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D.H.

Lawrence

Estudos sobre a Literatura


Clássica Americana

Tradução:
Heloísa Jahn
Sumário

Prefácio

1. O espírito do lugar

2. Benjamin Franklin

3. Hector St. John de Crèvecœur

4. Os romances brancos de Fenimore Cooper

5. Os Romances dos Desbravadores de Fenimore Cooper

6. Edgar Allan Poe

7. Nathaniel Hawthorne e A letra escarlate

8. The Blithedale Romance, de Hawthorne

9. Dois anos ao pé do mastro, de Richard Henry Dana

10. Typee e Omoo, de Herman Melville

11. Moby Dick, de Herman Melville

12. Whitman

Sobre o autor
Prefácio

Ouçam os Estados Unidos garantindo: “Chegou a hora! Os americanos hão de ser


americanos. Hoje os Estados Unidos são um país adulto, artisticamente. Não podemos
continuar pendurados nas saias da Europa, comportando-nos como colegiais
extraviados de seus mestres-escolas europeus…”
Pois bem, americanos, vamos ver se vocês dão conta do recado. Vamos lá,
entreguem esse precioso ouro, já que têm tanta certeza de que de fato o possuem…
Et interrogatum est ab omnibus:
“Ubi est ille Toad-in-the-Hole?”
Et iteratum est ab omnibus:
“Non est inventus!”a

Ele foi ou não foi inventus?


Se foi, claro, deve estar em algum lugar dentro de você, Ó Americano. Não
adianta ficar procurando por ele em todos os velhos continentes, claro. Mas também
não adianta ficar simplesmente garantindo que ele existe. Onde está essa nova
espécie de pássaro denominada “verdadeiro americano”? Mostrem-nos o homúnculo
da nova era. Vamos, mostrem-nos! Porque a única coisa visível a olho nu para um
europeu, na América, é uma espécie de europeu pusilânime. Queremos ver esse elo
perdido da próxima era.
Bem, continuamos sem encontrá-lo. Só nos resta, assim, dar uma olhada
embaixo dos arbustos americanos. A velha literatura americana, para começar.
“A velha literatura americana! Franklin, Cooper, Hawthorne & Co.? Toda aquela
maçaroca de palavras! Tudo tão irreal!” exclama o americano vivo.
Só Deus sabe o que queremos dizer quando falamos em realidade. Telefone,
carne enlatada, Charlie Chaplin, torneiras, Exército da Salvação, suponho. Alguns
insistem em problemas de encanamento, outros na salvação do mundo: as duas
grandes especialidades americanas. Por que não? Só que, enquanto isso, o que dizer
do jovem homúnculo da nova era? Ninguém consegue se salvar sem primeiro nascer.
Olhem só para mim, tentando virar parteira do homúnculo que ainda não nasceu!
Dois corpos de literatura moderna parecem-me ter atingido realmente uma nova
fronteira: a russa e a americana. Deixemos de lado as ocorrências mais quebradiças da
produção francesa, ou de Marinetti, ou irlandesa, que talvez estejam além da fronteira.
A russa e a americana. E quando digo americana, não estou dizendo Sherwood
Anderson, que é tão russo. Estou falando do pessoal da antiga, dos volumezinhos
finos de Hawthorne, Poe, Dana, Melville, Whitman. Esses, parece-me, chegaram a
uma nova fronteira, tal como os mais fornidos Tolstoi, Dostoiévski, Tchekhov e
Artzybasheff, do lado de lá, chegaram a uma nova fronteira. Os frenesis mais ousados
do modernismo ou do futurismo francês por enquanto ainda não atingiram o timbre de
extrema consciência atingido por Poe, Melville, Hawthorne e Whitman. Os europeus
modernos estão todos tentando ser radicais. Os grandes americanos mencionados
simplesmente o eram. Razão pela qual o mundo se esquivou deles, e se esquiva até
hoje.
A grande diferença entre os russos radicais e os americanos radicais está no fato
de que os russos são explícitos e detestam a eloquência e os símbolos, considerando-
os meros subterfúgios, enquanto os americanos rejeitam tudo o que é explícito e
sempre recorrem a uma espécie de duplo significado. Os americanos adoram o
subterfúgio. Preferem manter sua verdade bem protegida e em segurança dentro de
um cesto de vime escondido entre os caniços até o momento em que alguma amável
princesa egípcia apareça para resgatar o bebê.
Bem, já está mais do que na hora de que alguém apareça para recolher o
bebezinho da verdade que a América gerou há algum tempo. Esquecido que ficou, o
bebê deve estar ficando muito magrinho…

a
“E por todos foi perguntado/ ‘Onde está aquele Toad-in-the-Hole?’/ E foi por todos repetido:/ ‘Não foi
encontrado!’” Citação de Thomas de Quincey em seu ensaio “On Murder Considered as One of the Fine Arts”.
(N.T.)
1. O espírito do lugar

T nos antiquados clássicos norte-americanos como livros infantis. Pura


EMOS O HÁBITO DE PENSAR

infantilidade nossa. A velha fala literária norte-americana contém uma qualidade


a

exótica que corresponde ao continente americano e a nenhum outro lugar no mundo.


Só que, claro, enquanto insistirmos em ler tais livros como se fossem histórias para
crianças, deixaremos de perceber tudo isso.
Perguntamo-nos o que os compenetrados romanos de fino espírito dos séculos iii
e iv, ou mesmo dos séculos posteriores, liam nas estranhas elucubrações de Lucrécio
ou Apuleio ou Tertuliano, de Agostinho ou Atanásio. A voz misteriosa da Espanha
ibérica, a magia da velha Cartago, a paixão da Líbia e da África do Norte: podem
apostar que os compenetrados romanos da Antiguidade jamais chegaram a ouvi-las.
Eles sobrepunham a todas essas vozes a inferência do latim antigo, assim como
sobrepomos a inferência da velha Europa a Poe ou Hawthorne.
É difícil ouvir uma voz nova; tão difícil quanto ouvir uma língua desconhecida.
Simplesmente não ouvimos. Há uma voz nova nos velhos clássicos norte-americanos.
O mundo preferiu não ouvi-la e veio com essa conversa de histórias infantis.
Por quê? Puro medo. Mais que qualquer outra coisa, o mundo teme novas
experiências. Porque uma nova experiência desloca experiências antigas. E é como
tentar usar músculos que talvez nunca tenham sido usados, ou que foram se
enrijecendo ao longo do tempo. A dor é terrível.
O mundo não teme uma ideia nova. Ele é capaz de classificar toda e qualquer
ideia. É incapaz, porém, de classificar uma experiência realmente nova. Só consegue
esquivar-se. O mundo é um mestre em esquiva, e os americanos são os campeões.
Porque se esquivam a sua própria identidade profunda.
Há um sentimento novo nos velhos livros americanos, bem mais que o existente
nos livros americanos modernos, que são praticamente isentos de todo sentimento e se
orgulham disso. Há um sentimento “diferente” nos velhos clássicos americanos. É a
passagem da velha psique para uma coisa nova, um deslocamento. E deslocamentos
doem. Uma coisa que dói. Por isso tentamos vendá-lo, como um dedo machucado.
Protegê-lo com um pano.
Ao mesmo tempo, trata-se de um corte. De descartar as velhas emoções, a velha
consciência. Não me perguntem o que permanece.
A fala literária é a única verdade. Os artistas costumam ser tremendos
mentirosos, mas sua arte, se for arte, não deixará de relatar a verdade de seu tempo. E
é isso que importa. Abaixo a verdade eterna. A verdade se nutre do dia a dia, e o
maravilhoso Platão de ontem hoje é basicamente uma bobagem.
Os velhos artistas americanos eram mentirosos incuráveis. Mas eram artistas, a
despeito de si mesmos. O que é mais do que se pode dizer da maioria dos praticantes
vivos.
E você pode se deleitar lendo A letra escarlate, seja aceitando o que o mimoso
do Hawthorne, com seus olhos azuis, tão açucarado, tem a dizer sobre si mesmo, falso
como são todos os mimosos, seja lendo a verdade impecável de sua fala literária.
O mais curioso na fala literária é ela prevaricar tanto, quer dizer, as mentiras que
ela conta. Imagino que isso aconteça porque ficamos o tempo todo mentindo para nós
mesmos. E a partir de uma trama de mentiras, a arte tece a verdade. Como
Dostoiévski posando como uma espécie de Jesus e ao mesmo tempo revelando-se
com toda a sinceridade um belo patife.
Na verdade a arte é uma espécie de subterfúgio. Graças a Deus, porém, se
quisermos podemos ver através do subterfúgio. A arte tem duas grandes funções.
Primeiro, proporciona uma experiência emocional. Em seguida, se tivermos a
coragem de encarar nossos próprios sentimentos, ela se transforma numa mina de
verdades práticas. Os sentimentos já estão conosco ad nauseam. Só que nunca
ousamos extrair deles a verdade que contêm, a verdade que nos diz respeito, seja ela
ou não do interesse de nossos netos.
Em geral o artista se dedica – ou se dedicava – a apontar uma moral e enfeitar
uma história. Quase sempre, porém, a história aponta em outra direção. Duas morais
francamente opostas, a do artista e a da história. Jamais confie no artista. Confie na
história. Compete ao crítico salvar a história do artista que a criou.
Agora já sabemos qual é nosso objetivo nestes estudos: salvar a história
americana do artista americano.
Primeiro, olhemos para esse artista americano. Para começar, como ele foi parar
na América? Por que não continuou sendo europeu, como seu pai antes dele?
Agora ouça o que eu digo, não ele. Ele irá contar-lhe a mentira que você espera.
O que em parte é culpa sua, pelo fato de esperá-la.
Ele não veio em busca de liberdade de culto. Em 1700 a Inglaterra tinha mais
liberdade de culto que a América. Conquistada por ingleses que desejavam a
liberdade e que por isso ficaram em seu país e lutaram por ela. E conseguiram.
Liberdade de culto? Leiam a história da Nova Inglaterra durante o primeiro século de
sua existência.
Liberdade de qualquer tipo? A terra dos livres?! Esta, a terra dos livres?! Ora, se
eu disser alguma coisa que a desagrade, a turba dos livres haverá de linchar-me, e eis
minha liberdade. Livre? Ora, nunca pus os pés num país onde um indivíduo sentisse
tanto medo abjeto de seus concidadãos. Porque, como eu falei, seus concidadãos são
livres para linchá-lo no momento em que ele der mostras de não ser um deles.
Não, não, se você preza tanto a verdade sobre a rainha Vitória, aplique-a um
pouco a você mesmo.
Aqueles Pais Peregrinos e seus sucessores nunca que vieram para cá atrás de
liberdade de culto. O que eles construíram quando chegaram aqui? Liberdade, seria
esse o nome da coisa?
Eles não vieram atrás de liberdade. Ou, se vieram, infelizmente mudaram de
ideia.
Muito bem, então, o que os trouxe para cá? Inúmeras razões. Talvez a última
coisa que eles buscassem fosse liberdade de qualquer tipo: quer dizer, liberdade
autêntica.
Em grande medida, vieram para fugir – o mais simples dos motivos. Fugir. Fugir
do quê? No fundo, no fundo, fugir de si mesmos. Fugir de tudo. É por isso que a
maioria das pessoas veio para a América – e continua vindo. Para fugir de tudo o que
são e foram.
“Doravante, não tenhais mais senhor.”
O que está muito bem, mas não é liberdade. Antes o oposto. Uma espécie de
sujeição sem saída. Nunca se trata de liberdade enquanto você não descobrir alguma
coisa que de fato positivamente quer ser. E na América as pessoas nunca deixaram de
proclamar as coisas que não são. A não ser, claro, que sejam milionários, consumados
ou a caminho de sê-lo.
E no fim das contas o movimento tem um aspecto positivo. Toda aquela vasta
torrente de vida humana que fluiu para o outro lado do Atlântico a bordo dos navios
que iam da Europa para a América não fluiu simplesmente em decorrência de uma
maré de ojeriza pela Europa e pelas limitações dos estilos de vida na Europa. Essa
ojeriza era, e ainda é, creio eu, o principal motivo da emigração. Mas havia alguma
causa, inclusive para a ojeriza.
A impressão que se tem é que de vez em quando o homem sente uma
necessidade absoluta de se esquivar a todo e qualquer controle. Na Europa, quem
mandava mesmo era o velho cristianismo. A Igreja e a aristocracia autêntica eram as
responsáveis pela elaboração dos ideais cristãos: um tanto irregularmente, talvez, mas
responsáveis mesmo assim.
Autoridade, realeza e paternidade tiveram seus poderes destruídos no período da
Renascença.
E foi precisamente nesse momento que teve início a grande deriva para o outro
lado do Atlântico. Do que, exatamente, aqueles homens queriam escapar? Da velha
autoridade da Europa? Estariam rompendo os vínculos de autoridade e fugindo para
um desregramento novo e mais absoluto? Talvez. Mas não só isso.
Liberdade é ótimo, mas não podemos viver sem senhores. Sempre existe um
senhor. E das duas uma: ou os homens se submetem sem resistência ao senhor no qual
acreditam ou vivem em oposição friccional ao senhor cujo poder desejam minar. Na
América essa oposição friccional foi o fator básico. Foi ela que funcionou como
estímulo ao ianque. Graças ao influxo contínuo de europeus mais servis a América
pôde contar com uma classe trabalhadora obediente, sendo que a verdadeira
obediência nunca ia além da primeira geração.
Mas lá – lá na Europa – o antigo senhor continua existindo. Como uma figura
paterna. Em algum lugar no fundo de todo coração americano se abriga a rebeldia
diante da velha paternidade da Europa. Mesmo assim, nenhum americano se sente
completamente livre da dominação europeia. Daí a paciência ardente e sem pressa da
oposição americana. A obediência ardente, sem pressa e corrosiva ao antigo senhor, a
Europa, o súdito renitente, a oposição sem trégua.
Seja lá o que você for, não tenha senhor.
Ca Ca Caliban
Arrume um novo senhor, seja um novo homem.

Poderíamos dizer que as repúblicas da Libéria e do Haiti são povoadas por


escravos fugidos. Libéria, imagine! Será que deveríamos olhar para a América da
mesma maneira? Uma vasta república de escravos fugidos. Só que não ousamos falar
assim dos Pais Peregrinos, nem do grandioso e vetusto conjunto de idealistas
americanos, nem dos americanos modernos torturados pelo pensamento. Uma vasta
república de escravos fugidos. Cuidado, América! E de uma minoria de pessoas
sérias, autoinfernizadas.
Os sem-amo.
Ca Ca Caliban
Arrume um novo senhor, seja um novo homem.

Qual foi o propósito da viagem dos Pais Peregrinos, então, ao atravessar as


horripilantes águas negras do mar? Ah, eles iam num estado de espírito sombrio.
Numa total ojeriza pela Europa, pela velha autoridade da Europa, pelos reis e bispos e
papas. E mais. Prestando bem atenção, havia mais. Eles eram homens sombrios,
dominadores, queriam alguma coisa mais. Talvez não quisessem reis, bispos. Nem
Deus Todo-poderoso. Mas tampouco queriam saber dessa nova “humanidade” surgida
depois da Renascença. Não queriam nada com a tal nova liberdade que viria a ser tão
cultuada na Europa. Queriam uma coisa mais severa, de modo algum disponível e
gratuita.
A América jamais foi simples, assim como não é simples hoje. Os americanos
sempre viveram submetidos a uma certa tensão. Sua liberdade é uma questão de pura
determinação, de pura tensão: uma liberdade constituída por uma série de . E
NÃO DEVERÁS

foi assim desde o começo. A terra do . Já o primeiro mandamento é


NÃO DEVERÁS NÃO DEVERÁS

. Leia-se: democracia.
PRETENDER SER UM SENHOR

“Somos os sem-amo.” É o que guincha a águia americana. Uma águia fêmea.


Os espanhóis rechaçaram a liberdade pós-renascentista da Europa. E os
espanhóis ocuparam quase toda a América. Os ianques, também, rechaçaram,
rechaçaram o humanismo pós- renascentista da Europa. Antes de mais nada, tinham
horror de senhores. Por baixo dessa superfície, porém, detestavam a graça fácil do
humor europeu. No fundo da alma americana sempre houve uma inquietação sombria,
no fundo da alma hispano-americana também. E essa inquietação sombria detestava e
continua detestando a velha espontaneidade europeia e observa satisfeita o seu
colapso.
Todos os continentes têm características próprias bem definidas. Todos os povos
se polarizam em algum local específico visto como lar, como pátria-mãe. Diferentes
lugares na face da Terra se caracterizam por diferentes eflúvios vitais, diferentes
vibrações, diferentes exalações químicas, diferentes polaridades com diferentes
estrelas: chame como quiser. Mas o espírito do lugar é uma realidade indiscutível. O
vale do Nilo produzia não só o trigo como também as temíveis religiões do Egito. A
China produz os chineses e continuará a produzi-los. Os chineses de San Francisco
em algum momento deixarão de ser chineses, pois a América é um grande caldeirão
de culturas.
Havia uma tremenda polaridade na Itália, na cidade de Roma. E isso parece ter
desaparecido. Porque mesmo os lugares morrem. A ilha da Grã-Bretanha também
possuía um esplêndido magnetismo terrestre, uma polaridade própria, que
caracterizava o povo britânico. No momento essa polaridade parece estar se
desfazendo. Será possível a Inglaterra morrer? E se a Inglaterra morrer?
Os homens são menos livres do que imaginam; ah, muito menos. Os mais livres
talvez sejam os menos livres.
Os homens são livres quando estão integrados a uma pátria viva, não quando são
errantes e vivem em estado de ruptura. Os homens são livres quando obedecem a uma
profunda voz interior de fé religiosa. Quando obedecem a partir de dentro. Os homens
são livres quando pertencem a uma comunidade viva, orgânica, com uma fé, dedicada
a realizar algum objetivo não realizado, talvez impossível de realizar. Não quando se
evadem para algum oeste selvagem. As almas menos livres vão para o oeste e
proclamam sua liberdade. Os homens são tanto mais livres quanto menos consciência
têm da liberdade. O brado é um tilintar de correntes, sempre foi.
Os homens não são livres quando estão fazendo exatamente o que gostam de
fazer. No momento em que você pode fazer exatamente o que quer fazer, deixa de
preocupar-se em fazer alguma coisa. Os homens só são livres quando estão fazendo o
que seu ser mais profundo gosta de fazer.
E não é fácil chegar a nosso ser mais profundo! É preciso dar um mergulho e
tanto.
Porque o ser mais profundo está muito distante da superfície, e o ser consciente é
uma mula teimosa. Mas de uma coisa podemos ter certeza. Se quisermos ser livres,
temos de abrir mão da ilusão de fazer aquilo de que gostamos e sair em busca do que
– esse ser mais profundo – quer que seja feito.
ELE

Mas antes de conseguir fazer o que gosta, você precisa sacudir o jugo do
ELE

antigo senhor, do antigo .


ELE

Talvez na Renascença, quando a realeza e a paternidade foram destronadas, a


Europa tenha adotado uma meia verdade muito perigosa: de liberdade e igualdade.
Talvez os homens que viajaram para a América tenham sentido isso e tenham
repudiado também o Velho Mundo. Foram para um lugar um ponto acima da Europa.
Até o momento, liberdade na América tem sido o ato de romper com toda dominação.
A verdadeira liberdade só terá início quando os americanos descobrirem e se
O

moverem no sentido de satisfazê- . E sendo o ser mais profundo e inteiro do


LO LE

homem, o ser em sua totalidade, não o meio-ser idealizado.


Portanto foi por isso que os Pais Peregrinos viajaram para a América; e é por isso
que nós viajamos. Impulsionados por . Somos incapazes de perceber que ventos
ELE

invisíveis nos transportam, assim como transportam enxames de gafanhotos, que um


magnetismo invisível nos conduz, assim como conduz as aves migratórias a seu
destino, um destino desconhecido no início da jornada. Mas é o que ocorre. Não
temos o incrível poder de decisão, de opção que imaginamos ter. E decide por nós,
LE

opta por nós. A não ser, claro, que não passemos de escravos fugidos, com uma
confiança vulgar e arrogante num destino que não passa de um lugar-comum. Mas se
formos indivíduos vivos, em contato com a fonte, nos move e determina. Somos
ELE

livres somente na medida em que obedecemos. Quando resistimos, e achamos que


vamos fazer o que preferimos fazer, não fazemos mais que fugir daqui para ali, como
Orestes perseguido pelas Eumênides.
Mesmo assim, quando chegar o grande dia, quando os americanos finalmente
descobrirem a América e sua própria totalidade pessoal, ainda restará um número
incontável de escravos fugidos, uma gente sem um destino banal em que confia
cegamente.
Quem sairá vencedor na América, os escravos fugidos ou os novos homens
íntegros?
O verdadeiro dia da América ainda não chegou. Ou, pelo menos, o sol ainda não
nasceu. Até aqui tivemos apenas a falsa aurora. Quer dizer, na consciência americana
progressista um único desejo predominou: o de acabar com o que é velho. O de acabar
com os senhores, o de exaltar o desejo do povo. Mas se o desejo do povo não passa de
farol, a exaltação não serve para grande coisa. Portanto, em nome do desejo do povo,
livre- se dos senhores. E depois que estiver livre dos senhores, tem de enfrentar essa
conversa fiada do desejo do povo. Nesse momento você faz uma pausa e reflete, e
tenta recuperar sua própria integridade.
A meta consciente americana, a democracia, por lá, não passa disso. A
democracia, na América, não é mais que a ferramenta com a qual o velho senhor da
Europa, o espírito europeu, é corroído. Destruída a Europa, potencialmente a
democracia americana haverá de evaporar. A América terá início.
Até o momento a consciência americana não foi mais que uma falsa aurora. O
ideal negativo da democracia. Mas por baixo, e em oposição a esse ideal explícito,
surgem os primeiros indícios e revelações . D , a íntegra alma americana.
DELA ELA

É preciso despojar o discurso americano das roupagens democráticas e idealistas


e ver embaixo o que for possível divisar do corpo indistinto dessa alma íntegra.
“Doravante, não tenhais mais senhor.”
Doravante, sede vossos próprios amos.

a
“Art-speech”, no original. (N.T.)
2. Benjamin Franklin

A P H Ah, céus, que tema horroroso! A perfectibilidade do automóvel


ERFECTIBILIDADE DO OMEM!

Ford! A perfectibilidade de que homem? Sou muitos homens. Qual deles você
pretende aperfeiçoar? Não sou uma engenhoca mecânica.
Educação! Qual dos meus vários eus você pretende educar, e qual pretende
suprimir?
Seja como for, lanço um desafio. Desafio você, sociedade, a me educar ou me
suprimir, de acordo com seus modelos tolos.
O homem ideal! E quem é esse homem, se me faz o favor? Benjamin Franklin ou
Abraham Lincoln? O homem ideal! Roosevelt ou Porfírio Díaz?
Há outros homens em mim, além desse paciente asno sentado aqui de paletó de
tweed. O que estou fazendo, neste papel de asno paciente de paletó de tweed? Com
quem estou falando? Quem é você, no outro extremo dessa minha paciência?
Quem é você? Quantos eus você tem? E qual desses eus tem vontade de ser?
Será que a universidade Yale vai educar seu eu imerso na sombra? Ou quem sabe
a universidade Harvard?
O eu ideal! Ah, mas eu tenho um eu estranho e fugitivo trancado do lado de fora
e uivando feito um lobo ou um coiote ao pé das janelas ideais. Está vendo seus olhos
vermelhos na escuridão? Aquele é o eu que vem tomar posse do que é seu.
A perfectibilidade do homem, Deus do céu! Se todo homem ao longo de toda a
sua vida é em si mesmo uma multidão de homens em conflito uns com os outros.
Qual deles você quer aperfeiçoar, às expensas de todos os outros?
O Velho Papai Franklin lhe dirá. Ele lhe apontará esse homem: o americano
padrão. Ah, Franklin foi o primeiro americano totalmente americano. Ele sabia o que
estava fazendo, o espertinho. Foi ele que construiu o primeiro simulacro de
americano.
No início de sua carreira aquele sabidinho do Benjamin elaborou para si mesmo
um credo capaz de “satisfazer os professores de todas as religiões, sem escandalizar
nenhum deles”.
E então? Não foi um genuíno feito americano?
“Que existe um Único Deus, que criou todas as coisas.”
(Contudo Benjamin O criou.)
“Que Ele conduz o mundo com Sua Providência.”
(E Benjamin sabe tudo sobre a Providência.)
“Que Ele deve ser venerado mediante adoração, preces e ações de graças.”
(Que não custam nada.)
“Porém…” Não me venha com poréns, Benjamin, disse o Senhor.
“Porém a maneira mais aceitável de servir a Deus é fazendo o bem aos
homens.”
(Sendo que Deus não tem escolha.)
“Que a alma é imortal.”
(Na próxima cláusula você verá por quê.)
“E que Deus certamente premiará a virtude e castigará o vício, seja aqui seja na
eternidade.”
Ora, se o sr. Andrew Carnegie ou outro milionário qualquer tivesse desejado
inventar um Deus que atendesse a seus propósitos, não teria feito melhor. Benjamin
inventou-o para ele no século xviii. Deus é o supremo servo dos homens que desejam
progredir, produzir. A Providência. O provedor. O almoxarife celestial. O perene
Wanamaker. a

E isso é tudo o que restava aos netos dos Pais Peregrinos em matéria de Deus.
Entronizado numa pilastra de dólares.
“Que a alma é imortal.”
A banalidade de Benjamin ao dizer isso!
Mas o homem tem uma alma, embora seja impossível situá-la – em sua carteira,
em sua caderneta, em seu coração, em seu estômago, em sua cabeça. A totalidade de
um homem é o que se chama a sua alma. Não somente aquele pedacinho simpático e
confortável designado por Benjamin.
Estranha coisa, a alma de um homem. Ela é o todo desse homem. Ou seja, ela é
tanto o que ele tem de desconhecido como o que ele tem de conhecido. Para mim é
simplesmente engraçado que professores e Benjamins determinem as funções da
alma. Como assim? A alma do homem é uma vasta floresta e Benjamin não pretendia
que ela fosse mais que um quintalzinho bem-cuidado. E temos, todos, de nos encaixar
no esquema hortícola que ele inventou. E viva Columbia!
A alma do homem é uma floresta sombria. A Floresta Herciniana que tanto
apavorava os romanos e da qual saíram as hordas de pele clara da civilização
seguinte.
Quem sabe o que sairá da alma do homem? A alma do homem é uma vasta
floresta sombria, repleta de vida selvagem. A pretensão de Benjamin, fazendo um
cercadinho em torno dela!
Ah, mas Benjamin cercou um pequeno lote que denominou alma do homem, e
em seguida dedicou-se a cultivá-lo. Providência, francamente! E eles acham que
aqueles poucos metros de arame farpado vão nos manter cerceados para todo o
sempre? Que tolos!
Eis a cerca de arame farpado de Benjamin. Ele elaborou uma lista de virtudes
para uso próprio, depois mandou-as trotar em seu cercadinho como um cavalo velho
num potreiro.

1. TEMPERANÇA

Não coma até a saciedade; não beba até a embriaguez.

2. SILÊNCIO

Só fale o que puder beneficiar os outros ou você mesmo; evite conversas levianas.

3. ORDEM

Que todas as suas coisas tenham seus próprios lugares; que cada parte de sua
atividade tenha seu tempo.

4. DETERMINAÇÃO

Decida-se a realizar o que tem de realizar; realize sem falta o que decidir realizar.

5. FRUGALIDADE

Não faça gastos que não se destinem ao bem dos outros ou ao seu próprio – ou seja,
não desperdice nada.

6. INDUSTRIOSIDADE

Não perca tempo, dedique-se sempre a atividades úteis; elimine toda ação
desnecessária.

7. SINCERIDADE

Não recorra a estratagemas ofensivos; pense com inocência e com justiça, e, quando
falar, fale de acordo com isso.

8. JUSTIÇA

Não ofenda ninguém com injúrias ou sonegando os benefícios que são obrigação sua.

9. MODERAÇÃO

Evite os extremos e guarde-se de sentir ressentimento pelas ofensas recebidas, por


mais que as julgue merecedoras disso.

10. ASSEIO

Não admita falta de asseio no corpo, no vestuário ou na moradia.

11. TRANQUILIDADE

Não se perturbe com ninharias ou com acidentes triviais ou inevitáveis.


12. CASTIDADE

Pratique atividades venéreas apenas raramente, e sempre por razões de saúde ou


descendência, nunca por tédio, fraqueza ou para ofensa da paz ou reputação própria
ou de outrem.

13. HUMILDADE

Imite Jesus e Sócrates.

Um amigo quacre disse a Franklin que ele, Benjamin, era considerado orgulhoso
pelas pessoas em geral, por isso Benjamin acrescentou o detalhe da Humildade como
um adendo. O divertido é o tipo de humildade apregoado: “Imite Jesus e Sócrates”, e
cuidado para não ofuscar nenhum dos dois. Podemos muito bem imaginar Sócrates e
Alcibíades de taça na mão morrendo de rir do Benjamin da Filadélfia, e Jesus a fitá-lo
com ar intrigado e murmurando: “Que sábio você é, Ben, segundo seus próprios
princípios!”
“Doravante, não tenhais mais senhor”, retruca Ben. “Sede, cada um de vós,
vossos próprios amos e não permiti que ninguém, nem mesmo Deus, determine a
respeito.” “Cada homem seu próprio amo” não é senão um alargamento do estado de
não ter senhor algum.
Muito bem: o primeiro americano seguiu fielmente essa lista, estabelecendo um
exemplo nacional. Organizou as virtudes em listas e atribuiu a si mesmo notas boas
ou ruins de acordo com o que julgava merecer. Pena que essas tabelas
de conduta se perderam e não temos acesso a elas. Só nos resta sua observação de que
a pedra em seu caminho era a Ordem. Não conseguia aprender a ser organizado e
caprichoso.
Não é ótimo não ter nada pior para confessar?
Benjamin era mesmo um modelo. Doutor Franklin. Um homenzinho cor de rapé!
Alma imortal e tudo!
A parte da alma imortal era uma espécie de apólice de seguro barata.
Sério: Benjamin não estava nem um pouco preocupado com a alma imortal.
Estava ocupado demais com o homem social.
1. Ele varreu e iluminou as ruas da jovem Filadélfia.
2. Ele inventou os aparelhos elétricos.
3. Ele era o líder de um clube da moral na Filadélfia, e escrevia os moralismos
bem-humorados do almanaque Poor Richard.
4. Ele era membro de todos os conselhos importantes da Filadélfia e também das
colônias americanas.
5. Ele venceu a causa da Independência americana na Corte de França e foi o pai
econômico dos Estados Unidos.
Que mais se pode desejar de um homem? E com tudo isso, mesmo na Filadélfia
ele está por baixo.
Eu o admiro. Antes de mais nada, admiro sua coragem robusta, depois sua
sagacidade, depois sua clarividência quanto aos trovões da eletricidade, depois o
humor de seu bom senso. Todas as qualidades de um grande homem, e nunca mais
que um grande cidadão. Estatura média, forte, cor de rapé: o doutor Franklin foi um
dos cidadãos mais sãos que já apareceram ou “praticaram atividades venéreas”.
Não gosto dele.
E, aliás, sempre achei que os livros sobre atividades venéreas versassem sobre
caça ao veado. b

Existe uma certa ingenuidade sincera nele. Como uma criança. E como um
velho. Ele virou de novo criança pequena, sempre tão sábio quanto seu avô, ou mais.
Talvez, como eu digo, o mais completo cidadão que já “praticou atividades
venéreas”.
Gráfico, filósofo, cientista, escritor e patriota, esposo e cidadão impoluto, por
que ele não é um arquétipo?
Pioneiros, ó Pioneiros! Benjamin foi um dos maiores pioneiros dos Estados
Unidos. Mas é insuportável.
O que há de errado com ele, então? Ou o que há de errado conosco?
Lembro que quando eu era pequeno meu pai costumava comprar um almanaque
anual muito mirrado, com o Sol e a Lua e estrelas na capa. E ele costumava profetizar
fome e derramamento de sangue. Ao mesmo tempo, porém, enfiadas nos cantos, havia
piadas e humorismos, com uma moral. E eu dava minhas risadas pedantes vendo a
mulher que contava suas galinhas antes que os pintinhos saíssem da casca e assim por
diante, e acreditava piamente que a honestidade era a melhor política – também com
um certo pedantismo. O autor daquilo era Poor Richard, e Poor Richard era Benjamin
Franklin, escrevendo na Filadélfia mais de cem anos antes.
É provável que eu nunca tenha me recuperado daqueles preceitos morais de Poor
Richard. Até hoje me torturo com eles. Eles são espinhos em carne jovem.
Porque, embora eu continue acreditando que a honestidade é a melhor política,
não gosto de política como um todo; e embora seja melhor esperar os pintinhos saírem
da casca para depois contar as galinhas, é ainda mais odioso contá-las com regozijo
depois que os pintinhos saíram da casca. Foram necessários vários anos e inúmeros
percalços para me libertar daquele reduto moral cercado de arame farpado construído
por Poor Richard. E aqui estou eu agora, aos frangalhos e todo lanhado, sentado no
meio da América de Benjamin e contemplando o arame farpado, vendo as ovelhas
gordas escaparem por baixo da cerca para engordar no exterior, e os cães pastores
fazendo o maior estardalhaço junto à porteira para o caso de alguma delas resolver
sair pelo local previsto. Ah, América! Ah, Benjamin! E me limito a emitir em voz alta
uma longa maldição contra Benjamin e o curral americano.
A América virtuosa! E Benjamin, mais virtuoso ainda. Esse Ben tão sadio e
satisfeito!
Ele precisou se deslocar até as fronteiras de seu estado para criar algum tumulto
entre os índios. Na ocasião, escreveu:
Constatamos que eles haviam feito uma grande fogueira no meio da praça; estavam todos bêbados, homens
e mulheres, discutindo e lutando uns com os outros. Seus corpos escuros, seminus, iluminados apenas pelo
clarão difuso da fogueira, correndo uns atrás dos outros, agredindo-se com varas em chamas, ao som de
berros pavorosos, compunham uma cena que evocava antes de mais nada a noção que podemos ter do
inferno. Sem conseguir conter o tumulto, retiramo-nos para nossas acomodações. À meia-noite muitos deles
irromperam descontrolados diante de nossa porta exigindo mais rum, fato de que não tomamos
conhecimento.
No dia seguinte, sabedores de que haviam se portado mal ao perturbar-nos daquele modo, enviaram três
de seus conselheiros para se desculparem. O porta-voz reconheceu o erro, mas culpou o rum, depois
empreendeu a defesa do rum dizendo: “O Grande Espírito, criador de todas as coisas, atribuiu a cada uma
delas uma utilidade; e seja qual for a utilidade para a qual a coisa foi criada, esse uso sempre deverá ser
empreendido. Pois bem, ao criar o rum, o Grande Espírito disse: ‘E que isto sirva para que os índios se
embriaguem.’ E assim deve ser.”
E, com efeito, se o desígnio da Providência for extirpar esses selvagens para que haja mais terra
disponível para o cultivo, não parece improvável que o rum seja o instrumento escolhido. Ele já aniquilou
todas as tribos que anteriormente ocupavam o litoral inteiro…

Isso, vindo do bom doutor tão imbuído de doce complacência, provoca um certo
desencanto. Quase bom demais para ser verdade.
Mas é isso! A cerca de arame farpado. “Extirpar esses selvagens para que haja
mais terra disponível para o cultivo.” Ah, Benjamin Franklin! Ele chegou até a
“praticar atividades venéreas” com o objetivo de cultivar a semente.
Cultivar a terra, caros deuses! Os índios o fizeram tanto quanto necessitaram. E
ficaram por aí. Quem construiu Chicago? Quem cultivou a terra até ela desovar
Pittsburgh, PA?
A questão moral! Pensem bem! Cultivo incluído. Se for simplesmente questão de
escolher entre Kultur e cultivo, desisto.
O que nos leva mais uma vez a nossa questão: o que há de errado com Benjamin,
para ele ser insuportável dessa maneira? Ou, em outras palavras, o que há de errado
conosco para acharmos defeito em tamanho paradigma?
O homem é um animal moral. Muito bem. Eu sou um animal moral. E assim
continuarei sendo. Não serei transformado num pequeno autômato virtuoso como
Benjamin gostaria que eu fosse. “Isto é bom, isto é ruim. Girai a pequena manivela e
deixai a torneira boa escorrer”, disse Benjamin, e a América inteira junto com ele.
“Mas antes de mais nada, extirpai aqueles selvagens que não param de abrir a torneira
ruim.”
Eu sou um animal moral. Mas não sou uma máquina moral. Não funciono a
partir de um conjuntinho de manivelas e alavancas. O teclado temperança-silêncio-
ordem-determinação-frugalidade-industriosidade-sinceridade-justiça-moderação-
asseio-tranquilidade-castidade-humildade não vai me botar em movimento. Eu não
sou, em absoluto, uma pianola com Benjamin moral tirando melodias de mim.
Eis o meu credo, antagônico ao de Benjamin. É nisto que acredito:
“Que eu sou eu.”
“Que minha alma é uma floresta sombria.”
“Que o eu que eu conheço jamais passará de uma pequena clareira na floresta.”
“Que deuses, estranhos deuses, saem da floresta e aparecem na clareira do eu
que eu conheço, depois voltam para a floresta.”
“Que preciso ter a coragem de deixá-los aparecer e desaparecer.”
“Que jamais permitirei que a humanidade me domine, mas que sempre
procurarei reconhecer os deuses em mim e os deuses nos outros homens e mulheres e
submeter-me a eles.”

Esse é o meu credo. Todo aquele que anda poderá lê-lo. Todo aquele que prefere
rastejar, ou depender da gasolina, pode decretar que é um lixo.
E quanto a uma “lista”… Até que é bem divertido brincar de Benjamin.

1. TEMPERANÇA

Coma e se divirta com Baco, ou mastigue pão seco com Jesus, mas não se instale à
mesa sem um deus.

2. SILÊNCIO

Fique quieto quando não tiver nada a dizer; quando a paixão genuína movê-lo, diga o
que tiver a dizer, e diga com ênfase.

3. ORDEM

Saiba que é responsável perante os deuses que o habitam e perante os homens em


quem os deuses se manifestam. Reconheça seus superiores e seus inferiores, segundo
os deuses. Essa é a base de toda ordem.

4. DETERMINAÇÃO

Decida-se a acatar suas exigências mais profundas e a sacrificar as coisas menos


importantes pelas que preponderam. Mate quando necessário e seja morto de acordo
com o mesmo critério: o necessário é determinado pelos deuses que o habitam ou
pelos homens em quem você reconhece o Espírito Santo.

5. FRUGALIDADE

Não peça nada; aceite o que lhe parecer adequado. Não desperdice seu orgulho nem
esbanje sua emoção.

6. INDUSTRIOSIDADE
Não perca tempo com ideais; sirva ao Espírito Santo; jamais sirva à humanidade.

7. SINCERIDADE

Ser sincero é lembrar que eu sou eu e que o outro homem não é eu.

8. JUSTIÇA

A única justiça é seguir a intuição sincera da alma, tanto a irada como a gentil. A ira é
justa e a piedade é justa, mas o julgamento nunca é justo.

9. MODERAÇÃO

Tome cuidado com os absolutos. Há muitos deuses.

10. ASSEIO

Não seja limpo demais. Isso empobrece o sangue.

11. TRANQUILIDADE

A alma tem muitos deslocamentos. Muitos deuses vêm e vão. Em toda perplexidade,
tente encontrar o que há de mais profundo em você, e guie-se por isso. Obedeça ao
homem em quem reconhecer o Espírito Santo; comande quando sua honra assumir o
comando.

12. CASTIDADE

Jamais “use” atividades venéreas. Siga seu impulso passional, caso haja resposta no
outro ser; mas jamais tenha um objetivo em mente: nem descendência, nem saúde,
nem mesmo prazer, sequer caridade. Saiba apenas que o que é “venéreo” compete aos
grandes deuses. Que é uma oferenda de si mesmo aos deuses maiores, aos sombrios, e
nada além disso.

13. HUMILDADE

Olhe para todos os homens e mulheres tendo em mente o Espírito Santo que está
neles. Jamais sucumba ao que é estéril.

Minha lista é essa. Fazia muito tempo que eu tentava enxergar seus termos com mais
clareza, e foi preciso aparecer a América e nosso bom Benjamin para que eu
finalmente me decidisse a tentar formulá-la.
E agora, pelo menos, já sei por que não tolero Benjamin. Ele se esforça para me
despojar de minha totalidade e de minha floresta sombria, de minha liberdade. Pois
como um homem pode ser livre sem um plano de fundo ilimitado? E Benjamin se
esforça para me enfiar num potreiro cercado de arame farpado e me obrigar a cultivar
batatas ou Chicagos.
E como posso ser livre sem deuses que vêm e vão? Mas Benjamin não quer que
coisa nenhuma exista além de meus semelhantes úteis, e eu estou farto deles; quanto a
seu Deus Pai, sua Providência, Ele é Pai de coisa nenhuma, seu império não passa de
uma imensa loja celestial onde há todo tipo imaginável de mercadorias, de vitrolas a
chicotes.
E como um homem pode ser livre sem uma alma inteiramente sua, na qual
acredite e que não venda por preço nenhum? Mas Benjamin não admite que eu tenha
uma alma inteiramente minha. Ele afirma que não sou mais que um servidor da
humanidade – um galé, penso eu –, e que se eu não ganhar meu salário aqui embaixo
– isso no caso de o sr. Pierpont Morgan ou o sr. Bico Hebreu ou o magnífico Governo
dos Estados Unidos conseguir separar minhas migalhas juntamente com seu torrão –
não faz mal, porque haverei de ganhá-lo no . ALÉM

Ah, Benjamin! Ah, Binjum! Você consegue mais me enganar.


NÃO

Mas por que razão, ah, por que razão o sujeitinho cor de rapé teria querido
enganar-nos a todos? Por que ele fez isso?
Antes de mais nada, por pura maldade humana. Todos nós gostamos de prender
as coisas no interior de um curral cercado de arame farpado. Especialmente nossos
semelhantes. Achamos ótimo arrebanhá-los no interior do cercadinho de arame
farpado da e obrigá-los a trabalhar. “Trabalhe, ó joia livre, TRABALHE!”, berra
LIBERDADE

o libertador, estalando o chicote. Benjamin, não vou trabalhar. Não quero ser um
democrata livre. Sou um servo convicto de meu próprio Espírito Santo.
Pura maldade! Mas havia ainda um objetivo mais sutil. Benjamin era justo a seus
próprios olhos – ou seja, ele estava muito satisfeito – quando se viu em Paris
judiciosamente extraindo dinheiro da monarquia francesa em prol da derrubada de
todas as monarquias. Se você quiser conduzir sua montaria para algum lugar, precisa
adoçar sua boca. E Benjamin queria conduzir sua montaria de modo a desequilibrar a
carroça dos antigos senhores. Ele queria que a carroça da Europa se desestabilizasse.
De modo que foi obrigado a adoçar, e muito, a boca de seu asno.
“Doravante, não tenhais mais senhor.”
Ou seja, ele teve de dobrar completamente o asno humano de modo a poder
dobrar muitas outras coisas mais adiante. Para começar, foi preciso abrir um rombo no
governo britânico. O primeiro autêntico rombo que o governo britânico já sofrera: a
fissura da rebelião americana.
Benjamin, em sua esperteza, sabia que a destruição do Velho Mundo seria um
longo processo. Nas profundezas de seu próprio subconsciente ele odiava a Inglaterra,
odiava a Europa, odiava todo o corpus de ser europeu. Queria ser americano. Mas a
pessoa não consegue mudar sua natureza e seu estado de consciência como quem
troca de sapato. O despojamento é gradual. É preciso que se passem anos e que
séculos transcorram até que você alcance isso. Como um filho fugindo da dominação
dos pais. A libertação não é simplesmente uma ruptura. Trata-se de um processo longo
e semissecreto.
Foi o que se passou com o americano. Na primeira vez que cruzou o Atlântico,
ele era um europeu. No fundo, aliás, ele continua sendo um europeu, mesmo renitente.
A distância que separa Benjamin Franklin de Woodrow Wilson pode ser grande, mas é
uma distância ao longo de uma mesma estrada. Não há estrada nova. A mesma velha
estrada, agora inútil e em péssimo estado. Teórica e materialista.
Então por que razão Benjamin inventou esse simulacro do cidadão perfeito como
sendo característico da América? Claro, até onde sabia, fez isso na maior boa-fé.
Simplesmente achava que aquele era o ideal autêntico. Mas o que achamos que
fazemos não importa muito. Na verdade nunca sabemos realmente o que estamos
fazendo. Ou bem somos instrumentos materiais, como Benjamin, ou bem agimos num
gesto de criação vindo do nosso eu mais recôndito, quase sempre inconsciente. Somos
simplesmente os atores, nunca inteiramente os autores de nossos próprios atos ou
obras. O autor é , o desconhecido dentro de nós ou fora de nós. O melhor que
ELE

podemos fazer é tentar manter-nos em consonância com as profundezas que há dentro


de nós. E o pior é tentar fazer as coisas à nossa maneira, em oposição a , e com o
ELE

tempo ter nossas articulações esfoladas em decorrência de nossa presunção.


Foi o que aconteceu com Benjamin ao extrair dinheiro da Corte de França. Ele
estava dando os primeiros passos no sentido de derrubar a Europa inteira, França
inclusive. É impossível obter uma coisa nova sem quebrar a antiga. No caso, a Europa
é a coisa antiga. E a América deverá ser a nova, caso as pessoas que vivem na
América não mostrem excessiva oposição aos deuses interiores. A coisa nova é a
morte da antiga. Mas é impossível degolar uma época. Você tem de tirar-lhe a vida ao
longo de vários séculos.
E Benjamin agia nesse sentido tanto direta como indiretamente. Diretamente, na
Corte Francesa, abrindo um rombo pequeno mas muito perigoso no flanco da
Inglaterra, através do qual a Europa àquela altura já perdera sangue a ponto de estar
praticamente à morte. E indiretamente, na Filadélfia, construindo esse pequeno ideal,
ou autômato, tão pouco atraente, cor de rapé: o modelo do americano. O modelo do
americano, esse democratazinho seco, moral, utilitário, fez mais para arruinar a velha
Europa que qualquer niilista russo. Conseguiu isso mediante um desgaste lento, como
um filho que ficou em casa e obedeceu aos pais, embora silenciosamente detestasse
sua autoridade e silenciosamente, em sua alma, fosse destruindo não apenas sua
autoridade, mas também sua própria existência. Porque os americanos não saíram da
Europa, em termos espirituais. O lar espiritual da América continuava sendo, e é até
hoje, a Europa. Nisso consiste a amarga servidão, a despeito dos diversos bilhões
acumulados em ouro. Seus bilhões em ouro não passam de montes de esterco,
América, e é isso que eles continuarão sendo enquanto você não se tornar uma
realidade para si mesma.
Toda essa americanização, toda essa mecanização tinham o propósito de derrotar
o passado. E agora olhem para a América, emaranhada em seu próprio arame farpado
e dominada por suas próprias máquinas. Totalmente imobilizada por seu próprio
arame farpado de não deverás e trancafiada em suas próprias máquinas “produtivas”,
como milhões de esquilos correndo em milhões de gaiolas. É tudo uma enorme farsa.
Eis sua oportunidade, Europa. Invista com tudo e reconquiste o que é seu, reme
sua própria canoa num novo mar, enquanto a esperta América se espoja nos montes de
esterco do seu ouro, estrangulada por seu próprio arame farpado de ideais e
moralismos baseados em não-deverás. Enquanto ela sai para trabalhar como milhões
de esquilos em milhões de gaiolas. Produção!
Vá com tudo e recupere o que é seu, Europa!

a
Uma das primeiras grandes lojas de departamentos dos Estados Unidos, criada na segunda metade do século XIX.
(N.T.)
b
No original, “books of Venery”: em inglês, a palavra “venery” pode referir-se tanto a atividades de caça como a
atividades amorosas. (N.T.)
3. Hector St. John de Crèvecœur

C F em Caen, no ano de 1735. Quando menino foi mandado para a


RÈVECOEUR NASCEU NA RANÇA,

Inglaterra, onde fez parte de seus estudos. Rapaz, partiu para o Canadá, serviu durante
algum tempo sob o comando de Montcalm na guerra contra os ingleses e mais tarde
foi para os Estados Unidos, onde se tornou um exuberante americano. Casou-se com
uma garota da Nova Inglaterra e se estabeleceu na fronteira. Durante o período em
que se dedicou a “cultivar a terra”, escreveu Letters from an American Farmer (Cartas
de um agricultor americano), que se tornaram um sucesso em sua época, sobretudo na
Inglaterra, entre os novos reformadores como Godwin e Tom Paine.
Mas Crèvecœur não era um mero cultivador de terras. Digamos que essa foi sua
melhor piada. Na realidade ele estava mais preocupado com a sociedade perfeita e as
ações necessárias para sua própria inserção nessa sociedade que com o cultivo de
cenouras. Observem, portanto, como ele sai de cena e ruma para a França em grande
estilo, imbuído de idealismo, deixando para trás as lavouras, para serem queimadas
pelos índios, e sua esposa, para se virar como pudesse. Isso se passou durante a
Guerra da Independência americana, ocasião em que o Nobre Homem Vermelho deu
de se comportar em consonância com sua velha natureza profunda. Ao voltar para a
América, o Agricultor Americano ingressou na vida pública e no comércio. Em outras
viagens à França, apresentou-se como um literato Filho-da-Natureza-doce-e-puro,
ficou amigo do velho Benjamin Franklin em Paris e tornou-se companheiro dileto da
Madame d’Houdetot de Jean-Jacques Rousseau, aquela alma tão literária.
Os românticos ingleses – Hazlitt, Godwin, Shelley, Coleridge – vibraram,
naturalmente, com Letters from an American Farmer. Um novo mundo, um mundo
onde imperavam o Nobre Selvagem e a Natureza Incorrupta e a Simplicidade
Paradisíaca e todo esse universo encantador que emana da fonte impoluta do tinteiro.
Feliz Coleridge, que nunca se afastou de Bristol. Alguns dentre nós foram até o fim.
Acho que essa América selvagem e nobre é a coisa que mais almejei conhecer
desde que li Fenimore Cooper quando menino. E agora consegui.
Franklin é o verdadeiro protótipo prático do americano. Crèvecœur é o
emocional. Para o europeu, o americano é antes de mais nada o diabo do dólar.
Tendemos a não registrar a herança emocional de Hector St. John de Crèvecœur.
Tendemos a duvidar, por exemplo, do coração torturado de Woodrow Wilson e de seu
lenço encharcado de lágrimas. Contudo, não há dúvida de que ambos são bem reais.
Ou não são?
Não se esperava que o doutorzinho murcho cor de rapé conseguisse tudo o que
queria. Os novos americanos podiam praticar atividades venéreas por razões de saúde
ou descendência e dedicar seu tempo ao plantio de batatas e Chicagos, mas no fim das
contas alguma seiva corria em suas veias. Precisavam encontrar um pouco de emoção
luxuriante em algum lugar.
N ATUREZA.

