Sei sulla pagina 1di 8

Para ensaísta, psicanálise é fundada em noções interpretativas sem base

empírica

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2210200012.htm
O gênio da retórica
Frederick Crews
especial para a Folha

Terá Freud sondado as profundezas da psique como muitos em romaria à


exposição da Biblioteca do Congresso sem dúvida irão supor e continuar
acreditando na volta para casa? Ou terá simplesmente atravancado nossa
concepção da psique com um labirinto de canos mal-ajambrados (1), fazendo
os dejetos de sua estranha imaginação circularem pelo nosso saber médico e
cultural? Alimentar tão ímpia questão é considerar se a autocomplacente
"intelligentsia" de nossa época talvez tenha sido, talvez ainda seja, não menos
iludida do que o foram antes os que acreditavam em chaves mestras para o
sentido. Mas o que poderia ser mais provável que isso? Afinal, a psicanálise
não seria o primeiro sistema a extorquir fidelidade de modernos intelectuais
seculares sem ser nem metodologicamente escrupuloso, escorado em fatos,
nem livre de consequências daninhas. A freudolatria, em sua veia mais
exaltada, beira a franca veneração religiosa, como quando, por exemplo, um
filósofo do contrário perspicaz retrata o seu ídolo como um grande sábio e
curandeiro que "fez tanto para a humanidade quanto nenhum outro ser
humano que viveu" (Wollheim). A visão da maioria, porém, é mais
temperada, combinando dúvida e respeito em doses aproximadamente iguais.
Sim, pois muita gente imparcial diz consigo: Freud cometeu alguns deslizes
que remontam ao "Zeitgeist" (espírito do tempo) de sua era vitoriana tardia,
mas foi também um desbravador que nos proporcionou um novo modo "de
explicar nossas manias, fantasias e aflições neuróticas, remetendo a crenças e
desejos inconscientes" (Rorty). Não foi ele um de nossos "fundadores da
discursividade", um titã da inovação que, portanto, não estaria "sujeito a se
conformar aos cânones da ciência" (Goodheart)?

Voto pela complexidade


E certamente, presume-se, ele permanece nosso único esteio contra o
retrocesso a um positivismo e associacionismo rasteiros. Como formulou um
partidário, "Será que devemos ver os seres humanos como tendo
profundidade, como complexos organismos psicológicos que geram camadas
de sentido subjacentes à superfície de seu próprio entendimento? Ou devemos
nos tomar como transparentes a nós mesmos?" (Lear). Um voto pela
complexidade, parece, é automaticamente um voto para Freud. Embora em
princípio atraente, essa linha de raciocínio é tanto a-histórica quanto ilógica.
Como Lancelot Law Whyte e Henri F. Ellenberger mostraram há tempos,
Freud não merece nenhum crédito por nos ter introduzido ao "inconsciente",
um lugar-comum romântico com uma linhagem que remonta a Platão.
Nietzsche, em particular, antecipou muito do que soa profundo em Freud e o
fez com vivaz sagacidade, não com diagramas e com falsas e cabotinas
histórias de cura (Anzieu; Lehrer; Gellner). Tampouco devemos confundir o
inconsciente psicodinâmico de Freud, uma insubstancial porção da mente que
supostamente conspira e subverte, expia, rememora, simboliza, joga com
palavras, cifra seus pensamentos em sintomas e briga consigo mesma
enquanto o sujeito permanece deslembrado com o funcionamento mental
inconsciente, cuja existência é incontroversa e pode ser prontamente
demonstrada (Kihlstrom). A originalidade de Freud, veremos, está exatamente
onde ele é mais vulnerável, em sustentar que hipotéticas paralisias, espasmos,
alergias, úlceras, fobias, compulsões e obsessões psicogênicas podem ser tanto
compreendidas quanto curadas rebatendo as reveladoras características da
"livre associação" do sujeito e pressionando a regurgitação das memórias ou
fantasias por trás delas -um método, dizem, que rende os pensamentos
secretos determinantes dos sonhos e lapsos. Esse tiro no escuro diagnóstico e
terapêutico, em combinação com as exóticas etiologias, os diversos modelos
de controle do instinto e as temerárias explicações da história e pré-história
que daí foram deduzidas, constituem a única e específica contribuição de
Freud ao legado intelectual de nossa era. Onde, exatamente, na edição
standard das "Obras Psicológicas Completas", podemos encontrar a necessária
evidência para começar a autenticar as suas principais hipóteses? A
surpreendente resposta é: em lugar nenhum. Claro, o texto de Freud oferece
muitas garantias de que ele efetivamente curou tal ou qual paciente ou ficou
satisfeito por ter solucionado tal ou qual mistério; mas qualquer charlatão
poderia dizer o mesmo. Menção também é feita a provas passadas e futuras,
fundadas em impecável pesquisa, mas elas não podem ser localizadas em
lugar nenhum dos seus 24 volumes. A coisa mais próxima de dados tangíveis
nos escritos psicológicos de Freud parece ser a engenhosa e divertida fieira de
trocadilhos que ele nos diz ter colecionado em sua sala de consulta -
trocadilhos que supostamente mostram como, num dado caso, o espírito do
paciente seguiu uma cadeia de associação que expressa um disfarçado motivo
sexual ou agressivo. Mas os trocadilhos vinham a ser do próprio Freud,
atribuídos falsamente ao inconsciente de seus pacientes de modo a forjar
nexos temáticos que ninguém, senão um freudiano, pudesse detectar. Assim,
as ousadas inferências biográficas que Freud baseou em tal "indício" não são
concludentes. Todo o sistema do pensamento psicanalítico clássico não
repousa em nada mais substancial senão na palavra de Freud de que ele é
verdadeiro. E é por isso que um antigo Nobel de Medicina, sir Peter Medawar,
ficou famoso ao condenar esse sistema como um estupendo conto-do-vigário
intelectual.

