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A estranha morte do Professor Antena

No Bolso
Mário de Sá-Carneiro

A estrAnhA morte
do Professor AntenA

Posfácio e fixação do texto


por Maria João Simões
A Cortes-Rodrigues
mesmo entre o público normal causou grande
sensação a morte do Prof. domingos Antena.
não tanto – é claro – pela irremediável perda
que nele sofreu a Ciência contemporânea, co-
mo pelo mistério policial em que a sua morte
andou envolvida.
esse automóvel-fantasma que, de súbi-
to, surgira e logo, resvalando em vertigem, se
evolara por mágica, a ponto de ser impossível
achar dele um indício sequer, embora todas as
diligências – e mesmo a prisão dalguns chauf-
feurs que puderam entretanto fornecer álibis
irrefutáveis – volveu-se logicamente matéria-
prima óptima, de mais a mais roçando o fo-
lhetim, para os diários, então, por coincidên-
cia, privados de assunto emocional.

depois, a figura do Prof. Antena era entre mais se aprazia, sobretudo nas horas maravi-
nós popular. o seu rosto glabro, pálido e es- lhosas de criação. Com efeito um grande sábio
guio, indefinidamente muito estranho; os olhos cria – imagina tanto ou mais do que o Artista.
sempre ocultos por óculos azuis, quadrados, e A Ciência é talvez a maior das artes – erguen-
o sobretudo negro, eterno de Verão e de Inver- do-se a mais sobrenatural, a mais irreal, a mais
no, na incoerência do feltro enorme de artista; longe em Além. o artista adivinha. fazer arte
e os cabelos longos e a lavallière de seda, num é Prever. eis pelo que newton e shakespeare,
laço exagerado tudo isto grifara bem o seu per- se se não excedem, se igualam.
fil na retina paspalheira da multidão inferior de resto nada há que torne alguém mais
das esquinas. lisonjeiro ao povo do que a lenda – e em vol-
entanto jamais um dito grosseiro, dessa lu- ta do Prof. Antena nimbava-se um véu áureo
sa grosseria, provinciana e suada, regionalista, de mistério. A tradição sabia que esse homem
que até nesta Lisboa – central, em vislumbres excêntrico, se debruçara mais duma vez sobre,
– campeia à rédea solta (e mesmo refina demo- qualquer coisa enorme, alucinante – que o seu
craticamente) o atingiu nas ruas ou nas praças, laboratório seria melhor, entre aparelhos bem
pelas quais ele era silhueta quotidiana. Pois ao certos, a gruta dum feiticeiro, do que o atelier
invés dos sábios convencionais e artistas cas- dum mero cientista. os periódicos heroifica-
trados que fogem às multidões, à europa, ao vam-no popularmente nas suas manchettes, dia
progresso, num receio gagá de ruído e agita- a dia – e, por último, as curas extraordinárias,
ção – o Prof. Antena era, pelo contrário, onde laivadas de milagre, que ele fizera pelos hos-

 
pitais graças à sua perturbadora aplicação dos sei se suspeições teriam caído sobre mim, caso
raios ultravioleta – tinham acabado de o sagrar o atropelamento não fosse evidente. evidente;
aos inferiores, em humanitarismo. entanto muito singular; pois além do crânio es-
eis pelo que a sua morte desastrosa cau- migalhado, das pernas decepadas, ferimentos
sou funda emoção. o caso foi assunto duran- reais, ainda que duma violência fenomenal –
te semanas por toda a cidade, por todo o país outra ferida houve quase inexplicável: uma fe-
– discutido, perscrutado. rida perfurante, cónica, a meio do ventre, que
Como é que eu, o seu discípulo mais queri- dir-se-ia, feita por uma broca triangular, giran-
do – hoje, meu deus, o seu herdeiro – e a úni- do vertiginosamente a rasgar-lhe as entranhas
ca testemunha da tragédia, não vira coisa algu- com a sua ponta de diamante.
ma, não conservara sequer na memória um de- Aventou-se ainda, por outro lado, que o au-
talhe que pudesse identificar o automóvel que tomóvel conduziria bandidos trágicos à Bon-
o esmagara?... demais, no local do desastre, a not, fugitivos de qualquer sangreira. mas crime
estrada fazia uma curva e o macadame era ava- algum se cometera essa manhã. Logo a sher-
riado. Logo o veículo não pudera, normalmen- lockholmesca hipótese foi posta de parte. e co-
te, resvalar em bólide... eu protestava, é certo, mo o inexplicável se não explica, mas tem que
com o horror do momento que me cegara. e ser admitido – a estranha morte do Prof. An-
essa razão teve que ser aceite. mas em verdade, tena ficou aceite como um atropelamento ba-
apesar do meu nome impoluto, dos laços es- nal. e breve ninguém falava já do facto – tudo
treitos, filiais, que me ligavam ao mestre, não olvidado na queda dum mistério...

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o meu nome escreveu-se frequentes vezes ser-me-ia impossível contar a verdade – todos
nos periódicos, durante o inquérito. muitos re- me farão, de resto, essa justiça após me have-
pórteres me procuraram, e os correspondentes rem lido. Um louco, no meu caso, teria falado.
dos jornais estrangeiros. Isso mesmo definiria a sua loucura. homem
mas eu só lhes respondia com os meus la- sensato, calei-me. A prova maior da sensatez
mentos, as minhas lágrimas, e a descrição sucin- está em ocultarmos a realidade dos factos in-
ta, sempre igual, da catástrofe: um automóvel verosímeis. A verdade é só para ser dita ocor-
enorme, fechado, de súbito surgindo na curva, rendo nela circunstâncias muito especiais. eis
em bólide, e sem tocar a sereia – um ruído de o axioma máximo.
ferragens, nuvens de pó... e na estrada, esmiga- mas entrando propriamente na matéria.
lhado, o cadáver do mestre... eu proponho-me fazer hoje a simples ex-
................................................................ posição verídica da morte do mestre, e a se-
Pois bem, hoje, quase um ano decorrido so- guir interpretá-la segundo os documentos que
bre o desastre, eu venho falar enfim. e venho achei entre os seus papéis. esses documentos
agora só, porque só agora possuo nas minhas ficam, bem entendido, à disposição de quem
mãos documentos que, irrefutavelmente, au- os queira examinar directamente. Por infelici-
tenticam a minha narrativa – documentos que dade são muito incompletos. duma memória
fornecem pelo menos uma hipótese admissí- prodigiosa – e, de mais a mais, como nenhum
vel, uma forte hipótese, ao estranho desfecho artista, cioso dos seus segredos – o Prof. An-
que se vai conhecer. no momento da tragédia tena limitava-se com efeito a assentar nos seus

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cadernos, além de fórmulas e esquissos, apon- e claramente – todos os apontamentos disper-
tamentos telegráficos – por vezes indecifráveis sos encontrados entre os papéis do mestre, os
– onde condensava as suas ideias, os raciocínios quais, reconstituídos nas suas lacunas, ajusta-
que o deviam guiar a determinadas conclusões. dos, reflectidos em conjunto – além das coisas
eram estes apontamentos que, desenvolvidos, assombrosas que nos entremostram – nos for-
mais tarde lhe serviam de base para os volumes necem, senão uma explicação definitiva, ca-
elucidativos que publicava sobre cada uma das tegórica, pelo menos, como já dissemos, uma
suas descobertas – ou mesmo das suas buscas: forte hipótese sobre a estranha morte do Prof.
volumes que hoje formam uma preciosa biblio- Antena.
teca da mais surpreendente leitura – bibliote-
ca a que, por nossa desgraça, falta um volume: *
o maior, o mais fantástico. se assim não fora, * *
hoje a humanidade teria avançado de mil sécu- Uma manhã de Abril do ano passado, no
los – haveríamos, quem sabe, descoberto enfim dia 20, para precisar – procurando o mestre,
o mistério... como quotidianamente fazia, foi-me entregue
entretanto sejamos lúcidos e breves. uma carta pela sua velha criada. Abri-a admi-
Para a melhor exposição, arrumarei assim a rado, e mais surpreso fiquei ao ler as suas pou-
minha narrativa: restabelecerei primeiro a ver- cas linhas:
dade sobre o desastre. depois, num apanhado, «Não me procures antes de te chamar. Preciso
condensarei – tanto quanto possível ordenada estar só, inteiramente só, durante algum tempo

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Mas sossega. Tu serás o primeiro a saber. Adeus, últimos dias, certo ar de triunfo, de ansieda-
e desculpa. Segredo absoluto.» de, que lhe iluminava o rosto – tudo indicava
«P. S. – Espera a cada instante notícias minhas, que o seu génio breve nos iria surpreender em
e corre logo que eu te avise.» qualquer maravilha nova...
Acostumado às suas estranhezas, dobrei a enfim, decorridas duas semanas, alta ma-
carta, guardei-a e retirei-me... drugada, a campainha de minha casa retiniu
entretanto, nos dias que sucederam, não muito aguda. era um telegrama urgente: “Vem
me pôde esquecer o caso. sobretudo uma forte sem falta 6 horas” – dizia-me nele o sábio. An-
curiosidade me assaltara. Para que seria aquele sioso, não tive tempo para mais do que me ves-
isolamento tão súbito e tão contrário aos seus tir e aquecer uma chávena de leite...
hábitos – para quê? decerto alguma nova des- Às seis horas em ponto batia à sua porta. A
coberta... mas conhecendo-o bem, como não velha criada, já a pé, abriu:
havia outro remédio, resignei-me a esperar... – o senhor manda-o esperar na sala –
Aliás, não podia haver dúvida – tratava- disse.
se com certeza dalguma nova descoberta, por- nova bizarria. Pois, habitualmente, eu, mal
quanto eu lembrava-me de que nos últimos chegava, sem mesmo perguntar coisa alguma,
tempos, especialmente desde o começo do ano, logo me dirigia ao laboratório, instalado num
o mestre parecia absorvido por qualquer pro- grande pavilhão, a meio do jardim.
blema novo em que não deixasse de se concen- entretanto, tagarela, a velhota, em ares de
trar. Pequenas distracções, respostas vagas e, nos caso, acrescentava cochichando:

