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Emília é a protagonista deste livro, onde é relatada uma travessura sua: a redução temporária

Emília é a protagonista deste livro, onde é relatada uma travessura sua:

a redução temporária no tamanho das criaturas humanas. Tudo teve início porque Dona Benta andava arrasada com os horrores da guerra e a sua tristeza entristecia o Sítio do Picapau, outrora tão alegre e feliz. E foi justamente por causa dessa tristeza que Emília planejou e realizou a mais tremenda aventura. Querendo acabar com a guerra, por um triz a boneca não acabou com a humanidade inteira.

ACHAVE

DOTAMANHO

═════════

MonteiroLobato

ACHAVE DOTAMANHO ═════════ MonteiroLobato I P ÔRDESOLDETROMBETA

I

PÔRDESOLDETROMBETA

Opôrdosoldehojeédetrombeta—disseEmília,comasmãosna cintura,depezinhasobreobatentedaporteiraonde,naquelatarde,depois dopasseiopelafloresta,opessoaldeDonaBentahaviaparado.Elesnunca perdiam ensejo de aproveitar os espetáculos da natureza. Nas chuvas fortes,Narizinhoficavadenarizcoladoàjanela,vendochover.Seventava, Pedrinhocorriaàvarandacomobinóculoparaespiaradançadasfolhas secas—"queroversetemsacidentro".EoViscondedavaasexplicações científicasdetodasascoisas. Opôrdosoldaquelediaestavarealmentelindo.Eraumpôrdesol detrombeta.Porquê?PorqueEmíliatinhainventadoqueemcertosdiaso Sol"tocavatrombetaafimdereunirtodososvermelhoseourosdomundo paraafestadoacaso".Diantedumpôrdesoldetrombetaninguémtinha ânimo de falar, porque tudo quanto dissessem saía bobagem. Mas Dona

Bentanãoseconteve.

—Quemaravilhosofenômenoéopôrdosol!—disseela. Emília deu um pisco para o Visconde por causa daquele "fenômeno",eresolveuencrencar.

— Porqueéquesediz"pôrdosol",DonaBenta?—perguntou

comoseucélebreardeanjodeinocência.—QueéqueoSolpõe?Algum

ovo?

DonaBentapercebeuqueaquiloeraumapergunta-armadilha,das

queforçavamcertarespostaepreparavamoterrenoparaofamoso"então"

daEmília.

— OSolnãopõenada,bobinha.Osolpõe-seasimesmo.

Entãoeleéoovodesimesmo.Quegraça!

DonaBentateveapachorradeexplicar.

— Pôrdosol"éummododedizer.VocêbemsabequeoSolnãose

põenunca;aTerraeosoutrosplanetaséquesemovememredordele.Mas

aimpressãonossaédequeoSolsemoveemredordaTerra—eportanto

nascepelamanhãepõe-seàtarde.

— Estoucansadadesaberdisso—declarouEmília.—Aminha

implicânciaécomotaldepôr."Pôr"semprefoibotarumacoisaemcerto

lugar.Agalinhapõeoovononinho.OViscondepõeacartolanacabeça.

Pedrinhopõeodedononariz.

— Mentira!—gritouPedrinhodesapontado, tirando depressa o dedo donariz.

— MasoSol—continuouEmília—nãopõecartolanacabeça,

nemtemopéssimocostumedetirarourodonariz.

— Éummododedizer,jáexpliquei

—repetiuDonaBenta.

— Estouvendoquetudoqueagentegrandedizsãomodos de

dizer, continuou a pestinha. Isto é, são pequenas mentiras — e depois

vivemdizendoàscriançasquenãomintam!Ah!Ah!Ah! Ostaispoetas,

porexemplo.Queéquefazemsenãomentir?Ontemànoiteasenhoranos

leuaquelapoesiadeCastroAlvesqueterminaassim:

Andrada!Arrancaessependãodosares 1 Colombo!Fechaaportadosteusmares! Tudo mentira. Como é que esse poeta manda o Andrada, que já

morreu, arrancar uma bandeira dos ares, quando não há nenhuma bandeira nos ares, e ainda que houvesse, bandeira não é dente que se arranque? Bandeira desce-se do pau pela cordinha. E como é que esse poeta,umsoldadoraso,seatreveadarordensaColombo,umalmirante?E comoéquemandaColombofechara"porta"dos"teus"mares,seomar nãotemportaeColombonuncatevemares

— quemtemmareséaTerra?DonaBentasuspirou.

— Modosdedizer,Emília.Semessesmodos de dizer, aos quais chamamos"imagens poéticas", Castro Alves nãopodiafazer versos.

— Maséounãoémentira?

DonaBentaiaabrindoabocaparaaresposta,quandoumhomema cavaloapontounacurvadaestrada.Eraoestafetaque,umdiasim,umdia não,portavaaliparaentregaracorrespondência.Todostiraramosolhos dopôrdosolparapô-losnoestafeta. O homem chegou. Deu boa tarde. Apeou com ar de eterno

descadeiradoeabriuoencardido saco de lona paratirarosjornaisde DonaBenta.

— HátambémumacartaparaoSr.ViscondedeSabugosa—disse

eleentregandoopacote.

Emíliaatirou-separacimadacartacomoumgatoseatiraauma

cabeçadesardinha,earrancou-adasmãosdeDonaBenta,comoopoeta

queriaqueoAndradaarrancasseabandeiradosares.

— Deveserrespostaaumaconsultaquefizsobreasvitaminasdo

pó de pirlimpimpim — explicou modestamente o Visconde, enquanto

Emília se preparava para rasgar o envelope e Pedrinho suspirava pelo bodoque, — Nãoabra,Emília!—gritouNarizinho.—Vovójádissequeo sigilodacorrespondência é inviolável. Carta éuma coisa sagrada. Só o destinatáriopodeabri-la. Emíliafezummuxoxodepoucocasoeenfiouacartanonarizdo Visconde,dizendo:

— Coma,bebaoseusigilo.Enquanto isso, Pedrinho desdobrava ojornaleliaosenormestítulosesubtítulosdaguerra.

— NovobombardeiodeLondres,vovó.Centenasdeaviõesvoaram

sobre a cidade. Um colosso de bombas. Quarteirões inteiros destruídos. Inúmerosincêndios.Mortosàbeca. O rosto de Dona Benta sombreou. Sempre que punha o pensamentonaguerraficavatãotristequeNarizinhocorriaasentar-seem seucoloparaanimá-la.

— Não fique assim, vovó. A coisa foi em Londres, muito longe

daqui.

— Nãohátal,minhafilha.Ahumanidadeformaumcorposó.Cada

paíséum membro desse corpo, como cadadedo,cadaunha,cadamão, cadabraçooupernafazpartedonossocorpo.Umabombaquecainuma casadeLondresemataumavovódelá,comoeu,efereumanetinhacomo vocêoudeixaaleijado um Pedrinhodelá, medói tantocomosecaísse aqui.Éumaperversidadetãomonstruosa,issodebombardearinocentes, quetenhomedodenãosuportarpormuitotempoohorrordestaguerra. Vem-mevontadedemorrer.Desdequeaimensadesgraçacomeçounão faço outra coisa senão pensar no sofrimento de tantos milhões de inocentes. Meu coração anda cheio da dor de todas as avós e mães distantes,quechoramamatançadeseuspobresfilhosenetinhos. Aquela tristeza de Dona Benta andava a anoitecer o Sítio do Picapau,outroratãoalegreefeliz.Efoijustamenteessatristezaquelevou

Emíliaaplanejarerealizaramaistremendaaventuraqueaindahouveno mundo.Emíliajuraraconsigomesmaquedariacabodaguerraecumpriuo juramento — mas por um triz não acabou também com a humanidade inteira.

Nanoitedaqueledia,emsuacaminhadepaina,elaperdeuosono. Quementrasseemsuacabeçaleriaumpensamentoassim:"Estaguerrajá está durando demais, e se eu não fizer qualquer coisa os famosos bombardeios aéreos continuam, e vão passando de cidade em cidade, e acabamchegandoatéaqui.Alguémabriuachavedaguerra.Éprecisoque outroalguémafeche.Masondeficaachavedaguerra?Pessoanenhuma sabe. Mas se eu tornar uma pitada do superpó que o Visconde está fabricando,podereivoaratéofimdomundoedescobriraCasadasChaves. PorquehádehaverumaCasadasChaves,comchavesqueregulemtodasas coisasdestemundo,comoaschavesdaeletricidadenocorredorregulam todasaslâmpadasdumacasa." O Visconde, de fato, andava estudando um misterioso superpó, capazdemaravilhasaindamaioresqueovelhopódepirlimpimpim;por isso passava as noites em claro e até recebia cartas científicas do estrangeiro. Mas naquela noite Emília ouviu uns ronquinhos. "Será o Visconde?"—disseela—efoiver.EraoVisconde,sim,que,depoisde noitesenoites passadas em claro, dormia umsonodeRabicó."Seele está ferrado no sono a ponto de roncar" — pensou Emília, "é que já resolveuoproblemadosuperpó.Roncodesábioquerdizercabeçafresca, invençãojáinventada." Pensando assim, Emília foi pé ante pé ao laboratorinho do Viscondeeremexeutudoatéencontrarnumapequenacaixadefósforos umasubstânciaparecidacomcinza.Cheirou-a.Lembravaocheirodopóde pirlimpimpim. "Deve ser isto mesmo" — disse ela — e corajosamente tomouumapitada.

II

ACHAVEDOTAMANHO

Fiunnn!!! Quando Emília abriu os olhos e foi lentamente voltando da

tonteira,deuconsigonumlugarnebuloso,assimcomardemadrugada.Não

enxergouárvores,nemmontanhasnemcoisanenhuma—sóhavialálonge

ummisteriosocasarão.

— IstodeveseroFimdoMundo,eaquelacasasópodeseraCasa

dasChaves.QuepócerteiroodoVisconde! Ergueu-se,aindatonta,eaproximou-sedocasarão.Certinho!Um grandele-treironafachadadiziasimplesmenteisto:"CASADASCHAVES." Emília esteve algum tempo de nariz para o ar, com os olhos naquelas

estranhas letras de luz. Viu uma porta aberta. Enchendo-se de coragem, entrou. Não havia coisas lã dentro, objeto nenhum, nem máquinas. Só aquelemesmonevoeirodeláforamasnumaespéciedeparededistinguiu umcorrerdechavescomoasdaeletricidade,todaserguidasparacima.

— Hãodeseraschavesqueregulamegraduamtodasascoisasdo

mundo — pensou Emília. — Uma delas, portanto, é a chave que abre e fechaasguerrasMasqual? Emíliasegurouoqueixo, arefletirPensoucomtodaaforça.Não haviadiferençaentreaschaves.Todasiguaizinhas.Nadadeletreirosou números.Comosaberqualachavedaguerra? —AúnicasoluçãoéaplicarométodoexperimentalqueoVisconde usaemseulaboratório.Éirmexendonaschaves,umaauma,atédarcoma daguerra. Masaschavesficavamnumafileiraaoitopalmosdochão,fora,

pois,doalcancedumacriaturinhadeapenasdoispalmosdealtura.Como alcançaraschaves? Emília correu os olhos em redor. Não viu nenhuma escada nem cadeira,nemcaixãoemquepudessetrepar.Nãohaviasequerumavara.O remédioseriarecorrernovamenteaosuperpó."Seeucheirarametadedo menor dos grãozinhos trazidos nesta caixa, subo até lá e agarro-me a qualquerdaschaves." Eassimfez.Escolheuogrãozinhodepómenordetodos,partiu-o ao meio e aspirou metade. Deu certo. Bastou o cheiro daquela isca de superpó para erguê-la até às chaves, permitindo-lhe pendurar-se numa. Nem precisou fazer força. Bastou o seu peso para que a chave descesse quaseatéofim. Masoqueaconteceufoiacoisamaisimprevistadomundo.Tudose transformoudiantedeseusolhos,eumpanoenorme,comootoldodum circodecavalinhos,desabousobreela.Emíliasentiu-serodeadadepano;o chãoeradepano;porcimasóhaviapano;doslados,pano,panoemais pano.Ecomopesodetantopanoelanempodiaconservar-sedepé.Ficou deitadinha,comoachatada.Maseraprecisosairdalioupelomenosfazer esforços para sair, porque já estava sentindo falta de ar. E começou a engatinhar debaixo da panaria, numa cega tentativa de fuga. As dobras erammuitas,demodoqueacadamomento,tinhadefazerrodeiospara poderavançar.Efoiengatinhando,flanqueandoasdobrasatrapalhadoras; àsvezesatéficavadepé,quandoumadobramaiorlhedavaespaço.Emília lembrou-sedoLabirintodeCreta,ondemoravaoMinotauro.Éescuroali dentro.Nemaomenosaquelapenumbrademadrugadadeláfora.Emília teve a impressão de haver passado um século naquele engatinhamento labiríntico.Porfimdivisouemcertadireçãoumaclaridade."Deveseralia bainhaoufimdestemalditopano",pensouela,eparalásearrastou.Erade fato a bainha — e Emília já quase sem fôlego, lavada em suor, saiu do labirintoecaiuexaustanochão,comumUf!

Ficoualgumtempodeitadadecostas,osbraçosestendidos,sem

pensaremcoisanenhuma.Primeirodescansar;depoisoresto.Ergueuos

olhosparaaschavesdaparede.Nãoviunaparedechavenenhuma."Que

história é esta? Será que as chaves se evaporaram?" Firmando a vista, verificouquenão.Aschavesláestavam,masempontomuitíssimomais alto. A parede crescera tremendamente. Parecia não ter fim. Tudo aumentaradummodoprodigioso.Enochãoviuumacoisanova,quenão existiaantes;umpedestalatapetadodepapelamarelo. Emíliaachava-sedeitadajustamentesobreessepedestal.Depois, olhandoparaoseucorpinho,verificouqueestavanua. —Quehistóriaéesta?Eu,nuaquenemminhoca,emcimadeste pedestalamarelocheioderiscospretos,aoladodumamontanhadepano

— e as chaves lá em cima — e tudo enormíssimo

sonhando? Pôs-seapensarcomtodaaforça.Examinouotapetedopedestal. Percebeuqueosriscoseramletrasetevedeficardepéparalê-lasumapor uma.AprimeiraeraumF;asegunda,umO;aterceiraumS.Chegandoà última,viuqueformavaapalavraFÓSFOROS.EmseguidavinhaumDeum E, formando a palavra DE. E as últimas letras formavam a palavra SEGURANÇA.TudoreunidodavaaexpressãoFÓSFOROSDESEGURANÇA. — Serápossível?—exclamouEmíliaconsigomesma. —Seráque estouemcimadamaiorcaixadefósforosquejamaishouvenomundo?Mas seéassim,entãocadapaudefósforodeveserumaverdadeiravigotade pinho—ecomoacaixaestivesseaberta,espiou.Nãoviuládentrovigota nenhuma, sim uma espécie de areia grossa, da cor exata do superpó do Visconde. Nessemomentoumraiodeluziluminou-lheocérebro. — Hum!Jásei.Istoéacaixadefósforosqueeutrouxeeestádo tamanhoquesemprefoi.Euéquediminuí.Fiqueipequeníssima;e,como estou pequeníssima, todas as coisas me parecem tremendamente

Será que estou

grandes. Aconteceu-me oqueàsvezesaconteciaaAlicenoPaísdas Maravilhas. Ora ficava enorme apontodenãocaberemcasas,ora ficavadotamanhodummosquito. Eu fiqueipequenininha.Porquê? Epôs-seapensarmaisforteainda.

— Sópodeserporumacoisa:porcausadadescida da chave.

Logo, aquela chave é a que regula o meu tamanho. Regula só o meu tamanho, ou regula o tamanho de todas as criaturas vivas? Regula o

tamanho de todas as criaturas vivas, ou só o das criaturas humanas? Quantosproblemas,meuDeus! Pensou,pensou.

— Setodasascriaturasficarampequeninascomoeufiquei,então

omundointeirodeveestarnamaioratrapalhaçãoecomascabeçastão

transtornadas quanto a minha. Mas a guerra acabou! Ah, isso acabou! Pequeninoscomoeu,oshomensnãopodemmaismatar-seunsaosoutros, nemlidarcomaquelasterríveisarmasdeaço.Omaisquepoderãofazeré cutucar-secomalfinetesouespinhos.Jáéumagrandecoisa Pensou,pensou,pensou.

— Sim,eumexinaChavedoTamanhoetodasascriaturasvivas

ficarampequenasporqueseriaabsurdohaverumachavesóparaminha pessoa.Sehouvesseumachaveparacadapessoa,nestasaladeviamexistir trêsbilhões emeiodechaves,porqueapopulaçãodomundoédetrês

bilhões e meio de pessoas. Logo, a mesma chave serve para todas as pessoas.Logo,todaahumanidadeestá"reduzida"—eimpedidadefazer guerra.Uf!Acabeicomaguerra!Viva!Viva! Pensou,pensou,pensou.

— Aprovadequeessachavesóregulaotamanhodascriaturas

vivas,estáaquinestacaixadefósforos.Seestacaixadefósforostambém

tivessediminuído,estariaproporcionalaomeucorpo,enãoimensacomo

está.

Asituaçãoeratãonovaqueassuasvelhasidéiasnãoserviammais.

EmíliacompreendeuumpontoqueDonaBentahaviaexplicado,istoé,que

nossasidéiassãofilhasdenossaexperiência.Ora,amudançadotamanhoda

humanidadevinhatornarasidéiastãoinúteiscomoumtostãofurado.A

idéiadumacaixadefósforos,porexemplo,eraaidéiadumacoisinhaqueos

homens carregavam no bolso. Mas com as criaturas diminuídas a ponto

dumacaixadefósforosficardotamanhodumpedestaldeestátua,a"idéia-

de-caixa-de-fósforos" já não vale coisa nenhuma. A "idéia-de-leão" era a dumterríveleperigosíssimoanimal,comedordegente;ea"idéia-de-pinto" eraadumbichinhoinofensivo.Agoraéocontrário.Operigosoéopinto. Emíliasentiuumfriozinhonocoração.Começouadesconfiarque haviafeitoumacoisatremenda,acoisamaistremendajamaisacontecida nomundo. Pensou, pensou, pensou. Depois resolveu calcular que tamanho

teria.

— Posso calcular o meu tamanho por comparação com as letras da palavraFÓSFOROS.Essasletrastinhamumterçodecentímetro

notempoemqueeutinha40.Ora,seeutinha40centímetros,era120

vezesmaiorqueumterçodecentímetro.Eagora?Qualomeutamanhoem relaçãoaessasletras? Parafazeramedição,Emíliadeitou-sesobreoF,eviuqueaqueleF tinhaumterçodasuaaltura.Logo,elaestavareduzidaajustamenteum centímetrodealtura. — Quecoisa—exclamou.Reduzidaaumcentímetroapenas,eu

quetinha40!Diminui40vezes.Nessecaso,Pedrinho,quetinhal,40m.—e

contavatantaprosa—deveestarreduzidoa3centímetrosemeio.Eo

coronel Teodorico, que tanto se gabava de ter l,80m está reduzido a 4 centímetrosemeio—dotamanhodumsimplesgafanhotinho Emíliapensava,pensava. —Quefazeragora?Tenhováriassoluçõesaescolher.Uma,élargar tudo como está. Outra, é levantar novamente a chave e deixar as coisas comoeram.Istomepareceomelhor,porqueseeuvoltarparaosítiodeste

tamanhoéprovávelquenempossaatravessaroterreiro. Opinto sura não sai de lá. Devora-me,comoseeufosseumaformiga. Olhou para cima. A chave baixada parecia muito no alto —

quarentavezesmaisaltaqueantes.Masissonãotinhaimportânciapara quem ainda dispunha de tanto superpó. E, enfiando a mão dentro da aberturadacaixa,Emíliaapanhouumgrãoeaspirou-o.Opólevou-aatéà alturadachave,masasuaforcinha,diminuídaquarentavezes,jánãodava paramaisnada.Nemjeitodesegurarnachaveteve,aquallhepareceu como enorme maçaneta, de diâmetro igual à altura do seu corpo — o mesmoqueatoradeumgrandejequitibáparaumhomemdosantigos. Dosantigos,sim,porque,setodososhomensestavamagoratão reduzidosdetamanhoquantoela,quemquisessereferir-seaoshomensda vésperatinhadedizer"oshomensantigos". Emíliasentou-seemcimadaquelaenormetoradejequitibá,sem sabercomodescer.

— Eagora?

Pensou,pensou,pensou. —Vouatirar-me—resolveu.—Meupesodeveestarigualaopeso dumaformigasaúvaeportanto,semeatirar,devocaircomalevezadeum cisquinho—alémdequeháláembaixoaquelamontanhadepano. Eassimfez.Atirou-seemcimadamontanhadepano. E foi então que descobriu uma grande coisa: o pano daquela montanhaeraumafazendadeenormesramosderosasvermelhas—iguais aosramosderosinhasdoseuvestidoevaporado—ecompreendeutudo.A enormemontanhadepanonãoeramaisqueoseuprópriovestidolargadono

chão. Quando baixou a chave e sofreu o instantâneo apequena-mento, achou-senomeiodovestidooqual,semoapoiodocorpoqueosustinha, desabou,dandoàminúsculadonaládentroaquelaimpressãodecircoque vinhaabaixo.

— Que coisa! -- exclamou Emília. — Aquele imenso pano que

formouolabirintoemredordemimeraomeuvestido.Felizmenteacaixa dosuperpóestavanaminhamãoenãonobolso.Setivessenobolso,como poderia eu tirá-la agora do seio desta enorme montanha? Que coisa formidável! Emíliapensoupormaisunsinstantes.Tinhadeabandonaralitodo aquelepreciosopó,apesardeseroúnicoquehavialánosítio.Poiscomo levardevoltaacaixa-pedestal?Seestivessevestida,emseusbolsosainda caberiamalgumaspitadinhas.Masdaquelemodo,nuaquenemminhoca,o maisquepoderialevarerao

maisquepoderialevarerao quecoubesseemsuasmãos—umgrãozinhoapenasemcadauma.

quecoubesseemsuasmãos—umgrãozinhoapenasemcadauma. Masantesissodoquenada—eEmíliatomouumgrãodepóemcadamão. Depoisaspirouumterceirogrãozinhoe—fiun! lásefoipelosares,de voltaaosítiodeDonaBenta.

III

PORCAUSADOPINTOSURA

Asviagenscomosuperpóeraminstantâneas.Umfechareabrirde olhos.Emíliafechouosolhoslánopedestaleabriu-osnaporteiradosítio. Quecolossalporteira,SantoDeus!Duzentasvezesaalturadela.Lálonge viuumenormíssimoanimalpastando:avacaMocha.Emaisadiante,uma colossal montanha dormindo: Quindim. E a casa? Oh, a casa, no fim do extensíssimoterreiro,tinhaparaelaamesmaalturadoPãodeAçúcarpara umhomemantigo.Otelhadoparecia esbarrarnas nuvens. Como atravessar a pé os cem metros do terreiro? Cem metros antigamente pouco significavam para a Emília "grande", mas agora, ah,

exigiam33.353passos,vistocomooseupassosereduziraa3milímetros.

Estavapensandonisso,quandoumhorrendomonstrosurgiuno terreiro:opintosura."Pareceincrível!"—murmurouela."Aquelepinto quenãopassavadesimplespintocomotodosospintosdomundo,desses queagentechamacomum"Quit!Quit!"outocacomum"Chispa!"virouum verdadeiroPássaroRoca."Emíliacalculouqueopintodeviaterumasvinte

vezesasuaaltura,istoé,otamanhodumavestruzde70metrosparaum

homemcomooCoronelTeodorico. — Será possível que um monstro desse vulto me enxergue? — disseelasemânimodeatravessaroterreiro. Mas o pinto sura era um danado para enxergar. Tinha olhos de microscópio. AssimqueEmília,péantepé,pôs-seaandar,eleaviueveiode bicoabertoparadevorá-la.Emíliamaltevetempoderecorreraosuperpó quehaviatrazido.Precipitadamentelevouaonarizosdoisgrãozinhose

aspirou-os. Fiunn Despertou muito longe dali, sobre uma árvore enorme, a cuja galharadaseagarrou.Asfolhaseramazuiscomoocéueformavammorros redondos."Folhas?Não.Istonuncafoifolha.Istoéflor.Eostaismorrosnão passamdecachosdeflores.Masqueárvoredáfloresazuisassim?" Emília lembrou-se logo das hortênsias, e com algum esforço viu querealmentehaviacaídoemcimadumenormíssimocachodehortênsias. Era-lhedifícilmanter-seali,porqueascriaturashumanas,dotadasdesó

dois pés, têm necessidade de superfícies planas para se equilibrarem, e naquele cacho de hortênsias só uma ou outra pétala estava em posição horizontal.Emíliatratoudedescer."Paraumacriatura-gente,nãohácomo aterraplana",pensou.Antesdedescer,porém,correuosolhosemredor.

— O quemepareceu umafloresta,nãopassadumjardim.Um

imensojardim,omaiorjardimdomundo,comroseirasdaalturadeárvores eaquelepédejasmimcomfloresdotamanhodeVitórias-régias, e na beirada dos canteirosumagramaquelembraosbananaisdoCubatão. Comotudoficouimenso,meuDeus! E lá adiante? Emília firmou os olhos. Um verdor elevava-se a grande altura e em cima espalhava-se sobre caibros horizontais. Mas rapidamenteEmíliaiaaprendendoa"interpretar"asimensascoisasvistas.

— Sim, estou entendendo. Aquele verdor é a trepadeira duma

varanda,eoquemeparececaibrossãoosaramesemqueela se apoia.

Varanda? Então aquelaimensidade branca que me parece erguer-se atéàsnuvenséafachadadumpalacete. Emíliafirmouavista.Quadradosenormesláemcima:asjanelas!A platibandaficavatãoaltaqueelamalpodiavê-la.

— Umpalacete,sim,muitomaiorqueacasadeDonaBenta.Vai

ser difícil acostumar-me ao novo tamanho das coisas; para as formiguinhas, no entanto, essetamanhãodascoisaséonatural,poisfoi

comosempreelasotiveram.Asformigasruivasnempodemcompreender oqueéumacasa.Hãodeverascasascomopartesdomundo,oucoisasque sempreforam,comoosmorros,aspedreiras, osrios,asárvores;eporisso passeiamsemmedopelascasas,sobemedescempelasparedes,chegam até a fazer seus buraquinhos rente às calçadas. Quando vêem sair lá de dentroumapessoa,comcertezanemcompreendemoqueéumapessoa; achamqueéapenasumaimensidademóvel,cornoosriosouomar.Paraas formigas o mundo deve estar dividido em imensidades paradas e imensidadesmóveis.Umacasaouummorroéumaimensidadeparada;de dentrodascasassaemimensidadesmóveis:gente,cachorro,gatos.Enos camposháimensidadescomchifres,quenóschamamosvacasoubois.Mas apesardetereuagoraotamanhodumasaúva,possuoamesmainteligência deantes—esei.Seiqueestasimensidadesqueestouvendonãopassamde verdadeiras pulgas perto de outras coisas ainda maiores, como as montanhas; e as montanhas não passam de pulgas perto de outra coisa maior,comoaTerra;eaTerraéumapulgapertodoSol;eoSoléum espirrodepulga pertodo Infinito. Comoseicoisas,meuDeus! Emília pôs-se a filosofar, a pensar nos estranhos bichos que andavamemredordela,unsdeasas,outrossemasas,unspretos,outros verdes,outrosmoles—mastodoscheiosdepernas. — Como há pernas neste mundo que antigamente eu chamava "mundodosbichinhos"equeparamimagoravirouomeumundo! Pois tambémvireibichinho.Evejocolegasdetodosostamanhos,unsmenores que eu, outros maiores. Aquele mede-palmo que ali vem vindo, por exemplo.Paramiméumverdadeiromonstro,poistemdecomprimento cincovezesa

minha altura — equivalente a uma sucuri de 8 metros para um homemantigo.Enoentantoéamesmalagartinhaqueoutroraeupunhana

minha altura — equivalente a uma sucuri de 8 metros para um homemantigo.Enoentantoéamesmalagartinhaqueoutroraeupunhana palmadamão.

IV

AVIAGEMPELOJARDIM

Omede-palmovinhadescendopelahastedumramodehortênsia. Eradospeludinhos.Emília,ansiosaporsevernochão,teveumaidéia. — Eseeumontasseneleeficassebemagarradaaospêlos?Os mede-palmosnãomordem. Emíliaaproximou-seezás!cavalgou-o.Omede-palmodeteve-se, estranhandoaquilo;ergueuacabecinhaeficouunsinstantesavirá-ladum ladoparaoutro.Porfimcontinuouadescer. — Primeira descoberta! — gritouEmília.—Aescadarolante

viva!

EmseupasseioaNovaIorque,contadonaGeografiadeDonaBenta, Emíliativeraoportunidadedeconhecerasescadasrolantesdasgrandes lojas,escadasqueemvezdeseremsubidaspelagente,subiamagente.Os fregueses ficavam de pé nos degraus, imóveis e aqueles degraus os iam subindodeumandarparaoutro;eaoladodecadaescadaemperpétua subida,ficavaoutraemperpétuadescida. — Meu mede-palmo agora — disseEmília—éaescadaque

desce.

Ao chegar ao chão, debaixo da moita de hortênsia, estranhou o escuro. Como viesse de cima da flor, onde a luz era intensa, custou-lhe acostumarosolhinhosatantasombra. Que frescura ali! Até demais. E úmido. Se ficasse muito tempo naquela sombra, apanharia um resfriado. A primeira coisa que a impressionoufoiaasperezadochão.Erairregularíssimo!

— Como há pedras no mundo! — exclamou, tropicando e

machucandoosdelicadospezinhos.—Issoquenóschamávamosterraou chão,nãoéterranada,épedra,pedraemaispedra.Acrostadoplanetaé umapedreirasemfim.Hum!Porissoéqueosbichinhosdomeutamanho usamtantospés.Cadainsetotemseis. Osmede-palmos têmmuitomais. Dedoispésnãohánenhum.Agoracompreendoomotivo—équesócom

dois pés não poderiam caminhar pelas infinitas pedreiras destes chãos. A gentedáumpassoecai,porque,seumpéescorrega,ooutroépoucopara manter o equilíbrio. Mas com seis pés o andar é fácil, porque, se um escorrega,sobramcincoparaaescora.Alémdisso—estouvendo—todas aspatasdosmeuscolegaspossuemgarrinhas,comasquaiselesvãose agarrandoàsasperezasdochãooudacascadasárvores. Emília compreendeu por que os insetos sobem tão bem pelas paredes. Para uma formiga uma parede é uma verdadeira escada, com degrausirregularesaqueasgarrasdaspatinhasvãoseagarrando.

