Sei sulla pagina 1di 310

As Parábolas de Jesus

é o primeiro livro do gênero, bem como o primeiro do Autor-Simon Kistemaker-, que esta Editora produz e oferece ao público evangélico brasileiro - extensivamente ao leitor de língua portuguesa de outros países. Aliás, até onde vão os nossos dados informativos, este Autor ainda não é lido via língua portuguesa, não obstante ser amplamente conhecido e respeitado como lídimo teólogo e expositor do Novo Testamento, já em muitas línguas. Além de outras obras de sua autoria particular, o Autor também forma parceria com William Hendriksen na série Comentário do Novo Testamento, que ora é publicado por esta Editora. De sua Autoria é Hebreus, Pedro e Judas, Tiago e Epístolas de João e Atos dos Apóstolos (este último já se acha em preparação, em dois volumes, e em breve virá a lume).

Simon J, Kistemaker

As

Parábolas

de

JESUS

Tradução:

Eunice Pereira de Souza

Simon J, Kistemaker As Parábolas de JESUS Tradução: Eunice Pereira de Souza

Produzido em Português com autorização do próprio Autor

Diretória Executiva:

Diretor-Presidente: Addy Félix de Carvalho Diretor-Editor: Valter Graciano Martins Diretor-Comercial: Edezildo Barros Corrêa

Revisão:

Valter Graciano Martins Rosivaldo Cabral dos Santos Gecy Soares de Macedo

Arte:

Jader de Almeida

Composição:

Zenaide Rissato dos Santos

l 3Edição 1992 — 3.000 exemplares

CASA EDITORA PRESBITERIANA

Rua Miguel Teles Jr., 382/394

— Cambuci

01540-040 -

São Paulo -

SP

Apresentação

A s Parábolas de Jesus é o primeiro livro do gênero, bem como o primeiro do Autor - Simon Kistemaker que esta Editora produz e oferece ao público evangélico brasileiro - extensivamente aoleitor delínguaportuguesa de outrospaíses. Aliás, até onde vão os nossos dados informativos, este Autor ainda não é lido via língua portuguesa, não obstante ser ampla­ mente conhecido e respeitado como lídimo teólogo e expositor do Novo Testamento, já em muitas línguas. Além de outras obras de sua autoria particular, o Autor também forma parce­ ria com William Hendriksen na série Comentário do Novo Testamento, que ora é publicado por esta Editora. De sua Autoria é Hebreus, Pedro e Judas, Tiago e Epístolas de João e Atos dos Apóstolos (este último já se acha em preparação, em dois volumes, e em breve virá a lume).

Além disso, o Autor tem sido um dos colaboradores es­ trangeiros no curso de mestrado em teologia, no Brasil, espe­ cialmente no Seminário Teológico José M anoel da Conceição (J.M.C), em São Paulo. Ele faz parte da plêiade de teólogos calvinistas que ainda permeiam (graças a Deus!) o seio da Igreja do Cordeiro. Esta Editora, bem como toda a IPB, fica­ mos em dívida para com o renomado Autor.

Ao prepararmos este livro, uma incontida emoção e uma profunda convicção nos fizeram antever o quanto será ele uma bênção na vida cristã de cada leitor, seja ele ministro do Evangelho ou seja leigo, porém estudioso e ativo na Seara de nosso Mestre Jesus Cristo. Isto afirmamos sobre bases sólidas, pois eis aqui um livro rico em requisitos positivos: Sua simpli­

cidade fica logo em admirável evidência. Dele podem beber todos quantos possuam alguma cultura e quantos são detento­

res de cultura privilegiada. Também, eis um livro que se destina

a toda classe de leitores interessados em aumentar sua visão da literatura mais linda do mundo - as parábolas de Jesus! Sua abrangência o torna ainda mais rico e útil. Além de discorrer sobre todas as parábolas de nosso Senhor, nos Evangelhos, ainda nos fornece muitos dados e detalhes para a melhor compreensão dessa literatura tão complexa. Finalmente, res­ ta-nos mencionar sua precisão e fidelidade à sã doutrina. O Autor revela total respeito e apreço para com a Palavra de nosso Senhor.

Louvamos ao Senhor e convidamos a cada leitor solícito

a ler e meditar nesta obra tão preciosa, resvalando-se dela para outra muito mais preciosa ainda - as próprias parábolas!

Ainda uma palavra sobre um amigo que preferiu perma­ necer no anonimato, por meio de quem obtemos autorização para esta publicação. Ele não quis aparecer, todavia registra­ mos o nosso apreço e gratidão em sua referência. Obrigado, amigo oculto! O leitor não saberá quem é você, todavia nós

sabemos, e, acima de tudo, o Senhor da Igreja sabe

e é isto

que importa! Agradecemos ao Dr. Simon Kistemaker por não ter requerido de nós qualquer royalty (= pagamento de direi­ tos autorais). Esperamos que este livro seja um meio dentre

tantos outros para a maior glorificação do Nome de Jesus

Cristo, o Senhor da Igreja

“até que ele venha”! Maranata!

Dezembro de 1992

Valter Graciano Martins Editor

Prefácio

.L/ivros sobre parábolas, escritos a partir de uma perspectiva evangé­

lica, são poucos e, a maior parte das vezes, desatualizados: muitos dos que foram publicados deixaram de ser reeditados. Ao escrever este livro, procu­ rei ir ao encontro da necessidade do pastor que deseja consultar um livro evangélico que contenha todas as parábolas de Jesus e a maior parte do que

é dito sobre elas nos Evangelhos Sinóticos.

Este livro procura atingir o nível adequado de pastores teologicamente treinados. Tendo os pormenores técnicos sido restringidos a notas de roda­ pé, o texto, em si, pode ser de grande ajuda a qualquer um que pretenda estudar seriamente a Bíblia. O livro apresenta uma bibliografia selecionada.

Muitas pessoas colaboraram para tornar este livro uma realidade. Quero expressar meus agradecimentos ao Seminário Teológico Reformado por me ter liberado do trabalho aos sábados; ao diretor e bibliotecário da

Livraria Tyndale, em Cambridge, Inglaterra; a meus alunos assistentes, Dana W. Casey, Edward Y. Hopkins e James Theodore Lester; à minha secretária, Mrs. Kathleen Sapp; à minha esposa, Jean, que datilografou o manuscrito;

e aos revisores, Mrs. Mary L. Hulton e P. Ronald Carr.

Possa este livro ajudar os pastores a preparar seus sermões a respeito das parábolas de Jesus.

Simom J. Kistemaker

1980

índice

/Ao

Abreviaturas

 

13

Introdução

15

1.

O sal da t e r r a

29

 

Mt 5.13

Lc 14.34,35>

2.

Os dois fundamentos

 

31

 

Mt 7.24-27

Lc 6.4749

 

4.

Meninos na praça

 

35

 

Mt 11.16-19

Lc 7.31-35

 

4 .0

semeador .

^

Mt 13.3-8

Mc 4.3-8

Lc 8.5-8

5. A semente

 

53

Mt 4.26-29

-

6. O joio

 

57

Mt 13.24-30

7. O grão de mostarda

 

Mt 13.31,32

Mc 4.30-32

Lc 13.18,19

8. O ferm en to

 
 

Mt 13.33

Lc 13.20,21

9 .0 tesouro escondido

73

 

Mt 13.44

10. A p é ro la

 

73

Mt 13.45,46

11. A r e d e

 

79

Mt 13.47-50

12. O credor incompassivo

85

 

Mt 18.21-35

13. Os

trabalhadores na v in h a

93

 

Mt 20.1-16

14. Os dois filhos

 

105

Mt 21.28-32

15. Os

lavradores m au s

109

Mt 21.33-46

Mc 12.1-12

Lc 20.9-19

16. As b o d a s

 

121

Mt 22.1-14

17. A figueira

 

129

 

Mt 24.32-35

Mc 13.28-31

Lc 21.29-33

18. O servo vigilante

 

135

 

Mc 13.32-37

Lc 12.35-38

19.0

la d rã o

 

141

 

Mt 24.4244

Lc 12.39,40

20.0

servo fiel e prudente

 

145

 

Mt 24.45-51

Lc 12.4146

21. As

dez virgens

151

 

Mt 25.1-13

22. Os talentos

 

159

Mt 25.14-30

23.0

grande julgam ento

 

169

Mt 25.3146

24.

Os dois devedores

181

 

Lc 7.36-50

25. O bom samaritano

 

187

Lc 10.25-37

26. O amigo importuno

 

197

Lc 11.5-8

27.0 rico insensato

 

201

Lc 12.13-21

28. A figueira estéril

 

207

Lc 13.6-9

29. Os primeiros lu g ares

 

211

Lc 14.7-14

30. A grande ceia

 

215

Lc 14.15-24

31. O

construtor da torre e o

rei guerreiro

223

 

Lc 14.28-33

32. A ovelha p e rd id a

 

227

 

Mt 18.12-14 Lc 15.4-7

33. A dracma perdida

 

231

Lc 15.8-10

34. O filho p ró d ig o

 

235

Lc 15.11-32

35.0

administrador in f ie l

249

 

Lc 16.1-9

36. O rico e L á z a ro

 

257

Lc 16.19-31

37. O fazendeiro e o se rv o

 

267

Lc 17.7-10

38.0

juiz iníqüo

271

 

Lc 18.1-8

39.

O fariseu e o publicano

277

 

Lc 18.9-14

40.

As dez minas

283

 

Lc 19.11-27

C onclusão

 

293

Bibliografia

305

Abreviaturas

ATR

Anglican Theological Review

BA

BiblicalArchaeologist

Bib

Bíblica

BibLeb

Bibel und Leben

CBQ

Catholic Biblical Quarterly

EvQ

Evangelical Quarterly

ExpT

Expository Times

HTR

Harvard Theological Review

Interp

Interpretation

JBL

Journal

of Biblical Literature

JETS

Journal of the Evangelical Theological Society

JTS

Journal of Theological Studies

NAB

NewAmerican Bible

NASB

NewAmerican

Standard Bible

NEB

New English Bible

NIDNTT

New International Dictionary of New Testament Theology

NIV

New International Version

NovT

Novum Testamentum

NTS

New Testament Studies

RefR

Reformed Review

ScotJT

Scottish Journal of Theology

SB

H. LStrack and P. Billerbeck, Kommentar

Stlh

Studia Theologia

TB

Tyndale Bulletin

TDNT

Theological Dictionary of the New Testament

TynHBul

Tyndale House Bulletin

TS

Theological Studies

TZ

Theologische Zeitschrift

ZNW Zeitschrift für die Neuentestamentliche Wissenschaft

ZPEB

Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible

ZTK

Zeitschriftfür Theologie und Kirche

Livros da Bíblia

Gn

Êx

Lv

Nm

Dt

Js

Jz

Rt

1,2 Sm

1,2 Rs

1,2 Cr

Ed

Ne

Et

S1

Pv

Ec

Ct

Is

Jr

Lc

Lm

Jo

Ez

At

Dn

Rm

Os

1,2 Co

J1

Gl

Am

Ef

Ob

Fp

Jn

CI

Mq

1,2 Ts

Na

1,2 Tm

Hc

Tt

Sf

Fm

Ag

Hb

Zc

Tg

Ml

1,2 Pe

1,2,3, Jo

Mt

Jd

Mc

Ap

Introdução

C o m muita freqüência, os jornais trazem, junto aos editoriais, com destaque, uma caricatura. Com poucas linhas, o artista traça o esboço humorístico de um fato político, social ou econômico, atual. Através do desenho ele transmite uma mensagem contundente e direta, cuja eloqüência um redator dificilmente poderia alcançar.

Contando parábolas, Jesus desenhava quadros verbais que retratavam o mundo ao seu redor. Ensinando através das parábolas, ele descrevia aquilo que acontecia na vida real. Isto é, ele usava uma história tirada do cotidiano, para, através de um fato já aceito e conhecido, ensinar uma nova lição. Essa lição, na maior parte das vezes, vinha no final da história e provocava um impacto que precisava de tempo para ser entendido e assimilado. Quando ouvimos uma parábola, acenamos com a cabeça, concordando, porque a história é como a vida real e fácil de ser entendida. No entanto, mesmo que se ouça a aplicação da parábola, ela nem sempre é compreendida. Vemos a história se desenrolar diante de nossos olhos, mas nem sempre percebemos seu significado.1 A verdade permanece escondida até que nossos olhos se abram e possamos vê-la mais claramente. Então, a nova lição da parábola se torna significativa. Como Jesus disse a seus discípulos: “A vós outros vos é dado o mistério do reino de Deus, mas aos de fora tudo se ensina por meio de parábolas” (Mc 4.11).

Formas

A palavra parábola, no Novo Testamento, tem uma conotação ampla que inclui formas de parábolas que são, geralmente, divididas em três categorias12. Há as autênticas parábolas, histórias em forma de parábolas e ilustrações.

1. Schippers, “The Mashal-character of the Parable of the Pearl”, em Studia Evangélica, ed.

R.

F.

L. Cross (Berlin: Akademie-Verlag, 1964), 2:237.

2. Haucck, TDNT, V:752.

F.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

1. PARÁBOLAS AUTÊNTICAS. Essas usam como ilustração um

fato comum do dia-a-dia, e são facilmente compreendidas por qualquer um que as ouça. Qualquer pessoa entende a verdade transmitida; não há motivo

para objeção ou crítica. Todos já viram uma semente germinar (Mc 4.26-29);

o fermento levedando a massa (Mt 13.33); crianças brincando numa praça

(Mt 11.16-19; Lc 7.31,32); uma ovelha desgarrada do rebanho (Mt 18.12-14);

uma mulher que perde uma moeda em sua própria casa (Lc 15.8-10). Essas

e muitas outras parábolas começam retratando verdades evidentes a respeito da natureza do homem. São contadas, usualmente, no presente.

2. HISTÓRIAS EM FORMA DE PARÁBOLAS. Diferindo das pa­

rábolas autênticas, a história em forma de parábola não se relaciona com uma verdade óbvia ou com um costume geralmente aceito. A verdadeira parábola é contada como um falo, com o verbo no presente. A história em forma de parábola, por outro lado, se refere a um acontecimento em particular, que teve lugar no passado — geralmente a experiência de uma pessoa. É, por exemplo, a experiência de um fazendeiro que semeou trigo e, mais tarde, percebeu que seu inimigo semeara o joio no mesmo pedaço de chão (Mt 13.24-30). É a história de um homem rico, cujo administrador

defraudou os seus bens (Lc 16.1-9); ou, é o relato a respeito de um juiz que julgou a causa de uma viúva atendendo a seus inúmeros pedidos (Lc 18.1-8).

O interesse dessas histórias não está na narrativa, porque o que é significativo

nelas não é o fato, mas a verdade transmitida.

3. ILUSTRAÇÕES. As histórias ilustrativas registradas no Evangelho

de Lucas são, geralmente, classificadas como histórias que servem de mo­ delo, de exemplo. Incluem a parábola do bom samaritano (Lc 10.30-37); a parábola do rico insensato (Lc 12.16-21); a parábola do rico e Lázaro (Lc

16.19-31); e a parábola do fariseu e o publicano (Lc 18.9-14). Essas ilustra­ ções diferem das histórias em forma de parábolas pelo seu propósito. En­ quanto a história em forma de parábola é uma analogia, as ilustrações contêm exemplos a serem imitados ou evitados. Elas focalizam, diretamente,

o caráter e a conduta de um indivíduo; a história em forma de parábola faz isso apenas indiretamente.

Nem sempre é simples classificar uma parábola. Algumas delas apre­ sentam características dos dois grupos —da autêntica parábola e da história em forma de parábola —e podem ser classificadas de um modo ou de outro. Os Evangelhos registram, também, numerosas afirmações em forma de parábola. É, muitas vezes, difícil determinar quando uma declaração de Jesus constitui uma autêntica parábola, ou quando é uma declaração em forma de parábola. O ensinamento de Jesus a respeito do fermento (Lc 13.20,21) é classificado como uma verdadeira parábola, mas sua mensagem

INTRODUÇÃO

sobre o sal (Lc 14.34,35) é considerada uma afirmação em forma de parábo­ la. No entanto, algumas declarações de Jesus são apresentadas como pará­ bolas. Por exemplo: “Propôs-lhe também uma parábola: Pode porventura um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos no barranco?” (Lc 6.39).

No que uma parábola difere de uma alegoria? O Peregrino de John Bunyan é uma representação alegórica do caminhar de um cristão pela vida. Os nomes e as circunstâncias encontrados no livro representam a realidade. Cada fato, cada característica ou afirmação são simbólicos e devem ser interpretados ponto a ponto em seu significado real para que possam ser corretamente entendidos. Uma parábola, por sua vez, é fiel à vida e ensina, geralmente, apenas uma verdade básica. Em suas parábolas, Jesus usou muitas metáforas, como, por exemplo, um rei, servos e virgens, mas estas nunca se afastaram da realidade. Não estão nunca relacionadas com um mundo de fantasia ou ficção. São histórias e exemplos tirados do mundo em que Jesus vivia e transmitem uma verdade espiritual, através da comparação. Os pormenores da história são o sustentáculo da mensagem que a parábola transmite. Não devem ser analisadas ponto a ponto e interpretadas como uma alegoria, pois perderiam o seu significado.

Composição

Embora, de um modo geral, seja verdade que uma parábola ensina somente uma lição básica, esta regra nem sempre é definitiva. Algumas das parábolas de Jesus têm composição complexa. A composição da parábola do semeador apresenta quatro partes e cada parte pede uma interpretação. Do mesmo modo, a parábola sobre as bodas não é uma história única, pois tem acrescentada uma parte a respeito de um convidado que não está usando roupas apropriadas para a ocasião. Também, a conclusão da parábola sobre os lavradores maus se desvia do cenário da vinha para o de construtores e seus negócios. Por causa dessa complexidade, é sensato o exegeta não prender-se a um ponto único na interpretação da composição das parábolas.

Ao ler as parábolas de Jesus, nós nos perguntamos por que são deixados de lado vários detalhes que deveriam fazer parte da história. Por exemplo, na história do amigo que bate à porta de seu vizinho, no meio da noite, para pedir três pães, a mulher do vizinho não é mencionada. Na parábola do filho pródigo, o pai é uma figura marcante, mas nem uma palavra é dita a respeito da mãe. A parábola das dez virgens apresenta o noivo, mas ignora completamente a noiva. Esses pormenores, entretanto, não são rele­ vantes na composição geral das parábolas, especialmente se compreender­ mos o artifício literário das tríades, muitas vezes usado nas parábolas de Jesus. Na parábola do amigo que vem bater à porta no meio da noite, há três

AS PARÁBOLAS DE JESUS

personagens: o viajante, o amigo e o vizinho. A parábola do filho pródigo também fala de três pessoas: o pai, o filho mais jovem e o irmão mais velho. Na história das dez virgens, encontramos três elementos: as cinco virgens prudentes, as cinco virgens tolas e o noivo.

Além disso, nas parábolas de Jesus não é o começo da história o que

é importante, porém o seu final. A importância recai sobre a última pessoa mencionada, o último feito ou a última declaração. O “efeito final” da

parábola é deliberadamente elaborado em sua composição3. Foi o samari- tano que procurou aliviar a dor do homem ferido, não o sacerdote ou o levita. Embora os dois servos que apresentaram cinco e dois talentos adicionais a seu senhor tenham recebido louvor e elogios, foi o fato de ter enterrado seu único talento na terra que trouxe ao terceiro servo escárnio e condenação. Na parábola sobre o proprietário de terras que durante o dia contratou homens para trabalhar em sua vinha e, às seis horas, ouviu reclamações de alguns dos trabalhadores, o mais importante é a resposta do dono: “Amigo,

não te faço injustiça

20.13,15).

são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt

A arte de elaborar e contar parábolas, demonstrada por Jesus, não encontra paralelo na literatura. Mas bem semelhantes às parábolas de Jesus são aquelas dos antigos rabinos dos dois primeiros séculos da era cristã. Essas parábolas eram apresentadas, comumente, com uma pergunta: “Uma parábola: A que se assemelha?” Nessas parábolas, também, o artifício literário da tríade e a ênfase final eram usados. Por exemplo:

Uma parábola: A que se assemelha? A um homem que estava viajando pela estrada, quando encontrou um lobo. Conseguiu escapar dele e seguiu

adiante, relatando aos outros seu encontro com o lobo. Então, ele encontrou um leão e escapou dele; e seguiu adiante, contando a todos o encontro com

o leão. A seguir, ele encontrou uma cobra e escapou dela. Após esse

acontecimento, ele se esqueceu dos dois anteriores e prosseguiu contando

caso da cobra. Assim também é Israel: as últimas dificuldades o fazem esquecer as primeiras.

Entretanto, a semelhança entre as parábolas de Jesus e as dos rabinos está apenas na forma. As parábolas dos rabinos, normalmente, são apresen­ tadas para explicar ou elucidar a Lei, versículos das Escrituras, ou uma doutrina. Elas não são usadas para ensinar novas verdades, como acontece com as parábolas de Jesus. Através das parábolas, Jesus explicava os grandes temas de seu ensinamento; o reino dos céus; o amor, a graça e a misericórdia

o

4

3. A. M. Hunter, The Parables Then and Now (London: Westminster Press, 1971), p. 12. 4 .1. Epstein, ed., “Seder Zeraim Berakoth 13a”, in The Babylonian Talmud (London: Soncino Press, 1948); p.73.

INTRODUÇÃO

de Deus; o governo e a volta do Filho de Deus; o modo de ser e o destino do

homem

aplicação da Lei, as de Jesus são parte da revelação de Deus ao homem. Em suas parábolas, Jesus revela novas verdades, pois ele foi comissionado por Deus para tornar conhecida a vontade e a Palavra de Deus. As parábolas de Jesus, portanto, são a revelação de Deus; as dos rabinos, não.

Enquanto que as parábolas dos rabinos não ensinam senão a

5

Propósito

As parábolas mostram que Jesus estava perfeitamente familiarizado com a vida humana em seus múltiplos aspectos e significados. Ele tinha conhecimento de como cultivar a terra, lançar a semente, extirpar as ervas daninhas e colher os frutos. Ele se sentia em casa, em uma vinha; sabia a

época da colheita dos frutos da videira e da figueira, e estava a par do quanto se pagava por um dia de trabalho. Ele não apenas estava familiarizado com

a rotina do fazendeiro, do pescador, do construtor e do mercador, mas se

encontrava igualmente à vontade entre os chefes de Estado, os ministros das finanças de uma corte real, os juízes das cortes de justiça, os fariseus e os coletores de impostos. Ele compreendeu a pobreza de Lázaro, embora fosse convidado para jantar com os ricos. Suas parábolas retratam a vida de homens, mulheres e crianças; o pobre e o rico; os que são marginalizados e os que são exaltados. Pelo seu conhecimento da amplitude da vida humana, ele era capaz de ministrar a todas as camadas sociais. Ele falava a linguagem do povo e seus ensinamentos eram adequados ao nível daqueles que o ouviam. Jesus usava parábolas para tornar sua linguagem acessível ao povo, para ensinar às multidões a Palavra de Deus, para chamar seus ouvintes ao arrependimento e à fé, para desafiar os que criam a transformar palavras em atos e para exortar seus seguidores a permanecerem atentos.

Jesus usou as parábolas para comunicar a mensagem de salvação de um modo claro e simples. Seus ouvintes podiam, prontamente, entender a

história do filho pródigo, dos dois devedores, da grande ceia e do fariseu e

o publicano. Através das parábolas, eles identificavam Jesus com o Cristo que ensina com autoridade a mensagem redentora do amor de Deus.

Dos relatos do Evangelho, todavia, tomamos conhecimento que a interpretação das parábolas era feita em particular, no círculo dos discípu­ los. Jesus lhes disse: “A vós outros é dado o mistério do reino de Deus, mas aos de fora tudo se ensina por meio de parábolas, para que

5. Hauck, TDNT, V:758. J. Jeremias, na oitava edição de seu Die Gleichnisse Jesu (Gõttingen:

Vandenhoeck & Ruprecht, 1970), p. 8, faz notar que as parábolas de Jesus podem ter contribuído para o desenvolvimento do gênero literário das parábolas dos rabinos.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam, e não entendam, para que não venham a converter-se e haja perdão para eles.” (Mc 4.11,12).

Isso significa que Jesus, que foi enviado por Deus para proclamar a redenção dos homens caídos e pecadores, esconde essa mensagem através de parábolas incompreensíveis? As parábolas são, então, um tipo de enigma compreendido apenas pelos iniciados?

As palavras dc Marcos 4.11,12 devem ser entendidas no contexto mais amplo, no qual o escritor as colocou.67No capítulo anterior, Marcos relata

que Jesus encontrara descrença, blasfêmia e oposição direta. Ele foi acusado de estar possuído por Belzebu e de expelir demônios, pelo príncipe dos demônios (Mc 3.22). ü contraste que Jesus apresenta, conseqüentemente,

é

entre aqueles que acreditavam e os que não acreditavam, entre seguidores

e

oponentes, entre os que aceitavam e os que rejeitavam a revelação de Deus.

Os que fazem a vontade de Deus recebem a mensagem das parábolas, porque pertencem à família de Jesus (Mc 3.35). Os que tentam destruir Jesus (Mc 3.6) não conhecem a salvação, por causa da dureza de seus corações. É uma questão de fé e descrença. Os que acreditam ouvem as parábolas e as recebem com fé e entendimento, mesmo que a completa compreensão venha, apenas, gradualmente. Os incrédulos rejeitam as parábolas porque elas são estranhas à sua maneira de pensar/ Recusam-se a perceber e

entender a verdade de Deus. Assim, por causa de seus olhos cegos e seus ouvidos surdos, privam a si mesmos da salvação proclamada por Jesus, e trazem sobre si mesmos o julgamento de Deus.

