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S u m ár io

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e slides deste volume.

13 Realismo .................................................... 4
Contexto histórico do Realismo ...................................................................... 7
Realismo na Europa ........................................................................................ 8
Realismo em Portugal .................................................................................... 11
Manifestações do Realismo em Portugal ........................................................ 12
Realismo no Brasil .......................................................................................... 16
Prosa realista brasileira................................................................................... 17
A prosa machadiana ....................................................................................... 19

14 Naturalismo .............................................. 31
Contexto histórico do Naturalismo na Europa ................................................. 35
Literatura realista X literatura naturalista ....................................................... 36
Naturalismo no Brasil ..................................................................................... 38
Prosa naturalista brasileira ............................................................................. 39
Influências do Naturalismo na contemporaneidade ....................................... 41
13
Realismo

MENZEL, Adolph. Moinho de rolamento de ferro. 1875. 1 óleo sobre tela, color., 158 cm × 254 cm. Alte Nationalgalerie, Berlim.

Ponto de partida 1

1. A cena representa o mundo do trabalho, uma das temáticas frequentes da estética realista. Como os corpos dos
trabalhadores estão retratados?
2. Outro aspecto que se pode notar nessa imagem é a ausência de detalhes do rosto das pessoas. Elabore uma
hipótese que justifique essa escolha por parte do artista que produziu a obra.
3. Como você descreveria o espaço da fábrica em que se encontram os trabalhadores? Ele lembra as representa-
ções da natureza segundo a estética clássica? Justifique sua resposta.

4
Objetivos da unidade:
ƒ compreender os fatores que influenciaram o surgimento da estética realista;
ƒ conhecer os aspectos centrais que determinaramnaram o Realismo europeu, mais especificamente o
Realismo português;
ƒ identificar as principais características do Realismo no Brasil;
ƒ conhecer a obra literária de Machado de Assis.

Lendo a literatura
2 Orientações.

Leia um trecho do romance Madame Bovary. Publicado em 1857, ele narra a história de uma jovem chamada Ema.
Criada no campo, ela deseja viver uma vida burguesa, semelhante àquela dos livros que lia. Casa-se com um médico,
Carlos, que não tinha grandes ambições na vida. Frustrada com a vida entediante que leva, Ema começa a ter relaciona-
mentos extraconjugais como uma válvula de escape. No trecho, o narrador explora os sentimentos de rejeição nutridos
por Ema em relação a seu marido em contraposição aos afetos sentidos por Rodolfo, seu amante.

[...]
Essa ternura, na verdade, aumentava dia a dia, com a repulsa pelo marido, e, quanto mais ela se dedicava a
um, tanto mais detestava o outro. Carlos jamais lhe percebera tão desagradável, os dedos tão rudes, o espírito
tão lerdo, as maneiras tão vulgares, como depois de seus encontros com Rodolfo, depois que haviam estado
juntos. Então, mesmo fazendo-se de esposa virtuosa, inflamava-lhe à lembrança daquela cabeça cujos cabelos
se anelavam na fronte crestada, daquele busto ao mesmo tempo robusto e elegante, daquele homem, afinal,
que possuía tanta experiência na razão, tanto arrebatamento no desejo! Era para ele que limava as unhas com
um cuidado de cinzelador, e por quem nunca achava estar com suficiente creme na pele, nem bastante per-
fume nos lenços. Carregava-se de pulseiras, de anéis, de colares.
[...]
Em coconsequência de suas relações amorosas, a Sra. Bovary
mudou de conduta. Seu olhar se fez mais ousado, mais livre
as pala
palavras. Foi inconveniente ao ponto de passear, com
R
Ro dol cigarro na boca, “como a afrontar o mundo”. Afinal,
Rodolfo,
o qu
os que ainda duvidavam deixaram de fazê-lo, quando a
vviram
ira descer, um dia, da Andorinha, o busto apertado
nu
n
num
u colete, como um homem.
E a mãe de Carlos, que viera refugiar-se na casa do
filho, após uma cena terrível com o marido, não fi-
cou menos escandalizada. Muitas outras coisas lhe
desagradaram: em primeiro lugar, Carlos não tinha
ouvido seus conselhos sobre a proibição dos roman-
ces; depois eram os “costumes da casa” que desa-
DKO Estúdio. 2015. Digital.

gradavam. Ousou fazer observações e zangaram-se,


principalmente uma vez, a propósito de Felicidade.

anelavam: tinham formato de anel.


crestada: queimada.
cinzelador: aquele que utiliza um cinzel; escultor.

5
A velha senhora, atravessando o corredor, na véspera à noite, surpreendera a criada na companhia de um
homem de gravata parda, de uns quarenta anos, mais ou menos, que fugira depressa da cozinha, ao ruído de
seus passos. Ema achou graça naquilo, mas a boa mulher se agastou e disse que deviam fiscalizar os criados,
a menos que se quisesse rir dos bons costumes.
— De que mundo é a senhora? — redarguiu a moça, com um olhar de tal forma impertinente, que a outra
lhe perguntou se não estava defendendo a própria causa.
Ema levantou-se de um salto:
— Saia! — bradou.
— Ema! Mamãe! — gritou Carlos, tentando apaziguá-las.
Mas as duas se foram, no calor da exasperação.
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. São Paulo: Abril Cultural, 1971. p. 143, 146-147.

Daniel Kl l.
ein.
ita
2015. Dig
Gustave Flaubert nasceu em Rouen, na França, em 1821. A maneira com que
desenvolveu os elementos psicológicos de seus personagens provocou uma
mudança importante no modo como os romances passaram a ser escritos. Morreu
em 1880, em Croisset, na região da Normandia.

1. Identifique no texto elementos que revelem a insatisfa- 3. Leia as alternativas e selecione as que lhe parecerem
ção da protagonista com seu casamento. corretas em se tratando do uso da linguagem no roman-
A postura de Ema em relação a seu marido pode ser considerada ce. Justifique sua escolha.
a) Detalhista, pois procura descrever os traços es-
uma indicação de sua insatisfação com o casamento:
pecíficos de cada personagem, a fim de construir
“Carlos jamais lhe percebera tão desagradável, os dedos tão para o leitor uma imagem dos tipos sociais que
existiam na França em meados do século XIX.
rudes, o espírito tão lerdo, as maneiras tão vulgares”.
b) Superficial, pois tenta rapidamente fornecer as
informações que julga prioritárias sobre cada
2. Ao comparar os modos de Carlos e Rodolfo, revelam- personagem para que o leitor possa tirar suas
-se ao leitor dois personagens-tipo, representando, próprias conclusões sobre seus comportamentos.
cada um deles, uma diferente origem econômica e so- c) Objetiva, pois tenta descrever cada personagem de
cial. Quais são esses tipos? modo que não deixe dúvidas para o leitor sobre as
A comparação entre Carlos e Rodolfo revela dois personagens- características de cada um.
Pessoal. Pode-se dizer que o trecho lido apresenta uma
-tipo: o primeiro, rude e sem modos; o outro, sofisticado.

Do ponto de vista social, pode-se inferir que cada um deles mistura dessas três formas de compor a linguagem literária.

representa um estereótipo que podia ser visto nas cidades: o O importante nesta atividade é a justificativa que os alunos

rude, de origem pobre, e o rico, de origem aristocrata. darão a respeito do modo como interpretaram o uso da

linguagem, preferencialmente destacando e mencionando

trechos presentes no fragmento.

agastou: irritou.
exasperação: acirramento; desentendimento.

6 Volume 7
4. Diz o narrador: “Em consequência de suas relações 6. Para você, a personagem Ema conserva características
amorosas, a Sra. Bovary mudou de conduta”. O nar- de uma heroína romântica? Justifique sua resposta.
rador não revela diretamente ao leitor como Ema era
Pessoal. É possível que os alunos defendam a ideia de Ema ser
antes de conhecer Rodolfo. Entretanto, pode-se inferir
o comportamento da personagem. Indique duas possí- uma personagem ainda impregnada de elementos românticos,
veis características da conduta de Ema antes de envol-
ver-se com Rodolfo e as justifique. considerando, por exemplo, a forma liberal como lida com os

Pelo que se pode depreender do texto, Ema era, antes de seu criados ou como se veste. Nesse caso, vale a pena chamar a

contato com Rodolfo, mais tímida, mais reservada em suas atenção para o fato de a traição de Ema ser algo moralmente
atitudes e menos “ousada” em enfrentar o mundo, ou seja, mais
repreensível segundo os padrões da época em que o romance
recatada em seus gestos, a fim de chamar menos a atenção
foi publicado. Isso faz com que a personagem não seja uma
para si.
mulher idealizada, como eram, em geral, as personagens
5. Como se pode interpretar o conflito entre Ema e sua
femininas no Romantismo.
sogra?
A diferença de comportamento entre Ema e a mãe de Carlos

simboliza um choque entre gerações e suas diferentes visões

de mundo.

Acontecia
Contexto histórico do Realismo
Se, na primeira metade do século XIX, o Romantismo dominou a cena artística em boa parte do mundo
ocidental, a partir da segunda parte desse mesmo século a estética romântica começou a mostrar sinais de
esgotamento. A visão de mundo romântica vinculava-se à afirmação do modo de vida burguês, mas sempre
em uma perspectiva dupla: de um lado, uma crítica ferrenha às ambições burguesas de tomada de poder e da
afirmação de valores mercantis como absolutos e, de outro, as aspirações pelo ideal de liberdade e igualdade.
Com o tempo, porém, um discurso racionalista começa a se firmar, influenciando a produção literária, artística,
científica, filosófica e outras.
Os desdobramentos da Revolução Industrial, como a urbanização crescente mas desordenada das cidades e os
avanços técnico-científicos, demandavam um novo olhar para a realidade. Os leitores, que até então consumiam
a literatura romântica ofertada pelos folhetins, passaram a se mostrar mais exigentes no que dizia respeito a com-
preender as transformações que ocorriam.
O deslocamento de uma grande massa de trabalhadores do campo para as cidades, em busca de empregos
nas indústrias que surgiam, alterava o cenário urbano ao criar aglomerados de casas em espaços anteriormente
desabitados. Além disso, as fábricas ofereciam péssimas condições aos trabalhadores, que cumpriam jornadas
de trabalho de muitas horas e recebiam salários baixíssimos. As contradições do capitalismo se impunham dia-
riamente: em um mundo em que o desenvolvimento era acelerado, a pobreza se multiplicava entre a maioria da
população.

Literatura 7
A necessidade de entender as transformações pelas quais o mundo passava na época impulsionou uma forte
onda cientificista, que determinou o surgimento de novas formas do pensar. As ciências naturais, incluindo-se aí a
Medicina, apropriaram-se de discursos que tentavam desvendar os mecanismos mais profundos da realidade material.
Algumas correntes da Filosofia passam a defender a ideia de que tudo que existe no Universo está submetido a leis
imutáveis e necessárias. Surge a Sociologia como um campo do conhecimento voltado para o entendimento das
dinâmicas e estratégias de convívio entre os homens.
Três grandes correntes de pensamento surgiram nesse momento como principais maneiras de interpretar o
homem e a realidade que o cerca:
3 Sugestão de pesquisa.

Positivismo – criado pelo filósofo e pai da Sociologia Auguste Comte, defendia que o único saber realmente válido é o cien-
tífico e que tanto o homem quanto a realidade somente podem ser explicados pelo conhecimento das Leis Naturais. Esse
conhecimento seguia um caminho metodológico formado por três etapas: observação, experiência e comparação.

Darwinismo ou Evolucionismo – teve como figura proeminente o cientista Charles Darwin e baseava-se em conceitos
como o de seleção natural e adaptabilidade do indivíduo/espécie ao meio (somente os mais aptos sobrevivem na disputa
entre os seres pela sobrevivência).

Determinismo – desenvolvido pelo intelectual francês Hippolyte Taine, partia da premissa de que o comportamento humano
é determinado por três fatores: meio social, raça e momento histórico.

Olhar literário
Realismo na Europa
O Realismo teve sua origem na Europa, em meados do século XIX. Estudio-
sos apontam como marco dessa estética a publicação do romance Madame Por causa da publicação do romance
Bovary, em 1857, de autoria do francês Gustave Flaubert. Madame Bovary, Gustave Flaubert foi
Realismo foi o termo adotado por artistas, escritores e intelectuais para perseguido pela justiça. Logo que sur-
se referir a uma tendência que começou a surgir na literatura e nas artes giu, essa obra causou enorme interesse
no público leitor. As autoridades, porém,
no período final do Romantismo. Entre as décadas de 1850 e 1860, surgiu
acusavam o romance de ser um atenta-
a preocupação em utilizar a arte e a literatura como meios para denunciar
do à moralidade e à religião. Flaubert foi
os problemas sociais, diferentemente das preocupações com uma literatura e
então indiciado, juntamente com Laurent
arte nacionalistas do início do Romantismo e contrariamente ao pessimismo Pichat, diretor da revista Revue de Paris,
e ao egocentrismo que marcaram algumas obras do ultrarromantismo. O in- em que o texto foi publicado pela pri-
teresse pela vida real, representando personagens menos idealizados e mais meira vez, na forma de episódios. Esse
próximos do modo de ser de pessoas que viviam dilemas sociais, constituiu-se escândalo provocou o interesse de mais e
progressivamente como uma das tarefas do exercício literário. mais leitores, motivando uma vendagem
Ao contrário do artista romântico, preocupado em expressar seu indivi- enorme.
dualismo emocional, alguns escritores produzem narrativas em que a vida
moderna das cidades se torna um dos eixos principais. Nas obras realistas,
o autor não busca uma realidade sublime em que a força do amor e da pai-
xão se transforma na condição de ultrapassar as dificuldades impostas pela

8 Volume 7
realidade; ele busca descrever uma realidade, mesmo que ela seja brutal. Segundo a estética realista, fatos comuns e
ordinários, acontecimentos vulgares, vida cotidiana vivida pelas pessoas simples são temas que devem ser registrados
pela literatura e pelas artes.
Dessa forma, a finalidade da arte no Realismo não é, necessariamente, a representação da beleza no sentido clás-
sico. A arte realista deixa de lado o historicismo da primeira geração romântica, na medida em que se volta para a ob-
servação do tempo presente, desafiando as normas estabelecidas pela tradição artística. A obra de arte realista busca
uma representação objetiva da realidade, não se poupando de descrever os aspectos mais duros do comportamento
humano. Seus temas incluem assuntos considerados vulgares ou mesmo tabus no período: adultério, exploração do
homem pelo homem, instituições ligadas à Igreja, modo de vida burguês.
A representação da realidade social e de suas mazelas passa a ser o foco da prosa (romances e contos), que domi-
na a produção literária no Realismo. Nas artes plásticas, a caricatura assume um lugar de destaque, tornando-se uma
espécie de registro dessa época. Veiculada por meio dos jornais, que vinham se popularizando desde o Romantismo,
a caricatura expressa não somente as cenas da vida comum típicas da sociedade urbana, com seus tipos sociais diver-
sificados, mas também assume um papel político ao sintetizar os acontecimentos relacionados às disputas de poder.
A obra do pintor Honoré Daumier exemplifica o Realismo nas artes plásticas. 4 Orientações para a leitura da obra de Daumier.
©Metropolitan Museum of Art, New York/Fotógrafo desconhecido

DAUMIER, Honoré. O vagão da terceira classe. 1862. 1 óleo sobre tela, color., 67 cm × 93 cm. Museu
Metropolitano de Arte de Nova Iorque.

É de Daumier a frase “um artista deve fazer parte do seu próprio tempo”. Para ele, a arte deve evidenciar um aspecto
político e social. Em sua tela O vagão da terceira classe, o pintor elege como objeto de sua crítica à sociedade a vida
difícil de parte da população que era considerada inferior às demais. Diferentemente de outros artistas plásticos, que
procuram, nos detalhes e acabamentos, deixar a representação de pessoas e objetos semelhante a uma visão perfei-
tamente acabada, Daumier somente esboça as figuras humanas, a ponto de retirar-lhes a própria identidade. Cada
pessoa representada nessa pintura não passa de mais uma na enorme massa de trabalhadores que circula pela cidade.
O vagão parece repleto, como se as pessoas ao fundo, apertadas umas contra as outras, estivessem em busca de uma
posição confortável para realizar sua viagem. Em contraposição ao estilo presente nas pinturas do período romântico,
não se distingue, ao fundo, senão uma massa humana, com rosto sem expressão.
Sugestão de atividades: questões de 1 a 3 da seção Hora de estudo.

Literatura 9
Atividades
5 Sugestão de ampliação da atividade 5.

