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SÍNTESE

HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA E PATROLOGIA

PROF. ME. PE. CLEOCIR BONETI

14/03/18 – CRISTIANISMO E IMPÉRIO ROMANO (SLIDES)........................................3


RELAÇÃO ENTRE CRISTIANISMO E IMPÉRIO ROMANO...............................................3
DIFUSÃO DO CRISTIANISMO...............................................................................................3
TESTEMUNHOS: CRISTÃOS ATRAVÉS DO MARTÍRIO....................................................4
COLONIZAÇÃO ROMANA.....................................................................................................5
CRISTIANISMO E IMPÉRIO...................................................................................................5
ELEMENTOS SOBRE OS TEMPLOS E DIVINDADES ROMANAS....................................6
TEXTO: IMPERADORES E CRISTIANISMO........................................................................7
21/03/2018 – TEXTO: PERSEGUIÇÕES E ACUSAÇÕES AOS CRISTÃOS...................9
TEXTO: TÁCITO, ANAIS, XV...............................................................................................10
As acusações.............................................................................................................................10
Texto: As objeções de um sábio..............................................................................................12
Texto: Correspondência entre Plínio e Trajano a respeito dos cristãos.............................12
04/04/18 – CATACUMBAS CRISTÃS e MARTÍRIO.........................................................13
AS CATACUMBAS..................................................................................................................13
O MARTÍRIO...........................................................................................................................13
ESTEVÃO, 1º MÁRTIR...........................................................................................................14
PERSEGUIÇÕES E MARTÍRIO.............................................................................................14
BATISMO E EUCARISTIA.....................................................................................................15
CARTA DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA AOS ROMANOS (entregue em aula)........15
Saudação..................................................................................................................................15
Ver a comunidade e ir a Deus.................................................................................................15
Não impedir o martírio...........................................................................................................16
Ser cristão de fato....................................................................................................................16
Sou trigo de Deus.....................................................................................................................16
Imitar a paixão de Cristo........................................................................................................17
O amor crucificado.................................................................................................................18
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Recomendações........................................................................................................................18
DOMUS ECCLESIAE: surgimento desde domus domesticae.................................................19
TEMPLO – SINAGOGA – CASA...........................................................................................19
Cidade - Casa...........................................................................................................................20
Casa..........................................................................................................................................20
Casas Privadas.........................................................................................................................20
Domus ecclesiae.......................................................................................................................21
11/04/18 – EDITOS RELATIVOS AO CRISTIANISMO (manhã)....................................22
TEXTO DOS EDITOS:............................................................................................................22
Edito de Galério, de 311, sobre o perdão e sobre a tolerância concedidos aos cristãos depois
das perseguiçoes:.....................................................................................................................22
Edito de Milão, por Constantino em 313, sobre a liberdade religiosa concedida aos cristãos:
...................................................................................................................................................23
Edito dos imperadores Graziano, Valentiniano II e Teodósio, em 380: cristianismo como
religião oficial do Estado........................................................................................................23
11/04/18 – PADRES APOSTÓLICOS (tarde).......................................................................25
LIÉBAERT, Jacques. A época dos primeiros Padres (séculos I-II). In ______. Os Padres da Igreja.
p. 19-23.....................................................................................................................................25
TEXTO DA DIDAQUÊ: Instrução do Senhor através dos doze apóstolos aos gentios (ZILLES,
1972).........................................................................................................................................27
18/04/18 – OS CONCÍLIOS DA IGREJA (manhã).............................................................32
1 DEFINIÇÃO DE TERMOS...................................................................................................32
2 IMPORTÂNCIA DOS CONCÍLIOS [E DO SEU ESTUDO]...............................................32
3 APROXIMAÇÃO INICIAL AOS CONCÍLIOS...................................................................32
18/04/18 – DIDAQUÉ [CONTINUAÇÃO] (tarde)..............................................................34
PADRES APOSTÓLICOS: CARTA A DIOGNETO................................................................37
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................45
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14/03/18 – CRISTIANISMO E IMPÉRIO ROMANO (SLIDES)


O Cristianismo nasceu e se desenvolveu dentro do império romano.

RELAÇÃO ENTRE CRISTIANISMO E IMPÉRIO ROMANO

Coliseu: construído durante o governo dos imperadores Tito e Vespasiano, provavelmente


em torno dos anos 80 da Era Cristã, capaz de abrigar cerca de 50 mil pessoas. Dizem que nele
muitos cristãos foram levados à morte, por diversão dos romanos. Sim, mas nem tanto! Em seu
interior eram feitos combates entre gladiadores; representação de batalhas navais usando sistemas
pluviais; entre tantas outras atividades circenses (pão e circo).
Roma, 8 séculos antes de Cristo, era uma cidadezinha;
Em 146 a.C., ao fim das Guerras Púnicas, os romanos passaram a governar um território
significativo, de Cartago, o Mar Mediterrâneo, a Itália, a Península Ibérica.
Em 14 d.C., ano da morte de Augusto, o império já detinha o poder sobre quase todo o
território que hoje é a Europa, norte da África e parte do Oriente.
Durante o governo de Trajano (98-117), o Império alcança sua máxima extensão, da
Bretanha, Alemanha, Turquia, norte da África e o Oriente.
Apesar de todo esse poder, o Império Romano, assim como todos os impérios ao longo da
história, sucumbiu. Um dos fatores da queda está ligado à Patrologia: muitos que poderiam ser
generais, senadores, pessoas influentes dentro do império, as mentes mais brilhantes não estavam
juntas às linhas do império, mas sim da Igreja.
Ocorre que a dominação romana é pela força do exército e da economia (impostos). Pouco
se importava com as manifestações religiosas. De início, a perseguição aos Cristãos é feita pelos
Judeus (martírio de Estevão e dos helenistas relatado no Atos).

DIFUSÃO DO CRISTIANISMO
Do ponto de vista histórico-social, pode-se dizer que foi devido a:
Unidade política do Império: a unidade do mundo greco-latino conseguida por Roma criou
um amplíssimo espaço geográfico, dominado pela mesma autoridade.
Sistema de comunicação: através das estradas, das rotas marítimas e comerciais, das
estações de correio e de descanso, o cristianismo usou essa vasta rede de comunicações, sobretudo
marítimas (Paulo) para se expandir. “É lícito afirmar que as alçadas romanas e as rotas do mar latino
foram vias para a Boa Nova Evangélica, ao longo da bacia do Mediterrâneo”. O cristianismo
missionário é essencialmente urbano. Segundo Paolo Siniscalco, é “nos itinerários terrestres e
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marítimos se encontra a maioria absoluta das comunidades cristãs primitivas”. Por exemplo: via do
Mar, do Egito à Palestina; a via Inácia, mais de mil quilômetros; Via Ápia, 600km, de Roma à
Brindisi (porto).
Tábula Peutingeriana: feita entre os séculos III e IV, chegou até nós por uma cópia
medieval do século XII. Tábula porque era o nome dos mapas na época romana, e também na Idade
Média. Assim chamada porque foi estudada por Konrad Peutinger, humanista austríaco que a
estudou no início do século XVI. Para visualização, acessar: https://www.hs-
augsburg.de/~harsch /Chronologia/Lspost03/Tabula/tab_or00.html
Sua importância está no fato de representar 100 mil Km de estradas, com as cidades e
estações de “parada”, e com escala de distância (milhas, mil passos à época, aproximadamente
1.479,5m atualmente). Indicava também termas, que eram locais de encontro de pessoas, e de água).
Apresentava edifícios de cultos pagão e cristão, embora só de São Pedro. Estima-se que seja datado
de 326-333, tempo do governo de Constantino.
Crise religiosa: no segundo século, os cultos oficiais não satisfaziam, era um tempo
favorável à acolhida de uma nova religião. O clima espiritual, dominado pela crise do paganismo
ancestral predispunha o acolhimento do Evangelho.

TESTEMUNHOS: CRISTÃOS ATRAVÉS DO MARTÍRIO

Filosofia que vai se cristianizando: Militão de Sardes escreve em torno de 170 a Marco
Aurélio e observa que a filosofia cristã, começando a difundir-se em meio aos povos sob o Império
de Augusto, se desenvolve junto com o Império. Temos outros como Irineu de Lião e Orígenes. O
cristianismo vai atingindo outras pessoas, intelectuais, pessoas que conhecem a filosofia e colocam
o raciocínio à serviço da compreensão da nova religião.
Guerra Judaica: entre 66-73, no governo de Tito e Vespasiano, o templo de Jerusalém foi
destruído, causando a diáspora judaica, cuja dispersão e perseguição ajudaram a propagar a fé.
Vida comunitária: era um elemento de agregação e representava uma forma diversa de
viver a fé. Enquanto que os judeus eram um grupo fechado, nacionalista; os religiosos do império
faziam sacrifícios a deuses; cultos públicos ao imperador eram obrigações legais e demonstração de
lealdade. Na contramão disso tudo, o cristianismo mostrava a importância das casas das pessoas,
locais de encontro da vizinhança.
Caráter universal: o cristianismo envolve a todos: mulheres, crianças, estrangeiros, órfãos e
viúvas. O termo catholico significa universal no sentido de incluir a todas as pessoas, raças,
culturas, etc. Não só em todos os lugares.
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Supranacional: Não existem barreiras e limites de povos. Capacidade de entrar na cultura.


“A nova religião nascida do cepo judaico, mas já distanciada deste, olha a terra na sua globalidade
como campo de ação”.

COLONIZAÇÃO ROMANA
A colonização romana foi militar e administrativa, não cultural ou religiosa. O Império
Romano representa um mundo cosmopolita. Cultural e religiosamente é mais o Oriente que
coloniza o império, graças a expansão da cultura e língua grega em toda bacia do Mediterrâneo.
Também há uma invasão pelas religiões orientais: divindades sírias (deus Sol), egípcias (Ísis),
frígias (Cibele), persa (Mitra). Do oriente é também importado o culto do imperador divinizado.

CRISTIANISMO E IMPÉRIO
Do ponto de vista religioso, no século I, o cristianismo se deparou com:
a) Culto ao imperador: nascido de concepções egípcias e orientais, que consideravam o
soberano como “filho de Deus”, ou de deuses. No início, o culto se dirigia ao Imperador somente
após sua morte. Calígula, Nero e Domiciano reivindicam títulos divinos ainda vivos. O culto
imperial se espalhou e suscitou conflitos entre os cristãos, pois era incompatível com sua fé no Deus
único. O culto exprime, de modo especial a lealdade à autoridade. Ou seja, ele não se preocupava se
fosse apenas uma prática externa, não interiorizada.
Nos Evangelhos, a passagem “dai a César o que é de César”1 foi tida como uma resposta
leve, morna, de Jesus. O que não confere na medida em que a César era prestado culto. O imposto
sim, pode ser dado a César, mas o louvor à divindade não pode ser dado a César.
b) Religião tradicional dos gregos e romanos: fusão das crenças em vários deuses
(politeísmo), personificação das forças da natureza. As divindades se fundem após o contato entre
os gregos e romanos. Por exemplo, para os gregos é Zeus, para os romanos é Júpiter, Atena é
Minerva, Hermes é Mercúrio, Afrodite é Vênus, Dionísio é Baco.
Havia o culto público e o privado. O primeiro feito por sacerdotes dependentes do Estado.
O segundo feito pelos chefes de família: divindades penates – protetores das provisões – e lares –
casas e campos.
Portanto, a perseguição daqueles que não prestam culto ao imperador e não creem nas
divindades do império é uma decisão lógica, uma vez que as divindades são vingativas, e esse
desiquilíbrio no império atrai a ira dos deuses sobre si: terremotos, pestes, secas, desastres de todas
as ordens acabam sendo culpa dos cristãos.
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As divindades protegem as famílias, os trabalhos, as cidades, etc. Apesar do apoio oficial e


da força das tradições locais, a religião oficial tinha perdido muito sua força, se encontrando em
crise.
c) Judaísmo: era uma religião “lícita”, antiga e nacional. Gozam de um estatuto particular
no Império. No início o cristianismo é visto como uma seita do judaísmo.
d) Novas religiões mistéricas: vindas do oriente (Egito, Síria, Pérsia). Organizavam-se
geralmente em associações fechadas, onde se poderia entrar somente após uma rigorosa iniciação.
Se trata de divindades que não vêm das religiões tradicionais grega ou romana. São divindades que
dizem respeito a origem da vida e da morte. A vida nova que oferecem tem um significado moral
(novo estilo de vida).
O coração do ser humano é o mesmo. A imagem de Deus que carregamos é muito
relevante para a religiosidade das pessoas hoje.
e) Superstições e crenças populares: diversas formas de magia e feitiçaria, a crença na
astrologia e a busca incessante para descobrir ou adivinhar o destino. A busca do maravilhoso e do
milagre são muito difundidas e marcam o dia-a-dia da grande massa da população, que vive na
insegurança e no temor da fome, da doença e da morte. O mago sabe o que fazer, se entende como
depositário de meios ocultos pessoais ou hereditários.
f) Mundo helenista: o cristianismo se depara com a filosofia, mas não somente a filosofia
grega, que é especulativa, entre os séculos V e IV a.C. Falamos aqui de uma filosofia de caráter
mais prático, que encontra nos cínicos e nos estoicos verdadeiros pregadores, convencidos de serem
enviados para ensinar e iluminar a vida das pessoas. Um exemplo disso é At 17,18, no qual Paulo se
depara com doutrinas do epicurismo e estoicismo.

