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Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

O CÍRCULO DE CULTURA: OPÇAO TEÓRICO-METODOLÓGICA NA EDUCAÇÃO

Margarita Victoria Gomez


Mestrado em Educação (Universidade Nove de Julho, SP)

Resumo: O presente trabalho, decorrente de pesquisas realizadas no Programa de Pós-


Graduação em Educação da Universidade Nove de Julho de São Paulo, apresenta
experiências e noções do Círculo de Cultura como lugar e estratégia de pesquisa,
aprendizagem, formação e intervenção na educação universitária. Em um país tão afeito
aos formalismos e às teorizações emprestadas, no dizer do sociólogo e crítico literário
brasileiro Antônio Candido (2000), pensar e utilizar, na formação docente, o Círculo de
Cultura, proposto por Paulo Freire, implica em reinventá-lo ao repensar os métodos de
ensino importados de outras culturas acadêmicas, e as metodologias usuais na relação
entre escola, formação e sociedade. São apresentadas três experiências com o Círculo de
Cultura e o Círculo epistemológico, realizadas com professores e alunos da educação
básica. A opção pelo Círculo de Cultura é coerente com o tema geral do ENDIPE 2014
e com o pensamento pedagógico latino-americano, que busca inventar e reinventar-nos
como professores ao produzir as próprias estratégias didáticas e não simplesmente
copiar métodos. No contexto da pesquisa-ação, o Círculo de Cultura tem contribuído
nas investigações de formação presencial e virtual, dando densidade às reflexões dos
professores.

Palavras-chave: Círculo de Cultura; Práticas educacionais; Formação de professores

APRESENTAÇÃO
“O quintal da minha infâ ncia vai-se desdobrando em outros tantos
espaços, nã o necessariamente outros ‘quintais’ ." (Paulo Freire)

Para um país tão afeito aos formalismos e teorizações emprestadas, como


considera o sociólogo e crítico literário brasileiro Antônio Candido (2000), parece
coerente importar métodos de ensino, deixando de lado as contribuições de pensadores e
educadores brasileiros, como as de Paulo Freire (Pernambuco, 1921- São Paulo, 1997).
Na trajetória de Freire estão traçados os princípios da educação popular que
fazem dele o patrono da educação brasileira. Na sua proposta pedagógica, a
aprendizagem dialógica ocorre quando em seu processo se empenham: o sujeito da
práxis, as estratégias dialógicas, a relação texto-contexto e a educação como ato
cognitivo e político. O Círculo de Cultura se desenvolveu na trajetória de Freire, na
década dos anos 1960. Foi decorrente do processo de alfabetização de adultos, iniciado
no nordeste brasileiro, uma das regiões mais pobres do país. O Movimento de Cultura
Popular (MCP) foi fundamental para essa experiência de alfabetização.

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O círculo , do latim circulus é circus e significa "redondeza", é retomado aqui


para indicar a forma do espaço e a estratégia utilizada que permite a circulação dos
seres, dos saberes e dos sentires das pessoas. “Os Círculos de Cultura são precisamente
isso: centros em que o povo discute os seus problemas, mas também em que se
organizam e planificam ações concretas, de interesse coletivo.” (FREIRE, 1980, p. 28)
Por sermos sujeitos em relação ao mundo material e imaterial, por sermos
inacabados, estamos em busca permanente de nós mesmos e dos outros para fazer
possível a educação como possibilidade, que é um dos legados de Freire. O Círculo de
Cultura, como estratégia dialógica, remete a uma compreensão dialética da educação,
gerando um movimento crítico de pessoas, saberes e poderes para a transformação
sócioeducacional. Como uma opção político-pedagógica, o Círculo de Cultura abre a
escola à comunidade e a saberes não estabelecidos previamente.
O Círculo de Cultura é um lugar e uma estratégia de aprendizagem em que um
coordenador se organiza circularmente com não mais de 25 pessoas. Os participantes
empenham a linguagem, codificavam e decodificavam suas realidades para, a partir daí,
escolher o tema gerador para o debate e novas construções. “O coordenador, quase
sempre um jovem, sabe que não exerce as funções de “professor” e que o diálogo é
condição essencial de sua tarefa, “a de coordenar, jamais influir ou
impor.”(FREIRE,1965, p. 11). Não há um professor detentor do saber, nem um aluno
que nada sabe e necessita memorizar conteúdos.
No trabalho apresentado no ENDIPE 2012, consideramos o conceito de
educação como ação cultural para a liberdade de um povo quando afirmamos que o
Brasil é um dos países da América Latina em que a relação entre estudos culturai se
pedagogia tem-se desenvolvido com consistência nos quais Freire eé retomado por
autores do 'norte' e reconhecido como fonte e como mestre. E, é no âmbito da
Pedagogia que Freire estabelece um diálogo entre o sujeito da práxis e a cultura, e a
escola feira em prol da cidadania.
Paulo Freire continua sendo contemporâneo às ideias e lutas que enfrentamos no
âmbito das práticas educacionais. A contemporaneidade de Freire percebe-se nos
aspectos teórico-metodológicos do Círculo de Cultura, além das reflexões importantes
sobre suas potencialidades para a pesquisa científica ao acolher os saberes populares.
Hoje, passados mais de cinquenta anos da experiência inicial de Freire, é
criterioso reinventar os Círculos de Cultura para além da alfabetização de adultos, isto é,
na escola, nas comunidades, na universidade. Também, considerar com Simón

