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Universidade do Estado da Bahia

Universidade Católica do Salvador


Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local (UNEB)
Programa de Pós-Graduação em Planejamento Territorial e
Desenvolvimento Social (UCSAL)

12 a 15 de setembro de 2016
Cidade da Bahia, Cabeça da América Portuguesa

CADERNO DE RESUMOS

Salvador
EDUNEB
2016
Universidade do Estado da Bahia - UNEB

Reitor
José Bites de Carvalho

Vice-Reitora
Carla Liane N. dos Santos

Editora da Universidade do Estado da Bahia - EDUNEB

Diretora
Sandra Regina Soares

Comitê Editorial
Arthur Gomes Dias Lima
Isaura Santana Fontes
Maria da Glória da Paz
Marcius de Almeida Gomes
Sandra Regina Soares

Suplentes
Paulo César Garcia
Emanuel do Rosário Santos Nonato
Ana Paula Silva da Conceição
Ivan Luiz Novaes
Ricardo Baroud
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL
MUNDOS COLONIAIS COMPARADOS: PODER, FRONTEIRAS E IDENTIDADES

COMISSÃO EXECUTIVA
Ana Paula Medicci (UFBA)
Eduardo José Santos Borges (UNEB)
Maria Helena Ochi Flexor (UCSal)
Suzana Maria de Sousa Santos Severs (UNEB)

COMISSÃO ORGANIZADORA
Denise de Carvalho Zotollo
Eduardo José Santos Borges (UNEB)
Maria Helena Ochi Flexor (UCSAL)
Moisés Amado Frutuoso
Suzana Maria de Sousa Santos Severs (UNEB)

COMISSÃO CIENTÍFICA
Adriana Dantas Reis (UEFS)
Ângela Domingues (IICT - Lisboa)
Avanete Pereira Souza (UESB)
Eduardo França Paiva (UFMG)
Eduardo José Santos Borges (UNEB)
Eliane Cristina Deckmann Fleck (UNISINOS)
Fabiano Vilaça dos Santos (UERJ)
George Felix Cabral de Souza (UFPE)
Gian Carlo de Melo e Silva (UFAL)
Marcia Eliane Alves de Souza e Mello (UFAM)
Marco Antonio Nunes da Silva (UFRB)
Maria Helena Ochi Flexor (UCSAL)
Maria Hilda Baqueiro Paraíso (UFBA)
Maria José Rapassi Mascarenhas (UFBA)
Patrícia A. Fogelman (CONICET-UBA – UNLu, Argentina)
Suely Creusa Cordeiro de Almeida (UFRPE)
Suzana Maria de Sousa Santos Severs (UNEB)
© 2016 VI Encontro Internacional de História Colonial
Proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica,
resumida ou modificada, em Língua Portuguesa ou qualquer outro idioma.
Depósito Legal na Biblioteca Nacional
Impresso no Brasil em 2016.

Organização e Revisão
Eduardo José Santos Borges
Maria Helena Ochi Flexor
Suzana Maria de Sousa Santos Severs

Projeto gráfico, editoração e marca do evento


Moisés Amado Frutuoso

Observação: a adequação técnico-liguística dos textos, bem como seus conteúdos,


são de resposabilidade dos autores.

FICHA CATALOGRÁFICA - Sistema de Bibliotecas da UNEB

Encontro Internacional de História Colonial Cidade da Bahia: mundos colo-


niais comparados: poder, fronteiras e identidades (6: 2016: Salvador)
Caderno de resumos [do] 6. Encontro Internacional de História
Colonial: mundos coloniais comparados: poder, fronteiras e identidades. –
Salvador: EDUNEB, 2016.
352 p.

Editora
ISBN da Universidade do Estado da Bahia - EDUNEB
978-85-85813-318-5
Rua Silveira Martins, 2555 - Cabula
1. História – Colônias. 2. Imperialismo. 3. Colonização. I. Título.

CDD: 906.3

Editora da Universidade do Estado da Bahia - EDUNEB


Rua Silveira Martins, 2555 - Cabula
41150-000 - Salvador - BA
editora@listas.uneb.br
www.uneb.br
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................... 7
PROGRAMAÇÃO ......................................................................................................................... 9
SIMPÓSIO TEMÁTICO 1
A dinâmica imperial e a comunicação política no Antigo Regime do mundo português, séculos
XVI-XIX................................................................................................................................... 11
SIMPÓSIO TEMÁTICO 2
"As pessoas, os tempos e os lugares": A Companhia de Jesus e suas relações com as sociedades
.................................................................................................................................................. 36
SIMPÓSIO TEMÁTICO 3
Cultura e educação na América Colonial: iluminismos, instituições e culturas escritas ......... 52
SIMPÓSIO TEMÁTICO 4
Cultura Escrita no mundo ibérico colonial: manuscritos e impressos ..................................... 67
SIMPÓSIO TEMÁTICO 5
Dimensões da desordem em colônias: ilicitudes, descaminhos e heterodoxias religiosas ......... 88
SIMPÓSIO TEMÁTICO 6
Dimensões do catolicismo no Império português: instituições, práticas e representações
(séculos XVI-XVIII) ............................................................................................................... 101
SIMPÓSIO TEMÁTICO 7
Dinâmicas processuais na justiça do Antigo Regime – ritos, práticas, querelas e jurisdições
coloniais (1530-1822) ............................................................................................................. 123
SIMPÓSIO TEMÁTICO 8
Do colonial ao pós-colonial: perspectivas para ler os domínios portugueses na África e no
Oriente .................................................................................................................................... 123
SIMPÓSIO TEMÁTICO 9
Fronteiras e relações transfronteiriças na América colonial................................................... 132
SIMPÓSIO TEMÁTICO 10
Elites, práticas e instituições nas monarquias ibéricas e seus domínios ultramarinos .......... 148
SIMPÓSIO TEMÁTICO 11
Relações de poder, redes sociais e circulação no tempo dos Felipes (1580-1640) ................... 171
SIMPÓSIO TEMÁTICO 12
Impérios Ibéricos no Antigo Regime: política, sociedade e cultura ........................................ 187
SIMPÓSIO TEMÁTICO 13
Inquisição, clero e conexões religiosas no mundo ibérico e colonial ....................................... 212
SIMPÓSIO TEMÁTICO 14
Nas malhas da família: estratégias familiares entre normas e práticas .................................. 237
SIMPÓSIO TEMÁTICO 15
O governo da justiça: poderes, instituições e magistrados (séculos XVII-XIX).................... 256
SIMPÓSIO TEMÁTICO 16
Os espaços coloniais como problema de pesquisa: cartografia, sistemas geográficos e novas
metodologias ........................................................................................................................... 276
SIMPÓSIO TEMÁTICO 17
Escravidão e mestiçagens: os mundos da escravidão e das mestiçagens em conexões (séculos
XVI a XIX) ............................................................................................................................ 297
SIMPÓSIO TEMÁTICO 18
Títulos, ofícios e riqueza: estratégias de ascensão social no Atlântico Moderno ................... 310
SIMPÓSIO TEMÁTICO 19
Império e Colonização: economia e sociedade na América portuguesa .................................. 330
APRESENTAÇÃO

O VI EIHC dá continuidade às bem-sucedidas experiências do II Encontro In-


ternacional de História Colonial, realizado na UFRN em 2008, e do I Encontro Nor-
destino de História Colonial, UFPB (João Pessoa, 2006) eventos pioneiros, que reuni-
ram departamentos e programas de pós-graduação em História de diversas univer-
sidades nordestinas, para promover o debate sobre pesquisa e produção de conheci-
mento em História Colonial.

O alto nível dos debates passados, instigou a Comissão Organizadora do V


EIHC, e consolida-se nesta VI edição, a ampliar sua estrutura, envolvendo historia-
dores de outras regiões brasileiras, além de pesquisadores estrangeiros, sem, no en-
tanto, perder de vista um dos principais objetivos do Encontro inicial (2006), qual
seja, o fomento da pesquisa em História Colonial nas universidades nordestinas.

O I Encontro, ainda caracterizado como nordestino (IENHC) foi realizado na


UFPB, entre 7 e 10 de setembro de 2006, tendo como temática central “Territorialida-
des, poder e identidades na América portuguesa (século XVI ao XVIII)”. Dois anos
depois, já como evento internacional, realizou-se o II Encontro Internacional de His-
tória Colonial (IIEIHC), na UFRN entre 16 e 19 de setembro de 2008, com foco no te-
ma “A experiência colonial no Novo Mundo (século XVI ao XVIII)”. A temática pro-
posta no III EIHC, “Cultura, poderes e sociabilidades no mundo atlântico (séculos
XV-XVIII)”, congregou historiadores dos dois lados do Atlântico, que trataram de
temas ligados à História Social, Cultural, mas também, à Econômica e Política. Em
2012, o IV EIHC teve como tema “Trabalho, economia e populações no mundo ibero-
americano (séculos XVI ao XIX)” e passou a contar com apoio do CNPq. O V EIHC
manteve a proposta inicial, de promover a pesquisa em História Colonial nas univer-
sidades nordestinas e o intercâmbio de ideias entre seus pesquisadores, ampliando
essa discussão. Buscou também ir além, oferecendo um espaço para que os professo-
res de História da educação básica, das redes públicas e particulares do Brasil, pu-
dessem, dialogar com o que de recentemente se produz em termos de pesquisa histó-
rica, referente ao período colonial, fomentando o intercâmbio entre os saberes aca-
dêmicos e escolares, possibilitando o aperfeiçoamento de todos os envolvidos e a di-
vulgação do conhecimento histórico.

O VI EIHC – ora realizado na cidade de Salvador - Bahia, primeira capital da


América portuguesa – prossegue com o mesmo espírito universalista e investigativo,
preservando a excelência de seus participantes e debates, incentivando e promoven-
do a troca de saberes e experiências entre pesquisadores, professores universitários e
educadores do ensino fundamental e médio.

7
Com o tema “Mundos coloniais comparados: poderes, fronteiras e iden-
tidades”, promovido pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e Univer-
sidade Católica do Salvador (UCSal) – primeira instituição privada a dar acento
ao EIHC –, o VI EIHC celebra seu décimo ano de existência. O mesmo padrão
de qualidade das edições anteriores será mantido, ao reunir experts de vários
campos da história colonial em conferências, mesas redondas e simpósios temá-
ticos, além do lançamento de obras publicadas recentes. Desta vez conta com
mais um espaço, o “Bate-papo com o (a) historiador(a)”, cujo objetivo é aproxi-
mar o(a) autor(a)consagrado(a) a seus leitores.

Com duas conferências, 13 mesas redondas, 18 simpósios temáticos e no-


ve minicursos, o VI Encontro Internacional de História Colonial se vislumbra
como um dos maiores de sua história, evidenciando o quanto esse evento já está
consolidado como o mais importante do gênero no território brasileiro na atua-
lidade.

Todos(as) os(as) pesquisadores(as), professores(as), estudantes e amantes


da História Colonial, e áreas afins, estão convidados(as) a tomar parte nesse
evento, que ocorrerá entre os dias 12 e 15 de setembro de 2016, nas dependên-
cias do campus da Federação da UCSal.

Salvador, agosto de 2016

Eduardo José Santos Borges


Maria Helena Ochi Flexor
Suzana Maria de Sousa Santos Severs

8
PROGRAMAÇÃO

12 de setembro de 2016

10:00 – 12:00 Credenciamento. Local: Campus da UCSAL na Federação

14:00 – 16:00 Credenciamento. Local: Campus da UCSAL na Federação

18:00 – 19:00 Cerimônia de Abertura. Local: Hotel Sheraton da Bahia

19:00 – 21:00 Conferência de Abertura: Profa. Dra. Maria Fernanda Bicalho.

13 de setembro de 2016

08:00 – 10:00 Minicursos. Local: Salas Temáticas

10:00 – 12:00 Mesas Redondas. Local: Salas Temáticas

12:00 – 14:00 Almoço

14:00 – 17:30 Simpósios Temáticos. Local: Salas Temáticas

18:00 – 19:30 Bate Papo com o(a) historiador(a): Profa. Dra. Maria Beatriz Niz-
za da Silva

14 de setembro de 2016

08:00 – 10:00 Minicursos. Local: Salas Temáticas

10:00 – 12:00 Mesas Redondas. Local: Salas Temáticas

12:00 – 14:00 Almoço

14:00 – 17:30 Simpósios Temáticos. Local: Salas Temáticas

18:00 – 19:00 Palestra: Digitalizando documentos ameaçados: Os Livros de


Notas da Bahia: Prof. Esp. Urano Andrade

19:00 – 20:00 Lançamento de Livros. Local: Quadra de Esportes

15 de setembro de 2016

08:00 – 10:00 Minicursos. Local: Salas Temáticas

10:00 – 12:00 Mesas Redondas. Local: Salas Temáticas

12:00 – 14:00 Almoço

14:00 – 17:30 Simpósios Temáticos / Reunião Administrativa

19:00 – 21:00 Conferência de Encerramento: Profa. Dra. Patrícia Fogelman .


Local: Quadra de Esportes.

9
CADERNO DE RESUMOS

SIMPÓSIO TEMÁTICO 1
A dinâmica imperial e a comunicação política no Antigo Regime do mundo
português, séculos XVI-XIX

Coordenadores: Carla Maria Carvalho de Almeida (Universidade Federal de Juiz de Fora) e


Márcio de Sousa Soares (Universidade Federal Fluminense)

13 de setembro de 2016

CONSTRUINDO BANCO DE DADOS E DESENHANDO RELAÇÕES:


UMA PROPOSTA DE ABORDAGEM RELACIONAL PARA O
ESTUDO DAS POPULAÇÕES COLONIAIS PAROQUIAIS
Ana Paula Cabral Tostes / Victor Luiz Alvares Oliveira

Desde o advento e a popularização dos Colonial, buscamos apresentar uma


computadores pessoais que os pro- proposta de banco de dados com inspi-
gramas de informática, em especial os ração relacional que possa servir como
bancos de dados, têm feito sentir sua uma ferramenta colaborativa para o
presença na construção do conheci- estudo da sociedade colonial brasileira.
mento histórico, destacando-se atual- Serão discutidos seus pressupostos
mente uma tendência entre os grupos teóricos, suas limitações e suas poten-
de pesquisa em História de apresentar cialidades de pesquisa com base em
e difundir seus resultados de pesquisa diferentes documentos de origem pa-
em plataformas on-line. Buscando dia- roquial, estrutura administrativa gera-
logar com as potencialidades destas dora de memória escrita para boa parte
tecnologias para o estudo a História do universo colonial de outrora.

REFLEXÕES SOBRE A DINÂMICA DE MUDANÇAS NUMA HIERARQUIA


SOCIAL DE UMA CONQUISTA NO ANTIGO REGIME CATÓLICO:
AMÉRICA LUSA SÉCULO XVIII
João Fragoso

O texto pretende identificar e refletir mil, entre 1701-1725, para 1.236,50 ca-
sobre a dinâmica de mudanças numa tivos nos anos 1801 a 1825. a isso, se
sociedade de conquista do Antigo Re- junta a chegada , nos mesmos portos,
gime católico. Para tanto, se parte de de milhares de reinóis e ilhéus. Ou se-
fenômenos presenciados na América ja, estima-se que entre 1700 a 1808 a
lusa ao longo do século XVIII. Nesse população daquela América tenha pas-
período, de início, temos o incremento sado de 237 mil para mais de três mi-
do tráfico de escravos africanos nos lhões de pessoas. Tal movimento tivera
portos americanos que aumenta 476 como motor a descoberta de metais nas

11
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Minas Gerais, conhecida na época, pela forros e mais de forros com escravos,
economia mundo europeia de então, ou melhor, a mudança social por eles
como a morada do ouro. Assim, nesse representadas redesenharam na prática
ambiente, vemos a multiplicação de uma sociedade até então entendida
diversas áreas produtoras e mercados como imutável. Ao lado disso, temos a
regionais disseminados pelo Centro- metamorfose das elites sociais locais.
Sul e também no Norte do Estado do Essas últimas, cada vez mais, convi-
Brasil, no Maranhão e a intensificação vendo com práticas mercantis sem
de rotas comerciais que alcançariam o abrir mão de estratégias rentistas e de
sertão Angolano, as terras de Moçam- matrimônios com pequena nobreza
bique e de outras partes do Estado da (fidalgos da casa real ou genros com
Índia. As consequências de tais movi- hábitos militares). Da mesma forma,
mentos demográficos e econômicos estreitam-se os laços de segmentos de
logo seriam vividas na sociedade de tais elites no espaço da monarquia plu-
Antigo Regime nos trópicos instalada ricontinental lusa e mais percebe-se a
nos séculos anteriores na América. En- existência de redes de solidariedades
tre eles verificamos o crescimento das (parentesco e de amizades) conectando
alforrias, da miscigenação e conse- diferentes geografias da mesma mo-
quente a complexificação das estrutu- narquia. Enfim, a comunicação preten-
ras estamentais pré-existentes e dos de contribuir para a discussão dos te-
conceitos de sociedade vindos do An- mas acima.
tigo Regime europeu: os milhares de

ENOBRECIMENTO E HIERARQUIZAÇÕES GEOGRÁFICAS NO IMPÉRIO


PORTUGUÊS: OS FOROS DE FIDALGO NO ATLÂNTICO SUL (1640-1680)
Marcone Zimmerle Lins Aroucha

Na presente comunicação, pretende- e, por vezes, nas fronteiras do Reino


mos amadurecer aspectos de nossa português. Ou seja: buscaremos com-
dissertação de mestrado, a saber, o re- preender os padrões de nobilitação
dimensionamento geopolítico do Im- desdobrados na contemporaneidade
pério Português à luz da política re- entre a expedição luso-brasileira para o
muneratória da Monarquia dos Bra- socorro de Angola (1648), o desdobra-
gança entre 1640 e 1680 – período em mento e o desfecho da restauração
que a mesma Monarquia dos Bragança pernambucana (1645-1654) e o desen-
se encontrava num processo de afir- rolar da Restauração portuguesa (1640-
mação bélica e política. Em nosso tra- 1668). Nosso quadro reflexivo será
balho, pretendemos delimitar o campo formado pelas concessões de foros de
de análise a partir das interações entre fidalgo da Casa Real (mais exatamente,
a Coroa Bragantina, Angola e América os foros de primeiro grau: fidalgo ca-
Portuguesa. Tencionamos sondar os valeiro, fidalgo escudeiro e moço fi-
padrões de enobrecimento que se veri- dalgo). A construção desse quadro se
ficaram em indivíduos que prestaram encontra fundamentada na análise dos
serviços militares em suas passagens alvarás de foros de fidalgo da Casa
pela Capitania de Pernambuco, Angola Real, documentação que fornece –

12
CADERNO DE RESUMOS

além dos padrões discursivos referen- política da Coroa para as suas posses-
tes a critérios de mérito e exclusão so- sões, ou seja: a emissão de alvarás de
cial – uma radiografia dos serviços de foro de fidalgo da Casa Real de primei-
vassalos que atuaram, amiúde, nas ro grau nos primeiros quarenta anos
campanhas de restauração de Portugal da Monarquia Bragantina se apresenta
e nas que se verificaram no Atlântico como uma chave de leitura possível
Sul (na Capitania de Pernambuco e em para o entendimento das prioridades
Angola). De modo que consideramos geopolíticas que estavam tomando
que os padrões de concessão de uma forma na segunda metade do século
mercê num âmbito imperial podem XVII.
fornecer subsídios para compreender a

MILITARES, BATISMOS E FORMAÇÃO DE CLIENTELA: ESTRATÉGIAS DE


ASCENSÃO NA COMARCA DE SERRO FRIO, PRIMEIRA METADE
DO SÉCULO XVIII
Ana Paula Pereira Costa

O trabalho intenciona apresentar refle- extração peculiar que foi se delineando


xões preliminares de um projeto que ao longo do Setecentos. Neste cenário
objetiva analisar a presença de milita- de expectativas, mas também de gran-
res na região da Comarca de Serro de instabilidade, os militares (brancos,
Frio. Esta localidade ainda não foi bem pardos e pretos) foram vistos pela po-
estudada pela historiografia revisionis- pulação mais ampla e pelas autorida-
ta sobre o período colonial brasileiro. des locais (governadores, intendentes,
Este espaço se configurou como terri- ouvidores, capitães-mores, contratado-
tório de fronteira cuja definição e or- res) como fundamentais para adentrar
ganização se fez por meio das “entra- e “domar” o sertão, local de refúgio de
das” em busca, primeiramente, por quilombolas e índios bravos; para ma-
ouro, e, depois de 1729, por diamante. tizar disputas por ouro e diamantes; e
A própria ideia de conquista desse ter- para controlar roubos, garimpo ilegal,
ritório fornece um caráter bélico para contrabando e extravio – problemas
sua efetivação e, neste sentido, resgata característicos dessa localidade mine-
a noção de “guerra” iminente entre os radora. Para esta comunicação, no in-
diferentes indivíduos que para aí se tuito de entender as formas de ação
dirigiram com intuito de alcançar po- dos militares para alcance e manuten-
der e riqueza. Ou seja, sua dinâmica de ção de status e poder no território em
formação envolveu um processo acele- foco, utilizaremos dados extraídos de
rado e desordenado, o risco, a migra- documentação paroquial, aqui repre-
ção intensa de pessoas – livres e escra- sentada por registros de batismos refe-
vas –, a necessidade de controle do rentes a primeira metade do século
espaço, do contrabando e a vigilância XVIII, privilegiando-se duas localida-
dos caminhos. Contudo, se diferencia- des: a Vila do Príncipe e o Arraial do
va de outros locais da capitania minei- Tejuco. Através dessas fontes, busca-
ra pela presença dos diamantes e por remos investigar uma prática estabele-
ter um sistema de administração e de cida pelos militares da região que tem

13
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

sido considerada crucial para a afirma- que pela gama de possibilidades de


ção social e política de grupos de elite enriquecimento e aquisição de poder
em sociedades de Antigo Regime, a abertas pela migração para a região em
saber, o estabelecimento de clientela. destaque, a sociedade foi sendo mol-
Entende-se que, para tais homens, era dada por disputas entre distintos seto-
necessário angariar apoio de diferentes res sociais e seus interesses na insisten-
estratos para que a legitimidade e a te luta cotidiana pela sobrevivência e
posição social em que se situavam fos- satisfação de demandas. Era uma rela-
sem preservadas ou pudessem se ele- ção sempre tensa. Por isso mesmo, a
var, considerando que seus lugares na competição por recursos entre os indi-
hierarquia deviam ser sustentados por víduos que compunham o quadro béli-
uma base social, de preferência, nume- co das paragens em destaque era um
rosa e diversificada. Para o caso dos necessidade para galgar patamares de
militares, não podemos desconsiderar ascensão social.

“PORQUE QUER HAVER O SEU PAGAMENTO”: OS FINANCIADORES DA


FESTA DE SÃO SEBASTIÃO E SUA OITAVÁRIA NO RIO DE JANEIRO (1790-1828)
Maria Beatriz Gomes Bellens Porto

No Rio de Janeiro colonial, o culto ao para as procissões, como fogos de arti-


padroeiro da cidade era uma das mais ficio, armações para o Pálio, estruturas,
importantes celebrações oficiais, fican- decoração, arcos triunfais, pagamento
do atrás apenas do Corpo de Deus, dos músicos, cuidados com a imagem e
mobilizando toda a população e pro- andor de São Sebastião e principal-
movendo a interação e sociabilidade mente a cera para as luminárias. Além
nos espaços públicos e privados, na disso, pagavam para o comparecimen-
preparação dos enfeites das casas, na to dos homens bons, e principais políti-
limpeza das ruas e até na obrigatorie- cos da cidade. Assim, por ocasião das
dade da participação na procissão. Ao festas os homens bons, membros do Se-
contrário das festas de irmandades, os nado da Câmara deveriam comparecer
festejos à São Sebastião eram promovi- paramentados com as insígnias de ad-
dos por indivíduos que financiavam a ministração local representando seu
procissão e os oito dias de festa – as poder, e por extensão o poder régio.
chamadas Oitavárias – e depois cobra- Para isso receberiam propinas, termo
vam seus gastos ao Senado da Câmara, de época, pagas dentro da mesma lógi-
que administrava a celebração. Por ca de cobrança depois que a festa ocor-
meio dessa prática, era possível estabe- ria. As propinas eram recebidas como
lecer redes de sociabilidade com os recompensas por algum serviço pres-
oficiais da Câmara, participar ativa- tado, mesmo fazendo parte dos deve-
mente da economia fluminense e, prin- res dos camarários, uma vez que os
cipalmente, utilizar a festa para o esta- cargos do Senado não eram pagos. Em
belecimento de relações políticas, eco- todos esses casos é necessário observar
nômicas e como forma de hierarquiza- o caráter hierarquizador de receber
ção em relação aos demais participan- para participar da festa do padroeiro,
tes. Os financiadores forneciam artigos dando, assim, uma conotação burocrá-

14
CADERNO DE RESUMOS

tica para um ato também devocional. A cesso de esvaziamento dos poderes


virada do século XVIII para o XIX foi administrativos da Câmara Municipal.
um período de transformações na soci- Na presente comunicação apresenta-
edade fluminense, que se destacava na remos quem eram os financiadores da
América portuguesa como seu princi- Festa de São Sebastião, trazendo al-
pal centro comercial e político. Após a guns resultados prévios da nossa pes-
chegada da Corte em 1808, observou- quisa, a fim de traçar o perfil desses
se uma ressignificação das festas pú- homens, mulheres e representantes de
blicas, como indício de um processo de companhias, para entender os motivos
refinamento, alargando as possibilida- sociais, políticos e econômicos de fi-
des de financiamento e, por conseguin- nanciar a festa e depois cobrar do Se-
te, também o conjunto de financiadores nado da Câmara. Para além de um ato
e suas apropriações. Tal dinâmica con- devocional, também estabeleciam re-
tinuou até 1828, quando as festas reli- des de sociabilidade e participavam do
giosas oficiais passam a ser adminis- funcionamento da sociedade de Antigo
trada pela Casa Imperial, em um pro- Regime.

“PARA TRATAR DE SUA VIDA TOMANDO ESTADO, E VIVENDO BEM”: AS


RELAÇÕES DOS COBRADORES DOS QUINTOS COM SEUS ESCRAVOS, FORROS,
PARDOS, MULATOS E AFILHADOS NEGROS (MARIANA, SÉCULO XVIII)
Simone Cristina de Faria

A presente comunicação tem por obje- ambos os lados buscaram ser identifi-
tivo apresentar os resultados do capí- cados de acordo com os recursos desi-
tulo 4 de minha tese de doutorado, guais disponíveis na delimitação e ne-
intitulada A “matéria dos quintos” e “os gociação dos espaços de todos esses
homens do ouro”: a dinâmica da arrecada- atores na sociedade mineradora sete-
ção dos quintos reais na Capitania de Mi- centista. Partimos da hipótese que as
nas Gerais e as atribuições, atuação, perfil e relações com outros grupos sociais e a
relações dos cobradores dos quintos (c. criação de alianças sólidas e diversifi-
1700 – c. 1780). Tal capítulo, “Para tra- cadas seriam fundamentais para que os
tar de sua vida tomando estado, e vivendo cobradores dos quintos garantissem
bem”: as relações dos cobradores dos quin- sua posição destacada de poder, pres-
tos com seus escravos, forros, pardos, mu- tígio, autoridade e distinção social.
latos e afilhados negros, buscou reconsti- Mas consideramos ainda, diante da
tuir, na medida em que foi possível premissa que os grupos se definem na
pelos documentos existentes, um coti- sua interação, que os demais indiví-
diano de relações que os poderosos duos a eles ligados também definiam
cobradores dos reais quintos em Mari- seus espaços e comportamentos tendo,
ana Setencentista mantiveram com os em grande medida, por base essas re-
variados grupos sociais de menor lações, das quais tiravam o devido
“qualidade” que a sua, a saber, seus proveito como modo de sobrevivência
escravos, forros, pardos, mulatos e afi- em um mundo tão hostil quanto o da
lhados negros. Critérios de hierarqui- escravidão. Buscamos evidenciar tais
zação social, estratégias, acordos, tro- pressupostos analisando a composição
cas, escolhas e comportamentos de

15
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

da escravaria dos cobradores dos quin- muitos cobradores desenvolveram de


tos (com discussões detalhadas sobre armar seus escravos para diversos fins.
sexo, idade, origem dos cativos, doen- Com tais análises, portanto, acredita-
ças, profissões e família escrava), as mos ter nos aproximado o máximo
alforrias e legados deixados a esses possível do cotidiano de parcela signi-
indivíduos ao fim da vida de seu se- ficativa da sociedade setecentista mi-
nhor, alguns indícios sobre o complexo neradora, sobretudo aquela que teve
embate entre os conflitos e os cuidados ligações com o precioso ouro de Sua
com esses subalternos, e a prática que Majestade.

PARDOS FORROS: MOBILIDADE, REDES RELACIONAIS E MUDANÇA


GERACIONAL DE COR (RECÔNCAVO DA GUANABARA, RIO DE JANEIRO,
SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII)
Júlia Ribeiro Aguiar

A descoberta do ouro nas Minas, em de práticas e modos de organização


finais dos seiscentos, resultou na trans- social em comum. A grande maioria
formação da capitania do Rio de Janei- dos sujeitos que pertenciam a estas
ro em principal porto e praça mercantil famílias forras eram designados nos
do Atlântico Sul. O consequente recru- registros paroquiais como pardos, e
descimento do tráfico negreiro por tendencialmente, apresentavam práti-
conta deste processo propiciou um cas matrimoniais endogâmicas, sobre-
aumento exponencial de cativos afri- tudo os homens. As mulheres, por sua
canos no porto carioca, impactando a vez, casavam-se majoritariamente com
cidade social e demograficamente. Em açorianos e portugueses, indicando o
linhas gerais, estas transformações so- papel social destas famílias e, especifi-
ciais e econômicas reconfiguraram camente destas pardas forras, na inser-
também hierarquias e práticas de or- ção destes estrangeiros nas hierarquias
ganização social da sociedade flumi- locais. Quanto ao compadrio, membros
nense. Uma destas práticas foi o au- destas famílias de alforriados eram
mento do número de alforrias e, con- convidados pelos mais diversos seg-
sequentemente, da população liberta, mentos sociais a participar das cerimô-
que praticamente alcançou a de livres nias batismais, novamente sugerindo a
no final do setecentos. O objetivo deste atuação do grupo como eixo de diver-
trabalho é, portanto, explorar a conso- sas redes relacionais. A recorrência do
lidação deste grupo de forros em São estabelecimento de relações parentais
Gonçalo do Aramente, freguesia rural entre estes libertos e homens de negó-
situada no Recôncavo da Guanabara, cio, que vinham se estabelecendo social
na capitania do Rio de Janeiro, através e economicamente naquele período,
da reconstituição de trajetórias familia- aponta para a permanência e o enrai-
res e individuais que demonstram, de zamento social deste grupo de forros
forma indiciária, que estes forros cons- diante do definhamento da nobreza da
tituíram-se não somente como grupo terra e da consolidação desta nova elite
demográfico, mas também como grupo de comerciantes. Curiosamente, ao
social, na medida em que partilhavam mesmo tempo em que estes forros de-

16
CADERNO DE RESUMOS

monstravam compartilhar de práticas bém se propõe a discutir em que me-


sociais em comum, uma de suas carac- dida é possível pensar na categoria dos
terísticas principais foi a de suas gera- forros como um grupo social, na me-
ções subsequentes “perderem” - ten- dida em que tendiam a se afastar das
dencialmente e não como regra - a cor qualidades que os remetiam ao passa-
e a condição jurídica, não mais sendo do escravo e os aproximavam do
designados como “pardos” ou “for- mundo dos livres.
ros”. Neste sentido, este trabalho tam-

UM DELICADO EQUILÍBRIO: BRANCOS, TAPUIOS, MAMELUCOS E GENTIOS


NOS CONFINS DO IMPERIO PORTUGUÊS (RIO NEGRO E PARÁ, SEGUNDA
METADE DO SÉCULO XVIII)
André Augusto da Fonseca / Kezia Wandressa da Costa Lima

Ao fim do que o historiador Moreira presente permite reconstituir algumas


Neto chamou de período missionário trajetórias de oficiais índios (oficiais
“empresarial” na Amazônia ou apogeu camarários, “Principais” e outras lide-
das ordens missionárias no Estado do ranças indígenas envolvidas no comér-
Maranhão e Grão-Pará, entre 1686 (ano cio de exportação, militares) e de bran-
da publicação do Regimento das Mis- cos unidos a indígenas por alianças
sões) e a década de 1750 (com as “Leis matrimoniais e de compadrio. Uns e
de Liberdade” dos Índios de 1755, o outros, vindos de mundos culturais
chamado “Diretório dos Índios” de absolutamente diversos, movimenta-
1757, a criação da Capitania de São vam-se como súditos de uma monar-
José do Rio Negro e a expulsão dos quia pluricontinental, colecionando
jesuítas), reformas políticas, eclesiásti- certidões de serviços prestados à Co-
cas, econômicas e culturais alteraram roa, pedindo e recebendo mercê, esta-
significativamente as regras que orde- belecendo redes de alianças, fazendo
navam as relações entre os diferentes requerimentos para denunciar abusos
grupos sociais da região e entre esses contra seus direitos, para preservar
grupos e a Coroa. A determinação de suas margens de autonomia e assegu-
que as antigas missões – antes contro- rar um futuro mais seguro aos mem-
ladas espiritual, econômica e tempo- bros de suas casas. Evidentemente, os
ralmente por missionários – se trans- súditos nativos tinham uma série de
formassem da noite para o dia em vilas pesadas desvantagens sociais em uma
e lugares com autogoverno, bem como sociedade onde não constituíam a cul-
a “nobilitação” dos casamentos entre tura dominante, mas possuíam tam-
portugueses e índios, logrou até certo bém um leque de possibilidades que
ponto a mudança de status de muitas lhes eram peculiares: exímios conhece-
famílias indígenas, em que pese a ma- dores do meio e vinculados muitas
nutenção das requisições de trabalho vezes a redes de alianças, trocas e riva-
compulsório a que estava sujeita a lidades plurisseculares, podendo às
maioria da população nativa. A docu- vezes negociar suas condições de ali-
mentação da época que chegou até o ança ou descimento entre diferentes

17
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

potências coloniais confinantes (portu- (como uma maioria não-portuguesa


gueses, espanhóis, holandeses e fran- teoricamente com plenos direitos civis)
ceses), podiam, no limite, fazer largo produziu uma forma sui generis de in-
uso da deserção individual e coletiva tegração ao Império Português, com as
como um trunfo e como uma forma de previsíveis tensões provocadas pelas
resistência. A condição de esmagadora heterogeneidades linguísticas, étnico-
maioria demográfica, singular para culturais e econômicas em uma socie-
grupos nativos na América Portugue- dade de Antigo Regime.
sa, e mesmo rara em todo império

14 de setembro de 2016

A COMUNICAÇÃO POLÍTICA DA CÂMARA DE MARIANA (MINAS GERAIS –


SÉCULO XVIII)
Pablo Menezes e Oliveira

Instituição de grande importância nos xação populacional ligado à coloniza-


quadros da administração do Império ção portuguesa a partir de fins do sé-
português, as casas de câmara foram culo XVII, atraídos pelas atividades
instaladas em várias paragens da Amé- minerais. A partir de então, o Rei de
rica portuguesa, atuando em matérias Portugal arquitetou diversas maneiras
fiscais, de administração da justiça, e de colocar sob a fé e a lei os povos que
da consolidação e manutenção do es- para ali migraram. O território passou
paço urbano. Tais ações têm sido estu- a ser pontuado por edifícios religiosos
dadas por um grande número de pes- e instituições que deveriam tributar,
quisadores nos últimos anos, compro- legislar e policiar os habitantes das
vando o lugar das câmaras na manu- Minas. Entre as muitas instituições ali
tenção dos domínios além-mar, afinal estabelecidas, a coroa estabeleceu casas
ampliando as possibilidades de leitura de câmara nas Minas Gerais, processo
das dinâmicas do poder e das institui- que no decurso do século XVIII fez
ções, tema bastante em voga nos últi- com que fossem instituídas quatorze
mos anos. Além disso, tem-se procura- municipalidades na Capitania, instala-
do observar que além de serem o “sus- das em conjunturas variadas entre os
tentáculo” do império, também se en- anos de 1711 e 1798. A análise da do-
volveram em discussões sobre os mais cumentação produzida pelas câmaras
variados temas objetivando atender de Minas mostrou que elas atuaram
interesses dos moradores da municipa- em matérias variadas, sendo responsá-
lidade, sendo emblemáticas as discus- veis, por exemplo, pela coleta de tribu-
sões em torno de matérias tributárias. tos, pela construção e manutenção de
Longe de entendermos tal comporta- ruas, pontes, chafarizes, a regulação do
mento como atípico, ele se insere na abastecimento de gêneros alimentares.
prática política da época. Tal prática se Mas também souberam preservar os
faria perceber na Capitania de Minas interesses dos moradores das vilas,
Gerais. Encravado no coração da Amé- remetendo cartas às várias autoridades
rica, o território devassado pelos pau- administrativas para dar ordem a suas
listas experimenta um processo de fi- demandas. No trabalho em foco, trata-
18
CADERNO DE RESUMOS

remos das cartas remetidas pelos ca- curando observar os temas recorrentes
maristas da Cidade de Mariana entre em suas demandas materializadas nas
os anos de 1745 e 1808 (outrora Vila do cartas, bem como a construção dos tex-
Ribeirão do Carmo, instituída no ano tos ali contidos.
de 1711, tornada cidade em 1745), pro-

JUÍZES ORDINÁRIOS E DE FORA NA JUSTIÇA DO ANTIGO REGIME: A


PRIMEIRA INSTÂNCIA ATRAVÉS DA COMUNICAÇÃO POLÍTICA DE
MARIANA, MINAS GERAIS (1711-1750)
Mariane Alves Simões

O presente trabalho tem como objetivo colônias. Os juízes de fora eram eleitos
refletir sobre a execução da justiça local para mandatos trienais e submetidos a
na região de Mariana, Minas Gerais Leituras de Bacharel, exigência irrevo-
durante a primeira metade do XVIII, gável para se ingressar na carreira da
através da comunicação política susci- magistratura oficial. Nesse sentido,
tada por sua execução. A justiça no buscaremos analisar a comunicação
Antigo Regime significava antes de política existente no Conselho Ultra-
tudo manter a harmonia entre todos os marino entre as autoridades centrais e
membros que compunham o corpo locais a respeito da execução da justiça
social. Segundo Álvaro Antunes ainda em primeira instância na região e sobre
que vinculada ao Estado ou à figura do a atuação desses juízes, assim como o
rei, a Justiça continuaria a ser descrita posicionamento a respeito da transição
como uma vontade ou uma virtude de dos cargos na Câmara. Assim, ao de-
atribuir a cada qual aquilo que lhe era bruçarmos sobre as correspondências
de direito. A justiça em primeira ins- referentes à temática buscamos nos
tância ocorria nos quadros da Câmara apropriar da noção de monarquia plu-
através do desempenho do juiz ordiná- ricontinental, cuja dinâmica governati-
rio ou de fora. Na região de Mariana va apoiava-se fundamentalmente na
esse cargo foi criado em 1711, passan- negociação entre o centro e suas con-
do a ocorrer eleição de dois juízes or- quistas, tentando apreender como se
dinários como previsto nas Ordena- equilibravam as determinações régias e
ções Filipinas. Os juízes ordinários os usos e costumes de uma justiça lo-
atuaram nessa região até 1731, quando cal. Os trabalhos de António Manuel
foi criado o cargo de juiz de fora. Os Hespanha surgem como fundamentais
juízes ordinários se diferenciavam dos para temática da administração e da
juízes de fora principalmente pelo fato justiça. O autor propõe a definição de
de serem designados para o cargo sociedade corporativa, onde o direito
através do processo de eleição. Os oficial dava margem à justiça ligada
primeiros eram eleitos pelos homens aos costumes e ao Direito local, pre-
bons, através dos processos de pelou- gando a indispensabilidade dos corpos
ros em mandatos de um ano, enquanto sociais. Segundo Hespanha o direito
os últimos eram nomeados pelo rei legislativo da Coroa era limitado e en-
dentre bacharéis letrados, com o intui- quadrado pela doutrina jurídica e pe-
to de ser o suporte ao poder real nas los usos e práticas locais, assim os de-

19
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

veres políticos cediam perante os deve- dessa justiça local e de seus agentes.
res morais ou afetivos, decorrentes de Desse modo, propõe se através da co-
laços de amizade, institucionalizados municação política engendrar aspectos
em redes de amigos e clientes. Além da da justiça em primeira instância reali-
documentação do Conselho Ultrama- zada na Câmara de Mariana nas pri-
rino, nos apoiaremos em documentos meiras décadas do setecentos, refletin-
da Câmara de Mariana e do Arquivo do sobre os equilíbrios de poder da
Público Mineiro referente à execução época moderna.

A LINGUAGEM MORAL ENTRE O JUSTO E O EXORBITANTE NAS MINAS


GERAIS: O PREÇO JUSTO E CERTO NA VILA DE NOSSA SENHORA DO
CARMO/MARIANA (1711-1750)
Fabiano Gomes da Silva
O governo econômico da res pública no das faces da política de conservação do
Antigo Regime era sensivelmente mar- bem comum. A definição emanada
cado por noções de justiça e de morali- dessas normas se aproximou do cha-
dade. Usualmente as autoridades emi- mado preço justo. Ele era o preço co-
tiram bandos e normas para condenar mum que servia tanto para quem
e remediar o ganho em excesso, a comprava quanto pra quem vendia,
fraude com a adulteração dos produtos sendo um valor acordado para atender
e o conluio dos mercadores e oficiais as necessidades imediatas do “povo”,
manuais na definição de preços movi- mas igualmente acomodar os interes-
dos por particulares interesses dentro ses dos intermediários (lojistas, vendei-
dos mercados locais. A linguagem po- ros, comboieiros e etc.) e dos produto-
lítica de combate ao excesso e a fraude res de bens e serviços no mercado local
também se fez presente no mundo co- (oficiais manuais, roceiros, criadores
lonial americano. Na Vila de Nossa de gado, por exemplo). As preocupa-
Senhora do Carmo, a estabilidade da ções morais com o preço justo e o com-
população dependia do regular con- bate ao ganho excessivo também esta-
curso de mantimentos, mercancias e vam presentes nas trocas mercantis na
prestadores de serviços especializados. Vila do Carmo. As chamadas ações
A Câmara da Vila do Carmo, criada cíveis revelaram a reprodução da
em 1711, não tardou em editar um con- mesma lógica do preço justo nas nego-
junto de normas e regulamentos abar- ciações comerciais da comunidade.
cando almotaçaria (preço máximo de- Além disso, a partir dessa documenta-
finido), aferição de pesos e medidas ção foi possível inferir a presença de
(combater adulterados e falsos) e fixa- limites razoáveis entre o ganho justo e
ção de regimentos com valores de ser- o “ganhar exorbitante” nas trocas do
viços cobrados pelos oficiais manuais. dia-a-dia. Esses limites estavam conti-
Tudo na defesa do interesse do bem dos na noção jurídica de preço justo e
comum da população e dos mineiros, certo, que internalizava como costu-
pois, sem isso, a colheita do ouro e os meira uma variação nos valores de
arraiais sofreriam com desordens. A bens e serviços frente ao preço justo
conformação dos preços no mercado antes que fosse condenado como ex-
por meio da almotaçaria e dos regi- cessivo.
mentos dos ofícios manuais foi uma

20
CADERNO DE RESUMOS

INFLUÊNCIA DOS PODERES LOCAIS NA DEFINIÇÃO DA FISCALIDADE RÉGIA


Carla Maria Carvalho de Almeida

O objetivo dessa comunicação é apre- razão de sua natureza poli-sinodal,


sentar uma reflexão sobre a problemá- compreendia negociações entre seg-
tica da tributação e da fiscalidade no mentos sociais situados em diferentes
âmbito da monarquia corporativa da partes do império, cada qual com seus
época moderna, através da análise das recursos e dispostos numa estratifica-
correspondências trocadas entre as ção cuja cabeça era o rei. Nesse contex-
instâncias centrais da monarquia por- to, entendemos que as questões da tri-
tuguesa e as instituições que represen- butação e da fiscalidade estavam sub-
tavam os poderes locais na América metidas a uma série de constrangimen-
Lusa. Este trabalho integra um projeto tos morais e religiosos e a uma grande
de pesquisa coletivo, ainda em anda- dispersão orçamentária coadunada
mento, que tem procurado estudar as com a dispersão política característica
formas de comunicação e a dinâmica da monarquia coorporativa. Concen-
das relações entre centro e periferias no trando-me no contexto da descoberta
império luso no Atlântico usando co- do ouro nas Minas Gerais do século
mo principal fonte a documentação XVIII, a meta dessa comunicação é
avulsa existente no Arquivo Histórico demonstrar como eram diversificados
Ultramarino de Lisboa. Para tanto, fo- os agentes que se manifestaram sobre o
ram levantadas e registradas em um tema, como em alguns períodos especí-
banco de dados as correspondências ficos foi grande a dependência das ins-
trocadas entre o Conselho Ultramarino tâncias centrais da monarquia com os
e as diversas capitanias da América poderes e as elites locais para definição
Portuguesa nos séculos XVII e XVIII. da melhor forma de estabelecer a tribu-
Interessa-nos saber, como, sobre que tação e para a eficaz cobrança dos tri-
temas e com que capacidade de inter- butos. Tudo isso reforçando a ideia de
venção as instituições estabelecidas no uma sociedade coorporativa. O exem-
ultramar – notadamente as câmaras – plo da implantação do quinto do ouro
se comunicavam com as instâncias cen- em Minas Gerais servirá de eixo con-
trais da monarquia. Parte-se do pres- dutor da análise.
suposto de que a monarquia lusa, em

O MARQUÊS DE LAVRADIO E A "RAZÃO DE ESTADO": POLÍTICA E


ADMINISTRAÇÃO NA SEGUNDA METADE DO SETECENTOS
Antônio Carlos Jucá de Sampaio

A segunda metade do século XVIII foi mais além, denotando uma atuação
tradicionalmente definida pela histori- mais sistemática da coroa, voltada para
ografia como um período de grandes uma melhor administração dos povos
transformações na forma de governo e e, para isso, produzindo uma quanti-
administração no império português. dade significativa de dados, mapas e
Transformações que se iniciam no pe- análises sobre regiões, populações, etc.
ríodo pombalino, mas que se estendem Hoje, embora esse marco tenha sido

21
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

algo relativizado, mostrando-se que mente rico para a análise de como a


importantes mudanças ocorreram a "razão de Estado" se expressava no
partir da década de 1720, parece-nos cotidiano das autoridades régias na
claro que ele ainda é significativo. É colônia. Seu governo foi marcado por
sem dúvida após 1750 que tais mudan- fortes tensões com as autoridades es-
ças se consolidam, constituindo-se panholas, o que tornava a questão da
num novo paradigma de atuação da defesa central em suas preocupações.
coroa. Uma das transformações mais Por outro lado, a necessidade de bem
importantes ocorridas foi o surgimento administrar multiplicava os esforços
e difusão do conceito de "razão de Es- por melhor conhecer tanto a população
tado", entendida como uma racionali- quanto a região governada, assim co-
dade específica dos agentes públicos mo buscar implantar melhoramentos.
tendo em vista os interesses maiores Todos esses aspectos encontramos no
do Estado ou, o que quer dizer o mes- governo do Marquês, tornando-o um
mo, da monarquia portuguesa. O vice- exemplo importante da nova raciona-
reinado do Marquês de Lavradio apre- lidade em voga.
senta-se como um momento especial-

PERNAMBUCO E A COROA:
COMUNICAÇÃO POLÍTICA EM FINAIS DE SETECENTOS
Érika Simone de Almeida Carlos Dias

O trabalho pretende analisar a comu- cada de 1760 vinham se tornando as


nicação política entre a junta que go- instituições primordiais no que respei-
vernou Pernambuco, após o afasta- ta à governação do ultramar portu-
mento do último governador enviado guês. Tomaremos como exemplo as
pela Coroa em Setecentos, D. Tomás consultas do Conselho Ultramarino
José de Melo em 1799, e o Conselho oriundas de queixas e petições de Per-
Ultramarino. Conselho que se aprovei- nambuco, porque em ao menos uma
tou do momento de instabilidade vivi- delas a decisão do regente foi normati-
do no império português no final do va, valia não apenas para a capitania
século XVIII e procurou reconquistar de Pernambuco, mas para todo o im-
algum protagonismo perdido para as pério português.
secretarias de Estado que desde a dé-

AS DINÂMICAS DE DEFESA NO IMPÉRIO ULTRAMARINO:


ENSINO DA ARQUITETURA MILITAR (1700-1750)
Luiza Nascimento de Oliveira da Silva

A proposta da presente comunicação é portuguesa, mais especificamente na


compreender os princípios e os parâ- cidade do Rio de Janeiro. Através da
metros da construção da ciência da análise dos documentos manuscritos
arquitetura militar em Portugal, bem “Tratado da Arquitetônica, ou Arquite-
como a sua resignificação na América tura Militar, ou Fortificação das Pra-

22
CADERNO DE RESUMOS

ças” (1740), atribuído ao engenheiro- da arquitetura militar, tanto no aspecto


mor do reino Manuel de Azevedo For- físico das cidades, quanto no político.
tes, o “Exame Militar” (1703), do Padre A linguagem dos textos (dos tratados e
Luiz Gonzaga, e da interpretação do das plantas de fortificação) era perme-
desenho das “Plantas da cidade de ada por atributos políticos, tais como, o
Lisboa no tocante à sua fortificação e brasão real e a dedicação da planta de
emendas nela propostas e assentadas fortificação ao monarca D. João V, pre-
pelos engenheiros Francisco Pimentel, sentes nos desenhos. Além do ensino
Manuel Mexia da Silva, Manuel de da ciência ser legitimado, e ao mesmo
Azevedo Fortes, António Velho de tempo, legitimar a manutenção do Es-
Azevedo, Manuel do Couto e Manuel tado – como apreendemos do ensino
Pinto de Vila Lobos que por ordem de dos tratados. Isso porque a defesa era
Sua Majestade que Deus guarda se fez parte da estratégia de governo, e o am-
no ano de 1700”, identificaremos como biente político estava articulado ao en-
a linguagem da referida ciência possu- sino da ciência da arquitetura militar.
ía uma matriz política, pois, a sua apli- Para tanto, conceitos propagados por
cação era necessária para a manuten- autores da Antiguidade clássica adqui-
ção do governo do Império ultramari- rem um espaço considerável nos do-
no. A relação social de produção da cumentos em estudo. Identificamos a
representação de defesa (com o estudo sua resignificação na teoria política de
da elaboração das plantas de fortifica- defesa ensinada na tratadística da ar-
ção e dos tratados) será explorada no quitetura militar. Como por exemplo, a
desenvolvimento da ciência, através dimensão das virtudes do monarca,
das estruturas de seu funcionamento, além da própria função da dita ciência.
bem como de seu ensino. A circulação A problematização de questões cultu-
dos princípios da arquitetura militar rais, ou melhor, compreender as práti-
demonstra os grupos, as hierarquias, cas culturais por meio da observação
as resistências e os conflitos que per- de perto e em companhia do observa-
mearam a sua construção e prática. do – os autores dos manuscritos – nos
Exemplo disso foi a formação de redes auxilia no entendimento do quadro do
de teóricos e seus temas, estes postos sistema de ensino da ciência da arqui-
em discussão nos tratados estudados. tetura militar, do quadro da instituição
Da mesma forma que o uso e a assimi- da ciência e do quadro mais vasto da
lação das plantas de fortificação. A cultura. Pois, como personagem, o au-
análise da linguagem será realizada a tor do documento, informa sobre o seu
partir da perspectiva do decoro e da modo de interpretar o mundo, a sua
noção de que se trata de uma ciência visão de mundo pode ser entendida
necessária, útil e conveniente, o que através dos temas debatidos por ele.
permite a identificação dos preceitos

DOMINGOS JORGE VELHO E O QUILOMBO DOS PALMARES: DA GUERRA


ARMADA À GUERRA ESCRITA (1687-1698)
Luiz Pedro Dario Filho

A segunda metade do século XVII foi lusa. Após 1640, necessitando construir
período conturbado para a monarquia legitimidade institucional para forne-

23
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

cer estabilidade política a D. João IV, ao poder colonial e se situavam ao lon-


Portugal enfrentou resistências milita- go da serra da Barriga. Estes agrupa-
res não apenas da Espanha, mas em mentos, independentes e articulados,
diversas partes do seu império ultra- cresceram e se organizaram no decor-
marino. O território da América portu- rer do século XVII, conseguindo resis-
guesa não seria exceção neste contexto, tir às inúmeras expedições militares e
com a guerra de expulsão dos flamen- punitivas enviadas pelo governador de
gos de Pernambuco e os levantes ta- Pernambuco e pelo Governo-Geral do
puias nas capitanias do Norte do Brasil Brasil. Apenas a partir de meados do
produzindo constantes preocupações Seiscentos, sobretudo a partir de 1670,
em Lisboa. Seria a cultura de serviços que as ações da Coroa portuguesa con-
militares prestados pelos seus súditos seguirão ter maior efetividade contra
do ultramar, prática tradicional dentro os rebeldes refugiados na região. É
do mundo ibérico moderno, que viabi- dentro dessa conjunção que, em 1687,
lizaria a sustentação da soberania por- Jorge Velho firma contrato de guerra
tuguesa nessas regiões ameaçadas. com o governador de Pernambuco,
Vassalos desejosos de prestígio e de João da Cunha Souto Maior, entrando
ascensão social formariam tropas e ter- na guerra palmarina. Partindo da con-
ços armados para guerrear em nome juntura imperial vivida ao longo da
da Coroa portuguesa. Terminados os segunda metade do século XVII, de
conflitos, no entanto, nova batalha era maior cooperação entre paulistas e o
travada, desta vez não através das ar- Rei na formação de expedições milita-
mas contra os inimigos de Portugal, res que prestavam serviços nos sertões
mas pelas letras, em negociações en- americanos, analisarei as negociações
volvendo mercês régias pelos serviços envolvendo o cumprimento do contra-
prestados. O envio dos papéis narran- to de guerra firmado em 1687. Dispu-
do atuações militares envolvia imbró- tas envolvendo o chefe planaltino, o
glio nada fácil para esses súditos. Fora governo de Pernambuco, o Conselho
todo o tempo, considerável, que en- Ultramarino e o monarca – após o su-
volvia o envio dos documentos e a sua cesso da expedição – foram particu-
chegada na Corte, não era raro que se larmente intensas, especialmente após
levassem meses, ou até mesmo anos, 1694. Pretendo demonstrar, ao traba-
para a obtenção das remunerações de- lhar com o caso, a importância da atu-
sejadas. Isso se elas fossem concedidas. ação de Domingos Jorge Velho não
Expulsos os flamengos, em 1654, as apenas nas armas, como também nas
atenções das autoridades coloniais da letras, dentro da negociação envolven-
capitania de Pernambuco se voltaram do o contrato de guerra. E de como é
para outro inimigo, ainda mais antigo: fundamental compreender o papel ati-
os mocambos dos Palmares. Formados vo que os colonos possuíam dentro de
por diversas comunidades de escravos negociações envolvendo serviços mili-
negros fugitivos da capitania de Per- tares relevantes para a Coroa lusa.
nambuco, eram núcleos de resistência

24
CADERNO DE RESUMOS

VÁRIAS FREGUESIAS E UMA VILA: A DINÂMICA DA OCUPAÇÃO


PORTUGUESA NA FRONTEIRA MERIDIONAL DA AMÉRICA, 1737-1809
Helen Osório

O trabalho analisa o processo de assen- vos defensivos, como os núcleos fun-


tamento dos lusitanos no espaço que dados com os casais açorianos. A in-
configurou a capitania do Rio Grande vestigação acerca da origem dos povo-
de São Pedro ao longo do século XVIII. ados que adquiriram o estatuto de fre-
Fatores que particularizaram essa ex- guesias se deu através da correspon-
pansão foi a presença da missões jesuí- dência administrativa entre autorida-
ticas e as disputas territoriais com a des civis e militares, os registros de
coroa de Espanha. Desde a fundação concessão de datas de terras e cartas de
do presídio de Rio Grande em 1737, até sesmaria. Outra vertente do estudo é a
1809, a organização espacial e adminis- análise dos âmbitos decisórios da única
trativa do território deu-se através de Câmara existente, verificando sua atu-
pouco mais de uma dezena de fregue- ação política e territorial e as matérias
sias e da instauração de apenas uma sobre as quais efetivamente decidia,
vila com sua Câmara de Vereadores. indagando-se de suas peculiaridades
Até então, a divisão eclesiástica das em função da situação de fronteira e
freguesias (paróquias) moldou a vida das conjunturas bélicas vivenciadas. A
administrativa da capitania e foi um fonte principal desta parte do estudo
referente espacial muito importante. são a totalidade das atas das sessões da
Listas de população, mapas de produ- câmara, de 1766 a 1800, em número de
ção de trigo, organização das tropas de 1955. Esta pesquisa faz parte do con-
ordenanças e de milícias, os ramos dos vênio CAPES-COFECUB e insere-se no
dízimos, tudo se referenciava pelas âmbito do projeto “O bom governo das
freguesias, inclusive a auto-declaração gentes: hierarquias sociais e represen-
de naturalidade de seus habitantes. tação segundo a política católica, do
Indaga-se, na comunicação, sobre os século XVI ao XVIII”. Por fim, realiza-
processos fundacionais das povoações se uma comparação com os processos
e suas motivações: atividade comercial de assentamento no Rio da Prata e em
junto aos rios ou no caminho das tro- outras capitanias da América portu-
pas de animais, funções militares guesa, como as Minas Gerais.
(quartéis e armazéns reais), ou objeti-

A FORMAÇÃO DA REDE DE NÚCLEOS URBANOS COLONIAIS NO ALTO


SERTÃO DA BAHIA NO SÉCULO XVIII: AS ESTRATÉGIAS DE ORDENAMENTO
URBANO PARA O ALÉM-MAR
José Antônio de Sousa

Os estudos sobre a formação da rede de Maria H. Occi Flexor “Núcleos Urba-


urbana dos núcleos coloniais na Bahia, nos Planejados no século XVIII” e Robert
no século XVIII, de comprovada im- Smith, “Arquitetura Colonial”. É interes-
portância, tem se concentrado na regi- sante analisar a irradiação do povoa-
ão litorânea, a exemplo das pesquisas mento no sertão, a partir das capitanias

25
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

da Bahia de Todos os Santos, São Jorge portuguesa podem ser entendidos do


do Ilhéus e Porto Seguro no século ponto de vista do contexto do século
XVIII, a exemplo da tese de Roberta XVIII, no campo da filosofia iluminista
Marx Delson, em “Novas Vilas para o que ganhava força, as ameaças hispâ-
Brasil-Colônia – Planejamento Espacial e nicas nas fronteiras norte, sul e oeste
Social no século XVIII”, Manuel C. Tei- no atlântico sul, os tratados internacio-
xeira “Os modelos Urbanos Brasileiros das nais, que obrigava a coroa a fortalecer
Cidades Portuguesas” e Ronald Raminel- sua atuação enviando agentes para a
li “Ilustração e Império Colonial”. Estas manutenção do seu controle político. O
pesquisas de modo geral estão volta- ordenamento urbano estabelecido no
das para o entendimento dos interesses alto sertão da Bahia no século XVIII
econômicos, estratégias políticas, ad- constitui uma extensa agenda de pes-
ministrativas e justiça, adotadas pela quisa ainda pouco explorada, sobre
coroa portuguesa em suas provisões uma densa rede urbana que representa
régias, instrumento de controle político os interesses e domínios territoriais nos
urbano-territorial no além-mar, mate- sertões, fundamentais para a compre-
rializados na configuração urbano- ensão da história da urbanização e
espacial e tipologia arquitetônica, obje- identidade cultural naquela região.
to da tese de Nestor Goulart Reis em Esta pesquisa procura identificar al-
“Contribuição ao Estudo da Evolução Ur- guns elementos determinantes da for-
bana do Brasil”. Os núcleos urbanos na ma urbana e arquitetônica de Minas do
era colonial são abordados pela histo- Rio de Contas, N. Srª. das Minas do
riografia como aglomerados, arraias, Rio de Contas, Santo Antônio da Jaco-
vilas e cidades possuindo um papel bina, Santo Antônio do Urubu de Cima
importante sobre a atuação e interesses e São Francisco das Chagas da Barra
lusitanos. O aperfeiçoamento das polí- do Rio Grande, núcleos urbanos colo-
ticas de justiça, administração e orde- niais dos sertões da Bahia.
namento urbano lusitano na América

15 de setembro de 2016

ALIANÇAS FAMILIARES: ESTRATÉGIAS MATRIMONIAIS E REDES CLIENTE-


LARES COMO MECANISMOS DE ARISTOCRATIZAÇÃO – GUARAPIRANGA
SÉCULO XVIII
Débora Cristina Alves

Nossa proposta de trabalho tem como dos em uma ótica de prerrogativas,


intuito analisar a lógica e as estratégias distinções e hierarquização, caracterís-
empregadas pelas famílias de elite da ticas de uma sociedade de Antigo Re-
freguesia de Guarapiranga – região gime, as famílias de elite procuravam
próxima ao clico minerador de Maria- se aristocratizar, através das conces-
na (MG) – na constituição de redes cli- sões de mercês, casamentos, funções
entelares, familiares e alianças matri- políticas e sociais que os conferissem
moniais entre os membros locais com o destaque social e reconhecimento co-
propósito claro de obter ascensão soci- mo nobres. A nobreza estabelecida nas
al, status, honras e privilégios. Inseri- possessões ultramarinas não se consi-
26
CADERNO DE RESUMOS

derava diferente ou afastada das lógi- gicos, permitindo iluminar os ciclos


cas que perpassavam o ambiente euro- familiares e servindo, assim, não ape-
peu, se qualificavam como uma aristo- nas a fins de análise demográfica, mas
cracia crescente e determinante para o também de história social. Fundamen-
Reino. Esses indivíduos reconheciam tado esses conceitos, analisamos os
sua posição de colonos de Portugal, inventários post-mortem, testamentos,
mas também como nobres e principais dispensas matrimoniais e registros pa-
da terra, reivindicavam acesso a privi- roquiais de casamentos do período de
légios, cargos e ofícios com base em 1715 a 1790, com o objetivo de assina-
serviços que prestavam à Coroa, como lar os elementos desenvolvidos por
conquistas, defesa do território, entre essa elite para se constituírem como
outros. Reconhecendo-se e sendo reco- nobres locais. A concessão de dotes, o
nhecidos como nobres, as famílias pre- privilégio aos filhos primogênitos e aos
ocupavam-se em manter sua hegemo- filhos cônegos e os matrimônios entre
nia e para tal empregavam estratégias parentes consanguíneos foram umas
matrimoniais e instituíam redes clien- das muitas estratégias utilizadas para
telares com seus pares sociais no intui- que os bens patrimoniais não se dissi-
to de produzir alianças políticas e eco- passem ao longo das gerações. Acredi-
nômicas. Empregando esses conceitos tamos que procedimentos de manuten-
e análises, nosso trabalho pretende ção patrimonial através da “venda” ou
compreender quais as estratégias, ne- concessão territorial ao filho primeiro
gociações e redes foram desenvolvidas também foram frequentes na freguesia
pelos habitantes da freguesia de Gua- de Guarapiranga, para tanto analisa-
rapiranga no intuito de serem reconhe- mos todos os inventários post-mortem
cidos como nobres e para viver à lei da do período com o intuito de reconhecer
nobreza. Para tanto, utilizamos a prin- essa prática. Desta forma, nosso traba-
cípio o método de reconstituição de lho consiste também em observar os
paróquias através de indicações nomi- diversos padrões de herança existentes
nativas, desenvolvido pelo NEPS da no período colonial para a região, inse-
Universidade do Minho, no qual se ridos em uma cultura política e social
define como unidade de análise o indi- de Antigo Regime.
víduo e seus encadeamentos genealó-

A PARTICIPAÇÃO DE FAMÍLIAS SENHORIAIS NO MERCADO DE BENS


RURAIS: CARACTERÍSTICAS E MECANISMOS DE FUNCIONAMENTO. RIO DE
JANEIRO, SÉCULO XVIII
Ana Paula Souza Rodrigues

O objetivo deste trabalho é analisar as aspectos gerais do mercado de bens ru-


operações que envolveram a compra e rais da capitania do Rio de Janeiro, nos
venda de terras e engenhos, durante o setecentos. Para tanto, faremos uso, so-
século XVIII, por famílias senhoriais bretudo, das escrituras públicas de
estabelecidas nas seguintes freguesias compra e venda. Ao final, tentaremos
fluminenses: Piedade de Iguaçu, Santo responder às seguintes perguntas: Se
Antônio de Jacutinga e Marapicú. Este esse mercado não era autorregulado,
recorte nos permitirá compreender os que elementos comandavam as opera-

27
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ções de compra e venda? Se não era crescimento do capital mercantil e do


uma sociedade capitalista, além do di- mercado de bens urbanos, os negócios
nheiro, o que era preciso, por exemplo, rurais terão importância numérica du-
para comprar um engenho. Em um tra- rante o século XVIII, até porque a capi-
balho preliminar, notamos que na mai- tal fluminense é essencialmente uma
or parte das operações de compra e sociedade agrária. Assim, destaca-se a
venda de engenhos e terras, havia uma importância de nosso trabalho, em ana-
relação de parentesco entre vendedor e lisar um dos mais expressivos mercados
comprador. O aporte teórico sobre os da época, que era o de bens rurais.
mecanismos de funcionamento do mer- Além disso, para alcançarmos os objeti-
cado em sociedades pré-capitalistas, vos propostos, utilizaremos as seguin-
desta pesquisa, está baseado nas obras tes ferramentas metodológicas da micro
de Karl Polany e Witold Kula. Os auto- história italiana: o método da circuns-
res destacam que os sistemas econômi- crição de análise e a técnica de cruza-
cos de tais sociedades não estavam as- mento onomástico. Ao examinarmos o
sentados no livre jogo dos fenômenos mercado de bens rurais do Rio de Janei-
de mercado, assim, sua base de cálculo ro setecentista, também observamos tais
foi influenciada por outros fatores, tais características. Dentre as hipóteses le-
como, parentesco, conduta moral, cari- vantadas até o momento, destacamos a
dade, ou seja, a economia de sociedades correlação entre o sistema de transmis-
arcaicas estava submersa nas relações são patrimonial do império português
sociais. Baseado neste modelo teórico, setecentista e a participação das famílias
Giovanni Levi verificou tais elementos senhorias no mercado de terras e bens.
no mercado de terras do Piemonte, na De acordo com as Ordenações Filipinas,
Itália, durante os séculos XVII e XVIII. a partilha dos bens de uma família de-
De acordo com o autor, o que regulava veria ser realizada de forma igualitária,
o preço da terra naquela localidade não o que poderia acarretar a pulverização
era a oferta e procura, mas o tipo de do patrimônio familiar. Portanto, mui-
relação estabelecido entre comprador e tas famílias recorreram ao mercado de
vendedor, portanto, o mercado era des- bens rurais para manter o patrimônio
contínuo, onde muitas das vezes uma familiar nas mãos de um único herdei-
venda de determinada terra podia ser a ro, veremos como era comum que uma
fase final ou intermediária de uma rede pessoa comprasse a legítima parte dos
complexa de transações, além de sua demais irmãos para assenhorear-se so-
simples transmissão a um membro da zinho do patrimônio familiar. Esses e
família. Sobre o Rio de Janeiro, de acor- outros aspectos serão, assim analisados.
do com Antonio Carlos Jucá, apesar do

ENTRE FAMÍLIAS E NEGÓCIOS: UMA ANÁLISE DA ATUAÇÃO DOS HOMENS


DE NEGÓCIO NA SOCIEDADE FLUMINENSE NO SÉCULO XVIII
Lucimeire da Silva Oliveira

A presente apresentação pretende mos- dos homens de negócio atuantes na


trar os primeiros apontamentos de cidade do Rio de Janeiro entre os anos
pesquisa que tem como objeto o estudo de 1750 e 1808. Assim, buscar-se-á em-

28
CADERNO DE RESUMOS

preender uma análise de um grupo que cargos da governança local, no setecen-


se tornou protagonista tanto na esfera tos cada vez mais os homens de negó-
econômica quanto na esfera política na cio vão agir coletivamente em defesa
capitania fluminense durante a segun- de seus interesses. Após enfrentar uma
da metade do século XVIII. A consti- grande resistência da elite senhorial,
tuição deste grupo social está ligada à esses negociantes vão conseguir inte-
virada do século XVII para o XVIII, grar o quadro de membros da Câmara,
período em que o Rio de Janeiro passa- chegando a representar 50% do total de
va por uma série de transformações indivíduos que foram eleitos para ve-
que refletiriam diretamente na econo- readores no Senado na década de 1770.
mia da cidade. Sem dúvida, um dos Situados no topo da hierarquia social,
fatores que mais contribuiu para a re- tal grupo tinha imensa importância no
definição do papel da cidade do Rio de contexto do Império ultramarino por-
Janeiro no interior do Império portu- tuguês, pois controlava os principais
guês foi a descoberta de ouro no final elementos da economia colonial do Rio
do século XVII e crescimento da utili- de Janeiro: a mão de obra e o crédito.
zação da mão de obra escrava africana. Em uma sociedade de Antigo Regime,
Altamente lucrativo, o tráfico vai atrair em que a economia é marcada pela es-
o interesse de comerciantes que pas- cassez de moeda e pela concentração
sam a se fixar na cidade do Rio de Ja- de renda nas mãos de poucos, a utiliza-
neiro, atuando cada vez mais como os ção do crédito através de empréstimos
principais protagonistas no comércio é fundamental. Tal crédito não era
africano. O a ascensão econômica desse apenas utilizado como forma de liqui-
grupo fez com que ocorressem mudan- dez, mas também na compra de bens,
ças na dinâmica social, como o apare- como morada de casa, na compra de
cimento do “homem de negócio” de escravos, etc, ou seja, das mais variadas
uma nova elite que tinha como identi- maneiras que dinamizavam a econo-
dade principal seu vinculo com o co- mia colonial. Assim, os negociantes
mércio. Apesar do termo “homem de controlavam os meios de reiteração da
negócio” ser identificado ainda final do estrutura social e econômica dessa so-
século XVII, é ao longo do setecentos ciedade. Atentando-nos para a impor-
que cada vez mais vamos encontra-lo tância desse grupo para a reprodução
nas fontes sendo utilizado para desig- da sociedade colonial fluminense, pre-
nar uma comunidade de indivíduos tendemos através do presente pesqui-
ligados ao nível mais elevado de co- sa, analisar os negociantes, buscando
mércio. O estabelecimento dos negoci- empreender as suas principais esferas
antes nessa sociedade fez com que se de atuação verificando sua participação
julgassem capazes de interferir não nas mutações surgidas em uma socie-
apenas na esfera econômica, mas tam- dade pré-industrial marcada por regras
bém na vida política da cidade, o que econômicas, políticas e simbólicas de
ocasionou mudanças na composição da Antigo Regime, nos atentando princi-
elite que detinha o poder político local. palmente para as inter-relações cons-
Assim, diferente dos séculos preceden- truídas pelos homens de negócio como
tes, que foram dominados pela conso- forma de criarem um espaço próprio
lidação de uma elite senhorial baseada no interior da hierarquia social coloni-
no capital agrário e na ocupação de al.

29
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ESTUDOS DE CASO: FAMÍLIA E MATRIMÔNIO – JACAREPAGUÁ, SÉCULO


XVIII
Mareana Barbosa Gonçalves Mathias da Silva

Neste trabalho, escolhemos algumas habitus gerador, um sistema de disposi-


trajetórias desta periférica região pan- ções. Em vez de regras de parentesco,
tanosa entre tantas outras que conse- utilizamos, portanto, o conceito de es-
guimos reconstruir e que esperamos tratégias matrimoniais, permitindo
que possam aparecer em próximas uma infinidade de lances que se adap-
pesquisas. Não foi nosso objetivo, en- tam a outra infinidade de situações
tretanto, observar as trocas matrimoni- possíveis. (BOURDIEU: 2004; p.21).
ais de todos os indivíduos que viveram Pretendemos aprofundar o estudo do
em Jacarepaguá na segunda metade do sistema de parentesco atrelado ao aces-
século XVIII. Seria impossível. Em so à terra, no sentido em que este po-
primeiro lugar, é necessário destacar deria ser garantia de uma vida menos
que, neste momento, tratava-se da dis- penosa. No entanto, nosso estudo não
tante periferia de uma cidade que cada se restringe às elites, mas inclui todos
vez mais se converteu no principal os agentes que mantinham relações
porto do Atlântico Sul luso, em função com aqueles, com os escravos ou entre
do ouro das Minas Gerais e do tráfico si, sejam eles recém-advindos da es-
atlântico de escravos. A freguesia tinha cravidão, como os pardos, ou estran-
como base de seu sustento os já antigos geiros, vindos, em sua maior parte, do
e pouco numerosos engenhos de açú- norte de Portugal. Entre um caso e ou-
car e atividades de subsistência. Como tro, do partidista de cor ao senhor de
estes indivíduos efetivamente viveram engenho, julgamos ser possível nos
nunca saberemos, talvez apenas que aproximar dos meandros das estraté-
sob práticas do Antigo Regime. Entre- gias matrimoniais do Império Portu-
tanto, no campo da verossimilhança, guês. Para isso, identificaremos as fa-
apoiados em massiva documentação, mílias preponderantes do mercado
pudemos extrair fragmentos de suas matrimonial na região de Jacarepaguá,
trajetórias, dos rastros por eles deixa- como Campos da Silveira e Pereira de
dos. Portadores de mecanismos de Meireles. Nessa direção, realizará es-
ação, “estamos em meio a uma série de tudos de caso que demonstrarão como
jogos ou interações, nos quais os agen- esses grupos manipulavam estratégias
tes possuíam recursos desiguais e dife- sociais com o objetivo de reproduzi-
rentes, mas eram sujeitos com suas de- rem-se socialmente. Através da conju-
vidas estratégias. E a vida seguia nas gação da história serial com a redução
freguesias”. Adotamos, em concordân- de escalas e a utilização de fontes pa-
cia com Bourdieu, que esta ação não roquiais, simples nomes em tabelas do
era a simples execução da regra, tam- Excel se transformaram em pequenas
pouco obediência. Nos jogos mais histórias, que, mais tarde, se inseriam
complexos, como é o caso das trocas em um Império que se destrinchava,
matrimoniais, estes indivíduos inves- lentamente, entre apadrinhamentos,
tem em princípios incorporados de um casamentos e outras relações sociais.

30
CADERNO DE RESUMOS

O CLERO SECULAR E O GOVERNO CRISTÃO DOS ESCRAVOS NA FREGUESIA


DA SÉ DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (SÉCULO XVIII)
Marcio de Sousa Soares

É de longa data que a historiografia tismo para neles verificar a presença de


voltou sua atenção para o papel da sacerdotes na condição de senhores de
Igreja Católica na legitimação da es- escravos e padrinhos, os índices de
cravidão africana na era moderna, so- legitimidade das crianças escravas
bretudo ao examinar a postura institu- (como forma de aferir indiretamente a
cional da Igreja com base na doutrina disseminação do casamento) e a pre-
da guerra justa e as propostas de go- sença das protetoras espirituais que
verno cristão dos escravos formuladas figuravam como madrinhas tanto de
pelos jesuítas entre meados do século inocentes quanto de adultos. Visto o
XVII e meados do século XVIII. Se, por relevo alcançado pelas alforrias conce-
um lado, alguma atenção tem sido da- didas como disposição de última von-
da para a questão da posse de escravos tade, examina-se igualmente a partici-
pelos beneditinos e inacianos radica- pação dos clérigos na concessão das
dos na América portuguesa, por outro, alforrias em vida com base nas escritu-
quase nada se conhece sobre a condi- ras lançadas nos Livros de Notas dos
ção senhorial do clero secular. O pre- cartórios da cidade. De acordo com as
sente texto analisa o governo cristão estimativas coevas, a freguesia da Sé
dos escravos exercido pelo clero secu- abrigou de 1/5 a 1/4 dos escravos
lar na cidade do Rio de Janeiro no sé- computados no núcleo urbano da ci-
culo XVIII, tanto por meio de suas atri- dade nas duas últimas décadas do se-
buições sacerdotais – mormente no que tencentos. Além disso, por se tratar da
dizia respeito à aplicação dos sacra- sede do Bispado do Rio de Janeiro, a
mentos do batismo e do matrimônio amostra de testamentos analisados
aos cativos – e no destino reservado contempla sacerdotes que ocupavam
aos mesmos pelas últimas vontades diversas posições na carreira eclesiásti-
dos clérigos expressas em seus testa- ca, de capelão ao bispo. Não é ocioso
mentos, cujos registros foram anotados lembrar que a principal finalidade de
nos livros de óbito da freguesia da Sé. um testamento era a preparação para
A aplicação dos sacramentos aos es- uma boa morte e, para tanto, o concur-
cravos foi objeto de preocupação das so dos mortos e das entidades celesti-
autoridades eclesiásticas desde o Síno- ais era decisivo para leigos e clérigos.
do da Bahia e igualmente mereceu a No momento de dispor dos bens acu-
atenção dos Bispos do Rio de Janeiro mulados em favor da salvação, vale
por meio de pastorais e sermões. Ao se notar que os sacerdotes contavam com
levar em conta que os vigários e padres uma vantagem sobre boa parte dos
coadjutores que atuavam na Igreja da leigos, uma vez que a maioria dos pa-
Sé encontravam-se sob a supervisão dres não possuía herdeiros forçados,
direta dos bispos, o exame dos livros em virtude da disciplina do celibato e
paroquiais revelam como e até que da morte dos pais. Não é de admirar
ponto as recomendações episcopais que, apesar da frequente menção à
eram cumpridas. Nesta pesquisa exa- existência de parentes colaterais – qua-
minaremos apenas os registros de ba- se sempre irmãos e sobrinhos – vários

31
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

clérigos tenham instituído as suas pró- que os levassem à praça para que o
prias almas como herdeiras, visto que produto de suas vendas pudesse saldar
a cultura jurídica de antigo regime ibé- os gastos fúnebres. Em suma, o destino
rico herdou do medievo a convicção de reservado aos escravos pertencentes ao
que as mesmas eram sujeito de direi- clero secular após a morte de seus do-
tos. Por conseguinte, o patrimônio que nos demonstra o papel desempenhado
possuíam, no qual figuravam os escra- pelos padres na reprodução da ordem
vos, foram convertidos em bens da escravista de acordo com a vivência do
alma daqueles testadores que os trans- catolicismo associada aos valores de
formavam em legados pios ou então antigo regime na cidade do Rio de Ja-
ordenavam aos seus testamenteiros neiro setecentista.

FORROS: PRÁTICAS ESCRAVISTAS, ALFORRIA, COR E CONDIÇÃO


SENHORIAL (RIO DE JANEIRO, SÉCULO XVIII)
Roberto Guedes Ferreira

O trabalho de pesquisa analisa o papel forros naturalizavam o pagamento das


que senhores egressos do cativeiro de- alforrias como forma de afirmar sua
sempenharam na manutenção e na re- condição senhorial perante seus escra-
produção das desigualdades calcadas vos. Paralelamente, em seus testamen-
na escravidão de Antigo Regime de tos os modos de tratamento que os se-
base católica no Rio de Janeiro setecen- nhores forros dispensavam a seus es-
tista. Perscrutar-se-á a posse de escra- cravos tendiam a reforçar as qualida-
vos entre senhores forros e/ou com des de cor de seus subordinados cati-
ascendentes escravos, suas práticas vos (preto, mulato, pardo, etc.), ao pas-
escravistas e suas concessões de alfor- so que esses mesmos senhores não se
rias. Com base em testamentos e regis- intitulavam com tais qualidades. A
tros de óbito, a ênfase recairá nos mo- auto-atribuição de identificação de se-
dos pelos quais senhores forros nome- nhores forros, sobretudo os oriundos
avam seus escravos e as condições pe- da África, reforçavam a procedência,
las quais lhes concediam alforria. Nes- quase sempre da Costa da Mina, mas
se segundo aspecto, as práticas escra- sem aludir a qualidades de cor. Podi-
vistas que moldavam as alforrias con- am até afirmar que foram escravos de
cedidas pelo grupo em questão reve- alguém, mas sem auto-atribuição de
lam, até o momento da pesquisa, que cor. Essa tendência, que não é uma re-
em nada se diferenciavam de outros gra, significa que a atribuição de qua-
senhores (mormente os portugueses), lidades de cor de senhores forros a
salvo na tendência maior dos senhores seus escravos reforçava a condição se-
forros em conceder alforrias com ônus nhorial do grupo e rebaixava a condi-
financeiro a seus cativos, inclusive via ção social de seus escravos. Assim, a
coartações. Nesse sentido, diriam os qualidade de cor atribuída pelos forros
economicistas, os forros explorariam a seus escravos reforçava a submissão
mais seus escravos do que os demais política e social dos cativos. A diferen-
senhores. Antes disso, porém, a inter- ciação social gestada e reatualizada
pretação aqui proposta é a de que os pelas relações escravistas não isentava

32
CADERNO DE RESUMOS

os que vivenciaram a escravidão de reforçar sua posição de mando. Trata-


exercer, no plano político, suas prerro- va-se, mais do que tudo, de uma rela-
gativas senhoriais quando ditavam ção de poder. Ingressariam na corte
suas últimas vontades a fim de salva- celestial católica e/ou reencontrariam
rem suas almas. Logo, os forros usa- seus antepassados de origem africana,
ram um expediente de uma monarquia sem dúvida, mas na condição de se-
católica, a preparação de seu bem mor- nhores.
rer via disposições testamentárias, para

DONS E CONTRADONS NA LIBERDADE: RELAÇÕES DE TROCA ENTRE


SENHORES E EX-CATIVOS NA CAPITANIA FLUMINENSE (1750-1800)
Philippe Manoel da Silva Moreira

Este trabalho tem como objetivo o es- próprios escravos muitos eram elos
tudo das possibilidades de liberdade entre seus senhores e o grupo de cati-
por meio das manumissões, incluindo vos e, por conta disso, gozavam de al-
o escravo ou forro como agente no gum privilégio. Portanto, as formas de
processo de mobilidade e obtenção da alforrias configuram-se em meio a um
alforria por serviços prestados, rela- jogo de poder entre as elites coloniais..
ções de compadrio ou de parentesco. Para, além disso, é importante levar
Para tanto, usaremos como viés teórico em consideração a expansão do comér-
a economia social do dom de Marcel cio escravocrata e a variação no preço
Mauss, que consiste na reciprocidade dos cativos, que causava impacto dire-
inserida no ato de dar (dom) (onde to nos padrões de alforrias e nas cons-
estaria subentendida a generosidade) tantes negociações para manutenção
e, por conta disso, a necessidade de da liberdade. Daí deriva a importância
retribuir (contradom). Temos como da análise da economia do dom como
recorte geográfico e temporal o Rio de elemento legitimador da hierarquia,
Janeiro na segunda metade do setecen- reiterando a ordem escravocrata atra-
tos. Esta análise procura dialogar com vés de formas variadas de trabalho
diferentes formas de pensar o cativeiro compulsório, como uma prática cos-
e, consequentemente, sua via conser- tumeira de poder no Setecentos. Mes-
vadora, a alforria, dentro da corrente mo dispondo da alforria, o liberto fica-
historiográfica do “Antigo Regime nos va exposto à dependência. Portanto, a
Trópicos”, levando em conta as dinâ- mobilidade ou a liberdade era um
micas internas e suas várias formas de dom, e a reciprocidade do escravo ou
manifestações econômicas e sociais. O liberto para com o seu senhor/patrono
Antigo Regime nos Trópicos não ad- um contradom. Na grande maioria dos
vêm somente da nobreza da terra e de casos, os serviços prestados ou relações
mercadores e negociantes, mas tam- de compadrio, eram dons; por conta
bém de grupos que se apoderavam de disso, a intenção do presente trabalho
quaisquer possibilidades de distinção também é discutir o conceito de liber-
ou ascensão social. Isto inclui mestiços dade para alforriados, já que os mes-
e forros, indígenas e suas variantes mos estavam presos a uma série de
tribais e relações parentais, além dos sanções que inviabilizava o pleno exer-

33
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

cício da mesma. Todavia, isso não ex- de negociador também era responsável
clui alguns casos onde o escravo além pela manutenção do cativeiro.

