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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


ÁREA DE HISTÓRIA
MARCOS TARDELLE DO NASCIMENTO VASCONCELLOS

ACRE, BRASILEIRO POR OPÇÃO: A “REVOLUÇÃO ACREANA” E SUAS


PRÁTICAS DISCURSIVAS NA CONSTRUÇÃO DE UM MITO

RIO BRANCO
2010
MARCOS TARDELLE DO NASCIMENTO VASCONCELLOS

ACRE, BRASILEIRO POR OPÇÃO: A “REVOLUÇÃO ACREANA” E


SUAS PRÁTICAS DISCURSIVAS NA CONSTRUÇÃO DE UM MITO

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado ao


curso de licenciatura em História da Universidade
Federal do Acre para a obtenção de graduação.

Orientador: Profº. M.Sc. Valmir Freitas de Araújo - UFAC

RIO BRANCO
2010
MARCOS TARDELLE DO NASCIMENTO VASCONCELLOS

ACRE, BRASILEIRO POR OPÇÃO: A “REVOLUÇÃO ACREANA” E


SUAS PRÁTICAS DISCURSIVAS NA CONSTRUÇÃO DE UM MITO

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado ao


curso de licenciatura em História da Universidade
Federal do Acre para a obtenção de graduação.

Orientador: Profº. M.Sc. Valmir Freitas de Araújo – UFAC

BANCA EXAMINADORA:
Prof. M.Sc. Valmir Freitas de Araújo (Orientador)
Prof. M.Sc. Euzébio de Oliveira Monte
Prof. Dr. Carlos Alberto Alves de Souza

RIO BRANCO
2010
 VASCONCELLOS, Marcos Tardelle do Nascimento., 2010.
VASCONCELLOS, Marcos Tardelle do Nascimento. Acre, brasileiro por opção: a
“Revolução Acreana” e suas práticas discursivas na construção de um mito. .
Rio Branco: UFAC, 2010. 51f.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFAC

V331a Vasconcellos, Marcos Tardelle do Nascimento., 1984-


Acre, brasileiro por opção: a “Revolução Acreana” e suas práticas
discursivas na construção de um mito / Marcos Tardelle do Nascimento
Vasconcellos. -- Rio Branco : Ufac, 2010.
51f: il. ; 30 cm.

Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) –


Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFAC.
Orientador: Profº. Valmir Freitas de Araújo
Inclui bibliografia

1. Revolução Acreana - Discurso. 2. Revolução Acreana -


Semióforo. 3. Acre. I. Título.

CDD: 981.12
v

DEDICATÓRIA

À minha mãe, Maria Augusta, pela compreensão necessária dada à ausência e


distância de seu único descendente.

A meus tios, em especial, Antônio e Raimundo Nonato.

À minha avó, Antonia, a quem devo todas as conquistas de minha vida.


In memória.

A meu pai.
In memória.
vi

Agradecimentos

A Deus.
Pela graça de ter nascido perfeito, com condições psicomotoras para a realização de
mais essa etapa.

À família,
Pelas orações, carinho, amor e afeto. Pelo socorro nas necessidades mais
prementes. Uma menção especial à minha tia, Maria da Liberdade, às minhas irmãs,
Brenda e Bruna. Com carinho, à Sônia Melo.

Aos amigos,
Ricardo Alexandre e família, Erdejane Chaves, Herbson Sousa e Francisco Douglas.
Pela certeza de uma amizade sincera e eterna, nascida durante o curso.
Ademir Vlieger e Anderson Silva, pelos fraternos anos de convívio na república
estudantil mais família de toda a História.
Almira Rocha, a quem aprendi a amar fraternalmente. Que seja eterna a nossa
amizade.
Ulysses C. da Silva, José Jair e Joselena Figueiredo.

Aos professores,
Dr. Airton Rocha,
M.Sc. Italva Miranda,
M.Sc. Valmir Freitas,
M.Sc. Sérgio Roberto.

A todos,
Que direta e indiretamente contribuíram para o meu crescimento pessoal, intelectual,
espiritual.

A perfeição da vida está em sermos imperfeitos.


Marcos Tardelle
vii

Resumo

As ideias de uma acreanidade homogênea que pululam o discurso fundador do Acre


e as referências históricas de gestação desse discurso são algumas da ideias a
serem desenvolvidas nesse trabalho de conclusão do curso de história. A análise
pretende percorrer alguns dos discursos que tomam a “Revolução Acreana” como o
semióforo de constituição do povo acreano.

Palavras chaves: Revolução Acreana, discurso, semióforo, Acre

Abstract

The ideas of a homogeneous acreanidade that forms the Acre's speech founder and
the history's references of gestation are some aspects to be developed in this paper
for completing the course of history. The analysis pretends to walk through some
speeches about acreana's Revolution that would be the beginning of the acreano
people's constitution.

Keywords: Acreana’s Revolution, speech, Acre


viii

SUMÁRIO

DEDICATÓRIA.............................................................................................................v

AGRADECIMENTOS..................................................................................................vi

RESUMO....................................................................................................................vii

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................9

CAPÍTULO 1 - Um olhar para o discurso imagético – o semióforo como


discurso na construção/ reinvenção de uma conjuntura
social..........................12

CAPITULO 2 - A “Revolução Acreana” ontem e hoje: os ecos de uma prática


discursiva..................................................................................................................26
2.1 - O discurso da “acreanidade:” um upgrade xenofóbico......................................30
2.2 - Florestania: mais um discurso mítico-ideológico ou florestania: a organização
do mercado vede........................................................................................................33
2.3 - Um olhar sobre identidade: mitificação, permanências e rupturas....................36

CAPÍTULO 3 – A “Revolução Acreana” na ordem do contra-discurso...............40

CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................47
4.1 – Revolução versus guerra...................................................................................47

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................49
Apresentação

Este trabalho atende a um dos requisitos necessários para a Conclusão de


Curso de Licenciatura em História pela Universidade Federal do Acre.
A temática do trabalho, após algumas revisões e adequações ficou
construída assim: Acre, brasileiro por opção: A “Revolução Acreana” e suas
práticas discursivas na construção de um mito.
Fica claro que o fulcro do trabalho será uma seleção de discursos que
transformaram e transformam um dado evento da história acreana em mito,
sacralizando certos termos, imagens e personagens constituindo uma teia mental da
representação do acreano.
O trabalho não ficará preso a um recorte temporal, embora este venha a ser
definido para atender exigências acadêmicas. Esta escolha em não prender-se ao
recorte temporal é para evitar transformar o tempo em uma camisa de força. Deseja-
se a liberdade de passear pelo tempo e pelo espaço de modo a problematizá-lo,
com o cuidado de não cair em anacronias e/ou incoerências históricas.
A motivação para este trabalho veio da própria academia. Professores
conseguiram despertar uma compreensão sobre o evento estudado, a partir de
relações político-sociais do presente. É este o principal motivo pelo qual a
terminologia “Revolução Acreana” aparecerá por todo esse trabalho grafada entre
aspas, partindo da compreensão de que o evento não se constituiu como tal. Ideia
essa que será melhor abordada no capítulo três desta obra.
Este trabalho está dividido nesta apresentação e em mais três capítulos,
assim como, posterior considerações finais. No primeiro dos capítulos o foco será a
construção discursiva de uma identidade acreana reforçada e ressoada
constantemente pelas diversas imagens, locais e representações mentais que
alimentam um projeto de poder. Marilena Chauí dará força nessa parte do texto com
a sua obra Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. Em especial as
reflexões construídas pela filósofa acerca do semióforo como um discurso que
constrói e molda a nação ideal. O discurso produz uma imagem, um sentimento que
se entranha no indivíduo e o faz sentir-se parte homogênea de um conjunto
altamente diversificado. Já o semióforo é um signo, uma simbologia que assegura e
alimenta repetitivamente o eco desse discurso.

9
Inevitavelmente, e com certeza não se deseja diferente, a Análise do
Discurso permeará esse trabalho em todas as suas páginas. Mesmo naquelas em
que ele não apareça tão evidente. Aliás, é exatamente os diversos discursos da
“Revolução Acreana” ontem e hoje que materializam essa pesquisa. Nesse trabalho
tem-se a pretensão de analisar algumas das diversas obras e/ou artigos que
discursam sobre a “Revolução Acreana” no tempo passado, mas principalmente no
tempo presente.
Se o foco é a identidade um apoio fundamental para essa análise é a obra
de Zygmunt Bauman, Identidade. Bauman dará uma contribuição rica, precisa e
eloquente a esse trabalho.
O objetivo é fomentar um debate inicial que está entrando em cena somente
agora na historiografia acreana, mas também incentivar que outros possam
debruçar-se sobre o tema aprofundando-o, ampliando-o e corrigindo-o no que
se fizer necessário.
O segundo capítulo vai deter-se de uma maneira mais específica na
produção do discurso escrito e falado. O discurso oficial estará em evidência. Outra
abordagem na mesma perspectiva será o marketing discursivo que nasce a partir
das diversas conjunções oficiais de um discurso que busca no passado a glória para
firmar no presente valores, práticas e mentalidades da sociedade acreana.
Foi construída uma teia mental de tal maneira que se for perguntado a
qualquer transeunte o que mais lhe orgulha em ser acreano ou, viver no Acre, de
alguma maneira será dada por resposta o passado. Alguns, possivelmente,
responderão usando a frase “o Acre é o único estado da nação que escolheu ser
brasileiro”.
Alguns empresários locais entraram na onda do “orgulho acreano” e criaram
os slogans de suas empresas com a mesma motivação. Estes também aparecerão
por aqui na análise do discurso. Nada mais forte que ter “orgulho de ser acreano1”,
“mais acreano impossível2” ou ser “tão acreano quanto você”.
O capítulo terceiro vem com a proposta do contra-discurso construindo outro
olhar sobre a “Revolução Acreana”.