— Masemparededevidro,formiganãosobe,porqueovidronão

éescada,nãotemdegraus.Ovidroélisodeverdade.

Aqueladificuldadedeandarcomeçouaaborrecê-la.Parairdaqui

atéalieraumcusto—equantostombos!Experimentouandardequatro.

Muitomelhor,mascansava,

— Oremédioémontarnumdosmeuscolegas.

Nesse momento avistou um enorme caramujo da altura dela.

Compreendeuqueeraumdaquelescaramujinhostãoabundantesnahorta

deDonaBenta.Trepousemmedoemcimadacascaeficoudecócoras.O

caramujopareceque

nemdeupelacoisa.Foiandando,andando,masvagarosodemais.

Emíliacochilouecaiu.

— Este cavalo não serve. Dá sono na gente. Tenho de arranjar

outro.

Seupensamentoeraexplorarojardimeaproximar-sedacasapara

versehaviagentegrandeládentro.Aindanãoobtiveraaprovaprovadade

queo"apequenamento"dascriaturashumanashaviasidogeral.

Opalacete,porém,ficavalongedali,aunsdezmetrosdedistância,

eumaviagemdedezmetrosporumterrenotãohorrivelmentepedregoso

(uma rua apedregulhada de jardim) era proeza que seus pezinhos descalçosnãoagüentavam. — Assimnãochegolánuncaearrebentoasunhas.Sódecaminhar meio metro já fiquei com os pés em brasa. A solução é mesmo um cavalinho.

Olhouemredor.Alémdelerdoscaramujoshaviamuitosbichos-de-

conta,ou"tatuzinhos"comoeladizia.Eramconhecidosvelhos.Gostavade brincarcomeleslánosítio."Sãounsbobos.Bastaqueagentebulaneles para que se finjam de mortos." Emília experimentou. Montou num dos maiores. O bichinho, apavorado, imediatamente virou bola — ou conta, comoasderosário. — Não serve. Estes tatus-bolas tambémnãonascerampara

cavalos.

Um gafanhoto verde estava a espiá-la de dentro das folhas do "bananal."Tinhacincovezesasuaaltura.Emíliafoi-seaproximandosem que ele fizesse caso. Chegou bem perto e, súbito, zás! montou. Mas o gafanhotodeuumformidávelpulo,lançando-adepontacabeçasobreas "pedras"daareia. —

Também não serve — disse ela, erguendo-se muito desapontada.—Precisodumbichoquenãodurmaagente,nemsefinjade morto,nempule. Acertadistânciaestavauma"vaquinha"pastando,Eraonomeque nosítioPedrinhodavaacertobesourodepintasamarelasequeoVisconde diziaserum"coleóptero". OViscondeviviaestudandoavidadaquelesanimaizinhos.Explicou quesechamavamcoleopterosporcausadosistemadasasasdobráveise guardáveisdentrodumestojo.Essasasassãomembranosas,fininhascomo

papeldeseda,masnãoandamàmostra,comoasdasborboletas,avese outrosbichosmenosaperfeiçoados.Sóaparecemquandoocoleópterovai voar.Oestojoéformadodedoisélitroscascudos,duroscomounha.São doisverdadeirosmoldescôncavosajustadosàformadocorpo.Elesabrem aquilodejeitoanãoatrapalharasasasdedentro.Abremoestojoevão desdobrandoasasas—evoam.Quandopousam,dobramdenovoasasas, muitobemdobradinhasecobrem-nasoutravezcomastampasdoestojo. O Visconde achava muita graça no sistema, que era o mais aperfeiçoadodetodos,diziaele;eviviafazendoexperiênciascombesouros detodosostamanhos.Eraumsistematãobom,queomundojáandavaum besoural imenso. Cento e cinqüenta mil espécies de besouros já haviam sidoestudadaspelossábios,imaginem!Seosistemanãofossetãobom,a ordemdoscoleopterosnãosemultiplicariaemtantasespécies.Quandoum sistema não é aperfeiçoado, os bichos que o usam levam a breca, como aconteceu com aqueles grandes sáurios que o Walt Disney mostrou na Fantasia. Por que desapareceram tais monstros? Justamente porque o "sistema sáurio" não prestava. E por que os "besouros aumentaram? Porque o "sistema besouro" é aqui da pontinha — e Emília, que estava conversando consigo mesma, pegou na pontinha da orelha. O Visconde tambémachavaqueofuturoReidaCriaçãoiaserobesouro,depoisqueo rei atual, o Homem, totalmente se destruísse na horrenda guerra que andavaguerreando. Emíliaaproximou-seda"vaquinha"emontou.Ocoleópteroquis reagir—abrirosélitrosparadesenrolarasasasevoar,masEmílianão deixou.Manteveoestojofechado.A"vaquinha",então,pôs-seaandarcom elaàscostas,ejustamentenadireçãodacasa.Súbito,porém,mudoude rumo. Emília danou. Viu que tinha de descobrir a "dirigibilidade dos besouros" como Santos Dumont havia descoberto a "dirigibilidade dos balões". Os balões no começo eram como os besouros; iam para onde queriam e não para onde os homens queriam. Veio Santos Dumont e

inventouomeiodegoverná-los.Jáa"dirigibilidadedosanimais"eracoisa velha.Adirigibilidadedocavalo,porexemplo,surgiucomainvençãodo freio.Eseelapusesseumfreionaquelecoleóptero? Emíliaapeouparaestudarasituação.Masassimqueseviusem cavaleiro,o"cavalinhopampa"abriuosélitros,desenrolouasasaseláse foipelosares—zunn — Maçada! — exclamou Emília cocando a cabeça e olhando em

torno.

Haviaseaproximadoapenasdoismetrosdoseuobjetivo,queeraa

casa.Faltavamaindasetemetrosemeio.

V

AVENTURAS

A "vaquinha" havia largado Emília no meio duma das ruas do jardim.Comoosolestivesseesquentandoaspedras,elapercebeuquese nãofosseparaasombramorreriatorrada.Ecomonãoviesseemredor nenhumcavalinhoaoseualcancetevedevencerapéoespaçoqueiadali até o canteiro próximo. Como padeceu para vencer aquela enorme extensãodeummetro,porcimadahorrívelpedranceiradopedregulho!O solqueimava-lheapeleeporduasvezesoventoaderrubou. Outro grande inimigo da nova humanidade vai ser o vento, ia pensando Emília. O maldito vento já me derrubou duas vezes e, no entanto,deviaserumventinhodenada,poispoucoboliucomasfolhas deste jardim. O sistema de andar de pé, próprio dos bípedes, só dá resultadocomascriaturasquepossuemtamanho,comoosantigoshomens easaves.Paraumserzinhosemtamanhocomoeuéomaiordosdesastres. Porissonãohábichinhonenhumdotadodedoispésequeandedepé.São todos horizontais e cheios de perninhas. Estou agora compreendendo:

defesacontraovento!Seumventinhoà-toamederrubouduasvezes,isso

querdizerqueumventodeverdademejogaparaosconfinsdoJudase,no

entanto,nãoháformiguinhaquenãoresistaaosventos.Porquê?Porque

nãoébípedenemandadepé,comoeu.Aprendamaisessa,SenhoraDona

Emília.

Eassimfilosofandoalcançouasombradosperiquitosemredordo

canteiro,ondesesentousobreumpauzinhoseco,paradescançarepensar

navida.

—Quemundoeste,santoDeusl—murmurou,muitoatentaatudo

quanto se passava em redor. É o tal "mundo biológico" de que tanto o Viscondefalava,bemdiferentedo"mundohumano".Dizelequeaquiquem governa não é nenhum governo com soldados, juizes e cadeias. Quem governa é uma invisível Lei Natural. E que Lei Natural é essa? SimplesmenteaLeiDeQuemPodeMais.Ninguémnestemundinhoprocura saber se o outro tem ou não tem razão. Não existe a palavra justiça. A Naturezasóquersaberdumacoisa:quempodemais.Oquepodemaistem oquequer,atéomomentoemqueapareçaoutroquepossaaindamaise lhetometudo.Eporqueessamaldade?OViscondedizqueéporcausa dumatalSeleçãoNatural,acoisamaissemcoraçãodomundo,masque sempreacerta,poisobrigatodasascriaturasairemseaperfeiçoando."Ah, vocêestáparado,nãoseaperfeiçoa,nãoé?"dizaSeleçãoparaumbichinho bobo."Poisentãoleveabreca."Eparanãolevarabreca,obichinhotratade inventartodasortededefesaeastúcias. Otatuzinhoinventouaqueladefesadevirarbolaefingir-semorto. Osgafanhotinhosinventaramumverdequeosconfundecomagrama.As aranhasinventaramateiaparacaçarasmoscaseosferrõeseoveneno para se defenderem. Inúmeros inventaram asas. Outros inventaram as cascasgrossas.Apulgainventouopulo. Eusempreacheigraçana"prosa"doshomenscomasinvençõeslá deles. Que são as invenções dos homens perto dos milhões de inventos destes bichinhos? Não há pulgão que não tenha vários inventos para a defesa,paraconseguiralimento,paramorar—oucomodizoVisconde, para"sobreviver"nummundoondeatalSeleçãosótemduaspalavrasna boca:"Isca!Pega!" Emíliaolhavaemredoreiacompreendendoomundonovoemque tinhadeviver.Àesquerdaviuumaaranhasugandoummosquitopresoem suateiainvisível.Àdireitaumbandodeformigasatracadasaumapobre minhoca, que se debatia como um "S" vivo. Um filhote de louva-a-deus estavafingindoquerezava,demãospostas,masnarealidadeaquilonão

erarezaesimumbotearmadocontraumapresaqualquer. — Avidaéumacaçadacontínua—filosofouEmília.—Estesmeus colegasparecequesónãocaçamquandoestãodormindo. Ospésdeperiquitoabrigavaminúmerosmoradorespermanentes, alémdehóspedesaladosquechegavam,ficavamporalialgunsinstantese láseiam.Emíliacalculouqueparacadabichinhodeterra,dossemasas, haviamuitosdoar,comasas,equelevamamaiorpartedotempovoando. — Chega de caçadas — disse ela por fim. — Preciso descobrir outrocavalinhoparacontinuaraminhaviagem. Nessemomentoumamutucasentou-sepertodela.Emíliapensou:

"Montarnessamutucanãovaidarcertoporqueháostaistombos;masse

euagarrar-meàssuaspatinhastraseiras?Issonãoaatrapalharáemnada

novôo,epodeserqueelameaproximedopalacete."

Decididaafazeraexperiência,aproximou-sedamutucaportrás,

comofazemcertasaranhasdeparede,dasquenãousamteiasesimbotes,

efezcomoessasaranhas:deuumbotenasperninhastraseirasdamutuca,

segurando-secomtodaaforça.

Assustadacomaquilo,amutucavoou—umvôopesadodequem

estálevandoumacargaexcessivaedesceulogoadiante.Emílialargou-a,

muitocontentecomaidéiaquetivera.

—Bravos!Vouchegando,vouchegando.Estousóatrêsmetrosda

calçada.

Quelugareraaquele?Umsimplescanteirodevioletas,dentrodo qual Emília teve a sensação do caçador em plena mata virgem. A sua redução de tamanho permitia-lhe ver a "abundância do pequenino". Quantas vidinhas na sombra daquela mata, sobretudo sob forma de vermes!Bichoscabeludosdetodososjeitos,elagartasnãocabeludas,uma delas com chifres no nariz — como o Quindim. E mede-palmos cor de esmeralda,translúcidos,gulosamentedevorandofolhasoutecendocasulos. Ecaramujos,etatuzinhos.Eumainfinidadedeformasdevidaquesóos

sábiossabem. Por uma fresta Emília viu lá pelas alturas várias borboletas borboleteando pelas flores, tão leves e lindas. Mas uma vespinha jiti a furtar o pólen duma violeta a distraiu — e por causa dessa vespinha a pobre Emília quase levou a breca. Enquanto observava a linda vespa naquele trabalho uma horrenda sarassará se aproximou, de ferrão arreganhado. Emíliatinhaódioaessasformigonaspretasdesdeodiaemque Pedrinhoencontrou,nopomarládosítio,umninhodebeija-florcomdois filhotesjámeiodevoradosporelas.Ascanibais,foionomequeoVisconde

lhes deu. Será que ela iria ter a mesma sorte dos beija-flores implumes?

lhes deu. Será que ela iria ter a mesma sorte dos beija-flores implumes? Namaioraflição,Emíliaolhouemredor,emprocuradeabrigo.Deu

com uma velha casca de caramujo: lançou-se dentro, ficando bem escondidinhalánofundo.Acanibalplantou-seàporta,àesperadeque aquele "inseto descascado" saísse. Por fim, desanimada, foi-se embora. QuandoEmíliatevecoragemdeespiar,ahorrendacanibaljáialonge.

— Quesusto!—exclamouelasaindodedentrodocaramujinhoe

enxugandocomumaiscademusgoosuorgeladodatesta.—Tenhoque arranjarumaarmaqualquer.Háferasmuitoperigosasnestamata. Achou fácil e agradável caminhar dentro do "violetal", porque o chãoestavacobertodefolhassecaseúmidas,maciasparaseuspezinhos. Foiandandoatéchegaràbeirada"floresta",ondedeucomumgigantesco

pé de cactos, dos chamados palmatórias-do-diabo. As enormes folhas chatas,recobertasdeespinhospareciamalmofadasdealfinetes.

— Esemearmassedumespinho?

Mascomoarrancarumespinhodaqueles?Nemcomaforçadecem

Emílias, quanto mais com a de uma só. E ficou de nariz para o ar, namorandoaqueletremendoarsenaldelanças,atéquelheveioumaidéia. "Impossívelqueaquipelochãonãohajaalgumespinhovelhodealguma folhacaída",epôs-seaprocurar.Foifeliz.Encontrouumapalmatóriajá desfeitapeloapodrecimento,mascomosespinhosemmuitobomestado. Escolheuomenorepronto.

— EstouumD.Quixote,comestatremendalança—disse,pondoa

armadebaixodobraço,talqualfaziaD.Quixote. Logoadianteestavaumaaranhaquasedoseutamanho,encorujada naleia,àesperadebichinhosincautos.Vendoaproximar-seaqueleinseto desconhecidoaaranhaarmouobote;masEmíliadelançaemriste,nãolhe deuimportância —foichegando.Aoatirar-secontraela,aaranhacravouoventre noespinho.Esperneou,berrou,masnãoteveremédiosenão ir encolhendo as pernas e morrendo. AprimeiravitóriadeEmíliaempleno"mundobiológico"encheu-a

deorgulho.Estavademonstrandoaosseuscolegasovalordainteligência. Jáseutilizaradevárioscomocavalinhoseagoravenceraumaaranhaem combate. Umacoisaaassustavamaisquetudo:asaves.Percebeulogoque estavamaliospioresinimigosdanovagentepequenina.OViscondehavia contadoquegrandenúmerodepassarinhoseramonívoros,istoé,comem de tudo — e portanto comeriam a ela também e a quantos homens- bichinhos encontrassem. Felizmente batera meio-dia, hora em que os pássaros,jádepapocheio,descansamàsombradasárvores.Ashorasmais perigosasdeviamserasdamanhã,enquantoelesalmoçavam.

Poucoantesdechegarao"violetal",Emíliatinhaassistidoauma tragédia dolorosa. Um gafanhotoverde, ainda criançola ebobo, caíra na asneiradeafastar-sedagrama,comcujoverdoreletãobemseconfundia. Dera-lhenacabeçabrincardepula-pulanaareiabranca.Masaareiabranca tornava-ovisibilíssimo.Umacorruíraavistou-o,veioezás!—papo. — Quecoisahorrívelopapodasaves! —filosofouEmília.—Verdadeirosbarrissemfundo.Elaspassama vidainteiraabotarbichinhosalidentroenãoosenchemnunca. Alembrançadoalmoçodacorruírafê-lalembrar-sedoestômago. Ainda não tinha comido coisa nenhuma. Que poderia comer naquele jardim?Sefosseave,nadamaissimples,porquenãofaltavaminsetos;mas era gente e gente não come insetos — isto é, só come içá torrado e gafanhotos.DonaBentahaviaditoqueSãoJoãonodesertosealimentava degafanhotosemel.

— Mel, mel, mel — murmurou Emília lembrando-se das

borboletaseabelhasquevivemsódemel.Easfloresdalideviamtermel,já queeramtantasasborboletas.Sim,masasfloresandamlápelosaltos,boas sóparaosinsetosdeasas.Esperem!Hátambémfloresbaixas—asvioletas do "violetal". E Emília voltou para aquela mata virgem em procura das violetas baixinhas. Encontrou três com os cachos pendidos e as pétalas

encostadasnochão. Foialiquefezoseuprimeirolanchenavidanova,comomeltirado dastrêsvioletaspendidas—masoperfumedeu-lhedordecabeça.Muito forteparaela. —Eágua? Melcausasede;eáguanosjardins,sódemanhã,antesqueosol evaporeasgotasdeorvalho.Masnãohájardimsemtorneiradeirrigação. Emília tratou de descobrir a torneira daquele. Se tivesse a sorte de a encontrarpingando,oproblemadaáguanãoeraproblema. Paradescobriratorneiratinhadetreparauma"árvore",doaltoda qualpudesse"devassaroshorizontes".Emíliapôs-seaescolherumaárvore

qualpudesse"devassaroshorizontes".Emíliapôs-seaescolherumaárvore

"trepável", isto é, que tivesse os galhos bem pertinhos uns dos

outros.

O melhor que achou foi um pé de samambaia, e por uma folha trepouatéàpontinha.Comfacilidadepôdeveradoismetrosdedistânciaa calçada, e na parede do palacete uma enormíssima torneira com um tremendoregadorembaixo. — Queregadorcolossal,meuDeus!—exclamouEmíliafazendo

cálculos.—Deviater40vezesasuaaltura,equivalenteaqualquercoisade

72metrosdealturaparaoCoronelTeodorico. Emsuascomparaçõeselase lembravasempredessehomemfamosonobairrodeDonaBentaporcausa dotamanho.

VI

AFAMÍLIADOMAJORAPOLINÁRIO

Atorneiraficavaacincopalmosdochão,istoé,acemalturasda Emília.Pareceu-lheamaiortorneiradomundo. — Em geral as torneiras de jardimnãoficambemfechadas, pensouela,demodoquedevezemquandocaiumpingo Lá,portanto,é provávelqueeuencontreágua.

Emília desceu da folha de samambaia e avançou na direção da calçada.Teveasortedevernochãoumafolhadeiúcamexicana,queo jardineiro podara na véspera e deixara caída por ali (talvez o "apequenamento" o tivesse colhido durante o trabalho.) Onde andaria o pobre jardineiro? No papo de algum passarinho, com certeza. Emília caminhoumuitobemporcimadafolhadeiúcaeassimchegouàbeirada calçadasemjudiardospezinhosnadurezadaspedras.

Aalturadacalçadaseriaduns20centímetros,oquerepresentava

20 alturas da Emília, de modo que ela ficou a olhar para semelhante barreira como se fosse a muralha da China. Que colosso! Como galgar tamanha escarpa? Se fosse formiga, dotada de seis patinhas, nada mais

simples;naquelemomentoduasformigasruivassubiampelapedracoma-

mesmafacilidadecomqueandavamnoplano.Masparacmbípededeum centímetro de altura, obstáculos de um palmo são muralhas intransponíveis. Emília seguiu pela beira inferior da calçada, na esperança de encontrarum"subidor"qualquer. Logoadiantedeucomumaimensa"cobravermelha",quedesciada calçada,atravessavaopedregulhoeafundavaa"cabeçaamarela"nagrama

docanteiropróximo.Emíliaaproximou-secautelosamente.Viuqueerao cano de borracha do jardim. Parou diante dele. Mediu-o com os olhos. Diâmetroigualatrêsvezesasuaaltura.Sepudessetreparecaminharpor sobreessecano,ser-lhe-iafáciltransporaescarpaedescernocimento. Por felicidade, a "cabeça-da-cobra", isto é, o esguicho de metal amarelo,afundavanagramadocanteiro.Emíliafoiparalá,agarrou-seàs folhinhasdegramaedepoisdeváriasmanobrasconseguiutreparsobrea borracha.Orestofoifácil.Seguiupelocanoatéàescarpa,istoé,opontoem queocanosubiadopedregulhoàcalçada.Essetrechoíngremeelaogalgou degatinhas. Ótimo.Estavaoutraveznohorizontal,emcimadacalçada.Comas mãosnacintura,Emíliacontemplouapaisagem.Quecalçadaimensa,Deus docéu!PareciaodesertodoSaara. Deixando-se escorregar do cano abaixo, encaminhou-se para a torneira. Como era gostoso andar no liso do cimento! Até deu uma corridinha. Bemdebaixodatorneira,olhouparacima.Haveriaalgumpingoem formação naquelas alturas? Impossível perceber. Súbito, sem aviso, um pingão,plaft!pingouemcimadelaeesborrachou-anocimento. Que banho! Emília ficou atordoada por vários segundos. Nunca supôsqueumpingodáguapesassetanto. Erguendo-se, bebeu, à moda dos animais, numa das pocinhas formadaspelosrespingos,eaproveitouaocasiãoparaumbanho. — Quecoisacuriosa!—exclamouenquantoseesfregava.—Estou nuaenãosintoamenorvergonha.Seráqueissodevergonhadependedo tamanhodascriaturas?Deveser,porqueentreoshomensavergonhaera só para os adultos. As criancinhas novas não mostravam vergonha nenhuma nem ninguém se ofendia de vê-las nuas. Aprendi mais essa:

vergonha è coisa que depende do tamanho. Atorneiraficavapertodeumaenormeescadariadecincodegraus

— a escadinha da varanda das trepadeiras. Lá no quarto degrau Emília

percebeu viventes. Firmou a vista. Eram dois insetos cor-de-rosa e um preto — insetos desconhecidos e evidentemente descascados. Chegando maisperto,compreendeutudo.

— Meu Deus do céu! Aquilo égente!

Eradefatogente—gentinhacomoela—osdonosdacasacom

certeza,OinsetopretoseriaumatiaNastáciadelá—acozinheira.EEmília

teve assim a primeira prova provada de que o apequenamento também haviaalcançadooutrascriaturas.

— Bom. Vou dar uma subida atélá para conversar com

aqueles companheiros. Mashaviaescada,comcadadegrauvintevezesasuaaltura.Ah,se aparecesseporaliamutuca! Emíliaviuenormepaucaídosobreaescadaecompreendeuque eraavassoura.Comcertezaanegraestavapassandoavassouranavaranda enomomentoemqueficoupequenininhaavassouraescorregaraescada abaixoeeraagoraotal"enormepau".Felizmenteapalhaencostavano chão,demodoqueEmíliapôdesubirporelaatéequilibrar-seemcimado pau—elásefoiengatinhando.Aochegaraopontodesejado,pulou. Quandoaviramengatinhandoporcimadocabodavassoura,as criaturas do quarto degrau supuseram tratar-se dum mede-palmo; mas

mede-palmo não pula, de modo que o pulinho da Emília fez que todas recuassemassustadas.

— Não tenham medo! — disse ela aproximando-se. — Também

sougente.SouEmília,ládosítiodeDonaBenta,quefiqueipequenininhae

andoemexploraçãopelomundo. — ÉaEmíliamesmo,mamãe!—gritouummeninoquetambém

andavaporaliesóentãoelaviu.—Conheçooslivrosquefalamdela.A

caraéamesma,ojeitoéomesmo.Sófaltaaroupinhadexadrez.

— E quem é você? — perguntouEmília.

— Sou o Juquinha. E esta é a Candoca, minha irmã — disse o meninoapontandoparaoutracriança.

— Equeaconteceuporaqui?

— Não sei. Era de manhã e estávamos na mesa almoçando. De

repente,umapanariasemfimnosenleouefoiumcustoparasairmosde

dentro. E todas as coisas ficaram enormes — enormíssimas, como a senhoravê.Acasacresceuquenãotemmaisfim.Nossaroupaevaporou-se, nummistério. Emília viu que eles não estavam compreendendo a verdadeira situação.Julgavam-sedomesmotamanhodesempre.Ascoisasemredoré quehaviamcrescido.

— Essesenhorquemé,Juquinha?Seupai?

— Sim,meupai.Ealiestámamãe.AcriadaéatiaFebrônia,nossa

cozinheira.Papaiperdeuafalacoitado,tamanhofoiosusto,emamãeestá

muitotristecomodesaparecimentodevovó.

— Comodesapareceusuaavó?

— Desapareceu porque não aparece — explicou Juquinha —

Depoisqueconseguimosnoslivrardaquelainundaçãodepano,reunimo-

nostodosembaixodamesa—menosvovó.Atéagora,nemsinal.

Emíliacompreendeuocaso.Apobrevelhanãotinhapodidosafar-

se de dentro de suas próprias roupas, e com certeza havia morrido

asfixiada.Seoapequenamentofoicoisaparaahumanidadeinteira,então

milhõesdecriaturasdeviamterperecidocomoaavódaquelemenino—

pelaimpossibilidadedesaíremdedentrodasprópriasroupas.Nadamais

claro.

— Comosechamasuamãe?

— Nonoca.

Emíliadirigiu-separaDonaNonoca,queestavachorando.Contou-

lhemilcoisas,assuasaventurasnojardim,alutacomaaranha,operigo

dasaves,oalmocinhodemelquehaviafeito.Amulherchorava,chorava.

— Chorarnãoadianta,DonaNonoca.Oquetemosdefazerénos

adaptar.

Dona Nonoca não entendeu essa palavra tão científica. Emília explicou-se.

— Adaptar-sequerdizerajeitar-seàssituações.Oufazemosisso,

oulevamosabreca.Estamosemplenomundobiológico,ondeoquevaleé a força ou a esperteza. A senhora até teve muita sorte de que nenhum passarinhoougatoavisse.Comovierampararnestedegrau? A pobre mulher contou que depois do desastre eles vieram caminhandoatéàvaranda,paravercomotinhaficadoomundo.

— Eestávamosolhandoparaonossovelhojardim,transformado

nesta mata gigantesca e sem fim, quando um horrível pé-de-vento nos

jogouaqui. Emíliaachougraçano"horrívelpé-de-vento".Haviadeseraquele mesmoventinhoinsignificantequeaderrubaraduasvezes.Conversouo quepôdecomapobrecriaturaecomoinsetopreto.Desejavaprovarque nadahaviacrescido,eleséquehaviamperdidootamanho—masnãopôde convencerninguém. — Comoéquesabe?—disseanegra.—Euestouvendotudo

grande.

Emília deu todas as razões imagináveis, sem conseguir coisa nenhuma.EdiantedacertezadanegraedeDonaNonoca,tambémficouna dúvida.

— Será que tudo ficou grande e as criaturas estão do mesmo

tamanhodesempreoutudoestádomesmotamanhodesempreefomos nósquediminuímos? Pensou, pensou, pensou. O problema era dos mais sérios. Tanto podiaserumacoisacomooutra—eemambososcasosasituaçãodas criaturinhaseraexatamenteamesma. AquelehomemeraoMajorApolináriodaSilva,prefeitodacidade,

cidadão muito importante. Estava agora transformado em insetinho

descascadoemudo.Emíliamediu-lheaaltura.Viuquetinha4centímetros.

Ecomofossemuitogordo,davaaidéiadumataturanacor-de-rosaempé. Juquinha,omaisespertodafamília,mostrava-secontentecoma novidadee,aocontráriodopai,falavapeloscotovelos. Contouqueantesda"ventania"eleestiveranavarandaespiandoa ruapelasgradesdeferrodojardim,emuitoestranharanãovermovimento nenhum. —Não passou nenhum automóvelnemcarroça,nemnada. Tudoparadíssimo.Umsilêncioquenuncavi.Silênciodegente,porqueos passarinhos andam mais barulhentos do que nunca. Parece que se mudaramtodosparaacidade. Emíliariu-se.Lembrou-sedaquedadeiçásesiririsemoutubro, quandomilhõesdeformigasdeasassaemdosformigueirospáraafesta anual do banho de sol. Nesses dias o assanhamento das galinhas e passarinhoséenorme—eospaposseenchemdearrebentar.Omundo inteiro devia estar agora cheio do assanhamento das aves, diante da inesperadaapariçãodaquelanovaespéciedeiçás. Emília esclareceu como pôde o caso e deu os conselhos da sua experiência. É preciso, primeiro — disse ela — o maior cuidado com os ventos.Qualquerventinhonosderruba.Segundo:cuidadoaindamaiorcom os passarinhos e as galinhas. Basta dizer que eu estou aqui, nesta terra desconhecida, justamente por causa dum simples pinto sura, que ainda ontemcorriademedodemim.Terceiro:cuidadocomosburacosredondos, porqueem geraltêmmoradoresdentroeessesmoradoressedefendem. Emvezdeburaquinhos redondos, temos de procurarvãos,fendase outrosabrigosnaturais,nãofeitospornenhumcolega. — Colega? — Sim,nossoscolegassãoagoraosbichinhosdochãoedoar.

Quartoconselho:cadaumquearranjeumespinhodecactos,porquesenão

fosseesteaqui—emostrouasualança—eujáestavasugadaporuma

aranha.

— Mas onde poderemos arranjar essa arma? — quis saber

Juquinha.

— Esta encontrei perto do "violetal", no chão. Mas criaturas

grandes,comoseupai, suamãeeatiaFebrônia, podemusaralfinetes.Não

háalfinetesaquiemcasa? Nesse momento um miado de gato assustou Emília. O menino, porém,eanegrafizeramcaraalegre.

— Éo Manchinha, disseram os doisaomesmotempo.

— Que Manchinha? — perguntouEmília.

— Onossogatoamarelo.

— Emíliahorrorizou-se.Poisentãoestavamcomumgatoaliperto

enãoseescondiam?

— Eleéoquehádemanso—disseabobadaFebrônia.—Dormia

naminhacama.Fuieuqueocriei. Oh,estupidezhumana!—pensouEmília.—Seráqueestagente supõe que o gato vai reconhecê-los e continuar bonzinho como era? Explicou-lhesisso,eaconselhou-osaprocuraremrefúgio.Masquempode comaburricedecertascriaturas?Ninguémacreditouemsuaspalavras.

Riram-se. Até o Major Apolinário riu-se — pela primeira vez depois do apequenamento.

— VocêdizissoporquenãoconheceoManchinha—observou

DonaNonoca.—Nãohánomundogatomaismeigo.

— Maspegacamundongo?

— Isso,pega.

— Egafanhotos?

— Tambémpega.Aindaontemandouatrásdumgafanhotoaíno

jardim.

— E acha então que ele tem inteligência bastante para nos distinguirdumgafanhotooudumabarata?

