15 versões de A Canção do Exílio
A Canção do Exílio Os passarinhos daqui
Gonçalves Dias Não cantam como os de lá
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá; Minha terra tem mais rosas
As aves que aqui gorjeiam, E quase que mais amores
Não gorjeiam como lá. Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores, Ouro terra amor e rosas
Nossos bosques têm mais vida, Eu quero tudo de lá
Nossa vida mais amores. Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá
Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá; Não permita Deus que eu morra
Minha terra tem palmeiras, Sem que eu volte para São Paulo
Onde canta o sabiá. Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá; ***
Em cismar - sozinho, à noite - Uma canção
Mais prazer encontro eu lá; Mario Quintana
Minha terra tem palmeiras, Minha terra não tem palmeiras...
Onde canta o sabiá. E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Não permita Deus que eu morra, Nas palmeiras que não há.
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores Minha terra tem relógios,
Que não encontro por cá; Cada qual com sua hora
Sem qu'inda aviste as palmeiras Nos mais diversos instantes...
Onde canta o sabiá. Mas onde o instante de agora?
Mas onde a palavra "onde"?
Canção do Exílio Terra ingrata, ingrato filho,
Murilo Mendes Sob os céus da minha terra
Minha terra tem macieiras da Califórnia Eu canto a Canção do Exílio!
onde cantam gaturanos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista, Europa, França e Bahia
os sargentos do exército são monistas, cubistas, Carlos Drummond de Andrade
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
com os oradores e os pernilongos. Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como
Os sururus em família têm por testemunha a um caranguejo.
Gioconda Os cais bolorentos de livros judeus
Eu morro sufocado e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas O pulo da Mancha num segundo.
nossas frutas mais gostosas Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas
mas custam cem mil réis a dúzia. docas.
Ai quem me dera chupar uma carambola de Tarifas bancos fábricas trustes craques.
verdade Milhões de dorsos agachados em colônias
e ouvir um sabiá com certidão de idade! longínquas formam um tapete
para Sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
*** E a lua de Londres como um remorso.
Canto de Regresso à Pátria
Oswald de Andrade Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
Minha terra tem palmares O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos
Onde gorjeia o mar arruinados.
Hamburgo, embigo do mundo. Cantar o sabiá!
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a
cabeça dos outros Quero ver esse céu da minha terra
dentro de alguns anos. Tão lindo e tão azul!
A Itália explora conscientemente vulcões E a nuvem cor-de-rosa que passava
apagados, Correndo lá do sul!
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini. Quero dormir à sombra dos coqueiros,
E a Suiça cândida se oferece As folhas por dossel;
numa coleção de postais de altitudes altíssimas. E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!
Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.
Quero sentar-me à beira do riacho
Não há mais Turquia. Das tardes ao cair,
O impossível dos serralhos esfacela erotismos E sozinho cismando no crepúsculo
prestes a declanchar. Os sonhos do porvir!
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca. Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam Meu Deus! não seja já;
o filme bolchevista Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um A voz do sabiá!
coração enorme
está batendo, batendo mas não bate igual ao da Quero morrer cercado dos perfumes
gente... Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Chega! Do meu berço natal!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do exílio". Minha campa será entre as mangueiras,
Como era mesmo a "Canção do exílio"? Banhada do luar,
Eu tão esquecido de minha terra... E eu contente dormirei tranqüilo
Ai terra que tem palmeiras À sombra do meu lar!
onde canta o sabiá.
As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
Canção do Exílio E eu sonho no sepulcro os meus amores
Casimiro de Abreu Na terra onde nasci!
Se eu tenho de morrer na flor dos anos Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já; Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá! Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro Cantar o sabiá!
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo Nova Canção do Exílio
Os gozos do meu lar! Ferreira Gullar
Minha amada tem palmeiras
O país estrangeiro mais belezas Onde cantam passarinhos
Do que a pátria não tem; e as aves que ali gorjeiam
E este mundo não vale um só dos beijos em seus seios fazem ninhos
Tão doces duma mãe!
Ao brincarmos sós à noite
Dá-me os sítios gentis onde eu brincava nem me dou conta de mim:
Lá na quadra infantil; seu corpo branco na noite
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria, luze mais do que o jasmim
O céu do meu Brasil!