1
Este slogan pertence ao marketing da rede Supermercados Araújo que no tempo em que esta obra
foi sendo escrita passou a usar outro slogan.
2
Slogan pertencente ao Supermercado Gonçalves que deixou de utilizá-lo no período em que este
trabalho estava sendo produzido.

10
Não há nenhuma intenção de construir uma verdade, mas sim de possibilitar
uma reflexão íntima quanto ao uso do discurso e a quem ele serve.
Neste capítulo se emendará de uma forma mais conceituada o fio da meada
analítica que se constrói na análise do discurso proposto. Aqui residirá a alma do
trabalho no rumo da desconstrução e problematização do mito fundador do Acre, a
“Revolução Acreana”.
É a busca constante do papel social do historiador e/ou professor de história
que precisa compreender sua função na direção do “pensar certo”, conforme ensina
Paulo Freire. É certo que há uma filosofia de poder por detrás dessa conjuntura
discursiva, mas também é certo que sempre haverá. Já foi dito por Foucault:
“estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis”. (2008a).
Uma breve consideração pessoal a respeito do trabalho empreendido
constará ao fim da obra no intuito de colocar um ponto, mesmo que não definitivo
nas ilações apresentadas.

11
“Inspirado na força dos revolucionários, no exemplo dos autonomistas e nos ideais
de Chico Mendes, é que estamos trabalhando.”
Governador Jorge Viana
Jornal Página 20, 19.11.2003

Capitulo I

1. Um olhar para o discurso imagético – o semióforo como discurso na


construção/ reinvenção de uma conjuntura social

Este capítulo tem o propósito de estabelecer um olhar sobre alguns dos


diversos ícones discursivos que foram plantados no espaço social da cidade de Rio
Branco. Estes ícones ecoam um dado discurso. Alimentam uma política de governo
e estruturam uma teia mental dentro do conjunto social que a reinventa e a
reintroduz no seio discursivo.
Não há uma discursividade pura. Aquele que a emite, faz com um propósito,
embora nem sempre claro: a ascensão ao poder e/ou sua manutenção. Aquele que
a decodifica a faz imbuído de seus valores, crenças e ideologias; e a retransmite, às
vezes, cheia de novas semânticas, também fazendo um exercício de poder.
Foucault, em a Microfísica do Poder, afirma:

“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é


simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz
não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao
prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo
como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social
muito mais do que uma instância negativa que tem por função
reprimir...” (FOUCAULT, 2008b. p. 8).

A ideia em perseguir esta lógica analítica está na força que tem o discurso.
Força esta que vem intensificada, no caso específico deste trabalho, pela fundação
da identidade do acreano, registrando-se que nos últimos anos (2002 – 2006) este
discurso vem sendo resignificado, de modo a receber uma nova interpretação.
Isto vem sendo feito pelos diversos mecanismos que são próprios das
relações de poder que estão emitindo e recriando esse discurso. Na academia
debate-se muito quanto às relações de poder que são traduzidas a partir de um
12
discurso. Todavia, Foucault alerta que: “... se lhe ocorre ter algum poder, [o discurso]
é de nós, só de nós, que lhe advém” (2008a, p. 7).
Ora, talvez haja tratados de como se deve direcionar o olhar em torno da
questão do discurso, das relações de poder, das construções sociais de identidade,
etc. Mas é preciso compreender acima de tudo que toda a significação dada a
qualquer transmissor de discurso é ninguém menos que o conjunto social que lhe
atribui. Afinal, os ícones imagéticos que serão aqui apontados e resignificados
através de um olhar, só estão aqui pelo sentido que lhes foi atribuído. Eles não estão
nas praças para o simples embelezamento dos espaços urbanos. Estão pelo sentido
que adquirem e (re)transmitem. Pois, estas práticas discursivas constroem e
construíram nas pessoas uma teia mental de significações diversas, significações
essas que lhes permitem envolverem-se nesse processo produtivo do discurso.
É preciso aceitar que não há uma sociedade pura no sentido mais intenso do
termo. Portanto, nada que é produzido em uma sociedade está livre da sua
inevitável contaminação social. Estes ícones afirmam uma condição cultural de um
dado grupo, mas não encerram sua ideologia, valores e/ou crenças. Conforme Silva
e Silva no seu Dicionário de Conceitos Históricos, quanto ao termo ideologia há uma
compreensão que bem se assenta às discussões que se traz a partir destas ilações.
Assim, “Os estudos culturais consideram que, mesmo na indústria cultural, os meios
de comunicação de massa não expressam um único universo ideológico, mas sim
uma pluralidade de ideologias e discursos” (SILVA e SILVA, 2010, p. 206).
Não se está tratando aqui de uma ideologia que é compreendida como
dominante, ou seja, uma ocultação da realidade.
Certo ícone pode ser colocado em evidência chamando para uma
interpretação direcionada. Porém, nada pode garantir que não surgirão outras
compreensões acerca do mesmo objeto. Afirma-se, também, que assim será.
Portanto, nenhum discurso é hegemônico/dominante em si.
Não é possível postular que a compreensão de um indivíduo está unicamente
condicionada ao que se deseja que ele compreenda. Como também não se postula
a ideia de que há uma sincronia nas interpretações de um conjunto de pessoas,
simplesmente, por se enquadrarem neste conjunto. Seria absurdo, pois, negaria a
capacidade individual e inteligível de um ser humano.
Nesse sentido, as considerações que serão apresentadas condizem com um
olhar que tem aceitação cognitiva entre diversas pessoas, como também haverá

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uma negação por parte de outras. É bom que seja assim, pois não se deseja uma
compreensão alienada, única, absoluta e dogmática. Pretende-se tão somente
evidenciar um debate que precisa acontecer.
Para melhor ilustrar essas considerações serão apresentados alguns desses
ícones, começando pelo que se apresenta na fotografia abaixo.

Figura 1 - Escultura de Haruyoshi Ono na "Praça da Revolução" em


homenagem aos heróis anônimos da "Revolução Acreana". Acervo pessoal.

Esta é a primeira imagem escolhida. Parece que de tanto os historiadores


criticarem que a História Oficial omite as pessoas mais simples, emudece
determinados grupos sociais e simplesmente relega ao esquecimento outras facetas
dessa história, o governo, principal promotor desta maneira de ver a história,
resolveu homenagear os sujeitos marginalizados da história conforme a escultura
acima e a placa apresentada na página seguinte.

14
Figura 2 - Placa ao pé da escultura que homenageia os anônimos
da "Revolução Acreana". Acervo Pessoal

Esta é a placa que registra o feito. Cinco linhas cavadas em aço para
homenagear os “heróis anônimos que deram suas vidas pela causa acreana”.
Continuam anônimos. Esta escultura não resgata em nada os silêncios da
“Revolução Acreana”. Continuam tão anônimos quanto a própria escultura que
ninguém sabe o que é.
É verdade que já se passou pouco mais de um século do evento em questão.
Assim, ainda é perfeitamente possível dar voz e vez a muitos desses heróis. Alguns
relatos como que ecoam ainda hoje nas ruas, praças e ônibus destas terras. Muito
do “ouvi meu pai dizer...” não ganha crédito nem do governo, nem das instituições
de preservação da memória, e menos da academia. Quando não, chamam qualquer
transcrição de uma entrevista de História Oral e a isso direcionam seus esforços
como o máximo possível a ser feito por essas pessoas. Embora, saiba-se que a

15
História Oral não é isso. Há que se perguntar por que esta e não outra pessoa foi
evidenciada no contexto oficial dessa história?
Observe-se bem o texto abaixo, cavado em mais uma placa e afixada no
mastro da bandeira, próximo à gameleira.

Para os que ainda duvidam de que há um discurso sendo construído nos


meandros dessa história, a referida placa permite repensar a respeito.
Observe-se: “Há cem anos um brado de liberdade tomou conta dos altos rios
Figura 3 - Placa afixada no Monumento da Revolução, no calçadão da
e Gameleira em Rio Branco. Acervo pessoal.
Destaque-se o sentimento patriótico de “Italo 100% gato” que se eternizou na
História.
16
inaugurou a fase mais radical da Revolução Acreana”. Que brado de liberdade foi
esse, se os nordestinos estavam nas incontestáveis terras bolivianas? É necessário
repensar, diante desse quadro, qual é o conceito de liberdade que pulula na mente
das pessoas e do governo. É visível a distorção histórica fomentada pela
historiografia oficial. Está aos olhos de todos no mastro da bandeira que tremula ao
“pé da gameleira”, assim: “Quando, no início de 1899, os bolivianos tentaram
estabelecer seu governo nas terras acreanas, os brasileiros que aqui viviam
pegaram em armas e resistiram ao domínio estrangeiro...”
Chega a ser um descabido insulto aos acreanos. Todos sabem que os
estrangeiros eram os nordestinos que estavam fora de terras brasileiras, pois estas
que enquadram o Acre eram bolivianas. É também um desrespeito à memória dos
bolivianos, transformando-os em estrangeiros dentro de sua própria pátria. Todavia,
é consciente que também os “derrotados” têm a sua versão da História.
Marilena Chauí já fez o alerta quanto a essa estratégia da historiografia em
personificar e evidenciar formas de controle e de poder. É o que ela chama de
semióforo. Cada um desses ícones que estão plantados em determinados espaços
do território acreano são exemplos de semióforos. E o são também determinadas
conjunturas mentais que estão engendradas na mente das pessoas. É assim a ideia
de nação, pátria, acreanidade, florestania, entre outras.
A própria Chauí ajuda nessa compreensão.