O Major riu-se de novo. Ele ainda estava com a "idéia de gato"

própria das gentes que possuíam tamanho. Emília tentou esclarecê-lo. Explicouaquelahistóriada"idéiafilhadaexperiência". — A "idéia de gato", Senhor Apolinário, vinha da nossa antiga experiênciadecriaturastamanhudasemrelaçãoaosgatos. Era a idéia dum animal perigoso para ratos, baratas e gafanhotos, mas inofensivo paranós.Agora,porém,temosde reformar essa idéia, como também temosdereformartodasasidéiastamanhudas,comoporexemplo,a"idéia depinto",a"idéiadeleão"etantasoutras.Equemnãofizerassimestá perdido.

O Major não entendeu. Era a burrice era pessoa. Achou aquele

sermãocomcarade"coisadelivros".NessemomentooManchinhamiou novamentemaisperto. Emílianãoquissaberdemaisnada.Agarrandoasduascrianças correuaesconder-senumarachaduradocimento. Foia conta. A enorme carantonha dum gatogigantescosurgiuà portadavaranda.Miouváriasvezes,comoquemestáaflitoemprocurados donos. Depois, aproximou-se, no perigoso andar de gato que enxerga barata.

Quehorrívelcena!Apesardedurinhadecoração,Emíliaarrepiou- se ao ver o meigo Manchinha, tão saudoso dos seus donos,

Quehorrívelcena!Apesardedurinhadecoração,Emíliaarrepiou-

se ao ver o meigo Manchinha, tão saudoso dos seus donos, comer sossegadamenteostrêsinsetosdescascadosquedescobriuali.Masteveo cuidado de tapar com as mãos os olhos das duas crianças. Juquinha e Candocanuncavieramasaberdotrágicodestinodeseuspais—vítimasda "lerdeza com que sé adaptavam às novas condições de vida", conforme EmíliamaistardeexplicouaoVisconde.

VII

JUQUINHACONTAASUAHISTÓRIA

Depoisqueogatosefoiembora,talvezemprocurademaisinsetos gostososcomoaqueles,Emíliapôs-searefletirmuitoasério.Podiasairda toca,masjáestavasemliberdadedeação.Deummomentoparaoutroo destinoatransformaraemmãededoisórfãos.Juquinhanãoeranada;até lhe serviria de companheiro — menino taludo, de dois centímetros de altura. Já a Candoca não passava duma criança de três anos e meio, completamenta boba. Teria de andar pela mão de alguém. Que alguém? Juquinhaouela,a"amaseca"Emília—quegraça! —Nuncamecaseidemedodeterfilhos,eafinalmevejotutorade doismarmanjos—ummaiorqueeu,masaindasemjuízo,eoutrodomeu tamanho,masquesósabechorar.Aencrencavaisergrande Emíliasempretevefamadenãopossuircoração.Mentira.Tinha sim.Estáclaroquenãoeranenhumcoraçãodebananacomoodetanta gente. Era um coraçãozinho sério, que "pensava que nem uma cabeça". Podendodeixaraliasduascrianças,jáqueasituaçãodomundoeraade um geral "salve-se quem puder", não as deixou. Heroicamente resolveu salvá-las. —Bem.Eagora?—pensoulápordentrologodepoisdepassadoo perigo.—Sozinha, eu ia me arrumando muitobem.Mastudomudou. Asduascriançasmeobrigamãestudaradefesa.Quedefesa devo adotar? Evidentemente, odisfarce.Nãomerestaoutrocaminhosenãoessaforma dementira.Tenhodedisfarçar-meembicho-folhagem ouqualquercoisa assim—etenhotambémdedisfarçarestascrianças. A idéia do bicho-folhagem foi sugerida pela lembrança de uma

velhahistóriadetiaNastácia.Paralivrar-sedaonça,omacacobesuntou-se

demelerolounummontedefolhassecas,dessemodotransformando-se

embicho-folhagemeenganandoaonça.Emíliatinhadeinventarqualquer

coisaassim.

— Juquinha—disse elavoltando-separaômenino—saibaque

seus pais se mudaram para um país muito distante e deixaram vocês entreguesaosmeuscuidados.

— Paraondeforam?

Emília demorou na resposta. Estava pensando. Isso de falar a

verdadenemsempredácerto.Muitasvezesacoisaboaéamentira."Sea

mentirafizermenosmaldoqueaverdade,vivaamentira!"Eraumadas idéias emilianas. "Os adultos não querem que as crianças mintam, e no entantopassamavidamentindodetodasasmaneiras—paraobem.Háa mentiraparaobem,queéboa;eháamentiraparaomal,queéruim.Logo, issodementiradepende.Seéparaobem,vivaamentira!Seéparaomal, morraamentira!Eseaverdadeéparaobem,vivaaverdade!Masseé paraomal,morraaverdade!Juquinhaquersaberparaondeospaisforam. Seeudisseraverdade,elesedesespera,chora,eficauma'inutilidadede olho vermelho e ranho no nariz atrás de mim. Logo não devo contar a verdade. Poderei inventar uma mentirinha benéfica. Dizer, por exemplo, uma coisa que ele não compreenda bem, mas que o sossegue." E respondeu:

— Seus pais, Juquinha, foram obrigados a mudar-se para a

Papolândia.

— Ondeéisso?

— Éumaterraemtodaparte,ondesóhápapapospos.Éaterrados

papapupu-dosposquevoam,ouandampelochãomiandocomogato.Esabe oqueépapapopo?—Éumaespéciedecolo.Antigamenteasmãespunham os filhinhos no colo; hoje os papapupudospos põem todo mundo no papapopo.

— Eébomlugaressepapapopo?

— Ótimo. Quentinho como cama.Quemadormecenessecolo

gostatantoquenãoacordamais.

AexplicaçãodeixouJuquinhanamesma,masosossegou.Sentia

muitoqueseuspaisfossemdormirumsonotãocompridonumaterratão

esquisita;masseeranoquente,entãobem.Aexpressão"quentinhocomo

cama"agradouaomenino,queestavanuecomfrio.

— Nãoseioqueaconteceucomanossaroupa,disseele.—Eu

estavacomomeucapotevermelho,debonénacabeça,prontoparasair

comatiaFebrôniadepoisdoalmoço.Derepente,tudosesumiudiantede

mim.Umaescuridão!Fiqueicaídonomeiodepanos.Veioafaltadefôlego.

Comeceiamedebatereengatinharparasairdali.

—Dalideonde?

— Daquelapanariaescura.

— Saireirparaonde?

Não sei. Eu queria sair, sair — e fui saindo sempre engatinhando.

— Porquesempreengatinhando?

— Porquenãopodiaficardepé.Opanonãodeixava.

— Edepois?

— Fuiindo,fuiindo,atéquerolei

paraumenormeburacoquejánãoeradepano.Pareciadecouro.

Escurocomoanoiteládentro.Felizmenteviumaluz.Eraumburaquinho

claronaqueleburacãoescuro.Encaminhei-meparaláesaí.

— Equeviu?

— Vi este mundo de agora. Tudo tão grande que a gente nem

reconhece as coisas. De repente, olhei; mamãe ia saindo de gatinhas de

outroenormemontedepano.Edumterceiromontedepano,adiante,vi sairpapai.Corriparaeles.Estavamtãoassustadosquenempodiamfalar. Mamãe afinal falou; papai nuncamais.Ficoutotalmentemudo.Vovó,

coitada,sumiu.AZulmiratambém.Viochãoforradodepêlos enormes;

andar por ali era o mesmo que andar por um capinzal cerrado. Pêlos vermelhoseazuisepretos.

EmíliapercebeuqueJuquinhaestavasereferindoaotapetedasala

dejantar.

— EaCandoca?—perguntou.

— ACandocaiatomarbanhonaquelemomento.AZulmirajátinha

tiradoovestidinhodela

Emíliahorrorizou-se.Seapequenajáestivessenobanhoquando

sobreveio a "redução" teria morrido afogada. E pensou nos milhões de criaturasquepelomundoaforadeviamnaquelemomentoestarnobanho efatalmentemorreramafogadas.

— QuemeraaZulmira?

— AamadeCandoca.

UmpontodahistóriadoJuquinhaEmílianãocompreendeu—otal

buracãoescuroemqueelehaviacaídoaoéscapardamontanhadepano. Masdesconfioudumacoisa.

— Vocêestavacalçado,Juquinha?

— Estava, sim, com os meus sapatos amarelos. E ia sair com a

Febrônia justamente para comprar uns sapatos novos. O do pé direito estavafuradonodedão.

Emíliariu-se. — Compreendo agora, Juquinha. Otalburacoenormeemque

você caiu foi o pé direito daqueles sapatos velhos, o buraquinho do buracão"eraofurododedão.

O menino ficou pensativo, de rugas na testa. "Quem sabe se foi

mesmo?"

A Candoca principiou a choramingar de frio. Aquele cimento da

escadanãoerabomberço.OchorodacriançafezqueEmíliavoltasseà

idéiadobicho-folhagem.Tinhadedescobrirqualquercoisacomquevestir-

seevestirosórfãos.Pano? Impossível.Panoatéquehaviamuito,portoda partemontanhasdepano;maspanopedetesouraeagulha,eseacasoela possuísseumatesouraeumaagulhaseriamproporcionaisaoseutamanho

e tão pequenininhas que não cortaria nem coseria nenhum dos grossos panosexistentesnomundo. Masháumacoisaquepodesubstituiropano:oalgodãocomquese fazem os panos. Se ela encontrasse um pouco de algodão, estariam resolvidosdoisgrandesproblemas:odovestuárioeodadefesa.

— Éisso!Voudisfarçar-meemchumaço de algodão e fazer o

mesmo àscrianças.Chumacinhosdealgodãovalempelamelhorroupae

podemrolaràvontadepelomundo,sematrairaatençãodegatos,pintos oupassarinhos.Quebichocome algodão? Nenhum. Logo, oproblema agoraédescobrirumchumaçodealgodão. Evoltando-separaoJuquinha:

— Ládentrodesuacasanãohaveráalgodão?

— Algodão?

— Sim,dessedebotaremcovadedenteounoouvido,quandohá

dordeouvido.

— Há,sim.Naestantedosremédiosdoquartodemamãeháum

pacoteazul.

—Ótimo.Fiquesabendoqueagrandecoisaparanóstrêsagoraé

irmosatéláeapanharmosumpoucodessealgodão.

— Asenhoraestácomdordeouvido?—perguntouobobinho.

Emíliariu-se.

— Não,meuamor.Estoucomdordepapapopo eoremédioé

algodão.

— Quetantopapapopoasenhorafala?Emíliariu-sedenovo.

— Juquinha,Juquinha.Papapopoeraumacoisaqueantigamente

nãopreocupavaaninguém.Masagoraopapapopoétudo.Ograndeperigo

dahumanidadenova,meuamor,éoSenhorDomPapapopo.Saibadisso.

Omeninonãoentendia.Quisexplicações.Elatapeou.

— O Senhor Dom Papapopo, Juquinha, deve ser filho daquele

Papãoqueoutroraassustavaascrianças.OtalPapão,porém,eramentira. Nunca existiu. Começou a existir desde que alguém mexeu na Chave do Tamanho.Estáentendendo?DesdeesseinstanteoPapapopo,ouoSenhor DomPapão—poistudoéamesmacoisa—apareceunomundoeandapor todapartenosrondando.Felizmenteeunãosouboba. Perceboascoisas muito bem. Penso em tudo e"adapto-me",comodizoVisconde.Por isso estou certa de que o grande remédio contra o Papão é o Algodão. Juquinha amigo toca a procurar o Senhor Dom Algodão por causa do SenhorDomPapão. JuquinhaficounamesmaeCandocapôs-seaberrar. — Vamos! — disse Emília, dando amãoàmanhosaesaindoda

fresta.

VIII

ATRAVESSIADASSALAS

Parachegaràvarandatinhamdesubiroúltimodegraudaescada.

Poronde?Peloúnicocaminhoexistente,opaudavassoura.Como?Muito

bem.Juquinhaaerguerianosombroseaporialá.Depois,ládecima,ela

ajudaria Juquinha a subir, dando-lhe a mão. "Não! Isso não serve. Posso escorregarecair.Omelhoréeuirsozinhaengatinhandopelopauatéa varanda,everseláexistealgumacorda.Sehouvercorda,Juquinhasubirá porela—eemseguidaaCandoca.Estácerto." Depois de bem planejada a subida, explicou tudo ao menino e deram começo à realização da idéia. Juquinha, menino forte, ergueu-a facilmenteaoombroeempurrou-aparacimadocabodavassoura.

— Muitobem—disseEmílialádoalto.—Agoraeusuboatéa

varandaemprocuradecorda,evocêmeesperaaícomaCandoca—epôs-

se a engatinhar pelo cabo da vassoura acima. Chegando ao nível da varanda,pulou. Encontrouláummontinhodelixodamanhã.Emíliacompreendeu que a criada estava no meio da variação quando ficou reduzida — e a

vassouraescorregoupelaescada.Nessesciscosdecasadefamília,"corda" é coisa que não falta nunca. Emília encontrou vários pedaços de fios de linha,bonsparaofimdesejado.Arrastouumdelesatéàquinadodegraue gritouparaomeninoláembaixo:

— Acheiumacordaótima.Voujogaraponta.Façaumalaçadae

passe-apelacinturadaCandoca. Depoissubapelacordaacimacomoos

marinheirossobempelocordamedosnavios.Masantesdejogaracorda

tenhodeamarraraoutrapontaemalgumacoisaaqui.Espere.

Emíliaolhouemtorno.Ondeamarrarapontada"corda"?Ochão

da varanda era de ladrilhos, sem felpa nenhuma ou prego. Emília foi examinarasoleiradaporta,queerademadeira.Descobriuumaexcelente lasquinha, ajeitadíssima para o caso, mas inútil, porque ficava a três centímetrosdealtura.Inútil?Comumpauelapoderiaenfiarláumalaçada feitanapontada"corda".Sórestavaacharopau. Emíliavoltouparaomontinhodecisco.Queriquezademateriais! Havia tudo ali. "Cordinhas", paus, pedras, fiapos de pano e rolos de "penugemdecisco". Opauencontradofoiumapalhinhadavassoura.Emíliaenfioua laçadanumganchodapalhinhaeergueu-aatéàlasca. —Ótimo!Alaçadacerrouenãoescapa. Depoisjogouapontada"corda"pelodegrauabaixo. — Pronto,Juquinha.DeixeaCandocaamarradaesuba.Aquide cimanósdoissuspenderemosessamanhosa. Eassimfoifeito.Omeninosubiucomamaiorfacilidade,porque eramestreemtreparemárvores.Emseguidaosdoisjuntossuspenderam aCandoca.Aíéqueelachoroudeverdade,aosberros,comosefosseofim

domundo."Énatural",pensouEmíliafazendoaconta."Estedegrautem15

vezesaalturinhadela;corresponde,pois,aumaalturade27metrosparao

Coronel Teodorico. Até ele, um homenzarrão, era capaz de chorar se

alguémosuspendesse27metrosnapontadeumacorda."

Muitobem.Láestavamostrêsnavaranda,Tinhamagoradeentrar na casa, o que foi fácil, porque a soleira da porta era apenas de 5 centímetrosdealturaehaviaaquelepreciosociscoparaajudá-los.Emíliae o menino tomaram duas palhinhas de vassoura de igual comprimento, quebraramoutramaisfinaempedaçosiguaiseamarraramessespedaços nasduaspalhinhas—elásubirampelaescadafeita.ACandocaresistiu. Não queria subir. Estava com medo e a chorar que nem um bezerro. O remédiofoirepetiremaoperaçãoanterior.Passaram-lheacordasobos braçosesuspenderam-naàforça.

LádentrodacasaEmíliaadmirouaimensidãodetudo.Noassoalho

viu um tapete verde-cana com ramagens cor-de-rosa. Tinha meio centímetrodeespessura—metadedaalturadela!

capim-

catingueiro florescidoqueosboisaindanãoamassaram.

Como fosse impossível atravessar a sala por cima do tapete, tiveramdedarvoltajuntoaorodapé.Emcertopontoviramumenorme baldevermelho:odedaldecelulóidedaZulmira,caídoporali.

— Ótimo! — exclamou Emília. — Vamos deixar a Candoca

guardadinha neste "balde", enquanto procuramos o algodão. Esta manhosa só serve para nosatrapalhar. ACandocafoisentadaàforçadentrododedaleláficouchorando, enquantoEmíliaeJuquinhacontinuavamaviagempelabeiradorodapé. Emcertopontoencontraramumapulgadormindo.Quetamanho!Eracomo um leitão para um homem comum. Juquinha pregou-lhe um pontapé. A pulga arregalou os olhos, assustada, e deu um pulo gigantesco. Logo adiante viram uma traça, dessas que parecem semente de abóbora e caminhamcomacabecinhadefora,arrastandoa"casa".Pararamparaver bem.

— Estesbichinhosaprenderamosistema,comoscaramujos—

disseEmília.—Comelesnãoháissode"irparacasa"porqueacasaanda

comeles.

— Este tapete está me parecendo um pasto

de

Notouqueacasadatraçaerafeitadepedacinhosdelã,cortadosdo

tapete e ligados entre si dum modo especial. Emília quis fazer uma experiência.

— Será que se eu trepar em cima ela continua andando? — e

trepou.

Atraça,porém,encolheuacabeça,comofazatartaruga,eficou imóvel.Emíliadesceu. — Nãopresta.Istonãodácavalo.

EcontouaoJuquinhaassuasproezascomomede-palmo,como

caramujo,comobesourodepintasamarelaseamutua.

Omeninoficouradianteàidéiademontarnumbesouro.

— Muito melhor que os cavalos —disseele—porqueos besourosvoam.

Antigamente os cavalos tambémvoavam,disseEmília.

Quando?Nuncaouvifalarnisso.

 

Na

Grécia

houve

um

tal

Pégaso que voava

maravilhosamente. O WaltDisneypintouoretratodele,daPégasaedos

Pegasosinhos,naquelafitaaFantasia.Nãoviu?

— Eubemquisver,maspapainãodeixou.Dissequeeramuito

caro.

— "Pãoduro!"Porissomesmoestá"empapado".

— Quê?

— Está dormindo na Papolândia —atrapalhou Emília. —

Mas depois daGréciaoscavalosperderamasasas,comoasiçásquando enjoam de voar e descem. Já agora podemos ter quantos Pégasos quisermos. Podemos montar em besouros, em borboletas, e até em libelinhas. Imaginem que gosto, voarmos montados na velocidade incríveldaslibelinhas! Eassim,naprosa,chegaramaoquartodeDonaNonoca.

Láestavaaestantedosremédios,imensa,comcaixasdepílulase vidros. Também lá estava o pacote azul do algodão com um chumaço aparecendo.Masmuitoalto—nasegundaprateleira.

— Oalgodãoestáencimíssimo—observouEmília.—Estácomo

papagaiodepapelenganchadonofiotelefônico.Comoderrubaraquilo? O jeito era esse: derrubar. Pacotes de algodão pesam pouco. Se conseguissemalcançá-locomumavara Masqueédavara? Emíliaespiouentreaestanteeaparede.

— Achei!Achei!Háaquiumvãoescuro,cheiodevelhasteiasde

aranhapelasquaispodemossubir.

— Eaaranha?—perguntouomenino.

— Eaaranha?—perguntouomenino. — Não vejo nenhuma. É teia velha, e estes fios agüentam

— Não vejo nenhuma. É teia velha, e estes fios agüentam

perfeitamenteomeupeso—disseEmíliaexperimentando.—Nãohácomo

nãoterpesonemtamanho.Tudovirafácil—efoisubindo.

Juquinhadenarizparaoar,acompanhavaamanobra.

— Aestantetemforro—disseele.—Querovercomoasenhora

passa.

— Oforroédepinho—respondeuEmília.—Astábuasdepinho

àsvezestêmnósquecaemedeixamumburaco.Estourezandoparaque este forro seja de tábua de pinho com buraco de nó. Se não houver passagem,paciência.Descereieprocurareioutromeio.

IX

AESTANTEDOSREMÉDIOS

A estante dos remédios era das pequenas, como em geral as estantesderemédios,demodoqueasegundaprateleiraficavaaapenas

doispalmosdochão.Mesmoassim,paracriaturinhasdaqueletamanhoa alturadedoispalmoseraomesmoqueumsobrado.Emília,entretanto,foi subindo. Encontrou vários cadáveres secos de moscas, borboletinhas, traçaseatéodeumvaga-lumedosmenores.

— Jáseiporqueaaranhadestateianãoestáaqui—disseela

consigo. — Sugou este vaga-lume e morreu envenenada. Aquela luzinha dosvaga-lumeséfósforo—umvenenoterrível. Asuahipótesedoburacodonódepinhoacertou.Láestavaume

bem na altura da segunda prateleira. Emília deu jeito, passou-se da teia paraoburacoecomumpulinhosaltounaprateleira.Caiubememcima dumarodadecarro,brancacomoleite.EraumcomprimidodeFontol.

— Chi, meu Deus! Isto por cá é uma verdadeira floresta de

remédios.Vidrõesquenãoacabammais.Eenormescaixasdeungüentos.

Gigantescospapeizinhosdepós.Eatéumvidrãodeiodo.

Diantedovidrodeiodoparoueolhou.Arolhadecortiça,devorada

peladroga,estavanochão.

— Bembobaagentedestacasa—refletiuEmília.—Nãosabem

duma coisa tão à-toa — que iodo tem ódio às tampas de cortiça. Quer tampadeborrachaouvidro,comoadovidrodeiododeDonaBenta. Foivarandoporentreaflorestaderemédiosatéqueavistouum pacotedealgodão.Enorme!Teriaumasdezvezesasuaaltura.Fezforça paraempurrá-lo,masomonstronemsequersemoveu.

Chegandoàbeiradatábua,gritouparaomeninoláembaixo:

— Minhaforçanãodá,Juquinha.Temosdeexperimentarumjeito.

Háaquiumfiodegaze.Vouamarrarapontanopacoteazulparaquevocê

puxeaídebaixo.

Eassimfez.Juquinhapuxou.Opacoteazulfoicedendo,cedendo,

atéque,plaf!caiu.

— Hurra!—exclamouEmíliaradiante—etratoudedescerpelo

mesmocaminho.

Ateiaestavamuitovelhaeempoeirada,demodoqueelasesujou

todaeatéapanhouumcisquinhonoolho.

— Assopre—disselogoquedesceu,arregalandooolhoparao

menino.

Juquinhaassoprou—eparecequedeucerto,porqueEmílianãose lembroumaisdoolho.Sópensouemirpuxandoumaporumaasfibrasdo algodão para enrolá-las em redor do corpo. Em poucos minutos transformou-senumverdadeirocasulo.DepoisajudouJuquinhaafazero mesmo.

— Queótimo!—exclamou.—Estamosquentinhosaquidentro,e

tão bem disfarçados em chumaço que bicho nenhum irá preocupar-se conosco. Um gato nos vê e nem liga. "É algodão", pensa lá com os seus bigodes.Umpintonosvêepassadelargo.Umtico-ticonosvêevaisaindo.

— Masoprimeirobeija-florqueencontrarmosnoslevanobico—

lembrouJuquinha.—Jávilánojardim.Écompainasealgodõesqueeles fazemosninhos. Emília desfiou mais um chumaço de fibras para a Candoca e pronto.Podiamvoltar. A meio caminho encontraram uma aranha dessas de pernas compridíssimas e que não mordem gente — só enrolam moscas no fio. Aquelaestavajustamenteocupadanisso.Umapobremoscaficarapresaà teiaeaaranhaestavaaenrolá-la.Osdoispararamparaadmiraraperfeição

doserviço.Aslongaspernasdaaranhatinhamumaagilidadeincrívelno manejodateia,ecomgranderapidezdeixaramamoscasemmovimento nenhum,transformadaemnovelo. — Como estes bichinhos sabem arrumar-se num mundo tão grande!—murmurouEmília—cadaqualdescobreumjeito.Porissotenho

tantafénahumanidadefutura,istoé,nahumanidadededaquipordiante —ahumanidadepequenina.Comanossainteligência,poderemosoperar maravilhasaindamaioresqueasdosinsetos. — Maselessabemenósnãosabemos—disseJuquinha.

— Também saberemos. Sabem porque foram aprendendo. Nós

tambémaprenderemos,porquenão?Aprofessoraéumavelhaferoz,que nãoperdoaaoslerdosepreguiçosos. Chama-seDonaSeleção.

— Quem é? — perguntou Juquinha, que não entendia nada de

ciência.

— É a Papuda-Mor — respondeuEmíliarindo-se.

X

OFORDESCANGALHADO

EncontraramaCandocanochorinhodesempre.Emíliateveuma

idéia.

— Quemsabeseéfome?Elajáhaviaalmoçadoquandodiminuiu? Juquinhadissequenão. — Foinocomeçodoalmoçoque a"coisa"veio.Lembro-mebem. Eutinhafisgadoumabatata.Abriaboca.Abatataainda estava no meio

do caminhoquando,pronto!Nãovimaisnada.Sóaquelaescuridãodentro dapanaria.

— Poishádeserisso.OchorodaCandocaéfome—resolveu

Emília.—Nochãodasaladejantardevehavercomida.Vamosparalá.

Foram.Quemesaimensa!Ficavaa80centímetrosdochão—80

vezesaalturinhadela.Omesmoqueumarranha-céude30andaresparao

Coronel Teodorico. Lá em cima devia haver comida para todos os habitantes duma cidade — mas que adianta comida em um "telhado de arranha-céu?"Oimportanteeraoquehouvessecaídonoassoalho—algum

grãozinhodearroz,oudefarinha,ouiscadepão. Olharam.Pertodamesaviramumagrandebolaamarela.Juquinha imediatamenteareconheceu.

— A minha batata! Juro que é a minha batata. Mas como ficou

enorme! Naquele momento o garfo caiu da minha mão e ela escapou e rolou.Éisso. Encaminharam-separalá.Eraumabatatafrita,coisaqueoutrora qualquer criança mastigaria com a maior facilidade. Para eles, porém, a casquinha exterior, endurecida na frigideira, pareceu rija como casca de

laranja. Felizmente havia os quatro furos abertos pelo garfo. Juquinha enfiouamãonumdeleseagarrouládentrooquepôde.Deuumpunhado de massa para a Emília e outro para a Candoca. A menina comeu com voracidade.Coitadinha!Suamanhaeradefatofomeefrio.Comaquentura doalgodãoeaquelealmoçodebatata,sossegou.

— Muitobem—disseEmília—temosagoradedarumpasseio

pelacidadeafimdeveroqueaconteceu.

Edepois?

— Depoisiremosprocurarcasa,istoé,algumburaquinhoouvão

detijoloondepossamosmorar.

— Todaavida?

— Então?Nossavidaagoraéesta.Eusempremoreinumlugar

lindolánosítiodeDonaBenta.

— Sei.Liashistórias.

— Pois é. Sempre morei lá. Mas estava numa grande viagem

quandoa"coisa"aconteceu;evirei,mexievimpararnestacidadequenão

seiqualé.Comosechamaestacidade?

— IstoaquiéItaoca.

— Itaoca?—repetiuEmília,surpresa.—Entãoéaquelavilazinha

queficavaamenosdemeialéguadosítiodeDonaBenta?

— Poisé.

— Oraquegraça!Penseiqueestivessenofimdomundo.Avilade

Itaocaeuconheçomuito bem. Jáandei poraquimuitasvezes.

— Meu pai era o prefeito municipal desta cidade — disse

Juquinha. — Tomava conta das ruas, mandava capinar o mato das calçadas. Ele tinha um cavalo muito bonito — o Pangaré — e só o ano passadocomprouautomóvel—umFord.Quandoseráquepapaivolta?É longeapapolândia? EmíliatevedódoJuquinha.Nuncamaisiriaveropai,nemamãe, nemaZulmira,nemaFebrônia,nemoFord.

— Tudoélongeagora,Juquinha.AtéosítiodeDonaBenta,queera

pertíssimoviroulonjurasemfim.Meialégua!Meialéguaantigamenteera meialégua.Hojemeia légua é um abismo de lonjura.Meialéguatem3

mil metros. Para caminhar essa distância os homens davam 5 ou 6 mil passos.Hoje,sabequantospassoseutenhodedarparafazermeialégua?

—efezacontadecabeça.Nadamenosde1.200.000passos!

— Eseformontadanumbesouro?

— Ah,entãoficaráperto.Masantesdissotemosdedescobrira "dirigibilidadedosbesouros",senãoagentemontanumevaipararonde elequerenãoondeagentequer. Eassim,nessaconversa,chegaramàportadavaranda.Amenina,já sossegada,iapelamãodaEmília.Láencontraramaescadinhadepalhada vassouraeporeladesceram.Paradesceroscincodegrausdaescadade cimentotiveramderecorreraváriosfiosdelinhaemendados.Quandose viudenovopenduradanaquelacorda,aCandocapôsabocanomundo. Desceram.Nacalçadadirigiram-seaocanodeborracha,porcima

doqualforamteraopedregulhodojardim.Juquinhaestranhouo"horror"

daquelechão.

— Éincrívelquehouvessetantapedraaquieeununcapercebesse.

Quantasvezesnãobrinqueinestejardim!Corriapelasruastodasenuncavi

pedras,eagorasóhápedrasemaispedras.

Emília lembrou-se dos sofrimentos de seus pezinhos nas "irregularidadesdaquelesolo"epropôsquesecalçassem. —Com sapatinhosde algodão. Querver?esentando-setomou

umpoucodealgodãodoseuchumaçoeneleenrolouospés,encastoando-

semuitobem.Fezomesmonos pés da Candoca e doJuquinha. Foi um regalo. Puderam caminhar muito bem e sem que a todo momento estivessem a dar topadas ou arranhar-se no "corte de vidro" daquelas"pedrasdeareia".Eassimchegaramatéaoportãodeferrodo jardim.Passaramporbaixoepronto.Eraarua.

Queruaenorme!Ooutroladoficavaa20metrosdali,ou2.000

vezesaalturinhadaEmília.Ascasaspareciamarranha-céusinfinitos,com

ostelhadosnasnuvens—eocomprimentodaruatambémnãotinhafim.

"Perde-senohorizonte"—pensouEmília.

Foramandandopelacalçada.Dedistânciaemdistânciaviamuma

montanhadepano.

Emíliaexplicavatudo.

— Cada montanha de pano corresponde a um homem, a uma

mulherouaumacriançaqueestavanaruanomomentoda"redução".Os

donosdasroupasforamsoterradosporelas;osmaisfelizesconseguiram

sair de dentro, como nós, mas muitíssimos não puderam e devem estar maisquemortos.Eháaindaosqueao saírem tombaram nos buracões decouro—asbotinas.Quemcaiuemburacodesapatoraso,aindapôde sair.Masosquecaíramemburacosdebotas?Essesaindaestãoládentro, comosentenciadosemcalabouços. A uma grande distância do portão viram uma enormíssima montanhadeferroescangalhadojuntoàparededum"aranha-céu".

