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ENTRE O CÁRCERE E A INFÂNCIA: O VALOR ENORME DAS PALAVRAS 1

Maria Betânia Almeida Pereira (UERJ)

RESUMO: A pesquisa parte da análise das obras Infância (1945) e Memórias do Cárcere
(1953) de Graciliano Ramos no intuito de investigar a tessitura narrativa das memórias desse
autor que, ao resgatar suas vivências da meninice no sertão nordestino e experiências no período
da cadeia, ganha contornos ficcionais. Procura-se investigar como o relato memorialístico é
construído, quais os meios empregados numa escrita de si que é capaz de transformar as
experiências vividas em matéria literária, não ficando resumidas a simples relatos
autobiográficos. O livro Infância é elaborado no período pós-cárcere, momento ainda marcado
pelas agruras da prisão. Veremos então que a pena do escritor não escamoteia as penas vividas
no presente e estas não se diferenciam das penas do passado, se atentarmos para o universo de
violência e opressão em que vivia o menino. Dessa forma, neste trabalho, procuramos rever
como o menino de Infância dá a mão ao adulto das Memórias do Cárcere e vice-versa; é um
jogo ambíguo e ao mesmo tempo revelador de uma escrita singular, cujo compromisso artístico
e ideológico do autor se desvela na urdidura dos textos.

Palavras-chave: Memória. Infância. Ficção. Graciliano Ramos.

Infância e Vidas Secas de Graciliano Ramos, antes de ganharem contornos de


“livros”, foram inicialmente contos publicados, de forma esparsa, em jornais e revistas.
É curioso perceber o processo de escrita de Infância, vista pelo autor, como signo de sua
“bárbara educação nordestina” expressão esta sinalizada por Ramos em seu livro de
memórias da prisão. Quais os pontos de contato entre Infância e Memórias do Cárcere?
De que maneira o relato memorialístico é construído? São questões trazidas para o
debate neste texto, cujo recorte busca investigar quais os meios empregados numa
escrita de si que transforma as experiências vividas em matéria literária.

1
Este trabalho é uma versão adaptada de outro artigo, cujo título é “Da literatura como força – ou têm
poder as armas insignificantes?” publicado no livro Pensar Memórias do Cárcere, da editora 7Letras, ano
de 2015, organizado pelas pesquisadoras Matildes Demetrio dos Santos e Mônica Gomes da Silva.
Antes de serem reunidos em forma de livro, os trinta e nove contos que integram
Infância foram publicados em jornais, revistas e suplementos do Rio de Janeiro e
Lisboa entre 1938 e 1944, aproximadamente. Em 1945, o editor José Olympio publica a
obra completa e insere na capa a indicação “Memórias, Diários e Confissões”. Percebe-
se a preocupação da editora em organizar o livro a partir das narrativas em primeira
pessoa, levando o leitor a acreditar que está diante de textos de igual característica, sem
perceber que, apesar de intimamente ligados, as memórias, os diários e as confissões
têm implicações literárias distintas e é necessário um cuidado maior para não cair num
reducionismo perigoso que não os diferencia.

Grosso modo, no gênero memórias está presente uma relação com o tempo
passado em que as lembranças são filtradas pela subjetividade dum “eu” que, muitas
vezes multifacetado, se revela/esconde nas artimanhas da linguagem. O diário, por sua
vez, é uma escrita que se realiza, como bem designa o próprio termo, no dia a dia; trata-
se duma escrita cotidiana cuja base é a data. Para Philippe Lejeune (2008), o diário é
uma série de vestígios e uma escrita que pressupõe a intenção de balizar o tempo através
de uma sequência de referências. Maurice Blanchot (2005) acrescenta que este gênero
está preso ao calendário, ou seja, o que se escreve se enraíza no cotidiano e na
perspectiva que o cotidiano delimita. Tendo outras particularidades, as confissões
remetem ao esforço de relatar, por meio de autorretratação, as vivências dignas de
serem transmitidas ao leitor, por meio duma seleção em que o narrador pode fazer uma
apologia de sua vida, procurando esclarecer e justificar atitudes passíveis de
interpretações diversas.

