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Parte integrante do livro:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Área de Saúde do


Adolescente e do Jovem. Cadernos, juventude saúde e desenvolvimento, v.1. Brasília,
DF, agosto, 1999. 303p.

Solidariedade contra Violência

Benilton Bezerra Jr

O pátio estava uma festa. A noite de domingo prometia ser longa,


porque o ponto facultativo na segunda iria esticar o fim-de-semana.
Lá pelas onze, como todos esperavam, em um dos bares desse novo
point da zona sul, o grupo de chorinho iniciou sua apresentação. A
cena começa: o garoto, animado, passa por entre as mesas lotadas.
Seu olhar se demora alguns segundos e ele reconhece a amiga
morena. Alegre, vai em direção a ela, sem saber que sua vida nunca
mais seria a mesma. Foi tudo muito rápido: um início de discussão,
os gritos de pânico, a correria desabalada, os carros saindo em
velocidade, os bombeiros, a cirurgia de emergência, e a sentença: M.
M.A., 15 anos, iria viver o resto de seus dias paraplégico. Apenas um
tiro, e ele havia seccionado sua medula para sempre. Eram todos
adolescentes e jovens, numa bela noite, envolta em risos e música.

A cena é real, aconteceu no Rio de Janeiro. Ao me deparar com a


notícia, e diante da violência estúpida e gratuita, a perplexidade e o
sentimento de absurdo foram aos poucos dando lugar a um
desconforto, um mal-estar que senti, forte, no estômago. O jornal
sujava minhas mãos de tinta, e as manchas me aproximavam - como
se fossem provas de meu envolvimento - do sofrimento trágico de M.
M.A., de seus pais, de seus amigos. Tudo havia acontecido a algumas
dezenas de metros de minha casa, num lugar onde eu já havia
estado inúmeras vezes, buscando minha filha adolescente. Aconteceu
na minha cara, podia ter acontecido a mim. Li e reli a matéria, sem
sucesso: nada tornava plausível a cena, ela se repetia na minha
imaginação como uma ideia absurda. Ainda não sabia, naquele
instante, do pior: M.M.A., não resistindo ao ferimento, morreria na
mesma semana.

Ao ler a notícia, duas coisas logo me vieram à mente. Primeiro, a


terrível frequência com que episódios como esse chegam até nós:
adolescentes matando e sendo mortos são personagens cada vez
mais frequentes nas páginas dos jornais. A violência invadiu o
cotidiano de forma surpreendente, já começa a fazer parte daquelas
coisas esperadas, que compõem um dia a dia qualquer: as lutas
entre gangues, a violência no trânsito, a ferocidade nos trotes, o
ataque covarde a menores de rua e mendigos, a valentia insensata
dos alunos de lutas marciais, a agressão anunciada nos bailes e
boates, o clima de insegurança onipresente. Ser adolescente hoje,
nas metrópoles do país, é ter de dominar um complicado código de
sinais e condutas, uma cartografia bélica dos espaços públicos, que
lhe permita circular pela cidade, reduzindo os riscos de se tornar alvo
preferencial da violência disseminada. Significa ter de saber por onde
andar e a que horas do dia, saber que tipo de objetos pessoais
exibir, tipo de roupa usar, que comportamento apresentar, sob pena
de "dar mole" e jogar seu destino na loteria. Já não se trata apenas
da violência de pobres contra ricos, de marginais ou criminosos
comuns contra cidadãos normais. A violência é cada vez mais
pervasiva, a mais presente na vida cotidiana. Já não é um
acontecimento episódico que contrasta com a normalidade da vida
em comum, mas um traço inerente a essa vida comum. Mata-se
cada vez mais, por motivos fortuitos: por um lanche que deixou de
ser pago, por um olhar de paquera mais ostensivo ou mesmo apenas
suposto, por uma reação qualquer no trânsito, por um tênis, por um
desaforo.

