ca e antiga totalidade.
Gaia não é nem cruel nem bondosa com relação à humanida-
de; ela é um nome conveniente para um fenômeno que abrange
toda a Terra: o ajuste de temperatura, acidez/alcalinidade e com-
posição gasosa. Gaia é a sj~ie de ecossistemas em in~ç~o_glle
1 1 4 O PIANETA SIMBIÓTICO

compõem um simples e enorme ecossislema na superfície da


Terra.Porfrófiiiã.C ___ -------- ---------- ------- .. - -------------
Indícios fósseis moslram que a vida na Terra, em seus 3 bi-
lhões de anos de história, resistiu a numerosos impactos iguais ou
maiores que a detonação de Lodas as 5 mil bombas nucleares
atualmente cm estoque. A vida, sobretudo a vida bacteriana, é fle-
xível. Ela se alimenta do desastre e da destruição desde o início.
Gaia incorpora as crises ecológicas de seus componentes, reage
de forma brilhante e cm sua nova necessidade se torna a mãe da
invenção.
Reunindo indícios levantados por meus colegas, creio que as
bactérias primeiro removeram o hidrogênio (H2) de que seus cor-
pos precisavam diretamente do ar. Depois absorveram o sulfeto
de hidrogênio (H2S) lançado pelos vulcões. Por fim, cianobacté-
rias arrancaram átomos de hidrogênio da água (H20). O oxigênio
foi expelido como resíduo metabólico. Esse resíduo, a princípio
dcsaslroso, acabou fornecendo energia para o crescimento contí-
nuo da vida. Novos resíduos testam a tolerância da vida e estimu-
lam sua criatividade. O oxigênio de que precisamos para respirar
começou como uma toxina, e ainda o é. A liberação de oxigênio
de milhões de cianobactérias resultou em um holocausto muito
mais grave do que qualquer atividade ambiental humana.
A poluição é natural. "Não desperdice" é um conselho, não uma
descrição. Os resíduos das cianobactérias se tornaram nosso ar
fresco. Nós, seres humanos, obtemos o hidrogênio de que preci-
samos comendo plantas ou outros animais. Não podemos passar
sem ele. Muitas vezes seres recém-evoluídos crescem e se espa-
lham rapidamente utilizando a energia, provisões de alimento ou
resíduos dos outros, mas a expansão da população sempre pára
porque é impossível comer ou respirar seu próprio resíduo. As
popula_çõcs entram em colapso ou têm crescimento mais lento
quando encontram obstáculos à expansão. Esse controle do cres-
cimento é exatamente o que Charles Darwin queria dizer com
"seleção natural". Gaia é a sorna dessas populações que crescem,
interagem e morrem; uma cobertura planetária multicspécies,
composta por lima miríade de seres muito diferentes, Gaia é o
maior ecossislema da Terra.
Ao contrário dos ecossistemas que a compõem, Gaia é a per-
sonificação da reciclagem. Cerca de um quinto da atmosfera ter-
restre é composto de oxigênio (02). Combinado com hidrogênio
GAIA '1'15

(H2) ou gases que contêm hidrogênio (CH4, H2S, NH3), o oxigê-


nio causa explosões e incêndios. As reações que liberam energia
transformam os gases reagentes cm subprodutos "gastos" ou
menos reagentes. Gases reagentes como o hidrogênio (H2), meta-
no (CH4), amônia (NH3), iodeto metilo (CH3I), cloreto metilo
(CH3CI) e vários gases sulfurosos são detectáveis na atmosfera
da Terra porque são liberados pelos decompositores de forma
mais rápida do que aquela de suas reações (com outros elementos
do ambiente).
Minha amiga de longa data e ex-aluna Lorraine Olendzenski e
eu produzimos um vídeo na Universidade de Massachusetts em
Amherst (antiga Faculdade de Agricultura de Massachusetts). No
vídeo, nossa maravilhosa amiga Betsy Blunt Harris, microbiólo-
ga que leciona para os professores de laboratórios de micro-
biologia há mais de uma década, estende a mão enluvada através
de uma abertura cirúrgica, uma "fístula", no flanco de uma vaca
perfeitamente saudável. Os dedos de Betsy tocam o rúmen dava-
ca, um grande estômago especial, um dos quatro estômagos en-
contrados em todas as vacas e parentes ruminantes. Pela fístula ela
remove uma espécie de mingau marrom fibroso, em sua maior
parte grama parcialmente digerida. O mingau é tão cheio de mi-
cróbios que tem de ser bastante diluído antes de ser visto com um
microscópio. A comunidade microbiana da vaca inclui estranhos
protistas ciliados natatórios. Muitas bactérias, a maioria menores
que os ciliados, também habitam rúmens. Esses micróbios fazem
o trabalho de digestão da grama.2 Sem eles as vacas não consegui-
riam digerir a celulose da grama. Na verdade, os micróbios que
fazem a degradação da celulose, em um sentido muito real, são as
vacas. Sem eles a vaca não seria capaz de engolir, fermentar,
regurgitar e engolir de novo. Nenhuma vaca comeria grama ou
ruminaria sem os intermediários microbianos. Um dos produtos
gasosos da digestão de grama é o metano. As vacas arrotam gran-
des quantidades desse gás. O metano bovino é parte do motivo de
o ar da Terra ser uma mistura química extremamente instável.
Cupins de madeira também liberam metano. Como as vacas, eles
abrigam micróbios intestinais que decompõem a celulose em
vários produtos químicos. Dióxido de carbono, metano, nitrogê-
nio e gases que contêm enxofre são expelidos no ar pelos ânus de
milhões de cupins. Os sistemas gasosos instáveis de longo prazo
da atmosfera são resultantes da incessante vida microbiana.
'I '16 O PLANETA SIMBIÓTICO

Generalizando essas descobertas, Lovelock sugeriu que todo


o sistema de ar do planeta é "metaestávcl", estável em sua rea-
gente instabilidade. A persistência da reatividade química surge
das ações combinadas de seres vivos. Toda a superfície do plane-
ta, não somente os corpos vivos mas a atmosfera que pensamos
ser um segundo plano inerte, está tão distante do equilíbrio quí-
mico que é mais bem descrita como viva.
É impossível enfatizar suficientemente que Gaia não é um
único organismo. Minha Gaia não é uma noção vaga e exótica de
uma mãe Terra que nos acalenta. A hipótese Gaia é ciência.3 Con-
forme pressuposto na teoria Gaia, há poucas formas pelas quais a
superfície do planeta se comporta como um sistema fisiológico.
Entre os aspectos fisiologicamente controlados estão a tempera-
tura superficial e a composição dos gases reagentes, inclusive o
oxigênio, e pH ou acidez-alcalinidade.
Creio que os cientistas buscarão explicações baseadas em
Gaia para muitos fenômenos, como a alteração de ciclos climáti-
cos úmidos e secos e a atual distribuição de ouro, fe1To, fosfatos e
outros minerais. Gaia, significando um corpo com uma fisiologia
controlada no sentido celestial-planetário e biológico, é o único
nome que pode ao mesmo tempo unir um grupo desigual de cien-
tistas e tomar seus trabalhos acessíveis para o público internacio-
nal. Assim como o corpo humano é nitidamente limitado por
pele, diferenças de temperatura, química do sangue e um esque-
leto de fosfato de cálcio, a Terra se diferencia do ambiente pela
atmosfera sempre anômala. a temperatura estável e as incomuns
rochas de calcário e graníticas. Lovelock compara a química da
atmosfera da Terra a um castelo de areia em uma praia ou um
ninho de passarinho. Eles também são produtos evidentes da
vida. A superfície do planeta não é apenas física, geológica e quí-
mica, ou somente geoquímica. Na verdade, é geofísica: ela mos-
tra os atributos de um corpo vivo composto do conjunto da vida
tetTestre sempre interativa.
A química fisiológica, que chamamos de metabolismo, é
resultado da atividade dos seres vivos. A questão de até que pon-
. to os sj~temas químicos de Gaia estão interligados permanece cm
\ aberto. \A''Gaia fraca" sustenta que o ambiente e a vida estão aco-
pl ~dos1: eles co-evoluem. Poucas pessoas discordam. Muitos
cientistas acham que essa.s idéias não são novas. A "Gaia forte"
afirma que o planeta e a vida, formando um só sistema vivo, são
GAIA '1'17