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– Ih! Jesus... sabe lá... Aquilo vai em duas fiança máxima. Vais ver! Vais ver!... nem tu
semanas que não sai do casarão – era como a calculas...
boa mulher designava o laboratório. – só para todos os meus trabalhos – pacotilha!... o
comer. e mesmo assim... Até nem me deixa lá mais assombroso segredo! o mistério-maior!...
ir chamá-lo!... Imagine, mandou pôr uma cam- Por ora ainda te não digo nada... Vem comi-
painha. olhe, quer ver... go... estou prestes a vencer... ou ser vencido...
Ao mesmo tempo carregava num botão co- só então direi tudo... Vem... Quero-te ao meu
locado na saleta de entrada. lado no Instante supremo. Para isso te chamei.
Um minuto decorrera, quando o mestre se Prometera-te: tu serás o primeiro a saber – pri-
precipitou abraçando-me. meiro!... espera-me um momento.
estranhei-o. nesses quinze dias que estive- saiu, e reapareceu envolto numa ampla peli-
ra sem o ver, ele mudara muito. talvez tivesse ça. era já em maio. e embora a manhã estivesse
emagrecido. mas não fora essa a mudança prin- bastante fresca, admirou-me que em vez do seu
cipal – antes esta, muito bizarra: a expressão do sobretudo negro, quotidiano, envergasse essa pe-
seu rosto deslocara-se, não se transformara, des- liça exagerada que, de resto, nem lhe conhecia.
locara-se. era muito estranho, mas era assim. nas mãos, calçava grossas luvas de castor, cin-
e os olhos, através dos óculos, fulguravam-lhe zentas. Um cache-col muito extravagante lhe en-
num outro brilho, nimbados em auréola. volvida o pescoço, tapando-lhe o queixo.
Gritou-me: mal chegámos à rua, o Professor parou exa-
– Ah! enfim!... enfim!... Ainda não sei, minando o espaço. teve uma hesitação. depois
ainda não sei positivamente, mas tenho a con- puxou da algibeira por um objecto que me pa-
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receu um relógio – consultou-o... e, de súbi- mento, eu pude descobrir não ser um relógio.
to resolvendo-se, pegou-me bruscamente por faltou-me o tempo para o examinar com a de-
um braço arrastando-me sem dizer uma pala- vida atenção. Apenas observei que o seu mos-
vra. só então notei – e pasmo hoje como só trador era roxo e que os algarismos das horas
então notei – que os vidros dos seus eternos estavam substituídos por traços de cor. não
óculos azuis, quadrados, eram doutra cor: um me atrevi a fazer perguntas sobre o estranho
amarelo sujo, muito bizarro; uma cor repug- objecto, porquanto o Prof. Antena já me pre-
nante que metia medo. É verdade: ao olhar com venira de que não me responderia a coisa al-
mais demora os vidros dos seus óculos, foi es- guma. demais, não ia eu saber tudo dentro
ta a impressão que me oscilou destrambelha- em pouco?...
damente. A cor não me soube a cor. os meus entretanto, fosse como fosse, o misterioso
olhos sentiram-na, não vendo-a, mas tactean- relógio devia servir de qualquer forma para a
do-a. sim, a sensação que essa cor que eu vira orientação – pois segundo o sábio o consulta-
me transmitiu ao cérebro, foi uma sensação de va, assim eram dirigidos os nossos passos.
tacto – olhá-la, era como se tacteássemos qual- Caminhámos durante duas horas. estáva-
quer coisa viscosa. e só das estranhas lentes – mos longe da cidade, numa estrada dos subúr-
atingi – provinha a mudança que eu notara no bios, pouco frequentada. Contudo já dois au-
rosto do mestre: eram elas que deslocavam a sua tomóveis nos tinham cruzado. o mestre avan-
expressão fisionómica. çava silencioso: apenas, de quando em quando,
durante o nosso passeio, várias vezes ele um monossílabo... Largara-me o braço. eu se-
tornou a consultar o relógio – que, num mo- guia um pouco atrás dele...
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o meu estado de alma era interessantíssi- de pavor lhe contraiu o rosto... As mãos encla-
mo. sentia-me como que hipnotizado, seguin- vinharam-se-lhe... Ainda quis fugir... estrebu-
do magneticamente o seu rastro. se quisesse pa- chou... mas foi-lhe impossível dar um passo...
rar enquanto ele caminhava, mover-me quan- tombou no chão: o crânio esmigalhado, as per-
do se detinha – ser-me-ia impossível. os meus nas trituradas... o ventre aberto numa estranha
passos eram uma função dos seus passos. Um ferida cónica...
arrepio me varava todo o corpo, como se fôs- Petrificado, eu assistira ao mistério assom-
semos para um grande perigo. Uma nuvem de broso sem poder articular uma palavra, esboçar
mistério nos arrastava – pressenti... um gesto, fazer um movimento... Uma agonia
de súbito, um frio incoerente me gelou os de estertor me ascendeu grifadamente... Jul-
dedos... e a manhã dum maio formosíssimo, guei-me prestes a soçobrar também morto, es-
já alta, volvera-se mais do que tépida... facelado... mas de súbito pude desenvencilhar-
................................................................ me – e soltei então um grande grito: um uivo
Agora dobrávamos uma curva estreita da despedaçador, apavorante...
estrada. em volta de nós, um grande silêncio... ................................................................
Até que, ao longe, as badaladas dum sino al- Acudiram primeiro dois trabalhadores que
deão marcaram as dez horas... e de repente – mourejavam perto – os quais, em grossa vozea-
ah! o horrível, o prodigioso instante! – eu vi o ria, logo começaram amaldiçoando os automó-
mestre estacar... todo o seu corpo vibrou nu- veis... decorridos momentos, um pequeno
ma ondulação de quebranto... ergueu o bra- grupo rodeava o corpo...
ço... Apontou qualquer coisa no ar... Um rictus
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entretanto eu cobrara algum sangue-frio. Após a remoção do cadáver, eu, ainda mal
e vendo que de forma nenhuma poderia di- refeito, corri a casa do mestre, a prevenir a ve-
zer a verdade – a alucinadora verdade – decidi lha criada do triste acontecimento e a dispor
num relance aceitar a explicação do automó- o que fosse necessário. Ao bater à porta, a boa
vel, tanto mais que na estrada havia fundos mulher veio-me abrir pálida de susto... toda a
sulcos de pneumáticos, seguramente vestígios tremer... Contou-me que havia um grande ba-
dos veículos que, algum tempo antes, nos ha- rulho no casarão, que tinha querido ir ver o que
viam cruzado. era... mas recuara cheia de medo, pois vinha de
foi-se chamar a guarda-fiscal ao posto que lá um terrível bafo de calor...
ficava próximo, e eu contei a versão que até sem ouvir mais, numa ânsia, corri ao labo-
hoje se acreditou: Um grande automóvel, de ratório. e efectivamente um misterioso ruído
súbito surgindo vertiginosamente na curva da – como que zumbido de abelhas fantásticas –
estrada, um barulho de ferragens, nuvens de chegava do interior. não hesitei um segundo...
poeira... e um cadáver... Abri a porta, cuja fechadura ofereceu uma resis-
................................................................ tência desusada... entrei...
o resto é bem conhecido: o transporte para sobre uma mesa, ao meio do pavilhão, es-
a morgue, o grande enterro, o ruído da impren- tava assente um aparelho que eu nunca vira.
sa, as investigações policiais improfícuas... esse aparelho, em funcionamento, é que pro-
outros pormenores entretanto não vieram vocava o estranho ruído e, decerto, abrasava o
a público. ei-los: ambiente. era como que um pequeno motor

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cujo volante fosse substituído por uma hélice não projectavam luz apenas: dimanavam simul-
formada por um sistema de três ampolas de vi- taneamente um perfume denso, opaco e sono-
dro. As ampolas continham uma substância ro- ro, e um som arrepanhante, fumarento. de es-
xa e dardejavam em torno de si um halo de luz paço a espaço, em ecos circulares, produziam-se
negra. não divago. os raios luminosos projec- também surdas detonações.
tados eram efectivamente negros. e eu me ex- receei cair fulminado pelos estranhos flui-
plico melhor: o laboratório estava iluminado dos, sufocado pela temperatura infernal – e
por lâmpadas eléctricas, achando-se corridas as não sei em verdade o que me sucedera se não
cortinas pretas que revestiam todas as janelas. vencesse o sangue-frio de correr ao comuta-
Pois bem: em torno do aparelho havia um ha- dor eléctrico que fornecia a corrente que ac-
lo de outra luz, não de sombra, de luz – entanto, cionava o aparelho. fechei-o... Imediatamente
não posso exprimir-me doutra maneira: de luz a máquina parou... olhei as ampolas. A subs-
negra. sim; era como que um jacto de ágata ne- tância roxa evolara-se – como se só o movimen-
gra. Com efeito, este mineral ainda que negro, to a criasse.
é brilhante – de forma alguma sombrio. Pois o ................................................................
mesmo se dava com essa luz aterradora – com Quanto ao instrumento de precisão que
essa luz fantasma. e na auréola negra, lumino- o sábio várias vezes consultara durante o nos-
sa, grifavam-se, como faíscas, crepúsculos roxo- so passeio, foi achado em estilhaços numa das
dourados, num estrépito agudo. depois, – re- grandes algibeiras do colete – bem como des-
quinte de mistério – as ampolas em movimento pedaçados ficaram os seus extravagantes ócu-