1. Observe esta pintura realista. 2. O cientificismo manifestou-se em uma série de ideias


que se desenvolveram em várias frentes do saber no
século XIX. Entre elas, destacam-se:
I. O evolucionismo de Charles Darwin.
II. O positivismo de Auguste Comte.
III. O heliocentrismo de Copérnico.
IV. O idealismo de Platão.
Estão corretas as afirmações
( X ) I e II. ( ) I e IV.
COURBET, Gustave. Os cortadores de pedra. 1849. 1 óleo sobre
tela, color., 165 cm × 257 cm. Galerie Neue Meister, Dresden. ( ) IV e III. ( ) Todas.
Indique a afirmação que não corresponde a caracterís- ( ) III e II.
ticas do Realismo. Em seguida, justifique sua escolha. 3. Indique, do ponto de vista do estilo, uma diferença en-
( ) Nessa pintura, é possível observar a preocupação tre a arte realista e a romântica.
em descrever uma ação humana voltada para o Pessoal. Sugestão: a objetividade realista X a subjetividade
mundo do trabalho. Essa escolha temática diferen-
cia essa obra daquelas elaboradas pelos pintores romântica.
românticos, mais voltados para a pintura histórica
ou para a representação de cenas exóticas.
( ) Um dos fatores que chama a atenção nessa pin- 4. Em que aspectos se pode considerar o Realismo como
tura é a não representação do rosto das figuras uma crítica à concepção romântica da realidade?
humanas que se encontram executando a árdua O Realismo, diferentemente do Romantismo que o precedeu,
tarefa de quebrar pedras. A ausência do rosto in-
dica o caráter social da pintura realista, que não não apresentava a realidade com base em uma visão idealizada.
se fixa na representação de uma figura específica,
O projeto estético realista se baseava na proposta de “ver a vida
mas, sim, na categoria geral dos trabalhadores
que são explorados pelo sistema burguês. como ela é”, sem minimizar seus problemas.
( X ) A imagem do homem trabalhando representa,
como uma de suas interpretações possíveis, a for- 5. “Considerada, em primeiro lugar, em sua
ça de transformação da natureza pela ação huma- acepção mais antiga e mais comum, a palavra
na. Esse tema recorrente, que atravessa a cultura positivo designa o real em oposição ao quimé-
ocidental desde a mitologia clássica, é resgatado rico [...]”.
pelo Realismo como um aspecto positivo da rela- COMTE, Auguste. Discurso preliminar sobre o espírito positivo.
ção entre o homem e a realidade a seu redor. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/
texto/cv000028.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2015.
A estética realista não se vale de elementos originários da
Nessa frase, Auguste Comte opõe a ideia de positivo a
cultura clássica. quimérico (ideal). Do ponto de vista estético, o quimé-
rico pode ser associado
X a) ao Romantismo. d) ao Barroco.
b) ao determinismo. e) ao Realismo.
c) à Arte Clássica.

10 Volume 7
Olhar literário
Realismo em Portugal
O surgimento do Realismo em Portugal pode ser associado a diversos fatores: há muito tempo, a nação portuguesa
deixara de ser um dos centros da expansão mundial, envolvida com os fluxos marítimos que determinaram a coloniza-
ção europeia da América, bem como a expansão comercial rumo ao Oriente. A sociedade portuguesa vivia um período
de grande estagnação: se comparada a outros países europeus, em que a dinâmica do capitalismo impulsionava gran-
des transformações econômicas e sociais, a sociedade lusitana mantinha-se vinculada a estruturas antigas, com um
estado fortemente ligado à Igreja, com poucas indústrias e com uma produção agrícola atrelada a formas de produção
superadas. A população, composta de mais ou menos 80% de analfabetos, encontrava-se distante das formas culturais
e artísticas que circulavam pelo continente e, consequentemente, os avanços das ciências e das tecnologias pouco
eram compartilhados entre os portugueses.
Nesse contexto, a estética realista desempenhou um papel de crítica profunda aos acontecimentos ocorridos na
sociedade portuguesa. Um grupo de jovens intelectuais, conhecidos como a Geração de 70, passou a defender a tran-
sição da estética literária romântica para uma expressão focada na denúncia dos males da sociedade, sociedade esta
que consideravam retrógrada, não apenas pela forte presença da estética romântica (que ainda idealizava as origens
medievais do povo português e seu projeto de uma grande nação), mas também no intuito de entrar em sintonia com
os centros mais avançados da Europa.
No ano de 1865, um acontecimento foi decisivo para que se delineasse um limite entre um conjunto de escritores
apegados aos modos de escrita próprios do Romantismo e um grupo de jovens que buscava novas formas de expres-
são artística: a Questão Coimbrã, episódio em que uma polêmica literária dividiu opiniões. O poeta Antonio Feliciano
Castilho, grande defensor da estética romântica, havia sido convidado para escrever o posfácio da obra Poema da moci-
dade, produzida por um dos jovens escritores portugueses daquele momento, Pinheiro Chagas. Castilho, aproveitando
a ocasião, critica frontalmente os jovens escritores de Coimbra, afirmando estarem se afastando da verdadeira poesia
e de terem mau gosto e falta de bom senso em sua produção literária.
A reação a esse ataque foi imediata. Antero de Quental, um dos novos escritores, publicou um texto no qual cha-
mava Castilho de ultrapassado e criticava os escritores românticos, considerando-os alienados em relação às transfor-
mações que ocorriam no mundo. Afirmou que os jovens escritores defendiam uma arte vinculada à realidade, uma arte
combativa, voltada para a representação dos dilemas ideológicos que caracterizavam as questões sociais.

©2011 Biblioteca Nacional de Portugal/Fotógrafo desconhecido


Alguns dos mais importantes
escritores portugueses pertenceram
a essa geração: além de Antero de
Quental, Teófilo Braga, Oliveira Mar-
tins e Guerra Junqueiro estiveram
entre eles. Contudo, foi o escritor
e diplomata Eça de Queirós quem
mais se destacou pela qualidade e
importância social de sua obra.

Na fotografia, da esquerda para a direita, estão: Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de
Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro

Literatura 11
Manifestações do Realismo em Portugal
A crítica literária e a produção jornalística tiveram grande importância no movimento realista português, mas é nos
textos literários, em verso e em prosa, que se podem observar melhor tanto a distância dessa estética em relação ao
Romantismo quanto os problemas sociais contra os quais os escritores realistas lutaram.
Em linhas gerais, entre as principais características do Realismo português se destacam o permanente foco nas
questões sociais e a tentativa de representar a realidade “como ela é”, evitando distorções e distanciando-se das idea-
lizações e das observações subjetivas típicas do Romantismo. Por essa razão, a literatura realista ocupava-se da descri-
ção de pessoas comuns, envolvidas em problemas e limitadas em suas atitudes, diferentemente dos grandes heróis
românticos; a vida cotidiana, simples, mas carregada de falsos valores, passa a ser o alvo dos escritores que criticavam
a moral que fazia com que as pessoas se sentissem oprimidas e preocupadas com a forma como seriam vistas pelo
restante da sociedade.
A poesia realista apresentava temática variada, abrangen-
do: uma poesia do cotidiano, que tem como objeto a obser- Várias obras de Eça de Queirós foram transpostas para ou-
vação da realidade das várias camadas sociais; uma poesia tros meios de expressão, como cinema, televisão (em mi-
política, engajada, socialmente crítica e até certo ponto revo- nisséries) e HQs, fato que mostra a atualidade das questões
lucionária; e uma poesia metafísica, que exprime questiona- human as e sociais presentes na literatura desse autor.
mentos relacionados a Deus, à vida e à morte.

Entertainment
A prosa realista também tem uma diversidade temática
bastante perceptível. Seu ponto alto, porém, são os escritos

ta, Total
que se voltavam contra os valores da burguesia, a falsa mora-
©Globo Filmes, Lereby Produções, Miravis
lidade do clero, os costumes das classes sociais menos favo-
recidas e a moralidade decadente da sociedade portuguesa.
Um dos escritores de destaque na literatura portuguesa
desse período é Eça de Queirós.
Sugestão de atividades: questões de 4 a 11 da
seção Hora de estudo.

Atividades

1. Leia um trecho do romance O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós. Essa narrativa, publicada em 1875, conta
a história de Amaro, um jovem padre designado para exercer seu ofício em Leiria. Logo que chega a seu lugar de
destino, Amaro se hospeda na casa da beata S. Joaneira, que tem uma bela filha de nome Amélia. Encantado com a
moça, Amaro inicia um cuidadoso processo de sedução. O padre se apaixona perdidamente pela jovem, que se deixa
envolver. Amaro, porém, não quer abandonar sua condição de líder espiritual daquela comunidade. Amélia passa
então a ser manipulada por Amaro, até o momento que engravida.

CAPÍTULO XIX
— O senhor cônego? Quero-lhe falar. Depressa!
A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escritório, e correu a cima contar a D. Josefa que o senhor
pároco viera procurar o senhor cônego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha sucedido alguma
desgraça!

cônego: padre. pároco: padre responsável por administrar uma paróquia.

12 Volume 7
Amaro abrira abruptamente a porta do escritório, fechou-a de re-
pelão, e sem mesmo dar os bons-dias ao colega, exclamou:
— A rapariga está grávida!
O cônego, que estava escrevendo, caiu como uma massa ful-
minada para as costas da cadeira:
— Que me diz você?
— Grávida!
E no silêncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos
do pároco da janela para a estante.
— Está você certo disso? perguntou enfim o cônego com pavor.
— Certíssimo! A mulher já há dias andava desconfiada. Já não
igit
al.
5. D

fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se


1
20
io.

stúd enganam. Há todas as provas... Que hei-de eu fazer, padre-mestre?


OE
DK
— Olha que espiga! ponderou o cônego atordoado.
— Imagine você o escândalo! A mãe, a vizinhança... E se suspeitam de mim?...
Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!
O cônego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço caído como uma tromba. Representavam-se-lhe
já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joaneira eternamente em lágrimas, toda a sua tranquilidade extinta
para sempre...
— Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa você? Veja se tem alguma ideia... Eu
não sei, eu estou idiota, estou de todo!
— Aí estão as consequências, meu caro colega.
— Vá para o inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está feita!
— Mas então que quer você? disse o cônego. Não quer decerto que se dê uma droga à rapariga, que a
arrase...
Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela ideia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava
divagando...
— Mas então que quer você? repetia o cônego num tom cavo, arrancando as palavras ao abismo do tórax.
— Que quero! Quero que não haja escândalo! Que hei-de eu querer?
— De quantos meses está ela?
— De quantos meses? Está de agora, está dum mês...
— Então é casá-la! exclamou o cônego com explosão. Então é casá-la com o escrevente!
O padre Amaro deu um pulo:
— Com os diabos, tem você razão! É de mestre!
O cônego afirmou gravemente com a cabeça que era “de mestre”.
— Casá-la já! Enquanto é tempo! Pater est quem nuptiae demonstrant... Quem é marido é que é pai.

QUEIRÓS, Eça de. O crime do padre Amaro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/


texto/ph000226.pdf>. Acesso em: 11 maio 2015.
igital.

Eça de Queirós nasceu em Póvoa de Varzim, Portugal, em 1845. Foi advogado, jorna-
2015. D

lista, funcionário público e cônsul. Considerado um dos mais importantes escritores


Klein.

da literatura portuguesa, esteve diretamente envolvido no movimento de renovação


Daniel

literária na passagem do Romantismo para o Realismo. Produziu romances e contos,


além de vasta correspondência e escrita jornalística. Morreu em 1900.

repelão: modo rápido. cachaço: pescoço. abismo do tórax: peito.


olha que espiga!: veja que problema! cavo: vazio.

Literatura 13
a) A notícia de que Amélia estava grávida provocou que c) é somente um exemplo da incapacidade que algu-
reação em Amaro? mas pessoas têm de se encaixar nos princípios mo-
Amaro sente-se acuado, com medo de que a história venha
rais da religião.
X d) é resultante de atitudes distorcidas de um jovem
à tona e ele seja responsabilizado, além do escândalo que
que, na visão do autor, representa a decadência dos
isso provocaria. valores morais da sociedade portuguesa.
e) trata-se de uma atitude perfeitamente possível, se
b) Aponte a hipótese interpretativa incorreta referente
observados os valores sociais que caracterizam a
ao trecho do romance que você acabou de ler. A se-
sociedade portuguesa do século XIX.
guir, justifique sua escolha.
3. Leia o poema de autoria do escritor português Cesário
( ) Amaro imagina que a gravidez de Amélia, por
Verde.
ele indesejada, poderia envolvê-lo em um es-
cândalo. Nós
( X ) A atitude do velho cônego Dias demonstra o
[...]
grande desgosto que sentiu ao saber que Amaro
havia quebrado seu voto de castidade. III
( ) Em nenhum momento, Amaro parece se preo- Tínhamos nós voltado à capital maldita,
cupar com as angústias que Amélia poderia Eu vinha de polir isto tranquilamente,
estar sofrendo ao se descobrir grávida de um Quando nos sucedeu uma cruel desdita,
pároco. Pois um de nós caiu, de súbito, doente.
O cônego Dias, mesmo não gostando da situação de ver
Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
Amaro envolvido com a filha de S. Joaneira, é solidário Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
ao rapaz e procura ajudá-lo.
Com que se despediu de todos e do mundo!
Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
Não sei d’um infortúnio imenso como o seu!
Vi o seu fim chegar como um medonho muro,
c) O Realismo, estilo literário ao qual pertence a obra E, sem querer, aflito e atônito, morreu!
de Eça de Queirós, apresenta uma série de caracte-
rísticas específicas. Qual delas melhor se adapta ao De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
trecho do romance O crime do padre Amaro? Como tanta crueldade e tantas injustiças,
Das características típicas do Realismo, a que melhor explica Se inda trabalho é como os presos no degredo,
Com planos de vingança e ideias insubmissas.
o trecho lido é a crítica às instituições, no caso a Igreja
E agora, de tal modo a minha vida é dura,
Católica.
Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
Que sinto só desdém pela literatura,
E até desprezo e esqueço os meus amados versos!

VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde. Disponível em: <http://


2. A respeito do comportamento de Amaro, é correto afir- www.dominiopublico.gov.br/download/texto/gu000010.pdf>.
mar que Acesso em: 12 mar. 2015.

a) representa de modo contundente a hipocrisia que


perpassa a classe política portuguesa na segunda
desdita: infelicidade; rebate: abatimento.
metade do século XIX.
desgraça. infortúnio: azar.
b) pode ser interpretado como um desvio moral das abria-lhe cavernas: feria-lhe atônito: espantado.
classes abastadas da sociedade portuguesa. os pulmões. degredo: exílio.

14 Volume 7
igital.
2015. D
Cesário Verde nasceu em Lisboa, em 1855. Em 1873, matriculou-se no Curso Superior

Klein.
de Letras, mas frequentou as aulas somente por alguns meses. Passou seu tempo divi-

Daniel
dido entre as atividades de comércio herdadas do pai e a escrita de poesia. Foi um dos
poetas do século XIX que mais exerceu influência nas gerações de escritores surgidos
no começo do século XX. Morreu em 1886.

a) O poema trata de um acontecimento que marcou d) Que visão da existência humana é possível depreen-
profundamente a vida do eu lírico. Que aconteci- der do verso “Vi o seu fim chegar como um medo-
mento foi esse? nho muro”? De que modo essa visão característica
A morte de uma pessoa próxima do eu lírico que ficara do Realismo pode ser entendida como um ques-
tionamento à crença da Igreja de uma vida após a
doente quando da chegada deles à capital. morte?
A imagem do momento final da vida do amigo como um

“medonho muro” permite que se possa interpretar a

b) O tema da morte foi bastante trabalhado pela poesia existência, tal qual o poema a expressa, como um fim
romântica. A abordagem desse tema pela poesia de
Cesário Verde, porém, apresenta uma perspectiva definitivo, sem algo ou outra vida que se prolongue. O choque
diferente. Que perspectiva é essa? contra o dogma da vida eterna difundido pela Igreja Católica
A morte não é representada como uma fuga da realidade
é atacado de frente nesse poema, pois a morte é tida aqui
ou um desejo típico do escapismo romântico, ou seja, não é
como um fim, uma chegada a um ponto-final.
vista de modo idealista ou sublime. A morte, nesse poema de

Cesário Verde, é abordada como uma fatalidade que deixa

marcas profundas na vida daqueles que ficam.

e) Classifique esse poema de Cesário Verde de acordo


c) No que diz respeito ao estilo, destaque três marcas
com os três grandes tipos de poesia realista propos-
do Realismo literário presentes no poema.
tos anteriormente: poesia do cotidiano, política ou
Pode-se notar uma abordagem objetiva do fato central do metafísica. Justifique sua escolha.
poema (a morte), assim como uma representação desse Poesia metafísica, pois trata da questão da morte.

acontecimento ocorrido com uma pessoa comum (sem 6 Orientações para a atividade.

nome) e a utilização de uma linguagem direta.

