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EMÍLIO BOSSI

(1870 - 1920)

E MÍLIO B OSSI (1870 - 1920) Estátua em Bruzella - Suíça 4

Estátua em Bruzella - Suíça

4

TTEEMMAA

“De Jesus Cristo, pessoa real, ser humano, a história não nos conservou documento algum, prova alguma, demonstração alguma”.

Assim começa um dos ensaios mais polêmicos e surpreendentes dos anos 1900. O advogado Emí- lio Bossi desmonta minuciosamente, ponto a pon- to, com extrema habilidade e rigor, qualquer vaga ideia que a nossa cultura possa ter a respeito de um personagem chamado Jesus Cristo. Seria ele filho de Deus? Este não é um argu- mento de pesquisa histórica e, consequentemente, nem deste ensaio.

pessoa Viveu física? ele realmente, ainda que somente como Bossi declara um categórico NNÃÃOO demostrando taxativamente, com provas e mais provas, que não há nenhum traço de evidência ou sequer sombra de suspeita da possível existência deste homem chamado Jesus. Este ensaio mordaz de 1900 (Raramente reim- presso) é uma viagem através dos mecanismos meméticos da evolução cultural; mostra como as religiões mais primitivas e os rituais mais antigos evoluíram para o que hoje se chama "verdade re- velada".

5

SSUUMMÁÁRRIIOO

 

TEMA

5

PERFIL DO AUTOR

7

INTRODUÇÃO

9

PPRRIIMMEEIIRRAA PPAARRTTEE –– CCRRIISSTTOO NNAA HHIISSTTÓÓRRIIAA

1144

CAPÍTULO I

O

SILÊNCIO DA HISTÓRIA ACERCA DA EXISTÊNCIA DE CRISTO

15

CAPÍTULO II AS SUPOSTAS PROVAS HISTÓRICAS DA EXISTÊNCIA DE CRISTO CAPÍTULO III

21

PROVAS CAPÍTULO HISTÓRICAS IV CONTRA A EXISTÊNCIA DE CRISTO

27

JESUS CRISTO NÃO É PESSOA HISTÓRICA

33

SSEEGGUUNNDDAA PPAARRTTEE –– CCRRIISSTTOO NNAA NNÉÉVVOOAA

4422

CAPÍTULO I

A

BÍBLIA NÃO TEM VALOR DE PROVA

43

CAPÍTULO II

JESUS CRISTO É PESSOA ABSOLUTAMENTE SOBRENATURAL CAPÍTULO III

49

A

PRÓPRIA BÍBLIA FALA DE CRISTO APENAS SIMBOLICAMENTE

57

CAPÍTULO IV CRISTO É UM MITO ADAPTADO DAS ALEGORIAS DO ANTIGO TESTAMENTO

64

CAPÍTULO V CONTRADIÇÕES ESSENCIAIS DA BÍBLIA A CERCA DE CRISTO

77

CAPÍTULO VI ABSURDOS ESSENCIAIS DA BIBLIA ACERCA DE CRISTO

84

CAPÍTULO VII

.

A

MORAL SECTÁRIA DOS EVANGELHOS NÃO É OBRA DE UM

HOMEM, MAS SIM , DA TEOLOGIA

92

TTEERRCCEEIIRRAA PPAARRTTEE –– CCRRIISSTTOO NNAA MMIITTOOLLOOGGIIAA

110055

CAPÍTULO I CRISTO ANTES DE CRISTO CAPÍTULO II

106

A

MITOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO NÃO É ORIGINAL

115

CAPÍTULO III

ORIGEM E SIGNIFICADO DOS DEUSES REDENTORES CAPÍTULO IV CRISTO É UM MITO SOLAR

130

124

QQUUAARRTTAA PPAARRTTEE –– FFOORRMMAAÇÇÃÃOO IIMMPPEESSSSOOAALL DDOO CCRRIISSTTIIAANNIISSMMOO

CAPÍTULO I

A MORAL CRISTÃ SEM CRISTO

CAPÍTULO II

A CAPÍTULO DOUTRINA III CRISTÃ SEM CRISTO

O CULTO CRISTÃO SEM CRISTO

CAPÍTULO IV FORMAÇÃO PSICOLÓGICA DO CRISTIANISMO CAPÍTULO V

COMO ACONTECEU O TRIUNFO DO CRISTIANISMO

CCOONNCCLLUUSSÃÃOO

113399

140

152

160

167

178

191

6

PPEERRFFIILL DDOO AAUUTTOORR

Emilio Bossi nasceu em Bru- zella (cidade do Cantão suíço de Ticino) em 31 de dezembro de 1870, filho de um arquiteto, Francisco, e de Emilia Contesta- bile. Iniciou seus estudos no Liceu de Lugano e bacharelou-se em direito na cidade de Genebra. Empreendeu carreira no jorna- lismo e ganhou fama como um grande polemista com o pseudô- nimo de Milesbo. Foi adversário inflexível do clericalismo e defensor acérrimo da italianidade de Ticino. Travou

torroni" duras batalhas (desonestos) contra da os vida "mena- pú- blica. Colaborou com o jornal "O Dever" desde 1891 e foi seu di- retor em 1920 e editor de 1896 a 1902. De 1915 a 1920 dirigiu A Gazeta Ticinense. Foi diretor do semanário Nova Vida em 1893 e fundou o jornal Ideia Moderna em 1895. Em 1906 fundou e edi- tou A Ação, órgão do Extrema

Radical. Foi deputado do Grande Con- selho (1905-1910, 1914-1920), do Conselho Nacional (1914- 1920) e do Conselho dos Esta- dos (1920). Como tal, dirigiu o

Departamento do Interior (1910- 14). De 1905 a 1910, ocupou o cargo de juiz de instrução substi- tuto. Liberal radical, foi com Ro- meo Manzoni, o flagelo impla- cável da política "oportunista" e das "transações" de Rinaldo Si- men. Em 1897 foi um dos fundado- res da União Social Radical Tici- nense, uma associação que, além das reformas sociais defendia, propugnava a escola neutra e a separação entre Igreja e Estado. Com Manzoni foi o líder ca-

fundada rismático em da 1902 Extrema após uma Radical, vio-

lenta polêmica com a corrente de Simen.

Em seguida à sua entrada no

Conselho de Estado, Bossi foi forçado a se adequar à lógica das negociações. Em consequência,

a Radical Extrema desaparece como grupo autônomo. Morreu 27 de novembro de 1920, em Lugano.

Jesus Cristo Nunca Existiu foi publicado simultaneamente em 1904 em Milão (Milan Editorial

da Companhia) e em Bellinzona,

Suíça (El. elm. Colombi e C.).

Também em Milão foi reedita-

7

do em 1905 e 1906. Revê a luz em 1951 em Bolo- nha, pela Lida, com um apêndice de Andre Lorulot. Finalmente, em 1976, se encontra publicado em Ragusa pela La Fiaccola. Não se conhece outras edi- ções.

Bibliografia

1899 - Sobre a Separação Entre

o Estado e a Igreja.

1900 - Jesus Cristo Nunca Exis-

tiu

1909 - A Clerezia e a Liberdade

Suíça 1916

- Vinte Meses de História

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IINNTTRROODDUUÇÇÃÃOO

Uma nova primavera agita a vida humana: é a primavera da idade positiva, que se inaugura sob um duplo aspecto. De um lado, o aspecto moral, que jaz sob uma forte camada de gelo e trevas invernais. As novas ideias, fecundadas pelo saber po- sitivo, encontram obstáculo fatal ao seu desenvolvimento no con- junto das falsos conceitos forma- dos pela educação religiosa, que sobrevive na forma inercial, como muito bem diz Haeckel, e está em contraste com tudo que à ciência vem descobrindo, con- traste que se manifesta nas MMeenn--

ttiirraass CCoonnvveenncciioonnaaiiss ddaa NNoossssaa CCiivviilliizzaaççããoo descritas por Max Nordau, e no SSééccuulloo HHiippóóccrriittaa,

descrito por Mantegazza.

E de outro lado, no campo da

ciência positiva, que demoliu e desfez para sempre a bagagem da superstição, do dogma e do apriorismo escolástico, para fe- cundar com a potente energia do progresso material as veias do corpo social, o pensamento liber- tado, a autonomia da razão hu- mana, a ciência positiva armada

do método experimental.

O que é verdade aqui é erro

ali; é bem aqui, o que é mal ali; o

que é relativo e progressivo aqui, continua absoluto, necessário e imóvel ali; o que constitui aqui a base do progresso e do conheci- mento, ali está excluído, porque

é

aqui alenta os ânimos para o pro- gresso e a liberdade, ali está es-

magado, porque é a autoridade que domina. Já é tempo de restabelecer a unidade do mundo moral e do mundo material, do pensamento

e da ação, do ideal e da realida-

de, porque a vida é una, e as leis que governam o mundo físico e o mundo moral são idênticas. Bas- ta, para isso, aplicar à ciência moral, ainda na infância, os mé- todos que fizeram triunfar a ciên- cia positiva, isto é, a liberdade na

investigação, o experimentalis- mo como instrumento e o racio- nalismo como sistema.

É preciso desconsiderar todas as crenças tradicionais e abando- ná-las ao seu destino, conservan- do somente as que resistam à crí- tica; aquelas que, apenas com a experiência e o exame, traba- lhem na construção de um novo

edifício moral, com atividade e

voz cada vez mais intensa e fe- bril, e que deve coroar o soberbo,

o esplêndido e imortal edifício

a fé que reina soberana; o que

9

das descobertas positivas de útil aplicação que a ciência vem le- vantando, para que, da união desses dois monumentos, nasça um novo templo: o Templo da Humanidade. Animados por essas ideias, di-

sima recionamos obra ao esta exame nossa dos modestís- dois mil anos de crença em Jesus Cristo, partindo do ponto em que já che- garam a crítica histórica, a exe- gese bíblica, a ciência mitológica e a teoria da evolução aplicada à investigação das srcens naturais do Cristianismo. Deste exame, empreendido unicamente por amor à Verdade e sem qualquer inclinação teológica ou antiteoló-

existiu. gica, conclui-se que Cristo nunca A crítica histórica já tinha no- tado o silêncio da História sobre Cristo, e assinalava como suspei- tas as passagens dos poucos his- toriadores profanos daquele tem- po sobre a sua existência históri- ca, enquanto que a exegese bíbli- ca já tinha reduzido o Antigo Testamento a uma obra apócrifa composta pela casta dos sacerdo- tes tro tanto para edificação vinha fazendo dos a fieis. respeito Ou- do Novo Testamento, ratificando muito pouco do que se quer fazer passar por histórico. Por outro lado, a ciência mito-

lógica, ajudada pela filosofia, pela arqueologia e pelas desco- bertas dos viajantes, tinha afir-

mado que as lendas, os mitos, as narrações e os preceitos do Anti-

go e do Novo Testamento não

são mais do que variações feitas

sobre e preceitos as lendas, da mesma mitos, natureza, narrações

anteriores ao Cristianismo, so- bretudo da China, Judeia, Pérsia,

Mesopotâmia e do Egito.

Estas investigações e esta crí- tica, para não citar as primeiras seitas heréticas nem os protestos

da

filosofia pagã, especialmente

de

Celso, que, em parte, abala-

ram a Igreja Triunfante, começa-

ram com a Renascença italiana,

chegaram continuaram ao com seu a Reforma apogeu na e França com os filósofos do sécu- lo XVII e na Alemanha com os críticos e os sábios do século

XIX.

O estudo acerca do Cristianis- mo tinha chegado a este ponto quando a Inglaterra aperfeiçoou

e estabeleceu cientificamente,

com Darwin e Spencer, a Teoria

da Evolução, que, levando em

conta tureza, a do evidência pensamento das leis e da da histó- Na- ria, se apresentava como o gran- de argumento, a lanterna mágica que explica e interpreta o curso das relações humanas e nos faz

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compreender o progressivo de- senvolvimento das instituições e da sociedade. E mesmo quando não tinha ainda sido reduzida a sistema científico, a Teoria da Evolução foi aplicada com muita antecedência por Vico, Leibnitz e

Condorcet, especialmente à historia por Tindall, em geral, ao e, próprio Cristianismo. Tindall, há dois séculos no seu

Cristianismo

Antigo

Como

o

Mundo, tinha precedido já os mais avançados entre os moder- nos, demonstrando que o Cristia- nismo não era produto de nenhu- ma revelação, mas apenas o re- sultado necessário da influência de um conjunto indecifrável de

da fatores essência, diversos extensão na determinação e eficácia do sistema religioso cristão; que este era consequência dos fatos que o precederam e do ambiente em que nasceu, quando a huma- nidade estava ainda subjugada em suas dores, juízos, aspirações e esperanças mais ou menos qui- méricas; que ele, enfim, desapa- receria, quando todas as circuns- tâncias a que devia a existência

fossem

totalmente transforma-

das. Porém, só quando a Teoria da Evolução dominou efetivamente no campo da natureza, é que conseguiu vencer a tradicional e

fetichista veneração ao Sagrado entre os Sagrados, ao Cristianis- mo. Foi então que os espíritos positivos, não podendo mais ad- mitir nada de sobrenatural na ci- ência moral, como tampouco se admitiu nas ciências físicas, se

mente dedicaram a srcem a explicar e o desenvolvi- natural-

mento do Cristianismo. Esta foi a obra primordial de Ernesto Ha- vet. O resultado da crítica históri- ca, bíblica e mitológica, e o da aplicação da teoria da evolução ao Cristianismo, foi reduzir-se ou inutilizar-se a pessoa de Cristo, enquanto, pelos fins do século XVIII, Dupuis e Volney, funda-

e mentados na explicação na teologia solar do comparada mito dos Deuses Redentores, negavam com poderosas razões, revelado- ras de uma grande cultura, a existência humana de Cristo. Essas razões, porém, não fo- ram aceitas pela crítica, não por- que não fossem justas, mas por- que esta não estava ainda sufici- entemente amadurecida. O mes- mo sucede com os mitólogos que

provas, vieram, acumuladas, depois, com da todas identida- as de mitológica de Cristo com Cristna, Buda, Mitra, Horus, etc., ou seja, com os Deuses Redento- res da antiguidade. Esses mitólo-

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gos não ousaram negar em abso- luto a pessoa de um Jesus he- breu, contentando-se uns com ro- deá-lo com um engrandecimento lendário e uma divinização mito- lógica, e outros com ambas. E como nesse exame todos parti-

vista ram de parciais um ou vários e unilaterais, pontos de em vez de se apoiarem e completa- rem reciprocamente, destruíram

a obra comum, criticando-se uns

aos outros nos pontos controver- sos, e acabando por se elimina-

rem mutuamente.

Enquanto que a interpretação evolucionista baste para explicar

a srcem e a formação do Cristi- anismo, com o aditamento das

sua preciosas disposição informações pela mitologia postas à comparada, a presença de Jesus continua como um último obstá- culo à completa explicação do cristianismo segundo o método científico, mesmo que excluindo a sua presença e considerando que a crítica bíblica e histórica tenham reduzido as fontes da crença em Jesus à sua mais ínfi- ma expressão.

os, Posto únicos isto, pontos os últimos obscuros mistéri- que permanecem sem explicação no cristianismo - e não são poucos - são os que derivam da pretendida existência do Cristo.

Como conciliar, dada a sua existência, a missão de conservar o mosaísmo, que ele se atribui - ainda que o mosaísmo fosse apó- crifo, bastava que Jesus acredi- tasse nele para que se arrogasse tal missão - com a missão opos-

ta, lado, de se o destruir, lhe atribui? o que, por outro

Como explicar o fato de Jesus, nascido e criado entre hebreus,

filho de um obscuro artista, igno- rando a literatura grega, segundo atestam mesmo os seus pretendi- dos discípulos, conhecer os li- vros de Platão, conforme o pre- tende Celso, em resposta a igual

pergunta de Orígenes, que, por outro lado, não pensa sequer em

conciliar lênica de o Cristo fato da com ignorância o fato de he-

ele, no quarto Evangelho especi- almente, falar como um discípu- lo de Platão, como se fosse um Fílon? Ernesto Renan, o grande ro- mancista de Cristo porém, infun- damentado, perante a observação de Celso, não responde melhor do que Orígenes: Reconhecemos

no cristianismo - diz ele - uma para obra que excessivamente possa ser trabalho complexa de um só homem. Acreditamos, pelo contrário, que nela tenha cola- borado a humanidade inteira Jesus ignorava o nome de Buda,

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de Zoroastro, de Platão. Não leu nenhum livro grego, nenhum su- tra búdico, e, não obstante, reu- nia em si mais de um elemento, que, sem que ele próprio o sus- peitasse, procedia do budismo, do parsismo e da sabedoria gre-

ga vam - por intervenções canais secretos, que se por realiza- es- sas simpatias existentes entre as diversas partes da humanidade.

Quando homens do valor e da inteligência de Renan se veem obrigados, ante a incompatibili- dade de Jesus com a explicação do Cristianismo, a recorrer aos citados argumentos só cabíveis num faquir hindu, num astrólogo medieval ou num médium do es-

pensa piritismo no ilusionista, amor infinito e quando que Re- se nan põe no seu personagem, é permitido duvidar de que a pes- soa de Cristo seja histórica. Esta dúvida que em nós surge, em virtude da absoluta impossi- bilidade de se explicar satisfato- riamente o Cristianismo e os pró- prios Evangelhos, sem lhes tirar a pessoa de Cristo - desde que não se creia na sua divindade, pois nho à ou fé impossível nada pode parecer - reforça estra- a

suspeita que nos levou a exami- nar de perto a questão da existên- cia histórica do Cristo e a con-

cluir pela sua negativa. Tal é o fruto da presente obra que oferecemos a público sem nenhuma pretensão literária, com o único fim de contribuir para di- vulgar o racionalismo entre o povo em lugar de fazer uma obra

este de grande livro não erudição. vem dizer Além nada disso, de novo. É apenas um trabalho de síntese, de integração e de lógi- ca, no qual organizamos os resul- tados obtidos pela crítica e pela erudição. E, assim, como os resultados de uma ciência ou, de uma deter- minada ordem do investigações completam os resultados obtidos por outra ciência ou por outra or- dem de investigações, aqui tam- bém, do concurso dos diversos elementos da verdade, surge a conclusão lógica de que Cristo nunca existiu. Esta conclusão é, por outro lado, o ponto de partida necessá- rio para os futuros progressos da ciência, neste campo. Seja qual for o juízo emitido sobre o presente trabalho, tenha-

se de sempre um profano em conta que que se é propôs obra

aplicar o bom senso natural à crí-

tica do Cristianismo. Emílio Bossi - Milesbo

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PPrriimmeeiirraa PPaarrttee

CCrriissttoo nnaa HHiissttóórriiaa

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CCAAPPÍÍTTUULLOO II OO SSIILLÊÊNNCCIIOO DDAA HHIISSTTÓÓRRIIAA AACCEERRCCAA DDAA EEXXIISSTTÊÊNNCCIIAA DDEE CCRRIISSTTOO

De Jesus Cristo, pessoa real, ser humano, a história não nos conservou documento algum, prova alguma, demonstração al- guma. Cristo nada escreveu 1 . É certo que Sócrates também nada escreveu, limitando- se ao ensino oral. Mas, entre o Cristo e Sócrates, há três diferenças ca- pitais: a primeira consiste no fato de Sócrates não ensinar nada que não fosse racional, hu- mana, ao passo que Cristo pouco tem de humano, e esse pouco ainda misturado com muita coisa milagrosa; a segunda diferença deduz-se da circunstância de Só- crates ter passado à história só como personagem natural, en- quanto Cristo nasceu e foi co- nhecido apenas como pessoa so- brenatural; a terceira, enfim, ba- seia-se em Sócrates ter por discí- pulos pessoas históricas, cuja