OS RITOS FÚNEBRES COMO FORMA DE BENEFÍCIO: A ELITE SENHORIAL DI-


ANTE DA MORTE ESCRAVA
Michele Helena Peixoto da Silva

Geradas através de uma estratificação de lealdade e obediência do escravo ao


de poder, as relações entre senhores e seu senhor é que proponho neste arti-
escravos poderia suscitar em formas go analisar a morte como forma de be-
diferentes de tratamento, pois tal rela- nefício, isto é, analisar os serviços fú-
ção não era algo regulamentado por nebres dispensados pelos senhores no
leis específicas, ou seja, o Estado não momento derradeiro dos escravos co-
interferia na forma como os senhores mo um privilégio concedido pelo se-
deveriam tratar seus cativos. Sendo nhor em retribuição aos bons serviços
assim, a casa ou a família do senhor prestados, pois assim como as alforrias
poderia ser entendida como uma soci- gratuitas incondicionais, concedidas
edade constituída por diferentes inte- pelo “Amor de Deus”, através dos tes-
grantes (parentes, lavradores, forros e tamentos de determinados senhores
escravos), cujo mando estava nas mãos eram dadas como forma de recompen-
do senhor. Dentro deste ambiente o sa e também representadas como for-
escravo era tido como um subordinado ma de caridade, assim também ofere-
que devia ao seu proprietário obediên- cer um ritual fúnebre decente, ou seja,
cia e lealdade, já o senhor, a obrigação dentro dos trâmites definidos pela
de manter a sua mão de obra dando- Igreja Católica, também poderia ter o
lhe proteção, alimentação, vestimenta e mesmo sentido. Desta forma, defendo
moradia. No entanto, determinados a ideia de que ao proporcionar tais
escravos tinham a oportunidade de serviços aos seus escravos no momento
obter uma relação mais próxima com da morte, esses senhores estariam não
seu senhor, adquirida através da sub- só visando a contribuição para a salva-
missão as ordens e regras estabelecidas ção da alma de seu cativo, mas tam-
pelo senhor. Isso poderia gerar deter- bém o perdão dos próprios pecados,
minados benefícios que poderiam va- através do principio da reciprocidade,
riar entre o direito a um quarto ou casa onde as obras pias realizadas pelo in-
separado da senzala, um partido de divíduo poderiam se tornar recompen-
terra ou até a liberdade, adquirida sadas após a morte. Portanto, o objeti-
através das cartas de alforria. No en- vo deste artigo é analisar como a elite
tanto, alguns escravos devido a vários senhorial, na freguesia de Nossa Se-
motivos, não conseguiam adquirir to- nhora da Apresentação de Irajá, locali-
dos os benefícios que poderiam ser- zada no interior do Recôncavo da
lhes dado, devido ao próprio faleci- Guanabara, encarava a morte e o mor-
mento do mesmo. Assim, partindo da rer de seus escravos.
ideia de reciprocidade entre desiguais,

34
CADERNO DE RESUMOS

GUERRA E ESCRAVIZAÇÃO NOS SERTÕES DE ANGOLA (SÉCULO XVIII)


Ariane Carvalho da Cruz

Por meio da historiografia, crônicas e africanos. A existência de conflitos no


relatos de súditos portugueses, esta interior de Angola, indicam que a fron-
comunicação tem por objetivo a análise teira da guerra ainda não estava fecha-
sobre a importância das guerras nas da no século XVIII, fazendo-se neces-
sociedades africanas, relacionando com sário assim, mapear as guerras e cam-
formas de organizações sociais. Se panhas que estavam ocorrendo nos
guerras entre africanos influenciaram sertões de Angola neste momento.
na escravização de pessoas, cabe anali- Também a análise das guerras no ser-
sar a dinâmica interna e histórica da tão de Angola permitirá conhecer a
África para a compreensão dos fatores participação dos africanos nas campa-
que predispuseram as sociedades afri- nhas militares “portuguesas”. Muitas
canas a produzir, manter ou vender vezes, as guerras eram empreendidas
escravos. Com a presença de súditos contra chefes africanos considerados
portugueses, as guerras de conquista rebeldes ao passo que com os chefes
se tornaram práticas na região, e os avassalados, supostamente prevalecia
conflitos entre as autoridades locais uma relação de negociação e troca.
eram utilizados para conseguir maio- Mas tornar um chefe africano, vassalo
res benefícios para os agentes mercan- da Coroa muitas vezes era feito com o
tis. Guerras rendiam escravos, domínio recurso a guerra, pois a guerra podia
territorial e maior influência adminis- desarticular alianças políticas, incon-
trativa. Talvez os objetivos das guerras venientes às forças portuguesas. Nos
entre africanos e portugueses, se en- sertões de Angola, campanhas ocorri-
contrassem, já que em ambos os casos am contra os considerados rebeldes, a
a escravização de pessoas ocorria. Nes- fim de estabelecer domínio político
te caso, o domínio territorial se torna o e/ou obter cativos. Destarte, com o
meio para obter pessoas. Muitos auto- exercício de elencar alguns conflitos
res que abordaram o tema da escravi- ocorridos no interior de Angola, ob-
dão, e sobretudo o tráfico de escravos, serva-se um período ainda de instabi-
analisaram amplamente o impacto des- lidade política, com diversas guerras
ta atividade nas sociedades africanas de conquistas ainda ocorrendo e que
(Candido, 2011; Ferreira, 2003; Love- consequentemente beneficiavam o co-
joy, 2002; Miller, 1988; Thornton, 2004) mércio de escravos. Olhar para as soci-
. Ao relacionar a guerra com a escavi- edades africanas, seus modos de orga-
zação e o tráfico, a demanda externa é nização e dinâmicas locais faz com que
priorizada como fator explicativo para se escape da análise de impacto do trá-
a existencia destes conflitos. No entan- fico e de não ação dos africanos diante
to, as formas como se organizavam os da administração portuguesa em An-
povos da África Centro-Ocidental evi- gola, deixando perceptível as várias
denciam que a existência de guerras formas de adaptação e negociação exis-
fazia parte da dinâmica interna dos tentes.

35
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

SIMPÓSIO TEMÁTICO 2
"As pessoas, os tempos e os lugares": A Companhia de Jesus e suas relações com as
sociedades

Coordenadores: Fabricio Lyrio Santos (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) e Luis


Alexandre Cerveira (Faculdade Instituição Evangélica de Novo Hamburgo)

13 de setembro de 2016

DAS RESPOSTAS PARA AS MUITAS QUESTÕES: SOBRE O COMO SE PROCEDER


NAS MISSÕES JESUÍTAS DO BRASIL E DO JAPÃO NA SEGUNDA METADE DO
SÉCULO XVI
Mariana Amabile Boscariol

Na segunda metade do século XVI, maior proximidade com a metrópole e


primeiras décadas de atividade da o investimento na administração do
Companhia de Jesus, o território sub- território fizeram com que no Brasil
metido ao Padroado Português alcan- emergissem outras questões, como a
çou sua maior amplitude, sendo seus fiscalização pelos colegas dos colégios
extremos o Brasil e o Japão. A funda- em Portugal e a presença de outros
ção de uma missão jesuíta em ambos europeus, que não religiosos. Nesse
os territórios inclusive data do mesmo cenário, as notícias circulavam, mesmo
ano, 1549, correspondendo igualmente que tomasse um tempo desproporcio-
ao início de uma administração mais nal ao compararmos os dois casos aqui
efetiva do território pela Coroa portu- definidos. Aquilo que chegava dessas
guesa, com o estabelecimento do Go- outras partes acabou por influir dire-
verno-Geral, no caso do Brasil, e a di- tamente nas decisões feitas e medidas
versificação e a intensificação das ati- tomadas no próprio território europeu,
vidades comerciais do Extremo Orien- assim como o contrário, a partir da re-
te da Ásia, com a instauração de uma ação na Europa, aquilo que vinha sen-
nova rota, no caso japonês. Nessa con- do feito nos territórios não europeus
juntura, no que diz respeito especifi- sofreu uma “poda” ou incentivo. A
camente ao trabalho religioso desenro- partir das avaliações e previsões que
lado nessas duas missões pela Compa- foram sendo feitas nos diversos territó-
nhia, intimamente ligada aos dois pro- rios, a Companhia e a Igreja Católica
cessos acima referidos, as realidades e passaram a reformular as estratégias às
as possibilidades que se apresentaram quais dariam investimento, sendo da-
foram completamente distintas. Ao das respostas às diversas dúvidas que
tempo em que houve certa liberdade surgiam e formuladas diretrizes mais
de ação no Japão por ser uma região sólidas a fim de guiar o trabalho de
que fugia do controle do Estado da evangelização, principalmente no que
Índia e da fiscalização do Padroado, a tange às confusões de caráter moral e

36
CADERNO DE RESUMOS

religioso. Os documentos que contêm daram perguntar”, escrito por Francis-


as respostas para essas perguntas são co Rodrigues (1515-1573) em 1570, e
fonte riquíssima para se perceber esse “Carta resposta a uma do padre Ma-
cenário para além do universo isolado nuel da Nóbrega recebida em 1561”,
de determinada missão, já que entram escrita pelo então Superior Geral da
em jogo outras instâncias dessa orga- Companhia, Diego Laynez (1512-1565).
nização eclesiástica. Nessa perspectiva, Fazendo parte de uma investigação de
a fim de pensar esse fluxo seguindo a doutoramento que tem como fio con-
proposta de dialogar e refletir sobre as dutor uma análise comparativa entre a
relações da Companhia de Jesus frente missão jesuítica no Brasil e no Japão na
às várias gentes e lugares com os quais segunda metade do século XVI, bus-
passou a atuar, tendo em conta o seu cam-se especificidades de cada caso
papel determinante dentro do processo que possam contribuir para um melhor
de expansão das atividades da Coroa entendimento dos vários percursos que
portuguesa, do Padroado português e a campanha jesuítica tomou, bem como
da própria Igreja Católica, parte-se da de suas consequências, incluindo-se
análise de documentos desse gênero nessa perspectiva aquilo que foi em-
correspondentes à missão japonesa e à preendido no próprio contexto euro-
brasileira, como: “Resposta de alguns peu.
Cazos que os padres de Iaapão Man-

O AVESSO DA COSTURA: TRAMAS DA VIDA E DA OBRA DO COLONIZADOR


PORTUGUÊS GABRIEL SOARES DE SOUSA (C.1540 - 1591)
Gabriela Soares de Azevedo

O colonizador português Gabriel Soa- homens bons da terra e viu crescer seu
res de Sousa apresentou à corte de Fe- patrimônio e prestígio. No dia 10 de
lipe II da Espanha, por volta de 1587, agosto de 1584, “são”, “valente” em
um dos mais importantes registros so- seu perfeito juízo e a caminho da Es-
bre o Brasil quinhentista, o Tratado des- panha, temendo as contas a pagar com
critivo do Brasil em 1587, e o bem menos Deus, declarou suas derradeiras von-
conhecido Capítulos de Gabriel Soares de tades. Ainda na costa brasileira, foi
Sousa contra os padres da Companhia de salvo de um naufrágio pelo piloto e
Jesus no Brasil. Os escritos acompanha- humanista espanhol Pedro Sarmiento
ram o conjunto de petições solicitadas de Gamboa. Algum tempo depois, o
pelo senhor de engenhos-explorador Cardeal Alberto, vice-rei de Portugal,
para realizar uma expedição pioneira enviou uma carta ao seu tio, o rei Feli-
em busca de pedras preciosas, especi- pe II, datada de 12 de julho de 1587,
almente o ouro, na região das cabecei- informando sobre a presença de Gabri-
ras do rio São Francisco. O português el Soares em Lisboa e sua ida a Madri
Gabriel Soares chegou a Salvador no para falar pessoalmente sobre minas a
dia 5 de agosto de 1569. Casou-se com serem descobertas. Pedro Sarmiento,
a filha de um dos primeiros provedo- também em busca de uma atenção es-
res da fazenda, tornou-se um dos pecial do monarca de dois mundos,
grandes senhores de engenhos da Ba- afirmou ter visto Gabriel Soares no
hia, foi vereador da câmara, um dos
37
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Palácio El Escorial, em 1587. A fortuna mãos de um dos maiores historiadores


escrita deste senhor de engenhos é jesuítas, o Pe. Serafim Leite, em 1938,
substancial e sofreu, assim como ou- denegriram ou foram desconfortáveis,
tros escritos coloniais, percalços inu- a principio, a uma imagem do coloni-
meráveis. Revelados, autentificados ou zador forjada ao longo do século XIX.
descobertos em tempos distintos, fize- Mesmo sem uma edição a sua altura,
ram do colono português e das peripé- passaram a ser mais conhecidos e
cias das suas obras testemunhos não só abordados nas últimas décadas, espe-
do seu tempo, mas igualmente das cialmente nas releituras da história das
transformações do olhar historiográfi- religiosidades e do antijesuitismo, mais
co. Gabriel Soares obteve um conjunto especificamente. Apresentamos neste
de alvarás expressivos na disputa de artigo parte dos resultados de uma tese
mercês na corte filipina. Esta parte do recentemente defendida sobre a traje-
seu legado alimenta uma discussão tória dos escritos de Gabriel Soares de
relativamente recente e comparativa Sousa. A partir de uma pesquisa reali-
sobre a economia das mercês, as rela- zada em diversos arquivos ibéricos
ções entre súditos e vassalos, a busca reconstruímos tramas que envolvem os
de prestígio e riqueza. A sua expedição seus originais, as suas cópias manus-
malograda sempre esteve em pauta critas e os diversos fatores que levaram
num tema clássico da historiografia a uma circulação surpreendente destas.
brasileira: a história das expedições, o Esta reflexão não pode ser descolada
mito do Eldorado. O Tratado descritivo da biografia aventuresca do colono
foi alicerce para a valorização da he- português e das suas imagens, muitas
rança e empreendimento lusitano, para a serem desconstruídas, como a de um
a constituição de um cânone literário e idôneo colonizador, a de um precursor
para os olhares etnológicos ao registrar da nacionalidade ou até a de um mexe-
costumes e culturas de diversos grupos riqueiro.
indígenas. Os Capítulos, revelados por

A COMPANHIA DE JESUS E OS NEGÓCIOS: A FORMAÇÃO DO PATRIMÔNIO


(1650-1759)
Luana Melo Ribeiro

O presente trabalho pretende discutir a capitania. Metodologicamente, o traba-


relação tênue entre os negócios jesuíti- lho tentará seguir a proposta historio-
cos e a missionação , partindo do pres- gráfica thompsoniana, na qual alguns
suposto de que o sucesso das missões conceitos são fundamentais, como os
dependia do sucesso de seus negócios de experiência e cultura. Nesse senti-
e, portanto, do acúmulo de bens como do, o trabalho buscará reconstruir as
meio para o sustento das obras cate- experiências vivenciadas pelos jesuítas
quéticas. Sendo assim, pretende-se in- relacionadas, principalmente, ao traba-
vestigar em quais atividades os jesuítas lho de catequese e ao fazer negócios,
estavam envolvidos no Grão-Pará e como forma de testar a hipótese central
compreender como se deu a relação da qual se parte, ou seja, a de que mis-
entre os negócios e a missionação na sionação e negócios constituíam uma

38
CADERNO DE RESUMOS

unidade contraditória na atuação da Nesse sentido, foi levantada conside-


Companhia de Jesus, não só no Grão- rável documentação acerca do tema
Pará, mas também em todas as áreas proposto, que se encontra reunida nos
em que se estabeleceu. Sendo assim, e CDs do Projeto Resgate “Barão do Rio
com base em tais conceitos que se pre- Branco”. Documentos Avulsos da capi-
tende abordar a atuação da Compa- tania do Grão-Pará; além do acervo
nhia de Jesus no Grão-Pará, compre- documental da Torre do Tombo (dis-
endendo que suas experiências permi- ponível em:
tiram à Ordem exercitar uma das prá- <http://digitarq.dgarq.gov.pt/>) e do
ticas fundamentais de sua cultura, ou Archivum Romanum Societatis Iesu (AR-
seja, a pragmática, que também pode SI).
ser denominada de casuísmo jesuítico.

BENTO DA FONSECA: PROCURADOR GERAL DAS MISSÕES E MESTRE DE


FILOSOFIA NO COLÉGIO MARAGNONENSIS
Luiz Fernando Medeiros Rodrigues

À diferença da recepção da escolástica te daquela do Brasil, mas sujeitos ao


barroca na América hispânica colonial, mesmo regimento interno, da Ratio
cujas universidades foram influencia- Sudiorum, e, no regimento externo, à
das por ou adoram os paradigmas legislação dos Estatutos da Universi-
acadêmicos ibéricos, no Brasil colonial, dade de Coimbra. Foi com este arranjo
esta foi bem menos perceptível. Ainda legal que o curso de filosofia no Grão-
assim, é no chamado “pensamento es- Pará se desenvolveu até alcançar certa
colástico” que se deve buscar a dinamis maturidade, com as Conclusões Filosófi-
(δύναμις) do pensamento ao qual esti- cas, no período áureo de 1730, com o
veram ligados os missionários da mestre P. Bento da Fonseca (1702-
Companhia de Jesus. António Vieira 1781), depois, procurador das missões
(1608-1697), numa das suas exortações, em Lisboa até a supressão. A presente
descrevia o Grão-Pará e todo o territó- comunicação tem como objeto apresen-
rio do Rio das Amazonas como uma tar o papel do ex-missionário da Vice-
imensa “universidade de almas”. De Província que, no momento da expul-
certa forma, com esta analogia retórica, são dos jesuítas do Brasil, atuava em
o visitador já traçava o início do Curso Lisboa, junto às autoridades civis e
das Artes no Estado do Maranhão e eclesiásticas, como Procurador Geral
Pará, com os escolásticos da província das Missões do Maranhão e Pará, con-
do Brasil que tinham ido para o reforço sultor real para as missões do Brasil e
da Vice-Província do norte em 1688, professor de filosofia. De consequên-
juntamente com alguns filhos da terra. cia, procurar-se-á compreender a am-
No Maranhão, o curso iniciava quando plitude das redes de sociabilidades que
as tentativas de fundação de uma uni- formou com as autoridades político-
versidade jesuíta no Brasil tinham sido eclesiásticas no exercício do cargo de
encerradas. O curso das Artes do Grão- procurador e como conselheiro real.
Pará e Maranhão ficou subalterno à Além disso, buscar-se-á explicitar a sua
legislação do estado nortenho, diferen- importância para a construção de um

39
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

“pensamento escolástico” no Brasil, o ria, usaram o móvel filosófico da se-


qual serviu de instrumento organiza- gunda escolástica para construir o seu
dor e de referencial teórico para a rea- “projeto jesuítico” na América lusitana.
lidade que os missionários da Compa- E, foi a partir da “acomodação” do
nhia vivenciaram no Brasil, especial- pensamento filosófico-teológico aos
mente no Grão-Pará e Maranhão. O determinantes da realidade dos missi-
seu papel como mestre de filosofia ga- onários que o ensino da filosofia no
nha ainda mais relevo quando se tem Maranhão se converteu no plano de
presente que os problemas que toca- fundo para a ação missionária dos je-
vam a liberdade dos índios, por exem- suítas no Brasil colonial. Defende-se,
plo, tinham se tornado terreno de fér- pois, a existência de um ensino filosófi-
reas disputas entre missionários e au- co superior no Maranhão colonial, ex-
toridades coloniais, e que os instru- pressão de um “pensamento escolásti-
mentais fornecidos pela filosofia ibéri- co” colonial já presente nas teses filosó-
ca mostraram-se, por vezes, insuficien- ficas presididas por Bento da Fonseca e
tes face à complexidade dos dados do defendidas por seus alunos tanto no
real vivido. O que fica claro, porém, é Maranhão quanto em Lisboa.
que os jesuítas, na sua práxis missioná-

CULTURA E MENTALIDADE BARROCA NO JESUITISMO DO PADRE GABRIEL


MALAGRIDA
Thiago Gomes Medeiros

O trabalho pretende analisar a trajetó- padre inaciano e homem barroco, mar-


ria do padre Gabriel Malagrida (1689- cado pela retórica, metáfora, estilo satí-
1761) na Companhia de Jesus, cons- rico, de onde emerge “um homem de
tando nas regras do carisma inaciano e pensamento refinado e sarcástico sob a
na cultura do barroco o ponto de par- inspiração de obras clássicas” (MA-
tida para entender a sua vida religiosa. DEIRA, 2013, p.02). A cultura do bar-
Para isto é necessário retornar as bases roco traduz a sua atuação no Brasil
da sua formação instrucional, atrelada setecentista, como missionário, profes-
as Regras de Santo Inácio e aos Exercí- sor e pregador, empenhado na cons-
cios Espirituais, que oferecem o supor- trução de colégios de tradição jesuítica,
te inicial para entender o homem bar- destacando-se a construção do antigo
roco e os principais desdobramentos Colégio de São Gonçalo, resultado da
dessa cultura no seu jesuitismo, ou se- sua estada na Capitania da Paraíba,
ja, nas suas práticas cotidianas. A in- dentro dos moldes e aspirações do
fluência da cultura barroca na forma- Concílio de Trento. Além disto, como
ção intelectual do padre Gabriel Mala- missionário, criou casas de recolhimen-
grida é fundamental para a sistemati- to para mulheres desamparadas, re-
zação da sua atuação missionária no formou igrejas e construiu capelas,
Brasil colonial, em pleno século XVIII. sempre vivendo da providência divina
Neste sentido, a história cultural nos e das esmolas conferidas pela corte
auxilia na compreensão e contextuali- portuguesa e pelos colonos abastados
zação da formação de Malagrida como que habitavam o Norte da América

40
CADERNO DE RESUMOS

portuguesa, principalmente no período critos acerca das causas do terremoto


joanino (1706-1750). Com a morte do de Lisboa em 1755 e nos entraves com
rei de Portugal, D. João V, em 1750, o o 1º ministro de D. José I, que reinou
infante D. José, jovem e inexperiente, Portugal entre 1750-1777, sendo este o
aos trinta e seis anos de idade, assumiu seu maior perseguidor, conduzindo-o
o trono e nomeou como ministro, Se- a culpabilização inquisitorial. No cam-
bastião José de Carvalho e Melo (1699- po político, a visão geral do período
1782), futuro Marquês de Pombal. Par- barroco era marcada pelo conformismo
tindo daí compreendem-se as relações que, por sua vez, o padre Malagrida
de poder e os embates entre o Estado combateu, sendo considerado rebelde
português e a Companhia de Jesus, político, consequentemente, rejeitado e
gerando a expulsão dos jesuítas dos temido. Como marca do seu jesuitismo
domínios lusitanos, a culpabilização de não silenciou diante dos acusadores e
Malagrida pelo Tribunal da Inquisição seus escritos revelam oposição ao po-
e a posterior supressão da Ordem Ina- der de Pombal, contrariando o espírito
ciana. A perseguição ao religioso pau- de resiliência de sua época, causando a
tou-se nas suas representações mítico- ele próprio transtornos que culmina-
religiosas, na influência sobre a alta ram em um pomposo auto de fé.
nobreza como confessor, nos seus es-

GOVERNAR AS CONSCIÊNCIAS - AS ESTRATÉGIAS DE ENRAIZAMENTO DA


COMPANHIA DE JESUS NAS PROVÍNCIAS ESPANHOLAS E OS DEBATES
SOBRE A CONFISSÃO FREQUENTE, NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVI.
Silvia Patuzzi

Na presente comunicação será exami- como meios para controlar os desvios


nada a experiência de internos (as dissensões dentro da pró-
(re)evangelização de moriscos e conver- pria ordem) e para (re)conquistar as
sos na Andaluzia a partir das normati- populações mais heterodoxas, como os
vas diocesanas estabelecidas e instituí- conversos de Extremadura e Andaluzia.
das pelo então arcebispo de Granada, Neste contexto, assume-se a hipótese
Pedro Guerrero, em 1573, em colabora- que "o modo jesuítico de confessar"
ção com duas gerações de jesuítas, sob forjado na experiência granadina será
a liderança do provincial Miguel Tor- posteriormente estendido para a con-
res. O caso granadino faz emergir a versão de heterodoxos, hereges e gen-
específica aliança político institucional tios, bem como para o governo das
estabelecida entre a autoridade episco- consciências dentro da própria ordem.
pal, os tribunais da Inquisição e a Esta passagem é reconstituída median-
Companhia de Jesus na Andaluzia na te o exame de um tratado para confes-
segunda metade do Quinhentos. Esta sores que, nas últimas duas décadas do
aliança foi forjada a partir da percep- século XVI é elevado a manual oficial
ção comum do valor estratégico da da Companhia: o Institutio confessario-
confissão frequente e da confissão ge- rum (1581) do jesuíta Martino Fornari
ral, percebidas pela Companhia como (1547-1612), apresentado pelo geral
estratégias pastorais eficazes e também Acquaviva como obra de nostrae theolo-

41
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

go, o que lhe confere o selo de oficiali- tribuição deste manual é seguida pela
dade, garantindo sua convergência elevação da confissão geral a perpetua
com as orientações teológico-morais da praxi Societatis pelo geral Claudio Ac-
Companhia e, portanto, atribuindo-lhe quaviva em 1600, com sua Instructio ad
o status de instrumento apropriado reddendam rationem conscientiae iuxta
para os confessores da ordem. A dis- morem Societatis Iesu.

A CONSTRUÇÃO DO ANTIJESUITISMO NA AMAZÔNIA PORTUGUESA NA


PRIMEIRA METADE DO SÉC. XVIII.
Roberta Lobão Carvalho

A Companhia de Jesus, como uma das to muitas “ideias forças estruturantes


principais instituições católicas do perí- do mito e a sua roupagem linguística
odo colonial, destacou-se em várias argumentativa fundamental acabam
frentes: missionária, educacional e co- por se tornar repetitivas” (2006, p.27).
mercial. Arrematando nesse período Entre a documentação produzida na
uma gama de aliados fiéis e inimigos campanha de Silva Nunes, destacamos
ferrenhos. Neste trabalho, que faz parte um Memorial escrito em 1734, Requeri-
da minha pesquisa de doutorado, será mentos, Cartas e Petições, produzidos
analisado o discurso antijesuítico elabo- entre as décadas de 1720 e 1730 na Cor-
rado na Amazônia portuguesa durante te, encontrados no Arquivo Histórico
a primeira metade do século XVIII. Tal Ultramarino, documentos avulsos do
exame será conduzido por meio de uma Maranhão e Pará. Assim, vamos per-
série de documentos produzidos pelos quirir os argumentos basilares do enun-
mais ferrenhos inimigos da Companhia ciado antijesuítico amazônico, para
de Jesus no período, o Procurador dos compreender como a situação daquela
Povos do Maranhão e Grão-Pará, Paulo região era concebida na documentação.
da Silva Nunes, e seu amigo e aliado, o A pesquisa realizada até este momento,
governador e capitão-geral do Estado ajudou-me a perceber que os elementos
entre 1728 e 1732, Alexandre de Souza formadores desse antijesuitismo ama-
Freire. Essa campanha antijesuítica teve zônico, se alicerçam em pares de opos-
duas frentes: uma gerida na colônia por tos indissolúveis e solidários, dentre os
Freire, e a outra iniciada, ainda no go- quais destaco: sucesso da missão e ruína
verno de João da Maia da Gama (1722- do estado, liberdade e escravidão indígena,
1728), pelo Procurador, primeiro na co- temporal e espiritual, bem público e bem
lônia e depois, por ocasião de sua fuga, particular, bom missionário e mau missio-
na Corte, onde a produção documental nário. Outro ponto já estudado é a estru-
de cunho antijesuítico avultou-se. É im- tura discursiva da documentação. No-
portante destacar que os elementos dis- tamos que as repetições dos argumen-
cursivos encontrados nos documentos tos que se desdobravam em libelos, re-
não se configuram inéditos, ao contrá- presentações, cartas, dentre outros, têm
rio, se repetem e se assemelham até uma estrutura semelhante. A maioria se
mesmo na sua estrutura, sofrendo, se- inicia com o Procurador informando o
gundo José Eduardo Franco, um “pro- tempo que já estava na corte empreen-
cesso mimético da repetição”, porquan- dendo sua campanha, logo depois ex-
plica-se que o Maranhão e Grão-Pará
42
CADERNO DE RESUMOS

era uma terra rica em promessas e a te ligados às seguintes questões: desci-


seguir elucida-se o porquê das riquezas mento, repartição, uso da mão de obra
não se desenvolverem, apontado os dos índios, pagamento de dízimos e
“remédios” para aquela situação. Desta alfândegas, visitações e a riqueza atri-
feita, observa-se que os motes princi- buída a Companhia de Jesus no Estado
pais da documentação estão diretamen- do Maranhão e Grão-Pará.

14 de setembro de 2016

DISCUTINDO RELAÇÕES E REPRESENTAÇÕES: MISSIONÁRIOS JESUÍTAS E


ÍNDIOS PRINCIPAIS NOS ALDEAMENTOS DO NORTE (SÉC. XVII).
Fernando Roque Fernandes

Os anos compreendidos entre 1653 e prestígio, ainda passaria a ser legiti-


1661 tiveram suas especificidades. Fo- mados pela lei de 9 de abril de 1655.
ram entre esses anos que a administra- Em muitos casos, os índios Principais
ção do contingente nativo, passou a ser eram tidos como a representação de
feita a partir dos aldeamentos da Or- uma vontade coletiva que recebia in-
dem Jesuíta e das lideranças indígenas. fluências do grupo sobre o qual deti-
No entanto, antes desse período, ocor- nha a responsabilidade de administrar
reram diversas tentativas de se estabe- e encaminhar nas atividades cotidia-
lecer um acordo entre colonos leigos e nas. Assim, o índio Principal passou a
missionários para que a catequese esti- ter um lugar de autoridade paralelo ao
vesse em harmonia com a questão do do líder missionário, dividindo esse
trabalho indígena. Em 1653, quando o poder apenas por não deter a adminis-
padre jesuíta, João de Solto Maior che- tração espiritual desse espaço. Isto pe-
gou a Belém para estabelecer o primei- los menos juridicamente. Por outro
ro aldeamento jesuíta naquela região, lado, nos aldeamentos missionários,
fora pressionado pela Câmara de Be- era necessário identificar as atribuições
lém a assinar um acordo que estabele- dos índios Principais. E a própria re-
cia que os missionários jesuítas não se presentação desses líderes indígenas
envolveriam nas questões relacionadas no processo de estabelecimentos dos
ao cativeiro dos índios nem na admi- aldeamentos missionários, passaria a
nistração dos índios considerados li- ter nova representatividade. Sua pre-
vres. Deveriam somente contentar-se sença passaria a ter existência concreta
com a administração espiritual dos também para os missionários na regu-
moradores daquela capitania. Por con- lamentação deste espaço e das práticas
ta das questões que envolviam colonos cotidianas nele desenvolvidas. Muitas
leigos e missionários, os jesuítas passa- vezes, esse indivíduo desempenharia
ram a concentrar maiores esforços nos um papel especial nas relações sociais
aldeamentos de missionação. No en- que ocorriam dentro do espaço de mis-
tanto, nos aldeamentos missionários, sionação. Tal é o papel de destaque das
os índios Principais também tinha lideranças indígenas nos aldeamentos
grande influência sobre os outros ín- de missionação que fora necessário
dios, estes, além de se basearem no criar uma espécie de legislação especí-

43
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

fica para nortear o trabalho de cate- nário e o indígena. Fruto da represen-


quese dentro das missões. Isso ocorreu tação da coletividade do aldeamento,
dadas as dificuldades enfrentadas pe- suas ações também refletiam, muitas
los jesuítas para missionar a população vezes, as formas de resistência indíge-
ameríndia, resultando na divisão ad- na ao novo modelo cultural que lhes
ministrativa feita entre missionários e era proposto. Como resultado da re-
índios Principais. Ao que parece, tam- configuração deste espaço e da criação
bém nos aldeamentos de missionação, da nova estrutura estabelecida, os ín-
os índios Principais desempenhavam dios Principais passaram a atuar como
funções administrativas e atuavam limitadores da implementação de polí-
como intermediadores de descimentos. ticas missionárias indigenistas nos al-
Podem, portanto, ser considerados deamentos jesuítas.
como ligação entre o colono, o missio-

AS ARTES DE CURAR EM UM MANUSCRITO JESUÍTICO INÉDITO: O PARA-


GUAY NATURAL ILUSTRADO, DE JOSÉ SÁNCHEZ LABRADOR SJ (1771-1776).
Eliane Cristina Deckmann Fleck

Nesta comunicação, apresentamos plantas descritas na obra, interessa-


uma análise preliminar do manuscrito nos, também, demonstrar que no Para-
Paraguay Natural Ilustrado, escrito pelo guay Natural Ilustrado o missionário
padre jesuíta José Sánchez Labrador, Sánchez Labrador reuniu informações
entre os anos de 1771-1776, durante procedentes tanto de suas próprias
seu exílio em Ravena, na Itália. Esta observações e das informações que
obra, que se encontra no Archivo Roma- obteve com os indígenas, quanto das
num Societatis Iesu (ARSI), se subdivide que se encontravam em obras redigi-
em seis tomos – Terra, Água e Ar; Botâ- das por outros jesuítas ou por cientis-
nica; Mamíferos; Aves; Peixes; Anfíbios, tas leigos, com os quais estabeleceu um
Répteis e Insetos – nos quais, além das interessante diálogo. As evidências de
percepções sobre a natureza america- intertextualidade e de apropriação dos
na, encontramos informações relativas conhecimentos dos inteligentes e sábios
aos saberes e as práticas curativas ado- indígenas, especialmente em relação às
tadas pelas populações indígenas das virtudes terapêuticas de bezoares, inse-
regiões da vasta Província Jesuítica do tos e plantas, serão, por isso, também
Paraguai. Para além das virtudes tera- abordadas.
pêuticas de pedras bezoares, insetos e

CONHECER PARA CATEQUIZAR: OS CONFLITOS TEOLÓGICO-POLÍTICOS NA


AMÉRICA PORTUGUESA SEISCENTISTA
Ana Elisa Silva Arêdes

Perante a crise da cristandade do sécu- cito da cristandade católica, o qual de-


lo XVI, a fundação da Companhia de fenderia a Igreja por meio da ação pe-
Jesus idealizou a formação de um exér- dagógico-catequética. Simultaneamen-

44
CADERNO DE RESUMOS

te, fermentaram nos Estados europeus caminhos para a obtenção do sucesso


discussões teológicas, jurídicas e políti- no ensino da fé cristã e da obediência.
cas acerca do Novo Mundo e de seus Portanto, esses religiosos partiam pres-
habitantes, no chamado “efeito ameri- suposto de que era necessário aos mis-
cano”. Nesse sentido, após a consoli- sionários acumular conhecimentos so-
dação de sua Ordem, os jesuítas se es- bre os índios e reunir experiências re-
palharam pelo mundo com o compro- sultantes do trabalho pedagógico-
misso de conquistar as almas e, nas catequético. No entanto, as posturas
Américas, participaram da elaboração teológico-políticas defendidas pelos
de assertivas acerca dos indígenas e inacianos nutriam conflitos entre eles e
das formas que trabalho evangelizador colonos defensores da escravização
deveria assumir para que a conversão indígena, como também promoviam
dessas almas fosse garantida. No en- discussões entre jesuítas e outras or-
tanto, as questões sobre os nativos dens religiosas que se dedicavam ao
americanos e sobre sua inserção no trabalho evangelizador, a destacar: a
mundo cristão continuaram sendo ela- dos Capuchinhos. Esse trabalho tem
boradas e respondidas até o século como objetivo analisar como os confli-
XVII, sobretudo entre os missionários. tos entre jesuítas, colonos e capuchi-
Questões sobre a essência dos “negros nhos se desencadearam durante o sé-
da terra” e sua capacidade de conver- culo XVII nos Estados do Maranhão e
são à fé cristã foram fomentadas tanto do Brasil, tendo em vista como empeci-
pelos sucessos e dificuldades enfrenta- lhos teológicos relacionados à natureza
das pelos religiosos nas missões, quan- e à convertibilidade indígena foram
to pelos conflitos que envolveram as manipulados em discursos produzidos
interações entre os diversos agentes pelos diversos agentes envolvidos nes-
que circulavam no Novo Mundo. Con- ses conflitos. Nesse sentido, delimita-
tudo, além de envolver a aceitação de remos quais as diretrizes apontadas
um sistema de crenças, a evangelização por esses indivíduos no que tange os
dos índios do Brasil estava associada a temas que envolviam os indígenas em
uma forma de sujeição a Deus e à Co- diversos textos que circulavam na
roa. Isso significava que, por meio da América portuguesa na forma de ma-
conversão, os indígenas seriam condu- nuscritos e impressos. Além disso, lo-
zidos ao grêmio da Igreja e ao corpo calizaremos historicamente as proposi-
místico do Império português. Os jesu- ções desenvolvidas e os usos teológicos
ítas apontaram diversas dificuldades que elas estabelecem.
enfrentadas nas missões, bem como os

O ALDEAMENTO JESUÍTICO DE MBOY: IMPLANTAÇÃO E


DESENVOLVIMENTO
Angélica Brito Silva

A presente comunicação discorrerá São Paulo e abrangerá o período de


sobre o processo de implantação e de- 1624 a1680. Como ponto de partida
senvolvimento do aldeamento jesuítico traremos ao debate o contexto histórico
de Mboy localizado na Capitania de sobre a relevância e papel dos aldea-

45
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

mentos no entorno de São Paulo para o sobretudo após o retorno do exílio.


desenvolvimento da região no século Para compreender de que forma se
XVII, dando destaque à criação dos deram as tensões em torno da expan-
aldeamentos próprios da Companhia são de fronteiras (temporal e espiritu-
de Jesus que irão se consolidar ao lon- al) realizadas pelos inacianos, preten-
go daquele século, tendo em vista as demos partir, como estudo de caso, do
particularidades e conflitos locais que aldeamento jesuítico de Mboy que fa-
existiram em torno da liberdade indí- zia parte da missão e do patrimônio do
gena. Deste processo, podemos desta- Colégio de São Paulo de Piratininga. O
car a expulsão dos jesuítas da capitania aldeamento teve origem a partir da
entre 1640-1653, fruto de um exílio for- doação de índios e terras realizados
çado pela Câmara, e a perca da admi- por uma família paulista em 1624, o
nistração espiritual – e influência na que deu as bases materiais que possibi-
temporal – dos aldeamentos do padro- litaram o surgimento e desenvolvimen-
ado real. A mão de obra indígena na to tanto do novo núcleo populacional,
Capitania era de suma importância quanto do fortalecimento da Compa-
para a manutenção tanto social quanto nhia de Jesus na região. Apesar da do-
econômica daquela sociedade, e não ação ter ocorrido em 1624, há indícios
seria diferente aos religiosos. Os alde- que o processo de implantação e con-
amentos próprios da Companhia de solidação do aldeamento não foi pací-
Jesus eram fundamentais para a manu- fico e rápido, tendo levado cerca de 50
tenção do Colégio de São Paulo de Pi- anos para terminar, demonstrando o
ratininga, núcleo da ação inaciana no empenho dos jesuítas em torno da
planalto paulista, e ofereciam as bases construção das bases materiais através
para a missão. A partir destas “aldei- da implantação de um complexo de
as” próprias, os jesuítas conseguiam aldeias e fazendas próprias na região,
abrir novas “fronteiras” e espaços de como será o caso dos aldeamentos de
atuação, tanto econômicos, quanto so- Carapicuíba e Itapecerica, muito pró-
ciais e espirituais, necessários para ximos de Mboy, tanto cronologicamen-
concretizar o trabalho missionário. O te, quanto espacialmente. Para concre-
período estudado é de extrema impor- tizar e consolidar seu projeto, os jesuí-
tância para se compreender justamente tas tiveram que colocar em prática uma
a transição da atuação jesuítica das série de estratégias e acordos para con-
aldeias do padroado para as aldeias seguir avançar e ocupar, sempre nego-
próprias, em um período que teremos ciando para ampliar seu espaço de
o auge dos descimentos de índios do atuação, temas que serão aprofunda-
sertão, ao passo que os inacianos são dos nesta comunicação.
obrigados a reorganizarem sua missão,

A VIAGEM INACIANA: SIGNIFICADOS E REPRESENTAÇÕES


Maria de Deus Beites Manso

A modernidade é um tempo de mu- e os horizontes culturais se alargavam,


dança de grande intranquilidade. Se, também é verdade que o medo resul-
por um lado, o conhecimento científico tante de guerras e de pestes colocava

46
CADERNO DE RESUMOS

os Homens perante uma grande apre- xilie nessa procura. A viagem pode
ensão, a Salvação. O século XVI euro- representar um momento de introspe-
peu reporta-nos para um período de ção, observância e de comparação face
violência e de intolerância religiosa e a ao que rodeia o Homem. Com base em
questão da Salvação dos Homens tor- relatos de jesuítas tentaremos abordar
nou-se um tema central. As escolhas o significado e representações que a
individuais por um determinado tipo viagem representava na missão inacia-
de vida podem ser o caminho que au- na.

O PAPEL DOS PADRES JESUÍTAS NO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO NA


MODERNIDADE.
Luciene Maria Pires Pereira

Este artigo tem por objetivo discutir o tende demonstrar que, ao contrário do
processo de desenvolvimento científico que propôs parte dos estudos historio-
no período moderno analisando o pa- gráficos, a Igreja, diante das transfor-
pel dos padres jesuítas nesse processo. mações que marcaram as sociedades a
Durante muito tempo a historiografia partir do século XVI, atuou de forma
enfatizou os conflitos resultantes do relevante para a compreensão destas
debate entre religião e ciência, contra- transformações, fornecendo os elemen-
pondo essas duas vertentes de enten- tos pessoais e intelectuais para cons-
dimento das sociedades e, muitas ve- trução do saber científico no período
zes, delegando à primeira a alcunha de moderno.
inimiga da ciência. Nossa análise pre-

OS PADRES “TAPUITINGA”: A ATUAÇÃO DE JESUÍTAS ALEMÃES NA


AMAZÔNIA POMBALINA (1750-1757)
Karl Heinz Arenz / Gabriel de Cassio Pinheiro Prudente

No contexto da introdução das refor- e da rainha-mãe Dona Maria Ana de


mas concebidas pelo secretário régio origem austríaca e conhecida por sua
Sebastião José de Carvalho e Mello, o simpatia pela Companhia de Jesus. Os
futuro Marquês de Pombal, no Estado três padres “tapuitinga” – designação
do Grão-Pará e Maranhão, um pequeno indígena para os religiosos de proveni-
grupo de jesuítas de origem alemã esta- ência alemã ou centro-europeia – de-
va atuando na região. Trata-se dos pa- senvolveram a maior parte de suas ati-
dres Antônio Meisterburg, Lourenço vidades missionárias em aldeamentos
Kaulen e Anselmo Eckart, todos origi- no vale dos rios Madeira e Xingu. Nes-
nários da Renânia no oeste da Alema- tes lugares, Eckart e Meisterburg, mas
nha. Tudo indica que sua vinda à Ama- com muita probabilidade também Kau-
zônia portuguesa, entre os anos de 1750 len, dedicaram-se à redação de dicioná-
e 1753, deve-se à iniciativa do padre rios da Língua Geral. Esses trabalhos
Roque Hundertpfund, então procura- linguísticos, embora realizados por mis-
dor da Missão do Maranhão em Lisboa, sionários ainda relativamente inexperi-

47
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

entes, não reproduzem meramente, co- das em uma carta-ânua, redigida, no


mo outros dicionários da época colonial mesmo ano, pelo padre Kaulen na refe-
no Brasil, a forma estandardizada do rida missão, permitem entender melhor
idioma estabelecida no século XVI, mas a situação cotidiana em um aldeamento
atentam claramente ao uso coloquial do na calha amazônica no período pomba-
mesmo no vale amazônico em meados lino. De maneira mais ampla, os três
do setecentos. Assim, os padres alemães missionários alemães merecem, para
contribuíram para dar continuidade aos além de seu óbvio interesse pela(s) lín-
esforços dos inacianos de promover gua(s) indígenas usadas no interior das
sistematicamente a Língua Geral como missões, a atenção dos historiadores
meio de comunicação na sua vasta rede pelo fato de estarem entre os primeiros
de aldeamentos no Grão-Pará e Mara- jesuítas a serem presos e deportados.
nhão, apesar dos receios da metrópole Como seu mentor, padre Roque Hun-
determinada a difundir a língua portu- dertpfund, e seus confrades portugue-
guesa. Enquanto o dicionário redigido ses José Antônio, Teodoro da Cruz,
por Eckart, o Vocabulario da Lingua Bra- Manuel Ribeiro e Aleixo Antônio em
zil, já foi objeto de muitas pesquisas, um 1755, os três padres renanos foram pre-
manuscrito anônimo de 1756, descober- sos, pouco tempo depois, e deportados
to em 2012 na biblioteca municipal da para o reino, isto é, ainda antes da ex-
cidade de Trier na Alemanha, constitui pulsão geral e definitiva da Companhia
ainda um desafio para linguistas e his- por ordem do Marquês de Pombal. As-
toriadores. Convencionalmente, a obra sim, partindo da origem estrangeira e
foi denominada de Dicionário de Trier ou do intenso interesse pela Língua Geral,
Dicionário de 1756. Há indícios no texto visa-se nesta comunicação entender as
de que o lugar da redação foi a pequena razões pelo exílio e o encarceramento
Missão de Piraguiri, conhecida por suas prolongado dos três “tapuitinga” que,
atividades pesqueira e artesanal (pro- afinal, viveram somente entre seis a três
dução de canoas), sendo o padre Meis- anos na Amazônia. Para este fim, se
terburg e, eventualmente, o seu confra- levará em conta o conceito do protona-
de Kaulen, o autor ou os autores mais cionalismo, trabalhado por Eric Hobs-
prováveis. Não só as anotações feitas às bawm, enquanto marcador do projeto
margens e entre as linhas do vocabulá- reformador do Marquês de Pombal.
rio, mas também as informações conti-

15 de setembro de 2016

AS MISSÕES DO INTERIOR NO BRASIL COLONIAL


Antonildo Santos de Magalhães

O objetivo deste trabalho é compreen- sideramos que as missões pelo interior


der a função das missões itinerantes devem ser pensadas no contexto do
entre os colonos, relacionando-as ao processo de doutrinação cristã empre-
projeto maior no qual elas estavam endida em Portugal e nas colônias, on-
inseridas que é a expansão do estado de a doutrina confessional cristã tinha
português pelo planeta e a proposta de papel fundamental para “civilizar” os
universalização do cristianismo. Con- homens e contribuir para o chamado

48
CADERNO DE RESUMOS

“bem comum”. A historiografia, que ocorria a ampliação das dificuldades


há muito tempo vem se dedicando ao da Igreja em assisti-los de maneira sa-
estudo da atuação inaciana, tem priori- tisfatória. Era exigida a presença de
zado os estudos que se relacionam à religiosos, que, muitas vezes, a diocese
história da atuação entre a população não dispunha, e mesmo quando havia
indígena, no campo da educação, ou padres à disposição, para que ele as-
mesmo, à história da instituição. Desta sumisse suas funções era necessário
forma, pouco foi estudado sobre o pa- dotá-los com a côngrua régia, algo nem
pel das missões itinerantes junto aos sempre fácil, pois, El Rei quase sempre
colonos. Precisamos conhecer as suas destacava as dificuldades financeiras
funções e os seus aspectos socioeco- da Fazenda Real; e nesse contexto a
nômicos, políticos, culturais e religio- ação dos jesuítas foi fundamental. Ao
sos, principalmente, no espaço ao qual direcionarmos nossos olhares para a
nos propomos a estudar, que são os atuação missionária jesuítica entre os
chamados “sertões” da província da colonos, ampliaremos nossos conheci-
Bahia no período colonial. À medida mentos sobre a história da Companhia
que a população ia adentrando os ser- de Jesus e do catolicismo.
tões, se espalhando pelo território,

JESUÍTAS NA FRONTEIRA LESTE-OESTE: PLASTICIDADE E CONFLITO NAS


CAPITANIAS DO NORTE, SÉCULOS XVII-XVIII.
Maria Emilia Monteiro Porto

Trata-se aqui de apresentar um estudo guerras do início da Idade Moderna e


sobre a política missionária jesuítica de o crescente estabelecimento de frontei-
adaptabilidade às circunstâncias do ras de toda ordem – culturais, políticas,
mundo americano - pessoas, lugares e sociais, econômicas,- que toma uma
tempos”, verificando os processos pre- dimensão especial no trânsito entre
sentes na constituição de imagens recí- Europa e América. Partimos das con-
procas entre os setores atuantes quan- siderações de que essa adaptação às
do da abertura da nova fronteira colo- circunstâncias foi resultado da época
nial correspondente à conquista da moderna e suas circunstâncias frontei-
costa leste-oeste, entre Paraíba e Mara- riças; da experiência com a fronteira
nhão. A expressão formal destas ten- americana e a nova e radical diferença
sões da época podem ser descritas co- que esta impõe; e de uma diferença
mo barrocas, apresentadas em um am- construída pela Companhia de Jesus
plo leque iconográfico, discursivo e em relação aos setores atuantes no
corporal e presente na plasticidade da mundo colonial. Em conjunto, provo-
ideia de adequação às circunstân- cam por sua vez imagens recíprocas de
cias. Não se tratou de uma opção por diferenças. A expressão material e dis-
apresentar a realidade de uma forma cursiva desta habilidade no interior da
ou de outra, mas que fronteiriças eram fronteira missionária será demonstrada
as circunstâncias do mundo moderno, em cartas selecionadas entre a conquis-
pois foi justamente ao se encaminhar ta do Rio Grande e do Maranhão e nos
para as identidades nacionais que co- documentos da Câmara de Natal.
meçam a se definir as diferenças, daí as

49
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

TRAJETÓRIAS DE EX JESUÍTAS LUSOBRASILEIROS NO CONTEXTO DA


PERSEGUIÇÃO POMBALINA (1759-1773)
Fabricio Lyrio dos Santos

A expulsão dos jesuítas do reino e do- que permaneceram nos domínios por-
mínios portugueses foi um dos episó- tugueses após a expulsão, com ênfase
dios mais marcantes e dramáticos da para os que nasceram ou viveram na
história luso-brasileira. Tomando os Bahia. Entre estes, sobressaem os que
jesuítas como réus do atentado sofrido optaram por dar continuidade à sua
pelo monarca em 3 de setembro de vocação passando do clero regular pa-
1758, a coroa relegou àqueles religiosos ra o secular. Estes e outros ex-jesuítas
tratamento condizente com o crime foram levados a renunciar seus votos e
que supostamente haviam cometido, forçados a assinar termos de fidelidade
estendendo sua perseguição aos que ao monarca. Acompanhar e analisar as
haviam deixado a ordem antes mesmo trajetórias destes e de outros ex-jesuítas
do fatídico acontecimento e sua poste- luso-brasileiros no contexto da perse-
rior condenação. Com o decreto de guição pombalina nos ajuda a melhor
1759, inúmeros jesuítas tiveram que perceber e contextualizar o antijesui-
deixar suas residências em direção às tismo vigente na corte de D. José e os
prisões e ao exílio, mas um número desdobramentos do decreto de expul-
considerável renunciou a seus votos, são de 1759 não apenas no âmbito da
jurando fidelidade ao monarca. Pre- Companhia de Jesus, enquanto insti-
tende-se, neste trabalho, enfocar as tra- tuição, mas dos próprios sujeitos que
jetórias de alguns daqueles ex-jesuítas dela faziam parte.

OS JESUÍTAS E AS PAIXÕES TOLERADAS. O EXCESSO COMO EXPRESSÃO DE


PIEDADE RELIGIOSA NA REGIÃO PLATINA. (PRIMEIRA METADE SÉCULO
XVIII)
Luís Alexandre Cerveira

Durante a primeira metade do século co-tomista) quanto de uma práxis que


XVIII, no campo e nas cidades do Pra- relativizava a moralidade dos frutos
ta, a Companhia de Jesus, através de das paixões conforme sua “utilidade”
chamadas “missões populares”, em- para o projeto inaciano de evangeliza-
preendeu uma série de estratégias de ção. Se adultérios, roubos, assassinatos,
combate das paixões do corpo e da al- jogos de azar e outras formas de “pe-
ma. Ao analisarmos Cartas Ânuas do cado” do corpo e da alma foram com-
período, entretanto, identificamos que, batidos de forma dura pelos padres
ao contrário de ações que combatessem jesuítas nas homilias das missões po-
todas as paixões e suas manifestações, pulares na primeira metade do século
havia uma seletividade tanto do ponto XVIII, o mesmo não se pode dizer de
de vista conceitual (oscilando entre outras formas de expressões “apaixo-
uma fundamentação teológico-teórica nadas”. Esposas que abandonam famí-
Neoplatônica-agostiniana e Aristotéli- lias e casas para se dedicar quase ex-

50
CADERNO DE RESUMOS

clusivamente aos ofícios religiosos, der as estratégias inacianas de “usos”


demonstrações violentas de fé e pieda- destas paixões, e por outro, as táticas
de que levavam a morte e mulheres dos indivíduos que delas se utilizaram
entregues à rituais de autoflagelação para fins que não aqueles imaginados
coletiva até situações extremas, foram pelos inacianos nos interessam nesse
considerados casos exemplares nas trabalho.
Cartas Ânuas do período. Compreen-

51
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

SIMPÓSIO TEMÁTICO 3
Cultura e educação na América Colonial: iluminismos, instituições
e culturas escritas

Coordenadores: Thaís Nívia de Lima e Fonseca (Universidade Federal de Minas Gerais


(UFMG) e Ana Cristina Pereira Lage (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e
Mucuri)

13 de setembro de 2016

ILUSTRAÇÃO E PRÁTICA ADMINISTRATIVA NO REINADO DE D. JOSÉ I


Antônio César de Almeida Santos

Em primeiro de outubro de 1771, o cumento todas as recomendações que


secretário de estado da Marinha e dos se encontravam dispersas, ressaltando,
Domínios Ultramarinos, Martinho de todavia, a necessidade do governante
Melo e Castro, expediu uma longa Ins- possuir um “exato conhecimento” do
trução de Governo para José de Al- território colocado sob sua autoridade,
meida de Vasconcelos, que havia sido recomendando que o mesmo o percor-
nomeado governador da capitania de resse e visitasse “pessoalmente tudo
Goiás, informando que ela continha quanto se compreende de mais impor-
“todas as noções dos males que pade- tante no distrito da sua jurisdição”. Ao
ceu aquela importante Capitania, para concluir a Instrução de Governo, Mar-
se precaverem, e os remédios específi- tinho de Melo e Castro aponta quais
cos com que socorreu a cada um deles haviam sido os principais pontos
a iluminada e paternal providencia de abordados: a) “os males que afligiram
Sua Majestade”. A Instrução propria- a capitania de Goiás” e a razão de sua
mente dita assinala que, “para o go- decadência; b) “os remédios aplicados”
verno de toda a América portuguesa”, para sanar os ditos males e “prevenir
havia sido estabelecido “um sistema outros de iguais ou ainda maiores con-
político, civil e militar aplicado a cada sequências”; c) a imperiosa necessida-
uma das capitanias daquele vasto con- de “da civilização dos índios”, cuja
tinente, segundo a situação e circuns- população era considerada “uma das
tâncias de cada uma delas”. O referido mais importantes riquezas”; d) os cui-
sistema havia sido definido a partir de dados com as tropas e mais habitantes
cartas e ordens régias anteriormente da capitania. O que se pretendia, en-
emitidas e que “sucessivamente se lhes fim, era alcançar a prosperidade da
tem dirigido conforme a exigência dos capitania de Goiás e das demais, visto
casos, e á proporção que as circunstân- que as diversas cartas e ordens régias
cias os pediam”. O que se pretendia, tratavam da elaboração de um sistema
então, era reunir em um mesmo do- de administração que deveria ser apli-

52
CADERNO DE RESUMOS

cado “para o governo de toda a Améri- seria responsável pela preocupação


ca portuguesa”. A partir destas coloca- dos administradores lusos em medir
ções, a proposta do presente trabalho é distâncias, identificar acidentes geo-
o de discutir a presença de um tipo de gráficos e caminhos, nomear territórios
conhecimento elaborado a partir de e, principalmente, contar os habitantes
elementos encontrados na Ilustração de dado território, organizando-os con-
inglesa, e que se traduz, conforme ex- forme idades e sexo. Assim, a partir de
presso por Sebastião José de Carvalho Instruções de Governo, como a expe-
e Melo, no abandono das “especula- dida para José de Almeida de Vascon-
ções dos livros antigos” e na valoriza- celos, pretendo explorar as relações
ção da observação e da experimentação entre prática administrativa e um saber
e “dos argumentos da razão”. Os ne- notadamente empiricista que foi elabo-
gócios do governo, enfim, deviam ser rado nos gabinetes do reinado de D.
“verificados por demonstrações de José I.
conta, peso e medida”. A observação

A FACULDADE DE MEDICINA DE COIMBRA SOB O GOVERNO MARIANO:


CONTROLE RÉGIO E APLICAÇÃO DOS ESTATUTOS DE 1772.
Ricardo Cabral de Freitas

A ideia de um retorno conservador no ção conservadora tomada pela institui-


governo de D. Maria tem sido alvo de ção no governo mariano. Em acordo
contestações diversas por parte da his- com a historiografia recente, entende-
toriografia. As supostas rupturas do mos que a insatisfação estudantil ex-
governo mariano em relação ao reina- pressa no poema não pode ser tomada
do de D. José têm sido analisadas antes como uma expressão literal do estado
sob a ótica de um rearranjo de forças de coisas na universidade no período
políticas que ficaram à margem do po- mariano. Se de fato houve recrudesci-
der durante o período pombalino, do mento no controle das ideias que circu-
que necessariamente uma reorientação lavam entre os estudantes e mudanças
completa do projeto reformista. Na de sentido conservador em algumas
Universidade de Coimbra, principal faculdades - como a de Teologia - na
espaço de formação universitária da Faculdade de Medicina o período seria
elite imperial, a transição de poder se marcado pelo combate a algumas das
expressou na substituição, em 1779, do mazelas ainda pendentes desde a re-
Reitor Francisco de Lemos, aliado de forma, demonstrando o comprometi-
Pombal e participante ativo da Refor- mento de Maria I com as diretrizes dos
ma universitária de 1772, pelo Princi- novos Estatutos. Na Memoria Historica e
pal Mendonça, cujo reitorado seria Comemorativa da Faculdade de Medicina
marcado, sobretudo por uma maior (1872) publicada em comemoração ao
vigilância dos hábitos religiosos dos primeiro centenário da reforma do en-
alunos. Esse estado de coisas ficaria sino médico na universidade, Bernardo
encarnado no poema anônimo Reino da Serra de Mirabeau destacava que em
Estupidez, que circulou entre os estu- 1783, quase onze anos após a inaugu-
dantes de Coimbra em meados da dé- ração dos novos Estatutos, o quadro de
cada de 1780 e debochava da orienta- professores de medicina continuava

53
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

incompleto, o que dificultava a plena medicina durante a década de 1780,


aplicação das novas diretrizes pedagó- como forma de questionar não apenas
gicas, sem falar nos compêndios ado- o suposto retrocesso do reitorado de
tados, já considerados obsoletos. Dian- Mendonça, como também o próprio
te da situação, a monarca se empenha- alcance da reforma, visto que algumas
ria em adotar uma série de medidas fontes indicam uma relativa defasagem
voltadas para a consolidação do proje- entre o conteúdo dos estatutos e a prá-
to reformista pombalino, como contra- tica pedagógica em sala de aula. Tais
tação de novos professores e produção mudanças indicam que ideia de um
de novos compêndios pelos Lentes da retorno conservador também precisa
universidade. Sob essa perspectiva, a ser tomada com ressalvas no que diz
comunicação pretende analisar as in- respeito ao contexto especifico da Uni-
terferências régias na faculdade de versidade de Coimbra.

O ILUMINISMO E A SINGULARIDADE DAS LUZES LUSITANAS


Eduardo Teixeira de Carvalho Junior

Atualmente a historiografia tem apon- pelos filósofos para fazer referência a


tado que o Iluminismo não foi um mo- toda uma nova era na história da hu-
vimento de ideias homogêneo e que, manidade, a Época das Luzes, signifi-
em cada região da Europa, ele assumiu cava um grande otimismo em relação
particularidades distintas, existindo, às capacidades do homem, que por
na verdade, vários Iluminismos. Con- meio do uso da razão, havia iniciado
forme apontou Franco Venturi, a in- uma nova trajetória histórica marcada
terpretação kantiana acabou se tornan- por uma revolução do conhecimento.
do um paradigma, impedindo uma Em Portugal, Luís António Verney,
maior compreensão sobre a diversida- autor do polêmico Verdadeiro Método
de das Luzes Europeias. Gertrude de Estudar, publicado em 1746, quan-
Himmelfarb aponta que até muito re- do comparava os conhecimentos ad-
centemente, não havia o reconheci- quiridos em sua época com aqueles
mento de um Iluminismo britânico e herdados dos antigos também se refe-
que os ingleses foram deixados de fora. ria a um nova época histórica, a “tem-
O primeiro verbete sobre o termo Ilu- pos iluminados”. Na Dedução Crono-
minismo apareceria somente na 14ª lógica, publicada em 1767, documento
edição da Encyclopaedia Britannica , em que se insere no contexto das reformas
1929, e segundo ela a “estranha exclu- pombalinas, Veney foi apontado como
são dos britânicos do Iluminismo” só o iluminado Zeloso, que despertou a moci-
seria superada na década de 1980 por dade portuguesa do letargo, em que estava,
força de John Pocock e Roy Porter. Na pelo próprio, e adequado meio do judicioso
sua abordagem sobre o iluminismo livro, que no ano de 1746 deu à luz, datado
português, Ana Cristina Araújo prefere em Valença com o título de Verdadeiro
não utilizar o termo “Iluminismo”, Método de Estudar. O iluminismo por-
mas sim o termo “Luzes”, conforme tuguês representa um conjunto de
era utilizado pela maioria dos ilumi- ideias específicas que foram utilizadas
nistas. No contexto de ideias do século visando aperfeiçoar o sistema adminis-
XVIII a palavra “Luzes” era utilizada trativo e de controle do estado, cujas

54
CADERNO DE RESUMOS

diretrizes, usando uma expressão de ocorreu nas polêmicas em torno do


Gertrude Himmelfarb, revelam como Verdadeiro Método de Estudar. Esta
os portugueses “confrontaram o mun- comunicação procura apresentar um
do moderno”. Como uma singularida- breve balanço sobre a historiografia
de do Iluminismo português, aponta- sobre o Iluminismo, apresentando al-
mos para a maneira peculiar com que a gumas de suas principais abordagens e
ideia de método foi debatida e discuti- procurando problematizar o caso espe-
da em Portugal, cujo ponto mais alto cífico português.

CIÊNCIA E LUZES NOS DOIS LADOS DO ATLÂNTICO: NOTAS ACERCA DAS


TRAJETÓRIAS DOS QUÍMICOS LUSO-AMERICANOS JOÃO MANSO PEREIRA E
VICENTE COELHO DE SEABRA SILVA E TELLES
Gustavo Henrique Tuna

Durante a segunda metade do século agremiação científica de cariz ilustrado


XVIII em Portugal, o desenvolvimento fundada na capital do vice-reino do
de saberes científicos ganhou novos Estado do Brasil em 1786.João Manso
contornos, especialmente a partir dos Pereira nasceu em localidade desco-
novos estatutos relacionados à Refor- nhecida da capitania de Minas Gerais
ma empreendida na Universidade de por volta de 1750 e estabeleceu-se na
Coimbra em 1772. O conhecimento no cidade do Rio de Janeiro, onde foi pro-
campo da química seria um dos que fessor de Gramática Latina. Além de
receberia significativa atenção por par- ter tomado parte na Sociedade Literá-
te da política educacional em Portugal, ria do Rio de Janeiro, fundada sob a
no bojo do fortalecimento de áreas de proteção do vice-rei Luís de Vasconce-
saber que poderiam constituir-se em los e Sousa, cultivou intensa atividade
instrumentos importantes para a Coroa na prática da química. Tal aptidão ga-
portuguesa viabilizar a consecução de nhou certa notoriedade, haja vista, por
suas aspirações econômicas. A comu- exemplo, Manso Pereira ter sido no-
nicação aqui apresentada visa, num meado por D. Maria I para realizar le-
primeiro momento, discutir os pontos vantamentos mineralógicos na capita-
de contato e os distanciamentos entre nia de São Paulo. Outro aspecto a ser
as trajetórias de dois homens de ciência destacado é o fato de algumas de suas
nascidos na América portuguesa: o memórias terem sido impressas em
professor de gramática latina na cidade Portugal, duas delas pela célebre Tipo-
do Rio de Janeiro e químico diletante grafia do Arco do Cego.Vicente Coelho
João Manso Pereira e o professor da de Seabra Silva Telles nasceu em 1764
Universidade de Coimbra Vicente Coe- em Congonhas do Campo, capitania de
lho de Seabra Silva e Telles. Ainda que Minas Gerais, e mudou-se para Coim-
tenham trilhado seus percursos em bra em 1783. Na universidade conim-
espaços distantes entre si – a América bricense, formou-se em Matemática em
portuguesa e o Reino – ambos compar- 1786, em Filosofia em 1787 e em Medi-
tilharam a química como campo de cina em 1791. Posteriormente, em 1793,
atuação e estiveram vinculados à Soci- assumiria nela o cargo de lente da ca-
edade Literária do Rio de Janeiro, deira de química e metalurgia. Além

55
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

de ter publicado textos de considerável municação aqui apresentada objetiva


difusão no meio científico português perscrutar as trajetórias destes dois
como a Nomenclatura Chimica, Portu- homens de ciência que se destacaram
gueza, Franceza e Latina (1801), cumpre em suas atividades com vistas a com-
destacar que Seabra foi autor de uma plexificar as discussões sobre as efeti-
obra em dois volumes intitulada Ele- vas importância e utilização dos sabe-
mentos de chimica offerecidos a Sociedade res científicos no Império português de
Litteraria do Rio de Janeiro para o uso do fins do século XVIII e sobre os graus de
seu curso de chimica (1788-1790). Cons- contato de cientistas luso-americanos
truindo uma abordagem que procura com as Luzes científicas gestadas nou-
simultaneamente lançar mão de um tras partes do globo, nomeadamente
viés prosopográfico e travejá-lo com na Europa além-Pirineus.
ferramentas da micro-história, a co-

PALAVRAS ESCRITAS, LIDAS E AFIXADAS: DIMENSÕES DA CULTURA DO


ESCRITO NO PROCESSO JUDICIAL PARA APURAR AUTORIA DO PASQUIM DE
CALAMBAU, MINAS GERAIS, NO ANO DE 1798.
Álvaro de Araujo Antunes

É comum afirmar-se que eram reduzi- conjunto de signos visíveis capazes de


dos, sem não inexistentes, o conheci- ampliar a transmissão de informações,
mento e/ou a relação dos povos da espacial e temporalmente, o que tem
América portuguesa com a escrita. implicações mais imediatas no campo
Considerada a composição social da administrativo e das comunicações,
localidade, o caráter excludente da mas também atinge instâncias mais
educação e uma aduzida limitação dos vastas da memória, da lógica e da cul-
meios de aquisição do conhecimento tura de uma sociedade. A título de
das primeiras letras, seria esperado um exemplo do quer se evidenciar, vale
número limitado de sabedores da es- considerar a própria natureza dos re-
crita. Essa constatação, entretanto, pa- gistros documentais que exprimem
rece se sustentar muito mais sobre im- uma mediação entre a multiplicidade
pressões do que sobre uma avaliação de eventos ocorridos e suas represen-
crítica e circunstanciada do amplo uni- tações na forma da escrita administra-
verso de registros documentais. Al- tiva. Contribuindo com a ampliação
guns trabalhos mais recentes, contudo, das perspectivas de análise, a presente
tem trazido substância ao debate, men- comunicação propõe a análise de um
surando e mesmo contestando os ní- processo judicial aberto no ano de 1798
veis de conhecimento da escrita no para apurar a autoria de um pasquim
mundo colonial. Porém, para além da que foi afixado em lugares públicos do
destreza em manipular a pena e deco- distrito de Calambau, termo de Maria-
dificar as letras conferindo-lhes senti- na, Minas Gerais. Para além de um
do, a perspectiva analítica se amplia raro exemplar setecentista de Pasquim,
quando consideradas outras formas de o processo em questão traz a declara-
interação social e cultural com o es- ção de trinta testemunhas inquiridas
crito. A escrita é uma forma de conferir sobre a autoria do libelo difamatório,
à linguagem um caráter material, um mas que, com seus depoimentos, evi-
56
CADERNO DE RESUMOS

denciam formas distintas de relação xeiro viajante Raimundo Penafort. As-


com a escrita. Nessa ação judicial, os sim, por meio de um estudo de caso,
depoentes não se limitavam a assinar busca-se discutir alguns aspectos da
ou não o próprio nome, mas também cultura escrita ou da cultura do escrito,
declaravam se leram ou não os pas- considerando sua dimensão material e
quins, descreviam seu conteúdo e processual e sua relação com as formas
comparavam um exemplar desses a de expressão oral e imagética.
outros escritos do suposto autor, o cai-

VICENTE JORGE DIAS CABRAL: O NATURALISTA, SEUS REGISTROS E AS


POSSIBILIDADES DE ASCENSÃO EM TEMPOS DE REFORMISMO ILUSTRADO
Marcelo Cheche Galves

Entre o final de 1799 e o início de 1803, letrados, em sentido mais amplo, ocu-
Vicente Jorge Dias Cabral chefiou uma param cargos importantes e participa-
expedição científica que percorreu 16 ram ativamente de experiências como a
freguesias e 956 léguas, pela capitania da Casa Literária do Arco do Cego
do Maranhão e Piauí. Natural do Teju- (1799-1801), o cenário também favorecia
co, Comarca de Serro Frio, na capitania os “homens de ciência brasileiros”, que
de Minas Gerais, Cabral estudou na assumiam papéis mais específicos, co-
Universidade de Coimbra: em 1789, mo a chefia de expedições científicas. A
bacharelou-se em Filosofia; cinco anos expedição de Vicente Cabral produziu
depois, formou-se pela Faculdade de uma diversidade de registros, aquilo
Leis. Com a nomeação de D. Rodrigo de que Ronald Raminelli (Viagens Ultrama-
Sousa Coutinho para a secretaria da rinas, 2008) definiu como “testemunhos
Marinha e Ultramar (1795), transparece materiais da viagem – diários, corres-
o interesse pela permanência e apro- pondências, desenhos e remessas". Para
fundamento da prática de expedições os propósitos desse trabalho, destaco
científicas. Comuns desde os tempos do dois registros da expedição produzidos
ministro Martinho de Mello e Castro em 1801, ambos dedicados ao governa-
(1770-1795), as expedições eram agora dor D. Diogo de Sousa: Ensaio botânico
mais curtas, mais localizadas e com ob- de algumas plantas da parte inferior do Pi-
jetivos mais específicos e mais próximos auí e o Ensaio Econômico da Quina Quina
da economia política. Dentre os no- do Piauhi. Nos dois estudos, Vicente Ca-
vos/velhos interesses, podemos citar: a bral apresentou-se como “Bacharel em
extração do salitre; a introdução de no- Filosofia e Direito Civil e Oppositor aos
vos gêneros agrícolas, como a cochoni- Lugares de Letras”. O Dicionário do
lha, a quina e o anil; e um inventário padre Rafael Bluteau, de 1720, ensina
dos recursos hídricos e de possíveis ca- que oppositor era “aquele que pretende o
nais de ligação entre as capitanias. Aos mesmo oficio, dignidade, cadeira, que
“letrados nascidos no Brasil”, sem dú- outro”. Em meio aos primeiros resulta-
vida, a ascensão de D. Rodrigo propor- dos da expedição, incluindo a provável
cionou um cenário dos mais favoráveis, descoberta de um novo gênero da qui-
diretamente relacionado à sua concep- na, Cabral tentava se inserir na burocra-
ção de Império, e ao novo lugar que cia portuguesa. Assim, esse texto trata
caberia à América portuguesa. Se esses das possibilidades abertas a Vicente
57
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Cabral pelo contexto favorável de no- ca: o projeto de publicação dos resulta-
meações que viabilizou sua inserção na dos da expedição e a obtenção de car-
rede de letrados ocupantes de postos a gos públicos, benesses cujas solicitações
partir daquele momento. A direção de se faziam acompanhar pelas narrativas
uma expedição científica era uma ativi- dos esforços empreendidos naqueles
dade promissora, e apontava para dois pouco mais de três anos de aventura
caminhos convergentes, comuns à épo- pelo interior da capitania.

14 de setembro de 2016

O VER E O OUVIR COMO PRÁTICAS EDUCATIVAS E INSTRUMENTOS


PEDAGÓGICOS: PESQUISA E POSSIBILIDADES DE ABORDAGENS EM
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Thais Nívia de Lima e Fonseca

No contexto colonial a educação esco- tiam, ou não eram, necessariamente,


lar estava em seus primórdios e não instituições com estrutura física. Essa
apresentava as mesmas características configuração induziu muitos pesqui-
que teria a partir do século XIX e que sadores – entre os quais Fernando de
marcam a concepção contemporânea Azevedo em sua influente obra A cul-
de escola. O fato de que esta instituição tura brasileira – a concluírem pela ine-
fosse pouco visível e fracamente dis- xistência de educação onde não fosse
seminada não implicava, contudo, na detectada a presença de escolas defini-
inexistência de educação, inclusive da- das segundo o padrão estabelecido a
quela que apresentava elementos de partir do século XIX, o que resultou
“natureza” escolar, ou seja, relações de numa interpretação limitada da histó-
ensino e aprendizagem marcadas pela ria da educação no Brasil colonial. Se-
transmissão de conteúdos específicos gundo ela, o início promissor da edu-
conforme metodologias específicas. A cação no Brasil, por meio da atuação
presença dessas modalidades de edu- das ordens religiosas, especialmente da
cação guardava características diferen- Companhia de Jesus, foi interrompido
ciadas conforme as regiões da América pelas reformas realizadas durante o
portuguesa. Nas áreas onde foi desta- reinado de D. José I e comandadas por
cada a atuação de ordens religiosas seu ministro Sebastião José de Carva-
movidas pelo esforço da conversão do lho e Melo, o futuro Marquês de Pom-
gentio a educação com características bal. As reformas não teriam sido capa-
escolares foi mais evidente, inclusive zes de criar um sistema educacional
por meio da existência dos colégios, que substituísse com êxito o “sistema”
além de seminários, que recebiam os jesuítico e o Brasil teria que esperar
filhos dos colonos, brancos ou mesti- pela República para vê-lo nascer e flo-
ços. Mas houve regiões em que essa rescer. Um dos grandes problemas des-
presença ou foi fraca ou mesmo impe- ta interpretação – mas não o único – é
dida – como é o caso da Capitania de que ela, ao associar determinantemente
Minas Gerais – e onde, portanto, esco- educação a escola, reduz o significado do
las num sentido convencional não exis- termo e exclui, automaticamente, ou-

58
CADERNO DE RESUMOS

tras formas possíveis de educação num em contextos propriamente escolares.


contexto específico como foi o do perí- Compreender essas diferentes modali-
odo colonial no Brasil. O fato de não dades de educação implica no deslo-
haver escolas, ou de as haver em pouco camento da perspectiva analítica e am-
número e expressão, não significa que plia, inegavelmente, as possibilidades
a população da colônia não se educas- de estudo sobre a educação na socie-
se, no sentido de inserir-se numa rela- dade colonial brasileira. É sobre essas
ção de ensino-aprendizagem com pro- possibilidades de que trata este texto.
pósitos definidos. Aprendizagem de Entre outros possíveis, o foco aqui será
ofícios mecânicos, de técnicas produti- o das formas de educação relacionadas
vas, de elementos da doutrina católica às ações dirigidas ao ver e ao ouvir co-
e mesmo da leitura e da escrita podiam mo práticas educativas e como instru-
ocorrer em outros espaços e conforme mentos pedagógicos, conforme indica
princípios distantes de sua existência o título deste texto.

A IMAGEM DA VIRGEM DE MISERICÓRDIA: ESTUDOS SOBRE RELIGIOSIDADE


E ICONOGRAFIA SACRA NO SUL DO BRASIL COLONIAL
Larissa Patron Chaves

O presente trabalho propõe abordar a Virgem está na maioria de suas repre-


representação da Virgem da Misericór- sentações ao longo da história, sobre-
dia nos séculos XVII e XVIII no âmbito tudo Ibérica, e que é reforçada pelo
da espiritualidade e educação em parte caminho da mística como valorização e
da região do Prata (sul do Brasil). Procu- catequização dos indígenas na Améri-
ra-se pensar como algumas práticas cul- ca, constituindo o poder católico no
turais europeias, tais como o culto das Ultramar. Portanto, a relação entre a
imagens, chegaram ao continente ameri- imagem e a construção de identidades
cano, como se misturaram, recriaram, nos conduz a pensar nas representa-
adaptaram e contribuíram para a consti-
ções sob diferentes visualidades, em
tuição das sociedades coloniais nessa
que a imagem da Virgem é utilizada
região. Aborda-se o missionarismo reali-
dentro de uma leitura que relaciona ao
zado pelos jesuítas portugueses e brasi-
conceito de miscigenação. Serge Gru-
leiros, e o papel que a catequização teve
para o encontro de culturas, indígena e zisnki (2000) parece encontrar um
portuguesa, bem como o impacto que ponto convergente ao abordar a ques-
esse encontro teve na produção e veicu- tão do mestiço, no que chama de coe-
lação das imagens sacras. A imagem da xistência de culturas dentro de um
Virgem é um tema bastante trabalhado processo de negociação, onde a mistu-
pela Igreja Católica, pelo menos desde ra é um fato singular. Da convivência
o século XIII. Isto porque constitui par- entre civilizações diferentes emergiram
te da doutrina da encarnação, a partir criações mestiças, contrariando a ideia
da perspectiva dual de Cristo – metade progressiva do aperfeiçoamento das
humano / metade divino – assumindo, sociedades, para existências onde tudo
portanto, um papel importantíssimo se mescla, onde nada é linear. Este tra-
no culto ao Cristianismo. No que refere balho trata de uma proposta que obje-
a questão do “idolo”, a divinização da tiva realizar um estudo comparativo

59
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

no tempo e no espaço. O reduzido necessidade deste trabalho e permite-


número de pesquisas sobre o tema, em nos alargar o foco de investigação so-
especial a iconografia pela missão jesu- bre a religiosidade na América coloni-
íta no extremo sul do Brasil, reforça a al.

O DIETÁRIO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA (1582-1815): A ESCRITA


MONÁSTICA COMO FONTE DE PESQUISA
Márcia Gabriela de Aguiar Barreto

O objetivo dessa comunicação é apre- na Bahia? Como se constituiu a biblio-


sentar os resultados parciais da pes- teca? Estas e outras questões tem nor-
quisa em nível de Doutorado realizada teado o percurso da nossa investiga-
acerca das práticas de leitura e escrita ção. O estudo desse exemplar da escri-
partilhadas pelos monges beneditinos ta conventual contribui para o campo
na Bahia tendo como enfoque o livro da pesquisa em História Social da Cul-
de crônicas Dietário das vidas e mortes tura Escrita uma vez que esta prática
dos monges, q’ falecerão neste mosteiro de de escrita pode ser reveladora das ex-
S. Sebastião da Bahia da Ordem do Prínci- periências cotidianas dos monges e
pe dos Patriarchas S. Bento custodiado também da sociedade baiana no perío-
no Arquivo do Mosteiro de São Bento do colonial. Através da leitura do Die-
da Bahia. O Dietário contém a narrativa tário, realizamos o levantamento das
das vidas dos monges beneditinos que vidas dos monges que estiveram en-
viveram no cenóbio baiano no período volvidos em atividade de ensino ou
de 1582 a 1815. O Mosteiro de São Se- ligadas ao universo da escrita. Um dos
bastião da Bahia foi fundado em 1582 e exemplos estudados foi a vida do
elevado a abadia em 13 de outubro de monge Roberto de Jesus, natural e pro-
1584 por força do capítulo geral reali- fesso na Bahia que faleceu em 04 de
zado no Mosteiro de Santa Maria de outubro de 1746 com 60 anos de idade
Pombeiro, em Portugal. Só em 1596, a e 35 de hábito. Segundo o Dietário, o
província do Brasil ficou autônoma e monge estudou Filosofia na Bahia e fez
teve na abadia baiana a sua sede. Sob a o Doutorado em Teologia em Coimbra.
congregação portuguesa, os monges De volta à Bahia, lecionou Teologia no
do Brasil permaneceram até 1827, Mosteiro da Graça, onde se ensinava
quando se reconheceu a Congregação Gramática, Música, Órgão e Canto-
Brasileira. Parte da história da presen- chão. A prática da escrita se constituía
ça beneditina na Bahia encontra-se re- também como critério para ocupação
gistrada no Dietário. Nesse sentido, dos cargos dentro do mosteiro uma
sua leitura e interpretação nos coloca- vez que os mais instruídos ocupavam
ram algumas questões: em que medida os altos cargos de Prior, Definidor e
a cultura escrita se disseminava no in- Abade. Dessa forma, analisar o Dieta-
terior do mosteiro de São Bento e de lá rio como modelo de escrita conventual
para a sociedade baiana? Como funci- pode nos ajudar a perceber como estas
onava a escola de formação situada no práticas de escrita circulavam no mun-
mosteiro da Graça? De que forma as do ibérico colonial.
práticas de leitura e escrita entravam
no cotidiano dos monges beneditinos
60
CADERNO DE RESUMOS

EDUCAÇÃO FEMININA NA CASA DE ORAÇÃO DO VALE DE LÁGRIMAS, VILA


DE MINAS NOVAS, 1754
Ana Cristina Pereira Lage

Esta proposta busca analisar as práti- da habitação, da religiosidade e do


cas educativas desenvolvidas na Casa apoio da população local à sua manu-
de Oração do Vale de Lágrimas, uma tenção. Na análise das práticas educa-
instituição educativa feminina que tivas propostas na instituição naquele
existiu próxima à Vila de Minas Novas. momento, observa-se que estas tinham
Esta pesquisa insere-se no campo da um caráter devocional, mas também
História da Educação, em interface preparavam as mulheres para o traba-
com a História das Mulheres e da His- lho doméstico em busca da autossufi-
tória das Religiões. Nas especificidades ciência da Casa e ainda p ocorria o
da análise das instituições educativas, aprendizado da escrita e da leitura.
observa-se que estas são criadas para Questiona-se a intencionalidade destas
satisfazer determinadas necessidades práticas, uma vez que o grupo de mu-
humanas e tornam-se unidades que lheres vivia de forma reclusa e o conta-
estão sempre em construção e trans- to com o mundo exterior acontecia
formação. Constituem-se como um apenas nos momentos de celebração
sistema de práticas, com agentes e ins- religiosa no interior da instituição. Ob-
trumentos que atinjam as finalidades serva-se ainda que as práticas aproxi-
esperadas. Ao pensar uma instituição mavam-se daquelas desenvolvidas no
educativa, observa-se que esta existe interior de instituições confessionais
em determinado espaço e tempo para a femininas, especialmente nos recolhi-
construção e ordenamento da educa- mentos da América Portuguesa, porém
ção de um determinado grupo social. no documento consultado, a primeira
Propõe-se a análise de uma instituição regente e a população local informam
educativa que, em seu principio, carac- que a instituição era apenas uma casa
teriza-se enquanto casa educativa e, de educação feminina. Os Recolhimen-
posteriormente, torna-se um recolhi- tos eram considerados instituições no
mento para mulheres. Neste trabalho estilo conventual, mas que precisavam
será analisado o primeiro documento apenas de uma autorização do bispo
conhecido da referida instituição, um responsável para o seu funcionamento.
ofício do Arcebispo da Bahia, D. José Como a região da Vila de Minas Novas
Botelho de Matos para Diogo de Men- estava sob a jurisdição eclesiástica do
donça Corte Real, datado de 1754 Arcebispo baiano, este solicitou diver-
(AHU Bahia, caixa 8, docs. 1183-1187), sas informações acerca do funciona-
no qual solicita a verificação da exis- mento da dita instituição. Na análise
tência de um Recolhimento feminino das fontes, observa-se algumas mano-
no sertão da Capitania de Minas Ge- bras da Regente Isabel Maria, de pa-
rais. No processo de verificação é pos- dres e da população local para infor-
sível encontrar informações acerca da mar que a instituição não era um Reco-
primeira regente da instituição, D. Isa- lhimento e, assim, não passar pela su-
bel Maria, acerca das demais mulheres pervisão do arcebispado. Em outras
e das práticas educativas desenvolvi- fontes encontradas para compor a his-
das na instituição, bem como detalhes tória institucional é possível verificar

61
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

que havia uma complexidade e diver- ciam temporariamente para guardar a


sidade dos tipos de recolhidas devido honra enquanto os maridos e pais esta-
à ausência de estabelecimentos especí- vam ausentes da Colônia ou embre-
ficos para suprir às necessidades das nhados no sertão em busca de ouro e
mulheres da região norte das Minas diamantes.
setecentista, mulheres que se estabele-

15 de setembro de 2016

TRADUZIR PARA INSTRUIR: AS TRADUÇÕES PARA A LÍNGUA PORTUGUESA


NO SÉCULO XVIII E SEU PAPEL NA INSTITUIÇÃO DA CIÊNCIA – O CASO DOS
LIVROS DE MEDICINA
Cláudio De Nipoti

Qual o papel das traduções em proces- dicina, no universo de obras traduzi-


sos de sociabilidade científica na Ilus- das (publicadas ou não) para o portu-
tração Portuguesa? A partir desta per- guês no período 1770-1810, este estudo
gunta, este estudo busca ver como as recorreu aos paratextos dos tradutores
traduções para a língua portuguesa (e, eventualmente, editores) dos livros
influenciaram o mercado editorial, médicos ou farmacêuticos cruzando-os
como se deram os debates sobre avan- com as censuras dessas obras, feitas
ço científico e iluminismo, além de ten- por médicos especialmente designados
tar compreender o estabelecimento da pelos órgãos de censura, ou por médi-
norma culta da língua. Fazendo um cos /censores, para buscar respostas,
recorte temático sobre os textos de me- ainda que parciais, a estas questões.