ELEMENTOS SOBRE OS TEMPLOS E DIVINDADES ROMANAS

Muitos templos no curso da história, ou foram demolidos, ou se tornaram igrejas. Um


exemplo disso é o templo de Hércules Vencedor, que no século XII se tornou uma igreja dedicada a
Santo Estevão, e posteriormente à Santa Maria do Sol. Outro é o Panteon, que era um templo
dedicado a todos os deuses, e passou a ser dedicada aos Mártires.
Nesse excerto está sintetizada a propagação do cristianismo:
O cristianismo, ao sair do berço original, se propagou em um universo marcado pela
organização romana, pelo espírito grego e pela religiosidade oriental: um universo que apresentava
aspectos opostos, às vezes unificados e atravessado por muitas e vigorosas correntes filosóficas e
religiosas, no qual o cristianismo encontrava reais possibilidades, mas em que teria de traçar
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também seu caminho entre as tentações de retração e isolamento e as seduções dos sincretismos da
moda.
Não é à toa que nesse período apareceram um grande número de heresias. Nem todas mal-
intencionadas, porque naquele contexto, tinha-se que pensar, raciocinar, refletir, entender e
compreender a verdade. Ou seja, distinguir entre a ortodoxia e a heterodoxia.

TEXTO: IMPERADORES E CRISTIANISMO


“Os cristãos não foram perseguidos de maneira contínua durante três séculos”.
Período: Nero (54-68) a Diocleciano (305) / Galério (311)
A primeira perseguição aconteceu no governo de Nero, em 64, por ocasião de um grande
incêndio em Roma. Há suspeita de que fora Nero quem iniciara o incêndio, e colocara a culpa nos
cristãos. É nesse período que foram martirizados Pedro e Paulo, entre outros tantos. É a presença
dos restos mortais de Pedro e de Paulo em Roma que marca profundamente suas posições de
prestígio e de esplendor ao longo da história.
Haviam cinco patriarcados, Roma, no ocidente, e Alexandria, Antioquia, Constantinopla e
Jerusalém, no oriente. Não se deve esquecer que foi no oriente que tivemos grandes escolas de
pensamento teológico, sete concílios.
Entre 69 a 81 foram anos de paz para os cristãos (não para os judeus, que tiveram seu
templo, em Jerusalém, destruído no ano 70), durante os governos de Vespasiano (69) e Tito (79),
seu filho. Contudo, em 81, no governo de Domiciano (81-96) a perseguição já iniciada pelos
imperadores anteriores aos judeus passou a envolver também os cristãos, sob o pretexto de serem
estes “ateus”.
No governo de Nerva (96-98) e da dinastia dos Antoninos, a partir do final do século I, a
Igreja percorre seu próprio caminho, consolida sua estrutura na vida litúrgica e espiritual, no
conhecimento das verdades da fé. Nesse tempo ela deve defender suas próprias ideias e, sobretudo,
a legitimidade de própria existência, contra a lei do senado non licet esse christianos. Nisso tem-se o
papel dos padres apostólicos: na defesa e na legitimidade da existência dos cristãos.
Traiano (98-117), reconheceu como infundadas as denúncias sobre os cristãos. Adriano
(117-138) agrava a proibição de aceitar denúncias anônimas contra o fato de serem cristãos.
Antonino Pio (138-162), tinha medo de adivinhos (vaticinadores) que previam o futuro, e
dos aurúspices (que viam o futuro nas vísceras). A partir disso, os juízes se aproveitaram para
condenarem os cristãos.
Contudo, há fileiras de mártires, que defendem a fé (Justino, Policarpo de Esmirna,
Clemente Romano), enquanto há outros que apostataram a fé, que negaram e abandonaram a fé.
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Marco Aurélio (162-180) com seus decretos, e por sua vontade, ocorre uma perseguição
formal e sistemática aos cristãos (pios).
Nesse período, os montanistas são um grupo cristão herético, seguidores de Montano, que
se dizia portador do Espírito Santo. Acontece que não se conseguia distinguir quais eram os
heréticos dos ortodoxos.
Anarquia militar: confusão de poder. Havia combate em alguma região, com o sucesso da
empreitada, o general era aclamado imperador. Acontecendo outra em outro lugar, outro imperador
era aclamado.
O império se vê tendo cristãos em todas as fileiras e estruturas imperiais: exército, senado,
na corte imperial, etc.
Décio (249-251) emana um Edito a todos os cidadãos o dever de sacrificar aos deuses. Isso
desencadeia uma grande perseguição, já que seria inadmissível um cristão sacrificar aos deuses ou
ao imperador. Aqui morrem mártires, mas muitos recorrem a uma “escamotage”, uma jogada
esperta, e conseguem um documento chamado libellus, um atestado de sacrifício feito.
Valeriano (252-260) vai na mesma esteira que Décio. É uma perseguição a toda igreja, e
bate forte nas lideranças (Papas Estevão, Sisto e Cipriano). Contudo, Aureliano (270-275) toma
medidas favoráveis: reconhece a autoridade da Igreja (problema com Paulo de Samosata, que ocupa
um lugar de culto dos cristãos, e o imperador resolve a questão estabelecendo o critério para que se
reconheça a legitimidade da posse do imóvel a comunhão com o bispo de Roma), devolve lugares
de cultos e cemitérios.
Com a tetrarquia, retorna a ideia de que a autoridade imperial é de ordem divina e exigem
culto. Dentre os quatro imperadores, Diocleciano (284-305) denuncia que os cristãos impediam a
realização das funções sagradas dos auruspices. Assim, ele decide fazer uma limpeza com todos os
militares e os que ocupavam cargos públicos que não queriam sacrificar.
Copiar ultimo parágrafo aqui.
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21/03/2018 – TEXTO: PERSEGUIÇÕES E ACUSAÇÕES AOS CRISTÃOS

O primeiro mártir do cristianismo foi o diácono Estevão de Listra. Os primeiros


perseguidores foram os judeus, são eles que matam Estevão que era dos helenistas, pois provinha
das fileiras dos judeus helenizados. São os helenistas que assumem, desde o início, um
comportamento de maior distanciamento das práticas do templo. Os helenistas cristãos eram os
judeus da diáspora que entram em contato com a cultura grega.
De início, o cristianismo foi entendido pelo Império Romano como uma seita do judaísmo,
que de certo modo era permitido ou tolerado. Quando o cristianismo começa a ganhar força
começam conflitos: para ser cristão é preciso ser antes judeu? (cf. Atos dos Apóstolos). Será o grupo
dos helenistas que vão conceber o cristianismo como uma nova religião, uma outra religião.
Após o martírio de Estevão, as autoridades judaicas perseguem violentamente os
helenistas, que são obrigados a fugir. Enquanto atravessam as terras da Palestina e parte da Síria se
fazem missionários, determinando o primeiro fenômeno de expansão do cristianismo.
Essa primeira perseguição à Igreja de Jerusalém pelos judeus desencadeou a força e o
impulso missionário da Igreja nascente.
Cornélio Tácito é um historiador latino que viveu aproximadamente entre os anos 55 a 120.
Autor de várias obras: Agrícola, Germania, Histórias e os Anais. Esta última obra em particular – 16
livros que narram os acontecimentos do período que vai entre a morte de Augusto (14 d.C.) e a
morte de Nero (68 d.C) – restaram os livros I a IV, e XI a XVI. A parte que nos interessa é o livro
XV dos Anais, pois descreve de modo sintético, mas eficaz, as primeiras perseguições contra os
cristãos desencadeadas pelo imperador Nero (54-68). O ataque à Igreja de Roma foi por causa de
um incêndio em julho de 64 que se propagou facilmente destruindo os velhos quarteirões da capital
e atingindo alguns edifícios imperiais. Diante da tragédia a população se convenceu que o fato não
foi por acaso, mas que teria sido uma secreta iniciativa de Nero que queria mudanças na área
urbana, de modo especial na área que confinava com a residência do imperador. As acusações a
Nero eram cada vez mais explícitas não obstante tenha tomado medidas imperiais a favor da
população. Nas instâncias de poder se decide de encontrar um “bode expiatório” e este será a
comunidade cristã. A escolha caiu sobre os cristãos por causa dos boatos que giravam entre a
população, que alimentavam suspeitas e hostilidades.
Nascem aqui as acusações contra os cristãos, as prisões, sentenças de morte e as
execuções. Será neste período que, presumivelmente, se dá o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo
(digitar ultimo parágrafo aqui.
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TEXTO: TÁCITO, ANAIS, XV

#1: Vimos que por baixo dos panos, passava a ideia de que quem teria começado o
incêndio teria sido o próprio Nero, porque queria dar uma visibilidade a parte urbana próxima do
palácio imperial. Ele queria fazer uma limpeza para deixar mais organizada a área perto do palácio
imperial.
Constam aqui elementos da sociedade: vias estreitas, casas amontoadas e mal organizadas.
Queria construir ruas largas, casas organizadas; tirava os escombros nos navios que vinham das
ilhas do sul, carregados de cereais.
#2 e #3: houveram medidas estatais, por assim dizer, para evitar que se repetisse a tragédia
em caso de novo incêndio.
#4: Mas o incêndio fora causado também por ira divina, zangados com aqueles cristãos.
Então se recorre aos Livros Sibilinos (mulheres, chamadas Sibilas, que eram oráculos de Apolo)
para entender o porquê do que tinha acontecido.
#5: Nem as ações do imperador com sua generosidade, nem os ritos aos deuses, abafava os
boatos de que o incêndio tinha sido decidido nas altas esferas do poder imperial. Tácito relata que
os cristãos, assim chamados por causa de um Cristo, castigado e morto no tempo de Pilatos,
originalmente na Judéia e agora em Roma, eram culpados das desgraças e de tudo que há de ruim e
vergonhoso que se espalha no mundo.
Diziam que os cristãos matavam crianças (aliás, como o infanticídio era prática comum no
império, especialmente de meninas, que eram abandonas, eram salvas e acolhidas por cristãos,
tornavam-se elas cristãs, e quando casavam, convertiam os maridos, porque elas jamais abririam
mão da sua fé); eram acusados de incesto – se chamavam de irmão e irmã, e dormiam juntos; o
cristianismo influenciava e transformava elementos culturais (contra o infanticídio, contra o aborto,
na defesa da vida); acusavam os cristãos de adorar um asno crucificado, por causa de um desenho
que ridicularizava os cristãos; eram chamados de ateus, porque não adoravam os deuses romanos
nem o imperador.
#6: Eram presos, martirizados e zombados: cobertos com peles para serem mordidos por
cães; crucificados e queimados como tochas. Contudo, tais suplícios despertavam compaixão nas
pessoas, porque percebiam que eram rigorosamente castigados não ao interesse da nação, mas à
crueldade de um só homem.