1 A pretensa carta ao rei Abgaro provou- se que foi uma piedosa fraude. Orígenes e Santo Agostinho, para não irmos mais longe, excluem-na, declarando, por um ra modo coisa formal, alguma. que Além Cristo disso, nunca a escreve- própria Igreja em tal ponto concorda, pois não a inclui entre os documentos canônicos, como teria feito, se, porventura, ela ti- vesse alguma aparência de autenticida- de. O mesmo pode dizer-se da carta de Pilatos a Tibério.

existência é notória, como Xeno- fonte, Aristipo, Euclides, Fédon, Ésquilo e o divino Platão, ao passo que, dos discípulos de Cristo nenhum é conhecido, a não ser se dermos crédito a do- cumentos de pura fé, totalmente suspeitos. De sorte que, pelo fato de Só- crates nada escrever, não se pode concluir que ele não existiu, ao passo que é permitido admitir le- gitimamente, pelo menos a título de probabilidade, que Cristo, que teria vivido cinco séculos mais tarde, nada deixou escrito. Cristo não só nada escreveu, como ne- nhuma linha foi escrita a seu res- peito. Sem levar em conta a Bíblia que, além de não dar nenhuma prova sobre a personalidade real do Cristo, ainda demonstra o contrário. Dos muitos autores profanos que foram contemporâ- neos de Cristo, nenhum nos dei- xou o menor vestígio acerca

dele. Os únicos autores leigos que lhe mencionaram o nome – Flá- vio Josefo,Tácito, Suetônio e Plínio – ou foram interpolados e falsificados, como aconteceu aos

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dois primeiros, ou, como os dois restantes, falaram de Cristo ape- nas etimologicamente para de- signarem seus seguidores e a su- perstição que tomou o seu nome. Escreveram muito tempo depois, sem o terem conhecido, sem da-

rem em termos provas tais da sua que existência, só servem e

para comprovar que ele nunca existiu. Ernesto Renan, o mais célebre dos cristólogos, que cometeu o erro de fazer da Vida de Jesus uma biografia quando não passa de uma engenhosa lenda, vê-se obrigado a reconhecer o silêncio da história em volta do seu he- rói. Ele escreve que os países

ram gregos falar e romanos de Cristo. nunca Mesmo ouvi- com os movimentos sediciosos pro- vocados pela sua doutrina e as perseguições de que foram alvo os seus discípulos, ainda assim o seu nome não aparece nos auto- res profanos durante o primeiro século depois da sua morte, se- quer indiretamente. No judaísmo, Jesus não dei- xou impressão duradoura. Fílon,

passant e, ao enumerar as seitas do seu tempo, não cita a dos cristãos. A Mishná, diz ainda Renan, nada fala sobre a nova doutrina; os personagens dos dois Gema- ros, como se qualifica o funda-

vam dor do além Cristianismo, do quarto não ou quinto nos le- século 3 . Um escritor hebreu, Justo de Tiberíades, que narrou a história dos hebreus desde Moisés até fins do ano 50 da era cristã, não cita sequer o nome de Cristo, se- gundo atesta Fócio. Juvenal, que fustigou com a sátira as crenças do seu tempo, fala extensamente dos hebreus, mas não dedica uma única pala- vra aos cristãos como se eles não existissem 4 . Plutarco, nascido 50 anos de- pois de Cristo, historiador emi- nente e consciencioso, que de- certo não poderia ignorar a exis- tência de Cristo e dos seus pro- dígios, nem uma só vez alude, em suas numerosas obras, quer ao chefe da nova fé, quer a seus

acerca que morreu dele. no Josefo, ano 50, nascido nada sabe no ano 37 e que escreveu até fins do primeiro século, narra a sua con- denação em algumas linhas 2 en

tir que a passagem de Josefo foi alterada por mão cristã. Porque, só alterada? Como veremos, foi interpolada. 3 Renan, Vida de Jesus,vol. IV, cap. XX-

VIII

4 Stefanoni, Dicionário Filosófico, a voz de Jesus

2 Que o próprio Renan anota para adver-
2 Que o próprio Renan anota para adver-

16

discípulos. Cesare Cantù, a quem a cren- ça mais cega e indigna de um historiador vedou os olhos, mis- tura fatos históricos com as in- venções mais absurdas do cristi- anismo. Desiludido da sua fé

pelo la-se silêncio dizendo de que Plutarco, Plutarco conso- é sin-

cero na crença das suas divinda- des e que por isso, em nenhuma das obras que escreveu sobre moral se refere aos cristãos 5 .

Sêneca, que por seus escritos cheios de máximas perfeitamen- te cristãs faz duvidar se foi cris- tão ou teve relações com os dis- cípulos de Cristo, no seu livro sobre as crenças, extraviado ou destruído, dado a conhecer por Santo Agostinho, não diz uma única palavra acerca de Cristo, e, falando dos cristãos, aparecidos já em muitos pontos da terra, não os distingue dos hebreus, a quem chama de um povo abomi- nável 6 . Mas sobretudo expressivo e decisivo é o silencio de Fílon acerca de Cristo.

anos, Fílon, quando que contaria apareceu de Cristo, 25 a 30 e

5 C. Cantù, História Universal, Época

VI, Parte II

6 Ernest Havet, O Cristianismo e suas Origens. O Helenismo, tomo II, Ch.

XIV

que morreu alguns anos depois deste, nada sabe ou diz acerca dele. Como escritor distintíssimo que foi, ocupou-se especialmen- te de estudos sobre filosofia e re- ligião, e, por certo, não esquece-

srcem, ria Cristo, se Cristo seu compatriota realmente ti- de vesse aparecido sobre a face da terra e levado a cabo uma tão grande revolução do espírito hu- mano. Uma circunstância de grande relevo torna mais eloquente o si- lêncio de Fílon em torno de Cristo: é que todos os ensina- mentos de Fílon podem passar por cristãos, de tal sorte que Ha- vet não hesitou em chamar a Fí- lon um verdadeiro Padre da Igre- ja.

Por outro lado, Fílon se preo- cupou especialmente em conju- gar o judaísmo com o helenismo tomando do Antigo Testamento as partes mais edificantes, de- pois de distinguir o sentido ale- górico do literal, enxertando na árvore da religião hebraica o misticismo dos neoplatônicos alexandrinos. Deste modo, che- gou a formar uma doutrina pla- tônica do Verbo ou Logos, que tem muita afinidade com a do IV Evangelho, na qual o Logos é precisamente o Cristo. Pois bem:

17

não

revelação? Fílon, que vive no tempo de Cristo, que já é célebre antes do nascimento dele, e que morre ainda alguns anos depois; Fílon, que realiza com o Judaísmo a

é

isto

uma

grande

ção mesma e platonização transformação, idêntica heleniza- à que os Evangelhos promovem, so- bretudo o IV; Fílon, que fala do Logos ou do Verbo do mesmo modo que o IV Evangelho, por- que não cita Cristo uma única vez sequer em suas numerosas obras? Porventura, não prova este fato eloquentíssimo que Cristo nunca foi pessoa histórica e real, mas sim pura invenção ou cria- ção mitológica e metafísica, para o que contribuiu mais do que ninguém o próprio Fílon, que es- creveu, como se fosse um cris- tão, sem saber nada de tal nome, que fala do Verbo sem conhecer o Cristo, e que ensina a mesma doutrina atribuída Cristo? Se Fílon pôde falar do Verbo e escrever como se fosse um cris- tão, antes de Cristo, sem nada saber e nada dizer acerca dele, não indica isto que o Cristianis- mo se elaborou sem Jesus e por obra precisamente e principal- mente do mesmo Fílon, que não diz uma única palavra acerca da

pessoa humana, da existência material e histórica de Cristo? Em suma: se Cristo um dia existiu, como explicar a incom- preensível anomalia de que Fílon não fale dele? Por outro lado, Fílon, o Platão hebreu, alexandrino, contem- porâneo de Cristo fala de todos os acontecimentos e de todos os personagens principais do seu tempo e do seu país, sem esque- cer Pilatos. Conhece e descreve os essênios estabelecidos junto de Jerusalém nas ribeiras do Jor- dão. Foi como delegado a Roma para defender os hebreus no rei- nado de Calígula, o que faz su- por nele um profundo conhece- dor das coisas e nomes da sua terra. Se Cristo tivesse existido, Fílon certamente ver-se-ia obri- gado a, no mínimo, a referir-se a ele. O silêncio de todos os escrito- res contemporâneos acerca de Cristo tem sido, nestes últimos tempos, objeto da mais atenta consideração por parte da verda- de histórica, embora alguns es- critores liberais tenham-no avali- ado de maneira leviana e super- ficial. Salvador explica o fenômeno apoiando-se em débil vestígio deixado em Jerusalém pelo filho

18

de Maria 7 . O próprio Stefanoni não pode explicar o fenômeno sem reduzir o nascimento de Cristo e toda a sua vida a pro- porções demasiadamente mes- quinhas, circunscritas aos limites de uma ocorrência comum 8 . Mas

esta Nós explicação não conhecemos é inadequada. mais do que um único Jesus: o dos Evan- gelhos e dos Atos dos Apóstolos. Este personagem não deixou ne- nhum vestígio em Jerusalém, contra o que pretende Salvador; sua vida não foi mesquinha, em oposição ao que supõe Stefano- ni, ao contrário, a vida de Cristo, segundo a Bíblia, foi de tal for- ma rumorosa e extraordinária

viveu que nenhum algo semelhante. outro Ser Humano Jesus deu causa a alvoroços públicos, a prisão, a um proces- so, a um drama judicial seguido de morte trágica. Realizou prodí- gios maravilhosos, desde a visita dos anjos até as estrelas que marchavam para indicar o lugar do seu nascimento aos soberanos vindos da Ásia expressamente para o visitar; desde a degolação dos inocentes às discussões que

sustentou aos doze anos com os doutores; desde a multiplicação do número e a transformação da natureza dos elementos à cura dos enfermos e à ressurreição dos mortos; desde. a dominação dos elementos às trevas e terre-

morte motos, até que à sua assinalaram própria ressurrei- a sua

ção. Ora, perante um personagem tão extraordinário e aconteci- mentos tais que atrairia a aten- ção das pessoas mais indiferen- tes e excitaria a curiosidade dos cronistas, analistas e historiógra- fos, o silêncio da história é abso- lutamente inexplicável. Inveros- símil e singularíssimo, como

9

silêncio acertadamente constitui, notou por Dide irrespon- . Este dível, uma grande presunção contra a existência histórica e real de Cristo. Outros elementos críticos nos provam que só a ine- xistência de Cristo pode explicar o silêncio da história em volta dele, e que, por sua vez, este si- lêncio demonstra aquela não existência. O mesmo silêncio da História acerca bém a respeito de Jesus dos revela-se apóstolos, tam- so- bre os quais não existem outros documentos senão os eclesiásti-

7 J. Salvador, Jesus Cristo e sua Doutri-

na, tomo I, livro II. 8 Luigi Stefanoni, lugar mencionado

também na Histótia Crítica das Superstições, Vol II , Cap.I. 9 A. Dide, O fim
também na Histótia Crítica das
Superstições, Vol II , Cap.I.
9 A. Dide,
O fim das Religiões,
Paris,
Flamarion, pag. 55.

19

cos, destituídos de todo o valor provativo, pois que nô-los apre- sentam, não como homens natu- rais, mas como personagens so- brenaturais, ou pelo menos, tau- maturgos, o que vem a dar na mesma 10 .

se Os atribuem únicos aos fatos apóstolos, históricos tais que como a viagem de S. Pedro a Roma e as suas disputas com Si- mão Mago, o encontro de S. Pe- dro com Jesus e o famoso Quo vadis, Domine?, morte de S. Pe- dro e outros fatos, são narrados exclusivamente em livros decla-

rados apócrifos pela própria Igreja. Outro tanto pode afirmar- se de José e de Maria, progenito- res de Cristo, e bem assim de seus irmãos e de toda a sua famí- lia. Todas estas circunstâncias au-

cio mentam da história a significação em volta do de silên- Cris- to, circunstâncias que adquirem maior valor quando se vê que Cristo, Maria e os Apóstolos são puras criações místicas.

10 Emilio Ferriére, no seu excelente livro Os apóstolos demonstra a impossibili-

impossibilidade dade de S. Pedro esta ter confirmada estado em Roma, pelo si- lêncio dos mais antigos escritores da Igreja, até á segunda metade do século IV. Porém, o autor comete o equívoco de tomar como fonte histórica os Atos dos Apóstolos, escolhendo as poucas notas que estes nos deixaram, como se fossem notícias verdadeiras. A simples consideração de que nada do que nar- ram os Atos está conforme com qual- quer dos autores profanos deveria bastar para nos pôr em guarda a respeito desta fonte, que não pertence de modo algum

à Bíblia porque, até na compilação dos

livros canônicos da Bíblia, a Igreja teve

o

todos os documentos que falavam de Cristo, Maria ou dos Apóstolos que pu- dessem ser facilmente impugnados pela crítica histórica, evitando, assim, o peri- go de se pô-lo a descoberto desde o seu princípio.

astucioso cuidado de se descartar de

20

CCAAPPÍÍTTUULLOO IIII AASS SSUUPPOOSSTTAASS PPRROOVVAASS HHIISSTTÓÓRRIICCAASS DDAA EEXXIISSTTÊÊNNCCIIAA DDEE CCRRIISSTTOO

Os

únicos

autores

profanos

não o abandonaram nem mesmo depois de morto. Vivo e ressusci- tado, reapareceu no terceiro dia da sua morte como o haviam predito os santos profetas, e rea- lizou muitas outras coisas mila- grosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o seu nome 11 .

Salvador, Renan, Stefanoni e vários outros escritores nada di- zem acerca da possibilidade de terem sido alteradas as palavras de Josefo, o que se compreende em autores que, embora não creiam na divindade de Jesus, abrigam em si a crença nesse Cristo Homem, mais ou menos extraordinário, do qual se srci- nou o Cristianismo. Porém, uma análise criteriosa levará à convicção de que a pas- sagem de Josefo relativa a Jesus foi interpolada. O texto está per- dido no meio de um capítulo, sem conexão alguma com o as- sunto que o precede e o que lhe

sucede, de um castigo intercalado militar nos infligido relatos ao populacho de Jerusalém e dos amores de uma matrona romana

que falaram de Cristo reputados como testemunhas da sua exis- tência foram Tácito, Suetônio e o historiador hebreu Josefo. Vamos, pois, examinar um a um estes testemunhos para ver- mos que, não só não constituem prova da existência de Cristo, como também são novas de- monstrações do contrário. De todos os historiadores cita- dos, o único que poderia ter va- lor de prova pela sua qualidade de historiador hebreu é Josefo,

ainda muitos que anos tenha depois vivido do e período escrito que se considera como sendo o da vida de Cristo. Josefo fala de Cristo apenas

li-

casualmente

nestas

poucas

nhas: Naquele mesmo tempo, nasceu Jesus, homem sábio, se é que pode se chamar de homem pois realizou obras admiráveis, ensinando aqueles que queriam inspirar-se na Verdade. Não só

como foi seguido também por por muitos alguns hebreus, gre- gos. Era o Cristo. E, tendo sido denunciado a Pilatos pelos prin- cipais da nossa nação, este fê-lo crucificar. Os seus partidários

11 Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. III
11 Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro
XVIII, cap. III

21

com um cavalheiro que obtém os seus favores fazendo-se passar por uma personificação do Deus Anúbis.

Além

do

mais,

estes

dois

eventos históricos são relacio- nados entre si. Estão interligados

porque segundo, o historiador, chama-lhe ao de relatar outro o

acidente deplorável, donde se

depreende que esse outro

aci-

dente deplorável só pode estar

relacionado com o primeiro, do motim popular e a consequente repressão. A passagem intercalada entre esses dois acontecimentos não pode ser atribuída a Josefo por- que rompe bruscamente o fio da narração, e o autor revela-se, em toda a sua obra, mestre na arte de colocar cada coisa em seu lu- gar 12 . Além disso, na referida passa- gem, Josefo fala de Cristo como o faria um bom cristão, pois con- sidera-o um ser sobrenatural e relaciona-o com as predições dos profetas. Como pôde Josefo empregar

acreditar semelhante na divindade linguagem, de isto Cristo é,

sem ser cristão e continuando hebreu? É tanta a evidência que até o erudito padre Gillet se vê

obrigado a reconhecer que Jose- fo não pôde falar daquele modo, como o faria um cristão, e que, por conseguinte, deve ser consi- derado apócrifo e intercalado o texto referido 13 Além disso, constitui-se em

prova terpolação direta o e fato definitiva de S. Justino, desta in-

S. Cypriano, Tertuliano e Oríge- nes, em suas numerosas e arden- tes polêmicas contra os hebreus e pagãos, não citarem esta passa- gem de Josefo. Orígenes declara que Josefo não reconhecia Cristo 14 na pes- soa de Jesus, o que não diria se o personagem citado por Josefo fosse conhecido no seu tempo. Em suma: por consenso de to- dos os críticos sensatos e compe- tentes, esta passagem de Josefo foi julgada interpolada por uma piedosa fraude dos cristãos pri- mitivos. Cita-se, ainda, outra passagem de Josefo (Livr. XX, cap. 9), na qual, falando na condenação de Thiago, acrescenta: Irmão de Je-

sus, chamado o Cristo. Aqui Jo-

sefo Cristo se como contradiz de um porque homem fala qual- de quer, demonstrando que não crê

13 Larroque, Exame crítico das doutri- nas da religião cristã . Prim. Part. cap.

12 A. Peyrat, História elementar e críti- ca de Jesus. Conclusão. IV. 14 Contra Celso,
12 A. Peyrat, História elementar e críti-
ca de Jesus. Conclusão.
IV.
14 Contra Celso, livro 1, § 47.

22

na sua divindade, ao passo que noutro lugar mostra acreditar nela. Esta contradição se esclarece ao se considerar interpolada ou desfigurada a passagem anterior- mente relatada.

Mas, na realidade, não há cri- tério fixo para aceitar a primazia de uma ou de outra das duas pas- sagens contraditórias, de forma que, não só uma exclui a outra, como as duas se excluem mutua- mente. Apenas que na última, a interpolação foi feita com maior astúcia do que na primeira, pois nela Josefo fala como hebreu que era, o que se explica por ser anterior à primeira, já que existia no tempo de Orígenes e exigiu maior prudência. A última passagem não é e não pode ser considerada autên- tica pela simples, óbvia e inde- clinável razão de que, se Josefo houvesse tido efetivamente notí- cias de Jesus, chamado o Cristo, não teria deixado de se explanar muito mais sobre a sua vida, tra- tando-se de um homem que to- mara uma parte tão grande, tão notável, tão extraordinária, tão srcinal e culminante na história do seu país. Se alguma dúvida ainda restou sobre a prova defi- nitiva de que a passagem de Jo- sefo acerca de Jesus foi interpo-

lada, nada mais nos resta do que ler Fócio, que declara formal- mente que nenhum hebreu ja- mais falou de Cristo. Vejamos, agora, Tácito. A passagem deste historiador, que pode apresentar-se como

testemunho a favor da existência de Jesus, é a seguinte:

Nero, sem grande alarde, sub- meteu a processo e a penas anormais aqueles que o vulgo chamava cristãos, por causa do ódio que lhes votava por suas feitiçarias. Quem lhes deu o nome foi Cristo, a quem Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério, condenou ao suplício. Apenas reprimida, esta perniciosa su-

perstição

novamente das suas. Não na Ju- deia, de onde provinha todo o mal, mas na própria Roma, para onde afluíam de toda a parte os sectários, cometendo as ações mais audaciosas e vergonhosas. Por testemunho dos que os puni- am e pela opinião pública geral, (os cristãos) eram incendiários e professavam ódio extremo ao gênero humano 15 .

fez

(o

cristianismo)

Nunca se cometeu uma falsifi- cação mais evidente em detri- mento do grande historiador ro- mano, falsificação esta que se

15 Tácito, Anais, livro 15, § 44.
15 Tácito, Anais, livro 15, § 44.

23

estende a todo o texto. Enquanto Tácito afirma que o vulgo chamava assim aos cris- tãos porque eram odiados por suas feitiçarias, o falsificador fá- lo contradizer-se nas linhas que logo se seguem, e nas quais pre-

de tende Cristo. que os cristãos procediam Tal contradição é impossível num escritor da envergadura de Tácito, e resulta da interpolação das palavras que se referem a Cristo, porque a etimologia dada por Tácito ao nome dos cristãos é somente a que corresponde à sua opinião favorável dos cris- tãos, expressamente posta e mantida em todo o trecho em que ele fala dos mesmos 16 .