Eu gostaria de conseguir escrever a palavra em corpo maior.


N .
ATUREZA

Benjamin negligenciou a . Mas o francês Crèvecœur registrou sua


NATUREZA

existência bem antes de Thoreau e Emerson terem essa ideia. Sem sombra de dúvida,
não há nada tão seguro quanto dedicar suas reações emocionais à .
NATUREZA

As Letters de Crèvecœur são escritas num espírito de simplicidade tocante, quase


melhor que Chateaubriand. Tem-se a impressão de que nenhum dos dois jamais seria
capaz de fazer uma conta. Esse Agricultor Americano descreve as alegrias de se criar
um lar em meio à natureza indomada e de cultivar o solo virgem. Pobre virgem,
prostituída desde o começo.
O Agricultor tinha uma Esposa Amável e um Filho Pequeno, seu descendente.
Levava o Filho Pequeno – que não desfruta de nenhum outro nome além desse –
Qual é teu nome?
Não tenho nome.
Sou o Filho Pequeno…

para a lavoura consigo, e instalava o mencionado F.P. sobre a haste do arado enquanto
ele, o Agricultor Americano, arava o campo de batatas. Além disso, ele, o A.A.,
ajudava seus Vizinhos, a quem sem dúvida amava como a si próprio, a construir um
celeiro, e todos trabalhavam juntos na Inocente Simplicidade de uma das
Comunidades da Natureza. Enquanto isso a Esposa Amável, que, também ela, numa
simplicidade digna de Blake, era Sem Nome, assava os bolinhos ou a torta, embora
eles não sejam mencionados. Sem dúvida ela era uma filha da América de seios
fartos, embora também pudesse ter sido uma metodista de peitos achatados. Nas duas
hipóteses, teria sido uma Esposa Amável, e o Agricultor Americano não precisava de
mais nada. Não sei se o nome dela era Lizzie ou Ahoolibah, e provavelmente
Crèvecœur também não sabia. Para ele, Esposa bastava. “Esposa, me passe a faca de
trinchar.”
O Filho Pequeno cresceu e virou Saudável Descendência, enquanto outros mais
iam aparecendo: sem dúvida Crèvecœur praticava as atividades venéreas de acordo
com as instruções. E assim aqueles Filhos da Natureza labutavam na terra indomada
dedicados à Simples Labuta, acompanhada de vez em quando por uma dose discreta
de Suor Honesto. Eis aí, caro leitor, o panorama completo. O Agricultor Americano
produziu seu próprio Quadro Familiar, em exposição até hoje. Claro que a Esposa
Amável envergou seu melhor avental para aparecer im Bild, para que o mundo inteiro
a

pudesse ver e admirar.


Eu, por exemplo, quase desmaiava de admiração: até entrar na ponta dos pés na
Natureza Indomada e ver as cabanas dos Pioneiros. Em especial a Esposa Amável,
coitadinha. Não admira que ela nunca cantasse a canção da Simples Labuta nas
Inocentes Terras Indomadas. Pobre lacaia macilenta, em geral não mais que uma
espécie de fantasma a gemer na natureza selvagem…
Hector St. John, você mentiu para mim. E mentiu ainda mais
desavergonhadamente para si mesmo. Hector St. John, você é um mentiroso
emocional.
Jean-Jacques, Bernardin de St. Pierre, Chateaubriand, extraordinário François Le
Vaillant, que moleques mentirosos vocês são, com essa Natureza-Doce-e-Pura que
inventaram e jogaram para cima da gente! Maria Antonieta acabou perdendo a cabeça
por brincar de camponesa, e até hoje ninguém deu uma boa coça em vocês por todas
as mentiras que andaram nos contando.
Mas Crèvecœur era um artista, além de mentiroso, do contrário não teríamos por
que nos ocuparmos dele. Ele queria guardar a NATUREZA no bolso, tal como Benjamin
fizera com o Ser Humano. Os dois juntos queriam guardar o plano geral das coisas no
bolso, e as coisas propriamente ditas também. Depois que você está com o plano geral
das coisas no bolso, pode fazer dele o que quiser, inclusive ganhar dinheiro com ele,
no caso de não encontrar a força necessária para destruí-lo, como pretendia no início.
De modo que H. St. J. de C. tentou guardar a Natureza-Doce-e-Pura no bolso. Só que
ela não colaborou: espichou a cabeça para fora e abriu o berreiro.
Esse negócio de Natureza-Doce-e-Pura não passa de mais um esforço no sentido
de intelectualizar as coisas. Mera tentativa de obrigar a natureza inteira a se encaixar
em umas poucas leis da mente humana. Leis do tipo doce-e-puro. Durante algum
tempo a natureza deu a impressão de estar se comportando direitinho. Mas depois se
rebelou.
É por isso que você encontra os intelectuais mais puros em Subúrbios
Ajardinados ou em Fazendas Isoladas. Pense bem: Robinson Crusoé era o suprassumo
em matéria de intelectual.
Você pode idealizar ou intelectualizar. Ou então, ao contrário, pode deixar que a
alma sombria que há em você constate por si mesma. O artista costuma intelectualizar
de cima, enquanto sua subconsciência sombria se dedica a contradizê-lo de baixo.
Esse é, quase risivelmente, o caso no que diz respeito à maioria dos artistas
americanos. Crèvecœur é o primeiro exemplo. Ele tem algumas características de
artista, Franklin nenhuma.
Crèvecœur, o idealista, nos afoga numa montanha de afirmações sobre a natureza
e o nobre selvagem e a inocência da lida etc. etc. Só besteira! Mas Crèvecœur, o
artista, nos proporciona algumas visões da natureza tal como ela é, sem enfeites.
Curioso que sua visão perceba apenas as formas mais inferiores de vida natural.
Insetos, serpentes e aves – esses ele percebe envoltos em seu mistério, em seu próprio
ser imaculado. E logo em seguida vem com a mentira da Natureza Inocente.
“Constato, atônito”, escreve ele logo no início das Letters, “que tudo o que existe
tem seu inimigo, que uma espécie persegue a outra e dela se alimenta: infelizmente
nossos suiriris são os destruidores daqueles insetos industriosos [as abelhas]; mas por
outro lado essas aves protegem nossas lavouras da depredação dos corvos, que
perseguem em pleno voo com grande vigilância e destreza impressionante.”
Esse é um triste golpe na doçura-e-pureza da Natureza. Contudo, é a voz do
artista em contraposição à voz da tartaruga ideal. É a visão americana rudimentar. Ver
suiriris manifestando seu orgulho e sua hostilidade alada é, inquestionavelmente, a
visão do índio aborígine se impondo. O símbolo da Águia presente na consciência
humana. Asas escuras e ondulantes de um destino com bico de águia, um destino a
cuja percepção não podemos nos esquivar, adejando aqui, no alto do coração
selvagem da América. É em vão que você olha em torno em busca do “Ser Único que
criou todas as coisas e conduz o mundo com Sua Providência”.
“Uma espécie persegue a outra e dela se alimenta.”
Concilie as duas declarações, se quiser. Na América, porém, aja de acordo com a
observação de Crèvecœur.
O cavalo, porém, diz Hector, é amigo do homem, assim como o homem é amigo
do cavalo. Só que o cavalo não tem opção. E não vejo muita amizade, para ser
sincero, em meu velho e matreiro pônei índio, embora ele seja um sujeito bastante
compenetrado.
Também o homem, segundo Hector, é amigo do homem. Em consideração a essa
verdade, os índios queimaram sua fazendola; e por causa disso, não querendo
comprometer suas afirmações, ele preferiu não incluí-la em Letters.
Um enxame de marimbondos fez um ninho no teto da sala do Agricultor
Americano, e os terríveis insetos rajados voam ao redor das cabeças da Saudável
Descendência e da Esposa Amável, para satisfação do Agricultor Americano. Ele
apreciava seu zumbido e sua impertinência rajada. Além disso, de um ponto de vista
meramente utilitário, eles mantinham a casa livre de moscas. É o que afirma Hector.
Consequentemente, Benjamin teria aprovado. Mas as impressões da Amável E. a
respeito não nos foram transmitidas e, afinal de contas, era ela que fazia a compota.
Outra historinha. Andorinhas fizeram ninho na varanda do Agricultor
Americano. Apareceram rouxinóis, que se agradaram do ninho das andorinhas. Em
sua pugnacidade (gosto da palavra pugnacidade, é tão americana…), elas atacaram as
arautas da primavera e as expulsaram de seu agradável ninho de adobe. Na primeira
oportunidade, as andorinhas voltaram. Mas os rouxinóis, ao vê-las, expulsaram-nas
com violência pela segunda vez. A cena se repetiu até que as gentis andorinhas, com
toda a paciência, resolveram construir outro ninho, enquanto os rouxinóis desfrutavam
triunfantes do lar usurpado. O Agricultor Americano testemunhou esse confronto com
imenso deleite e sem dúvida aplaudiu ruidosamente aqueles sem-vergonha dos
rouxinóis. Porque, na Terra dos Livres, o maior prazer que um homem pode ter é se
dar bem em detrimento do próximo.
Crèvecœur diz que abateu com um tiro um suiriri que andava devorando suas
abelhas. Abriu o papo da ave e retirou um grande número de abelhas, que, pequenas
democratas que eram, depois de permanecer um ou dois minutos desmaiadas
estremeceram ao sol e reviveram, desamassaram as asas e se retiraram com toda a
pose, como Jonas ao chegar à praia; ou como autênticos ianques finalmente livres do
papo do suiriri da Europa.
Não estou preocupado em saber se é verdade ou não. O quadro me agrada, e vejo
nele uma parábola da ressurreição americana.
O beija-flor.
Seu bico é comprido e pontudo como uma agulha de costura tosca; assim como a abelha, a natureza
ensinou-o a buscar no cálice das flores as partículas melífluas capazes de fornecer-lhe alimento suficiente; e
mesmo assim parece deixá-las intocadas, nada que nossos olhos sejam capazes de perceber parece ter-lhes
sido retirado. Quando está se alimentando, parece imóvel, embora sustentado incessantemente pelas asas: e
às vezes, por razões que desconheço, rasga e lacera as flores até deixá-las em mil pedaços; pois, por
estranho que pareça, são os indivíduos mais irascíveis de toda a tribo empenada. Onde as paixões encontram
espaço num corpo tão diminuto? É frequente que lutem entre si com a fúria de leões, até que um dos
combatentes caia sacrificado e morra. Quando cansado, muitas vezes ele pousou a dois passos de mim, e
nessas ocasiões propícias observei-o atentamente e em minúcias. Seus olhinhos parecem diamantes,
refletindo a luz de todos os lados; extremamente bem-acabado em todos os seus componentes, é uma obra
minúscula de nosso grandioso pai, que parece tê-lo concebido como o menor e ao mesmo tempo o mais belo
ser da espécie alada.

Além disso, um verdadeiro tártaro em miniatura. Leões do tamanho de um


tinteiro! Li sobre os beija-flores em algum lugar, em Bates e W.H. Hudson, talvez.
Mas coube ao Agricultor Americano mostrar-me o verdadeiro leãozinho enfurecido.
Na América, e para o autêntico americano, é óbvio que as aves não são anjos.
Crèvecœur vê como elas estremecem e saem voando com a velocidade de pequenos
demônios e como enfiam cruelmente os bicos afiados umas nas outras. Mas vê
também, aqui e ali, a timidez contida e terna do animal selvagem. As codornas no
inverno, por exemplo.
Muitas vezes, nos ângulos das cercas, onde o movimento do vento não deixa a neve se acumular, abasteço-
as de palha e grãos; estes para alimentá-las, e a palha para impedir que suas patas delicadas fiquem presas à
terra congelada, como frequentemente vi acontecer.

É um trecho bonito, um conhecimento que vem do sangue. Crèvecœur conhece o


contato das patas das aves, como se elas já tivessem pousado sobre sua mão nua com
as patas nuas, naquele seu equilíbrio vibrante, agudo, transido de frio. É uma ternura
bonita, bárbara, do sangue. Afinal, ele não as transforma em “irmãzinhas do ar”, como
são Francisco, nem começa a pregar para elas. Conhece-as como estranhas e tímidas
concentrações de presença avícola de sangue quente.
A carta sobre as serpentes e os beija-flores é um belo ensaio, em sua veracidade
primeva, escura. A descrição do combate entre duas serpentes, uma grande cobra-
d’água e uma enorme serpente negra, combina com a descrição do beija-flor:
Estranha cena para alguém presenciar; duas grandes serpentes aderindo vigorosamente ao solo, atreladas
uma à outra devido às contorções que as prendiam, e espichadas em todo o seu comprimento, puxavam, mas
puxavam em vão; e nos momentos de maior esforço as partes de seus corpos que estavam entrelaçadas
pareciam extremamente finas, enquanto o restante deles parecia inflado, e de vez em quando convulsionado
por ondulações de grande intensidade, que se seguiam umas às outras a pequenos intervalos. Seus olhos
pareciam em chamas, e prestes a saltar de suas cabeças; em determinado momento o conflito pareceu tornar-
se decisivo; a cobra-d’água formou duas grandes dobras com o corpo e, graças a essa operação, fez a outra
serpente se espichar mais do que o normal. No minuto seguinte as novas contorções da preta ganharam uma
supremacia inesperada; também ela adquiriu duas grandes dobras, o que provocou um alongamento do
corpo de sua oponente na mesma proporção em que ela contraíra o próprio.

Esse combate, que Crèvecœur descreve até o final, é classificado por ele como
uma cena “incomum e bela”. Ele deixa de lado a pureza e a doçura da Natureza e
aparece pela primeira vez como um simples ofiólatra, e talvez seu capítulo seja uma
peça tão atraente de ofiolatria quanto a cascavel enroscada esculpida em pedra dos
astecas.
E contudo o verdadeiro Crèvecœur, no caso, não é nem agricultor, nem filho da
Natureza, nem ofiólatra. O verdadeiro Crèvecœur volta para a França e frequenta os
salões literários e é amigo da Madame d’Houdetot, de Rousseau. Além disso, é um
homem de negócios competente e organiza uma linha de navegação entre a França e a
América. Tudo acaba em materialismo, realmente. Mas as cartas não mencionam esse
fato.
Podemos imaginá-lo voltando, tristíssimo, para se instalar na taba ao lado de seus
Irmãos Vermelhos. Porque a Guerra da Independência começou, e os índios são
armados pelo adversário; fazem coisas horríveis nas fronteiras. Enquanto Crèvecœur
está fora, na França, sua propriedade é destruída, sua família fica desabrigada. De
modo que a última carta lamenta amargamente o fato de haver uma guerra, e a loucura
e a desumanidade do homem contra o homem.
Mas Crèvecœur conclui seu lamento numa nota decidida. Ao lado da amável
esposa e da saudável descendência – agora de estatura bem mais elevada –
abandonará o litoral civilizado, onde o homem é sofisticado e consequentemente
propenso à vilania, e irá viver ao lado dos Filhos da Natureza, os Homens Vermelhos,
no assentamento indígena. Sem dúvida, na vida real, Crèvecœur fazia alguma
distinção entre os índios que bebiam rum à la Franklin, que queimavam lares e
massacravam famílias, e os outros índios, os nobres Filhos da Natureza, que
povoavam sua própria fantasia predeterminada. Fizesse o que fosse na vida real, no
mais profundo de seu ser ele não abriria mão desse mundo que ele mesmo construíra,
e onde o homem natural era um objeto de inefável fraternidade. Em linguagem
tocante e vívida ele descreve seu lar-tenda próximo ao povoado dos índios, a forma
como subjuga o solo aborígine para produzir um pouco de milho, enquanto a esposa
tece no interior da cabana. E os esforços de sua imaginação para salvar a prole
indefesa da brutalidade das trevas anticristãs são comoventes e intrigantes, pois como
é possível que a Natureza, tão doce e pura sob as árvores da floresta, possa ter agora
um efeito contaminador?
Mas isso tudo não passa de brincadeira. Crèvecœur estava na França usando
sapatos de salto alto e coletes bordados, posando de literato e tratando de progredir na
vida. Nós, contudo, temos a obrigação de segui-lo até o interior das matas, onde a
vida simples e natural será aperfeiçoada, perto do povoado de tendas onde vive a
amável Raça Vermelha.
Ele queria, evidentemente, imaginar a vida sombria e selvagem para ficar com
tudo aquilo arrumadinho na cabeça. Queria saber assim como os índios e os selvagens
sabem, obscuramente, e em termos de diversidade. Estava simplesmen te maluco,
como dizem os americanos, por aquilo. Mais do que maluco! Porque ao mesmo tempo
estava perfeitamente convencido de que a Natureza é doce e pura, de que todos os
homens são irmãos e iguais e se amam uns aos outros como pombinhos arrulhando. E
estava decidido a obrigar a vida a obedecer a suas determinações. Em consequência,
manteve uma distância prudente de todo contato exagerado com a Natureza e buscou
a proteção do comércio e do mundo material. Mesmo assim, estava decidido a
conhecer o estilo selvagem de vida para assim satisfazer sua própria mente. De modo
que simplesmente fingiu, em nossa intenção, as últimas cartas. Uma espécie de
concretização do seu desejo.
Porque os animais e os selvagens vivem isolados, cada um em seu próprio eu
imaculado. O animal ergue a cabeça, fareja e, no interior de seu ventre escuro e
apaixonado, sabe. Sabe instantaneamente, com sombria indiferença. E
instantaneamente retrocede e foge; ou, predador, se agacha, na explosão misteriosa da
antecipação exultante da captura de uma vítima; ou abaixa a cabeça, outra vez
indiferente; ou avança, movido pela insaciável curiosidade selvagem, pela insaciável
necessidade de aproximar-se do que é indizivelmente estranho e incalculável; ou se
aproxima, impulsionado pela força vagarosa do amor sensual selvagem.
Crèvecœur desejava adquirir esse tipo de conhecimento. Mas queria adquiri-lo
confortavelmente, dentro de sua cabeça, junto com outras ideias e ideais. Ele não se
aproximava demais das cabanas indígenas. Porque deve ter desconfiado que, no
momento em que passasse a ver com os olhos dos selvagens, toda a sua
fraternidade/igualdade viraria fumaça, e seu mundo ideal de pura bondade afável
também. E, pior, seria forçado a desistir de sua vontade própria, que garante que o
mundo é assim porque seria muito melhor se fosse assim. Por tudo isso, Crèvecœur
voltou rapidinho para a França em seus saltos altos e, de Paris, imaginou a América.
Ele fazia questão de manter seu estado ideal. Ao mesmo tempo, desejava
conhecer o outro estado – a mente sombria, selvagem. Desejava as duas coisas.
Mas não é possível, Hector. Os dois são incompatíveis.
Melhor voltar para o comércio. Lá você pode comandar as coisas à sua maneira.
Na verdade ele detesta a vida sombria, pré-mental. Detesta o verdadeiro mistério
sensual. Mas quer “saber”. S . Ah, insaciável curiosidade americana!
ABER

Crèvecœur é um mentiroso.
Mas ele não vai se arriscar, aprendendo em carne e osso. Arrisca toda a
imaginação do mundo, só isso.
É divertido vê-lo posicionado a uma boa distância a calcular os riscos do passo
que dá tão sensualmente, em sua imaginação, sozinho. Estala a língua, numa atitude
autenticamente selvagem, imitando o que tantas pessoas fazem hoje: estalam a língua
e saboreiam ações pecaminosas imaginárias – nenhuma delas na vida real.
“Devo dizer-lhes”, afirma ele, “que a proximidade da floresta tem algo de muito
singular. Algo que diz respeito tanto aos homens como aos animais e plantas que
crescem e vivem na mata; eles são inteiramente diferentes dos que vivem na planície.
Comunicarei aos senhores os meus pensamentos com absoluta sinceridade, mas não
esperem que apresente razões. O fato de viver na floresta ou perto dela faz com que as
ações desses homens sejam determinadas pela qualidade selvagem daquilo que os
cerca. É comum os veados se aproximarem para comer seu cereal, os lobos para
destruir suas ovelhas, os ursos para matar seus porcos, as raposas para capturar suas
galinhas. Sem demora, essa hostilidade circundante põe a arma em suas mãos; eles
observam aqueles animais, matam alguns deles; e assim, ao defender o que lhes
pertence, em pouco tempo se transformam em caçadores declarados; essa é a
sequência dos acontecimentos; uma vez caçadores, adeus arado. A caça os torna
ferozes, melancólicos e antissociais; um caçador não quer saber de vizinho, na
verdade odeia vizinhos porque teme a competição. … O consumo de carne selvagem,
independentemente do que se possa achar, tende a alterar seu temperamento…”
É claro que Crèvecœur jamais teve a intenção de voltar ao seio da Natureza
como caçador, apenas como marido. O caçador é um assassino. O marido, por outro
lado, ocasiona o nascimento e o crescimento. Mas mesmo o marido labuta para
assegurar o sombrio controle da terra e dos animais, sempre renitentes; ele se esforça
para extrair substância, precisa dominar o solo e o gado vigoroso, precisa ter em si o
denso conhecimento do sangue e o controle vagaroso, mas profundo. Igualdade e
humildade repletas de desprendimento são coisas que não existem. O sangue presente
na labuta inevitavelmente acaba com essas ideias. É por isso que as nações mais
idealistas inventam a maioria das máquinas. A América está simplesmente infestada
de invenções mecânicas, porque na América ninguém nunca quer fazer coisa alguma.
São idealistas. As máquinas que façam as coisas.
E mais uma vez Crèvecœur menciona o “receio de que meus filhos pequenos
sejam capturados por esse encanto singular, tão perigoso em sua tenra idade” –
referindo-se ao encanto da vida selvagem. E prossegue: “Qual é a força que determina
que crianças adotadas ainda pequenas por esse povo [os índios] jamais tornem a
aceitar que alguém lhes imponha o comportamento europeu? Na última guerra
conheci muitos pais desesperados que, com o advento da paz, foram até os povoados
indígenas aonde sabiam que seus filhos haviam sido levados em cativeiro e
constataram, para sua inenarrável tristeza, que eles estavam tão perfeitamente
indianizados que muitos nem os reconheciam mais, e os que, por estarem em idades
mais avançadas, se lembravam dos pais e das mães recusavam-se terminantemente a
ir com eles e corriam para os pais adotivos pedindo-lhes que os protegessem das
manifestações de amor que seus verdadeiros pais, consternados, lhes dirigiam! Por
incrível que pareça, ouvi essa narrativa mil vezes, vinda de pessoas dignas de
crédito.”
Deve haver alguma coisa singularmente cativante em seu [dos índios] vínculo social, algo muito superior a
tudo o que existe entre nós; porque milhares de europeus são índios, e não existe exemplo de um único
desses aborígines que tenha feito a opção de tornar-se europeu…

Qual será o mistério, Hector?


Eu gosto da imagem de milhares de descendentes obstinados negando-se a
encarar seus verdadeiros progenitores brancos e preferindo, com determinação, os
índios que adotaram como pais.
Já encontrei índios sem nenhuma característica que os distinga dos brancos. E
nunca vi um homem branco que tivesse verdadeiro aspecto de índio. Ou seja, Hector
está mentindo outra vez.
Mas Crèvecœur queria ser um selvagem intelectual, como muitíssimos outros
que já encontramos. Doces filhos da Natureza. Selvagens e sanguinários filhos da
Natureza!
Os americanos brancos se esforçam muito para se intelectualizar. Especialmente
as mulheres americanas brancas. E a última moda, de novo, é essa história de
“selvagem”.
Selvagens brancos providos de carro, telefone, rendimento e ideais! Selvagens
bem habituados às máquinas; mas selvagens mesmo assim, ó deuses!

a
“No quadro.” Em alemão no original. (N.T.)
4. Os romances brancos de Fenimore Cooper

B F
ENJAMIN RANKLIN uma pequena equação capciosa em matéria de matemática
TINHA

providencial:

Rum + Selvagem = 0.

Sensacional! Com um pouco de persistência, você conseguiria somar o universo


e obter zero.
Rum + Selvagem talvez tenha como resultado um selvagem morto. Mas será que
um selvagem morto é igual a zero? Será que é possível criar uma terra virgem
recorrendo ao processo de liquidar seus aborígines?
Os astecas não existem mais. Os incas, tampouco. O pele-vermelha, o esquimó, o
patagão – todos reduzidos a números ínfimos.
Où sont les neiges d’antan? a

Queridos, onde quer que elas estiverem, voltarão no próximo inverno, sem
sombra de dúvida.
Não que haja possibilidade de os peles-vermelhas algum dia virem a possuir as
vastas terras americanas. Pelo menos suponho que não há. Mas seu fantasma, sim.
O Homem Vermelho morreu odiando o homem branco. Tudo que ainda vive
dele, vive odiando o homem branco. Basta se aproximar dos índios para perceber esse
fato. No que nos diz respeito, o Homem Vermelho é sutil e irremediavelmente
diabólico. Mesmo sem sabê-lo. Foi privado de tudo e é implacável. Não acredita em
nós e em nossa civilização, e por isso é nosso inimigo místico, pois nós o forçamos a
se retirar da face da terra.
A fé é uma coisa misteriosa. É a única coisa capaz de curar as feridas da alma.
Não existe fé no mundo.
O Homem Vermelho está morto e não tem fé em nós. Está morto e não está
apaziguado. Não o imaginem feliz em seu Feliz Território de Caça. Não. Somente os
que morrem na fé morrem felizes. Os que são empurrados para fora da vida
humilhados voltam não apaziguados, em busca de vingança.
Uma coisa curiosa quanto ao Espírito do Lugar é o fato de que nenhum lugar
exerce toda a sua influência sobre o recém-chegado enquanto o velho morador não
estiver morto ou absorvido. É o que se passa na América. Enquanto os peles-
vermelhas existiam em quantidades consideráveis, os novos colonos se mantiveram
em grande medida imunes ao daimon, ou demônio, da América. No momento em que
os últimos núcleos de vida vermelha desaparecerem da América, os homens brancos
serão obrigados a enfrentar o demônio do continente em toda a sua grandeza. No
momento o demônio do lugar e os fantasmas não apaziguados dos índios mortos agem
no fundo do inconsciente ou na alma subconsciente do americano branco, provocando
o grande mau humor americano, a agitação frenética – à maneira de Orestes – que
domina a alma ianque, o mal-estar íntimo que às vezes atinge as raias da loucura. O
mexicano é macabro e desintegrado à sua própria maneira. Por enquanto o espírito
oculto da América atingiu o americano, a alma americana, de forma dissimulada. Mas
no decorrer da geração atual é previsível que os peles-vermelhas remanescentes
submerjam no grande pântano branco. Então o Daimon da América passará a agir
abertamente, e veremos mudanças consideráveis.
Sempre houve, na alma branca americana, um sentimento ambivalente em
relação ao índio. Primeiro foi a impressão de Franklin, de que uma Providência sábia
certamente alimentava o propósito de extirpar aqueles selvagens. Depois veio o
sentimento contraditório de Crèvecœur a respeito do nobre Homem Vermelho e da
vida inocente no assentamento. Hoje ninguém quer abraçar a crença de Benjamin
numa Providência cheia de sabedoria que extirpa o índio para abrir espaço para os
“cultivadores da terra”. Encontramos em Crèvecœur um desejo sentimental pela
glorificação dos selvagens. Totalmente sentimental. Hector se manda para Paris para
apregoar as maravilhas da vida no assentamento indígena.
Desejo de extirpar o índio. E o desejo contraditório de glorificá-lo. Ambos
continuam em cena hoje.
Hoje, a grande maioria da população branca que vive em contato com os índios
bem que gostaria de ver esses irmãos vermelhos exterminados; não apenas para ter a
oportunidade de se apossar das terras deles, mas devido à hostilidade silenciosa,
invisível porém mortífera, existente entre os espíritos das duas raças. Uma minoria de
brancos intelectualiza o Homem Vermelho e o põe nas nuvens, mas essa minoria
branca é constituída sobretudo por um pequeno grupo de intelectuais que alimenta
sérias queixas contra sua própria raça branca. A situação é essa.
Duvido que seja possível uma reconciliação real, física, entre os brancos e os
vermelhos. Por exemplo, uma garota pele-vermelha que trabalha como criada na casa
de um branco: se tratada com a devida consideração, é provável que trabalhe bem,
talvez até alegremente. Sente-se feliz com seu novo poder sobre a cozinha da mulher
branca. O mundo branco faz com que se sinta orgulhosa, desde que nada a impeça de
voltar para junto de seu povo quando assim o desejar. Mas está feliz porque brinca de
ser uma mulher branca. Outras mulheres indígenas jamais aceitariam servir ao branco
e prefeririam morrer a tornarem-se amantes de um branco.
Nos dois casos, não há reconciliação. Não há conjunção mística entre os espíritos
das duas raças. A jovem índia que trabalha como serviçal entre os brancos abandona
temporariamente sua própria identidade racial.
Suponhamos que um homem branco vai caçar nas montanhas na companhia de
um índio. É provável que os dois se entendam como irmãos. Mas basta o mesmo
homem branco sair sozinho na companhia de dois índios para que se instaure uma
sutilíssima perseguição do branco, sem que este o perceba. Se eles – os índios –
descobrirem que o branco tem medo de altura, a trilha passará automaticamente a
desembocar em sucessivos precipícios. E assim por diante. Malevolência! No coração
do índio, é esse o sentimento básico em relação ao branco. Pode ser até um
sentimento puramente inconsciente.
Suponhamos que um índio ame uma mulher branca e viva com ela. É provável
que tenha muito orgulho disso, pois será um homem altamente qualificado diante de
seu próprio povo, sobretudo se a companheira branca for rica. Ele nunca haverá de
superar o sentimento de orgulho por fazer as refeições numa sala de jantar de brancos
e fumar numa sala de estar de brancos, mas ao mesmo tempo desenvolverá um
sentimento sutil de desprezo por sua companheira branca e tentará destruir seu
orgulho branco. Se necessário, haverá de submeter-se a ela, mas fará isso com uma
espécie de infantilidade fingida, obstinada, e chegará até a amá-la com a mesma
delicadeza infantil – bela, às vezes. No fundo de seu coração, porém, estará sempre
zombando, zombando, zombando dela. Não apenas por resistência do sexo, mas
também por resistência racial.
Aparentemente, não existe reconciliação física.
Com isso, resta-nos somente a expiação, seguida pela reconciliação espiritual.
Estranho processo de reparação: expiação e unificação.
Dos escritores brancos, talvez Fenimore Cooper tenha sido o que mais contribuiu
para aproximar o Homem Vermelho do homem branco. Só que na verdade a
aproximação conduzida por Cooper é a satisfação de seu próprio desejo. É por isso
que até hoje ele faz tanto sucesso.
Os críticos modernos condenam Cooper por seu sucesso. Acho que eu próprio
me ressinto um pouco dele. Essa história de satisfação do próprio desejo com sabor
popular dificulta muito o advento do fato real mais tarde.
Cooper era um americano rico e de boa família. Seu pai fundou Cooperstown, às
margens do lago Champlain. E Fenimore era um cavalheiro culto. Não há como negar.
É impressionante como esses americanos da primeira metade do século XVIII
eram cultos. Tremendamente cultos. Austin Dobson e Andrew Lang são fichinha em
comparação. Qualquer um que se dispuser a dar uma olhada nos livros antigos poderá
comprová-lo vendo os tomos de poesia leve e raffiné, a literatura familiar belamente
ilustrada. Julgados pelos mesmos parâmetros, os escritores ingleses e franceses da
época são canhestros e grosseiros.
Na verdade, a decadência europeia foi antecipada na América; e a influência
americana se fez presente na Europa, foi assimilada por lá, depois voltou para esta
pátria da inocência como algo um tanto ousado em sua modernidade, e mesmo um
pouco perverso. As coisas são tão absurdas.
Cooper cita um francês, que afirma: “L’Amérique est pourrie avant d’être
mure.” Há muita verdade nisso. A América não foi educada pela França – por
b

Baudelaire, por exemplo. Baudelaire é que aprendeu com a América.


Os romances de Cooper se dividem em duas categorias: seus romances brancos,
como Homeward Bound (De volta ao lar), Eve Effingham, The Spy (O espião), The
Pilot (O piloto), e a Leatherstocking Series, os romances sobre os desbravadores. Para
começar, examinemos os romances brancos.
Os Effingham são três americanos extremamente refinados, elegantes, que estão
“de volta ao lar” da Inglaterra para os Estados Unidos. O grupo é formado por pai,
filha e tio, mais uma criada fiel. A filha acaba de concluir seus estudos na Europa. Na
verdade, teve tudo o que a Europa possuía de melhor. Inglaterra, França, Itália e
Alemanha não têm mais nada a lhe ensinar. É uma criatura inteligente, encantadora e
admirável; uma verdadeira heroína moderna; intrépida, calma e composta, embora
fantasticamente impulsiva, e sempre de um bom gosto impecável; interessante e
segura de si ao falar, como um homem, mas sempre encantadoramente deferente e
modesta diante do sexo forte. Ela é o ideal feminino em sua perfeição. Aprendemos a
sentir calafrios diante dela, mas a admiração de Cooper mantinha-se intacta.
A bordo do navio encontramos o outro tipo de americano: o arrivista, o
demagogo, que “fez” a Europa e que em um mês já estava com ela na palma da mão.
Ah, Septimus Dodge, se fosse um europeu o autor de seu retrato, esse europeu jamais
teria sido perdoado pela América. Mas seu retrato foi feito por um americano, de
modo que os americanos sabiamente fazem de conta que nunca lhe viram.
Septimus é o self-made man americano. Deus não teve nada a ver com sua
criação. Ele próprio se criou. Viajou à Europa, sem dúvida viu tudo o que havia para
ver, inclusive a Vênus de Milo. “O quê? Aquilo é a Vênus de Milo?” E dá as costas à
dama. Já a viu. Já se apropriou dela. Ela é um peixe que ele pescou: lá vai ele para a
América com ela na bagagem, abandonando a porcaria da estátua no Louvre.
Essa é uma modalidade americana de vandalismo. Os vândalos originais teriam
aplicado à complacente senhora uma bela machadada, acabando com ela. O insaciável
americano olha para ela. “Aquilo é a Vênus de Milo? – francamente!” E a coitada da
Vênus de Milo ali parada, parecendo uma escrava nua na praça do mercado depois de
levar uma cusparada de um passante. Uma cusparada!
Ao ouvir turistas americanos na Europa – no Bargello, em Florença, ou na Piazza
di San Marco, em Veneza, por exemplo – exclamando: “Que peça mais interessante!”,
ou então: “Eu simplesmente adoro a catedral de São Marcos! Você não acha que
aquelas cúpulas parecem uns nabos lindos de cabeça para baixo?”, muitas vezes
cheguei a pensar que as coisas belas da Europa estavam sendo estripadas por aqueles
admiradores americanos… A admiração deles é tão indiscriminada… Às vezes eles
chegam mesmo a dar a sensação de estar se rebaixando. Só que depois de serem
contempladas por um bom número de turistas americanos, as cúpulas douradas da
catedral de São Marcos, em Veneza, passam a ser nabos de cabeça para baixo num
cozido de má qualidade. Pobre Europa!
E pronto. Quando algumas bombas alemãs atingiram a catedral de Rheims um
uivo de execração subiu aos céus. Mas há mais de uma maneira de praticar o
vandalismo. Para mim, a admiração de cinco minutos dos turistas americanos
contribuiu mais para acabar com o caráter sagrado da beleza e dos ideais da velha
Europa que uma infinidade de bombas teria sido capaz de fazer.
Mas pronto. Se a Europa sofreu percalços, a paz teve suas vitórias.
Eis portanto o sr. Septimus Dodge voltando vitorioso a Dodgetown. Não vem
coroado de louros, é verdade, mas enguirlandado com as listas das coisas que viu e
cujo sangue drenou. Viu e drenou, entendem? Vênus de Milo, o Reno, o Coliseu:
engolidos como se fossem mexilhões, ficando a casca para trás.
Quanto aos aristocráticos Effingham, De Volta ao Lar da Europa para a América,
esses estão à mercê do sr. Dodge: Septimus. O sr. Dodge é um compatriota, de modo
que eles não têm o direito de desautorizá-lo. Claro, se os Effingham fossem ingleses,
jamais teriam se permitido tomar conhecimento da existência do sr. Dodge. Mas não.
São democratas americanos e por isso, se o sr. Dodge aparece diante deles e diz: “Sr.
Effingham? Muito prazer, sr. Effingham!”, bem, nesse caso o sr. Effingham é
obrigado a responder: “Muito prazer, sr. Dodge.” Se não o fizesse, seria perseguido
pelos temíveis cães da democracia querendo morder seus tornozelos e abocanhar sua
garganta assim que pusesse os pés na Terra dos Livres. Um inglês pode muito bem
ignorar a existência de um concidadão quando o aspecto do mencionado concidadão
lhe parece desagradável… Mas todo cidadão americano tem o direito de lhe impingir
sua presença, por menos propenso que você esteja a aceitá-la.
Liberdade!
Os Effingham detestam o sr. Dodge. Têm horror a ele. Abominam-no.
Desprezam-no e olham-no com um desdém infinito. Tudo o que ele é, diz e faz
parece-lhes vulgar demais, lamentável demais. Mesmo assim, são obrigados a
responder, quando ele se apresenta: “Muito prazer, sr. Dodge.”
A liberdade!
O sr. Dodge, de Dodgetown, ora adula, ora se impõe, ora se encolhe, ora
provoca. E os Effingham, terrivelmente “superiores” no país da igualdade, se
retorcem indefesos. Adorariam eliminar a existência de Septimus esnobando-o. Mas
Septimus não pode ser esnobado. Como um verdadeiro democrata, é impossível
esnobá-lo. Como um verdadeiro democrata, ele tem o direito de seu lado. E direito é
poder.
Direito é poder. É a velha luta pelo poder.
Septimus, como um verdadeiro democrata, é igual a todos os homens. Como um
verdadeiro democrata com dinheiro no bolso, é, em decorrência da quantia que leva
no bolso, superior aos democratas de bolsos vazios. Porque, embora todos os homens
nasçam e morram iguais, é impossível fazer alguém admitir que dez dólares são iguais
a dez mil dólares. Não, não, existe uma diferença nesse ponto, por mais que você leve
o assunto da igualdade a sério.
Septimus mantém os Effingham sob seu poder. Estão bem seguros, não
escaparão. Preferimos não revelar as torturas que esperam os Effingham quando eles
chegarem em casa – quando chegarem à Terra dos Livres – nas mãos do
horrendamente afável Dodge. O que era a perseguição de um lorde altivo ou de um
barão saqueador ou de um abade inquisitorial diante da perseguição de um milhão de
Dodges? Os orgulhosos Effingham são como homens enterrados até o queixo, nus, em
formigueiros, para serem mordidos até a morte por uma miríade de formigas.
Estoicamente, como bons democratas e idealistas, eles se contorcem e enfrentam a
situação sem maiores queixas.
Contorcem-se e enfrentam a situação. Não há como fugir. Nem naquele tempo
nem hoje em dia. Não há como fugir. Eles se contorciam nas garras do dilema Dodge.
De lá para cá, Ford piorou um pouco as coisas.
Nos romances brancos de Cooper corre o ácido das mordidas de formiga, o ácido
fórmico do envenenamento democrático. Os Effingham se sentem superiores. Cooper
se sentia superior. A sra. Cooper também se sentia superior. E mordidos.
Porque eles eram democratas. Não acreditavam em reis, nem em lordes, nem em
amos, nem em superioridade real de nenhum tipo. Diante de Deus, é claro. Aos olhos
de Deus, é claro, todos os homens eram iguais. Nisso eles acreditavam. E
consequentemente, embora se sentissem muito superiores ao sr. Dodge, mesmo assim
eram seus iguais aos olhos de Deus, então não podiam sentir-se livres para dizer-lhe:
“Sr. Dodge, faça o favor de ir pro inferno.” Eram obrigados a dizer: “Muito prazer em
conhecê-lo.”
Que mentira! Mentiras democráticas.
Que dilema! Sentir-se tão superior. Saber que você é superior. E ao mesmo
tempo acreditar que, aos olhos de Deus, todos são iguais. Você não consegue evitar.
Por que eles não podiam deixar o Senhor Todo-poderoso se encarregar da
igualdade, visto que ela parece ocorrer especificamente aos olhos Dele, para se
aferrarem à própria superioridade? Por quê?
Por alguma razão, não ousavam.
Eram americanos, idealistas. Como poderiam ter a ousadia de contrapor um mero
sentimento intenso a uma e a um ?
IDEIA IDEAL

Idealmente, ou seja, aos olhos de Deus, o sr. Dodge era igual a eles.
Que opinião pouco favorável eles tinham da capacidade de discriminação do
Todo-poderoso!
Mas o fato era esse. O .
IDEAL DA IGUALDADE

Muito prazer em conhecê-lo, senhor Dodge.


Somos iguais aos olhos de Deus, naturalmente. Mas hmmm…
Encantado em conhecê-la, senhorita Effingham. A senhorita falou hmmm? Bom,
acho que meu saldo bancário aguenta essa…
Pobre Eva Effingham.
Eva! Pensem bem. Eva! E aves do paraíso. E maçãs.
E o sr. Dodge.
É nisso que dá essa história de maçãs do conhecimento, senhorita Eva. Você
deveria ter deixado elas para lá.
“Senhor Dodge, o senhor é irremediável e intoleravelmente inferior.”
Por que ela não podia dizer isso? Era o que ela sentia. E ela era uma heroína.
Que pena, ela era uma heroína americana. Era uma . S tudo o que é
MULHER CULTA ABIA

possível saber sobre . Engolira o


IDEAIS com sua primeira colherada de
IDEAL DA IGUALDADE

. Que pena por ela e por aquela maçã de Sodoma que parecia tão cor-de-rosa.
CONHECIMENTO

Que pena por todo o seu conhecimento.


O sr. Dodge (de calções xadrez): E então, sentindo um certo desconforto na
região abdominal, senhorita Effingham?
A srta. Effingham (afastando o olhar com dificuldade do ): Bom dia,
OCEANO INFINITO

senhor Dodge. Eu estava admirando a distância azul-marinho.


O sr. Dodge: Será que não seria melhor admirar alguma coisa mais próxima?
Pensem em como teria sido fácil para ela dizer “Saia daqui!”, ou “Vá embora,
seu atrevido!”, ou “Fora, escravo insignificante!”, ou simplesmente dar-lhe as costas.
Mas nesse caso ele teria simplesmente dado a volta nela para que tornassem a
ficar de frente.
Ela era ou não era superior a ele?
Bem, sem dúvida, intrinsecamente era. Intrinsecamente Fenimore Cooper era
superior aos Dodge de sua época. Era o que ele sentia. Mas sentia que não devia senti-
lo. E nunca resolveu o assunto consigo mesmo.
É por isso que temos tendência a irritar-nos com ele. Ele se acha superior e acha
que não deveria achar isso e o resultado é que adquire um tom esnobe e ao mesmo
tempo um pouco apologético. O que é, sem dúvida, cansativo.
Quando um homem se sente superior aos outros, deveria resolver a questão
consigo mesmo. “Será que me sinto superior aos outros porque sou superior? Ou é só
esnobismo de classe, cultura ou dinheiro?”
Classe, cultura e dinheiro não tornam uma pessoa superior às outras. Mas se essa
pessoa simplesmente nasceu superior, em si mesma, o fato é esse e não tem discussão.
Para que negá-lo?
É desagradável ver os Effingham se submetendo a um Dodge unicamente porque
têm uma ideia ou ideal. Tolos. Comprometem mais do que imaginam. Porque ao
mesmo tempo são esnobes.
Septimus na corte do rei Artur.
Septimus: Oi, Artur. Muito prazer. Aliás, o que você está fazendo com essa
espada tão comprida?
Artur: Essa é a Excalibur, a espada da minha nobreza e do meu reino.
Septimus: É mesmo? Você sabe, Artur, que aos olhos de Deus somos todos
iguais…
Artur: Sei.
Septimus: Então acho que está na hora de eu brincar um pouco com essa
Excalibur de um metro e meio. Você concorda? Somos iguais aos olhos de Deus e já
faz algum tempo que você está com ela…
Artur: Sim, concordo. (Entrega a Excalibur a Septimus.)
Septimus (cutucando Artur com a Excalibur): Diga-me, Art, onde está sua quinta
costela?
A superioridade é uma espada. Entregue-a a Septimus e ele a devolverá espetada
entre suas costelas. É essa a moral da democracia.
Mas é isso. Eve Effingham estava pregada ao Contrato social e sentia mais
orgulho do prego que atravessava seu corpo para prendê-la ao Contrato que de
qualquer outra coisa mortal. Seu . Seu de
IDEAL IDEAL .
DEMOCRACIA

Quando a América tomou a decisão de destruir reis e lordes e amos e toda a


parafernália da superioridade europeia, enfiou um prego em seu próprio corpo, e até
hoje se agita e reclama e se debate atormentada por ele. O prego da igualdade
democrática. Liberdade.
Não haverá vida na América enquanto o prego não for arrancado e a
desigualdade natural não for admitida. A superioridade natural, a inferioridade
natural. Enquanto esse dia não chegar, os americanos ficarão dando voltas no mesmo
lugar como hélices de vários tipos, imobilizados por sua liberdade e sua igualdade.
É por isso que os romances brancos de Fenimore Cooper são interessantes
apenas do ponto de vista histórico e sardônico. Todos os seus personagens estão
imobilizados por algum tipo de prego social, vibrando de importância ou atrito social,
girando no mesmo lugar, em torno do prego. Não são seres humanos reais em
momento algum. Tudo está imobilizado, querendo estar imobilizado, atravessado pela
ideia ou pelo ideal de igualdade e democracia em torno do qual giram ruidosa e
aparatosamente, como hélices impulsionando um motor. Esses Estados Unidos…
Humanamente, é tedioso. Como fenômeno histórico é espantoso, patético e irritante.
Se o prego não for arrancado a tempo, será impossível arrancá-lo mais tarde.
Será preciso girar em torno dele para sempre, ou sangrar até a morte.
Nu até a cintura eu estava
E no fundo de meu peito se achava,
Mesmo não havendo sangue na chaga,
Uma lança enfiada…

Já será tarde demais?


Oh Deus, o prego democrático!
Liberdade, Igualdade, Oportunidades Iguais, Educação, Direitos Humanos.
O prego! O prego!

Bem… Eva Effingham gira, esnobe e transfixada. É uma perfeita heroína


americana, e não tenho dúvida de que ela usou o primeiro “terno” – de confecção
primorosa – já usado por uma mulher. Não tenho dúvida de que falava várias línguas.
Não tenho dúvida de que era absolutamente competente. Não tenho dúvida de que
“adorava” o marido e gastava rios de dinheiro do marido e se divorciou dele porque
ele não sabia o que era o . AMOR

As mulheres americanas em seus “ternos” impecáveis. Os homens americanos


em seus paletós e saias impecáveis!
Me sinto superior à maioria dos homens que encontro. Não em termos de
nascimento, porque nunca tive bisavô. Nem de dinheiro, porque não o possuo. Nem
de cultura, porque tenho pouca. E muito menos de beleza ou vigor másculo.
Muito bem, então por quê?
Só por mim mesmo.
Quando sou desafiado, realmente me sinto superior à maioria dos homens que
encontro. Por mera superioridade natural.
Mas isso só acontece quando entra em cena um elemento desafiador.
Quando encontro outro homem e ele é simplesmente ele mesmo – mesmo que
seja um mexicano ignorante marcado de varíola –, essa questão de superioridade ou
inferioridade não se coloca. Ele é um homem e eu sou um homem. Somos nós
mesmos. Nada está em jogo entre nós.
Mas se alguma coisa surge, se um desafio toma forma, fico imbuído da certeza
de que ele deveria se curvar diante dos deuses que há em mim, já que eles são maiores
do que os deuses que há nele. E que ele deveria se curvar diante de mim simplesmente
porque em mim há mais divindade que nele.
Se isso é presunção, me desculpem. Mas o que importa são os deuses que há em
mim. E nos outros homens.
Quanto a mim, acho ótimo saudar os deuses intrépidos e indomados que há num
outro homem. Acho ótimo encontrar um homem que só faz o que seu eu profundo
determina que faça.
Ideias! Ideais! Toda essa papelada entre nós. Que cansaço.
Se pelo menos as pessoas se encontrassem em seus eus profundos, sem querer
jogar ideias ou ideais umas em cima das outras…
Todas as ideias e todos os ideais podem ir para o inferno. Todas as falsas ênfases,
todos os pregos, para o inferno.
Eu sou eu. Estou aqui. Onde você está?
Ah, está aí! Agora, para o diabo as consequências, nos encontramos de fato.
Essa é minha ideia de democracia, se é que podemos chamá-la de ideia.
a
“Onde estão as neves de antanho?” Em francês no original. (N.T.)
b
“A América ficou podre antes de amadurecer.” Em francês no original. (N.T.)
5. Os Romances dos Desbravadoresa
de Fenimore Cooper

E Fenimore segue um caminho diferente. Não está mais


M SEUS CONTOS DOS DESBRAVADORES,

preocupado com americanos brancos da sociedade girando em torno de pregos


enfiados em seus corpos e reclamando de todo ser mortal, exceto do prego
propriamente dito. Do prego do Grande Ideal.
Nos irritamos com Cooper porque ele nunca solta um pio que seja contra o
Grande Prego Ideal que o trespassa. É, não solta nem um pio. Em vez disso, fica
tentando forçá-lo a atravessar o próprio coração do Continente.
Mas como eu gostei dos livros sobre os desbravadores… Desejo atendido!
Seja como for, não se espera que ninguém leve o a sério nesses livros. Eva
AMOR

Effingham, empalada no prego social, consciente o tempo todo de seu próprio ego e
de nada além de seu próprio ego, de repente passa a trepidar nas aflições do amor:
não, isso me irrita. O nunca é enquanto não for atravessado por um prego e se
AMOR AMOR

transformar em . O ego, quando gira em torno de um prego, está sempre


IDEAL

loucamente . Porque é assim que as coisas devem ser.