regulados em certos aspectos por essa mesma vida. Essa é a idéia


que gera o escárnio de alguns biólogos, sobr~Judo o,s_q_ue se a~to-.
denominan:i ne~darwinist~s. 1:iderad~s. pm(~~c~~rd Dà~k!ns'. ·da-·
Oxford Umvers1ty, esses c1ent1stas reJe1tam a-rde1-a·de um sistema
planetário unificado que não evoluiu por meio da seleção natural
com outros sistemas planetários. Lovelock, que foi acusado de ter
sido inconstante, afirma nunca ter deixado de lado a "Gaia forte",
termo cunhado por J. Kirshner, cientista-filósofo da Universidade
da Califórnia em Berkeley. No encontro da Chapman Conference
of the American Geophysical Union, realizado em 1988, Kirsh-
ner ridicularizou a "Gaia forte" logo após tê-la defendido sarcas-
ticamente. Você pode ler sobre a feroz reação de Kirshner e de
todos os outros à Gaia e à filosofia no relatório do encontro, orga-
nizado por Schneider e Boston. 4 Lovelock admite, contudo, ter
abandonado sua idéia original de que Gaia é "teleológica". Ele
não mais afirma que o sistema planetário vivo age em conjunto a
fim de otimizar as condições para todos os seus membros. A bio-
diversidade é uma condição essencial à continuidade de Gaia.
Não existe uma espécie mais favorecida. Cada organismo cuida
de sua vida: cresce e tenta se reproduzir. As pressões seletivas, a
persistência dos organismos em se desenvolver e se reproduzir,
favorecem alguns tipos de vida sob certas condições específicas.
Eles crescem, espalham-se, removem resíduos e fazem recicla-
gem. Ao fazê-lo, colocam grandes pressões seletivas sobre tipos
de vida diferentes. Gaia é o resultado. Se não houvesse vida, a
temperatura e a composição gasosa seriam previsíveis somente
com base em fatores físicos. A produção de energia do Sol e as
regras da química e da física detenninariam as propriedades da
superfície da Terra. No entanto, essas propriedades divergem sig-
nificativamente das previsões baseadas apenas na física e na quí-
mica. As ciências não biológicas não bastam para explicar o
ambiente superficial da Terra. Quando os papéis multifacetados
dos organismos vivos que produzem gases e alteram a temperatu-
ra são levados em conta, as disparidades desaparecem. A teoria
Gaia é uma ciência digna do nome.
Qualquer idéia nova gera críticas, sobretudo na ciência, onde
a crítica é institucionalizada pela publicação de resenhas de cole-
gas e repetição de experiências. A idéia de Gaia requer que geó-
logos, geoquímicos, cientistas da atmosfera t~ até meteorologistas
entendam a ciência além de seus campos de atuação. Eles preci-
'I '18 O PLANETA SIMBIÓTICO

sam estudar biologia, cm especial a microbiologia. Mas o apar-


t/zeid acadêmico semeia a resistência. A aceitação de Gaia acarre-
ta atitudes que as pessoas de campos relacionados estão pouco
dispostas a tomar.
Não há nada de novo em Gaia a não ser o nome, afirmam al-
guns críticos. Outros dizem que a suposição de que a superfície
da Terra está viva é tão ampla que não pode ser testada. Não ne-
cessariamente: se definirmos a vida como um sistema reprodutor
capaz de efetuar seleção natural, então Gaia vive. A maneira mais
fácil de ver isso é por meio de uma experiência simples. Imagine
que uma nave espacial levando micróbios, fungos, animais e
plantas fosse enviada a Marte. Suponha que ela produz seu pró-
prio alimento e recicla seus resíduos e assim continua por duzen-
tos anos. Gaia é o sistema de reciclagem da vida como um todo;
uma Gaia teria brotado de outra, gerando duas, e a elaboração de
tal Gaia em miniatura representaria uma reprodução de facto.
O livro Biospheres, de Dorion Sagan, explica isso com clareza.s
Outra crítica à teoria Gaia demonstra os medos dos cientistas.
Na opinião de alguns críticos, o fato de a teoria Gaia se afinar com
antigas crenças na Mãe Ten-a parece tomá-la perigosamente não-
científica. Eles dizem que nenhum ser planetário pode agir de for-
ma consensual se não tiver controle consciente. Como o planeta
sabe quando elevar ou reduzir a concentração de oxigênio atmos-
férico para mantê-la em tomo de 20 por cento? Esse nível paira
entre o risco de haver um incêndio global e o da morte generaliza-
da por asfixia. Como Gaia consegue "planejar" a eliminação de
sal dos oceanos a fim de salvar seus habitantes de um nível amea-
çador de salinidade? De que maneira "ela" consegue esfriar todo
o corpo para compensar a crescente luminosidade do Sol? Como
é possível que saiba regular a cobertura de nuvens sobre o oceano
em função da temperatura? Quem é essa tal de Gaia, afinal?
Lovelock responde que Gaia não precisa de consciência para
se ajustar ao ambiente planetário. Trabalhos recentes na área da
matemática chamada geometria dos fractais mostram o que é ter
imagens rebuscadas traçadas não por um artista com uma idéia
pronta, mas por repetições de etapas simples de computação deno-
minadas algoritmos. A vida produz "desenhos" fascinantes de
modo similar, repetindo os ciclos químicos de seu crescimento e
reprodução celulares. A ordem é gerada por atividades repetitivas
e não-conscientes. Gaia, como a rede entrelaçada de toda vida,
GAIA 119