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Rodriguez, o „maestro‟ de Simón Bolívar, que o professor é um consultor de


capacidades, no sentido de integrar a cada um no processo de aprendizagem com seus
saberes e as suas potencialidades. E, perguntar-nos: “Donde iremos a buscar modelos?
(...) ou inventamos o erramos.” (Cf. RODRIGUEZ, 2004, p.xxxiii)

O Círculo de Cultura como experiência epistemológica de pesquisa e de formação


na escola

A seguir, apresentamos algumas das importantes experiências de pesquisa com o


com o Círculo de Cultura e com o Círculo epistemológico:
1. O estudo intitulado As meninas de costas: Análise do currículo de Educação
Física e a construção da identidade feminina (AGUIAR, 2014) apresenta o currículo de
Educação Física como artefato cultural nas aulas de uma escola pública estadual da
região metropolitana de São Paulo. Foi questionado o fato de algumas meninas não
serem incorporadas nas atividades e ficarem de “costas” a essa formação. Com as
contribuições da proposta pedagógica de Paulo Freire (1988) e dos Estudos Culturais,
analisou as categorias de currículo, identidade feminina e cultura. A proposta de
intervenção por meio dos Círculos de Cultura realizados na escola com alunos(as) e o
professor de Educação Física do 8º ano A, permitiu-lhes fazer uma leitura crítica e
conhecer essas práticas pedagógicas na sua dimensão epistemológica. Nas quartas e
quintas-feiras, nas aulas de Educação Física, foram realizados 5 encontros mensais,
mais 1 de observação e registro, com os 25 participantes, sendo que cada encontro teve
a duração de 50 minutos. Considerou que certos discursos sobre os currículos saudáveis
e esportivos justificam e delimitam os espaços de manifestação do feminino, embora se
comece a escutar alguns ruídos/ecos tímidos buscando mudanças curriculares.
2. O uso e apropriação, pelos professores, das tecnologias ProInfo, é um trabalho
de pesquisa no qual Apolinário (2014) analisa as práticas realizadas nos laboratórios
ProInfo. Mostra que os laboratórios escolares, implementados pelo Ministério da
Educação (MEC), através do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo,
1997, 2007), com o objetivo de promover o uso pedagógico das tecnologias de
informação e comunicação nas redes públicas de educação básica, necessitam ser
repensados. Professores de escolas da educação básica I e II, da rede municipal da
educação de uma cidade da Grande São Paulo, indagaram, no Círculo de Cultura, como
as tecnologias educacionais chegaram às escolas da rede; como elas estão se

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apropriando destas nas práticas educativas e que novos conhecimentos foram