APAIXONADO

Cooper era um , no pior sentido da palavra. No sentido oitocentista da


CAVALHEIRO

palavra. Um homem correto, regrado.


Não inteiramente, claro.
O grande Ranzinza nacional se roía dentro dele. É provável que Cooper o
denominasse . É o que os americanos costumam fazer. Com maiúsculas.
IMPULSO CÓSMICO

Melhor ficar com Ranzinza Nacional. O grande ranzinza americano.


Cooper tinha um, por mais cavalheiro que fosse. Daí o constrangimento, nas
temporadas europeias. Claro, na Europa ele podia ser, e era, tão cavalheiro quanto lhe
desse na telha.
“Em suma”, diz, numa das cartas que escreveu, “em torno da mesa éramos dois
condes, um monsignore, um lorde inglês, um embaixador e minha humilde pessoa”.
Éramos mesmo!
Que beleza deve ter sido saber que pelo menos a pessoa dele era humilde.
E o tempo todo sentia o tacape americano zunindo logo acima de seu escalpo
inquieto.
O grande ranzinza americano.
Dois monstros pairavam sobre o horizonte de Cooper.
SRA. COOPER MINHA OBRA
MINHA OBRA MINHA ESPOSA
MINHA ESPOSA MINHA OBRA
OS QUERIDOS FILHOS
MINHA OBRA!!!

Aí está o teclado essencial da alma de Cooper.


Se existe uma coisa que me irrita mais que um homem de negócios e seu NEGÓCIO,

essa coisa é um artista, um escritor, um pintor, um músico, e . Quando um


MINHA OBRA

artista diz , minha carne arrefece sobre meus ossos. Quando ele diz
MINHA OBRA ,
MINHA ESPOSA

tenho vontade de dar-lhe um soco.


Cooper vivia choramingando a respeito de sua obra. Ó céus, como ele se
preocupava em saber se sua obra era boa ou ruim, e com o que os franceses achavam
dela, e com o que o sr. Espertinho Sabe-tudo tinha dito, e com as reações da sra.
Cooper. O prego, o prego!
Mas era um artista autêntico; depois de artista, era americano; depois de
americano, um cavalheiro.
E o ranzinza reclamando dentro dele o tempo todo.
Pelo jeito as imaginações deles – daqueles americanos – haviam se mostrado
bastante férteis “no assentamento” bem na hora em que os joelhos deles estavam
confortavelmente acomodados sob o tampo de mogno, em Paris, lado a lado com os
joelhos de

4 Condes
2 Cardeais
1 Milorde
5 Cocotes
1 Humilde Pessoa

Como vocês bem podem imaginar, porém, no momento em que as cocotes


começaram a ser distribuídas, Fenimore voltou para casa, para junto de sua . ESPOSA

Satisfação do desejo Realidade


O ASSENTAMENTO MEU HOTEL
versus
CHINGACHGOOK MINHA ESPOSA
versus
NATTY BUMPPO MINHA HUMILDE PESSOA
versus

Fenimore, recostado em seu hotel Louis Quatorze em Paris, devaneando


apaixonadamente sobre Natty Bumppo e a floresta sem trilhas, e incluindo em sua
imaginação os Cupidos e Borboletas pintados no teto de seu quarto, enquanto a sra.
Cooper cosia seu vestido novo na peça ao lado e o almoço seria às onze na companhia
da condessa…
Os homens vivem de mentiras.
Na realidade, Fenimore amava o gentil continente europeu e esperava palpitante
que os jornais elogiassem sua . OBRA

Em outra realidade ele amava o continente americano com seus tacapes e se


imaginava na pele de Natty Bumppo.
Na verdade, seu desejo era ser: Monsieur Fenimore Cooper, le grand écrivain
américain. b

Seu desejo secreto era ser: Natty Bumppo.


Ora, Natty e Fenimore, de braços dados, formam uma estranha dupla.
Veja só Fenimore: paletó azul, botões de prata, sapatos de fivela de prata com
diamantes, colarinho duro.
Veja só Natty Bumppo: um velho renegado, grisalho, com falhas na dentadura
velha e uma gota pendurada na ponta do nariz.
Mas Natty era o grande desejo de Fenimore: a realização de seus desejos.
“Era muito natural”, afirma a sra. Cooper, “que ele se dedicasse aos detalhes
mais atraentes do quadro, e não aos mais grosseiros e revoltantes, embora mais
comuns. Como West, ele era capaz de ver Apolo no jovem Mohawk”.
Os detalhes mais grosseiros e revoltantes, embora mais comuns.
Estão entendendo agora por que ele dependia tão completamente de ? Era
MINHA ESPOSA

ela que olhava as coisas de frente no lugar dele. Era ela que tinha de ver os detalhes
mais grosseiros e revoltantes, embora mais comuns.
Ele mesmo adorava andar sempre arrumadinho, com as emoções de um escalpo
vermelho de vez em quando.
Fenimore, em sua imaginação, queria ser Natty Bumppo, que tenho certeza que
arrotava depois de jantar. Ao mesmo tempo, o sr. Cooper era um completo gentleman.
De modo que ele tomou a decisão de ficar na França e organizar as coisas à sua
maneira.
Na França, Natty nunca arrotaria depois de comer e Chingachgook podia ser o
Apolo de que tanto gostava.
Como se houvesse algum índio semelhante a Apolo! Os índios, com suas
curiosas características femininas, as silhuetas arcaicas, os ombros altos e as cinturas
marcadas, arcaicas, parecendo mulheres! E suas diabruras típicas, sua personalidade
ardilosa.
Mas os homens veem o que querem ver: especialmente quando olham de muito
longe – do outro lado do oceano, por exemplo.
Com tudo isso, os livros sobre os desbravadores são deliciosos. Deliciosas meias
mentiras.
Formam uma espécie de Odisseia americana, com Natty Bumppo no papel de
Odisseu.
Só que na Odisseia original há muitos demônios, muitas Circes, muitos javalis e
tudo o mais. E Ítaco é suficientemente demoníaco para levar a melhor sobre os
demônios. Mas Natty é um santo de arma na mão, e os índios são cavalheiros do
início ao fim, embora vez ou outra colham algum escalpo.
Os livros sobre os desbravadores são cinco romances: um decrescendo de
realidade e um crescendo de beleza.
1. Pioneers (Os pioneiros): um rústico povoado de fronteira às margens do lago
Champlain, no final do século XVIII. Deve ser um retrato do lar dos Cooper quando
Fenimore era criança. Um livro adorável. Natty Bumppo é um ancião, um velho
caçador semicivilizado.
2. O último dos moicanos: combate histórico entre os britânicos e os franceses,
com índios dos dois lados. A ação se passa num forte próximo ao lago Champlain.
Fuga romântica das duas filhas do general britânico ajudadas pelo escoteiro, Natty, em
plena força de sua juventude; a morte romântica do último dos índios delaware.
3. The Prairie (A pradaria): uma carroça carregada de enormes e sinistros
homens de Kentucky avança rumo a oeste atravessando uma pradaria infindável.
Índios da pradaria, mais Natty, um homem muito velho; ele morre sentado numa
cadeira instalada sobre as Montanhas Rochosas e olhando em direção ao leste.
4. The Pathfinder (O desbravador): os Grandes Lagos. Natty, um homem de
cerca de trinta e cinco anos, faz uma proposta de casamento malsucedida a uma
senhorita exuberante, filha do sargento do Forte.
5. Deerslayer (O caçador de veados): Natty e Hurry Harry, ambos muito jovens,
estão caçando na floresta virgem. Encontram duas mulheres brancas. Lago Champlain
outra vez.
São esses os cinco livros sobre os desbravadores: Natty Bumppo como
Desbravador, Guia de Trilhas e Caçador de Veados, conforme a faixa etária em que
está.
Agora permitam-me deixar de lado minha impaciência com a ilusão dessa visão
e aceitá-la como um ponto de vista de desejo atendido – uma espécie de mito
desejoso. Porque eu tenho a sensação de que, em Cooper, as coisas que nos tiram do
sério quando as confrontamos com a realidade são, talvez – se forem consideradas
representações de um desejo subjetivo profundo –, reais à sua maneira e quase
proféticas.
O amor extremado pela América, pelo solo americano, por exemplo. Como eu
digo, talvez seja mais fácil amar extremamente a América quando a olhamos pelo
lado errado do telescópio, por sobre toda a água do Atlântico, como fez Cooper tantas
vezes, do que estando em território americano. Quando se está efetivamente na
América, a América machuca, porque tem uma poderosa influência desintegradora
sobre a psique dos brancos. Além disso, a América está repleta de demônios
aborígines insaciáveis de boca arreganhada, de fantasmas, e eles perseguem os
homens brancos como Eumênides, até que os homens brancos abram mão de sua
brancura absoluta. Há uma grande tensão na América, decorrente da violência latente
e da resistência. O próprio senso comum dos americanos brancos tem um laivo de
desamparo e um enorme medo do que poderia acontecer caso não tivessem senso
comum.
Contudo algum dia os demônios da América precisarão ser aplacados, os
fantasmas deverão ser pacificados e o Espírito do Lugar, redimido. Nesse momento
aparecerá o verdadeiro amor incondicional pelo Solo Americano. Por enquanto existe
uma quantidade muito grande de ameaças no horizonte.
Mas é provável que algum dia a América venha a ser tão bela na realidade
quanto é em Cooper. Só que não ainda. Quando as fábricas tiverem desaparecido.
E sempre, nos romances sobre os desbravadores, o tema incessante da irmandade
de sangue, Natty e Chingachgook, a Grande Serpente. Até hoje foi tudo puro mito. O
Homem Vermelho e o Homem Branco não são irmãos de sangue: nem quando estão
nos melhores termos. Quando estão nos melhores termos, um deles sempre trai seu
próprio espírito de raça. No homem branco – um tanto intelectual – que “ama” o
índio, sente-se o homem branco traindo sua própria raça. Há uma certa falta de
orgulho, há algo dissimulado no fato: ele é um renegado. O mesmo acontece com o
índio americanizado que acredita piamente no estilo branco. É uma traição – de novo
o renegado.
Falando sério, me parece que, por mais que haja boa vontade, o homem branco e
o homem vermelho provocam um no outro um sentimento de opressão. A vida
vermelha flui numa direção, a vida branca em outra. É impossível forçar dois regatos
que correm em direções opostas a encontrar-se e fundir-se um no outro
tranquilamente.
Com certeza, se Cooper tivesse sido obrigado a passar a vida na mata, ao lado de
um Nobre Irmão Vermelho, teria gritado – sufocado, oprimido. Precisaria contar com
a sra. Cooper, um pilar firme e reto da sociedade. E precisaria poder recorrer à cultura
da França, ou acabaria sem ar. O Nobre Irmão Vermelho o asfixiaria e enlouqueceria.
De modo que o mito de Natty e de Chingachgook deve continuar sendo um mito.
Ele é a realização de um desejo, uma evasão da realidade. Como já dissemos, as
dobras da Grande Serpente teriam sido pesadas, muito pesadas, pesadíssimas para um
homem branco. A não ser que o homem branco fosse um autêntico renegado,
abominando a si mesmo e a seu próprio espírito de raça, como às vezes acontece.
Aparentemente, não pode haver fusão física. O espírito, porém, pode se
modificar. O espírito do homem branco nunca se assemelhará ao espírito do homem
vermelho. Ele, o espírito, não quer que isso aconteça. Pode, contudo, deixar de ser o
oposto e o negativo do espírito do homem vermelho. Pode inaugurar uma nova e
ampla área de consciência na qual também haja espaço para o espírito vermelho.
Inaugurar uma nova e ampla área de consciência significa despojar-se da velha
consciência. A velha consciência se transformou, para nós, numa prisão muito
apertada na qual haveremos de apodrecer.
Ninguém consegue obter uma nova pele sem antes se desfazer da antiga,
apertada demais.
Ninguém consegue.
E você não consegue, de modo que é melhor parar de fazer de conta que
consegue.
Ora, parece-me que o que há de essencial na história do povo dos Estados
Unidos é simplesmente isto: na Renascença a consciência antiga estava ficando um
tanto apertada. A Europa fez sua última mudança de pele e começou uma nova fase, a
definitiva.
Só que alguns europeus recuaram diante dessa fase definitiva. Estavam
determinados a não entrar no cul-de-sac da pós-Renascença – da Europa “liberal”.
Eles viajaram para a América.
Vieram para a América por duas razões:
1. Para desfazer-se por inteiro da antiga consciência europeia.
2. Para cultivar uma nova pele por baixo, uma nova forma. Essa segunda pele é
um processo encoberto.
É evidente que os dois processos se desenvolvem ao mesmo tempo. A lenta
formação da pele nova, por baixo, é o lento descarte da pele velha. E às vezes essa
serpente imortal fica muito feliz ao sentir-se cingida pelo novo halo dourado daquela
pele de desenho estranho. E às vezes se sente muito mal, como se suas entranhas
estivessem sendo arrancadas de seu interior, ao contorcer-se uma vez mais dentro da
pele antiga no esforço de soltar-se dela.
Para fora! Para fora!, grita, recorrendo a todo tipo de eufemismo.
E precisa estar revestida com a pele nova antes de conseguir sair.
E precisa sair antes que a pele nova passe a ser sua nova pele.
De modo que essa serpente é um monstro dividido, torturado.
O autêntico americano, que se contorce uma e outra vez, como uma serpente cuja
troca de pele é demorada.
Às vezes as serpentes não conseguem trocar de pele. Não conseguem romper a
pele velha. Quando isso acontece, elas adoecem e morrem no interior da pele velha e
ninguém chega sequer a ver qual é o desenho da pele nova.
Só uma ousadia inspirada pelo desespero é capaz de forçar o rompimento da pele
velha. Você simplesmente não quer saber o que pode lhe acontecer se conseguir
rasgar-se ao meio, desde que consiga sair lá de dentro.
Além disso, é preciso ter uma fé absoluta na nova pele, do contrário é provável
que você nunca faça o esforço necessário. Se isso acontecer, você ficará cada vez mais
doente, apodrecerá e morrerá, preso na pele velha.
Pois Fenimore ficou lá, muito protegido, dentro da pele velha: um cavalheiro,
praticamente um europeu, tão solene quanto possível. E, protegido pela pele velha,
imaginou o deslumbrante desenho americano de uma pele nova.
Fenimore odiava a democracia. Por isso esquivou-se dela e teve um lindo sonho
com algo que estava além da democracia. O tempo todo, porém, fazia parte da
democracia.
Fuga! – Mas nem mesmo isso faz com que o sonho não valha a pena.
A Democracia americana nunca teve o mesmo significado da Liberdade
europeia. Na Europa, a Liberdade era um forte alento de vida, mas na América a
Democracia sempre foi uma coisa antivida. Os maiores democratas, como Abraham
Lincoln, sempre tiveram na voz uma nota sacrifical, de autoaniquilação. A
Democracia americana sempre foi uma forma de autoaniquilação. Ou então de
aniquilação de alguma outra pessoa.
Necessariamente. Era um pis aller. Era o pis aller da Liberdade europeia. Era
c

uma forma cruel de troca de pele. Os homens se autoaniquilavam para entrar na tal
democracia. A Democracia é o absoluto enrijecimento da pele velha, da forma velha,
da psique velha. A pele se enrijece até ficar apertada e fixa e inorgânica. Nesse
momento ela precisa estourar, como o casulo da crisálida. E a larva tenra precisa sair:
a tenra borboleta úmida do finalmente americano.
A América já completou o pis aller de sua democracia. Agora precisa se
desvencilhar disso também. Principalmente disso, na verdade.
Cooper sonhou com o quê, além da democracia? Ora, na amizade imortal que
unia Chingachgook e Natty Bumppo, ele sonhou com o núcleo de uma nova
sociedade. Ou seja, sonhou com um novo tipo de relação humana. Uma relação
humana absoluta e despojada de dois homens, mais profunda que as profundezas do
sexo. Mais profunda que a propriedade, mais profunda que a paternidade, mais
profunda que o casamento, mais profunda que o amor. Profunda a ponto de ser
desprovida de amor. O uníssono absoluto, sem amor e sem palavras, de dois homens
que chegaram ao âmago de si mesmos. É esse o novo núcleo de uma nova sociedade,
a chave para uma nova era no mundo. Para que essa nova sociedade possa surgir,
primeiro é preciso que haja uma grande e dolorosa troca de pele. Em seguida ela
encontrará uma nova libertação num novo mundo, numa nova moral, num novo
horizonte.
Natty e a Grande Serpente não são iguais nem desiguais. Cada um deles obedece
ao outro quando o momento exige. E cada um deles é inflexível e silencioso diante do
outro, inflexivelmente ele mesmo, sem ilusões. Cada um deles é apenas o pilar bruto
de um homem, a coluna viva e bruta de sua própria hombridade. E cada um deles
conhece o caráter divino dessa coluna bruta de hombridade. Uma relação nova.
Os livros sobre os desbravadores estabelecem o mito dessa relação nova. E
fazem o trajeto inverso, da velhice para a juventude dourada. Esse é o verdadeiro mito
da América. A América começa velha, velha, enrugada e se contorcendo dentro de
uma pele velha. Depois ocorre um descarte gradual da pele velha na direção de uma
nova juventude. Esse é o mito da América.
O começo é o presente. Pioneers é, sem dúvida, Cooperstown quando
Cooperstown ainda estava se instalando: um vilarejo de uma só rua agreste, com
cabanas de madeira ao pé das montanhas cobertas de florestas que cercam o lago
Champlain: um vilarejo de homens de fronteira, rudes, selvagens, resistindo à
civilização.
A caminho desse vilarejo de fronteira em pleno inverno, um escravo negro
atravessa as montanhas num trenó, cruzando uma camada espessa de neve. No trenó
vai uma linda jovem, a srta. Temple, com o pai, um pioneiro de bela estampa, o juiz
Temple. Ouve-se um tiro em meio às árvores. É o velho caçador e lenhador Natty
Bumppo, comprido e esguio e inculto, com um rifle na mão e dentes faltando.
O juiz Temple é squire do vilarejo e tem por residência um ridículo e confortável
hall. São, ainda, as velhas designações britânicas. A srta. Temple é uma jovem típica,
como Eve Effingham. Ela, aliás, arruma um marido jovem e muito refinado – mas
empobrecido –, ao estilo Effingham. É o Velho Mundo lutando para manter seu lugar
na última fronteira do mundo selvagem. Um pouco cansativo, também: são tantas as
ameixas e as nuances que não conseguimos digeri-las. Romântico demais.
Contrapostos ao hall e à nobreza estão os rebeldes, a gente real da fronteira, os
rebeldes. Os dois grupos se encontram na taberna do vilarejo, na igreja gélida, nas
festividades natalinas, no lago congelado e na grande caça ao pombo. É um belo e
resplandecente painel da vida local. Fenimore o apresenta com todo o glamour.
Pode ser que eu tenha um gosto infantil, mas essas cenas de Pioneers me
parecem extraordinariamente belas. A rua com o vilarejo tão exposto, com o clarão
das fogueiras piscando por entre as frestas das janelas de madeira sem vidraças numa
noite de inverno. A taberna, com o lenhador rude e o índio John embriagado; a igreja,
com a congregação borrifada de neve aglomerada junto ao fogo. Em seguida a
profusão das manifestações natalinas e a caça ao peru em meio à neve. A primavera
chegando, as matas verdejantes, o açúcar de seiva de bordo colhido nas árvores: e
nuvens de pombos chegando do sul, miríades de pombos abatidos amontoados no
chão; e à noite, a pesca no lago virgem cheio de peixes; e a caça ao veado.
Imagens! Algumas das imagens mais adoráveis, mais encantadoras de toda a
literatura.
Infelizmente, sem o sinete cruel da realidade. Tudo parece perfeitamente real. Só
que é possível perceber que Fenimore escrevia de uma distância segura, que lhe
permitia idealizar e escrever de modo a realizar seu desejo.
Porque, ao chegar à América, descobrimos que sempre há uma certa resistência
levemente demoníaca na paisagem americana e uma certa resistência levemente
amarga no coração do homem branco. Hawthorne produz essa impressão, mas Cooper
a enfeita para encobri-la.
A paisagem americana nunca combinou com o homem branco. Nunca. E é
provável que os homens brancos nunca tenham se sentido tão amargos em qualquer
outro lugar quanto aqui na América, onde a própria paisagem, com toda a sua beleza,
parece um pouco demoníaca e zombeteira – e em oposição a ele.
Cooper, porém, encobre essa resistência, que na verdade é impossível encobrir
por inteiro. Ele quer que a paisagem esteja em harmonia com ele. Então, vai para a
Europa e a vê dessa forma. É uma espécie de ponto de vista.
E, com tudo isso, a fusão certamente ocorrerá – algum dia.
O mito é a história de Natty. O velho e esguio caçador e lenhador vive na
companhia de seu amigo, o índio grisalho John, um antigo chefe delaware, numa
cabana um pouco afastada do vilarejo. O índio é cristianizado e usa o nome cristão
John. Não tem tribo e está sozinho no mundo. Humilha seus cabelos brancos com a
embriaguez e morre, agradecendo a morte, num incêndio florestal, voltando ao fogo
do qual se originou.
E essa é Chingachgook, a esplêndida Grande Serpente dos romances posteriores.
Quando menino, Cooper sem dúvida conheceu tanto Natty como o índio John.
Sem dúvida os dois incendiaram sua imaginação, mesmo na época. Depois de adulto,
com um lugar consolidado na sociedade e abrigado no pilar seguro que era a sra.
Cooper, os dois velhos camaradas se transformaram num mito para sua alma. Neles,
acredita encontrar uma nova juventude.
No que diz respeito à trama: o juiz Temple acaba de ajudar a aprovar a legislação
que restringe a caça. Mas Natty passou a vida caçando na floresta, e pura e
simplesmente, como uma criança, não consegue entender como ele pode estar
infringindo a lei ao caçar entre os pinheiros que crescem nas terras do juiz. Abate um
veado na estação proibida. O juiz é todo compreensão, mas a lei precisa ser aplicada.
Consternado, Natty, um septuagenário, vai para o tronco e em seguida é preso.
Libertam-no assim que possível. Mas já estava feito.
A letra da lei significou a morte.
O último vínculo de Natty com sua própria raça foi rompido. John, o índio, está
morto. O velho caçador desaparece na floresta, sozinho e alijado, e se afasta. Deixa
sua raça para trás.
Nos novos tempos que estão chegando, não existirá letra da lei.
Cronologicamente, O último dos moicanos vem depois de Pioneers, mas
segundo o mito, é The Prairie que se segue.
Claro que Cooper conhecia bem sua América. Foi conhecer o oeste e viu as
pradarias, e acampou com os índios da pradaria.
The Prairie, assim como Pioneers, se caracteriza por estar bastante próximo da
realidade. É um livro estranho, esplêndido, impregnado do sentido de fatalidade. As
silhuetas dos enormes homens de Kentucky com suas mulheres-lobo erguem-se,
colossais, sobre a vasta pradaria, enquanto eles acampam ao lado de suas carroças.
Esses pioneiros são bem diferentes do juiz Temple. Sombrios, brutais, impregnados da
qualidade sinistra do crime; são os homens brancos macilentos que se embrenham no
oeste, os homens que insistem em avançar para oeste, forçando a oposição natural do
continente. Embrenham-se e avançam para sua perdição. Enormes asas de perdição
vingativa parecem abertas sobre o oeste, ameaçando o intruso. Elas aparecem outra
vez no romance de Frank Norris, The Octopus (O polvo) – ao passo que no oeste de
Bret Harte existe um diabo real voando no céu, enquanto lá embaixo pessoas sensíveis
e contrafeitas são cruéis ou bondosas de acordo com suas estratégias de fuga.
Em The Prairie uma sombra de violência e de crueldade sombria faísca no ar. É
o demônio aborígine planando sobre o âmago do continente. Ele continua planando, e
o pavor está presente.
É nessa pradaria que surge a figura imensa de Ishmael, o impressionante,
proscrito Ishmael com seus filhos imensos e sua mulher-lobo. Em suas carroças, o
grupo avança, vindo das fronteiras de Kentucky, como ciclopes entrando na natureza
selvagem. Dia após dia eles parecem abrir caminho rumo ao esquecimento. Mas sua
força de penetração arrefece. São forçados a parar. Encolhem-se nos espasmos do
assassinato e se entrincheiram no isolamento de uma colina no meio da pradaria. Lá,
como semideuses, afrontam os elementos e a astúcia dos índios.
É a invasão brutal do oeste pelos pioneiros, marcada pelo crime!
E nesse cenário, como uma espécie de emissário da paz, entra o velho caçador
Natty com seus gentis cavaleiros sioux. Só que Natty parece uma sombra.
As colinas vão se erguendo suavemente para oeste, até formar as Montanhas
Rochosas. Parece ter se instaurado uma nova paz: ou será apenas suspense, abstração,
espera? Será apenas uma espécie de outro mundo?
Natty vive naquelas colinas, num dos povoados dos gentis cavaleiros sioux. Os
índios o veneram como a um velho e sábio pai.
Naquelas colinas ele morre, sentado em sua cadeira e de olhos fixos no leste
longínquo, onde estão a grande floresta e as vastas águas doces de onde veio. Morre
suavemente, em paz física com a terra e os índios. É um homem velho, muito velho.
Cooper era incapaz de ver além das colinas anunciadoras das montanhas, além
das pradarias, onde Natty morreu.
Os outros romances nos levam de volta para o leste.
O último dos moicanos se divide entre narrativa histórica real e “romance” real.
Quanto a mim, prefiro o romance. Ele tem um significado de mito, enquanto a
narrativa é basicamente registro.
Pela primeira vez aparecem mulheres concretas: a bela morena Cora e sua frágil
irmã Lírio Branco. A boa e velha divisão entre a morena sensual e a loirinha
dependente e submissa, que é tão “pura”.
As duas irmãs são fugitivas que cruzam a floresta sob a proteção de um certo
major Heyward, um jovem oficial americano de origem inglesa. Ele é apenas um
homem “branco”, muito bom e bravo e generoso etc., mas limitado, um homem
completamente borné. Poderia amar Cora, se tivesse coragem, mas acha mais seguro
d

adorar a irmã mais nova, a dependente Lírio Branco.


O trio é escoltado por Natty, agora um desbravador: um caçador e guia no vigor
da juventude, acompanhado por seu inseparável amigo Chingachgook e pelo belo
jovem delaware Uncas – mais que um Apolo, um Adônis –, o último dos moicanos.
Também está com eles um índio “mau”, Magua, bela e ferida encarnação do mal.
Cora é a flor rubra da feminilidade, rebento orgulhoso e apaixonado de alguma
união misteriosa entre o oficial britânico e uma mulher crioula nas Índias Ocidentais.
Cora ama Uncas, Uncas ama Cora. Mas Magua também deseja Cora, deseja-a
violentamente. Um pequeno círculo melodramático de sensualidade ardente. Então
Fenimore mata os três: Cora, Uncas e Magua, e deixa Lírio Branco incumbida de
perpetuar a espécie. Ela dará uma penca de filhinhos brancos ao major Heyward:
esses enfadonhos “lírios infectados” de nossa era.
Evidentemente, Cooper – ou o artista que há nele – decidiu que o sangue das
duas raças, da branca e da vermelha, não pode se misturar. E os elimina.
Além de toda essa palpitação erguem-se as figuras de Natty e Chingachgook:
dois homens sem filhos, sem mulher, de raças opostas. Eles é que importam. Cada um
dos dois está só, e é o último de sua raça. E ambos se mantêm lado a lado, íntegros,
abstratos, além da emoção mas ao mesmo tempo eternamente juntos. Todos os outros
amores parecem frívolos. Essa é a grande novidade, a chave, o umbral de uma nova
humanidade.
E Natty? Que tipo de homem branco ele é? Ora, é um homem com uma arma. É
um matador, um exterminador. Discreto, tranquilo, mas mesmo assim um matador.
Retraído, esquecível, mas ainda um matador.
Duas vezes, no livro, ele abate um inimigo fazendo-o voar pelos ares. Em uma
delas é o belo e cruel Magua: atingido do alto por um tiro, ele despenca horrivelmente
para a morte.
Assim é Natty, o desbravador branco. Um matador. Como em Deerslayer, ele
atira na ave que voa lá no alto, bem no alto, e com ela – que passa do invisível para o
visível, morta – ele simboliza a si mesmo. Está determinado a retirar a ave do espírito
do alto do céu. É o estoico matador americano da antiga vida grandiosa. Mas só mata,
como ele diz, para viver.
Pathfinder nos leva até os Grandes Lagos, com o glamour e a beleza de singrar
as vastas águas doces. Natty agora é chamado de Desbravador. Tem cerca de trinta e
cinco anos de idade e se apaixona. A donzela é Mabel Dunham, filha do sargento
Dunham, da guarnição do Forte. Ela é loura e admirável em todos os sentidos. Sem
dúvida a sra. Cooper era muito parecida com Mabel.
E o Desbravador não se casa com ela. Ela não o quer. Sensata, prefere um
homem mais conveniente – Jasper. Diante disso Natty se afasta, amofinado. No fim,
agradece sua sorte. Depois que recuperou a razão, sentado junto à fogueira do
acampamento com Chingachgook, na floresta, quantas vezes agradeceu sua sorte!
Havia escapado por pouco…
Homens de idade incerta às vezes passam por esses encantamentos. Nem sempre
têm a sorte de ser rejeitados.
O que teria sido da pobre Mabel caso se tornasse sra. Bumppo?
Natty não tinha nada que se casar. Sua missão era outra.
O mais fascinante dos romances da série dos desbravadores é o último,
Deerslayer. Agora Natty é um jovem inexperiente chamado Caçador de Veados. Mas
é o tipo de jovem silencioso e empertigado que nunca é completamente jovem, pois se
guarda para outras coisas.
O livro é uma verdadeira joia. Uma combinação perfeita de ingredientes. E eu
gosto de combinações perfeitas numa ambientação perfeita, desde que não tentem me
enganar com uma falsa realidade. A ambientação de Deerslayer não podia ser mais
extraordinária. De novo o lago Champlain.
Claro, nunca chove; nunca faz frio; o ambiente nunca está enlameado e
horroroso; ninguém fica com os pés molhados ou com dor de dente; ninguém nunca
se sente sujo, mesmo que não possa lavar-se durante uma semana. Deus sabe qual
seria o verdadeiro aspecto das mulheres, pois elas cruzavam os territórios indomados
sem sabão, pente ou toalha. Como desjejum, traçavam um naco de carne ou nada,
almoçavam a mesma coisa e jantavam a mesma coisa.
Contudo, ao mesmo tempo são senhoras elegantes, impecáveis, vestidas de
forma adequada.
O que não é exatamente verdade. Passe uma semana acampando, e verá!
Mas se trata de um mito, não de uma história realista. Leia-o como um mito
encantador. O lago dos Reflexos.
O Caçador de Veados – o jovem do rifle comprido – está na floresta na
companhia de um caipira corpulento, bem-apessoado, louro chamado Hurry Harry. O
Caçador de Veados dá a impressão de ter nascido de uma pinha, embaixo de um
abeto: um jovem da floresta. É silencioso, simples, filosófico, moralista e não erra um
tiro. Sua simplicidade é a simplicidade da maturidade, mais que a da juventude. Ele
tem a idade de sua raça. Todas as suas reações e impulsos são fixos, estáticos. É quase
assexuado, tão antiga a raça. Ao mesmo tempo é inteligente, vigoroso, arrojado.
Hurry Harry é um grande fanfarrão – o oposto dele. O Caçador de Veados
mantém o núcleo de sua consciência estável e impassível. Hurry Harry é uma dessas
pessoas volúveis que saltam de uma emoção para outra, muito autocentrado, sem o
menor equilíbrio.
Os dois rapazes estão a caminho de um pequeno e adorável lago, o lago dos
Reflexos. A família Hutter fixou residência sobre suas águas. Inferimos que o velho
Hutter tem um passado complexo, criminoso, de aventuras escusas, e que é uma
espécie de fora da lei. Ao mesmo tempo, é um bom pai para as duas filhas já
crescidas. A família vive num “castelo” – uma cabana de troncos construída sobre
palafitas. O velho também construiu uma “arca”, uma espécie de casa flutuante na
qual pode levar as filhas consigo quando faz suas excursões de caça ao castor.
As duas moças são as inevitáveis morena e loura. Judith, morena, destemida,
apaixonada, um pouco sombria porque peca, é a flor rubro-negra. Hetty, a mais nova,
loura, frágil e inocente, é de novo o lírio branco. Só que infelizmente o lírio começou
a se decompor. Ela é ligeiramente imbecil.
Os dois caçadores chegam ao lago no meio da floresta no momento em que a
guerra é declarada. Os Hutter não têm conhecimento do fato. Os índios hostis já estão
lá. Ou seja, a mesma história de ansiedades e perigos.
A inevitável divisão das mulheres em morenas e louras, pecadoras e inocentes,
sensuais e puras praticada por Thomas Hardy é a mesma adotada por Cooper. Ela é
indicadora do desejo no homem. O homem quer sensualidade e pecado e também quer
pureza e “inocência”. Se a inocência ficar meio podre, levemente imbecil, azar o dele.
Hurry Harry, é claro, como todo sedutor bonito e impetuoso, imediatamente se
interessa por Judith, a sombria papoula. Judith o rejeita, cheia de desdém.
Judith, a mulher sensual, na mesma hora deseja o silencioso, reservado e
indomado Caçador de Veados. Deseja dominá-lo. O Caçador de Veados fica um pouco
tentado, mas não se convence inteiramente. Não pretende ser dominado. Como velha
alma filosófica que é, não se interessa muito pelas tentações do sexo. Provavelmente
morre virgem.
E tem razão. Em vez de ser engolfado pelo falso ardor da sensualidade
deliberada, permanecerá solitário. Sua alma está só, para sempre só. Assim,
preservará sua integridade e permanecerá solitário no que diz respeito à carne. Trata-
se de um estoicismo ao mesmo tempo sincero e destemido e do qual o Caçador de
Veados nunca se afasta, a não ser quando, já na meia-idade, pede a rechonchuda
Mabel em casamento.
Ele deixa que sua consciência penetre solitária no novo continente. Suas ligações
não são humanas. Ele se debate com os espíritos da floresta e da natureza agreste
americana como um eremita se debate com Deus e o Demônio. Seu único encontro é
com Chingachgook, um encontro silencioso, reservado, que mantém uma distância
intransponível.
Hetty, o Lírio Branco, sendo imbecil embora imbuída de uma religião etérea e do
querido bom Deus, “que governa todas as coisas por intermédio da sua providência”,
está completamente apaixonada por Hurry Harry. Em sua inocência transformada em
imbecilidade, como o Idiota de Dostoiévski, ela aspira entregar-se ao belo sedutor.
Claro que ele não quer saber dela.
De modo que nada acontece nessa área. O Caçador de Veados parte ao encontro
de Chingachgook e o ajuda a desposar uma jovem índia. Vicário.
É a história lamentável do colapso da psique branca. A mente e a alma do
homem branco se dividem entre estas duas coisas: inocência e desejo, Espírito e
Sensualidade. A sensualidade sempre carrega um estigma, e com isso é mais
profundamente desejada. Mas apenas a espiritualidade produz a impressão de
elevação, exaltação e “vida alada”, com a inevitável reação que leva ao pecado e ao
despeito. Assim, o homem branco está dividido diante de si mesmo. Desempenha um
lado de si mesmo contrapondo-se ao outro, até que efetivamente a coisa se transforma
num conto narrado por um idiota, revoltante.
Diante disso, somos forçados a admirar a figura severa e bravia do Caçador de
Veados. Ele não é nem espiritual nem sensual. É um moralizador, mas procura sempre
moralizar a partir da experiência concreta, não da teoria. Ele prega: “Não machuque
nenhum ser se não for obrigado.” Ainda assim ele sente talvez sua onda mais intensa
de gratificação no momento em que atravessa com uma bala o coração de um belo
gamo que inclina a cabeça para beber no lago. Ou quando faz a ave invisível cair do
alto do céu azul nos estertores da morte. “Não machuque nenhum ser se não for
obrigado.” E mesmo assim ele vive da morte, matando os seres selvagens do ar e da
terra.
Não basta.
Mas aí está o mito do branco americano essencial. Tudo o mais – amor,
democracia, mergulho na sensualidade – é uma espécie de efeito secundário. A alma
americana essencial é dura, isolada, estoica e assassina. Até hoje, jamais se abrandou.
Claro, a alma muitas vezes se desfaz e se desintegra, e restam o sombrio pecado
e Judith, a inocência erótica e imbecil de Hetty, e a sanha, a fanfarronice e a força
autocentrada de Harry. Produtos da desintegração.
O verdadeiro mito não se ocupa dos produtos da desintegração. O verdadeiro
mito diz respeito, antes de mais nada, à aventura progressiva da alma integral. E isso,
para a América, é o Caçador de Veados. Um homem que dá as costas à sociedade
branca. Um homem que mantém sua integridade moral sólida e intacta. Um homem
isolado, quase sem individualidade, estoico, resistente, que vive da morte, matando,
mas que é de uma inocência absoluta.
Ele é o auge do americano intrínseco. Está no âmago da parafernália toda. E
quando esse homem sair de seu isolamento estático e fizer um novo movimento,
atenção: alguma coisa estará acontecendo.

a
Em inglês, Leatherstocking Novels. (N.T.)
b
“Sr. Fenimore Cooper, o grande escritor americano.” Em francês no original. (N.T.)
c
“último recurso.” Em francês no original. (N.T.)
d
“Limitado.” Em francês no original. (N.T.)
6. Edgar Allan Poe

P de Índios nem da Natureza. Não está nem aí para Irmãos Vermelhos ou


OE NÃO QUER SABER

Assentamentos.
Está completamente envolvido com os processos de desintegração de sua própria
psique. Como já dissemos, o ritmo da atividade artística dos americanos é dual:
1. Desintegração e descarte da velha consciência.
2. Formação de uma nova consciência por baixo da anterior.
Em Fenimore Cooper as duas vibrações ocorrem simultaneamente. Poe tem
apenas uma, apenas a vibração desintegradora. Isso faz dele quase mais cientista que
artista.
Os moralistas sempre ficaram perplexos ao perguntar-se por que os contos
“mórbidos” de Poe precisaram ser escritos. Precisaram ser escritos porque as coisas
velhas precisam morrer e se desintegrar, porque a velha psique branca precisa ser
gradualmente destruída para que toda e qualquer outra coisa possa acontecer.
O homem precisa se despojar até de si mesmo. E o processo é doloroso, às vezes
horrendo.
Poe teve um destino bastante amargo. Foi condenado a ter sua alma consumida
numa grande e contínua convulsão de desintegração, e condenado a registrar o
processo. Em seguida, depois de ter levado a cabo certas tarefas que estão entre as
mais amargas da experiência humana, foi condenado a ser punido por isso. Tarefas
necessárias, aliás. Porque a alma humana deve passar pela própria desintegração
conscientemente, caso queira sobreviver.
Mas Poe é mais cientista que artista. Reduz sua própria identidade como um
cientista reduz um sal em um cadinho. Trata-se de uma análise quase química da alma
e da consciência. Ao passo que na arte autêntica há sempre o duplo ritmo de criar e
destruir.
É por isso que Poe chama seus escritos de “contos”. Eles são um encadeamento
de causa e efeito.
Suas melhores peças, porém, não são contos. São mais que isso. São histórias
horrendas sobre a alma humana em seus embates desagregadores.
Além disso, são histórias de “amor”.
“Ligeia” e “A queda da casa de Usher” são, na verdade, histórias de amor.
O amor é a misteriosa atração vital que aproxima as coisas, que as faz ficar cada
vez mais próximas. Por essa razão o sexo é, na realidade, a crise do amor. Porque no
sexo os dois sistemas sanguíneos, tanto o do macho como o da fêmea, se concentram
e entram em contato, separados por uma membrana ínfima. Contudo, se a membrana
que os separa se rompe, é a morte.
E a questão é essa. Para tudo existe um limite. Existe um limite para o amor.
A lei fundamental de toda vida orgânica é que cada organismo está
intrinsecamente isolado e sozinho em si mesmo.
No momento em que esse isolamento se rompe, ocasionando mistura e confusão,
a morte se instala.
Isso vale para todos os organismos individuais, do homem à ameba.
Mas a lei secundária de toda vida orgânica é que cada organismo só vive através
do contato com outra matéria, da assimilação e do contato com outra vida, o que
significa assimilação de novas vibrações, não materiais. Cada organismo individual é
tornado vivo pelo contato íntimo com organismos semelhantes: isso até certo ponto.
O homem também. Ele inala o ar, engole alimento e água. Mais ainda. Ele
absorve a vida de outros seres humanos com quem mantenha contato e por sua vez
lhes proporciona vida. Esse contato se torna cada vez mais próximo à medida que a
intimidade aumenta. Quando o contato é pleno, recebe o nome de amor. Os homens
vivem graças ao alimento, mas morrem se comerem demais. Os homens vivem graças
ao amor, mas morrem, ou provocam a morte, se amarem demais.
Há dois tipos de amor: o sagrado e o profano, o espiritual e o sensual.
No amor sensual são os dois sistemas sanguíneos, o do homem e o da mulher,
que se unem num contato absoluto e quase se fundem. Quase se misturam. Nunca por
inteiro. Sempre existe um muro, o mais fino que se possa imaginar, entre os dois
fluxos de sangue, atravessado por vibrações e forças desconhecidas, mas pelo qual o
sangue propriamente dito não consegue passar sem que ocorra uma hemorragia.
No amor espiritual, o contato é puramente nervoso. Os nervos dos amantes
vibram em uníssono como dois instrumentos musicais. Seu timbre pode ficar cada vez
mais agudo, porém se o processo for intenso demais, os nervos começarão a se
romper – a sangrar, digamos – e ocorrerá uma espécie de morte.
O problema com o homem é que ele faz questão de ser dono de seu próprio
destino e insiste na unidade. Por exemplo, depois de descobrir o êxtase do amor
espiritual, insiste em ter aquilo o tempo todo e somente aquilo, pois ali está a vida. É o
que ele chama de “realce” da vida. Quer que seus nervos vibrem num uníssono
intenso e radiante com os nervos de outro ser humano, o que lhe proporciona uma
visão extática: percebe-se em glorioso uníssono com o universo inteiro.
Mas na verdade esse glorioso uníssono é apenas temporário, porque a primeira
lei da vida é que todo organismo é isolado em si mesmo e tem de voltar para seu
próprio isolamento.
Mesmo assim, o homem sempre tenta obter o glorioso uníssono chamado amor:
gosta dele. Ele lhe proporciona sua maior gratificação. O homem deseja o amor.
Deseja-o o tempo todo. Deseja-o e está determinado a tê-lo. Não quer voltar para seu
próprio isolamento. Se for obrigado a fazê-lo, será como uma fera que não encontra a
presa e volta a seu covil para descansar e depois sair novamente em busca da caça.
Isso nos leva de volta a Edgar Allan Poe. A chave para Poe está na epígrafe que o
escritor escolhe para “Ligeia”, uma citação do místico Joseph Glanvill:
E ali dentro está a vontade, a vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade, bem como seu
vigor? Porque Deus não é mais que uma grande vontade que penetra em todas as coisas em virtude de sua
determinação. O homem não se entrega aos anjos nem inteiramente à morte, a não ser que sua débil vontade
fraqueje.

Essa é uma ponderação profunda: e mortífera.


Porque se Deus é uma grande vontade, então o Universo não passa de um
instrumento.
Não sei o que é Deus. Mas Ele não é apenas uma vontade. Isso seria simples
demais. Antropomórfico demais. Porque se um homem deseja que sua própria
vontade prevaleça e nada além de sua vontade, isso não significa que Deus é essa
mesma vontade magnificada ad infinitum.
Para mim, talvez haja um Deus, mas Ele não tem nome e é impossível conhecê-
lo.
Para mim, também há muitos deuses, que penetram em mim depois me deixam
novamente. E esses deuses têm vontades muito variadas, devo dizer.
Mas a questão toda é Poe.
Poe experimentara os êxtases do amor espiritual extremo. E desejava esses
êxtases e nada além desses êxtases. Queria aquela enorme gratificação, o sentido de
fluxo, o sentido de uníssono, o sentido de realce da vida. Já experimentara essa
gratificação. Era informado de todas as maneiras que esse êxtase do amor espiritual,
nervoso, era a coisa mais importante da vida, era a vida propriamente dita. E ele
próprio o provara, sabia por experiência própria que o amor espiritual era a vida
propriamente dita. Por isso o desejava. E haveria de tê-lo. Com isso, armou-se de
determinação perante o conjunto das limitações da natureza.
Eis um homem corajoso, agindo de acordo com suas próprias convicções e sua
própria experiência. Ao mesmo tempo, um homem arrogante e um tolo.
Poe estava determinado a obter o êxtase e o realce a qualquer custo. E arremeteu
furiosamente, assim como as mulheres americanas de hoje em dia arremetem
furiosamente atrás da mesma coisa: o realce, o fluxo, o êxtase. Poe experimentou o
álcool e todas as drogas a que teve acesso. Também experimentou todos os seres
humanos a que teve acesso.
Sua grande tentativa e façanha foi com sua mulher; sua prima, uma jovem de voz
melodiosa. Com ela ele buscou o mais intenso dos fluxos, do realce, dos tons
prismáticos do êxtase. Foi a mais intensa vibração nervosa em uníssono, levada a
timbres cada vez mais agudos, até que os vasos sanguíneos da garota estouraram e o
sangue começou a escorrer sem controle. Era o amor. Se é isso que você chama amor.
O amor pode ser terrivelmente obsceno.
É o amor que provoca as neuroses de hoje em dia. É o amor a principal causa da
tuberculose.
Os nervos que vibram mais intensamente nos uníssonos espirituais são os
gânglios simpáticos do tórax, da garganta e da glândula pineal. Quando essa vibração
é intensa demais, os tecidos simpáticos do tórax – os pulmões –, ou da garganta, ou da
área inferior do cérebro se debilitam e os tubérculos recebem carta branca.
Mas Poe levou as vibrações além dos limites toleráveis pelo homem.
Pelo fato de ser sua prima, sua mulher tinha mais facilidade para entrar em
sintonia com ele.
“Ligeia” é seu conto mais importante. Ligeia! Um nome que é uma derivação
mental. Para ele a mulher, sua mulher, não se chamava Lucy. Seu nome era Ligeia.
Sem dúvida ela até preferia que fosse assim.
“Ligeia” é a história de amor de Poe, e seu próprio conteúdo fantasioso contribui
para que seja mais autenticamente a história de Poe.
É uma história de amor que vai além de um limite. E o amor levado a extremos é
um confronto de vontades entre os amantes.
O amor se transformou num confronto de vontades.
Qual dos dois amantes destruirá primeiro o outro? Quem conseguirá resistir ao
outro por mais tempo?
Ligeia ainda é a mulher à moda antiga. Sua vontade ainda é submeter-se. Ela
quer submeter-se ao vampiro da consciência do marido. Mesmo na morte.
“Ela era alta, bastante esguia, e em seus últimos dias realmente magra. Seria
inútil tentar retratar a majestade, a graça tranquila de seus movimentos ou a
incompreensível leveza, a elasticidade de seu passo. … Eu só percebia que ela havia
entrado em meu gabinete fechado pela amada melodia de sua voz doce e grave
quando ela pousava sua mão de mármore em meu ombro.”
Poe foi muito admirado por seu estilo. Em minha opinião, porém, seu estilo é
apelativo. Essa história de “mão de mármore” e “elasticidade de seu passo” combina
mais com a descrição de lareiras ou de molas de poltronas que com a de uma criatura
humana. Para o marido, Ligeia nunca foi propriamente uma criatura humana. Era um
instrumento que lhe proporcionava sensações extremas. Sua machine à plaisir, como a

alguém falou.
Todo o estilo de Poe, aliás, tem essa qualidade mecânica, assim como sua poesia
tem um ritmo mecânico. Ele nunca vê as coisas em termos de vida: ele as vê quase
sempre em termos de matéria – joias, mármore etc. – ou em termos de força, em
termos científicos. E suas cadências são sempre conduzidas de forma mecânica. É isso
que se chama “ter um estilo”.
O que ele quer fazer com Ligeia é analisá-la até conhecer todas as peças que a
compõem, até tê-la inteira em sua consciência. Ela é uma espécie de estranho sal
químico que ele precisa analisar nos tubos de ensaio de seu cérebro, e então – quando
a análise estiver concluída – È finita la commedia! b

Mas ela não se deixa analisar direito. Há alguma coisa, alguma coisa que o
marido não consegue apreender. Escrevendo a respeito dos olhos dela, ele diz: “Eram,
creio eu, muito maiores que os olhos normais de nossa própria raça”, como se alguém
pudesse querer olhos “muito maiores” que os das outras pessoas. “Eram ainda
maiores que os maiores olhos de gazela da tribo do vale de Nourjahad”, o que é pura
enrolação. “As órbitas eram de um negro muito brilhante e, bem acima delas,
sombreavam-nas cílios muito longos, de azeviche”, imagem que lembra as tiras de um
chicote. “As sobrancelhas, de contorno levemente irregular, tinham a mesma
tonalidade. A ‘estranheza’, porém, que encontrei nos olhos era de natureza diferente
do formato, da tonalidade ou do brilho de suas características e deve, afinal, ser
entendida como sua expressão.” Até parece um anatomista anatomizando um gato…
Ah, palavra sem significado! Atrás de cuja imensa latitude de simples som protegemos nossa ignorância em
relação às coisas espirituais. A expressão dos olhos de Ligeia! Por quantas infinitas horas refleti sobre ela!
Quanto me debati, durante toda uma noite de verão, para entendê-la! O que seria aquilo – aquele elemento
mais profundo que o poço de Demócrito – no fundo das pupilas de minha amada? O que seria aquilo? Eu
estava tomado pela obsessão de descobrir…

É fácil entender por que todo homem mata aquilo que ama. Conhecer um ser
vivo é matá-lo. Você tem de matar uma coisa para conhecê-la de modo satisfatório.
Por essa razão a consciência desejante, o , é um vampiro.
ESPÍRITO

Deveríamos ser suficientemente inteligentes e interessados para saber muitas


coisas sobre qualquer pessoa com quem mantemos contato. Sobre ela. Ou sobre ele.
Mas tentar conhecer um ser vivo é tentar sugar a vida daquele ser.
Principalmente quando se trata da mulher que amamos. Todos os instintos
sagrados nos ensinam que devemos deixá-la no estado de desconhecida. Você conhece
sua mulher sombriamente, pelo sangue. Tentar conhecê-la mentalmente é tentar matá-
la. Cuidado, ó mulher, com o homem que deseja descobrir o que você é. E ó homem,
mil vezes cuidado com a mulher que quer conhecer, apreender você, aquilo que você
é.
Esse conhecimento é a tentação de um inimigo, de um vampiro.
O homem deseja tão intensamente dominar o segredo da vida e da
individualidade com sua razão… É como a análise do protoplasma. Só é possível
analisar protoplasma morto, para conhecer seus componentes. Trata-se de um
processo de morte.
Reserve o para o mundo da matéria, da força e das funções. O ser não
CONHECIMENTO

lhe diz respeito.


