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RELATÓRIO ANUAL DA

Comissão de Defesa
dos Direitos Humanos
e Cidadania da Alerj
2015
EXPEDIENTE

Coordenação
Antônio Pedro Soares
Marielle Franco

Edição
Renata Souza

Textos
Antônio Pedro Soares
Marielle Franco
Tatiana Lima

Entrevistas
Bruno Villa
Isabel Lessa
Júlia Igreja
Renata Souza
Tatiana Lima

Revisão
Bruno Villa
Renata Souza
Luna Costa

Fotografias e vídeo
Leon Diniz

Foto Capa
Ato de mulheres pela
descriminalização do aborto
Leon Diniz

Diagramação e Arte
Evlen Lauer

Impressão
Gráfica Assembleia Legislativa
do Estado do Rio de Janeiro
COMISSÃO DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS
E CIDADANIA (CDDHC) DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

COMPOSIÇÃO: 2015

Presidência CDDHC
Deputado Estadual Marcelo Freixo

Vice-Presidência CDDHC
Deputado Estadual Edson Albertassi

Membros titulares
Deputado Estadual Filipe Soares
Deputada Estadual Martha Rocha
Deputada Estadual Enfermeira Rejane

Membros suplentes
Deputado Estadual Flávio Bolsonaro
Deputado Estadual Carlos Minc
Deputado Estadual Flávio Serafini
Deputado Estadual André Lazaroni
Deputado Estadual Jorge Felippe Neto

Equipe Técnica:
Antônio Pedro Soares
Dejany Santos
Evelyn Melo Silva
Júlia Igreja
Marielle Franco
Michelle Lacerda
Rossana Tavares
Sidney Teles
Valdinei Medina

Estagiários:
Natália Sant’Anna (Direito)
Vinícius Melo (Direito)

Contribuição da Equipe do
Mandato Marcelo Freixo
Índice
APRESENTAÇÃO 7

1. A NECESSIDADE DE AVANÇAR: COMISSÃO DE


DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ 11
1.1. Papel da CDDHC 11

1.2. Grupo de reflexão e discussão sobre os casos 14

1.3. O papel da engenharia na ampliação dos


direitos humanos no estado do Rio de Janeiro | Por Celso Avellar 15

1.4. Ocupa Direitos Humanos 17

2. AS MULHERES E A VIOLAÇÃO DE SEUS DIREITOS HUMANOS 19


2.1. Direitos reprodutivos das mulheres 20

2.2. Preconceito impede o atendimento de gestantes com HIV 21

2.3. O acirramento da criminalização das mulheres 23


2.3.1. Entrevista: Fernanda Garcia | “O aborto é uma marca que a mulher carrega
por toda vida, ela não faz isso feliz” 24

2.4. Mulheres no Sistema Prisional 26


2.4.1. Mulheres grávidas presas: o cotidiano de sofrimento e risco de vida
para mães e bebês | Por Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura 28
2.5. Policiais mulheres assediadas sexualmente 30

3. CIDADE E REGIÃO METROPOLITANA: IMPACTOS SOCIAIS DAS OBRAS OLÍMPICAS 33


3.1. O Caju no contexto do Projeto Porto Maravilha 37
3.1.1. Ocupa Direitos Humanos no Caju 40
3.1.2. Entrevista: Maria de Fátima da Silva | “Estamos à mercê de uma destruição psicológica” 41
3.1.3. Iniciativas da CDDHC 43

3.2. Justiça Ambiental e Saneamento na Região da Baía de Guanabara | Por Ana Lúcia Britto 45
3.2.1. A revitalização da Marina da Glória 48
3.2.2. Entrevista: Alessandro Zelesco | “Cidade Olímpica é um discurso fora da realidade” 50
3.3. Direito dos Povos e comunidades tradicionais 52
3.4. Violência Homo, Lesbo, Bi e Transfóbica 54
3.4.1. Entrevista: Thiago Bassi | “A igualdade de direitos dever ser a união de todas as letrinhas LGBTTs” 59
3.4.2. Entrevista: Gilmara Cunha | “Deixe-me existir” 61

3.5. Intolerância Religiosa 64


3.5.1. Entrevista: Ivanir dos Santos | “A intolerância religiosa é uma ameaça à democracia” 67
3.6. Juventude e a cultura do medo 70
3.6.1. Mobilização pelo direito à cidade 72
3.6.2. Entrevista: Thainã Medeiros | “A criminalização transforma ‘justiceiro’ em herói” 74
4. SEGURANÇA PÚBLICA: A BARBÁRIE NÃO É SOLUÇÃO 77
4.1. Casos emblemáticos de violações dos Direitos Humanos 80
4.2. Atendimento a policiais e seus familiares 89
4.2.1. Casos emblemáticos de policiais 91
4.2.2. Audiência Pública: Condições de Trabalho dos Policiais 92
4.3. Sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas | Por Ibis Silva Pereira 93
4.4. No Complexo do Alemão, quem vai à escola é a pacificação 97
4.5. Relatório de Execuções Sumárias da Anistia Internacional 100
4.5.1. Até quando, Acari?  102
4.5.2. Entrevista: Gilmara Coutinho | “A polícia quase destruiu os sonhos da minha filha” 103
4.5.3. Mães de Acari: após 25 anos, o mesmo clamor por Justiça 104
4.5.4. Entrevista: Tereza de Souza Costa e Dona Ana | “Dizem que
crime prescreveu, mas a nossa dor não” 105

5 . SISTEMA PENITENCIÁRIO DO RIO DE JANEIRO 109


5.1. Impactos da crise hídrica no cárcere 110
5.1.1. Alimentação inadequada 110

5.2. Audiência de Custódia 111


5.3. Privatização dos presídios 112
5.4. Entrevista: José de Jesus Filho | “Não há vantagens na privatização de presídios” 114
5.5. O direito a visitar e ser visitado: carteirinha 117
5.6. Agora é lei: Fim da revista íntima vexatória 118
5.7. Sistema Socioeducativo do Rio de Janeiro 119
5.7.1. Juventude privada de liberdade 120
5.7.2. Audiência Públicas da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos 121
5.7.3. Retrocesso na redução da maioridade penal 123

5.8. Entrevista: Raphael Calazans| “Temos na verdade a própria


militarização dos direitos humanos” 125

6. CONCLUSÃO 129
A Subcomissão da Verdade nos Tempos de Democracia Mães de Acari 129
APRESENTAÇÃO

Por uma cidade


mais justa

O
ano de 2015 foi marcado pela forte reivindicação pelo direito à cidade.
Não à toa, já que a luta para existir na cidade é cotidiana, uma vez que,
historicamente, os processos de urbanização se caracterizam pela exclu-
são da pobreza. A desigualdade na ocupação física da cidade se revela de
forma mais enfática ao analisar o valor social agregado a cada território, a forma de
tratamento e serviços oferecidos à população. Dessa forma, já era previsto o descon-
tentamento com governos e governantes diante das tentativas de retirada de direitos
fundamentais previstos na Constituição, como o direito à vida e à moradia digna. A
opção pelo desgoverno gerou diversas resistências que se expressaram de diferentes
maneiras no cenário social e cultural do estado do Rio de Janeiro.

Se houve o avanço do conservadorismo na política no cenário nacional, que levou ao re-


trocesso de garantias de direitos tais como a redução da maioridade penal, a revisão do
Estatuto do Desarmamento, bem como o projeto que dificulta o acesso ao aborto legal à
mulher vítima de estupro. Também foi possível observar as ruas voltando a ser o palco
de mobilizações, com especial protagonismo de mulheres, em um crescente despertar
feminista como há muito tempo não se via em todo o Brasil. Esse fato prova que as ma-
nifestações, iniciadas em junho de 2013, ainda ecoam sobre o cotidiano de nosso país,
principalmente no Rio de Janeiro. Portanto, se por um lado, o ano de 2015 trouxe desa-
lento, por outro, também demonstrou que diante das adversidades existe espaço para
luta que deve ser travada de forma criteriosa, criando novas formas de pensar e atuar.

Há que se chamar a atenção ainda sobre a ampliação das ações no campo penal, com
forte ruptura das garantias fundamentais trazidas no texto constitucional brasileiro.
A operação Verão no estado do Rio de Janeiro, iniciada em 2015, ilustra de maneira
qualificada este estado de coisas. A operação tomou como base de atuação a detenção
antecipada, a uma suposta prática de delitos, de jovens negros, pobres e moradores
de favelas e periferias. Uma política pública, calcada na produção do medo, que enfa-
tiza a discriminação, segregação e exclusão social daqueles que possuem baixo poder
aquisitivo. Aliado a isto, houve a chamada racionalização dos meios de transportes
que encerrou o funcionamento de diversas linhas de ônibus que trafegavam de bair-
ros pobres da zona norte para a zona sul da cidade. Trata-se de uma disputa simbólica
que delimita quem são os donos da cidade e quem nela pode circular.

Mesmo diante deste quadro, há conquistas a se comemorar em 2015. Porque o Rio


de Janeiro despertou com um Amanhecer Contra a Redução, atividade desenvolvida
pela juventude que não aceita o seu encarceramento prematuro com uma lógica pu-
nitivista, além das mobilizações do movimento de mulheres contra o Projeto de Lei
5069, que dificulta o acesso ao aborto legal à mulher vítima de estupro. Outra luta
importante foi encabeçada por profissionais e usuários da rede de saúde mental que
foram contra a nomeação do psiquiatra Valencius Wurch, denunciado por violações
aos direitos humanos enquanto diretor da Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi, para
o cargo de Coordenador Geral de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Estas foram
algumas iniciativas que demonstram a capacidade de mobilização, força e resistência
dos movimentos sociais.

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e da Cidadania (CDDHC) da Alerj desen-


volve um trabalho institucional em que a prioridade é o investimento em canais de
acolhimento, atendimento e promoção de audiências públicas. Sendo assim, atuou no
acompanhamento das manifestações de rua, em atendimentos de casos específicos e na
própria realização de audiências públicas, que foram fundamentais para importantes
progressos no debate coletivo de ações no âmbito da garantia dos direitos previstos
na Constituição. Tudo isso graças ao diálogo permanente com pessoas e movimentos
que lutam por um Rio de Janeiro mais humano e democrático. Essa parceria gerou uma
agenda de promoção de direitos e de incentivo à transparência e participação social, in-
clusive no que diz respeito ao trabalho no Parlamento Fluminense com a apresentação
de projetos de leis, emendas constitucionais e indicações legislativas importantes para
o avanço e desenvolvimento dos direitos humanos no Rio de Janeiro.

O Dia Internacional dos Direitos Humanos, comemorado em 10 de dezembro, marcou


vitórias pontuais em 2015. Nesta mesma data, além de aprovarmos o projeto de lei que
proíbe o uso de algemas durante o trabalho de parto de presas e internas dos Sistemas
Prisional e Socioeducativo, realizamos o Festival Todo Mundo Tem Direitos. O evento,
que reuniu cerca de 50 mil pessoas no Parque de Madureira, foi possível por conta
da parceria entre a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj,
a Justiça Global e a Anistia Internacional. Coletivos de cultura de rua e artistas da
música popular se doaram com seu talento e criatividade para dar o seguinte recado:
Os direitos humanos são o caminho para a construção da democracia que queremos.

Tanto a atuação da CDDHC frente às violações de direitos humanos, quanto as con-


quistas para garantir uma cidade mais justa não seriam possíveis sem o apoio e a
mobilização permanente de tantas pessoas que compartilham desde denúncias a so-
nhos, como o de observar a defesa da dignidade humana no centro de todas políticas
públicas. Por isso, toda a equipe da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Ci-
dadania da Alerj agradece especialmente a todas e todos parceiros de luta cotidiana.

Na conjuntura local, a reta final dos preparativos da cidade do Rio de Janeiro para os
Jogos Olímpicos de 2016 também merece atenção. As diversas violações de direitos
humanos observadas nos últimos anos, tais como remoções forçadas, repressão a ca-
melôs e obras de grande impacto socioambiental, entre outros, tendem a se agravar
e a ser cada vez mais violentas diante da proximidade do megaevento esportivo. Por
isso, este ano que se inicia também promete muita luta. Continuemos juntos em 2016!

Deputado Estadual Marcelo Freixo


Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj
Introdução

A
s violações de direitos humanos continuam ocorrendo de forma sistemá-
tica a cada ano. Os dados divulgados pelo 9º Anuário Brasileiro de Segu-
rança Pública1 revelam que por detrás da imagem de um país pacífico, há
o fato de o Brasil se apresentar como uma sociedade violenta provedora de
políticas públicas ineficientes. Anualmente, cercar de 60 mil mortes são cometidas de
forma violenta2 e intencional. Destas, 30 mil são de jovens entre 15 a 29 anos, sendo
que 77% das vítimas são negros. Esse quadro revela o enorme desafio de se avançar
em ações de defesa dos direitos humanos que deem conta das emergências relativas
às violações cotidianas, além de propor iniciativas proativas e preventivas.

Não por acaso, cabe à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da As-
sembleia Legislativa do Rio de Janeiro (CDDHC Alerj) apresentar à população flumi-
nense o trabalho desenvolvido ao longo do ano de 2015. Por isso, o presente relatório
anual foi organizado metodologicamente com uma abordagem dos temas de manei-
ra mais humana, com o intuito de corporificar com sensibilidade a frieza dos dados
estatísticos de violações. Assim, há entrevistas com pessoas que de forma direta ou
indireta tiveram seus direitos violados. Há ainda artigos analíticos de parceiros da
CDDHC sobre os assuntos elencados neste relatório. Além disso, o documento aborda
os encaminhamentos efetivados pela CDDHC e a realização de audiências públicas.
Desse modo, o relatório anual da CDDHC Alerj apresenta-se da seguinte maneira:

O primeiro capítulo intitulado “A necessidade de avançar: Comissão de Direitos Hu-


manos e Cidadania da Alerj” busca delimitar o papel da CDDHC e apresentar o traba-
lho concreto realizado no cotidiano de sua equipe técnica. Há o esforço de uma breve
análise quantitativa e qualitativa dos atendimentos realizados. O capítulo também
revela o investimento na qualificação pessoal, material e técnica da estrutura ofereci-
da pela CDDHC à população.

O segundo capítulo, sob o título “Violação dos direitos humanos das mulheres”, pre-
tende abordar a crescente demanda relativa aos direitos reprodutivos das mulheres,
com ênfase no debate sobre as gestantes que convivem com o vírus HIV e a perda ges-
tacional. Há ainda uma entrevista sobre o avanço da criminalização do aborto e um
artigo do Mecanismo da Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro
1 Disponível em <http://
sobre a situação das mulheres grávidas no Sistema Prisional. Ainda com relação às www.forumseguranca.org.
violações institucionais, há a abordagem sobre o assédio sexual sofrido por policiais br/storage/download//
mulheres no âmbito da corporação. anuario_2015.retificado_.pdf>.

2 No Brasil, de acordo com


O terceiro capítulo “Cidade e Região Metropolitana” busca abordar os problemas re- o Mapa da Violência para
lativos à cidade às vésperas de um megaevento esportivo como os Jogos Olímpicos de cada jovem branco que morre
2016. O relatório demonstra as intervenções urbanas sofridas com as obras do Porto assassinado, morrem 2,7
jovens negros. Disponível em
Maravilha e o abandono do Caju, favela que possui 40% da população da área por-
<http://www.mapadaviolencia.
tuária. Há ainda um artigo sobre justiça ambiental e uma entrevista sobre a revitali- org.br/pdf2015/
zação da Marina da Glória e seu questionável legado olímpico. Ainda no âmbito dos mapaViolencia2015.pdf>.
impactos dos megaempreendimentos, será apresentado o debate sobre o direto dos
povos e comunidades tradicionais, com ênfase na diligência realizada pela CDDHC na
comunidade tradicional de Zacarias, em Maricá.

Como não poderia faltar, o terceiro capítulo também pretende abarcar as diversas
opressões vivenciadas na região metropolitana como o acirramento da violência e
discriminação contra a população Lésbica, Gay, Bissexual, Travesti e Transexual,
além da intolerância religiosa. O capítulo busca abordar ainda os temas relativos à
juventude e a cultura do medo, além da mobilização na rua e nas redes sociais pelo
direito à livre circulação na cidade.

O quarto capítulo intitulado “Segurança Pública” busca apresentar o Rio de Janeiro


de fato e não o do cartão postal. Em 2014, o estado amargou o 2º lugar nas estatísticas
de pessoas mortas pela polícia. Não por acaso, os policiais também são as principais
vítimas. Assim, o capítulo apresenta os casos emblemáticos de violações de direitos
tanto de civis como de militares e atuação da CDDHC nos atendimentos e encami-
nhamentos relativos às vítimas e/ou familiares. Há ainda a abordagem da situação
da Escola Caic Theóphilo de Souza Pinto, no Complexo do Alemão, que foi obrigada
a conviver com uma Unidade de Polícia Pacificadora no pátio escolar. Nesta sessão,
a favela de Acari também ganha espaço por conta de seu alto índice de execuções
sumárias e dos 25 anos das Mães de Acari.

O quinto capítulo “Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro” pretende abordar as situ-


ações de violações dentro do cárcere, desde a falta d`água à visitação. A vitória relati-
va à lei que põe fim à revista íntima e vexatória nas unidades de privação de liberdade
é um dos temas apresentados. O capítulo traz ainda uma reflexão sobre a privatização
dos presídios. O Sistema Socioeducativo é contemplado nessa sessão durante a abor-
dagem sobre o retrocesso social representado pela redução da maioridade penal e
encarceramento da juventude.

O último capítulo “Conclusão: A Subcomissão da Verdade nos Tempos de Democracia


Mães de Acari” busca expor o processo histórico e social que justifica a construção
desta ferramenta institucional no âmbito da Comissão de Defesa dos Direitos Huma-
nos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Desejamos uma boa leitura.


1. A necessidade
de avançar: Comissão
de Direitos Humanos
e Cidadania da Alerj

A
Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj (CDDHC) prio-
riza a articulação de canais efetivos, institucionalizados ou não, para a inter-
mediação entre sociedade e poder público a fim de alterar a fórmula tradicio-
nal de elaboração e implementação de políticas públicas. O objetivo principal
é acompanhar e se manifestar sobre programas e ações relacionadas a todos os direitos
humanos, e se necessário, agir em casos de violações. Dessa forma, ao assumir uma pos-
tura diferenciada de estabelecer uma arena de diálogo entre as diferentes esferas governa-
mentais e a sociedade civil, a CDDHC viabiliza e amplifica a voz dos movimentos sociais.

Diante das denúncias, solicitações de auxílio e acompanhamentos de casos, a CDDHC


Alerj pode tomar medidas com o intuito de esclarecer ou solucionar fatos reportados so-
bre violações de direitos humanos a partir dos seguintes mecanismos: acolhimento das
famílias vítimas de violações de direitos; requerimento de informações mediante ofício às
instituições públicas envolvidas na denúncia; encaminhamento do usuário para órgãos
responsáveis pelas diferentes setores governamentais; realização de audiência pública
para convocar instituições públicas a prestar esclarecimentos, o que promove a discussão
sobre o tema em busca do avanço na qualidade das políticas públicas.

Em 2015, foram 809 atendimentos que se desdobraram em dois ou três outros atendi-
mentos. Isso significa que, somente em relação aos novos casos no último ano, a Co-
missão realizou 2.427 atendimentos em diferentes esferas, tais como: desaparecimen-
to; remoção; acesso ao sistema público de saúde; racismo; milícias; acesso a serviço
público; assunto do idoso; violência familiar; violações dentro do sistema prisional;
violações dentro do serviço público; abuso de autoridade; ameaça; violência policial;
homicídios cometidos por policiais; intolerância religiosa; violações dentro do siste-
ma socioeducativo; homofobia; bem como demandas jurídicos sociais. Excluem-se
desse total os casos que ainda são acompanhados desde os anos anteriores.

Dentre esses atendimentos acima mencionados, destacam-se aqueles relacionados


ao sistema prisional com 137 novos casos, 33 pedidos de auxílio para liberação de
carteira de visitação expedida pela Secretária de Estado de Administração Penitenci-
ária (SEAP), 74 casos de homicídio de policial, 22 casos de violência policial, além de
demanda social de 42 novos casos.

Para atender à população em casos de denúncias, reclamações ou pedido de auxílio


e acompanhamento, a CDDHC possui os canais de comunicação e atendimento por
meio do portal <http://www.alerj.rj.gov.br> e pelo telefone (21) 2588-1555. Além disso,
12 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

realiza atendimentos presenciais nos dias úteis, das 10h às 17h, na sala 307, na sede
da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, localizada na Rua 1º de Março,
no Palácio Tiradentes.

1.1. O PAPEL DA CDDHC

As demandas sociais apresentadas junto à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos


e Cidadania da Alerj resultaram na realização de 15 audiências públicas, em 2015,
organizadas e executadas pela CDDHC. Dentre as consequências concretas geradas a
partir do debate coletivo nas audiências públicas estão a apresentação e aprovação de
leis de autoria do presidente da CDDHC, deputado estadual Marcelo Freixo, que pre-
vê a troca da revista íntima manual pela mecânica para pôr fim à revista vexatória e
degradante de visitantes em unidades prisionais e no sistema socioeducativo; a obri-
gatoriedade do governo em construir uma escola para cada unidade do sistema so-
cioeducativo erguida; o uso do nome social pela população transsexual; a realização
das audiências de custódia para que os presos em flagrante sejam levados à presença
do juiz em até 24h, para evitar detenções desnecessárias e maus tratos; criação de
um programa de assistência de vítimas da violência. Além disso, a criação da Frente
Parlamentar em Defesa e Fortalecimento da Defensoria Pública do Estado do Rio de
Janeiro, presidida por Marcelo Freixo.

O ano de 2015 foi crítico no que diz respeito à segurança pública. Depois de um pe-
ríodo de queda, o número de mortes decorrentes de intervenção policial, os antigos
autos de resistência, voltou a crescer. Fato este que não por mera coincidência foi
acompanhado de um grande número de homicídios de agentes policiais. A política de
segurança pública do Rio de Janeiro, que segue baseada no confronto bélico, produ-
ziu vítimas em todos os campos sociais: temos a polícia que mais mata, mas também
a que mais morre do mundo. Sendo assim, a Comissão de Direitos Humanos atendeu
aos familiares vítimas de violência do Estado, inclusive de policiais assassinados.

Em todos os casos, a Comissão viabilizou atendimento jurídico, psicológico e o acom-


panhamento da apuração dos crimes. Há o entendimento de que a lógica de guerra
às drogas é um equívoco, já que está muito longe de atingir aos objetivos declarados.
Países que no passado encamparam essa política já a abandonaram. Essa lógica não
elimina o comércio ilegal de drogas e/ou o consumo. Pelo contrário, alimenta a vio-
lência, o tráfico de armas, a corrupção nos sistemas político e econômico. Essa é uma
guerra em que não há vencedores e não para de produzir vítimas.

A violência institucional e o processo de criminalização das favelas e espaços mais


pobres da cidade se revelaram ainda mais presente na rotina da cidade em 2015. Os
últimos meses do ano foram marcados pela repetição de cenas absurdas presentes na
dura realidade da violência, como as de policiais militares simulando autos de resis-
tência no Morro da Providência, assim como na morte de cinco jovens fuzilados em
um carro por policiais militares em Costa Barros, com mais de 50 disparos. Em ambos
os casos, policiais tentaram forjar a posse de armas junto do corpo das vítimas em
uma tentativa de incriminá-las. A barbárie não pode ser a solução para a violência.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 13

O caso do Morro da Providência em que imagens revelaram policiais forjando um auto de


resistência, com a vítima já morta, motivou a Alerj instaurar, no final de 2015, uma Comis-
são Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Autos de Resistência e Mortes Decorrentes de Ação
Policial no Rio de Janeiro. Um dos objetivos é entender as complexidades do problema
para pensar em conjunto com a sociedade a criação de políticas públicas para superarmos
essa brutalidade. É sabido que a responsabilidade não é só da polícia, é também do Minis-
tério Público e do Poder Judiciário, que muitas vezes pedem o arquivamento dos casos ou
adotam uma linha de investigação que responsabiliza a vítima. É um problema dramático
que atinge as famílias mais pobres, negras e moradoras das favelas e periferias. Em dez
anos, cerca de 10 mil pessoas foram mortas em operações policiais, muitas com sinais
claros de execução. Essa tragédia atinge um setor muito específico da população: jovens,
negros e moradores de favelas. Não se pode assistir ao massacre da juventude de maneira
racional, a responsabilidade é de todas e todos.

Não por acaso, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, 10 de dezembro de 2015, foi
aprovado o projeto de lei de autoria do presidente da CDDHC, Marcelo Freixo, que proíbe
o uso de algema durante o trabalho de parto da presa ou interna e durante o período de
sua internação. Esta foi uma grande vitória na garantia da dignidade e direitos das mulhe-
res. É um absurdo imaginar que uma mulher seja amarrada e algemada durante o parto.
Nenhuma pena prevista à detenta garante esse tipo de punição. Neste mesmo dia, mais de
50 mil pessoas participaram do Festival Todo Mundo Tem Direitos, realizado pela CDDHC
em conjunto com a Justiça Global e a Anistia Internacional. O recado foi dado: Os Direitos
Humanos são o caminho para a construção da democracia que queremos.

O Festival Todo Mundo Tem Direitos foi possível graças à construção e diálogo com
diferentes coletivos urbanos de cultura, de defesa dos direitos humanos, de mídia
e movimentos sociais, além da participação de centenas de artistas. Temas como
Educação, Saúde, Moradia, Cultura, Vida, Terra e Território, Identidade de Gênero,
Memória, Liberdade, foram pautados e celebrados em diversas rodas de conversa,
intervenções, exposições e canções. O Festival foi uma estratégia criativa e inovadora
de se chamar atenção para assuntos tão caros ao Estado e à democracia. Um papel
fundamental da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.

CDDHC EM AÇÃO

A CDDHC tomou as seguintes iniciativas, de maneira contínua em relação às viola-


ções de direitos humanos ocorridas durantes 2015:

1. Solicitação formal de informações sobre os procedimentos de apuração da


Polícia Militar e Polícia Civil referente aos abusos de autoridade e ao uso
indiscriminado da força por parte das forças de segurança;

2. Acolhimento de familiares;

3. Participação em fóruns e redes da sociedade civil para monitorar violações


decorrentes da atuação institucional de órgãos do poder público;

4. Realização de audiências públicas.


14 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

1.2. GRUPO DE REFLEXÃO E DISCUSSÃO SOBRE OS CASOS

O deputado estadual Marcelo Freixo assumiu, em 2009, a presidência da Comissão


de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do
Rio de Janeiro com o objetivo e responsabilidade de formar uma equipe técnica capa-
citada para qualificar o funcionamento do órgão, de acordo com as regras internas.
Na ocasião, havia na composição da assessoria do mandato do deputado um grupo
específico de assessores e ativistas dos movimentos sociais com diferentes qualifica-
ções profissionais. Coube, então, a este grupo, assumir o atendimento e efetuar os
encaminhamentos de atendimento da CDDHC.

A equipe percebeu desde o início a necessidade de oferecer suporte psicológico no


acolhimento dos atendimentos, visto que os casos envolviam tragédias pessoais e
coletivas relacionadas ao não cumprimento das leis e violações dos direitos dos cida-
dãos. Por isso, em 2011, a CDDHC Alerj passou a dispor de um profissional da área da
psicologia compondo a equipe técnica, contemplando os usuários com um olhar mais
especializado e qualificando o atendimento da equipe.

Tendo em vista que a Comissão atende uma extensa demanda, desde as mais simples:
como a não confecção da carteirinha de visitante para o sistema prisional dentro do
prazo estabelecido pela própria Secretaria de Estado de Administração Penitenciária
(Seap). Às mais complexas: como violações praticadas por agentes públicos, desa-
parecimento de pessoas, famílias de policiais mortos, entre outros. Neste cenário, o
acolhimento psicológico durante os atendimentos proporcionou à equipe um maior
conhecimento sobre a rede de saúde mental. Desde o acionamento de serviços no
âmbito estadual e municipal ao encaminhamento de casos para a avaliação de uma
equipe técnica externa. Como consequência dessa percepção interna, em 2013, foi ini-
ciado um grupo de reflexão dos casos atendidos pela Comissão, com o objetivo de
gerar um olhar mais amplo e multidisciplinar no encaminhamento dos atendimentos.

Atualmente, a equipe técnica do órgão é composta por profissionais das áreas de


Serviço Social, Ciência Social, Direito e Psicologia. Os atendimentos são realizados e
debatidos de forma espontânea dentro do grupo de reflexão, a partir da necessidade
de quem atendeu caso a caso e da própria equipe. A dinâmica permite ao grupo se co-
locar em um lugar de constante aprendizado e troca de conhecimentos interpessoais.
O que inicialmente se configurou como um espaço de estudo de casos e propostas de
encaminhamentos, tornou-se também, com o decorrer dos encontros, um espaço de
discussão de metodologia e planejamento.

O efeito proporcionado pela construção desse espaço de escuta e de troca dentro da


própria equipe é importante, visto que inclui não só a acolhida aos novos membros e
a construção de soluções coletivas, mas principalmente ao viabilizar um melhor aten-
dimento à população. Já que, a partir da identificação da complexidade dos casos, a
solução é pensada de forma coletiva com base na experiência profissional inerente
da multidisciplinaridade da equipe. Isto significa que a CDDHC se qualifica por uma
metodologia de trabalho em que se insere uma equipe capacitada responsável pelos
atendimentos e soluções das demandas cotidianas de seu trabalho, caso a caso.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 15

Além de garantir a formação de uma equipe multidisciplinar, a constante preocupa-


ção em melhor atender a população do Rio de Janeiro fez com a CDDHC da Alerj re-
corresse ao conhecimento tecnológico produzido pela Engenharia de Produção para
otimizar os atendimentos. A partir dessa necessidade, uma parceria com o Núcleo
Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (NIDES) do Centro de Tecnologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro foi formalizada e gerou, em 2015, importante
contribuição no processo de sistematização e gerenciamento dos atendimentos.

1.3. O PAPEL DA ENGENHARIA


NA AMPLIAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Por Celso Avellar*

A engenharia é tradicionalmente conhecida como um campo do conhecimento dis-


tante das problemáticas sociais, por estar voltada principalmente para atender as
demandas das grandes empresas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, não é
muito diferente, grande parte dos projetos de pesquisa estão voltados para demandas
de corporações nacionais e internacionais, e pouco se vê trabalhos voltados para ór-
gãos públicos, e muito menos para movimentos sociais, organizações comunitárias e
grupos organizados de trabalhadores.

Nesse contexto, em 2013 foi criado o Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento


Social (NIDES), dentro do Centro de Tecnologia da UFRJ, com o objetivo de pensar a
engenharia e o desenvolvimento de tecnologias para estes públicos que não recebem
o devido apoio da Universidade, principalmente no campo tecnológico. Este órgão ar-
ticula diversos grupos que desenvolvem extensão universitária no campo tecnológico
desde 1994.

Desde a constituição de 1988, a extensão universitária virou parte do tripé acadêmico


por lei: a universidade tem como objetivo desenvolver ensino, pesquisa e extensão.
O ensino é conhecido por todos através dos cursos de graduação e pós-graduação.
A pesquisa é a forma da universidade construir conhecimento novo e se materializa
principalmente a partir das publicações em revistas e jornais acadêmicos. A extensão,
como proposta por Paulo Freire, seria uma via de mão dupla: por um lado, seria uma
forma da universidade devolver à sociedade parte desse conhecimento gerado; por
outro, seria uma forma de construir conhecimento útil a partir das problemáticas de
sua população (e não fechada em laboratórios, com discussão apenas entre acadêmi-
cos e a partir de problemas pautados principalmente pelos EUA e Europa através de
suas revistas “internacionais”).

No caso da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia *Pesquisador extensionista
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (CDDHC/Alerj), o NIDES foi chamado para do Núcleo de Solidariedade
pensar propostas que ajudassem a comissão a ampliar seus trabalhos e acompanhar Técnica (SOLTEC/NIDES/UFRJ)
e Professor Colaborador do
as demandas de forma mais ativa. Pela grande demanda que recebem de denúncias,
Departamento de Engenharia
e por ter uma equipe bastante reduzida, muitas vezes a comissão só conseguia acom- Eletrônica (DEL/POLI/UFRJ).
16 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

panhar de forma mais ativa os casos mais emblemáticos. Nos casos menos críticos,
a partir do primeiro atendimento eram feitos os procedimentos de encaminhamento
(como envio de ofícios para órgãos públicos), porém, caso o órgão não respondesse
na maioria das vezes, a Comissão só voltava a acompanhar quando o denunciante
voltasse ou ligasse perguntando sobre seu caso.

Dessa forma, fomos chamados para pensar como a engenharia poderia contribuir na
organização do processo de atendimento, acompanhamento e sistematização das de-
núncias de violação de direitos humanos. Esse é um tipo de problema que no campo
da engenharia de produção é considerado um sistema complexo, pois envolve diver-
sas organizações, pessoas, interações, com uma diversidade de problemas que difi-
culta padronizações. Por exemplo, uma reclamação sobre negação na expedição de
carteirinha para visitar um parente em um presídio, pode gerar diferentes encaminha-
mentos dependendo do motivo alegado pelo órgão público. E essa categoria de caso
é apenas uma entre muitas outras diferentes (no momento que iniciamos o trabalho
tinham mais de cinquenta categorias diferentes).

Iniciamos o trabalho como acreditamos que deve ser toda atuação da engenharia,
de forma dialógica, conhecendo a realidade que pretendemos atuar, estabelecendo
uma relação de confiança com a organização e seus trabalhadores e trabalhadoras
e vivenciando junto com eles sua rotina e suas dificuldades. Um dos elementos que
percebemos que dificultava um atendimento mais proativo era o sistema de infor-
mação de cadastro de casos. Esse sistema tinha uma busca limitada, não possuía
relatórios que permitia listar casos que necessitavam acompanhamento, além de
muitas outras limitações.

Aproveitando-se de uma disciplina chamada “Software Livre e Metodologias Partici-


pativas”, oferecida pelo Departamento de Engenharia Eletrônica (DEL/POLI/UFRJ),
colocamos a melhoria desse sistema como trabalho final para um grupo de alunos.
Durante o primeiro semestre de 2015, esse grupo de dez alunos fez diversas idas à Co-
missão, acompanhou alguns atendimentos, conversou com a equipe e foi modelando
um novo sistema. Esse sistema foi sendo construído de forma interativa, validando ao
longo do período as ideias que surgiam, e muitas dessas foram sendo implementadas
pelo setor de informática da Alerj ao longo desse tempo. Além disso, muitos desses
questionamentos provocaram reflexões na Comissão, que alterou alguns procedimen-
tos de acompanhamento dos casos.

Por fim, realizamos uma reunião entre o NIDES e a CDDHC em outubro de 2015 para
avaliar essa parceria. Consideramos que ambos aprendemos e ganhamos muito nessa
relação. Em função da grande demanda que a equipe de informática da Alerj vem ten-
do, ainda não foram implementadas todas as melhorias modeladas, porém desde a
entrega do relatório final da turma, muitas delas já foram implantadas e a consultoria
concretizada. Mesmo assim, percebeu-se uma maior facilidade para gerar de forma
automatizada os dados quantitativos do presente relatório anual da Comissão, o siste-
ma já avisa por e-mail a equipe sobre os casos que já deveriam ter resposta dos órgãos
públicos oficiados, e está mais fácil encontrar através do sistema de busca casos por
determinado campo ou palavra-chave. Assim, consideramos que cumprimos o que
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 17

fomos demandados e esperamos prosseguir ajudando a CDDHC da Alerj sempre que


precisarem.

1.4. OCUPA DIREITOS HUMANOS

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj acompanha e se


manifesta sobre proposições e assuntos ligados aos direitos inerentes ao ser humano,
tendo em vista o mínimo de condições à sua sobrevivência digna, ao exercício pleno
de seus direitos e das garantias individuais e coletivas. Sob um aspecto macro, objeti-
va-se capacitar e empoderar a população acometida frequentemente por violações de
direitos humanos. Desse modo, amplia-se o conceito de direitos humanos para além
das violações inerentes à violência física urbana.

Com base nesse princípio, em 2013, foi criada a atividade Ocupa Direitos Humanos.
A ideia é atuar no esclarecimento da população sobre a garantia dos seus direitos
para que de fato haja o exercício da cidadania. O Ocupa Direitos Humanos é uma
ação, portanto, busca-se a solução dos casos juntos aos órgãos competentes de pos-
síveis ausência ou violação de direitos. Nessa ação, a forma de atuação é basea-
da na busca de abertura de diálogo com lideranças e/ou pessoas de referência das
comunidades onde vai ocorrer a atividade. Além disso, viabiliza-se encontros nos
locais para a definição de estratégia coletiva, a partir das demandas comunitárias,
de atuação e acolhimento da população.

A última experiência ocorreu na comunidade do Caju, Zona Portuária do Rio de Janei-


ro no ano de 2015, com a presença da CDDHC Alerj junto com parceiros comunitários.
Foi realizado atendimento à população local, recolhendo denúncias e esclarecendo
qual a melhor maneira de obter soluções ou respostas do poder público para a viola-
ção de direitos enfrentadas na região. O tema será melhor descrito no capítulo 3 do
presente relatório.

Ao apresentar o papel da CDDHC, o capítulo seguinte, pretende abordar os temas


inerentes à violação dos direitos das mulheres. A escolha temática se justifica pelo
aumento da demanda relativa às mulheres no cotidiano do trabalho desenvolvido
pela Comissão.
2. As mulheres e
a violação de seus
direitos humanos

A
hierarquização das violações de direitos humanos é sempre arbitrária,
já que é desumano hierarquizar a dor. Ainda assim, em uma tentativa de
expressar minimamente o que representou a luta no âmbito do Rio de Ja-
neiro em 2015, o relatório da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e
Cidadania da Alerj optou por apresentar com destaque a atuação nas diversas viola-
ções dos direitos das mulheres. O objetivo não é dar conta da complexidade do tema,
já que seria necessário um relatório completo sobre o assunto e uma equipe técnica
organizada para tratar com prioridade as violações destinadas às mulheres. Desse
modo, a abordagem do tema versará sobre as demandas encaminhadas diretamente à
Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.

A violência contra a mulher é noticiada cotidianamente nos principais meios de comuni-


cação do Brasil e a sensação de que o número de casos está crescendo é comprovada pelo
“Mapa da Violência de 2015: Homicídio de Mulheres”. O Brasil figura o 5º lugar na taxa
de homicídio de mulheres (por 100 mil habitantes) na lista de 83 países. De acordo com
o estudo, entre 2003 e 2013, o número de vítimas do sexo feminino cresceu 21%. Em uma
década, passou de 3.937 para 4.762, dado que revela 13 assassinatos diários de mulheres.

A população negra é a principal vítima. O número de homicídios de mulheres ne-


gras aumenta 1.864 vítimas, em 2003, para 2.875, em 2013. Um aumento de 54,2%.
Já o assassinato de mulheres brancas cai de 1.747 vítimas, em 2003, para 1.576, em
2013. Uma queda de 9,8%. A faixa etária do feminicídio se concentra na juventude
de 18 a 30 anos.

Na contramão das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, que aumentaram as


taxas de feminicídio, o estudo revela uma queda do número de casos, entre 2003 e
2013, na região Sudeste de 13,9% e no Rio de Janeiro, especificamente, a taxa cai em
26,3%. Cabe ressaltar que entre 2006, ano da promulgação da lei Maria da Penha, e 2013,
apenas o Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Rondônia e Pernambuco registraram
quedas nas taxas de homicídios de mulheres.

O 9º Dossiê Mulher 2014 revelou, a partir das ocorrências registradas nas delegacias
policiais do Rio de Janeiro, que as principais vítimas de violência no estado são as
mulheres. A violência sexual é apontada com o maior percentual de registros. Em
2013, das 6.501 vítimas, entre homens e mulheres, 4.871 mulheres foram estupradas
(82,8%) e 556 mulheres sofreram tentativa de estupro (90,3%). O estudo demonstra
ainda, além do predomínio da mulher como vítima de estupro, a violência por meio
de ameaça e lesão corporal, e aponta como prováveis agressores seus companheiros
ou pessoas do convívio familiar.
20 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Esses dados demonstram a necessidade de ações urgentes para barrar o aumento da vio-
lência contra a mulher. No âmbito penal, depois da Lei Maria da Pena de 2006, em março
de 2015 foi sancionada a Lei do Feminicídio, que classifica como crime hediondo e agrava
a pena de acordo com a vulnerabilidade da vítima (menor de idade, gestante, entre ou-
tras). As duas iniciativas recebem duras críticas de movimentos sociais, principalmente
de mulheres, mas a ideia não é trazer à tona os questionamentos sobre estas leis. No en-
tanto, é importante observar que as principais iniciativas ocorrem no campo da punição e
não no campo da prevenção. Sendo assim, corre-se o risco da reprodução social da prática
punitivista que, ao invés, de se investir em políticas públicas que deem conta da preven-
ção de futuros atos violentos, apela-se para o encarceramento em massa.

A violência contra a mulher encontra maior visibilidade social quando se trata do fe-
minicídio. Seja por conta da cobertura midiática em torno dos homicídios ou mesmo
das políticas públicas destinadas a resolução do problema. No entanto, a violência
institucional acaba por ser invisibilizada. Há diversas arbitrariedades contra as mu-
lheres no âmbito dos Sistemas de Saúde e Penitenciário, além do Legislativo e repar-
tições públicas que deveriam prezar pelo cumprimento das leis vigentes. Estes temas
serão tratados nos itens seguintes.

2.1. DIREITOS REPRODUTIVOS DAS MULHERES

Quando a advogada Maíra Fernandes perdeu o filho de forma inesperada após um


pré-natal absolutamente bem feito, imaginava que sua dor fosse única. Porém, desco-
briu que essa dor é compartilhada em corações de diferentes mulheres. Os dados do
estado do Rio de Janeiro demonstram como a perda gestacional é mais frequente do
que se imagina, o que justifica a formulação de políticas públicas com o objetivo de re-
dução dessa realidade. Em 2014, foram registrados 20.242 casos de perda gestacional,
a soma de abortos espontâneos e óbitos fetais. Ocorreram cerca de 2.300 mortes de
bebês com mais de 750 gramas, e mais de 16.224 casos de aborto espontâneo durante
a gravidez. Comparativamente, foram nascidos vivos 233.607 bebês. A estatística mos-
tra que 20% das gestações no estado culminam em perda gestacional, sendo que esse
número pode ser o dobro devido a subnotificações causadas por mulheres que não
chegam a procurar unidades de saúde.

“Quando perdi o Antônio eu achei que eu era a única no mundo a sofrer aquilo. Mas,
por que isso aconteceu comigo e só comigo? Foi quando eu conheci o Do Luto à Luta,
o grupo Mães de Anjo, vi que não, eu não era a única. Eu descobri que uma, em cada
cinco gestações, não chega ao final, não tem o resultado vida que nós esperaríamos.
É um número bastante significativo. E percebi também porque o tratamento que eu
tinha recebido na clínica, um dos maiores hospitais do Rio de Janeiro, não era o trata-
mento que a maior parte das mulheres recebem”, afirmou Maíra na ocasião da audi-
ência pública realizada pela CDDHC.

A perda gestacional é um grande trauma para a mulher. Em muitos casos, o ambiente


hospitalar é insensível à dor das mães e o atendimento se torna desumano no mo-
mento mais frágil da família. As mulheres são atendidas em um local voltado para
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 21

celebrar a vida e a chegada de novos bebês, o que gera constrangimento à gestante


que acabara de perder seu filho: algumas são parabenizadas erroneamente, logo em
uma das situações mais sensíveis e delicadas da sua vida.

Com o intuito de debater o tema, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cida-
dania da Alerj realizou, em 15 de outubro de 2015, uma audiência pública em conjunto
com as Comissões de Defesa dos Direitos da Mulher e a de Assuntos da Criança, do
Adolescente e do Idoso. A data escolhida é justamente o Dia Nacional para a Sensibi-
lização da Perda Gestacional. A partir do encontro foi constatado o quão é invisível as
violações dos direitos humanos da mulher que perdem seus bebês (antes ou logo após
o nascer). O tratamento dado às famílias com perda gestacional nas redes de hospitais
públicos e privados, por médicos e enfermeiros, não compete com a gravidade e a dor
das mulheres. Na audiência, houve relatos de mulheres que saíram da sala de parto
para enfermarias compartilhadas com mães e recém-nascidos.

Há profissionais de saúde que de forma festiva as chamam de mamães mesmo depois


delas descobrirem que não mais serão, assim como há casos em que mulheres rece-
beram de presente bolsas com fraldas, roupinhas itens de higiene, o kit maternidade,
ofertado em parte da rede pública de saúde. Também há ocorrência de casos de mu-
lheres que têm negado o direito de olhar e segurar nos braços os filhos sem vida. São
sedadas e ficam sem apoio psicológico, físico e afetivo. É retirado o seu direito ao mo-
mento de luto e, às vezes, sequer tomam conhecimento da necropsia de seus bebês.

As mazelas da perda gestacional foram relatadas na audiência da CDDHC por mães


de natimortos, ONGs como Do Luto à Luta, Grupo de Apoio a Mães de Anjos, Superan-
do a Perda Gestacional, além de representantes das secretarias estadual e municipal
de Saúde; do Conselho Estadual de Direitos da Mulher; de maternidades públicas,
hospitais privados, e grupos feministas. Na ocasião, foi apontada a necessidade da
promoção de uma assistência integral à mulher, que precisa ser vista como sujeito
biopsicossocial, e não meramente como um útero. Por isso, a formação médica cen-
trada no procedimento precisa evoluir para ser focada no usuário desde a residência
médica à formação dos profissionais da área de enfermaria e técnicos de enfermagem.

Como resultado prático da audiência da CDDHC Alerj foi criada uma Proposta de
Emenda Constitucional (PEC) para ampliar a licença maternidade das mães e con-
cedê-la aos pais de natimortos. A PEC garante que o início da licença maternidade
seja contado a partir da alta da UTI da criança recém-nascida, e também estabelece a
licença de, no mínimo, 30 dias, e no máximo, de 90 dias, em caso de perda gestacio-
nal. Além disso, um grupo de trabalho foi criado para implementar no Estado do Rio
o protocolo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

2.2. PRECONCEITO IMPEDE O


ATENDIMENTO DE GESTANTES COM HIV

O atendimento às gestantes vivendo com HIV no estado do Rio de Janeiro também foi
uma questão levantada na audiência pública que debateu a perda gestacional. Dessa
22 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

forma, a Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj realizou, em


27 de novembro de 2015, a audiência pública “Gestantes vivendo com HIV/Aids, di-
reitos sexuais e reprodutivos”. A falta de capacitação de profissionais da rede pública
municipal e estadual para combater o estigma presente no meio social do diagnóstico
do HIV traz enormes prejuízos às gestantes no Sistema Único de Saúde.

De acordo com o Protocolo para Prevenção de Transmissão Vertical de HIV do Minis-


tério da Saúde, os serviços que hoje são considerados porta de entrada para o diag-
nóstico da infecção pelo HIV em gestantes no Sistema Único de Saúde são as Unida-
des básicas de Saúde, o Programa da Saúde da Família (Clínicas da Família no Rio) e
os Centros de Testagem e Aconselhamento. Estes são responsáveis pela captação das
gestantes para o pré-natal e realização de testagem para o HIV, mas há ainda relatos
de mulheres que descobrem ter o vírus no momento do parto, o que evidencia que este
item do protocolo não tem sido respeitado no Rio.