produzidos. O Círculo de Cultura foi realizado com 10 professores da escola, no
laboratório de informática do ProInfo, em cinco encontros com duração de duas horas, a
cada 15 dias. Conforme Freire: “A leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura
do mundo, mas por uma certa forma de „escrevê-lo‟ ou de „reescrevê-lo‟, quer dizer, de
transformá-lo através de nossa prática consciente.” (FREIRE, 2011, p. 30) Para
reescrever as suas práticas, os professores fizeram a leitura e a sistematização da
situação específica da escola nesse particular, dos alunos e da comunidade, das
potencialidades e fragilidades. O entorno, como parte da vida da comunidade, trouxe
para as aulas o aspecto cultural e os conhecimentos específicos. Conhecer os usos e as
apropriações dos dispositivos tecnológicos e os saberes mobilizados permitiram novos
desenvolvimentos teóricos, e recriar a prática docente nos laboratórios ProInfo.
3. A última experiência mostra a desterritorialização da sala de aula presencial
para o virtual com o uso do blog na docência universitária. Trata-se de uma experiência
individual e coletiva de aprendizagem. O trabalho foi mediado pela professora da
disciplina Tecnologias da Informação na Educação e realizado em 15 encontros semanais
presenciais com 12 alunos da pós-graduação. A maioria eram professores da educação
básica, cuja expectativa em realizar a disciplina, advinha de suas próprias trajetórias e
interesses acadêmicos na área da educação e das tecnologias educacionais. Nas primeiras
aulas, o grupo escolheu a dinâmica dos encontros e os temas geradores: gestão e avaliação
escolar; memória e educação; políticas públicas de informática educativa; formação de
professores para educação à distância (EaD); e. currículo como artefato cultural. Foi se
consolidando um Círculo de Cultura, que funcionava presencialmente e se estendia ao
virtual. Os encontros semanais, de quatro horas cada um, contaram com a mediatização da
professora e eram registrados por uma aluna. Dos temas surgiram situações geradoras, a
partir dos quais foram elaborados novos conteúdos para a continuar como círculo. Assim,
os usos e conceitos de tecnologia, as mudanças culturais, a perspectiva dos estudos
culturais, a virtualização do ensino superior, a educação à distância e a formação do
profissional, Paulo Freire e sua crítica a certas tecnologias de saber-poder, entre outros,
permearam as subjetividades e produções durante esses quatro meses. Como parte do
processo foi desenvolvido o blog mencionado.
A cibercultura, sem dúvida, é uma transformação profunda da cultura (LEVY,
2010), na qual o blog, o facebook, o twitter e o youtube são dispositivos com potencial
dialógico, que contribui com o Círculo de Cultura digital.

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Segundo Levy (2011), o virtual eclode com a entrada da subjetividade humana no


circuito, quando, em um mesmo movimento, surgem a indeterminação do sentido e a
propensão do texto para significar, uma tensão que se atualiza, na interpretação, e que se
resolverá na leitura.
Uma vez distinguidos esses dois planos, o do par potencial-real e do par virtual,
convém imediatamente sublinhar seu envolvimento recíproco: a digitalização e
as novas formas de apresentação do texto só nos interessam porque dão acesso
a outras maneiras de ler e de compreender. (LEVY, 2011, p. 40)

Assim, mostramos que o Círculo de Cultura no currículo escolar, nas práticas


nos laboratórios ProInfo e no ambiente digital (CCuD), nos autoriza a continuar criando
novas territorialidades para a educação como ação cultural.

Círculo de Cultura: Lugar e estratégia de aprendizagem

O sujeito da práxis, o ato de conhecer como ato cognitivo e político, a


metodologia dialógica e a avaliação formativa e processual dão sustento ao Círculo de
Cultura, que se inicia com a leitura do mundo para chegar à leitura da palavra e a nos
reinventarmos.
É especialmente nos princípios da educação popular que encontramos os
subsídios para desenvolver uma rede de círculos para a aprendizagem cidadã, ou seja: 1)
radicalidade, por acreditar que não há educação neutra; 2) o sujeito da práxis, aquele
que se faz e se refaz; 3) a cultura do silêncio, na qual, através do pronunciamento, se
encontram os elementos para a transformação; 4) a metodologia dialógica, na
organização e na relação texto/contexto, vinculados à realidade para ler o mundo como
um ato que permite tomar distância da prática para conhecê-la, codificá-la e voltar a ela
para transformá-la e nos transformarmos.
O Círculo de Cultura, seja no âmbito presencial ou no virtual, é uma
metodologia apropriada, especialmente na escola/universidade cultural, que contesta a
universidade instrumental, mais preocupada com o consumo de conteúdos. O Círculo de
Cultura não é um método pronto a ser aplicado, é uma estratégia de aprendizagem que
se realiza com a participação dos membros (alunos, professores e comunidade).
Certamente, em um país propenso a adotar métodos avançados de outras
realidades (IB, 2014), pensar no Círculo de Cultura como lugar e estratégia de
aprendizagem é uma ousadia, mas também um ato criador, que mobiliza a cultura do
silêncio para achar os elementos de crítica e a transformação.

