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Rodrigo Constantino - O Túmulo do Fanatismo

“A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como
falsa, e pelos governantes como útil.” (Sêneca)

Muitos acham que religião não se discute, mas eu não concordo. Afinal, o tema é
sagrado apenas para os que assim o consideram, e estes não têm o direito de exigir dos
demais o mesmo tratamento de reverência. Acredito que a crença religiosa dogmática é
a maior inimiga da liberdade, e por isso creio que o tema não só pode como deve ser
debatido sob a luz da razão.

Foi o que fez Voltaire, o “Pai do Esclarecimento”, segundo Karl Popper. Em seu livro O
Túmulo do Fanatismo, Voltaire liga uma metralhadora giratória, mas munida com
sólidos argumentos, contra o fanatismo religioso. Trata-se de uma crítica dura, bastante
pesada, que com certeza machuca qualquer crente. Aqui faço um breve resumo do que
ele diz, e peço que aqueles não dispostos a questionar a própria fé sequer leiam o
restante do artigo. Afinal, como dizia Carl Sagan, “não é possível convencer um crente
de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa
profunda necessidade de acreditar”.

Logo no começo, Voltaire afirma que “um homem que recebe sua religião sem exame
não difere de um boi que atrelam”. Examinar, questionar, é um dever de qualquer um
que respeita a razão. A diferença básica entre a ciência e a religião é essa: uma está
aberta à crítica, implora para que você prove que ela está errada, enquanto a outra o
condena se você tentar provar que ela está errada, mandando aceitar com fé e calar a
boca. Duvidar já é pecado! Um abismo intransponível separa os dois métodos, as duas
posturas.

As críticas embasadas de Voltaire foram focadas no Judaísmo e no Cristianismo, mas


ele fala de forma geral, quando diz que “a desconfiança aumenta quando se percebe que
o objetivo de todos aqueles que estão à frente das seitas é dominar e enriquecer quanto
puderem, e que, desde os dairis do Japão até os bispos de Roma, a única preocupação
foi erguer para um pontífice um trono fundado na miséria dos povos e muitas vezes
cimentado com seu sangue”.

Mas centrando a mira no Cristianismo e no Judaísmo, Voltaire começa questionando se


existiu mesmo um Moisés. O que se fala de sua vida seria tão fantástico como o
encantador Merlin. Voltaire busca também a origem muito suspeita das histórias de
Moisés, como ser salvo das águas num cesto, que poderiam ser cópias de contos muito
semelhantes na Arábia. O resto todo de sua história seria igualmente absurda e bárbara,
com dados fantásticos e impossíveis, exageros grosseiros etc. “Que lamentável fazer
Deus descer em meio a raios e trovões, sobre uma pequena montanha calva, para
ensinar que não se deve ser ladrão!”. Os judeus, de forma geral, não são poupados:
“Como eles mesmos reconhecem, são um povo de ladrões que carregam para um
deserto tudo o que roubaram dos egípcios”.

A vida do “bom” rei Davi é um exemplo do que Voltaire tem em mente. Tomou o trono
de Isbaal, filho de Saul, mandou assassinar Meribaal, filho do seu protetor Jônatas,
entregou aos gabaonitas dois filhos de Saul e cinco de seus netos para que fossem
enforcados, assassinou Urias para encobrir seu adultério com Betsabéia. “A seqüência
da história judaica não é mais que uma trama de crimes consagrados”, ele diz. Salomão,
o sábio, começa por degolar seu irmão Adonias. Fora isso, teria setecentas mulheres e
mais trezentas concubinas. Tais seriam os costumes do mais sábio dos judeus, ou como
lembra Voltaire, ao menos os costumes que lhe atribuem com respeito rabinos e
teólogos cristãos.

Para Voltaire, o primeiro profeta foi o primeiro embusteiro que encontrou um imbecil.
O mundo esteve cheio de Nostradamus, e o Alcorão conta, segundo ele, duzentos e
vinte e quatro mil profetas. As histórias dos vários “profetas” são estapafúrdias, uma
mais extravagante que a outra. E várias contidas na Bíblia, como as histórias de Isaías
que andava nu em pêlo no meio de Jerusalém, ou Jonas que teria passado três dias no
ventre de uma baleia. Surgir alguém que transforme água em vinho no meio disso tudo
parece algo bem compreensível, portanto.

Voltaire começa questionando a origem de Jesus, que nasceu numa época em que o
fanatismo estava em alta. Vários que acreditaram nele escreveram Evangelhos, que quer
dizer “boa nova” em grego. Cada um escrevia uma Vida de Jesus, todas discordando,
mas parecidas na enorme quantidade de prodígios incríveis atribuídos ao fundador da
nova seita. Num desses livros, diz-se que Jesus era filho de uma mulher chamada Mirja,
casada em Belém com um pobre homem chamado Jocanam. Havia na vizinhança um
soldado de nome José Panther, que teria se apaixonado por Mirja, que teria engravidado
dele. Existe mais que isso na história, mas Voltaire conclui: “É mais provável que José
Panther tenha feito um filho a Mirja do que um anjo tenha vindo pelos ares
cumprimentar da parte de Deus a mulher de um carpinteiro”. De fato. E como não custa
lembrar, Deus tinha irmãos homens, se Jesus era Deus.
Em seguida, Voltaire começa a relatar os “milagres” atribuídos a Jesus. Em um deles,
Jesus manda o diabo para o corpo de dois mil porcos, numa região onde não havia
porcos! Voltaire vai mostrando como a ignorância dos que inventavam essas fantasias
entrega a própria falácia da coisa. Por fim, Jesus foi crucificado por ter chamado seus
superiores de “raça de víboras”, o que era na época crime punido desta maneira. Foi
executado em público, mas ressuscitou em segredo.