Literatura 15
Olhar literário
Realismo no Brasil
A segunda metade do século XIX, no Brasil, foi marcada por uma série de eventos que determinaram mudanças
significativas no perfil da nação. A Guerra do Paraguai, que teve início em dezembro de 1864 e se prolongou até 1870,
ganhou enormes proporções, principalmente por ocorrer na sequência de outro conflito armado, que foi o embate
entre Brasil e Uruguai. Foram enviados para o front de batalha cerca de 150 mil homens, fato que causou um grave
impacto, já que 50 mil não retornaram para casa.
Somado a isso, o Brasil integrava-se cada vez mais na lógica do capitalismo mundial, ocupando um papel de expor-
tador de produtos primários e consumidor de produtos industrializados. As áreas de infraestrutura passaram a receber
forte investimento na construção de estradas de ferro e na constituição de uma estrutura econômica por meio da aber-
tura de casas financeiras. A sensação de progresso social, porém, ligava-se cada vez mais a um processo de concentra-
ção de renda que enriquecia alguns em detrimento de uma parcela considerável da população que permanecia pobre.
O término da escravidão, em 1888, e o aumento da chegada de imigrantes europeus para trabalhar nas lavouras
em diversas partes do país geraram problemas sociais que se prolongam até os dias atuais: a mão de obra composta
de antigos escravizados, agora libertos, não era integrada ao sistema de produção, o que fez com que contingentes
de pessoas sem trabalho começassem a se concentrar nos limites periféricos das grandes cidades. A Proclamação da
República, em 1889, redefiniu o conceito de pertencimento pátrio, pois transformava o antigo súdito do Império em
cidadão, com direitos e deveres para com a sociedade, mas ainda refletindo uma condição de desigualdade social que
dividia pobres e ricos em extremos da sociedade.
Além disso, as diferenças entre as cidades que se de-
senvolviam e os pontos mais afastados do interior do país
mostravam-se difíceis de se integrarem em um único Por volta de 1870, no interior da Faculdade de Direit
o do
projeto de nação. Recife (inaugurada, em 1827, por D. Pedro I), desen
volveu-
-se um movimento de reflexão sociológica e
A mentalidade associada ao positivismo e ao de- cultural
intitulado Escola de Recife, que foi um dos polos de recep
terminismo vindos da Europa, assim como os avanços ção,
no Brasil, das ideias que circulavam na Europa (materiali
das ciências e das tecnologias, passou a fazer parte do smo,
positivismo, determinismo, evolucionismo). Uma
modo de ver a realidade da classe social mais abastada geração
de intelectuais, como Tobias Barreto, Capistrano de
por meio da divulgação de ideias em jornais que circula- Abreu,
Clóvis Beviláqua, Silvio Romero e Graça Aranha, deu
vam nas cidades. Mesmo que os modos de produção de início
à discussão de temas fundamentais para o pensa
bens no Brasil desse período se mantivessem atrelados a mento
brasileiro, em especial a mestiçagem e o caráter nacio
estruturas arcaicas, parte da elite econômica e intelectual nal.
passava a se identificar com “o que de mais novo” chegava
por aqui vindo do continente europeu.

FERREZ, Marc. Rua Primeiro de Março.


1890. Instituto Moreira Sales. Rio de
Janeiro.

Ruas pavimentadas, iluminação


pública e bondes para o transporte
coletivo passaram a se confundir
com carroças nas ruas das grandes
cidades

16 Volume 7
Prosa realista brasileira
A literatura realista no Brasil apresenta algumas diferenças em relação à produção literária ocorrida na Euro-
pa. Uma delas está na exclusividade da produção em prosa no Realismo brasileiro, ou seja, não houve poesia
realista no Brasil, enquanto em Portugal ocorreu uma importante escrita realista na forma de poemas. Outra
está na importância que a narrativa curta (especialmente o conto) adquiriu na literatura brasileira do período,
dado o papel que teve na formação do leitor brasileiro, o que, no Realismo europeu, não teve a mesma rele-
vância.
A prosa realista brasileira apresenta uma série de marcas que destacam sua diferença em relação à prosa
romântica, entre elas, a utilização de uma linguagem direta e objetiva, por meio da qual eram feitas descrições
cuidadosas dos ambientes e do universo interior dos personagens, com riqueza de detalhes. A exploração dos
ambientes sociais, quase sempre envolvendo cenários urbanos, representa a preocupação em focar o momento
presente da época, distante, portanto, do desejo dos escritores românticos de resgatar poeticamente um pas-
sado glorioso que simbolizasse o surgimento da própria pátria.
O escritor realista procurava construir um retrato da sociedade tal qual ela se configurava no momento, revelando
os conflitos morais e as incoerências dessa sociedade. A análise psicológica passou a ser uma das estratégias textuais
por meio da qual o escritor pôde revelar um mundo em que as aparências sociais não correspondiam aos valores e
às ambições individuais dos personagens. Diferentemente dos escritores românticos, os quais apresentavam perso-
nagens que viviam e morriam por acreditarem em ideais que não se ajustavam ao mundo em que se encontravam,
os escritores realistas optaram pela representação de pessoas comuns como personagens centrais, desprovidas de
idealização e muitas vezes sem grandes projetos de vida. Mas, por trás da suposta superficialidade dos personagens,
os realistas se propunham a investigar os mecanismos de determinação social, isto é, denunciar as formas pelas quais
as estruturas sociais oprimem pessoas. Por essa razão, na literatura realista há uma crítica ferrenha a instituições como
a Igreja e o casamento, que subjaz a temas como adultério, por exemplo.
Um caráter antiburguês, que também existiu no Romantismo, ganha, no Realismo, um novo sentido: não se
trata mais de observar na narrativa a luta entre o herói romântico contra a sociedade burguesa, mas, sim, fazer uma
descrição do modo de vida burguês revelado naquilo que há de pior (exploração do homem pelo homem; aspecto
financeiro como parâmetro para julgar o valor das pessoas; diferenças entre as classes sociais; questão do mando
dos “fortes” sobre os “fracos”; exploração do trabalho, etc.).
Entre os escritores realistas brasileiros, dois merecem destaque: Raul Pompeia, autor do romance intitulado O
Ateneu, e Machado de Assis, considerado um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Vale
também citar a produção teatral de autores como França Junior e Artur de Azevedo, que escreveram, respectiva-
mente, as peças Como se fazia um deputado e A capital federal, entre outras.
Sugestão de atividades: questões 12 e 13 da seção Hora de estudo.

Atividades
7 Sugestão de atividade.

1. O romance O Ateneu, escrito por Raul Pompeia, é um dos grandes romances produzidos no Brasil na segunda metade
do século XIX. Narrado em primeira pessoa, Sérgio, já adulto, conta sua passagem pelo internato chamado Ateneu,
instituição localizada no bairro do Rio Comprido, Rio de Janeiro. O diretor do colégio, Dr. Aristarco, considerado um dos
mais proeminentes pedagogos de seu tempo, conduzia a vida dos alunos com mãos de ferro. A narrativa vai revelando
ao leitor uma realidade bastante diferente daquela apregoada por Aristarco: o colégio interno era uma reprodução
piorada da sociedade decadente em que ele se inseria.

Literatura 17
Leia uma das passagens desse romance em que a figura de Aristarco é descrita pelo narrador. Finalizada a leitura,
responda às questões que seguem.

O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o
Império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas Províncias, conferências
em diversos pontos da cidade, a pedidos, à sustância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões,
sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de profes-
sores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando
as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome
de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins
da Pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita,
espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E en-
gordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou
nacional, festas do colégio ou recepções da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob
constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques.
Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-
-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco todo era um anúncio. Os gestos,
calmos, soberanos, eram de um rei – o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar
deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do en-
sino público; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando
de luz as almas circunstantes – era a educação da inteligência;
ncia; o
queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava rava
a lisura das consciências limpas – era a educação moral. A
própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do
vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande
homem... não veem os côvados de Golias?!... Retorça-
-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças
de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios,
fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão belamen-
te impunha como o retraimento fecundo do seu espírito,
– teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil
do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao pri-
meiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo,
desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria
estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente
DKO Estúdio. 2015. Digital.

satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o


seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significa-
vam a fina flor da mocidade brasileira.
POMPEIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.
br/download/texto/bn000005.pdf>. Acesso em: 12 maio 2015.

atochando: enchendo; atulhando. opulentando: ostentando, mostrando. crispação: contração.


esbaforido: apressado. honoríficos: honrados. escanhoado: barbeado.
concurso: chegada. berloques: pequenas joias. côvados: unidade de medida de
cartonados: encadernados em cartão. couraça: revestimento. comprimento. No texto, refere-se ao tamanho.
esfaimados: esfomeados. excelso: sublime. Golias: personagem mitológico judaico que
benemérito: digno. silabários: livros voltados para ensinar as foi morto em batalha por Davi.
coroa: realeza. crianças a ler; cartilhas. volutas: espirais.
pedraria: conjunto ou coleção de pedras hierática: como a de sacerdotes em rituais torneadas: contornadas.
preciosas. litúrgicos. afluência: aglomeração.

18 Volume 7
. Digital.
lein. 2015

Raul Pompeia nasceu em 1863. Desde cedo, ganhou fama por ser um aluno e um
caricaturista de talento. Estudou Direito em São Paulo, mas concluiu seu curso na
Daniel K

Escola de Direito de Recife. Nesse período de sua vida, entrou em contato com as
tendências filosóficas e cientificistas que estavam em voga na Europa. Participou
da campanha para o fim da escravidão. Morreu em 1895, no Rio de Janeiro.

a) “Aristarco todo era um anúncio.” Qual é o sentido c) A postura de Aristarco retrata, para o narrador-per-
dessa frase no contexto do trecho do romance lido sonagem, alguém vaidoso, que vive da divulgação
anteriormente? de sua própria imagem como um ser superior aos
Essa frase indica que toda a postura de Aristarco era
outros. Você concorda com essa definição do perso-
nagem Aristarco? Justifique sua resposta.
planejada para colocar sua escola e seu projeto pedagógico
Pessoal. Espera-se que os alunos reconheçam na narração
em evidência.
algumas indicações da vaidade do personagem e do modo

b) Para você, a maneira como o narrador descreve a como ele promove sua própria imagem para tirar vantagens
figura de Aristarco pode ser entendida como
( ) cômica. ( ) reflexiva. para si e para sua escola.

( ) trágica. ( X ) irônica. d) A escolha vocabular preciosista e retórica (exagera-


da e esvaziada) nessa passagem do romance pode
( ) satírica.
ser associada ao personagem que está em foco no
• Justifique sua resposta. trecho? Justifique sua resposta.
A ironia pode ser percebida pela forma como a descrição Pessoal. Espera-se que os alunos notem que há uma ligação

das características do personagem sempre tendem ao entre o modo artificial e pretensioso da escolha das palavras

exagero. por parte do narrador-personagem e a figura falsa e

interesseira de Aristarco.

Olhar literário
A prosa machadiana
A obra de Machado de Assis pode ser entendida não apenas como a mais importante no contexto do Realismo
brasileiro, mas também como um dos pontos altos da literatura de seu tempo.
A trajetória pessoal do autor, por si só, merece destaque. Filho de pai descendente de escravizados e mãe de ori-
gem portuguesa, Machado teve uma infância pobre. Projetando-se para além das condições socioeconômicas que lhe
serviram de ponto de partida, o escritor conseguiu, por conta própria, acumular um saber notório, fato que possibilitou
a ele frequentar espaços onde boa parte da intelectualidade carioca circulava em meados do século XIX. Quando era
jovem, conheceu uma senhora francesa em São Cristóvão que lhe deu aulas de francês, permitindo que tivesse aces-
so a um conjunto da cultura europeia que era exclusivo de determinada parcela das classes sociais mais abastadas.
Quanto à língua inglesa, cuja literatura foi decisiva para sua formação, Machado iniciou os primeiros contatos por meio
de sua amizade com José de Alencar. Aprendeu latim em seu contato com a Igreja, ainda jovem. Por fim, seu interesse
pelo teatro o fez estudar grego, em especial para poder ler o teatro clássico e a obra de alguns filósofos, entre os quais,
Platão.

Literatura 19
Ao que tudo indica, evitou frequentar os espaços da estratégia para sugerir ambiguidades, o distanciamento
periferia, lançando-se com coragem para a região central consciente do narrador diante dos fatos narrados, a crítica
do Rio de Janeiro. Inicialmente, arrumou um emprego contundente aos valores sociais, o ritmo fragmentado da
como tipógrafo, em seguida, em uma livraria, chegando narração, as digressões e o diálogo constante do narrador
à redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Aos poucos, com seu leitor são algumas das transformações realizadas
sua grande habilidade como escritor fez com que pudes- por Machado que estabeleceram um novo patamar de
se participar de modo mais ativo na produção de textos qualidade na produção literária em prosa no Brasil.
jornalísticos. Em 1867, tornou-se funcionário público. Sua
dedicação fez com que subisse na carreira da burocracia Em diferentes graus e estruturadas de maneiras espe-
governamental, atividade profissional que lhe permitia, cíficas, essas marcas se manifestam nos romances da fase
paralelamente, produzir sua literatura. realista do escritor: Memórias póstumas de Brás Cubas,
Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó
Machado escreveu romances, peças de teatro, poesia,
(1904) e Memorial de Aires (1908). 8 Sugestão de leitura.
contos e crônicas, ao que se somam textos de crítica lite-
rária e teatral. Suas primeiras obras de ficção apresenta- Outro gênero em que Machado de Assis foi mestre é o
vam uma concepção estética tipicamente romântica. As conto. Leia o que a crítica Nádia Gotlib escreveu:
tramas de suas histórias exploravam, como era comum
em uma parcela da prosa romântica brasileira, intrigas [...] os contos de Machado traduzem perspi-
amorosas associadas a disputas entre os personagens por cazes compreensões da natureza humana, desde
um espaço de prestígio em meio às classes altas. as mais sádicas às mais benévolas, porém nunca
ingênuas. Aparecem motivadas por um interesse
O modelo dessas ficções era o romance europeu,
próprio, mais ou menos sórdido, mais ou menos
em particular o francês e o inglês, como havia ocorrido
culpável. Mas é sempre um comportamento du-
com Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar.
vidoso, que nunca é totalmente desvendado nos
Entretanto, já se via na primeira escrita em prosa
seus recônditos segredos e intenções...
de Machado um conjunto de elementos de estilos
O modo pelo qual o contista Machado repre-
diferenciados se comparados aos de outros escritores
brasileiros que publicavam seus livros no período de senta a realidade traz consigo a sutileza em rela-
popularização das narrativas por meio dos folhetins. ção ao não dito, que abre para as ambiguidades,
Apesar de seguir a “receita” do romance romântico, que em que vários sentidos dialogam entre si. Portan-
explora o tema amoroso como fio condutor da trama, to, nos seus contos, paralelamente ao que aconte-
os personagens de Machado têm uma complexidade ce, há sempre o que parece estar acontecendo. E
que se opõe ao modo superficial característico das disto nunca chegamos a ter certeza.
narrativas românticas escritas no Brasil. A sondagem GOTLIB, Nádia. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 1990. p. 77-78.
psicológica, uma das grandes marcas da prosa realista,
já surge, ainda que tímida, nos romances “românticos” Se os contos de Machado de Assis têm como caracterís-
de Machado: Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), ticas as sutilezas e as ambiguidades, desde a publicação de
Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). seu primeiro livro de contos, Contos fluminenses, de 1870,
até Relíquias da casa velha, de 1906, sua produção teatral
A grande mudança na literatura machadiana,
pode ser entendida como uma atividade que tinha por
contudo, ocorreu a partir de Memórias póstumas de
Brás Cubas, obra de 1881, marco inicial do Realismo objetivo representar cenas da vida cotidiana e seus pro-
literário no Brasil. Escrita com base em uma perspectiva blemas para analisá-los posteriormente. De acordo com
inovadora no contexto da literatura brasileira, essa obra o crítico Quintino Bocaiuva, os textos teatrais escritos por
representa um salto em comparação a outros escritos Machado eram mais para serem lidos do que encenados.
literários, não somente em relação ao que o próprio A escrita teatral machadiana, portanto, dialogava constan-
Machado de Assis escrevia, mas também ao que outros temente com o restante de sua obra evidenciando, de um
escritores produziam nesse período. O rompimento com modo muitas vezes mais direto e contundente, uma inten-
a linearidade da narração (a história deixa de ser contada ção profunda da obra completa de Machado de Assis que
cronologicamente), a utilização da ironia como uma apontava para a denúncia social.

Sugestão de atividades: questões de 14 a 18 da seção Hora de estudo.


20 Volume 7
Atividades
1. Este capítulo é um dos mais importantes da obra Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Nele,
o protagonista, Brás Cubas, reencontra na rua um ex-escravizado dele, Prudêncio, açoitando um escravizado que
comprara após obter sua liberdade. Observe como se dá a conversa entre eles e as reflexões do narrador.

CAPÍTULO LXVIII / O vergalho


Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar
a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não
se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor,
perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
— Meu senhor! gemia o outro.
— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque
Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me
a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— É, sim, nhonhô.
— Fez-te alguma coisa?
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá
embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar
uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom
capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o epi-
sódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um
miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas
recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desan-
cava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos bra-
ços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se
desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera.
Vejam as sutilezas do maroto!
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível em: <http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/
romance/marm05.pdf>. Acesso em: 15 maio 2015.

a) Como Prudêncio justifica sua ação contra o escravizado?


Ele afirma que, na sua ausência, o escravizado deixara de trabalhar e ficara bebendo na venda.

b) Como Brás Cubas procede diante dessa cena?


Ele se incomoda com ela e pede a Prudêncio que interrompa o castigo.

vergalho: chicote. torvo: terrível, pavoroso. desagrilhoado: libertado, livre.


conjeturas: suposições, hipóteses. gaiato: travesso, maroto.

Literatura 21
c) De que modo a resposta de Prudêncio a Brás Cubas denuncia sua antiga condição de escravizado?
Ao responder “Nhonhô manda, não pede”, Prudêncio denuncia sua antiga condição servil, de escravizado, em que obedecer é a única

alternativa.

d) Ao refletir sobre a cena, Brás Cubas a associa a outra, anterior. Segundo ele, de que modo as duas cenas estariam
relacionadas?
Para Brás, Prudêncio sofrera com a escravidão: fora tratado como brinquedo por ele, que lhe pusera arreio e o açoitara. Prudêncio

sofrera calado e, posteriormente, homem livre, transferia a outro as dores e as humilhações por que passara.

e) Uma das marcas centrais da prosa machadiana é a ironia. Transcreva e explique uma das ironias presentes na fala
do narrador.
Pessoal. Sugestão: “Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco”. Não há nada de alegre no capítulo, ele é profundamente perverso,

com um ex-escravizado, alienado de sua antiga condição, açoitando um escravizado. Trata-se, portanto, de uma afirmação irônica.

f) Outra marca importante da escrita de Machado é a metalinguagem, isto é, o narrador faz menção à própria ativi-
dade da escrita. De que forma ela se dá nesse capítulo?
No trecho: “Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um
bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco” ocorre a metalinguagem. O narrador indica que esse
acontecimento poderia ser usado como inspiração para a escrita de um capítulo.