As acusações
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#1: O cristianismo foi declarado como religião: strana et illicita (decreto senatorial de 35);
Non licet vos esse: não é lícito que existais; Exitialis: perniciosa; prava et immodica: malvada e
desenfreada; nova et malefica: nvoa e maléfica; tenebrosa et lucifuga: obscura e inimiga da luz;
detestabilis: detestável. O cristianismo era considera um grande inimigo de Roma, que se baseava
na antiga religião nacional e no culto ao imperador, elementos que davam unidade ao império.
#2: porque os cristãos não seguem a religião dos pais, os veterum instituta (antigos
estatutos) e a Mos maiorum (costume maior)? O problema não é a religião, mas o fato de que eles
não respeitavam a autoridade do imperador, nem lhe davam lealdade e respeito. O cristianismo tem
outra forma de viver. Ele vai incomodar a cultura (entendida como costumes, como religião, a
forma de viver e de se relacionar) vigente na época. Fundamentalmente, os cristãos vão mostrar
uma outra forma de viver, um outro modus vivendi.
Esse jeito de viver do cristão significava não reconhecer o caráter sagrado da civitas, da
cidade e dos deuses, que nelas moram e protegem.
#3: Não era possível desvincular a parte civil/social da religiosa. Se vivia a fé de uma
forma civil-sacral. Os imperadores eram pontífices máximos, mas os judeus eram os únicos que
tinham relativa autonomia, porque faziam ao seu próprio Deus um sacrifício para o imperador.
Havia uma relativa flexibilidade no Império.
#4: Virar as costas para a tradição romana gerava um grande conflito na sociedade, porque
refutar o nomos, a lei, significa negar a tradição dos antepassados. O inimigo da religião romana
era, por consequência, um inimigo de todo o império. Havia um forte patriotismo, que se sustentava
na adesão da pessoa à religião estatal, romana, à pessoa do imperador, e portanto se exigia um
comportamento correspondente à fé. Toynbee afirma que “um ato público de devoção não trazia em
si nenhuma explícita proclamação de uma qualquer fé religiosa, mas tinha o valor de uma
declaração de lealdade diante da comunidade”.
#5: A doutrina do Monoteísmo Trinitário também um motivo de acusações. Enquanto o
cristianismo está grudado no judaísmo, tudo bem. Mas quando os cristãos começam a manifestar
aquilo que creem, como a Eucaristia e a doutrina Trinitária, suspeitas começam a aparecer. Além da
suspeita, isso vai gerar incompreensão, perseguição e o próprio martírio. A nova religião se torna
uma afronta às outras religiões que estão presentes no Império e também ao seu modus vivendi.
Os cristãos são acusados de dois crimes: sacrilégio (descrença aos deuses romanos) e de
lesa majestade (não adorarem ao imperador). Em outras palavras, do crimen religionis (não
reconhecimento e prática da religião da civitas romana) e do crimen maiestatis (recusa de juramento
de lealdade ao imperador e de não tomar parte às festas realizadas em honra do imperador).
12

Justino, padre apostólico, diz: “Vós dizeis: ‘não honrais os deuses e não ofereceis
sacrifícios aos imperadores’... Eis porque somos acusados de sacrilégio e de lesa majestade. É esta a
acusação principal, digamos melhor a inteira acusação”.
De Policarpo, outro padre apostólico, é dito: “o maestro da Ásia, o pai dos cristãos, aquele
que destrói os nossos deuses, que ensina a tanta gente a não realizar sacrifícios e a não adorar os
deuses”.
#6: (copiar parágrafo)
#7: Existia uma opinião pública sobre os cristãos. Num primeiro momento, enquanto
pouco conhecida, a nova religião era alvo de uma série de calúnias boatos e acusações falsas.
#8: O Império era tolerante com as diversas manifestações religiosas, desde que
cumprissem o culto oficial, de adorar o imperador. O choque se deu porque os cristãos em nenhuma
hipótese aceitavam tal imposição. Assim, no século I, os cristãos foram considerados membros de
uma superstição ilícita, criminosa, cheia de “homens vulgares, membros de uma seita perdida,
ilícita e miserável, uma raça que ama os esconderijos e é inimiga da luz”.
#9: Os cristãos são acusados de desgraças naturais: estiagens, enchentes, terremotos,
incêndios, etc.
#10: De modo geral, a uma só voz, unívoca, dependendo dos períodos, há uma ideia
comum: a presença dos cristãos é negativa, que merece exclusão.
#11: Diante disso, os cristãos se tornam para o Império um corpo estranho.

Texto: As objeções de um sábio

Texto: Correspondência entre Plínio e Trajano a respeito dos cristãos


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04/04/18 – CATACUMBAS CRISTÃS e MARTÍRIO

AS CATACUMBAS
Catacumbas são cemitérios essencialmente cristãos, ainda que algumas sejam judaicas, a
maioria é cristã. Segundo os cristãos, eles viviam juntos em comunidade, e descansariam juntos na
morte, viveriam juntos na eternidade. Nelas, algumas eram usadas para, além de local de
sepultamento, celebrações em honra e memória dos que lá estavam sepultados, principalmente
mártires.
Alguns dos símbolos que recordam e representam Cristo para as primeiras comunidades
eram:
as letras que formam a palavra “peixe” em grego, quando escritas em maiúsculas (ΙΧΘΥΣ),
formam um acrônimo com as iniciais da expressão “Iēsous Christos Theou (U)Yios Sōtēr“, que
significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” (em grego antigo: Ἰησοῦς Χριστός, Θεοῦ ͑ Υιός,
Σωτήρ).
a âncora, sinal da fortaleza e do sustento da fé em Cristo ressuscitado.
A catacumba é a comunidade dos mortos que aguardam o despertar para a vida eterna, e
também uma forma de “encontro” com eles.

O MARTÍRIO
Segundo Tertuliano de Cartago, “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. Essa
frase se tornou célebre
O mártir tem diante de si aquele que é o mártir por excelência, Jesus Cristo. Ele é a
testemunha fiel que, dia após dia, dá seu sangue. Hoje, diz o Papa Francisco, “o testemunho dos
cristãos é necessário, e quando as circunstâncias históricas requerem um testemunho forte, ali
estarão os mártires, as maiores testemunhas”2. O sofrimento e o martírio cristãos não são geradores
de morte, mas fonte de vida (diferença básica e essencial entre o mártir cristão e o muçulmano).
Paralelamente, há um “martírio branco”, como no caso do período do monacato, no qual
não há o derramamento de sangue, mas o despojamento total em favor de Jesus Cristo, através de
um afastamento em forma de protesto contra a união entre Igreja e Império, que tornou “fácil” ser
cristão publicamente. A posição dos monges será a de combater, em si mesmo, aquilo que lhe separa
da comunhão e configuração à Cristo.
Em Jerusalém, próximo ao Santo Sepulcro, há um local onde a tradição diz ter sido erguida
a Cruz. Há lá uma pintura que mostra, saindo da Cruz, um “fio” vermelho, simbolizando o sangue
de Jesus derramado na Cruz, e que escorre pela rocha, por dentro dela, até chegar ao túmulo de
14

Adão, o primeiro homem. Essa simbologia mostra que a redenção de Cristo abraça toda a
humanidade, indo até o primeiro homem.
Fruto do Concílio Vaticano II, a Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma que
“Como Jesus, Filho de Deus, manifestou o Seu amor dando a vida por nós, assim ninguém dá maior
prova de amor do que aquele que oferece a própria vida por Ele e por seus irmãos (cf. 1 Jo 3,16; Jo
15,13). Desde os primeiros tempos, e sempre assim continuará a suceder, alguns cristãos foram
chamados3 a dar este máximo testemunho de amor diante de todos, e especialmente perante os
perseguidores. Por esta razão, o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que
livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do
sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor. E embora seja
concedido a poucos, todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a
segui-lo no caminho da cruz em meio das perseguições que nunca faltarão à Igreja” (42, grifo
nosso).
Na Sagrada Escritura, sobre o martírio é dito que:
“Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem procura conservar
a própria vida vai perde-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontra-la” (Mt 10, 38-
39).
“Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se
morre, produz muito fruto” (Jo 12,24).
“Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
“Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem e os perseguirem. [...] Alegrai-vos e
regozijai-vos, pois também perseguiram os profetas antes de vós” (Mt 5,11-12).

ESTEVÃO, 1º MÁRTIR
Os helenistas, pela descrição nos Atos, são judeus cristãos de língua e cultura grega.
Formavam um grupo mais crítico e aberto, enquanto que o grupo dos hebreus era formado por
judeus cristãos de língua aramaica e cultura hebraica, mais ligados à cultura e aos costumes do
judaísmo. Os helenistas se dão conta de que a Igreja não é uma simples seita judaica, é uma
comunidade enraizada no Judaísmo, porém aberta ao mundo.

PERSEGUIÇÕES E MARTÍRIO
José Comblin diz que “O poder romano quis dar muita publicidade aos mártires, pensando
assim que provocaria o desânimo em muitos cristãos [...]. Os mártires são descritos como heróis da
fé cristã. Esses heróis foram capazes de suportar suplícios incríveis, com firme constância, com
15

resistência, até com a alegria de pessoas que se sentem vencedoras na pior tortura que se pode
infligir a corpos humanos”4. Os mártires mostram que “a profissão de fé face aos juízes e face à
multidão dos estádios era um desafio ao poder imperial. Era o supremo ato de liberdade face ao
poder opressor. Por isso, foi vivida como vitória. Os mártires foram tratados como vencedores na
luta contra um império que era a encarnação do pecado”5.
Sendo assim, “Para os cristãos, o martírio teve um extraordinário valor de testemunho. Os
mártires aguentaram tantos sofrimentos, tantas humilhações e a destruição do seu corpo com
tamanha coragem porque tinha fé na ressurreição do seu corpo e professavam essa fé publicamente.
Crer na ressurreição, no meio de um povo e de uma cultura que nunca tinha ouvido falar disso,
exigia uma firmeza total e os mártires deram o exemplo admirável dessa firmeza. Já estavam
vivendo nessa ressurreição que professavam”6.

BATISMO E EUCARISTIA
Cipriano, bispo de Cartago, martirizado em 258, considera o martírio como um segundo
batismo, mais perfeito do que o primeiro porque vem pelo sangue. O martírio aparece como
expressão eminente da santidade cristã. O mártir é testemunha plena do Espírito Santo que imita
Jesus (faltou última parte do slide Martírio).

CARTA DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA AOS ROMANOS (entregue em aula)


Inácio foi o terceiro bispo de Antioquia.
Saudação
Inácio, também chamado Teóforo8, à Igreja que recebeu a misericórdia, por meio da
magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho único; à Igreja amada e iluminada pela
bondade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo fé e amor dela por Jesus Cristo,
nosso Deus; à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de
ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que
porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai; eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai1.
Àqueles que física e espiritualmente estão unidos a todos os seus mandamentos, inabalavelmente
repletos da graça de Deus, purificados de toda coloração estranha, eu lhes desejo alegria pura em
Jesus Cristo, nosso Deus.

Ver a comunidade e ir a Deus


1. Depois de rezar a Deus, obtive dele ver vossos rostos santos, pois eu tinha pedido
insistentemente receber esse favor. Acorrentado em Jesus Cristo, espero saudar-vos, se é vontade de
16

Deus que eu seja encontrado digno de ir até o fim. Com efeito, o começo é fácil, mas eu queria
obter a graça de receber, sem obstáculo, a minha herança. Receio porém, que o vosso amor me faça
mal. De fato, para vós, é fácil fazer o que quereis; para mim, porém, é difícil alcançar a Deus, se
não me poupardes.