A CULTURA ESCRITA EM GOIÁS: OS LETRADOS E O EXERCÍCIO DA


CALIGRAFIA NOS SETECENTOS
Mariana de Sousa Bernardes

O presente parte de um projeto de nas cortes luso-ibéricas e sua tradução


pesquisa sobre os manuscritos adorna- ao contexto cultural goiano. O pano-
dos, cujo conteúdo textual se encontra rama colonial do ensino em Goiás po-
entrelaçado às figuras decorativas e de ser demonstrado em duas palavras:
caligráficas, registros indiciários de severo e precário. A severidade advi-
uma sociedade em transição pelas tra- nha da repressão aos “malcomporta-
dições medievais e alterações postas dos” através dos castigos físicos via
pelo advento da Era Moderna nas prá- palmatória ou também por meio duma
ticas da Escrita. Destarte, o foco se co- cadeira isolada dos demais acompa-
loca nas relações entre a instrução pú- nhada de cuia cheia de areia grossa ou
blica e a demanda profissional nos car- grãos de milho, que espalhados ao
gos da administração de Goiás no pe- chão o rebelde em questão iria ajoe-
ríodo setecentista até o segundo decê- lhar-se sobre e assim servir de exem-
nio do XIX, quanto à valorização da plo. Portanto, a violência exposta em
caligrafia como habilidade de prestígio castigos ou execuções públicas comuns
62
CADERNO DE RESUMOS

ao período tinha um caráter didático e cretaria. Além de sinal de distinção


fazia parte também das escolas régias. entre os letrados, o que configurava
Estas funcionavam precariamente den- prestigio social e portas abertas aos
tro das casas dos professores e como a cargos administrativos tanto em Por-
quantidade de alunos era pequena, tugal quanto no Brasil. Almada cita o
esses ficavam na sala em bancos de caso do caligrafo espanhol Dom Mar-
madeira improvisados. A irregulari- cos de la Roelas y Paz que, provavel-
dade na coleta e distribuição do Subsí- mente foi contratado em 1718 como
dio Literário, imposto criado para fo- professor de escrita dos irmãos meno-
mentar a instrução pública, além dos res de D. João V, D. Miguel e D. José
provimentos baixos mediante o valor pela amostra de seus trabalhos com
das mercadorias nas províncias mais bastante sofisticação e complexidade
afastadas, como Goiás, tornava pouco técnica. Distante dos recursos de Lis-
o número de dispostos a permanecer boa em materiais, livros e profissio-
nos cargos de professor. Uma ativida- nais, a prática da escrita em Goiás en-
de que interessou a princípio pela no- frentava escassez. Os artigos de pape-
vidade, pois antes tal função oficial laria vinham no lombo de burros do
recaía sobre os jesuítas no Brasil e, pela litoral até os arraiais goianos, caros e
honra de passar pela Mesa Censória de raros pelas dificuldades de transporte.
Portugal, obtendo a permissão real de Dentre os documentos do acervo Ul-
ocupar alguma cadeira fosse de Ler e tramarino, consta a carta da Câmara de
Escrever, Latim, Filosofia ou Retórica. Vila Boa em 1739, na qual solicitava
Na Carta Régia de 06 de novembro de uma provisão extra ao Rei para pagar o
1772, que regulamentava as novas es- escrivão, os papeis, tintas e penas. O
colas, se colocou que o mestre de Ler e que coloca a questão da Escrita como
Escrever era obrigado a ensinar a “boa essencial ao governo, pois a sistemati-
forma dos caracteres” e também as re- zação do império demanda documen-
gras gerais de ortografia, valorizando tos. Desse modo, a compreensão da
mais o aspecto do “bem escrever” a Cultura Escrita inserida na História
língua do que o “bem falar”. O histori- Colonial configura importante campo,
ador Bretas afirma que uma boa cali- pois oferece novas perspectivas à his-
grafia era uma habilidade altamente toriografia e cujos contextos regionais
prezada nos cargos de tesouraria e se- desvelam particularidades culturais.

“FILHOS MAL CRIADOS PARA CASTIGAR AOS PAYS NEGLIGENTES”: MODOS


DE DISCIPLINAR CRIANÇAS E CULPABILIZAÇÃO DOS PAIS EM UMA OBRA
ESCRITA NA AMÉRICA PORTUGUESA, SÉCULO XVII
Fernando Cezar Ripe da Cruz

Esta proposta de comunicação tem por tes na boa creaçam dos filhos”, na
objetivo examinar algumas prescrições obra Arte de crear bem os Filhos na idade
realizadas pelo padre jesuíta Alexan- da Puericia. Escrita na América portu-
dre de Gusmão (1629-1724) sobre os guesa, mas publicada inicialmente em
possíveis modos de disciplinar meni- Lisboa no ano de 1685, as prédicas de
nos e de culpabilizar os pais “negligen- Gusmão podem ser percebidas como

63
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

evidência e expressão de determinado nho dos mandamentos de Deos”. To-


sentido de educação para a infância no davia, o maior responsável pela educa-
contexto da Reforma Católica do sécu- ção dos filhos, desde a tenra idade,
lo XVII no espaço luso brasileiro. Ao eram os pais. E é nesse sentido que
descrever como se deveria criar um Gusmão faz inúmeras advertências e
“perfeito menino cristão”, o jesuíta se prescrições aos modos com que os pais
utiliza de um discurso edificante e mo- deveriam os educar seus “bons filhos,
ralizador, alinhado aos pressupostos se forem bem criados na puericia, &
da Companhia de Jesus, que pretendia máos, se forem mal formados no prin-
“disciplinar as almas” através da coer- cipio”. A criação dos filhos tanto pode-
ção sobre os corpos infantis, de modo a ria gerar o “gozo e a glória”, como vi-
impor a elas uma mesma ordem de ver em permanente dano e castigo,
comportamento sociável. Os enuncia- neste caso, “vem a cair sobre as costas
dos presentes na obra indicam que as dos pays”, em que “ham de dar conta a
práticas coercitivas impostas para o Deos das culpas proprias”. Portanto,
disciplinamento das crianças eram car- privilegiamos nesta proposta de co-
regadas de castigos, punições e cons- municação a análise das prédicas do
tantes vigilâncias. Alexandre de Gus- padre Alexandre de Gusmão, identifi-
mão exemplificava, fundamentalmen- cando um conjunto de recomendações
te, na sua escrita, os pecados cometidos sobre como disciplinar e castigar os
pelo homem, encarados como efeitos meninos para se “bem crear”. Este tipo
da má educação. Além disso, também de operação punitiva e moralizadora
enfatizava sanções e suplícios religio- intentava orientar os pais sobre modos
sos como importantes elementos para de evitar que o menino caísse em pe-
se educar um menino cristão. O senti- cados e desobediências. Estas ações
do dado à educação em muito se asse- eram tidas como legítimas e adequadas
melhava ao trabalho de transmissão na construção de discursos e práticas
pedagógica de um preceptor, tutor, que desejavam produzir um sujeito
religioso, ou neste caso, um possível infantil obediente, disciplinado, virtuo-
missionário jesuíta, a fim de moldar a samente cristão e moralmente guiados
mocidade na constância do “real cami- pelos bons costumes.

A CIÊNCIA DAS CARTAS E DOS NEGÓCIOS: UMA ANÁLISE DA OBRA SECRE-


TARIO PORTUGUEZ, OU METHODO DE ESCREVER CARTAS POR MEIO DE
HUMA INSTRUCÇAÕ PRELIMINAR (1745)
Edna Maria Matos Antonio

Analisa-se, neste texto, a obra Secretario (1719-1773), frade oratoriano portu-


portuguez, ou Methodo de escrever cartas guês. A primeira versão de 1745, reim-
por meio de huma instrucçaõ preliminar: pressa nos anos 1759, 1786 e 1801, ti-
regras de secretaria: formulario de trata- nha por objetivo instrumentalizar, de
mentos, e hum grande número de cartas forma técnica, a produção de cartas
em todas as especies, que tem mais uso, administrativas pelos secretários em
com varias cartas discursivas sobre as seus serviços burocráticos no Reino e
obrigações, virtudes, e vicios do novo secre- no vasto Império português. Consoan-
tario de autoria de Francisco José Freire

64
CADERNO DE RESUMOS

te o ideário filosófico/científico que pital mercantil para obter o lucro inde-


valorizava o conhecimento pelo seu pendentemente dos limites nacionais
caráter realmente prático, a finalidade ou imperiais, por meio de estímulos à
era oferecer um método eficaz de escri- produção e ao comércio. Para além da
ta e aplicação de fórmulas para os cál- orientação sobre comportamento ade-
culos indispensáveis ao desenvolvi- quado a um secretário, estrutura e es-
mento das atividades comerciais por- crita de vários tipos de carta, algo vali-
tuguesas. No período pombalino oso por si, a abordagem de análise his-
(1750-1777), o primeiro ministro de D. tórica proposta quer explorar aspectos
José I – Sebastião José de Carvalho e discursivos que, nessa obra, expressam
Melo, o Marquês de Pombal - e uma princípios, práticas e noções conside-
parte da corte portuguesa, influencia- radas modernas relativos à organiza-
dos por ideário iluminista peculiar ção das finanças do Estado, do comér-
pois pautado pela harmonização sele- cio e da figura do comerciante e o en-
tiva de conteúdos de tradição e mo- tendimento de progresso e de civiliza-
dernidade, planejaram intervenções na ção. Mesmo considerando o caráter
economia lusa apostando nas potencia- idealizado e prescritivo do discurso
lidades do mercantilismo como solu- apresentado, a valorização das quali-
ção para o atraso econômico luso. As- dades intelectuais do secretário, da
sim, reavaliaram importantes aspectos carta como principal suporte comuni-
da política mercantil e da organização cativo de estabelecimento e manuten-
produtiva imperial observando a vali- ção de negócios, da escrita como técni-
dade das técnicas mercantilistas em ca que pode ser aprendida e, se bem
que se acreditava houvessem promo- aplicada, significar benefícios para o
vido o poder e a riqueza surpreenden- desenvolvimento do setor mercantil
tes e crescentes da França e da Grã- apresenta-se como condição relevante
Bretanha. Os teóricos portugueses ela- para o sucesso dos projetos em curso
boraram planos intervencionistas que visando à salvação da economia por-
levassem a internacionalização do ca- tuguesa setecentista.

OS ESPAÇOS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO EM PORTUGAL E NO BRASIL


NA OBRA VIAGEM AO BRASIL NOS ANOS DE 1815 E 1817 DE MAMIXILIANO
WIED-NEUWIED
Daniela Casoni Moscato

No século XVIII a ideia do homem a- comerciais financiadas por reinos, co-


ventureiro e inventivo, muito comum mo as realizadas nos séculos XV, XVI e
no Renascimento, reformulou-se para a XVII, são preteridas por viagens, ge-
do viajante como testemunha autori- ralmente oficiais, de observação e ex-
zada, com formação, preparo, treino e perimentação. Nos séculos seguintes, a
conhecimentos linguísticos e científi- viagem tinha interesses comerciais e
cos. O viajante fantástico, tão aclamado científicos o que impulsionou áreas de
anteriormente e ainda lido por muitos, conhecimento, como a das Ciências
perdeu sua importância no momento Naturais ( a base da Ciência Moderna)
em que as viagens de descobertas e que tinham como princípio a observa-

65
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ção e a experimentação. Se, por um sobre o Novo Mundo que se manteria


lado, mantinha-se o ar aventuresco e também pelo século XIX. Duas caracte-
enigmático, elementos próprios do rísticas se sobressaem nas memórias de
deslocar-se, por outro, a viagem tor- viagens do final do setecentos e do oi-
nou-se um empreendimento planejado tocentos: as referências bibliográficas
e que, entre outras coisas, verificou e (citação de autores e obras) e a menção
analisou os antigos trajetos, contestou à elementos de ordem científica (Gabi-
os mitos e lugares fantásticos. Essa netes de História Natural, livros, bibli-
nova característica científica, e as pre- otecas e procedimentos de coleta e
ciosas informações que ela fornecia preparo de coleções). Esses dois traços
sobre todos os cantos do mundo, am- estão presentes na obra Viagem ao Bra-
parava os acirrados debates científicos sil nos anos de 1815 e 1817 do Príncipe
e a função utilitarista dos Impérios da Mamixiliano Wied-Neuwied (1782-
Modernidade. Acreditava-se que o 1867). Nessa memória, o naturalista
viajante-cientista ou naturalista era mesclou as narrativas que acumulou
capaz de observar e relatar de forma entre os anos de 1815 e 1817 com ma-
“fidedigna” o que havia visto na jor- pas do itinerário e gravuras que repre-
nada. A lenta e progressiva mudança sentavam paisagens, cenas do cotidia-
na forma de viajar e a maneira de se no do silvícola como as de caça, repre-
ver a persona do viajante eram parte do sentações das moradias, dos artefatos e
chamado movimento Ilustrado, o qual das famílias. As cenas narradas ou de-
desenvolveu-se, de maneira particular, senhadas pelo nobre somaram na cons-
em muitos territórios europeus e suas trução que a Europa fazia de imagens
respectivas colônias. Na altura, estágio sobre o Brasil desde o século XV. Nes-
amadorístico das ciências estava encer- sas representações sobre o trópicos,
rado e as áreas específicas delineadas e também citou as classificações científi-
a viagem tornou-se, ainda mais, uma cas em voga na época, dedicou alguns
fonte de informação. Com a escrita momentos aos debates entre autores,
dessas expedições não seria diferente: descreveu e julgou os espaços de co-
se era necessário viajar de acordo com nhecimento que encontrava pelo seu
os direcionamentos da chamada Ciên- caminho como bibliotecas em Salva-
cia Moderna, era preciso escrever e dor e o Gabinete de História Natural
tornar pública essa experiência de do Complexo da Ajuda. Dito isso, pre-
maneira científica e não mais de forma tende-se esmiuçar alguns desses retra-
fantástica. Assim, estava posta uma tos sobre a ciência portuguesa no Brasil
outra forma de se viajar e de se contar e em Lisboa, feitos pelo naturalista.

66
CADERNO DE RESUMOS

SIMPÓSIO TEMÁTICO 4
Cultura Escrita no mundo ibérico colonial: manuscritos e impressos

Coordenadores: Adriana Angelita da Conceição (UNICAMP/FAPESP) e Juliana Gesuelli


Meirelles (PUC-Campinas)

13 de setembro de 2016

OS SENTIDOS DA ESCRITA NO IMPÉRIO E AS FIGURAÇÕES DO PRESTE JOÃO


Rubens Leonardo Panegassi

O objetivo desta comunicação é apre- que se define no interior da relação de


sentar os primeiros resultados do pro- continuidade que se pretende estabele-
jeto A vocação imperial e o reino imaginá- cer com o poderoso reino cristão, e seu
rio: a linguagem política portuguesa nos reconfortante sentimento de segurança
governos de D. Manuel I e D. João III frente aos inimigos infiéis. Em face des-
(1495-1557), aprovado pelo edital tas considerações, importa notar que foi na
MCTI/CNPq/Universal 14/2014. Efe- historiografia dedicada à península ibérica
tivamente, nosso interesse é problema- que nossa investigação se deparou com a
tizar a natureza das circunstâncias em questão do Preste João e da Etiópia no
que as figurações da Etiópia e do Pres- contexto da Época Moderna, notavelmente
em articulação ao processo de formação do
te João assumem uma estrutura de sig-
Estado Moderno, o que para o caso portu-
nificados precisa no âmbito de um lé- guês, significa dizer também de seu Impé-
xico político inerente à circulação de rio ultramarino. Com efeito, a figuração da
ideias presente na produção escrita da Etiópia e seu lendário soberano nas fontes
cultura letrada renascentista portugue- portuguesas produzidas ao longo dos sé-
sa. Em vista disso, nosso projeto se de- culos XV e XVI como um remoto reino
teve, primeiramente, na recuperação cristianizado, nos oferece uma ocasião
da diversidade de estudos que se de- singular para o confronto de sua dimensão
bruçaram na figura do mítico rei e seu mítica medievalizante com um novo con-
reino, o que nos conduziu à constata- texto, cuja orientação passa a obedecer
ção de que uma parte significativa des- dois princípios: o primeiro deles, de cará-
ter jurídico-estatalizante, tem como refe-
tes estudos foi produzida por medieva-
rência a Antiguidade, ao passo que o se-
listas que, atentos às condicionantes gundo, de caráter evangélico-
estruturais de um mundo medieval universalista, refere-se ao cristianismo.
marcado pela escassez, assinalam o Subjacente a este confronto são as relações
caráter mirífico do Reino do Preste em existentes entre religião e império, que
resposta ao sonho de uma sociedade definem os diferentes usos políticos do
de abundância. Outro enfoque dado ao mito do Preste João em Portugal, ou seja,
mito articula-se a sua compreensão se em um primeiro momento a figura do
enquanto eficaz instrumento na pro- Preste e seu reino denotou o sucesso da
dução de um senso de coletividade, expansão marítima em concomitância à

67
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

figuração da Etiópia como aliada para a tas, tratados, crônicas e outros suportes a
reunificação da Igreja, em um segundo partir dos quais circularam ideias a respei-
momento, são as implicações subversivas to da formação de um império em escala
do cristianismo etíope que ganham notori- global, assinalam a importância das diver-
edade. Desse modo, as representações da sas modalidades de escrita na atribuição
Etiópia e do Preste João presentes na pro- de sentidos ao passado, bem como na fun-
dução cultural dos letrados portugueses damentação da vida política coeva e suas
da primeira modernidade, tais como car- ações.

AS CONQUISTAS ORIENTAIS E A POSSIBILIDADE DO CONSELHO: A PRODU-


ÇÃO DE LIVROS IMPRESSOS SOBRE AS CONQUISTAS NO ORIENTE PARA A
MELHOR GOVERNANÇA DO IMPÉRIO NO REINADO DE DOM JOÃO III.
José Vinicius da Costa Meneses

Este trabalho tem como objetivo reali- também, qual o tipo de conselho. Por
zar uma pequena analise de três obras se tratar de um breve trabalho, limita-
impressas do século XVI português – rei a análise das fontes às dedicatórias
durante o reinado de Dom João III escritas pelos autores, sempre destina-
(1521-1557) – sobre algumas das con- das ao monarca. Por isso, para chegar
quistas ultramarinas portuguesas no ao conjunto das obras que serão aqui
oriente, para observar se havia e quais estudadas, procurei por aquelas que
eram os tipos de conselhos que poderi- eram diretamente dedicadas ao rei e
am ser dados ao monarca para melhor que tinham sido publicadas ainda no
governar o Império. Mesmo tendo os período de seu reinado. As obras esco-
“espelhos de príncipes” – manuais de lhidas para este trabalho foram: Histó-
origem medieval que eram dedicados ria do descobrimento e conquista da Índia
aos príncipes e governantes das cida- pelos Portugueses (1551/1554), de Fer-
des (tendo sido, posteriormente, tam- não Lopez Castanheda; Primeira Década
bém utilizados pela aristocracia) e que da Ásia (1552-1553), de João de Barros e
continham um quadro geral de ensi- o Livro primeiro do cerco de Diu (1556),
namentos através dos exemplos de de Lopo de Sousa Coutinho. Além des-
grandes heróis do passado para tornar sas obras que serão utilizadas, verifi-
ou resguardar um governante, sempre cou-se também a existência de um li-
ressaltando a importância das virtudes vro impresso de Diogo de Teive, em
– como a Justiça, Prudência, Sabedoria 1548, também dedicado a Dom João III
e Fortaleza – e também os vícios e pe- e que fala da ação dos portugueses na
rigos que deveriam ser evitados no Índia, sendo que está em latim e não
exercício de governo do reino ou da será utilizado neste trabalho. Além das
cidade – como objeto principal da mi- dedicatórias, serão levados em conta
nha pesquisa de mestrado, fiz um le- outros fatores para complementar a
vantamento dos livros impressos pro- análise das fontes escolhidas, como:
duzidos no reinado de Dom João III – proximidade temporal do lançamento
com base no levantamento feito por das obras, pois estas foram impressas
António Anselmo –, procurando ob- dentro de um curto período, já no final
servar outros tipos obras que possam do reinado de Dom João III; quem
conter conselhos ao rei, analisando eram os autores destas obras, obser-

68
CADERNO DE RESUMOS

vando se mantinham alguma relação pretendo com este trabalho, aprimorar


direta ou indireta com o governo do a discussão em minha pesquisa sobre
Império, ou mesmo, se eram próximos as possibilidades de conselhos em li-
do monarca e do ambiente de Corte; vros impressos no reinado de Dom
número de edições lançadas das obras; João III que não fossem necessariamen-
a opção dos autores – e do próprio rei – te espelhos de príncipes e contribuir
pelo lado oriental do Império e poste- com a discussão mais ampla sobre os
riores alterações nestas edições, além usos e circulação de livros impressos
de traduções produzidas. Com isso, em Portugal no século XVI.

SUMÁRIO DAS ARMADAS – ESTUDO CRÍTICO


Mariana de Oliveira Machado

Portugal no século XVI passou a olhar contexto América-Europa. É nesta con-


para as Índias a leste e oeste. Estas já juntura de colonização, expansão e
conhecidas e exploradas, aquelas ainda guerra com os nativos que surge o
por explorar e compreender. Sem dei- “Sumário das Armadas”, crônica apó-
xar de observar e cuidar das rotas do crifa escrita por um jesuíta entre os
Pacífico, D. João III se volta ao atlântico dois últimos decênios do XVI que nar-
para estabelecer, de fato, uma política ra a empreitada colonizadora na região
colonial na América de maneira a sal- da capitania da Paraíba. O objetivo do
vaguardar a nova terra de incursões artigo é apresentar os resultados parci-
corsárias e cumprir a incumbência reli- ais da pesquisa em curso sobre o Su-
giosa de conversão do gentio. A con- mário das Armadas pensando sua ori-
quista, de fato, e povoamento da capi- gem no seio da circulação e transmis-
tania da Paraíba (1584-87) foram de- são de documentos jesuíticos, as ques-
terminantes para o avanço ao norte da tões e problemas da edição crítica do
colônia e para fazer cumprir a política texto, sua inserção no contexto político,
de expansão consolidada por D. João econômico e social em fins do XVI –
III. Em cerca de 20 anos a partir da como ressaltado acima, vide a impor-
conquista da Paraíba, Ceará e Mara- tância do anúncio em terras externas
nhão já estavam subjugadas ao domí- ao mundo ibérico e na disputa do es-
nio português. Também é notório o paço político-religioso entre jesuítas,
rápido anúncio feito sobre a tomada da franciscanos e o poder temporal. O
região paraibana: já em 1584 havia um Sumário é um documento de funda-
poema espanhol publicado em Sevilha mental importância na história brasi-
sobre a conquista. Ela foi digna de nota leira, pois seu texto foi lido e conheci-
em produções importantes da época, do de forma direta ou indireta, sendo
como a do inglês Richard Hakluyt possível pinçá-lo nos escritos de Fr.
(1589) sobre as importantes navegações Vicente do Salvador e Fr. Jaboatão, por
e descobertas inglesas e a do jesuíta exemplo. Alguns séculos à frente, é
francês Pierre du Jarric sobre as con- para ele que retornam Varnhagen, Ca-
quistas portuguesas e expansão da fé pistrano, Serafim Leite, José Honório
católica (1610), o que demonstra a im- quando discutem a expansão para o
portância que a região exercia num norte, o pau-brasil e as guerras de con-

69
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

quista e a ação jesuíta. Hoje são conhe- bre a importância da Paraíba É prová-
cidos três testemunhos manuscritos do vel que o texto esteja ligado a um em-
Sumário, os três depositados em ar- bate entre jesuítas e franciscanos quan-
quivos portugueses, a saber: Biblioteca to ao direito de catequização dos indí-
Nacional de Portugal, Biblioteca Públi- genas. Durante a narrativa da conquis-
ca de Évora e Academia das Ciências ta o texto faz uma profunda detração
de Lisboa. O texto nunca passou por de Frutuoso Barbosa, expedicionário e
um processo de crítica nem de estudo futuro capitão da Paraíba ligado aos
profundo sobre sua relação com o con- franciscanos (relação esta ressaltada
texto de sua escrita. Os testemunhos em vários pontos do documento); ao
dividem-se em dois ramos – sendo o mesmo tempo, é um panegírico a Mar-
da BNP o texto base utilizado pelos tim Leitão ouvidor-geral apoiador e
pesquisadores e o da BPE muito pró- incentivador dos jesuítas. Some-se este
ximo a ele. O testemunho da ACL é um dado às datas: em 1591 os jesuítas fo-
texto compósito, que cruza o Tratado ram expulsos da capitania por Frutuo-
de Gabriel Soares de Sousa e o Sumá- so, para deixar aos da ordem de São
rio e tem um discurso muito forte so- Francisco a função da catequização.

OS PERIÓDICOS E A CIRCULAÇÃO DE NOTÍCIAS EM PORTUGAL NA


SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVII
Caroline Garcia Mendes

Esta comunicação visa apresentar al- exércitos castelhanos. Escrito por An-
gumas questões desenvolvidas em tónio de Souza de Macedo, então secre-
nosso atual projeto de pesquisa de tário de Estado de Dom Afonso VI,
doutorado. Nosso intuito será, assim, este periódico é publicado até o ano de
analisar as notícias apresentadas nos 1667, contando todas as publicações
periódicos portugueses da segunda com cerca de 800 páginas. É conhecida
metade do século XVII. A partir de a crescente busca por novidades pela
1641 começou a circular em Portugal a população europeia, tendo em vista
chamada Gazeta da Restauração, primei- não só os descobrimentos, como tam-
ra publicação voltada à circulação de bém o aumento da quantidade de pes-
notícias – impressa em Lisboa – a con- soas alfabetizadas no continente e o
tar com periodicidade. Sua publicação interesse provocado pelas guerras ao
perdurou até o ano de 1647, contando redor do continente. A guerra, segun-
neste período com uma pequena inter- do Mario Infelise, alimentava o desejo
rupção que certamente contribuiu para por informação, havendo uma estreita
que retornasse em novo formato. Ape- relação entre acontecimentos militares
nas em 1663 teremos novamente um e a origem do periodismo impresso.
novo material periódico de notícias, Segundo o autor, se em condições or-
chamado de Mercúrio Portuguez, que dinárias a produção a mão bastava pa-
trazia exclusivamente novas sobre a ra satisfazer os interesses, no caso de
guerra contra Castela, enaltecendo as grandes conflitos a curiosidade se mul-
tropas portuguesas e diminuindo, tiplicava de maneira exponencial. São
sempre que encontrava espaço, os circuitos tanto impressos como manus-

70
CADERNO DE RESUMOS

critos que permaneciam juntos: “Avi- lhamos da ideia de João Luis Lisboa,
sos a mano, secretos y públicos, gace- que afirma não ter como objetivo escla-
tas impresas y relaciones formaban recer os primórdios do jornalismo.
una espiral de intercambio y alimenta- Dessa forma, não iremos procurar si-
ban distintas opiniones y discusiones” nais em periódicos de trezentos anos
(INFELISE, 2010, p. 160). As discussões atrás, dos jornais que conhecemos hoje.
acerca do periodismo europeu são re- Nosso intuito é, assim, entender como
centes na historiografia. A historiadora “se constrói, ao longo da segunda me-
Carmen Espejo entende que, mais do tade do século XVII, uma dupla ideia.
que iniciativas individuais de Estados A de que existe espaço e necessidade
Modernos, marcados por políticas ab- para a circulação de novidades de um
solutistas – como querem algumas in- certo tipo, e que essa circulação se po-
terpretações – o fenômeno periodístico de concretizar numa base regular, pe-
seria europeu, não nacional. Há o sur- riódica, em ritmos semanais ou men-
gimento concomitante através da Eu- sais” (LISBOA, 2002). Dessa forma,
ropa do interesse pelas notícias, relaci- pretendemos discorrer sobre a cons-
onado em grande parte à Guerra dos trução dessas notícias, analisando os
Trinta Anos que cobre todo o continen- periódicos enquanto fonte histórica,
te. As notícias, assim, perpassam as produtos do meio no qual foram cons-
fronteiras, no que Espejo denomina de truídos e inseridos em diferentes rela-
“explosão informativa” (ESPEJO, ções nobiliárquicas, familiares e de go-
2012). Para tratarmos da cultura perio- verno.
dística em Portugal, contudo, parti-

DO BEM COMUM AO TUMULTO DE MORADORES: AS TENTATIVAS DE


IMPLANTAÇÃO DO CORREIO-MOR EM SALVADOR (1663-1712)
Romulo Valle Salvino

Os episódios relativos às primeiras importância da comunicação escrita na


tentativas de implantação do correio- Idade Moderna, não só para as relações
mor no Brasil são quase desconheci- familiares e a governação, mas também
dos. Quando abordados pela historio- para as práticas de comércio, inclusive
grafia, o são de maneira fragmentária, o negreiro, essa comunicação busca
como notas complementares a estudos trazer à cena tais episódios, discutindo-
com outros objetivos. Tendo em vista a os à luz da cultura política da época.

AMÉRICA COMO DÁDIVA: ANÁLISE IMAGÉTICA DE FRONTISPÍCIOS DA


ÉPOCA MODERNA
Jorge Victor de Araújo Souza

Frontispícios são partes fundamentais teúdo de uma obra, sendo, portanto,


de publicações do período moderno. objetos significativos para também se
Com usos de gravuras, esses instru- pensar o ato da leitura. Trata-se de um
mentos pré-textuais sintetizam o con- espaço privilegiado de relação entre

71
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

escrita e imagem. Nesta comunicação da Europa ou para os europeus. Esta


analisarei um corpus constituído por pesquisa aponta que a historiografia
uma temática pouco estudada na pers- dedicada às relações entre metrópoles
pectiva que considera imagens como e colônias se enriqueceria mais ao in-
documentos. Os frontispícios que ana- cluir fontes imagéticas de livros em
liso são ilustrados com representações suas análises, pois elas representam,
de alegorias das Américas ou de nati- sobretudo, expectativas de relações
vos entregando algo para as alegorias atlânticas.

A BOA-GOVERNANÇA E A JUSTIÇA NAS CORRESPONDÊNCIAS


ADMINISTRATIVAS DO BRASIL-COLÔNIA (SÉCULOS XVII-XIX)
Nayara VignolLuchetti

Com a impossibilidade de governar correspondências, informar ao rei e


um império ultramarino por meio da buscar soluções aos problemas da
oralidade, a prática epistolar ocupou América portuguesa. Assim, por meio
um lugar fundamental na administra- das letras, os responsáveis pela admi-
ção do império além-mar português. nistração dessas terras, preocupados
Sendo necessário informar à Coroa as em fornecer a imagem de uma boa-
notícias das terras do Brasil, a escrita governação ao Reino e resolver confli-
de cartas pelos altos membros do Esta- tos com outras autoridades locais, for-
do, pelos homens do Senado da Câma- maram o que chamaremos aqui de um
ra e seus secretários foi uma prática círculo de governação por escrito. Nar-
corriqueira. As respostas e ordens, en- rar as notícias de maneira epistolar se
viadas por meio dos Conselheiros do tornou fundamental aos que não con-
Conselho Ultramarino, da Secretaria seguiam chegar fisicamente a quem
de Estado ou pelo rei, tinham como queriam comunicar os acontecimentos.
objetivo fazer valer as leis e as vonta- No Brasil, mesmo com poucos que en-
des do reino no ultramar. Entre os as- tendiam as letras, as correspondências
suntos enviados em papel pelas figuras se mostraram a principal maneira de
residentes no Estado do Brasil, princi- avisar, na esfera dos membros do go-
palmente nas cidades do Rio e Janeiro verno, sobre o que acontecia nestas
e Salvador durante o período de au- terras. Como principal meio de comu-
mento populacional e crescente urba- nicação entre os governantes, as cor-
nização, à Lisboa, a administração da respondências representaram a voz de
justiça – peça-chave à boa-governança seus autores e formaram um círculo de
do império português – foi uma tópica governação por escrito, sendo uma
de especial preocupação. Havendo ferramenta fundamental aos que go-
muitos conflitos referentes a esse im- vernavam essas terras. Foram nas car-
portante tópico no Estado do Brasil, tas, provisões, leis, prescrições, ofícios,
indo desde à lentidão do aparelho de representações, entre outras formas de
justiça até conflitos particulares que manuscritos de cunho administrativo,
dificultavam a aplicação das leis rei- que se deu o trâmite de informações
nóis na colônia, os que governavam necessários à manutenção da adminis-
estas terras buscaram, por meio das tração local e do governo além-mar.

72
CADERNO DE RESUMOS

Buscaremos, deste modo, pensar nas procuraremos discorrer sobre a recor-


correspondências como um espaço de rência dos assuntos da justiça dentro
suma importância à administração da do círculo de governo no Brasil duran-
justiça, sendo, seja dentro do Estado do te os séculos XVII a XIX. Buscaremos,
Brasil, seja entre as terras brasílicas e também, falar sobre a importância dos
Portugal, a principal forma de comuni- grandes fundos documentais, como o
cação entre os governantes interessa- Conselho Ultramarino e a Secretaria de
dos na imagem do bom-governo. Par- Estado do Brasil, à pesquisa sobre as
tindo do aspecto crucial destas corres- impressões das autoridades da colônia
pondências para pensar as questões da acerca do bom-funcionamento da soci-
governança na América portuguesa, edade brasílica.

A GÊNESE DO OFÍCIO DE SECRETÁRIO DE GOVERNO NO MUNDO IBÉRICO


Thiago Rodrigues da Silva

A presente comunicação visa lançar espanhola uma discussão sobre quan-


luz sobre a emergência dos Secretários do e como se separa o cargo de chance-
de Governo que atuaram no Ultramar ler do de notário ou secretário, o que
Português no Antigo Regime. Para isto sinaliza a centralidade do tema. Com
devemos fazer uma grande digressão, os Secretários de Estados devidamente
colocando devidamente este processo sedimentados no escopo da governan-
em sua longa duração. De partida po- ça, passam a surgir lentamente os Se-
demos afirmar que o ofício de secretá- cretários que atuavam no Ultramar,
rio, de príncipes e de outros poderosos, ligados a estratégias de afirmação polí-
esteve presente nas mais diversas insti- tica de governadores e Vice-Reis. As-
tuições da Europa Ocidental, desde o sim, esses funcionários, que aparecem
período medieval, tendo estes homens no Centro Sul da América Portuguesa
participado ativamente de episódios na década de 1680, foram os principais
de vulto ocorridos, por exemplo, nas agentes arquivísticos de suas áreas de
cidades italianas que viviam o Renas- jurisdição, tendo por missão criar e
cimento, com um secretário figurando guardar os livros que continham o re-
inclusive como personagem do clássico gistro de toda a memória administrati-
de Dante Alighieri. No caso da Penín- va local, possuindo assim a posse e o
sula Ibérica, que nos interessa direta- controle cartorial. Por este fato os se-
mente, os Secretários foram fundamen- cretários podiam ser peças chaves para
tais para o ordenamento das Monar- a construção e/ou perpetuação de pos-
quias, que buscavam se afirmar sobre síveis redes de interesses, como as
forças centrífugas extremamente fortes mercantis e as governativas, pois era
e vivas. Neste ponto a comunicação através da sua pena que títulos, posses
analisa – através de importantes pes- e cargos podiam ser confirmados e
quisas históricas – as continuidades e comunicados oficialmente. Para além,
descontinuidades da afirmação dos estes homens executaram missões di-
Secretários como homens que assegu- versas, muitas vezes arriscando suas
ram a construção documental e arqui- vidas e seus cabedais para representa-
vística das Monarquias em Portugal e rem os governadores nos “assuntos
Espanha. Há inclusive na historiografia mais secretos”.

73
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

14 de setembro de 2016

O "PAPEL SOBRE A ESPERANÇA EM EL REI D. SEBASTIÃO" E A AUTORIDADE


DE VIEIRA: CIRCULAÇÃO, APROPRIAÇÃO, AUTORIA E APOCRIFIA NUM
MANUSCRITO SEBASTIANISTA SOBRE O QUINTO IMPÉRIO BRIGANTINO
Luís Filipe Silvério Lima

Esta comunicação pretende discutir a Amsterdã, como Menasseh Ben Israel,


circulação e recepção dos textos ibéri- com quem também manteve contato.
cos sobre as Américas na Inglaterra e Fazia a citação dos textos ibéricos não a
na América Inglesa em meados do sé- partir dos textos escritos em espanhol
culo XVII, atentando para o debate so- mas por meio de traduções inglesas
bre a origem das populações indígenas impressas em finais do século XVI e ao
e a possibilidade de convertê-las. Inte- longa da primeira metade do século
ressam-nos sobretudo dois debates e XVII. Ao longo de suas diferentes edi-
grupos de impressos: aqueles em torno ções (1650, 1652, 1661), Thorowgood
dos chamados “Eliot's Tracts”, impres- alterou o texto, adicionou novos ele-
sos entre 1643 e 1671, que traziam os mentos, transcreveu cartas e relatos,
relatos de ministros puritanos sobre o para reafirmar sua defesa da origem
“progresso da difusão dos Evange- judaica dos ameríndios, responder a
lhos” entre os índios da Nova Inglater- seus (vários) críticos, e também impor-
ra; e os panfletos que debatiam se os tante, adequar o texto às mudanças dos
povos americanos eram ou não de ori- momentos políticos vividos. Se apoi-
gem judaica, em especial a partir da ando a República ou a Monarquia res-
notícia da “descoberta“de uma das 10 taurada, o autor mobilizou as suas lei-
tribos perdidas de Israel na Amazônia. turas e referências, por vezes, alteran-
Menos do que circuitos e discussões do-as no sentido, para indicar que essa
separadas, esses impressos foram mui- origem judaica dos povos americanos
tas vezes produzidos pelos mesmos era uma mostra do sucesso certo da
grupos de impressores e livreiros, mui- conversão indígena e do avanço global
tos deles participantes de movimentos e final do Cristianismo. Tomando o
radicais milenaristas, com interesses texto do Thorowgood como fio condu-
nos desdobramentos da conversão dos tor, interessa-nos perceber assim as
índios americanos e suas implicações mudanças do texto, localizando-o nos
nas disputas políticas. Para além disso, debates das décadas de 1640 e 1660, a a
foram todos mobilizados nas diferen- leitura e incorporação das referências
tes edições e partes de uma obra polê- ibéricas e seu uso, o diálogo com os
mica impressa em Londres, Jewes in “Eliot's Tracts” e com os escritos de
America, de Thomas Thorowgood, que Menasseh, o papel dos impressores e
citava não só os textos dos “Eliot's livreiros nas diferentes edições. Com
Tracts”, e mesmo cartas que trocou isso, pretendemos discutir a circulação
com os missionários puritanos a res- de impressos entre o mundo ibérico e
peito dos seus escritos, mas também britânico, as formas de recepção e
religiosos espanhóis, como José de apropriação dos escritos entre “tradi-
Acosta e Bartolome de Las Casas, e ções” religioso-políticas diferentes e,
rabinos da “nação portuguesa” de no limite, opostas, e, por fim, o papel

74
CADERNO DE RESUMOS

desempenhado pelas notícias sobre as tivas europeias no século XVII.


Américas na conformação das expecta-

A PRODUÇÃO ESCRITA INDÍGENA NO TEMPO DOS FLAMENGOS: UMA


ANÁLISE DA PRÁTICA DISCURSIVA POTIGUAR
Regina de Carvalho Ribeiro da Costa

O objetivo do presente trabalho é reali- tou convencer Poti e este tentou dissu-
zar um estudo da produção escrita dos adir aquele. O fato de Paraopaba, en-
indígenas no conhecido tempo do Bra- quanto importante liderança indígena,
sil Holandês. Para isso, serão analisa- dirigir-se às autoridades neerlandesas
dos, sob a perspectiva da História So- para realizar suas petições de acordo
cial da Cultura Escrita, o conjunto de com a retórica administrativa flamenga
“Cartas Tupi” trocadas entre Felipe demonstra que os índios protestantes
Camarão e Pedro Poti entre 1645 e 1646 se apropriaram do código holandês
e as duas representações enviadas por para defender seus interesses, agindo
Antônio Paraopaba entre 1654 e 1656 no mundo neerlandês na medida em
ao Conselho dos XIX Senhores, órgão que este também configurava o seu
dirigente da Companhia das Índias próprio mundo. Assim, tendo em vista
Ocidentais, solicitando auxílio aos ín- que os supracitados documentos foram
dios protestantes que permaneceram produzidos pelos brasilianos, a análise
no Brasil Colonial. Deve-se destacar a estará centrada na fidelidade dos poti-
importância da existência de tais rela- guares do partido pró-holandês aos
tos produzidos pelos indígenas como flamengos. A colaboração de tais ín-
forma de apropriação da linguagem dios parece ter sido mesmo fundamen-
escrita, como demonstrou Serge Gru- tal para a resistência holandesa duran-
zinski em conhecido trabalho. Assim, é te o período da insurreição pernambu-
lícito perceber a impressionante habi- cana. Tal adesão desenvolveu-se tanto
lidade potiguar em adotar diferentes no terreno militar, quanto no político,
discursos, sobretudo no caso da cor- como no religioso, de tal forma que os
respondência trocada entre Poti, líder próprios cronistas coloniais da época
potiguar do partido holandês, e Cama- registraram tal fato. Portanto, tratam-
rão, principal liderança dos indígenas se de um corpus documental produzi-
aliados dos portugueses. As “Cartas do pelos indígenas em meio ao período
tupi” talvez sejam os primeiros docu- da insurreição pernambucana, uma
mentos redigidos por lideranças indí- revolta de caráter prioritariamente co-
genas do Brasil Colônia. A primeira lonial. Neste momento, tais indígenas
carta, datada de 1628, foi escrita por desempenharam o papel de relevantes
Poti no tempo em que estava Holanda negociadores, o que nos leva a concor-
exortando a Camarão para não aderir dar com Mark Meuwese no que tange
aos portugueses. No entanto, o maior à análise de Poti e Paraopaba como
volume de cartas foi trocado no ano de lideranças pan-indígenas. Deste modo,
1645, com a finalidade de persuadir pode-se perceber que os indígenas co-
um ao outro para passarem para o lado nheciam as regras do jogo político e
em que lutavam, no caso Camarão ten- sabiam jogá-las, sobretudo a partir das

75
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

representações escritas por Paraopaba faz-se necessária a revisão de seus es-


aos Estados Gerais. É necessário en- critos enquanto vias de participação
tender que os indígenas não eram to- política de tais indígenas, problemati-
los, quanto menos vivam apáticos aos zando suas produções como objeto de
acontecimentos ao seu redor. Por isso, estudo da presente comunicação.

LÍNGUAS INDÍGENAS E CULTURA ESCRITA NA PRODUÇÃO DOS INSTRU-


MENTOS DE CONVERSÃO JESUÍTICOS NA AMÉRICA PORTUGUESA (1680-1699)
Ane Luise Silva Mecenas Santos

Desde os primeiros anos do processo rante seu período de observação. Com


de conversão, os padres da Companhia base na leitura dos prefácios desses
de Jesus sistematizaram textos que instrumentos de conversão é possível
possibilitaram a mediação cultural. A identificar um ponto em comum na
medida que a catequese foi realizada descrição do método adotado na elabo-
com povos que não falavam a língua ração dos escritos: o tempo de observa-
geral, novos instrumentos que aten- ção e registro. Foram necessários anos,
dessem aos objetivos da catequese fo- para sistematizar o conhecimento lin-
ram produzidos. Ao final século XVII, guístico europeu no intuito de alicerçar
após a Lei de 1 de abril de 1680 e da um sistema linguístico que correspon-
Ordem Régia de 26 de agosto de 1680 desse à oralidade indígena e, assim
que estabelecia a administração espiri- normatizar numa lógica pautada nas
tual e temporal das aldeias pelos jesuí- funções gramaticais do modelo latino.
tas ocorreram manifestações de des- Os padres buscaram equivalências
contentamento, partido de São Paulo, semelhanças nas estruturas de lingua-
mas com reflexo em diversas partes da gem grega e latina para construção das
América portuguesa. Além das conse- gramáticas das línguas indígenas. E
quências diretas acerca da mão de obra dessa forma, um milenar conhecimen-
indígena, é perceptível que ao longo de to linguístico se entrelaça à língua dos
duas décadas após a publicação da povos originários do Brasil. A experi-
referida lei, foram organizadas para ência na aldeia, atrelado ao longo tem-
reimpressão de duas gramáticas e um po em que os padres viveram em con-
catecismo em língua brasílica, além da tato com os índios possibilitou a siste-
publicação de novas obras que aten- matização das línguas. As referidas
desse a necessidade de comunicação obras foram publicadas pela mesma
com índios que não falam a referida tipografia, a Officina de Miguel Des-
língua. Esses documentos apresentam landes, francês, naturalizado portu-
os indícios e os rastros do processo de guês e que, desde 1687, era impressor
tradução cultural ocorrido no sertão e real. Essa tipografia ficou conhecida
no litoral da América portuguesa. Em pelo amparo e luxo na formatação dos
meio à normatização da língua oral, livros. Observa-se a utilização de pági-
pelo filtro da gramatização latina, é nas sem numeração em branco, segui-
possível perceber também o mundo da pelo elementos pré-textuais que
indígena, em especial os costumes que também não recebem numeração:
causavam estranheza aos padres du- apresentação, quando o autor descreve

76
CADERNO DE RESUMOS

algumas observações ao texto, as licen- estrutura do texto. Esse conjunto do-


ças da Ordem, as licenças de impressão cumental apresenta elementos que
(do Paço, do Santo Oficio e do Ordiná- permitem além das analises acerca do
rio). Tudo isso vem antes do texto que mundo do autor e das experiências da
se apresenta em páginas numeradas. E aldeia presente no texto, contribuem
ao final o Index ou o sumário da obra. para a analise acerca da História social
No caso dos catecismos impressos na dos agentes do livro.
referida tipografia não apresentam a

ÍNDIOS ANTROPÓFAGOS NOS CONFESSIONÁRIOS TUPI DOS JESUÍTAS. A


ANTROPOFAGIA INDÍGENA ENTRE ESCRITA E ORALIDADE EM OBRAS
CATEQUÉTICAS DO SÉCULO XVII
Jaqueline Ferreira da Mota

Para Andrea Daher, "Sem dúvida, a os confessionários, na seção do quinto


antropofagia ritual era um elemento mandamento, além dessa pergunta
ordenador da memória coletiva de sobre a antropofagia ritual, há pergun-
vingança nas sociedades tupinam- tas sobre a ação de matar e, ainda, é
bá"(DAHER, 2012: 53). A pergunta de necessário ao confessor saber se o peni-
número 31 referente ao quinto man- tente cultivara ódios, se “lançara pra-
damento da seção dos Confessionários gas” desejando a morte de outrem e se
tupi dos jesuítas Antônio de Araújo desejara, em pensamentos, matar. Há
(1618) e Bartolomeu de Leão (1686), é a um grande investimento, por parte dos
única que aborda a questão da antro- jesuítas, em elaborar perguntas sobre
pofagia. Quando o missionário jesuíta os pecados que teriam sido cometidos
questiona o penitente índio com a per- por pensamentos e por palavras: há 11
gunta “Ereporúpe?”(Comeste carne perguntas nas quais o índio é questio-
humana?ou És antropófago?), ele nos nado se houvera desejado muito que
deixa uma pista de que os pecados ar- alguém morresse ou adoecesse, ou se
rolados no confessionário tupi foram houvera expressado, com palavras, o
construídos a partir de uma descontex- desejo de ver alguém morto. Daher,
tualização e de uma demonização dos usando a expressão cunhada por Frank
rituais indígenas, hipótese já apontada Lestringant, a do “imperativo teológico
por Agnolin (2007). Agnolin expõe da colonização”, afirma que, dentro
ainda como os jesuítas reduziram a deste imperativo, a escrita exerce uma
língua indígena ao modelo da escrita, função colonizadora (DAHER, 2012:
do alfabeto e das regras gramaticais 40). Dessa forma, partindo das refle-
latinas, sendo esse um primeiro tipo de xões de Agnolin, Daher e Lestringant,
normatividade utilizado pelos missio- a proposta de nossa comunicação é
nários jesuítas: o aprisionamento da apresentar como os elementos da cul-
matéria indígena no formato do cate- tura oral dos índios brasileiros apare-
cismo escrito, do material catequético cem na escrita dos confessionários tupi
estruturado pelas regras do Cerimonial do século XVII e mostrar que a diver-
Romano, criando uma memória artifi- sidade cultural e linguística dos vários
cial para a oralidade tupi. Em ambos grupos indígenas espalhados pelo Bra-

77
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

sil teve de ser considerada pelos con- teriais catequéticos.


fessores jesuítas na escrita de seus ma-

AS FESTAS REAIS E SUAS NARRATIVAS NO ESPAÇO ATLÂNTICO


PORTUGUÊS (SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII)
Roberta Martinelli e Barbosa

O trabalho pretende compartilhar par- Coroa portuguesa. Ao tomarmos as


te da minha pesquisa de doutoramento Relações como fonte histórica é impor-
sobre as festas reais e suas narrativas tante compreende-las não como um
na cidade colonial do Rio de Janeiro no simples reflexo de uma realidade ex-
contexto da segunda metade do século terna `a ela e sim como uma narrativa
XVIII. A análise tem como proposta que conformava o real. As Relações de-
pensar tais celebrações em suas cone- vem ser pensadas no contexto de difu-
xões com outras manifestações festivas são da “cultura escrita” impulsionada,
similares no espaço atlântico do Impé- em larga medida, pela invenção da
rio português, em cidades como Lisboa técnica tipográfica, sendo, em sua mai-
e Luanda no mesmo período cronoló- oria, textos impressos na forma mate-
gico. Seguindo esta perspectiva teórico rial de folhetos. A ausência de tipogra-
metodológica propõe-se comparar as fias em regiões coloniais do espaço
práticas festivas em homenagem ao rei atlântico português não significou a
lusitano compreendendo-as como ex- ausência de circulação de livros ou de
periências não homogêneas mas com acesso daquela população ao circuito
pontos em comum. Além disso, pre- de produção e consumo de impressos.
tende-se examinar as narrativas pro- A partir do exame de algumas Relações
duzidas sobre tais festejos públicos, de festas produzidas em Lisboa, Rio de
denominadas Relações de festas, que Janeiro e Luanda procurar-se-á eviden-
com seus registros sobre tais práticas ciar a circulação de padrões retórico-
construíram uma memória acerca da poéticos, temáticas, imagens e símbo-
monarquia e do Império. Os relatos de los nesses escritos, e refletir sobre o
festas eram parte integrante dos ceri- significado destes textos no âmbito do
moniais e acontecimentos públicos da Império Português.

A EXPRESSIVIDADE NO DISCURSO DOS DIÁRIOS DAS EXPEDIÇÕES OFICIAIS


SETECENTISTAS: ANÁLISE DO DIÁRIO DE NAVEGAÇÃO DE TEOTÔNIO JOSÉ
JUZARTE
Renata Ferreira Munhoz

Esta proposta parte de um ofício envi- Dragões e Auxiliares da Capitania de


ado pelo Ajudante de Ordens do Go- São Paulo, Teotônio José Juzarte, rece-
verno, Afonso Botelho de Sampaio, a besse promoção. Datado de 10 de ou-
Dom Luís António de Sousa Botelho tubro de 1772, o ofício afirma que Ju-
Mourão, o Morgado de Mateus, solici- zarte solicitava que o Morgado de Ma-
tando que o ajudante do Regimento de teus, Governador e Capitão-General da

78
CADERNO DE RESUMOS

Capitania de São Paulo, pudesse favo- lidade. A clara noção diplomática acer-
recê-lo com o cargo de Sargento-Mor. ca do gênero textual “diário” soma-se à
Para tanto, o solicitante afirmava que a estrutura codicológica do suporte e à
honra e o prêmio por esse posto eram destreza do uso dos instrumentos de
merecidos tanto pela disciplina militar escrita que possibilitaram sua preser-
com que Juzarte atuava em seu regi- vação. Ademais, do ponto de vista pa-
mento quanto pelos demais favores leográfico, a caligrafia regular nada
prestados ao governo. De fato, muitos deixa a desejar em relação à produção
foram os favores prestados à coloniza- de Secretários. As afirmações contrá-
ção do estado de São Paulo em seu rias seriam, portanto, baseadas nas di-
tempo de serviço. Como prova desse ferenças ortográficas típicas da escrita
serviço, Juzarte deixou à posteridade o do século XVIII. Esse diário livrou do
seu diário de navegação, recentemente esquecimento o alistamento militar
publicado em forma de edição atuali- forçado na capitania de São Paulo du-
zada e imagens fac-similares do texto e rante o governo do Morgado de Ma-
dos mapas pela Editora Edusp (SOU- teus. Dos 700 colonizadores enviados à
ZA; MAKINO, 2000). Redigido entre Praça do Iguatemi, dos quais cerca de
os anos de 1769 e 1771, o diário retrata 300 eram homens, não havia de fato
as tantas ocorrências durante a nave- “voluntários”. Todos foram alistados
gação realizada nos rios Tietê e Paraná de maneira forçada, tendo seus famili-
na monção de 36 embarcações com ares presos para evitar deserção. Entre-
cerca de 800 tripulantes chefiada por tanto, o diário relata fatos capazes de
ele. Árdua foi a tarefa, executada em contradizer tal violência: “soube que
mais de dois anos, de mapear e des- hu homem se achava esmorecido [...],
bravar o longo percurso, desde Arari- oqual fiz conduzir, e consolando-o, e
taguaba, a atual cidade de Porto Feliz, fortificando-o com vinho, esustento foi
até a Praça de Iguatemi no Mato Gros- tornando aSy [...]”. Os inúmeros peri-
so do Sul. O fato é que Juzarte foi pro- gos vividos são descritos com os tons
movido ao cargo de Sargento-Mor. subjetivos de quem os viveu: “se ma-
Contudo, o Governador e Capitão- tou huã grande cobra coral, eduas jara-
General sucessor, Martim Lopes Lobo racas [...] taõ venenózas que mordendo
de Saldanha, criticou a promoção, em qual quer pessoa estantaneamente
afirmando ter sido ação apoiada em fica sem vida, e entra a exalar sangue
mero favoritismo, já que Juzarte não pelos ólhos, boca, e nariz, e pelas
tinha inteligência alguma. No mesmo unhas [...]”. Pretende-se, por meio da
sentido, os editores afirmam ser o diá- análise desse discurso pelo viés funci-
rio composto por “notas de viagem, onalista, demonstrar de que forma a
toscas e rudes, de soldado semianalfa- materialidade do diário revela mais do
beto, mas cheias de interessantíssimos que aspectos interessantes do dado
informes” (SOUZA; MAKINO, 2000, p. momento histórico: revelavam-se pelo
18). De maneira oposta, este trabalho discurso as subjetividades e ideologias
comprovará que, sob todos os aspectos coevas.
filológicos, o diário tem excelente qua-

79
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

A ESCRITURAÇÃO DOS PAPÉIS JUDICIAIS DE PERNAMBUCO NO SÉCULO


XVIII. HISTORIOGRAFIA E LINHAS DE INVESTIGAÇÃO.
Jeannie da Silva Menezes

Os escrivães e tabeliães foram perso- cio profissionais e as estratégias para a


nagens singulares que expuseram o venalidade destes ofícios têm chamado
paradoxo de ter sido a escrita um ins- atenção da historiografia. Os estudos
trumento central na materialização dos de Roberta Stumpf sobre provimentos
impérios coloniais ibéricos, apesar de e transmissões dos ofícios e de outros
estes constituírem mundos tipicamente autores portugueses e espanhóis têm
não letrados. Eles atuaram como escri- norteado alguns aspectos da recorrên-
turadores dos assuntos menores ou, cia aos ocupantes destes cargos, requi-
pelo menos, dos assuntos mais gerais e sitando o estudo das nossas experiên-
eram considerados auxiliares da buro- cias aos estudos de outras partes do
cracia cujo ofício de escrivão esteve Império Atlântico. É o que contatamos
conjugado aos chamados tabeliados em um estudo inicial sobre a atuação
gerais, sobretudo para os ofícios do de um grupo deles na Capitania de
judicial. Em linhas gerais, os campos Pernambuco que contemplou um per-
do saber que se ocuparam da produção curso historiográfico sobre as linhas de
escrita de escrivães e tabeliães foram a investigação recentes que permeiam o
Diplomática e a Paleografia que se de- tema da atuação dos profissionais da
tiveram nos aspectos mais formais do escrita judicial no século XVIII e que
tema. Por outro lado, no campo da será objeto de discussão nesta comuni-
História, os cargos em sua composição cação.
e origens e, sobretudo, os aspectos só-

CORRESPONDÊNCIA PRIVADA, INCERTEZAS PÚBLICAS: CIRCUITOS LETRA-


DOS E CARREIRA POLÍTICA DE UM ESTADISTA DO IMPÉRIO PORTUGUÊS
(1778-1803)
Nívia Pombo

Como se constrói a carreira de um Domínios Ultramarinos, legaram aos


estadista? D. Rodrigo de Sousa seus contemporâneos a imagem de um
Coutinho é considerado um dos homem que esteve “a frente de seu
maiores estadistas do setecentos tempo”. A análise da sua
português, pela condução da política correspondência privada, no entanto,
reformista iniciada por seu padrinho, o permite a desconstrução desse mito.
marquês de Pombal, em meados do Marcada pelas incertezas quanto as
século XVIII. Sua passagem pela possibilidades de novas nomeações e
Universidade de Coimbra, sua pelas instabilidades frente às intrigas
participação ativa nos circuitos palacianas, D. Rodrigo amargou
ilustrados da Europa e de Portugal, dezessete anos no cargo de ministro
sua atuação enérgica nas instituições plenipotenciário em Turim. Sem
do poder central, especialmente na prestígio, insatisfeito com um ofício
Secretaria de Estado da Marinha e mal remunerado e sem ganhos para a

80
CADERNO DE RESUMOS

Casa, elaborou distintas estratégias, localização de livrarias europeias.


com o apoio de seus irmãos, para Permite também refletir no potencial
alcançar nomeações de mais destaque. dessa documentação para o
Dentre elas, a escrita de planos e mapeamento de uma rede de
memórias que eram remetidas aos correspondentes integrados ao
ministros mais influentes do reinado mercado de livros europeus. A
de D. Maria, como uma espécie de comunicação terá como propósito
propaganda da imagem de um vassalo apresentar algumas características da
distante. Escritos políticos, econômicos correspondência privada de D.
e científicos inscrevem-se, portanto, em Rodrigo de Sousa Coutinho chamar a
distintas dimensões, percorrem o atenção para os aspectos que a
público e o privado, submetidos tanto tipificam como uma escrita afinada
à “ambivalência de interesses” do com o vocabulário das Luzes e
Estado, quanto às vicissitudes da demonstrar como ela foi utilizada
sociedade de Corte, como definiu como estratégia de prestígio tanto nos
Norbert Elias. Sob às luzes, a formação circuitos letrados quanto do poder
de um estadista e de sua imagem junto político da Corte portuguesa. O
ao circuito letrado em que está inserido período escolhido para a análise dessa
inclui a formação de sua biblioteca. A correspondência compreende os anos
correspondência privada de D. em que viveu na Corte de Turim e sua
Rodrigo revela a adoção de novas saída do cargo de presidente do Real
práticas de consumo que caracterizam Erário, tempo em que alcançou
a elite letrada: encomendas de livros e notoriedade.
periódicos, interesse por catálogos e

15 de setembro de 2016

CARACTERÍSTICAS MATERIAIS E PERSPECTIVAS DE ANÁLISE DE TRÊS


EXEMPLARES MANUSCRITOS DO “DISCURSO HISTÓRICO E POLÍTICO SOBRE
A SUBLEVAÇÃO QUE NAS MINAS HOUVE NO ANO DE 1720”
Márcia Almada

O texto do “Discurso histórico e político possivelmente foi elaborado para justi-


sobre a sublevação que nas Minas houve no ficar as medidas tomadas contra a re-
ano de 1720” já foi tema de estudo de belião que houve em Vila Rica em
diversos historiadores, tendo inclusive 1720, capitaneada por Felipe dos San-
sido “reproduzido” em publicações tos. São conhecidas atualmente três
impressas e editadas pela Revista do versões manuscritas deste texto, estan-
Arquivo Público Mineiro (1898) e pela do uma no acervo da Biblioteca Nacio-
Fundação João Pinheiro (1994) em edi- nal do Rio de Janeiro, “cópia fiel” da-
ção coordenada por Laura de Mello e tada de 1825, uma na Coleção Lamego,
Souza. O “Discurso ...” não contém re- do Instituto de Estudos Brasileiros, e
ferências de autoria, mas é atribuído a uma no Arquivo Público Mineiro; estas
D. Pedro Miguel de Almeida Portugal, duas últimas não têm data registrada,
então Governador da Capitania de São mas possivelmente são do século
Paulo das Minas do Ouro (1717-1721) e
81
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

XVIII. Em colaboração a um projeto etapas do processo operativo e caracte-


proposto e coordenado pelo Professor rísticas de uso e de guarda. Os objeti-
Rodrigo Bentes Monteiro, estão sendo vos são refletir sobre as motivações
realizadas análises visuais e materiais intelectuais e relacionais para a produ-
nos três exemplares do documento. ção e a circulação desses manuscritos e
Além do exame organoléptico, são uti- verificar uma possível datação dos dois
lizados técnicas e equipamentos que exemplares do século XVIII para a cor-
trazem informações não perceptíveis a roboração da autoria do texto e tam-
olho nu. A partir destes exames estão bém dos exemplares. Serão apresenta-
sendo identificadas, descritas e anali- dos nesta comunicação as metodologi-
sadas as características materiais dos as de exame e análise, os resultados e
manuscritos com o intuito de revelar as conclusões obtidas até o momento.

A GUERRA DE SUCESSÃO DA ESPANHA E O MANUSCRITO DE 1720


ATRIBUÍDO A D. PEDRO MIGUEL DE ALMEIDA PORTUGAL
Rodrigo Bentes Monteiro

A comunicação visa elucidar aspectos lizadas em Barcelona, relatadas em


da formação cultural de D. Pedro Mi- impressos, imbuído de um sentimento
guel de Almeida Portugal (1688-1756) de representação do poder do rei por-
em sua estada na Catalunha entre 1705 tuguês naquele entreposto comercial e
e 1713, durante o conflito sucessório cultural. Ali, entre as armas e as letras,
espanhol. Ali, o jovem nobre portu- o futuro governador de São Paulo e
guês distinguiu-se nas batalhas em Minas e 3o conde de Assumar entraria
prol da frente aliada; mas também em contato com leituras que respalda-
acompanhou a atividade diplomática riam depois as ideias políticas presen-
do pai, embaixador de Portugal junto tes no Discurso histórico e político sobre a
ao arquiduque Carlos de Áustria. Des- sublevação que nas Minas houve no ano de
se modo participou de cerimônias rea- 1720.

DO MANUSCRITO AO IMPRESSO: ANÁLISE CRÍTICO-TEXTUAL DAS


MEMÓRIAS DO FREI GASPAR DA MADRE DE DEUS
Renata Ferreira Costa

As Memórias para a História da Capitania res da obra (1847, 1920, 1953, 1975 e
de São Vicente, hoje chamada de São Paulo 2010), de modo que todos os estados
do Estado do Brasil, do historiador Frei do texto constituem as Memórias tal
Gaspar da Madre de Deus, foram pu- como foram transmitidas a seus leito-
blicadas pela Academia de Ciências de res desde o fim do século XVIII. A
Lisboa, doravante ACL, em 1797. Essa questão subjacente à transmissão dessa
edição, denominada princeps por ser obra, contudo, está no fato de sua edi-
impressa pela primeira vez a partir do ção princeps não representar o texto
manuscrito original do autor, foi o que Frei Gaspar imaginou e desejou
modelo para as cinco edições posterio- que viesse a público, mas uma refor-

82
CADERNO DE RESUMOS

mulação, como forma de conferir uni- variantes inseridas em um texto duran-


formidade global ao texto, adaptando- te seu processo de transmissão e recu-
o ao cânone da Academia e à “norma” perar a sua forma genuína. Desta for-
linguística portuguesa. O manuscrito ma, o propósito deste trabalho é apre-
original conservado dessa obra, sob a sentar as alterações introduzidas nas
guarda da ACL, Série Manuscrito Azul, Memórias para a História da Capitania de
número 1751, revela diversas alterações São Vicente na passagem de uma tradi-
– supressões, inserções e substituições, ção a outra, separando as modificações
introduzidas por punho diferente, re- a pedido da Academia daquelas que
conhecidamente de Diogo de Toledo podem ter sido da competência de Di-
Lara e Ordonhes, ouvidor em Cuiabá e ogo Ordonhes. Para alcançar tal objeti-
sócio correspondente da ACL, respon- vo, é essencial que se proceda, primei-
sável por levar o manuscrito do Brasil ramente, ao reconhecimento das duas
a Portugal e apresentá-lo ao exame da camadas textuais do manuscrito origi-
Academia. Embora essas modificações nal: a redação de Frei Gaspar, que se
devessem ser comunicadas ao autor da mantém uniforme ao longo dos fólios,
obra, é muito provável que isso não sem rasuras e emendas, o que configu-
tenha acontecido, o que reforça ainda ra um texto finalizado, pronto para ser
mais a necessidade do estabelecimento lido e publicado, e as interferências
do texto idealizado por Frei Gaspar da provenientes de outra mão, das quais
Madre de Deus. Depois de uma severa resultam as supressões de palavras,
depuração do manuscrito, inclusive a frases, notas e parágrafos, parcial ou
mudança do seu título original – Fun- integralmente, substituições, reelabo-
dação da Capitania de São Vicente e acço- ração de partes do texto e inserções de
ens de Martim Affonso de Souza no Brazil, informações. Uma análise como a que
a obra foi publicada, configurando-se se propõe aqui contribuirá, certamente,
como referência para a história colonial para se refletir sobre o processo de pu-
brasileira. A explicitação das modifica- blicação impressa no período colonial,
ções inseridas nas Memórias de Frei as normas de edição da casa editorial
Gaspar, que perpassam toda a sua tra- da Academia de Ciências de Lisboa, o
dição impressa, recuperando, segundo papel do revisor à época, o conceito de
Castro (1995, p. 608), “o estado em que coautoria e a importância da publica-
o autor deixou o seu texto, da última ção de uma edição crítica da obra, além
vez que o trabalhou”, subvertida em de fornecer ao público leitor a história
todas as edições, insere-se no âmbito da capitania de São Vicente o mais
da Crítica Textual do original presente, próxima possível da vontade autoral
o que permite verificar as alterações ou de Frei Gaspar da Madre de Deus.

PERSONAGENS E PAPÉIS: TRAJETÓRIAS DE UM MANUSCRITO


COLONIAL (SÉCULOS XVIII-XIX)
Daniel Carvalho de Paula

Este trabalho consiste em demonstrar a direta ou indiretamente com esse do-


recuperação das trajetórias de um ma- cumento a partir da análise dos papéis
nuscrito e das personagens envolvidas utilizados na sua produção. O docu-

83
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

mento em questão é o Diccionario das das ao conteúdo do documento, mas


Antiguidades de Portugal, cuja cópia que nos serviram para nos acercarmos
manuscrita do século XIX está deposi- da datação do códice. A cópia foi reali-
tada no Instituto Histórico e Geográfi- zada no verso de papéis timbrados do
co Brasileiro. A obra foi composta no Consulado Português em Argel no
século XVIII, o manuscrito original mandato do cônsul “Henrique McDo-
pertence à Academia das Ciências de nell”, cuja trajetória também procura-
Lisboa, seu autor é Pedro José da Fon- mos aqui recuperar. O estudo desses
seca (1737-1816), professor do Colégio papéis é chave importante para a in-
dos Nobres, membro fundador e dire- terpretação da história do Diccionario.
tor da tipografia da Academia, funda- No Arquivo Histórico Ultramarino de
da em 1779. Manoel José Maria da Cos- Lisboa buscamos localizar exemplares
ta e Sá, Oficial Maior da Secretaria dos dos papéis timbrados, principalmente
Negócios da Marinha e Ultramar, é no fundo pouco conhecido e descrito
quem entendemos ser o autor da cópia Norte da África, que oferece muitos sub-
manuscrita do IHGB, sua biografia é sídios para uma história das relações
muito desconhecida e procuramos lan- comerciais e diplomáticas de Portugal
çar sobre ela alguma luz. Também tra- com as Potências Norte-Africanas e
tamos da participação nessa história do outros atores mediterrâneos. Vimos
Conselheiro Antônio Menezes Vascon- emergir a partir dessa miríade de refe-
cellos de Drummond, que trouxe para rências e vestígios diplomáticos uma
o IHGB a cópia feita pelo amigo Costa rede transatlântica envolvendo ho-
e Sá. Oferecemos aqui uma análise da mens de letras em Portugal, África e no
materialidade do manuscrito, partindo Brasil, mostrando que o Diccionario das
dos suportes da cópia, lidando com Antiguidades de Portugal é uma obra
questões ligadas à origem dos papéis muito representativa da história da
utilizados, às marcas d‟água e marcas Cultura Escrita nos séculos XVIII e
de uso, como anotações não relaciona- XIX.

O BIBLIOTECÁRIO LUÍS JOAQUIM DOS SANTOS MARROCOS ENTRE OS


MANUSCRITOS E OS IMPRESSOS DA COROA PORTUGUESA NO DESPONTAR
DO SÉCULO XIX
Adriana Angelita da Conceição e Juliana Gesuelli Meirelles

Com a vinda da Família Real portu- tos ilustrados da monarquia que deixa-
guesa à América em 1808 o núcleo do ram Portugal e passaram a viver na
poder monárquico deslocava-se para o outra margem do Atlântico, destaca-
Brasil. As muitas embarcações que mos o bibliotecário Luís Joaquim dos
deixaram Lisboa nesta ocasião trouxe- Santos Marrocos, personagem central
ram pessoas de grande destaque da da discussão que vamos apresentar.
nobreza, assim como diversos apetre- Luís Joaquim chegou em 1811 imbuído
chos e simbolismos, sobretudo, os vin- da responsabilidade de transportar a
culados às atividades da Casa Real, segunda remessa de livros da Bibliote-
que buscaria garantir uma apropriada ca Real d´Ajuda – o último empacota-
instalação e convívio da realeza em mento chegou em fins desde mesmo
terras antes coloniais. Dentre os súdi- ano, sendo que o primeiro tinha de-

84
CADERNO DE RESUMOS

sembarcado no ano anterior. O ajudan- impressos, mas se tornou responsável


te de bibliotecário chegou ao Rio de – por indicação do Príncipe Regente –
Janeiro sem muitas perspectivas: temia pelos estratégicos manuscritos reais.
as condições da atual sede da monar- Nesta função, conforme compartilhou
quia, pois pressentia as tensões socio- com o pai em uma carta de julho de
políticas que germinavam, assim como 1811, o monarca lhe conferia um cargo
as que se mantinham na Europa. Pe- que demandava “segredo, importância e
rante a nova configuração pessoal, en- responsabilidade”. Os papeis de punho
controu no papel e na pena grandes da monarquia lusa recebiam um tra-
aliados para sanar as saudades, as dú- tamento diferenciado e não foram in-
vidas frente à vida no Rio de Janeiros, corporados ao acervo da Livraria –
assim como, os questionamentos dian- questão que destaca os valores simbó-
te do trabalho que passava a desenvol- licos que os manuscritos passaram a
ver junto aos papeis reais. De abril de adquirir após a invenção da imprensa,
1811 a março de 1821, escreveu deze- pois imputava-os um maior controle
nas de cartas ao pai, Francisco José dos de produção e circulação. Neste senti-
Santos Marrocos, seu principal interlo- do, essa apresentação tem como objeti-
cutor em relação aos assuntos e pro- vo problematizar a natureza das rela-
blemas da vida pública e privada. Este ções interatlânticas entre os papeis im-
conjunto documental vem sendo anali- pressos e manuscritos da Coroa na
sado pela historiografia sob diferentes primeira metade do século XIX. Para
perspectivas de análise, em especial, isso, nossa apresentação tem como foco
sobre os que se dedicam a analisar as três principais temáticas de análise: a)
intrigas, as adaptações e os desajustes a trajetória de Luís Joaquim dos Santos
da corte portuguesa após a travessia Marrocos entre bibliotecas e a prática
atlântica. Luís Joaquim, até sua morte de escrita de cartas, b) sua relação com
em 1838, não deixou de cuidar dos li- os manuscritos e com os impressos da
vros e da biblioteca que se estruturava Coroa e c) a sistematização e cataloga-
no Rio de Janeiro. Entretanto, não teve ção que elaborou referente aos papeis
apenas responsabilidades junto aos de punho da coroa portuguesa.

UMA CULTURA ESCRITA “DAS RUAS” NO MOVIMENTO BAIANO DE 1798?


Rodrigo Oliveira Fonseca

Pretende-se nessa comunicação abor- pelos revolucionários de 1798. Nos es-


dar problemas e oportunidades em tudos discursivos, tomando os textos
torno de uma investigação sobre o mo- como objetos de análise, busca-se o con-
vimento revolucionário baiano de 1798 dicionamento verbal das posições ideo-
com ancoragem nos estudos históricos lógicas construídas, suas margens, fu-
e nos estudos discursivos de viés mate- ros e confrontos, com seu poder de
rialista. Nos estudos históricos, vendo interpelação e parafrasagem. Uma tal
nos textos fontes, busca-se apreender o “duplicidade” tem como objetivo que-
universo das práticas e dos sujeitos brar espelhamentos, homologias e
históricos que tornam compreensíveis isomorfismos entre o lugar social dos
as demandas e horizontes sustentados sujeitos históricos, seus dizeres e seus

85
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

propósitos. Se a cultura escrita não é (RANCIÈRE, 1996), as apropriações


registro passivo e automático das rea- discursivas de um argumento ou as
lidades que a instituem, também os ilusões projetivas de uma prática que,
dizeres, em suas margens equívocas e de uma cultura escribal calcada em
polissêmicas, tanto figuram quanto hierarquias e desigualdades, de uma
transfiguram suas referências. Todo partilha desigual de bens culturais e de
dizer historicamente tomado é signifi- conteúdos políticos, extraem e reinven-
cante de experiências recortadas e é ele tam um programa pelo qual – mesmo
próprio experienciado em meio a uma sem qualquer futuro brilhante naquele
pulsação entre o ainda sem-sentido e o horizonte – uma outra cultura escribal
já-sentido (mas indesejado) para os se inscreve em cartazes/pasquins de
seus interlocutores, funcionando soci- fundo republicano e igualitário. Os
almente neste batimento. Uma aborda- “prelos” e “avizos” espalhados pela
gem materialista é aquela que, mobili- cidade de Salvador a 12 de agosto de
zando a materialidade sígnica e a ma- 1798 não são cópias e extrações textu-
terialidade histórica, compreende o ais dos escritos franceses ilegalmente
fato de que não falamos palavras e trazidos e traduzidos. Contêm infor-
nem tampouco falamos seus conteú- mações, palavras e ideias destes, por
dos, mas falamos com palavras (OR- certo, mas tanto desenham um hori-
LANDI, 2007, p. 15). Mas quem pode zonte peculiar – com destaque para a
falar com essas e com aquelas palavras, centralidade da pauta antirracista -
e através dessas e daquelas culturas da quanto caracterizam outra cultura es-
escrita? Ao mesmo tempo posição teó- crita, praticada de forma associada a
rica e de trabalho, estas questões esta- gestos de enfrentamento político pú-
rão ao fundo de um exercício compara- blico e irreverente, como a destruição
tivo entre duas culturas escribais per- da forca em princípios do ano de 1798
tinentes aos sujeitos da Conjuração e a simulação de edital ordenando o
Baiana. Por um lado, há de se concor- tabelamento da carne semanas antes
dar com Marcello Moreira quando dos cartazes/pasquins de 12 de agosto.
classifica de ineludível “o caráter de Pretende-se, enfim, nesta comunicação,
subordinação que marca os procedi- esboçar enquadramentos conceituais
mentos de vulgarização da informação de uma cultura escrita “das ruas” que
de cunho político entre condições soci- não é mero recalque e incompreensão
al muito desigual” (2009, p. 498). No da cultura escrita dos setores descontes
entanto, por tal constatação, fica por das camadas dominantes.
ser compreendido o desentendimento

AS CARTAS PUBLICADAS NOS PERIÓDICOS IDADE D‟OURO DO BRAZIL E


SEMANÁRIO CÍVICO: OS QUESTIONAMENTOS SOCIAIS AO GOVERNO
CONSTITUCIONAL (BAHIA – 1821)
Marcelo Renato Siquara Silva

A instalação de um governo liberal e tativas. A Junta Provisória de Governo


constitucional para o Reino do Brasil estava encarregada de eliminar os
criou em Salvador uma série de expec- mandos e desmandos tão recorrentes

86
CADERNO DE RESUMOS

ao longo do Antigo Regime. Os habi- Qual o objetivo? Questionar perma-


tantes da província da Bahia passaram nências e requerer mudanças. Um mis-
a acreditar na possibilidade de superar sivista anônimo, autointitulado “Ami-
os vícios persistentes desde as admi- go que professa a Constituição”, ques-
nistrações anteriores. No entanto, para tionou a limitação da liberdade de ex-
infelicidade e frustração de muitos, pressão, isso em decorrência da exis-
não foi bem isso o que de fato aconte- tência da Comissão de Censura. Outro
ceu. Uma das primeiras medidas ado- missivista questionou a situação da
tadas pelo novo governo foi justamen- instrução pública, destacando a neces-
te a instalação de uma Comissão de sidade de ampliação no número de
Censura. A partir de então, quaisquer Mestres Régios e a importância no au-
gazetas, periódicos, livros e demais mento da remuneração paga anual-
papéis só seriam impressos se obtives- mente a tais profissionais. Cabe ainda
sem a concessão de uma licença. A mencionarmos o problema persistente
princípio, para um pesquisador desa- no âmbito do abastecimento público. O
visado, pode parecer que essa medida missivista “C”, também autodenomi-
se tornou um entrave à participação nado “Honrado pai de Família”, real-
social. Contudo, ao analisarmos com çou a necessidade de revisão quanto ao
mais atenção as fontes primárias do sistema de pesos e medidas, o preço
período, percebemos que, a partir do final praticado junto ao consumidor
recurso aos princípios constitucionais local e a própria condição de salubri-
vigentes no Império Português, tor- dade dos alimentos comercializados.
nou-se possível superar essa barreira. Para finalizarmos o campo dos exem-
Os habitantes da Bahia passaram a plos, cito o missivista autointitulado
questionar todos os pressupostos que “O Amante da Pátria”. Este, por sua
desvirtuavam as expectativas alimen- vez, em carta publicada no periódico
tadas pelo corpo social. Nesse sentido, Idade d‟Ouro do Brazil, questionou o
é importante destacarmos o impacto recrutamento compulsório de estudan-
exercido pelo Catecismo Político. Ori- tes e a permanência de inúmeros pre-
undos dessa realidade histórica, os de- sos políticos na Cadeia Pública de Sal-
bates ocorridos nas praças e demais vador. Enfim, são essas as realidades
espaços públicos ─ envolvendo temas históricas postas em análise. Os pro-
como igualdade, direitos dos homens, blemas se mostraram persistentes e
liberdade, representatividade, etc. ─ não se resumiram a estes. Da mesma
favoreceram e potencializaram o en- forma, plurais foram os debates e as
volvimento político dos cidadãos. To- tentativas de resolução envolvendo
mada por essa efervescência política, a sugestões das instâncias de poder e da
imprensa local se constituiu em uma própria sociedade baiana. O aprofun-
ativa arena de debates. O Idade d‟Ouro damento na análise desse objeto de
do Brazil e o Semanário Cívico foram estudo tende a favorecer uma melhor
os periódicos mais procurados. Não percepção de suas nuanças, bem como
foram poucos os soteropolitanos que permitir e facilitar novas formas de
recorreram ao expediente de publica- abordagem e estudo.
ções de cartas nos periódicos locais.