Retomando Infância, quem vai dar as chaves para a compreensão da possível


categorização da obra é o próprio escritor. Vejamos. Em tempo anterior ao da prisão,
Graciliano relata que a ideia do livro veio pronta, por acaso e sem esforço, conforme
explica na carta enviada a Heloísa Ramos, sua esposa, em 28 de janeiro de 1936:

Um dia destes, no banheiro, veio-me de repente uma ótima ideia para


um livro. Ficou-me logo a coisa pronta na cabeça, e até me
aparecerem os títulos dos capítulos, que escrevi quando saí do
banheiro, para não esquecê-los. Aqui vão eles: Sombras, O inferno,
José, As almas, Letras, Meu avô, Emília, Os Astrônomos, Caveira,
Fernando, Samuel Smiles. Provavelmente me virão ideias para novos
capítulos, mas o que há dá para um livro. Vou ver se consigo escrevê-
lo depois de terminado o Angústia (RAMOS, 1982, p. 161).

Entretanto, a concretização do livro aconteceu quase dez anos depois. A forma


de organização dos capítulos indica o critério cuidadoso do autor e a preocupação em
estabelecer uma “ordem” para a matéria narrada, dando um ritmo próprio ao texto. Em
1938, “Samuel Smiles”, “Os Astrônomos” e “O menino da mata e o seu cão Piloto”
foram os primeiros contos publicados, mas não são os três primeiros contos que iniciam
o livro. Aos poucos, o contista foi elaborando seu projeto inicial. Num primeiro
momento, “a coisa pronta na cabeça” veio sob a forma de títulos, resguardando as
imagens, em flashes vindos “de repente” e espontaneamente da lembrança, sem esforço,
conforme as palavras do escritor na carta. Num segundo momento, para a elaboração
das reminiscências em formato de livro, o rigor, a agudeza crítica e sensibilidade
estética, tão peculiares ao escritor, delineiam o “livro de memórias”, que, graças ao
trabalho com a linguagem, foi se revelando próximo ao da ficção.

Sobre o método de escrita do contista, o filho Ricardo Ramos (1987) observa


que o pai dá às suas memórias um tratamento próximo ao da ficção, antepondo,
aguçando, ampliando a matéria narrada (apud GARBUGLIO, 1987). Este processo
quase ficcional é perceptível em Infância, logo na parte inicial, uma vez que o narrador
não traça uma ordem cronológica – o nascimento, os dados primeiros da vida de criança
– , como se espera dum livro de memórias 2. O modo como o texto se compõe é outro,
pois suscita o que Roland Bartthes (2002) denomina texto de fruição, por levar o leitor a
um estado de desconforto que faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do
leitor à medida que o trabalho com a linguagem ultrapassa a tagarelice e revela o brio do
texto, ou seja, sua vontade de fruição. Para Barthes (2002) este brio do texto é o
momento em que as portas da linguagem se abrem para o encontro ente o ideológico e o

2
Sobre os três primeiros contos de Infância: “Nuvens”; “Manhã”; “Verão” e o processo de elaboração
poética das memórias, há um artigo de minha autoria, denominado “Memórias de infância em Graciliano
Ramos” que pode ser visto no periódico Linguagem em (Re)vista, ano 08, n. 15-16, pág. 125-144.
imaginário que se inscrevem tanto no plano do conteúdo quanto no plano estético-
formal da obra.

Um modo de pensar a sociedade da época, a reflexão do trabalho do escritor no


corpo do texto, o amálgama entre experiências vivenciadas e imaginação são os
ingredientes do livro que comporta um caráter autobiográfico, mas que passeia com
desenvoltura entre a memória e a ficção. Infância não se reduz, portanto, a um “livro de
memórias”, pois aponta singularidades que transcendem esta classificação. Uma das
zonas de “desconforto” e, paradoxalmente, estado de encanto que a leitura de Infância
evoca estaria exatamente no seu caráter fronteiriço ente memória e ficção. O texto
interage com o leitor e sua participação é fundamental para a compreensão da obra, que
seduz pelo universo multifacetado de uma expressão dramática, característica da ficção
de Graciliano em primeira pessoa.