Mas Poe queria saber – queria saber que estranheza era aquela nos olhos de
Ligeia. Ela poderia ter dito a ele que aquilo era o horror provocado pelas investidas
dele, o horror provocado pelo fato de ser vampirizada pela consciência dele.
Mas ela queria ser vampirizada. Queria ser o objeto das investidas da consciência
dele, queria ser . E pagou por isso.
CONHECIDA

Nos dias de hoje geralmente é o homem que quer ser vampirizado, ser CONHECIDO.

Edgar Allan Poe investiu uma vez atrás da outra. Tantas vezes que dava a
impressão de estar quase conseguindo. Mas ela ultrapassou a fronteira da morte antes
que ele cruzasse a fronteira do conhecimento. E é sempre assim.
Então ele chegou à conclusão de que a chave para a estranheza de Ligeia estava
no mistério da vontade. “E sua vontade estava ali, a vontade não morre…”
Ligeia tinha uma “volição monumental”… “A intensidade de pensamento, ação
ou discurso, nela, talvez fosse uma decorrência, ou um sinal” (na verdade ele queria
dizer indício) “daquela volição monumental que, no decorrer de nosso prolongado
relacionamento, não deu outras provas, mais imediatas, de sua existência”.
Eu diria que a longa submissão de Ligeia ao marido era uma manifestação bem
ampla dessas “outras provas”.
“De todas as outras mulheres que conheci, ela, a aparentemente calma Ligeia, a
sempre plácida Ligeia, era quem mais violentamente se debatia nas garras dos abutres
tumultuosos da paixão avassaladora. E para avaliar o tamanho dessa paixão eu só
dispunha da milagrosa dilatação daqueles olhos que tanto me encantavam e
consternavam… daquela voz quase mágica em sua melodia, modulação, clareza e
placidez… e da energia ardente (de efeito duplicado pelo contraste com o modo como
se manifestava) das palavras impulsivas que ela costumava proferir.”
Pobre Poe, que apanhara uma ave de sua própria espécie. Uma dessas pessoas
com necessidades terríveis, que anseiam por sensações cada vez mais intensas. Que
anseiam por elas até a loucura ou a morte. “Abutres tumultuosos da paixão”,
francamente! Condores.
Mas tendo reconhecido que a chave estava na volição monumental de Ligeia, o
marido deveria ter percebido que o funcionamento daquele amor, daquela ânsia,
daquele conhecimento era um confronto de vontades. E a mulher, fiel à grande
tradição e à forma usual do amor feminino, mantinha-se pela força de vontade
submissa, receptiva. Ela é o corpo passivo explorado e analisado até a morte. Mesmo
assim, vez ou outra sua intensa vontade feminina deve ter se revoltado. “Abutres
tumultuosos da paixão”! Com uma convulsão de desejo ela desejava que ele investisse
contra ela, que a explorasse cada vez mais. Até onde fosse possível. Mas aqueles
“abutres tumultuosos da paixão”… Precisava lutar consigo mesma.
Mas Ligeia queria ir cada vez mais fundo com a ânsia, com o amor, com a
sensação, com a investida, com o conhecimento, queria ir cada vez mais fundo, até o
fim.
O fim não existe. Só o que existe é a ruptura da morte. É onde homens e
mulheres “acabam”. O homem está sempre rendido, em sua busca do cabal.
CONHECIMENTO

Que ela me amava era coisa de que eu não deveria ter duvidado; e eu deveria ter percebido facilmente que
num seio como o dela a paixão do amor seria extraordinária. Só na morte, porém, dei-me conta plenamente
da força de sua afeição. Por longas horas, retendo minha mão, ele extravasou o dilúvio de um coração cuja
devoção mais que apaixonada chegava às raias da idolatria.

(Ah, a indecência de toda essa conversa íntima infinita!)


O que eu fizera para merecer a bênção daquelas confissões? (Outro homem poderia sentir-se amaldiçoado
por elas.) O que eu fizera para merecer ser amaldiçoado com a remoção do ser que eu amava bem na hora
em que ele as fazia? Sobre esse assunto, contudo, não posso me estender. Permitam-me dizer, apenas, que
no abandono mais que feminino de Ligeia a um amor, ai, tão imerecido, tão injustamente ofertado, acabei
por reconhecer o princípio de seu anseio, com um desejo tão ferozmente intenso, pela vida que agora se
escoava tão velozmente. É esse anseio feroz – essa veemência extraordinária no desejo da vida – que não
tenho capacidade para transmitir, não tenho meios suficientes para exprimir.

Bem… Na verdade, que história mais desagradável.


“E daqueles que não possuem, que seja retirado mesmo aquilo que possuem.”
“E àquele que possui, que seja dada a vida, e daquele que não possui, que seja
retirada mesmo a vida que possui.”
Ou ela.
Essas aves terrivelmente conscientes, como Poe e sua Ligeia, renegam até
mesmo a vida que há nelas; querem transformar tudo em palavras, em conhecimento.
E assim a vida, que não quer ser conhecida, abandona-os.
Mas coitada da Ligeia, o que ela podia fazer? Era o destino que lhe cabia. Todos
os séculos do , todos os anos da rebelião americana contra o Espírito Santo,
ESPÍRITO

haviam provocado aquilo.


Ela morre, embora seu desejo fosse fazer qualquer outra coisa menos morrer. E
com sua morte a chave, que ele vivia unicamente para conquistar, morre com ela.
Fracasso!
Fracasso!
Não é de admirar que com o último suspiro ela soltasse gritos agudos.
Em seu último dia de vida Ligeia dita um poema ao marido. Enquanto tal, é um
poema falso, apelativo. Mas se ponha no lugar de Ligeia e verá que ele é bem real e
medonho até o intolerável.
Apagadas – apagadas todas as luzes – todas apagadas!
E encobrindo toda forma trêmula
A cortina, um sudário fúnebre,
Desce veloz como a tempestade,
Enquanto os anjos, pálidos e exangues,
Erguendo-se, descobrindo-se, declaram
Que aquela peça é a tragédia “Homem”
E seu herói, o Verme Conquistador.

O que é o equivalente americano para um poema de William Blake. Porque


Blake também era um desses “Conhecedores” lamentáveis e obscenos.
“‘Ó Deus!”, foi o grito agudo de Ligeia, levantando-se de um salto e erguendo os
braços para o céu num movimento espasmódico, enquanto eu acabava de anotar
aquelas palavras… “Ó Deus! Ó Divino Pai! Será que essas coisas têm de transcorrer
assim? Será que esse conquistador não pode ser conquistado uma vez que seja? Por
acaso não somos parte e parcela de Ti? Quem – quem conhece os mistérios da
vontade com sua força? O homem não se entrega aos anjos nem, inteiramente, à
morte, a não ser que sua débil vontade fraqueje.’”
E assim Ligeia morre. E se entrega à morte, pelo menos parcialmente. Anche
troppo. c

Quanto ao brado que dirigiu a Deus, por acaso Deus não disse que aqueles que
pecam contra o Espírito Santo não serão perdoados?
E o Espírito Santo está dentro de nós. É ele que nos impele a ser reais, a não
levar nossos próprios desejos longe demais nem nos submeter a simulacros ou à
grandiloquência. Acima de tudo, é ele que nos impele a não ser egoístas e
voluntariosos demais em nosso próprio eu consciente, e sim a mudar quando o
espírito dentro de nós nos pede que mudemos, e a desistir quando ele nos pede que
desistamos, e a rir quando temos de rir, especialmente de nós mesmos, pois a
seriedade extremada sempre tem um lado ridículo. O Espírito Santo nos convida a não
ser sérios demais, a sempre estar preparados para rir quando chega o momento, rir de
nós mesmos e de todo o resto. Especialmente de nossas sublimidades. Todas as coisas
têm seus momentos ridículos – todas.
Bem, Poe e Ligeia infelizmente não sabiam rir. Eram insanamente sérios. E
insanamente eles incitaram aquela vibração de consciência e de uníssono na
consciência. Pecavam contra o Espírito Santo, que nos convida a rir e esquecer, que
nos convida a conhecer nossos próprios limites. E não foram perdoados.
Ligeia não precisava pôr a culpa em Deus. Toda a culpa era dela mesma, de sua
“volição monumental”, sempre querendo mais consciência, mais diabólico.
CONHECIMENTO

Ligeia morre. O marido vai para a Inglaterra, vulgarmente compra ou aluga uma
velha abadia sinistra e grandiosa, submete o imóvel a algum tipo de reforma e se
instala num ambiente de esplendor exótico, misterioso, teatral. Nada ali é explícito e
real. Aquela “volição” teatral que o dominava. O mau gosto do sensacionalismo.
E depois se casa com lady Rowena Trevanion, de Tremaine – loura, de olhos
azuis. Lady Rowena, cuja função era ser uma espécie de donzela de sangue azul da
Cornualha. Pobre Poe.
Em salões como aqueles – numa câmara nupcial como aquela – passei, ao lado da lady de Tremaine, as
horas não santificadas do primeiro mês de nosso casamento – passei-as com quase nenhuma inquietude. O
fato de minha esposa temer os rompantes ferozes de meu temperamento – o fato de ela me desprezar e ter
pouco amor por mim – era algo que eu não podia deixar de perceber, mas essas coisas me davam prazer,
mais que o oposto. Eu a detestava com um ódio mais demoníaco que humano. Minha memória recuava (ah,
com um pesar tão tremendamente intenso!) para Ligeia, a amada, a augusta, a bela, a sepultada. Eu me
comprazia na lembrança de sua pureza… etc.
Agora o desejo do vampiro é um desejo consciente.
No segundo mês de casamento, lady Rowena adoeceu. A sombra de Ligeia a
persegue. É uma Ligeia fantasmagórica que derrama veneno na xícara de Rowena. É
o espírito de Ligeia, mancomunado com o espírito do marido, que agora se deleita ao
ver a lenta destruição de Rowena. Os dois vampiros, esposa morta e marido vivo.
Porque Ligeia não cedeu inteiramente à morte. Sua vontade inabalável, frustrada,
voltará em busca de vingança. Ela não conseguiu se impor em vida. Assim, também
ela encontrará vítimas na vida. E o marido, o tempo todo, limita-se a usar Rowena
como um corpo vivo no qual pode satisfazer seu desejo de vingança pelo fato de ter
sido contrariado com Ligeia. Contrariado em sua determinação de .
CONHECÊ-LA

E no fim, do cadáver de Rowena ergue-se Ligeia. Saída da morte pela porta de


um cadáver que os dois destruíram juntos, Ligeia reaparece, ainda tentando impor sua
vontade, querendo receber mais amor e conhecimento, a gratificação final, que nunca
é final, com o marido.
Porque é verdade, como atestam William James e Conan Doyle e todo o resto,
que um espírito pode continuar existindo além da morte. Continuar existindo por sua
própria vontade. Mas quase sempre o mal está nessa continuidade de uma vontade
frustrada que volta para se vingar da vida. Lêmures, vampiros.
É a história medonha da afirmação da vontade humana, da vontade de amar e da
vontade de ter consciência, que se afirma sobre a própria morte. O orgulho da
pretensão humana no .
CONHECIMENTO

Há espíritos terríveis, fantasmas, no ar da América.


“Eleanora”, o conto seguinte, é uma fantasia que revela as delícias sensoriais de
um homem no início de seu casamento com a noiva jovem e inocente. Eles viviam –
ele, a prima e mãe dela – no remoto Vale da Relva de Muitas Cores, o vale de
sensações prismáticas, onde tudo parece tingido com as cores do espectro. Os dois
contemplaram suas próprias imagens no Rio do Silêncio e colheram das águas o deus
Eros: ou seja, retiraram-no de suas próprias consciências. Essa é uma descrição da
vida de introspecção e do amor que é concebido em si, por si – o amor autoconcebido.
As árvores são como serpentes adorando o sol. Ou seja, elas representam a paixão
fálica em sua ação tóxica ou mental. Tudo busca a consciência: serpentes adorando o
sol. O enlace amoroso, que deveria proporcionar sombra e oblívio, com esses amantes
seria um fato diurno proporcionando uma consciência intensificada, visões, visões
espectrais, prismáticas. O amor à luz do dia é maléfico, assim como toda conversa
sobre sexo.
Em “Berenice” o homem precisa descer ao sepulcro da amada e arrancar seus
trinta e dois dentinhos brancos, que em seguida leva consigo numa caixa. É repulsivo
e fascinante. Os dentes são os instrumentos da mordida, da resistência, do
antagonismo. Muitas vezes se transformam em símbolos de oposição, pequenos
instrumentos ou entidades que servem para esmagar e destruir. Daí os dentes do
dragão, no mito. É por isso que o homem de “Berenice” tem de se apossar daquela
parte irredutível de sua amante. “Toutes ses dents étaient des idées”, diz ele. Portanto
d

são pequenas ideias fixas de ódio mordaz, das quais ele se apropria.
O outro grande conto ligado a esse grupo é “A queda da casa de Usher”. Nele o
amor é entre irmão e irmã. Quando o eu está partido e o mistério do reconhecimento
da diversidade não se dá, o desejo de identificação com o ser amado se transforma em
desejo erótico. E é esse desejo de identificação, de fusão absoluta, que está na base do
problema do incesto. Na psicanálise praticamente todo distúrbio da psique parte do
desejo de incesto. Mas não é suficiente. O desejo de incesto é apenas uma das
maneiras pelas quais os homens buscam satisfazer as mais intensas vibrações de seus
nervos espirituais sem encontrar resistência. Na família, a vibração natural se dá quase
em uníssono. Com estranhos, a resistência é maior. O incesto é a obtenção de
gratificação e a esquiva da resistência.
A raiz de todo mal é que todos nós queremos essa gratificação espiritual, esse
fluxo, esse pretenso realce da vida, esse conhecimento, esse vale da relva de muitas
cores, inclusive com relva e luz decompostas de forma prismática, proporcionando
êxtase. Queremos isso tudo sem resistência. Queremos continuamente. E é essa a raiz
de todo mal que temos em nós.
Deveríamos rezar para encontrar resistência, toda a resistência possível.
Deveríamos tomar a decisão de pelo menos já não ter anseios.
A epígrafe de “A queda da Casa de Usher” é um par de versos de Béranger.

Son cœur est un luth suspendu:


Sitôt qu’on le touche il résonne. e

Encontramos todas as armadilhas usuais da imaginação um tanto gasta e vulgar


de Poe. “Conduzi meu cavalo até a borda escarpada de um lago negro e sinistro que,
em seu tranquilo esplendor, existia junto à casa, e olhei para baixo – mas com um
arrepio ainda mais eletrizante que da outra vez –, para as imagens refeitas e invertidas
do junco cinzento, e para os horríveis troncos das árvores, e para as janelas vazias que
pareciam olhos.” A casa de Usher, tanto a edificação como a família, era muito antiga.
Fungos minúsculos recobrem as paredes externas da casa, formando guirlandas que
pendem dos beirais. Arcadas góticas, um pajem de passo furtivo, tapeçarias escuras,
assoalhos de ébano negro, móveis em profusão, antigos e em mau estado, suaves
reflexos de luz avermelhada filtrada por painéis de treliça, e acima de tudo “uma
atmosfera de melancolia grave, profunda e irreparável” – eis os elementos que
compõem o interior.
Os moradores da casa, Roderick e Madeline Usher, são os últimos remanescentes
da estirpe incomparavelmente antiga e degenerada. Como Ligeia, Roderick tem os
olhos grandes e luminosos e o nariz levemente arqueado de um delicado modelo
hebreu. Ele sofre da mesma enfermidade nervosa da família. Seus nervos estão tão
sensíveis que vibram mesmo com os estremecimentos imperceptíveis do éter.
Também ele perdeu sua identidade, sua alma viva, e se tornou um instrumento
sensível às influências externas; seus nervos são na verdade uma espécie de harpa
eólica que tem necessidade de vibrar. Ele vive num “certo confronto com o fantasma
implacável do Medo”, pois não passa da realidade física, post-mortem, de um ser
vivo.
Trata-se de saber que parcela da realidade a consciência instrumental do homem
é capaz de registrar na ausência da genuína centralidade de seu eu. Quando um
homem perde seu eu, quando se torna instrumental, reagindo como uma harpa diante
de uma janela aberta – quanto sua consciência elementar é capaz de expressar?
Mesmo o sangue que flui tem suas simpatias e reações ao mundo material,
desconectadas da visão. E sabemos que os nervos vibram incessantemente, reagindo a
presenças invisíveis, a forças invisíveis. Então Roderick Usher estremece no limite da
existência material.
É essa consciência mecânica que propicia “a fluência impe-
tuosa de seus rompantes”. Trata-se do mesmo elemento que dota Poe de sua
extraordinária facilidade para versificar. A ausência de ser real ou central nele próprio
deixa-o desordenada e mecanicamente sensível a sons e efeitos, a associações de som
e associações de rima, por exemplo – mecânicas, fáceis, desvinculadas de toda e
qualquer paixão. Tudo não passa de um processo secundário, enganoso. Assim, temos
o poema de Roderick Usher, “O palácio assombrado”, com suas sutilezas de rima e
ritmo que são ao mesmo tempo ágeis e mecânicas, com seus epítetos vulgares. Tudo
não passa de uma espécie de processo onírico em que a associação entre os diferentes
componentes é mecânica e acidental no que diz respeito a significado afetivo.
Usher achava que todas as plantas tinham sensibilidade. Não há dúvida de que
todas as coisas materiais têm uma espécie de sensibilidade, mesmo as inorgânicas:
sem dúvida todas existem dentro de uma modalidade sutil e complicada de tensão da
vibração, que as torna sensíveis à influência externa e faz com que influenciem outros
objetos externos, mesmo que não estejam em contato direto com eles. Poe é
especialista nessa vibração, nessa consciência inorgânica: a consciência do sono.
Assim, Roderick Usher estava convencido de que tudo o que o cercava – as pedras da
casa, os fungos, a água do lago, a própria imagem refletida do conjunto – tramava-se
formando uma unidade física com a família, e que se condensava, por assim dizer,
numa única atmosfera – a atmosfera especial na qual os Usher tinham condições de
viver. E tinha sido essa atmosfera que moldara os destinos da família.
Mas enquanto a alma permanecer viva, quem molda é ela: nunca é moldada. São
as almas dos homens vivos que impregnam sutilmente as pedras, as moradias, as
montanhas, os continentes, e lhes conferem sua forma mais sutil. As pessoas só são
submetidas às pedras depois de perder por completo a alma.
Na esfera humana, Roderick tinha um único vínculo: sua irmã Madeline.
Também ela estava morrendo de um mal misterioso, nervoso, cataléptico. Os dois
irmãos amavam um ao outro apaixonadamente, com exclusividade. Eram gêmeos de
aparência quase idêntica. Tratava-se de um amor absorvente, caracterizado por aquele
processo de unissonância na vibração nervosa que resulta numa exaltação cada vez
mais extremada e numa espécie de consciência, bem como numa derrocada gradual
para a morte. Roderick, em sua sensibilidade refinada, vibrava em afinação com sua
irmã Madeline sem que ela resistisse a ele; era uma vibração cada vez mais refinada
que gradualmente a devorava, sugando sua vida como um vampiro na aflição de seu
extremo amor. E ela pedindo para ser sugada.
Madeline morreu e foi carregada pelo irmão até as profundas galerias
subterrâneas da casa. Só que não estava morta. O irmão se pôs a vagar num princípio
de loucura – uma loucura composta por um sentimento indescritível de terror e culpa.
Oito dias depois a casa estremeceu subitamente num clangor de metal, e então numa
reverberação muito nítida, cava, metálica e estridente, mas ao mesmo tempo
aparentemente abafada. Roderick Usher, vacilante, começou a expressar seus
sentimentos: “Nós a trancamos viva dentro da sepultura! Não falei que meus sentidos
eram muito agudos? Agora estou lhes dizendo que ouvi seus primeiros e débeis
movimentos ecoarem no interior do caixão. Ouvi-os – há muitos, muitos dias – mas
não ousei – não ousei falar.”
É o mesmo velho tema do “todo homem mata aquilo que ama”. Ele sabia que seu
amor a matara. Sabia que afinal ela morrera, como Ligeia, contra a vontade e sem paz
no coração. Era por isso que agora ela aparecia para ele.
E então, logo além daquelas portas de fato se encontrava a altiva figura de lady Madeline de Usher envolta
em seu sudário. Havia sangue em suas túnicas brancas, e os vestígios de alguma luta implacável estavam
presentes em todos os pontos de seu corpo debilitado. Por um momento ela permaneceu na soleira da porta,
trêmula, oscilando de um lado para outro, depois, com um grunhido queixoso, tombou pesadamente para a
frente, sobre a pessoa de seu irmão, e em seus violentos estertores mortais, agora derradeiros, arrastou-o
consigo para o chão, já um cadáver, e vítima dos terrores que antecipara.

É lúgubre e melodramático, mas é verdadeiro. Trata-se de uma horrível verdade


psicológica do que acontece nos últimos estágios desse amor extremado que não pode
separar-se, não pode isolar-se, não pode ouvir no isolamento o isolado Espírito Santo.
Porque é pelo Espírito Santo que devemos viver. A próxima era será a era do Espírito
Santo. E o Espírito Santo fala individualmente no interior de cada indivíduo: de forma
incessante, para sempre um fantasma. Não há manifestação para o mundo em geral.
Cada indivíduo isolado ouvindo no isolamento o Espírito Santo dentro de si.
Os Usher, irmão e irmã, traíram o Espírito Santo dentro deles. Os dois queriam
amar, amar sem resistência. Eles queriam amar, queriam fundir-se, queriam ser uma
coisa só. Por isso arrastaram-se um ao outro para a morte. Porque o Espírito Santo diz
que você e outro ser humano não devem ser uma coisa só. Cada ser humano deve
responder por si mesmo e corresponder a outro somente dentro de determinados
limites.
Todos os melhores contos carregam o mesmo fardo. O ódio é tão imoderado
quanto o amor, e, como este, consome lentamente, como este é secreto, subterrâneo,
sutil. Toda essa história de profundas galerias subterrâneas, em Poe, não faz mais que
simbolizar o que irá suceder por baixo da consciência. Por cima, tudo se exprime
claramente. Por baixo, há o impulso horrendo e assassino de enterrar alguém vivo. Em
“O barril de Amontillado”, Fortunato é enterrado vivo por puro ódio, assim como lady
Madeline de Usher é enterrada viva por amor. O apetite do ódio é a necessidade
incontida de consumir e possuir inefavelmente a alma do ser odiado, assim como o
apetite do amor é o desejo de possuir, ou de ser possuído, pelo ser amado, de forma
plena. Nos dois casos, porém, o resultado é a dissolução das duas almas, que se
perdem ao transgredir suas próprias fronteiras.
O apetite de Montresor é devorar completamente a alma de Fortunato. Matá-lo
de um só golpe não teria a menor utilidade. Se um homem é morto de uma vez só, sua
alma permanece íntegra, livre para voltar para o seio de algum ser amado, onde
poderá encenar-se a si mesma. Ao emparedar o inimigo no porão, Montresor pretende
produzir a indescritível capitulação da alma daquele homem de modo que ele, o
vencedor, possa se apossar pessoalmente do próprio ser do vencido. Talvez isso possa
de fato ser feito. Talvez, na tentativa, o vencedor rompa as fronteiras da própria
identidade e se desfaça no nada, ou no infinito. Talvez se transforme num monstro.
O que se aplica ao ódio imoderado também se aplica ao amor imoderado. A
afirmação Nemo me impune lacessit poderia perfeitamente ser substituída por Nemo
me impune amat. f

Em “William Wilson” nos é contado de forma nada sutil como um homem tentou
matar sua própria alma. William Wilson, o ego mecânico e lúbrico, consegue matar
William Wilson, o ser vivo. O ego lúbrico continua vivendo, e se reduz gradualmente
até se reunir à poeira do infinito.
Em “Os assassinos da rua Morgue” e “O escaravelho de ouro” temos o tipo de
conto mecânico cujo interesse reside no desenvolvimento de uma cadeia sutil de causa
e efeito. O interesse é mais científico que artístico, trata-se de um estudo sobre as
reações psicológicas.
O fascínio exercido pelo assassinato em si é uma coisa curiosa. O assassinato não
se resume ao ato de matar. O assassinato é o desejo de chegar ao próprio âmago da
vida e suprimi-lo – daí o procedimento furtivo e o frequente desmembramento
mórbido do cadáver, a tentativa de chegar à própria essência do ser assassinado, de
encontrar essa essência e possuí-la. É curioso que os dois homens fascinados pela arte
do assassinato, embora de maneiras diferentes, tenham sido De Quincey e Poe, duas
pessoas com estilos de vida tão diversos, embora talvez com naturezas não tão
diversas assim. Em cada um deles podemos detectar aquela estranha atração pelo
amor extremo e pelo ódio extremo, pela posse mediante o uso da violência mística
contra a outra alma, ou pela rendição devido à morte violenta da alma no ser: uma
ausência de virtude viril, que subsiste sozinha e aceita limites.
A inquisição e a tortura são semelhantes ao assassinato: o desejo é o mesmo. É
um combate entre inquisidor e vítima para saber se o inquisidor conseguirá chegar ao
próprio âmago da vida para apunhalá-lo. Apunhalar o próprio âmago da alma. É isso
que o desejo perverso do homem procura fazer. A alma valente do homem recusa-se a
ter o âmago da vida apunhalado. É estranho, mas, assim como o desejo frustrado pode
continuar praticando a maldade após a morte, o espírito valente também pode manter,
mesmo passando pela tortura e pela morte, o âmago da vida e da verdade. Hoje em dia
a sociedade é perversa. Encontra formas sutis de tortura para destruir o âmago da
vida, para chegar ao âmago da vida no interior de um homem. Todas as formas
possíveis. E mesmo assim um homem é capaz de resistir, caso consiga rir e ouvir o
Espírito Santo. Mas a sociedade é perversa, perversa, e o amor é perverso. E o mal
engendra o mal, cada vez mais.
E assim o mistério continua. La Bruyère diz que todas as nossas infelicidades
humanas viennent de ne pouvoir être seuls. Enquanto viver, o homem estará sujeito às
g

exigências do amor ou às chamas do ódio, que não é mais que o amor invertido.
Mas ele está sujeito a outra coisa também. Se é verdade que não vivemos para
comer, também é verdade que não vivemos para amar.
Vivemos para estar sós e para ouvir o Espírito Santo. O Espírito Santo que está
dentro de nós e que é muitos deuses. Muitos deuses vêm e vão, alguns dizem isso,
outros dizem aquilo, e temos de obedecer ao Deus da hora mais íntima. É a
multiplicidade de deuses dentro de nós que constrói o Espírito Santo.
Mas Poe só conhecia o amor, o amor, o amor, vibrações intensas e consciência
realçada. Drogas, mulheres, autodestruição, mas de qualquer maneira o êxtase
prismático da consciência realçada e o sentido de amor, de fluxo. A alma humana,
nele, estava além de si mesma. Mas não estava perdida. Ele nos disse claramente
como ela era, para que soubéssemos.
Era um aventureiro que vivia em galerias e porões e horríveis passagens
subterrâneas da alma humana. Ecoava o horror e o alerta de seu próprio destino.
Ele era um predestinado. Morreu querendo mais amor, e o amor o matou. Uma
doença horrível, o amor. Poe contando-nos sobre sua doença: tentando inclusive
tornar essa doença bela e atraente. E até conseguindo.
É essa a falsidade inevitável, a duplicidade da arte, da arte americana em
particular.

a
“Máquina de prazer.” Em francês no original. (N.T.)
b
“Fim da comédia!” Em italiano no original. (N.T.)
c
“Até demais.” Em italiano no original. (N.T.)
d
“Todos os seus dentes eram ideias.” Em francês no original. (N.T.)
e
Seu coração é um alaúde em suspenso/ Quando alguém o toca, ressoa.” Em francês no original. (N.T.)
f
“Ninguém me desafia impunemente”; “Ninguém me ama impunemente”. Em latim no original. (N.T.)
g
“Vêm de não podermos estar sós.” Em francês no original. (N.T.)
7. Nathaniel Hawthorne e A letra escarlate

N H
ATHANIEL escreve romances.
AWTHORNE

E o que é o romance? Em geral, uma historinha simpática em que acontece tudo


Como Gostais, na qual a chuva nunca molha seu paletó, os mosquitos nunca picam
seu nariz, na qual é sempre tempo de margaridas. Como gostais, e Forest Lovers etc.
A morte de Arthur. a

É óbvio que Hawthorne não é um romântico desse tipo, embora em A letra


escarlate as pessoas tampouco andem de botinas enlameadas.
Mas o assunto não fica por aí. A letra escarlate não é um romance agradável,
gracioso. É uma espécie de parábola, uma história mundana com um sentido
demoníaco.
O tempo todo essa brecha na arte americana e na consciência artística americana.
Na superfície ela é perfeitinha, boazinha e fofinha. Feito Hawthorne, aquele homem
adorável com seus olhos tão azuis, na vida, feito Longfellow e o resto da turma, uns
verdadeiros cordeirinhos. A mulher de Hawthorne afirmava que “nunca o via a
tempo”, o que não significa que o visse tarde demais. Via-o sempre no “frágil fulgor
da eternidade”.
E eram serpentes. Considere o significado profundo da arte deles todos e veja os
demônios que eles eram.
Seu olhar precisa ir além da superfície da arte americana para ver o diabolismo
interno de seu significado simbólico. Do contrário, tudo não passaria de infantilidade.
O homem adorável de olhos azuis, o tal Nathaniel, no fundo de sua alma
conhecia coisas desagradáveis. Tinha o cuidado de disfarçá-las ao externá-las.
Sempre a mesma coisa. A consciência deliberada de americanos tão louros e de
fala tão mansa, e por baixo uma consciência tão diabólica. Destrua! Destrua!
Destrua!, murmura a consciência profunda. Ame e produza! Ame e produza!, grasna a
consciência aparente. E o mundo só ouve o grasnido do Ame-e-produza. Recusa-se a
ouvir o murmúrio subjacente da destruição. Até o momento em que é obrigado a
ouvir.
O americano precisa destruir. É seu destino. É seu destino destruir todo o corpus
da psique branca, a consciência branca. E precisa fazer isso secretamente. Assim
como o desenvolvimento da libélula no interior da crisálida ou do casulo destrói a
larva: secretamente.
Só que muitas libélulas nunca chegam a sair do casulo: morrem lá dentro. O
mesmo pode acontecer com a América.
É o que faz o casulo secreto de A letra escarlate, destruindo diabolicamente a
velha psique que está lá dentro.
Comporte-se! Comporte-se!, gorjeia Nathaniel. Comporte-se e nunca peque!
Seus pecados acabarão por denunciá-lo.
E era tão convincente que sua mulher jamais o via “a tempo”.
Depois escute, a meia-voz, o refrão diabólico de A letra escarlate.
O homem provou da árvore do conhecimento e ficou com vergonha de si mesmo.
Você acha que Adão nunca tinha vivido com Eva antes daquele episódio da
maçã? Tinha, sim. Como um animal selvagem com seu par.
A coisa só virou “pecado” depois que o veneno-conhecimento entrou na jogada.
A maçã de Sodoma.
Somos seres divididos em nós mesmos, contra nós mesmos. E é esse o
significado do símbolo da cruz.
Antes de mais nada, Adão conheceu Eva como os animais selvagens conhecem
seus pares, num ato instantâneo, mas vital, decorrente do conhecimento do sangue.
Conhecimento do sangue, não conhecimento da mente. Conhecimento do sangue, que
parece esquecer por completo, mas não esquece. Conhecimento do sangue, instinto,
intuição, todo o vasto fluxo vital de conhecimento que opera no escuro, que antecede
a mente.
Depois veio a maçã dos demônios, e o outro tipo de conhecimento teve início.
Adão começou a olhar para si mesmo. “Francamente!”, disse ele. “O que está
acontecendo? Deus meu! Que loucura! – E Eva! Que história será essa de Eva?”
Assim começa o . Que num instante – assim que o Diabo se apossa do
CONHECIMENTO

que é seu – se transforma em .


COMPREENSÃO

Quando Adão foi lá e possuiu Eva, depois da maçã, não fez nada que já não
tivesse feito um monte de vezes. Isso quanto ao ato. Porque quanto à consciência ele
fez algo completamente diferente. O mesmo vale para Eva. Cada um dos dois ficou de
olho no que estava fazendo, os dois ficaram olhando o que estava acontecendo com
eles. Queriam . E foi assim que o pecado nasceu. Não sendo praticado, mas pelo
SABER

de sua existência. Antes da maçã eles fechavam os olhos e suas mentes


CONHECIMENTO

escureciam. Agora espiavam e controlavam e imaginavam. Olhavam para si mesmos.


E depois se sentiam constrangidos. Sentiam-se conscientes do que haviam feito. E
decretaram: “O ato é pecado. Vamos nos esconder. Pecamos.”
Não é de admirar que o Senhor os tenha expulsado do Paraíso. Aqueles
hipócritas imorais.
O pecado era a consciência dos próprios atos, a vigilância dos próprios atos. O
pecado e a maldição. Compreensão imoral, a deles.
Hoje os homens têm horror da ideia de dualismo. Não adianta, somos duais e
ponto. A cruz. Se aceitamos o símbolo, implicitamente aceitamos o fato. Estamos
divididos contra nós mesmos.
Por exemplo, o sangue detesta ser . Daí o profundo instinto de privacidade.
CONHECIDO

Por outro lado, a mente e a consciência espiritual do homem simplesmente


detestam a força obscura dos atos do sangue: detestam os autênticos orgasmos
sensuais e sombrios que, por enquanto, efetivamente obliteram a mente e a
consciência espiritual, mergulhando-as numa enxurrada sufocante de escuridão.
É impossível fugir disso.
A consciência do sangue domina, oblitera e anula a consciência racional.
A consciência racional extingue a consciência do sangue e exaure o sangue.
Todos nós temos as duas consciências. E elas são antagônicas dentro de nós.
Será sempre assim.
É a nossa cruz.
O antagonismo é tão óbvio e tão abrangente que mesmo as coisas mais ínfimas
estão envolvidas. Atualmente o indivíduo culto, dono de uma consciência altamente
desenvolvida, abomina toda forma de trabalho físico, “doméstico”, como lavar louça
ou varrer o chão ou cortar lenha. Esses trabalhos são insultos para o espírito. “Sempre
que vejo um homem carregando um fardo pesado ou fazendo um trabalho grosseiro,
fico com vontade de chorar”, disse-me uma mulher bela e culta.
“Ouvir você dizer uma coisa dessas me dá vontade de bater em você”, respondi.
“Sempre que a vejo usar essa sua bela cabeça para fazer reflexões profundas, fico com
vontade de lhe dar uns tapas. Acho ofensivo.”
Meu pai tinha horror de livros, tinha horror de ver alguém ler ou escrever.
Minha mãe abominava a ideia de que algum de seus filhos fosse condenado ao
trabalho braçal. O destino de seus filhos teria de ser mais nobre.
Minha mãe venceu. Mas morreu primeiro.
Ri melhor quem ri por último.
Em todos nós existe uma hostilidade básica entre o físico e o mental, o sangue e
o espírito. A mente se “envergonha” do sangue. E o sangue é destruído pela mente, na
verdade. Resultado: rostos pálidos.
Hoje em dia a consciência racional e o chamado espírito levam a melhor. Na
América, de modo absoluto. Na América ninguém faz coisa alguma do sangue. Só dos
nervos, quando não da mente. O sangue é quimicamente vencido pelos nervos, na
vida americana ativa.
Quando um trabalhador italiano trabalha, sua mente e seus nervos dormem, seu
sangue age maciçamente.
Os americanos, quando estão fazendo coisas, nunca dão a impressão de as estar
fazendo de fato. Estão “dando um jeito” nelas. Estão sempre dando um jeito em
alguma coisa. Mas estar verdadeiramente entregues a essa ou aquela atividade graças
a uma ativa e profunda consciência do sangue – isso nunca.
Eles admiram a espontaneidade da consciência do sangue. E querem transferi-la
para suas mentes. “Viva seu corpo”, gritam eles. É seu último grito da mente
Coordenar.
Trata-se de mais uma tentativa de racionalizar o corpo e o sangue. “Pense neste
ou naquele músculo”, dizem, “e relaxe-o”.
E toda vez que você “conquistar” o corpo com a mente (se quiser, use o verbo
“curar”) irá provocar um complexo, uma tensão, mais profundos, mais perigosos em
algum outro lugar.
Lamentáveis americanos, com seu sangue que não é mais sangue. Que é um
fluido espiritual amarelo.
A Queda.
Houve inúmeras Quedas.
Caímos no conhecimento quando Eva mordeu a maçã. Um conhecimento
autoconsciente. Pela primeira vez a mente entrou em luta com o sangue. Determinada
a . Ou seja, a intelectualizar o sangue.
entender

O sangue precisa ser derramado, diz Jesus.


Derramado na cruz de nossa própria psique dividida.
Derrame o sangue e sua mente se iluminará. Coma o corpo e beba o sangue,
autocanibalizando-se, e você se tornará extraordinariamente consciente, como os
americanos e um ou outro hindu. Devore-se e só Deus sabe quantas coisas você virá a
saber, de quantas coisas tomará consciência.
Cuidado para não se engasgar.
Durante muito tempo os homens acreditaram que poderiam aperfeiçoar-se por
intermédio da mente, por intermédio do espírito. Acreditavam nisso apaixonadamente.
Para eles, o êxtase era a plena consciência. Acreditavam na pureza, na castidade e nas
asas do espírito.
Não demorou e a América depenou a ave do espírito. Em pouco tempo a
América matou a crença no espírito. Mas não a prática. A prática se manteve com
sarcástica veemência. A América, com um total desdém pelo espírito e pela
consciência do homem, pratica a mesma espiritualidade, o mesmo amor universal, o
mesmo o tempo todo, incessantemente, como um vício. E por dentro não está
CONHECIMENTO

nem aí. Só está interessada na sensação. Na sensação tão adorável de amar, amar o
mundo inteiro. E na sensação fantástica, vertiginosa, de saber, saber, saber. E,
finalmente, na mais incrível das sensações, a sensação de . Ah, como
compreender

compreendem, esses queridos americanos! Tão competentes no assunto que eles são!
Basta pretender, para ter.
A letra escarlate entrega o ouro.
Temos o jovem pastor Dimmesdale, a coisinha mais pura deste mundo.
Aos pés dele temos a bela Hester, a puritana.
E a primeira coisa que ela faz é seduzi-lo.
E a primeira coisa que ele faz é ser seduzido.
E a segunda coisa que os dois fazem é abraçar seu pecado em segredo, e
rejubilar-se com ele, e procurar entender.
E é esse o mito da Nova Inglaterra.
O Caçador de Veados recusou-se a ser seduzido por Judith Hutter. Ele, pelo
menos, não foi colhido pela maçã pecaminosa de Sodoma.
Mas Dimmesdale foi seduzido gostosamente. Ah, Pecado suculento!
Ele era um rapaz tão puro.
Tinha de fazer a pureza de idiota!
A psique americana.
Claro, a melhor parte da brincadeira era manter uma aparência de pureza.
O maior triunfo que uma mulher pode ter, especialmente uma mulher americana,
é o triunfo de seduzir um homem: especialmente se ele for puro.
Quanto a ele, seu maior prazer é ceder. – “Seduza-me, sra. Hércules.”
E a dupla partilha a mais sutil das delícias ao manter a aparência de pureza,
mesmo que todo mundo saiba o tempo todo o que se passa. Mas a força da aparência
de pureza é algo para se celebrar. A América inteira se curva diante dela. Pareça puro!
Seduzir um homem. Todo mundo sabendo. Manter a aparência de pureza. Pura!
É esse o grande triunfo de uma mulher.
A. A letra escarlate. Adúltera! O grande Alfa. Alfa! Adúltera! Os novos Adão e
Adã! Americanos!
A. Adúltera! Palavra bordada com fio de ouro, cintilante, sobre seu peito. A
maior das insígnias.
Instale-a sobre o cadafalso e adore-a ali. Adore-a ali. A Mulher, a Magna Mater.
A. Adúltera! Abel!
A coisa vira farsa.
O coração ardente. A. Maria do Coração que Sangra. Mater Addolorata! A. A
maiúsculo. Adúltera. Cintilando com o fio dourado. Abel! Adultério. Admirável!
Talvez seja a mais colossal das sátiras já escritas. A letra escarlate. E escrita por
aquele fofo do Nathaniel com seus olhos azuis.
Nada a ver com o Bumppo, porém.
O espírito humano fixado em uma mentira, preso a uma mentira, oferecendo-se
perpetuamente à mentira.
Tudo começa com A.
Adúltera. Alfa. Abel, Adão. A. América.
A letra escarlate.
“Se houvesse um papista em meio à multidão de Puritanos, ele teria visto
naquela bela mulher, tão pitoresca em seus trajes e em sua pose e com o menino no
colo, um objeto que lhe traria à lembrança a imagem da Divina Maternidade, que
tantos pintores ilustres competiram entre si para representar; algo que deveria trazer-
lhe à mente, de fato, mas unicamente por contraste, a sagrada imagem da Maternidade
sem pecado, cujo filho haveria de redimir o mundo.”
Cujo filho haveria de redimir o mundo! Francamente! A redenção que o mundo
haverá de obter daquele bebê americano será um tanto surpreendente…
Ali havia uma nódoa provocada pelo mais terrível dos pecados sobre a qualidade mais sagrada da vida
humana, exercendo um tal efeito que o mundo só fazia tornar-se mais sombrio diante da beleza daquela
mulher, e mais perdido diante da criança que ela trouxera ao mundo.

Ouçam o que diz o fofo. Ele não é um mestre da apologia?


E dos símbolos também.
Sua censura piedosa é uma risadinha marota de aprovação o tempo todo.
Ah, Hester, você é um demônio. Um homem precisa ser puro para que você
possa seduzi-lo e provocar sua perdição. Porque a maior emoção da vida é dobrar o
Santo Sagrado e fazê-lo tombar na lama. E depois limpar humildemente, com o
cabelo, a lama que o recobre, nova Madalena. Depois ir para casa e, bruxa que você é,
dançar uma giga triunfal e bordar no próprio peito uma Letra Escarlate com fio de
ouro, como as duquesas bordavam coroazinhas. E depois subir obedientemente para o
cadafalso e fazer o mundo de trouxa. O mundo, que estará invejando seu pecado e
castigando você porque você, com seu ato, se pôs em situação de vantagem sobre ele.
Hester Prynne é a grande nêmese feita mulher. Ela é a Ligeia e que, QUE SABE

diabólica, se ergueu da sepultura. Para apropriar-se do que é seu. C . OMPREENSÃO

Desta vez quem morre é o sr. Dimmesdale. Ela continua vivendo e é Abel.
O amor espiritual do sr. Dimmesdale era uma mentira. E quando, tanto em seus
sermões como em sua atitude grandiosa, ele prostituía a mulher por contraste a seu
próprio amor tão espiritual – como costumam fazer os religiosos populares –, não
fazia mais que pregar uma mentira branca. Que foi para o espaço.
Somos tão puros de espírito! Ha ha ha!
Até ela chegar e tocá-lo nos lugares certos e ele sucumbir.
Pluft.
O amor espiritual fez pluft.
Mas não deixe a brincadeira acabar. Mantenha as aparências. Os puros são puros.
Puras todas as coisas etc.
Cuidado aí, rapaz, que a Fêmea Devota pega você. Faça o que fizer, não permita
que ela comece a tocar você. Ela sabe qual é seu ponto fraco. Proteja sua Pureza.
Quando Hester Prynne seduziu Arthur Dimmesdale, foi o começo do fim. Só que
do começo do fim ao fim do fim passam-se uns cem ou duzentos anos.
Nem o sr. Dimmesdale havia chegado ao fim de seus recursos. Até aquele
momento ele vivera em pleno domínio de seu corpo, comandando-o, para servir aos
interesses de seu espírito. Agora desfruta de altas diversões solitárias torturando seu
corpo, chicoteando-o, perfurando-o com espinhos, macerando-se. É uma espécie de
masturbação. Ele quer manter um controle mental sobre seu corpo. E, já que não é
capaz de comandá-lo inteiramente com a mente – fato comprovado por sua queda –,
haverá de dar-lhe o que merece. O chicote. Sua força de vontade vai fustigar seu
corpo. E ele gosta da dor que sente. Regala-se com ela. Para o puro, todas as coisas
são puras.
Trata-se do velho processo de automutilação que perdeu a eficácia. A mente
querendo enfiar os dentes no sangue e na carne. O ego exultante com as torturas
aplicadas à carne amotinada. Eu, o ego, haverei de triunfar sobre minha própria carne.
Chicotear! Chicotear! Sou um grande espírito livre. Chicotear! Sou o comandante de
minha alma. Chicotear! Chicotear! Sou o capitão da minha alma. Chicotear! Viva!
“Sob o domínio impiedoso das circunstâncias” etc. etc.
Adeus, Arthur. Ele contava com as mulheres, suas Devotas Espirituais, suas
noivas espirituais. E aí vem aquela mulher tocá-lo em seu ponto fraco, em seu
Calcanhar de Aquiles da carne. Cuidado com a noiva espiritual. Ela está atrás de seu
ponto fraco.
É o confronto das vontades.
“Pois ali está a vontade, a vontade que não morre…”
A Mulher Escarlate se transforma em Irmã de Caridade. Não foi o que ela fez, na
última guerra? Ah, Profeta Nathaniel!
Hester quer que Dimmesdale parta com ela para um novo país, uma nova vida.
Como ele pode pensar em nova vida se não tem nenhuma agora?
Ele sabe que não há novo país, não há nova vida no mundo de hoje. É sempre a
mesma coisa, em graus diferentes, em qualquer lugar. Plus ça change, plus c’est la
même chose. b

Hester imagina que na Austrália, por exemplo, com Dimmesdale como marido e
Pérola como filha, tudo seria perfeito.
Mas está enganada. Dimmesdale já perdeu sua integridade de ministro do
Evangelho do Espírito. Perdeu a virilidade. Não vê sentido em simplesmente entregar-
se às mãos de uma mulher e partir para um “novo país”, para pertencer inteiramente a
ela. Ela só o desprezaria mais ainda, como toda mulher despreza o homem que “caiu”
por obra dela; despreza-o com o mais terno dos desejos.
Ele não representa mais nada. É melhor deixá-lo onde já estava: que carregue seu
fardo.
Ela o fizera de bobo, a ele e a sua espiritualidade, por isso ele a odiava. Como o
Anjo Clare fora feito de bobo e odiava Tess. Como Jude, no fim, odiava Sue: ou pelo
menos deveria. É o que acontece com os homens espirituais: as mulheres os fazem de
bobos. E quando, enquanto homens, sua espiritualidade faz pluft, eles não conseguem
mais se levantar. Limitam-se a rastejar, e morrem abominando a fêmea, ou as fêmeas,
que provocou sua queda.
O ministro consagrado se recupera um pouco no último minuto quando, do alto
do cadafalso onde foi exposto, faz uma confissão pública. Logo depois se entrega à
morte. Até certo ponto, porém, vingou-se de todo mundo.
“Nunca mais nos encontraremos?” murmurou ela, inclinando-se e aproximando o rosto do dele. “Não
passaremos juntos nossa vida imortal? Sem dúvida, sem dúvida, sobrecarregamos um ao outro com toda
essa dor! Contemplas o fundo da eternidade com esses olhos brilhantes que agora vão morrer. Conta-me o
que vês!”
“Cala-te, Hester – cala-te”, disse ele, com solenidade trêmula. “A lei nós infringimos! O pecado, aqui,
tão terrivelmente revelado! Que isso, e nada mais, ocupe teus pensamentos. Eu temo! Eu temo!”