O subsecretário de vigilância em Saúde, Alexandre Chieppe, acredita que o estigma


social se configura como um obstáculo real à promoção de políticas públicas. Isto
porque impede o diagnóstico, o tratamento, o acesso ao serviço de saúde, motiva o
sub-diagnóstico, além de fomentar a ideia de que o tratamento se resuma ao acesso à
medicação. Atualmente, 106 mil pessoas foram identificadas vivendo com HIV/Aids
no Rio de janeiro, sendo 90% na região metropolitana.

Um dos casos relatados pela pesquisadora da ENSP/FioCruz, Priscilla Soares, foi o


de uma jovem de 27 anos que só descobriu sua condição de saúde após acordar na
maternidade com o seio enfaixado. Ao ouvir o bebê chorar e se perceber impedida de
amamentar, ela perguntou a uma enfermeira o que estava acontecendo. A resposta
da profissional de saúde foi: “se você tivesse feito o pré-natal, você saberia o que
têm”. Assustada, a jovem pegou a prancheta colada na cama e leu na lista de exames
realizados pelo hospital a informação: “HIV positivo”. “A jovem não recebeu nenhum
acolhimento médico e chorou sozinha sem saber como agir. A mulher com HIV/aids,
não pode amamentar”, afirmou Priscilla.

Ana Lúcia Pinheiro, ativista do Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas, que vive
desde 1992 com HIV, mostrou como cenário atual não se modificou muito ao longo
dos anos. “Descobri que sou soropositiva porque pedi para o médico fazer o exame.
Eu, que sempre ouvi da minha mãe que grávida não podia nem tomar dipirona, sai
com uma bolsa de remédios do posto. Quando chegou o momento do parto, ao falar
que era HIV positiva e que precisava de uma cesariana, vários lugares diziam que não
tinha chegado a hora. Segui andando procurando atendimento e só consegui fazer o
parto porque me calei ao perceber que estava sofrendo preconceito. Minha cirurgia foi
sem anestesia porque não dava tempo. Eu sentia o médico me cortar”, contou emo-
cionada Ana Lúcia.

O filho de Ana Lúcia tem 23 anos e, apesar de não ter conseguido um parto em condi-
ções adequadas, não houve transmissão vertical – de mãe para o filho no momento do
parto – do vírus HIV. Cerca de 65% dos casos de transmissão vertical do HIV ocorrem
durante trabalho de parto ou no parto propriamente dito.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 23

Outro assunto abordado durante o encontro foi dificuldade financeira do Hospital Uni-
versitário Gaffrée e Guinle que compromete o atendimento às pessoas que vivem com
HIV/Aids. O hospital é a principal referência no atendimento e acolhimento feito a ges-
tantes com HIV no Rio de Janeiro. Desde 2013, o deputado federal Jean Wyllys, tem
apresentado emendas para destinação de verba à unidade. Já foram fechados 106 leitos
e somente 20 cirurgias diárias de baixa complexidade são realizadas por conta da situ-
ação falta de financiamento público do Ministério da Educação (MEC). Atualmente, se-
gundo o diretor da unidade, Fernando Ferry, o orçamento destinado é de R$ 22 milhões.
Porém, o orçamento ideal é de R$ 60 milhões para o funcionamento pleno do hospital.

Mediante ao exposto, como encaminhamento da audiência pública, Marcelo Freixo,


presidente da CDDHC Alerj, propôs a apresentação de Projeto de Lei que prevê a im-
plementação do Protocolo para Prevenção de Transmissão Vertical de HIV, e a forma-
ção de um grupo de trabalho para construção de propostas legislativas em todos os
níveis para incorporação do Protocolo do Ministério da Saúde.

Uma emenda parlamentar, já aprovada em primeira sessão, em favor da Secretária de


Saúde, com vistas à capacitação de servidores no atendimento às gestantes com HIV/
aids, também foi apesentada à Alerj.

2.3. O ACIRRAMENTO DA
CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES

O processo de criminalização das mulheres ganhou contornos conservadores na


política institucional em 2015. No âmbito da política nacional, houve apresentação
do PL 5069, que dificulta o acesso ao aborto legal à mulher vítima de estupro. Já no
estado do Rio de Janeiro, a Resolução N.° 5/2015 criou na Assembleia Legislativa do
Rio de Janeiro (Alerj) a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a “inves-
tigar e apurar os interesses em incentivar e financiar a prática do aborto no estado,
o comércio de produtos e as clínicas que fazem o procedimento”, composta por seis
deputados e uma deputada.

A CPI foi criticada por diversos movimentos de mulheres que questionaram o fato de
a CPI não ter analisado a quantidade de internações de mulheres na rede pública de
saúde em decorrência de abortos espontâneos ou induzidos, ou de óbitos de mulheres
causados pela falta de acesso a métodos abortivos mais seguros, gratuitos e legais.
No dia 14 de outubro de 2015 foi lido o voto do relator, contendo os encaminhamen-
tos propostos para a CPI. Uma das ações propostas encaminhadas à ANVISA busca
inviabilizar e proibir a regularização e comercialização dos medicamentos Cytotec e
Misoprostol por estabelecimentos farmacêuticos. Isso impactará os pacientes que fa-
zem uso regular de tais medicamentos, tendo em vista que não são utilizados somente
para a indução de abortamentos ou procedimentos considerados ilegais, mas para o
tratamento de outras condições perfeitamente legais.
  
O encaminhamento final do relatório propõe a apresentação de um Projeto de Lei
que obriga funcionários de clínicas, hospitais e consultórios a comunicarem imedia-
24 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

tamente às autoridades policiais os casos de ocorrência de aborto na rede de saúde


pública estadual, mesmo os abortos espontâneos (em decorrência de causas natu-
rais). O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj,
deputado Marcelo Freixo, apresentou em conjunto com outros deputados, uma emen-
da para que fosse suprimida do relatório a indicação que prevê a elaboração de um
Projeto de Lei (PL) que leva a maior penalização da prática do aborto. Uma vez que
este sacrifica até os casos de aborto previstos em lei e os de aborto espontâneo, o que
se configura em uma exposição degradante e tortura psicológica às mulheres que já
estão fragilizadas.

2.3.1. ENTREVISTA: FERNANDA GARCIA

“O aborto é uma marca que


a mulher carrega por toda vida,
ela não faz isso feliz”

Arquivo pessoal

Fernanda Garcia aposta na


mobilização de mulheres para
barrar iniciativas que violem
o direito feminino sobre seu
corpo e sua vida

A
guerrida na luta pela descriminalização do aborto, Fernanda Garcia, de 20
anos, encontra na mãe, nordestina sangue-quente e pastora, os princípios
para a defesa da saúde e vida da mulher. “Minha mãe teve câncer no útero
há cinco anos e o SUS demorou mais de um ano para entregar o primeiro exame que
diagnosticava o câncer. A polícia tem que ser acionada nesses casos em que a pes-
soa espera um ano para ter acesso a um exame que vai fazer a diferença entre a vida
e a morte, e não quando uma mulher sofre um aborto para criminalizá-la em um
momento difícil”, afirma. De acordo com Fernanda, a discussão sobre a saúde pú-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 25

blica é estratégica para a garantia dos direitos reprodutivos das mulheres. A jovem
estudante de Comunicação, que vive na Cohab mas se identifica como moradora da
Maré por sua militância local, descobriu-se feminista por essência, uma vez que,
mesmo sem saber das discussões teóricas sobre o assunto, já criticava os abusos
cometidos contra as mulheres. Fernanda foi uma das pessoas que participaram ati-
vamente do processo de mobilização de rua e redes sociais contra os encaminha-
mentos propostos pela CPI do aborto.

CDDHC: Fale um pouco sobre a mobilização de mulheres contra a CPI do Aborto.


Fernanda: No final de 2015, por volta de outubro e novembro, chegou ao Meu Rio o
conhecimento sobre a pauta da CPI do Aborto e o relatório que seria votado na Alerj.
O Meu Rio trabalha com uma rede de mobilizações na cidade para a participação
política da sociedade civil. Chegou essa pauta para que a gente fizesse alguma coisa
para barrar esse relatório, tendo em vista que trazia muito retrocesso ao direito das
mulheres. Estávamos presentes na votação do Relatório, mas infelizmente não con-
seguimos barrar a sua aprovação. O dia coincidiu com o primeiro ato da Primavera
das Mulheres, que foi uma manifestação contra o Eduardo Cunha. Depois da apro-
vação, pensamos em estratégias para retirar do texto final as indicações de novos
projetos de lei.

CDDHC: Quais são os questionamentos pontuais contra o relatório da CPI do Aborto?


Fernanda: O maior problema foi a inclusão de um projeto de lei que tenta criminali-
zar ainda mais o aborto. O projeto previa que todas as mulheres que dessem entrada
no hospital em situação de aborto espontâneo ou induzido, a unidade de saúde te-
ria que acionar a Polícia Militar. E a mulher seria interrogada diante da situação de
aborto. Um absurdo completo. Porque o aborto nunca é uma situação confortável. E
entendemos que a Polícia Militar do Rio de Janeiro não é preparada e não é sensível
para lidar com essas circunstâncias. Não faz qualquer sentido.

CDDHC: Quais foram as pessoas que vocês conseguiram mobilizar?


Fernanda: Depois da aprovação do relatório, fizemos uma plataforma na internet
chamada “Mulheres Mobilizadas” para que as pessoas indignadas com essa situação
pudessem se inscrever para organizar atividades. Mais de 800 mulheres foram ins-
critas e um grupo de ação foi criado contra a CPI do Aborto. Pensamos em diversas
táticas para pressionar os deputados a não aprovarem o projeto de lei que estava no
relatório. Uma das táticas muito utilizada pelo Meu Rio é a ligação para os gabinetes
e, a partir dos telefones dessas mulheres, foi criado um grupo no WhatsApp com uma
ferramenta chamada Twillo para elas ligarem de graça para os gabinetes. E durante
uma semana ligamos para todos os deputados e conversamos sobre todo o processo
da CPI que não ouviu as mulheres. Além da CPI ter sido formada basicamente por
homens, as mulheres não foram ouvidas.

CDDHC: E como está esse processo?


Fernanda: A Alerj entrou em recesso e o relatório não voltou para a pauta em 2015.
Mas no início de 2016 foi proposta uma emenda ao relatório para retirar o projeto de
lei, o que já representaria uma vitória. Então, estamos esperando que esta emenda
seja aprovada.
26 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

CDDHC: Quais são os próximos passos?


Fernanda: A partir da CPI do Aborto acabamos criando uma comunidade muito
grande de mulheres que querem fazer coisas por outras mulheres e querem continu-
ar lutando na causa. O ano de 2015 foi bem recheado de manifestações e mobiliza-
ções em defesa dos direitos das mulheres, seja à cidade, à saúde entre outras coisas.
Por isso, criamos o Circuito de Mulheres Mobilizadas que reúne pessoas da cidade
inteira com ações em todos os territórios e já estamos pensando nas próximas táti-
cas para a CPI do aborto, que é algo mais concreto, mas não encerra os temas da luta
pela vida das mulheres.

CDDHC: Como você vê o papel da Comissão de Direitos Humanos da Alerj no


debate sobre o aborto?
Fernanda: O papel da Comissão de Direitos Humanos foi muito importante, e talvez
fundamental nessa articulação. Por dar uma pouco mais de voz para a gente que não
tinha. Lidando com os parlamentares no dia-a-dia de uma forma mais articulada do
que nós mulheres que somos da sociedade civil. Acredito que se não fosse essa articu-
lação de todas as mulheres que fazem parte da Comissão e dos mandatos, a gente não
conseguiria ter colocado esta emenda em pauta.

CDDHC: Por que o aborto ainda é um tabu para a sociedade?


Fernanda: Há um grande problema com a saúde pública em geral. E enquanto a saú-
de é um problema, o aborto vai ser um problema. As pessoas não conseguem entender
que o aborto está totalmente relacionado à péssima qualidade da saúde pública. E
ainda existe um debate muito fundamentalista e conservador com relação ao aborto.
A religião está muito em cima desse tema e isso coopera para ser um tabu. É preciso
entender que é uma questão de saúde pública e que a mulher tem o direito ao aborto
seguro. Mesmo as mulheres que estão dentro das igrejas vão fazer o aborto se precisa-
rem, nenhuma mulher deixa de abortar porque é proibido. Elas abortam porque, in-
felizmente, precisam abortar. É preciso compreender também que se um dia o aborto
for legalizado ninguém vai sair por aí abortando. O aborto é uma marca que a mulher
carrega por toda vida, ela não faz isso feliz.

2.4. MULHERES NO SISTEMA PRISIONAL

Como afirmado anteriormente, a população carcerária fluminense é predominante-


mente masculina (89,5%). Mas o número de mulheres encarceradas também cresceu
no Brasil. Entre 2000 e 2014, passou de 5.601 para 37.380 detentas, um aumento de
576% em 15 anos. Os dados integram o Infopen Mulheres1, levantamento nacional de
informações penitenciárias do Ministério da Justiça. Em números absolutos, o Brasil
teve, em 2014, a 5º maior população de mulheres encarceradas do mundo, ficando
atrás dos Estados Unidos (205.400 mulheres presas), China (103.766), Rússia (53.304)
1. Disponível em http:// e Tailândia (44.751).
www.justica.gov.br/noticias/
estudo-traca-perfil-da-
Das mulheres presas no país, 68% possuem vinculação penal por envolvimento com
populacao-penitenciaria-
feminina-no-brasil/relatorio- o tráfico de drogas. A maioria delas ocupam uma posição coadjuvante no crime, re-
infopen-mulheres.pdf alizando serviços de transporte de drogas e pequeno comércio; muitas são usuárias,
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 27

sendo poucas as que exercem atividades de gerência do tráfico. Neste sentido, as mu-
lheres presas acabam ficando em segundo plano para o gestor do sistema, o que leva
ao descaso histórico observado no que diz respeito às condições necessárias peculia-
res das mulheres nas unidades prisionais.

Em diversas visitas aos presídios femininos, a CDDHC e o Mecanismo Estadual de


Prevenção e Combate à Tortura (MECPT) puderam constatar a falta de material de
higiene pessoal, especialmente absorventes, e a inexistência de ginecologistas nas
unidades femininas. Há ainda o abandono destas mulheres pelos seus companheiros,
o que implica na ausência de visitação e, consequentemente, do recebimento de itens
de uso pessoal que normalmente são fornecidos pelos familiares. No Rio de Janeiro,
as mulheres representam 10,5% da população carcerária.

A equipe do MECPT esteve no Talavera Bruce, no Complexo de Gericinó, no dia 29 de


setembro de 2015. A unidade tem capacidade para 299 mulheres, mas contava com
375. Havia 27 grávidas na penitenciária. Além da falta de assistência médica, elas re-
clamaram da má qualidade da alimentação. A última refeição é servida às 17h. Outras
violações de direitos humanos foram constatadas, com destaque para o caso da inter-
na Bárbara Oliveira de Souza, que no dia 11 de outubro deu à luz sozinha em uma cela
de isolamento. As internas da unidade relatam que Bárbara passou a noite gritando e
só foi atendida no dia seguinte. Segundo as presas, Bárbara deixou o pavilhão com o
cordão umbilical pendurado e a placenta ainda dentro de seu útero.

“É inadmissível não existir uma ginecologista no Talavera Bruce. Não dá para assistir
isso. O desmonte da área de saúde dentro do sistema penitenciário é um absurdo.
Não é de agora, ele é estrutural. O caso da Barbara veio a público, mas nos 27 anos
que acompanho o sistema penitenciário, assisti há outros casos de presas grávidas
parecidos. Não é um caso único”, criticou Marcelo Freixo, presidente da CDDHC Alerj.

As condições sobre às quais as mulheres grávidas estão submetidas foi tema de audi-
ência pública da CDDHC em parceria com a Comissão dos Direitos da Mulher, em 9 de
novembro de 2015. Na ocasião, foi apresentada a pesquisa de Saúde Materno-Infantil
nos Presídios, feito pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, entre fevereiro
de 2012 a outubro de 2014. Uma das violências mais graves destacadas pelo estudo é
o alto índice do uso de algemas durante o trabalho de parto. Das mulheres entrevista-
das, 86% foram algemadas no pré-parto e 91,6% após o parto. “É uma violência direta
a mulher que não pode ao menos segurar a criança, além de uma violência ao bebê.
A mulher está presa, mas a criança é livre, é um cidadão livre que precisa do amparo
materno”, ressaltou a pesquisadora, Maria do Carmo Leal.

No Dia internacional dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro, a Alerj aprovou o


Projeto de Lei 504/2015, de autoria de Marcelo Freixo e outros deputados, que proíbe
o uso de algema durante o trabalho de parto da detenta, no Sistema Prisional, e da
interna no Sistema Socioeducativo. A lei é um avanço na garantia dos direitos das
mulheres, já que viabiliza o tratamento digno. O uso de algemas só será permitido em
casos de resistência, possibilidade de fuga ou de perigo à integridade física própria ou
alheia, por parte da detenta ou de terceiros.
28 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

O Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), emitiu nota técnica declarando
apoio ao Projeto de Lei 504/2015. De acordo com o documento, a Resolução 3/2012, do
Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), veda a utilização de
algemas ou outros meios de contenção em presas parturientes no momento em que se
encontram em procedimentos cirúrgico de parto ou em trabalho de parto natural e no
período de repouso subsequente ao parto. A mesma medida já havia sido aprovada no
Estado de São Paulo através do Decreto nº 57.783, que ressalta a consideração de que
a presa em trabalho de parto não apresenta risco de fuga. Em 2013, o Estado de São
Paulo foi condenado a indenizar uma presidiária que foi algemada pelos braços e pés
antes, durante e após o parto.

Na Audiência pública realizada pela CDDHC Alerj também foi encaminhado a cria-
ção de uma indicação legislativa para que, no âmbito no Tribunal de Justiça (TJ-RJ),
seja implementado um dispositivo de audiência especial, a exemplo da audiência de
custódia, em caso de descoberta de gestação no sistema prisional. Além da criação de
um projeto de lei que prevê um campo no sistema de informática da Polícia Civil para
inclusão de dados de eventuais gestação e condição de maternidade de mulheres com
filhos pequenos, no auto de prisão em flagrante. O objetivo é disponibilizar esse dado
ao juiz possibilitando, no momento das audiências de custódia, uma análise que per-
mita à mulher a aguardar o julgamento em liberdade ou em prisão domiciliar.

2.4.1. MULHERES GRÁVIDAS PRESAS:

O cotidiano de sofrimento
e risco de vida para mães e bebês
*Por Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro

O
Brasil vive um grave processo de superencarceramento de sua população.
Segundo dados do Infopen1, enquanto o crescimento da população brasi-
leira é de 1,1 % ao ano, o aumento da população encarcerada no país é de
7 % ao ano. Vivemos nos últimos 20 anos, um crescimento de 136 % da população
encarcerada no país, chegando a mais de 600 mil pessoas privadas de liberdade, em
2015. Atualmente, temos a quarta maior população prisional do mundo, e mantido
1. InfoPen – Levantamento
Nacional de Informações esse patamar de crescimento, em 2018 ultrapassaremos a Rússia, assumindo o ter-
Penitenciárias 2014. ceiro lugar no ranking.

2. Unidades mistas recebem


A análise dos dados sobre a população carcerária no Brasil, evidencia um crescimento
presos de ambos os sexos e os
separam por prédios, alas ou ainda maior do número de mulheres presas. Apesar de corresponderem a menos de 7 %
galerias, não sendo permitida da população prisional, o número de mulheres encarceradas nos últimos 15 anos so-
a permanência na mesma cela, freu um aumento superior a 500 %, mais que o dobro dos homens. Este crescimento
nem em atividades conjuntas.
vertiginoso jogou luz sobre a questão do encarceramento feminino, suas consequ-
Não há unidades penitenciárias
mistas no Estado do Rio de ências sociais e suas formas de execução. Cabe lembrar que no país apenas 7 % das
Janeiro. unidades prisionais é feminina, existindo ainda 17 % de estabelecimentos mistos.2
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 29

O MEPCT/RJ3 escolheu, para seu relatório temático de 2015, abordar o tema das meni-
nas, mulheres e a privação de liberdade4. No Rio de Janeiro, as mulheres correspon-
dem a 10,5 % do total de pessoas presas, número acima da média nacional. No Rio de
Janeiro existem cinco unidades femininas para o cumprimento em regime fechado5.
A Penitenciária Talavera Bruce, localizada no Complexo Penitenciário de Gericinó, é
a unidade de referência para mulheres grávidas, que ficam em celas separadas das
demais, a Unidade Materno-Infantil, no mesmo complexo penitenciário, é onde ficam
as mulheres presas com bebês até seis meses de vida.

Urge dar visibilidade para a temática do encarceramento de mulheres no Brasil, em


especial das que vivem o momento da gestação e do aleitamento materno. Todo pro-
cesso maternal deve ser considerado em sua delicadeza, com monitoramento e cuida-
3. Mecanismo Estadual de
dos de equipes especializadas para mãe e bebê. O momento da maternidade é pleno
Prevenção e Combate à Tortura
de complexidade, particularidades e intensidades subjetivas, que demandam sensibi- do Rio de Janeiro.
lidade aos variados afetos e necessidades experimentados durante a gestação e após
o nascimento. Entendendo assim a maternidade, é possível afirmar que toda gestação 4. O relatório aborda
a questões referentes
vivida no sistema prisional causa grave sofrimento para mãe e bebê, configurando,
às mulheres presas, às
portanto, uma gravidez de risco. mulheres que visitam
presos nas unidades e às
De acordo com uma pesquisa divulgada em 2015 sobre mulheres em privação de li- mulheres travestis presas e
às adolescentes cumprindo
berdade no Estado do Rio de Janeiro, com foco nas mulheres grávidas e com filhos no
medida socioeducativa em
cárcere, é possível identificar as principais características em comum das mulheres meio fechado no Estado.
grávidas encarceradas no Estado do Rio de Janeiro:6
5. As unidades referidas são:
Cadeia Pública Joaquim Ferreira
“Elas são negras (77 % negras/pardas), solteiras (82 %), tem entre
Nelson Hungria, Presídio Nilza
18 e 27 anos (78 % tem até 27 anos); com baixa escolaridade (75,6 % da Silva Santos, Penitenciária
não possuem o ensino fundamental completo e 10% não são alfa- Talavera Bruce e Unidade
betizadas). Metade delas estava trabalhando na época em que foi Materno Infantil – Madre Tereza
de Calcutá.
presa (85 % sem carteira assinada), a maioria era responsável pelo
sustento do lar. Quase metade (46,3 %) afirmou estar sendo pro- 6. Mulheres e crianças
cessada/ter sido condenada pelo crime de tráfico de drogas, sendo encarceradas: um estudo
este o delito preponderante, seguido do crime de roubo. A grande jurídico-social sobre a
experiência da maternidade
maioria (70 %) é primária.”
no sistema prisional do Rio de
Janeiro.
Nas diversas visitas que o MEPCT/RJ já fez à Penitenciária Talavera Bruce7 (PTB) foi
possível constatar às péssimas condições de vida para as mulheres internas da unida- 7. Para informações sobre esta
e outras unidades femininas
de e como a assistência, de forma geral, prestada às mulheres grávidas têm mantido
da SEAP/RJ ver Relatório
em risco as vidas de mães e bebês.8 Mulheres, meninas e privação
de liberdade do MEPCT, 2015.
Às mulheres grávidas presas na PTB não é garantida assistência pré-natal suficien-
8. No dia 11 de outubro
te, descumprindo as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Organização
de 2015, uma presa que
Mundial da Saúde (OMS)9. Além disso, as grávidas não recebem alimentação es- estava sozinha numa cela do
pecífica e não tem refeições diárias com a frequência suficiente para garantir uma isolamento da unidade deu à
gestação e um desenvolvimento saudável para ela e o bebê. No contato durante luz ao seu filho sem receber
qualquer assistência.
as visitas, são muitas as reclamações sobre a má qualidade da comida, da falta de
materiais de higiene pessoal e para as celas, além dos maus tratos na unidade, 9. Caderno da Atenção Básica,
humilhações e xingamentos. Número 32.
30 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Especialmente grave, são os relatos de violações cometidas pelo SOE10, que utiliza
sistematicamente algemas em grávidas, mesmo quando encaminhadas ao Hospital
ou Maternidade. A utilização de algemas, muitas vezes, é mantida durante o trabalho
de parto, nos primeiros momentos após o parto e no retorno para a unidade. Às mu-
lheres presas não é garantido o direito a um acompanhante na hora do parto, como
determina a Lei do acompanhante.11

Segundo a pesquisa citada, entre as grávidas presas na Penitenciária Talavera Bru-


ce, 70,9% respondem por crimes relacionados ao tráfico de drogas, índice superior,
inclusive, a média nacional. A situação de encarceramento de gestantes e mães traz
danos psicológicos e sociais que são potencializadas pelas precárias condições das
prisões brasileiras. No entanto, apesar de prevista em legislação12, muitas vezes não
tendo sido determinadas pelos juízes e juízas no Brasil a substituição da prisão pre-
ventiva pela domiciliar para mulheres grávidas.

Existem, portanto, contradições marcantes sobre a pertinência do atual modo de en-


carceramento das mulheres no Brasil, em especial para gestantes A apesar dos evi-
dentes danos sociais e psicológicos causados pela prisão de uma mulher, especial-
mente as gestantes, as mulheres brasileiras têm ido “parar atrás das grades”, sem que
se apresentem alternativas a pena de privação de liberdade.

BIBLIOGRAFIA

BOITEUX, L, FERNANDES, M., PANCIERI, A. e CHERNICHARO, L. - Mulheres e


crianças encarceradas: um estudo jurídico-social sobre a experiência da maternidade
no sistema prisional do Rio de Janeiro – Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ.
2015. RJ.

10. Serviço de Operações


Especiais da Secretaria de BRASIL - Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias. (INFOPEN –
Administração Penitenciária, 2014) – Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) - Ministério da Justiça (MJ).
responsável pelo transporte de
presos e presas.
________ - Cadernos da Atenção Básica N.° 32 - MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria
11. Lei 11.108, de 07 de abril de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica – Brasília 2012.
de 2005. Altera a Lei no 8.080, ________ - Lei 11.108, de 07 de abril de 2005.
de 19 de setembro de 1990,
para garantir às parturientes
o direito à presença de
acompanhante durante o
trabalho de parto, parto e pós- 2.5. POLICIAIS MULHERES
parto imediato, no âmbito do ASSEDIADAS SEXUALMENTE
Sistema Único de Saúde - SUS.

O assédio sexual é caracterizado por constrangimento e/ou uso da força. Ele é movido
12. Como prevê o art. 318, IV,
Código do Processo Penal. pela hierarquia, não só militar. É o que mostra os relatos presentes nas corregedorias
das delegacias e quartéis. São tão frequentes que o Fórum Brasileiro de Segurança
13. Disponível em <http://www. Pública e a Fundação Getúlio Vargas realizam pesquisa13 sobre o tema. Os dados re-
forumseguranca.org.br/files/
velaram que: 40% das entrevistadas disseram já ter sofrido assédio moral (74,5%) ou
files/MulheresInstituicoes
Policias_final.pdf> sexual (25,5%) no ambiente de trabalho.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 31

Em maior parte dos casos, quem assedia é um agente de hierarquia superior. O levan-
tamento foi feito com mulheres das guardas municipais, pericia criminal, Corpo de
Bombeiros e das Policias Civil, Militar e Federal. Tudo de forma anônima. Somente
11,8% das mulheres denunciam as ocorrências de abuso.

Em 16 de novembro, as comissões de Direitos Humanos e de Segurança Pública da


Alerj realizaram uma audiência pública para discutir o assédio sexual sofrido por po-
liciais militares mulheres. O encontro foi motivado pela denúncia anônima feita por
uma PM da Unidade de Polícia Pacificadora do Santa Marta, que acusou um sargento
de tê-la assediado. Das 3.850 mulheres da PM, cerca de 750 trabalham em bases das
Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). No Santa Marta, há 16 mulheres, incluindo a
comandante, tenente Tatiana Lima.

Após a denúncia, outras cinco policiais mulheres prestaram depoimento na 8ª Dele-


gacia de Polícia Judiciária Militar. Duas delas confirmaram a agressão. Uma das PMs
afirmou que tinha medo de denunciar o sargento por ele ser um superior hierárquico
e responsável por supervisionar as atividades da tropa.

De acordo com reportagem publicada pelo jornal Extra14, que teve acesso a um dos
depoimentos, o policial assediador, remanejava as mulheres para poder ficar sozinho
com elas na base. “Por várias vezes, quando estava escalada na tropa no policiamento
ordinário, ele remanejava para a base na intenção de assediar, pois se privilegiaria do
seu poder de manipulação”, informa parte do texto publicado pelo jornal.

Na audiência realizada pela CDDHC na Alerj, o corregedor da PM, coronel Victor Yu-
nes, não deu detalhes sobre o andamento do processo, mas afirmou estar em fase de
conclusão. Yunes disse que a polícia não tolerará casos de assédio sexual e punirá os
envolvidos. Também participou da audiência o presidente da Associação de Praças,
Vanderlei Ribeiro.

O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, de-


putado estadual Marcelo Freixo, defendeu que crimes como este sejam tratados desde
os cursos de formação de forma pedagógica, para preveni-los.
14. Disponível em <http://extra.
O capítulo seguinte pretende abordar as violações e os impactos das transformações globo.com/casos-de-policia/
urbanas do Rio de Janeiro com vistas aos Jogos Olímpicos de 2016. A sessão também corregedoria-da-pm-investiga-
se-sargento-tentou-beijar-
apresentará a violência e discriminação contra a população LGBTT, além da intole-
forca-policiais-mulheres-da-
rância religiosa. O capítulo abordar temas relativos à juventude e a cultura do medo, upp-santa-marta-17877402.
e a mobilização pelo direito à livre circulação na cidade. html>.
3. Cidade e Região
Metropolitana:
Impactos sociais das
obras olímpicas

N
os últimos 10 anos, o Rio de Janeiro tem sofrido com inúmeras transforma-
ções urbanas que refletem um novo processo de mercantilização da cida-
de. Bairros antes abandonados se convertem paulatinamente em áreas eli-
tizadas. Esses espaços concentram parte significativa dos investimentos,
além de tornarem-se cada vez mais caras e excludentes. Novas centralidades são cria-
das que, por sua vez, demonstram a progressiva descaracterização da paisagem urba-
na carioca em nome de uma imagem de cidade global. Sediar megaeventos esportivos
está neste rol de ações da gestão pública que busca estruturar o Rio de Janeiro para os
interesses econômicos, políticos e sociais, ligados à perspectiva do empreendedoris-
mo neoliberal, produzindo reflexos dramáticos para populações locais.

Dois impactos sociais ganham relevância em termos de violação de direitos humanos:


despejos forçados e controle repressivo e discriminatório em nome da ordem pública.
Este ano em relação aos despejos, casos antigos ganharam destaque, ou melhor, se
mantiveram sofrendo os efeitos sociais das intervenções urbanas, apesar do processo
de resistência: Vila Autódromo, na zona oeste, e Metrô-Mangueira, na zona norte.

O Parque Olímpico em Jacarepaguá e o Estádio do Maracanã são dois exemplos do


dito legado que, por enquanto, tem se revertido mais em conflitos no contexto urbano
onde estão inseridos do que de fato uma herança positiva para as pessoas. Desde o
anúncio da construção do Parque Olímpico, os moradores e moradoras de Vila Au-
tódromo têm sofrido com os impactos das obras, além do assédio e a pressão para
desocupação da área. Mesmo com o fato de grande parte das famílias dotarem de
concessão de uso para fins de moradia, ou seja, a regularidade da posse em área de-
nominada pelo Plano Diretor da cidade como uma Área Especial de Interesse Social
(AEIS), a prefeitura do Rio de Janeiro se engajou em estratégias de desmobilização da
resistência histórica da população local. Além disso, provocou a constituição de um
ambiente urbano insalubre e precário, devido às inúmeras demolições inadequadas
das casas das famílias que negociaram sua saída.

De acordo com depoimentos de moradores à Comissão de Defesa dos Direitos Huma-


nos e Cidadania da Alerj (CDDHC), essa situação tem favorecido a renúncia da posse
da maioria das famílias que hoje já não mais residem em Vila Autódromo. No entanto,
há ainda aqueles que se mantém resistentes, mesmo em condições adversas e com o
aumento da pressão da prefeitura para que saiam da comunidade. Estes assinaram
documentos registrando junto ao Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública
do Estado que desejam ficar. O órgão atua na defesa jurídica dessas famílias. Infeliz-
34 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

mente, houve o caso de uma liderança reconhecida da comunidade que se viu obriga-
da a negociar. Jane Nascimento morava em uma casa que estava na rota das obras de
acesso ao Parque Olímpico e, por isso, aos poucos, as obras de drenagem avançaram
o entorno de sua residência, impondo uma situação de risco e vulnerabilidade à sua
família. Sem contar os escombros de casas demolidas e a construção de uma torre
espelhada nas proximidades que compunham um cenário totalmente insalubre.

A saída de Jane da Vila Autódromo ganha mais dramaticidade já que figura como
uma das moradoras mais engajadas na resistência, vindo a se articular com outros
movimentos de moradia e lideranças de favelas atingidas por processos de despejos,
em função de obras ligadas aos megaeventos esportivos. É importante ressaltar, que
algumas vezes em reunião com os moradores, a prefeitura declarou que garantiria a
permanência das pessoas que desejam ficar no local. Inclusive, há um Plano Popular,
construído em conjunto com a universidade, que já foi revisado pela situação atual
com uma proposta de urbanização da área. Mas essas iniciativas têm sido ignoradas
pelo poder público.

O CCDHC tem acompanhado o caso, sobretudo por conta dos despejos violentos ocor-
ridos com apoio da Guarda Municipal, com destaque para o ocorrido em junho quan-
do sete pessoas ficaram feridas. Nesse episódio, houve uma autorização judicial para
demolir dois imóveis, ignorando uma decisão judicial que suspendia a ação de imis-
são de posse, de acordo com a Defensoria Pública do Estado. Ademais, os serviços
mais básicos à população, como o fornecimento de água e eletricidade, são sistema-
ticamente cortados devido às obras do Parque Olímpico, assim como as árvores ao
lado do terreno que protegiam a comunidade, radicalizando ainda mais o processo
de precariedade na qual os moradores de Vila Autódromo estão submetidos a viver.
O corte e a trituração das árvores centenárias foram permitidos pela Secretaria Muni-
cipal do Meio Ambiente, em uma área próximo a Lagoa de Jacarepaguá que, por sua
vez, está sob jurisdição do estado. Além disso, o corte de árvore é totalmente ilegal.
No limite é possível a poda, mas nos seguintes casos: retirada de galhos que coloquem
em risco a segurança das pessoas, eliminação de ramos doentes e adequação do de-
senvolvimento da planta a espaços, edificações e equipamentos urbanos do entorno,
como postes e fios elétricos.

Além de Vila Autódromo, a CDDHC acompanhou a situação da favela Metrô-Manguei-


ra. Apesar de não terem viabilizado um estacionamento para a Copa do Mundo no
terreno da favela, próximo ao Maracanã, esse ano houve um processo de despejos
forçados e demolições de casas na área. Antes da Copa do Mundo, a comunidade ha-
via praticamente desaparecido, restando algumas dezenas de famílias que resistiram
ao processo violento de remoção. Em 2015, a justificativa foi abrir espaço para um
polo automotivo e um centro comercial com lojas de autopeças e borracharias que já
existem na região. Contudo, havia um acordo entre comerciantes e prefeitura que os
imóveis só seriam demolidos após a construção do referido polo, em substituição às
oficinas lá existentes, entretanto, em maio de 2015, houve a demolição ilegal do ferro
velho local, por muitos considerado a alma da comunidade, pois permitia que muitas
famílias tivessem alguma renda. Neste mesmo dia, oito casas foram demolidas. Al-
gumas das famílias que perderam as casas não puderam nem retirar seus pertences
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 35

das residências, uma vez que não houve prévia comunicação e, no momento da ação,
encontravam-se nos seus respectivos trabalhos.

Tais fatos geraram uma revolta na comunidade que passou a hostilizar os agentes da
Secretaria de Ordem Pública. Imediatamente, estudantes da Uerj, que se encontravam
em assembleia no Campus do Maracanã, se solidarizaram com os moradores e deli-
beraram o apoio à manifestação dos moradores, com os quais pretendiam bloquear a
avenida Radial-Oeste e se dirigiram para a favela. Os estudantes foram recebidos pelo
Grupamento de Operações Especiais da Guarda Municipal (Goe) com gás lacrimogê-
neo, spray de pimenta e balas de borracha. Diante da violência da Guarda Municipal,
os estudantes buscaram proteção dentro do campus da UERJ, mas os seguranças os
impediram de entrar. Com o uso de violência física e jatos de água, o Goe danificou a
entrada do prédio e gerou um grande tumulto que potencializou a revolta de todos. O
tumulto durou algumas horas na Uerj e outras tantas na favela, tendo a comunidade
fechado a Radial Oeste, uma das vias mais importantes da zona norte do Rio.

No dia seguinte, tratores e caminhões da Companhia de Limpeza Urbana do Rio


(Comlurb) estiveram no local para recolher o entulho das demolições do dia anterior
mas foram impedidos de entrar na comunidade. Os moradores entendiam que esta
ação facilitaria o acesso de retroescavadeiras a outras residências, o que permitiria
novas demolições em outras oportunidades. Os ânimos só voltaram à normalidade
com a notícia de que o Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública conse-
guira uma liminar proibindo a prefeitura de realizar novas demolições de residên-
cias no local.

Outro impacto importante é o chamado Projeto de Revitalização da Marina da Glória.


A CDDHC realizou uma audiência pública, em junho de 2015, para ouvir as denúncias
da sociedade civil acerca das irregularidades do projeto. Foram convidados o Insti-
tuto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Superintendência de Pa-
trimônio da União (SPU), a Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro
(Cedae), o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), a União das Nações Unidas para a
Educação, Ciência e Cultura (Unesco) no Brasil, a Secretaria Municipal de Conser-
vação e a Br Marinas, empresa responsável pela concessão adquirida da MGX (com-
pra de concessão considerada ilegal), do empresário Eike Batista; além de pessoas
da sociedade civil organizada, a saber: Associação de Usuários da Marina da Glória
(Assuma), Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro, Federação de Associações
de Moradores do Rio de Janeiro (FAM-Rio) e Ocupa Marina. Todos da sociedade civil
compareceram, e apenas Cedae e a SPU se apresentaram para a audiência.

As motivações para a organização dessa audiência em 2015 se deu pela autorização


por parte da Secretaria Municipal do Meio Ambiente autorizar o corte de 298 árvores
do Parque do Flamengo nos arredores da Marina. No entanto, os problemas em torno
do projeto não são recentes. Segundo a Assuma e a FAM-Rio, há pelo menos 10 anos
lutam pela manutenção do espaço público do Parque, pela recuperação da área do
bosque de piqueniques, ilegalmente fechada. Além disso, não há garantia da função
náutica da Marina da Glória, ao invés disso, a proposta é a construção de um salão de
exposições e festas como consta no novo projeto da Marina da Glória. A justificativa
36 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

da prefeitura é adequar o espaço às competições de vela para as Olimpíadas, fato


contestado pelas associações.

Toda a Área do Parque do Flamengo é tombada pelo Iphan, incluindo toda a sua
área marítima em até 100 metros da praia. Também é tombado pelo município, além
de fazer parte do sítio declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco como Pai-
sagem Cultural Urbana. O tombamento realizado em 1965 foi feito para garantir que
a área se mantivesse totalmente pública, com fins de lazer de baixo impacto, não
comercial, educacional e de recreação aberta à população, especialmente às crian-
ças. Por isso, qualquer manutenção e ampliação de atividade comercial, de eventos
e exploração privada de atividade e comércio náutico é ilegal. O projeto atual de
revitalização foi aprovado em tempo recorde pelo Iphan, apesar de algumas reco-
mendações que foram encaminhadas em novembro de 2014 à Secretaria Especial de
Concessões e Parcerias Público Privadas (SECPAR) e não ao Conselho Municipal de
Proteção do Patrimônio Cultural do Rio.

A Federação de Remo chama a atenção para o fechamento da rampa do Calabouço,


uma área pública e patrimônio da União que não foi cedida a ninguém. O questiona-
mento é justamente as motivações que há quase 10 anos impede o acesso público a
essa importante rampa que garantiria minimamente ingresso livre a Baía de Guana-
bara e suporte às atividades náuticas populares, ou mesmo fomentar uma cultura
náutica na população carioca. A SPU informou que há algumas décadas, no período
da ditadura militar, foi concedido uma cessão por aforamento de um espaço equiva-
lente a 105.890 m² que engloba a área da Marina e que com o projeto atual haverá uma
redução para 84.000 m². Segundo o superintendente, não há como a SPU tratar do
contrato de concessão da Marina da Glória, mas, em síntese, que se dispõe a discutir
o caráter público da gleba referente ao Parque do Flamengo como um todo, incluso a
rampa. Os convidados da sociedade civil sugeriram a formação de um grupo de traba-
lho para realização de um debate amplo sobre o parque e o papel da SPU.

Outro aspecto que devemos destacar é o fato do projeto e suas obras causarem fortís-
simo impacto ambiental nesta área, sem que houvesse qualquer Estudo de Impacto
Ambiental (EIA) ou Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV no âmbito municipal). O
Inea não exigiu a realização de EIA-Rima do projeto de revitalização da Marina Glória
e não ponderou a permissão do projeto interferir no espelho d´água da Baia de Gua-
nabara que está fora no objeto de concessão do equipamento. O Inea foi oficiado pela
CDDHC para dar esclarecimentos.

As obras que visam a melhorar a qualidade das águas da Marina da Glória, segundo
a imprensa, foram iniciadas no início de outubro 2014. A Cedae é responsável pela
construção de uma galeria de cintura1 para impedir o lançamento de esgoto sem trata-
mento na região. Os convidados da sociedade civil questionaram a presença evidente
de esgoto nas águas da Marina, e que não é possível perceber qualquer tipo de obra
sendo realizada. O contrato firmado entre a Cedae e o comitê organizador dos Jogos
Olímpicos tem prazo de 12 meses. O acordo firmado é para que o local esteja prepara-
1. Tubulação para captar
efluentes lançados em galerias do para as Olimpíadas. Na audiência, o representante da Cedae informou que estão
de águas pluviais. fazendo uma captação de todas as saídas de água pluvial com uma estação a tempo
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 37

seco para jogar diretamente ao interceptor oceânico, ligado ao emissário submarino


de Ipanema. O custo da obra é de R$15 milhões com previsão de término para dezem-
bro de 2015. Por essa razão, as intervenções não estavam concluídas em agosto 2015,
mês do último evento-teste das Olimpíadas.

No mesmo período da audiência, quando foi solicitado inúmeras informações via


ofício às instituições ausentes, a FAM-Rio encaminhou uma Ação Civil Pública à
Justiça Federal pedindo a anulação da licença do projeto pelo Iphan. Em julho,
havia sido aprovada a suspensão das obras, mas logo depois foi revogada. Em se-
tembro, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj (CDDHC)
recebeu resposta do Iphan acerca do ofício onde (i) solicitou-se as justificativas de
licença do projeto; e (ii) registrou-se o fato de que o Plano de Gestão do Parque
do Flamengo havia sido elaborado com participação popular, o que não ocorreu
na prática, conforme relato das organizações da sociedade civil presentes na au-
diência. Fica claro nos documentos enviados que o plano foi realizado primordial-
mente por consultoria já que o Iphan se restringiu a encaminhar o plano, o termo de
referência para realização de um plano diretor. Sobre o corte das árvores, a CDDHC
enviou uma petição ao Ministério Público do Estado solicitando vista dos autos, e
como resposta foi informado de que se declinou a competência para o Ministério
Público Federal. E as obras continuam seu curso.

A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos são os eventos que têm suscitado inúmeras
intervenções urbanas, apresentadas como legado para os cariocas. Vimos que exis-
tem várias questões nebulosas em torno dos projetos, ao mesmo tempo que já são
evidentes os impactos sociais, urbanos e ambientais em nome de uma cidade-global
a todo custo. A CDDHC se manterá atenta aos processos ligados aos megaeventos, os
seus resultados e o legado para a cidade e sua população.

3.1. O CAJU NO CONTEXTO


DO PROJETO PORTO MARAVILHA

A área portuária é um dos locais do Rio de Janeiro que tem mais sofrido com as trans-
formações urbanas em curso por conta dos Megaeventos Esportivos. O Projeto Porto
Maravilha é a intervenção mais emblemática que revela a pressão evidente para a via-
bilidade de um projeto de cidade que tem promovido inúmeras violações de direitos,
sobretudo, o direito à cidade. As remoções não são os únicos efeitos negativos desse
processo. O bairro do Caju é um exemplo que reflete a forma de inserção das pessoas
que residem na região no Porto Maravilha, isto é, simplesmente desconsiderando-as.