Não nos surpreende que os discípulos de Jesus não tenham entendido completamente a parábola do semeador (Mc 4.13). Os seguidores mais próximos estavam perplexos com os ensinamentos da parábola porque não tinham visto ainda a importância da pessoa e do ministério de Jesus, em

6.

J. Jeremias. The Parables of Jesus (New York: Scribner, 1063), pp. 13-18, sustenta que essas palavras de Jesus foram deslocadas e pertencem a outro escrito; devem ser interpretadas sem relação com o contexto de Marcos 4. De acordo com Jeremias, o escritor inseriu passagem proveniente de outra tradição, por causa do sentido comum da palavra parábola, que ele afirma significar, originalmente, enigma. Jeremias abribui, assim, dois sentidos à palavra parábola, em Marcos 4. O primeiro significando parábola autêntica, e o segundo, enigma. As regras da exegese, no entanto, não apoiam a interpretação de Jeremias, pois, a menos que o evangelista revele um significado diferente para uma palavra do texto, essa deve conservar o mesmo sentido através de toda a passagem.

7.

W.

Lane, The Gospel According to Mark (Grande Rapids: Eerdmans, 1974), p. 158; W.

Hendriksen, Gospel of Mark (Grand Rapids: Baker Book House, 1975), p. 145; H. N.

Ridderbos, The Corning of the Kingdom (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1962),

p. 124.

INTRODUÇÃO

relação à verdade de Deus revelada na parábola. Somente pela fé foram capazes de ver aquela verdade da qual as parábolas davam testemunho.89 Jesus explicou de modo mais pormenorizado a parábola do semeador e a do trigo e do joio (em outras, ele, de quando em quando, acrescentava esclare­ cimentos às conclusões). Aos discípulos foi dado ver a relação entre os acontecimentos que Jesus descrevia na parábola do semeador e o reino dos céus, iniciado na pessoa de Jesus, o Messias.

9

Interpretação

Na igreja primitiva, os Pais da igreja começaram a procurar nas Escrituras do Velho Testamento vários significados ocultos relacionados com a vinda de Jesus. Como conseqüência natural dessa tendência, os Pais começaram a encontrar significados ocultos nas parábolas de Jesus. Influen­ ciados, talvez, pela apologética judaica, substituíram a simplicidade das Escrituras pela especulação sutil. O resultado foram as interpretações ale­ góricas das parábolas. Por isso, desde o tempo dos Pais da igreja, até meados do século XIX, muitos exegetas interpretaram as parábolas alegoricamente.

Orígenes, por exemplo, acreditava que a parábola das dez virgens estava cheia de símbolos ocultos. As virgens, disse Orígenes, são todos aqueles que receberam a Palavra de Deus. As prudentes acreditam e levam uma vida de justiça; as tolas acreditam, mas falham no agir. As cinco lâmpadas das prudentes representam os cinco sentidos, que são todos preparados para o seu uso apropriado. As cinco lâmpadas das tolas deixa­ ram de fornecer luz e se encaminharam para a noite do mundo. O óleo é o ensinamento da Palavra e os vendedores de óleo são os mestres. O preço que eles cobram pelo óleo é a perseverança. A meia-noite é a hora do descuido imprudente. O grande clamor ouvido vem dos anjos que despertam todos os homens. O noivo é Cristo que vem para encontrar a noiva, a igreja. Assim Orígenes interpretou a parábola.

Entre os comentaristas do século XIX, era comum identificar os pormenores da parábola. Na parábola das dez virgens, a lâmpada acesa representava as boas obras; e o óleo, a fé daquele que crê. Outros viram o óleo como uma representação simbólica do Espírito Santo.

Ainda assim, nem todos os intérpretes das parábolas tomaram o caminho da alegoria. Por ocasião da Reforma, Martinho Lutero tentou mudar a maneira de interpretar as Escrituras. Ele preferiu um método de exegese bíblica que levava em consideração a localização histórica e a

8. C.E.B. Cranfield, “St. Mark 4.1-34", Scot JT 4(1951): 407. 9. Lane, Mark, p.160.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

estrutura gramatical da parábola. João Calvino foi ainda mais direto. Ele evitou totalmente as interpretações alegóricas das parábolas e procurou estabelecer o ponto principal de seu ensinamento. Quando ele constatava o significado de uma parábola, não se preocupava com os seus pormenores. Em sua opinião, os detalhes não tinham nada a ver com aquilo que Jesus pretendia ensinar através da parábola.

Durante a segunda metade do século XIX, C.E. van Koetsveld, um estudioso alemão, deu novo impulso ao modo de abordar o assunto, iniciado pelos Reformadores. Ele mostrou que as extravagantes interpretações ale­ góricas das parábolas, feitas por numerosos comentaristas, obscureciam mais que esclareciam o ensino dc Jesus.1011Para interpretar uma parábola apropriadamente, o exegeta precisa apreender seu significado básico e distinguir o que é, ou não, essencial. Van Koetsveld foi seguido, em sua maneira de abordar as parábolas, pelo teólogo alemão A. Jülicher, que observou que, embora o termo parábola seja usado freqüentemente pelos evangelistas, a palavra alegoria jamais é encontrada nos relatos dos Evange­

lhos/1

No final do século passado, as amarras que atavam a exegese das parábolas foram cortadas e uma nova era de pesquisa teve início.12Enquanto Jülicher via Jesus como um professor de princípios morais, C. H. Dodd o considerou como uma pessoa histórica, dinâmica, que, com seus ensinamen­ tos, provocou um período de crise. Disse Dodd: “A tarefa de um intérprete de parábolas é descobrir, se puder, a aplicação da parábola na situação pretendida pelos Evangelhos”.13Jesus ensinava que o reino de Deus, o Filho do Homem, o J uízo e as bem-aventuranças passavam a fazer parte da história daquela época. Para Jesus, de acordo com Dodd, o reino significava o governo de Deus exemplificado em seu próprio ministério. Portanto, as parábolas ensinadas por Jesus devem ser entendidas como diretamente relacionadas com a efetiva situação do governo de Deus na terra.

J. Jeremias continuou o trabalho de Dodd. Ele, também, desejou descobrir os ensinamentos das parábolas que remetem de volta ao próprio Jesus. Jeremias se dispôs a traçar o desenvolvimento histórico das parábolas, o que acreditava ocorrer em dois estágios. O primeiro diz respeito à situação real do ministério de Jesus, e o segundo é uma reflexão sobre o modo como as parábolas eram postas em prática pela igreja cristã primitiva. A tarefa a

10. C.E. van Koetsveld, De Gelykenissen van den Zaligmaker (Schoonhoven, 1869), vols. 1,2.

11. A. Jülicher, Die Gleichnisreden Jesu (Tübingen: Buchgesellschaft, 1963), vols. 1,2.

12. Consulte os interessantes estudos de M. Black, “The Parables as Alegoiy”, BJRL42 (1960):

273-87; R. E. Brown, “Parable and Allegoiy Reconsidered”, NTS 5 (1962): 36-45.

13. C.H. Dodd, The Parables of the Kingdon (London, Nesbit and Co., 1935), p. 26.

xxn

INTRODUÇÃO

que Jeremias se propôs era a de recuperar a forma original das parábolas para ouvi-las na própria voz de Jesus.14 Com o seu profundo conhecimento da terra, da cultura, dos costumes, do povo e da língua de Israel, Jeremias foi capaz de reunir um rico cabedal de informações que fazem de sua obra um dos livros de maior prestígio a respeito das parábolas.

Apesar disso, uma questão se apresenta: pode a forma original ser separada do contexto histórico sem sucumbir a um acúmulo de adivinha­ ções? Por outro lado, o texto das parábolas pode ser tomado e aceito como uma representação real do ensino de Jesus. Isto é, o texto bíblico que o evangelista nos entregou reflete o contexto histórico no qual as parábolas foram, originalmente, narradas. Dependemos do texto que recebemos e agimos acertadamente quando deixamos as parábolas e seu assentamento histórico intactos. Isso pede confiança —que os evangelistas, ao registrarem as parábolas, tenham compreendido a intenção de Jesus ao ensiná-las nas circunstâncias por eles descritas.15 Na ocasião em que as parábolas foram registradas, testemunhas e ministros da Palavra transmitiram a tradição oral das palavras e feitos de Jesus (Lc 1.1,2). Por causa do elo com as testemu­ nhas, podemos confiar que o contexto no qual as parábolas estão inseridas se refere ao tempo, lugares e circunstâncias nas quais Jesus, originalmente, as ensinou.

Mais recentemente, representantes de nova corrente da hermenêutica têm, de maneira crescente, deslocado as parábolas de seu assentamento histórico para uma ênfase literária claramente baseada numa estrutura existencial.161718Quer dizer, esses estudiosos tratam as parábolas como litera­ tura existencial, as removem de suas amarras históricas e substituem sua significação original por uma mensagem contemporânea. Negam que o sentido da parábola tem sua origem na vida e ministério de Jesus, ' não estão interessados em suas fontes e bases, mas, antes, em sua forma literária e sua interpretação existencial. Para eles, a estrutura literária da parábola é importante porque leva o homem moderno a um momento de decisão: tem que aceitar ou rejeitar o desafio colocado diante dele.

14. Jeremias, Parables, pp. 113,114.

15. A. M. Brouwer, De Gelykenissen (Leiden: Brill, 1946), p. 247; G.V. Jones, The Art and Truth of the Parables (London: S.P. C.K., 1964), p. 38.

16. M. A. Tolbert, Perspectives on the Parables (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p.20.

17. D. O. Via, Jr., em “A response to Crossan, Funk, and Peterson”, Semeia 1 (1974): 222, afirma: “Não tenho absolutamente interesse, nem mesmo na Pessoa do Jesus histórico”.

18. J. D. Crossan, em “The Good Samaritan” Towards a Generic Definition of Parable", Semeia 2 (1974): 101, parece indicar que é mais importante para uma proposição ser interessante que ser verdadeira.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

Aceitamos prontamente a idéia de que as parábolas chamam o homem à ação; na aplicação da parábola do bom samaritano, ao intérprete da lei que o questionou, Jesus disse: “Vai, e procede tu de igual modo” (Lc 10.37). Entretanto, o existencialista, em sua interpretação da parábola, enfatiza o modo imperativo e menospreza o modo indicativo no qual a parábola foi contada. Ele separa as palavras de Jesus de sua disposição cultural e, assim, as despoja do poder e autoridade que Jesus lhes deu.

Além do mais, ao tratar as parábolas como estruturas literárias sepa­ radas de seu assentamento original, o existencialista precisa estabelecer para elas uma nova base. Assim, ele eoloca as parábolas num contexto contem­ porâneo. Mas, esse método dificilmente pode ser chamado de exegético, pois insufla no texto bíblico uma filosofia existencial. Isso é eisegese, não exegese. Infelizmente, o cristão comum, que procura orientação para o entendimento das parábolas com os representantes da nova escola hermenêutica, precisa, primeiro, buscar conhecer a filosofia existencial, a teologia neo-liberal e o jargão literário do estruturalismo, para que possa se beneficiar com seus pontos de vista.

Princípios

Interpretar parábolas não exige um treinamento completo em teologia e filosofia, mas implica que o exegeta se atenha a alguns princípios básicos de interpretação. Esses princípios, em resumo, estão relacionados com a história, a gramática e a teologia do texto bíblico. Sempre que possível, o intérprete deve fazer um estudo da conjuntura histórica da parábola, incluin­ do uma análise pormenorizada das circunstâncias religiosas, sociais, políti­ cas e geográficas reveladas na parábola. A disposição da parábola do bom samaritano, por exemplo, exige certa familiaridade com a instrução do clero daqueles dias. O intérprete da lei, procurando Jesus e perguntando-lhe o que fazer para herdar a vida eterna, deu início à conversação que levou à história do bom samaritano.

Em relação à parábola do bom samaritano, o exegeta deveria se familiarizar com a origem, a classe social e a religião dos samaritanos, com as funções, ofício e residência do sacerdote levita; com a topografia da área entre Jerusalém e Jericó; e com o conceito judaico de boa vizinhança. Observando o contexto histórico da parábola, o intérprete apreende a razão por que Jesus contou essa história e compreende a lição que Jesus procurou transmitir através da parábola.19

19. L. Berkhof, Principles of Biblical Interpretation (Grand Rapids: Baker Book House, 1952), p. 100.

INTRODUÇÃO

A seguir, o exegeta deve atentar para a estrutura literária e gramatical da parábola. Os modos e tempos de verbos empregados pelo evangelista em relação à parábola são muito significativos e lançam luz sobre o principal ensinamento da história. As palavras estudadas em seu contexto bíblico, assim como em escritos extracanônicos são parte essencial do processo de interpretação de uma parábola. Assim, o estudo da palavra próximo no contexto do comando “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, como foi dado

no Velho e Novo Testamentos, resulta num exercício gratificante. O intér­ prete precisa, também, levar em consideração a introdução e a conclusão de uma parábola, pois podem conter um artifício literário como uma questão de retórica, uma exortação ou uma ordem. A parábola do bom samaritano

é concluída com o comando direto: “Vai, e procede tu de igual modo” (Lc

10.37). O intérprete da lei, que tinha perguntado a Jesus a respeito do que

fazer para herdar a vida eterna, não teve como deixar de se envolver no

cumprimento da ordem de amar a seu próximo como a si mesmo. As introduções, e especialmente as conclusões, contêm as diretrizes que aj udam

o intérprete a encontrar os pontos principais das parábolas.

Ainda, o ponto principal de uma parábola deve ser comparado teolo­ gicamente com os ensinamentos de Jesus e com o resto das Escrituras.20 Quando o ensino básico de uma parábola foi completamente explorado e está corretamente entendido, a unidade das Escrituras se manifestará e o

sentido apropriado da passagem poderá ser visto em toda a sua simplicidade

e limpidez.

Por último, o intérprete da parábola deve traduzir seu significado em termos apropriados às necessidades de hoje. Sua tarefa é aplicar o ensina­ mento central da parábola à situação de vida da pessoa que está ouvindo sua interpretação. Na parábola do bom samaritano, a ordem para amar o próximo se torna cheia de significado quando a pessoa que foi roubada e ferida na estrada de Jerico não é mais uma figura de um passado distante. Ao contrário, o próximo que clama pelo nosso amor é o sem-teto, carente e oprimido. Ele vem ao nosso encontro na estrada de Jerico das páginas diárias dos jornais e do noticiário colorido da televisão.

Classificação

As parábolas de Jesus podem ser agrupadas e classificadas de várias formas. As do semeador, da semente germinando secretamente, do trigo e do joio, da figueira estéril, e a da figueira brotando são, todas, parábolas naturais. Várias parábolas de Jesus dizem respeito ao trabalho e ao salário. Algumas delas são a respeito dos trabalhadores da vinha, do arrendatário e

20. A. B. Mickelsen, Interpreting the Bible (Grand Rapids: Eerdmans 1963), p. 229.

AS

PARÁBOLAS D E JESUS

do administrador infiel. O tema de outras são as bodas e festas ou ocasiões solenes. Essas incluem a parábola das crianças brincando na praça, a das dez virgens, a da grande ceia e a do banquete das bodas. Outras, ainda, têm como motivo geral o achado e o perdido. Essas incluem as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e a do filho perdido.

Nem sempre, no entanto, é fácil classificar uma parábola. A parábola da rede é uma parábola natural, ou deve ser agrupada com as que falam de trabalho e salário? Onde colocar a parábola do bom samaritano? Fica claro que a classificação das parábolas pode ser, de certo modo, arbitrária, e, em alguns casos, forçada.

Os Evangelhos Sinóticos apresentam parábolas com correspondentes em dois ou mesmo três dos Evangelhos, e também parábolas específicas de um único evangelista. Enquanto Marcos tem apenas uma parábola peculiar a seu Evangelho (a da semente crescendo secretamente), Mateus e Lucas têm várias. Em minha apresentação das parábolas, segui a seqüênda dos Evangelhos, discutindo primeiro as de Mateus, com a exclusiva de Marcos estudada entre a parábola do semeador e a do trigo e o joio, e, então, as apresentadas no Evangelho de Lucas. Nas parábolas que têm corresponden­ te, a seqüência quase uniforme de Mateus, Marcos e Lucas foi adotada. Escolhi esse procedimento a fim de ajudar o leitor que queira consultar um estudo dos paralelos sinóticos, por exemplo, Synopsis ofthe Four Golspels de K. Aland.21Nesse estudo sobre as parábolas, referências a palavras gregas e hebraicas são freqüentes. Quando elas aparecem são transliteradas e traduzidas. A Bíblia Inglesa usada é a Nova Versão Internacional (com permissão da Comissão Executiva). Para ajudar o leitor, o texto é transcrito integralmente no princípio de cada parábola. As parábolas que têm corres­ pondentes nos três Evangelhos Sinóticos são apresentadas na seqüência de Mateus, Marcos e Lucas. Um total de quarenta parábolas e declarações em forma de parábolas são estudadas neste livro. Todas as principais parábolas estão arroladas, assim como a maior parte das declarações em forma de parábola. Naturalmente, uma seleção foi necessária com relação a essas declarações, por isso a parábola do sal está incluída e a da candeia foi omitida. Apenas as declarações em forma de parábola que se encontram nos Evangelho Sinóticos foram estudadas, não aquelas encontradas no Evange­ lho de João.

A literatura a respeito das parábolas é volumosa —uma interminável corrente de livros e artigos. Dificilmente uma parábola terá sido negligen­ ciada pelos recentes estudiosos. Novas concepções provindas dos estudos

21. K. Aland, Synopsis of the Four Gospels (Stuttgart: Württembergische Bibelanstalt, 1976).

INTRODUÇÃO

sobre a cultura e a lei judaicas têm sido valiosas no avanço para uma melhor compreensão dos ensinamentos de Jesus. O objetivo deste livro é presentear o pastor e o verdadeiro estudioso da Bíblia com um acervo abrangente e contemporâneo dos escritos sobre as parábolas, sem se prender a pormeno­ res. As notas de rodapé e a bibliografia selecionada auxiliam o estudioso de teologia que desejar prosseguir mais intensamente no estudo das parábolas de Jesus. Através do material bibliográfico e do índice, ele terá acesso à literatura disponível sobre as parábolas de Jesus.

1

O Sal

Mateus 5.13

13“Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos ho­ mens.”

Marcos 9.50

50 “Bom é o sal; mas se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe res­ taurar o sabor? Tende sal em vós mesmos, e paz uns com os ou­ tros.”

Lucas 1434,35

^ “O sal é certa­ mente bom; caso, porém, se torne in­ sípido, como res­ ta u ra r-lh e o sabor?” 35 “Nem presta para a ter­ ra, nem mesmo para o monturo;

lançam -no

Quem tem ouvi­ dos para ouvir, ouça.”

fora.

Através da história, o sal tem sido usado para preservar e dar gosto aos alimentos. É uma das necessidades básicas da vida. Seu uso é universal e seu provimento é aparentemente inesgotável. Mas além de suas qualidades úteis, o sal tem, também, propriedades destrutivas. Ele pode transformar o solo fértil em terra árida e devastada.1A área ao redor do Mar Morto é um exemplo.

Nos tempos atuais, achamos inconcebível que o sal possa deixar de ser salgado. O cloreto de sódio (nome químico do sal de cozinha) é um composto estável. Ele não possui qualquer impureza. No antigo Israel, entretanto, o

1. Dt 29.22,23; Jz 9.45; Jó 39.6; SI 107.34; Jr 17.6; Sf 2.9.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

sal era obtido pela evaporação da água do Mar Morto. A água continha várias outras substâncias, além do sal. A evaporação produz cristais de sal e cloreto de potássio e de magnésio. Porque os cristais de sal são os primeiros

a

se formarem durante o processo de evaporação, eles podem ser recolhidos

e

fornecem, assim, sal relativamente puro. Se o sal resultante da evaporação

não for, no entanto, preservado, e se, com o tempo, os cristais se tornarem úmidos e liquefeitos, o que restar será insípido e inútil.2

O que se pode fazer com o sal insípido? Não serve para nada. Os fazendeiros não querem esse produto químico em suas terras, pois, no estado bruto, prejudica as plantas. Jogar cssc resíduo na pilha de estrume também não resolve, pois, comumente, o esterco é espalhado na terra, como fertili­ zante. A única coisa que se pode fazer com o sal insípido é lançá-lo fora onde será pisado.3Se o sal perder sua propriedade básica e deixar de ser salgado45, não se poderá mais recuperá-la.

No Sermão da Montanha, Jesus se dirigiu à multidão e a seus discípu­ los, dizendo-lhes: “Vós sois o sal da terra.” Como o sal tem a característica de impedir a deterioração, assim também os cristãos devem exercer uma influência moral na sociedade em que vivem. Por suas_palavras e atos devem restringir a corrupção espiritual e moral. Como o sal é invisível (no pão, por exemplo) e, ainda assim, um agente poderoso, também os cristãs nem sempre são vistos, mas individual e coletivamente permeiam a sociedade e consti­ tuem uma força refreadora num mundo perverso e depravado.

“Tende sal em vós mesmos, e paz uns com os outros”, diz Jesus (Mc 9.50). Ele exorta seus seguidores a usar dotes espirituais para promover a paz, primeiro em casa, e depois com os outros. Porque os cristãos não têm sido capazes de viver em paz entre si mesmos, têm perdido sua eficiência no mundo.

Muitas pessoas podem jamais ter lido a Bíblia, todavia constantemente observam aqueles que já a leram. Na Igreja Cristã primitiva, o eloqüente Crisóstomo, certa vez, disse que se os cristãos vivessem a vida que se espera deles, os incrédulos desapareceriam.

2.

Jeremias, Parables, p. 169; J. H. Marshall, The Gospel of Luke (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), p. 596; Hauck, TDNT, 1.229.

3.

E.

P. Deatrick, era “Salt, Soil, Savior”, BA 25 (1962): 47, citando Lamsa, menciona que no

moderno Israel “o sal insípido é espalhado em terraços cobertos com terra. Por causa do sal, a terra endurece. Os terraços são, então, usados como áreas de lazer e de brincadeiras de crianças.

4.

O verbo em Mateus 5.13 e Lucas 13.34 para “tomar-te insípido” é mõrainein, que tem o sentido original de “fazer tolice”, na voz ativa, e “fazer-se de tolo”, na voz passiva. W. Bauer,

W.

F. Amdt, F. W. Gingrich e F. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament

(Chicago: University of Chicago Press, 1978), p. 531.

5.

W.

Nauck, “Salt as a Metaphor”, St Th 6 (1953); 176.

2

Os Dois Fundamentos

Mateus 7.24-27

24 “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; 25 e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e de­ ram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha, 26 E todo aquele que ouve estas mi­ nhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra a casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína.”

Lucas 6.47-49

47 “Todo aquele que vem a mim e ouve as minhas pa­ lavras e as pratica, eu vos mostrarei a quem é seme- lhante. E semelhante a um homem que, edificando uma casa, cavou, abriu pro­ funda vala e lançou o alicer­ ce sobre a rocha; e, vindo a enchente, arrojou-se o rio contra aquela casa, e não a pôde abalar, por ter sido bem construída. 49 Mas o que ouve e não pratica é semelhante a um homem que edificou uma casa so­ bre a terra sem alicerces, e arrojando-se o rio contra ela, logo desabou; e aconte­ ceu que foi grande a ruína daquela casa.”

J e su s se referiu, muitas vezes, a tempestades repentinas que transfor­ mavam o leito seco de um riacho em correntes violentas. São cenas comuns em Israel, onde o tempo muda de repente e altera, às vezes, drasticamente a paisagem.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

As construções rurais dos dias de Jesus eram, geralmente, feitas com barro endurecido. Os ladrões conseguiam cavar buracos através das paredes de tais casas (Mt 6.19). Quatro homens fizeram uma abertura no teto da casa onde Jesus estava ensinando, para por ela fazer baixar o leito onde estava seu amigo paralítico (Mc 2.3,4). Para quem construía era uma questão de economia construir longe de possíveis cursos de água, mesmo que essas valas permanecessem secas por vários anos.1

O construtor prudente escolhe um local sobre a rocha. Assim, ele não

temerá que uma chuva torrencial, provocando o súbito transbordamento de um riacho, arraste a casa, nem receará as rajadas de vento que se abaterão sobre ela. O alicerce da casa construída sobre a rocha resistirá.

O construtor insensato constrói sua casa como se estivesse erguendo

uma tenda. Não lhe ocorre que a casa deve ter uma estrutura mais perma­ nente. Ele edifica sua casa sobre a areia, possivelmente por causa do acesso mais fácil a um riacho próximo. Enquanto o tempo está bom e o céu

permanece azul os ocupantes da casa nada têm a temer. Quando, quase sem que se possa prever, o tempo muda, as nuvens se acumulam, a chuva cai, os riachos transbordam e o vento sopra, a casa vem abaixo com grande estron­ do.