2. Leia o capítulo “O agregado”, que faz parte do romance Dom Casmurro. Preste atenção especialmente na descrição
do personagem para responder às questões propostas.

O AGREGADO
Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados, era muita
vez rápido e lépido nos movimentos, tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo,
se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes,
os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo.
Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu
acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual e uma
botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e não quis receber
nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias
recusou, dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.
— Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.
— Voltarei daqui a três meses.
Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem
dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família, ele veio
também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, dis-
se-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou
confessando que não era médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola, e não o
fez sem estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.
— Mas, você curou das outras vezes.
— Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remédios indicados nos livros.
Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue; os motivos do meu procedimento
podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti; mas é tempo de
restabelecer tudo.

outrossim: igualmente. botica: caixa com remédios. andaço: epidemia. estipêndio: salário.

22 Volume 7
Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer
aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor
que o pungiu foi enorme, disseram-me; não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não con-
sentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia. Depois da missa, ele foi despedir-se dela.
— Fique, José Dias.
— Obedeço, minha senhora.
Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as pa-
lavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. “Esta é a melhor apólice”, dizia
ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não
abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste
mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da
índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo,
ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e modesta. Era lido, posto
que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar
dos efeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera
à Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a
nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.
— Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.
— Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração. E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver
que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe
dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a cópia de
papéis de autos.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. Disponível em: <http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm08.pdf>.
Acesso em: 18 maio 2015.

a) Como José Dias chega à casa do pai do narrador? d) Os agregados podem ser definidos como aqueles
Ele oferece seus serviços como médico homeopata e agrada
que vivem com uma família como se fossem paren-
tes. No século XIX, em função do escravismo, era
ao pai do narrador, que o convida para morar com a família. comum que alguns homens e mulheres pobres e
livres se tornassem agregados de famílias de elite,
vivendo de favor na casa delas e ajudando no que
b) Por que José Dias confessa a verdade de sua condi- podiam, fazendo-se necessários para que perma-
ção ao pai do narrador? necessem sob a proteção dessas famílias. Assinale
os itens que confirmam a condição de agregado de
O pai do narrador pede a ele que cure os escravizados de uma José Dias.
febre e ele, temeroso de não conseguir fazê-lo, confessa que ( X ) Aproximou-se da família e se fez necessário,
mesmo após a morte do pai do narrador.
não é homeopata de verdade.
( ) Enganou a família se dizendo médico homeopa-
ta com o objetivo de passar-lhes um golpe.
c) Por que o pai decide mantê-lo na casa mesmo após ( X ) Conhecendo sua condição de agregado, esfor-
a confissão? çava-se por agradar e, mesmo quando expunha
sua opinião, fazia-o como se obedecesse.
Todos já haviam se habituado a ele, que teria o dom de se
( ) Tinha interesse em deixar a casa, por isso jun-
fazer acolhido e necessário, era como uma pessoa da família. tava o dinheiro que ganhava mensalmente.
( ) Recebia salário regular da família.

enxovalham: sujam, mancham.

Literatura 23
Organize as ideias
9 Orientações para a atividade.
A proposta de síntese dos conceitos estudados neste capítulo será o levantamento das principais informações que
compõem o conteúdo da unidade e a hierarquização dessas informações no que diz respeito à sua importância.
Todo texto contém ideias, conceitos e informações com diferentes níveis de importância. A cada uma das informa-
ções principais, há outras, diretamente relacionadas, de importância secundária. O texto que você vai produzir será um
quadro com as informações principais e secundárias correspondentes.
Acompanhe os passos para a elaboração desse texto.
1. Releia os textos conceituais e literários que fazem parte desta unidade. Essa é uma tarefa das mais importantes
para elaborar sua síntese. A qualidade do que você vai produzir depende muito da qualidade da leitura que vai
realizar. Por isso, se necessário, leia o material mais de uma vez. Durante a leitura, é possível ir fazendo anotações
ou então grifar o texto para identificar as informações principais e as secundárias.
2. Em seguida, monte um quadro, conforme exemplo a seguir, preenchendo-o com as informações identificadas
em sua leitura. Evite copiar literalmente o texto de seu livro; prefira escrever as informações com suas próprias
palavras. Identificar a página do livro onde está a informação pode ser interessante, pois quando você for estu-
dar posteriormente, utilizando o quadro, podem surgir dúvidas e você encontrará mais facilmente a informação
original.

Informação
Página Informações secundárias relacionadas
principal
• No século XIX, o Romantismo dominou a cena artística em boa parte do mundo
ocidental.
A partir da segunda • A visão de mundo romântica estava relacionada ao modo de vida burguês.
metade do século
• O Romantismo criticava as ambições burguesas de tomada de poder e da
XIX, o Romantismo
7 afirmação de valores mercantis.
começou a
mostrar sinais de • O Romantismo compactuava com as aspirações pelos ideais de liberdade e de
esgotamento. igualdade.
• Com o passar do tempo, um discurso racionalista começa a se firmar,
influenciando a produção literária, artística, científica, filosófica e outras.

© Shutterstock/Diego Cervo
3. Por fim, algumas dicas:
• Faça um rascunho – geralmente a primeira versão de um
texto requer alterações e melhorias, portanto, para o texto
ficar bom, você provavelmente terá de reescrevê-lo.
• Todo texto deve ter uma conclusão – como se trata de
uma resenha crítica, sua reflexão deve ser concluída.
• Faça a revisão do texto – tente se colocar no lugar de um
leitor que esteja lendo seu texto pela primeira vez e verifi-
que a clareza em suas colocações.
• Não se desfaça do texto que você produziu – guarde-o
para estudos no futuro. Você também poderá emprestá-lo
para outros alunos que estejam precisando estudar esse
conteúdo, ou seja: valorize seu próprio trabalho!

24 Volume 7
Hora de estudo
A resolução das questões discursivas desta seção deve ser feita 10 Gabaritos.
no caderno.
1. Assinale V para verdadeiro e F para falso. Texto para as questões de 5 a 9.
O Realismo pode ser considerado O melro veio com efeito às três horas. Luísa
( V ) uma reação ao sentimentalismo romântico. estava na sala, ao piano.
— Está ali o sujeito do costume – foi dizer
( F ) uma estética que teve como uma de suas princi-
pais marcas uma reação contra o Absolutismo. Juliana.
Luísa voltou-se corada, escandalizada da ex-
( F ) uma das tendências que ocorreu em paralelo à pressão:
segunda geração do Romantismo.
— Ah! meu primo Basílio? Mande entrar.
( V ) uma concepção estética que pode ser associada E chamando-a:
aos avanços das ciências que se desenvolveram — Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém,
no século XIX. que entre.
( F ) uma manifestação que abordava a sociedade com Era o primo! O sujeito, as suas visitas perde-
base em um viés idealista. ram de repente para ela todo o interesse picante.
( F ) uma negação da arte romântica, mais especifi- A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, enge-
camente do subjetivismo, do historicismo e do lhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora,
objetivismo que imperaram na arte ao longo do adeus! Era o primo!
século XIX. Subiu à cozinha, devagar, – lograda.
2. De que modo se pode associar a perspectiva crítica — Temos grande novidade, Sra. Joana! O tal
da estética realista aos avanços do desenvolvimento peralta é primo. Diz que é o primo Basílio.
urbano no século XIX? E com um risinho:
— É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à
3. Leia esta afirmação:
última hora! O diabo tem graça!
Os realistas tinham como objetivo principal de sua arte — Então que havia de o homem ser se não
o compromisso em representar a vida, os problemas parente? – observou Joana.
do dia a dia e os comportamentos das camadas média
Juliana não respondeu. Quis saber se estava o
e baixa que se acumulavam nas cidades grandes em
ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para
busca de trabalho. Para os realistas, as pessoas não
viviam mais com os mesmos padrões do mundo anti- passar! E sentou-se à janela, esperando. O céu
go, daí a necessidade de uma nova arte que pudesse baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade;
representar essa mudança. às vezes uma aragem súbita e fina punha nas fo-
lhagens dos quintais um arrepio trêmulo.
De acordo com o conteúdo estudado, essa afirmação
— É o primo! – refletia ela. E só vem então
pode ser considerada verdadeira ou não? Crie argu-
quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar
mentos que a confirmem ou a desqualifiquem.
quando ele sai; e é roupa-branca e mais roupa-
4. Podem ser consideradas marcas da linguagem no -branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio,
Realismo: e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na
X a) a clareza e a preocupação com a descrição; família!
b) a subjetividade e a dimensão política; Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lo-
grada. Havia ali muito “para ver e para escutar”.
c) a denúncia e o resgate histórico; E o ferro estava pronto?
d) o jogo de palavras e a religiosidade; Mas a campainha, embaixo, tocou.
e) o simbolismo e o cientificismo. (Eça de Queirós. O primo Basílio, 1993.)

Literatura 25
5. (UNIFESP) Quando é avisada de que Basílio estava c) do narrador, em terceira pessoa, distanciado, por-
em sua casa, Luísa escandaliza-se com a forma de tanto, do ponto de vista de Juliana.
expressão de sua criada Juliana. A reação de Luísa
d) do narrador, em primeira pessoa, próximo, portanto,
decorre
do ponto de vista de Juliana.
a) da linguagem descuidada com que a criada se re-
e) da personagem Luísa, em discurso indireto, inde-
fere a seu primo Basílio, rapaz cortês e de família
pendente da voz do narrador.
aristocrática.
b) da intimidade que a criada revela ter com o Basílio, 8. (UNIFESP) A leitura do antepenúltimo parágrafo do
o que deixa a patroa enciumada com o comentário. texto permite concluir que as reflexões de Juliana são
pautadas
c) do comentário malicioso que a criada faz à presença
de Basílio, sugerindo à patroa que deveria envolver- X a) pelo inconformismo com os encontros, que lhe re-
-se com o rapaz. presentam mais afazeres.

d) da indiscrição da criada ao referir-se ao rapaz, o b) pela falta de interesse que tem de se ocupar dos
qual, apesar do vínculo familiar, não era visita fre- afazeres domésticos.
quente na casa da patroa. c) pelo ressentimento que experimenta, por não rece-
X e) da ambiguidade que se pode entrever nas palavras ber a atenção desejada.
da criada, referindo-se com ironia às frequentes vi- d) pela insatisfação de contemplar o bem-estar da
sitas de Basílio à patroa. família.
6. (UNIFESP) Considere o antepenúltimo parágrafo do e) pelo descaso que revela ter em relação a Luísa e
texto. aos seus familiares.
Nas reflexões de Juliana, está sugerido o que acaba 9. (UNIFESP) A leitura do trecho de O primo Basílio, em
por ser o tema gerador desse romance de Eça de Quei-
seu conjunto, permite concluir corretamente que
rós, a saber:
essa obra
a) o amor impossível, em nome do qual Luísa abando-
a) expõe a sociedade portuguesa da época para recupe-
na o marido.
rar a tradição e os vínculos sociais.
b) a vingança, em que Luísa vitima seu amante Basílio.
b) traz as relações humanas de forma idealista, ainda
X c) o triângulo amoroso, em que Basílio ocupa o lugar que recupere a ideologia vigente.
de amante.
c) retrata a sociedade portuguesa da época de forma
d) o casamento por interesse, mediante a compra do romântica e idealizada.
amor de Basílio.
d) faz explicitamente a defesa das instituições sociais,
e) o casamento por conveniência, no qual Luísa foi como a família.
lograda.
X e) faz um retrato crítico da sociedade portuguesa da
7. (UNIFESP) Observe as passagens do texto: época, exibindo os seus costumes.
– Ora, adeus! Era o primo! (7º. parágrafo)
– E o ferro estava pronto? (penúltimo pa- Texto para as questões 10 e 11.
rágrafo)
NUM ÁLBUM
Nessas passagens, é correto afirmar que se expressa o
ponto de vista I
a) da personagem Juliana, em discurso direto, inde- És uma tentadora: o seu olhar amável
pendente da voz do narrador. Contém perfeitamente um poço de maldade,
X b) da personagem Juliana, sendo que sua voz mescla- E o colo que te ondula, o colo inexorável
-se à voz do narrador. Não sabe o que é paixão, e ignora o que é bondade.

26 Volume 7
II caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui in-
Quando me julgas preso a eróticas cadeias justo com ele durante os anos que se seguiram
Radia-te na fronte o céu das alvoradas, ao inventário de meu pai. Reconheço que era
E quando choro então é quando garganteias um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que
As óperas de Verdi e as árias estimadas. tinham razão; mas a avareza é apenas a exage-
ração de uma virtude, e as virtudes devem ser
III
como os orçamentos: melhor é o saldo que o
Mas eu hei de afinal seguir-te a toda a parte, déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha
E um dia quando eu for a sombra dos teus passos, inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro.
Tantos crimes terás, que eu hei de processar-te, O único fato alegado neste particular era o de
E enfim hás de morrer na forca dos meus braços. mandar com frequência escravos ao calabouço,
VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde. Disponível em: <http:// donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além
www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000070.pdf>.
Acesso em: 18 maio 2015.
de que ele só mandava os perversos e os fujões,
ocorre que, tendo longamente contrabandeado
10. Compare a visão da figura feminina presente no poema em escravos, habituara-se de certo modo ao trato
com o ideal de beleza romântico. um pouco mais duro que esse gênero de negócio
11. O poema aborda um processo de conquista da pes- requeria, e não se pode honestamente atribuir à
soa amada. Partindo dessa hipótese de leitura, qual é índole original de um homem o que é puro efeito
o sentido expresso no último verso do poema “E enfim de relações sociais. A prova de que o Cotrim ti-
hás de morrer na forca dos meus braços”? nha sentimentos pios encontrava-se no seu amor
aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu
Texto para as questões 12 e 13. Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho
Assim, do Romantismo ao Realismo, houve eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria,
uma passagem do vago ao típico, do idealizante e irmão de várias irmandades, e até irmão remi-
ao factual. Quanto à composição, os narradores do de uma destas, o que não se coaduna muito
realistas brasileiros também procuraram alcançar com a reputação da avareza; verdade é que o be-
maior coerência no esquema dos episódios, que nefício não caíra no chão: a irmandade (de que
passaram a ser regidos não mais por aquela sara- ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.
banda de caprichos que faziam das obras de um ASSIS, José Maria Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
Macedo verdadeiras caixas de surpresa, mas por Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

necessidades objetivas dos ambiente (cf. O Mis- Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira,
sionário) ou da estrutura moral das personagens Memórias póstumas de Brás Cubas condensa uma ex-
(cf. Dom Casmurro). pressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: ironia. Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o
Cultrix, 1885. p. 193. narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção
irônica ao
12. Explique a afirmação do crítico Alfredo Bosi segundo a
qual “do Romantismo ao Realismo, houve uma passa- a) acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se
gem do vago ao típico, do idealizante ao factual”. injustiçado na divisão da herança paterna.
13. Bosi também comenta que a transição da prosa român- X b) atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade,
tica para a realista pode ser notada com a mudança na com que Cotrim prendia e torturava os escravos.
composição do próprio romance. Explique com suas pa- c) considerar os “sentimentos pios” demonstrados pelo
lavras quais foram essas mudanças. personagem quando da perda da filha Sara.
14. (ENEM) d) menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma con-
fraria e membro remido de várias irmandades.
Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Co-
trim, a quem não souber que ele possuía um e) insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e
egocêntrico, contemplado com um retrato a óleo.

Literatura 27
15. (PUC-Rio – RJ) Leia.
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr.
Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Es-
panhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo
el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os
negócios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as
curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com
D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não
bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco,
admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia
condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente,
tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes.
Se além dessas prendas, – únicas dignas da preocupação de um sábio, – D. Evarista era mal composta
de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os inte-
resses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A ín-
dole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois
cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e
outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por
aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a
bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, – expli-
cável mas inqualificável, – devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou in-
teiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou
especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e
ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Si-
mão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se
de “louros imarcescíveis”, – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade
doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
ASSIS, José Maria Machado de. O alienista. São Paulo: Ática, 1982. p. 9-10.

a) A compreensão do jogo entre o narrador, as personagens e o leitor é um dos procedimentos críticos necessários à
análise da obra literária. Comente, utilizando as suas próprias palavras, a problemática do foco narrativo no conto
O alienista tendo como referência o início do texto.
b) Dois dos mais significativos aspectos da obra do autor de Dom Casmurro estão relacionados ao seu ceticismo e à crí-
tica corrosiva e sarcástica da sociedade brasileira do seu tempo. Publicado entre outubro de 1881 e março de 1882,
O alienista narra a trajetória de Simão Bacamarte, médico voltado para a pesquisa, entendimento e cura dos males
do espírito. Tomando por base o fragmento selecionado, comente criticamente a visão de Machado de Assis sobre os
postulados do pensamento positivista e da ideologia do progresso tão valorizados no fim do século XIX.
16. Leia o capítulo LIV, intitulado “A pêndula”, presente no romance Memórias póstumas de Brás Cubas.
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada.
Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito
mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de
vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, e a contá-las assim:

28 Volume 7
— Outra de menos…
— Outra de menos…
— Outra de menos…
— Outra de menos…
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nun-
ca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam;
as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se
do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias tumul-
tuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para ver o
anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível em: <http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/
romance/marm05.pdf>. Acesso em: 25 maio 2015.