Entre as medidas em curso nos bairros, observou-se diversas ações e intervenções que
se direcionam para atividades turísticas e corporativas. Segundo a proposta, a paisa-
gem urbana se modificará radicalmente em razão, não só da derrubada da Perime-
tral, mas da presença de arranha-céus, Veículos Leves sobre Trilhos (VLT), teleférico
e museus assinados por arquitetos famosos. Uma paisagem bem diferente da história
dos bairros da zona portuária que sofrem as intervenções do Porto Maravilha. Bairros
que possuem um acervo patrimonial material e imaterial de grande valor histórico
38 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

para cidade, além de guardar memória urbana fundamental para a preservação das
raízes da cultura carioca. Isto porque a história da cidade do Rio se inicia ali, desde a
presença da monarquia, à história da escravidão e os diversos processos de resistên-
2. Offshore são atividades cia ao longo dos séculos. É uma área da cidade historicamente associada à presença
realizadas por empresas
dos negros, assim como ao “descartável”, à insalubridade, já que ali se depositavam
petrolíferas de prospecção,
perfuração e exploração. o lixo, e os corpos dos africanos recém-chegados que não resistiam a viagem até o
Brasil. Pode-se avaliar que o Projeto Porto Maravilha tem sido uma forma de apagar
3. Operações urbanas ou “esbranquiçar” essa história, bem como outras tentativas de intervenções que se
consorciadas é um
sucederam nos séculos XIX e XX.
instrumento do Estatuto da
Cidade (lei 10257/2001) que
permite intervenções sob A população do Caju corresponde a 40% da população da área portuária. Com a im-
a coordenação do poder plantação da Av. Brasil nos anos 1940 e o cemitério, o bairro se encontra isolado do
público “com a participação
restante dos bairros da região. Também é margeado pela poluída Baía de Guanaba-
dos proprietários, moradores,
usuários permanentes e ra e pela ETE Alegria. Ainda possui casarios antigos e indústrias de cimento e naval
investidores privados, com em meio as casas das favelas. As atividades industriais e offshore2 contribuem para a
o objetivo de alcançar em grande circulação de caminhões carregados de contêineres. Segundo o Companhia de
uma área, transformações
Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro (CET-Rio), cerca de 650 caminhões circulam
urbanísticas estruturais,
melhorias sociais e a todos os dias pelo Caju. Em função desses fatores, o Caju é considerado um dos bair-
valorização ambiental”. ros mais poluídos da cidade do Rio de Janeiro.
É possível delimitar uma
área para elaboração de um
É importante ressaltar o desmantelamento da atividade pesqueira. Inúmeros fatores
plano de ocupação, no qual
estejam previstos aspectos contribuem. Segundo os próprios pescadores, a falta de estrutura e apoio por parte do
tais como a implementação de estado e do governo federal, poluição da Baía de Guanabara e redução crescente de
infraestrutura, alterações de trabalhadores favoreceram o desaparecimento da pesca no Caju. A alternativa às ati-
usos, densidades, etc.
vidades pesqueiras têm sido o transporte de mercadorias no espelho d'água da baía.
4. Estatuto da cidade
“estabelece normas de ordem O Caju já foi um importante balneário real da cidade. Dificilmente conseguimos vis-
pública e interesse social que lumbrar essa história, mas ainda é possível visitar o entorno da Casa de Banho Dom
regulam o uso da propriedade
João VI quando no século XIX a área desfrutava de uma paisagem natural quase into-
urbana em prol do bem coletivo,
da segurança e do bem-estar cada. Hoje, é administrado pela COMLURB, mas o Museu da Limpeza Urbana no qual
dos cidadãos, bem como do se tornou em 1996, encontra-se fechado.
equilíbrio ambiental”. É fruto
da mobilização histórica do
A falta de envolvimento e de participação efetiva da população na Operação Urbana Con-
movimento de reforma urbana
no Brasil no sentido de garantir sorciada3 (OUC), que estrutura o Projeto Porto Maravilha, demonstram o descolamento
um marco regulatório para a dos princípios constitucionais relacionados à gestão democrática e as funções sociais da
política urbana a partir dos cidade e da propriedade (art. 182 2 183), e do Estatuto da Cidade4. Inclusive, a desconside-
princípios do art. 182 2 183.
ração do bairro do Caju5 da OUC atesta a visão fragmentada da área portuária e os obje-
5. Na página eletrônica www. tivos de transformação urbana com foco na promoção de um processo paulatino de gen-
portomaravilha.com.br, o trificação. Ou seja, quando as mudanças urbanas em uma área empobrecida e precária,
Porto Maravilha abrange o provocam valorização imobiliária, encarecimento do custo de vida e, consequentemente,
quadrilátero entre as avenidas
mudanças do perfil social, já que a antiga população pobre não consegue, nesse contexto
Rio Branco, Presidente
Vargas, Francisco Bicalho e de gentrificação, se manter no bairro. A justificativa para a retirada do bairro foi os custos
Rodrigues Alves, nos bairros da elevados para operação, um contrassenso, pois o Caju é o maior arrecadador de Imposto
Gamboa, Santo Cristo e Saúde, sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do estado.
morros do Pinto, Conceição,
Providência e Livramento e
parte do Caju, São Cristóvão, Apesar desse cenário de abandono, o Caju arrecadou R$ 1,67 bilhão em 2010, o ter-
Cidade Nova e Centro. ceiro maior porto gerador de ICMS do país. Estimativas do governo do estado indi-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 39

cam que cerca de R$ 95 milhões teriam sido repassados ao governo municipal. Além
disso, o município recebeu, conforme estimativas da Companhia Docas/RJ, cerca de
R$ 250 milhões em Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). Uma grande
contradição tendo em vista as observações in loco da CDDHC em visita às favelas e
ocupações do bairro.

Um dos locais visitados pela CDDHC foi a ocupação do Hospital São Sebastião,
fechado em 2008, o primeiro hospital de isolamento do Rio que era responsável
pelo tratamento de doenças contagiosas, além de diversos outros tratamentos di-
recionados à população do Caju. Atualmente, há dezenas de famílias que ocupam
os prédios dos fundos do hospital em condições extremamente precárias. Há lixo
e ratos por toda a parte, ao mesmo tempo que há risco eminente devido à pre-
sença de lixo hospitalar e material contaminado. Ali falta tudo: abastecimento
de água, esgotamento, coleta de lixo, etc. É uma área extremamente insalubre.
Cabe ressaltar, que o prédio principal do século XIX (1890) havia sido ocupado por
dezenas de famílias, conforme relato dos moradores de Vila dos Sonhos. Mas em
2013, a prefeitura despejou essas famílias oferecendo o aluguel social, deixando
o prédio, que tem importância histórica para a cidade, em ruínas. A matéria do
jornal O Globo de julho de 2012, “Governo inicia demolição de construções irregu-
lares no Caju”6, revela que a EMOP (Empresa de Obras Públicas do Estado) estava
prevendo construir no terreno, um conjunto do Minha Casa Mina Vida, por essa
razão houve remoções na região. Os que se mantiveram, continuam vivendo em
condições subumanas.

Fica evidente os processos segregação e de injustiça ambiental numa região em que


o foco é a constituição de uma política territorial (ou a ausência de uma) voltada à
cadeia produtiva do petróleo e a expansão do porto, e não às pessoas que ali vivem.
Inclusive, para o mercado imobiliário da região, a terra urbana ali tem valor bastante
inferior aos outros bairros da área portuária, dado que mostra o quão precário é o
bairro do Caju.

Esse ano, foi iniciado a divulgação de um processo controverso e pouco transpar-


ente de elaboração do Plano de Habitação do Porto, em função de uma resolução
do Ministério das Cidades. A Instrução Normativa nº33 vincula a liberação de re-
cursos do FGTS para o Certificado de Potencial Adicional de Construção (Cepacs)
à elaboração de um plano de habitação. Os Cepacs são os títulos correspondentes
ao estoque de potencial construtivo dos terrenos para além do permitido na região.
Esse é um mecanismo de geração de receita para OUC previsto no Estatuto da Ci-
dade, mas que no caso do Porto Maravilha, foram comprados pelo Caixa Econômica
Federal com recursos do FGTS, assumindo assim os riscos de mercado da operação.
6. Cf. COSTA, Ana Claudia.
Também no plano de habitação, o bairro do Caju foi excluído, mesmo com a neces-
Governo inicia demolição de
sidade urgente de medidas que melhorem as condições de moradia e redução do construções irregulares no
deficit habitacional no bairro. Caju. O Globo, Rio de Janeiro,
3/7/2012. Disponível em
http://oglobo.globo.com/rio/
Como o Caju tem se caracterizado por um bairro à margem dos processos em curso na
governo-inicia-demolicao-de-
área portuária, apesar de sua centralidade em diversos aspectos, a CDDHC organizou construcoes-irregulares-no-
a realização de um OCUPA DH, realizado no mês de julho de 2015. caju-5380466#ixzz3rgL42NyV.
40 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

3.1.1. OCUPA DIREITOS HUMANOS NO CAJU

A CDDHC Alerj esteve no Complexo do Caju, em 20 de junho de 2015, para percorrer


o bairro, colher relatos de violações de direitos humanos e atender a população. No
total, foram realizados mais de 40 atendimentos, de 10h às 15h, que geraram 25 proto-
colos. Os principais problemas apresentados, em ordem de menções, foram relativos
à Moradia, Segurança Pública, Saúde, Educação e Assistência Social.

No quesito moradia, a maior parte das pessoas ouvidas solicitou inserção no progra-
ma Minha Casa, Minha Vida e cadastramento para receber o aluguel social. Sobre
Segurança Pública, foram colhidos relatos sobre abuso de autoridade praticado por
policial da UPP. Inclusive, há relatos de que policiais fazem vistoria nas casas com o
argumento de que realizariam um levantamento para programas habitacionais, o que
se configura como uma prática ilegal.

Em Saúde, houve queixas sobre enchentes, falta de saneamento básico, problemas


respiratórios provocados pela poluição causada pela grande circulação de caminhões
e dificuldade para obter atendimento na rede de alta complexidade. A principal recla-
mação relativa à Educação é a falta de vagas nas escolas e creches locais. A falta de
documentação se configura como uma das grandes dificuldades para a inserção em
programas sociais, como o Bolsa Família.

Segundo o Instituto Pereira Passos, cujo levantamento tomou como base o Censo De-
mográfico do IBGE de 2010, 16.117 pessoas vivem no Caju, que é formado por nove co-
munidades: Parque Alegria, Parque Vitória, Vila do Mexicano, Parque Boa Esperança,
Parque da Conquista, Parque São Sebastião, Ladeira dos Funcionários, Parque Nossa
Senhora da Penha, Quinta do Caju.

Um dos locais mais precários é a Favela do 950, situada no Parque Conquista, onde
famílias vivem em situação de pobreza extrema. Ela é formada por cerca de 80 bar­
racos de compensado construídos entre o muro da garagem da empresa de ônibus
1001 e um valão, onde não há acesso à água tratada e à rede de esgoto. A conexão à
rede elétrica foi feita pelos próprios moradores de forma improvisada, o que acarreta
riscos de curto-circuito e incêndios.

As famílias ainda correm risco porque há um estande de tiros da polícia próximo ao


local. Há diversos furos provocados pelos projéteis nas paredes.

Parte da pista entre o valão e as casas cedeu, o que põe em risco a segurança dos mo-
radores – há muitas crianças vivendo no local. Segundo a população, o afundamento
ocorreu após uma retroescavadeira dragar o rio. Também houve queixas a respeito da
presença de insetos e ratos.

A situação também é preocupante na ocupação do antigo Instituto de Infectologia São


Sebastião, onde dezenas de famílias sobrevivem em situação de risco, tanto devido ao
lixo hospitalar acumulado no terreno abandonado, quanto pela precária estrutura dos
imóveis, que apresentam infiltrações e vergalhões a mostra. Como há muito lixo no lo-
cal, há infestação de ratos e mosquitos. Uma criança, inclusive, foi mordida por rato.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 41

A ocupação do instituto é uma das consequências dos graves problemas no acesso à


moradia no Rio de Janeiro e no Caju. Muitas famílias migraram para este local com
a promessa de que entrariam para o programa Minha Casa, Minha Vida. Muitos mo-
radores da Favela do 950 e do Instituto de Infectologia São Sebastião sofrem com
problemas de saúde.

3.1.2. ENTREVISTA: MARIA DE FÁTIMA DA SILVA

“Estamos à mercê de
uma destruição psicológica”

Leon Diniz

Maria de Fátima denuncia


o abando do Caju e critica
o Porto Maravilha

H
á 43 anos vivendo no bairro do Caju, uma das lembranças mais antigas de
Maria de Fátima da Silva, 52 anos, é a alegria dos dias em que a colônia de
pescadores distribuía gratuitamente peixes para a população. Hoje, a colônia
e as memórias foram engolidas pelas águas poluídas pelas empresas que atuam às
margens do Caju.

Não é só o mar que está sujo. Quem circula pelo Caju à noite e olha para os postes de
iluminação vê a nuvem de sujeira que os moradores respiram todos os dias. Poluição
provocada pela grande quantidade de caminhões e carretas que trafegam pelo bairro.
Há muitos casos de crianças e idosos com graves problemas respiratórios.

Maria de Fátima é presidente da Associação de Moradores do Parque São Sebastião.


Um dos principais problemas da comunidade é o abastecimento de água. Ela é escu-
ra e chega com um cheiro ruim às casas, provocando doenças de pele e problemas
gastrointestinais.
42 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Não são só as lembranças de dona Fátima e a colônia de pesca que estão sendo engo-
lidas. Todas as oito comunidades do bairro do Caju estão sendo devoradas aos poucos
pelo abandono do poder público.

CDDHC: Quando a senhora veio morar no Caju e qual sua lembrança mais antiga?
Maria de Fátima: Eu cheguei aqui com nove anos. Estou com 52. Na verdade, eu mo-
rava perto do Caju, lá para os lados dos bombeiros. Tinham 16 barracos e eu vim mo-
rar com minha avó. Fiquei ali até meus 12 anos. Aí minha mãe veio para o Rio, alugou
um barraco e fomos morar juntas. Moramos no 950 (favela dentro do Caju). Vim para
cá (Parque São Sebastião) com 15 anos e fiquei.

Teve uma chuva aqui que não me sai da memória. Choveu gelo, muito gelo. E a gente que
morava em barraco... Meu avô colocou a gente dentro do guarda-roupa. As telhas quebra-
ram. O Caju alagou. Aliás, o Caju sempre alaga. Nós ficamos sem luz. Foi um caos.

Lembro da colônia de pescadores. Nós ganhávamos peixe. Eles vinham com as cum-
bucas cheias de peixe e distribuíam para a gente. As coisas eram precárias, mas o Caju
não tinha tanta poluição como agora. Tinha mais espaço, mais liberdade. Depois foi
crescendo. Empresa para lá, empresa para cá. Elas foram destruindo o que tinha de
mais rico no Caju: a colônia de pescadores. Isso aí foi a pior coisa que pode acontecer.

CDDHC: Além da poluição, há problemas graves de saúde e saneamento básico


no Caju.
Maria de Fátima: O Caju cresceu na população. A gente sabe pelas eleições que só de
eleitores temos 40 mil. Isso só quem votou. Tem muito mais gente. Existem oito comu-
nidades aqui, elas cresceram para cima. Minha comunidade tem 12 mil habitantes, foi
a primeira do Programa Favela Bairro. A demanda na época, há 20 anos, era de 7 mil
habitantes. Agora são 12 mil. Esgoto e água são nossas dificuldades.

O posto de saúde era bem precário, mas atendia a demanda. Agora, o responsável
pelo posto conseguiu trazer mais coisas. Hoje temos sete equipes no Caju, mas, te
pergunto, você acha que é louvável sete equipes para atender 60 mil habitantes? Pre-
cário, né? Sem contar que vem pessoas de outros lugares. Pediatra, ginecologista,
ortopedista, dermatologista são coisas que fazem falta.

CDDHC: Durante o Ocupa DH, um dos principais problemas mencionados pelos


moradores é o abastecimento e a qualidade da água.
Maria de Fátima: Há uns três anos tínhamos um morador aqui que ajudava a limpar
a caixa d´água. Ele fazia essa limpeza, mas dizia que o reservatório precisava de ma-
nutenção porque estava com infiltração. Já veio equipe da Cedae aqui. Eles tiram foto,
fazem levantamento, diz que vai fazer e acontecer... Eram duas bombas, mas só uma
está funcionando. Então sobrecarrega. A água sai preta. Digo que está contaminada
porque ali (em cima do reservatório) para cavalo, cachorro e quando chove a água
empossa e infiltra. Essa água vai para dentro da cisterna. Ela está cheia de lodo, vem
com um odor muito forte, insuportável. Tivemos problema de pele. Têm crianças e
adultos afetados.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 43

Eu compro água. Mas e as pessoas que não têm dinheiro para comprar o pão de amanhã?
Vai comprar também? E o gás para ferver a água? Estamos à mercê de uma destruição
psicológica, de autoestima. É forte essa palavra? É. Mas infelizmente é a realidade. Você
fica doente com diarreia. Dá problema no estômago da criança … A pessoa se desespera
porque não tem dinheiro para a passagem para ir na UPA. E quando chega lá está cheio.

CDDHC: Por que você acha que o Caju sofre com esse abandono?
Maria de Fátima: Acho que é descaso, falta de respeito, amor. A maioria das pessoas
veem aqui como o bairro do cemitério, das carretas, da violência. Infelizmente se tornou
um bairro industrial e isso está matando a nossa essência e das pessoas que fizeram
história aqui dentro, que construíram o Caju. Antes não tinha empresa e o Caju sobre-
vivia. Hoje vemos pessoas com problema de pulmão... Tudo isso aumentou, e ninguém
faz nada. Aqui merecia uma clínica da família, decente. Fui para o Centro e demorei
mais de duas horas para chegar lá. Imagina uma pessoa passando mal? Vai morrer no
caminho. Uma coisa boa que aconteceu aqui foi a Vila Olímpica, mas ela não atende a
demanda do bairro do Caju. Precisamos de mais. Nossos problemas são coisas normais.

CDDHC: Qual sua opinião sobre o Ocupa Caju e as ações da Comissão de Direitos
Humanos da Alerj no bairro?
Maria de Fátima: Foi muito importante. Eu já tinha a curiosidade de entender melhor
o trabalho de vocês. O morador de comunidade precisa conhecer seus direitos. Sempre
gostei de trabalhar em cima disso. Quando vocês entraram aqui pensei que era uma boa
oportunidade. Pensei: quando nós estivermos buscando os nossos direitos, eles vão nos
apoiar. E eu não esperava que vocês voltassem. Alguns órgãos vêm aqui, uma vez só.
Tenho mania de dizer que é curiosidade. Fazem uma visita e nunca mais voltam.

É muito importante para a comunidade ser reconhecida, assistida, passar para vocês a
nossa visão, a luta que temos aqui dentro. Uma luta contra um poder maior, prefeitura
e governo. Eles poderiam aprender mais um pouco com vocês. Ouvir pelo menos. Sa-
bemos que vocês não podem fazer muita coisa, mas quando vocês gritam são ouvidos.
E nós? Talvez na hora, mas depois somos esquecidos. Só somos ouvidos quando tem
violência na comunidade. Vem jornal e noticia... E depois acabou. E vocês são o canal.
Vamos dizer que, de dez batalhas, vocês vençam quatro ou cinco, é uma grande vitória.

E esse Porto Maravilha? Às vezes fico pensando. Se pudessem eles botavam um muro
para nos separar. Por que o Caju não entrou no projeto se faz parte do porto? Eu sou
leiga, não tenho entendimento. Só faço essa pergunta: por que nós ficamos fora?

3.1.3. INICIATIVAS DA CDDHC

Após a análise das reivindicações e depoimentos colhidos, a CDDHC encaminhou ofí-


cios para os seguintes órgãos: Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), Ouvidoria
geral das UPPs, Secretaria Municipal de Habitação (SMH), Secretaria Municipal de
Educação (SME), Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos (SE-
ASDH), Companhia Estadual de Habitação (CEHAB), Secretaria Municipal de Saúde
e Defesa Civil (SMSDC), Secretaria Municipal de Obras (SMO), Fundação Instituto de
44 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Geotécnica (Geo-Rio), Companhia Municipal de Limpeza Urbana (COMLURB), Com-


panhia Estadual de Águas e Esgoto (CEDAE) e Light – Serviços de Eletricidade S A.
Destes 12 órgãos e empresas oficiadas, apenas a CPP, ouvidoria geral das UPPs, SME,
COMLURB e Light responderam nossas indagações e denúncias.

Em resposta ao Ofício 267.2015, a Light informou que os técnicos estiveram no Parque


São Sebastião, mas foram informados pela direção da associação de moradores da
comunidade que o endereço em questão não existiria, bem como os problemas apon-
tados. Além disso, a Light explicou que não realizam vistorias em locais considerados
de risco para os servidores públicos. Em suma, os cidadãos têm direitos básicos ne-
gados pelo próprio Estado que, apesar do discurso da retomada de território com as
UPPs, não garante a prestação adequada dos serviços.

O ofício enviado à Secretaria Municipal de Educação (SME) tratou da falta de vagas


nas creches locais. A secretaria respondeu que, junto com o Instituto Pereira Passos,
está produzindo o estudo “Georreferencial da cidade para a implementação de novas
construções de equipamentos escolares, por intermédio do Programa Fábrica de Es-
colas do Amanhã”. A SME também informou que a pesquisa é baseada em “critérios
como a área com déficit de salas de aula; infraestrutura social existente ou futura,
acesso a transporte de massa e nível de violência; Regiões com terrenos próprios mu-
nicipais; áreas mais pobres com baixa renda domiciliar; dentre outros aspectos”.

Em resposta ao ofício 266.2015, referente à Favela do 950, a Defesa Civil informou que,
em maio de 2015, vistoriou o local, onde as demandas expostas foram analisadas. O
órgão explicou que está em contato com a Secretaria Municipal de Assistência Social
e que os moradores pediram a interdição das casas. Cabe observar que a vistoria feita
um mês antes dos atendimentos locais da CDDHC pouco modificou a vida daqueles
moradores. Apenas o Centro de Referência de Assistência Social da região atendeu
parte daquela população, e até o fechamento deste relatório, nenhuma daquelas pes-
soas obteve resposta em relação à moradia.

Em ofício enviado à CPP e à Ouvidoria da UPP questionando as denúncias de que


policiais militares entrariam nas casas sob a justificativa de que cadastrariam mora-
dores para o programa Minha Casa, Minha Vida. A Polícia Militar informou que não
tem competência institucional para realizar este tipo de tarefa. A major PM Joyce Al-
buquerque, comandante da UPP do Caju, afirmou que o Grupamento Tático de Polícia
de Proximidade (GTPP) visita os locais para avaliar quais ações sociais podem ser
implementadas nos locais.

Os ofícios enviados à SMO, CEHAB e SMH não foram respondidos até o fechamento
deste relatório. É importante registrarmos o descaso destas secretarias em relação aos
problemas apresentados pela CDDHC. Estes órgãos são constantemente questionados
pela Comissão, mas não costumam responder às solicitações, principalmente quando
se trata de assuntos relativos a problemas habitacionais.

O Ocupa Caju foi encerrado com atividades culturais na Casa de Banho, localizada na
Praia do Caju, 385. O equipamento é um símbolo da luta dos moradores por melhorias
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 45

no bairro. A casa foi comprada pelo príncipe regente Dom João VI após um médico
lhe indicar o banho de mar para curar uma ferida na perna provocada pela picada
de um carrapato. Atualmente, em oposição aos desejos da comunidade, na Casa de
Banho funciona o Museu da Limpeza Urbana, vinculado à Comlurb. Os moradores do
Caju reivindicam o espaço para a realização de atividades culturais e preservação da
memória e história do bairro.

Mesmo com tantas adversidades, não se pode deixar de mencionar o papel funda-
mental daqueles que dedicam a vida na luta diária pela garantia dos direitos das pes-
soas que vivem nestes locais. Para a realização do Ocupa Direitos Humanos no Caju,
a CDDHC contou com o apoio de muitos moradores, líderes comunitários, ativistas
culturais e militantes do bairro. É sabido que a institucionalidade e a burocracia nem
sempre darão respostas imediatas, mas graças ao diálogo com população e organiza-
ções locais, a equipe da CDDHC tem construído uma maneira diferente de atuar em
conjunto com a sociedade.

3.2. JUSTIÇA AMBIENTAL E SANEAMENTO


NA REGIÃO DA BAÍA DE GUANABARA

Por Ana Lucia Britto*

C
om a realização dos Jogos Olímpicos de 2016, a questão da poluição da Baía de
Guanabara reapareceu com força na mídia como um problema a ser enfrenta-
do. O governo já assumiu que não conseguirá atender o objetivo assumido de
chegar à cifra de 80% do esgoto tratado, conforme acertado no dossiê de candidatura
apresentado ao COI. Atualmente, segundo dados do governo do estado cerca de 50%
dos esgotos são tratados.

Reconhecendo a importância do problema ambiental da poluição das águas da Baia,


esse texto pretende examiná-lo sobre um outro prisma, isto é, examinar a questão do
saneamento ambiental da região da Baía de Guanabara, pela perspectiva da Justiça
Ambiental.

O conceito de Justiça Ambiental surge nos anos 80 nos Estados Unidos, a partir de
uma denúncia de grupos ambientalistas e minoria étnicas sobre a distribuição desi-
gual da poluição, que afetava mais determinados grupos étnicos e categorias socais,
isto é negros e pobres, sendo esta distribuição reconhecida como uma forma de in-
justiça ambiental. Esta denúncia dá forma ao Movimento de Justiça Ambiental, que
estrutura formas de resistência e formas novas de produção de conhecimento, dando
origem a pesquisas multidisciplinares sobre as condições de desigualdade ambiental
no país (Acselrald, et al. 2009).

Dentre as formas de desigualdade ambiental, ou de injustiça ambiental, estão aquelas


relacionadas ao saneamento, envolvendo o acesso a um recurso ambiental fundamen- *Ana Lúcia Brito é professora
tal, a água potável, e a um ambiente de vida com condições sanitárias adequadas. No associada do PROURB - UFRJ
46 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

território que corresponde a Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara que abrange os


municípios de Niterói, São Gonçalo, ltaboraí, Tanguá, Guapimirim, Magé, Duque de
Caxias, Belford Roxo, Mesquita, São João de Meriti e Nilópolis e parcialmente os mu-
nicípios de Maricá, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu, Nova Iguaçu e Rio de Janeiro o
complexo quadro dos serviços de saneamento pode ser melhor caracterizado por duas
dimensões de injustiça ambiental: (i) a permanência de um acesso precário aos servi-
ços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, que afeta sobretudo os grupos
mais vulneráveis, isto é, os pobres urbanos que vivem nas periferias e nas favelas;
(ii) o surgimento possível de novas desigualdades sociais no acesso a esses serviços,
geradas pelo impacto diferenciado dos custos dos mesmos sobre a renda familiar.

No que concerne o acesso aos serviços de saneamento no território da Bacia da Baía


de Guanabara essa injustiça ambiental é claramente evidenciada. Condomínios de
classe média alta nos bairros da  Barra da Tijuca e Recreio, que foram construídos a
partir dos anos 80, não sofrem com a falta de água e não convivem com esgotos a céu
aberto, mas esses problemas são frequentes nos bairros populares dos municípios da
Baixada Fluminense e de São Gonçalo, ocupados na mesma época, ou mesmo antes.
Nesses bairros existem problemas graves de frequência no abastecimento que se re-
sume, usualmente a duas a três vezes por semana.

O problema envolve tanto a disponibilidade de água tratada, que não é suficiente


para atender a demanda da região da Baixada, nem municípios do leste metropoli-
tano como São Gonçalo e Itaboraí, quanto da estrutura de reservação de distribuição
de água, que daria maior segurança ao abastecimento, mas que nessas áreas também
não é suficiente. A situação dos reservatórios de distribuição explica, em parte a inter-
mitência no abastecimento e a necessidade constante de manobras de água.

Em Belford Roxo, dos cinco reservatórios existentes apenas um encontra-se em fun-


cionamento (CONEN, 2013). No município de Queimados existe apenas um reserva-
tório para atender a população, localizado no centro do município. Do outro lado da
Baía de Guanabara em São Gonçalo, considerando dados do Censo do IBGE de 2010,
haveria no município quase 150.000 pessoas sem acesso aos serviços de água. Por
outro lado, há irregularidades no abastecimento mesmo em áreas atendidas pelo sis-
tema, também causadas por falta de reservatórios para regular a distribuição de água
tratada. São Gonçalo possui sete reservatórios, mas segundo diagnóstico do Plano
Municipal de Saneamento, “há décifit significativo de reservação no município de
São Gonçalo, sendo o déficit maior que o volume de reservação existente” (ENCIBRA,
2014). Sem reservação adequada para a distribuição de água tratada, o abastecimento
torna-se irregular em parte significativa do município.

Em Itaboraí, o Censo do IBGE de 2010 indica um percentual de população atendida de


apenas 27%; o Plano Municipal de Saneamento de 2014 indica 29% de população aten-
dida pela CEDAE. Assim, medida que se garante o abastecimento às áreas nobres da
região da Baía de Guanabara, e a companhia responsável pela gestão dos serviços, a
CEDAE, garante que não faltará água durante os Jogos em 2016, mesmo porque as insta-
lações olímpicas contarão com enormes cisternas, as áreas populares vivenciam há dé-
cadas problemas de abastecimento de água decorrentes da incompletude dos sistemas.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 47

No que concerne o esgotamento sanitário os indicadores são ainda mais precários.


Os índices de atendimento com rede de esgotamento são inferiores à 50% em quase
todos os municípios. As exceções são os municípios onde se concentra a população de
maior renda, Rio de Janeiro e Niterói. Se a coleta do esgoto é precária na maior parte
dos municípios, o tratamento do esgoto coletado é também extremamente insuficien-
te, estando acima de 50% somente nos municípios do Rio de Janeiro e de Niterói.

Segundo Acselrad (2009) a produção da injustiça ambiental pode se dar pela execução de
políticas ambientais (ou pela falta delas) direcionados às populações socialmente exclu-
ídas em termos de renda, habitação, condições sociais. Não se pode dizer que a região da
Baia de Guanabara não tenha sido beneficiada por políticas, programas e investimentos
voltados para ampliar os sistemas de saneamento, contudo a baixa efetividade dos inves-
timentos nas áreas populares é flagrante. Desde o início dos anos 80 foram realizados pro-
gramas para ampliar o acesso ao abastecimento de água na Baixada e em São Gonçalo,
contudo sua efetividade é baixa, pois não foram instalados sistemas completos para a dis-
tribuição, e o volume de água produzido pelos dois macro sistemas que atendem a região,
Guandu e Imunana Laranjal, não é suficiente para atender a demanda desses municípios.

Dentre os programas, destaca-se o PDBG, Programa de Despoluição da Baia de Gua-


nabara, lançado no início dos anos 1990, com recursos do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), do Japan Bank for International Cooperation (JIBC), e con-
trapartida do governo do estado, previa um amplo conjunto de obras para atender as
necessidades prioritárias nas áreas de esgotamento sanitário, abastecimento de água,
coleta e destinação final de resíduos sólidos, drenagem, controle industrial e moni-
toramento ambiental. O plano contemplava ainda investimentos no aparelhamento e
na capacitação de recursos humanos nos órgãos ambientais.

No entanto, mais de 20 depois do início programa as estações de tratamento de esgoto


(ETEs) construídas ainda funcionavam bem abaixo de sua capacidade. As duas locali-
zadas na Baixada Fluminense, Pavuna e Sarapuí, operavam no início de 2015 com res-
pectivamente 48% e 20% de capacidade; a ETE São Gonçalo com 18% da capacidade. Os
baixos índices são decorrentes da não conclusão das redes coletoras, cuja maior parte do
financiamento era de responsabilidade do governo estadual. Os recursos do JBIC foram
destinados para financiar 100% das estações de tratamento de esgoto (ETEs) e 35% da
implantação das redes coletoras de esgoto. Os demais 65% dos investimentos na rede
coletora provinham da contrapartida do governo do estado do Rio de Janeiro. Como a con-
trapartida estadual não foi cumprida, as estações construídas passaram a operar abaixo
de sua capacidade. A não conclusão dos coletores de esgoto, necessários para a coleta e o
transporte de esgotos às ETEs, comprometeu os resultados do programa.

Da mesma forma não foi feita a complementação dos sistemas de abastecimento de


água, que dependiam também da contrapartida estadual. Foram construídas sub-
-adutoras e redes tronco e reservatórios, visando a setorização e a regularização da
oferta de água na Baixada Fluminense. No entanto, devido a problemas no sistema de
adução para a Baixada os reservatórios permanecem vazios e as redes instaladas não
levam efetivamente água à população. Hoje o abastecimento da região se faz através
de manobras no sistema, o que implica que determinadas áreas nunca têm um abas-
48 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

tecimento contínuo. A solução passa necessariamente por uma ampliação do sistema


de adução para Baixada.

Observa-se, todavia, que ao longo do período de desenvolvimento do PDBG, e de im-


passes nos investimentos do governo do estado na Baixada Fluminense e em São Gon-
çalo, não houve descontinuidade nos investimentos para garantir acesso adequado
aos serviços nas áreas de expansão urbana das camadas de mais alta renda, privi-
legiadas pelo mercado imobiliário, como Barra da Tijuca e Recreio, o que denota a
produção da injustiça ambiental pela política pública.

O governo do estado anunciou recentemente que serão realizadas obras para ampliar a
capacidade de produção de água do sistema Guandu para levar mais água para a Bai-
xada, e que a solução da coleta e tratamento de esgotos na região da Baía será realizado
através de Parcerias Público Privadas, reproduzindo o modelo de concessão adotado
pela prefeitura do Rio de Janeiro em 2011 para a região da AP5, concessão onerosa, onde
o concessionário privado é obrigado a pagar pelo direito de outorga em favor do poder
concedente. Dentre desse modelo adotado, o concessionário privado deverá assumir a
implantação e operação dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos e a gestão co-
mercial dos serviços, se responsabilizando pela cobrança das tarifas de água.

Essa alternativa precisa ser discutida pelo prisma da justiça ambiental. Como a gestão
privada vai atender os usuários de baixa de renda? Existirá um modelo de tarifa social?
Como serão tratados os usuários que não conseguirem arcar com os custos dos serviços.
Vale lembrar que a tarifa será provavelmente acordada entre o concessionário privado
e a CEDAE, que hoje a população do Rio de Janeiro paga a maior tarifa de água entre os
estados da Região Sudeste, sendo o preço médio praticado é de R$ 3,16/m3 enquanto
a média nacional é de R$2,62/m3; que as tarifas serão duplicadas em função da intro-
dução da parte referente a coleta e tratamento de esgoto. Na perspectiva de uma ges-
tão dos serviços socialmente justa é fundamental a discussão do impacto do valor das
tarifas sobre a renda familiar. As experiências de concessão privada mostram que elas
levam a um reforço na concepção de serviço como mercadoria, excluindo aqueles que
não tem capacidade de pagar e aprofundando situações de injustiça ambiental. Será
esse o cenário para o futuro da gestão do saneamento na região da Baía de Guanabara?

A breve discussão aqui apresentada, subsidiada por um conjunto de trabalhos rea-


lizados no Laboratório de Águas Urbanas do PROURB-UFRJ, permite concluir que a
injustiça ambiental caracteriza o acesso ao saneamento na Região da Baia de Guana-
bara e vem sendo reforçada pelas políticas públicas de saneamento implementadas;
é necessário portanto repensar essa política pública e reconstruí-la com base na pers-
pectiva dos direitos sociais e da justiça ambiental. Ações  pautadas nessa perspectiva
certamente serão benéficas para a despoluição desse patrimônio ambiental do Rio de
Janeiro, objetivo ambicionado, mas até hoje não alcançado.

3.2.1. A REVITALIZAÇÃO DA MARINA DA GLÓRIA NÃO É PARA TODOS

Com a aproximação das Olimpíadas de 2016, as intervenções nos equipamentos espor-


tivos que serão utilizados nos Jogos e deixados como legado vem mostrando, mais uma
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 49

vez, que a população não será a maior beneficiária. A verdade é que o discurso oficial de
Cidade Olímpica construído pelas instâncias do governo municipal e estadual como uma
cidade que avança na promoção dos direitos para a população carioca é uma falácia.

Uma das maiores provas concretas é o fracasso da despoluição da Baía de Guanabara,


mas não só. O fechamento de importantes Centros Esportivos como o Estádio Célio
Barros, o parque aquático Júlio Delamare e Marina da Glória. Projetada originalmente
por Amaro Machado para devolver o espírito náutico à cidade do Rio de Janeiro, a
Marina da Glória, está a cada dia mais longe de cumprir esse destino.

“Marina é lugar de barco, com destinação náutica. Mas há um desvio de finalidade.


Esse espaço público vai ser transformado em um local fixo de eventos privados”, de-
nunciou Luiz Goldfeld, usuário da Marina da Glória durante a audiência pública rea-
lizada, no dia 12 de junho de 2015, pela Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e
Cidadania da Alerj sobre o tema.

Na ocasião, foi revelado que a concessionária BR Marina está forçando os usuários a


assinarem um contrato que dobra o valor já custeado e retira serviços como o abas-
tecimento de água, luz e estacionamento. A BR Marinas, de acordo com os usuários
da Marina da Glória, desembolsa mensalmente cerca de R$ 20 mil pela concessão do
espaço público, mas detém 70% de seu faturamento com ações privadas como shows,
eventos e área comercial.

O edital de licitação da Marina da Glória prevê, no entanto, segurança náutica duran-


te 24h com apoio aos usuários e turismo. Além da construção de uma escola de velas.
O que se nota é que o projeto da BR Marinas ignora sua finalidade náutica e, além
disso, pretende fechar a única rampa pública do Rio ao criar um deck para um restau-
rante sobre a rampa. “A Prefeitura não realizou um concurso público para o edital e
não está preocupada com o legado náutico das olimpíadas”, afirmou Luiz Goldfeld.

Entre os encaminhamentos acordados, na ocasião da audiência pública, está a rea-


lização de uma nova audiência conjunta com as Comissões de Direitos Humanos da
Alerj e da Câmara dos Vereadores, além da convocação formal do Instituto Estadual
de Ambiente (Inea) para explicações sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o
Relatório de Impacto Ambiental (Rima) dessas construções na Marina da Glória.

LEGADO OLÍMPICO?
De acordo com Sônia Rabello, da Federação das Associações dos Moradores do Muni-
cípio do Rio de Janeiro (FAM-Rio), o plano original do Parque do Flamengo é tombado
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mas o presidente
do Iphan, no início do ano de 2015, autorizou o corte de centenas de árvores e não
embargou as obras que o descaracteriza de sua finalidade educativa e náutica.

Rabello também denunciou que a apropriação comercial da BR Marinas, que compre-


ende mais de 10 mil metros quadrados, pertence a um cidadão estrangeiro que mora
em Viena. Por isso, a FAM-Rio fez uma Ação Civil Pública que requer a nulidade do
ato administrativo que permitiu o licenciamento pela Prefeitura das obras no Parque
do Flamengo.
50 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

“Não é de hoje que se sucateia o espaço público para privatizá-lo. E o Parque do Flamen-
go faz parte desse processo”, afirmou Marcelo Freixo ao encaminhar o envio de ofícios
à Unesco e ao Iphan solicitando o plano de gestão da Marina da Glória; envio de pedido
de informações ao Ministério Público sobre a ilegalidade no corte das árvores do Parque;
ofício à Cedae para a disponibilização do projeto de esgotamento e abastecimento para
os empreendimentos previstos pela BR Marinas; realização de audiência conjunta com
o Tribunal de Justiça para ações comuns; além da solicitação à Prefeitura sobre o projeto
para a Marina da Glória. A ausência do Inea na audiência pública foi questionada.

Ao constarem a expansão ilegal da Marina da Glória, já que além da apropriação priva-


da do espaço a BR Marinas inseriu grades em locais que dão acesso ao mar, a Federação
de Remo do Estado fez diversas reivindicações. Entre elas está o embargo das obras até
a construção da rampa pública do Calabouço. “Exigimos o respeito ao projeto original
do arquiteto Amaro Machado e à lei que diz tratar-se de uma área pública não edificável.
Reivindicamos a participação popular nas decisões do poder público por intermédio de
um conselho gestor, afirmou Alessando Zelesco, da Federação de Remo do Estado. Ele
garante que o projeto de revitalização da Marina da Glória não é para todos.

3.2.2. ENTREVISTA: ALESSANDRO ZELESCO

“Cidade Olímpica é um
discurso fora da realidade”

Leon Diniz

Ex-presidente da Federação
de Remo do Estado do Rio
de Janeiro e integrante do
movimento SOS Estádio do
Remo da Lagoa, Alessandro
Zelesco contesta as
intervenções urbanísticas
promovidas na área
e a privatização desses
espaços públicos.

CDDHC: Quais são as consequências das intervenções urbanísticas que ocorrem


atualmente na cidade do Rio de Janeiro para as práticas esportivas?
Alessandro Zelesco: Eu vejo as intervenções na nossa cidade olímpica como uma hipo-
crisia, porque os equipamentos estão abandonados e não são usados para esportes. Me
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 51

refiro diretamente do Estádio Célio de Barros, um estádio de atletismo que foi destruído
7. Existe uma ação civil
para servir de estacionamento, do parque aquático Júlio Delamare, que foi fechado tam- pública (ACP, processo nº
bém e do Estádio de Remo da Lagoa7 que nós tínhamos, mas acabou. Até hoje o Brasil 2003.001.054921-8) de autoria
não tem um centro de treinamento de alto rendimento de práticas esportivas de vela e do Ministério Público do Estado
do Rio de Janeiro contra o
remo. Vamos receber uma Olimpíada e nossos atletas nunca utilizaram esses espaços,
Estado do Rio de Janeiro, o
assim como possuem uma área de treinamento de alto rendimento e por quê? Porque foi Município do Rio de Janeiro e
privatizado há anos e hoje o que existe é um shopping e um complexo de cinema (em- a Empresa Glen Entertainment
preendimento Lagoon)8 no lugar que vai receber as provas de remo e canoagem. Isso é Comércio Representações
e Participações Ltda., com
um absurdo e uma hipocrisia. O discurso é de que estão construindo novos equipamen-
o pedido final de que seja
tos (que depois dos jogos serão desmontados), dizem que alguns vão ficar como um declarada a nulidade da
legado, mas especificamente para o remo não vai haver legado algum das Olimpíadas, permissão de uso do Estádio de
tal como não aconteceu com a realização do Jogos Pan-americanos no Rio. Até porque o Remo da Lagoa e seus termos
aditivos, ante a inexistência
governo do Estado já colocou no caderno da candidatura dos Jogos Olímpicos que tudo
de licitação, condenando-
ali (Marina da Glória e Lagoa Rodrigo de Freitas) vai permanecer como está e continuará se a Glen a devolver a área
a ser administrado em sistema de concessão. Ou seja, sobre o poder de uma concessão do estádio ao patrimônio
privada, sendo explorada para outras atividades que não são esportivas numa área que público independentemente
de qualquer indenização. A
é destinada ao esporte por Lei. O discurso de um Rio de Janeiro como Cidade Olímpica
Federação de Remo do Estado
é um discurso fora da realidade. do Rio de Janeiro (FRERJ)
é assistente do Ministério
CDDHC: Qual foi a importância da audiência pública realizada pela Comissão de Público na ACP para desalojar
a Glen da posse do Estádio
Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj para a visibilidade da priva-
de Remo da Lagoa. A empresa
tização desses espaços de práticas esportivas? Glen já foi condenada, em
Alessandro Zelesco: A audiência pública foi especificamente sobre a Marina da Gló- primeira instância, a devolver o
ria que sofre o mesmo processo do estádio de remo, que também é uma área que nun- Estádio de Remo ao patrimônio
público, mas recorreu da
ca poderia ter sido privatizada porque faz parte de um parque público tombado, que
decisão. A empresa Glen nunca
é o Parque do Flamengo, que é indivisível. Não dá para fazer um tratamento diferen- pagou nada pela ocupação
ciado entre o parque e a Marina da Glória. Para fazer as competições de vela ali não é do Estádio de Remo da Lagoa
preciso muita coisa, mas eles usam o discurso de que são necessárias altas interven- desde que recebeu a posse
do Estado, em 1997, malgrado
ções para justificar contratos de expansões com empreiteiras, colando uma cortina de
os termos do contrato que
fumaça na realização de uma Olimpíada, quando na verdade não é necessário nada dispõe que a contraprestação
disso. Comecei a atuar na Marina da Glória em virtude dos projetos ilegais de expan- pela permissão de uso
são que avançam sobre a enseada até a rampa do calabouço, na qual o remo também correspondesse a 10% do
faturamento obtido com a
estava instalado. Há mais de 10 anos, desde a época do Pan, os clubes de remos não
exploração do estádio no mês
conseguem colocar um barco na água, porque o acesso ao mar está fechado devido anterior.
a projeto de expansões ilegais que não foram aprovados. Mas, mesmo assim, foram
realizados e bloqueiam o acesso ao mar, impedindo os clubes de realizar a sua função 8. A licença de obra
concedida pela Secretaria de
social que é: promover o remo, fazer iniciação esportiva. Então, nossa participação
Municipal de Urbanismo em
e importância da audiência pública é quanto a defesa da área, pois existia ali uma 06/04/2006 choca-se com as
rampa pública que foi destruída e tem que retornar, tem que ser reconstruída para recomendações do Ministério
devolver à população o acesso ao mar que é um direito básico elementar. Público do Estado do Rio de
Janeiro para que o Município
‘anule as autorizações
CDDHC: O que existe atualmente no lugar da rampa pública? concedidas para implantação
Alessandro Zelesco: Especificamente onde estava a rampa, eles construíram uma do Empreendimento Lagoon’
espécie de cisterna. Na verdade, uma pista interna entre a Glória e a área do Centro, (recomendação do Inquérito
Civil MA 1506, de 19/01/2005).
próxima ao aeroporto Santos do Dumont e ao lado do Museu de Arte Moderna. Hoje
As recomendações do
essa cisterna já foi demolida, mas a rampa não foi reconstruída e até hoje permanece Ministério Público nunca foram
fechada. E por quê? Porque deixar aquela área aberta ao público prejudica futuros publicadas na imprensa. A
52 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

projetos de expansão de interesse do setor privado. Todos os projetos que a Mariana


da Glória apresentou iria ocupar toda a enseada da Glória, por isso, a estratégia é
sempre a mesma: deslocar a área operacional de velas e lanchas, a área operacional
da Marina, para aquela área em frente aos clubes do Calabouço, para liberar espaço
e fazer centro de convenções, shoppings, locais voltados para o consumo. É por isso
que sempre estão contra a permissão do acesso ao mar com uma rampa pública como
era antes, fechando e destruindo essa rampa.

CDDHC: Qual a importância dessa luta para o direito ao acesso de práticas es-
portivas em espaços públicos?
Alessandro Zelesco: É fundamental. Se você conversar ou consultar praticantes de
esportes, não só de remo, mas de outras modalidades como canoa havaiana, de ca-
noagem, adeptos do stand up paddle, vai perceber que a população carioca hoje não
usufrui da Baía de Guanabara. Inclusive, na audiência pública, a esposa do Amaro
Machado, que foi o arquiteto que projetou a Marina da Glória, ressaltou que o projeto
original da Marina foi realizado para devolver a cultura náutica à população carioca.
Permitir aos cariocas nos momentos de lazer terem acesso à Baía de Guanabara para
usufruir e se apropriar desse bem público: a baía. E para isso acontecer precisa de
quê? De acesso livre ao mar, seja pela Marina da Glória ou por rampas públicas. E não
Câmara de Vereadores, por estamos falando de iates ou lanchões, estamos tratando de pequenos barcos que a
meio da Lei nº 4149/2005,
população pode colocar em cima do carro, parar em um estacionamento perto, levar
tombou o Estádio de Remo da
Lagoa, considerado exemplar até a rampa e por duas ou três horas ter a prática esportiva e depois sair do mar pela
referencial da arquitetura rampa e voltar para casa. A importância desse acesso ao mar de forma pública sem
moderna brasileira. Estão interferência está aí: em promover e desenvolver essa cultura náutica da população e
preservadas as características
com isso a preservação ambiental, porque ao utilizar as águas da baía, a população se
arquitetônicas originais
dos três blocos edificados e preocupa com a água, com o esgoto e lixo jogado e acumulado lá. Você leva a popula-
garante-se a participação de ção a lutar pela preservação da qualidade dessa água.
entidades desportivas e ligadas
ao remo para consultoria
CDDHC: Como foi a experiência do movimento de Remo atuar e lutar junto com
técnica esportiva em todas as
etapas do desenvolvimento os outros coletivos de diferentes práticas esportivas no Comitê Popular da Copa
do projeto de restauração e das Olimpíadas, diante dessa especulação imobiliária?
e revitalização do imóvel. A Alessandro Zelesco: De suma importância. Aqui cabe ressaltar o papel do Comitê que
lei do tombamento permite
congregou esses diversos movimentos: SOS Estádio de Remo, Ocupa Marina e tantos
adaptações no conjunto
edificado para adequações outros que defendem equipamentos esportivos como Parque Aquático Júlio Delamare,
às funções esportivas e para o Estádio de Atletismo Célio de Barros, e demais equipamentos que estão precarizados,
atividades comerciais de terceirizados e privatizados. O papel do Comitê é fundamental porque unifica essas de-
suporte, de pequeno porte,
mandas de luta e as potencializa. Um exemplo é a produção do dossiê9 sobre os eventos
desde que não haja perda da
harmonia do projeto original. esportivos, documento de fundamental importância que mostra as violações aos direi-
tos humanos, ao direito à cidade e de todos nós. Mostra bem a falácia e a hipocrisia
9. Relatório Megaeventos desse discurso de que aqui no Rio de Janeiro somos uma cidade olímpica quando temos
e Violações dos Direitos
equipamentos esportivos sendo privatizados, fechados e destruídos.
Humanos no Rio de Janeiro
Dossiê do Comitê Popular
da Copa e Olimpíadas do Rio
de Janeiro junho de 2014, 3.3. DIREITO DOS POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS
disponível em <https://
comitepopulario.files.
wordpress.com/2014/06/ Ao longo do primeiro semestre de 2015, a equipe técnica da CDDHC Alerj realizou di-
dossiecomiterio2014_web.pdf>. versos encontros entre representantes de comunidades tradicionais do Estado do Rio
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 53

de Janeiro, movimentos sociais, membros da comunidade científica, de instituições


engajadas no acesso à justiça e na tutela de direitos coletivos, como o Ministério Pú-
blico Federal e a Defensoria Pública.