Os dois evangelistas, Mateus e Lucas, mostram algumas diferenças na

narrativa da parábola. Podemos explicar essas variações atentando para os diferentes leitores a quem elas se destinavam. Mateus escreveu para o leitor judeu, que vivia em Israel, enquanto Lucas levava o evangelho aos helenos, que viviam na Ásia Menor e no Mediterrâneo. Para um judeu acostumado com as técnicas de construção que prevaleciam no antigo Israel, a parábola

a respeito dos dois construtores se explicava por si mesma. Lucas, contudo,

não escrevia para um povo que vivia na Galiléia, ou na Judéia. Ele se dirigia

a gregos ou helenos. Por isso, Lucas substituiu por procedimentos de cons­

trução usuais entre eles, aqueles comuns em Israel12. O construtor cava, abrindo profunda vala, e assenta o alicerce da casa sobre a rocha, descreve Lucas. Além da diferença na maneira de construir, Lucas tinha que levar em

consideração as mudanças geográficas e climáticas. Enquanto Mateus es­ creveu sobre a chuva caindo, o riacho transbordando e o vento soprando

1. E. F. F. Bishop, em “Jesus of Palestine” (London; Lutterworth Press, 1955), p. 86, faz referência a casas de barro, entre Gaza e Asquelon, que tinham sido construídas bem longe de um curso de água, para evitar que uma súbita mudança de sua direção as atingisse. Mas, durante um inverno no deserto de Neguebe, um leito seco se encheu subitamente, mudou seu curso, e inundou completamente um acampamento beduíno, causando a morte de pessoas e de gado.

2. Jeremias, Parables, p. 27. As casas gregas eram, muitas vezes, construídas com porões ( = alicerces), o que não era comum na Palestina.

OS DOIS FUNDAMENTOS

forte, Lucas se referiu à enchente que veio e à força da correnteza se arrojando contra a casa. Mateus fala de se construir sobre a areia; Lucas, de se construir sobre a terra. Esses pormenores diferentes não alteram o significado da parábola. O construtor é prudente quando constrói a casa sobre base sólida.

Uma pessoa que ouve as palavras de Jesus e as pratica é como o construtor prudente. É tolo aquele que, ouvindo palavras de Jesus, não as obedece. Tal pessoa pode ser comparada ao construtor que constrói sua casa sobre a areia, ou sobre a terra, sem alicerce.

Essa parábola faz eco às palavras do profeta Ezequiel. Ele descreve uma parede frágil que é construída, a chuva torrencial, o granizo batendo com força e a violência do vento que explode. Assim, a parede cai (Ez

13.10-16).

Ao concluir o Sermão da Montanha (Mt 5-7), ou o sermão da planície (Lc 6), Jesus queria que seus ouvintes não apenas ouvissem, mas, também, praticassem o que ele lhes havia dito. É insuficiente apenas ouvir as palavras de Jesus. Aquele que crê deve aceitar a palavra de Jesus e construir sua fé apenas nele. Jesus é o fundamento sobre o qual o homem prudente constrói. Nas palavras de Paulo: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém, cada um veja como edifica. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3.10,11).

O prudente ouve atentamente e direciona sua vida de acordo com as palavras de Jesus. Aquele que ouve as palavras de Jesus e não as pratica se arruinará completamente. Não gasta tempo cavando e assentando seu ali­ cerce. Sua casa fica pronta logo e é temporariamente adequada às suas necessidades, mas quando a adversidade chega como um furacão, a casa que não tem Jesus como fundamento tomba, e sua ruína é completa.

Essa parábola chama a atenção, indiretamente, para o julgamento de Deus, que todos, quer prudentes ou insensatos, terão que enfrentar. O prudente que construiu sua fé, baseado em Jesus, está apto a resistir às tempestades da vida. Ele permanece seguro, supera e triunfa. Nas Bem- aventuranças, Jesus chama o pobre, o manso e o perseguido de bem-aven­ turados. Na parábola, os que construíram sobre a Rocha demonstram firmeza em tudo que fazem. Eles ouvem a palavra de Deus e a praticam. Por isso, nunca serão destruídos. Acreditam em Jesus e obedecem à sua palavra.

3

Meninos na Praça

Mateus 11.16-19

16“Mas, a quem hei de com­ parar esta geração? É seme­ lhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos compa­ nheiros:

17 ‘Nós vos tocamos flauta e não dançastes; entoamos la­ mentações, e não pranteastes.’ 18 Pois veio João, que não co­ mia nem bebia, e dizem: ‘Tem demônio’. 19 Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: ‘Eis aí um glutão e be­ bedor de vinho, amigo de pu- blicanos e pecadores’. Mas a sabedoria é justificada por suas obras”.

Lucas 731-35

31 “A que, pois, compa­ rarei os homens da presen­ te geração, e a que são eles semelhantes? 33 São seme­ lhantes a meninos que, sen­ tados na praça, gritam uns para os outros:

‘Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não choras­ tes.’ 33 Pois veio João Batista, não comendo pão nem be­ bendo vinho, e dizeis: ‘Tem demônio’. Veio o Filho do homem, comendo e be­ bendo, e dizeis: ‘Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pe­ cadores’. Mas a sabedo­ ria é justificada por todos os seus filhos.”

Je su s contou uma parábola interessante sobre crianças brincando numa praça. Ele extraiu a cena diretamente do cotidiano: uma visão conhe­ cida de crianças inventando suas brincadeiras e representando-as. O “faz de

AS PARÁBOLAS DEJESUS

conta” podia, muito bem, ter acontecido assim: vários meninos e meninas estavam brincando na praça, provavelmente vazia. Algumas crianças que­ riam brincar de casamento. Além da noiva e do noivo, precisavam de um

tocador de flauta, pois um grupo deveria dançar na festa. Embora o noivo e

a noiva estivessem prontos, e uma das crianças providenciasse a música de

flauta, o resto das crianças se recusou a dançar. Não estavam interessados

em brincar de casamento.

Em outro exemplo, algumas crianças queriam representar um funeral. Uma delas tinha que se fingir de morta, enquanto outras cantavam um canto fúnebre. O resto tinha que chorar — mas se recusaram. Não queriam participar daquela brincadeira fúnebre. As crianças que tinham inventado as brincadeiras sentaram-se e disseram aos outros:

Nós vos tocamos flauta,

e não dançastes;

entoamos lamentações,

e não chorastes.

Aplicação

De acordo com o evangelho de Mateus, as crianças sentadas na praça gritam aos seus companheiros. No Evangelho de Lucas, as crianças estão gritando umas para as outras. Na apresentação de Mateus, um grupo de

crianças é criativo e sugere duas brincadeiras diferentes a um outro grupo.1

O relato de Lucas dá a impressão de que um grupo queria representar uma

brincadeira alegre e o outro, uma triste. Nenhum dos grupos queria aceitar

a sugestão do outro. E provável, ainda, que apenas a reprovação de um dos

grupos tenha sido registrada,12 e que o uso de “uns para os outros” não deva

ser indevidamente enfatizado.

Mas, como se aplica a parábola? Basicamente, há dois modos de se aplicar a cena que Jesus descreveu. Primeiro, as crianças que sugeriram as brincadeiras de casamento e funeral representam Jesus e João Batista, respectivamente. As crianças que se recusaram a brincar são osjudeus. João veio a eles de forma tão pungente quanto um canto fúnebre, mas eles não estavam dispostos a ouvi-lo. Para se livrarem de João, diziam que estava endemoninhado. Jesus, entretanto, veio e trouxe alegria e felicidade, contu-

1. Jeremias, em Parables, p. 161, segue a sugestão de Bishop, em Jesus of Palestine, p. 104. Jeremias escreve: “O fato de algumas crianças estarem sentadas talvez implique que estivessem satisfeitas em apenas se queixar e se lamentar, deixando para outros tarefas mais cansativas”. Há, no entanto, grande perigo em se ir tão longe na interpretação do texto.

2. Marshall, Luke, p. 300.

MENINOS NA PRAÇA

do os judeus zombaram dele porque entrava nas casas dos marginalizados moral e socialmente, e comia e bebia com eles.

A segunda interpretação é o oposto da primeira. As crianças que

sugeriram a brincadeira alegre do casamento e a triste do funeral são os judeus que queriam que João fosse alegre e que Jesus se lamentasse. Quando nenhum dos dois viveu conforme a expectativa deles, então se queixaram. Disseram a João: “Nós vos tocamos flauta, e não dançastes.” E, disseram a Jesus: “Entoamos lamentações, e não chorastes.”

Das duas, a segunda explicação é a mais plausível. Primeiro, ela estabelece uma ligação definida entre “os homens da presente geração” (Lc 7.31) e as crianças que faziam recriminações. Os judeus estavam desconten­ tes tanto com João Batista como com Jesus, assim como as crianças com os seus companheiros. Segundo, ela coloca as queixas das crianças, aplicadas a João e a Jesus, numa ordem cronológica.34 João veio como um asceta que vivia de gafanhotos e mel silvestre — não era de seu agrado comer pão e beber vinho —, e os judeus o acusaram de ser possuído pelo demônio. Jesus, ao contrário, comia pão e bebia vinho, e eles o chamaram de glutão e beberrão, amigo dos publicanos e “pecadores”. Deus enviou seus mensagei­ ros nas pessoas de João e Jesus, mas seus contemporâneos nada fizeram senão achar faltas neles.

-5

Paralelos

As brincadeiras que as crianças queriam brincar e suas conseqüentes

reclamações estão em consonância com o Livro de Eclesiastes, que poetica­ mente observa que há tempo para tudo. Há “tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de saltar de alegria” (Ec 3.4), diz o Pregador.

Os insultos que os judeus lançaram sobre Jesus, entretanto, não eram,

de modo algum, inofensivos. Eles o acusaram de ser glutão e beberrão. Essa era a descrição de um filho desobediente, que, de acordo com a lei de Moisés, devia ser apedrejado até à morte (Dt 21.20,21). O relacionamento de Jesus com os marginalizados social e moralmente, que eram olhados como após­

tatas pelos líderes religiosos, foi considerado reprovável. Por causa desse convívio, os judeus achavam que o próprio Jesus devia ser considerado

apóstata.5

3. F. Mussner, em “Der nicht erkannte Kairos (Mt 11.16-19 = Lc 731-35)”. Bid 40 (1959)600; descreve todas as crianças sentadas e gritando.

4. A. Plummer, The Gospel of Luke (ICC) (New York: C. Scribner & Sons, 1902), p. 163.

5. Mt 9.11; Lc 5.30; 15.1,2; 19.7.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

A literatura dos rabinos apresenta um paralelo extraordinário. Embo­

ra seja difícil afirmar quando foi escrito e qual sua origem, na forma oral, o

texto é interessante:

Jeremias falou diretamente ao Santo, louvado seja Ele: Tu enviaste Elias, de cabelos encaracolados, para agir em benefí­ cio deles, c eles riram dele, dizendo: “Olha como ele ondula seus cabelos!”, c zombavam dele, chamando-o de “aquele dos cabelos crespos”. E, quando Tu fizeste com que Eliseu se levantasse para agir em benefício deles, disseram-lhe, ironica­ mente: “Sobe, calvo; sobe, calvo!”6

Conclusão

O ponto culminante dessa parábola diverge nas descrições dos dois

Evangelhos. Os relatos de Mateus e Lucas variam na frase conclusiva. “Mas a sabedoria é justificada por suas obras” (Mt 11.19), e “Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos” (Lc 7.35). Já foi sugerido que a diferença pode ser devida a uma expressão do aramaico, que foi mal traduzida.7 Qualquer que seja a causa, no entanto, não varia o sentido que as palavras

transmitem. A sabedoria significa a sabedoria de Deus; ela pode ser mesmo um circunlóquio para o próprio Deus. De acordo com Mateus, as obras divinas de Jesus (Mt 11.5) são provas da sabedoria de Deus. No evangelho de Lucas, os filhos de Deus são testemunhas da veracidade de sua sabedoria. Por exemplo, publicanos e mulheres sem moral, rejeitados como marginais pelos religiosos daqueles dias, viram revelada em João Batista e em Jesus a sabedoria de Deus. Ambos, João e Jesus, proclamaram a mensagem de redenção —João, com toda a austeridade, no Jordão (Lc 3.12,13); e Jesus, ao redor da mesa, em suas casas (Lc 5.30).

6. Piska 26, em W. G. Braude, Pesikta Rabbati, 2 vols. (New Haven: Yale University Press, 1968,69), 1:526-27. Ver também, SB II; 161.

7. Jeremias, Parables, p. 162. ne 44.

4

O SEMEADOR

Mateus 13.1-9

-| Naquele mesmo dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à beira-mar; 2 e gran­ des m ultidões se reuniram perto dele, de modo que entrou num barco e se as­ sentou; e toda a mul­ tidão estava em pé na praia.3E de mui­ tas coisas lhes falou por parábolas, e di­ zia: Eis que o semea- dor saiu a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram. 5 Outra parte caiu em solo rochoso onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. 6 Saindo, po-

,

4

Marcos 4.1-9

1Voltou Jesus a ensi­ nar à beira-mar. E reu-

niu-se a ele, numerosa multidão, de modo que entrou num barco, onde se assentou, afastando- se da praia. E todo o povo estava à beira-mar, na praia. 2Assim lhes en­ sinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento. Ouvi: Eis que saiu o se­ meador a semear. 4E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a come­ ram . 5O utra caiu em solo rochoso, onde a ter­ ra era pouca, e logo nas- ceu, visto não ser

profunda a terra. C ain­

do, porém, o sol a quei­ mou; e porque não tinha raiz, secou-se. 7Outra

Lucas 8.4-8

4A flu in d o um a grande multidão, e vin­ do ter com ele gente de

todas as cidades, disse Jesus por parábolas:

Eis que o semeador saiu a semear. E, ao se­ mear, uma parte caiu à beira do caminho; foi pisada e as aves do céu

a comeram. 6 Outra

caiu sobre a pedra; e, tendo crescido, secou, por falta de umidade.

'O utra caiu no meio

dos espinhos; e estes, ao crescerem com ela,

a sufocaram. 8Outra,

afinal, caiu em boa ter­ ra; cresceu e produziu

a cem por um. Dizendo isto, clamou: Quem tem ouvidos para ou­ vir, ouça.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

rém, o sol a quei­ mou; e porque não tinha raiz, secou-se. 7Outra caiu entre os espinhos, e os espi­ nhos cresceram e a sufocaram. Outra, enfim, caiu em boa terra, e deu fruto: a cem, a sessenta e a trin ta por um. Quem tem ouvidos (para ouvir), ouça.

9

1

o

parte caiu entre os espi­ nhos; e os espinhos cres­ ceram e a sufocaram, e não deu fruto. Outras, enfim, caíram em boa ter­

ra, e deram fruto que vin­

gou c cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um. 9E acrescentou:

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Q

Composição

Em nossas sociedades industrializadas, a agricultura tem-se preocu­ pado sempre com a produção de alimentos. Cultivar a terra não é simples­ mente um meio de vida; ao contrário, tornou-se um modo de ganhar a vida. A moderna tecnologia tem sido amplamente aplicada a métodos de cultivo, de tal modo que o agricultor se tornou um técnico em diversas áreas — um especialista na aplicação de fertilizantes, herbicidas e inseticidas — e um homem de negócios que conhece o custo da produção, o valor de seu produto e a situação do mercado.

Quando Jesus ensinou a parábola do semeador a seus ouvintes na Galiléia, eles podiam, literalmente, ver o agricultor lançando a semente nos campos próximos, durante o mês de outubro. O evangelista não nos diz quando Jesus contou a parábola, mas pode muito bem ter sido na ocasião em que o semeador saiu para semear. As multidões (de acordo com Mateus, grandes multidões) tinham vindo até à praia, à margem noroeste do Lago da Galiléia. Talvez chegassem a milhares. Para se dirigir a tamanha multidão, Jesus usou um púlpito flutuante, sentando-se num barco, muito provavel­ mente afastado da praia.1Desse modo, a superfície da água refletia sua voz que, num dia calmo, podia alcançar seus ouvintes à distância. Aquele ambiente natural funcionava mais eficientemente que os atuais sistemas usados para a comunicação com o público.

Jesus não precisava explicar as atividades do lavrador. Eles, talvez, o estivessem vendo, à distância, no trabalho, semeando grãos de trigo e cevada. Provavelmente haviam passado ao lado de seu campo, no caminho para a

1. W. Neil, “Expounding The Parables”, Exp T 78 (1965): 74.

O SEMEADOR

praia. Na sociedade agrícola daqueles dias, muitos dos que ali estavam eram donos de terra, ou já haviam trabalhado no seu cultivo.

Cultivar a terra era relativamente fácil nos dias dc Jesus. Embora a parábola não nos conte nada a respeito de métodos dc cultivo, aprendemos no Velho Testamento (Is 28.24,25; Jr 4.3 e Os 10.11,12) e nos escritos dos rabinos que, no final de um longo e quente verão, o fazendeiro ia para o campo semear trigo e cevada sobre o solo endurecido. Ele arava a terra para cobrir a semente e esperava que a chuva de inverno viesse fazer germinar os

grãos.2

Na parábola de Jesus, o lavrador partiu para o campo levando seu suprimento de grãos numa bolsa que trazia a tiracolo. Com passos ritmados, lançava as sementes em faixas, pelo campo. Não se preocupava com os poucos grãos que caíam à beira do caminho, nem com aqueles que eram lançados em terra pouco profunda, onde as rochas despontavam. Também não se preocupava com o trigo caído entre os espinheiros que cresceriam na primavera, abafando as sementes. Para o lavrador, tudo aquilo fazia parte de seu dia de trabalho.

A descrição é corriqueira e precisa. O lavrador não podia impedir que

os grãos caíssem em solo duro. Cedo ou tarde viriam as aves e os comeriam.

Alguns pássaros comeriam até mesmo as sementes lançadas no campo. Acontecia comumente. Também, pouco ele podia fazer a respeito das rochas. Assim era a terra. Ele havia tentado acabar com os espinheiros arrancando suas raízes, mas estes teimavam em renascer.

A expectativa do lavrador estava no tempo da ceifa, quando iria colher.

Um lucro médio, naqueles dias, podia ser menos que dez por um.3 Se tivesse um retorno de trinta por um, ou uma colheita mais favorável que rendesse sessenta por um, seria um acontecimento excepcional. Muito raramente, talvez, ele conseguiria colher a cem por um (Gn 26.12). Resumindo, o semeador não estava interessado nos grãos que perdia enquanto semeava. Sua esperança estava no futuro, na colheita, que ele esperava com ansiedade.

Nenhum dos ouvintes de Jesus discordou dele. Mas, o clímax da história deve ter surpreendido seus ouvintes: em vez de uma colheita normal

2. J. Jeremias, “Palàstinakundliches zum Gleichnis vom Sáemann”, NTS13 (1967): 48-53. Ver também Parables, p.12.

3. Jeremias. “Palàstinakundliches”, p. 53; ver, também, K. D. White, “The Parable of the Sower:, JT S 15 (1964): 300-7; P. B. Payne, “The Order of Sowing and Ploughing” NTS 25 (12978):

123-29. Os ensinos do Velho Testamento (Amós 9.13; Jeremias 31.27; Ezequiel 36.29,30) e, os ensinos dos escritos dos rabinos e das pseudo epígrafes parecem ser o de que a terra produzirá fruto em abundância, na era Messiânica. N. A. Dahl, “The Parables of Growth”, StTh 5 (1951): 153; SB, IV: 880-90.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

com um lucro de dez vezes, Jesus falou de um retorno de cem por um. O ponto principal da história é, portanto, uma colheita abundante.

Propósito

A parábola do semeador é uma das poucas encontradas nos três Evangelhos Sinóticos. Quando incorporaram a história de Jesus a respeito do lavrador semeando e colhendo, cada um dos escritores dirigiu-se a seus próprios leitores. Mateus, Marcos c Lucas, obviamente, colocaram a pará­ bola no contexto de seus respectivos Evangelhos para mostrar o ponto central do ensino de Jesus.

No Evangelho de Mateus, o capítulo 13 é precedido por um relato a respeito do ministério de Jesus no âmbito de cura (capítulos 8 e 9). Con­ cluindo essa parte, Mateus registra que Jesus ensinava nas sinagogas, pre­ gava as boas-novas do reino, e curava todos os tipos de doenças e enfermidades (9.35). Então, ele olhou para as multidões, e porque não tinham quem as orientasse espiritualmente, teve compaixão delas. Ele as comparou a ovelhas sem pastor. “E então se dirigiu a seus discípulos: A seara na verdade é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (9.37,38). No capítulo 10, Mateus registra como Jesus enviou os doze apóstolos, comissio­ nados para buscar as ovelhas perdidas de Israel. Mas Jesus advertiu os discípulos sobre rejeição, perseguição e morte. Eles encontrariam oposição, hostilidade constante e correriam risco de vida. Mateus volta ao mesmo assunto nos dois capítulos seguintes. As multidões tinham seguido João Batista, mas o povo dizia que ele tinha demônio. Sobre Jesus, diziam que era glutão e beberrão, amigo de publicanos e “pecadores” (11.19). Em Corazim, Betsaida, e Cafarnaum o povo se recusou a se arrepender e a crer em suas palavras. Parecia que Jesus tinha semeado em terra pouco profunda, e que as sementes por ele lançadas não tinham germinado. Ainda assim, apesar das dúvidas de João Batista (11.3), da descrença dos galileus (11.21,23) e da hostilidade dos líderes religiosos (12.2,24,38), o reino de Deus se instalou e prosperou. As pessoas que fazem a vontade de Deus são parte e parcela do reino. São o irmão, a irmã e a mãe de Jesus (12.50).

Neste ponto, Mateus apresenta a parábola do semeador. A estrutura da redação do relato evangélico revela a mão habilidosa de um arquiteto literário.4 O evangelista preparou a cena para a parábola do semeador. O objetivo é alertar seus leitores para a inesperada colheita arrecadada no reino de Deus.

4. H. N. Ridderbos, Studies in Scripture and Its Authority (St. Catharines: Paideia Press, 1978), p. 50.

O SEMEADOR

De outro lado, Marcos parece enfatizar o ministério no âmbito do ensino, de Jesus ao longo das praias do Lago da Galiléia. Ele começa a passagem, dizendo: “Voltou Jesus a ensinar à beira-mar” (4.1). Enquanto Mateus omite a referência ao fato de Jesus ter-se assentado num bote, “à beira-mar”, Marcos se refere ao lago por, pelo menos, três vezes, no versículo introdutório. Marcos informa a seus leitores que, uma vez mais, Jesus se encontrou com uma grande multidão, junto ao mar (vejam-se 2.13 e 3.7). Ele intercala três parábolas de seu evangelho (o semeador, a semente germinan­ do e o grão de mostarda) nesse ponto de sua narrativa para indicar o lugar onde foram ensinadas, a quem Jesus se dirigia, e o propósito delas.

O escritor do terceiro Evangelho expõe uma versão abreviada da parábola do semeador e a coloca em um contexto sobre a aceitação e a

rejeição. As palavras e os feitos de Jesus foram prontamente aceitos pelas pessoas comuns, pelos coletores de impostos, mulheres de má fama e outros (7.29,37; 8.1-3), mas encontraram firme oposição da parte dos fariseus e dos intérpretes da lei (7.30,39). A versão de Lucas da parábola difere pouco das de Mateus e Marcos, embora seja muito mais curta e mostre alguma dife­ rença de vocabulário. “Essas mudanças mostram que Lucas ou a tradição oral se sentiram à vontade para modificar pormenores na narração da história, coisa que os modernos pregadores costumam fazer quando tornam

a contar as parábolas.”5

Mateus 13.18-23

Marcos 4.13-20

18“A tendei vós, pois, à parábola do semeador. 19A todos os que ouvem a pala­ vra do reino, e não a compreendem, vem

1-5 “Então lhes pergun­ tou: Não entendeis esta parábola, e como com­ preendereis todas as pa­ rábolas? 140 semeador semeia a palavra. 15São

o

maligno e arrebata

estes os da beira do ca­

o

que lhes foi semea­

minho, onde a palavra é

do no coração. Este

semeada; e, enquanto a

é

o

que foi semeado

ouvem, logo vem Satanás

à

beira do caminho.

e tira a palavra semeada

O que foi semeado

em solo rochoso, esse é o que ouve a

palavra e a recebe

neles. ^Semelhante- mente são estes os se­ m eados em solo rochoso, os quais, ouvin-

Lucas 8.11-15

11“Este é o senti­ do da parábola: A semente é a palavra de D eus. 12A que caiu à beira do cami­ nho são os que a ou­ viram; vem a seguir o diabo e arrebata- lhes do coração a pa­ lavra, p ara não suceder que, crendo, sejam salvos. 13A que caiu sobre a pe­ dra são os que, ou­ vindo a palavra, a

5 .1. H. Marshall, “Tradition and Theology in Luke”, Tyn H Bull 20 (1969); 63.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

logo, com alegria; 21mas não tem raiz

em si mesmo, sendo antes de pouca dura­ ção; em lhe chegan­ do a angústia ou a

p erseg u ição por

causa da palavra, logo se escandaliza.

220 que foi semeado

entre os espinhos é o

que ouve a palavra, porém os cuidados do mundo e a fasci­ nação das riquezas sufocam a palavra, e fica in fru tífera.

")% Mas o que foi se­ meado em boa terra

é o que ouve a pala­

vra e a compreende:

este frutifica, e pro­ duz a cem, a sessenta

e a trinta por um.”

do a palavra, logo a rece­ bem com alegria. 17Mas eles não têm raiz em si mesmos, sendo antes de pouca duração; cm lhes chegando a angústia ou a

perseguição por causa da palavra, logo sc escandali­ zam. 18Os outros, semea­ dos entre os espinhos, são os que ouvem a palavra, 19mas os cuidados do mun­ do, a fascinação da riqueza e as demais ambições, con­ correndo, sufocam a pala­ vra, ficando ela infrutífera. 20Os que foram semeados em boa terra são aqueles que ouvem a palavra e a

recebem, frutificando a trinta, a sessenta e a cem, por um.”

recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por al­ gum tempo, e na hora da provação se des­ viam. 14A que caiu en­ tre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufo­ cados com os cuida­ dos, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não che­ gam a am adurecer. T5A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a pala­ vra; estes frutificam com perseverança.”