A segunda coisa a me chamar a atenção, um minuto depois de


começar a refletir sobre o ocorrido, foi a evidência de que minha
sensibilidade para com a tragédia tinha sido intensificada pelo fato de
que todos - vítima, agressores, testemunhas - eram muito próximos
de mim. Os laços de afinidade social desencadearam
automaticamente um processo de identificação para com os
personagens. Podia ter sido comigo, com um filho ou um colega dele,
com amigos meus ou com seus filhos. A brutalidade que insultava
minha razão passou a me ferir também o corpo, me atingiu também
no coração. O que sempre fora apenas uma notícia, transformou-se
num acontecimento que me dizia respeito diretamente. O que antes
era fato objetivo externo do qual poderia desviar o olhar, era agora
experiência subjetiva que eu não conseguia contornar. Porque não
era mais apenas uma informação manipulada racionalmente, porque
me atingiu afetivamente, suscitou em mim uma reação imediata. O
colorido dos afetos juntou-se ao conteúdo racional, produzindo um
jeito diferente de lidar com a questão, uma apreensão cognitiva da
qual eu não participava enquanto observador. Eu me senti implicado.

Esse triste episódio ocorreu no momento em que concluía este


escrito. Pareceu-me que ilustrava com muita pertinência dois dos
aspectos que procuro trazer à discussão - tão urgente e complexa -
do processo de disseminação da violência no cotidiano, em especial
entre os jovens e adolescentes. Em primeiro lugar, mostra a
necessidade de se tentar compreender como a violência se tem
tornado tão banal, no universo de nossas cidades. A resposta ao
problema não pode se esgotar na denúncia, nem mesmo no combate
direto a ela. É claro que políticas de segurança, campanhas
preventivas, etc., são fundamentais. Mas é necessário não perder de
vista a importância de compreender as raízes mais profundas desse
fenômeno, e as particularidades com que ele se apresenta no
contexto atual. Que tipo de cenário social emoldura seu
aparecimento, quais são as condições da existência que o tornam
possível? Em segundo lugar, sugere que a melhor maneira de
mobilizar os corações e mentes contra a violência e seus efeitos é
descrevê-la, de modo a que um círculo cada vez maior de pessoas se
sinta afetivamente (e não apenas racionalmente) tocado. Precisamos
atingir os corações dos indivíduos, não só suas mentes. Creio que
enfrentar o problema da violência num contexto de alargamento do
espaço de cidadania, de fortalecimento do projeto democrático, exige
atenção em relação a esses dois itens. Supõe a construção de
indivíduos compromissados racional e sentimentalmente com os
horizontes de solidariedade, liberdade e tolerância do projeto
democrático radical.

Da socialização à construção da cidadania


O processo de socialização dos indivíduos, em qualquer cultura,
depende da presença de pelo menos três fatores. A sociedade põe à
disposição de seus novos membros modelos identificatórios e
objetos de investimento que compõem um leque de
possibilidades, por meio do qual cada indivíduo se construirá com um
sujeito. Embora absolutamente singular, cada sujeito apresenta as
marcas de sua cultura e de seu tempo. Isso vale não apenas para as
ações e para os processos conscientes, mas também para as
motivações inconscientes que condicionam seu modo de pensar e
agir. Esses modelos e objetos oferecidos pela sociedade vão balizar
as características, que estarão presentes no modo como os sujeitos
estabelecem laços sociais, nos seus padrões de conduta afetiva, nos
seus estilos de ação individual e coletiva.

Para que esses modelos e objetos possam ser incorporados à


experiência de um organismo humano - incorporação que o
transformará, com o tempo, num sujeito - é indispensável um outro
elemento: a mediação de pelo menos um indivíduo já plenamente
socializado. É a isso, em simples palavras, que chamamos de
exercício da função materna: a presença de alguém que porta e
transmite um conjunto de significações, que torna o meio ambiente
um mundo humano. Herdeira de sua cultura, matriz inicial de todo
sentido, à figura materna cabe o papel de introduzir o bebê no
campo simbólico; referendando, com seus cuidados, a admissão
deste novo membro da sociedade. A espécie humana, como se sabe,
nasce ainda prematura, desadaptada à vida, e portanto
extremamente dependente deste outro inicial, do qual tudo deriva:
da sobrevivência física à sobrevivência psíquica Um bebê ao nascer
já dispõe, é claro, de uma capacidade fantástica de reagir
discriminatoriamente ao meio. Mas somente quando suas reações
imediatas ao mundo começam a se transformar numa experiência
carregada de sentido, que é avalizada por um semelhante que se
pode falar do processo de emergência de um sujeito.