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los. Assim, de tudo quanto se me afigurava ter *
tido uma certa relação com o desastre alucina- * *
dor – apenas me restavam três ampolas vazias «É desolador como sabemos pouco de nós.
e uma máquina que, em si, nada oferecia de tudo é silêncio em nossa volta. o que é a vi-
extraordinário. da? o que é a morte?... donde somos, para on-
entretanto a mim próprio jurara descobrir de viemos, para onde vamos?... mistério. nu-
alguma coisa. e desde que me achei na posse vens. sombra fantástica... e o homem de siso
da herança do mestre – ansiosamente logo me não crê nos espectros!... mas não seremos es-
lancei à busca de qualquer traço que me pu- pectros, nós próprios? o mistério?... olhem-
desse descortinar um pouco, muito pouco que nos: o segredo-total, o mistério maior, somo-
fosse, do enigma formidável. nos nós, em verdade... Ah! diante dum espe-
hoje enfim – restabelecida antes toda a ver- lho, devíamos sempre ter medo!... deixemos
dade venho publicar os resultados das minhas o futuro, esqueçamos Amanhã – sonhadores
buscas, pelos quais se verá como logicamente, heróicos de Além. entanto olhemos o passa-
ainda que distantemente, se pode referir o mis- do – tentemos vará-lo, saber ao menos quem
tério à simples realidade científica. ei-los: fomos Aquém.»
eis como o Prof. Antena que, a par de to-
dos os grandes sábios roçara já, mais duma vez,
o espiritismo, o magismo – orientou os seus
trabalhos, por um rasgo admirável de lucidez,

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neste sentido novo: não tentar romper o futu- admite o que vê, o que sente – o que é – como
ro das nossas almas, além-morte-antes sondar se concebe então que, ao mesmo tempo, sai-
primeiro o nosso passado, aquém-vida. na rea- ba sonhar o que não existe? sim, como é que
lidade afigura-se mais lógico, mais fácil, e mes- não havendo fadas, nem encantamentos, nem
mo mais interessante, conhecermo-nos primei- deuses, nem milagres – os homens souberam
ro em Passado do que em Porvir, – já que ig- realizar todas estas irrealidades?...
noramos um e outro. de que se acastela a verdadeira Arte?
O que foi deixou vestígios. – da fantasia.
e assim, partindo desta verdade aceite co- – A que se reduz o génio?
mo axioma, o mestre começou procurando es- Às faculdades criativas. Quer dizer: à fanta-
ses vestígios. sia desenvolvida no mais elevado grau.
– onde os buscar? sim, sim, se a nossa razão só pode admitir
– dentro de nós, decerto. o que se palpa, como se lembrou de idealizar
ora, dentro do nosso mistério total, o que o que não se palpa?
será mais fantástico? A inteligência? melhor: a há, sem dúvida, aqui uma incoerência per-
imaginação. não há dúvida. Pois como é que turbadora...
o nosso cérebro, de forma alguma querendo Incoerência? talvez só aparente. Vejamos:
admitir o inexplicável, ao mesmo tempo sabe nós conhecemos um dia certo panorama donde
acumular fantasia – a cria mesmo, involunta- depois nos afastámos. Como já o conhecemos,
riamente, a toda a hora? se o nosso cérebro só mais tarde, longe dele, sabemos relembrá-lo. Is-

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to é. vê-lo imaterialmente, mas porque já o vi- quadro. se a imaginação fosse livre, – isto é: se
mos materialmente. nem doutra forma se conce- fosse meramente imaginação, se não fosse factor
beria que fosse. ora, sendo assim, porque não de coisa alguma – não deveriam existir estas
havemos de supor – em paralelo, e com mui- restrições. o artista acumularia outras obras,
tos visos de verdade – que uma origem seme- doutras Artes e só em verdade caberia o epíteto
lhante terá a imaginação? de genial, àquele que triunfasse deslumbrar-nos
nesta ordem de ideias, a fantasia não será com uma nova Arte.
mais do que uma soma de reminiscências. de resto, mesmo fora da arte, na simples
simplesmente de longes reminiscências de vida de aspiração, tudo se limita a três ou qua-
coisas que nos não lembramos de ter visto – tro números de cada ordem – tudo se sintetiza.
mas que tudo, em realidade, nos leva a crer que sonhem-se os espasmos. mas até o maior ona-
vimos, pois as sabemos rever. Aliás, eis disto a nista, não saberá evadir-se, criando um êxta-
prova máxima: a imaginação não é ilimitada. o se novo – que não seja êxtase, mas outra coisa
artista que queira executar uma obra só a pode qualquer, excessiva, total; enfim: mais arrepia-
ascender dentro dum número muito restrito de damente doutra cor, duma cor que ainda não
Artes: ou será um pintor, um poeta, um escultor, o tivesse sido.
um músico ou um arquitecto. Por mais distante
que se eleve o seu génio, ser-lhe-á vedado altear Portanto, para concluir: a fantasia, a pro-
uma obra que se não reduza a um poema, a um priedade mais misteriosa do homem é aquela
edifício, a uma partitura, a uma estátua, a um que melhor o distingue dos outros animais, é

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factor de qualquer coisa, visto que se restringe – mas como passaremos duma vida para a
– e, apoiadamente, deverá ser factor de remi- outra vida, atendendo que nunca conservamos
niscências. Logo: longínquas reminiscências da anterior?
«Só podemos imaginar aquilo que vimos ou segundo o mestre, tudo residiria numa
de que nos lembrámos. Se vimos, a fantasia cha- simples adaptação a diversos meios. os órgãos
ma-se memória. Se apenas nos lembrámos sem da nossa vida A, em função do tempo – ou de
nos recordarmos de o ter visto – é nesse caso a qualquer outra grandeza – ir-se-iam pouco a
fantasia pura.»
pouco atrofiando relativamente a essa vida; isto
«O homem que mais reminiscências guardou é: modificando. Até que a mudança seria com-
– será aquele cuja fantasia mais se alargará. Gé- pleta. então dar-se-ia a morte para essa vida
nios serão pois os que menos se esqueceram.»
A. mas, ao mesmo tempo, esses órgãos haver-
Aceite esta hipótese tão verosímil, imediata- se-iam adaptado a outra existência, tornando-
mente nos é lícito concluir que antes da nossa se sensíveis a ela. e quando assim acontecesse,
vida actual, outra existimos. A fantasia cifrar- nasceríamos para uma vida B. Quer dizer:
se-á nas lembranças vagas, longínquas, veladas, «As almas têm idade. E as várias vidas – pois
que dessa outra vida conservámos. e sendo as- nada nos indica que tenha limite o seu número
sim, nada nos repugna também propor que a – não serão mais do que os vários meios a que
nossa vida de hoje não será mais do que a mor- sucessivamente, e conforme as suas idades, as al-
mas se afeiçoarão.»
te, do que o «outro-mundo» da nossa existên-
cia da véspera. Lembremo-nos em paralelo:

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os batráquios, animais terrestres na sua ge- epilepsia, que são como que uma morte tem-
neralidade foram primeiro larvas adaptadas ao porária, um mergulho fora-de-nós?...
meio aquático. mudaram de forma, mudaram de os sonhos...
órgãos. tiveram guelras, têm pulmões. Vivem, Admitamos como provado que o homem
bem visivelmente para nós, duas vidas diversas guarda reminiscência duma outra vida – duma
em meios diversos. Logo, nem por isso é muito outra metamorfose – anterior a esta. se guarda
arrojado formularmos a seguinte hipótese: reminiscências, isto significa que conservou vis-
«Não somos mais, na vida de ontem e na de lumbres de sentidos, de órgãos dessa outra vi-
hoje, do que as sucessivas metamorfoses, diferen- da. (também entre os batráquios urodelos, as
temente adaptadas, do mesmo ser astral. O ho- guelras primitivas deixaram vestígios nos crip-
mem é uma crisálida que se lembra.» to-brânquios – os folhetos branquiais, o espirá-
esta hipótese proposta vamos tentar, senão culo – e subsistem mesmo, funcionando a par
demonstrá-la, pelo menos apoiá-la. dos pulmões, nos perenibrânquios, singulares
Busquemos dentro de nós os fenómenos animais perturbadoramente adaptados a duas
mais frisantemente misteriosos, procurando vidas simultâneas).
ver se acertam com a hipótese em questão. e, durante o sono, os nossos sentidos actuais
grosseiramente, sem ir mais longe, olhemos os anestesiam-se. mas os crepúsculos de sentidos
sonhos, a epilepsia. haverá porventura alguma doutrora permanecerão acordados visto que não
coisa mais inquietante do que as visões reais – devem ser sensíveis ao sono desta vida, que não
ou melhor: destrambelhadamente reais – que é a deles. entretanto nos nossos sentidos con-
nos surgem nos sonhos, e de que os ataques de temporâneos adormecidos, estagnaram ima-
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gens da nossa vida presente, e – por outro lado forço por despertar. Isto nada mais significará
– eles não se acham inteiramente anestesiados. do que a luta dos nossos sentidos reais aneste-
Contudo, a sua intensidade não será tão grande siados, contra os vislumbres de sentidos-fan-
que sufoque os vestígios de sentidos doutrora, tasmas em actividade.
como quando estamos acordados, e assim uns Lembrar-nos-emos tanto melhor do que
e outros trabalharão em conjunto. daí toda a sonhámos – quanto mais perfeita tenha si-
incoerência dos sonhos, o destrambelhamento do durante o sono a morfinização dos nossos
da realidade, visto que as sensações serão me- sentidos. «não sonhar», indicará que os nos-
ras sombras de sensações estagnadas, interpre- sos sentidos de hoje adormeceram inteiramen-
tadas por vislumbres de sentidos doutra vida, te, e assim não pudémos guardar reminiscên-
transmitidas ao nosso cérebro pelos nossos sen- cias do que oscilaram os vislumbres dos senti-
tidos actuais morfinizados, vacilantes. ou, tal- dos doutrora.
vez mais claramente: durante o sono, os nos- e, paralelo a este último, se apresentará o
sos sentidos adormecidos trabalharão accio- caso da epilepsia.
nados por sentidos doutra vida. donde, uma nos epilépticos, a adaptação dos órgãos à
soma de parcelas arbitrárias, cujo resultado se existência actual, por qualquer circunstância
traduzirá na incoerência, na falta de medida, física, será intermitente – haverá lacunas desta
na fantasmagoria dos pesadelos. vida. o epiléptico, durante as crises, regressa-
muitas vezes, quando sonhamos, temos a rá a uma vida anterior – nada entanto nos po-
sensação nítida de que estamos sonhando, e, dendo contar, de coisa alguma se recordando
se o sonho é terrível, fazemos um violento es- (nem do intervalo que houve na sua vida pre-