A parábola do semeador é uma das poucas que Jesus explicou a seus

discípulos e a outros que estavam junto dele. À primeira vista, a parábola parece não necessitar de explicação, mas, na realidade, precisa ser aplicada

para que possa ser entendida espiritualmente. A pergunta inicial dos discí­ pulos: “Por que lhes falas por parábolas?” recebe uma resposta que não é prontamente entendida. Jesus diz: “Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isto concedido. Pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem entendem.” (Mt 13.11-13).

Notamos que os discípulos perguntam por que Jesus fala ao povo por parábolas, e que ele responde por que lhes fala por parábolas. Marcos dá ainda mais ênfase à distinção entre nós e eles, registrando: “Aos de fora se ensina por meio de parábolas” (4.11).

O que, precisamente, queria Jesus dizer ao se referir aos “mistérios do

reino”? Se Jesus é o Grande Mestre ( = Rabi), esperamos que ele ensine

O SEMEADOR

verdades espirituais numa linguagem simples. Seria difícil crer que Jesus, adotando uma determinada maneira de falar, pretendesse ocultar o seu ensino das multidões, e, ainda assim, falar dos mistérios do reino.

Os documentos de Cunrã se referem ao papel do Mestre da Justiça, comissionado para revelar os mistérios divinos. Além disso, o Mestre deveria instruir seus discípulos sobre a revelação por ele recebida de Deus.6 Jesus trouxe revelação divina ao ensinar a seus discípulos os segredos do reino dos céus. Os outros, aqueles que não faziam parte do círculo mais restrito dos discípulos de Jesus (quer dizer, os de fora), não tinham a compreensão do reino como o tinham os seguidores mais próximos de Jesus.7

Jesus, indiretamente, se refere à exigência do novo nascimento espiri­ tual para a entrada no reino de Deus (Jo 3.3-5). Em outras palavras, a capacidade e o privilégio de discernir os segredos do reino foram dados aos discípulos. Aos de fora, esse privilégio não foi concedido.8

As multidões a quem Jesus se dirigia são referidas como “eles”. Isso, em si mesmo, não surpreende em vista dos ais proferidos por Jesus às cidades impenitentes de Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt 11.20-24). Jesus rece­ bia oposição constante dos anciãos, escribas, fariseus e de toda a hierarquia religiosa. Mateus parece ter empregado um termo simples para os judeus que cercavam Jesus — são, apenas, “eles”.9

Entretanto, os segredos do reino não devem permanecer escondidos para sempre. Marcos acrescenta as seguintes palavras à explicação de Jesus sobre a parábola do semeador: “Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado” (4.22).10 A verdade que Jesus proclama por meio das parábolas é entregue àqueles que vêem e compreendem.

6. F. F. Bruce, Second Thoughts on the Dead Sea Scrolls (London: Paternoster Press, 1956), p.

101.

7. B. Van Elderen, “The Purpose of the Parables According to Matthew 13.10-17”, em New Dimensions in Evangelical New Testament Studies, ed. R. N. Longenecker e M. C. Tenney (Grande Rapids: Zondervan, 1974), p. 185.

8. W. Hendriksen, The Gospel of Mattew (Grand Rapids: Baker Book House, 1973), p. 553. J. R. Kirkland rejeita essa explicação e afirma que pessoas esclarecidas e eruditas vêem a verdade escondida nas parábolas, mas os menos inteligentes e menos perspicazes, não. Veja seu “The Earliest Understanding of Jesus’Use of Parables: Mark IV10-12 in Context”, Novt 19 (1977): 13. A proposição de Kirkland desaparece diante da oração de Jesus: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11.25).

9. J. D. Kingsbury, The Parables of Jesus in Matthew 13 (Richmond: John Knox Press 1969), p.

13.

10. Kirkland, “Earliest Understanding”, pp. 16-20.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

Mateus, em contraste, diz que aquele que tem receberá em abundân­ cia, e o que não tem, até o que tem lhe será tirado (13.12). Escrevendo para os judeus, Mateus deixa implícita a idéia de que os judeus, a quem não fora dada a percepção espiritual, e que rejeitam as palavras de Jesus, devem abandonar o entendimento que têm dos ensinos do Velho Testamento, a respeito do reino de Deus. Pois, sem uma compreensão espiritual desses ensinamentos, os oráculos do Velho Testamento perdem o seu significado. Assim, mesmo que eles (os judeus) vejam, não vêem; ainda que ouçam, não ouvem e não entendem (Mt 13.13).

Todos os evangelistas citam as palavras de Isaías 6.9,10 —

De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías:

“Ouvireis com os ouvidos, e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos, e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados.” (Mt 13.14,15)

Os três evangelistas Sinóticos parecem empregar a citação de Isaías para expressar a razão pela qual aqueles que tinham endurecido seus corações perderão, até mesmo, sua herança espiritual.11 Outros comenta­ ristas interpretam o uso de Isaías 6.9,10 como lição ou advertência quanto aos resultados de um coração empedernido.1112

Dos três evangelistas Sinóticos, Marcos apresenta o relato completo da interpretação da parábola feita por Jesus.13Ele inclui uma recriminação de Jesus: “Não entendeis esta parábola?” (4.13). Por implicação, Marcos indica que a parábola do semeador é única. Talvez o fato desta parábola ter sido uma das poucas que foram explicadas por Jesus, lhe dê um significado especial. Mas, as palavras de recriminação também indicam que os discípu­ los, cujos corações eram esclarecidos, deveriam ter entendido o sentido básico da parábola.

O relato de Mateus é mais preciso em sua composição. Foi Mateus quem deu o título dessa parábola à igreja: parábola do semeador. E é o

11. Hendriksen, Mark, p. 154.

12. Marshall, Luke, p. 323.

13. B. Gerhardsson, em “The Parable of the Sower and Its Interpretation”, NTS14 (1967-68):

192, conclui que a parábola e sua interpretação caminham juntas como a mão e a luva. “Se a parábola —na forma como a conhecemos —veio de Jesus, também sua interpretação”. Veja C. F. D. Moule, “Mark 4.1-20. Yet once more”, Neotestamentica et Semítica (1969):

95-113.

O SEMEADOR

Evangelho de Mateus que estabelece um tom pedagógico, com uniformida­ de de estilo e frases simétricas de efeito.

Mas, antes de iniciarmos a interpretação da parábola propriamente dita, devemos observar que a imagem usada por Jesus é retratada, também, em 2 Esdras 9.30-33:

Disseste: “Ouvi, Israel: atentai para as minhas palavras, raça de Jacó. Esta é a minha lei, que eu semeei entre vós, para que dê fruto e vos traga glória para sempre”. Mas, nossos pais que receberam tua lei não a guardaram; não observaram os teus mandamentos. Não que o fruto da lei tenha perecido; isto é impossível, pois tu és a lei. Os que a receberam pereceram, porque deixaram de guardar a boa semente, que neles foi

semeada.14

Nos dias de Jesus o verbo “semear” podia ser empregado metaforica­ mente, com o sentido de “ensinar”. Podemos presumir que esta era a maneira de falar nas sinagogas locais. A formulação e a interpretação de Jesus da parábola do semeador combinam muito bem com o padrão de linguagem da época.

O que nos surpreende na interpretação da parábola é a ausência de

certos fatores. O primeiro deles é a figura do semeador. Apesar de ser mencionada apenas como meio de introdução da parábola, sua presença na interpretação, embora presumida, não é explicada. Em vez disso, a ênfase cai sobre a semente que é lançada. Lucas chama a semente de “a palavra de Deus”; Marcos a chama simplesmente de “palavra”. E Mateus, em vista da citação de Isaías, diz, por implicação: “A todos os que ouvem a palavra do reino, e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho” (13.19). Embora pudéssemos esperar alguma referência à chuva, que obviamente aumentaria a colheita, nada é dito (veja, por exemplo, Dt 11.14,17).15 Ne­ nhuma menção é feita ao trabalho árduo de arar o campo, embora seja claro que foi parte do processo. A provisão de chuva por parte de Deus e o esforço

do homem no trabalho do campo não têm nenhuma significação na constru­ ção e interpretação da parábola.

A ênfase da parábola são os altos e baixos por que passa o lavrador em

seu trabalho de cultivar a terra.16 Ele pode perder parte do que plantou, neste exemplo por três vezes, mas na colheita final tem uma safra abundante.

14. New English Bible, The Apocrypha (Oxford, Cambridge: Oxford and Cambridge Univers- tity Press. 1970).

15. Gerhardsson, “Parable of the Sower”, p. 187.

16. C. H. Dodd, The Parables of the Kingdom (London: Nesbit and Co., 1935), p. 182.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

Aplicação

Quando mencionou pormenores, tais como a beira do caminho, os lugares rochosos e os espinhosos, Jesus, evidentemente, pretendia aplicar a lição da semente e do solo às pessoas que ouviam a mensagem do reino (Mateus), a Palavra de Deus (Lucas). Mateus usa o presente do particípio grego, referindo-se aos que são chamados a ouvir e receber a Palavra de Deus. A passagem explica também como a Palavra de Deus é ouvida por quatro diferentes tipos de ouvintes.17

Mateus, bem como Lucas, apresentam a palavra coração. “Vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração” (13.19). A Palavra de Deus alcança o coração daquele que a ouve, mas antes que a Palavra

possa produzir qualquer efeito, o maligno (Mateus), Satanás (Marcos), ou

o diabo (Lucas) vem e a arrebata. Na parábola, os pássaros descem à beira

do caminho e devoram os grãos. Diz Marcos: “São estes os da beira do caminho, onde a palavra é semeada; e, enquanto a ouvem, logo vem Satanás

e tira a palavra semeada neles” (4.15). Poderíamos dizer: “entra-lhes por um

ouvido e sai pelo outro”. Algumas pessoas ouvem polidamente o evangelho,

e só. O evangelho não tem valor para elas, pois seus corações são endurecidos como os caminhos pisados, à beira das plantações. Ignoram completamente

o resumo da lei de Deus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu ”

coração

De início, parece que uma semente lançada em solo rochoso brota muito facilmente. As rochas, aquecidas no verão, desprendem, pouco a pouco, nos meses de inverno, o calor armazenado. Há chuva suficiente e o calor e a umidade fazem germinar, prontamente, o grão. Os brotos verdes despontam rapidamente, e enquanto o resto do campo está ainda árido e infrutífero, apresentam um espetáculo impressionante. O olho treinado do lavrador vê a diferença. Ele sabe que a aparência das hastes verdes no solo rochoso é enganosa. Quando cessarem as chuvas e o sol da primavera chegar esquentando a terra, as plantas murcharão. Elas não têm, no solo, raízes profundas capazes de suprir a planta de água. Elas definharão e morrerão.

Na interpretação desse segmento da parábola, tanto Mateus como Marcos destacam o aspecto do imediatismo. “Semelhantemente são estes os semeados em solo rochoso, os quais, ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria. Mas eles não têm raiz em si mesmos, sendo antes de pouca duração; em lhes chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam” (Mc 4.16,17). O imediatismo é ressaltado na rápida germina­ ção do grão lançado em terreno rochoso.

(Mt 22.37).

17. Gerhardsson, “Parable of the Sower”, p. 175.

O SEMEADOR

Enquanto Mateus e Marcos atribuem a apostasia às dificuldades e à perseguição, Lucas fala em “hora da provação” (Lc 8.13). Os evangelistas se referem ao sofrimento que faz com que as pessoas mudem de opinião sobre

a religião. Quando chega a hora de tomar posição e pagar o preço, mudam

de interesse e se desligam da fé que uma vez abraçaram com alegria. Uma palavra define essas pessoas: superficialidade. O sol, geralmente considerado fonte de felicidade e alegria, é retratado aqui em termos de angústia e perseguição.18 A razão desse aparente rigor é a falta de umidade. O justo, por outro lado, floresce como uma árvore plantada junto a corrente de águas (SI 1.3). Ao leviano falta convicção, coragem, estabilidade e perseverança. Ele é influenciado por qualquer vento de doutrina que sopre em seu cami­ nho. Porque não tem profundidade, sua vida espiritual tem significação passageira.

A semente lançada entre os espinhos parece ter maior probabilidade

de crescer e de se desenvolver do que aquela que foi lançada em solo pouco profundo. Primeiro, após um período de germinação, as plantas começam a brotar. De fato, por ocasião da primavera parecem viçosas e não se diferen­

ciam das outras. Mas, quando o calor do sol se torna mais forte e aquece a terra, as raízes dos espinheiros e dos cardos renascem. Depois de descansa­ rem durante o inverno, estão prontas para uma nova estação, e em questão de semanas os espinhos e os cardos já ultrapassaram o trigo em altura. Elas

o privam da umidade e dos nutrientes da terra e, literalmente, o sufocam até

à morte.

O solo em que a semente foi lançada não é duro como o chão pisado

da beira do caminho, nem raso e rochoso. Ele é, antes, um solo bom —fértil

e úmido. O único problema é que aquele chão tem outros residentes perma­

nentes, outras raízes. A semente lançada em terra fértil e úmida terá, muito breve, que disputá-la com raízes que crescem e se desenvolvem abaixo do solo, e com verdejantes cardos e espinhos à superfície. Resumindo, dois tipos de plantas estarão lutando por um lugar ao sol e vencerá aquela que assentou suas raízes antes e mais profundamente.

“Os outros, os semeados entre os espinhos, são os que ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera” (Mc 4.18,19). O homem que leva uma vida dupla —religião aos domingos e vida sem religião

durante a semana — logo descobrirá que “os cuidados do mundo, a fascina­ ção da riqueza e as demais ambições” vencerão, e sua fé se tornará sem valor. A mensagem do evangelho não pode florescer e dar fruto; ao contrário, ela

é sufocada pelos cuidados do mundo. Esse homem tem levado uma vida

18. Jülicher, Gleichnisreden, 2:528.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

dupla, desde o início. Encontrou segurança na riqueza e no que possui. Relegou, propositadamente, sua fé a um lugar secundário. Ele é o homem que colhe espinhos e cardos c, eventualmente, apenas espinhos e cardos. Mesmo o que tem lhe é tirado.

Estas três representações do campo não devem desencorajar o lavra­ dor. Do mesmo modo, as três descrições das pessoas cuja fé se tornou infrutífera não devem desanimar o crente verdadeiro. A semente que foi lançada em boa terra produziu colheita abundante. As pessoas que respon­ dem com fé ao evangelho são inumeráveis, multidões incalculáveis. “Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica, e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mt 13.23).19 Marcos apresenta uma ordem ascendente de a trinta, a sessenta e a cem por um.” Lucas, na parábola propriamente dita, apenas cita que “produziu a cem por um”, mas na interpretação, diz: “A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perse­ verança” (8.15). Onde Lucas usa “retêm”, Marcos usa “recebem” e Mateus, “compreende”.

Quem é, então, aquele que possui um coração reto e bom? Mateus responde: “o que ouve a palavra e a compreende”. Mateus, naturalmente, tem em mente a citação de Isaías. O homem reto de coração faz a vontade de Deus e, ouvindo o chamado de Deus — “a quem enviarei?” —, responde confiante: “Envia-me a mim, ó Senhor”. Ele é aquele que ouve e pratica a Palavra. Ele compreende porque seu coração é receptivo à verdade de Deus. Todo o seu ser — vontade, mente e emoção - é tocado pela Palavra. Há um crescimento espiritual, e aquele que crê frutifica; ele faz a vontade de

Deus.20

O que a parábola ensina? Alguns estudiosos têm chamado a parábola do semeador de parábola das parábolas. Isso não significa que tenha maior destaque nos Evangelhos Sinóticos, mas, antes, que ela contém quatro parábolas em uma. Embora todas as quatro sejam apenas aspectos de uma

19. The Gospel of Thomas, trans. B. M. Metzger, Citação 9, afirma o seguinte: “Jesus disse:

Eis que o semeador saiu para semear, encheu sua mão e semeou (a semente). Algumas (sementes) caíram no caminho. Os pássaros vieram e as apanharam. Outras caíram sobre as rochas e não lançaram raízes para a terra nem espigas para o céu. E outras caíram entre espinhos. Eles abafaram as sementes e os vermes as comeram. E outras caíram em boa terra, e lançaram bom fruto para o céu. Produziram sessenta por um e cento e vinte por um.” E óbvio que o escritor do Evangelho de Tomé fundiu a parábola do semeador num molde gnóstico. A razão porque o escrito conclui a parábola com “cento e vinte por um” pode muito bem ter sido pelo fato de que ele acreditava ser o número 12 o número da perfeição. Veja H. Montefiore e H. E. W. Tumer, Thomas and the Evangelists (London:

SCM Press, 1962), p. 48. 20. Kingsbuiy, Parables of Jesus, p. 62.

O SEMEADOR

verdade particular: a Palavra de Deus é proclamada e ocasiona uma divisão entre os que a ouvem; o povo de Deus recebe a Palavra, a compreende, e obedientemente a cumpre; outros deixam de ouvir pela dureza de seus corações, por serem basicamente superficiais, ou por interesse em riquezas e posses. Essas pessoas não frutificam e, espiritualmente falando, até aquilo que têm lhes será tirado. A parábola, portanto, atinge aqueles que realmente fazem parte da igreja e os que estão “à margem”. Este é o tom principal da parábola. Todos os seus pormenores fazem convergir, para esse ponto, o foco da atenção. A proclamação fiel do evangelho nunca deixará de produzir fruto, “trinta, sessenta ou mesmo cem vezes o que foi semeado”.

5

A Semente Germinan­

do Secretamente

Marcos 4.26-29

“Disse ainda: O reino de Deus

é assim como se um homem lan-

'\£

çasse a semente à terra, depois

dormisse e se levantasse, de noite

e de dia, e a semente germinasse e

crescesse, não sabendo ele como. "7R A terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga. 29E quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa.”

'?'7

O Evangelho de Marcos não é conhecido por suas dissertações; ao contrário, em sua narrativa o autor retrata Jesus como um homem de ação. Mesmo assim, o evangelista apresenta material didático, como a preleção sobre os sinais do final dos tempos (capítulo 4). Marcos não está interessado em aumentar o número de parábolas. Ele parece ter feito uma seleção do material que tinha à disposição.1 Escolheu as parábolas do semeador, da

1. Veja-se, por exemplo, Marcos 4.2,10,13 e 33, onde o plural ‘parábolas’ é usado consistente­ mente.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

semente germinando secretamente e do grão de mostarda. Essas parábolas obviamente detalham o plantio da semente, a germinação e o amadureci­ mento, a ceifa e a colheita.2 Marcos usa as parábolas para ilustrar a natureza do reino de Deus como foi ensinada por Jesus.

Composição

Por falta de alguns pormenores, a história da semente germinando secretamente é, em si mesma, de algum modo, simplista. Nada é dito a respeito da preparação do solo, da chuva caindo, da extração da erva daninha, ou da fertilização. A vida do lavrador parece semelhante à da semente plantada: dormir à noite e despertar pela manhã. Ao chegar o tempo da colheita, o fruto maduro é ceifado.

A parábola deixa de lado os detalhes por mais significativos que possam ser e coloca ênfase na semeadura, na germinação e na ceifa. Não devemos pensar que o fazendeiro passe seu dia ociosamente. Naturalmente que não; ele tem trabalho pesado para ser feito. Lavrar a terra, fertilizá-la e limpá-la das ervas daninhas toma muito de seu tempo. Além das tarefas diárias, ele tem que cuidar das compras e das vendas, planejar e preparar a colheita. Tudo isso está subentendido e dado como certo na parábola. Observamos, também, que Deus providenciará a chuva necessária.3 Ele controla os elementos da natureza.

Este é exatamente o ponto. Desde o momento em que lança a semente,

o lavrador deve confiar a Deus a germinação, o crescimento, a polinização

e a maturação. Ele pode descrever o processo da germinação do trigo, mas não pode explicá-lo. Depois que a semente foi semeada, ela absorve a

umidade do solo, incha e brota. Após uma semana ou duas, as primeiras hastes aparecem na superfície; gradualmente as plantas começam a lançar rebentos, ganham altura e desenvolvem as espigas. Então, quando a planta morre, sua cor muda do verde para o dourado; o grão amadurece e é chegada

a hora da ceifa. O fazendeiro não pode explicar esse crescimento e desen­ volvimento.4 Ele é apenas um trabalhador que no tempo certo semeia e colhe. Deus guarda o segredo da vida. Deus mantém o controla.

2. Lane, Mark, p. 149.Ridderbos, em Corning of the Kingdom, p. 142, é de opinião que Marcos escolheu essas três parábolas para ensinar “o significado positivo da demora do julgamento.”

3. Quando Marcos escreve que a terra “por si mesma” produz o grão ele não quer dizer que o solo produz a colheita sem a provisão de Deus, mas que a ajuda do fazendeiro não é necessária no processo de germinação do grão. W. Michaelis, Die Gleichnisse Jesu (Hamburg: Furche- Verlag, 1956), p. 38. Além disso, a ênfase na produção do grão não deve ser colocada sobre o solo, nem na própria semente. R. Stuhlmann “Beobachtungen zu Markus IV. 26- 29", NTS 19 (1972-73): 156.

4. Jülicher, Gleichnisreden, 2:540.

A SEMENTE GERMINANDO SECRETAMENTE

Interpretação

A parábola da semente germinando secretamente só é encontrada no Evangelho de Marcos. Mateus e Lucas não se referem a ela, e não temos maiores informações do que as encontradas nesses versículos de Marcos 4.2Ó-29.56A parábola é introduzida pela sentença: “O reino de Deus é assim.”

Há várias interpretações dessa parábola. Alguns comentaristas expli­ cam o relato alegoricamente: Cristo semeou e na ocasião certa virá para a ceifa; o resto da parábola se refere ao trabalho invisível do Espírito Santo na igreja e na alma. Outros têm destacado um dos seguintes fatores: a semente, o período de amadurecimento, a ceifa; ou o contraste entre semear e ceifar.78 Certamente, todas essas interpretações — mesmo as alegóricas (quando qualificadas) — apresentam pontos positivos.

João Calvino olhou além do Originador dessa parábola e viu os minis­ tros da Palavra semeando a semente. Eles não devem desanimar, diz Calvino, quando não vêem resultados imediatos. Jesus ensina que devem ser pacien­ tes e os faz recordar o processo de germinação, como acontece na natureza. Não devem se agastar ou se inquietar, mas depois de terem proclamado a Palavra, devem se ocupar das tarefas do dia — dormir à noite, levantar pela manhã e fazer tudo o que há para ser feito. Como a semente chega à maturação no tempo próprio, assim o fruto do trabalho do pregador, even­ tualmente, aparecerá. Os ministros do evangelho devem ter coragem e continuar sua obra decidida e confiantemente.

Deus está atuando no processo da germinação da semente, em seu crescimento, desenvolvimento e maturação. “O fruto é o resultado da se­ mente; o fim está implícito no começo. O infinitamente grande já está ativo no infinitamente pequeno.”9É bom relembrar a afirmativajubilosa de Paulo

5.

Há paralelos na literatura apostólica, inclusive I Clemente 23.4: “Ó insensatos: Comparai-vos a uma árvore. Tomai uma videira, por exemplo: ela primeiro espalha suas folhas, então o botão e a flor, e somente após, primeiro a uva verde e então a madura.” Apostolic Fathers, vol.2 ed. R. M. Grant e H. H. Graham (Camden. N. J.: Thomas Nelson & Sons, 1965), p. 48. Ver também, II Clemente 11.3, e o Evangelho de Tomé, Citação 21.

6.

H.

B. Swete, The Gospel According to St. Mark (London: Macmillan & Co., 1909), p. 85.

7.

Para uma classificação abrangente dessas interpretações, veja C. E. B. Cranfield: “Message of Hope, Mark 4.21-32”, Interp 9 (1955): 158-162.

8.

J. Calvin, Harmony of the Evangelists (Grand Rapids: W. B. Eerdmans, 1949), 2:128. Embora Calvino dê atenção ao período de crescimento, dá ênfase igual àquele que semeia o grão. O criticismo de Cranfield tem algum valor: Calvino considerou a parábola endereçada aos discípulos de Jesus. No entanto, a aplicação, no comentário de Calvino, parece muito mais abrangente do que o mero círculo dos doze discípulos. Ver Cranfield: “Message of Hope”,

p.

159.

9.

Jeremias, Parables, p. 152.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

“de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Na parábola, o lavrador é apenas um auxiliar da obra divina. Ele lança a semente, e dia após dia faz o trabalho necessário —dá andamentos à sua tarefa. Tem confiança que a época da colheita chegará. Sabe, pela experiên­ cia, quantos dias se passarão desde a semeadura até à ceifa. E quando a colheita está madura ele não espera mais. O dia da ceifa chegou. Do mesmo modo, os ministros da Palavra têm a tarefa divina de proclamar as boas-novas de salvação em Cristo Jesus. Eles, também, devem permanecer de lado, enquanto Deus efetua a obra secreta de crescimento e desenvolvimento. No tempo de Deus, o ministro verá os resultados quando chegar a hora de ceifar.

A parábola da semente germinando secretamente é, realmente, uma parábola de seqüência: a colheita segue a semeadura, no tempo devido. A manifestação do reino de Deus sucede o ministério fiel da Palavra de Deus. Um leva ao outro, e nada acontece sem o secreto poder operante de Deus. “A lição é: a vitória está assegurada; a colheita se aproxima e chegará, com certeza, no momento apropriado decidido no plano eterno de Deus. O reino de Deus será revelado em todo o seu resplendor.”11

As últimas palavras da parábola são, de certo modo, reminiscência de Joel 3.13: “Lançai a foice, porque está madura a seara.” Sem dúvida, a passagem se refere definitivamente ao dia do julgamento quando o Senhor, de acordo com Apocalipse 14.12-16, envia o seu anjo para ceifar a terra. Nesse ínterim, aqueles que foram enviados para proclamar a Palavra têm que aprender a ter a paciência do lavrador. “Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso ”

fruto da terra

Ela aparece até mesmo na descrição de João, das almas daqueles que foram mortos por causa da Palavra de Deus. Eles clamam em alta voz: “Até quando,

e a resposta que recebem é que devem esperar ainda

ó Soberano Senhor

por algum tempo (Ap 6.9-11). Deus está no comando e determina quando é chegado o tempo da colheita. Ninguém, nem mesmo Jesus, sabe o dia e a hora (Mt 24.36).1011

(Tg 5.7). Falta de paciência é uma característica humana.