Em entrevista concedida a Homero de Senna na Revista O Globo, em 18 de


dezembro de 1948, ao ser perguntado sobre a sua infância em Palmeira dos Índios, o
romancista responde que “tudo está contado em Infância”. Sobre Quebrangulo,
cidadezinha no interior de Alagoas, onde nasceu, não tem recordações, por ter se
mudado de lá para Pernambuco com apenas um ano de idade. Dessa infância, caracteres
distintos e contraditórios coexistem e são ampliados na contextura ficcional do narrador
do livro. O autor explica:

Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de


Pernambuco, para onde a conselho de minha avó, meu pai se
transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos
desse tempo estão contados no meu livro de memórias (RAMOS,
apud SENNA, 1996, p. 197).

Considerando o critério de classificação da obra, descartam-se, portanto, as


categorias “diários” e “confissões”. Pelo teor e organização do texto, o leitor percebe
que não há datas especificando os fatos contados, inexiste o pacto com o calendário,
tampouco o eu que se coloca se apresenta em tom de confissão à moda de Rousseau, no
sentido de vir a público retratar-se ou de expor uma “verdade” ocultada. Como bem
aponta Antonio Candido (1999), nas Confissões há um certo esqueleto de realidade que
não nos deixa confundi-la com um romance. Ao passo que,

em Infância o esqueleto quase se desfaz, dissolvido pela


maneira de narrar, simpática e não objetiva, restando apenas uns
pontos de ossificação para nos chamar à realidade (CANDIDO,
1999, p.50. Grifos do autor).

Esta maneira simpática de narrar revela a singularidade da obra que transcende


tanto o objetivo inicial – escrever um livro abordando a bárbara educação nordestina –
quanto à forma “livro de memórias” batizada pelo autor.