— Umautomóvel—explicouEmília.—Todososautomóveisque

estavam em movimento na hora da "redução" foram para o beleléu. Perderam o governo, esborracharam-se de encontro às casas. O mesmo deve ter acontecido a todos os aviões nos ares, e a todos os trens em

marchaeatodososnaviosnomar.Tudolevouabreca.

JuquinhaachouqueaqueleautomóvelpodiaseroForddeseupai

—mascomosaber?

— Pelonúmero.Quenúmerotinhaocarrodeseupai?

—Erao7.

Emíliadeuvoltaaocarroparadescobrironúmero.Láestavaele,

emcima,enorme.Foiprecisoafastar-seaboadistânciaparalê-lo.

— Sete,sim,Juquinha.Ocarrodeseupaieraeste.

— Eondeandaráochofer,oTotó?

— Com certeza está aí dentro. Com as portas fechadas, como

poderiatersaído? Juquinha quasechorou. Queria salvar oTotó, queera muitoseu amigo,mascomo? —Impossível — resolveu Emília. —Umautomóvelfechadoéa coisamaisfechadaqueexistenomundo.Nemchuvaentra.OTotó,seainda estávivo,queaproveiteorestodavidaquetem,porquedaíninguémotira. Vamosembora. Juquinhaaindaficouparadoalgunsinstantes,denarizparaoar, vendosehaviaumjeito.Nãohavia.Suspirou.

E lá continuaram a subir a rua imensa. Havia ainda muitos passarinhos por ali — para eles aves gigantescas, verdadeiros pássaros Rocas.Emborajátivessemcomidomuitos"insetosdescascados",aqueles passarinhos andavam à procura de mais. Nenhum deles, porém, deu atençãoaos"algodõezinhosmoventes".

— Eunãodisse?—observouEmília.

— Oalgodãoéamelhordefesacontraofrioecontraasavese

gatos.

— Mas há os beija-flores — tornou o menino. Se algum nos enxergar,leva-nosparaoseuninho.

— Antesninhodoquepapo.Seeuforlevadaaumninhodebeija-

flor,atégosto,porquedormireiumanoiteregalada.

EmíliadeuaJuquinhaumaliçãosobreavidanova.

— Muitosdaquelesperigosdeantigamentepoucovalemagora—

disseela.

— Leões,tigres,crocodilos,jibóias—nenhumadessasferas,que

tanto apavoravam os homens, constitui perigo hoje. O perigo para a humanidade de hoje, meu caro, é a galinha, é o pinto, é o pardal, é a passarinhadatodaquegostadeinsetos.Easavestêmunsolhostremendos paraenxergar.Opintosuramepercebeulonge.Outroperigomuitosérioé

o gato. Cachorro, não; mas gato — ah, malditos gatos, comedores de baratasegafanhotos!Eelesjudiamdapresaantesdematá-la.

— OManchinhaeraassim—lembrouomenino.—Nãoperdoava

baratanenhuma.Ejudiavadelas.

— Poisé. Hojequalquergatovagabundocomeumrei,umgeneral,

um sábio, um prefeito, com a mesma facilidade com que antigamente o Manchinhacomiabaratas.Temos,pois,denosdefender.

— Mascomo,assimpequeninos?

— Com a inteligência ou a astúcia, como fazem tantos insetos

destemundo.OViscondejámeexplicouissomuitobem.Umadasmelhores

defesas,porexemplo,sechamamimetismo.

— Mimeoquê?

— Tismo. Mi-me-tis-mo. Quer dizerimitação.Unsimitamacor

doslugaresondemoram.Semoramempedra,imitamacordapedra.Se

moramnagrama,comoosgafanhotos,imitamacordagrama.Porquê?

Porquedessemodoosinimigososconfundemcomagrama.Eháosque

imitamaformadasfolhasdasárvoresoudosgalhinhossecos.

— Eujáviumdesses—lembrouJuquinha.—OTotóapareceulá

emcasacomumgalhinhoseconamão."Queéisto?"meperguntou.Eu olheierespondi:"Éumgalhinhoseco."Totóriu-seelargouogalhinhono chão—esabeoqueaconteceu?Ogalhinhocomeçouaandar!Era um

bicho pernudo, cascudo, queimitavagalhoseco. — Poisé.Estava"mimetando"umgalhoseco.Mimetismoéisso.

Não conhece aquelas borboletas carijós que se sentam nas árvores musguentaseficamaliquietinhas,talqualumdessesmusgoscinzentos? Musgos,não.Líquem.Líquem!OViscondenãoquerqueagenteconfunda musgocomlíquem.Decore.

— Sei.Nonossopomarvimuitas.

— Poiséisso.Essesfingimentossãoasarmasdetaisinsetos.Éa

defesadofracocontraoforte—masdofracoesperto!Aborboletacarijó,

porexemplo,nãoécapazdesentar-secomasasaserguidas,comomãos

postasdequemestárezando.Sósesentadeasasbemabertasecoladasà

cascadaárvore,paramelhorseconfundircomosliquens.Liquens.Repita.

Liquens — repetiu Juquinha. — E quem ensina os insetos a

fazerisso?

Ah, isso é o problema que mais tem quebrado a cabeça do

Visconde.Mistériosdestemundodemistérios,dizele.Oqueseiéqueos

bichinhosvãoaprendendoepassandoaciênciaaosfilhos.Eosquenão

fazemisso,vãoparaobeleléu.Nóstrêsestamosusandoumrecursodo

mimetismo. Estamos usando o processo do "chumacismo". Estamos fingindoseroquenãosomos.

— Esedervento?

— Aténissooalgodãoébom.Sedervento,oventonosleva,como

leva as painas — e vamos cair lá adiante. Fica sendo um novo meio de viajar.

Chegaramdiantedumterrenoemabertoecommato.Pareceu-lhe

umaimensafloresta.Emílialevou-osparabaixodas"árvores"emostrou-

lhes muita coisa que já havia aprendido na touceira de hortência e no "violetal".ACandocarompeuemchoro,nãomaisdefomeoufrio,simde medo.Osmonstrosqueviaporaliassustavam-nadummodoincrível— grilos, caramujos, aranhas, lagartas. Por mais que Emília a sossegasse dizendonãohaverperigoporqueosmonstrosnãocomiamchumaços,ela nãofechavaatorneira.Emcertomomentoficoutãoapavoradacomuma lesma do tamanho duma baleia que instintivamente escapou da mão de Emíliaeatirou-seaumburacoredondoqueviuperto. Ah, por que foi fazer aquilo! Uma "paquinha" veio lá do fundo, furiosa, com uma carantona ferocíssima. Juquinha conhecia esses grilos terríveis,quemordem,earrancouameninadelá. — Oquevaleu—disseEmília,segurando-adenovopelamão— foiqueapaquinhaestranhouochumaço.Nuncaviu"bicho-algodão". Veio

da boca arreganhadaparamorder,masvacilou.Vimuitobem.Issoébom para vocês aprenderem o perigo que há nos buracos redondos. Buraco redondo quer dizer buraco feito, e quase todo buraco feito tem sempre donodentroouperto.Eessesdonossedefendem.Muitomaisseguroéum vãooufresta,porquenãosãoabrigosfeitos por bichos. São abrigos "acontecidos".Umtijoloouumpedaçodetelhaoupaucaidecertojeitoe "acontece" ficar um vão. É o abrigo que devemos procurar. Mas buraco redondo,nunca! Candocatremiademedo.Quissairdali,voltarparaarua. —Espere,menina.Jávamos.Estoudandoumaliçãodevidanova, porqueavidaagoraéesta.Acabou-seotalnegóciodecasaequartocom cama,eaZulmiracomamamadeira,eamamãecomocolo.Agoraéalina batata!Oucuidadesimesmaoulevaabreca.Aprenda. Juquinhacompreendiadepressaasexigênciasdavidanova,massó pensavanumacoisa:encontrarumbesouroparamontar.Nãotinhamedo nenhum de besouro — nunca tivera. Considerava-os perfeitamente inofensivos e bobos. Afinal saíram da floresta e foram outra vez para o cimentodacalçada.Elá,emvezdebesouro,sabemoqueapareceu?Um beija-flor.Estavazunindoemcimadumenormepédemalmequeramarelo. Ao ver aqueles chumaços, lembrou-se do ninho em construção. Desceu comoumaflechaezás!levouaEmíliapelosares. Candoca rompeu num choro apavorado, enquanto Juquinha arregalavaosolhos,semsaberoquefazer.

XI

NONINHODOBEIJA-FLOR

OpasseiodeEmíliapelosaresfoicurto,porquetodasasdistâncias

ficam curtas para a rapidez dos beija-flores. Aquele estava justamente acabandodeconstruiroseuninhonumburacodaestrada,àbeiradavila. Chegoulá,soltouoalgodãoeajeitou-ocomobicoemcertopontodoninho. Depoisafastou-se.Iacomcertezabuscarosoutroschumaços. Emíliabotouacabecinhadeforaeespiou.Umninhoenormede diâmetroigualacincovezesasuaaltura.Ovonãohavianenhum.Sópaina detodososlados.Emíliaestavaapensarnoquefazerquandoouviuum barulho.Eraoimensobeija-florquevoltavacomoutrochumaçonobico—

oJuquinha.NaterceiraviagemtrouxeaCandoca.Emlliaadmirou-sedevê-

la calada, mas aquele silêncio vinha dum aviso do Juquinha. "Se você continuaachorar,estesmonstrosdescobremonossomimetismoeadeus, Candoca!"Elacompreenderaecalara-se. O lindo colibri arrumou do melhor jeito os dois algodões e acomodou-senoninho.Eratardejá,horadasavesserecolherem.Emília

ficou quietinha pensando. Não lhe passou pela cabeça falar com os companheiros. Muito distantes dela, além de que o beija flor podia perceber.Tratoudeacomodar-secomomelhorpôdeedormir.Edormiua maisagradávelnoitedesuavida.Quedeliciosaquenturinha! Teve um sonho. Estava no sítio, escondida com tia Nastácia no canudo de bambu. Nisto Dona Benta apareceu montada numa taturana. "Queéqueprocura,DonaBenta?""Omeutamanho",foiaresposta."Um ladrãoentrouaquinacasaemeroubouotamanho"Eosonhoiaporaí além.

QuandoEmíliaabriuosolhos,jáeramadrugada.Oprimeirocanto depassarinhoqueouviufoiodumacorruíra."Pareceumcolardebolinhas borbulhalhas", pensou ela consigo. O segundo canto foi o dum casal de joão-de-barro, gritadíssimo, como "briga de dois ecos". Depois, o dum sabiá;"pareciaumpingãod'águasonoracaindodentroduma

cuia".Depois,odoscanários,tico-ticos,saíras,pintassilgos,anus,

bem-te-vis etc. — uma verdadeira orquestra sem maestro, em que cada músicotocaoseuinstrumentosemseimportarcomovizinho. Porfimosolcomeçouailuminaromundo;obeija-florergueu-se doninho,abriuobiconumbocejoevoou.Iacuidardoalmoço. Emília mexeu-se, em procura dos companheiros. Esbarrou logo adiantecomumovoquelhedavapelacintura—oprimeiroovinhobotado pelobeija-flor.DooutroladodoovodeucomoJuquinhajádepé.Sóa Candocaaindadormia.

— Quetalanoite?—perguntouaomenino.

— Ótima! dormicomonunca—eaCandocatambém,porquenão

ouvichoronenhum.Eobeija-flor?

— Saiucomcertezaparaoalmoço.

—Evamosficaraquitodaavida?

— Não.Vamosalmoçartambémedepoisdescer.

— Almoçaraqui?Nãovejanada

— Eoovo?

— Mascomopoderemosquebrartamanhoovo?

Emílianãoabandonavanuncaasualançadeespinho.Tirou,ade

dentrodochumaçoedisse:

— Tenho cá este ótimo abridor deovo.

Eafestacomeçou.Osdoisagarraramnalançaepuseram-seafazer movimentos de mão de pilão, batendo com a ponta sempre no mesmo lugar.Eraduraacasca,mascedeu.Derepentealançaafundou,deixando quesaísseumagotinhadeclara.

— Bom—disseEmília.—Agoraeuenfioalançalánofundopara

vararagema—edepoislamberemosagemadaquevier. E assim fez. O primeiro mergulho da lança trouxe gemada suficienteparaoestômagodeduasEmílias.Juquinhanãosecontentoucom uma fisgada. Exigiu três. Comiam com a mão. Passavam a mão sobre a pontadalançaamareladegemaelevavamaquiloàboca. DepoisacordaramaCandocaederam-lheumafisgada.Amenina

lambuzou-setoda. —Estácomcaradequemcomeumanga — disse Emília rindo- se, enquantolimpavaalançaeguardava-adentrodochumaço. Veio-lheumaidéiaótima.

— Esemolhássemosdeclaraasnossasbotasdealgodão?

— Paraquê?

— Bobinho.Aclaraéal-bu-mi-na.Repita!Secanuminstanteeune

as fibras. Ficaremos assim com verdadeiras botas, da forma exata dos

nossospés.

Edeuoexemplo.Ensopoudeclaraoalgodãoenroladonospése

espichou-osparaumraiodesolafimdequesecassem.Juquinhagostouda

idéiaefezomesmo—edepois,àforça,também"albuminou"ospésda

Candoca.

— Eagora?—disseeledepoisqueviuasbotinhassecaseainda

melhoresdoquesefossemdecouro.

— Agora,umvôodepára-quedas!Temosdenosjogardesteninho

abaixo.Assim,dentrodoalgodão,nãoháperigodemachucadura. Treparamàbeiradadoninhoeolharam.Aquiloalieraumimenso barrancodecincometros,rasgadonaterravermelha.Láembaixoficava umalarguíssimafaixadamesmacor—aestrada.Emíliapensoueresolveu. —Vamos primeirojogar a Candoca.Depoisnosatiraremos. Assim fizeram. A menina berrou como nunca, quando eles a agarraram e a empurraram para o abismo — e lá se foi rolando. Infelizmente não chegou até à estrada. Ficou presa a um capim do barranco. Emília eJuquinha tiveram maissorte;caíram sobreum "areai preto".Osenxurrosdachuvacostumamdeixaràbeiradasestradasessas

pequeninas praias de areia preta. Aquela ali teria uns dois palmos de extensão,masparaaEmíliapareceubemgrande.Experimentouandarcom asbotinhasalbuminadas.

— Ótimo!Agorajánãotenhomedodechãonenhum.Nuncamehei

deesquecerdoqueosmeuspéspadeceramnopedregulhodaquelejardim

—edeuumacorridinhasobreaPraiaPreta.

— E a Candoca? — lembrou Juquinha. Olharam para o alto. Lá estavaochumaçodaCandoca,presoaocapimdobarranco.

— Oremédioéesperarqueoventosopreeelacaia—resolveu

Emília.

— Esesubíssemosatélá?

— Poderíamossubirmasnãoassimde'roupa"—esetirarmosa

roupavoltaremosacorrerperigo.Hámuitasaranhasnesses"buracosde

raízes".

Naquele ponto da estrada ainda não batera o sol, de modo que haviaorvalho.EmíliaeJuquinhabeberamos"diamanteslíquidos"duma peludafolhadecapim. — E agora? — disse Emília para si mesma. — Que fazer? Não tenhoserviçonenhum.Nãotenhoobrigações.Nãotenhocasa,nemesposo. Minha vida vai ser sempre esta. Ir andando pelo mundo, cautelosa na defesaeacuidardoestômago.Oproblemadacomidaéfácilparaquemse contentacompouco.Ontemalimentei-medemel.Hojedegema.Porissoé quehátantosbichinhosnomundo—facilidadedealimentação.Qualquer

iscalhesbasta;osimplesmeldeduasoutrêsfloresencheopapoduma vespa.Enemtenhomedodovento.Queoventovenhaemeleve!Tantome faz estar aqui como ali. Esta nossa invenção do pára-quedas vai ser a salvaçãodanovahumanidadepequenina.Mas esevierchuva? Emília pensou em chuva porque o céu estava escurecendo. Um roncodetrovoadaecooulonge.Pôs-searefletir."Seachuvamolhameu algodão, adeus pára-quedas e adeus defesa! Fico reduzida a um pinto peladoquecaiunomelado.Logo,tenhodedefender-medaschuvas.Como? Escondendo-meemlugaresondeachuvanãocaia.Quelugaressão?Isso dependedopontoemqueeuestiver.Nascidadesháascasas—masem "

campoaberto,comoaqui? Olhouemredor.Aestradacorriapelaencostadummorro,como barranco vermelho dum lado e uma grota do outro, no fundo da qual deslizavaumribeirãoentrepedras.Emíliaviunobarrancomuitosburacos deraízes,epensou:"FoibomqueoViscondemeexplicasseaorigemdesses buracos.Muitagentepensaquesãoburacosdecobraououtrosbichos,mas nãosão.São"buracosderaízes".Quandooshomensabremasestradas,os enxadões dos cavoucadores cortam muitas raízes dentro da terra. Essas raízescortadasvãoapodrecendoeafinalsedesfazemempódemadeira podre,deixandonaterraomoldevazio.Osburacosqueestouvendosão,

portanto,buracosderaiz,enãoburacosdebichos.Operigoéoburacode

bicho,porquetodostêmdono.Quedonos?Osbichosqueabriramesses

buracos.Masburacoderaiznãotemdono,porqueadonadeleseraaraize

araizapodreceuefoi-seemborareduzidaapódepaupodre.Logo,apesar

deredondoétambémumburaco"acontecido"comoosvãosdetijolooude

cacosdetelha.

— Juquinha—disseela—achuvavemmesmo.Equandoachuva

vier,estapraiaviraráumAmazonasquenoslevaránacorrenteza.

— Quebom!—exclamouobobinho.—Podemospescarpirarucu.

Emíliatevedó.Quefaltadejuízo!Pescar! Umalgodãopescando! Edissequeospescadosseriameles.

— As chuvas formam ribeirões nas estradas, esses ribeirões

correm para os rios, os rios correm para o mar, o mar corre para as nuvens—easnuvens"corremdenovoporaqui" Juquinhadeuumarisadadeignorante.

— Riocorrendoparaomareuentendo,masmarcorrendoparaas

nuvensnuncavi.

— São modos de falar, Juquinha. Se você lesse o poeta Castro

Alves,compreenderia.Realmente,omarnãocorreparaasnuvens;masa água do mar evapora-se e sobe ao céu, onde forma as nuvens, e depois essasnuvensviramchuvaeaáguadachuvacorredenovopelasestradas.

Entendeu? Nessemomentoumtrovãotrovejouelogoemseguidasobreveio umfortepé-de-vento.Emíliamaltevetempodeabraçar-sea x umafolhade capim;Juquinhalerdeou—efoiarrastadoparalonge.Emíliaergueuos olhosparaobarranco.OalgodãodaCandocatinhasesoltadodoganchoe láiapelosares,quenempaina!"Apostoqueestáchorandoechamandoa "

mamãe

Emíliaexaminouobarranco.Acertaalturaviuumburacoderaiz muito jeitoso. Era fácil subir até lá, mesmo com o algodão. Esqueceu o

Juquinha,esqueceuaCandocaetratoudesubir,porqueomomentoerados taisdo"salve-sequempuder". A chuva vinha vindo. O verde do morro lá adiante embaciou-se comoosvidrosdajanelaquePedrinhobafejavaparadepoisescrevercomo dedo. Vinha vindo chuva de verdade' Emília subiu, agarrando-se no que pôde.Oburacoderaiztinhaquatrovezesasuaaltura.Entrou. Queazar!Eraumburacojáocupadoporalguém:umaenormíssima epeludíssimaaranhacaranguejeira!OcoraçãozinhodeEmíliabateu.Ficou comooGarimpeirodoRiodasGarçasquandoseviuentreaOnçaeoJacaré. Maspensoudepressa."Entreaaranhaeachuva,antesaaranha.Chuvaé milvezespior,porquechuvanãotemremédioecomaranhamuitacoisa pode acontecer. Ela pode não desconfiar do meu algodão. Pode estar dormindo. Pode até ter dó de mim. As aranhas são 'enganáveis' — mas quemenganachuva?EEmíliaficouimóveldecabeçaenterradanoalgodão, espiandoporentreasfibras.Comofosseumburacomuitoescuro,elamal percebiaovultodaaranha.Sódepoisqueseusolhosseacostumaramas trevaséquepôdedistinguiroferrãovermelho. Aaranhanãofaziaomenormovimento.EstavacomoaCucado Saci,parada—vivendo.Essesbichosgostamdeviver,deficarvivendo,só, semmaisnada.Nãoeradasdeteia.Eraaranhadetoca. A chuva chegou — chuáááá Tudo escureceu. Emília já não enxergavaovermelhodoferrão.Sóvianegrores.Suacabeçaficavaaum terço da altura da aranha e num movimento que ela fez para ajeitar-se melhor, tocou num pêlo daquelas pernas. Emília lembrou-se do caso de DonaBenta,quandosesentounodedodoPássaroRocapensandoqueera raizdeárvore.Opêlodaaranhapareciaumespinhodecacto. Achuvaláforaeraumchuáááásemfim. Aquele barulho de chuva, sempre o mesmo, começou a dar-lhe sono.Seusolhinhossefecharam—eEmíliaviu-seoutraveznoSítiodo PicapauAmarelo.Estavamtodosnavaranda,domesmotamanhoantigo,a

comer pipocas. De repente, a cara do Manchinha apareceu na escada. "PareceogatoFélix,vovó"—disseNarizinho—maslogoarregalouos olhos,comolouca,porqueogatofoicrescendo,crescendo,atéficarmaior doqueacasa.EdaípordianteosonodeEmíliaviroupesadelo.

Quandoacordou,oaguaceirojáhaviapassado.Umanesgadeazul apareceunocéuelogoveioosol.Oferrãovermelhodaaranhaestavaagora bemvisível.Vermelhodetomate.Aaranhafezummovimentoparasair. Emília encolheu-se toda quietinha. A aranha moveu uma perna, depois outra, e foi saindo. Na entrada do buraco parou e esteve muito tempo quentandosol."Seráquevaificaralitodaavida?"Não,nãoficou.Depoisde aquecer-seaosol,saiu,subiupelobarranco.Iacaçarnomato,láemcima.

XII

OGIGANTEDECARTOLA

Emíliafoiparaaentradadoburaco.Aestradavermelhaparecia

mover-se, de tantas águas que escorriam. Todos os galhos pingavam. O mundopareciapolvilhadodemicaempó—detantosbrilhos.

— Onde andarão o Juquinha e a Candoca? — pensou ela. —

Mortíssimos,comcerteza,afogadíssimos.Boboscomosão,dequemodo

poderiamresistiraumachuvadestas? Foidescendopelaterraúmida.Felizmente,nosbarrancosaágua corre depressa, não empoça. Ao chegar perto da prainha preta não viu praianenhuma.Estavacobertadeáguavermelha. Emíliasentou-se,resignada."Tenhodeesperarpeloquederevier, comodiztiaNastácia." Ficouvendoasúltimaságuasvermelhasseguiremseuscaminhos dedescida.NocomeçoaquelaságuashaviamsidoverdadeirosAmazonas; depoisforamsetornandorioscomuns;depoisviraramribeirões;eagora estavam reduzidos ,a agüinhas. Acabaram-se as correntezas. Só ficaram poçaselagos.Aareiapretadapraiacomeçouaaparecer.Emíliadesceuo resto do barranco e pisou naquela areia tão linda. Muito úmida. Suas botinhas eram capazes de derreter. Emília não se importou. "Querem derreter?Poisderretam.Depoisterãootrabalhodesecardenovo." Umacoisasurgiulálonge.Umacoisamóvel,quevinhaandando. Emíliafirmouavista.Umenormíssimoespequedecartola.

— SeráoBenedito?

Era sim. Era o Visconde de Sabugosa! Era o Visconde que vinha

vindo—masqueViscondão,meuDeus!Omaiorviscondedomundo!Um

gigantegigantesco. Emíliaabriuaboca,numassombro. — Éissomesmo!—murmurouconsigo.Elenãodiminuiuporque "vegetalfalante"nãoégente.Quebom!Grandeassim,oViscondevaisera minhasalvação.

OViscondemediaexatamente44centímetrosdealtura,contando

comacartolanova,queeradecopaaltacomoadoPresidenteLincoln. QuarentaequatrovezesmaiorqueaEmília—umverdadeiroarranha-céu decartola. A alegria de Emília foi imensa. Bateu palmas. Pulou. Dançou. E quandoseaproximoudaPraiaPretadeuumberro:

—Visconde,soueu!AEmília! MasoViscondecontinuouaandar, comosenãotivesseouvido."Seráqueficousurdoouaminhavoz nãochegaatéàimensaalturadaquelasorelhas?" Devia ser isso e, na maior aflição, Emília ficou sem saber o que fazer. Não achava meio de atrair a atenção do Visconde. "Berrar não adianta.Oremédioéacompanhá-lo,atéver."Epôs-seaseguiroVisconde.

MasoViscondedavapassosde10centímetrosdecomprimentoe

ospassosdaEmíliaeramde3milímetros,demodoquenãohaviamaior

asneiradoquetentarsegui-lo.Naqueledesespero,porém,Emílianãofez caso da asneira e "fincou o pé" na lama, atrás do Visconde. Quantas dificuldades,meuDeus!Haviaasgrandeslagoasquetinhaderodear—as porinhas de água barrenta formadas nas impressões das ferraduras dos cavalos.Ehaviaosmorrosemontanhasatrepar—asirregularidadesdo tijucodaestrada.Eagoraeraumgrandetroncodeárvoreouumagrande pedra — os pedacinhos de pau ou os pedregulhos que há em todas as estradas. Esses tremendos obstáculos retardavam-lhe horrivelmente a marcha, além de que suas botinhas molhadas começaram a esfiapar. Diversasvezesparouparaamarraraspontasdasfibrasdoalgodão.Eo Viscondecadavezmaislonge,comaquelaspassadasgigantescas!"Parece

quecalçouasbotasdesete-léguasdoPequenoPolegar!" FelizmenteoViscondeeraumsábio,eossábiosnãosabemandar natoadafirmeecontínuadosignorantes.OViscondeandavaumpoucoe paravaparaobservarqualquercoisa.Aqui,umcoleópteronovoqueelevia pelaprimeiravez—eficavadecócorasexaminandoobichinhoetomando notasemseucaderno.Depois,umapedrinhaqualquer—ouum"mineral", comoeledizia.Oueraum"efeitodeótica"numateiadearanha.Ecadavez queparava,Emíliaoalcançava.Masassimqueelaoalcançava,elepunha-se de novo a andar, até que nova "curiosidade da natureza" o detivesse. Parecia esses curiangos que ao anoitecer vão voando e pousando nas estradasàfrentedosviajantes. Emcertoponto,umabiquinhanaspedrasdobarrancoodeteve.O Viscondeparounaquelepontoparaexaminarumreflexonaágua.Depois sentou-se.Depoiscomacabeçaapoiadanumadasmãoseosolhosfixosno reflexo."Éhora!"—disseEmília,apressandoopasso."Naquelaposiçãoo seuouvidoesquerdoficaaoalcancedaminhavoz. Restaqueeuchegueantesqueeleseergadenovo." Emília caminhou firme, aproveitando as prainhas de areia para correr—eafinalalcançou.Estava,porém,tãocansadaquenosprimeiros momentosavoznãolhesaiu.Deteve-sediantedocotovelodoVisconde,a arquejar,semfôlego. Oenormesábionãoapercebeu.Estavadistraídonacontemplação doreflexo. Depois de bem descansada, Emília encheu de ar os pulmões e berroucomamaiorforçapossível:

— Visconde!Soueu,aEmília!Estouaquiembaixo,pertodoseu cotovelo. O sábio acordou da contemplação científica. Pendeu a cabeça. Tinha ouvido um som de fala; mas como o seu pensamento estivesse ocupado com outra coisa, não percebeu o que a fala tinha dito. Emília

berroudenovo,commaisforçaainda.

— Visconde! Sou eu mesma — aEmília! Ogigantefranziuassobrancelhas.

— Emília?Onde?

— Aquiembaixo,pertodoseucotovelo.

OViscondedesceuosolhosparaocotovelo,comorostoiluminado

pelacuriosidade.

— Estou ouvindo uma voz mas não vejo nada. Perto do meu

cotovelosóháumchumacinhodealgodão. — Poisessealgodãosoueu—estoudentro.Éaminhadefesa. Pegue-meelevante-me. OViscondeergueuoalgodão—ecomalgumesforçodistinguiuno chumaço uma cabecinha do tamanho duma cabeça de saúva e dois pezinhosembaixo,dotamanhodecabeçasdealfinetes.

XIII

REVELAÇÕES

O sol estava quente. Emília, afogueada pelo exercício não pôde maiscomo calordoalgodão.Despiu-seeficounuazinhanapalmadamãodo Visconde,sódebotas.Eleergueu-aàalturadonarizedisse:

— Pode falar. Conte tudo o quehouve.

Emíliacontoutudo—asuaviagemàCasadasChaves,apuxada

parabaixodaChavedoTamanhoeo"apequena-mento".

OViscondehorrorizou-se.

— Será possível? Então foi você, Emília, a causadora do tremendo desastrequevitimoua"humanidadeclássica?"

— Fuieu,sim,masnãofoiporquerer.Euqueriaapenasdescobrir

a Chave da Guerra, só isso. Mas as chaves não tinham letreiro. Resolvi entãoirmexendoemtodasatéacertar.AprimeiraquepegueieraaChave doTamanho—quemprimeiroficousemtamanhofuieu. Ecomo perdio tamanho, não pude erguerdenovoaquelachave—epronto.

OViscondenãovoltavaasidoassombro.

— Éespantosooquevocêfez,Emília!Issojánãoéreinação.Issoé

catástrofe!Peloqueobserveilánosítioestouimaginandooquesedeuno

mundointeiro—eagoraeuiaindoàcidadeparaassuntar,paraverseo

apequenamentoalcançoutodasascriaturas.

— Jáestiveláevi—volveuEmília.—Alcançousim. Otamanho

detodasasgenteslevouabreca.Quemmandaagoranascidadessãoas

galinhas,ospassarinhoseosgatos—econtouahistóriadopintosura.Se

nãofosseaquelemalvado,euestavamuitobemlánosítio.Eleéqueme

atrapalhou.