Não impedir o martírio


2. Não desejo que agradeis aos homens, mas que agradeis a Deus, como de fato o fazeis.
Eu não teria outra ocasião como esta de alcançar a Deus, e vós, se ficásseis calados, poderíeis
assinar obra melhor. Se guardásseis o silêncio a meu respeito, eu me tornaria pertencente a Deus. Se
amais minha carne, porém, ser-me-á preciso novamente correr. Não desejeis nada para mim, senão
ser oferecido em libação a Deus, enquanto ainda existe altar preparado, a fim de que, reunidos em
coro no amor, canteis ao Pai, por meio de Jesus Cristo, por Deus se ter dignado fazer com que o
bispo da Síria se encontrasse aqui, fazendo-o vir do Oriente para o Ocidente. É bom deitar-se, longe
do mundo, em direção a Deus, para depois nele se levantar.

Ser cristão de fato


3. Nunca tiveste inveja de ninguém; ensinastes a outros. Quanto a mim, quero que
permaneça firme o que ensinastes. Para mim, peçam apenas a força interior e exterior, para que eu
não só fale, mas também queira; para que eu não só me diga cristão, mas de fato seja encontrado
como tal. Se eu de fato o sou, poderei também ser chamado como tal, e ser verdadeiramente fiel,
quando não for mais visível para o mundo. Nada do que é visível é bom. De fato, nosso Deus Jesus
Cristo, estando agora com seu Pai, torna-se manifesto ainda mais. O cristianismo, ao ser odiado
pelo mundo, mostra que não é obra de persuasão, mas de grandeza.

Sou trigo de Deus


4. Escrevo a todas as Igrejas e anuncio a todos que, de boa vontade, morro por Deus, caso
vós não me impeçais de o fazer. Eu vos suplico que não tenhais benevolência inoportuna por mim.
Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus. Sou trigo de
Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo. Ao
contrário, acariciai as feras, para que se tornem minha sepultura, e não deixem nada do meu corpo,
para que, depois de morto, eu não pese a ninguém. Então eu serei verdadeiramente discípulo de
Jesus Cristo, quando o mundo não vir mais o meu corpo. Suplicai a Cristo por mim, para que eu,
com esses meios, seja vítima oferecida a Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo; eles eram
apóstolos, eu sou um condenado. Eles eram livres, e eu até agora sou um escravo. Contudo, se eu
17

sofro, serei um liberto de Jesus Cristo, e ressurgirei nele como pessoa livre. Acorrentado, aprendo
agora a não desejar nada2.

5. Desde a Síria até Roma, luto contra as feras, por terra e por mar, de noite e de dia,
acorrentado a dez leopardos, a um destacamento de soldados; quando se lhes faz bem, tornam-se
piores ainda. Todavia, por seus maus tratos, eu me torno discípulo melhor, mas “nem por isso sou
justificado.”

Possa eu alegrar-me com as feras que me estão sendo preparadas. Desejo que elas sejam
rápidas comigo. Acariciá-las-ei, para que elas me devorem logo, e não tenham medo, como tiveram
de alguns e não ousaram tocá-los. Se, por má vontade, elas se recusarem, eu as forçarei. Perdoai-
me; sei o que me convém. Agora estou começando a me tornar discípulo. Que nada de visível e
invisível, por inveja, me impeça de alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, manadas de feras,
lacerações, desmembramentos, deslocamento de ossos, mutilações de membros, trituração de todo o
corpo, que os piores flagelos do diabo caiam sobre mim, com a única condição de que eu alcançe
Jesus Cristo.

Imitar a paixão de Cristo


6. Para nada me serviriam os encantos do mundo, nem os reinos deste século. Para mim, é
melhor morrer para Cristo Jesus do que ser rei até os confins da terra. Procuro aquele que morreu
por nós; quero aquele que por nós ressuscitou. Meu parto se aproxima. Perdoai-me, irmãos. Não me
impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me abandoneis ao mundo, não seduzais com a
matéria quem quer pertencer a Deus. Deixai-me receber a luz pura; quando tiver chegado lá, serei
homem. 3Deixai que seja imitador da paixão do meu Deus. Se alguém tem Deus em si mesmo,
compreenda o que quero e tenha compaixão de mim, conhecendo aquilo que me oprime.

7. O príncipe deste mundo quer arrebatar-me e corromper o meu pensamento dirigido a


Deus. Que ninguém dos que aí estão presentes o ajude. Antes, colocai-vos do meu lado, isto é, do
lado de Deus. Não tenhais Jesus Cristo na boca, desejando, ao mesmo tempo, o mundo. Que a
inveja não habite em vosso meio. Mesmo se eu estiver junto de vós e vos implorar, não vos deixeis
persuadir. Persuada-vos aquilo que vos escrevo. É vivo que eu vos escrevo, mas com anseio de
morrer. Meu desejo terrestre foi crucificado, e não há mais em mim fogo para amar a matéria.
Dentro de mim, há uma água viva, que murmura e diz: “Vem para o Pai.” Não sinto prazer pela
18

comida corruptível, nem me atraem os prazeres desta vida. Desejo o pão de Deus, que é a carne de
Jesus Cristo, da linhagem de Davi, e por bebida desejo o sangue dele, que é o amor incorruptível.

O amor crucificado
8. Não quero mais viver conforme os homens. Se quiserdes, assim o será. Desejai isso,
para que também vós possais ser amados por Deus. Eu vo-lo peço em poucas palavas: Crede em
mim. Jesus Cristo vos manifestará que estou falando sinceramente. Ele é a boca que não mente, pela
qual o Pai verdadeiramente falou. Rogai por mim, para que eu alcance a meta. Não vos escrevi
segundo a carne, mas conforme o pensamento de Deus. Se eu sofrer, vós me tereis amado; se eu for
recusado, vós me tereis odiado.

Recomendações
9. Em vossa oração, lembrai-vos da Igreja da Síria que, em meu lugar, tem Deus por pastor.
Somente Jesus Cristo e o vosso amor serão nela o bispo. De minha parte, sinto-me envergonhado de
ser contado entre seus fiéis. Não sou digno disso, pois sou o último entre eles, e um abortivo.
Contudo, se eu alcançar a Deus, terei recebido a misericórdia de ser alguém. Meu espírito vos
saúda, bem como o amor das Igrejas que me receberam em nome de Jesus Cristo, e não como
simples viajante. Embora não as tenha encontrado fisicamente no meu caminho, elas me
precederam de cidade em cidade.

10. De Esmirna, eu vos escrevo essas coisas, por meio de efésios dignos de serem
chamados felizes. Entre muitos outros, está comigo Croco, nome que me é caro. Creio que
conheceis os que foram à minha frente da Síria até Roma, para a glória de Deus. Avisai-os que estou
perto. Todos eles são dignos de Deus e de vós, e é bom que os reconforteis em todas as coisas.

Eu vos escrevo nove dias antes das calendas de setembro3. Passai bem até o fim,
perseverando em Jesus Cristo.

Notas
1. Alguns veem aí o testemunho do reconhecimento da primazia e da superioridade da
Igreja romana sobre as outras Igrejas.
2. Este parece ser o objetivo principal da carta aos romanos. Inácio desencoraja qualquer
tentativa por parte dos cristãos de Roma, de intervirem em seu favor, a fim de libertá-lo dos
suplícios. Mas esta é a graça suprema pela qual ele aspira. Como se percebe também no parágrafo
19

seguinte, é a primeira e mais forte expressão do desejo do martírio que arderá em outros cristãos nos
séculos seguintes e levará Orígenes e Cipriano a escreverem uma Exortação ao martírio.
3. É a única carta de Inácio, datada. Estes “nove dias das Calendas de setembro”
correspondem a 24 de agosto.

DOMUS ECCLESIAE: surgimento desde domus domesticae


Não permitido ter, no Império Romano, ter um edifício de culto devido à proibição non
licet esse cristianus. A alternativa era a Igreja doméstica, que se tornava a “estrutura pastoral antiga
do tempo de São Paulo”9. A Igreja da casa foi um acontecimento histórico e sociológico, que se
converteu em termo teológico pastoral. Possui um conteúdo tão rico que não se esgota no que hoje
chamamos família nuclear.
“A casa como lugar e como grupo familiar foi um dos espaços privilegiados da atuação de
Jesus e de seus seguidores mais imediatos” (p. 19).
Na Sagrada Escritura vemos que:
“E logo ao sair da sinagoga, foi à casa de Simão e de André, com Tiago e João” (Mc 1,29).
“Aconteceu que, estando à mesa, em casa de Levi, muitos publicanos e pecadores também estavam
com Jesus” (Mc 2,15). “E voltou para casa. E de novo multidão se apinhou, de tal modo que eles
não podiam se alimentar” (Mc 3,20). “Em tua casa irei celebrar a Páscoa com meus discípulos” (Mt
26,18).
Casa é um novo espaço para experimentar o Reino de Deus.
“A casa não é só lugar da atuação de Jesus. Ela era um espaço no qual a mesa é partilhada
também com publicanos e pecadores (cf. Mc 2,15; Mc 14,3) e onde se discutem questões de
primeira importância, tais como: o jejum (cf. Mc 2,18-22); o comportamento comunitário (cf. Mc
9,33; Mc 10,10); lugar de cura e perdão para os pecados (cf. Mc 2,1-12). Para os escribas, um
agravante da “blasfêmia” de Jesus, além da cura e do perdão dos pecados, é o lugar “não-oficial” no
qual são realizados.

TEMPLO – SINAGOGA – CASA


Após o assassinato de Estevão, o Templo perde todo o seu papel positivo. Deste modo,
agora a comunidade se concentra nas casas como seu lugar específico de reunião, de ajuda mútua e
de missão. É de casa em casa que vai chegar a Palavra de Deus e o testemunho apostólico até
Roma, enquanto Paulo, também em uma casa, terá seu centro de atividade e de encontro (cf. La
iglesia de la casa, p. 22).
20

A estrutura central religiosa, que era o Templo, dá lugar à Casa, como lugar específico de
reunião, de ajuda mútua e de missão. Por mais que a reunião nas Casas possa parecer ínfimo de
força, ela será o local privilegiado para a expansão missionária da Igreja nascente.

Cidade - Casa
No entanto, a cidade em si mesma foi somente um amplo espaço. Dentro dela, os lugares
de encontro dos grupos paulinos, e provavelmente da maioria dos outros grupos cristãos, foram as
casas privadas, às quais se denominou de Igreja das Casas, ou Igreja Doméstica. Para os cristãos, a
Casa não constituiu simplesmente uma forma adicional de identidade social e de filiação religiosa,
juntamente com outros lugares como o templo, a sinagoga ou a cidade. Ela foi uma alternativa
decisiva.
Na Escritura se lê:
“Pedro então refletiu e foi para a casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos,
onde muitos se haviam reunido para rezar” (At 12,12);
“Ao sair da prisão, Paulo e Silas foram para a casa de Lídia. Aí encontraram os irmãos, os
encorajaram e depois partiram” (At 16,40);
“Havia muitas lâmpadas na sala superior, onde estávamos reunidos” (At 20,9);
“As igrejas da Ásia mandam saudações. Áquila e Prisca, com a igreja que se reúne na casa
deles [...]” (At ).

Casa
A Casa foi o primeiro lugar de reunião das comunidades cristãs; simultaneamente podemos
dizer também que foi a casa e a família o núcleo humano inicial da Igreja. Assim se expressa na
fórmula: “A Igreja se reúne na casa de”. Quem recebia a Igreja em sua casa automaticamente se
convertia no seu líder.
O Documento Comunidade de Comunidades10 afirma que “As comunidades de Jerusalém,
Antioquia, Roma, Corinto e Éfeso, entre outras, são comunidades formadas por Igrejas Domésticas:
as casas serviam de local de acolhida dos fiéis que ouviam a Palavra, repartiam o pão e viviam a
caridade que Jesus ensinou. Paulo faz da casa a estrutura fundamental das Igrejas por ele fundadas”
(n. 99).
Interessante que uma estrutura antiquíssima da Igreja primitiva é recuperada e proposta sua
atualização como desafio para a realidade hodierna.