Zombar do senso comum


Em repúdio a tão desiludida perspectiva, uma quantidade de apologistas de
inclinação filosófica afirmaram recentemente que os credos psicanalíticos são
meramente uma extensão plausível de nosso modo habitual de inferir motivos
(Davidson; Wollheim; Cavell; T. Nagel; Rorty; Lear; Levy; Forrester). Se
esses pensadores estão certos, desafiar Freud seria lançar desnecessária dúvida
no próprio senso comum. Mas a verdade é que a psicanálise clássica zomba a
cada passo do senso comum.
A experiência comum não nos ensina, por exemplo, que sentimentos de
aparência benévola são sempre defesas contra outros mais primários, hostis
e/ou libidinosos; que a força de um desejo pode ser aferida pela severidade da
proibição social contra ele; que cada peculiaridade no comportamento de
alguém tem de provir de uma específica provação infantil; que um sintoma
tem de aludir simbolicamente ao trauma reprimido a ele subjacente; que um
certo trauma sepulto tem de ser realçado para que uma neurose seja
subjugada; ou que cada costume, cada ideal cívico, cada obra de arte tenham
de ser obtidos à custa de somas de insubstituível libido que deixam a
"civilização" cada vez mais empobrecida eroticamente. Todas essas são
hipóteses idiossincráticas e contra-intuitivas, porém figuram entre os axiomas
que permitem aos freudianos pôr de lado as aparências e lograr o que
consideram ser a profundidade explicativa. Alguns traços da psicanálise
clássica, com certeza, têm um certo ar de verdade. Em particular, não se pode
descartar facilmente a hipótese de que "mecanismos de defesa", tais como
projeção, identificação e recusa, afetam as produções mentais. Mesmo um
crítico contundente como Adolf Grünbaum admitiu repetidas vezes o fascínio
intuitivo de tais conceitos. E não resta dúvida de que sua evocação permite
façanhas hermenêuticas de deslumbrante engenhosidade para serem postas em
prática com base em declarações, textos e obras de arte. Contudo aqui há um
sério problema que os sectários da psicanálise recusam fielmente abordar.
Freud não nos deixou nenhum critério para distinguir se uma dada expressão
deve ser tomada ao pé da letra ou considerada como uma solução conciliatória
moldada por tal ou qual defesa inconsciente contra um desejo ou uma fantasia.
Assim, não podemos sustentar que a consciência dos mecanismos de defesa
nos põe no rumo do conhecimento confiável sobre um dado tema psíquico.
Pelo contrário, a noção desses mecanismos simplesmente amplia o alcance da
licença arbitrária à disposição do intérprete, que não terá dificuldade, como
Freud certamente não teve, em moer a conduta e a história do paciente,
transformando-as na salsicha que são os complexos típicos, as cenas
primordiais reprimidas e coisas do gênero. Ironicamente, é justamente essa
superabundância de oportunidades para traçar nexos temáticos que impede o
método freudiano de fazer jus à complexidade da motivação com a qual
estamos sempre às voltas, inclusive o próprio Freud, infinitamente volúvel e
dramático que era.

