As citações bíblicas foram retiradas da Nova Versão Internacional (NVI), da International Bible
Society, salvo indicação contrária.
É proibida a reprodução deste livro sem prévia autorização da editora, salvo em breve citação.
Preparação de texto
Débora Oliveira
Capa
Richardson Gomes
Argemiro Neto
Apresentação
1. Quem pratica suicídio vai direto para o inferno?
2. O que é o batismo no Espírito Santo?
3. Como relacionar soberania de Deus e responsabilidade do homem?
4. Deus sofre? Deus tem sentimentos?
5. O dízimo é uma prática cristã ou coisa de pastor ladrão?
6. O que eu faço quando quero sair da minha igreja?
7. G12, M12, MDA e Encontro com Deus são heresias?
8. Todos os ritmos louvam ao senhor?
9. O homossexual tem lugar na igreja?
10. Quantas horas eu preciso orar por dia?
11. Masturbação, sexo antes do casamento, toques, pornografia... é pecado?
12. É pecado beber cachaça e fumar cigarro?
13. O crente pode ir a show, ouvir música do mundo e ter banda secular?
14. Pessoas espirituais podem fazer tatuagens e usar piercings?
15. O que o crente pode ou não comer?
Agradecimentos
APRESENTAÇÃO
Reunir o melhor conteúdo nunca é uma tarefa fácil. Exige que abdiquemos de
tantos outros conteúdos bons que poderiam compor aquilo que pretendemos.
No nosso caso, escolher os melhores vídeos do canal Dois Dedos de Teologia
para serem transcritos se encaixa exatamente neste tipo de tarefa. Mas a
verdade é que foi um trabalho extremamente prazeroso relembrar de como a
verdade nos afeta! A verdade da Palavra de Deus não nos deixa inertes, ela
ocasiona em mudanças, e algumas dessas mudanças são tão visíveis que as
pessoas passam a nos perguntar: o que houve com você?
Pudemos testemunhar por muitos seguidores do canal o impacto com o
qual foram atingidos vídeo após vídeo. Muitos viviam de acordo com uma
má teologia na qual foram ensinados e formados e essa servia de amarra em
questões da vida e prática cristã. Jesus disse que conhecer a verdade é a
condição para que possamos ser livres, e para um contexto brasileiro
necessitado de uma reforma na igreja, aprouve ao nosso Deus usar a vida
destes dois jovens dotados de dons e talentos para o ensino e comunicação da
verdade. Felipe Cruz e Yago Martins nos contaram que o que os motivava era
ver o brilho do evangelho genuíno iluminar a mente de pessoas cansadas e
oprimidas pela escravidão da doutrina de homens e também para confrontar
em amor os novos fariseus que fecham a porta dos céus para os pequeninos.
O que você encontrará neste livro? Certamente uma boa teologia! Ainda
que você não concorde em todos os aspectos nos temas que selecionamos,
você verá um conteúdo bastante honesto e preocupado em ser fiel ao que as
Escrituras nos dizem. A bagagem teológica foi adquirida através de muita
leitura, reflexão e vida em comunidade. Nosso desejo é que você possa ser
introduzido à um tema selecionado — e também apontar o caminho para
outras pessoas — com a possibilidade de se aprofundar futuramente.
Renan Vianna
Editor
QUEM PRATICA
SUICÍDIO VAI DIRETO
PARA O INFERNO?
Trataremos de algo um pouco triste, mas é um tema que as pessoas têm nos
perguntado bastante a respeito. Adentraremos um terreno duro e difícil de
lidar que é o sofrimento do suicídio. É pecado? Não é pecado? Quem se
suicida vai para o céu? Vai para o inferno? Crente pode cometer suicídio? O
suicídio é um pecado sem perdão?
O ano de 2014 foi marcado por muitas notícias de morte. Tivemos a do
ator Robin Williams que foi encontrado morto em seu apartamento. A causa
da morte foi suicídio. O interesse pelo assunto surgiu com o falecimento do
Fausto Fanti, que era um dos autores e atores do Hermes e Renato. As
ocorrências desencadearam o pensamento geral a respeito da temática. É
essencial uma reflexão sobre essa prática e de como a cosmovisão cristã se
relaciona com o assunto.
As perguntas que sempre chegam até nós, são: “Para onde é que vai o
suicida? Ele vai para o céu ou para o inferno? Como é que fica a situação de
uma pessoa que morre dessa forma?”
Antes de tudo, sabemos que o suicídio é um tema constantemente tratado
nas Escrituras no sentido de que há vários exemplos de pessoas na Bíblia que
cometeram esse ato. Abimeleque, depois de ser ferido gravemente em batalha
por uma pedra de moinho arremessada sobre ele, pediu para que seu
escudeiro o matasse.1 Saul tirou a vida a fim de evitar a própria vergonha,
pois também havia sido ferido em combate.2 Movido pelo desespero, o seu
escudeiro se lança sobre a própria espada e também se mata para evitar a
humilhação de ter perdido a guerra.3
Outro caso bem terrível foi o de Judas que, após ter traído Jesus e
percebido a bobagem que fez, foi se enforcar. Seu corpo caiu de uma
ribanceira e ficou partido ao meio.4
O carcereiro de Filipos tentou se matar quando percebeu que as grades da
prisão dos apóstolos estavam abertas.5
Esses são casos em que o suicídio se concretiza e até talvez sejam
situações mais simples que o leitor bíblico passa por eles, porque, no final das
contas, são homens que tinham largado sua fé em Deus, pelo menos no caso
de Judas e no de Abimeleque. A situação de Saul é um pouco controversa,
pois não sabemos se ele foi realmente condenado ou não.
Grandes homens de Deus pediram para que sua vida fosse tirada, como no
caso de Moisés lá em Números 11.14: “Não posso levar todo esse povo
sozinho; essa responsabilidade é grande demais para mim”.
Em 1 Reis 19, Elias também suplica que o Senhor tire a sua vida. Depois
de ter cumprido a missão do Senhor como profeta em Nínive, Jonas disse que
não aguentava mais e que queria morrer.6 No livro de Filipenses, Paulo disse
que para ele melhor seria a morte.7 Jó implorou durante todos aqueles
tormentos que a sua própria vida fosse retirada.8
Em determinados momentos, homens de Deus tiveram vontade de perder a
vida ou algo do tipo, mas e a pergunta chave? Para onde vão as pessoas que
se matam? O indivíduo que se mata vai para o céu ou vai diretamente para o
inferno? O que o cristianismo tem a dizer sobre isso?
Não é uma resposta tão simples; é impossível olhar para um caso de
suicídio e afirmar que a pessoa ganhou um tíquete só de ida para o inferno.
Seria uma análise muito tola e até um catolicismo insipiente na nossa forma
de pensar. Tomás de Aquino disse que aquele que se matava, por não ter tido
tempo de se arrepender do seu pecado do suicídio, iria direto para o inferno.
Essa é uma reflexão teológica que não cabe dentro do pensamento
protestante, pois não acreditamos que encontre respaldo bíblico porque leva a
pensar que o sacrifício de Cristo só cobre os pecados pelos quais você
efetivamente se arrepende, como se fosse um ato de arrependimento
posterior. Seria o mesmo que dizer: “Se você morrer nesta noite e não tiver se
arrependido antes de dormir daquele seu pecado, você vai para o inferno”.
Não faz muito sentido, é como se o mérito da sua salvação fosse depositado
no seu arrependimento e não no sacrifício de Cristo.
Trocando em miúdos, o que nós queremos dizer é que você é salvo não por
ter se arrependido posteriormente à sua salvação, a cada pecado que você
comete: “Eita! Fiz uma besteira, me arrependi, estou salvo! Fiz outra besteira,
não me arrependi naquele meu tempo que não estava salvo ainda e agora que
me arrependi! Pronto, estou salvo novamente!” Isso é uma maneira muito
errada de enxergar a salvação, porque as Escrituras falam do arrependimento
que vem unido à fé para a salvação que desfrutamos quando reconhecemos o
nosso pecado, cremos em Cristo e recebemos finalmente uma nova vida, e
existe o que usufruímos diariamente em nossa existência, que é o que 1 João
fala de virmos a nos arrepender. Nós não somos salvos por esse
arrependimento que vem posteriormente, simplesmente, mas sim por aquele
primário em Cristo para a fé.
No entanto, se nós, por uma série de motivos, pecamos em não nos
arrependermos do nosso pecado; se, por uma série de motivos, nós pecamos
porque não tivemos tempo de observar aquilo, porque Deus ainda está
tratando o nosso coração, visto que ainda não percebemos a gravidade
daquilo, nossa fé e salvação não foram perdidas naquele meio tempo que
estávamos lidando com aquele pecado. Então, se um crente comete um
pecado e morre antes de dar tempo de se arrepender disso, a salvação dele
não foi perdida, porque ele foi salvo naquele primeiro momento que creu e
teve os seus pecados perdoados. Nesse momento, Jesus limpa os pecados
passados que ele cometeu, os pecados presentes que ele está cometendo e os
pecados futuros que ele vai cometer. Portanto, o crente que vier a cometer um
pecado no futuro e morrer pouco depois disso, Cristo já apagou esse pecado
dele quando ele veio e morreu na cruz.
Quando o Espírito Santo nos regenera, e Paulo fala sobre isso em Efésios
2.10 que nós somos feituras de Deus criados em Cristo, ele nos faz uma nova
criatura, e não somente da nossa vida pregressa. Ele não simplesmente torna
o nosso passado limpo em veste de justiça, mas nos reveste com justiça e isso
significa que Deus não vai mais olhar para o nosso pecado. Não é dali para
trás que foi perdoado e dali para a frente Deus ficou observando os seus
pecados e colocando ponto positivo e negativo pelo que você faz. Significa
que quando Deus vai olhar para você, ele encontra a justificação de Cristo em
todos os momentos.
É isso que quer dizer a própria justificação de Cristo naquela cruz. Ele
disse que só há um pecado sem perdão, que é blasfemar contra o Espírito
Santo9. Algumas pessoas, nós já vimos esse argumento algumas vezes,
terminam por dizer que como somos templo e morada do Espírito Santo,
atentar contra a própria vida e tentar destruir esse templo ou realmente
destruí-lo é blasfemar contra o Espírito Santo num sentido de tentar infligir
contra ele um dano. Contudo, não é isso que o texto de Mateus quer dizer.
Jesus está se referindo às pessoas que tomam a obra do Espírito Santo como
sendo de Satanás.
Existe também outra interpretação possível de que Jesus está falando a
respeito de negarmos de forma veemente o chamado do Espírito Santo, que
seria o não arrependimento. Dessas duas interpretações, que são as únicas
exegeticamente plausíveis, nenhuma delas fala de suicídio. Nesse caso,
alguém também poderia questionar: “Um crente cometeria um ato como o
suicídio? Um crente faria esse tipo de coisa?”
Inicialmente, suicídio é um pecado. Atentarmos contra a própria vida, quer
tenhamos sido bem sucedidos nisso ou não é um pecado. Deus manda que
zelemos pela nossa própria vida, pois ela é presente de Deus, somos templo e
morada do Espírito Santo e a nossa vida não é nossa. Logo, é um grande
pecado contra Deus e é um ato de assassinato que vai de encontro aos
mandamentos de Deus porque estamos tirando a vida de alguém: a nossa. O
suicídio é pecado e não tem como lidarmos com isso e não deve ser
incentivado. Uma pessoa não deve buscá-lo como um atalho para o céu ou
qualquer coisa parecida. E por ser pecado, tem as suas consequências,
obviamente. A questão é que as pessoas levam isso como se ele não tivesse
perdão, que é outra história.
Vemos na Escritura casos de homens de Deus que cometeram pecados
terríveis como o assassinato. Temos Moisés que matou o egípcio10, Davi que
mandou matar o marido da mulher que ele queria ficar para poder esconder o
fato de tê-la engravidado11. Tem coisa mais absurda do que Davi, que é um
homem segundo o coração de Deus, cometendo um assassinato? Crentes
podem, não no sentido de devem ou de lhes ser permitido, mas de que é uma
possibilidade, cometer um assassinato. Por que o crente não poderia, no
sentido de que é uma possibilidade, praticar o terrível pecado de tirar a
própria vida? Não é bom, não é incentivado, é algo terrível, é um pecado que
desonra o nome de Deus, mas, ainda assim, um homem salvo por Deus pode
— movido por um estado de loucura mental, de doença, de desespero —
deixar-se levar por essa tentação e acabar cometendo esse pecado contra si.
Atentar contra a própria vida, cremos que a maioria das pessoas
concordaria, geralmente vem acompanhado de um quadro profundo de
depressão, sentimento de vazio no qual a pessoa se encontra diante de uma
situação que ela crê, pelo menos hipoteticamente, que a morte é uma saída
menos dolorosa para a situação com a qual ela está lidando. Então, é uma
situação de desespero tão surreal para o nosso padrão de racionalidade que
não está vivenciando a dor dessa pessoa, pois ela sinceramente acredita que a
morte é mais uma libertação que um fardo. Portanto, não nos cabe querer
julgar (a salvação pertence ao Senhor) se essa pessoa é ou não salva, mas é
um pecado que foi cometido por conta de uma situação de intensa gravidade
e pressão psicológica. Nesse ponto, alguns vão alegar: “Mas o Espírito Santo
teria capacitado o crente para que ele não cometesse esse pecado!”. Ok!
Então você que, por exemplo, cometeu um pecado sexual na sua vida, o
Espírito Santo lhe capacitou com armas o suficiente para que você não
pecasse sexualmente? Davi não era um homem segundo o coração de Deus?
O Espírito Santo não ajudou ele a não adulterar? Quer dizer então que Pedro
também não era capacitado pelo Espírito Santo para não negar Jesus? Esse é
um negócio meio estranho de se dizer. É um argumento meio falho. É aquela
coisa, “pedra no sapato dos outros dá certo; no meu, não”.
Nós não estamos afirmando também que a pessoa está desculpada do seu
pecado de suicídio por causa de uma depressão ou de uma doença ou de uma
pressão que recai sobre ela. Entendemos como um dos pressupostos cristãos
que nenhuma circunstância social, biológica, física, psicológica é suficiente
para excluir a culpabilidade do pecado. Acreditamos que nenhuma provação
vem sobre nós que não possamos resistir, é o que Paulo vai dizer. Cremos
que mesmo em um profundo estado de depressão, mesmo que o nosso
cérebro não produza endorfina, serotonina e dopamina o suficiente, mesmo
que estejamos em um momento de tristeza e depressão profunda, isso não nos
desculpa do pecado do suicídio e não é o suficiente para que cometamos esse
pecado fora da nossa vontade. Quem fez isso, agiu assim porque quis, por
mais que as circunstâncias ao redor influenciassem isso. A pessoa cedeu à
tentação e às circunstâncias e tem a responsabilidade pelo ato de ter atentado
contra a própria vida.
Algumas pessoas também questionam assim: “Eu vou me matar para ir
para o céu, para ver a Deus, já que se matar não leva a pessoa
automaticamente para o inferno”. Chamamos isso de paradoxo do suicídio,
que também foi expresso por Paulo na sua carta aos Filipenses. Ora, é muito
melhor para o crente estar com Deus, porém, se esse crente ama tanto a Deus
ao ponto de desejar estar com ele, ele deveria amar realmente tanto a Deus a
ponto de respeitar o dom da vida e permanecer aqui cumprindo a obra que ele
capacitou que aquele crente realizasse. Temos dois fatores que andam lado a
lado e que não vão conseguir se sobrepor ao outro. Por mais que o crente
queira estar com Deus e o ame ao ponto de ter coragem de tirar a própria vida
para estar com ele, esse crente vai amar a Deus ao ponto de não cometer esse
tipo de pecado contra o Deus que ele diz amar.
Alguém pode levantar aqui a questão do martírio e dizer que tanto os
crentes do primeiro século quanto os que são martirizados nos tempos atuais
amam tanto a Deus que preferem seguir pelo caminho de morte do martírio,
mas isso não é verdade. Nenhum mártir do primeiro século buscou isso como
uma espécie de suicídio santo ou coisa parecida. Eles definiam martírio como
um dom através do qual Deus capacita alguém para aquilo, colocando essa
pessoa diante daquela situação. Eles não tratam aquilo como o único
caminho, mas como o que lhes restou, pois eles tentaram todas as alternativas
para sobreviver, e nitidamente perceberam que aquele era o caminho que
Deus estava colocando para que seguissem. Eles não tentaram tirar a própria
vida porque não queriam mais viver, mas porque outras pessoas os infligiram
e eles não tinham como fugir.
Cabe aqui a definição do que é suicídio, a fim de traçarmos um conceito
básico. O suicídio que nós estamos tratando não se aplica a todos os casos em
que uma pessoa morre por ela mesma ou tira a sua vida num ato heroico de
salvação. Durkheim, por exemplo, vai definir também um tipo de suicídio no
qual uma pessoa se matava a fim de proteger alguém. Nós não utilizaremos
esse conceito de suicídio.
Trata-se de um conceito que consideramos didático acerca do que vem a
ser o suicídio. Você pode acrescentar outras coisas a ele, mas para nós
basicamente diz respeito à pessoa que voluntariamente e conscientemente
atenta contra a própria vida com o intuito de retirá-la pelo simples desejo de
deixar de viver ou considerar que viver é uma opção pior do que morrer.