está viva, atenta e consciente em vários graus, em todas as suas


células, corpos e sociedades. De forma semelhante à propriocep-
ção, os padrões de Gaia parecem ter sido planejados, mas ocorrem
na ausência de qualquer "chefe" ou "cérebro" central. Assim
como a autoconsciência, a propriocepção evoluiu muito antes da
evolução dos animais, e muito antes dos cérebros destes. A sensi-
bilidade, a consciência e as reações de plantas, prototistas, fungos,
bactérias e animais, cada um cm seu ambiente local, formam o
padrão repetitivo que é, em última análise, a base da sensibilidade
global e da resposta de Gaia "por si mesma". Com seu colega e ex-
al uno de doutorado Andy Watson, Lovelock desenvolveu um
modelo em computador denominado "Daisyworld" ("mundo das
margaridas"). Eles simulam um planeta, por exemplo, no qual
vivem apenas margaridas brancas e pretas. O planeta é exposto à
radiação de uma estrela, modelada a partir de nosso Sol, cuja
luminosidade aumenta ao longo de milhões de anos. Sem qualquer
pressuposto externo, sem sexo nem evolução, sem conjeturas mís-
ticas de consciência planetária, as margaridas de Daisyworld
esfriam o mundo em que vivem apesar do sol que o aquece.
Os pressupostos são simples. Margaridas pretas tendem a
absorver calor e margaridas brancas o refletem. Nenhuma das flo-
res cresce a temperaturas abaixo de 1O graus centígrados e todas
mon-em acima de 45 graus. Dentro dessa faixa, as margaridas pre-
tas tendem a absorver calor local e, assim, crescem mais rápido
em condições mais frias. As margaridas brancas, uma vez que
refletem e perdem mais calor em condições mais quentes, flores-
cem e produzem mais prole. Vamos começar com o mundo das
margaridas pretas. À medida que a luminosidade do Sol aumenta,
as margaridas pretas crescem, expandindo a área da superfície que
ocupam, absorvendo calor e aquecendo os arredores. Conforme as
margaridas pretas aquecem uma maior área da superfície de terra
circundante, a superfície em si se aquece, permitindo um cresci-
mento populacional ainda maior. Essefeedback positivo continua
até que o crescimento das margaridas tenha aquecido tanto os
arredores que as margaridas brancas comecem a excluir as pretas
pela força do número. Sendo menos absorventes e mais reflexivas,
as margaridas brancas começam a esfriar o planeta. O resultado
cumulativo desses efeitos é. o aquecimento da superfície planetá-
ria quando está mais frio durante a evolução inicial do Sol e depois
a manutenção do planeta relativamente frio à medida que a lumi-
W 20 O PLANETA SIMBIÓTICO

nosidade solar aumenta. Apesar do Sol cada vez mais forte, o pla-
neta mantém um longo platô de temperatura estável.
Daisyworld foi um momento decisivo para a ciência de Gaia.
Stephan Harding, professor do Schumacher College em Devon,
Inglaterra, hoje regula Daisyworlds com 23 espécies de diferentes
cores, além de herbívoros que comem as margaridas e carnívoros
que comem os herbívoros. Esses modelos não revelaram nenhu-
ma relação entre o que é bom para uma determinada espécie e o
que é bom para o planeta como um todo. O crescimento popula-
cional de um tipo de organismo pode gerar seu próprio colapso.
O que os modelos mostraram foi o esboço matemático de uma
sobreposição entre seleção natural e regulação da temperatura
global, a qual constitui um exemplo paradigmático do comporta-
mento de Gaia. Os modelos de Harding indicam que os diferen-
ciais de sobrevivência agem reforçando ou mesmo gerando con-
seqüências globais. Os biólogos se tomam menos relutantes em
abraçar a teoria Gaia. A regulação da temperatura é uma função
fisiológica não apenas de Daisyworld, mas dos corpos e socieda-
des da vida. Mamíferos, atum, repolhos e colméias regulam suas
temperaturas em uma faixa de alguns graus. Como as células das
plantas ou abelhas que vivem cm colméias "sabem" como manter
a temperatura? Seja qual for a resposta em princípio, as células do
atum, do repolho, das abelhas e dos ratos exibem o mesmo tipo de
regulação que prevalece por todo o planeta.
Gaia, em toda a sua glória simbiogenética, é inerentemente
expansiva, sutil, estética, antiga e de uma delicada flexibilidade.
Nenhuma colisão de planetas ou explosão nuclear chegou a
ameaçar Gaia como um todo. Até agora, a única forma pela qual
nós, seres humanos, provamos nosso domínio é pela expansão.
Continuamos a ser atrevidos, broncos e recentes, mesmo à medi-
da que nos tornamos mais numerosos. Nossa resistência é uma
ilusão. Será que temos a inteligência e a disciplina de resistir à
nossa tendência a crescer sem parar? O planeta não permitirá que
nossas populações continuem a se expandir. Populações descon-
troladas de bactérias, gafanhotos, baratas, ratos e grama sempre
entram em colapso. Seus próprios resíduos causam repugnância à
medida que resultam em aglomerações e escassez severas.
Surgem as doenças, como populações do "outro" que se expan-
dem de forma oportunista. Elas pegam o exemplo de comporta-
mentos destrutivos e desintegração social. Até os herbívoros.
GAIA '1.21

quando desesperados, tornam-se predadores cruéis e canibais.


Vacas caçarão coelhos ou comerão as crias. Muitos mamíferos
jovens disputarão a carne dos companheiros de ninhada. O _g__e_s::_
cimento excessivo da população gera estresse, e o estresse reduz
o crescimento populacional excessivo - um exemplo de ciclo
regulado por Gaia.
Nós, seres humanos, somos exatamente como nossos colegas
de planeta. Não podemos dar um fim à natureza; só representa-
mos uma ameaça a nós mesmos. A idéia de que podemos destruir
todas as formas de vida, inclusive as bactérias que vicejam nos
tanques d'água das usinas nucleares ou em dutos ferventes, é ab-
surda. Ouço nossos innãos não humanos rindo baixinho: "Nós
sobrevivemos perfeitamente antes de conhecer vocês. vamos
continuar sobrevivendo agora sem vocês", cantam para nós em
harmonia. A maioria deles, os micróbios, as baleias, os insetos, as
plantas de semente e os pássaros, ainda está cantando. As árvores
da floresta tropical cantarolam consigo mesmas, esperando que
terminemos nosso desmatamento arrogante para que possam vol-
tar à velha rotina de crescimento. E elas continuarão suas disso-
nâncias e harmonias muito depois de termos ido embora.
Apêndice: Principais tipos de vida*

Número mínimo de
PROKARYA EUKARYA sistemas genéticos
(sem simbio- Número de (com simbio- integrados (genoma
gênese) genomas gênese) ou mônadas)

BACTÉRIAS PROTOTIST AS
("monera")
Algas marinhas (todas
Arqueobactérias, as algas), amebas, ci-
Eu bactérias liados, bolores de lodo,
gram-positivas redes de bolores, mas-
tigotos, bolores de água
Eubactérias 1
gram-negati v as
Incluindo FUNGOS
cianobactérias
Bolores, cogumelos,
leveduras, micorrizos
de raízes

ANIMAIS
Esponjas, águas-vivas,
caranguejos, mariscos,
caracóis, peixes, pás-
saros, mamíferos

PLANTAS
Musgos, samambaias,
coníferas, plantas
com flores

• Ver Figura 2, página 36.