A quantidade enorme de Evangelhos que relatavam a fantástica vida de Jesus era repleta
de contradições. Para Voltaire, esses Evangelhos, transmitidos para os pequenos
rebanhos de cristãos, foram visivelmente forjados após a queda de Jerusalém. Um deles,
atribuído a Mateus, fala em Igreja sendo que no tempo de Jesus sequer existia Igreja.
Antes dos quatro Evangelhos famosos e aceitos hoje, os padres dos dois primeiros
séculos quase sempre citavam os que são agora denominados apócrifos. Voltaire
pergunta então: “Por que o mais escrupuloso dos cristãos ri hoje, sem qualquer remorso,
de todos esses Evangelhos, de todos esses Atos, que não estão mais no cânon, e não
ousa rir daqueles que são adotados pela Igreja?”. São mais ou menos os mesmos contos,
mas “o fanático adora sob um nome o que lhe parece o cúmulo do ridículo sob outro”.

Está dito, em mais de um Evangelho, que Jesus enviou os apóstolos expressamente para
expulsar os demônios. O próprio Jesus reconhece que os judeus tinham esse poder. Não
havia nada mais fácil para o diabo do que entrar no corpo de um mendicante, que
pagava para ser exorcizado. Curiosamente, os diabos jamais ousavam apoderar-se de
um governador de província ou de um senador. Eram sempre os que nada possuíam que
foram possuídos. As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão. Não é
muito diferente do que vemos nas igrejas oportunistas que pululam os países mais
miseráveis e com mais ignorantes. Mas o mesmo que ri do espetáculo embusteiro da
Igreja Universal hoje, aceita com um respeito fanático o que lhe chega sobre Jesus,
sequer tendo coragem de questionar algum dos fatos incríveis atribuídos a ele.

Todo Deus era bem vindo em Roma. As diferentes seitas conviviam entre si de forma
mais ou menos pacífica. Nenhuma era louca o bastante para querer subjugar as outras. A
seita cristã foi a única que, no final do segundo século, ousou dizer que queria a
exclusão de todos os ritos do império, e que deveria esmagar todas as religiões. O seu
Deus era um Deus ciumento. “Que bela definição do Ser dos Seres é imputar-lhe o mais
covarde dos vícios!”.

Os cristãos foram com muito mais freqüência tolerados do que sujeitos a perseguições.
O reinado de Diocleciano foi, durante 18 anos, um reino de paz e até de favores para
eles. Prisca, mulher de Diocleciano, era cristã. Construíram templos soberbos, depois de
terem dito que não eram precisos templos para Deus. A Igreja passava a ser opulenta e
cheia de ostentação, com vasos de ouro e ornamentos deslumbrantes. Veio então
Constantino, que fez-se reconhecer imperador no interior da Inglaterra por um pequeno
exército de estrangeiros, ignorando Maxêncio, eleito pelo senado. Voltaire chama
Constantino de tirano, pois seu direito era proveniente apenas da força, e por este ter
mandado matar o próprio filho, Crispus, e sufocado a própria mulher, Fausta. Foi ele
que convocou a assembléia em Nicéia para resolver o “assunto bem medíocre”, segundo
o próprio, sobre a incompreensível Trindade cristã.

O concílio redigiu um formulário no qual o nome Trindade não é nem sequer


pronunciado. Consta apenas um “cremos também no Espírito Santo”, sem maiores
explicações. O mais divertido do concílio, no entanto, foi a decisão sobre alguns livros
canônicos. Os Padres estavam confusos com a escolha entre os Evangelhos, e decidiu-se
amontoar todos eles sobre um altar e rogar ao Espírito Santo que jogasse no chão todos
aqueles que não fossem legítimos. Uma centena deles teria caído no chão. Um meio
infalível de conhecer a verdade! Foi Constantino, através desse concílio, que tornou o
Cristianismo a religião oficial do império romano.

A carnificina, os horrores, a ganância, as intrigas, os assassinatos, tudo que se seguiu


pela Idade Média é conhecido pela história. Não é preciso sequer falar de Inquisição.
Voltaire chegou a mostrar para padres essas atrocidades todas, e estes respondiam
apenas que era uma boa árvore que produzira maus frutos. Voltaire rebatia que era uma
blasfêmia afirmar que uma árvore que carregara tantos e tão horríveis venenos tivesse
sido plantada pelas mãos do próprio Deus. “Na verdade, não existe nenhum padre que
não deva corar e baixar os olhos diante de um homem honesto”.

Os horrores da religião, nem de perto, são monopólio da Igreja Romana. Esta ganhou
em quantidade de crimes apenas porque teve riquezas e poder por mais tempo. Os
horrores do Islã são amplamente conhecidos, e Maomé mesmo foi um guerreiro
empedernido. Ainda hoje os fanáticos muçulmanos trazem o terror ao mundo civilizado.
Alguns podem acusar o ateísmo pela barbárie recente do comunismo, mas eu diria que o
comunismo não deixa de ser uma seita religiosa, calcado na fé dogmática e totalmente
contra a razão e a tolerância, que pede o debate e o questionamento. Marx é o Jesus dos
comunistas, e se a religião é o ópio do povo, o marxismo é a cocaína.

Benjamin Franklin teria dito que “o jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão”. De
fato, os homens precisam exercitar mais a razão, e não aceitar dogmas de forma fanática
e cega. Aquele que sequer aceita questionar sua fé, seus dogmas, sua crença e sua
religião, perdeu a capacidade que o homem tem de raciocinar. Passa a ser um autômato
que repete “verdades” reveladas, por mais absurdas que sejam. A humanidade ainda tem
muito para avançar se enterrar de vez o fanatismo religioso, que tanta desgraça trouxe
ao mundo.