Minha amada tem palmeiras
Se eu tenho de morrer na flor dos anos tem regatos tem cascata
Meu Deus! não seja já! e as aves que ali gorjeiam
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, são como flautas de prata
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Não permita Deus que eu viva Eu, o sem Deus!
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
que se escondem em seus carinhos A quem se jurou; tenho-te como uma fé
sem me perder nas palmeiras Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me
onde cantam os passarinhos sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
Canção do Exílio Facilitada E sem pé-direito.
José Paulo Paes
lá? Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine,
Nova Inglaterra
ah! Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o
sabiá… monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem
papá… luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
maná… Que eu sabia, mas amanheceu...
sofá… Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
sinhá… Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
cá? Não tardo!
bah! Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
*** Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Pátria Minha Vi minha humilde morte cara a cara
Vinicius de Moraes Rasguei poemas, mulheres, horizontes
A minha pátria é como se não fosse, é íntima Fiquei simples, sem fontes.
Doçura e vontade de chorar; uma criança
dormindo Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem
É minha pátria. Por isso, no exílio ostenta
Assistindo dormir meu filho Lábaro não; a minha pátria é desolação
Choro de saudades de minha pátria. De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: secular
Não sei. De fato, não sei Que bebe nuvem, come terra
Como, por que e quando a minha pátria E urina mar.
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Em longas lágrimas amargas. Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Vontade de beijar os olhos de minha pátria Que um dia traduzi num exame escrito:
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... "Liberta que serás também"
Vontade de mudar as cores do vestido E repito!
(auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
E sem meias pátria minha Que brinca em teus cabelos e te alisa
Tão pobrinha! Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não Entre teus doces montes, pátria minha
tenho Atento à fome em tuas entranhas
Pátria, eu semente que nasci do vento E ao batuque em teu coração.
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento Não te direi o nome, pátria minha
De ligação entre a ação o pensamento Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil De te esquecer
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha Vou voltar
Brasil, talvez. Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Agora chamarei a amiga cotovia Sei que o amor existe
E pedirei que peça ao rouxinol do dia Não sou mais triste
Que peça ao sabiá E a nova vida já vai chegar
Para levar-te presto este avigrama: E a solidão vai se acabar
"Pátria minha, saudades de quem te ama... E a solidão vai se acabar
Canção do Exílio às Avessas
Terra das Palmeiras Jô Soares
Taiguara Minha Dinda tem cascatas
Sonhada terra das palmeiras Onde canta o curió
Onde andará teu sabiá? Não permita Deus que eu tenha
Terá ferido alguma asa? De voltar pra Maceió.
Terá parado de cantar? Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
Sonhada terra das palmeiras As aves, aqui, gorjeiam
Como me dói meu coração Não fazem cocoricó.
Como me mata o teu silêncio
Como estás só na escuridão. O meu céu tem mais estrelas
Minha várzea tem mais cores.
Ah! minha amada amortalhada Este bosque reduzido
Das mãos do mal vou te tirar deve ter custado horrores.
P'ra dançar danças de outras terras E depois de tanta planta,
E em outras línguas te acordar. Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Sabiá
Chico Buarque de Hollanda Minha Dinda tem piscina,
Vou voltar Heliporto e tem jardim
Sei que ainda vou voltar feito pela Brasil's Garden:
Para o meu lugar Não foram pagos por mim.
Foi lá e é ainda lá Em cismar sozinho à noite
Que eu hei de ouvir cantar sem gravata e paletó
Uma sabiá Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar No meio daquelas plantas
Vou deitar à sombra Eu jamais me sinto só.
De um palmeira Não permita Deus que eu tenha
Que já não há De voltar pra Maceió.
Colher a flor Pois no meu jardim tem lagos
Que já não dá Onde canta o curió
E algum amor Talvez possa espantar E as aves que lá gorjeiam
As noites que eu não queira São tão pobres que dão dó.
E anunciar o dia
Minha Dinda tem primores
Vou voltar De floresta tropical.
Sei que ainda vou voltar Tudo ali foi transplantado,
Não vai ser em vão Nem parece natural.