Depois desse momento inicial, porém, um terceiro termo se torna


indispensável: a figura do pai, ou a dimensão da lei. A relação dual
mãe-bebê precisa ser rompida pela presença desse terceiro
elemento, que abre a via de acesso à cultura. A partir daí um novo
indivíduo social emerge, singular. Já não mais colado às significações
transmitidas inequivocamente pelo outro inicial, ele é lançado no
universo da alteridade, das diferenças, da temporalidade. Não
dispondo mais de uma fonte única de significações, torna-se
progressivamente co-autor de si mesmo. No plano de sua própria
experiência, surge um Eu. O Eu é, portanto, desde seu momento
inicial, um projeto realizado no tempo. Um processo constante de
reconstrução de si, realizado com base nos modelos identificatórios
que a sua sociedade e a imaginação do seu tempo lhe abrem. A
experiência familiar, os grupos sociais de que fará parte, a classe a
que pertence, o imaginário social dominante, as características
próprias de sua época, etc., condicionarão esse processo, que segue
ao longo de toda a existência individual, e só termina com sua
morte.

Esse processo de construção de subjetividades não tem limites


naturais no homem. Desde que forneça algum sentido para a vida e
para a morte, a sociedade pode fazer praticamente tudo de seus
membros: tolerantes ou belicosos, monoteístas ou politeístas,
monogâmicos ou poligâmicos, defensores intransigentes do valor
universal da vida ou canibais, amantes da liberdade e da igualdade
ou assujeitados à hierarquias totalitárias e à desigualdade, etc. O
que importa salientar é isso: qualquer cultura, para sobreviver e
projetar-se no futuro, precisa oferecer aos seus membros um sentido
para a existência individual e uma razão de ser para a organização
social. Não importa qual seja: isso vale para uma sociedade de
castas como para uma sociedade liberal. Esse sentido, além disso,
não pode esgotar-se na justificação do status quo. Ele precisa
apontar para além. Precisa não apenas explicar como as coisas são
de fato, mas também como devem ser, não apenas como são
agora, mas como devem vir a ser.

É essa dimensão de idealidade, indispensável a qualquer formação


social, que fornece não só razões para agir, mas também razões para
renunciar a certas ações.São os ideais contidos no horizonte de uma
época, que delineam os limites do que é aceitável ou inaceitável, e
apontam para as imagens do futuro, que se apresentam como as
melhores promessas para o presente. A inscrição desses ideais na
experiência dos sujeitos se dá de maneira complexa e evidentemente
ultrapassa, em muito, os limites da atividade consciente. Eles se
apresentam encarnados nos hábitos da ação, nos sentimentos mais
fundos, nas reações mais imediatas, que qualquer indivíduo
socializado apresenta em sua vida cotidiana.

Mas ser sujeito, no sentido forte do termo ou no sentido que nos é


mais caro, é não apenas estar mergulhado no universo de
significações de onde retira sua "substância". É sobretudo ser
normativo, ou seja, ser capaz de reconhecer as significações (que o
moldam) como criadas histórica e socialmente, e dispor-se a
modificá-las. O momento inicial de assujeitamento à cultura torna-
se, para o sujeito normativo, uma condição para transcender essa
determinação e exercitar sua autonomia, sua capacidade de ver a
sociedade, a si próprio como realidades mutáveis e a serem
mudadas. Sujeitos orientados para o exercício da autonomia são,
portanto, indispensáveis para qualquer sociedade que se volte para o
futuro com uma construção, como a realização de um projeto; e não
como a concretização da vontade divina, ou o resultado inexorável
das "leis" da história, da natureza ou do mercado.