Como é possível interpretar a metáfora do relógio presente na cena?


17. (UFPE) A construção das personagens em Eça de Queirós e em Machado de Assis apresenta particularidades que dis-
tinguem os dois escritores. Partindo da leitura crítica dos dois textos que se seguem, analise as proposições seguintes.
TEXTO I TEXTO II
Tinha dado onze horas no cuco da sala de Capitu
jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier — Que é que você tem?
que estivera folheando devagar, estirado na ve- — Eu? Nada.
lha Voltaire marroquim escuro, espreguiçou-se, — Nada, não; você tem alguma coisa.
bocejou e disse: Quis insistir que nada, mas não achei lín-
gua. Todo eu era olhos e coração, um coração
— Tu não te vais vestir, Luísa?
que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora.
— Logo.
Não podia tirar os olhos daquela criatura de qua-
Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notí-
torze anos, alta, forte e cheia, apertada em um
cias, no seu roupão da manhã de fazenda preta,
vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos
bordado a sutache, com largos botões de ma- grossos, feitos em duas tranças, com as pontas
drepérola; o cabelo louro um pouco desman- atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-
chado, com um tom seco do calor do traves- -lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes,
seiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o quei-
pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a xo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios
brancura tenra e láctea das louras; com o coto- rudes, eram curadas com amor; não cheiravam
velo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no a sabões finos nem águas de toucador, mas com
movimento lento e suave dos seus dedos, dois água do poço e sabão comum trazia-as sem má-
anéis de rubis miudinhos davam cintilações es- cula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos,
carlates. [...] a que ela mesma dera alguns pontos.
(Eça de Queirós – O primo Basílio) (Machado de Assis – Dom Casmurro)

( F ) Os dois autores, do século XIX, revelam concepções díspares ao construir suas personagens, pois, enquanto
Machado de Assis cria tipos femininos frágeis e sem vida, Eça de Queirós dá-lhes alma.
( F ) Os dois textos explicitam as diferenças sociais existentes entre as duas personagens. A primeira, Luísa, é descrita
como uma autêntica burguesa, enquanto a segunda, Capitu, como uma adolescente pobre, cujo único objetivo é
alcançar a ascensão social, ainda que para isso precise agir de modo a contrariar a moral vigente.
( F ) O discurso dos narradores revela emoções resultantes das experiências por eles próprios vivenciadas, o que torna
ambas as narrativas comprometidas, de tal modo, que o adultério não se confirma, contribuindo para que as
histórias não se concluam com a comprovação do triângulo amoroso, pois ambas terminam em aberto.

Literatura 29
( V ) Capitu é uma personagem acerca da qual, “em-
ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais de-
bora não possamos ter a imagem nítida da sua
fisionomia, temos uma intuição profunda de seu monstrações não chegariam a dar-se, pelo moti-
modo de ser”. Por sua vez, Luísa, de acordo com vo real de que o homem só comemora e ama o
Machado de Assis, “resvala no lodo, sem vontade, que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo
sem repulsa, sem consciência”. racional de que nenhuma pessoa canoniza uma
ação que virtualmente a destrói. Ao vencido,
( F ) O Primo Basílio e Dom Casmurro possuem perso-
ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
nagens femininas, que, apesar de se integrarem
plenamente à classe burguesa, nutrem um profun- (ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 648-649.)
do respeito à instituição familiar e se caracterizam
por serem simplesmente criadas para vivenciarem Nesse excerto, Quincas Borba explica a base de sua
circunstâncias e acontecimentos, sem que tenham teoria humanitista, finalizando com a máxima “Ao ven-
o menor poder de decisão sobre os mesmos. cedor, as batatas”. O personagem apresenta, em seu
18. (INSPER – SP) discurso, uma concepção

— Mas que Humanitas é esse? a) subjetiva, tipicamente romântica, que revela uma
visão idealizada da guerra.
— Humanitas é o princípio. Há nas coisas
todas certa substância recôndita e idêntica, um b) maniqueísta, tipicamente parnasiana, que vê o mun-
princípio único, universal, eterno, comum, indi- do dividido entre o bem e o mal.
visível e indestrutível, — ou, para usar a lingua- c) ingênua, tipicamente determinista, que expressa
gem do grande Camões: uma visão destituída de valores morais.
Uma verdade que nas coisas anda,
X d) pragmática, tipicamente naturalista, que expressa
Que mora no visíbil e invisíbil.
um olhar impassível diante de vitórias ou mortes.
Pois essa sustância ou verdade, esse princípio
indestrutível é que é Humanitas. e) estereotipada, tipicamente realista, que enxerga os
Assim lhe chamo, porque resume o universo, homens como seres movidos por instintos primitivos.
e o universo é o homem. Vais entendendo? 19. (UEPA) Assinale a alternativa que contém o trecho em
— Pouco; mas, ainda assim, como é que a que Machado de Assis utiliza, como recurso literário de
morte de sua avó... comunicação, a prosopopeia.
— Não há morte. O encontro de ditas ex-
a) – (...) Olhe a pamonha da Beatriz; não foi agora para
pansões, ou a expansão de duas formas, pode
a roça só porque o marido implicou com um inglês
determinar a supressão de uma delas; mas, ri-
que costumava passar a cavalo de tarde? (Capítulo
gorosamente, não há morte, há vida, porque a dos Chapéus).
supressão de uma é a condição da sobrevivência
da outra, e a destruição não atinge o princípio b) Duas ou três amigas, nutridas de aritmética, conti-
universal e comum. Daí o caráter conservador e nuavam a dizer que ela perdera a conta dos anos.
(Uma Senhora).
benéfico da guerra. Supõe tu um campo de ba-
tatas e duas tribos famintas. As batatas apenas c) Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio aberta, pa-
chegam para alimentar uma das tribos, que as- recia beber as palavras da sobrinha, ansiosamente,
sim adquire forças para transpor a montanha e ir como um cordial*. (D. Paula). *medicamento que fortalece.
à outra vertente, onde há batatas em abundância; d) Mariana aceitou; um certo demônio soprava nela as
mas, se as duas tribos dividirem em paz as bata- fúrias da vingança. (Capítulo dos Chapéus).
tas do campo, não chegam a nutrir-se suficiente-
X e) Nunca encontro esta senhora que me não lembre a
mente e morrem de inanição. A paz, nesse caso,
profecia de uma lagartixa ao poeta Heine subindo os
é a destruição; a guerra é a conservação. Uma Apeninos: “Dia virá em que as pedras serão plantas,
das tribos extermina a outra e recolhe os despo- as plantas animais, os animais homens e os homens
jos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, deuses.” (Uma Senhora).
recompensas públicas e todos demais efeitos das

30 Volume 7
14
Naturalismo

LatinStock/Corbis/In Pictures/Christopher Pillitz


Favela da Rocinha, Rio de Janeiro, 2004

Ponto de partida
1

1. Nessa imagem, pode-se notar uma série de planos: alguns elementos mais à frente e outros atrás. Que elemen-
tos compõem os planos de fundo e quais se encontram no primeiro plano?
2. Para você, essa imagem se relaciona a qual grupo social? Destaque ao menos um elemento que confirme sua
resposta.
3. Esse espaço, do modo como é apresentado, pode ser associado a um espaço central ou periférico segundo a
lógica da ocupação urbana? Por quê?

31
Objetivos da unidade:
ƒ compreender os fatores que determinaram o surgimento da prosa literária naturalista na Europa
e no Brasil;
ƒ conhecer as doutrinas filosóficas e científicas surgidas no século XIX que dialogaram com a lite-
ratura naturalista;
ƒ conhecer os tipos de romance naturalistas produzidos no período;
ƒ conhecer outras manifestações, especialmente a pintura, produzidas sob a influência estética do
Naturalismo;
ƒ identificar as principais características do Naturalismo no Brasil, bem como seus autores funda-
mentais.

Lendo a literatura
2 Orientações e gabaritos.

Um dos romances mais importantes do Naturalismo francês, intitulado Germinal, de autoria de Émile Zola, foi publica-
do em 1885. O enredo baseia-se em acontecimentos reais ocorridos no mês de junho de 1869, em Saint-Étienne, no norte
da França, região em que se encontrava uma bacia carbonífera de grande importância econômica. Naquela ocasião,
houve a prisão de grevistas que se recusavam a entrar nas minas em razão das más condições de trabalho. O confronto
com a tropa de soldados acarretou um fuzilamento, com 13 mortos, entre os quais duas mulheres.
O trecho narra o despertar da família de Maheu, um empregado da Companhia das Minas de Montsou.

No meio dos campos de trigo e beterraba, a aldeia dos Duzentos e Quarenta dormia. Na casa dos Maheu,
o silêncio era absoluto. O cuco da sala, no andar de baixo deu quatro horas, mas ninguém se mexeu. Brusca-
mente, Catherine levantou-se. No seu cansaço, ela havia, como de hábito, contado quatro batidas do relógio,
sem encontrar forças para se levantar. Então, jogou as pernas para fora da cama e acendeu uma vela. Mas
continuava sentada, com a cabeça pesada, tentando vencer a vontade de voltar a se deitar.
Na cama esquerda, Zacherie, o mais velho, um rapaz de vinte e um anos, dormia com o irmão Jeanlin, de
onze; na cama da direita, dois pequenos, Lénore e Henri, a menina de seis e o menino de quatro, dormiam um
nos braços do outro; a terceira cama era dividida por Catherine e sua irmã Alzire, uma garota magra e doentia
de nove anos, que tinha uma corcunda nas costas. No cubículo ao lado, o pai e a mãe ocupavam a quarta
cama, junto à qual instalaram o berço da última filha, Estelle, de apenas três meses.
Catherine fez um esforço desesperado. Espreguiçou-se e passou a mão pelos cabelos ruivos embaraçados.
Miúda para seus quinze anos, com a camisola comprida, só se viam seus pés azulados, que pareciam ter ta-
tuagens de carvão, e os braços delicados, brancos como leite, que contrastavam com o rosto cinzento, que o
carvão já estragara.
— Droga! Já está na hora... Foi você que acendeu a vela, Catherine?
— Fui eu, pai... O relógio acaba de dar quatro horas.
— Então se apresse, sua preguiçosa! Se você tivesse dançado menos ontem, teria nos acordado mais cedo...
[...]
Ela [a mulher de Maheu] também acabava de acordar e se queixava. Era incrível, nunca dormia uma noite
inteira. Eles não podiam se arrumar em silêncio? Enfiada sob as cobertas, só se via seu rosto comprido de
traços grandes, de uma beleza pesada, já deformada aos trinta e nove anos pela vida miserável e os sete filhos
que tivera. Olhando para o teto, ela começou a falar devagar, enquanto seu homem se vestia. Nenhum dos dois
ouvia mais a pequena, que se esgoelava de chorar.
— Sabe, não tenho nem um tostão, e hoje ainda é segunda-feira; faltam seis dias para o pagamento da
quinzena... Todos juntos trouxeram nove francos. O que posso fazer? Nós somos dez em casa!

32 Volume 7
DKO Estúdio. 2015. Digital.
— Nove francos! — gritou Maheu. — Eu e Zacharie, três cada, são seis; Catherine e papai, dois cada, são
quatro; quatro e seis, dez... E Jeanlin um, onze.
— Sim, onze, mas eles descontam os domingos e os feriados. Nunca recebemos mais que nove, entende?
— Não devemos nos queixar, ainda sou forte. Muita gente se aposenta aos quarenta e dois anos.
— É verdade, meu velho, mas nem por isso temos mais pão. O que vou fazer? Você não tem nada?
— Tenho quarenta centavos.
— Tome uma cerveja com eles... Meu Deus, o que vou fazer? Seis dias é muito tempo. Nós devemos ses-
senta francos a Maigrat, que me expulsou da padaria anteontem. Isso não vai me impedir de voltar lá. Mas,
se ele teimar em recusar...
Ela dizia que o guarda-comida estava vazio, os pequenos queriam pão, o café tinha acabado, a água dava
dor de barriga, e ela passava dias longos tentando enganar a fome das crianças com repolho cozido. Aos
poucos a mulher deve ter aumentado o tom de voz, pois os gritos de Estelle cobriam suas palavras. Maheu
tirou a pequena do berço e a pôs na cama, ao lado da mãe.
— Tome! Desse jeito sou capaz de bater nela. Que criança! Não lhe falta nada, ela mama, e se queixa mais
alto que os outros!

ZOLA, Émile. Germinal. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 17-20.

igital.
Émile Zola nasceu na França, em 1840. É considerado um dos mais importantes intelectuais

2015. D
franceses de todos os tempos. Zola começou sua carreira de escritor atuando como jornalis-
Klein.
ta. Seu segundo livro, intitulado Thérèse Raquin, publicado quando Zola tinha apenas 26 anos,
Daniel
apresentou inovações em comparação à prosa ficcional anterior: baseou-se em considerações
científicas que, segundo o escritor, serviriam para que se pudessem compreender não apenas os
personagens da história como também a sociedade em que eles se inseriam. Morreu em 1902.

1. No início do trecho, é possível notar que o narrador realiza um movimento de aproximação em direção a seu foco:
começa falando do campo em que se situa a cidade, chega à casa da família Maheu e adentra o espaço do quarto
em que todos dormem. Ou seja, parte de um espaço mais amplo até chegar a um espaço menor. Esse movimento do
foco da narração pode ser associado
X a) ao olhar de um cientista, que parte dos fenômenos (grandes) visíveis a olho nu para os visíveis (pequenos) somente
através de um microscópio.
b) ao olhar de um religioso, que parte do mundo visível para o universo invisível dos deuses e mitos.
c) ao olhar de um viajante, que parte daquilo que se encontra no exterior para aquilo que se pode ver na intimidade
da vida das pessoas.

Literatura 33
2. A observação do narrador não está limitada ao momento em que entra no quarto. Como são apresentados os perso-
nagens que compõem a família Maheu?
Os personagens vão sendo apresentados um a um, começando por Catherine, que é a primeira a despertar na casa.

3. Releia o trecho em que o narrador descreve Catherine e sua irmã Alzire. Que aspectos chamam a atenção em suas
descrições?
No caso de Catherine, chama a atenção o fato de ser tão nova (15 anos) e já estar “estragada” pelo trabalho nas minas de carvão. Quanto

à Alzire, sugere-se que ela, diversamente dos demais, é incapaz de trabalhar por ser “magra e doentia”.

4. Em uma parte considerável dos romances românticos, as jovens eram descritas de modo idealizado, a fim de exaltar-lhes
a beleza. No caso de Catherine e Alzire, ocorre justamente o contrário. Tomando como referência essa comparação entre
Germinal e romances românticos, qual é o sentido do trecho lido em destacar os aspectos físicos das filhas de Maheu?
O trecho propõe uma abordagem não idealizada da figura feminina. Essa ideia pode ser confirmada na sequência do texto em que se fala

da mãe, mulher de Maheu, “deformada aos trinta e nove anos pela vida miserável”.

5. Observe a pintura, cujo título é A greve.

KOEHLER, Robert. A greve. 1886. 1 óleo sobre tela, color., 181,6 cm × 275,6 cm. Museu Histórico Alemão, Berlim.

a) É possível localizar nessa imagem a posição dos trabalhadores e do empregador. Que significado se pode presumir
de estar o empregador em uma posição elevada em relação aos trabalhadores?
b) Como você descreveria o espaço em que o conflito retratado na pintura ocorre?
c) Há semelhanças entre o espaço e os personagens apresentados na tela e os retratados no trecho do romance lido?
Justifique sua resposta.
6. Tanto o texto literário lido quanto a pintura procuram ressaltar aspectos da vida de pessoas pobres e trabalhadoras de
modo mais contundente que a estética realista proporia. Você concorda com essa afirmação? Justifique seu ponto de
vista.

34 Volume 7
Acontecia
Contexto histórico do Naturalismo na Europa
As grandes transformações ocorridas na passagem do século XVIII para o XIX e a decadência das concepções estéticas
e ideológicas associadas ao pensamento romântico influenciaram tanto a estética do Realismo quanto a do Naturalismo.
Houve, porém, diferenças no modo de compreender o alcance das teorias científicas que dominavam o cenário eu-
ropeu na segunda metade do século XIX, como o socialismo, o positivismo e o darwinismo. A começar pela conduta
do escritor naturalista, que, em geral, não se via como um engajado no processo de transformação das condições de
vida das populações que começavam a se concentrar nas periferias das grandes cidades.
A postura comprometida de alguns escritores realistas,
que utilizavam suas obras para denunciar a miséria econô-
mica e social de uma parcela da população, era estranha aos Tendo como inspiração o positivismo filosófico
olhos dos naturalistas. Para estes, a forma pela qual se deveria e os avanços da Medicina de sua época, Zola
e
observar o mundo seria a mesma que a dos cientistas obser- defendia, como uma de suas teses, que part
é
vando fenômenos sociais. Em outras palavras, para o escritor importante do comportamento humano
naturalista, os problemas humanos eram identificados como determinado pela herança genética que cada
m,
uma experiência científica, portanto submetidos às leis na- indivíduo carrega em si. Essa herança, poré
era
turais (como a da sobrevivência), livres de relações moralistas não implicava uma conduta previsível, pois
de
e sem o objetivo de indignar-se com os males desencadeados influenciada por aquilo que ele nomeava
amb iente em que
pela sociedade. fisiologia das paixões e pelo
in-
a pessoa vivia. Em um ensaio importante,
É igualmente importante entender que, somado às ques- titulado O romance experimental (1880), Zola
o-
tões de ordem social e até mesmo política (a reflexão sobre afirmava que o desenvolvimento dos pers
nagens deve ser determinado de acor do com
os modos de vida das populações nas periferias dos grandes
aos
centros), havia na escrita dos naturalistas, em particular dos critérios científicos que se assemelhem
franceses, um interesse em tratar de modo aberto questões métodos empregados em uma experiência
des
anteriormente consideradas delicadas para figurar em textos científica. Para concluir, dizia que as atitu
dos personagens devem ser descritas com
literários. O comportamento “científico” dos naturalistas permi- ido
tiu que temas voltados à violência, ao erotismo, à agressividade total objetividade, mesmo que pareça sórd
pudessem ser tratados literariamente. 3 Orientações. sob muitos aspectos.