87
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

SIMPÓSIO TEMÁTICO 5
Dimensões da desordem em colônias: ilicitudes, descaminhos e
heterodoxias religiosas

Coordenadores: Paulo Cavalcante (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Letícia Ferreira


(Universidade Federal Fluminense)

13 de setembro de 2016

“NAS SUAS APERTADAS MÃOS”: A CENTRALIDADE DA ADMINISTRAÇÃO


DA FAZENDA NO IMPÉRIO PORTUGUÊS
Marcos Guimarães Sanches
A América portuguesa conheceu desde ministrativo já bastante amadurecido e
1549 uma estrutura vertical de admi- institucionalizado nas Ordenações do
nistração da Fazenda. Junto a institui- século XV. Coincidam também com a
ção do Governo Geral, justiça e fazen- relativa universalização da capacidade
da passaram a dispor de “ramos” ad- tributária da monarquia, sobretudo
ministrativos específicos. A presente através das sisas. O foco da atuação
comunicação parte do pressuposto que monárquica, em um quadro de uma
a Fazenda, em Portugal, foi elemento sociedade estamental, estava na esfera
central, ainda que não exclusivo, da da circulação, na qual os “tratos” mer-
consolidação da monarquia, seguindo cantis com as conquistas vão se tornar
o entendimento de Magalhães Godi- cada vez mais significativos ao longo
nho, projetando-se o mesmo sentido na do século XVI, como nos revela a im-
organização da administração fazendá- portância da Alfândega de Lisboa. Na
ria das colônias, onde a extração fiscal América, a tributação mais relevante
estava também concentrada nas “aper- incidia sobre a produção - os dízimos -
tadas mãos” reais (Joaquim Romero de e embora formalmente pertencentes a
Magalhães). Compreender a instituição Ordem de Cristo constituíam extração
da administração fazendária e sua di- direta da Fazenda Real, cabendo ainda
nâmica de funcionamento pode ser aos titulares do ofício o exercício cu-
reveladora da natureza da colonização mulativo do Juízo da Alfandega, que
na época moderna, ainda que seu or- embora, no limite do conhecimento
denamento deva ser compreendido à atual, não tenham tido maior peso ar-
luz do arranjo social no qual estava recadatório, no primeiro século da co-
inserido com pleno envolvimento de lonização, representavam um ponto
sujeitos da sociedade colonial em sua de interseção da colônia nos circuitos
operação, inclusive constituindo-se em mercantis globais, efetivando de algu-
elemento de reprodução de tais gru- ma forma e em diferentes graus o con-
pos. A criação da Provedoria-Mór e trole da metrópole, sobre a inserção
das Provedorias de Fazenda, hierar- das suas conquistas em um sistema
quizadas em um mesmo ordenamento, mundial.
projetavam na colônia um arranjo ad-

88
CADERNO DE RESUMOS

GOVERNANÇA E PRÁTICAS POLÍTICAS: A TRAJETÓRIA DO 1º CONDE DE


ÓBIDOS NA AMÉRICA PORTUGUESA (1663-1667)
Michelle Samuel da Silva

O presente estudo visa tratar da admi- teve a função de mostrar as suas obri-
nistração do vice-rei D. Vasco de Mas- gações e definir os limites de suas
carenhas, 1º conde de Óbidos, que go- áreas de abrangência. Mostraremos
vernou o Estado do Brasil entre os nesse trabalho que o regimento enca-
anos de 1663 a 1667. A análise pautará minhado aos capitães-mores foi essen-
especificamente nas capitanias do Rio cial para estabelecer a reorganização
de Janeiro e de Pernambuco no perío- do Estado do Brasil, principalmente
do posterior à Restauração. Pretende- com relação ao governo local. A admi-
se compreender suas práticas governa- nistração de Salvador Correia de Sá e
tivas e sua relação política com os go- Benevides nas capitanias do Sul e dos
vernadores dessas capitanias em um govenadores das capitanias do Norte
momento de ascensão e consolidação contribuíram para o comprometimento
da dinastia Bragantina. Através do re- da autoridade do Governo-Geral, situ-
gimento dos capitães-mores de 1663, a ação que o Vice-rei teve que solucionar
capitania do Rio de Janeiro e as demais com o objetivo de manter a ordem na
do sul voltaram a ser subordinadas ao Colônia. Outro aspecto relevante con-
Governo-Geral da Bahia. No que se tido no regimento que contribuiu para
refere aos problemas de jurisdição em efetivar a política de reorganização do
Pernambuco, sendo estes constantes no Estado do Brasil foi a proibição de to-
Brasil colonial, o regimento foi funda- dos os governadores das capitanias
mental para definir os espaços de ju- realizarem a concessão de sesmarias.
risdição das capitanias menores, uma Uma situação curiosa relacionada à
vez que os governadores de Pernam- capitania do Rio de Janeiro referiu-se
buco tiveram a intenção de ampliar os no envolvimento do conflito entre a
seus espaços de jurisdição fazendo câmara e as ordens religiosas pela me-
com que essas capitanias fossem su- dição das terras. Ao contrário de sua
bordinadas a Pernambuco. Coube, en- atuação no governo da Índia, o Vice-rei
tão, ao Vice-rei D. Vasco de Mascare- D. Vasco de Mascarenhas concluiu sua
nhas, a aplicabilidade daquele regi- administração no Estado do Brasil. A
mento, principalmente nas capitanias sua “arte de governar” consolidou as
do Norte. A atuação do Vice-rei D. questões pendentes na América portu-
Vasco de Mascarenhas foi fundamental guesa em um momento de instabilida-
no sentido de aprofundar o controle do de na metrópole, sendo necessário au-
Governo-Geral, que se afrouxara no mentar o controle no Brasil. As críticas
decurso da guerra holandesa. Os capi- que foram levantadas contra ele pelos
tães-mores que administravam as capi- vassalos, causando inclusive queixas
tanias menores passaram a ser direta- formais ao rei, como por exemplo, a do
mente sujeitos ao Governo-Geral na secretário de Estado Bernardo Vieira
Bahia sem a intermediação dos gover- Ravasco, não o impediram de governar
nadores de Pernambuco ou do Rio de e colocar em prática o papel ao qual foi
Janeiro, a quem o 10 conde de Óbidos designado.

89
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

CAMINHOS E DESCAMINHOS: DIÁLOGOS DO PRESENTE E


EVIDÊNCIAS DO PASSADO
Isnara Pereira Ivo

Para a lógica histórica, é impossível do, extravio e desvio dos direitos reais
olhar o passado sem conhecer as inter- na Capitania de Minas Gerais, durante
pretações e teorias elaboradas para o século XVIII. O repertório dos dados
compreensão das fontes: “o discurso é composto por ordens régias, portari-
histórico disciplinado da prova consis- as, alvarás, provisões, bandos e por um
te num diálogo entre conceito e evi- conjunto de correspondências emitido
dência; um diálogo conduzido por hi- pelas autoridades coloniais, referente
póteses sucessivas de um lado, e pela ao sistema de contratos das rendas e direi-
pesquisa empírica, por outro”. Indiví- tos reais, uma das principais formas de
duos, grupos e instituições, tais quais arrecadação das receitas do império
historiadores, ao escreverem a história, português, o que resultara de acordos
coetaneamente, elaboraram ideias, temporários estabelecidos entre co-
conceitos e teorias acerca do seu uni- merciantes de grosso trato e o monar-
verso cultural que, ao longo do tempo, ca. Os diários dos registros fiscais, ins-
são resignificadas. O desafio é retornar talados ao longo dos caminhos que
às evidências pretéritas, sem correr o interligavam os sertões da Bahia e Mi-
risco de ressuscitar a premissa máxima nas Gerais, mostram distintas maneiras
do manual positivista de Langlois e de usos e aplicações acerca dos termos
Seignobos: a história se faz com docu- “Caminho” e “Descaminho”. Foram
mentos, não obstante se compreenda encontradas denominações variadas ao
que o processo histórico seja indireto, que se referem ao que simplificamos,
indiciário e conjetural. Pretende-se nes- muitas vezes, de forma dicotômica, os
ta comunicação mostrar como os con- conceitos de caminhos e descaminhos,
ceitos de “Caminho” e “Descaminho” caminhos e picadas, desvios e extravi-
são utilizados nas fontes coevas seleci- os, desencaminhadores e contrabandis-
onadas e como são aplicados em rela- tas.
ções com as atividades de contraban-

ASPECTOS FISCAIS NA DESORDEM NA AMÉRICA: AS MINAS NO INÍCIO DO


SÉCULO XVIII (1710-1730)
Lincoln Marques dos Santos

O trabalho discutirá a cobrança do desordem no mundo colonial, apresen-


quinto régio a partir da problematiza- tando-os como critérios norteadores
ção dos conflitos e ocorridos nas Minas para as ações políticas e administrati-
Gerais na primeira metade do século vas que levaram à consolidação da
XVIII e das estratégias de ação da co- presença da coroa lusa e de seus inte-
roa para afirmar sua autoridade. A resses em território americano.
proposta é descortinar os aspectos da

90
CADERNO DE RESUMOS

DONALD CAMPBELL E O RIO DE JANEIRO NO ALVORECER DO OITOCENTOS:


REFLEXÕES SOBRE A DEFESA DA COLÔNIA
Marieta Pinheiro de Carvalho

A conjuntura das guerras peninsulares meado chefe da esquadra da Armada


europeias de fins do setecentos e início Real, sendo responsável por gerenciar
do oitocentos influenciou o contexto as ações de defesa do litoral da Améri-
interno do reino português, ao longo ca portuguesa, sobretudo do Rio de
desse mesmo período. Tal questão de- Janeiro, então capital do vice-reino. O
ve ser observada não apenas num viés objetivo desta comunicação é analisar
da sua política exterior, como também um conjunto de escritos desse inglês –
no que tange às relações com as suas endereçados a autoridades coloniais e
conquistas, sobretudo, com os domí- metropolitanas – cuja temática princi-
nios da América, considerado, então, a pal é a defesa da colônia contra as po-
mais importante das possessões ultra- tências estrangeiras, num contexto es-
marinas. Foi justamente nesse período sencialmente marcado pelo contraban-
que o inglês Donald Campbell foi no- do.

14 de setembro de 2016

NAS ROTAS SERTANEJAS: COMÉRCIO E ILEGALIDADE ENTRE BAHIA


E PERNAMBUCO (1759-1780)
Jéssica Rocha de Sousa

O presente trabalho tem por objetivo futuro marquês de Pombal, para o car-
investigar a atuação das redes de co- go de primeiro ministro do reino. Esse
mércio interno que se desenvolveram conjunto de medidas modernizadoras
durante os anos de 1759 a 1780 entre as tinham por objetivo uma maior centra-
capitanias de Bahia e Pernambuco. lização do poder real, bem como um
Nosso marco cronológico inicia-se em maior domínio econômico sobre as
1759, ano em que foi instalada a Com- conquistas e colônias na tentativa de
panhia Geral de Comércio de Pernam- revitalizar o comércio português e
buco e Paraíba, detentora do “comércio combater o atraso econômico da me-
exclusivo das duas capitanias de Per- trópole. O monopólio desenvolvido
nambuco e Paraíba, com todos os seus pela Companhia durante pouco mais
distritos, e nos quais ninguém mais de vinte anos, veio alterar toda uma
podia extrair, mercadorias, gêneros ou lógica comercial, baseada no livre co-
frutos” (CARREIRA,1989, P. 224). A mércio, que já estava bem estabelecida
empresa criada na segunda metade do em Pernambuco. Nosso ponto de aná-
XVIII vinha atender a uma nova ordem lise, parte da identificação de que a
administrativa ligada às questões mais partir da instalação da Companhia Ge-
pragmáticas de governança que se ral, os locais irão buscar estratégias de
buscou estabelecer em Portugal a par- evasão do controle régio, um desses
tir da nomeação de Sebastião José de meios de fuga será o contrabando de
Carvalho e Mello – Conde de Oeiras, o mercadorias realizado através dos ser-

91
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

tões que uniam as capitanias vizinhas de do XVIII. No bojo dessas questões, o


de Pernambuco e Bahia e que tinham comércio ilegal com a capitania baiana,
no Rio de São Francisco e seus afluen- que contava apenas com uma Mesa de
tes a peça chave desse circuito de co- Inspeção, e não com uma companhia
mércio ilícito. Antes da instalação da comercial monopolizadora, ganhará
Companhia o comércio entre as duas vulto. Utilizando as paragens sertane-
praças já existia e estava bem consoli- jas, através de seus rios, pequenos por-
dado, no entanto, a partir da criação da tos navegáveis e caminhos de terra os
empresa esse comércio sertanejo acaba transgressores farão ir e vir entre Bahia
ganhando expressividade. A grande e Pernambuco uma grande sorte de
dilatação da costa pernambucana, o produtos como: caixas de açúcar, ma-
envolvimento de autoridades régias, deira, tabaco, escravos, mel, sola, couro
oficiais e próprios deputados da Com- e uma infinidade de miudezas, trans-
panhia no esquema ilícito somado a formando dessa forma, o trânsito de
parca força repressiva empregada no mercadorias ilícitas entre as duas pra-
seu combate e o desejo de senhores de ças em rotina. Nossa hipótese é de que
engenhos, produtores e comerciantes esse comércio clandestino possivel-
de fugir das malhas do comércio mo- mente veio contribuir para o aumento
nopolista farão com que a prática se da força econômica do sertão localiza-
torne uma constante na segunda meta- do entre as duas capitanias.

O CONTRABANDO DE ESCRAVOS PARA O RIO DA PRATA: OS


COMERCIANTES DE SALVADOR E O TRÁFICO NA COLÔNIA DO
SACRAMENTO, 1735 – 1777. NOTAS DE PESQUISA
Paulo Roberto Gonchoroscki Gonçalves

As relações entre as Coroas ibéricas no da América. Segundo Fábio Kühn, es-


Rio da Prata vêm de longa data e são tima-se que no decorrer dos anos de
divididas por alguns autores em eta- 1740 a 1777, passaram pela Praça da
pas. Corsino Medeiros as divide em Colônia, em direção da América espa-
três: a primeira, que foi a menor em nhola, entre 15 e 30 mil cativos. Com
tempo, foi caracterizada por remessas origem principalmente nos dois prin-
livres e transcorreu do descobrimento cipais portos da colônia portuguesa na
até 1513; a segunda foi o período das América, Bahia e Rio de Janeiro. Sabe-
licenças, de 1513 a 1595; e a terceira foi mos que a Bahia, principalmente Sal-
o período dos asientistas que foi de vador, foi um dos principais portos de
1595 a 1640. Esta última foi a que esta- desembarque de cativos escravizados
bilizou o tráfico e orientou o abasteci- da América, recebendo em torno de
mento durante todo o período colonial, um milhão e cem mil escravos até o
sendo responsável pela entrada de século XVIII. Os comerciantes baianos
aproximadamente 44 mil escravos no que atuavam na África e suas relações
porto de Buenos Aires. Estes escravos com os africanos detinham a primazia
eram inseridos majoritariamente por do contrabando colonial desenvolvido
Colônia do Sacramento, entreposto até o século XVIII, abrangendo o con-
avançado da coroa portuguesa no sul trole do tráfico de escravos para as Mi-

92
CADERNO DE RESUMOS

nas Gerais. As Minas eram o principal ções com o contrabando para o sul da
foco dos traficantes baianos no perío- América. Agora, a partir da pesquisa
do, tendo em vista que nestas localida- que desenvolvo no programa de pós-
des o preço pago pelos escravos era graduação da Universidade Federal do
muito superior àquele pago pelos se- Rio Grande do Sul, procuro ampliar a
nhores de engenho e também por este ótica e explorar alguns aspectos sobre a
pagamento ser feito em ouro. No en- configuração e as relações do grupo
tanto, outras pontas da América tam- mercantil soteropolitano com os agen-
bém estavam conectadas pelas redes tes da Colônia do Sacramento. Por
de distribuição de cativos. Este é o caso conseguinte, utilizo os registros de óbi-
do sul da América, que mesmo distan- tos de escravos para identificar os
te do porto negreiro baiano e tendo o agentes que ligavam as redes comerci-
Rio de Janeiro como abastecedor pri- ais do sul da América. Opto por esta
mário de mão de obra cativa, tinha a fonte, pois em alguns assentos o padre
Bahia como abastecedor complementar identificava os responsáveis pelo envio
de escravos. Segundo Alex Borucki, a e recebimento dos cativos, anotando a
Bahia era responsável pelo envio de quem pertencia o escravo – da conta de
25% dos cativos que entravam no rio – e quem se responsabilizava por ele
da Prata, participando, assim, das co- em Colônia. Através desta fonte foi
nexões comerciais entre a África e o sul possível identificar alguns dos respon-
da América. Em trabalho recente, ana- sáveis pelo tráfico transimperial que
lisei um desses traficantes e suas rela- abordarei neste estudo.

PONTOS ESTRATÉGICOS DO (DES)CAMINHO: OS CRISTÃOS-NOVOS NOS


LIMITES DO SERTÃO DA BAHIA E DAS MINAS 1720-1735
Paula Regina Albertini Túlio

A descoberta do ouro, no final século mente, homens de negócios, mercado-


XVII, acarretou uma verdadeira corri- res e mineradores. A participação de
da para as Minas, sendo que um nú- cristãos-novos no comércio colonial, no
mero considerável era de cristãos- processo de formação das redes de
novos. A maioria das prisões de cris- contrabando e nos descaminhos é um
tãos-novos, registrada na região, foi assunto pouco abordado pela historio-
efetuada na primeira metade do século grafia mineira assim como a presença
XVIII, motivadas por acusações de ju- dos cristãos-novos na região minera-
daísmo. Tais prisões coincidem com o dora e as suas atividades econômicas,
auge da expansão e produção aurífera, sociais e cotidianas. Conforme desta-
sendo que a maioria dos réus estava cado o assunto é comentado, mas pou-
envolvida em atividades comerciais co estudado, pesquisado e aprofunda-
com as Minas. Eles eram, principal- do até o momento.

93
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

O SECRETÍSSIMO PLANO DE COMÉRCIO E DE SEGURANÇA (CONTRABANDO


EM ESPAÇO DE FRONTEIRAS IMPERIAIS, 1770-1777)
Otávio Ribeiro Chaves

A presente comunicação tem como tado do Grão-Pará e Maranhão e a ca-


proposta investigar o contrabando pitania de Mato Grosso. O contraban-
num espaço compreendido pela capi- do realizado nesse espaço de fronteiras
tania de Mato Grosso e as antigas mis- imperiais sul-americanas fazia parte
sões jesuíticas de Mojos e Chiquitos no desse ambicioso projeto. O objetivo
período de 1770- 1777 (Vice-Reinado principal da Monarquia portuguesa
do Peru). O Secretíssimo Plano de Co- era drenar a prata espanhola de Potosí,
mércio e de Segurança, aprovado pelo via as capitanias-fronteiriças de Mato
monarca D. José I em 1770, visava ga- Grosso, Grão Pará e São José do Rio
rantir a defesa político-territorial e es- Negro com os domínios espanhóis na
timular o comércio regular entre o Es- América do Sul.

OS DESCAMINHOS DOS CONTRATADORES DAS RENDAS REAIS NO MARA-


NHÃO E GRÃO-PARÁ. PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVIII
Raimundo Moreira das Neves Neto

O presente trabalho abordará a ques- contratos do Piauí, igualmente encon-


tão da arrematação das rendas reais trados no APEP, aparece apenas o ter-
nas capitanias do Pará, Maranhão e mo dízimo, embora percebamos que
Piauí, matéria de considerável gravi- seja dividido em dois ramos: os “dízi-
dade para a administração fazendária mos da terra” e os “de fora”. Com o
colonial, tendo em tela o recorte tem- passar do tempo vão se criando novos
poral da primeira metade do século ramos para os contratos, mesmos ra-
XVIII. Descortinando os bastidores das mos que são unificados em outras
arrematações dos contratos, buscarei oportunidades. Para o Pará, até onde
lançar luz sobre os interesses dos seus percebemos com relação à primeira
contratadores e, de igual modo, os con- metade do século XVIII, a tendência foi
luios nos quais se inseriam com o obje- unificar todas as rendas reais, apesar
tivo de maximizar os seus lucros. Nes- de uma tentativa frustrada de separa-
se sentido, abordarei, ainda, os desca- ção. Não apenas o contratador, mas
minhos da Fazenda Real na capitania. toda a rede de agentes envolvida nos
Um significativo aspecto que gostaria contratos se beneficiava da atividade.
de ressaltar é a diferença entre os con- Exemplar é o caso de Diogo Manem e
tratos do Pará, Maranhão e Piauí. Os Companhia, contratador do Pará. Ele,
da capitania do Pará são muito abran- junto com sua rede, foi bem hábil para
gentes, abarcando todas as “rendas alcançar muitos lucros ilegítimos na
reais”. Em São Luís, pelos contratos coleta dos dízimos do cacau. Aliás,
que foram encontrados no Arquivo Governadores e Provedores ora se co-
Público do Pará (APEP), percebemos locavam contra os conluios e descami-
que os mesmos são divididos em dois nhos da Fazenda real provocados pelos
ramos: dízimos e subsídios. Já para os contratadores, ora tinham até certa

94
CADERNO DE RESUMOS

participação neles. O cacau, nesse sen- mos 1730-1732; Dízimos 1739-1741),


tido, é significativo quando conside- Manuel Gaspar Neves apresenta uma
ramos a luta entre governadores e con- considerável, porém turbulenta, parti-
tratadores. Os primeiros intentando cipação na administração colonial da
alcançar o pagamento do contrato todo capitania. É que além dos três contra-
em cacau, para daí se proceder ao pa- tos arrematados em São Luís do Mara-
gamento dos filhos da folha no mesmo nhão, ele buscou ocupar alguns cargos
gênero. Já os contratadores, buscavam de prestígio naquela capitania. Assim,
ficar com o máximo de cacau em suas além de contratador dos dízimos e
mãos para com ele fazer inúmeras ne- subsídios, foi capitão, Juiz de órfãos
gociações bastante vantajosas. A fun- (por volta de 1735), escrivão da fazen-
ção de contratador também foi utiliza- da, almoxarifado e alfândega (posse
da para alcançar outros postos na em 16 de novembro de 1745) e Juiz Or-
Conquista, funções que inclusive eram dinário (posse em 15 de fevereiro de
empregadas para se esquivar das in- 1746). Em verdade, veremos que o dito
vestidas dos agentes da Fazenda Real cargo de escrivão já tinha sido com-
contra os contratadores. Nesse sentido, prado de modo ilegal um pouco antes
figura constante nos contratos das ren- por Manuel, sendo depois confirmado
das reais da Capitania de São Luís do no seu ofício.
Maranhão (Subsídios 1724-1726; Dízi-

CONTRATOS-RÉGIOS E OS DESCAMINHOS: O CASO DAS DÍVIDAS DO


NEGOCIANTE ANDRÉ MARQUES GOMES (1743-1751)
Gabriel Silva de Jesus

A presente estudo propõe fazer uma nhecido como a idade do ouro, devido
análise acerca das dívidas dos contra- às famosas descobertas das minas de
tos-régios administrados pelo negoci- ouro e diamante dos sertões brasilei-
ante André Marques junto a Fazenda ros. Ademais, as fontes manuscritas
Real. Partindo desse caso, procuramos para a realização do estudo foram ex-
analisar ao longo do texto alguns obje- traídas do conhecido Projeto Resgate
tivos específicos, dentre os quais a ave- do Conselho Ultramarino. Durante a
riguação realizada pela Fazenda Real pesquisa consultamos cartas, requeri-
das dívidas do dito negociante, um mentos e pareceres do Conselho Ul-
possível envolvimento de um tesourei- tramarino, permitindo entrar no obs-
ro da Fazenda Real com o negociante, curo mundo dos descaminhos dos con-
as dívidas das propinas de munições tratos-régios. Finalmente, pretendemos
de guerra e obra pia, os argumentos de com a elaboração desse estudo, colabo-
defesas utilizados por esse negociante rar em relação às pesquisas que tomam
e a atitude do Conselho Ultramarino como foco o atlântico, preenchendo, de
diante das dívidas de André Marques certa forma, alguma lacuna dentro
Gomes. O recorte temporal elaborado desse mais novo campo historiográfi-
ao longo da pesquisa girou em torno co. André Marques Gomes foi um im-
do duradouro reinado do Rei dom Jo- portante negociante português que
ão V (1706-50). Tal reinado ficaria co- atuou na primeira metade setecentista

95
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

na Praça de Salvador, morrendo em Salvador. Os negócios de André Mar-


Salvador no mês de dezembro de 1755. ques estiveram fortemente ligados ao
Casado com D. Izabel de Almeida, fa- tráfico de escravos, era um dos homens
lecida em 1762, tiveram uma filha, de negócios que tiveram o privilégio
Bernardina Marques de Almeida e um de atuar no ano de 1743 no sistema de
filho Bernardino Marques. Homem de frotas das vinte e quatro embarcações
grandes cabedais, chegaria até mesmo que tinham o direito de resgatar cati-
a conquistar a nobilitada patente de vos na Costa da Mina, detinha uma
capitão professo da ordem de cristo. galera por nome de Nossa Senhora da
Esse negociante atou na câmara de Barroquinha e Santa Rita. Seu cabedal
Salvador, e exerceu o cargo de prove- estava investido em inúmeras casas em
dor na Santa Casa da Misericórdia de Salvador, além de fazendas e escravos.

15 de setembro de 2016

DESCAMINHOS A FAZENDA REAL NO PERNAMBUCO FILIPINO


Rafaela Franklin da Silva Lira

A prática do descaminho esteve pre- sentes nas cartas régias dirigidas as


sente nas relações sociais, políticas e autoridades coloniais questionando a
econômicas entre os diversos grupos escassez de informações sobre os ren-
que constituíam a sociedade colonial. dimentos da Coroa. Neste período fo-
Destacaram-se no exercício das ilicitu- ram então implantadas medidas para
des comerciantes, traficantes, bem co- fiscalizar e reduzir os roubos contra a
mo agentes que ocupavam cargos na Fazenda Real, como o Tribunal da Re-
estrutura administrativa do Brasil. A lação da Bahia fundado em 1609, com
expressão descaminho era utilizada na um juiz destinado a tratar especifica-
documentação do período para fazer mente sobre a matéria, e Junta da Fa-
referência aos contrabandos ou desvios zenda de 1612. Além disso, foram cria-
dos direitos reais. Segundo o Dicionário dos cargos que tinham por função fis-
da Língua Portuguesa de Rafael Bluteau, calizar e punir aqueles que praticassem
trata-se de “má conduta moral; má as fraudes, como também publicados
aplicação, ou nenhuma aplicação da regimentos sobre os produtos coloni-
renda pública, distraídas, e desviadas ais. Analisar a forma como tais órgãos
do fim para que estavao deputadas; foram implantados auxilia na compre-
extravio”. Procuramos aqui compre- ensão da dinâmica entre a recorrência
ender como as fraudes e sonegações dos descaminhos e a instalação de ins-
foram tratadas pela Coroa dos Habs- trumentos jurídico-administrativos que
burgo durante a união dinástica, mo- representavam a Coroa no território
mento em que Portugal e suas posses- ultramarino. Entendemos que essas
sões ultramarinas passaram para o mudanças ocorridas na malha admi-
domínio dos Áustria, de forma mais nistrativa colonial não foram necessa-
específica no reinado de Filipe III de riamente um reflexo da centralidade
Espanha (1598-1621). A preocupação dos Habsburgo, mas uma forma de
com os desvios de recursos estava pre- garantir a governabilidade ao promo-

96
CADERNO DE RESUMOS

ver adaptações de sua estrutura gover- várias sentenças decretadas pela Rela-
nativa à realidade local. As novas insti- ção contra funcionários da Coroa como
tuições intensificaram as investigações almoxarifes, escrivães da Alfândega,
e a realização de devassas para possí- capitão-mor do mar, entre outros, que
vel identificação e punição dos envol- receberam ordenados de forma irregu-
vidos. Assim, buscamos apresentar as lar, lesando assim o tesouro real. Pro-
denúncias sobre os roubos e as ações curamos também observar se as sen-
por parte da Coroa para reduzir tais tenças estavam em consonância com
práticas, como o Alvará autorizando Ordenações Filipinas, pois as negocia-
André Farto da Costa, secretário da ções com as elites locais permitiam, por
Junta, a consultar os livros, cadernos e vezes, o abrandamento das penas. As
provisões da capitania de Pernambuco fontes utilizadas para análise formam
em busca de indícios sobre os desvios. o corpo documental do Arquivo Histó-
Verificamos também a existência de rico Ultramarino.

UM OLHAR SOBRE AS ADVERSIDADES DO SÉCULO XVII: GREGÓRIO DE


MATOS E SEBASTIÃO DA ROCHA PITA
Cintia Goncalves Gomes Oliveira

O presente trabalho tem como finali- caritativa: fere para curar” (HANSEN,
dade analisar os escritos de dois per- 1989, p. 28). Gregório de Matos, apesar
sonagens contemporâneos de nossa de ser brasileiro, apresentava uma vi-
História: Gregório de Matos, o Boca do são da aristocracia de Portugal, pois,
Inferno, e Sebastião da Rocha Pita, o além de ter vivido grande parte de sua
Acadêmico Vago, e seus diferentes vida em território Luso e prestado ser-
pontos de vista a cerca da complexa viços para a Coroa, o poeta fazia parte
situação enfrentada pela Bahia em fi- de uma nobreza que estava perdendo
nais do século XVII. Desse modo, além seu espaço de poder com a redefinição
de englobar a análise da História da da economia mercantilista, sendo en-
sociedade baiana na segunda metade tão uma visão conservadora, moralista
do século XVII, que passava por uma da sociedade colonial, apresentada pe-
grave crise econômica, buscar-se-á ve- la abordagem do poeta da vida na co-
rificar também sua influência nos escri- lônia que estava em transformação e
tos contemporâneos, como na obra do que sempre era comparada com seu
poeta Gregório de Matos, que encon- passado e com a metrópole. Diante
trou nos seus poemas uma forma de desse contexto, considerar seus poe-
denunciar o que acontecia na Bahia e mas e poesias de forma isolada nos
uma forma de solucionar os proble- permite apenas uma análise superficial
mas, talvez seguindo o que afirma o e de uma parte do que estava aconte-
antigo provérbio latino “ridendo castigat cendo. Logo, analisar os escritos de
mores”, ou seja, a rir se corrigem os cos- Sebastião da Rocha Pita em seu livro
tumes. Assim, o poeta não propunha História da América Portuguesa se torna
uma solução prática para os proble- pertinente, pois possuía um ponto de
mas, mas, através dos apontamentos vista e uma posição diferente de Gre-
das falhas, buscava a correção como gório de Matos, mesmo sendo contem-
nos mostra Hansen “a sátira é guerra porâneo do poeta e tendo uma situação

97
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

muito próxima a ele no que se refere à História da América Portuguesa “com


proximidade com a Coroa, pois ocu- todas as licenças necessárias”, como
pou o cargo de coronel do regimento aparece na contra capa da obra. Esta
privilegiado de ordenanças – título comparação é importante pelo fato de,
atribuído, na época, a pessoas impor- no mesmo momento, existirem pessoas
tantes pelo respeito social, pela fortuna que tiveram reações distintas diante da
e pela ascendência. Também foi fidalgo crise, permitindo compreender melhor
da casa real, cavaleiro da Ordem de tal documentação. Nesses documentos,
Cristo, acadêmico supranumerário da os autores apresentam a conjuntura do
Academia Real de História Portuguesa período, suas rupturas e as permanên-
e membro da Academia Brasílica dos cias, porém com pontos de vista e
Esquecidos (BLAKE, 1970, v. 7, p. 214). comportamentos diferentes, o que nos
Pita descreveu a situação complexa da favorece uma compreensão mais apro-
Bahia de maneira mais cuidadosa, ao fundada e completa do período estu-
se referir aos problemas, descreve-os dado, com as iniciativas e atitudes to-
de modo a não emitir julgamento dire- madas por pessoas e instituições para
to, sempre se referindo às fontes que tentarem sanar ou ao menos melhorar
utilizou para recolher tais informações, os problemas enfrentados, principal-
sejam estas fontes documentos oficiais mente no que se refere ao período que
ou relatos da cultura popular. Esse fato envolve a crise e seus desdobramentos.
favoreceu a publicação de seu livro

NORMAS E PRÁTICAS DA INSTITUIÇÃO ALFANDEGÁRIA: RIO DE JANEIRO E


BAHIA, 1697-1733
Grazielle Cassimiro Cardoso

O presente trabalho tem por objetivo referidas soluções práticas eram uni-
analisar algumas diretrizes que regiam formemente encontradas em decorrên-
a administração alfandegária na capi- cia do simples fato de serem regiões
tania do Rio de Janeiro e na capitania coloniais. Trata-se de abordá-las como
da Bahia entre os anos de 1697 e 1733. regiões que se diferenciavam em seu
Abordaremos de forma sucinta aspec- próprio fazer colonial. A instituição da
tos da estrutura organizacional e pro- cobrança da dízima na Alfândega do
cedimentos administrativos das alfân- Rio de Janeiro e na da Bahia surgiu da
degas da Bahia e do Rio de Janeiro. necessidade de proporcionar recursos
Entendemos que entre a norma propa- para as crescentes despesas militares
lada e as soluções práticas encontradas de ambas as capitanias. A do Rio foi
há grande distância. É preciso investi- estabelecida em 18 de outubro de 1699,
gar aquilo que realmente foi praticado, especificamente para o pagamento do
no caso, na Bahia e no Rio, praças co- soldo da Infantaria. Tendo em vista o
merciais importantes devido ao grande reforço da defesa da cidade, a Câmara
fluxo de mercadorias e ao substantivo ofereceu a dízima das fazendas (co-
aparato administrativo. As diferentes brança de 10% sobre as mercadorias
regiões coloniais na América portu- que davam entrada no porto da capi-
guesa não devem ser tomadas como tania do Rio de Janeiro) e, em concor-
unidade monolítica na qual todas as dância, o rei enviaria soldados necessá-

98
CADERNO DE RESUMOS

rios para a praça da cidade e suas for- da na Bahia em 1714 como um dos
talezas. Instituído o contrato da dízi- primeiros atos do então vice-rei do Es-
ma, o rei ordenou ao governador e ca- tado do Brasil, marquês de Angeja. O
pitão-general Artur de Sá e Menezes marquês consegue persuadir os ho-
que fizesse a arrecadação desta contri- mens de negócio que concordaram
buição pela Fazenda Real. O cresci- com o seu estabelecimento para as
mento acelerado da dízima fez com despesas que se fizessem necessárias
que rapidamente esse tributo fosse es- com as naus de guerra encarregadas da
tabelecido também nas demais capita- defesa do litoral (nau guarda-costas).
nias onde igualmente passou a figurar Inicialmente podemos entender a Al-
como o mais importante. A dízima da fândega como instituição fiscal respon-
Alfândega teria sido estabelecida na sável fiscalizar e registrar o movimento
Bahia junto com o Governo-Geral, exis- comercial e da cobrança dos direitos
tindo menção de sua arrecadação até alfandegários, possuidora de uma es-
1640, tendo desaparecido posterior- trutura de funcionamento e pautada
mente e reaparecido no início do sécu- por uma regulamentação. Sim, a Al-
lo XVIII. Em 1711, houve uma primeira fândega possui essas características.
tentativa de restabelecer a dízima da Mas entendo que é preciso ir mais lon-
Alfândega, mas a insatisfação popular ge, perceber a complexidade, analisar
contra os excessos da fiscalidade levou esta instituição para além do texto
à chamada Revolta do Maneta e a sub- normativo, jurídico, captar como esta
sequente suspensão da cobrança da instituição vigorava na sociedade para
dízima. A dízima seria de fato instituí- além do texto legal.

CONFLITOS, ILICITUDES E DISPUTAS DE PODER NA ALFÂNDEGA DO RIO DE


JANEIRO NO PERÍODO FILIPINO. (1580-1640)
Maria Isabel de Siqueira e Helena Trindade

Durante o período da União Ibérica, a cavam, como operadores da coloniza-


Alfândega do Rio de Janeiro foi cenário ção angariar poder e riquezas. Dessa
de vários conflitos envolvendo os seus forma não só as desavenças como as
oficiais e os demais oficiais de outras ilicitudes envolvendo os personagens
esferas da administração. Esses confli- que deveriam a priori zelar pelo bom
tos podem ser entendidos como parte funcionamento e pela máxima extração
integrante das relações entre os diver- de rendimentos para a fazenda Real
sos agentes que participavam do tenso podem ser reveladoras da própria di-
jogo da exploração colonial e que bus- nâmica do sistema aduaneiro colonial.

SUBVERSÕES DO PECADO: PROSTITUIÇÃO E CONCUBINATO NAS


MINAS SETECENTISTAS
Lisa Batista de Oliveira

No século XVIII, as Minas Gerais fo- puniam desvios morais em relação aos
ram submetidas ao controle das devas- preceitos da Igreja Católica. As devas-
sas eclesiásticas, visitas diocesanas que sas integravam um processo de acultu-

99
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ração cristã pautado na repressão vio- ções culturais específicas, escravas e


lenta das uniões ilícitas, que transgre- forras tinham um modo peculiar de se
diam o sacramento do matrimônio. A relacionar com companheiros e paren-
difusão do sacramento matrimonial tes, vivenciando relações de gênero
efetivada através da criminalização das endogâmicas, poligâmicas ou mono-
sexualidades desviantes e das religio- gâmicas e transformando-se no centro
sidades heterodoxas visava à destrui- da estrutura familiar. Viver em concu-
ção das solidariedades comunitárias binato representava uma valorização
através da afirmação do concubinato de tradições familiares matrifocais com
como transgressão. As relações concu- origens africanas matrilineares. A re-
binárias envolveram, principalmente, organização da vida comunitária base-
portugueses ou seus descendentes ava-se em laços de parentesco e solida-
brancos livres com africanas, crioulas e riedade que substituíam as extensas
mestiças, em grande medida cativas e linhagens africanas. A monogamia se-
libertas. Ao definir as relações sexuais xual nem sempre era praticada e o sig-
como lícitas ou ilícitas, as devassas nificado cristão do casamento foi trans-
buscavam o controle das condutas formado por uma variedade de acor-
desviantes que aumentavam a popula- dos que revelam concepções mais fle-
ção mestiça, fonte de “desordem soci- xíveis sobre sexualidade, parentesco e
al” para os poderes dominantes. Eram família. Os fogos liderados por mulhe-
rotuladas de “mal-procedidas” tanto res se transformavam em “casas de
mulheres que se entregavam a relações alcouce”, que à noite tornavam-se pon-
conjugais não ortodoxas, auferindo tos de encontro. Escravas e forras eram
benefícios ou rendimentos dos relacio- líderes da vida comunitária de cativos
namentos amorosos ilícitos, quanto e libertos. Viviam à sombra da lei, de-
aquelas que aderiam efetivamente ao vido à prática da prostituição ou do
comércio sexual, o que revela os tênues comércio clandestino de gêneros ali-
limites entre práticas desviantes e mentícios e eram acusadas de contra-
prostituição. Algumas mulheres possu- bando de ouro e diamantes, de levar
íam mais de um concubino e meretri- informações e alimentos aos quilombo-
zes estabeleciam relações de mancebia las, de auxiliar a fuga de cativos, o que
com vários homens. Libertas consenti- demonstra o medo diante de mulheres
am que suas filhas “fizessem mal de negras que vivenciavam uma intensa
si”, criando laços de auxílio mútuo heterodoxia religiosa, pois as libertas
através do “mau-procedimento”. transgrediam a moral cristã desde o
Complexas relações culturais previam tempo do cativeiro, atuando na preser-
fortes associações entre mães alcovitei- vação de tradições africanas. Brancas
ras e suas filhas, e laços de comadrio e pobres, sem dotes, que não que não
solidariedade resultantes do convívio tinham função definida no que se refe-
comunitário de vizinhança. Em torno re à transmissão de poderes e privilé-
dos domicílios matrifocais surgia toda gios, também criaram táticas de resis-
uma forma de organização familiar e tência através da sedução, subvertendo
de sobrevivência que transcendia os radicalmente a ordem social cristã
lares por meio de uma densa rede de através da transgressão e do “pecado”.
relações pessoais. Herdeiras de tradi-

100
CADERNO DE RESUMOS

SIMPÓSIO TEMÁTICO 6
Dimensões do catolicismo no Império português: instituições, práticas
e representações (séculos XVI-XVIII)

Coordenadores: William de Souza Martins (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Célia


Maia Borges (Universidade Federal de Juiz de Fora)

13 de setembro de 2016

SOBRE A PRESENÇA E A EFICÁCIA DO GOVERNO ECLESIÁSTICO NA


AMÉRICA PORTUGUESA (SÉCULOS XVI-XVIII)
Evergton Sales Souza

Os historiadores têm sobejas razões podem auxiliar numa melhor percep-


para apontar as dificuldades de en- ção acerca da presença e alcance desses
quadramento político e religioso das instrumentos do disciplinamento soci-
zonas mais distantes dos principais al. Sem a pretensão de oferecer respos-
centros da América portuguesa. Con- tas definitivas, desejo, por meio desta
tudo, constatar a existência dessas difi- comunicação, contribuir para o conhe-
culdades não equivale a sustentar que cimento sobre o papel desempenhado
há ausência absoluta de enquadramen- pela Igreja diocesana no Brasil dos sé-
to. Os instrumentos de disciplinamen- culos XVI e XVII. Ao tentar perceber o
to, inclusive os braços da justiça secu- alcance e os limites da ação do governo
lar e eclesiástica, podiam chegar aos eclesiástico, seja em relação ao controle
lugares mais afastados dos centros ur- do clero ou ao enquadramento dos fi-
banos. A este respeito, continua sendo éis, procurarei mostrar que a presença
importante avançar em pesquisas que e eficácia desse governo são perceptí-
contribuam para um melhor conheci- veis desde a instituição da diocese da
mento sobre quando, como e até onde Bahia, seguindo de perto o ritmo dita-
esses mecanismos exerciam efetivo do pelo avanço da colonização e cons-
poder. Nesta comunicação, pretendo tituindo-se em um de seus pilares.
concentrar minha atenção sobre alguns
aspectos do governo eclesiástico que

REDES FACCIONAIS E REFORMA ESPIRITUAL DO CLERO: ASPECTOS


POLÍTICOS DO MOVIMENTO DA JACOBEIA (SÉCULO XVIII)
Bruno Kawai Souto Maior de Melo

A presente comunicação busca contri- mento religioso conhecido como Jaco-


buir com novos olhares acerca da his- beia. Iniciado entre os Eremitas Calça-
toriografia preocupada com o movi- dos de Santo Agostinho do Colégio da

101
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Graça em Coimbra, no início da década ses sufragâneas a Igreja Portuguesa.


de vinte dos setecentos, a Jacobeia in- Mais do que a influência na escolha
fluenciou amplamente o cenário políti- dos prelados, os partidários da Jaco-
co-religioso do período joanino, uma beia criaram uma verdadeira facção
vez que seus simpatizantes participa- política no seio da Igreja Portuguesa,
ram ativamente em diversas esferas do ao ponto de rivalizar com grupos se-
aparelho jurídico-administrativo da dimentados na corte joanina desde o
Monarquia Portuguesa: das Secretarias início de século, a exemplo da facção
de Estado as principais Mitras de encabeçada pelo cardeal e inquisidor-
Aquém e Além-mar. Entendida inici- mor D. Nuno da Cunha e Ataíde e o
almente como uma proposta de refor- patriarca de Lisboa, D. Tomás de Al-
ma moral do clero, com ampla difusão meida. Os embates entre esses grupos
entre os conventos e monastérios por- foram latentes até a segunda metade
tugueses da primeira metade do século do século XVIII, quando aos Jacobeus
XVIII, a Jacobeia foi marcada por uma foi imputado o crime de Sigilismo,
cartilha, que em seu aspecto doutrinal, sendo, inclusive, apontados como seita
exigia dos seus adeptos um modelo de cismática pelo último regimento da
vida rigorista, pautado em exercícios Inquisição portuguesa, datado de 1771.
espirituais e na frequência dos sacra- Nesse sentido, pretendemos compre-
mentos, principalmente o da confissão. ender o movimento da Jacobeia a par-
A valorização da face espiritual da Ja- tir de uma visão mais alargada, não
cobeia foi o substrato de uma tradição restritiva ao seu cariz espiritual, mas
historiográfica que costumou, em regra preocupada com as relações políticas
geral, apontar a ação pia e reformadora estabelecidas pelos partidários da Ja-
dos eclesiásticos relacionados com mo- cobeia na corte de D. João V, bem co-
vimento, havendo pouco espaço para mo seus reflexos no Além Mar. Para
sua dimensão politica. Os jacobeus ti- tal, além de realizar um revisionamen-
veram forte participação política nos to da literatura especializada sobre a
órgãos concelhios durante o governo temática, utilizaremos o caso do bispa-
de D. João V, principalmente nas Secre- do de Pernambuco - que no decorrer
tarias de Estado - reformuladas em da primeira metade do século XVIII foi
1736. Dentre os que se destacaram, governado por dois representantes do
apontamos, especialmente, Fr. Gaspar movimento, Fr. José Fialho (1725-1738)
da Encarnação, um dos nomes mais e Fr. Luiz de Santa Tereza (1739-1754) -
relevantes do movimento. A atuação como exemplo que nos permita pensar
de Encarnação teve notoriedade prin- a Jacobeia em sua dimensão política e
cipalmente na indicação dos bispos, na perspectiva das redes de clientelis-
que a partir da década de 20 dos sete- mo.
centos, foram providos para as dioce-

102
CADERNO DE RESUMOS

SERVINDO À MITRA E À COROA: ARCEBISPOS NO GOVERNO CIVIL DA


CAPITANIA DA BAHIA (1741-1802)
Naira Maria Mota Bezerra

Com a criação do governo geral do nham funções exclusivas como o sa-


Brasil em 1549, a coroa transfere para o cramento da Ordem, a feitura de novos
território americano uma série de insti- sacerdotes, ensinar e catequizar os fi-
tuições administrativas responsáveis éis. Considerados “feituras do Monar-
pelo bom funcionamento daquele Es- ca”, que através das bulas do Padroado
tado. Dentre elas, um dos mais impor- os escolhiam para serem sagrados pela
tantes é o cargo de Governador Geral Santa Sé, o poder episcopal não se res-
do Estado do Brasil, considerado como tringia à esfera religiosa. Antes, se es-
a própria extensão do poder do mo- tendia aos campos políticos e econômi-
narca. Após ser escolhida pelo rei, a cos das sociedades do antigo regime,
pessoa provida deveria passar em mé- participando de estruturas jurídico-
dia três anos na Bahia. Ao fim desse administrativas como, por exemplo,
tempo, a coroa deveria prover um su- ocupando os cargos de vice-reinado da
cessor e viabilizar recursos para os Índia e o Governo Geral do Estado do
transportes tanto de quem estava dei- Brasil em caso de vacância destes. Em
xando o cargo, quanto de quem iria 1624, na invasão holandesa à Bahia, o
assumi-lo. No entanto, em alguns ca- bispo D. Marcos Teixeira assumiu as
sos, o período entre partidas e chega- funções de governo enquanto Diogo
das não correspondiam e por algum Mendonça Furtado foi para guerra. D.
tempo o governo geral ficava vacante. Fr. Manoel da Ressurreição, em 1688, e
Outra situação de vacância se dava D. Sebastião Monteiro da Vide, em
quando o titular do cargo vinha a óbi- 1719, também compuseram juntas inte-
to, que demandando tempo para esco- rinas por ocasião de vacância no go-
lha de um novo sucessor. Por ser um verno civil. Na Bahia, no total dos treze
cargo com tamanha importância para a governos interinos ocorridos no perío-
administração colonial com demandas do colonial, onze tiveram participação
ininterruptas, ele não poderia ficar va- de prelados. Os dois momentos de ex-
go. Quando aconteciam as vacâncias, ceção foram em 1675 e 1762, períodos
imediatamente se formava um governo de Sede Vacante. Isso significa que 11
provisório e quem deveria compô-lo dos 35 prelados da arquidiocese baiana
seriam autoridades coloniais com igual do período colonial estiveram em go-
importância e confiança do rei. Como vernos civis em algum momento do
se observou desde o primeiro caso, em seu governo episcopal. Essa comunica-
1587 quando o governador Manuel de ção, fruto do projeto de mestrado que
Teles Barreto morreu, o bispo D. Anto- venho desenvolvendo na Universidade
nio Barreiros compôs o governo provi- Federal Fluminense, se propõe a fazer
sório – também chamado de interino – algumas considerações iniciais sobre o
em conjunto com o provedor mor da exercício de quatro arcebispos da Ba-
Fazenda, Cristovão Barros. Os bispos hia, a saber, D. José Botelho de Matos,
eram eclesiásticos que ocupavam lugar D. Fr. Manoel de Santa Inês, D. Joa-
elevado na hierarquia da Igreja. Consi- quim Borges Figueirôa e D. Antônio
derados sucessores dos apóstolos, ti- Correia nos governos provisórios do

103
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Estado do Brasil na segunda metade lisar questões governativas que deram


do século XVIII. Através das corres- conta e de que modo o fizeram, obser-
pondências enviadas pelos arcebispos vando se há quaisquer particularida-
ao Conselho Ultramarino e as cartas des em um governo civil de homens de
régias dirigidas a eles, buscar-se-á ana- Igreja.

“BISPO PELA GRAÇA DE DEUS!”: D. TOMÁS DA ENCARNAÇÃO COSTA E


LIMA: PERFIL DE UM PRELADO POMBALINO, 1750-1784
Ellen Cristina Marques Luz

Esta comunicação pretende abordar Num primeiro momento, esta apresen-


alguns aspectos da trajetória intelectual tação se propõe a descrever e analisar o
e da ação episcopal de Dom Tomás da seu percurso intelectual, a fim de mos-
Encarnação, décimo bispo de Pernam- trar as relações existentes entre a jaco-
buco. Nascido em uma rica família da beia, o pensamento reformador e rega-
cidade de São Salvador da Bahia e lista em voga e o jansenismo portu-
completando sua instrução em filosofia guês. Em seguida, buscar-se-á compre-
com os padres jesuítas desta mesma ender como suas concepções teológicas
cidade, Frei Tomás realizou seus estu- e eclesiológicas se traduziram em sua
dos superiores na Universidade de ação episcopal na América Portuguesa
Coimbra e recebeu a murça de cônego num período de intensa transformação
regrante de Santo Agostinho no Mos- como este abarcado pelo final do rei-
teiro de Santa Cruz. Graças ao seu des- nado de D. José I e início do reinado de
taque intelectual e à sua reputação de Dona Maria. Por fim, observaremos
exímio latinista, foi eleito como mem- que apesar do nítido alinhamento de
bro da Academia Litúrgica Pontifícia, Dom Tomás aos princípios patrocina-
na qual exerceu as funções de profes- dos pela coroa lusitana, alguns limites
sor da cadeira de História Eclesiástica e foram impostos à consecução do proje-
de censor nato, sendo convocado pou- to reformador pela realidade e neces-
co tempo depois para fazer parte dos sidades dos imensos territórios que
quadros da Academia Brasílica dos compunham as dioceses ultramarinas.
Renascidos onde, por não residir na Nosso estudo assenta-se sobre um am-
colônia, recebera o título de acadêmico plo conjunto de fontes que correspon-
supranumerário. Eleito à mitra per- de, primeiramente, à documentação
nambucana no reinado josefino e mi- referente à trajetória anterior à eleição
nistério de Sebastião José de Carvalho de D. Tomás à mitra pernambucana,
e Melo, Dom Tomás foi um agente das no ano de 1774, a saber: os Anais orga-
reformas pombalinas no continente e nizados por Pereira da Costa e a do-
no ultramar, tendo sido, ele mesmo, cumentação produzida pelo próprio
fruto das mudanças ocorridas no âmbi- Dom Tomás no período da sua atuação
to das exigências sociais, de formação e enquanto lente de História Eclesiástica
das tendências teológicas e eclesiológi- na Academia Litúrgica Pontifícia, atra-
cas que prevaleceram no reinado em vés dos quais estudamos o conjunto de
questão e que foram relevantes para a correntes e tendências religiosas ao
escolha dos membros do episcopado. qual o futuro bispo vinculava-se e que

104
CADERNO DE RESUMOS

são de singular importância para a Tombo, no Arquivo Histórico Ultrama-


compreensão do próprio programa de rino, assim como na Biblioteca Pública
mudanças em curso. Seguem-se a es- de Évora, no Arquivo da Arquidiocese
tas, as fontes correspondentes ao perí- de Olinda e Recife e no Anexo do Ar-
odo da ação episcopal de Dom Tomás quivo Público Estadual Jordão Eme-
na diocese de Pernambuco, conserva- renciano (PE).
das no Arquivo Nacional da Torre do

“INIMIGO DA COMPANHIA”: D. FR. ANTÔNIO DO DESTERRO E A EXPULSÃO


DOS JESUÍTAS DA DIOCESE DO RIO DE JANEIRO
Ediana Ferreira Mendes

Em 3 setembro de 1759, D. José I pro- so de expurgo da congregação. O ar-


mulgava a lei de extermínio, proscrição gumento da conspiração para a expul-
e expulsão da Companhia de Jesus de são dos jesuítas aparece em duas pas-
todos os territórios pertencentes ao torais publicadas pelo prelado em 8 e
reino português. A notícia logo se es- 27 de novembro de 1759, afirmava ser
palhou por todo o império, sendo re- os padres os “chefes” da “bárbara, sa-
cebida de maneira distinta pelos diver- crílega e horrorosa sedição” contra o
sos agentes e representantes da Coroa rei. As pastorais serviam para comuni-
na América portuguesa. No Rio de Ja- car aos fiéis do bispado a suspensão
neiro, D. Fr. Antônio do Desterro, bis- das licenças e faculdades concedidas
po entre 1745 e 1773, teve papel proe- aos padres e instava os súditos a apar-
minente no processo de expulsão da tarem qualquer tipo de comunicação
Companhia de Jesus do bispado. No- com os religiosos. Em edital publicado
meado, pelo Cardeal Saldanha, refor- no dia 29 do mesmo mês, o bispo soli-
mador geral dos jesuítas em Portugal, citava que fossem denunciadas as notí-
visitador apostólico e reformador da cias sobre a sonegação dos bens e alfai-
congregação no Rio de Janeiro em as das igrejas pertencentes anterior-
maio de 1758, o prelado atuou de for- mente à companhia. Com estas e ou-
ma incisiva, incorporando em suas tras atitudes, Desterro cumpria rigoro-
ações e discurso o projeto político da samente as ordens régias. Em carta
Coroa portuguesa. A ingerência da enviada a Tomé Joaquim da Costa Cor-
Coroa em assuntos eclesiásticos e o te Real em 3 de março de 1760, o bispo
ímpeto de reforma da Companhia de dava conta da recepção das pastorais e
Jesus haviam iniciado, anos antes, com ordens régias e comunicava as primei-
leis como a da liberdade dos índios, ras medidas e devassas impetradas no
secularização das aldeias e sequestro bispado. No ano seguinte, remete
de bens de raiz sem licença régia. Bus- igualmente à Coroa um arrazoado inti-
cava-se, decerto, reduzir o poder social tulado “Relação do deplorável estado a
e econômico angariado pelos jesuítas que chegou a Companhia nesta Pro-
nos anos de presença na colônia. A víncia do Brasil”, texto em que relata o
acusação de participação dos padres estado dos colégios e negócios da con-
inacianos no conluio e atentado ao rei gregação. Sobressai-se nestes docu-
foi suficiente para consolidar o proces- mentos, o tom depreciativo utilizado

105
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

pelo prelado para classificar os padres, comandado pela coroa, no entanto,


há uma ênfase constante na “torpe la- teve uma atitude bem menos anti-
xidão”, na “corrupção”, no “desregra- jesuítica. Esta comunicação pretende, a
do” comportamento etc. O prelado partir do exame de missivas, cartas
tinha consciência do tom anti-jesuítico pastorais e editais analisar a atuação de
do seu discurso e ações, chegando a D. Fr. Antônio do Desterro na reforma
afirmar que “necessariamente hei de e expulsão dos jesuítas do bispado do
ser julgado por impostor falsário e Rio de Janeiro e sua inserção no projeto
inimigo da Companhia”. O rigor ado- político reformador da Coroa lusitana.
tado por este prelado não foi uníssono No segundo momento, pretende-se
na América. Um outro prelado, o arce- cotejar, brevemente, a ação deste com a
bispo da Bahia, D. José Botelho de Ma- atuação de outros prelados coevos na
tos não deixou de cumprir o que lhe foi América portuguesa.

COR E SACERDÓCIO: AMBIVALÊNCIAS CLASSIFICATÓRIAS NOS PROCESSOS


DE ORDENAÇÃO DO BISPADO DO RIO DE JANEIRO (1701-1745)
Anderson José Machado de Oliveira

O propósito desta comunicação é apre- forma hierárquica promoveu a inser-


sentar uma reflexão em torno dos dis- ção dos grupos em questão na cristan-
cursos sobre a cor presentes nos pro- dade colonial. Pretende-se, desta for-
cessos de habilitação ao clero secular ma, observar como esta inserção estava
de descendentes de africanos no Bis- associada a um processo de conversão.
pado do Rio de Janeiro. Analisando no Objetiva-se igualmente compreender
conjunto desses processos as chamadas as tensões na formulação deste discur-
dispensas do defeito da cor ou a ausência so classificatório situando-o em meio
das mesmas em alguns casos, procu- às discussões da origem negra conce-
rar-se-á compreender como o catoli- bida enquanto “defeito de sangue” ou
cismo moderno ajudou a moldar um “ausência de qualidade”.
sistema de classificação social, que de

NORMATIVAS DA JUSTIÇA ECLESIÁSTICA NO IMPÉRIO PORTUGUÊS: UMA


ANÁLISE COMPARATIVA DOS REGIMENTOS DOS AUDITÓRIOS
ECLESIÁSTICOS DA BAHIA, COIMBRA, ÉVORA E FUNCHAL
Gustavo Augusto Mendonça dos Santos

Durante longa data os estudos sobre a perseguição adotados pelo Tribunal do


organização e funcionamento da justi- Santo Ofício permitiram avanços signi-
ça eclesiástica em Portugal e seus do- ficativos nestes campos historiográfi-
mínios na Idade Moderna foram prete- cos, pouco se desenvolveram as pes-
ridos quando comparados com outras quisas sobre os auditórios eclesiásticos
temáticas da história religiosa, enquan- e seus agentes. A grandiosa obra de
to investigações sobre a expansão das Fortunato de Almeida, História da Igreja
ordens religiosas no Império portu- em Portugal, não se debruçou profun-
guês e análises sobre os métodos de damente sobre os tribunais diocesanos,

106
CADERNO DE RESUMOS

o livro História Religiosa de Portugal Prodi foi na segunda metade do século


contém uma síntese de autoria de José XII que nasceram de fato estes tribu-
Pedro Paiva onde se traça de forma nais episcopais com a formação de um
geral o funcionamento dos aparelhos corpo de officiales apropriado, por sua
da administração diocesana e o Dicio- vez José Pedro Paiva considera que a
nário de História Religiosa de Portugal diz proliferação de regimentos de auditó-
no verbete dedicado a “tribunais ecle- rio eclesiásticos que ocorre na Idade
siásticos” que “a sua história em Por- Moderna é sintomática da importância
tugal está por fazer”. Contudo, este cada vez maior atribuída à gestão das
quadro tem sido alterado na última dioceses e do esforço de racionalização
década por uma série de pesquisas rea- dos seus processos administrativos
lizadas em Portugal e no Brasil que sendo o primeiro passo dado nesse
tiveram por objetivo analisar o funcio- sentido a compilação manuscrita de
namento dos auditórios eclesiásticos, um Regimento do Auditório que ocorreu
os percursos de vida dos agentes que na arquidiocese de Evora ainda em
dele participavam, descobrir quem 1535, antes mesmo do Concílio de
eram os réus e tipos de crimes proces- Trento. Já depois do Concílio tridenti-
sados e como as medidas reformadoras no quase todas as dioceses começaram
tomadas pela Igreja pós-tridentina afe- a ter seus regimentos impressos,
taram este órgão. Assim sendo, obras acompanhando habitualmente as cons-
de autores como Ana Cristina Trinda- tituições sinodais. Destarte, neste pre-
de, Dulce Teixeira, João Rocha Nunes, sente trabalho iremos fazer uma análi-
Jaime Ricardo Teixeira Gouveia, se comparativa do Regimento dos oficiais
Pollyanna Gouveia Mendonça Muniz, do auditório eclesiástico do Bispado de
Maria do Carmo Pires, Patrícia Santos Coimbra de 1592, do Regimento dos audi-
e Aldair Carlos Rodrigues tem possibi- tórios eclesiásticos do Bispado do Funchal
litado um melhor entendimento do de 1589, dos Regimentos do auditório
aparelho jurídico episcopal. O presente eclesiástico do Arcebispado de Evora de
trabalho vai ao encontro destas pesqui- 1598 e do Regimento do auditório eclesiás-
sas e busca colaborar para o debate tico do Arcebispado da Bahia de 1704. Te-
fazendo uma análise comparativa entre remos por temática central as diferen-
os regimentos dos auditórios eclesiás- ças e semelhanças entre os agentes que
ticos de diferentes partes do Império, em cada uma das dioceses e arquidio-
os regimentos regulavam as funções ceses acima citadas eram responsáveis
dos oficiais da justiça eclesiástica de pela justiça eclesiástica, como era o
cada bispado e como deveriam prote- caso dos vigários gerais, arciprestes,
ger a jurisdição diocesana. Para Paolo vigários forâneos e vigários da vara.

“PELO USO E COSTUME”: OS EMBATES EM TORNO DA TAXAÇÃO DAS


CONHECENÇAS NO BISPADO DE MARIANA (1778-1793)
Caroline Cristina Souza Silva

As conhecenças (espécie de dízimo entre fregueses e o corpo eclesiástico


pessoal recolhido pelos párocos no pe- no cenário da América Portuguesa. E,
ríodo da Quaresma) sempre foram mo- no caso especial da capitania de Minas
tivo para o afloramento de contendas Gerais, tal assunto perpassou por mais

107
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

de um século sem que fosse resolvido pagamento desse tipo de dízimo pes-
para nenhuma das duas partes. Os soal não fosse mais necessário. Esses
problemas referentes ao debate em requerimentos, formulados pelo pro-
torno da legalidade ou não das conhe- curador dos povos de Minas, foram
cenças, e também em torno da exorbi- norteadores para que se iniciasse uma
tância na sua cobrança, podem nos le- discussão perante a rainha D. Maria I e
var a uma análise de cunho jurisdicio- o quarto bispo de Mariana, referente à
nal relacionado à política de padroado cobrança das conhecenças pelos páro-
e às relações entre a igreja mineira e a cos. A partir daí, foram produzidas
Coroa portuguesa. Os debates e emba- cartas advindas de todas as freguesias
tes traçados pelos agentes sociais, per- da capitania mineira para tratar ao bis-
tencentes tanto à capitania quanto ao po das reclamações sobre as conhecen-
Reino, podem fornecer aparato para se ças, estimuladas e reforçadas por Fran-
discutir a questão da aplicabilidade cisco Antonio de Sales e Morais. A lei-
das Constituições Primeiras do Arce- tura e análise dessas cartas e requeri-
bispado da Bahia (1707) nos outros mentos torna perceptível uma discus-
bispados existentes na América Portu- são inacabada referente às normativi-
guesa, de modo interino ou parcial. dades determinadas pela Coroa Portu-
Tendo como objetivo central tentar guesa ao longo do século XVIII, a apli-
compreender essa questão maior do cabilidade ou não das Constituições do
grau de aplicabilidade das Constitui- Arcebispado da Bahia como fator nor-
ções da Bahia, de D. Sebastião Montei- mativo da administração eclesiástica e
ro da Vide, o presente trabalho tomará o discurso do costume que pautara a
como respaldo algumas contendas maioria dos argumentos construídos
ocorridas no Bispado de Mariana sob o pelos párocos da capitania mineira.
governo do quarto bispo, Frei Domin- Desse modo, tentar-se-á, a partir da
gos da Encarnação Pontevel (1778- análise dessas cartas e requerimentos,
1793), que tiveram a questão das co- compreender os limites jurisdicionais
nhecenças como principal ponto de que tocavam a administração da igreja
desentendimento entre a população colonial, mais especificamente a da
civil e o corpo eclesiástico da capitania capitania mineira, e o poder régio,
mineira. Essas contendas, regidas pelo através da política de Padroado, pro-
procurador dos povos, Francisco An- curando compreender os interesses
tonio de Sales e Morais, visavam re- inerentes à resolução dessa problemá-
querer, frente à Coroa Portuguesa, tica por parte do procurador dos povos
uma reformulação da taxação das co- de Minas conjuntamente com a coope-
nhecenças recolhidas pelos párocos de ração da população mineira através
Minas, ou até mesmo fazer com que o das câmaras.

108
CADERNO DE RESUMOS

14 de setembro de 2016

A PROCISSÃO DE CINZAS NO IMPÉRIO PORTUGUÊS: DEVOÇÕES E DINÂMI-


CAS SOCIAIS ENTRE OS SÉCULOS XVII E XVIII
Juliana de Mello Moraes

Difusoras da espiritualidade francisca- conceitos abstratos - e anjos, criando


na e em consonância com as disposi- conjuntos com significados complexos.
ções tridentinas, as Ordens Terceiras Além disso, um sermão realizado por
de São Francisco atuavam juntamente religioso franciscano rematava a ocasi-
com outras entidades na promoção da ão, reforçando o caráter instrutivo e
ortodoxia religiosa. As associações de dogmático do evento. No entanto, em-
irmãos terceiros, vinculadas à Ordem bora essas celebrações públicas apre-
Primeira franciscana, eram compostas sentassem aspectos semelhantes, al-
por leigos e promoviam uma vivência gumas distinções relativas à sele-
religiosa ascética, baseada na penitên- ção/exclusão de santos e figuras, bem
cia. Dentre as distintas cerimônias or- como sua ordenação, sugerem especifi-
ganizadas por essas agremiações des- cidades referentes aos contextos, ou
taca-se a procissão de cinzas. Ao longo seja, aos distintos tempos e espaços no
dos séculos XVII e XVIII, essa procis- império português. A circulação e
são marcou o início da Quaresma e, adaptação do aparato devocional pos-
sobretudo, divulgou a instituição, suas sibilitaram aos terceiros franciscanos
devoções e trajetória nas vilas e cida- organizar suas procissões de acordo
des onde figurava. Desse modo, o com as hierarquias locais, correspon-
evento contribuía para a obtenção de dendo igualmente aos sentimentos,
reconhecimento nos cenários religioso anseios e expectativas vigentes entre as
e institucional da época, bem como populações nas distintas configurações
para a divulgação da Ordem Terceira sociais onde atuavam. Com o objetivo
franciscana nas comunidades, por de analisar a procissão de cinzas a par-
meio da exposição e valorização do seu tir das suas semelhanças e, principal-
aparato devocional. Como essas asso- mente, peculiaridades, esse estudo
ciações se desenvolveram em diversos avalia a organização e composição do
núcleos urbanos do império português, evento, em especial dos andores e figu-
principalmente no reino e na América, ras, tendo em vista expressarem ainda
congregaram número significativo de a consciência histórica legitimadora da
leigos, angariando visibilidade e pres- existência do sodalício. Desse modo,
tígio no panorama associativo daquele busca-se, por meio do exame da pro-
período. Nesse sentido, a composição cissão, em perspectivas sincrônica e
da procissão de cinzas expressava as diacrônica, estabelecer os nexos entre
devoções, através da exposição hagio- práticas devocionais e dinâmicas soci-
gráfica coordenando-a com a exibição ais num império caracterizado pela
de figuras - as quais representavam diversidade.

109
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

O ERMITÃO MANOEL CORREA, A IGREJA DE NOSSA SENHORA DO DESTER-


RO E O CAMPO RELIGIOSO DO RIO DE JANEIRO NO PERÍODO COLONIAL
William de Souza Martins

A partir do acervo do Projeto Resgate rurais e objetos de culto sagrado. A


da capitania do Rio de Janeiro e de do- referida disputa teve o efeito de impe-
cumentação impressa de natureza va- dir a realização do plano inicial do er-
riada, pretende-se discutir, a partir de mitão, isto é, a instalação de um con-
um estudo de caso bastante representa- vento de frades carmelitas descalços na
tivo, o papel dos ermitães no campo igreja do Desterro do Rio de Janeiro.
religioso da cidade do Rio de Janeiro Em diálogo com as obras de Antonio
nos séculos XVII e XVIII. A primeira Rubial García, Célia Maia Borges, Sér-
licença que foi dada para o funciona- gio da Mata, entre outros autores, a
mento da capela de Nossa Senhora do comunicação espera ampliar o conhe-
Desterro data de 1605, contexto próxi- cimento sobre uma das formas de vida
mo ao da fundação da cidade de São religiosa menos conhecidas da socie-
Sebastião do Rio de Janeiro. Diversas dade colonial, e que teve importância
fontes impressas coevas testemunha- fundamental na manutenção de sedes
ram os poderes miraculosos da ima- de culto religioso daquele período, ao
gem da Virgem do Desterro, que atraiu lado das irmandades leigas. Tanto os
a concorrência de numerosos romeiros ermitães como as confrarias supriam as
e devotos. Falecido em 1716, com sole- deficiências da tênue rede paroquial da
ne testamento, o ermitão Manoel Cor- América Portuguesa, cujo provimento
rea instituiu como única herdeira de material cabia ao monarca, como pa-
seus bens a imagem de Nossa Senhora droeiro perpétuo da Ordem de Cristo.
do Desterro, de cujo templo cuidava. O As atividades dos ermitães como zela-
Juízo Eclesiástico e a Justiça da Coroa dores de templos religiosos, para os
disputaram a execução do testamento e quais arrecadavam esmolas, provoca-
a arrecadação dos ricos bens do ermi- vam atritos com as autoridades do bis-
tão, que incluíam dezenas de escravos, pado, que tendiam a ver com suspeitas
numerosas propriedades urbanas e aquele tipo de ação.

CATOLICISMO INDULGENTE: A SALVAÇÃO DAS ALMAS E A VENDA DE


INDULGÊNCIAS DA CRUZADA NO IMPÉRIO PORTUGUÊS
Cecília Maria Fontes Figueiredo

A comunicação versa sobre os meios porais sintetizam a doutrina da salva-


legítimos de salvação no catolicismo ção e o poder de intervenção católicos
ibérico e as possibilidades de remissão na vida após a morte. As bulas de Cru-
oferecidas pelas indulgências das bulas zada concedidas aos reinos ibéricos são
de cruzada. Associadas ao medo da expressão e sustentáculo da crença no
condenação eterna, as indulgências Purgatório e do poder da Igreja de in-
infligiam ações cotidiano dos fiéis em termediar os atenuantes das penas a
sua busca da minimização das penas serem pagas após a morte. Por sua vez,
dos pecados. Graças espirituais e tem- as indulgências da cruzada vincula-

110
CADERNO DE RESUMOS

vam a salvação à prática da caridade, século XIX, reiteram a relação indisso-


posto que, mais que uma venda de in- ciável entre religião e política no Anti-
dulgências, as rendas das bulas são go Regime, sendo concedidas às mo-
uma “esmola” doada pelo fiel que, narquias ibéricas, desde finais da Idade
graciosamente, recebe a remissão das Média, parte das rendas das indulgên-
pena. A venda das indulgências da cias na defesa do catolicismo diante do
cruzada no império português até o expansionismo do Islã.

SANTAS PROTETORAS E MADRINHAS AUSENTES: APONTAMENTOS SOBRE O


UNIVERSO DEVOCIONAL E A CONDIÇÃO FEMININA EM ALGUMAS
PARÓQUIAS RURAIS DE VILA RICA DURANTE O PERÍODO COLONIAL
Paulo Cezar Miranda Nacif

A partir da análise de séries de regis- ções incorpóreas são uma porta de en-
tros batismais, oriundos de três paró- trada para o cotidiano devocional das
quias rurais do Termo de Vila Rica en- populações coloniais. Além da recor-
tre 1725 e 1808, a presente comunica- rência ao culto mariano e à Santa Ana,
ção procura discutir aspectos relacio- extremamente difundidos no mundo
nados tanto ao cotidiano devocional português, também são perceptíveis
dos moradores dessas localidades, devoções mais locais. Nas mesmas fon-
quanto à condição feminina no referi- tes, fora a questão do compadrio, os
do contexto. Para tanto, no que se refe- prenomes recebidos diante das pias
re à indicação de padrinhos – ou pais batismais também nos fornecem uma
espirituais –, centra-se em três catego- amostragem do cotidiano devocional
rias de assentos batismais: 1- aqueles dos paroquianos. A popularidade de
em o neófito contou com a nomeação Santa Ana e de sua filha Maria, por
de uma madrinha incorpórea (santa exemplo, é evidente nas três freguesias
protetora) no lugar de uma terrena em enfocadas: das 3.383 crianças do sexo
sua cerimônia batismal; 2- os que não feminino e africanas adultas batizadas,
contaram com a presença de algum 1.148 (34%) delas receberam os preno-
padrinho e/ou madrinha; 3- e aqueles mes Ana, Maria e Mariana. Ademais,
cujas madrinhas emitiram procurações vale ressaltar que essa dimensão devo-
para que terceiros as representassem cional mais explícita do compadrio,
nas cerimônias. No período analisado, relacionada à prática de se indicar San-
conforme indicamos acima, era difun- tos no lugar de padrinhos terrenos,
dida a prática de se nomear santas pro- ocorreu exclusivamente em substitui-
tetoras no lugar de madrinhas terrenas. ção à figura feminina, nunca à mascu-
Apesar da baixa expressividade na lo- lina. De certa forma relacionado a esse
calidade por nós estudada, contando comportamento de “precedência” dos
com 51 casos em meio aos 7.462 batis- padrinhos na montagem de teias soci-
mos reunidos, fica claro que fatores ais, vale estabelecermos um compara-
religiosos também encontravam-se tivo entre as cerimônias que acontece-
imbricados a outros mais evidentes, ram sem a presença do padrinho e/ou
relacionados à montagem de redes de da madrinha. Tais taxas perfazem, res-
alianças pelo compadrio. Tais indica- pectivamente, 235 (3,2%) e 798 (10,8%).

111
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

A maior recorrência de batizados que vidade na esfera pública. O ideário da


ocorreram sem madrinhas presentes época valorizava o recato doméstico
sugere, quantitativamente, que a figura feminino, o que, por vezes, acabava
masculina parece ser a principal na estabelecendo uma real obediência a
definição das alianças de compadrio. ele. Essas mulheres eram representa-
Sabendo que as escolhas de padrinhos das nas cerimônias, geralmente, por
e madrinhas são tendencialmente as- eclesiásticos ou membros de suas famí-
simétricas "para cima“, os registros dos lias, como irmãos, filhos e tios. Ao que
batismos em que mulheres emitiram parece, as mulheres da elite pareciam
procurações para serem representadas evitar deixar o lar até mesmo para
por terceiros no ato da cerimônia, des- comparecerem a simples cerimônias
cortinam alguns aspectos das relações como madrinhas de batismo. Como
de gênero no contexto abordado. De pressuposto desse ideal de recato, ha-
todos os batismos arrolados para as via um código moral que articulava
paróquias compulsadas, em 90 (1,2%) fidelidade conjugal à domesticidade.
deles as madrinhas emitiram procura- Evitar sair significava, entre outras coi-
ções. Desses registros, em 38 (42,2%) sas, limitar os possíveis contatos ou
deles a madrinha foi designada como ligações exteriores à rede familiar.
“dona”. Essa designação corresponde a Além do mais, tal discrição feminina
um importante indicativo de fidalguia adequa-se totalmente à sociedade co-
feminina. As mulheres, no período co- lonial, onde o casamento é, antes de
lonial, eram valorizadas socialmente tudo, um arranjo familiar com bene-
pelas práticas domésticas, ao passo que plácito da religião.
eram marginalizadas por qualquer ati-

O TESTAMENTO DO CAPITÃO-MOR JOSÉ ALEXANDRE PEIXOTO MASCARE-


NHAS: RIQUEZA E SALVAÇÃO DA ALMA EM CACHOEIRA NO SÉCULO XVIII
Tânia Maria Pinto de Santana

Esta comunicação remete a alguns as- tos. Na análise qualitativa a proposta é


pectos que exploramos na tese de dou- relacionar os discursos e práticas dos
torado, em fase de finalização. Nela testadores com os produzidos pelo cle-
estudamos a influência da pedagogia ro português sobre a doutrina cristã da
cristã da caridade na escolha dos bene- caridade, visando à propagação e as-
ficiados por doações nos legados pios similação desta entre os leigos. Seleci-
instituídos nos testamentos dos mora- onamos para a análise nesta comunica-
dores da vila de Cachoeira e seus ter- ção o testamento do Capitão mor José
mos ao longo do século XVIII. O corpus Alexandre Peixoto Mascarenhas, resi-
principal de nossa análise consiste dente na Freguesia de São José das Ita-
num conjunto de testamentos registra- pororocas, pertencente à Vila de Nossa
dos em Cachoeira, entre 1701 e 1800. Senhora do Rosário da Cachoeira. Na-
Fazendo uso de uma metodologia tural do Iguape, casado e pai de dois
quantitativa pretende-se analisar o per- filhos legítimos e um natural, nascido
fil social dos testadores e dos benefici- antes deste matrimônio, José Alexan-
ados pelas doações feitas nos testamen- dre era proprietário de inúmeros bens

112
CADERNO DE RESUMOS

entre terras, gado e escravos. A reda- redes de relações deste testador, e a


ção do seu testamento, em 1792, seguiu forma como a religião favoreceu a sua
um modelo encontrado no manual es- inserção na comunidade local. A análi-
crito pelo padre jesuíta Estevão de Cas- se da distribuição dos bens destinados
tro, Breve aparelho e modo fácil para ensi- a sua terça – parte da herança que o
nar a bem morrer um cristão, em 1621, testador poderia livremente dispor, em
assim como o seguiu a maioria dos geral destinada a instituição de legados
testamentos lidos. Este testador revela pios – revela que esta rede envolveu
preocupação com a salvação da sua familiares, escravos – beneficiados com
alma, evidenciando o caráter escatoló- alforrias e esmolas -, a comunidade
gico associada a redação deste docu- paroquial – aqui inseridos os afilhados,
mento, a despeito do mesmo ter sido os pobres, as irmandades, o pároco –,
redigido no final do século XVIII. Um os moradores em espaços das suas
elemento importante desta busca pela propriedades, dentre outros. Acredi-
salvação da alma está associada a prá- tamos que, não apenas para José Ale-
tica da caridade nos testamentos. A xandre, mas também para muitos ou-
distribuição dos bens através de esmo- tros senhores de engenho e de fazen-
las e legados estava relacionada ao das de gado, estas experiências prova-
processo de transformação de bens velmente contribuíram para a amplia-
materiais em benefícios espirituais pa- ção do seu prestígio social, pois os far-
ra a alma do testador, os legados pios. tos legados e esmolas disponibilizados
Nesta comunicação pretendemos iden- em vida ou através de doações testa-
tificar e analisar os sujeitos beneficia- mentárias, por certo, ajudaram a refor-
dos pelas esmolas e legados instituídos çar o seu poder junto as comunidades
por José Alexandre, reconstituindo a paroquiais.

COMBATENDO “AS CARÇAS DE ESPINHOS EM QUE TODOS OS RELIGIOSOS


ESTÃO METIDOS”: INSTRUÇÕES À PERFEIÇÃO CLERICAL NO SÉCULO XVIII
Mauro Dillmann

Esta comunicação tem a intenção de pretendia “persuadir” o clero quanto


analisar alguns discursos morais cató- ao cumprimento ideal das suas obriga-
licos do século XVIII destinados aos ções religiosas, destacando as repre-
religiosos regulares para alcançarem o sentações do bom religioso e as trans-
caminho da perfeição cristã e o exem- gressões mais comuns.
plar comportamento devoto. Para tan- Tais direcionamentos contidos no refe-
to, vale-se das instruções do padre por- rido manual de devoção estavam de
tuguês dominicano João Franco, em acordo com as orientações da moral da
seu manual de devoção intitula- Reforma Católica e das considerações
do Mestre da Virtude, segunda parte do tridentinas do Antigo Regime que bus-
Mestre da Vida, que persuade a todas as cavam delinear os melhores meios pa-
criaturas de qualquer estado, que sejão, o ra o clero alcançar um eficaz proveito
que é necessário para se salvarem, e o que espiritual. O dominicano João Franco
hão de fazer para serem santos (publicado estabeleceu alguns parâmetros consi-
incialmente em Lisboa no ano de 1745), derados importantes, afim de “persua-
que, em boa parte das suas reflexões
113
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

dir” os religiosos para que adquirissem freamento da língua, a fixação em um


comportamentos morais afinados à único convento e a satisfação dos ofí-
doutrina católica. Ao todo foram treze cios divinos com perfeição. Tais instru-
pontos de reflexão ao longo de pouco ções partiam do pressuposto de que os
mais de oitenta páginas do manual frades deviam estar atentos às virtudes
dedicados a instruir os religiosos sobre necessárias para a vida religiosa que
as virtudes que deveriam possuir, so- escolheram, muito diferente da liber-
bre a necessidade de se buscar a per- dade do mundo que conheciam antes
feição e sobre o significado de ser um de realizarem a escolha pela vida con-
religioso perfeito. Entre tais “persua- ventual. Portanto, ao analisar essa obra
sões” estavam, nessa ordem, o conhe- religiosa de João Franco com suas vá-
cimento da finalidade para a qual Deus rias divisões e orientações, busca-se
os chamou à religião, a ciência de que identificar as representações construí-
o caminho da perfeição era aquele em das no século XVIII sobre os significa-
que se faz apenas o que lhe mandam, a dos da conduta de “um bom religio-
sabedoria para admitir na religião so”, as representações de um “mau
apenas os noviços que fossem mais religioso” e também as transgressões
capazes para o serviço de Deus, as ex- tidas como mais comuns entre o clero,
pressões da obediência, da pobreza, da identificando, nestes itens, os discursos
castidade, da abstinência. Além destes mais recorrentes. Desse modo, esta
que estavam vinculados a valores e proposta de comunicação visa a con-
formas de pensamento, havia outros tribuir com a historiografia que discute
argumentos persuasivos mais ligados a os discursos católicos no período mo-
comportamentos e atitudes práticas do derno alçados na produção escrita, as
cotidiano, como a alimentação e a fofo- representações de vida religiosa do
ca: saber fugir de banquetes, a honesti- clero regular e os ideais cristãos-
dade com que haviam de comer fora católicos de conduta, comportamento e
do Convento, a ida constante ao refei- moralidade para a perfeição e salvação.
tório para não comer escondido, o re-

A ENTRADA DE DUAS PRINCESAS DO REINO DE JAFANAPATÃO NO


CONVENTO DAS MÔNICAS DE GOA (SÉCULO XVII)
Rozely Menezes Vigas Oliveira

A presente comunicação almeja anali- portugueses de traição, por quebrar os


sar como ocorreu a entrada das duas acordos comerciais do seu falecido ir-
filhas do último rei de Jafanapatão, mão, foi levado à Goa com o restante
Sor. Maria de Visitação e Sor. Izabel da família real e executado lá. Porém,
dos Anjos, que professaram no Con- antes de morrer se converteu ao catoli-
vento de Santa Mônica de Goa, nos cismo adotando o nome de D. Filipe.
anos de 1637 e 1638, respectivamente. Sua mulher, por sua vez, foi batizada e
Após a morte do rei de Jafanapatão, adotou o nome de D. Catarina de Áus-
chamado Arca Guerari Pandará, seu tria. Ambos numa clara homenagem
irmão, Chingali Cumara, tomou o po- aos reis de Portugal e Espanha. Os
der. Este, por sua vez, acusado pelos membros da família real foram incen-

114
CADERNO DE RESUMOS

tivados a se tornarem religiosos, para em busca de fortuna. Portanto, no


que não gerassem herdeiros ao trono claustro, a princípio, só eram admiti-
do reino. Exemplo disto foi a entrada das mulheres portuguesas ou indo-
da viúva do rei para o Recolhimento portuguesas de origem nobre ou fidal-
de Santa Maria Madalena, enquanto ga, o que não evitou uma maleabilida-
suas duas filhas, também convertidas, de na regra do convento. Sendo assim,
professaram no Convento de Santa há informações da existência de religi-
Mônica de Goa. Nos conventos das osas de origem brâmane, que professa-
colônias portuguesas, inclusive em ram como irmãs leigas, ou seja, de véu
claustros de Portugal, apesar da limpe- branco; e de que o convento aceitou
za de sangue ser requisito principal filhas ilegítimas, de oficiais mecânicos
para a aceitação de moças, era possível e de cristãos-novos. Dentre essas flexi-
notar a presença de filhas ilegítimas ou bilidades nas constituições, está a en-
mulheres convertidas e cristãs-novas trada das duas princesas de Jafanapa-
tomando o hábito de véu preto – as tão, que tomaram hábito de véu preto.
chamadas madres ou sorores. O Con- É sobre esse desvio nas constituições
vento de Santa Mônica de Goa funda- que este artigo pretende-se debruçar.
do por Dom Frei Aleixo de Menezes Analisar como ocorreu a conversão das
(arcebispo de Goa, entre 1595 e 1610, e duas irmãs e se ambas demonstraram
governador da Índia, no período de alguma predisposição à vida conven-
1606 a 1609) tinha como intuito preser- tual, já que conforme as ordens triden-
var e garantir a virtude da mulher de tinas uma mulher só poderia fazer os
origem portuguesa, melhor dizendo, votos solenes se fosse de sua vontade
aquelas que haviam nascido em Portu- própria. Porém, tendo em vista que
gal ou nascido de pai e mãe portugue- muitas profissões de fé foram feitas
ses, e de ser lugar perfeito para se cul- sem a vocação da mulher. E, por fim,
tivar modelos de santidade e de vida sendo as irmãs provenientes de uma
contemplativa. Além de ser uma alter- nobreza diferenciada da origem fidalga
nativa para a dificuldade dos fidalgos e nobre das freiras estabelecidas no
encontrarem um bom marido para su- convento, almeja-se também refletir
as filhas, já que os candidatos deveri- sobre o convívio das antigas princesas
am ser homens dignos e não soldados com as suas novas irmãs de ordem.