Outra circunstância, que prova

a interpolação, encontra-se na

passagem do mesmo Tácito, oportunamente revelada por Ga- neval 17 e onde o eminente histo- riador romano (Liv. II, § 85) diz que foram expulsos de Roma os

mavam hebreus e uma os egípcios, única superstição. que for- Neste ponto, é evidente que Tá- cito não faz proceder da Judeia

os cristãos, mas do Egito, destru-

indo assim a pretendida srcem etimológica dos cristãos de Cris- to, srcem essa que o obriga a defender na passagem que vimos

de examinar.

deparamos sempre com o motivo pelo qual Tácito colocou naquela passagem o

que não teria, em tal

caso, relação alguma com o resto do

texto, ao passo que estaria em seu lugar na filípica que dedica, mais à frente, aos cristãos. Pelo contrário, este trecho esta-

ria perfeitamente no seu lugar, mesmo como está porque tem relação com o trecho seguinte, em que Tácito fala dos cristãos, admitindo nós a interpolação do período intermédio em que se faz di- zer a Tácito que o nome de Cristãos vem de Cristo. Mas, deixemos na dúvi- da essa questão etimológica: resultaria daí que Tácito deu testemunho histórico de Cristo? De modo algum. Ainda nesta hipótese, que os cristãos não teria diziam, feito mais especialmente que citar o

nos tribunais, para dar a conhecer a pre- tendida srcem histórica da sua supersti- ção.

per flagitia invisos,

16 Nota da segunda edição. “quos per flagitia invisos vulgus Christianos ap-

pellabat. (que, odiados por seus cri- mes, eram popularmente conhecidos como cristãos). Os nossos anticríticos caíram sobre a tradução desta passagem de Tácito com tanta disposição quanto é certo terem a insânia de crer que, enfra- quecido assim o nosso argumento, fica- va comprometida a seriedade do livro. À falta de melhor juízo, pensaram que, atacando este argumento, feriam o pró- prio queremos calcanhar deixar de na Aquiles. dúvida a Pois questão bem: de saber se Tácito quis dar ao nome dos cristãos a srcem da aversão que inspi- ravam com suas feitiçarias. Queremos admitir que não haja relação alguma eti- mológica, pelo menos aparente, entre o homem e o assunto. Mas, nesse caso,

17 Ganeval, Luiz –

Jesus, perante a

história, nunca existiu. Cap. IV – Gene-

bra. Livraria Veresoff etc

1874

24

De maneira que os que falsifi- caram esta passagem esquece- ram-se de falsificar aquela onde Tácito ignora Cristo, absoluta- mente, e onde afirma, como em seu lugar demonstraremos, que o Cristianismo não procede de

Cristo, braísmo, mas do sim orientalismo da fusão do e he- do

helenismo, realizada no Egito. Mesmo que não se quisesse admitir esta fraude, o testemu- nho de Tácito não provaria de modo algum a existência de Cristo, visto que ele o cita unica- mente para dar a srcem etimo- lógica do nome dos cristãos.

Não se pode admitir que Táci- to tenha escrito acerca de Cristo da forma enganosa com que o fi- zeram escrever, pois se Cristo ti- vesse realmente existido, saben- do-o ou conhecendo-o, o histori- ador teria falado certamente muito mais a respeito dele, nun- ca limitando-se a falar de um ho- mem extraordinário, em poucas palavras, ditas a correr e entre incidentes ocasionais 18 .

18 Alfredo Taglialatela, no Rinnovamen-

to di Roma

de 23 de julho de 1904, n.

30, faz saber que Hochart sustentou a interpolação de Tácito com muito mais veemência do que nós o fizemos. Igno- ramos a crítica de Hochart e lamenta- mos muito. Mas somos gratos ao sr. Ta- glialatela, pela, sua informação, que vem a confirmar que não estamos fora

A passagem

de

Suetônio

é

ainda mais breve e mais contra-

ditória.

Roma – diz ele, falando do

expulsou

os judeus que, instigados por Cresto, promoviam contínuos tu-

multos 19 .

Ponhamos de lado a diferença entre Cresto e Cristo 20 para ana- lisarmos a dificuldade a que dá srcem a pessoa aludida por Su- etônio.

reinado de Cláudio –

Se era Cristo, como acreditar

que tenha sido expulso de Roma onde nunca esteve? E, se esteve em Roma, como podia ele viver ainda no tempo de Cláudio, se Tácito nos diz que foi crucifica-

do no reinado de Tibério, que precedera o de Calígula e este o de Cláudio? Em vista disto, for- çoso é reconhecer que os dois testemunhos, de Tácito e Suetô-

do caminho e que outros, mais compe- tentes do que nós, têm apoiado a inter- polação de Tácito. 19 Suetônio, Vida de Cláudio, cap. 25. 20 Esta questão etimológica não é tão desprezível assim, como Larroque e ou- tros consideraram. Ganeval pretende cristãos que o nome nos séculos de Cristo,empregado I e II em Roma, pelos e nos livros sybillinos no Egito seja uma derivação do nome de Cresto, aplicado a Serápis, Bom e Agathos. Ainda, se- gundo ele, Cristo é uma pura e simples transformação do Deus morto e ressus- citado do Egito.

25

nio, a respeito de Cristo, se ex- cluem e se eliminam mutuamen- te.

O testemunho

de

Plínio,

o

Moço, então é quase estranho ao debate. Numa carta enviada a Trajano, fala em Cristo 21 , não

de como demonstrar pessoa de existência quem se preten- histó- ria, mas como divindade simbo- lizadora da adoração dos cris- tãos. Pela mesma razão, teria aludido a Brahma, falando dos brahmanes, para indicar o objeto do seu culto, sem com isto que- rer demonstrar a existência de Brahma. Em suma: Plínio falou de Cristo só etimologicamente, sem emitir opinião alguma sobre

a sua existência. Portanto, fora os testemunhos

de Suetônio e de Plínio por im-

pertinentes à questão, e demons- trada a falsificação do que se atribui a Josefo e a Tácito, o que

fica das pretendidas provas his- tóricas da existência de Cristo? Nada, absolutamente: apenas

a prova

sido necessárias as falsificações

para provar a existência de Cris-

to se esta fosse real?

do

contrário.

Teriam

As falsificações só foram fei-

tas para ocultar verdade. E como as falsificações deviam ter sido praticadas para fazer crer na

existência de Cristo, temos de deduzir, logicamente, que ele nunca existiu, pois não seria ne- cessário falsificar a história para

nos provarem a sua existência.

21 Todos comigo invocaram os Deuses e ofereceram incenso e vinho à tua ima- gem, maldizendo o Cristo. (Plinio Epist.

97, liv. X.

26

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A história não só ignora Cris- to, não só prova que os autores profanos que dele falaram foram neste ponto falsificados, mas até, existem outras provas históricas que demonstram a sua não exis- tência. Chamamos de históricas a es- tas provas porque são fatos verí- dicos, certos e positivos, porque são testemunhos concretos e vá- lidos de escritores e de determi- nadas escolas, ao passo que as provas que apresentaremos a se- guir, ainda que valiosas, não têm o mesmo valor histórico por se- rem deduções exegéticas da bí- blia e da mitologia comparada, extraídas de documentos própri- os da fé cristã e da história das crenças humanas. Ganeval reuniu grande núme-

ro dessas provas na sua obra

Je-

sus, Perante a História, Nunca Existiu,

excelente pela sua convicção e séria pelo seu propósito, obra que merecia melhor sorte apesar

das da falta suas de repetições sistematização provenientes e da

unilateralidade da tese que vê em Cristo uma transformação pura e

simples de Serápis, tese que po- derá ser justa mas, por falta de documentação suficiente, pode

não ser correta mas somente pro- vável, muito provável, mesmo porque, Serápis é certamente o deus que tem mais analogias com Cristo. No nosso entender, Ganeval não desenvolveu adequadamente

a sua tese. Foi infeliz ao lhe in-

troduzir elementos análogos aos da mitologia dos outros povos orientais. Deveria ter percebido que, apesar de certas expressões

simbólicas referentes à cópula, como Serápis, Cristo não é tanto

a encarnação alegórica do Phal-

lus como o é do Sol. Entretanto, façamos-lhe a de- vida justiça, reconhecendo que descobriu a verdade da lenda de Cristo e dos relatos da história, quando é certo que, antes dele, só Dupuis e Volney abordaram a tese da mitologia comparada. Entretanto, as provas se acumu- lam, e os recentes trabalhos con- vergem todos para a demonstra- ção definitiva desta verdade.

existência As provas de históricas Cristo provém contra dos a hebreus, dos pagãos e até de al-

guns cristãos primitivos e padres da Igreja. Parecerá estranho, mas

é assim, como veremos.

27

O hebreu alexandrino Fílon, no seu livro sobre os terapeutas, relata que estes viviam como verdadeiros cristãos, que abando- naram bens e família para se de- dicarem ao ascetismo, que ti- nham livros religiosos e seguiam

duas vezes no tempo de Augusto e uma terceira no tempo de Tibé- rio, no ano 19 da nossa era. Estas expulsões desmentem implicitamente a existência de Jesus, pois tiveram lugar antes de se falar do nome cristão, referin-

as Eusébio, máximas na de sua seus História, pais. (liv. II, cap. X e XVII) confirma isso afirmando que os livros de que fala Fílon eram os Evangelhos e os escritos dos Apóstolos, e de- clara que os terapeutas citados por Fílon são os cristãos solitári- os. 22

O que se conclui destes docu-

mentos é que o cristianismo é muito anterior a Fílon. Portanto,

se os Evangelhos e os escritos dos Apóstolos já existiam antes de Fílon, e se Fílon nasceu 25 ou 30 anos antes de Cristo, vê-se logo que a existência dos cristãos é anterior a Cristo.

E isto se confirma pelo fato

dos judeus e egípcios, que for- mavam uma única superstição – os cristãos, no dizer de Tácito – terem sido expulsos de Roma

ção do-se judaico evidentemente egípcia - qquuee à supersti- ssee ccoonn-- ffuunnddee ccoomm oo ccrriissttiiaanniissmmoo - nas- cido da fusão do judaísmo com o orientalismo egípcio, com vestí- gios muito próximos do neopla- tonismo alexandrino 23 .

Outro

padre

da

Igreja,

S.

Epifânio, confirma as palavras

de Fílon e de Eusébio. Segundo ele, os terapeutas do Egito cita- dos por Fílon, que habitavam

junto do lago Mareótides, são os

que tinham o seu Evan-

gelho e os seus Apóstolos. Fílon falou dos cristãos, como sendo muito anteriores a si pró- prio, atribuindo-lhes um Evange-

lho e vários Apóstolos. Isto exclui absolutamente a existência de Cristo, pois este te- ria nascido quando Fílon já con-

cristãos

24

23 Não é exagero dizer que não existia

ainda a palavra cristão quando já existia

a superstição judaico cristã. De fato, o cristianismo existiu algum tempo antes do seu nome. Este só foi elaborado e cri- ado muito depois, pelo processo de dife- renciação. 24 S. Epifânio, Cont. er., p.120. In Gane- val.

22 começo Alfred do Maury, cristianismo no estudo contido da história em seu do

livro Crenças e Lendas da Antiguidade,

chama isso de uma má interpretação de Eusébio. Mas não explica as razões. Enquanto que ele próprio, algumas linhas antes, cita Filon entre aqueles que têm servido de guia para Eusebio.

28

tava 25 a 30 anos, e Fílon não poderia esquecê-lo já que se ocu- pava dos cristãos. Além disso, sabe-se que os Evangelhos atuais não aparece- ram senão muito tempo depois de Cristo, de modo que não pode

ser dos a livros eles que (os Fílon Evangelhos, alude falando se-

gundo Eusébio) e dos terapeutas (os cristãos, segundo Epifânio). O testemunho de Fílon contra a existência de Cristo é tanto mais formidável quanto o mesmo Fí- lon contribuiu intensamente para a formação do cristianismo 25 . Fócio opina que é dele que procede a linguagem histórica da Escritura. Ainda mais: Fílon es- crevera um tratado, um verdadei- ro Evangelho acerca do Deus Bom (Serápis) – livro que foi destruído – e cujas alegorias de- viam ser tão semelhantes às dos

25 Nota da segunda edição. Parece haver

aqui uma contradição, visto termos afir- mado que o Cristianismo é anterior a Fí- lon, e dizermos mais adiante que foi ele o seu principal fundador. Se entender- mos que a multiplicidade de crenças que formam uma doutrina, uma fé, um siste- ma complexo de dogmas, máximas e ri-

Evangelhos que logo se atribuí- ram a Cristo. Não faltou também um falsifi- cador cristão que ousou dizer a Orígenes que, no seu Evangelho sobre o Deus Bom, Fílon falara de Jesus sem escrever o seu

nome 26 . E se este Evangelho de Fílon acerca do Deus Serápis, Evange- lho um século anterior ao dos cristãos, era essencialmente se- melhante aos que depois vieram a ser os Evangelhos cristãos, fi- camos na dúvida sobre se ele quis fazer crer, falando de Será- pis, o Deus morto e ressuscitado do Egito, que se referira a Cristo (ainda que o falsificador diga:

sem o nomeá-lo).

reconhecer

que Fílon foi um dos fundadores dessa crença que depois se con- verteu em cristianismo, que es- creveu um Evangelho mais tarde atribuído a Jesus, que Fílon não

Logo,

temos

de

26 Eis a passagem de Orígenes interpola- da: "No livr o III de sua obra Sobre o Deus Bom, Filon escreve um episódio alegórico sobre Jesus, ainda que não citando seu nome” ( Contra Celso). Ga-

gerações, tos é produto de vários da colaboração séculos e de de varias muitos sábios, até que encontre o seu precípuo expositor, este tem direito a ser conside- rado o seu fundador. Assim, pode dizer- se que Marx é o fundador do socialismo, embora. este já existisse séculos antes, em vias de formação.

foi neval interpolado demonstra na que obra o de nome Orígenes. de Jesus Se Fílon tivesse escrito sobre Jesus, citaria a ele e não a Ágatos, que era o deus Se- rápis. A falsificação é tanto mais eviden- te quanto é certo que Fílon e Orígenes nem conheceram nem nunca falaram de Jesus.

29

conheceu e nem citou em seus trabalhos. Posto isto, o silêncio de Fílon acerca de Jesus não só prova que este nunca existiu, como autoriza e legitima a hipótese – que no desenvolver deste trabalho será

seus Evangelhos e os seus Após- tolos; que estes Terapeutas eram os cristãos primitivos, e segundo Eusébio e Epifânio, existiram muito antes de Cristo e, enfim, que o mesmo Cristo nunca exis- tiu.

de corroborada que Fílon por foi outras o principal provas fun- dador do cristianismo. Os seus copiadores não fize- ram mais do que introduzir o nome de Jesus em lugar do de Serápis, substituindo o Deus Bom dos egípcios por outro Deus morto e ressuscitado, que é Je- sus 28 . Em qualquer dos casos, fica evidente que Fílon escreveu um Evangelho sobre Serápis, o qual logo pôde adaptar-se a Jesus, donde, segundo Fócio, se deriva- ram os Evangelhos posteriores. É igualmente certo que Fílon des- creveu os Terapeutas como mui- to anteriores a Cristo, tendo já os

27 Veja-se, Parte IV, Cap. II.

28 Um eloquente testemunho citado por Ganeval para denunciar a srcem egíp- cia dos Evangelhos está nas alegorias do jumento e dos porcos. Especialmente deve go, que se se notar faz a guardador parábola do de filho porcos, pródi- e o

milagre dos demônios arrojados dos possessos para os porcos. Tanto um como o outro destes episódios estão to- talmente deslocados na Judeia, mas não no Egito, onde o porco era a imagem da dissolução e símbolo do demônio.

27

Pondo de lado

as inúmeras

29

provas que Fílon nos fornece vejamos as que nos dão cristãos autênticos e de valor perante a Igreja – S. Clemente Alexandri- no e Orígenes – cujos testemu- nhos são tanto mais concluden- tes, quanto é certo terem contri- buído poderosamente para a di- fusão do cristianismo. S. Clemente Alexandrino e Orígenes, este último falecido no ano 254, negam a encarnação, e, por conseguinte, a existência de Cristo. Assim se depreende da análise feita pelo patriarca Fócio que, fa-

,

lando do livro das Disputas de S.

29 Dide, na obra já citada, põe em desta- que um diálogo com Trifon, de Justino mártir, no qual o hebreu Trifon nega a existência e a aparição de Cristo sobre a

terra, dizendo: se Jesus nasceu, em al- gum ponto da terra, esse ponto é com-

pletamente desconhecido.

Faz notar que

Celso, cuja obra foi destruída, não nega a existência de Cristo. Celso, porém, que viveu no século II não cuidou de tal as- sunto, visto que a sua tese era outra, e que esta se limitou a refutar o cristianis- mo, valendo-se para isso dos próprios li- vros da nova religião.

30

Clemente, afirma que nele o au- tor declarara que Logos, o Verbo, nunca encarnara (p. 286, in Ga- neval, c. II e III) e, analisando os quatro livros dos Princípios, de Orígenes, mostra-nos que este falava de Cristo segundo a lenda

e

do Salvador, opinava que o mes-

mo Espírito se encontrava em Moisés, nos profetas e nos após- tolos, o que leva Fócio a declarar escandalizado que neste livro Orígenes escreveu muitas blasfê- mias 30 .

A nós só importa constatar que

a forma pela qual se exprimem

S. Clemente e Orígenes, falando do Verbo, do Cresto e do Salva-

tência dor, exclui de Cristo, absolutamente pois nenhum a exis- deles assim falaria se Cristo ti- vesse sido um homem real e ver- dadeiro. E nem nós poderíamos pormenorizar mais, visto que es- ses livros foram todos destruí- dos. Ganeval cita ainda os testemu- nhos de S. Irineu, Papias e S. Justino, o primeiro dos quais afirma que o Deus cristão não é homem cita fragmentos nem mulher; do antigo o segundo Evan- gelho egípcio, e o último, falan- do do Logos (Cristo), afirma que

é

que, a respeito da encarnação

uma emanação de Deus produ-

zida como as projeções dos raios do Sol. Como se vê, as três opiniões concordam em negar a existência de Cristo. E trata-se de santos e teólogos célebres, insuspeitos de aversão contra o cristianismo, do

qual autorizados foram os propagadores. principais e mais

Cita ainda Ganeval, apoiando- se em Fócio, as opiniões de Eunomius, Agápio, Carmim, Eu- lógio e outros cristãos primiti- vos, que todos eles formaram do Cresto um conceito que exclui a sua existência material e corpó-

rea.

E finalmente lembra o juízo

do S. Epifânio acerca das mais antigas seitas heréticas dos Mar- cinitas, Valentinianos, Gnósticos, Simonianos, Saturnilianos, Basi- lidianos, Nicolasianos e outros, dos quais deduz que o Deus Re- dentor dos cristãos é Horus, filho da Trindade egípcia, convertido mais tarde em Serápis.