E assim ele morre, jogando o “pecado” na cara dela e fugindo para a morte.
A lei nós infringimos! Francamente! E infringiram mesmo.
E a lei de quem!
Mas é de fato uma lei; o homem tem duas opções: ou bem é fiel à crença que diz
professar e obedece às leis dessa crença, ou bem admite que essa crença propriamente
dita é inadequada e se prepara para algo novo.
Não houve alteração na crença de Hester nem na de Dimmesdale nem na de
Hawthorne nem na da América. Manteve-se a mesma velha crença traiçoeira – que na
verdade era descrença disfarçada – no Espírito, na Pureza, no Amor Desinteressado e
na Consciência Pura. Continuariam, os dois, obedecendo a essa crença só para
desfrutar da sensação de tê-la, mas não fariam outra coisa o tempo todo senão fraudá-
la. Como Woodrow Wilson e todos os outros Crentes modernos. Todos os outros
Messias modernos.
Se você encontrar um Messias nos dias de hoje, pode ter certeza de que ele fará o
possível para transformar você num rematado idiota. Especialmente se o messias for
uma oferecendo seu amor.
MULHER COMPREENSIVA

Hester continua vivendo, cheia de piedade, como irmã de caridade. Ela se


transforma finalmente em santa reconhecida, Abel da Letra Escarlate.
Está certo, já que é mulher. Já obteve seu triunfo sobre o homem individual,
portanto é com gosto que se dedica à vida espiritual da sociedade como um todo. Em
nome da sociedade haverá de tornar-se tremendamente falsa, depois de obter seu
triunfo real sobre santo Arthur.
E florescerá como santa Irmã de Caridade.
Mas muito tempo se passa até ela conseguir de fato convencer as pessoas. Todo
mundo continuou achando que ela era uma bruxa, o que de fato era.
Na verdade a mulher, quando não é obrigada por um homem a permanecer em
segurança dentro das fronteiras da fé, inevitavelmente se transforma numa força
destruidora. Ela não consegue evitar. Uma mulher é quase sempre vulnerável à
piedade. Não aguenta ver algo ser fisicamente machucado. Mas quando se liberta das
fronteiras e restrições providas pela fé ardente do homem em seus deuses e nele
mesmo, se transforma num amável demônio. Torna-se sutilmente diabólica. Ah, a
gigantesca malignidade do espírito reunido da Mulher. Na última guerra a – fosse MULHER

ela alemã ou americana ou de qualquer outra nacionalidade – era uma coisa


aterrorizante. Como todo homem sabe.
A mulher se transforma num demônio vulnerável, cheio de amor para dar. Ela é
vulnerável. Seu próprio amor é um veneno sutil.
A não ser que um homem acredite genuinamente em si mesmo e em seus deuses,
a não ser que obedeça ferozmente a seu próprio Espírito Santo, sua mulher haverá de
destruí-lo. A mulher é a nêmese de todo homem que duvida. Ela não consegue evitar.
E com Hester, depois de Ligeia, a mulher se transforma na nêmese do homem.
Ela o apoia de fora para dentro e o destrói de dentro para fora. E ele morre odiando a
mulher, como aconteceu com Dimmesdale.
A espiritualidade de Dimmesdale fora prolongada demais e chegara longe
demais. Ficara falsa. Ele encontrou sua nêmese na mulher. E foi liquidado.
Para o homem, a mulher é um fenômeno estranho e terrível. Quando a alma
subconsciente da mulher se retira de sua união criativa com o homem, passa a ser uma
força destruidora. Exerce, por bem ou por mal, uma influência destruidora invisível. A
mulher propriamente dita pode ser doce como o mel, para todos os efeitos, como
Ligeia. Mas isso não a impede de emitir ondas de destruição silenciosa no espírito
vacilante dos homens. Ela não sabe que faz isso. Não tem como evitar. Mas faz isso.
Tem o diabo no corpo.
As mulheres que mais se dedicam a salvar os corpos dos homens e a salvar as
crianças, essas médicas, essas enfermeiras, essas educadoras, essas mulheres dotadas
de espírito público, esses messias femininos: todas elas emitem ondas de
malevolência destruidora que corroem a vida profunda de um homem, como um
câncer. É assim e assim será enquanto os homens não se derem conta disso e não
reagirem para se salvar.
Deus não vai nos salvar. As mulheres são tão diabolicamente divinas… Os
homens precisam salvar-se sozinhos desse impasse, e precisam ser incisivos.
A mulher pode fazer um uso inteiramente maligno e tóxico de seu sexo e ao
mesmo tempo comportar-se como o mais doce dos seres. Adorável como é, branca
como a neve em sua inocência. E o tempo todo usando o sexo como um ser
demoníaco, com o único fim de fazer seu homem sofrer. Ela nem sabe que faz isso. Se
alguém lhe disser, não vai acreditar de jeito nenhum. E se você lhe der uma bofetada
por ser tão maligna, ela sairá correndo atrás do primeiro representante da lei, cheia de
indignação. É tão completamente sem pecado, aquele ser demoníaco, aquela criatura
tão querida e tão leal…
Mesmo assim, dê-lhe uma bela bofetada – justamente quando ela estiver se
comportando como um anjo. Quando estiver carregando sua cruz cheia de resignação.
Ah, uma mulher que ultrapassou as fronteiras é um demônio. Mas é tudo culpa
do homem. Antes de mais nada, a mulher nunca pediu para ser expulsa de seu
cantinho no Paraíso da fé e da confiança. A responsabilidade da fé cabe ao homem. Se
ele se transformar num fornicador espiritual, num mentiroso, como o marido de
Ligeia e como Arthur Dimmesdale, como uma mulher poderá acreditar nele?
Acreditar não é questão de escolha. E quando uma mulher não acredita num homem,
essencialmente não acredita em nada. Torna-se, querendo ou não querendo, um
demônio.
Demônio ela é, e demônio será. E a maioria dos homens sucumbirá a esse ser
demoníaco.
Hester Prynne era um demônio. Mesmo quando andava de um lado para outro
amavelmente em sua atividade de enfermeira. Pobre Hester. Uma parte dela queria ser
salva de seu próprio diabolismo. Outra parte queria continuar sendo diabólica para
todo o sempre, por vingança. Vingança! ! É isso que preenche o espírito
VINGANÇA

inconsciente das mulheres hoje. Vingança contra o homem e contra o espírito do


homem, que a traiu e a tornou descrente. Mesmo quando se mostra meiga, mesmo
quando quer ajudar os outros, a mulher está sendo diabólica ao extremo. Oferece a seu
homem o bombom da própria doçura submissa, mas depois que ele põe o bombom na
boca aparece o escorpião. Depois que o homem acolhe essa Eva no coração, ah, uma
mulher tão carinhosa, ela o destrói centímetro a centímetro. A mulher e sua vingança!
Ela quer vingança – e continuará querendo por décadas e décadas, a não ser que a
impeçam. E para impedi-la você precisa acreditar em si mesmo e nos seus deuses, em
seu Espírito Santo pessoal, Senhor Homem; e depois precisa enfrentá-la e jamais
ceder. Ela é um demônio. Mas a longo prazo é possível dominá-la. Uma parcela
mínima dela deseja esse domínio. Três quartos dela precisam ser combatidos num
confronto infernal para se chegar ao último quarto dela, aquele que deseja ser
libertado – finalmente – do inferno de sua própria vingança. Só que isso demora.
Ainda está longe.
“Ela tinha em sua natureza uma característica oriental, voluptuosa, rica – uma
inclinação por tudo o que fosse deslumbrantemente belo.” Essa é Hester. Esse é o
americano. Mas Hester reprimia sua natureza quanto ao aspecto citado. Não se
permitia nem mesmo o luxo de dedicar-se à atividade delicada e sutil da costura.
Simplesmente vestia muito bem sua pequena Pérola, o fruto do pecado, e o bordado
da letra escarlate era estonteante. Seu distintivo de Hécate e Astarte.
“Uma característica oriental, voluptuosa…” Isso é o que está à espreita nas
mulheres americanas. Provavelmente os mórmons são os precursores da América
autêntica vindoura. É provável que na América vindoura os homens venham a ter
várias mulheres. Que as mulheres voltem a ter características orientais e que exista
poligamia.
Hester, a enfermeira sombria. A Hécate, a bruxa. A figura feminina da nova era
construindo-se devagar, dotada de uma submissão inteiramente nova ao sombrio
princípio fálico.
Mas isso leva tempo. Gerações e mais gerações de enfermeiras e políticas e
salvacionistas. E no fim, mais uma vez, a sombria entronização das imagens de
adoração sexual, e as novas mulheres submissas. Com uma profundidade desse tipo.
Mulheres profundas, nesse aspecto. Quando finalmente tivermos interrompido essa
maluquice de consciência racional-espiritual. E quando as mulheres tiverem optado
por retomar a experiência da grande submissão.
“Os pobres, que ela pretendia que fossem os objetos de sua generosidade, não
raro ofendiam a mão estendida para socorrê-los.”
Claro. Os pobres detestam as salvacionistas. Sentem o cheiro do diabo por trás.
“Ela era paciente – uma verdadeira mártir –, mas abstinha-se de orar por seus
inimigos temendo que, a despeito de sua intenção generosa, as palavras de bênção se
distorcessem contra sua vontade e virassem maldição.”
Quanta sinceridade… Pelo menos isso. Não é de espantar que a velha e digna
feiticeira sra. Hibbins reconhecesse nela outra feiticeira.
“As crianças lhe davam medo; porque haviam absorvido dos pais uma vaga ideia
de que havia algo de horrível naquela mulher amedrontadora deslizando em silêncio
pela cidade, nunca acompanhada de outra pessoa além da menina.”
“Uma vaga ideia”! Você não a visualiza “deslizando em silêncio”? Não se trata
de uma vaga ideia absorvida, mas de um sentimento definido recebido diretamente.
Mas às vezes, muito de vez em quando, inclusive com um intervalo de meses, ela sentia um olho – um olho
humano – fitar a marca ignominiosa, e isso parecia dar-lhe um alívio momentâneo, como se alguém
partilhasse sua agonia. Logo depois, porém, tudo voltava ao que era antes e ela era tomada por uma
sensação ainda mais profunda de sofrimento; porque naquele breve intervalo voltara a pecar. Hester pecara
sozinha?

Claro que não. Quanto a essa história de voltar a pecar, Hester prosseguiria pela
vida afora “pecando”, em silêncio, constantemente. Jamais se arrependia. Não ela. Por
que se arrependeria? Fora capaz de derrubar Arthur Dimmesdale, aquele branquelo
branquíssimo, e aquela fora a obra de uma vida.
Quanto a voltar a pecar quando encontrava dois olhos escuros na multidão, ora,
claro. Alguém que compreendia, assim como ela compreendia.
Eu sempre me lembro de que uma vez meu olhar encontrou o olhar de uma
cigana, por um breve instante, no meio de uma multidão, na Inglaterra. Ela sabia e eu
também sabia. O que sabíamos? Não consegui descobrir. Mas nós dois sabíamos.
É provável que sentíssemos o mesmo ódio inescrutável por aquela sociedade
consciente espiritualmente em que a mulher proscrita e eu vagávamos – dois lobos de
aspecto enganosamente submisso. Lobos mansos à espera de uma oportunidade de se
verem livres da submissão. E nunca conseguindo.
E uma vez mais aquela característica “oriental, voluptuosa”, conhecedora do
mistério dos deuses itifálicos. Mas não seria ela a entregar os deuses itifálicos àquela
sociedade de “amantes” – aquela sociedade branca, de um branco leproso… E nem
eu, se pudesse evitar. Essas mulheres brancas, de um branco leproso, sedutoras,
intelectuais, que “entendem” tanta coisa… Tantas vezes elas já nos seduziram, tantas
vezes já nos “compreenderam”… “Para mim ele é um livro aberto”, disse minha
primeira amante a meu respeito. Ah, minha querida, o livro se desdobra em vários
volumes. E cada vez mais me vem à cabeça o abismo de ódio negro e de outras
compreensões que havia nos olhos daquela cigana. Tão diferente da odiosa luz branca
de compreensão que flutua como uma espuma nos olhos das mulheres inglesas e
americanas – brancas, ah, tão brancas –, com suas vozes compreensivas e suas
palavras profundas, tristes, e suas insondáveis boas disposições. Argh!
Hester só tinha medo de um dos resultados de seu pecado: Pérola. Pérola, a
encarnação da letra escarlate. A menininha. Quando as mulheres têm filhos, produzem
demônios ou meninos que contêm deuses. É um processo evolutivo. O demônio que
havia em Hester produziu um demônio mais puro em Pérola. E o demônio que há em
Pérola produzirá – ela se casou com um conde italiano – um exemplar demoníaco
ainda mais puro.
E assim vamos amadurecendo.
E depois vamos apodrecendo.
Na criança havia aquilo “que tantas vezes levava Hester a perguntar-se
amargamente se o nascimento da pobre criaturinha fora um bem ou um mal, afinal de
contas”.
Um mal, Hester. Mas não se preocupe. O mal é tão necessário quanto o bem. A
malevolência é tão necessária quanto a benevolência. Se você tiver produzido,
desovado uma jovem malevolência, pode ter certeza de que existe no mundo uma
falsidade desenfreada contra a qual essa malevolência deve ser dirigida. A falsidade
precisa ser mordida uma vez após a outra, até a morte. Daí a existência de Pérola.
Pérola. A própria mãe a compara, em seu vestido vermelho, ao demônio da peste,
ou da escarlatina. Mas é preciso lembrar que a peste é indispensável para destruir uma
humanidade falsa, podre.
Pérola, a menina demoníaca que sabe ser tão terna e amorosa e compreensiva e
que em seguida, depois de ter compreendido tudo, lhe dá uma bofetada na boca e se
volta contra você com uma risada de puro escárnio diabólico.
Você bem que mereceu, porque não deveria ter sido compreendido. Seu vício é
esse. Se você não tivesse desejado ser amado, não teria levado uma bofetada na boca.
Pérola amará você: maravilhosamente. E lhe dará uma bofetada na boca: ah, não com
tanta clareza. E você bem que terá merecido.
Talvez Pérola seja a criança mais moderna de toda a literatura.
Nathaniel, tão fora de moda com seu encanto de garotinho, poderá explicar-lhe
tudo. Só que virá com uma conversa mole sem fim.
Uma parte de Hester simplesmente odeia a filha. E a outra parte adora a criança
como seu bem mais precioso. Porque Pérola é a continuidade de sua vingança
feminina contra a vida. Mas a vingança feminina é uma faca de dois gumes e devolve
o golpe à própria pessoa que a produziu. Em Pérola, a vingança feminina atinge
Hester, a mãe, e Hester fica simplesmente lívida de fúria e “tristeza”, o que não deixa
de ter a sua graça.
Impossível fazer a criança obedecer a regras. Ao dar-lhe existência, uma grande lei fora infringida; e o
resultado era um ser cujos componentes talvez fossem belos e brilhantes, só que distribuídos
desordenadamente, ou obedecendo a uma ordem específica cujo ponto distintivo, cuja disposição eram
difíceis ou impossíveis de discernir.

Claro, a ordem é específica de cada um. Mas o ponto distintivo é este:


“Desvendar a alma amorosa, doce, desvendá-la com uma compreensão maravilhosa;
depois cuspir na cara dela.”
Hester, claro, não gostou nem um pouco quando sua filha querida desvendou sua
alma maternal com anseio e com uma compreensão maravilhosa: e depois cuspiu na
cara da mãe com uma risada. Mas a mãe é que havia dado início ao processo.
Os olhos de Pérola tinham uma expressão peculiar: “um olhar ao mesmo tempo
tão inteligente e tão inexplicável, tão perverso, às vezes tão malicioso, mas quase
sempre acompanhado por um tal jorro incontido de reflexões, que Hester não
conseguia deixar de perguntar-se, em alguns momentos, se Pérola era mesmo uma
criança humana”.
Um pequeno demônio! Só que produzido pela mãe e pelo santo Dimmesdale. E
Pérola, justamente em decorrência da nitidez com que se manifestava sua
perversidade, era mais direta que seus pais. Ela recusa cabalmente toda e qualquer
ideia de Pai Celestial, considerando a fraude que seu pai terrestre já era. De modo que
a menina frita o piedoso Dimmesdale sem dó, e cospe direto na cara dele.
Pobre alminha valente e atormentada, sempre armada para o bote, quando
crescer será um demônio com os homens. Mas os homens merecem. Se aceitarem ser
“envolvidos” pela compreensão amorosa de Pérola, merecerão que ela os esbofeteie
assim que o envolvimento estiver concluído. Os covardes! Atraídos, depois
imobilizados.
Pobre fenomenozinho de criança moderna, quando crescer se transformará num
demônio, numa mulher moderna. A nêmese dos frágeis homens modernos, loucos
para ser envolvidos pelo amor.
A terceira pessoa da trindade – ou triângulo – diabólica da Letra Escarlate é o
primeiro marido de Hester, Roger Chillingworth. Ele é um velho médico elisabetano
com uma barba grisalha e um casacão de pele e um ombro deslocado. Outro cuidador.
Mas é, ao mesmo tempo, um pouco alquimista, um pouco mágico. É um mágico na
fronteira da ciência moderna, como Roger Bacon.
Roger Chillingworth é um intelectual da velha estirpe, descendente em linha
direta dos alquimistas medievais de Roger Bacon. Alimenta uma antiga fé intelectual
nas ciências ocultas, nas filosofias herméticas. Não é cristão, não está em busca de
nada. Não é um aspirante. É a autoridade em forma de homem. A velha autoridade
masculina. Mas sem fé passional. Apenas fé intelectual em si mesmo e na própria
autoridade masculina.
Todo o trágico lamento de Shakespeare decorre do declínio da autêntica
autoridade masculina, do declínio da autoridade itifálica e senhorial que desapareceu
com Elisabeth, que foi pisoteada por Vitória.
Mas Chillingworth cultiva a tradição intelectual. Tem horror dos novos
candidatos a mestres do espírito como Dimmesdale: dedica-lhes um ódio negro. É a
velha autoridade masculina da tradição intelectual.
Ninguém consegue segurar uma mulher graças a uma tradição intelectual. De
modo que Hester enfiou na cabeça que ia seduzir Dimmesdale.
Contudo, o único casamento que ela teve – e seu último juramento – foi com o
velho Roger. Os dois são cúmplices na derrubada do santo espiritual.
“Por que sorris para mim?”, pergunta ela ao velho e vingativo marido. “Por acaso
não te pareces com o Homem Negro que assombra a floresta que nos cerca? Não me
envolveste para que eu assumisse um laço que há de ser a ruína de minha alma?”
“Da tua alma não!”, respondeu ele com outro sorriso. “Não, da tua alma não!”
É da alma do pregador sem pecado, daquele ser falso, que os dois estão atrás. E o
médico aleijado – esse outro cuidador –, sombriamente vingativo em sua velha e
distorcida autoridade masculina, juntamente com a mulher “amorosa”, acaba com o
santo.
Um ódio negro e complementar semelhante ao amor: é isso que Chillingworth
sente pelo jovem e beato pastor. E Dimmesdale corresponde com um tipo horrível de
amor. Lentamente a vida do santo se envenena. Mas o velho médico negro sorri e
tenta mantê-lo vivo. Dimmesdale pratica a autoflagelação, chicoteia o próprio corpo
branco, magro, de eleito espiritual. O sombrio Chillingworth escuta atrás da porta e ri,
depois prepara outra poção, para que o jogo possa se prolongar mais um pouco. E a
própria alma do santo começa a se deteriorar. Triunfo supremo. Mesmo assim, ele
mantém as aparências.
A velha e negra alma vingativa do macho senhorial aleijado, sombria também em
sua autoridade: e a branca lividez do santo tombado! As duas metades da
masculinidade destruindo-se mutuamente.
No último momento Dimmesdale marca um ponto. Acaba com a alegria da festa
ao confessar-se publicamente, no cadafalso, para desaparecer logo depois, engolido
pela morte. Deixa Hester sozinha e Roger, por assim dizer, aparece como duplamente
corno. Uma vingança final inquestionável.
A cortina desce, como no poema de Ligeia.
Mas a menina Pérola estará no próximo ato acompanhada de seu conde italiano e
de uma nova ninhada de víboras, enquanto Hester vai desaparecendo nas sombras,
depois de ter se rebelado.
A alegoria é extraordinária. Para mim, uma das maiores alegorias de toda a
literatura. A letra escarlate. Seu extraordinário significado oculto! E sua perfeita
duplicidade.
A absoluta duplicidade daquele Wunderkind de olhos azuis, o tal Nathaniel. A
c

criança prodígio americana, com a magia de sua percepção alegórica.


Mas mesmo as crianças prodígio precisam crescer depois de uma ou duas
gerações.
E mesmo o se deteriora.
PECADO

a
Romances, respectivamente, de William Shakespeare, Maurice Hewlett e Sir Thomas Malory. (N.T.)
b
“Quanto mais muda, mais é a mesma coisa.” Em francês no original. (N.T.)
c
“Menino-prodígio.” Em alemão no original. (N.T.)
8. The Blithedale Romance, de Hawthorne

N de Nathaniel Hawthorne é tão profundo, tão dual e tão completo quanto


ENHUM OUTRO LIVRO

A letra escarlate: essa grande alegoria do triunfo do pecado.


O pecado é uma coisa esquisita. Ele não é a ruptura de um mandamento divino, e
sim a ruptura de nossa própria integridade.
Por exemplo, o pecado, no caso de Hester e Arthur Dimmesdale, foi pecado
porque os dois fizeram o que achavam que era errado fazer. Se quisessem realmente
ser amantes, e se tivessem tido a coragem sincera de sua própria paixão, não teria
havido pecado, mesmo que o desejo fosse apenas passageiro.
Mas, se não tivesse havido pecado, a história toda perderia metade da graça, ou
até mais.
Foi exatamente o fato de fazer aquilo que eles próprios achavam errado que
criou o principal encanto do ato. O homem inventa o pecado para poder desfrutar do
sentimento de ser travesso. E também para se esquivar à responsabilidade por seus
próprios atos. Um Pai Divino lhe diz o que fazer. E o homem, travesso, não obedece.
Depois, trêmulo, o homem ignóbil baixa as calças para apanhar.
Se o Pai Divino não proporciona a punição nesta vida, o Homem Pecador terá de
esperar, trêmulo, que ela lhe seja aplicada na outra vida.
Ora, o Pai Divino, como tantas outras Cabeças Coroadas, abdicou de sua
autoridade. O homem pode pecar tanto quanto quiser.
Só existe um castigo: a perda da própria integridade. O homem nunca deveria
fazer aquilo que acredita ser errado. Porque, se o fizer, perde sua simplicidade, sua
integridade, sua honra natural.
Quando você quer fazer alguma coisa, das duas uma: ou você acredita
sinceramente que fazer essa coisa é da sua natureza ou então tem de deixá-la para lá.
Acredite no seu próprio Espírito Santo. Ou, se duvida dele, se abstenha.
Uma coisa na qual você acredita de fato não pode estar errada, pois a fé não se
apresenta quando convocada. A fé decorre unicamente de seu Espírito Santo interno.
Logo, aquilo em que você acredita de verdade não pode estar errado.
Mas existe algo chamado crença espúria. Existe algo chamado crença má: a
crença de que nada do que fizermos pode estar errado. Existe ainda algo chamado
crença mais ou menos espúria. E essa é a pior de todas. É o diabo espiando de detrás
da cruz.
Então a situação é essa. Tendo de escolher entre crença genuína, crença espúria e
crença mais ou menos genuína, você tem tudo para estar num aperto. E a crença mais
ou menos genuína é de longe a coisa mais suja e mais decepcionante da vida.
Hester e Dimmesdale acreditavam no Pai Divino e pecaram contra Ele quase
jubilosamente. A Alegoria do Pecado.
Já Pérola, essa não acredita mais no Pai Divino. Ela diz isso. Não tem Pai
Divino. Não está interessada em pai nenhum, nem divino nem terrestre.
E assim, não tem como pecar contra ele.
O que fará ela, então, sem ter um deus contra quem pecar? Ora, evidentemente
ficará impedida de pecar. Seguirá seus próprios caminhos alegremente e fará o que lhe
der na telha, para depois dizer, quando a confusão estiver armada: “É verdade, eu fiz
isso. Mas agi na melhor das intenções, por isso não tenho culpa alguma. A culpa é dos
outros.”
Aconteça o que acontecer, Pérola não terá culpa de nada.
E o mundo, hoje, é um verdadeiro colar de Pérolas. E a América é uma corda
inteira dessas Pérolas completamente imaculadas, que não têm como pecar. Elas que
façam o que bem entenderem, porque não têm um deus contra quem pecar. Apenas
homens, um após outro. Homens que não têm nenhuma sombra em seu nome.
Pérolas!
Ah, que ironia, a amarga, amarga ironia desse nome! Ah, Nathaniel, que grande
homem você é! Ah, América, sua Pérola, sua Pérola sem defeitos!
Como é possível que Pérola tenha algum defeito se não há mais ninguém além
dela mesma para julgá-la? É claro que ela permanecerá imaculada, mesmo que, como
Cleópatra, afogue um amante por noite nas águas sujas do seu Nilo. No Nilus Flux de
seu amor.
Cândida!
Na época de Hawthorne já era Pérola. Antes dos porcos, claro. Nunca apareceu
uma Pérola que não fosse jogada aos porcos.
Faz parte do jogo delas, faz parte de seu perolismo.
Porque quando Circe se deita com um homem, ele é que vira porco, caso já não o
fosse antes. Não ela. Circe é a grande Pérola branca impecável.
E com tudo isso, ah, Pérola, até para você existe uma Nêmese.
Existe um Destino, Pérola.
Destino! Que bela palavra. Destino.
O destino da Pérola.
Quem haverá de escrever essa Alegoria?
Seja como for, eis o que significa Destino.
Quando você não tem um Pai Divino contra quem pecar; e quando não peca
contra o Filho, coisa que as Pérolas não fazem, porque todas elas são muito fortes em
, mais fortes em do que em qualquer outra coisa: nesse caso não lhe resta mais
AMOR AMOR

nada contra o que pecar senão o Espírito Santo.


Pois bem, Pérola, se prepare. Agora vem a pior parte.
Pecar contra o Espírito Santo não é tão simples assim. “Isso não lhe será
perdoado.”
Não lhe falei que existe um Destino?
“Isso não lhe será perdoado.”
O Pai perdoa, o Filho perdoa, mas o Espírito Santo não perdoa. E agora?
O Espírito Santo não perdoa porque o Espírito Santo está dentro de você. O
Espírito Santo é você: seu próprio Você. De modo que se, por pretensão do seu ego,
você abrir uma brecha em seu próprio , em sua própria integridade, como poderá
VOCÊ

ser perdoado? É mais ou menos como rasgar suas próprias entranhas. Você sabe que
se rasgar suas próprias entranhas elas apodrecerão e você também apodrecerá. E você,
seu corpo, terá chegado ao fim.
Se você abrir uma brecha em seu próprio Espírito Santo, acontecerá a mesma
coisa. Sua alma apodrecerá. Como as Pérolas.
Essas queridas Pérolas! Fazem tudo o que têm vontade de fazer e continuam
puras. Ah, pureza!
Só que elas não conseguem deixar de apodrecer por dentro. Pérolas podres,
exterior intacto. As almas delas cheiram mal, porque estão apodrecendo dentro delas.
O pecado contra o Espírito Santo.
E pouco a pouco, de dentro para fora, elas apodrecem. Uma certa forma de
demência. Uma desintegração. Uma psique se decompondo. Demência.
Quos vult perdere Deus, dementat prius. a

Observe essas Pérolas, essas Pérolas das mulheres modernas. Especialmente das
mulheres americanas. Nutrindo-se de amor. Estremecendo nos primeiros espasmos da
demência.
Você pode ganhar seu pedaço de bolo e depois comê-lo. Mas, meu Deus, ele
apodrecerá dentro de você.

O de Hawthorne não são nada perto de A letra escarlate.


S OUTROS LIVROS

Mas há boas parábolas e fantásticas vinhetas sombrias dos primórdios da


América puritana em Twice Told Tales (Contos narrados duas vezes).
The House of Seven Gables (A casa das sete empenas) tem “atmosfera”. O
desaparecimento da antiga ordem do Pai – orgulhoso, barbado, de expressão sombria
–, uma ordem que é lentamente excluída da vida mas que permanece assombrando os
velhos lugares escuros. Mas surge uma nova geração munida desses novos
aspiradores de pó: ela expulsará até mesmo os fantasmas. Nenhum fantasma é capaz
de enfrentar um aspirador de pó.
A nova geração não admite fantasmas nem teias de aranha. Está se estabelecendo
no ramo da fotografia, que pretende transformar num sólido empreendimento
financeiro. Por essa razão, todos os antigos ódios, todas as antigas mágoas que fazem
parte da venerável ordem dos Pais Altaneiros, tudo é engolido pelo aspirador de pó, e
o jovem casal nascido em meio às vendetas atinge um perfeito entendimento debaixo
do pano preto de uma câmera e se encaminha para a prosperidade. Vivat Industria! b

Ah, Nathaniel, seu ironista desatinado! Argh, como você teria detestado não ter
outra coisa sobre a qual escrever além daquele próspero “querido” jovem casal! Se
você tivesse vivido até os tempos em que a América não passava de uma rua
principal!
Os Velhos Pais Sombrios.
Os adorados Filhos Bananas.
O Ramo da Fotografia.
? ? ?
O livro em que Hawthorne chegou mais perto da atualidade foi The Blithedale
Romance (A aventura de Blithedale), uma espécie de retrato da conhecida experiência
da fazenda coletiva Brook Farm. Foi lá que os famosos idealistas e transcendentalistas
da América se reuniram para arar o solo e cortar as árvores com o suor de seu próprio
rosto, sempre com pensamentos elevados e respirando uma atmosfera de amor
coletivo, vibrando em uníssono com a Superalma, como se todos fossem cordas de
uma harpa supercelestial. Ou um antigo tinido do instrumento de Crèvecœur.
Claro que brigaram como cães e gatos. Não se suportavam. E a única música que
produziram foi a música de suas disputas.
Não é possível idealizar o trabalho pesado. É por isso que a América inventa
tantas máquinas e equipamentos de todo tipo: para evitar o trabalho físico.
E foi por isso que os idealistas abandonaram a agricultura e se dedicaram à
literatura.
Não é possível idealizar a atividade essencial e bruta do sangue, os desejos brutos
do sangue, o conhecimento básico e sardônico do sangue.
Não é possível idealizar essas coisas.
Nem eliminá-las.
O que encerra o assunto do homem ideal.
O homem é formado por uma consciência dual, cujas duas metades estão quase
sempre em oposição entre si – e continuarão assim até o fim dos tempos.
É preciso aprender a passar de uma consciência para outra, aprender a alterná-
las. Não devemos tentar fazer de uma delas a consciência absoluta, ou preponderante.
O Espírito Santo nos diz como e quando.
Nathaniel nunca se sentiu mais espectral – claro que se envolveu no projeto da
Brook Farm – do que ao soprar a trompa de caça de manhã cedo convocando os
trabalhadores transcendentais para suas tarefas, ou do que ao se afastar de casa de
enxada em punho com a intenção idealizada de colher nabos. “Nunca me senti mais
espectral”, diz ele.
Nunca me senti mais idiota: é o que deveria ter dito.
Tolos ridículos, tentando idealizar o trabalho. Vocês nunca conseguirão idealizar
o trabalho pesado. Antes de começar a escavar a mãe terra é preciso despir o paletó
ideal. Quanto mais o homem trabalha, quanto mais se entrega a atividades rudes, mais
tênue vai ficando seu idealismo, mais sombria sua mente. E quanto mais ele se dedica
a atividades mentais, ao idealismo, a ocupações transcendentais, mais ralo fica seu
sangue e mais instáveis seus nervos.
Ah, os fazendeiros de nervos instáveis de Brook Farm!
É preciso ser capaz de fazer as duas coisas: o trabalho mental e o trabalho braçal.
Mas prepare-se para trocar de sapatos. Não tente fazer tudo calçando os mesmos
sapatos.
Tentar idealizar o sangue!
Nathaniel sabia que estava sendo um idiota ao tentá-lo.
Voltou para casa, para sua esposa amável e para o sanctum sanctorum de seu
gabinete de trabalho.
Nathaniel!
Voltando ao Blithedale Romance. O livro tem uma bela abertura, tipo noite de
inverno na cozinha da granja.

Dramatis Personae:
1. Eu. O narrador: a quem chamaremos Nathaniel. Um jovem literato franzino e
sensível, mas também profundo – e que já não é mais tão jovem.
2. Zenóbia: mulher morena, inteligente, altiva e voluptuosa, com uma flor
tropical no cabelo. Parece que foi esboçada a partir de Margaret Fuller, em quem
Hawthorne via uma certa “natureza má”. Nathaniel estava mais atento à
voluptuosidade de Zenóbia do que à sua “mente”.
3. Hollingsworth: ferreiro de barba negra e voz grave com uma queda por salvar
criminosos. Deseja construir um grande Lar para esses infelizes.
4. Priscilla: espécie de Lírio Branco; costureirinha mediúnica grudenta que já foi
utilizada em sessões espíritas públicas. Uma espécie de alma prostituta.
5. Marido de Zenóbia: pessoa desagradável, decadente, com poderes magnéticos
e dentes recheados de ouro. Ou montados em ouro. Foi ele quem fez apresentações
espíritas públicas utilizando Priscilla como médium. É do tipo moreno, sensual,
bonito decadente, e costuma aparecer inesperadamente pela porta dos fundos.

– Eu, Nathaniel, logo de início pego um resfriado e tenho que ficar de cama. Sou
TRAMA I

atendido com ternura incomum pelo ferreiro, cujas mãos grandes são mais suaves que
as de uma mulher etc.
Os dois homens amam-se com um amor que ultrapassa o amor das mulheres –
isso enquanto dura a questão do cura-e- salva. Quando Nathaniel resolve ficar bom e
ter uma alma só dele, volta-se cheio de ódio contra o barba-negra, salvacionista
ruidoso, Hefesto do submundo. Odeia-o por sua monomania tirânica.

T – Zenóbia, essa mulher inteligente e polida, é fascinada pelo ferreiro salvador de


RAMA II

criminosos e quer possuí-lo a qualquer preço. Ao mesmo tempo, mantém uma linha
de entendimento sutilíssima com o frágil mas profundo Nathaniel. E – em parte por
piedade, em parte por provocação – acolhe Lírio Branco sob sua asa escura, suntuosa
e brilhante.

T – O ferreiro está atrás de Zenóbia com a intenção de obter dinheiro para o asilo
RAMA III

de criminosos: do qual, evidentemente, será o primeiro morador.

TRAMA IV – Nathaniel também fica aguando a morena luxuriante Zenóbia.

T – O Lírio Branco, Priscilla, exalando vapores fétidos, é na verdade a famosa


RAMA V

Dama Velada dos espetáculos espíritas públicos: ela, que o Marido desagradável que
chamam de Professor utilizou como médium. Para completar, é meia-irmã de
Zenóbia.

Débâcle
No fim, ninguém fica com Zenóbia, que se retira sem sua flor. O ferreiro se casa com
Priscilla. Choroso, Nathaniel confessa que também foi apaixonado por Priscilla o
tempo todo. Buuuu!

Conclusão
Alguns anos mais tarde Nathaniel encontra o ferreiro numa trilha campestre, perto de
uma humilde cabana. Com o passo vacilante, ele avança apoiado no braço da frágil
mas fervorosa Priscilla. Acabaram-se todos os sonhos de asilos, e o salvador de
criminosos já não consegue nem se salvar de sua própria Dama Velada.

Aí está um belo conjunto de idealistas, transcendentalistas, agricultores coletivos


e elite desagregada. Todos apodrecendo mansamente.
Duas Pérolas: uma Pérola branca e uma Pérola negra: esta última mais cara,
resplandecente de dinheiro.
A Pérola branca, a pequena médium, Priscilla, pérola de imitação, tem realmente
alguns poderes “paranormais”. Seria capaz de drenar o ferreiro tanto de seu pretume
como de seu vigor de ferreiro.
Priscilla, a pequena prostituta mediúnica. A descendente degenerada de Ligeia. A
mulher totalmente complacente, “amorosa”, que se entrega por inteiro ao amante. Ou
mesmo a um “professor” de espiritismo com dentes de ouro.
Será tudo gozação, essa história de espiritismo? A tal Dama Velada é puro logro?
Não completamente. Mesmo sem considerar o fenômeno da telepatia, o
equipamento da consciência humana é o mais fantástico receptor de mensagens de
que já se teve notícia. Deixa o sistema telegráfico no chinelo.
E o que dizer de Prissy embaixo da toalha da mesa? Miau!
O que acontece? Prissy embaixo da toalha, feito um canário cuja gaiola é
coberta, entra numa espécie de “sono”, num transe.
Um transe, não um sono. Estar em transe significa que toda a sua inteligência
pessoal, individual, adormece, como a galinha com a cabeça embaixo da asa. Mas o
aparato da consciência continua funcionando. Só que sem alma por trás.
E o que esse aparato de consciência consegue fazer, quando entra em ação?
Alguma coisa ele faz, óbvio. Um equipamento sem fio faz tic-tic-tic, registrando as
mensagens. Assim como o aparato humano. Todos os tipos de mensagem. Só que a
alma, ou o subconsciente, registra essas mensagens no escuro, no subconsciente. Que
é o curso natural das coisas.
Mas que tipos de mensagem ele recebe? Todos os tipos. Vibrações cósmicas,
vibrações de magnetos desconhecidos, vibrações de pessoas desconhecidas, de
paixões desconhecidas. O equipamento humano recebe todas elas e todas elas são
processadas no subconsciente.
Há ainda as vibrações do pensamento, muitas, muitas. É preciso ajustar a
sintonia dos dois instrumentos humanos.
É possível que no ar haja até mesmo vibrações de fantasmas. Por “fantasmas”
quero dizer vontades mortas, vejam bem, e não almas mortas. A alma não tem nada a
ver com esses assuntos.
Mas é possível que alguma unidade de força continue existindo durante algum
tempo depois da morte de um indivíduo – alguma associação de vibrações talvez
permaneça nas proximidades, como nuvenzinhas no éter da atmosfera depois da morte
de um ser humano ou de um animal. E esses pequenos coágulos de vibração talvez se
transfiram para o aparato consciente do médium. De forma que o filho falecido de
uma viúva desconsolada talvez seja capaz de mandar uma mensagem à mãe enlutada
para lhe dizer que deve sete dólares a Bill Jackson, ou que o testamento de tio Sam
está na parte de trás da escrivaninha: e anime-se, Mamãe, estou bem.
Essas “mensagens” nunca valem muito a pena, porque nunca passam de itens
fragmentários vindos de uma consciência morta, desintegrada. E o médium tem, e
sempre terá, uma tarefa ingrata, tentando desemaranhar o amontoado de mensagens.
Por outro lado: acontecimentos vindouros podem projetar sua sombra antes de
acontecerem. O oráculo pode receber vibrações materiais em seu aparato consciente
dizendo que a próxima grande guerra terá início em 1925. E na medida em que o
sistema de causa e efeito controla a alma viva, na medida em que os acontecimentos
amadurecem mecanicamente, a previsão pode ser verdadeira.
Mas as almas vivas dos homens podem perturbar o avanço mecânico dos
acontecimentos a qualquer momento.
Rien de certain.c

Vibrações de matéria sutilíssima. Concatenações de vibrações e de colisões!


Espiritualismo.
E depois o quê? Tudo é puramente materialista e boa parte é, e sempre será,
charlatanice.
Porque a verdadeira alma humana, o Espírito Santo, tem sua própria presciência
profunda, uma presciência que resiste a ser representada em números mas que flui nas
sombras, uma torrente de presciência.
E a verdadeira alma humana é orgulhosa demais e sincera demais em sua crença
no Espírito Santo que está dentro de nós para se rebaixar às práticas desses
espiritualistas e a outros estratagemas do gênero, ligados a vibrações materiais.
Porque a reverência começa pela aceitação do fato de que o Espírito Santo nunca
se materializará: de que ele nunca será nada além de um fantasma.
A segunda parte da reverência é a observância atenta dos movimentos – das idas
e vindas do Espírito Santo dentro de nós, bem como dos muitos deuses que o
compõem.
O Pai teve seu momento, e caiu.
O Filho teve seu momento, e caiu.
Este é o momento do Espírito Santo.
Mas quando as almas se corrompem, quando entram num processo de
desintegração, elas deixam de ter um momento. Elas pecaram contra o Espírito Santo.
Os personagens em The Blithedale Romance pecaram contra o Espírito Santo e a
corrupção se instalou.
Todos, talvez, exceto o eu, Nathaniel. Esse continua sendo uma consciência
triste, integral.
Mas Zenóbia não é exceção. A Pérola Negra está apodrecendo. Depressa. Quanto
mais inteligente ela é, mais depressa se deteriora.
E todos eles estão se desintegrando, por isso se aferram aos fenômenos
espiritualistas. Quando um homem e principalmente uma mulher passam a praticar o
espiritualismo – com consultas à mesa, mensagens ocultas, feitiçaria e forças
sobrenaturais do tipo –, isso é um sinal certo de desintegração da psique. Quando os
homens mostram o desejo de ser sobrenaturais, vocês podem ter certeza de que
alguma coisa não vai bem em sua vida natural. Ainda mais quando se trata de uma
mulher.
E mesmo assim a alma tem suas próprias sutilezas profundas em termos de
conhecimento. E o sangue tem sua estranha onisciência.
Mas nada disso é impudente e materialista como o espiritualismo e a magia e
toda essa categoria de sobrenaturalismo pretensioso.

a
“Aqueles que Deus quer destruir, Ele primeiro os enlouquece.” Em latim no original. (N.T.)
b
“Viva a indústria!” Em latim no original. (N.T.)
c
“Nada é certo.” Em francês no original. (N.T.)
9. Dois anos ao pé do mastro,
de Richard Henry Dana

É o trabalho pesado. Ou seja, ninguém consegue idealizar o trabalho


IMPOSSÍVEL IDEALIZAR

pesado sem vir abaixo como idealista.


A terra! O grande ideal da terra. Romances como os de Thomas Hardy e quadros
como os do francês Millet. A terra. O que acontece quando você idealiza a terra, a
mãe terra, e concretiza a ideia de voltar para ela? Nesse momento, com uma
convicção esmagadora, lhe é demonstrado, como foi a Thomas Hardy, que toda a
organização das coisas está contra você. Toda a sólida rotação do destino natural
despenca sobre você com força total, como uma geleira avançando lentamente e
esmagando tudo, extinguindo tudo. Você é aniquilado. Como idealista.
O pessimismo de Thomas Hardy é uma constatação absolutamente verdadeira.
Trata-se da declaração absolutamente verdadeira da última percepção do idealista em
seu embate com o solo amargo da amada mãe terra. Ele a ama, ama tanto, tanto. E ela
não faz mais que enredá-lo e esmagá-lo, devagarinho, como uma serpente de
Laocoonte. O idealista precisa morrer, diz a mãe terra. Pois que morra.
O grande amor fantasioso pelo solo propriamente dito! Tolstoi o sentia, Thomas
Hardy o sentia. E o resultado foi que ambos chegaram a uma espécie de negação
fanática da vida.
Você não pode idealizar a mãe terra. Pode tentar. Pode até conseguir. Mas, caso
consiga, será vencido. A terra não quer saber de idealistas puros entre seus filhos.
Nem um sequer.
Se você é um dos filhos da mãe terra, precisa aprender a se despojar de seu eu
ideal quando necessário, assim como se despoja de suas roupas quando vai dormir.
Os americanos jamais amaram o solo da América ao ponto que os europeus
amaram o solo da Europa. A América nunca foi uma pátria do sangue. Só uma pátria
ideal. A pátria da ideia, do espírito. E do bolso. Não do sangue.
Essa pátria ainda está por vir: acontecerá no momento em que a ideia e o espírito
tiverem desmoronado sob o peso de sua falsa tirania.
A Europa foi amada com um amor do sangue. Isso a tornou bela.
Na América você tem a bela paisagem de Fenimore Cooper: mas ela é a
realização de um desejo, uma ação empreendida fora. E tem Thoreau, em sua cidade
de Concord. Mas Thoreau dá a sensação de haver isolado seu cantinho para depois
examiná-lo com uma lupa. E quase o anatomiza, com sua admiração.
A América não é uma pátria do sangue. Todos os americanos consideram a
Europa sua pátria do sangue. A América é a pátria do espírito.
Transcendentalismo. Transcenda esse negócio de pátria, exalte a ideia Destes
Estados até torná-la uma ideia universal, diz o americano autêntico. A sobrealma é
a

uma alma do mundo, não uma coisa local.


Assim, em seu grande movimento seguinte de conquista imaginativa, os
americanos se voltaram para o mar. Não para a terra. A terra é específica demais,
particular demais. Além disso, o sangue dos homens brancos é um vinho de solo não
americano. Não, não.
Mas o sangue de todos os homens vem do oceano. Temos nossa universalidade
material, nossa unidade do sangue, no mar. A água salgada.
É impossível idealizar a terra. Mas você precisa tentar. E, ao tentar, recebe uma
grande recompensa imaginativa. E a maior recompensa é o fracasso. Saber que você
fracassou, que precisa fracassar. De todos, esse é o maior consolo no fim das contas.
Tolstoi fracassou com a terra: Thomas Hardy também: e Giovanni Verga idem;
os três maiores.
O outro extremo, a maior das mães, é o mar. Amem a grande mãe que é o mar, a
Magna Mater. E vejam como é amarga. E constatem como é preciso fracassar para
conseguir trazê-la para seu ideal: fracassem sempre. Completamente.
Na Inglaterra, Swinburne tentou. Mas o maior teste quem fez foram os
americanos. O fracasso mais vívido.
A uma certa altura, a vida humana se torna desinteressante para os homens. E aí?
Eles se voltam para algo que seja universal.
A maior mãe nutriz de todos nós é o mar.
Os olhos de Dana lhe faltaram quando ele estudava em Harvard. E num ímpeto
ele se voltou para o mar, para a Mãe primordial. Ele foi para o mar como um simples
marinheiro ao pé do mastro.
É impossível idealizar o trabalho pesado. Mas você consegue. Você pode
experimentar o trabalho pesado e saber o que ele significa. Pode até ir ao encontro do
mar e resistir a ele, e . CONHECÊ-LO

Eis o que Dana buscava: uma experiência explícita de confronto com o mar.
C . O significado dessa frase é: conhece a terra que tens no sangue.
ONHECE-TE A TI MESMO

Conhece o mar que tens no sangue. Os grandes elementos.


Mas nunca é demais repetir: e são estados opostos, antagônicos. Quanto
CONHECER SER

mais você conhece, quanto mais precisamente conhece, menos você é. Quanto mais
você é, em termos de ser, menos você sabe.
Isso é a grande cruz do homem, seu dualismo. O eu do sangue e o eu nervoso-
cerebral.
Assim, o fato de conhecer é a morte lenta do ser. O homem tem seus períodos de
ser, seus períodos de conhecer. Sempre haverá uma grande oscilação. O objetivo é
saber como fazer para não saber.
Dana deu outro grande passo no terreno do conhecimento: conhecer a mãe mar.
Ao mesmo tempo, porém, foi um passo no sentido de sua própria ruína. Foi uma nova
fase na dissolução de seu próprio ser. A partir dali seria um ser menos humano. Seria
um conhecedor: mas estaria mais próximo do mecanismo do que antes. Essa é a nossa
cruz, nosso destino.
De modo que ele escreve, em seus primeiros dias no mar, no inverno, navegando
no Atlântico:
Nada se compara ao nascer do dia sobre o vasto oceano. Há alguma coisa nos primeiros filetes cinzentos
que se estendem ao longo do horizonte, a leste, lançando uma luz indistinta sobre a face das águas, que cria
… um sentimento de solidão, de medo, e uma espécie de pressentimento melancólico que nenhuma outra
coisa na natureza é capaz de despertar.

E assim ele se aventura, vigilante e solitário, pelo grande e primordial universo


aquático do fim da vida, o lugar crepuscular onde o ser integral colapsa, e a vida, com
seu calor, começa a se extinguir. É o homem avançando para a morte, a grande
aventura, a grande ruína, a estranha intensificação da consciência. A mesma coisa
acontece em sua visão do albatroz. “Mas uma das cenas mais belas a que já assisti foi
um albatroz adormecido sobre a água, durante uma calmaria ao largo do cabo Horn,
num mar grosso. Como não havia brisa, a superfície da água estava lisa, mas uma
onda muito longa e pesada se aproximava, e vimos a ave, toda branca, diretamente à
nossa frente, adormecida sobre as ondas, com a cabeça debaixo da asa; num momento
subindo sobre o dorso de uma enorme vaga, e no momento seguinte descendo
lentamente até desaparecer na cavidade que separava uma onda da outra. Durante
algum tempo o albatroz não se moveu, até que o ruído de nossas quilhas que se
aproximavam o despertou; nesse momento, erguendo a cabeça, ele nos fitou por um
momento, depois abriu as amplas asas e levantou voo.”
É preciso reconhecer que Dana tinha uma visão mística profunda. Os melhores
americanos são místicos por instinto. Embora simples e despojada, a narrativa ganha
força devido a sua emoção profunda e à perfeita compreensão que transmite. O
escritor vê a última encarnação resplandecente da vida exposta sobre as águas eternas:
um pontinho solitário no limite entre os dois princípios básicos, o aéreo e o aquático.
E sua própria alma é como a alma do albatroz.
O albatroz é uma ave da tempestade. Dana também. Ele desceu para combater o
mar. É o confronto metafísico real de uma alma integral com o elemento vasto e
desprovido de vida, mas poderoso. Dana nunca esquece, nunca cessa de olhar. Se
Hawthorne era um espectro em terra, com muito mais razão Dana é um espectro no
mar. Mas ele precisa vigiar, precisa saber, precisa conquistar o mar em sua
consciência. É essa a diferença pungente entre Dana e o marinheiro comum. O
marinheiro comum se abstém de ter consciência, torna-se elementar como uma foca,
como um bicho. Frágil e solitário, Dana vê o mar imenso subir e rodear seu próprio
corpo indefeso. Se as águas o levarem, algum outro homem terá de continuar o que
ele começou. Porque o mar precisa ser dominado pela consciência humana, no grande
esforço da alma humana para conquistar o domínio sobre a vida e a morte, para
conquistar o . Essa é a última e amarga exigência da Árvore. A Cruz.
CONHECIMENTO

Imparcial, Dana monta guarda em meio aos elementos, calmo e fatal. Seu estilo é
grandioso e sem esperança, o estilo de um perfeito escrivão trágico.
Entre cinco e seis da manhã ouvimos o brado do nosso vigia no deque: “Todos a estibordo!” Em pouco
tempo os homens estavam reunidos no convés. Uma imensa nuvem escura, cor de ardósia, avançava em
nossa direção do sudoeste; fizemos o possível para caçar as velas antes que ela nos envolvesse. Havíamos
descido e amarrado as velas leves, e içado os cabos, e rizado a gávea, e tínhamos começado a subir o
cordame quando a tempestade se abateu. Num instante o mar, antes relativamente calmo, começou a
engrossar cada vez mais e ficou de uma tonalidade quase tão negra quanto a noite. O granizo e a neve
fundida caíam com força nunca vista, e davam a impressão de nos pregar ao cordame.