Crise progressiva no sistema


Aliás, a flexibilidade quase infinita dos mecanismos de defesa pode ser vista,
em última instância, não somente como a garantia de que os freudianos jamais
encontrarão material não-interpretável, mas também como a mais profunda
fonte de suas disputas e desavenças internas.
Todo intérprete psicanalítico é prontamente capaz de armar uma "lógica
inconsciente" para dar a razão de uma certa atitude, de um certo credo,
protesto, poema ou sonho; mas outros intérpretes psicanalíticos
inevitavelmente discordarão; e, já que todas as partes simplesmente seguem os
seus palpites, entoando o estribilho numa canção escolhida ao acaso, é
impossível encontrar uma base empírica para se decidir por esta ou aquela
versão. A própria profusão de leituras engenhosas, mas conflitantes, todas
recorrendo aos mesmos meios de inferência, gera uma progressiva crise no
sistema, cujo avanço institucional tem de continuar drasticamente centrífugo,
dando à luz escolas e panelinhas que se excomungam mutuamente. A essa
altura o leitor terá compreendido que não me incluo entre aqueles que vêem
na psicanálise plausibilidade suficiente para esperar uma clarificação futura
das ambiguidades e uma reaproximação dos valores da ciência responsável.
Considero que o sistema de Freud está em apuros mais graves que esse.

Teorias não testadas


Como mostrou Frank Cioffi, a teoria freudiana não é um conjunto de
proposições adequadamente limitadas, operacionalmente significativas, mas
sim amplamente não testadas, simplesmente defendidas por seus partidários
contra a avaliação rigorosa. Ao contrário, as próprias proposições nebulosas
lançam mão de provas extraídas de uma esfera calculadamente inexaminável,
e uma correção integral dessa falha simplesmente faria desaparecer o corpo da
doutrina. Nas palavras mordazes, mas judiciosas, de Ernest Gellner, "a evasão
não é introduzida para salvar a teoria, ela é a teoria". Pensem, por exemplo, no
modo de Freud construir o inconsciente, uma entidade que, a princípio, falava
somente a Freud e, mais tarde, somente aos freudianos. Eis aqui um exemplo
da concretude fora de propósito que Wittgenstein satirizaria no conceito do
"sr. Ninguém". Ao evocar um segundo espírito prematuramente arguto, que
absolutamente não esquece, que faz trocadilhos multilíngues, que se oculta,
mas deixa sua marca mesmo nos aparentes detalhes, Freud anunciou que
improvisaria leis e interpretações sem evidência empírica, colhendo "provas"
das mais inocentes circunstâncias e declarando-as remontáveis, com gnóstica
certeza, a ocorrências deformadoras nos primeiros anos de seus pacientes. O
inconsciente, "dinamicamente" concebido, não é tanto um segmento da mente
quanto uma senha para subverter as aparências e chegar a conclusões
preestabelecidas. Algo semelhante pode ser dito da regra do estrito
determinismo psíquico -a idéia de que cada ação isolada, mesmo a escolha de
um número aparentemente aleatório, pode ser remontada, em princípio, aos
trabalhos do conflito mental inconsciente. Essa noção mostrou-se palpitante a
humanistas acadêmicos, que ainda se admiram com o que erroneamente
consideram ser a ascética obediência de Freud ao etos científico. Não, estrito
determinismo era apenas outro nome para a "hybris" de Freud, sua recusa em
reconhecer que quaisquer pensamentos, atos ou estados físicos talvez estejam
fora do alcance de seu rolo compressor hermenêutico. Do mesmo modo, a
chamada "sobredeterminação" da causalidade psíquica, segundo a qual uma
ação ou expressão pode conter uma variedade de significados secretos, foi a
licença que Freud outorgou a si mesmo para desfiar múltiplas interpretações
sem ser perturbado pelas contradições entre elas. Tais eram as ferramentas,
não de um cientista, mas de um megalomaníaco intelectual. Sendo assim, a
teoria psicanalítica clássica deve ser vista não como um conjunto de
inferências sóbrias (embora improváveis) da "experiência clínica", mas antes
como uma máquina de movimento perpétuo, um mecanismo livre de atritos,
gerador de discursos irrefutáveis.