Notas

Prefácio

1. Lynn Margulis e Dorion Sagan, Sla11ted Truths: Essays 011 Gaia, Symbiosis, a11d
Evol11tio11 (Nova York: Copemicus Books, 1997): "Sunday with J. Robert Oppe-
nhcimcr" e outros trabalhos, muitos previamente publicados. descrevem o "grande
problema" com a biologia ncodarwiniana e os efeitos cm geral destrutivos do apar-
theid acadêmico. Os ensaios detalham o contexto da vida como um fenômeno pla-
netário no qual a simbiogênesc, sobretudo por meio das associações bacterianas, é
a principal fonte de inovação evolutiva.
Lynn Margulis e Dorion Sagan, What Is Sex? (Nova York: Simon & Schuster,
1997): uma pesquisa filosófica e ilustrada da evolução do sexo desde os primórdios
filosóficos em um universo cheio de energia até o cibersexo e além.
Lynn Margulis e Dorion Sagan, W/iat Is Ufe? (Nova York: Simon & Schuster,
1996): ilustrado com fotografias coloridas e desenhos em preto e branco, é uma
exploração filosófica e científica de uma das questões mais fascinantes da história.
O livro defende um conceito de vida que transcende tanto o mecanicismo como o
vitalismo. Incluindo seções sobre o fundamento solar da economia global e o status
da humanidade como um superorganismo, enfatiza o esquecido papel do livre-arbí-
trio no desenvolvimento evolutivo.
Gaia to Microcosmos, vol. 1, Planetary Life (Dubuque: Kendall/Hunt, 1994):
qualro vídeos breves: From Bacteria to Biosphere; Photosynthetic Bacteria - Red
Sunlight Transformers; Spirosymplokos deltaeiberi - Microbial Mats and Mud
Puddles; e Ophrydium vcrsatilc: Wliat Is an lndivid11al?
Dorion Sagan e Lynn Margulis, Garde,1 of Microbial Delights: A Practical
Guide to tlie Subvisible World (Dubuque: Kendall/Hunt, 1993): um guia sobre a
história do conliecimcnto, diversidade e utilidade do mundo microscópico, incluin-
do notas sobre como criar bichinhos de estimação microbianos. Escrito para profes-
sores e alunos, amantes da natureza e frequentadores de museus de história natural,
é ricamente ilustrado.
Lynn Margulis, Five Ki11gdoms Poster, ilustrado por Christic Lyons, projetado
por Dorion Sagan (Rochester, N. Y.: Ward's, 1992): o conjunto inclui um livro do
professor e um guia para atividades cm sala de aula.
Lynn Margulis e Dorion Sagan, Origirrs of Sex: 711ree Billio11 Years o/Genetic
Recombi11atio11 (Ncw Haven. Conn.: Yale University Press. 1991 ): a descrição e o
período de surgimento da recombinação do DNA cm bactérias, fusão celular em
protistas. o surgimento do gênero, alternância de gerações e outros processos
sexuais no contexto evolutivo.
Lynn Margulis e Dorion Sagan, Mystery Dance: 011 t/ie Evolmim1 of Huma,1
Sexuality (Nova York: Summit Books, 1991): um resumo dos efeitos cm múltiplos
'126 O PLANETA SIMBIÔTICO

níveis dos ancestrais sobre a forma e comportamento sexuais humanos. A psicaná-


lise lacaniana. as origens rcptilianas do cérebro dos mamíferos, a competição dos
espermatozóides e o papel da violência gerada pelo ciúme na propagação genética
figuram entre as questões analisadas. A história começa com os ancestrais de desen-
voJvõ mcnto mais tardio e termina com as origens da meiose e do sexo bacteriano cm
unicelulares irradiados por luz ultravioleta.
Lynn Margulis c Dorion Sagan, Microcosmos: Four Billion Years o/ Evolutio,1
from Our Microbial Anccstors, prefácio do dr. Lewis Thomas (Berkeley: Univer-
sity of Califomia Prcss, edição cm brochura, 1998): um relato simples das primei-
ras formas de vida, da origem das células nucleadas, o acúmulo originalmente tóxi-
co de oxigênio na atmosfera terrestre e o surgimento de plantas e animais a partir de
colônias de micróbios. Um novo prefácio dos autores lembra a necessidade de ir
além da inversão estratégica feita no livro dos micróbios cm relação aos seres
humanos. A análise começa com a origem do universo, hã 15 bilhões de anos, e ter-
mina com especulações sobre o futuro da vida, com e sem seres humanos.
2. Lois Byrncs, Deep Time Associates, P.O. Box 58, Rockport, Massachusetts,
montou a exposição "What Is Life?" no Centro de Ciências da Nova Inglaterra, 222
Harrington Way, Worccster, Massachusetts. Mostrando a arte de Christie Lyons,
nossos vídeos e· outros modos de expressar as noções de SET e Gaia, essa e outras
excelentes exposições estão abertas ao público de terça-feira a sábado das dez da
manhã às cinco horas da tarde.
3. Nosso relacionamento com a natureza e Deus, profundo e complexo, é magnifi-
camente analisado por Evan Eisenberg em seu novo trabalho Ecology of Eden
(Nova York: Alfred Knopf, 1998).

Capítulo um
.................
1. 1. E. Wallin, Symbioticism and tlie Origin of tlie Species (Baltimore: Williams &
Wilkins, 1927). Charles Darwin, 011 tlie Origin of tlie Species by Means of Natural
Selectim, or tire Prcservatio,1 o/ Favored Races in tire Struggle for Life (Londres:
Murray. 1859).
2. Sorin Sonea e Mauricc Panissct, A New Bacteriology (Sudbury Mass.: Jones &
Bartlell Publishers, 1993).
3. Paul Nardon e A. M. Grcnicr, "Serial Endosymbiosis Theory and Weevil
Evolution: TI1c Role of Symbiosis", in L. Margulis e R. Fester. orgs .• Symbiosis as
a So11rce of Evolmionary lm,ovation (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1991 ).
4. Esses organismos e sua atividade são notavelmente ilustrados em vídeos: veja
Scicncewriters, Gaia to Microorganism (Dubuque, Iowa: Kendall/Hunt Publishing
Company, 1996), Lorrainc Olendzenski, Lynn Margulis e Steve Goodwin, Looking
at Microbes: Tire Microbiology Laboratory for St11dents e Lynn Margulis e Dorion
Sagan, Microcosmos Videos, vols. I e II (Sudbury, Mass.: Jones and Bartlett
Puhlishcrs, 1998 e 1999).

Capítulo dois
.................
1. G. G. Simpson, A11 A11tobiograpliy (Nova York: Columbia Univcrsity Prcss,
1()77).
2. Para obter uma descrição técnica da hereditariedade, origem e evolução dessas
mganclas, consulte a segunda edição de Symbiosis i11 Ccll Evolutio11 (Nova York:
NOTAS '127

W. H. Freeman, 1993). Uma visão menos técnica mas certamente adequada domes-
mo material está em Lynn Margulis e Dorion Sagan, Microcosmos: Four Billion
Years of Evolulion from Our Microbial Ancestors. Para conhecer a empolgante e
notável história da genética citoplasmática, consulte J. Sapp, Beyond lhe Gene
(Nova York: Cambridge University Press, 1987).
3. J. Sapp. Evolulion by Association: A llis1ory of Symbiosis (Nova York: Oxford
University Press, 1994).
4. B. Ephrussi, Nucleo-cyloplasmic Relalions in Micro-Organisms (Oxford, U. K.:
Clarendon Press, 1953).
5. Ver Beyond lhe Gene, Sapp, nota 2.
6. J. Sapp, Evolution by Associalion: A History of Symbiosis (Nova York: Oxford
University Press, 1994). Dobzhansky: "Em biologia nada faz sentido exceto à luz
da evolução", citação de 1973 na p. 187.
7. R. Sager e F. Ryan, Cell Heredily (Nova York: John Wiley & Sons, 1961); ver
também G. Pontecorvo, Trends in Genelic Analysis (Nova York: Columbia
University Press, 1959).
8. E. B. Wilson, The Cell in Development and Heredity, 3° ed. (Nova York:
Macmillan Co., 1928).
9. L. N. Khakhina, Concepts o/Symbiogenesis: A Historical and Criticai Study ofthe
Research of the Ru.ssian Botanists (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1992).