Existem alguns objetos, animais, acontecimentos,


pessoas e instituições que podemos designar com o
termo semióforo. São desse tipo as relíquias e oferendas,
os espólios de guerra, as aparições celestes, os meteoros,
certos acidentes geográficos, certos animais, os objetos de
arte, os objetos antigos, os documentos raros, os heróis e a
nação .
Semeiophoros é uma palavra grega composta de duas
outras: semeion "sinal" ou “signo", e phoros, "trazer para a
frente", "expor", "carregar", "brotar" e "pegar" (no sentido
que, em português, dizemos que uma planta "pegou", isto é,
refere-se à fecundidade de alguma coisa ). Um semeion é um
sinal distintivo que diferencia uma coisa de outr a, mas é
também um rastro ou vestígio deixado por algum animal ou
por algu ém, permitindo segui-lo ou rastre á-lo, donde
significar ainda as provas reunidas a favor ou contra
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alguém. Signos indicativos de aconteciment os naturais -
como as constelações, indicadoras das estações do ano -,
sinais gravados para o reconhecimento de alguém - como
os desenhos num escudo, as pinturas num navio , os
estandartes -, presságios e agouros são também semeion...
Inicialmente, um semeiophoros era a tabuleta na estrada,
indicando o caminho; quando colocada à frente de um edifício,
indicava sua função. Era também o estandarte carregado pelos
exércitos, para indicar sua proveniência e orientar seus
soldados na batalha. Como semáforo, era um sistema de sinais
para a comunicação entre navios e deles com a terra. Como
algo precursor, fecundo ou carregado de presságios, o
semióforo era a comunicação com o invisível, um signo vindo
do passado ou dos céus, carregando uma significação com
consequências presentes e futuras para os homens. Com esse
sentido, um semióforo é um signo trazido à frente ou
empunhado para indicar algo que significa alguma outra coisa
e cujo valor não é medido por sua materialidade e sim por
sua força simbólica: uma simples pedra, se for o local onde
um deus apareceu, ou simples tecido de lã, se for o abrigo
usado, um dia, por um herói, possuem um valor incalculável,
não como pedra ou pedaço de pano, mas como lugar sagrado
ou relíquia heróica. Um semióforo é fecundo porque dele
não cessam de brotar efeitos de significação”. (CHAUÍ,
2000, p. 11). (sic) (Grifo meu)

Essa é a discussão que se deseja nesse ponto do trabalho. Evidenciar alguns


dos diversos signos que foram plantados no contexto da história acreana. Signos
como os dois já apresentados e outros que se mostrarão no decorrer desse capítulo.
Todos estão bem à mostra e assim precisa ser, “pois é nessa exposição que
realizam sua significação e sua existência...” (CHAUÍ, 2000, p. 12). Um desses
signos está bem no centro da capital acreana. Todo o espaço da Praça central da
cidade está carregado de significação. Começa pelo nome do referido espaço que já
foi modificado algumas vezes para servir a uma conjuntura política de cada
momento, conforme pode ser observado nas páginas seguintes.

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De acordo
com esta placa, o
nome da Praça é
“Rodrigues Alves”,
em homenagem
ao presidente que
governou o país
no período de 15 de novembro de 1902 a 15 de novembro de 1906. Ou seja,
exerceu seu mandato no período do conflito entre os nordestinos e os bolivianos. Foi
Figura 4 - Placa afixada ao coreto da Praça central de Rio Branco que registra o primeiro
nome que a mesma recebeu. Acervo pessoal.
sacralizado e heroificado nesse monumento.
A mesma praça ficou popularmente conhecida como “Praça Plácido de
Castro” devido à estatueta plantada ali.

Dá a impressão que a história se


repete,
embora
isso não
seja
possível.
É como
diz o
professor
Valdir

Figura 5 – Letreiro que está em baixo dos pés da estátua de Plácido de Castro erguida no governo de José
Augusto em 1964. Acervo pessoal.
Calixto/UFAC respondendo certa vez a seus alunos o que seria história. “A história é
o sucesso sucedido sucessivamente sem cessar.”

19
E, mais recentemente, a praça foi rebatizada, agora com o nome de “Praça da
Revolução”, e, claro, sem perder a oportunidade de manter vívido o nome do “herói”
para assim justificar a renomeação do espaço. Perceba-se mais um semióforo.

Figura 6 - Placa que renomeia a Praça Rodrigues Alves em "Praça da Revolução CEL. PLÁCIDO DE
CASTRO". Acervo pessoal
uma nítida intenção em reelaborar a história do Acre a partir de uma nova conjuntura
identitária de um projeto de poder porque os semióforos “...são coisas providas de
significação ou de valor simbólico, capazes de relacionar o visível e o invisível”.
(CHAUÍ, 2000, p. 12). Ou seja, é só entrar no ônibus da história e reconduzir sua
20
direção, evidenciando novos personagens que aparecem como promotores de uma
“história nova” para um novo Acre. Assim, cada semióforo desse é “signo de poder e
prestígio” (CHAUÍ, 2000, p. 13).
Esse esforço de recondução da história é uma ação consciente de diversos
interesses individuais e/ou institucionais de ficar na e para a história. É uma tentativa
de se fazer, e/ou, se fazerem herói(s).
O problema está na maneira como as coisas acontecem. Está em quais
grupos e/ou pessoas tomarão este ônibus. Quem foi perguntado sobre a mudança
do nome da praça? Que esforço foi empreendido em buscar nomes e registros das
pessoas dadas como anônimas durante o conflito entre brasileiros e bolivianos?
Repete-se, insistentemente, continuam anônimos. E quem foi evidenciado por detrás
disso? Pessoas que nem sequer existiam naquele período. Pessoas que projetaram
um ideal de dominação ideológico, político e social.
O semióforo falseia um sentimento de comunhão e identidade que não existe
de fato. Não se pode compreender um conjunto social como seres passivos. É
evidente que há um projeto de conjuntura histórica implementado. Mas, da mesma
forma, não é tão claro que todos o tenham assimilado de bom grado e/ou da mesma
forma. Prova disso é este trabalho que procura olhar por outro ângulo e estabelecer
uma nova possibilidade cognitiva dessa conjuntura social. São as resistências.
Todavia, a história oficial tem consciência dessa ilustração resistente. Assim,
reage com novas construções que, inevitavelmente mexem com o orgulho e o
sentimento das pessoas. Exemplifica esse contexto o surgimento de neologismos
regionais que dizem além aos seus próprios conceitos. É o caso de FLORESTANIA
e ACREANIDADE. Estes conceitos serão abordados no capítulo 2.
Outros exemplos de semióforos são apresentados a seguir.

21
Hino Acreano

Que este sol a brilhar soberano Lança um manto sublime de luz


Sobre as matas que o vêem com amor Fulge um astro na nossa bandeira
Encha o peito de cada acreano Que foi tinto no sangue de heróis
De nobreza, constância e valor... Adoremos na estrela altaneira
Invencíveis e grandes na guerra, O mais belo e o melhor dos faróis
Imitemos o exemplo sem par Vamos ter como prêmio da guerra
Do amplo rio que briga com a terra Um consolo que as penas desfaz
Vence-a e entra brigando com o mar Vendo as flores do amor sobre a terra
3
Fulge um astro na nossa bandeira E no céu o arco-íris da paz
Que foi tinto no sangue de heróis As esposas e mães carinhosas
Adoremos na estrela altaneira A esperarem nos lares fiéis
O mais belo e o melhor dos faróis Atapetam a porta de rosas
Triunfantes da luta voltando E cantando entretecem lauréis
Temos n'alma os encantos do céu Fulge um astro na nossa bandeira
E na fronte serena, radiante, Que foi tinto no sangue de heróis
Imortal e sagrado troféu Adoremos na estrela altaneira
O Brasil a exultar acompanha O mais belo e o melhor dos faróis
Nossos passos portanto é subir Mas se audaz estrangeiro algum dia
Que da glória a divina montanha Nossos brios de novo ofender
Tem no cimo o arrebol do porvir Lutaremos com a mesma energia
Fulge um astro na nossa bandeira Sem recuar, sem cair, sem temer
Que foi tinto no sangue de heróis E ergueremos, então, destas zonas
Adoremos na estrela altaneira Um tal canto vibrante e viril
O mais belo e o melhor dos faróis Que será como a voz do Amazonas
Possuímos um bem conquistado Ecoando por todo o Brasil
Nobremente com armas na mão Fulge um astro na nossa bandeira
Se o afrontarem, de cada soldado Que foi tinto no sangue de heróis
Surgirá de repente um leão Adoremos na estrela altaneira
Liberdade é o querido tesouro O mais belo e o melhor dos faróis.
Que depois do lutar nos seduz Letra: Francisco Mangabeira
Música: Mozart Donizetti
Tal o rio que rola, o sol de ouro
3
O trecho em destaque serve para indicar o
estribilho da canção.
22
O hino acreano, por si só, merece um estudo bem mais detalhado e profundo
enquanto referência, identidade e ideologia. Aqui não cabe esse estudo. Mas, seria
uma omissão grave não trazê-lo à evidência nesse trabalho pelo simples fato de
este tratar-se de um semióforo justificador do mito fundador do Acre.
A professora Maria José Bezerra da Universidade Federal do Acre em sua
tese aponta: ”A ‘Revolução Acreana’ transforma-se no discurso fundador do Acre e a
construção da identidade do Acre como território brasileiro se insere no universo
da tradição inventada, tendo como simbologia de maior expressão o hino
acreano”. (BEZERRA, 2006, p. 65) (Grifo meu).
Todas as sociedades do mundo contemporâneo estão organizadas sob uma
forma de governo. Quem governa é sempre o Estado. Todo Estado tem em comum
os símbolos de uma bandeira e um hino que remetem a um passado heróico.
Mas, toda sociedade assim constituída é uma sociedade autoritária que busca
na sua fundação pontos de convergência e “homogeneização” social. O sentimento
patriótico nada mais é que uma submissão a esse estado de sociedade.
O hino acreano não é diferente. Ele promove uma subjugação mental do
indivíduo e transforma pessoas de um tempo passado em heróis de modo a
sacralizá-los. Perceba-se que o desejo é de um acreano cheio de “nobreza,
constância e valor”. Que nobreza é essa em estar abandonado à própria sorte e
forçado a defender a própria vida num campo de batalha que não é o seu? Que
valor há nisto? Mais uma vez a história é invertida. “Mas, se audaz estrangeiro...”.
Estrangeiros eram todos os não-bolivianos que ali viviam.
“O culto ao herói sempre justifica um contexto autoritário.” (Feijó, 1994, p. 42
apud Carneiro, 2008, p. 92). A citação clama. Um simples instante pelas ruas do
Acre, principalmente em sua capital, é suficiente para que se perceba esse culto ao
herói.
Acontecem situações que chegam mesmo a serem cômicas. Pois parece que
nada mais do que acontece no Acre está desligado de seu momento de fundação.
Força-se uma relação do tempo atual com o tempo passado numa delirante
anacronia. Basta ver a placa que está na recepção da Unidade de Pronto
Atendimento do Tucumã (UPA), uma espécie de Posto de Saúde avançado.

