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A REPRESSÃO DA SEXUALIDADE FEMININA NO CONTO “OBSCENIDADES PARA UMA DONA DE CASA” DE IGNÁCIO LOYOLA BRANDÃO

Maria Raquel BEZERRA (PIBIC CNPq/UERN) Marciel Alan Freitas de CASTRO (PIBIC CNPq/UERN)

RESUMO: O presente trabalho pretende analisar a construção da repressão da sexualidade feminina do conto “Obscenidades para uma dona de casa” de Ignácio de Loyola Brandão, tomando como referência os conceitos de Gotlib (1985) e Cortázar (1974) sobre a representação da mulher no cenário dos estudos literários. É nosso propósito investigar no conto “Obscenidades para uma dona de casa” o modo como a figura feminina exerce seu papel no tocante a questão sexual. Nossa análise é balizada pelo conflito da personagem reprimida pelo fato não ter como se impor perante a sociedade, que não dá espaço para a mulher expressar a sua sexualidade sem que seja recriminada por isso. A partir desta análise, podemos perceber que a figura feminina no conto de Ignácio de Loyola Brandão pode ser entendida como um universo de possibilidades, de debates e perspectivas sobre a mulher e sobre o conto contemporâneo brasileiro, por conseguinte a representação da sexualidade sob o viés literário de Brandão.

PALAVRAS CHAVE: Conto contemporâneo; Sexualidade reprimida; Feminino.

INTRODUÇÃO

No decorrer dos anos a crítica tem apontado inúmeras vertentes de ruptura na obra de

Ignácio de Loyola Brandão no que diz respeito á construção das personagens ou ainda a

questão do gênero literário, os caminhos são quase sempre de fuga e transgressão. As

personagens femininas do universo de Brandão pelas ruas do oficio de buscar o oposto para

desvendar a si mesmas, e foi partindo desse fio de transgressão e fuga que surgiram os

primeiros indícios de nossa pesquisa.

Se nos debruçarmos sobre a obra do autor é possível nos deparar com uma

inquietação: as personagens femininas talhadas pelo autor permanecerem quase sempre um

passo à frente de seu tempo, a questionar, sucintamente, os costumes sociais e conjugais que

espreitavam e condicionavam a mulher. Através de pensamentos e atitudes essas personagens

rompiam com a vida costumeira e por alguns momentos construíam outra realidade,

observamos o referido aspecto em uma personagemfeminina criada na década de 90: do livro

Os cem melhores contos brasileiros (1985) estudaremos a protagonista do conto

“Obscenidades para uma dona de casa”, a quem o narrador se refere apenas como “ela”, cuja

intenção é o conflito da personagem reprimida pelo fato não ter como se impor perante a

sociedade.

O FEMININO: REFLEXÕES TEÓRICAS

O estudo foi estruturado com base em pesquisas bibliográficas da obra do autor, leitura

de alguns textos da crítica, assim como textos de psicanálise. No entanto pesquisamos a

década de 90 com o intuito de justificar as atitudes transgressoras cometidas pela personagem do autor. É possível examinar o valor da obra de Brandão para a construção do questionamento, através da personagem, da mulher para quem a sociedade traçava um caminho estreito e cheio de regras, e a condição para trilhá-lo era ser conduzida pelas mãos de um homem, que seria o marido ou amante. As aflições e anseios da personagem são pontos marcantes da escrita de Ignácio, a voz que brada constante no interior de cada uma delas pode

ser vista como uma espécie de denúncia do conflito interior entre destino e liberdade. Há muito que em nossa sociedade prevalece o ponto de vista masculino sobre os aspectos comportamentais, até mesmo o conceito que definia o universo feminino era formulado pelos homens. Após os movimentos feministas da década de 90, isso se modificou

e a mulher foi aos poucos reconstruindo seu papel na sociedade, com esses movimentos houve

A família patriarcal se formou em volta da iniciação masculina opondo-se à alienação

feminina, em que somente ao homem era permitido acesso a determinados ambientes sociais, ás mulheres cabia apenas a total submissão e zelo com a vida dos filhos e marido. No eixo da psicanálise é possível dizer que algumas personagens de Ignácio agem mais ativamente, e por momentos deixam de lado a passividade destinada ao feminino. Freud afirma que o masculino está ligado ao ativo e que o feminino tem maior tendência a ser passivo, e cada ser possui teor de masculinidade e feminilidade, cujo desenvolvimento dependerá da situação em que se encontre.

