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A

Segunda
Reforma
A IGREJA DO
NOVO TESTAMENTO
r

NO SECULO XXI

WILLIAM A. BECKHAM

MINISTtRIO IGREJA
EM CÉLULAS
Publicado em português por:
Ministério Igreja em Células no Brasil
Rua Vereador Antônio Carnasciali, 1661
81670-420 Curitiba - PR

Copyright © 1995, 1996, 1997 por William A. Beckham


Título em inglês: The Second Reformation

Coordenação geral: Robert Michael Lay


Coordenação de produção: Harry Kasdorf
Tradução: Haroldo Janzen
Revisão: Valdemar Kroker
Diagramação: Cecilia Neufeld de Lima
Capa: Inventiva Comunicação

CIP-Brasil Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

B356s

Beckham, William A.
A Segunda Reforma: A Igreja do Novo Testamento no Século XXI I William A.
Beckham; tradução Haroldo Janzen - Curitiba, PR: Ministério Igreja em Células no
Brasil, 2007.
il.
Tradução de: The Second Reformation
Apêndice
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-87194-46-6

I. Igreja - Crescimento. 2. Renovação da Igreja. 3. Missão da Igreja. 4. Igreja-


Administração. 5. Liderança cristã. 6. Trabalho de grupo na Igreja. 7. Grupos pequenos
- Aspectos religiosos - Cristianismo. I. Ministério Igreja em Células. 11.Título.

II 07-0411. COO: 262.0017


COU: 262
07.02.07 12.02.07 000411

I." Edição em português: 2007

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser


reproduzida, armazenada em sistema de recuperação ou transmitida de qualquer
forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, fotocópias, gravação ou
outro qualquer, sem a permissão por escrito dos editores.

Os textos bíblicos usados neste livro são da Nova Versão Internacional, Editora
Vida, salvo outra indicação.
r
DEDICATORIA

P
ara os teólogos, filósofos e profetas da Segunda Reforma de
Deus e da revolução do século XXI. Seus escritos e seu pensa-
mento criativo são o fundamento da minha peregrinação na igre-
ja. Representantes desse grupo são:

Dietrich Bonhoeffer, que mesmo na prisão viveu vida em


comunhão. Elton Trueblood, o apóstolo da convivência da
comunidade comprometida. Robert Coleman, que nos mos-
trou o plano mestre da liderança do Novo Testamento. Francis
Schaeffer, que levou a igreja a entender o significado da "fuga
da razão ". Ray Stedman, que nos ensinou o significado da
vida no corpo. Howard A. Snyder, que descreve os odres
velhos e novos de vinho do reino. David (anteriormente Paul)
Yonggi Cho, que nos ensinou a respeito de células bem-suce-
didas nas casas. Ralph W. Neigbour Jr., uma voz profética
que nos mostra para onde devemos ir.

o movimento moderno da igreja em células é o fruto da sua fideli-


dade na visão da igreja que Deus colocou em seus corações.

L
r

INDICE
Prefácio 9
Introdução à edição em português 11
Introdução 21

Parte I Por que uma Segunda Reforma?

Capítulo 1 Desentupindo o ralo da banheira 27


Capítulo 2 A igreja de duas asas 37
Capítulo 3 Larry: Um paradigma de liderança 45
Capítulo 4 Eddie: Um paradigma dos bancos da igreja 55
Capítulo 5 Teresa: Um paradigma apocalíptico 67
Capítulo 6 Perguntas acerca da igreja de duas asas 77
Capítulo 7 Os benefícios da igreja de duas asas 87

Parte II Fundamentos para uma Segunda Reforma

Capítulo 8 A estrutura da igreja reflete a natureza de Deus 103


Capítulo 9 A transcendência e a imanência de Cristo 115
Capítulo 10 Áqui la e Prisci la - Comun idade do Novo Testamento 127
Capítulo 11 A teologia de Lutero, Spener e Wesley 137
Capítulo 12 O cristianismo do pescoço para cima 145

Parte III o projeto revolucionário de Jesus para a igreja

Capítulo 13 A pedra fundamental de Jesus 157


Capítulo 14 O sistema revolucionário de Jesus 165
Capítulo 15 O COI1I;lIl1l11l1 de Jesus 171
Capítulo 16 O protótipo de Jesus 179
Capítulo 17 Os fatores do protótipo de Jesus 187
Capítulo 18 A estratégia de liderança de Jesus 201
Capítulo 19 A rede de apoio de Jesus 217
Capítulo 20 O remanescente da congregação-base de Jesus 225
Capítulo 21 A "massa crítica" de Jesus 237
Capítulo 22 Os componentes da "massa crítica" de Jesus 245
Conclusão A doutrina da revolução 257
Apêndice Elementos de comunidade: a mão 269
I I

LISTA DE FIGURAS

Figura I Explosão populacional 69


Figura 2 Escala da transcendência e imanência 105
Figura 3 Medidor da verdade 148
Figura 4 O retrato distorcido 150
Figura 5 Grade contínua 173
Figura 6 A estrutura de liderança de Jesus 203
Figura 7 Usando o triângulo 206
Figura 8 A estrutura da Igreja em Células 211
Figura 9 Desenvolvendo a infra-estrutura 213
Figura lO Estratégia de transição 230
Figura 1I Os cinco sistemas da célula 270
PREFÁCIO

J
esus é o Salvador do mundo. Será que ele também é o Senhor da
igreja? Nós realmente cremos nisso? Hebreus 11.10 diz que Deus
é o "arquiteto e edificador" principal. A igreja muitas: vezes negli-
gencia ou ignora o projeto básico revelado para nós nas EScrituras. Nós
louvamos o Cabeça mas falhamos em edificar o corpo.
A maioria das nossas tradições de igreja tem a forma Piresbiteriana,
episcopal ou congregacional. Isto é, essas formas destacam a importân-
cia dos presbíteros ou anciões, dos bispos e pastores qual ificados ou da
comunidade local de crentes. Cada uma dessas ênfases tern a sua base
no Novo Testamento; cada forma preserva percepções bíblicas. Mas
nenhuma incorpora plenamente a dinâmica bíblica da igreja. Quaiquer
que seja a nossa visão acerca da filosofia de igreja, a pergunta básica
hoje é: Será que as nossas igrejas realmente são a encarna~ão do evan-
gelho de Jesus Cristo? Temos dado a devida atenção à eclesiologia bí-
blica básica, independente das nossas tradições pessoais? De maneira
significativa, os autores dos mais diversos espectros ecles iásticos têm
argumentado a favor de uma nova reforma. E muitas vez~s chegam a
conclusões semelhantes acerca da natureza orgânica e celular da igreja
quando examinam os escritos do Novo Testamento.
Eu tenho ouvido um clamor por uma Nova Reforma em nossa igreja
por mais de vinte anos - uma que renovaria a forma e a vida da igreja,
tornando-a fiel e eficiente. E Deus tem trabalhado nesses anos. A Segun-
da Reforma é um sinal disso. Mais do que um apelo para uma renovação

9
lO .1 5,'eg li nda R cforma

na igreja. este livro aponta o caminho ú frente - especialmente em


-
relação ú natureza orgânica c celular do Corpo de Cristo.
Valendo-se de uma extensa experiência corno missionário. plantador
de igreja. pastor e mestre. Bill Bcckharn reúne percepções bíblicas. aná-
lise histórica e teológica e um sentido comum prático neste importante
livro. LIe participa do coro crescente de líderes interessados em levar ()
povo de volta ao modelo bíblico - para serem fiéis em seus dias a uma
sociedade emergente globaliznda. A Seg/ll/da Reforma é lima argumen-
tação informada e sustentada a favor do padrão do Novo Testamento
acerca da celebração !lO grUDO gran:k~iado ao discinulado.no gnlpo
p~_CL~
Podemos aprender da história. Minha própria pesquisa me con-
venceu que sempre que Deus renova a igreja, elementos-chave são uma
redescoberta de uma comunidade intimamente ligada e o ministério de
lodos os crentes. Como Beckharn nos lembra, a "Igreja de duas asas"
realmente não é nova. A história nos oferece exemplos instrutivos. Nós
simplesmente precisamos redescobrir novamente o que a igreja, até cer-
to nível, sempre soube.
A Segunda Reforma é um apelo à fidelidade bíblica na maneira
como planejamos a nossa vida juntos como igreja cristã. É um lembrete
do tipo de vida compartilhada que somos chamados a praticar como
cristãos. e um guia prático de como encarnar as maravilhosas boas no-
I
vas de Jesus Cristo nessa época da virada do milênio. O livro borbulha
I
de percepções e exemplos. Ele nos mostra como é uma igreja que cele-
bra ele forma genuína.

- Howarel A. Snyder, autor ele Vinho Novo, Odres


Novos (São Paulo: ABU, 1l}<)6). Sigll.\ ui lhe .)/nril.
How God Resliapes lhe Church (Sinais elo Espírito:
Como Deus remodela a igreja), anel Earth Currents:
I
I The Slruggle for lhe World \. Soul (Correntes da ter-
ra: A luta pela alma elo mundo)
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO
,...
EM PORTUGUES

PERGUNTAS RELATIVAS AO MOVIMENTO


IGREJA EM CÉLULAS

"Vocêsjá ficaram bastante tempo nesta tnont anh a.


Levantem acampcunento e avancem. "
O Senhor a Moisés

A
s verdades de Deus nunca mudam. No entanto, o contexto his-
tórico das verdades e as pessoas que apl icarn as verdades de
Deus mudam. Por isso, atual izações periód icas de Iivros po-
dem ser de grande ajuda.
Como uma introdução a esta edição em português de A Segunda
Reforma, incluo aqui porções da Introdução e Conclusão de um de meus
livros mais recentes, Where (Ire l1'e now? [Onde estamos agora"]. Esse
livro é uma avaliação do Movimento de Grupos Pequenos e dos modelos
ligados a ele.
Espero que esses pensamentos ajudem a colocar as verdades apre-
sentadas em A Segunda Reforma na sua perspectiva h istórica, mantendo
assim sua relevância para o Movimento Igreja em Células de Deus do
século XXI.

MOVIMI:NroS

;\ maioria dos movimentos, programas e usos da igreja dura ape-


nas pouco tempo. Mas o atual Movimento Igreja em Cé lulasja existe
há cerca de cinco décadas. ;\ conclusão poderia ser que o movimento
não está funcionando porque levou cinco décadas para chegar até esse
ponto. No entanto, a longevidade do moderno Movimento Igreja em

JJ
12 A Segunda Reforma

Células é realmente muito impressionante. Quando Deus prepara algo


grande para fazer, ele leva o seu tempo. A erva cresce em semanas,
mas um grande carvalho alcança a maturidade apenas depois d_t!_~éc~::
das."
as. ....-.

Durante as últimas cinco décadas, Deus tem desafiado a igreja a


restituir os grupos pequenos ao ministério da igreja. Algumas igrejas-
chave foram bastante bem-sucedidas em adicionar grupos pequenos a
suas estruturas de grupo grande já existentes, enquanto outros líderes
fiéis c boas igrejas falharam repetidas vezes. Normalmente, quando
um programa novo falha, a igreja não se dispõe a tentar aquele "pro-
grama" novamente. Mas algumas igrejas e líderes têm tentado até qua-
tro ou cinco vezes fazer com que os grupos funcionem usando o méto-
do mais recente de pequenos grupos. Por que existe essa atração por
grupos pequenos, apesar de todos os fracassos?
Deus colocou uma visão da igreja no coração de líderes, e essa
visão inclui os pequenos grupos do Novo Testamento. É como se Deus
dissesse: "GruRos~quenos são importantes para mim e você~ gg 10168
rão até que os usem da maneira certa". Na primeira década do século
XXI, muitas igrejas estão começando a "fazer da maneira certa" o que
diz respeito a grupos pequenos.
Entretanto, amigos e inimigos ainda questionam por que isso de-
morou tanto. Creio que a razão para o penoso e demorado processo de
restauração dos grupos pequenos como sistema de ministério do Novo
Testamento se encontra na história da Igreja. A Igreja do Novo Testa-
mento estava equilibrada entre a comunidade corporativa e a comuni-
dade de célula: entre a expressão do grupo grande e a expressão do
grupo pequeno. Mas, durante 1.700 anos, a maioria das igrejas usou
apenas a expressão do grupo grande. Essa compreensão desequilibra-
da de igreja está agora profundamente enraizada nos valores, na psi-
que e cultura dos cristãos que nela nasceram. Consequentemente, mu-
dar a percepção de igreja como uma organização de grupo grande em
um prédio é incrivelmente difícil.

QUARENTA ANOS RODEANDO A MONTANHA

Hoje Deus está restaurando o paradigma do equilíbrio por meio


de diferentes correntes da igreja que durante décadas estiveram expe-
rimentando grupos pequenos. Deus começou essa abordagem eq u iIi-
brada na Igreja do Evangelho Pleno Yoido, em Seul, na Coréia do Sul,
durante o início da década de 1950.
A Igreja do Novo Testamento no século )(){f 13

Em 1997, durante uma conferência em uma igreja na Europa, o


pastor me convidou para almoçar com o preletor principal. dr. Paul
Yongi Cho, pastor da Igreja do Evangelho Pleno Yoido. Cumprimentei
o dr. Cho e imediatamente lhe informei que eu era amigo do dr. Ralph
Neighbour. Ele respondeu: "Deus desenvolveu em meu ministério a
maior igreja do mundo, mas ele tem usado Ralph Neighbour para via-
jar ao redor do mundo e ensinar sobre a Igreja em Células". Enquanto
conversávamos, tive uma profunda percepção de h istória. Haviam se
passado mais de quarenta anos desde que Deus havia dado a esse ho-
mem a visão de uma igreja com seu principal ministério por meio de
grupos pequenos.
Quarenta anos é o mesmo período que os filhos de Israel cami-
nharam pelo deserto antes de entrar na Terra Prometida. Depois de
quarenta anos, Deus disse a eles: "Vocês já rodearam bastante tempo
esta montanha". Consequenternente, o povo de Deus começou a se
mover em direção à visão de Deus.
Cada movimento chega finalmente a esse momento decisivo. Ou
ele continua rodeando a montanha com suas idéias e cultura antigas ou
ele se levanta e se move em direção à promessa. Naquele dia com o dr.
Cho, senti que o Movimento Igreja em Células havia chegado ao mes-
mo momento decisivo experimentado pelos filhos de Israel. O.M~
rnento Igreja em Células rodeo!l QYf!tnt~º-~C:!!ªi.l~amontanha de con~
ceitos, ldelas e íííõíiêlQL.b.gora, a antiga geração ligada à servidão
, instituclõnãtda passado foi sepultada e uma nova geração nasceu. No
início do século XXI, o Movimento Igreja em Células está agora vol-
tado para a visão prometida de Deus.
O tempo que um movimento emprega rodeando a montanha não
é de todo perdido. Antigas idéias são descartadas, antigos líderes são
sepultados e novos planos de viagem são feitos. E perguntas necessá-
rias surgem para definir o destino do movimento.

PRIMEIRAS PERGUNTAS SOBRE O


MOVIMENTO IGREJA EM CÉLULAS

Podemos traçar o desenvolvimento do Movimento Igreja em Cé-


lulas considerando as perguntas que têm sido feitas a respeito dele
durante os últimos quarenta anos.
A primeira pergunta foi: "O que é essa coisa em Seul?" , porque
Deus começou o movimento moderno na Coréia, no ministério de Paul
1 fnr

14
····.--·-·--·--------------------.;...------"'-'--~-=·----==.i-l;.
A Segunda Reforma

Yongi Cho. Em retrospecto, é evidente que a Igreja do Evangelho Pleno


Yoido não era um modelo de ensino para o movimento, mas um modelo
para "chamar a atenção". Na verdade, poucas igrejas foram capazes de
copiar a estratégia ou o tamanho do modelo coreano. No entanto, por meio
daquela igreja Deus atraiu a atenção de líderes para um modelo de minis-
tério mais bem-sucedido.
A segunda pergunta também foi a respeito da igreja em Seul. "Posso
ser bem~~l!ç~rjjrjg_l!§f!_'!_4.Q!:!estr.!'tura de Seul? ". Muitos pastores ansia-
vam pelo mesmo tipo de crescimento do qual ouviram que havia nessa
grande igreja em Seul. Alguns foram a Seul, viram o crescimento e chega-
ram a uma conclusão óbvia, porém incompleta. Outros chegaram à mesma
conclusão permanecendo em casa e lendo a respeito da igreja ou ouvindo
aqueles que fizeram a peregrinação. A conclusão foi: "Posso experimentar
o crescimento dessa igreja !lsando s"a estrutura", Subseqüentemente, cen-
tenâs-de igrejas se reorganizaram com grupos pequenos e experimentaram
algum crescimento, enquanto
-_ .. ,,,.- muitas outras fracassaram.
~ Elas continuaram
no círculo da igreja tradicional e chegaram ao mesmo lugar de onde parti- ~
ramoA razão? N- odemos mudar uma udar um valor. '
Não pode
lores e vida.
Estamos condenados a continuar rodeando a montanha enquanto
traçarmos o nosso curso com estruturas. Essa foi uma lição importante
que Deus queria que a igreja do século XX aprendesse.
Outra pergunta durante os primeiros dias do movimento surgiu des-
ses fracassos com estruturas. "Os grupos pequenos darão certo fora da
Coréia? ". Uma resposta simplista e satisfatória a quem a formulava tor-
nou-se popular. "Grupos pequenos não darão certo nos Estados Unidos!".
E você poderia substituir "Estados Unidos" por "Reino Unido" ou "Amé-
rica do Sul" ou muitos outros países. Muitos líderes concluíram que gru-
pos pequenos fracassaram ou fracassariam em seu país porque grupos
pequenos apenas são eficazes em determinadas culturas. Assim, a conclu-
são foi que "grupos pequenos podem dar certo em alguma Terra Prometi-
da, mas não darão certo em nosso país que rodeia a montanha". Entretan-
to, o tipo de grupos pequenos implantado nos Estados Unidos e no Reino
Unido naquela época também não daria certo na Coréia. Pessoas e estru-
turas que rodeiam a montanha vão continuar se movendo em círculo mes-
mo em um novo lugar. Isso não tem nada que ver com o terreno. Atual-
mente, grupos pequenos "estão dando certo" em todos os continentes e
em muitas culturas diferentes. Isso nos leva a uma nova série de perguntas.

II
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 15

PERGUNTAS TEOLÓGICAS

"O grupo pequeno é um fenômeno cultural ou teológico? ". Visi-


onários como Ralph Neighbour e Carl George, além de outros, busca-
ram compreender os valores e a teologia de grupos pequenos e expressá-
los em modelos e materiais de implementação prática. Neighbour es-
creveu sobre a Igreja em Células e George explicou o movimento como
metaigrejas. Bill Hybels começou com dois valores culturais. O pri-
meiro valor era que americanos suburbanos ainda buscavam a Deus. O
segundo valor era que a comunidade de grupos pequenos era atraente
a essas pessoas. Com base nesses dois valores, Deus desenvolveu em
Chicago o Modelo Willow Creek para as pessoas que estão a sua pro-
cura.
Durante o desenvolvimento desses primeiros modelos, com fre-
qüência o vinho novo foi severamente influenciado pelas estruturas
antigas de grupo grande. Além disso, a cultura antiga de Grupos de
Estudo Bíblico, Grupos de Ajuda e de Comunhão dominou as dinâmi-
cas e mecanismos dos novos grupos pequenos.
Assim como os filhos de Israel, esses primeiros modelos levaram
consigo uma grande parte da cultura do Egito para a montanha. E,
durante aqueles quarenta anos, desenvolveram as suas próprias estru-
turas de rodear-a-montanha. Misturar a cultura de rodear-a-montanha
e a nova cultura da Terra Prometida sempre resultará em confusão e
indecisão. Então, líderes mais uma vez experimentaram um sucesso
um tanto menos que satisfatório com grupos pequenos, e a conseqüen-
te frustração suscitou outras perguntas.
Quando a dificuldade de fazer a transição para esse tipo de igreja
se tornou mais óbvia, fez-se uma nova pergunta. "Os grupos pequenos
são apenas um 'modo de vida' da Igreja do Novo Testamento? Os gru-
pos pequenos no primeiro século representavam uma estrutura cultu-
ralou essencialmente teológica?". A resposta a essa pergunta deu aos
pastores uma possibilidade de escapar da pressão de aplicar a teologia
de grupos pequenos do Novo Testamento em suas igrejas. Após expe-
rimentar dificuldades na aplicação de grupos pequenos, um pastor co-
mentou: "Foi assim que eles fizeram no primeiro século. Nós fazemos
isso em um grupo grande".
Isso significa que a cultura e a estrutura da igreja dependem da
montanha que você rodeia. Eu hoje rodeio minha montanha da minha
maneira. No Novo Testamento, eles rodeavam a montanha deles da
16 A Segunda Reforma

sua maneira. Mas falta a essa abordagem de diferentes montanhas uma


direção e ficamos exaustos de circundar até mesmo montanhas pesso-
ais. Portanto, essas perguntas sobre os grupos pequenos no Novo Tes-
tamento e no século XX levaram à pergunta seguinte.
"Qual é a teologia dos grupos pequenos? ". Um movimento cris-
tão não pode se sustentar a não ser que se defina teologicamente. Du-
rante as últimas décadas, a teologia dos grupos pequenos foi desenvol-
vida em torno da verdade fundamental da natureza de Deus. Deus, em
sua própria natureza, é comunidade: Pai, Filho e Espírito. Portanto, a
Trindade é o principal conceito usado para explicar a teologia de co-
munidade e guiar a vida da igreja e de cada cristão. A definição da
teologia de comunidade levou o movimento a um novo nível. Agora,
líderes não podem mais descartar grupos pequenos como um simples
método passageiro. Se a comunidade do grupo pequeno é parte da te-
ologia básica da natureza de Deus, então fazer parte da comunidade
não é mais simplesmente uma opção prática. Líderes não podem con-
tinuar debatendo os méritos dos grupos pequenos, porque o valor dos
grupos pequenos agora está estabelecido na própria natureza de Deus.
Líderes e igrejas precisam encontrar agora uma maneira de viver em
comunidade de grupos pequenos! Nós apenas podemos romper a força
do passado que nos faz mover em círculos com a força da teologia. A
resposta para os filhos de Israel não estava em aprender a rodear me-
lhor a montanha. A resposta para eles foi seguir a presença Shekiná de
Deus/ '
.' ,I

PERGUNTAS RECENTES

Durante a última década, uma nova série de perguntas foi feita


acerca do movimento. Essas perguntas não se referem à validade do
uso de grupos pequenos, mas à natureza dessas igrejas, Essas pergun-
tas são formuladas enquanto a Igreja recolhe seus pertences e se pre-
para para a jornada, para longe da montanha do passado,
"Com que se parece uma Igreja em Células e como funciona? ".
O movimento Igreja nas Casas reage contra os fracassos do grupo gran-
de e questiona: "O grupo grande é necessário?", Outra pergunta surge
a respeito da natureza da Igreja em Células, porque os modelos mais
visíveis para o movimento até esse ponto têm sido de igrejas muito
grandes, "A estratégia de grupos pequenos é primordialmente um mé-
todo de uma igreja grande?", Entretanto, uma grande porcentagem de
igrejas no mundo atualmente é de menos de 100 membros adultos ati-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 17

vos. Por nenhuma outra razão que seus números, essas pequenas igre-
jas são fundamentais para o crescimento do movimento. O Movimen-
to da Igreja nas Casas na China também comprova que esse não é ape-
nas um fenômeno de uma igreja grande. E perguntas em outras áreas
também têm sido feitas. Por exemplo: "Como a implantação de igrejas
e os ministérios de apoio se encaixam no movimento?".
Diversas perguntas que são discutidas no movimento nesse mo-
mento merecem atenção especial nesses parágrafos conclusivos.
"Existe apenas um modelo e método?". Essa é uma das pergun-
tas recentes mais importantes a respeito do movimento. Essa pergunta
foi desenvolvida em razão do grande sucesso do Modelo do Grupo dos
Doze em ]3!?g..ot<h..Çolômbia.A história confirma que o Espírito Santo
é capaz de usar muitos modelos e métodos diferentes em um movi-
mento controlado por ele. Não existe um modelo ou um método ou um
.••coneo de materiaLL No Tuturo, o movimento terá outros modelos
que parecerão ser "o modelo". Mas esses modelos especiais são ape-
nas a maneira de Deus fazer correções de curso e nos lembrar de vj}Jo-
re§ eSQuesidos 011 negligenciados que precisam continuar a conduzir o
movimento.
"É necessário que o movimento seja controlado do topo por lí-
deres autorizados?". Essa é uma pergunta que tem sido feita com uma
freqüência crescente durante os últimos anos. O fato é que o movi-
mento perseverou por cinco décadas tendo somente o Espírito Santo
como seu administrador divino. Ele não sobreviverá mais algumas
décadas se apóstolos humanos o restringirem a si mesmos, encaixo-
tando-o em determinados modelos, codificando sua vida ou se esque-
cendo de liderar como servos. Líderes podem ser substantivo ou ver-
bo. Líderes-subst'.l_ntivo necessitâm de títulos e posições Líderes- ver-
bo lideram pelo exemplo Jjderes-sllbstaotiyo dizem' "Ouca O que eu
ç!igo" ~ "Obedeça-me" U@res-verbo dizem' "Siga-Jlle:'~ºeixe-me
servi-lo". Um movimento de Deus não sobreviverá muito tempo a lí-
deres que demandam títulos, posições e honra especial para si mes-
mos.
"Os grupos são naturais, feitos pelo homem, ou são células so-
brenaturais, feitas por Deus?". Essa é uma pergunta importante para a
expansão do movimento no século XXI. Ela atinge o centro da nature-
za e o DNA do grupo pequeno. Cristo está de fato no meio de cada
grupo com sua presença divina, seu poder da ressurreição e seu propó-
sito eterno? O movimento Igreja em Células não sobreviverá como
movimento de grupos pequenos, como movimento de implantação de
18 A Segunda Reforma

igrejas, como movimento de crescimento de igreja ou como movimen-


to de igreja grande. Grupos de Estudo Bíblico, <;!Tuposde Aj~ e
Grupos de Trabalho também não irão penetrar religiões radicais, trans-
formar culturas seculares e mudar sociedades em deterioração. Esse
movimento somente continuará se Cristo estiver presente nessas célu-
las como ele prometeu. Por isso, essa pergunta a respeito de grupos
feitos pelo homem ou células feitas por Deus deve ser respondida acom-
panhada dessa paixão e determinação. "Cada unidade básica desse mo-
vimento deve funcionar como uma comunidade feita por Deus, habita-
da por Cristo e capacitada pelo Espírito."

o QUE VAI ACONTECER EM SEGUIDA?

Creio que Deus começa agora a fazer e responder a uma nova


pergunta sobre a Igreja do século XXI: O que vai acontecer em se-
guida?
Deus falou a dois profetas do Antigo Testamento no século VII
a.C. a respeito do que estava por vir. Em meio a eventos horríveis e
desgraça esmagadora, Deus apontou para um tempo no futuro. Deus
disse a Habacuque:
"Olhem as nações!"
"Contemplem-nas! "
"Fiquem atônitos!"
"Pasmem!"
"Pois nos dias de vocês farei algo em que não creriam se lhes
fosse contado!"
Deus falou a Zacarias a respeito de um evento futuro que seria
realmente um tempo de admiração. Assim diz o Senhor dos Exércitos:
"Naqueles dias, dez homens de todas as línguas e nações agarrarão
firmemente a barra das vestes de um judeu e dirão: 'Nós vamos com
você porque ouvimos dizer que Deus está com o seu povo '. " (Zacarias
8.23). Essa é uma profecia sobre o grande poder de atração do evange-
lho que ocorreu apenas em situações isoladas no passado, mas que
está prometido para um dia no futuro.
Teria chegado esse dia? A profecia de Zacarias teria sido planeja-
da para o século XXI, para o nosso tempo? Seria o Movimento Igreja
em Células o preparo de Deus para o cumprimento dessa profecia?
Creio que pode ser estabelecida uma conexão entre a promessa de Deus
de uma grande colheita a Zacarias e o Movimento Igreja em Células. A
conexão se encontra na razão pelo desejo dos perdidos de todas as
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 19

línguas e nações de agarrar-se ao povo de Deus. "Ouvimos dizer que


Deus está com vocês.". Essa é a conexão entre essa promessa do sécu-
lo VII e o que Deus está fazendo hoje no Movimento Igreja em Célu-
las.
A singularidade do Movimento Igreja em Células é a presença
de Deus. O texto bíblico da vida desse movimento é "onde se reunirem
dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles". O grande mis-
tério e esperança desse movimento é "Cristo em você". Por mais de
meio século Deus tem transformado gradualmente esse movimento de
um movimento de grupos pequenos em um movimento da comunidade
encarnada.
A teologia dos grupos pequenos agora tem seu foco na presença
permanente do Pai, na vida encarnada de Cristo, o Fi lho, e na plena
habitação do Espírito Santo na vida de grupo pequeno.
Ralph Neighbour pediu que o texto de 1 Coríntios 14.24-25 seja
escrito sobre a lápide de seu túmulo. Mas se entrar algum descrente
ou não instruído quando todos estiverem profetizando, ele por todos
será convencido de que é pecador e por todos será julgado, e os se-
gredos do seu coração serão expostos. Assim, ele se prostrará, rosto
em terra, e adorará a Deus, exclamando: "Deus realmente está entre
....I"
voces ..
A presença é a característica mais significativa do Movimento
Igreja em Células em nosso ingresso no século XXI. A lição mais im-
portante que esse movimento aprendeu é que Cristo está em cada cris-
tão e em cada grupo pequeno. Jesus disse: "Quando for levantado da
terra, atrairei todos a mim". Imagine Cristo sendo levantado em gru-
pos pequenos em todo o mundo. Essa é a esperança da profecia de
Zacarias de uma grande atração de perdidos de todas as línguas e na-
ções para Cristo. Os perdidos tocarão a barra das vestes do povo de
Deus para tocar o Cristo manifestado que é evidente em seu meio.
A maior colheita que o mundo e a igreja jamais viram está no
horizonte. É uma colheita de admiração c espanto. Será uma colheita
diferente das outras. Será uma colheita amadurecida pela presença
Shekiná do próprio Deus entre o seu povo. Será uma colheita de santi-
dade, porque o povo de Deus vive na sua presença. Será uma colheita
de adoração, por causa da sua presença. Será uma colheita de oração,
por causa da sua presença. Será uma colheita da Palavra, por causa da
sua presença. Será uma colheita de amor, por causa da sua presença.
Será uma colheita de ministério, por causa da sua presença. Será uma
colheita de poder, por causa da sua presença.
20 A Segunda Reforma

Deus está preparando o Movimento Igreja em Células para a co-


lheita. Cada vez que um grupo de cristãos experimenta a realidade da
presença, do poder e do propósito do Pai, do Filho e do Espírito, estamos
um pouco mais perto da colheita de Deus. -1

Bill Beckham
Janeiro 2007
-
INTRODUÇAO
o GRANDE QUADRO DE EZEQUIEL

A mão do SENHOR estava sobre mim, e por seu Espírito


ele me levou a 11111 vale cheio de ossos. Ele me levou de
11mlado para outro, e pude ver que era enorme o número
de ossos no vale, e que os ossos estavam muito secos.
Ezequiel 37. /-2

A
visão do profeta Ezequiel do vale de ossos secos expressa frus-
tração, mas em última análise, esperança, com a nação de Israel.
Quando Ezequiel olhou para aquele vale, viu muitos ossos. Uma
enorme quantidade de ossos estava espalhada por aquele vale. Mas, será
que "esses poderão tornar a viver?". Onde estava a forma, a carne e a
"
vida em torno dos ossos?
Deus instruiu Ezequiel para.erofetjlOr aos ossos. Enquanto profe-
tizava, houve um barulho, um som de chocalho, e os ossos se juntaram,
osso com osso. Olhei, e os ossosforam cobertos de tendões e de carne,
e depois de pele (Ez 37.7-8). Todas as partes foram j untadas e integra-
das em um todo. Mas isso ainda não era suficiente: "Não havia o espíri-
to neles ... Profetize ao espíri!Q:..
AJorma sem o espírito de Deus continua sendo nada além de ossos
secos conectados. Profetizei conforme a ordem recebida, e o espirito
':i/í/"()l/ neles; eles receberam vida e se puseram em pé. fui um exércitu _
©
e;;:"l"IIle.' 37.101.. Ossos secos. mortos, desconectados, foram trans-
tormaãos em um exército vivo e poderoso.

A l'vIACROVISAo

Este livro faz parte do diálogo de como a igreja de Novo Testa-


mento se relaciona com o mundo do século XX!. Eu não escrevo porque
sou um perito no assunto, mas porque o meu coração. como o seu. pulsa

L 2/
22 ;1 Segunda Reforma

há décadas por uma igreja que siga os moldes da igreja do Novo Testa-
mento. Semelhantemente a Ezequiel, tenho estado parado diante do enor-
me vale, examinando os ossos secos da igreja e ansiando ter o poder para
profetizar forma e vida para esses ossos. Hoje, presumo que as aborda-
gens antigas de "fazer igreja", usadas por 17 séculos, não vão produzir
nada além de um "som de chocalho" nesses ossos. Semelhantemente a
Israel, a igreja sente a necessidade de um sistema espiritual para transformá-
la em um organismo que Deus possa encher com o seu espírito.
Este livro visa a apresentar uma macrovisilo da igreja. Macro signi-
fica combinar forma em uma perspectiva que é "longa, ampla e expandi-
da". Um provérbio comum que expressa o princípio do macro versus o
micro diz o scguinte: "Você não consegue ver a floresta por causa das
muitas árvores". Muitas vezes não conseguimos "ver a floresta" (macro)
"devido às muitas árvores" (micro). ~ temos a tendência de nos perder
em detalhes e falham~Q) ver o ql!adro todo.
- Para algllIfs,-essa abordagem vai ser frustrante porque detalhes,
aspectos específicos, métodos e dados são normalmente vistos como a
chave para o sucesso. No entanto, da minha experiência pessoal, como
pastor e missionário, percebo que meu problema em implementar uma
estratégia normalmente não é o problema micro ou o detalhe, mas o
problema macro, ou seja, ter a visão do todo. Quando consigo ver todo o
quadro, ~10 ÇQndiçÕes de encaixar os detalhes..nos sem devidos luga-

-
res.

UM QUEBRA-CABEÇAS SEM O QUADRO

Como Iíderes de igreja, parece que estamos diante de uma caixa


com 5.000 palies de um quebra-cabeças, mas não temos idéia como é o
quadro desse quebra-cabeças. Os pedaços obviamente foram projetados
para encaixar-se um no outro. Porém, está faltando o quadro necessário
para nos ajudar a colocar os pedaços no seu devido lugar. Posso imagi-
nar Ezequiel tendo pensamentos semelhantes quando observou o vale
dos ossos secos.
Esse sentimento de incerteza ocorre com freqüência durante perí-
odos de mudanças rápidas. quando padrões aceitáveis de operação têm
falhado. mas padrões novos não têm preench ido as lacunas. Copérn ico
vivia em uma época de transição como essa. Ele descreveu o estado
caótico da astronomia dos seus dias: ··... é como se um artista tivesse de
coletar as mãos. pés. cabeça e outros membros para as suas figuras de
diversos modelos, cada palie desenhada de maneira esplêndida. mas não
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 23

relacionada a um único corpo, e visto que eles não combinam de forma


alguma umas com as outras, o resultado seria um monstro em vez de um
homem ".1
Tanto Ezequiel, como Copérnico e os líderes da igreja atual parti-
lham de um problema em comum - nós carecemos de uma estrutura que
integre nosso sistema. Diante do quebra-cabeças da igreja, contamos com
mais palies do que podemos lidar. E certamente não será muito útil reco-
lher todas as peças na caixa a chacoalhá-Ia novamente para obter uma
formação diferente! Devemos primeiro encaixar os métodos e os detalhes
em uma macrovisão da igreja do Novo Testamento.

r hl\ M!\CROVIS.\O PODE SER .\tvlEDRO:'\T;\l)()Ri\

Visualizar a igreja em pinceladas novas e amplas pode ser


amedrontador porque nos leva além da nossa zona de conforto. Já não
estamos mais no controle. A rnacrovisão da igreja é tão ampla e abrangente
quanto o próprio Deus e nos conduz além do nosso tempo limitado e di-
mensões de espaço. Ela nos leva muito acima da segurança do nosso mun-
do físico lógico para o reino espiritual de fé e visão de Deus.
Portanto, este livro realmente trata de você e de mim. Antes que a
igreja possa mudar, você e eu precisamos mudar. Simplesmente Illudar
materiais, programas e atividades não é suficiente Dev-el~"Wsmudar a nos-
- sa cÕ-licepção de igreja, como vemos Deus se expressando no mundo por
meio da igreja e como "fazemos igreja".

VAMOS "PROFETIZAR"

Venha comigo para dentro do vale com todos os ossos e partes da


igreja que temos tentado chacoalhar e trazer à vida. Devemos estar fa-
miliarizados com esses ossos. Temos andado no meio deles e pisado por
cirnn deles por anos. Temos tentado 1I11il C:-':-'CS ossos com nossos progra-
mas, e os temos chacoalhado com toda a nossa força administrativa e
promocional. Sem dúvida, conhecemos bem esses ossos.
No entanto, Deus nos mandou profetizar para os (}SSOS e para ()
e.lpírilo. Assim, dessa vez, em vez de chacoalhar os ossos com as nossas
próprias forças, vamos profetizar as palavras de Deus sobre a igreja.
Profetize aos ossos para que recebam forma. Profetize o sopro de ~D~us
para que essa forma receba vida como igreja de Cristo, um cxcrc itn vivo
e poderoso marchando para a reforma - A Seglll/du Reji)rll/u.
PARTE I
PORQUE UMA
SEGUNDA REFORMA?

Hoje, depois de mais de três séculos, podemos, se desejarmos,


trocar a marcha novamente. Nossa oportunidade para um grande
passo reside em abrir o ministério para o cristão comum de uma
maneira semelhante àforma em que os nossos ancestrais abriram
a leitura da Bíblia para o cristão comum. Fazer isso significa, em
certo sentido, o início de uma nova Reforma, enquanto, em outro
sentido, significa o término da Reforma anterior na qual as
implicações da posição tomada não foram entendidas plenamente
nem seguidas fielmente.
- Elton Trueblood
1
DESENTUPINDO O RALO
DA BANHEIRA

o mudo de pensar que criou os problemas que lemos


hoje é insuficiente para resolvê-los,
-A/hert Einstein

A
banheira de Christian Smitb..iicoII entllpida por três djas...,Ele
achava que era conseqüência de uma reforma recente. Ele gas-
tou uma boa parte dos três dias tentando consertá-Ia e chegou a
descer ao porão para "atacar" o cano de esgoto COI11 um fio de metal flcxí-
vel para desentupir ralos.
Nada funcionava. Não passava um pingo. Ele finalmente "entregou
os pontos". Exausto, derrotado e coberto pela sujeira do esgoto acumula-
do em vinte anos, sentou-se no canto da banheira e imaginou a vida sem
um bom banho. Christian continua sua história, dizendo: "De repente, eu
tive um sentimento estranho. Não. Isso não podia ser possível. Eu estendi
o braço e tirei a tampa do ralo da banheira. Instantaneamente, a água suja
jorrou pelo cano abaixo. Eu tinha esquecido de abrir a tampa para deixar
a água sair".'

Cluisí iau Smith aplica a sua experiência do raio fechado ú igreja:

A moral óbvia do meu fiasco com a banheira foi a seguinte~


importa quão criativo você seja, se \'ocê definiu o problema
incorretamente, você não vai encontrar a solução. Em outras
,palavras: mais importante do que dar as respostas certas é fazer
as pergllntas celias Ou, quando você Iim ita prematuramente a
amplitude das possíveis causas dos seus problemas, você pro-
vavelmente vai ficar com a sujeira de esgoto em seu rosto.
28 A Segunda Reforma

Para arrumar a minha banheira, eu precisei recuar alguns pas-


sos e considerar se o problema poderia ser algo diferente do
que acúmulo de cabelo e sujeira. Eu precisava abordar o meu
problema de uma perspectiva totalmente diferente, com uma
interpretação de evidências radicalmente reordenada. De for-
ma semelhante, para arrumar a igreja, também precisamos re-
cuar alguns passos, deixar de lado as suposições convencio-
nais acerca do que é errado, e abordar o problema com um
quadro de referência radicalmente diferente."

Nossos quadros de referência, ou paradigmas, mostram como ve-


mos e o que pensamos acerca dos eventos ao nosso redor. Nós interpre-
tamos nossas experiências e nossos relacionamentos com pessoas, even-
tos e estruturas por meio dos nossos paradigmas. Nós também não en-
tendemos a igreja a não ser que a enxerguemos por meio do paradigma
do Novo Testamento. Este capítulo define e ilustra o pensar paradigmático
e mostra sua relevância para o que está acontecendo na igreja atual. A
maneira de fazermos igreja está diretamente relacionada à maneira de
pensarmos da igreja.

FIGURAS DE PARADIGMAS

Em seu livro A estrutura da revolução científica (São Paulo: Pers-


pectiva, 1996), Thomas Kuhn introduz à nossa geração a palavra
paradigma e a frase mudança de paradigma. Ele afirma que cada ruptu-
ra significativa no campo da ciência é uma ruptura de formas antigas e
tradicionais de pensar. Steven Covey confirma isso ao dar a seguinte
definição de paradigma:

A palavra paradigma vem do grego paradigma: um modelo


ou mapa para entender e explicar certos aspectos da realidade.
Embora uma pessoa possa fazer pequenas melhorias ao de-
senvolver novas habilidades, grandes avanços no desempe-
nho e avanços revolucionários na tecnologia requerem novos
mapas, novos paradigmas, novas maneiras de pensar e ver o
mundo.'

o professor Kuhn cita exemplos de descobertas científicas conhe-


cidas que começaram quando um cientista rompeu com o padrão aceito
em conceituar um conjunto de fatos. Ele observou grandes saltos na
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 29

criatividade e no avanço quando cientistas começaram a perceber uma


situação de uma maneira nova por causa da mudança de entendimento.
A Crase mudança de paradigma foi cunhada para explicar esse processo
cxtraord inário.
Embora paradigma seja originalmente um termo científico, mui-
tos o entendem como um modelo, uma teoria, uma percepção, uma pres-
suposição ou um sistema de coordenadas. Hoje, paradigma é um jargão
no meio político e empresarial. Líderes cristãos também têm começado
a aplicar o conceito à igreja.
O pensar paradigmático não é um fenômeno moderno, como pode
ser verificado na seguinte carta de Martin Van Buren ao Presidente
Andrew Jackson. Ao lermos entre as linhas temos a impressão de que
dois paradigmas de transportes provocaram um debate feroz na política
americana no início do século XIX.

31 de Janeiro de 1829
Martin Van Buren
Governador de Nova York

AI- Ao Presidente Jackson:


O sistema de canais do nosso país está sendo ameaçado
por uma nova forma de transporte conhecida como "estradas
de ferro". O governo federal deve preservar os canais pelos
seguintes motivos:
Um. Se as embarcações dos canais forem substituídas
pelas "estradas de ferro", isso resultará em sério desemprego.
Comandantes de embarcações, cozinheiros, condutores, hos-
pedeiros, mecânicos e os homens que trabalham nos estalei-
ros ficarão sem o seu sustento, sem mencionar os inúmeros
fazendeiros que agora estão ocupados em plantar feno para os
cavalos.
Dois. Os construtores de embarcações sofreriam e os
fabricantes de cordas de rebocadores, roldanas e ferramentas
de trabalho ficariam privados do seu trabalho.
Três. As embarcações de canais são absolutamente es-
senciais para a defesa dos Estados Unidos. No caso de um
problema com a Inglaterra, o canal Erie seria o único meio de
transportar o suprimento tão vital numa guerra moderna.
Como é do seu conhecimento, sr. Presidente, vagões fer-
roviários são puxados a uma incrível velocidade de 24 qui-
30 :1 Segunda Reforma

lômetros por hora que, além de colocar em perigo a vida dos


passageiros, passa rugindo e bufando pelas regiões campes-
tres, ateando fogo nas colheitas, amedrontando o gado e as-
sustando mulheres e crianças. O Todo-poderoso certamente
nunca planejou que as pessoas fossem viajar a uma veloci-
dade tão arriscada.4