23
Figura 7 - Placa de entrega da UPA Tucumã em Rio Branco. Acervo pessoal

Observe que bem no alto da placa está escrito novembro de 1903. Uma
clara referência ao mito fundador do Acre, a “Revolução Acreana”. De novo, a
instituição governamental volta à origem para justificar seus feitos. Reconfigura a
realidade tornando suas obras em atos históricos. É uma tentativa clara de ficar para
a história mesmo que:

“Um século mais tarde, a verdade a mais elevada já não residia


mais no que era o discurso, ou no que ele fazia, mas residia no
que ele dizia: chegou um dia em que a verdade se deslocou do
ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio
enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua
relação a sua referência... separando o discurso verdadeiro e o
discurso falso.” (FOUCAULT, 2008a, p.15). (sic)

Foucault ajuda a compreender de forma clara que o discurso ao longo do


tempo vai sendo transformado, para ecoar aquilo que de fato se quer dizer. Vai além
da semântica das palavras. Os promotores do discurso adquirem uma consciência
histórica e apropriam-se de fatos do passado para justificar “grandes feitos” no
tempo presente.
Fica evidente que no Acre se está construindo toda uma conjuntura mental,
social, e, via de consequência, histórica para a permanência de um dado grupo no

24
poder, assim como, e isso é o que mais lhes interessa, permanecer na história,
ocupando o seu panteão.

25
“O mito fundador acreano não se firma com a chegada de Neutel Maia no final do
século XIX; e, sim com a luta entre brasileiros e bolivianos que finda com a
assinatura do Tratado de Petrópolis em 1903.”
QUEIRÓZ, Francisco Aquinei Timóteo, 2006

Capítulo II

2. A “Revolução Acreana” ontem e hoje: os ecos de uma prática discursiva

Este capítulo tem a pretensão de estabelecer um olhar sobre os discursos da


“acreanidade”. O foco da análise é o discurso que (re)afirma em diversos momentos
da história acreana, de modo peculiar, a mais recente que o Acre é brasileiro por
opção.
Esta análise caminhará, também, sobre a formação identitária deste povo a
partir da concepção já aludida, assim como, dos conceitos de “acreanidade” e
“florestania”.
Para tanto, toma-se para esta análise discursos emitidos por algumas das
autoridades acreanas. Esta escolha se faz, primeiramente, pela facilidade de
encontrar estes discursos na internet, TV, rádios e jornais impressos.
Também não será desperdiçada a oportunidade que se apresentar em
registrar nesse trabalho o discurso já referido quando emitido por pessoas fora da
conjuntura de autoridades. Porém, não há nenhuma pretensão desmedida em torno
da temática, por entender que a mesma precisará ser mais bem aprofundada em
outro momento da formação.
Este viés da história é um dos mais fascinantes por tratar das relações
discursivas que nascem em contexto social que, por natureza, não é inerte. A força
desse capítulo da obra está no contraditório da construção semântica versus
construção discursiva que envolve os termos florestania e acreanidade, assim
concebidos em contexto de discurso.
Esta análise encontra forte legitimidade dentro dessa corrente historiográfica.
Foucault escreve: “... o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou
os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual
nos queremos apoderar” (2008a, p. 10).
Essa talvez venha ser a principal conclusão dessa parte do trabalho: todo o
discurso construído, nessa época e em qualquer outra tem por finalidade a projeção
de um certo grupo social, de uma categoria ideológica e principalmente de um
projeto de poder. Não é diferente no contexto da história do Acre.
Nesse contexto, o discurso que foi gestado e (re)afirmado várias vezes
sempre que oportuno sacralizou uma conjuntura mental quanto à identidade do povo
acreano. Veja por exemplo, uma afirmação do governo do Estado em um desses
momentos oportunos. “O Tratado de Petrópolis foi, antes de tudo, uma conquista
que surgiu da vontade do povo acreano de ser brasileiro e não pertencer a
Bolívia”. (sic). Governador Jorge Viana, Jornal Página 20 de 16 de novembro de
2003. (Grifo meu).
A primeira questão está na conformação social de que povo acreano é esse a
quem o discurso se refere. Todo discurso ufanista tem pigmentos xenofóbicos. Hall
apud Carneiro (2008, p. 46) escreve: “As identidades nacionais não são coisas com
as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da
representação”.
Assim, toda construção identitária traz em si o problema da negação do outro.
A etiqueta do diferente, do “estrangeiro”, condiciona o outro a uma natureza fora do
humano, ou no mínimo, a uma condição de estranheza.
Zygmunt Bauman reitera: “A ideia de ‘identidade’, e particularmente de
‘identidade nacional’, não foi ‘naturalmente’ gestada e incubada na experiência
humana, não emergiu como um ‘fato da vida’ auto-evidente”. (2005, p. 26).
A todos que são caracterizados de acreanos, no discurso do então
governador e de modo geral a todos que viveram na região que condiz atualmente
ao Acre perfazem-se na antítese de todos os sujeitos sociais que ali viviam como
cearenses, paraibanos, alagoanos, maranhenses, amazonenses, paraenses, índios,
bolivianos, espanhóis, italianos, turcos, sírios, libaneses, árabes, portugueses, entre
outros.
Como ensina Carneiro, “O Acre é uma invenção discursiva”. Obviamente
assim também se enquadra a gênese de qualquer comunidade, pois não há um
marco claro, coeso e bem definido do nascimento de um grupo social, se é que há
algum marco.
O nordestino, na sua condição de brasileiro não tinha pretensões de fixar-se
nas terras acreanas. Todo o seu processo de resistência e força de sobrevivência
firmava-se em um dia retornar ao seu espaço social. Bastos afirma que:

“Domando a nova natureza, o nordestino não buscava o


Canaã. Buscava mesmo a Califórnia. No tempo da seringa o
látex tinha celebridade de ouro... Tangido pela sêca, buscava o
Acre como refúgio; mas esperava voltar, logo que a
inclemência cósmica o anistiasse. Sonhava, contudo,
regressar ao sertão, ébrio de distâncias e farto de
pecúnia...”. (sic) (1940, p. 13). (Grifo meu).

Fica evidente que no contexto do primeiro discurso, o do então governador


Jorge Viana, este se caracteriza de modo falacioso. Os brasileiros não precisavam
não querer pertencer à Bolívia, pois não o eram. Os nordestinos certamente fizeram
sua opção por sair de sua terra em direção ao último oeste brasileiro, mas também
desejavam o seu retorno.
Na mesma entrevista para o Jornal Página 20 o então governador volta a
afirmar referindo-se aos primeiros povos que estavam nessas terras quando do
conflito entre brasileiros e bolivianos: “É um povo que não é brasileiro por acaso.
Um povo que lutou, pegou em armas para fazer parte do Brasil, para ser
reconhecido como brasileiro.” (idem, ibidem). (Grifo meu).
Novamente é preciso registrar que, em sua maioria, este povo que pegou em
armas já era brasileiro. E assim o fez não por sentimento patriótico, mas para
defender a própria vida, defendê-la dos bolivianos e, às vezes, do próprio Plácido de
Castro, conforme ensina Carneiro: “... o coronel conhecia bem as ‘convicções
revolucionárias’ de seus comandados. Por isso, teve que liderá-los ‘pela espada e
pelo revólver’”. (2008, p. 53).
E o mito da “acreanidade” vai e vem numa perfeita condição atemporal.

“A História do Acre não está somente relegada aos livros


escolares, à mera lembrança de fatos, datas e eventuais
heróis. No Acre, a História está viva na memória de seu povo,
no esforço de seus habitantes para tornar cada vez mais real o
sonho dos pioneiros, a esperança dos que lutaram de armas na
mão para fazer brilhar a rubra estrela altaneira, "o mais belo e o
melhor dos faróis".
Os 100 anos do Tratado de Petrópolis são a oportunidade de
reafirmar os ideais de coragem e determinação que fizeram
com que milhares de brasileiros decidissem construir na
Amazônia Ocidental um pedaço de sua pátria, lutando contra
aqueles que desejavam já naquela época a internacionalização
de nossas riquezas naturais.” Jornal Página 20, 19 de
novembro de 2003 (Grifo meu).