3 3
sente) pois a adaptação dos seus órgãos à vida sensação de já havermos presenciado, não sa-
de ontem, e a respectiva desadaptação à vida bemos donde, certo cenário em que nos agita-
de hoje, teriam sido inteiras. Assim, não con- mos agora pela primeira vez.
servaria durante o ataque nenhuns pontos de Com efeito podia muito bem suceder que
referência que lhe permitissem, nesta, lembrar- na nossa metamorfose de ontem, mais prova-
se do que viveu na outra. velmente na velhice desse período, existissem já
nada nos prova, de resto, que haja só duas embriões de sentidos futuros sensíveis ao nos-
existências. Pelo contrário: tudo faz pressentir so meio actual – os quais teriam sido longin-
que se viva uma série delas, uma série mesmo quamente impressionados por essa paisagem,
infinita – muito melhor: uma série talvez cir- e dela guardado fantasmas de reminiscências
cular, fechada; donde se conceberia sem gran- que hoje, ao depará-la, bruxuleassem.
de esforço a imortalidade da Alma. «Assim – escreve o mestre – eu, olhando
e, sempre conforme os apontamentos do para trás de mim, tenho a noção nítida, recor-
mestre, a loucura não seria mais do que uma do-me com efeito, da cor de certas épocas e,
adaptação prematura e imperfeita a uma exis- muito frisantemente, da cor do período român-
tência vindoura. Aliás é muito admissível que tico – tempo em que terei sido velho na minha
já fremam [sic] em nós crepúsculos de senti- vida de ontem».
dos duma vida imediatamente futura, como
outrora – na de ontem – já vibrariam indícios outro ponto primordial há a examinar –
dos desta de hoje. e assim se explicaria o sin- por cujo exame será possível formularmos al-
gular fenómeno do já visto: por vezes temos a
40 41
gumas hipóteses sobre certas circunstâncias da nessa vida anterior haverá apenas um ente
nossa vida imediatamente anterior. – mas muitas mortes. Conforme se tiver morri-
Vejamos: do na vida A, assim se nascerá para a vida B. e
na existência actual não vivemos só nós. o ente que nessa vida A morrer mais perfeita-
entretanto o único ser dotado de fantasia é o mente, será na vida B o menos perfeito. Logo:
homem. Isto é: o homem é o único ente que «Não foi o mesmo o destino dos seres dessa exis-
guarda reminiscências, a única crisálida que tência após a sua morte quanto a ela».
se lembra. e eis o que muito bem nos viria explicar
Porque será assim? a origem da fantástica concepção humana de
duas hipóteses nos é lícito propor: Inferno e Céu – o céu para os que procede-
na vida de ontem haveria seres de várias ram bem, o inferno para os que procederam
espécies – cada uma delas morrendo diferen- mal. ela não residiria mais do que na adapta-
temente, isto é: desadaptando-se da vida A e ção inconscientemente feita como hipótese,
adaptando-se à vida B diferentemente. Conser- duma verdade consciente sabida na outra vida
varia porém vislumbres de sentidos dessa vida e de que, nesta, tivéssemos conservado pálidas
A, uma única espécie, que na vida B acorda- reminiscências. sim. na vida de ontem, sabe-
ria em homem. ríamos que o nosso porvir na de hoje, varia-
Contudo esta segunda hipótese se afigura- ria conforme existíssemos a de então. e assim,
va ao mestre bem mais provável e bem mais identicamente, teríamos suposto – ao desen-
interessante: volvermo-nos na vida actual que o nosso des-

42 43
tino em Amanhã, seria diverso segundo proce- eis donde se chega a todas estas conclusões,
dêssemos em hoje; escolhendo como factores e eis pelo que o Prof. Antena reputava a segun-
das várias sortes o bem e o mal. ora, em ver- da hipótese a melhor apoiada.
dade, ser bom ou mau é uma orientação, uma entretanto ainda se não agitou o lado mais
tensão diferente do espírito, – o que, duma ma- inquietador do problema.
neira muito lógica, poderia diversamente in- Aceite a hipótese das vidas sucessivas – e, de
fluir na adaptação dos nossos órgãos à existência resto, preocupando-nos apenas com a de hoje
vindoura, e no seu respectivo desafeiçoamento e com a de ontem – onde se localizarão essas
quanto à presente: vidas, quais serão os seus meios?...
«na vida anterior à nossa haverá pois um «Essas vidas existem sobrepostas, bem como os
único ser, o qual morrerá mais ou menos per- seus meios» – parece ter concluído o sábio. Uni-
feitamente, terá nesta vida determinado desti- camente os seres adaptados a uma vida, seriam
no, conforme lá agiu, foi – este “foi”, é claro, insensíveis a outra. Assim não a poderiam ver,
de forma nenhuma traduzindo ter sido bom não a poderiam sentir, embora ela os traspas-
ou mau, ideias que só significarão alguma coi- sasse, os entrecruzasse.
sa aos nossos sentidos de hoje». – mas essas existências não preencherão
A fantasia compõe-se de reminiscências. Se o antes os vários astros?
homem fantasiou destinos diversos para depois era muito admissível. simplesmente o mes-
de si, e porque nele existem lembranças dalgum tre punha em dúvida a existência de vários as-
facto real, paralelo. tros. Conforme as suas notas (ignoraremos

44 45
sempre, por desgraça, em virtude de que ma- terrestre – que, assomando à tona de água, os
quinismo de raciocínios, de que observações seus olhos não avistariam nem os promontórios
ou de que experiências, ele chegara a imaginar nem as falésias, e que o seu corpo seria poroso
tal sistema do universo) os astros não seriam e transparente a tudo quanto pertencesse a es-
mais do que vários estados do mesmo tempo – sa vida. supunhamos que, em relação ao meio
ou melhor: da mesma grandeza indefinida – e aquático, o mesmo se dava com os seres ter-
as vidas: a idade, os diversos períodos de meta- restres. e eis como teríamos duas vidas mistu-
morfoses, do mesmo ser psíquico que sucessi- radas, emaranhadas – mas cada uma delas vi-
vamente se fosse adaptando a um e outro esta- vida exclusivamente, existindo exclusivamente
do dessa grandeza. para determinados indivíduos.
não nos julguemos em plena fantasia. Que, na verdade, assim acontece. Apenas
olhando em volta de nós, logo topamos com todos nós nos vemos uns aos outros, e vemos
factos paralelos – longinquamente paralelos, ou sentimos os meios onde nos não podemos
mas em todo o caso comparáveis. Pois não exis- agitar. Aceite-se porém que esses meios que
tem ao nosso redor sobrepostos três meios: o nós presenciamos são, ainda que diferentes,
da mesma ordem; outros no entanto existin-
sólido, o líquido, o gasoso? e não existem in-
do de outras ordens, entre as quais as diferen-
divíduos especialmente adaptados pelo menos
ças serão máximas, nenhum dos seres a um dos
a dois desses três meios?
meios de certo grupo adaptado será sensível a
muito bem. Admitamos por momentos
um meio doutro grupo – e teremos a realiza-
que um peixe não teria órgãos sensíveis à vida
ção da hipótese do mestre.

46 4
suponhamos ainda, para completar, que as- lhê-los. A nossa vida «atravessa» a sua vida, mas
sim como um sapo, no estado de larva, é um ser eles nunca a adivinham.
aquaticamente adaptado, e, no período adulto, Pois bem. Porque não há-de suceder o mes-
um animal terrestre – também um mesmo nú- mo connosco?
cleo psíquico vivendo originariamente uma vida Porque não hão-de viver em volta de nós
A num meio α, se iria adaptando sucessivamen- outros seres, nossos parentes – nossos antepas-
te aos meios β, γ, δ, existindo neles as vidas B, sados, nossos vindouros – que nos verão, nos
C, D; cada um desses meios, é claro, tornando- sentirão não sendo por nós nem vistos nem
se-lhe sensível em função das suas metamorfo- pressentidos?
ses; isto é: da sua idade. É avançar muito decerto assegurar o con-
há mais porém. existe outro paralelo bem trário. (mesmo sabemos tão pouco, tão infini-
melhor, bem mais frisante – a vida vegetal. tamente pouco, que nunca devemos, em ver-
os vegetais vivem. e entretanto nenhum dade, garantir coisa alguma).
sentido, nenhum órgão, possuem propriamen- e, sendo assim, nada nos repugnaria, com-
te igual aos dos animais – a bem dizer nem o parando, propor que as doenças que nos ma-
seu meio é o mesmo, visto que uns e outros se tam seriam apenas as colheitas que de nós fa-
aproveitam de elementos diversos dum mes- riam seres doutra vida e dos quais não fugiría-
mo meio. os vegetais não vêem seguramen- mos, à falta de os saber adivinhar.
te a nossa vida, não a sentem. A prova está em «de resto – anotara o mestre em parêntesis
que lhes falta por completo o instinto da con- – todas estas comparações com o reino vegetal,
servação. Não fogem quando nos propômos co- devem abranger também os minerais. nada nos

4 4
prova, com efeito, que eles não vivam. Apenas e foi essa a extraordinária empresa a que o
não viverão uma vida como nós a compreen- Prof. Antena se decidiu meter ombros, embo-
demos. não viverão isoladamente. mas podem ra todas as barreiras!...
viver em conjunto: terão idade em conjunto. e não nos é desgraçadamente possível saber
cada “tempo” dessa idade representar-se-á por como ele chegou a um resultado prático – pois,
uma espécie mineral». segundo veremos, a sua estranha morte parece
entanto, cumpre não esquecer: tudo isto não significar mais do que esse resultado atin-
são meras comparações, apenas grosseiros gido, ainda que debalde. mas pelos seus papéis,
paralelos. Pois, em verdade, para todos nós – conhecemos em teoria o que buscou vencer:
animais, vegetais ou minerais – o meio é real- Admitindo como verdadeiro o sistema das
mente um mesmo conjunto: apenas muito vidas sucessivas entrecruzadas, cada uma delas
diversas as adaptações, os processos de utili- apenas sensível ao conjunto de seres que a exis-
zar esse meio. tisse – aquele que, não obstante, tivesse con-
«todos formaremos um conjunto. Poder- seguido artificialmente, duma existência, tor-
mo-nos-emos até, quem sabe, vermo-nos to- nar os seus órgãos sensíveis a outra, poderia,
dos uns aos outros – pelo menos os superiores da sua, viajar nessa outra.
em complexidade orgânica vêem os inferiores. seria o caso do vegetal que, continuando
haverá porém vários conjuntos. Cada um des- a ser vegetal, fosse ao mesmo tempo animal.
tes conjuntos é que não poderá, naturalmente, nós não sabemos, não sentimos, o que será a
varar o mistério de nenhum outro». existência duma árvore. Conseguíssemos vivê-