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As práticas de pesquisa, formação e intervenção, realizadas com professores em


Círculos de Cultura mostram-se efetivas, pois são espaços feitos possíveis pelas
conexões, a heterogeneidade, as multiplicidades e a produção. Utilizado na
alfabetização de adultos, na educação popular, básica e superior, ou seja, em diversos
níveis educacionais e até no ambiente virtual , o Circulo de Cultura digital pode ser
desenvolvido em diversas realidades culturais como metodologia, sem ferir as mesmas.
Nesses trabalhos, foi confirmado que os pesquisadores, professores e alunos
tematizaram, problematizaram e geraram uma ação transformadora e conscientizadora.
Especificamente, os educadores foram mobilizados do seu lugar de conforto, o que
repercutiu positivamente em sua trajetória profissional e em suas práticas educacionais.
Ainda hoje mais, quando o CCuD se expande como um rizoma na internet e
demanda novos saberes, a alfabetização digital, o domínio dos conhecimentos da
cibercultura e da colaboração, para criar um espaço participativo diretamente
relacionado ao mundo cotidiano do aluno. O professor intervém para manter ou
despertar a curiosidade dos alunos, trabalhar os conceitos, pensar, criar e aprender junto
em um espaço hipertextual.
Na educação em rede, especificamente, no CCuD, as pessoas são anfitriãs e
acolhidas. Em uma nova didática, o aluno e o professor estão abertos para indagar,
discernir, distinguir, escolher e mover-se entre conhecimento e links para aprender. A
dimensão do hipertexto é um território que permite a andarilhagem.
A investigação etnográfica e a pesquisa-ação participante dão respaldo ao
Círculo de Cultura como estratégia de pesquisa e formação, como momento importante
de reflexão da prática do professor. No educar pela pesquisa, ambos, investigador e
investigado, são sujeitos que, enquanto partilham suas experiências, também aprendem
com os colegas e viabilizam novas possibilidades, a partir da troca de saberes
sistematizados. Neste sentido, essas modalidades de pesquisa com o Círculo de Cultura
e com o epistemológico, ocorrem entre sujeitos coletivos inseridos em contextos únicos,
produtores de relatos sobre si, seu entorno, suas práticas, escrevendo suas histórias a
partir do criar e recriar, do inacabamento para vislumbrar inédito viável.

Círculo de Cultura: Pesquisa-ação e pesquisa etnográfica

O Círculo de Cultura na sua dimensão epistemológica pode perfeitamente se


circunscrever no marco da pesquisa-ação ou na pesquisa etnográfica. Segundo Kurt

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Lewin (1946), a pesquisa-ação descreve uma atividade desenvolvida por grupos ou


comunidades com a intenção de modificar a sua situação, conforme um marco de
referência comum de valores. Ele acreditava que os indivíduos se empenhassem e se
comprometessem em melhorar a situação do grupo a partir de pesquisa sobre os
próprios problemas e da reflexão sobre a própria prática.
Falando sobre pesquisa-ação Thiollent (1997, p. 20):
Não se trata de uma técnica a ser quotidianamente aplicada para resolver
pequenos problemas gerenciais e administrativos. É uma proposta de pesquisa
mais aberta (com características de diagnóstico e de consultoria), para tentar
clarear uma situação complexa e encaminhar possíveis ações, especialmente em
situações insatisfatórias ou de crise.

A articulação teórico-prática permitiria a pesquisa não dicotomizada da


realidade em questão. Mas, Thiollent (1997) diferencia a pesquisa-ação da pesquisa
participante:
Toda pesquisa-ação possui caráter participativo, pelo fato de promover ampla
interação entre pesquisadores e membros representativos da situação
investigada. (...) A pesquisa-ação requer legitimidade dos diferentes atores e
convergência de interesses, inclusive nas organizações, ao passo que a pesquisa
participante lida com situações de contestação de legitimidade do poder
vigente. (THIOLLENT, 1997, p.21-22)

Thiollent (1997) afirma o caráter participativo da pesquisa-ação; a ação


planejada dos problemas detectados; a legitimidade dos diferentes atores na
convergência de interesses; não se limita a descrever uma situação e, ainda, a geração
de acontecimentos ou resultados que podem desabrochar mudanças.
No caso da observação-participante, Thiollent (1997) considera que ela abre a
discussão entre pesquisadores e membros da situação investigada; nem sempre possui
uma finalidade planejada; lida com situações de contestação de legitimidade do poder
vigente; descreve uma situação.
Segundo conversa com o educador e filósofo Rafael Ávila Penagos (2013), foi o
sociólogo colombiano Fals Borba, em Historia doble de la costa (1979), que combinou
duas perspectivas: a sociologia do conflito e a Pesquisa-Ação Participativa , e que
superou a observação participante de K. Lewin. Foi Fals Borba que, pela primeira vez,
envolveu membros da comunidade regional como pesquisadores e testemunhas.
Também, utilizou as narrativas orais e os arquivos de baú, que lhe deram acesso aos
documentos e objetos armazenados , às vezes por gerações , nas casas de camponeses.
Fals Borba considera: “A ciência é apenas um produto cultural do intelecto humano que
responde a necessidades coletivas concretas...” A proposta dele contesta a neutralidade,