A estas seitas mencionadas por

Ganeval, que negavam a existên- cia do Verbo, deve juntar-se es-

Docetistas,

impugnadores pecialmente

Cristo, que Salvador 31 refuta no

livro

Doutrina, citando o quarto Evan-

a

da dos

Cristo

realidade

E

A

de

Sua

Jesus

31 Salvador, Jesus Cristo E A Sua 30 Fócio, in Ganeval Doutrina, livro II, cap.
31 Salvador,
Jesus
Cristo
E
A
Sua
30 Fócio, in Ganeval
Doutrina, livro II, cap. II.

31

gelho que destaca o golpe de lan- ça que fez manar sangue e água do corpo de Cristo, e que isto provaria a sua realidade. A existência desta seita é par- ticularmente importante, porque no dizer de S. Jerônimo 32 , foi

contemporânea dos Apóstolos.

acordo com todos os documentos conhecidos daquela época. Época em que não existiam ainda os atuais Evangelhos, em que Tácito nos revela que os he- breus e os egípcios formavam uma única superstição, em que

Deus Fílon Serápis, tinha já de escrito tal fôrma sobre que o facilitava a qualquer falsificador cristão o ensejo de fazer crer que se referia a Cristo, e em que ha- via já falado acerca dos cristãos primitivos – os Terapeutas – se- gundo a confissão de Eusébio e Epifânio, apresentando-os como muito anteriores a ele, que por sua vez, era anterior a Cristo. Época em que, segundo S. Epifânio e Fócio, muitas seitas cristãs continuavam adorando a Horus como Deus Redentor, Fi- lho da Trindade egípcia. Época em que S. Clemente de Alexan- dria e Orígenes escreveram ne- gando Jesus e falando de Cristo – nesse tempo Cresto, segundo a lenda – tudo isto por confissão do próprio Fócio 33 .

33 Ganeval cita, entre as provas Históri- cas guagem contra de a S. existência Paulo e daquele de Cristo, apóstolo a lin-

Apolo chamado também Cresto, que nos Atos dos Apóstolos prega o cristianismo sem ser cristão. Provas graves, sem dú- vida, por emanarem dos próprios docu- mentos da fé, e de que falaremos, quan- do tratarmos da Bíblia.

E,

caso não fosse bastante o

que já foi dito, tínhamos Cerinto, Cerdon, Taciano, e os Ebionitas, todos eles impugnadores da exis- tência de Cristo, e, sobretudo,

Saturnino, que segundo o abade Pluquet, viveu nos tempos e nas paragens onde Cristo realizou os seus milagres, apesar de ter-lhe negado, ele também, um corpo natural.

A negação da existência de

Cristo por parte dos primeiros heréticos, alguns dos quais vive- ram no tempo e no lugar onde te- riam residido Cristo e os Apósto- los, é prova histórica evidente de que eles nunca existiram. Um testemunho valiosíssimo, apre- sentado também por Ganeval, é o

do imperador Adriano que tendo feito uma viagem a Alexandria no ano 131 declarou que o Deus dos cristãos era Serápis e que os devotos de Serápis eram aqueles a quem chamavam bispos dos cristãos. Sua opinião está de

32 Contra os luciferianos, cap. 8, in Es- tefânio, Dicionário Filosófico.
32 Contra os luciferianos, cap. 8, in Es-
tefânio, Dicionário Filosófico.

32

CCAAPPÍÍTTUULLOO IIVV JJEESSUUSS CCRRIISSTTOO NNÃÃOO ÉÉ PPEESSSSOOAA HHIISSTTÓÓRRIICCAA

Não só a história permanece muda a respeito da pessoa de Cristo; não só se demonstrou que os autores históricos que dele falam foram nesse ponto falsificados; não só existem pro- vas históricas contra a existência de Cristo, mas até se prova que a História nunca o conheceu, não podendo sequer conservar-nos a sua fisionomia humana. Cristo não é pessoa histórica; é Deus, somente Deus, mais ou menos antropomorfizado. A pró- pria etimologia nos indica: Jesus significa Salvador, Cristo signi- fica Ungido. Na própria Bíblia e no Antigo Testamento, o nome de Messias ou de Cristo aplica-se a certos reis pagãos: a Cyro, segundo Isaías (XLV, 1) e ao rei de Tyro, segundo Ezequiel (XXVIII, 14). Aplica-se, também, a todo o povo e a todos os seus membros, como se vê nos Salmos. Jesus Cristo quer dizer, pois:

O que foi ungido Salvador.

A própria etimologia demons- tra que se não trata de uma pes- soa histórica. Em que ano, nasceu Cristo?

Difícil

e

tenebrosa

questão!

Quase todos os que dela têm se ocupado concordam em que o seu nascimento não coincide com a era vulgar. Durante os primeiros seis sé- culos, depois da sua pretendida existência, um monge, Dionísio o Pequeno, não alude à era cris- tã, fixando o seu princípio, ou seja o nascimento de Cristo, no ano 753 da fundação de Roma, data julgada errada em pelo me- nos 6 anos, ainda que este erro não possa ser facilmente de- monstrado. E é compreensível:

nada é mais difícil de ser de- monstrado do que aquilo que não existe. Calvisio e Moestlin contam até 132 variantes e Fa- brício cerca de 200. Nada há que demonstre exata- mente o dia do seu nascimento. Uns falam em 6 ou 10 de janei- ro; outros dizem 19 ou 20 de abril, 20 ou 25 de março, e al- guns optam por dias e meses in- teiramente diversos. No Oriente

o

8 celebrou-se de janeiro o e nascimento no Ocidente, de no 1 dia 6 do mesmo mês. João Crisóstomo, no ano 375, falava em 25 de dezembro como um uso introduzido no Oriente.

a

33

Em Roma, fixou-se o nasci- mento de Cristo em 25 de de- zembro. Isto antes do ano 354, segundo se vê num calendário de Bucer, daquela época 34 . Estas mudanças de datas fo- ram interpretadas no sentido de

querer mento do a Igreja novo colocar Deus em o relação nasci-

com os dos Deuses Salvadores e especialmente com o do Deus Invicto, ou seja Mitra, que em Roma se solenizava com grande pompa, espetáculos e luminárias no dia 25 de dezembro, tendo os cristãos conferido ao seu Cristo os atributos místicos daquele deus Sol, cuja ressurreição os pagãos celebravam.

Esta hipótese não excluiria a existência de Cristo, mas deporia muito em favor da sua diviniza- ção. Não obstante, fica destruída pelo fato de estar em relação com outras tantas datas mitoló- gicas: por exemplo, a festa do achado de Osíris, que tinha lugar a 6 de janeiro (Creuzer, Symbo-

lik und Mithologie).

Por aqui se vê que a formação do mito foi laboriosa e longa, pois a Igreja primitiva fez todo o possível para colocar o nasci- mento de Cristo além do solstí- cio do inverno, a fim de afastar

toda a suspeita de um novo mito em nada diferente do dos Deuses Redentores que nasciam somen- te em 25 de dezembro. E não só se ignora o dia e ano em que Cristo nasceu, como também o lugar onde nasceu.

Segundo algumas profecias, deviam ser em Nazaré, e, segun- do outras, em Belém, visto que devia descender de Davi. O se- gundo e o quarto evangelistas nada dizem a tal respeito. O pri- meiro e o terceiro, se bem que falem dele, todavia contradizem- se, visto que um faz de Belém a sua residência habitual, ao passo que o último, só por casualidade, numa narração de viagem inve- rossímil e impossível, o faz pas- sar por Belém. Além disso, fa- lam do assunto, relacionando-o com as profecias, o que lhes tira todo o interesse e seriedade his- tórica, convertendo-se em fontes suspeitas pela sua preocupação apologética que os desqualifica perante a crítica. Mas, a História, que não co- nhece o nascimento de Cristo, nem a data e nem o local, tam- bém desconhece em absoluto a sua vida, a sua morte e todas as demais circunstâncias que, se- gundo os Evangelhos, acompa- nharam uma e outra. Assim também a famosa de-

34 Bianchi-Giovini, Crítica do Evan- gelho, livro II.

34

golação dos inocentes, a não me- nos famosa Estrela dos Magos e os próprios Magos, a morte trá- gica do Cristo e os terremotos e trevas que a acompanharam que, apesar de serem acontecimentos de excepcional importância, nem

sequer temporâneos, foram notados nem ainda pelos con- por

aqueles que deviam ter sido tes- temunhas oculares dos mesmos

fatos. O silêncio da história sobre tais acontecimentos supõe algum motivo mais grave e significati- vo que um simples desconheci- mento histórico: supõe a invali- dação da veracidade dos únicos livros que narram tais coisas,

isto é, dos Evangelhos. Mas, há mais: Cristo, ainda que relatado pelos Evangelhos, nunca realizou qualquer ato pe- queno ou grande, desses que to- dos os Homens fazem durante a vida. Por exemplo: não tomou parte na Política do seu país e do seu tempo; nem uma única vez foi importunado pela justiça ape- sar da sua vida de vagabundo; não levou a cabo ato ou sacrifí- cio algum do culto. Nenhum dos homens históri- cos, como Pilatos, Hannaz, Cai- faz e outros, que deviam ter tido relações com Jesus, deixou al- gum vestígio dessas pretendidas

relações. 35 Enfim, não há uma única notí- cia acerca da sua pessoa física. Cristo foi alto ou baixo? Bar- bado ou imberbe? Moreno ou loiro? Feio ou formoso? Nin- guém o disse, jamais, de um modo fixo e positivo, porque ninguém nunca o viu. Tertuliano o descreve como feio, conforme uma profecia de Isaías, estando nesse ponto de acordo com a Igreja do Oriente. Santo Agostinho, porém, e com ele a Igreja Latina, querem que Jesus tenha sido formoso. Estas duas opiniões foram a origem das diversas imagens de Cristo, barbado ou imberbe. As disputas

35 Anatole France, em sua pequena obra

prima O Procurador da Judeia , imagi-

na, ao tempo de Vitélio, um encontro às margens do golfo de Baia entre Lélio Lâmia, patrício romano exilado por Ti- bério, e Pôncio Pilatos. Lâmia pergun- tou a Pôncio, a quem conhecera em Je- rusalém quando era procurador na Ju- deia, se ele se lembrava de um tauma- turgo da Galileia chamado Jesus. “Pon- tius Pilatus fronça les sourcils et porta la main à son front comme quelqu'un qui cherche dans sa mémoire. Puis, après

Jésus?

me

murmu-t-il, quelques

instants

de

silence:

Jésus de Nazareth? Je ne

pas”

"Pôncio

Pilatos

rappelle

franziu as sobrancelhas e levou a mão à fronte como alguém que busca em sua memória. Então, após alguns instantes de silêncio, murmurou: Jesus? Jesus de

Nazaré? Não me recordo”

35

duraram até ao século XVII, de- pois do que, prevaleceu o mode- lo atual de Cristo com cabeleira espessa e barba farta. O sudário, que deveria ser um retrato da face de Cristo, pois foi estampado pelo contato direto

de Cristo, e não é pouco, provém das fontes cristãs, isto é, dos Evangelhos que não só não nos fornecem prova alguma da exis- tência histórica de Cristo, como até nos confirmam a sua não existência.

com barba o abundante. seu rosto, representa-o O sudário, po- de rém, não é documento fidedigno, ou porque existem outros igual- mente autênticos, ou porque os evangelistas não estão de acordo sobre este ponto, e mesmo por- que há estátuas e afrescos de Cristo em que ele aparece, até fins do ano 326, completamente imberbe. Por isso, o escritor Moy, que

tratou este assunto com muito interesse e consciência, conclui,

e com razão: Desde que se quei- ra tocar em alguma coisa real na vida de Jesus, não se encon- tra mais do que contradição e incoerência. Se porém, alguma coisa há de indiscutível é essa do aspecto físico de Jesus Para nós, a ausência total de in- formações precisas sobre sua aparência é uma prova certa de que ninguém jamais o viu 36 .

se Do disse tudo deduz-se o que anteriormente que nada, ab- solutamente nada se sabe do Cristo Homem por meio da His- tória, que é a única fonte incon- testável em que devemos acredi- tar, sempre confirmada pelos monumentos arqueológicos. Neste ponto, os que escreve- ram sobre a Vida de Jesus fra- cassaram inteiramente. Apenas um ou dois, como Strauss e Re- nan, conseguiram salvar o seu nome, graças ao seu talento e en- genho. Os cristólogos, ou não fizeram mais do que escrever romances, como Renan, ou se fizeram tra- balhos sérios, foi apenas na parte crítica, como Strauss. Estes pu- deram salvar um fragmento, um traço da pessoa histórica de Cris- to sem que, todavia, critério al- gum de demarcação os fizesse separar o real do fantástico, e sem perceberem que essa preten- dida realidade tinha o mesmo as- pecto evangélico de tudo quanto eles reconheceram antes como fantástico.

ninguém o viu, claro

está que ele nunca existiu. Tudo o que se pretende saber

E,

se

36 Moy,Adoradores do Sol.
36 Moy,Adoradores do Sol.

36

Por conseguinte, não perdere- mos mais tempo com os cristólo- gos e nem com os críticos que, embora eliminando uma ou ou- tra parte do Novo Testamento, pretendem conservar a pessoa histórica de Cristo.

pende da fé em coisas, das quais uma parte é absolutamente fictí- cia, a outra incerta e somente uma parte mínima verdadeira (e

veremos ainda que essa parte mínima não existe) essa preten-

são, dizia, é tão absurda que

37

O nosso trabalho consistirá,

à

hoje nem vale a pena refutá-la

Poucas páginas antes, o mes- mo Strauss dizia: Há quem não

o queira ouvir nem acreditar,

mas todo aquele que se ocupar sincera e seriamente deste as- sunto saberá tão bem como nós que na História, poucos grandes homens há sobre os quais este- jamos tão mal informados como a respeito de Jesus 38 .

Ernesto Havet, confrontando a certeza que se tem da existência de Sócrates com a incerteza da existência de Cristo, diz: Sócra-

tes é uma pessoa real, Cristo é um personagem ideal. Conhece- mos Sócrates por Xenofonte e Platão, que o conheceram e es- creveram sobre ele, na própria Atenas, entre os atenienses com

.

os quais vivera, e logo após a

sua morte. Ver-se-á pelo contrá- rio, que todos os que falaram de

Jesus não o conheceram (Havet

poderia

ter

acrescentado

que

37 Strauss, Nouvelle vie de Jésus , trad. franc. de Nefftzer e Dolfuss, v. 2, p. 418 e 419.

38 Strauss, Nouvelle vie de Jésus , trad. franc., v. 2, p. 415 e 416.

lógica, e

indo até as últimas consequênci- as, em refutar indiretamente o sistema ilógico dos cristólogos. Antes, porém, de prosseguir, recolhamos algumas das con- clusões a que chegaram os críti- cos mais autorizados, que tenta- ram a impossível tarefa de escre- ver a vida de Jesus. Strauss, depois de ter dito que tudo pode admitir-se como pro- vável na vida de Cristo – coisa impossível, como veremos – conclui sua obra colossal sobre a Vida de Jesus: dizendo – Mas

pois, cingindo-nos

esta verossimilhança, vizinha da

certeza (tão pouco deixou de subsistente, da história de Jesus, e mesmo esse pouco se reduz a uma verossimilhança vizinha da

certeza) não vai até muito lon- Poucas coisas são devida-

ge mente averiguadas e mesmo aquelas a que de preferência se aferra a ortodoxia – as milagro- sas e sobre humanas – nunca aconteceram. A pretensão de que a salvação dos homens de-

37

nem mesmo estes foram conhe-

cidos

dirigindo-se a homens

que ainda o conheciam menos; que escreveram meio século de-

),

pois (esta versão é a ortodoxa,

os

Evangelhos

posteriores à data fixada pela

porém,

nada

garante

sejam

que

não

muito

tradição) em países que não

eram o seu e em língua que não era a sua. Esses não escreveram mais que uma lenda: Jesus é um personagem que não tem histó- ria, não tem biografia. Não se fala de seu aspecto nem se indi- ca a sua idade. Sem dúvida que não era casado, porquanto per- tença àqueles que se faziam eu- nucos para reino dos céus, o que

fazer não tiveram saber em o cuidado termos de bem nos ex- plícitos. Nada se diz acerca dos seus costumes nem dos detalhes da sua vida. Dele só se contam as suas aparições, em sua boca só se põem oráculos. Tudo o mais fica envolto em trevas, tre- vas que são precisamente a substância das coisas divinas Numa palavra, os que os falam de Sócrates são testemunhas; os

que conhecem, nos falam imaginam-no de Jesus 39 não . o

Miron nos, diz, nada conhece- mos da vida de Jesus. Os redato-

res dos Evangelhos e os primei- ros autores eclesiásticos, reco- lhendo as tradições correntes na comunidade cristã, poderiam adquirir algum fragmento da verdade; porém, como assegu- rá-lo ante tantos elementos mi-

vida tológicos de Jesus e legendários? é, por conseguin- Uma te, impossível 40 .

Enfim, Renan, o próprio autor da Vida de Jesus, mesmo sob a impressão de fantasia do seu ro- mance e depois de reconhecer que há bem pouco o que dizer da vida de Cristo, acrescenta: Jesus

foi realmente um homem celesti- al e srcinal, ou um sectário he- breu parecido com João

que Batista? o personagem Queremos real acreditar oferece em si algum traço do persona- gem ideal. A nossa admiração não desapareceria, ainda mes- mo quando a ciência nada pu- desse dizer de certo e chegasse forçosamente às negações. Quem sabe se Jesus aparece à nossa vista disfarçado com hu- manas fraquezas somente por- que o vemos de muito longe,

Quem através sabe da se névoa aparece da na lenda? histó- ria como o único homem irre- preensível só porque faltam os

39 Ernest Havet, Le Christianisme et ses srcines, tom. I, p. 166-168.

40 Miron, Jésus réduit à sa juste valeur, Genève, 1864, p. XIII.

38

meios para o criticar? Ai de mim! Creio, com sinceridade que, se o tocássemos, como no caso de Sócrates, encontraría- mos também a seus pés um pou- co do lodo terrestre. Quem sabe se, neste caso, como nas demais

criações admirável, do o espírito divino, humano, o celestial o

não seriam reivindicados com iguais e legítimos direitos pela humanidade? Em geral, a boa crítica deve desconfiar dos indi- víduos, evitando entregar-se a eles. Quem cria é a massa, por- que a massa possui, num grau de espontaneidade eminente- mente superior, os instintos mo- rais da natureza humana. A be-

e leza não de a Beatriz Beatriz; pertence a beleza a Dante de

Cristna corresponde ao gênio hindu e não a Cristna, assim como a beleza de Jesus e de Ma- ria é obra do cristianismo e não de Jesus e de Maria 41 .

Renan não precisava ter dado mais do que um passo para es- clarecer a sua dúvida. De Cristo só se disse bem porque, como afirma Havet, não foi pessoa his-

veremos tórica, mas que ideal. Renan Mais foi bem adiante su- cedido ao revelar uma intuição admirável: atribuir o tipo do ho-

mem ideal, personificado em Cristo, à humanidade e não a Cristo, visto ser um ideal huma- no a criação e personificação do mesmo. Este ideal, porém, não se encontra na Bíblia, onde de- veria estar, se Cristo tivesse

existido. to aparece Pelo em contrário, nossa cultura, se Cris- ino- cente e limpo de toda a mancha, não é por obra da Bíblia nem de Cristo, criação humana, impes- soal, coletiva, mas pela fantasia da coletividade e do espírito dogmático dos que o criaram 42 . Das palavras de Renan deduz- se, além disso, outra consequên- cia, que ninguém ainda notou. Se a beleza de Cristo é criação

mente do espírito ele o humano, deixa compreender, como clara- também a sua própria pessoa, pela mesma lógica e pelo mesmo critério, poderia ser, como efeti- vamente é, uma criação do espí- rito humano. Dide, no seu louvável livro acerca do fim das religiões, aten-

42 Aqueles que, tirando de Cristo a quali- dade sobrenatural que nele é tudo, pre- tendem humana, conservá-lo fato absolutamente ainda como pessoa incom-

preensível, não só o expõem a um ames- quinhamento histórico, como o levam a absorver pechas que o tornariam indig- no. Nós, se lhe executamos os funerais, salvamo-lo ao menos da crítica huma- nista fazendo-o subir da terra ao céu.