O esvaziamento da política

Ora, dentre as características mais insistentemente descritas de


nosso tempo estão justamente o esmaecimento ou a corrosão dos
ideais (instância que aponta, no funcionamento psíquico, para esta
dimensão de devir, de vir a ser), e do sentimento de autonomia dos
sujeitos. Nas últimas décadas, essa em sido uma tecla batida por
praticamente todos os que se debruçam sobre os problemas do fim
do século, entre eles a banalização da violência em nossas
sociedades. Várias são as razões apontadas para isso.

Uma das mais significativas é o processo de esvaziamento da política


como esfera relevante na vida social.2 Com o fim do confronto entre
as grandes utopias universais, que galvanizaram a ação política nos
últimos cem anos, a imaginação divorciou-se da política, que passou
a ser vista mais como administração burocrática de interesses do que
como planejamento e invenção do futuro. E esse fato incide de
maneira decisiva sobre as novas gerações. Nas décadas de 60 e 70,
qualquer jovem tinha uma posição política, quer dizer, uma visão do
mundo, uma noção ou mesmo um programa que considerava mais
adequado para o país e para o planeta. Não importa se de direita ou
de esquerda, reacionário ou revolucionário, comunista ou hippie; o
que realmente chama a nossa atenção, quando, comparamos esse
cenário com o atual, é a ausência, nos dias de hoje, do interesse pela
coisa comum, pela esfera pública da vida, pelo questionamento
acerca daquilo que diz respeito a todos e não apenas ao umbigo de
cada um. É assustador perceber que os jovens, que hoje ingressam
na vida social pela primeira vez na história, encontram à sua frente
um vazio de utopias. Elas sempre existiram - religiosas, ideológicas,
políticas -, pouco importa. Sempre foram referências às quais aderir
ou contra as quais lutar. Funcionaram com marcos simbólicos, em
relação aos quais se construíam trajetórias identitárias individuais e
coletivas. Na ausência desses horizontes utópicos, a política se
degrada em consulta de opinião, a cultura se degenera em consumo
de entretenimento, os cidadãos se transformam em meros
consumidores. Ao menos enquanto flagrante do momento atual, a
infeliz expressão de Fukuyama anunciando o "fim da história" não
deixa de captar algo importante. Já não há mais os rebeldes de
sempre, aquele punhado de inquietos que a cada geração
ostentavam a convicção de que tinham a solução para o mundo. O
mundo hoje já não parece exigir solução, sequer se apresenta como
problema. As novas gerações se deixam ir à deriva dos apelos dos
modismos comportamentais do momento.

A exclusão por irrelevância

No plano da economia, as conseqüências do fim do bipolarismo


também estão à vista. Os valores econômicos (produtividade,
eficácia) se tornaram a medida de todas as coisas, varrendo o resto
para debaixo do tapete. A ideologia de mercado, que domina o
cenário, transforma os debates econômicos em pouco mais do que
discussões acerca da otimização dos interesses privados de imensas
corporações e especuladores transnacionais. O gigantesco impulso
dos avanços tecnológicos em todas as áreas, num contexto como
este, não resulta de modo algum na superação dos graves problemas
coletivos. Vivemos não numa era de abundância, mas num tempo de
opulência e desperdício de um lado e escassez e privação de outro. A
competitividade a todo custo vai transformando contingentes de
pessoas, cada vez maiores, em verdadeiros excluídos sociais. Digo
verdadeiros, porque em toda sociedade há mecanismos de
diferenciação, regras hierárquicas, que criam espaços privilegiados e
espaços de marginalização. O capitalismo sempre criou massas de
oprimidos e explorados, postos de lado na distribuição das riquezas.
As conquistas no sentido de uma organização social mais justa e um
carácter mais redistributivo da economia foram, nos últimos
duzentos anos construindo barreiras a esse movimento inevitável do
capital.

No final do século, porém, algo diferente começa a aparecer.