Dessa forma, por exemplo, quando você pula na frente de uma bala para
salvar um amigo, você cometeu um suicídio? Em um conceito popular talvez,
mas vamos tentar tirar essa linguagem ruim. Você não atentou contra a
própria vida porque não queria mais viver, mas para salvar outra pessoa.
Ninguém pula na frente de uma bala e diz assim: “Ah, meu Deus! Não vale a
pena mais viver! Dessa vez eu vou morrer salvando pelo menos uma
pessoa!”. Não é assim que essas coisas funcionam. A bala está vindo e você
fala assim: “Jesus Cristo!”. Qualquer pessoa tentaria se livrar, pois é da
natureza humana!
Existe agora basicamente um contexto geral no qual as pessoas se matam
porque acreditam que o sofrimento que vem logo em seguida é extremamente
maior do que a própria morte naquele momento. Um exemplo disso foi no
caso do 11 de setembro em que as vítimas pulavam do prédio quando viram a
chama chegando, ou pessoas que estão em ambientes de tortura e que são
obrigadas a passar por sofrimentos terríveis; elas se matam para não sofrerem
nada pior depois. Ou pessoas que, por exemplo, são submetidas à roleta-russa
e elas sabem que há um sexto de chance dela morrer ali, ou indivíduos que
estão com uma doença terrível que não têm como escapar e que o sofrimento
que teria com aquela doença seria muito maior do que qualquer outra coisa
que ele pudesse imaginar. Ainda assim, o suicídio não é justificável. Mesmo
que alguém esteja jogando roleta russa e eu, antes do início do jogo, coloque
propositalmente uma bala certeira a fim de me matar antes de jogar com a
minha própria vida, não faz sentido. Continua sendo pecado. A questão é a
seguinte: no caso do 11 de setembro, quem é que te garante que se você não
esperasse mais 10 minutos não passaria o helicóptero da Defesa Civil? Ou
que se você aguardasse um pouco mais o prédio não cairia e você conseguiria
sobreviver? Ou os bombeiros chegariam até o seu andar? Ou você
conseguiria escapar de alguma forma milagrosa? Deus é soberano e Todo-
Poderoso. Quem vai dizer que a sua doença não pode ser curada, ou que, por
mais que as previsões médicas sejam terríveis, você não conseguiria de
alguma forma amenizar a sua dor e viver 1, 2, 3 ou 4 anos a mais? Ou que
Deus vai lhe salvar, amigo? Quem é que sabe dos planos do Senhor?
Não importa que tipo de cessacionismo ou pentecostalismo você segue,
todo mundo acredita que Deus ainda pode realizar algum tipo de milagre
hoje. O pastor Matt Chandler, por exemplo, tinha câncer no cérebro e hoje
prega para todo mundo ver. Você sabe que tipo de dores causa um câncer no
cérebro? É uma dor lancinante e um desejo de morte o tempo todo. Um cara
desses nunca pensou em se suicidar? É claro que sim! O suicídio não é
justificável. A questão é: o cristão pode chegar num nível de desespero em
que ele tire a própria vida?
É claro que é muito fácil para nós, sentados aqui no calorzinho delicioso de
Fortaleza, dizendo: “Não pode, é pecado”! Não é isso que queremos dizer,
não estamos deixando de ser empáticos com as pessoas e tampouco
desconsiderando o sofrimento e a dor delas. Logicamente, estamos lidando
com o assunto de forma teológica, teórica e sabemos que ele precisa ser
aplicado com amor e carinho à vida das pessoas e precisamos ver essas
questões com muita misericórdia, com muita empatia, chorando com quem
chora. Estamos tentando simplesmente trazer um pouco de conhecimento e
teoria para que possamos pensar nesses assuntos e sabermos agir de maneira
sábia quando nos depararmos com alguém passando pelo problema. E se
alguém chegar dizendo: “Ah, estou com pensamento de morte”, não podemos
responder: “Isso aí é frescurinha, deixa de ser fresco!”, ou afirmar que isso
não é de Deus. Temos que lidar com as pessoas da maneira correta.
O maior desespero de quem está depressivo e acredita que a vida não faz
mais sentido, não é compreender que tem uma igreja bacana e agora dispõe
de amigos legais, mas que está em Jesus e ele morreu por essa pessoa, nele
tudo o mais faz sentido e que existe um motivo para se alegrar: a salvação em
Cristo Jesus, a rocha na qual os seus pés estão bem firmados. Logo, o motivo
que geralmente leva ao suicídio é a depressão, esse vazio existencial, esse
niilismo prático.
Assim, se você está enfrentando esse problema, essa dor da depressão, está
neste momento pensando em suicídio ou até talvez refletindo sobre isso para
tentar aplicar, fica aqui o nosso conselho: você não está só. Procure um
amigo de confiança que você possa conversar, ore com ele, confesse para ele,
ou procure seu pastor, mas não tente viver o seu cristianismo sozinho. Mais
do que isso, leia a Palavra, busque a Luz. Coloque-se aos pés da cruz e tente
pensar o seu sofrimento fundado em Cristo. Ele sofreu do Getsêmani até o
Gólgota, algo que nós nunca imaginaríamos passar na vida. Ele suou sangue,
tamanha a tensão e a angústia enfrentada. Parece um conselho meio louco,
pois a pessoa não tem forças para procurar, mas, ouçam de quem vive essa
realidade: você consegue!
A leitura do livro de Eclesiastes é muito boa, embora seja um texto
extremamente depressivo, mas ele nos apresenta alguém que na sua
depressão busca glorificar a Deus. Eclesiastes começa com o existencialismo
sartriano12, continua com o niilismo nietzschiano13 e termina com o
evangelismo cristão. É um negócio muito engraçado, ele começa mal, vai
piorando e então traz aquela luz no fim do túnel que é o evangelho. Um
quarto do livro de Salmos foi escrito para os depressivos, pois mesmo
sofrendo, mesmo pedindo a morte, dizendo que os ossos dele estavam secos e
que o pecado afetava ele como uma destruição, como um câncer, ele tentava
glorificar ao Senhor e entendia que a função da nossa vida é nos alegrarmos
nele.
Nós queríamos deixar essa mensagem para você que talvez passa por esse
tipo de coisa. Continue buscando, continue lutando, continue se esforçando,
pois isso é uma luta pela sua alegria, é uma luta pela sua felicidade e é uma
luta para, talvez, passar mais tempo olhando para fora do que para dentro.
Olhe mais para a pessoa de Cristo no evangelho do que para dentro de si até
ficar com o termômetro sentimental vendo como é que você está se sentindo.
E para você que conhece alguém depressivo, que tem alguma pessoa que
esteja passando por esse problema na família, saiba que tem cura, tem
salvação. Cristo é o remédio para todas as nossas dores e se estamos nele, ele
é suficientemente bom para nos curar, mesmo que não seja uma garantia de
que ele vá curar. Pode ser que ele tenha um propósito na sua depressão, no
seu câncer, na sua doença, seja o que for, mas sabendo que nossa esperança é
Cristo, tudo o mais fica diferente; tudo o mais se torna motivo de alegria.
Nossa salvação é muito maior do que qualquer dor ou sofrimento que essa
terra possa nos causar.
1. Juízes 9.54
2. 1Samuel 31.4
3. 1Samuel 31.5
4. Mateus 27.5; Atos 1.18
5. Atos 16.27
6. Jonas 4.3
7. Filipenses 1.23-25
8. Jó 7.15-16
9. Leiam sobre isso em Mateus 12.31.
10. Êxodo 2.12
11. 2Samuel 11
12. De Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês (1905-1980).
13. De Friedrich Nietzsche, filósofo alemão (1844-1900).
O QUE É O BATISMO NO
ESPÍRITO SANTO?
Em primeiro lugar, percebemos que João está falando de dois batismos que
Jesus traria: o batismo com o Espírito Santo e o batismo com fogo.
Lembrem-se que a palavra batizar significa, de modo grosseiro, imergir,
mergulhar ou molhar. O texto está dizendo que a pessoa seria imersa,
molhada, aspergida, no Espírito e no fogo. Jesus traria essas duas imersões,
esses dois símbolos: o Espírito e o fogo. O texto não deixa claro qual é o
batismo no Espírito Santo e o que ele significa. Ele apenas diz que isso
aconteceria, porém o texto declara qual é o significado do batismo no fogo.
Lá diz que Jesus traz na sua mão uma pá para lançar no fogo todo aquele que
é encontrado separado dele, que não é trigo e sim joio; e no fogo
inextinguível, numa menção bem nítida àquilo que ele está se referindo sobre
essa punição.
Logo, batismo com fogo não é uma referência a um batismo bom, nem um
sinônimo de batismo no Espírito Santo e tampouco é um batismo plus no
Espírito Santo. O batismo com fogo é uma referência a esse lançar no fogo
inextinguível da condenação e é a condenação que Jesus está trazendo aos
homens. Ele veio para ser cheiro de vida para uns e de morte para outros. Ele
veio para trazer vida para uns, mas também para ser um instrumento maior de
condenação àqueles que o rejeitam. Ele veio trazer um batismo com o
Espírito Santo, mas também um batismo com fogo, um batismo de morte, um
batismo de condenação.
Então, observando que João Batista colocou muito bem separado que a
questão do fogo é punitiva, que é onde Jesus vai jogar todos aqueles que
estão separados dele, dessa forma, o batismo com Espírito vai traçar a ideia
de salvação. Ora, se o fogo é a condenação, é o fogo inextinguível, é aquele
que estará separado de Cristo para sempre, logo, o batismo com o Espírito
Santo seria aqueles que estarão ligados com Jesus para sempre, selados pelo
Espírito e protegidos em Cristo. Não faz sentido João Batista criar uma
oposição entre condenação e dons, entre condenação e um cristianismo plus
com segunda benção. Se ele está falando de condenação e criando uma clara
oposição, então ele está esperando que quem lê aquilo entenda que o oposto
de condenação é salvação; é o encontro com Cristo, com o Espírito.
Talvez o motivo da confusão aqui, com a questão da linguagem figurada
do fogo, seja com o momento de Atos no qual o Espírito Santo desce como
que em línguas de fogo. Contudo, aquela manifestação semelhante a uma
língua flamejante não significa que o Espírito Santo seja fogo em si. Na
verdade, a linguagem fogo na Bíblia quase sempre está associada à
destruição; a não ser em alguns casos como que “refinado pelo fogo”15 ou o
fogo do altar consumindo as ofertas.16 E quando o salmista diz “Meu coração
ardia-me no peito e, enquanto eu meditava, o fogo aumentava”,17 fala de um
queimar, um arder de ir e fazer alguma coisa. Ou seja, a imagem geral que o
judeu que está ouvindo aquela mensagem de João Batista tem é de punição.
Então, devemos nos colocar como um receptor daquela mensagem de João
Batista. Digamos que somos judeus que estão ouvindo João Batista nos
exortar, dizendo os erros que estamos praticando e ele de repente fala que
vem o Espírito e o fogo e vamos achar que ele está dizendo: “Oh! Rapaz, vai
vir uma benção e uma benção maior ainda!” Quando lemos Hebreus, vemos o
escritor dizendo que Deus é um fogo consumidor, que vem para consumir o
pecado, que está irado e tudo mais. Tem até uma música, que diz: “fogo
consumidor vem arder em nós”; Deus nos livre, pois esse fogo consumidor é
para condenação! Temos vários escritores bíblicos e é muito comum que eles
usem figuras diferentes para falar da mesma coisa e tragam a mesma figura se
referindo a coisas que não necessariamente são a mesma coisa. Precisamos
observar como cada um empregou as figuras de linguagem. Não é porque o
Espírito Santo apareceu com línguas como que de fogo que a referência fogo
aqui de João Batista é a mesma coisa.
Vejamos mais um versículo que é bastante utilizado:
Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus,
quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único
Espírito.
1 Coríntios 12.13
O texto está dizendo que em um só Espírito nós fomos batizados. Crentes
de todas as etnias receberam esse batismo no Espírito Santo. Quer dizer que
todo crente fala em língua? Quer dizer então que todo crente recebe uma
segunda benção? É muito mais fácil que ele esteja falando da salvação e do
recebimento do Espírito Santo na salvação. E isto é que nos capacita ou não,
dependendo da sua pneumatologia (doutrina do Espírito Santo), quanto ao
dom de línguas, profecias e tudo mais. A ideia é que todo crente recebeu de
beber desse Espírito Santo como fala o texto. Todo crente foi batizado nesse
Espírito Santo. E ele vai dizer uma informação a mais: que em um só Espírito
nós somos batizados, em um só corpo, e que esse batismo no Espírito Santo
que todos nós recebemos serviu para nos fazer adentrar no corpo de Cristo.
Então, ele está deixando muito claro que o batismo com ou no Espírito Santo
é dado a todo crente para que ele entre no corpo de Cristo. Nós entramos no
corpo de Cristo através do quê? A partir do momento que somos selados pelo
Espírito Santo e salvos por Deus; recebendo, então, o Espírito e tornando-nos
morada de Deus. Esse é o batismo com ou no Espírito Santo, é o batismo da
salvação. Se você é um crente em Cristo Jesus, pentecostal ou não, você já é
batizado no Espírito Santo.
Martyn Lloyd-Jones, em um de seus livros, fala que o crente pode sim
receber uma espécie de renovo do Espírito Santo sobre a sua vida, e que isso
não corresponde à segunda benção, mas que talvez possa ser sentida como
ela. De fato, quando o crente enfrenta uma batalha espiritual muito forte, ou
uma dúvida muito ferrenha na sua vida, se sente desanimado, ou se sente o
pior de todos os pecadores, incapaz de receber até a certeza da sua salvação,
esse crente, pela graça e pela misericórdia de Deus, recebe sobre a sua vida o
renovo do Espírito, como se uma segurança, uma fortaleza, um alicerce de
Deus, uma comprovação, que ele palpavelmente sente que agora Deus está
renovando as suas forças. Paulo indica isso quando escreve em Efésios 5:
“Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se
encher pelo Espírito”, de que existe um aspecto que todo crente possui o
Espírito, mas que ele pode cada vez mais se deixar ser cheio, ou encher-se
desse Espírito (dependendo da tradução usada). Temos também indicações a
respeito da plenitude do Espírito, como Paulo vai dizer, que também parece
ser algo que há um crescimento, que vamos recebendo e que é progressivo na
vida do crente. Nós não estamos dizendo que talvez aquela experiência a
mais do Espírito Santo que você sentiu em algum momento da sua conversão
foi falsa. O que estamos dizendo na verdade é que talvez, essa experiência
religiosa que você teve não seja uma segunda benção ou nem o próprio
batismo no Espírito Santo, mas um reavivamento pessoal na sua vida. Uma
atuação de Deus lhe ajudando a ser um crente mais maduro e não
necessariamente o próprio batismo no Espírito Santo.
É exatamente aquilo que o salmista fala, de quando o coração dele se
inflamou e a boca dele se abriu e ele falou. Os profetas, por diversas vezes,
demonstram esse renovar, mesmo em um momento de medo, de dúvida e de
fraqueza e pode ser visto no Antigo e Novo Testamentos. Contudo, não é o
motivo para que associemos isso a “Pronto! Agora eu estou salvo”. Não
caberia ao crente afirmar de forma soberba algo como: “Agora sim! Como eu
senti algo, isso me dá a possibilidade de dizer que eu sou salvo”. Nós temos
essa certeza em Cristo Jesus, pela sua Palavra, pela sua promessa e porque ele
é fiel e não a nós, mas a ele; porque ele é misericordioso e gracioso. Então,
não tem porque querermos associar as nossas experiências e os nossos
sentimentos à nossa condição em Cristo.
Agora, tem uma coisa que gera alguma dificuldade no coração de algumas
pessoas que é o livro de Atos. Nele, percebemos uma coisa muito clara e
muito óbvia: o Espírito Santo é derramado sobre as pessoas, em algo que é
chamado de batismo no Espírito Santo pelos apóstolos, em um período
posterior à salvação delas. Ora, você questiona: “Então o livro de Atos
mostra claramente o Espírito Santo sendo derramado nas pessoas, recebendo
o batismo no Espírito Santo, e isso sendo chamado de batismo no Espírito
Santo pelos profetas inspirados, como referência a um momento posterior a
salvação, como vocês vêm então dizer para nós que o batismo com ou no
Espírito Santo é uma referência a algo que é a própria salvação?” A
explicação é extremamente simples: a Bíblia possui textos prescritivos e
textos descritivos. Textos prescritivos são como as cartas de Paulo, por
exemplo, ou os ensinos de Jesus, nos quais ele nos dá ordens. Já os textos
descritivos representam como os fatos aconteceram, e esses textos precisam
ser observados com mais cuidado. Por exemplo, se nós temos uma ordem
para não matar, então entendemos plenamente que não deveríamos matar.
Mas se dispomos de textos bíblicos que representam pessoas matando, o
texto prescritivo que traz a ordem vai ser um instrumento para eu interpretar
o texto descritivo e compreender o que aconteceu ali. Dá para fazer doutrinas
em cima de textos descritivos, mas você faz com mais cuidado, com uma
hermenêutica mais madura e sempre alinhado com os textos prescritivos que
tratam do mesmo tema.