Precisamente no capítulo 34, segundo volume, de Memórias do cárcere, o autor


diz que o impulso para a escrita de Infância se deve ao momento em que toma
conhecimento da história de José, nordestino como ele, mas vagabundo, vadio e ladrão,
que responsabilizava a família por ser o que era. Ao ouvi-lo, o memorialista percebe que
a sua infância não foi melhor que a dele, pois também sofrera muito com a violência do
pai e a indiferença da mãe e conclui em seguida: “e a lembrança deles me instigava a
fazer um livro a respeito da bárbara educação nordestina” (RAMOS, 1987, p. 444).
Vale salientar que Infância é elaborado no período pós-cárcere, momento ainda
marcado pelas agruras da prisão. O escritor, em sua pena não escamoteia as penas
vividas no presente e estas não se diferenciam das penas do passado, se atentarmos para
o universo de violência e opressão em que vivia o menino. Talvez esteja aí uma das
pistas capazes de aclarar o jogo ambíguo dos intercâmbios entre passado-presente-
futuro na urdidura do texto e “a memória é o que confere sentido ao passado como
diferente do presente (mas fazendo ou podendo fazer parte dele) e do futuro (mas
podendo permitir esperá-lo e compreendê-lo)” (CHAUI, 2000, p. 130). Não é
descabido dizer que a experiência vivida na prisão influenciou, de certa maneira, a
escrita de Infância. O contato com uma realidade adversa e com pessoas das mais
variadas camadas sociais enriqueceu ainda mais o olhar observador, crítico e reflexivo
do autor. No seu formato final, a obra representa a infância de um menino nordestino,
num meio severo, revivendo fatos, pessoas e acontecimentos que influíram na sua
educação e formação como pessoa. A infância em cena desmistifica a ideia do lugar
paradisíaco, ameno e feliz, pelo contrário, o menino habita o lócus horrendus, onde são
raríssimos os espaços para as brincadeiras e para o prazer.
Tal como o adulto que foi marcado por cicatrizes profundas em sua convivência
nos subterrâneos do cárcere, a criança também foi marcada por episódios de violência
gratuita, maus-tratos, descasos, indiferenças. As imagens revisitadas da infância
dialogam, de certa maneira, com o estado de exceção vigente em Memórias do cárcere.
No conto “O menino da mata e o seu cão Piloto”, a criança é impedida de ler o livro que
dá nome ao conto, por se tratar duma obra escrita por um autor protestante. Ao
questionar o porquê da interdição, a prima Emília atesta que se trata de texto repugnante
e incute medo no menino, pintando imagens horrendas do diabo e do inferno para
reforçar o argumento. Impelido pela força argumentativa da prima, a criança sente-se
acuada e perde o desejo de ler. A casa é um território ameaçador e impróprio às
manifestações de liberdade: “Proibiam-me rir, falar alto, brincar com os vizinhos, ter
opiniões” – e encurralado – “Eu vivia numa grande cadeia. Não, vivia numa cadeia
pequena, como papagaio amarrado na gaiola” (RAMOS, 1979, p. 208).
O espaço de Infância é sempre inabitável como uma prisão. O menino, sob a
responsabilidade de adultos agressivos e ignorantes, é um prisioneiro a quem ditam as
normas e inviabilizam qualquer forma de comunicação. Nesse sentido, não podemos
deixar de citar aqui o conto “Um cinturão”, cuja narrativa revela a autoridade descabida
de um pai que castiga de forma arbitrária e desleal, deixando claro que as surras eram
um meio utilizado para corrigir faltas praticadas pelas crianças. O pequeno narrador
conta que, certa vez, apanhou da mãe com uma espécie de corda com nós que o deixou
com o corpo todo marcado. A recordação desse ato puxa a memória para outro ainda
mais cruel e sem sentido. No conto, ele aparece como o réu condenado injustamente
pelo desaparecimento do cinturão do seu pai. A reação da figura paterna foi imediata a
chicoteá-lo, enquanto perguntava aos gritos, cheio de cólera: “onde estava o cinturão?”.
A voz alterada ressoava ainda no presente da escrita. Aprisionado pelos braços do pai, a
criança perde os sentidos e desmaia. E a pergunta repetida cinco vezes na narrativa
evocava o grito que vinha do fundo da memória: “onde estava o cinturão? A pergunta
repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo” (RAMOS, 1979, p.
33).
A indagação busca uma resposta, no entanto, não há espaços para conversas e
justificativas. Existe sim um prejulgamento, uma avaliação injusta que incide a culpa na
criança, invalidando assim seu direito de defesa: “o homem não me perguntava se eu
tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente” (id, ibid.,
p. 33). Análoga a essa pergunta proferida pela voz paterna, a outra, “por que fui preso?”,
permeia a narrativa de Memórias do cárcere. Agora, o filho procura as respostas para o
seu encarceramento. Diferentemente da figura do pai, o escritor evita o prejulgamento e
avaliações descuidadas e isso serve não só para tentar desvendar as possíveis causas da
prisão, como também para analisar o componente humano que povoa o universo do
cárcere. Contudo, o memorialista busca, através de uma autoanálise minuciosa, atos de
possíveis desconchavos para figurá-lo como criminoso. No cargo de funcionário da
Instrução Pública de Alagoas, realizara feitos considerados impróprios ao poder da
época:
ocasionara descontentamentos, decerto cometera numerosos erros, não
tivera a habilidade necessária de prestar serviços a figurões, havia
suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma estupidez com
solecismos, e isto se considerava impatriótico (RAMOS, 1987, p. 25).