15 de setembro de 2016

FR. MANUEL DA ILHA E FR. VICENTE DO SALVADOR: A HISTORIOGRAFIA


FRANCISCANA E O BRASIL COLONIAL DO SÉCULO XVII
Moreno Laborda Pacheco

Se o início da presença institucional da que seus frades perambularam pela


Ordem de São Francisco no Brasil pode América desde a chegada da esquadra
ser datado com relativa segurança, comandada por Pedro Álvares Cabral,
com a fundação da Custódia de Santo na Bahia, em 1500. A ideia da prece-
Antônio do Brasil em 1585, a historio- dência franciscana na evangelização
grafia franciscana repisará a ideia de das terras do Brasil, aliás, será um tó-

115
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

pico recorrente nesta produção histori- ção de uma memória seráfica, a Histó-
ográfica, e estará presente desde os ria do Brazil de fr. Vicente do Salvador
primeiros esforços de recuperação des- foi encomendada por Manuel Severim
sa trajetória, com fr. Manuel da Ilha, de Faria, chantre da Sé de Évora e arti-
autor da Narrativa da Custódia de Santo culador de uma intensa rede de comu-
Antônio do Brasil (1621), e fr. Vicente do nicação epistolar e intercâmbio de ma-
Salvador, responsável pela redação de nuscritos sobre o Império Português. A
uma obra sobre a mesma custódia, de ativação de fr. Vicente por Severim de
paradeiro desconhecido mas que teria Faria, que se concretizava ao passo em
servido de suporte tanto a fr. Manuel que o irmão do chantre, o também
da Ilha como ao próprio fr. Vicente na franciscano Cristóvão de Lisboa, era
composição de sua célebre História do por ele instado a escrever uma História
Brazil (1627). "Fr. Manuel da Ilha e fr. dos animaes e aves… do Maranhão, ilustra
Vicente do Salvador: a historiografia a importância da produção historiográ-
franciscana e o Brasil Colonial do sécu- fica nas franjas do Império para o
lo XVII" lança um olhar renovado so- atendimento a necessidades de Estado:
bre estes dois textos, buscando com- compreensão dos territórios, controle
preendê-los diante de duas tradições dos homens e afirmação e defesa des-
historiográficas pujantes na primeira ses domínios. Esta comunicação inte-
metade daquele século e frequente- gra pesquisa de pós-doutorado mais
mente tratadas de forma independen- ampla, que trata das formas como reli-
te: uma primeira, ligada a uma pers- giosos e religiosas de diferentes ordens
pectiva confessional da história e co- e congregações enxergavam o processo
nectada com a produção de um discur- de expansão marítima, compreenden-
so histórico caro à Ordem de São Fran- do-o num plano de desdobramento da
cisco, e outra, alinhada com práticas vontade divina que os lançava ao en-
descritivo-narrativas preocupadas com contro de novas terras e novos povos –
a construção de conexões imperiais e, consequentemente, novos espaços
fundadas em interesses de conheci- para a divulgação evangélica. Por isso,
mento, domínio político e exploração também importa perceber, nos limites
comercial. Se fr. Manuel da Ilha escre- desse trabalho, como estes frades his-
ve a sua Narrativa da Custódia de Santo toriadores articularam, em seus escri-
Antonio do Brasil a partir de um impul- tos, argumentos que sustentassem as
so cronístico interno a sua própria or- prerrogativas de sua Ordem no traba-
dem religiosa, visível no esforço dos lho missionário desempenhado no
Ministros Gerais e Provinciais do início Brasil.
do século XVII em fomentar a fabrica-

LETRADOS FRANCISCANOS NA AMÉRICA PORTUGUESA. UMA


INTERPRETAÇÃO SOBRE O BRASIL A PARTIR DE PERNAMBUCO
E DA BAHIA (SÉCULO XVIII)
Marcos Antônio de Almeida

A modernidade Ibérica contribuiu para ricas se transformasse num processo


que a prática das conquistas das Amé- de mundialização irreversível. O Novo

116
CADERNO DE RESUMOS

Mundo era a peça geográfica que falta- volve um pensamento pioneiro. Este
va para completar o ideário da totali- anuncia em sua crônica que o Orbe Se-
dade do mundo. As instituições ecle- ráfico, Novo Brasílico (1761) modelou e
siásticas criaram seus discursos pró- continua a modelar o Brasil e o mundo.
prios: de crônicas a sermões, de cartas Domingos do Loreto Couto (1700-
a atividades evangelizadoras. No Im- 1757), em Desagravos do Brasil, Glórias
pério português, os letrados de proce- de Pernambuco (1757) destrincha a soci-
dências múltiplas, circulavam, viam, edade pernambucana à luz das criati-
escutavam, analisavam e escreviam vidades dos habitantes do Brasil. Frei
seus pontos de vista acerca das rela- Jaboatão vem despertando interesse
ções entre o Império português e as dos historiadores, e os resultados de
suas possessões de ultramar. Pesquisar pesquisas sobre este franciscano abri-
sobre os letrados nas sociedades colo- ram novas abordagens acerca do Brasil
niais implica reconhecer que estes in- colonial. O pensamento deste letrado
tegravam grupos de elite, pois a práti- está indissoluvelmente associado a
ca da escrita, edição e circulação de duas dimensões: a religião e a política.
textos eram resultados onerosos e de Já Domingos do Loreto Couto vem
muito trabalho, poucos conseguiram despertando interesse de alguns histo-
realizar tamanho empreendedorismo. riadores pelo fato de elencar os artífi-
Pernambuco tem uma história intelec- ces de um Brasil a partir das experiên-
tual que se caracteriza pela defesa de cias pernambucanas. Ambos, oriundos
um Brasil singular. Dois letrados se da “cultura franciscana”, eles nos reve-
destacam na construção de um ideal lam olhares distintos sobre o mesmo
local a ser investigado: Frei Antônio de objeto: o Império português e o Brasil.
Santa Maria Jaboatão (1695-1779), com Dois pensadores precursores da cons-
a sua crônica e seus sermões, desen- trução identitária do Brasil.

DIFUSÃO DA ORDEM FRANCISCANA EM TERRAS LUSAS: DA CHEGADA DOS


FRADES MENORES EM PORTUGAL AO TRABALHO MISSIONÁRIO
NO BRASIL COLONIAL
Amanda Priscilla Pascoal da Silva Trindade

O processo de expansão do Francisca- dos conventos e trabalho dos frades.


nismo em terras lusas se deu ainda no Nosso intuito é desenvolver uma aná-
século XIII, com uma proposta de mis- lise pautada no primeiro momento na
sionação voltada para a população lo- chegada dos frades menores em Portu-
calizada nos espaços urbanos, sendo gal, ressaltando a conjuntura da época
ressaltado por um contexto de resis- e as regiões de estabelecimento dos
tência e alianças. Pois, se por um lado, conventos franciscano. Nesse sentido
o clero secular já instaurado em Portu- essa análise nos permite classificar
gal, imputava resistência ao trabalho e qual o segmento da Ordem Francisca-
instalação dos frades menores, por ou- na seguiu para a colônia brasileira, já
tro lado os monarcas portugueses lhes no século XVI, com o intuito de estabe-
concederam apoio e alianças que con- lecer a Custódia de Santo Antônio do
tribuíram diretamente para a expansão Brasil dando sequência ao trabalho

117
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

missionário em terras de colônia. Con- tugal. Nesse sentido, achamos por bem
forme Frei Antônio de Santa Maria fazer uma relação, mesmo que breve,
Jaboatão, em seu Novo Orbe Seráfico, das origens e conjuntura desse corpo
no ano de 1584 desembarcaram no lito- religioso franciscano que se forma em
ral de Pernambuco, na então cidade de Portugal na medida em que tais fatos
Olinda, o primeiro grupo de frades impactaram diretamente no trabalho
Franciscanos enviados pelo Convento missionário desenvolvido pelos frades
de Santo Antônio da Província de Por- nas possessões ultramarinas. Com base
tugal com o intuído de fundar a Cus- na historiografia que permeia o tema,
tódia de Santo Antônio do Brasil. Tal aliado a crônica do Frei Antônio de
fato demonstra o papel fundamental Santa Maria Jaboatão, emblemático
das ordens religiosas, sobretudo da intelectual e um dos principais porta-
Ordem Franciscana, no contexto colo- voz da Ordem no século XVIII, busca-
nial brasileiro, uma vez que estes eram remos destacar as atividades iniciais
responsáveis pela missionação e con- desenvolvidas pelos regulares no pro-
versão dos povos nativos. O segundo jeto missionário indígena na colônia
momento desta análise, visa desenvol- ultramarina, como também o ressal-
ver um esboço sobre a trajetória da tando da expansão e distribuição dos
Ordem Franciscana na região norte do conventos, além dos principais dilemas
Brasil Colonial, especificamente nas encarrados pelos frades na transição da
regiões referentes as Capitania de Per- Custódia para Província. Com base
nambuco e anexas, no período corres- nessa conjuntura, compreendemos que
pondente ao final do século XVI e de- o movimento missionário nas posses-
correr do século XVII, uma vez que sões ultramarinas teve um ritmo dire-
essa trajetória estava relacionada dire- tamente associado ao desenvolvimento
tamente a fundação Custódia de Santo econômico e social da colonização,
Antônio do Brasil subordinada a Pro- além de influenciar na formação cultu-
víncia Mãe de Santo Antônio de Por- ral da sociedade colonial.

OS CAPUCHINHOS ITALIANOS NO SERTÃO BAIANO E O SURGIMENTO DO


SANTUÁRIO DA SANTA CRUZ EM MONTE SANTO NO SÉCULO XVIII
Raimundo Pinheiro Venâncio Filho

Este trabalho analisa as atividades li- missionários nas ações junto às povoa-
gadas aos atos de catequizar, civilizar e ções que possuíssem igrejas ou capelas.
evangelizar os povos, de forma dife- Eles alcançavam, no máximo, a alma
rente daquela dos tempos dos primei- dos sertanejos. Os missionários tinham
ros jesuítas. Essa era a missão dos fra- uma expressão dramática, geradora de
des italianos, baseada na civilidade fortes emoções, de decisões intempes-
europeia. Os capuchinhos se encarre- tivas e generosidades imprevisíveis. As
garam de aprofundar o catecismo nas populações humildes rurais eram, por
comunidades, utilizando a religião pa- eles escolhidas, para serem alimenta-
ra evangelizar, visto que os leigos não das por uma cultura oral que represen-
tinham acesso a bíblia. As Missões dos tava a boa nova no sertão. Os capuchi-
capuchinhos substituíram esses antigos nhos permaneciam nas comunidades,

118
CADERNO DE RESUMOS

buscando a aproximação dos cristãos tradas em diversas cidades, vilarejos


católicos distantes da igreja. Essa ação ou mesmo no campo, mas são mais
pastoral, ia além do anúncio da pala- ativas, principalmente nos lugares
vra, acompanhando atividades de re- mais tradicionais, que guardam uma
novação religiosa e civil do povo. Man- herança cultural bastante importante.
ter o imaginário do lugar místico foi o Entre esses lugares tradicionais, encon-
que fez a população adquirir uma tra-se Monte Santo, para onde acorrem
identidade própria, um envolvimento, as romarias ao Santuário da Santa
no qual a vida cotidiana do local conti- Cruz, - que representa a Via Crucis de
nuou ligada a religiosidade católica. Jesus Cristo -, desde 1785, na Serra do
No Sertão do Estado da Bahia, as práti- Piquaraçá.
cas do catolicismo popular são encon-

O MONOPÓLIO DA CRISTANDADE EM DISPUTA: A DEFESA DO PADROADO


RÉGIO PORTUGUÊS NO CONTEXTO DE FORTALECIMENTO DA IGREJA
MISSIONÁRIA ROMANA (1640-1669)
Ágatha Francesconi Gatti

A presente comunicação pretende giosa e missionária nas diferentes par-


olhar para a configuração da política tes do mundo. O domínio destas in-
missionária de Portugal nos anos que formações lhe permitiria avaliar até
se seguiram à Restauração, particular- que ponto a situação de fato dos terri-
mente no período compreendido entre tórios missionários justificava a manu-
1640 e 1669. Como sabemos, este mo- tenção das prerrogativas espirituais
mento foi marcado por uma série de que compunham os direitos garantidos
conflitos que permearam as relações de pelos padroados ibéricos. A percepção
Portugal com as demais nações euro- por parte da Santa Sé de que a exten-
peias na cena política internacional são dos padroados régios não corres-
mas, igualmente, por instabilidades e pondia às áreas de efetiva expansão da
dificuldades presentes nas distintas Cristandade, associada às nuances de
dimensões que compunham a adminis- seu posicionamento em meio às dispu-
tração do Reino e de suas possessões tas políticas e diplomáticas do período
ultramarinas, sejam elas de natureza e ao crescente anseio de recuperar o
política, econômica, ou religiosa. No primado da expansão da fé culmina-
que diz respeito particularmente a esta, ram, com o passar dos anos, em uma
o período acima considerado coloca série de dificuldades para a política
Portugal diante de uma situação sem missionária portuguesa. Em pouco
precedentes, que ganha contornos mais tempo, o que poderia ser visto como
precisos com o passar dos anos e im- uma postura conciliatória da cúria ro-
põe alguns desafios à condução da di- mana deu lugar a um longo debate no
nâmica missionária portuguesa. A cri- qual Portugal buscou, com afinco, de-
ação da Sagrada Congregação de Pro- fender o exercício da jurisdição espiri-
pagação da Fé em 1622 pelo Papa Gre- tual em seus territórios ultramarinos.
gório XV visava, em primeiro lugar, Tendo como base para a discussão o
tomar conhecimento da situação reli- contexto brevemente apresentado aci-

119
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ma, esta proposta de comunicação pre- boa, fornecem elementos elucidativos


tende identificar as estratégias e os ca- para compreender a formulação das
minhos buscados pela Coroa com o justificativas que alimentaram os dis-
intuito de preservar o controle da ati- cursos sustentados por Portugal no
vidade missionária nos espaços por ela tocante à legitimidade de suas prerro-
defendidos como pertencentes à sua gativas espirituais. Entender as parti-
jurisdição espiritual e política. Os pas- cularidades da dinâmica missionária
sos trilhados pelo Pe. Nuno da Cunha, no período proposto, as estratégias e
assistente da Companhia de Jesus e justificativas às quais Portugal lançou
agente dos negócios de Portugal junto mão para defender seu direito de pa-
à Santa Sé entre 1645 e 1650 são extre- droado – como a criação de uma Junta
mamente significativos desse ponto de de Missões em Lisboa, em 1655 – bem
vista. A atuação do jesuíta frente aos como a possível permanência e desdo-
cardeais da Sagrada Congregação de bramentos desse debate nos anos que
Propagação da Fé e ao Papa Inocêncio se seguiram, constituem objetos desta
X, seus escritos, e a comunicação fre- comunicação.
quente que procurou manter com Lis-

SER ESTRANGEIRO NA BAHIA COLONIAL: O DIFERENCIAL BENCIANO


Natália de Almeida Oliveira

As práticas missionárias visavam o jesuíta italiano Jorge Benci, tendo como


estabelecimento de um consenso entre escopo realizar uma análise do seu
as diversas ordens religiosas que atua- projeto de intervenção social para a
vam no processo da colonização. Por América Portuguesa. Benci, estava in-
meio deste consenso, almejava-se sus- serido em uma complexa querela ins-
tentar e legitimar o projeto missioná- taurada no seio da Companhia de Je-
rio. Entretanto, as ações cotidianas sus acerca do métodos e caminhos que
demonstraram a impossibilidade de a missão deveria tomar. E aqui nesse
coesão entre os diversos religiosos e texto propomos realizar a reflexão do
especificamente, no caso de nossa aná- que chamamos de diferencial Bencia-
lise, entre os jesuítas. Desta forma, per- no, que seria a noção de não pertenci-
cebemos que o projeto colonizador te- mento a sociedade colonial Baiana,
ve de se alterar e conviver com as dis- sentindo-se, desta forma, um estran-
tintas vozes ressoantes. A Companhia geiro. Nosso personagem central é Jor-
de Jesus não era uma caixa homogê- ge Benci de Arimino italiano nascido
nea, que carregava um único discurso, em Rimini, na Península Itálica, em
mas sim, um corpo com distintas e 1650. No ano de 1681 embarca para
complexas vozes, que disputavam lu- Lisboa com o objetivo de trabalhar nas
gares e apontavam diferentes sentidos. atividades missionárias. Em 2 de Maio
Almejando trabalhar com a nova forma de 1700, quando estava na Bahia, Jorge
de refletir a missão, pautada nas con- Benci solicitou sair do Brasil por moti-
tradições, nos conflitos, e nas múltiplas vos pessoais, pedindo para voltar à
adaptações do projeto missionário, rea- Veneza onde havia estado ou para ir
lizamos a reconstrução da trajetória do para a Ilha de São Tomé, mas é envia-

120
CADERNO DE RESUMOS

do para Lisboa onde trabalhou com os buscamos aqui realizar uma reflexão
assuntos referentes à Província Jesuíti- do motivo de Jorge Benci se considerar
ca do Brasil. Se hoje entender o que um estrangeiro, mesmo após estar
seria estrangeiro é um exercício relati- mais de 15 anos em terras Brasileiras, e
vamente simples, para à época moder- apresentando o que seria um diferen-
na, território, língua e sangue não eram cial de seu personagem perante seus
termos naturalmente agregados e o pares, diferença que molda todo o seu
que mais se adequava à ideia de nação projeto missionário de intervenção na
consistia em um pertencimento de ca- sociedade colonial.
ráter local/municipal. Sendo assim,

TRAVESSIAS ATLÂNTICAS DOS AUTOS PASTORIS NATALINOS NO SÉCULO


XVI: AS DRAMATURGIAS DE GIL VICENTE E DE JOSÉ DE ANCHIETA
Mônica Maria de Souza Silveira (Pseudônimo: Wayra Silveira)

Durante quatro séculos os bailes pasto- bailes pastoris natalinos brasileiros


ris natalinos – espetáculos religiosos foram influenciados pelos autos pasto-
que reeditam anualmente a narrativa ris vicentinos. O Padre José de Anchi-
cristã da Natividade – persistiram co- eta escreveu e encenou no primeiro
mo uma das mais difundidas e perma- século da América Portuguesa 12 peças
nentes formas de entretenimento po- de teatro, todas elas autos pastoris re-
pular no nordeste do Brasil. As festas ferentes à Natividade. Entre outras
natalinas brasileiras, manifestações iniciativas que visavam a concretização
dramático-coreográfico-musicais, ver- do projeto político-pedagógico da
dadeiras óperas populares, sincréticas Companhia de Jesus, José de Anchieta
e miscigenadas, são oriundas do catoli- utilizou estes autos como instrumento
cismo europeu contra-reformista, dos catequético e de instrução para indíge-
costumes ibéricos do Ciclo do Natal. A nas e colonos. Sua biografia e sua obra
sua chegada ao Brasil deve-se, possi- revelam que Anchieta conheceu e foi
velmente, ao trabalho dos missionários influenciado pelo teatro renascentista
jesuítas influenciados pelo teatro qui- de Gil Vicente. A dramaturgia anchi-
nhentista português. Gil Vicente é con- etana cumpriu o papel de diversão,
siderado o fundador do teatro portu- amedrontamento, catequese, transmi-
guês, autor de uma obra fecunda sur- tindo os valores católicos dos quais a
gida na transição entre a Idade Média e Companhia de Jesus era protetora,
o Renascimento. Das suas 49 peças co- produtora e promotora. Gil Vicente e
nhecidas, todas criadas em Portugal Anchieta compõem o quadro de oposi-
entre 1502 e 1536, 16 são Obras de Devo- ção entre o pensamento medieval e o
ção, e entre estas oito possuem a Nati- moderno. Foram homens que vivencia-
vidade como tema. Inicialmente segui- ram as transformações do século XVI, a
dor do espanhol Juan del Encina, Gil afirmação do projeto colonizador por-
Vicente foi o expoente do gênero pas- tuguês e da civilização espiritual cató-
toril na Península Ibérica. O folclorista lica nos quatro continentes. O teatro
D. Martins de Oliveira assevera que os vicentino criticava a sociedade burgue-

121
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

sa-mercantil, mas ainda revelava o e anchietanos, quanto nos bailes pasto-


pensamento medieval religioso; o tea- ris natalinos brasileiros, levando em
tro anchietano visava a manutenção de conta aspectos tanto religiosos quanto
uma ordem nascente. Ambos trabalha- artísticos, e buscaremos demonstrar
vam com a temática medieval da luta linhas de causalidade entre estas re-
do bem contra o mal, e nos seus autos presentações. Considerando aspectos
pastoris afirmavam a vitória do bem de teorias pós-coloniais sobre a mesti-
através da reedição do nascimento do çagem, propomos ainda algumas refle-
Deus Menino, glória suprema do cris- xões sobre as recriações e os cruzamen-
tianismo. Nesta comunicação aponta- tos pelos quais passaram estas repre-
remos características gerais presentes sentações na América Portuguesa.
nestes autos de Natal, tanto vicentinos

122
CADERNO DE RESUMOS

SIMPÓSIO TEMÁTICO 7
Dinâmicas processuais na justiça do Antigo Regime – ritos, práticas, querelas e
jurisdições coloniais (1530-1822)

Este simpósio não alcançou o número suficiente de inscritos.

SIMPÓSIO TEMÁTICO 8
Do colonial ao pós-colonial: perspectivas para ler os domínios portugueses na
África e no Oriente

Coordenadores: Patricia Souza de Faria (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)


e Roberta Guimarães Franco (Universidade Federal de Lavras)

13 de setembro de 2016

O TRATADO BREVE DE ANDRÉ ÁLVARES DE ALMADA: COMPARAÇÃO DE


DOIS MANUSCRITOS QUINHENTISTAS
Francisco Aimara Carvalho Ribeiro

Em fins do século XVI, o Capitão e Ca- política na defesa dos interesses da


valeiro de Cristo, apesar do seu defeito elite local de proprietários e comerci-
de cor, André Álvares de Almada, na- antes de Cabo Verde na Costa da Gui-
tural da Ilha de Santiago do Cabo Ver- né num momento em que estes esta-
de, redigiu um longo Tratado descre- vam perdendo seus mercados para
vendo as terras do continente africano concorrentes franceses e ingleses e
entre o Rio Senegal e a Serra Leoa, que buscavam apoio da Coroa portuguesa.
seriam, segundo ele, os limites de atu- Nesse sentido, o Tratado serve para
ação dos vizinhos do Arquipélago do informar a Coroa e a Companhia de
Cabo Verde. Esse documento chegou Jesus sobre as condições para coloniza-
aos nossos dias sob três versões distin- ção e conversão na área onde se insta-
tas de acordo com a seguinte cronolo- laria, em 1604, a Capitania da Serra Leoa
gia de redação: o Tratado Breve dos e a Missão do Cabo Verde. Porém, prin-
Reinos da Guiné do Cabo Verde, título cipalmente, para o leitor contemporâ-
da versão conhecida como Manuscrito neo, o texto de Almada é um fio con-
de Lisboa, de 1593; o Tratado Breve dos dutor que permite apresentar e anali-
Rios da Guiné do Cabo Verde, segundo a sar as relações entre portugueses e
versão do Manuscrito do Porto, de africanos na Grande Senegâmbia, ou
1594; e há ainda uma terceira variante, Guiné do Cabo Verde, entre meados
sem título, que segue a organização do do século XVI e o primeiro quartel do
texto do Manuscrito de Lisboa, mas de século XVII. A análise dos manuscritos
forma resumida, de 1596. O Tratado de conhecidos do Tratado e sua compara-
Almada é uma importante ferramenta ção com outros relatos da mesma épo-

123
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ca permite perceber os contrastes e as tatar o que foi incluído na segunda re-


especificidades do olhar e da produção dação do Tratado e, sobretudo, o que
escrita europeia, portuguesa, cabo- estava presente na primeira redação
verdiana e luso-africana sobre a Guiné. que foi excluído da segunda. Tal com-
Em minha tese de doutoramento de- paração também confirma a importân-
fendida em Março deste ano junto à cia dessa fonte para o estudo tanto das
Universidade Federal Fluminense, rea- sociedades da África Ocidental, como
lizei uma comparação sistemática dos das demais sociedades atlânticas du-
dois manuscritos mais extensos do Tra- rante a expansão ultramarina, a cons-
tado, os manuscritos de Lisboa e do trução e a operação dos impérios ibéri-
Porto. O que pretendo apresentar nes- cos com suas conquistas, presídios,
se simpósio temático é o resultado des- fortalezas e feitorias em África e nas
sa comparação, em que podemos cons- Américas.

O DISCURSO MISSIONÁRIO NO CONTEXTO ANGOLANO ENTRE 1671 E 1749


Edgleice Santos da Silva

Entre os séculos XVII e XVIII, o cotidi- te documentada. O fato de as ordens


ano de Angola envolveu diversos ato- terem posturas diferentes sobre o mo-
res que compunham um complexo e do de evangelizartransferiu muitas
conturbado ambiente em meio a estru- vezes essas disputas para a esfera ad-
turas políticas, econômicas e religiosas ministrativa. Portugal tentou por mui-
diversas. Esta comunicação procura tas vezes obter o domínio das missões
dar destaque à atuação dos missioná- na África Centro Ocidental, entretanto,
rios da Igreja Católica, tanto por sua os missionários capuchinhos obtive-
presença ativa no território, como tam- ram maior destaque adquirindo muita
bém por terem sido responsáveis por influência entre os angolanos e a ad-
grande parte dos registros que possibi- ministração portuguesa. David Birmi-
litam o estudo mais profundo da soci- ghan afirma que a importância social
edade angolana. Para além de utiliza- dos capuchinhos em Angola foi infini-
rem sua escrita como propaganda de tamente superior à dos jesuítas, posto
sua vida apostólica, esses homens rela- que eles tinham mais disponibilidade
taram de forma minuciosa muitos as- para adentrar nos sertões e conhecer as
pectos da cultura dos centro- africanos dinâmicas sociais existentes naquela
. Ao analisar a atuação missionária em região: Isso não significa, porém, que
Angola, encontramos diversos elemen- os capuchinhos não resguardavam vá-
tos que nos ajudam a entender as com- rios preconceitos em relação aos afri-
plexidades daquela sociedade. Os mis- canos. Utilizavam essa estratégia como
sionários estavam inseridos em todos meio de obter maiores informações
os aspectos da sociedade africana. No- sobre os futuros cristãos a fim de trans-
tadamente, os que se mais se destaca- formar seus ensinamentos e tornar a
ram nesse cenário foram os missioná- conversão mais efetiva. As adequações
rios da ordem dos jesuítas e os capu- e releituras foram constantemente uti-
chinhos. A disputa política entre os lizadas a despeito de preceitos ortodo-
jesuítas e os capuchinhos foi claramen- xos da Igreja Católica.

124
CADERNO DE RESUMOS

UMA PERSPECTIVA DA AÇÃO MISSIONÁRIA PORTUGUESA NO ORIENTE EM


AGOSTINHO DE SANTA MARIA (1709)
Luciana Nogueira da Silva

A presente proposta de comunicação no Japão, entre os anos de 1549 e 1614.


sugere um estudo acerca de interações Importante destacar que, embora o
religiosas, sociais, políticas e culturais Japão jamais tenha sido uma colônia
entre europeus e japoneses pensadas a portuguesa, a presença lusa influenci-
partir de uma das obras religiosas atri- ou diretamente nos eventos ocorridos
buídas a frei Agostinho de Santa Maria na região. Esta se encontrava fragmen-
(1642-1728), religioso que professou tada politicamente e em plena guerra
seus votos em 1665, na então recém civil quando os portugueses desem-
criada congregação da observância dos barcaram em seus portos. De posse de
Agostinhos descalços. Rosas do Japão autorização para comerciar no arquipé-
[...], de 1709 é a obra escolhida, a mes- lago, os portugueses introduziram aí
ma traz uma narrativa enaltecedora técnicas e objetos que eram desconhe-
dos feitos jesuíticos em território nipô- cidos pelos japoneses, com destaque
nico articulando relações de vida, ha- para a espingarda, a partir de então
giografia e tratado espiritual com a fundamental nas guerras de unificação
história da missionação cristã católica do Japão.

DE GOA A LISBOA: ESCRAVOS E FORROS ASIÁTICOS EM LISBOA


(SÉCULOS XVI E XVII)
Patricia Souza de Faria

Investigamos a presença de escravos e amplamente investigada pela historio-


forros de origem asiática em Lisboa, grafia, no entanto, ainda há muitas la-
nos séculos XVI e XVII. Goa, na Índia, cunas a respeito do tráfico de escravos
capital do império asiático português, e da escravatura no Índico e no Pacífi-
foi uma região dotada de posição estra- co, em particular nos territórios orien-
tégica no comércio marítimo entre o tais que estiveram sob influência lusa.
Atlântico e o Oceano Índico, graças à No tocante à escravatura no próprio
Carreira da Índia (rota que ligava os território “metropolitano”, alguns es-
portos de Goa e de Lisboa) e às rotas tudos têm analisado, nas últimas déca-
do comércio interasiático, o que favo- das, a presença de escravos africanos
receu que essa cidade se tornasse um na Península Ibérica na Era Moderna,
importante mercado de escravos ori- mas poucos concederam uma atenção
undos da África e da Ásia. Em Goa, mais pormenorizada aos contingentes
tais populações escravizadas eram ad- de escravos de origem asiática que fo-
quiridas por “proprietários” locais ou ram transportados para os reinos ibéri-
transportadas para outros destinos da cos. Nossa investigação almeja conhe-
Ásia, bem como para Lisboa (e de lá cer um pouco mais sobre essas popula-
revendidas para outras regiões da Pe- ções asiáticas, escravas e forras, que
nínsula Ibérica). A escravidão nos es- viveram na Lisboa quinhentista e seis-
paços coloniais do Atlântico tem sido centista. Ademais, espera-se traçar

125
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

uma topografia dessa presença prati- Subaltern Lives. Mas tal reconstituição
camente esquecida, ou seja, reconhecer pode lançar luz sobre práticas e pro-
os principais espaços em que tais po- cessos associados à expansão imperial
pulações indianas, malaias, cingalesas, portuguesa no Oriente, tais como a
chinesas viveram em Lisboa, os locais guerra, o cativeiro, o comércio, a es-
em que tais asiáticos conviveram com cravidão. Por fim, utilizamos a expres-
outros escravos (africanos, mouriscos) são “escravo asiático” apenas para
e livres. Enfim, espera-se desvelar suas aludir à origem de tais populações es-
redes de sociabilidade e seu cotidiano cravizadas, pois reconhecemos os de-
em terras lisboetas. Com base em do- safios de não adotarmos designações
cumentos da Inquisição e da Câmara genéricas, bem como de não projetar-
Eclesiástica de Lisboa, analiso frag- mos, retrospectivamente, formas de
mentos da trajetória de vida de asiáti- identificação forjadas no contexto da
cas e asiáticos escravizados que foram criação dos estados nacionais ou que
convertidos ao catolicismo e transpor- foram fabricadas pela literatura coloni-
tados para Lisboa. A reconstituição de al e orientalista, sendo mais profícuo
tais trajetórias de vida caracteriza-se reconhecer que tais populações escra-
pelo caráter fragmentário, em decor- vizadas –submetidas a diversos deslo-
rência da própria natureza dos arqui- camentos e à mudança de estatuto so-
vos, que, por sua vez, reverberam a cial – experimentaram diversas trans-
distribuição desigual de poder que vi- formações culturais e religio-
gorou nas sociedades coloniais, como sas/sectárias, tal como postulou In-
asseverou Clare Anderson, no livro drani Chaterjee.

OS CIGANOS ENTRE PORTUGAL E AS SUAS POSSESSÕES ULTRAMARINAS


NA ÁFRICA (SÉCULO XVIII)
Natally Chris da Rocha Menini

Ao longo da época moderna os ciganos “degredados” que os ciganos foram


sofreram constantes penas de degredo desembarcados nas colônias portugue-
e, através destas penas, as autoridades sas na África e na América, especial-
régias portuguesas buscaram expulsá- mente durante o século XVIII. Desse
los de Portugal, mas também incorpo- modo, no presente trabalho buscare-
rá-los nos esforços colonizadores da mos abordar as especificidades do de-
metrópole em terras ultramarinas. As- gredo aplicado aos grupos ciganos na
sim, foi justamente na condição de África Ocidental Portuguesa.

14 de setembro de 2016

NOVA OEIRAS E IPANEMA: AS EXPERIÊNCIAS DE TRABALHADORES


NA FUNDIÇÃO DE FERRO NA CAPITANIA DE SÃO PAULO E NO
REINO DE ANGOLA (SÉCULO XVIII)
Crislayne Gloss Marão Alfagali

Por meio do estudo da correspondên- Inocêncio de Sousa Coutinho (1764-


cia do govenador de Angola, Francisco 1772), com o Morgado de Mateus

126
CADERNO DE RESUMOS

(1765-1775), governador da capitania de São Paulo encaminhou para o Con-


de São Paulo, é possível acompanhar o de de Oeiras amostras da de ferro des-
planejamento e as dificuldades de ins- ta localidade. D. Luis Antonio de Sou-
talação de duas fundições de ferro: a sa, o Morgado de Mateus, considerava
Fábrica de Ferro de Nova Oeiras (An- a fundição de ferro uma das principais
gola) e a Fábrica de Ferro do Morro de questões de seu governo e, em suas
Ipanema (São Paulo). Essa apresenta- cartas para o Conde Oeiras, afirma que
ção ter por objetivo comparar os pla- desde 1760 tinha notícias sobre a ex-
nos coloniais para a exploração de fer- ploração das minas de ferro do morro
ro no império português e a importân- de Ipanema. Mestres haviam sido
cia dos conhecimentos centro-africanos chamados de Portugal e trabalhadores
a respeito das técnicas metalúrgicas produziam ferro com fornos, ferramen-
neste quadro mais geral. Em outras tas, malhos e engenhos. Em junho de
palavras, como as experiências dos 1767, o governador de Angola pede ao
trabalhadores centro-africanos e seus Morgado de Mateus que lhe envie uma
descendentes foram fator incontorná- descrição pormenorizada da fábrica de
vel na implementação das fundições ferro que “se fazia em São Paulo”: “ se
nestes domínios coloniais seja como fica distante do mar, que Mestres tem,
fornecedores de saberes e técnicas, seja que número de gente trabalha, quanto
como sujeitos históricos determinantes ferro dá por dia, e porque preço sai”
do sucesso desses empreendimentos, (Torre do Tombo, Projeto Reencontro
uma vez que eram a principal mão-de- Morgado Mateus mf. 12). Em contra-
obra especializada nas fundições. Em partida, governador da Capitania de
dezembro de 1766, o governador Fran- São Paulo, pedia as plantas de Nova
cisco Inocêncio de Sousa Coutinho deu Oeiras, para que à luz delas pudesse
início à construção da Fábrica de Ferro estabelecer a fábrica no Morro da Ara-
de Nova Oeiras, nomeada assim em çoiaba (Biblioteca Nacional de Portu-
homenagem ao então Conde de Oeiras, gal, Cód. 8743, Microfilme F 6377). A
futuro Marquês de Pombal. Para a ins- esses exemplos, soma-se outras trocas
talação da fábrica, o governador criou de informações técnicas e até mesmo
a povoação de “Nova Oeiras”, que foi um intercâmbio de trabalhadores espe-
estabelecida em janeiro de 1767, locali- cializados, mestres fundidores, ferrei-
zada no território das jazidas de ferro ros, forjadores. Tendo como fio condu-
na confluência dos rios Lucala e Luin- tor essa correspondência, conseguimos
ha (afluentes do rio Cuanza), na atual apreender uma visão mais geral da
província de Cuanza Norte (cerca de exploração do ferro no império portu-
150 quilômetros a sudeste de Luanda). guês. Entretanto, embora os planos
Por sua vez, os edifícios da Fábrica de coloniais sejam parte fulcral desta aná-
Ferro de Ipanema foram estabelecidos lise, a contribuição mais contundente
apenas em 1811. Contudo, as informa- para a historiografia que já se debru-
ções e pesquisas nobre a mineração do çou sobre o assunto é a comparação
ferro no morro da Araçoiaba (Iperó-SP) entre as condições de vida e as experi-
remontam ao século XVI e uma fábrica ências de trabalho daqueles detinham
de ferro ali funcionava em meados do as técnicas da fundição de ferro, sobre-
século XVIII. Em 1765, o Governador tudo, os africanos e seus descendentes.

127
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

LEITURAS SOBRE A IMPORTÂNCIA DA POPULAÇÃO NA DOCUMENTAÇÃO


COLONIAL: ANGOLA, MOÇAMBIQUE E CABO VERDE (SÉCULO XVIII)
Ana Paula Wagner

A documentação administrativa refe- bros da mesma categoria hierárquica


rente ao Império Português, reunida ou entre dois particulares”. Assim, di-
no Arquivo Histórico Ultramarino ante da observação de todos esses de-
(Lisboa/PT), é uma fonte inesgotável talhes, conforme adverte Belloto, o his-
de leituras, de interpretações e de co- toriador vai construindo o entendi-
nhecimentos acerca de temas e de as- mento das “razões, dos contextos e das
pectos das diferentes realidades sociais circunstâncias da criação dos docu-
e dos distintos espaços geográficos mentos administrativos” referentes ao
submetidos ao rei de Portugal durante Império Português. Feitas estas consi-
a época moderna. A complexidade da derações sobre a documentação admi-
documentação pode ser notada pela nistrativa, apresentamos nosso objetivo
diversidade de formas de documentos. para esta comunicação. Ao privilegiar
Apenas para citar alguns exemplos, alguns documentos referentes à distin-
dentro de uma tipologia identificada tas partes do Império Português, parti-
por Heloísa Liberalli Belotto e José Sin- cularmente situados no território afri-
tra Martinheira, entra a documentação cano, como as Capitanias de Angola,
Avulsa encontramos Alvarás, Avisos, Moçambique e Cabo Verde, procura-
Bando, Carta, Carta de Lei, Consulta, remos fazer leituras sobre a importân-
Decreto, Despacho, Instrução, Mapa, cia que a população vai adquirindo no
Ofício, Ordem, Parecer, Passaporte, interior da política portuguesa da se-
Petição, Portaria, Provisão, Regimento, gunda metade do século XVIII e, a par-
Relação, Representação, Requerimento, tir da análise das fontes, compreender
Termo, etc. As questões tratadas na os novos contornos que a ideia de po-
documentação administrativa poderi- pulação assumiu a partir de então.
am variar conforme a autoridade que Após a análise da documentação ad-
escrevia o documento, quem receberia ministrativa das capitanias acima men-
este, os assuntos pautados, se eram cionadas, notamos que o desejo pelo
instrumentos legislativos ou adminis- levantamento de informações sobre a
trativo, etc. Em termos de direção de população poderia servir ao soberano
circulação dos documentos no interior luso para muitas finalidades: recrutar
do Império Português, Heloisa Belloto indivíduos para o serviço das armas e
informa que esta poderia ocorrer em para trabalhos públicos, atender a pre-
sentido “ascendentes (de parte dos sú- ocupações fiscais, ou ainda sanar a fal-
ditos em direção às autoridades su- ta de pessoas para a realização de ati-
premas ou delegadas, ou destas às su- vidades agrícolas ou para a ocupação
premas); descendentes (se das autori- do território. Conforme já discutido em
dades supremas às delegadas ou aos outra pesquisa, no Império Português
súditos ou, se for o caso, das autorida- as questões que se colocaram em torno
des delegadas aos súditos); finalmente, da produção de um saber sobre a po-
os documentos poderão ser horizon- pulação não se limitaram à simples
tais, quando o fluxo documental se dá inventariação de dados. A maior parte
na mesma instância, isto é, entre mem- delas situaram-se numa perspectiva de

128
CADERNO DE RESUMOS

melhor aproveitamento dos recursos pelos sujeitos históricos que viviam


disponíveis, em atenção ao gerencia- nos territórios da América Portuguesa,
mento adequado de homens, de bens e África e Oriente. Ou seja, essas dispo-
de riquezas. Entretanto, ainda que o sições gerais esbarravam e confronta-
reino e os domínios ultramarinos esti- vam-se com especificidades e particu-
vessem reunidos debaixo de normas laridades locais, algumas das quais
administrativas bastante similares, des- procuraremos destacar ao longo da
taca-se que existiam limites colocados comunicação.

A CRUZAR RIOS E FRONTEIRAS DE GOA: O COLONIALISMO PORTUGUÊS


E AS KALAVANT NOS SÉCULOS XVI E XVIII
Luiza Tonon da Silva

Em Goa, região na costa sudoeste do grupo de mulheres. Elas, que eram es-
Sul da Ásia, canta-se e conta-se histó- tigmatizadas por seu ofício, casta, con-
rias de um tempo em que para partici- dição social, e, perante a sociedade co-
par de rituais, mulheres e homens hin- lonial, ainda mais por sua religião e
dus cruzavam para o outro lado do rio. aspectos de moral e sexualidade, dei-
Do outro lado do rio, saíam das terras xaram significativos registros nos pa-
dos portugueses, que detinham o po- péis e também nas memórias portu-
der colonial de Goa desde o início do guesas e goesas – como se verifica em
século XVI – domínio este que durou diversas fontes e na historiografia. Seja
até meados do século XX. A coloniza- por suas importâncias nos rituais de
ção portuguesa pressupôs não só a ob- passagens e casamentos, como expres-
tenção de lucros, mas também a conso- sos nos pedidos goeses a governantes
lidação de um poder político, e com portugueses no século XVIII, ou por
ele, um poder religioso sobre os nati- suas associações a certos homens, goe-
vos e nativas. Durante esse período, ses ou portugueses, hindus ou cristãos,
missionários europeus cristãos chega- que em alguns casos deram-nas poder
vam com o intuito de conversão da mesmo para financiar a construção
população local, em maioria hindu; leis templos hindus, as kalavant possuíram
e aparatos do Estado colonial visavam, uma trajetória particular e ainda assim
em conjunto com a Igreja, modificar entrelaçada em meio às disputas e con-
hábitos locais e propiciar favorecimen- tradições dentre o Império Português,
tos aos cristãos. Nesse processo, subal- a atravessar séculos e a atravessar os
ternizavam as goesas e goeses, princi- rios das fronteiras, nas noites goesas, a
palmente os hindus, e também, ainda desafiar leis e punições. Se a partir de
mais, algumas hindus: as bailadeiras, ou meados do século XVI a postura colo-
kalavant – que em concani, idioma na- nial portuguesa resolveu pela proibi-
tivo de Goa, significa artista. Por meio ção e alteração de diversos aspectos da
de documentação, em provisões, car- vida dos nativos e nativas, e nelas in-
tas, petições, relatos de governantes e clusas as atuações das kalavant, no sé-
clérigos destaca-se como se deu a per- culo XVIII, evidencia-se significantes
seguição a tais grupos, os conflitos ge- permanências. Essas continuidades
rados, e as ações e resistências desse denotam a diferença entre um projeto

129
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

colonial, pensado pelos portugueses a lência colonial. A ótica da decoloniali-


partir de suas experiências e a realida- dade, e em acréscimo à perspectiva de
de colonial, feita pelos conflitos, dispu- estudos subalternos, é neste artigo le-
tas e ações dos nativos e nativas de vantada com este fim, e também pre-
Goa. Para compreender essas ações, tende contribuir para a proposta epis-
procura-se utilizar aportes metodoló- temológica de prioridade diálogo entre
gicos que destaquem as ações de goe- historiografias e histórias do Sul. Ques-
sas e goeses através dos indícios pre- tiona-se a passividade dos sujeitos na-
sentes em documentos oficiais euro- tivos dos territórios coloniais na Amé-
peus, aliados a uma análise crítica, em rica, África e Ásia, e em especial das
conjunto com uma teoria que visa enfa- mulheres nativas, subalternizadas no
tizar as existências e resistências desses passado e nos registros e ainda pouco
sujeitos em meio ao contexto e à vio- recordadas nos estudos do presente.

BAILADEIRAS DA ÍNDIA: ANÁLISE DE UMA CATEGORIA HISTÓRICA NA


PERSPECTIVA DA CRÍTICA PÓS-COLONIAL
Jorge Lúzio Matos Silva

Descritas como mulheres públicas as- da mulher “bailadeira”, tornando invi-


sociadas à prostituição, as bailadeiras síveis os demais atores sociais em seus
da Índia portuguesa, dançarinas dos diferentes papeis. A documentação
templos hindus em suas práticas artís- ultramarina e a teoria da crítica pós-
ticas e litúrgicas, correspondiam à tra- colonial permitiram o reconhecimento
dição devadasi presente em grande par- e a identificação dos diversos sujeitos
te do subcontinente indiano. O discur- históricos localizados neste mesmo
so colonial em suas estratégias de sub- contexto, aqui reinterpretados como
jugo e dominação, condensou e redu- uma categoria nos processos da coloni-
ziu distintas funções, atributos e sujei- zação de Portugal nos territórios indi-
tos que orbitavam em torno das artes e anos.
das religiosidades, na figura exclusiva

OUTRAS FORMAS DE LER: A TEORIA PÓS-COLONIAL E AS LITERATURAS


AFRICANAS, VISÕES PARA ALÉM DO CENTRO
Roberta Guimarães Franco

O conceito “pós-colonial” vem ocu- de-se aplicar esta conceituação, é uma


pando, ao longo de aproximadamente das questões que envolvem o termo. O
duas décadas, um grande espaço nos certo é que o “pós-colonial” nos remete
chamados estudos culturais. Proveni- a um jogo de rupturas e continuidades.
ente de discussões das ciências sociais, As rupturas são facilmente identifica-
tal conceito está sempre envolvido em das nos processos de descolonização,
discordâncias teóricas relativas ao seu na desocupação política dos antigos
lugar de origem (lugar de enunciação) territórios coloniais pelos antigos colo-
e/ou ao “direito” de utilização do ter- nizadores, nos novos hinos, bandeiras
mo. Afinal, a que tipo de estudos po- e presidentes, ou seja, na criação de um
130
CADERNO DE RESUMOS

novo Estado-nação. No entanto, as tos e desigualdades, heranças do perí-


continuidades podem não ser percebi- odo colonial, como também as marcas
das tão claramente, através de práticas culturais oriundas de um complexo
que denunciem a permanência da sub- processo de hibridismo, que varia de
jugação e da exploração, como as de território para território, mesmo que os
matéria-prima e mão-de-obra de baixo agentes da colonização sejam os mes-
custo, ou ainda os consequentes confli- mos.

131
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

SIMPÓSIO TEMÁTICO 9
Fronteiras e relações transfronteiriças na América colonial

Coordenadores: Sebastián Gómez González (Universidad de Antioquia) e Carlos Augusto


Bastos (Universidade Federal do Pará)

13 de setembro de 2016

ASTRONOMIA E DEMARCAÇÃO DE FRONTEIRAS NA AMAZÔNIA COLONIAL


Wesley Oliveira Kettle.

Ao longo do século XVIII, espanhóis e demarcação das fronteiras na Amazô-


portugueses negociavam as demarca- nia setecentista. É importante não per-
ções de limites entre as possessões das der de vista que a atuação desses as-
Coroas ibéricas na América. A partir trônomos está relacionada com uma
de 1750, isso foi intensificado com a tradição com referências que em certa
chegada ao Novo Mundo dos comissá- medida podemos chamar de científicas
rios demarcadores de limites. Nesse bastante demarcadas na Europa, toda-
contexto, o Vale Amazônico recebeu via, demonstraremos que ao identifi-
engenheiros, desenhadores, astrôno- carmos a interação desses homens de
mos entre outros homens de ciências ciência com o mundo natural próprio
que seriam responsáveis pelo trabalho do Vale Amazônico suas percepções
das demarcações, contando com o a foram alteradas. Os comissários con-
atuação indispensável de negros e in- tratados para a atividade astronômica
dígenas na tarefa de percorrer os ser- foram: padre Xaverio Haller, Ignácio
tões dessa região. Esta comunicação Szentmartonyi e João Ângelo Brunelli,
pretende analisar o papel dos astrô- que não apenas se dedicaram aos cál-
nomos no processo de demarcação das culos dessa ciência mas também se en-
fronteiras no Vale Amazônico, desta- volveram intensamente na dimensão
cando como esses sujeitos foram indis- política do processo de demarcação de
pensáveis para a elaboração do materi- limites. Por meio do trabalho desses
al cartográfico que foi utilizado nas homens de ciência podemos conhecer
negociações entre os administradores relatos não apenas sobre os corpos ce-
coloniais espanhóis e portugueses nos lestes, os fenômenos da natureza e o
encontros que aconteceram no rio Ne- desenvolvimento de instrumentos de
gro e no rio Solimões. Será demonstra- medição alterados diante da realidade
do como esses astrônomos interagiram amazônica, mas também descrições
não apenas com os agentes políticos sobre a sociedade do Estado do Grão-
mas também com as populações indí- Pará e Maranhão, relatos sobre plantas
genas, negros escravos, membros do e animais dessa região com o objetivo
clero e tantos outros personagens que de construir um conhecimento que
participaram do complexo processo de garantisse a posse do governo portu-

132
CADERNO DE RESUMOS

guês, além de se apresentar como súdi- chamar de prática científica, no âmbito


tos capazes de galgar postos mais ele- das relações político-estratégicas e
vados na administração colonial. As- também na dimensão da vida vivida,
sim, esta comunicação demonstrará de isto é, no cotidiano da sociedade colo-
que maneira as atividades realizadas nial no Vale Amazônico, permitindo-
pelos astrônomos estão relacionadas nos perceber a complexidade do pro-
com as negociações para o estabeleci- cesso das demarcações de fronteira
mento dos limites entre as possessões nessa região e das múltiplas relações
espanhola e portuguesa na Amazônia, sociais que envolvem a história da
seja na dimensão do que poderíamos Amazônia.

AS REPRESENTAÇÕES DO ESPAÇO NOS MANUSCRITOS SETECENTISTAS E A


“RELAÇÃO DE LUGARES E POVOAÇÕES DA CAPITANIA DE GOIÁS” (1758)
Deusdedith Alves Rocha Junior

Esta pesquisa tem por finalidade iden- formação da governança do Império


tificar e analisar as representações so- português sobre os espaços coloniais
ciais do espaço nas narrativas de ma- disputados entre estes e espanhóis,
nuscritos setecentistas do território mas também as interações conflitivas
goiano, e em especial no documento entre portugueses, índios e africanos
“Relação dos lugares e povoações da que se movimentam ao sabor das pres-
capitania de Goiás” sões de uns sobre outros. Nos manus-
(AHU_ACL_CU_008, CX.15, D.892), de critos do Arquivo Histórico Ultramari-
1758, levando em conta a construção no – AHU, da cota da capitania de
do sentido de territorialidade que se Goiás, encontram-se diversos docu-
desenvolveu a partir da elaboração da mentos descritivos de distâncias, loca-
toponímia nessa capitania. Tomamos a lizações, hidrografia, limites de propri-
representação social como a instituição edades e outras referências que permi-
de valores, ideias e práticas que possi- tem analisar as formas de representa-
bilitam orientar, controlar e comunicar ção social do espaço e as construções
sentidos sobre a realidade. Considera- de sentido de territorialidade que delas
se que o processo de ocupação do terri- se elaboraram. A partir dessas percep-
tório goiano, nesse período, como par- ções pode-se considerar também os
te da expansão territorial portuguesa, efeitos que os sentidos de sertão, civili-
estabeleceu várias formas de conflitos, zação, selvageria, bravio etc. engendra-
resultando, entre outras, na construção ram, tanto na toponímia e na sua
discursiva de uma descrição do espaço transposição para cartas geográficas e
como afirmação da territorialidade outras formas discursivas do espaço,
portuguesa. A territorialidade se defi- como para as relações cotidianas e a
ne pelas ações relacionadas com a ocu- consolidação ou alteração de formas de
pação, uso, controle e identificação de identidade com regiões e outros recor-
uma parte do espaço, transformando-o tes espaciais.
em território. Tais conflitos envolvem a

133
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

AS FRONTEIRAS ESPANHOLAS NO MARAÑÓN: FRANCISCO REQUENA E A


EXPEDIÇÃO DE LIMITES (1778 - 1793).
Roberta Fernandes dos Santos

Durante o período colonial, o Marañón ampla compreensão da importância


constituía-se em um espaço imenso, geoestratégica das fronteiras do norte
habitado por uma enorme quantidade do América do Sul e defendia um pro-
de grupos indígenas e sob o domínio jeto de povoamento para a efetiva ocu-
colonial da Espanha, entretanto seus pação dos espaços fronteiriços como
limites eram imprecisos. Sabia-se que o maneira de garantir a posse espanhola
início da região denominada pelos es- desses territórios. Entretanto, a presen-
panhóis de Marañón coincidia com a ça espanhola na região sempre foi defi-
nascente do rio Marañón (na base da ciente, tendo no projeto missionário o
Cordilheira dos Andes) e se estendia único modelo de ocupação e defesa
pela área da floresta até as fronteiras daqueles territórios. Partimos da análi-
com os territórios pertencentes à coroa se da extensa documentação produzi-
portuguesa. Essa fronteira não era de- da por Francisco Requena entre os
terminada por uma linha fixa, mas anos de 1778 e 1793, documentação
constituía-se em um espaços impreci- composta por um diário, duas confe-
so, cujos limites entre os territórios es- rências, mapas, ilustrações e inúmeras
panhóis e portugueses eram fluidos e cartas endereçadas tanto ao comissário
manipuláveis. Com a assinatura do português quanto às autoridades es-
Tratado de Santo Ildefonso em 1 de panholas. Neste texto, nos concetrare-
outubro de1777, se reconheceu a ne- mos na análise de seu diário, pois dele
cessidade de determinar os limites dos emanam os problemas experimentados
impérios ibéricos no ultramar. Dessa por Requena no cotidiano da expedi-
forma, as coroas ordenaram a organi- ção e a relação conflituosa que se esta-
zação de expedições demarcadoras beleceu entre os espanhóis e os portu-
que, atuando conjuntamente – espa- gueses envolvidos no processo de de-
nhóis e portugueses – demarcassem as marcação das fronteiras ao longo do
linhas fronteiriças nos territórios colo- período citado. Portanto, este texto
niais. Formaram-se quatro comissões privilegia a análise do espaço de fron-
conjuntas de demarcação que percorre- teira entre os impérios ibéricos no Ma-
riam as principais áreas em litígio, es- rañón destacando a atuação de Fran-
tabelecendo as raias divisórias e edifi- cisco Requena no processo de demar-
cando os marcos que determinariam a cação da expedição de limites a partir
posse dos territórios para seus respec- da leitura do diário produzido pelo
tivos monarcas. A quarta partida da comissário espanhol. Nosso objetivo é
expedição de limites era a responsável mostrar como se deu o processo de
pela demarcação das fronteiras no Ma- construção de um espaço fronteiriço a
rañón. Francisco Requena foi o primei- partir da compreensão do significado
ro comissário espanhol e desempe- de fronteira no período e das relações
nhou esta função entre os aos de 1778 e conflituosas entre espanhóis e portu-
1793, período em que também atuou gueses protagonizadas pelos seus res-
como Governador da Província de pectivos comissários durante os traba-
Maynas no Marañón. Requena tinha lhos da expedição de limites.

134
CADERNO DE RESUMOS

FRONTEIRA DO ASSENTAMENTO, FRONTEIRA DA EXPANSÃO. AGRICULTU-


RA E EXTRATIVISMO NA AMAZÔNIA COLONIAL (SÉCULOS XVII E XVIII)
Rafael Chambouleyron
Minha comunicação discute a conexão escravos, formas que se conectavam à
existente entre o processo de expansão exploração das drogas do sertão; 4) a
das fronteiras internas e das fronteiras condição de fronteira da capitania do
externas do Estado do Maranhão e Pa- Pará, que se tornou um problema cada
rá, de finais do século XVII a meados vez mais presente para a Coroa, e prin-
do século XVIII. Trata-se de mostrar cipalmente, autoridades, mas também
como o deslocamento das fronteiras moradores e missionários; 5) a divisão
norte e oeste, que ensejou a intensifica- do território do Pará em distritos mis-
ção das trocas e dos conflitos entre di- sionários, repartidos entre as diversas
versos grupos europeus e indígenas, é ordens religiosas por determinação da
concomitante e conectado à expansão Coroa, em finais do século XVII; 6) os
do assentamento agrícola nos rios pró- vastos sertões das capitanias do Mara-
ximos a Belém e à expansão da pecuá- nhão e do Piauí passam a ser ocupados
ria pelos sertões do Maranhão e do a partir de dois vetores fundamentais:
Piauí. A partir de finais do século XVII, por um lado, uma ocupação mais anti-
inicia-se um processo de expansão ga, da segunda metade do século XVII,
econômica e territorial do Estado do vinda principalmente da Bahia; de ou-
Maranhão e Pará, inserido no contexto tro, uma ocupação comandada de São
de consolidação da dinastia bragantina Luís pelos governadores do Estado do
em Portugal, principalmente, a partir Maranhão assentada no binômio guer-
do reinado de Dom Pedro II. Esse qua- ras e sesmarias, que começa a se confi-
dro de finais do século XVII tem uma gurar já em princípios do século XVIII.
série de implicações territoriais: 1) no Esse multifacetado processo de expan-
caso dos vastos sertões da capitania do são se acelera ao longo da primeira
Pará, uma economia voltada para a metade do século XVIII, acirrando os
extração de produtos florestais; por conflitos e as negociações com os di-
outro lado, a “descoberta” de cacau versos grupos que compunham e cons-
nas terras do Pará, pelos portugueses, truíam as fronteiras do território do
também a partir de meados do século Estado do Maranhão e Pará, fossem
XVII, ensejou uma tentativa de repro- eles índios, mestiços ou outros euro-
duzir em terras paraenses a exitosa peus. O que se pretende evidenciar é
experiência castelhana de cultivo e ex- como é não é possível entender como
ploração de cacau; 2) a aceleração do separadas essas diversas expansões em
assentamento agrícola nas regiões rela- direção às múltiplas fronteiras – a in-
tivamente próximas à cidade de Belém, terna do assentamento agrícola, a ex-
com o incentivo ao cultivo do cacau e terna ocidental e norte, confinante com
do açúcar; 3) a organização de uma as terras das coroas de Castela e da
lógica de obtenção de trabalho indíge- França, e a oriental, confinante com o
na que pressupunha a expansão terri- Estado do Brasil. Ao contrário, elas
torial, por meio de descimentos de ín- revelam a natureza centrífuga e conec-
dios livres (para as aldeias missioná- tada da ocupação do norte da América
rias, ou para particulares), das guerras portuguesa.
e das expedições de resgates de índios

135
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

CATEGORÍAS SOCIALES Y ALTERIDADES EN BUENOS AIRES VIRREINAL


Jacqueline Sarmiento

A lo largo del siglo XVIII la ciudad de ciudades. En este sentido, una de las
Buenos Aires experimentó cambios y características más salientes de Buenos
transformaciones profundas que la Aires es su condición portuaria. El in-
conducen a un reposicionamiento en el tenso trabajo del puerto promovió el
territorios y a su jerarquización. Con- desarrollo de importantes vínculos. No
siderar su ubicación fronteriza es clave sólo se movieron mercancías, sino
para entender su desarrollo y los cam- también una cantidad importante de
bios que ocurren entre mediados del personas que transitaban y se instala-
siglo XVIII y comienzos del siglo XIX. ban en la ciudad, de forma más o me-
Su extraordinário desarrollo llevó a nos estable. En este contexto es donde
Buenos Aires a ser la capital del Vir- cobran sentido algunas categorías es-
reinato del Río de la Plata en el año pecíficas, que difícilmente pueden ser
1776. En este trabajo se abordará el es- comprendidas si nos restringimos ex-
tudio de las identidades y categorías clusivamente al ámbito de la ciudad de
sociales a través del análisis documen- Buenos Aires. Es necesario estudiar las
tal. ¿Cuáles son las categorías vigen- migraciones y las categorias identitari-
tes? ¿Qué fuentes se pueden utilizar as que se vuelven presentes a partir de
para su estudio? ¿Sobre qué criterios se ellas. La condición fronteriza de la ciu-
apoyó la construcción de las alterida- dad otorga a las categorias sociales
des en esta ciudad colonial? ¿De qué vigentes um carácter próprio que re-
manera se articularon las categorías de quiere el estúdio de los otros espacios
género, etnia, clase, y aún las modali- con los cuales se vionculaba la ciudad
dades de la esclavitud para la cons- para entender el funcionamento de las
trucción de alteridades y categorías mismas. Este es el caso de la categoría
especificas? Se trabajará identificando pardo, particularmente ambigua en el
las categorías vigentes y ubicándolas contexto rioplatense, pero con funcio-
en la trama de relaciones donde estas namiento que ha podido ser estudiado
cobran sentido. De esta manera, espa- más cabalmente en el espacio portu-
ñol, portugués, negro, esclavo, india, gués. De esta manera, en este trabajo se
china, entre otras, no pueden definirse propone una aproximación al estúdio
por sus características esenciales, sino de los vínculos de la ciudad de Buenos
en cuanto a sus relaciones. Estas relaci- Aires en el marco de una red portuaria
ones no quedan circunscriptas al ámbi- amplia, que incluía ciudades clave,
to de la ciudad, sino que es fundamen- como Montevideo y Río de Janeiro.
tal considerar los vínculos de la ciudad Esta presentación constituye uma pro-
con otros espacios. Estos actuaron de- puesta de análisis, que podrá ser am-
finiendo otros, nuevas alteridades. Es pliada en el futuro a través del desar-
necesario, por lo tanto, incluir las rela- rollo de la perspectiva comparativa
ciones de frontera de la ciudad (fronte- tomando los casos de las ciudades
ra sur y frontera norte), como así tam- mencionadas.
bién los vínculos estrechos con otras

136
CADERNO DE RESUMOS

OCUPAR LA FRONTERA. LA VILLA DE SAN ISIDRO DEL CURUGUATY COMO


PUNTO FRONTERIZO Y CENTRO YERBATERO (1715-1811)
Herib Caballero Campos

Esta ponencia pretende analizar el rol de Curuguaty no se veía reflejada en


que cumplió la Villa de San Isidro del las condiciones socioeconómicas de sus
Curuguaty en la Provincia del Para- pobladores que constantemente debían
guay, como centro fronterizo entre los solicitar auxilio a las autoridades de
Imperios Español y Portugués, y cuál Asunción, y además aprovechaban sus
su papel en la red de producción de la posición fornteriza para realizar co-
yerba mate. La fundación y estableci- mercios ilícitos con portugueses que
miento de la Villa de San Isidro Labra- exploraban la zona y luego del estable-
dor del Curuguaty en el año 1715 y su cimiento de la Fortaleza Nossa Senhora
posterior traslado de sitio en 1716, fue dos Prazeres do Iguatemi, con los sol-
el inicio de un proceso de expansión dados que conformaban dicha Guani-
desarrollado por las autoridades his- ción. Dicho comercio generaba tensio-
panas, con el propósito de ocupar terri- nes entre los habitantes de Curuguaty
torios que fueron abandonados debido y las autoridades españolas que dispu-
a las invasiones portuguesas a fines del sieron una serie de medidas que serán
siglo XVII. Por lo tanto esa ponencia analizadas y discutidas en la presente
pretende comprender en dicho contex- ponencia, con especial interés para po-
to cuales fueron las motivaciones, las der colegir de las mismas cuál era la
dificultades y las ventajas del estable- realidad que se pretendía reprimir
cimiento de dicho núcleo poblacional desde el estado. Para la elaboración de
en los confines del Imperio Español en esta ponencia serán utilizados docu-
la zona del Alto Paraná. Además de la mentos primarios extraídos del Archi-
relevancia política de expansión Curu- vo General de Indias, del Archivo His-
guaty se convertirá en un importante tórico Nacional, así como del Archivo
centro de extracción de la yerba mate Nacional de Asunción y de la Bibliote-
que era el principal producto de expor- ca Nacional de Rio de Janeiro, así como
tación de la Provincia del Paraguay, en la revisión de bibliografía especializa-
cuya jurisdicción también tenía una da sobre la temática de las relaciones
relevancia fundamental pues dicho inter y trans fronterizas entre los impe-
producto vegetal también era utilizado rios ibéricos durante el período estu-
como moneda provincial. Esa doble diado.
importancia económica y geopolítica

14 de setembro de 2016

A MILITARIZAÇÃO DA CAPITANIA DE SERGIPE DEL REY(1648-1743)


Luís Siqueira

Para garantir controle e exploração de tos a lutar contra inimigos europeus e


suas colônias a Coroa portuguesa or- povos autóctones e instituição de um
ganizou um sistema de defesa que con- sistema de defesa territorial. Esta co-
tava com um corpo de “soldados” ap- municação tem como objetivo apresen-

137
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

tar o modelo defensivo elaborado pela em impedir a presença de inimigos


Coroa portuguesa para Sergipe del Rey europeus na costa brasileira e no terri-
no período que vai 1648 até a década tório sergipano, combater e destruir
de 1750, no contexto do Estado do Bra- mocambos, viabilizar o transporte de
sil. De propriedade real e situada entre mercadorias e pessoas por terra firme e
dois centros importantes da época, assegurar o envio de impostos para
Pernambuco e Bahia, a capitania sergi- Salvador. As fontes evidenciaram que
pana passou por um processo de reor- devido as condições territoriais o mo-
ganização socioeconômica e militar delo estabelecido para Sergipe consis-
que compreendeu o incentivo a ativi- tiu num sistema de vigília que incluía
dades agropastoris, recrutamento de as barras dos rios, de estradas e rees-
capitães mores, divisão do território truturação da cidade São Cristóvão.
em distritos militares e organização de Esse modelo defensivo passou a ser
tropas de ordenanças, estratégias colo- complementar aos territórios vizinhos
cadas em prática tão logo a dinastia de de maior expressividade econômica e
Bragança ascendeu ao trono portu- política que tinham como especificida-
guês. O objetivo desse plano consistiu des a presença de fortes e fortins.

AUTORIDADES EM CONSTRUÇÃO: CONFLITOS E ALIANÇAS NAS FRONTEI-


RAS BRAGANTINAS. SÉCULO XVII E XVIII.
Eliane Cristina Soares Charlet

O presente artigo tem como finalidade do Maranhão e Grão-Pará, com dona-


debater as tensões e estratégias da tário particular, posteriormente, pas-
construção das autoridades coloniais sou a pertencer ao Estado do Grão-
em áreas de fronteira. A fronteira em Pará, porém, não mais como donataria
questão está situada na antiga capita- particular, retornando para a Coroa, o
nia do Caeté, no então Estado do Ma- que enseja outro tipo de administração
ranhão e Grão-Pará. Os conflitos, ten- e alija do poder a família de donatários
sões, barganhas e estratégias dos dona- que haviam tomado posse de tais ter-
tários e seus “homens de confiança” ras. A família do primeiro donatário,
com as autoridades coloniais, rende- Gaspar de Souza, foi doada ao ex-
ram vasta documentação e demons- governador geral do Brasil, Gaspar de
tram uma fissura no interior da cha- Souza, por Felipe III de Portugal em 09
mada “classe dominante” em nome da de fevereiro de 1622, o qual não tomou
afirmação de autoridade e poder. Entre posse efetiva de suas terras, a família
as sedes administrativas do Estado do conseguiu lentamente se estabelecer, a
Maranhão e Grão-Pará, São Luís e Be- partir do seu filho Álvaro de Souza e
lém, havia vilas que saiam do controle seu neto, José de Souza e Melo, criando
mais efetivo desses “centros” de poder, a vila de Souza do Caeté. Os donatá-
cobertos por uma “zona sombreada” rios queixavam-se de diversos entraves
de indefinição de jurisdição politica. A pra o desenvolvimento da vila, dentre
capitania do Caeté caracterizava-se por os quais a falta de recursos e trabalha-
essa indefinição, quando foi constituí- dores, além dos problemas com os
da como capitania pertencia ao Estado missionários, o que não era novidade

138
CADERNO DE RESUMOS

no cenário colonial, praticamente todos existiam outras, envolvendo os confli-


queixavam-se desses problemas ou tos em torno da autoridade; os donatá-
entraves. O último donatário da Capi- rios nomeavam autoridades para suas
tania, José de Souza e Melo, se dizia capitanias e não raras vezes essas auto-
prejudicado na sua proposta de explo- ridades viam-se subjugadas ou desau-
ração da Capitania por muitos moti- torizadas pelas autoridades metropoli-
vos. Existem relações de forças, o do- tanas. Esse percurso define uma série
natário solicita direitos sobre os ren- de conflitos na constituição das autori-
dimentos da Salina Real, alegando que dades, ora nomeadas por donatários,
a mesma encontrava-se na sua Capita- ora pela coroa portuguesa. A constru-
nia, razão porque solicitou e foi feita a ção de autoridade em espaço interfron-
demarcação da Capitania do Caeté, teiriço criava lógicas de convivência e
solicita o controle temporal sobre as adaptações entre os diversos sujeitos
aldeias existentes em sua capitania (colonos, autoridades metropolitanas,
dentre outras demandas. Finalmente, à índios, religiosos, “estrangeiros inva-
revelia de todos os pedidos e reinvin- sores”) apresentando características
dicações dos donatários, a capitania marcantes nesse espaço, onde se plei-
retorna para a Coroa, sendo transfor- teava não apenas o território, mas
mada, em 1753 em vila de Bragança, já também as “gentes” e principalmente o
no contexto do Diretório Pombalino. poder, a autoridade.
Entretanto, para além dessas questões

DEFESA E FRONTEIRA: MOBILIZAÇÃO MILITAR NA CAPITANIA DO GRÃO-


PARÁ (PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVIII)
Wania Alexandrino Viana

A primeira metade do século XVIII foi dificuldades apontadas pelos governa-


um período marcado por um processo dores e militares na configuração de
de adequação da organização militar forças defensivas no Estado parecem
na capitania do Grão-Pará. A Coroa ter sido um dos principais problemas
portuguesa articulava as possibilida- enfrentados nesta parte da conquista.
des de defesa na capitania e contava Por essa razão, este trabalho trata de
com um aparato que apresentava bas- compreender os mecanismos de mobi-
tantes dificuldades, seja pela precarie- lização militar para defesa da capita-
dade das instalações permanentes nia. Destacando as complexas redes de
(Fortalezas, Casas fortes, Casa da Pól- recrutamento em diversas partes da
vora, fortins), seja pela inoperância e conquista.
insuficiência das tropas. As enormes

139
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

AS DISPUTAS DE FRONTEIRA E A ESTRUTURA MILITAR DO


IMPÉRIO PORTUGUÊS
Christiane Figueiredo Pagano de Mello

Temos por objetivo investigar os as- tre os domínios das Coroas de Espanha
pectos referentes às experiências de e de Portugal. Ao Norte da América
defesa e militarização em duas áreas temos, o Macapá, uma região estrategi-
do Império Ultramarino Português: o camente importante para a Coroa de
Estado do Grão-Pará e o Centro-Sul da Portugal, espaço visto como área em
América, tentando detectar os aspectos constante perigo de ser anexada pela
convergentes que possam existir entre França. O comandante militar da Praça
as duas áreas em estudo, durante a do Macapá, Gama Lobo, em 1780, de-
segunda metade do século XVIII. A fine de maneira precisa a sua impor-
partir da análise comparativa preten- tância estratégica: “é a barreira mais
de-se observar a problemática situação considerável que se pode opor a inva-
militar do império ultramarino nas são do inimigo e em certo modo o ba-
fronteiras com as colônias espanhola e luarte desta Capitania. Uma Praça, que
francesa na América. Deteremos-nos provavelmente será a primeira a ter o
na Colônia do Sacramento e no Maca- inimigo sobre os braços sempre que o
pá. Assim, temos que a região meridi- Estado do Pará for atacado”. Ao de-
onal e mais especificamente a Colônia senvolver tal proposta, a intenção será
do Sacramento foi um dos principais a de construir uma perspectiva mais
focos de atenção da Coroa portuguesa ampla da política militar utilizada pela
na América, o nervo militar do Impé- Coroa Lusitana nas suas possessões
rio. Fundada, em 1680, nas margens do além-mar, procurando identificar o
Rio da Prata, desde então se tornou impacto desta nas duas diferentes
uma zona de intenso conflito devido à áreas de sua espacialidade.
indefinição dos limites territoriais en-

“HAMBRES, SEDES Y OTRAS MISÉRIAS”: EL VIAJE DE FRAY NARCISO GIRBAL


Y BARCELO POR LOS RÍOS MARAÑÓN Y UCAYALI EN 1791
Sebastián Gómez

En 1791, el padre fray Narciso Girbal y zonia hispánica experimentaba en el


Barcelo, religioso de la orden de San período finisecular. Después de la ex-
francisco y oficiante como misionero pulsión de la Compañía de Jesús
apostólico en el colegio de Ocopa (vi- (1767), la administración del imperio
rreinato del Perú), emprendió un viaje español optó por designar a los religio-
por los ríos Ucayale y Marañón hasta sos franciscanos como encargados de
llegar, prácticamente a la desemboca- todo el espacio misional que desde el
dura del río Negro. Este periplo, que siglo XVII había sido encargado a los
puede considerarse como un testimo- jesuitas. Se trata, entonces, de un espa-
nio valioso debido a su carácter inédi- cio que fue disputado por las monar-
to, es bastante revelador acerca de la quías ibéricas a lo largo de todo el siglo
situación que aquella zona de la Ama- XVIII y que, para finales de ese siglo,

140
CADERNO DE RESUMOS

ya eran evidentes las consecuencias del portuguesa habían causado serios tras-
“abandono” por parte de la corona, al tornos en términos de las cualidades
menos en términos de la protección jurisdiccionales de los dominios ama-
militar. No obstante, el viaje empren- zónicos. ¿Qué puede revelar este diario
dido por Girbal y Barcelo, es una de viaje acerca de los espacios misiona-
muestra muy interesante sobre aque- les abandonados? ¿De qué manera
llas consecuencias. Con esta comunica- pueden interpretarse los informes so-
ción pretendo analizar e interpretar los bre las fortificaciones portuguesas, las
diferentes rasgos que, desde la pers- expediciones de límites, las fundacio-
pectiva ambiental, misional, civil y mi- nes civiles y otros aspectos relevantes
litar, pueden inferirse de acuerdo a las sobre la vida en la frontera amazónica?
observaciones sobre el espacio amazó- ¿Constituía esta parte de la región
nico y las sociedades indígenas que lo amazónica un espacio valioso y defen-
habitaban, amén de establecer un ba- dible o, por el contrario, era una región
lance comparativo conforme al mo- marginal y fronteriza para la adminis-
mento finisecular en relación a las dé- tración española aun en 1791? Este tipo
cadas anteriores donde los problemas de interrogantes serán abordados en
por la ocupación territorial entre los esta comunicación del Simpósio Temá-
vasallos de las monarquías española y tico.

AS FRONTEIRAS LUSO-ESPANHOLAS NA AMAZÔNIA NO FINAL DO SÉCULO


XVIII: INDEFINIÇÃO DE LIMITES E PLANEJAMENTOS MILITARES E
TERRITORIAIS
Carlos Augusto Bastos

A passagem do século XVIII para o XIX toridades ibéricas atuantes na região.


foi marcada pelo acirramento de tradi- A possibilidade de novos conflitos lo-
cionais disputas imperiais europeias cais, conectados aos que se desenrola-
nos domínios ultramarinos, assim co- vam em outras partes do mundo atlân-
mo pelo surgimento de novos desafios tico, levou a uma intensa preocupação
políticos advindos da conjuntura revo- com a defesa militar e a preparação
lucionária que sacudiu o mundo atlân- para a guerra no cenário amazônico
tico. Diferentes áreas do continente envolvendo portugueses e espanhóis,
americano foram envolvidas, sob di- bem como outras potências aliadas às
versos aspectos, por esse conjunto de Coroas ibéricas. Para além dos plane-
transformações e tensões políticas. jamentos bélicos, essa conjuntura de
Dentre essas áreas, o vale amazônico passagem de séculos alimentou a for-
de colonização hispano-portuguesa mulação de propostas, por parte das
repercutiu as rivalidades monárquicas autoridades luso-espanholas, de reor-
e os conflitos geopolíticos desse mo- ganização territorial do vale amazôni-
mento. Nas fronteiras amazônicas, a co tendo em vista as disputas por terri-
indefinição dos limites territoriais dos tórios, as expectativas sobre o aprovei-
domínios luso-espanhóis, questão pre- tamento econômico e ocupação das
sente desde o século XVII, alimentou fronteiras, assim como os novos pro-
temores e disputas envolvendo as au- blemas de ordem geopolítica surgidos

141
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ao final do Setecentos e princípios do atlânticos nesse período. A documen-


Oitocentos. Nessa apresentação, serão tação utilizada consiste em ofícios pro-
discutidas as interpretações e ações duzidos por autoridades luso-
políticas que autoridades portuguesas espanholas estabelecidas nos territó-
e espanholas empreenderam nos do- rios amazônicos, fontes essas que per-
mínios hispano-portugueses da Ama- mitem analisar as interpretações e
zônia entre a década de 1790 e o início ações políticas sobre a gestão dos espa-
do século XIX, principalmente quanto ços de fronteira em um contexto de
à administração dos territórios de fron- acirramento de rivalidades imperiais e
teira sob a influência dos desafios geo- crescente imprevisibilidade sobre a
políticos que marcaram os impérios ordem política internacional.

15 de setembro de 2016

OS ÍNDIOS ITATINS E A CONJUNTURA MISSIONEIRA (1630-1650)


Bruno Oliveira Castelo Branco

Com o advento das missões jesuíticas distintas eram constantemente levados


na região do Itatim no século XVII na condição de escravos para incre-
(1632), os índios, conhecidos na docu- mentar a mão de obra das áreas fron-
mentação de época como itatins, passa- teiriças situadas entre os territórios
ram a conviver em espaços separados coloniais ibéricos, como por exemplo, a
dos espanhóis conforme havia sido região de São Paulo na América portu-
previsto pela legislação indigenista guesa. Neste trabalho, através da leitu-
castelhana. A aplicação estrita das leis ra dos relatos jesuíticos presentes na
direcionadas para os índios esbarrava coleção homônima de documentos
na resistência dos colonos em utilizar o compilada no século XIX pelo historia-
trabalho nativo, no período anterior à dor Pedro de Angelis – as chamadas
chegada dos jesuítas. Ao decidirem cartas âneas – busca-se matizar as dife-
habitar o espaço das missões com os rentes motivações destes índios missi-
membros da Companhia de Jesus, os oneiros. Durante muito tempo a histo-
indígenas procuravam evitar a presta- riografia que tratou da temática das
ção do serviço pessoal que eles deviam missões dedicou suas investigações ao
aos colonos, segundo a lógica da enco- conflito instaurado entre jesuítas e co-
mienda, forma que a sociedade colonial lonos pelo controle jurídico dos nati-
do período estabeleceu as relações de vos, deixando de lado a perspectiva e a
produção e trabalho no Paraguai. Nes- agência histórica dos índios, ou, por
te processo histórico de adesão ao mo- outro lado, preocupando-se muito
delo missioneiro, os nativos atravessa- mais em perceber as perdas culturais
ram uma série de transformações soci- que os nativos teriam sofrido no interi-
ais e identitárias que impactaram de or do espaço das missões. Seguindo
forma significativa em seus modos de um caminho diferenciado e adotando
vida, onde eles criaram estratégias di- uma metodologia de análise histórico-
versificadas para lidar com uma con- antropológica informada por novos
juntura bastante adversa: quantidades questionamentos como as relações de
enormes de indígenas de parcialidades mestiçagem e os contatos interétnicos,
142
CADERNO DE RESUMOS

pretende-se problematizar os proces- ta região, que aumentava as possibili-


sos de adaptação, negociação e refor- dades de negociação dos índios com as
mulação pelos quais os povos indíge- diretrizes metropolitanas ibéricas. De-
nas do Paraguai passaram, dando des- vido à importância fundamental dos
taque para os itatins. Considera-se o indígenas para a edificação da coloni-
espaço das missões não como um local zação foi permitido que os índios mis-
de imposição dos costumes europeus, sioneiros estivessem isentos da presta-
mas sim como um lugar de fluxos e ção do serviço pessoal e pudessem por-
tensões socioculturais, situado nas tar legalmente armas de fogo, duas
margens do império espanhol da Amé- situações inéditas nas localidades co-
rica do Sul. Para isto, se torna crucial loniais diversificadas que pertenciam à
incorporar a dinâmica de fronteira des- monarquia espanhola.