VIDA E OBRA DE IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O autor, Ignácio de Loyola Brandão nasceu Araraquara – São Paulo, mas passou a infância em pequenos vilarejos do interior do Estado. Tornou-se jornalista para custear seus estudos quando se mudou para a cidade de São Paulo, no final da década de 1950, no entanto acabou por se dedicar totalmente á literatura. Começou a elaborar o seu primeiro romance,

Bebel que a Cidade Comeu que foi publicado em 1968. Em 1974, foi lançado na Itália o romance Zero, sua obra mais conhecida. O livro saiu no Brasil no ano seguinte, mas foi proibido em 1976 pelo Ministério da Justiça do governo Geisel. A obra só seria liberada em 1979. Nesse mesmo ano, Loyola abandonou o jornalismo para se dedicar exclusivamente à literatura. O retorno às redações para o Jornal Folha da Tarde. Em 1973, iniciou a colaboração semanal no jornal o Estado de S. Paulo. Em 1996, submeteu-se a uma cirurgia para retirada de um aneurisma cerebral e registrou sua experiência no livro A Veia Bailarina (1997). Ignácio de Loyola Brandão ganhou muito destaque na literatura brasileira da contemporaneidade. Tendo como temas centrais a ditadura militar e o exilio, sua obra romanesca faz uma crítica amarga da sociedade brasileira. Em suas crônicas, são frequentes as referências à infância em Araraquara, aos colegas de geração ao cotidiano da cidade São Paulo. Desde a estreia, Loyola tem sido fiel, mesmo em seus voos surreais, a uma perspectiva popular. Apesar de inovar a prosa de ficção brasileira com vários experimentalismos, a marca mais funda de sua linguagem foi e continua sendo o tom quase coloquial, a busca de uma espécie de narrativa popular – o que não quer dizer texto simplório.

O CONTO

Entretanto, vamos pontuar nossa discussão teórica em torno dos conceitos de conto, tomando como base os textos de Cortázar e de Gotlib. Para Cortázar falar do conto tem um interesse especial, uma vez que todos os países americanos de língua espanhola estão dando ao conto uma importância excepcional, que jamais tivera em outros países latinos como a França e a Espanha. Acredita que é útil falar do conto porque é um gênero que tem uma importância e uma vitalidade que crescem dia a dia, e que é preciso ter uma idéia viva do que é o conto. Muitos, para entender o caráter peculiar do conto, costumam compará-lo com o romance que é aberto, mas o conto por sua vez, parte da noção de limite, e, em primeiro lugar, de limite físico, não podendo ultrapassar certa quantidade de páginas. O tempo e o espaço do conto têm de estar como que condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual e formal para provocar no leitor uma espécie de “abertura” que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento literário contido no conto. Ressalta Cortáza a importância de se distinguir entre o bom e o mau contista. Segundo o autor, “um contista é um homem que de repente, rodeado pela imensa confusão do mundo,

comprometido em maior ou menor grau com a realidade histórica que o contém, escolhe um determinado tema e faz com ele um conto”. Por outro lado, em outro gesto seu de interpretação, o autor chama-nos a atenção para o fato de que por mais veterano, por mais hábil que seja um contista, se lhe faltar uma motivação consistente, se os seus contos não nascerem de uma profunda vivência, sua obra não irá além do mero exercício estético. Nádia Battella Gotlib inicia seu texto dizendo que muitos estudos já foram feitos com o intuito de tentar contar a história da teoria do conto. O que se percebe é que a história é muito mais antiga do que pensamos, pois desde os tempos mais remotos, as pessoas sempre se reuniram para contar e ouvir histórias. Segundo ela,

enumerar as fases de evolução do conto seria percorrer a nossa própria história, a história de nossa cultura, detectando os momentos da escrita que a representam. O da estória de Caim e abel, da Bíblia, por exemplo. Ou os textos literários do mundo clássico greco-latino: as várias estórias que existem na Ilíada e na Odisséia, de Homero. E chegam os contos do Oriente: a Pantchatantra (VI a.C.), em sânscrito, ganha tradução árabe (VII d.C.) e inglesa (XVI d.C.); e as Mil e uma noites circulam da Pérsia (século X) para o Egito (século XII) e para toda a Europa (século XVIII). (GOTLIB, 1998, p. 3-4)