Esse discurso tem influenciado a mídia local que reverberado pela história
oficial vem conseguindo atingir proporções nacionais. É um senador acreano que o
proclama da Tribuna Federal: “... O Acre tem essa história tão peculiar. É o único
Estado deste País que se tornou brasileiro por opção de sua gente.” (Senador
Geraldo Mesquita Júnior/PSB4 – Acre). (Grifo meu).
Ou mesmo o presidente do Senado, por ocasião da “Semana do Acre”:

“O presidente do Senado, Renan Calheiros, abriu nesta terça-


feira (14) a exposição ‘Semana do Acre - Estado da Florestania
na Amazônia Brasileira’, em que, por meio de fotos e objetos, a
história desse estado é reconstituída. Estiveram presentes
também os senadores Tião Viana (PT-AC), Geraldo Mesquita
Júnior (PSOL5-AC), Sibá Machado (PT-AC), Arthur Virgílio
(PSDB-AM) e João Capiberibe (PSB-AP), além do governador
do estado, Jorge Viana (PT). - O Acre é o único estado do
país que é brasileiro por opção, pois lutou para pertencer ao
Brasil. Sua extensão territorial contrasta com a grandeza da
sua história - afirmou Renan.” (Grifo meu).

Ou ainda o historiador Gaunter Axt que escreveu em seu blog:

“De fato, o Acre só é brasileiro porque lá estourou uma


revolução composta por caboclos, descendentes de pobres
retirantes nordestinos, que colonizaram aquela região na
esteira do ciclo da borracha, no século XIX... Pois aquela

4
Discurso proferido em 2003 quando o então senador estava filiado ao PSB.
5
Esta matéria foi publicada pela Agência Senado em 2005 quando o mesmo senador já estava no
PSOL.
gente, combatida pelo governo boliviano e pelo governo
brasileiro, decidiu pertencer ao Brasil”. (Grifo meu).

Com esse discurso que vai se constituindo ao longo da história, entre um ir e


vir dialógico se vai conseguindo tecer uma identidade. É a construção autoritária,
conforme ensina Chauí. Ou como ensina Hall apud Carneiro: “Se sentimos que
temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque
construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora narrativa
do eu”. (sic). (2008, p. 47).

2.1O discurso da “acreanidade:” um upgrade xenofóbico

No contexto até aqui evidenciado há uma clara intenção de, a partir de uma
relação histórico-social de fundação do Estado do Acre, construir a identidade do
povo acreano remetendo sempre a um “passado glorioso”.
Desta feita, esse “passado glorioso” parece justificar diversas ações que
acontecem no tempo presente. Ações estas que encontram respaldo no que, nos
últimos anos, vem sendo alcunhado pelo neologismo acreanidade.
O termo aqui vem ser evidenciado para além de uma construção semântica,
ou seja, do seu significado em si, mas, sobretudo, pelo significado que evoca uma
origem aureolada e mistificada do povo acreano.
Acreanidade é uma construção negadora de acreanismo, conforme ensina
MORAIS:

“A ‘acreanidade’, termo que define a identidade acreana, foi


criado pelo Governo da Floresta em contraste com o termo
acreanismo, relacionado ao movimento da elite local, que em
diferentes momentos históricos acionou um discurso identitário
para reivindicar junto ao governo federal a criação do Estado
do Acre.” (MORAIS, 2008, p. 16).

O fato não reside simplesmente na negação de uma conjuntura política


anterior. Mas, o termo encerra em si uma negação a um importante grupo social de
pessoas que vivem no Acre e que por uma simples questão de nascimento, “não são
acreanas”. Pessoas que são importantes não por qualquer possibilidade de situação
social, mas sim, pelo simples fato de serem pessoas e que nessa condição
contribuem para a história da região. O termo torna “estrangeiro” um grupo de
brasileiros que construiu toda uma vida no referido espaço. A acreanidade atrai para
si uma exclusividade social que prejudica a relação humana que deve transcender à
verbalização do termo.
Desta feita, não se pode negar que o Acre é uma formação social diversa.
Índios, cearenses, paulistas, cariocas, maranhenses, alagoanos, pernambucanos,
paraibanos, goianos, mineiros, peruanos, bolivianos, portugueses, espanhóis,
italianos, sírios, libaneses, enfim... são diversas as origens do povo que constitui o
Acre, tanto no “passado glorioso” quanto no tempo atual.
O respeito e valorização à cultura do outro, aos seus valores sociais e à sua
história, independe de uma etiqueta identitária. Aliás, esse talhar de uma identidade,
em qualquer sociedade e de modo bem forte no Acre, tem o seu propósito, conforme
assinala Carneiro: “... é o Estado que mais colhe com essa política: ganha a
admiração e a passividade do povo. Ninguém seria capaz de se rebelar contra o
herói, nem contra aqueles que se dizem herdeiros dele.” (2008, p 57-58). Nada
foge a uma construção de interesses. É por isso que a identidade ganha uma força
sagrada e por isso mesmo, muitas pessoas não aceitam as ponderações até aqui
construídas.
Não se pode negar, por outro viés, que o sentimento de unidade é balizador
das relações sociais, mas também, se constitui em erro afirmar que tal unidade está
presente nesse momento da origem, mas, “Apesar de todo o esforço dos chefes da
revolução, o que parece é que a unidade foi uma construção discursiva póstuma...”
(2008, p. 54) (sic) (idem.).
Outro problema, específico, mas não único, da “acreanidade” é a
consequência histórica que ela encerra em si. Brasileiros e bolivianos travaram uma
guerra, isso é fato. Assim, é preciso evidenciar que para o contexto, a motivação
para o enfrentamento não foi o patriotismo, pelo menos da parte dos brasileiros.
Carneiro fundamentado em Leandro Tocantins escreve: “... a grande desgraça da
Bolívia foi ter no Acre grandes riquezas. Sem a borracha, os ‘patriotas’ não teriam
lutado ‘heroicamente’ pelas terras”. (2008, p. 55) (idem.).
A história oficial ou qualquer historiografia que se preze não pode apontar a
seca como fato preponderante para a invenção do Acre, pois, se é assim, precisa-se
dar espaço a tão “importante” personagem na identidade do acreano. Ora, acreditar
nisso, é tirar do sujeito sua condição humana, seus interesses, suas particularidades
e de modo mais dramático sua existência. A seca é um fato, mas maior que ela é o
homem.
Mais um problema da identidade acreana fica evidenciado pela pergunta: de
quais acreanos se está falando? Ao que parece o Acre acaba sendo reduzido ao
Vale do Acre, em especial à sua capital. De novo, Carneiro é incisivo:

“Os documentos históricos são enfáticos: a ‘Revolução’


liderada pelo gaúcho limitou-se ao Vale do Rio Acre: Xapuri,
Basiléia, Rio Branco e Porto Acre. Como diz TOCANTINS
(2001, V. II, p. 101): ‘e quando se diz rio Acre é o mesmo que
falar no palco da revolução, porque foi sobre o seu dorso que
se desenrolaram os fatos capitais desse movimento’”. (2008, p.
58)

É possível inferir, por meio de uma leitura histórica que os habitantes do Acre
no período “glorioso” de sua fundação não nutriam qualquer sentimento de apego
e/ou identidade ao espaço. Conforme Bastos: “A terra subornava, o senhor
oprimia...” (1940, p. 14). A leitura que o mesmo Bastos fazia do “homem acreano”
era a de um “homem sofredor, enfermo, pobre e escravizado” (idem). Ou ainda:

“No balanço dos mortos, verifica-se que os bolivianos haviam


perdido algumas centenas de homens, com a resistência,
enquanto que, além dos recrutas sacrificados com a ofensiva
armada, o Brasil perdera, ainda, cem mil sertanejos
devorados pelas febres. E este foi exatamente o preço da
conquista ocidental, durante vinte anos”. (idem, ibidem.) (Grifo
meu.).

Então, que sentimento de acreanidade é esse? Sentimento que nega o outro,


o “estrangeiriza” nos dias de hoje, outros brasileiros que simplesmente não
nasceram no Acre. Sentimento que nega a própria história tão divinizada nos dias
atuais. Sentimento, conforme já evidenciado, não presente nos fundadores.
2.2. Florestania: mais um discurso mítico-ideológico6 ou florestania: a
organização do mercado vede
Em História há uma corrente de pensamento que estuda os eventos a partir
da sua constituição inventiva. O caso do Acre não foge à regra, conforme
ensina/intitula a tese da professora doutora Maria José: “Invenções do Acre – de
Território a Estado – um olhar social...”
Quanto ao termo florestania é possível estabelecer-lhe a sua invenção. Que é
um termo novo não há dúvidas. Devido à sua novidade, diversas ilações constroem-
se em torno de sua significação beirando assim, o senso comum. Todavia, Toinho
Alves, assina artigo no qual afirma ele ser o criador do termo e assim descreve sua
significação:

“...a florestania é um sentimento que pode ser expresso da


seguinte forma: a floresta não nos pertence, nós é que
pertencemos a ela... É um sentimento orientador para nossas
escolhas econômicas, políticas e sociais – e por isso inclui a
cidadania – mas orienta também nossas escolhas ambientais e
culturais – e por isso a transcende.” (Alves, s.d.)