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a ciência fetiche e colonialista, pois considera que demanda por uma posição teórica,
ideológica e epistemológica.
A dimensão epistemológica do Círculo de Cultura é destacada por Romão et. al.
(2006, p. 177-178):
A denominação de "círculo epistemológico", para a metodologia de pesquisa
derivada, é conveniente, não apenas para distinção de sua fonte, que é o Círculo
de Cultura, formulado por Paulo Freire para intervenção, mas, também e
principalmente, pela consideração dos "pesquisados" como sujeitos da
pesquisa. Neste sentido, preserva o princípio freiriano de que todos, no círculo,
pesquisando e pesquisadores, são sujeitos da pesquisa que, enquanto
pesquisam, são pesquisados e, enquanto são investigados, investigam. É por
esta mesma razão que a expressão "o(a)" é substituído por "o(a)
pesquisando(a)". Os(as) pesquisando(as) não são apenas objeto da pesquisa,
alvo da análise e da enunciação alheia, mas também sujeitos e lugares de
análise e enunciação.

No Círculo de Cultura, pode-se utilizar várias técnicas para obter os dados


que permitam conhecer a situação /objeto pesquisado. Segundo Romão et.
al.(2006, p. 10):

O Círculo epistemológico apresenta-se, portanto, como um método crítico e, ao


mesmo tempo, sensível, pois se realiza sob um conjunto de condições que , já à
primeira vista , oferece uma série de vantagens sobre outros métodos de
pesquisa: a) conjuga técnicas consolidadas de coleta de dados (entrevista
coletiva semiestruturada , discussão de grupo e observação participante ), para
produzir dados no espaço grupal, de forma dinâmica, dialógica e interacional.

O Círculo de Cultura, se comparado com a técnica de grupo focal, apresenta


aproximações já que neste “há interesse nã o somente no que as pessoas pensam e
expressam, mas também em como elas pensam e por que pensam”, como explica
Gatti (2005, p. 9).
A pesquisa-ação, conforme René Barbier (2002), envolve a “estrutura social
onde está inserido, no jogo de desejos e interesses e também implica os outros por meio
do seu olhar e singular ação no mundo”. (BARBIER, 2002, p.14) Este tipo de pesquisa
não apresenta resultados definitivos, mas suscita nos sujeitos novas questões vinculadas
ao tema.
O Círculo de Cultura como metodologia de pesquisa, conforme conversa com
Edgar Coelho, gera o engajamento dos envolvidos na realidade social pesquisada; os
participantes se organizam em círculo, onde todos podem ou não falar (dar opiniões )
sobre o que se discute . Há sempre um facilitador para dar início às discussões e ,

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também, pessoas responsáveis por relatarem o discutido, de maneira a documentar os


encontros. Ao final de cada um realizam-se os encaminhamentos para novas ações.
O potencial do Círculo de Cultura é importante, pois possibilita não pensar em
importar métodos de ensino e de pesquisa, mas formar um grande círculo de gente do
Brasil e da América Latina para trabalhar na proposta pedagógica iniciada por Paulo
Freire nas terras dos tupiniquins.

Considerações circulares

O Círculo de Cultura como lugar e estratégia de aprendizagem e método de


pesquisa, na sua dimensão epistemológica, oferece contribuições importantes para a
educação, seja no contexto da formação ou da investigação.
Na pesquisa qualitativa educacional, etnográfica ou na pesquisa-ação
participante, o Círculo de Cultura é utilizado na sua dimensão epistemológica. Ele
conjuga pesquisa, ação e transformação na relação escola, sujeitos, saberes e cultura,
sem os quais seria impossível o diálogo e educação.
O Círculo se forma com a participação dos membros a partir dos próprios
saberes e cultura. Embora Paulo Freire não falasse de didática, algumas certezas
metodológicas ele tinha: não partia de conteúdos prontos, nem de metodologias rígidas.
Permitia-se optar pela concepção de sujeito da práxis, da educação como comunicação e
diálogo e da cidadania como finalidade educacional. A didática como técnica ou arte de
ensinar, conforme afirmamos em trabalhos anteriores, já não se sustenta na
racionalidade técnica, ou prática, na disciplina e no castigo, nas regularidades e nas
igualdades, na homogeneidade, na cultura do dever e das certezas e sim na
racionalidade e sensibilidade crítica, dialógica e emancipadora. A competência didática,
conceitual e política, comprometem o sujeito participante e sua cultura na organização
de estratégias e atividades de aprendizagem. Nesse sentido é que o Círculo de Cultura,
utilizado para o desenvolvimento profissional nas práticas formativas, traz no seu bojo a
relação entre a escola, a formação de professores, a sociedade e a cultura.

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