Acuados os seus opositores, o capitalismo dispensa mecanismos de
acomodação a reivindicações. Ainda nos anos setenta, dizia-se que o
bolo da economia devia crescer antes de ser dividido. Mas essa
afirmação ainda era efeito de um mundo tensionado entre macro-
opções. Hoje, como não há alternativa, já se diz abertamente que o
bolo não dá mesmo para todos e só os competitivos terão chance de
pegar uma fatia. Já não se produz apenas opressão ou exploração,
produz-se um novo tipo de exclusão, que se expressa na
irrelevância. No nível planetário, esse fenômeno se expressa na
indiferença total para com o destino de populações e países inteiros
no continente africano. No interior de nossa sociedade, ele aparece
no número assustador de brasileiros que só têm praticamente uma
existência estatística. Comparecem, enquanto números, a baixar de
modo deselegante nossos indicadores sociais. Estão aquém do limiar
de relevância social. Não importam, nem como produtores, nem
como consumidores. O processo de obsolescência, que caracteriza os
objetos, numa sociedade desvairadamente consumista, atinge
também as pessoas.

As consequências desses processos sobre os sujeitos não são


pequenas.3 A mais importante delas é, talvez, a tremenda
intensificação do sentimento de vulnerabilidade e de desamparo a
que eles são submetidos. Num mundo em que os mecanismos
tradicionais de estabilização da experiência pessoal se enfraquecem,
é difícil evitar a sensação pervasiva de fragilidade. Os sentimentos de
transitoriedade, fluidez, fragmentação inundam as relações
familiares, as parcerias amorosas, os laços de amizade, os vínculos
de trabalho. Famílias duradouras são substituídas por configurações
instáveis de relações afetivas fundadas não em alianças e
compromissos em direção ao futuro, mas na fruição da satisfação e
do prazer que o contexto presente oferece. Carreiras profissionais
montadas em vínculos trabalhistas estáveis são abaladas pela
substituição do emprego pela "empregabilidade", qualidade volátil
que precisa ser reconstruída permanentemente, em resposta às
exigências cambiantes de uma economia invadida incessantemente
pela inovação tecnológica e pela inexistência de um exercício da
política que corrija a errância do mercado.

Um mundo, em que a política foi demitida pela ideologia da


prosperidade e do sucesso, precisa de indivíduos não só dispostos,
mas permanentemente incitados, a consumir sem cessar. Tudo se
transforma em produto. Mesmo a vida privada, se bem fotografada
nas revistas de gente famosa; a religião, se puder apresentar-se
como solução para os problemas financeiros de seus fiéis; os
sentimentos e conflitos existenciais, se renderem bem no mercado
da auto-ajuda; estilos de vida, se forem alcançados pelo uso das
chamadas life-style drugs. Saúde passa a ser a exigência impossível
de juventude e beleza eternas. Cultura deixa de ser o espaço de
exercício da vida reflexiva dos sujeitos, e torna-se nada mais do que
a vitrine dos produtos a serem consumidos em série. O direito de
cada um de buscar a felicidade a seu modo, que se incluiu na
revolução americana entre os ideais democráticos, transforma-se em
um imperativo universal de gozo compulsório. Em meio a um
individualismo levado ao seu extremo, percebe-se o processo de
dessubjetivação, de esvaziamento da normatividade dos sujeitos
sociais. Ao lado da privação material, que atinge os marginalizados e
excluídos dos bens econômicos, cresce vertiginosamente a privação
simbólica daqueles, cuja existência é vivida mais e mais como
desprovida de sentido.

Portanto, como um dos efeitos mais devastadores sobre a


subjetividade, encontramos um duplo processo de esvaziamento, na
experiência dos sujeitos. De um lado, esvazia-se a dimensão de
temporalidade, leito por onde o processo de construção de si e do
mundo necessariamente tem de correr. O futuro parece inteiramente
fora do alcance da ação, quer individual, quer coletiva. Ele virá por
determinação das forças "livres" do mercado, ou como efeito das
forças "naturais" do organismo (serotoninas a mais ou a menos
governando os estados de espírito). Quando o futuro não se
apresenta como campo de intervenção, o passado se torna
completamente sem importância. O passado é sempre visitado, no
presente, em função de interrogações que hoje temos sobre o
amanhã. Assim se constroem utopias, assim se perseguem ideais.
Quando essas interrogações carecem de conseqüências, todo o jogo
temporal do exercício de si torna-se achatado: vale apenas a fruição
imediata do presente.