Então, o que encontramos no livro de Atos? Sim, algo que poderia
corroborar com aquilo que os pentecostais e os neopentecostais vão dizer que
é uma segunda benção, que é um batismo no Espírito Santo que vem
posterior à salvação. No entanto, através de textos descritivos que mostram
que esse batismo é o ato da salvação e observando o momento histórico que a
igreja estava vivendo ali em Atos, percebemos, de modo muito simples, que
aquele era um momento único na história da salvação e da redenção. Ainda
que o Espírito Santo atuasse nos crentes do Antigo Testamento e ainda que
ele também servisse aos crentes do Antigo Testamento, aquilo que estava
acontecendo no Novo Testamento era uma promessa um pouco diferente: que
Jesus disse que voltaria e que o Espírito Santo agora viria e habitaria de uma
forma diferente no crente.18 Então, no livro de Atos, como descrição dessa
vinda do Espírito Santo, percebemos crentes salvos recebendo agora algo que
antes eles não tinham acesso, mas que nesse período de transição na história
da igreja, no qual o Espírito Santo ainda está sendo derramado, foi-lhes dado
tal acesso. A questão que deixa algumas pessoas desconfiadas é porque isso
não aconteceu uma vez só. Existem vários momentos distintos do Espírito
Santo descendo sobre crentes já salvos.
Aqui, nesse ponto da narrativa bíblica, está acontecendo a entrada em uma
nova aliança. Jesus veio e inaugurou uma progressão da vontade do Pai. A
revelação perfeita de Deus consubstanciada ali no seu Filho, caminhando
entre homens e trazendo sobre aqueles homens, depois da sua assunção aos
céus, o Espírito Santo de Deus para capacitá-los para a missão de pregar o
evangelho a todas as nações. Sempre existe mais honra, mais pompa, mais
festejo quando algo é inaugurado; e Jesus está trazendo aquilo como algo
inaugural àqueles homens, aquela missão de evangelismo para fora de Israel.
Aqueles homens agora são capacitados com sinais e demonstrações nítidas de
que é o poder do próprio Deus que os acompanha. Para tanto, houve uma
manifestação diferente e especial do Espírito Santo em quatro episódios
muito pontuais trazidos pela narrativa de Lucas quando ele escreveu o livro
de Atos.
A primeira vez que tal manifestação aconteceu foi com os judeus em
Jerusalém, segundo relata Atos 2, após a descida do Espírito Santo.19 A
segunda vez aconteceu com os samaritanos. Percebam a demonstração de que
o Espírito Santo estava desejando que a mensagem fosse levada para aquele
povo que era excluído. Os samaritanos tinham uma rixa com os judeus de
Jerusalém e eles eram meio renegados, não eram um povo a quem se deveria
pregar, e o Espírito Santo vem sobre aquelas pessoas.20 A terceira vez foi
com os gentios romanos, no caso de Cornélio, que demonstra outra percepção
que quebra muito paradigma na mente do leitor que está recebendo essa
mensagem, porque são inimigos dos judeus e não são só gentios, não é um
tipo de gentio qualquer; eles são romanos.21 Eram pessoas que estavam
exercendo dominação sobre o povo judeu e que podiam morrer sobre a
cabeça de um judeu comum. Como alguém conseguiria pregar o evangelho
para o seu opressor? E a última vez foi sobre os gentios gregos,
demonstrando que agora era para todo mundo.22 Então, a ideia de o Espírito
Santo ter aparecido em quatro momentos distintos no livro de Atos é a
significância máxima demonstrada por Lucas de que o Espírito queria que
todas as pessoas ouvissem e recebessem a mensagem do evangelho.
Percebemos, então, que aquele período histórico durou só aquele
momento. Nos textos prescritivos, como no caso de João Batista e em 1
Coríntios 12, encontramos de modo claro que o batismo com ou no Espírito
Santo não é uma segunda benção, mas sim a mesma coisa que o próprio
recebimento do Espírito Santo na salvação.
As pessoas vivem em dúvida sobre como funciona essa questão de Deus ser
soberano e o homem responsável. Qual é a resposta para isso? Será que Deus
é realmente soberano sobre tudo? Será que Deus não está no controle a fim
de que ele esteja construindo a história e o futuro junto com o homem, como
afirma Ricardo Gondim? Ou será que na verdade o homem é soberano e Deus
abriu mão de sua soberania? Ou será que Deus é tão soberano e tão supremo
que guia cada detalhe do universo de forma tão absoluta que o homem é só
um robô em suas mãos? Qual é a resposta correta que podemos dar a essa
questão? Escolhemos lidar com ela trazendo um tripé muito simples, através
do qual definiremos três coisas: a primeira é que Deus é soberano sobre todas
as coisas, independente quais sejam elas; em segundo lugar, o homem é
responsável também pelo seus atos e não se torna um robô através das
ordenações de Deus; e, em terceiro lugar, as duas coisas sempre andaram
juntas e nenhum dos autores bíblicos nunca ousou ou pensou em separá-las.
Essa discussão não fazia sentido para aquelas pessoas que estavam
escrevendo as Escrituras.
Primeiro ponto: a Bíblia deixa claro que Deus é totalmente soberano sobre
cada detalhe do universo. Há uma série de passagens bíblicas que deixam isso
claro:
Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo surgiu. (Salmos 33.9)
Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. (Romanos 11.36)
Todas as coisas só acontecem por meio de Deus; tudo acontece por
causa do direcionamento dele. Às vezes achamos que existe um fluxo
natural de coisas que vão caminhando: “Ah! Vai chover porque tem
muita gotícula d’água na nuvem que vai encher, então vai decantar e vai
chover, mas Deus pode ou não intervir nisso!”, mas Deus não intervém;
foi o próprio Deus quem colocou as gotículas d’água lá; foi ele a causa
das gotículas d’água estarem ali; foi ele quem criou o ciclo da água. Ele
está lá desde o começo, tudo é por meio dele; ele rege qualquer gotícula
que se forma que cai ou que não cai.
Charles Spurgeon disse que cada partícula de poeira que vemos
através do raio solar se movimenta pela vontade de Deus. Sabemos que
até este micro trajeto acontece por meio dele, por causa dele. Se você
discorda desse pensamento, certamente não houve o entendimento do
conceito da palavra Todo-Poderoso. Se Deus é realmente o Todo-
Poderoso, ele controla e exerce o seu poder sobre cada cisco de poeira;
caso contrário, ele não é Todo-Poderoso, ele é apenas meio poderoso.
Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser
frustrado. (Jó 42.2)
Tudo Deus pode, nada que ele faz pode se frustrar. Não há quem
possa impedir a mão dele, tudo o que ele quer se cumpre.
Todos os povos da terra são como nada diante dele. Ele age como lhe
agrada com os exércitos dos céus e com os habitantes da terra.
Ninguém é capaz de resistir à sua mão nem de dizer-lhe: “O que
fizeste?” (Daniel 4.35)
Ninguém pode deter a mão de Deus. Quando ele quer fazer alguma
coisa, ninguém pode impedir.
Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para
que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. (João
3.16)
Porque a vontade de meu Pai é que todo o que olhar para o Filho e nele
crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. (João 6.40)
Estes versículos tratam sobre a decisão de crer em Cristo e confundem
muitas pessoas. Você tem que crer, você precisa tomar a sua decisão por
Cristo. As perguntas que deveríamos fazer aqui para ligar a soberania de
Deus e a responsabilidade humana seriam as seguintes: Quem pode
crer? Quem é que consegue crer? Quem é que pode apertar o
“botãozinho” e dizer: “Agora estou crendo em Cristo”, senão aquele que
foi escolhido por ele? Será que o homem tem a capacidade moral de
escolher aquilo que ele odeia? Estamos falando da vida como um todo, o
homem faz escolhas, o homem tem essas responsabilidades, o homem
não é uma marionete. Deus trata o homem como um agente livre, se
relaciona com o homem, conversa com o homem, ordena que ele faça
coisas. Isso nos faz pelo menos pensar que Deus espera que o homem
seja um agente dependente dele próprio, um agente moral capaz de
tomar atitudes. A liberdade que o homem exerce nesse ponto de decisão
é uma liberdade compatibilista. Ela tem compatibilidade com o desejo
de Deus e não é uma liberdade libertarista, a qual o homem pode decidir
qualquer coisa dentro de um grupo qualquer de decisões, mas sim
decidir dentro do grupo ao qual Deus escolhe para que ele decida.
Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para
que hoje fosse preservada a vida de muitos. (Gênesis 50.20)
Se consultarmos o hebraico, veremos que, na verdade, o texto está
dizendo o seguinte: vocês planejaram o mal, mas Deus intentou o bem.
Não tem dizendo lá que Deus tornou o mal em bem. O ato errado e
malvado daqueles homens foi o mesmo ato bondoso, Santo, sem pecado
e misericordioso de Deus em levar José para o Egito. Os homens
pecaram com aquele ato, e Deus foi misericordioso, e bondoso, e
gracioso, e sem pecado em guiar aquele mesmo ato.
Isaías 10.5-15 diz que Deus faz com que a Assíria invada e vá de
encontro ao povo de Israel a fim de cumprir a Sua vontade e puni-los,
mas ao mesmo tempo depois ele pune o rei da Assíria e o seu povo
porque intentaram fazer o mal contra o povo de Israel. Deus leva a
Assíria para cometer um pecado contra Israel e depois pune a Assíria
por ter cometido pecado.
23. No que diz respeito unicamente a salvação — como de fato é o uso mais comum do
termo dentro da teologia — cremos que somente Deus pode agir para salvar o homem, ou
seja, uma soteriologia monergista.
24. Do grego nous: mente.
25. Romanos 9.20
DEUS SOFRE? DEUS TEM
SENTIMENTOS?
Deus sofre? Deus não sofre? Ele tem sentimentos? Deus é impassível?
Tentaremos dirimir algumas dessas dúvidas dentro das nossas possibilidades.
Popularmente se entende que Deus tem sentimentos. Por outro lado,
tradicionalmente, a história da igreja tem compreendido que não. A doutrina
do Deus “impassivo” é aquilo que foi comumente pregado por todos os
grandes e sérios teólogos da história da igreja.
Se observarmos as Escrituras, veremos que ela se refere a Deus, em certos
momentos, com sentimentos. Na epístola aos Romanos,26 Paulo diz que o
Espírito Santo geme junto conosco pelo nosso sofrimento, passando a noção
da dor que ele sente.
No Antigo Testamento, há passagens que colocam Deus como que
sentindo, se arrependendo e sofrendo. Então, por diversas vezes, existe uma
demonstração de que há uma certa “sentimentalização”, uma noção de que há
um sofrimento que é intrínseco à característica da relação própria da
Trindade. Outras passagens falam sobre Deus se irando, tendo raiva no
coração, sendo juiz e se manifestando por causa do pecado das pessoas ao
longo das Escrituras.
É interessante observar que do mesmo modo existem também
antropomorfizações de Deus, dizendo que a mão dele está estendida,27 que a
mão dele não está encolhida,28 que Deus se assenta no seu trono,29 e nem por
isso ficamos achando que Deus tem mão, que ele tem coxa para se sentar, que
Deus tem asas30 (“esconde-me à sombra das tuas asas”), que Deus tem perna
para dar passos largos, que Deus tem chifre31. Assim, da mesma forma, as
pessoas que compreendem que Deus é impassivo entendem que essas
terminologias que falam sobre Deus apresentar sentimentos estão
manifestando a antropopatia que, à semelhança da antropomorfia, é a
demonstração na linguagem humana de uma característica que é divina, mas
que não conseguimos compreender plenamente e por isso fazemos essa
analogia.
Não há de forma alguma como acreditarmos que Deus sente como o
homem sente, pois ele é Deus. Não é possível um Deus que é simplesmente
moldado por todas as circunstâncias. Ficamos irados em determinada
situação e felizes por algum motivo. Deus não se deixa limitar simplesmente
por causa das circunstâncias ao seu redor, porque Deus é incondicional.
Assim, as “sentimentalizações” de Deus já não podem ser assemelhadas às
humanas, porque são algo outro que se manifesta distinto daquilo que é
pecado e circunstancial do ser humano. É interessante observarmos que essa
necessidade de compreender um Deus que sofre junto nele mesmo, e não
somente através da manifestação da encarnação do seu filho Jesus, é uma
necessidade muito recente na história e ela começa basicamente depois de
Auschwitz, após a Segunda Guerra Mundial. O próprio Jürgen Moltmann vai
dizer que é uma teologia pós-Auschwitz e que Deus sofre nele mesmo, que
ontologicamente a Trindade sofre, numa tentativa de trazê-la para mais perto
do sofrimento humano dizendo que quando o homem sofreu no holocausto
Deus também sofria dentro da Trindade.
Inicialmente, vamos pensar a respeito de alguns problemas relacionados à
sentimentalização divina. A primeira pergunta é: Deus muda? Através dos
textos das Escritura é muito nítido que não há sombra de variação em Deus,32
pois ele é o mesmo ontem, hoje e sempre.33 Deus não muda e nunca vai
mudar,34 portanto, ele não é simplesmente como um ser humano que “hora
está assim, hora está assado”. Deus é o mesmo e é justamente por isso que o
fato dele sofrer na pessoa do seu filho encarnado é um ato de liberalidade, é
uma decisão; Deus escolheu, através da encarnação de Jesus, sofrer junto
com o homem. Se o sofrimento fosse algo intrínseco à Trindade, Deus não
seria livre para sofrer, porque eternamente ele teria sofrido e sempre sofreria.
Seria uma condição da própria existência de Deus. Então, temos que anular,
nesse primeiro momento, a ideia que o sofrimento é uma característica
intrínseca necessária da existência de Deus.
Outra questão: na eternidade passada, antes de existir o pecado, o homem e
as coisas criadas, Deus sentia ira? Isso lida diretamente com nosso argumento
anterior, porque será necessário fazer uma diferenciação que sempre recebeu
diversos nomes durante toda a história da igreja, mas que recentemente é
mais conhecida como a distinção entre Trindade ontológica ou Trindade
econômica; outros a denominam de Trindade intrínseca e extrínseca: a intra e
a extra. Não importa a terminologia que iremos utilizar, mas sim a
caracterização de forma distinta de que existe uma Trindade que é ontológica,
que caracteriza Deus em seu ser, na própria existência dele; e uma Trindade
que é econômica, que fala do relacionamento dela com a criação (eco seria o
meio e nomos a lei), como ele rege e interage com esse meio. Então, a
economia da Trindade é basicamente a forma que Deus escolhe para se
relacionar com a sua criação e através disso revelar a si mesmo. É por isso
que se diz que a economia da Trindade reitera a própria ontologia da
Trindade. A Trindade em si existe fora do nosso tempo, é transcendente, mas
ela se manifesta de tal modo a dar conhecimento de quem ela é, e consegue
efetivamente reiterar, ou seja, confirmar aquilo que ela é através das suas
ações dentro do tempo. Contudo, quando isso acontece, muitas vezes a
manifestação de Deus é percebida pelo homem de forma analógica, porque
nós não temos como conhecê-lo plenamente tal como ele nos conhece.
Ora, a gente sempre fala: “Havia uma Trindade, então, sempre houve
amor, porque o Pai amava o Filho, o Filho amava o Pai, o Espírito amava o
Pai e o Filho e tal”, mas e a ira? Não havia contra o que se irar. E o
sofrimento? Não havia pelo que sofrer antes da criação. Então quer dizer que
quando houve a criação Deus passou a se irar e a sofrer? Aconteceu uma
mudança em Deus a partir da criação? Entraríamos aqui em outro problema,
porque Deus não pode mudar, não há sombra de variação nele. E agora?
Na verdade, não é um grande problema, pois essas expressões de
sentimentalização de Deus são manifestações da Trindade e sua economia,
em seu relacionamento como Trindade com a criação. Então, utilizando agora
essa distinção que trouxemos antes entre a economia da Trindade e a
Trindade em si, podemos perceber que não é a revelação da Trindade que
determina quem ela é, mas é o contrário; a economia da Trindade
simplesmente manifesta aquilo que já existe na Trindade. Assim, Jesus como
membro da Trindade, efetivamente sofreu, mas esse sofrimento está presente
na própria Trindade, porque, de certa forma, a Trindade, através da pessoa
encarnada de Cristo, sofreu junto com ele naquela cruz.
Entretanto, nesse momento é importante afirmarmos categoricamente a
distinção entre as duas naturezas de Cristo, compreendendo a união
hipostática dele através de um entendimento baseada no seu sofrimento
naquela cruz.
É correto dizer que o Deus homem sofreu e morreu naquela cruz? Sim,
Deus morreu na cruz. Mas é correto eu dizer que a natureza divina de Deus
sofreu e morreu na cruz? Não! Contudo, é correto eu dizer que a natureza
humana de Jesus sofreu e morreu na cruz. Então não podemos pegar a
doutrina da comunicação dos atributos dentro da união hipostática das duas
naturezas de Cristo e aplicá-la separadamente para as duas naturezas.
Podemos afirmar que Deus homem sofreu na cruz? Sim, podemos, mas não é
possível dizer que Deus sofreu na cruz porque não é concebível dizer que
Deus morreu na cruz. Afinal de contas, Atos 17.28 diz que “nele vivemos,
nos movemos e existimos” Logo, se Deus morre na cruz e é ele quem
sustenta toda a criação, significa que se ele morreu tudo mais deixou de
existir, por que nada mais foi sustentado. Do mesmo modo, de maneira
análoga, não podemos dizer que a natureza divina de Deus está sofrendo,
apesar de ser possível entender que a pessoa de Jesus, dentro da sua
concepção da união hipostática e pertencente também à Trindade, participa
dos sofrimentos humanos naquele momento. Isso aqui é chamado de mistério
da encarnação. Todavia, dizer que isso é um mistério não significa afirmar
que ele é incompreensível, pelo contrário, significa dizer que podemos nos
aprofundar nele, mas que a nossa mente jamais será capaz ou suficientemente
capaz (pelo menos dentro da nossa limitação humana) de atingir a percepção
de todos os aspectos.