Capítulo três
1. D. C. Smith, "From Extracellular to Intracellular: The Establishment of a
Symbiosis", in The Cell as a Habitat, vol. 204 (Londres: The Royal Society, 1979),
pp. 115-130.

Capítulo quatro
1. Um conceito do intrépido e prolCfico explorador e biólogo alemão do século XIX
Christian Ehrenberg. Ver What Is Li/e? na nota 1, Prefácio.
2. H. F. Copeland, Classijication of the Lower Organisms (Palo Alto, Calif.: Palo
Alto Books, 1956).
3. R. H. Whittaker, Conm11mity Ecology, 2° ed. (Nova York: Macmillan. 1975).
4. R. H. Whittaker, "New Concepts ofKingdoms", Science 163: 150-160, 1969.
5. Os micróbios incluem bactérias, os menores prototistas e os menores fungos. Ver
Lynn Margulis e Karlcne V. Schwartz, Five Kingdoms: An lllustrated Guide to the
Pliyla of Life on Earlh, 3º ed. (Nova York: W. H. Freeman, 1998). Uma descrição
de cada filo de bactérias, prototistas, fungos, animais e vegetais (cerca de cem filos)
é acompanhada por uma fotografia de um organismo exemplar, vivo, se possível, e
um desenho com legenda de um membro típico do filo.
6. Os prototistas são desenhados em seus muitos hábitats naturais. do deserto ao
alto-mar, em L. Margulis, K. V. Schwartz e M. Dolan, Divcrsi1y o/ Life on Earth:
lllustrated Five Kingdoms (Sudbury, Mass.: Jones and Bartlett. 1999). Organismos
maiores e mais familiares acompanham os micróbios cm todos os desenhos.
'I 2 8 O PLANETA SIMBIÓTICO

Capítulo cinco
·················
1. H. J. Morowilz, Mayonnaise a11d tlze Origin of Life: Thoughts of Mi11ds a11d
Molecules (Woodbridgc, Conn.: Ox Bow Prcss, 1985).
2. D. Dcamcr e G. Flcischakcr, Origi11s o/ Life: The Cemral Co11cepts (Sudbury,
Mass.: Joncs & Bartlctt, 1994).
3. Francis Crick, U/e ltself: lls Origi11s a11d Nature (Nova York: Simon & Schustcr,
1981).
4. H. J. Morowitz, Begim1i11g ofCellular Life (New Haven, Conn.: Yale University
Prcss. 1992).
5. F. Dyson, Origi11 of Life (Cambridge: Cambridge Univcrsity Prcss, 1987).
6. M. T. Madigan, J. M. Matinko, J. Parker, Brock Biology o/ Microorganisms, 8ª
cd. (Uppcr Saddlc Rivcr, Ncw Jersey: Prcnticc-Hall, 1997).

Capítulo seis
1. Lynda J. Goff, "Symbiosis, Intcrspccific Gene Transfer and thc Evolution or
Ncw Spccics: A Case Study in thc Parasitic Red Algac", in L. Margulis e R. Festcr,
orgs .• Symbiosis as a Source o/ Evolutio11ary lnnovation (Cambridge, Mass.: MIT
Prcss, 1991 ).
2. Lynn Margulis e Dorion Sagan, Origins o/ Sex: Three Billion Years o/ Genetic
Recombi11alio11 (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1991) e What Is Sex?
(Nova York: Simon & Schuster, 1997).
3. L. R. Clcvcland, "Thc Origin and Evolution of Mciosis", Scie11ce, vol.105, pp.
287-288, 1947.

Capítulo sete
1. M. A. McMcnamin e D. S. McMcnamin, Hypersea: Life 011 La11d (Nova York:
Columbia Univcrsity Prcss, 1994).
2. V. 1. Vcmadsky, The Biosphere (Nova York: Copemicus, Springcr-Vcrlag, 1998;
1926 cm russo).

Capítulo oito
.................
1. James E. Lovclock, Gaia: A New Look ai Life 011 Earth (Oxford, U. K.: Oxford
Univcrsily Prcss, 1979).
2. Lorraine Olcndzcnski, Lynn Margulis e Stcvc Goodwin, vídeos Looki11g ai
Microbe.f vol. 1, Tlze Microbiology Laboratory for Studellts, vol. 2 Microbe 's
World (Sudbury, Mass.: Joncs and Bartlett Publishcrs, 1998).
3. P. Bunyard, org., Gaia i11 Actio11: Scie11ce ofthe Uvi11g Ear1l1 (Edimburgo, U. K.:
Floris Books, 1996).
4. S. Schncidcr e P. Boston, Scie11tisls 011 Gaia (Cambridge, Mass.: MIT Prcss,
1990).
5. D. Sagan, Biosphere. Metamorphosis o/ Plflnet Earth (Nova York: McGraw-
Hill/Banlam. 1990).
Índice

A Autotróficos, 83
Acidez/alcalinidade, 113, 116 Axônios, 52
Ácidos nucléicos, 50
Água animada, 105 B
Alanina, 76 Bactérias
Algas,38-39,56,62,63,87,90 canibalismo malsucedido entre, 87,
Chlamydomona.\", 33, 51, 93-95 96-100
Chlorella, 18 como agentes inimigos, 56-58, 76
cloroplastos, 25, 28, 34, 41-43, 44- como antigas organelas, 39
45. 55 como fundamento da evolução, 12,
co-evolução com os fungos, 102- 17-18,55,57,58,63.65,68, 71,
105 114, 115
Convoluta roscoffensis e, 17-18 como fundamento da teoria da
evolução das plantas e, 92-95, 103- endossimbiose seqüencial (SET),
106 35-37, 39-52
origem das, 39-42 e problema da origem da vida, 71-84
Altman, Sidney, 81 falta de espécies em, 14
Ameba, 16, 61, 63 fixação de nitrogênio. 13, 102
Aminoácidos. 47-48, 77-78, 102
fora do núcleo mas dentro das célu-
ver também Proteínas
las, 33-34
Amônia, 83. 115
fotossintéticas, 17-18, 28, 41-42,
Anaeróbios, 39
56-57, 104
Anastomose, 54
hábitos sexuais das, 85-87
Animais. 54-55, 56. 58. 69
incorporação dentro de plantas e
evolução dos, 90-92
fósseis mais antigos de, 90 animais, 14, 30
plantas-animais, 17-18 na pesquisa sobre moscas-das-fru-
sexo entre, 86-87, 96 tas, 16
Antártida, 104-105 partes não nucleares das células,
Antropocentrismo. 11-12 como remanescentes das, 31
Aptidão, 24 sistemas duplos de hereditariedade
Archaea, 66 de, 30-31
Aristóteles. 58, 59 Bactérias fotossintetizantes. 17-18. 28,
Arqucobactérias, 39-41. 42-43, 46-49. 41-42, 57, 105
50-51. 67, 99-100 Bactérias terrnoacidófilas.
Árvores, 105-106 Ver Arqueobactérias
Árvores de família, 53-54 Base material, 27
Astatt, Peter R., l 03-104 Bateson, Gregory, 53
'I 3 0 O PLANETA SIMBIÓTICO