É no relato desapaixonado de fatos puramente físicos que Dana é mais


grandioso. Ele escreve a partir dos centros mais afastados e menos emocionais do ser
– e não a partir do eu emocional e passional.
E assim o navio avança laboriosamente, contorna o cabo Horn e entra em mares
mais tranquilos. A ilha de Juan Fernandez, a ilha de Robinson Crusoé, ergue-se do
mar como um sonho, como uma nuvem verde, e como um espectro Dana a contempla,
sentindo uma levíssima e fantasmagórica pontada de dor pela vida de antes.
Mas o desgaste da longa viagem marítima começa a se tornar evidente. O mar é
uma grande força desintegradora. Sua qualidade tônica é sua qualidade
desintegradora. O mar queima o tecido, libera energia. E, depois de um longo tempo,
essa combustão se torna destrutiva. A psique fica destruída, irritável, puída, quase
desumanizada.
E com isso há problemas a bordo do navio, insatisfação irritante, atrito
intolerável, e por fim uma sessão de açoites. Essa sessão de açoites desperta em Dana,
pela primeira e última vez, a paixão ideal e humana.
A essa altura Sam já estava dominado – ou seja, fora apoiado à enxárcia com os punhos amarrados aos
ovéns, despojado da túnica, com as costas nuas. O capitão estava em pé na ponta do convés, a alguns passos
dele, e um pouco elevado, de modo a poder atingi-lo sem dificuldade, e empunhava a laçada de uma corda
grossa e resistente. Os oficiais estavam em volta e a tripulação se agrupava no poço. Todos esses
preparativos faziam com que eu me sentisse nauseado, quase sem forças, de furioso e exaltado que estava.
Um homem – um ser humano feito à imagem de Deus – imobilizado e açoitado como um animal! O
primeiro impulso, quase incontrolável, era resistir. Mas o que havia a fazer?… O tempo em que isso seria
possível já havia passado…

De modo que o sr. Dana não tinha como agir. Só lhe restava debruçar-se na
amurada do navio e cuspir.
O que era aquilo que o fazia vomitar?
Por que um homem não pode ser açoitado?
Enquanto o homem tiver um traseiro, não há dúvida de que deve ser açoitado.
Até parece que o Senhor fez de propósito.
Por quê? Por milhares de razões.
O homem não foi feito para viver apenas do pão, para consumi-lo e depois
eliminá-lo.
O que é o sopro da vida? Meu caro, é a estranha cadeia de interação que circula
entre homens e homens, e entre homens e mulheres, e entre homens e coisas. Uma
cadeia constante de interação, um intercâmbio vibrante e ininterrupto. Esse é o sopro
da vida.
E essa interação, essa vibração elétrica, é polarizada. Existem uma polaridade
negativa e uma polaridade positiva. Essa é uma lei da vida, do vitalismo.
Só uma coisa é final, finita, estática e singular: as ideias.
Todo intercâmbio de vida é uma comunicação polarizada. Um circuito.
Há muitos circuitos. Macho e fêmea, por exemplo, e senhor e criado. A ideia, a
, essa górgone cristalizada, e o , esse grande motor estacionário, esses dois
IDEIA IDEAL

deuses-da-máquina, estão ativos há séculos, destruindo toda reciprocidade natural,


todo circuito natural. As se apropriaram das relações sexuais, ou seja, do grande
IDEIAS

circuito homem-mulher. Elas transformaram o ato num mecanismo do qual o ser


humano foi extirpado. E o transformou a reciprocidade de sangue entre senhor e
IDEAL

criado num horror abstrato.


A relação entre senhor e criado – ou entre senhor e homem – é, essencialmente,
um fluxo polarizado, tal como o amor. Trata-se de um circuito de vitalismo que flui
entre o senhor e o homem e forma um nutriente muito precioso para ambos, e que
mantém os dois num estado sutil e trepidante de equilíbrio vital. Por mais que
neguemos essa relação, ela é assim. Mas a partir do momento que você abstrai tanto
senhor como homem e faz com que ambos sirvam a uma ideia – coisas como
produção, emprego, eficiência e assim por diante –, de modo que cada um passa a se
considerar um instrumento desempenhando uma determinada evolução repetida, você
transforma o vital e trepidante circuito senhor-homem no uníssono de um aparelho
mecânico. Em outra forma de vida, simplesmente. Ou de antivida.
Essa seria uma ação impossível a bordo de um veleiro. Ali, se o senhor não for
senhor, é o caos. Ou seja, teria de haver essa estranha interação senhor-homem, a
estranha reciprocidade entre comando e obediência.
A reciprocidade entre comando e obediência é um estado de equilíbrio vital
instável. Tudo o que é vital, ou natural, é instável, graças a Deus.
O navio já estava no mar havia diversas semanas. Senhor e homens submetidos a
uma grande tensão. Uma crescente indiferença hostil nos homens, uma irritabilidade
crescente no senhor.
E o que acontece nesse momento?
Uma tempestade.
Não esperem que eu lhes diga por que é preciso que haja tempestades. Elas
simplesmente existem. Tempestades na atmosfera, tempestades na água, tempestades
com trovões, tempestades de fúria. As tempestades simplesmente existem.
As tempestades são uma espécie de reajuste violento de algum tipo de fluxo
polarizado. Consideremos um circuito polarizado, um circuito de equilíbrio instável.
A instabilidade aumenta até haver uma explosão. Tudo parece se romper. Trovões
troam, raios lampejam. O senhor esbraveja, o chicote zune. O céu despeja a doce
chuva. O navio entra numa nova fase de estranha quietude, é um reajuste, uma
redescoberta de equilíbrio.
Para saber por que isso acontece, só perguntando a Deus Todo-Poderoso. Eu não
sei. Só sei que é assim.
Mas açoite? Por que açoite? Por que não usar a razão ou suspender a geleia do
chá? b

Por que não? Por que não pedir aos trovões que façam o favor de se abster de
tanta violência física? Por que tanto estrondo, tantos impactos? Não basta escorrer,
como neve derretida?
Às vezes, de fato, o trovão escorre como neve derretida, e você acha péssimo.
Céu mormacento, entorpecido, inerte, horrível.
Açoite.
Temos um tal Sam, um sujeito gordo, lento, que com o passar das semanas foi
ficando cada vez mais lento e relaxado. Temos um senhor que foi ficando cada vez
mais irritadiço em sua autoridade. Até que Sam fica simplesmente asqueroso em sua
negligência, a ponto de provocar náuseas. E o senhor está a ponto de explodir.
Pois bem: esses dois homens, o capitão e Sam, encontram-se num equilíbrio
muito instável de comando e obediência. Um fluxo polarizado. Definitivamente
polarizado.
Os polos da vontade são os grandes gânglios do sistema nervoso voluntário,
localizados atrás da coluna vertebral, nas costas. Dos polos da vontade situados na
coluna do capitão até os gânglios da vontade que estão nas costas do preguiçoso Sam,
passa uma corrente altamente tensionada, avariada, um circuito de eletricidade vital
em mau funcionamento. Esse circuito passa por uma última alta de tensão e explode.
“Amarrem esse porco nojento!”, berra o capitão enfurecido.
E záquete, záquete, faz o açoite nas costas nuas daquele porcalhão do Sam.
E o que isso acarreta? Caramba, o açoite funciona como água gelada na espinha
dele. As chicotadas transportam a corrente da raiva do capitão diretamente para o
sangue e os gânglios lassos do sistema voluntário de Sam. Pá! Pá! A chama
flamejante se transmite para o âmago dos nervos vivos.
E os nervos vivos respondem. Começam a vibrar. Se incorporam. O sangue
circula mais depressa. Os nervos começam a recuperar sua vitalidade. Aquilo, para
eles, é um tônico. O homem Sam obtém uma nova luz de inteligência nítida – e costas
ardidas. O capitão sente um novo alívio, uma nova calma em sua autoridade, e um
coração amargurado.
Instala-se um novo equilíbrio, e um recomeço. A inteligência física de Sam é
restaurada, a turgidez das veias do capitão é aliviada.
Trata-se de uma modalidade natural de cópula, de intercâmbio humano.
É bom, para Sam, ser açoitado. Para o capitão, dadas as circunstâncias, é bom
açoitar Sam. Acredito que seja assim. Porque ambos se encontravam naquela
determinada condição física.
Evite usar a vara e estará mimando a criança física.
Aplique a vara e estará mimando a criança ideal.
Pois bem.
Dana, como idealista, ao recusar o contato sanguíneo da vida, debruçou-se na
amurada do navio, impotente, e vomitou: ou teve vontade de vomitar. Seu plexo solar
estava se recuperando um pouco. Para ele, Sam era um ser “ideal” que deveria ter sido
interpelado por intermédio da mente, da razão e do espírito. Aquele trapo do Sam!
Mas havia outro idealista a bordo, o marujo John, um sueco. Ele não se chamava
John por acaso, aquele lobo do mar do Logos. Na ocasião, John sentiu-se convocado a
fazer o papel de Mediador, Intercessor, Salvador. O popular Paracleto.
“Por que está açoitando esse homem, senhor?”
Mas o capitão tinha soltado as feras. Não admitiria que um Johannus
salvacionista e enxerido viesse julgar sua paixão natural e interferir em seus atos. De
modo que o intrometido do John também foi amarrado e açoitado.
Fato que me enche de júbilo.
Infelizmente, porém, o capitão acabou levando a pior. Ri melhor quem ri por
último. O capitão não era suficientemente cauteloso. O inimigo incansável da raiva
natural, da paixão natural, é o idealista. E o navio já estava contaminado pelo
idealismo. Bem mais, aparentemente, do que os navios de Herman Melville.
O que nos relembra que uma vez, em White Jacket, Melville esteve a ponto de
ser açoitado. E que também ele teria visto isso como o último dos insultos.
Em minha opinião há insultos piores que o açoite. Eu preferiria ser açoitado a ser
“querido” pela maioria das pessoas.
Melville também tinha um Intercessor: um homem tranquilo, digno, não um
salvador. O homem falou em nome da Justiça. Melville seria açoitado injustamente. O
homem falou com franqueza e calma. Não no espírito salvacionista. E as chibatadas
não se concretizaram.
A justiça é uma coisa grandiosa e varonil. O salvacionismo é uma coisa
desprezível.
Sam foi justamente açoitado. Era uma justiça passional.
Mas as chibatadas de Melville teriam sido uma injustiça fria, disciplinar. Uma
coisa abjeta. Mesmo a justiça mecânica é uma coisa abjeta. Porque a verdadeira
justiça agita as fibras do coração. É impossível ser frio numa questão de justiça
autêntica.
Já naquele tempo ser capitão não era fácil. Já então era necessário aprender a
esquecer-se de si mesmo para se tornar parte de uma máquina, exercendo um controle
de máquina. E é muito mais difícil exercer um controle de máquina, sem identidade,
um controle ideal, do que ter de obedecer mecanicamente. Porque os idealistas que
obedecem mecanicamente quase sempre detestam o homem que está na posição de dar
as ordens. Seu idealismo raramente lhes permite separar o homem de seu ofício.
O capitão de Dana tinha um estilo realmente à moda antiga. Expunha-se demais.
Deveria ter sido mais cauteloso, sabendo que confrontava um navio inteiro de
inimigos e pelo menos dois idealistas frios e mortíferos, que por princípio odiavam
todos os “senhores”.
À medida que ele prosseguia, sua paixão ia aumentando, e ele dançava pelo convés, berrando enquanto
brandia a corda: “Se vocês querem saber por que estão apanhando, eu vou lhes dizer. É que eu gosto de
espancar! Porque gosto de espancar! Me faz bem. É por isso que eu espanco!”
O homem se contorcia de dor. Meu sangue estava gelado, eu não conseguia mais olhar. Enojado,
nauseado e tomado de horror, dei as costas à cena, debrucei-me na amurada e fitei a água lá embaixo.
Passaram-me depressa pela mente alguns pensamentos acerca de minha própria situação e da possibilidade
de uma vingança futura; mas em seguida a sucessão de golpes e os gritos do homem trouxeram-me de volta.
Depois de algum tempo o ruído cessou e, virando-me, constatei que o imediato, atendendo a um gesto do
capitão, cortara as cordas que imobilizavam o outro.

Nada de tão terrível, afinal. Era evidente que o capitão não ultrapassara a medida
usual. Sam não tivera mais do que merecera. Era um acontecimento natural. Tudo
estaria em ordem, não fosse o veredicto moral. E este era promulgado por idealistas
teóricos como Dana e o marujo John, mais que pelos próprios marinheiros. Os
marinheiros entendiam a moralidade passional espontânea, não a ética artificial.
Respeitavam os reajustes violentos da força bruta, tanto no homem como na natureza.
Muito raramente, ou jamais, comentávamos a questão do açoite no castelo de
proa. Se alguém se sentisse inclinado a falar sobre isso, os outros, com uma
delicadeza que eu não esperava encontrar entre eles, sempre o interrompiam ou
mudavam de assunto.
Dois homens haviam sido açoitados: o segundo e mais velho deles, John, por ter
interferido e perguntado ao capitão a razão pela qual este açoitava Sam. É enquanto
açoita John que o capitão berra: “Se vocês querem saber por que estão apanhando, eu
vou lhes dizer.”
Dana prossegue:
Um para com o outro, porém, o comportamento dos dois homens açoitados evidenciava uma delicadeza e
um senso de honra digno de admiração nas mais altas esferas da vida. Sam sabia que o outro sofrera
unicamente por sua causa, e sempre que se lamentava dizia que se apenas ele próprio tivesse sido açoitado
não haveria problema, mas que não conseguia olhar para aquele homem sem pensar que fora ele, Sam, a
causa de sua desgraça; enquanto John, este, nunca, por palavras ou atos, deixou escapar qualquer coisa que
lembrasse o outro que fora por tentar defender o companheiro de ofício que acabara sofrendo.
Na verdade John é que deveria se envergonhar por provocar confusão e
sentimentos ambíguos em relação a uma questão clara. Se deixarmos de lado a
moralidade convencional, John é a parte merecedora de reprimendas, não Sam ou o
capitão. O caso era de reajuste passional, nada de excepcional. E quem era o
sentencioso Johannus para interferir no assunto? E se o sr. Dana, além de ter vista
fraca, também tinha um estômago fraco, o problema era dele. Ora, se essa dupla de
idealistas se abstivesse de deixar todos os outros homens constrangidos e confusos a
respeito de uma coisa que deveriam ter permitido que seguisse seu curso natural…
Mas não, os Johannus e os Danas deste mundo têm de ficar criando “opinião pública”
e confundindo as questões da vida com suas sentenças. Ah, o idealismo!
A embarcação chega ao litoral do Pacífico e o movimento das vagas entra em
nosso sangue – o litoral exausto se desdobra, esplêndido, no limite do desconhecido.
Nenhum outro ser humano além de nós, por quilômetros e mais quilômetros – a montanha íngreme
erguendo-se como uma muralha, separando-nos do mundo inteiro, menos do “mundo das águas”. Afastei-
me dos outros e sentei-me sobre uma rocha, exatamente no ponto onde o mar entrava, formando um belo
chafariz. Comparada à praia de areia, previsível e sem novidades, que se estendia pelo resto do litoral,
aquela grandiosidade era tão animadora quanto um enorme rochedo num terreno árido. Era praticamente a
primeira vez que eu me via completamente sozinho… Minha melhor natureza se apropriava de novo de
mim. Senti uma onda de prazer ao constatar que toda a poesia, todo o romance que eu já tivera em mim não
haviam sido inteiramente neutralizados ao longo da vida laboriosa que eu vinha levando nos últimos
tempos. Fiquei ali sentado por quase uma hora, perdido na magnificência daquele cenário inteiramente novo
da peça em que eu representava um papel, quando fui despertado pelos gritos distantes de meus
companheiros.

De modo que Dana se instala para hamletizar diante do Pacífico – ator principal
na peça de sua própria existência. Só que nele a autoconsciência beira a marca da
indiferença científica a si mesmo.
Ele nos oferece um belo quadro da baía de San Francisco – na época selvagem e
desconhecida. “Quando a maré recuou, lançamos âncora perto da entrada da baía, ao
pé de uma montanha alta com magníficas encostas, sobre as quais centenas de veados-
vermelhos, os machos com suas grandes galhadas, saltitavam, olhando-nos por um
momento e depois fugindo alarmados com os ruídos que fazíamos com a intenção de
apreciar a variedade de suas esplêndidas atitudes e movimentos…”
Pensem no local hoje, e no Presídio! Aqueles canhões idiotas.
Dana experimenta dois momentos de forte emoção humana: um momento de
ódio intenso mas impotente dirigido ao capitão, um forte impulso de amor e piedade
pelo menino canaca, Hope – um belo habitante das Ilhas do Sul atingido por uma
enfermidade de homem branco, tísica ou sífilis. Sobre ele, Dana escreve:
… mas o outro, que era meu amigo e Aikane – Hope –, era o objeto mais pavoroso que já vi na vida; suas
mãos pareciam garras; uma tosse pavorosa, que parecia devastar todo o seu abalado sistema; uma voz cava,
sussurrante, e uma total incapacidade de se mover. Lá estava ele, sobre uma esteira no chão, que era o único
piso do forno, sem remédios, sem confortos, e sem ninguém para tomar conta dele ou ajudá-lo exceto alguns
canacas que, com toda a sua boa vontade, não podiam fazer nada. Vê-lo ali me deixou fraco e abalado.
Pobre sujeito! Durante os quatro meses que vivi na praia estivemos continuamente juntos, tanto no trabalho
como em nossas excursões pelas matas e sobre a água. Eu de fato sentia forte afeição por ele, e gostava mais
dele que de qualquer de meus compatriotas ali. No momento em que entrei no forno ele olhou para mim,
estendeu a mão e disse em voz baixa, mas com um sorriso encantador: “Aloha, Aikane! Aloha nui!”c
Confortei-o o melhor que pude e prometi que pediria ao comandante que lhe mandasse medicamentos da
farmácia de bordo.

Já sentimos a vibração de seu ódio pelo capitão – agora vamos sentir a força de
seu amor redentor pelo homem do Pacífico com seus olhos brilhantes, por aquele
verdadeiro filho do oceano, impregnado pelo ser misterioso do imenso mar. Por um
instante, Hope é para Dana o que Chingachgook é para Cooper – o irmão do coração,
o homem das respostas. Mas só por um momento efêmero. E mesmo por esse período
o amor que ele sentia era em grande parte piedade tingida de filantropia. O inevitável
impulso salvador. O ser ideal.
Dana estava louco para deixar a costa da Califórnia, para voltar ao leste
civilizado. Contudo, quando finalmente o navio aparelha e se afasta da terra, ele sente
a consternação da partida. O Pacífico é seu mundo encantado: os estados do leste são
seu mundo moderno, científico, materialmente real. Dana é um servo da civilização,
um idealista, um democrata, um portador de ódio pelos senhores, um . conhecedor

Consciente do mundo e de si, sem jamais esquecer.


Depois que todas as velas haviam sido hasteadas e os conveses se esvaziaram, o California virou um
pontinho no horizonte e a costa se transformou numa nuvem baixa a nordeste. Quando o sol se pôs já não
podíamos vê-la e uma vez mais éramos levados pelo oceano, estávamos no ponto onde o céu e a água se
encontram.

A descrição da viagem de volta é maravilhosa. É como se o mar se erguesse para


impedir a fuga daquele explorador sutil. Dana parece transferir-se para um outro
mundo, para uma outra vida que não pertence a esta terra. Primeiro há o sentimento
de apreensão, em seguida a passagem para o âmago das profundezas negras. Depois
as águas quase o engolem, a ele e a sua consciência triunfante.
Os dias foram se tornando cada vez mais curtos, o sol cada vez mais baixo em sua trajetória diária e
proporcionando cada vez menos calor, e as noites frias a ponto de nos impedir de dormir no convés; as
nuvens do estreito de Magalhães eram visíveis nas noites claras; os céus pareciam frios e adversos; e de vez
em quando um mar comprido, pesado, feio, vindo do Sul, nos dava notícia do que nos esperava.

Estavam se aproximando do cabo Horn, no inverno do hemisfério Sul, passando


para as estranhas e temíveis regiões de águas violentas.
E lá estava, flutuando no oceano, a várias milhas de distância, uma imensa massa irregular com o topo e as
pontas cobertos de neve e o centro de um anil profundo. Era um iceberg, dos maiores que há. Até onde a
vista alcançava, o mar, em todas as direções, era de uma tonalidade azul profunda, as ondas eram altas e
frescas e cintilavam à luz; e no meio estava aquela imensa ilha-montanha, as cavidades e os vales na mais
profunda sombra e as pontas e pináculos reluzindo ao sol. Mas nenhuma descrição é capaz de dar uma ideia
da estranheza, do esplendor e, na realidade, do caráter sublime daquela visão. Seu tamanho descomunal –
pois devia ter umas duas ou três milhas de circunferência e várias centenas de pés de altitude; seu
movimento vagaroso, com a base erguendo-se e afundando na água e os picos balançando na direção das
nuvens; as ondas que vinham quebrar-se, altas, de encontro a ele, as quais, coroadas de espuma, debruavam
sua base com uma crosta branca; e o estrondo dos rangidos daquela massa, e os imensos pedaços que se
quebravam e caíam rolando; bem como sua proximidade, sua aproximação, que acrescentavam uma leve
ponta de medo – tudo convergia para lhe dar um sentido de autêntica sublimidade…

Mas à medida que o navio ia mergulhando no perigo, Dana adoeceu. No início


não é mais que uma leve dor de dente. Com o gelo e a intempérie, as dores lhe tomam
toda a cabeça, inclusive o rosto. Em seguida o rosto incha tanto que ele já não
consegue abrir a boca para comer e há o risco de tétano. Nesse estado, foi obrigado a
ficar de cama por três ou quatro dias.
No fim do terceiro dia, o gelo estava muito espesso; uma neblina cerrada envolvia o navio. Soprava um
vento leste violentíssimo, com neve e chuva gelada, e tudo prenunciava uma noite perigosa e extenuante.
Depois que escureceu, o capitão reuniu os homens na popa e determinou que nenhum deles se afastasse do
convés naquela noite; disse que o navio corria um perigo extremo; que qualquer bloco de gelo podia abrir
um rombo em seu casco ou que ele podia colidir com uma ilha e despedaçar-se. As vigílias foram
organizadas e cada homem foi para seu posto. Quando tomei conhecimento da situação, comecei a me
preparar para reunir-me aos outros, mas o imediato desceu até o alojamento e ao olhar para meu rosto me
mandou voltar para a cama, dizendo que se o navio fosse ao fundo todos iríamos junto com ele, mas que se
eu aparecesse no convés daquele jeito talvez ficasse doente pelo resto da vida. Obedecendo às ordens do
imediato, voltei para a cama; mas espero nunca mais passar uma noite infernal como aquela.

Essa é a história de um homem colhido pelo conflito com o mar, o elemento


vasto, quase onipotente. Ao competir com seu inimigo cósmico, o homem encontra
sua ratificação, sua legitimação ideal. Emerge vitorioso, mas só depois que o mar
tortura seu corpo vivo, íntegro, e o faz pagar de alguma maneira por seu triunfo na
esfera da consciência.
O tremendo embate nas proximidades do cabo Horn, quando o navio voltava
para casa, é a crise da história de Dana. É uma entrada no caos, um paraíso de geada e
chuva negra, de gelo, um mar de gelo e águas que parecem de ferro. O homem
combate o elemento em toda a sua hostilidade, mística, à vida consciente. Essa luta é
a crise íntima de Dana e o triunfo de sua alma. Ele passa por tudo conscientemente,
arrostando, sabendo. Não se trata simplesmente de uma corrida de obstáculos. É o
confronto entre a consciência deliberada e toda a água do polo: voraz, hostil, contrária
à vida.
Concluído esse combate, Dana conquistou sua vitória. Ele sabe. Sabe o que é o
mar. Sabe o que é o cabo Horn. Sabe o que é o trabalho, o trabalho ao pé do mastro.
Sabe, sabe muita coisa. Avançou de olhos abertos, com sua consciência, em meio
àquilo tudo. Venceu o confronto. O ser ideal venceu.
E graças a seu livro, também ficamos sabendo. Ele viveu essa grande experiência
por nós; estamos em dívida com ele.
O navio passa pelo estreito, triunfa sobre o mistério mortal do polo e embica para
o norte, para casa. Parece voar, livre, com sua nova plumagem vigorosa. “Cada um
dos cabos parecia esticado ao máximo, bem como cada fibra da lona; e com a vela
recentemente adicionada o navio saltava sobre as águas como um objeto possuído.
Com a vela quase toda à frente, o navio chegava a sair da água, dando a impressão de
avançar saltando de mar em mar.”
Num belo espetáculo, o veleiro convoca as forças do mar e do vento e as utiliza
em proveito próprio. Não há violação, como numa embarcação a vapor, somente uma
centralidade alada. É esse perfeito ajustamento entre nós e os elementos, o perfeito
trabalho de equipe entre eles e nós, que nos proporciona grande parte de nossa alegria
de viver. Quanto mais introduzimos máquinas entre nós e as forças puras, mais
anestesiamos e atrofiamos nossos próprios sentidos. Toda vez que abrimos uma
torneira para obter água, toda vez que acionamos um interruptor para obter fogo ou
luz, negamos a nós mesmos e anulamos nosso ser. Os grandes elementos – a terra, o
ar, o fogo e a água – estão perto de nós como uma poderosa amante a quem mimamos
e com quem lutamos, que enlaçamos e também combatemos. E nossos aparelhos não
fazem mais que nos negar esses extraordinários abraços, subtrair-nos o milagre da
vida. A máquina é o grande neutralizador. É o eunuco entre os eunucos. No fim, ela
nos emascula a todos. Quando posicionamos os bastões e produzimos uma fagulha,
participamos dos mistérios. Mas quando acionamos uma torneira elétrica aparece uma
espécie de bucha entre nós e o universo dinâmico. Não sabemos o que perdemos com
todos esses aparelhos destinados a poupar trabalho. Dos dois males, de longe o menor
seria perder todos os aparelhos, mesmo o mais ínfimo, a ter, como temos, tanto,
demais – irremediavelmente.
Quando estudamos os deuses pagãos, constatamos que eles têm ora um
significado, ora outro. Às vezes pertencem à essência criadora, às vezes ao mundo
dinâmico-material. Primeiro têm um aspecto, depois outro. O mais grandioso dos
deuses tem ambos. Primeiro ele é a fonte da vida. Depois é o senhor místico-dinâmico
das forças físicas elementares. Assim, Zeus é ao mesmo tempo Pai e Senhor do
Trovão.
As nações que adoram o mundo dinâmico-material – caso de todas as nações na
fase da decadência – parecem encaminhar-se inevitavelmente para a adoração do
Senhor do Trovão. Ele é Amon, Zeus, Wotan, Thor ou o Xangô da África ocidental.
Enquanto criador do homem propriamente dito, o Pai é mais importante na esfera da
criação, ao passo que o Senhor do Trovão é mais importante na esfera material: é o
deus da força e da bênção da terra, o deus do raio e da doce chuva.
Então, a eletricidade parece ser o primeiro princípio intrínseco das Forças. Ela
tem uma capacidade mística de reajuste. Dá a impressão de comandar os dois
elementos puros, o fogo e a água, de ser capaz de encadeá-los misteriosamente e de
misteriosamente interromper suas conexões. Quando os dois grandes elementos se
entravam, se emaranham, quando a situação parece sem esperança, a espada do raio é
capaz de separá-los. Na verdade, o estrondo do trovão não é a colisão de diferentes
camadas da atmosfera. O trovão é o ruído da explosão que ocorre quando as águas se
desprendem do fogo elementar, quando antigos vapores subitamente se decompõem
nas camadas superiores da atmosfera, em decorrência da energia elétrica. Quando isso
acontece, o fogo voa como um fluido e as águas se desprendem, puras. É o momento
em que os elementos se libertam de uma conjunção sem esperança. O trovão, a
energia elétrica, é a contrapartida, no mundo dinâmico-material, da força vital; na
esfera da criação, ele é justamente o mistério da criação.
Dana faz uma fantástica descrição de uma tempestade tropical com relâmpagos e
trovões.
Quando nosso turno de vigia teve início, à meia-noite, estava escuro como Érebo; não se ouvia um sussurro;
as velas pendiam, pesadas e imóveis, de seus mastros; e a perfeita imobilidade, associada àquela escuridão
quase palpável, era verdadeiramente aterrorizante. Ninguém pronunciava palavra, mas todos pareciam
esperar que alguma coisa acontecesse. Poucos minutos depois o imediato se adiantou e, falando baixo, quase
num sussurro, ordenou que recolhêssemos a bujarrona. Arriada a vela, depois que descemos, todos os
homens olharam para cima e nesse instante, exatamente acima do local onde estivéramos pouco antes,
acima do topo do mastro da principal vela de joanete, vimos uma bola de fogo, aquilo que os marinheiros
chamam de fogo de santelmo (corpus sancti). Todos eles a examinavam atentamente, pois os marinheiros
acreditam que se o fogo de santelmo aparece no alto do cordame é sinal de bom tempo; mas que se ele
reaparece mais embaixo haverá tempestade. Infelizmente, como um presságio, ele baixou e apareceu no lais
de verga da vela de joanete.
Poucos minutos depois ele desapareceu e voltou a ser visto na parte dianteira da área do mastaréu de
joanete e, depois de se mover por ali durante algum tempo, tornou a desaparecer, quando o homem do
castelo de proa apontou para ele no alto da ponta do pau da giba. Mas nossa atenção desviou-se da
contemplação do fogo de santelmo com a queda de algumas gotas de chuva. Poucos minutos depois
ouvimos o ronco baixo de um trovão, e vimos alguns clarões esparsos a sudoeste. Todas as velas foram
caçadas, exceto a gávea. Umas poucas lufadas ergueram as velas da gávea, mas elas caíram novamente de
encontro ao mastro e a imobilidade anterior se restabeleceu. Um minuto depois, um clarão e um ronco
pavorosos se arrojaram simultaneamente sobre nós, e uma nuvem pareceu abrir-se diretamente sobre nossas
cabeças para despejar sua água de uma vez só, como um oceano em queda. Ficamos ali imóveis e quase
paralisados de estupefação, embora nada tivesse sido atingido. Os trovões retumbavam sem cessar sobre
nossas cabeças com um som que de fato parecia paralisar o alento em nossos corpos. Contudo, a violência
da chuva só se manteve por alguns minutos, sendo substituída por pingos e aguaceiros ocasionais; mas os
raios continuaram, incessantes, durante várias horas, fendendo a escuridão da meia-noite com clarões
irregulares e ofuscantes.
Durante esse tempo todo praticamente nenhuma palavra foi pronunciada, nenhuma sineta foi tocada, e os
homens se sucederam em silêncio à roda do leme. A chuva caía a intervalos em intensas chuvaradas, e não
nos movemos dali, encharcados, ofuscados pelo clarão dos raios que rompiam a escuridão egípcia com uma
resplandecência que parecia quase maligna, enquanto os trovões continuavam se sucedendo, com um
impacto que parecia abalar o próprio oceano. É raro um navio sofrer avarias devido a raios, porque a
eletricidade é separada pelo grande número de pontos que ele apresenta e por todo o ferro espalhado por
suas várias partes. O fluido elétrico deslizava sobre nossas âncoras, sobre as escotas e os amantilhos da
gávea; ainda assim, não sofremos dano algum. Às quatro descemos, deixando tudo sem alteração.

Dana é notável ao relatar esses eventos mecânicos, ou físico-dinâmicos. Ele não


sabia como falar do ser dos homens: só sabia falar das forças. Oferece outro exemplo
curioso do processo de recriação, tal como esse processo ocorre nos próprios
corpúsculos do sangue. Dessa vez é o sal que interrompe a atividade vital e provoca
um estado estático da Matéria, depois que ocorre uma certa separação entre a água e o
fogo que forma o corpo quente e substancial.
O escorbuto começava a se manifestar a bordo. Um dos homens fora tão afetado que já não tinha condições
de trabalhar; e o rapaz inglês, Ben, estava numa situação deplorável e piorando gradualmente. Suas pernas
inchavam e doíam tanto que ele não conseguia andar; sua carne perdera a elasticidade e quando pressionada
não recuperava a forma anterior; suas gengivas estavam tão inchadas que ele não conseguia mais abrir a
boca. Seu hálito também se tornara muito ofensivo; toda a sua energia, toda a sua vitalidade se esvaíam; ele
já não conseguia comer e piorava dia a dia; e, de fato, se nada fosse feito por ele, no ritmo em que seu
estado vinha se deteriorando em uma semana ele seria um homem morto. Todos os remédios, ou quase,
haviam acabado; e mesmo que houvesse todo um armário bem abastecido, de nada adiantaria; porque o
escorbuto só melhora com mantimentos frescos e terra firme.

Contudo, um navio que passava lhes forneceu um bote carregado de batatas e


cebolas, que os homens consumiram cruas.
O frescor crocante da cebola crua recém-retirada da terra proporciona um grande deleite àquele que passou
um longo período alimentando-se apenas de mantimentos salgados. Comíamos aquelas cebolas com
sofreguidão, em todas as refeições, às dúzias; e enchíamos os bolsos com elas para podermos comê-las
durante nosso turno no convés. Mas os principais consumidores dos mantimentos frescos eram os homens
com escorbuto. Um deles ainda conseguia comer, e em pouco tempo se recuperou graças às batatas cruas
que mastigou; mas o outro àquela altura mal conseguia abrir a boca; e o cozinheiro pegou as batatas cruas e
as moeu num almofariz, depois ofereceu o suco ao homem para que o sugasse. No início o sabor e o cheiro
de terra das batatas cruas, muito acentuados, fizeram toda a sua estrutura estremecer, e depois que ele bebeu
o suco uma dor aguda percorreu todas as partes de seu corpo; mas percebendo, graças a essas reações, que
os resultados eram pronunciados, ele persistiu, tomando uma colherada por hora mais ou menos, até que, em
decorrência daquela bebida e de sua própria esperança recuperada, ele melhorou tanto que foi capaz de se
mover, e de abrir a boca o suficiente para comer uma pasta de batatas e cebolas cruas moídas. Em pouco
tempo essa dieta restaurou seu apetite e sua energia; e apenas dez dias depois de cruzarmos com o Solon –
tão rápida foi sua recuperação –, em vez de jazer inerte e quase sem esperanças em seu beliche, ele estava
no alto do mastro enrolando uma vela.

Esse é o estranho resultado do efeito desintegrador do mar e dos alimentos


salgados. A ciência nos diz que todos nascemos do mar. A lua, e o mar, e o sal, e o
fósforo, e nós: uma longa cadeia de inter-relações. E depois a terra. A mãe terra. Dana
fala do deleite proporcionado pelo sabor de terra que tem a cebola. O sabor do sumo
produzido pelo cozinheiro, o leite vital de Gea. E dos limões com gosto de sol.
Muito mais estranha é a interação da vida entre os elementos, bem mais estranha
que qualquer interação química entre os elementos propriamente ditos. A vida – e o
sal – e o fósforo – e o mar – e a lua. A vida – e o enxofre – e o carbono – e os vulcões
– e o sol. O percurso para cima e o percurso para baixo. Os estranhos percursos da
vida.
Mas Dana voltou para casa, tornou-se advogado, além de cidadão muito
enfadonho e distinto. Em certa ocasião, quase chegou a embaixador. E um homem
eminentemente respeitável.
Ele estivera lá. Ele . Chegou mesmo a contar-nos. Uma realização e tanto.
SABIA

E depois disso, o que mais? – Ora, nada. A mesma monotonia de sempre. Isso é o
pior do conhecimento. Ele drena a vida da pessoa. Dana viveu o que tinha de viver em
dois anos, e ficou sabendo, e o resto não contou. Anos e anos de lamentável vida de
advogado, depois.
Sabemos o suficiente. Sabemos demais. Não sabemos nada.
Vamos destruir alguma coisa. Nós mesmos, inclusive. Mas, acima de tudo, a
máquina.
O livrinho de Dana é um livro formidável: contém uma enormidade de
conhecimento, conhecimento do vasto elemento.
E, acima de tudo, precisamos conhecer tudo para então adquirir o conhecimento
de que o conhecimento não é nada.
Na imaginação, precisamos conhecer tudo: mesmo as águas elementares. E
conhecer cada vez mais, até que de repente o conhecimento encolhe e sabemos que
para todo o sempre não sabemos nada.
Então vem uma espécie de paz, e podemos começar de novo, sabendo que não
sabemos.

a
No original oversoul. (N.T.)
b
Lawrence parodia a punição alternativa mencionada por Melville em White Jacket: “Suspender o grogue de um
marinheiro por um dia ou uma semana.” A mesma obra de Melville é mencionada adiante. (N.T.)
c
Algo como “Olá, querido amigo!” No idioma havaiano no original de Dana. (N.T.)
10. Typee e Omoo, de Herman Melville

P o mais alto visionário e poeta do mar é Melville. Sua visão é mais real que a de
ARA MIM,

Swinburne, porque ele não personifica o mar, e muito mais sólida que a de Joseph
Conrad, porque Melville não sentimentaliza os desafortunados do oceano e do mar.
Não choraminga num lenço úmido, como Lord Jim.
Melville detém a estranha e misteriosa magia das criaturas marinhas e algo de
seu caráter repulsivo. Não é exatamente um animal da terra. Tem algo de
escorregadio. Algo que está sempre meio inebriado. Quando ele era vivo, diziam que
era louco – ou maluco. Não era nem louco nem maluco, mas estava do lado de lá da
fronteira. Era metade um animal aquático, como aqueles terríveis vikings de barba
amarela que irrompiam das vagas em navios bicudos.
Era um viking moderno. As pessoas de olhos verdadeiramente azuis são um
pouco estranhas. Elas nunca são inteiramente humanas, no bom sentido clássico da
palavra, humanas como as pessoas de olhos castanhos são humanas: o humano do
húmus vivo. As pessoas de olhos verdadeiramente azuis têm quase sempre uma aura
abstrata, elementar. As pessoas de olhos castanhos têm a ver com a terra, que é um
tecido de vida pretérita, orgânica, composta. Os olhos azuis contêm o sol e a chuva e
um elemento abstrato, não criado, água, gelo, ar, espaço, mas não humanidade. As
pessoas de olhos castanhos são pessoas do mundo antigo, antiquíssimo: Allzu
menschlich. As de olhos azuis tendem a ser muito intensas e abstratas.
a

Melville parece um viking, que entra no mar como quem chega em casa,
sobrecarregado de memórias e anos e portador de uma espécie de desespero
consumado, quase uma loucura. Porque ele é incapaz de aceitar a humanidade. Não
pode fazer parte da humanidade. Não pode.
O grande ciclo nórdico do qual ele é o elemento recorrente já quase fechou seu
circuito, quase atingiu sua realização. Balder o Belo está misticamente morto, e a esta
altura já fede. Miosótis e papoulas-das-praias caem na água. O homem que saiu do
mar para viver entre os homens não aguenta mais. Ouve o horror do sino rachado da
igreja e volta para a praia, volta para o oceano, sua casa, volta para a água salgada. A
vida humana não lhe serve. Ele volta para os elementos. E submerge uma vez mais
nas profundezas toda a vasta consciência de seu tempo, uma consciência de sol e de
trigo, afogando a chama nas águas profundas, deliberadamente e consciente do que
faz. Assim como a flor azul do linho e as papoulas-das-praias caem nas águas e
devolvem a matéria solar nelas criada à dissolução da torrente marinha.
As pessoas nascidas do mar, que já não podem mais se encontrar e se misturar:
que dão as costas à vida, que mergulham no abstrato, nos elementos: o mar recebe sua
gente.
Que a vida se fragmente, dizem essas pessoas. Que a água já não conceba com o
fogo. Que o acasalamento se encerre. Que os elementos deixem de beijar-se e deem as
costas uns aos outros. Que o tritão se afaste de sua mulher, de seus filhos humanos,
que a mulher-foca esqueça o mundo dos homens, que só se lembre das águas.
E assim elas regressam para o mar, as pessoas nascidas do mar. Os vikings
voltaram a vagar. Lares são desfeitos. Singre os mares, singre os mares, insiste o
coração. Abandone o amor e o lar. Abandone o amor e o lar. Amor e lar são ilusões
mortíferas. Mulher, que faço de ti? Acabou. Consummatum est. Ser crucificado na
humanidade: acabou. Voltemos aos elementos ardentes, misteriosos: o corrosivo e
imenso mar. Ou o Fogo.
Basta! Agora chega. Chega de vida. Voltemo-nos para os vastos elementos.
Livremo-nos da lamentável complicação de viver humanamente com os humanos.
Que o mar nos purifique da lepra de nossa humanidade e de nossa condição humana.
Melville era um homem do norte, um homem nascido do mar. E o mar o
reclamou. Quase todos nós, que utilizamos o idioma inglês, somos gente da água,
oriundos do mar.
Melville voltou para o mais antigo dos oceanos, o Pacífico. Der Grosse oder
Stille Ozean. b

Não há dúvida de que o Pacífico é muitíssimo mais antigo que o Atlântico ou o


Índico. Quando dizemos “mais antigo”, queremos dizer que ele não despertou para
nenhuma consciência moderna. Estranhas convulsões convulsionaram os povos do
Atlântico e do Mediterrâneo, levando-os a fases sucessivas de consciência, enquanto
os povos do Pacífico e o Pacífico propriamente dito dormiam. Dormir é sonhar: não é
o mesmo que estar inconsciente. E, ó céus, há quantos milhares de anos o verdadeiro
Pacífico sonha, revirando-se no sono e tornando a sonhar? Idílios: pesadelos.
Os maoris, os tongas, os habitantes das ilhas Marquesas, os fidjianos, os
polinésios: Deus do céu, há quanto tempo eles se reviram no mesmo sono, com os
mais variados sonhos? Talvez, para uma imaginação sensível, aquelas ilhas no meio
do Pacífico sejam os lugares mais intoleráveis da terra. Ser transferido para lá, para
um tempo transcorrido há inúmeras eras, de volta àquela vida, àquela pulsação, àquele
ritmo: o coração simplesmente congela. Os cientistas dizem que os moradores das
Ilhas do Sul estão na Idade da Pedra. Parece absurdo classificar as pessoas de acordo
com seus utensílios. Mesmo assim, faz sentido. O coração do Pacífico continua na
Idade da Pedra; apesar das embarcações a vapor. O coração do Pacífico dá a
impressão de ser um enorme vácuo no qual, como numa miragem, prossegue a vida
de miríades de anos atrás. É uma continuidade fantasmagórica de seres humanos que
deveriam ter morrido, de acordo com nossa cronologia, na Idade da Pedra. É um
espectro, um truque da realidade, uma espécie de ilusão: os glamourosos Mares do
Sul.
Mesmo o Japão e a China estão se revirando no sono há incontáveis séculos. Seu
sangue é o velho sangue, sua carne, a velha e suave carne. Seu tempo foi há miríades
de anos, quando o mundo era um lugar mais suave, com mais umidade no ar, mais
lama tépida na superfície da terra, e o lótus estava sempre em flor. O grande mundo
do passado, de antes do Egito. E o Japão e a China revirando-se no sono enquanto nós
“avançávamos”. E agora, alarmados, o Japão e a China estão entrando num pesadelo.
O mundo não é o que parece.
O oceano Pacífico contém o sonho de séculos imemoriais. É o grande crepúsculo
azul da mais vasta das noites: talvez da mais magnífica das alvoradas. Quem sabe?
Um dia o Pacífico deve ter sido o vasto seio de uma doce civilização, morna
como a flor do lótus. Nunca uma época humana tão imensa foi entregue à lenta
desintegração como aqui. E agora as águas estão azuis e fantasmagóricas com o fim
de povos imemoriais. E as ilhas, fantasmagóricas, emergem disso, ilusões da
glamorosa Idade da Pedra.
Melville voltou para esse espectro. Para trás, para trás, para longe da vida. Nunca
um homem detestou instintivamente a vida humana, nossa vida humana, tal como a
vivemos, mais que Melville. E nunca um homem esteve mais apaixonadamente
repleto do sentido da vastidão e do mistério da vida não humana que ele. Ele só
pensava em olhar para além de nossos horizontes. Em qualquer direção, em qualquer
direção que estivesse fora de nosso mundo. Fugir, fugir!
Fugir, deixar nossa vida para trás. Cruzar um horizonte para entrar em outra vida.
Não importa qual vida, desde que seja uma outra vida.
Para longe, para longe da humanidade. Para o mar. O sal nu, o mar elementar. Ir
para o mar, fugir da humanidade.
De tanto querer desumanizar-se, o coração humano acaba por ficar exasperado.
De modo que Melville se vê no meio do Pacífico. Efetivamente ultrapassou um
horizonte. Está em outro mundo. Em outra época. Distante, muito distante, nos
tempos das palmeiras e dos lagartos e das ferramentas de pedra. Na ensolarada Idade
da Pedra.
Samoa, Taiti, Raratonga, Nuku Hiva: os próprios nomes são um torpor e um
esquecimento. A magnificência passada da história humana, a magnificência que o
sono obliterou. “Lentas nuvens de glória.”
Melville odiava o mundo: nasceu odiando o mundo. Mas estava em busca do
paraíso. Quer dizer, seletivamente. Seletivamente, estava em busca do paraíso. Não
seletivamente, estava louco de ódio do mundo.
Bem, o mundo é odioso. Tão odioso quanto Melville achava que ele era. Ele não
estava equivocado ao odiar o mundo. Delenda est Chicago. Seu ódio chegava às raias
c

da loucura, e não sem razão.