Qpensamento paradigmático sempre existiu. A primeira pessoa que


usou fogo para cozinhar sua refeição ou levou um fardo sobre uma "roda
redonda" pensou em forma de paradigmas. Quem foi a primeira pessoa a
descascar uma banana e comê-la') Independentemente de quem foi, ele o
<-
fez porque pensava diferente de todos os outros que haviam passado por
aquela bananeira.
Recentemente, eu vi o quadro de um mapa que Cristóvão Colombo
usou há 500 anos para fazer sua "descoberta" do Novo Mundo. Não é de
admirar que ele não chegou à Índia! Seus mapas eram incompletos e suas
conclusões errôneas. Colombo descobriu o Novo Mundo por pura sorte ou
providência - seus mapas têm pouco que ver com as suas descobertas.
O que poderia ter acontecido se os mapas de Colombo substituíssem
os nossos mapas modernos? De que maneira isso afetaria a navegação
aérea e naval') O impacto seria devastador. Haveria uma nova base de
hipóteses e uma estrutura incompleta. Você teria coragem de embarcar
num navio ou avião usando os mapas de Colombo? Eu certamente não

~~~~~~~~~~-
iria!

PENSAMENTO VERTICAL E HORIZONTAL

Há várias décadas, Edward DeBono introduziu o conceito de pen-


samento vertical e lateral. Ele observou que os padrões típicos de pensa-
mento tendiam a cavar um buraco verticalmente, aprofundando-se cada
vez mais na maneira cGi1\cl1cicnal de processar 11111 certo tipo de infor-
mação. No fundo desse "buraco" estão os peritos que continuam cavan-
do cada vez mais fundo nas informações que eles acreditam ser as "cor-
retas" para um determinado assunto. É isso que ele chama de pensamen-
to vertical.
O pensamento lateral ou horizontal ocorre quando um inovador sai
do velho buraco de informação e começa a pensar ú luz de um novo cam-
po. Novas maneiras de pensar c processar informação surgem porque a
informação não é mais restrita e limitada ao contexto da forma antiga de
pensar ou aos proccssos antigos.
.1l,l',reja do Novo Testamento !lO século X'(I 31

() propósito de pensar ~~tar informações e fazer o melhor


t~~O possíwl dela.&. Devido à forma em que a nossa mente furF
ciona para criar padrões de conceitos fixos. não podemos fa-
zer o melhor uso da nova informação a não ser que tenhamos
alguns meios para reestruturar os antigos padrões e atualizá-
los. Nossos métodos tradicionais de pensar nos ensinam como
refinar esses padrões e estabelecer a sua validade. Mas nós
não faremos o melhor uso da informação disponível a não ser
que saibamos como criar novos padrões e escapar do domínio
dos padrões antigos. O pensamento vertical está preocupado
em provar ou desenvolver padrões de conceito. O pensamento
lateral está preocupado em reestruturar esses padrões (illsight)
e provocar novos padrões (criatividade).'

HOLOGRAMAS E JOGOS

Um outro exemplo que explica o significado de um paradigma é


o holograma, um desenho ou uma palavra que não pode ser visto faci 1_
mente no primeiro instante. Somente depois que o cérebro se ajustou à
imagem, o desenho ou palavra pode ser "visto". É claro que o nosso
cérebro usa informação antiga para processar dados novos e desco-
nhecidos.
Os paradigmas são semelhantes a isso. Não basta ver com os nos-
sos olhos físicos. Nosso cérebro usa informações e padrões antigos
para processar novas experiências. É por isso que muitas vezes nosso
cérebro está "morto" para uma inovação. Não podemos processar uma
nova idéia até que haja uma mudança de paradigma em nosso pensar
acerca do novo conjunto de informações.
Umjogo é outro tipo de paradigma. Ele tem suas próprias regras.
limites e objetos que determinam o curso de eventos. Sem esses aspec-
tos do paradigma. osjogadores não saberiam corno jogar e a atividade
se tornaria um caos. Por exemplo. imagine uma equipe de futebol ame-
ricano e uma equipe de futebol brasileiro se preparando para jogar
"futebol".;\ equipe de futebol americano usaria suas regras e a equipe
brasileira jogaria futebol de acordo com as regras que o resto do mun-
do adota (que o americano chama de .\occcr). Obviamente. este jogo
não iria longe. Aliás. o jogo nem poderia começar porque do is difcrcn-
tcs cOlljulltos de regras e equipamentos seriam usados. Uma mudança
de paradigma muda as regras. os limites e os objetos associados com
as situações existentes.
32 A Segunda Reforma

:rFABRICANTES DE R~ PERDERAM A MUDANÇ;\

De acordo com J~I Bar~, um perito em mudanças de paradigma,


de 1979 a 1982, o número de empregados na fabricação de relógios suíços
caiu de 65.000 trabalhadores para 15.000. A invenção do relógio quartzo
ocasionou um colapso inesperado nessa indústria mundial. Como isso acon-
teceu?
A divisão de pesquisas da indústria de relógios suíços inventou o reló-
gio quartzo, e em ~ apresentou o conceito e o primeiro protótipo aos
.=--
diretores das empresas. Os donos e os administradores não estavam interes-
sados! O seu modo de pensar requeria en enagens e molas nos relógios.
§.~a noVã a ordagem chama a "quartzo" não ~ encalxav .
(paradigma) de um relógio. Leia o que aconteceu naquela reunião:

A inflexibilidade dos fabricantes de relógios suíços foi o princi-


pal vilão. Eles simplesmente recusaram-se em ajustar-se a uma
das maiores mudanças tecnológicas da história, no que diz res-
peito ao desenvolvimento do relógio eletrônico. As indústrias
suíças estavam tão presas à tec~QIQgiatradiciOl=la.! que elas não
podiam ... ou não queriam ... ver as oportunidades oferecidas pela
.revolução eletrônica.6

Em um congresso internacional de relógios, duas companhias, a


Seiko e a T~ viram os suíços fazer uma demonstração
< do rcl6gio'quartzo eletrônico. Essas companhias menores, que eram no-
vas no ramo de fabricação de relógios, pensaram lateralmente e viram
um potencial na nova idéia. Quando eles começaram a fabricar e lançar
o relógio eletrônico no mercado, os suíços foram deixados para trás. O
paradigma tinha mudado. Essa il~stração nos ajuda a entender a impor-
tância de um paradigma para aqueles que têm "olhos" para ver e aqueles
que não têm.

ERRO NO CÁLCULO DE UM PARADIGMA

ARQUIVOS DE ADVOCACIA MURPHY


Caso n° 48732; Ref.: AB-563429

Administradora sra. S. Brown


Companhia de Seguros AlIied
347 Worth Street
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 33

Akron, Ohio 43256


Estimada sra. Brown,
4-
Esta é a resposta ao seu pedido para informações adici-
onais acerca do Bloco número 3 do relatório do acidente onde
eu coloquei "It.!anejamento insatisfatório" como a causa do
meu acidente. A senhora diz na sua carta que eu deveria expli-
car mais detalhadamente, e eu espero que os seguintes deta-
lhes sejam suficientes.
Sou pedreiro por profissão. No dia do acidente, eu esta-
va trabalhando sozinho no último andar do prédio novo de
seis andares. No final da tarde, quando havia terminado meu
trabalho, eu descobri que haviam sobrado cerca de 250 quilos
de tijolos. Em vez de levá-los para baixo com as mãos, decidi
baixá-los em um barril usando uma roldana que, felizmente,
já estava afixada numa viga presa no prédio do último andar.
Depois de me assegurar de que a corda estava presa ao nível
do chão, eu voltei para o telhado eu enchi o barril com os 250
quilos de tijolos. Então desci novamente e desamarrei a corda
e segurei firme para assegurar uma decida lenta e segura do
barril de tijolos. A senhora pode ler no Bloco número 1i do
formulário de acidente que meu peso é de 61 quilos.
Surpreendido por ser arrancado do chão tão repentina-
mente, eu não me lembrei de soltar a corda. Talvez seja des-
necessário dizer, que a minha subida ao lado do prédio foi
rápida. Na altura do terceiro andar, eu me encontrei com o
barril que estava descendo. Foi quando quebrei meu braço
esquerdo e a clavícula. A velocidade diminuiu levemente, mas
então voltei a subir rapidamente, não parando até bater com a
cabeça na viga e enfiar os dedos da minha mão direita na rol-
dana. A essa altura eu havia recobrado a minha memória, e
continuava me segurando firmemente na corda apesar da dor.
Aproximadamente no mesmo tempo, o barri I atingiu o
chão e o fundo dele se soltou depositando os tijolos em uma
pilha disforme. Livre do peso dos tijolos, o barril pesava me-
nos de 25 quilos. (Peço que observe o Bloco número 11). Como
a senhora já deve ter conjecturado, eu comecei a descer rapi-
damente beirando a parede do prédio. Na altura do terceiro
andar, eu me encontrei com o barril subindo. Isso causou séri-
os danos às minhas pernas e à parte inferior do corpo. O eu-
3-1 A Segunda Reforma

contro com o barril diminuiu suficientemente a minha veloci-


dade para amenizar os meus ferimentos quando caí sobre a
pilha de tijolos. Quebrei apenas um tornozelo. Os ferimentos
no meu peito e estômago começaram a se intensificar enquanto
estava deitado sobre os tijolos, incapaz de mover-me. Quan-
do olhei para o barril, a minha presença de espírito falhou
mais uma vez e eu não me lembrei de soltar a corda. Seguindo
o conselho do meu médico, estou planejando deixar a minha
profissão de assentar tijolos e encontrar uma profissão menos
pengosa.

A tenc iosamente,

Ao ler essa comédia de erros, em que momento você suspeitou que


o pedreiro havia cometido um sério erro de paradigma? Seu primeiro
erro de parad igma foi achar que com seus 61 qu ilos ele seria capaz de
baixar com a corda o barril de tijolos que pesava 250 quilos. O segundo
erro foi ficar pendurado na corda, que também parecia uma reação lógi-
ca de sobrevivência quando estava suspenso no ar. Houve uma reação
em cadeia de acontecimentos decorrentes daquelas decisões aparente-
mente inocentes. Essa história fala de um princípio amplo na vida que
todos nós experimentamos de uma maneira ou outra: a maioria de nós
tem ficado pendurado no seu próprio "barri I de ti joio,!' que era mais
pesado do que nós, e temos sofrido as conseqüências,
Alguém sugeriu que os eventos descritos na carta acima não ilus-
tram uma mudança de paradigma tanto quanto uma estupidez. É claro
que depois de ouvir a história, qualquer idéia errada parece estúpida. No
entanto, em dado momento, ficar pendurado a uma corda muitas vezes
parece perfeitamente lógico, e mesmo astuto. Pergunte aos fabricantes
de relógios suíços!

SOLTE A CORDA ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS!

Uma nova figura da igreja do Novo Testamento está sendo recria-


da diante dos nossos olhos. O paradigma da encarnação de Deus (pre-
sença, poder e propósito de Deus vivenciados com seu povo) está mais
uma vez sendo apl icado ao mundo como o conhecemos.
Agora cada igreja vai entrar nesse novo paradigma. Quando a po-
eira se assentar na próxima década, algumas igrejas e denominações
serão a indústria de fabricantes de relógios suíços do mundo da igreja.
A Igreja do Novo Testamento /lO século XXI 35

Deus vai usar outras igrejas e grupos como instrumentos dramáticos de


uma nova/antiga revolução espiritual. Aqueles com "a velha maneira de
pensar" não vão participar da revolução espiritual que está explodindo
por toda parte ao redor deles.
A história nos ensina que Deus não fica refém de nenhum grupo,
denominação, instituição ou liderança estabelecidos. Como Jesus disse
ao religioso Nicodemos: "O vento sopra onde quer ... ". Nenhum homem
pode controlá-lo. Deus usa quem ele quer usar, quando ele o quer usar.
Se as instituições estabelecidas e reconhecidas não responderem à nova
maneira de Deus fazer as coisas, ele sempre encontrará outros que vão
fazê-lo. Provavelmente, novos paradigmas vão ofender e parecer não
ortodoxos a pessoas como Nicodernos, que ouviu as palavras de Jesus e
disse: "Como pode ser isso?" Na verdade, o remanescente de Deus sem-
pre parece um tanto estranho e bizarro. À medida que você olha para o
parad igma atual da igreja, você deve estar disposto a perguntar-se: "O
que não estou disposto a soltar onde Deus está no processo de operar
mudanças?".

b
2
A IGREJA DE DUAS ASAS

Tulv«: a igr.:ja, ':111 muitus áreas, deveria ser menor


antes que possa se tornar substancialmente maisforte. I

- Elton Trueblood

E
m 1989, Deus me trouxe de volta da Tailândia para os Estados
Unidos depois de quinze anos implantando igrejas, para "come-
çar um tipo diferente de igreja", Depois de um ano de tentativa e
erro, acabei indo para Houston trabalhar com o dr. Ralph Neighbour. Por
causa da minha ligação com ele, outras almas desesperadas começaram a
contatar-me acerca desse novo tipo de igreja. Por alguma razão eles acha-
vam que eu sabia mais do que eles, o que era discutível.
Um grupo de homens da TexasA & M University (Universidade A &
M do Texas) veio falar comigo acerca da igreja. Depois de lhes contar
tudo o que sabia, eu continuava me sentindo inadequado ao explicar esse
fenômeno do século XX na sua verdadeira simplicidade. Antes deles par-
tirem, nos demos as mãos em oração. Esses homens tão jovens, com pou-
co mais de 20 anos, tinham uma visão da igreja que somente chegou a
mim aos meus 50. Quando eles partiram, Deus me c1euuma história. Eu a
comparti lho em cada conferência que ensino porque ela retrata uma
macrofigura do que muitos chamam de "igreja em células".

A lCiRl:.I!\ DE DUAS I\SAS

o Criador um dia criou uma igreja com duas asas: Uma asa era o
grupo grande da celebração e a outra asa representava a comunidade do
grupo pequeno. Usando as duas asas. a igreja podia voar alto para os céus.
entrar na sua presença e fazer a sua vontade em toda a terra.

)7
.'1
38 A Segunda Reforma

Depois de alguns séculos voando por toda a terra, a igreja de


duas asas começou a questionar a necessidade da asa do grupo pe-
queno. A perversa serpente invejosa que não tinha asa alguma, aplau-
diu essa idéia efusivamente. No decorrer dos anos, a asa do grupo
pequeno tornou-se cada vez mais fraca por falta de exercício até que
virtualmente não tinha mais força alguma. A igreja de duas asas que
havia voado até os céus era agora, para todos os propósitos práticos,
uma igreja de uma asa só.
O Criador da igreja estava muito triste. Ele sabia que o projeto
de duas asas tinha permitido que a igreja voasse até a sua presença e
fizesse a sua vontade. Agora, com apenas uma asa, conseguir sair do
chão exigia uma tremenda energia e esforço. E se a igreja conseguia
alçar vôo, estava inclinada a voar em círculos, perder seu senso de
direção e não se afastar muito do seu ponto de partida. Ao gastar
mais e mais tempo na segurança e conforto do seu habitat, ela aca-
bou se satisfazendo com a sua existência presa à terra.
De tempo em tempo, a igreja sonhava em voar até a presença do
Criador e fazer a sua obra sobre toda a terra. Mas agora, a asa forte
do grupo grande controlava cada movimento da igreja e a condenava
a uma existência terrena.
Na sua compaixão, o Criador finalmente estendeu a sua mão e
remodelou a sua igreja para que ela pudesse usar as duas asas. Mais
uma vez o Criador possuía uma igreja que podia voar até a sua pre-
sença e planar bem alto sobre toda a terra, cumprindo seus propósi-
tos e planos.

BEM-VINDO À IGREJA EM CÉLULAS

Constantemente ouço dois pensamentos de cristãos a respeito da


igreja ao redor do mundo: "A igreja como a conhecemos não é a igreja
que vemos no Novo Testamento" e: "Grupos pequenos são necessários
para que a igreja funcione da maneira correta". Muitos vêem as formas
tradicionais de igreja como um odre velho, que já não é capaz de conter o
vinho novo do evangelho. Mesmo aqueles que se sentem mais confortá-
veis com os padrões da igreja tradicional muitas vezes desejam que ela
fosse:

• menos isolada do mundo na qual ela está situada;


• mais relevante às necessidades da sociedade;
• mais compassiva na maneira como ela usa o dinheiro e o poten-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 39

cial humano;
• mais direcionada a alcançar..pessoas em vez de promover progra-
mas melhores;
• menos materialista com suas enormes construções e dívidas;
• mais redentora e menos política;
• e menos influenciada pelo mundo que ela foi chamada para in-
fluenciar.

Será que existe uma alternativa para o modelo tradicional de


igreja? Um número crescente de cristãos está convencido de que Deus
está recriando os odres da igreja do Novo Testamento. Essa igreja
vive em comunidade e é hoje chamada de "igreja em células".
Com que se parece a igreja em células? O dr. Ralph Neighbour
incluiu a seguinte definição da igreja em células na Cell Church Ma-
gazine (Revista da igreja em células):

O corpo humano é composto de milhões de células, a


unidade básica de vida. Semelhantemente, as células for-
mam a unidade básica da igreja em células. Os crentes pro-
curam ativamente relacionamentos com Deus, uns com os
outros e com os não crentes em células de cinco a quinze
pessoas. Esses relacionamentos estimulam cada membro a
alcançar a maturidade !li! adoração, na edificação mútua e
no evangelismo. Isso é comunidade ...
Com base no princípio de que todos os cristãos são
ministros e que a obra do ministério deveria ser realizada
por todos os cristãos, a igreja em células procura ativamen-
te desenvolver cada discípulo na semelhança de Cristo. As
células são o fgruA! para o ministério, treinament;-;--
evangelismo.
As células também se encontram para as reuniões se-
manais ou quinzenais nas "congregações" e para as "cele-
brações". Embora essas reuniões sejam importantes, o foco
da igreja está voltado para os encontros semanais das célu-
las nas casas. Por qual motivo? Porque é na célula que o
amor, a comunidade, os relacionamentos, o ministério e o
evangelismo brotam naturalmente e poderosamente. Portan-
to, a vida da igreja está nas células, não em um prédio (san-
tuário). A igreja é um ser dinâmico, orgânico e espiritual que
só pode ser vivenciado na vida dos crentes em comunidade. I
40 A Segunda Reforma

SETE TESTES PARA AJUDAR A IDENTIFICAR


UMA IGREJA DO Novo TESTAMENTO

Em muitas igrejas, os grupos pequenos formados de cinco a quinze


ou mais pessoas fazem parte de um dos seus programas. Será que isso os
identifica como uma igreja em células? Os seguintes testes ajudam a dife-
renciar entre igreja em células e aquelas que podem ter estruturas e termi-
nologias similares mas possuem uma dinâmica diferente.
1. O teste jnstituejouaLA igreja é um organismo vivo ou uma orga-
nização? Se você tirasse o "santuário" e a reunião dominical, a igreja
sobreviveria? Se a igreja consegue sobreviver sem um "santuário" e cul-
tos dominicais, ela passa pelo primeiro teste de uma igreja do Novo Testa-
mento.
2.-0 teste da célula: Um grupo pequeno (referido neste livro como
uma cél~onsiderad; a igreja em sua natureza, propósito e poder? A
igreja reconhece o grupo pequeno como a comunidade cristã de base e a
unidade essencial da igreja? Se os líderes e o povo "se encolherem" ao
referir-se ao grupo pequeno como a igreja, então essa igreja não é uma
igreja em células do Novo Testamento. Paulo não tinha problemas em
chamar os grupos nas casas de igreja.
3. O teste da fotocópia: Quando o modelo é reproduzido, a nova
igreja é tão clara e viva quanto a igreja original? O modelo pode ser trans-
ferido? Se a igreja somente pode ser duplicada por uma versão obscura,
então não é uma igreja em células do Novo Testamento. Este não é um
teste numérico, mas um teste da natureza e vida. Ela reproduz de forma
completa a dinâmica do original?
4. O teste da simplicidade: A igreja é fragmentada e complexa? À
medida que ela cresce, a igreja se torna mais complexa ou menos comple-
xa? É necessário um "diretor executivo" para realizar o trabalho? Uma
igreja em células vai continuar a operar por meio da sua estrutura de lide-
rança da célula simples mesmo se a estrutura administrativa e governa-
mental desaparecer. Mesmo com a presença de um grande número de
membros e líderes, a igreja em células vai continuar operando de maneira
simples.
5. O leste da multiplicação: A igreja tem esperança de multiplicar-
se? Existe uma estrutura por meio da qual um crescimento dinâmico po-
deria ocorrer? Ou a estratégia está baseada no acréscimo de novos mem-
bros? Uma igreja em células pode sistematicamente multiplicar-se porque
o ponto de crescimento ocorre no nível da célula integrada, não por meio
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 41

de programas múltiplos compartimentalizados.


6. O teste de conversões de adultos: A igreja alcança novos con-
vertidos adultos, ou ela é sustentada pelo crescimento por transferência
de outras igrejas e crescimento biológico ao batizar os seus filhos? Uma
it.;reja em células funcional vai alcançar novos convertidos adultos.
~ . 7. O teste da perseguição: A igreja vai sobrevier se ela for forçada a
tornar-se "subterrânea"? Será que o tipo de grupos pequenos vinculados
aos nossos programas de igreja sobreviveriam a uma perseguição sem a
"almofada institucional"? A igreja em células vai sobreviver com suas
células neo-testamentárias não importa o que aconteça politicamente, so-
cialmente, economicamente ou internamente.

ETIÓPIA

~
Uma igreja que passou por esses testes foi fundada pela Igreja
Menonita da América na Etiópia. Na década de 1970 os missionários
ocidentais haviam voltado para casa, deixando uma igreja nacional nativa
de 5.000 membros. Em ----
_. .1982, os comunistas derrubaram o governo da
Etiópia e iniciaram uma perseguição à igreja. As igrejas Menonitas tive-
ram todas as suas construções confiscadas. Muitos dos seus líderes foram
aprisionados e muitos membros foram proibidos de se reunir. A igreja
tornou-se "subterrânea", sem líderes, sem construções, sem a oportunida-
de de reunir-se publicamente ou de realizar qualquer tipo de programa
público. Enquanto a igreja era "subterrânea", os membros não podiam
cantar em voz alta com medo de alguém denunciá-los às autoridades.
Dez anos mais tarde, em 1mo governo comunista foi destituído,
permitindo que essa igreja saísse do seu "anonimato". Os líderes da igreja
decidiram reunir todos os membros remanescentes para os cultos. É des-
necessário dizer que eles ficaram surpresos ao descobrir que o~

----
membros tinham crescido para mais de 50.000 nesse período de dez anos!
Essa história ilustra o poder da célula. Cristo projetou a igreja para
sobreviver na sua forma mais básica. Isso ocorreu na igreja do primeiro
século e está ocorrendo na igreja atual. Em todos os lugares em que a igreja
tem sido forçada a tornar-se "subterrânea" e tem adotado uma estrutura de
grupos pequenos, ela tem sobrevivido, e na maioria das vezes crescido.
Será que a igreja vai adotar a estrutura de grupos pequenos semelhantes
aos grupos do Novo Testamento somente em [?aís~munistas..e em tem;....-
~e perseguição? Pode até parecer que este seja o caso. No entanto. em
nosso período histórico atual, Deus está restaurando a célula como a estru-
tura principal da igreja mesmo em países onde não existe perseguição.
42 A Segunda Reforma

UMA "ESPIADA" NA IGREJA DE DUAS ASAS

Reuni mais de vinte características-chave para explicar a estrutura


e a dinâmica da igreja em células. Essa lista não é exaustiva, mas junto
com outras definições deste capítulo, vai oferecer a você um quadro mais
completo da natureza das igrejas em células. Embora normalmente seja o
caso, nem todas as características podem ser encontradas em cada igreja
em células. Da mesma forma, algumas igrejas tradicionais podem apre-
sentar uma combinação dessas características.

x . A igreja em células Que Jesus projetou opera-como ignya não só


rillomingo, mas-também no~ OlJtros ~eis dias.dasemana.
~. ',~rsja elll células podeter uma con§!.!:.ução,I~ construção é
\ JUllciOnóllg)lãp safirada.
'li- • O crescimento da igreja não depende de quantos metros quadra-
1f\. dos podem ser financiados e adquiridos. A fórmula de constru-
ção da igreja em células é: ~ e eJ.:ltão9003tl\@.- ...
f . As células ou grupos pequenos de cristãos se encontram nas ca-
sas durante a semana e são a unidade básica da igreja.
y" Essas células agem como um "sistema de entrega" da igreja por
, meio do qual os membros das células vivenciam o evangelho no
mundo.
+ .Cada membro da igreja recebe treinamento Era a obra do minis-
tério
.,---... nesses grupos pequenos .
+-. O culto de celebração no domingo é um transbordar da vida do
corpo que ocorreu durante a semana na vida dos membros.
q::. • Os membros prestam contas uns aos outros.
('. A igreja em células produz um grande número de líderes servos
que possibilitam a obra do ministério no nível básico da célula.
i--0 Nos grupos pequenos, os membros tiram as suas máscaras e re-
cebem edificação e cura. Ocorre a verdadeira comunhão do Novo
Testamento .
• Os textos dos "uns aos outros" encontrados no Novo Testamento
encontram um contexto no qual podem ser experimentados.
'1--.' A igreja centralizada em células nas casas é projetada para so-

breviver à perseguição .
• Os perdidos são alcançados por meio do evangelismo por amiza-
r- de nas células.
.: Os dons espirituais essenciais para a edificação, treinamento e
, evangelismo são liberados em um ambiente natural das células.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 43

evangelismo são liberados em um ambiente natural das células.


• Líderes de tempo integral são separados para oração e para bus-
car a face de Deus em favor do corpo .
• Ocorre uma constante multiplicação das células, dos converti-
dos, dos discípulos e dos líderes .
• Igrejas em células têm um impacto dramático sobre a sociedade.
Seus grupos pequenos tocam as machucaduras e necessidades no
mundo ao seu redor.
• Os líderes e pastores provêem supervisão, visão e prestação de
contas aos líderes das células.
• Existe mais dinheiro disponível para o ministério e missões à
medida que cada membro amadurece em sua compreensão da
mordomia como um estilo de vida.
• A comunidade das células é um lugar de cura para o indivíduo e
a família.
• A administração da igreja é simplificada ao redor da unidade bá-
sica da célula. Isso reduz significativamente os múltiplos progra-
mas necessários para que uma igreja tradicional funcione .
• Os cuidados fundamentais para os membros são providos no ní-
vel da célula em vez de no nível de obreiros profissionais .
• Efésios 4.12 funciona! Os Iíderes preparam "os santos para a
obra do ministério".

A DEFINIÇÃO NO NÍVEL DA CÉLULA

A chave para a compreensão da igreja em células é a própria célula


e o que Robert 8anks chama de o caráter "característico de igreja" das
comunidades de base. (O capítulo 13 explora a natureza da célula em
maiores detalhes). O teólogo brasileiro J. 8. Libanio faz a seguinte des-
crição da célula ou da comunidade de base.

Elas não são um movimento, uma associação ou uma congre-


gação religiosa [...] Elas não são um método (ou o único mé-
todo) de edificar a igreja: elas são a própria igreja. Elas não
são uma receita milagrosa para todas as doenças da sociedade
e da igreja. Elas são a renovação da igreja [...] Elas não são
uma utopia; elas são um sinal do reino, embora elas não sejam
o reino [...] Elas não são messiânicas, mas podem ser proféti-
cas e formar profetas como a igreja deveria formar. Elas não
são uma comunidade [...] natural [...] identificada com uma
44 A Segunda Reforma

raça, língua, povo, família [...] Elas são a igreja [...] Elas não
são um grupo de protesto, embora sua vida seja um protesto
contra a mediocridade, a indolência e a falta de autenticidade
de muitos [...] Elas não são um grupo especial para pessoas
especiais. Elas são a igreja comprometida com o homem co-
mum, com o pobre, com aqueles que sofrem injustiça [...] Elas
não são fechadas: elas são abertas ao diálogo com todos. Elas
não são uma reforma da obra pastoral: elas são uma opção pas-
toral decisiva, preparada para construir uma nova imagem da
igreja.'

Se você quer entender e identificar uma igreja em células, olhe


para as células. O grupo pequeno define uma igreja em células. Tudo
que acontece em uma igreja em células - as celebrações semanais, os
eventos de colheita, o treinamento e preparo para os retiros, os retiros,
as reuniões para supervisão - existe para apoiar as células. Tudo está
relacionado com a comunidade básica da célula.

COMA A BANANA

Corno o gosto de uma banana pode ser descrito para uma pessoa
~ IÍ"lI1cayiu uma banana? Para realmente sentir o gosto de uma bana-
na, em algum ponto as descrições devem tornar-se experimentais. A
melhor coisa a fazer é descascar a banana, dá-Ia à pessoa e dizer: "Aqui
está. Experimente você mesmo".
Mesmo com essas definições e ilustrações, você pode continuar
perguntando-se como a igreja em células realmente funciona. Isso é nor-
mal porque, como o sabor de uma banana, a igreja é algo que só pode-
mos conhecer ao experimentá-la. Não importa o nosso conhecimento
teológico e acadêmico da igreja, o que melhor entende a definição de
lima "igreja em células" é aquele que está mais empenhado em
experimentá-Ia. A igreja em células não é algo que podemos simples-
mente estudar e analisar. A certa altura, nossa definição de igreja deve
ser experimentada e vivenciada.
3
LARRY: UM PARADIGMA DE
LIDERANÇA

Uma das tragécjias-IJ!2'!!'Q§§r.!Je/}lpo é


q1:fj:.;;.ministro está exausto e improdutivo.
- Samuel Miller

L
arry, um líder de igreja com quarenta e poucos anos, já havia
pastoreado várias igrejas bem-sucedidas mas dentro dele estava
crescendo uma desilusão em relação à igreja tradicional no
modelo "um dia por semana". Ele ouvia, enquanto outros participantes
do congresso compartilhavam o motivo de estarem ali: "Vim para
aprender mais acerca da igreja em células". Quando chegou a vez
de Larry, ele foi absolutamente sincero. Ele compartilhou sua fome
de encontrar respostas a respeito de como a igreja poderia voltar a
ser como nos tempos do Novo Testamento. Com um profundo sen-
timento de dor, ele revelou: "Se eu não encontrar algumas respos-
tas, vou sai r daq u i e pescar".
Todos no recinto sabiam instantaneamente o que ele queria
dizer e irromperam em uma gargalhada. Larry estava disposto a
encontrar uma outra coisa para fazer se a situação não mudasse.
Outros, além de Larry,já tinham considerado a mesma possibilida-
de.
Para cada "Larry" vocal existem inúmeros "Larrys" silencio-
sos que estão tentando sobreviver na igreja tradicional com a mes-
ma dignidade e honestidade. Larry é um dos milhares de pastores
que experimentam a dor de liderar uma igreja que não está à altura
do paradigma de igreja que Deus colocou em seu coração. Sua vi-
são de igreja nunca se satisfará com o modelo de LIma igreja "um
dia por semana".

45
-16 A Segunda Reforma

SO B R 1:(.:Á R R I:( iÁ DOS E I !'vII' RO I) ur I V O S

Pastorear uma igreja tradicional de uma só asa é uma das "profis-


sões" mais difíceis na terra. É claro, existem muitas recompensas tam-
bém. Nas três igrejas que pastoreei antes de ir como missionário para a
Tailândia, experimentei muita alegria e satisfação interior. De muitas
formas é uma grande função - ajudar pessoas, falar a respeito de Jesus,
ministrar a pessoas em importantes épocas da sua vida, dar orientação
espiritual e moral para a comunidade.
No entanto, nos últimos anos, tenho visto em líderes como o Larry
uma imagem da igreja que não está à altura do seu ideal, apesar de todas
as boas obras e os esforços do pastor. Como pode haver esgotamento e
frustração tão grandes atrelados a esse chamado especial? Estou con-
vencido de que o sonho c a expectativa nos matam. A visão da igreja em
nosso coração não se equipara com a realidade da igreja no mundo. A
igreja para a qual nós pregamos no domingo não é igual à igreja acerca
da quo/ pregamos no domingo. Bem no fundo nós sabemos que algo
está errado.
É por isso que o pastor de uma igreja que se reúne basicamente no
dom ingo, nas palavras de Samuel M iIler, está ao mesmo tempo "sobre-
carregado e improdutivo":

Sobrecarregado com as inúmeras tarefas que não têm a menor


conexão com rei igião, e improdutivo nos trabalhos extenuan-
tes e na séria preocupação em manter uma vida espiritual dis-
ciplinada entre homens e mulheres maduros [...] Qualquer que
seja o ideal de um ministro - o grande empresário, o vende-
dor esperto, o magnata bem-sucedido - continua sendo um
enigma por que o ministro deveria tornar-se vítima de ima-
gens tão falsas a não ser que ele tenha confundido completa-
mente o que ele deveria estar fazendo. I

Por que temos essa confusão entre os líderes que são dotados e
chamados para pastorear? Eles foram treinados especificamente para
esse propósito e são sinceros em seu desejo de servir a Deus.
Os líderes mais criativos e visionários da igreja pagam um preço
altíssimo porque eles desejam voar e pairar nos ares, mas dirigem igre-
jas que estão presas à terra. Deus tem colocado a mesma visão de igreja
que ele deu a Paulo em Éfeso no coração dos líderes de cada era. De
acordo com Paulo, a igreja é a "plenitude de Deus", o "poder de Deus",
A Igreja do Novo Testamento 1/0 século XX! 47

o "corpo de Deus" e a "glória de Deus".


Essas não são palavras que a maioria das pessoas associa com a
igreja do século XXI. Talvez nós ousaríamos usar essas palavras acerca
da igreja que vai ser "arrebatada" para o céu, mas não da igreja "arre-
bentada" da qual fazemos parte na terra. A igreja que conhecemos, ape-
sar de todas as coisas boas, simplesmente não funciona como o modelo
neo-testamentário, e nesse ponto reside a agon ia tanto do pastor como
dos membros.

MELHOR ABALAR UM SONHO DO 0\11:_


OCULTAR A VERDADE

Um museu começou a limpar uma pintura do século ..2\.Vfuuposta-


mente pintado por um velho mestre. Durante o processa de limpeza uma
partícula de pintura se soltou. E isso se repetiu inúmeras vezes. Os peri-
tos observavam horrorizados à medida que uma camada de tinta come-
çou a desintegrar-se diante dos seus olhos. Mas debaixo dessa pintura
eles descobriram uma outra ainuua Um artista posterior havia tentado
níelhorar a obra-prima original. Agora eles viam a verdade. Esse era o
original, e era muito mais valioso e importante. A camada exterior que
havia sido acrescentada foi cuidadosamente removida até que a pintura
original pudesse ser restaurada e exibida em um lugar proeminente no
museu. "$ melhor abalar um sonho do qlle oCllltar a verdad~"!2
Pequenas partículas de tinta da única igreja que eu conhecia come-
çaram a se desprender muito cedo no meu ministério. De tempo em
tempo, algum livro ou programa novo prometia esperança para um tipo
diferente de igreja. Eu procurava ansiosamente implantar a nova idéia,
mas os resultados nunca chegavam perto de duplicar o espírito ou os
resultados da igreja do Novo Testamento.
Ao longo dos anos, minha esposa Mary e eu gostávamos de trocar
idéias em convenções e outras ocasiões especiais com Max e Katie
BrO\vn, amigos especiais da faculdade c do seminário. Nossas discus-
sões se transformavam em conceitos novos e inovadores acerca da iurc-
ja. Max foi o primeiro a falar a respeito da igreja experimental de Ralph
Neighbour em Houston no final da década de 1960. ;\ idéia de alcançar
os aflitos e os perdidos do mundo por meio de grupos de ministério de
interesse parecia tão neotestamentária, tão correta e tão diferente do que
estava acontecendo em nossas igrejas.
Infelizmente, quando retornamos para casa depois das nossas con-
versas na convenção, voltávamos para o domínio da nossa igreja de uma
48 A Segunda Reforma

asa que exigia toda a nossa energia apenas para manter as boas ativida-
des e programas em funcionamento. Nosso coração até pertencia à igre-
ja do Novo Testamento, mas nosso corpo pertencia ao paradigma da
igreja tradicional de uma asa.
Em 1972, durante um final de semana de renovação para leigos, eu
experimentei pela primeira vez a comunhão do Novo Testamento e a
vida no corpo de um grupo pequeno. Equipes de visitação de "pessoas
leigas" animadas ficaram nas casas dos nossos membros. O final de
semana foi organizado ao redor de encontros em grupos pequenos e
muita conversa franca. NOVGS cânticos foram cantados para Deus, não
acerca de Deus. Vidas foram transformadas e casamentos restaurados.
Cristo em nosso meio, operando em poder - essa é a impressão que
continua na minha memória acerca daquele final de semana. Aquela
experiência foi como um poderoso removedor de tinta da minha velha
"imagem" de igreja.
Eu já estava vitalmente conectado à igreja por trinta anos antes de
ter o primeiro gosto da verdadeira vida no corpo do Novo Testamento.
Embora tenha experimentado muitos momentos espirituais significati-
vos na igreja, nada era tão genu inarnente neotestamentário "em sabor"
como aqueles breves momentos da vida em grupo pequeno.
Infelizmente, eu não fazia a menor idéia do que fazer com o fruto
daquela experiência. Assim eu derramei essa experiência diretamente
no único odre que eu tinha: meu odre da igreja tradicional. Embora aquele
final de semana da comunidade do Novo Testamento tivesse um impac-
to significativo sobre a vida de várias pessoas, incluindo a mim, ela não
teve um impacto tão grande sobre a minha igreja tradicional. Em dado
momento essa experiência foi mastigada e cuspida em uma forma que
os nossos programas tradicionais pudessem tolerar. .~V'

A IGREJA DE UMA ASA EM BANCOC

Outras partes da pintura começaram a cair da tela desde o momen-


to em que cheguei como missionário inexperiente ao aeroporto de Bancoc
em primeiro de janeiro de 1975. Mary, os gêmeos Joey e Jimmy, Matt,
Juleigh e eu descemos do avião e fomos recepcionados por um calor e
uma umidade indescritíveis, uma poluição tão densa que podia ser vista,
e padrões de tráfego que merecem ser chamados de kamika:e . Esse era
um mundo completamente novo. Estávamos diante de um choque cultu-
ral- o estilo Bancoc!
O choque cultural não demorou muito. Nossos filhos se adaptaram
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 49

rapidamente, e para eles a Tailândia se tornou seu lar com pessoas, luga-
res c experiências especiais. Mary e eu aprendemos a comunicar-nos na
língua deles, a ler a Bíblia Thai e os sinais de trânsito, a relacionar-nos
culturalmente com o povo da Tailândia e a comer algumas das comidas
mais apimentadas, mesmo que muito deliciosas do mundo.
Sobrevivi ao choque cultural, mas não consegui passar por cima do
meu "choque igreja/missão". Deus me chamou para plantar uma igreja
em um contexto cultural e me deu a paixão para descobrir a estratégia
para reproduzir igrejas neotestarnentárias em ambientes urbanos. Esse zelo
logo conflitou com a realidade quando me familiarizei com a igreja na
Tailândia.
A arquitetura da construção da igreja era diferente, os sinais nas
paredes da igreja eram escritos em uma língua estranha, os hinos eram
cantados em tons menores e a literatura era produzida em um formato
diferente. No entanto, não precisei de muito tempo para perceber que essa
igreja não era muito diferente em relação ao tipo e natureza da igreja que
eu conheci nos Estados Un idos. Essa era apenas a Primeira Igreja de "qual-
quer cidade" dos Estados Unidos transplantada para Bancoc, na Tailândia.
Mesmo se não entendêssemos a Iíngua, era possível ad ivinhar a ordem de
culto no domingo e, infelizmente, as reuniões administrativas da igreja
eram conduzidas da mesma forma!
De alguma forma, eu tinha esperado que a igreja em uma das cida-
des menos cristianizadas do mundo fosse diferente quanto à sua natureza,
mais neotestamentária quanto à sua função, mais dinâmica em poder e
mais focalizada quanto ao seu objetivo. Comecei a suspeitar que algo
estava seriamente errado em meu modelo de igreja. Da minha perspectiva
atual, eu sei que essa igreja era apenas uma outra igreja de uma asa só, só
que em estilo tailandês! Levou mais de quinze anos para perceber que
meu paradigma de igreja familiar e confortável não poderia reproduzir na
Tailândia a visão de igreja que Deus havia colocado em meu coração.
Fui levado de volta ao Novo Testamento para encontrar uma figura
de uma igreja mais bíblica do que aLJlIl.:laqUL.: eu estava usando. Elton
Trueblood coloca essa busca na perspectiva correta:

Uma verdadeira restauração nunca é uma questão de voltar atrás


para poder restabelecer um padrão antigo, mas sim de "desco-
brir" o que estava escondido ou encoberto e, portanto, esqueci-
do. O propósito dessa "descoberta" é o efeito em potencial so-
bre o presente e o futuro. Nós voltamos ao Novo Testamento,
não como antiquários ou como meros historiadores, mas na
50 A Segunda Reforma

esperança de encontrar sinais de vital idade dos quais nosso


tempo está relativamente inconsciente.'

NÃo QUEREMOS FALSIFICAÇOES

Alfred I. Dupont, ex-presidente da corporação DuPont, foi


abordado por um revendedor de Filadélfia afirmando ter uma
pintura da bisavó de DuPont segurando seu pequeno fi lho. O
revendedor pediu 25.000 dólares. Quando DuPont recusou a
proposta, notando a presença de dois estilos artísticos no qua-
dro, o revendedor baixou o preço para 10.000 dólares, então
para 1.000 dólares, e, em desespero, para 400 dólares, que
DuPont aceitou, acreditando que a moldura valia esse preço.
Um restaurador no Museu de Filadélfia examinou a pintura e
percebeu que a roupa do século XVIII havia sido pintada so-
bre o vestuário original do século XVII. Depois de remover a
pintura de cima, o restaurador do museu descobriu que o ori-
ginaI tinha sido pintado por Murillo; a pintura de 400 dólares
foi reavaliada em 1~_9.000 dólares."

Algumas falsificações são muito boas. Quando descobertas, os fal-


sários perguntam: "Por que fazer tanta onda por causa do original? Se a
falsificação enganou você, então ela é tão boa quanto a pintura origi-
naI". O autor do artigo acima explica a diferença entre uma falsificação
e um artigo original: "Peritos em obras artísticas afirmam que, ao longo
do tempo, uma falsificação revela um certo 'amortecimento' enquanto
o original de um mestre continua desvendando facetas de inspiração-
a habilidade do pintor mantém o trabalho artístico vivo".'
Por isso é melhor "abalar um sonho do que ocultar a verdade"
acerca de todas as coisas - especialmente acerca da igreja. O original
vibra com vida enquanto a imitação é uma coisa morta. Jesus foi o Pin-
tor Mestre. Seu quadro da igreja continua desvendando facetas de inspi-
ração.

CO~10 SOBREVIVEM OS LíDERES DE ICiRE.lA?

Alguns líderes da igreja sobrevivem fazendo de conta que real-


mente estão voando como a igreja do Novo Testamento. Vivendo no seu
próprio mundo de fantasia espiritual. onde tudo sempre é maravilhoso,
eles escolhem viver uma mentira em vez de deixar abalar o seu sonho.
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 51

Esses são alguns dos defensores mais francos da igreja tradicional e


oponentes mais ferrenhos da igreja em células. Eles não permitem que
u seu sonho seja abalado.
Outros pastores, em números alarmantes, se tornam tão desi lud i-
dos que abandonam o ministério pastoral e tornam-se conselheiros,
professores ou assumem um cargo no escritório da denominação que
pelo menos lhe dê uma esperança razoável em produzir os resultados
para os quais eles foram destinados. Essas vocações são tão importan-
tes quanto o ofício pastoral (se as pessoas foram chamadas para elas),
no entanto, essas vocações podem ser consideradas substitutos medío-
cres para líderes frustrados que realmente foram chamados para o
pastorado.
Outros aprendem a viver com a pintura avariada e procuram fa-
zer o melhor possível. Mas eles pagam o seu tributo em sentimentos
de frustração, raiva, dor e desesperança. Os líderes se sentem usados e
as farn íl ias sofrem.
Gerald Kennedy conta a história de um árabe que estava com
fome certa noite. Ele acendeu uma vela, e abriu uma tâmara. A fruta
estava bichada, e ele ajogou fora. Ele abriu uma outra, e ela também
estava bichada. Assim ocorreu com a terceira. ~tão ele decidiu apa-
gar a vela e comer a quarta fruta. Em vez de enfrentar realidadss desa-
gradáveis, nos,2.~~s .•_a.ffianíos mais fácil permanecer na escu- __
I~O. Não-s6~s artérias físicas podem se tornar insensíveis, a pers-
pectiva espiritual do homem também pode tornar-se rija e inflexível."
Nós que participamos da igreja podemos escolher apagar a luz e
permanecer na escuridão em relação ao que Deus está fazendo hoje.
Dessa maneira, não precisamos enfrentar realidades desagradáveis.
Enquanto estive na escuridão, eu comi minha parte de tâmaras bichadas
nas últimas décadas! Hoje, não estou mais satisfeito com a escuridão
nem com o gosto estranho da fruta.

Em seu livro () Discípulo, Juan Carlos Ortiz conta acerca da sua


experiência em Buenos Aires. Ele começou com 184 membros e de-
pois de dois anos ele havia crescido para 600 membros. Em suas pala-
~Tas. a escola dominical era um dos aspectos mais importantes da igre-
ta e seu sistema de acompanhamento "era um dos melhores". Sua de-
nOI11inação estava tão irnpress ionada, que o conv idou para fa lar em
duas convenções diferentes. Ele comentou:
52 A Segunda Relorma

Entretanto, bem no fundo, eu sentia que alguma coisa não esta-


va certa. Tudo parecia correr bem, desde que eu trabalhasse
dezesseis horas por dia. Mas quando eu relaxava o ritmo, os
resultados diminuíam [... ] Parti para um lugar solitário e en-
treguei-me à meditação e oração.
O Espírito Santo começou a quebrantar-me. A primeira coisa
que ele me disse foi: "Juan~.que você tem 1_1 as Inãos..uão
é uma igreja,- é~,--------
, ,.-,,-" -
um I~".
..•

Não entendi o que ele queria dizer. "Você está promovendo o


evangelho do mesmo modo que a Companhia Coca-Cola ven-
de seu produto". disse ele. Está fazendo o mesmo que o
Reader :s· Digest faz para vender livros e revistas. Está empre-
gando todas as técnicas aprendidas na escola. Mas, onde está
minha mão em tudo isso?".
Fiquei sem saber o que responder. Tinha que reconhecer que
minha igreja funcionava mais como uma empresa do que como
um corpo espiritual.
Depois o Senhor me revelou outra coisa.
"Você não está crescendo", disse ele. "Você pensa que está,
porque cresceu de 200 para 600 membros. Mas não está cres-
cendo realmente. Você está apenas engordando".
O que ele estava querendo dizer? "Tudo que você conseguiu
foi agrupar mais pessoas da mesma qualidade que as anterio-
res. Ninguém está amadurecendo em Cristo. O n íve I perma-
nece o mesmo. Antes vocês tinham duzentos bebês espiritu-
ais. Hoje vocês contam com 600".7

A pergunta pertinente acerca da nossa igreja não é quantos membros


ela tem, mas: "Onde está a mão de Deus em tudo isso?". No fim das
contas. essa é a única pergunta que pode definir o senso de auto-realiza-
ção e satisfação do líder cristão acerca do seu ministério.

M 1\ l(lR 1\ S "LR I(iOS/\ S

Johann Baptist Metz nos desafia a considerar memórias do passado:

Existem memórias perigosas. mcmórias que 1:17emexigências


a nós. Existem memórias em que experiências anteriores aca-
bam ocupando o centro da nossa vida c revelam pcrcepções
A Igreja do Novo Testamento no século XY! 53

novas e perigosas para o presente [...] Essas memórias são como


visitações perigosas e imprevisíveis do passado. São memóri-
as que devemos levar em conta. memórias. por assim dizer.
com um conteúdo futuro."

Deus está plantando a semente de um tipo diferente de igreja em


nosso coração. Para muitos, os sentimentos novos acerca da igreja vêm
primeiro, e depois segue a tentativa de entender e explicar esses senti-
mentos. Deus coloca a sua visão no coração do seu povo, e então confir-
ma essa visão por meio de inovadores especiais que verbalizarn ou mo-
de larn a visão. Esses "sentimentos" são "memórias perigosas" do passa-
do que têm um "conteúdo futuro".
À medida que entramos no século XXI, Deus está recriando sua
igreja de duas asas. O que acontece no domingo no culto de celebração
não é suficiente para aqueles que têm uma visão para viver juntos em
comunhão nos pequenos grupos e por meio de vida no corpo durante a
semana.
Os homens e mulheres cle Atos também começaram com uma vi-
são. com memórias e sonhos. O primeiro sermão da igreja revolucioná-
ria do primeiro século começou com uma citação a respeito dessas coi-
sas:

Nos últimos dias, diz Deus,


Derramarei do meu Espírito sobre lodos os povos.
Os seusfilhos e as suasfilhas profetizarão,
Osjovens terão visões,
Os velhos lere/o sonhos (AIos 2. J 7).

Essas foram memórias perigosas da boca do profeta Joel e do co-


ração de Deus. Deus manteve essas memórias vivas por mais ele cinco
séculos até que finalmente. na plenitude dn tempo. ele JS moveu nu
coração elo seu povo. Memórias perigosas produzem homens e mulhc-
rcs perigosos. que agem a partir dos seus sonhos e os tornam possíveis.
Assim eram os homens e mulheres da igrcja primitiva. Não se surpreen-
da com as mcrnórjas e sentimentos que se movem em você. Ouça-os e
deixe Deus dar vida a eles. Eles são as sementes da Seguudc. Rcfornn),
4
EDDIE: UM PARADIGMA DOS
BANCOS DA IGREJA

o problema básico [com a igreja] é que (/ cura proposta


tem lima semelhança tão impressionante com a doença.
- Elton Trueblood

H
enry G. Bosch conta a história interessante do que aconteceu
quando um cliente em uma pequena loja descobriu que "Eddie",
o balconista vagaroso, não estava presente.

"Onde está o Eddie? Ele está doente?"


"Não," foi a resposta. "Ele não está mais trabalhando
aqui".
"Você já tem alguém em mente para a sua vaga?" per-
guntou o cliente.
"Não! Eddie não deixou nenhuma vaga!"
Existem vários "Edd ies" na maioria das igrejas atu-
ais. Eles desaparecem e ninguém percebe a sua ausência.
Por quê? Primeiro, porque não existe um verdadeiro senso
de Corpo de Cristo no qual os 111Ci11bros são cnvo lvido-, de
maneira funcional. Segundo, muitos, por decisão própria.
têm escolhido ficar sentados no banco da igreja, indispos-
tos a se envolver. I

Bosch está descrevendo uma característica predominante na igre-


ja institucional moderna. Uma grande porcentagem dos membros da
igreja (muitas vezes estimados em Ml.% ou mais) contribui muito
pouc:.o para a vida e ministério do igwjo.

55
56 A SeRunda Reforma

A "EDDIE-FICAÇÀO" DA IGREJA

Depois de introduzir Eddie numa conferência no Canadá, uma per-


gunta escrita apareceu na minha mesa durante um dos intervalos. Dizia o
seguinte: "Será que não poderia ser que Constantino foi a causa da Eddie-
ficação da igreja?". Ouviu-se uma gargalhada quando li a pergunta em
voz alta, mas foi, na real idade, uma percepção perspicaz bem como um
jogo de palavras engenhoso. Nós somos na verdade vítimas da Eddie-
ficação da igreja de Constantino.
Lá por 312 d.e., a igreja tinha mudado de reuniões regu lares nas
casas e reuniões em grupos grandes para reuniões quase exclusivamente
em prédios especiais. Conseqüentemente, a igreja se tornou um auditório!
Desde aquele tempo muitas coisas têm sido diferentes de uma igreja para
outra, como as interpretações teológicas, o tipo de adoração e mesmo as
roupas que o clero vestia. Mas a estrutura da catedral de uma única asa
permaneceu constante nos dezessete séculos seguintes da história da igre-
ja.
Embora Constantino concedesse o último selo de aprovação a essa
abordagem de uma asa, não foi exclusivamente culpa sua. Várias tendên-
cias desenvolveram-se durante os primeiros 300 anos da história da igre-
ja, tornando o quarto século maduro para o ataque de Satanás e para o erro
de Constantino. O povo de Deus estava caindo gradualmente na armadi-
lha de fazer parte de um odre institucional em vez de fazer parte do odre
da encarnação de Jesus Cristo, devido aos seguintes fatores:

o O cristianismo estava~nh~~_'?o~a vez majs com os sistemas po-


líti~ºâ~.
o Líderes profissionais estavam desenvolvendo a estrutura da igreja.
o Q1'9de~espiritua· do lu ar à habilidade e ao esforço hl!J)1a=..
no...
• A liderança servidora estava gradualmente sendo substituída pelo
autoritarismo.
o A estrutura da igreja estava sendo moldada de acordo com o mun-
do.
o A igreja se colocou na defensiva em vez de permanecer na ofensi-
va.
o O contexto de grupo pequeno da igreja era suspeito aos olhos do
governo.

Podemos não saber tudo que aconteceu durante os anos 100-300


A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 57

d.e., mas nós vemos o produto final por meio da igreja em forma de cate-
dral de Constantino.

A CATEDRAL: O MODELO DE IGREJA DE UMA ASA

Usando uma combinação do governo romano e do sistema feudal, o


imperador Constantino desenvolveu uma estrutura de igreja que tem du-
rado por dezessete séculos. Quais são as características do paradigma da
catedral de Constantino?

• As pessoas vão para a construção (catedral)


• em um dia especial da semana (domingo)
• e alguém (um sacerdote, ou hoje, pastor)
• faz alguma coisa para elas (ensino, pregação, indulgência ou cura)
• ou por elas (um ritual ou entretenimento)
• por um preço (ofertas).

Ao construir catedrais e estabelecer rituais e liderança dentro dessas


construções, Constantino mudou a própria natureza e vida da igreja como
planejada originariamente por Cristo. As mudanças surgiram a partir das
novas maneiras de pensar a respeito da igreja de Deus como uma organi-
zação em vez de um wgmÚJ;mQ... A mudança na estrutura reflete uma mu-
dança illl~dã.m~;ltal em como 'a igreja se relacionava com Deus e como
Deus poderia se relacionar com a igreja. As mudanças eram antes de tudo
teológicas - então estruturais.
Em um seminário recente alguém perguntou: "Como a mudança de
Constantino para a catedral no quarto século conseguiu ter um efeito tão
profundo sobre a igreja, mesmo até os dias atuais?". Não foi a catedral
que afetou a igreja; foi o que a proposta da catedral provocou para °
contexto do grupo pequeno na igreja.

NEUTRALIZANDO A IURl:.lA

Desde o início, Satanás percebeu que ele não podia destruir a igreja.
Jesus tinha garantido que as portas do inferno não prevaleceriam ...sobre a
_S.l!.<U.greja.Sua promessa foi c~lpr}da. Perseguiçõ~_~,j).f!S!l.dadeseconÔ:
l~llldaÍlçãS"pOlTficas-·ells-irlam ·n·- anãs - ne-
ntÜm~ esses aspectos foi capaz de diminllir a expansão da igreja nag~-I~les
prin~_~~s sécul~. Estima-se que no terceiro século, somente no impéri"o
romano viviam cerca de seis milhões de cristãos. Da mesma forma que
58 A Segunda Reforma

Satanás não podia destruir o corpo físico do Cristo encarnado, ele não
podia destruir o corpo espiritual de Cristo na terra, a igreja. Se Satanás
não podia destruir a igreja, o que ele poderia fazer? Ele procuraria
neutral izá-la'
Satanás não poderia ter tramado um plano mais astuto. Antes de
tudo, ele deu à igreja sanção política e respeitabilidade social. Então ele
se esmerou em neutralizar a igreja ao atacar sua estrutura de grupos pe-
quenos. A igreja estava assim limitada na sua habilidade de nutrir os no-
vos membros, aplicar o poder espiritual, edificar o corpo, treinar os líde-
res necessários, espalhar o evangelho para o mundo, encontrar a presença
do Cristo vivo e usar os dons do Espírito.
Isso resultou em uma ave de uma asa. A igreja continuava se pare-
cendo com uma ave e soava como uma ave, mas era incapaz de fazer
aquilo que a destacava como ave. Ela não podia mais voar! A igreja tor-
nou-se uma instituição religiosa de uma só asa, presa ao chão. O equilí-
brio e a força do seu projeto original foram neutralizados a ponto de
distorcer o propósito primário de Deus para a igreja - a edificação e o
evangelismo. A igreja tornou-se um auditório de Eddies.

DE PRODUTOR A CONSUMIDOR

Uma grande parte dos membros da igreja é consumidora, não pro-


dutora. Eles são cristãos consumidores porque a igreja tradicional não
tem um contexto viável em que possa torná-los produtores, ou usá-los de
uma maneira produtiva.
O contrato de Eddie com a igreja tradicional estipula que ele deve
ser mimado, receber ministração e ser entretido. Em troca, ele vai ser
considerado um membro da igreja e vai dar uma oferta de tempo em tem-
po para apoiar o sistema. Cristãos consumidores representam 80% da igreja
que são sustentados e ministrados pelos outros 20% que produzem.
Isso significa que Eddie não é nada além de um fator neutro no mi-
nistério da igreja. Na verdade, ele provavelmente representa o seu fator
debilitante mais sério. Eddie é um dos maiores consumidores da igreja,
exigindo muitos cristãos produtores para cuidar de suas necessidades. Os
cristãos consumidores neutralizam a produtividade dos 20% de cristãos
maduros que gastam a maior parte do seu tempo e energia ministrando
para o Eddie, a Sra. Eddie e para todos os Pequenos Eddies.
Pense nos 20% de membros maduros e produtores da igreja. Eles
são capazes de penetrar o mundo, de viver a vida dos cristãos do Novo
Testamento, de levar a igreja para além do seu parque de estacionamento,
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 59

de fazer a diferença no Reino. Mas eles estão tão ocupados em manter o


sistema que sustenta os Eddies que sobra pouco tempo ou energia para
ministrar conforme o modelo de igreja do Novo Testamento.
Quando todos os Eddies se sentam nos bancos da igreja, você quase
consegue ouvir o barulho de sucção enquanto sugam o ministério para si
mesmos. Quantos cristãos produtivos você estima serem necessários para
manter o tipo de programa que vai atrair Eddie e mantê-lo feliz na igreja
tradicional? Qualquerque seja o número, a manutenção é muito elevada e
oferece um retorno de tempo, de esforço e dinheiro muito baixo, porque
Eddie raramente contribui de uma maneira positiva tanto para a edificação
da igreja como para o evangelismo do mundo.
Eddie pode sair da igreja se ele encontrar uma outra igreja que ele
acha que supre melhor as suas necessidades. Eddie vai gravitar em dire-
ção ao ministério mais atraente com os benefícios mais garantidos. Eddie
sempre vai encontrar motivos razoáveis parajustificar sua migração para
pastos mais verdejantes. "Nó_~~.§t~~ospreocupados com o bem-estar es- _
piritual da nossa família. Essa nova igreja tem um programa tão maravi-'-
Ihosol?~r~§~~lj,~ssõs'fittros»:-tm."O estilo de-adõ'façãõ'-dessá-igre]ae tão
tocante. Nós que~elTIos'rõu-v-~i1.ll?:~~~:~~~~~,~~,~~!::~":-º,u:-
"Sou ai imenta-
do pela pregação.masaeílhcsa daqbl~le pastoLEle_éumllomem de Deus
tão espiritual", Quem pode questionar os motivos de Eddie quando ele
apresenta razões que'sõ'ãm tão'espÍritílaís?
Quando Eddie sai da igreja, "sua lacuna não é sentida" no verdadei-
ro ministériooutrabalho.daigreja.E1eapenasdeixou um lugar vazio num ,
banco no domingo cedo, um "trocado" a menos no prato de ofertas e um
membroã'nle-nos'parã-ser-ínima(fü e agradado. Os líderes de igreja preci-
sam então sair e procurar por um outro Eddie ou dois, para substituir
aquele que "foi perdido". O que está acontecendo aqui?

CONSUMISMO NA IGREJA

As igrejas de todos os tamanhos são mantidas reféns por consumi-


dores como os Eddies, que são o público-alvo da maioria das igrejas do
nosso século. Na verdade, algumas das estratégias de crescimento da igre-
ja mais populares das últimas décadas têm sido desenvolvidas ao redor de
cristãos consumidores de uma ou outra forma. Esquemas de marketing
engenhosos tentam atrair e segurar os Eddies flutuando por aí em uma
sociedade egocêntrica.
~r que a igreja concordou em
60 A Segunda Reforma

nifmlação - mais parecjda com chantagem - dos membros que contri-


~m com a menor parcela no trabalho da igreja?
. --- -Eddie tem seu gancho na Igreja de uma asa porque sua presença é a
medida de sucesso nos círculos de uma igreja de uma asa. Encher a igreja
no domingo é o ponto-chave de uma religião institucional. A igreja
institucional moderna tem um critério de "contagem do corpo" para ava-
liar seu sucesso. Não importa o número de "frases espirituais" que usa-
mos, o sucesso em uma igreja tradicional está atrelado ao número de cor-
pos vivos presentes em um espaço de tempo de duas horas no culto domi-
nical. E Eddie não vai vir se não ministrarem a ele e lhe derem o que ele
quer.
O sistema tradicional precisa dos Eddies preenchendo os bancos
para a contagem do número total de pessoas no domingo, para apoiar
financeiramente a construção de novas instalações e a contratação de no-
vos obreiros "ministros" de tempo integral. Todos esses ganchos são ne-
cessários para atrair mais consumidores do tipo Eddie, que podem preen-
cher mais bancos, que criam a necessidade de novas e melhores constru-
ções para atrair mais Eddies, que significam construções ainda maiores, e
o ciclo continua. Eddie é a força-motriz por trás do jogo da concorrência
da igreja tradicional.
Eutychus, um contribuinte fictício da revista Christianity Today,
descreve sua experiência com o consumismo na igrejar ,

Medo de voar?
Nossa igreja, que está se adequando ao novo estilo de
"evangelismo de mercado", tem recentemente procurado al-
cançar um grupo-alvo injustiçado: o voador freqüente. Visto
que tantas pessoas em nossa comun idade, formada de pessoas
com nível social cada vez mais elevado, viajam durante a se-
mana, não poupamos despesas.
Nossos assentos têm ar condicionado individual, luzes para
leitura e botões para chamar os "introdutores". Um sinal do
sinto de segurança aparece automaticamente quando o prega-
dor começa a falar alguma coisa controversa; máscaras de oxi-
gênio e sacos para enjôos causados pelo vôo podem ser loca-
lizados no porta-bagagem do banco.
Nosso "Plano de freqüência de vôo" recompensa a participa-
ção regular com descontos para viagens além-mar (para a Ter-
ra Santa, é claro). Aqueles que se assentam na "primeira clas-
se" são mimados quando fazem contribuições generosas para
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 61

o fundo de construção da igreja, permitindo que saiam do cul-


to durante o último verso do hino de encerramento.
Depois de alguns meses, no entanto, as coisas começaram a
ficar fora de controle. Alguns dos nossos "voadores mais fre-
qüentes" recém-chegados têm começado a pedir um tratamento
especial: Eles querem refeições vegetarianas e alternativas para
os sermões como fones de ouvido, travesseiros e cobertores.
Até onde deveríamos estar dispostos a ir com isso? Os
presbíteros se reuniram na última quarta-feira e decidiram cri-
ar um comitê especial para considerar os pedidos especiais
dos recém-chegados. Evangelismo de mercado é uma ótima
opção. Mas onde fica o limite?'

o PERIGO DOS SISTEMAS DE DISTRIBUiÇÃO

Quando a igreja parou de reunir-se em grupos pequenos e começou


a reun ir-se exclusivamente no ambiente do grupo grande, o significado de
ser membro foi virado de ponta-cabeça. A igreja tornou-se um canal para
a distribuição dos recursos para os membros em vez de desafiar os mem-
bros a tornar-se recursos. Lyle Schaller aponta para o perigo de uma
cçsrnozisãc de distriblliç,ão, em vez da cosrnovisão de contribuição, em
uma organização.

Quanto maiores as expectativas acerca do que as pessoas po-


dem e vão contribuir em termos de talentos, criatividade, tem-
po, energia, sacrifícios, dinheiro, compromisso e outros recur-
sos, tanto maior será o ânimo de todo o grupo e menor a possi-
bilidade de dissensão interna. Essa é a mensagem da fé cristã, a
história das grandes escolas, o tema das grandes igrejas e a cola
das sociedades unificadas.
Por contraste, elevar as expectativas do que vai ser dado às
pessoas invariavelmente tende a politizar o processo de toma-
da de decisões, aumentar o nível de tensão e encorajar argu-
mentos divisores acerca de quem está recebendo uma porção
justa e quem está sendo deixado de fora.'

A famosa citação do presidente JgbJl F Kenrredy no seu primeiro


discurso chamou a atenção da nação americana na década de 1960 por-
que falou diretamente a essas duas cosmovisões, "N~..Q_rlPr8'1nte Q qlle Q
seu país pode fazer por você [cosmovisão da distribuição], mas o que
62 A Segunda Reforma

v~gge fazer pelo seu país [cosmovisão dacontribuiçãoL


Elton Trueblood viu a necessidade dos cristãos de serem "instru-
mentos par~~enção do mundo" em vez de r~ipientes de benefícios:

Quando a doutrina da "contribuição" é plenamente aceita, fica


óbvio que, em contraste com muitas organizações, a igreja não
foi instituída para o benefício dos seus membros. Cristo chama
homens e mulheres comuns para a sua comunhão permanente
não em primeiro lugar para salvá-los, mas porque ele tem tra-
balho para eles. É uma revelação genuína de que seu chamado
principal para um compromisso, "Venham a mim", está asso-
ciado ao mesmo tempo ao chamado para o trabalho, "Tomem
s~eu jugo". A igreja é essencial para o cris~
não porque ela lhe dá benefícios ou mesmo inspiração, mas
porque, com todas as suas falhas, é um instrumento indispen-
sável para a redenção do mundo."

DE CONSUMIDOR Â PRODUTOR

A igreja de uma asa está produzindo consumidores em massa do


tipo Eddie em vez de produtores. De que maneira podemos envolver os
nossos membros? De que maneira podemos fechar a porta dos fundos
da igreja? O que deveríamos fazer acerca dos nossos membros mais
fiéis que estão ficando esgotados? Todas essas são perguntas acerca do
Eddie.
A livrarias cristãs têm prateleiras repletas de livros de djscip!!'ado
designados a transformar o Eddie de um consumidor em um produtor.
Nos últimos trinta anos, a igreja tem tentado todos os esquemas de
discipulado conhecidos pelo homem para treinar o Eddie a tornar-se um
produtor. Líderes e cristãos produtores têm gasto horas incontáveis ten-
tando mudar o Eddie, mas sem sucesso.
De tempo em tempo, um Eddie vai fazer a transição de consumi-
dor para produtor, mas isso ocorre tão raramente que suspeitamos que
aquele Eddie em particular foi na verdade um produtor isoladq, Eddie
pode sentar na escola dominical e ser um expectador no culto público
por trinta anos e ainda não ser capaz de orar em público. Ministrar ou
testemunhar a alguém está fora de questão. Usando métodos tradicio-
nais, poucos Eddies podem ser arrancados do consumismo da igreja e
transformados em ministros cristãos produtivos.
Muitos líderes estão convencidos de que esse ciclo de Eddies não
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 63

pode ser quebrado sem algum tipo de mudança na maneira de operar da


igreja. Qual é a mudança de paradigma que vai mudar essa mentalidade
consumista frustrante? Para que a igreja volte ao cristianismo dinâmico
do Novo Testamento, duas coisas devem acontecer:

I. Tire o Eddie das costas dos 20% dos membros da igreja que são
cristãos produtivos para que possam penetrar o mundo perdido
com o evangelho.
2. Transforme "cristãos consumistas" em "cristãos produtivos" para
que se tornem parte da solução em vez de parte do problema.

Jesus planejou a igreja num contexto de grupos pequenos para tor-


nar os Eddies da igreja uma parte produtiva do corpo de Cristo. Não é de
admirar que vejamos tão poucos Eddies nas páginas do Novo Testamen-
to. O Edctie não podia esconder-se por detrás de atividades que ocorrem
em enormes construções. A igreja do primeiro século se encontrava em
grupos pequenos nas casas, talvez até na casa do Eddie. Eddie tinha de
participar e produzir.
De quem é a culpa? Do Eddie? Dos líderes da igreja? Dos cristãos
produtores? Não! É do sistema! O sistema produz consumidores do tipo
Eddie em vez de desenvolver o Eddie em um produtor. Eddie é uma
vítima do sistema que ele não desenvolveu e que não pode prepará-lo
para ser alguém além de um parasita espiritual.
Já na década de 1950, Elton Trueblood entendeu que algo estava
seriamente errado com a liderança da igreja bem como com os seus
membros. Trueblood sentiu que era necessário "uma mudança radical
de algum tipo". Essa mudança radical deveria alcançar o cristão "co-
mum". Ele cita John R. Mott:

Uma multidão de leigos está hoje diante de um sério perigo. É


concretamente perigoso deixá-los ouvir mais sermões, parti-
cipar de mais classes bíblicas e abrir fóruns ou ler mais traba-
lhos religiosos e éticos, a não ser que junto com tudo isso seja
proporcionado uma vazão adequada para as verdades recém-
encontradas.'

Essa "vazão" para vivenciar "verdades recérn-aprend idas" é o gru-


po pequeno na casa! Sem ele, Eddie nunca vai ser integrado com suces-
so no ministério da igreja e vai continuar sendo um tourandc obstáculo
para a edificação da igreja e a evangelização do mundo.
64 A Segunda Reforma

OUTRAS MUDANÇAS

Além de mudar a natureza do roll de membros, virtualmente cada


parte da igreja foi afetada pelo paradigma da igreja do quarto século. Na
lista abaixo vemos as mudanças que ocorreram quando a igreja parou de se
encontrar em grupos pequenos e tornou-se uma platéia em grupos grandes:

i/.A Ceia do Senhor pass-ou de uma re e 'r-(~-"'-C.nu:H1"lT'l


môn ia.
• A adoração mudou da participação para a observação.
• O testemunho mudou do relacionamento para a técnica de persu-
asão.
• O ministério mudou de pessoal para quase que exclusivamente
social.
• A Iiderança mudou de servos dotados e chamados para profissio-
nars.
• O crescimento mudou da multiplicação para a adição.
• As missões mudaram de cada um ser um missionário para sus-
tentar missionários.

I
• A confissão mudou de pública diante de um grupo pequeno para
a individual num confessionário.
• O discipulado mudou de "na prática" para o treinamento na Sal%
de aula.
• A comunhão mudou de vida profunda em comunidade para rela !
cionamentos mais superficiais em reuniões grandes. I
• A vida em corpo mudou de estilo de vida para "roll de mem-
bros".
• Os dons mudaram da edificação para o entretenimento ou foram
extintos.
• A capacitação mudou do poder de Deus para a habilidade do
homem.
• As construções mudaram de funcionais para lugares sagrados de
reuniões.
• A administração mudou de integrada para compartimentalizada.
• Os membros foram transformados de produtores para consumi-
dores.
• O treinamento dos filhos passou da responsabilidade dos pais
para a responsabilidade da igreja.
• O estudo da Bíblia mudou de praticantes da Palavra para ouvin-
tes da Palavra.
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 65

• O evangel ismo passou de "estruturas ide" para "estruturas vinde".

!\ transição de grupos pequenos para construções concluída no quar-


to século mudou a face da igreja nos dezessete séculos seguintes. Todas
as mudanças acima têm continuado a impactar negativamente a igreja
como a conhecemos. Será que a forma como temos sido igreja hoje tem
que ver mais com o que acontecia no quarto século sob a influência de
Constantino do que com o que acontecia no primeiro século sob a influ-
ência de Jesus? Muitos cristãos em busca estão começando a suspeitar
que isso seja verdade!
5
TERESA: UM PARADIGMA
,
APOCALIPTICO

o período atual é o centro da história em que estão


ocorrendo tantos acontecimentos como em todos os
períodos de vida anterioresjuntos.
- Alvin Tojjler

ossa igreja conheceu Teresa por meio de um membro, treinada


por uma agência comunitária para responsabilizar-se por famíl i-
as em situação de risco. O Serviço de Proteção da Criança do
Estado tinha dado a Teresa a responsabilidade temporária por sete dos
seus netos, entre a idade de dois e nove anos. Sua filha, a mãe biológica
das crianças, ainda não havia completado 30 anos, e estava viciada em
drogas e sustentava seu vício por meio da prostituição. Como milhares de
outras pessoas, ela estava tentando desesperadamente escapar do seu in-
ferno pessoal, por intermédio da utopia das drogas.
Sua família tinha um histórico de abuso infantil e negligência. As
duas filhas mais velhas tinham recentemente sido sexualmente abusadas
pelo padrasto, que estava na prisão, aguardando julgamento. O pai delas
estava preso no México por homicídio. Todas essas lindas crianças, cinco
meninas e dois meninos, nasceram dentro de um redemoinho social mor-
tal que estava ameaçando engoli-Ias lentamente.
Ao observar essa situação, eu vi a multiplicação do mal em ação.
Uma jovem mãe já havia "produzido" sete fi lhos que potencialmente seri-
am exatamente como ela. (Os homens nessa situação eram igualmente ou
mais responsáveis pela situação, mas tipicamente não estavam presentes).
Mesmo se uma ou duas dessas preciosas crianças escapassem, a situação
ainda representava uma aceleração rápida da miséria, da dor, do pecado e
das machucaduras. Multiplique essa situação por milhares de "Tcresas"
no mundo, e a extensão do sofrimento humano e do mal entram em foco
de forma terrível. O mal prolifera. A miséria humana se multiplica.

67
68 A Segunda Reforma

DISTOPIA: A DOENÇA DO SCCLJLO XXI

Um artigo recente da U S. News & World Repor' descreve o que


está acontecendo com Teresa, à sua fi lha, seus netos e ao redor do mundo
como uma "distopia.'" que é o oposto de utopia. "É uma situação", diz
Webster, "na qual as condições e a qualidade de vida são terríveis". Clara-
mente, uma grande porcentagem dos habitantes do mundo hoje experi-
menta uma terrível qualidade de vida. O otimismo utópico das décadas
passadas estourou como um furúnculo inflamado, e uma distopia escura e
deprimente se estabeleceu como uma ferida supurada sobre o mundo.
Estamos em um ciclo social perigoso que ameaça a civilização. Mesmo
na afluente América (do Norte), essa doença está incubada em cidades e
está se espalhando como uma epidemia em cada segmento da sociedade.
A d istop ia é uma doença m und ial.
Aqueles que não têm o conhecimento bíblico da natureza pecamino-
sa do homem estão se surpreendendo constantemente com o surgimento
das terríveis condições da distopia. O mundo não tem idéia da sua fonte
nem de como encontrar uma solução para ela. Infelizmente, embora a
igreja tradicional simpatize com aqueles que se encontram num estado de
distopia, ela perdeu um meio eficaz para tocar de maneira significativa os
machucados no mundo.
A distopia freqüentemente está associada na literatura aos quatro
cavaleiros do Apocalipse - Guerra, Fome, Peste e Morte. Esses terríveis
cavaleiros aparecem em cada geração. Em nosso século, imagens de
distopia afluem diante de nós nestas palavras: "Holocausto", "Hiroshima",
"Campos de morte" ~ "Bósnia". "Ruanda" é a última palavra apocalíptica,
mas não será a última antes deste livro ser concluído.
Na África, temos visto os quatro cavaleiros do Apocalipse ressoar
através do continente. Primeiro veio a guerra com as suas mortes. Então
veio a fome, a morte e a peste, enquanto os refugiados fugiam da guerra e
da fome para os acampamentos onde a cólera e outras doenças prolifera-
vam. Em cada mudança de fase, a morte era o único aspecto que permane-
cia constante.
Imagens terríveis têm emergido nessa marcha da morte - bebês
chorando diante dos cadáveres das suas mães: mães chorando sobre as
formas esqueléticas dos seus filhos. Uma imagem que provoca enjôo mostra
um abutre esperando ao lado da forma definhada de uma criança morren-
do sozinha na poeira da Somália.
Quatro fatores históricos importantes contribuem para a distopia do
mundo atual e compõem o contexto histórico da igreja à medida que sc
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 69

aproxima do século XXI - explosão populacional, implosão urbana, ai ie-


nação social e isolamento da igreja. Esse é o mundo de Teresa, um paradigma
apocalíptico que ameaça destruir a civilização como a conhecemos.

A EXPLOSÃO POPULACIONAL

As estatísticas nos relatam que o número total de pessoas que têm


vivido e rnorrido desde o início dos tempos aproxima-se do número total de
pessoas que vivem hoje. A população do mundo nos tempos de Jesus igua-
lava-se à população dos Estados Unidos atuais. No tempo ele Martinho Lutero,
a população havia dobrado. Levou 1.500 anos para que isso acontecesse.
Em 1800, a população dobrou mais lima vez, em somente 300 anos. Em
1930, a população dobrou mais uma vez em somente 130 anos. De 1930 até
hoje, a população explodiu para mais de 6,5 bilhões de pessoas - em ape-
nas setenta e poucos anos. Existe uma projeção de que a população vai
dobrar para 10 a 12 bi lhões ele pessoas em algum momento no século XXI.
O gráfico abaixo vai nos ajudar a entender esse fenômeno.
De acorelo com a Divisão Populacional elas Nações Unidas, caela ano
o equivalente à população do México é acrescentada à população do mun-
do. Isto significa que, além de todos aqueles que morrem, são acrescidos 90
a 100 milhões de pessoas.

A Explosão Populacional. O número 6


total de pessoas que vieram e morreram
aproxima-se do número lotai de pessoas
que estão vivas hoje. A população
mundial nos tempos de Jesus era igual à 5
população atual dos Estados Unidos. Nos A Reforma
tempos de Mortinho Lutero. a população
havia dobrado --levou somente 1.500 As pragas (Morte Negra)
4
anos para que isso acontecesse. Em 1800.
a população havia dobrado outra vez. em
somente 130 anos. De 1930 até hoje. em
pouco mais de 70 anos, (J população 3
explodiu para mais de 6.5 bilhões de

Moisés
Abraão Isaías
Adão

3000 a.C ?OOOa.C. 1000 a.C. Od.C. 1000 2000


Figura 1. Explosão populacional
70 A Segunda Reforma

Paul Erlich, autor do best-seller, The Population BO/JIb (A bomba


populacional), em 1968, disse que a população mundial projetada para 5,5
bilhões no final do milênio iria duplicar em meados do século XXI. Em
1992, ele disse: "Estávamos demasiadamente otimistas. Quando o livro foi
escrito, estávamos acrescentando 70 milhões de pessoas por ano. Agora
estamos acrescentando 93 milhões de pessoas por ano."? Isso significa que
a população do mundo vai crescer numa proporção igual à população da
China (mais de um bilhão de pessoas) a cada década nas próximas seis
décadas.

IMPLOSÃO URBANA

Ao mesmo tempo em que a explosão populacional marca essa era


como um ponto divisor na história do mundo, a urbanização acrescenta um
outro ponto de exclamação pressagioso. Os eventos-chave do século XXI
estão ocorrendo em um contexto urbano.
O estatístico David B. Barrett descreve diferentes tipos de cidades
que estão surgindo da explosão populacional. Essas são as megacidades
que alcançaram ou passaram o número de um milhão de habitantes. Em
1900 havia vinte megacidades. Esse número cresceu para 276 em 1985,
"com números futuros estimados pelas Nações Unidas de 433 megacidades
em 2000, e 652 cidades com um milhão de habitantes ou mais em 2025".
Além das megacidades, existe um aumento e explosão de "supercida-
des" que têm populações acima de quatro milhões de pessoas. "Londres foi
a primeira supercidade, em 1870; hoje existem38 supercidades. Existe uma
estimativa de 144 supercidades em 2025 e 220 em 2050".
Barret também agrupa a erupção vulcânica de cidades urbanas "super-
gigantes", que têm populações acima de IO milhões de pessoas. "A primeira
cidade supergigante foi Nova York em 1935; a segunda foi Tóquio, em
1958. De repente cidades supergigantes irromperam por todo lado. No ano
2000 vão surgir cerca de 24 cidades supergigantes e no ano 2025 estima-se
que haverá cerca de 80 cidades supergjganles.":
As pessoas estão migrando para as cidades e para a pressão e o estresse
da vida na cidade. A vidajá não é mais tão simples como abrir uma pequena
loja ou cuidar de algumas colheitas. Apenas o tamanho dos centros
populacionais já cria uma complexidade nunca antes experimentada.

ALIENA(!\O SOCIAL

Sociólogos chamam o terceiro fator histórico que contribui para a

- ~
A Igreja do Novo Testamento no século XX! 71

moderna anti utopia de "isolamento" (ou seja, o isolamento em forma de


casulo) da sociedade. Essa expressão descreve como as pessoas saem
do seu escritório seguro para garagens reservadas, entram em seu car-
ro com ar condicionado, dirigem para casa no seu carro com vidros
escuros e música suave. Quando chegam em casa, apertam o botão do
portão automático da garagem e entram em seu lar, seu casulo. Essa é
uma outra forma de descrever o retraimento do homem moderno da
sociedade para um ambiente seguro.
O muro ou grade é um dos símbolos de isolamento mais
reveladores da cidade. Eles mostram a psique do morador da cidade.
No final da sua viagem para casa diariamente, o morador da cidade
refugia-se atrás das paredes. Barreiras são construídas para manter a
cidade segura. Montantes significativos de tempo, dinheiro e material
são usados na cidade apenas para construir muros, grades e barreiras
que podem separar fisicamente o grupo "nós" do grupo "eles". Esses
muros simbolizam isolamento, solidão e ;11edo. -
Por que esses muros físicos e relacionais existem na cidade? O
morador da cidade obviamente se sente vulnerável, inseguro e amea-
çado pelo seu ambiente urbano. Ele não pode absorver toda a comple-
xidade e mudança que acompanha as megacidades, supercidades e
supergigantes. As paredes são uma resposta da sua auto preservação
física e emocional.
A sociedade está fora de controle, e um medo real enche as flo-
restas urbanas. O habitante urbano é cortado dos relacionamentos cul-
turais bem definidos. Nega-se-Ihe a segurança do lar e da família por
causa do divórcio e espera-se que ele interaja cada vez mais com má-
quinas e computadores impessoais. Ele é forçado a suportar a dor e a
agonia da miséria humana e a desumanidade do homem vista em cores
vivas toda noite na TV. Ele sente que sua privacidade é ameaçada mes-
mo no santuário do seu lar quando é assaltado e invadido com
telemarketing, propaganda e doses de cada tipo de religião televisiva
conhecida pelo homem.

ISOI.Mvll:NTO NA IGREJA

Para explicar o quarto fator da distopia, cu me refiro novamente


ao mundo estatístico atual. David Barret o usa para argumentar que
hoje é diferente dos diversos séculos passados por causa do aumento
do c Iima "não-cristão" ou "ant icristão". Entre \400 d.e. a \ 700 d.C.;
todas as cinco maiores cidades do mundo eram capitais não-cristãs e
72 A Segunda Reforma

até anti-cristãs. No ano de 1900, todas as cinco maiores cidades ti-


nham se tornado fortalezas da vida cristã, do discipulado, do
evangelismo urbano, das missões urbanas, das missões estrangeiras e
das missões globais.
Mas em 1985, duas das cinco cidades eram não-cristãs, e em 2000
três das cinco maiores cidades serão hostis às missões cristãs. Em 2040,
quatro das cinco maiores cidades serão gigantes não-cristãs e anticristãs
de cerca de 40 milhões de habitantes cada, em ordem de tamanho:
Xangai, Pequim, Bombaim e Calcutá.
Os cristãos dentro das cidades têm decrescido percentual mente
como habitantes urbanos. Em contraste às situações urbanas favorá-
veis em 1900, nós agora encontramos supercidades não-cristãs, blo-
queando o avanço cristão.
Cidades enormes de 10 milhões de habitantes sem raízes cultu-
rais no cristianismo estão estourando por todo o globo terrestre, inclu-
indo Tóquio, Xangai, Pequim, Calcutá, Osaka, Bombaim. As próxi-
mas cidades super-gigantes que seguem na virada do milênio serão
seis cidades islâmicas, ou seja, Jacarta, Cairo, Bagdá, Istambul, Teerã
e Karachi (no Paquistão).'
O cristianismo sacrificial nunca tem sido uma escolha popular.
Com essas mudanças mundiais, a igreja vai ter de pesar o custo de
confessar Cristo, quanto mais sacrificar-se e alcançar aqueles que
moram em áreas onde existe perseguição radical aos cristãos.

COMO SERÁ A IGREJA DO SÉCULO XXI?

Enquanto a população se multiplica e as pessoas implodem nas


cidades, muros são construídos e o cristianismo está se tornando cada
vez mais isolado. A igreja está declinando em relação à porcentagem
total da população. Ela perdeu sua eficácia para alcançar aqueles que
estão na distopia. Estou ciente de muitos estatísticos respeitáveis que
argumentam que os membros da igreja estão crescendo em relação à
população. A variante é como definimos "membro de igreja". Se isso
inclui as crianças e aqueles identificados com a igreja em um sentido
cultural, então as conclusões desses estatísticos podem estar corretas.
No entanto, se membro de igreja significa um adulto ativamente
envolvido na vida da igreja como um "crente", vamos acabar tendo
lima porcentagem bem menor. A maioria dos estatísticos da igreja pron-
tamente admite que existem dificuldades em obter um número exato a
respeito dos crentes porque isso envolve uma conotação tão subjetiva
A Igreja do Novo Testamento no século XXI
73

c teológica. Denominações protestantes não chegam nem a concordar


cm relação a uma definição entre eles. Uma definição comum que en-
globa tanto católicos como protestantes seria ainda mais difícil.
Um pastor, com quem servi há mais de vinte anos, entende clara-
mente a diferença nas estatísticas da igreja. Quando perguntado acer-
ca do número de membros da sua igreja ele respondeu: "Você quer
saber o número de membros que estão na lista de membros ou os mem-
bros que estão realmente envolvidos?".
As categorias de membros e crentes afetam nossas conclusões
acerca do estado da igreja, que por sua vez afetam os tipos de estraté-
gias de igreja que desenvolvemos. As estatísticas culturais de mem-
bros podem ter sua validade, porém, é a estatística do crente que real-
mente reflete o crescimento da igreja. Para o desenvolvimento das es-
tratégias da igreja, eu estou mais interessado em identificar os mem-
bros ativos da igreja no mundo do que os membros que figuram numa
Iista de rnern bros.
Não obstante os números, o problema da estratégia se resume à
diferença entre adição e multiplicação. A população se multiplica en-
quanto a maioria das igrejas depende de estratégias que resultam em
adição ou crescimento zero. Mesmo as igrejas tradicionais mais criati-
vas nos Estados Unidos usam estratégias que somente adicionam mem-
bros, enquanto a população está crescendo por multiplicação. As mui-
tas igrejas dinâmicas espalhadas ao redor do mundo que usam células
como suas comunidades cristãs de base são as exceções desse padrão
de crescimento da igreja.
À luz desses indicadores demográficos, algumas perguntas vêm
à mente. Será que Deus sabe que existe uma explosão populacional?
Será que Deus ama os bilhões que nascem hoje tanto quanto amava os
milhões na época de Jesus? Certamente que sim, mas o que ele vai
fazer a respeito disso? Será que a igreja de uma asa é a única esperan-
ça para os bi lhões de pessoas que vão nascer na terra nas próximas
cinco ou seis décadas? Será que Deus tem um outro plano? Mesmo os
líderes de igreja mais otimistas estão perdidos acerca de como o
paradigma da igreja de um dia por semana pode significativamente
impactar a explosão populacional!

A BOLA ESTÁ COM VOCÊ!

A explosão populacional, a implosão urbana, a alienação social e o


isolamento da igreja nos colocam num paradigma apocalíptico, uma es-
74 A Segunda Reforma

trutura que prevê o desastre, a miséria e o mal. O que pode ser feito?
Devemos nos perguntar: "Será que uma igreja isolada em cons-
truções e dependente de estratégias de crescimento por adição pode
esperar prevalecer contra essas forças apocalípticas?". Que a igreja de
Jesus Cristo vai prevalecer isso está certo. A igreja de Jesus tem en-
frentado forças apocalípticas em outras épocas e tem crescido apesar
disso. A pergunta é se a igreja institucional (igreja de Constantino),
como a conhecemos, vai sobreviver. Será que a igreja que se reúne um
dia por semana (no domingo) pode prosperar em um mundo tão hostil
e de constantes mudanças sem uma revisão minuciosa de como ela
opera?
Se você e eu não fizermos essas perguntas, quem vai fazê-Ias?
Políticos bem intencionados podem designar fundos governamentais
para os seus problemas mas não podem dar o que está faltando à soci-
edade que são os valores espirituais e o poder. Muitos "Larrys" estão
desiludidos e distraídos demais com o paradigma antigo para lidar com
as confrontações que acompanham essas perguntas. "Eddie", o mem-
bro consumidor da igreja, é parte do problema e é acomodado e imatu-
ro demais para chegar a descobrir que existe um problema. Peritos
denominacionais estão cavando cada vez mais fundo no mesmo bura-
co histórico, tentando colocar a igreja tradicional nos eixos. "Teresa"
está se afogando no seu próprio redemoinho apocalíptico e levando
consigo seus filhos e os filhos dos seus filhos. Ela nunca vai encontrar
uma solução para curar a sua própria distopia.
Isso deixa você e a mim com a missão de achar uma solução para
o mundo no qual vivemos. Devemos encontrar uma maneira de viver
na "história santa (apocalíptica)" de Deus para que venha o seu Reino
e "a sua vontade seja feita assim na terra como no céu".
O que a igreja estará disposta a fazer para se tornar o agente de
redenção de Deus para o mundo no qual vivemos? Será que a igreja
vai morrer para a sua respeitabilidade? Para os seus programas? Para o
seu intelectualismo? Para as suas organizações denominacionais his-
tóricas? Para as suas construções? Para os seus líderes profissionais
que fazem tudo por ela?
Jempos apocalípticos requerem 11ledidasapgcalíptisas, na igreja
e na nossa própria vida. Estamos falando acerca de grandes mudanças
de paradigmas. Devemos começar a vivenciar o paradigma mais pode-
roso que o homem já encontrou: Q paradigma da pncanU;Jfão. O
paradigma da encarnação pode ser definido como Deus vivendo na
história, na sua igreja, vivendo por sua presença ressurreta, em poder
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 75

majestoso e com propósito eterno. Para entrar nesse paradigma, deve-


mos nos afastar dos padrões atuais da igreja e tornar-nos igrejas de
duas asas que têm uma esperança e uma estratégia prática de transfor-
mar Eddies em produtores, tirar a pressão de Larry, e tocar Teresa e
seus netos. Esse é o único paradigma que pode redimir a igreja e por
meio dela redimir a sociedade.
Se você e eu não o fizermos, então nada será feito!
A bola está com VOCê!~
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j
6
PERGUNTAS ACERCA DA IGREJA
DE DUAS ASAS

A velocidade é inútil, a não ser que você esteja


indo na direção correta.
- Joel A. Barker

A
essa altura, provavelmente você tem perguntas acerca da igreja
em células e do que eu e outros proponentes entendem a respeito
dela. A maioria das pessoas tem perguntas. Neste capítulo, eu
quero devotar-me a oito perguntas feitas com freqüência acerca da igreja
em células. Até certo ponto, minhas respostas neste capítulo podem aju-
dar você a entender o que eu /1([0 estou dizendo:

Pergunta 1: "Você está dizendo que a igreja tradicional está total-


mente errada? ".
De forma alguma! A igreja como a conhecemos não é insincera ou
errada. A igreja tradicional não é incorrigível; ela é incompleta Ela só
bate sua asa do grupo grande. A igreja tradicional não está morta; ela está
aleijada. O propósito deste livro não é enfraquecer a asa do grupo grande
da igreja tradicional, mas incentivá-Ia a também começar a usar a asa do
grupo pequeno. A vida do grupu grande tradicional deve ser equilibrada
com a vida em comunidade em grupo pequeno.
Elton Trueblood procura defender a idéia de que a igreja deve engajar-
se tanto no realismo como no idealismo. Devem ser levados em conta os
grandes ganhos da igreja moderna bem como as grandes perdas. Ele suge-
re. no entanto, que é mais proveitoso ressaltar as perdas porque provoca
mudanças:

77
78 A Segunda Reforma

~a - o que pode ser verdade ou não - mas sim,


que a igreja está menos vigorosa agora do que poderia estar.
Areas que agora estão sendo negl igenciadas poderiam ser ocu-
padas; recursos que agora estão sendo desperdiçados poderi-
am ser empregados. O problema real diante de nós não é se a
nossa fé tem declinado, mas como ela pode se tornar mais
verdadeira e relevante para a vida contemporânea e suas ne-
cessidades urgentes. Embora a igreja atual possa estar indo
bem, ela não está indo bem o suficiente; ela não está indo tão
bem quanto poderia, em vista da sua gloriosa origem e em
vista dos seus recursos inexplorados atuais. E seus adversári-
os são fortes.'

Ao caminhar por uma colina na região central da Índia, o missio-


nário E. Stanley Jones chegou até um forte guardado por soldados em
uniformes coloridos antigos. O forte em certa época da história havia
sido relevante como o centro de um Estado feudal. Naquela época, ele
mantinha a autoridade e o poder do Estado dentro dos seus quatro espes-
sos muros. Com o passar do tempo, o centro e o poder do Estado tinham
se mudado de detrás daqueles muros para a cidade no vale abaixo. O
forte agora está lá no alto, "encalhado" e irrelevante, sendo pomposa-
mente guardado pelos soldados.
Comentando acerca desse fato, Jones disse o seguinte: "Esta, di-
zem os críticos, é a imagem da igreja de hoje. Ela está no alto, "encalha-
da" ... e irrelevante. Ela não está ajustada aos problemas da cidade secu-
lar. Ela está pomposamente guardando valores e questões irrelevantes". 2
Jones reconhece a diferença entre a irrelevância de valores e a
irrelevância de estruturas e formas:

Os valores que a igreja está guardando não são sem valor e


também não são irrelevantes. Eles sãos os valores mais preci-
osos na sociedade humana atual e em qualquer época. Esses
valores podem ser cobertos por formas irrelevantes e lingua-
gem arcaica; mas despidos dessa linguagem e formas
irrelevantes, eles são a posse mais relevante, preciosa e valo-
rosa que já foi concedida à raça humana.'

Como a imagem da igreja atual é trágica! Ela ainda possui a mais


preciosa mensagem e valores, mas é freqüentemente ignorada porque a
mensagem e os valores são encobertos por formas irrelevantes e lingua-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 79

gem arcaica.
Os valores da igreja não são o problema, nem a sua teologia. O
problema está na falta de~modelo viável por meio do qllal Ol!i valores==:-
e a teologia possam ser viyencjados E aqui que entra o movimento da
ÍgreJaem~

Pergunta 2: "Você está dizendo que grupos pequenos ou células


vão curar tudo que está errado na igreja? ".
Certamente não! O grupo pequeno não é um tipo de estrutura má-
gica que revoluciona a igreja apenas devido às suas propriedades físi-
cas. Sem vida, estruturas, quer grandes ou pequenas, são ossos sem vida.
Quando uso a palavra "grupo pequeno" ou "célula", eu nunca me refiro
apenas à estrutura física. Ela também inclui a dinâmica de vida dentro
dela que só pode vir de Cristo.
A dinâmica em operação em uma célula é diferente do que ocorre
em uma grande concentração ou dentro de mim como indivíduo. As
facetas da comunidade são: il~idade pessoal, acessibilidade e dispo-
nibilidade, contato físico, comunicação, cuidado e ajuda, prestação de
Coiltãs, relacionillllento, conversação, unidade, foco e ministério em gru-
~as facetas não podem ser dllplicadas da mesma maneira e inten-
sidade no grl!Pº grande 011 na vida de um indivíduo.
- As células são essenciais para a igreja por causa dessas qualida-
des, não por causa da estrutura do grupo pequeno em si. Não existe nada
inerentemente espiritual no fato de duas ou três pessoas se reunirem. As
pessoas se encontram toda hora em pequenos grupos sociais, pol íticos,
de negócios, religiosos, educacionais e mesmo criminosos, como é o
caso das gangues. O que diferencia os grupos pequenos do Novo Testa-
mento é "Cristo entre nós"; por essa razão, o grupo se torna seu corpo
espiritual.
Os aspectos essenciais singulares para a vida bem-sucedida em
Cristo não podem ser cumpridos sem grupos pequenos. A igreja tradici-
onal tem tentado por anos cumpri-los e ser "igreja" sem as células viá-
veis do Novo Testamento. Alguns vêem a escola dominical como o cum-
primento dessa condição da vida em grupos pequenos. No entanto, uma
classe de escola dominical típica não vivencia as características de co-
munidade da célula do Novo Testamento. Uma classe de escola domini-
cal está impedida pela sua limitação de tempo de uma hora por semana,
pelo seu propósito restrito ao estudo bíblico cognitivo e pelo local de
reunião que é isolado da vida no mundo real.
As qualidades e características da comunidade espiritual são mais
80 A Segunda Reforma

bem expressas hoje do que no primeiro século por meio de grupos pe-
quenos nas casas. É por isso que Jesus teceu grupos pequenos cuidado-
samente na constituição básica da igreja do Novo Testamento. Não é a
estrutura; é a vida dinâmica do próprio Cristo liberada nos grupos pe-
quenos e por meio deles que torna o grupo pequeno essencial para a
Igreja.

Pergunta 3: ..Você está dizendo que a vida dos membros individu-


ais da igreja na igreja tradicional não tem valor? ".
D~f9rmªaIguma! Não é meu desejo contestar a espiritual idade, a
sinceridade ou o sacrifício de milhares de cristãos maravilhosos que
fielmente servem na igreja tradicional. Eles são meus pais e avós, ami-
gos e companheiros membros de igreja. Ao reivindicar um retorno ao
modelo de igreja do Novo Testamento, não estou questionando a matu-
ridade espiritual dos membros da igreja tradicional.
Os cristãos podem crescer pessoalmente em sua vida espiritual no
modelo de uma asa. Eles têm sua "hora silenciosa" com Deus, são ga-
nhadores de almas, tem estudos bíblicos pessoais de forma fiel e siste-
mática, procuram agir como Cristo agia na sua vida diária e mantêm
uma profunda vida de oração pessoal. A força motriz por detrás da vida