50 51
la, não nos esquecendo de nós, e conhecê-la-ía- entretanto publiquemos ainda estas curio-
mos. «não nos esquecendo de nós», isto é: não sas notas, extraídas quase textualmente dos
deixando de ser nós-próprios, visto que, dada seus cadernos.
a transformação completa, da mesma manei- «suponha-se mesmo que existem vários as-
ra ignoraríamos tudo – porque só conhecería- tros e que, em cada um deles se localizará uma
mos então a nossa vida de vegetal. vida e um meio. Pois nem por isso cairia por
Paralelamente – e segundo a hipótese do terra a hipótese dos mundos sobrepostos».
sábio – um epiléptico, durante a crise, baixou «– Como assim,» objectar-se-á. «entre os
a um outro mundo. mas como os seus órgãos, astros haveria nesse caso distância – e não se
momentaneamente, se desadaptaram por com- vence distância sem movimento... – Perdão...
pleto deste, – ele não pôde, ao regressar, dizer- mas quem nos diz que o movimento existe?
nos o que viveu no outro. Viajou-o de sentidos Podemos acaso ter essa certeza? de forma al-
vendados. guma... e vêm até de muito longe as dúvidas a
em resumo – o mestre propunha-se ao se- tal respeito – já Zenão d’elea negava a sua exis-
guinte: adaptar os seus sentidos a uma outra vi- tência. de resto o mais provável, o quase certo
da (à nossa vida imediatamente anterior), con- – é que o movimento, o tempo, a distância (ou
servando-os ao mesmo tempo despertos na de melhor: as medidas do tempo e da distância),
hoje. Verdadeira ambição de deus, a sua! serão apenas sensações próprias aos nossos ór-
gãos actuais, sensações que os definem: e a reali-
dade das coisas uma outra sensação; bem co-

52 53
mo a sua irrealidade. Porquanto no Universo, do meu mistério. entretanto a sensação que
nada será real nem irreal, mas outra coisa qual- me oscilava – descubro agora – não era ver-
quer – que só saberia o indivíduo perfeito que dadeiramente esta. Parecia-me antes, não que
se adaptasse duma só Idade, a todas as vidas, me desconhecia, mas que já soubera outrora
vivendo-as universalmente. e a esse triunfador, quem fora – e que hoje me esquecera, sendo
em verdade, caberia o nome de deus». impossível recordar-me por maiores esforços
«depois, nesta hipótese da sobreposição que empregasse.
dos meios, não será um belo apoio o conhe- e isto só vem apoiar a teoria das reminis-
cido fenómeno do já visto? se as existências se cências logo das vidas sucessivas, pela qual se
cristalizassem separadas, longínquas entre si, se chega a conceber a eternidade da Alma. Aliás,
a distância fosse uma realidade – presumivel- devemos com efeito ser espiritualmente eter-
mente nós não lograríamos entrever com vis- nos – e um indício reside em que, pensando no
lumbres de sentidos prematuros (por transpa- nosso Além, nos chega sempre por último esta
rência brumosa, decerto) o que estilizasse numa sensação: Ainda que a morte fosse o aniquila-
outra vida, e assim chegados a ela, reconhecer- mento total, ficaríamos embora sabendo qual-
mos às vezes, em ténues lembranças, sombras, quer coisa – por nada termos ficado sabendo,
paisagens, crepúsculos». por nada termos sentido ver.
«em pequeno» – aponta ainda o sábio –
«colocando-me em face dum espelho, estre-
mecia não me conhecendo, isto é: apavorado

54 55
* sa vida imediatamente anterior, segundo todas
* * as probabilidades. Como o tentaria, em práti-
eis tudo quanto me foi possível extrair dos ca? segredo...
vagos apontamentos do mestre. daqui para em outros maços de papéis existem séries
diante, apenas nos será lícito fazer suposições de cálculos e de fórmulas químicas que prova-
sobre eles. velmente se relacionaram com a busca da ma-
estas notas, já antigas de alguns anos, de- ravilha. os cálculos porém são indecifráveis na
ve-as o Prof. Antena haver meditado, ajustado, sua maioria, e as fórmulas de impossível leitura,
descido profundamente nos últimos tempos. visto que a par de símbolos conhecidos, muitos
e decerto encontrou provas autênticas para as outros figuram que não podemos identificar. A
suas teorias – não tornando desde aí a assen- fórmula que mais se repete é esta:
tar coisa alguma porquanto, embrenhado no W3 Y2 XN4 Ro.α
assunto, e decidido a trabalhá-lo até ao seu li-
sem dúvida referiam-se também à desco-
mite, isso lhe seria dispensável. Com efeito ele
berta as estranhas ampolas encontradas em
só se utilizava dos seus cadernos, quando, ocu-
movimento no seu laboratório e o misterioso
pando-o a resolução de determinado problema
relógio que, durante o passeio trágico, parecia
– ideias lhe surgiam sobre qualquer outro que
orientar os seus passos. nada mais sabemos.
só mais tarde agitaria.
seguro do seu sistema, buscou demonstrá- ora em tudo isto – afirmei logo de come-
lo; isto é: penetrar numa outra vida – na nos- ço residiam as provas de verosimilhança da ex-

56 5
traordinária morte do Prof. Antena – cuja ver- entre uma oficina titânica, no meio de maqui-
dade só hoje estabeleci. nismos vertiginosos, alucinantes, que o tives-
Vejamos por que maneira: sem esmagado.
muito facilmente – se aceitarmos que o (É claro que os termos que utilizo são nimia-
mestre venceu o mistério, como em verdade mente paralelos – pois nessa existência nem ha-
essa morte fantástica nos parece indicar. veria maquinismos nem Praças, mas quaisquer
sim. mantendo-se sensíveis a esta vida, os outras coisas. Quaisquer coisas novas que, da
seus órgãos teriam com efeito acordado nou- nossa vida, pela vez primeira teria presenceado
tra vida. nesse instante Absoluto, o corpo do [sic] o grande mestre).
mestre deixara de ser poroso, insensível, invul- tal é a hipótese que pela minha parte pro-
nerável a essa existência. mas quando isso su- ponho. Quem entender que formule outras
cedeu, qualquer coisa desse mundo o teria va- – mesmo que retome as suas teorias e pratica-
rado – como ao epiléptico descido a outra vi- mente as busque verificar. Para isso as publi-
da durante a sua crise, qualquer coisa da nos- quei. seria um crime ocultá-las. elas rasgam
sa poderia esfacelar (um automóvel, o volante sombra, fazem-nos oscilar de mistério, como
duma máquina) se nós não víssemos o seu cor- nenhumas outras. Incompletas, embaraçadas,
po e não o resguardássemos. são entretanto as mais assombrosas...
Assim – talvez apenas por um acaso desas- ...e na memória do Prof. domingos Ante-
troso, – o Prof. Antena, ao vencer, surgisse na na, devemos sempre relembrar, atónitos, Aque-
outra vida entre uma Praça pejada de veículos, le que, por momentos, foi talvez deus – deus,

5 5
ele-Próprio: que realizaria, um instante, o deus posfácio
que nós, os homens, criámos eternamente.

“fantástico e decifração” em
Lisboa,
a estranha morte do professor antena
Dezembro de 1913 e Janeiro de 1914
Maria João Simões | Universidade de Coimbra

O emergir do texto

o conto aqui apresentado surgiu num volume de


contos intitulado Céu em Fogo cuja publicação foi cui-
dadosamente acompanhada por mário de sá-Carnei-
ro. o livro é de Abril de 1915 – um ano antes do seu
suicídio. É possível acompanhar muitos dos passos que
originaram a criação dos contos inseridos neste volume
através das cartas que mário de sá-Carneiro escreve a
fernando Pessoa, de Paris, em 1913 e depois em 1915.
Considerando fernando Pessoa como o único escritor
que o pode compreender, mário de sá-Carneiro vai co-
municando ao seu interlocutor as suas ideias e constan-
temente solicita a sua opinião crítica. relativamente a
muitos dos contos inseridos em Céu em Fogo, o autor
não só descreve sumariamente a fernando Pessoa a ideia
original como, depois, vai explicando de que forma a

60 61
ideia inicial cresce e se desenvolve, justificando as mo- mos a certeza se existiu). fazer passar a incerteza do pró-
dificações que os textos vão sofrendo, como acontece, prio encontro, do episódio.” (sá-Carneiro, 2001: 70)
por exemplo, com o conto “Asas”. tal como nesta passagem se verifica, mário de sá-
no caso do conto “A estranha morte do Profes- Carneiro partilha muitas das suas ideias com fernando
sor Antena” pode presumir-se que o texto partiu duma Pessoa e com ele dialoga por vezes até ao mais ínfimo
vaga ideia de um bizarro encontro entre um discípulo pormenor. Como se perderam as cartas com as respostas
e professor pensando cada um deles que o outro esta-
de fernando Pessoa só temos um vislumbre delas pela
ria morto. esta ideia é descrita por mário de sá-Car-
forma como sá-Carneiro reage na carta seguinte. embo-
neiro, na sua forma ainda muito incipiente, numa car-
ra o poeta que não conseguia abandonar Paris dê tam-
ta datada de 21 de Abril de 1913. Provavelmente é es-
bém a sua opinião sobre os textos que fernando Pessoa
ta a ideia que está na base daquilo que vai ser posterio-
lhe remete, reconhece-o como escritor maior e di-lo ex-
mente o conto. eis como o autor apresenta a sua ideia
a fernando Pessoa: plicitamente achando aqui mais um motivo para solici-
duas ideias novas que aqui lhe escrevo, copian- tar a opinião do crítico racional que nele encontra. Por
do textualmente o apontamento telegráfico que tenho esta razão diz-lhe muitas vezes que espera ansiosamente
num projecto: a opinião do crítico perspicaz e sabedor, como se pode
verificar na carta de 22 de dezembro de 1913:
– “fixa na rua um homem que lembra outro já mor-
to (o seu professor alemão) pois se parece com ele. e o meu querido amigo,
desconhecido fixa-o também. Parece que também o re- Gostava muito de falar amanhã com você. tanto
conhece. de novo se encontram num café. e falam. o que perdi hoje o dia à sua procura! É sobretudo por cau-
desconhecido é alemão... e conta-lhe que o fixou por se sa de s. ex.ª o sr. Prof. Antena. há muitas ideias e antes
parecer imenso com um seu discípulo morto já... de começar a fazer gostava muito de falar consigo. (sá-
– disto, dar a ideia de coisas incertas que na vida vi- Carneiro, 2001: 103)
vemos, das zonas claro-escuro que nela existem (como às muitos dos tópicos que afloram nas cartas que má-
vezes, ainda acordados, como que começamos a sonhar,
despertando logo porém desse vago sonho, que não te-
rio de sá-Carneiro envia da sua amada Paris são revela-