41 La liberté de discussion , tomo III, p.

468-469.

39

do-se às tentativas de Channing

e dos unitários que negam abso-

lutamente todo o caráter sobre-

natural a Cristo, mas se obsti- nam em considerá-lo como ho-

mem, exclama: Mas quem é este Cristo? De que Cristo se trata?

Onde ele o mesmo se encontra? que com Sucede todos com os

entes legendários: quanto mais

se procura, menos se encontra.

A tentativa de lançar à historia

e arrancar das trevas da teolo- gia uma personalidade que, até

a idade de trinta anos, é absolu-

tamente desconhecida, e que de- pois dessa idade só nos aparece em milagres, ora absurdos, ora ridículos, é uma pretensão tão

Jean Jaurés 44 . E assim, podería- mos continuar aduzindo citações da mesma natureza, até encher pelo menos todo um volume; po- rém, é melhor repetir com Virgí-

lio: ab uno disce onmes

por umas coisas tiramos as outras

(Em pucha bom outra). português: Uma coisa

Não podemos,contudo, esque- cer Labanca, cuja obra – Jesus Cristo – tem o mérito de reunir todos os resultados até agora ob- tidos pela crítica a propósito des- te assunto. Labanca impugna a possibilidade de uma biografia científica de Jesus, quer pelas múltiplas questões contra a au- tenticidade de todos os pontos

difícil zer impossível que, à priori, 43 pode se di-

.

E, mais adiante, o mesmo au-

tor, falando da Vida de Jesus, do padre Didon, faz ver que este au- tor ortodoxo, para escrever a bi- ografia de Jesus, se vê constran- gido a preencher com hipóteses

a enorme lacuna da vida do seu

Deus, provocando, desse modo aos seus leitores esta reflexão:

Então, quase nada se sabe sobre

dência dos Evangelhos, que se observa quer na pela falta evi- de um fim qualquer biográfico, mas simplesmente de propaganda. A respeito da vida de Jesus, Laban- ca, omitindo o sobrenatural, ob-

serva que nada mais fica do que um resíduo pequeníssimo, quase reduzido a zero 45 .

44 Jean Jaurès, L'action socialiste , p.

122.

45 Labanca queria se colocar entre os

vida de Cristo ? Pergunta que

a

também se fez um dos mais no- táveis leitores do livro do padre Didon, o líder socialista francês,

interpretação que clamaram lógica pelo do mito fracasso de Strauss, da mas, adverte Dide, a Vida de Jesus de

Strauss, é e continua sendo o livro mais completo, o mais arguto e o mais consistente dentre todos os que foram publicados sobre o mesmo tema que,

43 Dide, La fin des religions, p. 316. sem ele não existiria E ao mesmo
43 Dide, La fin des religions, p. 316.
sem ele não existiria
E ao mesmo

40

Breve demonstraremos que nem mesmo esse resíduo peque- níssimo fica, e que, se alguma coisa resta de Cristo, mesmo na própria Bíblia, é a prova de que jamais existiu um homem que se chamasse Jesus Cristo. Entretan-

to, com fechemos a confissão esta primeira dos próprios parte, cristólogos: Cristo não é pessoa histórica 46 .

tempo, acrescentamos nós, a interpretação mitológica de Strauss será a única parte duradoura de sua obra. 46 O último momento da crítica alemã foi marcada pelo livro de Harnack: A

Essência do Cristianismo. Mas, além

dele não dizer nada de essencialmente novo, comete o erro de fazer uso da apologia e da teologia em seu trabalho, o que tira a objetividade histórica e raci- onalista necessárias numa obra séria de crítica. T. Armani, ocupando-se do livro de Cooperativa Harnac, publicou Tipográfica um opúsculo Parmense, pela no qual distingue com perspicácia, a pessoa de Cristo da sua personalidade preexis- tente nas profecias, o que seria suficien- te para explicar o cristianismo sem a pessoa mais ou menos histórica de Cris- to.

41

SSeegguunnddaa PPaarrttee

CCrriissttoo nnaa NNéévvooaa **

**(As edições antigas citam “nebbia”; as mais recentes, “bibbia”.)

42

CCAAPPÍÍTTUULLOO II AA BBÍÍBBLLIIAANNÃÃOO TTEEMM VVAALLOORR DDEE PPRROOVVAA

Demonstramos que Cristo não

que transtornaram o Olimpo, o despojam dos atributos divinos para o conservarem ao menos como homem – um homem qua- se divino que justifique o culto que lhe tributa a Humanidade. Iremos mais além do que os críticos que nos precederam, não porque tenhamos mais talentos, mas porque a lógica tem, antes que a crítica, as suas justas con- sequências e conclusões a fim de que a verdade triunfe e brilhe. E, se bem que seja pequeníssi- ma a parte do Cristo histórico

terem que quiseram destruído salvar a rica depois cultura de

mitológica e lendária 47 , demons- traremos que Cristo não podia

ter existido, porque a sua exis- tência seria a negação da própria humanidade. Por conseguinte, dos Evange-

47 Para uns, Cristo foi pessoa histórica, mas ampliada até as proporções de len- da. Para outros, a lenda foi substituida por uma pessoa mitológica justaposta à pessoa mente mítico. histórica. A propósito, Para nós, ele lenda é inteira- e mito

são coisas diferentes. A lenda tem sem- pre um fundamento verdadeiro e huma- no, mas exagerado até ao inverossímil, ao sobrenatural. O mito, pelo contrário, não tem srcem em fatos verdadeiros: é apenas criado pela imaginação humana.

é pessoa histórica, porque a His-

tória, a verdadeira, não o conhe-

ce nem dele fala. Vamos demonstrar, agora, que

a própria Bíblia, única fonte que

dele nos fala, nada prova a seu favor, antes confirma a nossa tese. Cristo nunca existiu! Para o nosso propósito, não é preciso refazer a crítica bíblica nem repetir os profundos e in- vencíveis argumentos de um Strauss e de toda a rica constela- ção de teólogos e de sábios, ver-

dadeiros ria! especialistas na maté-

Bastar-nos-á fazer coisa diver- sa de uma inútil repetição, de- monstrar que o exame, mesmo superficial, da Bíblia ou só do Novo Testamento, que se ocupa de Jesus, não descobre a fisiono- mia de um homem, mas sim de um Deus.

Não nos ocuparemos do Deus:

esse abandonamos aos piedosos tólicos, cuidados que dos seus o crucificaram ministros ca- e nele martelam a toda a hora. Abandonamo-lo aos cuidados dos seus ministros protestantes que, para o salvarem das ruínas

43

lhos, dos Atos e das Epístolas dos Apóstolos escolheremos apenas o que nos for preciso para demonstrar a inconsistência histórica de Cristo. Deveríamos talvez começar por pesar a auto- ridade do Novo Testamento, para

respeito ver qual valor das coisas de prova que tem narra. a

Veremos porém que a Bíblia, an- tes de provar o que nos conta, a si própria deve provar. Não é nosso objetivo recom- pilar do princípio ao fim tudo quanto a crítica histórica tem es- tabelecido a respeito da autenti- cidade dos referidos livros sa- grados do cristianismo. Quanto ao Antigo Testamento, basta observar que é tão pouco verídico e autorizado que tornou legítima a hipótese de ter sido alguns século anterior à época assinalada para o aparecimento do cristianismo. Maurice Vernès, numa antevi- são genial e muito convincente assegura que aquilo que os livros do Antigo Testamento narram são, em geral, de feitura sacerdo- tal e profética, sem caráter al- gum histórico, mas apenas sim- bólico e teológico 48 . Se tal é o resultado da exegese bíblica, pelo que respeita ao An-

tigo Testamento, lógico é que tal consequência se aplique também ao Novo Testamento, pois este, do princípio ao fim se apoia na- quele. Estamos convencidos de que a crítica chegará um dia a confir-

tre mar todas, esta hipótese, a mais racional. porque é den- Por agora, basta saber que o edifício bíblico se fundamenta todo em terreno duvidoso, incer- to e vago. De qualquer dos modos, a crí- tica já demonstrou o Novo Testa- mento não apresenta os requisi- tos necessários para autenticar a veracidade do que diz.

tamento Todos são os livros anônimos. do Novo Cingin- Tes-

do-nos aos Evangelhos, as pala- vras precedidas pelas frases con-

sagradas, segundo Mateus, se- gundo Marcos, etc., não só não provam que foram realmente dos Apóstolos ali citados, mas até indicam que foram redigidos por outros. Ignora-se, em absoluto, a épo- ca precisa em que os Evangelhos

foram antiga escritos. que temos A referência sobre este mais pon- to é de Papias, bispo de Yerápo- lis, que se supunha martirizado no tempo de Marco Aurélio (161 - 180). O seu livro, porém, não

48 Maurice Vernès, Les résultats de l'e- xégèse biblique, Paris, Leroux, 1890.

44

chegou até nós 49 De seu testemu- nho relativo a Marcos e a Ma- teus, conserva-se apenas alguns fragmentos em Irineu e Eusébio, que demonstram não se referir aos atuais Evangelhos. Os testemunhos dos Evange-

lo, lhos, que que fé datam podem do eles III merecer? e IV sécu- O que é indiscutível, é que ne- nhum dos Evangelhos foi escrito no tempo em que Jesus Cristo viveu; e que nunca se tiveram à mão os pretendidos originais, mas sim e apenas, cópias dos mesmos e cópias das cópias. Quem nos garante, pois, que tais originais tenham existido? Tudo são trevas nos dois primei- ros séculos do cristianismo. Maury, em presença de uma tão grave circunstância, emite duas opiniões: a primeira diz que os cristãos primitivos escreve- ram muito pouco; a segunda, que os documentos escritos na- quele tempo se perderam, por uma deplorável fatalidade. E supõe mais verossímil esta se- gunda hipótese. E nós também

49 Seria casualidade? Seria estratégia? Ganeval insiste tratar-se de uma das muitas fraudes habitualmente usadas na formação do cristianismo, de acordo com a sua hipótese a que Pápias aludiu referindo-se às srcens egípcias do cris- tianismo

E como sabemos que as seitas

nasceram com o cristianismo, que todas elas se esforçavam para que prevalecessem os seus respectivos pontos de vista, e que, desde o século II, as obras abundam e com elas as falsifica-

ções mais audaciosas

supor-se que todas aquelas que

andaram errantes até se perde- rem, representaram opiniões contrárias às que mais tarde triunfaram no concílio de Niceia (325) e que, convertida em sobe- ranas e despóticas, fizeram desa- parecer os documentos contrári- os. De sorte que os documentos cristãos que prevaleceram em Niceia têm autoridade desde o

IV século. e quando muito desde o III

50

, é lógico

É evidente que, se não a pre-

teria

destruído os livros nos quais se consignavam as controvérsias das seitas primitivas e que tão bom serviço podiam prestar à crítica, quando já Celso no II sé- culo se vangloriava de haver re- futado o cristianismo, servindo- se unicamente dos próprios li-

judicassem, a

Igreja

não

vros Em cristãos. tudo vemos, neste ponto,

50 Não é injúria que se faz, é confis- são do próprio S. Jerônimo. Veja-se

Peyrat na sua História Elementar E Crítica De Jesus.

45

o anonimato e a falta de certeza, principais características dos li- vros do Novo Testamento, que bastariam para lhes tirar toda a autoridade. Mas, há mais. Os Evangelhos atuais não foram escolhidos pela

maior Igreja com autoridade critério nesses que revelasse que em outros muitos Evangelhos que então andavam em voga: destes foram escolhidos quatro ao aca- so, diz Santo Irineu, porque qua- tro eram as regiões do mundo e quatro os ventos.

E não é tudo. Antes do concí-

lio de Niceia, a Igreja e os pró-

prios Santos Padres serviam-se indiferentemente dos Evange-

lhos, que mais tarde foram de- clarados apócrifos, porque era igual a autoridade de todos.

E mais ainda. A Igreja conser-

vou muitas lendas que se encon- tram apenas nos Evangelhos apócrifos. No Novo Testamento acham- se mesmo passagens que se refe- rem a lendas contidas unicamen- te nos referidos Evangelhos apó-

crifos. Resumindo: anonimato, incer- teza nos originais, seleção ao acaso e falta de critério na pre- tensa autenticidade conferida pela Igreja aos Evangelhos atu-

ais – eis aí ao que se reduz a au- toridade do Novo Testamento! Como se tudo isto fosse pou- co, outras circunstâncias a dimi- nuem ainda mais. Entre elas, as numerosas alterações a que esti- veram sujeitos os Evangelhos

pistas, atuais, devido e especialmente à inépcia à dos falsifi- co- cação das diversas seitas. Isto nos explica, como diz Baur, a manifesta contradição das dou- trinas englobadas no Novo Tes- tamento, em luta contínua entre si.

Temos, por outro lado, a di- versidade dos exemplares sobre os quais se fez a tradução do Novo Testamento em língua lati- na – diversidade tão grande e tão grave, que S. Jerônimo temia passar por falsário ao constituir-

se em árbitro para escolher entre a profusão de tantos e tão diver- sos exemplares dispersos pelo mundo. E declarava ter-se visto

obrigado a acrescentar, trocar e corrigir. 51

Juntemos ainda a demonstra- ção feita já pela crítica, relativa à falta específica de autenticidade em não poucas partes do Novo Testamento. O último argumento contra a validade dos livros do Novo Tes-

51 Praef. In Evang.Ad Damas.
51 Praef. In Evang.Ad Damas.

46

tamento está no fato das irrepa- ráveis contradições e das dis- cordâncias numerosíssimas que ainda hoje contém, para não fa- lar nos seus erros, na sua imora- lidade e absurda puerilidade, apesar de a Igreja ter declarado

por que palavra, foram pelo inspirados, Espírito palavra Santo!

Isto posto, pode, acaso, uma pessoa séria, não obcecada pela fé, admitir, não já a autenticida- de, mas ao menos a veracidade e seriedade do Novo Testamento como argumento de prova acerca do que ele narra?

Stefanoni, contudo opina que a crítica os deve ter em conta, ao menos porque representam tradi- ções dos tempos em que foram produzidos, porém admite que, sobre a base de tais livros não se pode reconstituir a vida nem a doutrina de Jesus sem se escreva um romance, enquanto declara que os escritos revelados não po- dem fazer fé na história, nem esta pode, em nossos dias, expli- car com verdadeiro critério os primeiros rudimentos da srcem da nossa idade. Observamos, pelo primeiro que a lugar, nós se este refere, não que é mais em que um dos muitos argumentos que concorrem em favor da nos- sa tese e, em segundo lugar, que nos achamos em face de uma

matéria tão excepcional que, as- sim como na crítica normal po- deria optar-se pelo partido mais sensato, isto é, pela dúvida, na questão que debatemos é preciso ir até ao fundo, até a negação de tudo quanto afirmam e impõem

como como os divino, Evangelhos, livros são que, desti- tais

tuídos do todo o fundamento. Além disso, os Evangelhos são um milagre contínuo, tanto na ordem física, como na ordem moral, e, tratando-se de coisa so- brenatural, parece lógico que concorram provas pelo menos tão certas autênticas como as que acompanham os fatos co- muns. Porém, nada disso aconte-

ge ce e, a menor em parte prova. alguma deles sur- E, ao passo que estes livros do Novo Testamento nada demons- tram do que afirmam, na história profana não ha um único sinal, um único documento que apoie ou venha em auxílio dessas nar- rações evangélicas. Em tais circunstâncias, quem não verá que tudo quanto ali se conta é filho da imaginação, para não dizer da impostura sacerdo- tal, e que nada, absolutamente nada, pode salvar-se do que por tantos séculos nos impuseram por modo extraordinário e sem autoridade alguma?

47

Não censuremos os críticos positivos e os autores que nos precederam e nos desbravaram o

terreno, por não terem chegado à conclusão a que nós chegamos:

o preconceito duas vezes mile-

nar que tem maltratado nossas

mentes, erro com arrastando-as tal força inercial para que esse nem os mais destemidos pude- ram se libertar dele de um só golpe. Aqui, mais do que em ne- nhum outro campo, comprova-se

que natura non facit saltus (a

natureza não dá saltos). Não devemos, porém, negar à critica o direito de chegar a con- clusões que não são mais do que consequências necessárias das

próprias premissas. Portanto, se o fato de serem clandestinos os livros do Novo

Testamento não pode bastar, por

si só, para legitimar a conclusão

da não existência de Cristo, a crítica deve, dada a natureza teo- lógica e sobrenatural dos referi- dos livros, ter muita cautela no aceitar qualquer parte, por míni- ma que seja, do que neles se conta. Em todo o caso, o certo e in- discutível é que a Bíblia, em lu- gar de servir de prova do que re- lata, tem necessidade de com- provar-se a si própria. Esta afir- mação está, de resto, reforçada

com a autoridade de Santo Agos- tinho, que, discutindo com Os Maniqueus, faz esta confissão

capital: Não acreditaria nos Evangelhos se a isso não me vis- se obrigado pela autoridade da Igreja 52 .

52 Citação da Peyrat, História E Crítica Elementar De Jesus, pag. 70, 3 a edição,

Paris, Levy Frères, 1864.
Paris, Levy Frères, 1864.

48

CCAAPPÍÍTTUULLOO IIII JJEESSUUSS CCRRIISSTTOO ÉÉ PPEESSSSOOAA AABBSSOOLLUUTTAAMMEENNTTEE SSOOBBRREENNAATTUURRAALL

Os milagres de Cristo – eis a pedra de toque de todos os teólo- gos. Se Cristo existiu realmente, se foi pessoa humana, como se explicam esses milagres? Ainda que hoje os milagres, contanto que não sejam fenôme- nos psicológicos, e a maior parte dos de Cristo não o são nem po- dem sê-lo, se negam facilmen- te 53 . Ora, na vida de Jesus, tudo são milagres, a ponto de o não conhecermos senão através do milagre. A este respeito, os teó-

logos os da sábia e críticos, Alemanha, especialmente começa-

ram a fazer distinção entre os três primeiros Evangelhos, cha- mados sinópticos, e o quarto, de João.

Dizem que este último fala de Cristo, como Platão falou do Lo- gos, deduzindo-se daí que a con- cepção de Cristo, segundo o quarto Evangelho, é puramente metafísica. De modo que se che-

uma gou a tentativa supor tal feita, Evangelho muito tempo como depois dos três primeiros, a fim

53 Gaetano Negri, com sua pena magistral, corta fundo na questão dos milagres. Veja sua C rise Religiosa, pp 77-83, Milão, Dumolard, 1878.

de salvar a divindade de Cristo, da crítica dos pagãos, divindade comprometida com as incongru- ências dos Evangelhos Sinópti- cos em certas passagens em que

o elemento humano sobrepuja o

divino. Assim, abandonaram à crítica

o quarto Evangelho, agarrando-

se aos três primeiros para salva- rem ao menos o homem.