Para o escritor, deveria ter uma explicação plausível, provas que o


incriminassem, mas nada é apresentado. Seu estado de perplexidade mediante a falta de
provas leva-o a fazer conjecturas. Por que estava ali para prendê-lo o sujeito que, um
mês antes, pleiteara aprovação de banca especial para a sobrinha? O servidor público,
no cargo de Diretor da Instrução, negara tal pedido, o caso era antirregulamentar.
Inconformado com a situação, o tenente volta com carta de recomendação e ouve de
novo a recusa fatal.
Aos poucos, o memorialista vai trazendo peças para formar o quebra-cabeça. A
injustiça sofrida por meio do ato de violência paterna acaba encontrando ressonâncias
na ação igualmente violenta e arbitrária do Estado Novo. Não há provas que
juridicamente incriminem o escritor. Conforme assinala Dênis de Moraes:
Graciliano seria detido no “arrastão” comandado pelo General Newton
Cavalcanti, um dos próceres da linha-dura no Exército e com que o
líder integralista Plínio Salgado se orgulhava de ter “amizade sincera e
confiança recíproca” (MORAES, 1993, p. 111).

Não havia motivos concretos para a prisão do escritor, tanto que ele jamais seria
processado ou acusado publicamente. Preso em Alagoas em 1936, Graciliano Ramos
vai para o quartel em Recife, de lá embarca junto aos criminosos no porão do navio
Manaus, chegando à Casa de Detenção Frei Caneca doente e debilitado. É internado na
Sala da Capela e solto quase um ano depois com a ajuda do advogado Sobral Pinto.
Pode-se deduzir que, nos interstícios do tecido do conto “Um cinturão” e da obra
Memórias do cárcere, uma terceira voz ecoa, ampliando o desejo de compreensão dum
mundo às avessas: “onde está a justiça?”. Esta, enquanto plano ideal incorruptível, é
mera abstração, pois inexiste o estado de direitos e deveres plenos tanto no ambiente
familiar da criança quanto no sistema prisional, onde o adulto permanecerá de março de
1936 a janeiro de 1937. O menino Graciliano desde cedo aprendeu a dolorosa lição que
reflui posteriormente na vida do homem já formado: a justiça é injusta e, como ele
próprio atesta, “não há nada mais precário que a justiça” (RAMOS, 1987, p. 31).
De que maneira o escritor enfrentaria as injustiças vividas? Descrente da
militância partidária, Graciliano escolhe as “armas insignificantes”3, as palavras seriam
o único meio de enfrentar as atrocidades do vivido desde o “desgraçado começo de
vida”4 à experiência sofrida nos calabouços da ditadura. É a pena do escritor que vai
desvendando as penas da vida num compromisso ético e estético com o seu fazer
literário. “É sua forma de enfrentar, por meio da arte, o impasse intelectual num mundo

3
Na crônica “Os sapateiros da literatura”, Graciliano Ramos faz uma analogia entre o ofício do sapateiro
e o ofício do escritor, mencionando o termo “armas insignificantes” para o exercício com as palavras:
“Enfim, as sovelas furam e a faca pequena corta. São armas insignificantes. Mas são armas” (RAMOS,
2002, p. 184). Pode ser encontrada em Linhas Tortas, conforme indicação nas referências.