Dessas reuniões, surgiu a proposta de emenda à Constituição Estadual para incluir


no documento dispositivo a respeito dos direitos das comunidades tradicionais, tra-
tando do direito ao território, do acesso à saúde e à educação adequada e outros di-
reitos fundamentais previstos em tratados internacionais de direitos humanos (PEC
nº 14/2015). As especificidades de cada território e as diversas demandas coletivas
ainda pendentes de solução indicaram a necessidade de realização de uma audiência
pública que permitisse à CDDHC e a entidades governamentais conhecer a realidade
das comunidades.

Fruto do processo de construção da PEC 14/2015 e do esforço de mobilização dos di-


versos atores envolvidos, a CDDHC Alerj realizou em 24 de agosto de 2015, a audiência
pública "Direitos dos povos e comunidades tradicionais do Estado do Rio de Janeiro".
O encontro contou com a presença de mais de 50 (cinquenta) territórios e comunida-
des em todo o Estado, além de movimentos sociais, entidades de pesquisa, organiza-
ções não-governamentais e redes de militantes.

Na audiência, foram ouvidos representantes de comunidade quilombolas, indígenas,


caiçaras, pescadores artesanais e territórios atingidos por megaempreendimentos e
pela especulação imobiliária. Foi também exposto o conteúdo da PEC nº 14/2015 e
debatido o método para aprovação da PEC pelas comunidades tradicionais, baseado
nos direitos de tais comunidades à consulta livre, prévia e informada, prevista na
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que garante a participação
política dos povos tradicionais e da qual o Brasil é signatário desde 2002.

A partir da audiência, a CDDHC Alerj segue trabalhando em conjunto com o Núcleo


de Defesa de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, o
Ministério Público Federal, o Fórum de Comunidades Tradicionais de Angra e Paraty
(FDCT) e a Associação de Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do
Rio de Janeiro (ACQUILERJ) para concretizar a consulta prévia aos povos e comunida-
des tradicionais do Estado, ao mesmo tempo em que colhe demandas e denúncias de
violações de direitos.

DILIGÊNCIA NA COMUNIDADE
TRADICIONAL DE ZACARIAS, MARICÁ*

E
m 25 de maio de 2015, o deputado estadual Flavio Serafini, membro da Comis- *O relatório está disponível
são de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do no seguinte link:
Estado do Rio de Janeiro, acompanhado de equipe técnica e assessores, visitou http://www.flavioserafini.
com.br/flavio-serafini-lanca-
o território da comunidade tradicional pesqueira de Zacarias, no município de Ma-
relatorio-violacoes-de-direitos-
ricá, atingida por megaempreendimento imobiliário em processo de licenciamento humanos-na-comunidade-
ambiental pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). tradicional-de-zacarias/
54 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

A diligência foi realizada para apurar denúncias feitas por moradores, movimentos
sociais e entidades de pesquisa envolvidas na proteção da restinga de Maricá e do ter-
ritório tradicional da comunidade de Zacarias, e contou com a presença de membros
do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, do Ministério Público Federal, pes-
quisadores e movimentos sociais. As denúncias, em sua maior parte, diziam respeito
à irregularidade e falta de transparência do processo de licenciamento ambiental con-
duzido pelo órgão estadual, bem como à presença de representantes e funcionários
no território tradicional mesmo antes da emissão de qualquer licença, gerando nas
famílias de pescadores sensação de controle, vigilância, assédio e intimidação para
aceitar o empreendimento.

Na oportunidade, os presentes colheram relatos do histórico do conflito e caminharam


por parte do território ancestral da comunidade, na Barra de Maricá, para entender de
que forma o empreendimento impactará a comunidade. A partir da diligência, a CDDHC
Alerj produziu um relatório sobre as violações de direitos humanos na comunidade tra-
dicional de Zacarias decorrente do licenciamento do megaempreendimento imobiliário
“Fazenda São Bento da Lagoa”. Eis a conclusão do documento: “A diligência à comuni-
dade tradicional de Zacarias deixou claro que há um estado de violação de direitos hu-
manos e da legislação ambiental e urbanística causada pela empresa IDB Brasil Ltda. e
pela omissão, conivência ou concordância do poder público estadual e municipal, que
coloca a comunidade tradicional pesqueira em situação de vulnerabilidade, pressão e
potencial violência, especialmente em razão da presença de representantes do empre-
endedor privado na comunidade”. O relatório apresenta ainda uma série de recomen-
dações a órgãos públicos e entidades de fiscalização e defesa de direitos.

3.4. VIOLÊNCIA HOMO, LESBO, BI E TRANSFÓBICA

A população Lésbica, Gay, Bissexual, Travesti e Transexual (LGBTTs) sente na pele o


retrocesso político e social diante da falta de debates qualificados e de políticas públi-
ca a respeito dos seus direitos enquanto seres humanos que são. Do Congresso Nacio-
nal à vida cotidiana, observa-se a retirada de direitos que sequer foram reconhecidos
integralmente. Além disso há o acirramento da violência que é invisível aos olhos da
justiça uma vez que não dispõe de uma tipificação específica no código penal. Isso
acarreta uma desumanização sistemática que leva à naturalização da discriminação,
estigmatização e preconceitos direcionais à população LGBTTs.

O reconhecimento da identidade de gênero é uma das ações iniciais para a garantia


da dignidade da população LGBTT. Já há a garantia do direito ao nome social nos
documentos de identidade, nas instituições de ensino e em boletins de ocorrência
10. Resolução 11 e 12 de registrados por autoridades policiais; e nas escolas, o uso de banheiros, vestiários e
2015 do Conselho Nacional demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade
de Combate à Discriminação de gênero de cada um10. Mas essas conquistas políticas, que foram pautadas diante da
e Promoção dos Direitos de
luta incansável dos movimentos, ainda carecem de efetividade na esfera social. Tanto
Lésbicas, Gays, Bissexuais,
que há episódios como o protagonizado pela transexual Lara Lincoln que, mesmo
Travestis e Transexuais,
da Secretaria de Direitos com o reconhecimento de seu nome social, foi impedida de utilizar o banheiro femini-
Humanos. no durante a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 55

Em determinados lugares, essa realidade ganha contornos mais evidentes, como é o


caso das favelas e bairros pobres periféricos. Ser LGBTT nos bairros elitizados, como
os da Zona Sul, é uma experiência de maiores possibilidades, desde a denúncia até a
mobilização de campanhas, criação de centros contra a homofobia ou de promoção
da saúde, como tem sido denunciado por Gilmara Cunha da ONG Conexão G11, ativista
LGBTT. Em função da presença do comércio ilegal de drogas e de milícias, as restri-
ções se impõem de forma mais radical. Segundo o último relatório publicado pelo
Governo de Estado do Rio de Janeiro através do Relatório de Atendimento – Centros
de Cidadania LGBT 201312, 44% das denúncias ocorreram na Zona Norte do Rio de Ja-
neiro, 30% na Zona Oeste e 11% no Centro, o mesmo percentual da Zona Sul.

Esse relatório revela ainda que a capital do estado, principalmente na Baixada Flumi-
nense e Região Serrana, concentra o maior índice de pessoas que usaram os serviços
do centro de atendimento. De acordo com os dados nacionais da Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência da República (SDH/PR), a cada hora, um homossexual sofre
algum tipo de violência no Brasil. Além disso, nos últimos quatro anos, o número de
denúncias ligadas à homofobia cresceu 460%. São números alarmantes que demons-
tram a necessidade de avançar tanto no campo jurídico como político e social.

A audiência pública “Violência contra a População LGBTT no Rio de Janeiro”, realizada


pela Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, em parceria com
outras comissões, deliberou como foco do debate público os casos de transfobia ocorri-
dos no estado do Rio de janeiro. Durante o encontro, foram expostos tanto as demandas
em relação às agressões físicas, psicológicas e assassinatos das pessoas trans, como
também a violência institucional de órgãos de saúde que permanecem com práticas
discriminatórias em relação ao nome social e nos tratamentos ofertados aos usuários.

OS NÚMEROS DA DISCRIMINAÇÃO
11. O Grupo Conexão G,
Com frequência, as pessoas relacionam a prostituição de rua às travestis, transexuais fundado em 2006, é uma
e transgêneros, porém, se esquecem de mencionam que a prostituição não é opção: organização da sociedade civil,
se caracteriza de trabalhar
trata-se de sobrevivência, resistência e autonomia do corpo em virtude do estigma à
com a minimização dos
cultura transfóbica presente na sociedade, que resulta na ausência de oportunidades preconceitos vivida segmento
de trabalho formal. Segundo informações do grupo TransRevolução (RJ), 90% da po- LGBTT. Este projeto tem como
pulação trans exercem a prostituição como atividade profissional na informalidade, foco as favelas do Rio de
Janeiro, tem como objetivo
sem condições de acessar direitos trabalhistas e seguridade social. Além disso, a mes-
desenvolver ações para a
ma cultura que segrega, também desumaniza travestis, transexuais e transgêneros, minimização dos preconceitos
pois o direito à vida lhes é negado.   e de outras formas de violência.

12. Relatório de Atendimento


Em 15 de maio de 2015, a audiência pública realizada pela Comissão de Defesa dos
dos Centros de Cidadania LGBT
Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, em conjunto com as Comissões Especial pelo 2013, disponível em <http://
Cumprimento das Leis e de Segurança Pública, para debater a “Violência contra a Po- www.riosemhomofobia.
pulação LGBTT no Rio de Janeiro” revelou dados alarmantes. Segundo levantamento rj.gov.br/publicacao/
ver/17_relat%C3%B3rio-de-
da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, informados pelo delgado Fábio
atendimento-dos-centros-de-
Cardoso, o número de homicídios na região, nos últimos três anos, subiu de forma cidadania-lgbt---2013#sthash.
gradual em cerca de 3% por ano. Índice na contramão de outras regiões no estado, zzbd26Ar.dpuf>.
56 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

que se notabilizam pelo decréscimo de casos. Para se ter ideia, em 2014, a Baixada
Fluminense teve 40% dos homicídios do Estado do Rio de Janeiro.

De acordo com levantamento do grupo TransRevolução (RJ), a expectativa de vida da


população trans gira em torno de 30 anos, enquanto a média da população brasileira
é 74,6 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mais da metade das mortes por assassinatos de pessoas transexuais, travestis e trans-
gêneros ocorrem no Brasil. Em 2013, foram 121 homicídios - incluindo apenas os da-
dos noticiados e confirmados. Há subnotificação de casos em decorrência de diversos
assassinatos da população trans serem informados erroneamente como “homem” ou
“homossexual” em levantamentos de órgãos públicos. Esses dados também revelam
que das cinco regiões do país, o Sudeste ocupa, com 38 casos, o 2º lugar com o maior
número de assassinatos de travestis, transexuais e transgêneros.

De acordo com informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacio-


nais Anísio Teixeira (Inep), apenas 95 travestis, transexuais e transgêneros inscreve-
ram-se para o Enem, utilizando o nome social, em 2014. No entanto, dados do Trans-
revolução (RJ), contabilizam 84 assassinatos desse mesmo contingente populacional
no mesmo ano, revelando o abismo sobre a realidade da população trans, a ausência
de acesso a direitos e o silenciamento de possíveis violações de direitos humanos.
Por trás de toda travesti, transexual e transgênero há pessoas com uma vida própria,
que cuidam de casa, têm um cotidiano como qualquer outro, com direito a trabalho,
à educação, à cidade, transporte, saúde e igualdade social. Ou seja: com o direito ao
exercício de sua cidadania respeitado.

O cotidiano da ausência e violações de direitos veio à tona pelas vozes de represen-


tantes de quatro movimentos LGBTTs: Grupo Transrevolução; Conexão G; Frente Bei-
jo na Praça; Grupo Transdiversidades GTN. Os relatos mostraram a distância entre
políticas públicas e a realidade dos atendimentos em órgãos públicos, além da ne-
cessidade do avanço de ações imediatas que não só atendam a população LGBTT,
mas construam de forma participativa e plural soluções para as demandas reais dos
movimentos LGBTTs.

Os depoimentos expuseram violações de direitos em atendimentos realizados den-


tro de unidades de atendimento de órgãos públicos ligados ao governo do estado,
descumprimento de decretos e resoluções que garantem o uso do nome social, uso
de banheiros públicos, agressões e ameaças de estupro em escolas e universidades.
Além disso, houve relatos que deram conta da dificuldade de acesso e registro de de-
núncia de discriminação em delegacias, nos conselhos estaduais, incluindo práticas
de violência institucional e forte repressão policial à população trans em decorrência
da atividade de prostituição.

VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL

A Resolução nº 12 publicada em 16 de janeiro de 2015, pelo Conselho Nacional de


Combate à Discriminação e Promoções dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 57

Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT), estabelece parâmetros para a garantia das con-


dições de acesso e permanência de pessoas travestis e transexuais em instituições,
formulou orientações quanto ao reconhecimento institucional da identidade de gêne-
ro e sua operacionalização. Pela Resolução, em seu artigo 6º, escolas e universidades
e qualquer outro tipo de rede de ensino “deve garantir o uso de banheiros, vestiários
e demais espaços segregados por gênero, quando houver, de acordo com a identidade
de gênero de cada sujeito”, sem a necessidade de autorização de terceiros.

Porém, Lara Lincoln Millanês Ricardo, de 29 anos, ativista da Frente Beijo na Praça,
do Grupo Transrevolução e aluna do curso preparatório para o Exame Nacional do En-
sino Médio (Enem) direcionado para travestis, transexuais, transgêneros e outras pes-
soas em situação de vulnerabilidade social e preconceito de gênero, o Prepara Nem,
não teve sua identidade de gênero respeitada na escola evangélica na qual cursava
o ensino médio. Ao tentar utilizar o banheiro feminino, foi impedida. Um professor
da instituição, contrário ao pleito da estudante, convocou uma reunião com toda a
comunidade escolar para decidir sobre o seu direito. Como as situações de precon-
ceito só cresceram a partir desse episódio, Lara resolveu registrar ocorrência contra a
discriminação na 62ª Delegacia de Polícia de Imbariê, em Duque de Caxias. Mas, já na
recepção da delegacia, ao apresentar a carteira de identidade com seu nome social,
Lara foi alvo de um “sorriso debochado” da recepcionista.

É importante lembrar que a mudança de nome em documentos de identidade civil só


pode ser alterada no Brasil por decisão judicial. No entanto, o Decreto nº 43.065/2011
reconhece o direito ao uso do nome social, o modo como são reconhecidas e denomi-
nadas na sua comunidade, a travestis e transexuais na administração direta e indireta
do estado do Rio de Janeiro. Pontua o referido decreto: “Art. 2º - Todos os registros do
sistema de informação, cadastro, programas, projetos, ações, serviços, fichas, reque-
rimentos, formulários, prontuários e congêneres da Administração Pública Estadu-
al deverão conter o campo “Nome Social” em destaque, fazendo-se acompanhar do
nome civil, que será utilizado apenas para fins internos administrativos. (...) A pessoa
transexual ou travesti capaz poderá a qualquer tempo requerer inclusão do nome so-
cial nos registros dos sistemas de informação, cadastro, fichas, requerimentos, formu-
lários, prontuários e congêneres”.

O registro da ocorrência contra a discriminação transformou-se em uma verdadeira


odisseia para Lara. Ao ser visualizada pelo inspetor de polícia, foi cumprimentada da
seguinte forma: “Boa tarde meu camarada, qual é seu problema? ”. De acordo com Lara,
após as ironias diante do desconhecimento por parte do agente do decreto que garante
a utilização do nome social, o policial ainda tentou demovê-la da ideia de formalizar a
denúncia. Não satisfeito com a série de arbitrariedades na abordagem, o agente a culpa-
bilizou pela situação de discriminação da qual foi vítima. Depois de muito insistir com o
inspetor, o caso foi levado ao delegado que autorizou o registro. Mas Lara ainda sofreria
perseguição do inspetor por duas semanas através de ligações telefônicas. O Centro de
Referência de Duque de Caxias, que auxiliou Lara no caso, a orientou denunciar à Cor-
regedoria de Polícia. Mas por medo, Lara preferiu não apresentar a reclamação contra
o agente. Após a denúncia do caso na delegacia, o professor que discriminou Lara na
escola foi demitido. “Eu só queria um direito que é meu”, afirmou Lara.
58 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Indianara Siqueira, ativista do grupo TransRevolução, também destacou as falhas de


acolhimento e atendimento dos Centros de Referência. De acordo com ela, a dificul-
dade de acesso já ocorre desde a portaria do Centro de Cidadania LGBT, localizado
na Central do Brasil, que verifica o tipo de vestimenta das pessoas para autorizar a
entrada. “Levei três meninos negros de chinelos para o Centro Estadual e a trans que
está aqui presente. Mas eles foram impedidos de entrar por causa de suas roupas. Eu
também já fui proibida de entrar lá, mas vi mulheres saindo com roupas mais curtas
do que as minhas, e mais decotadas. Mas elas não foram proibidas de entrar”.

Há problemas ainda no atendimento do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe),


um centro de referência na realização da cirurgia de transgenitalização. Segundo In-
dianara, o hospital além de estar fechado para inclusão de novos pacientes desde
2013, atende aos pacientes com um “processo transexualizador que não funciona e
que é completamente transfóbico”. Na própria UERJ, responsável pelo Hupe, houve
a fixação de cartazes com ameaças de estupro a transexuais homens que usassem o
banheiro masculino. Em uma turma do curso de Letras, um professor usou conceitos
religiosos para promover homofobia e transfobia em sala de aula.

A forte repressão policial à prostituição, atividade de trabalho de 90% da popula-


ção trans, também foi criticada. Sendo uma das populações mais marginalizadas e
mais invisibilizadas, episódios de violência institucional e policial contra a popu-
lação trans são recorrentes, de acordo com movimentos LGBTTs. Bruna Benevides,
do grupo Transdiversidade GTN, destacou que a exclusão de travestis, transexuais e
transgêneros é precoce e a falta de oportunidade no mercado formal de trabalho leva
travestis, transexuais e transgêneros à prostituição como resistência. “Quando nós
somos crianças, a nossa família tem vergonha da gente. Ela não quer dar satisfações
para as vizinhas que têm um filho travesti ou transexual. Somos alijadas de casa, da
escola, da sociedade. A gente tem que se virar com o que a gente tem, e, de fato, a
única coisa que temos é o nosso corpo, porque nem o nosso nome nós temos o direito
de tê-lo. Eu já fui despida de tudo: do meu nome, de escola, da família. O que me resta
é o meu corpo. A única coisa que eu tenho para sobreviver é usá-lo”.
3.4.1. ENTREVISTA: THIAGO BASSI

“A igualdade de direitos
deve ser a união de todas
as letrinhas LGBTTs”
Leon Diniz

Thiago Bassi acredita que a


mobilização da população LGBT
dá visibilidade e fortalece a
identidade de gênero

E
ssa é a opinião de Thiago Bassi, um dos ativistas do coletivo de mobilização
13. O Tem Local? é uma
Tem Local?13, que busca através de uma plataforma colaborativa mapear ca- ferramenta colaborativa que visa
sos de lgbttfobia em território nacional. A proposta é combater o preconceito mapear a lgbttfobaias em todo
que desumaniza, principalmente porque as estatísticas produzidas atual- o Brasil. Tem como proposta dar
voz aos casos não registrados
mente por órgãos públicos são defasadas. De acordo com Bassi, em virtude do método
por medo, vergonha, impunidade
de categorização aplicados por essas instituições, os casos de violações dos direitos ou por desconhecimento. Na
das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Trangêneros são subnotifica- ferramenta, indica-se no mapa
dos. Por isso, destaca os coletivos de mobilização de rua como uma nova experiência o local onde ocorreu a agressão
que pode ser realizada de
na luta por direitos e bandeiras LGBTT, por promover a visibilidade e o empodera-
forma anônima. Veja em <www.
mento da população LGBT, como as ações da Frente Beijo na Praça14. temlocal.com.br>.

CDDHC: Como são essas experiências de coletivos em mobilizações de rua con- 14. A Frente Beijo na Praça é
uma mobilização coletiva de
tra lgbttfobias?
ocupação LGBTTs de praças
Thiago Bassi: Normalmente, temos órgãos públicos e ONGS que não estão represen- e ruas do Rio de Janeiro,
tando o movimento LGBTTs em sua base, porque eles deixam de ouvir a coletividade. promovendo o questionamento
Com isso, o movimento está se empoderando e agrupando em coletivos que escutam o a casos de lgbttfobias a partir
de intervenções públicas com
que as ruas dizem. Ouvir os LGBTTs é importante, mas as ONGs se esqueceram disso.
um beijaço e outras atividades,
Há pouca credibilidade nesses tipos de entidades. Até o órgão estadual do Rio Sem como o organizado pela Frente
Homofobia que teria essa atribuição, ouvir as ruas, não tem ouvido. A 3ª Conferência na Praça São Salvador, entre
LGBTTs está seguindo o padrão do discurso oficial do governo nacional no formulário outros, como o ocorrido em 27
de março de 2015, na Praça São
de inscrição, pondo identidade de gênero e orientação sexual para serem preenchidas
Salvador, no qual foi realizado
juntas no mesmo campo. Eles não entendem que uma pessoa trans, por exemplo, um beijaço: “se a violência não
pode ser bissexual, então ou eu visibilizo a minha transsexualidade ou a minha bisse- acabar, na praça eu vou beijar”.
60 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

xualidade. Eles estão invisibilizando a sigla T ou a sigla B ou a sigla trasvesti, invisibi-


lizando de fato essa população que fica marginalizada. O problema é a falta vontade
de ouvir o que as ruas e os coletivos têm a dizer.

CDDHC: Qual é o objetivo do projeto do Tem Local?


Thiago Bassi: O Tem local? surgiu porque temos poucos relatórios que possam infor-
mar de fato o que acontece quando o tema é a lgbttfobias. Existe o Rio Sem Homofobia,
mas os dados apresentados são completamente irrisórios referente às agressões lgbt-
tfóbicas no Rio de Janeiro no ano passado. Ou seja, uma quantidade muito baixa de
agredidos. Além disso, o órgão ainda chama de “homofobia” né? Então, na prática,
não determina o que é transfobia. Ao fazer uma denúncia na delegacia, por exemplo,
a pessoa é completamente ridicularizada, desrespeitada, não é ouvida e é um sacri-
légio conseguir que o delegado coloque no registro de ocorrência que você foi víti-
ma de homofobia. Além disso, travestis e transsexuais ainda são categorizados como
homens sofrendo homofobia, só que não é homofobia é transfobia. Está na hora de
rever esse formulário da polícia e mudá-lo apresentando um campo para transfobia.
A identidade de gênero precisa ser respeitada.

CDDHC: Como surgiu a mobilização de rua contra a transfobia em alguns locais


do Rio de Janeiro?
Thiago Bassi: As ruas estão se mobilizando e o Tem Local? nasce como uma ferramenta
de denúncia que a partir dela as pessoas podem não só denunciar suas experiências
como podem fazer denúncias sobre ato que aconteceram com outras pessoas. Nossa
ideia é criar uma rede de coletivos parceiros que dentro do 'Tem local?' possam cadas-
trar denúncias no site sendo coletivos ou inclusive tendo algum fato ou ato de lgbttfo-
bias próximo da região. A gente entra em contato com esse coletivo, para que possamos
tomar alguma atitude ou fazer um ato de acolhimento para a pessoa que foi agredida ou
até mesmo atos no local que ocorreu o preconceito, porque a gente sabe que hoje a ho-
mofobia agride, a transfobia mata, lesbofobia estupra e a bifobia invisibiliza. Qualquer
preconceito tem que ser denunciado e eliminado. Tivemos a denúncia do caso do bar
Durangos que foi transfóbico com a Indianara do grupo TransRevolução e mobilizamos
um escracho. Tacamos purpurina no local, tivemos sangue falso jogado no chão, teve
velas acendidas com porta-retratos e uma banda fúnebre tocou na frente do bar.

CDDHC: Por que você está nessa luta pela lgbttfobias?


Thiago Bassi: É uma faceta da personalidade da pessoa que tem tantas outras facetas
que não é só LGBTTs. Mas só que a vertente LGBTTs é tão visível e é tão escrachado
que se torna tão forte para sociedade. É objeto de desumanização da pessoa, e, a partir
do momento em que uma característica se torna algo visto como objeto de ódio, isso
tem que ser combatido. É o mesmo caso do racismo, da orientação sexual ou identida-
de de gênero da pessoa. Acho que quando você vê que uma pessoa é humilhada por
outra por ser ou ter algo que não se enquadra no padrão cis heteronormativa, a prin-
cipal luta é quebrar essa atitude praticada por conta da visão da sociedade, moldada
em padrões morais estabelecidos de uma forma a humilhar, segregar. Esse tal padrão
não pode existir, a moral tem que ser aberta a toda e qualquer tipo de formas indepen-
dente do que a pessoa acredita que seja verdade. Não dá para impor a sua moral ao
outro, porque a minha moral é diferente da sua. Acredito que se a gente pensar assim
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 61

vai viver melhor e de forma mais coletiva e não individualista. A individualidade é


segregadora. O coletivo tem que estar acima.

CDDHC: Por que discutir identidade de gênero hoje no Brasil é uma forma de
lutar e pautar os direitos humanos?
Thiago Bassi: É porque hoje duas meninas andando de mãos dadas no meio da rua
levam um soco na cara por estarem de mãos dadas. É porque quando você tem dois ho-
mens que se beijam do lado de um casal com um homem e uma mulher cis se beijando,
o casal LGBTTs é motivo de chacota. Se eu andar de batom na rua, as pessoas olham
e fazem piadinha. Há situações que fazem a pessoa se sentir inferior, desumanizado
como pessoa. Nós temos que falar sobre isso. Criticar essa sociedade, expor essa maze-
la e essa imposição de moral, do que se acha certo ou não. Só assim vamos conseguir
mudar essa realidade para que todos sejam encarados como humanos e não como gay,
hétero, trans, cis gênero. É a partir disso que vamos conseguir respeitar os direitos de
todos para que todos nós sejamos humanos e não categorizados, apesar de a categoria
ser importante para empoderar a lutar em prol dos direitos, não podemos ser só uma ca-
tegoria. Acho muito interessante quem fala: “ah você não precisa ser assumir gay”. É de
fato não precisa, mas a partir do momento em que você não sai de dentro do seu armário
você acaba desempoderando outras pessoas que estão lá gritando. Se manter na sua
comodidade, não fortalece e não ajuda um movimento que está lá lutando por todos.

3.4.2. ENTREVISTA: GILMARA CUNHA

“Deixe-me existir”
Leon Diniz

Gilmara Cunha critica a falta de


espaço para o debate sobre a
população LGBT moradora de
favela

E
sse é o pedido de Gilmara Cunha, 31 anos, moradora do conjunto de favelas
da Maré e fundadora do Grupo Conexão G, que trabalha em prol da população
LGBT de favelas. Se outras formas de ativismos têm mobilizado as ruas em prol
dos direitos e visibilidade da população trans, na favela, o direito à vida, é ainda a
62 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

principal bandeira de travestis e transexuais a ter que ser levantada. De acordo com
Gilmara, a falta do desenvolvimento de políticas públicas e atendimento de órgãos
governamentais para acolher a população LGBT de favelas, inclusive, em programas
de atendimento LGBT, é uma realidade.

Homenageada com a entrega da Medalha Tiradentes15, Gilmara Cunha, na audiência


para debater o tema, apresentou uma carta com diversas reivindicações ao programa
Rio Sem Homofobia e a Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos. Para ela,
é necessário primeiro retirar o véu da desumanização social em relação travestis e
transexuais o cotidiano. Somente depois dessa visibilidade, será possível avançar em
outros direitos. Confira a entrevista.

CDDHC: Quais são só principais desafios do movimento LGBT?


Gilmara Cunha: Pensando na perspectiva da população a qual eu represento, o
maior desafio é a existência. Não desmereço as outras políticas que tem sido um
avanço como a conquista do direito ao casamento e adoção, mas para essa popu-
lação que está ainda à margem, é o direito à vida dentro da favela que é preciso ser
garantido. O movimento LGBT é um movimento de classe média. Então, pouco se
discute a questão da homossexualidade no espaço de favela, porque nem mesmo
o movimento LGBT entende as dificuldades vividas por essa população. Eu quero
respeito. Eu preciso existir nesse território e dentro dessa sociedade apesar dela a
todo momento dizer que eu não presto ou que não devo existir, criando estereótipos
negativos sobre a minha pessoa. Ser transexual, travestis, lésbica, gay, bissexual
em espaços de favelas é você levantar todos os dias e falar assim: Hoje eu preciso
me manter viva. É trabalhar, é buscar a escolaridade, pois hoje temos uma grande
evasão nas escolas em relação a população LGBT, justamente por não ter um am-
biente escolar de respeitabilidade. O pedido é que a todo momento essas grandes
pastas governamentais olhem para essa população. Nós temos um programa no Rio
de Janeiro: o Rio Sem Homofobia com um trabalho de oito anos que em nenhum
momento criou políticas para a população LGBT de favelas. Isso é muito triste. Por
isso, eu digo: deixe-me existir. Eu quero existir nessa sociedade. Eu quero existir
enquanto pessoa e ser humano e não apenas por ser LGBT.

CDDHC: As pessoas LGBTs moradoras de favelas estão mais sujeitas a vio-


lência?
Gilmara Cunha: Não tem como mensurar porque homofobia é homofobia e ponto.
O que eu tenho dito é que as pessoas entendem homofobia só como agressão física,
mas homofobia transcende isso. Nosso corpo fala. Então, se eu estou num espaço e
as pessoas me olham de um jeito torto, ali está ocorrendo a homofobia. É claro que
a população moradora de favela está mais sujeita a isso porque se eu sofro homo-
fobia na favela, eu não vou poder denunciar. Primeiro, porque o Estado não se faz
presente naquele espaço. Segundo, porque existe uma outra regra daquele território
que impede essa população trans de poder acessar direitos. Então, o que fazer? Acho
15. O autor da proposta da
que precisamos primeiro garantir a presença do Estado nesse território para construir
homenagem foi o deputado
estadual Flavio Serafini, outro tipo de relação e não a existente, atualmente, em que estamos sempre à mar-
membro da CDDHC Alerj. gem da sociedade. Sendo assim, é claro que se eu estiver na Avenida Vieira Souto, em
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 63

Ipanema e se sofrer homofobia, a Lei vai ser acionada, vai me proteger, mas dentro da
favela não. É muito difícil ser gay, lésbica, bissexual, travesti e transexual dentro do
território de favela.

CDDHC: Você enxerga alguma especificidade para as mulheres trans nesse cenário?
Gilmara Cunha: Ele é bem opressor. Existe uma regra na favela: é aceito o gay,
mas porque ele se veste como homem, é aceito a lésbica porque duas mulheres se
beijando representa o fetiche masculino, mas quando você é uma travesti dentro
das favelas o cenário é outro. A ausência do Estado nesse espaço faz com que as
igrejas evangélicas se proliferem e vão criando dogmas introduzindo nesses indi-
víduos muito preconceito. Começa-se a criar nas favelas exércitos de Cristo. Então,
quando você tem uma travesti que se veste completamente como mulher há uma
discriminação muito forte. Expressam o pensamento: “Veja essa travesti não quer
ser mulher? Ela só se identifica como mulher”. Não, ninguém quer ser mulher ou
gerar um filho, mas as pessoas acreditam que a gente quer isso. Então, em se tratan-
do da população favelada, a primeira demanda é garantir a vida. Depois disso, aí
podemos pensar em conquistar outros espaços.

CDDHC: Qual é o lugar da resistência e de articulação para essa população


trans diante desse quadro de retrocesso no qual à vida precisa ainda ser pre-
servada?
Gilmara Cunha: Eu acredito que primeiramente é mobilizar essa população que não
está mobilizada, porque não está articulada. A população LGBT de favelas está des-
crente, pois não consegue enxergar espaços de debates importante onde se possa
construir uma política pública, então a população trans favela se retira. Inclusive,
por conta do descrédito relaciona a questão eleitoral, porque as pessoas vêm aqui
prometem, ganham voto e depois não fazem nada em toda favela. Não há um centro
de referência LGBT ou uma política de acesso à escola ou canais governamentais que
podem ser implantados e não são feitos nas favelas. Cria-se muita roda de conversa,
de participação, mas efetivamente nada é construído.

CDDHC: Como você enxerga o espaço de da audiência pública?


Gilmara Cunha: Na audiência pública foi claro o descaso com a população LGBT
de favelas. A secretária de Assistência Social disse que direitos temos, mas nós não
podemos acessá-lo, porque foi isso que ela quis dizer no momento em que eu en-
trego uma carta com diversas demandas da população LGBT de favela, mas ela diz
que não existia a demanda. Então, primeiramente o caminho de resistência é exis-
tir, se fortalecer para depois ocupar, porque quando nós nos sentimos seguras e as
pessoas passarem a nos reconhecer como seres humanos, aí será possível ocupar
espaços. É uma regressão. É muito triste e doloroso isso, mas é a verdade. Quando
a gente tiver um olhar do indivíduo trans sem partir para a vitimização, quando
formos vistos como qualquer outro ser humano que trabalhar, estudar, passa por
problemas, aí teremos um avanço. Eu não tenho que me vitimar para sensibilizar
o outro, esse alguém, para ser respeitado como sou. É por isso que você consegue
avançar com a pauta gay, lésbica, bissexual, mas a da população trans não. Até os
dados são invisibilizados.
64 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

3.5. INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Não sou eu que vivo no passado / é o passado que vive em mim.


(Paulinho da Viola)

O Rio de Janeiro assistiu, em 2015, uma das cenas mais lamentáveis de intolerân-
cia religiosa: uma menina de 11 anos foi alvo de uma pedrada na cabeça em um
ponto de ônibus por estar com vestuário característico do candomblé. Em pleno
século XXI, a menina Kayllane Campos teve como algozes e inquisidores dois ho-
mens que estavam na Vila da Penha, bairro popular da Zona Norte do Rio. Ao
atirarem as pedras, os agressores insultavam o grupo de religiosos que estava com
Kayllane. A mãe de santo Káthia Marinho, avó da menina, registrou o caso como
16. Diante da resistência das
escolas em aplicar a Lei 10.639, lesão corporal e no artigo 20, da Lei 7716 (praticar, induzir ou incitar a discrimi-
o Ministério Público Federal nação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional) na 38º
instituiu um grupo de trabalho Delegacia de Polícia, em Irajá.
em Educação. Com o auxílio do
Instituto Nacional de Estudos
e Pesquisas Educacionais O caso de Kayllane não é isolado. Em 21 de janeiro de 2000, a Ialorixá Gildásia dos
(Inep), a estratégia é incluir Santos (Mãe Gilda), faleceu de infarto fulminante ao ver sua foto estampada na capa
questões sobre história da do Jornal Folha Universal, com o título: “Macumbeiros Charlatões lesam o bolso e a
África e dos povos indígenas
vida de clientes”. Em maio de 2012, em Goiás, Rafael de Araújo Teixeira, de 19 anos,
no Exame Nacional do Ensino
Médio (Enem). Dessa forma, que se dizia da "Igreja de Cristo", tentou quebrar a marretadas a imagem de uma santa
induzir as escolas a abordar católica que havia sido colocada pela prefeitura da cidade de Águas Lindas de Goiás
o tema em seus currículos de na Avenida JK, na entrada do Jardim Brasília.
forma voluntária ou sendo
pressionadas pelos próprios
alunos a fazê-lo. No último No ano de 2012, em Manaus, representantes da Secretaria de Educação do Estado
Enem, aplicado em outubro, do Amazonas precisaram se reunir com a direção de uma escola estadual devido
seis questões versaram sobre o a negativa de alunos evangélicos a fazer um trabalho escolar sobre a cultura
tema. O objetivo é ter
africana. Os alunos se recusaram a fazer o trabalho com a justificativa de que
cinco a oito questões relativas
ao tema no Exame. a tarefa fazia apologia ao satanismo e ao homossexualismo, ideias que supos-
tamente contrariam a crença deles. Por Lei 10.639/03, o ensino sobre história e
17. SANTOS, Milton. A era cultura afro-brasileira nos currículos do ensino fundamental e médio é obriga-
da inteligência baseada na
tório. Mas, 10 anos após a adoção da lei, seja por preconceito racial e religioso,
máquina. In: TRINDADE, A. L.;
SANTOS, Rafael dos (orgs.). seja pela falta de formação docente, muitas escolas ainda resistem a implemen-
Multiculturalismo: mil e uma tá-la em sala de aula16.
faces da escola. Rio de Janeiro:
DP&A, 1999.
A escola é um espaço de socialização e de instrução, aquisição de “conhecimen-
18. Bem como o tos”. A escola é a reprodutora de valores hegemônicos na sociedade. Tem a função
empoderamento e de “treinar os diversos papéis sociais, cristalizá-los, e não refletir sobre a ideia de
fortalecimento da cultura que eles são uma construção histórica, e como tal, passíveis de mudança” (Santos,
negra que pela campanha
1999)17, formando os futuros quadros gestores da economia, da política, da cultura,
higienista pós período da
abolição da escravidão, da justiça, etc.
promoveu o apagamento das
raízes africanas na formação É fato que a Lei 10.639/03 abriu caminhos para que a temática africana ganhasse
da história do Brasil e do
visibilidade dentro do ambiente escolar, ampliasse a quantidade e a qualidade
povo brasileiro a partir de
um conteúdo de ensino desses temas nos materiais didáticos, além de ter fomentado a oferta de linhas de
eurocentrista. pesquisas, especializações e cursos voltados para a história africana18. Mas, essa
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 65

mesma visibilidade, também descortinou resistências e práticas intolerantes. De


acordo com o Ministério Público Federal, durante o período de dez anos, foram
identificados 93 autos extrajudiciais que versam sobre a não aplicação da lei em
vários estados do país.

Em 2010, a Relatoria do Direito Humano à Educação, ligada a Unesco, apurou


denúncias de intolerância às religiões de matriz africana no ambiente escolar.
Foram registrados casos de bullying, manifestações preconceituosas e impedi-
mento de usar símbolos. Segundo o relatório da Unesco, a lei evidenciou a con-
fusão entre o limite de uma prática religiosa e cultural. Desvelou também a más-
cara de outra questão: o racismo presente na sociedade brasileira direcionado à
população negra.

CASOS NÃO SÃO ISOLADOS

A intolerância religiosa também ocorre com praticantes de outras religiões como o


islamismo. É o que mostra o pré-relatório sobre intolerância religiosa no Brasil elabo-
rado pelo Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (CEPLIR)19,
ligado à Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos20. O documen-
to foi apresentado durante a audiência pública realizada e organizada pela CDDHC
Alerj, em 18 de agosto de 2015.

O estudo foi elaborado a partir de dez documentos produzidos entre 2004 e junho de
2015. Também foram selecionados casos obtidos em registros administrativos, narra-
tivas, depoimentos, entrevistas, notícias e mídias impressa e virtual em todo âmbito
do território nacional. Como o caso do Clube AABB Lagoa, no Rio de Janeiro. O clube
foi o escolhido pela comunidade judaica para realização do evento Macabíadas (jogos 19. A Ceplir recebeu em
olímpicos que reúnem clubes e colégios judaicos de todo o país). Em uma das depen- dois anos e meio quase
dências do clube onde havia um aparelho de televisão, um sócio descontente com a mil denúncias de casos de
intolerância religiosa. Os
locação para a comunidade judaica, travou uma agressiva discussão com um grupo
dados foram apresentados na
de crianças de São Paulo. Na discussão, ele proferiu ofensas de cunho antissemita audiência pública realizada no
contra as crianças, chamando elas diversas vezes de "judeus filhos da puta" e dizendo Rio de Janeiro pela Comissão
"eu sou muçulmano e odeio vocês!" e "vocês têm que morrer!". de Defesa dos Direitos
Humanos e Cidadania da Alerj,
com a participação de 150
Uma semana após o assassinato do cartunista francês do periódico Charlie Hebdo, pessoas, em 18 de agosto de
a professora de teatro Sarah Ghuraba, muçulmana de 27 anos, caminhava para a 2015. O encontro foi organizado
consulta médica quando levou uma pedrada na perna. Junto ao ataque físico veio o conjuntamente com o Centro
de Articulação de População
verbal: "muçulmana maldita!", disse o desconhecido, que a atacou somente por ser
Marginalizadas e reuniu
muçulmana e, logo em seguida, fugiu correndo. Ao relatar o caso no Facebook, para representantes de diversas
alertar outras muçulmanas para que tivessem cuidado, ela recebeu algumas mensa- religiões.
gens solidárias, mas diversas outras ofensivas: "falaram que eu deveria ter levado
20. Disponível em <http://
um tijolo na cabeça e outros prometeram terminar o trabalho. É assustador. Será que
ceubrio.com.br/downloads/
uma muçulmana brasileira precisa morrer para entenderem que existe islamofobia no relatorio-Intolerancia-
Brasil?", questionou. religiosa-18-08-2015.pdf>.
66 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

EVANGÉLICOS

O pastor Marcos Amaral, da Igreja Presbiteriana, destacou que é importante iden-


tificar os agressores não só para que eles sejam responsabilizados, mas para mos-
trar à sociedade de quais segmentos evangélicos partem os atos de violência. De
acordo com ele, a maioria dos evangélicos não concordam com a discriminação.
Em geral, os crimes de intolerância religiosa contra religiões de matriz africanas
são praticados por seguidores de igrejas pentecostais e neopentecostais. “Nós
evangélicos lamentamos o que está acontecendo. Nós, evangélicos históricos,
sabemos que a violência tem cara e endereço. São os segmentos pentecostais e
neopentecostais, grupos televisivos que tem projeto de poder, interesses políticos
e econômicos”, afirmou.

A reverenda Lusmarina Campos Garcia, da Igreja Luterana e diretora do Conselho


de Igrejas Cristãs do Rio de Janeiro, afirmou que aqueles que agridem pessoas em
nome de Jesus não conhecem a verdadeira mensagem dos evangelhos. “Ou não es-
tudou teologia ou estudou uma teologia engessada, baseada exclusivamente nos
valores ocidentais, do homem branco e proprietário, que exclui índios, negros, mu-
lheres e pessoas de diferentes orientações sexuais. Não percebem a complexidade
do divino”, argumentou.

MUÇULMANOS

A professora Denise Bonfim, que é muçulmana, lembrou quando foi ameaçada


de morte por usar o véu. “A nossa vestimenta é a nossa identidade. Nunca ima-
ginei sofrer intolerância em minha cidade, multicultural e multirreligiosa. Um
homem numa moto passou por mim e falou que muçulmano bom é muçulmano
morto. Tirei meu véu por um tempo por medo”, contou. Os casos de discrimi-
nação no Rio de Janeiro estão crescendo devido ao agravamento dos conflitos
no Oriente Médio e à violência do Estado Islâmico. As principais vítimas são as
mulheres, devido ao traje.

Segundo Teresa Cosentino, à época, secretária estadual de Assistência Social e Di-


reitos Humanos, a pasta atendeu a 532 casos de intolerância religiosa em 2014. Na
ocorrência de casos, há denúncias de preconceito com diversas religiões, mas cerca
de 70% das vítimas são seguidoras de religiões afro brasileiras.

Como encaminhamento da audiência pública sobre o tema, foi formado um grupo


e trabalho para acompanhar os casos e denúncias e pensar em políticas públicas. O
grupo passará a se reunir em 2016.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 67

3.5.1. ENTREVISTA: IVANIR DOS SANTOS

“A intolerância religiosa
é uma ameaça à democracia”
Leon Diniz

Ivanir dos Santos critica


o silêncio de setores
progressistas com relação à
intolerância religiosa

Segundo relatório do CEPLIR, até Junho de 2015, só no estado do Rio de Janeiro, foram
registrados 39 casos de intolerância religiosa no disque 100, além de 90 casos a nível
nacional. Em 2014, foram registrados 79 casos em todo o Brasil. A incidência de casos
de preconceito e discriminação contra praticantes de religiões de matriz africana, dá
a certeza a Ivanir dos Santos, que não só as agressões não são casos isolados, como
o problema não é só uma questão individual. Trata-se de uma ameaça à democracia.
“Talvez a indiferença seja um caso isolado, mas a violência não é. O problema da
intolerância é muito maior do que as pessoas pensam, porque ela é um ataque à de-
mocracia”, afirmou ele na audiência pública em 18 de agosto de 2015.

Nascido e criado na favela do Esqueleto21 até ser internado à força no antigo Juizado
de Menores, o babalorixá Ivanir dos Santos, transformou a exclusão em força motriz
para lutar em prol das populações marginalizadas. Filho de uma prostituta assassi-
nada pela Invernada de Olaria, levado para a Fundação Nacional do Bem-Estar do
Menor (Funabem), ele foi uma das primeiras lideranças negras do país a levantar a
voz denunciar a ação de grupos de extermínio que matavam crianças em situação de
rua. Atuou na defesa dos direitos humanos na Chacina da Candelária, Vigário Geral e
ao lado das Mães de Acari.

Ao longo da última década, participou da organização e coordenação das campanhas


de combate ao racismo e da elaboração do Programa Nacional sobre Criança e Ado-
21. Onde hoje se localiza a
lescente, Violência e Cidadania. Esteve à frente até 1999 da Subsecretaria Estadual de Universidade do Estado do Rio
Direitos Humanos e Cidadania, comandando a equipe que elaborou o Plano Estadual de Janeiro (UERJ).
68 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

de Direitos Humanos. Junto com setores do Movimento Negro e de Mulheres, criou o


Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), no qual atua até hoje.
Frente ao aumento das práticas de intolerância religiosa no país, participa da criação
da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa no Rio de Janeiro.

Criou junto com diversos movimentos a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa


que já está em sua 8ª edição. A 1ª Caminhada na Orla de Copacabana reuniu mais de
20 mil pessoas e foi um marco na cidade, possibilitando a abertura de fórum de diá-
logo Inter-religioso.