Casas Privadas
21

Diferentes comunidades domésticas de uma cidade se reuniam também em certas casas


privadas (cf. Rm 16,23). Não havia um verdadeiro edifício destinado propriamente à finalidade de
reunião da Igreja, porque era proibido. As possibilidades oferecidas por uma casa privada como
lugar de reuniões nos fazem pensar que o número de membros correspondia à capacidade do local.

Domus ecclesiae
Entre os séc. II e III, as distintas comunidades cristãs estabelecem suas primeiras estruturas
materiais básicas: os locais de reunião para os vivos – domus eclesiae – e para os defuntos –
catacumbas. Portanto, o culto da comunidade abandona a eclesiae domesticae, que são as pequenas
comunidades albergadas em casas particulares, para passar à domus ecclesiae, cujo vestígio mais
antigo se pode encontrar entre os anos 232 e 235.
Uma domus ecclesiae foi descoberta em Dura Europos. Datada entre 232 – 258, a estrutura
está organizada em dois espaços: a sala para reunião litúrgica e o batistério.
Há outras. Em uma delas há uma imagem de uma figura orante feminina.
22

11/04/18 – EDITOS RELATIVOS AO CRISTIANISMO (manhã)

Recovery: nas cidades haviam inúmeras ecclesia domesticae (igrejas domésticas), que
organizadas em rede de comunidades, fortaleciam a vida e fé dos cristãos. Elas funcionavam como
núcleos abrangentes que extrapolavam as linhas de parentesco: nelas os escravos participavam.
Quando um determinado grupo de igrejas domésticas passa a se reunir em um local
próprio, em uma estrutura particular, surge ali a Domus ecclesiae, para celebração. A casa de um
particular se torna em um templo.
Isso não significa apenas um espaço para celebrar. Ela representa um sentido mais amplo
de organização da Igreja, não só do ponto de vista estrutural. É um espaço teológico e pastoral: tem
local para a sinápse e para os sacramentos (p. ex. Batistério).
Somente mais tarde, quando o cristianismo for a religião oficial do Estado, das massas, é
que surgiram as Basílicas, como local público de culto.

Em 64, Nero inicia a perseguição a muitos seguidores do Caminho, que se tornaram


mártires, porque perseguidos e capturados, enquanto que outros foram chamados de lapsi (decaídos)
que desistiram da fé. Era um momento de efervecência e de crescimento dos ministérios e das
comunidades (Igrejas das Casas, catacumbas). Contudo, a Igreja permanecia ilegal.
Em 311, Galério promulga um edito tolerando a presença dos cristãos.
Em 313, Constantino determina a legalidade dos cristãos.
Em 380, Teodósio determina o cristianismo como religião oficial do Império, apesar de
intolerante aos pagãos.

TEXTO DOS EDITOS:


Edito de Galério, de 311, sobre o perdão e sobre a tolerância concedidos aos cristãos depois
das perseguiçoes:
#1 a questão por trás deste Edito é a perturbação que a perseguição causava no Império.
Sua preocupação é o bem-estar do Império, e que a encheção de saco que ter que perseguir e matar
cada pouco um grupo de cristãos causava.
#2 Os cristãos eram acusados de abandonar a religião dos pais; de virar às costas aos
costumes, à mos maiorum; de criar outras leis e de segui-las estritamente; de manterem suas
assembleias em lugares diversos; não prestam culto aos deuses romanos e ao imperador, outros
ainda “ateus”;
23

#3 Depois de quase 300 anos, o Imperador escreve que os cristãos tem o direito de
existir. Porque até então non licet vos esse (não é lícito que esses existam);
#4 Em retribuição, os cristãos deveriam rezar ao seu Deus pelo Imperador e pelo
Império, e agirem corretamente, sem delitos e crimes;

Edito de Milão, por Constantino em 313, sobre a liberdade religiosa concedida aos cristãos:

#1 Nesse tempo o Império é governado por dois imperadores. Contudo, Constantino


vence Licínio em uma batalha, sendo somente ele registrado na história. Estes e outros imperadores
registram terem tidos visões de monograma de Cristo (Constantino), de cruzes iluminadas
(Lactâncio), de anjos mensageiros que entregam orações (Licínio).
#2 Vimos, nesse edito, que Constantino não fala de Jesus, do Deus dos cristãos, mas sim
da suma divinitas, seja ela, ou elas, quem forem.
#3 As Domus ecclesiae deveriam ser devolvidas aos cristãos.
#4 Esse edito expressa o “mito da pacificação” de Constantino.
#5 Outras decorrências desse edito: fim da marcação à ferro quente no rosto dos
escravos; determinação do domingo como dia “santo”, de descanso; financiamento público para a
construção das Basílicas (do Latrão, do Santo Sepulcro e outras, por Constantino); Constantino vai
bancar, com recursos públicos, as viagens e os gastos de Concílios, por ele convocados;
#6 Há um problema historiográfico: como entender a conversão de Constantino?

Edito dos imperadores Graziano, Valentiniano II e Teodósio, em 380: cristianismo como


religião oficial do Estado.

#1 Se antes Galério chamava os cristãos de dementes e insensatos, agora Teodósio


chama os não cristãos de dementes e insensatos. O Imperador fala, e reconhece, a Trindade, Pai e
Filho e Espírito Santo, e a doutrina cristã ortodoxa.
#2 Não somente Deus, mas o Imperador tem o dever de punir os não cristãos, que
somente eles poderiam ter seus locais chamados de Igrejas. A partir de agora, haverão leis anti-
pagãs: queimas de locais de cultos pagãos, etc.
#3 Teodósio, ao escrever esse edito, vai existir uma única fé e uma única religião no
Império Romano: o cristianismo. De agora em diante, ser cristão não é mais escolha, mas
obrigação, passível de punição.
24

Há uma reviravolta: de perseguido, o cristianismo passou a ser tolerado, feito legal e


oficial, e agora os poderes do Estado e da religião cristã estão entrelaçados. É nessa perspectiva que
vamos entrar na Idade Média e que vamos entender a Inquisição.
Essa união, de Igreja e Estado, vao ter consequências para a história até nossos dias. Nesse
período é que vão surgir os Santos Padres e os Monges.
25

11/04/18 – PADRES APOSTÓLICOS (tarde)

Falar de Padres Apostólicos não é somente falar de nomes ou pessoas, mas também de
escritos que chegaram até nós.

LIÉBAERT, Jacques. A época dos primeiros Padres (séculos I-II). In ______. Os Padres da Igreja.
p. 19-23.

Comentários:
O domínio do Império Romano sobre o mar Mediterrâneo foi de ordem militar e
administrativa, e não cultural ou religiosa. Tanto é que, muitos termos e expressões da Igreja
vinham em decorrência disso.
O Império Romano é cosmopolita, mas tem do oriente muitos elementos que são
incorporados, como por exemplo a filosofia do oriente que influencia fortemente o Império, através
das doutrinas platônicas, estóicas e do neopitagorismo.
No berço do cristianismo estavam a organização romana, o espírito grego e a religiosidade
oriental. Isso vai se manifestar mais fortemente nas heresias.
Baseado no quadro da página 20:
Nos anos 70/80, são redigidos os Evangelhos Sinóticos e os Atos dos Apóstolos. É desse
período a redação da Didaquê11 (Doutrina dos Apóstolos). Nesse mesmo período, os imperadores
Tito e Vespasiano tomaram Jerusalém. Outros textos dos Padres Apostólicos são: Carta de Clemente
de Roma aos Coríntios, Cartas de Inácio de Antioquia, Odes de Salomão, Carta de Policarpo aos
Filipenses, Carta do Pseudo-Barnabé, O Pastor de Hermas (sobre a penitência), o Evangelho de
Tomé (apócrifo), entre outros.
Não há ruptura na passagem da Igreja dos Apóstolos para a Igreja dos Padres. Sendo assim,
o início do Primeiro Período Patrístico, que vai do final do século I à metade do século II, é o
Período dos Padres Apostólicos, que viveram próximos aos apóstolos não só no pensamento e na
doutrina, mas no tempo. Conviveram, aprenderam, celebraram com os apóstolos. O vínculo não foi
quebrada.
Outro detalhe é a diversidade da Igreja daquele tempo. Não só de pessoas e de ministérios,
mas plurilíngue (grega, aramaica, síria, latina). A Igreja era praticamente oriental: os 8 primeiros
concílios foram no oriente; as grandes escolas eram do oriente (por exemplo Alexandria).
É importante perceber que quanto mais distante de Cristo, mais precisamos da teologia, do
estudo da bíblia, da formação permanente.
26

As grandes correntes que nos tempos antigos tentavam influenciar a doutrina cristã, hoje
elas também estão presentes. Haviam diversas fontes nas quais podiam os fieis beber, mas apesar
disso, os escritos dos Padres Apostólicos convidam a uma unidade da diversidade, não de modo
massificador ou alienante, mas verdadeiro: Didaquê: doutrina dos apóstolos; Odes de Salomão: 24
hinos de inspiração cristã, mas em estilo semítico; Carta de Barnabé: leitura cristã do Antigo
Testamento; Pastor de Hermas: convidava a uma reforma moral na Igreja. Além destes, há os
escritos chamados de apócrifos, que fazem parte deste período.
Eis um extrato de uma carta de São Clemente de Roma, no qual os cristãos rezam em
intenção dos responsáveis pela sociedade, mesmo em tempo de perseguição:
[…] Sacia os famintos , liberta os nossos prisioneiros,
Reanima os fracos, consola os pusilânimes
Sim, Mestre, faz brilhar sobre nós a tua face,
Para o bem, na paz,
Para nos proteger com tua mão poderosa,
Para nos liberar de todo pecado, por teu braço estendido,
E nos livrar dos que nos odeiam injustamente.
Concede-nos concórdia e a paz,
A nós e a todos os habitantes da terra,
Como as deste a nosso pais
Quando te invocaram santamente na fé e na verdade.
Faze-nos submissos a teu nome onipotente e santíssimo.
Bem como aos que nos governam e dirigem na terra.
Foste tu, Senhor, que lhes deste o poder da realeza,
Para que, sabendo que por ti lhes foram dadas a glória e a honra,
Lhes sejamos submissos, sem nos opor de modo algum à tua vontade.
Concede-lhes, Senhor, a saúde, a paz, a concórdia, a estabilidade,
Para que exerçam, sem passo em falso, a soberania que lhes confiaste.
Pois és tu, Mestre celestial, Rei dos séculos,
Que dá aos filhos dos homens a glória e a honra
E o poder sobre as coisas terra.
Tu, Senhor, dirige seus desígnios segundo o que é bom e agradável a teus olhos,
Para que, exercendo, na paz e na mansidão
Com piedade, o poder que lhes deste, julguem-te propício
Tu, o único que pode realizar esses benefícios
27

E maiores ainda para nós,


Nós te damos graças pelo sumo sacerdote e protetor de nossas almas, Jesus Cisto,
Por quem glória e magnificência sejam dadas agora a Ti,
De geração em geração, e pelos séculos dos séculos. Amém.