O que nos é pontual neste estudo é mostrar que o conto tem seu valor enquanto texto literário, assim como seu espaço entre os gêneros escolhidos dos grandes escritores. É bastante significativo este seu poder de resistência, vencendo as variações possíveis, sem perder sua estrutura fundamental. No conto de Brandão predomina a 1ª pessoa. Visto que é uma mulher de meia idade que recebe cartas obscenas com palavrões ligadas ao valor erótico. A senhora aparentemente demonstra indignação com o teor das cartas, na verdade fica ansiosa por recebê-las. O certo é que ela é uma mulher enrustida, frustrada por não conseguir fazer com o marido tudo o que descreve nas cartas. Fora criada de maneira tradicional para manter a compostura e aparentemente sente aversão às palavras e atos relacionados ao sexo. No fim do conto revela- se que ela escrevia as cartas e as mandava pro seu próprio endereço. Todas as obscenidades eram escritas por ela mesma. A personagem era a principal na narrativa, ou seja, papel desempenhado no enredo como protagonista caracterizada como personagem redonda. Características típicas, sendo elas morais, sociais e econômicas por se tratar de uma dona de casa; também caracterizada pelo tempo cronológico, pois a personagem fala de fatos já acontecidos. O tempo cronológica

dura apenas uma semana. Na qual o espaço onde ocorre em um apartamento, o ambiente vai sendo descrito desde o inicio do conto onde são expostas as características do ambiente demonstrando o perfil de quem nele habita, denunciando aspectos socioeconômicos, morais e psicológicos.

A FIGURA FEMININA NO CONTO

A personagem de Obscenidades Para uma Dona-de-casa é uma mulher reprimida que

começa a receber estranhas cartas de um admirador secreto. As cartas chegam três vezes por

semana e vão ficando cada vez mais ousadas e indecentes. Ao mesmo tempo em que nossa protagonista reage com extrema indignação, aguarda ansiosamente pela chegada da

correspondência. A idéia de se montar Obscenidades para uma Dona-de-Casa a partir do inventivo conto homônimo de Ignácio de Loyola Brandão é trazer para o grande público, de forma divertida, o conflito interno de uma mulher angustiada.

O texto inicia falando da organização do dia-a-dia da mulher protagonista da estória, e

sua ansiedade frente a uma carta que vai chegar. O conto, num vai e vem dos fatos, vai costurando a estória de vida da mulher, sem educação e os pensamentos que a carta sucinta.

“Três da tarde ainda, ficava ansiosa. Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. Abria gavetas, arrumava calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo”. (LOYOLA, 2000, p. 471)

Já no inicio Brandão nos descreve uma mulher presa á regras, ele diz que ela não gostava de coisas fora do normal instituiu sua vida dentro de um esquema nunca desobedecido, pautara o cotidiano dentro da rotina sem sobressaltos isso nos faz pensar em uma pessoa que não se permite experimentar novos meios de lidar com a realidade ou mesmo brincar com a realidade. As regras sociais que ela escolheu para pautarem a sua vida são rígidas.

Pode-se perceber aqui que há um crescente de ansiedade em torno da carta que vai

chegar. E o que traz essa carta, o leitor fica curioso. Essas cartas contem vinhetas de um relacionamento com altas doses de erotismo. Aquela que não gosta de nada fora do lugar transgride a regra e recebe cartas anônimas e eróticas as quais a deixa muito excitada. Mas como era a sua relação com o marido? Ela ocupava as tarefas domesticas, apresentavas-lhe uma casa bem asseada filhos bem educados, e cumpre seu papel de esposa na cama como uma obrigação, tinha que ter relações sexuais, quando ele queria. As mulheres podem inferir, que na relação com seu marido, não podia mostrar-se sexuada, a sexualidade é obscena, deve ser escondida. Com essas cartas ela pode estabelecer novas relações – um relacionamento mais erotizado e sexualizado – e, portanto buscar novas formas de satisfação sexual, que estavam reprimidas por tantos anos. O conto nos sugere que sua vida sexual não é prazerosa, nesse momento, seu prazer estava em receber cartas e lê-las. Evidencia Loyola:

“[…] Não consigo ler direito na primeira vez, perco tudo, as letras embaralham, somem, vejo o papel em branco. Ouça só o que ele me diz: Te virar de costas, abrir sua bundinha dura, o buraquinho rosa, cuspir no meu pau e te enfiar de uma vez só para ouvir você gritar.” (LOYOLA, 2000, p. 477)

Outro ponto que chama atenção é notar a ambigüidade de sentimentos que esse corresponde mobiliza a protagonista da estória. Um amante mais ousado nas suas fantasias não teria bom gosto, não seria sensível?