— Pois o que você fez passa de todas as contas, Emília! Se os

homens souberem, não perdoam. Agarram-na e assam-na viva na maior

dasfogueiras.Incrível!Destruirotamanhodascriaturas! Sabequeisso correspondeadestruirtodaacivilizaçãohumana?Desdequeomundoé

mundo,oshomens,comasmaioresdificuldades,foramconstruindoessa

civilizaçãofeitadecasas,máquinas,estradas,veículos,idéias.Tudoestava

emrelaçãocomotamanhonaturaldoshomens.Masagoracomaredução

dotamanho,nadamaisservee,portanto,oquevocêfez,Emília,foidestruir

Dotamanhinhoqueoshomens

ficaram, eles têm de criar outra civilização muito diferente — isso na hipótesedesubsistirem.OViscondegostavamuitodapalavra"subsistir".

acivilização!Des-tru-iraci-vi-li-za-ção!

— Poispodemsubsistirmuitobem—resolveuEmília.—Euestou

subsistindo perfeitamente. Já escapei de vários perigos — duma

"paquinha"feroz,doManchinha,daaranhacaranguejeira,dobeija-flor,do

vento,datempestade—epossoirescapandodemiloutros.Juroquevou

subsistir.Apliqueiemmeucorpoestemimetismodoalgodãoepronto.

— Mas, Emília, lembre-se que você é você e os outros são os outros.Quantoshomensjánãopereceram?Sóosquenãopuderam sair

Eosmilhõesde

de dentro das roupas,quantosequantos,Emília!

soldados em guerra lá na Rússia em pleno inverno, que terá acontecido

comeles?

— Ah,essesvirarampicolé—juro!

— Enãosehorrorizacom'isso?Aindacaçoa?

— Porquehorrorizar-me?Elesnãoestavamsematandounsaos

outros? Eu até lhes poupei o horrível trabalho da matança a tiros de canhão.

— Epelascidadeseroçasdomundointeiro!Quandoimaginoo

quedeveteracontecido nas cidades e nos campos,meuscabelosficam

depé.-Eagoravenhoasaberqueacausadoradetudofoivocê,aEmília—

aEmilinhaládosítiodeDona Benta! Evidentementevocêseexcedeu, Emília.

O Visconde estava tão tonto com os acontecimentos, e ficou tão bravocomela,queEmíliadanouesustentouoquehaviafeito.

— PoisacabeicomoTamanhoefizmuitobem!—disseela.—

ParaqueessetrambolhodoTamanho?Nãohátantosetantosmilhõesde

seresquevivemsemtamanho?Tamanhoéatraso.Querumacoisamais

atrasadaqueumbrontossaurooumastodonte?Tãoatrasadosquelevaram a breca, não agüentaram a "glaciação", como o Walt Disney mostrou na Fantasia.Compareaestupidezdessesmonstrostamanhudoscomaleveza inteligente duma abelha ou formiga — e por isso os brontossauros e mastodontes só existem hoje nos museus, enquanto as abelhas e as formigas andam por toda parte aos bilhões. Eu acabei com o Tamanho entreoshomensefizmuitobem.Umdiaahumanidadenovameháde agradeceropresente,depoisquearaçanovados"homitos"seadaptar.O Viscondesuspirou.

Adaptar-se! Você usa das palavras da ciência mas não sabe.

Repete-as como papagaio. Isso de adaptação é certo, mas é coisa de milharesdemilhõesdeanos,Emília.Pensaentãoquedodiaparaanoite essa enormepopulação humana,quevocêapequenoueestánosmaiores apuros, vai ter tempo de adaptar-se?Morretudoantesdisso,como peixeforad'água—eadeusHomosapiens! — Homo sapiens duma figa! Morrem muitos, bem sei. Morrem milhões, mas basta que fique um casal de Adão e Eva para que tudo recomece. Omundojáandavamuitocheiodegente.Averdadeiracausa dasguerras estavanisso—gentedemais,comoDonaBentaviviadizendo. Oqueeufizfoiumalimpeza.Alivieiomundo.Avidaagoravaicomeçarde novo—emuitomais interessante.Acabaram-seoscanhões,etanques,e pólvora, e bombas incendiárias. Vamos ter coisas muito superiores — besouros para voar, tropas de formiga para o transporte de cargas, o

problema da alimentação resolvido, porque com uma isca de qualquer coisaum estômago se enche, etcoeteraetal.

— Mas

OVisconde,comobomsábioqueera,engasgouecomeçouaachar razãozinhanasidéiasdaEmília.

— Pense bem, Visconde. A tal "civilização clássica" estava

chegandoaofim.Oshomensnãoviamoutrasoluçãoalémdaguerra—isto

é, matar, matar, matar, destruir todas as coisas criadas pela própria civilização—ascidades,asfábricas,osnavios,tudo. Pensebem,Visconde. Essatalcivilizaçãohaviafalhado.Haviaenveredadoporumbecosemsaída —easaídaqueachavaqualera?Suicidar-seatirosdecanhão.Orabolas! Eu até me admiro de ver um sábio com um cartolão desse tamanho defenderummundodeditadores,cadaqualpiorqueooutro. OViscondecomeçavaaconcordar. — Além disso — continuou Emília — se os homens querem regressaràtalbesteiradotamanho,nadamaisfácil.Suaalma,suapalma.

— Como?

— Muito simples. Poderei voltar àCasadasChaves.Euseio jeito. Iremos juntos. Como não tenho força para levantar a chave, o Viscondealevantaepronto—tudoficaoutraveztamanhudo—equese fomentem — que se matem à vontade — que se devorem. Eu me

desinteresso.Quisobemdahumanidade.Acabeicomaestupidezmaiorde todas,queeraoTamanho.Masnãoquerem?Nãoestãocontentes?Teimam em continuar na vida de mastodontes bípedes? Pois sua alma, seu palmito!QuevolteoTamanho.Masdepoisnãovenhamsequeixarpara mim

OViscondeestavapensando.Sim,Emíliatinharazão.Elespodiam fazer uma consulta aos homenzinhos. Se quisessem voltar ao tamanho antigo,muitoquebem:Senãoquisesse,melhor.Lánofundodocoraçãoo Viscondepreferiaqueascoisasficassemcomoestavam,porqueelepassara

a gigante, em vez de continuar um simples sabugo. E Emília realmente tinharazão.Osinsetossãoosseresmaisaperfeiçoadosqueexistemenão têm tamanho. Ora, com a sua inteligência os homens pequeninhos poderiamdominarosinsetos,utilizar-sedemilharesdelesparamilcoisase construirumanovacivilizaçãomuitíssimomaisinteressantequeavelha.E resolveu:

— Poisbem,Emília,faremosumaconsultaaospovosdoPicapau

Amarelo.SeamaioriaquiseravoltadoTamanho,iremosjuntosatéàtal Casa e recolocarei a chave na posição em que você a encontrou. E se a maioriaquiserestaOrdemNova,entãoquefiquetudocomoestá.

— Poisé!—concordouEmília.—Oremédioagoraéum'bom"chá

deplebiscito".Masporcausadasdúvidas,Visconde,nãoconteaninguém

quefuieuabulidoradachave.Ninguémprecisasaber—nemDonaBenta,

nemNarizinho.Juraquenãoconta?

— Estáclaroquejuro.Seeucontasse,vocêestariaperdida

Acertados aqueles pontos, Emília desfiou a história do Major Apolinário,DonaNonocaetiaFebrôniaedecomoelasehaviatornadoa tutoradosdoisórfãos.

— OventolevoupelosaresaCandoca,eoJuquinhacomcerteza

afogou-se no enxurro. Mas, para sossegar a nossa consciência, podemos procurá-los.

Depoisresolveramdiversospontosdavidanova.

— Euviajareimuitobemdentrodasuacartola,Visconde.Basta

quemeabraaliumajanelinha.

OViscondeaprovouaidéia.DepôsEmílianochão,tiroudacabeça

àcartolaecomocortedumalascadequartzoabriunopapelãodacartola

umajanelinhade3por3milímetros.

— Maior,Visconde.Façaumajanelinhade3por9.

— Porquê?

— PorqueseencontrarmosoJuquinhaeaCandoca,elesterãode

seguircomigoaquidentro—etambémprecisamdejanela.

OViscondeabriuumjanelãode3por10.—Antesmaiordoque

menor. Assim ninguém brigará em cima da minha cabeça por falta de espaçovital

XIV

ACAMINHODOPICAPAUAMARELO

Emília não se contentou com a janelinha aberta na cartola do Visconde.Exigiumais.

— Queroumaportadaruaeumaescadinhaquevádaabaatéessa

porta.Etambémum assoalho,porquenãoheideficarpisandonasua cabeça.

O Visconde suspirou. Emília continuava a mandona de sempre.

Queria e acabou-se. Olhando em redor, em procura de materiais de construção,oobedienteViscondeviuumacascadelaranja.Apanhou-ae comalasquinhadequartzorecortouumarodeladotamanhodumníquel grandequeajustoudentrodacartola.Eraoassoalho.Emseguidafezuma

escadinha de sete degraus, que ia da aba da cartola até a porta da rua. Emíliaaindaexigiuumcorrimãonaescadaeumacercaemredordaaba.

O Visconde construiu uma cerca de dois fios, com moirões de

espinho.

— Só?—perguntouaoconcluirotrabalho.

— Aindanão—respondeuEmília.—Queroumaescadinhade cordaquedesçadaabaatéàterra,comoasusadasnosnaviosetambém umacampainha.

— Campanhia,como?

— Bastaumfioamarradoaumadaspalhasdasuabarba. Quando

houverprecisãodumchamadourgente,puxoofioepronto.

— Não vejo necessidade de semelhante coisa, arrenegou o

Visconde. Quando quiser falar comigo, basta chegar a janela e gritar. A

janelaépertinhodomeuouvido.

Emíliadeuumarisada.

— O Visconde não se conhece. Os sábios são as criaturas mais

distraídas do mundo. Quando o Visconde está ruminando uma idéia

qualquer, não ouvenemtirodecanhão,quantomaisumchamadinhomeu. Comofiopresoàbarba,acoisamuda.Douumpuxão.Ador"acorda"o Visconde. Tudofoifeitocomoelaquis,edepoisdeinstaladaládentroEmília aindareclamouumachaminé—porcausadaventilação.OViscondeteve deespetaremcimadacartolaumcanudinhodecapim. Muito bem. Podiam continuar a viagem. Para onde? O Visconde

saíra do sítio para "assuntar", isto é, ver se todas as criaturas humanas estavam diminuídas, ou se a redução se dera apenas em casa de Dona Benta.MasoencontrocomEmíliatornavainútilaidaàcidade.Todasas criaturasestavamreduzidas,sim,eaautoradagrandetransformaçãoeraa iscadegentequeseacomodaraemsuacartola!

— Creioquepodemosvoltar—disseele.—Minhaidaàcidadejá

nãotemrazãodeser.

— Sim—concordouEmília—massódepoisdeprocurarmosos

meusórfãos.Achoimpossívelqueelestenhamescapadodachuva—mas

quemsabe?Temosdeprocurá-los.

— Ondefoiqueseperderam?

— ACandocaestavajustamente naquelecapimquandooventoa

levou — respondeu Emília lá da sua janela, indicando um lugar no

barranco.EoJuquinhaestavacomigonaPraiaPreta.

— QuePraiaPretaéessa?

Emíliaexplicoutudo,eoViscondepôs-seaandaremprocurade

coisinhasbrancas,porqueaparentementeosdoisórfãosnãopassavamde

doisfiaposdealgodão.

Nadaencontrou.Sobreaestradavermelhanãoviubrancurinhade

espéciealguma.

Emíliaiapensandoemtodaashipótesesimagináveis.Ocertoera

estarem mortos, reduzidos a lama ou afogados nas lagoas que a chuva formaranotijuco.Issoeraocerto.Mashaviaoincerto—eeranoincerto queEmílialevantavaassuashipóteses. — Podemmuitobemestaremoutroninho.Osbeija-floresandam agoracomamaniadeovoeaapanharquantapainaoualgodãoencontram. OViscondepôs-seàcaminharcomosolhosnobarrancoemprocurade ninhos de beija-flor. Deu com um; subiu e espiou dentro; nada de chumaços,sóviudoisovinhos—eporordemdaEmíliafurtouumparao abastecimento da cartola. Mais adiante encontrou outro — e nesse estavamosdoischumaços.

— Viva! Viva! —gritouEmília, batendopalmas.—Bemdizo ditadoquequemprocuraacha.

OViscondetomounapontadosdedososdoisalgodõeselargou-os

emcimadaaba.

— Subampelaescadinha—disseEmíliadajanela—eosdois

órfãossubirameentraram.

Emíliamostrou-lhesacasanovaeexplicouquemerao"Colossode

Rodes"emcujacabeçaiammorar.Juquinhaficouradiante.Foiparaajanela

ecomeçouafazerplanos."Podemospegarumbesouroeamarrá-loaum

dosmoirõesdacerca.Enquantoeunãovoareunãosossego."ACandoca

haviaentradocomumbicodechoro,masnãochorou.Porquechorar,se

estavabemabrigadanaquelacasinhadeporta,janelaeovo?

PorordemdaEmília,Juquinhaabriucomalançaumfuronacasca

doovo."Edeixeoespinhoaí.Quemtiverfome,quedêumafisgadanagema

eregale-se."

— Bem,disseláforaavozdoVisconde—quesoavaparaeles

comovozvindadarua.—Creioquepossovoltarparaosítio.

Emíliacorreuadebruçar-seàjanela.

— Sim,podemosir—evácontandocomofoiatragédialáem

casa.

O Visconde pôs-se em marcha, com aquelas suas gigantescas passadasdemeiopalmocadauma,efoicontando. — Euestavanolaboratório,ocupadoemfabricarmaissuperpó, porquealgumladrãohaviafurtadoaminhareserva.De repente Pedrinho entrou e disse:"Visconde,aEmíliadesapareceuevovóestáinquieta."Eu respondi que minha caixa de superpó também havia desaparecido. Pedrinho iluminou a cara e exclamou: "Hum! Estou entendendo!" Eu estavacomosolhosfixosemPedrinhoquando,exatamentenesseinstante, istoé,noinstanteemqueeleacaboudepronunciarapalavra"entendendo" asuacabeçadesapareceu,esuaroupacaiuemmontenoassoalho,comose não tivesse corpo dentro. Fiquei impressionadíssima Era um fenômeno acima de qualquer compreensão. Olhei para o monte, com os olhos arregalados.Queseriaaquilo?Quefimlevariaomenino?Tudomistério. Sentei-meentãodiantedomontede*roupa e fiquei a parafusar hipóteses.Maspormaisqueparafusassehipótesesnãoachavanenhuma queservisse.Aquilomepareceuomistériodosmistérios. Emília, lá da janelinha, regalava-secomahistória.OVisconde continuou:

— Eupositivamentenãoentendianada.Chegueiasuporquefosse umsonho.Nistodeicomumacabeça,dotamanhodumapimenta-do-reino, que ia saindo pela perna da calça caída no chão. Evidentemente uma cabecinhadeinseto.Depoissaiuumpescoço—eombros,braços,tronco, pernas — e tive a impressão dum inseto descascado totalmente desconhecido da ciência. Corri em procura do meu vidro de aumento. Aqueleinsetoeraoassombrodosassombros,porquetodososinsetostêm seispernaseneleeusóviaduas—ealémdissoficavadepé,comoos bípedes,coisaqueinsetonãofaz.Olaboratórioestavameionoescuro.Fui abrirajanela.Assesteidenovoovidrodeaumentoeentãoviqueeraum meninoemminiatura.Eafinaloreconheci:Pedrinhoempessoa,massem

tamanho!

—Dequetamanhoeleficou?

— Vocêveráquandochegar.Masmeuespantonãotevelimites.A

ciência não explicava o prodigioso fenômeno. Notei que Pedrinho havia

perdido a fala. Só minutos depois conseguiu falar, murmurando numa

vozinhademosquito:"Quefoiqueaconteceu?Tudoestátãodiferentee

grande Custou a convencer-se de que nada estava grande, ele é que

diminuíra.

— Tal qual a gente do Major Apolinário — disse Emília.

Imaginavam que as coisas é que haviam aumentado — e eu até fiquei

atrapalhadaparaprovarocontrário.

"

OViscondecontinuou:

— Pedrinhoestavacompletamentebobo,oqueeranatural,pois

uma transformação daquela ordem desorganiza as idéias duma

criatura.Nãoháquemresista.

— Euresisti!—berrouEmília.

— Sim,masvocêévocê—umacriaturasui-generis.—OVisconde

gostavamuitodeaplicaresselatimaoacasodaEmília.

— Edepois?

— DepoisleveiPedrinhonapalmadamãoparamostrá-loaDona

Benta.Chegandoàsaladejantar,nãovininguém.Sóvimontesderoupano

chão—ereconheciessasroupas.Umdosmonteserafeitodaquelevestido

defustãoamarelocompintasverdesquevocêconhece—ovestidocom

queDonaBentaselevantaranaqueledia.Pertodessemontevioutro,no

qualreconheciaroupadetiaNastácia.Enummontemenorreconhecio

vestido de listras brancas e pretas de Narizinho. Fui assaltado por uma

idéia."Queremverquetambémaelesaconteceuamesmacoisa?"Epara

verificarsacudiovestidodamenina.Sabeoqueaconteceu?Pelamanga

rolououtroin-

seto descascado, ela — Narizinho em pessoa, e tão reduzida de

tamanhoquantoPedrinho!

quandodeicomumaiçápreta:tiaNastácia!Edepois,outroinsetobranco:

Eeuiasacudirosoutrosmontesderoupa,

DonaBenta!Ambashaviamconseguidosairdedentrodasroupas.

— Quegraça!

— Oquehouveentão,nemqueirasaber!Ninguémentendianada.

TiaNastáciaamontoavapelos-sinaisumemcimadeoutroeerasó"Credo!" emais"Credo!" DonaBentaeNarizinhoabraçavam-semuitoagarradas, comomãesefilhasduranteosnaufrágiosnomar.Quecena,meuDeus!

— Etodosnus?

— Sim,todosnus—respondeuoVisconde.

— Enãotinhamvergonha?

— Pareceque não. Nem percebiamqueestavamnus.

— Entãoéexatamentecomopensei.Issodevergonhadocorpoé

questãodetamanho.Edepois?

— Depoisdeitei-menoassoalhoparamelhorconversarcomeles,

enãotevefimoquedissemos.Cadaqualadmitiaumahipótese.Narizinho

foi a primeira a achar possível ter acontecido a mesma coisa a toda a humanidade.Essaidéiameimpressionou."Precisoverificaresseponto", disseeu—edaímeveioaidéiadechegaratéavila.

— Teveentãoacoragemdedeixá-loslásozinhos?—perguntou

Emíliaindignada.

— Erapreciso—mastomeitodasasprecauções.

— Queprecauções?

— Coloquei-osemcimadacômodadoquartodeDonaBenta,com

umascomidinhasparairemsedistraindo.

— Quecomidinhas,Visconde?

— Açúcarefarelodepão.Eágua.

— Emquevasilhabotouaágua?

— Numatampinhadegarrafadecerveja.Esaí.Fuiaopasto,em

procura do Conselheiro. "Olhe", disse-lhe eu, "passou-se lá na casa uma

coisatremendamentemisteriosaeabsurda:todosficarampequenininhos

comoinsetos."OBurroFalantearregalouunsolhosdestetamanho.Depois

riu-se,pensandoquefossebrincadeiraminha."Éverdade,sim,Conselheiro.

Bemsabequenãobrinco"—ecomoeletambémnãobrinca,deucréditoàs

minhaspalavras,ederrubouobeiço.Contei-lheentãoqueiasair—queia

chegar até à cidade para ver se o fenômeno pegara todas as criaturas humanas. "E, portanto, faça-me o favor de ficar no terreiro, perto da varanda,enãodeixequenenhumgatoouaveseaproxime.Elesestãosobre acômodadoquartodeDonaBenta."Fizessarecomendaçãoefinqueio,pé naestrada.

— NãoavisoutambémaoQuindim?

— Eleandavalonge.PediaoConselheiroqueoavisasse.

Juquinha já lera nos livros a história do rinoceronte do Picapau Amarelo,demodoqueaoouvirfalaremQuindimassanhou-se.Seusonho sempreforadarumpasseiomontadonotremendopaquiderme."Issoera bomantigamente",explicouEmília,"quandoéramosgrandes.Agora,deste tamanhinho,umrinoceronteestáparanóscomooHimalaiaestáparao CoronelTeodorico.Andarmontadonelejánãonosdarásensaçãonenhuma —agentenempercebeosseusmovimentos."Juquinhanãoquisacreditar. "É,sim"—afirmouEmília.—"TalqualaTerra.Estenossoplanetarolano espaço com uma velocidade incrível sem que nós percebamos coisa

nenhuma.Porquê?PorquesomospequeninosdemaisemrelaçãoàTerra."

Juquinhasuspirou.

XV

OCORONELTEODORICO

Depois de caminhar por uma hora pela estrada deserta de passantes,oViscondeavistouafazendadoCoronelTeodorico.

de passantes,oViscondeavistouafazendadoCoronelTeodorico. Boiseburrosandavamsoltospelasroças,comendoàfarta.Não

Boiseburrosandavamsoltospelasroças,comendoàfarta.Não havianinguémparaespantá-los. — Queroportarunsminutosnaquelacasa,Visconde!—berrou

Emílialádasuajanelinha. O Visconde, que estava remoendo uma idéia, não ouviu. Emília recorreuà"campainha".Comumfortepuxãonacorda,fezqueadorda barbaacordasseodistraídogigante. — Queháláemcima?—perguntouele. Emíliarepetiuaordemdeportarnoimensíssimocasarãobranco quedaliavistavameJuquinhanãoqueriacrerquefosseumasimplescasa velhadefazenda.Apesardetransformadonomaiorgigantedomundo,o Visconde, pela força do hábito, obedecia à Emília do mesmo modo que antigamente. E ela agora se tornara o seu verdadeiro cérebro, a manobradora da sua vontade. Parecia incrível que aquele piolinho de gente,ládentrodacartola,oconduziaparaondequeria. Ao entrarem no terreiro da fazenda ouviram mugidos tristes de vacafaminta.OViscondeencaminhou-separaoestá-bulo.Avacadeleite doCoronel,irmãdaMochadeDonaBenta,estavapresanabaia,semcapim nenhumnococho.Perto,oseubezerrinhochoravadefome. — Pobre animal! — murmurou o Visconde. — Ficou preso e morrerádefomeseeuonãoacudir.Quantosviventespelomundointeiro nãoseachamnamesmasituação! Abriuatrancadabaiaeescondeu-se,paranãoserdevoradode passagempelairmãdaMochaquelásefoimuitolampeira.Eleeraomaior gigante que jamais houve entre os homens, era a única esperança de salvaçãodahumanidade—mastambémerasabugoeasvacas"adoram"os sabugosdemilho.Depoissoltouobezerrinho. Emíliafezconsideraçõessobreaantigamaldadedoshomensque prendiamosbezerrinhospararoubaroleitedesuasmãesvacas."Quero verseagoracontinuamafazertamanhajudiação." A casa do Coronel estava com as portas escancaradas. Fora invadida por meia dúzia de leitões, que se regalavam na cozinha é na despensa.PorprecauçãooViscondetrepouaumacadeiraedestasubiuà

mesadasaladejantaraindacomospratosdoalmoçodavéspera.Olhouem

torno.

—Nãoescutocheirodenada—disseele.—Parecequeosleitões

devoraramtodososmoradores.

Masnesseinstanteumavozinhalhechamouaatenção.

— Estouaqui,estouaqui!

— Aquionde?

— Aquinestahorrívelcaverna.

Olhandonadireçãodosom,oViscondepôdever,numafrinchado

carunchadorodapédasala,umaespéciedecaroçodeervilha.Eraacabeça

doCoronelTeodorico,donodaFazendadoBarroBranco. — Estouescondidoaqui—continuouavozinha—porcausados hipopótamosqueinvadiramacasadepoisquetudoficouenorme.Elesjá devoraramaQuinotaeatiaAmbrosia.Escapeiporquemeescondiatempo nesta caverna que até ontem nunca existiu. Pela cartola e as barbas de palha de milho estou reconhecendo o viscondinho lá do sítio de Dona Benta, mas enormemente grande, como tudo mais. Não entendo coisa nenhuma.Omundocresceudummodoincrível.Seráqueestousonhando? O Visconde examinou a situação. Para salvar o Coronel, teria de descerdamesa,coisaperigosanumacasainvadidadeleitões.Quefazer?O Visconde não era criatura de grandes expedientes. Atrapalhava-se com pouco.FelizmentetinhaEmílianacabeça.

— Visconde—gritouela—estouvendoumacordasobreamesa.

Lance-aaoCoronel.

OViscondeolhoueviusobreamesaumcompridobarbante.Para

jogá-loatéà"caverna",teriadeatarumpesonaponta.Quepeso?

— Essacolheronaaí—lembrouEmília.

Era uma colherzinha de café das menores. O Visconde atou-a à pontadobarbanteejogou-a.

— Agarre-senisso,Coronel!

OCoronel,commuitomedoeaolharparatodososlados,saiuda

cavernaeagarrou-seàcolherinha.OViscondefoipuxandoobarbante.

— Uf exclamouoCoronelaover-seemcimadamesaelivredos

leitões.OViscondecolocou-osentadinhonapalmadamão.

— Comotenhopadecido!—suspirouopobreinsetodescascado.

—Durantetodootempo,lánaquelahorrívelcaverna,ummonstrocom forma de barata esteve me cutucando com as pontas de duas varas de bambus—efuiobrigadoasuportartudo,demedodesercomidopelos hipopótamos. UmarisadinhasoounacartoladoVisconde.OCoronelergueuos olhos,espantado.

— Nãoeramvarasdebambu,bobo!—gritouEmíliadajanela.—

Eramantenas.Eomonstronãotinha"formadebarata",porqueerauma

barataempessoa.

— Quemestáfalando?—perguntouoCoronel.—Essavoznãome

édesconhecida.

— Claroquenãoé—respondeuEmília,saindodacartolaevindo

debruçar-senacercadaaba.—SouaEmílialádosítiodesuacomadre

DonaBenta.

OCoronelficouassombrado.

— Estouareconhecê-la,sim.Eacomadrecomovai?Ascoisaspor látambémcresceram? — Tudoestánomesmo;aspessoaséquediminuíram.

Parafacilitaraconversa,oViscondetirouacartolaedepositou-a

namesa,ondetambémlargouoCoronel.

— Moroaquiagora—explicouEmília.—Esteéomeusítio.Nãoo

façoentrar porque um homenzarrão como osenhornãopassapela

nossaporta.

— Quemsãoessesmeninosaínajanela?

Emíliamandouqueosmeninosserecolhessem.Nãopodiamouvir

aconversa.

— São dois órfãos que estou criando, filhos do falecido Major Apolinário—explicouemseguida,baixandoavoz.

— Falecido? Pois então o Apolinário morreu? — murmurou o Coronel,empalidecendo.

— Eratãoamigodeleassim?

OCoronelengasgounaresposta.Depoisdisse.

— Amigo,propriamente,não,porqueoApolinárioeraperrepistae

eusemprefuidemocrático.Masaquelehomemdevia15contosàminha

sogra.Semorreuesódeixouessesórfãos,quempagaessadívida?

— Nãohámaisdívidas,Coronel.Nemhámaisdinheiro,nemnada

domundogrande.Agoraétudoalinopequenino;avidadoshomensvaiser amesmadosinsetos. — Pequinino? — repetiu o Coronelsementender.—Achoque sedeujustamenteocontrário: tudoficouenorme.Estamesaondetantas

vezes me sentei e mal dava para oito pessoas, parece agora mesa de batalhão.Tudosetornoumonstruosamentegrande.

— Estou vendo o contrário, Coronel. Tudo está do mesmo

tamanhodesempre.Nós,criaturashumanas,équediminuímos.Issoqueo

senhorsupõeserumbandodehipopótamos,nãopassadeleitõesdasua

fazenda.Acavernaemqueosenhorestavaescondidoéumasimplesfresta

dorodapépodredasuasala.Os15 contos desuasogra foram-se. Não pensemaisneles.Navidanovanãoexistedinheiro.

OCoronelviviadedardinheiroajuros,eaquele15contosdasogra

nãoeramdasogra,simdelemesmo;porissoempalideceratantoaosaber

da morte do devedor. Mesmo pequenininho como estava, a sua maior preocupaçãoeraodinheiro.

— Mas como poderemos viver sem dinheiro? — disse ele. — Enquantohouverhomensnomundo,haverádinheiro. Emíliatevedódaquelaburrice.Mostrouqueodinheiroerauma

dasmuitasconseqüênciasdotamanho,comotudoomaisqueoshomens

chamavamcivilização.Desaparecendootamanho,desapareciaodinheiroe

todaavelhacivilização.Alegouquemesmonomundoantigomuitagentejá

viviasemdinheiro,como,porexemplo,oViscondedeSabugosa,quenunca

possuiuumtostãofurado.Tambémosinsetosviviamperfeitamentesem

dinheiro.

— Masnósnãosomosinsetos—protestouoCoronelaindacheio

deorgulhodotempo em que tinhaum metro eoitentadealtura.

— Somosmenosqueisso,Coronel.Osinsetospossuemtrêspares

depernasenós,sóumpar.Emuitostêmasascomquevoamenósem

matériadeasassótemosasasasdonariz,quenãovoam.Eaindapossuem antenas,quesãoórgãosdotacto,algumasdelasdotadasdeouvidos—para apalpareouviraomesmotempo,coisaaperfeiçoadíssima.Aquelas"varas de bambu" com que o monstro, lá na "caverna", o cutucava, eram as antenasduminseto.Nóshojenãopassamosdeinsetosdescascados,sócoín umpardepernas,esemgarrinhasnospéscomoasformigas.Écomessas garrinhasqueelasseagarramaochãoesuportamovento—esobempelas paredes. ÒViscondeiaaprovandocomacabeça,eoCoronel,ignorantíssimo comoera,admirou-sedequeumgigantedaqueletamanhoaprovasseas "tolices"daEmília.Aidéiadequeeleestivessediminuído,emvezdetodas ascoisasteremaumentado,nãolheentravanacabeça.

— Se todas as criaturas diminuíram — disse ele — como o Viscondeficoutãogrande?

— OViscondenãomudouporqueémilho.

— Maselefala,pensa,éumaperfeitagente

— Sim,eissoéumdosmistériosdomundo. O Viscondepensa,

falaemeobedece. Comporta-se em tudo comogente—masnãocome. Logo,nãoégente.Jáviugentequenãocoma,Coronel?

— Evocê,Emília?Setambémdiminuiu,entãoéqueégente—mas

todaavidaouvidizerqueeraboneca.Comoexplicaomistério?

— Muitosimples.Eudefatojáfuibonecadepano.Masevoluíe

vireigente.

OCoronelnãosabiaoqueeraevoluir.Emíliaexplicou.