no contexto da igreja tradicional é pessoal. Por causa da natureza pesso-
al em vez de corporativa desse tipo de viver cristão, isso pode ocorrer
em qualquer tipo ou estrutura de igreja.
A pergunta é: Posso viver de acordo com o Novo Testamento sem
participar da comunidade de uma célula? Sem dúvida, eu posso ter um
~~!D Cristo e com Qutros sem a comunidade da
célula. Também posso partici ar das ati . - o
grai mUllldade da célula Mas, sem a célula, é difícil, se não
il1ip6s~sívê1,-pãrtlCTpar na vida em co_n~unidade como ela era~ no
!:':@..vOTeSfãiTIei1fõ.
Dizer que há mais do que experiências pessoais ou experiências
em grupo grande não é dizer que o que temos tido esteja totalmente
errado. Antes, é um desejo de levar para a igreja a bênção de experimen-
tar Cristo em comunidade de uma maneira poderosa como vemos nas
páginas do Novo Testamento.

Pergunta 4: ..Você está sugerindo que esse tipo de igreja pode ser
estabelecido de maneira rápida efácil? ".
De maneira alguma! Jesus claramente mostrou que isso não seria
fácil. A imagem que Jesus deu à sua igreja é derrubar as portas do infer-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 81

no. Esse tipo de palavras não sugere facilidade e conforto. O processo


necessário para tornar-se uma igreja em células requer um incrível mon-
tante de compromisso e fé .....t "
Jesus disse: "Vou edificar a minha igreja". Edificar é um processo.
Levou três anos e meio para Jesus formar a primeira igreja. Aqueles
anos foram caracterizados por oposição, incompreensão por parte dos
seus líderes, abandono de vários seguidores, traição de outros, e final-
mente sua morte na cruz. A parte 111 deste livro descreve uma imagem
realista e bíblica acerca de como iniciar uma nova igreja em células e de
como fazer a transição de uma igreja tradicional para a vida em células.

Pergunta 5: "Por que insistir quanto ao tamanho do grupo? Não


é o encontro com Cristo o que realmente importa?".
Deus é onipresente e pode manifestar-se a milhares de pessoas
individualmente, todos ao mesmo tempo. Portanto, não existe nenhum
problema para Deus relacionar-se com um grande número de pessoas.
Também não existe problema em relacionar-se com ele individualmen-
te. Posso experimentar Deus pessoalmente em uma multidão de milha-
res de pessoas. O problema é a falta de comunidade. Visto que não sou
onipresente, não posso experimentar comunidade em um grupo de mi-
lhares de pessoas como tenho oportunidade de fazê-lo em uma célula.
Da mesma maneira como sou limitado fisicamente pelo tempo e espaço,
sou limitado quanto a relacionamentos devido ao número de pessoas
com as quais posso relacionar-me em profundidade.
A fórmula para linhas de comunicação em grupo é (N x N) - N =
LC. "N" significa "número de pessoas" e "LC" representa as "linhas de
comunicação". O número de pessoas presentes, multiplicado pelo nú-
mero de pessoas presentes, menos o número de pessoas presentes, igua-
la o número de linhas de comunicação no grupo. Por exemplo, suponha
que quatro pessoas se reúnam para um encontro. Quantas linhas de co-
municação vão estar presentes? Usando a fórmula, temos o seguinte
resu Itado: (4 x 4) - 4 = LC. 4 vezes 4 igual a 16. 16 menos 4 igual a 12.
Em um grupo de quatro pessoas existem 12 linhas de comunicação.
E se oito pessoas se reunirem? O número de pessoas no grupo
dobrou. Será que isso significa que as linhas de comunicação também
dobram? Use a fórmula. (8 x 8) - 8 = 56. Existem 56 linhas de comuni-
cação em um grupo de oito pessoas. As linhas de comunicação não ape-
nas dobraram mas cresceram exponencialmente de 12 para 56.
O que ocorrerá se 12 pessoas se reunirem? (12 x 12) - 12 = 132.
Em um grupo de 12 pessoas, para cada um relac ionar-se de alguma for-
82 A Segunda Reforma

ma com os outros membros de uma maneira pessoal, deve haver 132


momentos de relacionamentos separados. Você consegue perceber por
que Jesus tinha somente 12 discípulos? O tamanho do grupo faz a diferen-
ça em relação aos relacionamentos e à comunidade."
Jesus não disse: "Onde duzentos ou trezentos ou dois mil ou três mil
estiverem reunidos, ali eu estarei no meio deles". Não foi por acidente que
Jesus definiu o tipo de grupo no qual ele iria habitar de maneira única ao
dizer: Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no
meio deles (Mateus 18.20).
A natureza da comunidade limita o número de pessoas nas reuniões.
Os cristãos do Novo Testamento desejavam comunhão, portanto eles vi-
v ia 111 juntos em grupos pequenos. O fator-chave é se a comunidade é um
alvo da igreja atual.

Pergunta 6: "Será que não se está simplificando demais ao afir-


mar que uma determinada estrutura da igreja é a única estrutura (certa)
da igreja? Não podemos ver vários tipos de igrejas no Novo Testamen-
to? '.
O modelo da igreja no Novo Testamento era "toda a igreja" e a "igreja
nas casas". Estilos de liderança, métodos de tomada de decisões e tipos de
organizações aparecem adaptáveis no Novo Testamento, mudando à me-
dida que são descritos nos evangelhos, no livro de Atos e nas epístolas. No
entanto, o modelo básico da igreja do Novo Testamento nunca muda. Em
nenhum momento Paulo e os outros autores indicam que a igreja estava
parando de se reunir nos padrões estabelecidos durante os primeiros dias
da igreja, tanto nas casas como a igreja toda. Robert Banks descreve isso
da seguinte forma:

... Paulo nunca mudou sua compreensão de como a igreja de-


veria operar. Ele nunca modificou a sua visão de uma igreja
como uma família ampliada genuína para uma entidade
institucional menos pessoal. Ele nunca sugeriu que a igreja
local devesse ocupar-se com apenas um aspecto de atividade
_ a supostamente "religiosa" - e somente com um aspecto
da personalidade - a "espiritual". Ele nunca mudou a sua
convicção do ministério mútuo e da autoridade compartilhada
para uma igreja baseada mais na ordem litúrgica e na lideran-
ça hierárquica.'

Quando olhamos através das nossas lentes de uma asa, vemos uma
A Igreja do Novo Testamento 170 século XXI 83

série confusa de "igrejas" no Novo Testamento. Por meio dos olhos da


história, essas diferenças estruturais têm se tornado ainda mais articula-
das na mente dos teólogos e pastores. No entanto, somente um modelo de
igreja estava operando no Novo Testamento.
Apesar das adaptações, o modelo de igreja permaneceu basicamen-
te o mesmo. Por exemplo, aves são criadas com duas asas para poder voar.
Esse é o seu modelo. A sua função é voar. O modelo que oferece a possi-
bilidade de voar não muda, mas a função de voar pode ser adaptada. Aves
como águias e falcões sobem a grandes altitudes e planam no ar. Codor-
nas e perus voam em curtos espaços usando uma imensa energia. Andori-
nhas e outras aves menores voam como uma seta quando capturam inse-
tos. Gansos e patos voam em formações com movimentos suaves e pode-
rosos de acordo com as suas próprias funções de vôo. Todas estas funções
estão baseadas no mesmo modelo básico de vôo - de duas asas.
No Novo Testamento, o modelo básico dos grupos grandes e peque-
nos é o mesmo. Na igreja primitiva, vemos muitos tipos diferentes de
"igrejas" mas todas aplicam o mesmo modelo de igreja. Infelizmente, a
igreja tradicional não fez as adaptações para acomodar-se ao modelo de
igreja do Novo Testamento. Ela mudou o modelo ao desistir da asa da
comunidade em grupo pequeno.

Pergunta 7: "Os grupos pequenos não eram simplesmente aforma


como aspessoas do primeiro século se relacionavam culturalmente? Isso
deve continuar nos dias atuais?".
Em 1991, eu observei um pastor debater-se com a escolha entre o
modelo de igreja do Novo Testamento e a estrutura histórica de igreja. A
igreja de João (esse não é o seu verdadeiro nome) era a maior em sua
denominação em um pequeno Estado no nordeste dos Estados Unidos.
Conseqüentemente, ele sentiu um peso em servir de modelo para as outras
igrejas mais novas e menores daquela área. Ele desejava ver o trabalho
crescer, o que não estava ocorrendo com a estrutura tradicional. De algu-
ma maneira, ele teve acesso ao livro de Ralph Neighbour, Where Do We
Co From Here? (Para onde vamos agora?) e começou a exam inar o movi-
mento igreja em células.
No início, ele estava honestamente explorando tanto as implicações
estruturais quanto as implicações teológicas da igreja em células. A per-
gunta com a qual ele deparava era: "Se os conceitos e princípios acerca
da igreja em células são neotestamentários, então o que isso significa para
a minha igreja e para mim pessoalmente?".
À medida que conversávamos num período de várias semanas, eu
84 A Segunda Reforma

percebi que ele estava se sentindo cada vez mais ameaçado acerca do que
essa abordagem poderia significar para a sua igreja tradicional e seu
ministério pessoal. Ele estava gradualmente passando de uma anál ise teo-
lógica para uma análise histórica da igreja. Finalmente, depois de várias
conversas telefônicas, ele claramente expressou a conclusão com a qual
ele estava disposto a viver: "O que eles fizeram no Novo Testamento ao
reunir-se nas casas foi a forma como se reuniam naquela época. Hoje nós
nos reunimos de outra maneira". Em outras palavras, ele concluiu que o
modelo de igreja de grupos pequenos é basicamente cultural.
A única maneira em que ele conseguiu escapar intelectualmente da
contradição entre a estrutura da sua igreja tradicional e a igreja do Novo
Testamento foi confinar a abordagem de duas asas do Novo Testamento
às páginas do Novo Testamento. Ele ajustou o Novo Testamento ao seu
paradigma tradicional. Fico triste com a escolha desse pastor porque ele
preferiu escolher a igreja histórica à igreja do Novo Testamento.
Estudiosos bíblicos têm encontrado um corpo impressionante de evi-
dências sustentando que os grupos pequenos ou as células eram a função
básica da igreja do Novo Testamento (veja o capítulo 10). À luz de toda
evidência acerca dos grupos pequenos na igreja do Novo Testamento, por
que ainda existe tanto debate acerca desse assunto? A pergunta na mente
de muitos não é a respeito do que aconteceu no Novo Testamento. Na
verdade, eles vêem os grupos pequenos na igreja atual como uma estrutu-
ra secundária.
As pessoas precisam comprar a mentira de que o ritmo de vida no
grupo grande e no grupo pequeno da igreja do Novo Testamento era algo
limitado ao contexto daquela época. O modelo da igreja do Novo Testa-
mento é colocado na mesma categoria das práticas culturais do passado
como "saudar os irmãos com um beijo santo".
Se aceitarmos essa forma de raciocínio, a igreja atual não está atre-
lada ao modelo básico do Novo Testamento de grupos grandes e grupos
pequenos. A estrutura da igreja está à mercê de fatores históricos mutáveis
e à conveniência cultural e torna-se um produto da história em vez de
fruto da teologia do Novo Testamento. A mensagem do Novo Testamento
é colocada em prática de forma mais adequada por meio do modelo de
igreja do primeiro século do Novo Testamento.

Pergunta 8: "Será que as igrejas em células funcionam nos Esta-


dos Unidos, na Europa Ocidental, no Canadá etc.? ''.
Tenho ouvido essa mesma pergunta em cerca de dez países. O tom
da pergunta implica que as células não vão funcionar naquele país em
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 85

particular, que as células são um fenômeno do Terceiro Mundo, inviáveis


para a cultura ocidental. (Os cristãos dos países da Ásia, da África e da
América do Sul, no entanto, fazem a mesma pergunta).
Um amigo sentou-se diante de mim na mesa e disse o seguinte de
forma direta, com sentimento e convicção: "As células não vão funcionar
nos Estados Unidos!". Ele era um dos líderes de missões da sua denomi-
nação e tinha contribuído de maneira notável para plantação de novas
igrejas por várias décadas. Ele acrescentou: "A única maneira de construir
igrejas nos Estados Unidos é por meio da escola dominical".
Mais tarde (não é sempre assim?), eu pensei em várias respostas
convincentes: "Pergunte para Jane Fonda se células ou grupos pequenos
vão funcionar na América. Ela está enriquecendo por meio de classes
aeróbicas em grupos pequenos". Ou: "Pergunte ao movimento da Nova
Era se grupos pequenos vão funcionar na América. Eles estão organizan-
do experiências em grupos pequenos por toda parte". Ou: "Pergunte aos
Iíderes de negócios inovadores se grupos pequenos dão certo na América.
As empresas estão se organizando com a maior rapidez possível em uni-
dades pequenas eficazes para poder competir com os japoneses".
Eu também podia ter lembrado de um tipo de grupo pequeno que é
universal. Esse grupo pequeno está presente em cada cultura, sociedade,
país e em cada geração desde o início da humanidade. Temos evidências
desse grupo em cidades e florestas, entre culturas pobres e ricas, no tercei-
ro mundo e em países avançados. É afamília. A unidade de grupo peque-
no chamada família pode variar em diferentes culturas e partes do mundo,
mas mesmo assim podemos reconhecê-Ia como família. A estrutura bási-
ca da sociedade está baseada num grupo pequeno.
Provavelmente nada do que eu tivesse dito teria mudado a mente do
meu amigo porque ele simplesmente não acreditava em nenhum tipo de
grupo pequeno exceto a escola dominical. "Crer é ver". É claro que esse é
justamente o oposto da nossa maneira normal de dizer: "Ver é crer". Nós
"vemos" somente depois que "cremos". Meu amigo não conseguia "ver"
grupos pequenos porque ele não "cria" em grupos pequenos.
A verdade é que os Estados Unidos estão no meio de uma revolução
de grupos pequenos e tem sido assim nas últimas décadas. O professor de
sociologia de Princeton, Robert Wuthnow em seu artigo na revista
Christianity Today, "Como grupos pequenos estão transformando nossa
vida", descreveu o escopo amplo da atividade de grupos pequenos nos
Estados Unidos.

Atualmente, quatro de cada dez americanos pertencem a um


86 A Segunda Reforma

grupo pequeno que se reúne regularmente e provê cuidado e


i sustento para os seus membros. Esses não são simplesmente
encontros informais de vizinhos e amigos, mas grupos organi-.
zados: classes de escola dominical, grupos de estudo bíblico,
(
Alcoólatras Anônimos e outros grupos de 12 passos, grupos
\ de solteiros, grupos de discussão de livros, grupos de esporte
~lobby e grupos políticos e cívicos."

Os grupos pequenos estão proliferando aos milhares! Essas deve-


riam ser notícias animadoras para a sociedade em geral e para a igreja
em particular. Os grupos pequenos são benéficos como uma unidade
social. Os grupos pequenos podem prover uma estrutura para terapia
emocional, sistemas de apoio à vida, interação social, comunhão, cum-
primento de tarefas e mesmo experiências religiosas. George Gallup Jr.
conecta os grupos pequenos a mudanças na sociedade. "Se os anos 60
representavam o 'Movimento da década''', ele observa, "os anos 70 re-
presentam a 'Década do eu', e os anos 80 a 'Década vazia', então talvez
os anos 90 se tornem conhecidos como a 'Década da cura"'. Gallup
acredita que esse rótulo é apropriado devido aos milhões de americanos
que têm se unido a grupos pequenos de cuidado e encorajamento para
seus problemas psicológicos, físicos, emocionais e espirituais.'
I
(

7
OS BENEFÍCIOS DA IGREJA DE
DUAS ASAS

N!!!!.J-0 lugar nem o ambien~n~~_r}~u!'Lquesji!L _


,- milagrosos; é a comunhão.
-=-Elton TrlieFJTi5oã-----

A
pergunta perturbadora do governo um ano antes de os Estados
Unidos entrarem na Segunda Guerra Mundial era a respeito do
que fazer com o comboio de submarinos alemães ...o"Woifpack"
alemão estava destruindo a tentativa americana de ajudar os aliados
europeus. Centenas de navios de suprimento estavam sendo afunda-
dos enquanto cruzavam o Oceano Atlântico. Um almirante declarou
que tinha a resposta. "Aqueça o Ocean~J\J:l~nt!co ao ponto de ebuli-
ção. Então tod~rinos vão ter de emergir, e pod~s destruí-
los". ---
----Quando perguntaram ao almirante como isso poderia ser feito
ele respondeu indignamente: "Eu dei a idéia. Vocês ficam encarrega-
d9S cI~ fºJ~5_ det"~L -.
-------conta-se que o presidente Franklin D. Roosevelt usava a história
acima para ressaltar que uma idéia é inÚtil se os detalhes forem tão
irreais que a idéia se torne iIUPossí\'~ de ser realizada Po~oas
~~_ª-?_erio umãlc1eía que {tão impraticável e bizarra como "aque-
cer o OceanoAtTâtltíCO-n-.--- - -- ----
O paradigma da igreja em células deve ser prático o suficiente
para resolver os problemas associados com a antiga maneira de ser
igreja. Caso contrário, a idéia vai ser rejeitada logo de início. Infeliz-
mente, alguns acreditam que aqueles que estão falando a respeito des-
sa nova maneira de ser igreja estão sljgerindQ <;:juese "aqlleça o Ocea

-----
no Atlântico".

87
88 A Segunda Reforma

A "RATOEIRA MELHOR"

Novas maneiras de pensar nunca são automaticamente adotadas. Mu-


danças significativas são realizadas somente depois de se colocar na ba-
lança os benefícios da mudança. Será que a idéia nova é melhor que a
antiga? Os métodos novos funcionam melhor do que os antigos? Será que
essa "coisa nova" realmente é uma "ratoeira melhor"?
Durante esse período "pré-paradigma" as idéias antigas e novas es-
tão competindo por adeptos. A nova idéia somente será aceita quando ela
provar que pode "resolver o problema que levou a idéia antiga a uma
crise".'
Não importa quão clara a visão possa ser, a maioria das pessoas
somente serão abertas a mudanças significativas se lhes forem oferecidos
benefícios práticos em relação aos seus métodos atuais. O paradigma da
igreja em células não é apenas uma boa idéia, ele também é benéfico e
praticável. Ele resolve muitos dos problemas que têm nos incomodado
por muito tempo. No entanto, nenhum paradigma tem resposta para todos
os fatos, especialmente no início. "Para ser aceito como paradigma, uma
teoria deve parecer melhor do que a dos seus competidores, mas não pre-
cisa explicar, e, na verdade, nunca explica, todos os fatos com os quais
pode ser confrontado't.? A solução que a igreja em células oferece está
sendo levada em conta nos mais diversos lugares do mundo porque mos-
tra evidências de que pode na verdade resolver os problemas que a igreja
está enfrentando . ./
Neste capítulo, eu quero resumir alguns dos benefícios da igreja em
células. Deus systepta a "i~ão qlle ele dá com evidêpcias práticas SJ!ficieu-
tes para';;' aj!ld!!I.ml i!JJplemept~ 11!1t~ ele nllnca dá provas S!lfic:!:en~

tes a ponto de não mais necessitarmos exercitar a nossa fé.


~
BENEFÍCIO N.o 1: A IGREJA PODE CANTAR A MELODIA!

A igreja do Novo Testamento cantou um cântico lindo com melodia


(grupos pequenos) e harmonia (grupos grandes). Essa partitura musical
recebeu um novo arranjo no quarto século. Hoje, o arranjo musical sente
falta das notas da melodia. Construções lindas, grandes multidões no do-
mingo, cultos de adoração tocantes e programas impressionantes são par-
te da harmonia do grupo grande, com quase nenhuma melodia-do grupo
pequeno. Conseqüentemente, não importa a potência do som, a beleza do
lugar, o espaço do auditório, a diversidade dos instrumentos, a capacidade
do dirigente e a performance do astro principal, o arranjo musical sim-

...·~.~c--~-- --_ .._.~.------,-----,-..,....~----"""""


A Igreja do Novo Testamento no século XXI 89

plesmente sente falta da simples e pura melodia da igreja do Novo Testa-


mento.
Hoje, os que participam da igreja tradicional são forçados a cantar o
cântico da igreja dentro do "santuário" da igreja no domingo. Se as igrejas
cantam a harmonia sem a melodia, o som nunca se parecerá com a música
do Novo Testamento. Por outro lado, a igreja em células pode cantar o
Iindo cântico da encarnação, tanto com a melodia quanto com a harmonia.

BENEFÍCIO N.o 2: UNIDADES MANEJÁVEIS EFICAZES

Os exércitos são organizados em unidades manejáveis adequadas


para cumprir a tarefa básica. A unidade mais básica é a esguadra, que é
formada por quatro a oito homens alistados. Essa unidade faz a diferença
na batalha. Todos os grupos maiores de soldados, como os pelotões e as
companhias, têm a função de apoiar e reforçar essas Il~gª.~.bá.sicas de
combate. Cinco a quinze cristãos são a unidade básica da igreja. Essas são
as "esquadras de Deus".
A célula é manejável porque é completa em si mesma. Todas as
tarefas da igreja podem ser realizadas por meio dessa unidade básica. O
discipulado, o treinamento da liderança, o...§vangelismo, a adoração, ~ ~
®J1jstérios, a comunhão e o estudo bíblico funcionam na '1Ridade bási'?lh--
gue é a célula.
A unidade da célula é manejável por causa do seu tamanho. Jesus
sabia o tamanho ideal de uma unidade funcional quando ele escolheu seus
doze discípulos. Quando um grupo excede doze pessoas, a eficácia na
comunicação e produção diminui.
Essa comunidade cristã de base é manejável por causa da sua tarefa
simples. A comunidade cristã de base focaliza em Cristo, e é capacitada e
dirigida por ele para edificação interna e evangelismo externo. Uma célula
não necessita de materiais ou fundos especiais. Sua tarefa pode ser executa-
da pelos seus membros vivendo o "uns aos outros" em comunidade.
A célula é manejável por causa do seu local de encontro. A célula
não precisa de casas caras e especificamente projetadas. As células se
encontram nas casas dos mem~~od~m.facilrnente resojverquarq~u::;:e~r----
prôfilema relacionado a um I;;al de eRcontro __
A célula é manejável por causa da sua estrutura de liderança sim-
ples. Com um líder de célula e um auxiliar de líder a proporção de líderes
para membros assegura o cuidado apropriado e o desenvolvimento da
célula. A prÓxima geração de líderes está sendo desenvolvida p~io do
~reinamento dentro da própria célula.
90 A Segunda Reforma

BENEFÍCIO N.o 3: UM "SISTEMA DE ENTREGA"


NA "FRENTE DE BATALHA"

Há alguns anos, uma imagem de um período particular da igreja


dominical lampejava em minha mente cada vez que eu participava de um
culto. Esse período não era a escola dominical, o louvor congregacional, o
tempo de pregação, a oferta ou o convite no final do culto.
Essa imagem que voltava à minha memória se referia aos 10 a 15
minutos após o culto, quando o povo deixava a "igreja", entravam nos
seus carros e saíam do estacionamento da igreja. Deus estava me dando
um tapinha nos ombros e dizendo: "Observe esse tempo no horário da
igreja no domingo. É importante! O que você vê?".
No início, tudo o que eu via eram pessoas entrando nos carros e indo
para casa depois do culto dominical. O que havia assim de tão importante
acerca dos membros da igreja deixarem o estacionamento da igreja? "Se-
nhor, eles estão apenas saindo do estacionamento e indo para casa" .'
No tempo oportuno, Deus me revelou aquilo que ele queria me mos-
trar por meio de algumas perguntas perturbadoras que acompanhavam
essa cena no estacionamento:

._~rá aue esta igreja continua sendo igreja, além do estaciona-


JlliWto da igr~a?
• ~a igreja tem uma estrutura eficiente que opera como igr~
,fora da propriedade da igreja?
•Osdescrentes e os "fendos" precisam esperar até o próximo do-
mingo para que a igreja possa ministrar a eles como seu corpo vivo?
• Todos esses cristãos agora precisam se tornar indivíduos solitári-
os e "soldados espirituais" que são cortados da sua base de apoio
e linhas de provisão?

Se uma igreja não pode ser igreja além do estacionamento da igreja,


ela não é o tipo de igreja que agrada o coração do Senhor. Uma igreja é mais
do que uma reunião que acontece numa construção um dia por semana. A
comunidade cristã de base é uma forma de o rebanho ser "alimentado" e
"apascentado" lá fora no mundo. É o "sistema de entrega" por meio do qual
os cristãos são nutridos e os não cristãos são alcançados com o evangelho.
Um grande beneficio da igreja em células é a presença de grupos lá na
"frente de batalha". Todos no rebanho têm um acesso a companheiros cren-
tes que os conhecem, cuidam delese oram por eles. Cada membro tem uma
família espiritual que o ama no mundo real.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 91

BENEFÍCiO N.o 4: CRESCIMENTO DE IGREJA

"O Senhor acrescentava" e "um número cada vez maior criam no


Senhor" são frases usadas no livro de Atos que descrevem o crescimento
da igreja do Novo Testamento. Dentro de algumas gerações, uma boa
porção do mundo se tornou cristã ou diretamente influenciada pelos con-
ceitos cristãos. Por décadas, a igreja tem tentado reproduzir a multiplica-
ção vista no Novo Testamento.
A igreja tem procmado desenvolver vári9s tipos de programas ao
longo do tempo; no entanto, nenhum deles tem se aproximado da I~
.Q.Íicaçãoexponencial do primeiro século. O discipuladc;, os meios de co-
municação de massa, as instituições e a escola dominical têm sido tentati-
vas de crescimento da igreja, mas nenhuma delas têm alcançado o cresci-
mento do Novo Testamento.
O discipulado deveria resultar em uma multiplicação exponencial,
mas este não tem sido o caso. Certamente a igreja e as organizações pa~
eclesiásticas têm procurado fazer isso, mas também falharam porque a
sua estratégia é somente parcial. O gue você faz com os crentes novos que f
são alcançados? Onde eles vêem 11mmodelo de comunidade cristã? De
'que maneira as essoas r s são desenvolvidas ara setor-
narem parte da solução em vez de ser parte do problema Desenvolver
disclpulos reprodutores não pode ser algo bem-sucedido se estiver sepa-
~o da comunidade:- -
T~ colocado graRQe esperança nos meios de comlluicação de
massa nas últimas décadas. A expectativa era que cada pessoa na face da
terra pudesse ouvir o evangelho. Foi prometida uma reação exponencial.
Isso, no entanto, não tem ocorrido e nem vai ocorrer. Os meios de comu-
nicação de massa podem ser uma voz, mas isso é tudo. Falta-lhes o cora-
ção do evangelho, que é a encarnação. Os descrentes não precisam a enas
Jr: .3. uma voz; e es precisam e alguém que os ame e sej':.um ~~odelo_p~r_~_~_~
1t vida cristã na comunidade.
Alguns evidentemente achavam que a~ iLJStisuicõs&eriam_arespos-
ta para o crescimento. Construa escolas, hospitais, seminários, orfanatós e
livrarias para alcançar o mundo, Essas instituições, sem dúvida. têm reah--
zado muitas coisas boas. P~m, temos chegado à conclusão de que essas..;
Instituições são mais eficazes em mgnter a instituição do que~~n_despertar
uma multiplicação exponencial. ..",.. é5w[." YI~"vI.MI.
Será que a escola dominical vai causar o crescimeRto e~(!3oHeI1eial?
Isso não tem ocorrido até hoje e nem vai ocorrer. Não porque é um progra-
ma ruim, mas porque foi montado como um sistema informativo em vez
92 A Segunda Reforma

---ma:nrim, R-1as tHlIc:tUe iei lilõilttldereOiliú lilil sist@ma iHfuml-3tjy() el" vez
de um sistema transformacional. Se a escola dominical fosse a chave para a
multiplicação issojá teria acontecido. Grandes montantes de tempo, dinhei-
ro, pessoal e materiais têm sido destinados para a escola dominical no últi-
mo século, e muitas coisas boas resultaram desse esforço. No entanto, nesse
tempo todo em que a escola dominical tem sido o programa-chave da igreja
tradicional, a igreja não tem experimentado a multiplicação exponencial.
A~ a multiplica~ neotestamentária da igreja é a unidade
da ~. Os mesmosPadrões dinâmicos de crescimento das células 06ser-
vados em um corpo vivo também podem ocorrer no corpo espiritual de
Cristo. Todos os outros esquemas podem contribuir para o crescimento por
adição, mas somente a multiplicação das células vai resultar em uma multi-
plicação exponencial da igreja. O que é singular para a estrutura de células
do Novo Testamento que cria essa multiplicação exponencial?

1. A estrutura da célula contém todas as outras estruturas, como disci-


pulado, evangelismo e estudo bíblico, na sua natureza e essência.
2. O crescimento ocorre no nível mais básico, a célula.
3. As células naturalmente se multiplicam - elas não dependem
de fatores externos para estimular o crescimento.
4. A multiplicação pode ocorrer em vários ambientes, favoráveis e
desfavoráveis.
5. As células funcionam em qualquer lugar - elas se multiplicam
em qualquer tipo de cultura.
6. Todos os líderes necessários são produzidos exponencialmente
dentro da tarefa básica.

BENEFÍCIO N.o 5: Os LÍDERES CHAMADOS POR DEUS


TÊM UM LUGAR PARA LIDERAR

Esse é um dos maiores benefícios da igreja em células. Todos os


líderes chamados por Deus para a importante tarefa de nutrir as ovelhas
e apascentar os cordeirinhos têm um contexto no qual seu ministério
pode ser realizado. Cada líder escolhido por Deus tem um lugar de ser-
viço digno do chamado de Deus para a sua vida. O chamado de Deus de
ser um "líder de duas asas" é mais uma vez equiparado com a estrutura
das duas asas.
As igrejas modernas estão cheias de homens e mulheres frustrados
que têm um "chamado" para um ministério insatisfatório para a sua vida.
Às vezes pessoas jovens "se rendem ao ministério da pregação" ou fa-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 93

Iam com seu pastor a respeito de "entrar no ministério". Normalmente


depois de considerar o significado de ser um pastor administrativo, eles,
aliviados, decidem que foi tudo um erro e continuam com a sua vida.
Outros têm um senso de um chamado especial mais tarde em sua
vida. Eles às vezes abrem mão do seu emprego para entrar no seminário
ou na escola bíblica, mas logo decidem que o que eles estão estudando
não se aplica ao que eles sentiram ser o seu chamado em primeiro lugar.
Assim eles desistem da escola, voltam à sua igreja-mãe e tornam-se "bons
leigos", ensinam na escola dominical ou servem numa posição de lide-
rança em comitês e diretorias. Muitos acabam desenvolvendo um senti-
mento de que eles "falharam" de alguma maneira em relação à vontade
de Deus.
Esses líderes foram, sem dúvida, separados por Deus para um mi-
nistério de liderança singular. Infelizmente, sem o modelo de células
neotestamentário, o chamado espiritual da maioria desses líderes nunca
pode ser realizado na estrutura tradicional da igreja. Que desperdício!
Deus os tocou, e não existe lugar para colocar em prática o que Deus
falou ao seu coração.
Meu avô viveu até os 96 anos. Steward 8eckham foi um diácono
batista por mais de 60 anos, ensinando a uma classe bíblica para um
grupo grande de homens durante a maior parte desse tempo. Depois dos
90 anos de idade, "Pa" era responsável por um departamento por exten-
são da igreja, ministrando a idosos da sua igreja. Ele fielmente fazia
visitas todos os sábados junto com o seu pastor. Ele era um "ganhador
de almas" e um batista que dizia "amém" e sentava-se no primeiro ban-
co da igreja, encorajando o pregador.
Eu me lembro sentado na cadeira de balanço na varanda da frente
falando com ele sobre tudo desde política até o céu. Um dia ele compar-
ti Ihou que sentiu que Deus o havia chamado para pregar quando era um
jovem mas não respondeu ao chamado porque tinha uma família ainda
jovem. Ele lamentava não ter aceito aquele "chamado". Seu ministério
na igreja tradicional não tinha preenchido completamente o chamado
que Deus colocara em seu coração.
Em uma estrutura de células do Novo Testamento, sua situação
familiar não o teria impedido de servir em uma posição pastoral. Ele
poderia ter sido como Áquila e Priscila, liderando células formadas por
vizinhos, ou supervisionando diversas células nas casas, ou, no tempo
oportuno, poderia ter se tornado pastor de uma congregação. É trágico
que a igreja tradicional elimina o papel de liderança que é mais produti-
vo e eficiente em nutrir, discipular, testemunhar e ministrar.
94 A Segunda Reforma

BENEFÍCIO N. ° 6: As MACHUCADURAS E NECESSIDADES DO


MUNDO PODEM SER ALIVIADAS

Em uma igreja em células, cada membro é um ministro. Portan-


to, ministérios pessoais e em grupos tocam a vida de pessoas
machucadas. Visto que a comunidade cristã de base ocorre lá fora no
mundo, os cristãos podem identificar e reagir as necessidades reais.
As células são unidades de cura onde as machucaduras são mais laten-
tes.
A composição de uma célula encoraja o ministério pessoal em
vez de depender do ministério profissional. A igreja tradicional minis-
tra por meio de um corpo de ministros que são pagos para fazer certas
tarefas para o resto da congregação. Isso limita severamente o tipo, o
número e a natureza de ministérios que podem ser implementados.
Para cada novo ministério, uma equipe de cristãos comprometidos pre-
cisa ser encontrada, paga, administrada e apoiada pela igreja. Quando
eu pastoreava uma igreja tradicional, sentia que "os braços de Deus
estavam encurtados", e não havia possibilidade de responder às ma-
chucaduras e necessidades no mundo a não ser por meio de programas
sociais esmerados e caros.
Por outro lado, o modelo de uma igreja em células provê uma
estrutura de células que já está lá fora no mundo e pode servir de apoio
para ministérios pessoais. Essas células são capazes de identificar ne-
cessidades, ajudar financeiramente e participar pessoalmente.

BENEFÍCIO N.o 7: EXPERIMENTANDO A ADORAÇÃO NA


CELEBRAÇÃO

Durante o tempo em que pastoreava minha terceira igreja, eu so-


fria de dor de cabeça aguda todos os domingos. Finalmente eu conse-
gui descobrir a origem dessa dor recorrente. Eu estava tão perturbado
com o que acontecia no domingo cedo que a ansiedade era manifesta-
da em uma dor real. As exigências do meu desempenho pastoral eram
a causa da minha dor de cabeça.
Tentar arrastar cristãos despreparados à presença de Deus para
adoração é suficiente para causar dor de cabeça a qualquer pessoa.
Quando reconheci a origem e a entreguei a Deus, me libertei da dor de
cabeça mas não da dor no meu coração. Eu continuei anelando por
uma experiência de adoração genuí~, em que cristãos preparados par-
ticipassem na adoração que é fruto do transbordar da presença, do po-
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 95

der e do propósito de Deus.


Será que existe um tipo de adoração que não é preparado, promo-
vido, produzido ou representado? Pode um pastor um dia ter a espe-
rança de olhar para a sua congregação no domingo e ver membros pron- •
tos para adorar sem o uso de motivação ou entretenimento humano? De
que maneira uma adoração genuína, sentida no coração, pode expressar-
se naturalmente com a devida emoção e reverência?
A estrutura da igreja em células oferece esperança de que isso é
possível. Os membros que têm experimentado a presença íntima de Cristo
na vida da célula vão ser atraídos pelo Espírito Santo para celebrar a bon-
dade e a grandeza de Deus juntos nos grupos grandes. A adoração genuí-
na, experimentada no coração, naturalmente se expressa com a emoção e
reverência devidas. Esse tipo de adoração é tão poderoso, ordeiro, espiri-
tual e genuíno que um descrente vai ser tocado pela presença de Deus. A
adoração no grupo grande provê um ambiente para inspiração, informa-
ção, revelação e celebração. A comunidade em grupo pequeno possibilita
aplicação, edificação, encarnação e preparação.
Aqueles que experimentam a adoração verdadeira enquanto estão
celebrando a grandeza de Deus vão experimentar o amor de Deus nos
encontros calorosos e íntimos da célula. Essa é a harmonia entre a célula
e a celebração que pode ocorrer na igreja em células. W
BENEFÍCIO N.o 8: OS DONS ESPIRITUAIS PODEM SER
ADEQUADAMENTE EXERCIDOS

Em um determinado domingo, em igrejas de uma asa nas mais diver-


sas partes do mundo, ocorrem dois cenários de "dons". No primeiro cená-
rio, os dons do Espírito não fazem parte da adoração no domingo nem du-
rante a semana. Não existe uma expectativa de experimentar a presença real
e o poder de Cristo ou uma alegria além da experiência humana. No cenário
dois, cada dom do Espírito necessário para provar a credibi lidade de Deus é
exercido durante a adoração dominical. O pastor, com a ajuda de alguns
líderes profissionais, usa os dons de profecia, interpretação, discernimento,
milagres, curas, falar em línguas e outras manifestações do Espírito.
Será que esses dois extremos são as únicas alternativas? Ao operar
dentro da estrutura de uma asa, o exercício dos dons espirituais é severa-
mente limitado porque existe somente um contexto no qual eles podem ser
expressos, que é a celebração pública.
Uma estrutura da igreja em células, por outro lado, pode operar no
contexto do Novo Testamento no qual os dons espirituais podem ser exerci-
96 A Segunda Reforma

dos em um ambiente natural e genuíno do Novo Testamento. Quem vai ser


tentado a "mostrar-se" em um ambiente de grupo pequeno? Se alguém
falhar em exercer o dom de maneira apropriada, essa pessoa pode ser
admoestada de uma maneira amorosa e pessoal. A expectativa das Escri-
turas de que todos vão exercer dons espirituais é possível somente num
ambiente de célula. Os líderes são então liberados da exigência de exercer
os dons para o corpo todo.

BENEFÍcro N.O 9: O PROBLEMA DAS rNSTALAÇÕES


É NEUTRALrZADO

Na igreja em células, as instalações já não moldam mais a igreja; a


igreja dá forma às instalações. Isso não significa que as igrejas em células
não vão ter nenhum tipo de instalações. Elas vão. No entanto, em uma
igreja em células, as instalações têm maior probabilidade de serem funci-
onais, em vez de sagradas. A instalação da igreja não vai ser tão importan-
te a ponto de se tornar a "igreja", em vez disso ela será o lugar onde a
igreja se reúne. ~~jas tradicionais constroem para poderem crescer. Igre-
jas em células crescem e então constroem.
Donald A. McGavran, escrevendo acerca dos benefícios das igrejas
nas casas para os cristãos antigos, cita que "com uma tacada eles supera-
ram quatro obstáculos para poder crescer". Três desses obstáculos citadas
por McGavran têm que ver com instalações de uma maneira ou outra.

Obstáculo 1: Custos com instalações desviariam recursos que podiam


ser destinados para o m in istério e testemunho.
Obstáculo 2:A permanência na sinagoga atrapalharia a entrada nas co-
rnun idades gentíl icas.
Obstáculo 3: A introversão que evitaria que os lares cristãos se tornas-
sem centros evangelísticos.
Obstáculo 4: A liderança limitada que restringiria a liderança espiritual
aos profissionais.'

Earnest Loosley disse:

Como a igreja teria sobrevivido diante das situações de cons-


tantes mudanças, se ela nunca tivesse construído instalações
para a igreja? A resposta é a seguinte: ela teria desenvolvido e
expandido a idéia de "igrejas nas casas", encorajando grupos
de vizinhos para se reunirem nas casas uns dos outros, para
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 97

compartilhar em grupos de comunhão. Uma grande parte dos


problemas que precisamos enfrentar hoje não pode ser resol-
vida com a nossa prática tradicional de erigir locais para a
celebração. Devemos começar a pensar em outros termos.'
Howard Snyder diz o seguinte:

Nestes dias, tão parecidos aos tempos do Novo Testamento, a


construção da igreja tradicional é um anacronismo que a igre-
jajá não pode mais permitir. Isso não quer dizer que as comu-
nidades de crentes nunca mais deveriam ter propriedades. Mas
uma coisa deveria ficar claro: não se deveria ficar preso a qual-
quer propriedade, sendo que essa propriedade deveria ser a
expressão de uma clara compreensão bíblica da verdadeira
natureza da igreja. Uma construção assim dever ser funcional
- um meio, não um fim. O caminho de volta para a Idade
Média é muito convidativo.' ~

BENEFÍCIO N. o 10: A IGREJA EM CÉLULAS


INTEGRA O MINISTÉRIO

Grupos pequenos permitem que a igreja tenha uma abordagem para


o ministério integrada em vez de cornpartimentalizada. Howard Snyder
sugere que os grupos pequenos integrem a obra e o ministério da igreja
quando consideradas em três áreas:

1. Integração psicológica
2. Integração sociológica
3. Integração teológica e bíblica

Do ponto de vista psicológico, as estruturas dos grupos pequenos


possibilitam "a integração do aspecto cognitivo, afetivo e volitivo do
comportamento humano". O grupo pequeno oferece o contexto no qual
a pessoa pode experimentar a presença, o poder e o propósito de Cristo
no viver diário.
Do ponto de vista sociológico, essas estruturas possibilitam e esti-
mulam "os relacionamentos primários, face a face, que dão à igreja co-
esão social e poder". A igreja tem um "sistema de entrega" na sociedade
em que o crente e o descrente podem experimentar a cura na comunida-
de.
Do ponto de vista teológico e bíbl ico, essas estruturas provêem "o
98 A Segunda Reforma

contexto para experimentar a comunhão do Espírito Santo e a obra do


Espírito e da Palavra de convicção, correção, discernimento e
encorajamento" (2 Timóteo 3.16; Hebreus 4.12). Em outras palavras, as
"estruturas da eclesiologia (grupos pequenos) provêem integração espi-
ritual". (,
Além das três áreas de integração de Snyder, a igreja em células
também integra a igreja de maneira organizacional. Jesus projetou a
igreja do Novo Testamento para funcionar como um sistema integrado
simples, organizado ao redor da vida nas células. Temos desenvolvido
um sistema administrativo cornpartimentalizado complexo, organiza- __
<i9 ao redor de programas independentes.
a resultado é um sistema que exige cada vez mais administração,
promoção, instalações, atividades e dinheiro. Essa abordagem tam-
bém coloca uma ferramenta pesada sobre aqueles que vão dirigi-Ia. a
sistema cornpartirnentalizado sempre está pendurado precariamente à
beira do colapso, transpirando complexidade e desprezando soluções
simples e focalizadas. Exige-se um esforço cada vez maior por parte
dos Iíderes para mantê-Ia em rnovimento.,
A complexidade da igreja brota do modelo de igreja. Uma ave de
duas asas voa com simplicidade e beleza. Uma ave de uma asa, ao
procurar voar, necessita de muita energia e atividade, e, mesmo assim,
não vai a lugar algum.
a "ato de girar pratos" é uma ilustração perfeita desse fenôme-
no. Um artista, normalmente ajudado por um assistente, gira um prato
na ponta de uma vara comprida e fina. Ele acrescenta cada vez mais
varas e pratos, dependendo da força centrífuga para manter os pratos
girando na ponta das varas.
Isso é um desastre programado, porque à medida que os pratos
giram mais lentamente, eles estão em perigo de cair. a artista então
corre de um lado para o outro entre os pratos dando uma nova girada
nos pratos. a público se envolve encorajando o artista, apontando para
os pratos que estão prestes a cair e expressando consternação quando
um prato quebra.
Como líder de igreja, tenho me sentido como aquele artista. Eu
coloquei minha fileira de "programas giratórios" no ar. Não demorou
muito para perceber que quanto mais programas eu colocava para gi-
rar, tanto mais eu precisava trabalhar para mantê-los todos girando.
Logo eu estava correndo de lá para cá entre todos os programas
compartimentalizados, trabalhando arduamente para mantê-los no ar.
Eu logo aprendi que o problema não estava na minha falta de esforço
A Igreja do Novo Testamento no século XXI Y9

ou habilidade. O problema éd]ue cada prato deveria ter sua própria

-----
fonte de poder para mantê-lo girando. Se eu pudesse arranjar uma fon=-
te de "poder giratório" para todos os pratos, meu trabalho seria re lati-
\ amcnte fácil.
A igreja nunca foi projetada por Cristo para funcionar dessa ma-
neira. Jesus projetou um sistema de células simples e integrado, não
um sistema complexo de programas cornpartimentalizados. Quando
cansarmos de correr, talvez estejamos prontos para tentar liderar a igreja
à maneira de Jesus. (c/(y

tv
PARTE II
FUNDAMENTOS PARA UMA
SEGUNDA REFORMA

Pois assim diz o Alto e Sublime, que


vive para sempre, e cujo nome é santo:
"Habito num lugar alto e santo,
mas habito também com o contrito e humilde de
espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e
novo alento ao coração do contrito ".
-Isaías 57.15
8
A ESTRUTURA DA IGREJA
REFLETE A NATUREZA DE DEUS

"Sou eu apenas um Deus de perto ", pergunta o Senhor, "e


não também um Deus de longe? Poderá alguém esconder-
se sem que eu o veja? ", pergunta o Senhor. "Não sou eu
aquele que enche os céus e a terra? ", pergunta o Senhor.
- Jeremias 23.23-24

I
grejas em células têm um potencial incrível para atender todas as
necessidades crescentes de uma sociedade desesperada. Vimos
na Parte I que essa estrutura das comunidades cristãs de base tem
vantagens inatas sobre outras estruturas. Porém, a vantagem da igreja ~
em células está na teologia, não na estrut.u+a,. A igreja de dLiãs asas
reflete a natureza do Deus em sua transcendência (grandeza) e sua
imanência (intimidade). '" um paradigma teológico
Isso serve como - para
a igreja. J. I. Packer explica a transcendência e a imanência:

Deus não tem limites. Ele é eterno, infinito e poderoso. Ele


nos tem em suas mãos; mas nós nunca o temos nas nossas.
Como nós, ele é pessoal; mas, diferentemente de nós, ele é
grande. Em todas as constantes afirmações da Bíblia a res-
peito do interesse pessoal de Deus por seu povo, e da bonda-
de, carinho, simpatia, paciência e terna compaixão que de-
monstra para com esse povo, a Bíblia não nos deixa perder
de vista sua majestade e seu ilimitado domínio sobre todas
as suas criaturas. I

De acordo com a descrição acima, a transcendência descreve a


natureza de Deus, diferente do homem, chegando a ser inacessível. A
transcendência significa que a realidade divina não está limitada fi nossa
ordem natural, mas está acima dela. Deus é o Deus "Altíssimo".

103
10-1 A Segunda Reforma

Por outro lado, a imanência expressa o habitar do Divino no


mundo. Deus é o Deus "Altíssimo". A imanência explica a natureza de
Deus como alguém íntimo e próximo. Essa definição de transcendência
c imanência também pode ser interpretada da seguinte maneira:

• Transcendência: C~o homem se rela~s em sua


dizindad e .
• Imanência: C2mo Deus se relaciona com_~ll eIILs~~
l]lan idade-,-- .

Ao discutir a bondade de Deus, C. S. Lewis reconheceu a singu-


laridade do relacionamento transcendente c imanente entre Deus e o
homem:

Deus está, ao mesmo tempo, mais distante e mais próximo


de nós do que qualquer outro ser. Ele está mais distante de
nós porque a simples diferença entre aquilo que possui o seu
princípio do ser em si mesmo e aquilo a que o ser está sendo
transmitido é tal que, comparada a ela, a diferença entre um
arcanjo e um verme é praticamente insignificante. Ele faz,
nós somos feitos: ele é o original, nós somos derivados. Mas,
ao mesmo tempo, e pela mesma razão, a intimidade entre
Deus e até mesmo a menor das criaturas é mais próxima do
que qualquer outra que as criaturas possam alcançar umas
com as outras. Nossa vida, a qualquer momento, é suprida
por ele: nosso pequenino e milagroso poder de livre-arbítrio
só pode operar nos corpos que a energia contínua dele man-
tém vivos - nosso próprio poder de pensar é o seu poder
cornun icado a nós.'

A figura 2 contrasta palavras muitas vezes relacionadas à


transcendência e imanência de Deus. Essas palavras mostram o relaci-
onamento de Deus para com o homem e o relacionamento do homem
para com Deus.
Por séculos, batalhas teológicas ferozes têm sido disputadas acerca
desse ponto relacionado à transcendência e à imanência de Deus. Como
é o caso de muitos desentendimentos doutrinários, esse parece ter sido
um problema de manter em equilíbrio duas verdades igualmente verí-
dicas e importantes acerca da natureza de Deus. O pêndulo tem balan-
çado de um lado para o outro entre os extremos da transcendência e da
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 105

Figura 2: Escala de transcendência e imanência

imanência de Deus. Deus é "totalmente diferente de nós" e também


está "habitando e permanecendo no meio de nós".
Neste livro, eu não quero reacender batalhas teológicas do passa-
do. Meu alvo é aplicar a doutrina bíblica equilibrada da transcendência
e da imanência de Deus à eclesiologia, a doutrina da igreja. Se Deus é
ao mesmo tempo transcendente e imanente, como isso se encaixa na
teologia e estrutura da igreja?
Howard Snyder sugere que celebrações do grupo corporativo gran-
de e do grupo pequeno koinonia são necessários para o homem encon-
trar Deus corno ele realmente é:

Os crentes precisam daqueles momentos de culto coletivo


solene, em que o Deus Santo e Altíssimo é honrado com dig-
nidade e reverência. Mas em meio à dignidade e reverência.
muitos crentes solitários clamam por dentro pelo toque calo-
roso e terapêutico da koinonia. Os crentes precisam saber
p r ex eriência ue _o De r;. 10 é também o Deu;-
57.15). Se o culto tradicional não é reOl;-:-
----
~!J,..I;::...::..J..I..I.LI..L...ÇJsaías c-
106 A Segunda Reforma

larmente complementado com oportunidades informais de


koinonia, os crentes facilmente caem num deísmo prático, e
a igreja se torna o guardião sagrado de uma forma de pieda-
de impotente - o solene guardador de odres vazios. Por outro
lado, forma e liturgia ganham um novo significado para os
cristãos que vivem e crescem em koinonia?

Esse não é um debate acerca de estrutura, mas uma verdade acer-


ca de como Deus escolhe ser seu corpo na terra, expressando-se à hu-
manidade e operando seu Reino no mundo. Em relação à humanidade,
Deus escolheu tanto ser transcendente (distante) quanto imanente (pró-
ximo) - esse é o seu paradigma teológico. Vamos explorar o Antigo
Testamento e observar alguns momentos notáveis em que Deus se re-
vela ao seu povo em sua transcendência e imanência.

ADÃO E EVA: VIVENDO COM O DEUS TRANSCENDENTE E


IMANENTE

Em Gênesis I, o Deus transcendente e eterno, separado da cria-


ção bem como acima de toda criação, criou o mundo com uma palavra.
Então, em Gênesis 3.8, observamos Deus caminhando pelo jardim à
procura de Adão e Eva, no que parece setti'in encontro regular. As
caminhadas especiais do Criador são uma imagem graciosa de um re-
lacionamento carinhoso e paternal. Esse relacionamento foi basica-
mente transcendente ou imanente, ou ambos ao mesmo tempo? Seria
possível que antes da queda, Adão e Eva se relacionassem com Deus
de uma maneira que foi perdida com a queda, experimentando a sua
natureza transcendente e imanente ao mesmo tempo? É possível que
na queda, o homem tenha erdido a ca acidade de ex e~
sua natureza plena e, acima de tudo, o seu companheirismo ínti-
mo?
Qualquer que fosse a maneira de Deus relacionar-se com Adão e
Eva no início, nós sabemos que foi o objetivo de Satanás estragar esse
relacionamento especial. Na primeira tentação, a serpente começou a
infiltrar-se no relacionamento entre Deus e Adão e Eva. Satanás pro-
curou isolar o homem da imanência (proximidade) de Deus ao questi-
onar a veracidade de Deus, um elemento-chave em qualquer relacio-
namento. Então Satanás atacou a natureza transcendente de Deus (todo-
poderoso) ao questionar seu direito soberano sobre Adão e Eva e sobre
toda a criação:
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 107

Satanás destruiu o relacionamento especial do homem com Deus


para que Adão e Eva ficassem alienados de Deus, alienados um do
outro e do mundo ao seu redor. Gênesis nos fala que eles pecaram, se
esconderam de Deus no jardim e foram forçados a escapar desse rela-
cionamento especial de transcendência e imanência
.
Os "VISITANTES" DE ABRAÃO

Embora Adão e Eva rompessem seu relacionamento especial da


grandeza transcendente e da proximidade imanente, Deus não deixou
de se revelar à humanidade. Deus orientou Abraão a deixar a terra de
Ur, "o berço da civilização", e de viajar em direção à terra escolhida, a
um destino especial. Os primeiros encontros de Abraão com Deus pa-
recem ser mais transcendentes do que imanentes quanto à sua nature-
za.
Quando Abraão tinha 99 anos, o Senhor apareceu a ele de uma
maneira singular, reafirmando a promessa de um descendente (Gênesis
18). Durante essa aparição fascinante, que podem ter sido um ou dois
eventos, ocorridos dentro de um determinado período, Sara riu. Hu-
manamente falando, era risível para ela que eles gerassem um descen-
dente na sua idade, mesmo que o próprio Deus tivesse prometido.
No entanto, nos carvalhos de Manre, três visitantes reafirmaram
a Abraão (enquanto Sara escutava à entrada da tenda) que a aliança
seria cumprida por meio do nascimento de um filho. Muitos conside-
ram essa aparição de Deus a Abraão uma manifestação física especial
de Deus, ou uma teofania. Independentemente do nome que damos,
certamente foi uma experiência "da presença íntima" do Deus imanente ,&

que mudou a vida de Abraão e Sara.

MOISÉS ENCONTRA O "Eu Sou"

Deus chamou Moisés diante da sarça ardente para voltar ao Egi-


to para libertar os filhos de Israel (Êxodo 3 e 4). Essa revelação
incomum pessoal e íntima de Deus a Moisés teve uma influência pro-
funda sobre a sua vida. Deus revelou seu nome a Moisés como "Eu
Sou" e deu autoridade a Moisés por meio desse nome. O verbo usado
para o nome de Deus significa "estar ativamente presente?" e pode ser
traduzido por "Presença Viva". O nome dado a Moisés para identificar
o Deus transcendente o revela como sedo imanente.
108 A Segunda Reforma

Em contraste, no Monte Sinai (Êxodo 19 -23) Deus revelou-se


como o impressionante Deus transcendente com toda a fumaça, tro-
vões e relâmpagos. No monte, Moisés entrou na presença transcen-
dente de Deus. Os filhos de Israel foram restringidos por limites em
torno do monte onde o Deus transcendente se revelou a si mesmo e os
seus mandamentos a Moisés.

A COLUNA DE NUVEM E A TENDA DO ENCONTRO

Deus levou os filhos de Israel do Egito para a Terra Prometida


com uma coluna de nuvem durante o dia e uma coluna de fogo à noite.
O Senhor prometeu a Moisés: "Minha Presença irá com você". Deus
os guiou a uma certa distância em uma forma apropriada para o Deus
transcendente.
Nesses capítulos, lemos acerca de um outro encontro entre Moisés
e Deus, algo semelhante à sarça em chamas, mas diferente do encontro
no monte ou na coluna de nuvem. Em Êxodo 33 e 34, Deus encontrou-
se com Moisés na Tenda do Encontro. Assim que Moisés entrava, a
coluna de nuvem descia e ficava à entrada da tenda, enquanto o Se-
nhor falava com Moisés ... O Senhor falava com Moisés face a face,
como quem fala com seu amigo (Êxodo 33.9-11). Esse é um encontro
imanente (próximo) entre Deus e Moisés.
Esse também era um encontro em grupo, diferente daquele en-
contro solitário de Moisés com Deus na sarça em chamas. O texto diz
que o povo também entrava na Tenda do Encontro, e Josué, o assisten-
te militar de Moisés, não deixava a tenda. ~ão é de admirar qlJe losué
~~nha 198 tefflftcle IiR'l líclef tãs iQ1portante.~sde o início, ele experi- _
mentO!! DeWS I'!ftSlIa intimidade imanente, semelhantemente a Moisés.
Enquanto Deus falava a Moisés "face a face, como quem fala
com seu amigo", Moisés disse: "Peço-te que me mostres a tua glória"
(Êxodo 33.18). Deus disse a Moisés:

"Você não poderá ver a minhaface, porque ninguém poderá


ver-me e continuar vivo ". E prosseguiu o Senhor: "Há aqui
um lugar perto de mim, onde você ficará, em cima de uma
rocha. Quando a minha glória passar, eu o colocarei numa
fenda da rocha e o cobrirei com a minha mão até que eu
tenha acabado de passar. Então tirarei a minha mão e você
verá as minhas costas; mas a minha face ninguém poderá
ver" (Êxodo 33.20-23).
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 109

A face de Deus é mencionada nos dois encontros. No entanto, existe


obviamente uma diferença entre Deus falando com Moisés face a face
na Tenda do Encontro e Moisés vendo a face de Deus no Monte Sinai.
Por que Moisés pode encontrar-se com Deus face a face na Tenda do
Encontro mas não viver se ele visse a face de Deus (sua glória) no mon-
te? •
A diferença é Deus na sua transcendência (grandeza) descoberta e
Deus em sua imanência revelada (proximidade). O Deus transcendente
está além da compreensão do homem criado. Deus em sua transcendência
sempre está no monte, acima de nós e além de nós. Nenhum homem
mortal pode ver a face de Deus e sua transcendência, e viver.
Deus também revelou-se em sua imanência para que ele pudesse
falar a Moisés "face a face, como quem fala com seu amigo". Deus
encontrou-se com Moisés na sarça ardente, na Tenda do Encontro, e
quando Moisés levou as tábuas dos 10 mandamentos: Então o Senhor
desceu a nuvem, permaneceu ali com ele e proclamou o seu nome: o
Senhor (Êxodo 34.5). Essa não é uma contradição em termos, mas a
verdade da natureza de Deus, que se relaciona com o homem tanto na
sua grandeza transcendente como na sua proximidade imanente.
O homem conhece a Deus em "uma imediação mediada". A
encarnação é a expressão suprema de Deus da divindade transcendente
de Deus em um contexto humano imanente. Deus "se esvaziou". Qual-
quer que seja o significado dessa expressão, ela implica que Deus se
apresentou de tal maneira ao homem que a sua grandeza e soberania não
impediram a sua proximidade. A identidade "totalmente outra" de Deus
em relação ao homem não o impediu de se tornar como homem. As
expressões imanentes de Deus no Antigo Testamento prenunciam a
encarnação.
Deus em Cristo estabeleceu a Tenda do Encontro sobre a terra, não
somente para um líder especial como Moisés nem mesmo em um lugar
especial. A Tenda do Encontro de Jesus sobre a terra não estava restrita
aos sacerdotes que podiam entrar no Santo Lugar, ou para o sumo sacer-
dote que entrava uma vez por ano no Santo dos Santos para encontrar-se
com Deus com sacrifícios pelos pecados do povo.
Por meio da encarnação, cada cristão se tornou uma Tenda do
Encontro onde Deus está "face a face, como quem fala com seu ami-
go". Cada cristão é o templo de Deus, a moradia de Deus. Além disso,
quando dois ou três cristãos se encontram em seu nome, eles entram
na Tenda do Encontro de Deus onde Deus fala com eles "face a face
como quem fala com seu amigo". _~ ,
110 A Segunda Reforma

JÓ: UM DIÁLOGO COM DEUS - DA TERCEIRA PESSOA


PARA A PRIMEIRA PESSOA

o início do livro de Jó registra seu sofrimento trágico e sua dor.


As reações e o conforto dos seus quatro amigos representam os
ensinamentos predominantes acerca do sofrimento. Também podemos
aprender da provação de Jó algo acerca da transcendência e da
imanência de Deus.
Desde a primeira cena do livro, Deus aparece como um ser trans-
cendente nos céus, observando tudo o que está acontecendo lá embai-
xo. Os eventos da vida de Jó tiveram início depois de um diálogo entre
Deus e Satanás, bem longe em um lugar transcendente. Tanto Jó como
os amigos se dirigiram a Deus e falaram com ele com reverência trans-
cendente. Eles falavam a respeito de Deus na terceira pessoa. Jó cla-
mou:

Eu lhe apresentaria a minha causa e encheria a minha boca


de argumentos [. ..]
Mas, se vou para o oriente, lá ele não está; se vou para o
ocidente, não o encontro. Quando ele está em ação no norte,
não o enxergo; quando vai para o sul, nem sombra dele eu
vejo [. ..]
Por isso fico apavorado diante dele; pensar nisso me enche
de medo (Já 23.4; 23.8-9; 23.15).

Os amigos de Jó podem ter tido visões errôneas do motivo da dor


e sofrimento, mas eles tiveram sublimes percepções da transcendência
de Deus. Sua visão de Deus foi resumida por Eliú, o mais novo e o
último a falar. Ele declarou: Fora de nosso alcance está o Todo-pode-
roso, exaltado em poder (Jó 37.23).
Os primeiros capítulos de Jó revelam Deus na transcendência da
terceira pessoa. No entanto, na conclusão do livro, Deus subitamente
interrompe a cena por meio de uma revelação imanente e poderosa de
si mesmo. Iniciando com o capítulo 38, Deus conversou com Jó por
mais de quatro capítulos num diálogo na primeira pessoa - eles con-
versaram de maneira íntima e pessoal. Jó já não reclamava mais de
que não podia encontrar Deus ou que Deus estava em silêncio. De
repente Deus estava muito próximo para confortar.
Deus não respondeu a Jó de longe mas se aproximou para res-
ponder à pergunta mais fundamental acerca da sua imanência. Deus
A Igreja do Novo Testamento no século XXI lU

não explicou a dor e o sofrimento de Jó mas, em vez disso, revelou sua


natureza. A manifestação da proximidade de Deus, embora não res-
pondesse a todas as perguntas acerca da dor e do sofrimento, pelo menos
ele as colocou na perspectiva correta.
A essência da resposta de Deus é que o Deus transcendente não é
obrigado a dar respostas aos seus seres criados ou explicar as circuns-
tâncias da vida. O homem não tem direito algum de exigir explicações
do Criador. Mas, enquanto explicava sua natureza transcendente a Jó,
Deus falou a Jó de uma maneira pessoal em sua imanência.
Esse é o grande mistério de Deus. Ele é transcendente (grande e
acima do homem), mas ensina o homem a respeito da transcendência a
partir da sua imanência (proximidade). O Deus "Altíssimo" explica
quem ele é em sua transcendência inacessível ao se tornar o Deus "mais
íntimo".
Essa experiência próxima e pessoal com o Deus íntimo fez com
que Jó respondesse em Jó 42.5-6: Meus ouvidos já tinham ouvido a
teu respeito, mas agora os meus olhos te viram. Por isso menosprezo a
mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza.

DAVI CONHECEU O DEUS IMANENTE

O Salmo 23 fala ao coração do homem porque ele revela o Pastor


imanente e cuidadoso. Davi conhecia Deus em sua grandeza e
transcendência como fica evidente em outros salmos. Davi também
conheceu Deus em sua natureza próxima e imanente. É por isso que
esse Salmo de Davi é tão especial para nós hoje. O Pastor Deus está
conosco (imanente) em cada instante da vida:

em verdes pastagens
em águas tranqüilas
nas veredas da justiça
no vale de trevas e morte
à vista dos meus inimigos.

Tu estás comigo! Essa é a declaração de alguém a quem Deus


revelou-se em um relacionamento "íntimo" - em sua imanência. Qual
é o resultado desse relacionamento íntimo com Deus?

nada me faltará
restaura-me o vigor
112 A Segunda Reforma

não temerei perigo algum


ele me protege
preparas um banquete para mim
unge a minha cabeça com óleo
faz transbordar o meu cálice
bondade e fidelidade me acompanharão
todos os dias da minha vida
voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver.

ELIAS: EXPERIMENTANDO DEUS NO


MONTE CARMELO E NO MONTE HOREBE

Os profetas tinham um relacionamento especial com Deus que


era singular ao seu chamado. Sua tarefa era anunciar ou entregar men-
sagens do Deus transcendente. Deus muitas vezes revelava aquelas
mensagens transcendentes com uma comunicação imanente (bem pró-
xima). Aos pagãos, Deus podia enviar mensagens escritas com a mão
numa parede, mas aos profetas, Deus muitas vezes falava de maneira
que revelava sua natureza imanente. Nós vemos essas duas caracterís-
ticas do relacionamento de Deus com os profetas na vida de Elias.
Deus orquestrou uma disputa com 400 profetas de Baal (I Reis
18 e 19) no Monte Carmelo, que fica próximo ao mar Mediterrâneo.
Fogo, um dos elementos sagrados dessa religião pagã, caiu do céu e
consumiu o altar e o sacrifício preparado por Elias. Deus triunfou e os
400 profetas de Baal foram mortos. Então, com medo e desesperado,
Elias fugiu de Jezabel para o deserto. Finalmente Deus ministrou a ele
debaixo de um zimbro e falou a Elias na entrada da caverna do Monte
Horebe. Deus estava muito próximo em uma "brisa suave". Novamen-
te vemos a atenção pessoal de Deus que ministra a Elias e fala a ele
por meio da sua natureza imanente (próxima).

JAVÉ E EMANUEL

O nome Javé expressa a natureza transcendente de Deus e o nome


Emanuel expressa sua natureza imanente. Javé era o nome sagrado de
Deus para os judeus, santo demais para ser mencionado. Quando
retornaram do exíl io da Babi lôn ia, os judeus procuraram proteger cada
vez mais o nome de Deus do que eles consideravam ser uma familiari-
dade irreverente. O nome divino era representado pelas quatro conso-
antes JHWH (JHVH).
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 113

A palavra significava, "aquele que é", ou "aquele que está pre-


sente" e implicava que Deus estava pronto para manifestar-se como
ajudador. Mesmo o nome transcendente de Deus tinha uma leve
conotação da imanência de Deus que estava próximo o suficiente para
ajudar.
Emanuel, Deus conosco, é o nome designado para o Messias.
Porque um menino nos nasceu, umfilho nosfoi dada, e o governo está
sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro,
Deus Poderoso, Pai Eterno, Principe da Paz (Isaías 9.6). Ele será Deus
em nosso meio: imanência divina e viva. A encarnação é a imanência
suprema. Deus mais uma vez caminha no jardim, mas dessa vez na
forma física dos filhos de Adão e Eva.

o MODELO DO TEMPLO

Uma outra forma de o Antigo Testamento revelar a natureza de


Deus é vista na adoração no templo com suas cerimônias e festas. A
adoração no tempo era em primeiro lugar dirigida para cima, em dire-
ção ao Deus transcendente. Mas Deus também tinha provido uma ma-
neira no modelo do templo para ensinar a verdade da sua natureza
imanente. Dentro do Santo dos Santos a Shekiná de Deus, "Eu Sou",
Javé, JHWH residia no meio do templo.
Deus estava no meio do templo, como no acampamento, no en-
tanto, ele era inacessível e inalcançável ao judeu comum por meio de
um sistema de acesso graduado que se tornava cada vez mais restrito à
medida que se aproximava do Santo dos Santos. O Deus imanente es-
tava escondido dentro da estrutura transcendente do templo.
A concepção era de um lugar chamado Santo dos Santos no cen-
tro de uma série de retângulos concêntricos arranjados de acordo com
uma escala decrescente de santidade à medida que eles se afastavam
do lugar mais sagrado. Esse simbolismo de graus de santidade foi re-
petido nas pessoas que tinham acesso aos diversos pátios. Os gentios
ficavam no lugar mais distante, então vinham as mulheres judias, de-
pois os homens judeus, em seguida os sacerdotes e finalmente o sumo
sacerdote no Santo dos Santos. Essa santidade também foi observada
no material de construção usado na edificação das instalações do tem-
plo; o material mais precioso estava mais próximo do Santo dos San-
tos.
Esse talvez seja um dos relacionamentos mais difíceis que um
povo pode ter com seu Deus. Deus está próximo no lugar de adoração,
114 A Segunda Reforma

mas inacessível. Deus residia no meio do seu povo no Santo dos San-
tos, mas era inacessível e completamente "cortado" de um encontro
pessoal e de um tipo de comunicação com eles. Somente uma vez por
ano, depois de uma purificação cerimonial cuidadosa, o sumo sacer-
dote aventurava-se a passar pelas barreiras e entrar na presença do
Deus imanente (próximo).
Esse encontro era tão incerto e amedrontador que a tradição con-
ta que amarravam uma corda no pé do sumo sacerdote para puxá-lo
para fora do Santo dos Santos se ele fosse morto na presença de Deus.
A experiência da "presença próxima" de Deus era para o hebreu uma
experiência de "morte próxima".
A morte de Jesus mudou para sempre o lugar do Santo dos San-
tos de Deus. Jesus vindo em carne era a encarnação do Deus Altíssimo
trazido para bem perto da humanidade. No momento da sua morte na
cruz, o véu grosso que separava o Santo dos Santos do Lugar Santo foi
rasgado de cima até em baixo; era Deus descendo até o homem, e o
homem começou a experimentar Deus de uma nova maneira. Antigas
barreiras entre Deus e o homem foram removidas. Deus tornou-se o
Deus "próximo" habitando em seu povo e vivendo no meio da sua
ecclesia.
9
A TRANSCENDÊNCIA E A
IMANÊNCIA DE CRISTO

... em Cristo constatamos a união do imanente


com o transcendente.
- E. Y Mullins

E m todo O Antigo Testamento, Deus expressou-se aos patriarcas,


reis e profetas tanto na sua transcendência como na sua
imanência. Por mais de 2.000 anos Deus foi um Deus transcen-
dente para o seu povo de forma geral e um Deus imanente em ocasiões
especiais para homens escolhidos.
Jesus veio para mostrar o Pai: Eu revelei teu nome àqueles que do
mundo me deste (João 17.6). Será que Jesus poderia revelar o Pai sem
revelar sua natureza transcendente e imanente? De forma alguma! Portan-
to, na plenitude do tempo, Cristo manifestou-se para a igreja e por meio
dela como um Deus transcendente e imanente. O que no passado era so-
mente ocasional e para pessoas especiais tornou-se a norma para todos os
seguidores de Cristo.
Pois eu lhes digo a verdade: Muitosprofetas ejustos desejaram ver
o que vocês estão vendo, mas 11(10 viram, e ouvir o que V()('(',I' estão ouvin-
do, filas não ouviram (Mateus 13.17).
Os patriarcas e profetas do Antigo Testamento tinham encontros ra-
ros com a natureza transcendente e imanente de Deus. Hoje esses encon-
tros tornam-se a norma por meio do Cristo encarnado e por meio do novo
corpo espiritual (a ecclesia). Jesus planejou a sua igreja para experimen-
tar tanto a natureza transcendente como a natureza imanente de Deus.
Francis Schaeffer disse o seguinte:

Os cristãos devem demonstrar o caráter de Deus, que é uma

115
116 A Segunda Reforma

demonstração moral, mas não deve ser apenas uma demons-


tração de princípios morais; é uma demonstração do seu ser,
sua existência. I

JESUS AFIRMAVA TER A DIVINDADE


TRANSCENDENTE E IMANENTE

o discurso de Jesus em João 13-17 traz a explicação mais ampla


do seu relacionamento com os seus seguidores. João 14 é uma afirma-
ção extraordinária da sua divindade.
Ele explica como ele vai continuar se relacionando com os seus
discípulos em sua natureza plena de Deus depois que ele ascender ao
céu. Jesus vai voltar ao Pai no céu e sentar-se à direita de Deus no trono
que é a sua posição por direito. Ele vai preparar um lugar para os seus
seguidores, para que vocês estejam onde eu estiver (João 14.1,2).
Mais tarde nesse capítulo, Jesus ensina que ele é o Cristo imanente
na terra. Por meio do Espírito Santo, Jesus vai também estar com seus
discípulos na terra de uma forma imanente. Ele está preparando um lu-
gar para os seus seguidores na terra para que onde eles estiverem o Espí-
rito Santo esteja com eles (João 14.16-18). Esse lugar é a sua igreja. Ele
é a eterna encarnação viva dentro do seu corpo, a igreja.
Nesse texto, somente Deus é transcendente e imanente da forma
como Jesus está falando acerca de si mesmo. Deus é o único Deus
Altíssimo (transcendente) e o único Deus próximo (imanente)! Não existe
ninguém igual a ele no céu e na terra. Jesus reivindica para si mesmo a
natureza de Deus enquanto explica o projeto da sua igreja.
Francis Schaeffer apresenta suas razões para dizer que Cristo vai
estar com a igreja de uma maneira singular "entre a ascensão e a segun-
da vinda". Tendo como texto base João 14.16-18, Schaeffer conclui que
"o Cristo ressurreto e glorificado vai estar com a igreja por meio da
mediação do Espírito Santo". Ele diz o seguinte:

Notem-se as palavras: "Não vos deixarei órfãos, voltarei para


vós outros". A promessa de Cristo - crucificado, ressurreto,
assunto e glorificado - é que haveria de estar com sua igreja
entre a ascensão e a segunda vinda, por meio do ministério do
Espírito Santo em nós.
Essas promessas são universais e foram feitas à igreja, deven-
do abranger a era toda à qual pertencemos.
Essas coisas o mundo devia poder ver ao olhar para a igreja
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 117

- e são realidades que o mundo não tem meios de encaixar


em suas explicações anticristãs. A igreja deve empenhar-se
entranhadamente na realidade prática dessas coisas, não se
contentando em prestar-lhes mero assentimento."

QUEM ESTÁ COMIGO NESSE MUNDO?

A partir das perguntas dos discípulos e das respostas de Jesus em


João 14, fica óbvio que os discípulos estavam preocupados em relação à
partida dele. Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; crei-
am também em mim.
Eles estão confusos acerca de como ele vai relacionar-se com eles
no futuro. Será que ele vai ser transcendente e imanente, permanecendo
no meio deles de alguma forma ou vai habitar com o Pai no céu? Como
vai relacionar-se com o Pai que é o Deus Altíssimo? Como vai revelar-se
aos seus discípulos? Como será o relacionamento entre o Pai, o Filho e o
Espírito com o cristão que permanece na terra? De que maneira ele pode
estar no céu "à direita do Pai" e também na terra "no meio deles?". De que
maneira Jesus vai relacionar-se com os cristãos entre a sua ascensão e a
segunda vinda?
Essas eram as perguntas deles e o motivo da sua ansiedade. Jesus
procurou explicar o mistério do seu novo relacionamento com a sua igreja
e acalmar os seus medos. Essas perguntas acerca do relacionamento de
Jesus conosco individualmente e corporativamente são importantes para
a igreja de hoje.
Primeiro, Jesus explicou que o Espírito estaria com eles (João 14.16-
17). E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com
vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo,
porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com
vocês e estará em vocês. Ele então expande essa explicação, falando a
respeito do seu próprio relacionamento com eles. tyão os deixarei ór(tios:
voltarei [Jesus] para vocês (João 14.18).
Depois de explicar que o Espírito estaria na terra com seus segui-
dores, por que então Jesus acrescenta um elemento de confusão ao de-
bate, afirmando claramente que ele estaria com eles? O assunto se torna
ainda mais complexo quando ele mais tarde explica que o Pai vai enviar
o Espírito e então declara: N~s C! €?le ejnrewas "Ig"fulrr .J!tle_
(João 14.23). Então o Pai estátm1tO no céu "enviando o Espírito" quanto
aqu i na terra "morando" com os discípulos j unto com Cristo.
Posso ver como o Espírito está comigo, mas o que significam os

~~.
". ---,--------_ .•......
118 A Segunda Reforma

outros ensinamentos de Jesus a respeito do Pai também morar comigo e


o próprio Jesus vir a mim? Quem está comigo aqui embaixo e em que
forma?
Essa mesma ambivalência está presente em Romanos 8.9-11, em
que Paulo explica de que maneira Deus se relaciona com o crente na
terra. Paulo alterna entre o Pai, o Filho e o Espírito quando explica
como Deus habita em nós. No versículo 9, Paulo afirma que o Espírito
vive em mim: Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne,
mas do Espirito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. No
versículo 10, Paulo muda para Cristo em mim. Mas se Cristo está em
vocês. Então no versículo 1I Paulo diz: E, se o Espirito daquele que
ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês ... Quem ressusci-
tou Jesus da morte pelo seu Espírito? Quem quer que seja que ressus-
citou Cristo dentre os mortos também vive em mim por meio do Espí-
rito. Isto é, Deus, o Pai, vive em mim. É evidente que o objetivo prin-
cipal de Paulo não é defender a doutrina da Trindade. Ele está mais
interessado na realidade.
Quem, então, está aqui comigo? A resposta é a seguinte: Deus em
sua plena natureza está aqui comigo. Deus em sua expressão plena da
Trindade torna-se vivo no modelo de igreja do Novo Testamento. To-
das as três pessoas da divindade participam do corpo espiritual de Cristo
na terra. O paradigma teológico de Jesus acerca da igreja mostra um
caminho para entendermos o enigma de espaço e tempo a respeito de
quem está aqui em baixo na terra comigo. Deus proporcionou um meio
de se relacionar comigo de três maneiras especiais:

• No ambiente do grupo grande, quando "todo o corpo" está reunido


• Pessoalmente
• Onde dois ou três estão reunidos em um encontro de grupo pequeno.

O ambiente do grupo grande oferece um contexto no qual o


foco pode ser o Deus Altíssimo nos céus. Na experiência do grupo
grande a igreja experimenta Deus como Trindade. É por isso que a
igreja canta:

Santo, Santo, Santo Deus Onipotente!


Tuas obras louvam teu nome comfervor;
Santo, Santo, Santo! Justo e Compassivo!
És um só Deus, supremo Criador.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 119

Como cristão individual, eu também experimento Deus na sua


Trindade. Eu sei que Cristo está em mim, o Pai habita comigo e o
Espírito habita em mim. Essa é a minha experiência pessoal com
Deus.
Em João 14, Jesus cuidadosamente revela um outro tipo de
relacionamento que ele usa para relacionar-se com seus seguido-
res. Esse relacionamento é diferente do habitar pessoal (individu-
ai) e do habitar no grupo grande. O grupo pequeno provê um ambi-
ente especial no qual Cristo vai viver com seus discípulos em cada
era como ele fez com os discípulos naquela comunidade especial
dos Doze.
O ambiente da célula estabelece um contexto de intimidade
para experimentar o Deus Altíssimo em nosso meio. Nunca deve-
mos nos esquecer de que Deus sempre se expressou como o Deus
próximo por intermédio da Trindade: Pai, Filho e Espírito.

Nosso RELACIONAMENTO JOÃO 14.20 COM CRISTO

A maioria dos cristãos está confortável com os ensinamentos


do "Cristo em mim". Minha experiência (e provavelmente a sua
também) é a seguinte: Cristo está em mim, o Pai habita em mim, o
Espírito está em mim. Nosso relacionamento pessoal com Deus é
um relacionamento trinitário.
Naquele dia compreenderão que estou em meu Pai, vocês em
mim, e eu em vocês.

Eu [Cristo] no Pai.
Vocês em mim [Cristo].
Eu [Cristo] em vocês.

Louvado seja Deus! Esse é o nosso relacionamento pessoal


com a Trindade. Selados dessa forma dentro da Trindade podemos
dizer com ousadia: Quem nos separará do amor de Cristo?
A figura em João 14.20 que Jesus usa para mostrar o relacio-
namento pessoal dos cristãos com Deus vai da terra até o céu. Cris-
to está em mim na terra (imanente); e eu estou em Cristo, que está
no Pai no céu (transcendente). Em Cristo, meu relacionamento pes-
soal se estende até o Pai no céu. Está tudo muito bem a respeito do
relacionamento pessoal do crente com Cristo entre a ascensão e a
120 A Segunda Reforma

segunda vinda. O cristão individual está selado na Trindade da ter-


ra até o céu.

Nosso RELACIONAMENTO MATEUS 18.20 COM CRISTO

O cristianismo do tipo "solitário" vive em um relacionamento ver-


tical com Deus. Eu estou em Cristo. O aspecto da salvação que me inte-
ressa é que Cristo está em mim. Esse é o ponto da minha santificação.
Eu posso experimentar esse relacionamento pessoal com Deus quando
estou sozinho ou com multidões de centenas ou milhares. Esse é o rela-
cionamento pessoal do crente com Cristo conforme João 14.20. É uma
experiência maravilhosa.
Cristo também está no meio da sua comunidade (Efésios 2.11-22).
Viver num relacionamento com ele na sua ecclesia significa que eu vivo
em um relacionamento com você como irmão ou irmã em Cristo.
Esse ensino acerca de Cristo na sua igreja muitas vezes confunde
os cristãos. De que maneira Cristo se relaciona conosco quando nos
reunimos nas células? Seria possível para Cristo estar com dois ou três
cristãos que se reúnem em seu nome de um modo diferente do que ape-
nas relacionar-se com cada cristão individual no grupo? É isso que Je-
sus ensina em João, e essa também é a minha experiência pessoal nas
células.
Jesus nos certifica de um habitar corporativo bem como de um
habitar pessoal. Da mesma maneira que você e eu entendemos que Cris-
to está em nós como indivíduos, também podemos entender Cristo no
meio de nós quando nos reunimos em seu nome em um contexto de
grupo pequeno.
Mateus 18.20 explica meu relacionamento corporativo com Cristo
quando estou com você e com mais dois ou três outros cristãos. Pois
onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles.
A palavra "eu" aqui em Mateus 18.20 é o mesmo "eu" em João 14.20
quando Jesus usou o "eu" para referir-se a si mesmo, ao Pai, e também
apontou para o Espírito. O "eu" também é Cristo.
Não podemos afirmar que Cristo mora em nós pessoalmente em
um relacionamento singular conforme João 14.20 e ao mesmo tempo
negar esse mesmo relacionamento com "dois ou três" conforme é pro-
metido em Mateus 18.20. No entanto é exatamente isso que fazemos na
prática. Levou-me anos para entender que o mesmo relacionamento
trinitário que experimento pessoalmente também se torna vivo quando
me encontro com você e com vários outros cristãos em um encontro
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 121

com Cristo. Na verdade, tem sido minha experiência que Cristo é capaz
de manifestar-se a mim de uma maneira mais poderosa e plena quando
estou com "dois ou três". Isso quer dizer que "eu não me basto" para
receber a completa revelação de Cristo. Para experimentar Cristo da
maneira mais completa, eu preciso de você e de outros cristãos para
viver comigo em comunidade. O encontro da célula pode ser visto como
uma devocional em grupo com o Senhor, enquanto outras experiências
(individuais e em grupo grande) são normalmente encontros "pessoais"
com Deus.
Jesus disse em João 14.18: Não os deixarei órfãos; voltarei para
vocês. Essa é uma promessa de um relacionamento imanente, pessoal e
próximo. Essa é uma promessa não somente ao cristão individual mas
também à comunidade cristã. Na maioria das vezes experimentamos essa
promessa da presença de Cristo em nosso relacionamento pessoal com
Deus. Mas nos sentimos órfãos porque não vivemos na unidade da sua
presença como uma família em uma comunidade de grupo pequeno.
Que triste!
Por causa do meu relacionamento pessoal com Cristo e Cristo em
mim, bem como o seu relacionamento com Cristo quando nos reunimos
em seu nome, nos tornamos o corpo vivo dele no qual Cristo, o Pai e o
Espírito habitam em nosso meio. Essa é a igreja dele na sua forma mais
básica. Nós experimentamos a imanência de Deus em um relaciona-
mento pessoal e em um relacionamento coletivo. Aqui está o resumo de
como isso acontece.

• Vários relacionamentos espirituais individuais tornam-se um


grupo comum, uma entidade espiritual - seu corpo. Cristo
toma o meu relacionamento pessoal João 14.20 com ele,
(Cristo em mim. Vocês em mim [Cristo]. Eu [Cristo] no Pai)
e une esse relacionamento com outros cristãos em um relaci-
onamento Mateus 18.20 (onde dois ou três estão reunidos
em meu nome, ali eu estou no meio deles). No relaciona-
mento com ele, ele nos une no seu corpo espiritual na terra .

• Meu relacionamento pessoal com ele e o relacionamento pes-


soal que você tem com ele então tornam-se mais do que a
soma das nossas experiências espirituais individuais com ele.
Juntos conhecemos Cristo de uma forma mais completa do
que podemos conhecê-lo em nossas experiências individu-
ais.
122 A Segunda Reforma

• Juntos em seu nome tornamo-nos o seu corpo vivo no qual


ele habita, capacita e ministra.

Earnest Loosely, em When the Church was Young (Quando a igreja


erajovem), afirmou:

Quando um homem se encontrava com Cristo - quando a igre-


ja era jovem - ele ficava impressionado com as riquezas que
recebia em ter um Senhor que habitava nele. Então ele entrou
na comunidade de crentes e ficou impressionado outra vez. A
maravilha da comunhão diária, o cuidado, a proteção e a "co-
munidade" da igreja [...] uma criação nova [...] eram uma expe-
riência totalmente nova para o homem. Homens salvos eram de
uma espécie diferente e eles tinham um habitat para viver e isso
era singular a essa espécie. Ninguém jamais havia conhecido
qualquer coisa parecida com a igreja [...] a comunidade dos
redimidos. Aqui estava o outro grande magnetismo da igreja
quando ela era jovem: Ela mesma!'

A PRESENÇA DE CRISTO ERA SINGULAR NA IGREJA


DO Novo TESTAMENTO

Na Tailândia, a necessidade de colocar em prática Mateus 18.20


se tornou óbvia para mim. Organizações humanas, sabedoria e técni-
cas não penetrariam na escuridão de séculos do budismo e do espiri-
tismo. Eu já suspeitava que a teologia da igreja era mais do que eu
havia estudado ou experimentado. Viver no meio do budismo por 15
anos confirmou minha suspeita. Deus não trabalhou tanto na minha
teologia da igreja quanto ele desafiou o significado prático da minha
eclesiologia no viver diário. Ray Stedman acrescentou a essa com-
preensão quando ele escreveu:

A igreja está aqui na terra, não para fazer aquilo que outros
grupos podem fazer, mas para fazer aquilo que nenhum ou-
tro grupo de seres humanos é capaz de realizar. Ela está
aqui para manifestar a vida e o poder de Jesus Cristo em
cumprimento do ministério que foi dado a ele pelo Pai. ..4

Depois de voltar aos Estados Unidos, comecei a explorar a na-


tureza desse novo tipo de igreja que Deus tinha colocado em meu
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 123

coração. Em várias ocasiões, colocava no papel o que eu entendia


acerca da natureza e operação da igreja do Novo Testamento. Sem-
pre, numa mistura de idéias e páginas de rabiscos, apareciam duas
frases com três simples conceitos. "O que Deus habita ele capacita".
"O que Deus habita e capacita, ele usa".
Essas duas frases formavam um registro incompleto em minha
mente. Eu não conseguia tirá-Ias da minha mente, mas eu também
não conseguia encontrar um lugar para elas. Finalmente, ao estudar a
natureza da célula (grupo pequeno), a frase começou a fazer sentido.
Tudo começou a fazer sentido. Isso tinha que ver com unidades de
células. Deus habita e capacita sua igreja nesse nível mais básico! O
que Deus habita e capacita, ele também usa. Dessa descoberta surgiu
um simples acróstico, que eu chamo de os três "P's".

A Presença de Cristo: "O que ele habita".


O Poder de Cristo: "Ele capacita".
O Propósito de Cristo: "O que ele habita e capacita, ele
usa".

O significado da presença permanente de Cristo em sua igreja é


essencial para a compreensão e operação da igreja. Jesus planejou
sua igreja para ser seu corpo vivo e encarnado na terra. Esse tipo de
igreja somente vai funcionar se ele a fizer funcionar. Ele é a fonte da
vida, do poder e da missão da igreja. Se a igreja é o seu corpo, ele
deve habitar nela e dar vida a ela.
Francis Schaeffer entendia que a singularidade de Cristo na igre-
ja do primeiro século deve ser transplantada para a igreja do século
XX:

Essa presença permanente de Cristo deu a eles um senso de


poder, de suficiência, de prontidão para lidar com qualquer
situação que surgia. Esses homens nunca estavam confusos
acerca do que deveriam fazer. Recursos infinitos de graça e
sabedoria e força estavam à sua disposição [... ], um reser-
vatório nos domínios invisíveis que nunca podia ser exau-
rido. Os homens que sentiam que todos os recursos possu-
ídos e exercidos por Jesus nos dias da sua carne continua-
vam esperando para serem apropriados e usados (João
14.12), não iriam se retrair da tarefa desafiadora que estava
diante deles. Nós também não deveríamos nos retrair , se
124 A Segunda Reforma

temos uma fé simples semelhante à deles, e uma confiança


segura além de uma experiência com o Senhor permanente,
vivo e reinante!'

A presença permanente de Cristo fez a diferença na primeira igreja.


A igreja de hoje nunca vai ser parecida com a igreja primitiva até que
também viva na presença permanente de Cristo. Os grupos pequenos
nas casas eram uma parte importante daquela experiência dinâmica do
primeiro século. A presença de Jesus com seus discípulos na comunida-
de durante seus três anos e meio de ministério, os grupos nas casas ime-
diatamente depois de Pentecostes e a dependência contínua nas reuni-
ões dos grupos pequenos nas casas na obra missionária de Paulo ligam a
presença permanente de Cristo com um projeto de grupos pequenos na
vida da igreja.

DEUS EXPRESSA, DE FATO, SUA NATUREZA POR INTERMÉDIO


DE ESTRUTURAS!

Vincular a natureza de Deus a uma forma de igreja é algo radical


para alguns. Não deveria nos surpreender que a auto-revelação de Deus
é expressa por meio de formas apropriadas. Deus tem usado formas e
estruturas no passado para ensinar verdades a respeito de si mesmo.
Altares de sacrifício foram usados como lugares especiais para encon-
trar-se com Deus. AArca daAliança foi uma forma usada por Deus para
manifestar-se. O mesmo ocorria com o Tabernáculo. A Tenda do Encon-
tro no deserto foi um local de encontro com Deus. O Monte Sinai foi um
lugar sagrado. O Templo foi cuidadosamente projetado por Deus para
revelar-se a si mesmo. O Santo dos Santos era tão sagrado porque Deus
se revelava ali de uma maneira especial. No Novo Testamento, Jesus
planejou a igreja de uma forma simples para reunir-se no grupo grande
e em grupos pequenos. Os ambientes do grupo grande e dos grupos pe-
quenos que vemos operando no Novo Testamento oferecem um contex-
to único para Deus expressar a sua natureza transcendente e imanente
para os seus seguidores. Deus se expressa ao homem quando ele está
sozinho e quando ele está em comunidade. Dentro desses dois contextos
Deus se revela como o grande e eterno Deus e como o Deus próximo e
íntimo.
Os ambientes do grupo grande e do grupo pequeno têm certas ca-
racterísticas que os tornam mais apropriados para a expressão da natu-
reza transcendente e imanente de Deus. É claro que Deus pode e
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 125

entremescla esses dois relacionamentos e expressa a sua transcendência


nos grupos pequenos e a sua imanência nos grupos grandes. Deus é
soberano e pode expressar-se da forma como desejar em qualquer ambi-
ente. Pense na direção projetada nas duas reuniões. No grupo grande, o
foco na maioria das vezes começa com a transcendência, ressaltando a
grandeza de Deus, e passa gradativamente para a imanência de Deus.
Por outro lado, no grupo pequeno o foco direcional na maioria das vezes
flui dentro de um círculo. Na célula, Cristo está no meio do seu povo na
terra, iniciando com a imanência, passando para a transcendência.
O propósito de Jesus com seu projeto de igreja visa em primeiro
lugar que a igreja experimente a plena natureza transcendente e imanente
de Deus. Seu segundo propósito é usar sua igreja como um agente para
revelar a transcendência e imanência de Deus para o mundo. Deixar de
usar o projeto de Cristo não é uma falha estrutural mas uma falha teoló-
gica. A igreja que rejeita o uso do projeto simples do Novo Testamento
de Jesus não está somente rejeitando o projeto da igreja do Novo Testa-
mento, mas está a perigo de representar incorretamente a própria natu-
reza de Deus.
10
ÁQUILA E PRISCILA-
COMUNIDADE DO NOVO
TESTAMENTO

Deve haver uma ortodoxia da comunidade


assim como há a ortodoxia da doutrina.
- Francis SchaejJer

L
ucas registra que os primeiros crentes se reuniam todos os dias,
não somente no Templo (a reunião de toda a igreja) mas em
suas casas (as congregações nas casas), participavam das re-
feições com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a
simpatia de todo o povo (Atos 2.46-47; 5.42, 20.20). A igreja do Novo
Testamento funcionava como uma comunhão no primeiro século dentro
desse contexto ou ambiente duplo. O contexto do estar reunido envolvia
o encontro de toda a igreja, a reunião como congregação, que ia ao tem-
plo. O contexto do estar espalhado, envolvia o encontro nas igrejas nas
casas, unir-se nas células, que ia de casa em casa.
Essa estrutura simples criou um ritmo ou uma melodia especial na
igreja do primeiro século. Tanto Howard Snyder como Elton Trueblood
e Ray Stedman usam a palavra "ritmo" para descrever a estrutura da
igreja do Novo Testamento. Por exemplo, Howard Snyder escreveu:

Sempre havia esse ritmo harmonioso entre grupo pequeno/


grupo grande, em que o grupo pequeno provia a intensa vida
em comunidade que trazia profundidade às reuniões do grupo
grande (quer fosse para adoração ou para testemunho ).1

Elton Trueblood declarou:

O ritmo da Igreja normalmente funciona da seguinte maneira:

127
128 A Segunda Reforma

o estabelecimento da base no domingo e a dispersão durante a


semana. Mas, visto que não existe nada de sagrado acerca de
dias especiais, não existe um bom motivo por que, em casos
especiais, esse padrão não pudesse ser invertido."

Ray Stedman acrescentou:

Mas na igreja primitiva se evidenciava um ritmo de vida em


que os cristãos se reuniam nas casas para se instruir mutuamen-
te, para estudar e orar em conjunto e compartilhar o ministério
dos dons espirituais. Então eles saíam de novo para o mundo, a
fim de deixar o calor e o brilho da sua vida plena de amor trans-
bordar num testemunho cristão espontâneo, que atraía pagãos
sedentos de amor como uma confeitaria atrai crianças.'

ÁQUILA E PRISCILA

o historiador F. F. Bruce nos apresenta um casal de pessoas-chave


na igreja do primeiro século. Eles eram o sr. e a sra. Líderes Cristãos
Típicos que viviam no "ritmo" da igreja do Novo Testamento. Entender
sua vida na igreja vai nos ajudar a entender a teologia prática da igreja do
Novo Testamento. Eles não somente mantinham uma doutrina ortodoxa
mas viviam numa comunidade ortodoxa:

No início do ano 50 um casal judeu interessante estava indo


para a sinagoga em Corinto. Eles tinham morado em Roma por
alguns anos, mas ultimamente uma explosão de tumultos entre
alguns judeus em Roma tinha dado ao imperador Cláudio a gran-
de oportunidade de impor restrições à comunidade judaica, OLl
seja, a sua expulsão de Roma. O édito da expulsão não teve um
efeito muito longo; muitosjudeus romanos, no entanto, tinham
de encontrar um lar em outro lugar por um tempo, e entre esses
que foram para Corinto havia um casal do qual estamos falan-
do, ele, um profissional que trabalhava com couro, chamado
Áquila, e sua esposa Prisea. Áquila não era judeu romano de
nascimento; ele nasceu em Ponto, no Mar Negro, que faz divisa
com a Ásia Menor. Sua esposa - conhecida pelos seus amigos
pelo seu nome mais familiar Priscila - parece ter pertencido a
uma classe social mais elevada do que o seu marido; ela pode
ter tido conexão com a família nobre romana chamada os gens
A Igreja do Novo Testamento no século XXI /29

Prisca. Esse casal parece estar associado com um movimento


novo no Judaísmo que havia provocado os tumultos em Roma ...4

Esse casal fazia parte do ministério de Paulo em Roma, em Éfeso e


em Corinto. Eles não eram apenas amigos de Paulo, mas também
discipularam Apolo. Eles conheciam o significado do cristianismo e a
função da igreja do Novo Testamento provavelmente tão bem como qual-
quer outro casal do primeiro século. Eles eram líderes que funcionavam
no nível mais básico do ministério. Áquila e Priscila eram líderes de uma
igreja nas casas, a unidade de operação básica da igreja primitiva. O
paradigma de igreja de Áquila e Priscila estava muito mais próximo da
igreja em células do que da catedral.
A doutrina primitiva da igreja (eclesiologia) incluía os seguintes ele-
mentos. Esses fatores ratificavam o grupo pequeno como a forma princi-
pal de vida na igreja do primeiro século. Eles sugerem que a igreja de hoje
não pode funcionar em um ritmo do Novo Testamento sem o grupo pe-
queno do Novo Testamento modelado por Jesus:

• Eles se encontravam nas casas.


• Eles participavam da adoração em vez de serem meros espectado-
res.
• Os ensinamentos muitas vezes ocorriam em um contexto de grupo
pequeno.
• A refeição ágape era feita de casa em casa.
• Os dons eram exercidos em um contexto de grupo pequeno (célu-
la).

MUITAS CASAS

As Escrituras relatam que os cristãos do primeiro século se encon-


travam nas casas para adoração, comunhão e ensino (1 Coríntios 16.19;
Romanos 16.5; Colossenses 4.15; Atos 5.42). Michael Green, no livro
Evangelism in the Early Church (Evangelização na igreja primitiva), enu-
mera várias casas do primeiro século que foram usadas para esse propósito:

• A casa d~l em Tessalônica foi usada com esse propósito.


• A casa de Tício Justo, localizada propositalmente à frente da sina-
goga (com a qual Paulo tinha rompido), em Corinto, foi um lugar
de reunião.
• A casa de Filipe em Cesaréia parece ter sido um lugar muito

_----_._--
.. ._- -
130 A Segunda Reforma

hospitaleiro, onde viajantes marítimos como Paulo e seus com-


panheiros eram bem-vindos, e também pessoas carismáticas como
Ágabo.
o A casa de Lídia em Filipos era tanto um lugar de reunião como
um lugar de hospedagem para Paulo.
o Parece que Áquila e Priscila mantinham uma igreja em sua casa
independentemente de onde eles moravam, em Corinto ou em
Roma.
o A casa do carcereiro em Filipos foi usada como um centro
evangelístico depois da sua conversão dramática.
o O próprio Paulo batizou a família de Estêvão, e Paulo evidente-
mente usou a casa de Estevão "a serviço dos santos".
o A primeira comunidade cristã se reuniu no andar superior de uma
casa particular, da mãe de João Marcos em Jerusalém. Não é de
admirar que a "igreja no lar" se transformou em fator crucial na
difusão da fé cristã".'

Qe,te,ITIPQ em t~m2g _l!,ig~~jª-prim,itjva se encontrava na reun ião de


toda à "jgr~ifl. Alguns tentam provar que locais de reuniões am'-:;-~pC·
~~~~~
existiam antes do quarto século. Outros, que apóiam o conceito do grupo
grande citam escritos antigos que mostram que amplas sinagogas e prédi-
os de igrejas foram usados, sugerindo que o ambiente grande era a manei-
ra preferida de reunião da igreja do primeiro século. No livro The Large
Church (A igreja grande), John N. Vaughan relata:

Somente Eusébio menciona 11 ocasiões em que prédios de igreja


já existentes foram destruídos durante o reinado de sete impera-
dores romanos.
Nossos melhores registros indicam que vários locais foram adap-
tados por cristãos primitivos para as suas reuniões. Esses locais
incluíam casas, andares superiores, o templo, sinagogas, encos-
tas dos montes, saguões de ensino, templos pagãos e principal-
mente basílicas municipais. No período anterior ao reinado de
Constantino, as igrejasjá possuíam cemitérios, locais para reu-
niões e toda a parafernália de adoração."

Quem está certo? Afinal de contas, a igreja primitiva se encontrava


em locais grandes ou pequenos? A resposta é que na verdade ela se encon-
trava tanto em locais grandes como em locais pequenos (no caso as ca-
sas). A natureza da igreja é funcionar com as duas asas: a igreja se reunia
r

A Igreja do Novo Testamento no século XXI 131

no ambiente congregacional e se espalhava no ambiente da comunidade


em células. O problema hoje não está em provar que a igreja existia tanto
como grande congregação quanto como em células pequenas durante o
primeiro século. Isso está evidente no Novo Testamento. ~SSQ problema ...
. hoje é que a igreja traç!jçional igpQl:a o wQIJelo, do Novo.l'~.e.
ytve~ a COI1Jlwi.º.acl~
..do, ..J~\!uzdessa esmagadora
N.º.Y9_Ie~!~!11.el)to:
evidência, como isso pode continuar?

PARTICIPAÇÃO NA ADORAÇÃO

O tipo de adoração descrita no Novo Testamento sugere um ambien-


te de grupo pequeno como seu contexto de adoração principal. Muito do
que o Novo Testamento relata acerca da adoração não vai se encaixar na
adoração do grupo grande como ela ocorre hoje, não importa o quanto
tentarmos forçá-Ia. Os cristãos do primeiro século viam a face um do ou-
tro, não apenas as costas de alguém sentado no banco da frente. Os cris-
tãos do primeiro século eram participantes, não espectador:~ .~~a=-
ção. ....- ..•_ - ....
Paulo descreve a adoração deles nas epístolas, em Efésios 5.18-19 e
nos versículos associados em Colossenses 3.12-17. Lemos no texto de
Efésios: "".deixem-se encher pelo Espírito, falando entre si com salmos,
hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor".
Esse tipo de adoração é uma adoração do tipo uns aos outros. A
participação na adoração com Deus, mas também uns com os outros. O
fluir da adoração deles era para cima, para Deus, e também horizontal, de
uns aos outros. Eles também adoravam a Deus juntos. Os cristãos do pri-
meiro século estavam, na verdade, envolvidos com Deus como o objeto
da adoração e com os seus companheiros adoradores como os instrumen-
tos de adoração. Eles não eram solistas na adoração, mas parte de um
coral, e juntos elevavam a adoração a Deus.
Também envolvia diversas tarefas ou atividades. Salmos, hinos e
cânticos espirituais são cobrados no contexto de todos os dons: profecia,
palavras de conhecimento, línguas e interpretação. Muitas pessoas pre-
cisavam participar desse tipo de adoração para que todas as atividades
fossem desempenhadas. Essas atividades não eram real izadas por dois ou
três "artistas" para todas as outras pessoas presentes.
Em Colossenses 3.12-17, Paulo cria a imagem de uma vida íntima
no corpo. Esse tipo de adoração tinha como contexto um grupo pequeno,
de perdoar uns aos outros, de suportar uns aos outros e ser paciente uns
com os outros. Essas eram ações de grupos pequenos, não atividades de
132 A Segunda Reforma

um grupo grande.
Paulo descreve um tipo de adoração que pressupõe o ambiente de
grupo pequeno como parte essencial da experiência. Portanto, é extre-
mamente difícil, se não impossível, encaixar as palavras e ações da ado-
ração do primeiro século na estrutura da igreja de uma asa do século
XX. A adoração no contexto do grupo grande encoraja o desempenho de
uma plataforma ou palco em vez da participação do povo. Os cristãos do
primeiro século não eram espectadores aplaudindo a equipe de louvor,
mas participantes ativos no importante evento da adoração.
A igreja tradicional tem tentado todo tipo de técnicas para envol-
ver a congregação: leitura responsiva, respostas responsivas, cântico
congregacional, cumprimentar uns aos outros durante o culto, além de
outras técnicas. No Oriente, todos podem orar em voz alta ao mesmo
tempo, dando um certo sentimento de participação congregacional. N_ã_o_~
imeorta~._9..'!.~_f1
..~~r..~lOs.2~~oraç~?- ...c:::.e;:....:.:.::.:!.e.:..:n;;:ã;.:;o_==.;~.;;;;..:;..;;,
:I __ .
soar como a adoração do primeiro século. Isso.....~!L~: ...,..."yJ~I!J.J;lJJ;u.:>:;.a.J.iiW4......
de-Si!§lr19Bf€:?I~~.sEmrYillQ~çJffu~i·l?_iffil!~.I)ªºJ~.m-ºs..ª.. 1""i)UI.Q~.~,""",L;......
tUfão.A id~i~_.d~.~_@~ªp.,de.Paul().'flª igrejaprimitiva pode oçl:m~,"J.llQJ.L__ ,
~·cfe~~~i:olv.~rrn()§.,()çQQJe~tode grupopequenc-junto. com·.,~·e;ent~~ __
·~?J?r!!~_.B!:~!l9~:
",
ENSINAMENTOS DO Novo TESTAMENTO

Todos nós levamos nossos próprios "óculos" (paradigmas)


interpretativos para a Bíblia quando a lemos. Esses óculos nos ajudam a
interpretar o contexto e cenário daquilo que estamos lendo. Por anos, eu
li o Novo Testamento com os meus óculos da igreja de uma asa. A única
forma de interpretar os ensinamentos do Novo Testamento era usando a
minha igreja como filtro. Minha igreja se reunia em grupos grandes im-
pessoais que eram liderados por líderes religiosos profissionais dentro
dos limites das instalações da igreja. Alguns textos simplesmente não
faziam sentido quando eu tentava aplicá-los dentro do contexto da igre-
ja moderna na qual eu vivia.
Mateus 18.15-17 era um desses textos. É difícil adaptar os
ensinamentos de Jesus acerca da maneira como reconciliar diferenças
pessoais dentro da estrutura da igreja de uma asa. Se o seu irmão pecar
contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro [...} Mas se ele não o
ouvir. leve consigo mais um ou dois outros [...} Se ele se recusar a ouvi-
los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o
como pagão ou publicano.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 133

Parece que existe um obstáculo grande demais entre levar um ou


dois consigo e o próximo passo que é levar o caso para a igreja. Esse
processo parece arrasador se usarmos os óculos de uma asa, em que a
reunião de domingo cedo é vista como a igreja, em que centenas ou
milhares de pessoas estão presentes. Imagine implementar esse proces-
so usando somente a definição do grupo grande como igreja. Quantos
casos de disciplina e confissão seriam levados para o culto de celebra-
ção no domingo cedo? É por isso que a disciplina, na maioria dos casos,
é ignorada na igreja tradicional. É simplesmente interruptivo e doloroso
demais praticar esse tipo de prestação de contas em uma atmosfera de
adoração no grupo grande.
Os ensinamentos de Jesus fazem perfeito sentido quando vistos
através dos óculos da igreja de duas asas. A igreja era o grupo pequeno
na casa que conhecia o problema e as pessoas envolvidas. Essas teste-
munhas viriam do próprio grupo. Se a pessoa não se reconciliasse diante
da célula, então uma disciplina mais severa era adotada naquele nível.
Isso significa que os ensinamentos de Jesus podem ser aplicados de uma
maneira natural. Forçar os ensinamentos de Jesus no contexto do grupo
grande, que é a nossa definição de igreja, não é algo natural, praticável
nem neotestamentário. Ao ignorar o grupo pequeno, perdemos a oportu-
nidade de aplicar muitos ensinamentos do Novo Testamento à vida de
uma maneira natural, em vez de aplicá-los arbitraria e artificialmente.

As REFEiÇÕES "ÁGAPE"

Em Atos 2.46, lemos que eles continuavam a reunir-se no pátio do


templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refei-
ções, com alegria e sinceridade de coração. A Ceia do Senhor era um
evento de grupo pequeno na igreja primitiva.
A refeição "ágape" era a refeição em memória de Cristo. Ele iniciou
a primeira Ceia do Senhor na sala do superior no formato simples da famí-
liajudaica, que ocorria após ocasiões especiais da família. O pão era que-
brado no início, e então o vinho era servido como um "brinde" no final da
refeição. Jesus deu significado espiritual a um evento familiar muito co-
mum. A informalidade e o calor pessoal dessa refeição não podem ser
duplicados em um contexto de grupo grande. Os cristãos primitivos eram
capazes de lembrar o Senhor da maneira correta porque eles estavam num
contexto de grupo pequeno. A lembrança da sua vida e morte, seu sustento
e sacrifício, seu habitar no meio deles e sua redenção por eles ocorria em
um ambiente familiar simples e informal.
134 A Segunda Reforma

Hoje, não temos o contexto para fazer o que Jesus pediu para fazer-
mos visto que só temos a reunião do grupo grande. William Barclay diz:

Não pode haver duas coisas mais diferentes do que a celebra-


ção da Ceia do Senhor na casa de um cristão do primeiro sécu-
lo e a celebração numa catedral do século XX. Essas coisas
são tão diferentes que é quase possível dizer que não existe
nenhum tipo de relação entre as duas situações.'

A prática da Ceia do Senhor no Novo Testamento sugere encon-


tros de grupos pequenos, a maneira principal de operação da igreja.

DONS EXERCIDOS EM UM GRUPO PEQUENO

A forma como os dons eram usados é mais uma prova irrefutável que
apóia a existência de grupos pequenos. Paulo diz: Quando vocês se reúnem,
cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revela-
ção, uma palavra em uma língua ou uma interpretação (I Coríntios 14.26).
Ele também diz que os dons devem estar sujeitos ao controle da igreja.
De acordo com a primeira carta de Paulo aos Coríntios, os dons de-
vem funcionar de tal maneira que cada um possa ter a liberdade e a oportu-
nidade de participar com um salmo, uma palavra de instrução, uma revela-
ção, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Contudo, Paulo
também espera que tudo isso seja feito com decência e ordem. Onde e como
a igreja pode se reunir para que haja a liberdade e a ordem necessárias para
o exercício dos dons espirituais?

..·.~~.!(u~qQe.s~r.~.cidaua~oogf.upo.&t~Q~ dons de
pregãção, de ensino ou adoração são apropriados ao ambiente do grupo
grande. O Novo Testamento também registra os dons de curas e milagres
sendo exercidos nos eventos públicos do grupo grande. No entanto, o ambi-
ente do grupo grande simplesmente não obedece ao critério da liberdade ou
ordem para o uso adequado de outros dons espirituais enumerados no Novo
Testamento.
Exercer dons espirituais somente no ambiente do grupo grande resul-
ta em uma postura extrema quanto aos dons de um tipo ou de outro. Na
reunião do grupo grande de algumas igrejas não existe nenhum tipo de li-
berdade para o exercício dos dons. O formato formal da adoração tem sido
cuidadosamente preparado ao longo dos anos para eliminar surpresas ou
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 135

embaraços pela inclusão de dons, exceto aqueles exercidos pelos profissio-


nais treinados. Em outras reuniões de grupos grandes, existe pouca ordem
para que os dons possam edificar a igreja como um todo. Os dons tornam-se
atividades pessoais que beneficiam principalmente os indivíduos que usam
seus dons pessoais dentro do corpo grande. Ou, o formato do grupo grande
pode exibir os dons de um ou alguns líderes altamente visíveis.
De que maneira uma pessoa pode estar sujeita à supervisão profética
no meio de uma multidão de acordo com a explicação de Paulo? Na maioria
dos cultos públicos onde se espera que os dons estejam presentes, os líderes
manifestam todos os dons do palco ou eles são feitos reféns de alguém da
congregação que exerce um dom sem o discernimento ou ordem. Essa é a
natureza do grupo grande. Esta certamente não é a descrição de Paulo do
uso dos dons no Novo Testamento.
C2. único contexto que n,'!tr~ ç eq'!l!iQtig.••.a...or.dem,e...aJiberdade,do
N..cml_Ie~tam~l1tQ,.nQ:exercíci&.,dosdoos~~b.ien.te..çlQ.gr.1!P.sLP~q~~no.
Nesse tipo de grupo, poucos são tentados a aparecer para o público (pelo
menos não depois da primeira vez) porque ninguém pode escapar da admo-
estação espiritual se eles usam um dom de maneira carnal ou não espiritual.
Por outro lado, no grupo pequeno existe a liberdade para o Espírito de Deus
derramar seus dons no meio do seu povo.

ÁQUILA E PRISCILA NA SUA IGREJA

Se Áquila e Priscila visitassem sua igreja por uma semana, o que


eles iriam encontrar? Eles iriam ver os elementos de vida que eles experi-
mentaram nos tempos do Novo Testamento? Eles certamente estariam
procurando encontrar o que eles experimentaram na igreja do primeiro
século. Sim, a doutrina seria a mesma, e eles certamente considerariam
isso importante em relação às igrejas modernas. Mas, será que eles seriam
convidados a vários lares onde Cristo está presente e relacionamentos são
desenvolvidos? Eles participariam da adoração e veriam outros não líde-
res expressando seu coração a Deus? Eles participariam de relacionamen-
tos de prestação de.~Dtas e transRarêncja.,.e.tomariaJn ..LCeia em um ambi-
~te familia.rtJ~!es veriam todos os membros exercendo seus dons, em
liberdade e ordem?
Eles certamente apreciariam o bom ensino e a adoração do grupo
grande, mas eles também anelariam experimentar a vida e os relaciona-
mentos do corpo de Cristo, experimentando a sua presença. Quando
eles vissem que isso também existia, participariam com alegria, porque
teriam encontrado o tipo de igreja que conheceram no primeiro século.

~
11
A TEOLOGIA DE LUTERO,
SPENER E WESLEY

A Reformafoi uma revolta contra a autoridade papal


mas não contra o conceito romano de igreja
como instituição.
- William R. Estep

O
modelo original da igreja tem aparecido em alguns lugares e
circunstâncias pouco promissores na história. Um punhado de
cristãos tem adorado a Deus no contexto da célula e da congre-
gação em cada período histórico. Mesmo alguns dos líderes mais famo-
sos consideraram ou chegaram a implantar a estratégia de células. Sem-
pre que a igreja, por causa da perseguição, foi forçada a sair de Jerusa-
lém, os cristãos voltaram ao padrão do grupo pequeno do Novo Testa-
mento

A NONAGÉSIMA SEXTA TESE DE MARTlNHO LUTERO

Martinho Lutero, o líder da primeira Reforma, pretendia refor-


mar a estrutura da igreja junto com a teologia da igreja. Lutero identi-
ficou três tipos de adoração em seu prefácio à The German Mass and
Order of Service (A missa alemã e sua ordem de culto).
A primeira, ele disse, é a missa em Latim, e a segunda é a liturgia
na língua alemã. Veja os comentários de Lutero a respeito do terceiro
tipo de adoração, que se parecem com os grupos caseiros do Novo
Testamento:

Essas duas ordens de culto devem ser utilizadas publicamente,


nas igrejas, para todas as pessoas, entre as quais há muitas
que não crêem e ainda não são cristãs [...] Essa ainda não é
138 A Segunda Reforma

uma congregação bem ordenada e organizada, na qual os cris-


tãos poderiam ser dirigidos de acordo com o evangelho [...]
O terceiro tipo de culto deveria ser uma ordem verdadeira-
mente evangélica e não deveria ocorrer em um lugar público
para todos os tipos de pessoas. Mas aqueles que querem ser
cristãos verdadeiros e que professam o evangelho com as mãos
e a boca deveriam assinar seus nomes e encontrar-se em uma
casa em algum lugar para orar, para ler, para batizar, para re-
ceber os sacramentos, e para fazer outras obras cristãs [...]
Aqui poderíamos estabelecer uma breve e simples ordem para
o batismo e o sacramento e centralizar tudo na Palavra, na
oração e no amor [...]
Em resumo, se tivéssemos o tipo de povo e pessoas que dese-
jam ser cristãos sinceros, as regras e regulamentações logo
estariam prontas. Mas como está, eu não posso-nem desejo
começar esse tipo de congregação ou assembléia ou de fazer
regras para ela, porque eu ainda não tenho o povo ou as pesso-
as para essa congregação, nem vejo muitos que a querem. Mas
se eu fosse requisitado para organizá-Ia eu não poderia, em sã
consciência, recusar isso, e alegremente faria a minha parte e
ajudaria da melhor forma possível. I

Reunir-se em grupos pequenos nas casas foi a tese "não escrita" de


Lutero, na qual ele acreditava, mas falhou em implementá-Ia. D. M.
L1oyd-Jones destaca que Lutero tornou-se depressivo à medida que a
Reforma avançava. Ele sentia que as igrejas que haviam concordado
com seus ensinamentos não tinham a verdadeira vida e vigor espirituais.
L1oyd-Jones escreve:

Uma outra coisa que agravou grandemente esse sentimento


[de depressão] nele era o fenômeno do Anabatismo [...] Ele
teve de admitir que havia uma qualidade de vida naquelas igre-
jas que estava ausente nas igrejas às quais ele pertencia. As-
sim ele reage de duas maneiras em relação a essas igrejas dos
anabatistas; ele precisa disciplinar seu povo contra elas, mas
ao mesmo tempo ele deseja ter em sua igreja o tipo da coisa /

que estava funcionando tão bem nas igrejas dos anabatistas. O


resultado de tudo isso foi que ele sentiu que a única coisa a
fazer era [...] reunir as pessoas que são realmente cristãs em
um tipo de igreja interna ou secreta.'
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 139

Lutero sabia que se ele reformasse o vin nbém teria


de re ormar os o res estruturais da igreja. O que impediu Lutero e con 1-
nUà'f'SUareiórrriá ao estito·de vida êfa Igreja e da sua teologia? D. M.
Lloyd-Jones acredita que foi o espírito de cautela, considerações políti-
cas, falta de fé nas pessoas das suas igrejas, e medo de perder o movimen-
to para os anabatistas.
Como seria a igreja de hoje se Lutero tivesse sido tão bem-sucedido
na área da estrutura e no estilo de vida como ele foi na área da teologia?
Podemos apenas especular, mas eu creio que a igreja seria significativa-
mente diferente. Lutero continuou a usar o modelo da catedral católica
como o odre para suas novas doutrinas, e esse odre vazava.

ENTRE LUTERO E WESLEY

Os grupo~ pequenos continuaram a aparecer mesmo depois que


Lutero decidiu usar a estrutura antiga da catedral. Doyle L. Young, em
seu livro criterioso New Life for Your Church (Nova vida para a sua
igreja), examina os grupos pequenos dentro do movimento ietista. Ele
faz um estudo excelente de Philip Jakob Spener, pai do pietJsmo 1635-
1705).
-.. O dr. Young mostra que "já el!l1669 Speger tinha enten9idp.9,ue.a
identidade da igreja requeria 9ue 0fclist~Sl~ Sx
encoptrassem regular- -
menfê erngrupõ'spééjüenos p:~~ar e ditc:el}~!r uns aos outros3~

1'.....
P'ârâ ·SrrieriSsô·"llãoérallUína es ra egla Eas ora m~~"~~~~
-' iiêc:SS-ffts da eclesiologia". Young cita as palavras de Spener: -
~;:;:-.~--:-." h .w , -":0>,,'_"''''

( É certo, em todo caso, que nós pregadores não podemos ins- ')
truir as pessoas dos nossos púlpitos tanto quanto é necessário ./
a não ser que outras pessoas na congregação, que pela graça ('
de Deus têm um conhecimento superior do cristianismo, se
esforcem em virtude do seu sacerdócio cristão universal, a
trabalhar conosco e debaixo de nossa tutela para corrigir e)
melhorar os seus vizinhos tanto quanto possível, de acordo
com a capacidade dos seus dons e da sua simplicidade.'

~pener começou essas reuniões em 1~7Q..ç.omo intuito de prover


e.,!lÇoralamemo mútuo e supervisão. Spener chamou seus gI apó3 ih ~
Collegia pietatis (encontros piedosos). Esses encontros piedosos ocor-
riam duas vezes por semana com a participação tanto de homens como
de mulheres. No início, o grupo discutiu o sermão do domingo anterior
140 A Segunda Reforma

ou leu obras devocionais. Mais tarde, os grupos focalizaram n,adiscus-


são das Escrituras.
----Os resultad~ não foram como Spener esperava. Houve dissensão _
em alguns ~º-~ue desenvolveu uma oposição da ig-rejainstitucional
--[iJter:ãiíã-estabelecida com o apoio governamental. Isso atrapalhou o mo-
vimento. Em Frankfurt, o cons_~Jhº--.c!ª-_sic!ad~_!l~Q_permiti"qqe os gru- _
pos se reUnTssemji~.s..J::ãSás~---Spener percebeu que quando os grupos
-rerornãrãmpârãâ"ígrejii""'; eles pararam de falar abertamente nas reuni-
ões. Isso foi, para todos os propósitos práticos, a morte da experiência
de uma teologia e estrutura reformadas.

A AMEAÇA DA "VERDADEIRA" IGREJA

~ lJ1ovi!:P!n.~k1;jstª., os membros dos grupos pequenos não


deveriam considerar sua comunhão nos grupos a verdadeira igreja quando
comparada com a igreja institucional. A essa altura, Spener pode ter
feito uma concessão à igreja catedral. ~ua teologia certamente conside-
rava 9s ~rul2os pequenos como sendo i~re~. No entanto, suas declara-
~s públicas levarâmemconta que sua abordagem iria intimidar a es-
trutura existente. Portanto, Spener usou declarações que o status quo
existente achasse menos ameaçadoras. A~!.l.!!~!...!l~~..w~oIiMI~i!íiIoIoIlIiiI.-.. •••••
para aquilo qu,~...,Sl.'J~W~.l#WJ,~~\;/;:,.t,\\J,.üu.~"JJ.l~.pi;ô<~~~~.Ii.{;,w?':~,..,,,.
-peqtrerrósúm anexo à igreja existente ~.!!.~2~~.!1J.9.},,j.w_p~.
'- ~ ''Spelrer'fôlv'íti'fhãdêlimãdetiiífção inadequada dos seus próprios
grupos pequenos. Vistos como menos dp guç ymª~~a ~~alew§ pãO
pu~e~alll~~brevl~.er ~~~ndo velo~~_?R~~çãO da. igreja tradicional,_H~~_
exigia ser considerada a igreja verdadeira. A partir dos seus escritos, .
vemóS' q'lle""S'peherhUiTtã [éilelmrãvãq7i~essas ecclesiole in ecclesia
(pequenas igrejas dentro da igreja) substituíssem a igreja institucional.
Ele projbi",acel~8ra~Q dQ&,,@~,rameDtosnos grupos caseiros. Em Pia
Desideria, Spener escreveu que os Collegia deveriam ser: •

instrumentos por meio dos quais a igreja novamente seria le-


vada a refletir a imagem da comunidade cristã primitiva [...]
Seu propósito não era separar os cristãos "verdadeiros" dos
outros e imbuí-los com uma auto-imagem farisaica.'

Tenho grande apreço por Spener. Aqui estava um homem com uma
visão de renovação do estilo de vida da igreja dos seus dias. Ele sabia
que a reforma da teologia tinha alguma coisa que ver com a reforma da
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 141

forma da igreja. Ele procurou implementar o que chamou de um "moti-


vo bíblico crucial". Mas ele chocou-se com a estrutura institucional de
um dia por semana dos seus dias, que era protegida pelo governo.
Conseqüentemente, Young diz que em 1703 (33 anos depois do
início dos Collegia ou grupos pequenos), Spener tinha se tornado cínico
e cauteloso em relação aos grupos e não estabeleceu mais nenhum gru-
po quando se mudou de Frankfurt. Mas precisamos dar crédito a Spener,
porque ele tentou implementar uma estrutura nova, algo que Lutero dei-
xou apenas como uma boa consideração teológica. ~--~
-----'
OS ODRES NOVOS DE JOHN WESLEY

Samuel Wesley, pai de John e Charles, começou a construir o fun-


damento para um tipo de sociedade religiosajá em 1701-1702. Susannah
Wesley, mãe de John e Charles, começou uma reunião em sua casa que
cresceu tanto a ponto de Samuel, que estava longe devido às suas repe-
tidas viagens a cavalo, ficar alarmado e pedir para ela parar com as
reuniões. Ela escreveu a ele resumidamente: "Se você deseja estar em
conflito com a vontade de Deus, eu vou obedecer a você em vez de a
Deus".
John Wesley finalmente deu forma e força ao movimento. Howard
Snyder, em seu livro The Radical Wesley: Patterns ofChurch Renewal
(O Wesley radical: padrões para a renovação da igreja) escreveu crôni-
cas a respeito da ação de Wesley em relação a uma igreja como grupos
pequenos. Wesley na verdade estava restaurando um padrão do Novo
Testamento para a igreja dos seus dias. Snyder escreve de Wesley:

As comunidades (ou sociedades) metodistas eram divididas em


classes e turmas. Talvez fosse mais correto dizer que as comu-
nidades eram a soma total dos membros das classes e turmas.
Para fa~~r 2~.rte,@.§oÇij~.Qª"~.E':~~~~ precisavam primeiro
s~mbros de uma classe onde se experimentava úrri -niVel
máis.·íntimodê§9íTI~~grrL
Asfêúniõêsdas classes formavam a pedra fundamental de todo
o edificio. As c1as~~.Jllly.erdade eram.igreias.nascasas (não
classesR,!r~Til§fri!~~.çQmº.O termo pode dar aentender), reu-
nindo-se em vários bairros onde as pessoas moravam [...]
As classes normalmente se reuniam uma noite por semana em
torno de uma hora. Cada pessoa falava acerca do seu progres-
so espiritual ou de necessidades ou problemas pessoais, e re-
142 A Segunda Reforma

cebia o apoio e orações dos outros. "Conselhos ou repreensão


eram dados de acordo com a necessidade, rixas eram solucio-
nadas e desentendimentos removidos: E depois de uma hora
ou duas nessa tarefa de amor, eles concluíam com oração e
ações de graça".'