?”

10. Os fazendeiros do centro-oeste americano têm um ditado que diz que o milho “deve estar à altura dos joelhos pelo quatro de julho.”

11. Hendriksen, Mark, p. 170.

6

O Joio e o Trigo

Mateus 13.24-30

24“Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é seme­ lhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; 25mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo, e retirou-se. 26E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. 27Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu cam­ po? Donde vem, pois, o joio? 28Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? 2?Não! repli­ cou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. 30Deixai-os crescer jun­ tos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Ajun­ tai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.”

AS PARÁBOLAS DE JESUS

A parábola sobre o trigo e o joio é peculiar ao Evangelho de Mateus,

assim como a parábola da semente germinando secretamente é encontrada apenas em Marcos. A palavrajoio não é uma tradução adequada da palavra original grega zizania, que significa “uma erva daninha que nasce nas plan­ tações de grãos, parecida com o trigo”.1 Não podemos determinar se a palavra se refere, ou não, a uma variedade venenosa dessa erva. De qualquer modo, a planta se parece com o trigo e cresce exclusivamente em campos cultivados.12Na verdade, a planta é uma degeneração do trigo. A cizânia pode ser comparada à aveia silvestre, que cresce livremente nos trigais da América do Norte, e que são difíceis de se erradicar.

O Campo do Fazendeiro

Depois da parábola do semeador e de sua interpretação, Mateus relata que J esus contou à multidão uma outra parábola, a história de um fazendeiro abastado. Ele tinha servos e também ajudantes, no tempo da colheita.

Como fazendeiro eficiente, esse dono de terras tinha usado boa semen­ te em seu campo. É óbvio que ele não tinha interesse nenhum em semear erva daninha, que iria lhe causar grande problema. A boa semente não está misturada ao joio. O fazendeiro tinha semeado boa semente em seu campo (quando e como isso foi feito não é importante para a história).

Assim que ele acabou de semear o trigo do inverno, veio seu inimigo. Ele chegou escondido pelas trevas, enquanto todos dormiam, e semeou joio por sobre o trigo. Com certeza não fez isso pelo campo todo. Aqui e ali, ele espalhou a semente. Ninguém poderia saber, até à chegada da primavera, que o joio estava crescendo entre o trigo.3 O joio tem a aparência exata do trigo. Mas, quando as plantas começam a espigar, qualquer um pode distin­ guir o trigo do joio — “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.20).

Nessa hora, no entanto, é impossível tentar resolver o problema. Qualquer um andando pelo trigal para remover ojoio vai pisar o trigo. Além disso, as raízes do trigo e do joio estão tão emaranhadas que quem puxar o joio vai arrancar também o trigo.

Os empregados do fazendeiro o alertaram sobre o problema e até mesmo mostraram vontade de fazer algo a respeito. Queriam saber de onde

1. W. Bauer et al. Lexicon, p. 339.

2.1. Lõw, Die Flora der Juden (Hildeisheim: 1967), 1:725. SB, 1:667.

3. Meu sogro comprou uma fazenda no Canadá, no final de 1930. Logo viu que os campos estavam cobertos com um tipo de erva chamada “margarida”. Do proprietário anterior, ele ficou sabendo a causa: alguns anos antes, um vizinho rancoroso havia montado a cavalo, um dia, e espalhado pelo campo sementes de “margarida”. O resultado é visto até hoje.

O JOIO E O TRIGO

tinha vindo o joio. O fazendeiro apenas lhes explicou que um inimigo tinha feito aquilo e deveriam deixar tudo como estava até à chegada da ceifa. Então, os ceifeiros receberiam instruções para colher o joio e atá-lo em feixes, e para recolher o trigo no celeiro. O fazendeiro usará os feixes de joio —semente e palha —como combustível. Assim transformará em lucro uma desvantagem: terá aquecimento para o inverno.

Embora, no final, o fazendeiro consiga resolver de algum modo aquela situação, ele sabe que o joio absorveu umidade e nutrientes que se destina­ vam ao trigo. Sua produção de grão será substancialmente menor que a

esperada. Apesar de toda a sua experiência de cultivo, ele foi incapaz de ver

a

diferença entre o trigo e o joio antes que as plantas começassem a espigar

e

o tempo da colheita estivesse próximo.4 Só meses após o mal ter sido feito,

fazendeiro se deu conta de que seu inimigo o atacara insidiosamente. Ele tem, então, que enfrentar as conseqüências da trama perpetrada por seu inimigo.

o

Interpretação

Mateus 1336-43

36“Então, despedindo as multi­

dões, foi Jesus para casa. E che- gando-se a ele os seus discípulos, disseram: Explica-nos a parábola do joio no campo. 37E ele respon­ deu: O que semeia a boa semente

é

o Filho do homem: 38o campo é

o

mundo; a boa semente são os

filhos do reino; o joio são os filhos do maligno; 39o inimigo que o se­ meou é o diabo; a ceifa é a consu­ mação do século, e os ceifeiros são anjos. 40Pois, assim como o joio é colhido e lançado ao fogo, assim

será na consumação do século. Mandará o Filho do homem os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, 42e os lan­ çarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. 43Então,

4. Jülicher, em Gleichnisreden, 2: 548, afirma que o joio amadurece antes do trigo.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos (para ouvir), ouça.”

reino de seu Pai. Quem tem ouvidos (para ouvir), ouça.” explicação sobre a parábola do joio.

explicação sobre a parábola do joio. A explicação é dada em poucas palavras. Pode ser lida assim:

1. “O que semeia a boa semente

2. o campo

3. a boa semente

4. o joio

5. o inimigo que o semeou

6. a ceifa

7. os ceifeiros

é o Filho do homem;

é o mundo;

são os filhos do reino;

são os filhos do maligno;

é o diabo;

é a consumação do século, e são anjos.”

Embora a interpretação da parábola seja dada por Jesus, a composição da explicação parte de Mateus. Mateus toma o ensino de Jesus e ordena suas palavras numa lista de sete conceitos.56 (O arranjo de nomes e dados é uma característica de Mateus, como fica evidente desde o primeiro capítulo de seu Evangelho.)

Na interpretação, nenhuma menção é feita ao fato de que o inimigo veio quando todos dormiam. Também é omitida a referência ao crescimento e à maturação do trigo e do joio, e nada é dito sobre o ajuntamento do trigo no celeiro e dos feixes de joio lançados ao fogo. Em sua interpretação, Jesus omite a referência aos servos. Ele talvez tenha feito isso para focalizar a atenção no ponto mais significativo da parábola: o conflito entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás. E, nesse conflito, Satanás perde a batalha. Do mesmo modo, a conversa dos servos com o fazendeiro parece não ter importância para a interpretação da parábola. É deixada de lado; apenas uma referência a ela é feita no resumo onde o fato do joio ser arrancado e lançado ao fogo se torna importante (Mt 13.40). Na verdade, a conclusão da interpretação é uma visão das coisas que acontecerão no final dos tempos, Jesus, realmente, está dizendo: “com as Escrituras do Velho Testamento, vou lhes dizer o que vai acontecer”.

5. Compare-se Mateus 15.15, onde a mesma questão da explicação da parábola é levantada. Consulte-se M. de Goedt, “L’Eplication de la Parable de L’Ivraie (Mt XIII, 36-43)”, RB 66 (1959): 35. Veja-se J. Jeremias, “Das Gleichnis vom Unkraut unter dem Wiezen, ”em Neotesstamentica et Patrística (Leiden: Brill, 1962), p. 59.

6. R. Schippers, Gelijkenissen van Jezus (Kampen: J. H. Kok, 1962), p. 71.

O JOIO E O TRIGO

41“Mandará o Filho do homem os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, 42e os lan­ çarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos (para ouvir), ouça.”

Da maneira usual, o ensinamento de Jesus reflete direta e indiretamen- te as Escrituras do Velho Testamento? Jesus parece se referir à profecia de

os

homens e os animais” (1.2,3), quando fala de extirpar de seu reino tudo

aquilo que traga escândalo e todo aquele que pratique a iniqüidade. A frase

lançado na fornalha

de fogo ardente.” O próprio conceito se assemelha a Malaquias 4.1: “Pois eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os soberbos, e todos os que

A passagem: “Então os

justos resplandecerão como o sol”, lembra Daniel 12.3: “Os que forem sábios, pois, resplandecerão, como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas sempre e eternamente.” E para completar, devemos ler, também, Malaquias 4.2: “Mas para vós outros que

Sofonias: “De fato consumirei todas as coisas sobre a face da terra,

“os lançarão na fornalha acesa” lembra Daniel 3.6: “

cometem perversidade, serão como o restolho

temeis o meu nome nascerá o sol da justiça ”

Sem dúvida, na interpretação de Jesus, ressoa o eco das palavras e sentimentos dos profetas. A parábola do joio é, realmente, aquela na qual Jesus ensina o julgamento que está para vir; pode ser chamada de a parábola da ceifa.

Os servos estavam dispostos a arrancar o joio, embora pudessem, no processo, arrancar também o trigo —o sistema de raízes do joio é bem mais desenvolvido que o do trigo. Mas o fazendeiro diz: vamos esperar até à ceifa, quando, então, os ceifeiros separarão o trigo do joio.

O fazendeiro conhece o seu negócio. Se permitir que os empregados arranquem o joio, perderá sua safra de trigo, pois o trigo não pode ser7

7. Jeremias, em Parables, pp. 84,85, afirma que “é impossível deixar de concluir que a interpretação sobre o joio vem do próprio Mateus.” De acordo com Kingsbury, em Parables of Jesus, p. 109, Jesus é o Senhor exaltado, que exorta os cristãos na igreja de Mateus a serem obedientes à vontade de Deus. No entanto, como observa R. H. Gundry: “A resposta à questão de origem é o ensino de Jesus.” The use of the Old Testament in St. Matthew’s Gospel (Leiden: Brill, 1967), p. 213. Resumindo, não temos que chegar à mente imaginativa de Mateus. Antes, a origem desse ensinamento está em Jesus mesmo.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

separado do joio. Se perder sua colheita, dará ao seu inimigo a satisfação que ele pretendia.

Em vez disso, o dono de terras decide esperar que toda a plantação amadureça. Fará a separação na ocasião da ceifa. Tanto o joio quanto o trigo estarão maduros para a colheita.

O joio são os filhos do maligno, e a boa semente são os filhos do reino. Como os dois — o mal e o bem — amadurecem não é explicado, e será sensato não tentarmos ir além da parábola, em busca de explicação.8

Enquanto os dois crescem e amadurecem, o fazendeiro não pode fazer nada para remediar a situação. Essa incapacidade não provém da ignorân­ cia. Pelo contrário, o lavrador, plenamente ciente do problema, espera o tempo certo. Ele sabe o que deve ser feito. Ele sabe de onde veio o joio e como foi semeado em seu campo — à noite, enquanto todos dormiam.

Jesus, ao interpretar a parábola, disse que o fazendeiro que semeia boa semente é o Filho do homem. O Filho do homem é o próprio Jesus, que tomando a forma humana, se fez semelhante ao homem (Fp 2.7,8). Ele veio semear a boa semente, os filhos do reino, a nova humanidade em Cristo. O campo onde a semente é lançada é o mundo. É onde tem lugar o drama entre o bem e o mal. O inimigo que semeia o joio é o diabo, e o joio são os filhos do maligno.

É interessante notar que o campo, o mundo, pertence ao fazendeiro —a Jesus. Nesse campo cresce o trigo e o joio. Não importa onde o homem viva na terra. Onde quer que viva estará em propriedade que pertence a Jesus.9 Ele é o trigo ou o joio, um ou outro. Ele é filho do reino ou filho do maligno. Tanto o trigo quanto o joio estarão maduros quando o dono das terras enviar os ceifeiros para o campo.

Quando chegar o final dos tempos, os ceifeiros, que são anjos de Deus, separarão o bom do mau, o trigo do joio, os filhos do reino dos filhos do maligno. No conflito entre Deus e Satanás — tudo que causa escândalo e todo aquele que pratica a iniqüidade — é arrancado e lançado ao fogo ardente. Os filhos do reino, por outro lado, resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Eles são os justos. São abençoados. Permanecerão para sempre.

8. Ridderbos, Coming of the Kingdom, p. 139. 9. Schippers, Gelijkenissen, p. 71.

Aplicação

O JOIO E O TRIGO

Esta parábola de Jesus põe em confronto o bem c o mal, e ensina que o bem prevalecerá. Na parábola, os servos perguntam ao fazendeiro de onde veio o joio: “Donde vem, pois, o joio?” A resposta concisa do fazendeiro foi:

“Um inimigo fez isso.” Os servos, naturalmente, podiam ler desabafado sua raiva contra o inimigo,1011mas voltaram sua atenção para o joio e manifesta­ ram a vontade de arrancá-lo. O fazendeiro disse: “Não!”.

Os servos refletem a impaciência de muitos cristãos no reino de Deus. Com o pretexto de manter a pureza da igreja, crentes zelosos têm causado dano incalculável, julgando e afastando outros cristãos da igreja.

Qualquer jardineiro sabe que, às vezes, é impossível ver a diferença entre uma planta que produzirá belas flores e outra que se transformará apenas em erva daninha. Nos antigos versos:

Há tanto bem no pior de nós, E tanto mal no melhor de nós, Que dificilmente qualquer um de nós poderá falar dos demais de nós.11

Ninguém deve deduzir que a parábola ensina a eliminação da discipli­ na ou desaprova o cumprimento e a aplicação da lei. Ao contrário, as Escrituras ensinam muito claramente que a disciplina deve ser mantida e que a lei deve ser preservada. Jesus ensina, explicitamente, a doutrina da disciplina em Mateus 18.15-17. Ao esboçar o procedimento, no entanto, ele

indica que a disciplina deve ser conduzida com espírito de amor e delicadeza.

O processo deve se desenvolver cautelosa e pacientemente. O objetivo da

disciplina deve ser, sempre, a salvação e recuperação da pessoa envolvida.

Em Romanos 13, Paulo ensina que: “não há autoridade que não

proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e

os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados

nãosãoparatem orquandosefazobem ,e,sim ,quandosefazom al” (13.1-3). Deus investiu de autoridade os magistrados para preservar a lei, punir o que

pratica o mal e impedir o crime.

A parábola, entretanto, nos instrui a ter paciência e a não nos auto-no- mearmos juízes. “Sede vós também pacientes, e fortalecei os vossos cora-

10. W. G. Doty, “An Interpretation of the Weeds and Wheat”, Interp 25 (1971): 189.

11. Com agradecimentos a Hunter, Parables, p. 48, que parece ter um estoque infindável de versos, poemas e ditados.

AS PARÁBOLASDEJESUS

ções, pois a vinda do Senhor está próxima. Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas.” (Tg 5.8,9)

À primeira vista, a parábola pode dar a impressão de que há dois tipos

de indivíduos neste mundo, o bom e o mau, e que os bons serão sempre bons

e os maus permanecerão maus para sempre. Mas isso não é totalmente

correto. As Escrituras não ensinam que Deus tenha criado os homens bons

e que Satanás criou os maus. Deus criou gente — artesanato divino —, e ele

regenera aqueles que escolheu por obra da graça de seu Espírito. Os maus, embora criados por Deus, foram corrompidos por Satanás e são usados por ele para influenciar o povo regenerado de Deus.12 São o joio entre o trigo.

O trigo e o joio amadurecem lado a lado até à ceifa. Então, serão separados.

A parábola do joio contém uma lista compacta de termos similares,

em forma de glossário. A aparente simplicidade na explicação dos termos é quase um desafio a que se faça o mesmo em relação a outras parábolas ensinadas por Jesus. Muitos comentaristas têm visto isso como um convite explícito para explicar as parábolas à maneira de Jesus. Por exemplo, ao explicar a parábola das cinco virgens prudentes e as cinco virgens néscias (Mt 25.1-13), alguns comentaristas da igreja primitiva davam explicações variadas para a palavra óleo. Para Hilário, o óleo era o fruto das boas obras; para Agostinho, o óleo significava alegria; Crisóstomo dizia que o óleo significava a ajuda dada aos necessitados; e Orígenes considerava o óleo como sendo a palavra de ensinamento.13

Obviamente, os comentaristas não têm a sabedoria demonstrada por Jesus para interpretar parábolas. Devem ser cautelosos, para não verem nas parábolas pensamentos e conceitos que elas não pretendem ensinar. Na verdade, serão sensatos se buscarem o ensinamento básico da parábola, na própria parábola, ou em seu contexto, e limitarem sua interpretação ao ensino transmitido pela parábola.

12. Calvin, Harmony of the Evangelists, 2:120.

13. Numerosos exemplos são encontrados nas séries, Works of the Father, coletados por Tomás de Aquino. Veja Coomentary on the Four Gospels, I, St. Matthew (Oxford: n. p. 1842).

7

O Grão de Mostarda

Mateus 1331,32

31“Outra parábo­ la lhes propôs, di­ zendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostar­ da, que um homem tomou e plantou no seu campo; 32o qual é, na verdade, a me­ nor de todas as se­ mentes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos.”

 

Marcos 430-32

Lucas 13.18,19

Disse mais: a que

18“E dizia: A

assemelharemos o rei­

que é semelhante

no de Deus? ou com

o reino de Deus, e

que parábola o apre­

a que o compara­

sentaremos? 31É como

rei? 19É semelhan­

o

grão de mostarda

te a um grão de

que, quando semeado,

mostarda que um

é

a menor de todas as

homem plantou na

sementes sobre a ter-

sua horta; e cres­

 

ra;

32

mas, uma vez se­

ceu e fez-se árvo­

meada, cresce e se torna maior do que to­ das as hortaliças, e dei­ ta grandes ramos a

re; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos.”

ponto de as aves do

céu poderem aninhar-

se à sua sombra.”

J e s u s contou duas parábolas para falar a respeito do fenomenal crescimento do reino dos céus: a parábola do grão de mostarda e a parábola do fermento. As duas formam um par, e são, na verdade, duas faces de uma mesma moeda. A parábola do grão de mostarda retrata o crescimento do

AS PARÁBOLAS DE JESUS

reino em extensão e a do fermento descreve a intensidade desse crescimen­

to.1

Mateus colocou as duas cm seu capítulo de parábolas (Mt 13); prova­ velmente por causa do assunto. Lucas, por outro lado, incorporando as parábolas no decorrer da chamada narrativa da viagem (Lc 9.51 —19.27), talvez reflita uma seqüência mais histórica, embora não possamos afirmar isso, com certeza. Podemos, apenas, presumir que Jesus tenha ensinado essas duas parábolas, juntas, na mesma ocasião.12

A Semeadura e o Crescimento

Vinte e cinco alunos acompanham seu professor a Washington D.C., para ver a Casa Branca. Quando voltam à sala de aula, o professor pede que cada um deles faça uma descrição da visita. Vinte e cinco redações refletem vinte e cinco aspectos da residência presidencial. Uma criança, talvez,

escreva: “A Casa Branca parece

seguindo-se uma descrição daquilo que

lhe pareceu mais interessante. Outra criança, todavia, pode usar a mesma

introdução, mas na redação retratar uma perspectiva da Casa Branca, inteiramente diferente.

Jesus tornou familiar a seus seguidores várias das características do reino de Deus. Por meio de parábolas, ele procurou descrever as facetas do poder soberano de Deus. Assim, ele introduz suas parábolas com a frase: “O ”

reino dos céus é semelhante

A parábola do grão de mostarda, em contraste com a do trigo e do joio,

é muito curta. Em poucas palavras, Jesus descreve o surpreendente tamanho da mostardeira (“árvore”, em Mateus e Lucas; “hortaliça”, em Marcos) que

se desenvolve da menor das sementes. Obviamente, Jesus realça a diferença

entre o pequenino grão e a grande árvore. Ele não diz nada sobre a qualidade

da mostarda. Ele poderia ter mencionado seu uso na comida e nos remédios, sua cor e seu gosto, mas esse não era opropósito da parábola.

Jesus usa um exemplo da vida diária. Na nossa sociedade moderna de comida enlatada, engarrafada e empacotada, muitos não conhecem uma horta. Mas nos dias de Jesus quase todo mundo tinha sua própria plantação. Mesmo os religiosos pagavam o dízimo das especiarias colhidas — hortelã,

”,

1. A. B. Bruce, The Parabolic Teaching of Christ (New York: A. C. Armstrong, 1908), p. 91.

2. Michaelis, Gleichnisse, p. 55. No Evangelho de Tomé, as parábolas do grão de mostarda e do fermento estão separadas. Elas têm o mesmo estilo (com ligeiras variações) dos relatos canônicos. Vejam-se Citações 20 e 96.

O GRÃO DE MOSTARDA

endro e cominho (Mt 23.23). Em cada quintal havia uma mostardeira. A planta podia, muitas vezes, ter crescido no campo ao lado do canteiro de hortaliças, porque exige muito espaço. Em Mateus, o jardineiro plantou a semente em um campo; em Lucas, numa horta; e em Marcos, na terra.

O horticultor tomou apenas uma das sementes de mostarda. Seus dedos pareciam grandes demais para segurar uma semente tão pequena. Ele plantou a semente em seu campo porque sabia que aquela coisinha minús­ cula tinha a capacidade de se transformar numa planta do tamanho de uma

árvore.3 Ele precisava de apenas uma planta, e ele sabia do contraste entre

a semente e a planta.4 De fato, o tamanho insignificante da semente de

mostarda se tornou proverbial, no primeiro século. Jesus, uma vez disse: “Se

tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará” (Mt 17.20).56Tanto Mateus como Marcos dizem expli­ citamente que o grão de mostarda é a “menor de todas as sementes”. O contraste, no entanto, se torna mais marcante, porque a afirmativa é posta em comparação com a descrição da planta adulta: “crescida, é maior do que

as

hortaliças, e se faz árvore”. Aquele minúsculo grão, depositado no solo,

se

transforma numa árvore. Um milagre!

Concluindo a parábola, Jesus se refere ao Velho Testamento, às passagens de Daniel 4.12 e Ezequiel 17.23 e 31.6. A passagem de Daniel era bem conhecida de seus ouvintes, pois se referia a um sonho de Nabucodo- nosor sobre uma árvore que se tornava tão forte que sua altura chegava até ao céu. Debaixo dela, os animais do campo achavam sombra e em seus ramos

as aves do céu vinham se aninhar. Jesus, que fala as palavras de Deus (Jo

3.34), ensina, indiretamente, as Escrituras chamando, através de uma alusão verbal, a atenção para uma parábola messiânica, em Ezequiel 17.23: “No monte alto de Israel o plantarei, e produzirá ramos, dará frutos e se fará

3.

Alguns manuscritos trazem “grande árvore”, em Lucas 13.19. B. M. Metzger, em A Textual Commentary on the Greek New Testament (London, New York: United Bible Societies, 1971), p. 162, escreve: “Embora alguns copistas possam ter suprimido mega, para harmonizar Lucas com o texto preponderante de Mateus (13.32), é muito mais provável que, com o interesse de enfatizar o contraste entre o grão de mostarda e a árvore, o termo mega tenha sido acrescentado, também, em alguns testemunhos, no paralelo de Mateus.”

4.

A

semente da mostarda negra (sinapis nigra) cresce predominantemente nas regiões do sul

e

do leste dos países mediterrâneos, Mesopotâmia e Afeganistão. E a menor das sementes

de três ou quatro variedades de mostarda. Lõw, Die Flora der Juden, I: 521, O. Michel, TDNT, III: 810-12.

5.

Para exemplos dos escritos dos rabinos, veja SB, I: 669.

6.

É

possível que os dois evangelistas tenham acrescentado essa explicação como ajuda ao leitor.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

cedro excelente. Debaixo dele habitarão animais de toda sorte, e à sombra dos seus ramos se aninharão aves de toda espécie.”

O Cumprimento

7

Através da parábola, Jesus ensina que o reino de Deus pode parecer

sem importância e insignificante, especialmente na Galiléia de 28 AD. Mas,

o evangelho do reino, proclamado por um carpinteiro transformado em

pregador, provocará um impacto tremendo no mundo todo. Os seguidores de Jesus eram um grupo de pescadores “rudes” a quem foi ordenado que

fizessem discípulos de todas as nações. Esses seguidores puseram o mundo em chamas, com a mensagem de salvação, que hoje é proclamada em quase todas as línguas conhecidas da terra. O pequenino grão semeado na Galiléia,

no nascer da nova era do Cristianismo, se tornou uma árvore que, hoje, provê

abrigo e descanso para os povos de todos os lugares. E o dia ainda não se

acabou.

8

A árvore ainda não alcançou maturidade; ainda está crescendo. Olhamos para o fenômeno do seu crescimento e sabemos que Deus está operando o desenvolvimento do seu reino. Sabemos que inúmeros povos desse planeta ainda não ouviram as boas-novas do amor generoso de Deus. Nações inteiras estão virtualmente destituídas da sombra e do abrigo ofere­ cidos pelo reino de Deus. Os ramos da árvore devem continuar a crescer e a se estender até àquelas regiões que ainda precisam do evangelho para que multidões possam encontrar refúgio e descanso.789 E quando o evangelho do reino de Deus tiver sido pregado a todas as nações do mundo, então o fim virá (Mt 24.14) e a árvore terá alcançado sua plenitude.