Nesse contexto a floresta está apresentada de forma soberana, afinal, “... nós
é que pertencemos a ela...”. É claro que a apropriação do ideal de florestania pelo
governo do Estado é feita de modo a desenhar a identidade do acreano, por isso,
acreanidade e florestania são termos complementares.
O problema se torna bem maior quando se transporta toda essa conceituação
para uma sacralização da floresta. Embora, nos termos conceituais se espere uma
harmonia entre o homem e a natureza, todavia, essa harmonia pretendida esconde
todo um processo exploratório da floresta em que quem menos ganha é o
seringueiro, o extrativista, o pequeno produtor...
Morais, caminha nessa compreensão ao escrever:

“... o que tem se concretizado é um governo que explora a


floresta, um governo dos negócios sustentáveis, onde na

6
QUEIROZ, Francisco Aquinei Timóteo. O mito da acreanidade. Acessado em:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/02/345034.shtml a 14.03.2010 Em seu texto Queiroz
faz a seguinte definição de florestania: “...a Florestania é uma fala mítico-ideológica que se propõe a
criar símbolos identificatórios e ordenar discursos políticos, salvaguardando suas oposições.” (Grifo
meu).
realidade os maiores beneficiados não são os povos da floresta
e sim aqueles que sempre se beneficiaram das políticas
públicas estaduais...” (Morais, 2008, p. 179)

São distantes e mesmo contraditórias as conceituações oficiais que apontam


para o termo florestania. O “governo da floresta” como se auto-compreendia o
governo até bem pouco tempo, assim conceitua o temo:

“Um novo jeito de caminhar e entender a Amazônia e os povos


que nela habitam, com respeito a seu ambiente, tradições e
cultura. Este conceito se expressa num sentimento de orgulho,
respeito e responsabilidade sobre o nosso patrimônio
ambiental e cultural (Governador Jorge Viana, em matéria do
Jornal Página 20 de 04-05-2004)” IN: Morais, 2008, p. 180.

Outrora, acompanhando o raciocínio de Morais, dá para sintetizar a prática


discursiva, ou, em outras palavras, o que está além do que é dito pelo governo, em
uma pequena frase: “mercado verde” (MORAIS, 2008, p. 204).
O discurso, seja da acreanidade, seja da florestania, ou mesmo de ambos
enquanto uma política de governo não beneficia os povos da floresta, o pequeno
produtor. Que respeito é esse aos povos da floresta, se estes não são os principais
beneficiados pela “política do manejo florestal sustentável?” Que política de proteção
à Amazônia é essa que mostra todos os dias, caminhões cheios de madeiras que
servem à exportação para os mercados europeus?
Para melhor exemplificar estas ideias, veja o quadro abaixo:

Quadro 1 - Fonte: MORAIS, p. 201


Das empresas apresentadas na tabela todas têm certificação FSC para a
exploração da madeira. Mas, veja que apenas uma é de escala comunitária.
Permitindo inferir que a florestania, que tanto respeita o homem da floresta só tem
incluída uma comunidade destes povos. Todas as demais são de cunho empresarial
e que visam à exploração e fomentação do lucro somente a seus donos. Para não
ser leviano, consultada a fonte de onde Morais extrai essas informações, o site
IMAFLORA (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola)
http://www.imaflora.org há outra tabela que apresenta oito projetos de manejo
florestal comunitário que atingem um grupo de trabalhadores no universo de 260
pessoas. Muito pouco para um governo da floresta que diz promover cidadania na e
pela floresta7.
O problema desse discurso todo de acreanidade e florestania é que
cumprindo suas funções discursivas cria-se toda uma identidade acreana que
sempre vai remeter, quanto à sua origem, ao governo e, de modo mais peculiar, a
certas pessoas que o compõe desde 1999.
A discussão da identidade acreana reatualiza os heróis do passado fundador
do Acre nestas pessoas que o promovem. Vai além da instituição governo,
etiquetando-se às pessoas que assumiram essa condição temporária de governante.
Do mesmo modo, este discurso sacraliza esses indivíduos de tal maneira que eles
assumem uma condição quase divina na mente da maioria das pessoas. Assim, um
projeto de poder fica perenizado na história que vai além das pessoas e dos fatos,
tornando-se uma verdade quase incontestável. Nesse contexto, a florestania
transforma-se em um projeto de poder, economia e mentalidade que só prestigia um
grupo dominante. O extrativista, colono e pequeno produtor ficam de fora dessa
partilha.
Outra questão que merece a atenção desse trabalho diz respeito às pessoas
da cidade. O discurso de florestania se torna tão extremado que parece não haver
espaço para esse outro grupo social. Evidencia-se quase um antagonismo entre
povos da floresta e povos da cidade. Quando de fato é necessário que haja uma
relação complementar entre ambos.
Prepondera-se que há uma construção ideológica no uso desses termos. Há
um emaranhado de práticas políticas no que é chamado hoje de “resgate da

7
Segundo Alves, criador do termo, dito de uma maneira bem mais simples, florestania é ‘A cidadania
na floresta’.
identidade do acreano”. Há uma forte política de exploração da floresta que só
beneficia os grandes empresários, os grupos políticos e o mercado internacional.

2.3. Um olhar sobre identidade: mitificação, permanências e rupturas

Eliade ensina que “... o mito designa, ao contrário, uma ‘história verdadeira’...
extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo...”
(ELIADE, 2007, p. 7).
Nesse contexto a história do Acre tem muito de mito, pois há uma forte
tentativa de construir verdades ao ponto de sacralizar personagens e pessoas na
busca da origem do evento histórico. Esta sacralização reside na construção de uma
identidade de um povo que é brasileiro por opção, pois escolheu pertencer ao
Brasil.
Assim, a acreanidade e a florestania são construções míticas da realidade na
tentativa de direcionar o comportamento e as atitudes do povo acreano. A relação de
acreanidade traduz um conceito de civilidade que extrapola o campo do significado
em si criando alguns absurdos ufanistas até mesmo no marketing de algumas
empresas locais. Veja:
Supermercado Araújo: Orgulho de ser acreano.
Supermercado Gonçalves: Mais acreano impossível.

Fonte: www.contilnet.com.br

O absurdo reside na propagação da identidade do acreano. A construção da


mesma se realiza de maneira tão forte que a busca e manutenção do mercado
consumidor se dá inclusive, por esse meio identitário.
O problema maior da identidade é que fora do campo discursivo ela não
existe. Pois, a identidade só pode ser percebida na diferença. Só há acreanos,
porque há cariocas, por exemplo, mas todos são brasileiros. Nesse sentido a
compreensão de identidade só serve a uma força ideológica de dominação que diz
ser um melhor e/ou diferente do outro.
A criação e reinvenção da identidade busca sempre na origem de um dado
grupo social ou formação social de um espaço a gênese de sua formação. E é
exatamente nessa origem que reside a manutenção do poder. Assim como as
palavras, a identidade tem uma conjuntura ideológica.
Nos tempos atuais em que o multiculturalismo é moeda forte, a consciência
de identidade se torna perversa, pois para vir a ser é preciso negar a existência do
ser. Assim, quando o discurso evoca a origem local nos termos: brasileiro por
opção, inevitavelmente se está negando a existência de pessoas que por uma
questão eventual não nasceram no Acre. Também, perseguem essa mesma
compreensão os termos acreanidade e florestania. Há um quantitativo grande de
pessoas que simplesmente não nasceram no Acre, mas que construíram suas vidas
nesse recanto do mundo. Estas pessoas, por diversas vezes, sentem-se excluídas
da sua condição social pertencentes a esse espaço quando a política da
acreanidade e/ou da florestania se personificam no discurso.
No contexto da ruptura, de uma maneira lúdica, mas sem perder a seriedade
desse trabalho, traz-se à evidência, com a devida autorização de seu autor, o texto
seguinte:

REPÚBLICA INDEPENDENTE DO ACRE

Fica estabelecido que a partir desta data existe a REPÚBLICA


INDEPENDENTE DO ACRE!
Depois de anos e anos carregando no sovaco a Constituição8 e os
Símbolos desse país imaginário, eis que abiscoitei de A GAZETA o devido
agasalho, éégua!
Agora, é só firmar a Constituição, os Símbolos, caprichar na Língua Oficial e
ficar bicorando a emissão das Certidões a nativos e agregados, recém-chegados ou
não.

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS PÉTREOS DA RIA

Todo apaixonado pelo Acre, pelo povo do Acre, pelas coisas do Acre é, de
cara, cidadão/ cidadã da República. Mas ainda terá que passar no Teste da Farinha
e se encastuar às Leis Complementares da dita cuja, que vigorarão conforme o
humor do Proclamador, no caso eu, ora!

8
Todos os grifos e ou destaques apresentados nesse texto são meus.
PRINCÍPIO 1

Para obter Cidadania da RIA o cabra precisará falar o Acreanês Clássico,


definir direito o que é Acreanismo, Acreanidade, Acreanice e Acreanagem.

PRINCÍPIO 2

Para obter o PASSAPORTE, precisará estar em dia com o TRTS (Teor de


Rabada-no-Tucupí no Sangue) e ainda demonstrar habilidade no trânsito da Capital,
provando por A mais B que nunca triscou num motoqueiro ao dirigir em dia de
semana.

PRINCÍPIO 3

Para se ajuntar ao contingente da FEIA – Força Expedicionária Independente


do Acre, braço armado da República, aí já são outros quinhentos; e, após análise da
vida pregressa do candidato ou candidata, a gente vê como é que fica. Quem não
levar pau nos testes, será engajado.