Estamos aqui tentando compreender como a união hipostática funciona,
que Cristo compartilha os sofrimentos humanos de todos nós naquela cruz,
inclusive os de Auschwitz, através da sua morte, mas que isso ocorreu por
uma liberdade dele. Ele não ousou como usurpação ser igual a Deus, mas,
antes, fez-se semelhante à forma de homem, fez-se servo e sofreu e carregou
a pena da morte por nós, pela glória do Pai.35
Então, Deus sofre na pessoa de Cristo, mas, ao mesmo tempo, Deus, na sua
ontologia, não é capaz de sofrer. Se atribuirmos essa ideia de Deus em sua
própria natureza já ter contido o sofrimento, trazemos características de
humanidade para a pessoa de Deus. Assim, tentamos tornar Deus mais
humano, antropomorfizar, fazer de Deus a nossa imagem e semelhança.
Então, precisaríamos cada vez menos da encarnação, porque Cristo como
nosso único mediador entre o homem e Deus é o responsável por fazer com
que percebamos que é somente através dele que temos acesso ao Pai, que só
através da percepção da figura divina de Cristo, da sua pessoa unindo Deus e
homem, é possível compreender como o próprio Deus se faz homem para
sofrer como homem ao mesmo tempo que salva com a imparcialidade de um
Deus que não pode sofrer.
É claro que não estamos querendo condenar figuras poéticas ou canções
que dizem que Deus morreu na cruz, ou o autor da vida morreu. A questão é
que é preciso ter esse qualificativo em mente: Deus morreu na cruz? Morreu,
mas morreu na sua forma humana, na hipóstase. Não é errado dizer que Deus
morreu na cruz; só é incompleto. É preciso deixar claro o que você está
querendo dizer com isso. Por isso que aquele poema de Edward Shillito
chamado Jesus of the scars (Jesus das cicatrizes) é muito bonito quando ele
fala que “nenhum deus tem feridas, além de Ti”. Deus tem feridas? Sim, o
Deus na forma humana! Por isso, não é errado falar poeticamente alguma
frase de efeito ou tentando até mesmo perceber a grandeza que é Deus se
fazer homem e sofrer como homem, mas é bom lembrar-se deste
qualificativo: foi na figura humana.
Constantemente não refletimos sobre a grandeza da encarnação. Isso é de
fato um assunto às vezes teológico demais, filosófico demais, mas refletir
sobre esse tipo de coisa nos leva a ter uma vida devocional mais fervorosa e
mais intensa, pois passamos a compreender melhor algumas questões: Por
que Deus precisava se fazer semelhante ao homem? Por que eu preciso tanto
de Jesus? Por que só Cristo é o único mediador entre Deus e homens? Por
que outros homens não podem ser? Por que outras figuras tão santas não
podem ser? Essa é a derradeira resposta para isso, e é impossível não se
emocionar.
Surge uma questão que você pode pensar lendo tudo isto: “Quer dizer que
o Deus Pai não sente? O Espírito Santo não participa do nosso sofrimento?
Quando eu sofro, foi só em Cristo que ele sofreu, mas agora a Trindade, de
forma ontológica, não é aquilo que se manifesta sentimentalmente?” Calma!
Eis aqui uma questão muito importante: a Trindade econômica não é uma
outra, diferente da Trindade ontológica. Não são duas Trindades, mas apenas
uma. Como foi comentado antes, a Trindade econômica manifesta algo que
está na Trindade de forma ontológica.
Não podemos olhar para Deus e imaginá-lo apresentando sentimentos
assim como nós. No entanto, esses sentimentos que se manifestam
economicamente representam algo da ontologia divina. Esse algo não
sabemos o que é. Há uma simplicidade, uma unidade, uma completude no ser
de Deus de onde provém economicamente essas antropopatias e Deus tem
isso dentro dele. Ele tem de alguma forma esse tipo de algo que dá vazão a
esse relacionamento, a essa manifestação de amor, de graça, de bondade, de
ira. O Deus que se ira hoje é o mesmo que não estava irado antes, mas que na
sua ontologia é a mesma coisa, se manifestou diferente através de uma
circunstância nova, mas não houve mudança de Deus. Como que é isso? Essa
é a grande maravilha da Trindade: se você nega, perde a alma; se você tenta
entender, perde a cabeça; você não sabe o que é essa unidade, essa
simplicidade fundamental no ser de Deus, aquele que é o sumo ser.
Sabemos que é dali que partem as manifestações e a denominamos
teologicamente de antropopatia, de sentimentalização, mas sabemos que não
representa a ontologia do divino, contudo, está presente de alguma forma que
não entendemos. Não devemos achar que Deus é vazio de sentimento, como
se fosse uma carcaça oca e que dela para fora se manifesta a
sentimentalização. Não! Vem de dentro, mas não podemos olhar para aquilo
e enxergar como os nossos sentimentos. Há uma unidade de onde provém
tudo isso. Por isso, podemos olhar para Deus como alguém que é amoroso,
que é misericordioso, mesmo que a linguagem que a Bíblia usa seja um
pouco imprecisa, mas é a linguagem que ela usa, ele tem aquele sentimento,
que ele sofre. Paulo coloca em Romanos 8, sem nenhum constrangimento,
dizendo que o Espírito Santo geme, mas entendendo que isso é uma
manifestação econômica que provém de uma unidade, de uma simplicidade
última que está presente no ser de Deus.
Depois de Auschwitz, disseram que só o Deus que sofre é capaz de salvar,
mas achamos que a compreensão é um pouco diferente desta: somente com a
nossa compreensão de um Deus que escolheu sofrer é que podemos ser
salvos. Isso lembra muito o trecho da versão que o Yago fez com o Diego
Venâncio da canção “Jesus das cicatrizes”, que diz:
Ele é o Deus que escolheu ter feridas. Como não adorar um Deus assim?
Quando o assunto é dízimo, qual é o primeiro texto que vem à sua mente?
Claro, o texto de M... Melquisedeque! Por mais que Malaquias 3.10 seja o
texto-base da palavra da oferta na sua igreja, Melquisedeque, antes mesmo da
Lei Mosaica, falava sobre o assunto. Abraão aparece entregando o dízimo ao
Senhor na figura de Melquisedeque, um tipo de Cristo, diz o texto bíblico.36
Avançando um pouco mais, chegamos no período da Lei Mosaica em que o
dízimo, de vários tipos, é então instituído a todo o povo judeu.37 E quando
chegamos no período do Novo Testamento, que é o momento histórico em
que nós estamos, as pessoas logo perguntam: “O dízimo vale para a Nova
Aliança, para nós hoje, ou é somente para a Lei?”
Em primeiro lugar, é importante deixar claro que o Novo Testamento não
começa em Mateus 1.1. Por mais que a divisão de capítulos em nossa Bíblia
comece em Mateus 1.1, a Nova Aliança, de fato, começa em Atos 2, com a
descida do Espírito Santo, ou, mais apropriadamente, com a ressurreição de
Cristo ou com a morte dele na cruz. Como foi dito por Jesus em Mateus
26.28: “Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos,
para perdão de pecados.” O texto de Hebreus 9.16 também diz exatamente
isso: “no caso de um testamento, é necessário que comprove a morte daquele
que o fez”. Ou seja, o Novo Testamento só inicia com a morte daquele que
trouxe aquele dom e graça. Nisso temos um ponto paradigmático para falar
de dízimo no Novo Testamento: até a morte de Jesus as pessoas viviam sob a
Antiga Aliança.
Todas aquelas narrativas que aconteceram até chegar na morte e
ressurreição de Cristo, como João Batista e os encontros com os fariseus, é o
Velho Testamento e a Antiga Aliança. Assim sendo, muitas pessoas citam
Mateus 23.23 dizendo que Jesus incentiva aqueles fariseus a darem o dízimo:
Nós deveríamos dar o dízimo? Não podemos nos basear nesse texto para
responder, pois ele ainda se encontra no período da Antiga Aliança. Pode
parecer meio esquisito, mas Jesus constantemente trazia para as pessoas
mandamentos relacionados à vida judaica daquela época. Também há relatos
de personagens contemporâneos a Jesus cumprindo leis veterotestamentárias.
Em Lucas 1.15 o anjo Gabriel consagra João Batista ao nazireado,
conforme as especificações do texto de Números 6.13; em Lucas 2.21, Jesus
é circuncidado com base na Lei Levítica38; em seguida, em Lucas 2.22, Maria
se purifica como estabelecido em Levítico 2.4 e, no versículo posterior, os
pais de Jesus oferecem aquelas duas rolinhas em oferta no templo, da mesma
forma que estava previsto em Levítico 12.6-8; no livro de Mateus 8.4, Jesus
chega a um leproso e ordena que ele ofereça o sacrifício que é prescrito em
Levítico 14; em Mateus 26.17, Jesus e seus discípulos cumprem exatamente
aquilo que estava previsto em Êxodo 12.1-27. Há outras passagens no Novo
Testamento que também citam o cumprimento dos mandamentos ainda do
Antigo Testamento.39 Sendo assim, utilizar o texto de Mateus 23.23 como
base para defender o dízimo no Novo Testamento é um mau uso de uma
passagem bíblica que se refere ao contexto da Antiga Aliança mosaica aos
fariseus.
Depois de Mateus 23.23, o próximo texto do Novo Testamento que fala
sobre dízimo é Hebreus 7. Esse contexto cita Melquisedeque como sendo um
tipo de Cristo, como um sacerdote e um rei que não tinha geração nem
descendência, mas que mesmo assim estava acima da Lei, numa
demonstração de que Cristo é maior que a Lei.
Conforme citamos no começo do capítulo a respeito do dízimo antes da
Lei, Abraão havia dado o dízimo a Melquisedeque após ter ceado com pão e
vinho e recebido a benção. O autor de Hebreus menciona que Jesus agora é
um sacerdote, não segundo a tribo de Levi, mas segundo a ordem de
Melquisedeque. Com base nisso, alguns vão lançar o seguinte argumento: “O
autor de Hebreus considerou necessário citar o dízimo naquela ocasião. Ele
não se contentou em deixar passar esse elemento. Então, se o dízimo não é
um elemento para ser mantido durante a Nova Aliança, por que ele inseriu
esse passagem na carta ao invés de ignorá-la?”
O problema é que quando o autor de Hebreus faz essa alusão ao acontecido
de Melquisedeque, apesar de citar de fato o caso da entrega do dízimo, ele
não transpõe esse relato histórico a uma afirmativa, ou seja, ele traz o
indicativo histórico sem transformá-lo em imperativo. O motivo pelo qual o
dízimo foi citado ali é porque os elementos do caso Melquisedeque são
poucos: ceia, benção e dízimo. Era preciso contar o que aconteceu para que
essas informações não ficassem jogadas. Os textos não deixam de ser uma
narração e nenhum deles é texto prescritivo ou um texto que demande uma
ordenança.
Achar que Hebreus é uma ordem a darmos o dízimo porque o seu autor usa
o termo “dízimo” ou evoca o fato de Abraão ter dado o dízimo, em nossa
opinião, é uma leitura não muito precisa, pois não há no texto um imperativo,
e sim um relato de um fato histórico. Se o autor de Hebreus realmente tinha a
intenção de nos fazer acreditar que o dízimo era uma prática ainda
neotestamentária, é de se esperar que ele, ao narrar o fato, transformasse
aquela descrição também no imperativo para nós. Portanto, Hebreus é um
texto cuja leitura mais natural não nos leva a pensar que existe uma indicação
para o dízimo na Nova Aliança.
Não há outros textos no Novo Testamento que falam sobre o dízimo. É um
assunto que quase não é tratado no Novo Testamento, sendo abordado
somente quando traz a citação de uma prática judaica tanto com Jesus em
Mateus 23.23, quanto em Hebreus, quando evoca Melquisedeque.
Por outro lado, temos inúmeras referências sobre a generosidade da igreja
e a sua função na doação de dinheiro para irmãos e líderes (no contexto de
assalariar os seus pastores), sustentar a igreja na medida das suas
necessidades, auxiliar aos irmãos na medida em que eles precisam pagar os
honorários40 de quem dedica sua vida em ensinar o evangelho e cuidar
daquelas pessoas.
“Vocês estão dizendo que o dízimo existia antes da Lei, que existia durante a
Lei e era obrigatório e intrínseco a cultura judaica, mas no Novo Testamento
não é mais uma ordenança?”
Em seus aspectos judiciais, no Antigo Testamento, a lei do dízimo estaria
relacionada com aquilo que alguns denominam Lei civil ou Lei cerimonial. É
um aspecto da Lei que estava muito ligado à prática religiosa e civil do povo
judeu. Uma vez que vivemos no Novo Testamento e a Lei de Moisés era só
um tutor que nos guiava até a maturidade e já que a alcançamos em Cristo,
essa Lei do Antigo Testamento não se aplica a nós da mesma forma que foi
para o povo judeu. O que se aplica agora é nada mais do que um princípio
dela e, por mais que seja um princípio, nós não estamos debaixo do jugo e do
aio da mesma lei que o povo de Israel. Aprendemos da lei, mas não somos
sujeitos a ela.
“Mas o dízimo é antes da Lei e se é anterior a ela, então continua! Com Lei
ou sem Lei, o dízimo tem que continuar porque ele vem antes da Lei com
Abraão; transcende a Lei, passa por cima de qualquer barreira temporal.”
Esse é um pequeno erro hermenêutico que muitas pessoas cometem em
achar que tudo aquilo que é anterior à Lei, necessariamente precisa continuar.
A circuncisão também era anterior à Lei. Abraão circuncidou-se, o mesmo
Abraão que entregou o dízimo, e ninguém está mais cumprindo aquela
prática da circuncisão literal. Todavia, fica para nós um ensinamento, não
mais o ato em si, mas um princípio didático e moral, que é a circuncisão
espiritual, porque não somos mais circuncidados na carne e sim no coração.41
A partir de agora é o Espírito Santo que circuncida esses nossos atos e faz
com que nos direcionemos e apontemos até Deus.
Nem tudo que acontece no Antigo Testamento ou até mesmo antes da Lei
Mosaica continua hoje, mas tudo aquilo que ocorreu no Antigo Testamento, e
antes ou depois da Lei Mosaica, serve de princípio didático para a igreja.
Paulo endossa isso na segunda carta a Timóteo:
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e
plenamente preparado para toda boa obra. (2 Tm 3.16,17)
Podemos dizer, então, que a maioria das coisas da Antiga Aliança sofreu a
descontinuidade material, uma vez que elas eram uma simples sombra para a
vinda do Messias. Porém, praticamente todas elas, senão todas, possuem uma
continuidade espiritual, no sentido principiológico e moral, para que
possamos trabalhar isso agora dentro dos nossos corações e não através de
sacrifícios. Logo, quando lemos o Novo Testamento, encontramos uma série
de textos bíblicos em que aparece esse princípio. As passagens não vão nos
ordenar a dar dízimos ou 10% exatos da nossa renda, mas sim dizer para
sermos generosos, sistemáticos e de bom grado naquilo que fazemos, como
dar suporte financeiro às congregações e aos outros irmãos.
Um aspecto que precisamos considerar sobre a descontinuidade entre o
Antigo Testamento e o Novo Testamento com relação ao dízimo é que no
Antigo Testamento ele era destinado para a casa do tesouro e ela não mais
existe hoje. A casa do tesouro era um espaço dentro do templo que servia
para guardar os mantimentos e ofertas que ali chegavam. Eles não tinham
papel moeda, então a maioria dos dízimos era fruta e animal. E muito daquele
dízimo era usado para sustentar os levitas, um povo específico que na divisão
de tribos não ganhou uma terra e por isso não tinham como plantar. Essas são
situações que não existem mais na Nova Aliança, pois não temos mais a tribo
de Levi, a casa do tesouro e a maioria dos trabalhadores não são
agricultores.42
Vamos olhar alguns textos do Novo Testamento que dão indicações claras
sobre a nossa generosidade e como devemos ofertar. Veremos que eles nunca
citam o dízimo, mas mencionam um princípio veterotestamentário que é a
generosidade com a proporcionalidade das nossas rendas.
Em 1 Coríntios 16.1-2 Paulo fala a respeito de uma coleta para irmãos
pobres de outras igrejas e diz: “Quanto à coleta para o povo de Deus, façam
como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de
vocês separe uma quantia, de acordo com a sua renda, reservando-a para que
não seja preciso fazer coletas quando eu chegar.” Paulo demonstra a
preocupação de que cada um oferte de acordo com aquilo que lhe era
proporcional. O princípio de proporcionalidade daquela ideia do dízimo
sendo mantido aqui.
No início do capítulo 8 de 2 Coríntios, Paulo fala sobre ofertar com alegria
e logo no versículo 11 ele também diz: “de acordo com os bens que vocês
possuem”, ou seja, tem que ser de bom grado, tem que ser de coração sincero
e tem que ser proporcional.
Temos aqui um princípio a respeito do Novo Testamento e a prática do
dízimo. Paulo poderia muito bem ter evocado o dízimo da Lei como ele faz
trazendo conceitos do Antigo Testamento diversas vezes nas suas cartas, até
mesmo quando fala ao público gentio. Os ideais veterotestamentários eram
muito conhecidos naquela época e os gentios também conheciam de modo
bem geral aquilo que era comum na lei do Antigo Testamento, e o dízimo era
um princípio que as pessoas de alguma forma conheciam e compreendiam.