WESL.EY E A IGREJA TRADICIONAL

Alguns líderes tradicionais acusaram Wesley-4e.~.Q~iSQ~


ou cismas ao colocar membros da igreja em classes. Evickl1têiliente, ele
foi acusado de "form~~.~E~j~~,Íi[~ii.". No vernáculo moderno, ele
_~stava sendo aCU.s:m9Ç1t::r:gubarovelhas. Ele negava isso categorica-
mente! Sua resposta era a seg~liilte:"'S~_yocê~~rem dizer que apel~
estamos reunindo pessoas das construções chamadªs~!QJ;:u
concordo. Mas se vocês querem dizer que estamos separando cristãos
de cristãos, e dessa forrriadestruindo a comunhão cristã, então eu não
concordo"."
Se procurarmos verificar o motivo do sucesso de Wesley em esta-
belecer um movimento em células onde outros falharam, percebemos
que tem que ver com a sua compreensão da natureza dessas "classes".
Esses grupos pequenos (classes) funcionavam como a igreja. Eles reali-
zavam o que a igreja deveria realizar. Quando veio a oposição, Wesley
não foi distraído pela igreja tradicional que se considerava a verdadeira
igreja. As classes eram a verdadeira igreja para Wesley e, por isso, rece-
biam a sua atenção especial. Essas classes funcionavam com a autorida-
de do corpo de Cristo. Visto que Wesley colocava um propósito espiritu-
al e uma natureza doutrinária tão elevada nas suas classes, elas puderam
opor-se à resistência da igreja tradicional.
W~~Lty_'protegeu seus grupos, pe51l!,e,:,
..1.:..1O~~s~~gu;.;:e~e~~~~,,~.~-_
identificou-os como o.coração doseu movimento. Ele simplesmente
.tão 3êsperdiçava seu fempó'-é6m pes;';'âs que não participavam da co-
munidade (ou sociedade). Ele escreveu no seu diário em 26 de maio de
1759:

Eu encontrei a pequena comunidade da qual eu havia partici-


pado por dois anos aqui e que logo havia se fragmentado em
pedaços. No período da tarde eu me encontrei com diversos
membros das sociedades de oração: e mostrei a eles o que
significa a comunhão cristã e a sua necessidade dela. Cerca de
quarenta deles se reuniram comigo no domingo, dia 27, na
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 143

igreja do sr. Gillies, logo após o culto noturno. Eu insisti que


se reunissem com o sr. Gillies semanalmente, no mesmo horá-
rio e no mesmo local. Se isso for feito, eu estarei disposto a
ver Glasgow outra vez: Se não, posso empregar meu tempo de
uma maneira mais frutífera."

\y~.~ley~e?lIlT!illsua atitude em relação às "classes" em uma carta:


l).iW.sereunirem. em,s;.la,s.Sce.s ..uão.+1Qdemii.çªr,,ÇQJ1..Q~9,9',',:. 8 A
"A...'l~eLe..~~~Y~
ênfase e obra maior de Wesley foi desenvolver a igreja nesse nível de
comunidade. A vida de Wesley mostra que Deus sempre procurou resta-
belecer sua igreja segundo o modelo de grupos pequenos do Novo Tes-
tamento. George Whitefi~Ld, um evangelista notável, contemporâneo de
Wesley, taiTIõem entenêFeu a Importância dos grupos pequenos. Durante
o avivamento wesleyano no século XVIII, na Inglaterra, Geoge Whitefiled
escreveu aos seus convertidos:

Meus irmãos [...] contemos simples e livremente uns aos ou-


tros o que Deus tem feito por nossa alma: ~E~).ê~sg_.Y5~S§§..ÜU:i~"
am bem, como outros têm feito,~I11~~"y!).ir~m.e.m peqtlt;:n9~.
grupõsdé'quatro ou cinco cada, reun indo-se .uma vez por se-
mânaparadizerem uns ao~ outros o queestá em seu coração;
'de modo que vocês então também possam confortar-se e orar
1'i'rlspelós outros sempre que sefizernecessáriolNinguém que
'hão o tenha experimentado pode saber das indizíveis vanta-
gens de tal união e comunhão de almas [...] Eu creio que nin-
guém que realmente ama a sua alma e os seus irmãos como a
si mesmo se acanhará em abrir seu coração, a fim de que obte-
nha o seu conselho, repreensão, admoestação e orações, con-
forme a ocasião. Uma pessoa sincera o estimará como uma
das maiores bênçãos."

POR QUE FICARAM AQUÉM DO ALVO?

Onde esses esforços falharam em estabelecer um movimento de


igreja em células auto-perpetuante? ~t<?rjçi).l1len~lllovimentos.de gru-
pos pequenos têm sido enfraquecidos em dois pontos; Primeiro, oslíde-
res de igreJa~.!.I!~~cionais resistiram à idéia de ser uma ig;';I;dife'~~~t~~ ,.
~~osmovil11.e.nto~ novos. A.plicanã6 isso aos dias de hoje, um
..grupo de autores modernos.escreveu a respeito de grupos pequenos: "O
obstáculo principal para a proliferação das células nos Estados Unidos
144 A Segunda Reforma

não é a faltade adaptação àcultura ocidental mas é a dificuldade


".-:,.-,-._ _ de
>_._....,:~
supel1\Lf!:.f@sistêm;ia
"...-
à inQ~a&.ãopor parte de uma instituiy'-ãomuito tradici-
.'."'- •.•:..J:<'t"'~_-..._,_"t••~~ .•.._. -..,"--' ... --.--.-...----~_.- .-- - ._-

~o//;" .
O segundo ponto de enfraquecimento foi uma compreensão teoló-
gica.~~Çlll&daJiaJ)iitl!~~~E~s"gl"llPPspequêj;os por parte ~~S""" .ªQ~
'J!2P1!leJJ.te,s...
Com a exceção de WesTê)i,i,lfl1ha aoslldere~s,fo).J1~g;,S~:' __
'),.
nar gu~e$~,~uposeram.
~~'il,izb":""..
na verdade a igreja. "', ,.... ~ -~'."•.:.•.
,-~_.:-
.•."".,~..:::.,.;,<-~.•.~
" Lutero, Spener e Wesley definiram corretamente o vinho da teolo-
gia e da doutrina em relação aos grupos pequenos. Eles falharam ou na
sua compreensão das estruturas tradicionais ou na sua provisão para que
os grupos se relacionassem com as estruturas tradicionais existentes de-
pois da saída de uma liderança forte.
12
o CRISTIANISMODO
PESCOÇO PARA CIMA

Tem de haver alguma coisa que o mundo


não possa descartar pela explicação dos seus métodos
ou pela psicologia aplicada.
- Francis A. SchaefJer

Q
uando O filho de Daniel B. Wallace foi acometido de uma doen-
ça que ameaçava a sua vida, esse professor de seminário apren-
deu algo acerca da necessidade de experimentar a proximidade
e a vitalidade de Deus. Em suas palavras: "Foi essa experiên-
cia do câncer do meu filho que me trouxe de volta ao meujuízo, de volta
às minhas raízes".
Ele fala em nome de multidões dentro da igreja que lutam por vida
na realidade do poder e presença pessoal de Deus. Meu coração foi ao seu
encontro porque tenho experimentado a mesma sequidão. O que nos se-
para de um Pai presente e carinhoso? Como acabamos parando num lugar
onde passamos por o que ele chama de um "exercício puramente
cognitivo"?
Na revista Christianity Today, o dr. Wallace compartilha os seguin-
tes sentimentos no seu artigo, Who s Afraid ofthe Holy Spirit? (Quem tem
medo do Espírito Santo?):

No meio desse "verão infernal", eu comecei a examinar a mi-


nha fé. Percebi que existia um desejo de aproximar-me de Deus,
mas tambérn.:peE5bi q.ue era incapaz de ~lcans.~r isso por meio
dos mells prÓprios meios' exegese, leitura.dll~çscrijllras, mais
exegese. çu creio qU.t?c:tespersonalizeiDeus a tal ponto que quan-
do eu realmente precisei dele eu não sabia como relacionar-me
com ele. Eu anelava por ele, mas senti muitas restrições em

145
146 A Segunda Reforma

r~illLLG.Q!ll.!ll!idade em meualllb.~en,!t:_c__e~~as~igcist.a,Senti
uma sufocação do Espírito em minha tradição evangélica bem
como em meu coração.
A ênfase do conhecimento sobre o relacionamento produziu em
mim uma "bibliolatria". Para mim, como professor do Novo
Testamento, o texto é a minha tarefa - mas eu o tornei o meu
Deus. O texto havia se tornando o meu ídolo [...]
O efeito de rede dessa "bibliolatria" é uma despersonalização
de Deus. Em dado momento.jánão ncsrelacionamcs maíacorn
ele. Deus setorna o objetoda nossainvestigação no lugar do
Senhor a quem nos sujeitarnos: 'Ã'vitáTidáde dii 110ssa~êliglãô
acaba sugada, À medida que dissecamos Deus, nossa postura
muda de "Eu confio em ..." para "Eu acredito que ...",1
- - - ..
~-_--!..-
O dr. Wallace resume a obra de Deus com a descrição da imanência
de Deus: "Ao buscar o poder de Deus, eu descobri sua pessoa. Ele não é
somente onipotente; ele também é o Deus de todo conforto". Não deverí-
amos nos surpreender de que todos nós estamos à busca de significado na
vida. A dor do vazio espiritual pode ser encontrada no banco da igreja, no
púlpito e na cadeira de mestre,

DUAS DISTORÇÕES DA NATUREZA DE DEUS

A igreja do fim do século XX e começo do século XXI está agora


experimentando a proliferação do 9.~ismo,e,do PaJ)'~Sll1o. O UI;.~W."'·"'·"-
(humanismo secular) resulta de uma osi ã<?...t?~1rMua.J;!..çHs..~a
t~~~Jls.!fu1fÜL9t:-º~;!~.:.~J:I,~,~.S!ªtotª. me!'!t.e::}.I~.QUioJlO.menle
• .pQtlID1r
t~~!~gJ29.<:Ie 9
.S.e.F.e.~perimenta<:!9:universo se move por conta própria"Q.-
panteísmo (nova era, misticismo oriental, ocultismo) resulta de ':IJll.ªlJ..Qsi-
-çã'õ ex!re.~_adajmal1êuçla d~_I?_eu~.~~~erDe~~.~~~2~,':í~.d~s.~lHI!~ive!:,
so e todas as coisas como parte de Deus-:Essas duas filosofias estão preva-
lecend~-dentro eforada igreja atllal.Em uma das filosofias (deísmo/
humanismo secular) Deus está longe demais. Na outra (panteísmo/nova
era) Deus está próximo e familiar demais. Sua identidade é absorvida em
sua própria criação, assim a realidade de Deus como uma Pessoa (a Pes-
soa) é perdida, J. Rodman Williams descreve o deísmo e o panteísmo da
seguinte maneira:

O deísmo deveria ser cuidadosamente distinguido do teísmo. O


teísmo, diferente do deísmo, vê Deus se envolvendo no mundo,
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 147

conseqüentemente milagres podem ocorrer. O cristianismo his-


tórico é teísta, não deísta. O teísmo está, por assim dizer, entre o
deísmo e o panteísmo. O teísmo ressalta a transcendência de Deus
como o deísmo, e enfatiza a imanência de Deus como o panteísmo
- mas sem os extremos de ambas as filosofias. O deísmo é a
transcendência absoluta (Deus completamente removido do mun-
do); o panteísmo é a imanência absoluta (Deus completamente
equivalente com o mundo). O teísmo, conforme expresso na fé
cristã, afirma tanto o "totalmente outro" de Deus como o seu
envolvimento: Ele é o Criador e Sustentador, Autor e Redentor.'

Francis Schaeffer foi uma voz profética advertindo acerca da


cosmovisão secular humanista que invadiu a igreja no século XX:

Nossa geração é preponderantemente naturalista. Há quase com-


pleta rendição ao conceito de uniformidade das causas naturais
numsistema fechado [...]
De acordo com a idéia bíblica, a realidade consta de duas par-
tes: o mundo natural- que normalmente vemos; e a parte so-
brenatural.'

De acordo com Schaeffer, quando usamos a palavra "sobrenatural",


devemos ser cuidadosos:

Do ponto de vista da Bíblia, a parte "sobrenatural" não é, na


verdade, mais incomum no universo do que aquela que costu-
mamos chamar de natural. A única razão por que a denomina-
mos sobrenatural é que normalmente não a podemos ver. Isto é
tudo. Do ponto de vista bíblico [...] a realidade compõe-se de
duas metades, como duas metades de uma laranja. Não se pode
ter a laranja completa se não se têm ambas as partes. Uma parte
normalmente se vê (natural); a outra normalmente não se vê
(sobrenatural).'

De que maneira o ensino de Schaeffer acerca do humanismo secular


se encaixa em uma discussão a respeito da transcendência e imanência de
Deus e a estrutura da igreja? Justamente neste ponto! Quando a igreja não
tem uma forma equilibrada por meio da qual pode apresentar uma ima-
gem verdadeira da natureza de Deus, o resultado será um deísmo intelec-
tual prático (hll':!:l~~ismose_cular) ou um panteísmo supersticioso (nova
148 A Segunda Reforma

era, misticismo oriental, ocultismo).


As estruturas e formas que refletem meias verdades acerca da natu-
reza de Deus têm servido de solo fértil para o crescimento do humanismo
secular e uma série de ensinamentos distorcidos.

VERDADE

Figura 3. Medidor da verdade

QUEM DEVERÍAMOS CULPAR?

Por que esse "sufocar do Espírito?" Por que a igreja vai de um extre-
mo ao outro entre o intelecto e a experiência? E por que tantas pessoas
que cresceram dentro da igreja mudam de navio?
O erro básico da igreja atual começa com a natureza de Deus. Quem
é Deus e como ele se relaciona com a sua criação? É ele um Deus fabrf,:"-
cante de relógios que colocou as leis científicas em movimento e então foi
embora? É ele um Deus que vive num outro mundo espiritual, e que está
desligado do mundo físico real no qual o homem vive? É comum hoje
culpar os teólogos ou filósofos alemães pelas mudanças irregulares do
intelectualismo para o ernocionalismo, e dizer que eles destroem a fé dos
membros da igreja com ensinamentos liberais.
Devemos também culpar-nos pelo nosso vácuo espiritual. Podemos
nos apoiar em uma predisposição ao estudo acadêmico ou em uma ten-
dência de ministrar por ou para Deus sem um relacionamento CO/ll Deus.
Isso resulta inevitavelmente em nossa despersonalização de Deus~ Pode-
mos tornar-nos estéreis espirituais mesmo com uma teologia ortodoxa,
um amor pela Palavra de Deus, fidelidade para a igreja e uma vida
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 149

devocional pessoal.
O problema não está na teologia errada ou na insinceridade. O pro-
blema é o sistema. Quando estamos passando pelo "verão infernal", pre-
cisamos da presença imanente de Deus com todo o seu cuidado e conforto
pessoais. Esse tipo de relacionamento é construído e mantido ao longo
dos anos na vida em comunidade com Deus e com os companheiros cren-
tes. Quando temos nossos pesadelos, Deus deve estar pessoalmente vivo
em nós, tanto individualmente como na comunidade.

o PROJETO SIMPLES DE JESUS É ESSENCIAL

Jesus, conhecendo o coração do homem, planejou sua igreja de tal


forma a superar a tentação do homem de intelectualizar o cristianismo em
uma fi los~fia humanista (deísmo) ou em experimentalmente distorcer o
cristianismo em uma superstição (panteísmo).
A corrente evangélica da igreja parece enfrentar maior perigo do
intelectualismo bíblico, resultando em uma ortodoxia sem vida. A corren-
te~ca~isn1ática da igreja está correndo maior risco em relação à experiên-
ci1Çonde o emocionalisrno se torna mais importante do que a revelação
bíblica. Pode parecer simplista, mas eu creio que a solução é a mesma
tanto para a corrente evangél ica como para a corrente carismática, ou seja,
o retorno para o projeto de igreja do Novo Testamento de Jesus tanto nos
relacionamentos do grupo grande como do grupo pequeno. A igreja deve
começar a viver outra vez a mensagem do Novo Testamento de acordo
com o método do Novo Testamento tanto nos grupos grandes como nas
células.
A igreja não pode experimentar a Deus, como no primeiro século,
sem a estrutura básica da igreja do Novo Testamento. Parte do sufocar do
Espírito vem porque a igreja abandonou o projeto de comun idade da igre-
ja de grupos pequenos por meio dos quais Jesus promete estar conosco.
Com base na minha experiência pessoal, eu creio que a cura da "secura
acadêmica" em nossa alma é encontrar Cristo com dois ou três irmãos e
irmãs cristãos como a igreja, seu corpo. Semelhantemente, a resposta para
o emocionalismo desenfreado que usa mal e abusa dos dons espirituais é
o mesmo - a prestação de contas no grupo pequeno.
Precisamos do modelo de igreja do Novo Testamento, em que nos
reunimos como "igreja toda" e como "igreja na casa". Precisamos dos
dois aspectos, não por causa de alguma limitação por parte de Deus, mas
por causa da nossa própria limitação quando experimentamos Deus. O
ambiente do grupo pequeno sempre nos lembra da proximidade de Deus,
150 A Segunda Reforma

do seu cuidado, do seu conforto íntimo. Ele provê uma comunidade calo-
rosa e íntima, onde Cristo está em nosso meio e nós somos unidos em
nossas dores e alegrias mútuas.
No céu, a limitação humana não vai atrapalhar como experimenta-
mos Deus. Ali, não seremos impedidos pela nossa inabilidade de relacio-
nar-nos com uma multidão de pessoas ou de relacionar-nos com Deus em
sua transcendência. "Vou conhecê-lo como sou conhecido". Mas até esse
tempo chegar somos dependentes no nosso relacionamento com Deus de
três maneiras:

~'eu encontro Deus como indivíduo;


.~eu encontro Deus na massa, com um grande número de pessoas;
~eu encontro Deus na comunidade, com um número menor de pes-
soas.

A FIGURA DISTORCIDA DA IGREJA

o diagrama na Figura 4 expressa a manifestação transcendente e


imanente de Deus para a sua igreja no seu contexto de grupo grande e

Estamos Estou
em em
Cristo Cristo

peq~7
G"~

Cristo
está em
mim

Figura 4. A figura distorcida


A Igreja do Novo Testamento no século )(){f 151

pequeno. Observe: Deus proveu um meio para que o homem o experi-


mente em sua transcendência e imanência tanto no contexto pessoal como
no corporativo. Cristo está em mim. Essa é minha experiência pessoal
com o Deus imanente. Estou em Cristo. Essa é minha experiência pessoal
com o Deus transcendente. Nós estamos com Cristo. Essa é nossa experi-
ência corporativa do grupo grande com o Deus transcendente. Cristo está
"em nós/conosco". Essa é nossa experiência corporativa do grupo peque-
no com o Deus imanente.
Tire o quadrante inferior esquerdo desse diagrama, e você tem a
imagem da igreja incompleta dos últimos 1.700 anos. Exceto raros perío-
dos históricos, a igreja de uma asa não tem tido a oportunidade de experi-
mentar c expressar Deus em sua proximidade imanente em uma dimensão
de grupo pequeno. Isso tem distorcido seriamente nosso relacionamento
com Deus como indivíduos e a forma como o mundo percebe Deus.

POR QUE ELES ESTÃO DEIXANDO A IGREJA?

De acordo com um novo estudo, "A 'geração perdida' dos baby


boomers, que abandonaram o protestantismo histórico nos anos 1970 e
80. não vão voltar, e suas igrejas vão exercer uma influência ainda me-
nor sobre os seus filhos".
Nossos próprios membros e seus filhos que em determinado tem-
po sentaram nos bancos das nossas igrejas abandonaram a igreja em
números alarmantes. Por que eles nos deixaram?
Embora eles possam ter nos deixado, muitos não abandonaram a
Deus! Eles deixaram nossas estruturas de igreja impessoais que eram
inadequadas para colocá-los em contado com um Deus real envolvido
na vida real. Nossa estrutura de igreja de uma asa deu a eles uma ima-
gem incompleta de Deus, uma imagem de um Deus distante e inacessí-
vel. Essa estrutura deu a eles um Deus institucional, cheio de regras c
legalismo, não de amor; um Deus de prédios e comitês, não de relacio-
namentos; um Deus de transmissão de informação, não um Deus de trans-
formação experirnental; um Deus de transformação de comportamento,
não de santificação espiritual; um Deus de emocionalismo, não de po-
der espiritual.
Por que eles deixaram a igreja? Benton Johnson, um professor em
sociologia da Universidade de Orcgon, sugere: "O motivo é simples: A
igreja simplesmente não faz nada por eles".' De que maneira a igreja
está falhando para com eles? Parece que o problema não é a falta de
informação. A igreja de uma asa tem disseminado informação a respeito
152 A Segunda Reforma

de Deus a eles. A igreja também não falhou em entretê-los. A igreja nas


últimas duas décadas tem sido marcada pelo gigantesco apelo na área de
entretenimento. No entanto, a igreja tem sido incapaz de tornar Deus
vital para a vida deles no dia-a-dia.
O_homem não cons.eg!:letoIerél!ll,all~~ncia de Deus?~?por
muito tempo. Se a igreja não vive em sua presençacomo o Deus "próxi-
mô'\elltão o lTI.üõdovai pr§p"õdiltê Iectlíaimerií-é seu prÓprio çJ~L1s.~:.@:~
bricariféde relógios", e vai reverter experimentalmente ao panteísmo,
ou vai alienar-se. O mundo é assustador demais sem Deus e nãó' faz
sentido sem a presença do aspecto espiritual dentro do mundo físico.
Portanto, o homem vai dar o salto da fé da razão (deísmo intelectual)
para a experiência e sentimento (panteísmo espiritual).
O resultado final é que uma grande parte da igreja, embora conhe-
ça a respeito de Deus, não experimentou o poder de Deus na sua vida
pessoal. O relacionamento com Deus foi sacrificado no altar do conhe-
cimento acerca de Deus. Conseqüentemente, a comunidade foi sacrificada
para dar lugar à experiência individual. A cultura informativa do grupo
grande da igreja de uma asa tem pouco significado ou traz pouca espe-
rança para as "coisas difíceis da vida", de acordo com Francis Schaeffer.

Não faz sentido dizer que você tem uma comunidade e que há
amor uns pelos outros se a igreja não trata das coisas difíceis
da vida [...] Estou convencido.de.que no século XX as pessoas
em todos os lugares do·mundoDão~stª,Qinteressaclas se temos.
a doutrina certa ou a política certa, mas seestamos vivendo "_'.''''''''''
comun idade. 6

Acabamos expressando com o Professor Wallace um sistema


cognitivo de crença: "Eu acredito que ..." em vez de viver em um relaci-
onamento pessoal que diz "Eu confio em ..."

PEQUENAS ATADURAS NÃO VÃO FUNCIONAR

Algumas igrejas, depois de pesquisar o que a geração contemporâ-


nea quer, estão tentando dar às pessoas a experiência que elas pedem. A
estratégia é "embelezar" a igreja de tal forma que os membros recebam
mais experiência e menos conhecimento. No entanto, sem a comunhão
transparente de um grupo pequeno do Novo Testamento, a igreja não vai
ser mais bem-sucedida do lado experimental do que foi quando ressalta-
va o conhecimento.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 153

Em seu livro What s Gane Wrong with the Harvest? (O que deu
errado com a colheita?), Engel e Norton concluem: "A resposta não se
encontra na renovação de formas antigas, porque isso muitas vezes é
apenas lima tentativa de colocar uma pequena atadura nas feridas exte-
riores da velha casca".'
Pequenas ataduras (band-aids) não resolverão o problema! O pro-
blema é o sistema em si. Não importa quantas vezes a igreja responda às
necessidades detectadas dos seus membros por conhecimento ou por
experiência, o problema não vai ser resolvido. A solução para o proble-
ma não se encontra nas necessidades detectadas dos membros ou des-
crentes. Jesus já resolveu o problema das mudanças súbitas entre o co-
nhecimento e experiência. A igreja precisa ser o corpo de Cristo, por
meio do qual ele vive e se revela a si mesmo com grandeza transcenden-
te e conforto imanente.
J
PARTE III
,
o PROJETO REVOLUCIONARIO
DE JESUS PARA A IGREJA

/1'. '
Existe um novo estilo de vida na igreja que é tão bíblico que
precede a igreja [moderna] como a conhecemos, mas é tão
"futurista" que não pode ser colocado em "odres velhos ".
- Ralph Neighbour
13
A PEDRA FUNDAMENTAL DE JESUS

Se Deus, como cremos, está verdadeiramente


revelado na vida de Cristo, a coisa mais importante
para ele é a criação de centros de comunhão amorosa,
que por sua vez contagiem o mundo.
- Elton Trueblood

c ada evento importante na vida de Cristo ocorreu em algum con-


texto de comunidade. Na maioria das vezes, foi em um contex-
to de grupo pequeno. Jesus veio do céu onde participava de
uma comunidade formada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito - o origi-
nai "dois ou três reunidos". Ele nasceu e cresceu até a idade adulta numa
família judaica, uma comunidade de José e Maria. Ele foi batizado no
rio no meio da comunidade dos seguidores de João. Por três anos e meio,
ele viveu com doze líderes que eram sua comunidade especial. A trans-
figuração foi experimentada em comunidade quando Pedro, Tiago e João
foram com ele para o monte, onde o seu semblante foi transfigurado.
Quando a cruz estava cada vez mais próxima, as experiências que
ele teve em comunidade tornaram-se ainda mais importantes para ele.
No cenáculo, Jesus lavou os pés dos discípulos. Ele os ensinou, deu
exemplo no servir e passou com eles a sua morte e ressurreição, tudo
nUI1l ambiente de comunidade. Ele os levou até o jardim do Getsêmani
para um último momento de oração em comunidade.
Ele foi crucificado com a comunidade de salteadores na cruz, sen-
do contado entre transgressores. Embora em confusão, em afl ição e re-
duzida em número, a comunidade aguardou ao pé da cruz. As mulheres
permaneceram com ele até o terrível fim como uma comunidade sofre-
dora, mas ao mesmo tempo fazendo o que era necessário para dar con-
forto e preparar o seu corpo para o sepultamento.
Esse pequeno grupo permaneceu junto como uma cornun idade as-

f 57
158 A Segunda Reforma

sustada durante aquelas horas em que Jesus estava na sepultura.


Fragilizado? Sim! Amedrontado? Sim; mas ainda unidos em comunida-
de. As mulheres trouxeram notícias a respeito do Cristo ressurreto para
a comunidade amedrontada.
As aparições do Cristo ressurreto ocorreram na maior parte em um
contexto de comunidade. Os dois discípulos a caminho para Emaús o
reconheceram como aquele que havia quebrado o pão com eles na mesa
em comunidade. Na primeira aparição no cenáculo, Jesus revelou-se
para a comunidade como alguém "mais do que um espírito". Uma sema-
na mais tarde, novamente no cenáculo, ele apareceu à comunidade de fé
e soprou o seu Espírito sobre eles. Todas essas aparições ocorreram em
ambientes onde seus corações haviam se unido ao dele em comunidade.
Ele apareceu a eles como um grupo pela terceira vez à margem do
mar onde eles estavam pescando. Ele preparou peixe sobre brasas, e um
pouco de pão para os discípulos e encorajou-os e ensinou-os naquela
manhã como uma comunidade.
A festa da ascensão de Jesus no monte ocorreu diante de uma co-
munidade grande, com mais de 500 pessoas presentes (1Coríntios 15.6).
Dez dias mais tarde, enquanto estavam todos reunidos no andar superi-
or, unânimes, o Espírito prometido caiu sobre aquela comunidade. Não
é de admirar que os primeiros cristãos se dedicavam [...} à comunhão
depois da sua ascensão (Atos 2.42). Comunidade foi o seu contexto de
convivência com Cristo por mais de três anos.

GRUPOS MARIA E MARTA

Jesus estabeleceu a igreja como uma comunidade durante o pri-


meiro século - edificada em torno de um relacionamento pessoal com
ele. E!l(Lücas 1 0.38-42..jesus deu um exemplo do foco dessa comuni-
dade na história de Maria e Marta:

Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um po-


voado, onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua
casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ou-
vindo a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com mui-
to serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: "Senhor, não
te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o
serviço? Dize-lhe que me ajude!". Respondeu o Senhor: "Mar-
ta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coi-
sas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 159

parte, e esta não lhe será tirada ".

As ações dessas irmãs representam dois modos de se relacionar


com Cristo:

o modelo de Marta: Realizações para Cristo

• Realize um serviço para Cristo


• Espere que outros aj udem você a fazer algo para Cristo
• Faça alguma coisa acontecer para Cristo
• Prepare-se para a presença ou vinda de Cristo
• Organize tudo de maneira agradável para Cristo
• Coordene a agenda de Cristo
• Esteja tão ocupado para o Senhor a ponto de distrair-se
• Veja Cristo apenas de passagem, enquanto você faz o seu trabalho
• Reclame para Cristo acerca do serviço dos outros
• Cumpra suas tarefas mesmo que os relacionamentos sofram
• Acima de tudo, focalize no que é secundário

O modelo de Maria: A pessoa de Cristo

• Entre na presença de Cristo


• Assente-se aos pés de Cristo
• Olhe para a face de Cristo
• Ouça a voz de Cristo
• Receba o poder de Cristo
• Espere Cristo curar todas as suas machucaduras
• Sinta o toque suave de Cristo
• Conheça a aceitação incondicional de Cristo
• Descanse no amor de Cristo
• Seja uma criança nos braços de Cristo
• Usufrua a liberdade de Cristo
• Entregue todo medo a Cristo
• Lave os pés de Cristo (João 13,1-8)
• Realize a vontade de Cristo como um transbordar da presença dele
• Acima de tudo, focalize no que é melhor

TAREFAS - ou CRISTO?

Marta pode ser a pessoa mais defendida da Bíblia: não diga nenhu-
160 A Segunda Reforma

ma coisa negativa de Marta ou você será censurado com comentários do


tipo: "Ela está servindo"; "Se todos estivessem sentados somente medi-
tando, nada acabaria sendo feito"; "Alguém precisa fazer o trabalho!".
Em~ sermÕes a respeito desse texto, Marta-€-elevada-àsan-
_tidade. "As mãos.de Marta e o ccraçãc.de Maria" _'pode seLl!!n.__ .b_o~~_
título para 11msermão, me~a:tlQ~te~nha~l'~llco que ver~ºm a verdad_~
desse texto. Jesus não está elogiando as mãos de Marta ou as nossas. Ele
e-st"ãêfü-giando o coração de Maria por entrar em sua presença e se des-
prender da necessidade de agradá-lo por meio da obra das suas mãos.
Maria entendeu a importância da comunidade.
A história acerca de Marta e Maria não tem nada que ver com
quem vai lavar a louça, varrer o chão e preparar a refeição. A preocupa-
ção e o desagrado de Jesus com Marta têm que ver com o seu relaciona-
mento e atitude para com ele. Marta está tão ocupada fazendo coisas
para ele que ela não tem tempo para estar com ele.
Você consegue ver Marta acenando para Jesus enquanto se apres-
sa em fazer as suas tarefas? Ela poderia dizer: "É maravilhoso tê-lo
conosco, Senhor. Não tenho tempo para passar tempo com o Senhor
agora, porque estou tão ocupada, deixando tudo pronto para a sua visita.
Por favor faça a Maria levantar-se e me ajudar!".
Essa é a característica do fazedor por Cristo. Todos os outros de-
vem fazer o que ele está fazendo. Marta não somente vê seu significado
diante de Cristo naquilo que ela faz, mas ela julga todos os outros da
mesma maneira. Na mente de Marta, Maria estava errada por não ajudá-
la a preparar a refeição para Cristo. Jesus a corrigiu explicando a impor-
tância do~r sobre o~. Com ~o ser sempre precede o fazer.
Jesus disse que Maria estava se concentrando naquilo que é me-
lhor, e Marta naquilo que era secundário. Nosso relacionamento com
Cristo deve ser prioritário. Nada deve impedir isso. Nenhum trabalho
que realizamos, mesmo o trabalho espiritual, pode substituir nosso rela-
cionamento com Cristo, estando com ele, concentrando nossa vida e
tempo nele.
Se Marta tivesse entrado na presença de Jesus, todas as tarefas
teriam sido completadas no tempo certo e provavelmente com muito
mais alegria. Jesus e Maria teriam feito tudo que fosse necessário para
ajudar. Se Marta tivesse sido honesta, ela teria admitido que realmente
não estava fazendo todo aquele trabalho para Jesus. Ela o estava fazen-
do para satisfazer a sua própria necessidade de se sentir significativa.jss
")Y1artas" mais tiéis s6<lJlqllelas q"e crêem que seu significado e salva-_
-cão dependem daqlljlo que elas fazem para Jesus.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 161

ESTAMOS "SENDO FEITURA DELE" OU ESTAMOS


TRABALHANDO PARA JESUS?

Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras,
as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Efésios
2.10 ARA). Ser feitura (ou criação) sua e trabalhar para Cristo são dois
aspectos totalmente diferentes na vida cristã. À medida que a célula se
concentra em Cristo, ela compreende essa diferença. Em sua presença,
nos tornamos feitura sua por meio do seu poder agindo em nós, e então
"andamos em boas obras". Evidentemente, Maria sabia a diferença en-
tre ser feitura dele e trabalhar para ele. Ela queria estar com ele em
primeiro lugar. A pobre Marta parecia não compreender essa verdade.
Muitos dos ru os e uenos atuais na igreja são grupos Marta que
estão volta os para o d:::~: ~::b;~!:1~~tarefab ~entral iza os
~JVIdades e RQ1iH:I-------- ,_"{ __ Jesus nao se agrada
- mais desses grupos pequenos atuais voltados ao desempenho do que se
agradou com o relacionamento de Marta baseado em desempenho no
primeiro século. Jesus não nos ensinou a sermos "Martas" que se jun-
tam em uma espécie de contrato de trabalho para fazer algo para ele.
Jesus se une a nós em grupos do tipo Maria para sentarmos juntos aos
pés dele e sermos preparados para sermos feitura dele.
Por que nossos grupos são normalmente grupos Marta voltados ao
desempenho? Nossa forma corporativa de nos relacionar com Cristo é
influenciada pela nossa maneira pessoal de relacionamento com ele. Os
grupos dos quais participamos refletem nosso relacionamento individu-
aI com Cristo. ~it9? 8e nós são cristãos do tipo Marta. voltadQ~
desempenho, em nossa vidas individual Quando nos encontramos em
grupos, concentramo-nos em tarefas e atividàdes Dorau ssa e a maliei-
a como nOlre aCIOnamos com ele pessoalmentejEstlldar a respeito e
Cristo ou fazer aI ,., relaciona-
mento prÓximo e íntimo com ele em um ambiente de grupo. por isso
que defendemos a Marta até a morte. Nunca duvide: a mortee o término
do desempenho para Cristo. O desempenho para Cristo vai, em última
análise, matar a liberdade, a graça e a alegria de servir a Cristo pessoal-
mente ou em grupo.

UM EXEMPLO DE UMA CÉLULA MARIA

~yde do cqração é li ~Rav@ para li célula Mariª- mas o coração_


se expressa em padrões práticos ...Qualquer que seja o padrão (ou rnode-
162 A Segunda Reforma

lo) que usamos para a vida na célula, esse padrão deve ser construído
em torno de um encontro com Cristo. Um padrão desse tipo está basea-
do nos três p's: A"presença de Cristo, o poder de Cri8t@e o propósito de
~ Esse não é o único padrão para experimentar Cristo, mas ele
oferece uma imagem daquilo que estou falando quando me refiro a uma
(

célula Maria. Pegue esse roteiro e use-o para experimentar a presença


de Cristo e veja a diferença entre a célula Maria e a célula Marta. Ele
pode prover um ponto de partida para você à medida que a sua igreja
desenvolve seu próprio modelo de reunião da célula.

EXEMPLO DO ROTEIRO DE UMA CÉLULA

Quebra-gelo: Qual foi a melhor coisa que aconteceu a você essa


última semana e por quê?

Reconhecendo a presença de Cristo:

o líder fala: Estamos aqui para experimentar Cristo. Cristo disse:


"Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome,
ali eu estou no meio deles". Ele também disse: "Não
os deixarei órfãos; voltarei para vocês". Nós cremos
que Jesus cumpre o que ele promete. Portanto, reco-
nhecemos a sua presença e o saudamos em nosso
meio.

Separem um tempo para oração para agradecer a Jesus a sua pre-


sença no grupo.

Cantem alguns cânticos de louvor e adoração. (Será bom se você


tiver alguém que toque violão. Mas o encontro não depende do
talento musical do grupo). Lembre: Cristo está no meio de vocês
levando-os em adoração ao Pai.
Experimentando o poder de Cristo:

Leia Lucas 10:38-42. Escolha das seguintes perguntas aquelas que


você sente que o Espírito Santo deseja que você discuta com o
grupo:

I. De que maneira Marta procurou obter o seu significado?


2. De que maneira Maria obteve o seu significado?
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 163

3. Você normalmente se identifica com Marta ou com Maria? Por-


quê?
4. Será que Marta sentia que a ocasião era um "sucesso", ou, de
alguma maneira, algo parecia não estar certo? Por que ela se sen-
tia daquela forma?
5. Como a Maria se sentiu a respeito daquela ocasião? Por que ela
se sentiu daquele jeito?
6. Qual é a "boa parte" nesse texto?
7. Quais são as "muitas coisas" que distraem, preocupam e inco-
modam você a tal ponto que não consegue concentrar-se na "boa
parte"? Se você concentrou-se na "boa parte", será que as "mui-
tas coisas" continuariam sendo feitas? (Leia Mateus 6.33).
8. O que precisa acontecer na sua vida para que você tenha uma
atitude semelhante a Maria em relação a Cristo?

Pergunte: Que obra do seu poder Cristo deseja fazer em sua vida
neste instante?

Não se preocupe se houver um período de silêncio. Se ninguém


sente o desejo de compartilhar depois de cinco minutos de silên-
cio, então prossiga imediatamente para a próxima parte. Com fre-
qüência alguém vai compartilhar uma necessidade que Cristo de-
seja tratar em sua vida e que vai oferecer uma oportunidade para
oração, ministração e edificação.

Cumpra o propósito de Cristo:

Pergunte: De que maneira Cristo deseja usar-me para tocar as feri-


das no mundo?

Dê uma oportunidade para cada pessoa compartilhar: Essa semana


Cristo deseja usar-me para ... orar por João, fazer um bolo para o
rapaz solteiro que se mudou para a nossa rua, próxima à nossa
casa, testemunhar para o meu vizinho, etc.
Termine com uma oração pelas visões de ministério específico que
Deus deu.

NOSSA ÚNICA AGENDA: JESUS

Qual é a agenda das células? É ele! O próprio Jesus é a agenda. Ele


164 A Segunda Reforma

é o fator essencial na vida da sua comunidade "chamada para fora" na


terra. ~ talvez tenha tentad~ f0litr na adoração, ministério, terapia,
discipu~ estudo bíblico ou evangelismo, em um esforço para dupli-
car a dinâmica da vida do grupo pequeno do Novo Testamento. Essas
tentativas podem funcionar em lima reunião ou por um curto período de
tempo, mas elas não yão m3l~t@r 9 crescimento e poder dlllamlco d~
igreja do Novo Testamento por um longo período. O esgotamento certa-
mente VIrá se o alvo for qualquer outra coisa a não ser Cristo.,,;,
Na verdade, todas as agendas acima mencionadas para a célula
podem ter um melhor aproveitamento em um outro ambiente. A adora-
ção em um grupo grande pode ser mais comovente. O ministério pode
ter melhor aproveitamento em um grupo concentrado unicamente em
libertação. A terapia pode ser mais eficaz em um grupo liderado por
conselheiros treinados. O~c::o~m~pa~n~~.!.ill.~~~.....:u.~.lJ.loo""""~><!.!JL.ll!.!!..C~
_
~~t..Le~~lm evento social. Grupos de estudo bíblico e
comunhão e outros grupos desse tipo podem ser mais bem-sucedidos no
ensino da Palavra. Grupos de ação social podem fazer um trabalho me-
lhor em exercer pressão que traz mudança política.
yaraeclesiásticos que se d~otam exclusivaill§Jlte ao disciplllado 011
;i evangelismo podem ser mais frutíferos nas suas áreas especializadas do
, que uma cfula. .,...
Cristo no meio do seu povo é a dinâmica que não pode ser dupl icada
em nenhum outro tipo de grupo. Isso é peculiar. Nenhum outro grupo
espera isso, se prepara para isso, ou reivindica isso. Somente o gW[?O
que vive na pre no e no foco
vaI experimentar a presença viva do Cristo enc~~_>
sente e ressurreto no meio del~ Esses são os grupos de Cristo da mes-
.ma maneira que eu sou cristão.
Será que vamos trocar a singularidade de Cristo como nosso foco
central por todas as outras agendas espirituais? De forma alguma! Cris-
to é a dinâmica da célula, e o formato que usamos deve permitir que
Cristo opere na célula e viva nela. ~~~~~~~..l.Io"-!!!:!-..!~~~~--

Os grupos koinonia proporcionam o contexto nos quais a igreja


institucional pode começar a tornar-se o Corpo de Cristo, e
nos quais os membros da igreja podem tornar-se discípulos de
Cristo. Nesses grupos, os cristãos estão sendo treinados para a
obra do seu ministério, primeiro na igreja e então no mundo.'
14
o SISTEMA REVOLUCIONÁRIO
DE JESUS

o sistema é a solução.
-AT&T

M
uitas organizações, incluindo algumas igrejas, argumentam
que elas teriam poucos problemas se os trabalhadores fizes-
sem suas tarefas corretamente. Isso pode ser uma conclusão
lógica, mas será que é a correta? O problema está com a organização,
com os trabalhadores ou com o sistema?
O dr. Joseph M. Juran está entre ôs peritos na área do controle de
qualidade que asseguram que mudar os sistemas por meio dos quais o
trabalho é feito tem um potencial de eliminar falhas e erros. O dr. Juran
diz: "Essa é a regra 85/15: Pelo menos 85% dos problemas
organizacionais podem ser corrigidos quando se mudam os sistemas (que
são determinados em grande parte pela direção) e menos de 15% estão
sob o controle do trabalhador ... ".1
O dr. Juran diagnosticaria que? problema da igreja é o colapso d~
sistemas, não as fraquezas das pe~ No entanto, nós chegamos à
conclusão geral de que as pessoas são o elo fraco da igreja. Assim, te-
mos tentado melhorar a qualidade das pessoas, motivando-as, mesmo
fazendo-as sentirem-se culpadas para que se esforcem mais. Nós as edu-
c.~pregamos a elas, as treinamos tudo sem proveito. <

Lyle Schaller, em seu livro The Change Agent (O agente transfor-


mador), reconhece o desamparo de pessoas sinceras que procuram en-
contrar mudanças para um sistema falho. "A não ser que haja mlldança
na direção, no sistema de valores e na ~ientação da organização,
-freqÜentemente existem sérias limitações no Que pode ser realizado p~
. ----:
165
166 A Segunda Reforma

las mudanças nas essoas ou e réscimo de nova "2


ichael Gerber, autor de The E-Mith (O Mito E), sugere uma im-
portante pergunta que toda organização deveria se fazer: "De que ma-
neira posso criar um negócio cujos resultados são dependentes de siste-
mas e não de pessoas?".
Ele não está dizendo que as pessoas não são importantes. "As pes-
soas dão vida aos sistemas. As pessoas tornam possível que as coisas
que foram planejadas para funcionar produzam os resultados planeja-
dos".' Ele acrescenta: "02.i§!ema opera O negócio. As pessoas operam o
sistema".' De uma perspectiva cristã poderíamos acrescentar: "Deus
~
opera as pessoas".
De acordo com Gerber: "Mas para pessoas ordinárias realizarem
coisas extraordinárias é necessário um sistema - uma 'maneira de fa-
zer as coisas' - para compensar a disparidade que existe entre as habi-
lidades que as pessoas têm e as habilidades necessárias para produzir o
resultado [...] você será forçado a encontrar um sistema que alavanca as
pessoas ordinárias ao ponto de elas produzirem resultados extraordiná-
rios".'
Quando os líderes de igrejas aceitarem o fato de que o sistema de
igreja cria a maior parte dos problemas, eles vão entender a futilidade
em tentar mudar a si mesmos ou seus membros até que o sistema seja
mudado.

o SISTEMA DE IGREJA

De que maneira definimos um sistema? Gerber diz: "Um sistema é


um conjunto de coisas, ações, idéias e informações que interagem umas
com as outras, e dessa forma alteram outros sistemas"."
Usar o conceito de um sistema para entender a igreja não é neces-
sariamente um exercício secular ou não espiritual. Deus é o criador dos
sistemas. O universo é um sistema; por isso, usamos o termo sistema
solar. Uma abordagem sistêmica para a igreja simplesmente reconhece
que a igreja é feita de diferentes partes que se ajustam em uma forma
integrada de acordo com um projeto ou modelo. Paulo usa a palavra
administração ou plano em Efésios para explicar o sistema operante da
Igreja.

E nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu


bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer
convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 167

dispensação da plenitude dos tempos (Efésios 1.9-10).

E esclarecer a todos a administração deste mistério que,


durante as épocas passadas, foi mantido oculto em Deus,
que criou todas as coisas. A intenção dessa graça era que
agora, mediante a igreja, a multiforme sabedoria de Deus
se tornasse conhecida dos poderes e autoridades nas regi-
ões celestiais (Efésios 3.9-10).

Entre as metáforas mais freqüentemente usadas no Novo Testa-


mento para descrever a igrej a estão "corpo", "fam íl ia" e "ed ifício".
Essas metáforas de uma maneira ou outra são sistemas integrados e
correlacionados. O corpo é um sistema vivo orgânico. Uma família é
o sistema social mais básico. Um edifício é um sistema estrutural.
Paulo parece preferir o conceito do corpo como uma metáfora para
a igreja e a usa em 1Coríntios 12.12-27. Em Efésios e Colossenses, esse
tema continua sendo desenvolvido. Cristo é a cabeça da igreja que é seu
corpo (Efésios 1.22; 5.23; Colossenses 1.18,24). A metáfora do corpo re-
!rata a igreja como um organismo yiyo em vez de urna or\iagjz\\ilo, um
«
sistema encarnado através do qual Deus habita na sua igreja.
James F. Hind, autor do livro Heart and Soul of Effect ive
Management: A Christian Approach to Managing and Motivating
People (Coração e alma do gerenciamento eficaz: Uma abordagem
cristã de gerenciamento e motivação de pessoas) compartilha uma
percepção aguçada do estilo gerencial ou administrativo de Jesus.
Hind sugere que Jesus agia como um administrador, o que dá a enten-
der um certo tipo de contexto sistêmico.

Em apenas três anos, ele definiu uma missão e formulou


estratégias para executá-la. Com um grupo de 12 homens
muito diferentes, ele organizou o cristianismo, que hoje tem
ramificações em todos os países do mundo com uma parti-
cipação de 32,4% da população do mundo, duas vezes a
participação do rival mais próximo. Os administradores que-
rem desenvolver pessoas para que produzam de acordo com
o seu potencial máximo, pegando pessoas ordinárias e tor-
nando-as extraordinárias. Foi isso que Cristo fez com seus
discípulos. Jesus foi o executivo mais bem-sucedido da his-
tória. Nenhuma outra pessoa chegou próximo dos seus re-
sultados.?
168 A Segunda Reforma

Jesus foi o executor divino desse sistema divino. A igreja é uma


extensão do sistema que Jesus desenvolveu cuidadosamente nos últi-
mos três anos e meio da sua vida na terra. Examinar os elementos essen-
ciais do sistema deveria ser o ponto inicial para implementar o sistema
divino de Jesus hoje.

PROCURANDO UM SISTEMA

Comecei minha busca por um sistema de igreja enquanto estava


servindo como missionário na Tailândia. Minha busca foi movida por
duas observações:

• Métodos radicais foram necessários para alcançar o país budista .


• Os sistemas vigentes não resultavam em um modelo de igreja do
Novo Testamento.

Eu percebi que necessitava de uma mudança radical! Para enten-


der a natureza da mudança, procurei em livros acerca desse assunto.
Lyle Schaller, no seu livro The Change Agent (O agente transformador),
incluiu um processo de mudança de cinco passos. O processo, detalhado
abaixo, tem se tornado inestimável para mim para entender como siste-
mas de igreja podem mudar.

1. Convergência de interesse causado pelo descontentamento


com o estado atual das coisas. Uma nova idéia irrompe sobre o estado
atual das coisas e causa confrontação. A convergência do velho e do
novo sempre faz parte do processo de mudança. Schaller diz: " ...em
qualquer discussão acerca de mudança intencional é quase impossível
exagerar a importância do descontentamento. Sem ~ntentamento
com a situaçi!Q..l2resenteRãsl2§9€ haver [n.] mudança".8 Se a nova idéia

a~~~~~~~~~~
um grupo estratégico. Alguém deve tomar a iniciati-
va e acreditar tanto na nova idéia a ponto de agir de acordo com ela. Um
ou dois visionários catalíticos acreditam na nova idéia e começam a
promovê-la. No entanto, se dois OI:! três iniciagsres estão eon't'ictos da
idéia mas nã
~ Outros iniciadores devem se unir a esse pequeno grupo.
3. Legitimar e "patrocinar" a idéia por meio do desenvolvi-
mento de um grupo (núcleo). Um grupo mais amplo deve se identifi-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI J 69

car com a idéia além dos visionários. A idéia deve ter outros "patrocinado-
res" que vão legitimar o conceito. No entanto, essa idéia não vai "decolar"
até que seja implementada.
4. Mobilização e implementação dos recursos. A idéia é
implementada e colocada em ação. S.2!!lent isão se tornar um
modelo viável, a mudança vai de fato ocorrer., Defender mudanças
'm1píementar mudanças são duas coisas totalmente diferentes. Não é sufi-
ciente abraçar de forma conceitual a nova idéia; ela também deve ser
estabelecida como uma forma comprovada de operação. Devem ser pre-
parados formas e trilhos por meio dos quais a visão pode, de fato, ser
colocada em prática.
5. Concretização da "mudança" por meio do seu congelamento
no novo nível de desempenho. Depois que a idéia é colocada em ação e
a mudança está implementada de fato, a idéia deve ser congelada para que
aqueles que continuam a implementar a nova idéia não acabem voltando
atrás para a antiga forma de operar."
Quando li pela primeira vez essa análise do processo de mudança,
eu sabia que se aplicava àquilo que Deus tinha me chamado para fazer,
isto é, desenvolver um sistema para edificar a igreja. No entanto, eu não
tinha um quadro de referência onde colocar os conceitos de mudança. Por
mais de cinco anos, eu engavetei essas idéias acerca do processo de mu-
dança enquanto continuava a minha busca, principalmente em Atos e nas
epístolas, de um sistema de igreja funcional (e do Novo Testamento).
15
o CONTINUUMDE JESUS

Cada atividade, cada emprego é parte de um processo.


Um fluxograma de qualquer processo vai dividir o
trabalho em estágios.
- W Edwards Deming

D
epois de pesquisar em Atos e nas epístolas por um modelo de
igreja do Novo Testamento, comecei a estudar os evangelhos
em busca de ajuda. Minha esperança era encontrar a natureza e
o modelo essenciais da igreja no ministério de Jesus. Afinal de contas, a
igreja do primeiro século em Atos e nas epístolas desenvolveu-se a
partir do modelo que Jesus deixou com seus seguidores. Essa busca
foi alimentada por diversas perguntas. Será que Jesus tinha um pro-
cesso em mente quando ele iniciou a primeira igreja? Havia um pa-
drão ou plano?

BUSCA FRUSTRADA

Minha busca nos evangelhos por um processo de implantação de


igreja mostrou-se inicialmente frustrante e desapontador. Os aconteci-
mentos nos evangelhos pareciam aleatórios e desconexos. Examinei a
harmonia dos evangelhos, mas não conseguia encontrar uma harmo-
nia no desenvolvimento da igreja.
Eu sabia que os quatro livros foram escritos de perspectivas dife-
rentes com a finalidade de dar uma figura mais ampla de quem Jesus
era e o que ele estava fazendo. Mateus foi um dos doze discípulos
chamados enquanto exercia a desprezada função de cobrador de im-
postos. Suspeita-se que ele era mais velho do que alguns dos outros
discípulos por causa da sua posição administrativa governamental.
172 A Segunda Reforma

Marcos viu os acontecimentos de primeira mão como um jovem cres-


cendo numa casa que provavelmente foi o local de muitas reuniões da
igreja primitiva. Ele foi indubitavelmente influenciado pelos relatos
de primeira mão de Pedro e Barnabé. Por outro lado, Lucas escreveu
como um historiador instruído que cuidadosamente usou testemunhas
oculares para a base do seu livro. João, um dos discípulos do círculo
íntimo de Jesus, escreveu uma história espiritual da vida de Jesus para
complementar o registro histórico. Com esses quatro retratos da vida
de Cristo, continuei a pesquisar o evangelho à busca de um modelo
sistemático de Jesus para a edificação da sua igreja.

NÚMEROS sxo MARCADORES

A coisa ficou clara quando percebi o número de pessoas com as


quais Jesus trabalhou em cada estágio. Diferentes números aparecem
de forma constante em cada relato do evangelho. Esses números eram
chave em como Jesus edificou a sua igreja:

• Dois eram inovadores;


• Três formaram seu círculo íntimo;
• 12 foram seus líderes-chave;
·70 compreendiam sua rede de apoio;
• 120 tornaram-se sua primeira congregação-base;
·3.000 e 5.000 foram os convertidos.

Jesus seguiu um continuum durante seus três anos e meio de mi-


nistério, e os números ajudam a identificar o processo. O dicionário
Webster define um continuum como: "uma quantidade, série, ou um
todo contínuo".' Um continuum é uma ação contínua. Somente do lado
de fora do continuum podemos distinguir entre suas partes e ver o que
está acontecendo.
Pouco depois de descobrir esses grupos, uma luz se acendeu em
minha mente. Eu me lembrei do processo de mudança discutido no
livro de Schaller. A abordagem de Jesus para mudança no primeiro
século "predatou' quase 2.000 anos o processo de mudança citado por
Schaller. O continuum da implantação da igreja por .Jesus seguiu um
processo de mudança un ivcrsa I. No pri mei ro século . .Jesus operou a
partir de uma estratégia de liderança increniental . Cada estágio era
construído a partir do anterior.
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 173

o SISTEMA DO EVANGELHO DIVINO DE JESUS

o evangelho provê um quadro de referência para entender o que é a


igreja, como ela opera e como ela foi iniciada. Isso não coloca Paulo contra
Jesus. Jesus exibiu o primeiro modelo de igreja, e então Paulo e outros
Iíderes do primeiro século instintivamente seguiram esse modelo.
Podemos entender e apreciar melhor a igreja mais avançada das epís-
tolas depois de ver o que Jesus fez nos evangelhos. Jesus edificou sua igreja
nas epístolas da mesma maneira que ele edificou a primeira igreja nos evan-
gelhos.
Durante meu estudo dos evangelhos, eu relacionei o modelo de mu-
dança de Schaller aos estágios da igreja no continuuni dos evangelhos. A
figura 5 mostra como o continuum se relaciona aos números de Jesus (colu-

.....•...
na 3) e o modelo de mudança de Schaller (coluna 2). Essa grade vai servir
como guia para a nossa discussão no restante deste livro. As páginas restan-

-_
tes deste capítulo são uma visão geral do continuum de Jesus (coluna 4).

• .-
.
I..
.

Convergência
. ...
..

Palavra
profética
(Jesus)
Visão de
igreja em
células
Concebida

Grupo 2-3
P Inovação Introduzida
inicial pessoas
R
O
T 12
Legitimar Uderança-
Ó
Patrocinar
pessoas chave
Apropriada
T
I
P Grupo de 70
Rede
O Execução pessoas de apoio Implementada

op Concretização 120

§~ da Congregação- Capacla't da
"Mudança"
pessoas
base
C
I
2 3000-5000 Expansão

t da
igreja
Expandida

Figura 5. Grade do Continuum


174 A Segunda Reforma

o estágio de convergência é o tempo de preparação antes que uma


idéia nova possa ser colocada em prática dentro do estado atual das coisas
(status quo). Depois de 400 anos de silêncio profético, Deus irrompeu na
história na vida de Maria e José, e Isabel e Zacarias. Esse movimento
profético pode ser resumido na palavra encarnação, Emanuel, Deus
conosco, Jesus. Deus tornou-se parte do universo que ele criou. Esse ato
impactou radicalmente o governo romano, a filosofia grega, o judaísmo e
o mundo pagão. O Criador transcendente tornou-se imanente. A Palavra
se fez carne e essa carne agora tinha um nome, um povo, uma história, um
tempo e um lugar. A encarnação tinha um espaço na terra em tempo espe-
cífico na história. Na plenitude do tempo, a encarnação de Deus conver-
giu com a história por meio de lima voz e vida dramáticas.

ESTÁGIO DE INOVAÇÃO DE JESUS

Durante o estágio de inovação, a visão é introduzida por líderes


catalisadores. Jesus e João Batista eram os dois catalisadores que ti-
nham a função de colocar a visão em movimento. A tarefa de João era
temporária - ele era como uma voz que clama no deserto. O ministério
de Jesus era tudo menos uma voz temporária. Ele estava estabelecendo
um corpo espiritual (a igreja) por meio do qual ele iria viver até a segun-
da vinda.
João foi para o deserto com a missão de preparar o caminho para o
Messias. Jesus então veio preparar o Reino. João e Jesus se encontraram
nas águas do Jordão onde o Pai anunciou Cristo como o Filho Encarna-
do "em quem ele se agradava".
Por que Jesus precisou de João? Um inovador não era suficiente.
João precisava estar presente no Estágio de inovação para declarar quem
Jesus realmente era. Vemos diferentes tipos de inovadores ou
catalisadores operando aqui. Existem catalisadores que preparam o ca-
minho (João), que introduzem o caminho (Jesus) e que são preparados
para liderar o caminho (Pedro, Tiago e João). A visão precisava ser colo-
cada em ação para que a idéia pudesse tomar forma. Esse era o grupo
estratégico inicial.
~ uma igreja em células está sendo estabelecida. deve haver
dois ou três que têm a vi ã rofundamente im re n . - .
. 'les são projetas, que vêem aquilQ que ainda não existe como se i~
existisse. Eles são preparados para pagar qualquer preço para tornar a
Vísão uma realidade. No caso de João, ele pagou com a sua cabeça,
enquanto Jesus pagou com a sua crucificação.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 175

ESTÁGIO DA LIDERANÇA-BASE DE JESUS

o estágio da liderança-base provê um grupo que toma posse da


visão e a supervisiona. Embora Jesus iniciasse a pregar às multidões, ele
tinha uma outra agenda em mente. Jesus chamou um grupo-base para
modelar sua ecc/esia ou os seus "chamados para fora". I?sse estágio-
b nsistia em doze líderes escolhidos por causa do seu otencial dê
obedecer, não or causa do seu estu o ou a I· de.
Jesus derramou sua vida e tempo nesses líderes-chave. Eles for-
mavam a sua comunidade básica por meio da qual ele prepararia futuros
líderes. Jesus estava formando um odre no qual o vinho da encarnação
seria derramado. Esse odre não era apenas para o dia de Pentecostes
mas para cada geração até a volta de Jesus. Robert Raines nos ajuda a
aplicar esse conceito para a nossa própria situação:

Devemos treinar um núcleo básico de discípulos comprometi-


dos e em crescimento, que deverão servir como fermento den-
tro da igreja local. Temos ampla autoridade bíblica para trei-
nar esse núcleo básico. Foi precisamente isso que Jesus fez
com os doze discípulos. Lemos nos capítulos oito, nove e dez
do evangelho de Marcos que Jesus levou esses amigos próxi-
mos à parte das multidões e ensinou-os a respeito das condi-
ções do discipulado. Ele os estava treinando deliberadamente
para a liderança após a sua morte. Jesus não pregava às multi-
dões, mas a esse pequeno grupo de homens que se tornaram o
fundamento da igreja primitiva. Paulo pregou às multidões
nas sinagogas, nas praças públicas, em qualquer lugar onde
podia alcançá-Ias; não foram as multidões, mas foram os pe-
quenos grupos de pessoas na Galácia, em Filipos, em Corinto,
com quem Paulo vivia e trabalhava por vários meses consecu-
tivos, que se tornaram o fundamento das igrejas mediterrâne-
as.'

ESTÁGIO DA REDE DE APOIO DE JESUS

o estágio da rede de apoio reúne os que vão implementar a visão.


Jesus equipou e treinou seu grupo-base e uma rede de trabalho mais
ampla por um período de cerca de três anos. A rede de apoio cresceu de
12 para 70, que freqüentemente eram organizados de dois em dois.
Nesse processo de aprendizagem, os discípulos fizeram a Jesus
176 A Segunda Reforma

todas as perguntas erradas; por que, quando, onde, o que e como? Jesus
insistia em responder a uma pergunta: Q~m2.Jes!!~ edificaria a sJla igreja
por meio da sua presença e poder, não por intermédio do conhecimento
e habilidade dos seus discípulos. Essa foi a lição principal ensinada nes-
te período do estágio da rede de apoio.
Jesus implementou seu sistema divino por meio da sua rede de
apoio fiel. Uma comunidade embrionária composta de 70 pessoas foi
formada por Jesus. Nenhum estágio no continuum de Jesus é mais im-
portante do que esse. Em seu próprio ministério, esse estágio vai ocorrer
quando a liderança-chave começar a atrair membros da família e outros
amigos próximos que se tornam comprometidos com a visão.

ESTÁGIO DA CONGREGAÇÃO-BASE DE JESUS

A congregação-base forma a unidade em que o poder para o minis-


tério e a multiplicação podem ocorrer. Na sala do andar superior, 120
discípulos esperavam em obediência ao Senhor. A promessa de Jesus
registrada em João 14 se tornou realidade. Na experiência de Pentecos-
tes, Jesus veio a eles; Jesus e o Pai habitavam com eles; o Espírito esta-
va neles e com eles. Tudo agora estava pronto para que pudesse ocorrer
uma multiplicação exponencial por intermédio daquela congregação; e
de fato isso ocorreu! A congregação-base foi capacitada para a visão.

ESTÁGIO DA IGREJA DE JESUS

o Cristo encarnado em seu novo corpo espiritual - a igreja -


coordenou a multiplicação das células, congregações e igrejas em Jeru-
salém, Judéia, Samaria, e [nos] confins da terra. Muitos foram acres-
centados à igreja: 3.000 na primeira vez e 5.000 logo em seguida. A
igreja expandiu a visão.
Se uma igreja de 120 membros hoje tem 50 novos convertidos, ela
tem grande dificuldade para conservar e integrar esses novos convertidos
no corpo. De que maneira a igreja depois de Pentecostes integrou 3.000 e
então mais 5.000? Precisamos entender de maneira realista que a igreja
naquela época eram mais do que 120 discípulos-chave mencionados no
cenáculo. Sabemos que dez dias antes do Pentecostes, 500 tinham se reu-
nido para a ascensão de Jesus. Porém, mesmo com a igreja de 500 mem-
bros a habilidade para absorver 8.000 membros novos em um curto espa-
ço de tempo é impressionante. Como isso foi feito?
Jesus tinha modelado por mais de três anos a estrutura por meio da
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 177

qual um grande número de pessoas poderia ser integrado na igreja.


Semelhantemente a uma unidade de família, a célula de doze, com um
círculo íntimo formado por Pedro, Tiago e João, podia absorver muitas
pessoas e cuidar delas de maneira eficaz. É por isso '1bl~~I~s i3R:lde c~
em casa, "todos os dias". Esse era o contexto que oferecia a todos esses
~s crentes a oportunidade de serem cuidados~ ensinados e absofVi"::-
~§o gfllpo original de crentes. "Todos os dias" apontava para o teilipo-
necessário para integrar milhares de novos crentes no corpo de Cristo. O
encontro dos grupos pequenos nas casas ofereceu à igreja do primeiro
século uma maneira de absorver e nutrir o crescimento que era quatro
ou cinco vezes maior do que a sua congregação base.
Além disso, para os encontros na casa, as reuniões do grupo gran-
de proviam um meio de os apóstolos reunirem a todos em eventos espe-
ciais. O mundo agora podia ver a sua unidade; o~vangelho podia ser
repassado e compartilhado e a visão de alcançar o mundo podia ser
lançada.

Nota: Cada estágio do continuum de Jesus vai ser discutido em


detalhes nas próximas páginas. A Figura 5 da página 173 vai aj udar você
a entender de que maneira diferentes elementos podem se encaixar. Essa
grade do continuum vai ser reapresentada no início de cada estágio, co-
locando em destaque os elementos da grade que se relacionam com aquele
estágio. Os capítulos 16 e 17 descrevem a seguinte fase do protótipo, ou
seja, o início e a transição para a igreja em células. Os capítulos 18-22
descrevem as unidades do continuum de Jesus em mais detalhes e pro-
vêem percepções práticas em como implementar a estratégia. Esse pro-
cesso vai levar você à "massa crítica", à plataforma de lançamento para
a igreja em células operacional que é discutida nos capítulos 21 e 22.

~ ..
-
Números do
. Novo
Testamento

Palavra
profética Visão de
Convergência Concebida
igreja em
(Jesus) células

P Grupo 2-3
pessoas Inovação Introduzida
R inicial
O
T 12
Liderança-
Legitimar
Ó pessoas Apropriada
Patrocinar chave
T
I
p Grupo de
70
Rede
Execução pessoas Implementada
O de apoio

O Concretização 120
p Congregação-
E da pessoas Capacitada
R "Mudança" base
A
C
I
O Expansão
N 300Q-50oo Expandida
A da
L igreja
16
o PROTÓTIPO
DE JESUS

o protótipo se torna o modelo operacional do


sonho; é o sonho em microcosmo.
- Michael E. Gerber.