4
Esta expressão é usada por Graciliano Ramos em dedicatória de Infância a Pedro Moacir Maia. O texto
pode ser consultado no livro, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos, na seção
“Documentação iconográfica”.
de violência, em que parece vedada a possibilidade de mediações” (LEBENSZTAYN,
2010, p. 320).
Curiosamente é nesse mundo de violência que ele, desde menino, reconhece o
valor enorme das palavras. Vale aqui citar o conto “Cegueira”. Neste episódio, o
menino é acometido por uma enfermidade nos olhos e a narrativa esmiúça o drama do
infante. “Bezerro-encourado” e “cabra-cega” são os apelidos dados pela mãe à criança
acometida pela doença oftálmica. Em vez de prestar cuidados e atenção no momento
debilitado da cegueira, Dona Maria zomba do filho e confirma a sua condição de intruso
e indesejado no ambiente familiar ao compará-lo com o bezerro encourado, que é o
pequeno animal adotado pela vaca por conta de um embuste. Quando uma cria morre,
tira-lhe o couro e vestem com ele um órfão que, neste disfarce, é amamentado. A
criança atormentada pela doença dos olhos, além de rejeitada, é privada de contato com
o mundo exterior. Contudo, neste estado de extrema privação, ela atina sua
sensibilidade para outros caminhos, os ouvidos ficam aguçados e na escuridão percebe
“o valor enorme das palavras” (RAMOS, 1977, p. 138). São as vozes que reforçam a
capacidade imaginativa do menino, conduzindo-o a expurgar ou aumentar os estímulos
recebidos. E os estímulos sonoros vêm da rua, onde os meninos cantavam tabuada e
faziam algazarra, e de outros espaços. No ambiente familiar a dor nos olhos é suavizada
pela voz murmurante da irmã, ao passo que os versos cantados pela mãe despertam a
curiosidade do menino pela forma como são interpretadas as narrativas de chegança e
marujada. A intérprete dá uma dicção sertaneja aos cantos, deturpando partes, o que faz
o ouvinte duvidar de algumas construções e imaginar possíveis ajustes. “A atenção
concentrada na audição desencadeia o processo de organização dos sons” (LEITÃO,
2003, p. 105) e a imaginação supre os espaços lacunares, auxilia na apreensão do
universo caótico, ameniza e contorna o medo da escuridão.
O menino questionador, imaginativo, ouvinte meticuloso e observador vive na
figura do escritor adulto. Por meio dos seus próprios recursos de escritor, cujas
ferramentas, caracterizadas por ele como “armas fracas e de papel”, ganhariam
contornos duma luta ainda que precária, mas possível forma de enfrentamento com as
forças coercitivas. Para Silviano Santiago (2013), o ofício da escrita em Graciliano
Ramos é um ato político no sentido do trabalho sério, criterioso e ético com a palavra.
Para o alargamento da concepção política na escrita do autor de Angústia, Santiago
ressalta que as ideias políticas que pensam o mundo justo se confundem com a correção
da composição literária. Assim, seguindo outra forma de pensamento, em Ramos,
política é produto intrínseco à reflexão da imaginação criadora que
deseja a perfeição e busca dar estilo ao produto artístico que fabrica
em linguagem mínima concreta, simples e direta, esclarecedora e
convincente (SANTIAGO, 2013, p. 3).

Consciente de que sua obra sobre as memórias da cadeia seria publicada


postumamente, Graciliano Ramos engendra uma retrospectiva de mirada interior aos
subterrâneos do cárcere. É dolorosa essa guinada no andar de baixo, mormente porque
ela reaviva feridas não cicatrizadas, além de remexer com o passado e com figuras que
ainda estavam vivas no período da escrita. A não escolha do “pronomezinho irritante”
tira de foco um Eu que poderia soar como autoritário e absoluto. Como observa Alfredo
Bosi (1995), o depoente em Memórias do cárcere é um homem que não pretende
abandonar o seu compromisso de base com a fidelidade à própria consciência. A tarefa
da composição das cadeias é árdua; o escritor só empreende a difícil empreitada quase
dez anos após sair da prisão. Em 1953 morre sem concluir o texto, publicado nesse
mesmo ano, alguns meses depois do seu falecimento. Simbolicamente, não se pode
dizer que as memórias do tempo do cárcere têm fim. O autor trouxe seu testemunho
num dos seus livros de maior extensão. Segundo Bosi (1995), a coragem de Graciliano
nessas memórias confere força à narrativa que relativiza tanto as versões alheias quanto
as próprias. “As palavras feitas para dizer” 5 integram a máxima seguida no projeto
literário de Ramos. Ideologicamente, sua literatura põe em evidência os que estão à
margem: meninos pelados, abandonados, violentados, retirantes da seca, presidiários;
enfim, a humanidade desvelada povoa seus livros e as palavras, ainda que forças
precárias, são armas que apontam na direção dum mundo cuja justiça seja concreta.

5
Em mais um de seus processos discursivos sobre o ato de escrever, aqui Ramos faz uma comparação
desse exercício com o das lavadeiras de Alagoas. O texto na íntegra pode ser visto na contracapa de São
Bernardo, publicado em 2005, pela Record: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá
de Alagoas fazem seu ofício (...). Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não
foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer”.
Referências

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