Inclusive, Corinto era uma cidade muito cosmopolita e havia muitos judeus
convertidos na igreja. Paulo podia ter evocado esse conceito, mas ele evita e
apenas faz uso do termo proporcionalidade, que consistia em cada um
contribuir de acordo com as suas posses. Dessa forma, ele indicava que não
estava evocando a ideia de dízimo do Antigo Testamento, mas aplicando um
princípio que provinha dele: proporcionalidade.
Também em 2 Coríntios 8, um pouco antes, Paulo repete que ele não fala
em forma de mandamento, mas que tem que ser voluntário e com alegria,
logo, ele está deixando claro que essa oferta não é compulsória, mas tem que
ser dada de coração pelo que você entende que é proporcional às suas posses.
No versículo 12 ele diz: “se há boa vontade”, dando a entender que essa
oferta era uma coisa boa, mas que não era uma obrigação da igreja, e sim a
um ato de amor, voluntário, que procedia de um coração regenerado.
Agora você está aí se perguntando: “O que eu faço? Dou dízimo? É só para
ofertar? Quanto oferto? Como oferto? Como meu pastor vai se sustentar?”
Talvez não tenha dado muito bem para perceber, mas a ordenança do Novo
Testamento acerca de como você deve lidar com o seu dinheiro segue o
princípio de mordomia cristã, ou seja, não são 10% do Senhor e sim 100%.
O dízimo permanece como um princípio para você ter condições de
auxiliar a igreja e ele deve ser aplicado de forma sistemática, generosa e com
alegria, como o Rev. Augustus Nicodemus cita naquele vídeo paradigmático
em que trata sobre Malaquias 3.10.43 Alguns podem não querer chamar de
dízimo pelo fato dele não existir no Novo Testamento. Está tudo bem não
querer usar a palavra, mas oferte e se quiser, por exemplo, utilizar os 10%
como referencial, não tem problema nenhum nisso. Se a sua igreja prega o
dízimo e utiliza as finanças da forma correta, não crie polêmica por causa
disso. Ficaríamos tristes com uma igreja em que os irmãos não ofertam.
Nós utilizamos os 10% como um paradigma para as ofertas que deixamos
na comunidade, pois se foi um referencial válido para o Antigo Testamento,
por que não pode ser utilizado agora? Jesus diz assim em Mateus 5: “se a
justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de
modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Os fariseus davam 10%, não é?
Sua justiça é superior a dos fariseus? No primeiro aperto em casa, você para
de dar dízimo? Muitas pessoas são assim: “Apertaram as coisas aqui, não
ajudo a igreja este mês. E aquele missionário que estava dependendo dos
meus recursos? Não vou mais mandar. E aquela igreja que ia ser plantada?
Tchau!”
É parecido com aquela história que o Rev. Nicodemus também conta sobre
o menino que sai com duas moedas, uma para poder comprar o picolé e a
outra para poder ofertar para Deus. Então, ele tropeça, a moeda cai no esgoto,
e ele fala “Eita! Lá se foi a moeda de Deus!”. É sempre a moeda de Deus que
se vai.
Uma aplicação prática do que queremos dizer aqui: imagine uma
senhorinha que recebe cesta básica da igreja, que quase não tem como comer
e que foi abandonada pela família. Não faz sentido cobrar que ela entregue
10% de sua renda, ainda mais com a igreja tendo que sustentá-la e não o
contrário. Se você tem o dízimo como uma lei veterotestamentária que ainda
se aplica no Novo Testamento como era no Antigo, essa senhorinha estaria
em pecado por não doar 10% de suas migalhas. Contudo, se você entende o
dízimo ou a oferta como um princípio, essas pessoas que vivem em
dificuldades não têm sobre si o encargo ético e moral de dar 10% de sua
renda para a igreja, pois estão em um momento de dificuldade. E dificuldade
não é ter que vender o carro e tampouco ter que morar em uma casa menor...
Muitos poderão utilizar esses argumentos como subterfúgio teológico para
a própria avareza, para camuflar o pecado. Sabe por quê? A. W. Tozer dizia
que, muitas vezes, ao invés de conversão, o que temos é uma nova capa. No
lugar de saber que comete o pecado da avareza, você diz: “Eu estou correto
teologicamente porque o dízimo não existe na Nova Aliança”. Não tente
utilizar argumentos teológicos para encobrir o seu amor pelo dinheiro. Se
você não dá o dízimo e nem oferta na sua igreja, não colabora com missões,
não sustenta àqueles que te ensinam da Palavra, não é generoso de acordo
com as suas capacidades, você está adorando a Mamom, e não dá para adorar
a Deus e ao dinheiro. Não é para usar esses argumentos para dar menos que
10% e sim para dar mais, a fim de entender que todo o seu dinheiro é de Deus
e que dar apenas a décima parte é pouco.
Comentando 2 Coríntios 9.7, Calvino diz que a obrigação de contribuir não
deve ser imposta de fora, por outros, mas por nós mesmos.44 Nós não
conhecemos a sua vida, mas você tem que ter uma consciência diante de
Deus e analisar esse princípio profundamente. Não estamos dizendo para
você dar o “trízimo” ao profeta certo para ganhar a sua benção, mas que você
tem que ser generoso de acordo com as suas possibilidades. Organize-se,
talvez cortando o cartão de crédito, um ponto da TV a cabo que você sabe
que não usa ou assiste Discovery Home & Health apenas uma vez na semana,
entendeu? Coloca a Netflix que é mais barata e organize-se para ser mais
generoso.
John Wesley disse uma vez a marcante frase: “ganhe o máximo que você
puder, gaste o mínimo que você conseguir, para ofertar o máximo que você
for capaz”. Claro que não podemos transformar isso em um princípio
absoluto para todos. Não é um princípio exato, que você fará de uma forma
milimétrica em cada centavo, mas é uma regra geral para você poder se
basear em como um cristão deve pensar. Ele precisa estar preocupado com
missões, com o sustento das congregações, com os mais pobres e ele deve
reconhecer: “Onde é que está o meu luxo? Quais deles eu posso ou eu devo
abrir mão em nome do amor ao meu irmão?” Essas são coisas que precisamos
pensar.
Não podemos considerar aqueles 10% como algo tão rígido, porque, por
exemplo, em igrejas da Europa que têm membros muito ricos, convencionou-
se que somente 5% da renda de cada um deles bastava. Por quê? Porque
aquilo gera mais do que o suficiente para a igreja se sustentar. Com o resto do
que eles têm, com o que eles podem ofertar, esses irmãos colaboram com
missões, investem em obras sociais, trabalham com a igreja, para a igreja e
pela igreja, contribuindo de acordo com as suas possibilidades.
Em outras igrejas localizadas em países de economia mais estável, no
começo do ano é planejado todo o seu gasto e em assembleia dividem
proporcionalmente segundo as posses de cada um, de cada família, não
importando a porcentagem. Alguns pagam logo tudo de uma vez, outros
dividem ao longo do ano e, além disso, são instruídos a usarem com caridade
(de modo proporcional e com mordomia) o restante do dinheiro.
Temos aqui uma noção prática, mas existe uma questão complicada porque
de modo geral as igrejas são a favor do dízimo e têm pastores que vão cobrar
que se dê o dízimo. Então, caso você concorde com a gente e entente que o
dízimo não é para a Nova Aliança, tecnicamente, não vai mudar muita coisa
na prática, pois você vai dar no mínimo 10% para a sua igreja porque a sua
moralidade é melhor que a dos fariseus. Todavia, se você está passando por
um momento de dificuldade, de desemprego, vivendo com uma ajuda que a
tia está dando para pagar o aluguel e não passar fome, você vai sentar com
seu pastor e dizer: “Olha, eu estou com essa dificuldade, não posso
contribuir, mas não é avareza.” Avalie bem o seu coração, pois têm pessoas
que têm uma casa, aluguel, consegue comprar uma carne para comer, mas
não têm carro e anda de ônibus e deixa de dar o dízimo por isso, achando que
está passando por dificuldade.
Muitos deixam de contribuir porque alegam que existem líderes de igrejas
desonestos que roubam as pessoas utilizando o dízimo para se locupletar.
Este é um argumento completamente falho. Se existem maus professores, eu
não vou desacreditar do ensino; se existem maus policiais, eu não vou
desacreditar no sistema de segurança pública. Então, não é por conta desses
maus exemplos que a partir de agora você vai desconsiderar toda a regra de
ofertar, de sustentar os ministros e a igreja. O problema desses pastores não é
o dízimo especificamente, mas o falso evangelho.
Se sua igreja não é clara quanto ao modo como as finanças são usadas, se
você não confia na sua liderança, se você acha que seu pastor não se desgasta
no ensino, você pode sair dessa igreja e ir para outra onde você confia deixar
o seu dinheiro. Procure uma congregação que seja transparente, que trate as
finanças de modo bíblico.
Em nossa comunidade local acontecem assembleias de dois em dois meses
e são repassados os movimentos financeiros. Não é o pastor quem cuida do
dinheiro. Um grupo de irmãos que a comunidade votou — pessoas que
trabalham com contabilidade — cuida das finanças da igreja, formando uma
espécie de conselho contábil. O pastor só vê o dinheiro quando chega o
salário. Se em sua comunidade não há transparência e clareza no modo como
o dinheiro é usado, vá para um lugar onde você confie. Peça explicações,
converse com o seu pastor e se o negócio for fechado, obscuro, procure uma
congregação onde isso seja nítido e que trabalhe com isso de forma bíblica.
Tem um texto que muitos tem medo dele por causa da teologia da
prosperidade, mas ele tem uma aplicação muito séria para a nossa vida. Paulo
diz assim:
Aquele que supre a semente ao que semeia e o pão ao que come, também lhes suprirá
e aumentará a semente e fará crescer os frutos da sua justiça.
2 Coríntios 9:10
Um pai da igreja dizia que Deus rejeita a oração de quem não dá esmolas
segundo a sua capacidade. Não use a desculpa de que não acredita no dízimo
como um padrão do Novo Testamento como um princípio para ser um mão
de vaca completo. Seja generoso e oferte com decência e abundância.
Desejamos muito rapidamente sair das igrejas a fim de correr para outras que
melhor se adaptam àquilo que gostamos. Esquecemos que ela é um ambiente
familiar, formado por irmãos com os quais a gente precisa desenvolver e
servir. Se você geralmente percebe erros e problemas na sua igreja, você irá
encontrá-los em qualquer outra e a sua função é lutar para melhorá-la. Se os
erros e problemas estão sendo vistos por você, sair dessa comunidade só irá
deixá-la um pouco pior, pois você poderia ser um instrumento de
aperfeiçoamento dos irmãos e dos santos através da sua presença e da sua
percepção de certos erros que outros podem não estar observando.
Ademais, uma congregação não é um buffet de self-service. Você não vai
simplesmente chegar numa igreja e dizer: “eu quero isso, eu quero aquilo”.
Você está ali para servir, para ajudar aquela congregação, na medida em que
você deve se entregar para cumprir a obra de Deus ajudando um irmão,
edificando o outro, admoestando a quem precisa e aprendendo também.
Então, não fique querendo procurar a igreja perfeita, porque você não vai
encontrar e também não queira fazer dela um local de degustação teológica.
Existe um termo em inglês que as pessoas utilizam bastante que é o church
shopping, que consiste em fazer da igreja um shopping que você visita, entra
na loja que achar melhor e em seguida entra em outra e assim por diante.
Essas pessoas vão de igreja em igreja e não criam raízes, não criam grandes
experiências, não criam uma profundidade em serviço contínuo local. Da
mesma forma que não é adequado a um pastor pular de igreja em igreja, de
ministério em ministério, de ano em ano por causa de salários melhores ou de
condições melhores de emprego, assim também não convém que um membro
fique pulando de igreja em igreja a cada dois anos por causa de promessas de
cultos, pregações e ambientes melhores e cada vez mais confortáveis. É
importante que você encontre um lugar e crie raízes nele.
Mudar de congregação com tanta frequência talvez demonstre que você
tem uma eclesiologia ainda muito frágil e não perceba de fato o que significa
ser igreja. Possivelmente você não compreende o que significa depender do
outro, ser parte do outro e ser como uma mão que precisa do pé e assim por
diante. Talvez você esteja tentando desenvolver uma forma de autonomia
pessoal ou autonomia cristã que não existe nas Escrituras. Segundo a Bíblia,
ninguém é igreja sozinho, ninguém vive o cristianismo do lobo solitário.
Cabe considerar também que você precisa respeitar o fato de que Deus está
trabalhando através de igrejas locais individuais e visíveis. Por exemplo, nas
questões de membresia e disciplina eclesiástica, Deus está manifestando a sua
vontade eterna e aquilo que já acontece no Reino dos Céus ao incluir e
receber membros através da igreja local. Quando você desgosta de uma
exclusão que foi correta e acha por bem ir em outra igreja que lhe aceite em
outras práticas, de alguma forma você está negligenciando toda a eclesiologia
bíblica que coloca na mão da igreja local prerrogativas e poderes sobre (até
mesmo) a vida individual do cristão. Assim, você não pode achar que ir para
uma outra igreja ou buscar outra que lhe aceita é o suficiente.
Os pastores geralmente estão em maus lençóis porque hoje em dia não
existe apenas uma igreja por cidade, e sim inúmeras; se a pessoa se sentiu
desagradada, ela sai daquela e vai para outra. Dessa forma, o pastor acaba se
colocando numa situação complicada de ter que sempre agradar aos membros
para que eles continuem naquela comunidade. As pessoas deveriam ter uma
noção mais profunda do seu papel fixo dentro de uma comunidade local, que
é servir, ajudar e fazer cada vez uma diferença maior em suas comunidades.
Essa questão de mudar com tanta frequência de congregação em
congregação ou de tentar encontrar uma que o aceite nas suas práticas (ainda
que elas estejam erradas) é a marca do individualismo moderno. É o típico
homem que não compreende a igreja enquanto a família. A sua família pode
não ser a melhor do mundo, mas você sabe do amor dos seus pais por você e
entende que não faz sentido mudar de família só porque encontrou um
problema. Você vai lá e conversa com eles, mesmo que fique chateado com
alguma coisa, mas tenta resolver as diferenças porque família é família.
Sabemos que se abandonarmos a casa e sairmos para um outro lugar ou
tentarmos mudar de família, as coisas não vão se resolver porque o problema
continua lá.
Estamos tratando aqui, claro, de um contexto saudável no qual
enfrentamos aquelas dificuldades, aqueles problemas pessoais que vão
acontecer em todo lugar e enquanto igreja saudável ela deve ser equiparada a
uma família e deve ser resolvida dentro de um contexto próprio da família.
Posto isso, cabe-nos colocar, então, em quais situações seria justificável e
correto que um cristão mudasse, saísse de uma igreja local saudável.
Pontuaremos algumas delas:
Mudança de cidade
Dependendo da cidade e do bairro onde mora, talvez isso gere implicações
muito grandes acerca da congregação onde você frequenta. Se você vai morar
num bairro mais afastado da congregação que frequentava antes, em cidades
grandes como São Paulo, por exemplo, talvez se torne inviável o
deslocamento até o local. Então, necessariamente, você precisa pedir a
transferência se não der para ir até lá.
Casamento
A mulher segue o marido depois do casamento, então, talvez ela tenha que
sair da sua congregação e se juntar a do seu cônjuge.
Chamado ministerial
Dependendo do contexto, certas barreiras ministeriais podem ser o motivo
para que você saia de uma comunidade mesmo que ela seja saudável. Às
vezes você apresenta intenções ministeriais, sua igreja reconhece isso em
você, mas ali onde está, por algum motivo, não dá para desenvolver esse
dom. Por exemplo, você quer ser pastor e a sua igreja não tem uma
rotatividade muito grande de pastores. Nesse caso, você vai plantar uma
igreja em outro lugar. Outra situação seria receber o convite para pastorear
uma outra comunidade, inclusive quando a igreja envia um membro para
plantar ou desenvolver um trabalho missionário em outro local, ele
necessariamente vai abrir uma nova congregação ou se vincular a uma
congregação já existente.
Todas essas hipóteses que estamos citando são situações as quais a pessoa
sai, mas o faz com a bênção da igreja, com a compreensão da liderança e das
pessoas que estão ao seu redor; e não por causa de brigas e inimigos.
Contudo, existem contextos em que talvez a mudança de igreja seja um
pouco mais abrupta, necessite de um rompimento, e possivelmente cause um
pouco de dores, que é justamente quando a sua igreja não é bem uma igreja,
mas sim uma sinagoga de Satanás que usa a plaquinha de igreja, tem cara de
igreja, jeito de igreja, mas não é igreja.
Nós dois viemos de contextos em que já participamos de comunidades
locais que, como diz a confissão de fé de Westminster,45 deixaram de ser
igreja para se tornar sinagogas de Satanás. Elas são comunidades que têm
nome de cristãs, mas pregam doutrinas que são completamente avessas à
Palavra de Deus, como a Teologia da Prosperidade, neopentecostalismo num
nível bem extremado e pregações que em nada contribuem para o
crescimento do crente, que não mostram as Escrituras. Acontece qualquer
outra coisa, até palestra motivacional, mas não tem Bíblia e não tem Jesus.