Mas não adianta nada insistir na busca do paraíso “reconquistado”.
Em seus melhores momentos, Melville invariavelmente escrevia numa espécie
de transe, de modo que os acontecimentos que ele narra como fatos reais têm na
verdade um vínculo muito mais profundo com sua própria alma, com sua própria vida
interna.
É o que acontece em Typee, quando ele descreve sua chegada ao vale dos
terríveis canibais de Nuku Hiva. No fundo daquela garganta estreita, íngreme,
horrenda, ele escorrega e luta, assim como nós lutamos em sonhos, ou no ato do
nascimento, para emergir no verdejante Éden da Era Dourada, no vale dos selvagens
canibais. Há nisso, da parte de Melville, uma certa dose de mito do nascimento, ou de
mito do renascimento – algo inconsciente, sem dúvida, porque o subconsciente de
Melville sempre foi místico e simbólico. Ele não se dava conta de que estava sendo
místico.
Lá está ele, portanto, em Typee, entre os temíveis selvagens canibais. E os
selvagens canibais são gentis e generosos com ele, e ele está efetivamente numa
espécie de Éden.
Aqui, enfim, está o Filho da Natureza de Rousseau, o Nobre Selvagem de
Chateaubriand, procurado e encontrado em casa. Sim, Melville ama seus anfitriões
selvagens. Acha que são ovelhinhas gentis e sorridentes se comparados aos lobos
ferozes que são seus irmãos brancos, deixados para trás na América e num baleeiro
americano.
O animal mais feio da terra é o homem branco, diz Melville.
Em suma, Herman achou em Typee o paraíso que buscava. É verdade, os
habitantes das Marquesas eram “imorais”, mas ele até que gostava disso. A
moralidade era um detalhe branco demais para que ele se importasse com ela. Além
disso, eram canibais. Só de pensar nisso, ele ficava tomado de horror. Mas os
selvagens eram muito discretos, quase ferozmente reservados em seu canibalismo, e
ele bem que podia abrir mão daqueles calafrios. Afinal, quantas vezes tomara parte
nos Sacramentos Cristãos? “Tomai, comei, este é o meu corpo. Este é o meu sangue.
Bebei-o. Fazei isso em memória de mim.” E se os selvagens gostavam de celebrar seu
sacramento sem complicar o assunto com o subterfúgio da transubstanciação, e se
gostavam de dizer diretamente: “Este é o teu corpo, que tomo de ti e como. Este é o
teu sangue, que sugo ao aniquilar-te”, muito bem, com certeza sua cerimônia sagrada
inspirava tanta reverência quanto a que representava Jesus. Mas Herman preferiu ficar
horrorizado. Confesso que não fico horrorizado; embora, claro, não esteja in loco.
Mas o sacramento selvagem me parece mais válido que o cristão: vai direto ao ponto.
Em terceiro lugar, Herman ficou chocado com a violência das práticas guerreiras dos
locais, o que é cômodo, pois morreu antes da Grande Guerra europeia.
Três questiúnculas: moralidade, sacramento canibal e machados de sílex. Há
quem encontre moscas até mesmo nos unguentos do paraíso. E a primeira delas foi
uma joaninha.
Mas paraíso. Ele insiste nisso. Paraíso. Ele podia até circular nu em pelo, como
antes do episódio da maçã. E sua Fayaway, uma pequena Eva sorridente, nua junto
com ele, não estava interessada em nenhuma árvore do conhecimento desde que ele a
amasse sempre que tivesse vontade. Muita coisa para comer, nenhuma necessidade de
usar roupas, gente solar, feliz, água doce na qual nadar: tudo o que um homem podia
desejar. Então por que ele não era feliz vivendo com os selvagens?
Porque não era.
Em segredo ele se mortificava, e queria fugir dali.
Sentia falta até do Lar e da Mãe, as duas coisas das quais fugira para tão longe
quanto um navio era capaz de transportá-lo. L e . As duas coisas que haviam sido
AR MÃE

sua danação.
Ali, na ilha, onde as grandes palmeiras de um verde dourado luziam ao sol, e
onde as elegantes casas de cana deixavam passar a brisa do mar, e onde as pessoas
andavam nuas e riam muito, e onde Fayaway enfeitava o cabelo com flores para
agradá-lo – grandes hibiscos vermelhos e frangipanas – Ó Deus, por que ele não era
feliz? Por quê?
Porque não era.
Bem, é difícil fazer um homem feliz.
Mas eu também não teria sido feliz. Nos Mares do Sul, é como se a alma
estivesse em um vácuo.
A verdade é a seguinte: é impossível voltar atrás. Alguns homens conseguem: os
renegados. Para Melville era impossível; para Gauguin, na verdade, também era; e
hoje sei que eu jamais conseguiria voltar atrás. Voltar atrás para o passado, para a vida
selvagem. É impossível voltar atrás. É o nosso destino dentro de nós.
Esses povos, esses “selvagens”. Não os desprezamos. Não nos sentimos
superiores a eles. Mas existe um abismo entre nós. Existe um abismo no tempo e no
ser. Sou incapaz de mesclar meu ser com os deles.
Lá estão eles, aqueles habitantes dos Mares do Sul, belos homens grandes com
seus membros dourados e seu riso, sua graciosa preguiça. E eles o chamarão de irmão,
escolherão tê-lo como irmão. Mas por que não podemos ser irmãos deles de fato?
Uma mão invisível aperta meu coração e o impede de se abrir demais para esses
estrangeiros. Eles são belos, parecem crianças, são generosos: mas também são outras
coisas. Estão muito distantes, e nos olhos deles vê-se a sombra do suave passado não
criado. Num certo sentido, não foram criados. Longe de mim supor algum tipo de
superioridade “branca”. Mas eles são selvagens. São gentis, riem, e fisicamente são
muito belos. Mas tenho a sensação de que nós, que vivemos tão afastados deles,
atravessando todos os nossos tristes séculos de civilização, vivemos nossas vidas para
adiante, avançamos. Deus sabe que neste momento parece que estamos num beco sem
saída. Mas observe o primeiro negro que encontrar, depois ouça o que lhe diz sua
própria alma. E sua própria alma lhe dirá que, por mais falsos e desgastados que
estejam nossos usos e costumes, mesmo assim, ao longo dos muitos séculos
transcorridos desde a civilização egípcia, vivemos e trabalhamos avançando por uma
estrada que não é propriamente uma estrada, mas que mesmo assim leva a vida para
adiante. Avançamos graças a muita luta, e assim deve continuar a ser. Talvez sejamos
obrigados a quebrar coisas. Pois quebremos. E talvez nossa estrada precise fazer um
grande desvio, tão grande que pode parecer um retrocesso.
Mas não podemos voltar atrás. Independentemente das outras coisas que o
habitante das Ilhas do Sul possa ser, ele está séculos e séculos atrás de nós na luta pela
vida, na luta pela consciência, na luta da alma para chegar a sua completude. Ali está
a mulher dele, com seu cabelo preso e seus olhos escuros, apenas esboçados,
ligeiramente sardônicos. Gosto dela; é simpática. Mas não me passaria pela cabeça
tocá-la. Eu seria incapaz de deixar-me ficar para trás a esse ponto. Deixar-me ficar
para trás para aproximar-me dela em seu estado não criado.
Ela tem uma carne macia e quente, parece lama quente. Mais próxima da idade
dos répteis, dos sáurios. Noli me tangere. d

É impossível voltar atrás. Não podemos voltar atrás até chegar aos selvagens:
não podemos dar nem um passo atrás. Podemos estar em sintonia com eles. Podemos
fazer uma grande curva na direção deles, uma curva para a frente. Mas não podemos
inverter o sentido do curso de nossa vida, invertê-lo de modo a voltar atrás, na direção
de seu suave e quente crepúsculo, de sua lama não criada. Nem por um momento. Se
o fizermos, por um momento que seja, adoeceremos.
Só conseguiríamos fazer isso se fôssemos renegados. O renegado odeia a vida
em si. Deseja a morte da vida. É o caso desses inúmeros “reformadores” e “idealistas”
que glorificam os selvagens da América. Eles são aves carniceiras, odiadores da vida.
Renegados.
Não podemos voltar atrás, assim como Melville não podia. Por mais que odiasse
a humanidade civilizada que conhecia. Não podia voltar atrás e se aproximar dos
selvagens; ele queria, ele tentou, mas não conseguiu.
Porque, antes de mais nada, isso o deixou doente; deixou-o fisicamente doente.
Tinha um problema na perna, que não se curava. Foi piorando, piorando, durante os
quatro meses que passou na ilha. Quando saiu de lá, estava num estado deplorável –
doente e miserável, doente, muito doente.
Paraíso!
Mas a questão é essa. Tente voltar para os selvagens e terá a sensação de que sua
própria alma está se decompondo dentro de você. Seja como for, é isso que você sente
nos Mares do Sul: que sua alma está se decompondo dentro de você. E com todo
selvagem é a mesma coisa, se você tentar viver como eles, se receber a energia de
afinidade que eles oferecem.
Contudo, como eu digo, está na hora de fazermos um grande desvio no rumo de
nossa vida para tentar reencontrar os mistérios selvagens. Mas isso não significa
voltar atrás.
Voltar atrás, para junto dos selvagens, fez Melville ficar muito doente. Sua
sensação era a de estar se decompondo. Pior ainda que Lar e Mãe.
E, na verdade, é isso que acontece. Se você prostitui sua psique ao voltar para
junto dos selvagens, você gradualmente se desfaz em pedaços. Antes de conseguir
voltar, você tem que se decompor. E um homem branco em processo de decomposição
é uma visão lamentável. Mesmo Melville em Typee.
Precisamos avançar, avançar, avançar, mesmo que sejamos obrigados a abrir
nosso caminho quebrando coisas.
Portanto Melville fugiu, e ao ver que um de seus amigos selvagens mais queridos
vinha atrás dele a nado, atingiu sua garganta com um gancho e o afundou no mar. Era
isso que ele sentia em relação aos selvagens que tentavam detê-lo. Seria capaz de
assassiná-los um por um com grande empenho, se tentassem impedi-lo de fugir.
Afastar-se deles – era o que precisava fazer, a qualquer preço.
E assim que consegue fugir, na mesma hora começa a suspirar e sofrer porque
sente falta do “Paraíso” – já que Lar e Mãe estavam muito distantes até para uma
viagem de baleeiro.
Enquanto ele efetivamente permaneceu no Lar, na companhia da Mãe, achava
que estava no Purgatório. Mas Typee deve ter sido ainda pior que o Purgatório, um
pequeno inferno, a julgar pelo frenesi assassino por que foi tomado para conseguir
fugir.
Mas uma vez a bordo do baleeiro que o levou para bem longe de Nuku Hiva, ele
olhou para trás e começou a suspirar pelo Paraíso de onde acabara de fugir,
desesperado.
Pobre Melville! Queria, fosse como fosse, que o Paraíso existisse. Por isso estava
sempre no Purgatório.
Nascera para o Purgatório. Algumas almas estão destinadas a pertencer ao
Purgatório.
Para ele, até a liberdade de sua Typee era uma tortura. A despreocupação da ilha
se tornou lentamente um horror para ele. Daquela vez era ele a mosca no recendente
unguento tropical.
Tinha necessidade de lutar. Aquela despreocupação dos trópicos sem moral não
lhe fazia bem. Na verdade, não queria saber de Éden. Queria lutar. Como todo
americano. Lutar. Só que com as armas do espírito, não as da carne.
O assunto se resumia a isso. Sua alma estava agitada, contorcendo-se
interminavelmente em sua revolta. Sempre que ele encontrava alguma coisa definida
contra a qual se rebelar – como as más condições a bordo de um baleeiro –, ficava
muito mais feliz em sua infelicidade. As rodas dos moinhos do Senhor moíam e
moíam dentro dele, e precisavam encontrar algo para moer.
Sempre que elas conseguiam moer a injustiça e a insensatez dos missionários, ou
dos brutais capitães dos navios, ou dos governos, ele se sentia melhor. As rodas do
moinho do Senhor moíam dentro dele.
As rodas do moinho do Senhor moem dentro de todos os americanos. E moem
muito bem moído.
Por quê? Só Deus sabe. Mas temos necessidade de moer nossas velhas formas,
nossos velhos eus, de moer tudo muito bem moído, de aniquilar essas coisas. Sabe lá
se algum dia surgirá alguma coisa nova no lugar! Enquanto isso, as rodas dos
moinhos do Senhor vão moendo dentro do americano Melville, e foi a si próprio que
ele moeu bem moído: a si próprio e à mulher, depois que se casou. No momento, os
Mares do Sul.
Melville foge de lá a bordo do mais impossível, do mais decrépito dos baleeiros.
Sorte nossa que ele transforma seu navio num lugar fantástico, porque ele devia ser
lamentável.
Seja como for, a bordo do decrépito Julia sua perna, que no paraíso de Typee
jamais ficaria curada, começou rapidamente a ficar boa. Sua vida foi entrando nos
eixos. A purga operada pela volta aos séculos passados estava encerrada.
Mesmo assim, ah… Enquanto ele navega para longe de Nuku Hiva, enquanto
empreende a viagem que acabará por levá-lo à América, ah, que terrível, que
intolerável saudade ele sente da ilha que acaba de deixar!
O passado, a Era Dourada do passado – quanta saudade desperta em todos nós.
Só que, quando obtemos esse passado, não o queremos. Experimentem os Mares do
Sul!
Melville tinha necessidade de lutar, de lutar contra o mundo existente, de lutar
contra seu próprio eu mais íntimo. Só que jamais chegaria ao ponto de apunhalar o
coração de seu ideal paradisíaco. De alguma maneira, em algum lugar, em algum
momento, o amor deverá ser realizado e a vida se transformará em puro enlevo. Essa
era sua ideia fixa. Fata Morgana.
Esse era o alfinete no qual ele se torturava, como uma borboleta espetada.
O amor nunca é uma realização. A vida nunca é uma situação de enlevo
ininterrupto. Não existe paraíso. Lute e ria e sinta amargura e sinta pura felicidade: e
torne a lutar. Lute, lute. A vida é isso.
Para que nos espetarmos num ideal paradisíaco? Só torturamos a nós mesmos.
Ao se afastar da humanidade, Melville teve uma grande experiência: a
experiência do mar.
As ilhas dos Mares do Sul não foram sua grande experiência. Foram um mundo
glamoroso distante da Nova Inglaterra. Distante. Mas o que estava ao mesmo tempo
distante e próximo era o mar: a experiência universal.
O livro que retoma a narrativa de Typee é Omoo.
Omoo é um livro fascinante; picaresco, velhaco, itinerante. Melville é uma
espécie de vagabundo das praias. O decrépito Julia navega até o Taiti e a tripulação
amotinada é obrigada a desembarcar. Vai parar na prisão taitiana. Ótima leitura.
Talvez Omoo seja Melville em seu ponto alto, em seu livro mais bem-sucedido.
Por uma vez, ele é realmente temerário. Por uma vez, aceita a vida como ela lhe
chega. Por uma vez, é o epicurista velhaco e galante, devorando o mundo como uma
narceja, bonne bouche que engole alimentos e terra, tudo misturado.
e

Por uma vez, é realmente descuidado, vagabundeando com o patife que é o


doutor Long Ghost. Por uma vez, é descuidado em suas ações, descuidado em sua
moral, descuidado em seus ideais: irônico, como deve ser o epicurista. A profunda
ironia do patife autêntico: do epicurista autêntico do momento.
Mas foi por influência do doutor Long. O escocês comprido e ossudo não era um
mero imprestável. Era um homem tomado por um desespero excêntrico, jogando sua
vida fora com ironia. Não um mero vadio errante, do tipo que os Mares do Sul
costumam atrair.
Essa é uma das coisas boas de Melville: ele nunca se arrepende. Faça o que fizer,
em Typee ou na companhia viciosa do doutor Long Ghost, jamais se arrepende. Se
tivesse engolido sua boa porção de alimentos com terra misturada e tivesse sentido
prazer na ocasião, não apresentaria acessos biliosos depois. O que é bom.
Mas não bastava. O doutor Long estava realmente atordoado, vivendo numa
espécie de desespero. Deixou seu navio à deriva, desgovernado.
Melville era incapaz de fazer isso. Por algum tempo, sim. Durante algum tempo,
na companhia de seu amigo doutor Long, foi desgovernado e temerário. Tudo bem:
válido como experiência. Mas um homem que não se abandona ao desespero nem à
indiferença não consegue continuar sendo assim indefinidamente.
Melville jamais se abandonaria ao desespero ou à indiferença. Melville sempre
se importava. Sempre se importava o suficiente para odiar Missionários e para se
emocionar com um gesto verdadeiramente delicado. Sempre se importava.
Quando via um homem branco realmente em “estado de selvageria”, um homem
branco com um tubarão azul tatuado na testa, um homem que tivesse passado para o
lado dos selvagens, todo o ser de Herman se revoltava. Para ele, era algo intolerável.
Para ele, um renegado era algo intolerável.
Acabou se alistando num navio de guerra americano. O fato está registrado em
White Jacket. Estava de volta à civilização, mas continuava no mar. Estava na
América, mas continuava vagando pelos mares afora. Belos dias normais, depois do
doutor Long Ghost e do Julia.
Na verdade, na época havia uma corrente fina e comprida atada ao tornozelo de
Melville, prendendo-o à América, à civilização, à democracia, ao mundo ideal. Era
uma corrente comprida que nunca se rompia. Que o puxava de volta.
Aos vinte e cinco anos, suas loucuras juvenis estavam encerradas; suas andanças
temerárias chegavam ao fim. Aos vinte e cinco anos ele voltou para o Lar e para a
Mãe, a fim de enfrentar os dois. Porque é impossível lutar com essas figuras fugindo.
Depois que você está bem longe do Lar e da Mãe, percebe que a terra é redonda e que
se continuar fugindo acabará chegando ao mesmíssimo lugar – como uma fatalidade.
Melville voltou para enfrentar o longo resto de sua vida. Casou-se, viveu uma
fase extática de namoro e em seguida cinquenta anos de desilusão.
Porque se limitara a equipar seu lar com desilusões. Typee nunca mais. Paraísos
nunca mais. Fayaways nunca mais. Uma mãe: uma górgone. Um lar: uma caixa de
torturas. Uma esposa: uma coisa com pés de barro. Vida: uma espécie de desgraça.
Fama: outra desgraça – ser financiado por esnobes comuns, do tipo que mal sabe ler.
A coisa toda uma vergonha, suficiente para fazer um homem se contorcer.
Melville passou oitenta anos se contorcendo.
Um homem de alma altiva e selvagem.
Mas cuja razão e cuja determinação almejavam a perfeita completude do amor;
ele queria o amorzinho gostosinho da perfeita compreensão mútua.
Um homem altivo e de alma selvagem na verdade não quer uma realização
amorosa perfeita do tipo amorzinho gostosinho: que bobagem. Um lince não se
acasala com um gato persa; e quando um urso-pardo urra em busca de uma parceira, é
de uma ursa-parda que está atrás, não de uma ovelha de pelo sedoso.
Mas Melville se aferrou a seu ideal. Escreveu Pierre para demonstrar que quanto
mais você tenta ser bom, mais confunde as coisas: que perseguir a honradez é
simplesmente desastroso. Quanto melhor você for, piores serão as coisas para você.
Quanto melhor você tentar ser, maior a confusão que vai armar. O mero fato de
perseguir a honradez só provoca sua lenta degeneração pessoal.
Pois bem: é verdade. Nenhum homem, hoje, é pior do que os idealistas, e
nenhuma mulher chega perto, em termos de maldade, de uma mulher honesta, que
acha que é uma força do bem. É inevitável. Depois de um certo ponto, o ideal morre e
apodrece. O próprio ideal puro se transforma em algo impuro, perverso. A caridade se
torna perniciosa, o espírito em si se corrompe. Os mansos são maus. Os puros de
coração têm reações mesquinhas e sutis: como o Idiota de Dostoiévski. O Sermão da
Montanha inteiro se transforma numa litania do vício branco.
O que fazer?
A culpa é toda nossa. Quem definiu os ideais fomos nós. E se somos tolos a
ponto de não conseguir descartar nossos ideais a tempo, pior para nós.
Pensem em Melville, em seus oitenta longos anos de contorções. Ele se
contorceu até o fim, espetado pelo alfinete ideal.
De “amante perfeito de uma mulher”, passou a “amigo perfeito”. Procurou
incansavelmente o amigo perfeito.
Não conseguiu achá-lo.
O casamento, para ele, foi uma desilusão lamentável, porque ele estava em busca
do casamento perfeito.
A amizade nunca chegou a ter um começo real nele – a não ser, talvez, por seu
amor semissentimental por Jack Chase, em White Jacket.
Até o fim, porém, foi isto que ele almejou: um relacionamento perfeito, uma
união perfeita, uma compreensão mútua perfeita. Um amigo perfeito.
Nunca conseguiu admitir o fato de que os relacionamentos perfeitos são
impossíveis. Cada alma está só, e a solidão de cada alma é uma barreira dupla para o
relacionamento perfeito entre dois seres.
Cada alma deveria estar só. E no fim esse desejo de encontrar um
“relacionamento perfeito” não passa de uma necessidade viciosa, pouco viril. “Tous
nos malheurs viennent de ne pouvoir être seuls.” f

Melville, porém, recusou-se a chegar a essa conclusão. A Vida estava errada,


dizia ele. Melville recusou a Vida. Aferrou-se, porém, a seu ideal de relacionamento
perfeito, de possível amor perfeito. O mundo deveria ser um lugar cálido e
harmonioso. E não consegue. Ou seja, a própria vida está errada.
A argumentação é tola. Porque, afinal de contas, só o homem provisório define
os “deverias”.
O mundo não deveria ser um lugar cálido e harmonioso. Deveria ser um lugar de
discórdias ferozes e harmonias intermitentes: o que de fato é.
O amor não deveria ser perfeito. Deveria ter momentos perfeitos e a rudeza dos
espinheiros – o que de fato tem.
Um relacionamento “perfeito” não deveria ser possível. Todo relacionamento
deveria ter seus limites absolutos, suas reservas absolutas, essenciais para a existência
de uma alma única em cada indivíduo. Um relacionamento realmente perfeito é
aquele em que cada parceiro admite que há vastas regiões desconhecidas no
companheiro.
Duas pessoas não têm como coincidir em mais do que alguns pontos,
conscientemente. Se duas pessoas conseguem simplesmente ficar juntas com uma
certa frequência, de tal modo que a presença de uma é uma espécie de equilíbrio para
a outra, essa é a base para um relacionamento perfeito. Ao mesmo tempo, deve haver
uma autêntica separação.
No fundo, Melville era um místico e um idealista.
Talvez eu também seja.
E ele se aferrou a seus ideais.
Eu abandono os meus.
Ele era um místico que se desesperava porque os velhos ideais não funcionavam.
Os ideais do “espírito nobre”. Do “amor ideal”.
Por mim, os velhos ideais podem apodrecer.
Melhor encontrar novos.

a
“Demasiado humanas.” Em alemão no original. (N.T.)
b
“O grande oceano ou Pacífico.” Em alemão no original. (N.T.)
c
“Chicago deve ser destruída.” Em latim no original. (N.T.)
d
“Não me toque.” Em latim no original. (N.T.)
e
“Bom garfo”, “bom de boca”. Em francês no original. (N.T.)
f
“Todas as nossas desgraças vêm de não podermos estar sós.” Em francês no original. (N.T.)
11. Moby Dick, de Herman Melville

M D , ou a Baleia Branca.
OBY ICK

Uma caçada. A última grande caçada.


Do quê?
De Moby Dick, a enorme baleia cachalote: que é velha, gasta, monstruosa, e que
nada sozinha; que é inenarravelmente feroz em sua fúria, depois de ter sido atacada
tantas vezes; e branca como a neve.
Não há dúvida de que é um símbolo.
De quê?
Duvido que o próprio Melville soubesse muito bem. Essa é a melhor parte.
A baleia tem sangue quente e é amorável. É um Leviatã solitário, não do gênero
Hobbes. Ou será que é?
Mas tem sangue quente e é amorável. Por que os habitantes das ilhas dos Mares
do Sul, e os polinésios, e os malaios, que adoram tubarões e crocodilos e tecem
infinitas variações em torno do tema da fragata, nunca adoraram a baleia? Um animal
tão grande!
Porque a baleia não é temível. Ela não morde. E os deuses deles tinham de
morder.
Ela não é um dragão. É Leviatã. Jamais se enrosca, como o dragão chinês do sol.
Não é uma serpente das águas. Tem sangue quente, é um mamífero. E é caçada,
acossada.
Um belo livro.
No começo você fica descorçoado com o estilo. Parece jornalismo. Dá a
sensação de ser falso. Você sente que Melville está tentando empurrar uma coisa para
cima de você. E não funciona.
E Melville realmente é um tanto sentencioso: determinado, autoconsciente,
empurrando uma coisa até para si mesmo. Mas é preciso lembrar que não é fácil
entrar no clima de uma situação de misticismo profundo quando você acaba de dar a
partida numa história.
Ninguém pode ser mais burlesco, mais atrapalhado, e apresentar um mau gosto
mais sentencioso do que Herman Melville, mesmo num grande livro como Moby
Dick. Ele prega e insiste, porque não se sente muito seguro. E insiste, muitas vezes, de
modo tão amador!
O artista era tão maior que o homem. O homem é meio enfadonho, um sujeito da
Nova Inglaterra do tipo místico-transcendentalista ético: Emerson, Longfellow,
Hawthorne etc. Tão crispado, um asno impostado mesmo na questão do humor. Tão
irremediavelmente au grand sérieux, dá vontade de dizer: meu Deus do Céu, que
diferença faz? Se a vida é uma tragédia, ou uma farsa, ou um desastre, ou qualquer
outra coisa, sei lá! A vida que seja o que bem entender. Me dê alguma coisa para
beber, neste momento é só o que estou querendo.
Quanto a mim, a vida é tantas coisas que não me interessa saber o que ela é. Não
me cabe fazer o levantamento. No momento é uma xícara de chá. Esta manhã era
mortificação e azedume. Me passe o açúcar.
A pessoa se cansa do grand sérieux. Não dá para levar muito a sério. E isso é
Melville. Ah, meu amigo, quando o asno impostado começa a zurrar… E a zurrar! E a
zurrar!
Mas ele era um grande artista, um artista profundo, mesmo sendo um homem um
tanto sentencioso. Era um autêntico americano no aspecto de que sempre se sentia
diante do público. Mas quando deixa de ser americano, quando se esquece do público
e nos confia apenas sua apreensão do mundo, nesses momentos é esplêndido, seu
livro provoca uma quietude na alma, uma admiração.
Em seu eu “humano”, Melville está quase morto. Ou seja, ele praticamente já
não reage aos contatos humanos; ou então reage apenas idealmente; ou só por alguns
instantes. Seu eu humano-emocional está quase inteiramente gasto. Ele é abstrato,
autoanalítico e distraído. E fica mais fascinado com os estranhos deslizamentos e
colisões da Matéria do que com as coisas que os homens fazem. Nesse ponto, é como
Dana. É com os elementos materiais que ele efetivamente se conecta. Seu drama se
localiza neles. Melville era um futurista muito antes de o futurismo achar a pintura.
Os meros deslizamentos nus dos elementos. E a alma humana experimentando isso
tudo. Com frequência ela chega ao limite de cruzar a fronteira: psiquiatria. Quase
espúrio. E ainda assim tão extraordinário.
É a mesma velha história com todos os americanos. Eles continuam envergando
seu paletó ideal antiquado, junto com um chapéu de seda antiquado, enquanto se
dedicam às coisas mais impossíveis. Pensem bem: vocês veem Melville sendo
abraçado na cama por um enorme nativo tatuado das ilhas dos Mares do Sul, depois
ofertando solenemente uma oferenda incinerada ao pequeno ídolo desse selvagem,
enquanto seu paletó ideal esconde as fraldas de sua camisa e nos impede de ver seu
traseiro no momento em que ele faz uma reverência, mantendo o tempo todo o chapéu
de seda ético corretamente equilibrado acima das sobrancelhas. É tão tipicamente
americano: fazer as coisas mais impossíveis sem se despojar da antiga indumentária
espiritual. Seus ideais são como uma armadura que enferrujou no corpo e que já não é
possível despir. E enquanto isso, em Melville, seu conhecimento corpóreo, íntegro, é
uma centelha viva entre os elementos puros. Porque ele registra os efeitos do mundo
exterior com sua pura sensibilidade vibracional física, como se fosse uma maravilhosa
estação sem fio. Além disso, registra, quase para além da dor ou do prazer, as
transições extremas da alma isolada, longínqua, essa alma que agora está só, sem
nenhum contato humano real.
Os primeiros dias em New Bedford introduzem o único ser humano que
realmente aparece no livro, ou seja, Ishmael, o “eu” do livro. Em seguida chega seu
irmão de alma Queequeg, o poderoso arpoador tatuado dos Mares do Sul que Melville
ama como Dana ama “Hope”. A chegada do companheiro de beliche de Ishmael é
divertida e inesquecível. Mais tarde, porém, os dois se prometem em “casamento”, na
língua dos selvagens. Porque Queequeg tornou a abrir as comportas do amor e da
conexão humana em Ishmael.
Durante um tempo fiquei sentado ali naquele aposento solitário; o fogo baixo, num estágio intermediário
após sua primeira intensidade ter aquecido o ar, apenas brilhando para ser olhado: as sombras e os fantasmas
noturnos se juntando nos vãos das janelas, observando-nos, silenciosa e solitária dupla; comecei a ter
consciência de sentimentos estranhos. Senti algo derretendo em mim. Meu coração despedaçado e minhas
mãos enlouquecidas já não se revelavam contra o mundo lupino. Este selvagem conciliador o redimira. Lá
estava ele sentado, sua indiferença era de uma natureza que não conhecia nem a hipocrisia civilizada, nem a
fraude mais branda. Era um selvagem; um espetáculo entre os espetáculos; contudo, comecei a me sentir
misteriosamente atraído por ele.

Então os dois fumaram juntos e agora estão nos braços um do outro. A amizade é
finalmente selada quando Ishmael faz uma oferenda ao pequeno ídolo de Queequeg,
Gogo.
Eu era um bom cristão; nascido e logo trazido ao seio da infalível Igreja Presbiteriana. Como então poderia
me unir a esse idólatra selvagem na adoração de seu pedaço de madeira? … Mas o que é a adoração? – fazer
o desejo de Deus – isso é adorar. E qual é o desejo de Deus? – fazer ao semelhante o que desejo que façam a
mim – esse é o desejo de Deus.

Faz lembrar Benjamin Franklin e é uma teologia irremediavelmente ruim. Mas é


pura lógica americana.
Ora, Queequeg é meu semelhante. E o que gostaria que Queequeg fizesse por mim? Ora, unir-se a mim em
meu rito presbiteriano de adoração. Portanto, eu devo unir-me a ele, logo, devo tornar-me um idólatra.
Assim, acendi as aparas; ajudei a pôr o idolozinho inocente de pé; ofereci-lhe biscoito queimado com
Queequeg; fiz uns dois ou três salamaleques diante dele; beijei seu nariz; terminadas essas cerimônias, nos
despimos e fomos para a cama, em paz com as nossas consciências e em paz com o mundo todo. Mas não
adormecemos sem antes papear um pouco. Não sei por quê; mas não há lugar mais propício para
confidências entre amigos do que uma cama. Marido e mulher, dizem, ali abrem até o fundo da alma um
para o outro; e alguns casais idosos muitas vezes ficam deitados conversando sobre os velhos tempos até o
amanhecer. E assim, na lua de mel de nosso coração, eu e Queequeg ficamos deitados – um casal
aconchegante e amoroso.

Seria o caso de imaginar que essa relação com Queequeg significava alguma
coisa para Ishmael. Mas não. Queequeg é esquecido como se esquece o jornal da
véspera. Para o americano Ishmael, as coisas humanas não passam de excitações ou
distrações passageiras. Ishmael, o perseguido. Muito mais adequado dizer Ishmael, o
perseguidor. O que é um Queequeg? O que é uma esposa? A baleia branca deve ser
aniquilada. Queequeg deve simplesmente ser “ , para em seguida cair no
CONHECIDO”

esquecimento.
E agora me digam: o que é a baleia branca?
Em outra passagem Ishmael afirma que adora os olhos de Queequeg: “olhos
grandes e profundos, de um negro vívido e audaz”. Como Poe, certamente ele
desejava encontrar a “chave” para aqueles olhos. Só isso.
Os dois homens fazem a travessia de New Bedford para Nantucket e lá
embarcam no baleeiro quacre Pequod. Tudo é estranhamente fantástico,
fantasmagórico. A viagem da alma. Ao mesmo tempo, curiosamente, também uma
autêntica viagem num baleeiro. Vamos parar no meio do mar a bordo desse estranho
navio com sua incrível tripulação. Comparados a eles, os argonautas não passavam de
doces cordeirinhos. E Ulisses se dedicou a vencer as Circes e a cambada de sirigaitas
que vivia naquelas ilhas. Mas a tripulação do Pequod é um bando de malucos
perseguindo fanaticamente uma baleia branca solitária e inofensiva.
Como saga da alma, é irritante. Como aventura marítima, maravilhoso: sempre
há alguma coisa um pouco desmedida nas aventuras marítimas. Está certo. Só que dá
um pouco nos nervos quando as experiências concretas do homem do mar são
encobertas por manifestações de misticismo grandiloquente. E, além disso, como
revelação do destino o livro é profundo demais até mesmo para a dor. Profundo além
do sentimento.
Só depois de algum tempo você é autorizado a encontrar o capitão, Ahab: o
misterioso quacre. Ah, que navio quacre temente a Deus, aquele!
Ahab, o capitão. O capitão da alma.
Sou o senhor de meu destino,
Sou o capitão de minha alma!

Ahab!
“Oh capitão, meu capitão, nossa temida viagem se completou!”
O sombrio Ahab, quacre, ser misterioso, só se deixa ver depois de alguns dias no
mar. Há um segredo a respeito dele. Qual será?
Ah, ele é uma figura portentosa. Movimenta-se pelo convés mancando com sua
perna de marfim, de marfim marítimo. Moby Dick, a grande baleia branca, arrancou a
perna de Ahab a partir do joelho quando estava sendo atacada por ele.
Nada mais justo, aliás. Devia ter arrancado suas duas pernas e quem sabe um
pouco mais também.
Mas Ahab não pensa assim. Ahab agora é monomaníaco. Moby Dick é sua
monomania. Moby Dick precisa MORRER, do contrário Ahab não pode continuar vivendo.
Isso transforma Ahab num ateu.
Muito bem.
O tal Pequod, navio da alma americana, tem três imediatos:
1. Starbuck: quacre, nativo de Nantucket, homem bom e responsável, cheio de
sensatez, previdência e ousadia, considerado alguém em quem se pode confiar. No
fundo, está com medo.
2. Stubb: “Temerário como o fogo, e tal como ele, mecânico.” Insiste em ser
imprudente e divertido em todas as ocasiões. Na verdade também deve estar com
medo.
3. Flask: teimoso, obstinado, sem imaginação. Para ele “a magnífica baleia não
passava de uma espécie de rato ou ratão d’água ampliado…”
Ei-los, portanto: um capitão louco e seus três imediatos – três fantásticos
marinheiros, baleeiros admiráveis, homens de primeira em seu ofício.
América!
É um pouco como o sr. Wilson e sua admirável, “eficiente” tripulação durante a
Conferência de Paz. Com a diferença de que nenhum dos tripulantes do Pequod levou
a mulher consigo.
Um louco capitão da alma e três imediatos eminentemente práticos.
América!
E que tripulação! Renegados, párias, canibais: Ishmael, quacres.
América!
Três arpoadores monumentais para trespassar a grande baleia branca.
1. Queequeg, o homem dos Mares do Sul, todo tatuado, grande e poderoso.
2. Tashtego, o pele-vermelha do litoral, de onde o índio encontra o mar.
3. Daggoo, o enorme negro.
Aí estão eles: três raças selvagens reunidas sob a bandeira americana – o capitão
louco –, com seus grandes arpões aguçados, prontos para trespassar a baleia branca.
Só depois de muitos dias no mar a tripulação pessoal de Ahab aparece no convés.
Malaios estranhos, silenciosos, secretos, vestidos de negro; parses adoradores do fogo.
Eles é que manejarão o bote de Ahab quando chegar a hora de perseguir a baleia.
Qual sua opinião sobre o Pequod, navio da alma de todo americano?
Muitas raças, muitos povos, muitas nações congregados sob as Listras e Estrelas
da bandeira americana. Marcados por muitas listras, de tanto apanhar.
Às vezes vendo estrelas.
E num navio louco, capitaneado por um louco, numa perseguição fanática, louca.
A quê?
A Moby Dick, a grande baleia branca.
Mas fantasticamente conduzido. Três imediatos esplêndidos. Tudo muito prático,
eminentemente prático em seu funcionamento. O engenho americano!
E todo esse fantástico desempenho prático a serviço de uma perseguição louca,
louca.
Melville consegue fazer com que o navio permaneça um autêntico baleeiro numa
viagem real, a despeito de todos os fanáticos. Uma viagem fantástica, fantástica. De
uma beleza que só é tão empolgante graças aos terríveis embates do autor nas águas
místicas. Sua intenção era ser profundo em termos metafísicos. E ficou mais profundo
que metafísico. É um livro extraordinariamente belo, com um significado terrível e
muitos solavancos.
É interessante comparar Melville com Dana no que diz respeito ao albatroz –
Melville é um pouco sentencioso.
Lembro-me do primeiro albatroz que vi. Foi durante uma longa tormenta, nas águas turbulentas dos mares
antárticos. Do meu turno da manhã, embaixo, subi para o convés nublado; e lá, projetado no convés
principal, vi uma coisa magnífica, em suas penugens de brancura imaculada, e com um bico adunco e
sublime como um nariz romano. De vez em quando arquejava suas grandes asas de arcanjo, como se
cobrisse uma arca sacrossanta. Fantásticas palpitações e vibrações agitavam-no. Ainda que o corpo não
estivesse ferido, soltava gritos, como o espectro de um rei em angústia sobrenatural. Em seus olhos
estranhos e inexpressivos pensei ver segredos … aquela coisa branca era tão branca, suas asas tão vastas, e
naquelas águas de perpétuo exílio, eu perdera as memórias que trouxera a reboque de tradições e cidades. …
Afirmo, então, que em sua brancura maravilhosa se esconde principalmente o segredo do feitiço …

O albatroz de Melville é um prisioneiro, apanhado por uma isca num anzol.


Bem, também eu vi um albatroz: seguindo-nos em águas também próximas da
Antártida, ao sul da Austrália. E durante o inverno do hemisfério sul. E o navio, da
frota da P. and O., praticamente vazio. E a tripulação de lascares tiritando.
A ave com suas longas, longas asas seguindo-nos, depois se afastando. Ninguém
faz ideia, antes de experimentar pessoalmente, como são perdidas, como são solitárias
aquelas águas do sul. Com vislumbres da costa australiana.
A experiência nos faz perceber que nosso dia não passa de um dia. Que na
escuridão da noite diante de nós outros dias fecundos se movem, para quando nossa
existência tiver cessado.
Ninguém sabe quão completamente haveremos de cessar.
Mas Melville não abandona sua especulação sobre a “brancura”. Ele era
fascinado pelo imenso abstrato. O abstrato onde acabamos, onde deixamos de existir.
Branco ou preto. Nosso fim branco, abstrato!
Mas é delicioso estar no mar a bordo do Pequod, sem um só grão de terra à vista.
Era uma tarde nublada e opressiva; os homens passeavam lentamente pelo convés, ou olhavam
distraidamente para as águas plúmbeas. Queequeg e eu estávamos ocupados em tecer tranquilamente o que
se chama de esteira-espada, para servir de amarra suplementar para o nosso bote. Tão calma e absorta e
ainda de certo modo auspiciosa a cena se apresentava, e pairava tamanho encantamento de sonho no ar, que
todo marinheiro, em silêncio, parecia dissolver-se em seu próprio eu invisível.

Em meio a esse silêncio premonitório ecoou o primeiro alerta: “O esguicho da


baleia! Lá! Lá! Lá! O esguicho!” E em seguida vem a primeira perseguição, exemplo
maravilhoso de autêntica literatura marítima, o mar, e meros seres marinhos
envolvidos na perseguição, criaturas marinhas sendo perseguidas. Nem sopro de terra
– tudo é puro movimento marinho.
“Avancem, homens”, sussurrou Starbuck, puxando ainda mais para a popa a escota da vela; “ainda temos
tempo para matar um peixe antes da tempestade. Veja mais água branca ali! – Mais perto! Continuem!”Logo
em seguida dois gritos sucessivos vindo de ambos os lados indicaram que os outros botes haviam sido
rápidos; porém mal foram ouvidos, e Starbuck disse com um sussurro que estalou como um relâmpago:
“Levante!”, e Queequeg, com seu arpão na mão, ficou de pé. Embora nenhum dos remadores pudesse ver de
frente o perigo mortal que se encontrava logo adiante, pela fisionomia tensa e pelo olhar fixo do imediato na
popa do bote, todos sabiam que o momento crítico havia chegado; também escutaram um ruído enorme que
parecia de cinquenta elefantes chafurdando na lama. Enquanto isso o bote continuava a atravessar a neblina,
com as ondas a se agitar e silvar à nossa volta, como serpentes furiosas de cabeças levantadas.
“Ali está a corcova. Ali, ali! Dá-lhe!”, sussurrou Starbuck. Um som breve e apressado partiu do bote; era
a seta de ferro de Queequeg. Então, fundindo-se numa mesma comoção veio um ataque invisível da popa,
enquanto a proa parecia bater num rochedo; a vela fechou-se e caiu; um jato de vapor escaldante ergueu-se
ali perto; alguma coisa debaixo de nós rolou e se virou como um terremoto. Toda a tripulação ficou um
pouco sufocada quando foi temerariamente jogada no branco do creme coalhado da tormenta. Tormenta,
baleia e arpão se haviam mesclado; e a baleia, meramente arranhada pelo ferro, escapava.

Melville é um mestre do movimento violento e caótico; ele é capaz de encenar


toda uma perseguição feroz sem um só vacilo. É impecável ao criar silêncio. O navio
está singrando na região de Carrol, ao sul de Santa Helena.
Foi quando deslizávamos por essas últimas águas que, numa noite calma e enluarada, quando todas as ondas
rolavam como pergaminhos de prata e com a sua agitação suave faziam o que parecia ser um silêncio
prateado e não solidão: foi nessa noite silenciosa que um sopro de prata, bem distante das bolhas brancas da
proa, foi avistado.

Em seguida vem a descrição do brit.


Rumando a nordeste das ilhas Crozet enredamo-nos em vastas pradarias de brit, a minúscula, amarela
substância de que a baleia franca fartamente se nutre. Por léguas e mais léguas, aquilo ondulou à nossa
volta, de modo que parecíamos estar navegando através de ilimitados campos de trigo maduro e dourado.
No segundo dia, avistamos um grande número de baleias francas, as quais, a salvo de serem atacadas por
um navio de pesca de cachalotes como o Pequod, boquiabertas nadavam indolentemente através do brit,
que, aderindo às bordas fibrosas das impressionantes venezianas que têm nas bocas, era assim separado da
água que lhes escapava pelos lábios. Como ceifeiros matutinos, que lado a lado avançam suas foices, lenta e
tempestuosamente, através da relva sempre úmida das campinas alagadiças; assim também esses monstros
nadavam, fazendo um som estranho, de capim, de corte; e deixando atrás de si um sem-fim de gavelas azuis
no mar amarelo. Mas era apenas o barulho que faziam ao atravessar o brit que lembrava a ceifa. Vistas dos
topos dos mastros, especialmente quando faziam uma pausa e ficavam estáticas por algum tempo, suas
imensas formas negras se pareciam mais com massas rochosas sem vida do que qualquer outra coisa.

Essa bela passagem nos leva ao aparecimento da lula.


Atravessando lentamente as pradarias de brit, o Pequod ainda seguia a sua viagem a nordeste, rumo à ilha
de Java; uma brisa suave impelindo a quilha, de tal modo que na serenidade circundante seus três mastros
altos e afilados balançassem brandamente, como três brandas palmeiras numa planície. E, com longos
intervalos na noite prateada, o jato solitário encantador ainda se avistava.
Mas numa manhã azul e transparente, quando uma tranquilidade quase sobrenatural se espalhava por
sobre o mar, embora desacompanhada de uma estanque calmaria; quando a clareira longamente polida do
sol sobre as águas parecia um dedo de ouro, impondo-lhes algum segredo; quando as ondas de chinelos
sussurravam juntas enquanto corriam suavemente; neste profundo sossego da esfera visível, um estranho
espectro foi visto por Daggoo do topo do mastro principal.
Na distância, um grande vulto branco ergueu-se preguiçosamente, e erguendo-se cada vez mais, e
destacando-se do azul, enfim cintilou diante da nossa proa como um trenó que viesse descendo a neve da
colina. Assim faiscante por um momento, também lentamente baixou, e submergiu. Então mais uma vez
ergueu-se, e cintilou em silêncio. Não parecia uma baleia; mas será que é Moby Dick?, pensou Daggoo.

Os botes foram baixados e introduzidos no cenário.


… no mesmo ponto em que afundara, lentamente ressurgiu. Quase esquecendo por ora os pensamentos
sobre Moby Dick, então contemplamos o mais maravilhoso fenômeno que os mares secretos já revelaram
até ali aos homens. Um imenso vulto carnudo, com centenas de metros de comprimento e de largura, de
reluzente coloração leitosa, flutuava na água, com inúmeros tentáculos compridos irradiando do centro, e se
enrolavam e contorciam feito um ninho de anacondas, como que cegamente dispostos a apanhar algum
desgraçado objeto ao seu alcance. Não tinha rosto ou face perceptível; nenhum indício concebível de
sensação ou instinto; mas ondulava ali sobre as ondas, uma aparição sobrenatural, amorfa e fortuita da vida.
… Com um som baixo e aspirado, desapareceu novamente …

Os capítulos que se seguem, com seu relato sobre as perseguições à baleia, o


abate, a esfola e o esquartejamento, são registros magníficos de acontecimentos reais.
Depois vem a estranha história do encontro com o Jeroboam, um baleeiro com que
cruzaram no mar, cuja tripulação inteira estava sob o domínio de um maníaco
religioso, um dos marinheiros do navio. Há descrições detalhadas da coleta real e
concreta do espermacete da cabeça de uma baleia. Discorrendo sobre as pequenas
dimensões do cérebro de um cachalote, Melville, não por acaso, observa: “Pois
acredito que muito do caráter de um homem se encontra assinalado em sua coluna
vertebral. Prefiro tocar na espinha a tocar no crânio de quem quer que seja.” E sobre a
baleia, acrescenta: “Pois, vista sob esse prisma, a relativa pequenez prodigiosa do
cérebro verdadeiro é mais do que compensada pela relativa amplitude prodigiosa de
sua medula espinhal.”
Em meio à azáfama de terríveis, horrendas caçadas, aparecem cenas de pura
beleza.
Enquanto os três botes permaneciam ali naquele mar que rolava suavemente, contemplando o seu eterno
meio-dia azul; e como nenhum gemido ou bramido de qualquer espécie, não, nem mesmo uma ondulação
ou bolha subia de suas profundezas; qual homem terrestre teria imaginado que, sob aquele silêncio e
tranquilidade, se contorcia e se retorcia em agonia o maior monstro marinho?

Talvez o capítulo mais estupendo seja o denominado “A grande armada”, no


início do volume III. O Pequod passava pelos estreitos de Sunda rumo a Java quando
encontrou um imenso bando de cachalotes.
Às claras, dos dois lados da proa, a uma distância de duas ou três milhas, e formando um grande semicírculo
que abrangia metade da linha do horizonte, uma corrente de sopros contínuos de baleias brincava no alto e
resplandecia ao céu do meio-dia.

Perseguindo o grande bando até depois dos estreitos de Sunda, eles próprios
perseguidos por piratas de Java, os baleeiros navegam a toda velocidade. Os botes são
baixados. Finalmente aquele curioso estado de indecisão apática se abateu sobre as
baleias, que ficaram, na linguagem dos marinheiros, sarapantadas. Em vez de avançar
diligentemente em maciça organização marcial, elas nadavam impetuosas daqui para
lá, um mar encapelado de baleias estacionárias. O bote de Starbuck, que investia sobre
uma baleia, é puxado para o interior desse caos estrondoso de Leviatãs. Numa corrida
louca a embarcação se encolhe em meio ao caudal fervilhante de monstros, até ser
conduzida a uma lagoa límpida exatamente no centro do vasto, louco, aterrorizado
rebanho. Ali reina uma calma pura, luzidia. Ali as fêmeas nadavam em paz e as
jovens baleias se aproximavam fungando dos botes, mansas, como cachorros. E ali os
marinheiros atônitos viram aqueles monstros assombrosos fazer amor, aqueles
mamíferos no cio nas profundezas do oceano…
Muito abaixo desse maravilhoso mundo da superfície, um outro universo ainda mais estranho se
descortinava diante de nós quando olhávamos pelo costado. Pois, suspensas naqueles subterrâneos
aquáticos, flutuavam formas de baleias que amamentavam seus filhotes e outras que, pelo tamanho imenso
da cintura, pareciam que em breve se tornariam mães. O lago, conforme sugeri, até uma profundidade
considerável, era extraordinariamente transparente; e como os bebês humanos quando mamam olham calma
e fixamente para longe do peito, como se levassem duas vidas diferentes ao mesmo tempo; e conquanto
sorvam alimento mortal, ainda assim se deleitam espiritualmente com alguma reminiscência extraterrena;
assim também os bebês dessas baleias pareciam olhar na nossa direção, mas não para nós, como se não
passássemos de pedaços de sargaço aos seus olhos recém-nascidos. Flutuando ao lado deles, as mães
também pareciam calmamente nos observar. … Alguns dos segredos mais sutis dos mares pareceram se nos
revelar nesse lago encantado. Nós vimos os amores do jovem Leviatã nas profundezas. E assim, embora
cercadas por círculos justapostos de consternação e terror, essas inescrutáveis criaturas do centro se
dedicavam livre e desimpedidamente às mais pacíficas atenções; sim, serenamente se regalavam em flertes e
deleites.

Há algo realmente desnorteante nessas caçadas de baleia, elas são quase sobre-
humanas, ou inumanas, são maiores que a vida, mais aterrorizantes que a atividade
humana. O mesmo ocorre no capítulo sobre o âmbar-gris: uma coisa tão estranha, tão
real, e ao mesmo tempo tão sobrenatural. E ainda no capítulo denominado “A batina”
– sem dúvida o mais antigo exemplo de falicismo de toda a literatura mundial.
Logo depois vem o extraordinário relato da Refinaria, quando, no meio do
oceano, o navio se transforma numa usina fuliginosa, engordurada, e o óleo da baleia
é extraído. Na noite da fornalha rubra ardendo no convés, em pleno mar, Melville
passa por sua experiência perturbadora de retrocesso. Está no leme, mas se virou para
olhar o fogo: de repente sente o navio disparar para trás, alheio a seu controle, num
retrocesso místico…
A minha impressão mais forte era de que, por mais rápida e impetuosa que fosse aquela coisa na qual eu
estava, ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas que fugia de todos os portos que deixava para
trás. Uma sensação violenta e desnorteante, como de morte, invadiu-me. As minhas mãos se agarraram
convulsivamente ao leme, mas tive a impressão enlouquecida de que o leme, por algum encantamento,
estava invertido. Meu Deus! O que há comigo?, pensei.