EXPEDIÇÕES DE CONQUISTA IBÉRICA E TENTATIVAS DE SUBMETER OS PO-


VOS INDÍGENAS DO PANTANAL AO DOMÍNIO EUROPEU NO SÉCULO XVI
João Filipe Domingues Brasil

O presente artigo analisa as expedições região platina frente às ações dos inva-
de conquista ibérica e tentativas de sores europeus. Para este propósito, foi
submeter os povos indígenas do Pan- realizado um levantamento bibliográ-
tanal ao domínio europeu no século fico sobre o tema, contido, sobretudo,
XVI. O objetivo do trabalho é contribu- em fontes primárias e secundárias,
ir para a compreensão da história dos como os relatos feitos por Ulrico Sch-
povos indígenas da região em um con- midl e Álvar Núñez Cabeza de Vaca, à
texto mais amplo, ligado à história da luz da etno-história.

“SERVIDOR DE V. MAJ., FIEL E OBEDIENTE AOS MISSIONÁRIOS”:


A INSITUCIONALIZAÇÃO DAS LIDERANÇAS INDÍGENAS COLONIAIS NA
AMAZÔNIA (SÉCULOS XVII E XVIII)
Rafael Ale Rocha

O objeto desta comunicação é as lide- institucionalizava e/ou legitimava es-


ranças indígenas coloniais da Amazô- sas lideranças indígenas no mundo
nia (séculos XVII e XVIII). Com base colonial), pelo menos três princípios
nas cartas patentes concedidas pelos determinaram a consolidação da refe-
governadores da região (porção inte- rida elite: 1) a lógica das elites portu-
grante do império português chamada guesas (definida pelo conceito de “no-
de Estado do Maranhão e Grão-Pará breza”); 3) a lógica da chefia “tradicio-
ou, posteriormente, Estado do Grão- nal” atribuída aos diversos grupos in-
Pará e Maranhão), pretendemos en- dígenas (caracterizada pelas relações
tender a constituição dessa elite emi- familiares e pelo que os portugueses
nentemente indígena. Nossa hipótese, chamavam de “nação”); 3) as conjuntu-
ainda em construção, afirma que, sob o ras e os contextos que marcaram a
amparo do estado moderno luso (que Amazônia Portuguesa. Quanto ao pri-

143
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

meiro princípio, sabe-se que, conforme mencionados, visto que o vínculo com
a literatura contemporânea (juristas, a nação e com o aldeamento missioná-
tratadistas, canonistas, entre outros), a rio de residência (na condição de ofici-
nobreza portuguesa era fracionada em al do mesmo) era sempre destacado
diversos graus, das quais a “nobreza pelas cartas patentes dos líderes indí-
da terra”, os “principais da terra” ou as genas, deve-se ao terceiro princípio
“mais importantes” famílias das diver- mencionado: o contexto constitutivo da
sas regiões do reino caracterizavam Amazônia portuguesa, isto é, as rela-
uma elite eminentemente local, isto é, ções transfronteiriças entre o estado
relacionada às instituições locais de português e as demais potências euro-
prestigio, comando e administração peias (especialmente os holandeses, os
(especialmente as câmaras municipais franceses e os espanhóis). Em síntese,
e as tropas de ordenanças) – diferente procuramos entender a institucionali-
de alguns graus de nobreza supra lo- zação da liderança indígena, ou seja, a
cais, isto é, que graduavam um indiví- legitimação da condição de chefe ga-
duo ou grupo em nível de todo o reino, rantida pelo estado monárquico portu-
ou seja, aquela nobreza definida por guês através da integração dessa lide-
títulos diversos concedidos pela mo- rança à estrutura burocrática do mes-
narquia (como, por exemplo, os cava- mo estado – estrutura definida por um
leiros de ordem militar). Quanto ao diploma legal (a patente) e por normas
segundo princípio mencionado, apesar de seleção específicas dos oficiais (as
das poucas informações existentes so- lideranças indígenas). Em outras pala-
bre as características sócio-políticas vras: a progressiva e gradual integra-
“tradicionais” das diversas nações ou ção do chefe e das sociedades indíge-
etnias que habitavam a região, sabe-se nas à burocracia do mundo português
que boa parte das comunidades indí- em diferentes conjunturas dos conflitos
genas da Amazônia, pelo menos aque- – entre portugueses, espanhóis, france-
las que vieram a ser aliadas dos lusos, ses e holandeses – que envolviam as
era caracterizada pela fluidez das iden- diversas comunidades indígenas da
tidades étnicas e da autoridade das região. Por ser progressivo e gradual,
lideranças (normalmente os chefes de como observaremos, essa integração
famílias). É a simbiose desses princí- das lideranças indígenas estava inti-
pios que pretendemos descrever. A mamente relacionada às conjunturas
presença marcante dos dois elementos citadas.

O LIMIAR DA FRONTEIRA: OS PRINCIPAIS E O DIRETÓRIO DOS ÍNDIOS NO


GRÃO-PARÁ, SEGUNDA METADE DO SÉC. XVIII
Ângela Sánchez Leão

Durante o período do Diretório no Go- entre dois mundos diferentes, portan-


verno de Mendonça Furtado – meio to, eles eram o limiar da fronteira exis-
irmão de Marquês de Pombal, os Prin- tente entre estes dois mundos. É neces-
cipais nas vilas e lugares, que eu con- sário que se estabeleçam limites, e os
siderei como Zonas de Contato, acaba- Principais cumpriam este papel. Para
ram se tornando homens que viviam que tudo não fosse perdido era neces-

144
CADERNO DE RESUMOS

sária a transformação, a renegociação, Resgates e a outras formas de captura


a recriação de seus mundos. Uma ver- de índios para empregar em trabalhos
dadeira guerra silenciosa na maior par- pesados, para serem cristianizados e
te do tempo, mas, também ruidosa, dominados não houve grandes mu-
entre dois mundos extremamente dife- danças com a implantação do Diretório
rentes, entre duas culturas aparente- a não ser no que se refere a presença de
mente incompatíveis se deslanchava Diretores (não índios) nestes espaços e
entre poderes nitidamente assimétri- ao deslocamento compulsório de con-
cos. Assim, cada Principal poderia re- tingentes diversificados de etnias para
presentar um exército de índios escra- frentes de trabalhos em locais estraté-
vos bem comandados, na visão limita- gicos, para o processo de demarcação
da dos colonizadores. Porém, como de limites das “terras do reino Portu-
demonstrou nossa pesquisa, os acor- guês”. Até a década de 1780, ainda en-
dos se faziam e também se desfaziam contramos documentos que se referem
na mesma proporção. Descimentos ao aprisionamento de índios, escravi-
também eram frustrados e refeitos, as zação ou mesmo ao domínio de povos
alianças eram de fato circunstanciais. inteiros.
Com relação aos Descimentos, aos

RELAÇÕES SOCIAIS, CULTURA MATERIAL E FRONTEIRAS NO PROCESSO DE


COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DA BACIA DO RIO BRANCO
(RORAIMA – SÉC. XVIII)
Francisco de Paula Brito

O presente trabalho tem o objetivo de nas, farináceos e outros elementos que


apresentar a investigação sobre rela- fazem a mediação entre os diferentes
ções sociais, cultura material e frontei- agentes desse processo tardio de colo-
ras estabelecidas na região do Rio nização. Visando aprofundar a com-
Branco, a partir do momento em que a preensão sobre como as relações soci-
Coroa portuguesa passou a executar ais foram se estabelecendo nas últimas
uma política de controle das áreas loca- décadas do século XVIII, apresentamos
lizadas na Amazônia setentrional. As um panorama que tem a finalidade de
fronteiras em questão são definidas demonstrar a instalação e os desdo-
pelos tratados de Madri e de S. Ilde- bramentos do processo de aldeamento
fonso, na segunda metade do século das populações indígenas, culminando
XVIII. As relações sociais em tela são com os levantes indígenas ocorridos
aquelas entre agentes colonizadores por volta de 1790. Trata-se de um bre-
europeus e os diversos povos indíge- ve painel de fundo histórico que privi-
nas que habitavam a região circum- legia tanto os tipos humanos quanto as
Roraima. No tocante à cultura materi- formas das relações sociais estabeleci-
al, destaca-se a circulação (ou restrição das entre os diferentes agentes que in-
de circulação) de ferramentas agríco- teragiram nesta, até então, remotíssima
las, armas-de-fogo, “quinquilharias”, área da Amazônia Setentrional. Argu-
de caça, pescados, do extrativismo das mentamos que as mudanças forçadas
“drogas do sertão”, artefatos indíge- nos modos de vida indígenas contribu-

145
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

íram de forma direta para o fracasso quisadores, em diálogo com a historio-


dos aldeamentos mantidos pelos por- grafia geral produzida sobre a região.
tugueses no referido espaço. Em razão Apesar de pensadas na condição de
disso, abordamos a forma como ocor- “ações estratégicas de Estado”, as rela-
reram metamorfoses responsáveis pela ções estabelecidas entre as populações
transformação de mundos tão distintos tradicionais da bacia do Rio Branco e
- como eram o modelo de mundo que os demais agentes que foram paulati-
sustentava a expansão do império por- namente ocupando o território dessa
tuguês, de um lado, e o dos diversos região, se efetivaram mais pelas vicissi-
povos nativos que habitavam ao longo tudes do contato direto do que pelo
do grande Vale do Rio Branco, de ou- cumprimento de uma pauta definida
tro. Metodologicamente, focalizamos pelo “Estado”. Tratam, antes, de rela-
documentos que contemplam aspectos ções sociais, uma vez que construídas e
das redes de relações mantidas entre os sedimentadas mais pela dinâmica do
agentes coloniais portugueses, holan- convívio do que pelo aprioristicamente
deses e espanhóis no contato com as definido. A disputa pelos contornos
populações originárias do Rio Branco, das fronteiras coloniais e a pressão pe-
bem como as relações entre estas. Par- lo controle dos recursos materiais da
timos de uma perspectiva que valoriza região conformam as posições-chave
os discursos de viajantes, de funcioná- no jogo de relações sociais.
rios de governo, de religiosos e de pes-

SER NEGRO NA AMAZÔNIA COLONIAL: ADAPTAÇÃO E RESISTÊNCIA NO


ESTADO DO GRÃO-PARÁ E MARANHÃO (1755-1817)
Kézia Wandressa da C. Lima

Este trabalho trata sobre o negro na livro “Relatos de Fronteiras: fontes pa-
Amazônia no século XVIII, mostrando ra a História da Amazônia séculos
como ele esteve inserido dentro da ló- XVIII e XIX” e no “Livro da visitação
gica colonial na região do Grão-Pará e do Santo Ofício da Inquisição ao Esta-
Maranhão, identificando as relações do do Grão-Pará”, além do sistema
existentes entre índios, escravos africa- database voyage. Foi um processo histó-
nos e colonizadores. Outro ponto im- rico de longa duração em que os ne-
portante abordado é com relação ao gros passaram por uma experiência de
processo de adaptação do negro ao exploração e pressão, mas que reagi-
sistema hierárquico colonial na Ama- ram, encontraram brechas dentro do
zônia e as formas de resistência que sistema colonial e se inseriram através
foram adotadas pelos negros para da resistência e adaptação à sociedade
afirmarem-se dentro do sistema, con- da Amazônia setecentista. Quanto ao
sidera-se aqui as fugas nas fronteiras recorte espacial, limito-me ao estudo
com a Guiana Francesa e as brechas da Capitania do Pará, região hoje cor-
forjadas dentro dos regramentos colo- respondente pelos atuais Estados do
niais. Para tanto, foram utilizados nes- Pará e Amapá e que integrava o Estado
sa pesquisa além das bibliografias exis- do Grão-Pará e Maranhão, que em
tentes, fontes primárias transcritas no 1751 passa a ter a cidade do Pará como

146
CADERNO DE RESUMOS

sede administrativa do Estado (SAN- te do país, no qual é comum a ideia de


TOS, 2008). Anteriormente, a região que a Amazônia colonial tenha sido
era denominada como Estado do Ma- pouco ou quase nada construída pelas
ranhão e Grão-Pará com sede em São mãos de negros escravizados e que sua
Luís, e havia sido criada em 1621, com população predominante eram os co-
um governo separado do então Estado lonos, nativos, índios e caboclos e que
do Brasil e administrativamente ligado estes “formavam a base colonial de
a Lisboa, com sede administrativa no ocupação europeia na Amazônia”, em-
Maranhão até 1750 (FARAGE, 1990). basando para tal argumento a questão
Importante considerar também a regi- quantitativa (FONSECA, 2011). É pre-
ão fronteiriça entre Grão-Pará e Guiana ciso mostrar a força desses negros, a
Francesa por serem pontos privilegia- resistência, as estratégias de adaptação
dos de observação das relações entre e a não passividade e indiferença ao
africanos e outros grupos, a resistência, sistema colonial, escravista e hierár-
fugas, criação de mocambos na frontei- quico a que foram submetidos. É im-
ra e que resultaram numa intensa pro- portante dar voz a agentes históricos
dução de documentos pertinentes a “subalternos” e que nós conheçamos
essa temática. A pretensão nesse traba- os papéis fundamentais que eles tive-
lho é colaborar ao trazer a tona a nossa ram na construção desse processo his-
própria história, um pequeno recorte tórico.
temporal da formação histórica do nor-

147
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

SIMPÓSIO TEMÁTICO 10
Elites, práticas e instituições nas monarquias ibéricas e seus domínios ultramarinos

Coordenadores: George F. Cabral de Souza (Universidade Federal de Pernambuco) e Maria


Fernanda Bicalho (Universidade Federal Fluminense)

13 de setembro de 2016

SUPLICAS DE LOS SUBDELEGADOS DE LA INTENDENCIA DE YUCATÁN,


NUEVA ESPANÃ
Laura Olivia Machuca Gallegos

En este trabajo que tiene como espacio mo subdelegados en Yucatán, entre


temporal, la capitanía general de Yu- 1790 y 1820. La muestra con la que se
catán, en el virreinato de la Nueva Es- trabaja, apenas implica 27 personas y
paña de la Corona Española, me ocu- poco más de 40 suplicas, y más que ser
paré de un nuevo funcionario que sur- representativa cuantitativamente, re-
gió a raíz de las reformas borbónicas sulta de interés porque salen a relucir
(1786), para acabar con el poder de que las motivaciones de estos aspirantes a
gozaban los alcaldes mayores, los fun- ocupar un cargo mediano en la admi-
cionarios instalados sobre todo en las nistración colonial, o que demandaban
jurisdicciones de indios. En el territorio una prórroga para seguir en el puesto
de la Nueva España se crearon 12 in- un periodo más. El análisis de estos
tendencias, entre ellas Yucatán. Los documentos nos muestra que si nos
intendentes estaban a la cabeza del limitáramos a estudiar a este grupo
territorio y los subdelegados, en cali- siguiendo la legislación y los forma-
dad de oficiales asalariados y magis- lismo, perderíamos de vista vericuetos
trados locales, eran sus subordinados. y caminos indirectos, que vuelven el
Estos subdelegados tenían jurisdicción panorama más complejo. Sobre todo se
de justicia, hacienda, gobierno y poli- analizarán sus ideas acerca del mérito,
cía. En realidad se volvieron interme- la pobreza, las autoridades y las fami-
diarios entre la población rural de su lias locales, justificación para reelegirse
jurisdicción y las ciudades, en este caso en el cargo, y en general la opinión que
las três principales de la península: vierten en general sobre el funcionami-
Mérida, Valladolid y Campeche. En ento del aparato administrativo. La
esta ponencia quisiera explorar, el te- Ordenanza de Intendentes marcaba
ma de las suplicas, más analizadas en- que los subdelegados debían ser nom-
tre los franceses e ingleses y, en especi- brados exclusivamente por los inten-
al en las de los “pobres” pidiendo una dentes y por el tiempo “de su volun-
gracia al rey. Me interesaré sobre todo tad”. Después de varias medidas por
en un tipo de suplicas muy puntuales, real orden del 19 de enero de 1792 las
las que enviaban directamente al rey facultades que se habían dado en un
los candidatos a ocupar un puesto co- principio a los intendentes pasaron a

148
CADERNO DE RESUMOS

los virreyes, los primeros tenían facul- “servicios hechos a la Corona” pueden
tad de proponer una terna, el tiempo aportar a la discusión sobre el perfil de
de servicio sería de 5 años y los subde- la burocracia colonial. Entonces la vía
legados sólo podrían ser removidos tradicional era la terna hecha por el
por causa justificada. Justamente el intendente según las aptitudes (o las
análisis de los argumentos esgrimidos relaciones) de los candidatos. En el
por los subdelegados o aspirantes a caso de las suplicas que analizamos la
través de sus suplicas, el trazo de las demanda se realizaba directamente al
carreras vitales, de los méritos y otros Rey.

TRAJETÓRIAS FAMILIARES E ASCENSÃO SOCIAL NO GRÃO-PARÁ


(SÉCULOS XVII-XVIII)
Marcia Eliane Alves de Souza e Mello

O trabalho que trazemos para aprecia- as conexões que se constituíam entre


ção e debate faz parte de uma pesquisa os seus diversos membros, pelos casa-
mais ampla, ainda em andamento, a mentos ou redes de sociabilidade, ins-
qual pretende observar a formação das tituindo laços e conferindo privilégios
elites locais do Estado do Maranhão e para os seus membros. O Grão-Pará
Grão-Pará. Centramos essa comunica- pela sua dinâmica socioeconômica di-
ção na trajetória de alguns indivíduos ferenciada do restante da América por-
pertencentes a três ramos familiares tuguesa, requer na compreensão da
estabelecidos na capitania do Pará, a formação da elite colonial ali presente,
saber: os Ferreira Ribeiro, Siqueira que se observe quais seriam as “quali-
Queirós e Miguel Aires. Distinguindo- dades” aceitáveis nessa conjuntura.
se os membros desse grupo como ci- Somente através do conhecimento
dadãos privilegiados com cargos na comparativo dos elementos constituti-
câmara, patentes militares, hábitos de vos dessa elite local será possível com-
cavaleiros de ordens militares e até preender as estratégias de nobilitação e
mesmo portadores brasão de armas. afirmação social utilizados por estes
Aplicamos na reconstituição das traje- indivíduos. Assim, com a ampliação
tórias fontes de natureza diversa, bus- dos estudos sobre essa sociedade colo-
cando cobrir o máximo de informações nial, revelando suas próprias experiên-
possíveis, partindo daquelas mais am- cias, ainda que, articuladas ao o que
plas e que envolviam várias gerações, ocorria nos demais espaços ultramari-
como as justificações de nobreza, habi- nos é que poderemos avançar para um
litações para ordens militares, passan- debate mais profícuo. Em meados do
do também por aquelas mais particula- século XVIII, identificamos vários con-
res como: cartas e patentes de cargos flitos envolvendo indivíduos perten-
militares, doações de terras e sesmarias centes a esses grupos familiares, nos
e nomeações de serviços existentes nos quais se identificavam como “filhos e
Arquivos da Torre do Tombo. Contu- netos de legítimos cidadãos”, enquanto
do, não só os símbolos de distinção rejeitavam os reinóis no acesso aos
foram aqui analisados. É igualmente cargos do senado, ainda que eles tives-
importante ressaltar os condicionantes sem a nobreza necessária para o exer-
locais que ajustavam a ascensão social, cício dos cargos. A partir dessa ocor-

149
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

rência, se levantou elementos para ana- enquanto “pessoas mais nobres e prin-
lisar as práticas empregadas por esses cipais daquela cidade”.
indivíduos na afirmação do seu poder,

E RECEBERÁ MERCÊ: A ENTRADA NAS FILEIRAS DAS ORDENS MILITARES


PORTUGUESAS NO SÉCULO XVIII
Nelson Manuel Vaquinhas

No século XVIII, em Portugal, o capital no das provas e acções administrativas


informacional detido por instituições instituídas para o recrutamento de ac-
com créditos firmados em matéria de tivos? De que forma a Mesa da consci-
estatutos de limpeza de sangue era ência e Ordens, enquanto Mesa, e os
alvo de minuciosa gestão, desde a sua Mestrados granjearam este recurso
produção até à sua guarda permanen- informacional? Como era partilhado
te. As provas de habilitação para in- este capital entre sistemas envolventes
gresso nas fileiras das Ordens Militares e de que forma seria determinante esta
são exemplo disso e objecto desta co- cooperação institucional em processos
municação. Pretende-se conhecer, em de inquirição e angariação de provas
particular, o sistema de informação das acerca dos candidatos? E como era
Ordens Militares, no que respeita aos controlada, organizada e recuperada
processos de concessão de hábitos das essa informação tida como sigilosa?
Ordens Militares. Eis algumas questões Por fim, que procedimentos, circuitos,
que sobressaem neste estudo: que me- e tipologias documentais eram desen-
canismos eram utilizados para respon- volvidos no âmbito dos processos de
der às necessidades informacionais da habilitação?
Mesa da Consciência e Ordens no pla-

O IMPÉRIO ULTRAMARINO E O MODO DE SE FAZER UMA GUERRA: RELATOS


DAS GUERRAS DO MARQUES DE CASTELO NOVO NO ORIENTE
Marcos Aurélio de Paula Pereira

Esta comunicação explora a temática guesa, fosse galgando mercês e benes-


da expansão ultramarina e conserva- ses nobiliárquicas, fosse na hierarquia
ção de domínios lusitanos no além-mar das forças militares e em cargos admi-
através da ação de personagens histó- nistrativos. Partindo da premissa de
ricos conhecidos e relatos de guerras que o estudo da atuação dos adminis-
no Oriente em fins do reinado de D. tradores do império ultramarino, en-
João V, primeira metade do século quanto representantes do monarca,
XVIII. Pensa-se a carreira militar como passa pela análise de sua trajetória de
forma de ascensão e a guerra como vida, onde o público e o privado pare-
instrumento não apenas de violência, cem imbricados, exemplificamos como
mas principalmente de conquista e re- servir no ultramar se tornou no sete-
conquista política. Assim, aborda-se a centos a forma mais eficaz de alcançar
carreira de nobres, fidalgos e soldados prebendas - vultosas ou não. Ao mes-
em serviços prestados a Coroa portu- mo tempo enfatiza-se como a guerra

150
CADERNO DE RESUMOS

ainda tinha significado importante e conquista dessa praça. Em seguida


preenchia o imaginário dos agentes do passaremos aos olhares distintos sobre
vasto império ultramarino português a condição do Estado da Índia em rela-
como campo de afirmação de um po- tos do Marquês de Alorna e comple-
der simbólico. Salienta-se que o Orien- menta-se esses relatos com notícias do
te ainda era visto como um mundo front de soldados e oficiais que partici-
privilegiado para conquistas e glórias param das conquistas desse nobre, re-
marítimas, mesmo em detrimento da velando as estratégias dos combates e
contínua e crescente valorização do impressões desses soldados em várias
Atlântico Sul em questões políticas e ocasiões. Enriquece-se ainda mais as
econômicas. Para tal recorremos a dis- análises com a correspondência da fa-
cussões régias e sobre nomeações dos mília do vice-rei que trata sobre as
Vice-reis da Índia, o 5º Conde de Eri- questões da conservação do Estado da
ceira e 1º Marquês de Louriçal e seu Índia e conflitos bélicos. As cartas e os
sucessor D. Pedro Miguel de Almeida relatos anunciados são inéditos e per-
Portugal, 3º Conde de Assumar, nome- mitem, quando examinados compara-
ado Marquês de Castelo Novo, cujo tivamente, estudar a perspectiva das
título foi alterado para Marques de conquistas e do ethos dos servidores
Alorna em razão da repercussão da del Rey nas franjas do império.

“OS HOMENS DA TERRA E OS LEAES VASSALOS DAS ARMADAS DO BRASIL:


GOVERNO À DISTÂNCIA NA CAPITANIA DO ESPÍRITO SANTO (SEC. XVII)”
Luiz Cláudio M. Ribeiro

Na viragem do século XVII o Espírito portugueses nas Américas. Em suas


Santo, donataria da Casa dos Coutinho palavras, “*…+ España jamás llegó a
voltada à produção de açúcar e gêne- concertar una estrategia Americana y
ros mercantis, experimentava o absen- maritima, por estimar, equivocada-
tísmo no governo local. Enquanto esti- mente, que el Atlántico sería siempre
veram na capitania os fidalgos influí- un mar tranquilo y sosegado, libre de
ram nas Câmaras e nos ofícios de sua amenazas…” (p. 202). As armadas ao
nomeação. Porém, a partir da provisão Brasil e outros domínios ultramarinos
de Francisco de Aguiar Coutinho na com o recrutamento de homens a
sucessão da capitania, inicia-se um quem os reis, em reconhecimento dos
prolongado período de governos à dis- serviços de guerra, distribuíram mer-
tância, quando os donatário estarão cês, incluindo ofícios régios nas capita-
envolvidos diretamente nas armadas nias. Tal estratégia, ainda que em de-
que partem de Portugal para o Brasil e, manda das Câmaras locais, foram não
posteriormente, no front interno da raro objeto de tensão entre a Coroa e as
Guerra de Restauração. Bordejé y Mo- elites locais. André Costa (“La milicia,
rencos (Madrid: Mapfre, 1992) propõe el rey y la Guerra…”, in: Ibañez, Ma-
que na trégua com os Países Baixos no drid, Red Columnaria, 2009) explica
princípio do século XVII a Espanha que a ação da Coroa ibérica visava con-
terá cometido o êrro estratégico de não tornar as resistências locais de forma a
incluir cláusulas proibitivas de nave- atender as necessidades específicas de
garem para os domínios espanhois e defesa, selecionar os oficiais de guerra,

151
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

e negociar as aspirações das oligarqui- canismo gracioso de concessão régia de


as urbanas na América. Nesse contex- honras e privilégios. Desta forma, o
to, os cargos e ofícios do Espírito Santo, indivíduo ou o grupo que requeria um
apenas parcialmente ocupados, serão bem ao Rei, reafirmava a obediência
distribuídos entre aqueles leaes vassalos devida, alertando para a legitimidade
das armadas do Brasil que aos poucos da troca de favores e, portanto, da
comporão um novo grupo de elite e obrigatoriedade de sua retribuição.”
disputarão a indicação dos Capitães- (M.F. Bicalho, “Centro e periferia: pac-
mores e ocupantes da Câmara de Vitó- to e negociação política na administra-
ria, antes ocupados pela elite da terra. ção do Brasil colonial." In: Leituras Re-
Muitos autores demonstraram que as vista da Biblioteca Nacional, nº 6, 2000.
Câmaras municipais eram o espaço pp.17-39). A Câmara de Vitória, em
politico de articulação dos interesses complexa subordinação entre o gover-
de tais grupos de elite. Os estudos são no-geral e a “Repartição do Sul” terá,
quase unânimes em demonstrar que, diante da ausência dos donatários,
no Brasil, gastos de defesa e arrecada- processo diferenciado de formação de
ção de impostos para o custeio das grupos de elite e negociação direta com
despesas crescentes do Reino foram a Coroa. Examinaremos o esforço à
negociados como contrapartida para a distância dos donatários por retomar
ampliação dos poderes camarários com seu controle politico frente à Coroa e
o Rei. Para Bicalho, “forjava-se assim grupos que disputavam localmente o
um compromisso lógico – dito em ou- poder. Num universo político contur-
tras palavras, um pacto politico – entre bado por perdas de possessões ultra-
Rei e súditos, através de seus órgãos de marinas e pela Restauração da Coroa,
representação, ou seja, as Câmaras. as urgências do Reino confrontam os
Alimentando tal pacto figurava o me- interesses das elites capixabas.

A CASA DOS PIRES DE CARVALHO E ALBUQUERQUE: SUCESSÃO VINCULAR


E REPRODUÇÃO SOCIAL DE UMA FAMÍLIA DE ELITE DA BAHIA COLONIAL
Eduardo José Santos Borges

Esta comunicação busca fazer uma da Bahia colonial nem do uso do mor-
descrição da dinâmica de reprodução gadio como seu desdobramento imedi-
social colocada em prática pelos Pires ato. O que se pretende é a realização de
de Carvalho e Albuquerque, durante o uma análise embrionária de uma práti-
século XVIII. Decorrente de especifici- ca do modelo reprodutivo vincular
dades jurídicas, a reprodução social de enquanto comportamento de referên-
certas famílias em território do reino cia de uma família de comprovado pe-
enquadrou-se ao estatuto da nobreza, so político, econômico e social na Bahia
com todas as prerrogativas e privilé- colonial. Ações como o casamento e o
gios de um grupo social juridicamente destino celibatário refletiram um com-
definido. A impossibilidade de enqua- portamento estratégico na evolução do
dramento ao estatuto legal da nobreza processo de ascensão e consolidação
reinol, entretanto, não foi fator sufici- socioeconômica da família no interior
ente para impedir a vinculação dos da sociedade baiana colonial.
bens entre as famílias mais abastadas

152
CADERNO DE RESUMOS

“ENTRE A CRUZ E A CALDERINHA: MATEUS NUNES, UM OUVIDOR A SERVI-


ÇO DA MONARQUIA NAS TERRAS DOS ASSECA”
Claudia Cristina Azeredo Atallah

A comunicação proposta faz parte de geral na capitania do Espírito Santo. O


uma pesquisa intitulada “Capitanias tribunal, por sua vez, acatou as reco-
donatárias e a administração da justiça: mendações dos oficiais e, em 15 de ja-
o caso da Paraíba do Sul dos Campos neiro do mesmo ano, fez lavrar uma
dos Goytacazes (1674-1754)” e visa resolução real criando a ouvidoria ge-
analisar a atuação do ouvidor da capi- ral do Espírito Santo. A coroa portu-
tania do Espírito Santo, Mateus Nunes guesa concedeu à comarca do Espírito
José de Macedo, na administração da Santo, instaurada em 1741, o direito de
justiça na capitania donatária da Paraí- correição nas terras dos Asseca e tal
ba do Sul, doada, através de carta de fato demarcou o início de uma série de
doação, ao Visconde de Asseca em conflitos entre o referido ouvidor, os
1674. Na Paraíba do Sul, a correição oficiais da justiça concelhia, esta de
real instituída a partir de 1727 ficou primeira instância, e os homens bons
sob a responsabilidade da comarca do da Paraíba do Sul. A justiça represen-
Rio de Janeiro. No início da década de tava um dos princípios mais nobres da
1730 o ouvidor Manoel da Costa Mi- monarquia e possuía a função de zelar
moso, em correição ordenada pelo pela harmonia social e bem estar dos
Conselho Ultramarino por aquelas ter- povos. Sua execução, associada desde
ras, atentou para as “parcialidades” cedo à figura real, representava a base
que insuflavam os conflitos locais. O da boa governança ao coadunar a esfe-
oficial estendeu sua visita à Vila de ra jurídica e a prática administrativa.
Vitória, onde os conflitos locais tam- Nossa intenção será analisar as estraté-
bém eram cotidianos, observando “ser gias utilizadas por Mateus Nunes para
a causa do geral desconserto a falta de administrar a justiça em nome do rei
quem administrasse inteira justiça” e a no Espírito Santo e realizar as correi-
dificuldade que encontravam os ouvi- ções em seu termo (que incluía as ter-
dores do Rio de Janeiro para fazer cor- ras dos Asseca) em prol do bem co-
reição, estando a “160 léguas de jorna- mum e da paz dos povos. O ouvidor
da dificultosa”. Em seus registros aler- em questão foi o segundo a ocupar o
tou ao reino sobre os apelos daqueles lugar na recém-criada comarca do Es-
povos quanto à necessidade de se ins- pírito Santo, de 1743 a 1748. Os regis-
talar uma ouvidoria na capitania do tros nos mostram que, além dos confli-
Espírito Santo, emitindo parecer favo- tos típicos da política administrativa
rável a tais clamores. Acompanhando a de Antigo Regime, na Paraíba do Sul
assertiva do ouvidor, o Conde de Sa- estes foram redimensionados devido
bugosa escreveu ao Conselho Ultrama- principalmente à condição donatária
rino em 1732 informando sobre a ne- daquelas terras.
cessidade de se instalar uma ouvidoria

153
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

AUTOS DE CONTA, OUVIDORES E CONTROLE CAMARÁRIO EM VILA RICA


NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVIII
Luiz Alberto Ornellas Rezende

A historiografia recente tem se dedica- detrás dessas intervenções, era a cria-


do a analisar a autonomia dos poderes ção de uma situação favorável à im-
locais na colônia, ora enfatizando a plantação da terça régia. Em Vila Rica,
capacidade das elites locais de exerce- até meados dos setecentos, esse tribu-
rem poder e cooptar os agentes régios to, que direcionava um terço da arre-
para suas causas, ora destacando mo- cadação camarária para o rei, nunca
mentos específicos em que estes mes- fora implantado, apesar do empenho
mos agentes conseguiam limitar as reiterado dos ouvidores desde meados
prerrogativas dos poderes locais. É da década de 1730, com a conivência
certo que essa correlação de forças os- dos escrivães camarários, nomeados
cilou ao longo do período colonial em pelo rei. A capacidade de arrecadação
função de uma série de fatores, entre anual média da Câmara Municipal de
os quais está a distância em relação ao Vila Rica era de 10 contos de réis, esti-
centro do Império luso, a importância ma-se que estivesse entre as maiores
política e econômica da região e a ca- de toda a colônia, rivalizando com a do
pacidade de articulação dos grupos Rio de Janeiro. Os gastos eram limita-
locais. Medir essa oscilação não é tarefa dos pela arrecadação, no entanto, veri-
fácil, tampouco objetiva. A análise sis- fica-se uma tendência a déficits anuais
temática das fontes financeiras das câ- significativos, ao menos até meados da
maras municipais, pode contribuir, década de 1740, causados principal-
haja vista que a capacidade de arreca- mente pelo valor elevado das chama-
dação e gasto implicava em maior po- das propinas (valores pagos aos ofici-
der e relativa independência dos ofici- ais por participação em festividades
ais camarários em relação aos agentes locais), pelas esmolas (valores doados
régios. Tão importante quanto a oscila- às instituições religiosas para reforma e
ção das receitas e despesas são os cha- manutenção) e pelas obras públicas.
mados autos de conta, revisões anuais Frente a uma arrecadação elevada, os
das contas camarárias feitas pelo ouvi- oficiais camarários mantinham um gas-
dor. Em Vila Rica, a partir da segunda to ainda mais elevado, os saldos tendi-
metade da década de 1720, as revisões am a déficit, o que, à primeira análise,
implicaram cortes profundos nos gas- inviabilizava a implantação das terças
tos e afetaram significativamente al- régias por falta de recursos. Nesse con-
guns membros das elites política e texto, parece-nos que a intensificação
econômica local. O grau de ingerência dos autos de contas dos ouvidores, a
dos ouvidores nas contas camarárias partir das décadas de 1730 e 1740, teve
também oscilou. A partir da década de como objetivo liberar receita para via-
1740, por exemplo, as intervenções se bilizar a implantação da terça régia,
intensificaram, a ponto do ouvidor Ca- através do corte de gastos considera-
etano Furtado de Mendonça produzir dos supérfluos aos olhos do ouvidor.
um documento denunciando o descui- Ao analisar apenas os autos de contas
do anualmente reiterado nos gastos que resultaram em revisões significati-
municipais. O que estava em jogo, por vas das contas municipais (retorno ao

154
CADERNO DE RESUMOS

cofre local de mais de 10% das receitas tes atingiam as propinas pagas aos ca-
anuais), vê-se que, na maioria dos ca- maristas e ao próprio ouvidor, embora
sos, os cortes incidiram sobre avulta- fossem esses os gastos que mais onera-
das doações feitas a instituições religi- vam as contas municipais, comprome-
osas, nem sempre locais, e ainda sobre tendo, em média, 30% da receita anual.
as obras públicas. Poucas vezes os cor-

O SENHORIO DA PRINCESA: ESTRATÉGIAS DE AFIRMAÇÃO POLÍTICA SOB


UM TERRITÓRIO COLONIAL NAS MINAS GERAIS
Edna Mara Ferreira da Silva

Campanha da Princesa foi o nome da- Câmara da vila que passa a destinar
do a uma das últimas vilas mineiras um terço de seus rendimentos a um
criadas no século XVIII, em alusão di- donativo a herdeira do trono portu-
reta a monarquia portuguesa. A eleva- guês. Uma das estratégias pouco estu-
ção à vila do antigo arraial de Campa- dadas e que merece uma investigação
nha do Rio Verde deve ser entendida mais detida envolve a doação da terça
como parte de um movimento mais parte da arrecadação da vila de Cam-
amplo que se inseria no contexto das panha para “os alfinetes da princesa”.
transformações ocorridas em Minas A essa doação segue um curioso ato, o
Gerais na segunda metade do século da posse do senhorio da vila à princesa
XVIII, tanto em termos econômicos do Brasil. A posse do senhorio da vila
quanto políticos. O estabelecimento de de Campanha em 1806, fez com os ofi-
limites tanto internos quanto externos ciais da Câmara de São João del Rei se
e a expansão territorial em fins do sé- manifestassem preocupados com o
culo XVIII e inicio do século XIX na significado do senhorio e do alcance de
América portuguesa seguiu ritmos di- novas atribuições abertas para a vila de
ferentes, e Minas Gerais como região Campanha. Essa comunicação se pro-
estratégica do império português se põe a investigar essas ações da Câmara
inseria nesses movimentos territoriais. de Campanha, o auto de posse do se-
A ocupação do sul de Minas, assim nhorio da vila e doação da terça parte
como em outras regiões da capitania do rendimento de seus bens para a
onde o ouro não foi encontrado, ou Princesa do Brasil. Qual o significado
rapidamente se escasseou, se deu de político dessas ações no início do sécu-
forma mais lenta do que a percebida lo XIX? O que buscavam ou almejavam
nas áreas de mineração. A fronteira sul os oficiais da Câmara de Campanha?
da capitania era aberta ao trânsito dos Nesse período o papel fundamental na
paulistas e era área de litígio entre as resolução dos conflitos em relação a
capitanias de São Paulo e Minas Ge- posse do território e na consolidação
rais. Dessa forma o estabelecimento da do papel político da região é dos ofici-
vila de Campanha configurou-se como ais da Câmara de Campanha e de seu
recurso de organização administrativa, juiz de fora, Joaquim Carneiro de Mi-
mas também serviu como elemento randa e Costa, usando suas atribuições
poderoso de reafirmação da soberania para sobressair no cenário regional. A
portuguesa, endossado pelo Senado da posse do senhorio da vila da Campa-

155
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

nha à Princesa do Brasil serviu de al- vila mas que se configuram como inte-
guma forma aos interesses do Senado resses também mineiros numa pers-
da Câmara? Política, administração e pectiva mais ampla. Em face as trans-
justiça aparecem amalgamadas nas formações geopolíticas e rearranjos
diversas disputas entre a vila da Cam- econômicos que atingem o Brasil no
panha e a cabeça de comarca, São João inicio do século XIX, buscamos o sen-
del Rei, mas ao mesmo tempo frente a tido dessa reminiscência feudal e seu
capitania de São Paulo, representando contexto para a vila da Campanha da
dessa forma, os interesses próprios da Princesa.

14 de setembro de 2016

LOS CURAS DEL ARZOBISPADO DE MÉXICO FRENTE A LA GUERRA DE


INDEPENDENCIA, 1810-1821
Rodolfo Aguirre Salvador

Esta ponencia tiene como objetivo aulas. Si bien el clero insurgente ha


plantear algunas ideas que ayuden a sido más estudiado, se conoce menos
enriquecer el conocimiento del papel sobre los curas realistas o los neutrales.
político y social que jugaron los curas La idea aquí es discutir que, no obstan-
durante la insurgencia. En especial in- te el ambiente de polarización política
teresan los párrocos considerados y social de la época de insurgencia, un
“neutrales” o “ambiguos” porque en sector importante del clero parroquial
ellos es posible advertir matices políti- del arzobispado de México mostró in-
cos de los que se ha escrito poco. Deba- tencionalmente una ambigüedad que
jo de la etiqueta de “neutral” es posible le permitió hacer frente a las exigenci-
hallar posturas político-religiosas que as, tanto de rebeldes como de realistas,
toman distancia de los principios polí- conservando hasta cierto punto la inte-
ticos realistas o insurgentes predomi- gridad de las parroquias, anteponien-
nantes por esa época y se acercan más do su figura de párrocos a la de mili-
a la teología moral en que tradicional- tante “insurgente” o “realista”.
mente se formaban los clérigos en las

POLÍTICA ECONÔMICA METROPOLITANA E INTERESSES LOCAIS: AS


ARREMATAÇÕES DOS DÍZIMOS REAIS NAS CAPITANIAS DA BAHIA, DE
PERNAMBUCO E DE SÃO PAULO NA DÉCADA DE 1790 – NOTAS DE PESQUISA
Ana Paula Medicci

Esta comunicação apresenta indicações crise do Antigo Regime português.


iniciais de uma pesquisa em andamen- Privilegia-se a implantação das estra-
to, relativas à aplicação e aos desdo- tégias de controle da Coroa sobre o
bramentos da política econômica por- sistema de arrecadação de tributos re-
tuguesa para com os domínios ultra- ais e o modo como estas estratégias
marinos americanos em período de foram recebidas por autoridades e

156
CADERNO DE RESUMOS

grupos de poder radicados na América nias da Bahia, de Pernambuco e de São


Portuguesa. O foco desta análise são os Paulo contavam com grupos de poder
processos de arrematação dos contra- locais envolvidos diretamente na go-
tos dos Dízimos Reais, principal impo- vernança e nos múltiplos e diversos
sição a incidir sobre a produção local, projetos imperiais em pauta. Grupos
bem como suas implicações frente aos estes que responderam e se envolve-
grupos de interesse locais e metropoli- ram também diversamente nas políti-
tanos envolvidos nesse ramo de negó- cas metropolitanas de controle da tri-
cio. Para isso, propomos o estudo butação de então, a fim de salvaguar-
comparativo de uma série de conflitos dar interesses próprios. Considera-se
ocorridos durante a década de 1790 e o que, a depender dos interesses e das
início dos oitocentos, relacionados à disputas por espaços de poder político
arrematação dos contratos dos Dízimos e econômico em jogo, a mesma estraté-
Reais em três localidades da América gia metropolitana poderia por vezes
portuguesa, a saber: as capitanias da ser considerada intervenção excessiva
Bahia, de Pernambuco e de São Paulo. em negócios locais e, portanto, contes-
No início desse período, três governa- tada, e por vezes ser considerada opor-
dores e capitães-generais foram nome- tunidade de participação em redes de
ados e chegaram praticamente ao negócio imperiais de maior monta e,
mesmo tempo à América Portuguesa assim, acolhida com ou sem questio-
para administrarem as capitanias cita- namentos diretos. Busca-se, destarte,
das. Presidentes das Juntas de Fazenda compreender tanto o modo como gru-
locais, prerrogativa de sua posição, pos de poder radicados em paragens
estes governadores acabaram por se americanas diversas responderam às
envolver diretamente no sistema de pressões de negociantes e de agentes
arrematações das rendas reais; ora des- administrativos metropolitanos, aco-
locando e/ou afastando, ora aproxi- lhendo, rechaçando ou se rearticulan-
mando grupos de interesses envolvi- do frente aos conflitos entre demandas
dos em um dos ramos de negócios que político-econômicas locais e do Reino,
mais ligava súditos e Coroa portugue- quanto o movimento de injunção entre
sa. A despeito de apresentarem com- interesses públicos e privados envolvi-
posição demográfica, peso político e dos na gestão do Império português do
expressão econômica distintos no con- período.
certo do Império Português, as capita-

“HOMENS QUE CONCORREM AO SEU NEGÓCIO”: A COMUNIDADE


MERCANTIL DA COLÔNIA DO SACRAMENTO (1737-1777)
Fábio Kuhn

O trabalho examina alguns aspectos da comunidade mercantil. Os dados dos


formação do grupo mercantil da Colô- registros de casamentos e habilitações
nia do Sacramento ao longo do século inquisitoriais permitiram reconstituir
XVIII. Ele está dividido em quatro par- os locais de origem dos comerciantes
tes: na primeira parte analiso os pa- da Colônia, mas não indicam um pre-
drões de recrutamento e o tamanho da domínio dos migrantes originários do

157
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

extremo norte de Portugal, como apon- local. Alguns dos homens de negócio
tado para outras regiões brasileiras. As ocupavam cargos importantes na Fa-
origens sociais dos negociantes sacra- zenda Real, órgão autônomo, mas que
mentinos são na sua maioria bastante na Colônia do Sacramento estava su-
modestas, sendo que metade dos pais bordinado ao poder discricionário do
eram lavradores nas freguesias de ori- governador, diante da inexistência de
gem em Portugal, enquanto a outra uma Provedoria da Fazenda. Ficou
metade era quase toda formada por evidente também que muitos agentes
artífices ou por indivíduos dedicados a mercantis faziam parte de bandos ou
pequenos serviços. Os dados encon- parcialidades. Alguns dos comercian-
trados indicam a existência de pelo tes se destacariam no cenário local nas
menos 116 agentes mercantis atuantes décadas finais da praça mercantil,
na praça ao longo desses anos, dos aproveitando-se da proximidade do
quais praticamente dois terços (75) são governador da praça e dos cargos ocu-
denominados nas fontes como “ho- pados para supostamente praticar des-
mens de negócio”. Na segunda parte, caminhos ou atos ilícitos. Na quarta e
discuto o acesso de alguns membros última parte, procurei recuperar al-
do grupo aos mecanismos de acrescen- guns fragmentos das redes mercantis
tamento social existentes no mundo nas quais os comerciantes da Colônia
português de Antigo Regime, levando estiveram envolvidos. As informações
em conta as peculiaridades e limitações contidas nos registros de óbitos de es-
da Colônia do Sacramento. Pelo me- cravos nos trouxeram dados mais deta-
nos 22 comerciantes atuantes na Colô- lhados sobre seu envolvimento no co-
nia do Sacramento eram também fami- mércio negreiro, possibilitando conhe-
liares do Santo Ofício, habilitados tanto cer quem eram os traficantes locais e
na praça mercantil do rio da Prata, co- proprietários das remessas de escravos
mo também no Rio de Janeiro e Lisboa. vindas do Rio de Janeiro e Bahia. Essas
Um outro indicador importante de dis- redes mercantis eram particularmente
tinção social era o pertencimento às importantes no tráfico de escravos,
companhias de ordenança. As infor- sendo que o envolvimento direto dos
mações disponíveis para os comercian- homens de negócio e mercadores da
tes do Rio de Janeiro na primeira me- Colônia do Sacramento no tráfico ne-
tade do século XVIII, indicam uma for- greiro era expressivo. Foi possível
te correlação entre o „título‟ de homem identificar a presença de pelo menos 34
de negócio e o posto de capitão. Esta traficantes nos livros de óbitos de es-
correlação parece ser confirmada no cravos, ou seja, cerca de 30% da comu-
caso da Colônia do Sacramento, pois nidade mercantil atuante na praça. En-
28 dos 43 homens ligados à atividade tre 1735 e 1752, pelo menos 250 cativos
mercantil ostentavam patentes de ofi- que faleceram na Colônia foram objeto
ciais de ordenanças tinham patente de de negociação entre interessados do
capitão. Na terceira parte abordo o en- Rio e da Bahia e moradores e trafican-
volvimento dos comerciantes sacra- tes da praça platina.
mentinos na estrutura administrativa

158
CADERNO DE RESUMOS

O COMÉRCIO DE ESCRAVOS INTERAMERICANO NO RIO DA PRATA:


TRAFICANTES NA COLÔNIA DE SACRAMENTOS (1730-1750)
Stéfani Hollmann

O tráfico de escravos, no século XVIII, panhola, além de importantes praças


tornou-se um dos ramos mais lucrati- do Brasil. Tornou-se dependente do
vos do comércio colonial. Possibilitan- comércio interno que ocorria com ho-
do para aqueles que viviam dele, rápi- mens de negócio da capitania do Rio
do enriquecimento e mobilidade social de Janeiro e da Bahia. Desta forma
dentro da sociedade de Antigo Regi- surge um importante grupo mercantil
me. As praças luso-brasileiras foram as no Rio da Prata, o qual tinha apoio de
que mais receberam cativos africanos alguns membros do governo local. Este
ao longo dos séculos de escravidão, trabalho pretende compreender, atra-
mas o câmbio que ocorria no Oceano vés do estudo da rede social de Manuel
Atlântico - entre África e América - era Coelho Rosa, homem de negócio da
apenas uma das vias destas trocas Colônia do Sacramento, tal como atra-
mercantis. O comércio interamericano vés de uma pesquisa com viés proso-
que abastecia as regiões periféricas, pográfico, analisar o grupo mercantil
que não possuíam contato frequente e que se formou na Colônia do Sacra-
direto com o continente africano - co- mento entre as décadas de 1730 a 1750
mo a Colônia do Sacramento – era a e os contatos estabelecidos com Rio de
terceira perna do tráfico de escravos. Janeiro e Bahia. Isso é possível através
Sacramento foi criada para reter parte da análise dos registros de óbito de
da prata que era escoada das minas de escravos, nos quais é informada a pro-
Potosí, pelo Rio da Prata, e acabou se cedência do cativo que está sendo en-
tornando importante entreposto co- terrado em Sacramento
mercial realizando trocas mercantis .
com diversas regiões da América Es-

DOS PORTOS AOS SERTÕES: TRÁFICO INTERNO NA AMÉRICA PORTUGUESA,


c. 1770-1800
Cândido Eugênio Domingues de Souza

A sociedade da América portuguesa de obra nas cidades e nos mais distan-


tem-se mostrado, a cada novo estudo, tes rincões da colônia. Através do co-
sempre mais complexa. A escravidão mércio internacional de pessoas escra-
africana e a consequente hierarquiza- vizadas a riqueza colonial foi potencia-
ção de status sociais e das “cores” fize- lizada, as elites compuseram seus jogos
ram desta sociedade um desafio para no tabuleiro político-social e, princi-
pesquisadores que buscam compreen- palmente, podemos notar a multidão
der os meios de sociabilidade e suas étnica que se tornou aquela sociedade.
contradições. Um ponto nevrálgico de Se hoje conhecemos bastante sobre tais
formação da América portuguesa foi o temas nas histórias das principais vilas
tráfico atlântico de escravos que ali- e cidades como Salvador, Olinda, Reci-
mentou e renovou o mercado de mão fe, Rio de Janeiro ou Mariana, ainda

159
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

temos um desafio que é compreender didos apenas para zonas auríferas, o


melhor o comércio de escravos que, que reforça seu poder no tráfico ne-
dos portos negreiros brasílicos, redis- greiro e sua abrangência nas diversas
tribuía a mão de obra, fomentando a Capitanias. A análise de “passaportes”
hierarquia, o poder e a composição emitidos pela Capitania da Bahia para
étnica dos distantes sertões do Brasil. traficantes revenderem escravos nos
Salvador e Rio de Janeiro, desde o al- vastos sertões da América portuguesa,
vorecer do século XVIII, protagoniza- nas últimas décadas do século XVIII,
ram o importante papel de redistribui- contribuirá para melhor conhecermos
dores de escravos para aqueles sertões. este comércio cujas fontes teimam a
Se por um lado o ouro das Minas Ge- escassear, aumentando o desafio histo-
rais, Rio das Contas e Jacobina, na riográfico. Através destes registros,
primeira metade Setecentista, impulsi- conheceremos os agentes comerciais,
onou o mercado baiano de escravos as principais rotas e destinos, a quanti-
para o interior da colônia, na segunda dade de escravos, bem como origem
metade, já com a decadência das gran- africana. Estudar a chamada “terceira
des lavras auríferas, este mercado con- perna do tráfico”, por fim, não pode
tinuou em vigor com a abertura de no- prescindir de uma atenção aos aconte-
vas frentes de mineração a partir de cimentos na África que mudaram a
Cuiabá e, especialmente, por conta do composição étnica daqueles desembar-
crescente plantio de algodão do Mara- cados em Salvador e, especialmente, às
nhão e Piauí. A Cidade da Bahia, no demandas de regiões como Maranhão
entanto, manteve-se também como e Piauí, que, neste período, eram desti-
importante entreposto comercial es- nos com força para rivalizar com a
cravista para regiões do açúcar tais demanda das regiões mineradoras e
como Sergipe e Alagoas; os africanos reforçar seus antigos laços comerciais
nela desembarcados não eram reven- com a praça de Salvador.

A CAPITANIA DO PIANCÓ, DAS PIRANHAS E CARIRI: ADMINISTRAÇÃO E


ETHOSSOCIAL NOS SERTÕES DA PARAÍBA (SÉCULO XVIII)
Rodrigo Ceballos

As entradas dos sertões das capitanias nia a povoação de Nossa Senhora do


do Norte do Brasil Colônia em fins do Bom Sucesso do Piancó (Pombal-PB).
século XVII e ao longo do século XVIII Sem uma Câmara Municipal até o ano
integram-se a um novo período de ex- de 1772, a boa ordem da região com
pansão em áreas antes desbravadas uma fronteira em constante movimen-
apenas no tempo dos flamengos. Na to era mantida pelo juiz ordinário que,
capitania da Paraíba do Norte, oficiais não raras vezes, também era seu capi-
militares lusitanos detentores do cargo tão-mor. Com seu escrivão e/ou tabe-
de capitães-mores com suas ordenan- lião, este corpo administrativo manti-
ças avançaram pelas ribeiras interiora- nha sob sua guarda um saber local sig-
nas atacando “nativos rebeldes” e cri- nificativo por envolver acordos de
ando novas sesmarias. Pelos caminhos compra e venda de terras ou de gado,
interioranos foi erigida na dita capita- cartas de alforria, dotes, procurações,

160
CADERNO DE RESUMOS

denúncias. Estas fontes cartoriais indi- locais legitimadoras de uma economia


cam a tessitura de uma dinâmica social do bem comum, mantenedora de uma
original nos confins do Império portu- poupança social da elite sertaneja sete-
guês. O presente trabalho busca elen- centista em formação na então conhe-
car e analisar, por meio de Livros de cida Capitania do Piancó, das Piranhas
Notas e de documentos do AHU (Pro- e Cariris.
jeto Resgate), algumas destas tramas

PECUÁRIA, REDES MERCANTIS E ESCRAVISMO: O NEGÓCIO DAS CARNES


SECAS NA COSTA LESTE OESTE NO SÉCULO XVIII
Gabriel Parente Nogueira

Ao longo do século XVIII a região cos- América portuguesa se destacava pela


teira que se estende do cabo de São produção do gênero, produção esta
Roque ao delta do Parnaíba teve sua que se iniciou na região em princípios
economia marcada pela organização e dos setecentos e que vivenciou um
desenvolvimento de um comércio de gradual processo de decadência no
destaque. Baseados no beneficiamento final do século XVIII e inicio do século
de couros, produção de carnes seca e XIX, decadência que se deu “pari pas-
na comercialização dos ditos gêneros, su” ao processo de afirmação das char-
os portos fluviais que deram origem às queadas no extremo sul da colônia
vilas de Aracati e Parnaíba (núcleos que, então, fizeram do Rio Grande de
economicamente mais importantes São Pedro a grande região produtora
desta costa) bem como outros núcleos do gênero na América portugue-
situados às margens de outros rios da sa/Império do Brasil. A presente co-
região (como Açu, Apodi, Acaraú e municação terá como objetivo discutir
Coreaú) configuravam-se como empó- o negócio das carnes secas desenvolvi-
rios que, por meio do trato neles de- do nos portos da costa leste oeste de
senvolvido, conectaram os sertões de forma associada a grandes transforma-
suas respectivas ribeiras às praças de ções vivenciadas no âmbito da Améri-
Recife, Salvador e Rio de Janeiro, den- ca portuguesa e da porção atlântica do
tre outras localidades. Vistos em con- Império português ao longo do século
junto, tais núcleos, juntamente com os XVIII, dentre as quais ressaltaremos: a
núcleos produtores de charque no Rio expansão das fronteiras da pecuária
Grande de São Pedro, correspondem nos sertões do norte entre a segunda
as duas grandes regiões produtoras de metade do século XVII e o primeiro
carnes secas na América portuguesa quartel do XVIII, destacando o proces-
durante o século XVIII. Cabe destacar, so de conquista da costa leste oeste e
contudo, que até a organização da das ribeiras que nela desaguam, pro-
produção de charque na capitania de cesso este que seguiu a lógica definida
Rio Grande de São Pedro, que tem seu por Capistrano de Abreu como de
inicio em princípios do último quartel conquista dos “sertões de fora”; a as-
do século XVIII, os núcleos produtores censão e afirmação das elites mercantis
da costa leste oeste, em conjunto, cons- das principais praças da América por-
tituíam-se como a única região que na tuguesa ao longo do século XVIII como

161
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

grupo de destaque em um momento Recife atuavam no trato com os portos


em que a América portuguesa vivenci- da costa leste oeste; e as dinâmicas da
ava um forte processo de crescimento, expansão (no tempo e no espaço) do
conferindo especial destaque para o escravismo na América portuguesa ao
caso da praça do Recife, de onde mui- longo dos setecentos, aspecto de gran-
tos dos sujeitos que atuavam direta- de impacto na dimensão de consumo
mente no negócio da produção e co- do gênero tendo em vista que, se não
mercialização das carnes secas provi- de forma exclusiva, as carnes secas ou
nham e com a qual mantinham estreita o charque tinham nas classe baixas,
relação, seja como prepostos ou como com especial destaque nas populações
sócios de grandes negociantes da praça cativas, o seu principal mercado con-
de Pernambuco, membros portanto sumidor.
das redes mercantis que a partir do

OS ENGENHOS, AGUARDENTE E FARINHA E O ABASTECIMENTO NA


FRONTEIRA OESTE DA AMÉRICA PORTUGUESA
Vanda da Silva

Os engenhos instalados no termo do das expedições para descoberta de ou-


Cuiabá não se restringiam ao cultivo e ro e de sal, dos registros de entradas,
à produção de produtos derivados da destacamentos militares e estabeleci-
cana-de-açúcar, seus proprietários mentos situados fronteira oeste (fortes
também eram produtores de alimen- militares ( Real Forte Príncipe da Beira
tos, como farinha de milho e de man- ,Presídio de Coimbra e Presídio de Mi-
dioca, e criadores de porcos e outros randa). A presente comunicação tem
pequenos animais destinados não ape- como foco destacar a formação e atua-
nas ao consumo familiar, mas sobretu- ção de um grupo de homens que do-
do, para comercialização no mercado minaram o setor produtivo no termo
local. Esta constatação é importante na do Cuiabá, uma vez que, os engenhos
medida em que esses engenhos esta- foi o ponto de partida para investimen-
vam situados em diferentes pontos do tos em uma agricultura comercial que
termo, o que pressupõe uma organiza- pudesse abastecer o mercado local de
ção produtiva que garantia o abasteci- gêneros alimentícios.
mento da vila, arraiais mineradores,

15 de setembro de 2016

VÍNCULOS NO ESTEIO DE MANOBRAS ELEITORAIS NA COMPANHIA GERAL


DE PERNAMBUCO E PARAÍBA (1759-1780)
Angélica de Vasconcelos Silva

O estudo explora premissa estatutária gestores da Companhia utilizaram


de rotatividade dos membros do corpo seus vínculos para se eximirem à refe-
diretivo da Companhia Geral de Per- rida premissa estatutária e permanece-
nambuco e Paraíba. Sustenta-se que os rem nos cargos de governação. Docu-
162
CADERNO DE RESUMOS

mentos corporativos e estudos proso- utilizadas pelos gestores em função da


pográficos substanciam a análise da característica do universo eleitoral de
rotatividade em duas unidades organi- cada unidade.
zacionais. Estratégias díspares foram

MESA DA INSPEÇÃO DE PERNAMBUCO: EXEMPLO DA ADAPTABILIDADE


ADMINISTRATIVA PORTUGUESA
Paulo Fillipy de Souza Conti

Recentemente, muito se tem comenta- que estivessem sob o mesmo regimen-


do sobre a adaptabilidade dos órgãos to, foram de maneira geral, diferentes
da administração portuguesa instala- entre si. Nesta comunicação, buscamos
dos na colônia. Alguns deles se repeti- analisar os procedimentos da Mesa da
ram por praticamente todas as zonas Inspeção de Pernambuco durante o
ocupadas, como Câmaras Municipais, consulado pombalino. Posicionamen-
Governo de Capitania, cargos voltados tos que em determinados momentos
para o exercício da justiça, e nas regi- pareceram até mesmo contraditório,
ões litorâneas, os portos. Acreditamos estando ela ora favorável aos clamores
que os modelos mais repetidos indi- mais sonoros na capitania e ora mais
cam aqueles mecanismos pensados alinhada ao que dela era esperado no
como fundamentais para a organização Reino, força representada, sobremanei-
dos espaços e das pessoas. Mas, ainda ra, pela Companhia Geral de Comércio
diante de um modelo cheio de normas de Pernambuco e Paraíba e pela Junta
a serem seguidas, isso não significou da Administração do Tabaco. Além
um “transplante” pleno das atribuições das pressões oficiais, é preciso que se-
postas como lei ainda no Reino. Havia jam observados também aqueles que
em alguns momentos, inclusive, o re- de fato tiveram condições de direcio-
conhecimento metropolitano dessa nar as decisões da Mesa da Inspeção de
necessidade de adequar as agências Pernambuco, ou seja, os homens que
aos espaços onde foram instaladas. nela serviram como inspetores. Des-
Conforme aconteceu para as Mesas da considerar a ação desses sujeitos, com
Inspeção do Tabaco e Açúcar, por suas qualidades, defeitos, vaidades e
exemplo. Criadas em 1751, já traziam interesses distintos, acabaria por não
no seu regimento a recomendação de levar em conta os verdadeiros motores
cuidar dos produtos mais importantes da mencionada adaptabilidade. Mes-
nos portos para os quais foram desig- mo que as leis portuguesas abrissem
nadas. Receberam Mesas da Inspeção o espaço para essas práticas, conforme
Rio de Janeiro, a Bahia, o Maranhão e dizem alguns historiadores, sem as
Pernambuco. E em 1755 a Paraíba. pessoas não haveria leis ou órgãos de
Quando vistos, mesmo que rapida- administração funcionando. Nas Me-
mente, os documentos produzidos por sas de Inspeção estiveram envolvidos
essas casas, é possível notar como agi- setores sociais importantes dentro das
ram de maneira singular no que se re- capitanias, os juízes letrados, ouvido-
fere aos gêneros mais cuidados e ao res ou intendentes, e os produtores de
posicionamento político. Logo, ainda açúcar ou tabaco e os comerciantes.

163
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Desta forma, reuniram-se na mesma houveram composições mais alinhadas


agência as maiores autoridades jurídi- ao Reino, como houveram composi-
cas das regiões, os “nobres da terra” e ções mais alinhadas aos desejos locais.
aqueles que começaram a ganhar mai- Esse agir político variável foi caracte-
or vulto social na mesma medida em rística da Mesa da Inspeção de Per-
que cresciam as suas fortunas. Somou- nambuco e mais um exemplo da capa-
se então a tradição ao dinheiro e a jus- cidade portuguesa de gerar mecanis-
tiça. E, não havendo em nível local ou- mos administrativos que em tese ti-
tras instituições com poder de veto nham um plano de atividades extre-
sobre as decisões da Mesa da Inspeção, mamente rígido, mas que na prática
os seus ministros puderam moldar o foram adaptados pelos interesses e de-
campo de ação da agência de acordo sejos dos escolhidos para executar os
com os seus interesses. Com isso, tanto trabalhos.

A ATUAÇÃO DOS HOMENS DE NEGÓCIO NAS ARREMATAÇÕES DOS


CONTRATOS RÉGIOS DA CAPITANIA DE PERNAMBUCO (1727-1780)
Poliana Priscila da Silva

O sistema de contratos das rendas e los agentes que ocupavam o topo da


direitos reais era uma prática vigente hierarquia, uma vez que o ingresso em
nas monarquias de Antigo Regime, tal atividade não era aberto a qualquer
como um importante método de arre- indivíduo, fornecendo mais um ele-
cadação de receitas. Estabelecido por mento de discriminação no interior do
meio de contratos temporários, o Esta- grupo mercantil, e uma alternativa de
do arrendava aos particulares a prer- inversão capital. Para respondermos as
rogativa exclusiva de cobrar os direitos questões levantadas, foi utilizada a
de algum produto numa determinada documentação manuscrita de cunho
região, ou seja, a negociação tratava-se administrativo, econômico e biográfi-
da concessão de monopólios e cobran- co, ligada aos contratos régios consa-
ça de impostos, mediante uma soma grados entre a coroa portuguesa e os
entregue ao fisco. Deste modo, mundo homens de negócio residentes em Per-
dos contratos era uma área bastante nambuco, originária dos códices e da
frutífera para as pretensões de enri- documentação avulsa do Arquivo His-
quecimento e distinção para os homens tórico; situada principalmente no sécu-
de negócios deste ou do outro lado do lo XVIII, período pelo qual houve a
Atlântico. Partindo da análise dos ne- passagem de grande parte dos contra-
gociantes-arrematadores radicados na tos régios da esfera local para a central
praça mercantil de Pernambuco, con- nas mais importantes capitanias do
jecturamos que as arrematações de ultramar: Pernambuco, Bahia e Rio de
contratos régios realizadas por esta Janeiro. Momento histórico que ex-
elite constituía um poderoso instru- pressa a rigidez com que a monarquia
mento de acumulação mercantil e in- passará a gerir sua fiscalidade, redire-
fluência política na capitania, durante cionando para a autoridade régia, o
o século XVIII. Para além das lojas, poder de centralização da arrecadação
torna-se um negociante-arrematador, que até então estava alocado nas câma-
foi uma trilha usualmente seguida pe- ras municipais.

164
CADERNO DE RESUMOS

PARA HONRA DOS HOMENS E O SERVIÇO DE DEUS: A AÇÃO DOS


FAMILIARES DO SANTO OFÍCIO NA BAHIA COLONIAL
Ludmila Maria Conceição dos Santos de Araújo

O objetivo central desta pesquisa é diligência. Fontes tais como o Registro


analisar as atividades cotidianas dos Geral de Mercês, Listas de integrantes
Familiares do Santo Ofício, buscando das Ordenanças, entre outras, mostram
compreender como se engendraram claramente que muitos Familiares do
suas inserções na sociedade baiana dos Santo Ofício que exerciam o cargo na
fins do século XVII até finais do XVIII, cidade da Bahia dos séculos XVII e
bem como identificar como eram teci- XVIII, faziam parte da elite daquele
das as relações de poder entre estes lugar. Pois além de abastados, e Fami-
agentes inquisitoriais na sociedade e liares, eles em sua maioria ocupavam
com o próprio Tribunal de Lisboa, ou cargos dentro da administração coloni-
seja, qual era o real papel destes na al, das Ordenanças, das Ordens milita-
colônia portuguesa, que não abrigou res e/ou religiosas, além de ocuparem
um Tribunal próprio. Para melhor êxi- espaço dentro da Santa Casa de Mise-
to nosso trabalho, será necessário tam- ricórdia. Cruzando as fontes inquisito-
bém incluirmos em nosso objeto de riais com as civis, sempre embasando
estudo a elite baiana, visto que muitos nossa análise com os Regimentos dos
dos Familiares se enquadravam nesse Familiares do Santo Ofício e com as
grupo social do Brasil Colonial. Existi- discussões sobre História Social, com a
am basicamente três motivações para a finalidade de poder observar o relacio-
ambição ao cargo: fazer parte de uma namento destes agentes com a socie-
instituição tida como importante e dade, que geralmente sentia medo des-
honrada que era o Santo Ofício; desfru- tes. Acreditamos que essa pesquisa
tar de todos os privilégios e isenções contribuirá ao mostrar os impactos
que o cargo oferecia; além de poder sociais acarretados pela maciça presen-
comprovar a sua limpeza de sangue ça dos Familiares na colônia, mostran-
perante toda a sociedade, visto que do que a importância destes foi muito
para ser um funcionário do Tribunal, o maior do que parte dos historiadores
candidato submetia-se a uma rigorosa presume.

DINÂMICA SOCIAL E DE PODER NOS SERTÕES DA PARAÍBA: OS EMBATES


ENTRE O CAPITÃO MOR FRANCISCO DE ARRUDA CÂMARA E JERÔNIMO
JOSÉ DE MELO E CASTRO (SEGUNDA METADE DO SÉC. XVIII)
Janice Correa da Silva

As denominadas sociedades de Antigo poder. A partir desses estudos pode se


Regime têm sido um assunto bastante entender que o poder não era tão cen-
recorrente nos estudos historiográficos tralizado da forma como até então se
atuais. Nessa perspectiva, categorias acreditava, uma vez que havia espaço
como as de “centralização” ou “poder para a negociação e para fortes laços de
absoluto” deixam de ser basilares na solidariedade. Nesse sentido, fica níti-
elucidação das questões relativas ao da a existência de uma autonomia nos
165
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

domínios ultramarinos. Se nas áreas da elite local sertaneja, como também


litorâneas, onde o poder se instituiu as disputas e conflitos travados entre
primeiramente predominava tal reali- esta mesma elite e o poder central.
dade, o que dizer então das áreas inte- Considerando-se os estudos prelimina-
rioranas? Qual realidade era vivencia- res até aqui realizados, a principal
da nos recônditos sertões? Na segunda ideia elencada neste artigo é a de que
metade do século XVIII, a conquista do no sertão paraibano, na segunda meta-
sertão paraibano já tinha se consolida- de do século XVIII, as relações sociais
do. Sendo assim, algumas famílias que eram permeadas pela amizade e cum-
participaram do serviço régio se apre- plicidade em que se compunham gru-
sentavam como integrantes da elite pos cujos interesses se assemelhavam.
local. Por intermédio de cartas, ofícios O não cumprimento das obrigações de
e requerimentos do Arquivo Histórico uns para com os outros resultava em
Ultramarino pode-se perceber nesse conflitos e, consequentemente, em alte-
período a atuação de grupos empe- rações no modo como se compunha os
nhados no controle do poder político. grupos sociais. Pode-se conjeturar
Umas das figuras mais notáveis desse também que o capitão mor Francisco
período foi Francisco de Arruda Câma- de Arruda Câmara desfrutava de certa
ra, capitão mor da vila de Pombal, que autonomia no que diz respeito às suas
se notabilizou por se envolver em que- ações, decisões e práticas. Se perceberá
relas com o então governador da Para- que os arranjos sociais eram constantes
íba, Jerônimo José de Melo e Castro. entre tais grupos, uma vez que ter a
Arruda Câmara exercia grande in- legitimação concedida por alguns in-
fluência nos sertões e isso resultou em divíduos era fundamental para se
diversos conflitos no espaço em ques- manter no topo da hierarquia social.
tão. Este artigo busca empreender uma Acredita-se que esses comportamentos
investigação histórica em torno da di- derivavam do predomínio de uma
nâmica social e de poder nos sertões da Cultura Política de Antigo Regime ali-
Paraíba, na segunda metade do século cerçada em valores como serviço, hon-
XVIII, se debruçando de modo mais ra, fidelidade, solidariedade etc. No
exaustivo sobre os embates ocorridos que se refere aos aspectos teóricos, o
entre o capitão mor da vila de Pombal, trabalho será apoiado pela Nova His-
Francisco de Arruda Câmara e Jerôni- tória Política e, dentro desse campo,
mo José de Melo e Castro. Destarte, se pela discussão do conceito de Cultura
procurará destacar os laços de amizade Política.
e reciprocidade entre os componentes

A CONTURBADA TRAJETÓRIA DO CONTRATADOR DOS DIAMANTES


FELISBERTO CALDEIRA BRANT: DORES E GLÓRIAS DE UM CAMINHO
MARGEADO PELAS RELAÇÕES COM AGENTES DA COROA
Camila Pelinsari Silva

A presente proposta tem por tema ge- 1753), Felisberto Caldeira Brant. A atu-
ral o arrematante do terceiro contrato ação dos contratadores tem sido alvo
de diamantes do Serro Frio (1749- de atenção cada vez mais constante de

166
CADERNO DE RESUMOS

uma historiografia recente, que aponta ceu aí uma oportunidade de enrique-


a importância destes homens na eco- cimento e ascensão social. Esta amiza-
nomia e sociedade coloniais. Estes es- de e sua própria ambição conduziram
tudos têm sido bem-sucedidos em de- Caldeira Brant à gestão de um negócio
monstrar como, muitas vezes, a arre- que se apresentou desafiador até ao
matação dos contratos significava uma famoso João Fernandes de Oliveira,
oportunidade de diversificação dos indivíduo de origens e características
negócios e a epítome de trajetórias de bastante diferentes. Fernandes era por-
alguns negociantes de grosso trato, que tuguês, negociante e participante de
articulavam suas redes de influência uma rede de negócios já razoavelmente
ibero-americanas em torno da arrema- descortinada pela historiografia que
tação dos contratos régios. contava com indivíduos como Jorge
A conturbada trajetória de Caldeira Pinto de Azeredo, poderoso negociante
Brant, por outro lado, sugere um perfil e contratador de entradas. Após uma
razoavelmente diferente dos perfis de- querela que envolveu escandalosas
lineados na maioria dos estudos que se denúncias por parte do Intendente dos
voltaram para estes personagens. Mi- Diamantes Sancho de Andrade Castro
neiro de nascimento, foi na mineração Lanções e do Ouvidor do Serro Frio
que Caldeira Brant sempre concentrou José Pinto de Morais Bacelar, que
suas atividades. As primeiras notícias apontavam o uso excessivo de escravos
de Caldeira Brant nos arquivos portu- nos serviços de mineração e o desca-
gueses demonstram seus problemas minho das pedras maiores e de maior
com autoridades, tendo sido preso e valor, Caldeira Brant voltou a ter pro-
quase condenado à morte em 1730, por blemas com os representantes do po-
um ataque a um Ouvidor, enquanto der público. Mas, neste momento, isso
ainda era minerador em São João del- significou sua última ruína. Felisberto
Rei. Sua fama pública, por esta época, acabou sendo levado preso a Lisboa e
sugere a delinquência: cercado por tendo seus bens sequestrados.
seus escravos, vivia afastado dos cen- A presente proposta pretende, então,
tros urbanos e teria cometido outros estabelecer duas considerações: a pri-
crimes. meira, tecer uma proposta de entendi-
Paulatinamente, Caldeira Brant tenta mento para o fim de Caldeira Brant.
se afastar deste estereótipo. Foi prova- Denúncias contra contratadores não
velmente na época de suas atividades eram novidade. Será objetivo procurar
nas minas de Paracatu, na década se- demonstrar como outros elementos
guinte, que se inicia sua amizade com parecem participar da costura do ex-
o Governador Gomes Freire de An- traordinário fim deste contratador,
drade, peça chave para sua inserção no além de suas atividades ilícitas. A se-
estreito universo dos exclusivos colo- gunda, de caráter mais geral, é justa-
niais. Em finais na década de 40, é o mente sugerir a diversidade dos luga-
próprio governador quem oferece, com res sociais de onde surgiam estas figu-
condições especiais, a oportunidade de ras, cuja importância é cada vez mais
arrematação do terceiro contrato de demonstrada pela historiografia recen-
diamantes no Serro Frio ao então mi- te.
nerador, que possivelmente reconhe-

167
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

REDES DE PODER NA VILA REAL DO SENHOR BOM JESUS DE CUIABÁ:


NOTAS DE PESQUISA
Débora Cristina dos Santos Ferreira

A fundação da Capitania de Mato arranjos ou deixaram os lugares de


Grosso, em 1748 e a chegada do gover- poder, evidenciando assim, a dinâmica
nador D. Antônio Rolim de Moura Ta- das redes clientelares e as inúmeras
vares trouxeram mudanças à Vila Real estratégias para a manutenção do po-
do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, as der político de um grupo. Formadas
elites locais estabelecidas em cargos por alianças, estas redes locais busca-
régios e nas cadeiras do Senado da vam manter seus poderes ora se alian-
Câmara passaram a coexistir com ou- do aos oficiais régios, ora se opondo,
tro poder, o governador, que trouxera desta forma, as alianças e redes pode-
instruções para fundar uma vila- riam ser efêmeras, circunstanciais, de-
capital às margens do Guaporé, deslo- pendiam dos interesses econômicos e
cava-se, então, o polo de poder da Vila familiares envolvidos, por vezes, ve-
de Cuiabá para outra localidade, Vila mos homens de uma mesma parciali-
Bela da Santíssima Trindade, deixando dade em uma questão de lados opostos
de lado a elite que financiara as expe- em outras, demonstrando a fluidez de
dições que encontraram as novas mi- suas relações. Nosso objetivo é com-
nas e seus oficiais régios, além disso preender a atuação destes poderosos
estas redes se viram afetadas pelas no- nos espaços políticos da Vila Real, seja
vas rotas comerciais que ligavam Mato em cargos régios ou camarários, tendo
Grosso ao Pará, assim acreditamos que como pano de fundo o governo de D.
tal acontecimento marca o rearranjo Antônio Rolim de Moura na Capitania
dos “principais da terra”. As redes de de Mato Grosso. Acreditamos, pois,
poder envolviam aqueles que deti- que no período de 1748 a 1764, em que
nham cargos no governo da Vila, seja o governador estivera residindo na
nas funções régias, como os cargos de capitania, houveram mudanças nas
ouvidor, intendente ou provedor, dis- estratégias e alianças políticas da elite
tribuídos pelo poder real, a cada três de Vila Real, a formação de novas re-
anos, seja através da ocupação de car- des e a confrontação com outras. As-
gos na Câmara, estes espaços dotavam sim, pretendemos compreender as mi-
seus possuidores de distinção social e a nucias destas redes clientelares e suas
possibilidade da concessão de mercês. disputas de poder e jurisdição com
No caso da Câmara, homens de negó- outros agentes, principalmente, os ofi-
cio, gentes das lavras e proprietários ciais do poder régio instalados, é atra-
de sesmarias poderiam ocupar suas vés destes confrontos que poderemos
cadeiras, estes faziam parte de redes de enxergar as ações dos poderosos locais.
poder, que possibilitavam o acesso ao Através do método prosopográfico
jogo político, algumas destas redes fo- almejamos traçar um panorama das
ram formadas desde a primeira hora redes de poder do período, assim ana-
das conquistas das minas do Cuiabá, lisar as dinâmicas sociais e políticas da
determinadas alianças perduraram até sociedade da Vila Real setecentista.
a década de 1750, outras passaram por

168
CADERNO DE RESUMOS

ANTÔNIO JOSÉ MEIRELLES: NEGÓCIOS E CONFLITOS NO MARANHÃO


OITOCENTISTA
Luisa Moraes Silva Cutrim

Os negociantes tornam-se figuras fun- Antonio José Meirelles, acumulando


damentais a partir da segunda metade negócios, fortuna e dissensos. O objeti-
do século XVIII para a compreensão da vo do artigo é analisar os conflitos exis-
economia e da política do império por- tentes na casa comercial Antonio Joze
tuguês no período em que ocorre em Meirelles Ferreira & C.a entre o nego-
Portugal um “surto burguês”, como ciante Meirelles, seu sócio José Gon-
destaca Jorge Pedreira (1992, p.408). Os çalves Teixeira e os seus credores entre
homens de negócios daquele período 1819 e 1828. Observando, deste modo,
iniciaram a formação de uma elite o reflexo dos embates no caráter de
mercantil ganhando distinção e prestí- negociante dos sócios, em que sempre
gio social, imagem que que se fortalece havia a preocupação em se manter ile-
ao longo do século XIX. Neste contex- sa, e na dinâmica dos negócios daquela
to, atuou no Maranhão na primeira casa.
metade do século XIX o negociante

SOBRE A “MONARQUIA PLURICONTINENTAL” E O “AUTOGOVERNO”: UMA


ANÁLISE SOBRE O PODER LOCAL NA AMÉRICA PORTUGUESA
Breno Almeida Vaz Lisboa

Mais recentemente a ênfase no papel tinental é o papel desempenhado pelos


do poder local, nomeadamente na atu- poderes locais na governança do impé-
ação das câmaras municipais e sua im- rio. Fragoso acredita que a cultura polí-
portância na administração dos espa- tica da época levava as câmaras a exer-
ços do ultramar português, tem sido cer um elevadíssimo grau de autono-
feita a partir do uso de uma expressão mia e praticar algo como um “autogo-
amplamente utilizada: “Monarquia verno”. Autonomia e autogoverno re-
Pluricontinental”. Formulado origi- conhecidos e legitimados pela Coroa,
nalmente por Nuno Gonçalo Monteiro que governava em um mundo no qual
assumiu pouco mais tarde um sentido o poder do rei era partilhado e onde a
explicativo que foge à formulação ori- segunda escolástica informava a visão
ginal do autor. Referimo-nos à maneira de mundo nesse contexto, dando a vá-
como a “Monarquia Pluricontinental” rios “corpos” políticos a prerrogativa
passou a ser tratada por João Fragoso e do autogoverno. É com essa forma de
Maria de Fátima Gouvêa – sobretudo entender a “Monarquia Pluricontinen-
pelo primeiro – que passaram a em- tal” que não concordamos. Pretende-se
prestar um conteúdo completamente aqui então discutir o sentido que o
novo ao termo, dando-lhe, voluntari- termo assumiu e demonstrar a partir
amente ou não, um caráter de “modelo da pesquisa empírica por que motivo
explicativo” do Brasil colonial. Para rejeitamos a ideia de autogoverno para
Fragoso e Gouvêa o que caracteriza tratar a atuação do poder local na
essencialmente a Monarquia Pluricon- América portuguesa. Assim, pretende-

169
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

se aqui chamar a atenção para o uso diferentes visões acerca da importância


corrente e frequente do termo e propor das câmaras municipais para se melhor
uma discussão sobre a pertinência do entender as relações de poder na Amé-
uso do conceito. Além disso, tal dis- rica portuguesa.
cussão propõe-se a colocar em debate

170
CADERNO DE RESUMOS

SIMPÓSIO TEMÁTICO 11
Relações de poder, redes sociais e circulação no tempo dos Felipes (1580-1640)

Coordenadores: Rodrigo Bonciani (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e


Ana Hutz (Universidade de São Paulo)

13 de setembro de 2016

O BANCO DE DADOS BRASILHIS. UMA NOVA METODOLOGIA PARA O


ESTUDO DO BRASIL NA MONARQUIA HISPÂNICA
José Manuel Santos

Esta comunicação está vinculada a um econômicas ou militares. Além disso a


projeto em desenvolvimento, financia- base apresenta informações sobre a
do pelo Ministerio de Economia e In- circulação desses personagens entre as
novación da España, com o titulo “Re- duas margens do Atlântico, proporcio-
des políticas, comerciantes y militares nando assim uma valiosa informação
en Brasil durante la Monarquía Hispá- sobre a comunicação existente entre o
nica y sus postrimerías (1580-1680). A mundo colonial e o metropolitano en-
base de dados BRASILHIS conta com tre fins do século XVI e início do XVII.
três seções principais: personagens, Procuramos, com isso, dar aos pesqui-
referências documentais e referências sadores atuais e futuros uma ferra-
bibliográficas; seções conectadas entre menta diferente para o estudo desse
si. A equipe de pesquisadores introduz período da história colonial do Brasil,
no sistema personagens que tem rela- um período que já conta com impor-
ção com a América portuguesa durante tantes estudos, mas que continua com
a União de Coroas, 1580-1640, objeti- muitas lacunas, algumas das quais es-
vando compilar o máximo de dados peramos superar através do presente
sobre os mesmos e estabelecer suas trabalho.
conexões, sejam essas políticas, sociais,

GOVERNO-GERAL, MISSIONAÇÃO E INQUISIÇÃO NO ATLÂNTICO: O


SÚDITO, O FIEL E O ESCRAVO (1570-1615)
Rodrigo Faustinoni Bonciani

A comunicação trata da primeira visi- como governador-geral, em 1592, e na


tação do reino de Angola, ocorrida en- relação entre as forças sociais no Atlân-
tre 1596 e 1597, e de processos inquisi- tico. A passagem do século XVI para o
toriais decorrentes. Analisaremos sua XVII foi um momento chave de inter-
importância no processo de interven- venção da monarquia hispânica nas
ção régia em Angola, iniciada com a relações de complementaridade entre a
nomeação de D. Francisco de Almeida África subsaariana e as Américas. Em

171
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Angola, as disputas entre os agentes principal produto pago pelos sobas aos
coloniais giravam em torno das rela- portugueses era o escravo, que alimen-
ções de vassalagem sobre os chefes tava o tráfico no Atlântico. Os jesuítas
africanos, denominados sobas, que de Angola, articulados com os do Bra-
pagavam seus tributos em escravos sil, resistiram às determinações do go-
que alimentavam o tráfico atlântico. vernador D. Francisco de Almeida, que
Logo após a criação dos asientos de es- foi preso, enviado de volta à Lisboa, e
cravos naquela conquista e da morte substituído por seu irmão, D. Jerônimo
do capitão-donatário Paulo Dias de de Almeida, que acatou a posição dos
Novais, a Coroa determinou a institui- conquistadores e jesuítas, defendidas
ção do governo-geral. A principal, e em um memorial pelo padre Baltasar
mais polêmica, medida era o fim dos Barreira. Nesse fim de século, os deba-
senhorios, ou amos, dos conquistado- tes sobre o direito de domínio e a guer-
res e jesuítas sobre os sobas, que passa- ra justa dos europeus sobre os espaços
riam à vassalagem direta a Felipe II. e povos ultramarinos deslocavam-se
Na mesma época, Claudio Aquaviva, da América para África, o principal
geral da Companhia de Jesus, instruía autor a tratar esta problemática foi o
que os jesuítas não tivessem, compras- jesuíta Luis de Molina. Poucos anos
sem ou vendessem escravos em Ango- depois, na sequência da visitação do
la ou Brasil. No Brasil, a chegada dos Brasil, a Inquisição chegou à África
jesuítas esteve associada a instituição Centro-Ocidental, estabelecida em Lu-
do governo-geral, portanto, a consti- anda e conduzida pelo padre jesuíta
tuição de um aparato político- Jorge Pereira. Por meio da análise des-
administrativo, que procurava subor- se documento, e em diálogo com a his-
dinar os poderes coloniais à Coroa, era toriografia, procuraremos esclarecer as
fortalecida pela presença dos inacia- seguintes perguntas: de que forma a
nos, que denunciavam os abusos co- Inquisição interferiu nas relações de
metidos pelos moradores em relação vassalagem sobre os sobas e no comér-
aos indígenas. O domínio sobre os in- cio de escravos? E como se relacionou
dígenas estava na base da definição com a política régia, as orientações do
dos poderes políticos no ultramar. Em geral da Companhia e as forças sociais
Angola, no entanto, os jesuítas, lidera- constituídas no Atlântico? Dos proces-
dos por Baltasar Barreira, foram alia- sos decorrentes dessa visitação, desta-
dos dos conquistadores, sob o coman- caremos o do primeiro ouvidor geral
do de Paulo Dias. Apropriando-se das de Angola, Duarte Nunes Nogueira,
relações de vassalagem pré-existentes acusado de heresia, que também foi
no Ndongo, Congo etc., os conquista- processado pela visitação da Bahia. E o
dores e jesuítas se tornaram amos, ou do pombeiro Aires Fernandes, de al-
senhores, dos chefes africanos, os so- cunha o Dinga Dinga, amigo de régu-
bas. Essa relação de vassalagem se as- los e “feiticeiros” do Ndongo e do
sentava no apoio militar, no comércio Congo.
preferencial e na cristianização, e o

172
CADERNO DE RESUMOS

TRÁFICO DE ESCRAVOS E AS “SAÍDAS PARA O SERTÃO” NA BENGUELA


PORTUGUESA: VIDA ECONÔMICA E BELICISMO ENTRE 1617 E 1630
Alec Ichiro Ito

A presente comunicação científica ana- amento e o presídio de São Filipe de


lisará as relações mantidas entre o co- Benguela se encontravam desde 1617.
mércio transatlântico de escravos e a Na segunda parte, descreveremos e
execução de algumas campanhas de analisaremos algumas das chamadas
guerra a partir do domínio ultramarino “saídas para o sertão”, ou campanhas
de Benguela, levadas a cabo entre 1627 de guerra, armadas contra algumas
e 1629. Para tal, nossa investigação autoridades africanas localizadas no
sustentará três esferas de análise: espa- interior do continente, ou simplesmen-
ços pertinentes, grupos sociopolíticos e te “sertão”. Por fim, faremos algumas
agentes institucionais. Assim posto, considerações a respeito das motiva-
este texto foi dividido em duas partes. ções e dos interesses que propulsaram
Na primeira, será apresentado o estado a convocação e a condução da chama-
econômico e material no qual o povo- da “gente de guerra”.