É necessário um maior nível de maturidade para perceber em que caso
você se enquadra quando enfrenta um problema. É nesse momento que você
precisa, de fato, sentar, orar, refletir e meditar com calma, pois, muitas vezes,
no calor do momento, você acha que um probleminha é um “VOU MUDAR
DE IGREJA!”. Então, você começa a acreditar que o caso está afetando a
congregação como um todo, mas, às vezes, é um ponto focal que precisa ser
tratado com uma parte da liderança e nem é tão profundo. Em outras
situações pode ser realmente um problema grave, profundo, mas tratável com
tempo, paciência e até dor. É mais fácil fugir do que tratar o problema. Então,
o momento de parar e pensar é quando essas coisas começarem a passar pela
sua cabeça. Você não pode deixar isso crescer, porque talvez a sua visão
deturpe o problema enquanto tal e você acredite que ele é muito maior do que
imagina. Você precisa refletir: “A minha igreja é uma igreja saudável que
está passando por problemas? É uma igreja que está com muitos problemas?
Ou ela é de fato uma sinagoga de Satanás? Eu posso de fato chegar ao ponto
de dizer que ela não é igreja, não prega a sã doutrina, não prega o
evangelho?”
Ocasionalmente, acreditamos ser possível que determinadas
incompatibilidades de pensamento façam um bom cristão sair de uma boa
igreja. Talvez a igreja tenha uma visão prática de ministério muito divergente
da sua. Ou talvez haja um interesse de se envolver mais com a igreja, mas
para se comprometer mais ministerialmente com ela, você precisaria
concordar com certos parâmetros teóricos que o membro local não precisa.
Nesse afunilamento intelectual, podem ocorrer certas discordâncias que
dentro do corpo normal de igreja são permitidas, mas que dentro de um
ministério já são mais complicadas, tornando inviável você se envolver mais
profundamente com aquela comunidade, mesmo que ela seja saudável. Você
poderia saudavelmente dizer: “esta é uma comunidade saudável, mas eu
queria me envolver mais com o ministério, servir de algumas formas, mas
certas incompatibilidades de pensamento impedem que estejamos juntos.”
Claro que é bom que essa saída se dê depois de muita conversa, com você
ouvindo atenciosamente a liderança local, pois é muito difícil você conseguir
mudar a sua igreja, a menos que você seja um líder bem influente ou a igreja
seja bem pequena.
Se a pessoa não tiver, de fato, uma preponderância para poder ensinar aos
membros ou pregar sã doutrina, não haverá tanto espaço assim para
mudanças. Então, é melhor você sair dali de forma saudável, submetendo-se
à liderança. É muito mais honesto você mudar de uma comunidade por
motivos de divergência do que ficar influenciando os outros membros
sorrateiramente.
Muitas vezes acontece de a pessoa fazer parte de uma igreja que é
arminiana ou que não tem uma estrutura soteriológica muito bem definida, e
ela se percebe calvinista e decide que vai mudar de congregação porque
acredita que é inviável desenvolver as suas atividades no meio da igreja por
causa dessas divergências soteriológicas. Só que ela faz isso na surdina. Um
dia ela está na igreja e no outro já está visitando outra congregação, sem
conversar com ninguém para explicar o motivo. Além disso, ela fica tentando
influenciar aquele grupinho que é mais próximo para compreender melhor o
calvinismo. Não façam isso! Se a sua igreja, de fato, prega a sã doutrina, mas
diverge de você em alguns pontos, não tente fazer panelinha ou grupinho.
Converse abertamente com a liderança e veja se é viável a sua permanência
na igreja. Tenha maturidade quando se dirigir aos líderes e à congregação e,
se não der mesmo, saia numa boa, de cabeça erguida, como um homem ou
como uma mulher deve agir em uma situação como essa.
Isso não significa que você precisa da bênção do pastor para sair da igreja.
Ele não é autoridade espiritual como um intermediário entre você e Deus, que
se ele não abençoar, você ainda estará debaixo do jugo e da autoridade dele.
Esqueça essa ideia de cobertura espiritual porque isso é espiritismo e não
cristianismo.
Nada mais correto do que você informar aos seus líderes a respeito da sua
decisão, conforme ensina as Escrituras sobre sermos sujeitos à nossa
liderança. Você não vai pedir autorização ao seu pastor para mudar de igreja.
Talvez, ele até o aconselhe a não fazer isso, mas não tem a autoridade de
impedi-lo. O seu pastor é uma liderança em sua vida enquanto você permitir
e isso é a orientação da Escritura: a sua submissão é voluntária. Você se
submete porque encontra nele uma liderança e não simplesmente porque ele é
alguém importante. E se ele lhe aconselhar a não fazê-lo, pese bem os
argumentos dele. Todavia, é importante conversar com o pastor antes de sair
para que isso aconteça de forma pacífica, pois brigar é sempre ruim.
Por isso é importante você pautar o seu pensamento sempre em muita
oração e leitura bíblica, para não tomar as decisões no calor do momento.
Converse e diga que não vai mais se submeter àquela liderança, exponha os
seus motivos, pondere sobre o que ela vai lhe dizer, mas faça isso com
mansidão e harmonia.
Voltemos àquela questão que comumente trazem para nós, que é a
seguinte:
Mas outra coisa que também faz bater aquela dúvida no momento é:
“Construí muitas amizades, muitas pessoas com as quais eu evangelizei,
gente que eu sei que apesar da congregação ser uma sinagoga de Satanás,
são pessoas sinceras no evangelho, gente de bem, homens e mulheres de
Deus. O que eu faço? Levo todo mundo comigo? Continuo na congregação
por causa deles? Tento evangelizá-los?”.
O que podemos dizer por experiência pessoal é o seguinte: você pode sim
chamar essas pessoas para conversar depois que você sair, pode falar para
elas do verdadeiro evangelho. Talvez essa atitude gere muito burburinho
sobre a sua saída da congregação e essas pessoas se aproximem para
perguntar o que motivou a sua saída. Inclusive, o pastor poderá proibir os
membros da igreja de falarem com você. Isso aconteceu com dois amigos
nossos que fizeram um vlog46. Eles foram chamados pela congregação, foram
exilados, desterrados pela liderança e foram proibidos de entrar em contato.
A congregação não podia mais comunicá-los, e isso acontece com uma certa
frequência.
Talvez algumas pessoas venham com você, as que conheciam o seu
testemunho cristão, que compreenderam os motivos da sua saída. Mas você
precisa superar esse desligamento de tantos vínculos afetuosos e de amizades.
E, mais do que isso, é necessário que você ore por essas pessoas, pois, no
final das contas, elas estão sendo manipuladas como você também foi durante
muito tempo e precisam de oração. Elas podem ter ficado contra você, ter
falado mentiras a seu respeito, ter seguido a liderança e acompanhado na
decisão de execrar-lhe publicamente, mas elas agiram assim, na maioria das
vezes, sem saber (claro que existem exceções). Elas estão mais enganadas do
que enganosas.
Então, ore por elas, e lembre-se do que disse Paulo que nós também
éramos inimigos de Deus. Por acaso você se esqueceu que até bem pouco
tempo também era influenciado, enganado por aquela liderança, que estava
dentro daquela neurolinguística que lhe prendia ali? Logo, não seja soberbo a
ponto de achar que o seu ponto de vista agora é superior porque você
encontrou um caminho teológico mais acertado, mais minuciosamente
alinhado com as Escrituras. Compreenda que aquelas pessoas não têm um
pastor. Faça como Jesus: ao ver ovelhas que não têm pastor, chore por elas,
se apiede e ore por elas. Não tente dar uma de dono do universo. Lute contra
a soberba e faça com que seu coração se humilhe diante de Deus em
reconhecer que você há dez minutos era igual a eles.
O MDA
Passando do G12, encontraremos outro movimento que ganha muita força
a cada dia que passa e que bebeu boa parte dos seus ensinamentos a partir da
fonte do G12, que é o Modelo de Discipulado Apostólico do Pr. Abe Huber,
mais conhecido como MDA.
O MDA, criado e desenvolvido pela Igreja da Paz, é uma espécie de G12
light, com aquele mesmo modelo de célula, só que agora acrescentando
algumas outras nuances sobre a questão de como o discipulado se efetiva, e
retirando alguns dos vícios e caricaturas do movimento neopentecostal. Se no
G12 há aquele neopentecostalismo mais hardcore, no MDA temos algo um
pouco mais próximo do pentecostalismo clássico, ainda com muitos vícios
neopentecostais, porém sem muitas loucuras extremas.
Uma das coisas que mais causava calafrios durante nossa experiência com
o MDA era o fato de que os discípulos não são vistos como discípulos de
Cristo; eles são vistos, pelo menos a priori, como discípulos individuais de
quem os evangelizou ou os discipula atualmente. Chegamos a ouvir numa
determinada convenção a seguinte frase: “Você sempre faz o discípulo, em
primeiro lugar, para você; e depois transforma aquela pessoa num discípulo
de Cristo”. É tão absurda essa ideia de que o discipulado é meramente uma
apostila ou um método a ser aplicado na vida da outra pessoa que a Bíblia
fica à margem de tudo isso. Parece que esqueceram que o discipulado
acontece de forma orgânica, durante o relacionamento entre as pessoas na
igreja, e não através da simples ministração de uma ou outra lição que será
aplicada de forma independente da pessoa que receberá aquelas lições.
Essas pessoas usam diversos textos bíblicos para defender a ideia de que
temos que ser discípulos uns dos outros. Eles usam 2 Crônicas 20.20 para
dizer: “tenham fé nos profetas dele e vocês terão a vitória”. Fazem uma
interpretação louca de Hebreus 13.17,49 dizendo que temos que nos submeter
aos nossos mestres, tratando essa submissão como um tipo de crença cega e
absoluta na liderança da igreja. Usam 1 Samuel 26.9 para dizer que nós nunca
deveremos ir contra aquele que é ungido do Senhor, e se ele (que é o nosso
pastor ou discipulador) diz que temos que fazer tal coisa, devemos fazer e
pronto! Você chega a ouvir absurdos do tipo: “Se o seu pastor está errado, é
ele quem vai prestar contas com Deus. A sua tarefa é obedecer, porque se
você desobedece, nesse caso quem está errado é você”. Eles usam as
passagens em que João chama as pessoas de “filhinhos” para criar essa
terminologia de mãe espiritual, pai espiritual, filhos na fé. Usam Paulo
dizendo: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo”, para dizer
que nós temos que imitar as pessoas e tê-las como nossos mestres, sermos
discípulos de tais pessoas, para só então sermos discípulos de Cristo, quase
como se — eles negariam isso na teoria, mas o fazem na prática — o
discipulador fosse o intermediário entre o homem e Deus, em algum sentido.
Inclusive, dependendo do modelo mais leve ou mais pesado de MDA e
G12 em que a pessoa viva, ela é até proibida de desempenhar as atividades
normais do seu cotidiano espiritual em nome de ter que prestar contingência
ou obediência à sua liderança. Parece que eles nunca leram Mateus 23.8-10,
que diz:
Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o mestre de vocês, e todos vocês
são irmãos. A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele
que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto vocês
têm um só Chefe, o Cristo.
Ainda que existam mestres na igreja, eles não são vistos como um tipo
superior de rabis, de soberanos, de pessoas que são intermediárias entre o
homem e Deus. Nós só temos um Mestre Supremo, todos aqui estão como
submestres para passar adiante o ensino daquele Mestre através da Escritura.
Em Mateus 28.18-20, quando Jesus diz: “Foi-me dada toda a autoridade no
céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos”, ele deixa claro que nós
vamos fazer discípulos àquele que tem toda a autoridade para ter discípulos.
Não temos autoridade sobre céus e terra, mas Jesus tem. Por isso, ele merece
discípulos; não merecemos discípulo nenhum. Somos apenas pecadores
imundos que estão tentando levar as pessoas a um relacionamento de pupilo e
mestre com o Senhor dos céus e da terra, que é Cristo. Ele tem autoridade e
nos comissiona para fazer discípulos para ele. Nós estamos sendo utilizados
como um instrumento pela honra e pela misericórdia do Filho, e não nossa;
não temos mérito nenhum. Lucas 9.3 deixa claro que nós vamos à fé levando
a cruz para nos fazermos discípulos de Cristo, não de qualquer homem carnal
e pecador. Isaías 54.13 diz: “Todos os seus filhos serão ensinados pelo
Senhor”. Somos discípulos do nosso Deus e não de homens.
Então, aqui vai uma palavra de quem já foi de dentro do MDA e G12:
esses movimentos de crescimento escatológico de dentro da igreja não
promovem crescimento bíblico. Eles são nada mais do que movimentos
carnais de doutrinação social, de manipulação psicológica e de
emburrecimento. E eles tentam reproduzir o agir de Deus através da
formulação do crescimento da igreja, que é algo que cabe apenas ao Senhor.
A confiança no Espírito Santo passa a ser depositada em métodos; o
método se torna o próprio agir do Espírito Santo. Apesar de isso ser
amplamente negado, a prática é que não existe nenhuma confiança plena na
obra suficiente do Espírito Santo, mas tão unicamente na metodologia
empenhada, na apostila que está sendo apresentada, se a lição foi ministrada
ou não de uma maneira como o líder disse que deveria ter sido. Se o
indivíduo não está no discipulado, está fraco na fé. Se não está crescendo na
sua célula, é porque ele está em pecado. Se o dízimo da célula é baixo, é
porque ele não está pregando fielmente. E ai dele se pregar uma vírgula
doutrinária diferente do que colocam nas apostilas: é um rebelde!
Em movimentos neopentecostais de modo geral, como o G12 e o MDA,
existe uma falta de amplitude teológica e de maturidade. Por exemplo, em
igrejas tradicionais, temos aquilo que é o central (pontos que devemos
subscrever para fazer parte da comunidade) e aquilo que é o secundário
(pontos que podemos conviver crendo diferentemente). Discordamos dos
nossos pastores em muitas coisas, discordamos até entre nós e todo mundo
vive bem, porque estamos centrados naquilo que é importante, mas naquilo
que é secundário temos um espaço para a discordância — um espaço para
estudar, para debater saudavelmente e crescer juntos. Já nesses movimentos
isso não acontece: tudo é central, tudo é importante. E caso a pessoa se
manifeste contra, logo dizem que ela está com um espírito de engano, espírito
de rebelião ou que é o Inimigo querendo dividir a igreja e quebrar a unidade.
Se uma igreja pensa completamente igual ao pastor em tudo, nós temos
então um gado que abriu mão do próprio cérebro para seguir um líder
religioso. O grande problema é que essa estupidificação faz com que as
pessoas não estudem mais a Bíblia. Elas não têm mais o interesse por buscar
conhecer direto da Palavra de Deus e conhecem a Bíblia apenas a partir do
que é ministrado. E aí acontece outra coisa: como as pessoas que começam a
estudar um pouco mais a Bíblia e teologia saem do movimento, as que
permanecem nele começam a ver o estudo da Palavra como algo negativo, e
dizem: “A letra mata, mas é o Espírito que vivifica!”50 Mas se lessem direito,
saberiam que a “letra” é a Lei do Antigo Testamento, e que o Espírito é a
manifestação de Cristo no Novo Testamento, e isso não tem nada a ver com o
estudo da teologia.
Outra coisa que acaba acontecendo é que a rede de discipulado se torna
uma rede de fofoca. As pessoas ouvem você falando da sua vida, elas falam
da sua vida para o próprio discipulador dela, e o discipulador que ouviu vai
passando adiante, pois todo grande amigo tem outro grande amigo. E não
importa o que o pastor ensine nos seus treinamentos de liderança: colocar
crianças, adolescentes e jovens de vinte e poucos anos para ouvir os
problemas dos outros vai dar problema. Mesmo com adultos vai dar
problemas. Vimos muitos casais saindo da igreja por causa disso, muitas
pessoas tendo a reputação desgraçada por causa desse tipo de discipulado e
até se desviando da fé — claro que a culpa é da pessoa que se desviou, mas
esse foi o contingente que a levou a largar a igreja. Na verdade, é um telefone
sem fio da fofoca disfarçado de discipulado e de cuidar do outro. É uma
versão modificada do confessionário, linguagem essa que eles usam,
inclusive; ouvíamos no culto que os católicos estavam certos, porque quando
confessamos, há cura. Então, eles usam o versículo de Tiago 5.16 “confessem
os seus pecados uns aos outros” para afirmar que essa confissão deve ser
feita ao seu líder especificamente. Ninguém pode se aproximar do pastor, por
exemplo, para contar algo mais delicado. Ele diria: “Eu não sou o seu
discipulador. Conte ao seu discipulador e, se for necessário, ele trará a
mim”. E quando alguém tenta tratar alguma coisa com o seu pastor, é o seu
discipulador que chega e diz: “Por que você não me falou isso?” É uma rede
institucionalizada da fofoca.
Quando a Escritura fala sobre liderança de igreja, ela usa uma palavra
muito clara que é presbítero, equivalente a pastor e bispo. A liderança da
igreja é feita, fundamentalmente, de pessoas mais velhas e mais maduras. É
claro que pode haver jovens liderando igrejas, mas o padrão ideal é que sejam
presbíteros, idosos, anciãos, pessoas maduras. O modelo do MDA ignora que
a liderança da igreja e os responsáveis por cuidar dos outros são, nesse
contexto de liderança institucionalizada, os presbíteros. Claro que, de forma
orgânica e natural, as pessoas podem e devem se aconselhar, cuidar uns dos
outros; mas quando pegam algo que deveria ser orgânico — as pessoas
conversando com quem se sentem mais seguras — e transformam numa rede
institucionalizada de cuidado eclesiástico que exime os pastores de algumas
de suas responsabilidades e as passa para jovenzinhos, pecam contra uma
eclesiologia saudável.