Esta tentativa não é mais do que uma concessão que, desde logo, se viu ser de mau gosto, pois que se encaminha a um fim

mais vista teológico parecia. O do protestantismo que à primeira

liberal e o racionalismo espiritu- alista viram a tempo o perigo da

crítica naturalista, isto é, viram que, caídos os milagres, caída estava toda a concepção divina de Cristo, visto serem os mila- gres a única prova da sua exis- tência. Eis como se explica a tentati- va de despojar Cristo da divinda-

de vá-lo e dos como milagres homem. para poder Salvar sal- a Cristo como homem é o mesmo que salvar o cristianismo, como disse Hartman, pois que, admi- tindo que Cristo haja realmente

49

existido, o cristianismo deve proceder dele. E esta seria a pro- va do cristianismo, como cristia- nismo seria a prova de Cristo. Um salvaria o outro. Na verdade, que homem po- deria criar toda uma nova civili-

todos zação, os a aspectos não ser que um fosse, homem em ex- traordinário? Lançado o divino pela porta afora, ei-lo que entraria renova- do pela janela a fim de envolver com a sua auréola a loira cabeça tradicional do Nazareno. Assim o compreendeu Renan que, no seu sentimentalismo místico e transcendental pôs a Bíblia à prova para dela arrancar uma biografia fantástica de Je- sus, que é um verdadeiro roman- ce, e ainda que ele tenha fugido da teologia, restituindo Cristo à humanidade, no fundo não faz mais do que prolongar a vida do cristianismo. De sorte que, em vez da exco- munhão e do vitupério dos cren- tes, merecia ser colocado entre os Padres da Igreja. O sobrena-

tural deia Jesus e divino, em meio que na dos Bíblia milagres ro- e que atualmente se reduzem a nada assim como Cristo e o Cristianismo, foram restituídos a Cristo pelo grande professor da Sourbonne, fazendo dele um

personagem real e histórico, de uma grandeza sobre-humana. Para Renan, Cristo não é já o Deus que desce à terra para se fazer homem, mas simplesmente um homem que da terra sobe ao céu para se endeusar. Em cada

passagem rece esta do metamorfose seu romance, do apa- ho-

mem em Deus. As suas próprias

palavras - chamado por Deus -

indicam claramente. Se Cristo, segundo Renan, al- cança o ideal da humanidade, que importa que seja a conse- quência direta de Deus, à manei- ra de uma encarnação, ou que seja um enviado extraordinário de Deus, um homem tão elevado que até do céu abre as suas por- tas à humanidade ? Com as concepções dos teólo- gos, Cristo-Deus não podia viver nem reinar nesta idade positiva, mas Renan fez mais e melhor que todos eles: tentou salvar Cristo como homem. Mas salvar o homem, e um homem de tal natureza, era salvar cristianismo, era personalizar a adoração da Humanidade por um homem ide- al, era manter o culto da humani- dade pelo Cristo, quer descendo do céu à terra, quer subindo da terra ao céu .

Fazer do Cristo um sábio, fora de todas as proporções que

50

a história fornece, não será isso, de algum modo, substituir um milagre por outro? 54

Camilie Mauclair, em uma correspondência de Paris para o jornal italiano Avanti, em 7 de setembro de 1903, escrevia o se-

guinte, que confirma a nossa

siderando-o um simples simbo- lismo, e separar os Testamentos, conservando só a moral cristã, para não andar mais em choque constantes com o espírito cientí- fico, apresentando-se, no mun- do, como sendo a depositária de

uma Não moral se tratava de justiça. de um suicídio da Igreja, nem de urna negação pública da revelação que equi- valesse a uma bancarrota. Tra- tava-se apenas de uma transfor- mação hábil, que permitiria a Igreja o esquivar-se a um confli- to direto com, a ciência. Para esta inteligente transfor-

mação,

Renan

apresentava

a

fórmula conveniente, com a sua nuante. fina inteligência, Estava embebido astuta do e insi- ca- tolicismo e era um conciliador, infinitamente diplomático entre o dogma e a crítica. Certamente, Renan esperava que a Igreja aceitasse esta solu- ção elegante do problema de an- tinomia entre a ciência e a Fé. Toda a vida deplorou que não o quisessem compreender.

teria Se adquirido a Igreja a uma tivesse força o aceito, enor-

me. Teria podido conservar as suas cerimônias, com um sorri- so significativo, como quem lhes

não desse senão o mero valor histórico e alegórico.

tese: “Renan intentou prestar à Igreja um serviço capital. Creio que o teria pensado de antemão, e só pela estupidez crassa da mesma Igreja, esse serviço não foi agradecido ao escritor. Não considero a Vida de Je- sus, de Renan, uma obra perfei- ta. Creio mesmo que não é gran- de coisa. Mas, seja corno for, é impossível concluir pela não re- velação, vindade de e portanto, um homem pela sublime. não di-

Qual foi, de resto, o intento do escritor? Destruir o dogma, é certo, mas conservar a moral evangélica, que ele considerava

a melhor e a mais conforme com

a evolução social de um século

em que a ciência, segundo a ex- pressão do seu amigo Berthelot, aspira à direção material e mo- ral da sociedade. Qual era o serviço que Renan pretendia prestar à Igreja Cató- lica? Convencê-la de que devia abandonar o dogma divino, con-

54 Vacherot,A Religião, pag. 100.
54 Vacherot,A Religião, pag. 100.

51

Teria podido aceitar a ciência

e ficar com a moral publica

E,

assim, que grandeza para a mo- ral de Cristo, de quem os mo- dernos anarquistas se dizem continuadores, se se tivesse ad- mitido realmente o seu martírio

catolicismo de homem, de desembaraçando toda o estorvo ju- o daico do Antigo Testamento e de toda a insustentável metafísica dos livros sagrados. A Igreja inimiga de Cristo, a Igreja politiqueira não com- preendeu a ocasião que Renan lhe oferecia. No seu empenho de repelir todos os escritores que podiam servi-la com fé e enge- nhosidade como Lammenais,

Vil-liers Hello, Barbey de l'Isle-Adam, d'Eurevilly Ernesto e Ver- laine, a Igreja repeliu também Renan. Preferiu as banais ima- gens policrômicas às obras pri- mas da arte religiosa. AA VViiddaa ddee JJeessuuss colocava-a em um dilema difícil, em urna escabrosa encruzilhada: a Igre- ja negou-se a caminhar pela senda do futuro encerrando-se no dogmatismo. Perdeu, assim, o modernizar. último ensejo que teve de se

E. Gustave Tery, no Ação, de 6 de agosto de 1903, depois de citar várias passagens de Renan nas quais ele demonstra sua

grande veneração por Jesus, dis-

se o seguinte: Para dizer a ver- dade, se a Igreja não tivesse co- metido a imprudência de protes- tar com uma indignação ultra- jante, e este foi um erro fatal, a piedosa exegese de Renan pode-

interesses ria servir prodigiosamente do cristianismo. O aos ve- tusto poeta soube polir a velha imagem do Nazareno, escureci- da e manchada por dezoito sé- culos de ignorância, erros e mentiras, além de livrá-la dos ritos e catecismos, das fórmulas

e teologia. Ele lavou Jesus das

injúrias e sujeiras católicas; E

num lance genial, fez o homem sem diminui-lo, uma vez que já

o sobrenatural. tinha engrandecido Ao escrever como ente A

Vida de Jesus Renan devolveu- lhe a vida e o fez descer uma se-

gunda vez sobre terra

O protestantismo liberal, que pretendeu seguir o mesmo cami- nho, não faz obra de destruição, mas sim de conservação religio- sa.

Faz o mesmo que o aeronauta, quando arroja o lastro da nacela para em sua que queda. esta não caia e o arraste

Só que esses salvadores do Cristo Homem não estão de acordo com a lógica, nem com a verdade histórica,.

52

Não estão com a lógica por- que, como justamente observa Vacherot, a ultima fórmula à qual se agarrou o protestantismo liberal, e nós acrescentaremos o racionalismo espiritualista, é a supressão da personalidade his-

tórica dele se de conhece, Cristo e porque de tudo é quanto a úni-

ca que não pode ser demonstrada

nem pela filosofia, nem pela crí-

tica moderna 55 .

Não estão de acordo com a verdade histórica, porque o Cris-

to da Bíblia, de toda a Bíblia, é

uma pessoa inteiramente sobre- natural. O próprio Strauss, o maior dos críticos desta escola, vê-se

obrigado a reconhecer que, a in- trusão do princípio sobrenatural

e a concepção dogmática do

Cristo tornam impossível uma biografia de Jesus. Procurou eli- minar todo o sobrenatural da

vida de Jesus, sacrificando o Cristo dogmático para salvar o Cristo histórico, partindo do conceito de que, se os antigos encontraram digno do homem não considerar como estranho à mano, humanidade a divisa tudo dos quanto modernos é hu- deve ser eliminar como estranho tudo o que não é humano e natu- ral.

Não repetiu o erro de quebrar a cabeça e violentar o bom senso para explicar racionalmente os milagres de Cristo, irremediavel- mente condenados pela ciência, limitando-se simplesmente a eli- miná-los da parte histórica, con-

postos, siderando-os não contrários, como mitos porém, justa- à

pessoa histórica de Cristo, para conservar, este à humanidade e à história. Isto, porém, era faltar aberta- mente à logica e à verdade histó- rica, como o próprio Strauss confessa, sem disso dar conta, ao deixar escapar da sua escrita es- tas palavras, que dizem mais do que um livro inteiro: - Sob este

ponto a ideia de de vista, uma pode Vida se ou dizer de uma que Biografia de Jesus foi a fatali- dade de toda a teologia moder- na. Esta continha em gérmen todo o destino e a contradição que lhe pressagiava o resultado negativo. Ela era a ratoeira em que a teologia do nosso tempo tinha necessariamente de cair e perder-se 56 .

Esta fatalidade da teologia - ção devida, de salvar como vimos, o cristianismo, à preocupa- à qual ele mesmo se mostrou obe- diente, não o salvou da contradi- ção e do resultado negativo. Ain-

55 Obr. cit., pp. 382-383. 56 Op.cit., tom. I, p. 4.
55 Obr. cit., pp. 382-383.
56 Op.cit., tom. I, p. 4.

53

da que a única base para falar de Cristo esteja nos Evangelhos e estes, além de serem uma base suspeita por emanarem da fé, quando não das imposturas sa- cerdotais, nos representam Cris-

to apenas como pessoa sobrena-

nópticos está mais afirmado o elemento humano de Cristo, este elemento não é menos fabuloso do que os seus milagres porque não se referem a um homem de- terminado mas ao Redentor, a um determinado Redentor. A

pessoa é a mesma de Cristo, que nos nos dão primeiros, os livros

hindus sagrados falando de Cristna e de Buda, os persas de Mitra, os egípcios de Horus e mais tarde de Serápis. Há sempre, em todos eles, um Redentor. A única diferença entre os Evangelhos sinópticos e o de João está em que a concepção de Cristo nos três primeiros é uma cópia mais genuína dos Deuses Redentores das religiões orien- tais, onde o elemento antropo- morfo é mais engenhoso, en- quanto que o quarto Evangelho se ressente da influência dogmá- tica e metafísica do helenismo, antes do neoplatonismo alexan- drino. Mas, tanto nos sinópticos cor- no em João, Cristo é sobrenatu- ral, não já por seus milagres, mas também pela sua mesma es- sência. Assim como Cristo, também Maria, sua mãe é sobrenatural e está, portanto, fora da Humani- dade, pois o concebeu de modo

tural. Além disso, se vão despojar parte do Evangelho do seu cará- ter histórico para o converter em puro mito, porque não aplicar e estender então o mesmo critério à interpretação de todo o livro? Como distinguir o que deve se tomar ao pé da letra, do que deve ser tomado no sentido figu- rado? O real, nesse caso, torna-se in- sustentável, e o livro perde todo

o seu valor histórico 57 porque,

quem quer raciocinar sem pre- conceitos e de boa fé vê-se obri- gado a reconhecer que os Evan-

gelhos só nos mostram Cristo pelo sobrenatural. E, em Cristo, tudo é sobrenatural: milagres e potência milagrosa, a sua própria pessoa, a sua missão e ainda a natureza e o propósito dos livros que dele falam. Os Evangelhos sinópticos e o quarto Evangelho não são de na- tureza diferente senão no seu grau maior ou menor. Se nos si-

57 Mirou, Jesus Reduzido Ao Seu Justo

Valor, pag. 233.

54

milagroso e o deu à luz, ficando sempre virgem. Têm querido ver nos dogmas, relativos à mariola- tria, superstições católicas. E de fato, assim é. O catolicismo - dizemos de uma vez para sempre - não fez

mente mais do o que Cristianismo, desenvolver inclusos, logica- claro está, os autos de fé. A vir- gindade de Maria não é tão es- tranha ao cristianismo como a sua concepção milagrosa. Maria é a mãe de um Deus, e a mãe de um Deus não pode ser manchada com as fraquezas da natureza humana. Não podia, portanto, ficar grávida de Cristo, por obra de um homem, assim como não podia morrer. As ou- tras virgens, mães dos Deuses Redentores, tinham-na já prece- dido e prefigurado. O sobrenatu- ralismo de Maria confirma, por sua vez, o sobrenaturalismo do Cristo. Todos os Evangelhos dão a conhecer um Cristo, e esse Cris- to é um Deus, mais antropomor- fo nos sinópticos, menos antro- pomorfo em João. Não é licito escolher dos Evangelhos apenas a parte mila- grosa, para reduzir à sua mais ín- fima expressão a parte que con- tém os elementos humanos e bi- ográficos.

Não! Em Cristo nada há de humano, excetuando o seu antro- pomorfismo, que não é próprio dele mas de todos os Deuses Re- dentores.

Em

todos

os

Evangelhos,

Cristo não só faz milagres, mas

ele próprio é um milagre.

morre

para poder realizar o último mi- lagre, ressuscitando. Veio ao mundo para salvar os homens: a sua missão é sobrena- tural. Assim, e não de outra ma- neira, falam de Jesus os Evange- lhos. Estes não só se não pres- tam à biografia, como reconhece Strauss, mas nem sequer à elimi- nação do elemento sobrenatural, que cerca a divina pessoa de Cristo. Cristo não é uma pessoa indi- vidual; é uma encarnação divina. Todos os seus feitos são dogmá- ticos. Todas as suas palavras ti- nham já sido escritas antes dele as pronunciar. Não podemos ex- plicar humanamente o sobrena- tural dos Evangelhos, coisa ab- solutamente impossível, nem eli-

Nasce

por

milagre

e

miná-lo, sível, sem coisa eliminar não menos os próprios impos-

Evangelhos, o próprio Cristo e até o cristianismo. Limitar-nos-emos, apenas, a reconhecer a existência deste so-

55

brenatural, inseparável da pessoa do Redentor. Isto basta para a nossa tese. Cristo pertence ao céu. E ao céu o restituímos. Se Cristo, porém, é pessoa ab- solutamente sobrenatural, se é Deus, claro está que não é, não foi, nem pode ser homem, evi- dentemente.

pois,

dos seus milagres, nem sequer para os enviar à mitologia. Faremos alguma coisa mais do que até agora se tem feito:de- monstraremos que nada de hu- mano se pode referir a Cristo.

E demonstrá-lo-emos com, a própria Bíblia na mão.

Não

nos

ocuparemos,

56

CCAAPPÍÍTTUULLOO IIIIII AA PPRRÓÓPPRRIIAA BBÍÍBBLLIIAA FFAALLAA DDEE CCRRIISSTTOO AAPPEENNAASS SSIIMMBBOOLLIICCAAMMEENNTTEE

O que deveria ter aberto os

olhosaos mais precavidos, e de- monstrar a todo o mundo a enor- me mistificação de que a huma-

nidade tem sido vítima, durante vinte séculos, julgando que Cris- to realmente existiu, é a lingua- gem que emprega a Bíblia, fa- lando do seu protagonista.

A Bíblia, esta Bíblia, que é o

único livro que fala de Cristo, pode pretender fazer-nos crer

que Jesus tenha existido como homem, nem mais nem menos que os demais homens? De ne- nhum modo!

A vida, o pensamento, a ação,

a palavra, a doutrina de Cristo, não existem sequer nos Evange- lhos, a não ser enquanto são pre- ditos pelos profetas, previstos pelo Antigo Testamento e prega- dos pela lei antiga.

Nem um gesto, nem um dito, nem um fato de Cristo se narra nos Evangelhos, que não estejam em relação com a Escritura.

palavras De maneira dos Evangelhos que as próprias o di- zem, com uma ingenuidade ex- tremamente infantil que Cristo fez isto porque tal profeta o pre- disse; Cristo fez aquilo para que

se cumprisse a Escritura. A começar pelo seu nascimen- to milagroso. Os Evangelhos di- zem-nos que tal acontecimento

teve lugar em virtude das pala- vras do profeta (Mat. I, 22).

Se nasce em Belém, é porque

está também escrito pelo profeta

(Mat. II, 5). Se foge para o Egito, é porque se cumprem as palavras do pro-

feta: Chamei meu filho para o

Egito. (Mat. II, 14). Se Herodes ordena a degola- ção dos inocentes, é para que se

cumpram as palavras do profeta

Jeremias (Mat. II, 17). Se volta à Galileia e vive em Nazaré, é para que se cumpram

as profecias, segundo as quais devia chamar-se Nazareno:

(Mat. II, 23). Se Jesus encontra em seu ca- minho a João Batista, é porque o profeta Isaías o havia predito. (Mat. III, 3).

vence Se o a diabo tentação, o tenta, é porque e se Jesus as Es- crituras o haviam predito. Do mesmo modo, o diálogo entre Satanás e Cristo se funda nas próprias palavras dos livros do

57

Antigo Testamento (Mat. IV, I-

10).

Se Jesus vai a Cafarnaum, é para cumprir uma profecia de Isaías (Mat. IV, 14). Se prega que não façamos aos outros o que não queremos que

nos façam , é porque assim esta escrito na lei e nos profetas

(Mat. IV, 12). Se cura os endemoninhados, é

em cumprimento do que lhe diz o profeta Isaías (Mat. VII, 17).

Se fala de João Batista, é para

dizer que é aquele de quem está escrito: É Elias que devia vir

(Mat. XI, 10, 14) . Se cura as multidões e lhes

proíbe que o divulguem, cum-

pre-se o que predisse o profeta

Isaías (Mat. XII, 17).

Se tem de permanecer sepul-

tado três dias,

é porque Jonas

esteve três dias no ventre da ba-

leia (Mat. XII, 40). Se fala em forma de parábolas para não ser compreendido,

cumpre-se a profecia de Isaías

(Mat. XIII, 14).

e

Se manda buscar um jumento

um

jumentinho,

fá-lo

para

cumprir o que lhe, diz o profeta

(Mat. XXI, 4). Quando Jesus está a ponto de ser preso no horto de Getsemani, recusa-se a que o defendam, di-

zendo: Como poderiam cumprir- se as Escrituras, que dizem ser conveniente que assim suceda?

(Mat. XXVI, 54). Jesus diz que não foi preso pelas multidões quando se senta- va junto delas para ensinar no

templo, a fim de se cumprirem

as Escrituras (Mat. XXVI, 56). Se Judas o atraiçoa e recebe em paga trinta dinheiros, é para

que se cumpra o que disse o

profeta (Mat. XXVII, 9). Se, após crucificado, os solda- dos dividem a túnica, isso suce-

de em cumprimento do que pre- dissera o profeta (Mat. XXVII,

35).

da, Se é manda para que comprar se cumpra uma tam- espa-

bém a profecia, segundo a qual seria confundido com os malfei- tores (Luc. XXII, 36, 37). Cingindo-nos aos seus Após- tolos, Jesus demonstra que tudo o que lhe sucede é por que con- vém que todas as coisas escritas acerca dele na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos sejam cumpridas. E acrescenta: Como

padecesse também era e mister ressuscitasse que o Cristo dentre os mortos ao terceiro dia . (Luc.

XXIV, 44, 46) . Até na Cruz, se Jesus pede de beber, é para que se cumpra a

58

Escritura (João. XIX, 27) . E, bebido que foi o vinagre,

disse: Tudo se cumpriu. E só en- tão, quando viu que nele se ti- nha realizado a Escritura, incli- nou a cabeça e entregou o espí-

rito (João. XIX, 30).