São Clemente de Roma, Cartas aos Coríntios (cerca do ano 96)

TEXTO DA DIDAQUÊ: Instrução do Senhor através dos doze apóstolos aos gentios (ZILLES,
1972)
PARTE I – O CAMINHO DA VIDA E DA MORTE
CAPÍTULO I – o da vida exige o amor a deus e ao próximo
1 Existem dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte.
2 Há uma grande diferença entre os dois.
Este é o caminho da vida: primeiro, ame a Deus que o criou; segundo, ame a seu próximo
como a si mesmo. Não faça ao outro aquilo que você não quer que façam a você.
3 Este é o ensinamento derivado dessas palavras: bendiga aqueles que o amaldiçoam, reze
por seus inimigos e jejue por aqueles que o perseguem. Ora, se você ama aqueles que o amam, que
graça você merece? Os pagãos também nãofazem o mesmo? Quanto a você, ame aqueles que o
odeiam e assim você não terá nenhum inimigo.
4 Não se deixe levar pelo instinto. Se alguém lhe bofeteia na face direita, ofereça-lhe
também a outra face e assim você será perfeito. Se alguém o obriga a acompanhá-lo por um
quilometro, acompanhe-o por dois. Se alguém lhe tira o manto, ofereça-lhe também a túnica. Se
alguém toma alguma coisa que lhe pertence, não a peça de volta porque não é direito.
5 Dê a quem lhe pede e não peças de volta pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a
todos. Bem-aventurado aquele que dá conforme o mandamento, pois será considerado inocente. Ai
daquele que recebe: se pede por estar necessitado, será considerado inocente; mas se recebeu sem
necessidade, prestará contas do motivo e da finalidade. Será posto na prisão e será interrogado sobre
o que fez... e daí não sairá até que devolva o último centavo.
6 Sobre isso também foi dito: que a sua esmola fique suando nas suas mãos até que você
saiba para quem a está dando.

CAPÍTULO II – dos deveres para com a vida e a propriedade do próximo


1 O segundo mandamento da instrução é:
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2 Não mate, não cometa adultério, não corrompa os jovens, não fornique, não roube, não
pratique a magia nem a feitiçaria. Não mate a criança no seio de sua mãe e nem depois que ela
tenha nascido.
3 Não cobice os bens alheios, não cometa falso juramento, nem preste falso testemunho,
não seja maldoso, nem vingativo.
4 Não tenha duplo pensamento ou linguajar pois o duplo sentido é armadilha fatal.
5 A sua palavra não deve ser em vão, mas comprovada na prática.
6 Não seja avarento, nem ladrão, nem fingido, nem malicioso, nem soberbo. Não planeje o
mal contra o seu próximo.
7 Não odeie a ninguém, mas corrija alguns, reze por outros e ame ainda aos outros, mais
até do que a si mesmo.

CAPÍTULO III – advertências contra a paixão e a idolatria


1 Filho, procure evitar tudo aquilo que é mau e tudo que se parece com o mal.
2 Não seja colérico porque a ira conduz à morte. Não seja ciumento também, nem
briguento ou violento, pois o homicídio nasce de todas essas coisas.
3 Filho, não cobice as mulheres pois a cobiça leva à fornicação. Evite falar palavras
obscenas e olhar maliciosamente já que os adultérios surgem dessas coisas.
4 Filho, não se aproxime da adivinhação porque ela leva à idolatria. Não pratique
encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre isso, pois disso tudo nasce
a idolatria.
5 Filho, não seja mentiroso pois a mentira leva ao roubo. Não persiga o dinheiro nem
cobice a fama porque os roubos nascem dessas coisas.
6 Filho, não fale demais pois falar muito leva à blasfêmia. Não seja insolente, nem tenha
mente perversa porque as blasfêmias nascem dessas coisas.
7 Seja manso pois os mansos herdarão a terra.
8 Seja paciente, misericordioso, sem maldade, tranqüilo e bondoso. Respeite sempre as
palavras que você escutou.
9 Não louve a si mesmo, nem se entregue à insolência. Não se junte com os poderosos,
mas aproxima dos justos e pobres.
10 Aceite tudo o que acontece contigo como coisa boa e saiba que nada acontece sem a
permissão de Deus.

CAPÍTULO IV – é melhor dar que receber; deveres do senhor e dos escravos


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1 Filho, lembre-se dia e noite daquele que prega a Palavra de Deus para você. Honre-o
como se fosse o próprio Senhor, pois Ele está presente onde a soberania do Senhor é anunciada.
2 Procure estar todos os dias na companhia dos fiéis para encontrar forças em suas
palavras.
3 Não provoque divisão. Ao contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Julgue de
forma justa e corrija as culpas sem distinguir as pessoas.
4 Não hesite sobre o que vai acontecer.
5 Não te pareças com aqueles que dão a mão quando precisam e a retiram quando devem
dar.
6 Se o trabalho de suas mãos te rendem algo, as ofereça como reparação pelos seus
pecados.
7 Não hesite em dar, nem dê reclamando porque, na verdade, você sabe quem realmente
pagou sua recompensa.
8 Não rejeite o necessitado. Compartilhe tudo com seu irmão e não diga que as coisas são
apenas suas. Se vocês estão unidos nas coisas imortais, tanto mais estarão nas coisas perecíveis.
9 Não se descuide de seu filho ou filha. Muito pelo contrário, desde a infância instrua-os a
temer a Deus.
10 Não dê ordens com rudeza ao seu escravo ou escrava pois eles também esperam no
mesmo Deus que você; assim, não perderão o temor de Deus, que está acima de todos. Certamente
Ele não virá chamar a pessoa pela aparência, mas somente aqueles que foram preparados pelo
Espírito.
11 Quanto a vocês, escravos, obedeçam aos seus senhores,com todo o respeito e
reverência, como à própria imagem deDeus.
12 Deteste toda a hipocrisia e tudo aquilo que não agrada o Senhor.
13 Não viole os mandamentos dos Senhor. Guarde tudo aquilo que você recebeu: não
acrescente ou retire nada.
14 Confesse seus pecados na reunião dos fiéis e não comece a orar estando com má
consciência. Este é o caminho da vida.

CAPÍTULO V – do caminho da morte


1 Este é o caminho da morte: primeiro, é mau e cheio de maldições - homicídios,
adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatria,magias, feitiçarias, rapinas, falsos testemunhos,
hipocrisias, coração com duplo sentido, fraudes, orgulho, maldades, arrogância, avareza, palavras
obscenas, ciúmes, insolência, altivez, ostentação e falta de temor de Deus.
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2 Nesse caminho trilham os perseguidores dos justos, os inimigos da verdade, os amantes


da mentira, os ignorantes da justiça, os que não desejam o bem nem o justo julgamento, os que não
praticam o bem mas o mal. A calma e a paciência estão longe deles. Estes amam as coisas vãs, são
ávidos por recompensas, não se compadecem com os pobres, não se importam com os perseguidos,
não reconhecem o Criador. São também assassinos de crianças, corruptores da imagem de Deus,
desprezam os necessitados, oprimem os aflitos, defendem os ricos, julgam injustamente os pobres e,
finalmente, são pecadores consumados. Filho, afaste-se disso tudo.

CAPÍTULO VI – perfeito é quem aceita o jugo do Senhor


1 Fique atento para que ninguém o afaste do caminho da instrução, pois quem faz isso
ensina coisas que não pertencem a Deus.
2 Você será perfeito se conseguir carregar todo o jugo do Senhor. Se isso não for possível,
faça o que puder.
3 A respeito da comida, observe o que puder. Não coma nada do que é sacrificado aos
ídolos, pois esse culto é destinado a deuses mortos.

PARTE II – A CELEBRAÇÃO LITÚRGICA


CAPÍTULO VII – instrução sobre o batismo
1 Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água
corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
2 Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água
fria, faça com água quente.
3 Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo12.
4 Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que
puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.

CAPÍTULO VIII – sobre o jejum e a oração


1 Os seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no
quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação.
2 Não reze como os hipócritas, mas como o Senhor ordenou em seu Evangelho. Reze
assim: "Pai nosso que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino, seja feita a tua
vontade, assim na terra como no céu; o pão-nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai nossa dívida,
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assim como também perdoamos os nossos devedores e não nos deixes cair em tentação, mas livrai-
nos do mal porque teu é o poder e a glória para sempre".
3 Rezem assim três vezes ao dia.

CAPÍTULO IX – instrução sobre a celebração eucarística


1 Celebre a Eucaristia assim:
2 Diga primeiro sobre o cálice: "Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha
do teu servo Davi, que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre".
3 Depois diga sobre o pão partido: "Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do
conhecimento que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.
4 Da mesma forma como este pão partido havia sido semeado sobre as colinas e depois foi
recolhido para se tornar um, assim também seja reunida a tua Igreja desde os confins da terra no teu
Reino, porque teu é o poder e a glória, por Jesus Cristo, para sempre".
5 Que ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do
Senhor pois sobre isso o Senhor disse: "Não dêem as coisas santas aos cães".

CAPÍTULO X – ação de graças depois da ceia


1 Após ser saciado, agradeça assim:
2 "Nós te agradecemos, Pai santo, por teu santo nome que fizeste habitar em nossos
corações e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelaste através do teu servo Jesus. A
ti, glória para sempre.
3 Tu, Senhor onipotente, criaste todas as coisas por causa do teu nome e deste aos homens
o prazer do alimento e da bebida, para que te agradeçam. A nós, porém, deste uma comida e uma
bebida espirituais e uma vida eterna através do teu servo.
4 Antes de tudo, te agradecemos porque és poderoso. A ti, glória para sempre.
5 Lembra-te, Senhor, da tua Igreja, livrando-a de todo o mal e aperfeiçoando-a no teu
amor. Reúne dos quatro ventos esta Igreja santificada para o teu Reino que lhe preparaste, porque
teu é o poder e a glória para sempre.
6 Que a tua graça venha e este mundo passe. Hosana ao Deus de Davi. Venha quem é fiel,
converta-se quem é infiel. Maranatha13. Amém."
7 Deixe os profetas agradecerem à vontade.
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18/04/18 – OS CONCÍLIOS DA IGREJA (manhã)

1 DEFINIÇÃO DE TERMOS

Sínodo: [sin + odos] caminhar juntos por uma mesma estrada.


Concílio: colocar-se junto, de acordo.
Sendo assim, até os anos 60 os termos sínodo e concílio eram sinônimos. Em latim,
concillium, e em grego, sinodós, significam assembleia. O papa Paulo VI, na década de 60,
introduziu na Igreja o Sínodo dos Bispos, a cada dois anos, com o objetivo de aconselhar os papas
sobre alguns temas. A distinção foi formalizada e inserida no Código de Direito Canônico (cân.
337-348), ressaltando que Concílio tem um caráter executivo e legislativo.
A palavra ecumênico significa terra habitada, ou seja, aonde existem casas (oikós). Nesse
sentido, aplicado junto ao termo concílio, significa assembleias de pessoas de todas as partes do
Império Romano. Na mesma perspectiva, outro termo frequentemente usado é católico. Ambos,
ecumênico e católico, são conceitos geográficos: o primeiro, significa terra habitada, e o segundo,
universal.
É importante ter presente que alguns desses termos tiveram seu significado alterado:
ecumênico, hoje, se refere também a outras religiões cristãs.

2 IMPORTÂNCIA DOS CONCÍLIOS [E DO SEU ESTUDO]

Muitas das decisões importantes da história e da caminhada da Igreja ao longo do tempo


ocorreram nos, e através, dos concílios. Alguns exemplos são o credo niceno-constantinopolitano e
as verdades de fé sobre a divindade e humanidade de Jesus; outros elementos normativos e
organizativos, tais como: sobre a eleição dos papas, a idade de ordenação, o celibato, a relação com
os muçulmanos e hebreus, as cruzadas, a devoção, os seminários. Muitas das mudanças e das
reformas na Igreja precisam ser vistas, estudadas e entendidas à luz dos concílios.
Ao todo, foram 21 concílios.