A mulher dessa história não aprendeu a exercer a sexualidade, ela ficou a padrões

morais antigos, que equiparavam a sexualidade a obscenidades. É nessa singularidade de discurso, que devemos escutar essa mulher. Sair à busca de seus porquês, o que lhe causa esse sofrimento de não poder ter prazer na relação sexual com seu marido, e a que obriga a depender de uma grande energia na espera e leitura de cartas. O

dia nos quais devem chegar as cartas são longos dias de espera, de intensa ansiedade para lê- las e não ser descoberta no seu segredo.

Se nos deixarmos envolver pelo clima do conto podemos sentir a mesma confusão da

mulher. As liberdades das vinhetas das cartas são entremeadas por notas de uma educação

muito contida. O trabalho analítico com essa mulher poderia remetê-la ao sentimento de confusão que sua sexualidade traz e fazê-la sentir a liberdade para falar sobre as suas fantasias.

O FEMININO X EROTISMO

No conto “Obscenidades para uma dona de casa”, a narrativa se desenvolve a partir da expectativa de uma personagem que vive como dona de casa e espera diariamente por cartas enviadas pelo correio, com propostas e insinuações sexuais que geram um conflito com os valores de sua criação, de forma que a personagem passa a viver com intensa ansiedade em função da espera de novas cartas. O enredo prende a atenção do leitor e realmente pode ser considerado bom, na descrição dos conteúdos das cartas encontramos:

Mulher, quando quer, sabe ser pior do que homem. Sim, só que conhecia

muitas daquelas amigas, diziam mas não faziam, era tudo da boca para fora. A tua boca engolindo inteiro o meu cacete e o meu creme descendo pela tua garganta, para te lubrificar inteira. Que nojenta foi aquela carta, ela nem acreditava, até encontrou uma palavra engraçada, inominável. Ah, as amigas fingiam, sabia que uma delas era fria, o marido corria louco atrás de outras, gastava todo o salário nas casas de massagens, em motéis. E aquela carta que ele tinha proposto que se encontrassem uma tarde no motel? Num quarto cheio de espelhos, para que você veja como trepo gostoso em você, enfiando meu pau bem no fundo.”(LOYOLA, 2000, p. 473)

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Esses contrastes são frutos do pensamento dessa mulher que deseja ter relação sexual prazerosa que a faça mulher a partir do prazer e que o amor predomine como obsceno aos seus desejos. Propostas que ela considera indecente, mas que a excitam muito quando parte de uma pessoa que a excita, chegando ao ponto máximo de prazer absoluto. Isso ocorre quando ela recebe bilhetes de um estranho. Os valores morais vão sendo perdidos à medida que ela deseja mais relações ou quando os atos sexuais são mais fortes. Visto que seu tempo não transcorre na beleza do amor e sim no prazer ser saciada por um homem que a faça enlouquecer em seu momento inesquecível, presa a um quarto cercado de espelhos.

CONCLUSÕES

Este trabalho se propôs a estudar o motivo pelo qual levaria a repressão da sexualidade, no conto do autor Ignácio de Loyola Brandão, Obscenidades para uma dona de casa, vivenciada por uma personagem, do qual enviava cartas para ela mesma por interesses

eróticos e outro por conta do prazer de uma boa relação sexual. Apesar de seu relacionamento congelado, ou seja, não haver mais sexo, ela se satisfazia os seus anseios por uma boa noite de cama e um bom sexo, no entanto ela buscava uma nova paixão. Considerando tudo que foi analisado em nosso trabalho, no devido conto e com o estudo, esperamos contribuir para uma análise mais profunda sobre o assunto em novas pesquisas cientificas, com os contos de Ignácio de Loyola Brandão, como também atingir o nosso objetivo ter alcançado a conclusão desse trabalho.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Obscenidades para uma dona de casa. In: Moriconi, Ítalo

(org.) Os cem melhores contos brasileiros do século, Rio de Janeiro: Objetiva: 2000, p. 471-

7.

CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronopio. São Paulo: Perspectiva, 1974.

GOTLIB, Nádia Batella. Teoria do Conto. São Paulo, Ática, 1998.