Isso fez com que muitos romances fossem “condenados” a


serem lidos em situações bastante limitadoras. Émile Zola teve problemas legais quando da publicação de um de seus
romances, o Thérèse Raquin, assim como o português Eça de Queirós e o brasileiro Júlio Ribeiro foram perseguidos pelo
fato de seus textos serem considerados plenos de crueza e falta de decoro (desrespeito às normas morais).
O ponto a ser considerado era que a sociedade apresentava mudanças no padrão comportamental. Torna-
va-se mais aberta e tolerante a determinadas posturas. Desde sua origem, o romance tratou de assuntos de
difícil abordagem moral, mas muitas vezes esses conteúdos eram desenvolvidos de modo minimizado pelos
escritores, ou seja, os personagens que representavam as prostitutas, os pervertidos, os ladrões, os que tinham
atitudes vulgares ou inadequadas, os loucos e desorientados, todos eram transformados de algum modo em
personagens minimamente aceitáveis. Foram os naturalistas que desmistificaram os comportamentos malvis-
tos pela sociedade. Algumas obras naturalistas foram as primeiras a entrar em choque com os “bons costumes”
de forma mais clara e determinada, a ponto de muitos textos parecerem “avançados demais” para a época em
que foram escritos.

Literatura 35
Olhar literário
4 Sobre a presença de elementos do Realismo e do Naturalismo em alguns autores.

Literatura realista X literatura naturalista


Ainda que o Realismo e o Naturalismo tenham um mesmo pano de fundo histórico e social, é possível identificar
algumas diferenças entre essas duas escolas literárias.
O Realismo e o Naturalismo têm princípios comuns, muitos deles relacionados aos modos de utilizar a linguagem li-
terária. Por exemplo, a procura pela objetividade na escrita, a adoção de uma perspectiva materialista da existência em
contraposição ao idealismo, o controle emocional na conduta do narrador, o antropocentrismo como forma de se afas-
tar de determinadas crenças religiosas, o descritivismo como estratégia para situar o leitor dentro das cenas narradas.
Muitos teóricos da literatura entendem ser o Naturalismo uma ramificação do Realismo em que se aprofunda o
cientificismo. Contudo, apesar de tanto em comum, vários são os pontos que diferenciam o Realismo do Naturalismo.
Uma das características dos escritores realistas era a crença em que a escrita literária, ao descrever os problemas sociais,
tinha como objetivo reformar a própria sociedade.
Por meio dos personagens, os autores realistas, muitas vezes, faziam uma investigação da própria sociedade em
que estavam inseridos. Para isso, o narrador realista fazia uma descrição psicológica dos personagens, procurando
adentrar a consciência deles, revelando suas motivações e analisando seus valores. O objetivo era de que a leitura não
fosse um simples divertimento, mas, sim, que levasse o leitor a uma mudança de atitude. A literatura tinha o propósito
de envolver o leitor para que este tomasse consciência dos mecanismos de submissão do homem que estruturavam
a base da sociedade. A narrativa realista efetuava um trabalho de educação moral e intelectual, tornando o leitor um
agente de transformação social.
As narrativas naturalistas, por sua vez, espelhavam os avanços obtidos no campo do saber científico. O romance
naturalista era compreendido como um “laboratório” em que determinadas hipóteses passariam a ser testadas; os
personagens, tal qual cobaias, eram levados a vivenciar uma série de situações, de modo que desempenhassem
determinados papéis estabelecidos pelo autor. Ao leitor cabia observar o desenrolar das ações envolvendo os
personagens, esperando que a hipótese do escritor para aquela situação se confirmasse ou não.
Sua perspectiva biológica da existência humana considerava o ser humano em sua dimensão animal. Frequente-
mente, nos romances naturalistas, o comportamento dos personagens assemelha-se a características de animais, por
exemplo, por meio de respostas imediatas e irrefletidas. A intenção desses romances era fazer aflorarem as atitudes ins-
tintivas, desagradáveis e repulsivas, os desvios psicopatológicos que afastam os personagens de sua dimensão humana
para transformá-los em feras que, de algum modo, se viam em uma disputa pela sobrevivência social, característica que
evidenciava a influência do darwinismo.
Nessa perspectiva, o comportamento reflete as dificuldades que o ser humano não consegue superar e que reduz
qualquer pessoa a uma condição primitiva. Nesse sentido, o Naturalismo fundava-se em bases deterministas e mecâni-
cas, distantes das variações psicológicas atribuídas aos personagens em narrativas realistas e mais próximas das ideias
darwinianas da existência de uma he- Sugestão de atividades: questões de 1 a 4 da seção Hora de estudo.

rança natural comum compartilhada.

5 Orientação sobre a leitura


de textos literários.
Nesta obra, Van Gogh representa a
miséria e a desesperança de uma
faminta família de camponeses.
O cenário pobre e as pessoas
maltratadas revelam as mazelas
sociais do fim do século XIX, que é
um dos temas do naturalismo
VAN GOGH, Vincent. Os comedores
de batata. 1885. 1 óleo sobre tela,
82 cm × 114 cm. Museu Van Gogh,
Amsterdã.

36 Volume 7
Atividades

Leia o trecho do romance naturalista A normalista, do autor brasileiro Adolfo Caminha.

João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, há anos, no Trilho,
uma casinhola de porta e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas
que diariamente cruzavam defronte, e de onde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité. Era ama-
nuense, amigado, e gostava de jogar víspora em família aos domingos.
Nessa noite estavam reunidas as pessoas do costume. Ao centro da sala, em torno de uma mesa
coberta com um pano xadrez, à luz parca de um candeeiro de louça esfumado, em forma de abajur,
corriam os olhos sobre as velhas coleções desbotadas, enquanto uma voz fina de mulher flauteava arras-
tando as sílabas numa cadência morosa: — Vin...te e quatro!
Sessen...ta e nove!... Cinquen...ta e seis!...
Havia um silêncio morno e concentrado em que destacava o rolar abafado das pedras no saquinho
da baeta verde.
A sala era estreita, sem teto, chão de tijolo, com duas portas para o interior da casa, paredes escorri-
das pedindo uma caiação geral. À direita, defronte da janela, dormia um velho piano de aspecto pobre,
encimado por um espelho não menos gasto. O resto da mobília compunha-se de algumas cadeiras, um
sofá entre as duas portas do fundo, a mesa do centro, e uma espécie de console, colocada à esquerda,
onde pousavam dois jarros com flores artificiais.
De onde em onde zunia o falsete do amanuense:
— Quadra! Ou caçoava: — Os anos de Cristo!... Os óculos do Padre Eterno!
[...]
Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de fazenda parda sobre a camisa de meia,
costas para a rua.
À direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos, metida num casaco frouxo de rendas,
cabelo penteado em cocó, estampa insinuante, bons dentes: era a mulher do amanuense, que passava
por sua legítima esposa não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos
na vida privada de D. Terezinha. Contudo, era tida em conta de excelente dona de casa, honesta, dizen-
do-se relacionada com as principais famílias de Fortaleza.
Ninguém ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto, uma pilhéria calculada.
Inventava-se — calúnias do populacho — que se correspondia ocultamente com o presidente da
província. Ela, porém, gabava, batendo no peito com orgulho, que tinha uma vida limpa, graças a Deus;
que isso de patifarias não lhe entrava em casa, não, mas era o mesmo. Estava ali o Janjão que não a dei-
xava mentir.
Ao pé de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de João, uma rapariga muito nova,
com um belo arzinho de noviça, morena-clara, olhos cor de azeitonas, carnes rijas, e cuja atenção volvia-
-se insistentemente para o Zuza.
As outras pessoas eram também da intimidade: o Loureiro, guarda-livros da firma Carvalho & Cia.,
o Dr. Mendes, juiz municipal, mais a senhora, a Lídia Campelo, filha da viúva Campelo, e o estudante.
Às vezes ia mais gente e o víspora prolongava-se até meia-noite.
João da Mata era um sujeito esgrouvinhado, esguio e alto, carão magro de tísico, com uma cor he-
pática denunciando vícios de sangue, pouco cabelo, óculos escuros através dos quais boliam dois olhos

amanuense: escrevente, secretário. pilhéria: piada. esgrouvinhado: amarrotado.


víspora: bingo. presidente da província: governador. tísico: doente dos pulmões.

Literatura 37
miúdos e vesgos. Usava pera e bigode ralo caindo sobre os beiços, tesos como fios de arame; a testa
ampla confundia-se com a meia calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesti-
culando bruscamente, e, quando ria, punha em evidência a medonha dentuça postiça. Noutros tempos
fora mestre-escola no sertão da província, de onde se mudara para a capital por conveniências particula-
res. Era então simplesmente o professor Gadelha, o terror dos estudantes de gramática. O sertão foi-lhe
aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos, era preciso fazer pela vida noutro meio mais vasto
onde as suas qualidades, boas ou más, fossem aquilatadas com justiça. Estava perdendo-se, inutilizan-
do-se e fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário seboso e pernóstico e um delegado de polícia
ignorante: — “Não era um águia, um Abílio Borges, um Macedo... mas reconhecia que também não era
burro. Até podia fazer figura em Fortaleza.”
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000001.pdf>. Acesso em: 28 maio 2015.

a) Identifique, nesse trecho de texto naturalista, carac- c) De que modo a descrição de Maria do Carmo serve
terísticas do Realismo. de contraponto à figura de D. Terezinha?
São várias características: a descrição da cena é objetiva e A jovem é descrita como tendo um “belo arzinho de noviça”,

rica em detalhes; a linguagem é clara e direta; o narrador é ou seja, alguém pura, contrariamente à descrição ambígua

impessoal. de D. Terezinha.

d) Qual é a perspectiva que João da Mata tem de si?


b) Na cena narrada, aparece um questionamento em Ele se considera alguém com potencial, que estaria subapro-
relação à moral de uma das mulheres descritas. veitado no contexto em que vivia. Acreditava que as pessoas
ao redor de si seriam pouco merecedoras de seu convívio,
Quem é ela e o que é questionado? algumas por serem ignorantes e pernósticas.
Trata-se de D. Terezinha, mulher de João da Mata. Segundo

o texto, correriam boatos de que ela não era casada em e) Assinale a alternativa que melhor caracteriza o tre-
cho lido.
cartório com ele. Embora fosse considerada boa dona de
I. A cena descrita apresenta personagens comple-
casa, havia fofoca de que ela teria amantes, como o xos, descritos com base na racionalidade e que
escapam a julgamentos morais.
presidente da província.
X II. A cena descrita apresenta personagens estereo-
6 Sugestão de atividade. tipados dos quais são feitos julgamentos morais.

Acontecia
Naturalismo no Brasil
No Brasil, o Naturalismo foi desenvolvido paralelamente ao Realismo. Por isso, os escritores naturalistas partilharam
com os realistas os mesmos acontecimentos marcantes de sua época: passagem do Império para o sistema republi-
cano; influência de teorias interpretativas da realidade surgidas na Europa nos debates sobre as escolhas estéticas,
políticas e sociais brasileiras, com ênfase no evolucionismo e no determinismo; Guerra do Paraguai e seus desdobra-
mentos econômicos e sociais; abolição e suas consequências, em especial no que dizia respeito à inserção dos antigos
escravizados nas ordens social e econômica nacionais.

abemolado: doce, suave. pernóstico: petulante, pretensioso.

38 Volume
V l 7
De todos os acontecimentos citados, dois merecem destaque no que diz respeito à reflexão sobre a estética do
Naturalismo: a Proclamação da República e o fim da escravidão foram fatos de extrema importância no aparecimento
de temas raciais entre os intelectuais e artistas.
As discussões sobre o futuro da nação tiveram como importante elemento a questão das raças. Amparada em uma
interpretação equivocada do discurso científico que circulava naquele momento, em “estudos” supostamente objetivos
e criteriosos, uma ideologia de exclusão ou da desigualdade social pretendia provar que aspectos como a “indolência”
eram características “naturais” dos mestiços, assim como seria “natural” a “inferioridade” racial do negro e a “degene-
rescência” do mulato. Esses “estudos” transformaram-se em “argumentos” constantes no fim do século XIX para tentar
explicar o entrave que se constituía para o tão sonhado “progresso” da nação brasileira. Ou seja, difundiu-se a crença de
que, em uma terra em que mulatos, negros e pardos constituem a maioria da população, seria quase impossível um
desenvolvimento social que nos aproximasse do patamar das nações europeias.
A produção naturalista, como era de se esperar, foi permeada por essa ideologia. A representação da inferioridade
de parcelas da população, no contexto europeu, esteve associada às desigualdades econômicas e sociais geradas
pelo avanço do sistema capitalista; no Brasil, as questões raciais e da mestiçagem tornaram-se um traço diferencial do
Naturalismo.

Olhar literário
Prosa naturalista brasileira
Uma das obras naturalistas brasileiras que exemplificam as críticas sociais e as teses deterministas e evolucionistas
é O mulato, escrita por Aluísio Azevedo.
Além de obras naturalistas, Aluísio Azevedo escreveu algumas obras românticas, com qualidade estética desigual
e pouco significativas em comparação a outros escritores. No entanto, em sua produção naturalista, a abordagem das
condições de vida das camadas mais pobres que habitavam as periferias das cidades entre o fim do Segundo Império
e a Primeira República apresenta elementos importantes para a reflexão sobre a formação da sociedade brasileira.
Escrito em 1881, O mulato aborda o preconceito racial e a impossibilidade de realização amorosa entre um jovem
mulato e uma moça branca. Essa publicação causou uma forte reação contrária por parte da sociedade conservadora; o
posicionamento da Igreja, que no romance era representado pelo personagem Diogo, um padre hipócrita e racista, foi
imediato, a ponto de Aluísio Azevedo ser obrigado a sair do Maranhão, onde vivia, para tentar a vida no Rio de Janeiro.
Como ocorria no romance europeu naturalista, nos romances escritos no Brasil, o destino dos personagens era quase
sempre determinado pelo meio social em que viviam e pela hereditariedade. Nesse sentido, a influência do pensamento
determinista excluía a ideia de livre-arbítrio, ficando o indivíduo submetido a forças que estavam para além de seu con-
trole. Nessa perspectiva, o ser humano é um caso, um experimento, algo a ser cientificamente estudado. Dessa forma,
todo romance naturalista escrito no Brasil tinha como pano de fundo um problema moral. Acompanhando e tornando
o problema moral mais intenso, o autor procurava mostrar, nos comportamentos dos personagens, sérios desvios pa-
tológicos e chamar a atenção para suas ações repulsivas ou bestializadas.
Em O cortiço (1890), obra-prima de Aluísio Azevedo, a narrativa tem como foco a formação do proletariado na ci-
dade do Rio de Janeiro e a ocupação do espaço das margens da cidade em um sistema de moradia coletiva de caráter
precário, com miseráveis condições de saneamento e nenhum conforto, os chamados cortiços (casas cujos cômodos
são alugados para pessoas ou mesmo para famílias inteiras; não se trata das favelas, que surgiram em um período
posterior ao referido no romance).

Literatura 39
Nesse romance, várias histórias de vida se entrelaçam em uma mesma narrativa, compondo um painel múltiplo de
tipos sociais e personagens de diferentes origens e características (trabalhadores de baixa renda, lavadeiras, mascates,
policiais de baixa patente, negros e mulatos sem ocupação fixa, imigrantes pobres em busca de trabalho).
Como contraponto à degradação humana resultante da vivência em um ambiente decadente como era o do corti-
ço, o narrador conta a história de João Romão, português dono das casas diminutas e miseráveis em que vivam todas
essas pessoas. Explorando os pobres que vinham até aquele lugar a fim de se estabelecerem na Capital da República
por meio do emprego, João Romão ascende econômica e socialmente ao longo da narrativa, exemplificando a tese,
defendida pelo Naturalismo, segundo a qual os mais aptos (nesse caso, donos dos meios de produção e de renda,
como mostra o sistema capitalista) sobrevivem em meio à selva (social).
Sugestão de atividades: questões de 5 a 17 da seção Hora de estudo.

Atividades
Leia o trecho retirado do romance naturalista O cortiço, de Aluísio Azevedo.

Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de ma-
chos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria
da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre
as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam,
suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens,, es-
ses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário
metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com
força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as
palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam,
era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem
tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amar-
rando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao tra-
balho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos
fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todoss
os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas,,
mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Co--
meçavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se dis- s-
DKO Estúdio. 2015. Digital.

cussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não


ão
falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, a,
naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés
vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animalmal de
existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas,
f i fazendo
f d compras.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000003.pdf>.
Acesso em: 27 mar. 2015.

fossando: revolvendo com o focinho ou a tromba. ensarilhavam-se: envolviam-se em.


despachavam-se: faziam suas necessidades fisiológicas. resingas: picuinhas, manhas.