CDDHC: Por que a caminhada pela liberdade religiosa é uma ação importante?
Ivanir dos Santos : Porque desde a 1ª Caminhada de Intolerância Religiosa, em 2008,
em Copacabana, essa ação surpreendeu a todos por conseguir aglutinar pessoas de
diferentes religiões. Ninguém esperava que um tema como esse levaria os religiosos
para as ruas. Principalmente, porque a caminhada sempre foi, em um primeiro mo-
mento, 99% com participantes de religiões de matriz africana. Depois, conseguimos
articular com outros grupos religiosos, mas foram com as lideranças dessas outras
religiões e não foram com adeptos delas massivamente. Com o tempo, houve adesão
de populares. Hoje, o cenário que você vê na caminhada é ainda composta por uma
maioria de praticantes de religiões de matriz africana, mas tem também a presença
de cristãos, Hare Krishna, dos anglicanos, budistas, ciganos, muçulmanos, judeus. É
uma ação cada vez mais é representativa. Na caminhada de 2015, se você olhasse para
os lados, via até grupos que são discriminados dentro da sua própria religião partici-
pando. É o caso dos religiosos gays que desde a 2ª caminhada participam, porque que
se sentem discriminados, mas no ano passado teve também os gays católicos. Até a
turma que luta a favor da legalização do aborto participou da caminhada. Ou seja, é
uma caminhada democrática.

CDDHC: Quais são as raízes dessa intolerância?


Ivanir dos Santos : O fundamento da intolerância tem a ver com a ignorância, pre-
conceito e com o racismo. Se você observar, por trás da intolerância há uma motiva-
ção política e não religiosa, porque o religioso pensa diferente. Com a chegada de
Jesus, Deus resume os mandamentos em dois: amai a Deus sobre todas as coisas e
ao próximo como a ti mesmo. Ele mandou amar e não ter preconceito, porque Jesus
congregava com todos: prostitutas, samaritanos, etc. O preconceito não é de Deus e
sim do homem e do interesse do homem. Outra fundamentação mais moderna tem a
ver com o mercado. Há igrejas neopentecostais aí que estão fazendo saquinho de sal
grosso para descarrego, entre outras atividades que se assemelham as práticas que
os umbandistas têm em seus rituais. Não é um movimento que tem a ver com bases
religiosas e sim com a utilização da religião para um outro caminho, usando o meca-
nismo de demonizar os grupos que não tem essa identidade religiosa igual a deles.
Daí, é claro que as religiões de matriz africana serão o maior alvo, porque você tem
que baixar a autoestima dessas pessoas para elas terem vergonha do que são para, in-
clusive, ter o momento da conversão. O uso da intolerância no Brasil ocasionou uma
base conservadora para fidelizar o voto a partir de uma posição conservadora. Isso
não é religião, é política e econômica.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 69

CDDHC: Quais são as principais denúncias que chegam na comissão?


Ivanir dos Santos : Desrespeito, briga com crianças nas escolas, confusões e desen-
tendimentos entre vizinhos e até casos de invasão de templos chegando a agressão
física. Isso sempre ocorreu, mas agora está tendo reação. Somos pacíficos. Reagimos
indo a delegacia prestar ocorrência mesmo sabendo que muitas vezes você não con-
segue fazer o registro na delegacia. Isso acarreta a subnotificação, porque impede a
instalação de inquérito para denúncia ao Ministério Público. E quando há delegados
que levam o caso adiante, acabam sendo perseguidos por esses grupos de fanáticos.
Na audiência pública, eles foram com uma camisa dizendo: Bíblia sim, Constituição
não. Isso em um Estado laico. O fanatismo é perigoso para qualquer grupo social. Es-
ses grupos têm um poder político nessa cidade e no Congresso. Tem também as outras
instâncias. Estamos diante de um Estado que é laico, mas a pessoa vai ser funcionário
público e não se insere nessa prerrogativa do Estado. Usa a sua religião como cami-
nho para construir benefícios. Tem juiz julgando ações a partir das suas concepções
religiosas, tem promotor que faz denúncia a partir da sua ordenação religiosa, tem
delegado que atua também a partir da sua concepção religiosa. Tem prédio público
que tem culto e missa. Certa vez, entrei na Alerj e tinha aviso no elevador: Dia tal,
horário x, culto no lugar tal. Do outro lado tinha o aviso da missa do padre. Agora, se
eu chegar lá e tentar colocar um aviso lá dizendo: quarta-feira, a tal hora, sessão com
a vovó Maria Conga, eu não vou poder não, vai poder? E não pode mesmo, porque o
Estado é laico, o problema é que na prática ele não é. Ou seja: o culto a algumas reli-
giões é permitido dentro de um prédio do Estado laico, outros não.

CDDHC: Quais são os principais locais de agressões a terreiros no Rio de Janeiro?


Ivanir dos Santos : Em algumas comunidades, porque justamente temos essa contra-
dição de traficantes se dizerem evangélicos algumas vezes aliados com maus pasto-
res. Isso é real. E temos que olhar como isso também é feito dentro dos presídios. Ocor-
re mais em área de periferia, mas isso não quer dizer que não aconteça nos grandes
centros. Já tivemos ocorrência no Catete, porta da Zona Sul. O que chama atenção é o
silêncio de setores progressistas com relação a esse tema. Ou seja, isso não é uma pre-
ocupação ainda, não é vista como prioridade na pauta partidária, porque a intolerân-
cia religiosa não está na macropolítica. Ocorre com grupos minoritários, mas quando
ocorrer com o grupo católico, quando uma santa é quebrada, aí o clamor é maior. É
como se existisse um consenso na sociedade ou preconceito de que é com “macum-
beiro” e preto pode. Aliás, por conta da intolerância religiosa, o único momento em
que um branco se sente discriminado é quando ele é praticante de religião de matriz
africana. Ele sai com seu fio de cota e entra no ônibus e de repente ouve um “tá amar-
rado”. Então, a caminhada a favor da liberdade religiosa é isto: você vê várias pessoas
brancas da religião matriz africana que vão para rua, ele assina a cultura religiosa de
um povo, de uma identidade, de uma cultura que é negra e é africana.

CDDHC: Então, a Lei que adota o ensino da história e cultura africana nas esco-
las de ensino fundamental e médio como obrigatório é um caminho para com-
bater a intolerância?
Ivanir dos Santos: Sim. Inclusive, a lei que é federal, em nenhum momento fala
de religião, mas de cultura. Porém, tem professor que quando fala a palavra África,
o menino evangélico já sai resmungando que isso é macumba. Ora, África é o berço
70 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

da civilização mundial. Mas observa o preconceito? Os que mais resistem à lei são os
pentecostais e aí não é só a aplicação da lei na escola. Ocorre também com a capoeira
que para ser exercida pelo pentecostal tem que ser sem atabaque. Ou seja: vão lim-
pando os elementos da raiz africana. Perceba como essa intolerância parte de uma
construção eurocêntrica de mundo. Por isso, penso que a lei é o maior instrumento
de combate a intolerância religiosa, porque é uma lei que aborda a cultura. É preciso
ter informação.

CDDHC: Por que é tão importante denunciar e fazer o registro na delegacia a


violação de intolerância religiosa? É uma forma de torna visível?
Ivanir dos Santos: Não só para tornar visível, mas para tornar a intolerância uma
denúncia, um fato concreto porque a polícia trabalha com estatística. O Estado tam-
bém trabalha a partir de estatísticas. Por isso, não adianta só a gente sentir e recla-
mar. Tem que ir fazer o registro e se o delegado não quiser, force a barra. Sabemos
que às vezes a intolerância religiosa é classificada com outro tipo de artigo. Há de-
legados que tipificam como desentendimento de vizinhos. É necessário pressionar
para o registro seja realizado como prevê a intolerância religiosa. O operador do
direito que recebe os casos às vezes pensa igualzinho a quem fez o ataque. Essa é
uma questão. É igual ao racista que diz que não é racismo e que foi você quem não
entendeu direito. Em vez de ele ouvir a sua queixa, ele tenta convencer a você que
sua queixa está errada. Mas existe base legal para autuar a intolerância religiosa.
Cabe ao poder público fazer um treinamento para preparar o agente. Ele tem que
atender ao público e aplicar a lei e não sua compreensão religiosa. O grosso da in-
tolerância está invisível, porque tem muita gente que sofre isso, mas não consegue
achar nem o caminho da delegacia e da Comissão de Combate a intolerância religio-
sa, principalmente na Baixada Fluminense.

CDDHC: Espaços como audiência pública da Comissão de Cidadania e Direitos


Humanos são importantes por quê?
Ivanir dos Santos: Boa parte dos deputados evangélicos fazem discurso que não
são intolerantes, mas nenhum deles foram na audiência pública feita na Alerj.
Não ouvem a comunidade para buscar uma solução. Mesmo assim a audiência
pública tem seu papel e função, porque é um espaço de relação de poder. Debater
o tema ali pode criar uma onda na sociedade. Não tenho a ilusão de que vamos
conseguir da noite para o dia mudanças, mas discutir a intolerância nesse espaço
é fundamental para ampliar o debate. O Estado se omite sobre esse tema não é à
toa. Esses grupos construíram uma fonte de poder, uma bancada, ou seja, criou
um lobby. O que as pessoas não percebem é que por trás da intolerância há posi-
ções e jogos políticos que são feitos.

3.6. A JUVENTUDE E A CULTURA DO MEDO

A construção do medo no Rio de Janeiro é histórica. De acordo com a socióloga Vera


Malaguti (2003), esse processo tem raízes na formação do Brasil a partir da difusão
do medo, da insegurança e da desordem pública, porque serve para a aplicação de
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 71

sistemas políticos de urbanização e policiamento como estratégias para “neutralizar


e disciplinar” a população pobre. O fim da escravidão e a implantação da república,
fenômenos ocasionados quase concomitantes, iniciaram essa construção do medo,
uma vez que não romperam com a ideia elitista de ordenamento no país, formando
uma cultura socioeconômica e política, como ressalta Vera Malaguti22.

Malaguti argumenta que o medo branco da rebelião negra, da descida dos mor-
ros, aumenta com o fim da escravidão e da monarquia, que produz uma república
excludente, intolerante e truculenta a partir de um projeto político autoritário.
Uma cultura do medo criada por ser necessária para implantação de legislação e
a execução de políticas públicas no espaço urbano, seja em infraestrutura ou na
gestão de segurança na cidade, que privilegia a elite e a classe média, subjugando
a massa pobre. Principalmente, no Rio de Janeiro – que sendo a capital simbólica
do país – vitrine da massa negra, escrava, liberta que se transformou num gi-
gantesco Zumbi a assombrar a civilização, criando estratégias de sobrevivências
próprias na ausência de políticas públicas sociais, dos quilombos ao arrastão nas
praias cariocas, ressalta Malaguti.

Um medo forjado na síndrome do liberalismo oligárquico brasileiro, que funda a nos-


sa República carregando dentro de si o princípio da desigualdade legítima que her-
dara da escravidão, que segue produzindo seletividade. Não é à toa que juventude
pobre e negra é o perfil predominante das pessoas presas ou em medidas socioeduca-
tivas devido a atos ilícitos relacionados à desordem. A seletividade do sistema penal
(polícia, judiciário) do Estado permite que a população pobre seja alvo do controle
repressivo do Estado.

As estratégias de criminalização da pobreza não estão somente em manter essa po-


pulação à margem do Estado. Os bairros empobrecidos se configuram como o espaço
aonde o alvo deve ser atingido no enfrentamento ao medo protagonizado pelo Esta-
do em busca de ‘soluções’ para dissipar a sensação de insegurança. O medo molda
cotidiano das grandes cidades, desde seus contornos arquitetônicos até o compor-
tamento de seus habitantes. Trata-se de uma categoria de construção discursiva do
social que se expressa como fio condutor de subjetividades. O medo é utilizado como
ferramenta política de controle social, coerção e extermínio da população pobre por
governos que, nos dias atuais, também utilizam os meios de comunicação comercial
22. Malaguti, Vera. O medo na
como braço estratégico para a aplicação dessa política.
cidade do Rio de Janeiro: dois
tempos de uma história. Rio de
O sociólogo Barry Glassner23 denomina como “cultura do medo” todas as situações Janeiro: Revan, 2003.
fabricadas por alarmistas, tendo como seus protagonistas: a mídia24, o mercado,
23. GLASSNER, Barry. The
a religião e a política. Dentre os medos “válidos”, aqueles que são necessários ao
Culture of Fear. New York:
ser humano porque alertam sobre o perigo; e os disseminados por essa cultura: Perseus Books Group Francis,
os medos “falsos ou exagerados”, Glassner classifica a mídia como um "arauto do 2003.
medo". Isto porque fomenta a cultura do medo ao destacar crimes, enfatizar a vio-
24. “Exceções há”, diz
lência, adulterar números, dados estatísticos, manipular a informação, dominar o
Glassner (2001), porém, a
noticiário, e principalmente, aproveitar-se dos amedrontados para comercializar o mídia está no centro do culto
pânico como produto. da cultura do medo.
72 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Consumir o medo como produto na cobertura policial exige fazer uma distribuição
desse medo de maneira heterogênea no tecido social da cidade. A partir de certa re-
presentação da desordem urbana e da sensação de segurança criada pelas lentes da
mídia, que fomenta a opinião pública, cada região ou bairro é classificado segundo
determinados medos. Ainda que o risco projetado para certos lugares também seja vá-
lido para outros – e até isentos de alguns. São projeções de espacializações do medo
que guardam a memória de violência.

No entanto, uma mesma população e organização de sociedade pode ter diferentes


memórias, o que pode nos levar a construção de vários "Rios do medo"25, mas também
a formas criativas de estratégias de sobrevivência, luta e resistência. A cidade do Rio
de janeiro está em uma disputa simbólica, mas também prática, a partir de ações de
grupos que não recuam na defesa dos direitos humanos. Além disso, esses coletivos
são capazes de fomentar uma gestão de cidade em que novas espacializações garan-
tem uma memória de um Rio sem medo.

3.6.1. MOBILIZAÇÃO PELO DIREITO À CIDADE

No final de setembro de 2015, veículos de comunicação de massa divulgaram imagens


de furtos ocorridos nas areias da Zona Sul carioca, em final de semana de sol e praia
lotada. A exemplo do que ocorreu na década de 1990, teve início uma ampla cam-
panha de criminalização da juventude pobre da Zona Norte, com a disseminação de
um sentimento de medo na elite econômica que rapidamente exigiu das políticas de
segurança pública uma resposta.

Neste contexto, as forças policiais adotaram um procedimento padrão aos finais de


semana e feriados: parar linhas de ônibus que ligam a Zona Norte à orla da Zona Sul
e levar os jovens, negros e pobres para a delegacia, com vistas à verificação de ante-
cedentes criminais ou infracionais. Esta conduta evidencia uma política de segurança
racista e discriminatória que, através do procedimento ilegal de prisão para averigua-
ção, busca cercear cidadãos ao direito constitucional de ir e vir, além do direito ao
lazer e ao uso do espaço público.

Diante das inúmeras reportagens sobre as operações, bem como das declarações do
secretário de Segurança Pública e do governador do Estado em que afirmavam, atra-
vés de metáforas, que tais ações seriam mantidas e fortalecidas, a Defensoria Pública
do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Coordenadoria de Defesa dos Direitos da
Criança e do Adolescente (Cdedica), impetrou um habeas corpus preventivo que bus-
cava a decretação do óbvio: a determinação de todos os jovens serem tratados como
inocentes até que se prove o contrário.

25. MATHEUS, Letícia Catarela. Quando a Vara da Infância e da Juventude do Rio concedeu liminar acatando o pe-
Narrativas do Medo: o
dido da Defensoria, houve uma reação do governador e do secretário de Segurança
jornalismo de sensações além
do sensacionalismo. Rio de Pública que, revoltados, atacaram tanto o Poder Judiciário, quanto a Defensoria Pú-
Janeiro: Mauad X, 2011. blica, na figura da defensora pública Eufrásia Maria das Virgens, coordenadora do
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 73

Cdedica. A defensora chegou a receber ameaças de morte nas redes sociais. Impla-
cável na defesa dos direitos humanos, Eufrásia Maria não recuou. Recebeu inúme-
ras manifestações de apoio, entre as quais a Medalha Tiradentes, maior comenda da
Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Uma iniciativa do mandato do
deputado estadual Marcelo Freixo, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos
Humanos e Cidadania da Alerj.

Coletivos e entidades de direitos humanos, além de diferentes movimentos sociais,


também se organizaram para frear a barbárie institucionalizada. Entre eles, o coletivo
de mídia independente Papo Reto, formado por cerca de 10 moradores do Complexo
do Alemão. O Papo Reto organizou uma ação de comunicação de rua para protestar
contra a tentativa de segregar a favela da cidade, criando o evento "Farofaço 2.0: Nós
Vamos invadir NOSSA praia". Uma iniciativa na contramão dos eventos organizados
por 'justiceiros', que incentivaram por meio das redes sociais agressões contra jovens
negros que se dirigissem às praias da Zona Sul.

O termo ou gíria “farofa” surgiu no Rio para designar de forma pejorativa e estereoti-
pada o comportamento praiano do morador do subúrbio ou da favela em levar para
a praia alimentos trazidos de casa, incluindo o clássico e barato frango com farofa.
No Farofaço, os itens obrigatórios são, de acordo com os organizadores, frango, fa-
rofa, refrigerante, alegria e roupa de banho para curtir a praia. "O bagulho é curtir
uma praia bolada em um domingão ensolarado de nossa cidade linda! É pra curtir
a praia numa boa, estamos pedindo que tragam suas cangas, seus bronzeadores,
protetores de sol, douradores de pelos, bola de futebol, seus isopores com cerveja
e guaraná pra criançada, baldinho, piscinas de plástico pras crianças e pandeiro
pro pagodão no fim de tarde, e um radinho pro pancadão!!!", descrevia o texto do
evento. E concluía: "Também trabalhamos e pagamos impostos! Gostamos de praia!
Gostamos tanto que queremos curtir a de Ramos e a de Ipanema também! Por isso
vamos nos encontrar na Praça General Osório que é onde fica o ponto final do 483,
484 e fica próximo ao 455".

A primeira versão do Farofaço foi realizada em dezembro de 2013. Com o processo do


corte das linhas de ônibus que dão acesso direto da Zona Norte à Zona Sul e a crimina-
lização de moradores de favelas, o Coletivo Papo Reto, organizou a segunda edição do
Farofaço em 4 de outubro de 2015. O ato começou na estação do metrô de Ipanema e
saiu em direção à praia do Arpoador e defendia o direito de ir e vir com cartazes como
"morar longe não é crime" e "seu IPTU não paga a nossa praia".

O Bloco da Associação de Amigos e Profissionais do Funk animou o trajeto até o mar,


chamando a atenção de vários frequentadores da praia como camelôs, moradores da
Baixada Fluminense e de outras periferias do Rio de Janeiro. A CDDHC Alerj também
participou do ato e prestou auxílio aos organizadores.

Thainã Medeiros, integrante do coletivo, museólogo e morador do Complexo, explica


em entrevista a prática do grupo de disputar a cidade a partir de mobilizações de rua,
da construção de narrativas como o Farofaço.
74 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

3.6.2. ENTREVISTA: THAINÃ MEDEIROS

“A criminalização transforma
‘justiceiro’ em herói”

Leon Diniz
Thainã Medeiros
defende que o racismo
culmina com um grupo de
brancos retirando negros do
ônibus com o argumento
de que são criminosos

CDDHC: O que é o Farofaço?


Thainã Medeiros: O Farofaço não deixa de ser um rolezinho com outra proposta. Ele
é a tomada de um espaço que é negado pela população de uma outra forma. As abor-
dagens feitas pela polícia são discriminatórias. Quem é que definiu que uma pessoa
pobre, sem camisa, vinda da Zona Norte é uma criminosa em potencial? Isso não é
política preventiva. Política de prevenção é investir em políticas públicas, não tirar o
direito de ir à praia das pessoas.

CDDHC: O Coletivo Papo Reto, organizador do Farofaço, sofreu ameaças dos jus-
ticeiros?
Thainã Medeiros: Primeiro, esse fenômeno de justiceiros da Zona Sul correndo atrás
de favelado na praia não é novo. Na década de 90 foram publicadas notícias de jornal
sobre isso, à época dos primeiros arrastões na praia. Primeiro é preciso compreender
que o termo arrastão é uma criação midiática, o que é o arrastão? É um grupo de jo-
vens que cometem assalto e isso acontece na cidade inteira. Mas, ao fazer o recorte
“praia” e identificar como algo que é muito perigoso, funciona para criminalizar uma
parcela da população. Na década de 90, existia um grupo que era denominado “gru-
pos de funkeiros levam o terror à praia”. Uma perspectiva contra os funkeiros, porque
era início de um novo cenário funk e de um momento político-eleitoral importante,
pois tínhamos uma candidata negra, ex-favelada disputando as eleições para a ci-
dade. O recorte midiático dizia que essa galera da favela estava indo para as praias
causar. Já naquele momento tinha grupos de lutadores de jiu-jitsu que faziam a segu-
rança do bairro. E essa segurança era contra pobre, preto e favelado. Hoje isso só se
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 75

repete. O exemplo mais claro foi o caso do Flamengo quando prenderam um menino
no poste amarrado, porque ele roubou um celular. O roubo de um celular se tornou
um crime mais grave do que o crime de tortura que aquele grupo de jovens fez. Então,
essas ameaças de agora, não são feitas para a gente do Coletivo Papo Reto. Eram feitas
a todos aqueles que iam à praia e que figuram o estereótipo.

CDDHC: Como essas ameaças foram feitas?


Thainã Medeiros: Eram postadas na página do evento criado no Facebook e diziam
que a gente levaria tumulto para a praia, só que por outros comentários postados pela
própria galera e a descrição do evento, mas se percebia que a proposta nunca foi essa.
Queríamos simplesmente levar favelados para praia. O problema é que na cabeça de
uma pessoa preconceituosa levar favelado à praia é fazer tumulto. Eu sempre tentava
entender qual era a narrativa que existia ali. Uma narrativa bastante constante – por
mais que a gente identifique o preconceito de classe e de cor, um racismo de classe – a
narrativa que eles usam não é essa. Eles não falam vamos à praia pegar esse pessoal
porque eles são pretos, eles dizem que só querem pegar os criminosos. Mas eles estão
detendo as pessoas a partir de um recorte de classe e de cor. Então, só para deixar isso
bastante claro, o racismo no Brasil está presente e é institucional. O racismo está em
várias camadas de preconceitos que culmina num grupo de brancos parando ônibus e
tirando os pretos para meter a porrada, mas com o argumento de que não estão batendo
porque é preto e sim porque é criminoso. Se criminaliza um indivíduo antes de qualquer
ação arbitrária e quem o criminalizou não é julgado por isso. A narrativa da criminali-
zação não só dá o respaldo para quem comete a atrocidade em nome de uma suposta
justiça, como ela o transforma em um herói. Não é à toa que eles se autointitulam os
justiceiros. Justiceiros e heróis são termos que a milícia utiliza para se autodenominar.

CDDHC: O corte das linhas de ônibus que ligam a Zona Norte à Zona Sul é uma
ação política de segregação da cidade?
Thainã Medeiros: Muitos argumentam que a redução das linhas de ônibus e a alteração
dos itinerários é para beneficiar a cidade. Isso pode ocorrer desde que se crie outra rede de
comunicação de transporte, que dê conta do volume de trânsito, sendo integrado para fa-
cilitar o acesso da população, mas não é isso que há no Rio de Janeiro. Divulgam opiniões
de especialistas e apresentam estatísticas na tentativa de comprovar o argumento do be-
nefício, sem levar em conta que vai dificultar a saída da Zona Norte, Zona Oeste e Baixada
para o Centro e Zona Sul. O governo usa as estatísticas que lhe interessa, a verdade que lhe
convêm. Há dados que mostram que mais de 90% dos assassinatos de jovens na cidade
são de negros, mas essa estatística é ignorada. Agora, quando há dados para sustentar o
corte das linhas de ônibus que dão acesso direto entre a favela e as praias, esses dados
servem para justificar a tal política. Não é um jogo com a mentira, mas com a verdade que
interessa e que não é a que contempla todos os cidadãos. Falam que o bilhete único vai
dar conta, mas o valor que já era alto aumenta mais. Que cidade é essa que diz que vai
integrar, mas cria só mecanismo para dificultar o acesso à ela?

CDDHC: A partir desse cenário, como você acha que as entidades de direitos
humanos podem atuar na disputa e preservação direito à cidade?
Thainã Medeiros: Existem grupos organizados na cidade disputando essa narrativa,
essa gestão da cidade. As comissões de direitos humanos desde o primeiro Farofaço
76 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

vem colaborando e auxiliando o Coletivo Papo Reto na organização do evento. Dis-


ponibilizando advogados, orientando em questões de segurança, estando presente.
Desde os primeiros dias de organização todas essas comissões se envolveram e a pre-
sença delas dão uma legitimidade ao que nós estamos fazendo. No segundo Farofaço,
a Comissão chegou junto para fornecer seus recursos e orientações na construção da
ação e ajudou muito, porque quando a gente cria um evento tomado pela raiva de
que os nossos (moradores de favela e pobres) estão sendo espancados, a gente não
percebe a dimensão que aquela ação pode tomar. Criamos um evento e, de repente, 6
mil pessoas estão confirmadas. A equipe da Comissão de Direitos Humanos mostrou
que não tínhamos pensado em diversos detalhes de segurança dos participantes e
dos próprios membros do Coletivo. Foi bastante importante para podermos atuar e
fortalecer não só no ato, mas na construção desse tipo de eventos.

CDDHC: Por que os participantes do Farofaço fincaram bandeiras nas áreas da


praia do Arpoador?
Thainã Medeiros: Foi um dos momentos da construção desse Farofaço: a criação de
pequenas bandeiras com o nome de todas as favelas que nos lembramos no Arpoador,
porque a saída da Zona Norte, da Zona Oeste, da Baixada para ir à praia na Zona Sul é
uma conquista, porque não só as passagens das linhas de ônibus são caras, os meios
de transporte na cidade são caros, como dentro desse trajeto, a gente pode ser parado
pela polícia, por playboys, justiceiros, e até ali, no momento da praia, ainda podemos
ser parados também. Por isso, chegar à praia é uma conquista e fincar a bandeira
naquele espaço significa marcar a nossa presença. Foi importante as mulheres serem
as protagonistas desse momento, pegarem no microfone, porque nossa memória afe-
tiva de ir à praia fazendo Farofaço é com as nossas mães. Eram elas que nos levavam
à praia com aquelas sacolas cheias de comida e bebida. Lá pelos 12 anos a gente já
carregava as sacolas já com um pouquinho de vergonha, mas na hora da fome, íamos
lá comer o frango que nossa mãe tinha levado. Além disso, se para chegarmos na
praia é uma conquista pelo desafio, sair também é. É uma odisseia no termo claro da
mitologia mesmo: de um cara que foi para guerra e demorou um tanto de anos para
conquistar e depois para voltar. É isso que é ocupar o espaço da praia: não só chegar,
mas é chegar, se manter e voltar para casa com segurança.

O próximo capítulo expõe a situação de violência em que o Rio de Janeiro está sub-
metido diante de uma suposta “guerra às drogas”, sobre a qual não há vencedores. O
capítulo apresenta os casos emblemáticos de violações dos direitos de civis e militares
e atuação da CDDHC nos atendimentos e encaminhamentos. Nesta sessão, há espe-
cial atenção às favelas do Alemão e Acari, esta última por apresentar um alto índice
de execuções sumárias e também rememorar os 25 anos das Mães de Acari.
4. Segurança Pública:
A barbárie não é solução

O
s números não deixam margem para dúvidas: a violência faz parte do coti-
diano brasileiro. Segundo 9º Relatório do Fórum de Segurança Pública1, 59
mil pessoas foram vítimas de mortes violentas no país. Os dados revelam
que na dinâmica da violência, a cada 3 horas uma pessoa foi morta pela
polícia em 2014. Somadas todas as categorias de morte violentas, o Brasil teria uma
taxa de 28,8 mortes para cada 100 mil habitantes. Essa taxa significa um patamar de
9,9% superior àquele alcançado apenas nos homicídios dolosos.

Em média, 28,4% dos crimes violentos letais intencionais aconteceram nas capitais,
incluindo as mortes por intervenção policial. Os dados do Fórum de Segurança Pú-
blica também revelam que o número de mortes decorrentes de intervenção policial
representa 5% do total de mortes violentas intencionais. Entre 2010 e 2013, 1.275 pes-
soas foram assassinadas durante operações policiais na cidade do Rio de Janeiro. Isso
significa que, a cada dois dias, houve um homicídio provocado pelas forças de segu-
rança do Estado. Do total das vítimas, 99,5% eram homens, 79% eram negros e 75%
tinham entre 15 e 29 anos de idade.

RIO TEM A MAIOR TAXA GLOBAL

Em 2014, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que em núme-


ros absolutos, o Rio de Janeiro ocupa o 2º lugar nas estatísticas de casos de pessoas
mortas pelas polícias, com 554 mortes. Quando essa taxa é dividida pelo contingente
populacional, o Rio alcança o 1º lugar com o valor de 3,5 pessoas mortas para cada
100 mil habitantes. Em 15 anos, ocorreram 3.250 casos de homicídios decorrentes de
intervenção policial, sendo a maior parte das ocorrências na capital.

Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), de janeiro a novembro de 2015,


foram registradas 615 mortes decorrentes de ações policiais no Estado. Já no mes-
mo período em 2014, foram 480. Em 2013, 339. A principal conclusão dos estu-
dos feitos sobre letalidade da ação policial ao longo dos anos é sempre a mesma.
Mostra que execuções sumárias não resultaram em qualquer punição porque o
Ministério Público não oferecia denúncia e o Judiciário acolhe o pedido de arqui-
vamento do MP.

A “conspiração do silêncio”, como é denominada pelo pesquisador do Laboratório


de Análise da Violência  da UERJ, Ignácio Cano, só é desmontada a partir de duas 1. Disponível em: http://
situações: quando as vítimas são escandalosamente inocentes, por exemplo, no caso www.forumseguranca.org.br/
produtos/anuario-brasileiro-
de crianças mortas por intervenção policial, como o Eduardo de Jesus, no Complexo
de-seguranca-publica/9o-
do Alemão, em abril de 2015. Ou quando há evidências incontestáveis de que a versão anuario-brasileiro-de-
oficial é sempre a mesma, como foi o caso do flagrante filmado com celulares por civis seguranca-publica
78 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

como recentemente aconteceu no Morro da Providência, pois é quando a ação policial


é individualizada a partir da prova.

A Polícia no Rio de Janeiro não conclui 83% das investigações de homicídios pratica-
dos por policiais. Cerca de 98% dos casos de auto de resistência são arquivados pelo
Ministério Público. Segundo informações publicadas no relatório “Você matou meu
filho”, da Anistia Internacional, das 220 investigações sobre homicídios decorrentes
de ações policiais na cidade do Rio em 2011, 183 ainda não haviam sido concluídas até
abril de 2015.

O chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, reconheceu, durante audiência na CPI dos
Autos de Resistência2 da Assembleia Legislativa, que a falta de investimentos em pes-
soal e tecnologia para investigar homicídios provocados por operações policiais re-
sulta na falta de produção de informações qualificadas sobre o assunto.

CICLOS DE VIOLÊNCIA

Se parte dos policiais são os autores de crimes responsáveis pelos altos índices de vio-
lência, uma preocupante parcela também é vítima. Até outubro de 2015, mais de 66
policiais foram mortos no Rio de Janeiro. Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Se-
gurança Pública, o Rio é o estado campeão de mortes de agentes de segurança. Em 2014,
2. A CPI de Autos de Resistência foram 98 policiais assassinados, quase 25% dos 398 agentes mortos em todo o país.
e Mortes decorrentes de
Ações Policiais no Estado da “A polícia que mata é a mesma polícia que morre. E nenhuma polícia no Brasil morre
Assembleia Legislativa do
no nível da polícia do Rio de Janeiro. Nós temos ciclos de vingança que consistem
Estado do Rio de Janeiro, teve
sua criação publicada em diário em: criminosos executados pela polícia em serviço e, posteriormente, temos policiais
oficial em 9 de outubro de executados por criminosos, principalmente quando estão de folga. A barbárie que vai
2015. A comissão é presidida é a mesma barbárie que volta e assim nós temos esses casos terríveis de policiais que
pelo deputado estadual
são arrastados até a morte, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro. Portan-
Rogério Lisboa e com relatoria
de Marcelo Freixo. A proposta to, os policiais não são os beneficiários deste sistema perverso e de falta do controle
busca investigar o baixo índice do uso da força. Eles são também vítimas dessa conspiração do silêncio”, destacou o
de resolução nos casos de sociólogo Ignácio Cano, na CPI de Autos de Resistência da Alerj.
autos de resistência.

3. ZACCONE, Orlando. O “mata-mata” é a parte visível da violência fomentada por uma política de enfrenta-
Acionistas do Nada: quem mento direto ao tráfico de drogas, promotora do princípio do bem e do mal como dis-
são os traficantes de drogas. positivo da construção de realidade social. Isso se expressa na “guerra” dos bandidos
Rio de Janeiro: REVAN, 2007.
contra os mocinhos, de vilões contra heróis, dos “acionistas do nada”3 contra os paci-
A expressão “acionistas do
nada” é uma denominação ficadores, que torna todos reféns e vitimiza a população. Esse panorama histórico-so-
cunhada por Nils Chistie, na cial, somado aos consensos construídos discursivamente pela mídia, tem projetado
obra “A indústria do controle um imaginário social de tensão e constante conflito no Brasil.
do crime” para conceituar a
seletividade produzida pelo
sistema de governos e jurídicos Segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 50% dos residentes nas
em relação às pessoas que grandes cidades brasileiras concordam com a frase “Bandido bom é bandido morto”.
são atingidas pela prática da Este percentual é maior para homens (52%); moradores da região Sul do país (54%);
conduta descrita como tráfico
e autodeclarados brancos (53%). Por outro lado, 45% da população discordam dessa
de substância entorpecente
como algo irrefutável. afirmação. E essa discordância é formada proporcionalmente mais por mulheres, au-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 79

todeclarados negros, jovens e moradores da região sudeste do país. Na média, consi-


derando a margem de erro, há um empate entre os que concordam e os que discordam
desta questão.

Porém, se a tese “bandido bom é bandido morto” tem alcance social, a inclusão da
pena de morte na Constituição Brasileira não tem a mesma receptividade. Ignácio
Cano, em estudo realizado diretamente com policiais, identificou que 40% dos poli-
ciais também concordam com a prática do extermínio. David Garlland4 enfatiza que
o processo de percepção do medo e da violência alterou a posição da classe média
referente a questões judiciárias ou penais. Segundo ele, à medida que as pessoas se
percebem como vítimas regulares de crimes, elas foram simultaneamente estimula-
das a verem a si próprias como vítimas do governo total, das políticas de tributação
e gasto, de programas previdenciários irresponsáveis, da inflação de sindicatos de
trabalhadores e, nos EUA, de programas de ações afirmativas.

Os direitos do estado do bem-estar foram considerados como políticas públicas que


contrariariam os interesses da classe média “trabalhadora e decente” em favor de pro-
mover benefícios somente aos pobres urbanos indesejáveis e cada vez mais desordei-
ros. “Se as classes médias eram agora as vítimas, seus algozes eram uma subclasse
indesejada, financiada por políticas previdenciárias equivocadas e protegida por pro-
fissionais do serviço social com interesses próprios e por elites liberais que não viviam
no mundo real” (2008, p. 30). Essa posição política das classes médias foi alterada
porque, em virtude da violência, de acordo com Garlland, o crime foi redramatizado.

Sob a perspectiva, em que o bem deve exterminar o mal, matar os sujeitos “inimigos
da paz da cidade” que toma corpo na figura do traficante de drogas, e consequente-
mente, das populações que moram no mesmo local ou próximo onde o inimigo se
encontra: as favelas. A criminalização da pobreza, não está somente em manter essa
população à margem do Estado, mas em "associar o local onde ela habita à origem
do terror. A figura do traficante nessas localidades é o que permite que se exerça essa
política do "mata-mata".

Assim, de acordo com o delegado Orlando Zaccone (2007), legitima-se o uso das prer-
rogativas de controle social permanente com uma política de segurança fundamen-
tada em zonas de guerra. Não se fala na ausência do Estado que falha em atender
demandas sociais e em seu lugar de articulador simbólico e político. O medo molda o
cotidiano das grandes cidades, desde seus contornos arquitetônicos até o comporta-
mento de seus habitantes. Um medo válido de acordo com as estatísticas de seguran-
ça pública. Não podemos deixar a barbárie ser a solução para violência. Precisamos
deslumbrar espaço para mudanças desse cenário de disputa pela legitimidade desse
"mata-mata", inclusive, com condições para que novos padrões de atuação policial
sejam construídos.

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj acredita que o tra- 4. GARLLAND, David. A
Cultura do Controle: Crime e
balho da instituição não deve consistir em "enxugar gelo" e "limpar carvão" dos casos
ordem social na sociedade
de violações de direitos que chegam à Comissão. Acolher as famílias vítimas de vio- contemporânea. Rio de Janeiro:
lência institucional, acompanhar as apurações dos crimes, fomentar soluções e pro- Revan, 2008.
80 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

mover o debate, procurando não só a solução de casos, mas essencialmente quanto


instituição auxiliar na promoção de políticas públicas sociais. Até hoje, foram presta-
dos atendimento a mais de 4 mil casos, sendo 809 casos atendidos somente em 2015.
A seguir há destaque sobre alguns casos emblemáticos.

4.1. CASOS EMBLEMÁTICOS DE


VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS

FAVELA DA PALMEIRINHA: FEVEREIRO DE 2015

Três amigos Hebert, Chauan e Allan estavam em momento de diversão na rua andan-
do de bicicleta e brincando de filmagem com o celular na esquina de casa na favela da
Palmeirinha em Guadalupe. Quando dois deles correram atrás de um dos amigos que
filmavam no momento em que policiais militares passavam de carro pela rua. Tiros
acertaram o peito de Chauam Jambre Cezário, 17 anos, mas resistiu aos ferimentos.
Já Allan de Souza Lima, de 15 anos, não teve a mesma sorte e morreu na hora. Todos
os três jovens eram negros. No primeiro momento da ocorrência, policiais do 9º BPM
(Rocha Miranda), autores dos disparos, justificaram o uso da força letal devido a um
suposto tiroteio entre eles e os jovens. Porém, a entrega de um vídeo à Polícia Civil,
posteriormente veiculado na mídia, pôs fim a versão dos policiais.

Alan de Souza Lima gravou sua própria morte. Pelo celular, ele filmou um pouco an-
tes de morrer toda ação. As imagens revelam que não ocorreu qualquer tiroteio e re-
gistrou a sua própria queda ao ser atingido. Em outro vídeo, no interior do carro da
polícia, aparece um dos policiais projetando o corpo para fora da janela do carro e,
16 segundos depois, começam os disparos. Em uma imagem externa, é possível ver
duas pessoas paradas na esquina e, posteriormente, elas aparecem feridas no chão.
O policial pergunta porque elas correram. Um dos jovens, Chauam Jambre Cezário,
responde: - A gente estava brincando, senhor.

A equipe técnica da CDDHC Alerj esteve na casa de Josenildo Lobão, aposentado por
invalidez, pai Hebert Lobão, um dos três jovens. Ele relatou que naquela noite estava
deitado quando escutou os tiros, levantou da cama, percebendo que alguém tentava
abrir a porta, mas ela estava trancada. Quando foi até a porta, viu o filho caído no
chão pedindo socorro. Em seguida, segundo ele, chegou o caveirão com outros car-
ros da polícia mandando ele entrar. Josenildo discutiu com o policial e se recusou a
entrar ao informar que Allan era seu filho, que tinha teste para o time de futebol da
divisão de base do Bangu naquela semana. Durante a conversa com os integrantes da
Comissão, a mãe de Allan e um dos adolescentes que também estava na filmagem, in-
formaram que estavam com muito medo, mas iriam à Delegacia de Marechal Hermes,
pois haviam sido chamados para prestar depoimento.

Em 3 de março, foi realizada um atendimento pessoal na Comissão – com a presença


do deputado Marcelo Freixo, do defensor público do NUDEH, Daniel Lozoya, e de
familiares dos três jovens. Josenildo Lobão contou que seu filho não foi ferido e es-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 81

tava vivo porque conseguiu se esconder dos policiais na casa de uma vizinha. Lobão
afirmou que não saiu de perto dos meninos caídos, Allan e Chauam, para que “os
policiais não implantassem provas falsas”.

Apesar dos policiais terem apresentado armas na delegacia como se fossem dos
meninos, elas não apareceram nas filmagens no local do crime. Ele também con-
tou que os policiais demoraram para prestar socorro, e que os jovens só foram
levados para o hospital no camburão da polícia porque um vizinho colocou Allan
no carro e a prima de Chauam fez o mesmo. Ele foi mantido sob custódia enquanto
estava no hospital e foi mantido preso alguns dias na 30ªDP por suposta troca de
tiros com os policiais.

À época, Josenildo Lobão também relatou que o filho Hebert estava com medo de ir à
escola e de ficar sozinho em casa, porque o vídeo foi largamente divulgado na impren-
sa e seu rosto aparece claramente.

Uma testemunha da ocorrência – não identificada por questões de segurança – que


esteve no atendimento na Comissão de Direitos Humanos da Alerj afirmou que os
jovens estavam brincando na rua, assim como outras crianças e que não havia con-
fronto policial com bandidos no momento. “o carro de polícia chegou e os meninos
correram porque estavam brincando”. Os primeiros dois tiros foram disparados de
dentro da viatura e logo depois, quando Chauan e Allan já estavam caídos no chão,
foram ouvidos mais dois tiros. Perguntada se se sentia ameaçada, a testemunha
contou que no domingo após o fato ocorrido, viu um carro com vidro fumê entrando
na comunidade – fato que achou estranho, porque não se pode entrar com vidros
fechados no local por ordem do tráfico – e passou devagar até a entrada da favela.
Mais tarde, quando saiu da igreja, disse que viu o mesmo carro atrás de um carro
da polícia, passando devagar em frente à igreja de onde estava saindo. À época, ela
relatou que sentia muito medo, que não sairia de casa e que pretendia se mudar o
quanto antes.

O defensor público do NUDEH se colocou à disposição dos familiares e da testemunha


para dar apoio jurídico. Na ocasião, a CDDHC Alerj enviou um ofício para o 9º Bata-
5. Em 30 de março de 2014,
lhão pedindo averiguação do procedimento dos policiais. A CDDHC acompanha os cerca de 2.700 militares das
seus desdobramentos. Forças Armadas do Brasil
ocuparam a conjunto
de favelas da Maré com
20 tanques de guerra e
MARÉ: FEVEREIRO DE 2015 helicópteros blindados.
A ação foi justificada como
Vitor Santiago Borges, de 29 anos, depois de assistir a um jogo de futebol, foi come- uma das fases da Pacificação
da Maré para dar segurança
morar a vitória de seu time junto com quatro amigos num bar em Bonsucesso. Na ma-
à cidade durante a Copa
drugada, às 3h, retornava com o grupo de carro para o Conjunto de Favelas da Maré, do Mundo. Os militares
onde mora. Na entrada da favela Salsa e Merengue, foi surpreendido por militares da mantiveram a Maré sitiada,
Força de Pacificação5, que atiraram contra o automóvel. Vitor foi atingido no braço, já que neste período a
comunidade esteve
pernas e no tórax. Ele teve a perna esquerda amputada. Um segundo passageiro do
sob o regime de Garantia
carro também foi atingido de raspão no braço. O veículo levava ainda um sargento da da Lei e da Ordem (GLO),
Aeronáutica lotado no estado do Amazonas e passava férias na Maré. até junho de 2015.
82 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

A Força de Pacificação afirmou, à época, que houve troca de tiros com os ocupantes
do veículo, emitindo inclusive uma nota pública, justificando o uso letal da força com
o argumento de que o carro estava indo de encontro aos militares.

A CDDHC Alerj prestou atendimento à família e aos jovens. Foi dado assistência e orien-
tação jurídica com encaminhamento pelo NUDEH da Defensoria Pública. Além disso,
foi identificado a necessidade de Vitor Santiago Borges trocar de moradia devido a am-
putação da perna, visto que o local onde vive só dispunha de acesso via escadas. A equi-
pe técnica da Comissão prestou auxílio para o atendimento no posto de saúde, solicitou
o apoio psicológico e visita regular de assistência médica de enfermaria.

Após visita domiciliar, a esquipe enviou ofício n° 269/2015, em julho de 2015, para a
Secretária Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, solicitando o atendi-
mento adequado e qualificado na rede de reabilitação para o jovem. Além disso, a CD-
DHC está intermediando o contato com a Rede Sarah, especializada no atendimento a
pessoas com deficiência física.

COMPLEXO DO ALEMÃO: ABRIL DE 2015

Segundo relatos iniciais da mídia comunitárias do Complexo do Alemão publicizados


pela Rio On Whatch6, entre os dias de 1º e 2 de abril de 2015, foram 24 horas de tiroteio
que resultou na morte de quatro pessoas atingidas por projéteis de arma de fogo. De
acordo com os dados do Instituto Raízes em Movimento, até abril de 2015, 22 pessoas
tinham sido atingidas por balas somente no Complexo do Alemão, sendo 10 pessoas
mortas e 12 feridas.

Uma das vítimas fatais foi Elisabete Alves de Moura Francisco de 41 anos. Moradora
da Rua 2, localizada na favela da Alvorada, Elisabete foi atingida por tiros de fuzil no
pescoço e na boca, quando estava dentro de sua própria casa. Sua filha, Maynara de
Moura Francisco, uma adolescente de 14 anos, ao tentar chegar até a mãe para socor-
rê-la, também foi atingida no braço. Socorrida por moradores, mãe e filha foram leva-
das para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, mas Elisabete, ao contrário da
filha, não resistiu aos ferimentos e foi a óbito.

Imagens perturbadoras dos últimos momentos de vida de Elisabete foram filmados


por moradores. O vídeo mostra três homens carregando-a com o apoio de um lençol
até o carro em busca de socorro até o hospital, deixando no caminho um rastro de
sangue. Elisabete trabalhava como porteira de uma creche no alto do Complexo do
Alemão. A ocorrência foi registrada na 45ª Delegacia de Polícia, localizada na estação
de teleférico da Alvorada na região.

No mesmo dia, Rodrigo Farini, de 24 anos, foi fatalmente atingido na cabeça também
na localidade da Alvorada, perto da casa de Elisabete. Imagens e vídeos de seu corpo
estendido no chão foram amplamente compartilhados nas redes sociais. Horas de-
6. Disponível em <http:// pois, por volta das 20h30, moradores denunciaram por redes sociais que dois jovens
rioonwatch.org.br/?p=13875>. foram torturados e executados pela Polícia Militar na Rua Canitar. Durante a madru-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 83

gada, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora do Alemão registraram na 22ª DP


(Penha) a morte de Mateus Gomes Lima, de 18 anos, uma das vítimas que teriam sido
executadas por agentes policiais. Oficialmente, a noite de 1º de abril, terminou com
duas mortes no Complexo do Alemão. Extraoficialmente, os moradores contabiliza-
vam quatro mortes naquele dia.

No dia seguinte, em 2 de abril, a CDDH Alerj foi ao Complexo do Alemão, na casa da


moradora Elisabete Alves para prestar assistência à família e acompanhar o caso. Na
ocasião, o delegado responsável pela Divisão de Homicídios chegou junto com o corpo
técnico para realizar perícia no local. Maicon Alves, filho de Elisabete, relatou à Co-
missão que sua mãe estava cuidando do filho mais novo quando começou o tiroteio na
Alvorada. Ela chegou a abrigá-lo, mas foi alvejada ao tentar fechar a porta. Na hora, os
vizinhos começaram a gritar com os policiais dizendo que alguém tinha sido baleado
dentro da casa. Imediatamente, tentaram socorrer Elizabete, mas ela não resistiu.