— Evoluirépassardumacoisaparaoutramuitodiferente.Um

grãodemilhocomeçagrãodemilho;vaievoluindoevirapédemilho,broa

defubáouViscondedeSabugosa.Assim,eu.Desimplesbruxadepano,fui

evoluindo,vireigentinhaehojesouocérebroeavontadedoVisconde; moro em sua cabeça e dirijo-o do mesmo modo que o Totó dirigia o automóveldoMajorApolinário.

— Ah,quemmederasertambémcérebrodumgiganteemorar

numacasadecartola!—suspirouopobrefazendeiro.—Estousemsabero

que pensar. Se tenho, como você diz, de ficar assim pequenino, sem dinheiro, perdido nummundodecoisaseanimaistãograndes,milvezes serdevoradoporesteshipopótamos.Istonãoévida.E,aindaporcima,nu que nem um índio. Não sei que fim levou a minha roupa. Houve um "desabamentodepanos"emcimademim,equando me livrei daquilo, estava em pêlo. Haverá coisa mais sem propósito? Se aparece uma senhoraporaqui,comoé?

— Poiseuachoocontrário—tornouEmília.—Istoéqueévida

— a questão é a gente adaptar-se. Até já inventei um sistema de camuflagem que deu resultados ótimos. Virei chumaço de algodão, de modoquepudeandarportodaapartesemomenormedodegatosou passarinhos.Porquehoje.Coronel,umpintoéummilhãodevezesmais perigoso que um tigre. Os pintos nos tomam por içás ou baratas descascadas—elávembicoepapo.Aquinasuacasaconvenci-medeque os leitões também são perigosos. Dos gatos eu já sabia, os tais gatos comedoresdebaratas,porquecommeusprópriosolhosvioManchinha comerDonaNonoca,oMajoreatiaFebrônia.Poisapesardessesperigos novos, estou encantada com a vida pequenina. Para a alimentação, que

beleza!Qualqueriscanosencheoestômago.Enãoéprecisotrabalharpara

ganharavida.Avidaestásempreganha.Mastemosdecopiarosinsetos; temos de aprender com eles mil coisas, como o sistema de morar em buraquinhosevãos.Osburacosfeitosjáviquesãoperigosos.Osbonssão os"acontecidos".Buraco-de-raizéótimo—nemquetenhacarangueijeira dentro-—maisissosóquandoestamosnochumaço.Aranhanãoligaa algodões. OCoronelnãoentendeunadadaquilo,enoseudesconsolonem procurava entender. Para quê? O melhor era lançar-se no meio dos hipopótamoseacabarcomumavidinhatãoinsignificante.Mesmoassim lembrou-sedequeestavacomfome.

— Pareceincrível—disseele—queaindanumasituaçãodestaso

estômagodagentefale!Tenhovergonhadedizerqueestoucomfome.

— Poiséregalar-se,Coronel—volveuEmília.—Háovodebeija-

floralinacartola—masnemépreciso.Osenhorestásobreamaiormesa domundo.Estascomidasdãoparaalimentarumexércitointeiro.Olhesó paraaterrinadefeijão. O Visconde havia deposto a cartola sobre a mesa e largado o Coronelpertodaterrinadefeijão.Queenormeterrina!Mediatrêsvezesa altura do Coronel. Já o prato de arroz era mais acessível. Erguendo a munheca,oCoronelpescouláemcimadoisgrãos;comeuumeofereceu

outroaEmília. — Juquinha,quandoacabaroseupasseioleveestepresentelá paraomeusítio— disse ela entregando-lhe o grão dearroz. Omeninoeairmãhaviamsaídodacartolaepasseavamporentre

oscolossaispratosdecomida.DiantedumqueijodeMinas,Juquinhaparou,

perguntandoquerodadecarroeraaquela.OViscondeexplicouedeu-lhe

umpedacinhodequeijo.

— Também quero queijo no meusítio!—gritouEmília.

OViscondecortouumblocodemeiocentímetrocúbico—grande

demaisparaasforçasdoJuquinha.Foinecessáriodividi-loemtrêspartes

paraqueelepudesselevartantoqueijoparadentrodacartola.

— Haverááguaporaqui?—indagouoCoronel.

Amoringaestavanamesa,masnemoViscondepodia,apesarde

seromaiorgigantedomundo,comopesodamoringa.Emíliafoiàcartolae

trouxeumpedaçodealgodão.

— Amarreistonapontadobarbanteepesqueágua.

OViscondeassimfez.Mergulhouobarbantenamoringaepuxou-o.

Oalgodãosubiu,pesadodeágua.Todosbeberamcomdelícia.Juquinhaquis

levarumpingoparaosítio,masnãoencontrounoque.

— Eagora?—perguntouoCoronel.—Quevaifazerdemim?

— Voulevá-loàcasadesuacomadreDonaBenta.Nãoconvémque

fiqueaquisozinho,nomeiodestesleitõescanibalescos.

— Ecomoirei?

— Naabadomeusítio—lembrouEmília.

OCoronelTeodoricoacomodou-senaabadacartoladoVisconde,

comaspernasdeforaedebruçadonacerca.

— Tocaobonde,Visconde!—gritouEmília.

Cuidadosamente,oViscondebotouacartolanacabeça.Espiouse haviaalgumleitãoporali.Nãovendonenhum,desceudamesae,péante pé, encaminhou-se para a porta da rua. De passagem Emília entreviu o

movimentodosleitõeslánacozinhaeficouapreensiva.

— Rabicó!ParecequeviRabicólánobando.Eseérealmenteele,

juroquefoiocomedordetiaAmbrosiaedaQuinota

XVI

"OTERRORDOLAGO"

O Visconde, com o "Sítio da Emília" na cabeça, marchava muito esticadinhonadireçãodoPicapauAmarelo.Postadaàsuajanela,entreos

doisórfãos,adonadapropriedadeiacontandoaoCoronelosseusprojetos.

— Vouintroduzirváriosmelhoramentos. Metade da aba quero

coberta demusgo,daquelequenascenosbarrancosúmidosedáumas

hastescomumaurnazinhanaponta.Naoutrametadequeroumahorta. O Coronel achou que as hortaliças eram muito grandes para caberemali.

— Planto fungos, como fazem as saúvas dentro de seus

formigueiros. Apesar de eterna vítima das saúvas em sua fazenda, o Coronel

ignorava que as formigas fossem cultivadoras dos fungos com que se alimentam.Quantoaosmusgos,lembrouqueeramplantinhasdesombra.

— Poisplantoumchapéu-de-sapoquelhesdêsombra—resolveu

Emília.—Eumaorelha-de-pauparasombrearestajanela.Batemuitosol.E

outrochapéu-de-sapoemcimadacartolaparaqueemdiasdechuvanão pingueáguaaquidentropelocanudodaventilação. Os projetos do Juquinha eram diferentes. Queria amarrar ali na cercadoisbesourosdesela,umparaele,outroparaaCandoca,etambém umgafanhotoverde,paraoesportedopulo.ACandoca,quejáestavase desembaraçando,declarouquererumbesouroverde—pretonão. Quando a loucura da Emília desembestava não havia lembrança quenãolheacudisse.Falouatédumagaioladepassarinhopenduradaà janela.

— Eondeachapassarinhoquecaibanessagaiola?—perguntouo

Coronel.

Háospernilongosquecantamamúsicadofiun.Equeromobília. Três caminhas, mesa, um cabide para pendurar o nosso algodão. De

cadeiras não preciso. Estes pedacinhos de queijo servem de bancos. Já estoumeutilizandodeumparasentar-meàjanela.

OViscondetevedepararnocaminho,descobrirmusgosechapéu-

de-sapo,ebesourinhos,efungos,edeixaracartolacomoadonaqueria.Só ficoufaltandoagaioladepernilongo.Efoicomaquele"jardimbotânico"na cabeçaqueelechegouaoPicapauAmarelo. LáestavaofielConselheiromontandoguardajuntoàvaranda.A vacaMocha,comacabeçaporcimadacerca,suspiravapelasuahabitual raçãodemilho.Quindimressonavadebaixodafigueira.ERabicó?Nadade Rabicóporali. — Eubemseiporondeandaaquelecanibal!—disseEmília. OViscondeentrou.Encaminhou-separaoquarto.Tudoemordem em cima da cômoda. Dona Benta, sentada numa caixa de fósforos tão grande que seus pés não tocavam no chão. Perto dela, tia Nastácia escarrapachada.PedrinhoeNarizinholidavamnaamarraçãodumaredede retrósentreacestinhadecosturaeacaixadefósforos. Emíliaestranhouvê-losvestidos.Équeacestinhadecosturaficava emcimadacômoda,afamosacestinhadecosturadeDonaBentaondenão haviaoquenãohouvesse—botões,colchetes,alfinetes,agulhas,linhasde váriosnúmeros,fiosdelãdebordar,retrosesdeseda,umovoartificialde cerzirmeia,alâminaGillettecomqueNarizinhocortavaumcélebrecalode DonaBenta,gramposemaisumadúziademiudezinhas.Aquilolhesfoida maiorvantagemdepoisda"redução",quandooViscondeoscolocouem cimadacômoda.Porumburacodapalhaosdoismeninosconseguiram entrar na cesta, e lá fizeram prodígios. No fio da lâmina cortaram os pedaços de lã de bordar cora que Dona Benta e tia Nastácia se tinham vestido à moda dos casulos — "enleadamente". As duas velhas haviam

passado a noite no quente. Os meninos, como não fossem friorentos,

contentaram-se com tangas de seda — uma franjinha de fios de retrós atadaàcintura.Viraramunsperfeitos"índiosdeluxo".Depoistiverama idéiadetecerumarededefiosdelinhaearmá-laentreacestaeacaixade fósforos.EstavamnissoquandooViscondeapareceu. Aovê-losurgirnoquarto,enorme,comoseucartolãoàPresidente Lincoln transformado em sítio, os netos de Dona Benta romperam num berrodeselvagens:Aleguá,guá,guá!Abatipocanga! Agritariafezqueosdoisbesourosvoassem.Quepena! OViscondefoitrepandopelaescadariadelivroscomqueantesde sairdeláelehaviapreparadooacessoàcômoda.Noúltimodegrauparou. Suaspalhasdemilhoficavamaoníveldo"assoalho". — Tenhoumagrandenovidadeacontar—disseele.

— Jásei,aEmíliaapareceu!—gritouNarizinho—edessemodo

estragoumetadeda"surpresa". Surpresa, sim. Emília tinha planejado uma surpresa e para isso

escondera-se com os dois órfãos dentro da cartola e fizera o Visconde guardarnobolsooCoronelTeodorico.

— Ondeestáela?—gritouPedrinho.ArespostadoViscondefoi

tirar da cabeça a cartola imensa e depositá-la em cima da cômoda. Os meninosaproximaram-secheiosdecuriosidade.Aquelajanelinha,aquela

porta,ossetedegrausdecascadelaranja,asplantações,aescadadecorda,

ofiodacampainhaqueoViscondeteveocuidadodedesamarrardasua

barbadepalha,oschapéus-de-sapo,ocanudolánoalto—tudoeraoque

podiahaverdemaisimprevisto.Enumapétalademalmequerpregadana

cartolaestavaoletreiro:"SítiodaEmília."

— Quehistóriaéesta?—exclamouPedrinho, intrigado. Nesse momentoEmíliaapareceuàjanelaefezHu! Foiumacontecimento.AtéDonaBentaergueu-sedasuacaixade fósforoseaproximou-separaver.

— Poisé!—começouEmília.—EncontreioViscondenaestradae

instalei-meemsuacartola.Istoaquidentroestávirandoumverdadeiro

quartodebadulaques.Temoschumaçosdealgodão,bancosdequeijo,um

grãodearroz,umalança—evamostermuitascoisasmais.

— Eessaescadinhadecorda?

— É para descer até ao chão sem incomodar o Visconde. O

assoalhoédecascadelaranja.Mandeicercaraabaefizumaplantaçãode

musgosefungosalimentícios,comoosdasaúva.Oschapéus-de-sapoda aba dão sombra ao musgo e o do alto impede que a chuva pingue pela chaminé. PedrinhoeNarizinhopularamacercaeforamespiarpelajanela. — Éverdade,sim,vovó!—gritouNarizinho.—Tudocomoela diz.Eessascrianças?—exclamou,muitoadmirada,aoveraCandocaeo irmão,sentadinhos.

— Ah,sãoosmeusórfãos—eEmíliacontouatragédiadoMajor

Apolinário e Dona Nonoca, comidos pelo Manchinha. Dona Benta sentiu muito,porquesedavacomaquelagente.Diasanteshaviaidoàcidadee tomadocaféemcasadeDonaNonoca.

— Entãoporláfoiamesmacoisaqueaqui?

Amesmíssima,DonaBenta.Todomundoperdeuotamanho. Galinhasepassarinhospercorremasruasnomaiorassanhamento, como

nos dias em quecaemiçás.

— Quehorror!

— Só se salvam os espertos — e Emília foi desfiando as suas próprias espertezas, o disfarce do algodão, a noite passada no ninho do beija-flor,ahistóriadacarangueijeiraedovôodamutuca. NessepontoPedrinhoassanhou.Tambémqueriavoar.Queriaque oViscondefosseaoterreirodescobrirmaisbesouros

— e aquela igualdade de amor pela aviação fez que ele e o Juquinhanuncamaisselargassem.

Dona Benta chamou Candoca e sentou-a no colo, contando que haviaassistidoaobatizadodaquelacriança. — E tia Nastácia? — perguntou Emília. — Que está fazendo lá, escarrapachadaemuda? DonaBentaexplicouqueanegranãoseconformavacomaOrdem Novaeperderaointeresseemtudo.Viviaassim,escarrapachadanochão, demãonoqueixo,pensandonaquelemisteriosotranstornodomundo.Tão abatidaquenemdavarespostaaoquelheperguntavam. Pedrinhogostoumuitodaescadinhadecordaequisdescer,porém viuqueeramuitocurta.TinhaaalturadoVisconde

—doispalmos.Sóchegavaatéàsegundagavetadacômoda,aqual estavaentreaberta."Bom,senãopossodesceratéaochão,podereientrar naquelagaveta",edesceucomoJuquinha. EraagavetaemqueDonaBenta guardavaasroupasdecama,lençóis,colchasefronhas.

— Istoaquidáumamoradaótima—gritoueleládedentro.—Só

brancuras.Pareceumcampodeneve.

Emíliafoisentar-senacaixadefósforosdeDonaBenta,rodeadade

todososmais,ecomeçouacontartudooquesepassaracomela.Ahistória

daingratidãodoManchinhahorrorizoutiaNastácia,que,afinal,porefeito

daanimaçãodaEmília,foisaindodoseumarasmo.

— Comerosdonosdele!Jáseviuumgatomaismalvado?—disse

ela.

— Manchinhanãosabia,nempodiasaber—defendeuEmília.—

Enxergounodegraudaescadaaquelestrêsinsetosdescascadoseestáclaro

queoscomeu.Sevocêfossegata,fariaomesmo.

— Trêsinsetos?NãofoisóoMajoreDonaNonoca?

— OManchinhatambémcomeuatiaFebrônia, aquelacozinheira

queesteveaquinaqueledia.

— Cruz, credo, canhoto! — berrou a pobre tia Nastácia, persignando-se.

Enquanto conversavam, o Visconde foi ao terreiro trocar impressõescomoBurroFalante.

— Poiséverdade—disseele.—Todasascriaturasdomundo

perderamotamanho.Avilaacabou.Nãohámaisninguémnasruas—só

automóveisescangalhados,animaissoltoseapassarinhada.Pelocaminho,

oscasebresdepalhadagentedaroçaestãodesertos.Agalinhadacomeu

todososmoradores.ParamosnacasadoCoronelTeodorico—porsinal

queeleestáaqui,dissetirandooCoroneldobolsoesentando-onapalma

damão.

O Burro Falante havia pertencido ao Coronel, em cuja fazenda nascera.Aoveroseuantigopatrãoreduzidoàsproporçõesdumgafanhoto, sacudiuacabeçafilosoficamente.Aquelehomenzarrãodeoutrora,queo

cavalgaratantasvezeselhemeteraasesporaseochicote,estavareduzido

aumacoisinhasobreapalmadamãodummilho!

— E como vai ser a vida dos homens daqui por diante? —

perguntouoburro.

— Aindanãosei.IssodependedaEmília.Háduashipóteses:ficar

tudocomoestá,ouvoltartudoaoqueera.Emíliaachaquecomaminha

ajudaaChavedoTamanhopodeserdenovolevantada.

OConselheironãoentendeuaquelahistóriadeChavedoTamanho,

masnãoinsistiu.Suaextremadelicadezadesentimentosimpedia-odeser

indiscreto.

Bom—disseoVisconde.—Continueatomarcontadoterreiro.

ERabicó?

— Ainda não apareceu esta manhã.Comcertezaandacorrendo mundoatrásdeminhocas.

— Euseiquaissãoasminhocas deagora!—disseoVisconde

guardandooCoronelnobolsoevoltandoparadentro.

EncontrouEmíliaacontarahistóriadassuasaventurasnasalade

jantardofazendeiro.

— Eeleentãofoipuxadopelacorda,diziaela,eveioparacimada

mesaecontouquelána"caverna"um"monstro"estiveratodootempoa cutucá-locomduas varas de "bambu" (explicou quenãoeramvarase simasantenasdumaenormíssimabarata.)

— Figa,rabudo!—exclamoutiaNastáciapersignando-se.

Eondeficouocompadre?—quissaberDonaBenta.

OúltimonúmerodasurpresadaEmíliaiaseraquele.Adiabinha

olhouparaoViscondeedissecomamaiornaturalidade:

— Onde andará o Coronel Teodorico, Senhor Visconde? Talvez

estejaemseubolso.Veja.

OViscondeenfiouamãonobolsoetirouládedentrouminsetão

descascado,quedepôssobreacômoda.Mastodosaliestavamvestidos,de

modo que a nudez do compadre de Dona Benta provocou verdadeiro escândalo. TiaNastáciaprotestou,

— T'esconjuro! Onde se viu um pai de família aparecer nesses

trajesdeAdãonapresençadeumasenhoraderespeito? NasuaafliçãodeespíritooCoronelesquecera-sedequeestavanu, de modo que a advertência da negra o fez encolher-se todo, desapontadíssimo. — Arranjeumatanga,homem!—continuouanegra.—Façacomo nósfizemos.Tireessaindecênciadaqui,Visconde! O Visconde levou o Coronel para o jardim. Que tanga arranjaria

para ele? Olhou, olhou. Decidiu-se finalmente por uma flor de angélica, depoisdecortá-ladecertojeito.Deuumatangaótima,masquedeixavao fazendeiroquenemumadançarinadesaiote.

— Aquela negra é cheia de histórias, Coronel, mas tem bom

coração.Elamesmaéquemvailhearranjarumaroupamelhor,feitade

seda,comoadosmeninos.

Aovoltarparaacômoda,vestidodaquelamaneira,oCoronelfoi

recebidocompalmas.

— Agora,sim—dissetiaNastácia.—Estámaisapresentável—e

sófaltadançar

OViscondejáhaviadeixadoaliaçúcareoutrasprovisõesdeboca.

Mascomoapopulaçãodacômodaaumentasse,foiàdespensaembuscade

novosortimento—umpedacinhodemarmelada,maismiolodepão,um

dedodemanteiga.Trouxetambémumaxícaradágua.

dedodemanteiga.Trouxetambémumaxícaradágua. gritou Emília quando o Visconde despejou a água no pires

gritou Emília quando o Visconde

despejou a água no pires — e correu para lá arrastando pela mão a

Candoca.Iadarumbanhonapequena. Candoca, pobrezinha, fez feio. Diantedaqueleenormelagodeáguafria,pôs-seaberrar.Mesmoassimfoi esfregadacomumaesponjinhadealgodão.

— Nãoseafastemdabeiradágua!—gritouDonaBenta.—Basta

dedesgraças.Nãoqueronenhumafogamentoaqui.

NessemomentoPedrinhoeJuquinhaapareceramnoaltodaescada

decorda,vindosdasegundagavetaondehaviammatadoumatraça.Dando

Temos

piscina!

com a piscina, correram para ela — e banharam-se e nadaram regaladamente. Emíliaquisumabarquinhanolago. — NacaixadefósforosdeDonaBentahápausexcelentes.Faça umajangada,Visconde.

O Visconde tirou da caixa um pau de fósforo e partiu-o em três

pedaços,unindo-oscomumfiodelinha.Deuumajangadaexcelente.Emília

pôs-sea"sulcarosmares".Quisdepoisumavelaeumletreiro:"OTerror

doLago"—ecomonãohouvessevento,opobreViscondetevedeficarali

assoprando.

PedrinhoeJuquinha,sentadosnabeiradopires,comgrandeinveja

acompanhavamaquelanavegação;porfimresolveramfazerumajangada

muitomaioremaisbonita.

E desse modo a Ordem Nova da Humanidade Sem Tamanho foi tendoosseuscomeçosemcimadacômodadeDonaBenta.

XVII

RABICÓ,OCANIBAL

Enquanto a criançada construía a Ordem Nova, Dona Benta conversavacomoViscondearespeitodasituação.

— Tudo mudou — dizia ele. — Hoje nada vale o que valia

antigamente.Acabou-seodinheiro.Acabaram-seosveículos.Acabou-sea

civilização. Mas, pelo que já vi, o homem pode perfeitamente subsistir dentrodasproporçõesmínimasaqueestáreduzido.

— Acha sinceramente, Visconde, que podemos subsistir e criar umanovacivilização?

— Achosim.Achoatéqueohomempodecriarumacivilização

muitomaisinteressanteefelizdoquea"civilizaçãotamanhuda",comodiz aEmília.Alinaquelelagoasenhoraestávendoummaravilhosoexemplo dasnovaspossibilidades. Nuncaumpiresdáguadeutantoprazeratantas criaturas. Os insetos, por exemplo, vivem perfeitamente adaptados ao planeta — e eles não possuem a inteligência das criaturas humanas. A geraçãoadultadehojevaisofrer,estáclaro,porqueandamuitopresaàs

idéiastamanhudas;ascriançasjásofrerãomenos,porqueaceitammelhor asnovidades. Reparecomoosseusnetos,eoJuquinhaeaCandoca,estão

rapidamenteseadaptando,aopassoquetiaNastáciaeoCoronelresistem. — Masachaqueasnossasvelhasidéiastornar-se-ãoinúteisneste mundonovo?

— Inúteis propriamente não. Mas têm de ser revistas e

reformadas. São idéias filhas da experiência tamanhuda. Com a nova experiência pequenina, está claro que as idéias velhas têm que sofrer adaptação. Filosofaramlongamente.OCoronelvinhadevezemquandocom

um aparte que só servia para mostrar como ele estava emperrado nas idéiasantigas—sobretudonadedinheiro. Súbito,um"fecha"seformoulánopires.

— Não quero que entre na minhanau!—gritaraEmília,quando

Juquinha tentou invadir aqueles três pedacinhos de pau de fósforo

amarradoscomofio.—Istoémeusó!

— Lávaiapropriedadeseformando,filosofouoVisconde.Emília

jáestátodacheiademinhasemeus.Minhanau,meuqueijo,meusítio

— E como o Senhor Visconde explica este extraordinário fenômenodareduçãodotamanhodascriaturas?

OViscondesabiamuitobemquetudonãopassavadumareinação

daEmília,mascomojuraranadacontaraninguém,fingiuignorância.

— Nãosei,DonaBenta.Nãopossoexplicaromistério—gaguejou

ele.

Depoisdefartar-sedenavegaçãonopires,Emília"alugou"asua

jangada ao Juquinha e foi pedir ao Visconde .que a levasse ao terreiro. QueriaconversarcomoBurroFalanteeoQuindim. Parafalarcomoburro,avozdemosquitodaEmílianãodava,de

modoqueelafaziaasperguntaseoViscondeasrepetiacomoumalto-

falante.

— Quero saber de Rabicó, SenhorConselheiro.

Oburrocontou,quedesdeavésperaRabicónãodavasinaldesi.

Daúltimavezqueovira,iaindoparaosladosdafazendadoCoronel.

— Ah,entãoeraelemesmoqueestavalánacozinhadevastandoo

quehavia

— ejuroquefoiocomedordaQuinotaedatiaAmbrosia!Afome

deRabicóéumadessas coisas que não têm explicação. Nisto, um ron, ron, ron soou perto da porteira. Lá vinha Rabicó muitoafobado,defocinhosujodeterra,gordocomoumporco.Emíliafez queoViscondeochamasseepassou-lheumareprimenda.

— Hátantascoisasgostosasnopomar

— disseelaatravésdoalto-falante—hátantas mangas, laranjas,

cajus, goiabas,figos,marinhostenros,eosenhorsemprecomofocinho sujodeterradetantofossarasminhocas!Mas—diga-meumacoisa:sabe oqueaconteceunomundo? — Seseioqueaconteceu?Orasesei!Aconteceu que de um momento paraoutrodeudeaparecerportodaparteumanovaraçade minhocasempé,umascor-de-rosa,outrascorderapadura,outraspretas —egostosíssimas.NacasadotioBarnabécomiumadúzia—daspretas. LánavendadoEliascomimaisdevintedetodasascores.Eaténacasado

CoronelTeodorico—queestádeserta,nãoseiparaondeaquelagentese afundou—comiduas,umacorderapaduraeoutrapreta.Muitomelhores queasminhocasquenãoandamdepé. Emitiaficouhorrorizada.OMarquêsdeRabicó,seuantigoesposo, estava transformado em canibal, comedor de gente! E teria feito com & pessoaldosítiodeDonaBentaomesmoqueoManchinhafizeracoma famíliadoMajorApolinário,senãofosseaprovidencialidéiadoVisconde depô-lostodosemcimadacômoda. —Ah,Rabicó! —disseelaemtomtrágico.—Oquevocêanda fazendoéomaiordoshorrores,porqueessastais"minhocasempé"não sãominhocasesimgentehumanadeproporçõesreduzidas.Ahumanidade inteira perdeu o tamanho. Dona Benta e os meninos estão lá dentro

transformadosemiscasdegente.PeloamordeDeus,parecomessascomi-

lanças, porque constituem verdadeiroscrimes. Sabe quem eram as minhocaspretasquevocêcomeunacasadotioBarnabé?Eramopobre negro velho e toda a família dele. E sabe quem eram as duas que você comeunacasadoCoronelTeodorico?EramaQuinotaeatiaAmbrosia, aquelanegratãoboa,quesemprenosrecebiacomcaféebolinhos. Rabicó ficou desapontadíssimo. Mas como é que poderia ter adivinhado? Sempre fora um grande comedor de minhocas e de quanto

verme encontrava. Apareceram aquelas minhocas novas, carnudinhas. Nadamaisnaturalqueascomessetambém.

— Eu sei disso. Você não tem culpa. Mas está avisado. E se

encontrarmaisalgumaperdidaporaí,traga-aparacá,emvezdecomê-la. Rabicó, muito impressionado com a sua antropofagia, prometeu quesim.EmseguidaoViscondefoiemprocuradorinoceronte,láembaixo dafigueiragrande.Contou-lhetodaatragédiahumana.Quindim,porém,

nãofezcasonenhum.Jáestavamuitovelhoparadarimportânciaacoisas tão insignificantes como o desaparecimento da humanidade. Enquanto houvessevegetais,árvoresdeboasfolhasgostosas,capinsmaciosebrotos, tudoiriabem.Quindim,comaidade,foraficandocínico;Emíliapassou-lhe urnadescomposturaevoltouparacasa.

— Muitobem,Visconde—disseela.

— Tratedeconcluirafabricaçãodosuperpó. Quero dar um

grande passeiopelomundo—aEuropa,aÁsia,aAméricadoNorte,para vercomocorremascoisasporlá.DepoisresolveremossobreaidaàCasa dasChaves. O Visconde foi ao laboratorinho e continuou na fabricação do maravilhoso pó, interrompido pelo desastre do apequena-mento. Emília quissaberqualeraosegredodadroga.Ovelhosábioriu-se;declarouqueo superpóerauma"sublimaçãodasvitaminasdopulodosgrilos"

— oquedeixouEmílianamesma.Depoisdelidarnolaboratório

algumtempo,oViscondefoivercomoiaagentedacômoda.

Encontrouosmeninosbrincandodeconstruirumacasinhacomas

"vigas"tiradasdacaixadefósforosdeDonaBenta.OCoronelTeodorico

olhavaparaaobracomolhosdepeixemorto.

— Queéquehá,Coronel?—perguntouoVisconde.

— Há que não posso conformar-me com o acontecido —

respondeuopobrehomem,semsequerergueracabeça.—Eueragenteno

mundo.Alto,forte,rico,donodumabelafazenda—eagoramevejosem

nadadenada,reduzidoaumsimplesinsetoemcimadestacômoda.Ora, estou muito velho para acostumar-me a semelhante brincadeira. Se vou ficarassimtodaavida,entãoantesacabarcomtudodeumavez—epeço queme

leveelarguediantedobicodopintosura.

— Nãosejatãoexagerado,Coronel—disseoVisconde.—Estou

preparandoumadosedesuperpóecomesseingredienteépossívelquea Emíliaeeu Ai! Um forte puxão no fio da campainha advertira-o de que estava

falandodemais.OViscondeengoliuofimdafrase.Narizinho,porém,que

estiveraouvindoaprosa,desconfiouedisseaoouvidodeDonaBenta:

— Estouquaseacreditando,vovó,quetudoquantoaconteceunão

passadalgumareinaçãodaEmília.OViscondesabe,masnãopodedizer.

Destavezdistraiu-seeiacontando;súbito,"Ai!"deuumgritinhoenem

rematouafrase.Porquê?PorqueEmília,ládedentrodacartola,pregou-

lheumpuxãonabarba.Emíliaéoquehádeesperta,vovó.Inventouatal

"campainha" justamente para isso:parabrecaroViscondesemprequeele forsetornandoindiscreto.