Bateson, Mary Catherine, 25 Clamidósporos. 103


lleisson. Jannine. 32 Classes. 60
Bestiários. 59 Cleveland, l..emuel Roscoe, 96-100
Big Bang, 73 Clonagem, 90, 93
Biodiversidade, 57, 108 Cloreto metilo, 115
Biologia molecular. 14 Cloroplastos, 25, 28, 34, 41-43
Biomassa, 103-105 filiação direta, teoria da origem dos.
Biospheres (D. Sagan), 118 44-45
Bolores, 61-62, 63, 90 origem bacteriana dos, 55
Bolores de limo, 61-62, 63, 90 Cloud, Preston, 91
Boston, P., 1 17 Coeficientes de seleção, 24
Botkin, Daniel, 102 Cogumelos, 54. 52
Bymes, Lois, 18 Continuidade do plasma de germe, 29
Convivência celular. 26
e Convolllta roscoffensis, 17-18
Cálcio, na evolução dos animais, 91 Copeland, Herbert P .• 61-62, 63
Cambriano, 90-92 Corpos de "bolas de gelatina", 18
Canibalismo malsucedido, 87, 96-120 Corrcns, C., 28
Carga mutacíonal. 24 Crescimento populacional excessivo,
Carson, Rachel. 110 121
Caudas de espermatozóide, 46 Criaturas de Ediacara, 92
atividade de, quando eliminadas, Criaturas de proteína, 81
50-51 Crick, Francis, 74-75
microtúbulos das, 51 Cromatina, 40
Cavalier-Smith, Tom, 43. 52 Cromossomos. 30
Cech. Thomas, 81 como fundamento da heredi-
Cell i11 Deve/opmem a11d Heredity, The tariedade, 27
(Wilson). 31 cromatina e. 41
Célula. Ver Genética celular definição de, 27
associação com a química, 30 extras. 98-99
população, 24 genes localizados nos, 27. 28
Células eucariontcs, 15, 46, 49, 51, 58, Crow, James F., 23-24
62 Cuvier, Georgcs, 60
Células fúngicas, 40-41
Células haplóidcs, 97-100 D
Células Platymo11as. 17-18 Daisyworld, 119- 121
Células procariontes (moncras), 15. 54- Danielli, James F .• 34
55, 58. 62, 66, 67 Darwin. Charles. 11. 14, 26, 28, 60-61,
Centrfolos-cínetoplastos, 45-52 114
como sementes. 46-47 Dawkins. Richard, 117
microtúbulos dos, 51-52· deBary. Anton. 38
natureza dos. 45 Dendritos, 51
teoria de Henneguy-Lcnhossek, 50 DcVries, 28
Chatton. Edouard, 33 Diatomáceas. 45. 56
Chlamydomo11as, 33, 51, 93-95 Dinoflagelados, 44-45
Clilorella, 18. 19 ver Protistas
Cianobactérias, 42, 43, 44, 83, 114 Dinomastigotos, 44, 45
Cilologia biofísica, 27 Dióxido de carbono. 83, 101-102, 1 11.
Citologia bioquímica, 27 115
Citoplasma. 42. 106 Diplóides, 98-99
lNDICE '13'1

Dissociação. 96-97 Espécies. 18, 60


DNA (ácido desoxirribonucléico), 27, mutabilidade das, 26
58,67. 72 reconhecimento das, 95-96
centrfolos-cinetoplastos, 50-51 simbiogênese das, 14
do Mycoplasma geniticulum, 74 simbiose como base das, 14
e o problema da origem da vida, 74, Esponjas, 61
80-82, 83 Estruturas dissipativas, 79
e teoria simbiótica da origem da Eubactérias.47-48.51. 65-67
mitocôndria, 46 Eucariontes, 15, 46, 49, 51, 58, 62
genes ribossomais das mitocôndrias. Eupatorium, 33
44 Eurodina, 93
Dobzhansky. Thcodosius, 15-16, 29-30 Evolution by Association (Sapp), 25
Domínios, 65, 68 Feófitos,45
Doolittle, Ford, 46 Famintsyn, A. S., 3 l
Drosophila (mosca-das-frutas), 15-16,
29-30 F
Dyson, Freeman, 81 Fatores (Mendel), 25, 26-27
Fatores citoplasmáticos, 28, 30
E Fetos, 88-89
Ecossistemas Filos. 60
colonização de. 101-106 Fisher. R. A .. 29
definição de, 101-102 Fixadores de nitrogênio, 13, 101
reciclagem de, 91-92, 1O1-102, 1 12, Foraminíferas, 61
114 Fosfalitos, 92
Fósforo, 105
Eigen, Manfrcd, 81-82
Fósseis virtuais, 80
Eldrcdge, Niles. 15, 16
Fotoautótrofos, 82-83
Elétrons
Fungos,57,58, 68
micrografias, 33
bolor, 61-62, 63, 90
Embriões, 54, 86, 88-89, 92, 97
co-evolução com as algas, 102-105
Embriologia, 29, 54, 74
cogumelos, 54, 62
Endossimbiose sequencial (Margulis), colonização da Terra, 102- 106
34 leveduras, 28. 33, 56. 62
Ephrussi, Boris. 25 micorrizo, 13, 102-106
Equilíbrio pontuado. 15 sexo entre, 86, 88
Era paleozóica. 102 Fusão fúngica, 102-104
Especiação, 15
pelos micróbios, 15, 65 G
Espécie humana Gene(s),
classificação da, 60 em cloroplastos. 28
determinação do início da vida localização nos cromossomos, 27. 28
humana, 89 mutações genéticas, 29
domínio da Terra, 88 nas mitocôndrias, 28
e hi"pótese Gaia, 109 por meio da seleção natural. 12, 16.
futuro como espécie, 18-19 24
grande cadeia do ser e, 11-12 raios X e, 33
necessidade de identificação como Gênero. 60
espécie e, 95-96 Genes nus, 33, 42
processos de fecundação e repro- Genética celular
dução. 88-90 citoplasmática. Ver Genética cito-
sexo na, 86 plasmática
'I 3 2 O PLANETA SIMBIÓTICO

natureza das células e, 38-39, 70 Hereditariedade


nuclear. Ver Genética nuclear cm organismos nucleares, 3 1-32
teorias sobre a origem da vida e, 79- hereditariedade citoplasmática, 32
84 Heterótrofos, 83
Genética citoplasmática Hidras, 18, 87
conceitos fundamentais da, 25, 26- Hidrogênio, 77, 82, 110, 115
28, 33 Hinkle, Greg, 9-10
genética dos ciliados cm, 32-34 Hipermar, 104-105, 106
hereditariedade na, 32 Hipótese da espiroqueta, e evolução da
origem da pesquisa sobre, 25, 26-28 meiose, 99-100
Genética de populações, 12, 16, 24, 29
quanto às origens dos cílios, 42-52
Genética dos ciliados, 32-34
Hipótese Gaia, 107-121
espiroqueta. hipótese sobre a
acidc7JaJcaJinidade e, 113, 114, 116
origem dos cílios, 43, 52
filiação direta, teoria da origem dos, base da, 10, 111-113, 114, 116
44-45 críticas à, 117-119
Genética nuclear cultura popular e, 113
conceitos básicos da, 24-28 Daisyworld, 119-121
hereditariedade na, 31-32 desenvolvimento da, 109-113
mitose e, 31-32, 41. 48, 49, 50, 51, "Gaia forte", 117
95 "Gaia fraca", 116-117
origens da pesquisa cm, 25-28, 29 gases e, 109-111, 113, 114, 116
teoria simbiogcnética da origem das origem do termo, 111
células com núcleo, 38, 46-52 papel do ser humano e, 109
Genética, 23-24 propriocepção e, 107-108, 118-119
Gcofisiologia. 108, 111-112 regulação da temperatura e, 111-1 J2,
Geometria dos fractais, l 19 113.116-118, 119-121
Geração espontânea, 75-77 superorganismos na, 108-109, 116-
Gilbcrt, Wally, 82 119
Glicina, 77 teoria da endossimbiosc sequencial
Golding, William, 111 (SET) e, 9-10
Go11i11111, 93 Histricosfcras, 97
Gould, Stephen Jay, 16
Hogg, John, 61-62, 63
Grandecadciadoser, 11-14
Homeostasc, 1 11- 112
Gray, Michael, 46
Homo sapiens. Ver Espécie humana
Grécia antiga, grande cadeia do ser e, 11
Hutchins, Robert M., 22-23
Gupta, Radncy, 47-48, 51