Que fiz tantos planos Olho a jabuticabeira
De me enganar dos tempos da minha avó.
Como fiz enganos Não permita Deus que eu tenha
De me encontrar De voltar pra Maceió.
Como fiz estradas
De me perder Até os lagos das carpas
Fiz de tudo e nada São de água mineral.
Da janela do meu quarto que os anos esquecem jamais.
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras Em cismar sozinho, ao relento,
Onde canta o curió. sob um céu poluído, sem estrelas,
Não permita Deus que eu tenha nenhum prazer tenho eu cá;
De voltar pra Maceió. porque me lembro do tempo
em que livre na campina
Finalmente, aqui na Dinda, pulsava meu coração, voava,
Sou tratado a pão-de-ló. como livre sabiá; ciscando
Só faltava envolver tudo nas capoeiras, cantando
Numa nuvem de ouro em pó. nos matagais, onde hoje a morte
E depois de ser cuidado tem mais flores, nossa vida
Pelo PC, com xodó, mais terrores, noturnos,
Não permita Deus que eu tenha de mil suores fatais.
De acabar no xilindró.
Minha terra tem primores,
Nova Canção do Exílio requintes de boçalidade,
Carlos Drummond de Andrade que fazem da mocidade
Um sabiá um delírio amordaçado:
acrobacia impossível
na palmeira, longe. de saltimbanco esquizóide,
equilibrado no risível sonho
de grandeza que se esgarça e rompe,
Estas aves cantam roído pelo matreiro cupim da safadeza.
um outro canto.
Minha terra tem encantos
O céu cintila de recantos naturais,
sobre flores úmidas. praias de areias monazíticas,
Vozes na mata, subsolos minerais
e o maior amor. que se vão e não voltam mais.
Só, na noite, Canção do Exílio
seria feliz: Raquel Maythenand
um sabiá, Minha terra não tem palmeiras
na palmeira, longe. E nem sabiá a cantar
As aves que aqui gorjeavam,
Onde tudo é belo já foram para outro lugar.
e fantástico,
só, na noite, Nosso céu não tem estrelas,
seria feliz. nossas várzeas não tem flores
(Um sabiá, Nossos bosques estão sem vida
na palmeira, longe.) e nossas vidas sem amores.
Ainda um grito de vida e Ao cismar,sozinha,à noite,
voltar não encontro mais prazer lá.
para onde tudo é belo Minha terra não tem palmeiras
e fantástico: e nem sabiá a cantar.
a palmeira, o sabiá,
o longe. Minha terra não tem primores
Que tais eu encontro cá.
Outra Canção do Exílio Ao cismar,sozinha,à noite
Eduardo Alves da Costa Não encontro mais prazer lá.
Minha terra tem Palmeiras, Minha terra não tem mais palmeiras
Corinthians e outros times e nem sabiá a cantar.
de copas exuberantes
que ocultam muitos crimes. Não permita Deus que eu morra
As aves que aqui revoam Antes de ver o meu Brasil mudar
são corvos do nunca mais, Onde possa ver primores, que agora não consigo
a povoar nossa noite enxergar
com duros olhos de açoite Minha terra não tem palmeiras
mas um dia ela terá.
Canção do Martírio
Daniel Chaves
Minha terra tem castanheiras, ouço o bugio e o
curió
Nas estradas tem atoleiros, no verão levanta pó
Vim do lado da floresta, sem renome, sem
canção
Sou um dos párias do Brasil, emigran’do
Maranhão
Exilado em Boa Vista, estou à sorte “Deus dará”
No Beiral, no Pintolândia, Asa Branca ou
Cambará
Meus parentes estão ilhados, para além do
Anauá
Ah! Que saudade que tenho do meu velho roçado
Dos meus filhos pequenos, correndo, brincando
pelados
Minha roça hoje é biscate, faltando um naco de
pão
Meus filhos hoje em gangs, no cassete e afogão
Na fila pra pegar rancho, eu fico a meditar
Um dia eu tenho emprego, minha sina vai mudar
Que saudade do sul do estado, ali era meu chão
Sou macuxi, sou roraimeiro e tenho nome meu
irmão.
Molto più che documenti.
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