Inclusive, uma das coisas que está até no site do MDA é que 0% dos
líderes foram formados através de pregações, 0% dos líderes foram formados
através de Escolas Bíblicas Dominicais, seminários, etc. Então, quer dizer
que todos os seminários do país, todas as escolas de formação de pastores,
todos os locais que estão comprometidos com o ensino da sã doutrina, da boa
teologia e do estudo bíblico sério durante décadas estão todos errados? Nunca
produziram ninguém que preste? Quer dizer que até Castellanos receber
aquela revelação maluca no século passado, ninguém tinha líder nenhum?
Todos eram formalmente preparados para o ministério, mas não eram líderes
de verdade? Timóteo, Paulo e todos os apóstolos foram líderes
despreparados? Eles argumentam que Jesus fazia o discipulado. Sim, ele
fazia, mas era algo orgânico, natural; não tinha um sistema hierarquizado.
Resumindo, a confusão parece ser com a palavra “estratégico”. Para o
pessoal do MDA, ser estratégico é ser inconveniente. O que eles pregam é
que você vai evangelizar um pessoa, por exemplo, chamando-a para um
churrasco, para jogar um futebol, convida para jogar videogame, oferece uma
carona, propõe uma ida ao cinema; isso é ser estratégico. Mas quando a
estratégia toma o lugar da própria pregação do evangelho e do confrontar
verdadeiro com a Palavra de Deus, a pessoa não está sendo estratégica e sim
antibíblica. Em prol de serem estratégicos, esses indivíduos acabam enchendo
e inchando igrejas ao invés de simplesmente pregar a Palavra de Deus. O
evangelho puro e simples fica de lado porque ele não vale mais para o nosso
mundo moderno onde as pessoas precisam de entretenimento para serem
atraídas a Cristo.
No fim das contas, há uma rotatividade muito grande na membresia dessas
igrejas. Muitas delas estão sempre muito cheias, mas nunca das mesmas
pessoas. Elas vão lá, passam um tempo, não criam raízes e vão embora; ou
sentem falta de uma palavra pregada com boa doutrina e se mudam para uma
igreja tradicional. E não venham com essa história de que é “a multiforme
sabedoria de Deus”, que eles plantam e depois outras igrejas regam, porque
uma igreja não deveria ter a função única de ganhar ninguém. A igreja é o
local para consolidar.
47. Isaías 61
48. Mateus 9.37; Lucas 10.2
49. “Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês
como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria
e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.”
50. 2Coríntios 3.6
51. Salmos 89.5; Salmos 149.1
TODOS OS RITMOS
LOUVAM AO SENHOR?
E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito;
Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando
ao Senhor no vosso coração.
Efésios 5.18,19 (Almeida Corrigida Fiel)
Se encher do Espírito é uma ordem para toda a igreja, assim como a ordem
de cantar ao Senhor na hora do culto, isso significa, por exemplo, que a
música não pode ter um tom nem muito alto (agudo) e nem muito baixo
(grave), pois, dessa forma, todo a congregação não teria como acompanhar. A
questão da respiração tem que ser levada em consideração também, pois há
músicas que exigem um esforço respiratório muito grande que nem todos os
irmãos conseguem ter tal fôlego. É necessário pensar nisso, pois tanto
crianças como idosos têm que cantar.
É complicado colocar no contexto congregacional uma música como
Sublime, do Leonardo Gonçalves; é necessário ter um quinto pulmão para
cantá-la! Assim também, um estilo como o rap, mesmo sendo muito
apreciado pelos mais jovens, não é muito congregacional. Como uma
velhinha, que não consegue nem respirar direito, vai cantar um rap? É algo a
se pensar com relação ao estilo musical e à congregacionalidade. O estilo
musical glorifica ao Senhor? Sim, mas não dentro do contexto
congregacional.
O terceiro princípio é o do escândalo e aqui entraremos de forma mais
detalhada se existe realmente ritmos musicais que sejam pecaminosos. A
Bíblia vai deixar claro que não podemos de forma alguma escandalizar —
retirar da fé— nossos irmãos por causa de coisas que elas acreditam ser
pecaminosas.54
Para os nossos avós, a cultura rock'n'roll era pecaminosa, com as suas
referências à Satanás, pessoas morrendo, o cantor Ozzy Osbourne comendo
morcego no palco e filhos saindo da igreja por causa dela. Para essas pessoas,
certos instrumentos e ritmos musicais são um problema muito sério e por isso
elas não conseguem lidar bem emocionalmente com esse estilo musical,
porque para elas isso está ligado entranhadamente a uma cultura demoníaca e
ímpia.
Precisamos primeiro amar o outro. Por mais que você consiga adorar a
Deus com o ritmo de funk ou rock ou qualquer outro estilo musical, é
necessário olhar para a congregação como um todo. Procure saber de cada
irmão, do mais novo que prefere o rock ao mais velho que prefere a bossa
nova, e pergunte — com amor — se há algum escândalo com determinado
ritmo. Eles precisam estar em harmonia com o estilo musical que está sendo
usado para poder ministrar aquele louvor.
O momento de canto na igreja é congregacional, de comunhão e unidade.
O estilo musical não pode ser uma barreira. As pessoas tentam resolver isso
de duas maneiras: uns vão dizer para tocar de tudo na igreja, um pouquinho
de cada coisa. Outros, como nós, dirão para ficar no mínimo, naquilo que é
comum. As pessoas devem ser educadas a ter o seu gosto musical e a ouvir o
que gostam em casa, pois na igreja é um espaço melhor para ficarmos com
aquilo que evitará problemas de gosto pessoal. O culto não é um ambiente de
educação musical e nem é um conservatório. A ocasião em que a
congregação está junta é para desfrutar do amor e da unidade, e não um
momento de divisão.
O conselho de Paulo em 1 Coríntios 8 é sobre não escandalizar o irmão. Se
comer carne sacrificada a ídolos escandaliza o próximo, devemos abrir mão
do nosso direito de comer carne em prol daquele que é mais fraco. Paulo está
nivelando pelo irmão mais fraco. Assim, temos que pensar no irmão que é
mais fraco musicalmente. O seu estilo musical você pode ouvir em casa, no
fone de ouvido do seu celular.
Assim sendo, todos os ritmos louvam ao Senhor, inclusive o rock'n'roll e o
funk carioca? Não existe necessariamente um ritmo ou um estilo musical que
seja pecaminoso por si só. Não podemos dizer, por exemplo, que uma virada
de bateria é santa e a outra é pecaminosa; um acorde de guitarra é santo e o
outro é pecaminoso; nem a velocidade dessas coisas compõe pecado. O que
pode constituir pecado são duas coisas: o contexto no qual a música é
executada e a letra — porque nem toda letra vai ser indiferente à fé cristã.
Algumas vão atacar diretamente princípios cristãos, como o da santidade, o
da castidade, o da perseverança dos santos, o da salvação, o da certeza da fé,
o do caráter absoluto de Deus, entre outras coisas. Então, o estilo, por si só,
pode não ser pecaminoso, mas a forma como ele está sendo utilizado pode
sim ser pecaminoso.
Antigamente, a Igreja Católica tinha o diabolus in musica, que era um
intervalo de notas dissonantes que eles consideravam pecaminoso. Alguns
cristãos mais tradicionais têm sua versão do diabolus in musica que é a
síncope, deslocamento da acentuação rítmica característico de alguns estilos
musicais; mas não concordamos com esse tipo de coisa porque achamos um
exagero.
Precisamos compreender também que não é porque certos estilos musicais
são usados em contextos pecaminosos que eles se tornam pecaminosos por si
só. Por exemplo, quando lemos o livro de Gênesis, podemos perceber que
muitas coisas que hoje são boas, tiveram origens ruins. A harpa começou
como um instrumento criado pelos familiares de Caim55, um povo que vivia
contra o Senhor e, posteriormente, vemos a harpa sendo utilizada por Davi,
até para tirar o espírito mal que atormentava Saul.56 Em Apocalipse a harpa é
utilizada para glorificar a Deus; algo que um homem que odiava a Deus
inventou, sendo usado pela eternidade em louvor ao Cordeiro.57
Sendo assim, não podemos cometer a falácia genética de dizer que porque
uma coisa foi criada com um propósito ruim, ela é ruim por si só. Algumas
pessoas vão usar isso para o rock: “Ah! Mas o rock começou como uma
manifestação que era odiosa a Deus, então esse ritmo não pode glorificá-lo”.
O próprio exemplo da harpa já contraria isso. O piano também não poderia
ser utilizado, afinal de contas ele era o instrumento dos cabarés, entre outros
locais, que são considerados impróprios para o contexto cristão. Um dos pais
da igreja dizia que o instrumento mais pecaminoso que existia era a flauta.
Por que? Porque a flauta era usada, no tempo dele, em cultos pagãos.
Precisamos compreender que é da natureza humana que sintamos
problemas com coisas que para nós estão socialmente relacionadas com certo
tipo de pecado. Nós não conseguimos cantar o hino Castelo Forte de Lutero
em estilo de funk. Acreditamos piamente e teologicamente que não existe
nada de errado com o funk; Deus inventou o funk. O problema é que existe
uma associação cultural que é muito forte para nós, mas que talvez não seja
muito forte para outras pessoas. Talvez numa comunidade do Rio de Janeiro,
por exemplo, um louvor em ritmo de funk não escandalize tanto como aqui
no Nordeste.
Tem também a questão da boa e velha bateria que divide corações e
igrejas. É na verdade uma questão de imaturidade de muitos irmãos mais
velhos, pois a bateria é um instrumento como qualquer outro, embora as
vezes ela seja muito mal tocada e mal utilizada. Há igrejas com um espaço de
culto bem pequeno que colocam uma bateria grande, com um som muito alto,
que acaba não dando para ouvir nem a voz dos irmãos. A bateria também
pode ser usada para mexer demais com as questões emocionais no culto. Pelo
menos aqui no Nordeste, para muitas igrejas, instrumentos de percussão de
modo geral são sempre polêmicos.
A bateria não é um instrumento pecaminoso, porém tem sido tão mal usada
que, em muitos casos, seria melhor não usá-la. A nossa geração também
parece que não consegue ouvir uma música sem bateria. Em nossas igrejas —
Batista Regular — não usamos bateria e não sentimos falta, mas não ficamos
reclamando das igrejas que usam. Se funciona para as igrejas que a utilizam e
não funciona para a nossa igreja, qual o problema?
Você pode estar chateado porque não dissemos os estilos que podem ou
não. Porém, melhor do que falar o que pode ou não, passamos o princípio
para que você possa aplicar em sua igreja. Agora aplique. Pense, pegue a letra
e as músicas, observe se o pessoal está cantando, veja se está dando certo, se
o pessoal está se envolvendo, se a música está ensinando, se todos estão
conseguindo cantar, se não tem ninguém muito incomodado com aquele
estilo musical. Aplique os princípios e toque para frente o louvor da sua
igreja.
52. Ryle, J. C. Adoração. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010, p. 25.
53. Rookmaaker, por Palavrantiga.
54. Cf. 1Coríntios 8
55. Gênesis 4.21
56. 1Samuel 16.23
57. Apocalipse 5.8; Apocalipse 15.2
O HOMOSSEXUAL TEM
LUGAR NA IGREJA?
Eu nunca quis ter esses desejos. De alguma forma, parece natural; eu nasci
assim. Será que isso é pecado mesmo? Como eu lido com essa situação?
Para ser sincero, não sabemos porque algumas pessoas são homossexuais e
outras não. Existem casos de pessoas que são homossexuais porque foram
violentadas na infância, mas sabemos que, no fim das contas, é por causa do
pecado, aquele afeta a todos de forma diferente. Ninguém tecnicamente nasce
gay, da mesma forma que ninguém tecnicamente nasce heterossexual;
nascemos homem e mulher, porque isso é algo biológico. A sexualidade das
pessoas é formada à medida que ela vai crescendo e amadurecendo. É
semelhante a um fenótipo — como a relação entre o genótipo e a sociedade
— o qual o indivíduo vai constituindo.
É comum o discurso que homossexuais nascem gay, mas o hétero só é
hétero porque a sociedade assim o transformou; são dois pesos e duas
medidas. Acreditamos que ninguém — seja na filosofia, na sociologia ou na
psicologia — descobriu ainda ou entendeu profundamente como é que a
sexualidade se manifesta em nível último nas pessoas.
A pessoa tem a impressão de que nasceu gay, assim como temos a de que
nascemos héteros, porque, desde quando lembramos da nossa sexualidade,
ela se manifestou de modo heterossexual. Sendo assim, pouco importa se
você sente que isso é natural; tanto a homossexualidade, quanto a
heterossexualidade se manifestam socialmente de alguma forma a partir de
quem nós somos.
Porém, independente da orientação sexual de uma pessoa ser direcionada
pela forma como ela vive, pelo seu convívio, pela sua formação psicológica,
intelectual e social, a Bíblia nos estabelece um padrão moral bem definido
pela heterossexualidade. Entenda bem, parece ser um trauma da pós-
modernidade o fato de que quando você diz que o padrão moral de uma
pessoa é errado, isso é um discurso de ódio. Não é assim que funciona, pois
quando nós, através da cosmovisão cristã, tentamos dizer que o padrão moral
de Deus é um e que o seu padrão moral está errado por algum motivo, nós
estamos fazendo isso por um ato de amor e não por ódio. É por um ato de
amor que um pai deseja corrigir o seu filho, assim como por um ato de amor
um irmão repreende outro irmão.
Logo, quando afirmamos um padrão moral bíblico para a
heterossexualidade, isso não se constitui em um discurso de ódio, muito pelo
contrário, é um discurso de amor pela percepção de que esse é o padrão da
criação de Deus. Foi assim que Deus planejou a humanidade e o desvio disso
é necessariamente uma forma pecaminosa de utilizar a sexualidade que foi
criada por Deus.
Infelizmente muitos homens trazem discursos cheio de ódio e falam coisas
absurdas a respeito do homossexual, até mesmo muitos políticos, ícones da
direita, falam da homossexualidade de maneira risível e manifestam as suas
opiniões e posições políticas com evidente preconceito.
Vemos também nas Escrituras que muitos pecados são naturais ao ser
humano, nós nascemos com determinados pecados, como o orgulho e a
preguiça. O homem nasce já amaldiçoado a não querer trabalhar por causa da
maldição que veio no Éden; a mulher já nasce amaldiçoada a se sentir tentada
a dominar seu marido de alguma forma. Agostinho escreveu que aos três anos
o pecado começou a se manifestar em sua vida. A nossa personalidade, por
ter sido afetada pelo pecado, é completamente depravada e tende
naturalmente a tomar a direção para o pior de todos os mundos se não for
bem tratada. Assim, se você considera o pecado da homossexualidade
natural, saiba que a maioria deles o são. Mesmo que o seu não seja
necessariamente natural, como propagam, se fosse para utilizar esse
argumento, a pessoa poderia dizer que a poligamia é natural, que a
masturbação também é natural e nem por isso esses atos deixam de ser
pecaminosos.
Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja
feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.
Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. E não nos
deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e a glória
para sempre. Amém.
Mateus 6.9-13
Há também diversos outros exemplos bíblicos de orações curtas no Novo
Testamento. Por exemplo, quando Estêvão está para ser apedrejado: “Senhor
Jesus, recebe o meu espírito”63 e “Senhor, não os consideres culpados deste
pecado”64; Jesus na cruz ora: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão
fazendo”65 e “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.66
Já a oração mais longa, no Novo Testamento, está ligada especificamente a
momentos de provação e situações espirituais específicas. Temos a já citada
parábola da viúva importunando o juiz, pedindo para que ele seja positivo em
uma causa. Esse é um contexto específico em que a mulher é viúva e não tem
quem cuide dela, passando por um momento de provação. Temos Paulo
dizendo que o casal pode se abster sexualmente por um tempo para que se
dediquem profundamente à oração.67 Ou seja, isso é algo que não acontece o
tempo inteiro, mas em momentos específicos na nossa caminhada e na nossa
vida. Esses períodos mais intensos de jejum e de clamor estão relacionados às
circunstâncias de dificuldade, de provação, de tristeza na alma e de busca
espiritual mais intensa.
Portanto, para orar melhor, de maneira bíblica, não é necessário
concentrar-se no tempo que você ora, mas especificamente se a sua oração
está de fato glorificando a Deus, se ela está endereçada a Deus da maneira
como ele deseja recebê-la. E isso não requer horas de oração, mas que você
tenha um coração contrito. A oração precisa humilhá-lo, gerar em você a
dependência e a consciência de dependência. Deus rejeita o soberbo, logo,
você precisa fazer uma oração humilde; Deus rejeita a oração daquele que
não tem fé, portanto, você precisa crer que Deus é Todo-Poderoso para
atender àquilo que você está orando. A oração precisa ser recheada de
diversos fatores bíblicos que fazem com que ela seja simples, mas ao mesmo
tempo valorosa e valiosa perante Deus.