SOBRE A CONDIÇÃO DE MISERÁVEL DO ÍNDIO: DAS CIRCUNSTÂNCIAS


DA CONQUISTA À QUALIDADE DO CORPO
Alexandre Camera Varella

A partir de meados do século XVI se discurso que, entre os séculos XVI e


acentua o uso do termo “miserável” e XVII, parece tender para a naturaliza-
logo é estabelecida, no “derecho india- ção de inferioridade do ser. A condição
no”, a condição jurídica do índio equi- de miserável não será apenas o resul-
valente a do menor de idade, da viúva, tado dos “acidentes” da conquista que
do desamparado ou do paupérrimo. Se vulnerabilizaram os naturais do Novo
essa definição pode ser estudada no Mundo, como também uma “qualida-
debate sobre as justificativas ou políti- de” que infere uma debilidade (diga-
cas clericais e civis de proteção dos mos) cultural, e ainda, do próprio cor-
naturais dos vice-reinos da Nova Es- po da mais importante “casta” dos
panha e do Peru, a proposta aqui é ob- vassalos do rei.
servar bases ou argumentos de um

OS FUNDAMENTOS DAS PRÁTICAS DE GOVERNO NO VICE-REINO DA NOVA


ESPANHA (1535-1595)
Anderson Roberti dos Reis

Os vice-reis nomeados para os reinos havia chegado ao fim – muitos deles


da monarquia espanhola distantes da eram nobres que esperavam colher, em
península ibérica, especialmente os das suas terras natais, os frutos dos servi-
“Índias”, receberam quase sempre com ços prestados a Sua Majestade. Quase
alegria a notícia de que seu mandato sempre, pois havia a possibilidade

173
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

concreta de nova nomeação para outro oferecem, de modo geral, um quadro


reino americano ou porque seu perío- bastante completo das ações vice-reais
do à frente daquele ofício tinha sido e das circunstâncias em que elas ocor-
abreviado por motivos não muito ilus- riam. Com base nesses documentos, o
tres, como um distúrbio político ou a objetivo da presente comunicação é
acusação de mau governo. Num caso e examinar os fundamentos das práticas
noutro, os vice-reis estavam obrigados vice-reais na Nova Espanha, desde sua
a escrever “relações de governo” com o criação em 1535 até o mandato do úl-
objetivo de apontar o que havia suce- timo vice-rei nomeado por Felipe II. A
dido durante seu mandato, o que ser- pergunta que norteia a investigação
viria simultaneamente de informe à que ora se expõe é: quais razões fun-
coroa e de advertência a seu sucessor damentam as ações relatadas pelos
na corte vice-real. Esses documentos representantes de Sua Majestade na
poderiam também ser úteis à defesa do Nova Espanha? O recorte temporal
governante durante o juízo de residên- pretende circunscrever o período de
cia, processo judicial no qual se apura- 1535 e 1595, considerado por alguns
vam a qualidade de suas ações e as historiadores como as décadas de con-
acusações (cargos) contra sua conduta. solidação da autoridade vice-real.
Dessa forma, as relações de governo

DEFENDER, CATEQUIZAR E POVOAR: A CONQUISTA DA CAPITANIA DO RIO


GRANDE NO REINADO DE FILIPE III.
Elenize Trindade Pereira

O processo de conquista da capitania ta do território dos índios Potiguara, a


do Rio Grande no final do século XVI capitania do Rio Grande colonizadores
estava inserido em um contexto de ex- a construção da Fortaleza dos Reis
pansão territorial impulsionado pela Magos iniciada em 1597 e finalizada no
constante ameaça estrangeira, princi- dia 6 de janeiro de 1598, representa o
palmente francesa, na costa litorânea marco inicial da ocupação. Em torno
da América portuguesa. O expressivo desta primeira construção havia uma
avanço territorial neste período evi- sociedade incipiente instalando-se na
dencia a política de dominação dos região litorânea da capitania e trans-
territórios empregada no Período Fili- formando aos poucos o espaço recém
pino (1580-1640) e que marcou defini- conquistado. O objetivo deste trabalho
tivamente uma nova estrutura buro- é apresentar os primeiros resultados da
crática, administrativa e de defesa nas pesquisa de mestrado sobre a coloni-
colônias do império português. Neste zação da capitania do Rio Grande den-
processo de expansão das fronteiras tro da conjuntura do estado imperial
coloniais, principalmente para o norte, da monarquia católica Filipina, mais
outros eventos históricos ocorreram especificamente no reinado de Filipe
como a conquista da capitania da Para- III. Uma provisão real de 1612 demons-
íba em 1585 e a alocação das primeiras tra a preocupação deste rei com relação
praças de guerra nas margens do rio ao não aproveitamento das sesmarias
Ceará a partir de 1590. Após a conquis- doadas no Rio Grande e as implicações

174
CADERNO DE RESUMOS

disto para sua Fazenda Real. O rei fiscalização de terras no Estado do Bra-
mencionou a denúncia que recebeu sil: o Auto de Repartição das Terras do
sobre o caso dos padres da Companhia Rio Grande de 1614. Nele consta a re-
de Jesus que se estabeleceram na capi- lação de todas as sesmarias doadas na
tania desde os primeiros anos da con- capitania desde 1600 com informações
quista e acumularam 10 léguas de terra como o nome dos sesmeiros, autorida-
para manter, supostamente, dois cur- des que doaram as sesmarias, localiza-
rais de gado. A segunda parte da de- ção das terras, existência de escravos e
núncia diz respeito ás terras dos filhos os principais produtos cultivados pelo
do capitão mor Jerônimo de Albuquer- sesmeiro. Este estudo permite apontar
que que também possuíam grandes as características do processo de colo-
extensões de terra, mas de acordo com nização como o modo de ocupação das
a denúncia, não cultivavam a terra. terras, o estabelecimento de uma soci-
Assim, ordenou a divisão de todas as edade colonial em formação em um
terras daqueles que não cumpriam espaço que precisava ser ocupado para
com a obrigação do cultivo entre aque- garantir o domínio da Coroa e contri-
les que tinham cabedal para cultivá- bui para uma análise da conjuntura do
las. Essa ordem resultou na elaboração Período Filipino inserindo a capitania
do documento com o maior número de do Rio Grande nas discussões sobre o
informações sobre os primeiros anos tema.
da capitania e um dos primeiros sobre

O PROJETO DOS 500 CONTOS: GUERRA E RAZÃO DE ESTADO NA


MONARQUIA CATÓLICA DE FELIPE II
Marcella Fabiola Gouveia Moreira de Miranda

Esta comunicação tem o objetivo de com os auxílios e serviços concedidos


analisar o projeto dos 500 contos elabo- pelas Cortes. Para garantir estes recur-
rado pelas Cortes castelhanas, inserin- sos, o rei se comprometia cada vez
do-o numa lógica contratual entre mais com os procuradores e as cidades
aquela e monarquia e à luz do debate representadas, concedendo amplas
político em vigor na Europa, especial- prerrogativas em troca dos serviços.
mente o discurso da razão de Estado. Tal situação atingiu o ápice no contex-
No final do século XVI, as Cortes caste- to da derrota da armada espanhola
lhanas estiveram reunidas por seis pelos ingleses. Em 1590, após dois anos
longos anos. Entre 1592 e 1598, os pro- de negociações, o monarca conseguiu a
curadores das Cortes lidaram com um aprovação dos millones, um serviço de
problema principal: a grave crise fi- 8 milhões de ducados que seriam con-
nanceira que assolava a Monarquia cedidos ao rei em um prazo de seis
Hispânica. Além da rebelião de Flan- anos. Cada uma das dezoito cidades
dres, Felipe II iniciou a intervenção castelhanas com voto em Cortes iria
militar nas guerras de religião na Fran- estabelecer seus próprios meios para a
ça. O suporte financeiro que sustentava cobrança e o repasse do dinheiro. Dada
os empreendimentos bélicos do Rei a sua natureza extraordinária, este ser-
Prudente era garantido por Castela, viço foi selado por um contrato entre o

175
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

rei e o Reyno junto en Cortes, que esta- nhar os juros vendidos sobre o patri-
belecia extensas prerrogativas fiscais e mônio real, com intuito de gerar saldo
administrativas para as cidades. Além positivo na hacienda real. O restante,
disso, incluía a liberação de cédulas 425 contos, deveria ser utilizado para
reais que reforçavam o direito das ci- aumentar e fortalecer o sistema de de-
dades, caso a cobrança infringisse a fesa do reino, definindo os valores des-
liberdade e privilégios de outros gru- tinados à artilharia, infantaria e com-
pos, como a nobreza e o clero. Esta di- pra de cavalos. Desse modo, os procu-
nâmica contratual inaugurada pelos radores das Cortes, especialmente da
millones caracterizou as relações entre a cidade de Burgos, identificaram os ma-
monarquia e as Cortes castelhanas até les da monarquia no emprego do sis-
o século XVII. Um dos momentos mais tema de asientos e contratos para arre-
significativos deste processo é aprova- cadar dinheiro. À maneira dos arbitris-
ção, pelas Cortes, do projeto dos 500 tas, procuravam identificar os males da
contos. Em 1596, os ingleses atacaram e Monarquia Hispânica e apontar as so-
saquearam Cádiz e, no mesmo ano, luções para a crise financeira. Por outro
Felipe II decretou a bancarrota. Alar- lado, ao insistirem em investir no sis-
mados por esta situação, os procurado- tema de defesa do reino castelhano, os
res iniciaram a discussão de um proje- procuradores reforçavam a postura
to para ajudar a Coroa, denominado de assumida em 1592, quando se recusa-
500 contos. Diferentemente dos millo- ram a financiar a guerra no exterior. O
nes, aquele significaria uma interven- argumento que utilizaram foi que a
ção direta das Cortes nos negócios da guerra deveria ser defensiva e não
monarquia, ao estipular quais usos ofensiva. Desse modo, invocavam o
deveriam ser dados ao dinheiro. As argumento da razão de Estado, uma
cidades ficariam encarregadas de efe- vez que a conservação e segurança de
tuar um empréstimo geral, totalizando Castela deveriam vir em primeiro lu-
o valor de 500 contos, dos quais 75 se- gar. Afinal, uma razão de Estado caste-
riam concedidos ao rei para desempe- lhana deveria prevalecer.

O SANTO OFÍCIO PORTUGUÊS E OS HABSBURGOS


Denise de Carvalho Zotollo

A presente comunicação se constitui entre o Rei e o Santo Ofício na admi-


numa parte do segundo capítulo da nistração e gerenciamento destes re-
minha dissertação de mestrado cujo cursos. A ideia de que a Inquisição
tema foi “A movimentação financeira portuguesa tenha passado incólume
do Tribunal da Inquisição de Lisboa pela União Ibérica, deve ser relativiza-
durante a União Ibérica”, na qual atra- da. Antonio Manuel Hespanha (1993,
vés dos Livros dos Tesoureiros do Fis- p. 11) considera que em função dos
co e do Tribunal de Lisboa pode-se privilégios juridicionais singulares que
perceber a forma e qual a prioridade gozava, mesmo numa posição periféri-
dos gastos dos recursos provenientes ca em relação a União Ibérica a Igreja
dos bens confiscados. Aqui neste traba- portuguesa, sob o comando de um
lho só serão apresentadas as disputas monarca espanhol, se manteve “como

176
CADERNO DE RESUMOS

principal fonte de hetero-normação”, ficaram descobertos todos os erros


“fundamentalmente alheia às mudan- ocorridos em anos anteriores. Vieram à
ças dinásticas”. Porém, as historiadoras tona várias situações de má adminis-
Cátia Antunes e Filipa Silva descons- tração, entre elas, descuido na elabora-
troem esta visão afirmando que havia ção dos inventários na fase de seques-
uma correlação entre as ações inquisi- tro, demora no envio de bens para lei-
toriais, principalmente representadas lão e venda por valores abaixo do que
pelo confisco de bens, e a necessidade o descrito nos inventários (CODES,
da administração central em tirar pro- 2011, p. 227). A indicação dos tesourei-
veito de grande parte desta atividade ros do Fisco cabia ao Inquisidor Geral,
(2012, p. 404). Ainda que, do ponto de mas a palavra final sobre a nomeação
vista financeiro, dentro da perspectiva ainda era uma prerrogativa da Coroa e
de propriedade dos bens sequestrados, através de algumas correspondências é
não deveria haver problemas, posto possível averiguar que o Rei não abria
que por direito, todos os bens perten- mão deste direito, participando ativa-
ciam ao Rei, o que se viu durante a mente da escolha. Através da análise
União Ibérica, principalmente nos rei- dos Livros dos Tesoureiros do Fisco
nados de Felipe III e IV, foi uma dispu- atestou-se que o Santo Ofício não foi o
ta acirrada com o Santo Ofício sobre os único beneficiário dos recursos confis-
recursos financeiros da Inquisição. Pela cados, o Rei também se favoreceu dire-
importância do confisco dentro da es- ta e indiretamente destes recursos,
trutura inquisitorial os bens confisca- além do fato de que as sucessivas or-
dos estavam sempre rodeados de des- dens de suspensão dos confiscos, sem-
confianças, cobiça e disputas. As de- pre colocadas como moeda de troca
núncias de negligência na administra- entre o Rei e os cristãos-novos, benefi-
ção dos bens confiscados eram cons- ciaram somente o poder real ficando a
tantes. A partir de 1605 por ordem de Inquisição alijada dos resultados des-
D. Castilho todas as contas dos tesou- tas trocas.
reiros dos fiscos foram tomadas e aí

14 de setembro de 2016

REFLEXÕES SOBRE A TOMADA DA BAHIA DE 1624. (POLÍTICA, ECONOMIA


E IDENTIDADES)
Ana Hutz

Nesse trabalho revistamos o tema da as Guerras entre a Monarquia Hispâni-


tomada da Bahia pelos holandeses em ca e os Países Baixos. Esse conflito teria
1624 à luz do discurso arbitrista. O ob- se deslocado do centro europeu para o
jeto de nosso estudo é fundamental por Atlântico e, em particular para o Nor-
estar inserido num contexto muito deste brasileiro. No plano econômico,
amplo em que questões políticas, eco- devemos levar em consideração o mo-
nômicas e identitárias se inter- nopólio holandês sobre o refino e dis-
relacionam. No plano político, o con- tribuição do açúcar, bem como a cres-
texto maior é sem sombra de dúvidas cente demanda pelo açúcar refinado na

177
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Europa. Por fim, no plano das identi- em 1624, que culminaria no fim da
dades, vemos a complicada questão da União com a Guerra de Restauração
União das Coroas, já bastante esgotada portuguesa em 1640.

A GUERRA LUSONEERLANDESA NO BRASIL NAS NARRATIVAS DAS


RELAÇÕES DE SUCESSO (1625-1654)
Kleber Clementino da Silva

O tema clássico da presença neerlande- mas que, em seu conjunto, erigem uma
sa no Brasil (1624-1654) tem sido abor- representação do conflito em alguns
dado pela historiografia predominan- pontos peculiar: as relações de sucesso.
temente a partir de “memórias” e “his- Presentes na cultura escrita ibérica
tórias” escritas no século XVII, como as desde meados do século XVI e consi-
Memorias diarias de la guerra del Brasil, derados precursoras do periodismo a
de Duarte de Albuquerque Coelho se consolidar no século XVIII, tais pan-
(Madri, 1654), O Valeroso Lucideno, de fletos circulavam largamente nas cida-
frei Manuel Calado (Lisboa, 1648) e a des ibéricas e mesmo no ultramar, ma-
Nova Lusitânia, de Francisco de Brito nuscritos ou impressos, abordando
Freyre (Lisboa, 1675). A partir dessas e uma gama enorme de temas ou “su-
outras obras, legou-se para a historio- cessos”: festas, bodas, catástrofes, nau-
grafia dos séculos seguintes, até a atua- frágios, batalhas, visitas de autorida-
lidade, um panteão de heróis e uma des, etc. Estampadas com simplicidade
sequência de episódios marcantes da- e vendidas a baixo custo, as relações de
quela guerra, que tradicionalmente a sucesso atingiam largo público na Eu-
caracterizam e dão forma à narrativa ropa de Seiscentos, inclusive entre os
que hoje conhecemos: as figuras sim- não alfabetizados, por meio da “leitura
bólicas de Fernandes Vieira, Negreiros, em voz alta”. No caso do conflito em
Camarão e Henrique Dias, depois fei- análise, desde a recuperação de Salva-
tos símbolos da união nacional; as vitó- dor, em 1625, até a rendição do Recife,
rias nas Tabocas, em Casa Forte, nos em 1654, as lutas contra os flamengos
Guararapes, recontadas como glórias, no norte do Brasil são assunto intermi-
ou portuguesas, ou de uma “consciên- tente de relações de sucesso escritas na
cia brasileira” nascente. Conquanto, América ou na Península Ibérica, mui-
desde o século XIX, tenha se valido de tas das quais, com a ajuda de patroci-
relatórios militares, cartas, listas e ou- nadores poderosos, alcançam as casas
tras tipologias documentais, a historio- tipográficas. Sua produção responde às
grafia segue se valendo daquelas obras ambições políticas dos partidos envol-
seiscentistas como fontes para o “tem- vidos na guerra e interessados na vei-
po dos flamengos”, muitas vezes, aliás, culação de versões favoráveis dos
sem a devida problematização quanto eventos e na visibilização ampla e
aos interesses que atravessam nessas imediata propiciada pelo gênero das
Histórias e orientam suas redações. No relações. Tais folhetos, criando solu-
entanto, no próprio curso do conflito ções originais para o problema de
lusoneerlandês, a guerra foi tema de transposição da guerra em narrativa,
um conjunto de papéis não apenas informariam mais tarde as Histórias da
pouco explorados pela historiografia, “Guerra de Pernambuco”, integrados a

178
CADERNO DE RESUMOS

suas composições. Sua emergência, são promovidas por forças políticas


todavia, é condicionada pelas tensões excêntricas às cortes madrilena e lisbo-
entre as facções políticas e pelo contex- eta, interessadas na “fama” alcançável
to histórico: ora frutificam sob a égide pela difusão da imprensa e, com ela, na
do poder central, desejoso de controlar obtenção de recompensas materiais e
os discursos pertinentes à guerra, ora simbólicas.

“SALVADOR CORREIA DE SÁ E BENEVIDES E AS CONEXÕES LUSO-


CASTELHANAS NA AMÉRICA MERIDIONAL DURANTE A MONARQUIA
HISPÂNICA”
José Carlos Vilardaga

Nesta apresentação pretende-se discu- nistrador das minas de São Paulo, Be-
tir a atuação da família Sá na articula- nevides espelha em sua biografia mui-
ção de espaços coloniais luso- tos dos caminhos, intercâmbios e cone-
castelhanos durante a Monarquia His- xões possíveis no amplo território
pânica. Ressalta-se, sobretudo, a traje- compreendido pelas capitanias do sul
tória de Salvador Correia de Sá e Be- do Brasil e das Províncias do Rio da
nevides (1602-1688), herdeiro, ele pró- Prata, Tucumã e Paraguai. Ele deve ser
prio, de redes e conexões construídas visto como um personagem do império
por seu pai e avô. Filho de castelhana, dos Felipes que soube explorar, em
casado com criolla, capitão de entrada terras americanas, as possibilidades
no Paraguai, encomendero em Tucumã, abertas pelas confusas jurisdições re-
nomeado almirante em Buenos Aires, sultantes da união das coroas ibéricas
governador do Rio de Janeiro, e admi- (1580-1640).

OS IMPÉRIOS AMERICANOS IBÉRICOS COMO ESPAÇOS DE TROCAS


COMERCIAIS TRANSNACIONAIS NO PERÍODO DA UNIÃO IBÉRICA (1580-1640)
Ana Sofia Vieira Ribeiro

A aclamação de Filipe II como rei de eurocêntrica na sua perspectiva, fez


Portugal nas Cortes de Tomar em 1581 compreender que estes homens que
trouxe às relações comerciais ibéricas competiam por vantagens económicas
um novo entorno institucional. Apesar num espectro geográfico alargado não
de, em teoria, a gestão dos impérios poderiam ser indiferentes a todos os
ultramarinos portugueses continuar outros indivíduos de proveniências
autónoma, a Coroa ibérica e os indiví- diversas que foram encontrando nos
duos per se ganharam consciência da novos pontos de contacto. John and
complementaridade de espaços a vá- William McNeill defendem que foram
rios níveis, como a documentação e a os “encontros”, “contactos” e acima de
historiografia mais recente evidenciam. tudo “relações” com (o que designam
A emergência de uma nova historio- de) «outsiders» a origem e o motor de
grafia nas duas últimas décadas, co- muitas transformações económicas,
nhecida como «global history», menos sociais, políticas, militares, culturais,

179
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

religiosas e tecnológicas. O trabalho nacionais, multiculturais e, por vezes,


seminal de Andre Gunder Frank “Re- trans-imperiais eram a chave para re-
Orient: Global Economy in the Asian solver problemas de representação e
age” (1998) mostrou como numa época agenciamento comercial, assim como
de intensa interdependência económi- constituíam um veículo para novas
ca do mundo, como foi a Época mo- oportunidades de negócio e novos ca-
derna, nos mares do Oriente, a compe- nais de informação que de outras for-
tição e rivalidade entre Impérios Euro- ma não existiriam.Esta comunicação
peus e também entidades políticas asi- pretende perceber os efeitos mais ime-
áticas não excluiu a colaboração tran- diatos da União Ibérica na cooperação
simperial entre mercadores, formal- entre mercadores ibéricos e na sua re-
mente rivais, contornando restrições lação com o comércio global e os seus
legais. Nos últimos anos, o discurso agentes nos espaços americanos do seu
historiográfico tem sublinhado o perfil Império onde a noção de fronteira era
trans-cultural e multinacional das re- tantas vezes difusa , através da análise
des comerciais no período moderno. de contratos notariais portugueses e
As comunidades mercantis aumentari- espanhóis. Numa conjuntura de adap-
am a eficiência da sua rede de contac- tação das redes de negócio a uma nova
tos se comerciassem com pessoas ori- realidade, como lidaram os mercadores
undas de backgrounds sociais distin- ibéricos com aqueles que eram seus
tos, em cenários transnacionais, inte- rivais formais como os holandeses, in-
gradas em diverseas realidades impe- gleses ou franceses. Qual o papel des-
riais ultramarinas. Autores como X. tas relação transimperiais num palco
Lamikiz, F. Trivellato ou F. R. da Silva de acção global?
provaram que redes mercantis multi-

DUARTE DE ALBUQUERQUE COELHO: ENTRE A CRISE, A GUERRA E A


MONARQUIA DE FELIPE IV. CONEXÕES DA ELITE IBÉRICA COM A GUERRA
DE PERNAMBUCO ENTRE 1630 A 1670
Hugo Coelho Vieira

Esta comunicação apresentará parte do buco, período denominado pela histo-


Projeto de Pesquisa denominado Entre riografia de Brasil Holandês, bem co-
o lucro, a espada e a coroa: as relações mo pesquisar as trajetórias dessa elite
e trajetórias da elite ibérica na circula- no Post Bellum e após a restauração
ção dos militares no Atlântico Sul, de portuguesa de 1640, buscando com-
1630 a 1670, aprovado no fim do ano preender suas relações de interesse da
de 2014, no Programa de Pós- elite ibérica com o comércio no Atlân-
graduação em História da Universida- tico Sul. Portanto, nosso intento pre-
de Federal de Pernambuco (UFPE). A tende estudar as relações da elite por-
pesquisa busca investigar as relações e tuguesa e espanhola com a mobilidade
influências da “elite ibérica” na circu- social dos homens de guerra, os escra-
lação de pessoas, especialmente da vos e o comércio em uma perspectiva
gente de guerra (dos “militares”) du- multifacetada, diante da complexidade
rante a História da Guerra de Pernam- que se exige para entender as intera-

180
CADERNO DE RESUMOS

ções que ocorreram no Mundo Atlân- estudo sobre as relações e influências


tico, suas relações de força e de interes- da Junta de Socorro para a Guerra de
ses político. O presente artigo buscará Pernambuco com o denominado Brasil
demonstrar um resultado parcial do Holandês.

A RESTAURAÇÃO DE 1640 NA CIRCULAÇÃO DAS ELITES POLÍTICAS ENTRE


SÃO PAULO E ASSUNÇÃO: UMA PROPOSTA DE HISTÓRIA CONECTADA
Fernando Victor Aguiar Ribeiro

O objetivo dessa comunicação é discu- Amador Bueno. Podemos compreen-


tir os impactos da Restauração de 1640, der esse evento como uma reação da
momento no qual Portugal se emanci- elite política de São Paulo que, receosa
pa da monarquia hispânica, nas intera- da separação de Portugal, temia que as
ções entre as elites políticas de São conexões entre a América portuguesa e
Paulo e Assunção. Durante décadas a espanhola fossem encerradas. No Pa-
circulação de pessoas, produtos e idei- raguai, em 1649, o governador bispo
as foi corrente entre as duas cidades, Bernardino de Cárdenas entra em con-
determinando a dinâmica da região. flito com os jesuítas e os expulsa da
Tal situação influenciou a estruturação governação. A tensão seria um esforço
da economia, política e cultura das du- da elite política de Assunção de manter
as partes. Com a separação política, a sua preeminência econômica e política
capitania de São Vicente e a governa- frente à crescente influência dos padres
ção do Paraguai voltam a ser, respecti- inacianos. Esse evento também pode
vamente, domínios de Portugal e de ser compreendido como uma tentativa
Espanha. As relações entre as duas re- de manter as conexões entre Assunção
giões seriam inicialmente abaladas pe- e São Paulo, consideradas pelas elites
lo evento, mas o caráter fluido das paraguaias como fundamentais para a
fronteiras, bem como a ausência de sua sobrevivência econômica da região.
demarcação física, iria suavizar a sepa- Buscamos, portanto, a compreensão
ração das duas partes. As famílias Ca- das relações de formação dos grupos
margo, em São Vicente, e as famílias políticos através da circulação e da in-
Torales, Ponce de León e Zuñiga, no teração entre as elites políticas das du-
Paraguai, em meados de 1600, se uni- as regiões. As interações entre São Vi-
ram através de casamentos. A ideia foi cente e Paraguai não se encerraram em
consagrar, com o matrimônio, as rela- 1640, mas foram gradualmente sendo
ções políticas e econômicas entre as reduzidas ao longo do século XVII no
duas regiões. Um ano após a Restaura- contexto das disputas das Coroas ibé-
ção, em 1641, ocorre a Aclamação de ricas pelas possessões americanas.

181
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

FAZER-SE MERCADOR NA COLÔNIA: A PARTICIPAÇÃO RIO-PLATENSE NA


FORMAÇÃO SOCIAL, MERCANTIL E ESPACIAL DO ESTADO DO BRASIL
(1580-1680)
Queila Guedes Feliciano Barros

O Brasil consolidou-se enquanto prin- uma rota de comércio que permitiu a


cipal Colônia do Império Português no interação entre o abastecimento interno
Atlântico através dos esforços e ações e externo através de círculos de socia-
dos mercadores, suas alianças e os fru- bilidade com indígenas das vilas de
tos das mesmas compuseram a socie- Boupeba e Cairu ao longo do século
dade colonial e propuseram a manu- XVII. Os indícios destes intercâmbios
tenção dos engenhos numa Colônia se fazem presentes nos Registros de
que embora portuguesa fora construí- Navios do Archivo General de Lá Na-
da sob moldes espanhóis. O principal ción Argentina e nos Alvarás de co-
objetivo deste trabalho consiste em mércio do Arquivo Público estadual da
analisar o processo de distinção social Bahia revelando o cerne da formação
através do qual mercadores formaram da Companhia Geral de Comércio do
um sólido, porém dilatado grupo de Brasil, mantida especialmente por in-
elite que atuava nas Capitanias de São vestimento dos mercadores que garan-
Salvador Bahia, Rio de Janeiro, Per- tiram o transporte do açúcar para a
nambuco, Siará Grande e Rio da Prata Europa, o fornecimento de escravos e
conquistando mercados Atlânticos e utensílios para os engenhos e o abaste-
criando redes mercantis de abasteci- cimento interno integrando o litoral à
mento através de alianças parentais e vilas interioranas indígenas, além da
religiosas que inseriram o Brasil no escolta e defesa dos navios que circu-
circuito: Lisboa – Guiné – Capitanias lavam nas Capitanias rumo ao Atlânti-
do Brasil e Rio da Prata, compondo co Sul.

15 de setembro de 2016

DEPOIS DA BATALHA: TEXTOS E VISÕES SOBRE D. SEBASTIÃO NO


SÉCULO XVII.
Filipe Duret Athaide

Considerado um dos mais controver- considerado por boa parte da historio-


sos reis portugueses, D. Sebastião grafia portuguesa como um tema de
(1554-1578) nomeou uma das mais sig- menor importância, muitas vezes sen-
nificativas crenças messiânicas régias do classificado como folclore e associ-
da Europa Moderna, o Sebastianismo. ado a atraso cultural. Tal perspectiva
Configurado em momento de crise po- foi questionada principalmente por
lítica, o Sebastianismo incorporou ex- historiadores não portugueses princi-
pressões de fundo judaico a outros palmente nas últimas décadas. A análi-
elementos presentes no horizonte cul- se de manifestações sociais, de elabora-
tural lusitano, principalmente entre os ção e circulação de textos apologéticos
séculos XVI-XVII. O Sebastianismo foi ao Sebastianismo e de trajetórias de

182
CADERNO DE RESUMOS

indivíduos envolvidos na dissemina- se” de Castro – mas também pelo fato


ção da crença sebástica trouxeram no- de ser possível nele observar um esfor-
vas interpretações e questionamentos ço em defender a sobrevivência do
ao tema. Neste cenário bastante fértil, o monarca português. Nesse sentido, a
trabalho que será apresentado busca produção textual de Teixeira se apro-
examinar as relações entre o conjunto xima daquela inglesa, explorada por
de textos considerados “fundadores” Ernst Kantorowickz, e que embasou a
da crença sebástica e as formas de ma- sua teoria sobre a “doutrina dos dois
nifestação dela nos estratos populares. corpos do rei” – corpo político/corpo
Segundo J. L. Azevedo, em “A Evolu- natural – e principalmente, a suposta
ção do Sebastianismo” – obra incon- imortalidade do corpo político. Da
tornável para os estudiosos do tema – mesma forma, Teixeira pode ser consi-
foi fundamental a ação de D. João de derado um exemplo da defesa, em Por-
Castro, e a publicação de sua “Paráfra- tugal, da existência do caráter de “rei
se e Concordância” em 1603. Nela, deu sacrificial” de D. Sebastião, tese defen-
luz às já conhecidas na época, “Trovas dida por Yves Marie Bercé no seu livro
do Bandarra”, consideradas como o “O Rei Oculto”, e que consequente-
texto primordial da crença sebástica. A mente impediria a morte de seu corpo
própria produção de Castro engloba natural e político. Em contraponto à
outras obras, e existem tantas outras, produção letrada, destaco os casos das
contemporâneas a ele, compostas por visionárias portuguesas que, ao longo
outros autores. É deste conjunto que do século XVII afirmavam manter con-
destaco para análise a “Adventure admi- tato com D. Sebastião, em especial o de
rables par dessus toutes le outres dessiecles Maria de Macedo. Cristã-velha, em
passez”, atribuída a Frei José Teixeira e 1665 foi denunciada à Inquisição de
publicado em Paris, 1601. Fonte ainda Lisboa por divulgar suas idas e vindas
pouco conhecida e explorada, compõe, à Ilha Encoberta. Nela, se encontrava
em conjunto com outros textos, um com monarca desaparecido na batalha
panorama bastante amplo sobre o de- africana. Desta forma, buscarei exami-
bate, ocorrido no início do século XVII, nar as possíveis formas de circulação
e que tinha como questão fulcral a pos- dos elementos basilares da crença se-
sibilidade de sobrevivência ou não de bástica e como eles foram apropriados
D. Sebastião após a Batalha de Alcácer pelos diversos estratos sociais da épo-
Quibir. A seleção do escrito de Teixei- ca.
ra, se deu não só pela questão cronoló-
gica – foi publicado antes da “Paráfra-

DOIS LETRADOS PORTUGUESES NA CORTE DOS FILIPES: O HISTORIADOR


JERÔNIMO MASCARENHAS E A ESCRITA DA HISTORIA DE LACIUDAD DE
CEUTA (1648)
Ana Paula Torres Megiani

Esta comunicação está vinculada a um dois letrados portugueses – o cosmó-


projeto em desenvolvimento, dedicado grafo e cronista João Batista Lavanha
ao estudo das obras e trajetórias de (ca. 1555-1624) e o historiador e cronis-

183
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

ta Jerônimo Mascarenhas (1611-1672). ções nos impérios ibéricos no tempo


A pesquisa, de caráter coletivo, pre- dos Filipes. Sobre Jerônimo Mascare-
tende mapear e inventariar a produção nhas, abordaremos aqui mais especifi-
impressa e manuscrita desses autores, camente, da composição e edição de
tendo como principal objetivo enten- sua obra Historia de la ciudad de Ceuta,
der os princípios que presidem a sua finalizada em 1648, e que permaneceu
composição: acumulação, justaposição manuscrita até inícios do século XX.
e classificação de informações. Além Trata-se de uma obra de caráter enco-
disso, o estudo pretende aprofundar o miástico à cidade do norte da África,
conhecimento das estratégias de indi- objeto de grande disputa entre as coro-
víduos letrados em suas relações com o as de Portugal e Espanha durante a
núcleo da Monarquia Hispânica, e dos Gerra de Restauração portuguesa
mecanismos de circulação de informa- (1640-1668).

REPRESENTAÇÕES SOBRE A HONRA E A SEXUALIDADE DA MULHER NO


LIVRO V DAS ORDENAÇÕES FILIPINAS: HISTÓRIA, DIREITO E GÊNERO, NA
AMÉRICA PORTUGUESA DOS TEMPOS DE UNIÃO IBÉRICA (1580-1640)
Vanessa Caroline da Cruz

O período da União das Coroas Ibéri- conhecer as principais imagens ideais


cas corresponde a um momento histó- femininas que constituíam o estatuto
rico de grandes transformações para jurídico da mulher no Direito Portu-
Portugal, Espanha e suas respectivas guês e, por conseguinte, nas normas
colônias. Nele, houve a compilação das impostas à Colônia brasileira, num es-
Ordenações Filipinas, importante con- forço conjunto entre o Estado Metropo-
junto de leis que versavam sobre uma litano e a Igreja Católica. Esta última
ampla gama de assuntos, buscando teve especial destaque na campanha de
regular a convivência social e ainda disseminação dos valores que aqui se
definir regras para as mais variadas pretendiam implantar, exercendo forte
matérias jurídicas, tendo vigorado no pressão sobre a América Portuguesa a
Brasil até o século XIX, perdendo sua fim de promover a desejada identifica-
validade apenas quando da elaboração ção entre a figura da “mulher honra-
do Código Civil Brasileiro. O presente da”, prevista na lei supracitada, e as
trabalho tem como recorte espacial e múltiplas identidades femininas cons-
cronológico o Brasil do século XVII e tituídas no solo colonial, tendo em vis-
utilizará como fonte o Livro V das re- ta o recrudescimento do controle social
feridas Ordenações, pois nele está pre- exercido sobre as práticas e discursos a
sente uma série de títulos que versa- respeito da sexualidade, no contexto
vam sobre os comportamentos espera- da Contrarreforma e da implantação
dos de mulheres e homens, elaborados das normas do Concílio Tridentino.
a partir do olhar daqueles que as com- Tendo como objetivo geral investigar
pilaram, prevendo também a crimina- as representações sobre a honra e a
lização dos atos que não se adequas- sexualidade feminina nele constituí-
sem às condutas aí referenciadas como das, e como objetivo específico com-
corretas e desejáveis, permitindo-nos preender como estas representações se

184
CADERNO DE RESUMOS

refletiram sobre a vida das mulheres gênero para a abordagem da fonte jus-
no Brasil Colonial, dando forma a uma tifica-se por tratar-se de um documen-
série de relações sociais, sobretudo as to que se refere ao comportamento so-
familiares, conforme sua aceitação, ne- cial ideal buscado em homens e mu-
gação e (re) apropriação, a pesquisa lheres, que, por sua vez, vincula a con-
utilizará como metodologia uma leitu- cessão de direitos e proteção jurídica às
ra da fonte feita a contrapelo em uma mulheres mediante submissão a estas
análise interdisciplinar entre história, regras, visto que as chamadas prostitu-
gênero e direitos, compreendendo as tas, concubinas e amásias não são con-
leis não como um corpo coerente de templadas por ele, somente nos artigos
regras, mas como um campo onde se que tratam das penas a elas impostas.
instauram batalhas entre diversos ato- Dessa forma, será utilizada uma análi-
res sociais por suas concepções de legi- se que evidencie aspectos relacionais
timidades e justiças, e as contribuições entre homens e mulheres, compreen-
de Thompson para pensar os relatos de dendo que nenhum deles pode ser en-
experiência histórica dos ditos excluí- tendido em separado.
dos da história “oficial”. O recorte de

JOSEPH DE NAXARA: UM FRANCISCANO E SEUS ESCRITOS ENTRE


TRÊS MUNDOS
Marcos Antonio Lopes Veiga

Joseph de Naxara, franciscano caste- pontos relativos ao projeto político es-


lhano, através de sua obra Espejo Mys- panhol em fins do século XVII, a pro-
tico en que el hombre interior se mira prac- dução e circulação de textos como fer-
ticamente ilustrado para los conocimientos ramenta deste projeto, bem como o
de Dios y ejercicio de las virtudes (1672) papel das ordens religiosas a veicula-
relata sua experiência missionária em ção de uma mentalidade católica sete-
forma de diálogo partindo de suas centista entre as fronteiras e espaços
memórias e de suas vivências na África em que viveu.
e na América. Como elo de conexão
entre três mundos, Frei Naxara elucida

DOIS LETRADOS PORTUGUESES NA CORTE DOS FILIPES: JOÃO BAPTISTA


LAVANHA, RAZÃO COSMOGRÁFICA E ESTRATÉGIAS DE CARREIRA NA
COMPOSIÇÃO DO ITINERARIO DO REYNO DE ARAGÃO (1610-1611)
Thomás A. S. Haddad

Esta comunicação está vinculada a um A pesquisa, de caráter coletivo, pre-


projeto em desenvolvimento, dedicado tende mapear e inventariar a produção
ao estudo das obras e trajetórias de impressa e manuscrita desses autores,
dois letrados portugueses – o cosmó- tendo como principal objetivo enten-
grafo e cronista João Baptista Lavanha der os princípios que presidem a sua
(ca. 1555-1624) e o historiador e cronis- composição: acumulação, justaposição
ta Jerônimo Mascarenhas (1611-1672). e classificação de informações. Além
185
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

disso, o estudo pretende aprofundar o métodos de triangulação, seu caderno


conhecimento das estratégias de indi- acumula e justapõe informações sobre
víduos letrados em suas relações com o história e antiguidades, exemplifican-
núcleo da Monarquia Hispânica, e dos do muito bem como deve ser entendi-
mecanismos de circulação de informa- da a prática intelectual da cosmografia
ções nos impérios ibéricos no tempo alto moderna. Além disso, exploramos
dos Filipes. Neste trabalho, examina- a correspondência entre altos funcio-
mos alguns aspectos da composição do nários aragoneses que tentam cobrar
Itinerario do reyno de Aragão, um cader- do cosmógrafo a entrega do mapa, que
no manuscrito (publicado em fins do ele atrasa por mais de cinco anos. Con-
século XIX) contendo as detalhadas trastada com a trajetória de Lavanha
anotações da viagem de reconhecimen- após o término da viagem (ele se tor-
to que Lavanha, então cosmógrafo-mor nará tutor do futuro Filipe IV em 1612,
de Portugal, fez às terras aragonesas e cronista-mór de Portugal em 1618),
entre 1610 e 1611. Comissionado pela essa documentação dá testemunho de
deputação de Aragão para produzir suas estratégias – e apostas – de carrei-
um mapa do reino, Lavanha revela, ra e inserção em redes clientelares or-
nas anotações, a “razão cosmográfica” ganizadas em torno dos mais podero-
com que organiza o trabalho: além dos sos patronos.
dados sobre o terreno, que levanta por

186
CADERNO DE RESUMOS

SIMPÓSIO TEMÁTICO 12
Impérios Ibéricos no Antigo Regime: política, sociedade e cultura

Coordenadores: Francisco Carlos Cosentino (Universidade Federal de Viçosa) e Carmen


Margarida Oliveira Alveal (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

13 de setembro de 2016

AUTONOMIA OU SUJEIÇÃO: A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE PARAI-


BANA ATRAVÉS DA NARRATIVA CAMARÁRIA NOS SÉCULOS XVII E XVIII
Mozart Vergetti de Menezes

Fruto de uma pesquisa mais ampla representações dos camaristas para o


sobre as correspondências da Câmara rei, firmam uma narrativa histórica
da Paraíba, a nossa comunicação des- que revela, a partir dos conflitos de
creve e analisa quatro momentos histó- jurisdições entre as capitanias, deter-
ricos sobre o binômio sujei- minados conectivos econômicos e polí-
ção/autonomia do governo da Capita- ticos através dos quais é elaborado um
nia da Paraíba ao de Pernambuco. “sentido de passado” que espelham e
Produzidos respectivamente nos anos influenciam decisivamente o entendi-
de 1661, 1744, 1755-6 e 1799 essas cor- mento e a escritura da História da Pa-
respondências, compostas por cartas e raíba nos séculos XIX e XX.

PERFIS CAMARÁRIOS DE UMA CAPITANIA PERIFÉRICA: OS NA CÂMARA DA


CIDADE DO NATAL (1720-1759)
Kleyson Bruno Chaves Barbosa

Este artigo analisa a governança local dos de forma mínima. Para isto, foram
da capitania do Rio Grande, por meio percebidos os homens bons desta capi-
da câmara da cidade do Natal, entre os tania periférica, traçando um perfil
anos 1720-1759, ao se traçar perfis ca- desta nobreza camarária, assim como as
marários dos homens bons que compu- redes clientelares estabelecidas por
seram essa instituição no período ex- estes. Foram percebidas as patentes de
plicitado. O recorte temporal explica-se ordenanças e as mercês sesmariais re-
pelo contexto da capitania do Rio cebidas, as estratégias de ascensão na
Grande. O ano de 1720 caracteriza-se própria estrutura administrativa cama-
por ser um marco, pois a partir desta rária e na hierarquia das ordenanças, e
data a chamada Guerra dos Bárbaros já também a naturalidade desses homens
era entendida como finalizada, e o pro- bons. Por meio disto, foi possível com-
cesso de territorialização nos sertões a por redes clientelares traçadas por es-
oeste da capitania teriam sido efetiva- ses oficiais camarários, nas quais a fa-

187
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

mília tinha peso preponderante. Estes administrativo das Capitanias do Nor-


indivíduos elaboraram estratégias de te, a qual a capitania do Rio Grande foi
fixação e manutenção do seu poder, anexada em 1701; e o próprio reino, no
assim como aqueles que vinham de qual o rei exercia a centralidade sobre
fora da capitania, aliando-se às princi- esse espaço periférico do seu império
pais famílias da terra, e, assim, tornan- ultramarino português. Assim, em um
do-se também essa nobreza local, o que diálogo constante com as categorias de
os qualificava a receberem mais benes- centro-periferia, procurou-se comparar
ses, na lógica da economia de mercês e os perfis camarários encontrados na
de uma sociedade de distinções e privi- cidade do Natal com outras localida-
légios que marcava a sociedade coloni- des da colônia portuguesa na América,
al de Antigo Regime. Entretanto, verifi- fossem áreas que se destacavam como
cou-se uma situação híbrida para o centro, ou mesmo periferias. Com isto,
contexto da capitania do Rio Grande, perceberam-se as diferenças e similari-
destoando de estudos que analisaram dades que a governança local de Natal
centros como Rio de Janeiro, Recife e poderia ter em relação aos centros co-
Salvador, nos quais foram percebidos mo Salvador, Rio de Janeiro e Recife,
uma elite senhorial em sua maioria. assim como espaços periféricos como
Verificou-se também um número rele- Alagoas do Sul, Porto Alegre, Vila do
vante de não-locais ingressando na Carmo, Vila do Aracati, entre outros.
câmara, entretanto, aliando-se a essas Tais comparações foram realizadas
famílias locais; assim como um terceiro constantemente ao longo do trabalho,
grupo daqueles que estavam de passa- colaborando, para compreender a câ-
gem. Para a composição camarária, mara da cidade do Natal, que por sua
enfatiza-se a capitania do Rio Grande vez, inseria-se no império português
como uma localidade periférica, tendo como uma instituição que contribuía
por centros, a capitania da Paraíba, para replicar o modelo institucional
cabeça da comarca desde 1688; a capi- imposto pela coroa portuguesa, mol-
tania de Pernambuco, centro político- dando a sua colônia na América.

A CONSTRUÇÃO DOS IMPÉRIOS ULTRAMARINOS SEGUNDO AS LÓGICAS DO


ANTIGO REGIME: O ESPAÇO CABO-VERDIANO-GUINEENSE SÉC. XVI-XVII
Beatriz Carvalho dos Santos

É comum observarmos entre os traba- série de continuidades. Ainda assim, é


lhos sobre a era moderna, o enfoque necessário o cuidado para não compre-
dado ao início das navegações pelo ender esse marco das navegações inici-
Atlântico, especialmente quando con- adas no Atlântico como a abertura de
siderado como o marco que encerra a um período onde tudo o que dele de-
época medieval e inicia a passagem correu foi novidade. Especialmente no
para um novo período. Embora seja âmbito econômico, no qual o estabele-
claro aos historiadores hoje que tais cimento de relações com povos africa-
mudanças não foram jamais possíveis nos e asiáticos se deveu a já existente
por meio de rompimentos abruptos, experiência nas transações mediterrâ-
mas sim graduais e mantendo uma nicas. A própria questão de represen-

188
CADERNO DE RESUMOS

tar um marco inicial de um período ta visa demonstrar com base na análise


excepcionalmente grandioso na histó- de três memoriais de comerciantes da
ria de Portugal, talvez justifique a for- região da Grande Senegâmbia, como
ma como muitos trabalhos sobre o co- era possível perceber os diferentes
meço da saga expansionista portugue- modos como esses autores retratam
sa insinuem ineditismos nunca antes suas relações com os comerciantes lan-
imaginados. O que se observa na histo- çados, que de acordo com sua posição
riografia recente é que muito do que se e relação comercial recebiam atenção e
imagina novo já possuía corresponden- relatos diferenciados. A análise tem
tes no comércio transaariano ligado ao como recorte cronológico finais do sé-
mediterrâneo. Em especial os trabalhos culo XVI e início do XVII, nas obras de
que se dedicam as redes comerciais em André Alvares de Almada, André Do-
África, que tinham judeus e cristãos- nelha e Francisco de Lemos Coelho.
novos como protagonistas. Nesse sen- Como se davam essas relações, seus
tido, as próprias discussões sobre co- meandros e complexidade, revela mui-
mo as lógicas do Antigo Regime tive- to sobre as formas de se relacionar ori-
ram respaldo no Ultramar, apresentam entadas pelas lógicas de Antigo Regi-
traços dessa continuidade, embora me, mas dentro de dinâmicas de terras
marcada por um período que remode- africanas. Em decorrência disso e com
lou suas aplicações, visto a comunica- base no uso de fontes e de uma meto-
ção com novos agentes e poderes além dologia que dialoga com a história so-
dos limites do Velho Mundo. Tendo cial e cultural, a proposta visa demons-
em vista as iniciativas mais recentes trar aspectos dos discursos dos autores
dos estudos sobre as dinâmicas impe- que possibilitam a compreensão de
riais e a materialização do poder régio como eram fluidas as categorias de
nos diferentes pontos do Ultramar, enquadramento dos diferentes agentes
mostra-se cada vez mais claro o papel inseridos no espaço cabo-verdiano-
primordial dos agentes locais e das guineense. Evidenciando como eram
relações interpessoais, no sentido da múltiplos os laços que conectavam os
concessão de governabilidade ao Im- espaços ultramarinos.
pério. Nesse ensejo, a presente propos-

HIERARQUIAS E MOBILIDADES EM FONTES ECLESIÁSTICAS. O ENGENHO


MARAPICU: DAS FAMÍLIAS ESCRAVAS ÀS CASAS DO REINO
RIO DE JANEIRO, SÉCULO XVII.
Denise Vieira Demétrio

A presente comunicação enfoca a traje- priedade através da documentação


tória do Engenho Marapicu, construído produzida pela Igreja Católica, tais
no século XVII na então freguesia de como registros de batismo, matrimô-
Santo Antônio de Jacutinga, que per- nios, óbitos e testamentos das freguesi-
tencia à capitania do Rio de Janeiro. A as de Santo Antônio de Jacutinga e
partir desta trajetória, busca compre- Nossa Senhora da Conceição de Mara-
ender as hierarquias e mobilidades dos picu, entre os séculos XVII e XIX. O
grupos sociais vinculados à esta pro- engenho surge na documentação ecle-

189
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

siástica primeiramente como proprie- ro, às trajetórias de seus diversos pro-


dade da família Correia Vasques, natu- prietários e, principalmente, compre-
rais do Rio de Janeiro (século XVII); ender as dinâmicas sociais e interações
passa para a família Sá e Meneses, rei- de seus agentes. As fontes da pesquisa
nóis que possuíam propriedades no estão inseridas no âmbito do projeto
Brasil (século XVIII); e chega à Família EAAE (Escravidão Africana nos Arquivos
Azeredo Coutinho (século XVIII-XIX) Eclesiásticos), criado em 2003, desen-
quando passa a constituir-se em mor- volvido no LABHOI-UFF e no projeto
gado. Daí a importância de se pensar a de pós-doutorado em curso. Para esta
trajetória da propriedade em primeiro comunicação será analisado a escritura
plano, para se compreender suas trans- de venda do engenho, de 1720.
formações no tempo, agregadas, é cla-

PENSAMENTO POLÍTICO E O TEMA DA PUNIÇÃO AOS REBELDES NA


CONJUNTURA DAS REBELIÕES DA AMÉRICA PORTUGUESA NO SÉCULO XVII
E PRIMEIRA METADE DO XVIII
João Henrique Ferreira de Castro

A trajetória do debate político acerca como tirânico e contra o qual a resis-


da punição aos rebeldes em Portugal e tência era dispositivo legítimo. Desta-
suas conquistas é marcada por conti- ca-se que este discurso, por seu turno,
nuidades e rupturas. Configurando-se, mais do que evidenciar que em Portu-
assim, como um processo difuso e lon- gal do Antigo Regime a reflexão políti-
ge de ser linear. As ideias e reflexões ca frequentemente questionava os ex-
neste cenário eram formuladas e apre- cessos dos governantes, também pro-
sentadas em articulação com as trans- duziria os elementos que, ao longo das
formações na monarquia, não só no décadas seguintes, reforçariam a per-
Reino como na gestão ultramarina. cepção de que era direito dos povos
Notadamente, e aqui é o que mais nos resistir. O que justificava e era operaci-
interessa, a América Portuguesa. Na onalizado, em larga medida, nas revol-
conjuntura da Restauração portuguesa, tas que se sucederam, por exemplo, na
por sua vez, o tema da punição aos América Portuguesa na segunda me-
rebeldes assume papel central. Especi- tade do século XVII e início do século
almente na necessidade de formular o XVIII. E cuja recorrência causaria in-
distanciamento e a diferenciação entre cômodo aos oficiais a serviço na região
a Casa de Bragança e a Casa de Habs- e aos conselheiros régios. De legitima-
burgo. Neste sentido, a nova dinastia dor da resistência aos Habsburgo a
portuguesa buscava afirmar sua legi- desafio para a manutenção das suas
timidade produzindo uma crítica aos conquistas, o pensamento político por-
valores que, aos olhos dos defensores tuguês da Restauração passaria a con-
da Restauração, orientavam a monar- viver, com o passar do tempo, com a
quia espanhola e a gestão dos seus ter- decisão de acomodar alguns dos valo-
ritórios durante a União Ibérica. E que res que antes rejeitara por contrasta-
eram acionados no esforço de justificar rem com os argumentos tradicionais
a qualificação do governo dos Filipes que haviam justificado a luta contra a

190
CADERNO DE RESUMOS

monarquia espanhola. Cunhados no lavam uma espécie de “política cristã”.


debate político moderno europeu à luz Com especial atenção ao tema das re-
do Renascimento e inserindo uma de- voltas. As divergências próprias de um
fesa de que os objetivos utilitários po- cenário de discussão, contudo, não im-
deriam se antepor ao respeito às virtu- pediram que, com o passar do tempo,
des cristãs, estes valores não geravam estabelecem-se processos como a cons-
uma nova cultura política em Portugal trução de uma lógica de centralidade
completamente distante da que havia régia na administração não só do Reino
antes. Mas sim interagia com as bases como do ultramar, em especial na
tradicionais formando um pensamento América Portuguesa. Situação que evi-
político híbrido, e um debate político dencia a relação entre pensamento e
acalorado, em que as influências do prática política. E que, nesta comunica-
pragmatismo renascentista e da tradi- ção, objetivo demonstrar.
ção escolástica se mesclavam e formu-

“O LABIRINTO MAIS INTRINCADO DAS CONSCIÊNCIAS”: POLÍTICA E


CONSELHOS SUPERIORES NA MONARQUIA PORTUGUESA DO
PÓS-RESTAURAÇÃO (1640-1656)
Marcello José Gomes Loureiro

Os Conselhos Superiores (ou tribunais) diversos tratados político-jurídicos da


eram instâncias fundamentais para os época, tributários de São Tomás de
processos de deliberação da monar- Aquino, a melhor forma de exercitar a
quia pluricontinental portuguesa pós- virtude cardinal da prudência, consi-
Restaurada. O duque de Bragança, derada a mais relevante para a prática
aclamado rei D. João IV em 1640, em da governação, era por meio do acon-
função do golpe que pôs fim à União selhamento. Efetivamente, os tribunais
Ibérica, enfrentava uma série de desa- tinham outras funções, como por
fios para se conservar no trono. Numa exemplo, debruçar-se sobre matérias
conjuntura de notória complexidade, especializadas, como finanças e justiça;
precisava inclusive de legitimação polí- alocar no governo a nobreza, frequen-
tica. Basta lembrar que em 1650, por- temente considerada como o “primeiro
tanto rei há dez anos, era chamado tribunal do reino”; vincular a nobreza
ainda pejorativamente de mero “rei de às decisões de governo; resguardar ou
copas”, na Bahia. Se em Madri muitos proteger a imagem do rei; servir para o
o consideravam um “tirano por usur- “descarrego da consciência” do rei, etc.
pação”, não podia ser considerado nos Assim, a comunicação tem como temá-
domínios portugueses um “tirano por tica central os Conselhos e os circuitos
administração”. Uma das formas de de deliberação da monarquia pluricon-
alegar sua legitimidade era exatamente tinental portuguesa, ao longo do rei-
apoiando-se em modos de decisão ba- nado de D. João IV. Para tanto, procura
seados em Conselhos, afastando-se não apenas apresentar a estrutura po-
daquilo que se denominava de “go- lissinodal da monarquia (principal-
vernar à castelhana”, ou seja, governar mente Conselho de Estado, Conselho
a partir de validos. Para além, segundo de Guerra, Conselho da Fazenda e

191
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Conselho Ultramarino), mas também esmaecendo a presença dos demais


recuperar argumentos que defendiam tribunais. Por outro lado, há casos em
a atuação desses tribunais ou críticas que se verifica claramente o próprio
que pretendiam reduzir sua expressão Conselho de Estado defendendo o fun-
política. Além disso, pretende ainda cionamento efetivo do conjunto polis-
percorrer algumas relações que esses sinodal. Nesse sentido, embora haja
tribunais estabeleceram entre si: havia diversos pontos para retenção e ainda
conflitos de jurisdição, sem dúvida, por melhor investigar, o certo é que os
mas também articulação e cooperação tribunais, considerados como “a pedra
em diversos níveis. Outro ponto que fundamental” do edifício monárquico,
merece algum destaque e reflexão se aportavam mais legitimidade e longe-
refere à posição do Conselho de Estado vidade às decisões régias, configuran-
no conjunto da arquitetura de poder. do-se como instância de suma impor-
Ainda que sem paradoxo gozasse de tância para a compreensão da dinâmi-
mais prestígio, foi criticado por domi- ca da monarquia portuguesa.
nar a cena política por volta de 1642,

ENTRE PAQUETES DE CORREIO E EMBARCAÇÕES DE COMÉRCIO: O FUNCI-


ONAMENTO DA ESTRUTURA DE ENVIO DE CARTAS ENTRE PORTUGAL E
AMÉRICA PORTUGUESA NO PERÍODO DAS REFORMAS POSTAIS (1797-1809)
Mayra Calandrini Guapindaia

Há alguns anos a historiografia vem ções, levando em consideração rotas,


preocupando-se em abordar o tema da tempos de viagem e condições de
comunicação, sendo inegáveis as con- transporte. Algumas das principais
tribuições da História da leitura e da questões que guiarão esta análise são:
escrita e, também, a História da comu- quais os meios preferenciais utilizados
nicação política. Contudo, os trabalhos para a comunicação entre Império e
dessas áreas se focaram essencialmente Ultramar? Quais os tempos dessa co-
ou no conteúdo ou nos agentes da co- municação? Quais as principais rotas
municação. Pouco foram abordadas as utilizadas? Questões externas, tais co-
iniciativas políticas e administrativas mo: as condições geográficas, tempo-
da Coroa para manter a comunicação à rais e segurança das vias/rotas marí-
distância entre metrópole e os vários timas influenciavam na eficácia comu-
pontos do Império Ultramarino. Mais nicativa? A organização de serviços
especificamente, há uma lacuna acerca oficiais de correio facilitava a comuni-
dos meios de transporte que levavam e cação e até onde essa estrutura convi-
traziam correspondência, especialmen- via ou rivalizava com outros meios
te no que diz respeito às cartas particu- paralelos de envio de correspondên-
lares. Tendo isso em vista, o objetivo cia? Esta investigação enquadra-se
deste trabalho é compreender a troca temporalmente entre fins do século
de correspondência entre Portugal e XVIII até a primeira metade do XIX,
América portuguesa, enfatizando a período em que ocorreram as reformas
principal forma de envio e recebimento de correio, uma tentativa da Coroa em
de cartas: a via marítima e as embarca- centralizar e criar novas estruturas

192
CADERNO DE RESUMOS

administrativas para controlar o envio Histórico Ultramarino sobre cada na-


de correspondência, tanto oficial quan- vio, bem como duas outras fontes que
to particular. Em 1798, o Alvará do permitiram extrair informações acerca
Correio Marítimo ordenou que todas do movimento marítimo entre Portu-
as cartas de particulares deveriam ser gal e América portuguesa. Em um se-
enviadas por correios, pagar a taxa de gundo momento, o foco será a utiliza-
porteamento e serem transportadas ção de navios de comércio para a troca
por navios em mala lacrada dentro da de correspondência. Nesse caso, será
administração postal. A Coroa também apresentada uma breve relação de na-
mandou construir embarcações especí- vios comerciantes transportadores de
ficas para o transporte de cartas, de- carta, levantada a partir das cartas de
nominadas paquetes. Houve, portanto, José Antonio Alves de Souza, comerci-
investimento na marinha oficial para ante residente no Recife, escrita para
fins comunicativos. Entretanto, os rela- diversos sócios de comércio entre 1803
tos documentais da época demonstram e 1809. Essas cartas têm a particulari-
o funcionamento incipiente dessa es- dade de trazerem, em sua maioria, o
trutura marítima, sendo que os navios nome dos navios pelas quais foram
de particulares destinados ao comércio enviadas. Isso permite conhecer as
desempenhavam importante papel no embarcações que levavam correspon-
transporte de cartas particulares. Pro- dência de comércio de Pernambuco
pomos analisar duas frentes: primei- para Portugal e África, e, ocasional-
ramente, serão discutidos as reformas mente, para outros países europeus.
de correio e o Correio Marítimo. Será Parece sintomático que, dentre os na-
feito um breve panorama dos barcos vios utilizados por José Antonio Alves
de correio do período, focando em su- de Souza, poucos eram paquetes, sen-
as rotas, número de viagens e dificul- do massiva a presença de navios co-
dades de navegação. Para isso, utilizar- merciantes particulares.
se-ão dados recolhidos do Arquivo

“MARÍTIMO DE PROFISSÃO”: FONTES E POTENCIALIDADES DE ESTUDOS DE


HISTÓRIA MARÍTIMA (PORTUGAL E BRASIL, SÉCULO XVIII)
Jaime Rodrigues

Apresento aqui as potencialidades de como a correspondência com adminis-


estudos representadas pelos Registros tradores coloniais e processos judiciais.
de Matrículas de Equipagens de navios Inicialmente, destaco o potencial dos
mercantes em circulação entre Lisboa e Registros de Matrículas para estudos
os portos lusos da América, África e sobre a circulação dos indivíduos.
Ásia na segunda metade do século Concebidos para controlar a entrada e
XVIII. A partir da sistematização das saída das gentes do mar em quatro
informações contidas nessa fonte, trago continentes, os Registros também evi-
indagações que nortearão pesquisas denciam as estratégias de superação do
futuras, cujas respostas dependerão da controle – tais como fugas, deserções e,
investigação e do cruzamento com do- eventualmente, ascensão profissional
cumentação de tipologias variadas, tais no âmbito das ocupações marítimas.

193
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Além disso, essa fonte possibilita ao fenômeno; identificar a circulação ter-


historiador, entre inúmeras outras te- restre dos trabalhadores do mar, com-
máticas: apresentar as transformações parando os lugares de nascimento aos
na qualidade informativa das fontes, lugares de moradia no ato da matrícula
que começam com registros mais com- e, no caso de Lisboa, identificar possí-
pletos e vão se modificando no decor- veis locais de concentração de mari-
rer do tempo e conforme o lugar de nheiros e suas famílias; quantificar a
preenchimento; inventariar os cargos e relação entre livres, escravos e forros
as funções a bordo, bem como identifi- na composição das equipagens e suas
car transformações de nomenclatura variações de acordo com as funções, as
nos mesmos; precisar o tempo de expe- rotas e as cargas transportadas; lidar
riência e a idade dos indivíduos ao se com as descrições físicas e refletir sobre
engajarem nos ofícios do mar; estabe- as razões da inclusão desses dados pa-
lecer relações entre os tipos e a capaci- ra o entendimento do mundo do traba-
dade de carga das embarcações, as ro- lho marítimo; apresentar um inventá-
tas, o tamanho das tripulações e o rio das cores e outros indicadores de
tempo das viagens; estabelecer as dife- distinção social mencionados nos Re-
renças de idade, formação e experiên- gistros; refletir sobre a presença de fa-
cia entre os ofícios marítimos por exce- miliares (pais, filhos e irmãos) a bordo
lência e aqueles que também podiam e a transmissão do conhecimento no
ser exercidos em terra (capelão, cirur- âmbito das famílias; discutir sinais da
gião, carpinteiro, calafate, tanoeiro, devoção católica e seus significados a
barbeiro etc.); investigar o grau de le- partir dos nomes dos navios; sistema-
tramento a partir das assinaturas ins- tizar os dados sobre estado civil e ou-
critas pelos indivíduos; identificar a tros referentes à vida familiar, tais co-
naturalidade, com forte predomínio mo os sobrenomes e sua transmissão
dos nascidos em regiões do norte de nos meios populares representados
Portugal, e procurar as razões desse pela imensa massa de marinheiros.

14 de setembro de 2016

O REGIMENTO, AS LEIS E O ESTILO: A JURISDIÇÃO DOS CAPITÃES-MORES DO


RIO GRANDE ENTRE A BAHIA E PERNAMBUCO (1690-1715)
Marcos Arthur Viana da Fonseca

A regência e reinado de D. Pedro II capitão-mor da capitania do Rio Gran-


(1668-1707) foram um período marcan- de foi delimitada pelo regimento cria-
te na reestruturação jurisdicional do do pelo vice-rei D. Vasco Mascarenhas,
Estado do Brasil. Durante este período, conde de Óbidos (1663-1667), que foi
diversos regimentos foram elaborados incumbido pela Coroa de estabelecer à
pela Coroa com o intuito de reorgani- jurisdição dos capitães-mores do Esta-
zar a jurisdição dos governadores- do do Brasil. Este regimento foi im-
gerais e dos dois principais governado- plementado na capitania durante o
res da América portuguesa: Pernam- governo de Valentim Tavares Cabral
buco e Rio de Janeiro. A jurisdição do (1663-1670), que trouxe diretamente
194
CADERNO DE RESUMOS

das mãos do vice-rei quando prestou os capitães-mores do Rio Grande pas-


preito e menagem. Durante as décadas saram a estarem subordinados jurisdi-
seguintes, contudo, os capitães-mores cionalmente aos governadores de Per-
do Rio Grande sucessores de Tavares nambuco. Os problemas relacionados à
Cabral recusavam-se a obedecer por jurisdição dos capitães-mores e o des-
completo as diretrizes do regimento, respeito aos regimentos do conde de
como a proibição da concessão de ses- Óbidos e de Câmara Coutinho persisti-
marias, e o reconhecimento da jurisdi- ram. Os governadores D. Fernando
ção que lhes havia sido delimitada pelo Martins Mascarenhas de Lencastre
vice-rei sobre o provimentos de ofícios (1699-1703) e Félix José Machado de
de justiça e fazenda e a concessão de Mendonça Eça de Castro e Vasconce-
cartas patentes de postos militares. Es- los, senhor de Entre Homem e Cávado
ta situação ocasionou em constantes (1711-1715) reclamaram a Coroa da
reclamações por parte dos governado- insistência dos capitães-mores em de-
res-gerais, culminando na criação de sobedecerem os seus regimentos e con-
um novo regimento específico para as tinuarem a concederem cartas de ses-
Capitania do Norte. Criado pelo go- marias e proverem oficiais de justiça e
vernador-geral Antônio Luís Gonçal- fazenda, além de passarem cartas pa-
ves da Câmara Coutinho (1690-1694) tentes e proverem postos militares. As
para as capitanias de Itamaracá, Paraí- reclamações intermitentes culminaram
ba e Rio Grande, em 1690, o novo re- com a intervenção da Coroa entre os
gimento tinha como intenção resolver anos de 1712 e 1715, com o intuito de
os problemas relacionados à jurisdição resolver a questão. Portanto, este traba-
dos capitães-mores no governo da ca- lho tem como objetivo compreender os
pitania e a desobediência com o antigo limites espaço-jurisdicionais dos capi-
regimento do conde de Óbidos. Uma tães-mores do Rio Grande entre a ela-
década após a elaboração do novo re- boração do regimento de Câmara Cou-
gimento, a capitania do Rio Grande tinho, em 1690, e a intervenção régia
sofreu uma grande mudança adminis- no conflito de 1712-1715, buscando
trativa com o desligamento da capita- compreender as relações entre os capi-
nia da Bahia e a anexação a Pernambu- tães-mores, os governadores-gerais e
co, em 1701. A partir deste momento, os governadores de Pernambuco.

“PELA QUALIDADE DE SUA PESSOA E MERECIMENTO, NÃO DESMERECE O


GOVERNO DE QUALQUER CAPITANIA-MOR”: O PROCESSO DE SELEÇÃO DE
CAPITÃES-MORES PARA O GOVERNO DO RIO GRANDE E CEARÁ (1666-1759).
Leonardo Paiva de Oliveira

O Império ultramarino português teve militar, econômico, religioso etc. Den-


como um grande desafio o gerencia- tre esses diversos representantes, des-
mento de suas várias conquistas do taca-se os governadores que eram en-
além-mar. Para esses lugares eram en- viados para as conquistas ultramarinas
viados diversos representantes régios com a incumbência de governá-las.
que tinham como responsabilidades Cada conquista possuía um contexto e
manter a ordem do funcionamento um valor, dentro de uma hierarquia

195
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

espacial, distintos. Desta forma, as pes- signação dos postos de governo, en-
soas que seriam escolhidas para go- quanto naquelas os governadores eram
vernar deviam seguir um critério que capitães-generais e eram denominados
correspondesse às demandas dos luga- de fato governadores, nestas eles são
res os quais estavam sendo designa- designados simplesmente como capi-
das. Uma espacialidade de maior im- tães-mores. Mas, e com relação às capi-
portância, exigiria, naturalmente, pes- tanias consideradas subordinadas,
soas de maior qualidade social, assim existia alguma diferença significativa
como uma conquista que estivesse en- entre elas? Nesse sentido, o estudo das
volvida por muitos conflitos, deman- nomeações de governadores para as
daria uma experiência militar significa- conquistas ultramarinas, principalmen-
tiva e vasta. No entanto, não se pode te por meio das consultas do Conselho
afirmar que existiam critérios univer- Ultramarino sobre isso, é uma maneira
sais que sempre eram utilizados e acei- de procurar entender não apenas o
tos no processo de escolha de um go- sistema de escolha e de distribuição de
vernador. As nomeações precisam ser pessoas pelo Império, mas também
contextualizadas espacialmente e tem- uma forma de entender como a Coroa
poralmente, assim como também é ne- e suas instituições concelhias, enxerga-
cessário problematizar os sujeitos en- vam suas conquistas em termos de im-
volvidos nesse processo, desde os que portância e suas demandas em termos
pretendiam assumir um posto de go- de necessidade governativa. Dessa
verno, até os que decidiam ou aconse- forma, esse trabalho pretende analisar
lhavam a nomeação. Pensando o caso as consultas sobre a nomeação de pes-
da América portuguesa, pela discussão soas para o posto de capitão-mor do
historiográfica é sabido que o seu terri- Rio Grande e do Ceará entre os anos
tório era dividido entre capitanias de 1666 até 1759, objetivando identifi-
principais e capitanias subordinadas. car o perfil desses opositores e analisar
Essa distinção espacial implica em hie- os critérios de escolha adotados pelo
rarquias que terminavam refletindo no conselho. Além disso, pretende-se pro-
perfil daqueles que governavam essas blematizar se a condição de anexa à
capitanias. Governadores de Pernam- Pernambuco, reflete em alguma mu-
buco ou do Rio de Janeiro seriam pes- dança nessa estrutura, tendo em vista
soas de qualidade social e com experi- que o Ceará foi anexado em 1656 en-
ências de comando militar superiores quanto o Rio Grande apenas em 1701.
aos governadores do Rio Grande ou do Desta forma será possível comparar
Ceará, por exemplo. Essa hierarquia se essas duas capitanias enquanto uma
evidenciava também pela própria de- era anexa à Pernambuco e outra não.

AS POSSES DA CASA DE CASTANHEIRA NA BAHIA COLONIAL (1552-1627)


Alexandre Gonçalves do Bonfim

O primeiro Conde de Castanheira, Real, o que lhe dava a responsabilida-


Dom António de Ataíde, era o princi- de de cuidar das finanças da Casa Real.
pal ministro do Rei Dom João III e Ataíde ocupou esta posição de 1530 a
ocupava o ofício de Vedor da Fazenda 1557, sendo apontado como figura im-

196
CADERNO DE RESUMOS

portante para a melhoria das condições sições sociais na Baía de Todos os San-
econômicas da Coroa nos tempos de tos) e as querelas movidas pelos mes-
Dom João III. Uma de suas medidas mos; até que medida as terras de Ataí-
para promover o saneamento do erário de beneficiariam indivíduos estabele-
régio era o incentivo a colonização das cidos no Brasil, pertencentes a sua rede
possessões lusas na América, daí o de clientela; e como o proveito desses
mesmo ser o principal idealizador das espaços respondiam as demandas da
capitanias hereditárias brasileiras e do colonização no período. As fontes con-
regimento que estabelecia o governo sultadas provêm de diversos tipos do-
geral em 1549. Todavia, o primeiro cumentais distintos: desde documentos
Conde vislumbrou para si recursos da Casa de Castanheira, passando por
provindos da colônia, solicitando ter- provisões reais, cartas de sesmaria, de
ras na Baía de Todos os Santos, princi- doação e foral da capitania de Itaparica
pal núcleo da colonização do Brasil. As até o relato de cronistas da época e dos
posses em questão eram as terras em jesuítas. A análise dessas fontes será
que se estabeleceram Garcia D‟Ávila aliada à leitura de textos da historio-
(criado de seu primo Tomé de Souza) grafia recente que cuida da discussão
em Tatuapara (região ao norte de Sal- sobre a política e sociedade em Portu-
vador), as ilhas de Itaparica e Tama- gal e em suas colônias no além-mar. O
randiva (que foram convertidas de recorte temporal da pesquisa será de
sesmaria à capitania em 1556) e uma 1552, ano da primeira doação recebida,
sesmaria aonde hoje se localiza o bair- qual seja as ilhas de Itaparica e Tama-
ro do Rio Vermelho na capital baiana. randiva e as terras do Rio Vermelho,
Porém, nem o primeiro Conde, nem até o ano de 1627, ano em que se con-
seus sucessores foram à Bahia para feccionou uma lista com o nome dos
aproveitar pessoalmente as terras rece- foreiros das terras dos Ataídes no Bra-
bidas. Todas estas seriam usadas por sil. Esse período abarcará o período do
outros mediante o aforamento, ou seja, primeiro Conde e dos seus três primei-
um contrato enfitêutico em que o pro- ros sucessores que administraram o
prietário do domínio formal da terra morgado instituído pela mãe de Antó-
concede o domínio útil a outro por nio de Ataíde, Dona Violante de Távo-
meio do pagamento de um foro anual. ra. Dessa forma, esta comunicação pre-
Esta comunicação, portanto, pretende tende chamar a atenção para a necessi-
discutir o uso das terras da Casa de dade de um aprofundamento maior de
Castanheira no Brasil, privilegiando, estudos sobre o interesse da alta no-
nesse debate, entender como se deu o breza portuguesa em posses no Brasil
aproveitamento das terras em tela; durante os séculos XVI e XVII e sobre
quais eram os interesses de alguns se- os mecanismos que esta utilizava para
tores sociais por estas (jesuítas, Câmara a manutenção, à distância, de suas ter-
de Salvador e colonos de diversas po- ras na colônia.

197
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

GOVERNAÇÃO E A REDE DE PODER NO CONTEXTO DA CONQUISTA


DOS BÁRBAROS
Ana Paula Moreira Magalhães

Este trabalho tem como enfoque a go- de recursos materiais (barcas, manti-
vernação de Afonso Furtado às Entra- mentos, ferramentas, munições, etc.) e
das de conquista dos “bárbaros” no humanos (mão-de-obra, soldados),
Recôncavo baiano no período de 1671- bem como pessoas de diferentes condi-
1675. Procuramos identificar suas ções socioeconômicas que estivessem
ações e estratégias bem como os recur- aptas a cooperar seja com suas experi-
sos materiais e pessoas que auxiliaram ências e conhecimento nas Entradas,
na condução do empreendimento. As todas elas formando/fortalecendo re-
conexões estabelecidas com os mora- lações clientelares ao governador me-
dores, os poderes locais e os oficiais diante a política de mercês. Desse mo-
nos permitem pensar que a economia do, a comunicação arrolada no período
de mercês tinha um papel preponde- da conquista dos “bárbaros”, não se
rante nessas relações. As recompensas tratava de meros relacionamentos de
distribuídas pelo governador aos par- amizade, mas da organização sistemá-
ticipantes das Entradas figuravam co- tica de recursos diferenciados por meio
mo uma espécie de legitimação social, da ação e de estratégias político-
reconhecimento real e ascensão simbó- econômicas acionadas em diferentes
lica de homens locais. Tal observação, escalas sociais e espaciais. Trata-se,
entretanto, é um mediato do que pro- portanto, da estruturação de uma rede
pusemos discutir neste capítulo. A in- clientelar fundada na possibilidade de
terlocução estabelecida no decorrer das recebimento de mercês, ao cooperar
Entradas entre o Governador geral e os com a organização e realização das
participantes delas, nos permitiu ado- Entradas. Contudo, mais importante é
tar uma metodologia analítica capaz de a constatação da importância da rede
ultrapassar a produção de um conhe- em termos do fato de que se constituiu
cimento mais estático do modo de ser enquanto rede de comunicação, isso
dos diversos grupos sociais que auxili- porque comunicação gerava informa-
aram o governador. Ao reconstituir, ção, mecanismo poderoso como fonte
mesmo que parcialmente, as trajetórias de poder em qualquer espaço social de
administrativas dos envolvidos nas qualquer época. Utilizamos os Docu-
expedições, identificamos uma intensa mentos Históricos da Biblioteca Nacio-
circulação entre distintos espaços e nal que contêm uma sequência de car-
funções na colônia. Tal constatação tas emitidas no governo de Afonso
permite-nos pensar numa rede respon- Furtado relacionadas às expedições
sável por aproximar indivíduos oriun- organizadas por ele contra os gentios
dos de diferentes regiões até mesmo do “bárbaros”. Tais correspondências nos
Império português e de distinta origem permitiram perceber as decisões e es-
social. Uma rede caracterizada por um tratégias adotadas bem como os indi-
conjunto de relações interpessoais en- víduos acionados para o episódio da
tre governador e as autoridades locais conquista. Também utilizamos algu-
como também a gente comum, que mas correspondências publicadas no
podiam ajudá-lo com o fornecimento Projeto Resgate – Barão do Rio Branco,

198
CADERNO DE RESUMOS

fundo Luiza da Fonseca e o Códice, dimensão imperial perceptível, sobre-


que nos deram suporte para pesquisa tudo, no circuito de comunicação polí-
nos mostrando o quanto o episódio da tica com a Coroa.
conquista dos “bárbaros” ganhara uma

DINÂMICAS GOVERNATIVAS NO ESTADO DO BRASIL: COMUNICAÇÃO


POLÍTICA E PROVIMENTO DE OFÍCIOS (1648-1657)
Hugo André Flores Fernandes Araújo

Nos últimos anos os estudos sobre a rio manter uma comunicação relativa-
monarquia pluricontinental portuguesa mente frequente, a fim de viabilizar o
apresentaram uma importante inova- intercâmbio de informações, a consulta
ção: a análise da comunicação política de posições políticas e a nomeação ofi-
entre a coroa e as conquistas dispersas ciais para as mais diversas localidades.
pela América, África e Ásia. O estabe- Neste sentido, analisaremos os circui-
lecimento e o reforço de vínculos polí- tos e os fluxos de comunicação no inte-
ticos, bem como a circulação de infor- rior do Estado do Brasil, bem como os
mações, pessoas e idéias foram pontos interlocutores do governo-geral e os
de partida para análises que apontam temas abordados nas correspondên-
para um horizonte de relações políticas cias. Isso nos permite identificar e en-
complexas. Esse esforço de pesquisa tender o funcionamento de uma parte
buscou problematizar e questionar in- fundamental do sistema político em
terpretações clássicas, que minimiza- vigor na América portuguesa. Desta
vam a participação e a importância dos maneira, nossa análise busca compre-
súditos na definição das políticas da ender e problematizar como a gover-
coroa portuguesa. Estes problemas de nação do Estado do Brasil englobava a
pesquisa também motivam a presente participação política dos súditos das
analise. Porém, direcionamos esses mais diversas localidades, assim como
questionamentos para uma escala es- indicar como a mediação e o processo
pacial menor: o Estado do Brasil. Deste consultivo possibilitavam a construção
modo poderemos compreender o fun- e efetivação de meios de governar.
cionamento das dinâmicas internas da Buscamos ressaltar as dificuldades que
governação, observando sobretudo, as a conjuntura política impôs a organiza-
relações existentes entre o governo- ção dessa atividade, sobretudo pelas
geral e as capitanias na América-lusa. alterações introduzidas a partir da rup-
É preciso lembrar que o governo-geral tura de relações com a monarquia es-
do Estado do Brasil era responsável panhola e pela guerra contra os holan-
pela gestão de um imenso território, deses nas capitanias do Norte. Nossa
que em meados do século XVII com- análise também abordará de modo
preendia as regiões que estavam entre quantitativo a questão dos provimen-
as capitanias no Norte (Pernambuco, tos de ofícios realizados pelos gover-
Paraíba, Rio Grande e Siará Grande) e nadores-gerais, uma vez que este era
as capitanias do Sul (Espírito Santo, outro importante pilar da governação.
São Vicente e Rio de Janeiro). Para go- Deste modo poderemos identificar e
vernar essa vasta extensão era necessá- compreender a complexidade dos limi-

199
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

tes jurisdicionais do governo-geral e grande volume de correspondências e


dos ofícios a ele subordinados. Deste provisões emitidas pelos governado-
modo é importante relacionar essa dis- res-gerais. Portanto, buscamos cotejar
cussão com o contexto político da se- uma análise quantitativa com uma
gunda metade do século XVII, quando qualitativa, atentando também para as
as jurisdições do Estado do Brasil so- nuances da governação no contexto da
freram sucessivas alterações, sobretu- segunda metade do século XVII. No
do quanto a forma do provimento de presente trabalho nos concentramos
ofícios. Organizamos nossas informa- nos governos de Antonio Teles de Me-
ções em um banco de dados elaborado nezes (1647-1650), do 2° Conde de Cas-
a partir da documentação publicado na telo Melhor (1650-1654) e do Conde de
coleção “Documentos Históricos da Atouguia (1654-1657). Esta pesquisa
Biblioteca Nacional”, que contém um conta com o financiamento da CAPES.