3 APROXIMAÇÃO INICIAL AOS CONCÍLIOS

Os primeiros oito concílios foram convocados por imperadores romanos. É importante


saber que, há pouco tempo antes, os cristãos eram fervorosamente perseguidos e martirizados; agora
os imperados convocam concílios a fim de determinar doutrinas para manter a “unidade” no
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Império. Todos estes foram realizados no oriente, e são comuns a Igreja ocidental e oriental.
Somente em 1123, acontece o primeiro concílio no ocidente, e que foi convocado por um papa: o de
Latrão I, pelo papa Calixto II.
A duração dos concílios é muito diversa: o de Latrão I durou uma semana; o de Trento
durou quase vinte anos, entre as discussões e as resoluções; o Vaticano II durou três anos. Os
intervalos entre um e outro também variam grandemente, alguns poucos anos, outros vários séculos.
Os concílios são uma resposta às necessidades dogmáticas, pastorais, legislativa e/ou
judiciária. Suas resoluções eram divulgadas em manuscritos até a invenção da prensa. Os primeiros
tinham como língua oficial o grego, e só posteriormente a latina.
Podemos dividir, pedagogicamente, os concílios em:
1. Concílios do Primeiro Milênio: Niceia I (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431),
Calcedônia (451), Constantinopla II (553), Constantinopla III (680-681), Niceia II (787),
Constantinopla IV (869-870).
2. Concílios Medievais: Latrão I (1123), Latrão II (1139), Latrão III (1179), Latrão IV
(1215), Lyon I (1245), Lyon II (1274), Vienne (1311-1312).
3. Concílios da Reforma/Modernidade: Constança (1414-1418), Basileia-Ferrara-Florença-
Roma (1431-1445), Latrão V (1512-1517), Trento (1545-1548/1551-1552/1562-1563).
4. Concílios Contemporâneos: Vaticano I (1869-1870), Vaticano II (1962-1965).
Alguns estão ausentes dessa lista, por diversos motivos e considerações, como por exemplo
o de Jerusalém, que está narrado nos Atos dos Apóstolos. Alguns historiadores dirão que isso
acontece por causa de um “incidente histórico”; outros que o tempo longo entre ele e o próximo foi
responsável por ter ficado de fora da lista; há ainda a posição que não houve uma herança
institucional dele naquele período.
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18/04/18 – DIDAQUÉ [CONTINUAÇÃO] (tarde)

Para semana que vem, 25/04, de manhã o texto do Stark, de tarde fazer o trabalho dos
santos padres e ler da pg 25 a 127 dos padres da igreja.
Para dia 02 de maio, de manhã, escolher um tema da História da Igreja antiga e
escrever sobre ele: Igreja da casa, edito, catacumba, imperadores, perseguições, martírio, etc.
Entregar na outra semana. De tarde, o Kiko vai trabalhar os Santos Padres na perspectiva de
alguns critérios deles para um presbítero.
Sobre a apresentação da pesquisa sobre os Santos Padres: apresentar vida/biografia,
obras e aprofundar um excerto em 35-40 minutos. Encaminhar apresentação para
cleocir.b@libero.it
20 de junho: S. Atanásio (Edimar), S. Basílio (Dalcinei) e S. Gregório de Nissa
(Leonardo).
27 de junho: S. Cirilo de Alexandria (Ir. Maria Fátima), S. Macrina (Ir. Neusa), S.
Jeronimo (Isolina).
04 de julho: S. Agostinho (Antônio), S. Antão (Marlon), S. Bento (Joelmar).

CONTINUAÇÃO DO TEXTO DA DIDAQUÉ


PARTE III – A VIDA EM COMUNIDADE
CAPÍTULO XI – da hospitalidade14 para com os apóstolos e profetas
1 Se vier alguém até você e ensinar tudo o que foi dito anteriormente, deve ser acolhido.
2 Mas se aquele que ensina é perverso e ensinar outra doutrina para te destruir, não lhe dê
atenção. No entanto, se ele ensina para estabelecer a justiça e conhecimento do Senhor, você deve
acolhê-lo como se fosse o Senhor.
3 Já quanto aos apóstolos e profetas, faça conforme o princípio do Evangelho.
4 Todo apóstolo que vem até você deve ser recebido como o próprio Senhor.
5 Ele não deve ficar mais que um dia ou, se necessário, mais outro. Se ficar três dias é um
falso profeta.
6 Ao partir, o apóstolo não deve levar nada a não ser o pão necessário para chegar ao lugar
onde deve parar. Se pedir dinheiro é um falso profeta.
7 Não ponha à prova nem julgue um profeta que fala tudo sob inspiração, pois todo pecado
será perdoado, mas esse não será perdoado.
8 Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É desse
modo que você reconhece o falso e o verdadeiro profeta.
9 Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa não deve comer dela. Caso
contrário, é um falso profeta.
10 Todo profeta que ensina a verdade mas não pratica o que ensina é um falso profeta.
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11 Todo profeta comprovado e verdadeiro, que age pelo mistério terreno da Igreja, mas que
não ensina a fazer como ele faz não deverá ser julgado por você; ele será julgado por Deus. Assim
fizeram também os antigos profetas.
12 Se alguém disser sob inspiração: "Dê-me dinheiro" ou qualquer outra coisa, não o
escutem. Porém, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue.

CAPÍTULO XII – da hospitalidade para com os outros


1 Acolha toda aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine para conhecê-lo, pois
você tem discernimento para distinguir a esquerda da direita.
2 Se o hóspede estiver de passagem, dê-lhe ajuda no que puder. Entretanto, ele não deve
permanecer com você mais que dois ou três dias, se necessário.
3 Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe para se sustentar.
4 Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudência, para que um
cristão não viva ociosamente em seu meio.
5 Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo15. Tenha cuidado com essa
gente!

CAPÍTULO XIII – deveres para com os verdadeiro profetas


1 Todo verdadeiro profeta que queira estabelecer-se em seu meio é digno do alimento.
2 Assim também o verdadeiro mestre é digno do seu alimento, como qualquer operário.
3 Assim, tome os primeiros frutos de todos os produtos da vinha e da eira, dos bois e das
ovelhas, e os dê aos profetas, pois são eles os seus sumos-sacerdotes.
4 Porém, se você não tiver profetas, dê aos pobres.
5 Se você fizer pão, tome os primeiros e os dê conforme o preceito.
6 Da mesma maneira, ao abrir um recipiente de vinho ou óleo, tome a primeira parte e a dê
aos profetas.
7 Tome uma parte de seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, conforme lhe
parecer oportuno, e os dê de acordo com o preceito16.

CAPÍTULO IV – santificação do domingo pela eucaristia


1 Reúna-se no dia do Senhor para partir o pão (eucaristia) e agradecer após ter confessado
seus pecados, para que o sacrifício seja puro.
2 Aquele que está brigado com seu companheiro não pode juntar-se antes de se reconciliar,
para que o sacrifício oferecido não seja profanado.
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3 Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: "Em todo lugar e em todo tempo, seja
oferecido um sacrifício puro porque sou um grande rei - diz o Senhor - e o meu nome é admirável
entre as nações".

CAPÍTULO XV – eleição dos bispos e diáconos


1 Escolha bispos e diáconos dignos do Senhor. Eles devem ser homens mansos,
desprendidos do dinheiro, verazes e provados, pois também exercem para vocês o ministério dos
profetas e dos mestres.
2 Não os despreze porque eles têm a mesma dignidade que os profetas e os mestres.
3 Corrija uns aos outros, não com ódio, mas com paz, como você tem no Evangelho. E
ninguém fale com uma pessoa que tenha ofendido o próximo; que essa pessoa não escute uma só
palavra sua até que tenha se arrependido.
4 Faça suas orações, esmolas e ações da forma que você tem no Evangelho de nosso
Senhor.

PARTE IV – O FIM DOS TEMPOS


CAPÍTULO XVI – da parusia do Senhor
1 Vigie sobre a vida uns dos outros. Não deixe que sua lâmpada se apague, nem afrouxe o
cinto dos rins. Fique preparado porque você não sabe a que horas nosso Senhor chegará.
2 Reúna-se com freqüência para que, juntos, procurem o que convém a vocês; porque de
nada lhe servirá todo o tempo que viveu a fé se no último instante não estiver perfeito.
3 De fato, nos últimos dias se multiplicarão os falsos profetas e os corruptores, as ovelhas
se transformarão em lobos e o amor se converterá em ódio.
4 Aumentando a injustiça, os homens se odiarão, se perseguirão e se trairão mutuamente.
Então o sedutor do mundo aparecerá, como se fosse o Filho de Deus, e fará sinais e prodígios. A
terra será entregue em suas mãos e cometerá crimes como jamais foram cometidos desde o começo
do mundo.
5 Então toda criatura humana passará pela prova de fogo e muitos, escandalizados,
perecerão. No entanto, aqueles que permanecerem firmes na fé serão salvos por aquele que os
outros amaldiçoam.
6 Então aparecerão os sinais da verdade: primeiro, o sinal da abertura no céu; depois, o
sinal do toque da trombeta; e, em terceiro, a ressurreição dos mortos.
7 Sim, a ressurreição, mas não de todos, conforme foi dito: "O Senhor virá e todos os
santos estarão com ele".
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8 Então o mundo assistirá o Senhor sobre as nuvens do céu.

PADRES APOSTÓLICOS: CARTA A DIOGNETO

A nomenclatura padres apostólicos se extende para além das pessoas dos padres do tempo
dos apóstolos e dos anos subsequentes. Ela engloba também vários escritos, principalmente os
chamados apologéticos, que fazem defesas da fé e do cristianismo. Embora a Didaqué não faça
apologia, ela se encaixa nessa categoria.
Outro escrito que se insere dentro dos escritos dos padres apostólicos é a Carta a Diogneto.
Ela foi, como se diz, escrita por um cristão ao imperador Adriano, mas é destinada a todos aqueles,
ao longo da história, que não compreendem o cristianismo. Ela defende o direito de existência dos
cristãos.

A CARTA A DIOGNETO (Traduzido por Luiz Fernando Karps Pasquotto)


CAPÍTULO I [Motivo da carta. Perguntas de Diogneto. Prólogo]
Exórdio Excelentíssimo Diogneto,
Vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e
cuidadosamente te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para
que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte17, e não considerem os deuses que os
gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns
para com os outros18; e, finalmente, por que esta nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e
não antes.
Aprovo este teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso
ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares,
não se arrependa aquele que falou.

CAPÍTULO II [por que os cristãos não adoram os ídolos?]


Comecemos. Purificado de todos os preconceitos que se amontoam em sua mente;
despojado do teu hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como
confessas, uma doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que
substância e que forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais; não é verdade
que um é pedra, como a que pisamos; outro é bronze, não melhor que aquele que serve para fazer os
utensílios que usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de
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alguém que o guarde, para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de
barro, não menos escolhido que aquele usado para os serviços mais vis?
Tudo isso não é de material corruptível? Não são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o
ferreiro que modelou um, o ourives outro e o oleiro outro? Não é verdade que antes de serem
moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um deles poderia ser, como agora
transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os mesmos utensílios do mesmo
material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses como esses? E, ao contrário,
esses que adorais, não poderiam transformar-se, por mãos de homens, em utensílios semelhantes
aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis, imóveis? Não
apodrecem todas elas? Não são destrutíveis? A essas coisas chamais de deuses, as servis, as adorais,
e terminais sendo semelhante a elas. Depois, odiais os cristãos, porque estes não os consideram
deuses.
Contudo, vós que os julgais e imaginais deuses, não os desprezais mais do que eles? Por
acaso não zombais deles e os cobris ainda mais de injúrias, vós que venerais deuses de pedra e de
barro, sem ninguém que os guarde, enquanto fechais à chave, durante a noite, aqueles feitos de prata
e de ouro, e de dia colocais guardas para que não sejam roubados?
Com as honras que acreditais tributar-lhes, se é que eles têm sensibilidade, na verdade os
castigais com elas; por outro lado, se são insensíveis, vós os envergonhais com sacrifícios de sangue
e gordura. Caso contrário, que alguém de vós prove essas coisas e permita que elas lhe sejam feitas.
Mas o homem, espontaneamente, não suportaria tal suplício, porque tem sensibilidade e
inteligência; a pedra, porém, suporta tudo, porque é insensível.
Concluindo, eu poderia dizer-te outras coisas sobre o motivo que os cristãos têm para não
se submeterem a esses deuses. Se o que eu disse parece insuficiente para alguém, creio que seja
inútil dizer mais alguma coisa.