O indivíduo supérfluo

O investimento nos ideais, o que significa dizer o compromisso com


os semelhantes de hoje e as gerações de amanhã, não é automático.
Como diz Richard Sennett, ao analisar a corrosão do carater nos dias
de hoje4, ele exige a possibilidade do reconhecimento de minha
importância para o outro. Torno-me responsável na medida em que
sinto que alguém conta comigo, na medida em que me sinto
necessário. Se não consigo dar uma resposta satisfatória à pergunta
"Quem precisa de mim?", tendo a ser tomado por uma atitude de
indiferença às pessoas e ao que se passa ao meu redor. Deixo de me
sentir fazendo parte de uma narrativa partilhada, de dificuldade,
compromissos e esperanças. Ao me deparar com o fato de que sou
supérfluo, descartável, cessa toda motivação para responsabilidade
frente ao outro. O narcisismo, que caracteriza a cultura
individualista5 contemporânea, é um efeito combinado da
instabilidade permanente de uma sociedade sem compromissos com
o sujeito, e a falta de responsividade social de sujeitos voltados
sobre si mesmos, na defesa desesperada dos limites de um eu
mínimo6.

Se passamos do universo das classes médias para os setores mais


desfavorecidos da população, o quadro se torna mais dramático
ainda, é claro. Pois a esses fatores já assinalados, é preciso
acrescentar outros. O descompasso enlouquecedor entre a injunção
constante de consumo dos produtos erigidos em emblemas de
felicidade, bem-estar e sucesso e a realidade socio-econômica brutal
que os mantém aquém de qualquer possibilidade de acesso a eles. A
distância abissal entre o discurso oficial de igualdade e a crueldade
de uma concentração de renda que não tem paralelo no planeta. Há
países mais pobres do que o Brasil, mas não tão injustos na
distribuição de suas riquezas. Há países que ostentam uma
hierarquia social mais rígida, mas em nenhum deles se encontra uma
ideologia da igualdade, da liberdade e da fraternidade como base de
justificação da sociedade. É claro que mulheres nos países islâmicos
fundamentalistas sofrem um tipo de opressão que as brasileiras não
conhecem. Os párias indianos são discriminados de um modo que
não tem equivalente em nossa cultura. Mas nos dois exemplos, há
um sentido por trás desses fenômenos, e ele é dado pela religião.
Pode-se adotá-la ou rejeitá-la; mas há, de qualquer maneira, uma
razão de ser, uma justificativa, uma forma de legitimação. No Brasil,
essas modalidades de legitimação inexistem. Se todos "são iguais",
se somos "uma democracia", se praticamos a "livre concorrência",
então o fracasso social, a exclusão, a marginalização, são de
responsabilidade do próprio indivíduo, e de sua incompetência.7

Não é difícil concluir que o cenário que venho descrevendo em traços


rápidos (mas, creio, não incorretos) é um caldo de cultura no qual
manifestações de intolerância, descompromisso em relação ao outro,
agressividade e violência, desprezo pelas instituições, indiferença
para com o que é público, ganância sem limites, etc., encontram um
terreno fértil para vicejar. Tiros, como o que acabou por tirar a vida
de M.M.A. são apenas a um exemplo.

A construção da solidariedade

O que fazer? Evidentemente não se trata de sonhar com o fim da


violência, simplesmente. Ela provavelmente existirá em qualquer
formação social, pelos menos até onde nossa vista alcança, no
momento. Mas a questão que estamos discutindo tem contornos
bastante próprios. Estamos falando da violência pervasiva, da
violência banalizada, que expressa mais do que a existência de sérios
conflitos no tecido social. Sinaliza, mais que tudo, a existência de um
certo pano de fundo subjetivo, no qual os indivíduos se sentem (e
vêem os outros) despidos de relevância, indiferentes ao destino do
que é comum a todos, alheios a qualquer coisa que transcenda sua
vida e seus interesses individuais. Essa violência é a manifestação de
efeitos que podem também ser vistos em processos supra-
individuais; como o recrudescimento do racismo étnico, da
intolerância religiosa, das identidades fundadas em características de
grupos (e não em projetos mais universalizantes), etc.