H
Haeckel, Ernst, 58. 60-61 Independência,
Haldane, J. B. S, 29 tendência a se unir e ressurgir. 18-
Hall. John, 51 19
/1a/l11ci11ose11ia, 92 lndi vidualidade
Halobactérias, 66 parceiros na origem da, 39-41, 42
Harding, Stcphen, 120 simbiogênese e, 17
Hardy, G. S., 29 surgimento da célula, 18-19
llarris. Betsy Blunt, 115 Iodeto metilo, 115
Hartman, Hyman, 47
Haste mitótica. 46, 99 J
Herança de características adquiridas, Jornada nas estrelas, 101, 106
1<,-17, 32 Joyce, Gerald, 82
ÍNDICE

K Microscópio
Keeble, J., 17-18 eletrônico, 47, 57, 65
Kirshner, J., 117 invenção do, 56, 58
Microtúbulos, 46, 49, 51, 52, 99
L Miller, Stanley L., 77-78
Lamarck, Jean Bapliste, 16-17 Mills, Don, 81
Lamarckismo, 16-17, 32 M irabilis jalapa, 33
Leeuwenhoek, Antony van, 56, 58 Mitocôndrias, 14, 25, 30, 33-34
Lenhossek, Mihaly von, 50 características das, 43-44
Leveduras,28,33, 56,62 filiação direta, teoria das origens
Life Itself (Crick), 74-75 das, 44-45
Lignina, 105 genes nas, 28
Lineu (Carolus von Linné), 56-60, 61 origens não simbióticas das, 44-45
Lipossomos, 79-80, 82 respiração de oxigênio, 41-43, 49
Líquens, 103-104 teoria simbiótica sobre as origens
Lovelock, James E., 10, 109-113, 115- das, 46-52, 55
116, 117, 119 Mitose, 31-32, 41. 48-50, 52, 95
Luck, David, 51 Moléculas de cadeias longas, 58
Molina, Mario, 110
M Morgan, Thomas Hunt, 28-30
Malloch, D. W., 102-104 Morowitz, HaroldJ., 72-73, 78-81, 82-
Máquinas de movimento perpétuo, 79- 84
80 Morte
Mariscos, 18 canibalismo malsueedido, 87, 96-100
Marte, 109 programada, 87
Mayr, Ernst, 66-67 Mosca-das-frutas (Drosophila), 15-16,
McMenan1in, Mark, 91, 92, 104-105,
29-30
106 Muller, Hennann J., 29, 33
Medusóides Mastigias, 17
Mullicelularidade, 90
Meiose, 31-32, 95
Mycoplasma geniticulum, 74
Memória, e problema da origem da
vida, 78, 80
N
Mendcl, Gregor, 25-27, 28, 29, 31
Ncnneguy, L-F., 50
Merezhkovsky, Konstantin S., 30-31,
42,47,55 Ncodarwinismo, 24, 29, 117
Neolamarckismo, 16-17
Metabolismo primário, 78-79
Metabolismo, 30, 50-51 Neurônios, 51
dentro das células, 82 Nitrogênio, 102, 1 1O, 115
diagrama metabólico cumulativo Novas espécies, formação de, 15-16
dos organismos vivos, 80 Novos indivíduos, simbiogêncse e, 17
e problema da origem da vida, 74, Nucleocitoplasma, 39-43
78-84
na hipótese Gaia, 116-117 o
primário, 7 8-79 Oenothera, 33
vírus e, 64-65 Olendzenski, Lorraine, 18, 115
Metano, 83, 111. 114, 115 Ondulipódia, 50-51
Micologia, 56 Ophrydium, 18
Micorrizo, 13, 102-106 Ordens, 60
Microbiologia, 56 Organelas, 25, 30, 31
Microfósseis, 65, 72, 73 bactérias como antigas, 39
Microscópio de elétrons, 47, 57, 65 cílios. Ver genética dos c!lios
1 3 4 O PLANETA SIMBIÓTICO

cloroplastos, 25, 28, 34, 41-43, 44- Primatas, grande cadeia do ser e, 11-12
45, 55 Problema da origem da vida, 71-84
microfotografias de elétrons, 33 abordagens ao, 71-72
mitocôndrias. Ver Mitocôndrias DNA e, 74, 80-82, 83
plastídios. Ver Plastfdios experiências sobre, 76-77, 79-80
teoria das origens das, 39-52 geração espontânea e, 75-77
Origem das espécies, A (Darwin), 14 Harold Morowitz e, 72-73, 77-81,
Origi11s of Sex (Margulis e Sagan), 87 82-84
Óvulos memória e, 77, 79-80
fatores citoplasmáticos fora do metabolismo primário e, 77-78
núcleo, 28, 30-31 microesfcras da Suazilândia e, 73
no processo de fertilização, 29, 54, panspermia direcionada (pangê-
88-90, 95, 96-100 nese) e, 74-75
ver também Sexo propriedades da vida bacteriana
Oxigênio, 40-43, 48, 49, 83, 91, 110, mínima e, 71-72
111, 114 simbiose molecular e, 81
sistema de Belousov-Zhabotinsky e,
p 78-79
Padrão de hereditariedade assassino- sopa primordial e, 76, 80
kappa, 33 termodini\mica e, 77-79, 82-84
Pais, simbiogênese e, 17 Processo de fecundação, 29, 54, 88-89,
~aleobiologia, 71 95, 96-100
Pa11dorina, 93 Propriocepção, 107-108, 119
Pangênese (panspermia direcionada), Proteínas de motilidade, 51
74-75 Proteínas, 46, 50, 51, 57
Paramécio, 32, 33 e o problema das origens da vida,
Pasteur, Louis, 59, 75-76 74, 80-81
Pelotas de Maomé, 18 ver também Aminoácidos
Pikaia, 92 Proteobactérias, 43
Pirozynski, K. A., 103 Protistas, 33
Plachobrancluu, 17 canibalismo malsucedido entre, 87,
Plãncton, 61 96-100
Plant-A11imals (Keeble), 17-18 definição, 63
Plantas, 54-55, 56, 58-59, 69-69 em outras taxonomias, 56-57, 58,
colonização da Terra, 102-106 62,63
evolução das, 92-95, 103-106 fusão sexual de, 88, 89
fósseis mais antigos de, 90 teoria das origens dos, 39-41, 44-45,
sexo entre, 86-87, 96 50,62,65
Plantas-animais, 17-18 Proto-acasalamento, 99-100
Plastídios, 14, 31, 33-34, 43, 44 Protozoa, 256-~7. 61-62, 63
características dos, 43-44 Prototistas, 41, 48, 54-55, 58, 68-69
filiação direta, teoria das origens canibalismo malsucedido entre, 87,
dos, 44-45 96-100
genes ribossomais dos, 44 clonagem e, 90
Plínio, 59 como haplóides, 98
Pontecorvo, Gino, 31 em outras taxonomias, 56-57, 61-62
Pré-cambriano, 91 evolução da morte nos, 88
P1igogine, llya, 78 mitocôndrias em, 42
ÍNDICE 135