Enfim, se não lhe quebram as pernas na mesma cruz, e se lhe abrem o peito com a lança, é,

disse João, em cumprimento da

Escritura (João. XIX, 32 – 37).

E basta de exemplos, que não são os únicos em que os Evange- lhos obrigam a fazer e dizer a Cristo apenas o que estava escri-

to no Antigo Testamento. Mais adiante, demonstraremos

que ainda tudo mesmo é símbolo que os em Evangelhos Cristo,

o não digam explicitamente, e

ainda que não citem as respecti-

vas passagens do Antigo Testa- mento, e que não veio ao mundo e não procedeu senão para exe- cutar o plano teológico precon- cebido no Antigo Testamento. Neste ponto da nossa obra, apenas quisemos deduzir da lin- guagem dos Evangelistas a con-

pitalíssima: fissão de uma Cristo circunstância não disse ca- nem foi ele próprio mais do que aqui-

lo mesmo que Escritura ordenou

que fosse e que fizesse. Não nos dirá nada esta cir-

cunstância essencialíssima ?

clara-

mente, que Cristo nunca existiu, tendo-o inventado os Evange- lhos para cumprimento das Es- crituras?

Pode-se volver e revolver a

Não

significará

isto,

questão, mas a única conclusão plausível a que se chega é a que nós acabamos de indicar. Despojai Cristo da sua reali- dade histórica, e tereis explicada a questão das profecias: deixai-a subsistente, e a questão das pro- fecias será humanamente insolú- vel. Pois bem: como hoje é sim-

que

possam cias e que existir possam profetas realizar-se e profe- ponto por ponto, minuciosamen- te e a distância como devia ter ocorrido com Cristo, havemos de concluir que: ou as profecias foram inventadas, ou Cristo foi inventado para o relacionarem com as profecias. Estando a primeira hipótese desmentida pela história e pela circunstância indeclinável de

plesmente

absurdo

pensar

que, sua realização em tal caso, não as tivessem profecias dei- e a xado nada a desejar, resta-nos somente a segunda, a de que Cristo foi inventado para a reali- zação em si das profecias, hipó-

59

tese que resolve toda a dificulda- de inerente a tal assunto, porque nos fornece a chave para expli- car o fato de tantas profecias se- rem sofísticas a fim de poderem aplicar-se a Jesus, pois não esta- vam devidamente relacionadas

conciliarem numa só

pessoa. A mesma hipótese explica o fato, que tantos trabalhos custou aos críticos, das faltas e inexati- dões de não poucas profecias, cuja realização os Evangelhos anunciaram pois pode acontecer que existissem ao princípio e logo fossem extraviadas nas nu- merosas vicissitudes da Bíblia, ou antes fossem alteradas de-

para

se

houvesse pois. Fora sido disso, essa a bastaria crença dos que evangelistas, quer dizer, que ti- vessem acreditado que as referi- das profecias, imaginárias ou exatas, existiram e foram tal qual eles pensavam, para justifi- car o seu trabalho de adaptação a Cristo de tão decantadas profeci- as.

Esta solução elimina também radicalmente uma série de outros devido absurdos a este encontrados plano armado na Bíblia, para aplicar Cristo às profecias, por- que demonstra que a causa de tantas discordâncias e de tantos contrassensos se fundamenta no

fato dos evangelistas, preocupa- dos em escrever acerca de um Cristo imaginário, estudarem so- mente a forma de o pôr em har- monia com as exigências dog- máticas do assunto, descuidando de adaptá-lo à circunstância da

narração Os positivistas e do meio e ambiente. os racionalis- tas, não podendo aceitar a pre- tensão teológica de que Cristo fosse Deus, e que, portanto, a sua vida tivesse sido profetizada por homens inspirados pela von- tade divina, mas, não chegando a negar a existência humana de Cristo, esbarravam ainda com o insuperável obstáculo de expli- car esse Jesus-Homem, sem o

rais concurso que negavam. das causas Ante sobrenatu- este pro- blema tão heterogêneo, tiveram de submeter os seus neurônios a verdadeiras torturas, como acon- teceu com Míron, ou de realizar um tours de force, como aconte- ceu com Larroque, ou ainda de serem ilógicos, como aconteceu com Salvador, Strauss e Havet, explicando complicadamente uma parte do problema sob o

simbólica ponto de e vista dogmática, da concepção e aban- donando a outra ao caos em que se envolveu a pessoa humana de Cristo. Não se atrevendo a saltar o

60

fosso, caíram nos contrassensos da própria Bíblia ao passar da te- ologia para o naturalismo,. Por exemplo: Renan vê nas profecias de Isaías um raio do olhar de Jesus 58 e pensa que este se julgava o espelho no qual

todo el tinha o espírito lido o profético futuro 59 . de Só Isra- em

um ponto adverte que nas últi- mas palavras de Jesus se nota a intenção de manifestar clara- mente o cumprimento das profe- cias 60 . Nem vale a pena discutir a hi- pótese de que Cristo acomodasse a sua própria vida às prédicas e se exaltasse a ponto de realizar o profetismo hebraico. Não só concorre contra semelhante hi- pótese o fato, já por outros nota- do, de que, para proceder assim, Cristo deveria ter vivido com o Antigo Testamento na mão, mas também a circunstância da sua adaptação às profecias começar com o seu nascimento e não aca- bar senão com a sua morte. Fica excluído completamente neste caso, qualquer fenômeno de autossugestão, tanto mais que se trata de uma vida em absoluto milagrosa, o que nunca deverá

se esquecer. Salvador combate a opinião dos filósofos, que fazem de Cris- to um reformador religioso e so- cial, dizendo que, para que esta opinião fosse fundada, seria pre- ciso que a sua morte fosse unia

se consequência acidental dos involuntário seus esforços, e qua- enquanto que esta formava, pelo contrário, o seu princípio e o seu fim confessados, os quais ele procurava com ardor, em um in- teresse dogmático e místico.

esteve aqui verda-

Salvador

deiramente inspirado e poderia ter conhecido toda a verdade se não perdesse o caminho que se- guia, terminando no lugar co- mum de que a vontade de mor- rer, firme em Cristo, provinha de uma ordem de convicções e de um entusiasmo conforme com as ideias da sua época e com a in- terpretação oriental dos livros sagrados dos hebreus. Já vimos contra que obstácu- los vão bater este lugar comum. Mas permanece de pé a preciosa confissão de Salvador, que segue imediatamente, depois da passa- gem citada, e onde diz que, a

não ser pela morte que deseja- va, nada ficaria de Cristo, por- que nem os seus dogmas nem a sua moral são frutos da sua ins-

58 Vita di Gesù , vol. I, c. IV, trad. it. di De Boni, Milano, Daelli, 1863.

59 Id., vol. I, c. XVI.

60 Id., vol. IV, c. XXV.

piração.

61

Não há termo médio: ou acei- tamos a revelação, em conjunto, ou repelimos a natureza humana do Cristo, entregando-o inteira- mente à teologia. Esta está no seu papel, quando diz que as profecias provam a existência de

virtude Cristo, o desta qual afirmativa, se converte, em em uma

personificação mais ou menos completa daquelas. Assim o compreendeu Scherer sem que por isso chegasse à con- sequência lógica que o fato supõe, quando escreve que Jesus

nem é um filósofo, nem o funda- dor de uma nova religião, mas sim o Messias; que a chave da vida de Jesus é o cumprimento

esta das profecias ideia messiânica messiânicas; é o centro e que dos fatos evangélicos, a razão de ser histórica de Jesus 61 .

Cristo, portanto, não veio ao mundo senão para cumprir as profecias, e, como isto não é uma ação humana, equivale a di- zer que Cristo veio ao mundo apenas como um símbolo, isto é, que Cristo nunca existiu.

Hoje

não

precisamos

mais

negar que o Antigo Testamento revela o Cristo. O sobrenatural já nos não preocupa.

61 Mélanges d'histoire religieuse. La vie de Jésus, pp. 99 e seg. (in Vacherot, La

Este testemunho da missão de Cristo com relação às profecias é a própria razão de ser de Cristo pois, caso contrário, este já não seria o Messias que os crentes pretendem, por não corresponder exatamente aos vaticínios.

de

Realmente,

esta

maneira

ser

com exata ponderação dos tex- tos, ainda que não chegue a con-

sequências lógicas - torna o mes-

mo Jesus e os seus apóstolos in-

diferentes á Humanidade. Quando lemos com imparcial atenção o Novo Testamento, não podemos deixar de reconhecer que o sistema narrativo dos es- critores apostólicos exclui todo o

interesse e toda a emoção. A vida de Jesus e as aventuras dos

Apóstolos ddeesseennrroollaamm--ssee ccoommoo ssee ffoosssseemm uummaa cceennaa tteeaattrraall,, em que tudo está apontado, previsto

e indicado, antecipadamente.

Não é a Humanidade vivendo, pensando, sofrendo, agitando-se. Se Cristo e os seus realizam isto ou aquilo, executam este ou aquele ato, é porque era preciso que se cumprisse esta ou aquela profecia 62 . Por isso, temos de escolher, definitivamente: Ou Cristo exis- tiu, e então é Deus, ou não é

de Jesus - assim o diz Dide,

62 A. Dide, La fin des religions, p. 370, Religion ). Paris, Flammarion, 1902
62 A. Dide, La fin des religions, p. 370,
Religion ).
Paris, Flammarion, 1902

62

Deus, e então nunca existiu, por- que o Cristo da Bíblia é o único Cristo conhecido, e porque na própria Bíblia ele não é mais do que um personagem sobrenatural

e simbólico. Impõe-nos a lógica

que o aceitemos tal qual ele é na

Bíblia, ser que isto se ponha é, como de Deus, parte, a sem não mais considerações, a sua pre- tendida realidade histórica, da qual não se escapa. Quando se reconhece que Je- sus era o Messias e que não tem nenhum outro caráter, não se pode humanizá-lo conservando a humanidade e deixando que a di- vindade se volatilize: um Messi- as profetizado e um Deus Re-

dentor homem. não é e não pode ser um

Não é licito dividir-lhe a sua natureza em divina e humana e

reduzir à expressão mais simples

a sua figura humana para o sal-

var do exílio a que os Deuses, hoje mais do que nunca, estão confinados, segundo afirmou o grande profetizador de Epicuro. Do contrário, violentaríamos o bom senso, atentando contra ele,

e atormentaríamos nossa mente

sem resultado algum, por maior que fosse o valor de quem tal fi- zesse, como sucedeu com Strauss. E nós, atacando cada vez de mais perto os Evange-

lhos, em breve veremos que, do naufrágio de Cristo nada de hu- mano pôde se salvar. Veremos que não é possível escrever a bi- ografia de Cristo, que ele não pode ter biografia, já que não teve existência humana. É claro

so que a não narração seguiremos bíblica passo e nem a a pas- li-

nha dos doutos especialistas na matéria. Reuniremos alguns dos ele- mentos essenciais que concor- rem para que qualquer existência humana seja real e vital, elemen- tos esses que faltam a Cristo de modo tão contraditório e absur- do que excluem toda a possibili- dade de ter existido um homem

em tais condições p ela

contradição que não o permite.

No entanto, completaremos a demonstração de que Cristo está na Bíblia, apesar desta o não di- zer explicitamente, apenas como sendo um personagem puramen- te e completamente simbólico, elaborado com os dados submi- nistrados pelo Antigo Testamen- to: verdadeiro ídolo, combinação de materiais preexistentes nas tradições do hebraísmo, e nos modificado textos religiosos e ali-

mentado com a concepção mito- lógica do Oriente como se fora um mosaico.

63

CCAAPPÍÍTTUULLOO IIVV CCRRIISSTTOO ÉÉ UUMM MMIITTOO AADDAAPPTTAADDOO DDAASS AALLEEGGOORRIIAASS DDOO AANNTTIIGGOO TTEESSTTAAMMEENNTTOO

que em- preendemos, resultará que Cristo

é um mito, como já resulta, im-

plicitamente, a demonstração de que é estranho à história. Este resultado, porém, mais evidente

se torna na parte que consagrare- mos à mitologia. Aqui em pleno campo bíblico, provaremos que

o mito Cristo foi adaptado, mais

ou menos felizmente, das alego- rias do Antigo Testamento.

O próprio Evangelho, como acabamos de ver no capítulo pre- cedente, oferece-nos, a esse res- peito, uma prova evidente, com

a linguagem simbólica que em-

prega para pôr em relação as pa- lavras e os feitos de Cristo com

o Antigo Testamento. Vamos ver agora que, mesmo que os Evangelhos não digam com toda a clareza, nada há ne- les, e portanto em Cristo, que não seja decalcado do Antigo Testamento.

Do exame bíblico

gelhos Até a é denominação tirada de lá, precisa- de Evan-

mente de uma palavra do profeta Isaías, traduzida em grego 63 . A

sua significação de boa nova é

também simbólica, porque alude à realização das esperanças do Israel.

O numero dos livros do Novo

Testamento, junto ao dos livros do Antigo forma segundo afirma seriamente Cantu, sem atentar à consequência, o número místico de setenta e dois 64 . Jesus nasce de uma virgem, porque este caso se encontra já em Isaías (VII, 14), e é prenunci- ado por Isaac, José e Sansão. O anjo Gabriel é já conhecido no

Antigo Cristo Testamento. nasce em Belém, por- que isso foi profetizado por Mi- queias (V, 2) em virtude de ter sido aquela terra o berço de Davi. As genealogias atribuídas a Jesus são inteiramente simbóli- cas. Não reproduziremos aqui a demonstração de Strauss, mas para ela remetemos os leitores que queiram se informar. (Nova

Vida seg.). de Jesus, vol. II, pag. 8 e

O anjo, que aparece aos pasto-

res, anunciando-lhes o nasci- mento do Salvador é tirado de

63 Salvador, op. cit., lib. II. 64 C. Cantu Hist. Univ. Ep. VI, cap. 33.
63 Salvador, op. cit., lib. II.
64 C. Cantu Hist. Univ. Ep. VI, cap. 33.

64

Isaías (IX, 2 e VII, 14).

A divina sabedoria, o Verbo

divino que se encarna em Jesus, encontra-se nos Provérbios e em Siraco. As próprias palavras dos Evangelhos são tiradas destes li- vros do Antigo Testamento

(Strauss, obr. cit. II. 53 e seg.)

A

estrela, que dirige os Reis

Magos, vindos para adorar Je- sus, corresponde à estrela alegó- rica, mencionada nos livros de Moisés (Num. XXIV, 17.)

Os Reis ou Magos que vêm da

Ásia, trazendo ouro e incenso, a glorificar o Eterno, encontram-

se também em Isaías (LX, 1-6).

A degolação dos inocentes,

Cristo fazia parte do plano divi- no (Strauss, ob. cit. 84, 85): Je- sus de volta do Egito, habitou em Nazaré, para que pudesse chamar-se o Nazareno, conforme tinham vaticinado os profetas.

A cena do menino Jesus, dis-

tores, putando foi no criada templo por com analogia os dou- com Moisés e Samuel, assim como o restante da adolescência de Jesus. A propósito das pala- vras deste a sua mãe, ditadas pelo coração, Strauss observa outra reminiscência do Antigo Testamento, como a do cap. II, v. 19 de Lucas; o mesmo fizera Ja- cob com José (Strauss, obr. cit. Pag. 90 e seg.).

imaginada absolutamente para justificar fantástica, a fuga foi

da Sagrada Família para o Egito, lendo-se no profeta Oseias que o menino Jesus devia ser chamado por Deus ao Egito (XI-1) e por outro lado, a fim de que se veri- ficasse a profecia de Jeremias sobre o pranto de Raquel, pelo

assassínio de seus filhos (Jer. XXX11-15, 16, 4, 10, 28).

A presença de Jesus no tem-

circuncisão plo, a cena de têm Simeão por objeto e Ana de- e a monstrar o cumprimento das leis de Jeová em Cristo e a profecia de Simeão, segundo a qual a oposição dos hebreus contra

João Batista foi criado segun-

A anunciação e o nascimento

do as profecias de

(III,1,5, 18 e IV, 2, 5) e de Isaías (XL, 1,10, 27, 31 e XLI, 1).

Malaquias

do precursor, João Batista, foi copiado do Antigo Testamento (Strauss, obr. cit. vol. II pag. 43).

A natureza simbólica de Cris-

to provém também de João Ba-

tista, que o apresenta como um

cordeiro que assume os pecados

e afirma que Jesus,

vindo depois dele, existia já an- tes dele (João, I, 29, 26, 15, 30).

do mundo

65

Já vimos que a história das

65 Isaia LIII, 4 e seg.
65 Isaia LIII, 4 e seg.

65

tentações de Jesus remete expli- citamente ao Antigo Testamento. Também o número de dias (40), que Jesus passou no deserto era tradicional e sagrado entre os he- breus. Assim: o dilúvio durou 40 dias; empregaram-se 40 dias

para cob; embalsamar Moisés viveu o 40 corpo anos de na Ja-

corte de Faraó, 40 anos no deser- to de Madian e 40 anos gover- nou o povo de Israel; os ninivi- tas jejuaram 40 dias e os hebreus andaram 40 anos errantes no de- serto; Moisés e Elias tinham je- juado 40 dias. Além disso, Elias tinha viajado pelo espaço e o Es- pírito transportara Ezequiel de um ponto para outro. Temos,

obrigaram portanto, que Jesus à a maneira jejuar 40 deles, dias;

como a Abraão, fizeram-no ten- tar no deserto e, como a Elias e a

Ezequiel, obrigaram-no a andar pelo espaço. Abandonado Jesus em Naza- ré, ei-lo que parte para Cafar- naum, a fim de cumprir o anun- ciado pelo profeta (Mat. IV, 13, 14) e (Luc. IV, 23, 31). Cafarnaum ficava na Galileia, cuja ve com região as mesmas o evangelista palavras descre- do

profeta Isaías: Como um país que jazia nas trevas (Mat. IV,

dizem que Jesus escolheu doze apóstolos não fazem mais do que cumprir à risca o consignado no livro dos Números (I, 4,16), cor- respondendo os doze apóstolos às cabeças das doze tribos.

E quando atribuem aos doze

apóstolos não fazem outros senão copiar 72 discípulos, a sele-

ção de 72 homens, feita por Moisés entre os anciãos do povo.

O modo por que os apóstolos

seguem Jesus imediatamente e sem o conhecerem é por demais simbólico, e a sua significação explica-se desde logo. O mesmo numero de 153 peixes, tirados milagrosamente da água pelos

apóstolos, pode entender-se, se- gundo S. Jerônimo, em relação com as 153 espécies de peixes que então conhecidas, e signifi- ca, segundo este padre da Igreja, que todas as classes de homens são pescados para a sua salva- ção 66 .

O nome de Pedro, dado ao

chefe dos Apóstolos, simboliza- va no hebraísmo a fé inabalável e indestrutível, tanto que Moisés

havia feito da pedra o sinal ale-

górico de Jeová 67 .

A mesma ideia simbólica, re-

16).

66 Com. in Ezequiel, 47.

67 Deut. XXXII, 4, 15, 18, 30, 31. Samu- el e II Reis XXII, 2, 3; XXIII, 3.

Quando os Evangelistas nos

66

presentada pelas chaves confia- das ao chefe dos Apóstolos, se encontra no Antigo Testamen- to 68 . Finalmente, a companhia de pessoas de má fama que rodeiam Jesus para escândalo dos Escri-

bas copiada e Fariseus, da figura (Marc. de Davi II, 16) que foi ti-

nha se colocado à frente de uma turba de 400 desgraçados (I Reis, cap. XXII, 2). Os milagres de Cristo fazem

profético:

programa

parte

mesmo Jesus cita a cura de Naa- mã, realizada por Eliseu (Lucas IV, 27). A cura da mão dissecada

é tirada literalmente do Antigo Testamento (Livro 1 dos Reis, XIII, 4 e seg.).