Está claro que as condições políticas e econômicas em curso não


parecem ainda ter começado a enfraquecer-se. O chamado neo-
liberalismo continuará cegamente avançando seus tentáculos, pelo
menos até que uma crise de proporções catastróficas venha solicitar
um pouco de racionalidade humana, no lugar da matemática dos
lucros. As grandes opções políticas alternativas ao modelo dominante
ainda não se apresentaram, desde o fracasso das experiências
socialistas, e a erosão do estado do bem-estar social-democrata. As
inovações tecnológicas tendem evidentemente a se intensificar. A
família, a religião, a tradição, fontes de significação relevante para a
vida em outras épocas, têm tido seu papel cada vez mais restringido
na função de ordenamento dos processos de subjetivação dos
indivíduos. As relações de trabalho, e o próprio papel do trabalho na
construção das imagens identificatórias dos sujeitos, também
provavelmente continuarão a sofrer os efeitos das transformações
político-econômicas e tecnológicas em andamento. Nada resta a
fazer, então? Não creio.

Uma tarefa - certamente gigantesca - que temos todos é a de


multiplicar e ampliar os espaços de tolerância e exercício da
solidariedade. Não que isso tenha o poder de atacar as raízes mais
profundas da violência. Mas só se pode sonhar com um mundo
melhor e menos violento se formos capazes de recuperar a
imaginação política para os jovens; se pudermos inculcar nas novas
gerações não somente a "ideia" da fraternidade, que hoje todos
estudam como uma bandeira do século XVIII, mas o "sentimento" de
fraternidade para com aqueles que não estão no seu raio imediato de
ação; se ampliar os limites daquilo que "realmente importa" para
eles, levando essa fronteira para as próximas gerações, à população
do país, às nações do planeta. O projeto democrático inventado pelos
franceses e americanos, há duzentos anos, só se realizará
plenamente se levado a cabo por sujeitos, cuja identificação com ele
seja "visceral" e não apenas racional. Os dois últimos séculos foram
suficientes para mostrar que a razão desacompanhada é capaz de
transformar uma utopia num pesadelo, como fez o stalinismo, ou
fazer de um ideário racista a bandeira de um povo, como fizeram os
nazistas. Uns e outros se sustentaram não somente pela imposição
do terror, mas sobretudo pelo exercício de uma racionalidade8. A
construção progressiva da solidariedade como valor central no
projeto democrático é a resposta mais duradoura que podemos
oferecer ao quadro que viemos de observar. Como levá-la a cabo?
Não há, claro, respostas fáceis ou imediatas. Mas acredito que, para
todos aqueles que direta ou indiretamente lidam com jovens (isso vai
de educadores a jornalistas, de médicos a representantes da lei, de
profissionais psi a trabalhadores sociais), esta é uma questão
fundamental, e um desafio particular. É preciso impedir que mortes,
como a de M.M.A., continuem se multiplicando. Hanna Arendt disse
certa vez que os homens só existem no plural. No momento em que
vivemos, essa é cada vez mais uma afirmação a ser repetida.
Construindo, com imaginação e vontade, espaços e práticas de
solidariedade.

1
Castoriadis, C. Feito e a fazer. Rio de Janeiro, DP&A, 1999.

2 Giddens, A. A s consequências da modernidade. São Paulo, Unesp, 1991

3 Sennett, R. A corosão do caráter. Rio de Janeiro, Record, 1999.

4 Calligaris, C. Cônicas do individualismo cotidiano. São Paulo, Ática, 1996.

5Lasch, C. O mínimo eu: a sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São


Paulo, Brasiliense, 1986.

6Cf. Benjamin, C. et all. A opção brasileira. Rio de Janeiro, Contraponto,


1998.

7Ver Bauman, Z. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar


Editor, 1998.

Benilton Bezerra Jr
Psicanalista, professor do Instituto de Medicina Social da UERJ.