40 Volume 7
a) O cortiço é um romance determinista. No trecho, os personagens são descritos em sua individualidade humana ou
por meio de sua espécie? Justifique sua resposta com base no texto.
Os moradores do cortiço não são vistos em sua individualidade humana, mas como um aglomerado de machos e fêmeas que produz

ruídos animalescos: zum-zum.

b) Retome os termos utilizados para caracterizar os personagens em suas ações ao despertar. A que eles se remetem?
Remetem-se ao campo instintivo, animalesco: casco, pelo, ventas.

c) O cortiço é um romance de tese, ou seja, nele é trabalhada a ideia de que o meio influencia o ser humano e determina
o que ele é. De que modo a descrição dos personagens corrobora essa tese, considerando-se como são descritas suas
ações no penúltimo parágrafo?
Os moradores do cortiço são descritos como animais, e suas ações corroboram a tese de que, ao viver em um lugar promíscuo, em

que se compartilham latrinas e água para lavar-se, as pessoas agem de forma animalesca, ou seja, acabam por agir de forma

instintiva, brigando, sendo violentas, gritando, etc.

d) No parágrafo final, ao tratar dos personagens, o narrador utiliza o termo “formigas”. Simbolicamente, a que podem
ser associadas as formigas?
As formigas, não apenas pela fábula “A cigarra e as formigas”, mas também pelo fato de serem insetos organizados em colônias com

normas de convivência e armazenamento de alimentos, são associadas, simbolicamente, ao trabalho.

7 Orientações sobre a ideologia reforçada pelo Naturalismo.

Olhar literário
8 Orientações e gabarito.

Influências do Naturalismo na contemporaneidade


Muitos dos elementos presentes em determinada estética artístico-literária não se limitam a um período histórico.
Ao longo da história da literatura, vários foram os momentos em que aspectos da sensibilidade clássica, originária em
plena Antiguidade greco-romana, foram revistos em novas realidades, como foi o caso do Renascimento no século XVI
e do Neoclassicismo no século XVIII.
No Brasil contemporâneo, a presença da estética naturalista é uma das referências perceptíveis em filmes e em
textos literários. Isso se deve principalmente à tendência de uma parcela da arte contemporânea em explorar algumas
temáticas envolvendo marginalidade, decadência da vida social e violência. Alguns princípios do Naturalismo, em par-
ticular a recusa em considerar a razão como a única forma legítima de entendimento da realidade e a busca por uma
linguagem apegada aos apelos dos sentidos (como cheiros, gostos e cores), reaparecem como alternativas estéticas
que pretendem transportar o leitor, espectador ou ouvinte a dimensões novas do mundo que se encontra a seu redor.
Na sequência, tem-se o fragmento de um livro que dialoga diretamente com a estética naturalista, em particular
com o romance O cortiço. Composto de vários flashes, takes ou de estilhaços de histórias, essa narrativa compõe um
painel da vida urbana que permite ao leitor estabelecer uma ligação quase direta com problemas sociais que marcam
a formação do Brasil.

Literatura 41
9. Ratos
Um rato, de pé sobre as patinhas traseiras, rilha uma casquinha de pão, observando os companheiros
que se espalham nervosos por sobre a imundície, como personagens de um videogame. Outro, mais
ousado, experimenta mastigar um pedaço de pano emplastrado de cocô mole, ainda fresco, e, desaza-
do, arranha algo macio e quente, que imediatamente se mexe, assustando-o. No após, refeito, aferra os
dentinhos na carne tenra, guincha. Excitado, o bando achega-se, em convulsões.
O corpinho débil, mumificado em trapos fétidos, denuncia o incômodo, o músculo da perna se
contrai, o pulmão arma-se para o berreiro, expele um choramingo entretanto, um balbucio de lábios ma-
goados, em breve espasmo. A claridade envergonhada da manhã penetra desajeitada pelo teto de folhas
de zinco esburacadas, pelos rombos nas paredes de placas de outdoors. Mas, é noturno ainda o barraco.
A chupeta suja, de bico rasgado, que o bebê mordiscava, escapuliu rolando por sob a irmãzinha de
três anos, que, a seu lado, suga o polegar com a insaciedade de quando mamava nos seios da mãe. O
peitinho chiou o sono inteiro e ela tossiu e chorou, porque o cobertor fino, muxibento, que ganharam
dos crentes, o irmãozinho de seis anos enrolou-se nele.
O colchão de mola de casal onde se aninham sobreveio numa tarde úmida, manchas escuras dese-
nhando o pano rasgado, locas vomitando pó, aboletado no teto de uma kombi de carreto, vencendo
toda a Estrada de Itapecerica, em-desde a Vila Andrade até o Jardim Irene, quando viviam com o Birô-
la, homem bom, ele. Uma vez levou a meninada no circo, palhaços, cachorro ensinando roupinha de
balé, macaco de velocípede, domador chicoteando leão desdentado em-dentro da jaula, cavalos destros,
trapezista, equilibrista, pipoca, engolidor de espadas, maçã do amor, moças de maiô, algodão-doce,
serrador de gente, pirulito, sorvete de palito. Aí começou a abusar da mais velha, agora de-maior, mas
na época treze anos. Enfezada, despejou álcool nas partes, riscou cabeça de fósforo, o fogo ardeu a vizi-
nhança, salvou os filhos, mas o tal, aquele, em sonhos de crack torrou, carvão indigente.
Dele herdou o menino, oito anos, seu escarro, hominho. Ano passado, ou em-antes, ignora, estourou
a coceira, as costas, a barriga, as pernas, uma ferida só, coitado. Internado, as enfermeiras nem um pio
ouviram, reclamaçãozinha alguma, uma graça. Levou bronca do doutor. Absurdo, falou, Irresponsável,
berrou, disse para a mulher assistente-social acompanhar, Sarna, ela nem as caras deu.
Pensam, é fácil, mas forças não tem mais, embora seus trinta e cinco anos, boca desbanguelada, os
ossos estufados os olhos, a pele ruça, arquipélago de pequenas úlceras, a cabeça zoeirenta. E lêndeas
explodem nos pixains encipoados das crianças e ratazanas procriam no estômago do barraco e perce-
vejos e pulgas entrelaçam-se aos fiapos dos cobertores e baratas
guerreiam nas gretas. Já pediu-implorou para a de tre-
ze ajudar, mas, rueira, some, dias e noites. Viu ela
certa vez carro em carro filando trocado num farol
da Avenida Francisco Morato. Quando o frio
aperta, aparece.

Marcelo Bittencourt. 2015. Nanquim e aquarela.

rilha: rói. aferra: morde. ruça: grisalha.


emplastrado: melado. insaciedade: insatisfação. encipoados: entrelaçados.
desazado: inoportuno. aboletado: aninhado. gretas: fendas; rachaduras.

42 Volume
V l 7
A de onze, ajuizada, cria os menorzinhos: carrega eles para comer a sopa dos pobres, leva eles para
tomar banho na igreja dos crentes, troca a roupa deles, toma conta direitinho, a danisca. E faz eles dor-
mirem, contando invencionices, coisas havidas e acontecidas, situações entrefaladas no aqui e ali. Faz
gosto: no breu, a vozinha dela, encarrapichada no ursinho de pelúcia que naufragava na enxurrada,
encaverna-se sonâmbula ouvido adentro, inoculando sonhos até mesmo na mãe, que geme baixinho
num canto, o branco dos olhos arreganhado sob o vai-vém de um corpo magro e tatuado, mais um
nunca antes visto.
RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. São Paulo: Boitempo, 2002. p. 20-22.

. Digital.
ein. 2015
Daniel Kl
Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. Antes de ser escritor, tra-
balhou em diversas atividades. Estudou Comunicação na Universidade de Juiz de Fora.
Trabalhou como jornalista no Jornal da Tarde, em São Paulo. Desde 2003, dedica-se
exclusivamente à literatura.

1. Escreva, com suas palavras, do que trata o texto lido. 3. Que aspecto presente no texto de Ruffato se assemelha
à prosa naturalista do século XIX?
Pessoal. Espera-se que os alunos notem que o texto descreve
Um dos aspectos que a prosa naturalista do século XIX tem em
uma cena que ocorre em uma moradia muito pobre, na qual
comum com esse texto de Ruffato é a exploração do universo
crianças disputam espaço com ratos e insetos. Dessa cena, o
de miséria a que alguns seres humanos estão submetidos e de
narrador comenta acontecimentos relacionados a jovens e
como a vivência nesse universo afeta a vida dessas pessoas.
adultos que frequentam esse lugar miserável.
No capítulo lido, o humano é rebaixado à condição animal.

4. O Naturalismo foi uma estética que se colocava con-


2. Observe como o texto é composto. Destaque duas ca- tra a idealização romântica da realidade, muitas vezes
racterísticas de estilo que marcam essa narrativa. chegando a extremos para denunciar a exploração hu-
mana. Observe a imagem e responda: Para você, os
Pessoal. Várias características de estilo podem ser mencionadas: pressupostos dessa estética ainda estão em sintonia
com os problemas sociais contemporâneos? Justifique
uso de uma linguagem próxima da fala; vocabulário típico da
sua resposta. LatinStock/Corbis/Godong/Philippe Lissac

fala das camadas mais humildes da população; trechos

entrecortados em que os assuntos/cenas se misturam sem

necessariamente serem concluídos; fragmentariedade da

narração, etc.

Sugestão de atividades: questões de 18 a 21 da seção Hora de estudo.


danisca: danada. breu: escuridão. encaverna-se: esconde-se.
entrefaladas: ditas para si mesmo. encarrapichada: desembaraçada. inoculando: ingerindo.

Literatura 43
Organize as ideias
9 Orientações para a atividade.

A proposta de sistematização dos conhecimentos construídos e das habilidades desenvolvidas nesta unidade é
a elaboração de um glossário de termos teórico-literários, partindo dos conceitos discutidos sobre o Naturalismo.
Um glossário pode ser uma lista de termos organizados em sequência alfabética que apresenta itens relacionados a
um campo do conhecimento humano. Pode ser também algo mais próximo a um dicionário, porém sem apresentar si-
nônimos das palavras (como é comum nos dicionários básicos), mas, sim, definições conceituais dos termos elencados.
A fim de evitar confusões desnecessárias, algumas normas deverão ser seguidas para a composição de seu glossá-
rio. São elas:
• Você pode considerá-lo um glossário de definições; isso quer dizer que não se trata de buscar uma ou duas
palavras que possam ser consideradas sinônimos de algum termo selecionado: você deve definir o termo, ex-
plicando-o em um pequeno parágrafo.
• Para que o resultado seja um glossário que efetivamente o ajude a sistematizar conhecimentos, ele deve apre-
sentar uma quantidade bastante razoável de termos listados. Portanto, procure coletar, relendo com atenção
esta unidade, o maior número possível de palavras, conceitos, ideias, noções que possam fazer parte de seu
glossário.
• No momento de ordená-los, opte pela ordem alfabética, pois assim fica mais fácil localizar os termos quando
for utilizá-lo para consulta.
• Alguns glossários têm textos não verbais desempenhando a função de ilustração ou mesmo de auxílio na
conceituação de alguns termos; caso seja possível, acrescente imagens variadas para enriquecer seu material
(pinturas, esculturas, mapas, retratos, fotografias, etc.).
• Os glossários permitem a inclusão de citações: trechos de textos literários, fragmentos de textos históricos,
pequenos textos filosóficos, etc.
• A qualidade de seu glossário pode ser medida não apenas pela quantidade (completude) de termos listados,
mas também pela qualidade das explicações sobre cada termo; seja atencioso no que diz respeito à clareza
de seu texto explicativo, assim como à seleção vocabular que fará; definir um conceito é uma atividade bastante
complexa e vai requerer muito de sua atenção.
• Faça uma primeira versão de seu glossário e peça a um colega que faça uma leitura; peça a ele que comente o
que achou de modo geral, se as definições estão claras, se há conceitos que deveriam ter sido relacionados, etc.

44 Volume 7
Hora de estudo
A resolução das questões discursivas desta seção deve ser 10 Gabaritos.
feita no caderno.
1. Assinale V para verdadeiro e F para falso. d) pelo culto à forma.
O Naturalismo foi um movimento literário que propunha e) pela alienação em relação aos problemas sociais
enfrentados pela parcela explorada da população.
( F ) um retorno para o passado.
Texto para as questões 5 e 6.
( F ) uma abordagem idealizada da realidade burguesa.
( F ) uma observação superficial da realidade social. E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe
toda a alma pelos olhos enamorados.
( V ) a objetividade na descrição da realidade humana.
Naquela mulata estava o grande mistério, a
( F ) uma visão moralista da conduta individual. síntese das impressões que ele recebeu chegan-
2. A respeito do Naturalismo, pode-se afirmar: do aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela
era o calor vermelho das sestas da fazenda; era
I. procura retratar a dimensão sombria da existência
o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que
humana.
o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira
II. defende a impessoalidade do autor perante a obra. virginal e esquiva que se não torce a nenhuma
III. é uma estética que ocorreu somente no Brasil. outra planta; era o veneno e era o açúcar gos-
toso; era o sapoti mais doce que o mel e era a
a) Todas estão corretas.
castanha do caju, que abre feridas com o seu
X b) Somente a II está correta. azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoei-
c) A I e a III estão corretas. ra, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que es-
voaçava havia muito tempo em torno do corpo
d) A II e a III estão corretas.
dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe
e) Somente a III está correta. as fibras embambecidas pela saudade da terra,
3. Leia as afirmações e reescreva aquela que apresentar picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro
erro, corrigindo-a. do sangue uma centelha daquele amor seten-
trional, uma nota daquela música feita de ge-
• O Naturalismo pode ser caracterizado pelo diálogo
midos de prazer, uma larva daquela nuvem de
estreito com algumas correntes do pensamento
cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baia-
científico-filosófico desencadeadas no século XIX,
especialmente o darwinismo e o determinismo. na e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência
afrodisíaca.
• A subjetividade, uma das marcas da escrita literária
romântica, é negada pelo Naturalismo, que, assim Aluísio Azevedo, O cortiço.

como o Realismo, buscava uma expressão estética 5. (FUVEST – SP) O efeito expressivo do texto – bem como
mais próxima da “vida como ela é”. seu pertencimento ao Naturalismo em literatura – ba-
• É possível estabelecer uma continuidade entre o seia-se amplamente no procedimento de explorar de
Romantismo Histórico e o Naturalismo, pois ambos modo intensivo aspectos biológicos da natureza. Entre
procuram se basear em achados científicos para esses procedimentos empregados no texto, só NÃO se
construir suas narrativas. encontra a
4. Do ponto de vista estético, o Naturalismo é caracterizado a) representação do homem como ser vivo em intera-
ção constante com o ambiente.
a) pelo exagero da imaginação.
b) exploração exaustiva dos receptores sensoriais
X b) pelo objetivismo.
humanos (audição, visão, olfação, gustação), bem
c) pela preocupação com a retomada da tradição clássica. como dos receptores mecânicos.