Infelizmente, nossa cultura neopentecostal mais espiritualista vê a oração
como um tipo de depósito que fazemos no cofrinho divino, como se a oração
fosse um preço que você tem que ir pagando para conseguir algum bem: se
eu quero um carro, tenho que orar mais; se eu quero um chaveiro, tenho que
orar menos. E tem até aquela brincadeira quando o rapaz casa com uma
menina bonita: “Ah! Orou mais do que ela!”. Claro que é uma galhofa, mas
toda brincadeira tem um fundo de verdade. Sabemos que na essência disso
tem uma visão deturpada acerca do contexto de como seria uma oração ideal.
Essas deturpações sobre a nossa visão da oração acabam atrapalhando que
desenvolvamos uma vida de oração digna. Se você não sabe para onde ir,
todo caminho é o caminho errado. Então, se não temos o padrão de quanto é
uma vida de oração boa, correta e agradável a Deus, como poderemos
descansar e dizer: “Eu oro o suficiente”?
Experimente perguntar a todos os membros em uma igreja se eles oram o
suficiente. Quem é que vai dizer que sim? Seria meio orgulhoso e é claro que
você nunca vai orar o suficiente. Seria como perguntar: “Você ama a Deus o
suficiente?”, ou “Você é santo o suficiente?”. Nunca é o suficiente,
obviamente, mas com certeza existe um nível que é possível responder:
“Olha, estou dedicando, dentro das possibilidades, um tempo do meu dia
satisfatório à oração e em quantidade ela faz jus ao nome de cristão. Devo
me envolver cada vez mais e orar com qualidade melhor.” Que quantidade
seria essa? Comentamos anteriormente que no Novo Testamento há vários
exemplos de orações curtas, mas também temos que orar sem cessar. Como é
que essas duas coisas se relacionam?
“Orai sem cessar”68 é um daqueles versículos mal interpretados da Bíblia,
pois parece que “sem cessar”, dentro da nossa visão ocidental, indica algo
contínuo com relação à sua extensão. Se essa interpretação fosse verdadeira,
você deveria começa a orar agora e não parar nunca mais na sua vida. Porém,
“orar sem cessar” não significa ser incessante quanto à sua extensão, mas ser
quanto à intensidade e sua frequência. Quando Paulo fala “orai sem cessar”,
ele está dizendo para orarmos de manhã, à tarde, à noite, nos intervalos, no
almoço. John Piper comenta em um vídeo sobre esse assunto que se você vai
fazer uma ligação em que precisa fechar um negócio, ou então contar alguma
coisa para alguém, antes de ligar, você faz uma oração de 5 segundos,
dizendo: “Senhor, me ajuda, me auxilia, me dá tuas palavras, coloca o teu
direcionamento no meu coração, amém”. Ligou, resolve.
Portanto, “orai sem cessar” significa: em tudo dai graças, em tudo orai, em
tudo rendei louvores a Deus. Reconheça a sua impotência, a sua dependência,
reconheça que precisa do Senhor em todos os momentos e ore, dependa dele
para tudo que você vai fazer na sua vida, sem cessar.
Desfrute (de acordo com as possibilidades) de momentos específicos de
devocional e oração. Separe meia hora ou quinze minutos por dia em oração,
pelo dia que virá ou pelo que veio, mas é bom que existam momentos
“gatilho” na sua vida, períodos em que você ora sempre que eles acontecem,
independente do horário. Um exemplo disso seria orar antes das refeições,
antes de dormir e também outras oportunidades que vocês podem
desenvolver nas suas vidas pessoais para orar: sempre antes da aula, sempre
no ônibus, sempre antes da prova, sempre quando acaba o intervalo.
As pessoas muitas vezes nos enviam uma série de perguntas sobre sexo antes
do casamento, pornografia, masturbação e em que parte das Escrituras essas
práticas são condenadas. Muitos pastores e líderes as reprovam
veementemente, enquanto outros já liberam de uma forma absurda e ficamos
meio sem saber o que é verdade. Pode? Não pode? O que a Bíblia diz a
respeito dessas coisas?
Muitas vezes, as respostas dadas para esse tipo de questão são
extremamente bobas. Por exemplo, pergunte a um pastor por que ele é contra
a masturbação. O que ele vai responder? “Uma homem não tem como se
masturbar sem pensar em uma mulher, e é pecado cobiçar uma que não seja
a sua”. E isso, de fato, é verdade, mesmo sendo um argumento frágil. É
muito fácil a possibilidade do autoerotismo sem pensar em alguém. Após
usarmos tal argumento com um amigo, no dia seguinte ele nos contou que
praticou o autoerotismo louvando ao Senhor com o famoso cântico “A Ele a
glória”. Por que ele está errado? Qual seria a base bíblica, se a pessoa não
está pensando em ninguém?
Para começar, a Bíblia só coloca o sexo dentro de uma hipótese que é o
casamento. Então, em todo texto bíblico, seja do Antigo ou do Novo
Testamento, o casamento é colocado sobre um pressuposto de uma relação
marital entre um homem e uma mulher. Isso é encontrado nos Evangelhos (é
dito pelo próprio Cristo69), nas cartas de Paulo70, mas algumas pessoas
sempre querem nos remeter ao caso de Isaque e Rebeca, dizendo que eles não
tinham um casamento constituído para que eles praticassem sexo71. Essa
situação se torna uma desculpa que a galera usa: “Ah! Eu posso fazer sexo
com a minha namorada, pois iremos casar mesmo diante dos homens, mas
agora já estamos casando diante de Deus”. Isso não tem muito sentido,
porque, no caso de Isaque e Rebeca, é uma cerimônia de casamento que
acontece através dos pais que são os sacerdotes naquela ocasião. Os
responsáveis por Rebeca permitem que ela vá, e ela consente nisso; os pais de
Isaque já tinham mandado o servo ir buscar a noiva. Então, todo esse pano de
fundo é a celebração de um casamento naquele contexto, logo, o sexo não
aconteceu de forma despropositada. O sexo só acontece na Bíblia, não
importa o caso, dentro da relação de um homem e de uma mulher casados.
Por exemplo, quando lemos Gênesis percebemos como o casamento é
instituído com relação a Adão e Eva. Deus diz: “o homem deixará pai e mãe e
se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”.72 Existe um processo
cujo a ordem a ser seguida é primeiro deixar pai e mãe. Eles largam a antiga
família para formar uma nova, e só então tornam-se uma só carne. A pessoa
não se casa porque fez sexo, mas sim quando há a criação de um novo núcleo
familiar, e é nele que há a consumação do ato.
O sexo é o ponto máximo que define um homem e uma mulher como
casados, porque sem a sua consumação não há efetivação daquele ato
matrimonial. Porém, isso não quer dizer que o sexo por si só cobre todos os
atos que prenunciam o casamento. Quando lemos 1 Coríntios 7, vemos Paulo
condenando uma pessoa ter sexo com alguém que não é a sua esposa,
dizendo que está se unindo a uma prostituta. Dentro do contexto bíblico, sexo
sempre está relacionado ao casamento. Ele nunca é representado de modo
positivo quando retratado de forma extramatrimonial ou pré-matrimonial.
Um outro ponto interessante vem do texto de 1 Coríntios 7.8-9:
Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: é bom que permaneçam como eu. Mas, se não
conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo
de desejo.
Esse texto é muito interessante pelo modo como Paulo termina. Ele está
dizendo o seguinte: se você consegue ser como eu, ou seja, solteiro, que não
tem relação sexual, continue assim; mas se você não consegue ser como eu,
sem relações sexuais, então, o que você tem que fazer? Case! Porque é
melhor casar do que ficar ardendo de desejo. O argumento de Paulo é que o
desejo sexual tem que ser canalizado para o casamento. O único modo de
suprir tal desejo é casando. Se a pessoa não casa, o desejo sexual vai virar
nada mais do que um arder em desejo e não vai ser satisfeito. Paulo deixa
claro que o único ambiente que a pessoa pode lidar com o desejo sexual é no
casamento. Paulo não diz: “Case ou use de um autoerotismo”, “Case ou faça
sexo com sua namorada” ou “Case e fique de boa esperando o desejo
passar”. Não! Ele diz que único modo desse desejo passar é no contexto do
casamento.
É comum ouvir por aí, inclusive em consultórios de psicologia, que
reprimir o desejo sexual — antes do casamento, durante a juventude — faz
mal, pois causa um dano psicológico que você não tem como medir. Todavia,
isso não faz sentido, pois a nossa base de conhecimento é a Bíblia, e ela não
afirma que haverá algum trauma caso você reprima seu desejo sexual. Até
mesmo Freud, por mais que tenha tentado introduzir esse pensamento,
escreveu que os dados foram inconclusivos e não poderia afirmar que
causaria um trauma de alguma forma.
Provavelmente, é mais difícil para uma pessoa que já teve experiência
sexual antes do casamento conviver com isso por causa das lembranças, mas
o fruto do Espírito Santo é o domínio próprio. Certa vez, recebemos a
pergunta de um rapaz que dizia assim: “Eu fico ‘daquele jeito’ quando
abraço a minha namorada. E então, eu estou pecando?” Resposta: pecado
seria se você não ficasse assim, porque a questão não é o que você sente e
sim o que faz com esse sentimento. Você pode subir pela paredes, como a
dona aranha, mas se você conseguir se conter e clamar a Deus em oração por
ajuda, será muito melhor. É normal sentir desejo sexual pela sua namorada,
mas a questão é que esse desejo tem que ser canalizado para o casamento.
Outro texto muito interessante também é encontrado em Hebreus:
Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à
prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará.
Hebreus 13.4 (ACF)
Filho do homem, existiam duas mulheres, filhas da mesma mãe. Elas se tornaram
prostitutas no Egito, envolvendo-se na prostituição desde a juventude. Naquela terra
os seus peitos foram acariciados e os seus seios virgens foram afagados.
73. God Gave Wine: What the Bible Says About Alcohol, de Kenneth L. Gentry.
74. 1Coríntios 8.13
O CRENTE PODE IR A
SHOW, OUVIR MÚSICA
DO MUNDO E TER
BANDA SECULAR?
Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós.
Eu sou o Senhor.
“Eu quero fazer uma tatuagem. Já que a Bíblia não diz nada contra, também
não diz nada a favor... vou fazer.”
O primeiro ponto que você precisa considerar é a questão social de ler
culturalmente como a tatuagem ainda é vista no seu contexto. Existe um
conflito de gerações e alguns adultos em determinados contextos verão a
tatuagem como algo ruim, que vai depreciar o seu caráter. O cristão precisa
pensar primeiro no outro, Ele precisa manifestar o amor de Deus: “Nisto
conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos
dar a nossa vida por nossos irmãos.”76 Então, o amor é sempre este doar do
amor. O cristão precisa olhar primeiro para outro: como isso vai ser visto
pelos irmãos da minha congregação, pela minha família?
Apesar de alguns apontarem a evolução cultural da tatuagem, é bom
lembrarmos que em países da Ásia até hoje escravas sexuais são marcadas
com tatuagem nos seus braços. A máfia, tanto a asiática quanto a russa, é
identificada através de tatuagens. Então, até hoje ainda é uma linguagem
associada, dependendo do seu contexto cultural e social, com a criminalidade,
com a prostituição, com o pecado e contra as coisas que não são boas para
um cristão se identificar. Vimos casos reais de pessoas que se tatuaram e hoje
querem ser missionárias em alguns países e não podem, porque fizeram
tatuagens em locais visíveis e nesses países há uma visão negativa muito
pesada em cima de quem possui uma tatuagem.
Esse seria um segundo ponto a se considerar. Certos concursos públicos e
determinadas funções que você poderia exercer se tornam um pouco mais
complicadas quando se tem uma tatuagem. Há profissões que a pessoa não
pode ter nenhuma tatuagem aparecendo publicamente, como a polícia de
alguns estados. Perceba qual é a profissão que você vai exercer. É óbvio que
se você for trabalhar com design, por exemplo, geralmente é um ambiente de
trabalho um pouco mais liberal para quem tem tatuagem, alargador e outras
modificações corporais. Para algumas profissões, quanto mais tatuado
melhor, mas, em geral, as pessoas ainda são muito tradicionais com
determinados cargos. Enfim, você pesa. Estamos pondo para você pesar. Não
somos orgulhosos o bastante para dizermos e darmos a solução para a sua
vida. Estamos querendo dar algumas diretrizes para você tomar a sua decisão.
Um terceiro ponto é pensar na sua personalidade. Tatuagem é para sempre
(a não ser que você pague caro por uma remoção a laser). Então, se você é
uma pessoa muito perfeccionista e de personalidade muito metódica, talvez
fazer uma tatuagem seja uma coisa que vai lhe desagradar. Conhecemos
pessoas de personalidade mais metódica que fizeram tatuagens e se
arrependeram amargamente. Pense também que a sua personalidade pode
mudar. Hoje você pode amar algum desenho de tatuagem, mas você vai
gostar dele daqui a dez anos? E daqui a quarenta anos?
Certa vez, um amigo comentou que perguntou a um tatuador (que era todo
tatuado): “Hoje, vinte anos depois, você faria essas tatuagens de novo?” E
ele respondeu: “Não. Eu faria outras.” Essa é uma ideia que precisamos
entender: a nossa personalidade muda. Ainda que você continue com a ideia
de fazer tatuagem, talvez você não faria aquela específica. Hoje você gostaria
de ter uma tatuagem, mas, e em vinte anos, desejará não ter sentido essa
vontade?
É necessário que também lembremos da modéstia, quando falamos de
modificação corporal. Qual é a utilidade dessa modificação corporal? Às
vezes falamos de modéstia e automaticamente lembramos de dinheiro,
compras, carro, joias, roupas, mas você tem que lembrar de modéstia quando
falamos sobre a atração que você gera nas pessoas ao olharem para você.
Qual o intuito de você fazer, por exemplo, uma tatuagem na nuca? Ou
aquelas no fim das costas e perto do cóccix? Falando bem sinceramente, qual
é a sua intenção em fazer isso? Porque se a sua intenção é chamar a atenção
dos olhos das pessoas para você, então está fazendo isso de forma
completamente errada, pois qualquer coisa que não seja feita para a glória de
Deus é pecado.
Então seria imodesto fazer uma tatuagem por fins meramente estéticos?
Por fins meramente estéticos não, mas sim tentando chamar a atenção das
pessoas para você, tentando ser sensual, ser atraente: isso é imodesto. Talvez,
o modo como você exibe sua tatuagem revele mais sobre a sua modéstia do
que aquilo que você tatua. A sensualização exacerbada, através de uma
tatuagem, poderá ser objeto de cobiça de pessoas que não são seu cônjuge e
assim você não estará amando seu irmão, ao ponto de provocar lascívia de
forma intentada. Agora, dentro do contexto do matrimônio, — no qual um
desfrute apenas do cônjuge— não seria problemático nesse sentido.
Uma outra situação comum que necessita de cautela são os jovens que
tiveram suas vontades adolescentes destruídas quando disseram para eles que
tatuagem é pecado, que beber é pecado, e então descobrem que não é. “Meu
irmão, é agora! Vou encher a cara e tatuar do pé à cabeça!”. Vá com calma!
Não vacile, não vá pelo grupinho. Isso é uma coisa que vai ficar na sua vida.
Não utilize o conhecimento com motivos espúrios para se rebelar.
Outro ponto que podemos colocar: você pretende o ministério (seminarista,
pastor)? Talvez possuir uma tatuagem exclua boa parte dos campos
missionários que você poderia atuar e de igrejas nas quais desenvolveria um
bom ministério. Um jovem pode não ter problema nenhum em vê-lo tatuado,
mas tente explicar para aquela senhorinha de noventa anos quando a estiver
pastoreando. Você terá que explicar para toda a pessoa que tenha uma visão
mais fechada acerca do contexto de uma modificação corporal.
Alguns argumentam que possuir tatuagens e outras modificações facilita a
pregação do evangelho para pessoas que tenham esse mesmo tipo de
modificação. Há dois problemas com esse pensamento: o primeiro é o
pragmatismo, você está admitindo que uma coisa deve ser praticada pelo
simples fato de que funciona e não é porque isso acontece que é bíblico. “Ah!
Mas a pessoa nunca iria ouvir o evangelho de alguém que está todo certinho.
Ela vai me ouvir só porque eu estou tatuado”. Romanos 1.16 diz que o
evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. Não é o
poder da tatuagem e nem da contextualização. É o Evangelho! Você acha que
o evangelho é tão fraco que precisa da sua tatuagem para ajudá-lo? Será que
Deus não tem o poder para quebrar a maldade do homem e às vezes ele
precisa da marcação do seu corpo para quebrar a maldade do coração
humano? Faça-nos o favor!
O segundo problema é a barreira para pregar o evangelho. A pessoa que
tem tatuagem terá dificuldade de evangelizar certos grupos de pessoas,
enquanto tem facilidade com outros, mas a pessoa que não tem nenhum tipo
de modificação corporal não vai ter problema com nenhum dos dois grupos.
Já evangelizamos em tudo que é tipo de lugar e nunca nos rejeitaram pelo
fato de não termos tatuagem. É até mais chocante para o cara quando ele vê
você todo “certinho” e você chega lá e se senta e conversa com ele numa boa
e prega o evangelho.
E não pense que você está cumprindo a Grande Comissão porque uma
pessoa leu um versículo bíblico tatuado no seu braço. Você não prega o
evangelho com a sua tatuagem, mas falando e vivendo o ensino de Cristo, a
mensagem da cruz. Você tem que falar. Não adianta tatuar Romanos 3.23 e
ficar por isso mesmo.
@EditoraConcilio
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