7. J. W. Wevers, Ezekiel (Greenwood, S. C: Attic Press, 1969), p. 139. C. L. Feinberg, em The Prophecy of Ezekiel (Chicago: Mood Press, 1969), p. 97, diz que os versículos finais de Ezequiel 17 “sem dúvida, apresentam uma profecia messiânica”. Veja, também, D. M. G. Stalker, Ezekiel (London: S. C. M. Press, 1968), p. 154; J. B. Taylor, Ezekiel (Downers Grove, III: Inter Varsity Press, 1969), p. 146; e, J. Mánek, Und Brachte Frucht (Stuttgart: Calwer, 1977), p. 28.

8. Os estudiosos hesitam em se referir à planta da mostarda como uma árvore. Veja R. W. Funk:

“The Looking-Glass Tree is for the Birds”, Interp 27 (1973): 5. No entanto, ela alcança uma altura de mais ou menos três metros. A linguagem popular descrevia o fenômeno do crescimento da mostarda, naqueles dias, como “uma árvore”.

9. Os rabinos costumavam chamar os gentios de “aves do céu”. Veja Hunter, Parables, p. 45, e Kingsbury, Parables of Jesus, p. 82. Também, H. K. McArthur, “The Parable of the Mustard Seed”, CBQ 33 (1971): 208; O. Kuss, “Zum Sinngehalt des Doppelgleichnisses vom Senfkom und Sauerteig”, Bib 40 (1959): 653.

8

O Fermento

Mateus 1333

33“Disse-lhes outra parábo­ la: O reino dos céus é seme­ lhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até fi­ car tudo levedado.”

Lucas 1330,21

20“D isse mais: a que com pararei o reino de Deus? 21É muito semelhan­ te ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar levedado.”

O método visual era um dos recursos pedagógicos mais usados por

Jesus. Sempre que ensinou às multidões a respeito do reino de Deus, ele usou exemplos tirados diretamente do cotidiano. Quando menino, em Na­ zaré, viu sua mãe fazendo pão. Primeiro, ela dispunha as vasilhas e panelas; então, pegava farinha, água e fermento, e adicionava uma pitada de sal. Ela misturava os ingredientes e deixava a massa descansar. Seu trabalho, até ali, estava feito; o fermento agiria e faria a massa crescer. Quando o processo da fermentação estivesse completo, ela dividiria e assaria os pães.

Jesus contou a história de uma mulher fazendo pão —cena comum do dia-a-dia. A mulher apanhou uma pequena quantidade de fermento, mistu­ rou-o a uma grande quantidade de farinha, e assou pão suficiente para uma refeição de cem pessoas. Tanto Mateus quanto Lucas indicam que a mulher usou três satas de farinha. Uma sata equivale a, mais ou menos, 13,13 litros. Assim, a mulher tomou cerca de 39 litros de farinha — mais de 20 quilos —,

AS PARÁBOLAS DE JESUS

pretendendo fazer uma grande quantidade de pão. É demais, naturalmente, para o consumo diário de uma família pequena.1 Mas Sara, mulher de Abraão, assou o mesmo tanto, quando três homens vieram visitá-los em Manre (Gn 18.6). E, em pelo menos outras duas referências, o total de três medidas (seah, ou um EFA) 6 mencionado em relação à farinha usada para o pão (Jz 6.19 e 1 Sm 1.24).

Há quem argumente que as traduções modernas confundem o sentido básico do versículo traduzindo a palavra grega zume como fermento e não como levedo. A não ser entre o povo judeu, o uso do levedo não é muito conhecido, e por isso o conceito de fermento está na introdução: “O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado” (Mt 13.33). O fermento, como o conhecemos hoje, é limpo, fresco, saudável e até saboroso. É feito da cultura de uma solução de sal e açúcar à qual se adiciona amido. O levedo, no entanto, era conseguido com uma porção de massa guardada da semana anterior, à qual eram adicionados sucos para facilitar o processo de fermen­ tação. Se o levedo fosse contaminado por uma cultura de bactérias nocivas, essa contaminação passaria para o pão até que o processo fosse interrompi­ do, quando comessem pão não levedado durante uma semana, como faziam por ocasião da Páscoa?

Jesus não teve a intenção de considerar nocivo o levedo. Ele usou o exemplo do levedo por causa de seu poder oculto. O fermento e o levedo fazem a massa crescer, permeando-a inteiramente. Depois de misturados à farinha, o fermento ou o levedo não podem mais ser encontrados. Ficam escondidos e invisíveis.

Esta parábola tão curta tem sido interpretada de várias maneiras. Jerônimo, por exemplo, identificou a mulher com a igreja.123 As três medidas de farinha têm sido explicadas como sendo os três ramos da raça humana (descendentes de Sem, Cão e Jafé); os gregos, judeus e samaritanos; ou o coração, a alma e a mente.4 Essas interpretações são especulativas, imagi­ nativas e de pouco valor.

1. Jeremias, em Parables, p. 147, afirma sumariamente: “Nenhuma dona-de-casa amassaria tão grande quantidade de pão.”

2. Para uma descrição mais minuciosa, veja-se C. L. Mitton, “Leaven”, Expt T 84 (1973), 339-43.

3. R. C. H. Lenski, Interpretation of St. Matthew’s Gospel (Columbus: Lutheran Book Concern, 1943), pp. 530-32).

F. Godet, Commentary on St. Luke’s Gospel (Grand Rapids: Kregel, reprint of 1870 ed.), 2:

122. R. W. Funk, em “Beyond Criticism in Quest of Literacy: The Parable of the Leaven”,

Interp 25 (1971) entende o número três escatologicamente e escreve: “Três medidas de

farinha apontam para o poder sacramental do Reino para a ocasião festiva de uma epifania”,

p. 163. Devemos acentuar, no entanto, o poder e não o significado da farinha ou do número

4.

três.

O FERMENTO

A parábola destaca o fato de o fermento, uma vez adicionado à farinha,

permear toda a porção de massa, até que cada partícula seja atingida. O fermento fica invisível, mas todos podem ver o seu efeito. É assim que o reino de Deus demonstra seu poder e sua presença no mundo de hoje.

Na parábola do grão de mostarda, Jesus tornou conhecida a expansão aparente do reino. Na parábola do fermento, ele focaliza a atenção no poder interior do reino e em sua influência sobre tudo.

A parábola do grão de mostarda ilustra o programa evangelístico

global da igreja em obediência à comissão de Cristo e seus seguidores para que fizessem discípulos em todas as nações. A parábola do fermento torna claro que essa obediência a Cristo traz como conseqüência a cristianização de cada setor e de cada segmento da vida. O seguidor de Cristo deixa sua luz brilhar diante dos homens, para que vejam suas boas obras e glorifiquem seu Pai que está nos céus (Mt 5.16). Ele alivia o sofrimento dos pobres e dos aflitos; luta pela causa da justiça, em favor dos oprimidos; exige honestidade dos que foram eleitos ou escolhidos para governar as nações; ergue o estandarte da moralidade e da decência; defende a santidade da vida; respeita as leis da natureza; exige integridade nos negócios, no comércio, na indústria, no trabalho e nas profissões (médicas, jurídicas, religiosas); e na área da educação, explica significativamente que em Cristo “todos os tesou­

ros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.3). O seguidor de Cristo torna o ensinamento das Escrituras de especial relevância em todos os lugares. “Está claro para todo aquele que tiver olhos para ver, que o “fermento” do poder de Cristo, nos corações e nas vidas dos homens e em todas as esferas humanas, tem exercido, de milhares de maneiras, uma influência completa. E essa influência ainda continua.”5 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

O que, precisamente, queria Jesus dizer com a expressão “reino dos

céus”? É um sinônimo de igreja? O povo de Deus, individual e coletivamente, confessa o nome de Jesus Cristo como seu Salvador. Juntos constituem a igreja. Nessa igreja recebem dons e poderes que se tornam capazes de guardar cuidadosamente a lei de Deus, proclamar universalmente o evange­

lho da salvação e promover efetivamente o governo de Deus.6A igreja, então,

é constituída de cristãos que praticam os ensinamentos de Cristo em todas

as esferas da vida. Assim procedendo, promovem o reino de Deus, no qual

o governo de Cristo é aceito. Resumindo, cada área da vida influenciada pelo ensinamento de Cristo (o fermento) pertence ao reino.

5. Hendriksen, Matthew, p. 568.

6. Para um estudo mais abrangente, veja-se Ridderbos, Coming of the Kingdom, especialmente as páginas 342-56.

9

O Tesouro Escondido

Mateus 13.44

^ “O reino dos céus é semelhan­

te a um tesouro oculto no campo,

o qual certo homem, tendo-o acha­

do, escondeu. E, transbordante de

alegria, vai, vende tudo o que tem,

e compra aquele campo.”

10

A Pérola

Mateus 13.45,46

45“0 reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; ^ e , tendo achado uma pérola de grande va­ lor, vendeu tudo o que possuía, e a comprou.”

E m sua série de sete parábolas, Mateus elabora cuidadosamente as duas primeiras —o semeador, o trigo e o joio —registrando a interpretação de cada uma delas. As outras cinco são um tanto curtas na forma, e diretas no tocante ao assunto. Apenas duas sentenças constituem cada uma das

AS PARÁBOLAS DE JESUS

parábolas —do tesouro oculto e da pérola; a primeira sentença de cada uma delas é a conhecida frase introdutória: “O reino dos céus é semelhante a ” O ponto principal da parábola se encontra, naturalmente, na segunda frase.

Encontramos essas duas parábolas apenas no Evangelho de Mateus. Não sabemos se Jesus contou-as em seqüência ou se Mateus reuniu- as pelo assunto ao organizar seu material. Permanece o fato de que as duas estão

relacionadas.1

Estritamente falando, as frases que apresentam as duas parábolas não são inteiramente condizentes. Numa, o reino dos céus é semelhante a um tesouro; e na outra, a um mercador. Não devemos, no entanto, abordar as duas parábolas com a mente analítica ocidental. Devemos, antes, procurar seu sentido básico buscando entendê-las como foram entendidas pelos discípulos, que primeiro as ouviram.

Composição

Jesus contou a história de um homem que achou um tesouro escondido num campo. Rapidamente, tornou a enterrá-lo e voltou alegre para casa, a fim de vender tudo o que possuía, para comprar o campo.

As crianças, muitas vezes, fantasiam que em algum lugar, em alguma casa velha, ou celeiro, vão descobrir um tesouro que ninguém viu. Na nossa sociedade sofisticada, consideramos isso irreal; pensamos que tais coisas não acontecessem mais. Entretanto, de tempos em tempos, descobertas são feitas: um pastor encontrou, perto do Mar Morto, rolos de pergaminho de dois mil anos de existência; um mergulhador localizou, afundado na costa da Flórida, um navio espanhol do século 17, cheio de ouro e prata; e um fazendeiro, arando o seu campo, em Suffolk, Inglaterra, achou um cofre que guardava belos pratos de prata, do tempo dos romanos.12

Um tesouro tinha sido enterrado em um campo. Quem o enterrara e por quanto tempo permanecera ali, são perguntas que não temos como responder. Sabemos que, na antiga Palestina, um país freqüentemente em guerra, as pessoas achavam mais seguro guardar seu tesouro, ou parte dele, no campo do que em suas casas. Em casa, os ladrões podiam roubá-lo; no

1. Alguns estudiosos citam o Evangelho de Tomé, onde as duas parábolas estão separadas (Hidden Treasures, Citação 109; and Pearl, Citação 76). Isso é verdade, também, em relação às parábolas do grão de mostarda e do fermento. A evidência disponível, no entanto, não é conclusiva. O assunto é discutido por O. Glombitza, “Der Perlenkaufmann”, NTS 7 (1960- 61): 153-61. Ver também J. C. Fenton: “Expounding the Parables: IV. The Parables of the Treasure and the Pearl (Mt 13.44-46)”, Expt 77 (1966): 178-80; J. Dupont: “Les Paraboles du Trésor et de la Perle”, NTS 14 (1967-68): 408-18. 2. E. A. Armstrong, The Gospel Parables (New York: Sheed and Ward, 1967), p. 154.

O TESOURO ESCONDIDO/A PÉROLA

campo ficaria em maior segurança. Mas, se o proprietário morresse na guerra, levaria para o túmulo o seu segredo, e ninguém, jamais, poderia saber onde enterrara o tesouro.

O homem que encontrou tal tesouro podia ser um empregado ou mesmo um arrendatário daquele campo. Talvez estivesse arando, cavando buracos, ou plantando uma árvore. De qualquer modo, ele bateu em alguma

coisa dura debaixo da terra, cujo som não parecia o de uma pedra. Ele cavou

e encontrou um tesouro. Não nos é contado de que tesouro se tratava, mas

o homem ficou maravilhado. Nunca tinha visto um tesouro tão valioso. Tudo aquilo poderia ser seu, se comprasse o campo.

Em segundos, arquitetou um plano. Rapidamente, pôs o tesouro de volta no lugar, cobriu-o com terra e foi para casa. Sabia que o atual proprie­ tário do terreno não tinha enterrado o tesouro ali. Assim, se o dono lhe vendesse o terreno, ele teria a posse do tesouro, que, então, seria seu de direito.3Ele precisava de dinheiro e pôs à venda tudo o que tinha. Algumas pessoas talvez tenham meneado a cabeça, reprovando aquela atitude tão impetuosa. Mas o homem sabia o que estava fazendo. Com o dinheiro, poderia comprar o campo e teria para si o tesouro.

Em poucas palavras, Mateus relata a parábola da pérola, contada por Jesus. Um mercador está à procura de pérolas e encontra uma de excepcio­ nal valor. Vai, vende tudo que possui, e compra aquela pérola única.

A história é muito parecida com a do homem que encontrou o tesouro.

A mesma dedicação é encontrada em ambas as parábolas. Cada um dos

homens quer ter o objeto de seu desejo mesmo que isso lhe custe o que ajuntou em toda a sua vida. Os dois, literalmente, vendem tudo o que têm para conseguir o tesouro e a pérola.

No tempo do Velho Testamento, as pérolas, aparentemente, não eram conhecidas, mas já no primeiro século da era cristã, tinham-se tornado

símbolo de status entre os ricos.4 Jesus disse a seus ouvintes: “Nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas” (Mt 7.6), e Paulo queria que as mulheres

de seu tempo se vestissem modestamente: “não com cabeleira frisada e com

ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso” (1 Tm 2.9). No Apocalipse, uma

voz dos céus, diz: “Choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém compra a sua mercadoria, mercadoria de ouro, de prata, de pedras preciosas, de pérolas” (Ap 18.11,12).

3. Não devemos pôr em dúvida a moral daquele homem, pois não sabemos como eram as leis de propriedade, nos dias de Jesus. A parábola não dá ênfase à conduta ética do homem que encontrou o tesouro. Para um estudo mais detalhado, veja-se J. D. M. Derreti, Law in the NewTestament (London: Longman andTodd, 1970), pp. 1-16. 4. B. T. D. Smith, The Parables of the Synoptic Gospels (Cambridge: S. P. C. K., 1937), p. 145.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

Nos dias de Jesus e dos apóstolos, as pérolas eram muito procuradas. Os mercadores tinham que ir ao Mar Vermelho, ao Golfo Pérsico, e até mesmo à índia para encontrá-las. As pérolas inferiores vinham do Mar Vermelho; as melhores vinham do Golfo Pérsico e das costas do Ceilão (hoje Sirilanka) e da índia.5 Um mercador tinha que viajar muito para conseguir as melhores e maiores pérolas.

O homem, cuja história Jesus contou, está à procura das mais finas pérolas. Não sabemos para onde viajou, mas um dia encontrou uma de grande valor. Para ele, era uma oportunidade única na vida. Não sossegou enquanto não a teve. Pensou muito, fez todos os cálculos, avaliou seus bens, e decidiu vender tudo o que tinha para comprar aquela pérola única, perfeita.

Devemos notar que o mercador não foi deliberadamente de um apa­ nhador de pérolas para outro, em busca de uma excepcional. Enquanto as procurava, no decorrer normal de seu trabalho, ele se deparou com a melhor de todas as pérolas que já havia visto. Como o homem que descobriu o tesouro, o mercador, de repente, viu a pérola. Era uma questão de agora — ou nunca: vender tudo e comprar! Típico negociante oriental, mantém o rosto impassível durante o negócio. Quando a pérola for sua, haverá tempo para celebrar.

“Nada vale, nada vale, diz o comprador, mas, indo-se, então se gaba.” (Pv 20.14)

Aplicação

Os amigos e conhecidos dos dois homens das parábolas devem ter sacudido suas cabeças em desaprovação, quando os viram vender tudo que possuíam. Devem ter ficado surpresos, quando logo a seguir tiveram conhe­ cimento do lucro obtido. E tiveram que mostrar respeito; os homens sabiam

o que estavam fazendo.

Os dois, no entanto, não especularam. Não havia nenhum risco na compra do campo, ou na aquisição da pérola; o que fora comprado valia o preço. O que fizeram foi o mais sensato. Por acaso, encontram aqueles bens,

e seria tolice ignorá-los. Diante da oportunidade, tudo que tiveram que fazer foi adquirir o tesouro e a pérola.

Ao comprar o campo e a pérola, os dois homens não fizeram sacrifício algum, mesmo vendendo tudo o que possuíam. “Há uma diferença básica

5. Smith, Parables, p. 146. Veja Schippers, Gelijkenissen, p. 103; Jeremias, Parables, p. 199; Hauck, TDNT, IV: 472.

O TESOURO ESCONDIDO/A PÉROLA

entre o valor de uma compra e um sacrifício. A compra é a aquisição de um objeto de valor equivalente. O sacrifício, de outro lado, é uma dádiva que não espera recompensa.”67Tanto o homem que encontrou o tesouro quanto

o mercador de pérolas pagaram o preço justo pelo que compraram. Viram

a oportunidade e se mostraram dispostos a pagar o preço devido. Deram tudo o que tinham em troca do único bem desejado.

O que, então, as parábolas ensinam? Pais da Igreja, como Irineu e

Agostinho, identificam o tesouro e a pérola com Cristo. Pensaram acertada- mente. O recém-convertido diz exatamente a mesma coisa: “Achei o Cristo.”

O novo cristão, de repente, encontrou Cristo. Alegre, ele volta para casa,

abandona o seu modo de vida, e se devota completamente a seu Senhor. Alguns vendem tudo o que têm para buscar instrução teológica, a fim de se ordenarem ministros ou missionários do Evangelho de Cristo.

E Cristo quem oferece o tesouro e a pérola aos viajantes da vida.

Alguns deles estão buscando; outros estão andando a esmo. Subitamente, encontram Jesus e acham nele um tesouro inestimável. Sua resposta a Jesus

é de entrega total. Alegremente vendem tudo o que têm, para ter Jesus. A

salvação, naturalmente, é plena e de graça, e não pode ser comprada. É uma

dádiva. Significa que Jesus exige o coração do homem. Como nas palavras

do antigo hino:

Tudo, ó Cristo, a ti entrego, Por ti tudo deixarei; Resoluto, mas submisso, Sempre a ti eu seguirei.

Tudo entregarei! Tudo entregarei! Tudo, sim, Jesus bendito, por ti deixarei!

6. Linnemaim, Parables of Jesus: Introduction and Exposition (London: S. P. C. K., 1966),

E.

p.

100.

7. Hunter, Parables, p. 80. Também Michaelis, Gleichnisse, p. 66.

n

A Rede

Mateus 13.47-50

47“0 reino dos céus é ainda se­ melhante a uma rede que, lançada ao mar. recolhe peixes de toda es­ pécie. 48E, quando já está cheia, os pescadores arrastam-na para a praia e, assentados, escolhem os bons para os cestos, e os ruins dei- tam tora. Assim sera na consu­ mação do século: Sairão os anjos e separarão os maus dentre os jus­ tos, 50e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes.”

Somente o Evangelho de Mateus registra a parábola da rede.1 Está claramente associada à parábola do trigo e do joio; a interpretação de ambas focaliza o dia do juízo final. Ainda assim, ficam evidentes diferenças impor­ tantes. Na parábola do joio, Jesus acentuou a idéia de paciência. Essa idéia não aparece na parábola da rede.12

1. No Evangelho de Tomé, Citação 8, encontramos uma parábola semelhante, uma cuja ênfase difere radicalmente: “E ele disse: O homem é como um pescador que lançou sua rede ao mar; ele a recolheu quando estava cheia de pequenos peixes. Entre eles o pescador achou um peixe grande. O pescador sensato lançou de volta ao mar todos os pequenos peixes (e) escolheu o grande, sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

2. Mánek, Frucht, p. 50. Ver, também, Jeremias, Parables, p. 226.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

A parábola do joio é mais descritiva. Ela menciona o fazendeiro, seus

servos, e os ceifeiros, mas na parábola da rede apenas os pescadores e suas tarefas são mencionados. O joio é semeado no campo depois que o fazen­ deiro já tinha plantado o trigo, ao passo que os peixes próprios para serem consumidos, e os impróprios, estão sempre juntos no Mar da Galiléia. A parábola do joio descreve as condições do campo, no presente, e a ceifa como um acontecimento futuro. A parábola da rede, por outro lado, retrata

a separação dos peixes, no presente.3

A Pesca

A maior parte dos discípulos de Jesus era de pescadores por profissão;

tinham deixado suas redes e seus barcos para seguir Jesus e se tornarem pescadores de homens. Quando Jesus lhes contou a parábola da rede, compreenderam cada nuança da história. Jesus se referiu exatamente ao

modo de vida que levavam antes.

A margem norte do Mar da Galiléia é um dos melhores lugares de

pesca, em Israel. As plantas arrastadas pela correnteza do rio Jordão são depositadas na enseada, ao norte. Essas plantas atraem e alimentam cardu­ mes vastos e variados. Vinte e cinco espécies nativas, pelo menos, já foram

identificadas naquele lado.4

Embora houvesse várias maneiras de pescar, nos dias de Jesus, um dos mais eficientes era o uso do arrastão. Esse tipo de rede tinha dois metros de largura e perto de cem metros de comprimento. Tinha cortiça na parte superior para mantê-la à tona e pesos na parte inferior, para mantê-la ao fundo. Às vezes, os pescadores fixavam uma das extremidades da rede na praia, enquanto um barco puxava a outra ponta pelo lago, fazendo uma curva

e trazendo a rede de volta à praia. Outras vezes, saíam dois barcos da praia,

formando um semicírculo com a rede; juntos, os homens a puxavam para apanhar os peixes e juntá-los nos barcos. O uso do arrastão exigia a força de seis homens ou mais. Enquanto uns remavam, outros lançavam ou puxavam

a rede e outros ainda batiam na água para guiar os peixes para a rede.5

Pescadores experimentados procuravam localizar um bom cardume antes de começar a pescar. Mas, uma vez lançada a rede, os homens puxavam

3. Michaelis, Gleichnisse, pp. 68-69. Consulte, também, B. Gerhardsson, “The Seven Parables in Mattew XIII”, NTS19 (1972-1973): 18-19.

4. G. Cansdale, Animais of Bible Lands (Grand Rapids: Zondervan, 1970), p. 216. Consulte, também, Dalman, Arbeit und Sitte, 4: 351, que faz referência a vinte e quatro espécies.

5. Há uma interessante descrição a respeito em W. O. E. Oesterley, The Gospel Parables in the Light of Their Jewish Background, (New York: Macmillan Co., 1936), pp. 85-86.

A REDE

todos os peixes apanhados por ela. Obviamente, os peixes estavam mistura­ dos, pois não podiam selecioná-los, enquanto pescavam.6

A rede apanhava os peixes próprios e impróprios para o consumo — os bons e os maus. Peixes de todos os tipos e tamanhos se debatiam ao serem puxados para a praia. Muitas espécies eram consideradas impuras, de acordo com as normas de alimentação dos judeus. Peixes sem barbatanas e sem escamas não podiam ser comidos (Lc 11.10), e tinham que ser lançados de volta à água. Os peixes pequenos, também, eram abandonados. Somente os peixes em condição de serem negociados eram apanhados e colocados em recipientes adequados. A classificação dos peixes, enfim, determinava o valor da pesca; até à hora da escolha, era impossível avaliar o lucro obtido.

Explicação

Jesus usa a parábola da rede para descrever o dia dojuízo. Ele se dirige

a seus discípulos que sabiam como apanhar e selecionar os peixes. Ele fala

a linguagem deles e consegue, assim, comunicar efetivamente uma verdade

espiritual. Jesus faz, ainda, uma breve interpretação da parábola. “Assim

será na consumação do século: Sairão os anjos e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.49,50). As palavras são quase idênticas àquelas usadas por

Jesus em sua interpretação da parábola do trigo e do joio. “Pois, assim como

o joio é colhido e lançado ao fogo, assim será na consumação do século.

Mandará o Filho do homem os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos

os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.40-42).

Argumentar que a interpretação da parábola da rede não se ajusta aos termos da própria parábola, porque os peixes impróprios para serem comi­ dos são jogados de volta à água, e não em uma fornalha acesa, é ilógico. Do mesmo modo, alguém poderia afirmar que a interpretação da parábola do trigo e do joio é inadequada, pois o joio não range os dentes. Jesus usa linguagem simbólica e transfere a mensagem da parábola para o destino espiritual do homem: céu ou inferno. Na parábola do trigo e do joio, o destino do homem é o céu, onde os justos resplandecerão como o sol, ou o inferno, onde há choro e ranger de dentes.