Literatura 45
c) figuração variada tanto de plantas quanto de ani- c) Machado de Assis publica Memórias póstumas de
mais, inclusive observados em sua interação. Brás Cubas.
d) ênfase em processos naturais ligados à reprodução d) José de Alencar publica O guarani.
humana e à metamorfose em animais.
e) Nenhuma das anteriores.
X e) focalização dos processos de seleção natural como
9. (UEL – PR)
principal força direcionadora do processo evolutivo.
6. (FUVEST – SP) Em que pese a oposição programática Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio,
do Naturalismo ao Romantismo, verifica-se no excerto como estava, de ódio e desespero. Ecoavam-
– e na obra a que pertence – a presença de uma linha -lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre,
de continuidade entre o movimento romântico e a cor- aquelas palavras de uma veracidade brutal, e
rente naturalista brasileira, a saber, a de uma rudez pungente: “Dizem até que está
amigado!”
a) exaltação patriótica da mistura de raças.
Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era
X b) necessidade de autodefinição nacional. todo seu, que lhe pertencia como o seu próprio
c) aversão ao cientificismo. coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres,
que dantes era tão ingênuo, tão dedicado, tão
d) recusa dos modelos literários estrangeiros.
bom!... Amigar-se, viver com uma mulher, sentir
e) idealização das relações amorosas. o contacto de outro corpo que não o seu, deixar-
7. (UFRGS – RS) No bloco superior abaixo, estão lista- -se beijar, morder, nas ânsias do gozo, por outra
dos dois nomes de personagens da obra O cortiço, de pessoa que não ele, Bom-Crioulo!...
Aluísio Azevedo; no inferior, descrições dessas perso- Agora é que tinha um desejo enorme, uma
nagens. sofreguidão louca de vê-lo, rendido, a seus pés,
Associe adequadamente o bloco inferior ao superior. como um animalzinho; agora é que lhe renas-
ciam ímpetos vorazes de novilho solto, incon-
1. Pombinha gruências de macho em cio, nostalgias de liber-
2. Rita Baiana tino fogoso... As palavras de Herculano (aquela
( 1 ) É loura, pálida, com modos de menina de boa história do grumete com uma rapariga) tinham-
família. -lhe despertado o sangue, fora como uma es-
pécie de urtiga brava arranhando-lhe a pele,
( 1 ) Casa-se, a fim de ascender socialmente. excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora
( 2 ) Possui farto cabelo, crespo e reluzente. sim, fazia questão! E não era somente questão
( 2 ) Mantém personalidade inalterada ao longo do de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora,
romance. lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: –
era questão de gozá-lo, maltratando-o, vendo-o
( 1 ) Descobre, a certa altura do romance, sua plenitude sofrer, ouvindo-o gemer... Não, não era somen-
na prostituição.
te o gozo comum, a sensação ordinária, o que
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, ele queria depois das palavras de Herculano:
de cima para baixo, é era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as
a) 2 – 1 – 1 – 2 – 1. X d) 1 – 1 – 2 – 2 – 1. leis, de todas as normas... E havia de tê-lo, cus-
tasse o que custasse!
b) 1 – 2 – 2 – 1 – 2. e) 2 – 2 – 1 – 2 – 1.
Decididamente ia realizar o seu plano de fuga
c) 1 – 1 – 2 – 1 – 2. essa noite, ia desertar pelo mundo à procura de
8. Considera-se o início do movimento naturalista no Bra- Aleixo.
sil quando Inquieto, sobre-excitado, nervoso, pôs-se a
meditar. O grumete aparecia-lhe com uma feição
X a) Aluísio Azevedo publica O cortiço.
nova, transfigurado pelos excessos do amor, de-
b) Júlio Ribeiro publica A carne. generado, sem aquele arzinho bisonho que todos

46 Volume 7
lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de espi- furto (...) como forma de ganho e a transformação
nhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios... da mulher escrava em companheira máquina.
Pudera! Um homem não resiste, quanto mais (...) Aluísio foi, salvo erro meu, o primeiro
uma criança! Aleixo devia de estar muito acaba- dos nossos romancistas a descrever minuciosa-
do; via-o nos braços da amante, da tal rapariga mente o mecanismo de formação da riqueza in-
– ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos dividual. (...) N’ O Cortiço [o dinheiro] se torna
–, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado implicitamente objeto central da narrativa, cujo
à mulher, sobre uma cama fresca e alva – rolar e
ritmo acaba se ajustando ao ritmo da sua acumu-
cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza...
lação, tomada pela primeira vez no Brasil como
Depois a rapariga debruçava-se sobre ele, jun-
eixo da composição ficcional.
tava boca à boca num grande beijo de reconhe-
cimento. E no dia seguinte, na noite seguinte, a (Antonio Candido, De cortiço a cortiço. In: O discurso e a cidade.
São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 129-3.)
mesma cousa.
*amealhar: acumular (riqueza), juntar (dinheiro) aos poucos
(CAMINHA, Adolfo. Bom-Crioulo. São Paulo: Ediouro, s/d.
p. 73-74.) a) Explique a que se referem o rigoroso ascetismo ini-
Sobre o trecho do capítulo XI de Bom-Crioulo (Texto) e cial da personagem em questão e as modalidades
sua relação com o todo do romance, assinale a alter- diretas e brutais de exploração que ela emprega.
nativa correta. b) Identifique a “mulher escrava” e o modo como se dá
a) O encontro com Herculano ocorreu na rua, de forma sua transformação “em companheira máquina”.
casual, quando Amaro caminhava transtornado à
procura de Aleixo. 11. (PUCRS) Contemporâneo de Aluísio de Azevedo, Ma-
chado de Assis consagrou-se pelo caráter genuíno de
b) O encontro com Herculano aconteceu no navio onde
sua obra, sobre a qual se afirma:
Amaro estava trabalhando e para o qual Herculano
foi enviado a pedido de Aleixo. ( V ) A expressiva produção do autor inclui uma primei-
c) As palavras de Herculano despertam em Amaro ra fase, a que estão vinculadas obras como Helena
uma raiva incontida porque o amante traído se re- e Iaiá Garcia.
cusava a compreender que, além do caso com D. ( V ) Um traço marcante no discurso do narrador de
Carolina, Aleixo estivesse envolvido também com Dom Casmurro é a presença de incoerências na
uma rapariga.
avaliação do seu passado.
d) As palavras de Herculano acenderam o furor de
( F ) Os contos de Machado de Assis diferenciam-se dos
Amaro porque até aquele momento o marinheiro re-
freara seus instintos e desejos, respeitando Aleixo e romances não apenas pelo ritmo das narrativas,
abdicando do ato sexual com ele. mas principalmente pelas temáticas abordadas.

X e) As palavras de Herculano provocaram a indignação ( V ) A ação em Quincas Borba desenvolve-se em


de Amaro, embora o bilhete sem resposta já lhe ti- Barbacena e no Rio de Janeiro, sendo este último
vesse incutido na imaginação a possibilidade de que o local de todo o infortúnio da personagem Rubião.
o grumete estivesse amigado com outro homem. ( F ) O narrador de Memórias póstumas de Brás Cubas,
10. (UNICAMP – SP) Leia o seguinte comentário a respeito de início, explica em detalhes ao leitor o processo
de O cortiço, de Aluísio Azevedo: de narração além-túmulo.

Com efeito, o que há n’ O Cortiço são formas A sequência correta de preenchimento dos parênteses,
primitivas de amealhamento*, a partir de muito de cima para baixo, é:
pouco ou quase nada, exigindo uma espécie de a) F – F – V – F – F d) V – F – V – F – V
rigoroso ascetismo inicial e a aceitação de modali-
b) F – V – F – F – V e) V – F – V – V – F
dades diretas e brutais de exploração, incluindo o
X c) V–V–F–V–F

Literatura 47
12. (UFPEL – RS) Na obra-prima de Aluísio Azevedo, O cortiço,
alourado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos
a) podem-se perceber as características básicas da e afogados em tanto sol e em tanto perfume como
prosa romântica: narrativa passional, tipos humanos o deste inferno, onde em cada folha que se pisa
idealizados, disputa entre o interesse material e os há debaixo um réptil venenoso, como em cada
sentimentos mais nobres. flor que desabotoa e em cada moscardo que adeja
b) transporta-se o leitor ao doloroso universo dos há um vírus de lascívia. Lá, nos saudosos campos
miseráveis e oprimidos migrantes que, fugindo da da sua terra, não se ouvia em noites de lua cla-
seca, se abrigam em acomodações coletivas. ra roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã
ao romper do dia, rilhava o bando truculento das
X c) consagra-se, na literatura brasileira, a prosa natu-
queixadas, lá não varava pelas florestas a anta feia
ralista, marcada tanto pela associação direta entre
meio e personagens quanto pelo estilo agressivo. e terrível, quebrando árvores; lá a sucuruju não
chocalhava a sua campainha fúnebre, anunciando
d) vê-se renascer uma prosa forte, de cunho regio- a morte, nem a coral esperava traidora o viajante
nalista, característico da década de 30, que retrata
descuidado para lhe dar o bote certeiro e decisivo;
nossas mazelas, em estilo seco.
lá4 o seu homem não seria anavalhado pelo ciúme
e) verifica-se uma forte relação entre o meio em que de um capoeira; lá5 Jerônimo seria ainda o mesmo
vivem os personagens e sua vida pessoal, relação esposo casto, silencioso e meigo; seria o mesmo
essa baseada no sentimentalismo romântico. lavrador triste e contemplativo como o gado que
13. (PUCPR) Assinale a alternativa que contém a afirmação à tarde levanta para o céu de opala o seu olhar
correta sobre o Naturalismo no Brasil. humilde, compungido e bíblico.

a) O Naturalismo usou elementos da natureza selva-


gem do Brasil do século XIX para defender teses I. A diferença entre a velha e a nova terra é marcada
sobre os defeitos da cultura primitiva. pela força da natureza que transforma a vida e o
comportamento do homem.
b) A valorização da natureza rude verificada nos poetas
árcades se prolonga na visão naturalista do século II. Expressões como “cansada”, “enferma”, “frios e
XIX, que toma a natureza decadente dos cortiços melancólicos”, nas referências 1, 2 e 3 respecti-
para provar os malefícios da mestiçagem. vamente, assumem uma conotação positiva para a
mulher de Jerônimo, ao definirem o espaço da feli-
c) O Naturalismo no Brasil esteve sempre ligado à beleza
cidade perdida na velha terra.
das paisagens das cidades e do interior do Brasil.
III. As ações dos animais, pintadas com os tons fortes
X d) O Naturalismo, por seus princípios científicos, consi-
do Naturalismo, narram os perigos que Jerônimo e
derava as narrativas literárias exemplos de demons-
sua mulher vivem na selva.
tração de teses e ideias sobre a sociedade e o homem.
IV. A expressão “lá”, nas referências 4 e 5, indica o es-
e) O Naturalismo do século XIX no Brasil difundiu na
paço das virtudes do marido, da paz doméstica e de
literatura uma linguagem científica e hermética,
uma vida simples e tranquila.
fazendo com que os textos literários fossem lidos
apenas por intelectuais. Pela análise das afirmativas, conclui-se que estão cor-
retas apenas
14. (PUCRS) Para responder à questão, leia o fragmento do
romance O cortiço, de Aluísio Azevedo e as afirmativas a) I e III. X d) I, II e IV.
que seguem. b) II e III. e) II, III e IV.
E maldizia soluçando a hora em que saíra da c) III e IV.
sua terra; essa boa terra cansada1, velha como 15. (UFRJ) O DESPERTAR DO CORTIÇO
que enferma2; essa boa terra tranquila, sem so-
bressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-
campos eram frios e melancólicos3, de um verde -zum crescente, uma aglomeração tumultuosa

48 Volume 7
17. (ITA – SP) Acerca do romance O cortiço, de Aluísio Aze-
de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam
vedo, NÃO é correto dizer que
a cara, incomodamente, debaixo do fio de água
que escorria da altura de uns cinco palmos. O X a) todas as personagens, por serem muito pobres, en-
chão inundava-se. As mulheres precisavam já veredam pelo mundo do crime ou da prostituição.
prender as saias entre as coxas para não as mo- b) as personagens, ainda que todas sejam pobres,
lhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do possuem temperamentos distintos, tais como Ber-
pescoço, que elas despiam, suspendendo o ca- toleza, Rita Baiana e Pombinha.
belo todo para o alto do casco; os homens, esses
c) homens e mulheres são, na sua maioria, vítimas
não se preocupavam em não molhar o pelo, ao
de uma situação de pobreza que os desumaniza
contrário metiam a cabeça bem debaixo da água
muito.
e esfregavam com força as ventas e as barbas, fos-
sando e fungando contra as palmas das mãos. As d) as personagens, na sua maioria, sejam homens
portas das latrinas não descansavam...” ou mulheres, vivem quase que exclusivamente em
função dos impulsos do desejo e da perversidade
(AZEVEDO, Aluísio de. O Cortiço, São Paulo: Martins, 1968, p. 43.) sexual.
São características desse texto, consideradas típicas e) a vida difícil das personagens, tão ligadas à cri-
do Naturalismo, entre outras, minalidade e à prostituição, é condicionada pelo
meio adverso em que vivem e por problemas bio-
a) o idealismo, o comportamento determinista. patológicos.
b) a ênfase no aspecto material da vida, o comporta- 18. Alguns filmes nacionais, tais como Cidade de Deus ou
mento sofisticado. Última parada 174, apresentam uma relação com mui-
X c) as comparações dos seres humanos com animais, a tos dos aspectos do Naturalismo. Qual das afirmações
promiscuidade. a seguir melhor evidencia essa proximidade? Justifique
sua escolha.
d) a representação objetiva da vida, o endeusamento
do ser humano. ( ) O que aproxima a estética Naturalista do século
e) a fuga à realidade, o positivismo exacerbado. XIX com as produções contemporâneas indicadas
é a temática da violência em espaços marginaliza-
16. (ESPM – SP) Dos segmentos a seguir, extraídos de O dos da cidade.
cortiço de Aluísio Azevedo, marque o que não traduza
exemplo de zoomorfismo: ( ) A abordagem da miséria humana presente nos
dois filmes é desenvolvida a partir de uma visão
X a) Zulmira tinha então doze para treze anos e era o tipo determinista da realidade, isto é, desde o início dos
acabado de fluminense; pálida, magrinha, com pe- filmes o espectador “sabe” que a violência será um
queninas manchas roxas nas mucosas do nariz, das fator decisivo na vida dos personagens, algo inevi-
pálpebras e dos lábios, faces levemente pintalgadas tável, tal qual um destino previamente escrito.
de sardas. 19. (UNIFESP) Para responder às questões, leia o trecho de
b) Leandra... a Machona, portuguesa feroz, berrado- O cortiço, de Aluísio Azevedo.
ra, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do Jerônimo bebeu um bom trago de parati, mu-
campo. dou de roupa e deitou-se na cama de Rita.
c) Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum — Vem pra cá... disse, um pouco rouco.
crescente; uma aglomeração tumultuosa de ma- — Espera! espera! O café está quase pronto!
chos e fêmeas. E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena
d) E naquela terra encharcada e fumegante, naquela fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a
umidade quente e lodosa começou a minhocar,... e mensageira dos seus amores (...)
multiplicar-se como larvas no esterco. Depois, atirou fora a saia e, só de camisa,
lançou-se contra o seu amado, num frenesi de
e) Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato desejo doído.
pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito...

Literatura 49
b) Nunca se deve fazer pouco dos conhecimentos de
Jerônimo, ao senti-la inteira nos seus braços; uma autoridade, por mais boçal que ela se apresen-
ao sentir na sua pele a carne quente daquela bra- te. Ainda mais se for do interior. Aí podemos entrar
sileira; ao sentir inundar-se o rosto e as espáduas, por um cano que não acaba mais.
num eflúvio de baunilha e cumaru, a onda negra
e fria da cabeleira da mulata; ao sentir esmaga- X c) Mas, nesse instante, o senhor Justino, o adminis-
rem-se no seu largo e peludo colo de cavouquei- trador, sem poder mais suportar as cãibras que lhe
ro os dois globos túmidos e macios, e nas suas dava a posição forçada por ele mantida, conseguiu
coxas as coxas dela; sua alma derreteu-se, fer- levantar-se, para chegar até junto da parede, onde
vendo e borbulhando como um metal ao fogo, tentou apoiar-se.
e saiu-lhe pela boca, pelos olhos, por todos os d) O mesmo vulto etéreo que se erguera diante de mim
poros do corpo, escandescente, em brasa, quei- na noite precedente sobre os degraus do Palácio ali
mando-lhe as próprias carnes e arrancando-lhe permanecia à minha frente, com sua caprichosa
gemidos surdos, soluços irreprimíveis, que lhe sombra de melancolia.
sacudiam os membros, fibra por fibra, numa
e) Ao restituir poder denotativo ou intensificador a
agonia extrema, sobrenatural, uma agonia de an-
provérbios esvaziados de sentido, esse escritor, pro-
jos violentados por diabos, entre a vermelhidão fundo conhecedor de várias línguas, parece ter-se
cruenta das labaredas do inferno. deixado influenciar por idiomas como o alemão ou
O enlace amoroso, seja na perspectiva de Rita, seja na o russo, em que os sufixos de derivação conservam
de Jerônimo, vigorosa atuação.
a) é sublimado, o que lhe confere caráter grotesco na 21. Leia um trecho do texto que se encontra na orelha do
obra. livro Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato:
X b) é desejado com intensidade e lhes aguça os ânimos. A leitura de Eles eram muitos cavalos é puro
espanto. Um desassossego! Vertigens, calafrios,
c) reproduz certo incômodo pelo tom de ritual que impõe.
empalidecimentos, rodamoinhos. Encontro per-
d) representa-lhes o pecado e a degradação como manente só com inesperados. As narrativas sem
pessoa. fim, a montagem cinematográfica do amargor
e) é de sensualidade suave, pela não explicitação do urbano, o ritmo alucinante e imperativo, a ou-
ato. sadia da diagramação, os neologismos, o bem
20. (PUC-Campinas – SP) escrever. Visceral!
A razão mais profunda do Naturalismo foi a ABRAMOVICH, Fanny. In: RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos
cavalos. São Paulo: Boitempo, 2002.
experiência política da geração de 1848: o fracas-
so da revolução, a repressão, a ascensão de Luís a) Para você, essa é uma boa descrição dos efeitos
Napoleão – uma torva experiência que obrigou que pode provocar o trecho do livro de Ruffato lido
os escritores a uma concentração nos fatos, a um nesta unidade (se necessário, releia o trecho do ca-
enfrentamento com a realidade, à mais rigorosa pítulo “Ratos”)? Justifique suas colocações.
objetividade, no plano artístico, e, no plano éti-
b) Os elementos enfatizados pela leitura de Fanny
co, à solidariedade social e ao ativismo político.
Abramovich se aproximam de aspectos relaciona-
(Franklin de Oliveira. "Literatura e Civilização". Rio de Janeiro: dos à estética naturalista?
Difel/INL, 1978, p. 74)
c) Retome a leitura dos trechos de Germinal e de O
É exemplo do plano artístico caracterizado no contexto
cortiço que se encontram ao longo desta unidade.
desse trecho o que se lê em:
Escolha um deles e escreva dois parágrafos que, da
a) Eles olhavam um para o outro como os passarinhos mesma forma que o parágrafo de Fanny Abramovich,
ouvidos de repente a cantar, as árvores pé ante pé, tenham a função de apresentar os efeitos que a lei-
as nuvens desconcertadas: como do assoprado das tura do trecho do romance escolhido provoca em seu
cinzas a espendição das brasas. leitor.

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