63
dores dos problemas por ele sentidos: a distância entre ‘outrar-se’ pessoano (que o criador juntamente com os
o sujeito e o mundo, a ânsia de ir mais além, a identifi- seus heterónimos vai poeticamente dizer de mil e uma
cação e análise de si-próprio, a relação espírito-corpo e maneiras), porque ele, mário de sá-Carneiro, conhe-
a própria criação artística devedora da genialidade que ce bem esse ‘estranhamento’, pois já há muito o sentira
rompe os limites do conhecido. pela primeira vez:
estes são também alguns dos temas transpostos Como é bem descrito o estado de alma que interro-
para os contos de Céu em Fogo onde são explorados e ga: “o que é ser-se rio e correr? o que é está-lo eu a ver?”
representados ficcionalmente pelos narradores e perso- e neste verso: “tudo de repente é oco”, passou uma asa
nagens, sendo perceptível assim um movimento de ca- de génio. sabe bem que não estou a “elogiar”, que estou
társe e de sublimação do autor através dos seus textos. a dizer sinceramente o que penso da sua obra. Peço que
Apesar de “A estranha morte do Professor Antena” ser me acredite e que acredite também nisto: Que eu com-
um dos contos onde esta relação é menos reconhecível, preendo os seus versos.
ela não deixa de existir. Um dos exemplos comprovati- Quantas vezes em frente de um espelho – e isto já
vos disto mesmo é a semelhança que encontramos en- em criança – eu não perguntava olhando a minha ima-
tre uma afirmação do Prof. Antena que o seu discípulo gem: “mas o que é ser-se eu; o que sou eu”. e sempre,
nestas ocasiões, de súbito me desconheci, não acreditan-
cita e uma passagem de uma carta em que o escritor de
do que eu fosse eu, tendo a sensação de sair de mim pró-
Dispersão descreve uma forma de sentir peculiar expe- prio. Concebe isto?” (sá-Carneiro, 2001: 40).
rienciada desde criança. eis a citação atribuída ao Prof.
Antena pelo narrador do conto: Como se pode ver há uma transposição estética
da pessoa do autor para a sua personagem, sendo as-
“em pequeno” – aponta ainda o sábio – “colocan- sim possível ir ao cerne do que aproxima autor e perso-
do-me em face dum espelho, estremecia não me conhe-
nagem: o mistério do ser e, por extensão, da existência
cendo, isto é apavorado do meu mistério”.
– que é afinal um dos objectivos das pesquisas do Pro-
ora, nas suas cartas, sá-Carneiro diz a fernan- fessor Antena.
do Pessoa que compreende muito bem quando ele fa- É ainda através das cartas da correspondência entre
la da distância de si próprio pressuposta nesse sentir do os dois escritores que ficamos a saber que mário de sá-

64 65
Carneiro tem finalmente uma ideia precisa dos contos a com entidades cósmicas – o que revela que nesta épo-
integrar no volume Céu em Fogo em 6 outubro de 1914. ca as fronteiras científicas não eram ainda tão definidas
nos meses seguintes pedirá ajuda a fernando Pessoa pa- como hoje as pensamos. similarmente, ou, como diz
ra rever as provas e, a 8 de Janeiro de 1915, afirma que o o narrador, “a par de todos os sábios”, também o Pro-
volume está no prelo (sá-Carneiro, 2001: 153, 163). fessor Antena “roçara já, mais de uma vez, o espiritis-
mo e o magismo”. neste sentido, embora o nome An-
A figura do cientista louco e a estranheza fantástica tena contenha certas ressonâncias humorísticas e assim
funcione em certa medida como uma projecção irónica
“estranha” é uma palavra fundamental que mar- (Lima, 2001) do desejo de alcançar a verdade do pró-
ca o conto desde o início com a sua presença no títu- prio autor, ele também é elucidativo da modernidade
lo e depois com múltiplas repetições no corpo do texto. do universo de referências culturais do seu autor, sem-
É esta palavra, ou melhor, o seu significado, que reme- pre ávido da sua Paris cosmopolita. Isto é bem marcante
te o conto para o domínio da literatura fantástica tan- na passagem inicial do texto onde o autor faz ombrear
to mais que ela aparece para caracterizar uma morte. A o seu sábio Professor Antena com todo movimento do
estranheza é, logo a seguir, aumentada pela sua conju- progresso europeu e o situa distante da “lusa grosseria,
gação com o nome Antena para designar um Professor. provinciana e suada, regionalista, que até nesta Lisboa
recorde-se que, embora as primeiras antenas de hertz (...) campeia à rédea solta”.
tenham surgido no final do século XIX, o seu proces- A figura desenhada no conto é, pois, a do cientis-
so de funcionamento apenas atinge maior visibilidade ta “louco” – louco porque incompreendido pela sua so-
no domínio com a transmissão transatlântica de mar- ciedade que não consegue acompanhar o vanguardismo
coni, no final do ano de 1901. trata-se, portanto, de das suas pesquisas e invenções. mas que tipo de cien-
um sucesso inventivo recente – uma aplicação práti- tista? embora tal nunca seja explicitado, parece tratar-
ca de conhecimentos da física. também se sabe que a se da figura de um físico, pois o narrador não só refere
área científica da comunicação sem fio levou um físico as curas realizadas em diversos hospitais pelo Professor
como nicolas tesla (estado-unidense de origem croata) Antena graças às suas aplicações de raios ultravioletas,
a experiências ocultistas de tentativas de comunicação como também faz da referência à “luz negra” emitida,

66 6
no laboratório do cientista, por três ampolas que “con- Argumenta-se, assim, a favor da Ciência considera-
tinham uma substância roxa e dardejavam em torno de da em pé de igualdade com a arte – uma ideia plasma-
si um halo de luz negra”. ora é por volta do início do da neste conto sobretudo através desta figura do cien-
século, em 1903, que robert William Wood desenvol- tista, mas também através de diversas reflexões da mão
ve as lâmpadas de “luz negra”, ou “lâmpadas de Wood”, do narrador que defende explicitamente esta ideia. esta
com a emissão de raios ultravioleta e em 1911 são pu- é uma posição marcadamente presente noutros textos
blicadas e divulgadas as primeiras fotografias utilizan- do modernismo em Portugal – como é o caso da “ode
do iluminação com raios infravermelhos realizadas por triunfal”, ou do pequeno poema (de 1928) onde Álva-
este físico americano – aliás, também escritor de ficção ro de Campos afirma: o Binómio de newton é tão be-
científica. na verdade, a ideia de uma luz negra como lo como a Vénus de milo. / o que há é pouca gente pa-
“um jacto de ágata negra” é já um acrescento de fanta- ra dar por isso.”
sia ficcional não tendo correspondência científica. Pa- deixando de transparecer, de modo intencional-
ra além destes dados, há também a referência a outros mente subtil ou abrupto, o reverso disfórico da moder-
objectos emblemáticos da modernidade tecnológica: o nidade, esta posição indica a uma valorização estética
seu laboratório está cheio de “aparelhos bem certos”, de do próprio cunho científico e tecnológico entendido co-
lâmpadas eléctricas e de pequenos motores; há ainda es- mo caracterizador da época moderna. no entanto, co-
sa espécie de aparelho de medição do tempo – parecido mo salienta maria Antónia Lima (2001), não deixa de
com um relógio, mas mais que um relógio vulgar – que ser em certa medida verdade que o que interessava mais
o Professor transporta consigo para a sua última e fatal sá-Carneiro na Ciência era o “espírito de inventivida-
experiência. Através deste último objecto o que se re- de”, encontrando o autor na ficção científica o “enor-
presenta de forma figurada são as concepções de espaço me poder especulativo que lhe possibilitava a desco-
e de tempo revolucionadas pela teoria da relatividade berta de novos mundos de conhecimento e de criação
restrita que einstein publica em 1905, a qual implica, de mundos alternativos”. não há, portanto, como em
para além das três dimensões espaciais, a consideração Poe, uma rejeição da modernidade tecnológica, o que é
de uma 4ª dimensão: o tempo. perfeitamente compreensível se pensarmos o que signi-