A interpretação dada omite todos os pormenores descritivos a respeito dos pescadores lançando a rede e trazendo para a praia o produto da pesca; apenas a separação dos peixes bons, daqueles sem valor, é explicada. Por­

6. Dodd, Parables, p. 188.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

tanto, não é prudente usar a própria interpretação para os detalhes da parábola.7 Os pormenores fazem parte do quadro total do produto da colheita. A rede traz todos os peixes apanhados, e os pescadores, simples­ mente, não podem escolher enquanto pescam. Do mesmo modo, os segui­ dores de Jesus, escolhidos para serem pescadores de homens, não têm como selecionar quando e a quem proclamar o evangelho. Usando as palavras de outra parábola, os servos de Cristo saem pelas ruas e reúnem todos os que encontrara, tanto bons como maus (Mt 22.10). O apelo do evangelho é dirigido a todos, sem discriminação.

Na parábola da rede, os pescadores lançam a rede, juntam o que conseguiram apanhar, e separam os peixes.89Na interpretação são os anjos que vêm e separam os ímpios dos justos. Assim, podemos deduzir que os pescadores, também, pertencem à multidão da qual os anjos recolherão os ímpios. Os°ímpios serão retirados da multidão dos justos.

O termo ímpio é abrangente: ele se refere, também, àquelas pessoas

que na aparência fazem parte da igreja, mas no íntimo não têm qualquer ligação com a verdadeira igreja. Com a boca confessam o Credo Apostólico, mas em seus corações não possuem a fé genuína em Jesus Cristo.

Essas pessoas são como aquelas descritas na parábola do semeador:

têm seus corações endurecidos (o solo à beira do caminho); são cristãos apenas superficialmente (o solo rochoso); amam os bens e os prazeres do mundo (o solo cheio de espinheiros). Estão na igreja, mas não pertencem a ela. No dia do juízo final, os anjos de Deus virão e os separarão do povo de Deus, e os lançarão no fogo ardente reservado para eles.

O que a parábola ensina? Diz aos seguidores de Jesus: vão à sua tarefa

diária de testemunhar aos outros, onde quer que estejam; tragam-nos para

a igreja; façam com que se lembrem sempre da necessidade da fé e do

arrependimento; que eles estejam atentos para o dia do juízo, quando, então,

a separação entre o ímpio e o justo acontecerá.

Mateus, apropriadamente, fecha a série de sete parábolas (sete é o número da perfeição) com a parábola da rede. Essa última parábola lembra, uma vez mais, o dia dos dias, quando se dará o juízo final.

7. Por exemplo, Lenski, em Matthew’s Gospel, p. 547, diz que “a rede é o Evangelho”.

8. Em um curto e interessante estudo, J. Mánek, “Fishers ot Men”, NovT 2 (1958): 138-41, mostra que há inimizade entre o mar e Deus (Ap 21.1). “Porque o mar é lugar de revolta contra Deus, ele nâo pode participar do mundo novo, no futuro. Ele passará juntamente com outros poderes demoníacos, como está demonstrado na visão do novo céu e da nova terra, em Ap. XXI.l”, p. 139. Os pescadores de homens, portanto, os resgatarão de um ambiente hostil a Deus.

9. Veja W. F. Albright e C. S. Mann, Matthew (New York: Doubleday, 1971), p. cxliv.

A REDE

O escritor da Epístola aos Hebreus resume sucintamente: “E, assim, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9.27,28).

12

O Credor Incompassivo

Mateus 18.21-35

71 “Então Pedro, aproximando- se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? 22Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Por isso o reino dos céus é semelhante a um rei, que resolveu ajustar contas com os seus servos. 2^E passando a fazê-lo, trouxeram- lhe um que lhe devia dez mil talen- tos. Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os fi­ lhos e tudo quanto possuía, e que a dívida fosse paga. 26Então o ser­ vo, prostrando-se reverente, ro­ gou: Sê paciente comigo e tudo te pagarei. 27E o senhor daquele ser­ vo, compadecendo-se, mandou-o

AS PARÁBOLAS DE JESUS

embora, e perdoou-lhe a dívida. 28Saindo, porém, aquele servo, en­ controu um dos seus conservos que lhe devia cem denários; e, agarrando-o, o sufocava, dizendo:

Paga-mc o que me deves. 29Então

o seu conservo, caindo-lhe aos pés,

lhe implorava: Sc paciente comigo

e te pagarei. 30Ele, entretanto, não quis; antes, indo se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida. 31Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristece­

ram-se muito, e foram relatar ao seu senhor tudo que o acontecera. Então o seu senhor, chamando- o, lhe disse: Servo malvado, per­ doei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; 33não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti? 34E, indignando- se, o seu senhor o entregou aos

verdugos, até que lhe pagasse toda

a dívida.35Assim também meu Pai

celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.”

A História

Jesu s, alguma vez, negou-se a atender qualquer um que tenha vindo

a ele em arrependimento e fé? Claro que não! Nunca, não importa que

pecado tivesse cometido. Essa é a nossa resposta. Sabemos isso porque “a Bíblia nos diz”. Mas, quantas vezes nos esquecemos do nosso próximo? Uma coisa é Jesus perdoar alguém que tenha cometido um crime odioso; outra, nós perdoarmos o nosso próximo que cai, constantemente, no mesmo peca­

do.

Pedro, conhecedor da Lei e dos Profetas, bem como da tradição judaica, sabia que devia perdoar seu semelhante. Sabia qual era o seu dever. Mas, qual o limite? Há limite, afinal? Pedro pensava que devia perdoar até sete vezes. Ele achava que sete vezes seria suficiente, e que Jesus, provavel­ mente, diria algo como: “Sim, Pedro, é bastante.” A misericórdia sem limite

O CREDOR INCOMPASSIVO

não encoraja uma vida de pecados? Jesus não concordaria com Pedro: “Há limite para tudo?”

Mas a resposta de Jesus é: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Jesus multiplica os dois números, sete e dez —números que simbolizam a perfeição — e acrescenta um outro sete: Ele quer dizer, não sete vezes, mas setenta vezes — sete vezes; isto é, a perfeição vezes a perfeição e mais a perfeição.1 Ele indica a idéia de infinito. A misericórdia de Deus é tão grande que não pode ser medida; você, Pedro, deve também mostrar misericórdia a seu próximo.

Para explicar a magnitude do amor misericordioso de Deus, que deve se refletir em seu povo, Jesus ensina a parábola do servo incompassivo. Ele conta a história, e o faz muito bem.

Um rei reuniu seus oficiais (= servos), no dia marcado para o acerto de contas.12 Um deles lhe devia a astronômica soma de dez mil talentos. De fato, a expressão “dez mil talentos” traz implícito o significado de algo que não se pode numerar ou contar, algo infinito.3 Além disso, o talento era, naqueles dias, o mais alto valor monetário do sistema financeiro. Comparan­ do, vemos que o total anual de impostos que Herodes, o Grande, recebia de todo o reino era de, aproximadamente, novecentos talentos.4 Está claro que o ministro das finanças devia a seu senhor uma quantia enorme. Não nos é contado o que ele havia feito com o dinheiro; esse fato não tem importância. Ele devia a soma de dez mil talentos, e tinha que pagar. Ele sabia que jamais conseguiria todo aquele dinheiro, no dia marcado para o ajuste de contas.

Guando ficou diante de seu senhor, ouviu o veredito: ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que possuía seriam vendidos para o pagamento da dívida. Era demais para ele. Atirou-se aos pés do soberano, implorando misericór­ dia, e pediu: “Sê paciente comigo e tudo te pagarei.” Ele implorou miseri­ córdia, não o perdão. Prometeu restituição, sabendo que poderia pagar apenas uma pequena parte e não mais. Como resposta, recebeu o que menos

1.

A

frase pode também ser traduzida como “setenta vezes sete”. Veja-se, Gn 4.24.

2.

Quando um monarca oriental convocava seus secretários do tesouro, deixava de lado os oficiais menores. Ele se encontrava com os oficiais do alto escalão do serviço público. Veja-se

K.

H. Rengstorf, TDNTII: 266 que destaca que a palavra servo é a forma lingüística usual

para a relação de sujeição ao rei, nas despóticas monarquias do antigo oriente.”

3.

H. G. Liddell e R. Scott, A Greek English Lexicon (Oxford: Clarendon Press, 1968), p. 1154.

A soma de dez mil talentos chega a vários milhões de dólares.

4. Josephus, Antiquities 17:318-20. Judeia, Iduméia e Samaria pagavam seiscentos talentos de impostos anualmente. Galiléia e Peréia pagavam duzentos talentos; Batanéia e Traconitis, bem como Auranitis pagavam cem talentos.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

esperava — quitação da dívida. Seu senhor teve piedade dele, cancelou o seu débito e deixou-o ir.5 Inacreditável! Que alegria! Quanta bondade!

Este foi apenas o primeiro ato do drama.6 O segundo ato é paralelo ao primeiro: o ministro das finanças se torna senhor e encontra um outro oficial do rei.

Descendo as escadas do palácio real, o servidor público absolvido encontrou um outro servidor que lhe devia cem denários. Realmente, era muito pouco — alguns dias de trabalho e a soma seria conseguida. Mas o servidor público, agarrou-o pelo pescoço e o sufocava, exigindo pagamento imediato: “Paga-me o que me deves.”7 O devedor atirou-se aos pés do ministro das finanças e pediu: “Sê paciente comigo e te pagarei.” Ele não precisava dizer: “Pagarei tudo”, porque o total era pequeno. Estava claro que ele pagaria tudo. Mas o ministro das finanças se recusou, lançou o homem na prisão, esperando que alguém o pusesse em liberdade sob fiança,

e pagasse a dívida.

O terceiro ato apresenta as testemunhas do segundo ato; e é, também,

a segunda e última confrontação do rei com o servidor público.

Nada foi feito às escondidas; era difícil guardar segredos, no palácio. Outros viram o que tinha acontecido e não podiam manter silêncio. Tinham que contar ao rei. O rei, quando ouviu a história, ficou zangado. Chamou o servo e o repreendeu: “Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste, não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?” Com isso, entregou-o aos carcereiros para que o torturassem até que a dívida fosse paga.8

A conclusão é que todo aquele que recebeu perdão deve estar pronto

a

perdoar quem quer que esteja em débito com ele, e deve fazê-lo de todo

o

coração.

5.0 ministro das finanças expôs sua falta de condição para pagar a dívida e pediu um adiamento. Prometia pagar tudo dentro de um ano. Desse, modo, o dinheiro devido renderia juros ao rei. Na realidade, o débito ( = daneion) que o rei perdeu era um empréstimo. Derrett, Law in the New Testament, pp. 39-40.

6. Para um estudo simétrico da parábola, veja-se F. H. Breukelman, “Eine Erklärung des Gleichnisses vom Schaiksknecht”, Parrhesia, Festschrift honoring Karl Barth (Zürich: 1966), pp. 261-87.

7.0 conservo não podia pagar, pois estava indo ao rei para quitar seu imposto anual. Prendendo

seu companheiro, o ministro das finanças ofendeu o rei, privando-o de receber o que lhe era devido, naquele dia. Consulte-se Derrett, Law in the New Testament, pp. 41-42. 8. “A tortura era empregada regularmente, no Oriente, contra um governador desleal, ou contra qualquer um que atrasasse os impostos, a fim de descobrir onde escondia o dinheiro, ou para extorquir a soma de seus parentes e amigos.” Jeremias, Parables, 212.

Á Lição

O CREDOR INCOMPASSIVO

Esta história movimentada, contada em pormenores expressivos, acentua o contraste entre o amor infinito e a misericórdia de Deus e o comportamento mesquinho do homem, que tenta justificá-lo com base na lei. Jesus usa essa parábola para dizer a Pedro algo a respeito da grandeza do amor misericordioso de Deus para com o homem pecador. O pecado do homem é tão grande que Deus tem que perdoá-lo infinitamente mais que a conta de setenta vezes sete. A misericórdia de Deus não pode ser medida. Podemos calculá-la apenas vaga e aproximadamente, ao contar a história do servidor público que devia a seu senhor uma soma que beirava a milhões.

Embora a palavrajustiça não seja encontrada na parábola, os conceitos expressos são os de misericórdia e justiça. São conceitos bíblicos porque ocorrem repetidamente no Velho Testamento, revelados pelos salmistas e

profetas.9

Cantarei a bondade e a justiça; a ti, SENHOR, cantarei (SI 101.1).

O povo judeu sabia muito bem que tinha que praticar a misericórdia

e a compaixão. Deus lhes dissera expressamente: “Se emprestares dinheiro

ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor que impõe juros. Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha restituirás antes do pôr-do-sol; porque é com ela que se cobre, é a veste do

seu corpo; em que se deitaria? Será, pois, que, quando alguém clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Ex 22.25-27).1011A justiça se manifestava de diversas maneiras. Por exemplo, as exigências do Ano do Jubileu eram impostas; durante aquele ano, os que haviam alienado suas propriedades entravam de novo na posse delas e os escravos adquiririam sua liberdade.11 Resumindo, o judeu dos dias de Jesus sabia que misericórdia e justiça não podem ser tratadas separadamente. Estão interligadas.

É por esse motivo que Jesus conta a parábola do credor incompassivo.

Ele ensina que a prática da misericórdia não se coloca apenas ocasionalmen­ te ao lado da justiça. Jesus ensina a aplicação de ambas, da justiça e da misericórdia. Muitas vezes, entendemos justiça como uma norma que deve ser aplicada rigorosamente, a misericórdia como um abandono ocasional

9. SI 103.6,8; Mq 6.8. Consulte-se F. Notscher, “Righteousness (justice)” na Encyclopedia of Biblical Theology (London: 1970), 2: 782.

10. SB, I: 800-1.

11. O sistema do Ano do Jubileu, do Velho Testamento não funcionava muito bem. Não por

causa da lei de Deus, mas pelo egoísmo e avareza do homem. Os profetas do Velho Testamento pregavam a justiça baseados, constantemente, na lei. Veja-se A. H. Leitch,

“Righteousness”, em ZPEB, 5:108.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

dessa norma. Exercemos essa opção como um “direito”, e, freqüentemente, somos elogiados ao mostrar indulgência.12 Reconhecemos que a justiça contém um tanto de misericórdia, mas, no geral, sentimos que esta não deve ser mostrada a toda hora.

No tempo do Velho Testamento, entretanto, Deus instruiu seu povo a considerar misericórdia c justiça como normas iguais. Normas essas que devem ser, ambas, eficientes e funcionais, pois refletem a maneira como Deus se relaciona com o seu povo. Com o tempo, a ênfase se alterou. Escritos do período entre os Testamentos proclamam que, no dia do juízo, a justiça prevalecerá e a misericórdia terá fim. “Então o Altíssimo será visto no trono do julgamento, e haverá um fim para toda piedade e paciência. Apenas o julgamento permanecerá” (2 Esdras 7.33, 34 NEB).

Aplicação

Em nossa sociedade temos, às vezes, enfatizado a misericórdia, em detrimento da justiça. A preocupação exageradamente escrupulosa para com os “direitos” do criminoso tem alcançado extensão tal que os direitos do ofendido acabam por ser completamente ignorados. As Escrituras não ensinam que a misericórdia anula a justiça; nem ensinam que a justiça elimina a misericórdia. As duas normas são igualmente válidas.

Como Jesus mostrou a Pedro que ele devia perdoar o seu próximo, vezes sem fim? Ele contou a história de um homem cujo débito era esmaga- doramente grande e que implorou piedade quando ajustiça foi aplicada. Seu senhor cancelou a dívida e mostrou infinita misericórdia. O homem foi posto em liberdade e pôde conservar sua mulher, filhos e tudo quanto possuía.13 Estava isento de sua dívida.

Jesus não contou a história de um homem que, várias vezes, dia após dia, vinha diante de seu senhor para implorar perdão pelos pecados que

repetidamente cometia. Em vez disso, para realçar o nosso débito para com Deus, ele ensina a história de um homem que tinha uma enorme dívida com

o seu senhor. “Se observares, SENHOR, iniqüidades, quem, SENHOR,

subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (SI 130.3,4).

A desesperança do homem se revela quando ele está diante de Deus.14 Seu

12. Linnemann, Parables, pp. 111-13; Hunter, Parables, p. 69.

13. “A lei judaica apenas permitia a venda de um israelita em caso de roubo, se o ladrão não

pudesse devolver o que tinha roubado; a venda da esposa era terminantemente proibida sob a jurisdição dos judeus; conseqüentemente, o rei e seus ‘servos’ representam os gentios." Jeremias, Parables, p. 211. Ver, também, SB, I: 798. Mas a parábola não se refere ao povo judeu, e, portanto, a lei judaica não se aplica. Veja-se Derrett, Law in the New Testament, p. 38.

14. R. S. Wallace, Many Things in Parables (New York: Harper and Brothers, 1955), p. 171.

O CREDOR INCOMPASSIVO

pecado é esmagador porque ele transgrediu a lei de Deus. Merece a morte. Mas ele sabe que Deus é um Deus de misericórdia. Quando Davi tinha desobedecido a Deus, levantando o censo de Israel e Judá, ao fazer cumprir

a justiça, Deus deu a ele três escolhas: três anos de fome, três meses de

perseguição, ou três dias de peste. Davi respondeu: “Caiamos nas mãos do ”

(2 Sm 24.14; 1 Cr

21.13). Deus revelou a Davi o seu pecado, dcu-lhc o veredito e mostrou misericórdia.

No segundo ato da história, Jesus mostra que o homem perdoado deve refletir a misericórdia e a compaixão de Deus. Se Jesus não tivesse descrito

o servidor público, de joelhos, implorando misericórdia, e tivesse contado apenas a segunda metade da história, com o homem forçando seu compa­ nheiro a pagar-lhe a dívida, poderíamos dizer que prevaleceu a justiça mesmo que rigorosa.15 Mas o homem tinha sido perdoado de uma dívida enorme, e agora encontrava um companheiro que, devendo-lhe uma ninha­ ria, pedia misericórdia. Ele perdoaria?

Corrie ten Boom, conhecida oradora e autora, esteve prisioneira,

durante a II Grande Guerra, em um campo de concentração alemão, sofren­

do muito nas mãos de um dos guardas alemães. Anos mais tarde, um dia,

testificou sua alegria no Senhor, numa reunião na Alemanha do após guerra.

SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias

Depois do encontro, enquanto algumas pessoas conversavam com ela, aque­ le mesmo guarda alemão aproximou-se de Corrie e lhe pediu que o perdoas­ se. Num clarão de reconhecimento, ela se lembrou da dor e da angústia sofridas na prisão, por causa daquele guarda. Agora, ele ali estava, à sua frente, pedindo-lhe misericórdia. E aquele que não merecia, recebeu o perdão. Triunfou a misericórdia!

O servidor público retratado na parábola não perdoaria. Aplicaria o princípio da justiça sem misericórdia. Em vez de deixar triunfar a misericór­ dia, escolheu a vitória da justiça. Esse foi seu erro. Tiago escreve que “o juízo

é

sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia” (2.13).

O

servo se recusou a refletir a compaixão que seu mestre lhe mostrara.

Porque não mostrou piedade por seu companheiro, mas exigiu justiça, teve

que enfrentar, uma vez mais, seu senhor, o rei. Exigindo justiça se afastou

de seu mestre e de seu companheiro.16

No último ato desse drama, o servo incompassivo reencontra, face a face, o seu irado senhor. O que o servo fizera a seu devedor, o senhor faz agora a ele: a justiça é administrada sem misericórdia. O servo lançou a si próprio na miséria, para sempre.

15. Wallace, Many Things, p. 174; Linnemann, Parables, p. 111.

16. D. O. Via, Jr., The Parables (Philadelphia: Fortress Press, 1967), p. 142.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

Deus não pode relevar que alguém se recuse a mostrar misericórdia, pois isto contraria sua natureza, sua Palavra e seu testemunho. Deus perdoa aceitando o pecador como se este não tivera pecado jamais. Deus perdoa a dívida do pecador e recomenda que não peque mais (SI 103.12 e Jr 31.34). Deus espera que o pecador perdoado faça o mesmo. Ele se torna o repre­ sentante de Deus quando mostra a característica divina da graça misericor­ diosa.

A conclusão da parábola é expressa em palavras que nos são familiares. Quando Jesus ensinou o Pai Nosso, continuou, dizendo: “Porque se perdoar­ des aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens (as suas ofensas), tão pouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14,15).17

17. Veja-se, também, Marcos 11.25 e Colossenses 3.13.

13

Os Trabalhadores da

Vinha

Mateus 20.1-16

1“Porque o reino dos céus é se­ melhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha. E, tendo ajustado com os trabalhado­ res a um denário por dia, mandou- os para a vinha. 3Saindo pela terceira hora viu, na praça, outros que estavam desocupados, e dis­ se-lhes: Ide vós também para a vi­ nha, e vos darei o que for justo. Eles foram. 5Tendo saído outra vez perto da hora sexta e da nona, procedeu da mesma forma; e, saindo por volta da hora undéci­ ma, encontrou outros que estavam desocupados, e perguntou-lhes:

Por que estivestes aqui desocupa­ dos o dia todo? Responderam- lhe: P orque ninguém nos contratou. Então lhes disse ele: Ide

AS PARÁBOLAS DEJESUS

O

também vós para a vinha. Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salá­ rio, começando pelos últimos, indo até aos primeiros. 9Vindo os da hora undécima, recebeu cada um deles um dcnário. 10Ao chega­ rem os primeiros, pensaram que receberiam mais; porém, também estes receberam um denário cada um. 11 Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa, dizendo: Estes últimos tra­ balharam apenas uma hora; contu­ do, os igualastes a nós que suportamos a fadiga e o calor do dia. 13Mas o proprietário, respon­ dendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não combi­ naste comigo um denário? 14Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último, tanto quanto a ti. 15Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom? 16Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão úl­ timos (porque muitos são chama­ dos, mas poucos escolhidos).”

C onhecida pelo título de “Os Trabalhadores da Vinha”1, esta história é uma das parábolas encontradas em Mateus, a respeito do reino. Entretan­ to, esta parábola não termina com a mensagem: “Vai, e procede tu de igual modo”, no reino do céu. Seu enfoque não é a relação de trabalho e economia com o estabelecimento de um pagamento justo. Antes, as palavras e os atos

1. Jeremias, em Parables, p. 136, dá mais ênfase ao empregador que aos trabalhadores e, conseqüentemente, fala da parábola do Bom Empregador. Veja-se, também, Hunter, Parables, p. 70. Mánek, Frucht, p. 55, chama a parábola de “Pagamento Igual”.

OS TRABALHADORES DA VINHA

do empregador, teologicamente falando, apontam para Deus, que dá aos homens, livremente, suas dádivas. Na verdade, ecoa na história o verso de ”

um dos Salmos de Davi: “Oh! provai, e vede que o SENHOR é bom

34.8).

(SI

O Trabalho e os Trabalhadores

Embora a parábola não cite a época específica do ano em que os trabalhadores são mais necessários na vinha, podemos presumir que seja em setembro,2 quando se dá a colheita da uva. Durante o mês de setembro, o período entre o levantar e o pôr-do-sol, em Israel, vai, aproximadamente, das 6 horas da manhã até às 6 horas da tarde. Descontando os períodos de descanso para as refeições e as orações, um trabalhador judeu, nos dias de Jesus, considerava normal umajornada de dez horas de trabalho.3Em Israel, a temperatura do meio do dia é ainda mais alta em setembro, de modo que os trabalhadores no campo ou nas vinhas experimentavam literalmente “o calor do dia”.

O proprietário de uma vinha de tamanho regular resolveu colher suas uvas, em um determinado dia. Todos os seus servos, que trabalhavam para ele, regularmente, durante todo o ano, saíram para a vinha às seis horas da manhã, enquanto o dono foi até à praça da cidade próxima, ao romper da aurora. Ele precisava encontrar alguns trabalhadores desempregados que estivessem dispostos a trabalhar por dia, pela soma razoável de um denário.4 Bem cedo, entre cinco e seis horas da manhã, alguns homens dispostos a trabalhar já permaneciam pela praça à espera de algum empregador que viesse oferecer-lhes trabalho. O proprietário da vinha falou com os homens, mencionou o pagamento diário de um denário —com o qual todos concor­ daram — e levou-os para a jornada de dez horas de trabalho. Os trabalha­ dores, estando desempregados, dependiam do empregado que, por acaso, precisasse deles por um curto período de tempo. E claro que precisavam muito mais do empregador do que este precisava deles.

Nos dias de Jesus, os trabalhadores se consideravam privilegiados ao conseguir um salário. Providenciando trabalho, o empregador demonstrava

2. A. C. Schultz, em “Vine, Vineyard”, ZPEB, 5: 882, afirma que, embora as uvas comecem a amadurecer em Julho, a colheita acontece em setembro. Consulte-se Dalman, Arbeít und Sitte, IV:336. Derrett, “Workers in the Vineyard: A parable of Jesus”, Journal of Jewish Studies 25 (1974): 72, publicano, também, em Studies in the NewTestament (Leiden: Brill, 1977), 1:56.

3. F. Gryglewicz, “The Gospel of the Overworked Workers”, CBQ 19 (1957): 192. Veja-se SB,

1:830.

4. Um denário era um pagamento justo por um dia de trabalho e suficiente para sustentai um trabalhador e sua família. Veja-se Mánek, Frucht, p. 56.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

sua bondade. Era um ato de graça da parte do empregador.5 Passar horas ociosas na praça significava para o trabalhador que ele e sua família teriam que contar com a caridade dos outros. O trabalhador não tinha recursos próprios, e as dádivas dos ricos nem sempre aconteciam. Conseqüentemen- te, um dia todo de trabalho era uma bênção para o trabalhador e sua família.