H á alguns anos, um pastor veio de avião para Houston para con-


versar a respeito de igrejas em células. Ele estava altamente
motivado e desafiado pela visão da igreja em células depois de
ler o livro 'f!.hgre De T14? Go Frem !-lore (Para onde vamos agora?). Quando
o busquei no aeroporto, logo percebi sua frustração e mesmo um pouco de
raiva. Suas expectativas em iniciar uma igreja em células não estavam
sendo concretizadas, e ele não conseguia juntar todas as peças do quebra-
cabeças. Ele estava sofrendo de uma enfermidade comum da igreja em
célula que, mais tarde, identifiquei como Síndrome ICl: Sindrome da Igreja
em Células Instantânea. W. Edwards Deming descreve essa doença como
"pud im instantâneo":

As companhias vão à caça de modas passageiras e procuram uma


solução rápida para problemas complexos se elas não apresen-
tam constância de propósito. A solução rápida provê somente
conforto temporário e procura aparentar como se algo estivesse
acontecendo. De acordo com Derning, isto pode ser comparado
com "pudim instantâneo" e não com o tipo de programa que é
formulado claramente e desenvolvido com vistas ao futuro. I

SíNDROME DE IGREJA EM C!',UJLAS INSTANT;\NI:A

A enfermidade é fatal para a visão da igreja em células se não for

179
180 A Segunda Reforma

diagnosticada e tratada a tempo.

Sintomas da síndrome da ICI inclui:


I. ç,sperar multiplicar durante os e~tágie5 f'lr~f'lóuatóri..os.
2. t1gdar estruturas sem antes mudar valores~ ".
3. Depender de métodos e materiais em vez de depender de princí-
pios e conceitos.
4. A,!l.exargrugos como um apêndice para a estrutura existente de
uma asa.
5...Dar ~Rerme importância ao culto dominical enquanto procura
e~tabeleçer lima base para as célula~

A síndrome ICI é transmitida:


I. Quando são lidos livros acerca do movimento da igreja em célu-
las que desafiam y'1ançam a visão acerca de igrejas em células
sem explicar adequadamente o processQ ou o tempo necessàrio
Para tornar-se esse tipo de igreja.
2. Por meio de vjsionário~ que ~sperta!!llíderes acerca dos~slll--===
~s do tipo Qós-pentecostalismo sem prepará-los para pagar o
~ do Rré-pentecostalisrng, necessário para estabelecer um
modelo operacional.
3. Por,peregrinações até grandes igreja~ ~m célJJlas que funcionam
o nde o p ::ro~d~u~t~02!.!.!El~~~~"~l.I....!õ~~~"""';.y.a.L<lJ.I.a.LLu;;J.I..u.;;,...I.Q..
__
anos de desenvolvimento.
4. Em seminários e confereíTeias onde estratégias operacionais são
~ridas s~ar em conta os três anos e meio do pro.cessQL
P~

Acima de tudo, a síndrome ICI é uma enfermidade do nosso co-


ração. Semelhantemente a Esaú nós vendemos nossos direitos de
primogenitura por um prato de purê para satisfazer um desejo instan-
tâneo.

A síndrome da Igreja em Células Instantânea é altamente conta-


giosa e é espalhada principalmente por igrejas em células existentes
que sofrem de amnésia do Protótipo quando esquecem como era o
início da transição em células. ~ .pessoa que acredita que ela pode
fa.~lg)!,~ pequenos ajllstes em relação à igreja existente e tornar-se
l~reia em células operacional já é portadora positiva da ICI._
r A Igreja do Novo Testamento no século XXI 181

A CURA

A cura para a síndrome da ICI é desenvolver um protótipo. Michael


Gerber explica esse termo para nós:

Para o franqueador, o protótipo se torna o modelo operacional


do sonho; é o sonho em microcosmo. O protótipo se torna o
incubador ~ o berçário para todo pensamento criativo, a esta=-
ção onde a criatividade é nutrida por pragmatismo para se de-
senvolver em uma inovação que funciona.
O protótipo franqueado também é o 11Igill" onde todas as pres-
';;uposi ões são testadas ara ver uão bem elas funcionam an~
F e tornar-se operacionais no negócio [...] O protótipo age como
um pára-choque entre a hipótese e a ação."

Uma boa dose de aprendizagem a respeito do ministério de Jesus


quando ele projetou a primeira igreja em células vai curar a síndrome da
ICI. O ministério de Jesus na terra foi o período do protótipo da primeira
igreja. Permitir Jesus a caminhar conosco durante os três anos e meio de
protótipo vai fazer milagres por aqueles acometidos por essa doença. A
cura tem a melhor chance de ser bem-sucedida rio acima no início do
processo, do que rio abaixo no estágio operacional quando a enfermida-
de já se alastrou. O período de recuperação é de três a cinco anos na
maioria dos casos.
Jesus preparou sua salvação, seu sistema e seus servos para rece-
ber e operar em seu Espírito durante seus três anos e meio de ministério.
Jesus conduziu seus discípulos passo a passo através do continuum de
crescimento necessário para construir o fundamento para o crescimento
exponencial em Pentecostes. O ~ríodo do protótipo é o tempo guan~:

1. Avjsi9 é eescobertíl e lançada.


2. Õs~es são defiJ]ido~ e in~izados.
3. Aliderança é identificada e desenvolvida-:--
4. A vida no corQo é experimentada e mode1a(f;)
5. A infraestrutura é testada e exp-erimentada.
6. O poder é antecip!!20 e recebido.

Aqueles que receberam uma visão de igreja em células por Deus


devem em primeiro lugar desenvolver um protótipo antes que a visão
possa se tornar operacional.
182 A Segunda Reforma

INICIE DA FORMA CERTA

Jesus seguiu meticulosamente o continuum de crescimento para edificar


o modelo da primeira igreja. ~e iniciou com dois ou três inovaQ.ares,então
cresceu para 12 líderes, acrescentou ]0 em uma rede de apoio, que toma-
ram-se }20 na sala do andar s~ Certas lições tinham de ser aprendidas
e certos estágios passados antes que a congregação-base pudesse ser forma-
da e a igreja pudesse experimentar uma rápida multiplicação. Esses estágios
na fase do protótipo são essenciais para a multiplicação da igreja.
Os estágios podem ser acelerados mas não completamente ignorados.
Durant;;i fase do protótipo cada estágio prtzQaraa congl=egação para viVer-
j~ en:l ~mllnidade de célllla e a11aQçarpara a multiplicação. Se.'q!lal-
~r está~io é i~norado a igreja vai ter de compensar: ou vgltar@ aprender a
lic.ão omitida. Isso vai acrescentar tempo. ao estágio do protótipo porque
r-'correções e ajustamentos precisam ser realizados.:.--_-- _
Peritos em controle de qualidade com06dwards Deming e J.V
Juran e~nam a importância de começar da fonna certa. A fase do protótipo
tem tudo que ver com o controle de qualidade no início do modelo. Se não
for feito da forma certa logo no início, deve ser corrigido mais tarde. De
~ordo com os seus cálculos, ~O vezes mais difícil concertar 11mprobl~mª
depois que o processo foi realizado de fonna errada do que realizar o trabil-
~qJ0rma ema logo n~ primeira y~.
Meu pai WI empreiteiro e pedreiro. MUItas vezes meu irmão e eu
íamos ajudá-lo no seu trabalho. Nós buscávamos ferramentas, segurávamos
a trena enquanto ele media, e procurávamos a vara de medição para que ele
pudesse traçar a planta baixa. Nós então fincávamos estacas, pregávamos as
pranchas no devido lugar e o ajudávamos a estender linhas que serviriam
para-demarcar o croqui da construção. Antes que os trabalhadores chegas-
sem, meu pai sabia que ele precisava montar o protótipo que serviria de guia
para a construção. Se a construção não começasse da maneira certa, as con-
seqüências seriam caras e consumidoras de tempo. Voltar e corrigir o traba-
lho feito de maneira errada era muito difícil, especialmente se a parede
fosse de tijolos. Meu pai nunca ouviu falar da teoria de controle de qualida-
de de que um trabalho realizado de maneira errada era 50 vezes mais difícil
de consertar, mas com base na sua experiência prática, ele operava dentro
desse conceito.
------
Acerte na fase do protótipo, e o modelo será mais fácil de ser colocado
ª
em prátjca dllr:ante fase operacional. SÇ..começarde man~rrada; você
":---

~entará dores de cabeça, angÚstias, fOlstração e tempo durante toqº=- __


~ocesso.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 183

De acordo com o meu conhecimento, cada grande igreja em células


existente passou por um tipo de fase de protótipo, ou por planejamento ou
por providência. Igrejas em célldas simplesmeRte Rãg Ra~~emcompleta-_
mente desenvolvidas.

AMNÉSIA EM RELAÇÃO AO PROTÓTIPO

Nas duas últimas décadas, líderes de igreja de todas as partes do mun-


do têm peregrinado para igrejas em células que funcionam em diferentes
partes do mundo. Invariavelmente, eles tiraram todas as conclusões erradas
em como essas igrejas em células grandes se relacionavam à sua situação de
igreja .•Eles tentaram implementar métodos.em funcionament,o da ~em
células em vez de usar gS R:létodosprotótipos da igreja em células. -.I... ~
-=-por que líderes sinceros têm problemas em reproduzir o que eles vêem
enquanto estão visitando igrejas em células grandes? Éporql!e essas~n-
des igrejas em células e", Hmcionamento tipicamente explicam o gue ~
V' -;;ontecendo atualmente em suas igre.@i,não o que aconteceu há dez ou ~
(' a~lOsatrás, quando o crescimento estava se iniciando. Grandes igrejas em
c-felulas sofrem de um certo tipo de amnésia acerca do seu estágio protótipo.
Um líder de urna igreja tradicional não pode esperar que a estrutura de
uma igreja em células grande e que funciona (por exemplo da Igreja do
Evangelho Pleno Yoido, em Seul) seja apropriada à sua situação. Os prin-
cípios e conceitos podem ser os mesmos, mas os estágios de desenvolvi-
mento estão anos luz à parte. É necessário descobrir o que aconteceu n~
últimos 30 anos àquela eno~e igr~. Não é R@s8ssárigd"plicar a estraté-
gia operacional de uma igreja de 750.000 membros. Em vez disso, o líder de
igreja deveria examinar a estratégia da transicão origin~l
--
Esse modelo é replicado ao se desenvolver '\.l.!derança vision!!ja, a
sede de apoio, seu com~misso com células~a orsanização simples, sua
congregação-base (o rema escente) e a teologia de células do Novo Testa-
~. Esses foram os ingredientes usados para transformar essa igreja tra-
dicional na maior igreja em células do mundo. Igrejas em células em funci-
onamento deveriam gastar o mesmo montante de tempo ensinando acerca
da peregrinação na fase do protótipo quanto com os procedimentos
operacionais atuais.

A PRESSUPOSIÇÃO FATAL
184 A Segunda Reforma

~J!laisdo que mecanismos. ~em as dinâm.icas, princípi<2â.filosofia d.fCldda


·que estão por trás dela, os mecanismos são formas sem vida. A única mane.i..=.
ra de entendeouos a vida de !Jma igreja em células é experimentá-~,-,
- Da mesma forma como Jesus passou por aqueles três anos e meio
com a sua primeira igreja, por meio do Espírito, ele passará pelos três
anos e meio do período preparatório com cada igreja disposta a segui-lo.
Da mesma maneira como Jesus deu sua atenção pessoal em edificar a
primeira igreja, ele dará a sua atenção pessoal para edificar a igreja dos
nossos dias.
Se queremos ser o tipo de igreja singular que vemos nas páginas do
Novo Testamento, temos de seguir Jesus no tempo de preparação e
reaprendizagem. Essa rea rendiza em e re ara ão são es ecia}m
necessárias para líderes, aqueles que na maioria das vezes rocuram or
ata lOS e maneIras de tornar-se uma igreJa em células instantânea. A luz
de tudo que precisaií10s aprender em como ser uma igreja de acordo com
o modelo neotestamentário, deveríamos ser gratos por termos a fase do
protótipo para iniciarmos da maneira correta.
Não vamos esquecer que Jesus, enquanto vivia como homem, esta-
va dando uma orientação intensiva em relação ao início da igreja, e isso
levou três anos e meio. A pergunta é a seguinte: :>.E.!1.J.j.I.I';....i;I.~~~S;U--

a congreiacão-ba~ ==-:=o...:::.::.!::.!.:::~:::.....:.;=.:.;::.=~-==---':
infraestrutura de comumdade? ~ não creial
não está com o írito, à vida no
~o. Preciso estar preparado para parte do tipo de igreja que
depende completamente de Cristo. Deve ser uma igreja que está total-
mente comprometida, que está disposta ao sacrifício, que conhece o viver
servil e vive na presença, poder e propósito de Cristo. Isso leva tempo.
Podemos aprender os mecanismos da vida em célula rapidamente. As di-o
nâmicas do processo são mais difíceis. Devemos internalizartodo um con-
junto novo de valores de igreja para que se tornem parte de uma cultura
nova de igreja que opera a partir de uma cosmovisão transformacional e
de um Jesus encarnado.

AVANÇAR RAPIDAMENTE A PARTIR DE UM VALOR-BASE

Algumas igrejas grandes parecem pular a fase do protótipo, passan-


do quase que imediatamente para as novas estruturas da igreja em células
e experimentam um crescimento impressionante. Será que isso quer dizer
que elas descobriram algum tipo de método especial que lhes possibilita
r
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 185

pular a fase do protótipo e avançar imediatamente para a fase da multipli-


cação? De forma alguma! Muitas igrejas têm uma transição rápida porque
um valor-base da igreja em células foi alicerçado nos anos anteriores.
Devemos dividir em fatores esse tempo de preparação prévia.
Esse valor-base da igreja em células muitas vezes é implantado en-
quanto ela mantém a aparência de uma igreja tradicional com muitas es-
truturas tradicionais. Quando essas igrejas, com esse valor-base, recebem
a visão de Deus da igreja em células, elas apresentam um grande potencial
para promover uma transição rápida para uma igreja em células. Se a
visão e valores estão em seus devidos lugares, o processo de mudança é
acelerado dramaticamente.
O_tempo que essas igrejas inovadoras usaram para mudar ~blaviílão
~um elemento f"ndaRH:lRtalem relação ao se" período de protó-
tipo. Elas não se tornaram igrejas em célula!>iRstantâneas ao mudar estru-.
Urnrs. Quase certamente elas tiveram "n~a Elée~ ou mais do seu valor
báSicõ sendo mudado gradualmente, normalmente por causa de um líder
forte que manteve o cargo de pastor por um longo período. Esse líder pode
não ter tido uma compreensão da igreja em células no início. Provavel-
mente, ele simplesmente viu que aquilo que ele estava fazendo estava
ajudando sua igreja a tornar-se mais parecida com a igreja do Novo Testa-
mento.
Deus preparou essas igrejas a promover a transição rapidamente,
não porque encontraram um atalho para a fase do protótipo, mas porque
elas já tinham passado por uma parte das mudanças de valores que ocor-
rem durante a fase do protótipo.

PUDIM INSTANTÂNEO

Quando os líderes chegam para uma de nossas conferências, muitos


já estão exaustos, machucados e quebrados por expectativas de uma igre-
ja em células instantânea funcional. ~s venderam ao.seJ.IflOVO a..idéia de
uma transição rápida, r~meDte sem dar.,.para uma igreja em células.-
Essa expectativa começou a desmoronar durante"os primeiros estágios do
_'~rõêesso e, quando esses líderes aparecem para uma conferência de igre.:
")as em células, a e1>.Q~rançajáse transformQJ! em de!>âRil+lQ e desespero..:..
Para dar o devido crédito, 9-Aesapontamento não destruiu seu desejo de
ser uma igreja em células do Novo Testamento que Deus havia colocado
e"!11Sêü
- ..
coração. No entanto, a Spa fé está sendo severamente testada nesse
processo.
Durante o primeiro dia de ensino nos seminários acerca da igreja em
186 A Segunda Reforma

células, normalmente sinto uma certa dose de frustração e sentimentos de


fracasso dos líderes que já iniciaram sua jornada na igreja em células.
Eles normalmente leram um livro..•.partici~ram de um seminário ou visi-
tãram algum tipo de igreja que trabalha com grupo peQuenos...T.2Qasas
conclusões erradas foram tiradas acerca do qlle significa para a sua igreja
promover a transição para lima ijireja em células. Eles procuram respostas ...•
enrre5i sem uma compreensão clara dos princípios e valores básicos. Isso
pode causar sérios danos. Deming comentou acerca de pessoas de negóci-
os que se empolgam com o controle de qualidade:

Muitas vezes essa é a história. Os gerentes de uma companhia,


tomados pelo desejo de melhorar a qualidade e produtividade
do seu produto, porém sem ter conhecimento a respeito desse
assunto, e sem princípios orientadores, visitam outras compa-
nhias que estão indo muito bem, à busca de esclarecimento.
Eles são recebidos de braços abertos, e começa a troca de idéi-
as. Eles (os visitantes) aprendem o que o anfitrião está fazendo,
parte do que acidentalmente pode estar de acordo com os 14
pontos. Destituídos de princípios orientadores, ambos ficam
"perdidos". Nenhuma das companhias sabe se e por que um
procedimento está correto, nem se ou por que o outro está erra-
do. A pergunta não é se um negócio é bem-sucedido, mas por
quê? E por que o sucesso não foi maior? Nossa esperança ape-
nas é que os visitantes tenham gostado da visita. Devemos ter
mais pena deles do que censurá-los.'

No segundo dia, eu quase posso predizer quando o momento de alí-


~iar. Durante a sessão a respeito do protótipo.. e fa
operacionais da igreja em células o peso de se tornar uma igreja em célu-
i;S instantânea é retirado das suas costas. À ida que os líderes come-
çam a entender que~~~!:2l:~~~~~~~6I",l,~~~~~..u.!.!~~ __
nando a '
J1;.ê!:ívjo. Os participantes acabam a",lta~IUU

tranqüilizador por finalmente percebere que mesmo Jesus passou pela


fase do protótipo quando desenvolveu a sua igreja. Podemos finalmente
desistir da tarefa não realista de fazer uma igreja em células do tipo pudim
instantâneo!

L_
r

17
OS FATORES DO PROTÓTIPO
DE JESUS

o protótipo age como um pára-choque entre as


hipóteses e a ação.
- Michael Gerber

E m 1995, O projeto de dois carros da Ford (Ford Contour e


Mercury Mystique) custou seis bilhões de dólares e vários a~os
para produzi-los. Você consegue acreditar nisso? Seis BILHOES
de dólares! Há vários anos,.o Saturn foi desenvolvido aQ.f..ustode três
bilhões de dólares. Evidentemente companhias alltomotiyas acreditam
que
'-.: o modelo protótipo é essencial para prod!lzir carros e estão dis-
postos a gastar o tempo e recursos necessários para desenvolver protó-
~pos que funcionem bem. O prÓceSso tedioso e caro de desenyolve~-
- um protÓtipo requ~o, ~mpromisso e paciência.
Quando Jesus veio para iniciar sua igreja, ele primeiro desenvol-
veu um protótipo, um modelo funcional. Esse foi seu objetivo princi-
pal nos seus três anos e meio de ministério. Ele cuidadosamente jun-
tou todas as partes operacionais do seu modelo de igreja e então retornou
fisicamente para o céu antes que a igreja se tornasse operacional. Hoje,
as igrejas que desejam ser igrejas em células do Novo Testamento de-
vem passar pelo mesmo estágio do protótipo para alcançar seu poten-
cial pleno como uma igreja em células funcional.
Certos fatores da igreja em células são tratados diferentemente
d ra~te o está io do 'ti o do ue uando estão funcionando com
forca total. Entender esses fatores e sua implementação a equa a slm-
.plifica íl prg~eliSO do protótipo e fortalece a base Qpera~~1. Tam-
bém vai acelerar o tempo que leva para se tornar uma igreja er:i'fcélulas
plenamente operacional. Não esqueça que é 50 vezes mais fácil fazer

187
188 A Segunda Reforma

da maneira certa logo na primeira vez!


- O protótipo e as fases operacionais não são diferentes em nature-
za e propósito. Eles são diferentes em como conduzem a imple-
mentação. Visto que a fase do protótipo vem primeiro e constrói o fun-
damento para a fase operacional, ela deve tratar da estratégia de um
modo diferente. Os seguintes fatores são parte da fase do protótipo do
desenvolvimento da igreja em células:

1. FATOR TEMPO

Na fase do protótipo, é necessário mais tempo do que na fase


operacional para desempenhar as mesmas tarefas básicas. Alguns pro-
tótipos de certos modelos de carros podem levar meses e mesmo anos
para serem concluídos. As companhias gratamente permitem que os
responsáveis pelo desenvolvimento do protótipo tomem o tempo e usem
os recursos necessários para descobrir o que vai funcionar e o que não
~i. No entanto, se levar tanto tempo para produzir um carro na linha
de produção como no departamento de protótipos, a companhia está
em sérias dificuldades. Gastar tempo no iníçig Ql:lraRtea fase do protó-,
tipo vai er ' d ão e massa osteri
O propósito o protótipo da igreja em cé u as é o mesmo. Leva
mais tempo para fazer tudo que precisa ser feito durante a fase do
protótipo porque um modelo está sendo desenvolvido para multiplica-
ção. Durante a fase do protótipo não ocorrerão igrejas em células ins-
tantâneas. É necessário um período maior para desenvolver cada parte
do modelo. Leva:

- m~ delieR"glver os primeiros lideres;


- mais tempo desenvolver a çomunidade de ~s;
- mais tempo discipJ!lar 11mnovo crçnte;.-
-rnais tempo ~
_mais tempo ~senvolver a jnfraest[!!tma da jgreja em çéllllalil

Outros modelos de igreja podem P oduzir ais números nos es-


tágios iniciais. Esses modelos incluem os seeker deis (isto é, mode-
los de igreja voltados para os interesses e necessidades pessoais, pla-
nejados para apresentar verdades bíblicas eternas por meio de recur-:
sos culturais relevantes, como o teatro, música, vídeo, dança, etc), o
modelo da "metaigreja" e mesmo alguns modelos de igrejas tradicio-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 189

nais. Esses outros tipos de igrejas reúnem consumidores e estabele-


cem um sistema de distribuição mais rapidamente do que o modelo da
igreja em células. N'p entanto essas igrejas terão dificuldades em manter
esse crescimento, e a maior~s igrejas vai crescer menos do gue
a igreja em células. Ql!ando a igreja em células se tornar operaciona,l,
a multiplicação exponencial é possível porque as fases do protótipo
estabelecem um sistema por meio do qual todos os cristãos são treina-
dos e mobilizados para o ministério.

2. O FATOR HABILIDADE

A fase do protótipo requer mais obreiros Qualificados. Na fase do


protótipo, ~ estudiosos (os PhDs) vão colocar suas mãos na graxa,
trabalhando para desenvolver um novo carro para que os trabalhado-
res menos habilitados sejam capazes de fazer a mesma tarefa na fase
operacional. A rede McDonald's tem um sistema elaborado por em-
presários e inovadores altamente capacitados. Isso torna possível que
os trabalhadores menos habilitados mais tarde realizem o trabalho.
A estratégia de Jesus era que seu sistema de igreja funcionasse
com obreiros menoshabilitados. Jesus começou a sua igreja em célu-
las com homens que poderiam se tornar líderes visionários. Eles fo-
ram treinados durante a fase do protótipo. Em ICoríntios 1.26-29 Pau-
lo menciona esse princípio:

Irmãos, pensem no que vocês eram quando foram chama-


dos. Poucos eram sábios segundo os padrões hUll!!!!!.!!SJ2ou-
cos eram poderosos; poucos eram de nobre nascimento. Mas
Deus escolheu o que para o mundo é loucura para env-;;;'J<o-
!lhar os sábios, e escollie-u o que para o mundo é fraqu;;'a
para envergonhar o que é forte. Ele escolheu o que para o
,-mu,ndo é insignificante, desprezado e o que nada é, para re-

-
duzjr a nada OJiue é, a fim de que ninguém se vanglorie
diante dele· ~

A igreja tradicional de uma asa depende de líderes altamente pro-


fissionais e habilitados para fazer a obra do ministério. O sistema de
Jesus libera e capacita a todos nós para participarmos das tarefas mais
importantes de um crente: fazer discípulos à medida que amamos a
Deus, nosso próximo e uns aos outros.
190 A Segunda Reforma

3. F ATOR LIDERANÇA

Jesus concentrou-se na liderança durante a fase do protótipo.


Coleman escreve: "Sua preocupação não era com ro ramas ara atingir
as multidões, mas com-homens a quem as multidões seguiriam ..-
Homens serIam o seu 't e con U1staro mundo ara Deiis".'
Recentemente falei com a equipe pastoral de uma gran e Igreja
que ?inha uma visão para tornar-se uma igreja em células pura. A única
exceção era o pastor titular da igreja. Ele estava preocupado com a
agenda lotada com compromissos para pregar em outras igrejas. Ele
via as células como mais um apêndice para as muitas atividades da
igreja. Ele achava que alguém da equipe pastoral poderia supervisioná-
las. Os obreiros me perguntaram: "O~osso pastor titular precisa estar
envolvido . células se u.eremos nos tornar uma igreja em
~
- Essa pergunta é como se um pastor perguntasse ao comitê de
escolha de um novo pastor de uma igreja tradicional: "Preciso partici-
par do culto dominical?". É claro que ele precisa! O culto dominical é
a parte principal da vida de uma igreja tradicional.
"Q.{Jastor titular precisa ~staF ~a,jado diretamente na transição
para as células?". Como poderia ser diferente? A vida na célula é a
experiência básica da igreja. Se os pastores titulares estiverem desin-
teressados do processo do protótipo, eles não serão capazes de dar a
liderança necessária na fase operacional. Os líderes mais habilitados
devem participar da descob~a e implementação do ~i~tema bá~ico _
l'fso inclui o pastor titular e os líderes-chave da igreja. )
A delegação é um princípio importante na igreja em células. Igre-
jas em células florescem porque elas têm um sistema de liderança do
*
,t,i.po ".laH:tL por meio do qual a Iiderança é delegada a Iíderes sobre la,
11J, 100 e 1.000. Mas a visão e o o não
Os líderes principãis Igreja transmitem a visão e servem de exem-
plo ao viver na comunidade cristã de base durante a fase do protótipo.
O líder principal deve servir de modelo para a comunidade na qual ele
~s participem. rS~e.....:o,,"s~í~~~~~~~~~~~~~
vi ll1tos a vi célul e os mem-
" ros vão fazê..Jp:? Depois de assarem pelo estágio do protótipo e a
'ftr'eja caminha para o 'io operaClOna líderes visionários têm o
estilo de vida e a experiência que dá a eles a habilidade de liderar de
dentro do próprio sistema.
O continuum de Jesus durante a fase do protótipo é um processo
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 191

de liderança. Isso começa com a liderança principal. Em seguida mais


líderes são acrescentados em um processo incrementai de unidades
cada vez mais amplas de liderança, como segue:

• A equipe visionária;
• O círculo íntimo dos doze líderes-chave;
• Uma rede de apoio de 70 seguidores comprometidos;
• 120-200 participantes da congregação-base.

4. FATOR EVANGELlSMO

Que tipo de evangelismo deveria ocorrer lá fora no mundo du-


rante a fase do protótipo? De que maneira o evangelismo na fase do
protótipo difere do evangelismo operacional? Certamente a diferença
não está na paixão ou no compromisso. O evangelismo pode, no en-
tanto, diferir quanto ao foco e ao alvo. A fase do protótipo é um tempo
importante ara colocar o fun smo exponencia
futuro, da seguinte maneira:

1. Desenvolv<;:ruma pflixão por evange] ismo que transborda a partir


da eclillcaçã,Q. ---- .
2~belecer um ~istema de células por meio do gual os descreD-
tes possam_S_~LCOlJ.ill,tados,
gera2Q~_nutridos e treinados
3 Treinar membros para engajar-se no ~gelismo hQ!i.stic~
evangelismo por relacionamentos, evangelismo por interesse e
evãngelismo para descrentes resistellte~ ao ~,,3ngelbQ (incré-
dulos do "ti O B" .
4. Immar ro ramas que podem impedir o evangelismo eficaz.
5.fEguilibrar eventos de evangelismo com o desenvolvimento da
infraestrutura das células.

O evangelismo '1y~ i'llcaRç2 amigos, parentes @conh@cidosden-


tro da nÕssa esfera de influência (chamado de evangelismo de oikos)

---
fUI~na melhor durante a fase do protótipo pelos s@gl:lintesmotivos:

1. O evangelismo de oikos ensina o método mais básico para al-


cançar as pessoas para Jesus.
2. O evangelismo de oikol" 5e-efteftixa na nova COmI.II!Lº_~_e
que
está sendo formada e,é menos dismp.tjyg.
3. O evangelismo de oikos desenvolve u_maampla rede de comu-
192 A Segunda Reforma

nicação para colheitas futuras enquanto a comunidade de célu-


1-;;está sendo formada. ..•.
4. O evangelismo de oikos ajuda a controlar OJlÚmero de ~ssoas
disfuncionais gue são frãzidas para a célula durante o ~
gítico de estabelecimento da comunidade.
5. ~IlBelismo de eik(J:J treina membros aa célula para ganha-
rem tanto as pessoas abertas para o evangelho (incrédul~---=--
--;i~{\"lcomo as pessoas resistentes ao eva-llgeIT1O(íilCféd~
eJo "tipo B").

Durante o período do protótipo podem ser planejados grandes


eventos de colheita, mas as épocas devem ser cuidadosamente
selecionadas. Grandes eventos de eyangelismo, sem a base de células,
p'_Q,""d:-e..;.:m~c~o:..:.n::..:s
u::..:m~i
r:-.m:.=.:u~i
t:.:o:-.t:..:e..:.;m:.::.!p!:...o::,:'c...:i~n~te:.:r..:.;r.:..o:.:..m:.rp:..:e.:..r-=a~v:..:i;:
a:..e::...:..re:..:q~u::.=.:e
~r
m.1!ito tempo de acompanhamento dmante 11m período em que o de-
senvolvimento da infraestrutura da célula deveria ser a priOridade ..
Que tipo de evangelismo deve ocorrer nos encontros das cMulas
durante a fase do protótipo? Deve ser praticado o mesmo tipo de
evangelismo descrito em l,corÍntios 1424-25'

Mas se entrar alg.um de5crente ou não instruído quando to-


rdos estiverem profetizando, ele Dor todos será convencido
. Ae que é pecaE!JJ:.-epor todos será julgado, e os segredos do
seu coração serão espasios. Assim, ele se prostrará, rosto
em terra, e adorará a Deus, exclamando: "Deus realmente
está entre vocês.

~Q
Não é o aperfeiçoamento cristão e certamente não é a natureza
perdida do visitante que está no centro das atenções no encontro da
célula, mas a presença de Cristo. Por intermédio das imperfeições dos
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 193

cristãos, Deus revela seu poder àqueles que estão observando. Q.uandQ
os descrentes participam de uma célula. é o tempo para Cristo teste-
~r. Não será necessário que cada cristão testemunhe verbalmen- -
te.
Em nossa primeira experiência com grupos pequenos na Tailândia,
eu aprendi como não se deve evangelizar na célula. Nós iniciamos um
grupo na sexta-feira à noite em nossa casa depois de completar nosso
primeiro ano de estudo da língua nativa. Estávamos experimentando
verdadeira comunhão e edificação, com bastante louvor e
compartilhamento. Numa sexta-feira, um membro trouxe um homem
que ele encontrara no mercado e com quem ele tivera um debate acalo-
rado acerca do cristianismo e do budismo. O cristão disse: "Venha
para a nossa reunião e você ficará sabendo como é o cristianismo".
Naquela noite a refeição e o louvor estavam indo bem. Os cris-
tãos e o homem incrédulo estavam engajados em uma conversação
cordial. No entanto, quando a reunião formal começou, as coisas co-
meçaram a esquentar. A forma costumeira de ministrar uns aos outros
e ouvir de Deus foi rapidamente abandonado. Os cristãos, do mais
velho ao mais novo, tinham cuidadosamente carregado suas "armas de
testemunho" enquanto estavam comendo e cantando. Quando o des-
crente começou a questionar e argumentar, cada um tirou a sua arma
de testemunho, mirou no descrente e atirou nele durante o restante
daquela reunião. Ele ficou crivado de balas. Não é necessário dizer
que este homem nunca mais voltou para uma de nossas reuniões e eu
não o culpo. Eu também não teria voltado.
O que a nossa abordagem evangelística fez àquele homem perdi-
do já foi triste, mas ainda mais trágico e danoso foi o que ocorreu com ~
aquele grupo de cristãos. Antes daquele homem perdido aparecer, Cristo
estava edificando o corpo. Vidas estavam sendo transformadas. Quan-
do o homem perdido veio ao grupo, o grupo parou de concentrar-se em
Cristo e voltou a sua atenção ao homem perdido. A natureza da célula
mudou. Cristo não foi mais capaz de edificar os cristãos e fortalecer
suas vidas. A conversão desse um homem tornou-se o centro da aten-
ção da reunião, não Cristo. A edificação, portanto, entrou em curto-
circuito. Aquele homem budista não convertido precisava ter um en-
contro com Cristo, não engajar-se em argumentos intelectuais. O gru-
po deveria ter continuado a concentrar-se em Cristo para que o homem
pudesse ver Cristo operando no meio do seu povo. Talvez, ele teria se
prostrado e dito: "Certamente Deus está neste lugar".
Ralph Neighbour compartilha o que aconteceu em um encontro

l1li---....,...,.,------:------- .....
_..
194 A Segunda Reforma

de célula onde o foco permaneceu em Cristo apesar da presença de


dois descrentes. Essa é a maneira como o evangelismo deve ocorrer no
encontra da célula. Um dos descrentes era um banqueiro católico que
já não participava da igreja havia anos. Ele tinha recebido um bilhete
da sua esposa notificando que ela estava se separando dele. Ele estava
machucado!
Naquela noite, Cristo ministrou às necessidades de várias outras
pessoas enquanto o descrente, de uma posição não ameaçadora, obser-
vava Deus agindo no grupo. Mais tarde, esse descrente perturbado acei-
tou o Senhor. O dr. Ralph Neighbour interpreta para nós o que aconte-
ceu ali:

Você entende? O 'método' de evangelismo naquela reunião


foi a presença do Senhor operando por meio da sua Noiva!
Ele foi 'convencido por todos; chamado para prestar contas
por todos; os segredos do seu coração foram derramados'; e
ele quase literalmente prostrou-se quando os homens ora-
ramjuntos naquelas escadas. Ele havia descoberto que Deus
certamente estava no meio daquele povo da célula!'

risto, não no perdido.


Somente uma célul~adur com uma compreensão clara do seu
propósito, vai man er seu foco em Cristo quando existem descrentes
participand'o do encontro. Se em cada encontro, o foco mudar da
edificação para o evangelismo por causa de algum visitante, a conti-
nuidade e a comunidade serão perdidas. lliixe os cristãos imaturos
-I serem alimentados. Deixe o corpo ser curado. Deixe os membros se-
rem libertos das fortalezas. Deixe os crentes e ;s descrentes experi-
mentarem Cristo no meio deles!
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 195

no entanto, ele nunca permitiu que a evangelização das massas inter-


ferisse no seu propósito simples de equipar líderes e estabelecer seu
sistema de comunidade.
»:

5. FATOR EDIFICAÇÃO

Durante a fase do protótipo, os membros da célula devem apren=-.


der a edificar e desenvolver uns aos outros. Jesu4 projetall a i~reie
para evangelizar a partir de li'!!.! base de edificação..saudáUrJ onde os
crentes se tornam canais para a edificação. ~omente uma igreja..,~
~ifiçadora vai ser "ma igreja eyan~elizad9ra bem-sucedi.da. J<ay
Stedman reconhece a importância de evangelizar por meio de um cor-
po saudável. "É necessário umcorpo saudável para realizar um traba-
lho bem-sucedido Procurar evan elizar en uanto o corpo de Cristo
está doente e fraco é inútil".' E. Stanley Jones ilustrou o perigo e não
edificarmos uns aos outros. No livro The Way (O caminho), ele escre-
veu:

Eu estava sentado à margem do Lago Massaweepie, nos


Adirondacks, escrevendo este livro. Todas as manhãs um pato
selvagem se aproximava para encontrar alimento perto da
margem com a sua ninhada. Um dos patinhos parecia mais
fraco do que os outros e gastava a maior parte do tempo pro-
curando manter-se j unto aos outros. Ele não tinha tempo para
alimentar-se. Muitos de nós gastamos a maior parte do tem-
po ocupados com as nossas tarefas. Não separamos tempo
para alimentar o nosso espírito. Falta-nos um "algo mais",
uma margem de poder que nos permita realizar nossas tare-
fas com alguma sobra.'

Esse pequeno patinho fraco precisava de um lugar onde podia se


alimentar sem a necessidade de manter-se junto com os outros. Ele
precisava de um bando que se importasse com o mais fraco e não me-
disse o tempo de alimentação de acordo com a velocidade do mais
forte. Continuar mantendo-se junto com o bando, sem a oportunidade
de alimentar-se, fez com que o pobre pequeno pato se tornasse cada
vez mais fraco.
Todos nós somos pequenos patos fracos. Cada cristão precisa de
~m tempo para alimentar-se pessoalmente qui não esteja vinculado
com a atiVidade da multidão. Sem isso, o cristão se torna cad~
196 A Segunda Reforma

mais fraco. A célula é o contexto no qual recebemos um "algo mais,


uma margem de poder que nos permite realizar nossas tarefas com
alguma sobra".
Esse é o motivo por que a comun· ser
antes de tudo, um tempo de ed' icação. A célula deve ser um tempo em
que todo pato pequeno tenha oportunidade de ser alimentado sem a
pressão de tentar manter-se com o restante do grupo. À medida que o
padrão de edificação é estabelecido durante o estágio do protótipo, os
grupos são então preparados para passar para a expansão do ministé-
rio e evangelismo durante o estágio operacional.

6. FATOR TREINAMENTO

Durante os três anos e meios do desenvolvimento do protótipo,


Jesus continuamente fez a escolha de concentrar-se no treinamento de
líderes. Grandes multidões o seguiram, e mesmo assim ele parecia quase
que distraído e desligado das multidões, preferindo gastar o máximo
de tempo possível com indivíduos e especialmente com seus líderes.
Jesus chegou a esquivar-se das multidões. Ele entrou no barco e
foi para o outro lado do mar da Galiléia. Ele levou seus discípulos e
foi para os montes. Jesus não queria que ninguém soubesse onde eles
estavam, porque estava ensinando os seus discípulos (Marcos 9.30,31).
Alguns sugerem que Jesus procurou separar-se das multidões por-
que ele estava pessoalmente cansado e precisava descansar. O ca,"\saço
do seu corpo pode ter sido parte disso, mas essa não era a razão princi-
pal de Jesus procurar distanciar-se das multidões. Jesus estava con-
centrando seus esforços em treinar uma base de liderança durante a
fase do protótipo. o nas multidões
iniciais isso poderia tê-lo impedido de alcançá-Ias mais~
O . .

Na China, patos e gansos são a à força. Milho e trigo


são forçados goela abaixo com um funil. Esses patos e gansos crescem
muito por meio dessa forma de alimentação. No entanto, se eles deixa- ..
rem de ser alimentados com o funil, eles vão morrer o se a ração
estiver espalhada ao redor deles. Patos e gansos limenta os à força.
não têm a habilidade de alimentar-se
.
a si próprios.\Nada
r
é mais impor-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 197

tante do que descobrir e implementar um trilho de treiRamepto ~


ente que possa ensinar cada novo membro a alimentar-se pessoalmen-
te. ~
É indispensável que o ·Iho de treinament seja desenvolvido,
testado e incorporado na igreja em ce u as urante o período do' protó-:--
tipo. Sem um trilho de treinamento eficaz os'auxiliares não vão ser,
desenvolvidos e novos cristãos yão continuar a fazer parte do proble-
!TIaem vez de fazerem parte da solução. É essencial que esse trilho de
treinamento seja completado antes que seja dado o pontapé inicial para
o crescimento explosivo. Depois que o crescimento e a multiplicação
iniciarem, é muito difícil ':altar atrás e desenvolver um trilho de trei-
namento eficiente, muito menos voltar e treinar todos aqueles que en- -
---
traram sem ser treinados. Os ciclos iniciais da igreja em células pro-
porcionam uma oportunidade para desenvolver um sistema de treina-
mento por meio do qual a multiplicação exponencial evangelística fu-
tura pode ser conservada através de métodos de treinamento
exponenciais.

7. F ATOR REORGANIZAÇÃO

O estágio do protótipo é um tempo em Que as célylas podem ser


reorganizadas e reajustadas.11..ara-desenvolver Y.ijriosmodelos nratóti-
pos sal!dáveis. É bastante otimist es erar u as as células se mu~
~ipliquem _a c.@a seis a nove meses enquanto aprend~<.?!!!9~ -
fam células e a coml!nidade. Uma igreja deve testar a vida em células
quando está iniciando seu processo. A pressão para multiplicar vem
em segundo plano, O importante nesse estágio inicial é aprender como
fazer células e viver juntos em comunidade. P~r isso é mais importan-_
te.fortalecer as priweiras células ao reagrupar as pessoas do que mul- ~
.,tiplicar células fracas e disfuncionais paB1Danter um índice de cresci-
~egtQ ªrbitrâ~jo Se uma igreja em células __está ~ba~e pressão
desde o início para m ex onencialmente vai sobrar ~.
c_e,:o ~ara des~n~~~'!:;I~der~nfraestrytura necessária pa~-
SUStel1tª.F a Il!!!!!If' he8çao'c:rfUtttr:'!f::~~.~:.
Fatores a serem observados na reorganização durante a fase do
protótipo podem incluir um ou a combinação dos seguintes aspectos:

• Reorganize em torne d95 líderes,


• Reorganize geograficamente;
• Reorganize paia desenvolver--comunidade e visão congre-
198 A Segunda Reforma

gacionais;
• Reorganize para podar e extirpar células defeituosas e doentes;
• Reorganizepara não permitir que grupos se tornem "encravados
~tagnados; - ~ - -
• Reorganize para incorporar novos líderes.

Durante o estágio do protótipo, identifique e fortaleça células


saudáveis que vão se multiplicar. Reorganize céllllas não sa!!dávei§.:....
Por exemplo: cinco células podem to;;;ar-se sete ou oito células em
_vez de dez Depois de outro ciclo, as sete c.é.lulas podem tornar-se dez --
células em vez de dobrar para quatorze;. A certa altura, cada célula-
rcícveria esperar multiplicar-se durante o ciclo normal da célula, mas
esse ciclo normal de multiplicação deve ocorrer somente depois que a
igreja tenha se tornadoJ;llenamente operacional. •.
A duração do ciclo da célula pode variar de lugar para lugar. Ii.;..
gi,camente, a multiplicação vai ocorrer num período entre quatro me-
ses a um ano. ~ ,!!.ma célula uão "ai ~ mHlti~liear (OHllãQ pode) em
um ano, algo está errado com a estrutura básica da célula. O grupo
deve ser reorganizado ao distribuir os membros em outros grupos sau-
dáveis.
Quantos ciclos de células são necessários antes que uma verda-
deira multiplicação possa ocorrer em uma igreja em células? Isso de-
pende da condição das células originais. 93.ão eficientes são os líderes,
de células? As ~ulas têm auxiliares? ~iste um trilRQ d@treillarueR-
!Q.?Quantas pessoas disfuncionais estão nas células? As células estão
operando como,..grupos-tarefa ou em torno da pessoa, do'p der e do
pr6j5ãSítõde Cristo? Osi~~~.o..e1~~~i ~~~~~~d~ciã~t_
munidade do Noyo Testamento e da.J,ioÍdano corpo? Os ~~~~~~_-.J
S6lulas sabem como edificar e Illiui~trar !Jus aos antros? _
dãigleja em células já foi internalizado?
Durante a fasej.o protótipo, vários~iclQ5 de céllllas de seis a oito
meses são prbvavelmente necessários antes que se estabeleçam célu-
'lãs que têm uma probabilidade razoável de mui· licar-se
exponencialmente

8. FATOR PREVISIBILIDADE

Durante a fase do protótipo, devem ser estabelecidos gadrões pre-


visíveis da vida da célula. É necessário algum tipo de estrutura consis-
t~n~ que possa ser duplicada em cada ciclo SUbSegü'e~~.~ualro

L
r
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 199

aspectos seguintes da igreja em células devem operar com


previsibilidade e constância de propósito: Yi.dana célula, treinamento,
evangelismo e liderança. Sem a previsibilidade nessas áreas, os Iíde-~
res não podem ser treinados, e sem líderes, a r'l.u.ltiplicacão exponencial
é impossível. ~ --
Se cada líder de célula faz "o que é certo aos seus próprios olhos",
não haverá um padrão estabelecido por meio do qual líderes futuros
possam ser treinados e materiais sejam desenvolvidos. Suponha que
você tenha cinco células com três formatos diferentes, três maneiras
diferentes de treinar novos membros, diferentes abordagens de
evangelismo e várias maneiras de escolher e funcionar como líderes.
Qual será a aparência do seu protótipo depois da quarta ou quinta ge-
ração de multiplicação? Caótica! Cada ciclo de multiplicação vai ser
diferente e incompatível. As células serão tão diferentes que o inter-
câmbio de líderes, de materiais e de métodos estará fora de questão.
Quando ouvimos as palavras "previsibilidad~" e "constância de
propósit~', muitas vezes pensamos e~controle" e "per~ de liberda-=-
de". Alguns talvez perguntem: "Se cada célula se ue o esmo forma-
to, os mesmos materiais e o mesmo tr de treinamen s nao
limita a a ão do Es lfI o ? Isso não é apenas mais uma aborda-
gem tipo forma de biscoito para a vida da igreja?". De modo algum!
so e· o h .e é a falta de uma estrutura revisível. ~ças
s somente dão a Ilusão de ro re o e liber a e. 6 ~
Quando eu estava no segundo grau, a escola contratou um novo
treinador de basquetebol. Ele imediatamente começou a treinar uma
nova tática ofensiva. Nós tínhamos apenas sete ou oito jogadas bási-
cas, mas nós as repetíamos seguidas vezes. Durante os treinamentos
essas jogadas sempre terminavam em cestas. No entanto, num jogo a
defesa adversária nem sempre cooperava conosco. Por isso, precisá-
vamos ser criativos. Porém, visto que tínhamos as jogadas básicas,
sempre podíamos recuar e executar uma dessas jogadas (sistema) que
davam estabilidade ao time.
Ter um ~eis,junto com ~ de
treinamento, evangelismo e liderança não restringe mas libera a obra
do Espírito Santo. Ciclos testados durante o estágio do protótipo abrem
caminho para dese1lVolver uma estrutura na qual pode ocorrer a vida
cristã bem-sucedida. O período do protótipo permite que os líderes
descubram e definam as partes previsíveis da igreja em células.
Fases Processo de Números do
Estratégicas de Mudança Novo
Schaller Testamento

Pr Palavra
e Visão de
Par a _ Convergência profética Concebida
Ç igreja em
ao (Jesus)
células

p Grupo 2-3
pessoas Inovação Introduzida
R inicial
O
T 12
Legitimar Liderança
Ó pessoas Apropriada
Patrocinar chave
T
I
P Grupo de 70
Rede
O Execução pessoas Implementada'
de apoio

O Concretização 120
p
da Congregação-
E pessoas Capacitada
R "Mudança" base
A
C
I
o 3000-5000
Expansão
N Expandid(l,
A da ';)~:~

L igreja ,q
18
A ESTRATÉGIA DE LIDERANÇA
DE JESVS

o obreiro evangélico precisa decidir onde quer que o seu ministério dê


resultados - se no aplauso momentâneo do reconhecimento popular
ou na reprodução de sua vida em alguns poucos homens escolhidos, que
dêem prosseguimento ao trabalho, depois que ele se for.
- Robert Coleman

E
m João 17, Jesus relatou ao Pai que a estratégia deles seria bem-
sucedida, Por que Jesus estava otimista a esse respeito? Ele
estava enfrentando a cruz, a traição de Judas e o abandono dos
discípulos, Qual era a base para a sua confiança? Considere três relatos
que Jesus poderia ter apresentado:

Relato número I: Nossa estratégia vai funcionar porque no pri-


meiro ano de ministério multidões enormes estavam me seguindo. Eu
não conseguia me desvencilhar delas. Essas multidões clamavam para
que eu falasse a elas, chegando a deixar seus lares e trabalhos para me
ouvir pregar. Certamente houve grande aceitação e popularidade.

Relato número 2: A estratégia vai funcionar porque no futuro pró-


"imo ferel11n, n Ppnt"('n,t,,, Milhares el" n"sc,v.e
-'-" - • -"~--'--'-'~-'-" v
••••••
,.;"i"
u •••.. '-' '-" •... J\..JUJ \c.l'--J
00'(>~
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'"''''
IlUlll
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\".,.)}- <-lY\.)

de uma semana. Portanto, a estratégia vai funcionar por causa do grande


número de pessoas que se converterão depois do Pentecostes.

Relato número 3: A estratégia vai funcionar por causa do cerne de


discípulos. Esses são aqueles que viveram em comunidade comigo. Eu
os ensinei e vivi com eles. Eles sabem que eu vim do Senhor. Pai! :'l
Nossa estratégia vai funcionar por causa desses líderes.

Qual re lato parece ma is prom issor e lógico'? A luz de IllU itos meto-

201
202 A Segunda Reforma

dos de crescimento das igrejas tradicionais, o relato número um ou


dois poderiam aparentemente ter a melhor chance de sucesso. Ambos
os relatos têm números suficientes no início ou no fim do processo
para projetar expectativas de sucesso.
No entanto, Jesus confiantemente deu o terceiro relato ao Pai.
Jesus tinha uma estratégia de liderança, não uma estratégia para as
multidões ou uma estratégia de números. Nas últimas décadas, Robert
Coleman tem sido uma das vozes mais claras a trombetear acerca da
importância da estratégia de liderança de Jesus. Ele diz: "A ênfase
da grande com issão recai sobre a liderança. Jesus j á demonstrara,
através do seu próprio ministério, que as massas, desiludidas de tudo,
estavam maduras para a ceifa, embora não contassem com pastores
espirituais que as liderassem. Como, pois, poderiam ser conquista-
das para Deus?". 1

Colernan também observa:

Que proveito haveria, para o seu objetivo final, se as massas


fossem impelidas a segui-lo, para em seguida não contarem
com supervisão nem instrução acerca do Caminho? Tem sido
demonstrado, em numerosas ocasiões, que as multidões são
'. \
uma presa fácil dos deuses falsos, quando abandonadas sem
o euidado apropriado [... ] Por esse motivo, a menos que os
convertidos a Jesus fossem dirigidos por homens de Deus,
competentes para orientá-los e protegê-los da falsidade, em
breve cairiam vítimas da confusão e do desespero, e o seu
último estado tornar-se-ia pior do que a princípio. Assim sen-
do, antes que o mundo pudesse ser permanentemente ajuda-
do, teriam de ser levantados homens capazes de conduzir as
multidões nas coisas de Deus."

JEsus PREPAROU OS DISCÍPULOS EM UMA ESTRUTURA


DE LIDERANÇA ESPECIAL

Observe o triângulo de liderança na figura 6. No topo do triângu-


lo está Cristo, o catalisador ou inovador. No segundo nível do triângu-
lo está o círculo íntimo de Jesus, formado por Pedro. Tiago e João. Na
base do triângulo, estão os restantes nove membros da liderança-base
de .Jesus. Os membros da família mais ampla estão ao redor desse gru-
po base.
A Igreja do Novo Testamento /lO século XXI 203

JESUS

t tt Tiago João

ttttt
Figura 6. A estrutura da liderança de Jesus

Nesse contexto de liderança, Jesus se relacionou com os seus líde-


res de diversas maneiras. Às vezes, ele se relacionava com eles por meio
do contato individual, como ele fez com Pedro, Tomé, João, Filipe e
mesmo com Judas. Ele também se relacionava com os doze discípulos
como uma unidade. Uma boa parte do seu ensino foi para os Doze; ele
muitas vezes os tirava do meio da multidão para estar com eles. Em um
estudo a respeito do evangelho de Marcos, Jirn Egli sugere que Marcos
dedicou 49% do seu evangelho para descrever o relacionamento de Je-
sus com os seus discípulos.' Colernan acrescenta:

Não podemos deixar de observar, nessa conexão, que as refe-


rências aos "discípulos", como um corpo coletivo, são muito
mais freqüentes nos evangelhos do que as referências aos dis-
cípulos em separado [00'] Quando nos lembramos que essas
narrativas foram escritas sob inspiração pelos seus próprios
discípulos, e não por Jesus, é muito significativo que tivessem
dado tais lugares a si mesmos nesses termos. Não precisamos
204 A Segunda Reforma

inferir daí que os discípulos não fossem importantes como


indivíduos, pois não era esse o caso; mas ficamos impressio-
nados com o fato de que os discípulos compreenderam que
deveriam olhar para o seu Senhor como um corpo de crentes
que haviam sido treinados juntos para uma missão comum.
Viam-se a si mesmos, através de Cristo, primeiramente como
uma igreja, e, somente em segundo lugar, como indivíduos
dentro desse corpo.'

Os discípulos se relacionavam mutuamente tendo como base "uns


aos outros". Às vezes esses relacionamentos não eram bons. Por exem-
plo, à medida que eles se dirigiam a Jerusalém pela última vez, eles
estavam indignados uns com os outros. Tiago, João e a sua mãe estavam
tentando obter vantagem sobre os demais. O triângulo de liderança de
Jesus permitia contato pessoal uns com os outros, saudáveis e não sau-
dáveis. Essa abordagem em relação à liderança proporcionou a Jesus
inúmeros momentos de ensino para instruir, encorajar e admoestar os
seus discípulos.
Jesus também se relacionava com freqüência com três discípulos
do seu círculo íntimo. Ele levou Pedro, Tiago e João consigo para o
monte da Transfiguração. Quando ele curou a filha de Jairo, Pedro, Tiago
e João também entraram no quarto com ele enquanto os outros perma-
neciam do lado de fora. Coleman observa:

Dentro do grupo apostólico selecionado, Pedro, Tiago e João


pareciam desfrutar de uma relação mais especial com o Mes-
tre do que os outros nove apóstolos [...] Tão notória era a pre-
ferência dada a esses três que, se não fosse o fato que Jesus
jamais se deixou guiar pelo egoísmo da carne, isso bem pode-
ria ter precipitado sentimentos de ressentimento por parte dos
demais apóstolos. O fato de que não há registro algum de quei-
xa, por parte dos discípulos, por causa da preeminência des-
ses três apóstolos, embora tivessem murmurado a respeito de
outras coisas, serve de prova de que quando se demonstra

--
preferência no espírito correto, e pelos motivos corretos, não
há necessidade alguma de ofensa.'

A última vez que Jesus esteve com seus discípulos antes da sua
morte foi no jardim Getsêmani. Ali, ele organizou os discípulos de acor-
do com essa estrutura de liderança. Ele deixou os nove num ponto mais
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 205

afastado e levou os três discípulos do seu círculo íntimo, Pedro, Tiago e


João, para mais perto dele. Então ele foi mais adiante para dentro do
jardim. Na última noite em que ele esteve com eles, Jesus mostrou na
prática como ele havia se relacionado com os seus líderes nos últimos
três anos e mero,

SUBGRUPO~TRE OS DOZE

Possivelmente existe pelo menos um outro relacionamento dentro


do contexto do triângulo de liderança de Jesus. Pedro, Tiago e João
também poderiam ter exercido a função de mentores para três outros
discípulos. Esses subgrupos dentro do grupo dos doze possibilitariam
um círculo íntimo para modelar o relacionamento que Jesus tinha com
eles com três outros discípulos.
Os subgrupos dentro do grupo dos doze possibilitariam é,l trans~
rência
..= de lider~a descrita em 2Timóteo 2.2 para operar de acordo com
a estrutura de liderança de Jesus: E as palavras que me ouviu dizer na
presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam
também capazes de ensinar outros. O líder sempre deveria treinar ou-
tros líderes para duplicar o que ele aprendia. Jesus fez isso na comuni-
dade dos doze.

USANDO O TRIÂNGULO

Nos último anos, tenho servido de consultor para várias igrejas de


todos os tipos e tamanhos a respeito da transição para o modelo de igre-
ja em células. Ainda não encontrei uma igreja em que esse triângulo de
Iiderança não funcionasse. Durante esse estágio de Iiderança no proces-
so do protótipo você vai:

1. Descobrir o formato e a dinâmica da unidade básica da célula.


2. Testar partes operacionais essenciais da igreja em células.
3. Identificar e reunir líderes essenciais.
4. Desenvolver uma infraestrutura de células.

1. DESCUBRA O FORMATO E A DINÂMICA DA


UNIDADE BÁSICA DA CÉLULA

Uma das tarefas mais importantes para uma igreja em células pres-
tes a alçar vôo é descobrir qual a aparência do bloco de construção bási-
206 A Segunda Reforma

CATALISADO R

Células de Descoberta
de Liderança
Principal

Células de
Descoberta de
Líderes
Auxiliares

Figura 7. Usando o Triângulo

co, a célula. O triângulo de liderança de Jesus pode nos ajudar a fazer


isso (veja a figura 7). A eficiência de uma igreja em células depende da
unidade básica da célula. Cada igreja deve descobrir como Deus quer
ser Senhor em suas células todas as vezes que elas se reúnem de tal
forma que podem ser repetidas até a décima multiplicação. Um pastor e
seus inovadores podem descobrir as características de uma unidade bá-
sica de célula ao usar o triângulo de liderança.
Primeiro, UI11pastor escolhe UI11Pedro, um Tiago e UI11João C0l110
seus inovadores. Em urna igreja existente, esses líderesjá vão estar fun-
cionando em algum tipo de liderança. Em um novo início, esses líderes
~~riaDl fazer parte da eqJlipe de implantação de igreja Eles junto
com seus côlU5es, formam a cODlI!nidade cristã de base de oito pesso-
as. ~o e um líder solteiro, uma outra pessoa solteira pode ser
acrescentada ao grupo. Quando se planeja formar células de liderança de
~ens ou de universitários, oito estudantes líderes podem ser escolhidos
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 207

para o modelo inicial.TNão se fixe no número "oito". O grupo de desco-


berta pode consistir\de seis a dez pessoas). A célula de descoberta de lide-
rança inicial tem como objetivo:
!

• YLverjuotos em comunidade
• Tirar as máscaras de relacionamentos
• Aprender o significad-õ-da edIficação
• Descobrir ~m formato de célula fUI1CIonal
• Experimentar a dinâmica da vida na célula
• Nutrir uma ~xªº=p~IQ ell;lngelislll~_ '

Essa célula de descoberta de liderança deve experimentar cornuni-


..•
dade, não estudar como uma célula funciona. Reunir-se para
- falar acerca

s e reulllao. sse grupo deve experimentar a vida em corpo mais básica e


essencial de uma igreja em células. Se os líderes em uma igreja não expe-
rimentarem comunidade, comunhã~ e editicação, como os membros irão
.2ber o que deve ocorrer em 'I 11:1 a céllll.17
Essa célula de descoberta de liderança inicial pode durar apenas
alguns meses. Pode ser acelerada, tendo tempos intensivos freqüentes jun-
tos, incluindo retiros de final de semana ou encontros de um dia. ,O. obje-
<tivo não é somente experimentar cada parte da vida da célula mas desco-
-.....brira presença, o poder e o propóiíiõde uma célula básica e determinar

"*
o formato apropriado para as rellniões de céllllas futuras.
Uma igreja não pode aprender a vida na célula de uma fonte indire-
ta, de experiências de outras i re·as ou livros. Para entender a vida na
ce u a, os líderes precisam experimentar pessoalmente a célula, Deming
disse: "É um risco copiar. E necessário entender a teoria do que deseja-
mos fazer ou promover"." Os líderes que copiam a estrutura básica da
célula de alguém outro colocam em risco a sua igreja. A vida na célula
deve ser original, não copiada de outros. Somente Deus tem o original.
(Veja o capítulo 13 para observar o padrão de uma célula básica que pode
ajudá-lo a iniciar esse processo).
Q teste final de liderança não é se uma pessoa pode liderar, mas se
essa pessoa pode ensinar OlltroS a liderar de lima maneira semelhante. ""-
Depois do .Primeiro ciclo da célllla de descoberta de liderança inicial de
dois ou três meses, os líderes devem formar células de descoberta de lide-
res auxiliares (secundários). É possível que a primeira célula de desco-
berta de liderança funcionou porque o lider era altamente capacitado.
Portanto, o líder deve reestruturar a célula de descoberta de liderança

l
208 A Segunda Reforma

original em três novas células. "Pedro" recebe mais três líderes; o mes-
mo acontece com "Tiago" e "João". Novamente, junto com seus cônju-
ges, eles experimentam os mecanismos e dinâmicas do tipo de células
que eles querem desenvolver na igreja. O segundo ciclo de células de
descoberta inicia com o padrão de células que nasceu da experiência da
célula de descoberta de liderança original. A pessoa gue liderou a célula
de descoberta de liderança inicial deve dar supervisão para as trê~
las de descoberta de liderança
cJ- Q propósito é "sintonizar" o formato e a dinâmica da vida na célu-
la, já experimentado el rimeira célula de descoberta de lideran a-:-
Depois de mais u ciclo de descobe e dois ou três meses, todos os
envolvidos nessas células de descoberta de Iiderança devem ter experi-
mentado a vida na célula.~

2. TESTE PARTES OPERACIONAIS ESSENCIAIS DA


IGREJA EM CÉLULAS

As primeiras células operacionais devem agora ser formadas com


membros escolhidos da igreja. Os líderes que já experimentaram a vida
na célula em uma das células de descoberta de liderança são líderes de
células, auxiliares e membros-chave das novas,r;i,lulas-:teste. Membros
comprometidos são acrescentados aos membros existentes das células.
Eles podem incluir até oito adultos. tJessa fase importante do protótipo,
é melhor ter algumas células fortes do que muitas células fracas. O nú-
mero de células-teste depende do tamanho da igreja.~o entanto;t: inz.
portante lemb~ll(ls são~s-j~e. Esse ainda não é o
'Tetnpõpãracolocar todos os membros da igreja em células,FQnuar c in=--
~ célul~e ssr ebcaz e pode servir com~~
rupo de controle 'i . ei' a i re' a de quase
todos os tamanhos.
~ste vão usar o mesmo mecanismo e dinâmicas desco-
bertos pelos líderes durante os dois ciclos de descoberta. Porém, essas
cf1l1las-te!ite vão ser diferentes em alguns aspectos da~IIIa de desco~
~. Primeiro, ess,as células-teste vão permanecer jll!lÍês dJJ[antf) o ci~
cio completo de sfs a nove meses, enquanto os dois ciclos de células de
.~oberta p;;;;edentes ~stavam juntas pQr apen~dois ou três mes~
Segundo, essas células são diferentes porque elas vão procurar alcançar
os seus oikm ~r~açionamentos) e cres;;r ao acrescentar convertidos'
ilim de membros da igreja, periodiçamelll~.
r-- À medida que essas células se aproximam do fim do seu ciclo de _
r A Igreja do Novo Testamento no século XXI 209

das. (Veja oIFator reorganização no capítulo 17). A~e~,g.g.~~~~?


~rganizar\do ue m ti licar or ue a maioria d ras
las ainda não vão estar funcionando ç.o~ ~élul~~raciol~ais.
estão ap~do a evangelizar, treinar, edificar, liderar, ~envolver -ir
um auxiliar e pres~]tas IIns aos out(Qs. Além desses elementos iln=-
p~;·tantes, esses grupos também estão buscando experimentar comuni-
dade aprendendo a lidar com membros disfuncionais. Durante esses ci-
cios de teste, os membros de células existentes devem ser reagrupados
ou redistribuídos para desenvolver várias células-protótipo fortes e sau-
dáveis.
À medida que líderes processam os ciclos de células de descoberta
c os ciclos de células-teste, eles também devem implementar as partes
funcionais essenciais da igreja em células. Uma igreja em células não
vai funcionar sem implantar um trilho de treinamento e um de
e~mo transbordante, treinamento de auxiliares, c~b~
adoração equilibrada, uma base de oração e uma estrutura de liderança.
Essas partes funcio ~nterde ~._.1t s. Por exemplo, é difí-
cil treinar Ií eres até que trilho de treinamento estej~funcionando.
~Ii ismonãovaifluir.Num . eir
momento, essas partes f . nais estão endo inseri as e o resultado da~
VI a na ce ula vai Rare~. Noentanto, àll}~dida que cadª-.l2ªrte se
~~er~dos outros componentes para ope-
rar em um'nível superior. O~{:r~ràrne~.~.~.-'lue,~s<
partes funcionais se C;.Qmpletam mlltl@m.e~.
Um trilho de treinamento deve ser estabelecido por meio do qual
cada membro da igreja pode ser treinado para um viver cristão proveito-
so e produtivo. D.lp:aute os ciclos de descoberta Q@ liderança e os ciçlQs
de células-teste, um trilho de treinamento sistemático deve ser .desen-
~J@aQ e inserido na viaidíl célu~ Uma igreja em~élulas não
vai funcionar sem um modo de desenvolver cada membro em um discí-
pulo produtivo. ~ste,fornecem um ambiente controla-
do para testar e desenvolver.umjrjlho de.treinamento bem-sucedido.
---oel-- eIÚ,-;;;;-aeve começa; a transbordar da vida da célula por
meio de relacl2Dam ntos na.11!.!lUs.. Novos crentes são trazidos para uma
viilit significativa na célula para serem transformados em discípulos pro-
dutivos. Durante os ciclos de testes, as células aprendem o evangelismo
por amizade como uma parte natural da vida na célula. As células come-
~am a contatar descrentes de três maneiras. Primeiro, ;; células vi~am-
descrentes que já fazemlli!IleQ<l~~fura de influência dos membros. Se-

l
210 A Segunda Reforma

gundo, ars células recebe!!!.. e incorporam descrentes que ~tão à busca c:k:--
Cristo e de comunidade. Terc.e.ir.o, os membros de células contatam des-
crentes resistentes procurando atender as suas necessidades.
O treinamento de auxiliares deve ser introduzido no estágio do
ciclo de testes. Uma igreja em células cresce porque ela produz líderes
auxiliares para cada nível de liderança. Os auxiliares são a chave para
o cresc imento. Os Iíderes devem aprender a usar o treinamento en-
quanto estão exercendo sua função para desenvolver auxiliares de cé-
lulas que efetivamente fazem o que o líder de célula modelou. O trei-
~
namento de auxiliares deveria incluir um ~rendizado estrutufª-do, usan-
do um ~sistemáticq e um treinamento prático orient~do pelo
líder d~ célula. .
Durante os modelos de células iniciais, uma estrutura de lideran-
ça deve ser desenvolvida e testada. À medida que você desenvolver cé-
lulas- teste, você terá de desenvolver uma ~ltl![a de supervisão-.J;Jara
que os líderes tenham cond ições de aprender como funcionar como
supervisores sobre 50, 100 e 1.000 (veja a figura 8, na página 211).
À medida que~ocê experimentar a vida na célula.ia.celebração
I\O-C.l.!.!!2J~.!'9 signiflcado. ~~ro c?m ·~eus j~~~!OS
se tornará um transbordar do encontro com Deus nas células. A oração
fambém terá de servir-coI110·supolie pa~ feito. Sem a
dependência vital do Pai, nada vai ser realizado.
Durante os ciclos de descoberta e teste, estes componentes es-
senciais devem ser desenvolvidos e embutidos na estrutura e vida da
igreja.