— Tudoépossívelnestemundodemaravilhas—suspirou Dona

Benta—mas temos de ficar muito caladinhas,porquehojequem realmente manda é a Emília, já que mora na cabeça do mais poderoso

gigante do mundo. Estamos nas mãos dos dois — nós e toda a humanidade.-Aperdadotamanhonostornoutãofracoseinúteiscomo pulgõesdebrotoderoseira. — Poiseucontinuareiatenta—disseNarizinho—eheidepescar todaaverdade. O Visconde perguntou ao pessoal da cômoda se não desejavam algumacoisa.JuquinhapediubesourosePedrinhoquisumlivro.Andava interessadoemsaberseaindaerapossívelaleituradelivros. OViscondetomouumaoacaso,alidasuaescadariadelivros,e

largou-o sobre a cômoda. Pedrinho trepou na página aberta a fim de experimentaraleitura.Difícil,sim.Tinhadeirandando,comocaranguejo, porbaixodecadalinha,lendoasletrasumaporuma.Leuassimduasou trêsfrasesecansou-se.Depoisquisvoltarapágina.Viuqueexigiaoesforço de duas pessoas, uma para levantar a folha do livro a pulso, como o carpinteiroquelevantaumatábua;eoutraqueaempurrasseparacimapor meiodumacompridavara.Afolhadolivroficavaassimemvertical.Para fazê-ladeitar-sedooutrolado,eraprecisomaisumasériedemanobras. Dona Benta, que estava assistindoàquelabrincadeira,disse filosoficamente:

— Estou vendo que toda a culturahumana,guardadanas bibliotecas, está perdida. Tirar os livros das estantes já vai ser quase impossível.Abri-loséumtrabalhoelê-los,letraporletra,caminhandode péporbaixodaslinhas,éesforçolentoefatigante.Seráumaverdadeira façanha de Hércules ler umlivrotodo.

Enquanto isso o Visconde e Emília cochichavam em voz baixa a poucadistânciadali.Osuperpójáestavapronto.Podiamcorrermundo.O melhor era irem duma vez à Casa das Chaves, levantarem a Chave do Tamanho e pronto. Tudo ficaria como dantes. Emília, porém, estava indecisa.Queriaenãoqueria,emaisnãoqueriadoquequeria.Porfimveio comaidéiadoplebiscito. — Acho,Visconde,quenãopodemosdecidirpornósmesmosnum pontodetantaimportância.Nãosomosditadoresdostaisdoquero,possoe mando.Temosdeconsultaraopiniãodasgentesesófazeroqueamaioria quiser.Temosdedarumavoltapelomundo,verpelomenosaEuropaeos Estados Unidos. Como decidirmos qualquer coisa sem conhecermos o estadorealdahumanidade? Assentadoaqueleponto, oViscondefoiavisaroConselheiro. — Nós vamos partir novamente —disseele—eosenhorfica desentinela.Nãodeixeentrarnacasaavenenhuma,nemoRabicó. Ele prometeu comportar-se, mas duvido que veja um inseto descascado e resistaàtentaçãodecomê-lo. Oburroprometeucumprirfielmenteasinstruções.

XVIII

OFILÓSOFOCHINÊS

LánacômodaDonaBentaeosmeninosestudavamasituação.

— Paramim,vovó,tudonãopassadeartedaEmília—diziaa

menina.—Cadavezmeconvençomais.Lembre-sequenamanhãdodiado

desastreeladesapareceudaqui,elogoemseguidaoViscondeveiodizer

quelhehaviamroubadoacaixinhadesuperpó.Juroquefoiela! Tomou

umapitadaeafundoupelosinfinitos,elámexeuemalgumacoisa.Estou certíssimadisso.Nãovêcomoelaestáseguradesieemproada,cheiade "vous"e"faços?"Todosnomundoestãoassimcomonós,tontos,semsaber nemoquepensar—menosEmília.Garantoquetudoéumaartedela. — Poisseéartedela,minhafilha,sóelapoderáconsertarotorto. Esperemos. Não é a primeira vez que nos encontramos em situação esquisitíssima.Quantacoisasetempassadonestacasa!Atépelocéuvocês jáandaram,brincandodeescorregarnosanéisdeSaturno.Eeujáestive sentadanodedodoPássaroRoca,pensandoqueeraumaraizdeárvore. Masnofimtudoacaboubem. —

Agora é diferente, vovó. Naquelas aventuras as coisas aconteciam sópara nós;o queagora aconteceualcançoua humanidade inteira.Qualésuaidéia,tiaNastácia? Aboanegra,entretidaememendarfibrasdealgodão,respondeu comosejánãofosseumacriaturadessemundo.

— Ah, eu penso que o mundo acabou — o mundo antigo. Nós

morremos todos, sem saber, e estamos no céu. Somos almas do outro mundoeooutromundoéeste—estacômoda,oCoronel,tãopequenino, alidetangadeflor,EmílialánacartoladoVisconde.Ouentãoésonho.Seé sonho,quandoacordarmostudoseacabaeavidadedantescomeçaoutra

vez.Eseémorte,émorteepronto.Poisentãovouacreditarqueestou

viradaemiçádetanga?Nãosouboba.Oujámorrieestounumcéu,outudo

istoésonho.

Narizinhoficouimpressionadacomaidéiadanegra.

— Seráassim,vovó?

— Como posso saber, menina? Nosso modo de vida nesta casa

sempremedeixoutontaeincertasobrearealidadedascoisas.Atémefaz

lembraraquelecasodofilósofochinês.

— Qualdeles?

— Aquelefilósofooupoetachinês,jánãomelembro,quepassoua

noitesonhandoqueeraborboleta,edurantetodoosonhoviveuavidadas borboletas,com ideiazinhasdeborboleta, comidinhasdeborboleta, tudo deborboleta,comamaiorclarezaeperfeição.Quandoacordoueseviu outra vez homem, caiu na dúvida. "Serei uma borboleta que está sonhandoqueéhomemousouumhomemquesonhouqueeraborboleta?" E por mais que pensasse nisso, nunca pôde saber com certeza se era realmenteumaborboletaquesonhavaserhomemouumhomemquehavia sonhadoserborboleta.

— Quegraça!exclamouamenina.

— Poisestouquenemessepoetachinês—concluiuDonaBenta. —Nãoseisesougentegrandequeestásonhandoqueégentinha,ouse

semprefuigentinhaquepormuitotemposonhouqueeragentegrande.

— Equalasuaopinião,Coronel?—perguntouomenino.

O Coronel Teodorico estava com o cérebro mais oco do que um porungo.Nãotinhaânimodepensareatéchegavaatermedodasidéias

quelheacudiam.Pedrinhotevedeinsistirmuitoparaqueeledissesse:

— EuestoucomtiaNastácia.Istoépesadelo. Não pode ser

verdade. Poisondeseviuumhomemquenuncatevemedodenada,e vivia na fartura, acabar escondido numa fresta de rodapé, perto duma barata enorme, tremendodemedo dosseusprópriosleitõessoltospela

sala?Poisentãoissoécoisapossível?Oquemepareceéqueestoulouco—

ouquetodosestãoloucos.Jáliahistóriadumloucoqueficavaparadonum

canto,comumacanecanacabeça—eassimlevouanos,sabemporquê?

— Porquê?

— Porque estava convencido de que era um pote dágua. Não

falava,porqueospotesnãofalam.Nãotiravaacanecadacabeçaporqueos potesnãotiramacanecadatampa.Pormaisqueosmédicosdohospício lheexplicassemqueelenãoerapoteesimumhomemcomoosoutros,o coitadonãoacreditava. Convencera-sedequeerapoteeacabou-se.Quem sabesenósenlouquecemoseestamostalqualohomemdopote?Quem sabesenãohánadadisto,etudoéilusãonossa? NessemomentooViscondeapareceu,comaEmíliadebruçadana

janelinha. Contou que o novo superpó estava pronto e eles iam correr mundoparaverificarasituaçãorealdahumanidade. DonaBentaarrenegou—masqueremédio?SeEmíliaqueriaatal viagem à Europa, estava querido. A dona do mundo era ela. Pois que fossem,EmseguidapôsoViscondeapardadiscussãoalinacômoda.

— O Coronel acha que o que estamos é loucos — e repetiu a históriadopote.

— Issonão!—gritouEmíliadajanela.—Esseloucodopoteera

umsó,enestenossocasodeagoratodossesentempequenininhos.Uma

loucuraassimdetodagentenãopodeserloucura—loucuraécoisasóde

uns.

— EtiaNastáciaachaqueésonho—continuouDonaBenta.

Sonhoonarizdela!—berrouEmília.—Pareceincrívelquenão

percebamoquehouve.Omundoéumamáquinademilpeças.Comcerteza

algumapeçasaiudolugar—éisso.

Narizinho,sempreatentaàspalavrasdeEmília,aproximou-se.

— Peçaquesaiudolugar?—repetiu.—Sealgumapeçasaiudo

lugar,nãosaiusozinha—alguémdeveterbulidonela.

— Issonão!—protestouEmíliavivamente.—Porqueéqueo

automóvel do José Batata parou, naquela vez em que fomos à cidade? Porque o arame do acelerador se partiu — e quem estava mexendo lá dentroparaqueoaramesepartisse?Partiu-seporsimesmo.Sãocoisas queacontecem. Masocalorcomquenegouaidéiadehaveralguémmexidonapeça aindamaisaumentouasdesconfiançasdamenina,aqualdisseaoouvido deDonaBenta:

— Juro,vovó, quequemmexeunapeçafoiela! Edepois,emvozaltapara"caçá-la":

— Emilinha,vocêaindanãonoscontouoquefoifazernaquela

manhã,depoisdefurtarosuperpódoVisconde.

— Oquefuifazer?Oraesta.Fuidarumpasseiopelasestrelas—

paraverificarseopóeramesmooqueoViscondedizia.

— Eandoupulandodeestrelaemestrela,nãoé?

O modo irônico de Narizinho falar fez que Emília se abrisse. Já andavaamoladacomaquelesegredo.

— Esefosseeu?SemexinaChavedoTamanho, não o fiz por

querer.Nãohavendointenção,nãoháculpa,comodisseDonaBentaoutro

dia.Eporissoestoudecabeçalevantada,prontaparaaparecerdiantede

todosostribunaisdomundo.Querovezquemmecondena.-Esecomeçam

ameamolar,sabemoquefaço?Nãofaçonada! Largo mão de tudo e a humanidadequesefomente.Pipocas!

— Cama,calma,Emília!—disseDonaBenta.—Nãoécasoparase

queimar.Ninguémaquiimaginaquevocêqueiradestruirahumanidade,e

seporacasofezalgummal,foisemquerer—evaiconsertaramalfeitoriae

deixartudocomodantes.

— Isto também não! — protestouEmília.—Querentãoa

senhoraqueeudeixeomundocomoestava,divididoemduaspartes,uma

matandoaoutra,bombardeandoascidades,escangalhandotudo?Ah,issoé

quenão.Ouacabocomaguerrae,comessesódiosqueestragamavida,ou acabocomaespéciehumana.Comigoéalinabatata! Aarrogânciadaquelaspalavraseraumacoisaincrível.DonaBenta tremeupelosdestinosdomundoefezsinalaNarizinhoparaqueficasse quieta. Era preciso não irritar a pequena criaturinha da qual a sorte da EspécieHumanadependia.

XIX

VIAGEMPELOMUNDO

Tudoestavaprontoparaaviagem.NoúltimomomentooVisconde achoumelhordesistiremdoplebiscitoe,emvezdopasseiopelomundo, tocaremdiretamenteparaaCasadasChaves.Alegouquecadaminutode demoraerammaismilhõesdesereshumanosquepereciamemtodosos continentes. — Enãoseperdegrandecoisa—respondeuEmília.—Oinfinitoé um colosso, Visconde. Há lá pelos céus milhões e milhões de astros muitíssimas vezesmaioresqueestapulguinhadaTerra.Enestapulguinha daTerraahumanidadeéumapoeirinhamalvada.ParaoUniversotantofaz queessapoeirinhaexistacomonãoexista. AquelepoucocasodaEmíliapelahumanidadenãoimpressionouo Visconde.Eleviuquenofundonãoerapoucocaso,esimmuitocaso.Emília revoltava-se com as guerras e as outras formas de crueldade dos seres humanos. O apequena-mento causado pela sua reinação evidentemente nãoforadepropósito.QuandoEmíliavirouachave,suaintençãonãofora fazermalaninguém,esimbem:acabarcomasguerras.Haviadehaver umachavedaguerra,eoseupensamentofoiirexperimentandotodasas chaves até acertar. Mas assim que virou a primeira, aconteceu o tal apequenamento, e ela nem sequer pôde suspender outra vez a chave, quantomaisexperimentarasoutras."Emíliaéfilósofa",pensouoVisconde, "equandosepõeafilosofarparecequetemcoraçãoduromasnãotem. Emíliaéfilosoficamenteboa." Depoisdetudobemcombinado,edetomadaslánacômodatodas asprovidências,partiram.Ofiunfoiformidável,porquequantomaisnovoé o super-pó, mais forte. Emília, coitadinha, perdeu completamente os

sentidos,eoViscondeficoumaistontoquedasoutrasvezes.

Porfimchegaram.OViscondelevouminutossentado,depernas

estiradas,olhandosemver,ouvindosemouvir.Quandosepôsdepé,quase

caiu,detãotonto.

— Emília! —chamouele,erepetiutrêsvezesochamado.

Comonãoobtivesseresposta,tirouacartolaeespioupelajanela.A coitadinhaestavadesacordada.OViscondedespejou-anapalmadamão, cuidadosamente,esoprou-adeleve.Nada.Soproumaisforte.Nada. — Parece incrível — murmurou ele — que essa grande coisa chamadahumanidade dependa desta formiguinha semsentidosqueeu

tenhonapalmadamão!SeEmíliavoltarasi,tudopoderásersalvo; masse morrer, é bem provável que estes insetos descascados também morramtodos,esófiquemosnomundoeu,oConselheiroeoQuindim— osúnicosseresfalanteseescreventes—equeadiantaráa"Históriado Grande Desastre" que eu possa escrever em minhas memórias? Não existiráninguémparalê-la.Eocuriosoéqueomundocontinuaráarodar como se não tivesse havido nada. O burro, Quindim e todos os mais rinocerontesehipopótamoseleõesetigreseabicharadainteiradesdeos pintossurasatéosmicróbios,continuarãoaexistircomoatéhoje—eaté ficarãomuitocontentescomosumiçodoMomosapiens.PorqueoHorno sapienseraoquemaisatrapalhavaavidanaturaldosbichos.AtéRabicó, aquelepatife,continuaráafossarosbrejosembuscademinhocas—ejá semmedonenhumdobodoquedePedrinhooudasameaçasdaEmília. Estava nesse ponto da conversa consigo mesmo, quando a "formiguinhadesmaiada"fezumlevemovimentoelogoemseguidaoutro. OVisconderespiroualiviado.

— Oragraçasqueestáacordando.Emíliadespertouesentou-se.

Passouamãopelosolhosaindaturvos.

— Ondeestou?

— Aquicomigo,napalmadaminhamão,emqualquerparteda

Europa—disseoVisconde.

Emíliasorriuepôs-sedepé,aindatontinha;firmou-selogo,porém,

epediuacartola.

— Erga-meparaacartola,Visconde.Suamãoestámuitoquentee

suada.

Assimfoifeito.

— Ondeseráqueestamos?—perguntou,logoquereapareceuem

suajanelinha.—Istoaquipareceumcampodetrigosemtrigo,masdeque

país?

Oscamposdetrigosemtrigosãotodossemelhantes,demodoque

por meio deles ninguém consegue identificar um país. Para isso, só as cidades.

— Vamos tomar por aquele caminho, Visconde — disse ela

referindo-seàestradaqueseviadali.—Todocaminhodáemcidade.

O Visconde dirigiu-se para a estrada e pôs-se a caminhar. Uma

largaestradadeserta,comsinaisdetráfegonascurvasepontosperigosos. Essessinaistambémnãopermitiramaidentificaçãodopaís,porquesãoos mesmosemtodaparte.Sóquandochegaramaumcruzamentopuderamler atabuletaindicadoradadireção.Haviadecadaladoumaflechacomum nome embaixo. O Visconde viu imediatamente que o superpó os havia largadonaAlemanha.

— Muito bem. Este nome de Furstenwaldemostraqueestamos pertodeBerlim.Omelhoréirmosdiretamenteparalá.

— Ótimo—concordouEmília.—Comacheiradadealgunsgrãos

desuperpó,estaremosemBerlimemmeiosegundo.

— Masnãováperderossentidosoutravez—disseoVisconde, dando-lheapenasmeiogrãozinhodesuperpóeaspirandouminteiro.

O passeio do Visconde e da Emília pela cidade de Berlim dava

assunto para todo um livro. Quanta coisa observaram! A capital da Alemanha pareceu-lhes perfeitamente morta. A enorme quantidade de

montinhosderoupaemtodaasruasrevelavaasuagrandepopulação.Na maioria eram montinhos de farda, com um capacete ou quepe em cima. Inúmeros automóveis despedaçados, quase todos militares. O apequenamento havia acontecido às 4 horas, que é a hora de Berlim

correspondenteàs10damanhãlánosítio.Apopulaçãoestavaemplena

atividadenasruas,quandosubitamentedesapareceu.Oquedefatohavia acontecido à humanidade inteira fora isso — um desaparecimento. No mesmoinstante,emtodososcontinentes,emtodasascidades,emtodasas casaseruas,emtodososnaviosetrens,ossereshumanosderreteram-se comosorvete,dentrodasroupas,masdemodoinstantâneo,easroupas ficaramnolugar,em"montinhoslargados",quasesemprecomumchapéu em cima. E em substituição de cada criatura apareceu dentro de cada montinhoderoupauminsetobípededeváriascores—unscor-de-rosa, outrosamarelos,outroscordecobre,outrospretoscomocarvão. Foiissooquesedeu:completaextinçãodaHumanidade,porqueos insetos de dois pés que a substituíram já não eram propriamente a Humanidade—eramaBichidade,comoEmíliaosclassificou.E,portanto, ela, a Emília, a Emilinha do sítio de Dona Benta, havia realizado um prodígiosemnome:suprimidoaHumanidade!Oqueosgelosdosperíodos glaciaisnãoconseguirameoquenãoconseguiramaserupçõesvulcânicas, e os terremotos, e as inundações, e as pestes, e as grandes guerras, a marquesinhadeRabicóhaviaconseguidodamaneiramaissimples—com umaviradadechave!AquiloerapositivamenteoHimalaiadosassombros. TodasascasasdeBerlimestavamabertasedesertas.Ninguém,de ninguém, de ninguém. Só cachorros e gatos. Esses novos antropófagos andavamlivrementeportodaparte;oscãestinhamaprendidoarevolver os montinhos de roupa e os gatos pescavam com a mão os insetos mal escondidos nas frestas. Muitos passarinhos dos campos também vieram caçaremBerlim.Emíliarecordouotempodasaídadeiçáslánosítioem outubro,coisaquetantoassanhavaospassarinhoseasavesdomésticas.

—Veja!—exclamouoViscondefilosoficamente.—Estagente,que eraamaisterrívelebelicosadomundoeestavaempenhadanumaguerra paraaconquistadoplaneta,aindaémentalmenteamesma—querodizer, ainda sente e pensa da mesma maneira. E ainda sabe tudo quanto aprendeu. Os químicos sabem fazer prodígios com a combinação dos átomos. Os físicos e mecânicos sabem todos os segredos da matéria. Os militaressabemtodosossegredosdaartedematar.Mascomoperderamo tamanho,jánãopodemcoisanenhuma.Sabem,masnãopodem.Quecoisa terrívelparaeles! — Estou vendo que a grande força dos homens estava no tamanho — disse Emília. — O tamanho era como o cabelo de Sansão. QuandoDalilacortouocabelodeSansão,ocoitadoperdeutodaaforça. — Exatamente — concordou o Visconde.—Otamanhoera tudo,istoé,todooaparelhamentomecânicodahumanidadeforafeitopara oshomensdaqueletamanho. Assim que aquele tamanhomudou,adeus viola! Tudo ficou absolutamente inútil. Até as invenções dependem do tamanho.Agoracompreendoporqueasformigasnãoinventamnada.Não podem,porfaltadetamanho.Quecoisatremendaotamanho!Estáaíuma idéiaquenuncamepassoupelacabeça. Erealmenteeraassim.Aquelagrandecidade,comtodasassuas máquinas e veículos e organizações, valia menos, para os novos insetos louros, do que um buraquinho na terra (dos sem dono dentro) ou uma frestaderodapé. OViscondeparoudiantedopaláciodogovernoeficouabalançara cabeçafilosoficamente. — Aquimoravaoditadorquelevouomundointeiroàmaiordas guerras,edestruíacidadesemaiscidadescomosseusaviões,eafundava os navios com os seus submarinos, e matava milhares e milhares de homenscomosseuscanhõeseassuasmetralhadoras—ohomemmais poderoso que jamais existiu. Tudo isso por quê? Porque tinha oito

palmos emeiodealtura.Assimquefoireduzidoaquatrocentímetros,todo oseupoderevaporou-se.Ele,seéqueaindanãofoiparaopapodealgum pintosura,permaneceomesmo,comamesmaenergiamental,amesma disposiçãodestruidoraeamesmavontadedeaço—masnãopode mais nada.

— Ah,seconseguíssemosencontrá-lo!—suspirouEmília.

— Quemsabe?Épossívelqueaindaestejadentrodestepalácio.

OViscondesubiuasescadariaseentrou.Enormessalõesdesertos, com o chão coalhado de montinhos de farda. Aqui e ali, um gato ou cachorrovagabundo.Osilêncioeraimpressionante.OViscondelembrou-se desacudirumdosmontinhosdefardaeviucairpelamangauminseto louro,nu,mortíssimo.Opanoamontoara-sedemaujeitoemcimadele;o

inseto, que não pudera sair, morrera abafado. Examinando os bolsos da blusa,oViscondeencontrouacarteiradeidentificaçãodofalecido.Eraum grandegeneral,famosopelasdestruiçõesfeitasnaPolônia.Emíliaficoua olharparaaquelatripinhaqueoViscondeerguianoarporumpé.

— Extraordinário!—disseela.—Estasimplestripinhafoiumdos

terrores do mundo, só porque era dotado de tamanho. Estou vendo, Visconde,queotamanhodoshomenserarealmenteapiorcoisaquehavia — e fiz muito bem de acabar com ele. O melhor será irmos à Casa das Chavesetambémsuprimirmosotamanhodetodososoutrosanimais.Para

que tamanho? Um micróbio vive perfeitamente — e é pequenininho a pontodeserinvisível. Outrosmontesdefardaforamsacudidossemquenadacaíssede

dentro.

— Osinsetosdestasroupaspuderamsafar-se,disseEmília—mas

ondeandam?

Nãotardaramadescobri-los.Embaixodosmóveis,noscantinhos

maisescuros,nasfrestas,portodaparteondehouvesseminúsculosabrigos

naturais,oViscondedescobriumedrososajuntamentosdeinsetoslouros.

Inúmerosjáestavamnopapodagatariainvasoraedoscães.Cãonãocome

inseto,masinsetofeitodecarnehumanaépetiscodiferenteeraro.Além

disso,osgatosecãesdaAlemanhaandavamcomraçõesmuitocurtasde

modoqueseaproveitavamdaquelaimprevistaoportunidade.

OViscondefoiandandodesalaemsala.Umadelaspareciaado

GrandeDitador.

Eraaqui—disseEmília—queELEmandavaedesmandava.Agora,

comcerteza,andaescondidonalgumburaquinho.

— Mascomopoderemosreconhecê-lo?

— Pelobigode.Nadamaisfácil.

Com um pauzinho o Visconde começou a tirar os arianos escondidosnasfres-tasoudebaixodosmóveis. De sob a secretária do Grande Ditador saíram vários,

evidentementegeneraisehomensdegoverno.Umdelestinhabigodinho.A

entrevistadeEmíliacomoGrandeDitadordavaumlivrodemilpáginas,

mastemosderesumir.ApedidodelaoViscondeergueu-oatéaalturada

janelinhaparaquepudesseouviroseudiscurso.

— Meusenhor—disseela—tenhoahonradeapresentaraVossa

Excelência o Visconde de Sabugosa, o milho falante lá do sítio de Dona Benta.Etambémmeapresentoamimmesma—frauEmília,Marquesavon Rabicó.ViemosdarumavistadolhospelasEuropaseoacasonoslargou nesta Alemanha de Vossa Excelência. Mas estou admirada do que vejo. Espereiencontrarograndearsenaldasditadurasdandotirosdecanhãoe espirrandofogo,eoquenoprópriopaláciodoGrandeDitadoreuvejosão montinhosdefardavaziaearianosinsetiformes,tímidos,nus,escondidos peloscantosevãosefrestas.Quefoiqueaconteceu,Excelência? Paraumacriaturinhadequatrocentímetros,um"milho"comoo Visconde, de dois palmos de altura, equivalia a um formidável gigante. Nada mais natural, pois, que o Grande Ditador se encolhesse todo, sem ânimodesoltarumasópalavra.MasEmíliaosossegou.

— Nãoseassuste,Excelência.OViscondeéomaiorgigantedo mundo,mastambémémilho—umvegetalextremamentepacato.Além dissoéumgrandesábio—hojeomaiorsábiodomundo.Enãoéjudeu, não,Excelência.Nãotenha medo. O Visconde é arianíssimo. Quandoestevenomilharalquefoioseuberço,oventodavanasua lindacabeleiralouro-platina.Hojeestávelhoecarecaeandasemprecomo meu sítio na cabeça. Não entende? Meu sítio é esta cartola. Pois bem, Excelência. Cheguei até cá para dizer uma coisa só — que o Tamanho morreu.EquemacaboucomoTamanhoeuseiquemfoi,eseitambémque essapessoaéaúnicaquepodenovamenterestituiraoshomensoantigoe queridotamanho—aqueletamanhomalvado,porquesenãofosseeleos homens não teriam sido maus como foram, fazedores de guerras, incendiadores de cidades, afundadores de navios, judiadores de judeus. Mas esse misterioso alguém só restaurará o tamanho perdido se tiver a certeza de que Vossa Excelência vai fazer a paz, e botar fora todas as horrendas armas que andou amontoando, e desse momento em diante viveránamesmapazeharmoniacomomundoemquevivemasformigase abelhas.SeoTamanhovoltaretudoficarcomoestava,querovidanova, semguerras,semódios,semmatanças,semarmas,estáentendendo?Ese por acaso algum dos futuros poderosos romper o trato, o castigo será terrível.Sabequalseráocastigo?Otal"alguém"desceachavedumavez,e o Tamanho fica reduzido a zero. Em vez de 4 centímetros, como Vossa

Excelênciatemhoje,passaraater4milímetros,oumenos,eserádevorado

atépelasmoscasepulgas.Estáentendendo? Claro que ele estava entendendo. Quem não entenderia uma linguagemtãopãopãoqueijoqueijocomoaquela? OGrandeDitadoranimou-seequisfalar.Emíliaodetevecomum

gesto.

—Nãodiganada,meusenhor.Jáhouvefalaçãodemais.Quemfala

agorasoueu.Querotodosmuitodireitinhosehumildes.Estasemanade

"redução"nãopassadumaadvertênciaqueotal"alguém"fazaomundo. Compreende? Assim terminou Emília o seu sermão ao chefe do Eixo. Depois ordenouaoVisconde:

—Enfie-onoburaquinhoondeestavaevamosverooutro. OViscondeenfiouoGrandeDitadornafrestadorodapé,deondeo seuEstado-Maiorespiavacomosolhosarregalados. Um dos mais interessantes aspectos do mundo novo era o da enorme quantidade de aviões despedaçados. Todos os aparelhos que haviam erguido vôo no dia do apequenamento ficaram sem governo e foramcaindoaquieali.Omesmosucedeuaostrensenavios.Ostrensem movimento descarrilaram todos, depois que seus maquinistas viraram insetos.Omesmodesastrenosoceanos.Osnaviostransformaram-seem "naviosfantasmas",istoé,queandamsoltospelomaraosabordosventos semtripulaçãoqueosdirija.Acadapassinhoasondasarremessavamum delesàpraia. FoioqueoViscondeobservouemsuaviagemâAlemanha—ena

AlemanhatomounovapitadadepóefoipararnoJapão. O aspecto das cidades japonesas era o mesmo das européias. Montinhos de roupa por toda parte, fardas, e também quimonos. Automóveisescangalhados,trensarrebentados,aviõesdespedaçados. FoifácilemTóquiodaremcomopaláciodoImperador,epormero acasodescobriramosoberanoamarelo.OViscondeviranumadassalasum gatobrincandodedartapinhasnumatampadecaneta-tinteirocaídano chão. Era o Gato Imperial — o gato de estimação de Sua Majestade. Evidentementehaviadentrodatampaqualquercoisaqueointeressava. Nãoconseguindofazerqueessaqualquercoisasaísseládedentro,ogato ficou de banda, imóvel, como fazem os gatos do mundo inteiro quando encontramumburaquinhodecamundongo. OViscondeespantouoGatoImperialetomandoatampadecaneta

virou-adebocaparabaixo,sacudindo-a.Caiudedentroumatripinhacor

decuia.EraoImperadordoJapão,oFilhodoSol

AviagemàRússiafoiamaistrágicadetodas.OViscondeparouna

zonadaguerraeassombrou-se.Ofrioerahorrível,muitosgrausabaixode

zero,eaquelesmilhõesdehomensqueosDitadorestinhamremetidopara

os gelos estavam todos mortos. Ao lado dos tanques e canhões viam-se montinhos de fardas em quantidade incrível, em muitos pontos já totalmenterecobertospelaneve.Nenhuminsetobeligerantepôdesalvar-se depois do apequenamento. Nem procuraram sair de dentro das roupas

desabadas, porque então morreriam ainda

entanguimento do frio exterior. Ficaram dentro das roupas e capotes, aproveitando o último calorzinho. Em minutos, porém, os exércitos alemãesesoviéticosvirarampicolés. Pareceincrível,masnãosesalvouninguém,nemmesmoosque estavamdentrodascasasaindadepé,porquelogoqueosfogosacesosse apagaramocongelamentofoigeral. OpaláciodogovernoeraocélebreKremlin,ondehaviamresidido tantosczaresdaRússiaantiga. Onúmerodeinsetosexistentesnaquelepontodeviasergrande, nãosóporcausadaimensidãodopaláciocomopelosbonsabrigosqueos inúmerosmontesdepelesproporcionavamaosinsetosrussos.Osrussos sempresedefenderamdofriopormeioderoupasecapotesdepeles—e dos pêlos que deixavam crescer na cara — as formidáveis barbas e os bigodes.

mais depressa no

CadamontedepeleemqueoViscondemexia,levantandoumaaba ou manga de capote, punha à mostra vários insetos apavorados, que

CadamontedepeleemqueoViscondemexia,levantandoumaaba

ou manga de capote, punha à mostra vários insetos apavorados, que corriamaesconder-se. Emílialembrou-sedos"tatuzinhos"oubichos-de-contaquevivem debaixodosvãosdepedraoutijolo:assimqueagenteergueotijolo,eles corremaesconder-senoescurinhomaispróximo. OqueEmíliaviunaRússianãodeixoudeassustá-la.Percebeuque oapequenamentohaviacausadoalimaismortesqueemqualqueroutro país,emvirtudedaintensidadedofriodaqueleinverno.Ecomocomeçasse aficarentanguida,deuordemaoViscondedeirparaumbomclima,dos quentinhos.