Após o enterro, a Comissão prestou atendimento coletivo junto com outros órgãos pú-
blicos, como a Defensoria Pública. Foram realizados os seguintes procedimentos com
o objetivo de dar suporte à família: acompanhamento do inquérito policial; busca por
indenização; e encaminhamento para atendimento psicológico e social.

Após alguns dias, Carlos Roberto, marido de Elisabete Alves, ligou para a CDDH Alerj,
para informar que foi ameaçado por policiais que participaram da operação na qual Eli-
sabete foi vítima. Imediatamente, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cida-
dania da Alerj encaminhou ofício nº 130/2015 para o Comando da Polícia Militar. Desde
então, Carlos Roberto não relatou mais nenhuma situação de ameaça ou intimidação.

EDUARDO DE JESUS, 10 ANOS

Morador da região do Areal, o menino foi atingido por tiros na tarde de quinta-feira,
2 de abril de 2015. Ele estava sentado na porta de casa esperando a irmã mais velha
voltar da escola, segurando um celular branco na mão. Teresinha Maria de Jesus, mãe
de Eduardo, estava sentada no sofá de casa há poucos metros do menino e viu quando
o filho já tombou morto no chão. Em um filme registrado por moradores, policiais ar-
mados com fuzil são acusados pela execução da criança. Eduardo foi a quarta vítima
oficial da violência decorrente da política de enfrentamento ao tráfico de drogas no
Complexo do Alemão, em dois dias consecutivos. À época, os moradores já conviviam
há cerca de 90 dias seguidos com intensos tiroteios.

No mesmo dia, a CDDH da Alerj estava no Complexo do Alemão, para prestar auxílio
a família de Elisabete Alves, morta no dia anterior. Com mais esse assassinato, a Co-
missão foi procurada por lideranças da comunidade pedindo socorro e mediação do
conflito. Imediatamente, foi realizado contato com todos os órgãos do Estado relacio-
nados à Secretaria de Segurança Pública, incluindo o comandante da UPP da região.

Em 3 de abril, a equipe técnica da CDDH Alerj foi à casa dos pais de Eduardo de Jesus,
para oferecer suporte institucional e o acolhimento à família. Os pais do menino rela-
84 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

taram as circunstâncias da ocorrência da morte do filho e, ainda muito abalados, infor-


maram a pretensão de retornar para o Piauí, terra natal da família, local que a família
escolheu para sepultar o corpo de Eduardo. Todos os contatos da CDDH Alerj foram
repassados para a família que, atualmente, é acompanhada pela Defensoria Pública.

Em 4 de abril, moradores organizaram um ato público e uma caminhada da região da


Grota até a praça de Inhaúma, protestando contra a violência e os constantes tiroteios
no Complexo Alemão. A CDDH Alerj acompanhou a caminhada dos moradores, a ter-
ceira manifestação realizada em 48 horas no Complexo do Alemão. Na ocasião, cerca
de 50 motoqueiros ocuparam as ruas e percorreram por mais de uma hora o entorno da
comunidade. Outros moradores vestiram branco, acenaram panos e soltaram balões
pedindo paz. Os cartazes de protesto questionavam a política de Segurança Pública,
criticavam a polícia e falavam do medo de morrer: “Tiro na cabeça não é despreparo”,
“A favela pede paz”, “Merecemos viver sem medo de morrer”, “Poder público do Rio
assassina criança”, “Menos bala, mais amor”. A mãe de Eduardo, Terezinha Maria de
Jesus, participou da audiência pública realizada pela CDDHC Alerj, em 31 de agosto de
2016, sobre autos de resistência.

MORRO DO DENDÊ: MAIO DE 2015

Rio de janeiro, 19 de maio de 2015. Uma operação envolvendo 400 policiais civis, com
o objetivo de cumprimento de mandados de busca e apreensão de máquinas caça-ní-
queis, terminou com dois jovens mortos no Morro do Dendê, na Ilha do Governador.
Gilson da Silva dos Santos, de 12 anos e Wanderson Jesus Martins, de 23 anos, esta-
vam na padaria por volta das 7h30, quando dois policiais da Coordenadoria de Re-
cursos Especiais da Polícia Civil entraram no local e dispararam contra eles dentro do
banheiro. Em visita realizada pela CDDH Alerj à padaria, ainda foi possível observar
os buracos dos tiros na porta e as marcas no chão dos disparados feitos do helicóptero
da polícia que sobrevoou a área. Segundo relatos, os jovens foram mortos com tiros
a queima roupa. No mesmo dia, também houve operação policial na Praia da Rosa.

No atendimento realizado pela Comissão, a dona da padaria – sem identificação por


razões de segurança – e mais duas testemunhas disseram que se sentiram ameaçadas.
Eliane da Silva Simplício, mãe do menino Gilson Da Silva Santos, de 12 anos, afirmou
que a polícia mexeu no local da morte do filho: “roubaram o celular do meu filho e
apresentaram duas máquinas (de fazer pão)”. Ela também reclamou que a família
não teve acesso ao local da morte, sendo impedida de chegar perto do corpo do filho.
Já Wanderson de Jesus Martins, de 23 anos, também morto, tinha um filho de quatro
anos. A mãe dele, Maria Aparecida Jesus de Mello, contou à Comissão que o filho tra-
balhava como empilhador de cargas.

Os familiares e testemunhas prestaram depoimento na Divisão de Homicídios e foram


acompanhados por um integrante da Comissão de Direitos Humanos. Em reunião com
a chefia da Polícia Civil, o delegado Fernando Veloso se comprometeu a investigar de
forma imparcial a morte dos jovens, pois havia indícios de execução. Estavam presen-
tes na reunião, a delegada Patrícia Aguiar, os familiares, a Secretária de Assistência
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 85

Social e Direitos Humanos e o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria


Pública do Estado, além da CDDH Alerj.

A comissão viabilizou, junto à Divisão de Homicídios, os depoimentos de duas tes-


temunhas do fato e o caso aguarda a reconstituição para a conclusão do inquérito. A
Defensoria Pública também acompanha a família que ajuizou pedido de indenização
do Estado.

MORRO DE SÃO CARLOS: MAIO DE 2015

Os mototaxistas Ramon de Oliveira, de 23 anos, e Rodrigo Marques Lourenço, de 30


anos, em 15 de maio de 2015, foram encontrados mortos com perfuração de facas em
um matagal no alto do Morro de São Carlos, no Estácio, de acordo com informações
da Polícia Civil. Moradores acusaram policiais do Batalhão de Ações Especiais (BOPE)
pela morte dos dois jovens, apesar de não terem relatado a ocorrência de tiroteios. A
equipe técnica da Comissão da Alerj esteve no local e os moradores narraram diversos
casos de abuso de policiais da UPP contra os motoqueiros. Procurado pelo órgão, o
major da UPP, afirmou que não tinha conhecimento das mortes de Rodrigo Lourenço
e Ramon Oliveira na localidade de São Carlos.

A CDDHC da Alerj prestou atendimento às famílias dos jovens. Margarete de Moura


de Oliveira, mãe de Rodrigo Marques Lourenço, contou à equipe técnica que todos os
documentos dele foram levados após o assassinato. Ela citou a polícia ao falar sobre
a perda do filho e forneceu o número da guia do Instituto Médico Legal. De acordo
com a companheira da vítima, Rodrigo foi visto pela última vez com vida ao passar
em frente ao salão em que ela trabalhava por volta das 21h, logo depois, ouviu um
barulho de tiro abafado. Rodrigo Lourenço não retornou para casa.

Segundo relatos dos moradores, três mototaxistas foram abordados à noite, por volta
de 21h, sendo apenas um deles liberado. Após a abordagem, Ramon de Oliveira, de 23
anos, e Rodrigo Marques Lourenço, de 30 anos, foram encontrados mortos. Os mora-
dores também contaram que junto ao corpo havia cápsulas de balas e que policiais do
Bope estiveram no local antes da chegada da perícia da equipe técnica da Delegacia
de Homicídios. As motos dos dois rapazes não foram entregues à família.

A CDDH Alerj prestou os seguintes encaminhamentos: i) Atendimento psicológico


para as famílias; ii) Indenização direta para as famílias com atendimento jurídico pela
Defensoria Pública; iii) acompanhamento do inquérito na Delegacia de Homicídio.

ROCINHA: JUNHO DE 2015

Wesley Barbosa, de 13 anos, estava em casa quando foi baleado. Ao tentar socorrer
o filho, Eduardo Barbosa foi impedido por um grupo de policias militares do Choque
que se colocam à frente dele apontando uma arma para sua cabeça e obstruindo sua
passagem. Mesmo sob ameaça, o pai do jovem conseguiu passar pelo bloqueio e levou
86 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Wesley até no Hospital Municipal Miguel Couto, em um carro particular – visto que
nenhum dos policiais prestou socorro à vítima. Em decorrência da atuação da CDDHC
Alerj na favela da Rocinha – em diversos outros casos documentados em relatório de
anos anteriores, dentre eles: o caso do desaparecimento do morador Amarildo – a Co-
missão foi chamada para prestar assistência à família de Wesley.

A equipe técnica foi à casa de Wesley e foi informada que o menino precisou passar por
uma pequena cirurgia devido o tiro de raspão no rosto. Junto a líderes comunitários, a
CDDHC esteve na 11ª Delegacia de Polícia, localizada de frente para a favela da Roci-
nha, em São Conrado. Após prestar assistência jurídica à família, a Comissão foi até ao
Hospital Miguel Couto para averiguar o estado de saúde de Wesley Barbosa. Conversou
com o setor de assistente social do hospital e após ser encaminhada até a direção do
hospital, obteve o parecer médico parcial de atendimento do jovem. A equipe prestou
atendimento à família de Wesley Barbosa até que ele tivesse alta do hospital. Também
foi efetuado um atendimento coletivo à família na sede da CDDHC, no Centro do Rio. A
equipe contínua acompanhando e prestando assistência ao jovem.

Por conta desse caso e da recorrência de outras situações de risco à integridade física e
psicológica dos moradores, foi realizada uma roda de conversa, em 6 de julho de 2015,
entre o deputado estadual Marcelo Freixo, presidente da Comissão, representantes da
Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da área, de diretores de escola, pais e demais
moradores da Rocinha. O encontro aconteceu na quadra da Escola de Samba Acadê-
micos da Rocinha, situada na Rua 1. A principal queixa foi sobre intervenção policial
realiza na Rocinha no mesmo horário de entrada e saída das escolas e creches.

O encontro também contou com a presença da moradora da Fátima Silva, que teve o
filho Hugo Leonardo assassinado por policiais da UPP em 2012. Ela expôs a todos a
luta que trava para conseguir a responsabilização e reparação do Estado pela morte
do filho junto com o Núcleo da Criança e Adolescente da Defensoria Pública.

MANGUINHOS: SETEMBRO DE 2015

Janaína Soares pede: “Meu filho, acorda! Meu filho, acorda!”. Um pouco antes de des-
maiar no momento do enterro do filho Christian Soares Andrade, de 12 anos. Ele foi
morto no momento em que jogava bola em um campo de futebol na comunidade de
Manguinhos, durante troca de tiros entre traficantes e policiais da Coordenadoria de
Operações Especiais (Core) da Polícia Civil e da Divisão de Homicídios, em 8 de se-
tembro, em Manguinhos. A operação teve apoio da Unidade de Polícia Pacificadora
(UPP). Imagens exibidas pelo RJTV7 mostraram que após a morte do adolescente, mo-
radores revoltados cercaram policiais militares aos gritos pedindo “justiça” e protes-
taram em algumas vias da região.

A CDDHC Alerj esteve presente em Manguinhos no mesmo dia da morte do menino


de Christian de Andrade, e conseguiu conversar com a família por intermédio de um
7. Disponível em <http://
globoplay.globo. integrante do Fórum de Manguinhos, organização que atua pela defesa dos Direitos
com/v/4452763/>. nesta comunidade. A família estava totalmente inconformada. A CDDHC Alerj ouviu
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 87

relatos dos moradores que afirmaram que a troca de tiros foi entre agentes da polícia
civil e de policiais lotados na UPP Manguinhos.

Testemunhas também contaram que no momento do tiroteio, Cristian já tinha se abri-


gado para se proteger do tiroteio, mas saiu do abrigo para ajudar uma senhora que
tinha caído no chão por conta da confusão. Foi nesse momento, de acordo com os mo-
radores, que o adolescente foi baleado. A família do jovem tinha uma pequena pensão
que servia almoço perto do local da ocorrência da morte do menino, mas parou de
trabalhar por conta da fatalidade.

A Comissão acompanhou a família em todo os momentos. Nenhum integrante da fa-


mília tinha condições psicológicas de fazer qualquer tipo de reconhecimento do cor-
po do Christian. Passado o momento do sepultamento, foi efetuado um atendimento
coletivo entre a Defensoria Pública do Rio de Janeiro e a CDDHC Alerj, com a presença
do presidente da Comissão, deputado Marcelo Freixo, em 10 de setembro de 2015. A
família recebeu auxílio jurídico e psicológico e acompanhamento do caso junto a Di-
visão De Homicídios, tanto pela CDDHC como pela Defensoria Pública.

Na ocasião, Marcelo Freixo, conversou com o delegado titular da Divisão de Homicídios,


Rivaldo Barbosa, sobre as investigações. “Christian é mais uma vítima jovem que o Rio de
Janeiro perde. Agora a família dele precisa ser preservada e cuidada, e é o que estamos
fazendo agora. Pessoas importantes, que estavam na hora do crime, ainda vão depor. E
nós, da Comissão, vamos cobrar passo a passo essas investigações”, afirmou Freixo.

Atualmente, a família é acompanhada por psicólogos da Fiocruz e segue com acom-


panhamento da CDDHC Alerj e da Defensoria Pública. A Polícia Civil segue com as
investigações sobre o crime na Divisão de Homicídios da capital.

COSTA BARROS: NOVEMBRO DE 2015

Amigos de infância, Roberto e Carlos Eduardo da Silva de Souza, 16 anos, Cleiton


Correa de Souza, 18 anos, Wilton Esteves Domingos Junior, 20 anos e Wesley Castro
Rodrigues, 25 anos, tinham passado a tarde juntos no Parque de Madureira. Na volta,
eles foram surpreendidos e fuzilados por quatro policiais militares na Estrada João
Paulo, na altura da Curva do Vinte, em Costa Barros, subúrbio do Rio de janeiro. De
acordo com nota da perícia publicizada pela mídia, mais de 80 tiros foram disparados
em direção ao carro. Todos os jovens mortos eram negros. Os policiais teriam tentado
alterar a cena do crime. Três deles vão responder por homicídio doloso e fraude pro-
cessual. A CDDHC Alerj acompanha os desdobramentos do caso.

ROCINHA: DEZEMBRO DE 2015

Uma jovem moradora da Rocinha denunciou ter sido estuprada por policiais do Bope
na manhã de Natal, dia 25 de dezembro. O caso ganhou destaque nos meios de comu-
nicação que reproduziram o relato da vítima que afirmou ter sido abordada por volta
88 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

das 6h manhã quando voltava para casa. Na ocasião, durante a madrugada, houve
um tiroteio entre policiais da UPP e homens que saíam da festa e um comerciante foi
morto e outras cinco pessoas feridas, entre elas, dois PMs. Ao ver o homem baleado,
de acordo com a jovem, os policiais indicariam outro caminho para que ela passasse.
Segundo a vítima, eles a levaram para um beco, a agrediram com chutes, a colocaram
de frente para uma parede e a violentaram. No sábado (26), ela fez um exame de corpo
de delito de conjunção carnal e o laudo do Instituto Médico Legal (IML) confirmou
sinais da violência. Ainda de acordo com o exame, ela tinha vários machucados.

O delegado responsável pelo caso disse que a investigação é sigilosa e solicitou à PM a


identificação dos policiais escalados para trabalhar naquele dia. A Polícia Civil pediu
exames complementares e ouviu os dois PMs que são suspeitos de cometer o crime,
mas negaram participação. A Corregedoria Interna da Polícia Militar informou que
determinou que a 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (1ªDPJM) instaurasse um
Inquérito Policial Militar para aprofundar as investigações sobre este caso.

A vítima que é uma paraibana, casada e tem um filho, foi atendida no dia 5 de janeiro
de 2016 pela CDDHC com a presença do deputado Marcelo Freixo. A Comissão, além
de encaminhar o atendimento psicológico, está acompanhando o caso.

FOGUETEIRO: DEZEMBRO DE 2015

A noite de Natal também foi violenta no Fogueteiro. De acordo com uma denúncia
publicada no dia 26 de dezembro pelo Jornal O Dia, quatro jovens que voltavam de
uma festa na comunidade Santo Amaro, no Catete, foram agredidos. A abordagem po-
licial ganhou requintes de crueldade com o uso de uma faca quente, isqueiro, além de
obrigação dos jovens ficarem nus na rua e praticar sexo oral entre eles. Enquanto isso,
um dos PMs da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Coroa, Fallet e Fogueteiro
os filmava. Os jovens torturados têm 13, 17, 20 e 23 anos de idade. Eles foram paradas
em uma blitz pelos PMs porque estariam andando de moto sem capacete. Uma mulher
também foi baleada nesta ação. Na ocasião, a Polícia Militar afastou e prendeu admi-
nistrativamente oito policiais militares envolvidos.

O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, de-


putado Marcelo Freixo, recebeu, no dia 5 de janeiro de 2016, dois jovens e a mãe de um
dos rapazes que foram torturados. O atendimento constatou que, além da tortura, os
jovens tiveram objetos pessoais, como sandálias, bonés, celulares e dinheiro rouba-
dos pelos policiais. Um dos principais problemas encontrados na denúncia foi a não
tipificação dos crimes cometidos pelos policiais no boletim de ocorrência, registrado
na 6ª DP (Cidade Nova). O documento não incluiu o crime de tortura. A Polícia Civil
classificou o caso como lesão corporal, o que não está correto. Também foram apon-
tados os crimes de ameaça, constrangimento ilegal e furto.

A Comissão encaminhou o caso para o Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria


Pública do Estado e acompanha as investigações.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 89

4.2. ATENDIMENTO AOS POLICIAIS E SEUS FAMILIARES

A CDDHC Alerj trabalha com demandas individuais e coletivas das mais diversas
naturezas, desde que relacionada a área de Direitos Humanos. Essa Comissão, no
intuito de desmistificar o falacioso discurso veiculado pelo senso comum e cor-
roborado pela mídia comercial, de que “Direitos Humanos só defende bandido”,
apresenta o trabalho sistemático que tem feito junto aos familiares dos policiais
mortos no Rio de Janeiro. Além de atender e receber denúncias e as demandas de
violações de direitos humanos sofridas por agentes policias, a Comissão também
faz a busca dos contatos de policiais e/ou familiares vitimados para acolher e ofe-
recer atendimento.

É importante ressaltar que, as demandas absorvidas pela Comissão são encaminha-


das de forma espontânea pelos indivíduos interessados e necessitados de auxílio, não
sendo comum a busca a partir da própria CDDHC por esses contatos, já que há limita-
ções estruturais e físicas para tal empreitada e atuação. Porém, ao compreender que
a alta taxa de policiais mortos no Rio de Janeiro é a consequência de uma política de
Segurança Pública voltada para o enfrentamento bélico e a lógica da guerra, sob a
qual não há vencedores, a CDDHC Alerj percebeu a necessidade de ampliar a dinâ-
mica de trabalho do atendimento. A ideia é garantir a preservação do direito humano
a policiais e seus familiares, e mapear possíveis falhas do Estado. Assim, a CDDHC
poderá apontar melhoria nas políticas públicas voltadas a esse público, produzindo
um diagnóstico sobre a percepção da atividade do órgão junto aos trabalhadores da
área de Segurança Pública.

HÁ QUE SE RESSALTAR OS SEGUINTES FATOS:

1. A insuficiência das estatísticas oficiais das polícias civil e militar do Estado do Rio
de Janeiro. Somente em outubro de 2015, a Polícia Militar divulgou que nove PMs
foram assassinados e 37 ficaram feridos entre os dias 1° de setembro e 2 de outubro.
No total, de acordo com a imprensa, em 2015, 63 policiais foram mortos em serviço
ou de folga, em razão ou não de sua função profissional.

2. A dificuldade na obtenção de contatos de familiares de policiais vítimas de vio-


lência. Em 2015, a Comissão entrou em contato diversas vezes com o Comando da
Polícia Militar para esse fim, por vezes através de ofício. Contudo, a instituição não
dispõe de um cadastro atualizado dos familiares dos policiais. Diversas vezes, o
único número de contato existente no cadastro é o do policial morto. Dos policiais
mortos no ano de 2015, a CDDHC Alerj conseguiu obter o contato e prestar atendi-
mento a uma parcela dos familiares.

3. Inclusive, por vezes a CDDHC solicita à população que contribua para a obtenção
de acesso a esses policiais e seus familiares, já que os meios oficiais nem sempre agem
a contento. Já houve caso em que a Comissão enviou ofício solicitando o contato de
familiares de um policial doente e hospitalizado. Depois de um tempo, o policial veio
a óbito sem que a informação fosse prestada por meios oficiais. A obtenção dos con-
90 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

tatos nas redes sociais também é dificultosa, pois esses casos atraem muita atenção
midiática e os familiares são assediados por um grande número de pessoas.

4. Há também reticência dos familiares ao receber o atendimento da Comissão de Di-


reitos Humanos da Alerj. Quando a equipe técnica obtém contatos de algum paren-
te do policial e inicia o atendimento, os mesmos se mostram desconfiados. Acredi-
ta-se que isso se deve ao fato do desconhecimento sobre para que serve e para quem
é a política de Direitos Humanos.

Em geral, o atendimento da Comissão é realizado pela equipe técnica que entra em con-
tato com a família, por meio de telefonema, e disponibiliza-se para o auxílio em todas
as pendências existentes junto a instituições públicas. Dentre elas: encaminhamento
ao atendimento jurídico e psicológico qualificados, auxílio e acompanhamento das in-
vestigações do caso, esclarecimento sobre os procedimentos que podem ser realizados.
Quando os familiares aceitam o suporte da CDDHC Alerj, é marcado um atendimento
presencial dos familiares com membros da Comissão e do Núcleo de Defesa dos Direitos
Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (NUDEDH).

5. A Defensoria Pública possui o Núcleo de Atendimento da Polícia Militar, o qual já


foi acionado pela CDDHC. Mas, geralmente, o atendimento acaba sendo feito pelo
NUDEDH. Nesse primeiro atendimento, a equipe técnica explica todos os direitos
que a família possui. A Defensoria se responsabiliza pelos trâmites jurídicos e a
Comissão oferece e busca o atendimento psicológico – quando aceito pelos familia-
res. Há ainda o acompanhamento do inquérito aberto na Delegacia de Homicídios,
incluindo seus desdobramentos. A CDDHC também acessa o setor da Polícia Militar
responsável pela documentação e tramitação para fins de pensão dos dependentes
do policial vitimado.

Também é acionado a rede de saúde pública para o atendimento psicológico aos fami-
liares através dos Postos de Saúde e/ou Clínicas da Família próximos da residência
dos mesmos. Ao ter a permissão dos familiares, a CDDHC efetua o contato com o
posto e/ou clínica para explicar a situação de violência à qual a família foi exposta.
O profissional de atendimento à saúde mental – psicólogo – e/ou com o gerente do
setor é acionado para viabilizar o encaminhamento verbal e oficial, com o agenda-
mento prévio da família para uma avaliação profissional.

6. Em alguns casos, a PMERJ oferece atendimento psicológico para integrantes da


família. Mas, o fato de muitas delas residirem em locais distantes do Hospital Geral
da Polícia Militar, ocasiona a descontinuidade do tratamento. Por isso, a CDDHC
prioriza viabilizar o tratamento de saúde e/ou terapêutico o mais próximo possível
ao local de moradia dos usuários para garantir um procedimento adequado às suas
reais necessidades.

Levantamento realizado pela Comissão, tendo como fonte as notícias veiculadas na


mídia, com comunicados da PMERJ e da Polícia Civil, constatou que até 29/10/2015,
63 Policiais foram mortos. Destes, 55 eram policiais militares, em sua maioria, lota-
dos em Unidades de Polícia Pacificadora.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 91

7. Os acompanhamentos dos casos de policiais mortos e de familiares de policiais


vítimas da violência evidenciaram uma série de violações de direitos. Tais como:

a. Limitação por parte da PMERJ aos familiares destes policiais, com dificuldade de
acolhimento real;

b. Dificuldade na obtenção de acesso ao setor responsável pela concessão do di-


reito às pensões, principalmente, nos casos em que a família precisa processar a
PMERJ para ter o seu direito à pensão efetivado.

4.2.1. CASOS EMBLEMÁTICOS DE POLICIAIS

Niterói, abril de 2015

O policial Irineu Ferreira de Lima Filho trabalhava há 32 anos na Polícia Militar, lo-
tado no Hospital da PM, foi morto em uma troca de tiros em um ônibus em Niterói.
Segundo a dona de casa Célia Arantes de Lima, de 53 anos, o marido estava a caminho
da casa da irmã, onde comemoraria a Páscoa com a família quando aconteceu o tiro-
teio em abril de 2015.

A equipe técnica da Comissão prestou atendimento para Célia Arantes, que encontrou
dificuldades para regularizar a obtenção de pensão por morte. Com problemas sérios
de saúde, Célia precisava garantir a continuação de atendimentos médicos no Hos-
pital Geral da Polícia Militar (HGPM). Desse modo, a CDDHC Alerj entrou em contato
com Chefe de Gabinete do Comando-Geral da PM, coronel Íbis Silva Pereira, para via-
bilizar o tratamento de Célia. O responsável pelo setor de benefícios foi acionado pelo
próprio Íbis Silva para agilizar a emissão de autorização para continuidade do aten-
dimento médico no HGPM, enquanto os entraves burocráticos relacionados à pensão
de Célia são resolvidos.

NOVA IGUAÇU, SETEMBRO DE 2015

Casado e pai de um menino com 11 anos de idade, o policial Bruno Rodrigues Pereira,
foi morto ao retornar da casa do irmão que morava em Nova Iguaçu. De acordo com
informações publicadas na mídia, ao ser abordado por traficantes e identificado como
policial, Bruno foi torturado – sendo amarrado e arrastado por um cavalo pelas ruas
– e posteriormente assassinado. Bruno trabalhava na UPP do Morro da Formiga, na
Tijuca, e seu caso é investigado pela Divisão de Homicídios.

A Comissão prestou atendimento presencial à esposa do policial, Michelle Ignácio


Pereira, à madrasta e ao amigo de Bruno, na sede do órgão em 30/09/2015. O de-
fensor público do NUDEH, Fábio Amado, também participou do atendimento e in-
formou que a Defensoria Pública estava à disposição da família para auxiliar nas
documentações e transferências de bens. O presidente da Comissão de Direitos Hu-
manos, deputado Marcelo Freixo, iniciou o atendimento com a explicação sobre os
92 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

procedimentos e prestação de auxílio que cabia à Comissão. Além disso, sugeriu


o atendimento psicológico à família, principalmente, para o filho de Bruno, Erick
Daniel da Silva Pereira, de 11 anos.

A viúva Michelle Pereira relatou que o filho Erick estava aéreo e com dificuldades para
entrar em casa. Diante disso, a equipe técnica da CDDHC Alerj entrou em contato com
o Centro Municipal de Saúde Nascimento Gurgel, na Pavuna, área de referência de
moradia da família. O primeiro atendimento ao Érick ocorreu no dia 02/10, no centro
de saúde. O jovem segue na terapia e os demais familiares continuam em contato com
a Comissão. Michelle Pereira possui os números dos celulares de assessores e do de-
fensor para acionar em caso de emergência.

4.2.2. AUDIÊNCIA PÚBLICA:


CONDIÇÕES DE TRABALHO DOS POLICIAIS

Diante das inúmeras denúncias acerca da precarização das condições de trabalho de


policiais, a CDDHC realizou, em parceria com a Comissão de Segurança Pública e As-
suntos de Polícia, audiência pública sobre o tema com o intuito de apurar os fatos
noticiados pelo Ministério Público, em 19 de maio de 2015.

As polícias do Rio estão entre as que mais matam e morrem no mundo, e esta vulne-
rabilidade é ainda mais agravada pelas precárias condições de trabalho fornecidas
pelo estado, tais como as estruturas físicas, bem como escalas de trabalho desumanas
que implicam em ainda mais vulnerabilidade aos profissionais da Segurança Pública.
Segundo o pesquisador Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência (LAV/
UERJ), os níveis de stress dos policiais militares do Rio encontram-se elevadíssimos, o
que traz graves consequências para a política de segurança pública. Ao entrevistar 5
mil policiais, 20% do efetivo da região metropolitana do Rio de Janeiro, a pesquisa do
LAV apontou que o elevado nível de estresse faz com que 52% destes policiais tenham
constante insônia e que 7% pensem em acabar com a própria vida. De acordo com o
levantamento, 35% dos policiais já atiraram em alguém e 8% já foram atingidos. “Os
policiais mais estressados são os que usam mais a força. É nefasto para o policial e
prejudicial para a sociedade”, afirmou Cano.

A audiência pública reuniu o Diretor Administrativo da Polícia Civil, Fábio Brito, o


Chefe de Gabinete do Comando Geral da Polícia Militar, Íbis Pereira, o Superinten-
dente de Valorização Profissional da Secretaria de Segurança Pública, associações de
policiais e familiares, além dos pesquisadores. A Secretaria de Segurança informou
que estuda a implementação de ações previstas no Termo de Ajustamento de Conduta
proposto pelo Ministério Público, mas que tais ações esbarram na falta de recursos
financeiros do estado do Rio de Janeiro.

Outro tema relevante tratado na audiência diz respeito ao auxílio às famílias de poli-
ciais mortos. Segundo Maria Rosalina Castilho, mãe da policial militar Alda Castilho,
a assistência prestada pelo Estado é deficitária e lenta, acarretando danos de difícil
reparação aos familiares, especialmente àqueles dependentes financeiramente.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 93

De acordo com o diretor de Administração e Finanças da Polícia Civil, Fábio Brito,


mais do que questionar a escala de trabalho, deve-se pensar por que esta existe. É
uma opção feita para incentivar que o policial tenha outra atividade remunerada.
Além disso, é preciso problematizar o fato do policial não ter um plano de saúde, mas
ter assistência funeral e seguro de vida.

Ao final da audiência pública, o Deputado Estadual Marcelo Freixo, presidente da


CDDHC, questionou a demora na revisão do regulamento disciplinar da PM: “Rever
o regulamento disciplinar de 1983 e a escala de trabalho, previstos pelo Termo de
Ajuste de Conduta, por exemplo, não geram custos”. De acordo com Freixo, tais
iniciativas garantiriam uma qualidade às condições de trabalho dos profissionais
da Segurança Pública.

4.3. SOBRE NOSSOS TÚMULOS NASCERÃO


FLORES AMARELAS E MEDROSAS

*Por Ibis Silva Pereira

A guerra é um meio de despedaçar, ou de despejar na estratosfera,


ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra for-
ma teriam de ser usados para tornar as massas demasiadas con-
fortáveis e portanto, com o passar do tempo, inteligentes.

George Orwell

W
inston Smith observa a inscrição, enquanto sobe lentamente as escadas do
prédio onde mora. “O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI”. Um cartaz pregado à
parede do saguão exibe a legenda com o retrato imenso de um rosto onipre-
sente, “uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte”. O herói de Geor-
ge Orwell (1984) trabalha no Ministério da Verdade de Oceania. Na distopia orwelliana
existem ainda Lestásia e Eurásia. Os três superestados vivem em regime de conflito béli-
co ininterrupto. O partido que domina Oceania (o Ingsoc) tem três lemas: Guerra é paz,
liberdade é escravidão e ignorância é força. Ao longo do romance, Winston descobrirá o
sentido profundo daquele belicismo: manter intacta a estrutura da sociedade.

Nessa que é uma das mais famosas metáforas sobre o poder, o escritor inglês criou
a imagem perfeita de uma sociedade em permanente mobilização para o confronto.
Oceania é um estado de exceção porque é um estado em guerra permanente. Uma *O coronel Íbis Silva Pereira é
sociedade oprimida pela ideia de segurança, erigida em valor absoluto, a engendrar chefe de Gabinete do
“Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mun- Comando-Geral da Polícia
Militar do Estado do Rio de
do que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina”.8
Janeiro

Desde Thomas Hobbes tem sido quase um truísmo articular submissão ao medo. Nada
8. ORWELL, George. 1984. São
é mais eficiente para a reprodução da ordem, sobretudo quando injusta. Na civiliza- Paulo: Companhia Editora
ção industrial, em tempos de hegemonia das finanças e dos bancos, o medo é uma Nacional, 2003, p. 255.
94 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

promessa. Insinua-se por toda parte, quase sempre ladeado por aquele outro afeto
com o qual mantém estreita afinidade: o ódio. Apesar de se falar tanto em segurança,
a precariedade é a marca do contemporâneo. Na fase atual do capitalismo, o destino
da massa humana de excedentes é a lata de lixo da história. Descartam-se homens e
mulheres com a mesma facilidade com a qual se lançam fora as mercadorias desatu-
alizadas pelo ritmo frenético da produção. Na primazia absoluta e arrogante do eco-
nômico sobre o humano restam às agências de criminalização cumprir um desditoso
papel: vigiar as vidas desperdiçadas, no governo da insegurança social.

O crime não é um fenômeno natural. Uma análise crítica do exercício do poder puni-
tivo é impensável desconsidera a dimensão política presente na seleção criminalizan-
te; nos usos e abusos das agências de criminalização, essas instituições da ordem ou
a serviço de uma certa ideia de ordem. E aqui, é forçoso reconhecer, não há grandes
novidades entre nós. Nada de novo debaixo do sol, como no livro do Eclesiastes.

Ao longo de sua história, o Brasil tem se comportado como uma máquina de produzir
medo; um espantoso moinho de gastar gente, como dizia Darcy Ribeiro. Foi conce-
bido, desde o século XVI, como uma empresa. Um empreendimento comercial com
fome de gente. Num certo sentido Drummond acerta o alvo ao afirmar em Brejo das
Almas: “Nenhum Brasil existe”. Afinal, países não podem ter donos. O Brasil tem. A
desigualdade brasileira não é um acidente da economia, mas um projeto a serviço dos
interesses de uma classe de malandros. Uma pilhagem secular, que a multidão das
criaturas humanas reduzidas à condição de refugo favorece. Uma sociedade profun-
damente hierarquizada, talvez explique a impotência do Leviatã nacional em elevar a
conservação da vida a critério de legitimação dos vínculos sociais.

Nunca fomos weberianos no que se refere à administração do direito de punir. O po-


der punitivo doméstico, inerente à lógica da escravidão, sempre grassou e desgraçou
entre nós, inviabilizando o exercício público do monopólio da força. Esse número
assombroso de quase 60.000 brasileiros e brasileiras triturados apenas em 2014, sen-
do um a cada dez minutos, constitui a mais perfeita expressão do modo brutal como
temos administrado conflitos sociais há séculos.

A cultura da brutalidade é inerente à sociedade baseada na escravidão, porque a bru-


talidade é a força exercida segundo o desejo de impressionar. É preciso aniquilar a
vontade, antes mesmo que o outro se ponha em movimento. Princípio básico de qual-
quer guerra. A atualidade da escravidão é o nosso belicismo. Herança do escravismo a
temperar nossas relações de classe. Um morto a cada dez minutos significa isso: uma
sociedade que compõe parte dos seus dramas com base na força sem regras.9 Trata-se
da manifestação cotidiana do poder punitivo doméstico, como à época das senzalas.
As agências de controle social são afetadas pela perspectiva bélica. Em qualquer parte
9. Os indicadores criminais do mundo operam seletivamente. A produção legislativa é sempre maior que a capaci-
foram extraídos do 9° dade operacional das instituições de criminalização secundárias, como as forças po-
relatório do Fórum Brasileiro liciais, o Ministério Público, Poder Judiciário e sistema carcerário. Entre as inúmeras
de Segurança Pública.
condutas incriminadas, a preferência do olhar repressor incide quase exclusivamente
Disponível em: <http://www.
forumseguranca.org.br>. sobre os atos mais grosseiros, aqueles cometidos pelas classes subalternas, sobretu-
Acesso em: 13 de dez. 2015 do porque há uma imagem pública do delinquente construída e alimentada todos os
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 95

dias pela sociedade do espetáculo e essa imagem coincide com o retrato da vida em
precariedade. Não é por acaso que as nossas cadeias estão cheias de negros e pobres.
Os precarizados são também aqueles que não têm acesso positivo aos meios de comu-
nicação, por isso suas condutas são mais facilmente destacadas pelos empresários
morais de plantão.

Qualquer política pública de segurança, digna de um estado democrático de direito,


deve partir do enfrentamento da desigualdade social se quiser romper com a lógica
da militarização. A militarização não é causa da guerra, mas seu efeito. Uma resposta
ao conflito de classes que já está presente na sociedade. A necessidade de cuidar dos
consumidores fracassados propicia o uso bélico das forças públicas. O único modo
de desmilitarizar as agências de criminalização é desmontando os mecanismos de
reprodução da desigualdade.

Não é possível garantir direitos humanos num contexto de guerra. Tampouco promo-
ver a paz em meio à injustiça. A se acreditar nas lições de Norberto Bobbio, quando
afirma que “sem democracia não existem as condições mínimas para a solução pacífi-
ca dos conflitos”10, ampliar a democracia é a melhor estratégia de prevenção do crime.
Democracia ampliada significa assumir a redução da desigualdade como princípio e
finalidade. Se continuamos com dificuldades na composição civilizada dos nossos
conflitos; se temos tido dificuldades na construção de uma cultura de paz, é porque
precisamos avançar ainda mais no sentido da igualdade. Igualdade de todos perante
a lei não basta. Igualdade meramente formal pode se constituir, inclusive, num modo
(muito inteligente, aliás) de transformar a ideia de igualdade em submissão.

A violência brasileira é ancestral. Euclides da Cunha foi o primeiro a relacioná-la à


exclusão. Se no final do século XIX matamos de uma só vez quase 30.000 sertane-
jos, hoje matamos o dobro. Apenas em 2014 morreram mais brasileiros e brasileiras
que soldados norte-americanos em vinte anos de guerra do Vietnã. Foram registra-
das 58.487 mortes violentas; quase 50.000 estupros; se levarmos em consideração os
estudos existentes sobre o tema, esse número deve representar 1/3 do total; ou seja,
temos aproximadamente 150.000 estupros por ano no Brasil. As forças de segurança
mataram um brasileiro a cada 3 horas. Por outro lado, morreram 398 policiais no mes-
mo período. Um policial por dia.

No estado do Rio de Janeiro o cenário não é menos kafkiano. Nos últimos vinte anos a
média de policiais militares mortos em serviço tem girado em torno de 27 assassinatos
por ano.11 Foram mais de seiscentos policiais entre mortos e feridos nos últimos cinco
anos. Uma tragédia humana, sob todos os pontos de vista. Uma tragédia que se am-
plia ao observarmos os indicadores das mortes provocadas pela intervenção policial:
os chamados autos de resistência. Entre 2008 e outubro de 2015 a média anual foi a
de 57 mortos por ano. Quase duas mortes por dia. E não é só: o total de pessoas presas
10. BOBBIO, Norberto. A era
impressiona igualmente. Apenas em outubro deste ano, as forças policiais do estado dos direitos. Rio de Janeiro:
prenderam mais de 4200 pessoas. Campus, 1992, p.1.

11. Fonte: Estado-maior da


Toda essa violência é uma tradução. Ilustra um mal de fundo. Os policiais mortos, as ví-
Polícia Militar do Estado do Rio
timas de homicídio e aquelas decorrentes das intervenções policiais, bem como os apri- de Janeiro.
96 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

sionados, quase todos pertencem a um mesmo grupo de condenados à vida: jovens ne-
gros, pobres e moradores da periferia. Basicamente. Significa dizer que há uma guerra
sendo travada no tumbeiro; interminável, como no mundo descrito por Orwell, porque
"[...] travada, pelos grupos dominantes, contra os seus próprios súditos, e o seu objetivo
não é conquistar territórios [...], porém manter intacta a estrutura da sociedade".12

No século XIX, a visão dos horrores de um navio negreiro fez Castro Alves designar
por irrisão o cenário medonho. "Dizei-me senhor Deus dos desgraçados, se eu deliro
ou se é verdade, tanto horror perante os céus"13. A violência extrema confunde a ra-
cionalidade. No Brasil do século XXI a razão parece insensível ao massacre. Tal como
faziam os donos do poder em Oceania, poderíamos adotar o dístico Irracionalidade é
razão, a fim de justificar o nosso pouco caso para com os indicadores criminais; indi-
ferença de mendigos fartos, no dizer do autor de Os Sertões a propósito de Canudos,
aquela matança que inaugura a nossa experiência republicana.

Consciências coisificadas. Embrutecidas. Séculos de escravidão, de torturas, de des-


respeito pela condição humana, nos tornaram insensíveis à dor daqueles que consi-
deramos inferiores. E nós policiais militares, somos considerados tão inferiores quan-
to aqueles contra os quais nos arremessam. Recrutados nos mesmos estratos sociais,
seriamos a ralé do sistema de justiça criminal se isso existisse. Como o Brasil ainda
não se deu ao trabalho de instituir um sistema de justiça criminal, a sua Polícia Militar
é tratada como uma força que se conjura quando necessário, mais ou menos como
uma fera indesejada e incômoda solta no quintal para a proteção dos donos da casa.

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro é uma instituição com graves problemas.
Guerra demais e política de menos resultaram numa instituição em ruínas. Suas difi-
culdades são inúmeras. Complexas. Estendem-se de marcos regulatórios anacrônicos
a um ineficiente modelo de governança. Em pleno século XXI, apresenta deficiências
tecnológicas básicas que a impedem de desenvolver mecanismos adequados de contro-
le, apesar de toda a modorrenta cantilena acerca da inteligência policial. Seus homens
e mulheres se encontram submetidos, há mais de trinta anos, a um regime de trabalho
afetado pela proximidade da morte como risco racional. Uma corporação mobilizada
permanentemente para o embate, como a Oceania do romance, com todas as consequ-
ências produzidas pela tensão ética implícita na raiva existencial do inimigo.

O moinho de gastar gente é impiedoso. Matamos muito e morremos aos borbotões,


numa guerra à toa. Se me pedissem para resumir em uma única palavra o que é ser
policial no Rio de Janeiro, eu escolheria a palavra sofrimento. Ser policial militar no
Rio de Janeiro é um sofrimento inútil. Despejamos sobre as favelas um contingente
de jovens, a maioria pobre e negra, para combater outros jovens igualmente pobres e
negros, ao custo de muita infelicidade para todos. No asfalto somos invisíveis; vaga-
mos de um lado para o outro acreditando que a presença de homens armados numa
12. ORWELL, George. 1984.
Op. Cit., p. 192. esquina possa manter imperturbável nossa bela ordem social.

13. ALVES, Castro. Navio Uma ilusão dolorosa. Há um custo em tudo isso. O desamparo e a humilhação produ-
Negreiro. In: Poesia Completa.
zem ódio. Um dia a fatura chegará. É inevitável. Quando isso ocorrer pagaremos todos
Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1986, p. 283. pelas consequências da nossa irrisão. Dividiremos a conta em frações distintas. É cla-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 97

ro: temos horror à igualdade. A conta será repartida com a mesma desigualdade com 14. ANDRADE, Carlos Drummond.
a qual temos convivido. De tudo ficará o medo. Onipresente. Depois disso acontecerá Congresso internacional do
medo. In: Sentimento do mundo.
como nos versos de Carlos Drummond de Andrade: “morreremos [todos] de medo e
Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.14 1979, p.125.