6 6
ficam estes anos 1913 e 1914 numa europa que avan- prescreve que o leitor procure neste conto uma narra-
ça para a guerra. tiva operando mimeticamente em relação ao real, nem
entretanto, convém lembrar que o sentido da 4ª é prescrito que ele deva encontrar equivalências com o
dimensão surge através da vulgarização popular duma mundo onde se insere; antes é suposto que o leitor acei-
4ª dimensão espacial mais difícil de perceber o que é, te, num jogo de mútuo acreditamento (segundo a te-
pois, não tendo base científica, tornou-se uma figura- oria da representação de Kendall Walton), ser possível
ção espaço-temporal ficcional daquilo que é estranho e ao Professor Antena ter ‘viajado’ para outro mundo. o
misterioso. fantástico é uma categoria estética (cf. simões, 2007:
71) e um modo ficcional que subverte a representação
A 4ª dimensão, o Além desconhecido mimética. Assim o que de invulgar se representa neste
e os mundos paralelos conto não é o real mas o irreal, o sobrenatural – daí a
repetição de palavras que indicam a estranheza e a inex-
se o Professor Antena enfileira inegavelmente no plicabilidade.
rol de cientistas loucos incompreendidos da ficção li- este jogo ficcional do fantástico implica a criação
terária (que se propagou facilmente para outros domí- de uma atmosfera onde reina a incerteza e algum receio
nios artísticos), interessa agora ver o que caracteriza es- desse mundo desconhecido a que se alude – por isso se
te tipo de personagem: a figura do cientista representa pode falar de sentimento do fantástico, como faz roger
a busca de um conhecimento ‘outro’ para além do que Bozzetto (2007: 11).
já é conhecido da humanidade. Porém, no seu caso, es- o fantástico estabelece uma relação privilegiada
te conhecimento mergulha na esfera do impensável e com o excêntrico e a figura do Professor Antena explo-
do irreal. ou seja, através desta figura o conto acciona ra este sentido. esta fuga ao normal faz-se pela quebra
um convite ao leitor para este acreditar que o Professor da barreira do conhecido, pelo passar para além daqui-
Antena descobriu uma forma de se transportar para um lo que é aceitável como normal pelo senso comum, pe-
outro espaço-tempo. lo cruzar para além das fronteiras do que é permitido,
estabelece-se assim um protocolo ficcional espe- accionando pois um sentido transgressivo bem visível
cífico entre autor e leitor típico do fantástico: não se neste conto. ora, segundo michel foucault a “trans-

0 1
gressão é uma acção que envolve o limite” (apud, Ar- ficcionam a 4ª dimensão, a viagem funciona como um
mitt, 1996: 33). lugar de passagem para o fantástico, o qual, segundo r.
É neste sentido que a ideia da 4ª dimensão pode Bozzetto e A. huftier (2004: 232), está investido de um
ser operativa: ela funciona como uma porta para o des- novo valor, um valor mais relacionado com o medo face
conhecido, para um mundo outro que seja diferente do a uma eventual porosidade das fronteiras comummente
nosso conhecido, aberta pelo factor tempo (Bozzetto et aceites para definir o mundo: à oposição natureza/so-
huftier, 2004: 231). Acentuam-se desta forma dois va- brenatural ou humano/inumano se junta daí em diante
lores enaltecidos no modernismo português: o valor da a oposição humano/não humano. também neste conto
diferença e o valor da originalidade. É suposto que esse se valoriza sobretudo o sentido simbólico da viagem e é
outro mundo seja um mundo tecnologicamente avan- por isso que as informações científicas ou as indicações
çado – eis porque o seu discípulo coloca a hipótese de o matemáticas são escassas nesta narrativa: na verdade, o
Professor ter surgido no outro mundo “no meio de ma- que se apresenta é apenas uma fórmula pretensamente
quinismos vertiginosos e alucinantes” de alguma “ofici- científica e algumas escassas informações sobre os ma-
na titânica”. o factor tempo, por sua vez, catapulta o teriais existentes no laboratório. mais que uma mostra
leitor para um futuro onde se tornará possível viajar no das conquistas das ciências, o que interessa é a ideia de
tempo e no espaço, ou seja, o conto tem uma inegável 4ª dimensão como fuga, enquanto fruto da capacidade
‘dimensão futurante’ – outro aspecto altamente valori- imaginativa do homem: o cientista e o artista. e mais do
que isso o que importa é o próprio processo imaginativo
zado pelos modernistas portugueses.
em que ambos se movem e se encontram.
mundos paralelos duma 4ª dimensão representam
todavia, esses elementos são reveladores de uma
aqui não uma acronia mas uma duplicidade temporal
inegável preocupação de registo dos avanços científicos
– os dois mundos, conhecido e desconhecido, existem
como emblemas da modernidade – modernidade na
em paralelo; deste modo persegue-se a consideração de
qual escritores como fernando Pessoa e mário de sá-Car-
uma heterotopia (segundo a terminologia de foucault),
neiro se reviam e para a qual se esforçavam por ser parte-
uma vez que se trata de um espaço ‘outro’ e não pro- agente, mesmo que isso lhes custasse a vida como, embo-
priamente de um espaço utópico. ora, nos textos que ra de formas diferentes, de facto veio a acontecer.

2 3
Coalescência ou convivência entre ciência e arte? quiatria. Porém, nesta época em que o foro psiquiátrico
O ‘conto dedutivo’ era ainda muito marcado pelo positivismo, a perspecti-
va organicista tem um grande peso, embora se baseasse
Uma das razões por que o conto “A estranha morte em nosologias erróneas (cf. Quintais, 2008), não esta-
do professor Antena” se torna marcante em termos cul- belecendo as devidas diferenças entre patologias como
turais deve-se ao facto dele revelar a importância que a a “loucura moral”, a epilepsia e a paranóia. o conceito
discussão sobre determinadas doenças psíquicas alcan- de hereditariedade é lamarckiano e ainda é dominante
çaram no final do século XIX e princípios do XX. A psi- a teoria da “degenerescência” de nordau. tal não é de
quitria, como disciplina, conhece um grande desenvol- espantar se, a título de exemplo, se pensar que só com a
vimento, em Portugal, em torno de certas personalida- invenção da electroencefalografia, em 1929, se estabele-
des de reconhecido mérito, entre as quais o dr. Júlio de ceu um diagnóstico mais correcto da epilepsia; também
matos, médico que introduziu o ensino oficial da neu- a demência causada pela sífilis só foi melhor entendida
ropsiquiatria na faculdade de medicina da Universida- depois da identificação, em 1905, da bactéria causado-
de de Lisboa, em 1911. teve uma grande influência na ra da doença (passível de ser testada a partir de 1906 e
criação do decreto-lei (deste mesmo ano) que previa a combatida com arsénico a partir de 1908).
criação de um manicómio para tratamento de alienados, Que as questões ligadas às doenças mentais preocu-
o qual iria servir de apoio ao ensino e à investigação – pavam mário de sá-Carneiro e o seu amigo e confiden-
o hospital que mais tarde iria ficar com o seu nome. te fernando Pessoa torna-se bem visível em textos bem
Júlio de matos foi também um pioneiro da psiquiatria conhecidos dos dois escritores – nomeadamente aqueles
forense (Graça, 2000) e uma voz importante nas dis- em que estes aspectos concorrem para o processo de au-
cussões legais sobre a inimputabilidade dos alienados – tognose que, cada um à sua maneira, desenvolveu. Aten-
discussões estas altamente indiciadoras da luta pelo po- te-se, contudo, nalguns pormenores desta atenção, talvez
der de influência na sociedade entre médicos e magis- menos conhecidos, mas que são próximos, em termos de
trados neste virar do século (cf. Curado, 2007), e, além datas, da realização do conto aqui em análise.
do mais, indicativas dessa dualidade de perspectivas – a em 1912, mário de sá-Carneiro publica “Loucu-
organicista e a psicologista – ainda hoje marcante na psi- ra” a abrir o volume de contos intitulado Princípio e no

4 5
final do conto o narrador, depois de apelar à compreen- da em 1881 – trata-se de um texto provavelmente data-
são e à piedade do leitor, termina invocando a lei: “Os do de 1916, ou seja, posterior à conhecida experiência
doidos são irresponsáveis, diz o Código” (lembre-se que, mediúnica relatada pelo poeta em carta dirigida a sua tia
em Portugal, quer o Código Penal de 1852, quer o 1886 Ana a 24 de Junho de 1916 (sabendo-se, porém, que já
já instituíam a inimputabilidade dos loucos; lembre-se em 1907 fernando Pessoa planeava traduzir textos es-
também que a obra de Júlio de matos Os Alienados e trangeiros sobre a degenerescência, a neurastenia e o gé-
os Tribunais foi editada em 1903 e reeditada várias ve- nio, a histeria, segundo documentos existentes no espó-
zes). A loucura continuará a ser um tema fundamental lio pessoano – esp. e/3144//A2-1-30).
nos contos de Céu em Fogo – nomeadamente no conto Para além das influências literárias, o facto de es-
“o fixador de instantes” (escrito em 1913) e no conto tas questões ocuparem um grande relevo na sociedade
“Asas” (escrito em 1914). Por sua vez, fernando Pessoa de então leva-nos a compreender melhor a última parte
apresenta o Paúlismo como uma nova ‘escola’, cultivada do conto “A estranha morte do Professor Antena” onde
por ele em “Impressões do crepúsculo” e por sá-Carneiro se desenha uma explicação sobre a existência de mun-
em A Confissão de Lúcio e Dispersão, explicando como o dos paralelos e a possibilidade de “transmigração” das
Paúlismo, muito mais que o simbolismo, se enraíza na almas que têm várias vidas.
expressão de estados mórbidos – característica diferen- na verdade, nesta última parte do conto, recria-se
ciadora da literatura moderna já referida na obra Degene- o raciocínio científico e os trâmites do processo de des-
rescência de nordau, como o poeta diz no início do texto coberta implicados na experimentação científica – mais
(cf. Lopes, 1985: 497). noutro texto, onde o poeta des- especificamente, o raciocínio configurado no conto é um
dobradamente (ou seja, em oposição ao seu próprio en- raciocínio de natureza hipotética-dedutiva. neste senti-
volvimento) se posiciona contra o ocultismo (idem, 505) do, é formulada uma pergunta inicial à qual se procura
e o espiritismo, fala da mediumnidade como subsumível responder a partir de uma hipótese que se tenta explicar
aos estados mórbidos da histeria e da loucura, apoian- e comprovar: face ao que o professor identifica como o
do-se significativamente na obra de Paul richer Études “segredo-total” ou “mistério maior” da própria vida,
cliniques sur l’hystéro-épilepsie ou grande hystérie, publica- correspondente às interrogações “donde somos, para on-