Falência intelectual
Quanto a essas "fundamentais contribuições para a compreensão das origens
das pulsões e dos conflitos" que o folheto da Biblioteca do Congresso
caridosamente atribuiu a Freud, descobriremos que elas evaporam tão logo se
pergunte o que sejam. Os freudianos estão na defensiva, e as estratégias de
defesa que adotam são elas próprias sintomáticas da falência intelectual. Em
vez de tentar mostrar que Freud inferiu corretamente o trauma infantil a partir
da livre associação, ou que suas leis mentais estão realmente vinculadas de
forma clara e adequada à observação, eles lançam mão de critérios de prova
mais frouxos. Os críticos, sustentam eles, ignoram as percepções modernas da
natureza relativa da ciência. Somos então brindados com uma tendenciosa
sinopse da concepção da história científica de Thomas Kuhn (1922-1996),
segundo a qual uma suposta incomensurabilidade entre paradigmas
concorrentes é tomada como sinônimo (a despeito dos opositores de Kuhn) de
que "prova" é tudo quanto os partidários de um dado paradigma declaram ser.
Não precisamos nos preocupar, diz o argumento, com o uso que Freud faz de
sua própria teoria para justificar as razões dessa teoria, uma vez que
percebemos agora que todas as teorias tomam iguais liberdades. Mas, como
mostra Barbara von Eckardt, essa posição em voga é oca. Por mais carregadas
de teoria que sejam em geral nossas idéias e percepções, é tanto possível
quanto necessário ser teoricamente neutro naquilo que conta: excluindo a
circularidade de um teste ou uma justificativa. Assim, o fato de que os
argumentos científicos nunca prescindem de pressupostos não é desculpa para
a clamorosa petição de princípio da psicanálise. Ademais, a acusação a que
está sujeito o freudismo não tem nada a ver com os rarefeitos debates na
filosofia ou sociologia da ciência. Antes, ela reside naquilo que Sebastiano
Timpanaro chama "um nível muito mais modesto e artesanal", o dos lances
furtivos que seriam julgados inaceitáveis não somente na ciência, mas na
conduta dos afazeres diários. A verdadeira questão é simples: quão
indulgentes queremos ser ante a postura "eu-sou-cara-você-é-coroa" de um
pensador idolatrado?