— África?—perguntouomilho.

— Não. Califórnia — respondeu Emília com o pensamento em

Hollywood.

O Visconde tomou o canudinho de pirlimpimpim, calculou

cuidadosamenteapitadaelevou-aaonariz—fiunn!

XX

ACIDADEDOBALDE

Acordaram num jardim. O Visconde correu os olhos em torno. Jardimvelhoemaltratado,commatinhoscrescendonasruasegramatal

qualcabelodehomemdaroçaquandopassatrêsmesessemiraobarbeiro.

— Estouvendoumenormebaldedecabeçaparabaixo—disse

Emíliajánasuajanelinha.

Sim,eraumbaldevelhonabeiradacalçada.Percebendoemredor

dele agitação de insetos humanos, o Visconde aproximou-se pé ante pé. Ficouespiandodetrásdumamoitadeesporinhas. Queespetáculomaravilhoso!Umverdadeironúcleodecivilização nova que se ia formando — um começo de tribo. Aqueles insetos acomodaram-sedebaixodobaldeeestavamconstruindocoisas. Naasadobalde,caídasobreocimentodacalçada,viramumvaral comumastripinhaspenduradas.Roupas?Não.Minhocassecandoaosol.

— Serápossívelquecomamminhocas?

—exclamouEmília.

— Eporquenão?—disseoVisconde.

— Éumacarnecomooutraqualquer,efácildeobter,porquea

abundânciadasminhocasnoseiodaterraéumacoisaincrível. Para a carne, antigamente, oshomenstinhamdepromoveracriaçãodebois, carneiros,porcoseaves,indústriaqueexigia grandes pastagens, além da plantação de muitas roças de milho,aveia,mandioca,alfafaetc.E haviaatrabalheiradeprenderaquelesanimais,engordá-los, levá-los aos matadouros, matá-los,tirar-lhesocouro,esquartejá-los,salgaracarne, cozê-la, enlatá-la—milcoisas.Agoranão.Acarnejásaiporsimesmado

seio da terra, sem couro e sem osso e na maior abundância. Como há minhocasnomundo!Lánosítio,quandoíamospescar,cadaenxadadade Pedrinho punha à mostra meia dúzia. E são ótimas para charque. Num instanteosolsecaumaminhoca.

— Maséporcariacomerminhoca!—disseEmíliacomcarinhade

nojo.

— Porquê?Seacarneésadia,nãovejonenhumaobjeçãorazoável.

Rigorosamente falando, porcaria era comer porco—e você mesma vivia elogiandoolombodeporcodetiaNastácia,comfarofaerodelasdelimão.

— Eeramesmoumsuco.

— Logo,tudoéquestãodehábito.Oschinesessemprecomeram

coisasqueosocidentais consideravamporcarias—enãomeconstaque essascomidastenhamprejudicadoaChina. Omovimentoemredordobaldeeragrande.Unsentravam,outros saíam, carregando coisas. Passou um homenzinho com uma casca de caramujovaziaàscostas—ialevando-aparadentrodobalde,comcerteza paraquebrá-laefazerpratinhos. Logo em seguida aparecerammais dois, com uma vara ao ombro e pendurada nela vinha uma minhoca se mexendo. Subiram por um talude e se foram na direção dos varais da charqueada. O talude era um belo trabalho de engenharia. Eles foram acumulandoterrajuntoaofiodacalçadaeassimconstruíramumplano

inclinado que ia se alargando à medida que descia. Em cima da calçada haviaumaescadinha,dandoparaumpequenorombodovelhobalde.Eraa portadeentrada.

— Olhe,Visconde! —gritou Emíliaapontando.—Elestiverama

mesmaidéiaqueeu. OViscondeolhoueviudoishomenzinhostocandoumbesouro— umpuxava-opelocabresto,outroempurrava-o. — Aquilotalvezsejaoprimeiropassoparaadomesticaçãodos insetos—observouoVisconde.—Elesvãofazeraexperiênciacomum

coleóptero. Osistemadasasasdobráveiseguardáveisdentrodosélitrosjá lhesatraiuaatenção.Achonaturalíssimo que comecem pelos besouros. À beira da calçada um homenzinho de tanga, com ar de chefe, dirigiaosserviços.Seuguarda-soleraumafolhinhadetrevo.

— LánosítioDonaBentaviviaarrenegandoessetrevodejardim

quenóschamamos "azedinhas". Dizia que eraumapraga. Hojesão preciosospésdeguarda-sóis.Vamosconversarcomaquelehomem.Está medandoidéiadeRobinsonemsuailha. OViscondesaiudetrásdamoitaeaproximou-sedobalde.Foium pânico.Todoslargaramdoserviçoecorreramaesconder-se.Obesourono

cabrestoabriuasasasefugiu.Aminhoca,livredovaral,lásefoipelochão, muitodepressa,quenemumacobrinha.Ochefejogouforaoguarda-sole tambémcorreu. OViscondeagarrou-oantesquechegasseaotaludeebotou-ona abadacartola,diantedajanelinhadaEmília. — Nãotenhamedo,disseesta.—Somosdepaz. OapavoradoRobinsonficoualgumtemposemfala,tamanhohavia sidooseususto.AspalavrasdeEmília,porém,oforamsossegando,eele porfimperguntouameiavozquemeraaquelegigante. Emíliariu-seerespondeu:

— Amelhoremaiorcriaturadomundo,meucarosenhorinseto.

Delenãovemmalaninguém.Émilho.Eeu?Ah,ah,ah!Eusoua"mãeda

criança".

Ohomenzinhoficounamesma.Emíliaqueriadizerqueeraelaa

autoradaprodigiosatransformaçãodahumanidade.

Depoisdealgumaprosa,EmíliapediuaoViscondequedepusessea

cartolanacalçada,poisqueriaconhecerdepertoavidinhadoshabitantes

dobalde.

OViscondeassimfez.Depôsacartolanacalçada.Emíliasaiupela

portae,dandoamãoaochefe,encaminhou-separaotalude.

— Eosenhorquemé?—perguntoupelocaminho.

— Eu era o Doutor Barnes, professor de antropologia na

Universidade dePrinceton; hoje sou o dirigente destegrupohumano.

Elegeram-mechefe,porqueachamquetenhomuitoboacabeça.

— Etem?

ODoutorBarnesriu-se.

— Seiquetenhominhacabeçanolugar,evouconduzindocomo

possoestecuriosotrabalhodeadaptaçãodumgrupodepessoasaltamente civilizadas.Perdemosotamanhoe — Perderam o tamanho? Ótimo! — exclamou Emília com

entusiasmo. — Estou encantada de ouvir um sábio como o senhor falar assim, porque os ignorantes pensam de modo contrário. Acham que se conservam tamanhudos como sempre e que as coisas em redor é que aumentaram.

— Absurdo! —exclamouosábiodePrinceton,depoisderir-sedo

"tamanhudo".—Umaumentodetodasascoisaséumaidéiaqueaciência

nãopodeaceitar, mas a ciênciapodeperfeitamenteaceitaraidéiada reduçãodotamanhodumaespéciedeanimais.

— Eu sei que é assim — declarou Emília — mas quando quis

provar isso àquela tia Febrônia do Major Apolinário, confesso que engasguei.

— Équevocênãoébemcientífica,minhamenina.Qualquersábio

sabe que as espécies animais têm variado de tamanho no curso da

evolução.Oscavalosjáforamdotamanhodecãesecresceram.Ostatusjá

foramenormesehojeestãopequenininhos.

— Euvinomuseuumacascadetatufóssildentrodaqualtodoslá

dosítiopodíamosnosesconderdachuva.

— Perfeitamente.Ora,issoquerdizerqueareduçãodotamanho

duma espécie não é fenômeno desconhecido — é até bem vulgar. A

novidade,porém,éque,noscasosdereduçãodetamanhoqueaciência

verificou,ofenômenofoiacontecendoaospoucos,nodecorrerdemilhares

deanos;enestecasodahumanidadeofenômenoocorreudeummomento

paraoutro.Todasasteoriasdaevoluçãoqueeuconheçonãopreviramesta

hipótesedareduçãoinstantânea.

— Nemeu,quantomaisasteorias!Quandoabaixeiachave,pensei

emtudo,menosnisso.

ODoutornãoentendeuaquelahistóriadechave.

Chegadosaorombodobalde,entraram.

Tudomuitobemarranjadinholádentro.ODoutorBarneserade

fato um chefe digno do cargo. Tinha dirigido a construção do talude e tambémdirigiraaobradocalafetamentodafrestaentreabeiradadobalde eacalçada.Emíliaobservouotrabalho.

— Quemassaéesta?

— Massadepapel—respondeuoDoutorBarnes.—Encontramos

nojardimumjornalvelho.Éumdosmelhoresmateriaisdeconstruçãode quedispomos.Notequetudoaquiédepapeloumassadepapel. Emília viu quê o cimento do chão estava atapetado de papel de

jornal,equehaviabancosfeitosdequadradinhosdepapelsuperpostose

colados.Agrandemesadecentroerafeitadomesmomodo,etambémas

camasemuitascoisasmais.

— Ecomojuntaasfolhasdepapel?

— Nadamaissimples.Depoisdecortadas domesmo tamanho

(cortamo-lascomumcaquinhodevidro),pomosumasemcimadasoutras

coladascomonossocola-tudo,queéaresinadeumaárvoreaídojardim.

— E a massa com que calafetou asfendas?

— Massadepapel.Deixamospedaçosdepapeldentrodáguaaté

quefiquemquasedesfeitos.Depoisamassamosaquilocomaresina,como se amassa o trigo para o pão. Obtemos uma substância ótima para mil coisas—umaexcelentematériaplástica.Émaisoumenosoqueusamas vespas naconstruçãodeseusninhos.

Aluzdesciaporumrombodobalde.

— Aquiloali—disseoDoutorBarnesapontando—estásendo

umadasminhasmaiorespreocupações.Foiexcelentequehouvesse tal rombo, pois do contrário não teríamos luz aqui dentro. Mas quando chover?

— Aindanãochoveuporaquidesdeodiadoapequenamento?Lá

naestradadosítiojáhouveumdilúvio.

— Aindanão—masdummomentopara outro chove e como

vamos nos arranjar? Se pudéssemos colocar naquele rombo um vidro,

seriaamaravilhadasmaravilhas.Vidro,vidro! Quemsomosnóshojepara lidarcomvidros?

— Alémdequeháaaltura—lembrouEmília.

— Aalturanãoéopior.Nãoviudoladodeforaumacomprida

escadadepau?Mandeifazê-lajustamenteparaqueeuempessoapudesse examinarasituaçãodorombo. Emíliateveumaidéia. Planteumaorelha-de-pauemcimadorombo,comofizsobre minhajanelanacartoladoVisconde. ODoutorBarnesriu-se.

— Impossível,menininha.Obaldeédemetal.Oscogumelosnão

nascemnosmetais. — Não precisa que nasçam. Basta que pregue um com o seu colatudo.VoumandaroVisconderesolveresseproblema.Sossegue. ODoutorBarnesapresentouEmíliaaoshabitantesdePailCity,ou aCidadedoBalde.Havialáumasvintepessoas,entrehomens,mulherese crianças,todosdetanguinhas—umasdepapel,outrasdemusgo. — Estou fazendo uma série de experiências para verificar a melhorsubstânciaparatangas—disseoDoutor.—Todasasqueestãoem usosãoprovisóriaseexperimentais.Umdosmeuscompanheiros,queé químico,andapensandonumatangasintética.

— Issoébobagem—disseEmília.—Oalgodãoresolveutudo—e

contou as suas aventuras no tempo do chumaço. E ainda conservo as botinhasdealgodãoendurecidocomclaradeovodebeija--flor,concluiu espichandoumpé. ODoutorBarnesabaixou-separaverechamouoquímico.

— Excelente!—disseeste.—Masamaçadaéquenãotemospor

aquiclaradeovodebeija-flor,nemalgodão.

— Eutenho—berrouEmília.—Nomeuquartodebadulaquesna

cartoladoViscondetenhoalgodãoeumovopelomeio.Comosófaçocaso

dagema,osenhorpodeirláeretirartodaaclara—massómetadedo

algodão.

Oquímicofoi—ePailCityenriqueceu-sedemaisdoismateriaisde

grandenúmerodeempregos.

— Eaalimentação?—perguntouEmília.

— Éoquemenosmepreocupa—respondeuoDoutorBarnes.—

No começo pensei no mel das flores; depois desisti da idéia. Há a dificuldade de chegar até às flores, sempre tão altas, e o perigo de nos expormosaoataquedasavesevespas.Eháaindaasestaçõessemflores. Depoisdemuitorefletir,fixei-menasminhocascomooalimentobásicoda humanidadereduzida.Acaçaéfácil,porqueemcertasépocasasminhocas saem espontaneamente da terra; e como secam muito bem ao sol, já

organizeiumserviçodecaçaecharqueamentodeminhocas,parausonos tempos de escassez. Tenho ali — e apontou para um depósito — uma reserva de vinte minhocas charqueadas, o suficiente para nossa alimentaçãoduranteummês.Mesmoassimnãoparamosdecaçá-las.Ainda hojeapanhamosuma,quefugiu.

— Euvi.Masquegostotemcarne-secademinhoca?

— Issodegostoéquestãodehábito.Nocomeçohouveporaqui muito focinho torcido. Agora já comemos minhoca seca sem a menor repugnância—eeuatéachoumadelícia.Temumgostinhomuitoespecial.

— Dequê?

— Dequê? — Deminhoca.Quimicamenteéumacarnecomooutraqualquer.

— Deminhoca.Quimicamenteéumacarnecomooutraqualquer. Ecomoasminhocaspossuemdezcoraçõesecemrins,tambémorganizei umserviçodetiradadecoraçõeserinsdeminhoca.Jáéum alimento mais especializado, bomsobretudoparaascrianças.

— Ecomem-nascruas?

— Sim. Felizmente estamos livres daquela peste chamada fogo, quefoiaverdadeiraperdiçãodahumanidade.

— Porque,Doutor?

Nessemomentoforaminterrompidosporummensageiro.

— DonaEmília,oViscondeestáchamandoasenhora—disseele.

XXI

AORDEMNOVA

Saíramdobalde.OViscondequeriaconversarcomoDoutorsobre

certospontosqueopreocupavam.Paraissodeitou-senacalçada,como

rostonamãoeocotovelonocimento.

— Estougostandodasua "atividadeadaptativa", Doutor. Fazer

tanta coisaemtãopoucotempoatémeparecemilagre.Achaqueohomem podesubsistir,assimreduzidodetamanho?

— Perfeitamente. Não só subsistir, como até criar uma nova

civilização muito mais agradável que a velha — sem os horrores da

desigualdade social da fome, das blitzkriegs e das inúteis complicações criadaspelosinventosmecânicos.

— Écomoeupenso—berrouEmília.

— Asminhasconclusões—continuouosábio—resumo-asem poucaspalavras.Aqueletipodecivilizaçãoquehavíamosrealizadoerauma simplesconseqüênciadofogo.Enquantoohomemnãodescobriuofogo,

viveumuitobemdentrodaleibiológica, acivilizar-selentamente.Veioo fogo e tudo mudou — começou o galope sem fim. Que eram aqueles monstruososarranha-céusdestepaís,queeraablitzkriegdosalemães,que eraanossapressadetransporteecomunicaçãopormeiodetrens,aviões,

navios, telégrafos, telefone e rádio, senão uma conseqüência do fogo? Apague-seofogoetudodesaparece.

— Issonão—protestouEmília.—Orádionãodependiadofogo.

— Erroseu,minhafilha.Orádiodependiadaeletricidade,epara

produzireletricidadetínhamosdeusarturbinasedínamos,coisasfeitasde

ferro—equeméopaidoferro?Ofogo. Emíliaembatucou. — Tudo naquelacivilizaçãoeraumprodutodoferro,continuouo

sábio,eoferroerafilhodofogo.Felizmenteestamoslivresdofogo,como euia dizendoquandoo mensageironosinterrompeu. Estamoslivresdo fogoedoseufilhooferroedasmilreinaçõesqueosdoisfaziamnomundo, comoasgrandesguerrasemquetudoeraferroefogo.Estamoslivresaté datremendamultiplicaçãodoshomenssobreoplaneta. — Como?

— Foi o fogo que permitiu aos homens viverem em todos os

climasenãoapenasnosquelhesconvinhamnaturalmente.Semofogoo homemsóviverianaszonastemperadas,asboas,enuncanaszonasfrias.E portantohaveriamenosgentenaterra—outraenormevantagemtanto para o próprio homem como para os animais. E há ainda outro aspecto muitoimportantedofogo:osseusefeitosnaalimentaçãohumana.Graças aofogoohomempôdetornarcomestíveismuitascoisasquenãoeram,e issoaindaaumentouapopulaçãohumananoplaneta,porqueaumentou enormementeaspossibilidadesdealimentação.Demodoquedofogoveio ocalamitosoaumentodapopulaçãohumana,nãosópermitindoainvasão dasregiõesfrias,comotambémtransformandoemcomestíveiscoisasque não eram naturalmente comestíveis. Quanto mais espaço vital e mais comida,maisgente.Eveiootalferroqueialevandoahumanidadeaomais desastrosofim.Quefoiaúltimaguerrasenãoodesabamentoemcimado homem de toda a civilização baseada no ferro, sob forma de tanques, canhões,fuzis,metralhadoras,bombasaéreasetc?Sempreoferroeoseu maldito pai fogo! Ora um, ora outro, quase sempre os dois juntos, não faziamoutracoisasenãotorturaroshomens.Numabombaaéreaqueos aviõesderrubavamsobreLondres,ofogovinhadormindodentrodoferro. Quandooferrodabombachegavaaochão,opaideleládentroacordavae, Bum! explodia e arrebentava tudo — e eram mortes e mais mortes,

criancinhas despedaçadas, um horror! Nos incêndios o fogo trabalhava sozinho,dançavaasuahorríveldançadechamassobrecasasemaiscasas, sobreruasinteiras,àsvezessobrecidadesinteiras. — E nas baionetas, espadas, punhais, facas, chuços, lanças, esporas,espetos,eraoferrosozinhoquejudiavadoshomens,doscavalos edos frangos, acrescentouEmília.

— Poisé—continuouosábio.—Estouconvencionodequea

desgraça da velha civilização veio das conseqüências sociais do fogo. Semprepenseiassim,porquesemprevivinaterramaisatormentadapelas reinaçõesdofogoedoferro:essainfinidade de máquinas que aqui na América nos fazia tropicar num galope sem fim — para que, meu Deus, parachegaraoquê?Imaginem,pois,omeugostoquandosobreveioeste súbitofenômenodareduçãodotamanho—omaravilhoso-remédioparao caminhoerradoemqueoHomosapienssehaviametidodesdeadescoberta dofogo.

Emília rebolou-se de contentamento, radiante de ter sido ela a descobridorado"maravilhosoremédio". — Sim — concordou o Visconde. — Todas as outras espécies

animais vivem muito bem neste mundo sem recorrer ao fogo. O Homo sapiensfoioúnicoaentrarporessecaminho.

— Umcaminhoerrado—insistiuoDoutor.Livresdofogo,nós

vamosagoraconstruirumacivilizaçãomuitomaisnaturalevantajosapara nós mesmos — sem guerras, sem máquinas, sem aquele desvario das invençõesquenosiamlevandoparaobeleléu. — Iam levando não senhor— disseEmília.—Quelevou!Aquela civilizaçãoestáporaíemcacos—cacosdeautomóveis,cacosdeaviões, cacosdetrens,cacosdenavioecacosdeidéias—comoavelhaidéiade leão ou a idéiadepinto. E asmáquinasdetodasasfábricaslogoestarão enferrujadas. E as cidades virarão ruínas cobertas de mato. Mas nós poderemoscontinuaraviverperfeitamente,comendominhocasemvezde

bois,meldefloresemvezdecocadas,eavoaracavaloembesourosemvez

decorreremautomóveis.

— Issomesmo—concordouoDoutor.—Seráregressarmosao

períododaevoluçãohumanaanterioràdescobertadofogo,mascomtodaa

nossabelaciêncianacabeça—epodemossermuitomaisfelizesqueos

nossos avós daquele tempo. Olhe, disse ele apontando para os homenzinhos que construíam um cercado para besouro rente à calçada. Um segura o espinho-moirão, outro bate com um malho. Que é aquele malho?Umvelhoinstrumentodohomemdoperíododapedralascada— umpedregulhoaquidojardimqueelesamarraramnumcabo.

— Masaciênciavailevarabreca,porqueaciênciaestánoslivros

eoslivrosjánão podem serusados —observouEmília.—Pedrinhofeza

experiêncialánacômoda.Leudoisoutrêsperíodosdumlivroecansou.

— Paratudohaverájeitos.Antesdeexistiremoslivrosjáexistia

cultura. Temos as nossas cabeças, e dentro delas a memória. Iremos transmitindoaciênciadeumacabeçaparaoutra.Emuitacoisapoderemos escreverempalhinhasoupétalassecas.

— Papirinhos!

Sim—emandoubuscarládentrooseulivrodenotas.—Aqui tem, disse ele mostrando um caderno de dez folhas de pétalas de rosa. Corteiaspétalasemretângulosedeixei-asaosolprensadasentre dois

pedacinhos de vidro aí dochão.Secaramsemenrugar.

— Eparaescrever?

— Usei um finíssimo espinho de figo da Berbéria. A tinta foi o caldodumafrutinha preta muito abundante poraqui. Emíliaadmirouaquelelivrodepétalasderosa,quetalvezfosseo livronúmeroumdanovahumanidade.

— E que acha da domesticação dosbesouros?—quissaber.

— Achoumaidéiaexcelenteejámandeiapanharumparacomeço

de estudo. A variedade de insetos é enorme. Estou convencido de que

encontraremosinúmerosaproveitáveisepreciosíssimos,nãosóparaovôo,

comoparaotransportedecargas.

— Paraotransportedecargasnemhánecessidadedeestudo—

disseEmília.—As formigas nasceram carregadoras. Equeforçaelas temiLánosítiovisaúvascarregandogrãosdemilhointeiros,umacoisa muitomaispesadaqueelas.EPedrinhoatrelavabesourosemcaixasde fósforoscommuitacoisadentro—eelespuxavam.Aforçadosbesourosé incrível.Eparaasgrandesvelocidadesteremosaslibelinhas.

— Nãovamosterprecisãodevelocidadenemdepressa—volveu

oDoutorBarnes.—GraçasaDeusjáestamoslivresdessesdois horrores.

Para que pressa?Paraquevelocidade?Todaaquelaimensavelocidade

alcançada pelos homens tamanhudos, como você diz, só serviu para precipitá-losnoabismodamatançaemmassa.Asnossaspossibilidadesde domesticaçãodosinsetosparecem-meinfinitas. Emíliadesembestou:

— Isso mesmo! Domesticaremos osserra-paus,paraserrar

paus.Easbrocasdaslaranjeirasparaserviremdeverrumas.Eosmede-

palmosparaasmedições.Eospernilongosparaaamúsicadofiun.Eos

gafanhotosparasubstituíremaspontes—pularemosriozinhosmontados

neles!Eoscaranguejosparaabriremtúneis.Eastaturanasparatecerem

fiosdecasulo.Easmamangavasparabuldoguesdasnossascasinhas.Com

uma boa mamangava amarrada no quintal, quero ver quem entra! E os pulgõesparatermosleitedevaca.

— Sim—concordouosábio.—Asformigasestãonosindicando

esse caminho. Elas tratam os pulgões exatamente como os homens tratavamasvacas.Ospulgõeschupamaseivaadocicadadecertasplantase parecequeseenchemdemais.Ficamestufadinhos—eatégostamquando umaformigachegaelhestiraaquelemel,comoosleiteirostiravamoleite

devacas.Noinvernoelasrecolhemospulgõesaosformigueiros,comoos

homensrecolhiamasvacasaosestábulos.Láficamelesbemdefendidosdo

frio.Sefazumbelodiadesol,asformigasoslevamparafora,parajunto

dastaisplantinhasdeseivadoce—eelesseenchemdaqueleleitecomque

asformigasseregalam.

— Podemos utilizar esses pulgões como mamadeiras para as nossascrianças—lembrouEmília.

O Doutor Barnes concordou. Aquele sábio era uma verdadeira Emíliamasculina.Suaimaginaçãotambémdisparavadefreionosdentes. Depoissereferiuaoscupins.

— Comastérmites,quesãoasformigasbrancas—disseele—

temosmuitacoisa a aprender. Esses insetos constroemmaravilhosas cidadesdebarro—oscupins—ondevivemaosmilheiros.Amassamo barrodum tal modoqueessascidadesresistematodasaschuvasdurante anoseanos.Dentroconstroemgaleriascomumasubstânciapreta,queéa celulose das plantas mascada e misturada com qualquer líquido colante quenãosei.Oqueseiéqueaquiloequivaleaummaravilhosomaterialde construção,resistente,elástico,maucondutordocalor,higiênico.Também revelamumaaltaciêncianaconstruçãodasgaleriaseninhosesalasetudo mais.Oasseioeahigienedoscupinseraumadasmaravilhasquemais assombravamosentomologistas.

— Euseioqueéentomologista!—berrouEmília.—Éosábioque

estudainseto.

ODoutorBarnesriu-se.

— Etambémpodemoscultivaraquelesfungosdequeasformigas

se alimentam. Meu Deus! Que é que não poderemos fazer com a nossa inteligência, mergulhados na infinita abundância de materiais que daqui pordiantevamosterànossadisposição?

— Issomesmo—concluiuoVisconde.—OTamanhoeraomal.

Produziaescassez.Énodestamanhoqueestáaabundância.

AquelahistóriadeandarcomaEmíliaemcimadacabeçaestava

"emiliando"oVisconde.—Destamanho!Éboa.

XXII

NACASABRANCA

AvidaemPailCityeraumencanto.Ninguémtinhapressadenada. Iamconstruindocoisasporprazerenãopornecessidade,comonotempo tamanhudo,emqueoshomensquenãomorriamnotrabalhomorriamde fomeemiséria.Aquelejardimimensodava-lhesdegraçatudoquantoera necessárioàvida—ar,água,alimentoemateriaisdeconstrução. Alémdocercadoparaosbesouroshaviamconstruídoumparque derecreioondegozavamavidanashorasdetemperaturaagradável.Emília encantou-secomoparquedePailCity,umverdadeiromimodeplantinhas graciosas. Havia vários cogumelos com assentos embaixo, nos quais as damasdetangaforamsentar-separaemendaretorcerasfibrasdealgodão queelalhesdera.Entreumchapéu-de-sapoeoutro,Emíliaviuumarede comumaestreladecinemadentro,abalançar-secomumaestrelinhaao colo.PailCityficavapertodeLosAngeles. Junto ao jardim havia um pomar de laranjeiras. Eles tinham conseguido rolar para ali uma laranja encontrada no chão. Abriram-na. Desfizeramumgomoelevaramparaobardoparqueas"garrafinhas"de caldo.Láestavamelassobreumbalcãodepedregulho.Quemtinhasede, tomavaumdaquelespequenosodrestransparentes,cortavaobicoebebia àmodadosespanhóis,despejando-onagarganta. Emília levou várias garrafinhas de laranja para o seu quarto de badulaquesnacartoladoVisconde. ODoutor.Barnesaproveitouobomgiganteparaváriascoisasda maioremergência,comoacolocaçãodovidronorombodobalde.Houve embaraçonaescolhadacola.Comquecolacolarovidro? QuemresolveuoproblemafoiaEmília.

—Dêumpasseiopelasruasdacidadeeprocure"mascadinhos"de chicletedebaixodosmontesderoupa.Juroqueencontrarámuitos.Melhor colanãohá. OViscondeassimfez.Saiudojardimepercorreuaruapróxima, levantando os montes de roupa sem gente dentro — e voltou com um punhadode"mascadinhos"dechiclete. OshabitantesdePailCityjuntaram-senacalçadaparaassistirao gloriosoacontecimentodacolocaçãodovidropeloprovidencialgigante— e o Doutor Barnes inscreveu em seu caderno de pétalas o nome do ViscondedeSabugosacomoograndebenfeitordacidade. Nada mais tendo a fazer ali, despediram-se. O Doutor Barnes declarouqueaquelavisitairiapermanecergravadaemtadososcorações. Emíliasentiuumnónagarganta.Porsuavontadeficariamorandoalipara sempre. Uma das conseqüências do conhecimento de Pail City foi a resolução que ela tomou de "sabotar o Tamanho" no dia do plebiscito, porque entre outras desgraças o Tamanho viria estragar aquele lindo começodecidade. Porfim,depoisdemuitosabraçosebeijos,etrocadepresentinhos, oViscondecheirouumgrãodesuperpóe—fiunnn! Washington. Forampararexatamentenaruadopalácioondesempreresidiram ospresidentesamericanos.Tudodeserto,comoemtodaparte.Montinhose maismontinhosderoupas,comchapéusemcima,guarda-chuvas,óculose dentaduras. Ao entrar no jardim da Casa Branca, o Visconde lembrou-se do PresidenteLincoln,doqualelehaviaherdadoacartola.DonaBentaeraa maioradmiradoradessehomem.Diziasempre:"DepoisdeJesusCristo,o entequeeumaisveneroéAbraãoLincoln." ComosolhosnasjanelasdopaláciooViscondemurmurou,como quefalandoparasimesmo; —Ali estiveram assentados os doisenormespésdovelho

Abe

— Quehistóriaéessa?—gritouEmíliadajanelinha.

— Éumcasohistóricoquevemnoslivros.Umsacerdotetinha vindoemprocuradoPresidente.Aoentrarnestejardim,viunumadessas janelas dois pares de pés com as solas para fora. "Que é aquilo?" perguntou ao jardineiro quepodavaasplantas. "Éumareuniãodo Ministério",respondeuohomem. "Osdoispésgrandessãoosdovelho Abe."Abe era o apelido popular do nomeAbraão. Emíliacomoveu-secomahistória. Entraram.Todasasportasabertas.Aquieali,oseternosmontesde roupasqueelesestavamcansadosdeverportodaparte.Foramandando peloscorredoresesalas.Numa,quedeviaseradasreuniõesdogoverno,o Viscondeparoueespiou,escondidoatrásdoreposteiro.Sobreotapete,por entre as roupas em monte, um pequeno grupo de insetos descascados discutia a situação. Era o governo americano. Um dos ministros tinha a palavra.

— Ogovernojánãoexiste—diziaele—pelasimplesrazãodeque

jánãoexisteoquegovernar.Oextraordináriofenômenoquedestruiuo tamanhodoshomens desta grande nação veio alterarcompletamente asantigascondiçõesdevida—eimpossibilitaraexistênciadogoverno.O governoamericano,queeraomaispoderosodomundo,estáhojen