6 
de viemos, para onde vamos?...”, o cientista vai tentar Um dos pontos de partida para esta “teoria das re-
compreender o “aquém-vida”, pensando que o que fo- miniscências” é então o de pensar que a “fantasia” e a
mos poderá explicar o que somos e o que seremos, ou “imaginação” são formas minimais das possíveis remi-
seja, coloca a hipótese da reminiscência de vidas ante- niscências de uma vida anterior. Aqui reside, aliás, o nó
riores, designada no texto como “a teoria das reminis- crucial, a ligação penetrante entre ciência e arte, senti-
cências” e a “hipótese de mundos sobrepostos”. Assim, das como equivalentes por sá-Carneiro que equipara
ainda que por vezes de uma forma algo confusa e por is- o génio artístico ao génio científico. na verdade, é isso
so nem sempre facilmente identificável, é um raciocínio que afirma através da voz do narrador deste conto: “Um
hipotético-dedutivo aquele que se vai desfiando no texto, sábio cria – imagina tanto ou mais do que o Artista. A
sendo observável a obediência ao padrão deste raciocí- Ciência é talvez a maior das artes – erguendo-se a mais
nio com os seus elementos característicos: um “se” ini- sobrenatural, a mais irreal, a mais longe em Além. o ar-
cial, alguns “e” para aduzir casos, consequentes presenças tista adivinha. fazer arte é Prever. eis porque newton e
de “então”, alguns “mas” relativos às consequências e os shakespeare, se se não excedem, se igualam”. neste sen-
“portanto” indicativos das conclusões. As marcas deste tido o artista genial, o génio, o grande artista é aquele
raciocínio são estes vocábulos ou outros equivalentes e capaz de criar realidades, de imaginar e de fantasiar, sa-
ainda expressões que o explicitam: “assim”, “embora”, bendo-se que a “fantasia não será mais que uma soma
“como assim– objectar-se-á”, “eis tudo”, “em resumo”, de reminiscências”.
etc. recorrentes, as palavras “teoria” e “hipótese” enca- mas a “demonstrar” e a “apoiar” (como se explici-
beçam estas linhas semânticas criando as isotopias da de- ta no texto) a teoria e a hipótese do cientista Professor
monstração e da comprovação, as quais plasmam todo Antena são convocados os exemplos dos sonhos, da epi-
um discurso pseudo-científico e pretensamente cientí- lepsia e da loucura. Argumenta-se que as duas primei-
fico, ou seja, um discurso intencionalmente construí- ras situações revelam, inadvertidamente, experiências e
do de forma mimética relativamente ao discurso cien- sensações já anteriormente vividas –são vislumbres, in-
tífico (cujo auge é a transcrição da fórmula matemá- dícios dessas vivências. A loucura, por sua vez, “não se-
tica...W3 Y2 Xn4 ro.α), prescrevendo-se uma leitura ria mais do que uma adaptação prematura e imperfeita
de acordo com esta pretensão ficcional. a uma existência vindoura”.

 
A grande metáfora convocada para tornar mais per- os Poemas de Caeiro (cf. e3/144Y-1-64). há também
ceptível e visualizável a ideia de adaptação a várias vidas textos pessoanos sobre a arte de raciocinar e sobre os cri-
é a da metamorfose – uma metáfora colhida do campo mes patológicos, evidenciando não só o seu gosto pela
da biologia: os batráquios que inicialmente têm guel- “novela policiária”, mas mais ainda a sua atracção pelo
ras e depois pulmões, mas que conservam vestígios do próprio carácter abstracto dos raciocínios e a sua com-
primeiro estádio. ponente lógica e racional (tanto do seu agrado) que Pes-
ora, a metamorfose, que, como se sabe, é um mo- soa tenta compreender e sistematizar.
tivo recorrente no domínio do fantástico, tem aqui um também no texto de sá-Carneiro esta componen-
papel mais sugestivo do que propriamente funcional, te policial está bem presente uma vez que a narração é
uma vez que a metamorfose é convocada para explicar feita como justificação ao inquérito policial que decor-
– não se prende aqui ao inexplicável característico do re na sequência da morte do professor Antena no qual
fantástico, mas sim à dedução explicativa. o narrador responde como testemunha. neste sentido,
Por tudo isto, esta parte do conto é aquela que le- o conto apresenta algumas das estratégias habituais nes-
va fernando Pessoa a classificá-lo com a etiqueta (prove- te tipo de narrativa: o aparecimento de um morto logo
niente do inglês) de “conto dedutivo”. na verdade, num no início da narrativa, o desconhecimento das causas
texto de 1916 sobre o sensacionismo, fernando Pessoa da sua morte, a estranheza e a inexplicabilidade dessa
inclui mário de sá-Carneiro neste movimento sobretu- morte, sendo o resto da narrativa ocupada pelo desco-
do pela “expressão de (...) sentimentos coloridos” viabi- brir e pelo decifrar das causas dessa morte, para o que
lizada pela sua intensa “imaginação – uma das mais pu- se utiliza toda a espécie de raciocínios – não só dedu-
ras na moderna literatura, pois ele excedeu Poe no con- tivos e hipotético-dedutivos, mas também associativos
to dedutivo.” (cf. Pessoa, 1986: 82) e relacionais.
este tipo de conto também foi cultivado por fer- este narrador é, assim, também um descobridor
nando Pessoa nos textos de “Quaresma, decifrador” já à imagem do seu mestre e Professor. daí ele poder ser
referidos numa lista de livros datada de 1917, onde se aquele que está mais próximo do génio, aquele capaz
incluem, entre outros livros, as Odes de ricardo reis e de entender a “descoberta” do Professor Antena. nes-

0 1
te sentido o narrador é uma projecção do próprio autor liga aos outros contos do volume donde à primeira vis-
que, segundo Ana nascimento Piedade (1990), “surge ta parece estar desgarrado. há ainda um outro tópico
como o poeta que manuseia o mistério e interroga o além que o liga ao resto dos contos: a presença do tema lou-
[e que], talvez por ter consciência disso, se designa a si cura de quem resolva ir mais além do que é aceite co-
mesmo como uma espírito aventuroso e investigador por mo trivial. este tema, que está presente em quase todos
excelência, pressentindo-se, antes de mais, um arrojado os contos de sá-Carneiro, avoluma-se no conto que ele
descobridor de mundos.” mesmo intitulou “Loucura” e é fundamental num con-
to sintomaticamente intitulado “Asas”, cujo protagonis-
Abre-se uma senda ta enlouquece, restando apenas um fragmento dos seus
escritos com o significativo título “Além e Bailado”. es-
este conto abre uma linha ficcional iniciada por tes temas, em sá-Carneiro encontram-se estreitamente
Poe que não teve muitos seguidores em Portugal, um interligados como se a loucura fosse condição necessá-
país onde autores e público só pouco a pouco se foram ria de acesso ao “mistério, perturbador mistério...” de
rendendo quer ao fantástico desenhado por Poe quer ao que se fala no final do conto “mistério”.
estilo detectivesco – os quais são explorados hoje com neste sentido, o conto “A estranha morte do Pro-
tanto sucesso. fessor Antena” é uma verdadeira alegoria: ele represen-
mas, na utilização destes procedimentos narrativos ta a viagem para o lado do misterioso e da descoberta
e ficcionais, para mário de sá-Carneiro o que impor- impensável – ao preço da própria vida, como, de certa
ta é o próprio processo imaginativo de ambos, porque forma, aconteceu com o seu autor.
eles permitem, segundo fernando Cabral martins, fic-
cionalizar o mistério de um Além sempre procurado. o
mistério é, segundo feranando Cabral martins (1999:
274) o verdadeiro fulcro do sistema imaginário dos con-
tos” publicados em Céu em Fogo. na verdade, é por es-
te filão que “A estranha morte do Professor Antena” se

2 3
critérios da edição mantiveram-se as opções do autor no que toca ao
destaque a dar às falas dos personagens, nomeadamente
quando o escritor as salienta através do itálico, porque
também já estavam presentes no manuscrito, sendo de-
pois transpostas para a primeira edição.
o texto da presente edição é estabelecido com base Actualizaram-se algumas pontuações que caíram
no texto da primeira edição concebida e cuidadosamente em desuso, mas manteve-se o uso de estrangeirismos, por
seguida pelo autor. A obra foi publicada em 1915, pela serem significativos do desejo do seu autor de ser um ci-
Livraria Brazileira monteiro & Comp.ª, com capa de- vilizado verdadeiramente europeu e cosmopolita.
senhada por José Pacheko.
Confrontou-se também esta primeira edição com o
manuscrito, o que permite verificar que era intencional
da parte do autor a criação de determinadas diferenças
e características gráficas. na verdade, também no ma-
nuscrito encontramos espaçamentos maiores em deter-
minadas partes do texto, tal como aparecem na primei-
ra edição, que conserva as opções do manuscrito. Pare-
ce, portanto, muito clara a decisão do autor de assim
proceder, pelo que se mantiveram esses espaçamentos
maiores nesta edição de acordo com a primeira edição.
também são transpostos do manuscrito para a primei-
ra edição certos sinais gráficos de separação de parágra-
fos como os três asteriscos e as linhas ponteadas. Por in-
dicarem claras opções do autor, também se mantêm na
presente edição.

4 5
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© da edição maria João simões

Produção editorial:
debora fleck
Isadora travassos
marilia Garcia
Valeska de Aguirre

cip-brasil. catalogação-na-fonte
sindicato nacional dos editores de livros, rj

s124e
sá-Carneiro, mário de
A estranha morte do Professor Antena / mário de sá-Carneiro ; posfácio
e fixação do texto por maria João simões. rio de Janeiro : 7Letras, 2008.
Inclui bibliografia
(7Letras no bolso ; 9)
IsBn 978-85-7577-558-5
1. Conto português. I. simões, maria João Albuquerque figueiredo.
II. título. III. série.

Cdd: 869.3
CdU: 821.134.3-3

Viveiros de Castro editora Ltda.


r. Jardim Botânico, 600 sala 307
rio de Janeiro, rJ | CeP 22461-000
tel: [21] 2540-0076
editora@7letras.com.br | www.7letras.com.br
A estranha morte do Professor Antema
é o nono título da coleção 7Letras no Bolso
e foi impresso sobre papel Pólen Bold 90g/m2 (miolo)
e Cartão supremo 250 g/m2 (capa)
em dezembro de 2008.

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