Cativante mito prometéico


A resposta, para muitos freudianos, é que não devemos ser menos indulgentes
do que foram os contemporâneos de Freud. Seria anacrônico, somos
advertidos, submeter Freud a padrões de prova concebidos bem mais tarde.
Mas isso é ser injusto com a sagacidade de nossos cientistas do passado. Anos
antes de reescrever a história psicanalítica como um cativante mito
prometéico, Freud foi recebido com mais ceticismo que nas seis décadas
desde a sua morte. Seus inconversos contemporâneos viram a futilidade de
suas pretensões com admirável clareza.
Foi Fliess, o amigo mais próximo de Freud, que salientou em 1901 que Freud
atribuía seus próprios pensamentos ao intelecto de seus pacientes. Foi C.G.
Jung, em 1906, muito antes de se desavir com Freud, que observou que a
terapia psicanalítica "nem sempre oferece na prática o que dela se espera na
teoria". Foi Gustav Aschaffenburg, também em 1906, que lamentou que a
apresentação dos casos feita por Freud fosse inadequada, que ele guiasse seus
pacientes a revelações sexuais especiosas e que insistisse em interpretações de
sonho propícias, sem levar em consideração alternativas igualmente
plausíveis.
E, já o primeiro número da "Psychoanalytic Review", em 1913, continha um
artigo afirmando que "não há absolutamente nada no universo que não possa
ser prontamente transformado em símbolo sexual. (...) Podemos explicar,
pelos princípios freudianos, por que as árvores deitam raízes no solo; por que
escrevemos com canetas; por que pomos um quarto de litro de vinho numa
garrafa em vez de pendurá-lo num gancho como um presunto e assim por
diante (...) As curas resultantes do tratamento freudiano não têm valor de
prova, em apoio aos dogmas freudianos" (Dunlap).
Aliás, não foi um crítico recente, mas Pierre Janet, um contemporâneo de
Freud, que, em 1925, formulou estas críticas devastadoras tanto de sua teoria
quanto de sua terapia: "Nenhum fator que opera em igual medida entre os
enfermos e os sãos pode ter importância patogênica. (...) A meu ver, parece
que o método psicanalítico é, antes de tudo, um método de construção
simbólica e arbitrária; mostra como os fatos "poderiam ser" explicados se a
causação sexual das neuroses tivesse sido definitivamente aceita; mas a sua
aplicação não pode ser adotada enquanto essa teoria ainda não estiver
provada. (...) O mero fato de um evento ter desempenhado um papel há muito
tempo não prova que ainda desempenhe hoje um papel importante. (...) Uma
infecção microbiana no passado pode ter debilitado irreparavelmente a vítima
e, no entanto, ter cessado por inteiro no presente. No último caso, não faremos
nenhum bem ao paciente adotando medidas de desinfecção".
À luz de tão discriminadas declarações, os únicos que dão abrigo a critérios
lassos de validação parecem ser os próprios freudianos, especialmente os que
sustentam hoje que a ciência não tem mais peso em nosso juízo proposicional
do que a literatura.
Outra variante do argumento anticiência é expressa por aqueles que nos
dizem, seguindo Paul Ricoeur e Jürgen Habermas, que a psicanálise não é
uma ciência, mas uma atividade hermenêutica (interpretativa), caso no qual
deveria ser julgada somente em bases intuitivas e empáticas, não empíricas. O
próprio Freud, porém, de forma recorrente e enfática, declarou ser o fruto de
sua imaginação uma ciência. Ao contrário de Ricoeur e Habermas, ele notou
que mesmo os seus argumentos sobre o "sentido" estavam ligados a hipóteses
causais que não poderiam ser postas de lado sem eviscerar o sistema inteiro.
E sabia que afirmações sobre etiologia, diagnose e prognose, desenvolvimento
psicossexual, estrutura mental, a formação de sonhos e lapsos e os rumos para
a cura não eram mais interpretativas, em sua natureza, do que afirmações
sobre estratos geológicos ou germes. O fato de as crenças freudianas não
estarem afiançadas por nada além de interpretações é sem dúvida estranho,
mas os esforços para tornar essa deficiência uma vantagem argumentativa
estão fadados ao fracasso. "O que fazer então", pergunta um analista de
inclinação hermenêutica, fingindo sobressalto, "desistir de interpretar as
pessoas?" (Lear). Não, simplesmente reconhecer a gritante diferença entre
interpretações e pretensas leis mentais.