15. Oficialmente, o Complexo


do Alemão é formado por 13
4.4. NO COMPLEXO DO ALEMÃO, favelas: Morro da Esperança
QUEM VAI À ESCOLA É A PACIFICAÇÃO (conhecida como Pedra do
Sapo), Morro do Alemão,
Morro da Baiana, Morro do
Segundo levantamento feito pelo Instituto Raízes em Movimento, somente em 2014, Adeus, Grota (conhecida
22 pessoas foram mortas no Complexo do Alemão15. Desse total, três eram policiais e como Joaquim Queiroz),
19 eram civis. Outras 58 pessoas foram feridas por armas de fogo, sendo 36 policiais e Morro do Itararé (também
conhecida como Alvorada),
22 moradores. Os dados expõem uma realidade diferente do discurso oficial do gover-
Reservatório de Ramos,
no estadual sobre um espaço ocupado com bases de Unidades de Polícia Pacificadora Nova Brasília, Fazendinha,
(UPP). A sensação de segurança na região não é de paz e sim de um contínuo conflito Casinhas, Morro das Palmeiras,
armado, o que levou moradores a se manifestarem em redes sociais na internet com a Mineiros e Matinha. A base
para a definição do número
hastag #SOSComplexodoAlemão. O Complexo do Alemão16 está há cinco anos pacifi-
de favelas ocorreu em 2008
cado com quatro bases de UPP. entre o poder público e as
associações de moradores para
Uma das quatro bases das UPPs, a localizada na favela Nova Brasília, foi instalada as intervenções urbanísticas
do Programa de Aceleração
no terreno da escola estadual Caic Theóphilo de Souza Pinto , a 20 metros do edifício
17
do Crescimento, o PAC das
principal. Os dois prédios, o militar e o educativo, estão cravados de tiros de fuzil. A Comunidades. Ao todo, existem
rotina dos estudantes inclui passar todos os dias diante dos policiais armados para 12 associações de moradores,
entrar e sair das salas de aula. No dia 22 de abril de 2015, Marcelo Freixo e membros porém, uma delas acumula, na
divisão geográfica territorial, a
das comissões de Direitos Humanos e Educação da Alerj visitou o espaço educacional.
representação de duas favelas.
Antes de a UPP existir na área do colégio, a escola tinha cerca de 1.400 alunos. Hoje,
são apenas 700. Além da evasão escolar, a presença ostensiva policial provoca pre- 16. Atualmente, o Complexo do
juízos pedagógicos que comprometem o processo de aprendizado e põem em risco a Alemão dá nome à 29ª Região
Administrativa (RA) do município
segurança de estudantes, funcionários e professores.
do Rio de Janeiro. As divisões
administrativas da cidade do
Em novembro de 2014, o jornal O Dia publicou denúncia sobre o aumento da violên- Rio de Janeiro se dividem nas
cia na região e a situação de vulnerabilidade que se encontravam o corpo docente e Áreas de Planejamento (AP),
que englobam as Regiões
discente do colégio: "O muro do colégio serviu de escudo e, indignados, funcionários,
Administrativas (RA), compostas
que estavam dentro do prédio do colégio, fotografaram a ação. Pais de alunos, estu- por bairros ou apenas um bairro
dantes e professores dizem ser comum PMs usarem a parte interna do colégio para como é o caso do Complexo do
trocar tiros com quadrilhas. Afinal, a própria sede da UPP fica dentro do terreno da Alemão, considerado um bairro
desde 1986, ou seja, há mais de
escola, conforme admitiu, em nota, a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc)"18.
30 anos, por meio de decreto
Um aluno chegou a ficar na linha de tiro. Na imagem publicada pelo jornal, um poli- municipal.
cial aparece apontando a arma apoiado no muro da escola, a menos de quatro metros
de uma sala de aula. 17. O colégio Theóphilo de
Souza Pinto foi criado como
CAIC (Centro de Atendimento
A parede da sala da diretoria, por exemplo, é coberta com enfeites que servem para Integral à Criança) na gestão
cobrir os buracos abertos pelos tiros de diferentes calibres. É ali que a diretora Tânia do Presidente Fernando Collor
Mara trabalha todos os dias. Também é possível ver as marcas de tiros na parede prin- (1990-1992). Nos documentos
oficiais, ele é chamado ora
cipal e laterais do colégio. “A presença de uma base da UPP dentro de uma escola é
como CIEP, ora como CAIC. A
absurda. Isso não pode existir. Uma escola não pode ser usada como base policial. É partir de 1995, o projeto deixou
muito importante que a audiência seja realizada aqui, para que nós possamos discutir de ser gerenciado
98 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

pelo governo federal e esses problemas e muitos outros que os moradores do Alemão vivem”, afirmou Freixo
ficou a cargo de governos durante a visita.
estaduais e municipais. Os
Cieps (Centros Integrados de
Educação Pública) nasceram
durante a primeira gestão do AUDIÊNCIA COBRA FIM
governador Leonel Brizola DA UPP EM ESCOLA
(1983-1986), sob a orientação
do Secretário de Educação
Darcy Ribeiro por meio do Levando-se em conta as denúncias encaminhadas pela população, a Comissão de
denominado I Programa Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj realizou em conjunto com orga-
Especial de Educação. A partir nizações locais19, em 4 de maio de 2015, uma audiência pública no pátio do colégio
disso, segundo depoimento
estadual Caic Theóphilo de Souza Pinto20, no Complexo do Alemão. Um dos objetivos
colhido pela Relatoria
Nacional para o Direito da audiência — não o único — foi apurar as denúncias e ouvir os moradores sobre a
Humano à Educação Violação própria instalação da UPP no pátio da escola e os problemas que isso tem gerado.
Dos Direitos Educativos da
Comunidade do Complexo
O local para audiência foi escolhido pela própria comunidade devido ao diagnós-
do Alemão, publicada em
2007, houve a desativação tico de vulnerabilidade e dificuldades do diálogo com a base da UPP, além de um
gradual da estrutura do Ciep cotidiano com episódios de ameaças dos agentes da polícia contra professores
pela Secretaria Estadual de e estudantes. Diante dessa situação, ainda em fevereiro de 2015, foi entregue à
Educação. “Antes, isso aqui
Região Metropolitana III um dossiê21 organizado pelos professores e a direção do
era uma beleza. Tinha teatro,
capoeira, dança... Os alunos Caic Theóphilo de Souza Pinto. “Reunimos em um dossiê os problemas relativos à
não queriam ir embora daqui”. falta de infraestrutura, devido aos prejuízos causados pelas balas que atravessam
Informações disponíveis em as janelas e paredes da escola, e vídeos que mostram os alunos e professores sen-
<http://www.cedaps.org.br/
do ameaçados. Estamos empenhados em retirar esse monstro do pátio da nossa
wp-content/uploads/2013/07/
escola. Isso é incompatível com o processo pedagógico. Ou a escola, ou a UPP”,
18. Notícia disponível em reivindicou o professor Guilherme Moreira. No entanto, a secretária de Educação,
<http://odia.ig.com.br/noticia/ Rosana Mendes, desconhecia o documento até aquela data (4/5/2015) e afirmou
rio-de-janeiro/2014-09-17/
que iria “procurar saber para onde foi esse dossiê”, que ao chegar à Secretaria,
aluno-fica-na-linha-de-tiro-
com-upp-dentro-de-escola- teria acesso a ele.
no-alemao.html>. Acesso em
29/12/2015. relatoriocompleto O grêmio estudantil não compareceu à audiência por considerar que o espaço não era
missaocomplexoalemao.pdf>.
neutro o suficiente para garantir sua segurança. Mas deixou uma carta em que afirma:
19. O Coletivo Juntos pelo “O nosso objetivo é restabelecer a paz no nosso ambiente de estudo, trazer de volta os
Complexo do Alemão é formado projetos que perdemos para que a escola seja um território neutro, assim como foi há
por 17 grupos e 12 associações três anos atrás”. Além de encaminhar a retirada imediata da base da UPP do pátio da
de moradores.
escola, Marcelo Freixo sugeriu a criação de um fórum permanente de diálogo compos-
20. Levando-se em conta o to pelas secretarias de Educação e a de Assistência Social e Direitos Humanos. “Não é
que vem sendo chamado na possível que a polícia faça a mediação do conflito em que está diretamente inserida.
literatura internacional de São necessários outros espaços de diálogo com o poder público para pautar todos os
“novos conflitos armados”
problemas do Alemão”, disse.
ou de “violência armada”,
a missão da Plataforma da
Dhesca Brasil junto às escolas “Não há projeto pedagógico que suporte uma UPP no pátio da escola. Não é pos-
públicas do Complexo do sível que os problemas do Alemão continuem sendo tratados como problemas de
Alemão, classificou em 2007,
polícia. Não é possível que a polícia continue sendo o único instrumento presente
a vulnerabilidade das escolas
da região como educação em para mediar um conflito do qual ela faz parte, no qual está presente. Vamos entre-
situação de emergência. Em gar à Secretaria de Segurança Pública e ao Governo todo o material desse encontro
nível internacional, entende-se e dar 30 dias para que a UPP saia definitivamente”, afirmou Marcelo Freixo ao
situação de emergência como
final da audiência.
sendo aquela resultante
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 99

Na ocasião, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) acatou a decisão da de catástrofes naturais ou


audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da das chamadas “emergências
complexas”. As emergências
Alerj, em encaminhar o fim da base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no
complexas são situações
Colégio Caic Theóphilo de Souza Pinto. A determinação foi anunciada em nota de gravidade social geradas
pela CPP em 6 de maio de 2015. Mas, a secretaria de Segurança Pública não cum- pelos seres humanos, estando
priu a determinação. entre elas, os “conflitos
armados”. À época, foi
apresentado um conjunto de
Ainda em relação à Educação, outro tema abordado diz respeito à concessão de um recomendações reivindicando
terreno da prefeitura para criação de um polo do Instituto Federal de Educação, Ci- a aplicação imediata da
ência e Tecnologia (IFRJ) no Alemão. Apesar da cessão ter sido publicada em diário legislação internacional de
direitos humanos. O relatório
oficial pela prefeitura, na segunda quinzena de abril, os moradores questionaram o
foi entregue às autoridades
fato do local estar comprometido para moradia popular. “Não adianta a prefeitura ce- públicas, às organizações
der um lugar para a universidade que já está comprometido para outro fim”, criticou comunitárias do Complexo
Udson Freitas, membro do Juntos Pelo Alemão. Udson também questionou o processo do Alemão, às entidades da
sociedade civil do Estado
de pacificação: “A Constituição garante o direito à dignidade humana, mas não temos
do Rio de Janeiro e do país;
esse direito. Eu ajudo a pagar o salário desses policiais e a munição que está matando e encaminhado ao relator
meus amigos e meus vizinhos. As crianças na favela correm atrás de pipa, mas aqui especial da ONU para o
ninguém corre porque pode levar um tiro pelas costas”. Direito Humano à Educação;
à Comissão Interamericana
da Organização dos Estados
Americanos (OEA) e ao Comitê
COTIDIANO DE VIOLÊNCIA dos Direitos da Criança da ONU
para a tomada de medidas
cabíveis, conforme previsto nos
Meu filho era amado por todos. Ele só queria ter o direito de falar e ser ouvido. A UPP
instrumentos internacionais de
tem que ser reformulada com o objetivo de nos ajudar e não nos matar”, afirmou Denise direitos humanos.
Moares, mãe de Caio, 20 anos, morto há um ano no Alemão. “Será que vou continuar a
apanhar por ser negro?”, questionou o escritor Zen Ferreira ao narrar a agressão sofrida, 21. No dossiê, elaborado pelos
21 professores da escola,
no último dia 6 de abril, durante uma abordagem do Bope no Complexo do Alemão. “Me
constam fotografias de todos
deram um soco na cara. E só depois pegaram os meus documentos. Quando viram que os danos à infraestrutura da
não tinha nada a ver (com o tráfico), o policial me abraçou e pediu desculpas. Me senti escola, mas também vídeos
envergonhado e hoje eu choro de vergonha. Peço justiça e respeito”, concluiu emocio- de ameaça a professor no
exercício da sua profissão e
nado. O chefe do Gabinete do Comando-Geral da PM, coronel Ibis Silva Pereira, pediu
a estudantes que estavam
desculpas ao que classificou de “excessos”. “Estamos empenhados em repensar o pro- fazendo trabalho no pátio da
cesso de pacificação. A polícia é vítima e vitimizadora nessa guerra contra as drogas. escola, filmando a escola,
São máquinas de guerra que embrutece pessoas e desumaniza”, afirmou. realizado por policiais.

O presidente da Comissão Especial de Inquérito (CPI) do Congresso Nacional, Regi-


naldo Lopes, que investiga a violência contra os jovens negros e pobres criticou a su-
posta guerra contra as drogas: “As taxas de elucidações de crimes não chegam a 8% e
os presídios estão superlotados. Por isso, essa lógica errada de guerra às drogas é pre-
judicial à sociedade. Uma das ações da CPI está em torno do debate sobre o Projeto de
Emenda Constitucional (PEC) que compartilha a responsabilidade sobre a Segurança
Pública com o governo federal”, afirmou Lopes ao sugerir que todos as assembleias
legislativas criem CPIs para tratar do homicídio de jovens negros.

O encontro, que contou com a presença de lideranças locais e presidentes de as-


sociações, também teve a participação das deputadas federais Rosângela Gomes e
Benedita da Silva; da deputada estadual Martha Rocha; da subsecretaria de Defesa
100 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

e Direitos Humanos, Andréa Sepúlveda; e representante da secretaria de Educação,


Rosana Mendes.

4.5. RELATÓRIO DE EXECUÇÕES SUMÁRIAS


DA ANISTIA INTERNACIONAL

O direito à vida é prerrogativa fundamental para a dignidade humana. Tanto que se


configura como uma norma de direito internacional que não pode ser suspendida em
nenhuma ocasião, mesmo em casos de emergência. O artigo 4º da Convenção Ame-
ricana sobre Direitos Humanos, assim como o artigo 6º do Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos (PIDCP), prevê dentre as responsabilidades dos Estados a
obrigatoriedade de garantir, proteger e preservar o direito à vida. Desde 1992, o Brasil
é signatário de ambos os tratados internacionais, além de, a partir de 1998, ratificar a
competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Segundo dados do Informe da Anistia Internacional (2015/16), de 2010 a 2015, foram


2.474 pessoas mortas de forma violenta em homicídios decorrentes de intervenção po-
licial no Rio de Janeiro. Isso significa que nos dois últimos anos, a média diária foi de
1,7 ocorrências, o que na prática dá quase 2 pessoas mortas por intervenção policial a
cada dois dias. Entre 2010 e 2013, das 1.275 pessoas que foram assassinadas durante
operações policiais na cidade do Rio de Janeiro, 99,5% das vítimas eram homens, 79%
eram negros e 75% tinham entre 15 e 29 anos de idade

No Relatório “Você matou meu filho”22, publicado em 2015 pela Anistia Internacional,
há destaque para as evidências encontradas de que pelos menos nove, dos 10 casos
de homicídios decorrentes de intervenção policial em Acari, possuem fortes indícios
de execuções extrajudiciais praticadas por policiais militares em serviço. “Em quatro
casos, as vítimas já estavam feridas ou rendidas quando policiais usaram armas de
fogo de forma intencional para executá-las. Em outros quatro casos, as vítimas foram
baleadas e assassinadas sem nenhum aviso. Em um deles, a vítima estava fugindo da
Polícia quando foi baleada e morta”, descreve o documento.

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj realizou, em 31 de


março de 2015, uma audiência pública para a exposição dos resultados e propostas in-
dicadas no relatório da Anistia Internacional que apresenta uma investigação exclusi-
va sobre execuções extrajudiciais, homicídios e outras violações de direitos humanos
praticadas pela Polícia Militar. Na ocasião, o diretor-geral da Anistia Internacional,
Átila Roque, criticou a prática ilimitada desse tipo de violação. “A ação policial viti-
miza principalmente o pobre, o jovem negro. Esperamos que não seja um momento de
reiteração de denúncias. Queremos avançar”, afirmou.

O sociólogo Michel Misse, do Núcleo da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da


22. Disponível em <https:// UFRJ, durante a audiência, chamou a atenção para o fato de que a taxa de esclareci-
anistia.org.br/wp-content/
mento de homicídios praticados por policiais é menor do que os comuns, o que é uma
uploads/2015/07/Voce-
matou-meu-filho_Anistia- contradição, já que no caso policial se conhece a autoria. “Não se sabe informações
Internacional-2015.pdf>. básicas. Quantos PMs estão envolvidos em autos de resistência? Quantos têm cinco,
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 101

dez, quinze autos de resistência? Qual o critério para avaliar qual a quantidade de
autos de resistência aceitável para cada policial?”, questionou.

PRINCIPAIS PROPOSTAS DA
ANISTIA INTERNACIONAL
PARA ENFRENTAR O PROBLEMA:

AO GOVERNO DO ESTADO

1) Todos os homicídios praticados por policiais, independentemente de serem caracte-


rizados como autos de resistência ou não, devem ser investigados pela Divisão de Ho-
micídios. O objetivo é concentrar as informações numa mesma unidade. Atualmente,
os casos ficam com as unidades distritais, cuja taxa de resolução é mais baixa.

O chefe de gabinete da Polícia Civil, Fernando Vilas Poucas, que compareceu à au-
diência, disse que a direção da instituição é favorável à medida, mas que precisa da
nomeação de 750 policiais que foram aprovados em concurso.

2) Garantir a estrutura adequada em termos de equipamentos e pessoal para que a


Divisão de Homicídios possa investigar todos os casos de forma eficiente.

3) Fortalecimento de programas de proteção às testemunhas, familiares das vítimas e


defensores de Direitos Humanos.

4) A PM deve adotar e tornar público um protocolo que regulamente o uso da força


para evitar abusos. O uso da força deve ser proporcional ao dano que se deseja evi-
tar. No caso da força letal, ela só é legítima se for para salvar a própria vida ou a de
outra pessoa. O documento deve ser baseado em dois protocolos produzidos pela
ONU: o “Código de conduta para os funcionários responsáveis pela aplicação da
Lei” e o “Princípios básicos sobre o uso da força e armas de fogo pelos funcionários
responsáveis pela aplicação da Lei ”.

A PM também deve controlar o uso de armas de uso extremo como fuzis e metra-
lhadoras automáticas. Seu uso em comunidades põe em risco a vida da população.

AO MINISTÉRIO PÚBLICO

1) Criação de uma força-tarefa que priorize a investigação dos autos de resistência. Se-
gundo o relatório, em 2011, a Polícia Civil abriu 220 procedimentos administrativos.
Até abril de 2015, 183 investigações ainda estavam em curso. Foi pedido o arquiva-
mento de 12 casos, dos quais cinco por ausência de provas ou testemunhas. Houve
apenas uma denúncia à Justiça.

2) O Ministério Público precisa cumprir seu papel constitucional de fiscalizar e contro-


lar a atividade policial, monitorando o uso da força letal.
102 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

À UNIÃO

1) Garantir a adequada implementação da Resolução 08/2008, que retira designações


genéricas, como “auto de resistência” e “resistência seguida de morte”, de registros
policiais. Isso permitirá que os homicídios decorrentes de intervenção policial se-
jam investigados de forma apropriada e que sejam assegurados o acesso à perícia
oficial, a preservação da cena do crime e o envolvimento do Ministério Público.

2) Criar um programa nacional para reduzir a quantidade de homicídios.

AO CONGRESSO NACIONAL

1) Incorporar na legislação os padrões da ONU para o uso da força por parte dos agen-
tes da Segurança Pública.

2) Aprovar legislação específica que estabeleça os parâmetros fundamentais para a cria-


ção, definição de competências e funcionamento das Ouvidorias Externas da Polícia
em cada estado. As Ouvidorias Externas devem ser dotadas de autonomia orçamen-
tária e funcional, estar encarregadas do controle da atuação do órgão policial e do
cumprimento dos deveres de seus profissionais, além de ter poderes disciplinares.

4.5.1. ATÉ QUANDO, ACARI?

“Porque você atirou em mim? Porque você fez isso? O que eu fiz pra você?”. Essas
foram as palavras de Ana Júlia, uma menina de oito anos de idade, após ser baleada
no peito por policiais civis no dia 14 de maio de 2015, durante uma incursão policial
na favela de Acari. Ela voltava da escola junto com outras crianças que também foram
alvejadas por estilhaços. Vanderley Cunha, mais conhecido como Deley de Acari, via
aquela cena de maneira perplexa. Em setembro de 2015, disse à equipe da CDDHC,
que após vários anos morando em Acari, jamais havia estado tão perto de uma cena
de violência como aquela.

A favela de Acari tem um histórico sangrento das ações policiais ou de grupos de


extermínio. Há décadas sofre com operações policiais que resultam em execuções
extrajudiciais e outras violações de direitos humanos. De acordo com o Informe
da Anistia Internacional (2015/16), em 2014, foram mortas 584 pessoas no estado,
mas somente a capital registrou 244 casos. A maior incidência aconteceu na Área
Integrada de Segurança Pública (AISP) de número 41, com um total de 68 registros
de “homicídios decorrentes de intervenção policial”. Destes, 10 casos ocorreram
na favela de Acari, tendo um policial militar morto em serviço na área total. Ne-
nhum em Acari.

O desaparecimento forçado de 11 jovens em julho de 1990, caso conhecido como a


Chacina de Acari, marcou a história da favela e do Rio de Janeiro. Após 25 anos dessa
tragédia, a realidade e a rotina de violência sofrida por seus moradores pouco mudou.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 103

4.5.2. ENTREVISTA: GILMARA COUTINHO

“A polícia quase destruiu


os sonhos da minha filha”

Gilmara Coutinho critica o


Estado por não responsabilizar
aqueles que balearam a sua
filha Ana Júlia

G
ilmara Coutinho, de 41 anos, moradora há 40 anos da favela de Acari, estava
em casa quando recebeu um telefonema dizendo que a filha Ana Júlia estava
machucada. Segundo Gilmara, Ana Júlia estava saindo da escola acompanha-
da de outras três crianças e uma vizinha que segurava uma criança de colo, quando
próximo ao Valão, na Praça Roberto Carlos, começou uma suposta troca de tiros. Ha-
via uma incursão da polícia civil na região.

Em determinado momento, o grupo sentiu vários tiros na direção deles. A vizinha


se jogou no chão para se proteger e empurrou as crianças para atrás de uma árvore.
Mesmo assim, Ana Júlia foi ferida. A vizinha começou a gritar e cerca de dez policiais
civis, dentre eles o delegado e responsável pela operação, foram em direção ao grupo.
Um deles pediu calma e afirmou que a polícia iria prestar socorro. Porém, eles cruza-
ram toda a favela até chegar à Avenida Brasil com Ana Julia ferida. Foi nesse momen-
to que a menina entrou em desespero e gritou: “Por que você atirou em mim? Por que
você fez isso? O que eu fiz pra você? Eu não quero morrer!”.

CDDHC: Como foi o socorro prestado pela polícia?


Gilmara: Os policiais balearam a minha filha e a fizeram ela andar por mais de 500
metros sangrando. Depois largou a Ana Júlia no Hospital de Acari e sumiram. Ela foi
transferida para o Souza Aguiar e lá o atendimento foi adequado. Mas até hoje nin-
guém arcou com nada e está por isso mesmo. Minha filha tomou dois estilhaços nas
pernas e um tiro no peito. A bala ainda não saiu e está alojada no pulmão.
104 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

CDDHC: Você percebe no dia a dia mudança no comportamento de Ana por con-
ta dessa violência?
Gilmara: Ela mudou muito. Não é mais a mesma criança. Isso vai ficar marcado o
resto da vida na cabeça dela e na minha. Ela está mais agitada, não é mais calma. Tem
que fazer tratamento psicológico para não cair em depressão. Ela só tem oito anos.
A pessoa que leva um tiro no peito não passa isso sem trauma. Ela tem sonhos e eles
quase destruiriam com os sonhos dela.

CDDHC: O que você espera do Estado?


Gilmara: Só quero que o estado faça alguma coisa. Quero justiça. Porque eles não deram
nenhuma assistência a minha filha até hoje. Não se responsabilizaram por nada: remédio,
médico, tratamento. Não foram responsabilizados. Espero que eles arquem com as con-
sequências do que fizeram. Estou entrando com uma ação contra o Estado, porque eles
têm que tomar providências sobre essa violência. Eles não podem fazer isso, porque quem
mora aqui é gente humana e mesmo que morasse bicho, eles não podiam chegar atirando.

CDDHC: Ana Júlia foi a única criança machucada?


Gilmara: Não teve outras crianças, mas as mães não quiseram dar queixa e ir na de-
legacia. Deixaram para lá. Como a minha filha foi baleada, eu não deixei barato. É
uma covardia o que aconteceu. Era uma criança querendo chegar em casa, voltando
da escola. O Estado tem que pagar por isso.

CDDHC: Por que as outras mães não fizeram boletim de ocorrência?


Gilmara: Foi por medo. Mãe tem medo. Eu tenho medo também, mas não tenho tanto
assim não, porque minha filha não morreu. Então, eu não posso ter medo. Tenho que
lutar por ela. Nem sei o que seria de mim se ela tivesse morrido. O que é ter um filho
morto? Eu não quero saber.

4.5.3. MÃES DE ACARI: APÓS 25 ANOS,


O MESMO CLAMOR POR JUSTIÇA

A dor da perda de um filho que Gilmara Coutinho nem imagina sentir, há 25 anos faz parte
da realidade sofrida das Mães de Acari. Em 26 de julho de 1990, onze jovens – dos quais
sete eram menores de idade – a maioria moradores da favela de Acari, não voltaram para
casa após irem se divertir com amigos em um sítio localizado em Suruí, no município de
Magé, estado do Rio de Janeiro. Os jovens foram sequestrados por um grupo de seis ho-
mens que se identificaram como policiais e que queriam dinheiro e joias. Como o grupo
não possuía dinheiro, foi levado para um local ainda desconhecido. Inicia-se a odisseia
de sete mulheres em busca pelo paradeiro de seus filhos e da luta por justiça, surge o
movimento Mães de Acari, que inspira outros coletivos de mães de vítimas da violência.

Para encontrar os filhos, elas percorreram cemitérios clandestinos, escritórios, ins-


tâncias burocráticas, Delegacias de Polícia, presídios; conversaram com juízes, de-
legados, secretários de segurança, autoridades policiais, ministros. O livro “Mães de
Acari: uma história de luta contra a impunidade”, denuncia que os responsáveis pe-
los desaparecimentos estariam ligados a um grupo de extermínio conhecido à época
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 105

como “Cavalos Corredores”. Informação confirmada por vários testemunhos de mora-


dores obtidos pela Anistia Internacional.

A entidade conseguiu apurar que as pessoas que levaram os jovens haviam sido iden-
tificadas pelo Setor de Inteligência da Polícia Militar como policiais do 9º Batalhão
da Polícia Militar, em Rocha Miranda, e como detetives do Departamento de Roubo
de Carga da 39ª Delegacia de Polícia da Pavuna, ambos na cidade do Rio de Janeiro.
A investigação indicava que os policiais militares envolvidos vinham extorquindo al-
gumas das vítimas antes do seu desaparecimento forçado. Mesmo com a publicização
das informações, as investigações não avançaram e ninguém foi punido.

As Mães de Acari receberam apoio da Anistia Internacional, em 1992, após a denúncia


de que policiais militares as ameaçaram. Mas, um ano depois, em 1993, Edméia da Sil-
va Euzébio, mãe de Luiz Henrique, uma das mães mais indignadas e empenhadas na
luta por justiça, junto com a cunhada Sheila Conceição, foi assassinada23. Elas sofre-
ram uma emboscada no estacionamento do metrô Praça XI, em 1993, após visitarem
um detento no presídio Hélio Gomes.

Apesar do paradeiro dos jovens nunca ter sido descoberto, a investigação foi encerra-
da em 2010. Após 25 anos lutando por justiça, as famílias continuam desmanteladas
e com saúde mental e física comprometidas. Nenhuma delas recebeu indenização,
apoio estatal, ou mesmo o atestado de óbito dos filhos.

Em outubro de 2012, Marilene Lima de Souza, mãe de Rosana de Souza Santos, fale-
ceu em consequência de um tumor no cérebro. Em agosto de 2003, Vera Lúcia Flores
Leite, mãe de Cristiane Souza Leite, faleceu devido a problemas de saúde. Ana Maria
23. Em 11 de julho de 2011, o
da Silva, mãe de Antônio Carlos da Silva, e Tereza de Souza Costa, mãe de Edson Sou- Tribunal de Justiça do Rio de
za, também estão doentes e não conseguem atendimento na rede pública de saúde. Janeiro, recebeu a denúncia
do homicídio de Edméia.
Sete pessoas estão sendo
Os anos sem resposta sobre o crime e o paradeiro dos filhos marcam o corpo e o estado
acusadas, a maioria delas
emocional das Mães de Acari. Unidas pela luta por justiça, Dona Teresa e Dona Ana policiais militares, incluindo o
continuam tentando encontrar os filhos, mas se dizem cansadas. E com razão. No to- ex-comandante do 9º Batalhão
tal, nove governadores passaram pelo Estado do Rio de Janeiro em 25 anos da Chacina de Polícia Militar, então
responsável pelo policiamento
de Acari, mas nenhum foi capaz de dar um fim à impunidade. A indiferença do Estado
da região de Acari. Depois de
em relação à chacina, vem enterrando todas as Mães de Acari. 22 anos da morte de Edméia,
o processo continuava na
fase de instrução não havia
sido encaminhado para o
4.5.4. ENTREVISTA: TEREZA DE SOUZA COSTA
júri. Foi só em 2014, graças
a um testemunho de que o

“Dizem que crime prescreveu, assassinato da diarista havia


sido planejado no gabinete

mas a nossa dor não” do deputado Emir Laranjeira,


que a Justiça do Rio de Janeiro
encaminhou para julgamento

O
cansaço da dona de casa Tereza de Souza Costa, de 65 anos, é visível. Segundo os sete acusados pela morte de
Edméia. O processo atualmente
ela, não há mais lágrimas para chorar, mas ainda chora. Também passa mal
aguarda os recursos, mas a
da pressão alta ao se emocionar relatando a luta em busca de algum para- pressão deve continuar pela
deiro do filho ao longo desses 25 anos. Quando Edson Souza, à época, com 17 anos, punição dos assassinos.
106 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

desapareceu, Tereza teve que lidar com a sua dor, a do marido e também explicar ao
filho caçula porque o irmão não voltava para casa. “Ele perguntava pelo Edson toda
hora. Falava que iria sair para procurá-lo. E eu entrava em desespero”, descreve. O
filho mais novo era portador de transtorno mental, um dia conseguiu sair de casa para
procurar o irmão e foi atropelado. Morreu na hora.

Há cerca de um ano, Dona Tereza mais uma vez enfrentou outro trauma. O marido so-
freu um acidente e se feriu na perna. Ao procurar atendimento no Hospital de Acari e
não receber um tratamento adequado, o marido diabético teve uma grave infecção na
perna e foi necessário amputá-la. É Dona Tereza quem cuida do marido sozinha. Até
hoje não recebeu qualquer reparação do Estado, seja um auxílio psicológico, finan-
ceiro ou justiça do Estado. Sua saúde emocional é delicada e a física também requer
cuidados médicos.

Quem ajuda Dona Tereza são seus vizinhos e Dona Ana, outra Mãe de Acari. Ela tam-
bém está doente e precisa de atendimento médico e psicológico. No braço esquerdo,
um grande caroço – do tamanho de uma bola de pingue-pongue – próximo ao punho
causa dores insuportáveis. Também tem indicação para fazer um exame de mamo-
grafia, mas não consegue atendimento. Aguarda há meses uma vaga no Sistema de
Nacional de Regulação de Saúde (SIGREG) do Datasus.

As duas, Dona Ana e Dona Tereza, tornaram dor em amizade e continuam juntas lu-
tando por justiça. Descrentes e cansadas, elas aceitaram conceder uma entrevista
para a equipe técnica da CDDHC Alerj, em setembro de 2015.

CDDHC: Como avalia a luta nesses 25 anos?


Dona Tereza: Desde o começo, uma tentava proteger a outra. Mas eu estou cansada
de tudo. De esperar por essa justiça que não vem, de dar entrevista. São 25 anos sem
saber onde está meu filho. Eu só queria enterrar meu filho. Nem a certidão de óbito o
Estado me dá. Hoje, vejo que a luta foi em vão. Cadê o resultado? Estou sozinha cui-
dando do meu velho. Só restou mesmo a saudade dos meus filhos e a saúde que já não
temos. Eu quero justiça, mas ainda tenho muito medo.

CDDHC: A senhora se sente desamparada?


Dona Tereza: Sim. Agora mesmo me ligaram dizendo que tinham um carro preto me
procurando lá na porta de casa. Não sei o que é. Não sei o que pode ser. Mas no meio
do medo, eu retomo e cobro. O Estado tem que me dizer o que fez com meu filho. Tem
que ser condenado pelo que aconteceu com meu filho. Mas até hoje eu tenho a sensa-
ção que meu menino vai entrar pela porta de casa. Falaram que o crime prescreveu,
mas minha dor não. O estado tem que dar conta. Eu estou doente, será que não tem
ninguém para me ajudar? Nem indenização, nem no bolso o Estado sentiu ou pagou
pela dor do meu filho. Quero justiça!

CDDHC: Dona Ana, como a senhora avalia tudo isso?


Dona Ana: Só faltam jogar a pá de cal. Nossa saúde vai minguando. Eu sou muito
mais nervosa. Sempre falavam que tinha um cemitério ali ou lá. E a gente nada de
achar nossos filhos. A Edméia foi assassinada procurando o paradeiro deles e isso foi
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 107

outro golpe. Não deixaram a gente achar eles para enterrar. Nem o atestado de óbito
eu tenho. Dizem que o crime prescreveu e isso acabou com a gente. Acabou tudo. A
gente não vai ter justiça. E todo mundo foi morrendo, só falta a gente. Mas a gente
sobrevive dia a dia pelos meus outros filhos, meus netos, mas meus filhos todos mu-
daram depois disso. Somos nervosos. Todo mundo aqui demorou muito para recons-
tituir suas vidas e no fundo nunca foi igual. Eu como as outras estou ficando doente.
Veja esse caroço aqui (apontou o braço). Eu não sei o que é e já tentei atendimento
em tudo quanto é lugar e não consigo. O médico disse que pode ter outro no seio, mas
não consigo fazer mamografia. A gente vai morrer e não vai ter solução. A gente vai
morrer sem justiça!

A entrevista com Dona Ana e Dona Tereza foi realizada pela equipe técnica da CD-
DHC Alerj em setembro de 2015. Desde então, a Comissão tenta viabilizar junto aos
órgãos públicos do Estado atendimento psicológico e de saúde. O Instituto de Defe-
sa dos Direitos Humanos junto com a Comissão também vem acompanhando o caso
das Mães de Acari na Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado
do Rio de Janeiro.

O próximo capítulo abordará as situações de violações nos espaços de privação de


liberdade, além da vitória relativa à lei que põe fim à revista íntima e vexatória nas
unidades penitenciárias e do Degase. Há ainda uma reflexão sobre a privatização dos
presídios e o retrocesso social representado pela redução da maioridade penal e en-
carceramento da juventude.
5. Sistema Penitenciário
do Rio de Janeiro

A
o longo dos anos, o relatório da CDDHC da Alerj trata sistematicamente
da discussão sobre a política de superencarceramento levada a cabo pelo
governo do Rio de Janeiro, com perversos reflexos nas políticas públicas
de efetivação dos direitos humanos. No ano de 2015, não se observou re-
versão deste quadro. Pelo contrário: o número de prisões cresceu, bem como cresceu
a população carcerária do estado, agravando ainda mais a crítica condição de super-
lotação dos presídios.

Os dados do Ministério da Justiça1 mostram que, em 14 anos, a população carcerária


brasileira aumentou mais de 160%, dez vezes mais que o crescimento da população.
Segundo o levantamento, para cada 16 presos, existem só 10 vagas nos presídios. O
Brasil já conta com mais de 600 mil pessoas presas. Destes, 39% estão em situação
provisória, aguardando julgamento. Em todo o país, há um déficit de 244 mil vagas no
sistema penitenciário e o quadro de superlotação atinge todos os 26 estados do país.

Atualmente, existem cerca de 300 presos para cada cem mil habitantes no país. Isso
significa que o Brasil tem a 4ª maior população carcerária do mundo, encontrando-se
atrás apenas da Rússia, China e Estados Unidos. Mas é preciso observar que, enquan-
to nos três países a taxa de encarceramento caiu entre 2008 e 2014, no Brasil, a popu-
1. Disponíveis em <http://
lação prisional cresceu 33%. No entanto, esse superencarceramento não levou à di- www.justica.gov.br/noticias/
minuição da violência, porque é sabido que a causa da violência não está relacionada mj-divulgara-novo-relatorio-
somente à aplicação de uma pena, mas a todo um contexto socioeconômico do país. do-infopen-nesta-terca-feira/
relatorio-depen-versao-web.pdf>.
Os crimes que mais encarceram no país são o tráfico de drogas, roubo e homicídios.
2. Diversas entidades, entre
O crescente número da população carcerária, as péssimas situações das unidades pri- elas a Pastoral Carcerária, o
sionais e a superlotação, bem como a onda de rebeliões nos presídios em diversas Serviço Ecumênico de Militância
nas Prisões (Sempri), a Justiça
regiões do país em 2015, não foram suficientes para barrar a aprovação, com 320 votos
Global e a Clínica Internacional
a favor na Câmara dos deputados, da redução da maioridade penal para 16 anos. A de Direitos Humanos da
proposta agora segue para o Senado, aonde passará por duas votações. Essa ação Faculdade de Direito da
ocorre em um contexto em que a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Universidade de Harvard,
denunciaram o Brasil à OEA.
da Organização dos Estados Americanos (OEA), convoca o Brasil a dar explicações
Em fevereiro de 2015, o grupo
sobre a onda de violência e mortes no Complexo Prisional do Curado2, no Recife. divulgou um dossiê sobre o
caso com o objetivo de chamar
O Rio de Janeiro possui um efetivo carcerário atual em torno de 43.300 presos, mas atenção para a situação do
Complexo. O documento traz
com capacidade para apenas 27.300. A superlotação chega a 53.6%. Basta entrarmos
715 páginas, relatos de casos de
nas unidades prisionais do Rio para percebermos que o público-alvo do sistema penal violência, tortura, superlotação
é, em sua imensa maioria, de jovens de 18 a 29 anos (62%), negros (71,6%), com ensi- e falta de responsabilização
no fundamental incompleto (66%) e moradores das periferias. O recorte evidencia a dos funcionários envolvidos em
abusos. O Complexo Prisional
política de criminalização da pobreza e da juventude negra e revela a real função dos
do Curado é um dos maiores
presídios num contexto de política pública de segurança baseado na guerra às drogas: presídios do país, com cerca de
depósito de indesejáveis. Há uma clara opção pelo encarceramento dessa população. 7 mil detentos para 2.200 vagas.
110 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

O ano de 2015 se configurou como um período de ameaças concretas aos direitos hu-
manos dos internos no sistema prisional. No que tange ao enfrentamento à superlota-
ção, há muito o que se avançar no diálogo institucional entre os poderes Legislativo,
Executivo, Judiciário, e em especial o Ministério Público, uma vez que são os dois
últimos órgãos os responsáveis pela manutenção das prisões cautelares por longos
períodos. É flagrante a opção, em detrimento da aplicação de outras medidas alterna-
tivas, pela privação de liberdade durante o processo.

A situação no Sistema Penitenciário é tão alarmante, inclusive no que diz respeito


às condições das unidades prisionais e à situação das mulheres encarceradas, que a
CDDHC Alerj realizou três audiências públicas sobre o assunto. Dos 809 novos aten-
dimentos feitos pela equipe técnica da CDDHC, 194 atendimentos foram referentes ao
sistema prisional.

Desse modo, seguem breves relatos de alguns pontos críticos do sistema prisional
fluminense que merecem destaque para que não voltem a ocorrer nos próximos anos,
assim como de audiências públicas realizadas pela CDDHC, atendimentos efetuados
e alguns avanços a partir da atuação da Comissão.

5.1. IMPACTOS DA CRISE HÍDRICA NO CÁRCERE

As unidades prisionais do Rio de Janeiro apresentam quadros insatisfatórios de for-


necimento de água aos seus internos. Algumas por problemas estruturais, tais como
inadequação de reservatórios e castelos de água (potencializada pelo quadro de su-
perlotação), outras por questões da rede de abastecimento de água da Cedae. Este
último, é o caso do Complexo de Japeri, localizado em uma região com histórico de
racionamento de água no verão.

Não bastassem essas constatações, desde a metade de 2014, a região sudeste do Brasil
enfrenta uma crise hídrica sem precedentes, que ameaça o abastecimento de água po-
tável na região metropolitana do Rio. O quadro de escassez de água no estado, agrava
a situação do abastecimento no sistema carcerário fluminense.

Neste sentido, o Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura (MEPCT) ob-


servou, durante as visitas de monitoramento do Sistema Penitenciário, o agravamen-
to da precariedade deste fornecimento. Situação que impacta não só a salubridade
(limpeza do ambiente prisional), mas também a higiene pessoal dos presos, acarre-
tando problemas de saúde. Especialmente, doenças dermatológicas, bem como torna
o ambiente da unidade tenso com a crescente insatisfação de internos.

5.1.1. ALIMENTAÇÃO INADEQUADA

Assim como o fornecimento de água aos presídios, atualmente, a alimentação ofere-


cida pelo Estado aos internos do sistema prisional interfere diretamente no ambiente
e na rotina do sistema penitenciário como um todo. A despeito da péssima qualidade
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 111

das refeições fornecidas aos internos, o ano de 2015 apresentou um agravamento des-
te quadro, em razão da incapacidade de gestão financeira dos contratos existentes.
A inadimplência do governo com os fornecedores terceirizados nas diversas áreas da
administração pública estadual levou as empresas contratadas a racionar os alimen-
tos oferecidos aos internos. Houve a substituição de alguns itens do almoço e jantar,
como carne e frango, por ovo ou salsicha, bem como a interrupção do fornecimento
de outras refeições, tais como o suco e pão do café da manhã e lanche da tarde.

De acordo com a Promotoria de Tutela Coletiva do Sistema Prisional e Direitos Hu-


manos, os atrasos nos pagamentos aos fornecedores de alimentação chegaram a sete
meses em 2015. O que prejudica, inclusive, a cobrança do próprio contratante quanto
à qualidade do produto oferecido, tornando a situação ainda mais delicada. A preca-
rização da alimentação, somada ao racionamento do fornecimento de água, provo-
cado pela crise hídrica pela qual a região sudeste passa, bem como à superlotação
endêmica do sistema prisional fluminense, tornam as unidades prisionais do estado
verdadeiros barris de pólvora, prestes a explodir.

5.2. AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA

O Sistema Prisional brasileiro possui cerca de 40% de detentos provisórios de uma


população carcerária de mais de 600 mil pessoas. Vale reafirmar que o país figura
o quarto lugar no ranking mundial daqueles que mais prendem. Recentemente, foi
aprovada a lei 12.403/11, que permitiu ao Poder Judiciário a aplicação de medidas
alternativas à prisão em casos de flagrante, mas esta lei não teve a eficácia espera-
da, sendo incapaz de alterar o quadro de aumento do encarceramento de pessoas
que aguardam o julgamento. O excessivo número de presos provisórios no Brasil
(em 2013, de 550 mil presos, 217 mil ainda aguardavam julgamento) é visto com um
dos grandes obstáculos para a humanização do sistema prisional e, consequente-
mente, para a efetivação da Lei de Execuções Penais e o respeito à dignidade da
pessoa presa.

O Rio de Janeiro, por exemplo, dos 42 mil detentos, 15.200 são presos provisórios – o
equivalente a 38%. Uma pesquisa realizada pela socióloga Julita Lemgruber, do Cen-
tro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, mostra as
graves consequências da banalização das prisões provisórias. Segundo o levantamen-
to, apenas 37,5% dos 3.672 detentos presos em flagrante em 2011 foram sentenciados
ao regime fechado ou semiaberto. Ou seja, a maioria das pessoas foram submetidas a
condições mais graves ao longo do processo do que a determinada após a conclusão
do julgamento.

Diante deste quadro, inúmeras organizações da sociedade civil, além de juristas e


defensores dos direitos humanos, se mobilizaram nos últimos dois anos para a efe-
tivação das audiências de custódia no país. Um procedimento previsto no Pacto San
José da Costa Rica, a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, ratificada pelo
Brasil, mas que não era efetivada no processo penal do país. Tal fato evidencia o des-
cumprimento das normativas internacionais pelo Estado brasileiro.
112 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Para além do enfrentamento ao superencarceramento, a audiência de custódia


consiste na imediata apresentação do preso em flagrante a um juiz, com vistas à
análise da necessidade de manutenção da prisão cautelar (antes do julgamento).
Este procedimento permite uma maior eficácia às medidas cautelares, alternativas
à prisão, uma forma de enfrentar o excesso de presos provisórios. Além disso, é
uma estratégia de combate à tortura no ato da prisão, uma vez que, se o magistrado
constatar lesões ou obtiver relato de tortura por parte do réu, poderá determinar
ação investigativa do fato.

Em 2015, a mobilização sobre o tema fez com que o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) efetivasse, em parceria com o Supremo Tribunal Federal, um projeto piloto
de audiências de custódia em São Paulo. Em setembro do mesmo ano, o Tribunal
de Justiça do Rio implantou a audiência de custódia no estado. Um dos resultados
efetivos da audiência pública realizada, em 13 de abril, pela Comissão de Defesa dos
Direitos Humanos e Cidadania da Alerj sobre o tema. Com a presença de represen-
tantes da Polícia Civil, da Defensoria Pública, do Tribunal de Justiça, do Mecanismo
Estadual de Prevenção e Combate à Tortura, do Instituto de Defesa do Direitos de
Defesa, do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos e da Associação pela Re-
forma Prisional, o encontro avaliou como emergente a implantação das audiências
de custódia no estado.

Na ocasião, os benefícios que a efetivação deste procedimento traria para o sistema


de justiça criminal fluminense foi destacado por todas as instituições presentes. Fato
este que levou ao presidente da CDDHC, Marcelo Freixo, à apresentação de Indicações
Legislativas (55/2015) endereçadas aos Poderes Executivo e Judiciário, com o intuito
de efetivação das audiências de custódia no estado do Rio de Janeiro.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro iniciou a prática das audiências de custó-


dia em 18 de setembro de 2015. No entanto, o procedimento ainda está restrito à
comarca da capital, mas há a previsão de expansão para todo o estado até 2017.
Assim, a expectativa de se reduzir o número de presos provisórios no estado do
Rio de Janeiro tornou-se algo mais factível. É sem dúvida uma vitória das mobili-
zações sociais para desacelerar a superlotação dos presídios e viabilizar a digni-
dade humana aos apenados.

5.3. PRIVATIZAÇÃO DOS PRESÍDIOS

Ao priorizar uma política criminal de encarceramento de jovens em detrimento


de políticas efetivas de garantia de direitos e inclusão, o Brasil se encarrega de
uma crise aguda no Sistema Prisional. Diante disso, a solução imediata, aclama-
da por atores políticos conservadores, é o investimento em ações de diferentes
governos que visam a transferência da tutela das pessoas sob sua custódia à
iniciativa privada.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 113

Há dois modelos de privatização de prisões praticados no Brasil: cogestão e parce-


ria público privada (PPP). As PPPs são o modelo mais debatido, mas as unidades
em cogestão representam quase a totalidade dos contratos. Na cogestão, o estado
como o responsável pela direção da unidade, da guarda e de escolta externa, en-
quanto a empresa privada assume toda a operacionalização da unidade, gerindo
serviços de saúde, alimentação, limpeza, vigilância e escolta internas, além da
manutenção das instalações. Pelos contratos de PPPs, as prisões são projetadas,
construídas, financiadas, operadas e mantidas por companhias privadas por um
longo período de tempo. No caso do Brasil, em regra, são 30 anos. As PPPs são,
supostamente, mais lucrativas.

É um equívoco estabelecer níveis de comparação entre as unidades privadas e as pú-


blicas. Isto porque os recursos investidos em cada uma delas são discrepantes, além
da unidade privatizada não poder receber mais internos que a sua capacidade. Algo
já previsto no dispositivo contratual privado, não à toa, as públicas estão sobrecarre-
gas. Há que se observar ainda a falta de transparência na gestão e nos dados relativos
às instituições privadas. De acordo com o relatório da Pastoral Carcerária Nacional3:
“não é possível, por exemplo, saber quantas pessoas, no Brasil, estão presas nas uni-
dades privatizadas”.

No Rio de Janeiro, em 2015, após a exoneração do então Secretário de Administração


Penitenciária (Seap), Cel. Cesar Rubens, e a nomeação do também Cel. Erir da Costa
Filho, a Seap iniciou estudos para a viabilização de transferência da administração
de uma penitenciária recém construída em Resende para a iniciativa privada, fato
este confirmado pelo novo secretário em entrevista à TV Alerj. Por esta razão, e em
busca de esclarecimentos, a CDDHC realizou uma audiência pública, em 5 novembro
de 2015, em parceria com o Comitê Estadual para Prevenção e Combate à Tortura. O
encontro contou com a presença de entidades da sociedade civil, Defensoria Públi-
ca, Ministério Público e representante da Seap. Na ocasião, o subsecretário da Seap,
coronel Cid Souza Sá, informou o recuo da Secretaria no que tange à privatização do
sistema. “Ele (Erir) determinou visitas a algumas unidades prisionais em outros esta-
dos, algumas unidades públicas, outras de cogestão e outras privatizas 100%. O único
objetivo é conhecimento de alguma coisa que nós pudéssemos melhorar nas nossas
unidades. Eu quero garantir cem por cento que no ambiente da secretaria não existe
nenhum processo em andamento, nenhuma intenção de privatizar qualquer unidade
prisional dentro do Estado”, afirmou Souza Sá.

Como resultado da audiência, foi encaminhada a criação de uma Proposta de


Emenda Constitucional para proibir a privatização das unidades prisionais e do
Sistema Socioeducativo. Também participaram do encontro a socióloga Julita 3. Disponível em <http://
Lemgruber; o coordenador-geral do Comitê Estadual para a Prevenção e Combate carceraria.org.br/wp-
content/uploads/2014/09/
à Tortura; Maíra Fernandes, da OAB; Tiago Joffily, da Promotoria de Tutela Co-
Relato%CC%81rio-sobre-
letiva do Sistema Penitenciário e Direitos Humanos e Leonardo Rosa, defensor privatizac%CC%A7o%CC%
público no NUSPEN. 83es.pdf>.
114 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

5.4. ENTREVISTA: JOSÉ DE JESUS FILHO

“Não há vantagens
na privatização de presídios”

Arquivo pessoal
José de Jesus Filho revela
que a privatização dos
presídios favorece a falta de
transparência com relação aos
custos do Estado

O
advogado José de Jesus Filho coordenou a pesquisa “Prisões privatizadas no
Brasil em debate”, realizada pela Pastoral Carcerária e publicada em 2014. A
equipe inspecionou 23 unidades prisionais privatizadas em todo o país. Os pes-
quisadores observaram que a privatização não melhorou as péssimas condições do sis-
tema penitenciário brasileiro. Em algumas unidades, os problemas foram agravados.