PARÁGRAFO ÚNICO

Todos os princípios anteriores serão revogados em caso do Proclamador


amanhecer de ovo virado. E pronto!
Antônio Klemer9
Proclamador

A opção pela apresentação desse texto no fechamento desse capítulo


do trabalho se faz pelo fato de o mesmo traduzir de uma maneira bem humorada a
desconstrução necessária à questão de identidade. Ao mesmo tempo em que
apresenta alguns dos mecanismos de dominação autoritária no contexto de uma
sociedade como por exemplo os símbolos, alguns desses, para o contexto da
história acreana já apresentados no capítulo 1.
O bem humorado texto apresenta uma desconstrução necessária à condição
dessa identidade acreana. Afinal, o campo das ideias é fértil ao nascimento e
emprego desses conceitos, mas o campo prático da vida mostra que eles só servem
a um discurso dominante que estabelece a condição do diferente, nos termos da
identidade, porque a simples ideia de pertencer foi substituída por esta outra.
O que se pretende ilustrar aqui é exatamente essa condição perversa da
construção de uma identidade. A maioria das pessoas não consegue conceber os
conceitos de identidade fora de um contexto evocado pelo discurso oficial, pois, essa
construção que lhes é imposta pela sua condição de nascimento não faz sentido. É
9
Antônio Klemer é jornalista, humorista e escritor.
por isso que pessoas que não são acreanas sentem-se excluídas do seio social em
que vivem por esse olhar de estranheza e por esse deslocamento identitário que
lhes é forçado a partir de discursos como os já aqui evidenciados.
Basta-lhes a aceitação de que estas pessoas são, em sua consciência,
“pessoas daqui”, “pessoas deste lugar”.
“Há uma tendência a tornar a revolução um fato ‘mítico’ e ‘heróico’, ao mesmo tempo
individualizado e romântico”.
Florestan Fernandes

Capítulo III

3. A “Revolução Acreana” na ordem do contra-discurso

O professor Eduardo Carneiro em sua dissertação faz um resumo


interessante quanto às diversas possibilidades de se marcar o ponto de fundação do
Acre:

“A chegada dos primeiros ‘colonizadores’ vindos com o


cearense João Gabriel poderia ter marcado o início do Acre,
mas não marcou. O processo de migração nordestina para a
região nos idos de 1870, também poderia, mas não marcou. O
primeiro levante oficial de brasileiros contra o governo
boliviano em Puerto Alonso, em maio de 1899, poderia ter
inaugurado o Acre, mas não inaugurou. A proclamação do
Estado Independente do Acre feito pelo espanhol Galvez em
julho de 1899, também poderia. A assinatura do Tratado de
Petrópolis em 1903 poderia ter sido imortalizada pela história
como o nascimento do Acre, mas não foi. Por que tantas
exclusões?” (CARNEIRO, 2008, p. 50). (Grifo meu)

Fica evidente, conforme já abordado no corpus teórico desse trabalho que a


marca de fundação discursiva do Acre é a “Revolução Acreana”. Assim como,
parece compreensível, por todo o raciocínio até aqui desenvolvido que essa escolha
precisa ser encarada como uma construção nada natural.
A primeira compreensão quanto à “Revolução Acreana” que precisa ser
desfeita está sua na condição hegemônica como marco de fundação. O espaço
geográfico que passa a existir como Acre a partir de 1903 com a assinatura do
Tratado de Petrópolis não tem a mesma origem fundadora para os índios que viviam
na região bem antes desse marco temporal. Também não serve para marcar o
impasse resolvido quanto aos limites territoriais com o Peru que perduraram até
1909.
Outra desconsideração necessária é a de que os brasileiros que lutaram
nessa insurreição o fizeram por patriotismo. Carneiro ensina que, segundo o Jornal
Pátria de 6 de julho de 1899:

O fundo desse quadro triste em que os traidores da pátria


transformaram a esplendorosa região do Acre [...] julgaram
encontrar asada ocasião para, patrioticamente, roubarem o
suor do incauto habitante do Acre [...] essa rebelião [...] não
subsistirá jamais porque ali o que impera é a ambição
desordenada, porque dali fugiu os sentimentos generosos,
porque ali o mal tem guarida e a traição subsiste! [...]
empregara a chantagem e a chantagem reuniu adeptos;
mentiram e a mentira congregou entorno de uma bandeira
despedaçada os que deixaram se amasiar pelo canto da
sereia, belo mas traidor, harmonioso, mas desgraçado [...] Para
roubar, vestiram mendaz capa de patriotismo, cobriram os
rostos com a máscara de fingido amor à pátria. (Jornal
Pátria, nº 205, p. 1 apud CARNEIRO, 2008, p. 72). (Grifo
meu).

Note que em outra ótica a “Revolução Acreana” é vista como uma rebelião.
Os heróis do Acre estão colocados sob a égide da traição, da mentira, da ambição,
do roubo, do interesse pessoal.
Mais uma vez há de se perguntar: Por que esse discurso não aparece?
Porque, no contexto atual, heroificam-se pessoas que em um passado não muito
longe foram considerados chantagistas, cheios de interesses próprios. A resposta
continua trilhando pelo caminho dos interesses particulares e pessoais. Há uma elite
que propaga esse discurso por se servir dele.
Para o foco desse trabalho outro signo discursivo que precisa ser desfeito é a
ideia de “Revolução Acreana”. Será mesmo que o evento beligerante travado entre
brasileiros no Acre e bolivianos foi mesmo uma revolução?
É importante fazer essa desconstrução, pois, como afirma Florestan
Fernandes, “a palavra revolução tem sido empregada de modo a provocar
confusões.” Não é diferente no caso da história do Acre, onde o termo revolução
aparece ardilosamente arquitetado.
Novamente Florestan Fernandes ilustra bem o sentido dessa arquitetação
discursiva do termo revolução, que tem por base:

“Confundir os espíritos quanto ao significado de determinadas


palavras-chave vinha a ser fundamental. É por aí que começa a
inversão das relações normais de dominação. Fica mais difícil
para o dominado entender o que está acontecendo e mais fácil
defender os abusos e as violações cometidas pelos donos do
poder”.

Embora esse trabalho esteja construído sob fortes conjunturas conceituais de


certas palavras no contexto histórico apresentado, o foco aqui não é esse. Não se
está tratando das significações terminológicas por si mesmas.
Todavia, a maneira como as palavras são utilizadas denota um perfil
estratégico de dominação cultural, social e política. E é exatamente nesse viés que
se assenta a importância do debate trazido à evidência nessa produção acadêmica.
Não se perfaz interessante olhar para o passado no intuito de resgatá-lo, crê-
se inclusive que isso não é possível e não traz nenhum tipo de benefício social. O
mesmo já não pode ser afirmado quando essa iniciativa toma por base a ilustração
de uma conjuntura que molda a estrutura discursiva de um dado grupo social, no
caso, o povo acreano. Florestan Fernandes traz sentido ao que se afirma quando
escreve que “em uma sociedade de classes do mundo capitalista e de nossa época,
não existem ‘simples palavras’”.
É compreensivo que essas ideias não encontrem unanimidade, mas é bom
que seja assim, pois uma das principais intenções desse trabalho reside no fomento
ao debate do assunto em questão e não a forjar uma verdade absoluta.
A importância de se compreender o uso do termo revolução no contexto
desse trabalho é crucial para completar todo o raciocínio levantado. Classicamente o
termo revolução tem significado bem objetivo. Segundo Silva e Silva o termo nasce
durante o Renascimento fazendo referência “ao movimento dos corpos celestes”.
Seu significado político vai aparecer pelo século XVII com a Revolução Inglesa.
“Nesse período, revolução significa retorno à ordem política anterior que tinha sido
alterada por turbulências...” (2010. p. 362). Já o sentido de mudança na estrutura
social que inverte a ordem política e econômica, só vai surgir com a Revolução
Francesa.
Assim, não é preciso muito para compreender que o uso do termo revolução
no que se refere ao evento que se sucedeu nos limites territoriais do espaço que
hoje é o Acre segue uma corrente de pensamento que resignifica o evento
atribuindo-lhe uma discursividade bem pensada.
Todavia, em outro contexto histórico, o mesmo termo, para o mesmo evento
ganhou significação semelhante até mesmo nos seus equívocos. Carneiro afirma
que “o emprego do signo revolução não revela o caráter revolucionário do
movimento, e sim o diálogo interdiscursivo que os letrados mantiveram com o
discurso liberal europeu. Qualquer movimento social de contestação naquela região
era indiscriminadamente chamado de revolução”. (2008. p. 79).
Segundo o Dicionário de Filosofia Moral e Política baseando-se em
Condorcet, “a palavra revolucionário só se pode aplicar às revoluções cujo fim é a
liberdade”. (s.d.).
A professora doutora Maria José Bezerra da Universidade Federal do Acre
afirma em sua tese que:

“Encerrando-se a questão com o Peru, os limites geográficos


do Acre estavam definidos e o Estado brasileiro e as elites
nacionais, para legitimar a luta dos patrões por um Acre
brasileiro, a transformaram em “Revolução Acreana”, num
contexto marcado pela produção historiográfica positivista.
A esse respeito, com base na pesquisa realizada consideramos
que a luta que se desenvolveu para a anexação do Acre ao
território brasileiro se configura uma guerra de fronteiras por
limites, e não uma revolução, a qual envolveu o Brasil, a
Bolívia e o Peru num contexto mundial marcado pela expansão
da industrialização e a busca por mercados fornecedores de
borracha para atender as necessidades da indústria européia e
norte-americana gerando a inserção do Acre na economia-
mundo.
A “Revolução Acreana” transforma-se no discurso fundador do
Acre e a construção da identidade do Acre como território
brasileiro se insere no universo da tradição inventada, tendo
como simbologia de maior expressão o hino acreano.”
(BEZERRA, 2006, p. 65) (grifo meu).
A partir das diversas considerações apresentadas quanto ao sentido e ao uso
do termo revolução construir-se-á uma leitura do exposto na tentativa de se
estabelecer um olhar que digladie no campo das ideias na construção de outra
possibilidade discursiva.
No que se refere ao primeiro exposto, e claro, a todos os demais, a
problemática reside na questão da verdade. Ou como o historiador inglês, Jenkins,
escreve “a verdade fica na dependência de alguém ter poder para torná-la
verdadeira”. (2007, p. 58). Assim o que definiu a “Revolução Acreana” como o
discurso fundador do Acre foram aqueles que detiveram o poder para tal.
Nesse sentido, um poder enorme, pois, quem decide o que vai estar em
evidência também decide o que e/ou quem vai ficar subjugado ao esquecimento. E
talvez, seja por isso que no tempo atual, quando muito se fala na história dos menos
favorecidos, parece ser tão difícil efetivar algum resgate dessas minorias. Uma
história tão recente como a acreana está bem mais perto de seus herdeiros que o
inverso disso.
Quanto às diversas compreensões para o sentido histórico que adquire a
palavra revolução e o seu uso político residem diversas possibilidades, sobre as
quais se faz a opção de caminhar com o sentido apresentado por Florestan
Fernandes. Essa escolha se faz porque o sentido astronômico dado ao termo não
cabe ao raciocínio já desenvolvido.
Não cabe porque, um raciocínio comparativo entre os diversos indivíduos
sociais que participaram desse contexto histórico e os corpos celestes seria tirar a
condição de sujeitos sociais dessas pessoas o que estaria contradizendo os
objetivos desse trabalho. Diga-se assim de uma maneira ilustrativa, foge à órbita dos
raciocínios empregados.
Todas as demais considerações feitas por Carneiro e também as de Bezerra
caminham na direção do raciocínio de Florestan Fernandes. Pois, este se baseia no
princípio clássico de que para haver uma revolução é preciso que aconteça uma
mudança nas estruturas sociais, econômicas e políticas. Faz-se necessário
esclarecer que este trabalho não tem nenhuma pretensão marxista, todavia, também
não tem a ousadia de negar essa corrente da história que conta com seus adeptos.
A escolha é feita nesse sentido, porque esta é a significação histórica que se
faz mais coerente com esta obra. Primeiro porque, há uma conjunção nas ideias que
aqui estão compartilhadas. Depois, porque desde o princípio desse trabalho e até
mesmo antes dele, a consciência histórica se impôs no sentido de afirmar
negativamente que o evento em estudo tenha sido uma revolução. E por que o
evento de anexação do Acre ao Brasil não foi uma revolução? Primeiro, é preciso
recordar que os motivos que o transformaram em revolução já estão evidenciados.
Não foi uma revolução por diversos fatores. O principal deles é que nada
mudou no tocante às estruturas sociais da comunidade ali existente. Mudou o
pertencimento do espaço que deixou de ser boliviano e peruano para ser do Brasil.
Os nordestinos que viveram por esse tempo no Acre libertaram-se do jugo
que os oprimia e explorava? A resposta é não. Se antes o governo brasileiro não se
envolveu na questão, agora era ele, somente ele que ditava as regras do jogo. A
ordem era produzir. O governo federal pretendia retorno a todo o investimento feito,
pagando indenizações à Bolívia, ao Peru e ao Bolivian Syndicate.
O seringueiro continuou sendo explorado. E o seringalista, assim como os
principais líderes da insurreição pretendiam os cargos políticos que deveriam vir com
a nova unidade federativa. Todavia, o governo a relegou à condição de território.
Nesse contexto, Carneiro apresenta uma ilação interessante ao afirmar que
“os ‘heróis’ preferiram lutar pelo poder”. Ora, se o poder, para estes, era impraticável
sob o jugo boliviano, se mostrou difícil sob a tutela da pátria. “Eles queriam mesmo
era o controle político das ‘jazidas de ouro negro’. A ‘mãe gentil’ recusou. Os filhos
então se rebelaram em prol da autonomia” (2008, p. 87).
Por fim, o raciocínio que melhor se afina com este trabalho é o que está
evidenciado a partir da tese da professora Maria José Bezerra. O evento beligerante
travado com a Questão do Acre configurou-se uma guerra.
Uma guerra por limites, sem dúvidas. Mas, uma guerra com características
especiais. Pois, não foi uma guerra entre países já que o Brasil recusava-se a entrar
na contenda. Não foi uma guerra de grupos, pois a Bolívia assumiu o confronto.
Mesmo assim, não deixou de ser uma guerra. Guerra de brasileiros contra a Bolívia.
Nesse ponto, o conflito melhor se caracteriza enquanto definição de limites,
porque, a própria história é testemunha de que nesse contexto a fronteira por
diversas vezes, no trilhar dos interesses, ficava sob definição “imprecisa”. Nunca se
duvidou que pelos tratados e limites celebrados desde o século XV a região
pertencia à parte da América de língua espanhola, mas também é de recordar-se
que na dança das linhas o compasso ditava vezes “um passo pra cá” vezes, “um
passo pra lá”.
Para concluir esse capítulo, satisfazendo-se com o raciocínio desenvolvido,
considerando que, trata-se esse de uma pequena semente, fechando então o
raciocínio desconstrutivo das ideias de revolução e para reafirmar que no Acre não
aconteceu tal fato leia-se em Carneiro:

“Após a nacionalização efetiva da região ao Brasil, para o


seringueiro não havia motivos para comemorações. Ele
continuou ‘expatriado’ e, o que é pior, ‘trabalhando para se
escravizar’ (apud CUNHA, 2000, p. 152). A ‘revolução’ faltou-
lhe ao encontro; a cidadania brasileira, pior ainda, ela passou
de largo.” (CARNEIRO, 2008, p. 88).

Enfim, a “Revolução Acreana”, enquanto evento em nada mudou a vida


daqueles que saíram de seus lares em busca de melhores condições de vida. E
enquanto discurso, só serviu e vem servindo à manutenção de uma elite que se
apropriou do poder e por meio dele constrói suas verdades com a intenção de não
perdê-lo e de inscrevem-se no livro de Clio imortalizando seus nomes e
personificando-se na manutenção de seus mitos e heróis.
4. Considerações Finais

Ao concluir esse trabalho tem-se a humilde consciência para reconhecer que


o tema ainda precisa ser bem mais aprofundado e que o fechamento do trabalho em
si não significa que as ideias apresentadas estejam fechadas. Nunca houve essa
pretensão, assim é preciso olhar para esse texto como um ensaio, um esboço que
por vezes se enturva. Mas, não se pode deixar de perceber a importância que tem
tal ensaio na construção de um debate que precisa vir para o seio da academia na
pretensão de permitir novos olhares, novas perspectivas, uma outra mentalidade.
Pretende-se que a partir destas ideias eleve-se a consciência social a
enxergar criticamente as manifestações do mito fundador do Acre. Não há nenhuma
pretensão em negá-lo. Mas, é preciso compreendê-lo como uma construção, uma
invenção discursiva que engessa a cognoscência das pessoas.

4. 1. Revolução versus guerra

Caminhando com todo o raciocínio desenvolvido ao longo dessa temática


uma das diversas conclusões possíveis é a de que de fato não foi uma revolução.
Foi sim uma guerra entre brasileiros e bolivianos. Mas, é preciso ficar claro que não
foi uma guerra de Brasil contra a Bolívia ou o inverso disso, mas sim, uma guerra de
brasileiros contra a Bolívia. É simples, o governo brasileiro oficialmente não
promoveu nenhum levante contra os “patrícios”, mas o governo boliviano, este sim
defendeu o seu território.
Dentre as diversas motivações que podem ser levantadas como causas ao
evento beligerante em questão estão a seca, a ganância e o próprio homem em si. A
seca foi transformada pela historiografia positivista em sujeito da história do Acre.
Ela foi um fator, mas não foi o único nem o mais importante deles.
A ganância sem dúvidas foi um dos elementos motivadores de maior força
nesse contexto. Foi a ganância dos grandes senhores do capitalismo internacional
que descobriram na borracha uma das mais lucrativas matérias-prima do período. A
indústria dos pneumáticos e dos automóveis movimentou o mundo ao nascer do
século XX. A ganância do seringalista que quase extraiu do seringueiro sua última
gota de suor para poder honrar seus compromissos internacionais e sua ostentação
galante junto á sociedade. A ganância do seringueiro, que o impediu de enxergar os
exageros midiáticos e/ou boatos descabidos de quem nunca esteve na Amazônia.
Sua crença no enriquecimento fácil lhe iludiu e o transformou simplesmente em
“vítima”.
Assim se compreende o fator homem que supera a seca, a propaganda e o
mercado capital. Pois, somente o homem é sujeito de sua história. Suas escolhas,
seus sonhos, sua motivação, seu desejo, sua sede, sua fome, sua vida é que o
exalta para além das ocasialidades e do fatídico. A vida humana e assim as ações
do homem não podem ser colocadas na prateleira do acaso e da sina. O homem
está acima dos eventos, sejam eles naturais e/ou criados.
A história do Acre precisa ser evidenciada para os acreanos, pois como dito
antes, seus herdeiros estão mais próximos dela do que imaginam. Falta-lhes a
consciência histórica para motivar-lhes a busca de suas origens. A condição de ser
acreano não reside na convergência de negros, índios e europeus. A condição de
ser acreano está além do local de nascimento, de uma identidade projetada ou
mesmo de uma escolha em ser brasileiro. A história dessa formação social conjuga
em si o gene da diversidade, portanto a condição de acreano é mera formalidade.
Basta-se a dignidade de ser humano.
A verdade não é plena nem absoluta. A verdade, às vezes, nem é verdadeira.
A verdade reside no campo das construções, no mundo das ideias (mas não o de
Platão) e na conjunção do poder que a faz significativamente verdadeira.
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