3. IDENTIFIQUE E REÚNA LÍDERES ESSENCIAIS

O triângulo de liderança coloca em movimento o desenvolvimento


da estrutura de liderança de Jetro que fornece supervisão nos níveis de
1.000, 100,50 e 10. Igrejas em células normalmente têm uma lideran-
ça nagroporçào dt;Jlm líder para cada C 111 co a dez membros. Isso pode
variar até certo ponto, mas j; princípjo de liderança em uma i..greja em
células é de supervis_i()nar membros dentro de um contexto de grupo
~eLlQ ..
A figura 8 ilustra várias caraterísticas importantes de liderança
na igreja em células:
I. A liderança é organizada em torno de quatro tipos de líderes
que podem ser identificados pelo número de membros que eles ser-
vem. Os líderes são responsáveis por 10,50, 100 e 1.000 pessoas. Es-
A Igreja
\
do Novo Testamento no século XXI 211

GRUPOS DE

PASTORES DE DISTRITO
E AUXILIARES
sobre cinco pastore .•, de congregaç'ão

GRUPOS DE

H 100"
PASTORES DE CONGREGAÇÃO
E AUXILIARES
sobre cinco supervisores de congregação

!!
Figura 8. A Estrutura da Igreja em Células (A Estrutura de Jetro)

ses números são categorias flexíveis, não barreiras rígidas. As catego-


rias têm um limite alto e baixo para que o crescimento possa ocorrer.
Por exemplo, a pessoa que serve como um líder sobre 50 (supervisor
de congregação) pode na verdade supervisionar de duas a seis células
~~~~Jlta pessoas. Aqueles que servem como líderes sobre
100 (pastores de congregação) podem cuidar de dez a vinte ecinco
células ou
----~--_._--de cem a trezentas pessoas.
2. Os líderes são ligados uns aos outros para apoio e prestação de
contas. Por exemplo, um líder sobre 10 (líder de célula) está ligado
para receber apoio de UI11 líder sobre 50. O líder sobre 50 está ligado
ao líder sobre 100 e aqueles que estão sobre 100 a UI11 líder sobre
1.000 (pastor de distrito).,

l
212 A Segunda Reforma

ara qlJ~ haja crescimento futuro dos seus grupo~. ~eles vai ser jm.:-
gossível multiplicar e crescer. .
. ~ Líderes sobre 1.000 e .são líderes a~salª[iados,
de tempo integra ,..Lígeres sobre 50 e 10 são membrosyE!~n1ár.ip~
_ são pagos. A possibilidade de uma mUfhplicação exponencial é compro-
metida se os salários devem ser pagos a líderes de células e aqueles que
são responsáveis pela supervisão sobre 50.
5. O perfil para um líder de célula que cuida de 10 pessoas deveria
ser como o de Áquila e Priscila, não como de Paulo ou de Timóteo. A
.
_JUuItlplicacão ---
exponencial vai ser iIDpossív~litULP.os!ç~..9 do líder de cé-
g~l~
~
J.!:iliqIlP-cllidª d~ 10 é \lilit~ma-PQ5i.Ç..ã9_@
-~
alguém
-
foi orde~~ _

6.As qualificações para os líderes enumeradas em ~e


Tito I normalmente são usadas para descrever o líder sobre 50 que exerce
um papel de supervisão. Líderes de células (sobre 10) devem ser vistos
como servos e não como líderes sujeitos às qual ificações mais rígidas.
7.A liderança na igreja em células é baseada no serviço. Filipenses
2.5- I I é um dos textos mais importantes para os líderes de células. Não
pode serlíder quem deseja subir a escada da liderança. Eles devem traba-
lhar com um coração de servo, conforme foi exemplificado por Jesus no
cenáculo quando ele tomou uma toalha e uma vasilha e lavou os pés dos
discípulos.
8.Em uma igreja em células operacional, os líderes se movem verti-
calmente pelo sistema em vez de horizontalmente ao serem introduzidos
de fora Esse sistema de liderança permite que um líder seja treinado em
sua própria igreja para entrar em cada estágio de liderança.
9. Em uma igreja em células totalmente operacio '''''~~~~~~---l
Jideranca de JetIQ...[Qrnece (Im sistema que ajuda a detectar falhas n.QS....-
Jjgeres. Os líderes devem ser provados nos papéis básicos de liderança
antes de assum ir responsabi I idades maiores. Esse trei namento que ocorre
enquanto o Iíder está exercendo sua função fornece um contexto no qual é
possíve identificar defeitos doutrinários e de caráter. ~ideres não qualifi-
cados p,)dem ser identificados cedo no pr()~~sso e ser gentl!.!.nente remo-,_
vidas..f'!!receber mais treinamento.--.
,,-
-----.---- .
]I!.O papel de liderança mais importante é o do líder de célula.
Todosx outros líderes existem para faci Iitar e apoiar o que está aconte-
cendc ~o nível da célula.
1 . Essa estrutura de I iderança provê um contexto no qual Efésios
4.12 pcíe funcionar. Os I íderes providos por Deus aperfeiçoam os san-
tos para a obra do ministério no nível mais básico da vida da célula.
(
A Igreja do Novo Testamento 110 século XXI 2I 3

Células da primeira geração

Figura 9. Desenvolvendo a infraestrutura

À medida que uma equipe de líderes passa pelos ciclos de desco-


berta de células e os ciclos de células teste, essa estrutura de liderança
~ingular deve ser testada e implantada. )

4. DESENVOLVA UMA INFRAESTRUTURA DE CÉLULAS

o triângulo de liderança é a primeira parte do processo no desen-


volvimento de uma infraestrutura de células que no tempo oportuno se
torna a congregação-base. A figura 9 nos apresenta uma boa figura do
que está acontecendo d~a"nfe o processo descrito neste capítulo. Veja
como o triângulo de liderança se relaciona com a infraestrutura de célu-
las mais ampla que é desenvolvida durante o protótipo. Em uma igreja
em células, todas as atividades e componentes são conectados à
infraestrutura das células.
Como o gráfico acima ilustra, desenvolver o protótipo começa com
o triângulo de liderança. Durante os dois ciclos iniciais de descoberta de
214 A Segunda Reforma

liderança, os líderes mais antigos desenvolvem as dinâmicas e mecanis-


mos da vida na comunidade cristã de base. Quando os líderes desco-
brem como Deus deseja viver no meio deles, em sua presença, poder e
propósito, na vida em comunidade, eles formam o primeiro ciclo de
testes.Os círculos no gráfico representam uma sérix.-Posciclo~ttrstes

=-
. .2 FjC!O dejestes pode chegar a três ou guatro ciclos de seis a noy~
rneses. I.sso significa que a fªse do ciclo de testes pode durar dois anos
Q1lmajs.
O alvo da fase do ciclo de testes é desenvolver várias células sau-
dáveis, estabelecer a estrutura de liderança e aprender como preparar,
evangelizar e treinar auxiliares. Outros membros são trazidos para den-
tro das novas células-teste em cada ciclo quando as antigas células-teste
são reorganizadas e novas são acrescentadas. O nalmente
dez a uinze células mo

- ~~n~eM:aq~~~~ea ~f2l:fs-a'ld~eiS estão funcionando, ini~


se o processo de incorporação da vida na célula na ig!!ja 1~1. A igreja
~---
e preparada para essa mudança interna pelo pastor titular que lança a
visão e ajuda os membros a incorporar os valores da igreja em células.
Algumas estruturas deveriam ser aperfeiçoadas nesse processo para pre-
parar a introdução das células em toda a igreja. Um número cada vez
maior de Jíderes da igreja vai assimilar a visão de liderança:.!l vão
compor a base de liderança, "Z,!Lvão formar a rede de apoill e, finalmente,
120 vão tornar-se iiõ'i\gregaçãO-b~e. Esse pr6tts"so levou três anos e
meio para Jesus. Uma igreJa típica vai precisar de três a cinco anos
&
pa'"ª-.
completar o rocesso do protótipo.
e ar ao onto e 111 lItma ampla
vai levar Óelo menos dois anos. Precisa-se de to o esse tempo para apren-
r;z::=
der os mecanismos e as dinâmicas da vida de uma igreja em células.
Precisam ser introduzidos a~utura de células e o desenvolvi-
mento de um jrilho de treinamento, o eyangel ismo, o \;;J.~!.1J5;;.u.u.J...J..I~_
~uxiliares, a~o, a oração e jl estrutura de liderança.
Além disso, Deus deve preparar a liderança para viver nesse tipo de
igreja. Tudo isso leva tempo. O estágio final deste processo está descri-
to em maiores detalhes no capítulo 20.
Jesus tinha uma estratégia de liderança, e o mesmo deve acontecer
conosco. O triângulo de liderança oferece uma estrutura para desenvol-
ver e implementar a estratégia de liderança necessária para a igreja se
tornar uma igreja em células operacional.
r
Processo de Números do
de Mudança Novo
Schaller Testamento

P,- Palavra
e Visão de
Par a _ Convergência profética Concebida
igreja em
Ç (Jesus) células
ao

p Grupo 2-3
Inovação Introduzida
inicial pessoas
R
O
T 12
Legitimar Liderança-
Ó pessoas Apropriada
Patrocinar chave
T
I
P Grupo de 70 Rede
O Execução pessoas de apoio Implementada

O Concretização 120
p Congregação-
E da pessoas Capacitada
R "Mudança" base
A
C
I
O Expansão
N 3000-5000 da Expandida
A igreja
L
19
A REDE DE APOIO DE JESUS

Para que um paradigma lenha sucesso ele precisa ler


alguns apoiadores, homens que vão desenvolvê-lo até o
ponto em que argumentos de senso prático podem ser
produzidos e multiplicados.
- Thomas Kuhn

V
ocêjá montou~ll cavalo desembestado? EujákM~ro-·
~fl~dy, er~~marrom-avennelhada com uma man:--~
cha branca na cabeça. No entanto, ela não era tão dócil como o
seu nome ou a sua aparência! Quando Judy cansava, ela queria voltar
para o estábulo. Aos dez anos de idade, eu não tinha a força para
convencê-Ia de ficar lá fora no sol e me levar para a minha aventura
seguinte. Quando Judy disparava e seguia para casa, eu tinha duas esco-
lhas: ou eu me agarrava nela até ela decidir parar, ou procurava por uma
areia fofa, e saltava.
A rede de apoio de Jesus dos Setenta deve ter-se sentido da mesma
maneira quando eles o seguiram para Jerusalém para os últimos dias.
Eles haviam tentado dernovê-lo da idéia de ir para lá. Tinham ouvido
das conspirações, tinham visto a crescente raiva e ódio na face dos líde-
resjudeus e sentiam a apreensão de Roma. Não importava o quanto eles
tentassem, não conseguiram fazê-lo mudar de idéia.

COMPOSIÇAo D;\ REDE DE ;\POIO DE Ji.sus

A rede de apoio de Jesus era composta de vários grupos de líderes


que tinham uma visão comum. Esse grupo incluía os Doze que Cristo
escolheu como o seu grupo especial. As familias imediatas dos Doze
também faziam parte da rede de apoio, j unto com seus parentes como
João Marcos, cuja mãe, Maria, era uma das seguidoras. Muitos da rede

217
218 A Segunda Reforma

de apoio inicial eram discípulos de João Batista. As mulheres foram


mencionadas com freqüência como apoiadoras fiéis que se relaciona-
vam com Jesus de uma maneira especial. Uma parte da família de Je-
sus também fazia parte da rede de apoio. Sua mãe, Maria, também
sempre é vista apoiando a Jesus, embora alguns dos irmãos e irmãs
biológicos de Jesus questionassem suas intenções. Essa rede fechada
de seguidores era absolutamente essencial para o desenvolvimento do
seu movimento.

SEIS ELEMENTOS NA REDE DE APOIO

Lyle Schaller enumera seis elementos essenciais encontrados em


mnifupo de apoio bem-sucedido. Quando somos capazes de conver-
ter a linguagem de Schaller aos eventos do Novo Testamento, torna-se
óbvio que Jesus estava seguindo esses mesmos princípios universais
ao desenvolver a primeira igreja. Observe o último passo da posse. A
rede de apoio toma posse da idéia e implementa o conceito. Enquanto
uma nova idéia não atrair uma r~d_~-ºi!_ªpplº CQIDQIº.rnetida ;; redor ----.
'aela, nao havera uriÜilillplernentação significativa des~ã idéia.

NÚMERO - Deve haver um número suficiente de pessoas no


grupo de apoio para realizar determinado alvo.
LEGITIMIDADE - Esse é o "carimbo de aprovação" que é
essencial para ganhar o apoio necessário,
LEALDADE - A importância da lealdade é muitas vezes negli-
genciado nos esforços para desenvolver um grupo de apoio. Seu va-
lor é mais visível quando ausente.
HABILIDADE - Uma liderança hábil é necessária primeiro
para ganhar a aprovação necessária da mudança proposta e em se-
guida para tornar a mudança uma realidade operacional.
COALIZÃO - A habilidade de aceitar idéias diferentes acerca
de como implementar mudanças e de incluir outros e suas idéias no
processo.
POSSE - A capacidade de um grupo de apoio de aceitar uma
idéia de um grupo inicial menor e de adotar a idéia como sendo "nos-
sa! ",I

Uma rede de apoio é essencial no processo de iniciar uma nova


igreja em células ou para fazer a transido de lima igreja existente
para uma igreja em células. No caso de um novo início, a obra vai
A Igreja do Nôvo-Iestamento no século XXI 219

crescer ao juntar até 70 segu),es comprometidos que estão dispos-


tos a implementar a estratégia. Em lima igreja em transição, se llli2..há..-
O membros ue estão dispostos 1f comprometer-se c e
todo o coração, eXls e pouca esperança de azer a transição de todos os
~os da jgrejSl.-A rede de apoio das 70 pessoas também forma as
-~-teste importantes no processo de desenvolvimento da igreja.

"VAMOS TAMBÉM PARA MORRERMOS COM ELE."

Uma rede de apoio de setenta seguidores testados na batalha


vai mostrar uma atitude especial e o compromisso em relação à tare-
fa. Imediatamente após a morte de Lázaro, os discípulos perceberam
que Jesus não deixaria de ir para Jerusalém. Tomé falou o que estava
no coração deles: Vamos
"r== tqmbém para morrermos com ele (João
11.l.6.L
A rede de apoio de Jesus não entendeu tudo o que ele estava
fazendo. Eles não concordaram com a sua decisão. Eles temiam o des-
tino para onde ele os estava levando, mas estavam tão comprometidos
que estavam dispostos a enfrentar a morte com ele em Jerusalém.
A rede de apoio é leal e estará disposta a passar por perigo pesso-
al para seguir a visão. Mesmo que se espalhassem como um bando de
codornizes depois de chegar a Jerusalém para a Páscoa, eles enfrenta-
ram incertezas e perigos com ele.
Fred e Peggy têm estado conosco em Houston desde o primeiro
ano da implantação da nossa igreja. Fred admitiu que ele tinha sempre
sido um "fugitivo". Quando surgia um confronto em uma igreja ou as
coisas ficavam difíceis, ele sempre escapava. No entanto, a certa altu-
ra em sua vida na Shepherd Community (Comunidade do Pastor), Fred
exclamou: "Estou arruinado! Para onde posso ir depois de ter começa-
do a experimentar esse tipo de comunidade? Deus não vai me deixar
fugi~
- A rede de apoio vai ficar ao seu lado e ir para a batalha. Eles não
vão "saltar do cavalo" quando as coisas ficarem difíceis. As agendas
pessoais vão ser substituídas pela agenda de Jesus, e não vai haver um
voltar atrás. Eles já passaram pelos tempos difíceis e a sua fé e o seu
compromisso os mantiveram no grupo. Os Setenta estão dispostos a
"ir e morrer" com você.
A visão foi internalizada. Os participantes tomaram posse dos va-
lores. A lealdade foi firmada. A base de apoio está impelida a seguir,
mesmo enfrentando oposição e perigo.
220 A Segunda Reforma

A REDE DE APOIO TEM QUE VER COM IMPLEMENTAÇÃO

Thomas Kuhn escreve que a rede de apoio é formada por "homens


que vão desenvolvê-Ia até o ponto em que argumentos de senso prático
podem ser produzidos e multiplicados". Durante esse estágio, a visão é
implementada. A infraestrutura é firmada. As lições são aprendidas. As
falhas são corrigidas. Os testes são completados. Os materiais são de-
senvolvidos. Os métodos são provados. Os líderes são identificados.
Jesus enviou os 70 discípulos para aprender acerca do seu reino,
do seu poder e de como os descrentes reagiriam a eles. Durante esse
tempo, sua rede de apoio dos Setenta aprendeu acerca de evangelismo
no mundo e da edificação na vida da comunidade.
Setenta é um bom número para aprender a respeito de
implementação. É grande o suficiente para conter várias unidades bási-
cas de 10 (células) e grande o suficiente para servir de modelo para as
outras unidades de liderança de 50 e de 100. Os mecanismos e as dinâ-
micas da igreja em células podem ser experimentados em um grupo
desse tamanho, no entanto, o número ainda é pequeno o suficiente para
que os líderes inovadores controlem, adaptem, mudem e monitorem o
processo. Setenta pessoas são suficientes para desenvolver um modelo
viável sem esmagar o processo com números grandes.

A REDE DE APOIO MORRE PARA AGENDAS PESSOAIS

Aqueles que se tornam parte da rede de apoio aprendem a sacrifi-


car as suas agendas pessoais para poder fazer parte de uma visão co-
mum. es . tãos de hoje se agrupam em torno
de causas e tarefas em vez de em torno da comunida e com Cristo. A
pessoa com urfla agenda que não seja de Cristo quando entra em um
E!"upo pensa: "Vou me relacionar com vocês somente se o grupo aceitar .--
essa hipótese ouêssa premissa.--Caso contrário, não farei parte d~
po". Essa é uma forma de controle que destrói comunidade. Durante a
formação da rede de apoio dos Setenta, as agendas pessoais são deixa-
das de lado ou a jornada para tornar-se uma igreja em células será para-
lisada!
Mesmo as agendas pessoais boas destroem o processo de desen-
volver uma comunidade-protótipo. Minha agenda pode ser o bem-estar
espiritual dos meus filhos. Sua agenda pode ser um estudo bíblico pro-
fundo. A agenda de alguém outro pode ser a manifestação de dons, ou a
adoração, ou o discipulado ou o evangelismo. Alguns podem advogar
A Igreja do Novo Testamento ~UIO XXI 221

causas políticas dignas. Contudo, não im~uão boa uma agenda


possa ser, ela acabará destruindo o processo de construir comunidade,
não porque é uma agenda má mas porque é "minha agenda". Esse é um
abscesso supurante da vontade própria, apenas esperando o momento
certo para impor-se como uma condição para a comunhão no grupo.
Imagine fazer parte de um grupo em que o objetivo é concentrar-se
em torno de uma visão única, mas em que cada pessoa procura defender
um conjunto diferente de posições, proposições e agendas. Essas agen-
das pessoais limitam drasticamente as áreas na qual o grupo vai procu-
rar caminhar e restringe a liberdade do Espírito. Isso fragmenta o foco
do grupo, dissipa as dinâmicas espirituais e, em última análise, coloca
uma pessoa contra as outras pessoas do grupo se elas não comparti Iham
com a sua visão pessoal ou a sua maneira de viver essa visão. Minha
agenda é uma tentativa sutil de controlar pessoalmente a visão do grupo
em vez de confiar que Cristo controle a agenda. Agendas pessoais sepa-
ram um grupo em enclaves ou interesses egoístas e zonas de conforto
que não podem ser tocadas ou ajustadas.
Como podemos saber se a rede de apoio dos Setenta está operando
em torno de agendas pessoais em vez de em torno de Cristo como a
agenda? Olhe pela palavra "se" no grupo, falada ou demonstrada por
meio de ações. Agendas pessoais prosperam na atmosfera de relaciona-
mentos condicionais. "Farei parte do grupo se você ou o grupo se com-
portar de certa maneira; se vocês fizerem uma determinada coisa; se
vocês crerem em certas doutrinas; se vocês agirem em relação a mim de
certo modo; se eu puder exercer minha influência sobre o grupo!"
Você percebe a devastação que a palavra se pode causar? Aquele
que a usa está dizendo que o seu relacionamento com a comunidade é
condicional. A comunidade simplesmente não pode sobreviver em uma
atmosfera condicional. Quando impomos ali I:]o•••• as exigê.02as sobre o
grupo, a comunidade morr@,~ verdadeira com!Jnidade não coloca con-
'dição alguma a não ••er O amor. ,
=:
- Dietrich Bonhoeffer nasceu na Alemanha em 1906. Sua carreira
como teólogo, escritor eVmestre estava enraizada em Berlim, sua terra
natal durante a sua infância. Durante o reinado de Hitler, Bonhoeffer
falou bravamente contra o governo nazista. No final da década de 1930,
Bonhoeffer foi para um seminário clandestino, onde viveu em uma co-
munidade cristã com 25 religiosos. Ele foi preso por causa do seu papel
ativo no Movimento de Resistência e executado aos 39 anos pela Gestapo
alemã, em 5 de abril de 1945, no final da guerra.
Durante seu tempo na prisão, ele escreveu The Cost of Discipleship
222 A Segunda Reforma

(O custo do discipulado) e Life Together (Vida juntos) em pedaços de


papel que saíam clandestinamente com a ajuda dos guardas da prisão
simpatizantes do movimento. As reflexões seguintes em viver como Cor-
po de Cristo fazem parte da última obra e revelam como Bonhoeffer era
sério no confronto ao compromisso condicional na comunidade:

Qualquer ideal humano introduzido na comunhão cristã pertur-


ba a comunhão autêntica e há que ser eliminada, para que a co-
munhão autêntica possa sobreviver. Quem ama seu ideal de co-
munhão cristã mais do que a própria comunhão cristã, esse a
destrói, por mais sincero, sério e dedicado que seja em seu inten-
to [...] Quem concebe uma comunhão idealizada, exige de Deus,
dos outros e de si mesmo o cumprimento dessa visão. Entra na
comunhão cristã com exigências, estabelece sua própria lei e,
conforme ela, julga os irmãos e ao próprio Deus [...] Tudo o que
não transcorre de acordo com sua vontade, ele o chama de fra-
casso. Sempre que seu ideal se destrói, vê quebrar-se a comu-
nhão. Primeiramente torna-se acusador dos irmãos, depois de
Deus e, por fim, acusador desesperado de si mesmo.'

I( earacterística pri~pal d<:!:~~iQ não, é O m'nuero 'll-ªS a


~. E importante que a igreja em células tenha pelo menos 70 adul-
tos que aprenderam a agir em uma igreja em células. Mas, é ainda mais
importante ter 70 pessoas que, no processo de aprender a ser uma igreja
em células, aprenderam a atitude e a mente de Cristo e vivem em com-
promisso e servidão.
A rede de apoio de 70 discípulos comprometidos estava entre os
120 que se dirigiram para o cenáculo em Jerusalém onde aguardaram
em oração, unânimes na mente e coração. Por meio do espírito dos Se-
tenta, a congregação-base vai ser capacitada para ser o corpo de Cristo.
~a rede de apoio vivendo com Cristo e seguindo-o para o cenáculo,
~ongregação-base não pode ser gerad~ ~
F}
e
Par a _
Ç
ao
--
Convergência
....
..
Palavra
profética
(Jesus)
Visão de
igreja em
células
•Concebida
.

p Grupo 2-3
pessoas Inovação Introduzida
inicial
R
O
T 12
Legitimar Liderança-
Ó pessoas Apropriada
Patrocinar chave
T
I
P Grupo de 70
Rede
pessoas Implementada
O Execução de apoio

O Concretização
p 120 Congregaçio-
E da pessoas base Capacitada
R "Mudança"
A
C
I
O Expansão
N 3000-5000 Expandida
A da
L igreja
20
o REMANESCENTE
DA
CONGREGAÇÃO-BASE DE JESUS

o grupo !1('ljUeI10, ente/o, deve ser suplementar e


normativo - suplementar no sentido que não substitui
a adoração coletiva ali corporativa; normativa no
sentido de ser uma estrutura básica de igreja,
igualmente importante junto com a adoração coletiva.
- Howard Snyder

Q
uando ele ascendeu ao céu, Jesus deixou uma congregação-
base de 120 pessoas no cenáculo. Hoje, Cristo constrói o mes-
mo tipo de igreja que ele plantou no primeiro século. Quando a
congregação-base finalmente se reunir, tudo o que é necessá-
rio para ser o corpo de Cristo está presente. Cristo não nos chamou para
construir uma igreja de milhares, mas deixar que ele forme a sua con-
gregação-base de 120 ao nosso redor. Dentro de uma congregação-base
de 120 a 200 cristãos (do tipo "cenácu lo") encontra-se a infraestrutura
essencial para formar uma igreja de mil ou de dezenas de milhares. Ne-
nhuma outra estrutura é requerida. Simplesmente multiplicar os meca-
nismos e as dinâmicas daquela unidade congregacional pode resultar
em um crescimento ilimitado.

YOIDO REALIZOU A TRANSIÇÃO POR MFln I1F I IM

REMANESCENTE

Por anos tentei entender a Igreja do Evangelho Pleno Yoido, a igreja


com 750.000 membros em Seul, na Coréia do Sul. De que forma essa
igreja tradicional de 2.400 membros realizou a transição para uma igre-
ja em células dinâmica e explosiva? O segredo está nos próprios escri-
tos do dr. Cho:

Eu tinha apenas 28 anos de idade mas meu corpo parecia um

225
226 A Segunda Reforma

desastre. O médico me disse que abandonasse o pastorado e


escolhesse outra profissão. Mas a despeito do estado de meu
corpo, sentia tremenda excitação. Deus falara-me mediante sua
Palavra durante os dias em que fiquei na cama, revelando um
plano totalmente novo para mim a fim de reestruturar nossa
igreja de modo que eu não tivesse de levar o peso ministerial
sozinho. Estava ansioso para colocá-lo em prática porque tinha
convicção de que funcionaria.
Contudo, simplesmente não podia ir à igreja e pedir que os mem-
bros pusessem o programa em andamento. Nossa igreja possuía
2.400 membros e um corpo diaconal que teria de aprovar quais-
quer mudanças na estrutura ou no ministério da igreja.
"Senhor, este é o teu pIano", orei. "Como poderão deixar de
aceitá-lo, uma vez que é tua vontade?"
Eu confiava que não haveria oposição.

O dr. Cho percebeu a importância de envolver a igreja na tomada de


decisão em relação a essa visão. Para a Igreja do Evangelho Pleno Yoido
isso significava o conselho de diáconos. Ele não encontrou oposição aber-
ta mas algo igualmente perturbador.

Um mês depois que me levantei, reuni o corpo diaconal e disse:


"Como sabem, estou muito doente e não posso executar todo o
trabalho da igreja, especialmente o de aconselhamento e visitação
nos lares. E não posso orar pelos enfermos; nem mesmo orar com
as pessoas para que recebam a plenitude do Espírito Santo".
Contei-lhes as coisas que Deus me havia revelado nas Escritu-
ras, e disse-lhes que entregava a eles a realização do ministério.
Disse-lhes que precisavam firmar-se sobre seus próprios pés.
Então apresentei o plano como Deus o tinha revelado a mim.
Mostrei aos diáconos como as reuniões dos lares funcionariam
e apresentei todo o apoio bíblico que eu tinha para este novo
sistema.
"Sim, o senhor tem um bom argumento bíblico", disse um dos
diáconos. "Este plano parece vir do Senhor. Mas não fomos
treinados para fazer as coisas que o senhor faz. E é por isso que
o pagamos para ser nosso pastor".
"Sou um homem ocupado", disse outro diácono. "Ao voltar para
casa do trabalho, estou cansado e preciso da privacidade de
meu lar. Não poderia dirigir uma reunião em minha casa".
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 227

Os comentários não diferiam muito. Todos, basicamente, con-


cordavam que a idéia era biblicamente sadia, mas não viam como
pudesse funcionar para a Igreja Central do Evangelho Pleno.
Não parecia haver maneira em que eu pudesse motivá-los. Nin-
guém ficou com raiva; simplesmente estavam convencidos de
que não podia ser feito.

O dr. Cho estava diante de um grande problema. Ficou óbvio na


reunião que as pessoas responsáveis pela tomada de decisão na igreja não
seriam o grupo que implementaria a visão. O que poderia ser feito? Será
que a visão estava condenada?

Depois de um período de oração das Escrituras, a sra.


Choi e eu discutimos as várias Iternativas para realização do
plano familiar e juntos chegam à idéia de usar as mulheres da
igreja.
Continuando a orar a esse respeito, enquanto eu derramava o
coração na presença do Senhor, a sra. Choi disse: "Creio que
Deus nos revelou este caminho por ser o seu caminho. Creio
que devemos convocar uma reunião das diaconisas e apresen-
tar-lhes os pianos".'

Esse foi o ponto mais crítico no desenvolvimento da transição da


Igreja do Evangelho Pleno Yoido para uma igreja em células. Naquele
momento, Deus formou uma congregação-base remanescente que permi-
tiu que ela crescesse até esse tamanho fenomenal. A visão foi anunciada,
e 200 mulheres atenderam o chamado. Esse remanescente representava
quase 10% do total de membros da igreja. Deus, de maneira providencial,
deu o remanescente necessário para fazer a transição daquela igreja para o
seu modelo de igreja em células do século XX. As 200 mulheres remanes-
centes foram a chave para a transição.
De acordo com Karen Hurston, que se criou na Igreja do Evangelho
Pleno Yoido, esse grupo inicial de 200 mulheres passou por vários ciclos
antes que a infraestrutura para o remanescente estivesse completa. Ela
comenta que "com algumas exceções, aqueles primeiros grupos acaba-
ram não logrando êxito"." O dr. Cho então deu atenção aos problemas
especiais que não permitiram que os grupos fossem bem-sucedidos e pro-
curou fortalecer a infraestrutura das células.
É importante ver que a Igreja do Evangelho Pleno Yoido fez a transi-
ção de uma igreja tradicional de 2.400 membros para uma igreja em
228 A Segunda Reforma

células ao aprender a fazê-lo por meio de um protótipo remanescente de


200 pessoas. E não podemos omitir o fato de que eles passaram por
vários ciclos antes de acertar o protótipo.

DE QUE MANEIRA SE COME UM ELEFANTE?

Na Tailândia nós costumávamos perguntar: "De que maneira se


come um elefante?". A resposta: "Um pedaço de cada vez". De que ma-
neira você inicia uma igreja em células? Uma congregação por vez. Essa
foi a forma como Jesus o fez no primeiro século, e é assim que ele quer
fazê-lo no século XXI.
Uma estratégia estágio por estágio faz sentido do ponto de vista
bíblico e prático. Por favor dê uma atenção cuidadosa ao processo antes
de começar uma igreja do início ou começar a transição em uma igreja
de qualquer tamanho. Os números que interessam a Jesus não são os
milhares. Jesus está interessado em dois ou três inovadores que compre-
endem a sua visão de igreja; doze líderes-chave, que vão deixar as suas
redes e segui-lo; 70 apoiadores comprometidos, que vão implementar
os conceitos e caminhar com ele para Jerusalém dispostos a morrer com
ele; e finalmente, 120 pessoas capacitadas que formam o remanescente-
base. Esse é o continuum de Jesus, introduzido no capítulo 15.
É muito confortante compreender o tipo de igreja que Jesus edifica.
Uma congregação-base é possível. Eu posso imaginar um remanescente
de 120 e posso conceituar a infraestrutura necessária para apoiar uma
congregação-base. Uma igreja de milhares é grande e imponente demais
para desenvolver uma estratégia de implementação realista.
Procure guardar esse continuum em sua mente e então transforme-
o em sua estratégia. Esse é o modelo de liderança que Jesus usa ao de-
senvolver a primeira congregação-base:

Dois ou três inovadores iniciam o processo.


Uma liderança-base de 12 é reunida.
Uma rede de apoio de 70 seguidoresforma o protótipo.
Uma congregação-base de pelo menos 120 adultos gera a multi-
plicação.

CARACTERÍSTICAS DE UMA CONGREGAÇÃO-BASE

Com que se parece uma congregação-base que tem o potencial de


uma multiplicação exponencial?
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 229

I. Haverá 12 a 15 células saudáveis vivendo juntas numa comu-


nidade do Novo Testamento. As palavras-chave aqui são células sau-
dáveis. Algumas células disfuncionais também podem fazer parte da
mistura, mas pelos menos 12 a 15 células saudáveis funcionais são
necessárias para constituir uma congregação-base.
2. Todos os líderes necessários são prodllzidos!la vida da célula
Existem ;uxiliares para todos os níveis de liderança. Esses auxiliares
são treinados e desenvolvidos sistematicamente. visores volun-
( tários sobre três a cinco células supervisionam os líderes e 10 e coor-
denam o trabalho do ministério no nível mais básico da élula. Pasto-
res sobre 100 transmitem a visão e dão direcionamento eral à igreja.
3. O culto de celebração (adoração) equilibrado flui da vida da
célula e sustenta a vida nas células como a atividade básica da igreja.
4. Os descre!ltes são eOAtatadQli e cllltivados na vida da célula
por mei(;de evangelismo por relacionamentos (oikQsJ.. As células tam-
oem alcançam os perdidos por meio de grupos de contatos (ou grupos
de interesse) .especiais que procuram suprir as necessidades dos des-
êrentes. Aqueles que estão interessados no evangelho também são ab-
sorvidos pelas células. A igreja não depende das reuniões do grupo
grande para o crescimento mas cresce a partir da vida nas células.
5. O,tnovos membros são tra!lsfgrmados em discípulAs mijttmos
por meio de um trilho de treinamento sistemático.
,~ 6. Uma forte base de oração apóia todas as atividades da igreja:
por meio da oração pessoal, o!:!J,C;ão nas células, oração nas reuniões de
liderança e na~ reuniões do gmpo grande. O remanescente aguarda
esperançosamente para Deus manifestar o seu poder para que ocorra
uma multiplicação exponencial dinâmica. Uma igreja que alcança esse
estágio poderia separar um mês para oração e jejum, esperando no
Senhor, reconhecendo que somente Deus pode habilitar uma igreja a
experimentar uma multiplicação exponencial como ocorreu na igreja
primitiva.

ESTRATÉGIA DE TRANSIÇÃO

Deus realizou a transição da Igreja do Evangelho Pleno Yoido e


algumas das transições mais recentes de igrejas em células bem-suce-
didas por meio de uma estratégia de transição do remanescente. No
entanto, a tentação da maioria dos pastores que querem que a sua igre-
ja se torne uma igreja em células é querer realizar a transição de uma
só vez. Isso é quase impossível por vários motivos:
230 A Segunda Reforma

• O que você faz com todas as atividades e programas existent~ __


enquanto acontece o proc~sso de-transiçãõ?
• De que maneira a visão da igreja e OS:ya-lor~s são mudados em
uma igreja grande sem um modelo funcional? -
• De que fonnaa\íiOã nas células é experlll1entada e a infraestrutura
necessária é montada de um dia para o outro?
• De que maneira líderes de igreja são liberados para desenvolVCL

-um protótipo enquanto têm rt;S,Ronsabil idades com a estrutura


existente?
.~ - -- . --------~-----
-

O líder deve pensar em termos de um remanescente. Com um núme-


ro pequeno e manejável de membros da igreja. um protótipo da igreja em
células pode ser formado por meio do qual a igreja pode realizar a transi-
ção para lima igreja em células. O gráfico da Figura 10 explica o processo
de transição desse remanescente. Cada círculo representa um aspecto do

Transição do Remanescente Transição de Valores

ttt Co"',••••••
,\I,"lodo.r
!'reJ.:<Jriio
E,\(o/,/ dominical
R!'trroI
Grupoc pudrfJn
•. _ Grupo,' de oração
GnIfJO\dt' \'aJo7'IU

Trélnsição da Estrutu=

Figura I O. Estratégia de transição


A Igreja do Novo Testamento 110 século )()(J 231

processo de transição. Os dois círculos no topo, chamados de transição do


remanescente e transição de yalores. ocorrem simultaneamente. O círculo
abaixo, chamado d~ transição da estrutl~ se origina a partir dos outros
dois círculos e vai somente ser be~sl~cedido s~~JLa-,}~º-e~el~ rernanes- -,
cente e dos valores tambémJiv~~I!l ~xito. ".. _.

ENTENDENDO O CÍRCULO DE TI{IX'NSIÇAo


DO REMANESCENTE

O processo de transição se põe em movimento pelo continuum de


liderança de Jesus, ou seja, dois ou três inovadores, 12 líderes-chave, 70
na rede de apoio e, finalmente, 120 esperando pela capacitação do Senhor
(figura 10, o círculo à esquerda).
~e uma igreja pudesse separar logo no início pelo menos 10% dos ~
seus membros ativos para descobrir o que significa ser uma igreja em
células, o processo seria rrandement . No entanto, a maiom
as Igrejas vai ornar-se um remanescente somente por meio de um pro-
cesso mais deliberado estágio por estágio. O remanescente inicial vai ser
pequeno no começo e então crescer à medida que passa pelo cQntinuum
de Jesus.
O continuum é uma bênção porque permite a instalação de um mo-
delo sem exigir que todos na igreja o entendam ou participem dele. Ele
não toca na estrutura existente até que estruturas alternativas tenham sido
descobertas e testadas. ~ordagem do remanescente permite tempo
~.~~ºs.jentamel1j~:.J:1inã~~~
exige que todos entendam e se comprometam com.a.",isão completa une-
diãtamente.
Para desenvolver o remanescente, a igreja vai passar pelo processo
do continuum discutido no capítulo 18. Co..!!!ececom a primeira cél~ __
descoberta de liderança. Então os componentes..ºª célula ini.s:.i'!lYão~
rar as células ele descoberta de liderança secundários Depois desses dois
primeiros ciclos, mais pessoas vão ser introduzidas nos ciclos das células-
testes oriundas da congregação principal. Oremanescente v~ss~pelo
processo de vário~os de c~~~a~J~!e, crescendo até alcançar entre 12~~.
15 c~lul~. Esse é o momento em que o protótipo, discutido nos capítulos
16 e 17 está sendo desenvolvido. É tempo para:

I. Descobrir os mecanismos e dinâmicas da comunidade cristã de


base.
2. Estabelecer 12 a 15 células saudáveis por intermédio dos diver-
232 A Segunda Reforma

sos ciclos de testes de seis a nove meses cada.


3. Inserir componentes essenciais. n5Unfraestrutura das célnlas.tais
éomo a estru~a da lideraaça de letH~,Yll!trilho de trei(:lal:tleu~
tretnãrrleiltõ de auxiliares, r.elebracão e ador~Q,.oEÇão e
~evangelismo transbordante.

Os princípios do continuum se aplicam à transição de uma igreja


grande tanto quanto à implantação de uma igreja nova. A diferença está
no fato de que a igreja em transição tem uma base de pessoas prontas
para introduzir nas células-teste.

ENTENDENDO O CÍRCULO DE TRANSIÇÃO DOS VALORES

Enquanto o protótipo está sendo estabelecido no remanescente se-


leto, elementos importantes estão sendo introduzidos no corpo mais am-
plo da igreja. O pastor titular e os líderes principais também são os agentes
de mudança primários para o resto da igreja (figura 10, o círculo do topo
à direita).
A visão da vida nas células do Novo Testamento é divulgada para
todo o corpo da igreja. getak esp@cíficos dibyisão são dados para
todos os membros mas somenFeãté o ponto em que a liderança da igreja
--------
comprou a visão e os valores.L-~o existe necessidade de descarregar
stbre toda a congregação cadãdetalhe acerca do gue significa ser uma-
igreja em células até que os grupos de liderança da igreja estejam com-
prometidos com a visão e efetivamente implementando-a..:çomo parte do
re;-nanescente. Discussões detalhadas das estruturas específicas que vão
ser organizadas ou implantadas em fases são contra-produtivas. Mudan-
ças estruturais devem ser discutidas em detalhes com toda a igreja so-
mente depois que uma ampla base de líderes apoiar essa ação, e o valor-
ba~ para mudar aquela estrutura tiver sido internalizado e aceito pelos
líderes e membros.
Os valores na congregação são internalizados por meio de sermões
e estúdos específicos ensinados dentro das estruturas existentes - -es:
cola dominical, culto de celebraÇão, reuniõêsâe oração etc. Lembre-se,
você nunca
, -----
deve mudar a estrutura a . ~ •..•.
r s correspondentes. os s de fato tiverem mudado aI u-
.:ilJasestruturas podem ~er ~~das ou elimina a§. Suprima a compulsão
interna de explicar a visão em termos das estruturas que precisam ser
modificadas. Em vez disso, explig,ue a visão em termos de valores que
~~~~~~~~==~
devem ser colocados em prátiâ.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 233

Pré-células entre os membros da congregação mais ampla vão aju-


dar a preparar toda a igreja para a transição. Esses grupos não são células
comuns, células de descoberta de liderança ou mesmo células-teste. Essas
"pré-células" podem ser grupos de oração ou ru os que estudam os valo-
res do Nõvo Testamento, como comunidade, evan elismo mo a er-
teiçoar os santos. Esse;grupos envolvem o corpo mais am lo da igreja no
processo de transição, ensinam a prática da co~ - em grupo e aju-
dam os membros da igreja a entender o processo de mudança. As pré-
células também proporcionam uma maneira de preparar membros esco-
lhidos a participar da vida nas células quando células adicionais forem
organizadas durante os ciclos de células-teste.
~s pessoas não vão ql!erer mudar a não ~er qlJe seus valores tivelffiL.
s.ido mudados, e isso ocorrerá se elas forem capazes de ver um modelo
ft:'neional ahemáti"o daqllj lo qlle estão adotando É por isso que é tão
importante desenvolver o protótipo por meio do remanescente enquanto
toda a congregação está sendo preparada para a vida nas células.

ENTENDENDO O SÍRCULO DE MFSTRIITIJRACÃ~

Depois que uma igreja existente desenvolveu sua congregação-base


remanescente, ela precisa dividir seus membros em unidades
congregacionais funcionais de 60 a 200 adultos. Organizar a igreja em
"unidades de 100" vai proporcionar a ela uma maneira de realizar a tran-
sição final para uma igreja em células. Dentro de cada uma dessas congre-
gações, coloque algumas pessoas do grupo remanescente ~em_~ __
líderes. auxIlIares e membros-chave das novas célulaslfigura 10, o CÍrcu-
lo de baixo).
Pouco antes da época de plantar arroz nas planícies centrais da
Tailândia, canteiros incomuns podem ser vistos da estrada principal. Es-
ses canteiros parecem carpetes verdes de capim, como se estivessem colo-
cando gramado nos campos de golfe. Eles são na verdade canteiros de
mudas para o arroz que logo vai ser plantado nos campos de arroz.
Quando os campos estão alagados e chega o tempo do plantio, esses
canteiros de mudas são cuidadosamente tirados e as plantas amarradas
em pequenos feixes. Esses feixes são então levados para os campos mai-
ores. Cada muda de arroz é plantada separadamente à mão. Um pequeno
canteiro de mudas contém plantas de arroz suficientes para cobrir uma
área centenas de vezes maior do que o canteiro original.
Essa é a imagem da estratégia do remanescente em uma igreja. O
protótipo do remanescente que está sendo cuidadosamente plantado e cu 1-
234 A Segunda Reforma

tivado ao longo dos meses é, no tempo oportuno, transplantado para os


campos maiores, ou seja, as congregações de 100. De um pequeno rema-
nescente, toda a igreja pode ser plantada com conceitos de estruturas de
igreja em células. Com o tempo, toda a igreja vai se parecer com o cantei-
ro de mudas do remanescente original, verde e viçoso.

CONGREGAÇÕES: "MÁQUINAS EM PERFEITAS


CONDIÇÕES DE TRABALHO"

No contexto da igreja em células, a congregação (unidades de 100)


refere-se a um tipo especial de unidade de organização dentro da igreja
em células, muitas vezes conhecida como c.f211gregação de células Uma
congregação consiste em um grupo de 10 a 25 células (comunidades cris-
tãs de base) que juntas formam uma rede. A congregação é uma unidade
espiritual funcional que ajuda a capacitar líderes de células e as próprias
células a fazer a obra do seu ministério. Um pastor sobre 100 coordena o
trabalho de um grupo de pessoas da igreja de uma determinada área geo-
gráfica ou não. A congregação em uma igreja em células pura é uma "má-
quina em perfeitas condições de trabalho" concentrada em liberar a vida
dinâmica das unidades básicas das células. Ela minimiza a administração
e maximiza o ministério no nível da célula. Formar a rede de 100 focaliza
nos grupos pequenos de 10 onde cada tarefa da igreja se torna viva na vida
dinâmica das células.
As congregações proporcionam uma estrutura que permite que as
necessidades sejam cuidadas no nível da célula. Quando uma igreja em
transição é reestruturada em congre a ões de igre·a em células cad
ro se torna parte de uma congregação e come a a ver o seu ministério
. ~ a~ir da cé u a..,UI1la es de 10), e,m vez de a partir da
;.qUlpe E.astoral.
Ao formar essas congregações você poderia ter as seguintes consi-
derações:

• O~to geográfico geralmente vai ser um fator importante. Igrejas


em células precisam de um padrão de referência geográfico.

-----
• Composição cultural/étnica dos 100.
• Grupos em faixas etárias, como grupos de jovens ou grupos de
idosos.
• Fatores sócjo-econômico,>.
• Grupos em torno de uma Iíngua-.
• Necessidades especiais como ministério para surdo§.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 235

AJUSTAR E REAJUSTAR

A congregação-base remanescente deve ser estab~to em


uma igreja existente quanto em uma igreja nova se ambas querem se
tornar igrejas em células operacionais. A única diferença entre a implan-
tação de uma nova igreja e uma igreja que está passando pela transição
é que os princípios e a infraestrutura da congregação-base devem ser
reajustados para as estruturas existentes da igreja em transição.
Ajuste o remanescente na implantação de uma nova igreja. Isso
significa que os estágios devem ser formados do "zero", visto que não
existe estrutura. Reajuste uma igreja em células remanescente numa es-
trutura existente. Isso significa que os estágios devem ser remodelados
nas estruturas existentes, moldando e adaptando essa estrutura de acor-
do com o modelo de células.
Inúmeras igrejas existentes, algumas com milhares de membros,
estão procedendo de acordo com o continuum de três anos e meio de
Jesus. Congregações-base remanescentes de 120 a 200 adultos estão
sendo cuidadosamente formadas com membros existentes. À medida
que essas igrejas completam o continuum, podemos comparar o índice
do seu crescimento e a força das suas infraestruturas com outras igrejas
que ignoraram o processo estágio por estágio e tentaram introduzir ime-
diatamente as células operacionais. Contudo, a tendênciajá é evidente:
igrejas grandes que primeiro desenvolvem uma congregação-base re-
manescente passam mais rapidamente para a vida plena de células do
que igrejas que ignoram o processo do remanescente.
Pr
e
Par a _
Ç
ao
--
Convergência
. .
.. .
Palavra
profética
(Jesus)
.

Visão de
igreja em
células
Concebida

p Grupo 2-3
Inovação Introduzida
inicial pessoas
R
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Ó pessoas Apropriada
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Execução pessoas Implementada
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E da pessoas Capacitada
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crítica cA
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O Expansão
N 3000-5000 da Expandida
A igreja
L

Página 236
21
A "MASSA CRÍTICA" DE JESUS

Muito da singularidade do cristianismo, no SI:'II surgimento,


consistia no fato de que pessoas simples podiam ser surpreenden-
temente poderosas por serem membros uns dos outros.
- Elton Trueblood

I
magine O seguinte cenário: são 50 dias depois da Páscoa no ano 30
d.C., sete semanas após a morte c ressurreição de Cristo, c dez dias
depois da sua ascensão ao céu. Você é um dos 120 seguidores no
cenáculo em Jerusalém. Os II discípulos sobreviventes estão ali com as
mulheres, a família de Jesus e outros que o seguiram durante aqueles
três anos e meio de ministério repleto de ação.
Durante a época de Pentecostes, os judeus celebravam a colheita
dos cereais e o recebimento da lei no monte Sinai. Por dez dias após a
ascensão, a oração perseverante com um só coração e uma só mente tem
ocupado você, junto com o restante do grupo no cenáculo. O grupo,
como comenta John Stott, estará "pronto para cumprir a ordem de Cris-
to no momento em que ele cumprir a sua promessa".' A última coisa que
Jesus ordenou foi que esperassem pela vinda do Espírito (Lucas 24.49:
Atos 1.8).
O ar estala com eletricidade e o silêncio é ensurdecedor. A expec-
tativa na sala é enorme. Todos os presentes sentem que algo incrível
está para acontecer. Espera-se que Jesus Cristo se apresente no meio
deles, como havia prometido. Stott disse: "Embora o I"['ar deixado \"<l§G
.2ºiludas havia sido preenchidopor Marias, o lugar deixado por Jesus
)!.inds1J1?.Qhavia sido preenchido pelo.Espirito"," Você está esperando a
volta do Rei, esperando que o proprietário tome posse.
Você já havia testemunhado o poder da ressurreição que o levan-
tou da morte e o levou ao céu. Você agora sabe que nada é impossível

237
238 A Segunda Reforma

para Cristo. Então acontece algo incrível! Ouve-se o som de um vento


muito forte, e uma língua de fogo pousa sobre você. Você experimenta
Deus em seu Espírito com todo o seu ser.

o QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?

Uma massa crítica é "o montante mínimo de material desdobrável


capaz de produzir uma reação em cadeia auto-sustentadora".' Em Pen-
tecostes, Cristo começou a encarnar-se na igreja por meio do Espírito. O
cenáculo tornou-se o epicentro espiritual da presença viva, do poder
majestoso e do propósito divino de Deus na terra. O que o estábulo foi
para a encarnação física de Cristo no mundo, o cenáculo se tornou para
a encarnação espiritual de Cristo no mundo por meio da sua igreja. A
Shekiná de Deus, que acompanhava os filhos de Israel no deserto, que
estava no meio do acampamento no tabernáculo, e que havia deixado o
Santo dos Santos do templo na morte de Jesus, retornou! A semente da
encarnação que foi semeada por Cristo na sua morte na cruz nasceu em
Pentecostes. A massa crítica havia sido alcançada naquele cenáculo.

JESUS SEMPRE FORMA UMA MASSA CRÍTICA

Com base na narrativa de Atos, poderíamos pensar que uma bom-


ba-relógio espiritual estava prestes a ser detonada. Os 120 discípulos
formavam uma massa crítica explosiva porque eles tinham os compo-
nente necessários para se tornar uma corrente de reação auto-sustentadora.
O que eles haviam experimentado, como Jesus os preparou, seu relacio-
namento com ele antes e depois da sua ressurreição, a evidência do po-
der da sua ressurreição e o Espírito habitável, tudo serviu para culminar
nesse ponto explosivo. "O Espírito é conhecido a partir daquele mo-
mento como o poder gracioso e semelhante à presença do próprio Cris-
to",' diz Stott.
Os 120 do cenáculo formavam uma massa crítica porque a presen-
ça de Cristo veio sobre eles, seguida do seu poder, que resultou em seu
propósito à medida que eles saíram pelas ruas para testemunhar de Cris-
to. A igreja continua a ser gerada da mesma maneira hoje.
Não estou sugerindo que os mesmos acontecimentos incomuns
devam ser duplicados quando Jesus constrói a sua igreja hoje. Não são
os acontecimentos espetaculares mas a encarnação espiritual que é ne-
cessária para a igreja ser gerada no primeiro século ou no século XXI. A
presença habitável, permanente, encarnada e viva de Deus em seu cor-
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 239

po espiritual terreno, a igreja, é essencial para o nascimento da igreja;


caso contrário, a igreja é somente uma organização humana. Jess Moody
nos disse: "Se o nosso único s ess 'é aquilo que pode ser explicado em
termos de organização e administraçã - isto é, algo que o mundo pode-
ria fazer com o mesmo investimento d esforço e técn ica, um dia o mundo
irá nos repudiar definitivamente'".' /
Em um sentido, Pentecostes é um acontecimento único como foi o
caso da encarnação de Jesus. Contudo, esse acontecimento continua a
fluir através da história. Cristo, nascido em Belém, também nasceu em
minha vida. O Espírito vem ao Pentecostes como um acontecimento úni-
co, mas esse acontecimento continua em minha vida. A igreja é capacita-
da em Pentecostes, mas essa mesma capacitação deve acontecer em cada
igreja. Os acontecimentos da encarnação, da cruz, da ressurreição e do
Pentecostes continuam fazendo parte da minha vida e da vida da igreja.
Algo do poder e da vida do primeiro Pentecostes acompanha a igre-
ja sempre que o Espírito habita nela. Bernad J. Lee e Michael A. Cowan
destacam essa expectativa marcante em seu livro Dangerous Memories
(Memórias perigosas):

Os cristãos que ao longo dos séculos têm orado pelo dom do


Espírito que inflama os nossos corações, e refaz a face da terra,
não estão surpresos que aquele que inventou a igreja no Pente-
costes pode "reinventá-la" sempre que for oportuno. A história
sugere que Pentecostes é uma festa móvel."

NÃo HÁ "MASSA CRÍTICA" SEM ENCARNAÇÃO

O que significa "Cristo habitando em sua igreja?". Nós usamos es-


sas palavras para ex~ar o relacionamento único de Cristo com a igreja.
Esse é um relacionamento da encarnação contínua. Somente essa presen-
ç5:viva de Cristo em sua igreja fará com que ajgreja se torne uma massa
cr:jtica explosiva --- --
Ray Stedman identifica o mistério sagrado da igreja com a
encarnação. Deus vive em seu povo, em sua igreja. Esse é o segredo da
igreja.

O segredo da igreja é que Cristo vive nela, e a mensagem da


igreja para o mundo é declará-lo, é falar de Jesus Cristo ... Aí
[Efésios 2.19-22] está o mistério sagrado da igreja: ela é a
morada de Deus. Ele vive em seu povo. Esta é a grande voca-
(-
240 A Segunda Reforma

ção da igreja: tornar visível o Cristo invisíve1.7

Stedman entendeu a importância da encarnação para a doutrina da


igreja. Ele cria que o que ocorria em pequena escala no primeiro século
ocorre hoje em larga escala por meio da igreja:

Cometeríamos um grande engano, se pensássemos que a


encarnação terminou com a vida terrena de Jesus. A encarnação
ainda continua. A vida de Jesus continua manifesta entre os
homens, mas agora não mais através de um corpo físico indi-
vidual limitado a um lugar na terra, mas através de um corpo
complexo e orgânico, chamado igreja.
Em seu segundo relato (o livro de Atos), o dr. Lucas continua
a descrever a atuação de Jesus entre a humanidade, mas desta
vez através de seu novo corpo, a igreja. Por isso, quando a
igreja vive em e através do Espírito, ela não deve ser nada
mais nada menos do que a extensão da vida de Jesus a todo o
mundo, em qualquer época.8?--

O missiólogo batista e o estudioso do Novo Testamento, William


O. Carver, tira algumas conclusões surpreendentes acerca do significa-
do da encarnação para a igreja de hoje. Ele crê na "encarnação contínua
de Cristo no mundo" e que a igreja é o "corpo crescente" de Cristo. "A
igreja é a extensão da encarnação dele. Uma igreja local é a manifesta-
ção de Cristo em sua comunidade"."
Em Efésios, Carver encontrou a igreja "tão intimamente e tão es-
sencialmente relacionada ao Cristo e ao seu significado na história como
para constituir sua auto-realização crescente no processo de realizar o
objetivo da sua encarnação. A igreja é o seu corpo crescente, que por
meio desse corpo ele próprio está crescendo para a maturidade~

A ENCARNAÇÃO DA COMUNIDADE

Deus se manifesta no mundo por meio da sua igreja em pelo me-


nos duas maneiras. As Escrituras indicam que ele se manifesta no mun-
do como uma Pessoa (Cristo) e Deus se manifesta no mundo por meio
da comunidade (a igreja). Em ambos os casos, Deus usa as coisas mais
básicas da vida como os meios para a sua manifestação. Quando ele se
manifestou fisicamente (a encarnação) no mundo em Cristo, ele usou
células físicas. O significado da encarnação é singular porque ela ensina
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 241

que Deus estava no mundo em nossa forma. Ele tinha o nosso tipo de
corpo, completamente vulnerável às nossas feridas, dores, pecados, tenta-
ções e sofrimentos. Seu corpo físico foi formado de células biológicas,
semelhantemente ao nosso cor
Deus também continua encar r-se no mundo de uma outra ma-
neira, ou seja, por meio da igreja. De s está agora encarnado espiritual-
mente em um contexto de comunidâde, Paulo sugere isso em Efésios
2.21-22: Nele (em Cristo) vocês também estão sendo edificados juntos
(esse não é um acontecimento pessoal ou individual mas um aconteci-
mento coletivo), para se tornarem morada de Deus por seu Espírito. A
igreja é a morada de Deus. Isto é, a encarnação espiritual ocorre na
ecclesia (a igreja) e por meio dela.
A encarnação de Cristo no mundo em um contexto físico tem sido
parte do meu sistema de fé desde que eu era criança. No entanto, a
encarnação de Cristo no seu contexto da sua comunidade espiritual le-
vou anos para cristalizar-se em minha vida.
Esse conceito da encarnação da comunidade deixa a mente perple-
xa. Por meio do Espírito Santo, Deus mais uma vez encarnou-se em um
contexto de célula, mas dessa vez não em uma célula biológica mas uma
célula sociológica por meio da qual ele se torna comunidade. Ele mais
uma vez usa as coisas básicas da vida para formar seu corpo espiritual
operando na terra. O mesmo contexto de célula que Deus usou para
expressar-se em uma vida física (células biológicas) ele usa para ex-
pressar-se na vida da comunidade (unidades de células sociais).
Ray Stedman entendeu o conceito singular da "continuidade da
encarnação" de Cristo na sua igreja e por meio dela.

Jesus Cristo não está fora, em algum recanto escondido e re-


moto do universo (céu), nem deixou seu povo aqui para lutar e
fazer o melhor que possa até que ele volte. Esta nunca foi a
intenção divina nem é o esquema do Novo Testamento. Cristo
está vivo e atuando na sociedade humana durante vinte sécu-
los, como ele disse que faria: Eis que estou convosco todos os
dias até à consumação do século (Mateus 28.20).11

O estudioso bíblico C. H. Dodd considera a igreja singular por


causa do seu relacionamento com Cristo:

...depois de "quarenta dias" ... Cristo finalmente desapareceu


da visão humana: "uma nuvem o encobriu da vista deles". Esse
242 A Segunda Reforma

capítulo está fechado e nunca se repetirá. Mas todo o Novo


Testamento é testemunha de que a presença real de Cristo não
foi retirada quando as "aparições" cessaram. Os encontros sin-
gulares e imperceptíveis com o Senhor ressurreto precipita-
ram um novo tipo de relacionamento que provou ser perma-
nente [...] Na comunhão a presença do Senhor não mais signi-
ficava um súbito lampejo de reconhecimento, totalmente con-
vincente mas que logo se acabava. Foi uma realidade dura-
doura, criando uma nova vida corporativa.
Dentro dessa vida corporativa, à medida que ela amadurecia e
se expandia, e perspectivas mais abrangentes se ampliavam, o
seu entendimento do que havia acontecido se aprofundava.
Não era porque simplesmente o seu líder perdido havia volta-
do a eles. O próprio Deus tinha chegado a eles de uma manei-
ra totalmente nova. E isso coloca toda a história em uma nova
perspectiva."

Não existe "massa crítica" sem o habitar especial de Cristo em sua


igreja. Nossa administração, motivação e promoção não vão produzir
uma massa crítica. Nosso esforço humano pode produzir uma boa orga-
nização, mas sem a encarnação de Cristo a igreja nunca vai explodir
com o mesmo poder do Novo Testamento.

SALTO INICIAL

Depois que a "massa crítica" é alcançada, a igreja em células pode


começar a dar um salto inicial para um novo trabalho. Estabelecer o
primeiro protótipo é penoso. Cada passo deve ser cuidadosamente apren-
dido, implementado e testado. Porém, uma vez que a igreja inicia seu
crescimento por meio da multiplicação exponencial, ela não precisa voltar
cada vez que implanta uma nova igreja.
Uma igreja em células operacional pode iniciar um novo trabalho
enviando um remanescente preparado para ser o núcleo de um novo
começo. Esse núcleo podia ser de 12, 70 ou mesmo 120 pessoas. Quanto
maior o remanescente inicial, tanto mais rapidamente o novo trabalho é
estabelecido e alcança a "massa crítica". A Igreja do Evangelho Pleno
Yoido tem enviado grandes congregações para formar novas igrejas. Mais
de 500.000 membros fazem parte de igrejas que saíram da igreja-mãe de
750.000 membros.
Essa abordagem para a implantação de igrejas vai revolucionar a
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 243

forma como missões tem ocorrido neste último século. Nós tivemos o
que chamo de uma "estratégia margarina" de missões que procura espa-
lhar missionários da forma mais fina e mais distante possível. Agências
missionárias enviam um único casal par~ um trabalho em alguma
área geográfica, muitas vezes em algum lugar ~emoto. Poucas equipes
são enviadas, visto que plantar igrejas a partir de congregações fortes
nunca foi considerado como uma estratégia viável.
Começar um trabalho tendo como base um grupo remanescente de
uma igreja em células vai aumentar o potencial para um crescimento
exponencial. Um grupo remanescente preparado já vai entender o que
significa ser parte de uma igreja em células, e vai haver gente suficiente
para imediatamente modelar a vida em célula, a liderança na célula e o
evangelismo. Iniciar igrejas novas ao redor do mundo com esse tipo de
"massa crítica" pode ser tão explosivo quanto o foi no primeiro século,
quando a diáspora espalhou os moradores de Jerusalém por todo o im-
pério romano.
22
OS COMPONENTES DA /'>
"MASSA CRÍTICA" DE JESUS

Dê-me 100 homens que não odeiem coisa alguma além


do pecado e amem a Deus de todo o seu coração, e eu
abalarei o mundo para Cristo!
- John Wesley

A
"massa crítica" não surge automaticamente. Certos compo-
nentes devem ser unidos de uma forma prescrita para causar
uma reação em cadeia. Um componente serve como uma das
partes de um todo. Se esses componentes estiverem faltando nessa mistu-
ra, o todo vai ser incompleto e a "massa crítica" não vai ser alcançada.
Uma bomba sem o sistema eletrônico adequado, sem as substâncias quí-
micas certas e sem a embalagem certa, não vai produzir efeito algum. O
mundo dos negócios reconhece a importância desse fenômeno chamado
"massa crítica":

Para fazer uma idéia fluir, você precisa desenvolver entusias-


mo. Quando a idéia é apoiada por um número suficiente de pes-
~s diferentes, ela alcança a "massa crítica". Essa "massa crí-
tica" avança com base em sua própria energia, dando a impres-
são de um movimento crescente e formidável e um senso de
momentum. O tamanho da "massa crítica" pode variar com ape-
nas algumas pessoas-chave até envolver toda a empresa. Nos
passos iniciais de mudança, a "massa crítica" toma forma à me-
dida que líderes de opinião chave mudam de uma posição neu-
tra para uma posição de apoio, ou pelo menos de uma posição
de resistência para uma posição de indecisão. I

Que componentes formaram a massa crítica de Jesus? O que é ne-

245
246 A Segunda Reforma

cessário para alcançar o tipo de explosão descrita em Atos dos Apósto-


los?

o COMPONENTE NUMÉRICO

É necessário um número suficiente para permitir uma reação em


cadeia. Um certo número de pessoas comprometido com a mudança deve
ser agrupado para liderar o processo de mudança. Uma igreja existente
vai escolher essas pessoas entre os membros dessa igreja. Uma igreja
que está iniciando deve reunir essas pessoas entre os descrentes, cris-
tãos solitários ou cristãos enviados por Deus. Um número suficiente de
pessoas, quando reunidas com um ro ósito cÕmum, podem causar re-
su a os sinérgicos muito além dos seus números. Jesus definiu que 120
adultos eram suficientes para cumprir a sua visão.~
Lembre-se da citação de John Wesley: "Dê-me 100 homens que
não odeiem coisa alguma além do pecado e amem a Deus de todo o seu
coração, e eu abalarei o mundo para Cristo!". Wesley reconhecia o po-
der de um número ideal de pessoas reunidas por uma apaixonada causa
comum.
O número 120 não é mágico. Se você faz parte de uma igreja
menor, sua "massa crítica" pode ser menor do que 120. No entanto,
você vai precisar de uma porcentagem significativa da sua igreja para
formar a "massa crítica". Se você faz parte de uma igreja muito maior,
com centenas ou milhares de membros, as boas novas são que 120
pessoas serão suficientes para promover o processo de transição de
toda a igreja.
Peter Wagner reconhece a importância da "massa crítica" em seu
livro Church Planting for a Greater Harvest (Plantando igrejas para
uma colheita maior):

Na Física Nuclear, a "massa crítica" é o montante mínimo de


um material capaz de desintegração nuclear para produzir uma
reação em cadeia. Na implantação de uma igreja, a "massa
crítica" indica o tamanho que um núcleo viável precisa ter no
momento de se tornar público, se a igreja deseja crescer.
Se o plano a longo prazo para a igreja está abaixo de 200 mem-
bros, então a "massa crítica" pode ser formada entre 25 e 30
adultos. No entanto, se o plano da igreja é crescer acima de
200 pessoas então esse número é pequeno demais. A "massa
crítica" deveria ser entre 50 e 100 adultos.'
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 247

o COMPONENTE VISÃO

A visão de uma igreja em células é um componente necessário


para conduzir ou impelir um grupo de pessoas rumo à "massa crític ".
,-George Barna, em seu livro The Power of Vision (O oder da v'são
&?cfeve visão em uma série de imagens gráficas. Para Barna, uma vi-
são é:

Uma espiada no futuro que Deus projetou para cada discípulo


Um sonho com rodas e um mapa rodoviário
Um ponto de convergência no meio de um conjunto esmaga-
dor de necessidades
Uma idéia do tamanho de Deus
Ver o invisível e torná-lo visível
Sonhos santificados'

A visão é um componente essencial para se atingir a "massa crí-


tica". Não estou me referindo a uma declaração de visão afixada nas
paredes da igreja. ~o no reino significa paixão, chamado, uma
compulsão por Deus, um dever. Esse tipo de visão não é algo que eu _
posso alcançar mas que me alcança. Eu não ajo sobre essa visão' é ela -
gue age sobre mim. Perguntaram a }Iélen Keller: "O que s~~i~_pi<?~ __
.que ter nascido cega?':' Ela respondeu: "Ver sem ter visão".
Oswald Chambers, em Tudo para Ele, define a visão como um
processo que está sendo desenvolvido em nossa vida. "Deus nos dá a
- visão, em seguida ele nos leva para o vale para nosJ[~
molde da s le ue tantos de nós desfalecem e desis-
tem. Cada visão vai se tQ.IlU!!:.real se tivermos paciência".
A visão é algo que trabalha em nossa vida, não algo que nós faze-
mos. Chamhers ainda diz o seguinte a respeito da visão: "~

- --
mos ah?ançar a visão; devemos viver na inspiração dela até que ela se
cumpra':';
~
Barna também reconhece esse aspecto "transformador" da vi-
são. "Ao sugerir que a visão trata daquilo que é prioritário, estamos
insinuando que a visão requer mudança. A visão nlJnCa trata emman-
ter oE!11us--puo. A visão tem que ver com estender a realidade até além
do eJitágio ex.i..s1ente".5
,=" No cenáculo, vemos um grupo de pessoas que haviam sido trans-
formadas no molde da visão que Cristo havia recebido do Pai. Elas
tinham passado pelo vale e haviam sido agora moldadas em uma uni-
248 A Segunda Reforma

dade dinâmica: o corpo de Cristo, uma "massa crítica". Çada pessoª-


na Bíblia usada para cumprir a visão de Deus experimentou. ~s_sepro-
cesso de transformação lario-vaJe~Eles -não realiiaram a visão-mas-
foram transformados pela visão para que Deus pudesse cumpri-Ia por
meio deles. Abraão foi conformado à visão de Deus. Então Deus cum-
pnu sua visão por meio dele. Assim ocorreu com Moisés e Davi. Olhe
para o processo transformador em Pedro e Paulo. Ambos experimen-
taram o vale antes que Deus pudesse usá-los para implementar sua
visão.
Nossa abordagem em relação à visãQ....é.:"Aqui está a visão-º~ __

-r: Q..eus;agora vamos arregaçar as mangas e realizá-Ia". É por isso que


~recisamos ser transformados antes qJJe estelamos eTh condições d~
viver a visão. Quando somos conformados à visão de Deus, podemos
então dizer: "Aqui está a visão de Deus. Agora deixe-me ver como
Deus vai moldar-me de acordo com a sua visão".
Um líder de igreja perto de Washington, D.C. recebeu esta pala-
vra de Deus acerca da visão: "Onde a visão não está clara, o custo
sempre é alto demais". É por isso que devemos ter clareza acerca da
VIsão de Deus. A vida de comunidade e ministério que Jesus tem para
nós é tão importante que devemos calcular o custo, de acordo com a

-
sua sugestão. Se a visão não está clara, vamos "Q,lll:;tgra" em algum
lugar da estrada.

o COMPONENTE COMPROMISSO

Não haverá "massa crítica" sem um compromisso absoluto com


Cristo. Seguidas vezes Jesus procurou testar e fortalecer o compromis-
so dos seus seguidores. Quem os homens dizem que eu sou? As rapo-
sas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não
tem onde reclinar a cabeça. Vocês também vão me abandonar? ~
mente
L------
haverá "massa cdtipL' a partir de um com.Qromisso intenso
~
e
~condicional. Não chegamos a esse tipo de compromisso da noite para
o dia. O compromisso é aprendido no dia-a-dia da vida em células, o
mesmo lugar onde Jesus "afiou" o compromisso dos seus seguidores.
Q..çQmpromisso é desenvolvido nas2ific"ld.ades e.p~a_~_
~. O compromisso dos seguidores é testado na realização da vi-
são. Y4'erjuntg§jl vida em células desenvolve o tipo de compromisso
!1ece~ paF? alcaR'jlar a wa5sa çrítica. -=--
Jesus tem os mesmos critérios de compromisso para cada gera-
ção daqueles que vão segui-lo.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 249

sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por e:


Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome
diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a

causa, este a salvará. Pois que adianta ao homem ganha o


mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo? Se algu m
se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do
homem se envergonhará dele, quando vier em sua glória e na
glória do Pai e dos santos anjos (Lucas 9.23-26).