O paranaense José de Jesus Filho ingressou na Pastoral Carcerária em dezembro de


2000, aos 26 anos. Ele participou das atividades da entidade até 2014, quando passou
a atuar como voluntário do grupo. Nesta entrevista ele apresenta as principais con-
clusões da pesquisa.

CDDHC: A Pastoral Carcerária inspecionou oito dos 23 estabelecimentos prisio-


nais privatizados no Brasil. A entidade recomendou aos seis Estados visitados que
retomem a gestão das penitenciárias. Por que privatizar o sistema não é solução?
José Jesus Filho: A lógica da privatização é a maximização dos lucros e redução dos
custos. O que nós temos assistido nesse processo de privatização é a baixa qualidade
dos serviços de custódia, o confinamento excessivo dos presos e a restrição a direitos.

CDDHC: Um argumento muito forte em defesa da privatização é a redução dos


custos para o Estado. Entretanto, no modelo de gestão privada o Estado continua
arcando com o financiamento. O que a Pastoral observou no quesito financeiro?
José Jesus Filho: Não há vantagens na privatização. As unidades privatizadas con-
somem mais recursos que as públicas. Na verdade, elas retiram os recursos que antes
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 115

eram destinados às unidades públicas para um número menor de presos. A principal


motivação para a privatização não tem sido a redução de custos, mas sim realizar uma
espécie de burla à lei de responsabilidade fiscal. Com a privatização, as despesas do
governo com custeio não aparecem.

CDDHC: Há transparência na gestão dos desses contratos?


José Jesus Filho: A ausência de transparência é a regra. É isso que tem garantido con-
tratos ou prorrogação de contratos sem licitação e a permanência da mesma empresa
numa unidade por longos anos. Ao longo da sua execução, os contratos sofrem múl-
tiplos aditamentos, o que aumenta a despesa originalmente prevista. Muitas vezes
temos acesso ao contrato, mas não temos acesso aos aditamentos. Outro problema
é que o Ministério Público não tem atuado para dar transparência a esses contratos.
Nem sequer instaura investigação para apurar a sua lisura.

CDDHC: O senhor apontou que nos sistemas estaduais onde existem unidades
privatizadas e públicas, estas acabam sendo prejudicadas porque a maior parte
dos recursos acaba sendo destinada às penitenciárias privadas. Por que essa dife-
rença na destinação do dinheiro?
José Jesus Filho: Eu desconfio que há corrupção nesse esquema. Em um dos estados
que visitamos, havia oito unidades prisionais. Apenas uma era privatizada e abriga-
va 10% dos presos. No entanto, essa unidade recebia 40% dos recursos destinados
às unidades. Essa unidade era mantida como modelo, enquanto as demais estavam
sendo sucateadas.

CDDHC: A Pastoral apontou que sob a justificativa de manter a disciplina e evi-


tar fugas, as empresas acabam violando direitos fundamentais dos presos. Que
violações são essas?
José Jesus Filho: As principais violações estão relacionadas às privações a que sub-
metem os presos: proibição de leitura de jornais, de revistas, de assistir programação
televisiva livre – quando assistem, são programas religiosos – restrição de tempo de
recreio. As revistas são humilhantes e, alguns lugares, os presos são algemados nos
pés e nas mãos quando das visitas de seus familiares. A imposição de restrições torna
mais fácil para as empresas administrarem a prisão, de modo que tudo funciona se-
gundo a conveniência da empresa.

CDDHC: Como os trabalhadores das unidades privatizadas não são concursa-


dos, há grande rotatividade. Quais os impactos dessa situação? Há preocupação
com treinamento?
José Jesus Filho: Esses agentes atuam em situação absolutamente precária e sem trei-
namento. Isso está na lógica do confinamento operado pelas empresas. Quanto menor o
contato com os presos, melhor. As prisões privatizadas acabam se tornando espaços da
indiferença. Nas entrevistas que fiz com agentes de unidades privatizadas, eles não têm
muita noção do que estão fazendo no local e é difícil iniciar até mesmo uma conversa
sobre os seus próprios direitos, quanto mais sobre os direitos dos presos.

CDDHC: Por que a gestão do sistema prisional não pode estar submetida à lógica
empresarial, de busca do lucro?
116 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

José Jesus Filho: Não é só o lucro. É também a lógica da preservação dos interesses
da empresa em desfavor dos interesses dos presos. O confinamento passa a ser a regra
porque isso reduz as chances de fuga, de rebelião e também reduz os custos. Não é
necessário ter funcionários qualificados porque o contato com os presos é mínimo.
As empresas sabem muito bem que a melhor maneira de administrar uma prisão é o
confinamento máximo.

CDDHC: O senhor acredita que a privatização das unidades prisionais leva a um


lobby político para, por exemplo, endurecer o código penal ou pressionar juízes
a condenarem os réus a penas mais duras? Ela pode agravar o problema da su-
perlotação e por consequência as violações de Direitos Humanos?
José Jesus Filho: Não há evidências disso no Brasil. Corrupção de juízes para manter
jovens nas prisões privatizadas ocorreu nos EUA, mas é difícil dizer que isso ocorrerá
no Brasil. O que tem ocorrido é que as empresas privatizadas se aproveitaram do en-
carceramento em massa, mas não podemos dizer, ainda, que elas o causaram.

CDDHC: Os presos são majoritariamente homens, jovens, negros, moradores das


favelas e periferias com baixa escolaridade. Em sua opinião, qual o papel político
e social que os presídios exercem hoje e qual deveria ser o papel do sistema penal?
José Jesus Filho: A prisão, ao lado das execuções sumárias, tem sido a principal res-
posta à violência. A prisão tem cumprido um papel de incapacitação desses jovens e
é possível dizer que tem funcionado com a política habitacional dos governos estadu-
ais. Construir presídios e enchê-los de jovens, sem qualquer assistência, é muito mais
barato que investir em políticas sociais. Eu não creio que as alternativas penais sejam
a solução, pois elas entram na mesma lógica repressiva. Eu creio que o investimento
em políticas sociais: educação, saúde, renda mínima, cotas nas universidades e nos
serviços públicos são a única via para superar o sistema penal.

CDDHC: Numa sociedade de forte caráter racista, que confunde justiça com vin-
gança, temos a sensação de que os presídios não estão em crise, mas funcionam
muito bem. O senhor concorda com isso?
José Jesus Filho: Eu concordo. Acho que é falsa a ideia da falência do sistema prisio-
nal. Nunca se apostou tanto nele como resposta aos problemas de desigualdade social
e como mecanismo de segregação social.

CDDHC: O que fazer para superarmos as graves violações de Direitos Humanos


no sistema prisional?
José Jesus Filho: Eu creio que a superação está no investimento em políticas sociais para
redução das desigualdades. O enfrentamento à criminalidade de rua, furtos, roubos, pe-
queno tráfico, está mais relacionado aos ministérios e secretarias de desenvolvimento so-
cial e não ao sistema de justiça penal. Insisto em dizer que furto e roubo não é um proble-
ma criminal, é um problema social e seu enfrentamento deveria ser tirado das secretarias
de segurança e passado à coordenação do ministério de desenvolvimento social.

CDDHC: No Rio, cerca de 40% dos detentos ainda não foram julgados. Qual sua
avaliação sobre o problema da grande quantidade de presos provisórios?
José Jesus Filho: A situação dos presos provisórios, a maioria presa em flagrante,
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 117

é uma evidência de que o sistema de justiça não funciona e de que a Polícia Militar
alcançou a primazia na questão penal. Pessoas presas em flagrante são geralmente
aqueles que praticam crimes patrimoniais e que mantêm permanente contato com po-
liciais militares. Crimes do colarinho branco, que dependem de investigação e coorde-
nação das instâncias repressoras, não são adequadamente processados e as polícias
não estão preparadas para, e não querem, enfrentar esse tipo de crime.

CDDHC: O senhor começou a atuar na Pastoral Carcerária e a visitar presídios no


ano 2000. O que mudou desde então na realidade das unidades prisionais e nas
políticas públicas para o setor?
José Jesus Filho: Na época nós lutávamos contra a tortura, as prisões ilegais e o péssi-
mo tratamento. Hoje nós lutamos contra o encarceramento em massa e a transformação
da pena em negócio, com a privatização e as tornozeleiras eletrônicas. É triste, mas nem
nós mesmos conseguimos individualizar a defesa dos direitos, de lutar contra a tortura
ou o direito individual de cada preso, pois estamos dedicando nosso tempo a novos
problemas, que são supra individuais e que nós não nos preparamos para enfrentar.

CDDHC: As tornozeleiras eletrônicas têm sido a alternativa para o encarcera-


mento. Qual a sua opinião sobre elas?
José Jesus Filho: Elas são as novas prisões eletrônicas e estão servindo, não como
alternativa à prisão, mas como alternativa à liberdade, ou seja, aquelas pessoas que
antes recebiam liberdade provisórias ou simplesmente eram ignoradas pelo sistema
de justiça, agora estão sendo submetidas a vigilância eletrônica. A expansão do siste-
ma punitivo é algo assombroso e a existência de novas tecnologias tem permitido um
novo espaço para o lucro.

5.5. O DIREITO A VISITAR E


SER VISITADO – CARTEIRINHA

O fortalecimento dos vínculos familiares e afetivos é fundamental para o processo


de ressocialização da pessoa privada de liberdade. E a visita ao apenado é garantida
como um direito previsto no artigo 41, X, da Lei de Execuções Penais. A constituição
do Estado do Rio de Janeiro, no artigo 27, também garante o direito de visita dos pre-
sos. Além disso, é importante ressaltar que, a Constituição Federal no artigo 5º, XLV,
CF, observa que a pena não deve extrapolar a pessoa do condenado. No entanto, a
prática se revela diferente. Familiares dos presos recebem igual tratamento degradan-
te durante a visitas, seja através da revista vexatória ou através da suspensão do for-
necimento da “carteira de visita pessoa amiga”. A suspensão do documento de forma
arbitrária pelos inspetores penitenciários, se configura como uma violação ao direito
de visita do preso e a extensão da punição ao seu familiar, ferindo a Constituição.

Para uma pessoa ter acesso e exercer o direito de visita junto ao sistema penitenci-
ário é necessário possuir a "Carteira de Visitante". A emissão do documento se dá
nos locais de credenciamento de visitantes ou com agendamento prévio, como indica
site Seap. Ocorre que, durante o ano de 2015, a Comissão de Direitos Humanos e Ci-
dadania da Alerj recebeu uma série de denúncias de violação ao direito à visita. No
118 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

total, foram 33 denúncias registradas junto ao sistema da CDDHC. Na maior parte dos
atendimentos, os casos se caracterizam pela suspensão da carteira de visitação com
a justificativa de que seria publicada uma nova resolução, com outras regras para
garantir a visita. Porém, essa suposta alteração não foi publicada pela Secretária de
Administração Penitenciária do Estado do Rio de Janeiro, o que demonstra um verda-
deiro descaso ao direito do apenado e de seus familiares.

Em um dos casos acompanhados pela CDDHC, a companheira de um interno, enquan-


to se encontrava na unidade após a visita, foi buscar um vidro de neosoro que havia
deixado ao lado da lixeira do banheiro. Ao comentar com as outras mulheres da fila
que haviam roubado o remédio dela, um agente que escutou a conversa ordenou que
fosse recolhida a carteira de visitação dela. Ao se recusar a entregar o documento, o
agente caracterizou a reação como desacato a autoridade. Após o ocorrido, a senhora
do caso teve sua carteirinha cancelada pelo prazo de um ano.

Essa história ilustra bem o fato de inspetores penitenciários se utilizar da suspensão


do acesso à visita como recurso de punição. A ausência de regulamentação sobre a
visita torna obscuro os procedimentos restritivos ao exercício do direito de familiares
e presos. Esse fato demonstra uma opção política da gestão da Administração Peni-
tenciária do Rio de Janeiro em dificultar o pleno direto à visitação.

Diante do quadro crítico de violação de direitos dos internos e de suas famílias, foi
organizado uma manifestação na porta do prédio da Central do Brasil, onde funciona
a sede da Seap. Em razão do protesto, uma comissão de manifestante foi recebida pela
direção da Secretaria que se comprometeu em normatizar o procedimento de emissão
das carteiras de visitantes, através da Portaria 584, publicada em 23/10/2015. Todavia,
a portaria não regulamentou a emissão de carteira para a pessoa amiga, que continua
suspensa, sem previsão de alteração deste quadro.

A CDDHC TOMOU AS SEGUINTES MEDIDAS


SOBRE OS CASOS EM QUESTÃO:

1. Atendimento e esclarecimento quanto ao fornecimento da Carteira de Visita da Seap.

2. Encaminhamento dos casos individuais referentes às carteiras de visitação para


Coordenação da Secretaria de Administração Penitenciária, bem como junto ao Nú-
cleo do Sistema Penitenciário e Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública.

3. Encaminhamento coletivo dos casos de suspensão da Carteira da pessoa amiga


da Seap para o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura do Estado do Rio
de Janeiro.

5.6.1. AGORA É LEI: FIM DA


REVISTA ÍNTIMA VEXATÓRIA
O resultado concreto da luta intransigente dos movimentos de direitos humanos e
dos familiares das pessoas privadas de liberdade foi, em 26 de maio de 2015, a sanção
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 119

da lei que põe fim à revista íntima vexatória no estado do Rio de Janeiro. De auto-
ria de Marcelo Freixo, em conjunto com o então presidente da Alerj, a Lei Estadual
7010/2015 substitui a revista degradante pela mecânica – que já acontece em pre-
sídios federais e em São Paulo (estado com a maior população carcerária do Brasil)
aeroportos, bancos e consulados. Realizada através de detectores de metal e scanners
corporais, a revista mecânica, além de garantir a dignidade dos visitantes, é mais efi-
ciente do que o procedimento manual. Qualquer objeto escondido no corpo é detec-
tado pelo equipamento.

O Conselho Nacional de Política Criminal Penitenciária editou, em 2014, uma reso-


lução recomendando o fim da revista íntima em todos os presídios do país, mas isso
ainda é uma realidade de pouco estados. A revista envolve o desnudamento parcial
ou total, introdução de objetos nas cavidades corporais, uso de cães ou animais fare-
jadores e a prática de agachamento ou saltos. Situações que submetem a dignidade
humana e violam a integridade física, moral e psicológica, principalmente, das mu-
lheres, mães e filhas dos apenados.

“A família tem um papel decisivo no processo de ressocialização do detento. Não são


poucos os familiares que deixam de visitar seus entes queridos porque não conse-
guem passar por aquela situação. É uma agressão absurda as pessoas ficarem nuas,
se agacharem. Estou falando de pessoas de idade, jovens, crianças que se submetem
a uma revista vexatória. A nova lei vai fazer com que a revista, antes precária e hu-
milhante, tenha mais qualidade e seja até mais rigorosa, ao mesmo tempo em que
garante a dignidade das pessoas”, afirmou Marcelo Freixo. A lei é válida tanto para o
Sistema Penitenciário quanto para o Sistema Socioeducativo.

Para dar viabilidade financeira à lei, no dia 21 de maio de 2015, a Alerj doou R$ 19
milhões ao Sistema Penitenciário para a compra de 33 scanners corporais para impe-
dir a entrada de armas ou drogas nas prisões. Esta é uma vitória da sociedade civil,
movimentos, entidades e dos familiares de presos – principalmente as mulheres, que
se mobilizaram e nunca desistiram da luta pela dignidade humana. Não é natural que
o Estado seja o violador de direitos, não se pode estender a pena à família das pessoas
privadas de liberdade. Revista íntima vexatória, nunca mais.

5.7. SISTEMA SOCIOEDUCATIVO


NO RIO DE JANEIRO

O Sistema Socioeducativo do Rio de Janeiro gerido pelo Departamento Geral de Ações


Socioeducativas (Degase) enfrenta problemas semelhantes aos do Sistema Peniten-
ciário. Seria inaceitável aventar algum nível de comparação entre duas instituições
uma vez que teriam finalidades diferentes, a primeira socioeducativa e a segunda pri-
sional. No entanto, além de se configurarem como sistemas de privação de liberdade
em diferentes aspectos, sofrem com a superlotação e com as péssimas condições de
assistência. O estado possui nove unidades que estão superlotadas – são 1.521 inter-
nos para 1.019 vagas. A capital dispõe de seis unidades e as demais encontram-se em
cidades como Belford Roxo, Volta Redonda e Campos dos Goytacazes.
120 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Em média, todos os dias, 25 jovens foram encaminhados ao Centro de Socioeducação


Gelso de Carvalho Amaral, (CENSE-CGA), unidade responsável pela internação. A ca-
pacidade da unidade é de abrigar 64 jovens, mas convive com cerca de 250 internos.
A superlotação é evidente. “Daqui a pouco eles vão virar morcego, vão ter que dormir
em pé. A gente está no fio da navalha”, afirmou o diretor do Degase, Alexandre Aze-
vedo, em audiência pública realizada, no dia 4 de novembro de 2015, pela Comissão
de Direitos Humanos da Alerj.

O sistema está à beira de um colapso por conta da demanda crescente. Em 2010, fo-
ram 2.806 jovens apreendidos; em 2014, 8.380; e em 2015, mais de 10 mil crianças e
adolescentes. Essa realidade representa um aumento de 400% do encarceramento de
adolescentes no Rio de Janeiro. Há uma óbvia opção pela política de reclusão, em vez
da garantia de direitos.

5.7.1. JUVENTUDE PRIVADA DE LIBERDADE

O crescente número de jovens apreendidos já havia sido denunciado pelo Mecanismo


Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro. O problema foi intensifi-
cado após o Rio de Janeiro ser escolhido para sediar grandes eventos, como o Rio+20,
Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Esse fato revela
que, na prática, os megaeventos contribuem para a higienização do espaço urbano da
cidade. Em conversas com servidores do Degase, verificou-se que, entre junho e julho
de 2014, as audiências judiciais de adolescentes internados foram suspensas. Ou seja,
jovens foram encarcerados antes mesmo do primeiro encontro com os juízes.

Quando um adolescente é internado em uma unidade do sistema socioeducativo,


um processo de exclusão anterior ao cometimento do ato infracional é consolidado.
Um exemplo desse processo de negação da cidadania é que 95% dos adolescentes
do sistema sequer completaram o ensino fundamental, e nenhum deles o Ensino
Médio, segundo dados divulgados pelo próprio Degase. Cerca de 80% dos adoles-
centes que cometem atos infracionais têm entre 11 e 18 anos. A maioria dos jovens
cumprem medidas socioeducativas devido ao crime de tráfico de drogas. Mais de
40% deles praticaram algum tipo de roubo ou furto, mas apenas 5% foram apreen-
didos com alguma arma letal.

A lógica da cultura do encarceramento que mantém o funcionamento do sistema


precisa ser invertida. O pressuposto deve ser a garantia de direitos e a promoção da
cidadania dos jovens que já se encontram em situação de violações de direitos: à edu-
cação, acolhimento familiar, saúde, alimentação, moradia, entre outros.

O ano de 2015 demandou esforços e articulações dos diferentes atores da garantia


de direitos de crianças e adolescentes. Por isso, o Conselho Estadual de Defesa dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Cedca-RJ) conjuntamente com a Coordenadoria
de Defesa da Criança e do Adolescente da Defensoria Pública do Estado do Rio de Ja-
neiro (Cdedica), além do Ministério Público (através do CAOP-Infância e Juventude),
promoveram encontros com diferentes instituições e coletivos para debater os proble-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 121

mas e buscar soluções. No total, foram realizados 13 encontros com a participação de


representantes do Sindicato dos Servidores do Departamento Geral de Ações Socioe-
ducativas (SindDegase), o Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura, o
Conselho Regional de Serviço Social, o Conselho Regional de Psicologia, conselheiros
tutelares, e a equipe técnica da CDDHC Alerj.

A proposta inicial seria o enfrentamento à violência no Degase a partir das ocorrên-


cias de homicídios cometidos e sofridos por adolescentes em cumprimento de medida
socioeducativa, incluindo casos de tortura e maus tratos praticados por servidores.
No decorrer das reuniões, o grupo observou que a violência presente no cotidiano das
unidades é consequência de diversos fatores que ultrapassam os limites de um olhar
simplista da relação servidor e adolescente. Ampliou-se o debate em função das cons-
tatações identificadas, tais como:

a) Aumento acentuado das apreensões de adolescentes provocando superlotações


das unidades de internações e semiliberdades.

b) Condições insalubres das unidades, constatando-se a precariedade dos serviços de


manutenção.

c) Dificuldade do poder executivo estadual em estabelecer com representantes do


Executivo municipal diálogo para o atendimento das medidas em meio aberto (li-
berdade assistida e prestação de serviço à comunidade, entre outros).

d) Demora do Executivo estadual em aprovar o Plano Estadual de Atendimento Socio-


educativo. Cabe ressaltar que o Cedca condiciona a aprovação vinculada à desati-
vação do Educandário Santo Expedito, a partir de um planejamento envolvendo o
Poder Executivo, o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública.

e) Alto índice de adolescentes oriundos de comarcas do interior e opção pela interna-


ção em detrimento das medidas em meio aberto.

5.7.2. AUDIÊNCIAS PÚBLICAS DA COMISSÃO


DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS

Diante das constatações já mencionadas e das péssimas condições de trabalho às


quais os servidores do Degase são submetidos – eles não têm acesso a telefone, inter-
net e treinamento adequado –, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidada-
nia da Alerj organizou duas audiências públicas sobre a situação do Degase em 2015.
A primeira ocorreu, em 31 de março de 2015, com a participação do diretor geral, Ale-
xandre Azevedo; o presidente do Sindicato dos agentes, João Luiz Rodrigues; e re-
presentantes da Defensoria Pública, do Ministério Público, do Tribunal de Justiça, do
Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente, do Mecanismo Estadual
de Prevenção e Combate à Tortura, da Secretaria Estadual de Assistência Social e Di-
reitos Humanos, bem como de movimentos de familiares de adolescentes cumprindo
medidas socioeducativas.
122 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Os problemas tratados no encontro se materializam em diversas denúncias de viola-


ções. São elas: torturas, espancamentos, falta de acesso à educação, saúde e convívio
familiar, e superlotação. Problemas que acarretam rebeliões em função da indignação
dos internos. Em 24 de março, houve uma rebelião no Educandário Santo Expedito,
em Bangu. A unidade abrigava 310 jovens, apesar de ter capacidade para apenas 90.
Em setembro de 2014, ocorreu o mesmo na unidade de Volta Redonda, onde 160 ado-
lescentes viviam em um local onde cabem 90.

O Titular da Coordenadoria Judiciária de Articulação das Varas de Família, Infância e


Juventude e Idoso, à época, o desembargador Siro Darlan, destacou que membros do
Poder Judiciário eram os responsáveis pelo encarceramento excessivo de adolescen-
tes, medida que deveria ser uma exceção. Parte das prisões de adolescentes realiza-
das pelo Estado ocorre de forma arbitrária e ilegal.

“A privação de liberdade é excepcional, deve ser provisória. Mas a quantidade de jo-


vens que estão ingressando em unidades socioeducativas demonstra como a situação
análoga ao tráfico de drogas tem servido como justificativa para o encarceramento,
ainda que não haja ameaça à vida”, denuncia Eufrásia Maria Souza das Virgens, da
Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Defensoria Pú-
blica (Cdedica).

Desta forma, foi acordado nos encontros que todas as instituições presentes empe-
nhariam seus esforços para o enfrentamento à superlotação, buscando diálogo com
as Promotorias e Varas da Infância e da Juventude do interior do estado com vistas à
efetivação das medidas socioeducativas de meio aberto. Uma alternativa ao encarce-
ramento excessivo observado nas comarcas do interior do estado.

Em 4 de novembro foi realizada a segunda audiência da CDDHC Alerj para debater


a superlotação do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) a partir
da aplicação excessiva da medida socioeducativa da internação no Estado do Rio
de Janeiro. “A superlotação nas unidades do Degase passa a impressão de que é
natural e inevitável, mas não é. Isso é uma questão humana e é política. Temos
que garantir a audiência de custódia que não é uma prerrogativa que serve somen-
te para o sistema penal, pode ser usada no Degase. Sinceramente o que ocorre ali é
cárcere. Ficamos nos policiando na hora de utilizar as palavras e, por isso, usamos
uma série de palavras politicamente corretas. Mas mentimos para nós mesmos.
Quando falamos que são unidades socioeducativas, mentimos. Criamos um sub-
terfúgio teórico e gramatical que é enganoso. É cárcere – e dos piores”, afirmou
Marcelo Freixo.

Segundo relatório apresentado pelo Degase, dos 7.815 internos atualmente, apenas
4 concluíram o ensino médio. A baixa escolaridade dos adolescentes traz conse­
quên­cias, inclusive, na oferta de cursos profissionalizantes da Faetec, mesmo com o
rebaixamento do nível de pré-requisitos para parte dos cursos. Há um conflito entre
o sistema de módulos da Secretária de Educação Estadual disponibilizada para os
jovens e o modelo seriado do sistema de ensino municipal. Diversos adolescentes
saíram das unidades sem a declaração indicativa da série na escola de ensino fun-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 123

damental e médio que devem cursar. Além disso, há uma má infraestrutura nas
unidades de regime semiaberto e gargalos burocráticos de políticas públicas volta-
das aos adolescentes, dentre elas, o oferecimento do bilhete do Rio Card, além de
número reduzido de agentes.

A partir da realização dessas duas audiências, cabe ressaltar que foram levantadas as
seguintes propostas:

• Projeto de Lei que concede incentivos fiscais aos Municípios que aceitem sediar Uni-
dades de Internação. Esta medida atenderá ao Estatuto da Criança e do Adolescente
e ao SINASE que exigem o cumprimento da medida socioeducativa próximo aos fa-
miliares e comunidade de origem.

• Indicação Legislativa propondo envio de Plano de Cargos Carreiras e Salários dos


servidores do Degase pelo Poder Executivo.

• Implantação do Dossiê Criança pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) com infor-
mações de ocorrências envolvendo crianças e adolescentes.

5.7.3. O RETROCESSO DA REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

No ano em que se deveria comemorar o jubileu de prata do Estatuto da Criança e


do Adolescente, 25 anos de existência, uma onda conservadora no Brasil culmi-
nou na aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da redução da
maioridade penal de 18 para 16 anos. A PEC ainda precisa da aprovação do Senado
para ser promulgada. Pela proposta aprovada, em casos de crimes de homicídio
doloso, lesão corporal seguida de morte e crimes hediondos, como o estupro, os
jovens de 16 e 17 anos terão que cumprir a pena em estabelecimento penal sepa-
rado dos menores de 16 e maiores de 18. Após completar 18 anos, eles irão para
presídios comuns.

A PEC da Maioridade Penal foi aprovada sob protestos de deputados contrários à mu-
dança constitucional, visto que o texto foi alterado após ser rejeitado pelo plenário
no dia anterior. Porém, após uma manobra regimental do presidente do Congresso,
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o tema foi posto em nova votação e acabou aprovado. Di-
versos manifestantes e ativistas de defesa dos direitos humanos contrários à redução
da maioridade penal foram impedidos de ocupar o plenário e as galerias do Congresso
para acompanhar a votação.

A resistência à PEC iniciou-se de forma criativa no Rio de Janeiro. O “Amanhecer


contra a redução” surgiu como um movimento espontâneo da juventude carioca que
travou uma campanha acirrada contra a redução da maioridade. O “Amanhecer”
contagiou os jovens de diversos estados brasileiros que realizaram ações simultâne-
as de ocupação dos espaços públicos da cidade com diversas imagens simbólicas do
universo juvenil. Muitas pipas coloridas enfeitaram as redes sociais, praças, ruas e
o céu do Brasil com as mensagens “Voa, juventude”, “Mais escola, menos cadeia”,
124 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

“Redução não é solução”, entre outras. Inspirada na campanha “No a la baja”, que
impediu a redução da idade penal no Uruguai, a ação contou com a participação da
sociedade civil, movimentos sociais e organizações que lutam pela deslegitimação
da aprovação da PEC da redução da maioridade penal.

Tornar todas as crianças e adolescentes deste país sujeitos de direitos nunca foi admi-
tido por setores conservadores brasileiros. “O Estatuto é uma lei muito avançada para
a sociedade brasileira”, argumentavam seus opositores, ainda quando se construíam
as propostas que levariam à regulamentação do artigo 227 da Constituição Federal,
que daria origem à Lei 8069 de 1990 que instituiu o Estatuto da Criança e do Ado-
lescente (Eca). Adolescentes são, comprovadamente, mais vítimas do que autores de
atos violentos: 36,5% são vítimas de homicídios e menos de 0,01% são acusados de
homicídios, como aponta o Mapa da Violência 2006/2012.

Nas unidades do Degase destinadas à internação e acolhimento provisório, quatro


adolescentes foram assassinados em 2015. Cabe registrar que todos tinham menos de
16 anos, cumpriam a primeira internação, e compartilhavam celas com adolescentes
acusados de homicídios e já haviam completado 18 anos. Tais fatos contrariam o es-
tabelecido no Eca no que se refere à separação por faixa etária, compleição física e
gravidade do ato infracional.

É importante ressaltar a necessidade da implementação, pelos municípios, do aten-


dimento em meio aberto através dos Centros de Referencias de Assistência Social.
O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Lei 12.594/2012) estimula, no
seu artigo VI, a execução das medidas em meio aberto. As medidas de prestações de
serviços à comunidade e de liberdade assistida, previstas no Estatuto, deveriam ser
executadas pelos municípios com o objetivo de prevenir a aplicação das medidas
privativas de liberdade.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 125

5.8. ENTREVISTA: RAPHAEL CALAZANS

“Temos na verdade a própria


militarização dos direitos humanos”

Raphael Calazans critica a


redução da maioridade penal
porque acredita que há uma
contradição por essência no
Estado uma vez que só garante
o acesso à alimentação, saúde
e educação ao jovem quando
este perde a sua liberdade

R
aphael Calazans é jovem, negro, morador de favela e universitário. Estuda Ser-
viço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas também é
agente educador do Degase há três anos. Aprendeu que a função do agente é
ser o principal ator da ressocialização de crianças e jovens em conflito com a lei que
cumprem medidas socioeducativas. Porém, na prática, convive e faz parte de um sis-
tema que viola os direitos humanos de adolescentes e servidores públicos, com baixa
qualidade de assistência aos direitos fundamentais.

CDDHC: Qual é a função do agente socioeducativo?


Calazans: Pelo que preconiza a lei, a gente é o trabalhador de ponta no processo em
que o Departamento é desafiado a fazer o trabalho de ressocializar. Cabe ao agente as
atividades como o transporte do adolescente, a escolta, o zelo pela integridade física e
pela alimentação. Ele é o profissional que está no contato direto, ligando o objeto fim
da instituição, que é o adolescente em conflito com a lei, e à função, do ponto de vista
do ideal, que preconiza o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Senasi).
Ele é um dos atores mais importante dentro do processo de ressocialização. Acontece
que o próprio atendimento atribuído a ele tem limitações. O Degase é bastante com-
plexo e essas limitações e contradições aparecem no dia a dia na relação do agente
com o adolescente, e vice-versa. O agente é um fator estratégico fundamental, pois é
ele quem carrega o piano, é o ator principal do sistema.

CDDHC: Os agentes socioeducativos têm um plano de cargos e salários? Em que


condições os direitos dos agentes são garantidos?
Calazans: A categoria tem se mobilizado mais recentemente. O plano de cargos e sa-
lários é uma bandeira histórica que estava congelada há muito tempo e agora voltou.
A ideia é ter um plano que, de quatro em quatro anos, o funcionário progrida fazendo
126 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

curso de capacitação. Porém, o que pesa no dia a dia e o que a categoria mais reivin-
dica são condições para sua existência, de trabalho adequado. Não adianta colocar
três agentes para disputar com 200 adolescentes. A categoria reivindica melhorias
salariais porque são legítimas e necessárias, os salários estão defasados. Mas são por
condições de trabalho que passam pela questão da preservação da vida do agente e
também dos adolescentes. Cada vez mais há servidores com afastamento na psiquia-
tria. Se há trabalhadores adoecidos, como eles vão ressocializar os jovens? Atualmen-
te, o Degase não serve sequer para as pessoas que trabalham nele.

CDDHC: A mediação entre o agente e os adolescentes passa por essa relação


tensa?
Calazans: A questão do ódio, de manter o controle e a ordem ali vai virando um cal-
deirão que ferve em algum momento. Imagine um moleque que a vida toda teve a sua
mediação com o mundo a partir da violência. Ele só passa a existir socialmente, ser
visibilizado, a partir do ato de violência. Quando o agente coloca isso como um desa-
fio para o Degase, que tem a missão de ressocializar, percebe que está à frente dessa
realidade para transformá-la. É preciso perceber que esse adolescente é um sujeito
de direitos, como ter acesso à escola, saúde, de ser gente, de ser humano. Quando há
essa consciência, isso cria um cenário desesperador de condição de vida para aquele
adolescente e para o agente. Mas a superlotação e as condições insalubres, aliadas
aos péssimos salários e condições de trabalho do agente, fazem com que tudo de er-
rado seja contínuo no Degase.

CDDHC: Há uma militarização do Degase com velhas práticas de violações?


Calazans: Bom, o diretor do Degase é um policial militar. Acho que isso é uma con-
tradição. Um órgão que está na educação ter como diretor geral um policial militar.
Da mesma forma que os muros são altos e tem viatura específica. A militarização per-
passa o Degase, porque está em tudo na vida, é a política segurança do Rio de Janeiro.
Uma cidade que tem um investimento pesado em segurança pública, como a compra
de equipamentos como o Caveirão, fortalece os aparelhos repressivos do Estado. A
cidade responde à questão social com mais polícia. As políticas públicas passa pelo
aval da Segurança e esse é o grande nó. Temos, na verdade, a própria militarização
dos direitos humanos.

CDDHC: Como os Direitos Humanos estão militarizados?


Calazans: Se observar, por exemplo, o direito de manifestação cultural, que é um
direito humano, está militarizado porque é a polícia quem decide se o seu evento
pode ou não acontecer dentro da favela. É preciso pedir permissão à polícia. No
Complexo do Alemão temos o Centro de Referência e Assistência Social (Cras) ao
lado de uma Unidade de Polícia Pacificadora. Há na prática uma tensão, o acesso
das pessoas a essa localidade é dificultado por causa da UPP naquele espaço. Ou
seja, o Degase está militarizado porque a política pública do Rio de Janeiro é milita-
rizada. Ao abrir o jornal e comparar o orçamento do Estado destinado à Segurança
Pública em relação às verbas destinadas para o setor da Saúde ou Educação, perce-
berá uma enorme diferença. A verba para segurança pública é bem maior. Está claro
qual é a política pública do Rio.
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 127

CDDHC: Como você vê a redução da maioridade penal?


Calazans: Se eu fosse pensar no meu umbigo, diria que seria ótimo, porque Degase
ficaria vazio, já que os jovens seriam mandados direto para o Sistema Prisional. Os
meninos estariam enquadrados na maioridade penal e eu trabalharia no plantão
com meia dúzia de adolescentes. Só que é mais complexa a questão do ato infracio-
nal. Os moleques que chegam ao Degase se cobram, se xingam e se matam porque
desde que nasceram viram isso dentro das casas deles e foram tratados assim. A
mãe com dependência química, o pai que não existe, a avó que era velha e diabética
é quem saía da cama para sustentar mais de sete bocas em casa. O moleque cai na
rua e é porrada. Ele aprende na porrada a roubar e matar, a se drogar, e a sociedade
responde tudo isso com o encarceramento. É necessário encarcerar o cara para dar
acesso aos direitos? É isso que o Estado faz, porque é isso que o Degase faz. Pega o
menino e coloca dentro de uma instituição fechada para que tenha acesso à saúde,
alimentação e educação. Uma enorme contradição. Ou seja: por que esse moleque
não está aqui fora tendo esse acesso, usando os direitos, as políticas públicas so-
ciais? Porque está tudo militarizado.

CDDHC: Quer dizer que há um ciclo de violações?


Calazans: A maioria das crianças e adolescentes atendidos pelo Degase e centros são
seres institucionalizados. Vão para o abrigo, depois para o Degase e depois para o
Seap, isso, se não morrer no meio do caminho. Essa é a trajetória de grande parte
deles. Então, o problema não está no acesso à política pública, mas em que tipo de
política pública se destina a essas pessoas. Não é um problema de assistência do Es-
tado, mas a qualidade desse serviço. É sintomático o Degase está superlotado com um
número de reincidência enorme de um público que está desde o início sendo assistido
pelo Estado. O garoto desde pequeno só vai comer direito no Degase, porque ele não
come na rua ou em casa. A vida dele é Degase e rua, rua e Degase, porque o limite da
assistência prestada pelo Estado é que ele conclua a sua jornada fúnebre de abrigo,
Degase e Seap, e se nesse meio do caminho ele não morrer, vai ser rechaçado social-
mente. O Estado cria seu monstro para ele próprio matar no fim.

No próximo item, a nossa conclusão versará sobre o processo histórico e social que
justifica a criação, no âmbito da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cida-
dania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, da “Subcomissão da Verdade nos
Tempos de Democracia Mães de Acari”.
6. Conclusão
Subcomissão da
Verdade dos Tempos
da Democracia:
Mães de Acari

E
m dezembro de 2014, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidada-
nia da Alerj foi procurada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça
e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos da Secreta-
ria de Direitos Humanos no intuito de iniciar um processo de construção de
uma nova etapa da Justiça de Transição no Brasil. A ideia é, para além das revelações
das atrocidades praticadas pelo Estado brasileiro no período da ditadura civil militar,
aprofundar os estudos sobre a violência de Estado no período pós Constituição de
1988. Busca-se revelar a permanência autoritária do Estado brasileiro relacionando-
-as com as graves violações de direitos humanos praticadas por agentes deste Estado.

De maneira geral, os desfechos das ditaduras militares na América Latina, em mea-


dos da década de 1980, têm em comum o fim do milagre econômico, o aumento das
desigualdades sociais, a desvalorização das moedas nacionais e a crise econômica
proveniente do crash do final da década de 1970. Tal conjuntura permitiu que, apesar
da grande e violenta repressão e do consequente esfacelamento das organizações de
esquerda, a população voltasse às ruas exigindo o retorno dos direitos políticos e a
garantia dos direitos sociais.

Apesar disso, em regra, o continente latino-americano foi marcado por uma transição
conduzida pelos próprios militares, que impuseram leis de autoanistia como condi-
ção sine qua non para o restabelecimento do Estado Democrático.

Esse panorama sofre uma reviravolta a partir da ratificação do Pacto de São José da
Costa Rica – Convenção Americana de Direitos Humanos, nos anos de 1980, com o
consequente reconhecimento da competência da Corte Interamericana de Direitos
Humanos e do tratamento do crime de tortura como de lesa-humanidade, portanto
imprescritível e inafiançável.

É de suma importância destacar as condenações sofridas pelos Estados latino-ame-


ricanos em razão da omissão em apurar, processar e punir os crimes cometidos nos
períodos ditatoriais em processos julgados pela Corte Interamericana de Direitos Hu-
manos, forçando a adequação do direito nacional à Convenção. Desta forma, a ten-
dência observada no continente foi de instauração de uma Justiça de Transição tar-
dia, proporcionando um reencontro com o passado, garantindo os direitos à verdade,
à memória, reescrevendo a recente história latino-americana e fortalecendo o Estado
Democrático de Direito.
130 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

Flávia Piovesan (2010, p. 104) constata que a experiência de transição brasileira


é um processo aberto e incompleto. Até 2010 apenas o direito à reparação foi con-
templado, nos termos da Lei 9140/95, que estabelece o pagamento de indenização
aos familiares dos desaparecidos no regime militar. Ainda há diversos arquivos
mantidos em sigilo e as instituições não foram reestruturadas forma a adequá-las
à ordem democrática.

Para a Piovesan, o direito à verdade assegura o direito à construção da identidade,


da história e da memória coletiva, traduzindo o anseio civilizatório do conhecimen-
to dos graves fatos históricos atentatórios aos direitos humanos. O resgate histórico
teria como propósito assegurar o direito à memória das vítimas e confiar às gerações
futuras a responsabilidade de prevenir a repetição das práticas negadoras de direitos.
É dever do Estado assegurar o direito à verdade em prol do direito da vítima e de seus
familiares – garantindo o direito ao luto – e em prol do direito da sociedade à constru-
ção da memória e identidade coletivas.

É importante ressaltar a atualidade da discussão acerca da garantia do direito à me-


mória, não podendo ser compreendida como uma luta do passado, pelo passado, mas
como uma demanda atual sobre fatos que ocorreram no passado, estendendo seus
efeitos até o presente e, quiçá, ao futuro. Compreender que espécie de violações foi
praticada pelo Estado no passado subsidia o questionamento acerca da atual política
de Segurança Pública, que continua matando, torturando e forjando flagrantes e re-
sistências às prisões.

A garantia do direito à memória e à verdade caracteriza-se, portanto, como uma ten-


tativa de conclusão do processo de redemocratização do Brasil, respondendo aos
questionamentos concernentes à restituição da verdade jurídica e solucionando as
circunstâncias das mortes e dos desaparecimentos frutos do período ditatorial.

Diante deste contexto, o que hoje se coloca como grande questão a ser respondida pe-
los movimentos sociais que discutem a violência de estado contemporânea é: passa-
dos quase 27 anos da conclusão dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte,
e reconhecendo que este processo foi conduzido pelas elites política e econômica que
deram sustentação ao regime ditatorial, como podemos nos contentar apenas com a
revelação das violações de direitos humanos anteriores à Constituição de 1988 se a
tortura, execuções, desaparecimentos forçados e criminalização da luta social ainda
encontram-se presentes e não são devidamente esclarecidos na atualidade brasileira?

Para melhor compreendermos a questão acima, podemos citar, a título de exemplo, o


relatório final da Comissão Nacional da Verdade que recomendou ao Estado brasileiro
a desmilitarização das instituições policiais. Segundo a CNV, a existência de polícias
militarizadas contribui para propagação de violências no presente, perpetuando prá-
ticas autoritárias de agentes estatais.

Estudos recentes sobre o período da ditadura militar revelaram inúmeras caracterís-


ticas do funcionamento do Estado naquele momento que, em muito, se assemelham
a esta estrutura policial criticada pelos movimentos sociais. Tais semelhanças tor-
RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015 | 131

naram-se mais evidentes com a repercussão dos trabalhos das diversas comissões
da verdade (nacional, estaduais, entre outras) que se criaram nos últimos anos em
todo o Brasil.

Neste sentido, reconhecida a herança autoritária presente no modelo de Segurança


Pública praticado no período democrático, faz-se necessária a reforma de todo este
modelo, a começar pela estrutura militarizada, sem deixarmos que esta bandeira tor-
ne superficial a compreensão das consequências que este modelo hoje apresenta.

Em outras palavras: é visível que o Brasil, no que tange à justiça de transição, conse-
guiu avançar sensivelmente nos eixos reparação, memória e verdade, mas é evidente
que deixamos a desejar no que diz respeito à justiça e reformas institucionais. E é
neste último eixo que pretendemos nos aprofundar ao longo dos próximos três anos.

O discurso oficial de término da ditadura e redemocratização integral do Estado bra-


sileiro ao longo da década de 80, culminando na promulgação da Constituição em
1988, mascara o legado autoritário que nos acompanha. Poucas foram as medidas
posteriores à Constituição Federal de 1988 que enfrentaram tal legado. Faltou com-
preender que uma sociedade democrática não se faz apenas com eleições periódicas,
mas também com participação direta e controle social das instituições de segurança.

Uma breve e superficial comparação entre os dados da segurança pública no pós


1988 com os do período ditatorial revela uma semelhança assustadora nas práti-
cas de tortura, extermínio e desaparecimento sistemático de corpos. Michel Misse1
apontou que, de 2001 a 2011, a polícia do Rio de Janeiro matou mais de 10 mil pes-
soas, número superior a qualquer outra instituição policial no mundo e maior que
aqueles observados sob a égide do regime militar. Batemos recordes também no
quesito desaparecimentos: segundo o Instituto de Segurança Pública, o Rio registra
cerca de 6 mil desaparecimentos por ano. Sem contar a tortura, praticada diutur-
namente pela polícia ou agentes dos sistemas prisional ou socioeducativo, ou as
chamadas milícias, que em muito se assemelham com os grupos de extermínio que
atuavam já nos anos 80, revelando-se uma expressão moderna de outro processo
que tem início ainda nos anos de chumbo.

Desta forma, a sistematicidade da violência de Estado contra, principalmente, a po-


pulação pobre e negra evidencia que, passados quase 27 anos da redemocratização do
Estado brasileiro, o legado da ditadura permanece nas estruturas policiais e militares,
e nas políticas criminais. Está claro que, para determinados segmentos sociais, o es-
tado de exceção nunca deixou de existir, permitindo que se afirme haver em curso
processos muito bem estruturados de repressão e criminalização da pobreza em pleno
regime democrático. 

Em razão do decurso de tempo desde o término da ditadura militar e as inúmeras


violações de direitos humanos praticadas por agentes do Estado desde então e que 1. “Desaparecidos da
Democracia”. Disponível em
não foram esclarecidas, acreditamos que o eixo reformas institucionais da justiça de
<http://of.org.br/noticias-
transição só poderá ser de fato atendido caso haja um esforço do Estado em apurar e analises/10-mil-mortes-em-10-
responsabilizar aqueles que perpetuaram as práticas autoritárias. Uma vez que se es- anos/>
132 | RELATÓRIO DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ | 2015

tabeleça os vínculos entre o atual modelo de segurança pública militarizada e aquele


dos anos de chumbo, se poderá promover transformações efetivas nas políticas crimi-
nais levadas a cabo pelo Estado brasileiro.

Neste sentido, em agosto de 2015, criou-se, no âmbito da Comissão de Defesa dos


Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, a Subcomissão da Verdade dos Tempos da
Democracia Mães de Acari, em homenagem àquelas mulheres que transformaram o
luto da perda e do desaparecimento de seus filhos em uma luta de vida. As Mães de
Acari se tornaram exemplo para que vários familiares de vítimas do Estado brasileiro
da década de 1990 em diante se organizassem e rompessem o silêncio quanto às gra-
ves violações de direitos humanos. Violações estas que continuam a ser praticadas
pelas agências estatais, especialmente nas favelas, contra a população negra e pobre.

O trabalho a ser desenvolvido pela Subcomissão da Verdade dos Tempos da Democra-


cia Mães de Acari buscará revelar como esta estrutura estatal contribui para a perpetu-
ação das violações de direitos humanos. Busca-se, a partir destas conclusões, elabo-
rar recomendações que efetivem as necessárias reformas institucionais que permitam
enfrentar, efetivamente, os crimes de Estado praticados na contemporaneidade.