ENTRE A GOVERNANÇA E A DEPOSIÇÃO NO VICE-REINADO DO ESTADO DA


ÍNDIA: O CASO DO CONDE DE ÓBIDOS (1652-53)
Érica Lôpo de Araújo

O governo do Estado da Índia se carac- tanto por europeus, quanto por locais,
terizava por uma grande complexida- eram algumas das questões. A tudo
de: guerra, paz, reinos vizinhos, alian- isso se somava o momento de carestia
ças, rivalidades, invasões europeias, econômica proporcionado pela queda
longas distâncias, falta de instruções, das receitas e aumento das despesas
excesso de autonomia, conselho de que eram o resultado das invasões,
estado, etc. Naquele lugar tão longín- saques e diminuição das transações
quo do reino, fazia-se necessária uma comerciais. Governar se transformara
governação mais independente por em uma verdadeira odisseia. A ação
não se poder esperar a chegada de or- por meio da construção de uma rede
dens. Desse modo, a governança preci- de aliados era uma estratégia utilizada
sava dar-se ali mesmo no Índico. Para em todo o império e bem conhecida
homens inexperientes naquelas para- por esse personagem que já possuía
gens, como era o caso de D. Vasco de uma boa carreira a serviço da coroa
Mascarenhas - Conde de Óbidos (1605- portuguesa. Contudo, nem sempre era
1678), nomeado vice-rei do Estado da possível fazer uso desse recurso local-
Índia em 19 de janeiro de 1652, sem mente, e nesse caso, o inimigo interno
nunca ter pisado em qualquer parte era mais um elemento que o vice-rei
daquele território, governar aquelas precisaria enfrentar. Essa comunicação
terras era um desafio. Dentre as especi- tem como objetivo tratar dos desafios
ficidades daquele espaço constavam o encontrados pelos governadores do
relacionamento com os reinos vizi- Estado da Índia para conservar as suas
nhos, com quem a diplomacia se fazia fronteiras em meados do século XVII, a
necessária. Enviar embaixadas, presen- partir de uma análise do caso do Con-
tes, escolher com quem se aliar em ca- de de Óbidos. As ações de governo,
sos de crise de sucessão dinástica e re- adaptação ao jogo local, utilização das
sistir aos inúmeros ataques realizados prerrogativas concedidas pelo posto,

200
CADERNO DE RESUMOS

serão alguns dos temas a serem anali- terminar um modo de governar típico?
sados a partir da documentação dos É fundamental não se perder de vista
Livros das Monções, entre outras fon- também as redes que esses persona-
tes, que tratavam não apenas da cor- gens possuíam no reino e avaliar a sua
respondência trocada entre o monarca capacidade de acioná-las naquelas par-
e o vice-rei, mas também entre esse e tes, atentando-se também para a sua
outros oficiais no Estado da Índia. Para efetividade. Essas são algumas das
além desses assuntos mais específicos questões a serem discutidas nesse es-
daquele espaço, surgem perguntas que tudo, que ao partir de um caso inicial-
relacionam a própria noção da gover- mente visto como fracassado, já que o
nação no império, como, por exemplo, Conde de Óbidos seria deposto depois
se o contexto condiciona a atuação go- de treze meses governo, pode trazer
vernativa? Ou seja, seriam necessários bons esclarecimentos não apenas sobre
especialistas para cada um dos territó- as práticas governativas no Estado da
rios do império, ou apenas a autorida- Índia, mas em todo o império portu-
de individual seria suficiente para de- guês.

HIERARQUIAS E PODERES: AS CAPITANIAS E O GOVERNO GERAL NO


ESTADO DO BRASIL
Francisco Carlos Cosentino

Com essa comunicação pretendemos mento das capitanias anexas no Estado


contribuir para o entendimento da si- do Brasil ao longo dos Seiscentos e a
tuação das capitanias no Estado do sua ordenação política através dos di-
Brasil ao longo dos Seiscentos e suas versos regimentos elaborados na se-
relações com o governo geral. Preten- gunda metade do século XVII. Em sín-
demos refinar a compreensão da sub- tese, nosso objetivo com essa comuni-
missão das capitanias hereditárias ao cação é analisar as hierarquias de po-
poder régio após 1548, mesmo conti- der que ordenaram os poderes de go-
nuando a ser hereditárias e o aprofun- verno desses espaços de poder no Es-
damento dessa subordinação no pós- tado do Brasil no Antigo Regime.
Restauração. Analisaremos o surgi-

ENTRE O BRASIL E A ÍNDIA: A CIRCULAÇÃO NO IMPÉRIO PORTUGUÊS


NA VIRADA DE SEISCENTOS
Luís Frederico Dias Antunes

Retomamos temas já anteriormente do entre o Brasil e a Índia portuguesa,


abordados relacionados com o recru- e, ainda, a persistência de alguns as-
tamento e o perfil social de governado- pectos do comportamento e da cultura
res coloniais situados em diferentes mais arcaicas, no início do século
graus da hierarquia nobiliárquica por- XVIII. Naquela altura (2011), interro-
tuguesa setecentista, a circulação entre gava-me sobre as razões pelas quais
diversos espaços do império, sobretu- ma virada do século XVIII, Veiga Ca-

201
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

bral (1º visconde de Mirandela), Ber- ministração ultramarina, continuava a


nardo de Lorena (5º conde de Sarze- ser essencialmente a Índia portuguesa?
das) e Diogo de Sousa (1º Conde de Para o efeito, considerámos as origens
Rio Pardo), iriam terminar as suas ex- familiares e sociais, bem como os prin-
tensas carreiras ultramarinas em Goa, cipais aspectos das trajectórias indivi-
na superintendência do Estado da Ín- duais de Pedro António de Meneses
dia. Agora, recuando um século na Noronha de Albuquerque (2º conde de
pesquisa, mantenho as mesmas ques- Vila Verde e 1º marquês de Angeja), de
tões. Seriam ainda os modelos de com- António Luís da Câmara Coutinho, de
portamento e de cultura medievos, os Caetano de Melo e Castro e de Rodrigo
elementos esclarecedores da forma da Costa. Trata-se, portanto, de uma
como até aí se moldavam e desenvol- investigação circunscrita a apenas qua-
viam as carreiras políticas de indiví- tro personagens cujas características
duos que procuravam registar a iden- divergentes resultavam da circunstân-
tidade da linhagem da família e ascen- cia de provirem de diferentes categori-
der na escala social através do exercí- as sociais, estarem situados em distin-
cio mais ou menos prolongado em go- tos graus na hierarquia da nobreza
vernações ultramarinas? Poder-se-á portuguesa e terem construído as suas
falar em uma tendência na hierarquia carreiras individuais em vários domí-
social e política dos espaços coloniais? nios ultramarinos na virada do século
Isto é, poder-se-á dizer que, em finais XVII, mas que mantiveram em comum
de seiscentos, o destino dos percursos o facto de terem passado e, na maioria
políticos de indivíduos da pequena dos casos, concluído as suas trajectó-
fidalguia das províncias e de outros rias coloniais no governo da Índia. É
estratos da nobreza portuguesa de- tudo isto que a presente comunicação
sempenhando cargos no topo da ad- propõe discutir.

15 de setembro de 2016

UMA OLINDA POR RESTAURAR: ADMINISTRAÇÃO E POLÍTICA NA


RECONSTRUÇÃO DA VILA (1654-1664)
Aledson Manoel Silva Dantas

Nas últimas páginas do livro “Olinda o dinheiro seria melhor empregado na


Restaurada”, o historiador e diplomata “reconstrução de fábricas, aquisição de
Evaldo Cabral de Mello afirma que escravos e fundação de partidos de
para o governador-geral Francisco Bar- cana, tanto mais que não haveria senhor de
reto parecia “incompreensível” que os engenho em posição tão confortável que se
gastos das principais autoridades lo- pudesse dar ao luxo de ir viver em meio
cais fossem direcionados para a “espe- urbano” (MELLO, 2007, p. 372). O as-
culação imobiliária”. O sentido dessa sunto tratado por esta citação está li-
expressão está relacionado com a preo- gado ao desenvolvimento das ideias
cupação dos senhores de engenho em centrais deste artigo. A parte destacada
reestabelecer suas casas na vila de em itálico é um retrato da conjuntura
Olinda e no Recife. Para o governador, econômica enfrentada pelos senhores
de engenho da capitania de Pernambu-
202
CADERNO DE RESUMOS

co, e que possuía, por sua vez, relação rada”, mas de sua reutilização sob uma
com a situação demográfica da vila de perspectiva da problematização do
Olinda. Com recursos escassos, os an- espaço. Mais especificamente, preten-
tigos habitantes desta localidade tive- de-se analisar os esforços da chamada
ram que se mudar para suas proprie- “nobreza da terra” de Olinda em re-
dades na zona de produção de açúcar, construir essa localidade, tendo em
afastadas do seu centro urbano e polí- vista a manutenção desta como o cen-
tico (MELLO, 2007, p. 373). Apesar tro da capitania. O período o analisado
destas circunstâncias, a vila de Olinda compreenderá os anos entre 1654 e
não deixou de ter importância para 1664, localizados entre a restauração
estes senhores, como será visto na aná- do domínio português sobre a capita-
lise que se segue. A expressão "Olinda nia de Pernambuco e o fim da do go-
restaurada" possui um significado polí- verno de Francisco de Brito Freire so-
tico preciso, o do retorno do domínio bre esta localidade. A sua administra-
português sobre a capitania de Per- ção marca um momento de alterações
nambuco. Não obstante o poder rees- decisivas para centralização política da
tabelecido, pode-se afirmar em uma vila de Olinda, no qual se percebe a
localidade "restaurada" de fato? Du- discussão sobre as qualidades necessá-
rante a segunda metade do século rias para a manutenção da capitalidade
XVII, a vila e, posteriormente, cidade da vila, ou a sua mudança. As fontes
de Olinda enfrentou momentos em que utilizadas são de natureza administra-
a sua posição como sede da capitania tiva, em sua maioria consultas do Con-
foi contestada por diferentes razões. selho Ultramarino e correspondências
Entre as questões discutidas, o espaço entre diferentes autoridades. Por meio
físico da localidade possuía valor no desta documentação é possível perce-
momento em que o tema da centrali- ber o sentido das ações dos agentes
dade emergia. O que se pretende cons- envolvidos e os mecanismos de dife-
truir nesse artigo não é uma contesta- renciação utilizados para a determina-
ção da validade desse termo “restau- ção da centralidade de uma capitania.

CORPORATIVISMO E MOBILIDADE SOCIAL: AS TRAJETÓRIAS DOS OFICIAIS


MECÂNICOS DO RECIFE, SÉCULO XVIII
Henrique Nelson da Silva

O presente trabalho tem por objetivo mos para os regulamentos profissio-


analisar as trajetórias de vida dos ofici- nais instituídos nos centros urbanos e
ais mecânicos que viveram no Recife que remontam à Idade Média. No Bra-
ao longo do século XVIII, observando a sil, durante o período Colonial, as cor-
relação dos artesãos com a estrutura- porações de ofício não foram instituí-
ção e manutenção do sistema corpora- das, contudo os artífices passaram a se
tivo artesanal e também como esses organizar através de diversas irman-
trabalhadores dialogavam diretamente dades leigas que assumiram, além dos
com a estrutura social, suas hierarquias ofícios espirituais, também papeis se-
e meios de mobilidade. No que se refe- melhantes às corporações europeias,
re a estrutura corporativa, nos volta- adaptadas aos diversos cenários do

203
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Brasil colonial. Ao mesmo tempo os me. Os artífices compunham uma ca-


artífices reproduziram aspetos corpo- mada intermediária e heterogênea da
rativos como o processo de aprendiza- sociedade colonial, uma vez que ao
gem e adaptaram uma hierarquia pro- mesmo tempo se distinguiam dos ou-
fissional. Assim, é possível observar tros sujeitos através da realização de
em nossa história a presença dos mes- uma atividade especializada e restrita
tres e juízes de ofício, seus oficiais e a poucos, também conviviam com a
aprendizes, e também associações lei- presença de uma hierarquia profissio-
gas como a Irmandade de São José do nal que diferenciava os próprios ofici-
Ribamar do Recife, a de São José em ais mecânicos, assim também com a
Salvador e São Jorge no Rio de janeiro, marcante presença da escravidão. Des-
só para citar alguns exemplos. Tal sis- tacamos ainda o fato de recair sobre os
tema corporativo apresentou suas pe- trabalhadores especializados a pecha
culiaridades, conflitos e diálogos entre de defeito mecânico, que teoricamente
os próprios trabalhadores, com os po- os impediam de ocupar determinados
deres locais e com a Coroa portuguesa. espaços de poder, como a Câmara
Assim, analisar as trajetórias dos artífi- Municipal. E diante deste quadro os
ces nos ajudam a compreender um artífices se inseriram nessa estrutura
pouco mais as diversas dinâmicas das social e realizaram seus projetos de
relações de trabalhos e dos ajustes polí- ascensão social. Para a elaboração do
ticos aos quais se inseriam esses arte- trabalho lançamos mão principalmente
sãos. O outro aspecto que propomos da análise da documentação do Arqui-
pensar no presente trabalho, é a rela- vo Histórico Ultramarino e também da
ção ente o corporativismo e os projetos Irmandade de São José do Ribamar do
de mobilidade social dos artífices na Recife, arquivada na 5º Superintendên-
estrutura corporativa do Antigo Regi- cia do IPHAN.

A ADMINISTRAÇÃO DO CONSELHO POLÍTICO NO BRASIL HOLANDÊS


ENTRE OS ANOS DE 1630 A 1644
Filomena Cristina da Silva Marques

Em 1630, os holandeses, através da estava centrada nas questões militares.


Companhia das Índias Ocidentais, com Tal conselho foi extinto em janeiro de
o objetivo, sobretudo, de obter o con- 1633 e voltou a atuar em 1634 com sede
trole da produção de açúcar. Para via- no Recife. Neste período, a adminis-
bilizar a administração, o Conselho dos tração superior foi exercida por um
XIX, órgão diretor da Companhia or- governo provisório. 2) de 1634 a 1637,
ganizou, no que foi aprovado pelos onde os conselheiros desempenharam
Estados Gerias, a criação do Regimento uma administração ineficaz, pois não
de 1629, no qual foi criado o Conselho tinham nenhum conhecimento acerca
Político e também civil. A administra- de justiça e comércio e deixavam as
ção do Conselho Político pode ser di- suas funções para se dedicarem ao cul-
vidida em três momentos: 1) de 1630 a tivo da terra na produção de açúcar. A
1633, fase em que o Conselho estava partir de 1635 vão ser acusados de cor-
sediado em Olinda e sua preocupação rupção. 3) de 1637 a 1644, fase em que

204
CADERNO DE RESUMOS

o Conselho Político entrega a adminis- de segunda instância” ao qual se pode-


tração da colônia a Maurício de Nas- ria recorrer da sentença proferida pela
sau, governador da colônia de 1637 a Câmara dos Escabinos. As finanças
1644. E foi justamente neste período deveriam ser administradas por dois
que o Conselho exerceu as suas fun- conselheiros nomeados como tesourei-
ções de maneira satisfatória aos olhos ros. Quando não estavam atuando na
da administração superior. Um dos administração superior da Nova Ho-
motivos para a sua atuação positiva landa, os conselheiros estavam admi-
teria sido a participação de conselhei- nistrando a prestação de serviços no
ros que falavam português e eram ver- Recife, como a administração dos ar-
sados nas questões judiciais e comerci- mazéns. Os conselheiros podiam exer-
ais. Os conselheiros deveriam ser pes- cer o cargo de governador nas outras
soas honradas que profetizassem a re- capitanias, Itamaracá, Rio Grande e
ligião reformada e deveriam vir das Paraíba. O historiador Hermann
Províncias Unidas. As suas funções Waetjen afirmou que a administração
consistiam em cuidar da remessa de do Conselho Político iniciou o seu de-
açúcar e de pau-brasil para a Holanda clínio após a saída de Nassau, em 1644,
e também do aprovisionamento de e que, nos primeiros anos de 1650, o
soldados. Deveriam também manter a Alto e Secreto Conselho (órgão que
ordem no território conquistado, fazer antes assessorava Nassau) fechou em
a fiscalização das ordens da Compa- suas mãos a administração, e o Conse-
nhia assim como punir as transgres- lho Político, agora intitulado de Conse-
sões destas mesmas ordens. Eram eles lho de Justiça, foi colocado a margem
responsáveis pela compra de víveres e da administração. Contar um pouco
açúcar, contratavam e despediam em- estes diferentes momentos por que
pregados, confiscavam bens e planeja- passou a administração do Brasil ho-
vam a organização administrativa en- landês através do Conselho Político
tre os civis. Também tinham funções será o objetivo desta comunicação. Co-
judicantes funcionado como uma espé- lheremos, através de fontes coêvas,
cie de “tribunal de primeira instância” informações que apontam para as prá-
até 1637. A partir daí, foi substituído ticas cotidianas do dito conselho de
pela Câmara dos Escabinos nesta fun- forma que tenhamos um retrato não
ção, passando a atuar como “tribunal monolítico de sua atuação.

PARA A BOA CONSERVAÇÃO DA CONQUISTA: ADMINISTRAÇÃO E


FISCALIDADE NA CAPITANIA DO RIO GRANDE (DÉCADA DE 1610)
Lívia Brenda da Silva Barbosa

Este trabalho pretende analisar o esta- governo-geral foi fundada a provedo-


belecimento da administração fazendá- ria-mor, na Bahia. Nos séculos seguin-
ria na capitania do Rio Grande no iní- tes foram aos poucos sendo criadas as
cio do século XVII. A organização do Provedorias da Fazenda Real nas capi-
aparelho fazendário no Estado do Bra- tanias do Estado do Brasil. A criação
sil tem como marco o ano de 1548, da Provedoria da Fazenda Real da ca-
quando juntamente com a criação do pitania do Rio Grande data da década

205
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

de 1610. O regimento de seis de outu- to de formação das bases administrati-


bro de 1612, enviado ao governador- vas fazendárias de algumas capitanias
geral do Estado do Brasil, Gaspar de do Estado do Brasil, inclusive da capi-
Sousa (1612-1617), fazia alusão a uma tania do Rio Grande. Data-se, portanto,
série de medidas que deveriam ser to- da década de 1610 a organização,
madas na administração do Rio Gran- mesmo que ainda rudimentar, de uma
de. Dentre elas, a ordem para que fos- administração fazendária no Rio
sem nomeados um juiz, um vereador, Grande A partir de informações das
um procurador do Conselho e escrivão folhas militar, eclesiástica e civil, con-
da câmara, um tabelião e um provedor tidas em uma descrição detalhada em
da fazenda para a capitania. Nesse O livro que dá Razão ao Estado do Brasil,
mesmo período foi elaborado O livro têm-se conhecimento da condição ad-
que dá Razão ao Estado do Brasil, um re- ministrativa dessas capitanias. Os da-
latório organizado por Diogo Campos dos serão analisados de forma compa-
Moreno, que contém informações so- rativa com o intuito de entender a con-
bre algumas capitanias do Estado do dição administrativa da capitania do
Brasil, a saber, Rio Grande, Paraíba, Rio Grande no período de estabeleci-
Itamaracá, Pernambuco, Sergipe, Ba- mento de um ordem fiscal na capita-
hia, Ilhéus e Porto Seguro.Observa-se a nia, e por sua vez as suas característi-
partir dos dados dessa fonte que este cas nestes primeiros anos de coloniza-
período foi possivelmente um momen- ção.

A CARIDADE NO MUNDO COLONIAL. NOTAS SOBRE OS PROVEDORES DA


MISERICÓRDIA NO RIO DE JANEIRO
Karoline Marques Machado

Com a chegada da frota de Diogo Flo- 1498 pela então regente D. Leonor, ir-
rez Baldéz, a qual carecia de cuidados, mã do Rei D. Manuel I. A Misericódia
se dá a fundação da Santa Casa da Mi- não era a única irmandade que presta-
sericódia do Rio de Janeiro em 1582. va ações caritativas no reino, mas rece-
Nesta cidade já se encontravam algum beu inúmeras concessões régias dentro
indivíduos que se intitulavam como e fora dele. Como a historiografia tem
irmãos da Misericódia, contudo o ato demonstrado, principalmente, os estu-
fundador foi a construção de um hos- dos portugueses a Misericórdia foi be-
pital de pau-a-pique à beira da praia neficiada através das mercês e decretos
para atender os tripulantes que careci- concedidos pelas Coroa portuguesa.
am de cuidados. Entretanto, a irman- Além disso, a irmandade surgiu no
dade da Misericódia não era um fenô- mesmo período da expansão ultrama-
meno local, estava presente nos pro- rina, sendo assim as políticas da mo-
longamentos ultramarinos portugue- narquia corroborou para expansão da
ses. Desta forma, a História desta ir- Misericórdia nos domínios ultramari-
mandade não começa no Rio de Janei- nos. Desta maneira, os privilégios ré-
ro, mas em Lisboa. A Irmandade de gios não se limitaram ao reino, mas
Nossa Senhora da Misericórdia de Lis- foram proporcionados as Misericórdias
boa foi fundada em 15 de janeiro de em outras áreas do Império, como na

206
CADERNO DE RESUMOS

presente no Rio de Janeiro. Apesar de locais na administração da Misericór-


fundada e inserida num projeto políti- dia, a apresentação basear-se-á na tra-
co da monarquia portuguesa, as Mise- jetória dos provedores da irmandade
ricórdias “de Lisboa até Macau” foram situada no Rio de Janeiro, no período
espaços dominados pelas elites locais, de 1640 até 1720. Cabe ressaltar, que
sendo esses indivíduos importantes apesar da irmandade da misericórdia e
agentes para manutenção da institui- os homens que compunham suas en-
ção dentro do Império português. Des- grenagens serem temas de valorosos
sa maneira, apesar de compreender a trabalhos da historiografia portuguesa,
importância da monarquia na funda- no Brasil não tem ganhado atenção nos
ção e estruturação da Misericórdia últimos anos pelos historiadores que cá
acredito que a participação das elites se encontram. Portanto, reconstrução
locais é fundamental para compreen- da trajetória individual e administrati-
dermos a participação da Misericórdia va dos provedores, torna-se uma janela
dentro das malhas que sustentavam o para (re) descobrirmos a irmandade e
Império português. Com o intuito de da cidade de São Sebastião do Rio de
compreender a participação das elites Janeiro durante o período colonial.

ESTRANHAMENTOS ENTRE A COROA E A MITRA COM RELAÇÃO AOS


BUNDES NA CARTAGENA DE INDIAS DO SÉCULO XVIII
Milton Araújo Moura

Em diversos momentos no século Em 1781, o bispo Don José, após visita


XVIII, observa-se uma polêmica envol- prolongada por dezenas de vilas e al-
vendo bispos e governadores de Car- deias de sua Diocese, escreve uma car-
tagena de Indias e o próprio Rei no que ta dirigida ao Rei e seus súditos, con-
diz respeito à tolerância ou proibição tando do estado de pobreza em que se
dos bundes. Esta forma musical- encontrava esta região e da precarie-
coreográfica de origem nitidamente dade das instituições eclesiásticas nes-
africana, muito do agrado dos escravos se espaço. A missiva costuma ser con-
e livres pobres – negros, brancos e siderada um dos documentos mais
mestiços –, era considerada pelos bis- fecundos remetidos a esta temática
pos como ofensiva à moral religiosa e pela historiografia colombiana sobre o
familiar. O epistolário relativo a esta século XVIII. Esta polêmica proporcio-
questão permite ver modos distintos na ricas possibilidades de um estudo
de representar e compreender os feste- comparativo entre as práticas lúdicas
jos da população pobre da região que na América Portuguesa, chamadas de
hoje corresponde ao Departamento de batuques na maioria das fontes, e os
Bolívar, no Caribe colombiano. O go- bundes naquela parte da América Es-
verno local, bem como a Coroa, prefere panhola. A antinomia entre as posições
ser relativamente condescendente com do Conde da Ponte e do Conde dos
a prática dos bundes, chegando a ale- Arcos, governadores da Bahia no início
gar, num dos momentos mais agudos do século XIX, é frequentemente to-
da contenda, que semelhantes folgue- mada como um paradigma para a
dos se praticavam na própria Espanha. compreensão da posição do Estado

207
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

com relação aos batuques. No caso da abre à compreensão da polêmica entre


presente contribuição, não se trata so- a Mitra e a Coroa e à própria dinâmica
mente de refletir sobre as políticas go- cultural desta parte do Caribe Meridi-
vernamentais e eclesiásticas com rela- onal é verificar como os bundes e ou-
ção a estes folguedos no período colo- tras diversões dos setores mais pobres
nial, mas do poder que tinham os seto- de Cartagena de Indias são tratados
res populares para realizar suas festas, em fontes das primeiras décadas do
seja de modo mais comedido nas cer- século XIX; por exemplo, no famoso
canias de Cartagena de Indias, seja de capítulo 34 das Memórias Histórico-
modo mais escancarado no interior da Políticas do General Posada Gutiérrez.
província. Outra possibilidade que se

SOCIABILIDADE ILUSTRADA, PENSAMENTO POLÍTICO E IMPRENSA NA


CRISE DO ANTIGO REGIME LUSITANO (1808-1824)
Lucas de Faria Junqueira

A presente pesquisa busca realizar um des de pesquisa dos discursos e práti-


balanço da presença do pensamento cas dos agentes envolvidos na confor-
ilustrado liberal na imprensa e sua mação da esfera pública de debate po-
contribuição para a crítica do absolu- lítico, antes muito limitada pelas amar-
tismo no mundo português, com espe- ras do Antigo Regime. Os avanços da
cial atenção à porção americana do historiografia já constataram a difusão
império luso e suas conexões com a dos modos de sociabilidade e do ideá-
Inglaterra, Portugal e mesmo com a rio liberal no império português desde
distante Macau, na conjuntura crítica a segunda metade do século XVIII, di-
de 1808 a 1824. O foco de análise recai fusão esta acentuada pelos ecos das
sobre a influência das sociedades inici- revoluções Americana e Francesa, co-
áticas, especialmente a maçonaria, na mo mostraram as conjuras/devassas
implantação e propagação de tipogra- ocorridas na América lusa (Minas Ge-
fias e periódicos pelas partes do impé- rais, 1789; Rio de Janeiro, 1794; Bahia,
rio português e alhures, bem como na 1798) e as perseguições aos liberais em
circulação de livros – censurados ou Portugal, pela polícia e a inquisição.
não – visando a uma campanha peda- Nesta conjuntura, “clubs” e sociedades
gógica pelo constitucionalismo, em que iniciáticas funcionavam como abrigo
pesem as distintas posições acerca da aos liberais ante as perseguições, e em
independência e formação do futuro seu interior circulavam livros, periódi-
Estado nacional no Brasil. A renovação cos, traduções manuscritas e obras
historiográfica no estudo da sociabili- censuradas. Por um lado, pela sociabi-
dade ilustrada, da imprensa, do livro e lidade nos salões e academias literárias
da leitura nas últimas décadas, bem e científicas, pelas boticas e bodegas,
como o acesso aos acervos digitais es- nas reuniões privadas ou mesmo even-
palhados pelo mundo contendo cole- tos públicos, gradualmente espraiava-
ções de periódicos e livros em língua se por círculos cada vez maiores a Ilus-
portuguesa do primeiro quartel Oito- tração pelo império lusitano. Como
centista incrementaram as possibilida- complemento à campanha pedagógica

208
CADERNO DE RESUMOS

liberal, a instalação de tipografias e a tendo como novo elemento de acirra-


publicação de periódicos alargavam o mento das posições a situação do Brasil
contato do público, com os princípios perante as Cortes lisboetas, e as diver-
constitucionalistas, especialmente após gências levaram à adesão dos liberais
a chegada da imprensa na América luso-brasileiros à independência, reori-
portuguesa (1808) e o estabelecimento entando suas atenções para a instaura-
da liberdade de expressão (1821). Até ção de uma assembleia constituinte no
então, com a censura, o Correio Brazili- Rio de Janeiro. Da pesquisa sobre a
ense (Londres, 1808-1821), de Hipólito atuação de tipógrafos, redatores de
da Costa, foi o principal veículo de de- periódicos e autores publicados, e do
fesa de uma monarquia constitucional discurso político contido em seus escri-
lusitana. A partir de 1821, a atividade tos, busca-se reconstituir nexos que
periódica, tanto a liberal como a áulica, tornem inteligíveis, enquanto conjunto,
experimentou grande desenvolvimen- iniciativas editoriais dispersas empre-
to, intensificando o debate constitucio- endidas pelos críticos do regime abso-
nalista pós-Revolução do Porto (1820), lutista bragantino.

HISTORIA DE SANTA MARTA Y NUEVO REINO DE GRANADA E OS PAPÉIS DE


RELIGIOSOS DA AUDIÊNCIA DE SANTA FÉ: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE OS
CAMPO HISTORIOGRÁFICO INDIANO
Thiago Bastos

A produção de informações escritas pleno domínio e informatização, se-


sobre as Índias Ocidentais Espanholas gundo Brendecke. Mesmo diante de
no século XVI constituiu-se como algo uma possível inoperância, a solicitação
inerente à paulatina formação e orga- de escritos, ou sua publicação – princi-
nização das sociedades inicialmente palmente no caso das crônicas –, este-
vice-reinais e, posteriormente, coloni- ve, no século XVI, entre os reinados
ais. A confecção de registros foi im- dos reis católicos e Felipe II, sujeita a
prescindível para a apreen- mecanismos de controle e avaliação,
são/incorporação e entendimento de que, segundo Kagan, indicam políticas
novas sociedades/culturas, pois os historiográficas distintas em transfor-
novos espaços politicamente erigidos, mação, tendendo a uma progressiva
a principio como cópias/duplicatas ou institucionalização, a culminar com a
extensões do velho, necessitavam co- criação do cargo de Cronista y Cosmó-
municar-se ou estar vinculados a este. grafo Mayor de Indias em 1571. Por mais
A confecção de textos/informações, no que, em alguns momentos, entre os
que toca às crônicas de Índias ou à desdobramentos do século XVI, a cap-
grande profusão de distintos papéis tação e os usos da informação possam
oriundos das Índias, a partir do mo- ter parecido disfuncionais, não pode-
mento em que era dirigida a uma cen- mos perder de vista que as sociedades
tralidade política, a Coroa e o Conselho vice-reinais se configuraram tendo em
de Índias, em função de seu volume, seu horizonte político de observação a
esteve mais próxima da disfunção e do figura do Monarca e de todos os ins-
desuso da informação do que de seu trumentos capazes de representá-lo.

209
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Algo perceptível documentalmente, culiares dos espaços geográficos das


por meio da constante evocação do Rei Índias, eles compartilham de muitas
e do Conselho de Índias para a resolu- maneiras uma grade de referências
ção das mais diversas questões. Obser- políticas e culturais, bem como uma
va-se, portanto, uma relação ambiva- conjuntura, elementos que serão fun-
lente: da mesma maneira que o Rei e damentais na conformação dos relatos
suas formas de representação – baliza- sobre o Novo Mundo. Indicaremos em
dores políticos de um contexto – po- breve exercício, como a crônica de um
dem ser evocados a fim de legitimar provincial franciscano para a Nova
diferentes ações e coisas, os agentes Granada no século XVI, Pedro de
espalhados pelo Novo Mundo são, po- Aguado: Recopilación Historial, por
tencialmente, escritores, a partir do meio de uma perspectiva historiográfi-
momento em que geram algum tipo ca, está em consonância com diferentes
escrito e o enviam a Espanha, permi- tipos de papéis que compõem o fundo
tindo, como sugere Latour, àqueles que de Cartas y Expedientes de Personas Ecle-
não imaginam a oportunidade de fazê- siásticas para a Audiência de Santa Fé,
lo, isto é, como a própria Coroa. Assim pertencente ao AGI, evidenciando co-
as diferentes produções escritas, espe- mo ambos os tipos de escritos encon-
cificamente a crônica de Índias e a “do- tram-se homologicamente, no que se
cumentação dispersa”, contida no Ar- refere ao conteúdo temático e à con-
chivo General de Indias, podem ser pro- formação política do contexto, visto
blematizadas teoricamente por meio que a crônica de Aguado foi submetida
do conceito de Historiografia Indiana à censura do Conselho de Índias e
apresentado por Esteve-Barba. Nesse grande parte dos papéis da Audiência
sentido, por mais que os agentes histó- é direcionada ao mesmo órgão.
ricos estejam sujeitos a dinâmicas pe-

GUERRA, TERRAS E DIREITOS: PALMARES, SÉCULOS XVII E XVIII


Felipe Aguiar Damasceno

O presente trabalho, fruto de capítulo ormente, com a derrota de Zumbi e de


de tese ora desenvolvida, tem por obje- outras lideranças entre 1695 e 1716.
tivo principal contribuir para o enten- Apesar de algumas pequenas expedi-
dimento do sistema sesmarial da vira- ções punitivas anteriores, foi somente
da dos séculos XVII e XVIII, na Améri- após o fim do domínio holandês nas
ca portuguesa, a partir do caso das possessões ultramarinas portuguesas
sesmarias nos Palmares de Pernambu- (1654) que as autoridades coloniais
co. Meu objeto aqui são as concessões começaram a investir fortemente con-
de sesmarias nas terras onde existiam tra as comunidades de mocambos dos
as comunidades de escravos fugitivos sertões de Pernambuco. A repressão
nos momentos imediatamente posteri- cresceu e conseguiu uma primeira
ores às principais derrotas infligidas grande vitória em 1678, quando uma
aos mocambos e quilombos: por volta das lideranças palmarinas acordou os
de 1678, com a capitulação do líder termos para um tratado de paz. Ganga
quilombola Ganga Zumba, e, posteri- Zumba, tido então pelos portugueses

210
CADERNO DE RESUMOS

como “Rei dos negros” dos Palmares, Zumbi, em 1695, os combatentes pau-
aceitou a capitulação de sua gente em listas começaram a pedir o cumpri-
troca do fim das hostilidades e um lo- mento do acordo de 1687, especialmen-
cal pré-definido para assentarem suas te no que tocava à doação de sesmarias
aldeias, sendo, a partir de então, consi- aos combatentes nas terras conquista-
derado vassalo do rei português e prin- das aos negros fugitivos. O líder pau-
cipal de sua gente – solução muito pró- lista, Domingos Jorge Velho, e seus
xima a dos aldeamentos indígenas co- soldados tentaram por anos garantir
loniais. A partir desse tratado de paz seus direitos sobre as terras palmari-
foram doados os primeiros lotes de nas, frente à forte oposição local, per-
terra aos combatentes locais partici- sonificada por autoridades coloniais e
pantes nas incursões, expressamente sesmeiros que haviam recebido terras
justificados pela derrota infligida aos na região após 1678. Daí as disputas
palmarinos em 1678. No entanto, as fundiárias que pretendo discutir no
hostilidades recomeçam ainda na dé- capítulo. Do quadro apresentado neste
cada de 1680, e a guerra continuou nos trabalho, pretendo extrair algumas ob-
matos e serras de Pernambuco, tendo servações sobre a construção do orde-
agora Zumbi como principal liderança namento jurídico-territorial do século
quilombola. Em 1687, bandeirantes de XVIII, na América portuguesa, a partir
origem paulista foram chamados pelo do caso das sesmarias nos Palmares de
governo de Pernambuco para comba- Pernambuco. As fontes para tal serão,
ter os mocambos de Palmares. Em tro- neste texto, limitadas às doações de
ca de terras, títulos e tenças em dinhei- sesmarias nas terras dominadas pelos
ro, entraram em acordo para fazer a quilombolas e a documentação do
guerra, chegando aos Palmares por Conselho Ultramarino, maior instância
volta de 1693. A partir da morte de responsável pelo governo da colônia.

211
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

SIMPÓSIO TEMÁTICO 13
Inquisição, clero e conexões religiosas no mundo ibérico e colonial

Coordenadores: Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade Federal da Viçosa) e Yllan de


Mattos (UNESP-Franca)

13 de setembro de 2016

A JURISDIÇÃO DOS BISPOS SOBRE OS LEIGOS: TRIBUNAL ECLESIÁSTICO E


ORDENAMENTO DE COSTUMES NO MARANHÃO SETECENTISTA
Pollyanna Gouveia Mendonça Muniz

A amplitude que tiveram as decisões Todos os segmentos sociais estavam


conciliares de Trento (1545-1563) e sua sob a sua vigilância. Os que desrespei-
total aceitação no reino português tavam a norma estabelecida pela legis-
moldou (ou pretendeu moldar) o com- lação eclesiástica eram processados em
portamento das gentes aquém e além Tribunais Eclesiásticos que funciona-
mar. Facultou-se à Igreja o poder de vam sob a jurisdição dos bispos. O ob-
conhecer os delitos cometidos por lei- jetivo desta comunicação é analisar
gos quando se tratavam de pecados quais os delitos foram mais praticados
públicos. Os leigos, assim como os pelos leigos e como as autoridades
eclesiásticos, foram alvo desse pro- eclesiásticas lidavam com esses trans-
grama de homogeneização de compor- gressores no Maranhão colonial.
tamentos encetado pela Igreja católica.

ESTRUTURA DO PROCESSO DE DEVASSA OCORRIDO NO ARRAIAL DO


TIJUCO, CAPITANIA DE MINAS GERAIS, DURANTE O SÉCULO XVIII
Andréa Lopes Viana

O objetivo foi analisar as Visitações mente julgando os moradores do Ar-


Episcopais ocorridas no Arraial do Ti- raial do Tijuco. Como exemplo, pode
juco (atual cidade de Diamantina), lo- ser citada a Devassa de condenação de
calizada na capitania das Minas Gerais. Damiana Correa, disponível no Livro
O estudo delimita-se ao ano de 1750, já dos Termos da comarca do Serro do
que os livros de termos de Devassas Frio. Esta mulher, uma “preta forra”,
disponíveis no Arquivo Eclesiástico da foi condenada pelo crime de concubi-
Mitra Arquidiocesana do município de nato. A condenação consistia em man-
Diamantina apenas contêm documen- ter-se totalmente afastada do convívio
tos deste ano. Pela análise dos termos com João Ferreira, alfaiate, também
de Devassa, é possível entender como morador do Arraial do Tijuco, além do
as Visitas se processavam, especifica- pagamento de duas oitavas (pecúnia

212
CADERNO DE RESUMOS

da época). O documento ainda informa ma citado, percebe-se que neste pro-


que a autora do crime não poderia cesso de apuração determinava-se qual
manter encontros em sua casa, entre pena a ser aplicada para aquele que
negros e negras, com a finalidade de cometeu o delito (no caso, duas oita-
ofender a Deus (heresia). Por fim, a vas). Essa autoridade era exercida por
condenada promete não cometer mais um prelado ou por um sacerdote in-
estes delitos e, por não saber ler nem cumbido por ele de visitar as comarcas.
escrever, assinou com uma cruz. Nesta Este sacerdote tinha como objetivo co-
Devassa, é possível verificar a ação nhecer, in loco, o comportamento da
“educacional” do processo, pois a con- população de uma determinada locali-
denada mostrou-se arrependida. Desse dade (paroquianos). No presente traba-
modo, pode-se notar que a ação da lho, são apresentadas algumas ques-
Igreja, ao condenar a “preta forra” tões, inclusive anteriores ao próprio
Damiana Correa, tem um mérito disci- objeto proposto, como por exemplo a
plinador. A Igreja demonstrava assim estruturação da Visita Episcopal e sua
que se outras pessoas cometessem o relação com as leis escritas em tempos
mesmo crime de concubinato estariam coloniais, além de uma breve explana-
sujeitas às penalidades descritas nas ção sobre o Direito Canônico, a Inqui-
Constituições Primeiras do Arcebispa- sição do Santo Ofício de Portugal, as
do da Bahia. Com o estudo dessas fon- Devassas e as Constituições Primeiras
tes primárias é apresentada no traba- do Arcebispado da Bahia. Por fim, ob-
lho toda a análise deste processo cri- serva-se que, pela análise das fontes, as
minal, ancorado no Direito Canônico, dinâmicas processuais na justiça do
da delação à pena, bem como toda a Antigo Regime, além da forma de co-
dinâmica do processo. Nos processos mo foram realizados os ritos, práticas e
de Visitações Episcopais e nas Devas- querelas, seguiam uma linha similar, o
sas, todo o processo de apuração de que é notado entre os vários termos de
um determinado delito cometido por Devassa estudados, no caso específico,
algum membro da sociedade colonial àquelas do Arraial do Tijuco, perten-
(na maioria de pessoas menos abasta- cente à comarca do Serro Frio, na pro-
das) era conduzido por uma autorida- víncia das Minas Gerais.
de da Igreja. No caso do exemplo aci-

“MISERÁVEL ESCRAVA”: AS CONDIÇÕES MORAIS E SOCIAIS DO CATIVEIRO


NA JUSTIÇA ECLESIÁSTICA DO MARANHÃO DO FINAL DO SÉCULO XVIII –
O CASO DE CATARINA DOS SANTOS
Marinelma Costa Meireles

Desde pelo menos meados dos anos de na documentação comumente utiliza-


1980, a historiografia da escravidão de da para estudar esse tema. Para além
origem africana escrita no Brasil pas- das explicações homogeneizantes so-
sou a valorizar as fontes judiciais como bre esse processo, enveredou-se pelas
possibilidades de acesso ao cotidiano análises das condições materiais, de
de homens e mulheres marcados pela luta e de resistência desses sujeitos.
escravidão, mas, até então, silenciados Nesse vasto campo, as histórias de vi-

213
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

da de escravos constituíram-se excelen- ru, onde morava com seu senhor padre
tes mecanismos para se estudar o cená- concubina e buscou abrigo a 20 léguas
rio mais amplo da escravidão. Os pro- de distância, em São Luís. Depondo
cessos criminais e cíveis tornam-se vias longe de seu local de moradia e na
de acesso importantes ao interior das sede eclesiástica, Catarina detalhou a
fazendas e ao cotidiano das relações vida a dois do “casal”, informou que o
entre senhores e escravos. Tal impor- padre praticamente abandonara suas
tância fica mais evidente, sobretudo, funções sacerdotais para estar com ela;
nos estudos dedicados aos anos finais disse saber que a relação concubinária
da escravidão, principalmente após a era ilegítima, mas cedia aos apelos do
Lei do Ventre Livre (1871). Essa bre- padre “por ser uma miserável escra-
cha legal levou muitos cativos às ma- va”. Para se distanciar desse pecado,
lhas da justiça civil e mesmo à da cri- desejava ser vendida para outro se-
minal nos anos finais do Império. Con- nhor, mas não queria que o padre fosse
tudo, poucos são os estudos que anali- castigado, apenas que o tribunal in-
sam a ação desses escravos na esfera termediasse a sua venda. Queria um
da justiça eclesiástica e menor ainda é cativeiro “mais justo”. Esse estudo de
número de pesquisas dedicadas a esse caso, relacionado ao contexto mais
tema fora do eixo centro sul em perío- amplo da escravidão e das normatiza-
dos mais remotos e coloniais. O pre- ções morais eclesiásticas da época, abre
sente estudo analisa um caso ocorrido a oportunidade de análise dos campos
no ano de 1798. Nele a escrava Catari- de ação dos escravos, bem como de
na dos Santos, de nação cachéu, de- suas táticas de sobrevivência e trânsito
nunciou ao Tribunal Eclesiástico do na seara moral eclesiástica. Assim, as
Maranhão o padre Manoel Álvares, fontes eclesiásticas têm grandes méri-
seu senhor. As motivações de Catarina tos quanto ao alcance de parte da cha-
eram variadas. No processo falava-se mada “intimidade” de senhores e de
em violência e ciúmes numa relação de escravos imersos na vida colonial, em-
união conjugal conhecida então como bora de caráter institucional, permitem
concubinato. O processo eclesiástico recuperar aspectos interessantes das
nascia em razão do crime de concubi- vivências dos sujeitos implicados nas
nato de um padre. Importante notar, ações, visto que descortinam aspectos
contudo, que para abrir esse processo, de suas vidas portas a dentro.
Catarina fugiu da fazenda, em Itapecu-

“VIVEM DE SUAS LAVOURAS E EM BENEFICIAR SUAS FAZENDAS”: CLÉRI-


GOS PROPRIETÁRIOS DE TERRAS NOS BISPADOS DO MARANHÃO E PARÁ
SETECENTISTA
João Antônio Fonseca Lacerda Lima

O clero católico, tem duas grandes ra- da disciplina eclesiástica, este último
mificações. O clero regular, vinculado não profere votos, assumindo no ato
às ordens religiosas e o clero secular, da ordenação o compromisso de vive-
submetido diretamente a autoridade rem seu estado na castidade e em obe-
do bispo diocesano. Do ponto de vista diência ao seu bispo. Na prática, estes

214
CADERNO DE RESUMOS

clérigos, ao contrário dos regulares, ventos que superavam seus rendimen-


poderiam aquinhoar bens para si, de tos como sacerdotes. Neste sentido,
modo que muitos destes eram conhe- queremos destacar que a faceta de
cidos por viverem “rica e abastada- “proprietário de terra”, em muitos ca-
mente”. O presente trabalho versa exa- sos, era um dos modos que estes cléri-
tamente sobre este aspecto, isto é, um gos ganhavam a vida; e suas ações em
grupo de clérigos que atuaram no âm- nada diferiam das dos proprietários
bito dos bispados do Maranhão e do leigos. Para tanto, analisaremos o perfil
Pará do século XVIII, que concomitan- das sesmarias concedidas e das cultu-
te a sua atuação no exercício do sacra- ras empregadas, bem como as relações
mento da Ordem, receberam e benefi- de sociabilidade e conflito advindas
ciaram terras de onde obtinham pro- desta posse.

A LUTA PELO PODER EPISCOPAL DE ABSOLVIÇÃO DAS HERESIAS NO FORO


DA CONSCIÊNCIA DURANTE A TERCEIRA FASE DO CONCÍLIO DE TRENTO
(1562-1563)
Juliana Torres Rodrigues Pereira

O Concílio de Trento, reunido de 1545 aos agentes do Santo Ofício em Trento


a 1563 em três fases, é normalmente foi o debate sobre o poder episcopal de
apontado como mantenedor dos dog- absolvição de heresias no foro da cons-
mas católicos, e pouco se fala sobre as ciência. A aprovação da proposta traria
disputas internas e conflitos entre os enorme prejuízo ao Santo Ofício, uma
defensores dos privilégios da Cúria vez que delitos de heresia poderiam
Romana e os partidários de uma re- ser absolvidos pelos prelados em se-
forma mais profunda da Igreja. De gredo, sem deixar registros, inibindo
acordo com os últimos, a mudança de- alguns dos principais mecanismos de
veria ser liderada por prelados resi- funcionamento do Tribunal - a auto-
dentes e cientes de suas responsabili- denúncia e o encaminhamento dos
dades para com suas ovelhas. Com- suspeitos de heresia ao Santo Ofício
posto por bispos ibéricos e alguns itali- pelos prelados - e causando uma gran-
anos, o partido que apoiava tal reforma de confusão a respeito das instâncias
atuou em prol da afirmação e amplia- de absolvição. Assim, esta comunica-
ção do poder episcopal frente às de- ção pretende tratar do conflito entre os
mais autoridades com qualquer tipo de bispos ibéricos, liderados pelos Arce-
jurisdição sobre as unidades diocesa- bispos de Braga e Granada, e os agen-
nas, como o clero local, o Papado e os tes filo-inquisitoriais a respeito do for-
Tribunais do Santo Ofício. Um dos epi- talecimento do poder episcopal frente
sódios que mais causou preocupação à Inquisição.

215
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

O TRIBUNAL EPISCOPAL DE SÃO PAULO: JUSTIÇA ECLESIÁSTICA, AUTORI-


DADE JURISDICIONAL DOS BISPOS E DELITOS (1747-1764)
Michelle Carolina de Britto

O tribunal episcopal do bispado de São a ampliação e salvaguarda de sua ju-


Paulo atuou como um dispositivo de risdição por meio dos delitos julgados
justiça da Igreja Católica que procurou no foro eclesiástico e as práticas jurídi-
controlar o comportamento social de cas adotadas pelos oficiais da justiça
clérigos e leigos segundo as determi- episcopal em nível local, ou seja, nas
nações do Concílio de Trento. Regu- diferentes comarcas eclesiásticas que
lando-se pelas Constituições Primeiras compunham o bispado de São Paulo.
do Arcebispado da Bahia, o Regimento Esta comunicação discorrerá sobre a
do Auditório Eclesiástico, o Direito atuação do tribunal episcopal de São
Canônico e as Leis do Reino; o juízo Paulo no julgamento de transgressores,
eclesiástico paulista por meio do jul- sobretudo clérigos, por meio da análise
gamento dos transgressores reprimiu dos processos-crimes julgados no perí-
os comportamentos contrários ao ideal odo de 1747-1764. Faremos a apresen-
apostólico tridentino e possibilitou aos tação da tipologia dos delitos julgados
bispos reforçarem sua autoridade ju- por meio do exemplo especifico das
risdicional na diocese. A consolidação vigararias da vara de Curitiba e Para-
da malha da justiça episcopal paulista naguá, assim como, uma análise das
e a criação de vigararias da vara – tri- práticas jurídicas e o uso político do
bunais de primeira instância - nas co- tribunal episcopal no reforço da auto-
marcas distantes da sede episcopal ridade jurisdicional dos bispos paulis-
possibilitaram ao episcopado paulista tas.

EVANGELIZAÇÃO, INQUISIÇÃO E JURISDIÇÃO ECLESIÁSTICA NOS PRIMEI-


ROS ANOS DA CONQUISTA ESPANHOLA NO VALE DO MÉXICO (1521-1536)
Saulo Goulart

O objetivo do trabalho é mapear o es- eclesiásticos, fruto das amplas conces-


tabelecimento das disciplinas publicas sões papais para a atuação das ordens
punitivas junto aos empreendimentos religiosas na América. Em seguida,
evangelizadores, durante os primeiros cotejamos os vestígios documentais
quinze anos de presença espanhola no das práticas punitivas ministradas pe-
Vale do México. Tomamos como ponto los primeiros evangelizadores da Nova
de partida a análise dos poderes extra- Espanha.
ordinários portados pelos primeiros

CONSTRUÇÃO DA SANTIDADE FEMININA NO PORTUGAL SEISCENTISTA: A


EXPERIÊNCIA DE MADRE MARIANA DA PURIFICAÇÃO
Leonardo Coutinho de Carvalho Rangel

A presente comunicação, fruto de in- sobre a trajetória de Madre Mariana da


vestigação ainda em curso, se debruça Purificação (1623-1695), religiosa do
216
CADERNO DE RESUMOS

Convento da Esperança de Beja que foi ta Pimenta, o qual afirmou que ”se
processada pelo Tribunal do Santo Ofí- achão muitas deficuldades para se te-
cio por suspeita de fingimento de san- rem por procedidos de Deos, e de bom
tidade, declarações “malsoantes” e mi- spiritu, e fundamentos para serẽ tidos
lagres considerados demasiado gran- por illusão do demonio”. Em suma,
des para uma simples freira. Esta car- objetiva-se com este estudo compreen-
melita calçada passou à posteridade der de que maneira se procurou cons-
como “a santa de Beja”, tendo, inclusi- truir a “imagem” de santidade de Ma-
ve, sua vida relatada em uma biografia riana da Purificação naquela obra im-
intitulada Fragmentos da Prodigiosa Vi- pressa através da comparação dos
da da […] Madre Mariana da Purificação eventos narrados nesta com os relatos
publicada alguns anos após a sua mor- processuais, bem como de seus “ca-
te, de autoria de Fr. Caetano do Ven- dernos”, escritos de próprio punho,
cimento. O fato de não ter sido punida nos quais narra os favores recebidos do
permitiu o sucesso do discurso cons- Divino Esposo. Esta comparação mos-
truído pelo autor, de que a religiosa foi tra que eventos potencialmente emba-
examinada e aprovada pelo Santo Ofí- raçosos, como o fato de ter tido algu-
cio, o qual não se sustenta quando se lê mas de suas visões condenadas pelo
as fontes processuais. Nestas, a própria Santo Ofício, foram re-escritos ou re-
religiosa admite que tais visões pode- movidos na obra impressa. As evidên-
riam ser fruto de ilusão demoníaca. cias apontam que tais modificações
Além disso, no parecer dos qualifica- atenderam aos interesses do mecenas,
dores do Tribunal, as “maravilhas” da o inquisidor João Duarte Ribeiro, so-
carmelita foram condenadas por una- brinho e afilhado da religiosa, o qual
nimidade. Fr. Caetano, no entanto, procurou divulgar a fama de santidade
narra uma outra versão nos seus Frag- da religiosa ao mesmo tempo em que
mentos: “ficou tão conhecida a virtude reafirmava o seu parentesco com a san-
e estabelicido o bom nome da nossa ta de Beja. Numa sociedade em que o
Veneravel, que publicamente disse o sangue maculado de judeus e hereges
Senhor Inquisidor, quando se despedio era hostilizado, não é de se espantar
das Religiosas do Convento: que o espi- que o sangue bento fosse exibido com
rito da M. Marianna fora purificado, como orgulho, adicionando ainda mais um
o ouro na fragoa, e que só Deos era o Autor grau de distinção numa sociedade es-
de tantas maravilhas”. Isto, todavia, pa- tribada no prestígio social.
rece pouco plausível quando lemos a
sentença deste inquisidor, João da Cos-

“CONTRA A ABOMINÁVEL IDOLATRIA”: ANÁLISE DE UM SERMÃO DE


AUTO-DE-FÉ EM GOA, 1642
Afrânio Carneiro Jácome

Procuramos uma análise parenética do estruturavam a mentalidade inquisito-


sermão de auto-de-fé pronunciado na rial no território goense, espaço visto
cidade de Goa, na Índia Oriental, em como estratégico para as pretensões do
1642. Nosso estudo procura desvendar Império português e da Igreja Católica.
os elementos morais e teológicos que O Tribunal do Santo Ofício em Goa era
217
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

o único tribunal inquisitorial no além- distante geograficamente - e também


mar. O foco dos inquisidores portu- em termos socioculturais – do Portugal
gueses do século XVII estava na comu- católico do século XVII. Procuramos
nidade cristã-nova, entretanto, o tribu- também demonstrar a visão do Santo
nal goense não encontrava uma comu- Ofício em relação a outras cosmogoni-
nidade criptojudaica em que se focar. as incomuns ao universo europeu.
Sabendo disto, nos perguntamos: en- Como um tribunal que visava uma
tão, quem eram os alvos da Inquisição defesa inclemente da ortodoxia católica
em território indiano? Temos consciên- enxergava e dialogava com crenças tão
cia também que os sermões de autos- distantes do seu universo cultural co-
de-fé realizados no Reino ao longo do mo o Hinduísmo? Esperamos, no nos-
século XVII, em sua grande maioria, so estudo, ensejar a curiosidade dos
destinavam-se a alertar contra crença demais pesquisadores e historiadores
judaica. Então, a quem se destinava o das Inquisições para essas questões e
sermão goense? Qual o seu público desenvolver novas propostas e cami-
alvo? Quais eram seus objetivos? Ao nhos para a investigação dos possíveis
longo do nosso estudo, procuramos contatos entre a Inquisição portuguesa
aprofundar nossos questionamentos e e outras realidades religiosas encon-
encontrar subsídios para possíveis evi- tradas ao longo do espaçado, hetero-
dências que nos auxiliem a entender a gêneo e plural território ultramarino
dinâmica inquisitorial num local tão português.

14 de setembro de 2016

HIPÓLITO JOSÉ DA COSTA E A INQUISIÇÃO: TRAJETÓRIA E NARRATIVAS


DE UMA PERSEGUIÇÃO
Alexandre Mansur Barata

Em 1802, Hipólito José da Costa Furta- do príncipe regente D. João. A inclusão


do de Mendonça (1774-1823) foi preso do pertencimento maçônico no rol dos
em Lisboa pelo crime de pertencimen- crimes sob a alçada inquisitorial re-
to à maçonaria. Natural da Colônia do monta a 1738, quando a primeira con-
Sacramento, então sob domínio da Co- denação formal da maçonaria pelo Pa-
roa Portuguesa, Hipólito José da Costa pa Clemente XII foi oficialmente di-
era bacharel em Leis pela Universidade vulgada em Portugal por meio de um
de Coimbra e Diretor da Junta da Im- Edital de Fé assinado pelo Inquisidor
pressão Régia. Sua amizade e proximi- Geral, cardeal D. Nuno da Cunha. Em
dade com o ministro D. Rodrigo de 1751, durante o papado de Benedito
Souza Coutinho não impediu que ele XIV, nova condenação à maçonaria foi
fosse remetido inicialmente para a In- publicada. Dentre as razões explicita-
tendência Geral da Polícia e por lá das estavam o fato de que a maçonaria
permanecesse em segredo por aproxi- reunia homens de todas as religiões; o
madamente seis meses. Posteriormen- caráter secreto da maçonaria percebido
te, em janeiro de 1803, acabou por ser como mecanismo para encobrir práti-
transferido para os cárceres da Inquisi- cas criminosas; o juramento prestado
ção de Lisboa conforme determinação de nada revelar sobre os assuntos tra-

218
CADERNO DE RESUMOS

tados no interior da sociedade maçôni- Lisboa, as questões mais importantes


ca; o fato de que as reuniões maçônicas sobre a maçonaria: sua origem, sua
contrariavam as leis civis e eclesiásti- organização interna, as razões da per-
cas, pois aconteciam sem a permissão seguição movida sobretudo pelo Tri-
das autoridades constituídas. Essas bunal do Santo Ofício. Em 1811, Hipó-
condenações, embora não tenham im- lito voltou a criticar a Inquisição ao
pedido o funcionamento de lojas ma- publicar, em dois volumes, “Narrativa
çônicas em Portugal, acabou por desa- da perseguição de Hipólito José da
celerar o ritmo de sua expansão, sobre- Costa Pereira Furtado de Mendonça,
tudo se compararmos com o que acon- natural da Colônia do Sacramento, no
teceu em outras regiões da Europa. A Rio da Prata, preso e processado em
despeito do recrudescimento da perse- Lisboa pelo pretenso crime de Fra-
guição inquisitorial aos maçons ocorri- Maçon ou Pedreiro Livre”. Desse mo-
da na virada do século XVIII para o do, o objetivo geral da comunicação é
século XIX, Hipólito José da Costa con- discutir a atuação do Tribunal do Santo
seguiu fugir dos cárceres da Inquisição Ofício em relação aos maçons e à ma-
de Lisboa em 1805 e se estabelecer em çonaria. De modo específico, é analisar
Londres sob a proteção do Duque de a trajetória de Hipólito José da Costa a
Sussex. Nesse mesmo ano publicou partir do cruzamento das narrativas
“Cartas sobre a Framaçonaria”, no qual por ele editadas e a documentação in-
procurou por meio de um conjunto de quisitorial, particularmente, o processo
cartas supostamente remetidas de 17981, por muito tempo dado como
Londres, entre os meses de abril a maio perdido, reintegrado em 2009 ao fundo
de 1802, esclarecer a um amigo, cujo arquivístico do Tribunal do Santo Ofí-
nome não é revelado, que viveria em cio.

A INQUISIÇÃO CONTRA D. JOÃO IV: A PRISÃO DE DUARTE DA SILVA


Thiago Groh de Mello Cesar

Com a aclamação de D. João IV rei de do Cabral, também herdava três difí-


Portugal em 1 de dezembro de 1640, a ceis tarefas: obter a legitimação da co-
União Dinástica entre os reinos ibéri- roa e o reconhecimento internacional
cos se finda depois de 60 anos de go- da independência, proteger as frontei-
vernos duais, ou seja, de duas coroas e ras do reino na península Ibérica e re-
um só rei, mas com a independência cuperar as colônias perdidas ao longo
entre as duas. A Restauração da mo- do globo durante a união dinástica. A
narquia foi executada por parte da saída para enfrentar os problemas her-
média nobreza que vivia em Portugal e dados, acentuados pelas invasões ho-
julgava-se distante das beneficies reais landesas nas mais diversas partes do
e com poucos privilégios. Na leitura Império, passava pelo uso do capital
dessa nobreza, apenas as famílias que dos cristãos-novos. Aliar-se a esses
estavam em Espanha é que eram bene- homens para formar uma burguesia
ficiadas pelo rei. Aclamado rei, D. João local era fundamental para o sucesso
restauraria também a ordem e os privi- da empreitada. O Padre Jesuíta Antô-
légios em Portugal, que segundo Eval- nio Vieira logo percebeu isso. E emi-

219
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

nencia parda do rei, tratou de conven- o crédito, tão difícil para Portugal, se
ce-lo da importância dos cristãos- encerrara com as notícias da prisão. O
novos para o reino. Por sua vez, a In- jesuíta, da notícias da situação em duas
quisição, que havia elaborado um novo cartas enviadas ao Marques de Niza,
estatuto em medos de 1640, antes da embaixador em Paris. Acusado de ju-
Restauração, e ao longo da União Di- daizar,Duarte da Silva, seus genros, e
nástica manteve sua independência, dois filhos foram preso no momento
como analisa Ana Isabel Lópes-Salazar em que Portugal mais precisava de
Codes, faz jogo uma espécie de jogo crédito as vésperas do grande Con-
duplo com D. João, hora apoiando ho- gresso de Vestfália , onde as nações
ra agindo contra, mas sempre tendo europeias se reuniriam para selar a paz
em vista a manutenção de sua inde- e reorganizar as forças no continente.
pendência e autonomia. Desse modo Duarte da Silva ficou preso entre 1647
nosso olhar se volta para a instituição e 1652, quando saiu em auto-de-fé, de-
religiosa e sua política, focando na pois de ter sua pena original, deveria
prisão de Duarte da Silva. Principal ser relaxado ao braço secular, modifi-
financiador da coroa portuguesa, o cada. Logo, nessa comunicação pre-
cristão-novo Duarte da Silva, manti- tendemos analisar a relação de D. João
nha uma ampla rede comercial, que IV com a Inquisição, através da prisão
estendia-se pelo reino, pelas diferentes de seu mais importante financiador em
partes do Império e da Europa. Sua um dos momentos mais delicados da
prisão e de outros familiares em 1647 nova dinastia.
foi um golpe contra o rei e Vieira, pois

RELIGIOSIDADE E RESISTÊNCIA NAS ÓPERAS DE ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA:


UMA EXPERIÊNCIA CRIPTOJUDAICA DO INÍCIO DO SÉCULO XVIII
Josevânia Souza de Jesus Fonseca

Este trabalho tem como objetivo apre- da prática da “Lei Judaica” na penínsu-
sentar uma experiência religiosa dentre la Ibérica, esteve presente na cosmovi-
as tantas possibilidades de crenças vi- são dos cristãos-novos, especificamen-
venciadas após a Diáspora e conversão te daqueles que não assimilaram de
dos judeus sefarditas na península Ibé- fato os preceitos da fé cristã. Para tal,
rica, no século XV. A pesquisa foi ela- recorreu-se às categorias de análise da
borada a partir dos fios deixados por História Cultural, fazendo uso da vari-
Antônio José da Silva, em quatro de ação de escalas de observação, do mé-
suas óperas, Vida de D. Quixote de La todo indiciário e da comparação dos
Mancha, Esopaida, ou Vida de Esopo, Os elementos presentes nos textos com os
Encantos de Medéia e Anfitrião, ou Júpi- aspectos mais gerais da mística judai-
ter, e Alcmena, apresentadas entre os ca. Desvenda-se com a pesquisa que,
anos de 1733 e 1736 no Teatro do Bair- para além da intenção primordial das
ro Alto em Lisboa. Enquanto produtos comédias do “Judeu”, de fazer rir à
culturais, os impressos que chegaram sociedade lisboeta através da sátira dos
até nós nos permite conjeturar que a costumes e das instituições, existe uma
Cabala, dimensão do judaísmo am- mensagem de resistência direcionada
plamente difundida após a proibição aos cristãos-novos judaizantes.

220
CADERNO DE RESUMOS

“MOHAMED”: UM “MOURO” ACUSADO PELO TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO


NO MARANHÃO SEISCENTISTA
Leila Alves de Carvalho

Este artigo é um estudo de caso que proposta é perceber as relações de for-


pretende mostrar as aventuras e des- ça, as intrigas, a subordinação e o
venturas de um cristão velho, preso na compadrio sempre tão pertinentes aos
cidade de São Luís do Maranhão, no casos que envolvem a justiça inquisito-
ano de 1646, por ordem do Tribunal do rial e o cotidiano da colônia na Ama-
Santo Ofício da Inquisição de Lisboa. A zônia seiscentista.

PATRIMÔNIO RELIGIOSO COMO FORMA DE RESISTÊNCIA: AS FACETAS DO


CRIPTOJUDAÍSMO NA COLÔNIA
Ângelo Adriano Faria de Assis

A Península Ibérica viveria o fim de do vam fugir das perseguições religiosas e


longo período de convivência entre buscar novas oportunidades de enri-
judeus, cristãos e muçulmanos no al- quecimento na economia brasílica, e
vorecer da Modernidade, primeiro na em pouco tempo estavam embrenha-
Espanha, em 1492, depois em Portugal, dos nas mais diversas atividades eco-
entre 1496-97. Com a expulsão dos ju- nômicas, conquistando espaços na so-
deus e implementação do monopólio ciedade. A chegada das visitações in-
religiosos católico em Portugal e seus quisitoriais, ap artid de fins do Qui-
domínios a partir da última década do nhentos e, posteriormente, a organiza-
século XV, os cristãos-novos acabaram ção de uma rede de representantes do
vistos com grande ameação à pureza Santo Ofício no trópico brasílico, aca-
católica, e tornaram- se suspeitos de bariam por mudar este quadro, tra-
judaizar em segredo. Com o surgimen- zendo temor de perseguições e levan-
to do Tribunal do Santo Ofício da In- do indivíduos aos cárceres inquisitori-
quisição, em 1536 (o funcionamento da ais. Esta comunicação tem como foco
Inquisição portuguesa duraria até perceber as práticas judaicas denunci-
1821, quando é encerrada no contesto adas e confessadas perante a mesa da
da Revolução Liberal do Porto), os ne- visitação e perceber as metamorfoses
oconversos estarão entre as principais da religiosidade judaica ao longo de
vítimas da ação inquisitorial, como gerações durante o tempo em que esta
bem mostram os milhares de processos foi perseguida. Para tanto, focaremos
movidos pelo Santo Ofício envolvendo nossa análise em estudos de caso, bus-
culpas de criptojudaísmo. O Brasil, cando perceber continuidades e trans-
onde não havia tribunal inquisitorial formações no comportamento religioso
estabelecido (os tribunais existentes destes cristãos-novos ao longo das ge-
encontravam-se em Évora, Coimbra e rações. Em complemento, pretende,
Lisboa – este, que ficava responsável ainda, no contexto da comemoração
pelo espaço luso-americano), rapida- dos cinquenta anos dos estudos acerca
mente tornou-se dos destinos preferi- do Santo Ofício no no Brasil, traçar um
dos destes cristãos-novos, que tenta- painel dos estudos contemporâneos

221
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

existentes no país acerca da Inquisição do, e que tomaram novos caminhos a


e seu mundo (estrutura, funcionários, partir do desenvolvimento de investi-
regimentos, atuação, lógica persecutó- gações e projetos acerca do panorama
ria e processual, bem como de suas da historiografia sobre o Tribunal do
vítimas) em instituições espalhadas de Santo Ofício hoje no país. Pretende-se,
norte a sul do país, mostrando a diver- para além, que esta comunicação seja
sidade de análises e recortes temáticos oportunidade de interação com outros
nos trabalhos hoje realizados. Estes pesquisadores do assunto, permitindo
trabalhos são fruto de pesquisas que já o avanço das pesquisas com o conhe-
venho desenvolvendo desde o mestra- cimento de novas abordagens.

AS CRIPTOJUDIAS PERNAMBUCANAS E SUAS PRÁTICAS CULTURAIS NO FI-


NAL DO SÉCULO XVI: TÁTICAS DO COTIDIANO COM MICHEL DE CERTEAU
Priscila Gusmão Andrade

O presente artigo pretende trabalhar os no Brasil colonial, mostraremos como


conceitos de tática e cotidiano, apre- suas táticas cotidianas foram importan-
sentados por Michel de Certeau em seu tes para essa transmissão cultural. A
livro “A invenção do Cotidiano 1: Ar- visitação de Heitor Furtado de Men-
tes de fazer”, mostrando como os donça resultou em um notável número
mesmos podem ser utilizados para de denuncias contra essas mulheres,
problematizar as cripotojudias per- que ficaram registradas nos Cadernos
nambucanas que foram denunciadas a de Confissões e Denunciações, das ca-
Inquisição, em sua primeira visitação pitanias visitadas. Inclusive o caderno
as terras brasílicas, no final do século “PRIMEIRA, Visitação do Santo Ofício
XVI. Problematizando a importância as Partes do Brasil: Denunciações e
feminina para a manutenção do cripto- confissões de Pernambuco 1593-1595.”
judaísmo na América Portuguesa, e Que será utilizado como fonte para a
evidenciando, especialmente, as práti- produção deste trabalho, além de pro-
cas utilizadas pelas mesmas para essa cessos inquisitoriais que resultaram
perpetuação e passagem do judaísmo dessa visitação.

ACUSADOS DE JUDAIZANTES EM SERGIPE DEL REY: PROCESSO DE ANTÔNIO


DA FONSECA
Priscilla da Silva Góes

A partir dos processos inquisitoriais é fissão ou não-confissão do acusado,


possível resgatar traços de experiências pois, os documentos podem ser verda-
religiosas que foram alvos de perse- deiros, porém, não quer dizer que te-
guições. Porém, questionar tal docu- nham a verdade. Isso se deve ao fato
mentação torna-se vital para o pesqui- de que o réu poderia negar as práticas
sador, tendo em vista que não pode- de que fora acusado somente como um
mos analisar tais processos como con- subterfúgio para não ter a condenação
tendo a verdade no que se refere à con- mais severa. Assim como procurar ser

222
CADERNO DE RESUMOS

um bom católico, poderia ser uma ten- cesso do cristão-novo Antonio da Fon-
tativa de não se expor, de tentar se ca- seca, morador de Sergipe Del Rey, que
muflar entre os outros. Observando foi preso em 1726 e saiu no auto de fé
tais questões é que analisaremos o pro- em 1732, acusado de judaísmo.

IMAGINÁRIOS DA FÉ: A INQUISIÇÃO PORTUGUESA E O NOVO MUNDO


PARA ALÉM DAS HERESIAS
Daniana Oliveira Bispo

Propõe-se um estudo que tem como guir o caminho correto - da fé, da mo-
ponto de partida a história do Tribunal ral -, e para isso, nos embasamos nas
do Santo Ofício: sua fundação, organi- reflexões de pesquisadores que se de-
zação, funcionamento, aparatos re- bruçaram nas documentações inquisi-
pressivos, vítimas, atuação, semelhan- toriais, posto que pretendemos enten-
ça e disparidade entre as Inquisições, der através dos discursos de discipli-
em especial a espanhola, tal como do namento católicos, como a Inquisição
poder eclesiástico, para assim, tentar se fez tão presente e decisiva na histó-
entender a relação da Inquisição com a ria política, social e econômica da Co-
Colônia portuguesa – Brasil - que ain- lônia e consequentemente no cotidiano
da que sem uma sede local, viveu sob a dos luso-brasileiros. Procuramos en-
lente da Igreja Católica e os “tentácu- tender também, porquê mesmo passa-
los” do Tribunal da Santa Sé. Assim, dos tantos séculos após o fim da Inqui-
trata-se de um trabalho que objetiva sição, ainda hoje discutimos sobre as
refletir sobre a força, a influência da suas práticas de repressão e quais são
religião – Igreja Católica – e as ferra- os resquícios/legado deixado por esse
mentas de controle utilizadas para tribunal, que atravessam os séculos.
“convencer” a sociedade colonial a se-

GENTILISMOS NO BRASIL E NA ÍNDIA


Célia Cristina da Silva Tavares

Ao entrar em contato com a documen- ferências interessantes sobre as práti-


tação produzida pela Inquisição e pela cas religiosas que misturavam elemen-
Companhia de Jesus, no tempo de tos culturais de sociedades não euro-
meus estudos relacionados com o mes- peias que haviam sido convertidas com
trado e o doutorado e na trajetória de as práticas do catolicismo difundidas
projetos de pesquisa que tenho orien- pela presença portuguesa. Tanto indí-
tando na minha vida acadêmica vincu- genas, no litoral do Brasil, quanto po-
lada ao Departamento de Ciências pulações indianas na cidade de Goa e
Humanas da Faculdade de Formação arredores, por exemplo, depois de ba-
de Professores, tanto em nível de inici- tizados e, em geral, levemente doutri-
ação científica quanto no PROCIÊN- nados, na maior parte das vezes por
CIA, no período de 2005 até hoje, tive a padres jesuítas, tendiam a praticar a
oportunidade de encontrar muitas re- nova religião dentro dos parâmetros

223
VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

daquelas crenças em que haviam nas- ção sobre essas atitudes. Em geral,
cido, mas misturado à ritualística cató- chamavam estas práticas de “gentilis-
lica. Diante desta realidade, inquisido- mo”, expressão derivada da palavra
res e jesuítas produziram inúmeros “gentio”. A presente conferência pre-
textos onde registraram muitas vezes tende explorar alguns aspectos da con-
perplexidade e, outras vezes, tentaram solidação do termo tanto para jesuítas
interpretações para estabelecer uma quanto para inquisidores.
aproximação e obter alguma explica-

AÇÃO INQUISITORIAL NO NORDESTE AÇUCAREIRO: OS DEGREDADOS NA


VISITAÇÃO QUINHENTISTA AO BRASIL ÀS GALÉS DEL REI
Emãnuel Luiz Souza e Silva

Este trabalho tem como objetivo anali- dos processos inquisitoriais movidos
sar a ação inquisitorial no Brasil colo- contra moradores do Nordeste açuca-
nial quinhentista, priorizando os sen- reiro durante o século XVI, propomos
tenciados a cumprirem o degredo nas observar quais foram os crimes que
Galés del Rei. Esta pena era considera- tiveram como punição este tipo de de-
da uma das mais severas entre as pu- gredo e demais informações proveni-
nições aplicadas pelo Tribunal do San- entes desta documentação.
to Ofício Português. Mediante a análise

INQUISIÇÃO EM ANGOLA: A HISTÓRIA DE FRANCISCO RODRIGUES


(SÉCULO XVIII)
Fabiana Schleumer

Segundo Francisco Bethencourt e Phi- ponto de partida para esta discussão.


lip Havik, a ação inquisitorial se de- Nele, o autor apresenta a necessidade
senvolveu em quatro continentes: Eu- de entender o especifico, os fatores ge-
ropa, América, Ásia e África. Nos dois ográficos e culturais que nortearam a
primeiros são fartos os estudos referen- ação do Santo Oficio, principalmente,
tes aos mecanismos e formas de ação em espaços onde o tribunal não funci-
da Inquisição. Neste contexto, mere- onou. O estudo realizado por Horta
cem destaque os trabalhos desenvolvi- assenta-se na análise das testemunhas.
dos por Antônio Baião, Anita No- No que diz respeito a Inquisição, o au-
vinsky e Jose Goncalves Salvador. Na tor afirma que: a) É necessário traçar
década de 1980, Jose da Silva Horta um perfil de quem denuncia e de
analisou as visitas pastorais a região de quem e denunciado, bem como enten-
Congo e Angola concedendo visibili- der como se estabelece a relação com a
dade a temática na África Central por comunidade local; b) Situar o inquérito
meio do uso de fontes inquisitoriais. O em termos cronológicos, geográficos,
artigo “A Inquisição em Angola e bem como situá-lo nas esferas das jus-
Congo: o inquérito de 1596-98 e o pa- tiças locais pré-existentes; c) entender a
pel mediador das justiças” constitui o importância e diferença existente entre

224
CADERNO DE RESUMOS

os vários tipos de delitos. Na década jetivos da dissertação foi “obter ele-


seguinte, os estudos desenvolvidos por mentos acerca do relacionamento entre
Francisco Bethencourt, Jose Pedro Pai- os diferentes órgãos inquisitoriais e
va e Didier Lahon adensaram a discus- entre os “deportados” do Santo Oficio
são, fomentando a realização de even- na metrópole e os seus agentes nos
tos em Portugal e Franca, cujo objetivo espaços ultramarinos. Além disso,
principal foi analisar a presença dos buscou compreender a articulação en-
africanos na documentação inquisitori- tre a autoridade régia e inquisitorial e a
al, com ênfase, ao estudo das práticas articulação entre as esferas do poder
de “feitiçaria” e a organização em “ir- inquisitorial, missionário e episcopal.
mandades de homens pretos”. Em Esta comunicação tem por objetivo
2002, Filipa Ribeiro da Silva, defendeu apresentar uma contribuição a essa
a dissertação de mestrado “A Inquisi- discussão, adotando como ponto de
ção em Cabo Verde, Guiné e São Tome partida a história de Francisco Rodri-
e Príncipe (1536-1821,) cuja temática gues (1783), Arquivo da Torre do
voltou-se para o estudo da ação inqui- Tombo (Portugal). A partir deste do-
sitorial em territórios africanos: Cabo cumento, discutirei a importância da
Verde, Guine, São Tome e Príncipe no utilização das fontes inquisitórias para
período de 1536 a 1821. Fez uso de um a feitura da História de Angola e seus
conjunto diversificado de fontes: livro habitantes. Delimita-se como objetivo
de Denúncias, do Promotor, dos Re- principal a apresentação da persegui-
conciliados, do “pecado nefando”; ção do Tribunal da Inquisição sobre os
além dos livros de Correspondência e habitantes de Angola, bem como as
dos Autos de fé, dos Processos de habi- estratégias cotidianas de sobrevivência
litação completos e incompletos e dos desenvolvidas pela população local.
ministros do Santo Oficio. Um dos ob-

UM TRIBUNAL DE MEDO NA AMÉRICA PORTUGUESA: INQUISIÇÃO, MEDOS


E RESISTÊNCIAS NO BRASIL COLONIAL – SÉC. XVII-XVIII
Halyson Rodrygo Silva de Oliveira

Nas últimas décadas a historiografia Pará (1763-69) – utilizou-se de estraté-


dos estudos inquisitoriais vem alar- gias de controle religioso e social ins-
gando seus campos temáticos e suas trumentalizando discursos e práticas
abordagens. Nesse sentido, temas já difusoras de acessos de culpas e culpa-
consagrados estão sendo exercitados bilizações por meio daquilo que Jean
sob outros novos prismas de análise. A Delumeau (1978 e 1983) e Bartolomé
presente comunicação faz parte de Benassar (1984) chamaram de "pastoral
uma pesquisa em desenvolvimento do medo" e "pedagogia do medo", res-
cuja problemática central busca inves- pectivamente; de outro, pretende-se
tigar, de um lado, de que modo, e até evidenciar as maneiras pelas quais fo-
que ponto, a atuação da Inquisição no ram operadas, por homens e mulheres
Brasil, no contexto de suas visitações comuns àquela experiência histórica de
dos séculos XVII e XVIII – Bahia (1618- perseguições e intolerâncias, táticas de
20), Capitanias do Sul (1627-28), Grão- resistências frente a atuação do Santo

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VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

Ofício português – livre-pensamento tórias de resistências, de desejos de


realizado por meio de críticas à Inqui- liberdades (e por que não?) de cora-
sição, descolamentos espaciais através gens diante das esferas do (bio)poder.
de fugas, táticas discursivas nos inter- Para tanto, o corpo documental desta
rogatórios e nas denunciações, bem pesquisa é formado pelo conjunto de
como o criptojudaismo colonial, por fontes do âmbito inquisitorial: regi-
exemplo. Partimos da hipótese de que mentos, denunciações, confissões, rati-
se a Inquisição portuguesa foi um tri- ficações e processos-crime; bem como
bunal de medo, esta pedagogia, em al- por outros tipos de fontes produzidas
guns momentos das visitas de inspeção pela Justiça e Direito Comuns e pelo
realizadas no Brasil colonial, não se Poder Eclesiástico, como, por exemplo,
efetivou devido as variadas resistên- o Livro V das Ordenações Filipinas
cias subterrâneas e cotidianas e seus (1603) e as Constituições Primeiras do
enfrentamentos. Ao lado de uma histó- Arcebispado da Bahia (1707), respecti-
ria de medos, pode haver também his- vamente.

15 de setembro de 2016

TRAJETÓRIAS DISSONANTES DA ORTODOXIA INQUISITORIAL: PRÁTICAS


MÁGICO-RELIGIOSAS E RELAÇÕES DE GÊNERO NO MUNDO PORTUGUÊS
(SÉC. XVI)
Marcus Vinicius Reis

As iniciativas de Portugal em ampliar relacionados a homens e mulheres no


seus domínios acompanharam tanto período. Já entre a literatura religiosa,
um olhar político quanto religioso, seja uma série de tratados morais, c