Outra estratégia, de maneira alguma incompatível com a última, é sacrificar o
patriarca Freud para a perpetuação de sua horda. Freud tinha suas limitações,
diz o argumento, mas os psicanalistas desde há muito as corrigiram e
passaram a novas descobertas clínicas e a refinamentos técnicos. Mas quem,
afinal, fez o alegado progresso? Teriam sido os freudianos clássicos, os
annafreudianos acadêmicos, os ressurgentes ferenczianos mãos-na-massa, os
lacanianos, os kristevanos...? (...) Mas sobre qual princípio geralmente aceito
algum modo de "ir além de Freud" se revelou superior à miríade de seus
rivais? Aqueles que se vangloriam do progresso rezam para que não corramos
os olhos pela tabela de suas próprias mercadorias no bazar cada vez mais
extenso do mercado livre e negro da "psicanálise".
Além do mais, as conflitantes inovações na área recorrem todas à mesma
fonte de experiências, a saber, a interação clínica entre terapeuta e paciente,
com particular ênfase nos dois traços que permanecem praticamente
universais, a análise da livre associação e a análise da transferência. A lógica
pode mostrar como nenhum desses procedimentos é fidedigno, que, se um
método supostamente confiável produz uma sequência infinita de resultados
incompatíveis e se não é possível especificar um meio de nem sequer começar
a resolver as diferenças, algo deve estar fundamentalmente errado.
Tendo-se apartado de Freud, mas ainda assim encontrando-se sob ataque,
alguns analistas estão preparados para fazer uma última adaptação mais
drástica e promissora que qualquer outra considerada até agora. Admitem de
forma tácita ou mesmo explícita a justiça das críticas revisionistas e,
coerentemente, dão adeus a todo o corpo da doutrina clínica e metapsicológica
sobre memórias traumáticas, complexos reprimidos, fases libidinais, pulsões e
inibições.
A teoria psicanalítica, dizem agora, deve circunscrever-se ao que pode ser
observado sobre a operação de transferência e contratransferência no ambiente
clínico. Em vez de tentar trazer à tona os traumas, doutor e paciente devem
juntos dar feição a uma fábula de identidade que realce o ego, por meio da
qual o paciente possa dali em diante ser guiado e engrandecido.
Esse minimalismo é, em muitos aspectos, um desdobramento bem-vindo.
Possui a considerável virtude de dar cabo do capengante modelo
psicodinâmico de Freud e de suas sempre dissimuladas alegações de cura.
Porém aqui ainda se ignora algo. Onde foi mostrado que o meio mais eficaz
de abordar a queixa atual do paciente seja um prolongado corpo-a-corpo
emocional com o terapeuta? O fundamento de Freud para essa onerosa dieta
era equivocado, mas ao menos era um fundamento; ele nunca imaginou que a
transferência devesse ser buscada por amor dela própria. Caminhando a
psicanálise para o seu segundo século, contudo, essa mais custosa e mais
demorada das terapias tenta sobreviver enquanto a sua estrutura intelectual cai
pelas tabelas. "As idéias de Freud, que dominaram a história da psiquiatria
pelos últimos 50 anos", escreve Edward Shorter, "estão agora desaparecendo
como as últimas neves do inverno". Estará próxima a vez da psicanálise,
entendida como um tratamento para a neurose?
Ainda assim, persiste a figura enigmática e fascinante de Freud. Que ele tenha
sido capaz de se retratar tão triunfante como herói e profeta, vendendo tal
imagem aos pensadores atuais que fazem praça de seu inflexível ceticismo,
indica que ele foi realmente um dos mais extraordinários personagens da era
moderna. Mas mesmo o seu gênio retórico não pode ser plenamente apreciado
até compreendermos que, desde o princípio, a retórica tinha de encobrir um
fiasco terapêutico e científico. Somente Freud, tão obstinado, versátil e cínico
quanto ambicioso, poderia transformar o fracasso em sucesso
autopromocional numa escala tão grandiosa.

Nota
1. Trocadilho em inglês entre o verbo "to plumb" (sondar, perscrutar) e o substantivo "plumbing"
(encanamento).

Frederick Crews é professor emérito de língua inglesa na Universidade da Califórnia, em Berkeley


(EUA), e autor de "As Guerras da Memória - O Legado de Freud em Xeque" (Paz e Terra), entre outros.
O texto acima é uma versão da introdução do autor para o livro "Unauthorized Freud" (Penguin Books,
EUA). Tradução de José Marcos Macedo.