CAPÍTULO III [Refutação do culto judaico: os judeus também pensam ter Deus
necessidade desses sacrifícios]
Por outro lado, creio que desejais particularmente saber por que eles [os cristãos] não
adoram Deus à maneira dos judeus. Os judeus têm razão quando rejeitam a idolatria, de que falamos
antes, e prestam culto a um só Deus, considerando-o Senhor do universo. Contudo, erram quando
lhe prestam um culto semelhante ao dos pagãos. Assim como os gregos demonstram idiotice,
sacrificando a coisas insensíveis e surdas, eles também, pensando em oferecer coisas a Deus, como
se ele tivesse necessidade delas, realizam algo que é parecido a loucura, e não um ato de culto.
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“Quem fez o céu e a terra, e tudo o que neles existe”, e que provê todo aquilo de que
necessitamos, não tem necessidade nenhuma desses bens. Ele próprio fornece as coisas àqueles que
acreditam oferece-las a ele. Aqueles que crêem oferecer-lhe sacrifícios com sangue, gordura e
holocaustos, e que o enaltecem com esses atos, não me parecem diferentes daqueles que tributam
reverência a ídolos surdos, que não podem participar do culto. Os outros imaginam estar dando algo
a quem de nada precisa.

CAPÍTULO IV [O ritualismo judaico: culto inadequado]


Não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito
de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados, seu orgulho da circuncisão, seu fingimento
com jejuns e novilúnios [lua nova], coisas todas ridículas, que não merecem nenhuma consideração.
Não será injusto aceitar algumas das coisas criadas por Deus para uso dos homens como bem
criadas e rejeitar outras como inúteis e supérfluas?
Não é sacrílego caluniar a Deus, imaginando que nos proíbe fazer algum bem em dia de
sábado? Não é digno de zombaria orgulhar-se da mutilação do corpo como sinal de eleição,
acreditando, com isso ser particularmente amados por Deus? E o fato de estar em perpétua
vigilância diante dos astros e da lua, para calcular os meses e os dias, e distribuir as disposições de
Deus, e dividir as mudanças das estações conforme seus próprios impulsos, umas para festa e outras
para luto?
Quem consideraria isto prova de insensatez e não de religião? Penso que agora tenhas
entendido suficientemente por que os cristãos estão certos em se abster da vaidade e do engano,
assim como das complicadas observâncias e das vanglórias dos judeus. Não creias poder aprender
do homem o mistério de sua própria religião [do seu culto divino].

CAPÍTULO V [Os mistérios cristãos: a sua vida]


Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua
língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem
têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a
especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano.
Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e
adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo
de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam
de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a
cada pátria é estrangeira.
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Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos19. Põe a
mesa em comum, mas não o leito20; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na
terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam
tais leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados;
são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e
tem abundância de tudo21; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são
amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram;
fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a
vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, a aqueles que
os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

CAPÍTULO VI [A alma do mundo: alma no corpo, cristãos no mundo]


Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo.
A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo.
A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do
mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua
religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa
dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos,
o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a
odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam.
A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no
mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita em uma
tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem,
esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor;
também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes
determinou, e não lhes é lícito dele desertar/recusar.

CAPÍTULO VII [Origem divina do cristianismo: Deus enviou o próprio Filho ao mundo]
De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam
digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de
mistérios humanos. Ao contrario, aquele que é verdadeiramente senhor e criador de tudo, o Deus
invisível, ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e
incompreensível, e a colocou em seus corações.
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Fez isso, não mandando para os homens, como alguém poderia imaginar, algum dos seus
servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos
que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo;
aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites; aquele
cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as medidas
que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda luzir
durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séqüito da lua em seu percurso;
aquele que, finalmente, por meio do qual todo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e as
coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem
no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio.
Foi esse que Deus enviou22.
Talvez, como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou
para infundir-nos medo e prostração? De modo algum. Ao contrário, enviou-o com clemência e
mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os
homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há
violência. Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para
julgar. Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar sua presença? Não vês como os cristãos
são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer? Não vês como quanto
mais são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam? Isso não parece obra humana.
Isso pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.

CAPÍTULO VIII [A Encarnação: miséria do gênero humano, antes da vinda do Verbo]


Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que ele próprio viesse? Quererás
aceitar os discursos vazios e estúpidos dos filósofos23, que por certo são dignos de toda fé? Alguns
afirmam que Deus é o fogo - para onde irão estes, chamando-o de deus? - Outros diziam que é água.
Outros ainda que é dos elementos criados por Deus.
Não há dúvida de que se alguma dessas afirmações é aceitável, poderíamos também
afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus. Mas todas essas coisas são
charlatanices e invenções de charlatões. Nenhum homem viu, nem conheceu a Deus, mas ele
próprio se revelou a nós.
Revelou-se mediante a fé, unicamente pala qual é concedido ver a Deus. Deus, Senhor e
criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem, não só se mostrou amigo
dos homens, mas também paciente. Ele sempre foi assim, continua sendo, e o será: clemente, bom,
manso e verdadeiro. Somente ele é bom. Tendo concebido grande e inefável projeto, ele o
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comunicou somente ao Filho. Enquanto o mantinha no mistério e guardava sua sábia vontade,
parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós. Todavia, quando, por meio de seu Filho
amado, revelou e manifesto o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas as
coisas: não só participar de seu benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria
jamais esperado.

CAPÍTULO IX [A economia divina: o Filho tardou a fim de que os homens se


reconhecessem por indignos da vida]
Quando Deus dispôs todo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele
permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos
desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprázia com os nossos
pecados, mas também os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas
preparava o tempo atual de justiça, para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa
de nossas obras, éramos indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela.
Também para que ficasse claro que por nossas forças era impossível entrar no Reino de Deus, e que
somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso.
Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou claro que a única retribuição que
poderiam esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua
bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou,
nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com,
misericórdia tomou para si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos
ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal
pelos mortais.
De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça? Por meio de
quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de
Deus? Oh doce troca, oh obra insondável, oh inesperados benefícios! A injustiça de muitos é
reparada por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros. Ele antes nos convenceu
da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador capaz de salvar até
mesmo o impossível.
Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e considerássemos nosso
sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem
preocupações com a roupa e o alimento.

CAPÍTULO X [A essência da nova religião: os bens que Diogneto obterá com a fé]
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Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai.
Deus, com efeito, amou os homens. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as
coisas que estão sobre a terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo.
Formou-os à sua imagem, enviou-lhes o seu Filho unigênito, anunciou-lhes o reino do céu, e o dará
àqueles que o tiverem amado.
Depois de conhece-lo, tens idéia da alegria com que será preenchido? Como não amarás
aquele que tanto te amou? Amando-o, tu te tornarás imitador da sua bondade. Não te maravilhes de
que um homem possa se tornar imitador de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá.
A felicidade não está em oprimir o próximo, ou em querer estar por cima dos mais fracos,
ou enriquecer-se e praticar violência contra os inferiores. Deste modo, ninguém pode imitar a Deus,
pois tudo isto está longe de sua grandeza. Todavia, quem toma para si o peso do próximo, e naquilo
que é superior procura beneficiar o inferior; aquele que dá aos necessitados o que recebeu de Deus,
é como deus para os que receberam de sua mão, é imitador de Deus.
Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus reina nos céus. Aí começarás a
falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás os que são castigados por não querer negar a Deus.
Condenarás o erro e o engano do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu, quando
desprezares esta vida que aqui parece morte, e temeres a morte verdadeira, reservada àqueles que
estão condenados ao fogo eterno, que atormentarás até o fim aqueles que lhe forem entregues. Se
conheceres este fogo, ficarás admirado, e chamarás de felizes aqueles que, com justiça, suportaram
o fogo passageiro.

CAPÍTULO XI [O discípulo do Verbo: importância da doutrina do Verbo Encarnado]


Não falo de coisas estranhas, nem busco coisas absurdas.
Discípulo dos apóstolos, torno-me agora mestre das nações e transmito o que me foi
entregue para aqueles que se tornaram discípulos dignos da verdade. De fato quem foi retamente
instruído e gerado pelo Verbo amável, não procura aprender com clareza o que o mesmo Verbo
claramente mostrou aos seus discípulos? O Verbo apareceu para eles, manifestando-se e falando
livremente. Os incrédulos não o compreenderam, mas ele guiou os discípulos que julgou fiéis, e
estes conheceram os mistérios do Pai. Deu enviou o Verbo como graça, para que se manifestasse ao
mundo. Desprezado pelo povo, foi anunciado pelos apóstolos a acreditado pelos pagãos.
Desde o princípio e apareceu como novo e era antigo, a agora sempre se torna novo nos
corações dos fiéis. Ele é desde sempre, e hoje é reconhecido como Filho. Por meio dele, a Igreja se
enriquece e a graça se multiplica, difundindo-se nos fiéis. Essa graça inspira a sabedoria, desvela os
mistérios e anuncia os tempos, alegra-se nos fiéis, entrega-se aos que a buscam, sem infringir as
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regras da fé nem ultrapassar os limites dos Padres. Celebra-se então o temor da lei, reconhecesse a
graça dos profetas, conserva-se a fé dos evangelhos, guarda-se a tradição dos apóstolos e a graça da
Igreja exulta.
Não contristando essa graça, saberás o que o Verbo diz por meio dos que ele quer e quando
quer. Com efeito, quantas coisas fomos levados a vos explicar com zelo pala vontade do Verbo que
no-las inspira! Nós vos comunicamos por amor essas mesmas coisas que nos foram reveladas.

CAPÍTULO XII [A verdadeira ciência, na Igreja, pela vida unida à caridade]


Atendendo e ouvindo com cuidado, conhecereis que coisas Deus prepara para os que o
amam com lealdade. Transformam-se em paraíso de delícias, produzindo em si mesmos uma árvore
fértil e frondosa, ornados com toda a variedade de frutos. Com efeito, neste lugar foi plantada a
árvore da ciência e a arvora da vida; não é a arvora da ciência que mata, e sim a desobediência.
Não é sem sentido que está escrito: No princípio Deus plantou a arvora da ciência da vida
no meio do paraíso, indicando assim a vida por meio da ciência. Contudo, por não tê-la usado de
maneira pura, os primeiros homens ficaram nus por causa da sedução da serpente. De fato, não há
vida sem ciência, nem ciência segura sem verdadeira vida, e por isso as duas árvores foram
plantadas uma perto da outra.
Compreendendo essa força e lastimando a ciência que se exercita sobre a vida sem a norma
da verdade, o Apóstolo diz: “A ciência incha; o amor, porém, edifica” (cf. 1Cor 8,1). De fato, quem
pensa que sabe alguma coisa sem a verdadeira ciência, testemunhada pela vida, não sabe nada: é
enganado pala serpente, não tendo amado a vida. Aquele, porém, que sabe com temor e procura a
vida, planta na esperança, esperando o fruto. Que a ciência seja coração para ti; a vida seja o Verbo
verdadeiramente compreendido. Levando a árvore dele e produzindo fruto, sempre colherás o que é
agradável diante de Deus, o que a serpente não toca, nem se mistura em engano; nem Eva é
corrompida, mas reconhecida como virgem. A salvação é mostrada, os apóstolos são
compreendidos, a Páscoa do Senhor se adianta, os círios se reúnem, harmoniza-se com o mundo e,
instruindo os santos, o Verbo se alegra, pelo qual o Pai é glorificado.
A ele, a glória pelos séculos. Amém.
Fonte: http://veritatis.com.br/patristica/165-obras/1406-carta-a-diogneto
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

La iglesia de casa: de la conservación a la misión.

LIÉBAERT, Jacques. Os padres da Igreja. Loyola

ZILLES, Urbano. Didaqué: catecismo dos primeiros cristãos. Rio de Janeiro: Vozes.