A comunidade revela e desvenda esse tipo de compromisso. Elton


Trueblood nos desafia ao escrever:

Não haveremos de ser salvos por nada menos do que o com-


promisso, e esse compromisso não será bem-sucedido a me-
nos que encontre expressão em uma comunidade comprome-
tida. Se tivermos algum conhecimento da natureza humana,
começaremos a rejeitar a arrogância da auto-suficiência. Ho-
mens comprometidos precisam da comunhão não porque são
fortes, mas porque eles são - e sabem que são - fundamen-
talmente corrompidos e fracos."

Seguir a Cristo em sua comunidade requer um compromisso que


tem como instrumento de medição a morte. É isso que Jesus ensinou aos
seus discípulos antes de se reunirem no cenáculo. O cenáculo estava
associado à morte de Jesus como também à morte das suas próprias
agendas, do seu orgulho, dos seus sonhos de glória pessoal e posição e
dos seus confortos e recompensas terrenos. Somente esse tipo de com-
promisso levará a atingir a "massa crítica".

o COMPONENTE VALORES

Valores são qualidades que têm um significado intrínseco. ~Iores


são as conyiccões profundas gtJ,e influenciam nossas ações. quais são
6s valores gue fundamentavam ayI~h~.<:i~J~us? Quais eram as qualida--
des que tinham valor intrínseco e importância para Jesus? Esses valores
são essenciais para a formação da massa crítica.
Jesus ensinou seus discípulos diariamente acerca de valores espi-
rituais. Ele não se importava que eles soubessem recitar um credo acer-
ca dos valores do reino, mas que esses valores fossem interiorizados em
seus corações e colocados em prática na comunidade. Alguns dos va-
250 A Segunda Reforma

lores que ele ensinou constantemente era~ p~


p~a,.somllnidade, mjnistério, d.QD.S,s~ unidade, oração,
edificação e evangelismo. Esses valores formam a base para que oear:----
ra a massa crítica. Não é tanto o que eu valorizo, mas o que Deus
valoriza. Esses valores que fluem do coração de Deus vão resultar na
massa crítica.

o COMPONENTE TEMPO

Quantas vezes os discípulos se reuniram naquele mesmo


cenáculo? Provavelmente diversas vezes. Contudo, nada se igualou
ao Pentecostes porque antes a "plenitude do tempo" ainda não havia
chegado. É necessário tempo para reunir os mecanismos do sistema
de Jesus, mas para interiorizá-los requer-se um período ainda maior.
Podemos entender as dinâmicas de lima igreja em células rapida-
mente, mas vivê-la51 DO dia-a-dia leva mais tempo.
Infelizmente, poucos de nós valorizam a paciência. Como disse
Shakespeare: "Quão pobres são aqueles que não têm paciência"." Em
nenhum outro setor isso fica mais evidente do que entre os líderes da
igreja. Queremos gratificação e sucesso instantâneos. Nossa cultura
é condicionada para concertos rápidos e compras rápidas. Os comer-
ciais na TV fazem tudo parecer tão fácil. É fácil comprar um carro,
construir uma casa, emagrecer sete quilos, tornar-se um homem de
negócios bem-sucedido, tornar-se um milionário ou - edificar uma
grande igreja.
Nossa impaciência com a implementação de qualquer visão em
nossa igreja encontra sua raiz em nosso orgulho. Nós sempre supe-
restimamos nossa habilidade de fazer com que as coisas espirituais
ocorram rapidamente. Nossa necessidade para soluções rápidas ou
sucesso instantâneo também revelam uma falha básica em nossa com-
preensão acerca da igreja. Muitos crêem que se eles se esforçarem e
colocarem em prática o seu conhecimento acerca da igreja, ela vai se
tornar bem-sucedida em pouco tempo. Isso somente é verdade se a
igreja for somente uma organização que administramos e
"comercial izamos".
No entanto, Deus precisa de tempo para edificar esse tipo de
igreja. Deus faz tudo na plenitude do tempo. Essa plenitude não vai
chegar até Jesus preparar um povo para ser sua igreja. Uma boa parte
desse tempo precisa ser dada aos líderes para que aprendam a deixar
Deus fazer a obra em vez de eles mesmos a fazerem.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 251

o COMPONENTE PROCESSO

A "massa crítica" é alcançada dando-se um pasQ~ du-


rante o processo. O processo do desenvolvimento da "massa crítica"
na igreja em células serve para a igreja desenvolver uma Q.ase para
líderes inovadores e em seguida desenvolver uma infraestrutll.ta p~ ~
'uma congregação-base. Pular qualquer um dos estágios desse pro-
cesso essencial vai resultar numa igreja em células fracassada em
vez de numa igreja em células explosiva.
Cada estágio contém as sementes para o estágio seguinte. Mais
seguidores vão estar presentes em cada estágio do que o número ne-
cessário para aquele estágio. Por exemplo, quando a liderança-base
de doze estiver sendo formada, mais do que doze deveriam estar par-
ticipando ativamente. Você pode ter 100 seguidores mas continua
discipulando a liderança-base dos doze enquanto aprende a
implementar a rede de apoio dos Setenta. No entanto, quando a mas-
sa crítica for-alcançada, cada um dos estágios deve estar devidamen-
te representado. Os inovadores, os líderes-base e a rede de apoio
formam a infraestrutura da igreja em desenvolvimento. Somente en-
tão o Espírito..Qe Deus pode mover-se no meio desses es~
ciais para criar a massa crítica. --

o COMPONENTE LIDERANÇA

Jesus tinha uma estratégia de liderança, não uma estratégia para


membros. Ele concentrou seu tempo e energia em desenvolver líde-
res e organizá-los em uma unidade funcional. A igreja em células
nunca vai alcançar a "massa crítica" até que os líderes sejam treina-
dos a entender o sistema de igreja em células de Jesus e estejam
comprometidos a implementá-lo. A velha maneira da igreja de usar
liderança profissional não vai possibilitar a formação da "massa crí-
tica". A estrutura de liderança de Jetro (Êxodo 18) deve estar funci-
onando para que Cristo tenha uma rede de apoio e coordenação para
os 10, 50, 100 e 1.000.
A "massa crítica" somente vai ser desenvolvida a partir de Iíde-
res submissos e servos. No seu livro Perfil de três reis, Gene Edwards
descreve esse tipo de submissão na vida do rei Davi. Segue-se uma
conversa alegórica entre um jovem oficial do exército e o último
"guerreiro valente" do rei Davi. O "guerreiro valente" explica o que
tornou Davi um grande líder":
252 A Segunda Reforma

Davi mostrou-me submissão, não autoritarismo. Ensinou-me


não a aplicação imediata de regras e leis, mas a arte da paciên-
cia. Foi isso que me transformou a vida. O legalismo não pas-
sa de um meio de o líder evitar o sofrimento.
As leis foram inventadas por velhos, de modo que pudessem
ir cedo para a cama! Os homens que alardeiam autoridade,
demonstram não a possuir. E os reis que fazem discursos so-
bre submissão, apenas revelam um duplo temor em seu cora-
ção: não têm certeza de serem realmente verdadeiros líderes
enviados por Deus e vivem em pavor mortal de uma revolu-
ção.
O meu rei não falava de submissão a ele. Não temia rebeli-
ões ... porque ... porque não se importava se fosse destronado.
Davi ensinou-me a perder, não a vencer. A dar, não a tomar.
Revelou-me que o incomodado é o líder, e não o seguidor. Em
vez de expor-nos ao sofrimento, ele nos protegia dele.
Ele me ensinou que a autoridade cede à rebelião, especial-
mente quando a rebelião não é mais perigosa do que a imatu-
ridade, ou talvez a burrice .
... a autoridade que procede de Deus não teme desafios, não se
defende, nem se importa se tiver de perder o trono."

O know-how de liderança, o orgulho e o poder não resultam em


crescimento espiritual explosivo. É incrível, mas somente a submissão e
o coração de servo pode suprir a qualidade de liderança que vai gerar a
"massa crítica" de Jesus.

o COMPONENTE ESTRUTURA

A igreja em células opera com suas próprias estruturas únicas e


não com as estruturas antigas da igreja de "um dia por semana". A "mas-
sa crítica" não vai ser alcançada até que as estruturas da igreja em célu-
las estejam nos seus devidos lugares. A estrutura principal é a própria
célula com todas as outras atividades e tarefas operando para apoiar
essa estrutura básica da célula. gtrutmas essenciais incluem uma estru-
tura de liderança. estrutura de treinamento, estrgjura de eyangelismo,.
estrutura de celebração e estrutura êieõrãção, d~o com a descrição
?O"S capítulos 18 e 20.
Ao escrever a respeito de renovação, Howard Snyder, em seu livro
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 253

Signs ofthe Spirit (Sinais do Espírito), explica q~enSãO de


renovação: \
I

tem que ver com formas e estruturas. É a dimensão da renova-


ção preocupada com a forma como nós, os crentes, vivemos em
comunhão. É a questão dos melhores odres para o vinho novo.
A renovação muitas vezes morre prematuramente por falta de
estruturas eficientes. O vinho novo escorre pelas rachaduras das
nossas próprias formas e logo é perdido. A renovação acaba se
tornando uma doce lembrança, não uma nova maneira de vida."

o COMPONENTE ORAÇÃO

A oração é o sopro e a vida de uma igreja em células. Jesus disse:


Eu edificarei a minha igreja. .. Nossa parte nessa obra de Cristo edificar
a sua igreja ocorre por meio de oração e comunicação com o Mestre de
obras. Visto que a igreja em células não vai funcionar sem que Cristo a
construa, ela depende totalmente das orações.
De que maneira você fará parte da sua construção se não ouve o
seu coração e seus desejos? De que maneira os líderes vão saber como
ministrar se não estiverem em sintonia com Deus e capacitados por ele?
Não as boas atividades, mas esperar nele é a chave para alcançar a "mas-
sa crítica".
Se a sua igreja não for uma igreja que ora, uma igreja que anela
pela presença de Deus, tanto pessoalmente como coletivamente, então
participar das células vai ser o esforço mais frustrante que você já expe-
rimentou. Uma coisa é verdade: Se Deus deseja que a sua igreja se torne
uma igreja em células, desse lado da implementação ou do outro, você
vai aprender a orar. A oração vai se tornar um grito de desespero para
aquele que pode levar a igreja a ser o que ele deseja que ela seja. Coleman
disse:

Jesus enfatizou a vida de oração, por muitas e muitas vezes,


ampliando paulatinamente o seu significado e aplicação, à me-
dida que os discípulos eram capazes de compreender as reali-
dades mais profundas do Espírito de Cristo. Isso fazia parte
indispensável do treinamento deles, e por sua vez eles teriam
de transmitir tal conhecimento a outros. Uma coisa era certa.
A menos que eles aprendessem o sentido da oração e apren-
dessem a pô-Ia em prática, de forma coerente, não haveria
254 A Segunda Reforma

grandes resultados derivados de suas vidas. 10

A compreensão da importância da oração é fundamental. A oração


deve ocorrer em todos os níveis da igreja - noseQcontros das células,
nas reLlniêes de lideran,a, Ila--\lida dQ corpo semanal das células, em
toda
.z:: a igreja, nas famílias e individualmente. As maiores igreJasdü mul1do
não têm apenas um sistema de células onde todos podem participar da
vida em comunidade, elas também são conhecidas por sua oração.

o COMPONENTE PODER

Todos os componentes acima podem estar no seu devido lugar e


mesmo assim tudo isso pode estar travado de alguma forma. Necessita-
se de um poder extraordinário para fazer com que uma igreja terrena,
composta de componentes físicos como pessoas, métodos e estruturas
se torne uma "massa crítica" espiritual.
Deus pode suprir esse componente. É por isso que Jesus ordenou
aos discípulos depois daqueles três anos e meio de preparação a esperar
em Jerusalém até que recebessem a "promessa". Ele prometeu que
retornaria por meio do Espírito, e eles se tornariam seu corpo espiritual
na terra. O Espírito prometido é o gatilho que ativa todos os ingredien-
tes e faz a reação em cadeia do poder espiritual explodir.
A massa crítica ocorreu em Pentecostes. Foi uma explosão de vida
espiritual e de comunidade que chocou o mundo. Mas essa explosão foi
formada com os componentes adequados que Jesus agregou num perío-
do de mais de três anos que são: 120 adultos, visão, compromisso, valo-
res, tempo, processo, liderança, estrutura, oração e poder. Devemos dar
atenção aos mesmos componentes hoje. Sem eles, a explosão da
encarnação não será possível; e acabaremos com uma confusão crítica
em vez de uma "massa crÍtÍca".,/
Pr
e
Par a _
Ç
ao
--
Convergência
.
.. .
.

Palavra
profética
(Jesus)
.

Visão de
igreja em
células
Concebida

p Grupo 2-3
pessoas Inovação Introduzida
inicial
R
O
T 12
Legitimar Liderança-
Ó Patrocinar
pessoas Apropriada
chave
T
I
70
P Grupo de Rede
pessoas Implementada
O Execução de apoio

O 120
p Concretização Congregação-
E da pessoas Capacitada
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A
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CONCLUSAO
-
A DOUTRINA DA REVOLUÇAO

É a depravação das instituições e movimentos que, criados para


expressar vida, acabam asfixiando essa própria vida. Portanto,
eles precisam de constante revisão, autocrítica perpétua, e uma
contínua volta para o espírito e propósitos originários. A igreja
cristã não é exceção. Ela é a ilustração principal da situação

,
descrita acima.
- E. Stanley.fones

A medida que entramos no século XXI, muitas vozes proféticas


sugerem que a igreja precisa mudar dramaticamente e radical-
mente se deseja continuar sendo o instrumento eficaz de Deus.
De acordo com Francis Schaeffer em Death in lhe City (Morte na cida-
de), nós vivemos em um mundo "pós-cristão". Ele faz a seguinte pro-
posta à luz da nossa situação:

A igreja em nossa geração precisa de reforma, reavivamento e


revolução construtiva. Às vezes, as pessoas acham que as duas
palavras "reforma" e "reavivamento" têm significados opos-
tos. Mas isso é um engano. As duas palavras estão associadas
com a palavra "retornar".
Reforma refere-se a um retorno à pura doutrina; reavivamento
refere-se ao retorno à vida cristã. Reforma fala do retorno aos
ensinos das Escrituras: reavivamento fala de uma vida levada
ao relacionamento apropriado com o Espírito Santo. I

Ao discutir o estado da igreja. Schaetfer liga quatro palavras im-


portantes - reforma. reavivamento, restauração e revolução. Ele con-
clui que aptes que ocorra l!m~Illi:ãQ ~ia sociedade deve
haver lima reforma da doutrina e um reàvivamento dos crentes. Ele su-
gere aqui (e ~lltroS escritos) que ~~siauração da-estrutura é es-
sencial. Resistência também faz parte dessa "mistura".

257
258 A Segunda Reforma

A revolução espiritual que vai mudar dramaticamente a raiz da soci-


edade como a conhecemos segue uma equação:

Reforma da Doutrina
+ Avivamento do Espírito de Deus
+ Remanescente dos Comprometidos com Deus
+ Restauração do Modelo do Novo Testamento
= Revolução Espiritual

A REFORMA DA DOUTRINA

A reforma de diversas doutrinas importantes ocorreu há mais de 500


anos. O dano causado à doutrina da salvação, à autoridade da Bíblia, ao
sacerdócio do crente e a outras doutrinas foi revertido e colocado em um
curso mais bíblico. É claro que é necessário um constante repensar do
significado dessas doutrinas em cada era. No entanto, a Reforma estabele-
ceu uma estrutura doutrinária que estava faltando nos 1.000 anos anteri-
ores. Hoje, a igreja não precisa voltar e passar pelo processo sofrido em
reformar a estrutura teológica básica do cristianismo. Isso já foi feito.
A Reforma tem sido considerada por muitos como o ponto alto da
história da igreja. Visto que estou entrando na corrente da igreja em célu-
las, eu vejo a Reforma de uma maneira diferente. Será que podemos ver a
Reforma que ocorreu há 500 anos como uma preparação daquilo que Deus
está pronto para fazer hoje? E se no calendário de Deus a reforma da
doutrina era somente um dos elementos para preparar o mundo para uma
colheita revolucionária que ele está preparando hoje? Isso é radical? Sim!
Mas quando vemos os eventos na história como um processo contínuo
que Deus prepara para os acontecimentos seguintes, não está fora de lógi-
ca. Deus olha para a história como um todo. Os eventos do Antigo e do
Novo Testamento foram entrelaçados um no outro em um período de mais
de 2.000 anos da história. Será que a história moderna não é tão importan-
te para Deus a ponto de garantir a mesma atenção divina?

o AVIVAMENTO DO ESPÍRITO DE DEUS

A revolução espiritual começa com a reforma da doutrina e passa


pelo reavivamento que vem do Espírito de Deus. Não estou apenas falan-
do de "avivamentismo", embora esse aspecto e o avivamento do Espírito
de Deus estejam intimamente ligados. Tivemos períodos em que a igre-
ja influenciou e transformou as sociedades por períodos breves, mas
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 259

isso não teve um efeito duradouro.


A única esperança é de uma revolução espiritual construtiva. Isso
requer um avivamento do Espírito de Deus que é a causa principal dos
avivamentos. Parece que nesse século Deus derramou o seu Santo Espí-
rito de formas especiais. Isso não foi decorrente da descoberta de uma
nova doutrina do Espírito Santo. O avivamento ocorre no momento em
que a experiência e a aplicação do Espírito entram em ação.
Enquanto as igrejas evangélicas ortodoxas estavam discutindo e
ensinando acerca do Espírito Santo, um movimento do Espírito de Deus
ocorria na vida de outros grupos. Temos testemunhado a obra do Espíri-
to em muitas vidas no século XX. Esse movimento do Espírito de Deus
tem ocorrido nos mais diversos grupos, incluindo as denominações
pentecostais históricas, a renovação carismática na Igreja Católica e o
Movimento da Terceira Onda, dentro das igrejas denominacionais tradi-
cionais. Engel e Norton discutem isso em seu livro criterioso, What s
Gone Wrong With the Harvest (O que deu errado com a colheita):

A história da igreja também revela algumas lições sérias. Quan-


do a igreja se entrincheira em uma política estática de resis-
tência à mudança, ela se torna uma mera concha vazia. As
decorações exteriores podem aparecer adequadas, mas a vita-
lidade interiorjá morreu há muito tempo. Isso, é claro, é típi-
co de uma igreja cuja eficácia está em crise - mas que conti-
nua seu trabalho normalmente. Mas então ocorre o renas-ci-
mento - uma ruptura gerada pelo Espírito Santo, um novo
nascimento de relevância! Muitas vezes esse vinho novo não
pode ser contido em odres velhos, e uma nova comunidade
precisa ser formada. Em outras situações, a nova vida influen-
cia a própria concha "vazia", revertendo a situação caótica da
igreja, e conduzindo o corpo de volta para a sua verdadeira
função.'

o PODER DO REMANESCENTE

A revolução espiritual que nasce a partir da reforma da doutrina e


da renovação do Espírito de Deus é implementada por um remanescente
do povo de Deus. Quando Deus está por fazer algo grande ele escolhe
um remanescente. Como podemos ver claramente na história de Gideão,
Deus raramente faz grandes coisas por meio da maioria. Deus escolheu
Gideio para liderar seu exército contra os midianitas, amalequitas e os
260 A Segunda Reforma

"filhos do leste". A convocação do exército foi feita em Israel, e aproxi-


madamente 32.000 voluntários se apresentaram para lutar contra um exér-
cito de 1}5.000 (Juízes 7 e 8).
Os dois exércitos estavam próximos o suficiente para guerrearem no
vale de Jezreel quando Deus começou a escolher o seu remanescente.
Deus começou a sua preparação reduzindo o número de seu exército. ~
guerra fosse ganha Israel diria ue eles v sa da abi-
11 a e e seus soldados valentes. Gideão foi informado por Deus de que o
exército era grande demais. Eram 32.000 voluntários contra 135.000 sol-
dados profissionais? "O Senhor deve estar brincando?". Mas Gideão anun-
ciou a palavra ao seu exército voluntário.
Ele disse:" do a uele ue estiver tremendo de medo e não deseja
lutar e des~a ir ~ra casa pode ir". GI eão quase foi pisoteado. Rapida-
mente~2. 00 soldados foram para casa. Mas Deus ainda não tinha en-
contrado seu remanescente. Aqueles 10.000 soldados eram demais e de-
clarariam que eles foram os responsáveis pela vitória. O teste do remanes-
cente foi aplicado mais uma vez.
Deus disse: "Observe os soldados enquanto bebem água. Aqueles
que colocarem a sua lança ao lado e se ajoelharem, com os seus traseiros
para cima, tornando-se vulneráveis, mande para casa. Separe aqueles que
beberem água, estando alerta porque eles sabem que estão em zona de
batalha, levando a água com as mãos à boca enquanto seguram a sua lan-
ça".
Quantos soldados sobraram? Trezentos. Trezentos contra 135.000.
Esse era o remanescente de Deus. Precisamos entender o poder do rema-
nescente. Deus estava de olho num$grupo que ai$8mt:;Tia=âele,~sua-
majestade e do se~ plano, s~ . .
Deus necessitava de um remanescente comprometido e obediente
porque esse seria o seu tipo de batalha. Naquela noite, Deus, por meio de
Gideão, contou aos soldados a respeito do plano de batalha e as armas que
eles iriam usar. Quais eram as armas? ,Umjarro, u\TIatocha e uma trombe:.--
~ O que teria acontecido se todos os 31 700 scldados que fQm1l1pªr_a__ .~
casa tivessem recebido aquelas i'}struções? Quando Gideão disse a eles
~riam lutar durante a noite, certamente haveria murmuração. S,-e_e_le _
tivesse lhes contado a respeito das armas que Deus havia escolhido para a
~, eles ~~ªUJmwe""n
.•.•
e...•
t••.~~e....!r~e~b~e~la~r~ia~m~e~d~e:::s~e~rt~a~ri~a~m~o~u-.::e~
__
inimigo com as armas convencionais. Eles teriam sido derrotados.
? ê) que1i'Zelaái os 300'! EleiITao reclamaram nem se rebelaram. Eles
apanharam aquelas armas e foram para a batalha. Por quê? ~eram
~ro tão reduzido a essa altura, que não importava o tipo""Jd;-e-a-r---:-':.......-~
/

A Igreja do Novo Testamen/o no século XXI 261

nt.as que iriam u~ar. Eles não conseguiriam derrotar 135.000 soldados
com bazucas. U"lRremanescente, caracte:~~ente, é tão pequeno que
~cisã1@tr d~cordo com O pl;no de D om as arm~ ---
tempo de Deus e com o oder de Deus. O remanescente de Deus esta _
comprometido e é obediente para ~er as COIsas a manejra~~us.
Deus está éTiamando esse tipo de remanescente hoje. Você pode
fazer parte dele. Se você faz, será exigido de você grande fé e coragem.
Muitos não vão responder ao chamado e não estarão à altura do desafio.
Você poderá fazer parte do remanescente, não por causa da sua
espiritual idade ou habilidade, mas por causa do seu compromisso com a
batalha e sua prontidão de lutar a batalha com as armas de Deus, o plano
de Deus, no tempo de Deus e com os números de Deus.

A RESTAURAÇÃO DO MODELO

A igreja é a esperança para a revolução do século XXI. Mas que


tipo de igreja'? Qual será o modelo? Que tipo de estrutura? Pode a igreja,
como a conhecemos, ser usada para cumprir o propósito que Deus tem
para essa época? A revolução espiritual no século XXI não será bem-
sucedida sem a reconstrução de uma forma estrutural por meio da quaU!
doutrina pura. o pqge espi! itlJal e a r velação de De~lpossam
pressos.
7 ser ex-

De tempos em tempos na história, as três primeiras partes dessa


equação para a revolução se uniram. Tivemos a reforma da doutrina, o
avivamento do Espírito de Deus e o remanescente de Deus juntos. Mas
não houve uma revolução espiritual. A Reforma aconteceu, mas foi der-
ramada em odres velhos. Movimentos do Espírito de Deus na história
foram isolados geograficamente e estruturalmente. Remanescentes do
povo de Deus têm se reunido periodicamente mas sem resultados per-
manentes. Essas três primeiras partes da equação careciam de uma base
de onde a revolução espiritual pudesse explodir. Faltava a parte final da
fórmula. Não existia uma estrutura para moldar a reforma, o avivamen-
to e o remanescente no corpo espiritual de Cristo. A revolução espiritual
precisa de um~twtura. Essa estrutura é o modelo da igreja de duas
asas do Novo Testamento.
A não ser que exista um odre estrutural, o vinho da reforma, do
avivamento e do remanescente vai gradualmente evaporar. Esse elemento
final está se encaixando nesses primeiros dias do novo milênio. O mo-
delo de células da igreja do Novo Testamento promete ser a estrutura
que vai dar aos outros elementos a base por meio da qual a igreja pode
262 A Segunda Reforma

se tornar uma revolução explosiva. No movimento da igreja em células,


Deus está provendo a estrutura por meio da qual a igreja pode ser o
catalisador da revolução espiritual.

DEUS ESTÁ ENVOLVIDO NESSE NEGÓCIO DE REVOLUÇÃO!

A Bíblia proclama graficamente que Deus trouxe à existência a


história do homem por meio da palavra, e essa história vai terminar com
um clamor e ao som da trombeta na segunda vinda de Cristo. A história
não está indo em círculos como é interpretado pelo pensamento orien-
tai, nem está indo para trás como é interpretado pelos animistas, nem
está indo para dentro conforme a interpretação dos espiritualistas da
Nova Era, nem está evoluindo para cima como é interpretado pelos ci-
entistas, nem está indo para lugar algum conforme afirmam os nihilistas
e os ateístas, nem está descendo em espiral em direção ao reino das
trevas como afirmam os satanistas. Mas, a história está se movendo para
frente em direção a um ponto no tempo predeterminado por Deus, que
está ativamente envolvido em definir o curso da história.
Em seu livro magnífico acerca da história do mundo, The Story of
Civilization (A história da civilização), Will Durant compara a influên-
cia de César e de Cristo. Ele diz o seguinte a respeito de Cristo:

A revolução que ele buscou foi uma muito mais profunda, sem
a qual as reformas só poderiam ser superficiais e transitórias.
Se ele pudesse limpar o coração humano do desejo egoísta, da
crueldade e da luxúria, a utopia viria por si mesma, e todas
aquelas instituições que resultam da ambição e violência hu-
manas, além da conseqüente necessidade das leis, desapare-
ceriam. Já que isto seria a mais profunda de todas as revolu-
ções, em contraste com a qual todas as outras seriam meros
golpes de estado de uma classe desalojando a outra e explo-
rando-a por seu turno, Cristo foi, neste sentido espiritual, o
maior revolucionário da história".'

o historiador Edward Gibbon também sentiu gratidão quando com-


parou o cristianismo com outros movimentos revolucionários que têm
surgido ao longo da história.

Enquanto o enorme Império romano foi invadido pela violên-


cia aberta e minado por uma lenta decadência, uma religião
/
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 263

pura e modesta se insinuou suavemente na mente dos homens,


cresceu obscura e silenciosamente, extraiu da oposição sofri-
da um novo vigor, erigindo finalmente a bandeira triunfante
da Cruz sobre as ruínas do Capitólio.'

A IGREJA É O AGENTE DE DEUS

Para a maioria de nós, a "história santa" se refere ao que aconteceu


no passado na história da igreja ou ao que vai acontecer no futuro quan-
do Cristo retornar. Raramente pensaríamos em usar a expressão "histó-
ria sagrada" referindo-nos à época presente. Estamos suspensos em um
estado de cristianismo de segunda categoria esperando para que os even-
tos espirituais importantes da segunda vinda nos tirem dessa era destitu-
ída de espiritual idade. É uma perspectiva do tipo "rodeie as carroças"
que faz eco da mentalidade catedralesca da igreja. Certamente Deus não
foi pego despreparado para essa época na história. Deus deve ter uma
forma de alcançar os milhões que estão nascendo todos os anos. Qual-
quer que seja o plano de Deus, ele vai fazê-lo por intermédio da sua
igreja. Como disse Howard Snyder no seu livro Community ofthe King
(A Comunidade do Rei):

A igreja é mais do que o agente de Deus para o evangelismo e


a mudança social; ela é, em submissão a Cristo, o agente de
todo propósito cósmico de Deus. O Reino de Deus está vindo,
e na medida em que essa vinda do Reino ocorre na história
antes da vinda de Cristo, o plano de Deus deve ser cumprido
por meio da igreja [...]
A Bíblia diz que a Igreja é o corpo de Cristo. Ela é a noiva de
Cristo (Apocalipse 21.9), o rebanho de Deus (IPedro 5.2), o
templo vivo do Espírito Santo (Efésios 2.21-22) [...] Se a igre-
ja é o corpo de Cristo - o meio pela qual o cabeça age no
mundo - então a Igreja é uma parte indispensável do evange-
lho, e a eclesiologia (teologia que trata da igreja) é inseparável
da soteriologia (teologia que trata da salvação ).5

É imprescindível que a igreja perceba o que Deus está fazendo e


para onde ele está se movendo dentro da história. Avery Willis descreve
a história como "história sagrada" (Heilsgeschichte I história da salva-
ção), com o movimento da história de Deus fundamentando tudo o que
o homem chama de história.
264 A Segunda Reforma

peus não é um mero espectador esperando para ver o que os


homens vão fazer; ele é um participante ativo na redenção da
humanidade perdida [...] Deus-e~tá trabarhánd~ nã vidadõs'sêu~
filhos, enviando-os para a seara; ele também está trabalhando
nas pessoas do mundo preparando-as para o testemunho do seu
povo. Devemos ver a sua mão por trás das massas à busca de
uma vida melhor e na inquietação das nações [...]
É como se Deus estivesse usando luvas em que uma palavra se
encontra escrita em cada dedo: c!!ltura. política, sociedade, eco-
nomia e religião. A mão de Deus está por trás de todos os afaze-
"f"esdos homens e das nações para produzir uma colheita."

o movimento de Deus na história vai desde a criação de Adão e


Eva, passando por Abraão e Moisés, Gideão, os profetas, até o nasci-
mento de Cristo. Estêvão foi martirizado por causa da sua visão da his-
tória sagrada. Leia o seu sermão marcante acerca da história sagrada de
Deus (veja Atos 7). Lemos no Novo Testamento a história dos primeiros
discípulos. Conhecemos Agostinho e outros pais da igreja. Conhecemos
o lugar de Lutero e de Wesley na história sagrada de Deus.
Mas onde se encaixa a igreja do século XXI? Onde está o nosso
lugar na história sagrada de Deus? Será que a história secular é tão má e
corrupta que Deus não pode mais usar a igreja no seu curso espiritual da
história?
A habilidade de Deus de fazer a diferença na história nunca depen-
deu da qualidade dos seus seguidores. Sempre tem sido a vontade sobe-
rana de Deus e o seu poder que têm redimido a história destrutiva do
homem. Nosso lugar na história de Deus é o mesmo de todos aqueles
que vieram antes de nós. Nós hoje somos instrumentos da história sa-
grada de Deus por meio de quem ele continua redimindo, renovando e
revolucionando.

NINGUÉM USA SAPATOS AQUI!

Duas companhias de sapatos queriam abrir um novo mercado em


um novo país. Cada companhia enviou um vendedor para avaliar as pos-
sibilidades. Os dois vendedores descobriram os mesmos fatos. Ninguém
usava sapatos naquele país. Um vendedor telefonou para a sua compa-
nhia. "Cancele o pedido. Ninguém usa sapatos aqui". O outro vendedor
também telefonou para a sua companhia. "Triplique o pedido. Ninguém
usa sapatos aqui".
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 265

Sernelhanternenteà história dos dois vendedores de sapatos, os


cristãos processam os~· esmos fatos mas chegam a conclusões
diametralmente opostas ac rca da igreja no mundo atual.
Ao olharmos para a ituação do mundo atual, poderíamos concluir
que estamos vivendo em um período da história que foi tolhido pelo que
ocorreu no passado com a Reforma. Estamos assustados com o que está
acontecendo hoje e compelidos a sentar e esperar o fim. Mas, por outro
lado, alguém com visão pode dizer que esse período oferece a maior
oportunidade para uma colheita jamais vista. Será que Deus não pode
fazer uma coisa extraordinária hoje? Ralph Neighbour tem sido por anos
o vendedor de sapatos que triplicou o pedido. Ele tem falado das possi-
bilidades e oportunidades:

Estou convencido de que a igreja tradicional em todo o mundo


está sendo lentamente substituída por uma ação de Deus. Os
desenvolvimentos que estão ocorrendo hoje são tão poderosos
como o levante em 1517 durante o tempo de Martinho Lutero.
Não podemos dizer que Lutero foi o autor da primeira Refor-
ma. Ele foi apenas o pavio que acendeu o fogo; a madeira seca
já estava pronta para queimar.
Os historiadores têm examinado as forças que estavam emjogo
naquela época. O desenvolvimento da imprensa, a impaciência
fervescente com a ganância de Roma, a desilusão a respeito dos
sistemas filosóficos, a emergência de métodos científicos, tudo
contribuiu para que aquele século fosse uma época de transi-
ção. A igreja foi reformada pela mão de Deus para prepará-Ia
para o novo mundo que estava prestes a surgir.
O catolicismo da Idade das Trevas era simplesmente incompe-
tente para lidar com o novo ambiente. A igreja reformada foi
um filho do seu tempo. Ela encarou cada novo evento com o
poder do alto. Infelizmente, ela não conseguiu se soltar por com-
pleto do molde antigo - e os ramos mais conservadores manti-
veram o antigo costume de queimar nos postes em praça públi-
ca aqueles que se atrevessem a ir mais adiante.
Os estilos de vida da igreja tão apropriados para o período da
Reforma são agora impotentes. A igreja está impotente. Ela não
consegue se reproduzir a não ser que primeiro gere fisicamente
novos filhos. Tenho perambulado por esta terra desde 1974, e a
impotência está em todo lugar.
Está na hora da segunda Reforma. O povo da terra tem entra-
266 A Segunda Reforma

do em uma nova época, uma que nunca existiu antes em toda


a história da humanidade. As mudanças estão ocorrendo em
uma velocidade cada vez maior, e a igreja está se tornando
cada vez mais irrelevante para lidar com as mudanças.'

SORRIA, SARA, SORRIA!

De que maneira a igreja institucional vai reagir àqueles que passa-


rão a fazer parte da Segunda Reforma? O confronto mesclado com certa
admiração é uma boa possibilidade. Leonardo Bofffaz essa pergunta da
igreja em relação à agitação causada pelo que ele chama de "reinvenção
da igreja" moderna. À luz dessas novas expectativas, o status quo sorri
conscientemente e de forma cética diante da expressão de entusiasmo e
esperança demonstrada.

Talvez a igreja institucional, com a experiência e prudência


de todas as pessoas mais velhas, vá sorrir ao ouvir essas refle-
xões - como Sara. Ela era estéril e acreditava ser impossível
conceber um filho. Ela ri. Colocando-nos no lugar de Abraão,
ouvimos a pergunta de Deus: "Por que Sara riu? Existe algu-
ma coisa impossível para Deus?" (Gênesis 18.13,14). Sorria,
Sara, porque embora estéril você se tornou fértil; você se tor-
nou uma nova criação! Sarajá deu à luz. Ali, no útero da Sara,
os sinais da nova vida já estão começando a aparecer: uma
nova igreja está nascendo, nos recônditos escuros da humani-
dade."

Então o que a igreja institucional antiga e sábia vai fazer ao ouvir


falar novamente acerca da nova vida na igreja em células? Será que a
mudança, a renovação e mesmo a revolução não têm sido profetizadas
em outros tempos da história quando a igreja era ainda mais jovem, na
idade de dar à luz um filho? Agora a Noiva está idosa e o tempo passou!
Brinque com os filhos que Abraão teve com Agar. Esqueça a vida nova
que vem de um corpo velho.
. . e uma nova forma nascendo da antiga.
ara va a vida exu erant
daquilo que já l2assou da idade. Sorria ao ouvir da interrupção da vida
confortável com os choros e necessidades da nova vida. Sorria em silên-
cio a respeito do pensamento de ter de reorganizar o velho lar para poder
acomodar o novo. Esse sorriso de desconfiança vai se transformar em
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 267

uma gargalhada alegre quando os primeiros movimentos forem sentidos


lá bem no fundo do corpo da mãe. Aquele sorriso silencioso vai se trans-
formar em uma gargalhada jovial. Haverá dor na hora de dar à luz mas
a dor será substituída pela alegria por causa da nova vida.A ~
tão grande que AbraãQ e Sara vão chamar a criança de Isaque, que ~
<1'iZêr riso.
~o eles provavelmente riram de Jesus, Pedro, Paulo, Lutero
e Wesley. Por que levar essas coisas muito a sério? A certa altura você
vai perceber que o órgão para gerar o filho é velho demais, rígido e seco.
Adote um filho! Compre um animal de estimação. Encontre programas
que são para os filhos dos outros e brinque com eles. Encontre substitu-
tos. Esteja satisfeito em sua idade avançada. Brinque com os filhos dos
outros, e saiba que quando você estiver velho você não conceberá algo
novo.
Sim, "o estado atual das coisas" sorri quando sussurram acerca do
nascimento das revoluções da nova igreja. Boff dá a seguinte advertên-
cia àqueles que sorriem acerca da revolução de Deus:

Isso é apenas o início, ainda em processo. Não é uma realida-


de acabada. Pastores e teólogos, fiquem alerta! Respeitem esse
novo caminho que está surgindo no horizonte. Não procurem
colocar esse fenômeno em uma caixinha de determinada cate-
goria teológica pastoral destilada de outros contextos e outras
experiências eclesiais. Em vez disso, assumam a atitude da-
queles que estão dispostos a ver, entender e aprender.?

~
(:=APÊNDICE
\ \

ELEMENTOS DE COMUNIDADE:
A MÃO

E
ste apêndice é uma adaptação do Capítulo 3 de Redefining
Revival [Redefinindo o Avivamento]. A ilustração da mão para
explicar os elementos da vida da célula é um dos conceitos
mais importantes de meu ensino, e eu a incluo em praticamente to-
dos os meus livros recentes. No entanto, comecei a usá-Ia depois que
o livro A Segunda Reforma já estava sendo impresso em 1995. Por
isso, fico muito feliz em poder incluí-Ia agora nesta edição em portu-
guês.

CINCO ELEMENTOS BÁSICOS DA VIDA DA CÉLULA

Os cientistas usam cinco letras para os cinco elementos básicos


que são usados para traçar o código genético humano. Esses cinco
elementos básicos são arranjados em diferentes combinações e se-
qüências e esclarecem a complexidade da vida sobre a terra.
A célula espiritual também contém cinco importantes elemen-
tos que constituem a vida da célula. A mão é uma ilustração desses
cinco importantes elementos e pode nos ajudar a compreender a sin-
gularidade dos elementos atuantes em uma célula. Os elementos de
treinamento, prestação de contas, I~ça e ~angeliswa atuam.to-
dos em relação à com~dade -Esses elementos fluem do coração de
-Ueus e são extensões na célula de quem Deus é.

269
270 A Segunda Reforma

Figura 10. Os cinco sistemas da célula

Essa ilustração da mão é simples o suficiente para que uma cri-


ança a possa compreender, mas profunda o suficiente para que se com-
preenda a verdadeira vida do Cristo onipresente na comunidade. Cris-
to está no meio da célula. Assim, a plenitude da Trindade está ali - o
Pai, o Filho e o Espírito.

o POLEGAR REPRESENTA COMUNIDADE

A mão é um instrumento maravilhosamente planejado. O arranjo


dos quatro dedos com o polegar faz com que a mão humana seja espe-
cial. Cada dedo funciona independentemente, mas também em
interdependência com o polegar.
Exatamente como todos os dedos funcionam em relação com o
polegar, cada elemento na célula funciona em relação à comunidade.
Os cristãos precisam estar em comunidade uns com os outros antes
que os outros elementos possam ser vividos. lJeinamento (discipulado ),
prestação de contas, liderança e evangelism& combinam-se como um
todo quando ativados na comunidade. No entanto, nenhum desses qua-
tro elementos se unirá com os demais. Por exemplo, um foco em trei-
namento muitas vezes negligencia o evangelismo. O elemento de pres-
tação de contas pode se tornar legalista e restritivo enquanto estiver
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 271

focado em si mesmo. A i~tegração do trabalho da igreja em torno de


líderes com freqüência focaliza em dons específicos do líder e negli-
gencia os outros elementos importantes. O evangel ismo como elemen-
to integrante muitas vezes negligencia os outros quatro.
Mas a comunidade da célula do Novo Testamento integra os ou-
tros elementos e permite que operem de modo apropriado no tempo
apropriado.
"Permanecer em Cristo" (João 15 e João I) é a expressão que
melhor resume o significado de comunidade do Novo Testamento. Em
seus discursos no Evangelho de João, Jesus explica seu relacionamen-
to com seus seguidores. Ele permanece com eles e neles, e eles perma-
necem nele. Permanecer em Cristo e Cristo permanecer em um grupo
de cristãos é o lugar da adoração e oração em comunidade, e da Pala-
vra.
O polegar também representa o encontro da célula, que é a uni-
dade organizada mais básica da vida em Cristo. Mas o polegar tam-
bém representa o aspecto espiritual da vida da célula que une a vida de
todos os membros à vida de Cristo. Juntos, na unidade mais básica do
Corpo de Cristo, os cristãos vivem as implicações práticas das grandes <-

doutrinas da igreja.
" J
O DEDO MÍNIMO REPRESENTA O TREINAMENTO

O dedo mínimo representa o treinamento dos bebês: os novos


crentes e os "pequeninos". .;
Os centros de força da mão estão localizados perto do polegar e
do dedo mínimo. Esses centros de força funcionam juntos e permitem
que a mão segure objetos com firmeza. A força da igreja é a nutrição
de bebês espirituais para levá-los à maturidade (representada pelo lado
do dedo mínimo) e a vida juntos em comunidade (representado pelo
lado do polegar).
A . acidade da ire' uidar dos novos crentes é uma das
maiores tragédias do século XX. Um grande número e novos cristãos
foi gerado durante as últimas décadas, mas foi negligenciado e não
aproveitado no ministério significativo dentro do sistema da igreja tra-
dicional.
J) mundo sabe qye a melhor maoeira d0 cl:Iiclaf de lII" bebUilp
",-contexto dat:!m~. Depois da queda da "cortina de ferro", descobriu-
se que âlguns países do leste europeu haviam tentado cuidar insti-
tucionalmente de um grande número de crianças. Fotografias e relatos
272 A Segunda Reforma

de crianças que foram emocional e fisicamente prejudicadas choca-


ram o mundo. Por melhor que seja o cuidado institucional, este não se
compara com ocuidado de crianças em um ambiente familiar amoro-
"so.§,rtIidado dos filhos espirituais de Dells no atacado leva aos mes-
~s terríveis resultados.
Cristo proveu o CUidado de seus bebês espmtuais em famílias
espirituais. Igrejas que não têm uma estrutura familiar de grupo pe-
queno tentam cuidar dos bebês espirituais em um ambiente institucional
mais estéril. Os novos cristãos são colocados em um ambiente de de-
pósito na estrutura dominical. Não deveríamos ficar surpresos pelo
fato de a igreja ter sido menos que eficaz com esse tipo de abordagem.
Os novos cristãos em uma igreja em células são cuidados em um
ambiente familiar de grupo pequeno. Os líderes de célula são pais es-
pirituais para os novos-convertidos. Os outros membros da célula são
os irmãos e irmãs mais velhos que vão ajudar a guiar os passos dos
novos bebês. As atividades do dedo mínimo são o Trjlho de Treina-
mento para os novos crent~~ventos especiais por meio dos quais
~stes recebem alimento.

o DEDO ANULAR REPRESENTA A PRESTAÇÃO DE CONTAS

No dia 3 de agosto de 1963, Mary Harrison e eu trocamos alian-


ças como um símbolo de nosso compromisso mútuo. Prometemos ser
responsáveis um pelo outro, prestar contas um ao outro, apoiar um ao
outro, e amar um ao outro. Na vida da célula, o mesmo compromisso
associado com o casamento do Novo Testamento é vivido na unidade
familiar espiritual da igreja.
Na vida da célula, o dedo anular representa a prestação de con-
tas. O conceito do Novo Testamento para prestação de contas é ensi-
nado nos trechos "uns aos outros". Sejam bondosos e compassivos uns
para com os outros, perdoando-se mutuamente (Efésios 4.32). Sujei-
tem-se uns aos outros, por temor a Cristo (Efésios 5.21). Suportem-se
uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os ou-
tros ... (Colossenses 3.13).
Quando compreendido corretamente, esse é um dos elementos
mais preciosos da vida da célula. No entanto, a prestação de contas é
atualmente provavelmente um dos elementos mais temidos e
malcompreendidos na vida da igreja. Vi que cristãos em todos os paí-
ses e culturas reagem negativamente ao termo "prestação de contas".
É preciso olhar com empenho e longamente para encontrar alguma
A Igreja.daNovo Testamento no século XXI 273

aplicação prática ~sse conceito na igreja do século XXI.


Um dos nomes que Jesus utiliza para o Espírito prometido expli-
ca o significado da prestação de contas. O Espírito é o Advogado: para
estar com vocês para sempre (João 14.16). Essa é uma ilustração mui-
to linda da obra do Espírito Santo e do espírito de prestação de contas.
O Espírito Santo caminha lado a lado e cuida do cristão.
Como os discípulos sabiam do que Jesus falava quando disse que
o Espírito Santo estaria "caminhando lado a lado" com eles? Em seu
relacionamento com Jesus, os discípulos haviam experimentado pres-
tação de contas espiritual em seu verdadeiro significado. Ele havia
estado lado a lado com eles ao caminhar com eles, encorajando-os,
apoiando-os e sendo seu advogado e amigo. Jesus havia prometido
que o Espírito Santo iria continuar esse relacionamento.
Essa obra do Espírito se multiplica em uma célula quando o Es-
pírito recruta cada membro a compartilhar sua obra de "caminhar lado
a lado" com cada um dos outros membros da célula. O Espírito Santo,
por meu intermédio, "caminha lado a lado" com você e o apóia e enco-
raja. Então, o Espírito Santo, por meio de você, "caminha lado a lado"
comigo e me apóia e encoraja. Esse belo ministério aniquila as ima-
gens severas e desagradáveis que muitos têm quando pensam em pres-
tação de contas.
As atividades ligadas com o dedo anular em uma igreja em célu-
las começam com um mentor cristão maduro para cada novo crente.
Os membros de uma télula que não estiverem mentoreando um novo-
convertido formarão duplas para parceria de apoio mútuo, homens com
homens, e mulheres com mulheres. Esse dedo também representa os
relacionamentos de prestação de contas entre líderes que se apóiam
mutuamente em relacionamentos de mentoreamento. A-prestação de
contas entre líderes se move constantemente para frente e para trás
entre submissão e autoridade. Cada líder se submete a um líder, e por
sua vez acompanha ou serve um outro líder. Genseqtrentemente, a Li:
derança se move para frente e para trás entre a supervisão como servo
e a submissão como servo.

o DEDO MÉDIO REPRESENTA A LIDERANÇA

O dedo médio é significativo porque é o dedo mais proeminente,


representando o povo forte e maduro que são pais e mães. Deus como
Pai é uma das verdades mais básicas de liderança. O coração de Deus
é de geração e paternidade. É por isso que Cristo chama e prepara
274 A Segunda Reforma

líderes. Seus líderes devem cuidar dos bebês espirituais e liderar o seu
rebanho.
A natureza trinitária de Deus melhor explica o conceito de lideran-
ça de célula. Os cristãos experimentam a paternidade de Deus, a
fraternidade de Cristo e o cuidado paterno do Espírito Santo. Os pais
exercem grande controle sobre os filhos. Entretanto, de manhã um pai
pode ser visto ajoelhado diante de uma criança inquieta de dois anos,
ajudando-a a vestir suas meias e sapatos. Jesus edificou sua igreja em
torno de líderes que seriam capazes de se responsabilizar por outros
membros. A liderança nasce do coração de Deus como Pai. Em 1João, o
autor separa esse processo de mentoreamento entre pais,jovens e filhos.
Pais (e mães) são cristãos maduros. Jovens (homens e mulheres) são
cristãos em crescimento. Filhos são os novos na fé. Os pais mento-reiam
osjovens e osjovens mentoreiam os filhos. .---========='
Jesus demonstrou o relacionamento ;unoroso do Pai no seu conta-
to com seus seguidores e com as crianças nas multidões. Membros ma-
duros em uma célula vivem o amor e a vida de Deus Pai. Deus, o Pai,
gera seus filhos espirituais na família espiritual da célula.
Paternidade implica em reprodução. O objetivo da célula é se re-
produzir. Essa reprodução deve ocorrer primeiro na liderança. Somente
então a célula poderá se reproduzir numericamente. Cada célula tem um
líder e desenvolve ao menos uma outra pessoa para se tornar líder. Além
da liderança na célula, esse dedo também representa o treinamento para
auxi Iiares, as reun iões de coordenação dos Iíderes e a estrutura de Jetro,
por meio da qual a igreja em células coordena o trabalho do ministério
por intermédio de seus líderes.

o DEDO INDICADOR REPRESENTA O EVANGELlSMO

O dedo indicador é bom para apontar, indicar e pegar coisas. Esse


dedo representa o evangelismo, porque a célula existe para apontar em
direção aos perdidos, indicar os membros da célula para os perdidos e
para "pegar" aqueles que estão separados de Deus.
Jesus veio para buscar e salvar os perdidos. É o propósito eterno
de Cristo atrair todas as pessoas a ele. Como ele é o centro da célula, seu
desejo é cumprido por meio da célula. Jesus prometeu: Quando for le-
vantado da terra, atrairei todos a mim. O começo do evangelismo ocor-
re quando Cristo é levantado na célula. Cristo então atrai os perdidos
para si.
O relacionamento de uma célula com a sociedade espiritual em
A Igreiyo Novo Testamento no século XXI 275

que está inserida é ~J)te parecido com o de uma família nuclear.


No primeiro nível, vemos a família imediata. Então vem a família "am-
pliada" de outros cristãos integrantes de famílias de outras células.
Aqueles que vivem na vida de célula um outro tipo de família são a
família "adotada". Ben Wong explica esse conceito de família "adota-
da". Ben diz que ele não tem problemas com células grandes. Na ver-
dade, ele quer que suas células sejam grandes. Para Ben, uma célula
pode ter apenas 10 cristãos, mas na realidade tem 100 membros. No-
venta pessoas estão perdidas e apenas ainda não sabem que fazem par-
te da célula. A célula as inclui na família de Deus e crê e ora para que
sejam salvas.
O evangelismo em uma igreja em células é diversificado, criati-
vo e abrangente. Por meio das células, uma igreja em células lançará
diferentes redes de evangelismo. O evangelismo de relacionamento é
a forma básica de evangelismo em uma igreja em células. Para poder
alargar o oikos (contatos expandidos) de uma célula, uma igreja em
células irá evangelizar por meio de grupos especiais que têm como
alvo incrédulos que estão fora da esfera de relacionamento dos mem-
bros das células. s igrejas em células também planejam eventos de
colheita de tempos em tempos ara ue u as assam se reunir e
r------------- e
_ céIula~rup~_2ar,! u}!leventoe.s.peciat

o TESTE DA MÃO

Você consegue se lembrar dos cinco sistemas essenciais da célu-


la? Olhe para a sua mão e cite os cinco sistemas. Comece com o pole-
gar, então o dedo mínimo, o dedo anular, o dedo médio e, finalmente,
o indicador. Essa é uma ilustração simples de como Cristo, por meio
do Espírito, expressa sua vida por meio da unidade mais básica de seu
Corpo ... a célula.
O desejo do coração de Cristo é habitar com seus seguidores e
que seus seguidores permaneçam nele. É por isso que a célula vive a
própria vida de Cristo à medida que ele habita na célula e a célula
permanece nele (polegar). O desejo do coração de Cristo é cuidar dos
bebês. Portanto, por meio da célula Cristo vive o desejo do seu cora-
ção de cuidado pelos novos-convertidos (dedo mínimo). A natureza de
Cristo é caminhar lado a lado e cuidar de seus seguidores. Ele faz isso
na célula, quando membros maduros cuidam dos novos-convertidos e
os outros membros se apóiam mutuamente (dedo anular). Deus se re-
vela como um Pai que ama e lidera. Líderes são designados para cada
276 A Segunda Reforma

célula e líderes são identificados e desenvolvidos porque esse é o ver-


dadeiro desejo do coração de Deus (dedo médio). Deus amou o mundo
de tal maneira que morreu para atrair todos os homens a si. É assim
que ele é. A célula é uma extensão do amor e do ministério de Cristo
para alcançar os perdidos e feridos (dedo indicador).
Agora, com a sua mão você leva consigo uma ilustração da célu-
la a todo lugar que você for. Cada vez que você olhar para a sua mão,
poderá se lembrar da vida dinâmica e do ministério de Cristo por meio
de sua célula.

I
A Igreja dCOVO Testamento no século XXI 277

NOTAS
Introdução
T. S. Kuhn, The Copernican Revolution (Cambridge, Mass., 1957), p.
I

138, citado em Thomas S. Kuhn, The Structure ofScientific Revolutions


(Chicago: University ofChicago Press, 1962), p. 83.

Parte I
Elton Trueblood, Your Other Vocation (New York: Harper and Brothers,
1952), p. 32.

Capítulo 1
IChristian Smith, "Tub Drains, Planets, & Mountain Bikes: On the Need
for an Ecclesiological Paradigm Shift," Voices Newsletten Number 1, p.
1.
2 Smith Voices Newsletter, Number 1, p. 1.
3 Stephen R. Covey, Principle-Centered Leadership (New York: Simon
and Schuster, 1991), p. 67.
4 Herb Miller, ed., "Letter to President Jackson," Net Results Magazine,

março 1991.
5 Edward de Bono, Lateral Thinking (New York: Harper & Row, 1970), p.

13-14.
6 Joel A Barker, Discovering the Future (Lake Elmo, MN: I. L. I. Press,

1989), p. 60.

Capítulo 2
"Talvez a igreja ..." Elton Trueblood, Yoke of Christ (New York: Harper
and Brothers, 1958), p. 115.
I Ralph W. Neighbour Jr., "Welcome to the Cell Church!," Cell Church
Magazine, agosto 1994, p. 5.
2 Citado em Robert Banks, The Home Church (Sutherland, Australia:
Albatross Books, 1986), p. 70. '-o

Capítulo 3
"Uma das tragédias ..." Samuel Miller, "The Evaluation of Religion,"
Saturday Review, 14 novembro 1959, p. 70, citado em Robert A. Raines,
New Life in lhe Church (New York: Harper & Row, 1961), p. 141.
I Raines, New Life in the Church, p. 141.

2 H. S. Vigeneno, Jesus The Revohaionary (Glendale, CA: G/L Publications:


280 A Segunda Reforma

Capítulo 9
"em Cristo ... " E. Y. Mullins, The Christian Religion in Its Doctrinal
Expression (Nashville, TN: Broadman Press, 1945), p. 173.
I Francis A. Schaeffer, True Spiritualuy (Wheaton, IL: Tyndale House
Publishers, 1971), p. 72.
2 Schaeffer, True Spirituality, p. 172.

J Earnest Loosely, When the Church Was Young (Autun, ME: Christian

Books Publishing House, 1935), p. 79.


4 Ray Stedman, A Igreja, corpo vivo de Cristo (São Paulo, SP: Editora

Mundo Cristão, 1974), p. 128.


5 Schaeffer, The Church at the End of the 20th Century, p. 66.

Capítulo 10
"Deve haver uma ... " Schaeffer, The Church at the end ofthe 20th Century,
p.56.
I HowardA. Snyder, The Community of the King(Downers Grove, IIIinois:

InterVarsity Press, 1977), p. 147.


2 Elton Trueblood, The Incendiary Fellowship (New York: Harper & Row,

1967), p. 89.
J Stedman, Ray, A Igreja, corpo vivo de Cristo, p. 106.

4 F. F. Bruce, The Spreading Flame (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans

Publishing Company, 1958), p. 15.


5 Michael Green, Evangelism in the Early Church (Grand Rapids, MI:

Wm. B. Eerdman's Publishing Company, 1970), p. 208.


6 John N. Vaughan, The Large Church (Grand Rapids, MI: Baker Book

House, 1985), p. 41.


7 William Barclay, The Lord's Supper (London: SCM, 1967), p. 10 l-I 04,

citado em Banks, The Home Church, p. 59.

Capítulo 11
A Reforma ... " William R. Estep, TheAnabaptist Storm (Grand Rapids, MI:
Wm. B. Eerdmans, 1975), p. 182.
I Martin Luther, Luther's Works, vol 53, Preface to The German Mass and

Order of Service, ed. Helmut T. Lehmann, trad. Paul Zeller Strodach


(Philadelphia: Fortress Press, 1965), p. 63-64.
2 D. M. L10ydJones, "Ecclesiola in Ecclesia," Approaches to the Reformation

ofthe Church, (Papers from the Puritan and Reformed Studies Conference),
1965, pp. 60-1.
J Kenneth J. Derksen, "The Collegium Pietatis as a Model for Home Bible

Study Groups," Crux XXII no. 4 (dezembro 1986): 20, citado em Doyle L.
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 281

Young, New Life For Your Church (Grand Rapids, MI: Baker Book House,
1989), p. 107.
4 Derksen, "The Collegium Pietatis," 21, citado em Yong, New Life For

Your Church, p. 108-9.


5 Howard A. Snyder, The Radical Wesley and Patterns ofChurch Renewal

(Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1980), p. 54-5.


6 John Wesley, Wesley s Works vol. 8 (London, Wesleyan-Methodist Book-
Room), p. 251.
7 Wesleys Works vol. 2, p. 482.
8 Wesley s Letters vol. 7, p. 154.

9 R. W. Stott, One People: Laymen and Clergy in Gods Church (Downers

Grove, IL: InterVarsity Press paperback), p. 88, citado em Stedman, Body


Life, p. 112.
10 C. Kirk Hadaway, Stuart A. Wright an rancis M. DuBose, Home Cell
Groups and House Churches (Nashvi e: Bro man Press, 1987), p. 233.

Capítulo 1~
"Tem de haver ... " Schaeffer, True Spirituality, p. 171.
I Dr. Wallace, "Who's Afraid ofthe Holy Spirit," Christianity Today 12
setembro 1994, p. 35.
2 Rodman Williams, Renewal Theology Vol. 1 (Grand Rapids, MI:
Zondervan, 1988), p. 146.
3 Schaeffer, True Spirituality, p. 63.

4 Schaeffer, True Spirituality, p. 63.

5 "Baby Boomer Exodus from Church Noted," Houston Chronicle June 5,

1992,p.12A.
6 Schaeffer, The Church at the End of the 20th Century, p. 71, 72.

7 Engel and Norton, What s Gone Wrong With The Harvest?, p. 136.

Parte In
Capítulo 13
"Se Deus ... " Trueblood, Companyofthe Committed, p. 113.
I Raines, New Life in lhe Church, p. 103.

Capítulo 14
"O sistema ... " Citado em Michael E. Gerber, The E Myth: Why Most Small
Businesses Don t Workand What lo Do About II (New York: HarperColI ins,
1986): p.l09.
I Peter R. Scholtes, The Team Handbook: How lo Use Teams lo Improve
282 A Segunda Reforma

Quality (Madison, WI: Joiner Associates Inc., 1988): p. 2-8.


2 Lyle E. Schaller, The Change Agent: The Strategy of lnnovative Leadership
(Nashville: Abingdon, 1972): p. 175.
3 Gerber, The E-Myth, p. 60

4 Gerber, The E-Myth, p. 55.

5 Gerber, The E-Myth, p. 60,61.

6 Gerber, The E Myth, p. 141.

7 James F. Hind, The Heart and Soul of Effective Management: A Chrisüan

Approach of Managing and Motivating People, citado em Life (dezembro


1994): p. 79.
8 Schaller, The Change Agenl, p. 89.

9 Christopher Sower and others, Community lnvolvement, (Glencoe: Free

Press 1958),306-314, citado em Schaller, The Change Agent, p. 89.

Capítulo 15
"Cada atividade ... " W. Edwards Deming, Out of Crisis (Cambridge:
Massachusetts Institute ofTechnology Center for Advanced Engineering
Study, 1986), p. 87.
1 Webster s New World Dictionary (1990).

2 Raines, New Life in the Church, p. 78.

Capítulo 16
"O protótipo ... " Gerber, The E-Myth, p. 54.
1 W. Jack Duncan and Joseph G. Van Metre, "The Gospel According to

Deming. Is It Really New?" Business Horizons, julho-agosto. 1990, p. 5.


2 Gerber, The E-Myth, p. 54.

3 Deming, Out of Crisis, p. 128-9.

Capítulo 17
"O protótipo ... " Gerber, The E-Myth, p. 54
1 Coleman, The Master Plan ofEvangelism (Old Tappen, NJ: Revell CO.,
1963), p. 21.
2 Ralph Neighbour Jr., Where Do We Go From Here? A Guidebookfor lhe
Cell Group Church (Houston: TOUCH Publications, 1990), p. 202.
3 Stedman, Body Life, p. 114.

4 E. Stanley Jones, The Way (New York: Abingdon-Codesbury Press, 1946),

p.272.

Capítulo 18
"O obreiro evangélico precisa decidir ..." Co1eman, The Master Plan of
A Igreja do Novo Testamento no século XXI 283

Evangelism, p. 37
1 Coleman, The Master Plan of Evangelism, p. 109.

2 Coleman, The Master Plan of Evangelism, p. 31-32.

3 Paul M. Zehr and Jim Egli, Alternative Models to Mennonite Pastoral

Formation (Elkhart, IN: Institute ofMennonite Studies, 1992), p. 43.


4 Coleman, The Master Plan of Evangelism, p. 46.

5 Coleman, The Master Plan of Evangelism, p. 26.

6 Deming, OutofCrisis, p. 129.

Capítulo 19
"Para um paradigma ... " Kuhn, The Structure ofScientijic Revolutions, p.
158.
1 Schaller, The Change Agent, p. 104-109.

2 Dietrich Bonhoeffer, Life Together (san(\an . co: Harper and Row,


1954), p. 27-28.
\

Capítulo 20
"O grupo pequeno ... " Snyder, The Problem ofWineskins, 144.
1 Yonggi Cho e Harold Hostetler, Successful Home Cell Groups (South

Plainfield, NJ: Bridge Publishing, 1981), p. 21-24.


2 Karen Hurston, Growing the World s Largest Church (Springfield, MO:

Gospel Publishing House, 1994), p. 86.

Capítulo 21
"Muito da singularidade ..." Trueblood, The Incendiary Fellowship, p. 107.
1 John Stott, The Spirit, the Church and the World: The Message of .Acts
(Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1990), p. 59.
2 Stott, The Spirit, lhe Church and lhe World,p. 59.

3 The World Book Dictionary, 1978 ed.

4 Stott, The Spirit, lhe Church and lhe World, p. 89

5 Jess Moody, A Drink at Joel s P/ace (Waco, TX: Word, 1967), p. 22,17,

citdo em Snyder, The Problem ofWineskins, p. 105.


6 Lee and Cowan, Dangerous Memories, p. 35.

7 Stedman, Body Life, p. 15.

8 Stedman, Body Life, p. 37-38.

9 W. O. Carver, Forward to What is lhe Church? Por Duke McCall (Nashville:

Broadman Press, 1958), p. 3.


10 W. O. Carver, The Glory of God in lhe Christian Calling (Nashville:

Broadman Press, 1949), p. 42, citado em Charles L. Chaney, Church Planting


at lhe End of lhe Twentieth Century (Wheaton, IL: Tyndale, 1982), p. 22.
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