natureza dos, 65, 67 Sagan, Dorion, 10, 54-55, 87, 118


sexo entre, 83, 86, 95-100 Sager, Ruth, 30
Pteridiniwn, 92 Sapp,Jan,25,27
Schistosoma, 99
Q Schneider, S., 117
Quefir, 18-19 Schwartz, Karlene V., 57-58, 62-69
Química, Seleçãonatural, 11-12, 16.114, 115,117
associação da genética com a, 29-30 Sequenciamento genético, 14, 67-68, 74
Quimiotrofos, 82-83 Sexo celular, 95
Sexo meiótico, 86-87, 88, 96- 100
R Sexo
Radiolário, 61 como canibalismo mal sucedido. 87.
Raios X, mutações causadas por, 33 96-100
Ramanis, Zenta, 51 entre animais, 86-87, 96
Ramificações, 60 entre bactérias, 85-87
Ramos, 55, 68 entre fungos, 86, 88
Ray. John. 59 entre plantas, 86-87, 96
Reciclagem, 91-92, 101-102, 112. 114, entre protistas, 88, 89
115 entre protozoários, 83, 86, 95-103
Registros fósseis. 59, 60 meiótico, 86-87, 88, 96-100
animais mais antigos cm, 90 morte programada e, 87
crises ecológicas e, 114
processo de fertilização e, 29, 54,
equilíbrio pontuado cm, ·16
88-90, 95, 96-100
microfósseis, 65, 72, 73
simbiose versus, 87-88, 100
plantas mais antigas em, 103
Silent Spring (Carson), 110
virtual, 80
Sílex córneo de Rhynie, 103, 104
Regulação da temperatura, hipótese
Sílex córneo, 103, 104
Gaia e, 111-112, 113, 114, 116-118,
Simbiogênese, 58, 68
119-121
· aquisição de organismos inteiros,
Reino monera, 61-62
Reinos, 68 16-17
Relógios químicos, 78 como ncolamarckismo, 16-17
Resíduos, 91-92, 101-102, 112, 114, 120 corpos formados pela, 87
Rhynia, 105 definição, 14, 38
Ribonucleotídeos, 82 genética citoplasmática como área
Ribossomos, 44, 67, 80-81 central da, 26
Ribozimas, 82 na distinção entre células nuclea-
Ris, Hans, 33 das/células bacterianas, 46-47
RNA (ácido ribonucléico), 58, 65-66, 67 na habitação da Terra, 102-106
e o problema das origens da vida, origem dru; organclas e, 39-52
74, 80-82. 83 origem do conceito de, 42, 43
Rodoplastos. 45 surgimento de novas formas de
Rosenbaum, Joel, 51 vida, 17, 102-106
Rowland, Sherwood, 110 Simbiontes fúngicos, 13
Rúmen, 115 Simbionticismo, 14, 55-56
Ryan, Francis, 30 Simbiose microbiana, .
cm pesquisas sobre as moscas-das-
5 frutas, 15-16, 29-30
Sagan, Carl, 22-23, 28, 30 Simbiose molecular, 81
'I 3 6 O PLANETA SIMBIÓTICO

Simbiose Tecidos
como origem de inovação evolutiva. diferenciação, 95
14, 16. 17. 26, 38 Teoria da endossimbiose sequencial
definição, 9-10, 13, 38 (SET)
emprego incorreto do termo, 81 "SET extrema", 43-52
equilfurio pontuado e, 16 conceito de "sequencial" cm, 39
microbiana. Ver Simbiose micro- espiroqucta, hipótese da origem dos
biana cOios, 42-52
molecular, 81 fundamento da, 14
na colonização da Terra, 102-106 hipótese alternativa a, 44-45
origem do termo, 38 hipótese Gaia e, 9-1 O
papel na evolução, 14 idéia básica da, 41
plantas-animais e. I 7-18 origens das organelas na. 39-52
prevalência da, t 3 primeira exposição completa da.
se1-o versus, 87-88, 100 34-35
Simpson, George Gaylord, 23 primeiras contribuições experimen-
Síndrome de Down, 98 tais à, 35
Sistema de Bclousov-Zhabotinsky, 79- representações visuais da, 36, 54-
80 59,122
Sistemas autocalaHticos. 79 versão atual da. 35-37, 39-52
Smith, David C .• 50 Teoria da filiação direta, 44-45
Sonneborn,Tracy,32,33 Teoria de Henneguy-Lcnhossek, 50
Sopa primordial, 76, 80 Teoria evolutiva
Spemann, Hans. 28 bactérias como fundamento da, 12,
Spicgelman, Sol, 81 55,58.65-66.68, 71,114
Stentor coeruleus, 88 definição de evolução, 30
S1e11tor, 29 equilíbrio pontuado na, 16
Sturtevant, A. H., 29
espiroqueta, hipótese sobre a
Suazilândia
origem dos cílios, 43-52
microesfcras, 73
papel da simbiose na, 14, 16
Sulfato, 105
seleção natural e. 11, 16, 114. 117
Sulfeto de hidrogênio, 114
taxonomia baseada na, 60-69
Supcrmoléculas, 81
Termodinâmica, 77-79, 82-84, 112
Superorganismos, 108-109, 116-119
Termoplasma, 47
ver também Hipótese Gaia
Szostak, Jack W .• 82 Tradição judaico-cristã, grande cadeia
do ser e, 11
Tribraqufdeo, 92
T
Tapetes microbianos, 70-71 Trufas, 105
Tartar, Yance, 29 Tubulina, 46, 51-52
Taxonomias, 53-69 ·
baseadas na evolução, 60-69 u
definição, 53 Uniões espermatozóide-óvulo, 29, 54,
funções das, 53-54 88-90. 95, 96- 100
pré-evolutivas, 58-61 Universidade da Califórnia em
revisão da autora de antigas, 54-55, Berkeley, 31-34
57-58, 62-69 Universidade de Chicago, 22-24, 28-30
termos problemáticos e, 56-57 Universidade de Wisconsin em
termos que causam confusão, 56-57 Madison, 23. 30-31, 33
Taylor. Max, 34, 36, 43, 44, 52 Urey, Harold C., 77-78
V Wcismann, August, 28
Vemadsky, Vladimir, 105 Whittaker, Robert H., 62, 63, 6S
Vírus Ebola, 65 Wilson, E. B., 31
Vírus, natureza dos, 64-65, 72 Wilson, E. O., 108
Volvox, 93-95 Wocsc, Carl R., 51. 66, 67

z
w 7.ea (milho), 33
Wallin, Ivan E., 14, 31. 54-56, 57 Zigósporos, 98
Watson, Andy, 119 Zigotos, 74, 86, 88