Essa experiência onírica é uma autêntica experiência da alma. Melville conclui


com um apelo a todos os homens: que não contemplem as chamas rubras quando o
vermelho dá a todas as coisas um aspecto lívido. Acha que o fato de ter contemplado
o fogo é que evocou aquele horrível retrocesso, aquela desconstrução.
Talvez seja verdade. As águas é que o levavam.
Concluídos alguns trabalhos pouco salutares no navio, Queequeg apanhou uma
febre e estava a ponto de morrer.
Como definhou e definhou naqueles poucos dias vagarosos até que lhe parecia restar pouco mais do que
osso e tatuagem. Mas, enquanto todo o resto definhava e os ossos da face ficavam mais salientes, os olhos,
no entanto, pareciam ficar cada vez maiores; adquiriram um fulgor de estranha tranquilidade; e plácidos,
porém penetrantes, olhavam para você do fundo da doença, um testemunho maravilhoso da saúde imortal
que tinha e não podia morrer, nem enfraquecer. E, como os círculos na água que, à medida que
enfraquecem, expandem; seus olhos davam voltas e mais voltas como os anéis da Eternidade. Um terror sem
nome dominava quem quer que se sentasse ao lado do selvagem enfermiço…

Mas Queequeg não morreu – e o Pequod emerge dos estreitos orientais para sair
em pleno Pacífico. “Para qualquer feiticeiro, andarilho e pensativo, este plácido
Pacífico, uma vez contemplado, deve se tornar para sempre seu mar de adoção. Agita-
se em meio às águas mais centrais do mundo.”
Nesse Pacífico, os confrontos prosseguem:
Caía o fim da tarde; e quando todas as lanças do rubro combate se foram; e flutuando no maravilhoso
crepúsculo de céu e mar, sol e baleia pareciam pacificamente juntos; então, tal doçura e tal melancolia, tal
voluta de orações havia, subindo pelo ar róseo espiraladas, que era como se de muito longe, dos verdejantes
e castos vales profundos das ilhas de Manila, a brisa da terra espanhola, vertida em insolente sopro náutico,
tivesse ido ao mar, carregada desses cânticos vesperais. Mais uma vez calmo, mas apenas para chegar a uma
melancolia mais profunda, Ahab, que se afastara da baleia, assistia com atenção à sua agonia final, sentado
em seu bote agora tranquilo. Pois aquele estranho espetáculo que se observa em todos os cachalotes
agonizantes – o movimento da cabeça voltando-se na direção do sol e morrer assim –, aquele estranho
espetáculo, contemplado num tão plácido entardecer, de certo modo proporcionava a Ahab um
maravilhamento até então desconhecido. “Ele sempre se volta para aquela direção – quão lento, e no entanto
firme, é seu semblante venerando e vocativo, na eminência de seus últimos e agonizantes movimentos.
Também ele adora o fogo…”

Esse é o solilóquio de Ahab: e assim a baleia de sangue quente se volta pela


última vez na direção do sol, que a concebeu nas águas.
Mas, como vemos no capítulo seguinte, o que Ahab realmente venera é o fogo do
Trovão: aquele fogo vivo que cinde, aquele fogo cuja marca cobre todo o seu corpo; é
a tempestade, a tempestade elétrica do Pequod, quando os fogos de santelmo ardem lá
no alto, sobre o mastro principal, em chamas concentradas de uma palidez
sobrenatural, e quando a bússola se inverte. Depois disso, tudo é fatalidade. A própria
vida parece misticamente invertida. Nesses perseguidores humanos de Moby Dick
não há nada além de loucura e desejo de domínio. O capitão, Ahab, anda de mãos
dadas com o pobre menino negro imbecil, Pip, que perdera a razão de maneira tão
cruel ao ser deixado nadando sozinho no vasto mar. É o filho imbecil do sol de mãos
dadas com o monomaníaco do norte, capitão e amo.
A viagem prossegue. Cruzam com um navio, depois com outro. Tudo dentro da
rotina, e ao mesmo tempo tudo é uma tensão de pura loucura e horror, o horror
iminente da luta final.
De lá, de cá, pelas alturas, deslizavam níveas as asas de pequenos pássaros imaculados; eram doces
pensamentos da brisa feminina; mas, de um lado, de outro, pelas profundezas de um azul sem fundo,
corriam os gigantescos Leviatãs, os peixes-espada e os tubarões; e tais eram os pensamentos vigorosos,
tensos e mortíferos do másculo oceano.

Nesse dia Ahab confessa seu cansaço, o cansaço do fardo que carrega. “Mas eu
pareço muito velho, muito, mas muito velho, Starbuck? Eu me sinto mortalmente
fraco, e curvado, e corcunda, como se eu fosse Adão cambaleando para além dos
séculos cravados desde o Paraíso.” É o Getsêmani de Ahab, antes do derradeiro
confronto: o Getsêmani da alma humana em busca da última conquista de si, do
último patamar de consciência ampliada – da consciência infinita.
Por fim avistam a baleia. Ahab a vê de seu cesto preso à gávea: “Dessa altura a
baleia era vista agora uma milha ou mais adiante, toda a superfície do mar revelando
sua alta e brilhante corcova, e regularmente espirrando seu jato silencioso no ar.”
Os botes são baixados para chegarem perto da baleia branca.
Finalmente, o caçador ofegante chegou tão perto de sua aparentemente incauta presa que toda a sua
deslumbrante corcova se fez visível, deslizando pelo mar como uma coisa isolada, sempre envolta num anel
da mais fina, felpuda e esverdeada espuma. Ele viu intrincadas e imensas rugas da cabeça que se projetava
mais à frente. Adiante, distante nas águas suaves do tapete turco, seguia a fulgurante sombra branca da
imensa fronte leitosa, com um jovial murmúrio de música acompanhando o vulto; e, atrás, as águas azuis
corriam entrelaçadas para o vale movente de seu rastro vigoroso; e, pelos flancos, bolhas cintilantes surgiam
e dançavam em seu caminho. Mas essas eram estouradas pelas garras ligeiras de centenas de aves alegres
que ora cobriam a água de suave plumagem, ora seguiam em seu bater intermitente de asas; e, como o
mastro de bandeira que assoma do casco pintado de um galeão, a comprida haste partida de uma lança
recente se projetava do dorso da baleia branca; e, de vez em quando, uma das aves da nuvem de garras
ligeiras, que pairava e voava de um lado para o outro por sobre o peixe como um dossel, pousava silenciosa
e balançava na haste, as longas penas da cauda a tremular como pendões.
Uma alegria tranquila – uma gigantesca suavidade de repouso na velocidade tomou conta da baleia que
deslizava…

A luta com a baleia é esplêndida demais e terrível demais para ser citada fora do
contexto do livro. Durou três dias. A visão horripilante, no terceiro dia, do corpo
dilacerado do arpoador parse, perdido na véspera e agora visto imobilizado contra os
flancos da baleia branca pela trama de linhas de arpão, está imbuída de um horror
onírico e místico. A baleia terrível e enfurecida se volta contra o navio, símbolo do
nosso mundo civilizado. Ela investe contra ele e ocorre uma tremenda colisão. E
alguns minutos depois, do último bote baleeiro, se ergue o brado:
“O navio! Grande Deus, onde está o navio?” Logo, através da atmosfera fosca e confusa, viram seu
fantasma desvanecer-se, como nas brumas da Fata Morgana; apenas a parte superior dos mastros fora da
água; enquanto, presos por encantamento, ou fidelidade, ou destino aos seus poleiros outrora elevados, os
arpoadores pagãos mantinham sua vigilância náufraga sobre o oceano. E então círculos concêntricos
envolveram o bote solitário e toda a sua tripulação e cada remo flutuante e cada haste de uma lança e,
levando a girar as coisas vivas e as inanimadas em volta de um único vórtice, fizeram desaparecer até a
menor lasca do Pequod.

O pássaro do céu, a águia, pássaro de são João, o pássaro do pele-vermelha, o


americano, soçobra com o navio, pregado pelo martelo de Tashtego, pelo martelo do
índio americano. A águia do espírito. Naufragada!
Pequenas aves voavam agora gritando sobre o golfo ainda escancarado; uma rebentação branca se abateu
contra os seus lados íngremes; e então tudo desabou e o grande sudário do mar voltou a rolar como rolava
há cinco mil anos.

Assim termina um dos livros mais estranhos e fantásticos do mundo, pondo fim a
seu mistério e a seu simbolismo torturado. É um épico marinho sem igual; e é um
livro de simbolismo esotérico de significado profundo e consideravelmente cansativo.
Mas é um grande livro, um excelente livro, o maior livro sobre o mar já escrito.
Um livro que enche a alma de espanto.
A terrível fatalidade.
Fatalidade.
Condenação.
Condenação! Condenação! Condenação! Algo parece sussurrar essa palavra em
meio às árvores muito escuras da América. Condenação!
Condenação do quê?
Condenação de nossa era branca. Estamos condenados, condenados. E a
condenação é na América. A condenação de nossa era branca.
Ora, francamente, se minha era está condenada e eu estou condenado junto com
ela, o que me condena é algo maior do que eu, de modo que aceito minha condenação
como um sinal da grandeza que é mais do que eu próprio sou.
Melville sabia. Sabia que sua raça estava condenada. Sua alma branca,
condenada. Sua grande época branca, condenada. Ele mesmo, condenado. O idealista,
condenado. O espírito, condenado.
O retrocesso. “Ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas fugia de
todos os portos que deixava para trás.”
Esse nosso grande horror! É a nossa civilização fugindo de todos os portos à
popa.
A última e medonha caçada. A Baleia Branca.
O que é Moby Dick, então? É o ser sanguíneo mais profundo da raça branca; é
nossa natureza sanguínea mais profunda.
E é um ser caçado, caçado, caçado pelo fanatismo maníaco de nossa consciência
mental branca. Queremos aniquilar esse ser. Submetê-lo a nossa vontade. E nessa
nossa caçada maníaca e consciente de nós mesmos, temos a ajuda de raças escuras e
claras, vermelhas, amarelas e negras, a ajuda do Oriente e do Ocidente, do quacre e do
adorador do fogo, temos a ajuda deles todos nessa caçada maníaca medonha que é
nossa condenação e nosso suicídio.
O último ser fálico do homem branco. Caçado e acuado na aniquilação da
consciência superior e da vontade ideal. Nosso eu sanguíneo dominado por nossa
vontade. Nossa consciência sanguínea enfraquecida por uma consciência mental ou
ideal parasitário.
Moby Dick de sangue quente nascido no mar. Perseguido por monomaníacos da
ideia.
Oh Deus, oh, Deus, o que virá agora que o Pequod naufragou?
Naufragou na guerra, e todos somos destroços.
E agora?
Quem sabe? Quien sabe? Quien sabe, Señor?
Nem a América espanhola nem a América saxônica oferecem resposta.
O Pequod naufragou. E o Pequod era o navio da alma branca americana.
Naufragou levando junto o negro, o índio e o polinésio, o asiático e o quacre, e bons
ianques empreendedores e Ishmael: naufragou todos eles.
Como diria Vachel Lindsay: Boom!
Para usar as palavras de Jesus, .
TUDO ESTÁ CONSUMADO

Consummatum est!
Mas Moby Dick foi lançado em 1851. Se a Grande Baleia Branca afundou o
navio da Grande Alma Branca em 1851, o que aconteceu de lá para cá?
Fenômenos post-mortem, provavelmente.
Porque, nos primeiros séculos, Jesus era Cetus, a Baleia. E os cristãos eram os
peixinhos. Jesus, o Redentor, era Cetus, Leviatã. E todos os cristãos eram todos os
seus peixinhos.
12. Whitman

F post-mortem?
ENÔMENOS

Mas e Walt Whitman?


O “bom poeta cinzento”.
Era um fantasma, com toda aquela existência física?
O bom poeta cinzento.
Fenômenos post-mortem. Fantasmas.
Uma certa insistência vampiresca. Uma certa sopa horrível de fragmentos
humanos. Uma certa estridência e grandiosidade. Uma lividez em suas beatitudes.
D ! E E
EMOCRACIA ! E
SSES ! A
STADOS IDOLONS ! MANTES, INFINITOS AMANTES

U !
MA IDENTIDADE

U !
MA IDENTIDADE

E U SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.

Você acredita em mim, quando falo em fenômenos post-mortem?


Quando o Pequod afundou, deixou uma profusão de outros vapores sujos e
malcheirosos circulando pelos mares. O Pequod naufraga arrastando todas as almas a
bordo, mas os corpos renascem para tripular inúmeros navios mercantes e
transatlânticos. Cadáveres.
O que estamos querendo dizer é que as pessoas podem continuar, prosseguir e se
movimentar sem alma. Elas têm sua identidade e sua determinação; basta isso para
que tenham condições de ir em frente.
De modo que, como vocês veem, o naufrágio do Pequod afinal de contas não
passou de uma tragédia metafísica. O mundo continuou exatamente o mesmo. O navio
da alma afundou. Mas o corpo manipulador de máquinas permanece funcionando do
mesmo jeito: digere, masca chiclete, admira Botticelli e sofre por amor apaixonado.
E U SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.

Que tal essa? . Primeira generalização. Primeira generalização


EU SOU AQUELE QUE SOFRE

constrangedora. P ! Ah, Deus! É preferível ter uma dor de barriga. Pelo


OR AMOR APAIXONADO

menos uma dor de barriga é algo específico. Mas ! SOFRER POR AMOR APAIXONADO

Pensem no que é ter isso sob a pele. Pensem bem!


E .
U SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO

Walter, pare com isso. Você não é . É apenas um limitado Walter. E seu
AQUELE

sofrimento não abrange todo o Amor Apaixonado, francamente. Se você está


sofrendo, é só com uma pequena parcela de amor apaixonado; a parte que fica de fora
do guarda-chuva de seu sofrimento é tão grande que você devia ser um pouquinho
menos radical ao mencionar a questão.
E U SOU AQUELE QUE SOFRE POR AMOR APAIXONADO.

C ! C ! C !
HUIF HUIF HUIF

C !
HU-CHU-CHU-CHU-CHUIF

Faz pensar numa máquina a vapor. Numa locomotiva. Elas são as únicas coisas
que me dão a impressão de sofrer por amor apaixonado. Todo aquele vapor dentro
delas. Uma pressão de quarenta milhões de libras! O sofrimento do . Pressão
AMOR APAIXONADO

do vapor. C ! HUIF

Um homem comum sofre por amor a Belinda, ou a sua Terra Natal, ou ao


Oceano, ou às Estrelas, ou à Superalma: se achar que sofrer pega bem.
É preciso uma locomotiva a vapor para sofrer por Inteirinha.
AMOR APAIXONADO.

Walt era, na verdade, muito super-humano. O perigo do super-homem é que ele é


mecânico.
Fala-se de sua “animalidade esplêndida”. Bem, a coisa estava em seu cérebro, se
é que o cérebro é um lugar adequado para animalidade.
Eu sou aquele que sofre por amor apaixonado:
A terra não gravita? Toda matéria, sofrendo, não atrai toda matéria?
O mesmo acontece com este meu corpo em relação a tudo o que encontro ou conheço.

O que pode ser mais mecânico do que isso? A diferença entre vida e matéria é
que a vida, as coisas vivas, as criaturas vivas se afastam por instinto de parte da
matéria, ignorando, felizmente, quase toda a matéria, e só se aproximam de alguns
fragmentos de matéria selecionada de forma especial. Quanto às criaturas vivas, todas
aglomeradas de forma inapelável numa grande bola de neve… ora, a maioria das
criaturas muito vivas passa a maior parte de seu tempo afastando-se da visão, do
cheiro ou do som do resto das criaturas vivas. Mesmo as abelhas só se agrupam perto
de sua própria rainha. O que já é enjoativo o suficiente. Imaginem a humanidade
branca inteira amontoada, com as pessoas umas em cima das outras, como um
enxame de abelhas.
Não, Walt, você está exagerando. A matéria gravita, sim, inapelavelmente. Mas
os homens são muito espertinhos e se esquivam de mil maneiras.
A matéria gravita porque é inerme e mecânica.
E se você gravitar da mesma maneira, se seu corpo gravita em direção a tudo o
que você encontra ou conhece, ora, deve haver algo de muito errado com você. Sua
mola central deve estar quebrada.
Você deve ter sofrido uma mecanização.
Sua Moby Dick deve estar mesmo morta. Aquele monstro solitário e fálico de
seu eu individual. Morto pela mentalização.
Só sei que meu corpo não gravita, em absoluto, em direção a tudo o que encontro
ou conheço. Admito que sou capaz de apertar a mão de algumas pessoas. Mas a
maioria delas eu não tocaria nem com uma vara bem comprida.
Sua mola central está quebrada, Walt Whitman. A mola central de sua própria
individualidade. Por isso, quando se mexe, você range, fundindo-se com tudo o que
aparece.
Você matou sua Moby Dick individual. Mentalizou seu profundo corpo sensual e
assim acabou com ele.
Eu sou todas as coisas e todas as coisas são eu, e consequentemente todos somos
Um Só em Uma Identidade, como o Ovo do Mundo, que foi chocado durante um
tempo bastante longo.
“Seja você quem for, dedico-lhe declarações sem fim…”
“E de todas e de uma só teço a canção de mim mesmo.”

É mesmo? Bem, isso só demonstra que você não possui “eu” nenhum. Seu eu é
um mingau, não uma coisa tramada. Uma miscelânea, não um tecido. Seu eu.
Ah, Walter, Walter, o que você aprontou? O que você fez consigo mesmo? Com
sua própria identidade? Porque a impressão que se tem é que todo o seu conteúdo
escorreu de você, vazou para o Universo.
Fenômenos post-mortem. A individualidade vazou do sujeito.
Não, não, nada de responsabilizar a poesia. É tudo fenômeno post-mortem. E os
grandes poemas de Walt na verdade são imensas e viçosas plantas de sepultura, o tipo
de vegetação que cresce em túmulo.
Toda aquela falsa exuberância. Todas aquelas listas de coisas cozidas na mesma
panela! Não, não!
Não quero todas aquelas coisas dentro de mim, muito obrigado.
“Não rejeito nada”, diz Walt.
Já que é assim, a pessoa poderia ser um tubo com aberturas nas duas pontas para
facilitar a passagem de tudo.
Fenômenos post-mortem.
“Abraço , diz Whitman. “Teço todas as coisas em mim.”
TUDO”

Não me diga! No final não deve sobrar muita coisa de você. Depois que você
acaba de cozinhar esse pudim horroroso da Identidade Una.
“E aquele que andar uma quadra sem simpatia avança para seu enterro envolto
no próprio sudário.”
Tire o chapéu, então, porque meu cortejo fúnebre de uma só pessoa está
passando.
Esse terrível Whitman. Esse poeta post-mortem. Esse poeta cuja alma privada
vaza dele o tempo todo. Toda a sua privacidade vazando numa espécie de goteira,
escorrendo para o Universo.
Walt fica sendo o mundo inteiro em sua própria pessoa, o Universo inteiro, a
eternidade inteira, pelo menos até onde seu conhecimento um tanto esquemático da
história o levar. Porque para ser uma coisa ele precisa conhecê-la. Para assumir a
identidade de algo ele precisa conhecê-lo. Não teve como assumir a identidade de
Charlie Chaplin, por exemplo, porque não o conheceu. Que pena! Teria composto
poemas, péons e sabe mais o quê, Cânticos, Canções de Cinematernidade.
“Ah, Charlie, meu Charlie, mais um filme concluído…”

Assim que Walt conhecia uma coisa, ele formava uma Identidade Una com ela.
Se soubesse que um esquimó estava num caiaque, na mesma hora lá estava Walt
sendo pequeno e amarelo e ensebado, sentado num caiaque.
Será que alguém pode me dizer o que é, exatamente, um caiaque?
Quem é esse sujeito que solicita definições insignificantes? Ele que olhe para
mim, aqui sentado num caiaque.
Não vejo ninguém em caiaque algum. Vejo um velho meio gordo cheio de uma
sensualidade um tanto senil, determinada…
D EMOCRACIA. EN MASSE. UMA IDENTIDADE.

O Universo é curto, a soma é . UM

U M.

E U.

Ou seja, Walt.
Seus poemas, “Democracia”, “En masse”, “Uma identidade”, são longas
operações aritméticas de adição e multiplicação cujo resultado é invariavelmente EU

.
MESMO

Ele atinge o estado de . TOTALIDADE

E depois o quê? Está tudo vazio. Apenas uma Totalidade vazia. Um ovo podre.
Walt não era um esquimó. Um esquimozinho pequeno, amarelo, dissimulado,
esperto e ensebado. E quando, sem fazer alarde, ele assumiu a Totalidade em si,
inclusive o esquimosismo, estava simplesmente sugando o ar de dentro de uma casca
de ovo inflada, só isso. Os esquimós não são pequenos Walts sem importância. Sei
bem que eles são uma coisa que eu não sou. Fora do ovo de minha Totalidade o
pequeno esquimó ensebado dá risada. Fora do ovo do Todo de Whitman também.
Mas Walt não quis aceitar esse fato. Ele era todas as coisas e todas as coisas
estavam nele. Estava ao volante de um automóvel com faróis muito potentes,
seguindo pelo caminho de uma ideia fixa, vencendo a escuridão deste mundo. Era
assim que ele via todas as coisas. Exatamente como um motorista no meio da noite.
Eu, que por acaso estou adormecido no meio dos arbustos, no escuro, na
esperança de que não entre nenhuma cobra na minha roupa; eu, ao ver Walt passar em
sua enorme e ardente máquina poética, penso comigo mesmo: que mundo estranho
aquele sujeito vê!
M !, reclama Walt ao passar em seu carro.
ÃO ÚNICA

Só que há miríades de caminhos no escuro, sem falar nas terras incultas onde não
há caminhos, como bem sabe qualquer pessoa que se dá o trabalho de sair da estrada –
inclusive da Grande Estrada.
M !, avisa a América, e também se afasta a bordo de um automóvel.
ÃO ÚNICA

A !, guincha Walt numa encruzilhada, tirando um fino de um pele-


TOTALIDADE

vermelha incauto.
I !, entoa o democrático En Masse, que vem correndo atrás em seus
DENTIDADE UNA

automóveis, sem se preocupar com os cadáveres embaixo das rodas.


Deus que me perdoe, estou com vontade de me enfiar numa toca de coelho para
escapar de todos esses automóveis que passam a toda velocidade pela trilha da IDENTIDADE

a caminho da
UNA .
TOTALIDADE

Uma mulher espera por mim…

Ele bem que poderia ter dito “A essência-fêmea espera por minha essência-
macho”. Oh, que linda generalização, que linda abstração! Oh, funcionamento
biológico…
“Mães atléticas desses Estados…” Músculos e matrizes. Nem era preciso que
tivessem rostos.
Tal como me vejo refletido na Natureza,
Tal como me vejo através de uma névoa, Ser de inexprimível completude, sanidade, beleza,
Vejo a cabeça inclinada e os braços cruzados sobre o peito, a Fêmea eu vejo.

Para ele tudo era fêmea: até ele mesmo. A Natureza não passava de outra grande
função.
Este é o núcleo – depois que a criança nasce da mulher, que o homem nasce da mulher,
Este é o caldo do nascimento, a fusão do pequeno e do grande, depois de novo a saída…

“A Fêmea eu vejo…”
Se eu tivesse sido uma das mulheres dele, teria mostrado a ele o que é uma
Fêmea…
Sempre querendo entrar em fusão com o útero disso ou daquilo.
“A Fêmea eu vejo…”
Qualquer coisa servia, desde que ele pudesse entrar em fusão.
Um horror total. Uma espécie de disenteria.
Fenômenos post-mortem.
Ele descobriu, como todos os homens descobrem, que na verdade não é possível
fundir-se com uma mulher, mesmo chegando a um estágio bem avançado do processo.
Fica sempre faltando um pedacinho. Então o sujeito é obrigado a desistir e tentar
novamente em outro lugar, caso faça mesmo questão de se fundir.
Em “Cálamo” a música é outra. Walter já não grita nem bate o pé nem fica
exultante. Começa a hesitar, reticente, melancólico.
O estranho cálamo lança sua raiz rosada junto à borda do lago, e dele brotam
folhas de companheirismo, folhas companheiras de uma raiz, sem a intervenção da
mulher, da fêmea.
Então ele canta o mistério do amor viril, do amor entre companheiros. Uma vez e
outra ele repete a mesma coisa: o novo mundo será construído a partir do amor de
companheiros, a grande nova dinâmica da vida será o amor viril. Desse amor viril
surgirá a inspiração para o futuro.
Será mesmo? Será que surgirá?
Companheirismo! Companheiros! Eis que chega a nova Democracia dos
Companheiros. Eis o novo princípio coesivo do mundo: o Companheirismo.
Será? Você tem certeza?
Esse é o princípio coesivo da verdadeira vida militar, como ficamos sabendo em
“Tamboriladas”. É o princípio coesivo no novo uníssono por uma atividade criativa. E
ele é radical e solitário, chegando aos confins da morte. Algo terrível de suportar, uma
responsabilidade terrível. Até Walt Whitman achava isso. A última e mais pungente
responsabilidade da alma: a responsabilidade pelo companheirismo, pelo amor viril.
E contudo para mim vocês são belas, ó raízes de tonalidade delicada; vocês me fazem pensar na morte.
Vinda de vocês, a morte é bela (o que, afinal, é belo, além da morte e do amor?)
Acho que não é pela vida que aqui entoo meu cântico dos amantes, acho que deve ser pela morte,
Porque com que calma, com que solenidade ele cresce, para depois subir até a atmosfera dos amantes,
Morte ou vida, para mim é indiferente, minha alma se abstém de preferir
(Não estou seguro, mas a alta alma dos amantes prefere acolher a morte)
De fato, ó morte, acho que agora estas folhas significam exatamente o mesmo que vocês significam…

Estranho, vindo do exultante Walt.


Morte!
Agora ele celebra a morte! A morte!
A fusão! E a Morte! Que é a derradeira fusão.
A grande fusão no útero. Mulher.
E em seguida a fusão dos companheiros: amor de homem por homem.
E quase imediatamente depois, isto: morte, a derradeira fusão que é a morte.
E aí está a progressão da fusão. Para os grandes fusionistas, a mulher se torna
afinal inadequada. Para aqueles que amam com grande intensidade. A mulher é
inadequada para a fusão derradeira. De modo que o passo seguinte é a fusão do amor
de homem por homem. E isso está a um passo da morte. Isso desliza para a morte.
David e Jonathan. E a morte de Jonathan.
Ele sempre desliza para a morte.
O amor entre companheiros.
Fusão.
De modo que se o fundamento da nova Democracia for o amor entre
companheiros, a morte também será seu fundamento. Porque mais cedo ou mais tarde
o amor entre companheiros desliza para a morte.
A última fusão. A última Democracia. O último amor. O amor entre
companheiros.
Fatalidade. E fatalidade.
Whitman não teria sido o grande poeta que é se não tivesse dado os últimos
passos e contemplado a morte. A morte, a última fusão, que era o objetivo de sua
masculinidade.
Para os fusionistas, existe o breve amor entre companheiros, e em seguida a
Morte.
A que, respondendo, o mar,
Sem atraso, sem pressa
Me disse num sussurro que atravessou a noite, com toda a simplicidade, antes da aurora,
Me disse num murmúrio a grave e deliciosa palavra morte.
E de novo morte, morte, morte, morte.
Sibilando melodioso, não como o pássaro, não como meu agitado coração de criança,
Mas avançando nítido como só para mim, farfalhando a meus pés,
Para subir em seguida, sempre, até minhas orelhas e, suave, lavando-me inteiro,
Morte, morte, morte, morte, morte…

Whitman é um poeta monumental, um poeta do fim da vida. Um monumental


poeta post-mortem, das transições da alma ao perder sua integridade. O poeta do
último brado, do último guincho da alma, o poeta dos confins da morte. Après moi le
déluge. a

Mas todos nós temos de morrer e desintegrar-nos.


Temos de morrer em vida, também, e desintegrar-nos ainda em vida.
Mas, mesmo nessa situação, o objetivo não é a morte.
Alguma outra coisa virá.
Do balanço interminável do berço.

De todo jeito, primeiro temos de morrer. E desintegrar-nos ainda em vida.


Só que estamos cientes do seguinte: a Morte não é o objetivo. E o Amor, a fusão
agora são simplesmente parte do processo de morte. Companheirismo? Parte do
processo de morte. Democracia? Parte do processo de morte. A nova Democracia? As
portas da morte. Identidade Una? A morte propriamente dita.
Já morremos, e ainda estamos nos desintegrando.
Mas .
ACABOU

Consummatum est.
Whitman, o grande poeta, significou muito para mim. Whitman, o desbravador.
Whitman, o pioneiro. Whitman e mais ninguém. Não há pioneiros ingleses, não há
pioneiros franceses. Não há poetas pioneiros europeus. Na Europa os candidatos a
pioneiro não passam de inovadores. Na América, a mesma coisa. Antes de Whitman,
nada. À frente de todos os poetas, desbravando o terreno inculto da vida não
inaugurada, Whitman. À frente dele, ninguém. Seu estranho e amplo acampamento no
fim da grande estrada. E hoje são tantos os novos poetinhas acampando no
acampamento de Whitman… Só que nenhum deles vai realmente além desse ponto.
Porque o acampamento de Whitman está no fim da estrada, à beira de um imenso
precipício. Para além do precipício, distâncias azuis e o vácuo azul do futuro. Mas não
há caminho até lá embaixo. Estão num beco sem saída.
Pisagh. As visões de Pisagh. E a Morte. Whitman como um estranho e moderno
Moisés americano. Tremendamente equivocado. E, mesmo assim, o grande líder.
A função essencial da arte é moral. Não é estética, não é decorativa, não é
passatempo, não é recreação. É moral. A função essencial da arte é moral.
Mas uma moralidade apaixonada, implícita, não didática. Uma moralidade que
transforma o sangue, em vez da mente. Que transforma primeiro o sangue. A mente
vai depois, na esteira.
Whitman era um grande moralista. Um grande líder. Um grande transformador
do sangue nas veias dos homens.
Sem dúvida isso se aplica em especial à arte americana, que é, toda ela,
essencialmente moral. Hawthorne, Poe, Long-fellow, Emerson, Melville: o que
interessa a esses homens é a questão moral. Todos se sentem desconfortáveis com a
velha moralidade. De forma sensual, apaixonada, todos atacam a velha moralidade.
Mas, em termos racionais, não conhecem nada melhor. É por isso que eles se
comprometem racionalmente com uma moralidade que sua paixão está, em sua
totalidade, voltada para destruir. Disso decorre a duplicidade, que é a sua fissura fatal,
que vitima a mais perfeita das obras de arte americanas, A letra escarlate. Um
compromisso racional inequívoco com uma moralidade que o eu passional repudia.
Whitman foi o primeiro a romper o compromisso racional. Foi o primeiro a
esmagar a velha concepção moral de que a alma do homem é algo “superior”, algo
“acima” da carne. Mesmo Emerson ainda defendia essa cansativa “superioridade” da
alma. Melville foi outro que não soube ultrapassá-la. Whitman foi o primeiro
visionário heroico a agarrar a alma pelo cangote e jogá-la no meio dos cacos.
“Quieta!”, disse ele à alma. “Não saia daí!”
Não saia daí. Não saia da carne. Não saia dos membros e dos lábios e do ventre.
Não saia do peito, não saia do útero. Fique aí, Ó Alma, pois seu lugar é aí.
Não saia dos membros escuros dos negros. Não saia do corpo da prostituta. Não
saia da carne enferma do sifilítico. Não saia do pântano onde cresce o cálamo. Não
saia daí, Alma, seu lugar é aí.
A Grande Estrada. O grande lar da Alma é a grande estrada. Não é o céu, não é o
paraíso. Não é “lá em cima”. Nem mesmo “lá dentro”. A alma não está nem “lá em
cima”, nem “lá dentro”. A alma é um viandante que percorre a grande estrada.
Não é a meditação. Não é o jejum. Não é a exploração de céus sucessivos,
internamente, à maneira dos grandes místicos. Não é a exaltação. Não é o êxtase.
Nenhum desses caminhos leva a alma até ela mesma.
O único caminho é a grande estrada.
Não é a caridade. Não é o sacrifício. Não é nem mesmo o amor. Não são as boas
ações. Nada disso faz a alma se realizar.
A única coisa que funciona é a jornada pela grande estrada.
A jornada em si, seguindo pela grande estrada. Exposta a um contato pleno.
Sobre dois pés vagarosos. Encontrando o que vier a aparecer na grande estrada. Na
companhia daqueles que seguem no mesmo ritmo, pelo mesmo caminho. Sem
objetivo algum. Sempre a grande estrada.
Sem nem mesmo saber em que direção seguir. Somente uma alma que se
mantém fiel a si mesma ao longo do percurso.
Encontrando todos os outros viajantes ao longo da estrada. E como? Como
encontrá-los, como agir? Com simpatia, diz Whitman. Simpatia. Ele não diz amor.
Diz simpatia. Sintonia de sentimentos. Sentir com eles tal como eles sentem consigo
mesmos. Captando a vibração de suas almas e de seus corpos ao se cruzarem.
É uma nova e grande doutrina. Uma doutrina de vida. Uma nova e grande
moralidade. Uma moralidade de vida real, não de salvação. A Europa nunca foi além
da moralidade da salvação. A América está até hoje extremamente intoxicada de
salvacionismo. Mas Whitman, o maior e o primeiro e o único professor americano,
não tinha nada de Salvador. Sua moralidade não era uma moralidade de salvação. Era
uma moralidade da alma vivendo sua vida, não se salvando. Aceitando o contato com
outras almas ao longo da grande estrada, enquanto elas viviam suas vidas. Jamais
tentando salvá-las. Isso equivaleria a detê-las e jogá-las na prisão. A alma vivendo sua
vida ao longo do mistério encarnado da grande estrada.
Esse era Whitman. E o verdadeiro ritmo do continente americano se
manifestando por meio dele. Ele é o primeiro aborígine branco.
“Há muitos palácios na casa de meu Pai.”
“Não”, diz Whitman. “Fique longe dos palácios. Um palácio pode ser o paraíso
na terra, porém melhor seria morrer. Evite meticulosamente os palácios. A alma só é
ela mesma quando percorre a grande estrada a pé.”
Essa é a mensagem heroica americana. A alma não deve acumular proteções em
torno de si. Não deve se recolher para ir em busca de seus céus internamente, em
êxtases místicos. Não deve implorar a salvação a algum Deus que está além dela.
Deve percorrer a grande estrada, desbravar o desconhecido à medida que a estrada
avança, na companhia daqueles cujas almas se aproximam dela, dedicando-se
somente à própria jornada e às ações decorrentes da jornada, na longa viagem de vida
inteira rumo ao desconhecido, com a alma, em suas sutis simpatias, realizando-se à
medida que avança.
Essa é a mensagem essencial de Whitman. A mensagem heroica do futuro
americano. A inspiração de milhares de americanos de hoje, das melhores almas de
hoje, tanto de homens como de mulheres. E é uma mensagem que só pode ser
plenamente compreendida, plenamente aceita, na América.
Mas há ainda o equívoco de Whitman. O equívoco de sua interpretação de sua
palavra-chave: Simpatia. O mistério da . Ele ainda a confundia com o de Jesus
SIMPATIA AMOR

e com a de Paulo. Whitman, como todos nós, estava chegando ao fim da grande
CARIDADE

estrada emocional do Amor. E, como não pôde evitar, viu sua Grande Estrada como
um prolongamento da estrada emocional do Amor, além do Calvário. A estrada do
Amor termina ao pé da Cruz. Não há prosseguimento. Foi uma tentativa fracassada de
prolongar a estrada do amor.
Ele não obedeceu a sua Simpatia. Por mais que tentasse, continuou a interpretá-la
automaticamente como Amor, como Caridade. Fusão!
Essa fusão, en masse, a Identidade Una, a monomania do Eu-mesmo, foi uma
transposição da velha ideia do Amor. Foi a transposição da ideia do Amor para sua
conclusão física lógica. Como Flaubert e o leproso. Foi decretar a insatisfatória
Caridade como o único meio ainda vigente de salvação da alma.
Whitman queria que sua alma se salvasse por conta própria; ele não queria salvá-
la. Consequentemente, ele não precisava da grande receita cristã de salvação da alma.
Precisava substituir a Caridade cristã, o Amor cristão no interior dele mesmo para
libertar a sua alma por completo. A estrada do Amor não é nenhuma Grande Estrada.
É uma estrada estreita, apertada, na qual a alma avança comprimida entre compulsões.
Whitman queria conduzir sua alma para a estrada aberta. E fracassou, visto que
não conseguiu se afastar da velha rota da Salvação. Obrigou sua alma a se aproximar
da borda de um precipício e olhou para baixo, para a morte. E lá montou
acampamento, impotente. Exercera sua Simpatia como uma extensão do Amor e da
Caridade, e sua simpatia quase o levara à loucura e à morte da alma. Foi ela que lhe
forneceu sua qualidade forçada, mórbida, sua qualidade post-mortem.
Na realidade, sua mensagem era o oposto da arenga de Henley:
Sou o senhor de meu destino,
Sou o capitão de minha alma.

A mensagem essencial de Whitman foi a Grande Estrada: o fato de deixar a alma


livre, abandonada a si mesma, o fato de entregar seu destino a ela e aos acasos da
grande estrada. Que é a doutrina mais corajosa que o homem já propôs a si mesmo.
Infelizmente, não chegou a abraçá-la plenamente. Não conseguiu romper a velha
cadeia enlouquecedora da compulsão amorosa; não conseguiu se afastar do hábito da
caridade – porque hoje Amor e Caridade viraram hábito: um mau hábito.
Whitman falava em Simpatia. Se pelo menos tivesse se aferrado a ela! Porque
Simpatia significa sentir com, e não sentir por. Ele não deixou de nutrir um
sentimento apaixonado pelo escravo negro, ou pela prostituta, ou pelo sifilítico – o
que significa fusão. Um naufrágio da alma de Walt Whitman nas almas desses outros.
Ele não estava se mantendo em sua grande estrada. Estava obrigando sua alma a
seguir uma velha trilha. Não a estava deixando livre. Estava adaptando-a à força às
circunstâncias de outras pessoas.
Digamos que tivesse sentido uma autêntica simpatia pelo escravo negro. Teria
sentido com o escravo negro. Simpatia – compaixão –, ou seja, teria participado da
paixão que estava na alma do escravo negro.
Que sentimento era esse que estava na alma do escravo negro?
“Ah, sou um escravo! Ah, é muito ruim ser escravo! Preciso me libertar. Minha
alma morrerá se não se libertar. Minha alma afirma que preciso me libertar.”
Whitman apareceu e viu o escravo e disse a si mesmo: “Aquele escravo é um
homem como eu. Nós dois partilhamos a mesma identidade. E ele está cheio de
ferimentos e sangrando. Oh, oh, e não é que eu também estou cheio de ferimentos e
sangrando?”
Isso não era simpatia. Era fusão e autossacrifício. “Levai as cargas uns dos
outros”; “Ama teu próximo como a ti mesmo”; “Tudo o que fizerdes a ele, fazeis a
mim.”
Se a simpatia de Whitman fosse autêntica, ele teria dito: “Aquele escravo negro
sofre com a escravidão. Ele quer se libertar. A alma dele quer libertá-lo. Ele está
ferido, mas os ferimentos são o preço da liberdade. Sua alma tem uma longa jornada
da escravidão à liberdade. Se eu puder ajudá-lo, farei isso: não tomarei seus
ferimentos nem sua escravidão para mim. Mas vou ajudá-lo a combater o poder que o
escraviza quando ele quiser ser livre, caso ele queira minha ajuda, pois posso ver em
seu rosto que ele tem necessidade de ser livre. Mas mesmo depois que ele for livre,
sua alma ainda terá muitas jornadas a completar na grande estrada, até tornar-se uma
alma livre.”
Da prostituta, Whitman teria dito: “Vejam aquela prostituta! Sua natureza ficou
má sob a pressão do apetite mental que ela nutre pela prostituição. Ela perdeu sua
alma. Ela própria sabe disso. Gosta de fazer os homens perderem suas almas. Se ela
tentasse me fazer perder minha alma, eu a mataria. Eu gostaria que ela morresse.”
Mas em relação a outra prostituta, ele teria dito: “Vejam! Ela está fascinada pelos
mistérios priápicos. Vejam! Em pouco tempo estará tão gasta pela utilização priápica
que morrerá. Sua alma é assim. Sua alma é que deseja que ela leve essa vida.”
Da sifilítica, diria: “Vejam! Ela quer infectar todos os homens com a sífilis.
Deveríamos matá-la.”
De uma outra sifilítica, diria: “Olhem! Ela tem horror da própria sífilis. Se olhar
para mim, tratarei de ajudá-la a se curar.”
Simpatia é isso. A alma julgando por si mesma, e preservando sua própria
integridade.
Mas quando, em Flaubert, o homem aquece o leproso com seu corpo nu; quando
Bubu de Montparnasse tem relações com a jovem porque sabe que ela tem sífilis;
quando Whitman abraça uma prostituta malvada: nada disso é simpatia. A prostituta
malvada não deseja ser abraçada com amor; portanto, se você simpatiza com ela, não
vai tentar abraçá-la com amor. O leproso detesta sua lepra, portanto, se você simpatiza
com ele, também a detestará. A mulher má que deseja infectar todos os homens com
sua sífilis odeia você se você não tem sífilis. Se você simpatizar com ela, sentirá o seu
ódio e também odiará a sífilis – odiará a mulher. O sentimento dela é de ódio, e você o
partilhará com ela. Somente sua alma pode escolher o rumo de seu próprio ódio.
A alma é um juiz perfeito de seus próprios movimentos, caso sua mente não os
impuser a ela. Só porque a mente diz Caridade! Caridade!, você não deve obrigar sua
alma a beijar leprosos ou abraçar sifilíticos. Seus lábios são os lábios de sua alma, seu
corpo é o corpo de sua alma, de sua própria alma individual e única. Essa é a
mensagem de Whitman. E sua alma odeia a sífilis e a lepra. Como se trata de uma
alma, ela odeia essas coisas, que são contrárias à alma. E, em decorrência, obrigar o
corpo de sua alma a entrar em contato com a impureza é uma grande violação de sua
alma. A alma deseja permanecer limpa e íntegra. O mais profundo desejo da alma é
preservar sua própria integridade, à revelia da mente e de todas as forças
desintegradoras.
Alma simpatiza com alma. E tudo aquilo que tenta matar minha alma, minha
alma odeia. Minha alma e meu corpo são uma coisa só. Alma e corpo desejam
manter-se limpos e íntegros. Apenas a mente é capaz de uma grande perversão.
Apenas a mente tenta conduzir minha alma e meu corpo para a impureza e para a
desintegração.
O que minha alma ama, eu amo.
O que minha alma odeia, eu odeio.
Quando minha alma é movida pela compaixão, sou compassivo.
Quando minha alma se afasta de alguma coisa, também me afasto dessa coisa.
Eis a verdadeira interpretação do credo de Whitman: a verdadeira revelação de
sua Simpatia.
E minha alma segue pela grande estrada. Encontra as almas que vão passando,
segue na companhia das almas que estão indo na mesma direção que ela. Simpatiza
com cada uma delas e com todas juntas. A simpatia do amor, a simpatia do ódio, a
simpatia da mera proximidade; todas as sutis simpatias da alma incalculável, do ódio
mais amargo ao amor apaixonado.
Quem guia minha alma para o céu não sou eu. Eu é que sou guiado por minha
alma pela grande estrada pela qual circulam todos os homens. Consequentemente,
devo aceitar os profundos movimentos de amor, ou de ódio, ou de compaixão, ou de
desagrado, ou de indiferença de minha alma. E devo ir aonde ela me levar, pois meus
pés e meus lábios e meu corpo são minha alma. Eu é que devo submeter-me a ela.
Essa é a mensagem de Whitman, a mensagem da democracia americana.
A verdadeira democracia – na qual a alma encontra a alma – é a grande estrada.
Democracia. A democracia americana, na qual todos circulam pela grande estrada e
na qual uma alma é imediatamente reconhecida ao passar. Não por suas roupas ou por
sua aparência. Whitman desmentiu essa noção. Não por seu sobrenome. Nem mesmo
por sua reputação. Tanto Whitman como Melville desqualificaram isso. Não por atos
de piedade ou por obras de Caridade. Não por obras de nenhum tipo. Não por coisa
alguma, só por ela mesma. A alma passando sem nenhum realce, passando a pé e não
sendo nada além dela mesma. E reconhecida, e ignorada ou saudada de acordo com os
ditames da alma. Se for uma grande alma, será venerada na estrada.
O amor entre homem e mulher: um reconhecimento de almas e uma comunhão
de fé. O amor entre companheiros: um reconhecimento de almas e uma comunhão de
fé. Democracia: um reconhecimento de almas ao longo do percurso pela grande
estrada e também uma grande alma vista em sua grandeza enquanto se locomove a pé
entre os outros, adotando a forma usual dos seres vivos. Um jubiloso reconhecimento
de almas e uma adoração mais jubilosa ainda das grandes almas, das almas
grandiosas, porque elas são as únicas riquezas.
Amor e Fusão levaram Whitman à Beira da Morte! Morte! Morte!
Mas a exultação de sua mensagem continua válida. Purificada da , purificada
FUSÃO

do , a exultante mensagem da Democracia Americana, das almas que seguem


MIM-MESMO

pela Grande Estrada cheias de jubiloso reconhecimento, cheias de feroz boa vontade,
cheias da alegria da fé, sempre que uma alma avista uma alma maior.
As grandes almas: as únicas riquezas.

a
“Depois de mim, o dilúvio.” Em francês no original. (N.T.)
Sobre o autor

D.H. L (1885-1930) foi um prolífico e controverso escritor inglês, autor de


AWRENCE

romances, poemas, peças teatrais, livros sobre viagens, ensaios e crítica literária.
Dentre seus romances destacam-se O pavão branco (1911, seu livro de estreia),
Filhos e amantes (1913), Mulheres apaixonadas (1920) e O amante de Lady
Chatterley (1928), publicado na Itália e proibido nas livrarias e bibliotecas públicas da
Inglaterra por mais de 30 anos devido a seu caráter sexual. Estudos sobre a literatura
clássica americana (1923) tornou-se um clássico, tendo lançado as bases para uma
nova literatura crítica americana.
Coleção ESTÉTICAS
direção: Roberto Machado
Observações sobre “Édipo”
Observações sobre “Antígona”
precedido de
Hölderlin e Sófocles
Friedrich Hölderlin
Jean Beaufret
Francis Bacon: Lógica da Sensação
Gilles Deleuze
Sacher-Masoch: O Frio e o Cruel
Gilles Deleuze
Estio do Tempo:
Romantismo e estética moderna
Pedro Duarte
Estudos sobre a Literatura
Clássica Americana
D.H. Lawrence
O Nascimento do Trágico
Roberto Machado
Nietzsche e a Polêmica sobre
“O Nascimento da Tragédia”
Roberto Machado (org.)
Introdução à Tragédia de Sófocles
Friedrich Nietzsche
Wagner em Bayreuth
Friedrich Nietzsche
Kallias ou Sobre a Beleza
Friedrich Schiller
Shakespeare, o Gênio Original
Pedro Süssekind
Ensaio sobre o Trágico
Peter Szondi
Copyright desta edição © 2012:
Jorge Zahar Editor Ltda.
rua Marquês de S. Vicente 99 – 1º andar | 22451-041 Rio de Janeiro, RJ
tel (21) 2529-4750 | fax (21) 2529-4787
editora@zahar.com.br | www.zahar.com.br

As passagens de Moby Dick, de Hermann Melville, foram citadas


conforme a tradução de Alexandre Barbosa de Souza e Irene Hirsch.
São Paulo: Cosac Naify, 2008, www.cosacnaify.com.br.

Todos os direitos reservados.


A reprodução não autorizada desta publicação, no todo
ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98)

Grafia atualizada respeitando o novo


Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Capa: Rafael Nobre

Edição digital: maio 2013


ISBN: 978-85-378-1040-8
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Época: virada alemã entre os séculos XVIII e XIX, "a época de Goethe e Schiller".
Sob a contestação da hegemonia do Iluminismo e do classicismo, alguns jovens
pensadores — como os irmãos Schlegel, Novalis e, a seu modo, Hölderlin —
sugeriam, já àquela altura, um caminho diferente para a modernidade que nascia. Os
românticos acreditavam que a arte podia dar à filosofia caminhos para chegar às
questões essenciais e promoveram uma proximidade entre estas duas áreas nunca
antes vista na história. O autor traça de forma precisa e acessível o percurso dessa
relação amorosa e revela a importância dos primeiros românticos alemães na história
do pensamento.

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A versão de Goethe para a história de Fausto, o homem que fez um pacto com o
demônio para obter poder e prazeres, é das mais famosas, citadas e comentadas. Mas
poucos leram o texto na íntegra ou sabem da existência de uma segunda parte, mais
extensa que a primeira, e repleta de discussões sobre economia e política. Fora do
idioma original de Goethe, também havia pouco material acadêmico sobre as questões
econômicas presentes na obra. A lacuna foi preenchida por um dos mais renomados
economistas europeus, Hans Christoph Binswanger, que analisa o texto não apenas
como um documento sobre a cultura do Ocidente, mas ressalta o seu poder de
profecia e sua atualidade. Na época em que o Fausto foi escrito, os soberanos ainda
buscavam a ajuda de astrólogos e alquimistas para resolver problemas do Estado. A
história se localiza justamente no momento, em que, em vez de recorrer a alquimistas
para transformar chumbo em ouro, percebe-se que o melhor é buscar economistas
com conhecimento em bancos que emitem papel-moeda dotados de algum lastro de
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economista Gustavo Franco ainda atualiza reflexões de Binswanger na perspectiva
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novo olhar sobre a Rainha Virgem e é uma das mais relevantes contribuições ao
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Aliando prosa envolvente e rigor acadêmico, a autora recria com vivacidade não só o
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Inclui caderno de imagens coloridas com os principais retratos de Elizabeth I e de


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"Ao mesmo tempo que analisa com erudição os ideais renascentistas e a política
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movimentos sociais que eclodiram em 2011 - como a Primavera Árabe, os Indignados
na Espanha, os movimentos Occupy nos Estados Unidos - e oferece uma análise
pioneira de suas características sociais inovadoras: conexão e comunicação
horizontais; ocupação do espaço público urbano; criação de tempo e de espaço
próprios; ausência de lideranças e de programas; aspecto ao mesmo tempo local e
global. Tudo isso, observa o autor, propiciado pelo modelo da internet.
<p>O sociólogo espanhol faz um relato dos eventos-chave dos movimentos e divulga
informações importantes sobre o contexto específico das lutas. Mapeando as
atividades e práticas das diversas rebeliões, Castells sugere duas questões
fundamentais: o que detonou as mobilizações de massa de 2011 pelo mundo? Como
compreender essas novas formas de ação e participação política? Para ele, a resposta é
simples: os movimentos começaram na internet e se disseminaram por contágio, via
comunicação sem fio, mídias móveis e troca viral de imagens e conteúdos. Segundo
ele, a internet criou um "espaço de autonomia" para a troca de informações e para a
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sobre o tema, mostrando como as lutas por direitos políticos, sociais e econômicos
fizeram emergir uma nova identidade colonial.

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Table of Contents
Sumário
Prefácio
1. O espírito do lugar
2. Benjamin Franklin
3. Hector St. John de Crèvecœur
4. Os romances brancos de Fenimore Cooper
5. Os Romances dos Desbravadores de Fenimore Cooper
6. Edgar Allan Poe
7. Nathaniel Hawthorne e A letra escarlate
8. The Blithedale Romance, de Hawthorne
9. Dois anos ao pé do mastro, de Richard Henry Dana
10. Typee e Omoo, de Herman Melville
11. Moby Dick, de Herman Melville
12. Whitman
Sobre o autor
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