Enquanto os servos e os novos contratados estão ocupados trabalhan­ do na vinha, o proprietário volta à praça para ver se consegue encontrar mais alguns trabalhadores. São entre oito e nove horas, e muitos estão ainda à toa, na praça. O empregador pergunta-lhes se trabalhariam o resto do dia em sua vinha. Ele lhes promete um salário justo, embora não especifique a quantia. Os trabalhadores, conhecendo a reputação do dono da vinha, confiam nele plenamente. Sabem que não ficarão desapontados ao fim do dia.

À medida que o trabalho progride, o proprietário e seu capataz

calculam o número de horas de trabalho necessárias ainda para terminar a tarefa antes que a noite caia. Fica evidente a necessidade de mais trabalha­ dores extras. O dono da vinha sabe exatamente quando certas uvas devem

ser colhidas. Se forem deixadas na videira por mais um ou dois dias acumu­ larão açúcar demais. O valor de mercado das uvas de vindima superior depende da quantidade correta de açúcar. Se o dia da colheita cai numa sexta-feira, o fazendeiro faz tudo o que pode para conseguir trabalhadores adicionais e completar a tarefa antes do sábado.6

Idas à praça próxima se repetem a intervalos regulares, ao meio-dia e às três da tarde, com sucesso variado. Ao entardecer, parece que o projeto não estará completo até ao cair da noite, a menos que mais trabalhadores sejam contratados. O proprietário volta à praça às cinco horas e encontra alguns homens por ali. Pergunta por que estão na praça, àquela hora do dia. Eles respondem que ninguém veio contratá-los. O empregador diz: “Ide também vós para a vinha.” Não faz nenhuma menção ao pagamento.

O dono da vinha sabe que é permitido aos trabalhadores consumir

quanta uva desejarem. Ele espera perder, com isso, aproximadamente três por cento da colheita. Contratando trabalhadores ao final da tarde, porém,

não corre o risco de perder tanta uva. Ele espera que apliquem sua energia no trabalho da colheita. “Ide também vós para a vinha.”

5. A diferença de condições de trabalho de antigamente e de hoje é surpreendente. Veja-se Oesterley, Parables, p. 107. 6. Os relógios não eram usados; o dia era dividido em horas a partir do nascer do sol, muito embora o dia judeu comece ao pôr-do-sol. Veja-se Jeremias, Parables, p. 136, ns 21. Derrett, “Workers in the Vineyard”, p. 56.

As Horas e os Pagamentos

OS TRABALHADORES DA VINHA

Na parábola toda, o empregador é a figura dominante. Ele visita a praça ao romper da aurora, contrata os trabalhadores, observa a necessidade de trabalhadores extras, retorna, ainda, repetidas vezes à praça, para con­ tratar mais homens. E ele que instrui seu capataz para pagar os trabalhado­ res, e ele mesmo se dirige àqueles que murmuram contra ele. O proprietário mantém o controle da situação do começo ao fim. De fato, ele é aquele a quem se compara o reino dos céus, na frase introdutória.7

Várias questões surgem a respeito da administração da vinha. Por exemplo: por que o proprietário volta à praça por, pelo menos, quatro vezes a fim de contratar novos trabalhadores? O esperado seria que ele fizesse uma estimativa cuidadosa de quantos trabalhadores seriam necessários para cumprir a tarefa, antes que viesse a noite. Mas, não devemos aplicar a lógica ocidental a uma história que provém da cultura oriental. A lei da procura e da oferta foi, sem dúvida, observada. Além disso, trabalhadores contratados mais tarde, no dia, chegavam à vinha descansados e com energia para gastar. O empregador obtinha um bom retorno dos trabalhadores que trabalhavam energicamente durante meio dia ou menos.

Os trabalhadores podiam ser contratados por hora e esperavam ser pagos imediatamente após o término de sua tarefa.8Aqueles que permane­ ceram na praça durante todo o dia podiam ter voltado para casa logo de manhã, quando ninguém os havia contratado. Em vez disso, esperavam que alguém viesse e os contrastasse, mesmo que para apenas uma parte do dia. Esses trabalhadores não eram vadios que passavam o tempo em conversas vazias. Tinham família para sustentar, e por isso esperavam ansiosos que alguém os contratasse. Até às cinco horas da tarde, esperavam ainda, desejando que alguém precisasse de seus serviços por apenas uma hora, ou com a esperança de combinar alguma tarefa para o dia seguinte. A seu modo, mostravam confiança, dedicação e necessidade.

7. A frase introdutória, entretanto, é apenas um ponto de partida. Ridderbos, Corning of the Kingdom, p. 141. O dono da vinha é a figura central da parábola e sua palavra e seus atos ilustram o significado do reino. 8. A regra dos rabinos era que um homem empregado por hora, para uma tarefa, devia receber seu salário todos os dias. Veja-se Baba Mezia III a e Nezikin I, em Babylonian Talmud, (Boston: Bennet, n.d.), p. 633. Veja-se, também, SB, 1:832. Pagando antes os trabalhadores contratados por último, e dando a eles um salário igual, o proprietário evitou possíveis pechinchas, que lhe tomariam tempo considerável. Veja-se Derrett, “Workers in the Vi- neyard”, p. 63.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

Os trabalhadores recebiam seu pagamento no final do dia. Os empre­ gadores observavam as normas bíblicas de não reter o pagamento do traba­ lhador diarista durante a noite (Lv 19.13) e não tirar vantagem de um contratado por ser ele pobre e necessitado. “No seu dia lhe darás o seu salário, antes do pôr-do-sol; porquanto é pobre e disso depende a sua vida; para que não clame contra (i ao SENHOR, e haja em ti pecado” (Dt 24.15). O proprietário da vinha cicntc, dessas injunções, dá instruções a seu capataz para que pague aos trabalhadores o seu salário. Ele é retratado como um homem justo e de confiança. Apenas aos trabalhadores contratados às seis horas da manhã ele havia prometido um denário pela tarefa do dia. Aos trabalhadores empregados às nove horas ele prometera o que fosse justo. Com os que foram requisitados mais tarde, no dia, nada foi combinado a respeito do pagamento. Eles foram para a vinha confiando plenamente no proprietário, e certos de que ele lhes pagaria ao anoitecer.

O fazendeiro é um homem de palavra. Quando instrui seu capataz para

pagar aos trabalhadores, recomenda que pague primeiramente os que foram contratados por último, e sucessivamente até chegar aos primeiros. Que surpresa quando os que foram contratados às cincó horas receberam um denário!9 Eles estão contentes, alegres e cheios de gratidão. Sabem que o dono da vinha é não apenas digno de confiança e honesto, mas, também, um homem generoso. Todos os trabalhadores contratados no decorrer do dia recebem o mesmo pagamento e testificam a bondade e a generosidade do empregador.

Aqueles trabalhadores contratados ao amanhecer, entretanto, que haviam suportado o calor do dia, esperam receber mais que um denário cada um. Eles, também, desejam experimentar a generosidade do empregador. Mas seu desejo não se cumpre. Recebem um denário, como haviam combi­ nado antes de começar o trabalho. Acham o acontecido injusto; tornam claro seu descontentamento e seu desapontamento, murmurando contra o fazen­ deiro. Não se dirigem a ele com bons modos. Zangados, fazem uma série de queixas: Trabalhamos pesado durante todo o dia, suportamos o calor e o suor, e recebemos um denário; outros vieram às cinco da tarde, trabalharam uma hora e receberam, também, um denário.

O empregador não se mostra ofendido. Dirige-se a um dos trabalha­

dores, evidentemente o que falava pelo grupo, e o chama de “amigo”. A

9. Durante o reinado do rei Agripa II, por volta de 60 A.D., os claustros do lado oriental do templo de Jerusalém foram construídos com a ajuda de cerca de 18.000 trabalhadores. O tesoureiro do templo e seus cooperadores decidiram pagar a cada operário o salário de um dia todo, mesmo que trabalhasse apenas durante uma hora. Veja-se Josephus, Antiquities 20:219-20; Derrett, “Workers in the Vineyard”, p. 63.

OS TRABALHADORES DA VINI IA

conotação é de reprovação, mas o tom é amigável.1011Ao responder ao queixoso, o fazendeiro se mostra senhor da situação. “Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário?” O trabalhador insatisfeito pode recorrer à justiça, mas não terá êxito, pois as evidências são contra ele. Ele concordou em trabalhar o dia todo por um denário, que lhe foi pago. Sua acusação de injustiça não passa de um disfarce para a inveja e a avareza. O empregador não discute, não se explica e nem se justifica. Simplesmente faz a pergunta que o outro tem que responder afirmativamente: “Não combinaste comigo um denário?” Ao fazer a pergunta, já tem incluída a resposta. “Não me é lícito fazer o que quero do que é meu?”

O ponto de discussão não é a fraude ou a decepção. Ao contrário, ninguém é tratado com injustiça. A maior parte dos trabalhadores experi­ mentou a generosidade do fazendeiro. Se há alguém que sacrificou a parte econômica pela benevolência, este é o proprietário da vinha. Teria sido melhor para ele se tivesse pago aos trabalhadores a quantia exata mereci­ da.11Ele é acusado por sua generosidade. “Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?”, ele pergunta. Com essa última pergunta, o empregador põe à mostra a falsidade dos empregados desapontados. Ele demonstrara bon­ dade e gentileza enquanto eles mostraram inveja a avareza. Eles permane­ cem cegos à bondade do proprietário até que a máscara que escondia seu descontentamento é removida pela questão: “Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?”

Assim é o reino dos céus, diz Jesus. Porque Deus é tão bom, triunfa o princípio da graça. No mundo, o conceito é o de que aquele que trabalha mais, recebe mais.12 Isso é justo. Mas, no reino de Deus, os princípios do mérito e da capacidade são postos de lado para que a graça prevaleça.

Graça

Não há na parábola a intenção de ensinar economia ou negócios. Ela não existe para ser usada como exemplo de relações humanas, na área do

10. A palavra hetaire aparece três vezes no NovoTestamento: 1) na parábola dos trabalhadores

na vinha (Mt 20.13); 2) na parábola das bodas, quando o rei se dirige ao convidado que não se apresenta vestido para as bodas (Mt 22.12); 3) no relato da prisão de Jesus no Getsêmani, quando Jesus diz: “Amigo, para que vieste?” (Mt 26.50). De acordo com K. H. Rengstorf, TDNT 11:701, o termo “sempre denota uma relação de obrigação mútua entre aquele que fala e o que ouve, a qual foi desprezada e escarnecida pelo ouvinte”.

11. C. L. Mitton, Expounding the Parables, VII. The Workers in the Vineyard (Mateus 20.1-6), Expt 77 (1966): 308.

12. Os cidadãos do reino dos céus devem conhecer plenamente os princípios operantes no reino. Veja-se Wallace, Parables, p. 125.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

trabalho e da administração. A lição que a parábola transmite é a de que a graça vale mais que a justiça imparcial e as práticas lucrativas de negócio. O empregador da parábola foi à praça, várias vezes, durante o dia, e viu, atrás de cada trabalhador, uma família necessitando de sustento. Ele sabia que uma fração de denário não seria suficiente para as necessidades diárias de uma família. No fim do dia, pagou aos trabalhadores que contratara no decorrer do dia, não em relação às horas trabalhadas, mas de acordo com a necessidade de seus dependentes. Ele era uma pessoa muito generosa.

Quando Jesus ensinou a parábola, estava diante de pessoas treinadas na doutrina judaica do mérito. Seus contemporâneos acreditavam que o homem deve acumular a seu crédito numerosas boas obras, que possam ser convertidas em recompensas, para assim poder reclamá-las diante de Deus. Essa era a doutrina das obras, no tempo de Jesus.13O povo conhecia a graça de Deus exaltada em salmos e orações. Não obstante, dava ênfase ao meritório valor das obras.

Ao ensinar a parábola, Jesus mostrou que Deus não trata os homens de acordo com o princípio do mérito, da justiça ou da economia. Deus não está interessado em lucros. Deus não trata o homem na base do “toma lá dá cá”, ou “uma boa ação merece recompensa”. A graça de Deus não pode, simplesmente, ser dividida em quantidades proporcionais ao mérito acumu­ lado pelo homem. Havia em circulação, na época, uma moeda chamada pondion, que valia a duodécima parte de um denário.14 Na graça de Deus, no entanto, não circulam porcentagens, porque “todos nós temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça” (Jo 1.16).

Aplicação

Deus é tão bom; Deus é tão bom; Deus é tão bom; Tão bom ele é para mim.

Esta simples canção, cantada em muitas línguas, através do mundo, expressa vividamente o sentido básico da parábola. No reino dos céus, a bondade de Deus prevalece e se revela àqueles que, somente pela graça, entraram no reino. O fato do fazendeiro pagar um denário àqueles a quem dissera que receberiam o que fosse justo e também àqueles a quem nada fora prometido, foi um ato de pura bondade. Todos os trabalhadores receberam o mesmo pagamento, que era suficiente para o sustento de suas famílias. Aqueles trabalhadores, que tinham combinado trabalhar pela soma de um

13. Oesterley, Parables, p. 104. 14. T. W. Manson, The Sayings of Jesus (London: SCM Press, 1950), p. 220.

OS TRABALHADORES DA VINHA

denário ao dia, tinham que reconhecer que o fazendeiro era um homem justo, que honrava seus compromissos. Justiça e bondade, exemplificadas na parábola, são características fundamentais no reino de Deus.

O contexto da parábola diz respeito à pergunta de Pedro e à resposta de Jesus. Pedro perguntou o que ele e os discípulos seus companheiros receberiam por seguirem a Jesus: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos:

que será, pois, de nós?” Jesus respondeu que seus seguidores receberiam incontáveis bênçãos espirituais:

“Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãs, ou pai, ou mãe (ou mulher), ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna. Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros (Mt 19.27-30).15

Jesus ilustra o significado da última sentença — “muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros” — através da parábola dos trabalha­ dores na vinha. Ele conclui a parábola com as mesmas palavras, embora em ordem inversa: “Os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos.”

Dizendo isso, Jesus não tem a intenção de mostrar a Pedro e aos outros discípulos que a posição do primeiro e do último no reino será invertida. A parábola usa, antes, a expressão para indicar que, no reino dos céus, a igualdade é a regra. A recompensa, igual para todos, mesmo que o trabalho possa variar, transcende a tarefa realizada pelos discípulos, e conseqüente- mente por qualquer um que se disponha a seguir a Jesus. O dom de Deus é a graça plena.16 Sua graça é suficiente para todos.17

15. Os paralelos dos Evangelhos de Mateus e Marcos são idênticos exceto no fato de que em

Mateus a parábola dos trabalhadores na vinha é acrescentada como uma ilustração da expressão: “Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros” (Mt 19.30; 20.16; Mc 10.31). Em Lucas 13.30, a expressão também ocorre, embora em contexto

inteiramente diferente.

16. A. H. McNeile, The Gospel According to St. Matthew (London: McMillan and Co., 1915), p. 285.

17. As versões bíblicas atribuem Mateus 20.16 a Jesus. O texto não é parte da observação feita pelo dono da vinha, mas é uma conclusão repetida por Jesus como sequência de Mateus

19.30.0 NEB, entretanto, não apresenta o versículo como citação, e por isso se conclui que

ele é o fecho dado por Mateus à parábola. Jeremias, em Parables, p. 36, chega a sugerir que “deixemos de lado o versículo 16”. Por outro lado, Morison, em St. Matthew, p. 356, e Derrett, em “Workers in the Vineyard”, p. 51, sustentam que as palavras de Mateus 20.16 são a aplicação da parábola feita por Jesus mesmo. Falta clareza ao argumento de que Jesus não proferiu as palavras do versículo 16. Ele não é convincente.

AS PARÁBOLAS DE JESUS

Os discípulos eram os ouvintes de Jesus. Não podemos afirmar que havia outras pessoas presentes. Os discípulos, desde crianças, tinham apren­ dido a doutrina do mérito. Era necessário deixarem de lado esse ensinamen­ to para que pudessem apreciar inteiramente a bondade de Deus e para que pudessem entender que seu próprio lugar no reino era um dom da graça. Mais que isso: no decorrer do tempo, receberiam, na igreja, com agrado, os gentios. Pedro, por exemplo, seria enviado à casa de Cornélio, o centurião romano, para pregar o evangelho, balizar os que criam, e para louvar a Deus por ter concedido, também aos gentios, “o arrependimento para vida” (At 11.18). Os gentios receberiam a mesma dádiva que Deus havia dado aos judeus que acreditaram em Jesus. Paulo chama isto de mistério, e conclui que “os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-partici- pantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef 3.6).

Quem, então, são os murmuradores? Embora a parábola não deva ser interpretada alegoricamente,1819a questão referente aos murmuradores é válida. Eles podem ser comparados ao irmão mais velho da parábola do filho pródigo. Juntos, refletem a atitude de alguns fariseus que, por causa de seu zelo na observação da lei de Deus, contavam ter um lugar privilegiado no reino de Deus. Os fariseus esperavam que Deus os recompensasse por suas obras e se recusasse a abençoar os pecadores indignos. Jesus mostrou-lhes (presumindo-se que estivessem ali) por intermédio da parábola, que Deus é um Deus de justiça que honra sua Palavra, mas que oferece, também, suas misericórdias aos que não as merecem, mas que, apesar disso, são vasos de

19

sua graça.

A parábola ensina que quando o homem chega diante de Deus, ele não recebe uma porção cuidadosamente calculada da graça divina. Deus, antes, lhe concede livremente as dádivas do perdão, da reconciliação, da paz, da alegria, da felicidade e da segurança. “Segundo a sua riqueza em glória, há ”

(Fp 4.19) todas as suas necessidades. O cristão

deve se alegrar com os que se convertem e passam a fazer parte da igreja de

Jesus Cristo. Não deve haver ceticismo. Mas, a história ensina que esse ceticismo tem existido repetidamente. Quando George Whitefield e John e Charles Wesley levaram o evangelho às classes menos favorecidas da socie­ dade do século dezoito, foram criticados e provocaram a ira dos cristãos

18. Os pais da igreja primitiva se entregavam a interpretações fantasiosas. Irineu, por exemplo, interpretou os cinco períodos de trabalho, durante os quais os trabalhadores foram contra­ tados, como cinco períodos da história, começando com Adão. O período das nove horas ao meio-dia seria aquele de Noé a Abraão; o das doze às três incluía o período de Abraão a Moisés; o das três às cinco significava o tempo entre Moisés e Cristo, e a última hora aponta para o período entre a ascensão e a volta do Senhor.

19. Mitton, “Expounding the Parables”, p. 310.

de suprir em Cristo Jesus

OS TRABALHADORES DA VINHA

convencionais.20 William Booth, que teve compaixão dos moradores dos bairros pobres de Londres e que deu a eles “sopa, sabão e salvação”, foi condenado pelos presunçosos membros da igreja de sua época.

Esta parábola nunca será aceita por aqueles que querem impor à salvação regras e estipulações feitas pelos homens. No reino dos céus, como as Escrituras ensinam, não existe a burocracia humana. A graça de Deus é plena e livre para todo aquele que venha a ele pela fé. E todos os que são vasos de sua graça proclamam com o salmista:

Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, e sua misericórdia dura para sempre (S1107.1).

20. Hunter, Parables, p. 72.

14

Os Dois Filhos

Mateus 21.28-32

“E que vos parece? Um ho­ mem tinha dois filhos. Chegando- se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha. 29Ele res­ pondeu: Sim, senhor; porém não foi. 30Dirigindo-se ao segundo, disse-lhe a mesma coisa. Mas este respondeu: não quero; depois, ar­ rependido, foi. 31Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram: o se­ gundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. 32Porque João veio a vós outros no caminho dajustiça, e não acreditastes nele; ao passo que pu­ blicanos e meretrizes creram. Vós, porém, mesmo vendo isto não vos arrependestes, afinal, para acredi­ tardes nele.”

Som ente no Evangelho de Mateus encontramos a parábola a respeito dos dois filhos. Ela é marcada pela simplicidade e por ser resumida nas conhecidas palavras de Tiago: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (1.22). Ela ensina que a pessoa que se recusa a fazer o que lhe é pedido, mas que, mais tarde, muda de idéia e faz a tarefa, é melhor que aquela que promete cuidar de suas obrigações, mas nunca as realiza.

AS PARÁBOLAS DEJESUS

O Evangelho de Mateus coloca a parábola imediatamente após o incidente ocorrido quando os principais sacerdotes e os anciãos do povo questionaram a autoridade de Jesus. Jesus, por sua vez, lhes propôs outra questão, perguntando-lhes a respeito do batismo de João, se era dos céus ou do homem. E a resposta deles foi: “Não sabemos”. A resposta de Jesus à indagação a respeito de sua autoridade foi: “Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas.”

Enquanto ensinava no templo, e com os principais sacerdotes e os anciãos a escutá-lo, Jesus continuou o curso de seu pensamento com uma história sobre um pai e seus dois filhos. O pai possuía uma vinha, que era a fonte de recursos da família. Por isso, o trabalho na vinha era comunitário e realizado por todos os membros da família. O pai dirigiu-se ao primeiro filho e disse-lhe para ir trabalhar na vinha, naquele dia em particular.1 É irrele­ vante se era o começo da primavera quando as vinhas eram podadas, ou verão quando as ervas daninhas eram arrancadas, ou outono quando as uvas eram colhidas. É o pedido feito e o atendimento dado a ele que são essenciais. “Filho, vai hoje trabalhar na vinha.” O filho, sem se preocupar em se mostrar cortês para com o pai, respondeu apenas: “Não quero.”12 Ele errou em não se dirigir respeitosamente ao pai, chamando-o de senhor, e nem procurou uma desculpa para sua má vontade.

O pai teve que dirigir-se ao segundo filho, com o mesmo pedido, a fim de ter o trabalho feito, na vinha.3 Esse filho, na polida maneira oriental, dirigiu-se ao pai corretamente, e disse: “Sim, senhor.” Entretanto, não foi.

1. J. D. M. Derrett, “The Parable of the Two Sons”, Studia Theologica 25 (1971); 109-16, também publicada em Studies in the New Testament, 1:76-84, segue Jülicher, Gleichnisre- den, 2:367. Derrett destaca que o primeiro filho era o mais velho e deveria ser o sucessor do pai. “Um filho mais velho pode muito bem ter mais interesse na forma que na substância.” (Studies, p. 81).

2. A evidência textual, em relação à sua leitura, varia. Tecnicamente, há três variações, (a) De acordo com o Códice Sinaítico e outros manuscritos, o primeiro filho disse não, mas se arrependeu; o segundo disse sim, mas não foi. Essa é a leitura em traduções tais como AV, RSV e NIV. (b) De acordo com o Códice do Vaticano e outros manuscritos, o primeiro filho diz sim, mas não vai; o segundo diz não, mas se arrepende. Quem faz a vontade do pai? A resposta varia: “o último dos dois”, “o último”, “o segundo”. Traduções, incluindo NASB, NAB e NEB, seguem o Códice do Vaticano, (c) O assim chamado texto Ocidental segue a ordem do Códice Sinaítico, com exceção da resposta à questão: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”, que é “o último”. Isto significa que o filho que disse sim, mas não foi, cumpriu o pedido do pai. Absurdo. A escolha fica, portanto, entre (a) ou (b). Veja J. R. Michaels, “The Parable of the Regretful Son”, HTR 61 (1968): 15- 26. A ordem não afeta o sentido da parábola. Consulte-se Metzger, Textual Commentary, pp. 55-56.

3. Metzger, em Textual Commentaiy, p. 56, indica que a comissão do Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas optou pela ordem seguida pelo Códice Sinaítico. Para substanciar essa escolha Metzger escreve: “Poderíamos argumentar que se o primeiro filho tivesse obedecido, não havia razão para chamar o segundo.”

OS DOIS FILHOS

Prometeu ao pai um dia todo de trabalho. Era uma promessa que não pretendia cumprir.

Interpretação

Jesus colocou para os que o ouviam a inevitável questão: “Oual dos dois fez a vontade do pai?” Os principais sacerdotes e os anciãos do povo não podiam mais se esconder atrás de uma ignorância fingida. Foram forçados a responder, mesmo compreendendo que a parábola fala da hie­ rarquia eclesiástica de Israel. Eles responderam: o filho que primeiro se recusou, mas que, mais tarde, mudando de idéia, fez a vontade do pai.

Jesus esclarece o que a história sobre o pai e seus dois filhos significa, realmente, no contexto de sua época. O primeiro filho, diz Jesus, é a personificação dos coletores de impostos e das meretrizes que viviam uma vida de pecado e que se recusavam a fazer a vontade de Deus. Mas, quando

veio João Batista “

pregando batismo de arrependimento para remissão

de pecados” (Mc 1.4), os marginalizados pela moral e pela sociedade se arrependeram, creram, e entraram no reino de Deus. Assim fizeram a

vontade do Pai.

O segundo filho retrata a atitude dos líderes religiosos dos dias de

Jesus. São aqueles que fazem tudo para serem vistos pelos homens: “Prati­ cam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar

nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens” (Mt 23.5-7). São aqueles que não praticam o que pregam. João Batista veio a eles, mostrando-lhes o

caminho da justiça. Ouviram suas palavras, mas não creram nelas. Simples­

mente o ignoraram. Viram, no entanto, que os publicanos aceitaram a mensagem de João e foram batizados. Não obstante, rejeitaram o propósito de Deus para si mesmos, recusando-se a serem batizados por João (Lc 7.30).

A aplicação da parábola é dinâmica. Os coletores de impostos e as

meretrizes tinham-se recusado a obedecer a vontade de Deus. Mas, quando ouviram a mensagem de arrependimento, voltaram-se para Deus, em obe­ diência. Eram como o filho que disse: “Não