A piscina de Betesda, que a

seus História cinco não pórticos, conhece, simboliza com os os cinco livros de Moisés.

A cena do endemoninhado que, não podendo ser curado pe- los Discípulos, melhora nas mãos de Jesus 72 , é igual a cena de Geazi, servo de Eliseu, 73 que não tinha sabido fazer voltar à vida o filho de Sumanita, ressus- citando-o o próprio Elias. Em ambos estes casos, Strauss faz notar a diferença de poder, que existia entre os Discípulos e o Mestre.

do

Então, serão abertos os olhos aos cegos e abertos os ouvidos dos surdo. Então, o coxo 69 salta- rá como um cervo e a língua dos mudos cantará 70 .

É verdade que em Isaías não figuram as narrações dos lepro- sos nem as ressurreições dos mortos, mas esses dois gêneros de milagres acham-se nas lendas dos profetas. Eliseu curara um leproso, e junto com Elias, res- suscitam um morto cada um 71 . O

A cura do filho do Centurião,

realizada por Jesus à distância 74 ,

é parecida com a cura de Naamã,

operada também de longe por Eliseu: o Messias não podia ser

inferior em poder ao profeta do

68 “et dabo clavem domus David super humerum ejus: et aperiet et non erit qui claudiat, et claudet, et non erit qui aperi- et” (Isaia XXII, 22). Porei sobre o seu

abrirá ombro e a ninguém chave da a casa fechará, de Davi; ele a ele fe- a chará e ninguém a abrirá.

69 A figura dos coxos que saltam, repete- se literalmente nos Atos dos Apóstolos (III, 7 e seg.) 70 Isaia XXXV, 5 ss.

71 I dos Reis, XVII, 17; II dos Reis, IV,

10 e seg. As palavras de Jesus após res- suscitar o rapaz de Nain, são reprodução

Elias textual ressuscita do Antigo o filho Testamento, da viúva quando de Sa- reta. 72 Mat. XVII, 14-29; Mar. IX, 14-29; Luca XI, 37-43. 73 II Re IV, 8 ss. 29-37. 74 Mat. VIII, 5-13; Luca VII, 1-40; Giov. IV, 46-54.

67

Antigo Testamento. Jesus acalmando os ventos e as ondas é uma imitação de Jeo- vá ordenando ao Mar Vermelho que se afaste para dar passagem ao Povo Escolhido. Melhor ainda: Hengstenberg achou uma outra figura idêntica à de Jesus que também acalma a tempestade para salvar os Após- tolos que corriam perigo na sua barca. Trata-se do Salmo CVII (v. 25, 28-30). Jesus que cami- nha sobre as águas imita Jeová, que no Antigo Testamento está poeticamente representado, via- jando sobre elas 75 . Pedro, que pretendendo andar sobre as águas está prestes a se afogar,

merecendo de Cristo o famoso - Homem de pouca fé, porque du- vidaste? - sendo por ele salvo, revela a mais perfeita semelhan- ça com outro episódio do Antigo Testamento onde se diz, na Epís-

breus recebem no deserto e por outra, no que diz respeito aos milagres, perfeitamente análo- gos, de Elias e de Eliseu 76 .

O milagre da transformação

da água em vinho tem seus pre- cedentes no Antigo Testamento:

Moisés cha e transformara fizera brotar água em sangue da ro-

toda a água do Egito. Se em Je- sus a água se muda em vinho e não em sangue, é porque no An- tigo Testamento aquele é o sím- bolo deste e ainda do próprio sangue expiatório do Messias.

A maldição da figueira que

não produzia frutos precoces é tirada de Oséas 77 e de Miqueias.

A cena da Samaritana, junto

do poço, é uma imitação poética das cenas de Jacó e Raquel, de Eleazar e Rebeca na fonte. Nem mesmo a cena dos ven- dilhões expulsos do templo é original: Jesus não faz senão transportar duas sentenças do Antigo Testamento, uma de Jere- mias (VII, 11) que diz que o templo não se há de converter em covil de bandidos, e outra de

Isaías ao templo (LVI, casa 7) de em oração. que se chama

A cena da transfiguração é co-

76 Salmo CVII, 4-9; I Re XVII, 7 ss.; II Re XXXVIII, 42-44. 77 IX, 10.

tola aos Hebreus

(XI, 29), que

se os israelitas passaram o Mar Vermelho, foi por terem fé, ao passo que os egípcios se afoga- ram. O milagre da multiplicação dos pães e dos peixes é decalca- do igualmente sobre o Antigo Testamento por uma parte, quan- do se refere ao maná que os he-

75 Isaia XLIII, 16; Salmos LXXVII, 20; Giob. IX, 8.
75 Isaia XLIII, 16; Salmos LXXVII, 20;
Giob. IX, 8.

68

piada do Antigo Testamento. Moisés subira ao Monte Sinai, levando consigo, além dos 72 anciãos, Aarão, Nadab e Abim; uma nuvem cobre a montanha durante seis dias, e por fim, no sétimo, Jeová aparece em meio

quem da nuvem chegam e chama os resplendores Moisés, a da

divina auréola. De volta da mon- tanha, encontra o povo adorando

o bezerro de ouro e encoleriza-

se. Jesus sobe também a uma montanha anônima em compa- nhia de três pessoas, que são por assim dizer, o comitê diretor dos Apóstolos; lá torna- se resplan- decente como Moisés; a mesma nuvem luminosa entra em cena.

tanha da transfiguração, quem fala é a nuvem; no Êxodo é o mandato de Moisés; no Evange- lho, segundo o sentido modifica- do, é testemunho de Deus aos discípulos acerca de Jesus. Mais ainda: estas palavras estão copia-

aca-

das do Antigo Testamento,

bando a frase com o mesmo vo-

cábulo que serve de conclusão à passagem do Deuteronômio,

onde o legislador promete a Isra- el um profeta semelhante a si próprio, dizendo-lhe: Escutai-

o 79 .

A entrada de Jesus em Jerusa-

lém foi adaptada às profecias de

Isaías 80 e de Zacarias 81 .

78

E para que a adaptação a este

contra Descendo o jovem do monte possesso, Jesus que en- os seus discípulos não puderam cu- rar, e o seu primeiro sentimento

é de cólera pela impotência con-

tra o demônio. Com Jesus no monte, compa- ram-se Moisés e Elias: o primei- ro para tornar mais evidente a relação que vai do primeiro ao segundo salvador; o segundo em virtude da profecia de Malaqui-

as, voltar segundo em pessoa a qual antes Elias do deveria Messi- as, uma vez que a sua substituição por João Batista deixaria uma Tanto no Sinai como na mon-

último fosse literal, o evangelista fez viajar Jesus ao mesmo tempo sobre uma burra e um jumenti- nho, no curto espaço que vai de Betfagia a Jerusalém. Tendo sido mal interpretada a passagem do profeta e havendo-se repetido duas vezes a palavra jumento, o

78 Is. XLII, 1; Salmo II, 7.

79 Matt. XVII, 5.

80 LXII, 11.

81 Zac. IX, 9. - Salvador, citando textual- mente qual a entrada uma passagem de Cristo de em Zacarias Jerusalém na é antecipada e minuciosamente descrita, astutamente observa que todas as ima- gens relativas à sua entrada em Jerusa- lém não custaram nada para a imagina- ção da tão grande e rica nova escola (a cristã).

69

evangelista julga que o referido fragmento se deve entender como se os jumentos fossem dois.

A traição de Judas foi adapta-

da do episódio da traição de cer-

to comensal de Davi, e a decla-

corresponde ração de Jesus, a idêntica durante revelação a ceia, do rei salmista 82 . As palavras Sou eu que o quarto evangelista, mais teológi- co do que os sinópticos, põe na boca de Jesus no momento em que este avança para os soldados que o vêm prender - palavras que os fazem cair por terra - são as mesmas que pronunciou Jeo- vá, e, por conseguinte, copiados do Antigo Testamento 83 .

A prisão de Cristo como de-

linquente são relacionadas pelos

próprios evangelistas Marcos e Mateus com as predições dos profetas. A fuga dos Apóstolos equivale ao cumprimento da profecia de Zacarias 84 . Se Jesus não responde à per- gunta do sumo sacerdote, relati- va ao depoimento das testemu-

nhas, cordeiro é para conduzido que se veja ao nele suplício o

sem lamentações, em cumpri- mento literal da profecia de Isaí-

82 Salmo XLI, 10.

83 Deuter. XXXII, 39; Isaia XLIII, 10 ss.

84 XIII, 7.

as 85 .

Quando porém, lhe perguntam se ele é o Messias, já se não cala, proclamando que o é, para que se realize aqui o Antigo Testa- mento 86 . Os ultrajes e maus tratos infli- gidos a Jesus, foram previsto ex- pressamente por Isaías Os trinta dinheiros da traição de Judas e o seu gesto de atirá- los fora no Templo são tomados

à letra do oráculo de Zacarias 88 . A compra do campo de san- gue com os dinheiros da traição,

o remorso e o arrependimento de

Judas, a sua morte prematura e o gênero dessa morte, a anasarca e

em a cegueira, vários textos tudo isso do Antigo se encontra Tes-

tamento 89 . Todo o plano, e até mesmo os detalhes da história da crucifica- ção foram copiados pelos evan- gelistas do capitulo LIII de Isaí- as e dos Salmos XXII e LXIX. Além disso, João preocupado a mostrar em como Jesus é o ver- dadeiro Cordeiro, acrescenta o hissope, que no Êxodo 90 se em-

prega no sacrifício do cordeiro

87

85 LIII, 7.

86 Salmo CX, 1; Daniele VII, 13.

87 L, 6.

88 XI, 13. 89 Strauss, op. cit., II, XC.

90 Êxodo, XII – 21, 22.

70

pascal. Se Cristo escolhe a Páscoa para ser crucificado, é porque a sua missão é exatamente a do cordeiro pascal, sacrificando-se na dita época para salvar a hu- manidade do pecado srcinal.

lastimar

aqui a grande soma de energia empregada por todos aqueles que, querendo defender a exis- tência humana de Cristo, quebra- ram a cabeça para explicar aqui- lo que se vê ser totalmente inad- missível, a não ser que despojas- sem Cristo de toda a realidade histórica, isto é, a mudança do dia do seu sacrifício, como se esse dia fosse histórico e não

simbólico, e ainda como se tal mudança houvesse tido outro fim que não fosse o de mudar o dia da Páscoa hebraica, assim como já tinham mudado o sím- bolo, substituindo o cordeiro material pelo cordeiro simbóli- co. Os dois ladrões entre os quais Jesus é crucificado relacionam- se, segundo o próprio Marcos, com a profecia de Isaías 91 .

Seja-nos

permitido

Mateus e

Marcos

põem na

boca de Jesus as palavras: - Meu

Deus, meu Deus, por que me abandonaste? No Salmo XXII,

versículo 2, lê-se textualmente:

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? As palavras Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem,

são postas na boca de Jesus para realizar o que Isaías tinha dito do

entre enviado malfeitores de Deus, que e colocado carregado com os pecados de todos, supor- ta ainda o peso da sua iniquida- de 92 . O profeta Zacarias dissera que os habitantes de Jerusalém veri- am Jeová trespassado por uma lança. Dali a necessidade de ferir Jesus com a lança, para que, quando ele regressasse às nuvens do céu, fosse possível ver-lhe a ferida (Daniel, VII, 13). Mas Jesus não era só aquele a quem feriram. Era também o cordeiro de Deus, e, precisamen- te, o cordeiro pascal, de quem se

tinha escrito: Não se quebrará nenhum dos seus ossos . Daqui

também a necessidade de não lhe quebrarem as pernas, como aos dois ladrões. Isaías dissera que o servo de

Jeová morreria entre ricos e mal-

feitores 93 .

Quanto aos malfeitores, lá es- tão os dois ladrões, que os evan-

92 Isaías (LIII - 12). 91 Isaías (LIII - 12). 93 Isaias, LIII, 9.
92 Isaías (LIII - 12).
91 Isaías (LIII - 12).
93 Isaias, LIII, 9.

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gelistas fazem morrer a seu lado; quanto aos ricos, fizeram com que o rico José de Arimateia en- terrasse Jesus. Isaías dissera

também: Que fazes aqui? Para que fizeste abrir aqui um sepul- cro para ti? Porque se abriu um

na luta de Moisés contra os tau- maturgos egípcios. Salvador prova que o Apocalipse é uma pura cópia dos profetas, princi- palmente de Ezequiel e Daniel.

Os evangelistas falam de Je-

sus,

ções sobrenaturais ou metafóri-

dando-lhe

três

denomina-

ca, além de Cristo e Messias, Fi- lho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus. Pois bem: tudo

isso não faz mais que confirmar o seu caráter simbólico. Filho e descendente de Davi, devia ser o Messias, segundo a teologia he- braica. A expressão - Filho de Deus - já era usada no Antigo Testamento para designar, não tanto ao povo de Israel 95 , mas

aos reis do mesmo, como Davi e

Salomão

nos sucessores 97 .

96

e aos seus mais dig-

A expressão Filho do Homem

se encontra em Ezequiel, que lhe dá a significação de homem hon- rado com as mais altas revela- ções de Deus 98 e em Daniel, onde significa, precisamente, o Messias que virá nas nuvens do céu, segundo se lê em Mateus (XXIV, 30, XXVI, 64). 99

95 Ezequiel IV, 22; Oséas XI,1; Salmo LXXX, 16.

96 II Salmo VII,14, Sal. 89, 27).

97 Salmo II, 7.

98 II, 1, 3, 6, 8; III, 1, 3, 4, 10, 17, etc.

sepulcro num lugar alto, desig-

nando uma morada na pedra?

94

.

Isto é o que o evangelista faz di- zer a Jesus junto ao sepulcro de José de Arimateia, aberto na ro- cha. Jesus ressuscita porque isso está previsto no Salmo XVI (9 ss.) e em Isaías (LIII, 10-12). Finalmente, sobe ao céu onde está sentado à direita de Deus, em cumprimento do versículo 1

meu do salmo Senhor: CX: senta-te O Senhor à minha diz ao direita, até que eu ponha os teus inimigos como um escabelo a teus pés. Se quiséssemos continuar em citações, reconstituiríamos, pon- to por ponto, o Novo Testamento sobre o Velho. Para o nosso fim, porém, bastam os pontos capi- tais. Acrescentaremos, no entan- to, que a festa do Pentecostes esta tomada à letra do Antigo Testamento (Deut. XVI, 9-11; Num. XXVIII, 26). A luta de Pe- dro e Paulo contra Simão o Mago tem seu motivo simbólico

94 Isaias, XXII, 16. 99 VII, 13
94 Isaias, XXII, 16.
99 VII, 13

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Não há, pois, nos Evangelhos, nada que já não estivesse no An- tigo Testamento: nada há de novo debaixo do Sol, como dizia Salomão. Todos as designações de Cris-

to tinham já sido usados no Anti-

metaforicamente, go Testamento, mais enquanto ou menos que no Novo Testamento adquiriram

o

carácter sobrenatural próprio

de

um mito.

Para aqueles que acreditam que Cristo era um homem a difi- culdade é insolúvel, porque, queiramos ou não, Cristo está fa- lando apenas de si mesmo como o Messias que havia de vir, mes- mo nos sinóticos e precisamente

nessa passagem de Mateus (XXII, 41). A única solução raci- onal é que Strauss dá: Jesus quis mostrar a superioridade de Davi, do qual era descendente de acor- do com a carne ou a lei, enquan-

to

procedia de Deus como espíri-

to.

Essa dificuldade sempre foi o tropeço da cristologia que queria o impossível: Fazer de Cristo um ser humano inconsistente com as leis da natureza e da história. Assim sendo, surge a seguinte pergunta: Qual das alegorias aplicadas a Cristo no Antigo Testamento e nos próprios Evan- gelhos era verdadeira

A pergunta não é sem sentido porque, mesmo no caso de ne- nhuma das duas ser verdadeira, haveria um meio de se sustentar a tese de que Cristo poderia ter existido, pois se os evangelistas lhe aplicassem por equívoco ale-

nada gorias disso indevidas, se oporia ainda à realidade assim, da existência de Jesus. Por outras palavras: mesmo quando se objetasse que Cristo não foi mal imaginado para ser mal adaptado às pretendidas ale- gorias do Antigo Testamento, que então não seriam alegorias, estas foram mal imaginadas para serem mal adaptadas a este per- sonagem que, não obstante, não

deixaria de ser histórico. Enfim! Já não precisamos de cansar-nos muito para demons-

trar que efetivamente as alegori-

as do Antigo Testamento prece-

deram a Cristo, se não cronolo- gicamente, pelo menos na men- talidade daquele meio em que ele foi criado. Porque, ainda mesmo que o Antigo Testamento, nas passa- gens de onde saiu a concepção do Cristo, não contivesse verda- deiras alegorias mas unicamente expressões poéticas, imagens e

figuras retóricas, coloridas com

a ardente fantasia oriental dos

profetas, isto não desmentiria o

73

fato indiscutível de que os he- breus tinham costume, desde tempos imemoriais, de explicar

o Antigo Testamento por meio

de alegorias, antes que em suas mentes nascesse a ideia do Cris- to. Em breve, faremos esta de-

monstração, que pertence à His-

tória 100 .

Notemos que Fílon - que não

foi colocado entre os padres da Igreja por não ter falado no Cris- to, e a quem destruíram os livros porque demonstravam que o cristianismo nasceu sem Jesus - Fílon tinha já posto em alegoria

o Antigo Testamento.

como já vimos 101 , opina

que a linguagem alegórica da Escritura procede do próprio Fí- lon. A nós, basta saber que o méto- do de interpretar o Antigo Testa- mento estava já em uso entre os hebreus alexandrinos 102 , antes da

época assinalada à vida de Cris- to. Basta que essa fosse a ideia e

o espírito dominante daquela

época para aplicar a adaptação

do mito do novo Redentor, ima-

ginado pelo exemplo dos outros Deuses Redentores, às alegorias

que va encontrar se encontravam no Antigo ou se julga- Testa- mento. E que tais foram a ideia e o espírito dominante naquela épo-

ca - o que deu nascimento ao

Cristianismo, entenda-se - isso confirma-se, de um modo que não admite réplica, com os pri- meiros padres da Igreja, princi- palmente com os que nasceram e viveram no mesmo ambiente de

discípulos. Fílon, do qual Entre foram eles verdadeiros contam-se Clemente d'Alexandria 103 e Orí- genes 104 que, como vimos, 105 são discípulos e seguidores de Fílon, até mesmo na negação da exis- tência histórica de Cristo. Mas para o provar, não preci- samos sair da Bíblia. S. Paulo atribui constantemente um duplo sentido à Escritura 106 , acompa- nhando as opiniões de Santo

oplatônica, que inspirou a famosa Esco- la alexandrina

103 Havet, op. cit., III, pp. 433-434.

104 Peyrat, op. cit., pp. 183 ss.

105 Parte I, c. III.

106 I Cor., IX, 9; X, 1 e ss.; Gal. IV, 21 ss.; Col. II, 16, 17; Eb. VIII, 5; IX, 1 ss.; X, 1.

Fócio,

100 Ernest Havet, O Cristianismo E Suas

Origens - O Judaísmo, tomo III, 421 ss., Paris, Lèvy, 1878.

101 Primeira parte, cap. III

102 Não é irrelevante a circunstância de que os simbolistas Hebreus fossem ale- perfeitamente xandrinos. Porque a passagem esta condição da doutrina, explica da moral e do culto do Antigo Testa- mento, que no judaísmo é fechad o e na- cionalista, para o cristianismo do Novo Testamento, que é um judaísmo mais suave e espiritualizado por influência do helenismo e, sobretudo, da filosofia ne-

74

Ambrósio, Santo Agostinho e S. Gregório 107 .

interpretação

trando o seu apogeu no Antigo Testamento 109